A Odisseia
de Homero
vertida em prosa inglesa para uso daqueles que não conseguem ler o original
Índice
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO A ODISSEIA LIVRO I. LIVRO II. LIVRO III. LIVRO IV. LIVRO V. LIVRO VI. LIVRO VII. LIVRO VIII. LIVRO IX. LIVRO X. LIVRO XI. LIVRO XII. LIVRO XIII. LIVRO XIV. LIVRO XV. LIVRO XVI. LIVRO XVII. LIVRO XVIII. LIVRO XIX. LIVRO XX. LIVRO XXI. LIVRO XXII. LIVRO XXIII. LIVRO XXIV. NOTAS:
AO PROFESSOR CAV. BIAGIO INGROIA, PRECIOSO ALIADO O AUTOR RECONHECIDO.
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO
Esta tradução destina-se a complementar uma obra intitulada "A Autora da Odisseia", que publiquei em 1897. Eu não poderia dar a "Odisseia" inteira naquele livro sem torná-lo demasiado volumoso; por isso, epitomei a minha tradução, que já estava concluída e que agora publico na íntegra.
Não arguirei aqui os dois pontos principais tratados na obra já mencionada; nada tenho a acrescentar nem a retirar do que ali escrevi. Os pontos em questão são:
(1) que a "Odisseia" foi escrita inteiramente em, e tirada inteiramente de, o lugar hoje chamado Trapani, na costa oeste da Sicília, tanto no que se refere às cenas feácias como às cenas de Ítaca; enquanto as viagens de Ulisses, uma vez que este se encontra ao alcance fácil da Sicília, se resolvem num périplo da ilha, praticamente de Trapani de volta a Trapani, passando pelas ilhas Lipari, pelo Estreito de Messina e pela ilha de Pantelária.
(2) Que o poema foi inteiramente escrito por uma mulher muito jovem, que vivia no lugar hoje chamado Trapani, e se introduziu na sua obra sob o nome de Nausica.
Os principais argumentos em que baseio a primeira destas asserções algo surpreendentes têm estado proeminente e repetidamente diante do público inglês e italiano desde que surgiram (sem contradita) no "Athenaeum" de 30 de janeiro e 20 de fevereiro de 1892. Ambas as asserções foram também sustentadas (igualmente sem contradita) no "Eagle" do John's College, nos semestres da Quaresma e de outubro do mesmo ano. Nada a que eu devesse responder me chegou de qualquer lado; e sabendo quão ansiosamente tenho procurado conhecer a existência de quaisquer falhas no meu argumento, começo a sentir alguma confiança de que, a existirem tais falhas, já teria ouvido falar de algumas, ao menos, até agora. Sem, portanto, pretender por um momento pensar que os eruditos em geral aquiesçam nas minhas conclusões, agirei como pensando ser pouco provável que me contestem de tal modo que me seja incumbido responder, e me limitarei a traduzir a "Odisseia" para leitores ingleses, com as notas que julgo úteis. Entre estas gostaria de chamar especialmente a atenção para uma sobre xxii. 465-473, que Lord Grimthorpe gentilmente me permitiu tornar pública.
Repeti várias das ilustrações usadas em "A Autora da Odisseia" e acrescentei duas que espero possam trazer mais vividamente diante do leitor o pátio exterior da casa de Ulisses. Gostaria de explicar que a presença de um homem e de um cão numa das ilustrações é acidental, e não foi por mim observada até revelar o negativo. Num apêndice também reimprimi os parágrafos explicativos da planta da casa de Ulisses, juntamente com a própria planta. Recomenda-se ao leitor que estude esta planta com alguma atenção.
No prefácio da minha tradução da "Ilíada" dei as minhas opiniões sobre os princípios principais que devem guiar um tradutor, e não preciso de repeti-los aqui, além de assinalar que a liberdade inicial de traduzir poesia em prosa envolve o tomar contínuo de mais ou menos liberdade ao longo de toda a tradução; pois muito do que é correto em poesia é errado em prosa, e as exigências de uma prosa legível são as primeiras coisas a considerar numa tradução em prosa. Que o leitor, contudo, possa ver até onde me apartei da construção estrita, imprimirei aqui a tradução dos senhores Butcher e Lang dos cerca de sessenta versos da "Odisseia". A tradução deles diz:
Conta-me, Musa, daquele homem, tão pronto na necessidade, que vagueou longe e muito, depois de ter saqueado a sagrada acrópole de Troia, e muitos foram os homens cujas cidades viu e cujo espírito conheceu, sim, e muitas as aflições que sofreu no seu coração no mar profundo, lutando para salvar a sua própria vida e o regresso dos seus companheiros. Mas nem assim salvou os companheiros, embora o desejasse ardentemente. Pois através da cegueira dos seus próprios corações pereceram, tolos, que devoraram os bois de Helios Hiperíon: mas o deus tirou-lhes o dia do regresso. Destas coisas, deusa, filha de Zeus, donde quer que tenhas ouvido falar, declara-nas tu a nós também.
Agora todos os outros, quantos fugiram da pura destruição, estavam em casa, e tinham escapado tanto da guerra como do mar, mas só Odisseu, ansiando pela esposa e pelo caminho de regresso, a senhora ninfa Calipso retinha, essa bela deusa, nas suas grutas cavadas, desejando tê-lo por senhor. Mas quando já o ano chegara no curso das estações, em que os deuses haviam determinado que ele regressasse a casa, a Ítaca, nem sequer lá estava livre de trabalhos, nem sequer entre os seus; mas todos os deuses tinham piedade dele exceto Posido, que se enfurecia continuamente contra o divino Odisseu, até que ele chegasse ao seu próprio país. Contudo Posido partira já para os distantes Etíopes, os Etíopes que são divididos em dois, os últimos dos homens, habitando uns onde o Hiperíon se põe e outros onde ele nasce. Ali esperava receber a sua hecatombe de bois e carneiros, ali se banqueteava sentado à festa, mas os outros deuses estavam reunidos nos salões do Olímpico Zeus. Então entre eles o pai dos homens e dos deuses começou a falar, pois lembrou no seu coração do nobre Egisto, que o filho de Agamémnon, o famoso Orestes, matou. Pensando nele falou entre os Imortais: 'Vede agora, como em vão os homens mortais acusam os deuses! Pois de nós dizem que vem o mal, quando eles, por si mesmos, através da cegueira dos seus próprios corações, têm tristezas além do que está ordenado. Como há pouco Egisto, além do que estava ordenado, tomou para si a esposa casada do filho de Atreu, e matou o seu senhor no seu regresso, e isso com pleno destino diante dos olhos, pois nós o tínhamos avisado pela embaixada de Hermes o penetrante, o matador de Argos, que ele não devia matar o homem nem cortejar a sua esposa. Pois o filho de Atreu será vingado pela mão de Orestes, tão logo chegue à idade adulta e anseie pelo seu próprio país. Assim falou Hermes, contudo não prevaleceu sobre o coração de Egisto, apesar de toda a sua boa vontade; mas agora ele pagou um preço por tudo.'
E a deusa, Atena de olhos cinzentos, respondeu-lhe, dizendo: 'Ó pai, nosso pai Cronida, entronizado no mais alto; esse homem seguramente jaz numa morte que é a sua devida; assim pereçam igualmente todos os que praticam tais feitos! Mas o meu coração está dilacerado pelo sábio Odisseu, o infeliz, que longe dos seus amigos há muito sofre aflição numa ilha cercada pelo mar, onde está o umbigo do mar, uma ilha boscosa, e nela uma deusa tem a sua morada, filha do mago Atlas, que conhece as profundezas de todos os mares, e ele mesmo sustenta as altas colunas que mantêm a terra e o céu separados. Sua filha é que retém o infeliz homem na dor: e sempre com doces e astutos discursos o corteja a fim de lhe trazer o esquecimento de Ítaca. Mas Odisseu, ansiando por ver se ao menos a fumo subisse da sua própria terra, tem o desejo de morrer. Quanto a ti, o teu coração de nada o considera, Olímpico! Que! Não fez Odisseu junto dos navios dos Argivos livre oferta de sacrifício na ampla terra troiana? Por que estavas então tão irado com ele, ó Zeus?'
A "Odisseia" (como todos sabem) abunda em passagens tomadas da "Ilíada"; eu desejara imprimi-las em tipo ligeiramente diferente, com referências marginais à "Ilíada", e marquei-as com esse fim no meu manuscrito. Verifiquei, contudo, que a tradução ficaria assim sem esperanças de ser escolarizada, e abandonei a minha intenção. Exortaria, contudo, aqueles que têm a gestão das nossas prensas universitárias a que prestariam um grande serviço aos estudantes se publicassem um texto grego da "Odisseia" com as passagens ilíadicas impressas em tipo diferente, e com referências marginais. Dei ao Museu Britânico uma cópia da "Odisseia" com as passagens ilíadicas sublinhadas e referidas no manuscrito; dei também uma "Ilíada" marcada com todas as passagens odisséicas, e as suas referências; mas exemplares tanto da "Ilíada" como da "Odisseia" assim marcados deveriam estar ao fácil alcance de todos os estudantes.
Qualquer um que nos dias de hoje discuta as que surgiram em torno da "Ilíada" desde os tempos de Wolf, sem ter bem presente diante do espírito do leitor que a "Odisseia" foi demonstravelmente escrita a partir de uma única vizinhança, e portanto (ainda que nada mais apontasse para esta conclusão) presumivelmente por uma só pessoa — que foi escrita certamente antes de 750, e em toda a probabilidade antes de 1000 a.C. — que o escritor deste poema tão antigo estava demonstravelmente familiarizado com a "Ilíada" como agora a temos, tomando tão livremente emprestado daqueles livros cuja autenticidade foi mais impugnada, como daqueles que se admitem ser de Homero — qualquer um que falhe em manter estes pontos diante dos seus leitores, não está a proceder equitativamente para com eles. Qualquer um, por outro lado, que marcar a sua "Ilíada" e a sua "Odisseia" a partir dos exemplares do Museu Britânico acima referidos, e que tirar a única inferência que o bom senso pode tirar da presença de tantas passagens idênticas em ambos os poemas, achará, creio eu, nenhuma dificuldade em atribuir o seu devido valor a um grande número de livros aqui e no Continente que presentemente gozam de reputações consideráveis. Além disso, e isto talvez seja uma vantagem que mais vale a pena assegurar, descobrirá que muitos enigmas da "Odisseia" deixam de o ser quando se descobre que surgem de uma sobresaturação com a "Ilíada".
Outras dificuldades também desaparecerão assim que se compreenda o desenvolvimento do poema na mente do escritor. Tratei isto com algum desenvolvimento nas pp. 251-261 de "A Autora da Odisseia". Em resumo, a "Odisseia" consiste em dois poemas distintos: (1) O Regresso de Ulisses, que só ela a Musa é solicitada a cantar nos versos iniciais do poema. Este poema inclui o episódio feácio, e a narrativa das aventuras de Ulisses contada por ele próprio nos Livros ix.-xii. Consiste dos versos 1-79 (aproximadamente) do Livro i., do verso 28 do Livro v., e daí sem interrupção até ao meio do verso 187 do Livro xiii., ponto em que o esquema original foi abandonado.
(2) A história de Penélope e dos pretendentes, com o episódio da viagem de Telémaco a Pilos. Este poema começa com o verso 80 (aproximadamente) do Livro i., continua até ao fim do Livro iv., e não é retomado até Ulisses despertar no meio do verso 187 do Livro xiii., de onde continua até ao fim do Livro xxiv.
Em "A Autora da Odisseia", escrevi:
a introdução dos versos xi., 115-137 e do verso ix., 535, com a escrita de um novo conselho dos deuses no começo do Livro v., a tomar o lugar do que fora removido para o Livro i., 1-79, foram as únicas coisas feitas para dar sequer uma aparência de unidade ao esquema antigo e ao novo, e para esconder o facto de que a Musa, depois de solicitada a cantar um tema, gasta dois terços do seu tempo a cantar um muito diferente, com um clímax que ninguém lhe pediu. Pois aproximadamente o Regresso ocupa oito Livros, e Penélope e os Pretendentes dezasseis.
Creio que isto é substancialmente correto.
Por último, para tratar de um ponto muito sem importância, observo que a edição Teubner de Leipzig de 894 faz os Livros ii. e iii. terminarem com uma vírgula. Os pontos são coisas de data muito mais recente que a "Odisseia", pelo que não parece haver muita utilidade em aderir ao texto numa questão tão pequena; ainda assim, por um espírito de mero conservadorismo, preferi fazê-lo. Por que [grego] no começo dos Livros ii. e viii., e [grego], no começo do Livro vii. deveriam ter maiúsculas iniciais numa edição cuidadosa de mais para admitir a suposição de inadvertência, quando [grego] no começo dos Livros vi. e xiii., e [grego] no começo do Livro xvii. não têm maiúsculas iniciais, não posso determinar. Nenhum outro Livro da "Odisseia" tem maiúsculas iniciais exceto os três mencionados, a menos que a primeira palavra do Livro seja um nome próprio.
S. BUTLER.
25 de julho de 1900.
PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
A Tradução da "Odisseia" de Butler apareceu originalmente em 1900, e A Autora da Odisseia em 1897. No prefácio da nova edição de "A Autora", que é publicada simultaneamente com esta nova edição da Tradução, dei alguma conta da génese dos dois livros.
O tamanho da página original foi reduzido de modo a tornar ambos os livros uniformes com as outras obras de Butler; e, felizmente, foi possível, usando um tipo menor, colocar o mesmo número de palavras em cada página, de modo que as referências permanecem válidas, e, com exceção de algumas alterações e rearranjos menores que agora se enumeram na medida em que afetam a Tradução, as novas edições são reimpressões fiéis das edições originais, com erros tipográficos e erros óbvios corrigidos — não se tendo feito qualquer tentativa de as editar ou de as atualizar.
(a) O Índice foi revisto.
(b) Devido à redução do tamanho da página foi necessário abreviar algumas das cabeçalhas, e aqui aproveitou-se de várias correções e adições às cabeçalhas e notas marginais feitas por Butler nos seus próprios exemplares dos dois livros.
(c) Na maior parte cada uma das ilustrações ocupa agora uma página, ao passo que nas edições originais geralmente apareciam duas na página. Foi necessário reduzir a planta da Casa de Ulisses.
Na página 153 de "A Autora" Butler diz: "Nenhum grande poeta compararia o seu herói a uma tripa cheia de sangue e gordura, a cozer diante do fogo (xx, 24-28)." Esta passagem não é dada na História abreviada da "Odisseia" no começo do livro, mas na Tradução ocorre nestas palavras:
"Assim ele repreendia o seu coração, e o refreava em paciência, mas revirava-se como quem vira uma tripa cheia de sangue e gordura diante de um fogo ardente, fazendo-a primeiro de um lado depois do outro, para que possa ficar cozinhada o mais cedo possível; assim ele se voltava de um lado para o outro, pensando todo o tempo em como, sozinho como estava, haveria de conseguir matar tão grande corpo de homens como os perversos pretendentes."
Parece que no intervalo entre a publicação de "A Autora" (1897) e da Tradução (1900) Butler mudara de ideias; pois no primeiro caso a comparação é entre Ulisses e uma tripa cheia, etc., e no segundo é entre Ulisses e um homem que vira uma tripa cheia, etc. A segunda comparação é talvez uma que um grande poeta poderia fazer.
Ao rever as obras para a imprensa tive a inestimável assistência do Sr. A. T. Bartholomew da Biblioteca da Universidade de Cambridge, e do Sr. Donald S. Robertson, Fellow do Trinity College, Cambridge. A ambos estes amigos dou os meus mais cordiais agradecimentos pelo cuidado e habilidade por eles exercidos. O Sr. Robertson encontrou tempo para o trabalho de verificar e corrigir todas as citações e referências à "Ilíada" e à "Odisseia", e creio que não poderia ter sido melhor executado. Foi, sei, um prazer para ele; e teria sido também um prazer para Butler se pudesse ter sabido que o seu trabalho estava a ser conduzido pelo filho do seu velho amigo, Sr. H. R. Robertson, que mais de meio século atrás foi condiscípulo dele na Cary's School of Art em Streatham Street, Bloomsbury.
HENRY FESTING JONES.
120 MAIDA VALE, W.9. 4 de dezembro de 1921.
A ODISSEIA
LIVRO I
OS DEUSES EM CONSELHO — A VISITA DE MINERVA A ÍTACA — O DESAFIO DE TELÉMACO AOS PRETENDENTES.
Conta-me, ó Musa, daquele engenhoso herói que viajou longe e por toda a parte depois de ter saqueado a famosa cidade de Troia. Muitas cidades visitou, e muitas foram as nações cujos usos e costumes conheceu; além disso sofreu muito no mar enquanto tentava salvar a sua própria vida e trazer os seus homens são e salvos a casa; mas por mais que fizesse não os pôde salvar, pois pereceram por sua própria pura loucura em comer o gado do deus Sol Hiperíon; por isso o deus os impediu de alguma vez chegarem a casa. Conta-me também todas estas coisas, ó filha de Jove, de qualquer fonte de que as conheças.
Assim, todos quantos haviam escapado à morte em batalha ou por naufrágio tinham chegado são e salvos a casa exceto Ulisses, e este, embora anelasse regressar à esposa e ao seu país, estava detido pela deusa Calipso, que o havia atraído a uma grande gruta e queria casar com ele. Mas à medida que os anos passavam, chegou o tempo em que os deuses decidiram que ele devia regressar a Ítaca; mesmo então, porém, quando estava entre os seus, os seus males ainda não tinham terminado; todavia todos os deuses haviam agora começado a ter pena dele exceto Neptuno, que ainda o perseguia sem cessar e não o deixava chegar a casa.
Neptuno havia partido para os Etíopes, que estão no fim do mundo, e jazem em duas metades, uma olhando para oeste e a outra para leste.1 Ele havia ido ali para aceitar uma hecatombe de ovelhas e bois, e estava a divertir-se no seu banquete; mas os outros deuses reuniram-se na casa do Olímpio Jove, e o pai dos deuses e dos homens falou primeiro. Naquele momento ele pensava em Egisto, que fora morto pelo filho de Agamémnon, Orestes; por isso disse aos outros deuses:
"Vede agora, como os homens lançam a culpa sobre nós, os deuses, pelo que afinal não é senão a sua própria loucura. Olhai para Egisto; teve de se apaixonar pela esposa de Agamémnon ilegitimamente e depois matar Agamémnon, embora soubesse que isso lhe custaria a vida; pois eu enviei Mercúrio para o avisar de que não fizesse nenhuma destas coisas, uma vez que Orestes haveria de vingar-se quando crescesse e quisesse regressar a casa. Mercúrio disse-lhe isto com toda a boa vontade, mas ele não quis ouvir, e agora pagou tudo por inteiro."
Então Minerva disse: "Pai, filho de Saturno, Rei dos reis, Egisto teve o que merecia, e assim o terá qualquer outro que faça como ele fez; mas Egisto é de somenos; é por Ulisses que o meu coração chora, quando penso nos seus sofrimentos naquela ilha solitária cercada pelo mar, longe, pobre homem, de todos os seus amigos. É uma ilha coberta de floresta, bem no meio do mar, e uma deusa vive lá, filha do mago Atlas, que cuida do fundo do oceano, e sustenta as grandes colunas que mantêm o céu e a terra separados. Esta filha de Atlas se apoderou do pobre e infeliz Ulisses, e tenta por todo o género de blandícias fazê-lo esquecer a sua casa, de modo que ele está farto da vida, e nada pensa senão em como tornar a ver a fumo das suas próprias chaminés. Vós, senhor, não fazeis caso disto, e contudo, quando Ulisses estava diante de Troia, não vos aplacou com muitos sacrifícios queimados? Por que haveis então de continuar tão zangado com ele?"
E Jove disse: «Filha minha, que dizes tu? Como posso eu esquecer Ulisses, acima de quem não há homem mais capaz na terra, nem mais generoso nas ofertas aos deuses imortais que vivem no céu? Lembra-te, contudo, que Neptuno está ainda furioso com Ulisses por ter cegado um olho do Polifemo, rei dos Ciclopes. O Polifemo é filho de Neptuno e da ninfa Toosa, filha do rei do mar Fórcis; por isso, embora não o mate de pronto, tortura-o, impedindo-o de chegar a casa. Mesmo assim, ponhamos as nossas cabeças em comum e vejamos como o poderemos ajudar a voltar; Neptuno então se apaziguará, pois, se estivermos todos de acordo, ele dificilmente poderá resistir-nos.»
E Minerva disse: «Pai, filho de Saturno, rei dos reis, se, pois, os deuses agora querem que Ulisses volte para casa, devemos primeiro enviar Mercúrio à ilha Ogígia para dizer a Calipso que tomámos a nossa resolução e que ele há de regressar. Entretanto, irei eu a Ítaca, para dar ânimo ao filho de Ulisses, Telémaco; encorajá-lo-ei a convocar os Aqueus em assembleia e a falar francamente aos pretendentes da sua mãe Penélope, que persistem em devorar-lhe não sei quantas ovelhas e bois; conduzi-lo-ei também a Esparta e a Pilos, a ver se pode ouvir alguma coisa sobre o regresso do seu querido pai — porque isto fará com que falem bem dele.»
Dizendo isto, calçou as suas resplandecentes sandálias de ouro, imperecíveis, com que pode voar como o vento por terra ou mar; empunhou a temível lança de bronze, tão rija e robusta e forte, com que ela abate as fileiras de heróis que a desagradaram, e desceu dos cumes mais altos do Olimpo, onde imediatamente se achou em Ítaca, à porta da casa de Ulisses, disfarçada de visitante, Mentes, chefe dos Tafianos, e trazia na mão uma lança de bronze. Ali encontrou os senhoriscos pretendentes sentados em couros dos bois que haviam matado e comido, jogando às damas diante da casa. Servos e pajens andavam azafamados a servi-los, uns misturando vinho com água nas taças, outros limpando as mesas com esponjas húmidas e pondo-as de novo, e outros cortando grandes quantidades de carne.
Telémaco viu-a muito antes de qualquer outro. Estava sentado, melancólico, entre os pretendentes, pensando no seu bravo pai e em como os poria em fuga da casa, se ele voltasse à sua e fosse honrado como nos dias de outrora. Assim, a rumiar sentado entre eles, avistou Minerva e foi direito ao portão, pois irritava-o que um estranho tivesse de esperar pela admissão. Tomou-lhe a mão direita na sua e pediu-lhe que lhe entregasse a lança. «Sê bem-vindo — disse ele — à nossa casa; e, depois de participares da refeição, dirás o que te traz.»
Enquanto falava, abriu-lhe caminho, e Minerva seguiu-o. Quando estavam dentro, ele tomou-lhe a lança e pô-la no suporte de lanças, encostada a um forte pilar de apoio, junto com as muitas outras lanças do seu infeliz pai, e conduziu-a a um assento ricamente decorado, debaixo do qual estendera uma tela de damasco. Havia também um escabelo para os seus pés, e ele colocou para si outro assento perto dela, afastado dos pretendentes, para que ela não fosse incomodada ao comer com o seu ruído e insolência, e para que pudesse perguntar-lhe mais livremente pelo seu pai.
Uma criada trouxe-lhes então água num bonito jarro de ouro e verteu-a numa bacia de prata para lavarem as mãos, e dispôs junto deles uma mesa limpa. Um servo de mesa trouxe-lhes pão e ofereceu-lhes muitas e boas iguarias do que havia em casa; o trinchante trouxe-lhes pratos de toda a sorte de carnes e pôs taças de ouro ao lado; e um servo trouxe-lhes vinho e o serviu.
Então os pretendentes entraram e tomaram os seus lugares nos bancos e assentos. Imediatamente os servos lhes deitaram água sobre as mãos, as criadas andavam à roda com os cestos do pão, os pajens encheram as taças com vinho e água, e eles lançaram as mãos sobre as boas coisas que tinham diante de si. Assim que ficaram saciados de comer e beber, quiseram música e dança, que são o remate de um banquete; pelo que um servo trouxe uma lira a Fémio, a quem obrigaram à força a cantar para eles. Assim que ele tocou a lira e começou a cantar, Telémaco falou baixo a Minerva, com a cabeça junto à dela, para que ninguém ouvisse.
«Espero, senhor — disse ele — que não leveis a mal o que vou dizer. Cantar é coisa fácil para quem não paga por isso, e tudo isto se faz à custa de alguém cujos ossos jazem a apodrecer em algum ermo ou se desfazem em pó na rebentação. Se estes homens vissem o meu pai voltar a Ítaca, haviam de pedir pernas mais compridas em vez de bolsa mais longa, pois o dinheiro não lhes bastaria; mas ele, ai, caiu em triste sorte, e mesmo quando às vezes se diz que ele vem, nós já não lhe damos crédito; nunca mais o veremos. E agora, senhor, dizei-me e dizei-me a verdade: quem sois e de onde vindes? Dizei-me da vossa cidade e dos vossos pais, de que espécie de navio viésteis, como a vossa tripulação vos trouxe a Ítaca e de que nação se declararam — pois não podeis ter vindo por terra. Dizei-me também a verdade, porque quero saber: sois forasteiro nesta casa, ou já cá viéstes em tempo de meu pai? Antigamente tínhamos muitos visitantes, pois meu pai andava muito pelo mundo.»
E Minerva respondeu: «Dir-vos-ei com verdade e em particular tudo. Eu sou Mentes, filho de Anquíalo, e sou rei dos Tafianos. Vim aqui com o meu navio e tripulação, numa viagem para homens de língua estrangeira, indo para Témesa com um carregamento de ferro, e trarei cobre de volta. Quanto ao meu navio, está lá ao longe, defronte da planície aberta, afastado da cidade, no porto Reitro, sob o monte arborizado Nerito. Os nossos pais foram amigos antes de nós, como o velho Laertes vos dirá, se lá quiserdes ir perguntar-lhe. Dizem, porém, que ele nunca mais vem à povoação, e vive sozinho no campo, passando mal, com uma velha a tratar dele e a preparar-lhe a comida, quando ele chega cansado de andar pelo seu vinhedo. Disseram-me que vosso pai estava de novo em casa, e por isso vim, mas parece que os deuses ainda o detêm, pois não está morto, nem no continente. É mais provável que esteja em alguma ilha cercada de mar em pleno oceano, ou prisioneiro entre selvagens que o detêm contra sua vontade. Não sou profeta e sei muito pouco de augúrios, mas falo segundo o que o céu me inspira, e asseguro-vos que ele não estará ausente por muito mais tempo; pois é um homem de tantos recursos que, mesmo que estivesse em grilhões de ferro, acharia meio de voltar a casa. Mas dizei-me, e dizei-me a verdade: pode Ulisses ter realmente um moço tão bem parecido como filho? Sois realmente maravilhosamente parecido com ele na cabeça e nos olhos, pois éramos muito amigos antes de ele zarpar para Troia, onde foi também a flor dos Argivos. Desde então, nenhum de nós viu o outro.»
«Minha mãe — respondeu Telémaco — diz-me que sou filho de Ulisses, mas é filho avisado quem conhece o próprio pai. Quem me dera ser filho de alguém que tivesse envelhecido nos seus próprios haveres, pois, já que mo perguntais, não há sob o céu homem de mais negra estrela do que aquele que, segundo me dizem, é meu pai.»
E Minerva disse: «Não há ainda perigo de que a vossa raça se extinga, enquanto Penélope tiver um filho tão excelente como vós. Mas dizei-me, e dizei-me a verdade: que significa todo este festim, e quem são estas pessoas? De que se trata tudo isto? Haveis algum banquete, ou há boda na família — pois ninguém parece trazer do seu? E os convidados — como se portam atrocemente; que algazarra fazem por toda a casa; basta para desgostar qualquer pessoa de respeito que se chegue perto deles.»
«Senhor — disse Telémaco —, quanto à vossa pergunta, enquanto meu pai aqui estava, tudo corria bem para nós e para a casa; mas os deuses, no seu desagrado, quiseram de outro modo, e esconderam-no mais completamente do que mortal algum foi jamais escondido. Suportá-lo-ia melhor, ainda que ele estivesse morto, se tivesse caído com os seus diante de Troia, ou morrido entre amigos, quando os dias do seu combate terminaram; pois então os Aqueus lhe teriam erguido um túmulo sobre as cinzas, e eu próprio seria herdeiro da sua fama; mas agora os ventos da tempestade o arrebataram, não sabemos para onde; partiu sem deixar sequer rasto, e eu não herdo senão desalento. E a coisa não fica apenas na dor pela perda de meu pai: o céu me lançou sofrimentos de outra espécie ainda; pois os chefes de todas as nossas ilhas, Dulíquio, Same, e a ilha boscosa de Zacinto, como também todos os principais varões da própria Ítaca, andam a comer a minha casa com o pretexto de cortejar a minha mãe, que não quer dizer de frente que não casará, nem tampouco põe termo à situação; assim, andam a devastar os meus bens e, brevemente, hão-de devastar-me a mim também.»
«É assim? — exclamou Minerva. — Então quereis mesmo Ulisses de volta. Dai-lhe o elmo, o escudo e um par de lanças, e, se ele é o homem que era quando o conheci em nossa casa, bebendo e alegrando-se, ele poria brevemente as mãos nestes patifes dos pretendentes, caso pudesse estar de novo no seu próprio umbral. Tinha ele então vindo de Éfira, onde fora pedir veneno para as suas flechas a Ilo, filho de Mérmero. Ilo temia os deuses eternos e não lhe quis dar nenhum, mas meu pai deu-lho, porque lhe tinha muita afeição. Se Ulisses é o homem que era então, estes pretendentes terão breve sentença e triste boda.
«Mas, enfim! Depende do céu decidir se ele há de voltar e tomar a sua vingança na própria casa ou não; eu, porém, vos exorto a tratar logo de vos livrardes destes pretendentes. Segui o meu conselho: convocai os heróis Aqueus em assembleia amanhã de manhã — apresentai-lhes o vosso caso e tomai o céu por testemunha. Mandai os pretendentes que se vão, cada um para sua casa; e se a mente da vossa mãe está decidida a casar de novo, que ela volte para o pai, que lhe achará marido e lhe dará todos os presentes de boda que tão querida filha pode esperar. Quanto a vós, deixai-vos persuadir a tomar o melhor navio que puderdes, com uma tripulação de vinte homens, e ir em busca do vosso pai, que há tanto tempo anda ausente. Alguém vos poderá dizer alguma coisa, ou (e assim se ouvem muitas vezes as coisas) alguma mensagem enviada do céu vos poderá guiar. Ide primeiro a Pilos e perguntai a Nestor; dali seguí para Esparta e visitai Menelau, pois foi ele quem chegou em último lugar, de todos os Aqueus; se ouvirdes que vosso pai é vivo e está a caminho, podeis aguentar ainda doze meses o estrago que estes pretendentes fizerem. Se, pelo contrário, ouvirdes da sua morte, voltai para casa logo, celebrai as exéquias com toda a pompa devida, erguei-lhe um túmulo à memória e fazei com que vossa mãe torne a casar. Depois, feito tudo isto, pensai bem no modo como, de justo ou de injusto, podereis matar estes pretendentes na vossa própria casa. Já sois velho de mais para vos escudardes na infância; não haveis ouvido como por toda a parte cantam os louvores de Orestes por ter morto o assassino do pai, Egisto? Sois um moço formoso e de bom ar; mostrai o vosso valor e fazei-vos um nome nas histórias. Agora, porém, tenho de voltar ao meu navio e à minha tripulação, que estarão impacientes se os fizer esperar mais; pensai no assunto vós mesmo e lembrai-vos do que vos disse.»
«Senhor — respondeu Telémaco —, foi muito bondoso da vossa parte falar-me assim, como se eu fosse vosso próprio filho, e eu farei tudo o que me disserdes; sei que quereis seguir viagem, mas ficai um pouco mais, até tomardes um banho e vos refazerdes. Dar-vos-ei então um presente, e ireis pelo vosso caminho cheio de alegria; dar-vos-ei um de grande beleza e valor — uma lembrança como só dão amigos muito chegados uns aos outros.»
Minerva respondeu: «Não procureis deter-me, pois eu poria-me logo a caminho. Quanto a qualquer presente que estejais disposto a dar-me, guardai-o até eu voltar, e eu o levarei para casa. Dar-me-eis um muito bom, e eu vos darei outro de valor não menor em troca.»
Dito isto, voou para o ar como uma ave, mas havia dado ânimo a Telémaco e fizera-o pensar mais do que nunca no seu pai. Ele sentiu a mudança, maravilhou-se dela e soube que o forasteiro fora um deus; pelo que foi direito ao lugar onde os pretendentes estavam sentados.
Fémio ainda cantava, e os ouvintes sentavam-se em silêncio embevecido, enquanto ele contava a triste história do regresso de Troia e dos males que Minerva lançara sobre os Aqueus. Penélope, filha de Icário, ouviu do seu quarto, no andar de cima, o seu canto, e desceu pela grande escadaria, não sozinha, mas acompanhada por duas das suas servas. Quando chegou junto dos pretendentes, parou junto a um dos pilares de apoio que sustinham o tecto dos claustros, com uma donzela de porte graves a cada lado. Trazia, além disso, um véu diante do rosto, e chorava amargamente.
«Fémio — exclamou ela —, conheces muitas outras façanhas de deuses e heróis, tais como os poetas gostam de celebrar. Canta aos pretendentes qualquer uma dessas, e deixa-os beber o seu vinho em silêncio, mas cessa esta triste história, pois parte-me o coração dorido e lembra-me o meu perdido marido, que choro sem cessar, e cujo nome era grande por toda a Hélada e na média Argos.»
«Mãe — respondeu Telémaco —, deixai o aedo cantar o que lhe aprouver; os aedos não fazem os males que cantam; é Jove, não eles, que os faz, e que envia felicidade ou desgraça aos mortais segundo o seu bom prazer. Este homem não tem má intenção em cantar o regresso malfadado dos Dânaos, pois as pessoas aplaudem sempre com mais calor as canções mais recentes. Resignai-vos e suportai; Ulisses não é o único homem que de Troia não voltou, mas muitos outros desceram também como ele. Ide, pois, para dentro da casa e ocupai-vos dos vossos deveres diários, o tear, a roca, e o governo das servas; pois falar é assunto dos homens, e meu acima de todos — pois sou eu o senhor aqui.»
Ela voltou, maravilhada, para dentro da casa, e guardou no coração a palavra do filho. Depois, subindo com as suas servas para o seu quarto, chorou o seu querido marido, até que Minerva derramou doce sono sobre os seus olhos. Mas os pretendentes faziam bulha pelos claustros cobertos, e cada um rogava para ser o seu companheiro de leito.
Então Telémaco falou: «Sem-vergonha — gritou ele —, e insolentes pretendentes, regalemo-nos a nosso prazer agora, e não haja rixas, pois é coisa rara ouvir um homem com tão divina voz como a de Fémio; mas amanhã, de manhã, encontrai-me em plena assembleia, para que eu vos dê aviso formal de que haveis de partir, e festejai nas casas uns dos outros, à vez, à vossa custa. Se, pelo contrário, escolheis continuar a parasitar um só homem, valha-me o céu, mas Jove há-de ajustar-vos as contas, e, quando cairdes na casa de meu pai, não haverá quem vos vingue.»
Os pretendentes morderam os lábios ao ouví-lo e maravilharam-se da ousadia do seu discurso. Então Antínoo, filho de Eupeites, disse: «Os deuses parecem ter-vos dado lições de fanfarronice e falar altissonante; queira Jove nunca vos fazer chefe em Ítaca, como vosso pai foi antes de vós.»
Telémaco respondeu: «Antínoo, não me repreendais, mas, se Deus quiser, eu serei também chefe, se puder. É este o pior destino que para mim conseguis imaginar? Não é mau ser chefe, pois traz riquezas e honra. Contudo, agora que Ulisses morreu, há muitos grandes homens em Ítaca, velhos e novos, e algum outro poderá tomar a dianteira entre eles; mesmo assim, eu serei chefe na minha própria casa, e governarei os que Ulisses me conquistou.»
Então Eurímaco, filho de Pólibo, respondeu: «Depende do céu decidir quem será chefe entre nós, mas vós sereis senhor na vossa casa e sobre os vossos haveres; ninguém, enquanto houver um homem em Ítaca, vos fará violência nem vos roubará. E agora, meu bom amigo, quero saber desse forasteiro. De que terra vem ele? De que família é, e onde tem o seu haver? Trouxe-vos notícias do regresso de vosso pai, ou vinha em negócios seus? Parecia homem de posses, mas saiu tão de repente que num instante se foi, antes de podermos conhecê-lo.»
«Meu pai morreu e desapareceu — respondeu Telémaco —, e mesmo que algum rumor me chegue, já não lhe dou crédito. Minha mãe, é certo, às vezes manda chamar um adivinho e o interroga, mas eu não faço caso das suas profecias. Quanto ao forasteiro, era Mentes, filho de Anquíalo, chefe dos Tafianos, antigo amigo de meu pai.» Mas no seu coração sabia que fora a deusa.
Os pretendentes voltaram então aos seus cantos e danças até ao cair da tarde; mas, quando a noite desceu sobre os seus prazeres, foram para casa dormir, cada qual na sua morada. O quarto de Telémaco ficava bem alto, numa torre que dava para o pátio exterior; para lá se dirigiu, ensimesmado e cheio de pensamentos. Uma boa velha, Euricleia, filha de Ops, filho de Pisenor, ia à sua frente com um par de tochas flamejantes. Laertes comprara-a com o seu próprio dinheiro quando ela era ainda muito jovem; dera o valor de vinte bois por ela e demonstrava-lhe tanto respeito no seu lar quanto à sua própria esposa legítima, mas não a levou para o seu leito por temer o ressentimento da esposa. Foi ela quem agora iluminou o caminho de Telémaco até ao seu quarto, e ela amava-o mais do que qualquer das outras mulheres da casa, pois tinha-o criado quando ele era um bebé. Ele abriu a porta do seu quarto e sentou-se sobre a cama; ao despir a túnica, entregou-a à boa velha, que a dobrou com cuidado e a pendurou num gancho junto à cabeceira, após o que ela saiu, puxou a porta pelo trinco de prata e correu o ferrolho com a correia. Mas Telémaco, enquanto jazia coberto com um velo de lã, passou a noite toda a pensar na sua pretendida viagem e no conselho que Minerva lhe dera.
LIVRO II
ASSEMBLEIA DO POVO DE ÍTACA — DISCURSOS DE TELÉMACO E DOS PRETENDENTES — TELÉMACO FAZ OS SEUS PREPARATIVOS E PARTE PARA PILOS COM MINERVA DISFARÇADA DE MENTOR.
Ora, quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, Telémaco levantou-se e vestiu-se. Apertou as sandálias aos seus pés formosos, cingiu a espada ao ombro e saiu do seu quarto parecendo um deus imortal. Mandou imediatamente os arautos convocar o povo para a assembleia, e assim o fizeram, reunindo-se então o povo; depois, quando estavam todos juntos, ele dirigiu-se ao local da assembleia com a lança na mão — não só, pois os seus dois cães seguiam-no. Minerva dotou-o de uma presença de tal formosura divina que todos se maravilhavam com ele à sua passagem, e, quando ele ocupou o lugar do seu pai, até os conselheiros mais velhos lhe deram passagem.
Egíptio, um homem curvado pela idade e de infinita experiência, foi o primeiro a falar. O seu filho Antifo tinha ido com Ulisses para Ílion, terra de nobres corcéis, mas o selvagem Ciclope matara-o quando todos estavam encerrados na gruta e preparara-lhe a sua última ceia. Restavam-lhe três filhos, dos quais dois ainda trabalhavam na terra do pai, enquanto o terceiro, Eurínomo, era um dos pretendentes; contudo, o pai não conseguia superar a perda de Antifo e ainda chorava por ele quando começou o seu discurso.
«Homens de Ítaca», disse ele, «escutai as minhas palavras. Desde o dia em que Ulisses nos deixou, não houve reunião dos nossos conselheiros até agora; quem será, pois, velho ou novo, que acha tão necessário convocar-nos? Terá ouvido rumores de algum exército a aproximar-se e deseja avisar-nos, ou quer falar sobre algum outro assunto de interesse público? Tenho a certeza de que é uma excelente pessoa, e espero que Júpiter lhe conceda o desejo do seu coração.»
Telémaco tomou este discurso como um bom presságio e levantou-se imediatamente, pois estava impaciente por dizer o que tinha em mente. Ficou no meio da assembleia e o bom arauto Pisenor trouxe-lhe o cetro. Então, voltando-se para Egíptio: «Senhor», disse ele, «sou eu, como em breve sabereis, quem vos convocou, pois sou eu o mais ofendido. Não ouvi rumores de qualquer exército a aproximar-se sobre o qual vos queira avisar, nem há qualquer assunto de interesse público sobre o qual deseje falar. A minha queixa é puramente pessoal e prende-se com duas grandes desgraças que recaíram sobre a minha casa. A primeira delas é a perda do meu excelente pai, que era o chefe entre todos vós aqui presentes e era como um pai para cada um de vós; a segunda é muito mais grave e, dentro em breve, será a ruína total dos meus bens. Os filhos de todos os homens mais importantes entre vós estão a importunar a minha mãe para que se case com eles contra a sua vontade. Têm receio de ir ter com o seu pai Icário, pedindo-lhe que escolha aquele de quem mais gosta e que forneça os presentes de casamento para a sua filha, mas, dia após dia, continuam a rondar a casa do meu pai, sacrificando os nossos bois, ovelhas e cabritos gordos para os seus banquetes, e nunca dando a mínima importância à quantidade de vinho que bebem. Nenhuma propriedade pode suportar tal imprudência; não temos agora nenhum Ulisses para afastar o mal das nossas portas, e eu não consigo defender-me contra eles. Nunca em toda a minha vida serei um homem tão bom como ele foi, contudo, defender-me-ia de facto se tivesse poder para o fazer, pois não consigo suportar mais tal tratamento; a minha casa está a ser desonrada e arruinada. Tende respeito, portanto, pelas vossas próprias consciências e pela opinião pública. Temei, também, a ira do céu, para que os deuses não se desagradem e se voltem contra vós. Rogo-vos por Júpiter e por Témis, que é o princípio e o fim dos conselhos, não vos retenhais, meus amigos, e não me deixeis sozinho — a menos que o meu bravo pai Ulisses tenha feito algum mal aos Aqueus que agora queirais vingar em mim, ajudando e instigando estes pretendentes. Além disso, se hei de ser devorado até ficar sem casa nem bens, preferiria que fossem vós a fazê-lo, pois então poderia tomar medidas contra vós com algum propósito e servir-vos com avisos de casa em casa até ser pago na totalidade, enquanto agora não tenho remédio.»
Com isto, Telémaco atirou o seu cetro ao chão e desfez-se em lágrimas. Todos sentiram muito por ele, mas permaneceram sentados e ninguém se atreveu a dar-lhe uma resposta irada, exceto Antínoo, que falou assim:
«Telémaco, insolente fanfarrão que és, como te atreves a tentar lançar a culpa sobre nós, os pretendentes? A culpa é da tua mãe, não nossa, pois ela é uma mulher muito astuta. Há três anos, quase quatro, que ela nos tem deixado fora de nós, encorajando cada um de nós e enviando-nos mensagens sem dizer uma única palavra do que pensa. E depois houve aquele outro truque que ela nos pregou. Montou um grande tear no seu quarto e começou a trabalhar numa peça enorme de bordado fino. "Meus caros", dizia ela, "Ulisses está de facto morto, contudo não me pressioneis para casar novamente de imediato, esperai — pois não gostaria que a perícia no bordado perecesse sem registo — até que eu tenha completado uma mortalha para o herói Laertes, para estar pronta no momento em que a morte o levar. Ele é muito rico e as mulheres do lugar falarão se ele for exposto sem uma mortalha."
«Foi isto que ela disse, e nós assentimos; pelo que a podíamos ver a trabalhar na sua grande teia durante todo o dia, mas à noite ela desfazia os pontos à luz da tocha. Ela enganou-nos desta forma durante três anos e nós nunca a descobrimos, mas, com o passar do tempo, e estando ela já no quarto ano, uma das suas criadas, que sabia o que ela estava a fazer, contou-nos, e apanhámo-la em flagrante a desfazer o seu trabalho, pelo que ela teve de o terminar quer quisesse, quer não. Os pretendentes, portanto, dão-te esta resposta, para que tanto tu como os Aqueus possais compreender: "Manda a tua mãe embora e ordena-lhe que se case com o homem da sua própria escolha e da escolha do seu pai"; pois não sei o que acontecerá se ela continuar a atormentar-nos por muito mais tempo com os ares que dá a si mesma por causa dos dotes que Minerva lhe ensinou, e porque é tão inteligente. Nunca ouvimos falar de tal mulher; sabemos tudo sobre Tiro, Alcmena, Micena e as famosas mulheres da antiguidade, mas nenhuma delas era nada comparada com a tua mãe. Não foi justo da parte dela tratar-nos desta forma e, enquanto ela continuar com a disposição que o céu lhe concedeu agora, continuaremos a consumir os teus bens; e não vejo por que razão ela deveria mudar, pois ela recebe toda a honra e glória, e és tu que pagas por isso, não ela. Compreende, então, que não voltaremos para as nossas terras, nem aqui nem noutro lugar, até que ela tenha feito a sua escolha e se tenha casado com algum de nós.»
Telémaco respondeu: «Antínoo, como posso expulsar da casa de meu pai a mãe que me deu à luz? O meu pai está ausente e não sabemos se está vivo ou morto. Será difícil para mim se tiver de pagar a Icário a grande soma que devo dar-lhe se insistir em devolver-lhe a filha. Não só ele tratará de mim com rigor, como o céu também me punirá; pois a minha mãe, ao deixar a casa, invocará as Erínias para a vingarem; além disso, não seria uma coisa digna de se fazer, e não quero ter nada a ver com isso. Se quiserdes sentir-vos ofendidos com isto, deixai a casa e banqueteai-vos noutro lugar, nas casas uns dos outros, à vossa própria custa, alternadamente. Se, por outro lado, optardes por persistir em viver à custa de um só homem, que o céu me ajude, mas Júpiter acertar-vos-á as contas na íntegra, e quando cairdes na casa de meu pai, não haverá ninguém para vos vingar.»
Enquanto ele falava, Júpiter enviou duas águias do topo da montanha, e elas voaram cada vez mais longe com o vento, planando lado a lado no seu voo imponente. Quando estavam bem por cima do meio da assembleia, giraram e circundaram, batendo o ar com as asas e lançando um olhar de morte aos olhos dos que estavam em baixo; depois, lutando ferozmente e rasgando-se umas às outras, voaram na direção da direita sobre a cidade. O povo maravilhou-se ao vê-las e perguntou uns aos outros o que tudo aquilo poderia significar; ao que Haliterses, que era o melhor profeta e leitor de presságios entre eles, falou-lhes clara e honestamente, dizendo:
«Escutai-me, homens de Ítaca, e falo mais particularmente aos pretendentes, pois vejo males a preparar-se para eles. Ulisses não vai estar ausente por muito mais tempo; de facto, está próximo para distribuir a morte e a destruição, não apenas sobre eles, mas sobre muitos outros de nós que vivem em Ítaca. Sejamos, pois, prudentes a tempo e ponhamos termo a esta maldade antes que ele chegue. Que os pretendentes o façam por sua própria vontade; será melhor para eles, pois não estou a profetizar sem o devido conhecimento; tudo aconteceu a Ulisses como previ quando os Argivos partiram para Troia, e ele com eles. Disse que, depois de passar por muitas privações e perder todos os seus homens, ele regressaria a casa no vigésimo ano e que ninguém o reconheceria; e agora tudo isto está a tornar-se realidade.»
Eurímaco, filho de Polibo, disse então: «Vai para casa, velho, e profetiza para os teus próprios filhos, ou pode ser pior para eles. Eu próprio consigo ler estes presságios muito melhor do que tu; os pássaros andam sempre a voar aqui e ali ao sol, mas raramente significam alguma coisa. Ulisses morreu numa terra distante, e é uma pena que tu não estejas morto com ele, em vez de tagarelares aqui sobre presságios e deitares achas para a fogueira da ira de Telémaco, que já é suficientemente feroz como está. Suponho que pensas que ele te dará alguma coisa para a tua família, mas digo-te — e acontecerá certamente — quando um velho como tu, que deveria saber mais, convence um jovem até que ele se torna problemático, em primeiro lugar o seu jovem amigo só se sairá tanto pior — não ganhará nada com isso, pois os pretendentes impedi-lo-ão — e, em segundo lugar, nós aplicaremos uma multa mais pesada, senhor, sobre ti próprio do que aquela que gostarias de pagar, pois será um fardo pesado para ti. Quanto a Telémaco, aviso-o na presença de todos vós para que envie a sua mãe de volta para o seu pai, que lhe encontrará um marido e lhe fornecerá todos os presentes de casamento que uma filha tão querida pode esperar. Até lá, continuaremos a importuná-lo com a nossa pretensão; pois não tememos homem algum, e não nos importamos nem com ele, com todos os seus belos discursos, nem com qualquer adivinhação tua. Podes pregar o quanto quiseres, mas apenas nos farás odiar-te ainda mais. Voltaremos e continuaremos a consumir os bens de Telémaco sem lhe pagar, até ao momento em que a sua mãe deixe de nos atormentar, mantendo-nos dia após dia na ponta dos pés à espera, cada um competindo com o outro na sua pretensão por um prémio de tão rara perfeição. Além disso, não podemos ir atrás de outras mulheres com quem deveríamos casar no devido tempo, devido à forma como ela nos trata.»
Então Telémaco disse: «Eurímaco e vós, outros pretendentes, não direi mais nada, nem vos suplicarei mais, pois os deuses e o povo de Ítaca já conhecem a minha história. Dai-me, então, um navio e uma tripulação de vinte homens para me levar daqui para ali, e irei a Esparta e a Pilos em busca do meu pai, que há tanto tempo está desaparecido. Alguém poderá dizer-me alguma coisa, ou (e as pessoas ouvem frequentemente coisas desta forma) alguma mensagem enviada pelo céu poderá guiar-me. Se puder saber que ele está vivo e a caminho de casa, suportarei o desperdício que vós, pretendentes, fareis por mais doze meses. Se, por outro lado, souber da sua morte, regressarei imediatamente, celebrarei os seus ritos fúnebres com toda a pompa devida, construirei um túmulo em sua memória e farei com que a minha mãe se case novamente.»
Com estas palavras sentou-se, e Mentor, que tinha sido amigo de Ulisses e a quem tudo fora deixado ao cuidado com plena autoridade sobre os servos, levantou-se para falar. Ele, então, dirigiu-se-lhes clara e honestamente da seguinte forma:
«Escutai-me, homens de Ítaca, espero que nunca mais tenhais um governante bondoso e bem-intencionado, nem um que vos governe equitativamente; espero que todos os vossos chefes doravante sejam cruéis e injustos, pois não há um só de vós que não tenha esquecido Ulisses, que vos governava como se fosse vosso pai. Não estou nem metade tão zangado com os pretendentes, pois se eles escolhem cometer violência na maldade dos seus corações e apostam as suas cabeças que Ulisses não regressará, podem tomar o caminho mais elevado e consumir os seus bens, mas quanto a vós, outros, estou chocado com a forma como vos sentais todos sem sequer tentar parar tais acontecimentos escandalosos — o que poderíeis fazer se o quisésseis, pois vós sois muitos e eles são poucos.»
Leiócrito, filho de Evenor, respondeu-lhe dizendo: «Mentor, que loucura é toda esta, que devias levar o povo a deter-nos? É uma coisa difícil para um homem lutar com muitos por causa da sua comida. Mesmo que o próprio Ulisses nos atacasse enquanto estamos a banquetear-nos na sua casa, e fizesse o seu melhor para nos expulsar, a sua esposa, que deseja tanto o seu regresso, teria poucos motivos para se regozijar, e o seu sangue recairia sobre a sua própria cabeça se ele lutasse contra tais probabilidades. Não há sentido no que tens andado a dizer. Agora, portanto, ide tratar dos vossos negócios, e deixai os velhos amigos do seu pai, Mentor e Haliterses, apressar este rapaz na sua jornada, se ele for — o que não creio que vá, pois é mais provável que fique onde está até que alguém venha e lhe diga alguma coisa.»
Nisto, ele dissolveu a assembleia e cada homem voltou para a sua própria morada, enquanto os pretendentes regressaram à casa de Ulisses.
Então Telémaco foi sozinho à beira-mar, lavou as mãos nas ondas cinzentas e rezou a Minerva.
«Escuta-me», clamou ele, «tu, deus que me visitaste ontem e me ordenaste que navegasse pelos mares em busca do meu pai que há tanto tempo está desaparecido. Eu obedecer-te-ia, mas os Aqueus, e mais particularmente os perversos pretendentes, estão a impedir-me, de modo que não o posso fazer.»
Enquanto assim rezava, Minerva aproximou-se dele na semelhança e com a voz de Mentor. «Telémaco», disse ela, «se és feito da mesma massa que o teu pai, não serás nem tolo nem cobarde doravante, pois Ulisses nunca quebrou a sua palavra nem deixou o seu trabalho a meio. Se, então, segues o exemplo dele, a tua viagem não será infrutífera, mas a menos que tenhas o sangue de Ulisses e de Penélope nas tuas veias, não vejo qualquer probabilidade de teres sucesso. Os filhos raramente são homens tão bons como os seus pais; são geralmente piores, não melhores; contudo, como não vais ser nem tolo nem cobarde doravante, e não estás inteiramente sem alguma parte do discernimento sábio do teu pai, encaro com esperança o teu empreendimento. Mas tem cuidado para nunca te aliares a nenhum desses pretendentes tolos, pois eles não têm nem sentido nem virtude, e não pensam na morte e na desgraça que recairá em breve sobre um e sobre todos eles, de modo que perecerão no mesmo dia. Quanto à tua viagem, não será muito adiada; o teu pai era um amigo tão antigo meu que te arranjarei um navio e irei contigo. Agora, porém, regressa a casa e anda por entre os pretendentes; começa a preparar as provisões para a tua viagem; vê que tudo esteja bem arrumado, o vinho em jarros, e a farinha de cevada, que é o sustento da vida, em sacos de couro, enquanto eu dou a volta à cidade e reúno voluntários imediatamente. Há muitos navios em Ítaca, tanto velhos como novos; lançarei um olhar sobre eles por ti e escolherei o melhor; prepará-lo-emos e faremos-nos ao mar sem demora.»
Assim falou Minerva, filha de Júpiter, e Telémaco não perdeu tempo em fazer o que a deusa lhe disse. Foi para casa, melancólico, e encontrou os pretendentes a esfolar cabras e a chamuscar porcos no pátio exterior. Antínoo aproximou-se dele imediatamente e riu-se enquanto tomava a sua mão na sua, dizendo: «Telémaco, meu fino comedor de fogo, não guardes mais mágoa nem em palavras nem em atos, mas come e bebe connosco como costumavas fazer. Os Aqueus providenciarão tudo para ti — um navio e uma tripulação escolhida a preceito — para que possas partir para Pilos imediatamente e obter notícias do teu nobre pai.»
«Antínoo», respondeu Telémaco, «não posso comer em paz, nem sentir qualquer prazer com homens como vós. Não bastava desperdiçardes tantos bens meus enquanto eu ainda era um rapaz? Agora que sou mais velho e sei mais sobre o assunto, também sou mais forte, e quer aqui, entre este povo, quer indo a Pilos, causar-vos-ei todo o mal que puder. Eu irei, e a minha ida não será em vão — embora, graças a vós, pretendentes, eu não tenha nem navio nem tripulação própria, e tenha de ser passageiro, não capitão.»
Enquanto falava, arrancou a sua mão da de Antínoo. Entretanto, os outros continuavam a preparar o jantar pelos edifícios, escarnecendo dele com provocações enquanto o faziam.
«Telémaco», disse um jovem, «pretende a nossa morte; suponho que ele pensa que pode trazer amigos de Pilos para o ajudar, ou então de Esparta, onde parece determinado a ir. Ou irá ele também a Éfira, para buscar veneno para pôr no nosso vinho e nos matar?»
Outro disse: «Talvez se Telémaco embarcar no navio, acabe como o pai e pereça longe dos seus amigos. Nesse caso, teríamos bastante que fazer, pois poderíamos dividir os seus bens entre nós: quanto à casa, podemos deixá-la para a sua mãe e para o homem que casar com ela.»
Era assim que eles falavam. Mas Telémaco desceu ao alto e espaçoso armazém onde o tesouro de ouro e bronze do seu pai jazia amontoado no chão, e onde o linho e as roupas sobressalentes eram guardados em arcas abertas. Aqui também havia uma reserva de azeite perfumado, enquanto barris de vinho antigo, bem maduro, puro e digno de ser bebido por um deus, estavam alinhados contra a parede, para o caso de Ulisses regressar finalmente a casa. O compartimento era fechado com portas bem feitas que abriam a meio; além disso, a fiel e velha governanta Euricleia, filha de Ops, filho de Pisenor, estava encarregada de tudo, tanto de dia como de noite. Telémaco chamou-a ao armazém e disse:
«Ama, tira-me um pouco do melhor vinho que tens, depois do que reservas para o próprio consumo do meu pai, para o caso de o pobre homem conseguir escapar à morte e encontrar finalmente o caminho de regresso a casa. Dá-me doze odres, e certifica-te de que todos têm tampa; enche também alguns sacos de couro bem cozidos com farinha de cevada — cerca de vinte medidas ao todo. Prepara estas coisas imediatamente e não digas nada sobre isso. Levarei tudo esta noite, assim que a minha mãe tiver subido para o seu quarto. Vou a Esparta e a Pilos para ver se consigo saber algo sobre o regresso do meu querido pai.»
Quando Euricleia ouviu isto, começou a chorar e falou-lhe com carinho, dizendo: «Meu querido filho, o que te terá metido tal ideia na cabeça? Onde é que tu queres ir — tu, que és a única esperança desta casa? O teu pobre pai está morto e perdido num país estrangeiro, ninguém sabe onde, e, assim que vires as costas, estes malvados aqui conspirarão para te eliminar e dividirão todos os teus bens entre si; fica onde estás, junto do teu povo, e não vás vaguear e consumir a tua vida no oceano estéril.»
«Não temas, ama», respondeu Telémaco, «o meu plano não é sem a sanção do céu; mas jura que não dirás nada sobre tudo isto à minha mãe, até que eu esteja ausente uns dez ou doze dias, a menos que ela saiba que parti e te pergunte; pois não quero que ela estrague a sua beleza a chorar.»
A velha jurou solenemente que não o faria e, quando completou o seu juramento, começou a tirar o vinho para os odres e a colocar a farinha de cevada nos sacos, enquanto Telémaco voltava para junto dos pretendentes.
Então, Minerva lembrou-se de outro assunto. Assumiu a sua forma e percorreu a cidade até cada um dos tripulantes, dizendo-lhes para se encontrarem junto ao navio ao pôr do sol. Foi também ter com Noémon, filho de Frónio, e pediu-lhe que lhe emprestasse um navio — ao que ele acedeu prontamente. Quando o sol se pôs e a escuridão cobriu toda a terra, ela colocou o navio na água, pôs a bordo todo o aparelho que os navios geralmente transportam e posicionou-o na extremidade do porto. Pouco depois, a tripulação chegou e a deusa falou de forma encorajadora a cada um deles.
Além disso, foi à casa de Ulisses e mergulhou os pretendentes num sono profundo. Fez com que a bebida os atordoasse e os levou a deixar cair as taças das mãos, de modo que, em vez de ficarem a beber o seu vinho, voltaram para a cidade para dormir, com os olhos pesados e cheios de sonolência. Então, assumiu a forma e a voz de Mentor e chamou Telémaco para vir cá fora.
«Telémaco», disse ela, «os homens já estão a bordo e nos remos, à espera que lhes dês as tuas ordens, por isso despacha-te e vamos partir.»
Dito isto, ela abriu caminho, enquanto Telémaco seguia os seus passos. Quando chegaram ao navio, encontraram a tripulação à espera junto à beira da água, e Telémaco disse: «Bem, meus homens, ajudem-me a levar as provisões para bordo; estão todas juntas no claustro, e a minha mãe não sabe nada disso, nem nenhuma das criadas, exceto uma.»
Com estas palavras, ele abriu caminho e os outros seguiram-no. Quando levaram as coisas como ele lhes dissera, Telémaco subiu a bordo, com Minerva à sua frente, sentando-se na popa da embarcação, enquanto Telémaco se sentava ao seu lado. Depois, os homens soltaram os cabos e tomaram os seus lugares nos bancos. Minerva enviou-lhes um vento favorável vindo do Oeste, que assobiava sobre as ondas azul-profundas, onde Telémaco lhes disse para agarrarem nas cordas e içarem a vela, e eles fizeram como ele lhes mandou. Colocaram o mastro no seu encaixe na trave, ergueram-no e prenderam-no com os estais; depois içaram as suas velas brancas com cordas de couro de boi retorcido. À medida que a vela se enfunava com o vento, o navio voava sobre a água azul-profunda, e a espuma sibilava contra a sua proa enquanto avançava. Depois, prenderam tudo a bordo do navio, encheram as taças de mistura até à borda e fizeram libações aos deuses imortais que existem desde sempre, mas particularmente à filha de Zeus, de olhos cinzentos.
Assim, o navio seguiu o seu caminho através das vigílias da noite, desde o crepúsculo até ao amanhecer.
LIVRO III
TELÉMACO VISITA NESTOR EM PILOS
Mas, à medida que o sol se erguia do belo mar para o firmamento do céu, para dar luz a mortais e imortais, chegaram a Pilos, a cidade de Neleu. O povo de Pilos estava reunido na margem do mar para oferecer sacrifícios de touros negros a Neptuno, senhor do Terramoto. Havia nove guildas com quinhentos homens em cada uma, e havia nove touros para cada guilda. Enquanto comiam as entranhas e queimavam as coxas sobre as brasas em nome de Neptuno, Telémaco e a sua tripulação chegaram, enrolaram as velas, ancoraram o seu navio e desembarcaram.
Minerva abriu o caminho e Telémaco seguiu-a. Pouco depois, ela disse: «Telémaco, não deves ser nem um pouco tímido ou nervoso; fizeste esta viagem para tentar descobrir onde o teu pai está sepultado e como ele encontrou o seu fim; por isso, vai direito a Nestor para vermos o que ele tem para nos dizer. Implora-lhe que diga a verdade, e ele não dirá mentiras, pois é uma excelente pessoa.»
«Mas como, Mentor», respondeu Telémaco, «ousarei eu aproximar-me de Nestor, e como devo dirigir-me a ele? Nunca estive habituado a manter longas conversas com as pessoas, e tenho vergonha de começar a interrogar alguém que é muito mais velho do que eu.»
«Algumas coisas, Telémaco», respondeu Minerva, «ser-te-ão sugeridas pelo teu próprio instinto, e o céu incitar-te-á ainda mais; pois estou certa de que os deuses estiveram contigo desde o momento do teu nascimento até agora.»
Ela seguiu então rapidamente, e Telémaco seguiu os seus passos até chegarem ao local onde as guildas do povo de Pilos estavam reunidas. Ali encontraram Nestor sentado com os seus filhos, enquanto a sua companhia ao redor estava ocupada a preparar o jantar e a colocar pedaços de carne nos espetos, enquanto outros pedaços cozinhavam. Quando viram os estrangeiros, rodearam-nos, pegaram-lhes na mão e convidaram-nos a tomar os seus lugares. Pisístrato, filho de Nestor, ofereceu imediatamente a mão a cada um deles e sentou-os sobre umas peles de ovelha macias que estavam estendidas nas areias, perto do seu pai e do seu irmão Trasimedes. Depois, deu-lhes as suas porções das entranhas e serviu-lhes vinho numa taça de ouro, entregando-a primeiro a Minerva e saudando-a ao mesmo tempo.
«Ofereça uma oração, senhor», disse ele, «ao rei Neptuno, pois é ao seu banquete que se junta; quando tiver rezado devidamente e feito a sua libação, passe a taça ao seu amigo para que ele faça o mesmo. Não duvido que ele também levante as mãos em oração, pois o homem não pode viver sem Deus no mundo. Ainda assim, ele é mais novo do que o senhor, e tem quase a mesma idade que eu, por isso dar-lhe-ei a precedência.»
Enquanto falava, entregou-lhe a taça. Minerva achou muito correto e apropriado da parte dele ter-lha dado primeiro a ela; começou então a rezar de todo o coração a Neptuno. «Ó tu», clamou ela, «que cinges a terra, digna-te a conceder as preces dos teus servos que te invocam. Mais especialmente, rezamos-te para que envies a tua graça sobre Nestor e os seus filhos; depois disso, faz também ao resto do povo de Pilos uma bela retribuição pela magnífica hecatombe que te estão a oferecer. Por último, concede a Telémaco e a mim um final feliz, no que respeita ao assunto que nos trouxe no nosso navio a Pilos.»
Quando terminou de rezar, entregou a taça a Telémaco, que rezou da mesma forma. Pouco depois, quando as carnes exteriores estavam assadas e tinham sido retiradas dos espetos, os serventes deram a cada homem a sua porção e todos fizeram um excelente jantar. Assim que terminaram de comer e beber, Nestor, cavaleiro de Gerene, começou a falar.
«Agora», disse ele, «que os nossos convidados terminaram o jantar, será melhor perguntar-lhes quem são. Quem sois vós, senhores estrangeiros, e de que porto navegastes? Sois mercadores? Ou navegastes pelos mares como piratas, com a mão contra todos os homens, e a mão de todos os homens contra vós?»
Telémaco respondeu corajosamente, pois Minerva dera-lhe coragem para perguntar pelo seu pai e ganhar um bom nome.
«Nestor», disse ele, «filho de Neleu, honra do nome aqueu, perguntas de onde viemos, e eu dir-te-ei. Viemos de Ítaca, sob o Nerito, e o assunto sobre o qual gostaria de falar é de importância privada, não pública. Procuro notícias do meu infeliz pai Ulisses, de quem se diz ter saqueado a cidade de Troia em companhia de vós. Sabemos que destino coube a cada um dos outros heróis que lutaram em Troia, mas, quanto a Ulisses, o céu ocultou-nos até o conhecimento de que ele esteja morto, pois ninguém nos pode certificar em que lugar ele pereceu, nem dizer se caiu em batalha no continente ou se se perdeu no mar, entre as ondas de Anfitrite. Por isso, sou suplicante aos teus joelhos, se porventura te aprouver contar-me sobre o seu melancólico fim, se o viste com os teus próprios olhos ou se o ouviste de algum outro viajante, pois ele foi um homem nascido para o sofrimento. Não suavizes as coisas por qualquer piedade que tenhas de mim, mas diz-me com toda a clareza exatamente o que viste. Se o meu bravo pai Ulisses alguma vez te prestou um serviço leal, quer por palavras quer por atos, quando vós, aqueus, éreis assediados entre os troianos, tem isso em conta agora a meu favor e diz-me verdadeiramente tudo.»
«Meu amigo», respondeu Nestor, «recordas um tempo de muita tristeza à minha mente, pois os bravos aqueus sofreram muito, tanto no mar, enquanto faziam corso sob Aquiles, como quando lutavam perante a grande cidade do rei Príamo. Os nossos melhores homens caíram todos ali — Ájax, Aquiles, Pátroclo, igual aos deuses em conselho, e o meu próprio querido filho Antíloco, um homem singularmente veloz de pés e valente no combate. Mas sofremos muito mais do que isto; que língua mortal poderia, de facto, contar toda a história? Ainda que ficasses aqui e me interrogasses durante cinco anos, ou mesmo seis, eu não poderia contar-te tudo o que os aqueus sofreram, e tu voltarias para casa cansado do meu relato antes que ele terminasse. Durante nove longos anos tentámos todo o tipo de estratagemas, mas a mão do céu estava contra nós; durante todo este tempo, não houve ninguém que se pudesse comparar ao teu pai em subtileza — se é que és mesmo o seu filho — mal posso acreditar nos meus olhos — e falas exatamente como ele também — ninguém diria que pessoas de idades tão diferentes poderiam falar de forma tão semelhante. Ele e eu nunca tivemos qualquer tipo de divergência, do princípio ao fim, nem no acampamento nem no conselho, mas com singeleza de coração e propósito aconselhámos os argivos sobre como tudo poderia ser ordenado para o melhor.
«Quando, contudo, saqueámos a cidade de Príamo e partimos nos nossos navios, conforme o céu nos dispersara, então Zeus achou por bem vexar os argivos na sua viagem de regresso; pois nem todos tinham sido sábios ou compreensivos, e daí muitos terem tido um mau fim devido ao desagrado da filha de Zeus, Minerva, que provocou uma disputa entre os dois filhos de Atreu.
«Os filhos de Atreu convocaram uma reunião que não foi como deveria ter sido, pois era o pôr do sol e os aqueus estavam pesados de vinho. Quando explicaram por que tinham convocado o povo, pareceu que Menelau queria navegar de imediato para casa, e isto desagradou a Agamémnon, que pensava que deveríamos esperar até termos oferecido hecatombes para aplacar a ira de Minerva. Tolo que ele era, podia ter sabido que não prevaleceria com ela, pois quando os deuses tomam as suas decisões não as mudam facilmente. Assim, os dois ficaram a trocar palavras duras, ao que os aqueus se puseram de pé com um grito que rasgou o ar, e estavam divididos sobre o que deveriam fazer.
«Nessa noite descansámos e alimentámos a nossa raiva, pois Zeus estava a tramar o mal contra nós. Mas, de manhã, alguns de nós puxaram os nossos navios para a água e colocaram os nossos bens com as nossas mulheres a bordo, enquanto o resto, cerca de metade em número, ficou para trás com Agamémnon. Nós — a outra metade — embarcámos e navegámos; e os navios iam bem, pois o céu tinha acalmado o mar. Quando chegámos a Ténedos, oferecemos sacrifícios aos deuses, pois ansiávamos por chegar a casa; o cruel Zeus, contudo, ainda não queria que o fizéssemos e levantou uma segunda disputa, durante a qual alguns entre nós voltaram os seus navios para trás e navegaram sob o comando de Ulisses para fazerem as pazes com Agamémnon; mas eu, e todos os navios que estavam comigo, avançámos, pois vi que se preparava o mal. O filho de Tideu também seguiu comigo, e as suas tripulações com ele. Mais tarde, Menelau juntou-se a nós em Lesbos e encontrou-nos a decidir sobre o nosso rumo — pois não sabíamos se devíamos ir por fora de Quios, pela ilha de Psira, mantendo-a à nossa esquerda, ou por dentro de Quios, defronte do tempestuoso promontório de Mimas. Por isso, pedimos um sinal ao céu e foi-nos mostrado um, no sentido de que estaríamos mais rapidamente fora de perigo se dirigíssemos os nossos navios através do mar aberto até à Eubeia. Foi o que fizemos, e um vento favorável surgiu, dando-nos uma passagem rápida durante a noite até Geresto, onde oferecemos muitos sacrifícios a Neptuno por nos ter ajudado até ali no nosso caminho. Quatro dias depois, Diomedes e os seus homens estacionaram os seus navios em Argos, mas eu segui para Pilos, e o vento nunca diminuiu desde o dia em que o céu o tornou favorável para mim.
«Por isso, meu caro jovem amigo, voltei sem saber nada sobre os outros. Não sei quem chegou a casa em segurança nem quem se perdeu; mas, como é meu dever, dar-te-ei sem reserva os relatos que me chegaram desde que estou aqui, na minha própria casa. Dizem que os mirmidões regressaram a casa em segurança sob o comando de Neoptólemo, filho de Aquiles; o mesmo aconteceu com o valente filho de Poias, Filoctetes. Idomeneu, por sua vez, não perdeu homens no mar, e todos os seus seguidores que escaparam à morte no campo de batalha chegaram a salvo a casa com ele em Creta. Não importa quão longe do mundo vivas, terás ouvido falar de Agamémnon e do mau fim que teve às mãos de Egisto — e um terrível ajuste de contas Egisto pagou pouco depois. Vê que boa coisa é para um homem deixar um filho atrás de si para fazer o que Orestes fez, que matou o falso Egisto, o assassino do seu nobre pai. Tu também, então — pois és um rapaz alto e de aspeto esperto — mostra o teu valor e faz um nome para ti na história.»
«Nestor, filho de Neleu», respondeu Telémaco, «honra do nome aqueu, os aqueus aplaudem Orestes e o seu nome viverá por todo o tempo, pois ele vingou o seu pai nobremente. Quem dera que o céu me concedesse fazer semelhante vingança sobre a insolência dos malvados pretendentes, que me maltratam e conspiram a minha ruína; mas os deuses não têm tal felicidade reservada para mim e para o meu pai, por isso temos de suportá-lo o melhor que pudermos.»
«Meu amigo», disse Nestor, «agora que me recordas, lembro-me de ter ouvido dizer que a tua mãe tem muitos pretendentes, que são mal-intencionados para contigo e estão a causar estragos na tua propriedade. Submetes-te a isto docilmente, ou o sentimento público e a voz do céu estão contra ti? Quem sabe se Ulisses não regressará finalmente e pagará a estes canalhas na totalidade, quer sozinho, quer com uma força de aqueus atrás dele? Se Minerva tivesse por ti tanto apreço como teve por Ulisses quando lutávamos perante Troia (pois nunca vi os deuses tão abertamente afeiçoados a alguém como Minerva era então ao teu pai), se ela tivesse tanto cuidado contigo como teve com ele, estes pretendentes rapidamente esqueceriam alguns deles o seu cortejo.»
Telémaco respondeu: «Não posso esperar nada desse género; seria esperar demasiado. Não ouso deixar-me pensar nisso. Mesmo que os próprios deuses o quisessem, tal boa fortuna não poderia acontecer-me.»
A isto, Minerva disse: «Telémaco, sobre o que estás tu a falar? O céu tem um braço longo se estiver disposto a salvar um homem; e se fosse comigo, não me importaria de sofrer o quanto fosse preciso antes de chegar a casa, desde que estivesse a salvo quando lá chegasse. Preferiria isto a chegar a casa rapidamente e depois ser morto na minha própria casa, como Agamémnon foi pela traição de Egisto e da sua mulher. Ainda assim, a morte é certa, e quando chega a hora de um homem, nem os deuses o podem salvar, por mais afeiçoados que lhe sejam.»
«Mentor», respondeu Telémaco, «não falemos mais sobre isso. Não há hipótese de o meu pai alguma vez regressar; os deuses há muito que aconselharam a sua destruição. Há outra coisa, no entanto, sobre a qual gostaria de perguntar a Nestor, pois ele sabe muito mais do que qualquer outra pessoa. Dizem que reinou durante três gerações, de modo que é como falar com um imortal. Diz-me, pois, Nestor, e diz-me a verdade: como morreu Agamémnon daquela maneira? O que estava a fazer Menelau? E como é que o falso Egisto matou um homem muito melhor do que ele próprio? Estaria Menelau longe do Argos aqueu, a viajar para outro lugar entre a humanidade, para que Egisto ganhasse coragem e matasse Agamémnon?»
«Dir-te-ei a verdade», respondeu Nestor, «e, de facto, tu próprio adivinhaste como tudo aconteceu. Se Menelau, quando regressou de Troia, tivesse encontrado Egisto ainda vivo na sua casa, não haveria túmulo amontoado para ele, nem mesmo quando estivesse morto, mas ele teria sido atirado para fora da cidade aos cães e aos abutres, e nenhuma mulher o teria lamentado, pois ele tinha cometido um ato de grande maldade; mas nós estávamos lá, a lutar arduamente em Troia, e Egisto, que estava a descansar tranquilamente no coração de Argos, adulou a mulher de Agamémnon, Clitemnestra, com lisonjas incessantes.»
«No princípio ela não queria ter nada a ver com o seu projeto perverso, pois era de boa disposição natural;30 além disso havia um bardo junto dela, a quem Agamémnon, ao partir para Troia, dera ordens estritas de que guardasse a esposa; mas quando o céu decidiu a sua destruição, Egisto levou esse bardo para uma ilha deserta e ali o deixou, para que os corvos e as gaivotas se banqueteassem com ele — depois do que ela foi de bom grado para a casa de Egisto. Então ele ofereceu muitos sacrifícios queimados aos deuses e adornou muitos templos com tapeçarias e douraduras, pois havia logrado êxito muito além das suas expectativas.
«Entretanto Menelau e eu seguíamos caminho de regresso de Troia, em bons termos um com o outro. Quando chegámos a Sunião, que é o promontório de Atenas, Apolo com os seus dardos sem dor matou Frontis, o timoneiro do navio de Menelau (e nenhum homem sabia melhor do que ele governar uma embarcação em tempo agreste), de modo que ele morreu ali mesmo com o leme na mão; e Menelau, embora muito desejoso de prosseguir, teve de esperar para enterrar o companheiro e prestar-lhe as devidas honras fúnebres. Logo que pôde de novo fazer-se ao mar, e singrou até aos promontórios Málios, Jove tramou males contra ele e mandou soprar um vento forte, até que as ondas se erguiam altas como montanhas. Ali dividiu a sua frota e levou uma metade para a Cretã, onde habitam os Cidonianos junto das águas do rio Iardano. Há por ali um alto promontório que se estende para o mar a partir de um lugar chamado Gortina, e ao longo desta parte da costa, até Faisto, o mar é agitado quando sopra o vento do sul; mas para lá de Faisto a costa é mais protegida, pois um pequeno promontório pode oferecer grande abrigo. Ali esta parte da frota foi arrojada contra os rochedos e naufragou; mas as tripulações apenas conseguiram salvar-se. Quanto aos outros cinco navios, foram levados pelos ventos e pelas ondas até ao Egipto, onde Menelau ajuntou muito ouro e riqueza entre povos de língua estranha. Entretanto Egisto aqui em casa urdiu a sua ação maldita. Durante sete anos, depois de ter matado Agamémnon, reinou em Micenas, e o povo obedecia-lhe; mas no oitavo ano Orestes regressou de Atenas para ser o seu algoz, e matou o assassino do seu pai. Então celebrava as exéquias da mãe e do falso Egisto com um banquete para o povo de Argos, e nesse mesmo dia Menelau chegou a casa,31 com tantos tesouros quantos os seus navios podiam transportar.
«Segue pois o meu conselho e não andes a viajar por tanto tempo e tão longe de casa, nem deixes os teus bens com gente tão perigosa dentro da tua própria casa; eles consumirão tudo o que tens entre eles, e terás feito uma jornada de tolo. Ainda assim, aconselho-te por todos os meios que vás visitar Menelau, que regressou há pouco de uma viagem entre povos tão distantes que nenhum homem poderia jamais esperar voltar, uma vez que os ventos o tinham arrastado para tão longe do seu rumo; nem sequer as aves conseguem percorrer tal distância num ano, tão vastos e terríveis são os mares que ele teve de atravessar. Vai ter com ele, pois, por mar, e leva os teus homens contigo; ou se preferires ir por terra, podes ter um carro, podes ter cavalos, e aqui estão os meus filhos que te podem escoltar até Lacedemónia, onde Menelau vive. Roga-lhe que te diga a verdade, e ele não te mentirá, pois é um homem excelente.»
Enquanto ele assim falava, o sol pôs-se e a escuridão caiu, e então Minerva disse: «Senhor, tudo o que disseste está bem; agora, porém, manda cortar as línguas das vítimas e mistura o vinho para que possamos fazer libações a Neptuno e aos outros imortais, e depois vamo-nos deitar, pois é hora de dormir. As pessoas devem partir cedo e não ficar até tarde numa festa religiosa.»
Assim falou a filha de Jove, e eles obedeceram às suas palavras. Os servos derramaram água sobre as mãos dos convidados, enquanto os escudeiros enchiam as crateras com vinho e água e o serviam depois de cada um ter feito a sua libação; depois lançaram as línguas das vítimas ao fogo e levantaram-se para fazer as suas ofertas. Quando tiveram feito as ofertas e cada um bebeu quanto lhe aprouve, Minerva e Telémaco dispunham-se a ir para o seu navio, mas Nestor alcançou-os logo e deteve-os.
«Que o céu e os deuses imortais — exclamou ele — não consintam que deixeis a minha casa para ir a bordo de um navio. Pensais que sou tão pobre e tão desprovido de roupas, ou que tenho tão poucas capas que não possa arranjar camas confortáveis tanto para mim como para os meus hóspedes? Sabei que tenho abundantemente tapetes e capas, e não permitirei que o filho do meu velho amigo Ulisses acampe no convés de um navio — enquanto eu viver — nem tão pouco os meus filhos depois de mim, pois eles manterão a casa aberta como eu tenho feito.»
Então Minerva respondeu: «Senhor, falaste bem, e será muito melhor que Telémaco faça como disseste; ele, portanto, voltará contigo e dormirá em tua casa, mas eu tenho de regressar para dar instruções à minha tripulação e a mantê-la com bom ânimo. Sou a única pessoa de mais idade entre eles; os restantes são todos jovens da idade de Telémaco, que empreenderam esta viagem por amizade; por isso tenho de voltar para o navio e dormir lá. Além disso, amanhã tenho de ir aos Cócios, onde tenho uma avultada soma de dinheiro que me é devida há muito. Quanto a Telémaco, agora que é teu hóspede, manda-o a Lacedemónia num carro, e deixa que um dos teus filhos o acompanhe. Serve-lhe também os teus melhores e mais velozes cavalos.»
Quando assim falou, voou em forma de águia, e todos ficaram maravilhados ao vê-la. Nestor ficou assombrado e tomou Telémaco pela mão. «Meu amigo — disse ele —, vejo que hás de vir a ser um grande herói um dia, pois os deuses te assistem desta maneira ainda tão jovem. Este não pode ter sido outro, entre quantos habitam o céu, senão a terrível filha de Jove, a Tritogénea, que mostrou tanto favor pelo teu bravo pai entre os Argivos. Sagrada rainha — prosseguiu ele —, digna-te enviar a tua graça sobre mim, a minha boa esposa e os meus filhos. Em troca, oferecer-te-ei em sacrifício uma novilha de largas frontes, de um ano de idade, indómita, e nunca ainda submetida ao jugo por mão humana. Dourarei os seus cornos e oferecê-la-ei a ti em sacrifício.»
Assim orou, e Minerva ouviu a sua prece. Ele conduziu-os então para a sua própria casa, seguido dos seus filhos e genros. Quando lá chegaram e tomaram os seus lugares nos bancos e assentos, ele misturou -lhes uma cratera de vinho doce que tinha onze anos de idade, quando a governanta levantou a tampa do jarro que o continha. Ao misturar o vinho, ele rezou longamente e fez libações a Minerva, filha de Jove portador da égide. Depois de terem feito as suas libações e de cada um ter bebido quanto lhe aprouve, os outros foram para casa dormir cada um na sua morada; mas Nestor pôs Telémaco a dormir no quarto que ficava sobre o portal, junto de Pisístrato, que era o único filho que lhe restava por casar. Quanto a ele próprio, dormiu numa câmara interior da casa, com a rainha sua esposa ao lado.
Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, Nestor levantou-se do seu leito e tomou o seu assento nos bancos de mármore branco e polido que ficavam diante da sua casa. Outrora ali se sentara Neleu, igual aos deuses em conselho, mas ele já estava morto e tinha ido para a casa de Hades; assim, Nestor sentou-se no seu lugar com o cetro na mão, como guardião do bem público. Os seus filhos, ao saírem dos seus aposentos, reuniram-se à volta dele: Equéfron, Estratio, Perseu, Aretus e Trasimedes; o sexto filho era Pisístrato, e quando Telémaco se lhes juntou fizeram-no sentar entre eles. Nestor então dirigiu-se a eles.
«Filhos — disse ele —, apressai-vos a fazer o que eu vos ordenar. Quero antes de tudo propiciar a grande deusa Minerva, que se manifestou visivelmente a mim durante a festa de ontem. Ide, pois, um de vós ao campo, dizer ao vaqueiro que me escolha uma novilha e venha cá com ela sem demora. Outro deve ir ao navio de Telémaco e convidar toda a tripulação, deixando apenas dois homens de guarda à embarcação. Alguém outro irá a correr buscar Laerceu, o ourives, para dourar os cornos da novilha. Os demais, ficai todos onde estais; dizei às criadas da casa que preparem um excelente jantar, que tragam assentos e troncos de lenha para o holocausto. Dizei-lhes também que me tragam água límpida de fonte.»
A estas palavras, eles apressaram-se a cumprir as suas tarefas. A novilha foi trazida do campo, e a tripulação de Telémaco veio do navio; o ourives trouxe a bigorna, o martelo e a tenaz com que trabalhava o ouro, e Minerva em pessoa veio aceitar o sacrifício. Nestor entregou o ouro, e o ferreiro dourou os cornos da novilha para que a deusa tivesse prazer na sua beleza. Então Estratio e Equéfron a trouxeram pelos cornos; Aretus foi buscar água à casa numa bilha com desenhos de flores, e na outra mão trazia uma cestinha de farinha de cevada; o vigoroso Trasimedes mantinha-se de pé com um afiado machado, pronto a golpear a novilha, enquanto Perseu segurava um balde. Então Nestor começou por lavar as mãos e aspergir a farinha de cevada, e ofereceu muitas preces a Minerva enquanto atirava para o fogo uma mecha do toucado da novilha.
Quando acabaram de orar e de aspergir a farinha de cevada,32 Trasimedes desferiu o golpe e derrubou a novilha com um talho que lhe cortou os tendões da base do pescoço; whereupon as filhas e norras de Nestor, e a sua venerável esposa Eurídice (ela era a primogénita de Clímeno) gritaram de alegria. Levantaram então a cabeça da novilha do chão, e Pisístrato cortou-lhe a garganta. Quando ela deixou de sangrar e estava bem morta, cortaram-na em postas. Cortaram os ossos das coxas pela ordem devida, envolveram-nos em duas camadas de gordura e puseram por cima uns pedaços de carne crua; então Nestor dispôs-os sobre a fogueira de lenha e derramou vinho sobre eles, enquanto os mancebos se mantinham perto dele com espetos de cinco pontas nas mãos. Quando as coxas arderam e provaram as entranhas, cortaram o resto da carne em pedaços pequenos, puseram os bocados nos espetos e tostaram-nos sobre o fogo.
Entretanto a formosa Polícasta, a filha mais nova de Nestor, lavou Telémaco. Quando o lavou e untou com azeite, trouxe-lhe um belo manto e uma túnica,33 e ele parecia um deus ao sair do banho e ao tomar o seu lugar ao lado de Nestor. Quando as carnes de fora ficaram prontas, tiráraram-nas dos espetos e sentaram-se para o jantar, onde foram servidos por alguns bons copeiros, que não cessavam de lhes deitar o vinho em taças de ouro. Assim que tiveram comido e bebido quanto lhes bastou, Nestor disse: «Filhos, atrelai os cavalos de Telémaco ao carro, para que ele possa partir de imediato.»
Assim falou, e eles fizeram mesmo o que ele dissera, e atrelaram os velozes cavalos ao carro. A governanta preparou-lhes uma provisão de pão, vinho e doces próprios para filhos de príncipes. Telémaco então subiu para o carro, enquanto Pisístrato juntou as rédeas e tomou o seu lugar junto dele. Açudiu aos cavalos com o chicote e eles dispararam, nada relutantes, para o campo aberto, deixando para trás a alta acrópole de Pilos. Todo o dia viajaram, balanceando o jugo sobre os seus pescoços, até que o sol se pôs e a escuridão cobriu toda a terra. Chegaram então a Feres, onde vivia Diocles, filho de Ortiloco e neto de Alfeu. Ali passaram a noite e Diocles os hospedou com generosidade. Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, tornaram a atrelar os cavalos e saíram pelo portal sob a cancela ecoante.34 Pisístrato fustigou os cavalos e eles dispararam, nada relutantes; logo chegaram às terras cerealistas do campo aberto e, com o andar do tempo, completaram a sua jornada, tão bem os seus corceis os levaram.35
Agora, quando o sol se pôs e a escuridão cobriu a terra,
LIVRO IV
A VISITA AO REI MENELAU, QUE CONTA A SUA HISTÓRIA — ENQUANTO ISSO OS PRETENDENTES EM ITACA CONSPIRAM CONTRA TELÉMACO.
chegaram à baixa cidade de Lacedemónia, onde se dirigiram diretamente à morada de Menelau36 [e encontraram-no em sua própria casa, a festejar com os seus muitos clanários em honra do casamento do seu filho e também da sua filha, que ele casava com o filho daquele valente guerreiro Aquiles. Ele dera o seu consentimento e prometera-a enquanto ainda estava em Troia, e agora os deuses levavam o casamento a bom termo; por isso a enviava com carros e cavalos para a cidade dos Mirmidões, sobre a qual reinava o filho de Aquiles. Para o seu único filho encontrara uma noiva de Esparta,37 filha de Alector. Este filho, Megapentes, nascera-lhe de uma escrava, pois o céu não concedera a Helena mais filhos depois de ter dado à luz Hermíone, que era formosa como a própria dourada Vénus.
Assim, os vizinhos e parentes de Menelau estavam a festejar e a regozijar-se na sua casa. Havia também um bardo para lhes cantar e tocar a sua lira, enquanto dois volteadores andavam por entre eles a fazer exibições quando o homem atacava com a sua melodia.38
Telémaco e o filho de Nestor detiveram os cavalos junto ao portão, onde Eteoneu, servo de Menelau, saiu e, assim que os viu, correu a toda a pressa de volta para dentro da casa a avisar o seu senhor. Aproximou-se dele e disse: «Menelau, há aqui uns estranhos chegados, dois homens, que parecem filhos de Jove. Que havemos de fazer? Desatrelemo-lhes os cavalos, ou digamos-lhes que encontrem amigos por aí como melhor possam?»
Menelau ficou muito indignado e disse: «Eteoneu, filho de Boeto, nunca foste parvo, mas agora falas como um simplório. Desatrelai-lhes os cavalos, claro, e introduzi os estranhos, para que possam cear; tu e eu já permanecemos muitas vezes em casas alheias antes de regressarmos aqui, onde o céu permita que descansemos em paz daqui em diante.»
Eteoneu voltou a correr e mandou vir com ele os outros servos. Tiraram os cavalos banhados em suor de sob o jugo, amarraram-nos aos manjedouros e deram-lhes uma ração de aveia misturada com cevada. Depois encostaram o carro à parede extrema do pátio e abriram caminho para dentro da casa. Telémaco e Pisístrato ficaram estupefactos ao vê-la, pois o seu esplendore era como o do sol e o da lua; então, depois de terem admirado tudo quanto lhes apetecia, entraram na casa de banho e se lavaram.
Quando os servos os lavaram e untaram com azeite, trouxeram-lhes capas de lã e túnicas, e os dois tomaram os seus lugares ao lado de Menelau. Uma criada trouxe-lhes água numa bela bilha de ouro e verteu-a numa bacia de prata para que lavassem as mãos; e ela puxou uma mesa limpa para junto deles. Um servo superior trouxe-lhes pão e ofereceu-lhes muitas das boas coisas que havia em casa, enquanto o trinchante lhes trazia pratos de toda a espécie de carnes e punha taças de ouro ao seu lado.
Menelau então saudou-os dizendo: «Comei, e sede bem-vindos; quando tiverdes terminado o jantar perguntar-vos-ei quem sois, pois a ascendência de homens como vós não pode ter-se perdido. Deveis descender de uma linhagem de reis que empunham cetro, pois gente pobre não tem filhos como vós sois.»
Então ele passou-lhes39 um naco de lombo gordo assado, que fora posto perto dele por ser uma peça de primeira, e eles lançaram as mãos aos bons manjares que tinham diante; assim que tiveram comido e bebido quanto lhes bastou, Telémaco disse ao filho de Nestor, com a cabeça tão chegada que ninguém pudesse ouvir: «Olha, Pisístrato, homem segundo o meu coração, vê o brilho do bronze e do ouro — do âmbar,40 do marfim e da prata. Tudo é tão esplêndido que é como ver o palácio de Jove Olímpico. Fico perdido de admiração.»
Menelau ouviu-o por acaso e disse: «Ninguém, meus filhos, pode ombrear com Jove, pois a sua casa e tudo o que o rodeia é imortal; mas entre os homens mortais — bem, pode haver outro que tenha tantas riquezas quantas eu tenho, ou pode não haver; mas, em todo o caso, tenho viajado muito e passado por muitas provações, pois foram quase oito anos antes de conseguir chegar a casa com a minha frota. Fui a Chipre, à Fenícia e aos Egípcios; fui também aos Etíopes, aos Sidonianos e aos Erembos, e à Líbia, onde os cordeiros têm cornos logo ao nascer e as ovelhas parem três vezes por ano. Toda a gente naquele país, senhor ou servo, tem queijo, carne e bom leite em abundância, pois as ovelhas dão leite o ano inteiro. Mas enquanto eu andava a viajar e a juntar grandes riquezas entre estes povos, o meu irmão foi assassinado em segredo e de forma atroz pela perfídia da sua mulher perversa, de modo que não tenho prazer nenhum em ser senhor de tantas riquezas. Quem quer que sejam os vossos pais, eles deverão ter-vos contado tudo isto, e da minha grande perda na ruína41 de um palácio senhorial, completa e magnificamente mobiliado. Quem me dera ter apenas um terço do que tenho agora, para que tivesse ficado em casa, e estivessem vivos todos quantos pereceram na planície de Troia, longe de Argos. Muitas vezes me aflijo, sentado aqui na minha casa, por um e por todos eles. Às vezes choro em voz alta de pesar, mas logo paro de novo, pois chorar é consolo frio e depressa nos cansamos disso. Contudo, por muito que me aflija por todos eles, aflijo-me por um mais do que por todos. Nem sequer consigo pensar nele sem sentir nojo tanto da comida como do sono, tão miserável me ele faz sentir, pois nenhum dos Aqueus trabalhou tanto ou arriscou tanto como ele. Nada tirou disso, e deixou-me um legado de tristeza, pois ele partiu há muito e não sabemos se está vivo ou morto. O seu velho pai, a sua longânime esposa Penélope e o seu filho Telémaco, que ele deixou atrás de si ainda criança de colo, estão mergulhados em aflição por causa dele.»
Assim falou Menelau, e o coração de Telémaco anelou ao recordar-se do pai. As lágrimas caíram dos seus olhos ao ouvi-lo assim mencionado, de modo que ele cobriu o rosto com o manto usando ambas as mãos. Quando Menelau o viu, hesitou entre deixá-lo escolher o momento próprio para falar ou perguntar-lhe logo e descobrir do que se tratava.
Enquanto ele assim hesitava, Helena desceu do seu alto quarto abobadado e perfumado, tão formosa qual a própria Diana. Adraste trouxe-lhe um assento; Alcipe, um tapete de lã macia; e Filo trouxe-lhe a caixa de trabalho de prata que lhe dera Alcandra, esposa de Polibo. Polibo habitava na Tebas egípcia, que é a cidade mais rica do mundo inteiro; dera a Menelau dois banhos, ambos de prata pura, dois tripés e dez talentos de ouro; além de tudo isto, sua esposa dera a Helena formosos presentes, a saber: um fuso de ouro, e uma caixa de trabalho de prata que corria sobre rodas, com uma faixa de ouro a rodear-lhe o topo. Filo agora a colocou ao seu lado, cheia de fio finamente fiado, e sobre o topo estava pousado um fuso carregado de lã cor de violeta. Então Helena sentou-se, pôs os pés sobre o escabelo e começou a interrogar o marido.
«Sabemos nós, Menelau», disse ela, «quem são estes estranhos que vieram visitar-nos? Acertarei por adivinhação ou errarei? — mas não posso deixar de dizer o que penso. Nunca ainda vi homem ou mulher que se parecesse tanto com alguém (aliás, quando o olho fixo, quase não sei o que pensar) como este jovem se parece com Telémaco, que Ulisses deixou para trás como bebé, quando vós, Aqueus, partistes para Tróia com a batalha no coração, por causa da minha sem-vergonha pessoa.»
«Minha cara esposa», respondeu Menelau, «vejo a parecença tal como vós. As suas mãos e pés são iguais aos de Ulisses; tal é o cabelo, a forma da cabeça e a expressão dos olhos. Mais ainda: quando eu falava de Ulisses, dizendo quanto ele sofrera por minha causa, caíram-lhe lágrimas dos olhos, e ele escondeu o rosto no manto.»
Então Pisístrato disse: «Menelau, filho de Atreu, fazeis bem em pensar que este jovem é Telémaco, mas é muito modesto e tem vergonha de vir aqui e começar a entabular conversa com alguém cujo discurso é tão divinamente interessante como o vosso. Meu pai, Nestor, me enviou para o escoltar até vós, pois ele queria saber se poderíeis dar-lhe algum conselho ou sugestão. Um filho tem sempre dificuldades em casa quando o pai partiu deixando-o sem defensores; e é assim que Telémaco agora se encontra, pois o pai está ausente, e não há ninguém entre o seu povo que o ampare.»
«Valha-me Deus!», respondeu Menelau, «então recebo a visita do filho de um amigo muitíssimo querido, que sofreu tantos trabalhos por minha causa. Sempre esperara acolhê-lo com a mais marcada distinção, quando o céu nos houvesse concedido um regresso salvo de além dos mares. Fundar-lhe-ia uma cidade em Argos, e construir-lhe-ia uma casa. Fá-lo-ia deixar Ítaca com os seus haveres, seu filho e todo o seu povo, e arrasaria para eles uma das cidades vizinhas que me são tributárias. Assim nos veríamos continuamente, e só a morte poderia interromper tão estreito e feliz convívio. Suponho, porém, que o céu nos invejou tão grande fortuna, pois impediu o pobre homem de sequer chegar a casa.»
Assim falou, e as suas palavras puseram todos a chorar. Helena chorou, Telémaco chorou, e Menelau também; nem Pisístrato pôde reter as lágrimas, ao lembrar-se do seu querido irmão Antiloco, que o filho da brilhante Aurora matara. Então disse a Menelau:
«Senhor, meu pai Nestor, quando em casa costumávamos falar de vós, dizia-me que éreis pessoa de raro e excelente entendimento. Se for possível, pois, fazei como vos peço. Não gosto de chorar enquanto ceio. A manhã chegará no devido tempo, e durante a manhã pouco me importa chorar quanto quiser pelos que já morreram e partiram. É tudo o que podemos fazer pelos pobres: só podemos rapar as nossas cabeças por eles e arrancar as lágrimas do nosso rosto. Eu tive um irmão que morreu em Tróia; não era de modo algum o pior homem de lá; de certo o conheceis — chamava-se Antiloco; eu próprio nunca pus os olhos nele, mas dizem que era singularmente veloz de pé e valente no combate.»
«O vosso discernimento, meu amigo», respondeu Menelau, «está acima dos vossos anos. É claro que saís ao vosso pai. Logo se vê quando um homem é filho de alguém a quem o céu abençoou tanto em esposa como em descendência — e abençoou Nestor do princípio ao fim todos os seus dias, dando-lhe uma verde velhice na sua própria casa, com filhos à volta que são bem-dispostos e valentes. Pomos termo, pois, a todo este choro, e atendamos de novo ao nosso jantar. Que se lance água sobre as mãos. Telémaco e eu podemos conversar largamente pela manhã.»
Então Asfalion, um dos servos, lançou água sobre as mãos deles, e eles estenderam as mãos para as iguarias que estavam diante de si.
Então a filha de Jove, Helena, lembrou-se de outro assunto. Droguou o vinho com uma erva que afasta todo o cuidado, a tristeza e o mau humor. Quem bebe o vinho assim drogado não pode derramar uma única lágrima durante o resto do dia, nem que seu pai e sua mãe ambos caiam mortos, ou que veja um irmão ou um filho destroçados diante dos seus próprios olhos. Esta droga, de tão soberano poder e virtude, fora dada a Helena por Polidamna, esposa de Ton, mulher do Egito, onde crescem toda a espécie de ervas, umas boas para pôr na taça de misturar e outras venenosas. Mais ainda: toda a gente no país inteiro é médico habilidoso, pois são da raça de Peéon. Quando Helena deitou esta droga na taça e ordenou aos servos que servissem o vinho à roda, disse:
«Menelau, filho de Atreu, e vós, meus bons amigos, filhos de homens honrados (o que é como Jove quer, pois ele é quem dá tanto o bem como o mal, e pode fazer o que lhe aprouver), festejai aqui à vontade, e ouvi enquanto vos conto uma história em sazão. Não posso, na verdade, nomear cada uma das façanhas de Ulisses, mas posso dizer o que ele fez quando estava diante de Tróia, e vós, Aqueus, passáveis por toda a espécie de dificuldades. Ele cobriu-se de feridas e pisaduras, vestiu-se todo de andrajos, e entrou na cidade inimiga parecendo um criado ou um mendigo, e bem outro do que era quando estava entre o seu povo. Nesse disfarce entrou na cidade de Tróia, e ninguém lhe disse nada. Só eu o reconheci e comecei a interrogá-lo, mas ele foi demasiado astuto para mim. Quando, porém, o lavei e untei e lhe dei roupas, e depois de eu ter jurado um solene juramento de não o trair aos Troianos até que ele chegasse salvo ao seu próprio acampamento e aos navios, contou-me tudo o que os Aqueus intentavam fazer. Matou muitos Troianos e obteve muitas informações antes de alcançar o acampamento argivo, por tudo o que as mulheres Troianas faziam lamentação, mas, quanto a mim, folguei, pois o meu coração começava a ansiar pelo meu lar, e eu estava infeliz pelo mal que Vénus me fizera, levando-me para lá, longe da minha pátria, da minha filha e do meu legítimo esposo, que aliás de modo algum é falto nem de pessoa nem de entendimento.»
Então Menelau disse: «Tudo o que tendes dito, minha cara esposa, é verdade. Tenho viajado muito e tenho lidado muito com heróis, mas nunca vi outro homem igual a Ulisses. Que resistência, e que coragem ele mostrou dentro do cavalo de madeira, onde os mais valentes dos Argivos espreitavam para levar a morte e a destruição aos Troianos. Nesse momento viestes ter connosco; algum deus que queria bem aos Troianos deve ter-vos induzido, e tínheis Deífobo convosco. Três vezes rodeastes o nosso esconderijo e o palpastes; chamastes cada um dos nossos chefes pelo seu próprio nome, e imitastes todas as nossas mulheres — Diomedes, Ulisses e eu, dos nossos assentos lá dentro, ouvíamos que barulho fazíeis. Diomedes e eu não nos podíamos decidir se saltávamos logo ali fora ou se vos respondíamos de dentro, mas Ulisses conteve-nos a todos, de modo que ficámos bem quietos, todos exceto Anticlus, que começava a responder-vos, quando Ulisses lhe tapou a boca com as suas duas mãos vigorosas, e lá as manteve. Foi isso que nos salvou a todos, pois ele amordaçou Anticlus até que Minerva vos levou de novo.»
«Que triste!», exclamou Telémaco, «que tudo isto de nada servisse para o salvar, nem a sua própria coragem de ferro. Mas agora, senhor, fazei o favor de nos mandar todos para a cama, para que nos deitemos e gozemos a bênção abençoada do sono.»
Então Helena disse às serventes que preparassem leitos na sala que ficava na casa da guarda, e que os fizessem com boas colchas vermelhas, e estendesem cobertores por cima, com mantos de lã para os hóspedes vestirem. As servas saíram, levando uma tocha, e prepararam os leitos, aos quais um servo em seguida conduziu os estranhos. Assim, pois, Telémaco e Pisístrato dormiram ali no pátio, enquanto o filho de Atreu se deitou numa sala interior com a formosa Helena a seu lado.
Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, Menelau levantou-se e vestiu-se. Prendeu as sandálias aos seus belos pés, cingiu a espada aos ombros e saiu do quarto parecendo um deus imortal. Então, tomando assento junto de Telémaco, disse:
«E que foi, Telémaco, que vos levou a fazer esta longa viagem por mar até à Lacónia? É por negócio público ou particular? Contai-me tudo.»
«Vim, senhor», respondeu Telémaco, «para ver se me podeis dizer alguma coisa do meu pai. Estou a ser devorado em minha casa; a minha bela fazenda está a ser desperdiçada, e a minha casa está cheia de malfeitores que andam a matar grande número das minhas ovelhas e bois, sob o pretexto de cortejarem a minha mãe. Por isso, sou suplicante aos vossos joelhos se porventura me puderdes dizer algo sobre o melancólico fim do meu pai, se o vistes com os vossos próprios olhos ou o ouvistes de algum outro viajante; pois ele era um homem nascido para a tribulação. Não abrandeis as coisas por pena de mim, mas dizei-me em toda a singeleza exatamente o que vistes. Se o meu bravo pai Ulisses alguma vez vos prestou leal serviço, de palavra ou de obra, quando vós, Aqueus, éreis acosados pelos Troianos, lembrai-vos disso agora em meu favor e dizei-me verdadeiramente tudo.»
Menelau, ao ouvir isto, ficou muito perturbado. «Então», exclamou, «estes cobardes usurpariam o leito de um homem valente? Tão bem podia uma cerva deixar os seus recém-nascidos na cova de um leão, e depois ir-se embora para pastar na floresta ou em algum vale relvoso: o leão, quando voltar à sua cova, dará curta conta dos dois — e assim fará Ulisses com estes pretendentes. Por pai Jove, Minerva e Apolo, se Ulisses ainda é o homem que era quando lutou com Filomelides em Lesbos, e o atirou com tanta força que todos os Aqueus o aplaudiram — se ele ainda é assim e chegasse perto destes pretendentes, teriam breve sentença e um triste casamento. Quanto a vossas perguntas, porém, não tergiversarei nem vos enganarei, mas dir-vos-ei sem reservas tudo o que o velho do mar me contou.
«Eu tentava vir para aqui, mas os deuses me detiveram no Egito, pois as minhas hecatombes não lhes tinham dado plena satisfação, e os deuses são muito estritos em receber o que lhes é devido. Ora, defronte do Egito, tão longe quanto um navio pode navegar num dia com uma boa brisa rija atrás, há uma ilha chamada Faros — tem um bom porto donde as embarcações podem sair para o mar aberto depois de terem tomado água — e ali os deuses me mantiveram calmo vinte dias sem um sopro sequer de vento favorável que me ajudasse a prosseguir. Teríamos ficado sem víveres por completo e os meus homens teriam morrido de fome, se uma deusa não tivesse apiedado de mim e me salvado na pessoa de Idoteia, filha de Proteu, o velho do mar, pois ela tomara grande afeição por mim.
«Ela veio ter comigo um dia, quando eu estava sozinho, como muitas vezes acontecia, pois os homens costumavam sair com os seus anzóis de farpa por toda a ilha na esperança de apanhar um peixe ou dois que os livrassem das angústias da fome. 'Estranho', disse ela, 'parece-me que gostais de passar fome deste jeito — ao menos não vos aflige muito, pois aqui ficais dia após dia, sem sequer tentar ir-vos embora embora os vossos homens estejam a morrer aos poucos.'
«'Deixe-me dizer-lhe', disse eu, 'qualquer das deusas que por acaso sejais, que não estou aqui por minha própria vontade, mas devo ter ofendido os deuses que vivem no céu. Dizei-me, pois, pois os deuses tudo sabem, qual dos imortais é que me está a impedir deste modo, e dizei-me também como hei de navegar pelo mar de modo a chegar ao meu lar.'
«'Estranho', respondeu ela, 'tornar-vos-ei tudo bem claro. Há um velho imortal que vive sob o mar aqui perto e cujo nome é Proteu. É egípcio, e as pessoas dizem que é meu pai; é o homem de confiança de Neptuno e conhece每一 polegada de terreno por todo o fundo do mar. Se o poderdes enlaçar e o agarrardes com firmeza, ele vos dirá sobre a vossa viagem, que rotas haveis de tomar, e como haveis de navegar pelo mar para chegar ao vosso lar. Ele vos dirá também, se assim quiserdes, tudo o que se passou em vossa casa, tanto de bom como de mau, enquanto haveis estado ausente na vossa longa e perigosa jornada.'
«'Podeis mostrar-me', disse eu, 'algum estratagema por meio do qual eu possa apanhar este velho deus sem que ele o suspeite e me descubra? Pois um deus não se apanha facilmente — nem por um homem mortal.'
«'Estranho', disse ela, 'tornar-vos-ei tudo bem claro. À hora em que o sol tiver atingido o meio do céu, o velho do mar sobe de sob as ondas, anunciado pelo vento do Oeste que encrespa a água sobre a sua cabeça. Assim que sobe, deita-se e adormece numa grande gruta marinha, onde as focas — os pintinhos de Halosidne, como lhes chamam — sobem também do mar cinzento e vão dormir em bandos à volta dele; e um cheiro muito forte e piscatório trazem com elas. Cedo amanhã de manhã levar-vos-ei a esse lugar e vos porei em emboscada. Escolhei, pois, os três melhores homens que tiverdes na vossa frota, e eu vos direi todos os truques que o velho vos pregará.
«'Primeiro ele pasará revista a todas as suas focas e contá-las-á; depois, quando as tiver visto e contado nos seus cinco dedos, irá dormir entre elas, como um pastor entre as suas ovelhas. No momento em que virdes que ele está a dormir, agarrai-o; empregai todas as vossas forças e segurai-o com força, pois ele fará tudo quanto pode para se vos escapar. Ele transformar-se-á em toda a espécie de criatura que anda sobre a terra, e tornar-se-á também fogo e água; mas haveis de segurá-lo com força e apertá-lo cada vez mais, até que ele comece a falar convosco e volte ao que era quando o vistes adormecer; então podeis afrouxar a vossa pega e deixá-lo ir; e podeis perguntar-lhe qual dos deuses é que está zangado convosco, e o que haveis de fazer para chegar ao vosso lar por cima dos mares.'
«Dito isto, mergulhou sob as ondas, e eu voltei para o lugar onde os meus navios estavam alinhados na praia; e o meu coração toldava-se de cuidados enquanto caminhava. Quando cheguei ao meu navio, preparámos o jantar, pois a noite caía, e acampámos na praia.
«Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, levei os três homens em cujo valor de toda a espécie mais podia confiar, e fui ao longo do mar, orando fervorosamente ao céu. Entretanto, a deusa me trouxe do fundo do mar quatro peles de foca, todas elas acabadas de esfolar, pois queria pregar uma partida ao pai. Depois cavou quatro fossos para nos deitarmos e sentou-se à espera de que subíssemos. Quando estávamos perto dela, ela nos fez deitar nos fossos um após o outro, e lançou uma pele de foca sobre cada um de nós. A nossa emboscada teria sido insuportável, pois o fedor das focas piscatórias era angustiante — quem iria para a cama com um monstro marinho se pudesse evitá-lo? — mas aqui também a deusa nos ajudou e pensou em algo que nos deu grande alívio, pois meteu sob as narinas de cada homem um pouco de ambrosia, que era tão fragrante que matava o cheiro das focas.
«Esperámos toda a manhã e fomos tirando o melhor partido, vendo as focas subir aos centos a aquecer-se à beira-mar, até que ao meio-dia o velho do mar subiu também, e quando encontrou as suas focas gordas passou por elas e contou-as. Estávamos entre as primeiras que ele contou, e nunca suspeitou de qualquer truque, mas deitou-se a dormir assim que acabou de contar. Então atiramo-nos a ele com um grito e agarrámo-lo; whereupon ele começou de imediato com os seus velhos truques, e transformou-se primeiro num leão com uma grande juba; depois, de repente, tornou-se um dragão, um leopardo, um javali; no momento seguinte era água corrente, e depois outra vez diretamente era uma árvore, mas nós não o largámos e nunca perdemos a pega, até que por fim a velha criatura astuciosa ficou aflita e disse: 'Qual dos deuses foi, filho de Atreu, que engendrou esta trama convosco para me enlaçar e me agarrar contra a minha vontade? Que quereis?'
«'Vós sabeis isso por vós mesmo, velho', respondi eu, 'não ganhareis nada tentando desviar-me. É porque tenho sido retido tanto tempo nesta ilha e não vejo sinal de poder ir-me embora. Estou a perder toda a coragem; dizei-me, pois, pois vós, deuses, sabeis tudo, qual dos imortais é que me está a impedir, e dizei-me também como hei de navegar pelo mar para chegar ao meu lar?'
«'Então', disse ele, 'se quereis terminar a vossa viagem e chegar depressa a casa, haveis de oferecer sacrifícios a Jove e aos restantes deuses antes de embarcar; pois está decretado que não haveis de voltar aos vossos amigos e à vossa própria casa, enquanto não tiverdes voltado à corrente alimentada pelo céu do Egito, e oferecido santas hecatombes aos deuses imortais que reinam no céu. Quando o tiverdes feito, eles vos deixarão terminar a viagem.'
«Fiquei com o coração partido ao ouvir que tinha de refazer toda aquela viagem longa e terrível de volta ao Egito; contudo, respondi: 'Farei tudo, velho, o que me haveis imposto; mas agora dizei-me, e dizei-me a verdade, se todos os Aqueus que Nestor e eu deixámos para trás quando zarpámos de Tróia chegaram salvos a casa, ou se algum deles teve um mau fim, fosse a bordo do seu próprio navio ou entre os seus amigos, quando os dias do seu combate terminaram.'
“—Filho de Atreu — respondeu ele —, por que me perguntas? Melhor seria que não soubesses o que te posso contar, pois teus olhos se encherão de lágrimas quando ouvires a minha história. Muitos daqueles sobre quem perguntas já morreram e desapareceram, mas muitos ainda restam, e apenas dois dos chefes aqueus pereceram durante o regresso a casa. Quanto ao que se passou no campo de batalha — lá estiveste tu mesmo. Um terceiro chefe aqueu ainda está no mar, vivo, mas impedido de regressar. Ájax naufragou, pois Neptuno o lançou contra os grandes rochedos de Giras; nevertheless, deixou-o sair salvo da água, e apesar de todo o ódio de Minerva teria escapado da morte, se não se tivesse perdido com a sua jactância. Disse ele que os deuses não o poderiam afogar, ainda que tentassem fazê-lo, e quando Neptuno ouviu esta grande fanfarronice, empunhou o seu tridente com as suas duas mãos vigorosas, e fendeu em duas partes o rochedo de Giras. A base ficou onde estava, mas a parte sobre a qual Ájax estava sentado caiu de cabeça no mar e levou Ájax consigo; de modo que ele bebeu água salgada e morreu afogado.
“O teu irmão e os seus navios escaparam, pois Juno o protegeu, mas quando ele estava prestes a alcançar o alto promontório de Maleia, foi apanhado por uma forte ventania que o levou outra vez mar adentro, contra a sua vontade, e o empurrou para o promontório onde Tiestes costumava morar, mas onde Egisto então vivia. Algum tempo depois, porém, pareceu que ele havia de regressar são e salvo afinal, pois os deuses fizeram o vento voltar ao seu antigo quadrante e alcançaram casa; e logo Agamémnon beijou o seu solo nativo, e derramou lágrimas de alegria por se encontrar no seu próprio país.
“Ora havia um vigilante que Egisto mantinha sempre de sentinela, e a quem prometera dois talentos de ouro. Este homem estivera de olho aberto durante um ano inteiro para se certificar de que Agamémnon não lhe escapava nem preparava guerra; quando, portanto, este homem viu Agamémnon passar, foi dizer a Egisto, que imediatamente começou a armar uma cilada contra ele. Escolheu vinte dos seus guerreiros mais valentes e colocou-os em emboscada de um lado do claustro, enquanto do lado oposto preparou um banquete. Depois mandou os seus carros e cavaleiros ao encontro de Agamémnon, e convidou-o para o festim, mas tencionava sujar a traição. Levou-o para lá, totalmente desprevenido do destino que o aguardava, e matou-o quando o banquete acabou, como se abatesse um boi nos matadouros; nem um só dos seguidores de Agamémnon ficou com vida, nem tampouco um dos de Egisto, mas todos foram mortos ali nos claustros.”
Assim falou Proteu, e eu fiquei com o coração partido ao ouvi-lo. Sentei-me nas areias e chorei; sentia como se já não pudesse suportar viver nem olhar para a luz do sol. Em breve, porém, quando já me havia fartado de chorar e de me revolver no chão, o velho do mar disse: “Filho de Atreu, não gastes mais tempo a chorar tão amargamente; isso de nada te vale; encontra o caminho de casa o mais depressa que puderes, pois Egisto pode ainda estar vivo, e, ainda que Orestes te tenha prevenido matando-o, tu podes ainda chegar a tempo para o seu funeral.”
Com isto tomei coragem apesar de toda a minha dor, e disse: “Sei, então, acerca destes dois; dize-me, portanto, acerca do terceiro homem de quem falaste; está ele ainda vivo, mas no mar, sem poder chegar a casa? ou está morto? Dize-me, por mais que isso me pese.”
“O terceiro homem — respondeu ele — é Ulisses, que mora em Ítaca. Posso vê-lo numa ilha, sofrendo amargamente na casa da ninfa Calipso, que o mantém prisioneiro, e ele não consegue chegar a casa, pois não tem navios nem marinheiros que o levem através do mar. Quanto ao teu próprio fim, Menelau, não morrerás em Argos, mas os deuses te levarão para a planície Elisia, que está nos confins do mundo. Ali reina Radamanto de louros cabelos, e os homens levam uma vida mais fácil do que em qualquer outra parte do mundo, pois no Elísio não cai chuva, nem granizo, nem neve, mas Oceano respira sempre com um vento de oeste que canta suavemente desde o mar, e dá vida nova a todos os homens. Isto te acontecerá porque desposaste Helena, e és genro de Jove.”
Enquanto assim falava, mergulhou sob as ondas; e eu voltei para os navios com os meus companheiros, e o coração se me toldou de cuidados ao longo do caminho. Quando alcançámos os navios, preparámos a ceia, pois a noite caía, e acampámos na praia. Quando a filha da manhã, a Aurora de rosados dedos, apareceu, puxámos os nossos navios para dentro de água, e colocámos-lhes os mastros e as velas; depois embarcámos nós mesmos, tomámos os nossos lugares nos bancos, e batemos o mar cinzento com os nossos remos. Eu de novo fundeei os meus navios no rio do Egito alimentado pelo céu, e ofereci hecatombes que eram plenas e suficientes. Quando assim apaziguei a ira do céu, ergui um túmulo à memória de Agamémnon para que o seu nome vivesse para sempre, e depois tive uma rápida passagem para casa, pois os deuses me enviaram um vento favorável.
E agora quanto a ti — fica aqui mais uns dez ou doze dias, e então te apressarei no teu caminho. Far-te-ei uma nobre oferta de um carro e três cavalos. Dar-te-ei também um belo cálice para que, enquanto viveres, te lembres de mim sempre que fizeres uma libação aos deuses imortais.
—Filho de Atreu — respondeu Telémaco —, não me presses a ficar mais tempo; contentar-me-ia em permanecer contigo por mais doze meses; acho a tua conversa tão deliciosa que jamais desejaria estar em casa com os meus pais; mas a minha tripulação, que deixei em Pilos, já está impaciente, e tu me estás a deter junto deles. Quanto a qualquer presente que estejas disposto a fazer-me, antes quereria que fosse uma peça de ourivesaria. Não levarei cavalos comigo para Ítaca, mas deixá-los-ei para adornar as tuas próprias cavalariças, pois tens muito terreno plano no teu reino onde o lótus prospera, bem como a ulmeira e o trigo e a cevada, e a aveia com as suas espigas brancas e abertas; ao passo que em Ítaca não temos campos abertos nem hipódromos, e o nosso país é mais apto para cabras do que para cavalos, e tanto mais me agrada por isso. Nenhuma das nossas ilhas tem muito terreno plano, apto para cavalos, e Ítaca menos do que qualquer outra.
Menelau sorriu e tomou a mão de Telémaco na sua. —O que dizes — disse ele — mostra que és de boa família. Posso, e quero, fazer-te esta troca, dando-te a mais fina e mais preciosa peça de ourivesaria em toda a minha casa. É uma taça de mistura feita pela própria mão de Vulcano, de prata pura, exceto a borda, que é embutida a ouro. Fedimo, rei dos sidónios, ma deu por ocasião de uma visita que lhe fiz quando regressei por lá no meu caminho para casa. Far-te-ei dela um presente.
Assim conversavam [e os convidados não cessavam de chegar à casa do rei. Traziam ovelhas e vinho, enquanto as suas esposas tinham preparado pão para eles levarem consigo; assim andavam ocupados a cozinhar os seus jantares nos átrios].
Entretanto, os pretendentes andavam a arremessar discos ou a apontar com lanças a um alvo no terreiro aplainado em frente da casa de Ulisses, portando-se com toda a sua antiga insolência. Antínoo e Eurímaco, que eram os seus cabecilhas e de longe os mais destacados entre todos, estavam sentados juntos quando Noémon, filho de Fronio, se chegou a Antínoo e disse:
—Antínoo, temos alguma ideia de em que dia Telémaco regressa de Pilos? Ele tem um navio meu, e preciso dele para passar a Élide: tenho lá doze éguas reprodutoras com mulas de um ano ao pé delas, ainda não domadas, e quero trazer uma delas para cá e domá-la.
Eles ficaram estarrecidos ao ouvirem isto, pois tinham a certeza de que Telémaco não tinha ido à cidade de Neleu. Pensavam que ele estava apenas em qualquer lado pelas herdades, e que estava com as ovelhas, ou com o porqueiro; por isso Antínoo disse: —Quando foi ele? Diz-me a verdade, e que homens jovens levou consigo? Eram homens livres ou seus próprios servos — pois ele bem poderia arranjar isso também? Diz-me também: deste-lhe o navio de tua livre vontade porque ele pediu, ou ele tomou-o sem a tua licença?
—Emprestei-lho — respondeu Noémon —, que mais podia eu fazer quando um homem da sua posição disse que estava numa dificuldade e me pediu para o obsequiar? Não podia de modo algum recusar. Quanto aos que foram com ele, eram os melhores rapazes que temos, e eu vi Mentor embarcar como capitão — ou algum deus que era exactamente igual a ele. Não o compreendo, pois vi Mentor aqui mesmo ontem de manhã, e, no entanto, ele estava então de partida para Pilos.
Noémon voltou então para a casa de seu pai, mas Antínoo e Eurímaco ficaram muito zangados. Disseram aos outros que parassem de jogar e viessem sentar-se com eles. Quando chegaram, Antínoo, filho de Eupeites, falou com raiva. Tinha o coração negro de furor, e os olhos chispavam fogo, e disse:
—Meus deuses, esta viagem de Telémaco é coisa muito séria; tínhamos a certeza de que não daria em nada, mas o rapaz escapou-se-nos, e ainda com uma tripulação escolhida! Vai dar-nos aborrecimentos em breve; que Jove o leve antes que chegue a adulto. Acha-me, pois, um navio, com uma tripulação de vinte homens, e eu porei cilada a ele nos estreitos entre Ítaca e Samos; ele então se arrependerá do dia em que partiu para tentar obter notícias do pai.
Assim falou, e os outros aplaudiram as suas palavras; depois foram todos para dentro das construções.
Não tardou que Penélope viesse a saber o que os pretendentes estavam a tramar; pois um criado, Medonte, os ouviu de fora do átrio exterior enquanto urdiam os seus planos lá dentro, e foi dizer à senhora. Ao transpor o limiar do quarto dela, Penélope disse:
—Medonte, para que te mandaram aqui os pretendentes? É para dizeres às criadas que deixem o serviço do seu senhor e cozinhem o jantar para eles? Oxalá eles não possam cortejar nem jantar daqui em diante, nem aqui nem em parte alguma, mas que este seja o último dia de tudo, pelo desperdício que todos vós fazeis da fazenda do meu filho. Não vos disseram vossos pais, quando éreis crianças, quão bom fora Ulisses para eles — nunca fazendo nada de mão pesada, nem falando asperamente a ninguém? Os reis podem por vezes dizer coisas, e podem tomar gosto por um homem e antipatia por outro, mas Ulisses nunca fez coisa injusta contra ninguém — o que mostra quão maus corações vós tendes, e que já não há neste mundo coisa que se chame gratidão.
Medonte então disse: —Queria eu, senhora, que isto fosse tudo; mas eles estão a tramar coisa muito mais terrível agora — que o céu frustre o seu intento. Vão tentar matar Telémaco enquanto ele vem de regresso de Pilos e de Lacedemónia, onde foi buscar notícias do pai.
Então o coração de Penélope afundou-se dentro dela, e durante muito tempo ficou sem fala; os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, e não encontrava voz. Por fim, porém, disse: —Por que me deixou o meu filho? Que negócio tinha ele de se ir embora a navegar em navios que fazem longas viagens pelo oceano, como cavalos do mar? Quer morrer sem deixar ninguém atrás de si para manter o seu nome?
—Eu não sei — respondeu Medonte —, se algum deuso o instigou a isso, ou se ele foi por impulso próprio para ver se podia descobrir se o pai estava morto, ou vivo e a caminho de casa.
Então ele desceu as escadas outra vez, deixando Penélope em agonia de dor. Havia muitos assentos na casa, mas ela não tinha coração para se sentar em nenhum; só conseguia atirar-se para o chão do seu próprio quarto e chorar; e logo todas as criadas da casa, tanto as velhas como as novas, se reuniram à volta dela e começaram também a chorar, até que afinal, num transporte de aflição, exclamou:
—Minhas caras, o céu houve por bem provar-me com mais aflição do que a qualquer outra mulher da minha idade e do meu país. Primeiro perdi o meu marido bravo e coração de leão, que tinha todas as boas qualidades debaixo do céu, e cujo nome era grande por toda a Hélade e a meio da Argos, e agora o meu filho querido está à mercê dos ventos e das ondas, sem que eu tivesse ouvido uma palavra acerca da sua partida. Vós, vadias, não houve uma sequer entre vós que pensasse em me chamar da cama, ainda que todas vós sabíeis muito bem quando ele partia. Se eu soubesse que ele tencionava fazer esta viagem, ele teria de desistir dela, por muito decidido que estivesse, ou me deixaria um cadáver atrás de si — uma coisa ou outra. Agora, porém, ide, algumas de vós, chamar o velho Dólio, que me foi dado por meu pai no meu casamento, e que é o meu jardineiro. Dizei-lhe que vá já contar tudo a Laertes, que pode ser capaz de arranjar algum plano para granjear a simpatia pública a nosso favor, contra aqueles que tentam exterminar a sua própria raça e a de Ulisses.
Então a querida velha ama Euricleia disse: —Podeis matar-me, senhora, ou deixar-me viver na vossa casa, conforme vos aprouver, mas eu vos direi a pura verdade. Eu sabia de tudo, e dei-lhe tudo o que ele queria em pão e vinho, mas ele obrigou-me a fazer juramento solene de que não vos diria nada durante uns dez ou doze dias, a menos que perguntásseis ou por acaso ouvísseis que ele tinha partido, pois ele não queria que estragásseis a vossa beleza a chorar. E agora, senhora, lavai o rosto, mudai de vestido, e subi ao andar de cima com as vossas criadas para oferecer preces a Minerva, filha de Jove portador da égide, pois ela o pode salvar, ainda que esteja nas mandíbulas da morte. Não perturbeis Laertes: ele já tem aflições que chegam. Além disso, não posso crer que os deuses odeiem tanto a raça do filho de Arcesiau, mas haverá um filho que ficará para trás, depois dele, e herdará tanto a casa como os belos campos que se estendem bem ao seu redor.
Com estas palavras fez a senhora deixar de chorar, e enxugou as lágrimas dos olhos dela. Penélope lavou o rosto, mudou de vestido, e subiu ao andar de cima com as criadas. Depois pôs alguma cevada esmagada num cesto e começou a rezar a Minerva.
—Ouve-me — gritou ela —, filha de Jove portador da égide, infatigável. Se alguma vez Ulisses, enquanto esteve aqui, te queimou coxas gordas de ovelha ou novilha, tem isso agora em mente a meu favor, e salva o meu filho querido da vilania dos pretendentes.
Clamou bem alto enquanto falava, e a deusa ouviu a sua prece; entretanto, os pretendentes faziam arruído por todo o claustro coberto, e um deles disse:
—A rainha está a preparar-se para o seu casamento com um ou outro de nós. Não sonha ela que o filho já foi agora condenado a morrer.
Foi isto o que disseram, mas não sabiam o que estava para acontecer. Então Antínoo disse: —Companheiros, não haja conversa alta, para que alguma parte dela não seja levada para dentro. Levantemo-nos e façamos em silêncio aquilo em que todos estamos de acordo.
Depois escolheu vinte homens, e eles desceram para o seu navio e para a beira-mar; puxaram a embarcação para dentro de água e puseram-lhe dentro o mastro e as velas; ataram os remos aos toletes com correias de couro entrançado, tudo por ordem, e içaram ao mastro as velas brancas, enquanto os seus formosos criados lhes levavam as armas. Depois amarraram o navio a pouca distância da praia, tornaram a terra, ceiaram, e esperaram que a noite caísse.
Mas Penélope jazia no seu próprio quarto no andar de cima, incapaz de comer ou beber, wondering se o seu bravo filho escaparia, ou seria vencido pelos maus pretendentes. Como uma leoa presa nos laços, com caçadores a cercá-la de todos os lados, pensava e pensava até que caiu num sono leve, e jazeu na cama privada de pensamento e de movimento.
Então Minerva lembrou-se de outra coisa, e formou uma visão à semelhança da irmã de Penélope, Iftime, filha de Icário, que casara com Eumelo e vivia em Feres. Ordenou à visão que fosse à casa de Ulisses, e fizesse Penélope deixar de chorar, e assim entrou no quarto dela pelo buraco por onde passava a correia de puxar a porta, e pairou sobre a cabeça dela dizendo:
—Estás a dormir, Penélope: os deuses que vivem no folguedo não consentirão que chores e estejas tão triste. O teu filho não lhes fez mal, por isso ele ainda voltará para ti.
Penélope, que dormia docemente às portas da terra dos sonhos, respondeu:
—Irmã, por que vieste para cá? Não vens muito amiúde, mas suponho que é porque vives tão longe. Devo eu, então, deixar de chorar e abster-me de todos os pensamentos tristes que me torturam? Eu, que perdi o meu marido bravo e coração de leão, que tinha todas as boas qualidades debaixo do céu, e cujo nome era grande por toda a Hélade e a meio da Argos; e agora o meu filho querido partiu a bordo de um navio — um tolo que nunca fora habituado a passar trabalhos, nem a andar por entre ajuntamentos de homens. Estou ainda mais ansiosa por ele do que pelo meu marido; ando toda a tremer quando penso nele, que lhe suceda alguma coisa, seja da parte das pessoas entre quem foi, seja no mar, pois tem muitos inimigos que conspiram contra ele, e estão decididos a matá-lo antes que possa regressar a casa.
Então a visão disse: —Tem ânimo, e não te perturbes tanto. Há um que foi com ele que muitos homens bem gostariam de ter ao seu lado, quero dizer, Minerva; é ela que tem compaixão por ti, e que me enviou para te trazer esta mensagem.
—Então — disse Penélope —, se és um deus ou se foste enviado aqui por divina comissão, dize-me também daquele outro desgraçado — está ele ainda vivo, ou está já morto e na casa de Hades?
E a visão disse: —Não te direi com certeza se ele está vivo ou morto, e de nada vale conversa vã.
Depois esvaneceu-se através do buraco da correia da porta e dissipou-se no ar; mas Penélope ergueu-se do sono refrescada e consolada, tão vívido fora o seu sonho.
Entretanto, os pretendentes embarcaram e fizeram-se ao mar, decididos a matar Telémaco. Ora há uma ilhota rochosa chamada Ásteris, não muito grande, em pleno canal entre Ítaca e Samos, e há um porto de cada lado dela onde um navio pode ficar ancorado. Aqui, pois, os Aqueus se colocaram em emboscada.
LIVRO V
CALIPSO — ULISSES CHEGA A ESQUÉRIA NUMA JANGADA.
E agora, quando a Aurora se ergueu do seu leito ao lado de Titono — arauto da luz tanto para os mortais como para os imortais — os deuses reuniram-se em conselho e, com eles, Jove o senhor do trovão, que é o seu rei. Então Minerva começou a contar-lhes os muitos sofrimentos de Ulisses, pois tinha pena dele ali longe, na casa da ninfa Calipso.
“Padre Jove,” disse ela, “e todos vós outros deuses que viveis em bem-aventurança eterna, espero que nunca mais exista coisa alguma como um soberano clemente e bem-disposto, nem um que governe com equidade. Espero que sejam todos doravante cruéis e injustos, pois não há um só dos seus súbditos que não tenha esquecido Ulisses, que os governava como se fosse seu pai. Ei-lo ali, jazendo em grande dor numa ilha onde mora a ninfa Calipso, que não o deixa partir; e ele não pode voltar à sua própria terra, porque não encontra nem navios nem marinheiros que o levem pelo mar. Além disso, homens perversos tentam agora matar o seu filho único, Telémaco, que regressa de Pilos e da Lacónia, onde foi ver se conseguia notícias de seu pai.”
“Que é isso, minha filha? De que estás a falar?” respondeu o pai dela. “Não o mandaste tu para lá, porque pensavas que isso ajudaria Ulisses a voltar para casa e a castigar os pretendentes? Além disso, tu és perfeitamente capaz de proteger Telémaco e de o levar são e salvo a casa, enquanto os pretendentes terão de voltar a correr sem o ter matado.”
Depois de falar assim, disse ao seu filho Mercúrio: “Mercúrio, tu és o nosso mensageiro; vai, pois, e diz a Calipso que decretámos que o pobre Ulisses há de voltar para casa. Não há de ser escoltado nem por deuses nem por homens, mas após uma viagem perigosa de vinte dias sobre uma jangada chegará à fértil Esquéria, a terra dos Feácios, que são parentes chegados dos deuses e o honrarão como se fosse um dos nossos. Mandá-lo-ão num navio para a sua própria terra e dar-lhe-ão mais bronze, ouro e vestes do que ele teria trazido de Tróia, se tivesse recebido todo o seu butim e tivesse chegado a casa sem desastre. É assim que decidimos que ele voltará à sua terra e aos seus amigos.”
Assim falou, e Mercúrio, guia e guardião, matador de Argos, fez como lhe fora ordenado. Logo atou às plantas dos pés as suas douradas sandálias reluzentes, com as quais podia voar como o vento sobre a terra e o mar. Tomou a vara com que fecha os olhos dos homens no sono ou os desperta como lhe apraz, e voou, segurando-a na mão, sobre a Pieria; depois precipitou-se pelo firmamento até atingir o nível do mar, cujas ondas ele raspava como um corvo-marinho que voa pescando todos os recantos do oceano, encharcando a sua plumagem espessa na espuma. Voou e voou sobre muitas ondas fatigantes, mas quando por fim chegou à ilha que era o termo da sua jornada, deixou o mar e continuou por terra até chegar à gruta onde vivia a ninfa Calipso.
Encontrou-a em casa. Ardia uma grande fogueira na lareira, e de longe se podia sentir o fumo aromático de cedro e de sândalo em brasa. Quanto a ela, andava ocupada com o seu tear, passando a lançadeira dourada pela teia e cantando belissimamente. Em torno da gruta havia um bosque cerrado de amieiros, choupos e ciprestes de suave aroma, onde toda a espécie de grandes aves tinham nidificado — corujas, falcões e tagarelas gaivotas que fazem o seu negócio nas águas. Uma videira carregada de uvas estava enredada e crescia luxuriante à entrada da gruta; havia também quatro regatos de água corrente em canais cavados bem perto uns dos outros, e dispostos ora para um lado, ora para outro, de modo a irrigar os canteiros de violetas e da erva viçosa por onde corriam. Nem um deus poderia deixar de se sentir encantado com tão ameno lugar, e por isso Mercúrio parou e olhou para ele; mas quando o admirou o suficiente, entrou na gruta.
Calipso reconheceu-o de imediato — pois os deuses todos se conhecem uns aos outros, por mais longe que vivam uns dos outros — mas Ulisses não estava ali dentro; ele estava na praia, como de costume, a olhar para o oceano estéril com lágrimas nos olhos, gemendo e partindo o coração de tristeza. Calipso deu a Mercúrio um assento e disse: “Porque vieste ver-me, Mercúrio — honrado e sempre bem-vindo — pois tu não me visitas muitas vezes? Diz o que queres; fá-lo-ei por ti de imediato, se puder, e se é possível fazê-lo de todo; mas entra, e deixa-me pôr-te diante uma refeição.”
Enquanto falava, puxou para junto dele uma mesa carregada de ambrosia e misturou-lhe um néctar vermelho, de modo que Mercúrio comeu e bebeu até se fartar, e depois disse:
“Falamos deus e deusa um com o outro, e tu perguntas-me porque vim aqui, e eu to direi com verdade, como queres que faça. Jove me enviou; não foi obra minha; quem poderia querer vir todo este caminho pelo mar onde não há cidades cheias de gente que me ofereça sacrifícios ou hecatombes escolhidas? No entanto, tive de vir, pois nenhum de nós outros deuses pode contrariar Jove, nem transgredir as suas ordens. Ele diz que tens aqui o mais desafortunado de todos os que combateram nove anos diante da cidade do rei Príamo e navegaram para casa no décimo ano, depois de a terem saqueado. No caminho para casa, eles pecaram contra Minerva, que levantou contra eles tanto o vento como as ondas, de modo que pereceram todos os seus bravos companheiros, e ele sozinho foi trazido para aqui pelo vento e pela maré. Jove diz que hás de deixar este homem ir imediatamente, pois está decretado que ele não perecerá aqui, longe dos seus, mas voltará para sua casa e sua terra e verá de novo os seus amigos.”
Calipso estremeceu de raiva ao ouvir isto. “Vós, deuses,” exclamou ela, “deveríeis ter vergonha de vós mesmos. Sois sempre ciumentos e odiais ver uma deusa tomar amizade a um homem mortal e viver com ele em matrimónio manifesto. Assim, quando Aurora de rosados dedos se enamorou de Orion, vós, preciosos deuses, ficastes todos furiosos, até que Diana foi e o matou em Ortígia. Assim também, quando Ceres se apaixonou por Iasão e se entregou a ele num campo três vezes arado, não tardou muito que Jove viesse a sabê-lo e matasse Iasão com os seus raios. E agora estais zangados também comigo por ter aqui um homem. Encontrei a pobre criatura sentada, sozinha, a cavalo numa quilha, pois Jove atingira o seu navio com o raio e o afundara em pleno oceano, de modo que toda a sua tripulação se afogara, enquanto ele próprio fora levado pelo vento e pelas ondas até à minha ilha. Apeguei-me a ele e cuidei dele, e pusera no peito fazê-lo imortal, para que jamais envelhecesse em seus dias; ainda assim, não posso contrariar Jove, nem anular os seus desígnios; por isso, se ele insiste nisso, deixa o homem ir outra vez para além dos mares; mas eu própria não o posso mandar para parte alguma, pois não tenho nem navios nem homens que o possam levar. Não obstante, dar-lhe-ei de bom grado tal conselho, em boa-fé, que provavelmente o levará salvo à sua terra.”
“Então manda-o embora,” disse Mercúrio, “ou Jove ficará zangado contigo e te castigará.”
Com isto, ele tomou a sua despedida, e Calipso saiu à procura de Ulisses, pois ouvira a mensagem de Jove. Encontrou-o sentado na praia com os olhos sempre cheios de lágrimas, a morrer de pura saudade da pátria; pois ele já se tinha cansado de Calipso, e ainda que fosse forçado a dormir com ela na gruta durante a noite, era ela, e não ele, quem assim o queria. Quanto ao dia, passava-o ele nas rochas e na praia do mar, chorando, gritando alto de desespero, e olhando sempre para o mar. Calipso então chegou-se bem perto dele e disse:
“Muítíssimo pobre homem, não ficarás aqui a consumir-te de pena e desgosto por mais tempo. Vou mandar-te embora de minha livre vontade; portanto, vai, corta algumas vigas de madeira e faz para ti uma grande jangada com um convés superior, para que te leve em segurança pelo mar. Porei a bordo pão, vinho e água para te salvar de morrer à fome. Dar-te-ei também roupas, e enviar-te-ei um vento favorável que te leve a casa, se os deuses no céu assim o desejarem — pois eles sabem mais acerca destas coisas e podem resolvê-las melhor do que eu.”
Ulisses estremeceu ao ouvi-la. “Ora, deusa,” respondeu ele, “há algo por trás disto tudo; não podes estar realmente a querer ajudar-me a chegar a casa quando me mandas fazer uma coisa tão terrível como navegar numa jangada. Nem mesmo um bem equipado navio com vento favorável se aventuraria numa viagem tão distante; nada do que possas dizer ou fazer me levará a embarcar numa jangada, a menos que primeiro jures solenemente que não me preparas mal nenhum.”
Calipso sorriu com isto e acariciou-o com a mão: “Tu sabes muitas coisas,” disse ela, “mas estás bem enganado neste ponto. Que o céu em cima e a terra em baixo me sirvam de testemunhas, com as águas do rio Estige — e este é o mais solene juramento que um deus bem-aventurado pode prestar — que não te quero fazer mal nenhum, e apenas te aconselho a fazeres exactamente o que eu própria faria no teu lugar. Estou a tratar contigo com toda a rectidão; o meu coração não é feito de ferro, e tenho muita pena de ti.”
Depois de assim falar, ela tomou a dianteira com passo rápido, e Ulisses seguiu-lhe os passos; assim, o par, deusa e homem, caminhou e caminhou até chegarem à gruta de Calipso, onde Ulisses tomou o assento que Mercúrio acabara de deixar. Calipso pôs diante dele carne e bebida do alimento que os mortais comem; mas as suas servas trouxeram ambrosia e néctar para ela própria, e ambos as mãos sobre as iguarias que estavam diante deles. Quando se saciaram de carne e bebida, Calipso falou, dizendo:
“Ulisses, nobre filho de Laertes, queres então partir já para a tua terra? Boa sorte te acompanhe, mas se ao menos soubesses quantos sofrimentos te esperam antes de chegares ao teu país, ficarias onde estás, far-me-ias companhia em casa e deixar-me-ia fazer-te imortal, por mais ansioso que estejas por ver esta tua esposa, em quem pensas o tempo todo, dia após dia; contudo, lisonjeio-me de não ser nem um nada menos alta nem menos formosa do que ela, pois não é de esperar que uma mulher mortal se compare em beleza com uma imortal.”
“Deusa,” respondeu Ulisses, “não te irrites comigo por isto. Estou bem ciente de que a minha esposa Penélope não é nem de longe tão alta nem tão formosa como tu. Ela é apenas uma mulher, ao passo que tu és imortal. Não obstante, quero ir para casa e não consigo pensar em mais nada. Se algum deus me desgraçar quando estiver no mar, suportá-lo-ei e tirarei o melhor partido possível. Já tive无穷 aflições tanto em terra como no mar, portanto, que esta passe com o resto.”
Pouco depois o sol pôs-se e fez-se escuro, e então o par recolheu-se ao interior da gruta e foi para a cama.
Quando a filha da manhã, Aurora de rosados dedos, apareceu, Ulisses vestiu a sua túnica e o manto, enquanto a deusa envergou um vestido de tecido leve de gaze, muito fino e gracioso, com um formoso cinto dourado à volta da cintura e um véu para cobrir a cabeça. Ela pôs-se logo a pensar em como poderia apressar Ulisses na sua viagem. Assim, deu-lhe um grande machado de bronze que servia às suas mãos; estava afiado de ambos os lados e tinha um formoso cabo de madeira de oliveira bem firme. Deu-lhe também um enxó afiado, e depois guiou-o até à extremidade mais afastada da ilha, onde cresciam as árvores maiores — amieiros, choupos e pinheiros, que tocavam o céu — muito secos e bem curados, de modo a flutuarem leves na água. Depois, quando lhe mostrou onde cresciam as melhores árvores, Calipso regressou a casa, deixando-o a cortá-las, o que ele depressa acabou de fazer. Cortou vinte árvores ao todo e aplainou-as, esquadrinhando-as à régua com boa arte de artífice. Entretanto Calipso voltou com alguns verrumes, e ele abriu furos com eles e ajustou as vigas umas às outras com cavilhas e rebites. Fez a jangada tão larga quanto um hábil construtor naval faz a viga de uma grande embarcação, e fixou-lhe um convés por cima das costelas, e correu uma amurada toda à volta. Fez também um mastro com uma verga, e um leme para governar. Cercou a jangada toda à volta com resguardos de vime como protecção contra as ondas, e depois carregou-a com uma quantidade de madeira. De quando em quando, Calipso trouxe-lhe algum linho para fazer as velas, e ele fê-las também, com excelência, prendendo-as bem com cabos e escotas. Por último, com o auxílio de alavancas, fez deslizar a jangada para dentro da água.
Em quatro dias completou toda a obra, e no quinto Calipso o mandou embora da ilha, depois de o ter lavado e dado roupas limpas. Ela deu-lhe um odre de pele de cabra cheio de vinho negro, e outro maior de água; deu-lhe também uma mochila cheia de provisões e proveu-o de abundância de boa carne. Além disso, fez-lhe o vento favorável e tépido, e de boa vontade Ulisses desfraldou a vela diante da brisa, enquanto sentado governava a jangada com habilidade por meio do leme. Não fechou os olhos, antes os manteve fitos nas Plêiades, no Boieiro que tarda a pôr-se, e no Urso — a que os homens também chamam Carro, e que gira e gira onde está, voltado para Orion, e sozinho nunca mergulha na corrente de Oceanus — pois Calipso lhe dissera que o mantivesse à sua esquerda. Durante sete e dez dias navegou pelo mar, e no décimo oitavo os contornos indistintos das montanhas da parte mais próxima da costa dos Feácios apareceram, erguendo-se como um escudo no horizonte.
Mas o rei Neptuno, que regressava dos Etíopes, avistou Ulisses de muito longe, desde as montanhas dos Solímios. Pôde vê-lo navegando sobre o mar, e isso deixou-o muito zangado, por isso abanou a cabeça e murmurou para si mesmo, dizendo: “Meus deuses, então os deuses andaram a mudar de ideias sobre Ulisses enquanto eu estava fora, na Etiópia, e agora ele está perto da terra dos Feácios, onde está decretado que ele escapará das calamidades que lhe sobrevieram. Ainda assim, terá ele sobeja de aflição antes de acabar com isto.”
Então ajuntou as suas nuvens, empunhou o tridente, revolveu-o pelo mar, e despertou a fúria de todos os ventos que sopram, até que a terra, o mar e o céu ficaram escondidos em nuvens, e a noite brotou dos céus. Ventos de Leste, Sul, Norte e Oeste caíram sobre ele todos ao mesmo tempo, e um mar tremendo se levantou, de modo que o coração de Ulisses começou a fraquejar. “Ai de mim,” disse para si mesmo, desanimado, “que será de mim? Receio que Calipso tivesse razão quando disse que eu teria aflições no mar antes de chegar a casa. Tudo se está a cumprir. Como Jove está a enegrecer o céu com as suas nuvens, e que mar não estão os ventos a levantar de todas as partes ao mesmo tempo? Estou agora certo de perecer. Bem-aventurados e três vezes bem-aventurados foram aqueles Dânaos que caíram diante de Tróia pela causa dos filhos de Atreu. Quem me dera ter sido morto no dia em que os Troianos me apertavam tão duramente junto ao cadáver de Aquiles, pois então eu teria tido o devido funeral e os Aqueus teriam honrado o meu nome; mas agora parece que terei um fim muitíssimo lastimável.”
Enquanto falava, uma onda rompeu sobre ele com fúria tão terrível que a jangada estremeceu de novo, e ele foi levado por água abaixo a grande distância. Largou o leme, e a força do furacão era tão grande que partiu o mastro a meio, e tanto a vela como a verga foram parar ao mar. Durante muito tempo Ulisses ficou debaixo de água, e foi tudo o que pôde fazer para voltar à superfície, pois as roupas que Calipso lhe dera o puxavam para baixo; mas por fim ergueu a cabeça acima da água e cuspiu a água salgada amarga que lhe corria pelo rosto em fios. Apesar de tudo isto, porém, não perdeu de vista a sua jangada, mas nadou para ela o mais depressa que pôde, agarrou-a e subiu a bordo outra vez, para escapar ao afogamento. O mar apanhou a jangada e revolveu-a, assim como os ventos do Outono revolveem os carumas de cardo, em redondo, sobre uma estrada. Era como se os ventos do Sul, Norte, Leste e Oeste estivessem todos a jogar à raqueta e à volante com ela ao mesmo tempo.
Quando ele estava neste transe, Ino, filha de Cadmo, também chamada Leucoteia, o avistou. Outrora fora mera mortal, mas desde então fora elevada à categoria de deusa marinha. Vendo em que tão grande aflição Ulisses agora se encontrava, teve compaixão dele e, erguendo-se como uma gaivota de sobre as ondas, sentou-se na jangada.
“Muítíssimo pobre homem,” disse ela, “porque está Neptuno tão furiosamente zangado contigo? Está a dar-te muito que penar, mas apesar de toda a sua bravata, não te matará. Pareces ser pessoa sensata; faz então o que te mando: despe-te, deixa a jangada ir à mercê do vento e nada para a costa dos Feácios, onde melhor sorte te espera. E aqui, toma o meu véu e põe-no à volta do peito; é encantado, e não te pode acontecer mal nenhum enquanto o trouxeres. Assim que tocares terra, tira-o, lança-o para trás o mais longe que puderes no mar e depois afasta-te.” Com estas palavras, ela tirou o véu e deu-lho. Depois mergulhou de novo como uma gaivota e sumiu-se sob as águas azul-escuras.
Mas Ulisses não sabia o que pensar. “Ai de mim,” disse para si mesmo, desanimado, “isto é apenas alguém dos deuses que me está a atrair para a ruína, aconselhando-me a abandonar a minha jangada. De qualquer modo, não o farei por enquanto, pois a terra onde ela disse que eu ficaria livre de todas as aflições parecia estar ainda a boa distância. Sei o que hei de fazer — estou certo de que será o melhor — aconteça o que acontecer, agarrar-me-ei à jangada enquanto as suas madeiras se mantiverem unidas, mas quando o mar a desfizer, nadarei para me salvar; não vejo como possa fazer melhor do que isto.”
Enquanto assim hesitava, Neptuno enviou uma onda terrível e enorme que pareceu erguer-se acima da sua cabeça até se quebrar mesmo por cima da jangada, que então se desfez em pedaços como se fosse um monte de palha seca revolveada por um remoinho. Ulisses montou numa prancha e cavalgou sobre ela como se fosse a cavalo; depois despiu as roupas que Calipso lhe dera, amarrou o véu de Ino debaixo dos braços, e lançou-se ao mar — com tenção de nadar até à praia. O rei Neptuno observou-o enquanto o fazia, e abanou a cabeça, murmurando para si mesmo e dizendo: “Ali vai, nada para cima e para baixo como melhor puderes até deparares com gente abastada. Julgo que não poderás dizer que te deixei escapar demasiado легко.” Com isto, açoutou os seus cavalos e partiu para Ege, onde fica o seu palácio.
Mas Minerva resolveu ajudar Ulisses, e assim amarrou as sendas de todos os ventos, excepto um, e fê-los jazer de todo quietos; mas ela despertou uma boa brisa rija do Norte, que deveria amainar as águas até que Ulisses alcançasse a terra dos Feácios, onde ele estaria a salvo.
Então ele andou à tona durante duas noites e dois dias na água, com uma forte vaga no mar e a morte a fitar-lhe o rosto; mas quando o terceiro dia rompeu, o vento caiu e houve uma calma morta, sem que nem sequer um sopro de ar se movesse. Ao erguer-se na vaga, olhou avidamente para a frente, e pôde ver a terra bem perto. Então, assim como as crianças se rejubilam quando o seu querido pai começa a melhorar depois de ter por longo tempo suportado acerba aflição que algum espírito irado lhe enviou, mas os deuses o livram do mal, assim Ulisses rejubilou ao ver de novo terra e árvores, e nadou com todas as suas forças para poder uma vez mais pousar o pé em solo seco. Quando, todavia, ele chegou a alcance de voz, começou a ouvir a rebentação troando contra as rochas, pois a vaga ainda quebrava nelas com um fragor terrífico. Tudo estava envolto em espuma; não havia portos onde um navio pudesse ancorar, nem abrigo de espécie alguma, mas somente promontórios, rochas baixas e cumes de montanhas.
O coração de Ulisses começou agora a falhar, e ele disse consigo em desespero: "Ai, Júpiter deixou-me ver terra depois de eu ter nadado tanto que já tinha perdido toda a esperança, mas não encontro lugar de desembarque, pois a costa é rochosa e fustigada pela rebentação, os rochedos são lisos e sobem a pique do mar, com águas profundas bem junto deles, de modo que não posso trepar por falta de apoio para os pés. Temo que alguma vaga enorme me arranque das pernas e me esmague contra as rochas ao sair da água — o que me daria um triste desembarque. Se, por outro lado, nado mais para dentro à procura de alguma praia em declive ou porto, um furacão pode levar-me outra vez para o mar, grandemente contra a minha vontade, ou o céu pode enviar-me algum grande monstro das profundezas para me atacar; pois Anfitrite gera muitos desses, e eu sei que Neptuno está muito irado comigo."
Enquanto assim hesitava, uma vaga apanhou-o e levou-o com tanta força contra as rochas que ele teria sido esmagado e feito em pedaços se Minerva não lhe tivesse mostrado o que fazer. Agarrou-se à rocha com ambas as mãos e ficou preso a ela gemendo de dor até a vaga recuar, de modo que ele foi salvo dessa vez; mas pouco depois a vaga voltou de novo e levou-o com ela bem para o mar — lacerando-lhe as mãos como os tentáculos de um polvo são lacerados quando alguém o arranca do seu leito, e as pedras sobem com ele — mesmo assim as rochas arrancaram a pele das suas mãos fortes, e então a vaga puxou-o bem fundo sob a água.
Aqui o pobre Ulisses teria certamente perecido, mesmo apesar do seu próprio destino, se Minerva não o tivesse ajudado a manter o seu juízo. Nadou de novo para o mar, fora do alcance da rebentação que batia contra a terra, e ao mesmo tempo olhava para a praia a ver se podia encontrar algum ancoradouro, ou um esporão que recebesse as ondas de través. Por fim, ao nadar, chegou à foz de um rio, e aqui pensou que seria o melhor lugar, pois não havia rochas, e oferecia abrigo do vento. Sentiu que havia uma corrente, e assim rezou intimamente e disse:
"Ouve-me, ó Rei, quem quer que sejas, e salva-me da ira do deus do mar Neptuno, pois aproximo-me de ti em oração. Qualquer um que perdeu o caminho tem em todos os momentos direito até sobre os deuses, pelo que na minha aflição me aproximo da tua corrente, e abraço os joelhos da tua divindade fluvial. Tem misericórdia de mim, ó rei, pois declaro-me teu suplicante."
Então o deus deteve a sua corrente e amainou as ondas, fazendo tudo calmo diante dele, e trazendo-o em segurança para a foz do rio. Aqui por fim os joelhos e as mãos fortes de Ulisses falharam, pois o mar o tinha completamente vencido. O seu corpo estava todo inchado, e a sua boca e narizes escorriam como um rio com água do mar, de modo que ele não podia nem respirar nem falar, e jazia desfalecido de puro exaustão; pouco depois, quando recuperou o fôlego e voltou a si, tirou o véu que Ino lhe tinha dado e atirou-o de volta para a corrente salgada do rio, onde Ino o recebeu nas suas mãos da onda que o conduzia até ela. Então ele deixou o rio, deitou-se entre os juncos e beijou a terra generosa.
"Ai", exclamou para si mesmo no seu desânimo, "que será de mim, e como tudo isto acabará? Se eu ficar aqui sobre o leito do rio durante as longas vigílias da noite, estou tão exausto que o frio amargo e a humidade podem dar cabo de mim — pois perto do nascer do sol haverá um vento cortante soprando do rio. Se, por outro lado, subo a encosta, encontro abrigo nos bosques e durmo em algum matagal, posso escapar ao frio e ter uma boa noite de repouso, mas alguma fera selvagem pode aproveitar-se de mim e devorar-me."
Por fim, considerou ser melhor dirigir-se aos bosques, e encontrou um num terreno alto não longe da água. Ali meteu-se debaixo de dois rebentos de oliveira que cresciam de um único tronco — um era um rebento não enxertado, enquanto o outro fora enxertado. Nenhum vento, por mais tempestuoso que fosse, podia atravessar o coberto que ofereciam, nem os raios do sol podiam atravessá-los, nem a chuva passar através deles, tão estreitamente cresciam um no outro. Ulisses meteu-se debaixo deles e começou a fazer para si uma cama onde se deitar, pois havia uma grande camada de folhas mortas espalhadas — suficientes para fazer uma coberta para dois ou três homens mesmo em rigoroso tempo de inverno. Alegrou-se muito ao ver isto, deitou-se e amontoou as folhas à sua volta. Então, como aquele que vive sozinho no campo, longe de qualquer vizinho, esconde um tição como semente de fogo nas cinzas para se evitar ter de ir buscar lume a outro lugar, assim fez Ulisses cobrindo-se com folhas; e Minerva derramou um doce sono sobre os seus olhos, fechou-lhe as pálpebras e fê-lo perder todas as memórias das suas dores.
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LIVRO VI
O ENCONTRO ENTRE NAUSÍCAA E ULISSES.
Aqui dormia Ulisses, vencido pelo sono e pelo cansaço; mas Minerva partiu para o país e cidade dos Feácios — um povo que costumava viver na formosa cidade de Hipereia, perto dos perversos Ciclopes. Ora, os Ciclopes eram mais fortes do que eles e pilhavam-nos, pelo que o seu rei Nausítoo os mudou dali e os estabeleceu em Esquéria, longe de todos os outros povos. Cercou a cidade com uma muralha, construiu casas e templos, e dividiu as terras entre o seu povo; mas ele tinha morrido e ido para a casa de Hades, e o rei Alcínoo, cujos conselhos eram inspirados pelo céu, reinava agora. Para a sua casa, então, se apressou Minerva em prol do regresso de Ulisses.
Ela foi direita ao belissimamente decorado quarto de dormir onde dormia uma rapariga que era tão formosa como uma deusa, Nausícaa, filha do rei Alcínoo. Duas servas dormiam perto dela, ambas muito bonitas, uma de cada lado da porta, que estava fechada com bem feitas portas de correr. Minerva tomou a forma da filha do famoso capitão do mar Dimas, que era amiga íntima de Nausícaa e justamente da mesma idade; então, aproximando-se do leito da rapariga como uma brisa de vento, pairou sobre a sua cabeça e disse:
"Nausícaa, que terá andado a tua mãe a fazer, para ter uma filha tão preguiçosa? Eis que as tuas roupas estão todas em desordem, e todavia vais casar quase imediatamente, e deves não só estar bem vestida tu mesma, mas também encontrar boas roupas para as que te servem. Esta é a maneira de granjear um bom nome, e de fazer com que o teu pai e a tua mãe se orgulhem de ti. Supõe, pois, que fazemos de amanhã um dia de lavagem, e começamos ao amanhecer. Eu virei ajudar-te para que tenhas tudo pronto o mais cedo possível, pois todos os melhores jovens entre o teu próprio povo te estão a cortejar, e não vais continuar solteira por muito mais tempo. Pede, portanto, ao teu pai que tenha uma carroça e mulas prontas para nós ao amanhecer, para levar os tapetes, mantos e cintos, e tu também podes ir, o que será muito mais agradável para ti do que andar a pé, pois as cisternas de lavagem ficam a alguma distância da cidade."
Quando disse isto, Minerva partiu para o Olimpo, que dizem ser a morada eterna dos deuses. Aqui nenhum vento bate com violência, e nem chuva nem neve pode cair; mas permanece em sol eterno e numa grande serenidade de luz, onde os deuses bem-aventurados são iluminados para sempre. Este foi o lugar para onde a deusa foi, depois de ter dado instruções à rapariga.
Pouco a pouco a manhã veio e acordou Nausícaa, que começou a pensar no seu sonho; foi pois à outra extremidade da casa contar ao pai e à mãe tudo sobre isso, e encontrou-os no seu próprio quarto. A sua mãe estava sentada junto à lareira a fiar o seu fio púrpura com as suas servas à volta, e ela apanhou o pai justamente quando ele ia sair para assistir a uma reunião do conselho da cidade, que os anciãos feácios tinham convocado. Ela deteve-o e disse:
"Papai querido, poderias arranjar maneira de me deixar ter uma boa carroça grande? Quero levar todas as nossas roupas sujas ao rio e lavá-las. Tu és o chefe aqui, por isso é justo que tenhas uma camisa limpa quando assistires às reuniões do conselho. Além disso, tens cinco filhos em casa, dois deles casados, enquanto os outros três são belos rapazes solteiros; sabes que eles gostam sempre de ter roupa limpa quando vão a um baile, e eu tenho pensado em tudo isto."
Ela não disse uma palavra sobre o seu próprio casamento, pois não queria, mas o pai percebeu e disse: "Terás as mulas, minha filha, e tudo o mais que desejares. Anda, e os homens arranjar-te-ão uma boa carroça forte com uma caixa que aguentará todas as tuas roupas."
Nisto ele deu ordens aos servos, que tiraram a carroça, atrelaram as mulas e puseram-nas no jugo, enquanto a rapariga trouxe as roupas do quarto da roupa e colocou-as na carroça. A mãe preparou-lhe um cesto de provisões com todo o género de coisas boas, e um odre de cabra cheio de vinho; a rapariga agora subiu para a carroça, e a mãe deu-lhe também uma ânfora de ouro com óleo, para que ela e as suas mulheres se pudessem ungir. Então ela pegou no chicote e nas rédeas e fustigou as mulas, e elas partiram, e as suas patas retiniram no caminho. Puxaram sem desfalecer, e levaram não só Nausícaa e a sua lavagem de roupas, mas também as servas que estavam com ela.
Quando chegaram à beira da água foram às cisternas de lavagem, através das quais corria a todo o tempo água pura suficiente para lavar qualquer quantidade de roupa, por mais suja que estivesse. Aqui desatrelaram as mulas e soltaram-nas para pastar na suculenta erva doce que crescia à beira da água. Tiraram as roupas da carroça, puseram-nas na água, e rivalizaram entre si pisando-as nas covas para tirar a sujidade. Depois de as terem lavado e ficado bem limpas, estenderam-nas à beira-mar, onde as ondas tinham formado uma alta praia de cascalho, e puseram-se a lavar-se e a ungir-se com azeite de oliveira. Depois fizeram o seu jantar junto da corrente, e esperaram que o sol acabasse de secar as roupas. Quando acabaram o jantar tiraram os véus que cobriam as suas cabeças e começaram a jogar à bola, enquanto Nausícaa cantava para elas. Como a caçadora Diana sai pelas montanhas de Táigeto ou de Erimanto a caçar javalis ou cervos, e as ninfas dos bosques, filhas de Júpiter que empunha a égide, tomam parte no seu folguedo com ela (então Leto se orgulha de ver a sua filha destacar-se uma cabeça inteira acima das outras, e eclipsar a mais formosa em meio a uma multidão de beldades), assim a rapariga ofuscou as suas servas.
Quando chegou a hora de partirem para casa, e estavam a dobrar as roupas e a pô-las na carroça, Minerva começou a pensar como Ulisses deveria acordar e ver a formosa rapariga que o havia de conduzir à cidade dos Feácios. A rapariga, pois, atirou a bola a uma das servas, que a falhou e caiu em água profunda. Com isto todas gritaram, e o barulho que fizeram acordou Ulisses, que se sentou no seu leito de folhas e começou a perguntar-se o que aquilo poderia ser.
"Ai", disse para si mesmo, "que tipo de gente é esta em que vim parar? Serão cruéis, selvagens e incivilizados, ou hospitaleiros e humanos? Parece-me ouvir vozes de jovens mulheres, e soam como as das ninfas que frequentam cumes de montanhas, ou fontes de rios e prados de erva verde. Em todo o caso, estou entre uma raça de homens e mulheres. Deixe-me tentar se não consigo arranjar maneira de as ver."
Enquanto dizia isto, saiu de baixo do seu arbusto, e partiu um ramo coberto de folhas espessas para esconder a sua nudez. Parecia algum leão do deserto que anda por aí exultando na sua força e desafiando vento e chuva; os seus olhos brilham enquanto ronda em busca de bois, ovelhas ou cervos, pois está esfaimado e ousará invadir até uma quinta bem vedada, tentando apanhar as ovelhas — tal assim Ulisses pareceu às jovens, quando se aproximou delas completamente nu como estava, pois estava em grande necessidade. Ao verem um homem tão desalinhado e tão sujo de água salgada, as outras fugiram ao longo dos esporões que sobressaíam para o mar, mas a filha de Alcínoo ficou firme, pois Minerva pôs coragem no seu coração e afastou dela todo o medo. Ela ficou mesmo diante de Ulisses, e ele duvidou se deveria aproximar-se dela, lançar-se aos seus pés e abraçar-lhe os joelhos como suplicante, ou ficar onde estava e suplicar-lhe que lhe desse algumas roupas e lhe mostrasse o caminho para a cidade. Por fim, achou melhor suplicar-lhe de longe, caso a rapariga se ofendesse com ele chegar perto o bastante para lhe abraçar os joelhos, e assim dirigiu-lhe a palavra em linguagem melíflua e persuasiva.
"Ó rainha", disse ele, "imploro o teu auxílio — mas diz-me, és uma deusa ou és uma mulher mortal? Se és deusa e habitas no céu, só posso conjeturar que és Diana, filha de Júpiter, pois o teu rosto e a tua figura só se assemelham aos dela; se por outro lado és mortal e vives na terra, três vezes felizes são o teu pai e a tua mãe — três vezes felizes, também, são os teus irmãos e irmãs; como se devem sentir orgulhosos e deliciados ao ver tão bela descendente como tu sair para um baile; o mais feliz de todos, porém, será aquele cujos presentes de casamento tenham sido os mais ricos, e que te leve para a sua casa. Nunca vi ninguém tão belo, nem homem nem mulher, e fico perdido de admiração ao contemplar-te. Só te posso comparar a uma jovem palmeira que vi quando estive em Delos, a crescer perto do altar de Apolo — pois eu também lá estive, com muita gente atrás de mim, quando fazia aquela viagem que tem sido a fonte de todos os meus males. Nunca brotou da terra uma planta jovem como aquela, e admirei-me e passeei com ela exatamente como agora me admiro e passeei contigo. Não ouso abraçar os teus joelhos, mas estou em grande aflição; ontem fez o vigésimo dia que ando a ser arrojado pelo mar. Os ventos e as ondas me levaram desde a ilha Ogígia, e agora o destino me atirou a esta costa para que eu sofra ainda mais; pois não creio ter chegado ao fim disso, mas antes que o céu ainda tem muito mal guardado para mim.
"E agora, ó rainha, tem piedade de mim, pois és a primeira pessoa que encontrei, e não conheço mais ninguém neste país. Mostra-me o caminho para a tua cidade, e deixa-me ter qualquer coisa que tenhas trazido aqui para envolver as tuas roupas. Que o céu te conceda em tudo o que o teu coração deseja — marido, casa e um lar feliz e pacífico; pois não há nada melhor neste mundo do que o homem e a mulher serem de um só pensamento numa casa. Isso desfaz os inimigos, alegra o coração dos amigos, e eles próprios o sabem melhor do que ninguém."
A isto Nausícaa respondeu: "Estrangeiro, pareces ser uma pessoa sensata e bem disposta. Não há como explicar a sorte; Júpiter dá prosperidade a ricos e pobres como lhe apetece, por isso deves aceitar o que ele achou adequado enviar-te, e tirar o melhor partido disso. Agora, porém, que vieste a este nosso país, não te faltará roupa nem mais nada que um estrangeiro em aflição possa razoavelmente esperar. Eu te mostrarei o caminho para a cidade, e te direi o nome do nosso povo; chamamo-nos Feácios, e eu sou filha de Alcínoo, em quem reside todo o poder do estado."
Então ela chamou as suas servas e disse: "Ficai onde estais, raparigas. Não conseguis ver um homem sem fugir dele? Tomais-lo por um ladrão ou assassino? Nem ele nem mais ninguém pode vir aqui fazer-nos algum mal a nós Feácios, pois somos caros aos deuses, e vivemos à parte numa ponta de terra que sobressai para o mar ressonante, e não temos nada que ver com qualquer outro povo. Este é apenas algum pobre homem que perdeu o caminho, e devemos ser bondosos para com ele, pois estrangeiros e forasteiros em aflição estão sob a proteção de Júpiter, e aceitarão o que puderem e ficarão gratos; por isso, raparigas, dai ao pobre homem qualquer coisa para comer e beber, e lavai-o na corrente em algum lugar abrigado do vento."
Nisto as servas deixaram de fugir e começaram a chamar-se umas às outras. Fizeram Ulisses sentar-se no abrigo como Nausícaa lhes tinha dito, e trouxeram-lhe uma túnica e um manto. Também lhe trouxeram a pequena ânfora de ouro com óleo, e disseram-lhe que fosse lavar-se na corrente. Mas Ulisses disse: "Jovens mulheres, por favor, ponde-vos um pouco de lado para que eu possa lavar a salmoura dos meus ombros e ungir-me com óleo, pois já lá vai tempo desde que a minha pele teve uma gota de óleo. Não me posso lavar enquanto vos mantiverdes todas aí paradas. Tenho vergonha de despir-me diante de tantas raparigas de bom aspeito."
Então ficaram um pouco de lado e foram contar à jovem, enquanto Ulisses se lavava na corrente e esfregava a salmoura das costas e dos largos ombros. Quando se lavou por completo, e tirou a salmoura do cabelo, untou-se com óleo e vestiu as roupas que a jovem lhe tinha dado; Minerva então fê-lo parecer mais alto e mais forte do que antes, fez também o cabelo crescer espesso no topo da cabeça e cair em caracóis como flores de jacinto; glorificou-o na cabeça e nos ombros como um hábil artífice que estudou todas as artes sob Vulcano e Minerva enriquece uma peça de prata dourando-a — e a sua obra é cheia de beleza. Depois foi sentar-se um pouco afastado na praia, parecendo bem jovem e formoso, e a jovem contemplou-o com admiração; então disse às suas servas:
«Calai-vos, minhas queridas, pois quero dizer-vos algo. Creio que os deuses que vivem no céu enviaram este homem aos Feaces. Quando o vi pela primeira vez achei-o comum, mas agora o seu parecer é como o dos deuses que habitam no céu. Quem me dera que o meu futuro marido fosse tal e qual como ele, se ao menos quisesse ficar aqui e não partir. Porém, dai-lhe de comer e de beber.»
Elas fizeram como lhes foi ordenado, e puseram comida diante de Ulisses, que comeu e bebeu com grande sofreguidão, pois fazia muito tempo desde que tinha tido alimento de qualquer espécie. Entretanto, Nausícaa lembrou-se de outra coisa. Mandou dobrar a roupa de linho e colocá-la no carro, depois atrelou as mulas e, ao tomar assento, chamou Ulisses:
«Forasteiro», disse ela, «levanta-te e vamos voltar à cidade; vou apresentar-te à casa do meu excelente pai, onde te posso dizer que encontrarás toda a gente de melhor linhagem entre os Feaces. Mas faz exactamente o que eu te ordenar, pois pareces pessoa de bom senso. Enquanto passarmos pelos campos e terras de cultivo, segue depressa atrás do carro com as servas, e eu mesma guiarei o caminho. Em breve, porém, chegaremos à cidade, onde encontrarás um alto muro a correr todo à volta, e um bom porto de cada lado com uma entrada estreita para a cidade, e os navios serão puxados para terra à beira da estrada, pois cada um tem um lugar onde o seu próprio navio pode ficar. Verás a praça do mercado com um templo de Neptuno no meio, e pavimentada com grandes pedras assentes na terra. Ali se mercadeja em apetrechos navais de toda a espécie, como cordames e velas, e ali também estão os lugares onde se fabricam remos, pois os Feaces não são um povo de arqueiros; nada sabem de arcos e flechas, mas são gente de mar, e orgulham-se dos seus mastros, remos e navios, com que viajam longe por sobre o mar.
«Tenho medo das murmurações e escândalo que mais tarde possam ser lançados contra mim; pois o povo daqui é muito maldoso, e algum homem vil, se nos encontrasse, poderia dizer: 'Quem é este forasteiro de bom parecer que anda por aí com Nausícaa? Onde o foi ela encontrar? Suponho que vai casar com ele. Talvez seja um vagabundo marinheiro que ela trouxe de algum navio estrangeiro, pois não temos vizinhos; ou algum deus desceu enfim do céu em resposta às suas preces, e ela vai viver com ele todo o resto da vida. Seria bom que ela se fosse embora e encontrasse marido em outro lugar, pois ela não olha para um só dos muitos excelentes jovens Feaces que estão enamorados dela.' É este o tipo de observação depreciativa que se faria a meu respeito, e eu não me poderia queixar, pois eu mesma ficaria escandalizada ao ver qualquer outra rapariga fazer o mesmo, e andar por aí com homens apesar de toda a gente, enquanto o pai e a mãe ainda estão vivos, e sem ter sido casada à face do mundo.
«Se, portanto, queres que o meu pai te dê escolta e te ajude a chegar a casa, faz o que eu te ordeno; verás um formoso choupal de álamos à beira do caminho, consagrado a Minerva; tem um poço dentro e um prado todo à volta. Ali o meu pai tem um campo de ricas terras de horta, a uma distância da cidade que se mede pela voz de um homem. Senta-te ali e espera um pouco até que o resto de nós possa entrar na cidade e chegar à casa do meu pai. Então, quando pensares que já devemos ter feito isto, entra na cidade e pergunta pelo caminho da casa do meu pai Alcínoo. Não terás dificuldade em encontrá-la; qualquer criança to apontará, pois nenhum outro em toda a cidade tem casa sequer parecida com a dele. Quando tiveres passado os portões e atravessado o pátio exterior, segue em frente pelo pátio interior até chegares à minha mãe. Encontrá-la-ás sentada junto ao lume a fiar a sua lã purpúrea à luz da lareira. É formoso vê-la quando se reclina contra um dos esteios, com as servas todas alinhadas atrás dela. Perto do seu assento está o do meu pai, no qual ele se senta e bebe como um deus imortal. Não faças caso dele, mas vai ter com a minha mãe, e põe as tuas mãos sobre os seus joelhos, se queres chegar a casa depressa. Se a puderes conquistar, podes esperar rever o teu próprio país, por mais distante que seja.»
Dizendo isto, fustigou as mulas com o chicote, e elas deixaram o rio. As mulas puxavam bem, e as suas patas subiam e desciam pelo caminho. Ela teve o cuidado de não ir depressa demais para Ulisses e as servas que seguiam a pé atrás do carro, por isso manejava o chicote com prudência. Ao pôr-do-sol chegaram ao sagrado bosque de Minerva, e ali Ulisses sentou-se e rezou à poderosa filha de Jove.
«Ouve-me», exclamou, «filha de Jove que empunhas a égide, incansável, ouve-me agora, pois não atendeste às minhas preces quando Neptuno me estava a destruir. Agora, pois, tem piedade de mim e concede que eu encontre amigos e seja recebido com hospitalidade pelos Feaces.»
Assim rezou, e Minerva ouviu a sua prece, mas não quis mostrar-se-lhe abertamente, pois temia o tio Neptuno, que ainda furioso procurava impedir Ulisses de chegar a casa.
LIVRO VII
RECEPÇÃO DE ULISSES NO PALÁCIO DO REI ALCÍNOO.
Assim, pois, Ulisses esperava e rezava; mas a jovem seguiu para a cidade. Quando chegou à casa do pai parou à entrada, e os seus irmãos — formosos como deuses — reuniram-se à volta dela, tiraram as mulas do carro e levaram a roupa para dentro, enquanto ela foi para o seu quarto, onde uma velha serva, Eurimedusa de Apeira, lhe acendeu a lareira. Esta velha tinha sido trazida por mar de Apeira, e fora escolhida como prémio para Alcínoo porque ele era rei dos Feaces, e o povo obedecia-lhe como se fosse um deus. Fora ama de Nausícaa, e agora acendera-lhe a lareira e lhe trouxera a ceia ao seu quarto.
Pouco depois Ulisses levantou-se para ir em direcção à cidade; e Minerva derramou à volta dele uma densa névoa para o esconder, caso algum dos soberbos Feaces que o encontrassem fosse rude com ele ou lhe perguntasse quem era. Então, ao entrar na cidade, ela veio ao seu encontro sob a forma de uma menina que levava uma jarra. Pôs-se mesmo diante dele, e Ulisses disse:
«Minha cara, poderás ter a bondade de me mostrar a casa do rei Alcínoo? Sou um forasteiro infeliz em apuros, e não conheço ninguém na vossa cidade nem no vosso país.»
Então Minerva disse: «Sim, pai forasteiro, mostrar-te-ei a casa que procuras, pois Alcínoo vive muito perto da casa do meu próprio pai. Irei à tua frente a mostrar o caminho, mas não digas palavra enquanto caminhares, e não olhes para nenhum homem, nem lhe faças perguntas; pois o povo daqui não tolera forasteiros, e não gosta de homens que vêm de outro lugar. São gente de mar, e singram os mares por graça de Neptuno em navios que deslizam como o pensamento, ou como uma ave no ar.»
Nisto tomou a dianteira, e Ulisses seguiu os seus passos; mas nenhum dos Feaces o pôde ver enquanto passava pela cidade no meio deles; pois a grande deusa Minerva, na sua boa vontade para com ele, ocultara-o numa espessa nuvem de escuridão. Ele admirava os seus portos, navios, lugares de assembleia e os altos muros da cidade, que, com a paliçada por cima, eram impressionantes, e quando chegaram à casa do rei Minerva disse:
«Esta é a casa, pai forasteiro, que me pediste para te mostrar. Encontrarás muitas pessoas ilustres sentadas à mesa, mas não temas; entra directamente, pois quanto mais ousado é um homem, tanto mais provável é que alcance o seu intento, ainda que seja um forasteiro. Primeiro encontra a rainha. O seu nome é Arete, e é da mesma família que o seu marido Alcínoo. Ambos descendem originalmente de Neptuno, que foi pai de Nausítoo através de Periboeia, mulher de grande formosura. Periboeia era a filha mais nova de Eurimedonte, que em tempos reinou sobre os gigantes, mas arruinou o seu desventurado povo e perdeu a vida também.
«Neptuno, porém, uniu-se à sua filha, e ela teve dele um filho, o grande Nausítoo, que reinou sobre os Feaces. Nausítoo teve dois filhos, Rexenor e Alcínoo; Apolo matou o primeiro deles quando ainda era noivo e sem descendência masculina; mas deixou uma filha, Arete, com quem Alcínoo casou, e honra-a como nenhuma outra mulher é honrada entre todas as que governam a casa com os seus maridos.
«Assim ela era, e ainda é, respeitada sobremaneira pelos seus filhos, pelo próprio Alcínoo, e por todo o povo, que a considera como uma deusa, e a saúda sempre que anda pela cidade, pois é uma mulher inteiramente boa de inteligência e de coração, e quando alguma mulher é sua amiga, ajuda também os maridos delas a resolver as suas questões. Se a conquistares, podes ter toda a esperança de rever os teus amigos e de chegar salvo à tua casa e ao teu país.»
Então Minerva partiu de Esqueria e foi-se embora sobre o mar. Foi a Maratona e às espaçosas ruas de Atenas, onde entrou na morada de Erecteu; mas Ulisses continuou para a casa de Alcínoo, e pensou muito enquanto parava um pouco antes de chegar ao umbral de bronze, pois o resplendor do palácio era como o do sol ou o da lua. As paredes de ambos os lados eram de bronze de extremo a extremo, e a cornija era de esmalte azul. As portas eram de ouro, e pendiam de pilares de prata que se erguiam de um chão de bronze, enquanto o lintel era de prata e o gancho da porta era de ouro.
De cada lado havia cães de guarda de ouro e prata que Vulcano, com a sua consumada habilidade, fabricara expressamente para guardar o palácio do rei Alcínoo; por isso eram imortais e nunca podiam envelhecer. Havia assentos dispostos ao longo da parede, aqui e ali de uma extremidade à outra, com coberturas de fino trabalho tecido que as mulheres da casa tinham feito. Ali as principais pessoas dos Feaces se sentavam para comer e beber, pois havia abundância em todas as estações; e havia figuras de ouro de jovens com tochas acesas nas mãos, erguidas sobre pedestais, para dar luz de noite aos que estavam à mesa. Há cinquenta servas na casa, algumas das quais estão sempre a moer rico grão amarelo no moinho, enquanto outras trabalham no tear, ou sentadas fiam, e as suas lançadeiras vão para trás e para diante como o adejar de folhas de choupo, e o linho é tão cerrado que repele o óleo. Assim como os Feaces são os melhores navegadores do mundo, assim as suas mulheres excedem todas as outras na tecelagem, pois Minerva lhes ensinou toda a espécie de artes úteis, e são muito inteligentes.
Fora do portão do pátio exterior há um grande jardim de cerca de quatro acres com um muro todo à volta. Está cheio de árvores formosas — pereiras, romãzeiras e as mais deliciosas maçãs. Há também figos sumarentos, e oliveiras em pleno crescimento. Os frutos nunca apodrecem nem faltam durante todo o ano, nem no inverno nem no verão, pois o ar é tão suave que uma nova colheita amadurece antes de a antiga ter caído. Pera nasce sobre pera, maçã sobre maçã, e figo sobre figo, e o mesmo acontece com as uvas, pois há uma excelente vinha: na parte rasa do terreno, as uvas estão a ser transformadas em passas; noutra parte estão a ser colhidas; algumas estão a ser pisadas nos lagares, outras mais adiante já perderam a flor e começam a mostrar fruto, outras ainda estão apenas a mudar de cor. Na parte mais afastada do terreno há canteiros dispostos com arte, floridos todo o ano. Dois cursos de água o atravessam, um conduzido em canais por todo o jardim, enquanto o outro é levado por baixo do chão do pátio exterior até à própria casa, e o povo da cidade dele tira água. Tais eram, pois, as grandezas com que os deuses tinham dotado a casa do rei Alcínoo.
Assim, Ulisses ficou ali um pouco a olhar em volta, mas quando olhou o suficiente, atravessou o umbral e entrou dentro do recinto da casa. Ali encontrou todas as principais pessoas dos Feaces a fazerem as suas libações a Mercúrio, o que sempre faziam em último lugar antes de se retirarem para a noite. Seguiu directamente através do pátio, ainda oculto pelo manto de escuridão com que Minerva o envolvera, até chegar junto de Arete e do rei Alcínoo; então pôs as mãos sobre os joelhos da rainha, e nesse momento a escuridão miraculosa caiu dele e tornou-se visível. Toda a gente ficou sem fala de espanto ao ver um homem ali, mas Ulisses começou logo com a sua súplica.
«Rainha Arete», exclamou, «filha do grande Rexenor, na minha aflição humildemente te suplico, assim como ao teu marido e a estes teus convidados (a quem o céu prospere com longa vida e felicidade, e possam eles deixar os seus bens aos seus filhos, e todas as honras que o estado lhes conferiu) que me ajudeis a chegar à minha própria terra o mais depressa possível; pois há muito tempo ando em apuros e longe dos meus amigos.»
Depois sentou-se na lareira entre as cinzas, e todos se calaram, até que por fim o velho herói Equeneu, que era excelente orador e um ancião entre os Feaces, falou-lhes clara e honestamente assim:
«Alcínoo», disse ele, «não é coisa que vos honre que um forasteiro seja visto sentado entre as cinzas da vossa lareira; toda a gente espera ouvir o que ides dizer; dizei-lhe, pois, que se levante e tome assento num escabelo marchetado de prata, e ordenai aos vossos servos que misturem vinho com água para que possamos fazer uma libação a Jove o senhor do trovão, que toma sob a sua protecção todos os suplicantes bem dispostos; e que a governanta lhe dê alguma ceia, do que houver em casa.»
Quando Alcínoo ouviu isto, tomou Ulisses pela mão, levantou-o da lareira, e mandou-o tomar o assento de Laodamas, que estivera sentado junto dele, e era o seu filho favorito. Uma serva trouxe-lhe então água numa bela bilha de ouro e verteu-a numa bacia de prata para que lavasse as mãos, e estendeu uma mesa limpa junto dele; um servo superior trouxe-lhe pão e ofereceu-lhe muitas boas coisas do que havia em casa, e Ulisses comeu e bebeu. Então Alcínoo disse a um dos servos: «Pontónoo, mistura uma taça de vinho e passa-a à volta para que façamos libações a Jove o senhor do trovão, que é o protector de todos os suplicantes bem dispostos.»
Pontónoo então misturou vinho e água, e passou-o à volta depois de dar a cada homem a sua libação. Quando fizeram as suas libações, e cada um bebeu o quanto quis, Alcínoo disse:
«Anciãos e conselheiros dos Feaces, ouvi as minhas palavras. Já haveis ceado, por isso ide agora para casa dormir. Amanhã de manhã convidarei um número ainda maior de anciãos, e darei um banquete sacrificial em honra do nosso hóspede; poderemos então discutir a questão da escolta, e considerar como havemos de o mandar de volta logo, rejubilando, para o seu país sem transtorno nem incómodo para ele, por mais distante que seja. Cumpre-nos velar por que não lhe aconteça mal algum durante a viagem de regresso, mas quando estiver em casa terá de suportar a sorte com que nasceu para melhor ou para pior como qualquer outra pessoa. É possível, porém, que o forasteiro seja um dos imortais que desceu do céu para nos visitar; mas nesse caso os deuses afastam-se da sua prática habitual, pois até agora sempre se mostraram claramente a nós quando lhes oferecíamos hecatombes. Vêm e sentam-se nos nossos banquetes como um de nós, e se algum viajante solitário por acaso se depara com algum deles, não afectam esconder-se, pois somos tão chegados dos deuses como os Ciclopes e os gigantes selvagens.»
Então Ulisses disse: «Rogo-vos, Alcínoo, não abrigueis tal ideia. Nada tenho de imortal, nem no corpo nem no espírito, e antes me pareço com quantos entre vós são os mais atribulados. Em verdade, se vos fosse contar tudo o que o céu houve por bem impor-me, diríeis que sou ainda mais desgraçado do que eles. Contudo, deixai-me cear apesar da dor, pois o estômago vazio é coisa muito importuna, e impõe-se a um homem por mais terrível que seja a sua aflição. Estou em grande tribulação, e ainda assim ele insiste que eu coma e beba, manda-me pôr de lado toda a memória das minhas dores e pensar apenas em me rechear. Quanto a vós, fazei o que propondes, e ao romper do dia tratai de me ajudar a chegar a casa. Dar-me-ei por contente se morrer, contanto que primeiro reveja ainda uma vez os meus bens, os meus servos e toda a grandeza da minha casa.»
Assim falou. Todos aprovaram as suas palavras, e concordaram em que lhe fosse dada escolta, visto que falara com acerto. Então, depois de feitas as libações, e tendo cada um bebido o quanto quis, foram para casa dormir, cada um para a sua morada, deixando Ulisses no claustro com Arete e Alcínoo enquanto os servos retiravam as coisas do jantar. Arete foi a primeira a falar, pois reconheceu a túnica, o manto e as boas roupas que Ulisses vestia, como obra sua e das suas servas; por isso disse: «Forasteiro, antes de irmos mais longe, há uma pergunta que vos quero fazer. Quem sois, e de onde vindes, e quem vos deu essas roupas? Não dissestes que vinheis de além do mar?»
E Ulisses respondeu: «Seria longa história, senhora, se eu vos fosse narrar por inteiro o relato das minhas desventuras, pois a mão do céu pesou sobre mim; mas, quanto ao que me perguntais, há uma ilha muito longe no mar, chamada a Ogígia. Ali vive a engenhosa e poderosa deusa Calipso, filha de Atlas. Vive sozinha, afastada de todos os vizinhos, humanos ou divinos. A fortuna, porém, me trouxe à sua lareira, desamparado e só, pois Jove fulminou o meu navio com os seus raios e o destroçou em pleno oceano. Os meus bravos companheiros morreram afogados, todos eles; mas eu agarrei-me à quilha e fui levado de um lado para outro durante nove dias, até que, por fim, na escuridão da décima noite, os deuses me trouxeram à ilha Ogígia, onde vive a grande deusa Calipso. Ela me acolheu e me tratou com a maior bondade; quis até fazer-me imortal para que eu nunca envelhecesse, mas não conseguiu persuadir-me a deixar que o fizesse.
«Fiquei com Calipso sete anos seguidos, e durante todo esse tempo reguei com lágrimas as boas roupas que ela me dava; mas, por fim, quando o oitavo ano chegou, mandou-me partir por livre vontade, fosse porque Jove lhe dissera que devia, fosse porque mudara de ideias. Enviou-me da sua ilha numa jangada, que ela aprovisionou com abundância de pão e vinho. Deu-me também roupas boas e fortes, e mandou-me um vento que soprava tépido e favorável. Durante sete e dez dias naveguei pelo mar, e no décimo oitavo avistei os primeiros contornos das montanhas da vossa costa — e com que alegria então pus os olhos neles! Havia, contudo, ainda muito sofrimento reservado para mim, pois neste ponto Netuno não me deixou ir mais longe e levantou contra mim uma grande tempestade; o mar estava tão terrivelmente agitado que já não consegui manter-me na jangada, que se desfez sob a fúria do vendaval, e tive de nadar, até que o vento e a corrente me trouxeram às vossas praias.
«Ali tentei desembarcar, mas não pude, pois era um lugar mau e as ondas me atiravam contra as rochas; tornei, pois, a lançar-me ao mar e continuei a nadar até chegar a um rio que parecia o ponto de desembarque mais provável, pois não havia rochas e estava abrigado do vento. Aqui, então, saí da água e reconcentrei os meus sentidos. A noite aproximava-se, por isso deixei o rio e entrei num mato espesso, onde me cobri todo de folhas, e logo o céu me lançou num sono muito profundo. Doente e triste como estava, dormi entre as folhas toda a noite e pelo dia seguinte até à tarde, quando acordei com o sol a declinar e vi as servas da vossa filha a brincar na praia, e a vossa filha entre elas, parecendo uma deusa. Implorei-lhe auxílio, e ela mostrou ter excelente coração, muito mais do que se poderia esperar de pessoa tão jovem — pois os jovens costumam ser levianos. Deu-me abundância de pão e vinho, e, depois de me ter mandado lavar no rio, deu-me também as roupas com que me vedes. Agora, portanto, ainda que me fosse doloroso fazê-lo, disse-vos toda a verdade.»
Então Alcínoo disse: «Forasteiro, foi muito errado da minha filha não vos ter trazido imediatamente à minha casa com as servas, sendo ela a primeira pessoa de quem pedistes auxílio.»
«Suplico-vos que não a repreendais», respondeu Ulisses; «ela não tem culpa. De facto disse-me que a seguisse com as servas, mas eu tive vergonha e receio, pois pensei que talvez vos desagradaria ver-me. Todo o ser humano é por vezes um pouco desconfiado e irritável.»
«Forasteiro», respondeu Alcínoo, «não sou homem de me zangar à toa; é sempre melhor ser razoável; mas, por Pai Jove, Minerva e Apolo, agora que vejo que espécie de pessoa sois e quanto pensais como eu, desejo que fiquésseis aqui, casásseis com a minha filha e vos tornásseis meu genro. Se quiserdes ficar, dar-vos-ei uma casa e um património, mas ninguém (os céus o permitam) vos reterá aqui contra a vossa vontade; e, para que tenhais a certeza disso, amanhã cuidarei do assunto do vosso regresso. Podeis dormir durante toda a viagem, se quiserdes, e os homens vos levarão por águas tranquilas, quer à vossa própria casa, quer aonde desejardes, ainda que seja muito mais longe do que Euboeia, que aqueles do meu povo que a viram quando levaram o louro Radamanto a ver Títio, filho de Gaia, me dizem ser o lugar mais distante de todos — e contudo fizeram toda a viagem num único dia, sem se cansarem, e voltaram depois. Vereis assim quanto os meus navios excedem todos os outros e quão magníficos remadores são os meus marinheiros.»
Então Ulisses alegrou-se e orou em voz alta, dizendo: «Pai Jove, concedei que Alcínoo faça tudo como disse, pois assim granjeará um nome imperecível entre os homens, e ao mesmo tempo eu voltarei à minha pátria.»
Assim conversaram. Então Arete disse às servas que preparassem um leito na sala que ficava na casa da porta, e o forrassem com boas colchas vermelhas, e estendesem sobre elas cobertores com mantos de lã para Ulisses vestir. As servas saíram então com tochas nas mãos, e, depois de preparado o leito, vieram ter com Ulisses e disseram: «Levantai-vos, senhor forasteiro, e vinde connosco, pois o vosso leito está pronto», e ele ficou verdadeiramente contente de ir repousar.
Assim Ulisses dormiu num leito posto numa sala sobre a porta que ecoava; mas Alcínoo deitou-se na parte interior da casa, com a rainha sua esposa ao lado.
LIVRO VIII
BANQUETE NA CASA DE ALCÍNOO — OS JOGOS.
Quando a criança da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, Alcínoo e Ulisses levantaram-se ambos, e Alcínoo tomou a dianteira para o lugar de assembleia dos feácios, que ficava perto dos navios. Quando lá chegaram, sentaram-se lado a lado num assento de pedra polida, enquanto Minerva tomou a forma de um dos servos de Alcínoo e percorreu a cidade para ajudar Ulisses a chegar a casa. Foi ter com os cidadãos, um a um, e disse: «Vereadores e conselheiros dos feácios, vinde todos à assembleia e ouvi o forasteiro que acaba de chegar de uma longa viagem à casa do rei Alcínoo; parece um deus imortal.»
Com estas palavras fez com que todos quisessem vir, e acorreram à assembleia até não haver nem assentos nem lugar de pé. Todos ficaram impressionados com o aspecto de Ulisses, pois Minerva o embelezara na cabeça e nos ombros, fazendo-o parecer mais alto e mais robusto do que realmente era, para que impressionasse favoravelmente os feácios como homem muito notável e saísse bem nas muitas provas de destreza a que o iriam desafiar. Então, quando se reuniram, Alcínoo falou:
«Ouvi-me», disse, «vereadores e conselheiros dos feácios, para que eu fale como tenho em mente. Este forasteiro, seja ele quem for, chegou à minha casa de uma qualquer parte, do Oriente ou do Ocidente. Deseja uma escolta e quer que o assunto seja resolvido. Preparemos-lha, pois, como já fizemos para outros antes dele; na verdade, ninguém que alguma vez tenha vindo à minha casa se pôde queixar de mim por não o ter despachado cedo. Puxemos um navio para o mar — um que ainda não tenha feito qualquer viagem — e tripulemo-lo com cinquenta e dois dos nossos mais ágeis jovens marinheiros. Depois, quando tiverdes preso os remos cada um ao seu banco, deixai o navio e vinde à minha casa preparar um banquete. Eu vos fornecerei tudo. Estou a dar estas instruções aos rapazes que hão de formar a tripulação; pois, quanto a vós, vereadores e conselheiros, juntar-vos-ei a mim para receber o nosso hóspede no claustro. Não admito desculpas, e teremos Demódoco para nos cantar; pois não há bardo como ele, qualquer seja o tema que escolha cantar.»
Alcínoo tomou então a dianteira, e os outros seguiram, enquanto um servo foi buscar Demódoco. Os cinquenta e dois remadores escolhidos foram à praia como lhes fora dito, e, quando lá chegaram, puxaram o navio para a água, colocaram dentro o mastro e as velas, amarraram os remos aos toletes com correias de couro entrançadas, tudo na devida ordem, e estenderam as velas brancas no alto. Amarraram a embarcação um pouco afastada da terra, e depois vieram a terra e foram à casa do rei Alcínoo. As casas exteriores, os pátios e todo o recinto se encheram de multidões de gente em grande número, velhos e novos; e Alcínoo lhes matou uma dúzia de ovelhas, oito porcos adultos e dois bois. Esfolaram-nos e prepararam-nos de modo a proporcionar um magnífico banquete.
Um servo introduziu pouco depois o famoso bardo Demódoco, a quem a musa tinha amado ternamente, mas a quem dera o bem e o mal, pois, embora lhe tivesse concedido um divino dom de canto, privara-o da vista. Pontonoos colocou-lhe um assento entre os convidados, encostado a um pilar de suporte. Pendurou-lhe a lira num cravo por cima da cabeça e mostrou-lhe onde havia de procurá-la com as mãos. Colocou também uma bela mesa com um cesto de víveres ao lado, e uma taça de vinho da qual ele pudesse beber quando quisesse.
Os convivas lançaram então as mãos nas boas coisas que tinham diante de si, mas, logo que tiveram comido e bebido o suficiente, a musa inspirou Demódoco a cantar as proezas dos heróis, e sobretudo um assunto que então corria na boca de todos, a saber, a discórdia entre Ulisses e Aquiles, e as palavras ferozes que um lançou sobre o outro enquanto estavam sentados juntos num banquete. Mas Agamémnon alegrou-se ao ouvir os seus chefes a altercarem uns com os outros, pois Apolo lho havia predito em Pito, quando ele atravessou o pavimento de pedra para consultar o oráculo. Aqui estava o princípio do mal que, por vontade de Jove, caiu tanto sobre os dânaos como sobre os troianos.
Assim cantou o bardo, mas Ulisses puxou o manto púrpura sobre a cabeça e cobriu o rosto, pois tinha vergonha de deixar que os feácios vissem que chorava. Quando o bardo deixou de cantar, ele limpou as lágrimas dos olhos, descobriu o rosto e, tomando a sua taça, fez uma libação aos deuses; mas, quando os feácios pressionaram Demódoco a continuar a cantar, pois deleitavam-se com os seus versos, então Ulisses tornou a puxar o manto sobre a cabeça e chorou amargamente. Ninguém notou a sua aflição excepto Alcínoo, que estava sentado perto dele e ouviu os pesados suspiros que ele soltava. Por isso disse logo: «Vereadores e conselheiros dos feácios, já basta, tanto de banquete como de cantiga que é o seu devido acompanhamento; passemos, pois, aos jogos atléticos, para que o nosso hóspede, ao regressar a casa, possa dizer aos seus amigos quanto nós superamos todas as outras nações como pugilistas, lutadores, saltadores e corredores.»
Com estas palavras tomou a dianteira, e os outros seguiram. Um servo pendurou a lira de Demódoco no seu cravo, levou-o para fora do claustro e encaminhou-o pelo mesmo caminho por onde todos os homens principais dos feácios iam ver os jogos; uma multidão de vários milhares de pessoas os seguiu, e havia muitos concorrentes excelentes para todos os prémios. Acroneu, Ocialo, Elatreu, Nauteu, Primneu, Anchialo, Eretmeu, Pondeu, Proreu, Toon, Anabesineu e Anfialo, filho de Polineu, filho de Tecton. Havia também Euríalo, filho de Náubolo, que era igual ao próprio Marte, e era o homem de melhor aparência entre os feácios, excepto Laodamas. Três filhos de Alcínoo, Laodamas, Halio e Clitoneu, também concorreram.
As corridas a pé vieram primeiro. A pista foi marcada para eles desde a baliza de partida, e levantaram uma nuvem de pó na planície, enquanto todos disparavam no mesmo instante. Clitoneu chegou primeiro por larga margem; deixou todos os outros para trás pelo comprimento do sulco que uma junta de mulas pode lavrar num campo de pousio. Voltaram-se então para a penosa arte da luta, e aqui Euríalo se revelou o melhor. Anfialo superou todos os outros no salto, enquanto no lançamento do disco não havia ninguém que se chegasse a Elatreu. Laodamas, filho de Alcínoo, era o melhor pugilista, e foi ele quem pouco depois disse, depois de todos se terem divertido com os jogos: «Peçamos ao forasteiro se ele se distingue em algum destes desportos; parece muito fortemente constituído; as suas coxas, barrigas das pernas, mãos e pescoço são de força prodigiosa, nem é velho de todo, mas sofreu muito ultimamente, e nada há como o mar para fazer estrago num homem, por mais forte que seja.»
«Tens toda a razão, Laodamas», respondeu Euríalo, «vai ter com o teu hóspede e fala-lhe tu mesmo nisso.»
Quando Laodamas ouviu isto, abriu caminho até ao meio da multidão e disse a Ulisses: «Espero, senhor, que vos inscreveis em alguma destas competições se tiverdes habilidade em alguma delas — e dec tereis participado em muitas antes de agora. Nada há que tanto honre um homem durante toda a vida como mostrar-se um verdadeiro homem com as mãos e os pés. Tentai, pois, alguma coisa e afastai de vós toda a tristeza. O vosso regresso a casa não tardará, pois o navio já está puxado para a água e a tripulação está escolhida.»
Ulisses respondeu: «Laodamas, por que me motejais desta maneira? O meu ânimo está mais voltado para cuidados do que para competições; tenho passado por infinitos trabalhos e venho agora ter convosco como suplicante, pedindo ao vosso rei e ao vosso povo que me ajudem no regresso a casa.»
Então Euríalo o insultou abertamente e disse: «Então, pelo que vejo, não tendes habilidade em nenhum dos muitos desportos em que os homens geralmente se deleitam. Suponho que sois um desses mercadores gananciosos que andam em navios como capitães ou negociantes, e que só pensam nos fretes de ida e nas cargas de volta. Não parece haver muito de atleta em vós.»
«Para vergonha, senhor», respondeu Ulisses, ferozmente, «sois um insolente — tão certo é que os deuses não agraciam todos os homens do mesmo modo na fala, na pessoa e no entendimento. Um homem pode ser de fraca presença, mas o céu adornou-o com tão boa conversa que encanta todos os que o vêem; a sua temperada doçura leva os ouvintes consigo, de modo que é chefe em todas as assembleias dos seus companheiros, e onde quer que vá é tido em alta estima. Outro pode ser tão belo como um deus, mas a sua boa aparência não é coroada de discrição. Este é o vosso caso. Nenhum deus poderia fazer criatura de melhor aparência do que vós, mas sois um tolo. As vossas observações mal julgadas irritaram-me sobremaneira, e estais bem enganado, pois eu me destaco em muitos exercícios atléticos; na verdade, enquanto tive juventude e força, fui um dos primeiros atletas do meu tempo. Agora, porém, estou gasto pelo trabalho e pela dor, pois tenho passado por muito, tanto no campo de batalha como pelas ondas do mar fatigante; apesar de tudo isto, contudo, vou competir, pois os vossos motejos me pungiram até ao fundo da alma.»
Assim, apressou-se sem sequer tirar o manto, pegou num disco, maior, mais maciço e muito mais pesado do que os usados pelos feácios nos seus jogos de lançamento de disco. Então, balançando-o para trás, lançou-o da sua mão musculosa, e produziu um som zunidor no ar enquanto o fazia. Os feácios estremeceram sob a investida do seu voo, enquanto ele passava com graça da mão do guerreiro e voava para além de qualquer marca que tivesse sido feita até então. Minerva, sob a forma de um homem, veio e marcou o lugar onde caíra. «Um cego, senhor», disse ela, «poderia facilmente distinguir a vossa marca tateando à sua procura — está tão adiante de qualquer outra. Podeis ficar descansado quanto a este concurso, pois nenhum feácio se pode aproximar de um lançamento como o vosso.»
Ulisses alegrou-se ao descobrir que tinha um amigo entre os espectadores, e começou a falar com mais suavidade. «Jovens», disse, «chegai-vos a esse lançamento, se puderdes, e eu lançarei outro disco tão pesado ou ainda mais pesado. Se alguém quiser lutar comigo, que venha, pois estou extremamente irritado;.boxearei, lutarei ou correrei, não me importa com quê, contra qualquer um de vós, excepto Laodamas, mas não com ele porque é meu hóspede, e não se compete com o próprio amigo pessoal. Pelo menos não me parece coisa prudente nem sensata que um hóspede desafie a família do seu anfitrião em qualquer jogo, especialmente quando está em terra estranha. Cortará o terreno debaixo dos seus próprios pés se o fizer; mas não faço excepção quanto a qualquer outro, pois quero resolver a questão e saber quem é o melhor. Sou perito em todo o género de desporto atlético conhecido entre os homens. Sou excelente arqueiro. Em batalha sou sempre o primeiro a derrubar um homem com a minha flecha, por mais quantos estejam a apontar para ele ao meu lado. Filoctetes era o único homem que podia disparar melhor do que eu quando nós, aqueus, estávamos diante de Tróia e em treinos. Excedo de longe toda a gente no mundo inteiro, daqueles que ainda comem pão sobre a face da terra, mas não me aprouveria disparar contra os mortos poderosos, como Hércules ou Eurito o equálio — homens que podiam disparar contra os próprios deuses. Foi assim, de facto, que Eurito veio prematuramente ao seu fim, pois Apolo se irritou com ele e o matou porque o desafiou como arqueiro. Posso lançar um dardo mais longe do que qualquer outro pode disparar uma flecha. A corrida é o único ponto em que temo que alguns feácios me possam vencer, pois tenho sido muito prostrado no mar; as minhas provisões escassearam, e por isso ainda estou fraco.»
Todos se mantinham em silêncio, excepto o rei Alcínoo, que começou:
— Senhor, tivemos imenso prazer em ouvir tudo o que nos contastes, donde depreendo que estais disposto a mostrar a vossa destreza, pois fostes molestado por algumas observações insolentes que vos foram feitas por um dos nossos atletas, as quais nunca poderiam ter sido proferidas por quem sabe falar com propriedade. Espero que apreendeis o meu sentido e que explicareis a algum dos vossos homens principais, caso esteja a jantar convosco e com a vossa família quando chegardes a casa, que possuímos uma aptidão hereditária para toda a espécie de habilidades. Não somos particularmente notáveis no pugilismo, nem na luta, mas somos singularmente velozes de pés e excelentes marinheiros. Gostamos extremamente de bons banquetes, de música e de dança; apreciamos também mudanças frequentes de roupa de linho, banhos quentes e boas camas. Por isso, peço-vos agora que alguns de vós, os melhores dançarinos, vos ponhais a dançar, para que o nosso hóspede, ao regressar a casa, possa dizer aos seus amigos quanto superamos todas as outras nações como marinheiros, corredores, dançarinos e menestréis. Demódoco deixou a sua lira em minha casa; portanto, acorre vós, um ou outro, e trazei-lha.
A isto, um servo apressou-se a ir buscar a lira à casa do rei, e os nove homens que haviam sido escolhidos como intendentes adiantaram-se. Era seu encargo tratar de tudo o que dizia respeito aos jogos; por isso alisaram o chão e delimitaram um amplo espaço para os dançarinos. Pouco depois o servo regressou com a lira de Demódoco, e ele tomou o seu lugar no meio deles; então os melhores jovens dançarinos da cidade começaram a pisar e a saracotear com tanta ligeireza que Ulisses se deleitou com o alegre requebro dos seus pés.
Entretanto, o aedo começou a cantar os amores de Marte e Vénus, e como iniciaram a sua intriga na casa de Vulcano. Marte fizera muitos presentes a Vénus e maculara o leito conjugal do rei Vulcano, de modo que o Sol, que viu o que se passava, o contou a Vulcano. Vulcano ficou muito irado ao receber tão terrível notícia; por isso foi para a sua forja, meditando males, colocou a sua grande bigorna no seu lugar e começou a forjar algumas cadeias que ninguém pudesse soltar nem partir, de modo que ali ficassem retidos.
Quando terminou a sua armadilha, entrou no seu quarto e enfeitou os postes da cama por toda a parte com cadeias parecidas com teias de aranha; deixou também muitas a pender da grande viga do tecto. Nem um deus as poderia ver, tão finas e subtis eram. Logo que estendeu as cadeias por toda a cama, fingiu que partia para a bela cidade de Lemnos, que de todos os lugares do mundo era o que mais estimava. Mas Marte não perdeu de vista, e, assim que o viu partir, acudiu apressado à sua casa, abrasado de amor por Vénus.
Ora, Vénus acabava de chegar de uma visita ao seu pai Jove e ia sentar-se, quando Marte entrou dentro da casa e disse, tomando-lhe a mão na sua:
— Vamos ao leito de Vulcano: ele não está em casa, mas foi para Lemnos, entre os Sintios, cuja fala é bárbara.
Ela não se fez rogar; foram, pois, ao leito para repousar, onde caíram nos laços que o astuto Vulcano lhes havia preparado, e não puderam erguer-se nem mexer mão nem pé, e perceberam demasiado tarde que estavam numa armadilha. Então Vulcano chegou junto deles, pois voltara antes de alcançar Lemnos, quando o seu batedor, o Sol, lhe contou o que se passava. Ele estava numa fúria terrível e ficou no vestíbulo a fazer um ruído medonho, bradando a todos os deuses:
— Pai Jove — clamou —, e vós todos os outros deuses bem-aventurados que viveis eternamente, vinde aqui e vede o espectáculo ridículo e vergonhoso que vos hei-de mostrar. A filha de Jove, Vénus, anda sempre a desonrar-me, porque eu sou coxo. Ela está enamorada de Marte, que é formoso e bem-posto, ao passo que eu sou um estropiado — mas a culpa disso é dos meus pais, não minha; eles nunca deviam ter-me gerado. Vinde ver o par adormecido no meu leito. Enfurece-me olhar para eles. Eles têm grande afeição um pelo outro, mas não creio que fiquem ali mais tempo do que possam evitar, nem creio que durmam muito; ali, todavia, ficarão até que o pai dela me tenha restituído a soma que lhe dei por aquela bagagem de filha, que é formosa mas não honesta.
A isto, os deuses acorreram à casa de Vulcano. Veio Neptuno, que abraça a terra, Mercúrio, portador da boa fortuna, e o rei Apollo, mas as deusas ficaram todas em casa, por pudor. Então os dadores de todos os bens postaram-se no limiar, e os deuses bem-aventurados rebentaram de um riso inextinguível, ao verem quão astucioso fora Vulcano, pelo que um voltava-se para o vizinho dizendo:
— As más acções não prosperam, e o fraco confunde o forte. Vede como o coxo Vulcano, sendo coxo como é, apanhou Marte, que é o deus mais veloz do céu; e agora Marte será condenado em pesadas indemnizações.
Assim conversavam, mas o rei Apollo disse a Mercúrio:
— Mensageiro Mercúrio, dador de bens, não vos importaria que as cadeias fossem bem fortes, pois não, se pudésseis dormir com Vénus?
— Rei Apollo — respondeu Mercúrio —, só desejo que a sorte me coubesse, ainda que houvesse três vezes mais cadeias — e vós poderíeis olhar, todos vós, deuses e deusas, mas eu dormiria com ela se pudesse.
Os deuses imortais rebentaram de gargalhadas ao ouvi-lo, mas Neptuno levou a coisa a sério e não cessava de suplicar a Vulcano que soltasse Marte de novo.
— Deixa-o ir — bradou —, e comprometo-me, como exiges, a que ele te pague todos os danos que forem considerados razoáveis entre os deuses imortais.
— Não me peças que o faça — respondeu Vulcano —; o penhor de um homem mau é garantia ruim; que remédio poderia eu obter contra ti se Marte fosse embora e deixasse as suas dívidas para trás com as suas cadeias?
— Vulcano — disse Neptuno —, se Marte for embora sem pagar os danos, eu próprio te pagarei. — Então Vulcano respondeu: — Nesse caso, não posso e não devo recusar-te.
Logo afrouxou os laços que os prendiam, e, assim que ficaram livres, eles fugiram a correr: Marte para a Trácia e Vénus, amante do riso, para Chipre e para Pafos, onde é o seu bosque e o seu altar perfumado de ofertas queimadas. Ali as Graças a banharam e a ungiram com óleo de ambrosia, tal qual o que os deuses imortais usam, e vestiram-na com roupagem de beleza arrebatadora.
Assim cantou o aedo, e tanto Ulisses como os feácios navegadores ficaram encantados ao ouvi-lo.
Então Alcínoo disse a Laodamas e Hálio que dançassem a sós, pois não havia quem com eles competisse. Tomaram, pois, uma bola vermelha que Polibo lhes havia feito, e um deles se recurvou para trás e a atirou para o ar, na direcção das nuvens, enquanto o outro saltou do chão e a apanhou com facilidade antes que tornasse a cair. Quando terminaram de atirar a bola bem para o ar, começaram a dançar e, ao mesmo tempo, continuavam a lançar a bola um ao outro, de trás para diante, enquanto todos os jovens no círculo aplaudiam e faziam grande estrupido com os pés. Então Ulisses disse:
— Rei Alcínoo, dissestes que o vosso povo era o mais ágil dançarino do mundo, e na verdade já o provaram. Fiquei assombrado ao vê-los.
O rei deliciou-se com isto e exclamou para os feácios:
— Alcaides e conselheiros do povo, o nosso hóspede parece ser pessoa de singular discernimento; demos-lhe a prova da nossa hospitalidade que ele possa razoavelmente esperar. Há entre vós doze homens principais, e, contando comigo, somos treze; contribua cada um com um manto limpo, uma túnica e um talento de ouro fino; demos-lhe tudo isto numa só vez, para que, ao receber o jantar, o possa fazer com o coração leve. Quanto a Euríalo, terá de apresentar uma desculpa formal e também um presente, pois foi rude.
Assim falou. Os outros todos aplaudiram as suas palavras e mandaram os seus servos buscar os presentes. Então Euríalo disse:
— Rei Alcínoo, darei ao estrangeiro toda a satisfação que exigis. Terá a minha espada, que é de bronze, salvo o punho, que é de prata. Dar-lhe-ei também a bainha de marfim recém-cortado em que ela encaixa. Valerá muito para ele.
Enquanto falava, colocou a espada nas mãos de Ulisses e disse:
— Boa sorte para vós, pai estrangeiro; se algo foi dito em falso, que os ventos o levem consigo, e que o céu vos conceda um regresso seguro, pois compreendo que haveis estado muito tempo longe de casa e haveis passado por muitas provações.
Ao que Ulisses respondeu:
— Boa sorte também para vós, meu amigo, e que os deuses vos concedam toda a felicidade. Espero que não vos pese a espada que me destes junto com as vossas desculpas.
Com estas palavras, cingiu a espada aos ombros e, ao pôr-do-sol, os presentes começaram a aparecer, à medida que os servos dos doadores os levavam à casa do rei Alcínoo; ali os seus filhos os recolheram e os confiaram à guarda da mãe. Então Alcínoo tomou a dianteira para a casa e convidou os hóspedes a tomarem assento.
— Esposa — disse ele, voltando-se para a rainha Arete —, vai buscar o melhor cofre que temos e põe nele um manto limpo e uma túnica. Coloca também uma caldeira de cobre ao lume e aquece alguma água; o nosso hóspede tomará um banho quente; cuida também do acondicionamento cuidadoso dos presentes que os nobres feácios lhe fizeram; assim ele gozará melhor o seu jantar e o canto que se seguirá. Eu eu próprio lhe darei este copo de ouro — de lavor exquisito — para que seja por mim lembrado pelo resto da vida, sempre que fizer uma libação a Jove ou a qualquer dos deuses.
Então Arete disse às suas servas que colocassem um grande tripé ao fogo o mais depressa possível; elas pousaram um tripé cheio de água de banho sobre um lume claro; atiraram-lhe lenha para o fazer crepitar, e a água aqueceu-se à medida que a chama lambia a barriga do tripé. Entretanto, Arete trouxe um cofre magnífico do seu próprio quarto e, dentro dele, acondicionou todos os belos presentes de ouro e de roupa que os feácios haviam trazido. Por fim, acrescentou um manto e uma boa túnica de Alcínoo e disse a Ulisses:
— Trata tu mesmo da tampa e manda atar tudo de uma vez, para que ninguém te possa roubar pelo caminho, enquanto dormes no teu navio.
Quando Ulisses ouviu isto, pôs a tampa no cofre e amarrou-o com um laço que Circe lhe havia ensinado. Mal acabara de o fazer, um criado superior veio dizer-lhe que viesse ao banho e se lavasse. Ele muito folgou com o banho quente, pois não tivera quem o servisse desde que saíra da casa de Calipso, a qual, enquanto ele permanecera com ela, tomara dele tão bom cuidado como se fosse um deus. Quando os servos acabaram de o lavar e de o ungir com óleo, e lhe deram um manto limpo e uma túnica, ele saiu do banho e juntou-se aos hóspedes que estavam sentados sobre o vinho. A formosa Nausícaa parou junto a um dos esteios que sustinham o tecto do pórtico e admirou-o ao vê-lo passar.
— Adeus, estrangeiro — disse ela —; não te esqueças de mim quando estiveres salvo em tua casa, pois a mim deves primeiro o resgate de teres salvado a vida.
E Ulisses disse:
— Nausícaa, filha do grande Alcínoo, que Jove, o poderoso esposo de Juno, me conceda chegar a minha casa; assim te bendirei como meu anjo guardião por todos os meus dias, pois foste tu quem me salvaste.
Dito isto, sentou-se ao lado de Alcínoo. Serviu-se então o jantar e o vinho foi misturado para beber. Um servo trouxe o aedo favorito, Demódoco, e colocou-o no meio da assembleia, perto de um dos esteios que sustinham o pórtico, para que pudesse encostar-se a ele. Então Ulisses cortou um pedaço de carne de porco assada com bastante gordura (pois havia abundância no assado) e disse a um servo:
— Leva este pedaço de carne a Demódoco e dize-lhe que a coma; por toda a pena que os seus cantos me possam causar, não deixarei por isso de o saudar; os aedos são honrados e respeitados por todo o mundo, pois a musa lhes ensina os seus cantos e os ama.
O servo levou a carne nos dedos a Demódoco, que a recebeu e muito folgou. Em seguida, puseram as mãos nas boas iguarias que estavam diante deles e, logo que tiveram comido e bebido, Ulisses disse a Demódoco:
— Demódoco, não há ninguém no mundo que eu admire mais do que a ti. Deves ter estudado sob a Musa, filha de Jove, e sob Apollo, tão fielmente cantas o regresso dos Aqueus com todos os seus sofrimentos e aventuras. Se lá não estiveste, deves ter ouvido tudo de alguém que lá esteve. Agora, porém, muda de canto e conta-nos do cavalo de madeira que Epeu fez com o auxílio de Minerva, e que Ulisses, por estratagema, introduziu na fortaleza de Troia, depois de o carregar com os homens que depois saquearam a cidade. Se cantares este conto como deve ser, direi ao mundo inteiro como o céu te dotou magníficamente.
O aedo, inspirado pelo céu, retomou a história no ponto em que alguns dos Argivos puseram fogo às suas tendas e navegaram, enquanto outros, escondidos dentro do cavalo, esperavam com Ulisses no lugar de reunião dos Troianos. Pois os próprios Troianos haviam arrastado o cavalo para dentro da sua fortaleza, e ele ali ficou enquanto eles se reuniam em conselho à volta dele, indecisos entre três pareceres quanto ao que deveriam fazer. Uns eram por parti-lo ali mesmo; outros queriam arrastá-lo até ao cimo do rochedo sobre o qual assentava a fortaleza e precipitá-lo de lá abaixo; enquanto outros ainda eram por deixá-lo ficar como oferenda e propiciação aos deuses. E foi assim que acabaram por decidir, pois a cidade estava votada à perdição quando acolheu aquele cavalo, dentro do qual estavam os mais valentes dos Argivos, à espera de trazerem a morte e a destruição sobre os Troianos.
Depois ele cantou como os filhos dos Aqueus saíram do cavalo e saquearam a cidade, irrompendo da sua emboscada. Cantou como invadiram a cidade de um lado para o outro e a devastaram, e como Ulisses avançou enfurecido como Marte, junto com Menelau, até à casa de Deífobo. Foi ali que o combate mais furiosamente rugiu; contudo, com o auxílio de Minerva, ele saiu vencedor.
Tudo isto ele contou, mas Ulisses comoveu-se ao ouvi-lo, e as suas faces estavam húmidas de lágrimas. Chorava como uma mulher chora quando se lança sobre o corpo do marido que caiu diante da sua própria cidade e do seu povo, combatendo bravamente em defesa do seu lar e dos seus filhos. Ela grita em altos brados e lança os braços sobre ele, enquanto ele arqueja, a perder o fôlego, a morrer; mas os inimigos batem-lhe por trás, nas costas e nos ombros, e a levam para a escravidão, para uma vida de trabalho e de dor, e a beleza esvai-se das suas faces — assim, tão piedosamente, Ulisses chorava, mas nenhum dos presentes percebeu as suas lágrimas, excepto Alcínoo, que estava sentado perto dele e ouvia os soluços e os suspiros que ele lançava. O rei, portanto, levantou-se de imediato e disse:
— Alcaides e conselheiros dos feácios, mandai Demódoco cessar o seu canto, pois há aqui presentes que não parecem gostar dele. Desde o momento em que acabámos o jantar e Demódoco começou a cantar, o nosso hóspede não tem feito senão gemer e lamentar-se. Está evidentemente em grande aflição; por isso, mandai o aedo parar, para que todos possamos gozar a festa, hóspedes e anfitriões por igual. Será muito mais conforme o que deve ser, pois todas estas festas, com a escolta e os presentes que estamos a fazer com tão boa vontade, são inteiramente em sua honra, e qualquer um com um mínimo de sentimento justo sabe que deve tratar um hóspede e um suplicante como se fosse seu próprio irmão.
— Portanto, senhor, da vossa parte, não façais mais nenhuma dissimulação nem reserva acerca do assunto que vou interrogar-vos; será mais polido da vossa parte dar-me uma resposta clara; dizei-me o nome com que vosso pai e vossa mãe lá longe vos chamavam, e pelo qual éreis conhecido entre os vossos vizinhos e concidadãos. Não há ninguém, nem rico nem pobre, que seja absolutamente desprovido de qualquer nome, pois os pais e as mães dão nomes às crianças logo que nascem. Dizei-me também a vossa pátria, nação e cidade, para que os nossos navios saibam para onde dirigir-se e vos levem até lá. Pois os feácios não têm pilotos; os seus navios não têm lemes como os de outras nações, mas as próprias embarcações compreendem o que é que estamos a pensar e desejamos; conhecem todas as cidades e países de todo o mundo, e podem atravessar o mar tão bem, mesmo quando está coberto de bruma e nuvens, de modo que não há perigo de naufrágio ou de qualquer mal. Ainda assim, lembro-me de ter ouvido meu pai say que Neptuno estava irritado connosco por sermos demasiado condescendentes na questão de dar escolta às pessoas. Disse que, um dia destes, ele haveria de destroçar um navio nosso, quando regressasse de ter escoltado alguém, e de soterrar a nossa cidade sob uma alta montanha. Era isto o que meu pai costumava dizer, mas se o deus levará a cabo a sua ameaça ou não, é coisa que ele decidirá por si.
— E agora, dizei-me e dizei-me a verdade. Por onde haveis andado errante, e em que países haveis viajado? Contai-nos dos próprios povos e das suas cidades — quais eram hostis, selvagens e incivilizados, e quais, pelo contrário, hospitaleiros e humanos. Contai-nos também por que sois feito tão infeliz ao ouvir falar do regresso dos Dânaos Argivos de Troia. Os deuses dispuseram tudo isto, e enviaram-lhes as suas desgraças para que as gerações futuras tivessem algo para cantar. Perdestes algum bravo parente da vossa esposa quando estáveis diante de Troia? um genro ou sogro — que são os parentesi mais próximos que um homem tem, fora da sua própria carne e sangue? ou foi algum bravo e benévolo companheiro — pois um bom amigo é tão caro a um homem como o seu próprio irmão?
LIVRO IX
ULISSES REVELA-SE E COMEÇA A SUA HISTÓRIA — OS CICONES, OS LOTÓFAGOS E OS CICLOPES.
Ulisses respondeu:
— Rei Alcínoo, é coisa boa ouvir um aedo com voz tão divina como a deste homem. Nada há melhor nem mais deleitoso do que quando um povo inteiro se alegra junto, com os hóspedes sentados em ordem a ouvir, enquanto a mesa está carregada de pão e carnes, e o copeiro tira o vinho e enche o copo para cada homem. Este é, na verdade, o mais belo espectáculo que um homem pode ver. Agora, porém, já que estais inclinado a perguntar pela história das minhas dores e a reavivar as minhas próprias tristes memórias a respeito delas, não sei como começar, nem tão-pouco como continuar e concluir o meu relato, pois a mão do céu pesou duramente sobre mim.
“Primeiramente, pois, vou dizer-vos o meu nome, para que também vós o conheçais, e para que um dia, se eu sobreviver a este tempo de dores, possais ser meus hóspedes, embora eu viva tão longe de todos vós. Sou Ulisses, filho de Laertes, renomado entre os mortais por toda a espécie de astúcia, de modo que a minha fama ascende até ao céu. Habito em Ítaca, onde há uma alta montanha chamada Nerito, coberta de florestas; e não longe dela há um grupo de ilhas muito próximas umas das outras — Dulíquio, Same e a ilha arborizada de Zacinto. Ítaca jaz achatada no horizonte, a mais alta de todas no mar, voltada para o poente, enquanto as outras se estendem para lá dela, voltadas para o nascente. É uma ilha agreste, mas gera homens valentes, e os meus olhos não conhecem nenhuma que prefiram mais contemplar. A deusa Calipso manteve-me com ela na sua gruta, e queria que eu a desposasse, como também queria a astuta deusa eáia Circe; mas nenhuma delas logrou persuadir-me, pois não há nada mais caro a um homem do que a sua própria pátria e os seus pais, e por mais esplêndido que seja o lar que possua em terra estranha, se está longe do pai ou da mãe, ele não lhe dá valor.
Agora, porém, vou contar-vos as muitas aventuras arriscadas que, por vontade de Jove, enfrentei no meu regresso de Troia.
“Quando de lá me fiz ao mar, o vento levou-me primeiro a Ísmaro, que é a cidade dos Cícones. Ali saqueei a cidade e passei o povo ao fio da espada. Tomámos as suas mulheres e também muitos despojos, que dividimos equitativamente entre nós, para que ninguém tivesse razão de queixa. Disse então que o melhor seria partirmos de imediato, mas os meus homens, mui insensatamente, não me obedeceram, e ficaram ali a beber muito vinho e a abater grande número de ovelhas e bois à beira-mar. Entretanto, os Cícones clamaram por socorro aos outros Cícones que viviam pelo interior. Estes eram mais numerosos e mais fortes, e tinham maior arte na guerra, pois podiam combater, quer de carros, quer a pé, conforme a ocasião o exigisse; pela manhã, pois, acorreram tão numerosos como as folhas e as flores no verão, e a mão do céu voltou-se contra nós, de modo que fomos duramente apertados. Eles ordenaram a batalha junto aos navios, e as hostes apontaram as lanças de bronze umas contra as outras. Enquanto o dia crescia e ainda era manhã, sustentámo-nos contra eles, embora fossem mais numerosos do que nós; mas quando o sol declinou, à hora em que os homens desatrelam os bois, os Cícones levaram-nos a melhor, e perdemos seis homens de cada navio que tínhamos; assim nos afastámos com os que restavam.
“Dali seguimos navegando com tristeza no coração, mas contentes por havermos escapado à morte, ainda que tivéssemos perdido os nossos companheiros, e não partimos sem antes ter invocado por três vezes cada um dos pobres companheiros que pereceram às mãos dos Cícones. Então Jove levantou contra nós o vento do Norte, até soprar em furacão, de modo que a terra e o céu se esconderam em espessas nuvens, e a noite brotou dos céus. Deixámos os navios correrem diante da rajada, mas a força do vento rasgou as nossas velas em farrapos, pelo que as recolhemos com receio do naufrágio, e remámos com toda a força para a terra. Ali permanecemos dois dias e duas noites, sofrendo igualmente de cansaço e de angústia do espírito, mas na manhã do terceiro dia içámos de novo os mastros, fizemos vela e tomámos os nossos lugares, deixando que o vento e o timoneiro dirigissem o nosso navio. Eu teria chegado a casa nessa altura, são e salvo, se o vento do Norte e as correntes não se tivessem voltado contra mim, ao dobrar o Cabo Maleia, e me não tivessem desviado do meu rumo, perto da ilha de Citera.
“Fui dali empurrado por ventos contrários durante nove dias pelo mar, mas ao décimo dia alcançámos a terra dos Lotófagos, que vivem de um alimento que vem de uma espécie de flor. Ali desembarcámos para tomar água fresca, e as nossas tripulações fizeram a refeição do meio-dia na praia, junto aos navios. Quando comeram e beberam, enviei dois dos meus companheiros para ver que género de homens seriam os habitantes do lugar, e tinham consigo um terceiro homem. Partiram logo e foram por entre os Lotófagos, que não lhes fizeram mal algum, mas lhes deram a comer do loto, que era tão delicioso que quantos dele comeram deixaram de se preocupar com o regresso a casa, e nem sequer quiseram voltar para contar o que lhes acontecera, mas ficaram a mastigar loto com os Lotófagos, sem mais pensar no regresso; contudo, embora eles chorassem amargamente, eu obriguei-os a voltar para os navios e fi-los amarrar sob os bancos. Então ordenei ao resto que embarcasse de imediato, para que nenhum deles provasse do loto e deixasse de desejar o regresso; tomaram então os seus lugares e fustigaram o mar acinzentado com os remos.
“Daqui seguimos navegando, sempre em grande aperto, até chegarmos à terra dos Cíclopes, gente sem lei e desumana. Ora, os Cíclopes não plantam nem lavram, mas confiam na providência, e vivem do trigo, da cevada e das uvas que crescem braviamente sem qualquer amanho, e as suas uvas bravas lhes dão vinho, segundo o sol e a chuva as criem. Não têm leis nem assembleias do povo, mas vivem em grutas no cume de altas montanhas; cada um é senhor e mestre na sua família, e não tomam conhecimento dos vizinhos.
“Ora, defronte do seu porto jaz uma ilha arborizada e fértil, não muito chegada à terra dos Cíclopes, mas ainda assim não longe. É povoada por cabras monteses, que ali procriam em grande número e nunca são perturbadas por pé humano; pois os caçadores — que, por norma, sofrem tantos trabalhos na floresta ou entre os precipícios das montanhas — não vão lá, nem tampouco é alguma vez lavrada ou pastoreada, mas jaz agreste, inculta e sem sementeira de ano para ano, e não tem ser vivente algum, a não ser somente cabras. É que os Cíclopes não têm navios, nem carpinteiros navais que lhes possam construir navios; não podem, portanto, ir de cidade em cidade, nem navegar pelo mar até às terras uns dos outros, como fazem os povos que têm navios; se os tivessem, teriam colonizado a ilha, pois é muitíssimo boa, e daria tudo a seu tempo. Há pradarias que em alguns lugares descem até à beira-mar, bem regadas e cheias de erva viçosa; as uvas lá medrariam excelentemente; há terra plana para arar, e daria sempre abundantemente na altura da colheita, pois o solo é profundo. Há um bom porto onde não são precisos cabos, nem âncoras, nem é necessário amarrar um navio; basta encalhar a embarcação e ali ficar até que o vento se torne favorável para voltar a sair para o mar. À entrada do porto há uma nascente de água límpida que brota de uma gruta, e em redor dela crescem amieiros.
“Aqui entrámos, mas tão cerrada era a noite que algum deus nos deve ter conduzido, pois nada havia que se pudesse ver. Uma espessa neblina pendurava-se em redor dos nossos navios; a lua estava escondida por trás de uma massa de nuvens, de modo que ninguém poderia ter visto a ilha, por mais que a procurasse, nem havia rebentação que nos avisasse de que estávamos perto da costa, antes de nos encontrarmos em terra firme; quando, porém, encalhámos os navios, recolhemos as velas, desembarcámos e acampámos na praia até ao amanhecer.
“Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, admirámos a ilha e percorremo-la de lés a lés, enquanto as ninfas, filhas de Jove, espantavam as cabras monteses, para que pudéssemos obter carne para o nosso jantar. Nisto fomos buscar aos navios as nossas lanças, arcos e flechas, e, dividindo-nos em três bandos, começámos a abater as cabras. O céu nos concedeu excelente caça; eu tinha doze navios comigo, e cada navio apanhou nove cabras, ao passo que o meu próprio navio apanhou dez; assim, durante o dia inteiro, até ao pôr-do-sol, comemos e bebemos à farta, e ainda tínhamos vinho de sobra, pois cada um de nós trouxera muitas jarras cheias quando saqueámos a cidade dos Cícones, e este ainda não tinha acabado. Enquanto festejávamos, volvíamos os olhos para a terra dos Cíclopes, que ficava ali perto, e víamos o fumo das suas queimadas de restolho. Quase nos parecia ouvir as suas vozes e o balido das suas ovelhas e cabras, mas, quando o sol se pôs e a escuridão caiu, acampámos na praia, e na manhã seguinte convoquei um conselho.
“‘Ficai aqui, meus bravos companheiros,’ disse eu, ‘todos vós, enquanto eu vou com o meu navio e exploro por mim mesmo este povo; quero ver se são selvagens incivilizados, ou uma raça hospitaleira e humana.’
“Embarquei, ordenando aos meus homens que fizessem o mesmo e que soltassem os cabos; tomaram então os seus lugares e fustigaram o mar acinzentado com os remos. Quando chegámos à terra, que não ficava longe, ali, na face de um rochedo junto ao mar, vimos uma grande gruta coberta de loureiros. Era um aprisco para muitíssimas ovelhas e cabras, e por fora havia um amplo curral, com um alto muro em redor, feito de pedras encastradas no chão e de árvores, tanto pinheiros como carvalhos. Esta era a morada de um monstro enorme, que então se encontrava fora de casa, a pastorear os seus rebanhos. Não queria ter nada a ver com outras pessoas, mas levava a vida de um fora-da-lei. Era uma criatura horrenda, que não se parecia de todo com um ser humano, antes assemelhava-se a algum penhasco que se alteia, destacado, contra o céu, no cume de uma alta montanha.
“Mandei os meus homens puxar o navio para terra e ficarem onde estavam, à excepção dos doze melhores entre eles, que haveriam de ir comigo. Levei também um odre de vinho negro e doce que me fora dado por Marão, filho de Euantes, que era sacerdote de Apolo, deus protector de Ísmaro, e vivia dentro dos recintos arborizados do templo. Quando saqueávamos a cidade, respeitámo-lo e poupámos-lhe a vida, assim como à sua mulher e filho; por isso ele me fez presentes de grande valor — sete talentos de ouro fino, e uma taça de prata, com doze jarras de vinho doce, não misturado e do mais exquisito sabor. Nenhum homem ou rapariga da casa sabia disso, mas somente ele, a sua mulher e uma governanta: quando ele o bebia, misturava vinte partes de água com uma de vinho, e ainda assim o aroma da tigela de mistura era tão exquisito que era impossível abster-se de beber. Enchi um grande odre com este vinho, e levei comigo uma bolsa cheia de provisões, pois o meu coração pressentia que poderia ter de lidar com algum selvagem de grande força, que não respeitaria o direito nem a lei.
“Logo alcançámos a sua gruta, mas ele estava fora a pastorear, pelo que entrámos e inspeccionámos tudo o que nos foi possível ver. As suas estantes de queijos estavam carregadas de queijos, e ele tinha mais borregos e cabritos do que os seus currais podiam conter. Eram guardados em rebanhos separados; primeiro estavam os borregos, depois os mais velhos dos cordeiros mais novos e por fim os muito novos, todos separados uns dos outros; quanto ao seu lacticínio, todos os vasos, tigelas e baldes de leite em que ele ordenhava, nadavam em soro. Quando viram tudo isto, os meus homens pediram-me que os deixasse primeiro roubar alguns queijos, e fugir com eles para o navio; depois voltariam, fariam descer os cordeiros e cabritos, levá-los-iam a bordo e partiriam com eles. Teria sido, de facto, melhor se o tivéssemos feito, mas eu não quis ouvi-los, pois queria ver o próprio dono, na esperança de que ele me pudesse dar um presente. Quando, porém, o vimos, os meus pobres homens acharam-no difícil de lidar.
“Acendemos uma fogueira, oferecemos em sacrifício alguns dos queijos, comemos outros deles, e depois sentámo-nos à espera até que o Cíclope voltasse com as suas ovelhas. Quando ele chegou, trouxe consigo uma enorme carga de lenha seca para acender o lume do seu jantar, e atirou-a com tal ruído para o chão da sua gruta que nos escondemos, de medo, no fundo extremo da caverna. Entretanto, ele conduziu todas as ovelhas para dentro, assim como as cabras que ia ordenhar, deixando os machos, tanto carneiros como bodes, fora, nos currais. Depois revolveu uma enorme pedra até à boca da gruta — tão enorme que vinte e dois fortes carros de quatro rodas não bastariam para a arrastar do seu lugar, contra a entrada. Quando o fez, sentou-se e ordenhou as suas ovelhas e cabras, todas pela ordem devida, e depois deu a cada uma o seu filho. Coalhou metade do leite e reservou-o em coadores de vime, mas a outra metade verteu em tigelas para bebê-lo como seu jantar. Quando acabou todo o seu labor, acendeu o lume, e então avistou-nos, pelo que disse:
“‘Estrangeiros, quem sois? Donde navegais? Sois mercadores, ou navegais pelo mar como salteadores, com as mãos contra todo o homem, e a mão de todo o homem contra vós?’
“Ficámos apavorados com a sua voz retumbante e a sua forma monstruosa, mas consegui dizer: ‘Somos Aqueus a caminho do nosso lar, vindos de Troia, mas, pela vontade de Jove e pela força das intempéries, fomos desviados longe do nosso rumo. Somos o povo de Agamémnon, filho de Atreu, que granjeou renome infinito por todo o mundo, ao saquear uma tão grande cidade e matar tanta gente. Por isso humildemente vos rogamos que nos mostreis alguma hospitalidade, e de outro modo nos façais tais presentes como visitantes possam razoavelmente esperar. Que Vossa Excelência tema a ira do céu, pois somos vossos suplicantes, e Jove toma sob a sua protecção todos os viajantes respeitáveis, porque é o vingador de todos os suplicantes e estrangeiros em aflição.’
“A isto ele me deu uma resposta desumana: ‘Estrangeiro,’ disse ele, ‘és um tolo, ou então nada sabes deste país. Falar-me, de facto, em temer os deuses ou em evitar a sua ira? Nós, Cíclopes, não nos importamos com Jove nem com nenhum dos vossos benditos deuses, pois somos incomensuravelmente mais fortes do que eles. Não pouparei nem a ti nem aos teus companheiros por qualquer respeito por Jove, a menos que esteja com vontade de o fazer. E agora diz-me onde ancoraste o teu navio quando chegaste a terra. Foi ao redor do cabo, ou jaz directamente em frente da terra?’
“Disse isto para me fazer falar, mas eu fui astuto demais para ser apanhado dessa maneira, pelo que respondi com uma mentira: ‘Neptuno,’ disse eu, ‘empurrou o meu navio para os rochedos no extremo do vosso país, e naufragou-o. Fomos arremessados contra eles a partir do mar alto, mas eu e os que estão comigo escapámos das fauces da morte.’
“O cruel celerado não me concedeu uma palavra de resposta, mas com um repentino agarrão, apanhou dois dos meus homens de uma vez e atirou-os ao chão como se fossem cachorrinhos. Os seus miolos espalmaram-se pelo chão, e a terra ficou húmida com o seu sangue. Depois despedaçou-os membro a membro e devorou-os. Trincou-os como um leão no deserto, carne, ossos, tutano e entranhas, sem deixar nada por comer. Quanto a nós, chorávamos e erguíamos as mãos ao céu, ao ver tão horrendo espectáculo, pois não sabíamos que mais fazer; mas quando o Cíclope encheu o seu enorme ventre, e la.vou a sua refeição de carne humana com um trago de leite puro, estendeu-se em todo o seu comprimento no chão, entre as suas ovelhas, e adormeceu. A princípio, eu fui tentado a agarrar a minha espada, desembainhá-la e cravá-la nas suas entranhas, mas reflecti que, se o fizesse, estaríamos todos certamente perdidos, pois nunca conseguiríamos deslocar a pedra que o monstro colocara diante da porta. Por isso ficámos a soluçar e a suspirar onde estávamos, até que a manhã chegou.
“Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, ele acendeu de novo o lume, ordenhou as suas cabras e ovelhas, todas correctamente, e depois deu a cada uma o seu filho; logo que acabou todo o seu trabalho, agarrou mais dois dos meus homens e começou a comê-los como seu pequeno-almoço. Em seguida, com a maior facilidade, revolveu a pedra para longe da entrada e fez sair as suas ovelhas, mas tornou a colocá-la no seu lugar — tão facilmente como se estivesse apenas a colocar a tampa de uma aljava cheia de flechas. Logo que o fez, gritou e bradou ‘Shoo, shoo’ atrás das suas ovelhas para as conduzir para a montanha; fiquei, pois, entregue a mim mesmo para tramar alguma maneira de me vingar e de me cobrir de glória.
“No final, considerei que o melhor plano seria fazer o seguinte: o Cíclope tinha um grande tronco que jazia junto a um dos apriscos; era de madeira de oliveira verde, e ele cortara-o intendingdo usá-lo como bordão assim que estivesse seco. Era tão enorme que só o podíamos comparar ao mastro de um navio mercante de vinte remos, de grande porte, e capaz de se aventurar no mar aberto. Aproximei-me deste tronco e cortei-lhe cerca de seis palmos; depois entreguei este pedaço aos homens e disse-lhes que o afagiam uniformemente numa das pontas, o que eles fizeram, e por fim eu próprio o aguçei, endurecendo a extremidade no fogo. Quando o fiz, escondi-o sob o esterco, que estava espalhado por toda a gruta, e disse aos homens que tirassem à sorte quais deles haveriam de se aventurar, comigo, para o erguer e furar o olho do monstro enquanto ele dormia. A sorte caiu exactamente nos quatro que eu próprio teria escolhido, e eu fazia o quinto. Ao entardecer, o celerado voltou de pastorear, e conduziu os seus rebanhos para dentro da gruta — desta vez levando-os todos para dentro, e não deixando nenhum nos currais; suponho que algum capricho lhe teria tomado, ou um deus lho teria sugerido. Logo que ele tornou a colocar a pedra no seu lugar contra a porta, sentou-se, ordenhou as suas ovelhas e as suas cabras todas correctamente, e depois deu a cada uma o seu filho; quando acabou todo este trabalho, agarrou mais dois dos meus homens e fez deles o seu jantar. Fui então ao seu encontro com uma taça de madeira de hera, cheia de vinho negro:
“‘Olha aqui, Cíclope,’ disse eu, ‘tens comido muita carne humana, por isso aceita isto e bebe um pouco de vinho, para que vejas que género de bebida tínhamos a bordo do meu navio. Trouxe-to como libação, na esperança de que tivesses compaixão de mim e me ajudasses no meu caminho de regresso a casa, mas tudo o que fazes é continuar a enfurecer-te e a bramir da forma mais intolerável. Devias ter vergonha na cara; como podes esperar que as pessoas te voltem a visitar, se as tratas deste modo?’
«Ele então tomou a taça e bebeu. Ficou tão deliciado com o sabor do vinho que me pediu outra taça cheia. «Tende a bondade», disse ele, «de me dar mais um pouco, e dizei-me logo o vosso nome. Quero fazer-vos uma oferta de que haveis de gostar. Nós temos vinho até neste país, pois a nossa terra dá uvas e o sol amadurece-as, mas este bebe-se como Néctar e Ambrosia tudo num só.
»Dei-lhe então mais; três vezes lhe enchi a taça, e três vezes ele a esvaziou sem pensar nem medir; depois, quando vi que o vinho lhe subira à cabeça, disse-lhe com a maior plausibilidade que me foi possível: «Ciclope, perguntais-me o nome e eu vo-lo direi; dai-me, portanto, a oferta que me prometestes; o meu nome é Ninguém; é assim que meu pai e minha mãe e os meus companheiros sempre me chamaram.»
»Mas o desalmado cruel disse: «Então comerei todos os companheiros de Ninguém antes de Ninguém em pessoa, e guardarei Ninguém para o fim. Esta é a oferta que lhe faço.»
»Ao falar assim cambaleou, e caiu esparramado de costas no chão. O pescoço enorme pendeu pesadamente para trás e um sono profundo apoderou-se dele. Pouco depois enjoou, e vomitou todo o vinho e os nacos de carne humana com que se tinha regalado, pois estava muito bêbado. Então cravei a viga de lenho bem fundo nas brasas para a aquecer, e animei os meus homens para que nenhum perdesse o ânimo. Quando a madeira, embora verde, estava prestes a arder, tirei-a do fogo a brilhar de calor, e os meus homens reuniram-se à minha volta, pois o céu lhes enchera o peito de coragem. Metemos a ponta aguçada da viga no olho do monstro, e, fazendo força com todo o meu peso, continuei a rodá-la de um lado para o outro, como quem faz um furo numa tábua de navio com um verrumão, que dois homens com uma roldana e uma correia podem manter a girar o tempo que quiserem. Assim mesmo furámos com a viga em brasa o olho dele, até o sangue a ferver borbulhar por cima enquanto a trabalhávamos em redondo, de modo que o vapor do olho em chamas lhe escaldou as pálpebras e as sobrancelhas, e as raízes do olho estalavam no fogo. Tal como um ferreiro mergulha um machado ou uma machadinha em água fria para os temperar — pois é isso que dá força ao ferro —, e ele produz um grande silvo ao fazê-lo, assim mesmo silvou o olho do Ciclope à volta da viga de oliveira, e os seus bramidos horrendos fizeram de novo a caverna retinir. Nós fugimos assustados, mas ele arrancou a viga toda manchada de sangue do olho, e atirou-a de si num frenesi de raiva e dor, gritando ao mesmo tempo para os outros Ciclopes que viviam nos penhascosos cabeços perto dele; por isso acorreram de toda a parte para a sua caverna quando o ouviram gritar, e perguntaram o que se passava com ele.
««Que tens tu, Polifemo?», disseram eles, «que barulho é esse que fazes, quebrando o silêncio da noite, e não nos deixando dormir? Por certo nenhum homem te está a levar as ovelhas? Por certo nenhum homem está a tentar matar-te, seja por astúcia, seja por força?»
»Mas Polifemo gritou-lhes de dentro da caverna: «Ninguém me está a matar por astúcia; nenhum homem me mata por força.»
««Então», disseram eles, «se nenhum homem te ataca, hás-de estar doente; quando Jove faz adoecer as pessoas, não há remédio, e o melhor é rezar ao teu pai Neptuno.»
»Foram-se depois, e eu ri por dentro do êxito do meu engenhoso estratagema, mas o Ciclope, gemendo e numa agonia de dor, tateou com as mãos até encontrar a pedra e tirá-la da porta; sentou-se depois no limiar e estendeu as mãos diante dele para apanhar quem quer que saísse com as ovelhas, pois pensava que eu podia ser tão parvo que o tentasse.
»Quanto a mim, continuei a matutar em como poderia melhor salvar a minha vida e a dos meus companheiros; maquiavelicei e maquiavelicei, como quem sabe que a sua vida depende disso, pois o perigo era muito grande. Acabei por julgar que este plano seria o melhor; os carneiros eram bem crescidos e traziam um velo negro e pesado, por isso atei-os silenciosamente aos três, com alguns dos vimeiros em que o monstro maldito costumava dormir. Havia de ficar um homem sob o carneiro do meio, e os dois de cada lado haviam de o cobrir, de modo que havia três carneiros para cada homem. Quanto a mim, havia um carneiro mais belo do que todos os outros, por isso agarrei-me a ele pelo lombo, escondi-me na espessa lã debaixo do seu ventre, e fiquei pendurado com paciência na sua pele, virado para cima, mantendo uma firme pega nela o tempo todo.
»Assim, pois, esperámos com grande angústia de espírito até a manhã chegar, mas quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, os carneiros apressaram-se a sair para pastar, enquanto as ovelhas ficaram balando à volta dos apriscos à espera de ser ordenhadas, pois as tetas estavam cheias a rebentar; mas o mestre delas, apesar de toda a sua dor, apalpou o lombo de todas as ovelhas enquanto estavam de pé, sem ter a esperteza de descobrir que os homens estavam debaixo dos seus ventres. Como o carneiro ia saindo, o último de todos, carregado com a sua pele e com o peso do meu astuto eu, Polifemo segurou-o e disse:
««Meu bom carneiro, que é que faz com que sejas o último a deixar a minha caverna esta manhã? Não é teu costume deixar as ovelhas irem à tua frente, mas guiar o rebanho a correr, quer para o prado florido, quer para a fonte murmurante, e ser o primeiro a voltar para casa à noite; mas agora vais por último de todos. Será porque sabes que o teu mestre perdeu o olho, e tens pena porque esse Ninguém maldito e a sua tripulação horrenda o derrubou na bebida e o cegou? Mas ainda hei-de ter a vida dele. Se pudesses entender e falar, dir-me-ias onde o desgraçado se esconde, e eu esmagá-lo-ia a cabeça no chão até que ela se espalhasse por toda a caverna. Teria assim alguma satisfação pelo mal que este Ninguém inútil me fez.»
»Ao falar assim, empurrou o carneiro para fora, mas quando estávamos um pouco afastados da caverna e dos currais, saí primeiro de debaixo do ventre do carneiro, e depois libertei os meus companheiros; quanto às ovelhas, que estavam muito gordas, encaminhando-as constantemente na direcção certa, conseguimos levá-las até ao navio. A tripulação rejubilou muito ao ver aqueles de nós que tinham escapado à morte, mas chorou pelos outros que o Ciclope matara. Contudo, fiz-lhes sinais, acenando com a cabeça e franzindo o sobrolho, para que se calassem no seu choro, e mandei-os meter todas as ovelhas a bordo de uma vez e fazer-se ao mar; assim, embarcaram, tomaram os seus lugares, e fustigaram o mar cinzento com os remos. Então, quando me afastei até onde a minha voz podia alcançar, comecei a troçar do Ciclope.
««Ciclope», disse eu, «devias ter medido melhor o teu homem antes de comeres os companheiros dele na tua caverna. Desgraçado, comes os teus visitantes na tua própria casa? Podias saber ter sido que o teu pecado te havia de denunciar, e agora Jove e os outros deuses te castigaram.»
»Ele ficou cada vez mais furioso ao ouvir-me, por isso arrancou o cimo de uma alta montanha e atirou-o mesmo diante do meu navio, de modo que ficou a pouco de atingir a ponta do leme. O mar estremeceu quando a rocha caiu nele, e a onda que ela levantou empurrou-nos de volta para terra firme, e levou-nos para a costa. Mas eu agarrei num longo pau e mantive o navio afastado, fazendo sinais aos meus hommes, acenando com a cabeça, para que remassem pelas suas vidas, ao que eles se lançaram com vontade. Quando nos afastámos para o dobro da distância de antes, quis voltar a troçar do Ciclope, mas os homens suplicaram-me e pediram-me que me calasse.
««Não sejas», exclamaram eles, «tão louco para provocares mais esta criatura selvagem; ele já nos atirou uma rocha que nos empurrou outra vez para terra firme, e tínhamos a certeza de que tinha sido a nossa morte; se ele tivesse então ouvido mais um som de vozes, teria esmagado as nossas cabeças e as madeiras do nosso navio numa papa com as rochas rugosas que nos haveria atirado, pois ele pode atirá-las a grande distância.»
»Mas eu não quis dar-lhes ouvidos, e gritei-lhe na minha fúria: «Ciclope, se alguém te perguntar quem foi que te arrancou o olho e te estragou a formosura, di que foi o valente guerreiro Ulisses, filho de Laertes, que vive em Ítaca.»
»A isto ele gemeu, e exclamou: «Ai de mim, ai de mim, então a antiga profecia a meu respeito está-se a cumprir. Havia aqui um profeta, noutros tempos, um homem valente e de grande estatura, Télemo filho de Eurimo, que era um excelente vidente e fazia todos os augúrios para os Ciclopes até envelhecer; ele disse-me que tudo isto me aconteceria um dia, e disse que eu perderia a vista pela mão de Ulisses. Tenho andado sempre à espera de alguém de presença imponente e força sobre-humana, quando afinal ele não passa de um frangalho insignificante, que conseguiu cegar-me o olho aproveitando-se de mim na minha bebedeira; vem cá, então, Ulisses, para que eu te faça prendas que mostrem a minha hospitalidade, e peça a Neptuno que te ajude no teu caminho — porque Neptuno e eu somos pai e filho. Ele, se quiser, me curará, o que mais ninguém, nem deus nem homem, pode fazer.»
»Então eu disse: «Quem me dera poder ter a certeza de te matar sem mais e mandar-te para a casa de Hades, como tenho de que será preciso mais do que Neptuno para curar esse olho teu.»
»A isto ele ergueu as mãos para o firmamento do céu e rezou, dizendo: «Ouve-me, grande Neptuno; se sou de facto teu verdadeiro filho gerado por ti, concede que Ulisses nunca chegue vivo a casa; ou, se ele há-de chegar por fim aos seus amigos, que o faça tarde e em lastimosa condição, depois de perder todos os seus homens [que chegue a casa no navio de outro homem e encontre desgostos na sua casa.»]
»Assim rezou ele, e Neptuno ouviu a sua oração. Depois apanhou uma rocha muito maior do que a primeira, brandiu-a bem alto e atirou-a com força prodigiosa. Caiu mesmo a curta distância do navio, mas a pouco de atingir a ponta do leme. O mar estremeceu quando a rocha caiu nele, e a onda que levantou empurrou-nos adiante no nosso caminho para a costa da ilha.
»Quando por fim chegámos à ilha onde tínhamos deixado o resto dos nossos navios, encontrámos os nossos companheiros a lamentar-se por nós e a esperar ansiosamente pelo nosso regresso. Encalhámos o nosso vaso nas areias e saltámos dele para a margem; também pusemos em terra as ovelhas do Ciclope, e dividimo-las equitativamente entre nós, para que ninguém tivesse razão de queixa. Quanto ao carneiro, os meus companheiros concordaram que eu o teria como parte extra; por isso o sacrifiquei na praia, e queimei os seus ossos da coxa para Jove, que é o senhor de tudo. Mas ele não atendeu o meu sacrifício, e só pensou em como poderia destruir tanto os meus navios como os meus companheiros.
»Assim durante todo o longo dia até o sol se pôr regalámo-nos à farta com carne e bebida, mas quando o sol se pôs e a escuridão chegou, acampámos na praia. Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, mandei os meus homens embarcar e soltar as amarras. Então tomaram os seus lugares e fustigaram o mar cinzento com os remos; assim navegámos com tristeza no coração, mas contentes por termos escapado à morte, embora tivéssemos perdido os nossos companheiros.
LIVRO X
ÉOLO, OS LASTRÍGONES, CIRCE.
»Dali seguimos para a ilha Eólia, onde vive Éolo filho de Hipotas, caro aos deuses imortais. É uma ilha que flutua (por assim dizer) sobre o mar, cingida por uma muralha de ferro que a rodeia. Ora, Éolo tem seis filhas e seis filhos robustos, por isso fez com que os filhos casassem com as filhas, e todos vivem com o seu querido pai e mãe, regalando-se e gozando de toda a espécie concebível de luxo. O dia inteiro a atmosfera da casa está carregada com o cheiro de assados, até gemer, quintal e tudo; mas à noite dormem nas suas camas bem feitas, cada um com a sua mulher entre os cobertores. Este era o povo entre o qual tínhamos agora chegado.
»Éolo recebeu-me durante um mês inteiro, fazendo-me perguntas o tempo todo sobre Tróia, a frota argiva e o regresso dos Aqueus. Contei-lhe exactamente como tudo tinha acontecido, e quando lhe disse que tinha de ir e lhe pedi que me ajudasse no meu caminho, ele não fez nenhuma objecção, mas pôs-se de imediato a tratar disso. Além disso, tirou-me a pele de um boi de primeira para guardar as vias dos ventos rugidores, que ele encerrou na pele como num saco — pois Jove fizera-o capitão dos ventos, e ele podia agitá-los ou acalmá-los cada um conforme o seu próprio querer. Pôs o saco no navio e amarrou a boca tão apertada com um fio de prata que nem um sopro de vento lateral podia soprar de parte nenhuma. O vento de Oeste, que nos era favorável, deixou-o soprar sozinho à sua vontade; mas de nada valeu, pois fomos perdidos por causa da nossa própria loucura.
»Nove dias e nove noites navegámos, e no décimo dia a nossa terra nativa apareceu no horizonte. Aproximámo-nos tanto que já podíamos ver as fogueiras das palhadas a arder, e eu, estando então morto de cansaço, caí num sono leve, pois nunca tinha largado o leme das minhas próprias mãos, para que pudéssemos chegar a casa mais depressa. A isto os homens começaram a conversar entre si, e disseram que eu trazia ouro e prata no saco que este me dera. «Valha-me Deus», dizia um para o seu vizinho, «como este homem é honrado e faz amigos em qualquer cidade ou país para onde vá. Vede que belas prendas leva para casa de Tróia, enquanto nós, que temos viajado tão longe como ele, voltamos com as mãos tão vazias como saímos — e agora Éolo deu-lhe ainda muito mais. Depressa — vejamos o que é tudo isto, e quanto ouro e prata há no saco que ele lhe deu.»
»Assim falaram, e os maus conselhos prevaleceram. Desamarraram o saco, e então o vento saiu uivando e levantou uma tempestade que nos levou, a chorar, para o mar e para longe da nossa terra. Então acordei, e não sabia se me havia de atirar ao mar ou se havia de continuar a viver e fazer o melhor que pudesse; mas aguentei, tapei-me, e deitei-me no navio, enquanto os homens lamentavam amargamente, pois os ventos ferozes levavam a nossa frota de volta para a ilha Eólia.
»Quando lá chegámos, fomos a terra buscar água, e jantámos junto dos navios. Logo a seguir ao jantar, levei um arauto e um dos meus homens e fui direito a casa de Éolo, onde o achei a banquetar-se com a mulher e a família; por isso sentámo-nos como suplicantes no limiar. Ficaram espantados ao ver-nos e disseram: «Ulisses, que te traz aqui? Que deus te tem maltratado? Fizemos grandes esforços para te ajudar no caminho de regresso a Ítaca, ou para onde quer que fosse que querias ir.»
»Assim falaram eles, mas eu respondi tristemente: «Os meus homens desbarataram-me; eles, e o sono cruel, perderam-me. Meus amigos, repara-me este estrago, pois podeis, se quiserdes.»
»Falei o mais comovedoramente que pude, mas eles não disseram nada, até que o pai deles respondeu: «O mais vil dos homens, sai imediatamente da ilha; a quem o céu aborrece, em nada o hei-de ajudar. Vai-te, pois chegas aqui como um homem detestado pelo céu.» E com estas palavras mandou-me embora, triste, da sua porta.
»Dali navegámos com tristeza até que os homens ficaram exaustos de um remar longo e infrutífero, pois já não havia vento para os ajudar. Seis dias, noite e dia, labutámos, e no sétimo dia chegámos à fortaleza rochosa de Lamo — Telépilo, a cidade dos Lastrígones, onde o pastor que está a conduzir as suas ovelhas e cabras [para serem ordenhadas] saúda o que está a levar o seu rebanho [para pastar] e este último responde à saudação. Nesse país um homem que pudesse passar sem dormir poderia ganhar o dobro dos salários, um como pastor de gado e outro como ovelheiro, pois trabalham quase da mesma maneira de noite como de dia.
»Quando chegámos ao porto, achámo-lo encaixado em terra sob alcantilados escarpados, com uma entrada estreita entre dois promontórios. Os meus capitães meteram todos os seus navios lá dentro e amarraram-nos bem juntos uns aos outros, pois não havia dentro nem sequer uma brisa de vento, mas era sempre uma calmaria completa. Eu mantive o meu navio de fora e amarrei-o a uma rocha na ponta extrema; depois subi a um alto penhasco para reconhecer, mas não vi sinal nenhum, nem de homem nem de gado, apenas algum fumo a subir do chão. Mandei então dois dos meus companheiros com um assistente para descobrir que género de gente eram os habitantes.
»Os homens, quando chegaram a terra, seguiram uma estrada plana pela qual as pessoas descem a lenha das montanhas para a cidade, até que de repente encontraram uma jovem que tinha saído fora para buscar água, e que era filha de um lastrigão chamado Antífates. Ela ia à fonte Artácia, de onde as pessoas trazem a sua água, e quando os meus homens se aproximaram dela, perguntaram-lhe quem pudesse ser o rei daquele país e sobre que género de gente reinava; ela indicou-lhes então a casa do pai, mas quando lá chegaram acharam que a mulher era uma gigante tão grande como uma montanha, e ficaram horrorizados à vista dela.
»Ela chamou logo o marido, Antífates, do lugar da assembleia, e imediatamente ele se pôs a matar os meus homens. Apanhou um deles e começou a fazer dele o seu jantar ali mesmo, ao que os outros dois correram para os navios tão rápido quanto podiam. Mas Antífates levantou um alarme atrás deles, e milhares de lastrigões robustos surgiram de toda a parte — ogros, e não homens. Atiraram-nos enormes rochas dos alcantilados como se fossem simples pedras, e ouvi o som horrível dos navios a esmagarem-se uns contra os outros, e os gritos de morte dos meus homens, enquanto os lastrigões os arpoavam como peixes e os levavam para casa para os comer. Enquanto assim matavam os meus homens dentro do porto, eu desembainhei a espada, cortei o cabo do meu próprio navio e disse aos meus homens para remarem com todas as forças, se também não quisessem acabar como os restantes; por isso lançaram-se a remar pelas suas vidas, e ficámos bem contentes quando chegámos a mar aberto, fora do alcance das rochas que nos atiravam. Quanto aos outros, nem um sequer ficou.
“Daí seguimos navegando cheios de tristeza, contentes por termos escapado à morte, ainda que tivéssemos perdido os nossos companheiros, e chegámos à ilha Eeia, onde vive Circe — uma grande e astuta deusa, irmã do mago Eetes, pois ambos são filhos do Sol e de Perse, que é filha de Oceano. Conduzimos o nosso navio para um porto seguro sem dizermos palavra, porque algum deus nos guiou até lá, e, uma vez em terra, ficámos ali dois dias e duas noites, exaustos de corpo e de espírito. Quando chegou a manhã do terceiro dia, peguei na minha lança e na minha espada e afastei-me do navio para reconhecimento, a ver se podia descobrir sinais de obra humana ou ouvir o som de vozes. Subindo ao topo de um alto miradouro, avistei a fumo da casa de Circe erguer-se no meio de uma densa floresta de árvores, e, quando o vi, fiquei na dúvida se, tendo visto a fumo, não deveria ir logo descobrir mais; mas, por fim, achei melhor voltar ao navio, dar de comer aos homens e enviar alguns deles em meu lugar.
“Quando já quase chegava ao navio, algum deus se apiedou da minha solidão e me meteu no meio do caminho um belo veado de grandes galhadas. Ele descia do seu pasto na floresta para beber do rio, pois o calor do sol o impelia, e, ao passar, cravei-lhe a lança no meio do lombo; a ponta de bronze atravessou-o de lado a lado, e ele ficou a gemer no pó até que a vida lhe saiu do corpo. Então pisei-o, tirei a lança da ferida e depus a lança; também juntei relva áspera e juncos e torci-os numa corda de cerca de uma braça, bem forte, com a qual lhe atei as quatro patas; feito isto, passei-o ao pescoço e voltei para o navio apoiado na minha lança, pois o veado era grande de mais para eu o poder levar ao ombro, equilibrando-o com uma mão. Quando o atirei diante do navio, chamei os homens e dirigi-me a cada um deles com palavras de ânimo. ‘Olhai aqui, meus amigos’, disse eu, ‘não vamos morrer tão cedo, afinal, e, de qualquer modo, não morreremos de fome enquanto tivermos alguma coisa para comer e beber a bordo.’ A isto eles descobriram as cabeças na praia do mar e admiraram o veado, pois era de facto um esplêndido exemplar. Depois, quando se fartaram de o admirar, lavaram as mãos e começaram a cozê-lo para o jantar.
“Assim, durante todo o longo dia até ao pôr-do-sol, ficámos ali a comer e a beber com fartura, mas, quando o sol se pôs e veio a escuridão, acampámos na praia do mar. Quando apareceu a filha da manhã, a Aurora de rosados dedos, convoquei um conselho e disse: ‘Meus amigos, estamos em grandes dificuldades; escutai-me, pois. Não fazemos a mínima ideia de onde o sol se põe nem de onde nasce, de modo que nem sequer sabemos distinguir o nascente do poente. Não vejo saída; contudo, havemos de tentar encontrar uma. Estamos certamente numa ilha, pois subi esta manhã o mais alto que pude e vi o mar a estender-se em redor até ao horizonte; é plana, mas para o meio vi fumo a erguer-se de uma floresta cerrada de árvores.’
“Ao ouvirem-me, o coração caiu-lhes aos pés, pois lembravam-se de como tinham sido tratados pelo Lestrigão Antífates e pelo selvagem ogro Polifemo. Choraram amargamente no seu desalento, mas de nada servia o choro; então dividi-os em dois grupos e pus um capitão em cada um; dei um grupo a Euríloco, enquanto eu próprio tomei o comando do outro. Em seguida lançámos a sorte num elmo, e a sorte coube a Euríloco; por isso partiu ele com os seus vinte e dois homens, e eles choravam, como também chorávamos nós, os que ficávamos para trás.
“Quando chegaram à casa de Circe, acharam-na construída de pedras talhadas, num sítio que se avistava de longe, no meio da floresta. Havia lobos e leões da montanha a rondar toda à volta — pobres criaturas enfeitiçadas que ela amansara com os seus encantamentos e drogara até à sujeição. Não atacaram os meus homens; antes, abanavam as enormes caudas,-lhes faziam festas e esfregavam contra eles os focinhos com carinho. Como os cães se juntam ao redor do amo quando o vêem chegar do jantar — porque sabem que ele lhes trará alguma coisa —, assim faziam estes lobos e leões de enormes garras aos meus homens, mas os homens ficaram terrivelmente assustados ao verem tão estranhas creatures. Pouco depois alcançaram os portões da casa da deusa, e, ao pararem ali, podiam ouvir Circe, lá dentro, a cantar maravilhosamente enquanto tecia no seu tear, fazendo uma tela tão fina, tão suave e de cores tão deslumbrantes que só uma deusa a poderia tecer. A isto Polites, que eu estimava e em quem confiava mais do que em qualquer outro dos meus homens, disse: ‘Há alguém lá dentro a trabalhar num tear e a cantar maravilhosa e extremamente; o lugar todo ressoa com isso; chamemos-lhe e vejamos se é mulher ou deusa.’
“Chamaram-na, e ela desceu, destrancou a porta e mandou-os entrar. Eles, sem pensar em mal, seguiram-na, todos exceto Euríloco, que suspeitou de alguma cilada e ficou fora. Quando ela os teve dentro de casa, sentou-os em bancos e cadeiras e preparou-lhes uma mistura com queijo, mel, farinha e vinho de Prâmnia, mas droou-a com perniciosos venenos para lhes fazer esquecer a pátria; e, quando eles beberam, transformou-os em porcos com uma pancada da sua varinha e fechou-os nas suas pocilgas. Eram iguais a porcos — cabeça, cerdas e tudo —, e grunhiam exactamente como os porcos; mas os sentidos eram os mesmos de antes, e lembravam-se de tudo.
“Assim ficaram lá encerrados a guinchar, e Circe lhes atirou bolotas e landes de faia, do que os porcos comem; mas Euríloco correu de volta para me contar a triste sorte dos nossos companheiros. Estava tão tomado pelo desalento que, embora tentasse falar, não encontrava palavras para isso; os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e só conseguia soluçar e suspirar, até que por fim lhe arrancámos a história e ele nos contou o que acontecera aos outros.
“‘Fomos’, disse ele, ‘como nos disseste, através da floresta, e no meio dela havia uma bela casa construída com pedras talhadas num sítio que se avistava de longe. Ali encontrámos uma mulher, ou então era uma deusa, a trabalhar no tear e a cantar docemente; então os homens gritaram para ela e chamaram-na, e ela logo desceu, abriu a porta e convidou-nos a entrar. Os outros não suspeitaram de nada, por isso seguiram-na para dentro da casa, mas eu fiquei onde estava, pois pensei que poderia haver alguma traição. Desde esse momento nunca mais os vi, pois nem um sequer saiu, embora eu ficasse ali muito tempo à espera deles.’
“Então peguei na minha espada de bronze e lancei-a às costas; peguei também no meu arco e disse a Euríloco que voltasse comigo e me mostrasse o caminho. Mas ele agarrou-me com ambas as mãos e falou piedosamente, dizendo: ‘Senhor, não me obrigueis a ir convosco; deixai-me ficar aqui, pois sei que não trareis nenhum deles de volta, nem sequer voltareis vivo vós mesmo; antes vejamos se não poderemos escapar pelo menos com os poucos que nos restam, pois talvez ainda possamos salvar a vida.’
“‘Fica onde estás, então’, respondi eu, ‘a comer e a beber junto ao navio, mas eu tenho de ir, pois é-me da maior urgência fazê-lo.’
“Com isto deixei o navio e subi para o interior. Quando atravessei o bosque encantado e estava perto da grande casa da encantadora Circe, encontrei Mercúrio com o seu caduceu de ouro, disfarçado de um jovem no auge da juventude e da beleza, com a penugem a nascer-lhe no rosto. Veio ter comigo, tomou-me a mão na sua e disse: ‘Meu pobre desgraçado, para onde ides por este cimo do monte, sozinho e sem conhecer o caminho? Os vossos homens estão fechados nas pocilgas de Circe, como tantos javalis nos seus covis. Certamente não julgais poder livrá-los? Posso dizer-vos que nunca mais voltareis e haveis de ficar ali com o resto deles. Mas não vos preocupeis; eu vos protegerei e vos tirarei da dificuldade. Tomai esta erva, que é de grande virtude, e trazei-a convosco quando fordes à casa de Circe; ser-vos-á talismã contra todo o tipo de males.
“‘E vou contar-vos toda a perversas feitiçaria que Circe tentará usar contra vós. Ela misturará uma beberagem para vós beberdes e droará a farinha com que a faz, mas não conseguirá encantar-vos, pois a virtude da erva que vos hei-de dar impedirá que os seus feitiços operem. Vou contar-vos tudo. Quando Circe vos ferir com a varinha, desembainhai a espada e atirai-vos a ela como se a quisésseis matar. Ela então ficará assustada e desejar que vades para a cama com ela; a isto não deveis recusar de frente, pois quereis que ela ponha em liberdade os vossos companheiros e tome também bom cuidado de vós; mas haveis de obrigá-la a jurar solenemente por todos os deuses bem-aventurados que não maquinhará mais nenhum mal contra vós, senão, quando vos tiver nu, desarmar-vos-á e tornar-vos-á imprestável.’
“Enquanto falava, arrancou a erva da terra e mostrou-me como era. A raiz era negra, enquanto a flor era alva como leite; os deuses lhe chamam Moli, e os homens mortais não a podem arrancar, mas os deuses podem tudo o que querem.
“Então Mercúrio voltou ao alto Olimpo, atravessando a ilha arborizada; mas eu prossegui para a casa de Circe, e o coração me ia pesado de cuidados enquanto caminhava. Quando cheguei aos portões, parei ali e chamei a deusa, e, assim que ela me ouviu, desceu, abriu a porta e convidou-me a entrar; então segui-a — muito perturbado de espírito. Pôs-me num trono ricamente decorado, embutido de prata; havia também um escabelo debaixo dos meus pés, e ela misturou uma beberagem num copo de ouro para eu beber; mas droou-a, pois intentava-me mal. Quando ma deu e eu a bebi sem que me encantasse, ela feriu-me com a varinha. ‘Vai, agora’, exclamou ela, ‘para a pocilga, e faze a tua cama com o resto deles.’
“Mas eu atirei-me a ela com a espada desembainhada, como se a quisesse matar, e ela caiu com um grande grito, abraçou-me os joelhos e falou piedosamente, dizendo: ‘Quem és e de onde vens? De que lugar e povo vieste? Como pode ser que os meus filtros não tenham poder para te encantar? Nunca houve homem que pudesse suportar sequer um gole da erva que te dei; hás-de ser à prova de feitiços; decerto não podes ser outro senão o ousado herói Ulisses, que Mercúrio sempre disse que aqui viria um dia com o seu navio, de regresso de Tróia; assim seja então; embainha a espada e vamo-nos deitar, para que façamos amizade e aprendamos a confiar um no outro.’
“E eu respondi: ‘Circe, como podeis esperar que eu vos seja amigo se acabastes de transformar todos os meus homens em porcos? E agora que me tendes aqui a mim mesmo, intentais-me mal quando me pedis que me deite convosco, e me desarmareis e me tornareis imprestável. Certamente não consentirei em deitar convosco a menos que primeiro presteis o vosso juramento solene de que não maquinhareis mais nenhum mal contra mim.’
“Então ela jurou de imediato como eu lhe dissera, e, quando completou o juramento, fui para a cama com ela.
“Entretanto, as suas quatro servas, que são as criadas da casa, começaram o seu trabalho. São filhas dos bosques e das fontes, e das águas sagradas que correm para o mar. Uma delas estendeu um pano cor de púrpura formoso sobre um trono e pôs debaixo um tapete. Outra trouxe mesas de prata para junto dos tronos e dispôs sobre elas cestos de ouro. Uma terceira misturou vinho doce com água numa taça de prata e pôs copos de ouro nas mesas, enquanto a quarta trouxe água e pôs a aquecer num grande caldeirão sobre um bom fogo que ela acendera. Quando a água do caldeirão ferveu, ela deitou-lhe água fria até ficar como eu queria, e depois sentou-me na banheira e começou a lavar-me do caldeirão em volta da cabeça e dos ombros, para me tirar o cansaço e a rigidez dos membros. Assim que acabou de me lavar e de me ungir com azeite, vestiu-me com uma boa capa e uma túnica e levou-me a um trono ricamente decorado, embutido de prata; havia também um escabelo debaixo dos meus pés. Uma criada trouxe-me então água num formoso jarro de ouro e deitou-a numa bacia de prata para eu lavar as mãos, e aproximou-me uma mesa limpa; uma criada superior trouxe-me pão e ofereceu-me muitas das iguarias que havia em casa, e então Circe me mandou comer, mas eu não quis, e fiquei sem atender ao que estava diante de mim, ainda taciturno e desconfiado.
“Quando Circe me viu ali sentado sem comer e em grande aflição, veio ter comigo e disse: ‘Ulisses, porque te sentas assim, como se estivesses mudo, a roer o teu próprio coração, recusando tanto a comida como a bebida? Será que ainda desconfias? Não devias, pois já jurei solenemente que não te farei mal.’
“E eu disse: ‘Circe, nenhum homem com algum sentido do que é recto pode pensar em comer ou beber na vossa casa antes que tenhais posto em liberdade os seus amigos e lho permitido vê-los. Se quereis que eu coma e beba, haveis de libertar os meus homens e trazê-los a mim, para que eu os veja com os meus próprios olhos.’
“Dito isto, ela atravessou de imediato o pátio com a varinha na mão e abriu as portas da pocilga. Os meus homens saíram como tantos porcos de raça e ficaram a olhar para ela, mas ela passou por entre eles e ungiu cada um com um segundo filtro, e então as cerdas que o mau filtro lhes tinha dado caíram, e tornaram-se homens outra vez, mais novos do que eram antes, e muito mais altos e de melhor aspecto. Reconheceram-me logo, agarraram-me cada um pela mão e choraram de alegria até a casa inteira se encher do som da sua algazarra, e a própria Circe ficou tão penalizada por eles que veio ter comigo e disse: ‘Ulisses, nobre filho de Laertes, volta já para o mar onde deixaste o navio, e primeiro puxa-o para terra. Depois, esconde todo o aparelho e bens do navio numa gruta, e volta aqui com os teus homens.’
“Concordei com isto, por isso voltei à praia e encontrei os homens junto ao navio a chorarem e a gemerem muito piedosamente. Quando me viram, os tolos chorões começaram a saltar à minha volta como vitelos que rompem a correr e folgam ao redor das mães, quando as vêem chegar a casa para serem ordenhados depois de terem pastado todo o dia, e a quinta ressoa com os seus mugidos. Pareciam tão contentes por me ver como se tivais ter voltado à nossa áspera Ítaca, onde nasceram e foram criados. ‘Senhor’, disseram as carinhosas criaturas, ‘estamos tão contentes por vos ver de volta como se tivéssemos chegado são e salvos a Ítaca; mas contai-nos tudo sobre a sorte dos nossos companheiros.’
“Falei-lhes com palavras de ânimo e disse: ‘Temos de puxar o nosso navio para terra e esconder o aparelho do navio com todos os nossos bens numa gruta; depois vinde comigo, todos vós, o mais depressa que puderdes, para a casa de Circe, onde encontrareis os vossos companheiros a comer e a beber em meio de grande abundância.’
“A isto os homens teriam vindo comigo de imediato, mas Euríloco tentou detê-los e disse: ‘Ai de nós, pobres desgraçados, o que será de nós? Não vos precipiteis para a ruína indo à casa de Circe, que nos transformará a todos em porcos ou lobos ou leões, e teremos de guardar a casa dela. Lembrai-vos de como o Ciclope nos tratou quando os nossos companheiros entraram na sua gruta, e Ulisses com eles. Foi tudo por pura tolice dele que aqueles homens perderam a vida.’
“Ao ouvi-lo, fiquei dividido entre desembainhar a afiada lâmina que trazia pendurada na minha coxa robusta e cortar-lhe a cabeça, apesar de ser meu parente chegado; mas os homens intercederam por ele e disseram: ‘Senhor, se assim for, deixai ficar este aqui a guardar o navio, mas levai o resto de nós convosco à casa de Circe.’
“Então fomos todos para o interior, e Euríloco já não ficou para trás, antes veio também, pois ficara amedrontado com a severa repreensão que eu lhe fizera.
“Entretanto, Circe tinha tratado de que os homens que tinham ficado para trás fossem lavados e ungidos com azeite de oliveira; também lhes dera capas de lã e túnicas, e, quando chegámos, encontrámo-los todos confortavelmente a jantar na casa dela. Assim que os homens se viram frente a frente e se reconheceram, choraram de alegria e gritaram alto até todo o palácio tornar a ressoar. Então Circe veio ter comigo e disse: ‘Ulisses, nobre filho de Laertes, diz aos teus homens que parem de chorar; eu sei quanto todos vós haveis sofrido no mar e quão mal vos correu entre selvagens cruéis no continente, mas isso já passou; portanto ficai aqui e comei e bebei até voltardes a ser tão fortes e robustos como éreis quando deixastes Ítaca; pois de momento estais enfraquecidos tanto no corpo como no espírito; estais sempre a pensar nos trabalhos que passásteis durante as vossas viagens, de modo que já não vos resta nenhuma alegria.’
“Assim falou ela e nós concordámos. Ficámos com Circe um ano inteiro, regalando-nos com quantidade incalculável de carne e vinho. Mas, quando o ano passou no decrescer das luas e os longos dias voltaram, os meus homens chamaram-me de parte e disseram: ‘Senhor, é tempo de começardes a pensar em voltar para casa, se é que haveis de ter a felicidade de ver a vossa casa e terra natal.’
“Assim falavam eles e eu assenti. Logo, ao longo do dia inteiro até o sol se pôr, fartámo-nos de carne e vinho; mas, quando o sol desceu e a escuridão veio, os homens deitaram-se a dormir nos claustros cobertos. Eu, porém, depois de me ter deitado com Circe, supliquei-lhe de joelhos, e a deusa ouviu o que eu tinha para dizer. ‘Circe’, disse eu, ‘cumpri a promessa que me fizeste de favorecer a minha viagem de regresso. Quero voltar, e o mesmo querem os meus homens, que não cessam de me importunar com as suas queixas mal te afastas.’
“E a deusa respondeu: ‘Ulisses, nobre filho de Laertes, nenhum de vós ficará aqui mais tempo, se não quiser; mas há outra viagem que tendes de fazer antes de poderdes navegar para casa. Haveis de ir à casa de Hades e da terrível Proserpina, para consultar o fantasma do cego profeta tebano Tirésias, cujo entendimento ainda permanece intacto. Só a ele Proserpina concedeu conservar a razão mesmo na morte; os outros fantasmas vagueiam sem rumo.’
“Alarmado fiquei ao ouvir isto. Sentei-me no leito e chorei, e de bom grado não quereria mais viver para ver a luz do sol; todavia, quando me cansei de chorar e de me revolver, disse: ‘E quem me guiará nesta viagem — pois a casa de Hades é um porto que nenhum navio pode alcançar?’
“‘Não necessitarás de guia’, respondeu ela; ‘ergue o mastro, estende as velas alvas, mantém-te bem imóvel, e o Vento Norte te levará lá por si mesmo. Quando o teu navio atravessar as águas do Oceano, chegarás à fértil margem do país de Proserpina, com os seus bosques de altos álamos e salgueiros que lançam o fruto fora de tempo; ali encalha o teu navio na margem do Oceano e segue em frente para a sombria morada de Hades. Encontrá-la-ás perto do lugar onde os rios Piriflegetonte e Cocito (que é um ramo do rio Estige) desaguam no Aqueronte, e verás uma rocha junto dali, exatamente onde os dois rios rugidores se juntam num só.
‘Quando tiverdes chegado a este sítio, como agora te digo, abre uma fossa de cerca de um cúbito de comprimento, largura e profundidade, e deita nela, como libação a todos os mortos, primeiro mel misturado com leite, depois vinho, e em terceiro lugar água — polvilhando farinha de cevada branca por tudo. Além disso, tens de fazer muitas preces aos pobres fantasmas débeis, e prometer-lhes que, quando voltares a Ítaca, sacrificarás uma novilha estéril para eles, a melhor que tiveres, e carregarás a pira com boas oferendas. Em especial, deves prometer que Tirésias terá para si uma ovelha negra, a melhor de todos os teus rebanhos.
‘Quando tiveres assim suplicado aos fantasmas com as tuas preces, oferece-lhes um carneiro e uma ovelha negra, curvando-lhes as cabeças para o Érebo; mas tu próprio afasta-te deles como se te dirigisses para o rio. Então, muitos fantasmas de mortos virão ter contigo, e terás de ordenar aos teus homens que esfoliem as duas ovelhas que acabaste de matar e que as ofereçam como sacrifício queimado, com preces a Hades e a Proserpina. Depois desembainha a espada e fica ali sentado, para impedir que algum outro pobre fantasma se aproxime do sangue derramado antes que Tirésias tenha respondido às tuas perguntas. O vidente virá logo a ti e contar-te-á a tua viagem — que paragens hás-de fazer e como hás-de navegar o mar para chegares a casa.’
“Era já romper da manhã quando ela acabou de falar, pelo que me vestiu com a túnica e o manto. Quanto a ela, lançou um belo tecido leve e vaporoso sobre os ombros, prendendo-o com um cinto de ouro à cintura, e cobriu a cabeça com uma capa. Depois fui ter com os meus homens por toda a casa, e falei com bondade a cada um deles, um por um: ‘Não deveis ficar aqui a dormir por mais tempo’, disse-lhes eu, ‘temos de partir, pois Circe me explicou tudo.’ E eles fizeram como eu ordenei.
“Mesmo assim, porém, não os arranquei dali sem desventura. Tínhamos connosco certo jovem chamado Elpenor, não muito notável pelo seu juízo ou coragem, que se embebedara e jazia no telhado, apartado dos restantes homens, para dormir a bebedeira no fresco. Quando ouviu o ruído dos homens a agitarem-se, saltou de súbito e esqueceu por completo de descer pela escada principal, de modo que tombou do telhado e partiu o pescoço, e a sua alma desceu à casa de Hades.
“Quando reuni os homens, disse-lhes: ‘Vós pensais que vamos regressar a casa, mas Circe me explicou que, em vez disso, temos de ir à casa de Hades e de Proserpina, para consultar o fantasma do profeta tebano Tirésias.’
“O coração dos homens partiu-se ao ouvirem-me, e lançaram-se ao chão gemendo e arrancando os cabelos, mas com o pranto não remediaram nada. Quando chegámos à praia do mar, chorando e lamentando o nosso destino, Circe trouxe o carneiro e a ovelha, e nós amarrámo-los bem junto ao navio. Ela passou por entre nós sem que a víssemos, pois quem pode ver as idas e vindas de um deus, se o deus não quer ser visto?
LIVRO XI
A VISITA AOS MORTOS.
“Então, quando descemos à praia do mar, puxámos o nosso navio para a água e dispusemos nele o mastro e as velas; pusemos também as ovelhas a bordo e tomámos os nossos lugares, chorando e com grande angústia de espírito. Circe, essa grande e astuta deusa, enviou-nos um vento favorável que soprava direito pela popa e se mantinha connosco firme, tendo as velas sempre bem cheias; assim fizemos tudo o que era preciso fazer no aparelho do navio e deixámo-lo correr conforme o vento e o timoneiro o dirigiam. O dia inteiro as suas velas estiveram cheitas enquanto ela seguia o seu rumo sobre o mar, mas, quando o sol desceu e a escuridão cobriu toda a terra, entrámos nas águas profundas do rio Oceano, onde jazem a terra e a cidade dos Cimerianos, que vivem envoltos em bruma e escuridão que os raios do sol jamais atravessam, nem ao nascer nem ao pôr dos céus; mas os pobres desgraçados vivem numa longa e melancólica noite. Quando chegámos ali, encalhámos o navio, tirámos dele as ovelhas e caminhámos ao longo das águas do Oceano até chegarmos ao lugar de que Circe nos tinha falado.
“Aqui Perimedes e Euríloco seguraram as vítimas, enquanto eu desembainhava a espada e cavava a fossa de um cúbito em cada direção. Fiz uma libação a todos os mortos, primeiro com mel e leite, depois com vinho, e em terceiro lugar com água, e polvilhei farinha de cevada branca por tudo, orando com fervor aos pobres fantasmas desvalidos e prometendo-lhes que, quando voltasse a Ítaca, sacrificaria uma novilha estéril por eles, a melhor que tivesse, e carregaria a pira com boas oferendas. Prometi também, em especial, que Tirésias teria uma ovelha negra para si, a melhor de todos os meus rebanhos. Quando orei o suficiente pelos mortos, cortei a garganta das duas ovelhas e deixei o sangue correr para a fossa; então os fantasmas acorreram em tropel do Érebo — noivas, jovens solteiros, anciãos gastos pelo labor, donzelas cujo amor fora desdenhado, e homens valentes caídos em batalha, com as armas ainda manchadas de sangue; vinham de toda a parte e volteavam à volta da fossa com um estranho som estridente que me fez empalidecer de medo. Quando os vi chegar, ordenei aos homens que se apressassem a esfolar as carcaças das duas ovelhas mortas e a fazer ofertas queimadas delas, e ao mesmo tempo a repetir preces a Hades e a Proserpina; mas eu fiquei onde estava com a espada desembainhada e não deixei que os pobres fantasmas desvalidos se aproximassem do sangue até que Tirésias tivesse respondido às minhas perguntas.
“O primeiro fantasma que veio foi o do meu camarada Elpenor, pois ainda não fora deposto sob a terra. Tínhamos deixado o seu corpo sem honras fúnebres e insepulto na casa de Circe, porque tínhamos tido muito mais que fazer. Lastimei-o profundamente e chorei ao vê-lo: ‘Elpenor’, disse eu, ‘como desceste tu até esta escuridão e trevas? Chegaste aqui a pé mais depressa do que eu com o meu navio.’
“‘Senhor’, respondeu ele com um gemido, ‘foi tudo azar e a minha indescritível bebedeira. Jazia adormecido no telhado da casa de Circe e nem pensei em descer pela grande escada, mas caí do telhado e parti o pescoço, e a minha alma desceu à casa de Hades. E agora te suplico, por todos os que deixaste para trás, embora não estejam aqui, por tua esposa, pelo pai que te criou quando eras criança, e por Telémaco, que é a única esperança da tua casa, faz o que te vou pedir. Sei que, quando deixares este limbo, voltarás a dirigir o teu navio para a ilha Eeia. Não partas de lá deixando-me sem honras fúnebres e insepulto atrás de ti, ou poderei atrair sobre ti a cólera do céu; antes, queima-me com todas as armas que eu tiver, ergue-me um túmulo na praia do mar, para que diga aos vindouros que pobre e desventurado eu fui, e planta sobre a minha sepultura o remo com que eu remava quando ainda era vivo e estava com os meus companheiros.’ E eu disse: ‘Meu pobre amigo, farei tudo o que me pediste.’
“Assim, pois, sentámo-nos e tivemos um triste colóquio, eu de um lado da fossa com a espada erguida sobre o sangue, e do outro o fantasma do meu camarada dizendo-me tudo isto. Depois veio o fantasma da minha falecida mãe Anticleia, filha de Autólico. Eu deixara-a viva quando parti para Tróia, e comoveram-se-me as lágrimas ao vê-la; mas, apesar de toda a minha dor, não a deixei aproximar-se do sangue até ter feito as minhas perguntas a Tirésias.
“Depois veio também o fantasma do tebano Tirésias, com o seu ceptro de ouro na mão. Reconheceu-me e disse: ‘Ulisses, nobre filho de Laertes, por que, pobre homem, deixaste a luz do dia e desceste para visitar os mortos neste triste lugar? Afasta-te da fossa e recolhe a tua espada, para que eu beba do sangue e responda com verdade às tuas perguntas.’
“Assim, recuei e embainhei a espada; então, depois de ele ter bebido do sangue, começou com a sua profecia.
“‘Queres saber’, disse ele, ‘acerca do teu regresso a casa, mas o céu torná-lo-á difícil. Não creio que escaparás ao olho de Neptuno, que ainda alimenta amargo rancor contra ti por teres cegado o seu filho. Ainda assim, depois de muito sofrimento, poderás chegar a casa, se te souberes refrear e refrear os teus companheiros quando o teu navio alcançar a ilha Trinária, onde encontrarás as ovelhas e o gado pertencentes ao sol, que tudo vê e tudo ouve. Se deixares esses rebanhos intactos e só pensares em chegar a casa, ainda poderás, depois de muito penar, alcançar Ítaca; mas se os moletares, então te anuncio de antemão a destruição tanto do teu navio como dos teus homens. Ainda que tu próprio possas escapar, voltarás em mau estado, depois de perder todos os teus homens, [noutro navio, e encontrarás dissabores em tua casa, que будет invadida por gente de mão pesada, que devora os teus bens sob o pretexto de cortejar e fazer presentes à tua esposa.
‘Quando chegares a casa, tomarás vingança desses pretendentes; e depois de os teres matado pela força ou pela astúcia na tua própria casa, hás-de tomar um remo bem feito e caminhar com ele sem parar, até chegares a um país onde o povo nunca ouviu falar do mar e nem sequer mistura sal com a sua comida, nem sabe coisa alguma acerca de navios e remos, que são como as asas de um navio. Dar-te-ei este sinal certo que não te poderá passar despercebido. Um viajante te sairá ao encontro e dirá que tens de ser uma pá de joeirar o que trazes ao ombro; então cravarás o remo no chão e sacrificarás um carneiro, um touro e um javali a Neptuno. Depois irás para casa e oferecerás hecatombes a todos os deuses do céu, um após outro. Quanto a ti, a morte virá do mar, e a tua vida esvair-se-á muito suavemente, quando estiveres cheio de anos e em paz de espírito, e o teu povo te bendirá. Tudo o que te disse se cumprirá].’
“‘Isso’, respondi eu, ‘há-de ser como aprouver ao céu; mas diz-me, diz-me, e diz-me a verdade: vejo o fantasma da minha pobre mãe perto de nós; está sentada junto ao sangue sem dizer palavra, e embora seja meu filho não se lembra de mim nem me fala; diz-me, senhor, como poderei fazê-la reconhecer-me.’
“‘Isso’, disse ele, ‘posso fazê-lo eu já. Qualquer fantasma a quem deixes provar o sangue falará contigo como um ser racional; mas, se não lhes deres sangue, irão-se embora de novo.’
“Então o fantasma de Tirésias voltou para a casa de Hades, pois as suas profecias tinham sido ditas; mas eu fiquei sentado onde estava até que minha mãe se aproximou e provou o sangue. Logo me reconheceu e falou-me com carinho, dizendo: ‘Meu filho, como desceste a esta morada de trevas estando ainda vivo? É cousa difícil para os vivos verem estes lugares, pois entre nós e eles há águas grandes e terríveis, e há o Oceano, que nenhum homem pode atravessar a pé, sendo preciso um bom navio que o leve. Andas todo este tempo a tentar encontrar o caminho de volta desde Tróia, e nunca ainda chegaste a Ítaca nem viste tua esposa na tua própria casa?’
“‘Mãe’, disse eu, ‘fui obrigado a vir aqui para consultar o fantasma do profeta tebano Tirésias. Nunca ainda estive perto da terra dos Aqueus nem pisei a minha pátria, e só tive uma longa série de desventuras desde o primeiro dia em que parti com Agamémnon para Ílio, a terra dos nobres corceis, para combater os Troianos. Mas diz-me, e diz-me a verdade: de que modo morreste? Tiveste alguma longa doença, ou concedeu-te o céu uma passagem suave e fácil para a eternidade? Diz-me também do meu pai e do filho que deixei para trás: estão ainda na posse dos meus bens, ou alguém se apossou deles, pensando que eu não voltarei para os reclamar? Diz-me ainda o que minha esposa intenta fazer e em que disposição se encontra: vive com o meu filho e guarda os meus bens em segurança, ou fez o melhor casamento que pôde e tornou a casar?’
“Minha mãe respondeu: ‘Tua esposa continua ainda na tua casa, mas vive em grande angústia de espírito e passa o tempo inteiro em lágrimas, de noite e de dia. Ninguém tomou ainda posse dos teus belos haveres, e Telémaco ainda detém as tuas terras sem serem perturbadas. Ele tem de receber hóspedes com largueza, como é forçoso, atendendo à sua posição de magistrado, e a quantos o convidam; teu pai permanece no seu antigo lugar no campo e nunca se aproxima da cidade. Não tem leito confortável nem roupas de cama; no Inverno dorme no chão diante do fogo com os servos e anda por aí todo em farrapos, mas no Verão, quando o tempo quente volta, deita-se na vinha sobre um leito de folhas de videira lançadas ao acaso pelo chão. Angustia-se continuamente por nunca teres voltado, e sofre cada vez mais à medida que envelhece. Quanto ao meu fim, foi assim: o céu não me levou de súbito e sem dor na minha própria casa, nem fui atacada de doença alguma das que geralmente consomem e matam os homens; mas a ânsia de saber o que fazias e a força da minha afeição por ti — foi isso que me causou a morte.’
“Então tentei encontrar um modo de abraçar o fantasma da minha pobre mãe. Três vezes me lancei para ela e tentei cingi-la nos meus braços, mas, cada vez, ela fugia do meu abraço como se fora um sonho ou um fantasma; e, tocado no íntimo, disse-lhe: ‘Mãe, por que não ficas quieta quando te quero abraçar? Se pudéssemos atirar os braços um ao outro, poderíamos encontrar triste conforto na partilha das nossas dores, mesmo na casa de Hades; quer Proserpina sobrecarregar-me ainda mais de aflição, zombando de mim apenas com um fantasma?’
“‘Meu filho’, respondeu ela, ‘o mais infortunado de todos os mortais, não é Proserpina que te ilude, mas todos são assim quando morrem. Os tendões já não prendem a carne e os ossos; estes perecem na fúria do fogo devorador, tão logo a vida abandona o corpo, e a alma foge como se fora um sonho. Agora, porém, volta à luz do dia o mais depressa que puderes, e nota bem tudo isto para que um dia o possas contar à tua esposa.’
“Assim conversámos, e logo Proserpina mandou subir os fantasmas das esposas e filhas de todos os homens mais famosos. Ajuntaram-se em magotes junto ao sangue, e eu pensei em como poderia interrogá-las uma a uma. Por fim, julguei ser melhor desembainhar a lâmina afiada que pendia da minha robusta coxa e mantê-las afastadas de beber o sangue todas de uma vez. Assim, vieram uma após outra, e cada uma, ao ser interrogada, me disse a sua estirpe e linhagem.
“A primeira que vi foi Tiro. Era filha de Salmoneu e esposa de Creteu, filho de Eolo. Enamorara-se do rio Enipeu, que é de longe o mais formoso de todos os rios do mundo. Certa vez, quando ela passeava junto dele como de costume, Neptuno, disfarçado de seu amado, deitou-se com ela na foz do rio, e uma enorme onda azul arqueou-se como uma montanha sobre ambos para esconder a mulher e o deus; então ele desfez-lhe o cinto virgem e a deixou em profundo sono. Quando o deus cumpriu o acto de amor, tomou-lhe a mão na sua e disse: ‘Tiro, regozija-te com toda a boa vontade; os abraços dos deuses não são estéreis, e dentro de doze meses terás dois belos gémeos. Guarda-os bem. Eu sou Neptuno; vai agora para casa, mas guarda silêncio e não o digas a ninguém.’
“Depois mergulhou sob o mar, e ela, no devido tempo, deu à luz Pélias e Neleu, que ambos serviram Jove com todas as suas forças. Pélias foi grande criador de ovelhas e vivia em Iolcos; o outro vivia em Pilos. Os restantes filhos foram de Creteu, a saber, Esão, Feres e Amitaão, que foi poderoso guerreiro e auriga.
“Junto a ela vi Antíope, filha de Asopo, que podia gabar-se de ter dormido nos braços do próprio Júpiter, e que lhe deu dois filhos, Anfião e Zeto. Estes fundaram Tebas de sete portas, e construíram-lhe uma muralha em toda a volta; por mais fortes que fossem, não conseguiam defender Tebas enquanto não a tivessem murado.
“Depois vi Alcmena, esposa de Anfitrião, que também deu a Júpiter o indomável Hércules; e Megara, filha do grande rei Creonte, que desposou o temível filho de Anfitrião.
“Vi também a formosa Epicaste, mãe do rei Édipo, cujo destino horrendo foi casar com o próprio filho sem o suspeitar. Ele casou com ela depois de ter matado o pai, mas os deuses proclamaram ao mundo toda a história; ele continuou então a reinar em Tebas, em grande aflição pelo rancor que os deuses lhe guardavam; mas Epicaste foi para a casa do poderoso carcereiro Hades, após se ter enforcado de dor, e os espíritos vingadores atormentaram-no como por uma mãe ultrajada — para seu eterno arrependimento.
“Depois vi Clóris, que Neleu desposou pela sua beleza, após ter dado por ela presentes incalculáveis. Era a filha mais nova de Anfião, filho de Iaso, e rei do Orcómena Minia, e era rainha em Pilos. Deu à luz Nestor, Crómio e Periclimeno, e também aquela mulher de maravilhosa beleza, Pero, que era cortejada por toda a redondeza; mas Neleu só a concederia àquele que fosse saquear os bois de Ificles dos pastos de Filace, e esta era tarefa árdua. O único homem que se dispôs a roubá-los foi um certo e excelente adivinho, mas a vontade do céu foi contra ele, pois os guardas do gado apanharam-no e meteram-no no carcere; todavia, quando um ano inteiro passou e a mesma estação veio de novo, Ificles pôs-no em liberdade, depois de ele ter exposto todos os oráculos do céu. Assim, pois, se cumpriu a vontade de Júpiter.
“E vi Leda, esposa de Tíndaro, que lhe deu dois famosos filhos, Cástor, domador de cavalos, e Pólux, o poderoso pugilista. Ambos estes heróis jazem sob a terra, embora estejam ainda vivos, pois por dispensação especial de Júpiter morrem e voltam à vida, cada um deles em dias alternados por toda a eternidade, e têm a dignidade dos deuses.
“Depois dela vi Ifimedeia, esposa de Aloeu, que se gabava do abraço de Neptuno. Deu à luz dois filhos, Oto e Efialtes, mas ambos tiveram vida curta. Eram as mais belas crianças que jamais nasceram neste mundo, e as mais bem parecidas, excetuando apenas Orion; pois aos nove anos de idade tinham nove braças de altura e mediam nove palmos de peito. Ameaçaram fazer guerra aos deuses do Olimpo e tentaram pôr o Ossa sobre o Olimpo, e o Pelion sobre o Ossa, para poderem escalar o próprio céu, e tê-lo-iam feito se tivessem crescido, mas Apolo, filho de Leto, matou a ambos, antes que tivessem sequer um sinal de pelo nas faces ou no queixo.
“Depois vi Fedra, e Procis, e a formosa Ariadne, filha do mago Minos, que Teseu levava de Creta para Atenas, mas não a possuiu, pois antes que pudesse fazê-lo Diana matou-a na ilha de Dia, por causa do que Baco dissera contra ela.
“Vi também Maera e Clímene e a odiosa Erifile, que vendeu o próprio marido por ouro. Mas levar-me-ia a noite inteira se tivesse de nomear cada uma das esposas e filhas de heróis que vi, e é tempo de me ir deitar, quer a bordo do navio com a minha tripulação, quer aqui. Quanto à minha escolta, o céu e vós mesmos tratareis disso.”
Aqui ele terminou, e os convidados ficaram todos enlevados e em silêncio por todo o claustro coberto. Então Arete disse-lhes:
“Que pensais deste homem, ó feácios? Não é ele alto e bem parecido, e não é esperto? É certo que é meu hóspede, mas todos vós participais da distinção. Não vos apresseis a mandá-lo embora, nem sejais mesquinhos nas prendas que ofereceis a quem tão grande necessidade tem, pois o céu a todos vos cumulou de grande abundância.”
Então falou o ancião herói Equeneu, que era um dos mais velhos entre eles: “Amigos — disse ele —, o que a nossa augusta rainha nos acaba de dizer é tanto razoável como a propósito; sede, pois, por ela persuadidos; mas a decisão, seja em palavras ou em obras, pertence em última instância ao rei Alcínoo.”
“Assim se fará”, exclamou Alcínoo, “tão certo como ainda vivo e reino sobre os feácios. Nosso hóspede tem, de facto, muita pressa de chegar a casa, mas devemos persuadi-lo a ficar connosco até amanhã, pois até lá poderei reunir a soma inteira que pretendo dar-lhe. Quanto à escolta, será assunto de todos vós, e meu acima de todos, como principal entre vós.”
E Ulisses respondeu: “Rei Alcínoo, se me ordenásseis ficar aqui um ano inteiro, e depois me despachásseis caminho, carregado com as vossas nobres dádivas, obedecer-vos-ia de bom grado e isso redundaria grandemente em meu proveito, pois voltaria mais cheio de mãos para o meu povo, e seria assim mais respeitado e amado por todos os que me vissem quando regressasse a Ítaca.”
“Ulisses — respondeu Alcínoo —, nenhum de nós que te vê tem qualquer ideia de que sejas um charlatão ou um embusteiro. Sei que há muita gente por aí que conta histórias tão plausíveis que é muito difícil ver-lhes o fundo, mas há um estilo no teu discurso que me assegura a tua boa índole. Além disso contaste a história das tuas desventuras, e as dos Argivos, como se fosses um bardo experimentado; mas diz-me, e diz-me a verdade, se viste algum dos heróis poderosos que foram a Tróia ao mesmo tempo que tu, e ali pereceram. As noites ainda estão no seu comprimento máximo, e ainda não é hora de dormir — continua, pois, a tua divina história, pois eu ficaria aqui a ouvir-te até amanhã de manhã, desde que quisesses continuar a contar-nos as tuas aventuras.”
“Alcínoo — respondeu Ulisses —, há tempo para falar e tempo para ir dormir; contudo, uma vez que tanto o desejais, não me recusarei a contar-vos a história, ainda mais triste, daqueles dos meus companheiros que não caíram a combater os Troianos, mas pereceram no regresso, pela traição de uma mulher perversa.
“Quando Prosérpina despediu as sombras femininas em todas as direções, a sombra de Agamémnon, filho de Atreu, aproximou-se de mim tristemente, rodeada dos que com ele tinham perecido na casa de Egisto. Logo que terceirou o sangue, reconheceu-me, e, chorando amargamente, estendeu para mim os braços a fim de me abraçar; mas já não tinha força nem substância, e eu também chorei e condoí-me ao vê-lo. ‘Como alcançaste a morte?’, disse-lhe eu. ‘Rei Agamémnon, foi Neptuno quem levantou ventos e ondas contra ti quando estavas no mar, ou foram os teus inimigos que te deram fim em terra firme quando andavas a roubar gado ou ovelhas, ou enquanto combatiam na defesa das suas mulheres e da sua cidade?’
“‘Ulisses — respondeu ele —, nobre filho de Laertes, não me perdi no mar em nenhuma tempestade levantada por Neptuno, nem me despacharam os meus inimigos em terra firme, mas Egisto e a minha mulher perversa foram, entre ambos, a minha morte. Convidou-me para sua casa, festejou-me, e depois abateu-me do modo mais miserável, como se eu fosse uma rez gorda num matadouro, enquanto à minha volta os meus companheiros eram mortos como ovelhas ou porcos para o almoço de bodas, ou piquenique, ou faustoso banquete de algum grande nobre. Tendes de ter visto inúmeros homens mortos quer em combate geral, quer em combate singular, mas nunca vistes nada tão verdadeiramente lastimável como o modo como caímos naquele claustro, com a taça de mistura e as mesas carregadas por toda a parte, e o chão empapado do nosso sangue. Ouvi a filha de Príamo, Cassandra, gritar enquanto Clitemnestra a matava junto de mim. Eu jazia a morrer sobre a terra com a espada no corpo, e ergui as mãos para matar a assassina desavergonhada, mas ela escapou-se-me; nem sequer me quis fechar os lábios nem os olhos quando eu morria, pois não há nada neste mundo tão cruel e tão desavergonhado como uma mulher quando caiu em culpa tão grande como a dela. Figurai-vos assassinar o próprio marido! Eu pensava que ia ser recebido em casa pelos meus filhos e pelos meus servos, mas o seu abominável crime trouxe vergonha sobre ela própria e sobre todas as mulheres que vierem depois — mesmo sobre as boas.’
“E eu disse: ‘Na verdade, Júpiter odiou a casa de Atreus de princípio ao fim no tocante aos desígnios das suas mulheres. Vede quantos de nós caímos por causa de Helena, e agora parece que Clitemnestra também contra ti tramou males durante a tua ausência.’
“‘Toma cuidado, pois — continuou Agamémnon —, e não sejas demasiado amistoso nem com a tua própria mulher. Não lhe digas tudo o que tu mesmo sabes perfeitamente. Diz-lhe só uma parte, e guarda para ti o resto do conselho. Não que a tua mulher, Ulisses, seja de molde a assassinar-te, pois Penélope é uma mulher muito admirável, e tem excelente natureza. Deixámo-la jovem noiva com uma criança ao peito quando partimos para Tróia. Esta criança, sem dúvida, é já um homem feito e feliz, e ele e o pai terão um encontro jubiloso e abraçar-se-ão como é de justiça, ao passo que a minha mulher perversa nem sequer me permitiu a felicidade de olhar para o meu filho, mas matou-me antes que o pudesse fazer. Mais ainda, digo-te — e grava-o no teu coração: não digas às gentes quando estiveres a aportar o teu navio a Ítaca, mas adianta-te-lhes sorrateiramente, pois depois de tudo isto não se pode confiar nas mulheres. Mas agora diz-me, e diz-me a verdade: podes dar-me notícias do meu filho Orestes? Está em Orcómena, ou em Pilos, ou em Esparta com Menelau — pois presumo que ainda vive.’
“E eu disse: ‘Agamémnon, por que me perguntas? Não sei se o teu filho está vivo ou morto, e não é correto falar quando não se sabe.’
“Enquanto nós dois assim sentados chorávamos e falávamos com tanta tristeza um com o outro, a sombra de Aquiles se nos aproximou com Patroclo, Antíloco e Ajax, que era o mais formoso e excelente de todos os Dânaos depois do filho de Peleu. O ágil descendente de Éaco reconheceu-me e falou com lástima, dizendo: ‘Ulisses, nobre filho de Laertes, que façanha de audácia irás tu empreender a seguir, que te atreves a descer à casa de Hades entre nós, mortos parvos, que somos apenas sombras daqueles que já não podem trabalhar?’
“E eu disse: ‘Aquiles, filho de Peleu, campeão excelso dos Aqueus, vim consultar Tirésias, e ver se ele me podia aconselhar sobre o meu regresso a Ítaca, pois nunca ainda consegui chegar perto da terra dos Aqueus, nem pisar o meu próprio país, mas andei em apuros todo o tempo. Quanto a ti, Aquiles, ninguém foi jamais tão feliz como tu, nem jamais o será, pois foste adorado por todos nós, os Argivos, enquanto viveste, e agora que estás aqui és um grande príncipe entre os mortos. Não tomas, pois, tão a peito o facto de estares morto.’
“‘Não digas uma palavra — respondeu ele —, em favor da morte; antes queria ser servo assalariado na casa de um pobre e estar acima da terra do que rei dos reis entre os mortos. Mas dá-me notícias do meu filho; foi para a guerra e será grande guerreiro, ou não é assim? Diz-me também se ouviste alguma coisa do meu pai Peleu — continua ele a reinar entre os Mirmidões, ou não lhe mostram respeito por toda a Hélade e Ftia, agora que é velho e os membros lhe falham? Pudesse eu estar ao seu lado, à luz do dia, com a mesma força que tinha quando matei o mais bravo dos nossos inimigos na planície de Tróia — pudesse eu ser como então era e ir ainda que por pouco tempo à casa do meu pai, e quem quer que tentasse fazer-lhe violência ou suplantá-lo logo se arrependeria.’
“‘Nada sei de Peleus — respondi —, mas posso dizer-te tudo sobre o teu filho Neoptólemo, pois levei-o no meu próprio navio desde Ciros com os Aqueus. Nos nossos conselhos de guerra diante de Tróia era sempre o primeiro a falar, e o seu parecer nunca errava. Só Nestor e eu o podíamos superar; e quando chegava a combater na planície de Tróia, nunca ficava com o corpo das suas tropas, mas lançava-se bem à frente, à frente de todos em valor. Muitos homens matou ele em batalha — não posso nomear cada um daqueles que ele matou enquanto combatia ao lado dos Argivos, mas direi apenas como matou aquele valoroso herói Eurípilo, filho de Téléfo, que era o mais bem parecido que eu jamais vi, exceto Mémnon; muitos outros dos Ceteanos também caíram em volta dele por causa dos subornos de uma mulher. Além disso, quando todos os mais bravos dos Argivos entraram dentro do cavalo que Epeu fizera, e a mim coube decidir quando abriríamos a porta da emboscada ou a fecharíamos, embora todos os outros chefes e principais homens entre os Dânaos estivessem a enxugar os olhos e a tremer em cada membro, nunca uma vez o vi empalidecer nem limpar uma lágrima da face; esteve sempre a instar-me a irromper do cavalo — empunhando o punho da espada e a lança de bronze, e respirando furor contra o inimigo. Contudo, quando saqueámos a cidade de Príamo, recebeu a sua bela parte do espólio e embarcou (tal é a sorte da guerra) sem uma ferida no corpo, nem de uma lança arremessada nem em combate corpo a corpo, pois a fúria de Marte é coisa de grande acaso.’
“Quando lhe contei isto, a sombra de Aquiles afastou-se a passos largos por um prado cheio de asfódelos, exultando com o que eu dissera acerca da valentia do seu filho.
“As sombras de outros mortos estavam perto de mim e contavam-me cada qual a sua história melancólica; mas a de Ajax, filho de Telamão, ficou sozinha — ainda irada comigo por eu ter vencido a causa da nossa disputa sobre as armas de Aquiles. Tetis as oferecera como prêmio, mas os prisioneiros troianos e Minerva foram os juízes. Quem me dera não ter jamais ganho a vitória em tal contenda, pois custou a vida de Ajax, que era o primeiro de todos os Dânaos depois do filho de Peleu, tanto em estatura como em valor.
“Quando o vi tentei apaziguá-lo e disse: ‘Ajax, não queres esquecer e perdoar mesmo na morte, mas há-de ainda magoar-te o julgamento sobre aquelas odiosas armas? Custou-nos bem caro, a nós Argivos, perder uma torre de forças como tu eras. Chorámo-te tanto como chorámos o próprio Aquiles, filho de Peleu, nem a culpa pode ser posta em nada senão no rancor que Júpiter guardou aos Dânaos, pois foi isso que o levou a conselhar a tua destruição — vem, pois, aproxima-te, subjuga o teu orgulhoso ânimo, e ouve o que te posso dizer.’
“Ele não quis responder, mas voltou as costas para o Érebo e para as outras sombras; contudo, eu tê-lo-ia feito falar comigo apesar da sua ira, ou teria continuado a falar-lhe, só que havia ainda outros entre os mortos que eu queria ver.
“Depois vi Minos, filho de Júpiter, com o ceptro de ouro na mão, sentado a julgar os mortos, e as sombras estavam reunidas, sentadas e de pé, à volta dele na espaçosa casa de Hades, para ouvir as suas sentenças.
“Depois dele vi o imenso Orion num prado cheio de asfódelos, a conduzir as sombras das feras bravias que ele matara nas montanhas, e tinha na mão uma grande clava de bronze, inquebrável para todo o sempre.
“E vi Tício, filho de Gaia, estendido na planície, cobrindo cerca de nove jeiras de terra. Dois abutres de cada lado dele enterravam-lhe os bicos no fígado, e ele não cessava de tentar afastá-los com as mãos, mas não podia; pois violara a amante de Júpiter, Leto, quando ela passava por Panopo a caminho de Pito.
“Vi também o horrendo destino de Tântalo, que estava de pé num lago que lhe chegava ao queixo; morria de sede para a saciar, mas nunca conseguia alcançar a água, pois todas as vezes que a pobre criatura se inclinava para beber, ela secava e desaparecia, de modo que só havia terreno seco — ressequido pelo rancor do céu. Havia, além disso, altas árvores que deixavam cair o fruto sobre a sua cabeça — péras, romãs, maçãs, figos doces e azeitonas sumarentas, mas todas as vezes que a pobre criatura estendia a mão para colher algum, o vento atirava de novo os ramos para as nuvens.
“E vi Sísifo na sua tarefa sem fim a erguer a sua pedra prodigiosa com ambas as mãos. Com mãos e pés tentava rolá-la até ao cume do monte, mas sempre, mesmo quando ia rolá-la para o outro lado, o peso era demais para ele, e a pedra impiedosa vinha trovejar de novo abaixo, para a planície. Então tornava a empurrá-la morro acima, e o suor escorria dele e o vapor subia atrás de si.
“Depois dele vi o poderoso Hércules, mas era apenas o seu fantasma, pois ele festeja eternamente com os deuses imortais, e tem por esposa a formosa Hebe, filha de Júpiter e Juno. As sombras gritavam à volta dele como aves assustadas que voam para toda a parte. Ele estava negro como a noite, com o arco nu nas mãos e a flecha na corda, relanceando olhares em volta como se estivesse sempre a apontar. Sobre o peito tinha um maravilhoso cinto de ouro, adornado do modo mais extraordinário com ursos, javalis e leões de olhos fulgurantes; havia também guerra, combate e morte. O homem que fez aquele cinto, por mais que fizesse, jamais conseguiria fazer outro igual. Hércules reconheceu-me logo que me viu, e falou com lástima, dizendo: ‘Pobre Ulisses, nobre filho de Laertes, tu também levas o mesmo triste género de vida que eu levei quando estava sobre a terra? Eu era filho de Júpiter, mas passei por uma infinidade de sofrimentos, pois me tornei servo de quem era muito inferior a mim — um sujeito vil que me impôs toda a casta de trabalhos. Uma vez me mandou aqui buscar o cão do inferno — pois ele não pensava que me pudesse incumbir de nada mais difícil, mas trouxe o cão de Hades e levei-lho, pois Mercúrio e Minerva me ajudaram.’
‘Foi então que Hércules tornou a descer à morada de Hades, ao passo que eu fiquei onde estava, na esperança de que algum outro dos mortos ilustres viesse ter comigo. E eu teria ainda visto outros dos que partiram antes de nós, a quem desejaria ter visto — Teseu e Pirítoo — filhos gloriosos dos deuses; mas tantas miríades de fantasmas me rodearam e soltaram gritos tão pavorosos, que me apanhou o pânico de que Prosérpina fizesse subir da casa de Hades a cabeça do monstro medonho, a Górgona. Por isso apressei-me a voltar ao meu navio e ordenei aos meus homens que embarcassem de imediato e soltassem os amarras; eles embarcaram e tomaram os seus lugares, e logo o navio desceu pela corrente do rio Oceano. Primeiro tivemos de remar, mas pouco depois levantou-se uma brisa propícia.
LIRA XII
AS SIRENAS, ESCILA E CARÍBDIS, OS GADOUS DO SOL.
‘Depois que deixámos o rio Oceano e saímos para o mar aberto, seguimos viagem até alcançarmos a ilha Eeia, onde há aurora e nascer do sol como noutros lugares. Então puxámos o nosso navio para os areais e saltámos dele para a praia, onde fomos dormir e esperamos que o dia raiasse.
‘Então, quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, mandei alguns homens à casa de Circe buscar o corpo de Elpenor. Cortámos lenha num bosque onde o promontório avançava para o mar, e depois de chorarmos sobre ele e o lamentarmos, celebrámos as suas exéquias. Quando o corpo e as armas foram reduzidos a cinzas, erguemos um túmulo, colocámos uma pedra sobre ele, e no cume do túmulo fincámos o remo com que ele costumava remar.
‘Enquanto fazíamos tudo isto, Circe, que sabia que tínhamos voltado da casa de Hades, vestiu-se e veio ter connosco tão depressa quanto pôde; e vieram com ela as suas servas, trazendo-nos pão, carne e vinho. Então ela colocou-se no meio de nós e disse: «Fizestes uma coisa ousada ao descerdes vivos à casa de Hades, e tereis morrido duas vezes, enquanto os outros só uma; agora, pois, ficai aqui pelo resto do dia, fartai-vos de banquete e segui viagem ao romper da manhã de amanhã. Entretanto, vou dizer a Ulisses qual será o vosso rumo e explicar-lhe-ei tudo de modo a evitar que vos aconteça alguma desgraça, quer em terra quer no mar.’
‘Concordámos em fazer como ela dissera, e banquetemo-nos o dia inteiro até ao pôr do sol; mas quando o sol se pôs e veio a escuridão, os homens deitaram-se a dormir pelas amarras de popa do navio. Então Circe me tomou pela mão e mandou que me sentasse apartado dos outros, enquanto ela se reclinava ao meu lado e me perguntava por todas as nossas aventuras.
««Até aqui tudo bem», disse ela, quando eu terminei a minha história, «e agora prestai atenção ao que vos vou contar — o próprio céu vo-lo recordará. Primeiro chegareis às Sirenas, que enfeitiçam todos quantos delas se aproximam. Se alguém, sem cautela, chegar demasiado perto e ouvir o canto das Sirenas, jamais a mulher e os filhos o receberão de volta a casa, pois elas sentadas num verde prado cantam-no até à morte com a doçura do seu canto. Há um grande monte de ossos de homens mortos espalhado à volta, com a carne ainda a apodrecer sobre eles. Portanto, passai ao largo destas Sirenas e tapai os ouvidos dos vossos homens com cera, para que nenhum deles possa ouvir; mas, se quiseres, tu próprio podes escutar, pois conseguirás que os homens te prendam de pé num travessão a meio do mastro, e eles devem amarrar as pontas da corda ao próprio mastro, para que tenhas o prazer de ouvir. Se rogares e suplicares aos homens que te soltem, então hão de apertar-te ainda mais.»
««Depois que a tua tripulação te tiver levado para lá destas Sirenas, não te posso dar indicações seguras sobre qual dos dois caminhos hás-de tomar; porei diante de ti as duas alternativas e terás de as ponderar por ti mesmo. Por um lado, há umas rochas sobranceiras contra as quais as ondas azul-escuro de Anfitrite batem com fúria terrificante; os deuses bem-aventurados chamam a estas rochas as Errantes. Por aqui nem sequer uma ave pode passar, não, nem mesmo as tímidas pombas que levam ambrósia ao pai Júpiter, mas a rocha nua arrebata sempre uma delas, e o pai Júpiter tem de enviar outra para completar o número; nenhum navio que alguma vez tenha chegado a estas rochas voltou a escapar, pois as ondas e os remoinhos de fogo vêm carregados de destroços e de corpos de homens mortos. O único vaso que velejou e passou foi o célebre Argo, a caminho da casa de Eetes, e ela também teria ido contra estas grandes rochas, se Juno não a tivesse pilotado para lá delas, por amor que tinha a Jasão.»
««Destas duas rochas, uma alcança o céu e o seu pico perde-se numa nuvem escura. Esta nunca a abandona, de modo que o cume nunca está descoberto, nem sequer no verão e no princípio do outono. Nenhum homem, ainda que tivesse vinte mãos e vinte pés, conseguiria ali apoio nem trepá-la, pois sobe a pique, tão lisa como se tivesse sido polida. No meio dela há uma grande caverna, voltada para o poente e virada para o Érebo; haveis de levar o vosso navio por este lado, mas a caverna é tão alta que nem o mais robusto archeiro poderia lá mandar uma flecha. Dentro dela Escila está sentada e gani com uma voz que poderíeis tomar pela de uma cadela nova, mas na verdade ela é um monstro pavoroso, e ninguém — nem sequer um deus — poderia defrontá-la sem ficar trespassado de terror. Ela tem doze pés disformes e seis pescoços de prodigioso comprimento; e na extremidade de cada pescoço tem uma cabeça horrenda, com três fileiras de dentes em cada uma, todas muito juntas, de modo que esmagariam qualquer um num instante; e está sentada no fundo da sua sombria cela, esticando as cabeças e espreitando para todos os lados da rocha, pescando golfinhos ou cações ou qualquer monstro maior que possa apanhar, dos milhares de que Anfitrite transborda. Nenhum navio passou ainda por ela sem perder alguns homens, pois ela atira com todas as cabeças de uma vez e arrebata um homem em cada boca.»
««Encontrarás a outra rocha mais baixa, mas estão tão perto uma da outra que não há mais de um tiro de arco entre elas. [Nela cresce uma grande figueira em plena folhagem], e debaixo dela jaz o redomoinho sugador de Caríbdis. Três vezes por dia ela vomita as suas águas, e três vezes as torna a sorver; acautelai-vos para não estar ali quando ela sorve, porque, se estiverdes, nem Neptuno vos poderia salvar; haveis de vos cingir ao lado de Escila e passar com o navio o mais depressa que puderdes, pois é preferível perderdes seis homens a perderdes toda a tripulação.»
««Não há nenhum modo», disse eu, «de escapar a Caríbdis e, ao mesmo tempo, manter Escila à distância quando ela tenta fazer mal aos meus homens?»
««Diabo endiabrado», respondeu a deusa, «tu estás sempre a querer lutar com alguém ou com alguma coisa; não te deixas vencer nem pelos imortais. Pois Escila não é mortal; além disso, é selvagem, desmedida, rude, cruel e invencível. Não há remédio; a tua melhor hipótese será passar por ela tão depressa quanto possas, porque, se te demoras perto da rocha enquanto te vais armando, ela pode apanhar-te com um segundo lanço das suas seis cabeças e arrancar-te mais meia dúzia de homens; por isso, passa o teu navio por ela a toda a velocidade, e grita com força para Cratáis, que é a mãe de Escila — maldita seja —; ela então a deterá, impedindo-a de fazer uma segunda investida contra vós.»
««Chegareis agora à ilha Trinácia, e aqui vereis muitas manadas de bois e rebanhos de ovelhas pertencentes ao deus sol — sete manadas de bois e sete rebanhos de ovelhas, com cinquenta cabeças em cada rebanho. Não procriam, nem diminuem de número, e são guardados pelas deusas Faetusa e Lâmpecia, que são filhas do deus sol Hiperião e de Neera. A mãe delas, depois de as ter dado à luz e de as ter criado, mandou-as para a ilha Trinácia, que ficava muito longe, para ali viverem e zelarem pelos rebanhos e manadas do pai. Se deixardes estes rebanhos intactos e só pensardes em chegar a casa, ainda podereis, após muitas provações, alcançar Ítaca; mas se os maltratardes, então previno-vos da destruição, tanto do vosso navio como dos vossos companheiros; e, ainda que tu próprio escapes, voltarás tarde, em mau estado, depois de perderes todos os teus homens.’»
‘Aqui ela terminou, e a Aurora, entronizada em ouro, começava a mostrar-se no céu; com o que ela se retirou para o interior. Eu então subi a bordo e disse aos meus homens que soltassem o navio das amarras; eles logo embarcaram, tomaram os seus lugares e começaram a fustigar o mar cinzento com os remos. Pouco depois, a grande e astuta deusa Circe nos favoreceu com uma brisa favorável que soprava прямо à popa e se mantinha firme connosco, enfunindo bem as nossas velas, de modo que fizéssemos tudo o que era preciso fazer com o aparelho do navio e o deixássemos ir para onde o vento e o timoneiro o dirigissem.
‘Então, muito perturbado de ânimo, disse aos meus homens: «Meus amigos, não é justo que só um ou dois de nós saibam as profecias que Circe me fez; vou portanto contar-vo-las, para que, quer vivamos quer morramos, o façamos de olhos abertos. Primeiro, disse ela que havíamos de nos manter ao largo das Sirenas, que estão sentadas a cantar com suma beleza num campo de flores; mas disse que eu próprio as poderia ouvir, contanto que mais ninguém ouvisse. Por isso, agarrai-me e prendei-me ao travessão a meio do mastro; prendei-me de pé, com uma ligadura tão firme que eu de modo nenhum a possa quebrar, e amarrai as pontas da corda ao próprio mastro. Se eu vos suplicar e rogar que me solteis, então prendei-me ainda com mais força.»
‘Mal acabara de contar tudo aos homens, já tínhamos alcançado a ilha das duas Sirenas, pois o vento fora muito favorável. De repente, porém, sobreveio calma perfeita; não havia um sopro de vento nem uma ondulação na água, pelo que os homens amainaram as velas e guardaram-nas; depois, pegando nos remos, branquearam a água com a espuma que levantavam ao remar. Entretanto, eu cortei com a espada um grande pedaço de cera em bocados pequenos. Depois amassei a cera nas minhas mãos fortes até ficar macia, o que depressa aconteceu com o amassar e os raios do deus sol, filho de Hiperião. Então tapei os ouvidos de todos os meus homens, e eles me prenderam mãos e pés ao mastro, de pé sobre o travessão; mas continuaram a remar. Quando já estávamos ao alcance da voz da terra e o navio ia a bom ritmo, as Sirenas viram que nos aproximávamos do litoral e começaram com o seu canto.
««Vem cá», cantavam elas, «ilustre Ulisses, honra do nome aqueu, e ouve as nossas duas vozes. Ninguém jamais passou por nós sem parar para ouvir a doçura encantadora do nosso canto — e quem ouve segue o seu caminho não só enfeitiçado, mas mais sábio, pois sabemos todos os males que os deuses impuseram aos argivos e aos troianos diante de Troia, e podemos contar-te tudo o que há de acontecer pelo mundo inteiro.»
‘Cantaram estas palavras com suma melodia, e, como eu ansiasse por ouvi-las mais, fiz sinais, franzindo o sobrolho, aos meus homens para que me soltassem; mas eles aceleraram a remada, e Euríloco e Perimedes me prenderam com laços ainda mais fortes, até que estivéssemos fora do alcance das vozes das Sirenas. Então os meus homens tiraram a cera dos ouvidos e me soltaram.
‘Logo depois de termos passado a ilha, vi uma grande onda donde se erguia a espuma e ouvi um forte rugido. Os homens ficaram tão assustados que largaram os remos, pois o mar inteiro ressoava com a correria das águas, mas o navio manteve-se onde estava, porque os homens tinham deixado de remar. Passei então por todos eles, exortando um a um a não perderem a coragem.
««Meus amigos», disse eu, «não é esta a primeira vez que estamos em perigo, e não estamos em nada tão mau como quando o Ciclope nos encerrou na sua caverna; contudo, a minha coragem e o meu prudente conselho nos salvaram então, e havemos de viver para olhar para trás e recordar tudo isto também. Agora, portanto, façamos todos o que eu digo, confiemos em Júpiter e rememos com todas as nossas forças. Quanto a ti, piloto, estas são as tuas ordens; atende-as, porque o navio está nas tuas mãos; afasta a proa destes vapores rápidos e abraça-te à rocha, ou ele fugirá e passar-te-á para lá antes que dês por ti, e serás a nossa morte.»
‘Assim, fizeram como eu lhes disse; mas nada disse acerca do monstro medonho Escila, porque sabia que os homens não continuariam a remar se o fizesse, antes se amontoariam na bodega. Numa coisa apenas desobedeci às estritas instruções de Circe — pus a minha armadura. Depois, agarrando em duas lanças fortes, coloquei-me na proa do navio, pois era ali que eu esperava ver primeiro o monstro da rocha, que havia de causar tantos males aos meus homens; mas não consegui avistá-la em parte nenhuma, embora esquadrinhasse com os olhos toda a lúgubre rocha, de lés a lés.
‘Então entrámos nos Estreitos com grande angústia de espírito, pois de um lado estava Escila e do outro a pavorosa Caríbdis sorvia sem cessar a água salgada. Quando a vomitava, era como a água de uma caldeira quando ferve e transborda sobre um grande lume, e a espuma alcançava o cume das rochas de ambos os lados. Quando ela começava a sorver de novo, víamos a água toda lá dentro a turbilhonar, e ela produzia um som ensurdecedor ao partir contra os rochedos. Víamos o fundo do redomoinho todo negro de areia e lodo, e os homens estavam loucos de medo. Enquanto estávamos assim absortos, esperando a cada instante o nosso último momento, Escila lançou-se de súbito sobre nós e arrebatou-me os meus seis melhores homens. Eu olhava ao mesmo tempo para o navio e para os homens, e num instante vi-lhes as mãos e os pés lá bem no alto, debatendo-se no ar enquanto Escila os carregava, e ouvi-os chamar pelo meu nome num último grito de desespero. Como um pescador, sentado, lança em mão, sobre algum rochedo saliente, lança o isco à água para enganar os peixinhos, e os trespassa com a ponta de chifre de boi com que a sua lança se arma, arrojando-os, arquejantes, para terra à medida que os apanha um a um — assim Escila depôs na sua rocha estas criaturas arquejantes e foi-as trincando à entrada do seu antro, enquanto elas gritavam e me estendiam as mãos na sua agonia mortal. Foi esta a visão mais nauseante que vi em todas as minhas viagens.
‘Depois de passarmos as rochas [Errantes], com Escila e a terrível Caríbdis, chegámos à nobre ilha do deus sol, onde estavam os formosos bois e ovelhas pertencentes ao sol Hiperião. Ainda no mar, a bordo do meu navio, podia ouvir os bois mugindo ao recolher aos currais, e as ovelhas a balir. Então lembrei-me do que o adivinho tebano cego Tirésias me dissera, e de quão cuidadosamente me avisara a eéia Circe para que evitasse a ilha do deus sol bendito. Por isso, muito perturbado, disse aos homens: «Meus homens, sei que estais exaustos, mas escutai enquanto vos digo a profecia que Tirésias me fez, e quão cuidadosamente a eéia Circe me avisou para que evitasse a ilha do deus sol bendito, pois era ali, disse ela, que o nosso maior perigo nos esperaria. Dirigi, portanto, o navio para longe da ilha.»
‘Os homens ficaram desesperados com isto, e Euríloco logo me deu uma insolente resposta. «Ulisses», disse ele, «és cruel; és muito forte tu próprio e nunca te cansas; pareces feito de ferro, e agora, embora os teus homens estejam exaustos de trabalho e de falta de sono, não os deixarás desembarcar e cozinhar aqui nesta ilha um bom jantar, mas mandarás que se façam ao mar e continuem a navegar infrutiferamente pelos turnos da noite que voa. É de noite que os ventos sopram com mais força e causam tantos danos; como poderemos escapar se uma daquelas rajadas repentinas se levantar do Sudoeste ou do Oeste, que tantas vezes destroem um vaso quando os nossos senhores os deuses nos são adversos? Agora, pois, obedeçamos aos desígnios da noite e preparemos aqui o nosso jantar, junto do navio; amanhã de manhã voltaremos a embarcar e a fazer-nos ao mar.»
‘Assim falou Euríloco, e os homens aprovaram as suas palavras. Eu vi que o céu nos preparava algum mal e disse: «Forçais-me a ceder, pois sois muitos contra um; mas, em todo o caso, cada um de vós tem de fazer seu solene juramento de que, se encontrar uma manada de bois ou um grande rebanho de ovelhas, não será tão louco que mate uma única cabeça de qualquer deles, mas ficará satisfeito com a comida que Circe nos deu.»
‘Todos juraram como eu lhes ordenara, e, quando completaram o juramento, amarrámos o navio num porto que ficava perto de uma corrente de água doce, e os homens saltaram para terra e cozinharam os seus jantares. Assim que ficaram saciados de comer e beber, começaram a falar dos seus pobres companheiros que Escila arrebatara e devorara; isto pôs-se-os a chorar e continuaram a chorar até caírem num sono profundo.
‘No terceiro turno da noite, quando as estrelas tinham mudado de lugar, Júpiter levantou uma grande ventania que desencadeou um furacão, de modo que a terra e o mar ficaram cobertos de nuvens espessas, e a noite brotou dos céus. Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, puxámos o navio para terra e metemo-lo numa gruta onde as ninfas do mar celebram os seus tribunais e as suas danças, e convoquei os homens em conselho.
««Meus amigos», disse eu, «temos comida e bebida no navio; cuidemos, pois, de não tocar nos gados, ou havemos de sofrê-lo; pois estes bois e ovelhas pertencem ao poderoso sol, que tudo vê e tudo ouve.» E de novo prometeram que obedeceriam.
“Durante um mês inteiro o vento soprou firme do Sul, e não houve outro vento, mas apenas Sul e Este.105 Enquanto duraram o trigo e o vinho, os homens não tocaram no gado quando tinham fome; quando, porém, acabaram tudo o que havia no navio, foram obrigados a ir mais longe, com anzol e linha, apanhando aves e tomando tudo o que lhes caísse nas mãos; pois morriam de fome. Um dia, pois, subi para o interior, a fim de suplicar ao céu que me mostrasse algum meio de me escapar. Quando me afastei o bastante para ficar fora do alcance de todos os meus homens, e achei um lugar bem abrigado do vento, lavei as mãos e roguei a todos os deuses do Olimpo, até que por fim me enviaram para um doce sono.
“Enquanto isso, Euríloco andava a dar maus conselhos aos homens: ‘Ouvi-me,’ disse ele, ‘meus pobres companheiros. Todas as mortes são más, mas nenhuma é tão má como a fome. Por que não havemos de levar as melhores destas vacas e oferecê-las em sacrifício aos deuses imortais? Se algum dia voltarmos a Ítaca, podemos erguer um formoso templo ao deus-sol e enriquecê-lo com toda a espécie de ornamentos; se, todavia, ele estiver decidido a afundar o nosso navio, vingando-se destas vacas de chifres, e os outros deuses partilharem do mesmo intento, eu, por mim, antes beberia água salgada de uma vez por todas e acabaria com isto, do que morrer de fome aos bocados nesta ilha deserta como esta é.’
“Assim falou Euríloco, e os homens aprovaram as suas palavras. Ora, os bois, tão formosos e bons, pastavam não longe do navio; os homens, portanto, levaram os melhores deles, e todos se puseram à volta deles a fazer as suas preces, e usavam rebentos de carvalho em vez de farinha de cevada, pois cevada nenhuma restava. Quando acabaram de rezar, mataram as vacas e prepararam as carcaças; cortaram os ossos das coxas, envolveram-nos em duas camadas de gordura e puseram por cima alguns bocados de carne crua. Não tinham vinho com que fazer libações sobre o sacrifício enquanto este assava, pelo que iam deitando de vez em quando um pouco de água enquanto as entranhas eram assadas na grelha; depois, quando os ossos das coxas ficaram queimados e provaram as entranhas, cortaram o resto em pequenos pedaços e meteram-nos nos espetos.
“Nesse momento o meu sono profundo deixou-me, e voltei para o navio e para a praia do mar. Quando me aproximei, comecei a cheirar carne assada a brasa, pelo que soltei um gemido em oração aos deuses imortais. ‘Pai Jove,’ exclamei, ‘e todos vós outros deuses que viveis em eterna bem-aventurança, havei-me feito um cruel dano com o sono em que me lançastes; vede que bela obra fizeram estes homens meus na minha ausência.’
“Enquanto isso, Lampetia foi direito ao sol e contou-lhe que tínhamos estado a matar as suas vacas; com o que ele encolerizou-se grandemente, e disse aos imortais: ‘Pai Jove, e todos vós outros deuses que viveis em eterna bem-aventurança, hei-de vingar-me da tripulação do navio de Ulisses: tiveram a insolência de matar as minhas vacas, que eram a única coisa que eu gostava de contemplar, quer subisse ao céu quer dele tornasse a descer. Se eles não me pagarem pelas minhas vacas, desceri ao Hades e ali brilharei entre os mortos.’
— ‘Sol,’ disse Jove, ‘continua a brilhar para nós, deuses, e para os homens sobre a terra fecunda. Eu despedaçarei o navio deles com um raio de relâmpago branco, logo que saiam para o mar.’
“Foi tudo isto que Calipso me contou, e disse-me que o ouvira da boca de Mercúrio.
“Mal cheguei ao meu navio e à praia do mar, repreendi cada um dos homens em particular, mas não lográmos ver saída alguma, pois as vacas já estavam mortas. E na verdade os deuses começaram logo a mostrar sinais e prodígios entre nós, pois os couros dos bois arrastavam-se pelo chão, e os pedaços nos espetos começaram a mugir como vacas, e a carne, fosse cozida ou crua, continuava a fazer um ruído igual ao que fazem as vacas.
“Durante seis dias os meus homens não pararam de trazer as melhores vacas e de banquetar-se com elas; mas quando Jove, filho de Saturno, acrescentou um sétimo dia, a fúria da tempestade abrandou; portanto, embarcámos, içámos os mastros, estendemos as velas e fizemos ao mar. Mal nos afastámos bem da ilha e só víamos céu e mar, o filho de Saturno ergueu um negro númen sobre o nosso navio, e o mar escureceu por baixo. Não fomos muito mais longe, pois num instante fomos apanhados por uma terrífica rajada de Oeste que estalou os estais do mastro, de modo que este caiu para trás, enquanto toda a enxárcia rolou ao fundo do vaso. O mastro caiu sobre a cabeça do timoneiro na popa do navio, de modo que os ossos da cabeça lhe foram esmagados, e ele caiu borda fora como se mergulhasse, sem mais vida dentro de si.
“Então Jove disparou os seus raios, e o navio revolveu-se sobre si mesmo, e encheu-se de fogo e enxofre quando o relâmpago o atingiu. Os homens caíram todos ao mar; foram arrastados pela água à volta do navio, parecendo tantas gaivotas, mas o deuses tirou-lhes logo toda a possibilidade de voltar a casa.
“Agüentei-me ao navio até que o mar lhe arrancou os flancos da quilha (que ficou à deriva por si mesma) e arrancou o mastro na direção da quilha; mas havia um estai de couro forte de boi ainda preso a ele, e com este amei o mastro e a quilha juntos, e montando sobre eles fui levado para onde os ventos quiseram levar-me.
“[A rajada do Oeste tinha agora gasto a sua força, e o vento virou de novo para Sul, o que me assustou, temendo ser arrastado de volta para o terrível redemoinho de Caríbdis. Foi isso mesmo que de facto aconteceu, pois fui levado pelas ondas a noite toda, e ao nascer do sol tinha alcançado o rochedo de Cila e o redemoinho. Ela estava então a sorver a água salgada do mar,106 mas eu fui erguido em direção à figueira, à qual me agarrei e me prendi como um morcego. Não pude assentar os pés em parte alguma que me servisse de apoio firme, pois as raízes ficavam longe e os ramos que cobriam toda a piscina eram demasiado altos, demasiado vastos e demasiado afastados para eu os alcançar; pelo que fiquei ali pendurado com paciência, esperando até que a piscina devolvesse o meu mastro e a minha jangada — e pareceu-me muitíssimo tempo. Um jurado não se alegra mais por chegar a casa para o jantar, depois de ter estado muito tempo retido no tribunal por processos incómodos, do que eu me alegrei ao ver a minha jangada começar a abrir caminho para fora do redemoinho outra vez. Por fim larguei com as mãos e com os pés, e caí pesadamente ao mar, mesmo ao pé da minha jangada, sobre a qual subi logo, e comecei a remar com as mãos. Quanto a Cila, o pai dos deuses e dos homens não lhe permitiu obter mais vista de mim — de outro modo eu ter-me-ia perdido decerto.107
“Daí fui levado durante nove dias, até que na décima noite os deuses me arrojaram à ilha Ogígia, onde mora a grande e poderosa deusa Calipso. Ela me acolheu e foi bondosa para comigo, mas não preciso de falar mais disto, pois já vos contei a vós e à vossa nobre esposa tudo isto ontem, e aborreço-me de repetir a mesma coisa vezes sem fim.”
LIVRO XIII
ULISSES DEIXA ESQUERIA E VOLTA A ÍTACA.
Assim falou ele, e todos se mantiveram em silêncio ao longo do claustro coberto, enfeitiçados pelo encanto da sua história, até que por fim Alcínoo começou a falar.
— Ulisses — disse ele —, agora que chegastes à minha casa, não duvido de que chegareis a casa sem mais contratempos, não importa o quanto tenhais sofrido no passado. A vós outros, porém, que aqui vindes noite após noite beber o meu melhor vinho e ouvir o meu bardo, eu vos exortaria do seguinte modo. O nosso hóspede já juntou as roupas, o ouro trabalhado108 e outras coisas valiosas que trouxestes para ele aceitar; portanto, presentemo-lo mais, cada um de nós, com um grande tripé e uma caldeira. Nós nos ressarciremos por meio de uma contribuição geral; pois não se pode esperar que particulares suportem o encargo de um presente tão formoso.
Todos aprovaram isto, e depois foram para casa dormir cada um na sua morada. Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, apressaram-se a descer ao navio e trouxeram consigo as caldeiras. Alcínoo foi a bordo e viu tudo tão seguramente arrumado sob os bancos do navio, que nada se podia soltar e ferir os remadores. Depois foram à casa de Alcínoo para jantar, e ele sacrificou-lhes um touro em honra de Jove, que é o senhor de todos. Puseram os bifes a grelhar e fizeram um excelente jantar, após o qual o inspirado bardo, Demódoco, que era estimado por todos, cantou para eles; mas Ulisses continuava a virar os olhos para o sol, como para apressar o seu ocaso, pois ansiava por pôr-se a caminho. Como um homem que andou todo o dia a lavrar um campo em pousio com uma junta de bois não para de pensar no seu jantar e se alegra quando chega a noite para ir buscá-lo, pois as pernas mal lhe dão para se aguentar de pé, assim Ulisses se rejubilou quando o sol se pôs, e logo disse aos Feaces, dirigindo-se mais particularmente ao rei Alcínoo:
— Senhor, e todos vós, adeus. Fazei as vossas libações e mandai-me embora cheio de alegria, pois cumpristes o desejo do meu coração dando-me escolta e fazendo-me presentes, o que o céu conceda que eu converta em bom uso; possa eu encontrar a minha admirável esposa viva em paz entre amigos,109 e possais vós, que deixo para trás, dar satisfação às vossas esposas e filhos;110 e o céu vos conceda toda a boa graça, e nenhum mal sobrevenha ao vosso povo.
Assim falou ele. Os ouvintes todos aprovaram o seu dito e concordaram que ele tivesse escolta, uma vez que falara com razão. Alcínoo, portanto, disse ao seu servo: — Pontónoo, mistura vinho e distribui-o a todos, para que possamos fazer uma prece a pai Jove, e apressemos o nosso hóspede na sua viagem.
Pontónoo misturou o vinho e serviu-o a cada um por sua vez; os outros, cada um do seu lugar, fizeram uma libação aos deuses bem-aventurados que vivem no céu, mas Ulisses levantou-se e colocou a taça dobrada nas mãos da rainha Arete.
— Adeus, rainha — disse ele —, de agora em diante e para sempre, até que a idade e a morte, a sorte comum do género humano, ponham sobre vós as suas mãos. Tomo agora a minha despedida; sede feliz nesta casa com os vossos filhos, o vosso povo, e com o rei Alcínoo.
Enquanto falava, atravessou o limiar, e Alcínoo mandou um homem para o conduzir ao seu navio e à praia do mar. Arete mandou também com ele algumas criadas — uma com uma túnica limpa e um manto, outra para lhe levar a arca forte, e uma terceira com trigo e vinho. Quando chegaram à beira da água, a tripulação tomou essas coisas e colocou-as a bordo, com toda a comida e bebida; mas para Ulisses estenderam no convés uma manta e um lençol de linho para que ele pudesse dormir profundamente na popa do navio. Então ele também embarcou e deitou-se sem uma palavra, mas a tripulação tomou cada homem o seu lugar e soltou a amarra da pedra furada à qual estivera ligada. Nisso, quando começaram a remar para o mar, Ulisses caiu num sono profundo, doce e quase semelhante à morte.111
O navio saltava para a frente no seu caminho como uma quadriga voa sobre a pista quando os cavalos sentem o chicote. A proa curvava-se como o pescoço de um garanhão, e uma grande onda de água azul-escura fervilhava na sua esteira. Ela seguia firme no seu rumo, e nem um falcão, o mais rápido de todos os pássaros, teria podido acompanhar o seu passo. Assim, então, ela cortava o seu caminho pela água, levando um que era tão astuto como os deuses, mas que agora dormia em paz, esquecido de tudo quanto sofrera tanto no campo de batalha como pelas ondas do mar fatigante.
Quando a estrela brilhante que anuncia a chegada da aurora começou a mostrar-se, o navio aproximou-se da terra.112 Ora, há em Ítaca um porto do velho homem-do-mar Fórcis, que jaz entre duas pontas que cortam a linha do mar e fecham o porto. Elas abrigam-no das tempestades de vento e mar que rugem fora, de modo que, uma vez dentro, um navio pode ficar sem sequer ser amarrado. À entrada deste porto há uma grande oliveira, e a pouca distância uma formosa caverna arqueada, sagrada às ninfas que são chamadas Náiades.113 Há dentro dela taças de mistura e jarras de pedra para vinho, e as abelhas ali fazem colmeia. Além disso, há grandes teares de pedra nos quais as ninfas teem os seus vestidos de púrpura marinha — muito curiosos de ver —, e em todo o tempo há água dentro dela. Tem duas entradas: uma virada a Norte, pela qual os mortais podem descer à gruta, enquanto a outra vem do Sul e é mais misteriosa; por ela os mortais não podem de modo algum entrar, é o caminho usado pelos deuses.
Para este porto, então, levaram o seu navio, pois conheciam o lugar.114 Trazia tanta arrancada que correu metade do seu próprio comprimento sobre a praia;115 quando, porém, desembarcaram, a primeira coisa que fizeram foi erguer Ulisses com a sua manta e o lençol de linho para fora do navio, e pousá-lo sobre a areia ainda profundamente adormecido. Depois tiraram os presentes que Minerva persuadira os Feaces a dar-lhe quando ele partia na sua viagem de regresso. Puseram-nos todos juntos junto à raiz da oliveira, afastados do caminho, com medo de que algum transeunte116 viesse e os roubasse antes de Ulisses acordar; e depois fizeram o melhor caminho de regresso a casa.
Mas Neptuno não esqueceu as ameaças com que já ameaçara Ulisses, pelo que consultou Jove.
— Pai Jove — disse ele —, já não serei tido em nenhum tipo de respeito entre vós, deuses, se mortais como os Feaces, que são da minha própria carne e sangue, mostrarem tão pouco apreço por mim. Eu disse que deixaria Ulisses chegar a casa depois de ter sofrido o suficiente. Não disse que ele nunca devia chegar a casa, pois sabia que já tínheis acenado com a cabeça a esse respeito, e prometido que ele assim faria; mas agora eles trouxeram-no num navio profundamente adormecido e deixaram-no em Ítaca depois de o carregarem com presentes mais magníficos de bronze, ouro e vestuário do que ele jamais teria trazido de Tróia, se tivesse tido a sua parte do espólio e chegado a casa sem contratempos.
E Jove respondeu:
— Que diantre, ó Senhor do Terremoto, estás tu a dizer? Os deuses de modo nenhum carecem de respeito para contigo. Seria monstruoso insultarem um tão velho e honrado como tu és. Quanto aos mortais, porém, se algum deles se entrega à insolência e te trata com desrespeito, sempre dependerá de ti próprio lidar com ele como te aprouver; faz, portanto, como quiseres.
— Eu teria feito logo isso — replicou Neptuno —, se não estivesse ansioso por evitar tudo o que pudesse desagradar-te; agora, portanto, queria naufragar o navio feácio quando regressa da sua escolta. Isto os impedirá de escoltar gente no futuro; e queria também soterrar a sua cidade debaixo de uma enorme montanha.
— Meu bom amigo — respondeu Jove —, eu te recomendaria, no próprio momento em que o povo da cidade estiver a ver o navio a passar, que o transformasses em rocha perto da terra e com o aspeto de um navio. Isso espantará toda a gente, e tu poderás então soterrar a cidade debaixo da montanha.
Quando Neptuno, que abraça a terra, ouviu isto, foi para Esqueria, onde vivem os Feaces, e ali ficou até que o navio, que avançava rapidamente, chegou bem perto. Então subiu até ele, transformou-o em pedra, e com a palma da mão o enterrou de modo a fixá-lo no chão. Depois foi-se embora.
Os Feaces começaram então a falar entre si, e um virava-se para o vizinho, dizendo:
— Valha-me Deus, quem é que pode ter fixado o navio no mar mesmo quando ele estava a entrar no porto? Há um momento ainda víamos o navio todo inteiro.
Assim falavam, mas nada sabiam do assunto; e Alcínoo disse:
— Lembro-me agora da antiga profecia de meu pai. Ele disse que Neptuno ficaria irado connosco por levarmos toda a gente tão seguramente por mar, e que um dia naufragaria um navio feácio quando regressasse de uma escolta, e soterraria a nossa cidade debaixo de uma alta montanha. Era isto o que o meu velho pai costumava dizer, e agora tudo se está a cumprir.117 Agora, portanto, façamos todos como eu digo: em primeiro lugar, temos de deixar de dar escolta a quem aqui vem; e em segundo lugar, sacrifiquemos doze touros escolhidos a Neptuno, para que ele tenha piedade de nós e não soterrasse a nossa cidade debaixo da alta montanha.
Quando o povo ouviu isto, teve medo e preparou os touros.
Assim rezaram os chefes e governantes dos Feaces ao rei Neptuno, de pé em volta do seu altar; e ao mesmo tempo118 Ulisses acordou uma vez mais sobre o seu próprio solo. Estivera tão tempo fora que já não o reconhecia; além disso, a filha de Jove, Minerva, fizera daquele um dia nevoento, para que ninguém soubesse da sua chegada, e para que ela lhe pudesse contar tudo sem que nem a esposa dele nem os seus concidadãos e amigos o reconhecessem119 até que ele se tivesse vingado dos maus pretendentes. Tudo, portanto, lhe pareceu bem diferente — as longas pistas direitas, os portos, os precipícios e as formosas árvores pareciam todos transformados, quando ele se levantou de um salto e olhou para a sua terra natal. Bateu então com as palmas das mãos nas coxas e gritou em desespero.
— Ai de mim — exclamou —, entre que tipo de gente vim eu cair? Serão eles selvagens e incivilizados, ou hospitaleiros e humanos? Onde porei todo este tesouro, e para que lado hei de ir? Quem me dera ter ficado lá nos Feaces; ou poderia ter ido a algum outro grande chefe que fosse bom para mim e me desse escolta. Assim como estou, não sei onde pôr o meu tesouro, nem o posso deixar aqui com medo de que alguém se aposse dele. Em boa verdade, os chefes e governantes dos Feaces não têm usado de retidão para comigo, e deixaram-me na terra errada; disseram que me levariam de volta a Ítaca e não o fizeram: que Jove, protetor dos suplicantes, os castigue, pois ele vela por todos e pune os que fazem o mal. Ainda assim, suponho que tenho de contar os meus haveres e ver se a tripulação se foi com algum deles.
Ele contou as suas belas peças de cobre e os seus caldeirões, o seu ouro e todas as suas roupas, mas nada faltava; todavia continuava a afligir-se por não estar na sua própria terra, e vagueava de um lado para o outro pela margem do mar resonante, lamentando o seu duro destino. Então Minerva aproximou-se dele, disfarçada de jovem pastor de porte delicado e principesco, com um bom manto dobrado em dois sobre os ombros; trazia sandálias nos formosos pés e segurava na mão um dardo. Ulisses alegrou-se ao vê-la e foi direito ao seu encontro.
«Meu amigo», disse, «éreis a primeira pessoa que encontro neste país; saúdo-vos, pois, e suplico-vos que sejais bem disposto para comigo. Protegei estes meus haveres e a mim também, pois abraço os vossos joelhos e vos rogo como se fôsseis um deus. Dizei-me, então, e dizei-me a verdade, que terra e país é este? Quem são os seus habitantes? Estou numa ilha, ou é esta a orla marítima de algum continente?»
Minerva respondeu: «Estrangeiro, deveis ser muito simples, ou haveis de ter vindo de algum lugar muito distante, para não saberdes que país é este. É um lugar mui celebrado, e todos o conhecem do Oriente ao Ocidente. É escarpado e não é bom país para conduzir carroças, mas não é de modo algum uma ilha má no que tem. Dá trigo em abundância e também vinho, pois é regada tanto pela chuva como pelo orvalho; também cria gado e cabras; todas as espécies de madeira crescem aqui, e há nascentes onde a água nunca seca; assim, senhor, o nome de Ítaca é conhecido até tão longe como Tróia, que, segundo sei, fica mui distante desta terra dos Aqueus.»
Ulisses alegrou-se por se encontrar, como Minerva lhe dizia, na sua própria terra, e começou a responder, mas não falou a verdade e inventou uma história mentirosa na astúcia instintiva do seu coração.
«Ouvi falar de Ítaca», disse ele, «quando estava em Creta, para lá dos mares, e agora parece que aqui cheguei com todos estes tesouros. Deixei outros tantos atrás de mim para os meus filhos, mas ando fugindo porque matei Orsíloco, filho de Idomeneu, o mais veloz corredor de Creta. Matei-o porque ele queria roubar-me os despojos que havia ganho diante de Tróia com tanto trabalho e perigo, tanto no campo de batalha como pelas ondas do mar fatigante; ele dizia que eu não havia servido o seu pai lealmente em Tróia como vassalo, mas que me havia erigido em senhor independente, pelo que lhe armei uma emboscada com um dos meus companheiros à beira do caminho, e lancei-o com a lança quando ele entrava na cidade vindo do campo. Era uma noite muito escura e ninguém nos viu; não se soube, pois, que eu o havia matado, mas logo que o fiz fui a um navio e roguei aos seus donos, que eram fenícios, que me tomassem a bordo e me levassem a Pilos ou a Élis, onde reinam os Epeus, dando-lhes tantos despojos quantos os satisfizessem. Não tinham eles má tenção, mas o vento desviou-os do seu rumo, e navegámos até que aqui chegámos de noite. Foi tudo quanto pudemos fazer para entrar no porto, e nenhum de nós disse palavra acerca do jantar, por muito que dele precisássemos, mas saltámos todos em terra e deitámo-nos como estávamos. Eu estava muito cansado e adormeci de imediato, pelo que tiraram os meus haveres do navio e colocaram-nos junto de mim, onde jazia sobre a areia. Depois zarparam para Sidónia, e eu fiquei aqui em grande aflição de espírito.»
Tal era a sua história, mas Minerva sorriu e acariciou-o com a mão. Depois tomou a forma de uma mulher, formosa, majestosa e sábia. «Há-de ser por certo um truão muito velhaco», disse ela, «que pudesse superar-vos em toda a espécie de astúcia, ainda que tivésseis um deus por adversário. Tão desavergonhado, cheio de manha, infatigável no engano, não podeis largar os vossos truques e a vossa mentira instintiva, nem agora que estais de novo na vossa pátria? Não falemos mais, porém, disto, pois ambos podemos enganar quando convém — vós sois o mais consumado conselheiro e orador entre todos os homens, enquanto eu, para diplomacia e subtileza, não tenho igual entre os deuses. Não conhecíeis Minerva, filha de Jove — a mim, que sempre estive convosco, que vigiei por vós em todas as vossas tribulações e que fez com que os Feaces vos tivessem tanta afeição? E agora, de novo, venho aqui para tratar convosco das coisas e vos ajudar a esconder o tesouro que fiz com que os Feaces vos dessem; quero falar-vos dos males que vos esperam na vossa própria casa; haveis de enfrentá-los, mas não digais a ninguém, nem homem nem mulher, que haveis regressado. Suportai tudo e aturai a insolência de cada um, sem uma palavra.»
E Ulisses respondeu: «Um homem, ó deusa, pode saber muito, mas vós mudais tanto de aparência que, quando vos encontra, é difícil para ele saber se sois vós ou não. Isto, porém, sei-o eu mui bem: fostes muito benfazeja comigo enquanto os Aqueus combatiam diante de Tróia, mas desde o dia em que embarcámos depois de havermos saqueado a cidade de Príamo, e o céu nos dispersou — desde esse dia, Minerva, não vos vi mais, e não me lembra jamais que tenhais vindo ao meu navio para me ajudar numa dificuldade; tive de vaguear doente e desventurado até que os deuses me livraram do mal e cheguei à cidade dos Feaces, onde me animastes e me levastes à cidade. E agora, vos suplico em nome de vosso pai, dizei-me a verdade, pois não creio estar realmente de volta a Ítaca. Estou em algum outro país e estais a troçar de mim e a enganar-me em tudo quanto haveis dito. Dizei-me, pois, a verdade: estou eu realmente de volta à minha própria terra?»
«Andais sempre a imaginar coisas dessas vezes», respondeu Minerva, «e é por isso que não vos posso abandonar nas vossas aflições; sois tão persuasivo, sagaz e velhaco. Qualquer um, senão vós, ao regressar de tão longa viagem, iria logo a casa ver a sua esposa e filhos, mas vós parece não vos importar de perguntar por eles ou de ouvir notícias deles enquanto não houverdes explorado a vossa esposa, que permanece em casa chorando por vós em vão, sem paz de noite ou de dia, com as lágrimas que verte por vossa causa. Quanto a mim, não vos ter ido ter convosco, nunca estive inquieta convosco, pois tinha a certeza de que voltaríeis são e salvo, ainda que perdêsseis todos os vossos homens, e não queria indispor-me com o meu tio Neptuno, que jamais vos perdoou por haverdes cegado o seu filho. Vou agora, porém, mostrar-vos a configuração da terra, e talvez então me acrediteis. Este é o porto do velho tritão Fórcis, e aqui está a oliveira que cresce à cabeceira dele; [perto fica a gruta sagrada para as Náiades; aqui também fica a gruta abobadada em que haveis oferecido muitas e aceitáveis hecatombes às ninfas, e esta é a montanha arborizada Nerito.»
Enquanto assim falava, a deusa dispersou a névoa e a terra apareceu. Então Ulisses alegrou-se por se encontrar de novo na sua própria terra e beijou o solo generoso; ergueu as mãos e orou às ninfas, dizendo: «Náiades, filhas de Jove, eu tinha a certeza de que jamais vos tornaria a ver; agora, pois, vos saúdo com todo o amoroso carinho, e vos trarei oferendas como outrora, se a terrível filha de Jove me conceder vida e levar o meu filho à idade viril.»
«Tende ânimo e não vos preocupeis com isso», replicou Minerva; «ocupemo-nos antes de esconder as vossas coisas de imediato na gruta, onde ficarão bem seguras. Vejamos como poderemos arranjar tudo.»
Com isto ela desceu à gruta para procurar os esconderijos mais seguros, enquanto Ulisses subiu com todo o tesouro de ouro, bronze e boa roupa que os Feaces lhe haviam dado. Guardaram tudo com cuidado, e Minerva colocou uma pedra contra a porta da gruta. Então os dois sentaram-se à raiz da grande oliveira e consultaram como haveriam de tramar a destruição dos perversos pretendentes.
«Ulisses», disse Minerva, «nobre filho de Laertes, pensai como podereis deitar a mão a esta gente desonrosa que tem sido senhora na vossa casa há já três anos, cortejando a vossa esposa e fazendo-lhe presentes de núpcias, enquanto ela nada faz senão lamentar a vossa ausência, dando esperança e enviando mensagens animadoras a cada um deles, mas pensando o contrário de tudo quanto diz.»
E Ulisses respondeu: «Em boa verdade, ó deusa, parece que eu teria tido em minha casa o mesmo triste fim que Agamémnon, se me não houvésseis dado tão atempada informação. Aconselhai-me como me vingarei melhor. Ponde-vos ao meu lado e infundi-me coragem no coração, como no dia em que soltámos da fronte de Tróia a sua bela coroa. Ajudai-me agora como então fizestes, e eu lutarei contra trezentos homens, se vós, ó deusa, estiverdes comigo.»
«Confiai em mim», disse ela, «não perderei a vossa vista quando começarmos, e imagino que alguns daqueles que andam a devorar os vossos bens borrifarão então o pavimento com o seu sangue e miolos. Começarei por vos disfarçar, de modo que nenhum mortal vos conheça; cobrirei o vosso corpo de rugas; perdereis todo o vosso cabelo louro; vestir-vos-ei com uma veste que enchará de nojo todos quantos a virem; turvar-vos-ei os formosos olhos e far-vos-ei um objecto indecoroso à vista dos pretendentes, da vossa esposa e do filho que deixastes. Ide então de imediato ao porqueiro que trata dos vossos porcos; ele sempre vos foi afecto e é dedicado a Penélope e a vosso filho; achá-lo-eis a alimentar os porcos perto da rocha chamada Corvo, junto à fonte Aretusa, onde eles se engordam com bolota e água de nascente, segundo o seu costume. Ficai com ele e informai-vos de como vão as coisas, enquanto eu parto para Esparta ver o vosso filho, que está com Menelau em Lacedemónia, onde foi procurar saber se ainda estais vivo."
«Mas por que», disse Ulisses, «não lho dissestes, vós que sabíeis tudo? Quisestes que ele também andasse a navegar por entre toda a espécie de sofrimentos enquanto outros lhe comem os haveres?»
Minerva respondeu: «Não vos preocupeis com ele; mandei-o para que ele fosse bem falado por ter ido. Não tem dificuldade alguma, mas está instalado confortavelmente com Menelau e rodeado de toda a espécie de abundância. Os pretendentes fizeram-se ao mar e estão à espera dele, pois pretendem matá-lo antes que ele possa chegar a casa. Não creio muito que o consigam, mas antes que alguns daqueles que agora vos comem os haveres achem primeiro a sua própria sepultura.»
Enquanto assim falava, Minerva tocou-o com a sua varinha e cobriu-o de rugas; tirou-lhe todo o cabelo louro e ressecou a carne por todo o corpo; turvou-lhe os olhos, que eram naturalmente muito belos; mudou-lhe as roupas e lançou sobre ele um andrajo de manto velho e uma túnica esgaçada, suja e manchada de fumo; deu-lhe também uma pele de cervo não curtida como capa exterior e proveu-o de um bordão e de uma sacola toda furada, com uma correia torcida para ele a suspender ao ombro.
Quando assim traçaram os seus planos, separaram-se, e a deusa foi direito a Lacedemónia buscar Telémaco.
LIVRO XIV
ULISSES NA CHOÇA DE EUMEU.
Ulisses deixou então o porto e tomou o áspero caminho que sobe pela terra arborizada e sobre a crista da montanha até chegar ao lugar onde Minerva lhe dissera que acharia o porqueiro, que era o mais frugal dos seus servos. Achou-o sentado diante da sua choça, que ficava junto dos currais que ele havia construído num sítio que se avistava de longe. Ele fizera-os espaçosos e belos de ver, com ampla correría para os porcos em toda a volta; construíra-os durante a ausência do seu senhor, com pedras que havia apanhado do chão, sem dizer nada a Penélope nem a Laertes, e cercara-os por cima com silvas. Fora do curral levantara uma forte estacada de postes de carvalho, rachados e dispostos bem juntos, enquanto dentro construíra doze pocilgas junto umas das outras para as porcas se deitarem. Em cada pocilga havia cinquenta porcos a chafurdar, todos eles porcas de cria; mas os varrões dormiam fora e eram muito menos em número, pois os pretendentes não cessavam de os comer, e o porqueiro tinha de lhes enviar continuamente os melhores. Havia trezentos e sessenta varrões, e os quatro cães do pastor, que eram tão ferozes como lobos, dormiam sempre com eles. O porqueiro estava nesse momento a cortar um par de sandálias de uma boa e rija pele de boi. Três dos seus homens estavam fora a apascentar os porcos nuns e noutros sítios, e ele havia mandado o quarto à cidade com um varrão que fora obrigado a mandar aos pretendentes, para que o sacrificassem e se regalassem com a carne.
Quando os cães viram Ulisses, puseram-se a ladrar furiosamente e atiraram-se a ele, mas Ulisses teve o astúcia de se sentar e largar o bordão que tinha na mão; ainda assim, teria sido por eles destroçado na sua própria casa se o porqueiro não tivesse largado a pele de boi, corrido a toda a velocidade pelo portão do curral e afastado os cães a gritar e atirando-lhes pedras. Depois disse a Ulisses: «Velho, os cães bem vos teriam feito em pedaços, e então meter-me-íeis em apuros. Os deuses já me deram aborrecimentos de sobra sem isso, pois perdi o melhor dos senhores e ando em contínua aflição por causa dele. Tenho de tratar de porcos para outros os comerem, enquanto ele, se ainda vive para ver a luz do sol, anda a morrer de fome em alguma terra distante. Mas entrai, e depois de terdes comido o vosso tanto de pão e vinho, dizei-me donde vindes e contai-me tudo sobre as vossas desventuras.»
Com isto o porqueiro abriu caminho para a choça e mandou-o sentar. Espalhou no chão uma boa e espessa camada de juncos, e por cima lançou a pilosa pele de camurça — uma bem grossa — sobre a qual ele costumava dormir à noite. Ulisses agradou-lhe o ser assim recebido e disse: «Que Jove, senhor, e os restantes deuses vos concedam o que desejais em troca do modo gentil com que me recebestes.»
A isto respondestes, ó porqueiro Eumeu: «Estrangeiro, ainda que um homem mais pobre do que vós aqui chegasse, não seria justo insultá-lo, pois todos os estrangeiros e mendigos vêm de Jove. Haveis de aceitar o que vos derem e mostrar-vos grato, pois os servos vivem com medo quando têm jovens senhores como amos; e essa é agora a minha desgraça, pois o céu impediu o regresso daquele que teria sido sempre bom para mim e me teria dado algo meu — uma casa, um pedaço de terra, uma boa e formosa esposa, e tudo o mais que um senhor generoso concede a um servo que trabalhou muito para ele e cujo labor os deuses favoreceram como favoreceram o meu no cargo que desempenho. Se o meu senhor tivesse envelhecido aqui, teria feito grandes coisas por mim, mas ele foi-se, e eu queria que toda a raça de Helena fosse de todo destruída, pois ela tem sido a morte de tantos bons homens. Foi este assunto que levou o meu senhor a Ílio, a terra dos nobres corcéis, para combater os Troianos pela causa do rei Agamémnon.»
Enquanto falava, cingiu o cinto e foi às pocilgas onde estavam encerrados os leitões. Escolheu dois, trouxe-os consigo e sacrificou-os. Chamuscou-os, cortou-os e espetou-os num espeto; quando a carne estava cozida trouxe-a toda para dentro e serviu-a diante de Ulisses, quente e ainda no espeto, sobre a qual Ulisses polvilhou farinha de cevada. O porqueiro misturou então vinho numa tigela de madeira de hera e, tomando lugar em frente de Ulisses, mandou-o começar.
«Comei, estrangeiro», disse ele, «dum prato de porco de servo. Os porcos gordos têm de ir para os pretendentes, que os devoram sem vergonha nem escrúpulo; mas os deuses bem-aventurados não amam tais acções vergonhosas e respeitam os que fazem o que é legal e justo. Mesmo os ferozes saqueadores que vão incursionar terras alheias, e a quem Jove dá o seu despojo — mesmo eles, quando encheram os navios e chegaram a casa, vivem com a consciência atribulada e olham com temor para o juízo; mas algum deus parece ter dito a esta gente que Ulisses morreu e se foi; eles não querem, por isso, voltar às suas próprias casas e fazer as suas propostas de casamento pelo modo habitual, mas consomem os seus haveres à força, sem medo nem conta. Não há dia nem noite que saia do céu sem que eles sacrifiquem não uma vítima nem duas somente, e dão largas ao seu vinho, pois ele era riquíssimo. Nenhum outro grande homem, nem em Ítaca nem no continente, é tão rico como ele era; possuía tanto como vinte homens juntos. Vou dizer-vos o que ele tinha. Há doze rebanhos de gado na terra firme e outras tantas manadas de ovelhas, há também doze tropas de porcos, enquanto os seus próprios homens e estranhos assalariados lhe apascentam doze manadas de cabras muito espalhadas. Aqui em Ítaca possui ele manadas ainda grandes de cabras no extremo da ilha, e elas estão a cargo de excelentes cabreiros. Cada um destes envia aos pretendentes a melhor cabra do rebanho todos os dias. Quanto a mim, tenho a meu cargo os porcos que vedes aqui e tenho de escolher continuamente os melhores que tenho e mandá-los a eles.»
Assim falou ele, mas Ulisses continuou a comer e a beber vorazmente sem palavra, meditando a sua vingança. Quando comeu o bastante e ficou satisfeito, o porqueiro pegou na tigela de que costumava beber, encheu-a de vinho e deu-a a Ulisses, que se alegrou e disse, ao tomá-la nas mãos: «Meu amigo, quem era esse vosso senhor que vos comprou e pagou por vós, tão rico e tão poderoso como me dizeis? Dizeis que ele pereceu pela causa do rei Agamémnon; dizei-me quem ele era, caso eu possa ter encontrado tal pessoa. Jove e os outros deuses sabem, mas talvez eu vos possa dar notícias dele, pois tenho viajado muito.»
Eumeu respondeu: «Velho, nenhum viajante que aqui venha com notícias conseguirá que a esposa e o filho de Ulisses acreditem no seu relato. Não obstante, os vagabundos necessitados de pousada não cessam de chegar com a boca cheia de mentiras e nem uma palavra de verdade; todo aquele que consegue chegar a Ítaca vai à minha senhora e conta-lhe falsidades, ao que ela os acolhe, trata-os bem e lhes faz perguntas de toda a espécie, chorando sempre, como é próprio das mulheres que perderam os maridos. E vós também, velho, por uma túnica e um manto sem dúvida inventaríeis uma história bem bonita. Mas os lobos e as aves de rapina já há muito que despedaçaram Ulisses, ou os peixes do mar o comeram, e os seus ossos jazem profundamente enterrados na areia de alguma praia estrangeira; ele está morto e desaparecido, e é um mau negócio para todos os seus amigos — para mim especialmente; para onde quer que eu vá, nunca mais encontrarei tão bom amo, nem mesmo se voltasse para casa de minha mãe e de meu pai, onde fui criado e nasci. Não me preocupo tanto, contudo, com os meus pais agora, embora muito desejasse revê-los na minha pátria; é a perda de Ulisses que mais me aflige; não posso falar dele sem reverência, ainda que já não esteja aqui, pois ele me queria muito e cuidou de mim de tal modo que, onde quer que esteja, hei de honrar sempre a sua memória.»
«Meu amigo», respondeu Ulisses, «sois muito afirmativo e muito difícil de crer quanto ao regresso do vosso amo; contudo, não direi apenas, mas jurarei que ele vem. Não me deis nada pelas minhas notícias até que ele tenha efetivamente chegado; podereis então dar-me uma túnica e um manto de bom uso, se quiserdes. Estou em grande necessidade, mas não aceitarei absolutamente nada até lá, pois odeio um homem — tanto quanto odeio o fogo do inferno — que se deixe levar pela pobreza a ponto de mentir. Juro pelo rei Júpiter, pelos ritos da hospitalidade e por essa lareira de Ulisses a que agora me cheguei, que tudo一定会 acontecer como eu disse. Ulisses voltará neste mesmo ano; com o fim desta lua e o começo da próxima, ele estará aqui para se vingar de todos quantos maltratam a sua esposa e o seu filho.»
A isto respondeste, ó porcaço Eumeu: «Velho, não recebereis paga por trazer boas notícias, nem Ulisses jamais voltará a casa; bebei o vosso vinho em paz e falemos de outra coisa. Não continueis a lembrar-me de tudo isto; sempre me dói quando alguém fala do meu honrado amo. Quanto ao vosso juramento, deixemo-lo de lado, mas eu só desejo que ele venha, como o desejam Penélope, o seu velho pai Laertes e o seu filho Telémaco. Estou terrivelmente desassossegado também por causa desse mesmo filho dele; ele crescia depressa em direção à idade adulta e prometia não ser pior do que o pai, tanto no rosto como na figura; mas alguém, deus ou homem, transtornou-lhe o juízo, de modo que partiu para Pilos a tentar obter notícias do pai, e os pretendentes lhe armam emboscada quando ele regressa, na esperança de deixar a casa de Arceseu sem nome em Ítaca. Mas não falemos mais dele e deixemos que seja apanhado, ou escape, se o filho de Saturno estende a mão sobre ele para o proteger. E agora, velho, contai-me a vossa história; dizei-me também, pois quero saber, quem sois e de onde vindes. Falai-me da vossa cidade e dos vossos pais, que tipo de navio usastes, como a tripulação vos trouxe a Ítaca e de que país diziam vir — pois não podeis ter vindo por terra.»
E Ulisses respondeu: «Hei de contar-vos tudo. Se houvesse carne e vinho em abundância, e pudéssemos ficar aqui na cabana sem nada que fazer senão comer e beber enquanto os outros vão para o seu trabalho, eu falaria facilmente durante doze meses inteiros sem nunca terminar a história das desventuras com que aprouve ao céu visitar-me.
Sou de nascimento cretense; meu pai era um homem abastado, que teve muitos filhos nascidos de legítimo matrimónio, ao passo que eu era filho de uma escrava que ele comprara como concubina; contudo, meu pai Castor, filho de Hilax (de cuja linhagem me reclamo, e que era tido na mais alta honra entre os Cretenses pela sua riqueza, prosperidade e valor dos filhos), colocou-me ao mesmo nível dos meus irmãos nascidos no casamento. Quando, porém, a morte o levou para a casa de Hades, os seus filhos dividiram os bens e tiraram à sorte as suas partes, mas a mim deram-me uma propriedade e pouco mais; todavia, o meu valor permitiu-me casar numa família rica, pois eu não era dado à fanfarronice nem a esquivar-me no campo de batalha. Tudo isso já passou; ainda assim, se olhardes para a palha, podeis ver o que foi a espiga, pois tive desgostos em número suficiente e de sobra. Marte e Minerva fizeram-me valoroso na guerra; quando eu escolhia os meus homens para surpreender o inimigo com uma emboscada, nunca dava grande pensamento à morte, mas era o primeiro a avançar e a trespassar todos quantos pudesse alcançar. Tal era eu em batalha, mas não me interessava pelo trabalho do campo nem pela vida caseira e frugal dos que criam filhos. O meu deleite eram os navios, os combates, os dardos e as flechas — coisas que a maioria dos homens estremece em pensar; mas a cada homem agrada uma coisa e a outro outra, e esta era a minha inclinação natural. Antes de os Aqueus irem a Tróia, estive nove vezes no comando de homens e navios em serviço no estrangeiro, e ameei grandes riquezas. Tive a primazia do despojo na primeira ocasião, e muito mais me foi atribuído mais tarde.
A minha casa cresceu depressa e tornei-me um grande homem entre os Cretenses, mas quando Júpiter aconselhou aquela terrível expedição, em que tantos pereceram, o povo exigiu que eu e Idomeneu comandássemos os seus navios para Tróia, e não havia escapatória, pois insistiam que o fizéssemos. Ali lutámos durante nove anos inteiros, mas no décimo saqueámos a cidade de Príamo e fizemos-nos ao mar de regresso, conforme o céu nos dispersou. Foi então que Júpiter tramou o mal contra mim. Passei apenas um mês felizmente com os meus filhos, esposa e haveres, e então concebi a ideia de fazer uma incursão ao Egito, pelo que armei uma bela frota e a tripulei. Tinha nove navios, e o povo acorreu para os preencher. Durante seis dias, eu e os meus homens festejámos, e eu achei para eles muitas vítimas, tanto para sacrifício aos deuses como para si mesmos; mas ao sétimo dia embarcámos e zarpámos de Creta com um favorável vento Norte pelas costas, embora fôssemos descendo um rio. Nada correu mal com nenhum dos nossos navios, e não houve doença a bordo; ficámos sentados nos nossos lugares e deixámos os navios irem conforme o vento e os timoneiros os conduziam. Ao quinto dia alcançámos o rio Egito; ali fundeei os meus navios no rio, ordenando aos meus homens que ficassem junto deles e os guardassem, enquanto eu enviava batedores a reconhecer o terreno de todos os pontos vantajosos.
Mas os homens desobedeceram às minhas ordens, fizeram à sua vontade e devastaram a terra dos Egípcios, matando os homens e tomando cativas as mulheres e as crianças. O alarme depressa chegou à cidade, e quando ouviram o grito de guerra, o povo saiu ao romper do dia, até a planície se encher de cavaleiros e soldados de infantaria e com o brilho das armaduras. Então Júpiter espalhou o pânico entre os meus homens, e eles já não quiseram enfrentar o inimigo, pois acharam-se cercados. Os Egípcios mataram muitos de nós e levaram os restantes vivos para trabalhar forçadamente para eles. Júpiter, contudo, inspirou-me o seguinte — e quem me dera ter morrido ali mesmo, no Egito, pois muito desgosto me estava reservado —: tirei o elmo e o escudo, larguei a lança da mão; depois fui diretamente ao carro do rei, abracei-lhe os joelhos e beijei-lhos; ao que ele me poupou a vida, mandou-me subir para o seu carro e levou-me, a chorar, para a sua própria casa. Muitos me investiram com as suas lanças de freixo e tentaram matar-me no seu furor, mas o rei protegeu-me, pois temia a ira de Júpiter, o protector dos estrangeiros, que pune os que fazem o mal.
Fiquei ali durante sete anos e reuni muito dinheiro entre os Egípcios, pois todos me davam qualquer coisa; mas quando já ia em oito anos, veio certo Fenício, um velhaco astuto, que já tinha cometido todo o género de patifaria, e esse homem convenceu-me a ir com ele para a Fenícia, onde ficavam a sua casa e os seus haveres. Fiquei ali doze meses inteiros, mas ao fim desse tempo, quando os meses e os dias tinham passado até a mesma estação voltar, ele meteu-me num navio com destino à Líbia, sob o pretexto de que eu ia levar uma carga com ele para esse lugar, mas na verdade para me vender como escravo e ficar com o dinheiro que eu rendesse. Suspeitei da sua intenção, mas embarquei com ele, pois não tinha outro remédio.
O navio correu diante de um fresco vento Norte até termos alcançado o mar que se estende entre Creta e a Líbia; ali, porém, Júpiter aconselhou a sua destruição, pois, assim que estávamos bem afastados de Creta e só víamos mar e céu, ergueu um negro nuvem sobre o nosso navio e o mar escureceu por baixo. Então Júpiter disparou os seus raios e o navio andou à roda, enchendo-se de fogo e enxofre ao ser fulminado. Os homens caíram todos ao mar; andaram à deriva na água em torno do navio, parecendo gaivotas; mas o deus tirou-lhes em breve toda a esperança de voltar a casa. Eu estava completamente desanimado. Júpiter, contudo, enviou-me o mastro do navio ao alcance, o que me salvou a vida, pois agarrei-me a ele e andei à deriva diante da fúria da tempestade. Nove dias andei à deriva, mas na escuridão da décima noite uma grande vaga me lançou à costa da Tesprótida. Ali Fídon, rei dos Tesprótios, me recebeu com hospitalidade, sem cobrar nada absolutamente — pois o seu filho me encontrou quando eu estava quase morto de frio e de fadiga, ao que me levantou pela mão, me levou à casa de seu pai e me deu roupas para vestir.
Foi ali que ouvi notícias de Ulisses, pois o rei me disse que o tinha hospedado e lhe prodigalizado muita hospitalidade quando ele seguia o caminho de regresso a casa. Mostrou-me também o tesouro de ouro e ferro forjado que Ulisses tinha juntado. Havia o bastante para manter a sua família durante dez gerações, tão grande era a quantidade que ele deixara em casa do rei Fídon. Mas o rei disse que Ulisses tinha ido a Dodona, para saber o pensamento de Júpiter pelo alto carvalho do deus, e conhecer se, após tão longa ausência, deveria voltar a Ítaca abertamente ou em segredo. Além disso, o rei jurou na minha presença, fazendo libações na sua própria casa ao fazê-lo, que o navio estava junto à água e a tripulação encontrada, que devia levá-lo à sua pátria. Enviou-me, contudo, antes de Ulisses voltar, pois aconteceu que havia um navio tesprótio que ia para a ilha cerealífera de Dulíquio, e ele disse aos responsáveis que tivessem o cuidado de me levar em segurança ao rei Acasto.
Esses homens urdiram uma conspiração contra mim que me teria reduzido à mais extrema miséria, pois, quando o navio já se tinha afastado um tanto da terra, resolveram vender-me como escravo. Tiraram-me a túnica e o manto que eu vestia e deram-me em vez deles os farrapos velhos e rotos em que agora me vedes; depois, ao anoitecer, alcançaram as terras lavradas de Ítaca, e ali me amarraram com uma corda forte, bem preso no navio, enquanto eles iam a terra para jantar junto ao mar. Mas os deuses desataram-me logo os laços, e, tendo puxado os meus farrapos sobre a cabeça, escorreguei pelo leme para o mar, onde nadei até me afastar bem deles, e cheguei a terra perto de um denso bosque no qual me escondi. Ficaram muito zangados por eu ter escapado e puseram-se a procurar-me por toda a parte, até que por fim julgaram que de nada adiantava e voltaram para o seu navio. Os deuses, depois de me terem assim facilmente escondido, levaram-me então à porta de um homem bom — pois parece que ainda não estou destinado a morrer.
A isto respondeste, ó porcaço Eumeu: «Pobre e desventurado estrangeiro, achei a história das vossas desventuras extremamente interessante, mas essa parte sobre Ulisses não está certa; e nunca me haveis de convencer. Por que razão um homem como vós anda por aí a contar mentiras deste modo? Eu sei tudo quanto há para saber sobre o regresso do meu amo. Os deuses, todos e cada um deles, o detestam, ou tê-lo-iam levado diante de Tróia, ou deixado morrer entre amigos quando os dias do seu combate tivessem terminado; pois então os Aqueus ter-lhe-iam erguido um túmulo sobre as suas cinzas e o seu filho seria herdeiro da sua fama; mas agora os ventos da tempestade o arrebataram, não sabemos para onde.
Quanto a mim, vivo aqui fora do caminho, com os porcos, e nunca vou à cidade, a não ser quando Penélope me manda chamar, à chegada de alguma notícia sobre Ulisses. Então todos se sentam à roda e fazem perguntas, tanto os que se afligem com a ausência do rei como os que rejubilam com ela, porque podem comer os seus bens sem pagar por eles. Quanto a mim, nunca mais me preocupei em perguntar a ninguém desde a vez em que fui enganado por um Etólio, que tinha matado um homem e viera de longe até alcançar por fim o meu posto, e eu fui muito generoso com ele. Disse-me que vira Ulisses com Idomeneu entre os Cretenses, a reparar os seus navios que tinham sido danificados por uma tempestade. Disse-me que Ulisses voltaria no verão ou no outono seguintes, com os seus homens, e que traria consigo muitas riquezas. E agora vós, desgraçado velho, já que o destino vos trouxe à minha porta, não tenteis lisonjear-me deste modo com vãs esperanças. Não é por nenhuma dessas razões que vos tratarei com bondade, mas apenas por respeito a Júpiter, o deus da hospitalidade, por o temer e por vos ter piedade.»
Ulisses respondeu: «Vejo que tendes um espírito incrédulo; dei-vos o meu juramento, e ainda assim não me crediteis; façamos então um acordo e tomemos todos os deuses do céu por testemunhas. Se o vosso amo voltar a casa, dai-me um manto e uma túnica de bom uso e mandai-me para Dulíquio, onde quero ir; mas se ele não voltar como eu digo, toca os vossos homens contra mim e dize-lhes que me atirem daquele precipício, como aviso aos vagabundos para não andarem pelo país a contar mentiras.»
«E bela figura eu faria então», replicou Eumeu, «tanto agora como no futuro, se vos matasse depois de vos ter recebido na minha cabana e mostrado hospitalidade. Teria de fazer as minhas preces com todo o fervor se o fizesse; mas é justamente hora de ceiar e espero que os meus homens venham já, para que cozinhemos alguma coisa saborosa para o jantar.»
Assim conversavam, e logo os porcaços subiram com os porcos, que foram então fechados para a noite nos seus pocilgos, fazendo um enorme alarido ao serem conduzidos para dentro. Eumeu, porém, chamou os seus homens e disse: «Trazei o melhor porco que tiverdes, para que eu o sacrifique por este estrangeiro, e nós próprios participaremos dele. Já temos tido trabalho que chegue durante este longo tempo a alimentar porcos, enquanto outros colhem o fruto do nosso labor.»
Nisto, começou a partir lenha, enquanto os outros traziam um belo porco javali de cinco anos, bem gordo, e o colocaram junto ao altar. Eumeu não esqueceu os deuses, pois era homem de bons princípios; assim, a primeira coisa que fez foi cortar cerdas da face do porco e atirá-las ao fogo, orando a todos os deuses enquanto o fazia para que Ulisses voltasse a casa. Depois abateu o porco com um tronco de carvalho que guardara quando estava a partir a lenha, e atordoou-o, enquanto os outros o matavam e o chamuscavam. Em seguida cortaram-no em pedaços, e Eumeu começou por pôr pedaços crus de cada junta sobre um pouco da gordura; polvilhou-os com farinha de cevada e colocou-os sobre as brasas; cortaram o resto da carne em pedaços pequenos, meteram-nos nos espetos e assaram-nos até ficarem prontos; quando os retiraram dos espetos, atiraram-nos para a tábua numa pilha. O porcaço, que era homem extremamente equitativo, levantou-se então para dar a cada um a sua parte. Fez sete porções; uma delas separou para Mercúrio, filho de Maia e das ninfas, orando-lhe ao fazê-lo; as outras distribuiu pelos homens, um a um. Deu a Ulisses algumas fatias cortadas ao comprido do lombo como sinal de especial honra, e Ulisses muito se alegrou. «Espero, Eumeu», disse ele, «que Júpiter vos seja tão favorável como eu vos sou, pelo respeito que mostrais a um proscrito como eu.»
A isto respondeste, ó porcaço Eumeu: «Comei, meu bom amigo, e gozai o vosso jantar, tal como ele é. Deus concede isto e recusa aquilo, conforme lhe parece justo, pois pode fazer tudo quanto quiser.»
Enquanto falava, cortou o primeiro bocado e ofereceu-o em holocausto aos deuses imortais; depois fez a libação, pôs a taça nas mãos de Ulisses e sentou-se junto à sua própria porção. Mesaúlio trouxe-lhes o pão; o porcaço havia trazido este homem por conta própria de entre os Tafianos durante a ausência do seu amo, e pagara por ele com o seu próprio dinheiro, sem dizer nada nem à sua senhora nem a Laertes. Em seguida deitaram as mãos sobre as iguarias que estavam diante deles, e quando tiveram comido e bebido o suficiente, Mesaúlio retirou o que restava do pão, e todos se foram deitar depois de fazerem um jantar copioso.
Ora, a noite caiu tempestuosa e muito escura, pois não havia lua. Choveu sem cessar, e o vento soprava forte do Oeste, que é um quadrante húmido, pelo que Ulisses pensou em ver se Eumeu, no excelente cuidado que tinha por ele, tiraria o seu próprio manto para lho dar, ou se faria com que um dos seus homens lhe desse um. "Escutai-me", disse ele, "Eumeu e vós outros; quando eu tiver feito uma prece, dir-vos-ei algo. É o vinho que me faz falar desta maneira; o vinho fará até um homem sábio pôr-se a cantar; fá-lo-á rir, dançar e dizer muitas palavras que seria melhor deixar por dizer; ainda assim, como já comecei, continuarei. Quem me dera ser ainda jovem e forte como quando preparámos uma emboscada diante de Troia. Menelau e Ulisses eram os chefes, mas eu também estava no comando, pois os outros dois assim o quiseram. Quando chegámos à muralha da cidade, agachámo-nos sob as nossas armaduras e ficámos ali, sob a proteção dos juncos e do matagal cerrado que crescia à volta do pântano. Começou a gelar com um vento Norte a soprar; a neve caía pequena e fina como geada, e os nossos escudos ficaram cobertos por uma camada espessa de sincelo. Os outros tinham todos mantos e túnicas, e dormiam confortavelmente com os seus escudos sobre os ombros, mas eu, descuidadamente, deixara o meu manto para trás, não pensando que sentiria tanto frio, e tinha partido apenas com a minha túnica e o meu escudo. Quando a noite ia a dois terços e as estrelas tinham mudado de lugar, cutuquei Ulisses, que estava perto de mim, com o cotovelo, e ele deu-me logo ouvidos.
"Ulisses", disse eu, "este frio será a minha morte, pois não tenho manto; algum deus enganou-me para partir apenas com a túnica, e não sei o que fazer."
Ulisses, que era tão astuto como valente, arquitetou o seguinte plano:
"Fica quieto", disse ele em voz baixa, "ou os outros hão de ouvir-te." Então ergueu a cabeça sobre o cotovelo.
"Meus amigos", disse ele, "tive um sonho vindo do céu enquanto dormia. Estamos muito longe dos navios; oxalá alguém descesse e dissesse a Agamémnon para nos enviar mais homens imediatamente."
A isto, Toas, filho de Andremon, atirou fora o seu manto e pôs-se a correr para os navios, pelo que eu tomei o manto e deitei-me nele confortavelmente até de manhã. Quem me dera ser ainda jovem e forte como naqueles dias, pois então algum de vós, porqueiros, dar-me-ia um manto, tanto por boa vontade como pelo respeito devido a um bravo soldado; mas agora as pessoas olham-me de cima por causa das minhas roupas estarem esfarrapadas.
E Eumeu respondeu: "Velho, contaste-nos uma história excelente e não disseste até agora nada que não fosse bastante satisfatório; por enquanto, portanto, não te faltará nem vestuário nem qualquer outra coisa que um estrangeiro em aflição possa razoavelmente esperar, mas amanhã de manhã terás de sacudir os teus velhos trapos sobre o corpo novamente, pois não temos muitos mantos nem túnicas de reserva aqui em cima, cada homem tem apenas um. Quando o filho de Ulisses voltar a casa, ele dar-te-á tanto manto como túnica, e enviar-te-á para onde quiseres ir."
Com isto, levantou-se e fez uma cama para Ulisses, atirando algumas peles de cabra e de ovelha para o chão, em frente ao fogo. Ali Ulisses deitou-se, e Eumeu cobriu-o com um manto grande e pesado que guardava para mudar em caso de tempo extraordinariamente mau.
Assim dormiu Ulisses, e os jovens dormiram ao lado dele. Mas o porqueiro não gostava de dormir longe dos seus porcos, por isso preparou-se para sair, e Ulisses ficou contente por ver que ele cuidava dos seus bens durante a ausência do seu amo. Primeiro, atirou a espada sobre os ombros robustos e vestiu um manto grosso para se proteger do vento. Levou também a pele de uma cabra grande e bem alimentada, e um dardo para o caso de ataque de homens ou cães. Assim equipado, foi descansar para onde os porcos estavam acampados, sob uma rocha saliente que lhes dava abrigo do vento Norte.
LIVRO XV
MINERVA CONVOCA TELÉMACO DE LACEDEMÓNIA — ELE ENCONTRA-SE COM TEOCLÍMENO EM PILOS E LEVA-O PARA ÍTACA — AO DESEMBARCAR, VAI À CABANA DE EUMEU.
Mas Minerva foi à bela cidade de Lacedemónia para dizer ao filho de Ulisses que ele deveria regressar imediatamente. Encontrou-o, a ele e a Pisístrato, a dormir no pátio da casa de Menelau; Pisístrato dormia profundamente, mas Telémaco não conseguia descansar toda a noite por pensar no seu infeliz pai, pelo que Minerva aproximou-se dele e disse:
"Telémaco, não deves permanecer tão longe de casa por mais tempo, nem deixar os teus bens com pessoas tão perigosas na tua casa; eles comerão tudo o que tens entre eles, e terás feito uma viagem de tolo. Pede a Menelau que te envie para casa imediatamente se quiseres encontrar a tua excelente mãe ainda lá quando voltares. O pai e os irmãos dela já a instam a casar-se com Eurímaco, que lhe deu mais do que qualquer um dos outros, e tem aumentado imenso os seus presentes de casamento. Espero que nada de valioso tenha sido levado da casa apesar de ti, mas sabes como são as mulheres — querem sempre fazer o melhor que podem pelo homem com quem se casam, e nunca mais pensam nos filhos do seu primeiro marido, nem no seu pai, quando este já morreu e se foi. Volta, portanto, para casa e põe tudo a cargo da criada mais respeitável que tiveres, até que apraza ao céu enviar-te uma esposa tua. Deixa-me dizer-te também outro assunto ao qual deves prestar atenção. Os principais homens entre os pretendentes estão à tua espera no estreito entre Ítaca e Samos, e pretendem matar-te antes que possas chegar a casa. Não creio muito que tenham sucesso; é mais provável que alguns daqueles que agora estão a comer os teus bens encontrem eles próprios uma sepultura. Navega noite e dia e mantém o teu navio bem longe das ilhas; o deus que vela por ti e te protege enviar-te-á um vento favorável. Assim que chegares a Ítaca, envia o teu navio e os teus homens para a cidade, mas tu vai diretamente ao porqueiro que tem conta dos teus porcos; ele é bem disposto para contigo; fica com ele, portanto, durante a noite, e depois envia-o a Penélope para lhe dizer que voltaste a salvo de Pilos."
Depois, ela voltou para o Olimpo; mas Telémaco tocou em Pisístrato com o calcanhar para o acordar e disse: "Acorda, Pisístrato, e atrela os cavalos à carruagem, pois temos de partir para casa."
Mas Pisístrato disse: "Não importa a pressa que tenhamos, não podemos conduzir no escuro. Será manhã em breve; espera até que Menelau traga os seus presentes e os coloque na carruagem para nós; e deixa que ele se despeça de nós da forma habitual. Enquanto viver, um hóspede nunca deve esquecer um anfitrião que lhe mostrou bondade."
Enquanto falava, o dia começou a romper, e Menelau, que já se tinha levantado, deixando Helena na cama, veio na direção deles. Quando Telémaco o viu, vestiu a túnica o mais depressa que pôde, lançou um grande manto sobre os ombros e saiu ao seu encontro. "Menelau", disse ele, "deixa-me voltar agora para o meu próprio país, pois quero chegar a casa."
E Menelau respondeu: "Telémaco, se insistes em ir, não te deterei. Não gosto de ver um anfitrião demasiado apegado ao seu hóspede nem demasiado rude para com ele. A moderação é melhor em todas as coisas, e não deixar um homem ir quando ele quer fazê-lo é tão mau como dizer-lhe para ir se ele quisesse ficar. Deve-se tratar bem um hóspede enquanto ele está na casa e apressá-lo quando ele quer deixá-la. Espera, então, até que eu possa colocar os teus belos presentes na tua carruagem, e até que os tenhas visto tu mesmo. Direi às mulheres para preparar um jantar suficiente para ti com o que possa haver na casa; será mais correto e mais barato para ti jantar antes de partir para uma viagem tão longa. Se, além disso, tens vontade de fazer uma excursão pela Hélade ou pelo Peloponeso, atrelarei os meus cavalos e conduzir-te-ei eu mesmo por todas as nossas principais cidades. Ninguém nos mandará embora de mãos vazias; cada um dar-nos-á alguma coisa — um tripé de bronze, um par de mulas, ou uma taça de ouro."
"Menelau", respondeu Telémaco, "quero ir para casa imediatamente, pois quando parti deixei os meus bens sem proteção, e temo que, procurando o meu pai, venha eu próprio a arruinar-me, ou descubra que algo de valioso foi roubado durante a minha ausência."
Quando Menelau ouviu isto, disse imediatamente à sua esposa e servos para prepararem um jantar suficiente com o que pudesse haver na casa. Nesse momento, Eteoneu juntou-se a ele, pois morava perto e tinha acabado de se levantar; por isso Menelau disse-lhe para acender o fogo e cozinhar alguma carne, o que ele fez imediatamente. Depois, Menelau desceu à sua perfumada despensa, não sozinho, mas Helena foi também, com Megapentes. Quando chegou ao local onde os tesouros da sua casa eram guardados, escolheu uma taça dupla e disse ao seu filho Megapentes para trazer também uma bacia de mistura de prata. Entretanto, Helena foi ao baú onde guardava os lindos vestidos que ela própria tinha feito com as suas mãos, e tirou um que era o maior e mais belamente enriquecido com bordados; brilhava como uma estrela e estava no fundo do baú. Depois, voltaram todos através da casa até chegarem a Telémaco, e Menelau disse: "Telémaco, que Júpiter, o poderoso esposo de Juno, te leve em segurança para casa de acordo com o teu desejo. Vou agora presentear-te com a peça de prataria mais fina e preciosa de toda a minha casa. É uma bacia de mistura de prata pura, exceto o rebordo, que é incrustado com ouro, e é obra de Vulcano. Fedimo, rei dos Sidónios, ofereceu-ma durante uma visita que lhe fiz enquanto regressava a casa. Gostaria de a dar a ti."
Com estas palavras, colocou a taça dupla nas mãos de Telémaco, enquanto Megapentes trazia a bela bacia de mistura e a punha diante dele. Perto estava a adorável Helena com a túnica pronta na mão.
"Eu também, meu filho", disse ela, "tenho algo para ti como recordação da mão de Helena; é para a tua noiva usar no dia do seu casamento. Até lá, pede à tua querida mãe que a guarde para ti; assim possas tu voltar a regozijar-te para o teu próprio país e para a tua casa."
Dizendo isto, entregou-lhe a túnica e ele recebeu-a alegremente. Depois, Pisístrato colocou os presentes na carruagem e admirou-os todos enquanto o fazia. Pouco depois, Menelau levou Telémaco e Pisístrato para dentro da casa, e ambos sentaram-se à mesa. Uma criada trouxe-lhes água num belo jarro de ouro e deitou-a numa bacia de prata para eles lavarem as mãos, e ela puxou uma mesa limpa para junto deles; uma serva superior trouxe-lhes pão e ofereceu-lhes muitas coisas boas do que havia na casa. Eteoneu trincharam a carne e deu-lhes a cada um a sua porção, enquanto Megapentes servia o vinho. Depois, puseram as mãos sobre as coisas boas que estavam diante deles, mas assim que tiveram comido e bebido o suficiente, Telémaco e Pisístrato atrelaram os cavalos e ocuparam os seus lugares na carruagem. Conduziram para fora através do portal interior e sob o ecoante portão do pátio exterior, e Menelau veio atrás deles com uma taça de ouro de vinho na mão direita, para que pudessem fazer uma libação antes de partirem. Parou em frente aos cavalos e brindou-os, dizendo: "Adeus a ambos; vejam que contam a Nestor como vos tratei, pois ele foi tão amável para comigo como qualquer pai poderia ser enquanto nós, Aqueus, combatíamos diante de Troia."
"Certamente, senhor", respondeu Telémaco, "contar-lhe-emos tudo assim que o virmos. Quem me dera ter a certeza de encontrar Ulisses de volta quando eu chegar a Ítaca, para que eu lhe pudesse contar a grandíssima bondade que me mostrou e os muitos belos presentes que levo comigo."
Enquanto ele falava, um pássaro voou pela sua mão direita — uma águia com um grande ganso branco nas garras que tinha levado do pátio da quinta — e todos os homens e mulheres corriam atrás dela e gritavam. Chegou bem perto deles e voou para a direita deles, em frente aos cavalos. Quando a viram, ficaram contentes e os seus corações consolaram-se, ao que Pisístrato disse: "Diz-me, Menelau, terá o céu enviado este presságio para nós ou para ti?"
Menelau estava a pensar qual seria a resposta mais correta que poderia dar, mas Helena foi mais rápida do que ele e disse: "Interpretarei este assunto como o céu o colocou no meu coração, e como não duvido que acontecerá. A águia veio da montanha onde foi criada e tem o seu ninho, e da mesma maneira Ulisses, depois de ter viajado muito e sofrido muito, voltará para se vingar — se é que ele já não está de volta e a tramar desgraças para os pretendentes."
"Que Júpiter assim o conceda", respondeu Telémaco, "se assim se provar, far-te-ei votos como se fosses uma deusa, mesmo quando estiver em casa."
Enquanto falava, açoitou os seus cavalos e eles partiram a toda a velocidade através da cidade em direção ao campo aberto. Oscilaram o jugo sobre os seus pescoços e viajaram o dia inteiro até que o sol se pôs e a escuridão cobriu toda a terra. Então chegaram a Feras, onde vivia Diocles, que era filho de Ortilóquio, filho de Alfeu. Ali passaram a noite e foram tratados hospitaleiramente. Quando a criança da manhã, a Aurora de dedos rosados, apareceu, atrelaram novamente os seus cavalos e os seus lugares na carruagem. Conduziram para fora através do portal interior e sob o ecoante portão do pátio exterior. Depois, Pisístrato açoitou os seus cavalos e eles voaram para a frente, nada relutantes; pouco depois chegaram a Pilos, e então Telémaco disse:
"Pisístrato, espero que prometas fazer o que te vou pedir. Sabes que os nossos pais eram velhos amigos antes de nós; além disso, temos ambos a mesma idade, e esta viagem uniu-nos ainda mais; não me leves, portanto, para além do meu navio, mas deixa-me lá, pois se eu for à casa do teu pai, ele tentará manter-me no calor da sua boa vontade para comigo, e eu tenho de ir para casa imediatamente."
Pisístrato pensou em como faria o que lhe era pedido, e no final achou melhor virar os seus cavalos em direção ao navio e colocar os belos presentes de ouro e vestuário de Menelau na popa da embarcação. Depois disse: "Embarca imediatamente e diz aos teus homens para fazerem o mesmo antes que eu possa chegar a casa para contar ao meu pai. Sei o quão obstinado ele é, e tenho a certeza de que ele não te deixará ir; ele descerá até aqui para te buscar, e não voltará sem ti. Mas ele ficará muito zangado."
Com isto, conduziu os seus belos cavalos de volta à cidade dos Pílios e logo chegou à sua casa, mas Telémaco chamou os homens e deu as suas ordens. "Agora, meus homens", disse ele, "ponham tudo em ordem a bordo do navio, e vamos partir para casa."
Assim falou ele, e eles embarcaram exatamente como ele tinha dito. Mas, enquanto Telémaco estava assim ocupado, rezando também e sacrificando a Minerva na popa do navio, veio ter com ele um homem de um país distante, um vidente, que fugia de Argos porque tinha matado um homem. Ele era descendente de Melampo, que costumava viver em Pilos, a terra das ovelhas; ele era rico e possuía uma grande casa, mas foi forçado ao exílio pelo grande e poderoso rei Neleu. Neleu apoderou-se dos seus bens e reteve-os durante um ano inteiro, durante o qual ele foi um prisioneiro próximo na casa do rei Fílaco, e em grande angústia de espírito, tanto por causa da filha de Neleu como por ser assombrado por um grande desgosto que a terrível Erínia lhe tinha imposto. No final, contudo, escapou com vida, conduziu o gado de Filace para Pilos, vingou o mal que lhe tinha sido feito e deu a filha de Neleu ao seu irmão. Depois, deixou o país e foi para Argos, onde estava ordenado que ele reinasse sobre muitos povos. Lá casou, estabeleceu-se e teve dois filhos famosos, Antifates e Mâncio. Antifates tornou-se pai de Oícleo, e Oícleo de Anfiarao, que era muito amado tanto por Júpiter como por Apolo, mas ele não viveu até à velhice, pois foi morto em Tebas por causa dos presentes de uma mulher. Os seus filhos foram Alcmeão e Anfilóquio. Mâncio, o outro filho de Melampo, foi pai de Polífides e Clito. A Aurora, entronizada em ouro, levou Clito por causa da sua beleza, para que ele pudesse habitar entre os imortais, mas Apolo fez de Polífides o maior vidente de todo o mundo, agora que Anfiarao estava morto. Ele zangou-se com o seu pai e foi viver para Hiperésia, onde permaneceu e profetizou para todos os homens.
Foi o seu filho, Teoclímeno, que agora se aproximou de Telémaco enquanto ele fazia libações e rezava no seu navio. "Amigo", disse ele, "já que te encontro a sacrificar neste lugar, suplico-te pelos teus próprios sacrifícios, e pelo deus a quem os fazes, rezo-te também pela tua própria cabeça e pelas dos teus seguidores, diz-me a verdade e nada mais do que a verdade. Quem és e de onde vens? Fala-me também da tua cidade e dos teus pais."
Telémaco disse: "Responder-te-ei com toda a verdade. Sou de Ítaca, e o meu pai é Ulisses, tão certo quanto ele ter vivido. Mas ele teve um fim miserável. Por isso tomei este navio e reuni a minha tripulação para ver se posso ouvir alguma notícia dele, pois ele está fora há muito tempo."
"Eu também", respondeu Teoclímeno, "sou um exilado, pois matei um homem da minha própria raça. Ele tem muitos irmãos e parentes em Argos, e eles têm grande poder entre os Argivos. Estou a fugir para escapar à morte às suas mãos, e estou assim condenado a ser um errante à face da terra. Sou o teu suplicante; leva-me, portanto, a bordo do teu navio para que eles não me possam matar, pois sei que estão no meu encalço."
"Não te recusarei", respondeu Telémaco, "se quiseres juntar-te a nós. Vem, portanto, e em Ítaca tratar-te-emos hospitaleiramente de acordo com o que temos."
Dito isto, recebeu a lança de Theoclymenus e deitou-a no convés do navio. Embarcou e sentou-se na popa, ordenando a Theoclymenus que se sentasse ao seu lado; então, os homens soltaram os cabos. Telémaco disse-lhes que agarrassem as cordas, e eles apressaram-se a fazê-lo. Colocaram o mastro no encaixe da trave, ergueram-no e fixaram-no com os estais, e içaram as velas brancas com adriças de couro de boi retorcido. Minerva enviou-lhes um vento favorável que soprava fresco e forte para levar o navio no seu curso o mais depressa possível. Assim, passaram por Crouni e Chalcis.
Pouco depois, o sol pôs-se e a escuridão cobriu toda a terra. A embarcação fez uma travessia rápida até Pheae e de lá para Elis, onde governam os Epeans. Telémaco dirigiu-a então para as ilhas voadoras, perguntando-se a si mesmo se escaparia à morte ou se seria feito prisioneiro.
Entretanto, Ulysses e o porcariço jantavam na cabana, e os homens ceavam com eles. Assim que comeram e beberam, Ulysses começou a tentar sondar o porcariço para ver se continuaria a tratá-lo com bondade e a pedir-lhe que ficasse na herdade ou se o despacharia para a cidade; por isso, disse:
“Eumaeus, e todos vós, amanhã quero partir e começar a pedir esmola pela cidade, para não ser mais um incómodo para vós nem para os vossos homens. Dai-me, portanto, o vosso conselho e arranjai-me um bom guia que me acompanhe e me mostre o caminho. Farei a ronda pela cidade pedindo, como é necessário, para ver se alguém me dá uma bebida e um pedaço de pão. Gostaria também de ir à casa de Ulysses e levar notícias do seu marido à Rainha Penélope. Poderia então andar entre os pretendentes e ver se, de toda a sua abundância, me dão um jantar. Em breve tornar-me-ia um excelente servo de todas as maneiras. Escutai e acreditai quando vos digo que, pela bênção de Mercúrio, que dá graça e boa fama aos trabalhos de todos os homens, não há ninguém vivo que fosse um servo mais jeitoso do que eu — para pôr lenha fresca no fogo, cortar combustível, trinchar, cozinhar, servir vinho e fazer todos os serviços que os homens pobres têm de fazer pelos seus superiores.”
O porcariço ficou muito perturbado ao ouvir isto. “Que o céu me ajude”, exclamou ele, “o que é que te pôs tal ideia na cabeça? Se fores para perto dos pretendentes, estarás perdido com toda a certeza, pois o seu orgulho e insolência chegam aos céus. Nunca pensariam em aceitar um homem como tu para servo. Os seus servos são todos homens jovens, bem vestidos, usando bons mantos e túnicas, com rostos agradáveis e o cabelo sempre arrumado; as mesas são mantidas bem limpas e estão carregadas de pão, carne e vinho. Fica onde estás, então; não estás no caminho de ninguém; não me importo que estejas aqui, nem os outros, e quando Telémaco voltar a casa, dar-te-á uma túnica e um manto e enviar-te-á para onde quiseres ir.”
Ulysses respondeu: “Espero que sejas tão querido para os deuses como és para mim, por me teres salvo de andar por aí a meter-me em sarilhos; não há nada pior do que estar sempre a vaguear; ainda assim, quando os homens chegam ao fundo do mundo, passam por muito em nome dos seus estômagos miseráveis. Uma vez que insistes para que fique aqui e espere pelo regresso de Telémaco, fala-me da mãe de Ulysses e do seu pai, a quem ele deixou no limiar da velhice quando partiu para Troia. Estarão ainda vivos ou já estarão mortos e na casa de Hades?”
“Contar-te-ei tudo sobre eles”, respondeu Eumaeus, “Laertes ainda está vivo e reza ao céu para que o deixe partir em paz na sua própria casa, pois está terrivelmente angustiado com a ausência do seu filho, e também com a morte da sua esposa, que o entristeceu muito e o envelheceu mais do que qualquer outra coisa. Ela teve um fim infeliz por causa da tristeza pelo seu filho: que nenhum amigo ou vizinho que me tenha tratado com bondade tenha um fim como o dela. Enquanto ela ainda era viva, embora estivesse sempre a sofrer, eu gostava de a ver e perguntar-lhe como estava, pois ela criou-me juntamente com a sua filha Ctimene, a mais nova dos seus filhos; éramos rapaz e rapariga juntos, e ela fazia pouca diferença entre nós. No entanto, quando ambos crescemos, enviaram Ctimene para Same e receberam um esplêndido dote por ela. Quanto a mim, a minha senhora deu-me uma boa túnica e um manto com um par de sandálias para os pés, e enviou-me para o campo, mas ela continuava a gostar tanto de mim como sempre. Isto já lá vai. Ainda assim, aprouve ao céu prosperar o meu trabalho na situação que agora ocupo. Tenho o suficiente para comer e beber, e posso encontrar algo para qualquer estranho respeitável que venha aqui; mas não há forma de obter uma palavra ou ato bondoso da minha senhora, pois a casa caiu nas mãos de gente perversa. Os servos querem, por vezes, ver a sua senhora e conversar com ela; gostam de ter algo para comer e beber em casa, e algo também para levar de volta para o campo. É isto que mantém os servos bem-dispostos.”
Ulysses respondeu: “Então devias ser muito pequeno, Eumaeus, quando foste levado para tão longe da tua casa e dos teus pais. Diz-me, e diz-me a verdade, a cidade em que o teu pai e a tua mãe viviam foi saqueada e pilhada, ou alguns inimigos levaram-te quando estavas sozinho a guardar ovelhas ou gado, enviaram-te para aqui e venderam-te pelo que quer que o teu senhor lhes desse?”
“Estrangeiro”, respondeu Eumaeus, “relativamente à tua pergunta: senta-te, põe-te à vontade, bebe o teu vinho e ouve-me. As noites são agora as mais longas; há tempo de sobra tanto para dormir como para ficar acordado a conversar; não deves ir para a cama antes da hora; demasiado sono é tão mau como pouco; se algum dos outros quiser ir dormir, que nos deixe e vá; ele pode levar os porcos do meu senhor depois de tomar o pequeno-almoço de manhã. Nós também ficaremos aqui a comer e a beber na cabana, e a contar histórias uns aos outros sobre os nossos infortúnios; pois quando um homem sofreu muito e foi fustigado pelo mundo, tem prazer em recordar a memória das tristezas que há muito passaram. Relativamente à tua pergunta, então, a minha história é a seguinte:
“Talvez tenhas ouvido falar de uma ilha chamada Syra que fica acima de Ortygia, onde a terra começa a virar-se e a olhar para outra direção. Não é muito povoada, mas o solo é bom, com muita pastagem própria para gado e ovelhas, e abunda em vinho e trigo. A escassez nunca lá chega, nem as pessoas são atormentadas por qualquer doença, mas quando envelhecem, Apolo vem com Diana e mata-as com as suas flechas indolores. Contém duas comunidades, e todo o país está dividido entre estas duas. O meu pai Ctesius, filho de Ormenus, um homem comparável aos deuses, reinava sobre ambas.
“Ora, a este lugar vieram uns comerciantes astutos da Fenícia (pois os fenícios são grandes navegadores) num navio que tinham carregado com bugigangas de todo o tipo. Havia uma mulher fenícia na casa do meu pai, muito alta e formosa, e uma excelente serva; estes patifes apoderaram-se dela um dia em que ela estava a lavar perto do seu navio, seduziram-na e persuadiram-na de formas a que nenhuma mulher pode resistir, independentemente do quão boa possa ser por natureza. O homem que a seduzira perguntou-lhe quem era e de onde vinha, e ela contou-lhe o nome do seu pai. ‘Venho de Sidon’, disse ela, ‘e sou filha de Arybas, um homem nadando em riqueza. Um dia, quando vinha da cidade para o campo, uns piratas Tafianos agarraram-me e levaram-me para aqui através do mar, onde me venderam ao homem que é dono desta casa, e ele deu-lhes o seu preço por mim.’
“O homem que a seduzira disse então: ‘Gostarias de vir connosco para ver a casa dos teus pais e os teus próprios pais? Estão ambos vivos e diz-se que estão bem de vida.’
“‘Fá-lo-ei com prazer’, respondeu ela, ‘se vós, homens, me jurardes primeiro um juramento solene de que não me fareis nenhum mal pelo caminho.’
“Todos juraram como ela lhes pediu, e quando completaram o seu juramento, a mulher disse: ‘Cala-te; e se algum dos vossos homens me encontrar na rua ou no poço, não o deixeis falar comigo, por medo de que alguém vá contar ao meu senhor, caso em que ele suspeitaria de algo. Ele pôr-me-ia na prisão e mandaria assassinar-vos a todos; guardai o segredo, portanto; comprai a vossa mercadoria o mais depressa que puderdes e avisai-me quando tiverdes terminado o carregamento. Trarei tanto ouro quanto puder deitar mão, e há algo mais também que posso fazer para pagar a minha passagem. Sou ama do filho do bom homem da casa, um rapazinho divertido que mal consegue andar. Levá-lo-ei no vosso navio, e obtereis muito dinheiro por ele se o levardes e venderdes em terras estrangeiras.’
“Dito isto, ela voltou para a casa. Os fenícios ficaram um ano inteiro até terem carregado o seu navio com muita mercadoria preciosa, e então, quando tiveram carga suficiente, enviaram o aviso à mulher. O seu mensageiro, um homem muito astuto, veio à casa do meu pai trazendo um colar de ouro com contas de âmbar; e enquanto a minha mãe e os servos o tinham nas mãos, admirando-o e regateando sobre ele, ele fez um sinal silencioso à mulher e depois voltou para o navio, onde ela me pegou pela mão e me levou para fora de casa. Na parte da frente da casa, ela viu as mesas postas com as taças dos convidados que tinham estado a festejar com o meu pai, como estando ao serviço dele; estes tinham ido todos para uma reunião da assembleia pública, por isso ela agarrou em três taças e levou-as no seio do seu vestido, enquanto eu a seguia, pois não sabia fazer melhor. O sol já se tinha posto e a escuridão cobria toda a terra, por isso apressámo-nos o mais que pudemos até chegarmos ao porto, onde o navio fenício estava atracado. Quando embarcaram, navegaram pelo mar, levando-nos com eles, e Jove enviou-lhes um vento favorável; durante seis dias navegámos noite e dia, mas no sétimo dia Diana atingiu a mulher e ela caiu pesadamente no porão do navio como se fosse uma gaivota a pousar na água; então atiraram-na ao mar para as focas e peixes, e eu fiquei sozinho e cheio de tristeza. Pouco depois, os ventos e as ondas levaram o navio para Ítaca, onde Laertes deu vários dos seus bens por mim, e foi assim que vim a pôr os olhos neste país.”
Ulysses respondeu: “Eumaeus, ouvi a história dos teus infortúnios com o maior interesse e piedade, mas Jove deu-te coisas boas assim como más, pois apesar de tudo tens um bom senhor, que cuida para que tenhas sempre o suficiente para comer e beber; e tu levas uma boa vida, enquanto eu ainda ando por aí a pedir esmola de cidade em cidade.”
Assim conversavam eles, e restava-lhes apenas muito pouco tempo para dormir, pois o amanhecer estava próximo. Entretanto, Telémaco e a sua tripulação aproximavam-se da terra, por isso soltaram as velas, baixaram o mastro e remaram o navio para o porto. Lançaram as suas pedras de amarração e fixaram os cabos; depois saíram para a margem do mar, misturaram o vinho e prepararam o jantar. Assim que tiveram o suficiente para comer e beber, Telémaco disse: “Levai o navio para a cidade, mas deixai-me aqui, pois quero cuidar dos pastores numa das minhas quintas. À noite, quando tiver visto tudo o que quero, descerei à cidade e, amanhã de manhã, em troca do vosso trabalho, dar-vos-ei a todos um bom jantar com carne e vinho.”
Então Theoclymenus disse: “E o que será de mim, meu caro jovem amigo? A casa de quem, entre todos os teus principais homens, devo eu recorrer? Ou devo ir diretamente para a tua própria casa e para a tua mãe?”
“Em qualquer outra altura”, respondeu Telémaco, “ter-te-ia dito para ires para a minha própria casa, pois não encontrarias falta de hospitalidade; neste momento, contudo, não estarias confortável lá, pois estarei fora e a minha mãe não te verá; ela não se mostra muitas vezes nem aos pretendentes, mas senta-se ao seu tear a tecer num aposento superior, fora do caminho deles; mas posso indicar-te um homem cuja casa podes procurar — refiro-me a Eurymachus, filho de Polybus, que é tido na mais alta estima por todos em Ítaca. Ele é de longe o melhor homem e o pretendente mais persistente de todos aqueles que cortejam a minha mãe e tentam ocupar o lugar de Ulysses. Jove, no entanto, no céu, é o único que sabe se eles terão ou não um mau fim antes que o casamento ocorra.”
Enquanto falava, uma ave passou pela sua mão direita — um falcão, o mensageiro de Apolo. Segurava uma pomba nas suas garras, e as penas, à medida que as arrancava, caíam ao chão a meio caminho entre Telémaco e o navio. Nisto, Theoclymenus chamou-o à parte e agarrou-o pela mão. “Telémaco”, disse ele, “aquela ave não voou para a tua direita sem ter sido enviada por algum deus. Assim que a vi, soube que era um presságio; significa que permanecerás poderoso e que não haverá casa em Ítaca mais real do que a tua.”
“Oxalá assim seja”, respondeu Telémaco. “Se for, mostrar-te-ei tanta boa vontade e dar-te-ei tantos presentes que todos os que te encontrarem te congratularão.”
Depois disse ao seu amigo Piraeus: “Piraeus, filho de Clytius, tu tens demonstrado ser, ao longo de tudo, o mais disposto a servir-me de todos aqueles que me acompanharam a Pylos; gostaria que levasses este estranho para a tua própria casa e o entretivesses hospitaleiramente até que eu possa vir buscá-lo.”
E Piraeus respondeu: “Telémaco, podes ficar fora o tempo que quiseres, mas eu cuidarei dele por ti, e ele não encontrará falta de hospitalidade.”
Enquanto falava, embarcou e ordenou aos outros que fizessem o mesmo e soltassem os cabos, por isso ocuparam os seus lugares no navio. Mas Telémaco calçou as suas sandálias e pegou numa lança longa e valente com uma ponta de bronze afiado do convés do navio. Depois soltaram os cabos, empurraram o navio para longe da terra e seguiram em direção à cidade como lhes tinha sido dito para fazer, enquanto Telémaco caminhava o mais depressa que podia, até chegar à herdade onde as suas incontáveis manadas de porcos se alimentavam, e onde vivia o excelente porcariço, que era um servo tão dedicado ao seu senhor.
LIVRO XVI
ULYSSES REVELA-SE A TELÉMACO.
Entretanto, Ulysses e o porcariço tinham acendido um fogo na cabana e estavam a preparar o pequeno-almoço ao amanhecer, pois tinham enviado os homens com os porcos. Quando Telémaco se aproximou, os cães não ladraram, mas mimaram-no, por isso Ulysses, ouvindo o som de passos e notando que os cães não ladravam, disse a Eumaeus:
“Eumaeus, ouço passos; suponho que um dos teus homens ou alguém do teu conhecimento esteja a vir para cá, pois os cães estão a mimá-lo e não a ladrar.”
As palavras mal tinham saído da sua boca quando o seu filho estava à porta. Eumaeus saltou para os seus pés, e as taças em que misturava o vinho caíram das suas mãos enquanto se dirigia para o seu senhor. Beijou-lhe a cabeça e ambos os seus belos olhos, e chorou de alegria. Um pai não poderia estar mais encantado com o regresso de um filho único, a criança da sua velhice, após dez anos de ausência num país estrangeiro e depois de ter passado por muitas dificuldades. Abraçou-o, beijou-o por todo o lado como se tivesse voltado da morte, e falou-lhe carinhosamente dizendo:
“Então vieste, Telémaco, luz dos meus olhos que és. Quando soube que tinhas ido a Pylos, tive a certeza de que nunca mais te veria. Entra, meu querido filho, e senta-te, para que eu possa olhar-te bem agora que estás de volta a casa; não é muito frequente que venhas ao campo ver-nos, aos pastores; geralmente ficas bastante perto da cidade. Suponho que achas melhor manter um olho no que os pretendentes estão a fazer.”
“Que assim seja, velho amigo”, respondeu Telémaco, “mas vim agora porque quero ver-te e saber se a minha mãe ainda está na sua antiga casa ou se alguém a desposou, para que a cama de Ulysses esteja sem leito e coberta de teias de aranha.”
“Ela ainda está na casa”, respondeu Eumaeus, “a sofrer e a partir o coração, e a não fazer nada senão chorar, tanto de noite como de dia continuamente.”
Enquanto falava, pegou na lança de Telémaco, ao que ele cruzou o limiar de pedra e entrou. Ulysses levantou-se do seu assento para lhe dar lugar assim que ele entrou, mas Telémaco impediu-o; “Senta-te, estranho”, disse ele, “posso facilmente encontrar outro assento, e há aqui alguém que o preparará para mim.”
Ulysses voltou para o seu lugar, e Eumaeus espalhou um pouco de mato verde no chão e atirou uma pele de ovelha por cima para Telémaco se sentar. Depois, o porcariço trouxe-lhes pratos de carne fria, os restos do que tinham comido no dia anterior, e encheu os cestos de pão tão depressa quanto pôde. Misturou também vinho em taças de madeira de hera e sentou-se em frente de Ulysses. Depois, puseram as mãos nas coisas boas que estavam diante deles, e assim que tiveram o suficiente para comer e beber, Telémaco disse a Eumaeus: “Velho amigo, de onde vem este estranho? Como é que a sua tripulação o trouxe para Ítaca, e quem eram eles? — pois certamente ele não veio para cá por terra.”
A isto respondestes, ó porcariço Eumaeus: “Meu filho, dir-te-ei a verdade real. Ele diz que é um cretense e que tem sido um grande viajante. Neste momento, está a fugir de um navio Tesprótio e refugiou-se na minha herdade, por isso pô-lo-ei nas tuas mãos. Faz o que quiseres com ele, apenas lembra-te de que ele é teu suplicante.”
“Estou profundamente angustiado”, disse Telémaco, “com o que acabais de me dizer. Como poderei eu acolher este estrangeiro em minha casa? Sou ainda jovem, e não sou suficientemente forte para me defender, caso algum homem me ataque. Minha mãe não consegue decidir-se se deve permanecer onde está e cuidar da casa, por respeito à opinião pública e à memória de seu marido, ou se já chegou o momento de aceitar o melhor dentre aqueles que a cortejam, e aquele que lhe fizer a proposta mais vantajosa; todavia, uma vez que o estrangeiro veio até à vossa choupana, arranjar-lhe-ei um manto e uma túnica de bom tecido, uma espada e sandálias, e mandá-lo-ei para onde ele quiser ir. Ou, se preferirdes, podeis mantê-lo aqui na choupana, e eu enviar-lhe-ei roupas e comida, para que não seja um fardo nem para vós nem para os vossos homens; mas não permitirei que ele se aproxime dos pretendentes, pois são extremamente insolentes e certamente maltratá-lo-iam de uma maneira que muito me afligiria; por mais valente que um homem seja, nada pode contra uma multidão, pois serão fortes demais para ele.”
Então Ulisses disse: “Senhor, é justo que eu próprio diga alguma coisa. Muito me choca o que dissestes acerca da insolência com que os pretendentes se comportam, em desafio a um homem como vós. Dizei-me: submetei-vos a tais tratos com brandura, ou algum deus incitou o vosso povo contra vós? Não vos deveis queixar dos vossos irmãos — pois é neles que um homem pode encontrar apoio, por maior que seja a sua contenda? Quem me dera ser tão jovem como vós e ter o ânimo que agora tenho; se eu fosse filho de Ulisses, ou, aliás, o próprio Ulisses, antes preferiria que alguém me cortasse a cabeça, mas iria à casa e seria a ruína de cada um destes homens. Se fossem demasiados para mim — eu, sozinho —, antes preferiria morrer a lutar na minha própria casa do que ver, dia após dia, espetáculo tão vergonhoso: estrangeiros grosseiramente maltratados, e homens arrastando as servas pela casa de modo indecoroso, vinho servido sem comedimento, e pão desperdiçado em vão, para um fim que jamais se cumprirá.”
E Telémaco respondeu: “Dir-vos-ei com verdade tudo. Não há inimizade entre mim e o meu povo, nem posso queixar-me de irmãos, nos quais um homem pode encontrar apoio por maior que seja a sua contenda. Jove fez de nós uma raça de filhos únicos. Laertes foi o único filho de Arcésio, e Ulisses o único filho de Laertes. Eu sou, de meu lado, o único filho de Ulisses, que me deixou atrás de si quando partiu, de modo que nunca lhe fui de qualquer utilidade. Daí resulta que a minha casa está nas mãos de innumerable horda de salteadores; pois os chefes de todas as ilhas vizinhas, Dulíquio, Same, Zacinto, assim como todos os principais varões da própria Ítaca, estão a devorar a minha casa sob o pretexto de cortejar a minha mãe, que não quer dizer, de forma categórica, que não casará, nem tão-pouco põe termo à situação; assim, andam a devastar os meus haveres, e em breve o farão também comigo. O desfecho, porém, depende do céu. Mas vós, velho amigo Eumeu, ide sem demora e dizei a Penélope que estou são e salvo e regressei de Pilos. Dizei-lho somente a ela, e depois voltai para aqui sem deixar que mais ninguém saiba, pois há muitos que conspiram contra mim.”
“Entendo e obedeço”, respondeu Eumeu; “não necessitais de me instruir mais; todavia, já que vou por esse caminho, dizei-me se não seria melhor fazer com que o pobre Laertes saiba que regressastes. Ele costumava superintender o trabalho na sua herdade, apesar da sua acerba dor por causa de Ulisses, e comia e bebia à vontade com os seus servos; mas dizem-me que, desde o dia em que partistes para Pilos, nem comeu nem bebeu como devia, nem cuida da sua herdade, mas permanece sentado, chorando e consumindo a carne dos próprios ossos.”
“Tanto peor”, respondeu Telémaco; “lamento por ele, mas havemos de deixá-lo entregue a si mesmo por agora. Se os homens pudessem ter tudo o que desejam, a primeira coisa que eu escolheria seria o regresso de meu pai; mas ide, e dai a vossa mensagem; depois apressai-vos a voltar, e não vos desvieis do caminho para contar a Laertes. Dizei a minha mãe que envie secretamente, sem demora, uma das suas servas com a notícia, e que ele a ouça dela.”
Assim urgia ele o porquiheiro; Eumeu, portanto, calçou as sandálias, atou-as aos pés e partiu para a cidade. Minerva observou-o bem de longe, fora da choupana, e depois aproximou-se dela sob a forma de uma mulher — formosa, majestosa e sábia. Pôs-se junto à entrada, do lado de fora, e revelou-se a Ulisses; porém Telémaco não a viu, nem sabia que ali estava, pois os deuses não se deixam ver por toda a gente. Ulisses viu-a, e também os cães, pois não ladravam, mas acoimados e ganindo, afastaram-se para o outro lado do curral. Ela acenou com a cabeça e fez um gesto a Ulisses com as sobrancelhas; whereupon ele saiu da cabana e se pôs diante dela, do lado de fora do muro principal dos currais. Então ela disse-lhe:
“Ulisses, nobre filho de Laertes, chegou a hora de revelardes ao vosso filho; não o mantenhais mais na incerteza, mas traçai os vossos planos para a destruição dos pretendentes e, depois, parti para a cidade. Não tardarei a juntar-me a vós, pois também eu anseio pelo combate.”
Enquanto falava, tocou-o com a sua varinha de ouro. Primeiro lançou-lhe sobre os ombros uma túnica e um manto belos e limpos; depois fê-lo mais jovem e de presença mais imponente; devolveu-lhe a cor, encheu-lhe as faces e deixou que a barba se tornasse escura de novo. Depois afastou-se, e Ulisses voltou para dentro da cabana. Seu filho ficou assombrado ao vê-lo, e desviou os olhos, temendo estar a olhar para um deus.
“Estranho”, disse ele, “como de repente mudastes do que éreis há um instante! Estais vestido de modo diferente, e a vossa cor já não é a mesma. Sois algum dos deuses que habitam no céu? Se assim é, sede-me propício até que eu vos possa fazer sacrifícios devidos e oferendas de ouro trabalhado. Tende piedade de mim.”
E Ulisses disse: “Não sou deus; por que haveríeis de tomar-me por um? Sou vosso pai, por cuja causa sofreis e padeceis tanto nas mãos de homens sem lei.”
Enquanto assim falava, beijou o filho, e uma lágrima caiu-lhe do rosto até ao chão, pois até então contivera todas as lágrimas. Mas Telémaco ainda não podia crer que fosse o seu pai, e disse:
“Vós não sois meu pai; algum deus me está iludindo com vãs esperanças, para que eu sofra ainda mais no futuro; nenhum homem mortal poderia, por si só, lograr o que vós haveis feito — envelhecer e rejuvenescer num instante — a menos que um deus esteja com ele. Ainda agora estáveis velho e todo coberto de farrapos, e agora pareceis algum deus descido do céu.”
Ulisses respondeu: “Telémaco, não deveis estar tão imensamente惊讶 ao verificar que estou realmente aqui. Não há outro Ulisses que virá depois de mim. Tal como me vedes, sou eu, que após longas andanças e muitas provações cheguei à minha pátria no vigésimo ano. Aquilo que vos surpreende é obra da poderosa deusa Minerva, que faz comigo tudo quanto quer, pois pode fazer o que lhe aprouver. Num momento faz-me parecer um mendigo, e no seguinte sou um jovem com boas vestes às costas; é tarefa fácil para os deuses que habitam no céu dar a qualquer homem o aspecto de rico ou de pobre.”
Enquanto assim falava, sentou-se, e Telémaco lançou os braços em torno do pai e chorou. Ambos estavam tão comovidos que gritavam como águias ou abutres de garras recurvas a quem os camponeses roubaram as crias meio emplumadas. Assim choravam com tanta pena, e o sol teria posto termo ao seu luto se Telémaco de súbito não tivesse dito: “Em que navio, meu caro pai, vos trouxe a vossa tripulação até Ítaca? De que nação se declararam — pois não podeis ter vindo por terra?”
“Dir-te-ei a verdade, meu filho”, respondeu Ulisses. “Foram os Feácios que me trouxeram aqui. São grandes marinheiros, e têm por hábito dar escolta a todo aquele que chega às suas costas. Levaram-me por sobre o mar enquanto eu dormia profundamente, e desembarcaram-me em Ítaca, depois de me terem dado muitas prendas de bronze, ouro e vestuário. Estas coisas, pela mercê do céu, jazem ocultas numa gruta, e agora vim aqui por sugestão de Minerva, para que possamos consultar juntos o modo de matar os nossos inimigos. Primeiro, portanto, dá-me a lista dos pretendentes, com o seu número, para que eu saiba quem são e quantos são. Posso então meditar no assunto, e ver se nós dois poderemos combater contra todo o grupo deles, ou se teremos de procurar outros que nos ajudem.”
A isto Telémaco respondeu: “Pai, sempre ouvi falar da vossa renome, tanto no campo de batalha como no conselho, mas a tarefa de que falais é muitíssimo árdua; sinto-me intimidado só de pensar nela; dois homens não podem resistir a muitos e valentes. Não há dez pretendentes apenas, nem duas vezes dez, mas dez muitas vezes mais; de imediato vos direi o seu número. Há cinquenta e dois jovens escolhidos de Dulíquio, e têm seis servos; de Same são vinte e quatro; vinte jovens aqueus de Zacinto, e doze da própria Ítaca, todos bem nascidos. Têm com eles um servo, Medon, um aedo, e dois homens que sabem trinchar à mesa. Se enfrentarmos números como estes, podeis ter amargo motivo para vos arrependerdes da vossa vinda e da vossa vingança. Vede se não podeis pensar em alguém que estivesse disposto a vir ajudar-nos.”
“Ouvi-me”, respondeu Ulisses, “e pensai se Minerva e seu pai Jove vos parecerão suficientes, ou se devo tentar encontrar mais alguém além deles.”
“Aqueles que nomeastes”, respondeu Telémaco, “são um par de bons aliados, pois, embora habitem lá no alto, entre as nuvens, têm poder sobre deuses e homens.”
“Estes dois”, continuou Ulisses, “não se manterão por muito tempo fora da refrega, quando os pretendentes e nós travarmos combate na minha casa. Agora, portanto, regressai cedo a casa amanhã de manhã, e convivei com os pretendentes como dantes. Mais tarde, o porquiheiro me levará à cidade disfarçado de miserável e velho mendigo. Se os virdes maltratar-me, endurecei o coração contra os meus sofrimentos; mesmo que me arrastem pelos pés para fora da casa, ou me atirem coisas, olhai e nada façais além de tentar, com brandura, persuadi-los a portarem-se com mais sensatez; mas não vos ouvirão, pois o dia do seu ajuste de contas está próximo. Outrossim digo, e gravai-o no vosso coração: quando Minerva me fizer sinal, acenarei com a cabeça a vós; e, ao verdes-me fazer isto, haveis de recolher todas as armas que estão na casa e escondê-las no forte armazém. Apresentai alguma desculpa quando os pretendentes vos perguntarem por que as removeis; dizei que as afastastes para as preservar do fumo, porquanto já não são o que eram quando Ulisses partiu, mas estão sujas e coalhadas de fuligem. Acrescentai, mais particularmente, que temeis que Jove possa incitá-los a contender por causa do vinho, e que possam fazer algum mal uns aos outros, o que desacreditaria tanto o banquete como o cortejo, pois a vista das armas às vezes tenta as pessoas a usá-las. Mas deixai uma espada e uma lança para cada um de nós, e um par de escudos de couro cru, para que possamos agarrá-los a qualquer momento; Jove e Minerva acalmarão então cedo esta gente. Há também outra coisa: se sois de facto meu filho e o meu sangue corre nas vossas veias, que ninguém saiba que Ulisses está dentro de casa — nem Laertes, nem o porquiheiro, nem qualquer dos servos, nem mesmo a própria Penélope. Vós e eu exploraremos as mulheres sozinhos, e também experimentaremos alguns dos servos, para ver quem está do nosso lado e cuja mão está contra nós.”
“Pai”, respondeu Telémaco, “haveis de conhecer-me com o tempo, e quando o fizerdes haveis de achar que sei guardar o vosso segredo. Não creio, porém, que o plano que propõedes venha a correr bem, para qualquer de nós. Pensai nisso. Levar-nos-ia muito tempo a percorrer as herdades e a experimentar os homens, e, durante todo esse tempo, os pretendentes estariam a desperdiçar os vossos haveres com impunidade e sem escrúpulo. Provai as mulheres por todos os meios, para ver quais são desleais e quais são inocentes, mas não sou de parecer que andemos por aí a tentar os homens. Podemos tratar disso mais tarde, se de facto tiverdes algum sinal de Jove de que ele vos apoiará.”
Assim conversavam, e entretanto o navio que trouxera Telémaco e a sua tripulação de Pilos havia chegado à cidade de Ítaca. Quando entraram no porto, puxaram o navio para terra; os seus servos vieram e levaram as armas deles, e eles deixaram todas as prendas em casa de Clítio. Depois enviaram um servo para dizer a Penélope que Telémaco tinha ido para o campo, mas que enviara o navio à cidade para evitar que ela se alarmasse e ficasse triste. Este servo e Eumeu se encontraram por acaso, enquanto ambos iam com o mesmo recado de informar Penélope. Quando chegaram à casa, o servo pôs-se de pé e disse à rainha, na presença das criadas que esperavam: “Senhora, vosso filho já regressou de Pilos”; mas Eumeu aproximou-se de Penélope e disse-lhe em particular tudo o que o filho lhe havia ordenado que dissesse. Quando transmitiu a sua mensagem, saiu da casa com os seus dependentes e voltou para junto dos seus porcos.
Os pretendentes ficaram surpreendidos e indignados com o acontecido; assim, saíram para fora do grande muro que cercava o pátio exterior e realizaram uma assembleia junto à entrada principal. Eurímaco, filho de Polibo, foi o primeiro a falar.
“Amigos”, disse ele, “esta viagem de Telémaco é um assunto muito grave; tínhamos a certeza de que não daria em nada. Agora, porém, puxemos um navio para a água e arranjemos uma tripulação para enviar após os outros e dizer-lhes que voltem o mais depressa possível.”
Mal acabara de falar, Anfínomo virou-se no seu lugar e viu o navio dentro do porto, com a tripulação a arriar as velas e a guardar os remos; então riu e disse aos outros: “Não precisamos de lhes enviar recado algum, pois eles já cá estão. Algum deus lhes deve ter contado, ou então viram o navio a passar e não o puderam alcançar.”
Com isto, levantaram-se e foram para a margem. A tripulação puxou então o navio para terra; os servos levaram as suas armas, e eles subiram em grupo para o lugar da assembleia, mas não deixaram que nenhum velho ou novo se sentasse com eles, e Antínoo, filho de Eupites, falou primeiro.
“Bom Deus”, disse ele, “vede como os deuses salvaram este homem da destruição. Mantivemos uma série de vigias nos promontórios o dia inteiro, e, quando o sol se pôs, nunca fomos para terra dormir, mas esperámos no navio toda a noite até à manhã, na esperança de o capturar e matar; mas algum deus o trouxe a casa, apesar de nós. Pensemos em como lhe poremos cobro. Não deve escapar-nos; o nosso negócio nunca mais terá êxito enquanto ele for vivo, pois ele é muito astuto, e o sentimento público não está de modo algum todo do nosso lado. Cumpre-nos agir com pressa, antes que ele convoque os aqueus em assembleia; ele não perderá tempo a fazê-lo, pois estará furioso connosco e dirá ao mundo inteiro que conspirámos para o matar, mas não lográmo-lo. O povo não gostará disto quando o souber; cumpre-nos evitar que nos façam algum mal, ou nos expulsem do nosso próprio país para o exílio. Tentemos deitar-lhe a mão ou na sua herdade, longe da cidade, ou no caminho para cá. Depois poderemos dividir entre nós os seus bens, e que sua mãe e o homem que a desposar fiquem com a casa. Se isto vos não agrada, e quereis que Telémaco viva e conserve os bens de seu pai, então não devemos continuar a reunir-nos aqui e a devorar os seus haveres deste modo, mas cada um de nós, da sua própria casa, há de fazer a sua oferta a Penélope, e ela poderá casar com o homem que mais der por ela, e a quem couber por sorte ganhá-la.”
Todos se mantiveram em silêncio até que Anfínomo se levantou para falar. Era filho de Niso, que era filho do rei Aretias, e era o principal de todos os pretendentes da ilha cerealista e de bons pastos de Dulíquio; a sua conversa, além disso, era mais agradável a Penélope do que a de qualquer outro dos pretendentes, pois era um homem de boa disposição natural. “Amigos”, disse ele, falando-lhes com franqueza e em toda a honestidade, “não sou favorável a matar Telémaco. É coisa nefanda matar quem é de nobre sangue. Consultemos primeiro os deuses, e se os oráculos de Jove o aconselharem, eu próprio o ajudarei a matar e instigarei todos os outros a fazê-lo; mas se nos dissuadem, quero que refreéis as mãos.”
Assim falou, e as suas palavras muito lhes agradaram; levantaram-se imediatamente e foram para a casa de Ulisses, onde tomaram os seus lugares habituais.
Então Penélope resolveu mostrar-se aos pretendentes. Sabia da conspiração contra Telémaco, pois o servo Medon ouvira os seus conselhos e contara-lhos; desceu, portanto, ao pátio acompanhada das suas servas, e, quando chegou junto dos pretendentes, pôs-se ao pé de uma das colunas que sustentavam o telhado do claustro, segurando um véu diante do rosto, e repreendeu Antínoo, dizendo:
“Antínoo, insolente e malvado intrigante, dizem que sois o melhor orador e conselheiro de qualquer homem da vossa idade em Ítaca, mas não sois nada disso. Insensato, por que haveis de tramar a morte de Telémaco, e não fazer caso dos suplicantes, cuja testemunha é o próprio Jove? Não é correcto que conspireis assim uns contra os outros. Não vos lembrais de como vosso pai fugiu para esta casa, temendo o povo, que estava enfurecido contra ele por ter ido com alguns piratas Tafianos e ter saqueado os Tesprótios, que viviam em paz connosco? Queriam despedaçá-lo e devorar tudo o que ele possuía, mas Ulisses lhes conteve as mãos, embora estivessem enfurecidos; e agora vós devorais os seus bens sem pagá-los, e me despedaçais o coração, cortejando sua mulher e tentando matar seu filho. Cessai de o fazer, e detende também os outros.”
Por continuidade apenas — este é o FIM da secção anterior, já traduzida. NÃO a traduzir de novo e NÃO a repetir na vossa resposta. Manter os nomes, a terminologia e o registo: a sua tripulação o trouxe para Ítaca, e quem eram eles? — pois certamente ele não veio para cá por terra.” A isto respondestes, ó porcariço Eumaeus: “Meu filho, dir-te-ei a verdade real. Ele diz que é um cretense e que tem sido um grande viajante. Neste momento, está a fugir de um navio Tesprótio e refugiou-se na minha herdade, por isso pô-lo-ei nas tuas mãos. Faz o que quiseres com ele, apenas lembra-te de que ele é teu suplicante.”
A isto respondeu Eurímaco, filho de Pólibo: “Tem ânimo, rainha Penélope, filha de Icário, e não te perturbes com semelhantes assuntos. Não nasceu ainda, nem jamais nascerá, quem deitará as mãos sobre o teu filho Telémaco, enquanto eu viver para ver a luz da terra. Digo, e assim será seguramente, que a minha lança se enrubescera com o sangue dele; pois por muitas vezes Ulisses me tomou nos seus joelhos, me apresentou o vinho aos lábios para beber e me pôs pedaços de carne nas mãos. Por isso Telémaco é de longe o amigo mais querido que tenho, e nada tem a temer das mãos de nós, os pretendentes. É claro que, se a morte lhe vier dos deuses, não pode escapar a ela.” Dizia isto para a tranquilizar, mas na verdade maquinava contra Telémaco.
Então Penélope subiu de novo ao quarto e chorou pelo seu marido, até que Minerva lhe derramou o sono sobre os olhos. Ao entardecer, Eumeu regressou junto de Ulisses e do seu filho, que acabavam de sacrificar um leitão de um ano e se ajudavam mutuamente a preparar o jantar; Minerva, portanto, aproximou-se de Ulisses, transformou-o num velho com um toque da sua varinha, e revestiu-o de novo com as suas roupas velhas, com receio de que o porcariço o reconhecesse e não guardasse o segredo, mas fosse contar a Penélope.
Telémaco foi o primeiro a falar. “Então já voltaste, Eumeu,” disse ele. “Que novas há da cidade? Voltaram os pretendentes, ou ainda esperam acolá, para me levar a caminho de casa?”
“Não me lembrei de perguntar por isso,” respondeu Eumeu, “quando estive na cidade. Pensei em cumprir a minha mensagem e voltar o mais depressa possível. Encontrei um homem mandado por aqueles que tinham ido contigo a Pilos, e ele foi o primeiro a dar a notícia à tua mãe, mas posso dizer o que vi com os meus próprios olhos; tinha acabado de chegar ao cume do outeiro de Mercúrio, sobre a cidade, quando vi um navio a entrar no porto com muitos homens a bordo. Traziam muitos escudos e lanças, e pensei que fossem os pretendentes, mas não posso ter a certeza.”
Ao ouvir isto, Telémaco sorriu para o pai, mas de modo que Eumeu não pudesse vê-lo.
Depois, quando acabaram o trabalho e a refeição estava pronta, comeram-na, e cada homem teve a sua parte por inteiro, de modo que todos ficaram satisfeitos. Assim que tiveram comida e bebida em abundância, deitaram-se a descansar e fruíram o dom do sono.
LIVRO XVII
TELEMACO E A MÃE ENCONTRAM-SE — ULISSES E EUMEU DESCEM À CIDADE, E ULISSES É INSULTADO POR MELÂNTIO — É RECONHECIDO PELO CÃO ARGOS — É INSULTADO E LOGRADO A SEGUIR GOLPEADO POR ANTÍNOO COM UM BANCO — PENÉLOPE DESEJA QUE LHE SEJA ENVIADO.
Quando a filha da manhã, a Aurora de dedos de rosa, apareceu, Telémaco atou as sandálias e tomou uma forte lança adequada às suas mãos, pois queria ir à cidade. “Velho amigo,” disse ele ao porcariço, “irei agora à cidade e mostrar-me-ei à minha mãe, pois ela não deixará de se afligir enquanto não me vir. Quanto a este desventurado estrangeiro, leva-o à cidade e deixa-o mendigar ali a quem lhe queira dar um trago e um pedaço de pão. Já tenho bastantes transtornos meus, e não posso carregar com outras pessoas. Se isto o irrita, tanto pior para ele, mas eu gosto de dizer o que penso.”
Então Ulisses disse: “Senhor, não quero ficar aqui; um mendigo pode sempre sair-se melhor na cidade do que no campo, pois qualquer um que queira pode dar-lhe alguma coisa. Sou velho de mais para me importar de ficar aqui ao mando de um dono. Portanto, que este homem faça como acabaste de dizer, e leva-me à cidade logo que eu me tenha aquecido ao fogo e o dia tenha um pouco de calor. As minhas roupas são deploravelmente finas, e nesta manhã gélida vou morrer de frio, pois dizes que a cidade é um tanto longe.”
Com isto, Telémaco partiu a passos largos através dos pátios, meditando a sua vingança sobre os pretendentes. Quando chegou a casa, encostou a sua lança a um pilar do pórtico, atravessou o pavimento de pedra do próprio pórtico, e entrou.
A ama Euricleia viu-o muito antes de qualquer outro. Estava a colocar os velos nas cadeiras, e desatou a chorar enquanto corria ao seu encontro; todas as outras servas acorreram também, e cobriram-lhe a cabeça e os ombros com os seus beijos. Penélope saiu do seu quarto semelhante a Diana ou Vénus, e chorou enquanto lançava os braços ao redor do filho. Beijou-lhe a testa e os seus formosos olhos, “Luz dos meus olhos,” exclamou enquanto lhe falava com ternura, “ então voltaste a casa; tinha a certeza de que nunca mais te veria. Pensar que te foste embora para Pilos sem dizer nada nem obter o meu consentimento. Mas vem, conta-me o que viste.”
“Não me ralhes, mãe,” respondeu Telémaco, “nem me irrites, visto quão apertado escapei, mas lava o rosto, muda de roupa, sobe ao quarto com as tuas servas, e promete hecatombes inteiras e suficientes a todos os deuses, se Zeus nos conceder vingança dos pretendentes. Tenho agora de ir ao lugar da assembleia para convidar um estrangeiro que regressou comigo de Pilos. Mandei-o ahead com a minha tripulação, e disse a Piréu para o levar a casa e olhar por ele até eu poder ir ter com ele.”
Ela atendeu as palavras do filho, lavou o rosto, mudou de roupa, e prometeu hecatombes inteiras e suficientes a todos os deuses, se lhe concedessem vingança dos pretendentes.
Telémaco atravessou, e saiu, dos pórticos com a lança na mão — não sozinho, pois os seus dois cães velozes o acompanhavam. Minerva dotou-o de uma presença de tão divina formosura que todos o contemplavam maravilhados ao passar, e os pretendentes o rodearam com palavras amáveis na boca e maldade no coração; mas ele evitou-os e foi sentar-se junto de Mentor, Antifo e Haliterses, velhos amigos da casa de seu pai, e eles fizeram-no contar tudo o que lhe acontecera. Então Piréu acercou-se com Teoclimeno, a quem escoltara através da cidade até ao lugar da assembleia, onde Telémaco logo se lhes juntou. Piréu foi o primeiro a falar: “Telémaco,” disse ele, “desejaria que mandasses algumas das tuas mulheres a minha casa para levar embora os presentes que Menelau te deu.”
“Não sabemos, Piréu,” respondeu Telémaco, “o que poderá acontecer. Se os pretendentes me matarem em minha casa e dividirem os meus bens entre eles, antes preferiria que tivesses os presentes do que qualquer um daquela gente os pudesse obter. Se, por outro lado, eu conseguir matá-los, ficar-te-ei muito grato se quiseres fazer-me o favor de me trazeres os meus presentes.”
Com estas palavras levou Teoclimeno a sua própria casa. Quando lá chegaram, depuseram as suas capas nos bancos e assentos, foram aos banhos e se lavaram. Quando as servas os haviam lavado e ungido, e lhes haviam dado capas e túnicas, tomaram os seus lugares à mesa. Uma criada trouxe-lhes então água num formoso jarro de ouro, e verteu-a numa bacia de prata para lavarem as mãos; e ela puxou uma mesa limpa para junto deles. Um servo de mesa trouxe-lhes pão e ofereceu-lhes muitas coisas boas do que havia em casa. Em frente deles estava sentada Penélope, recostada num leito junto a um dos pilares do pórtico, a fiar. Então eles lançaram as mãos nas iguarias que estavam diante deles, e assim que tiveram comida e bebida em abundância, Penélope disse:
“Telémaco, subirei ao quarto e deitar-me-ei naquele leito triste, que não cessei de regar com as minhas lágrimas, desde o dia em que Ulisses partiu para Tróia com os filhos de Atreu. Contudo, não esclareceste-me antes de os pretendentes voltarem a casa, se pudeste ou não ouvir alguma coisa sobre o regresso do teu pai.”
“Digo-te então a verdade,” respondeu-lhe o filho. “Fomos a Pilos e vimos Nestor, que me levou a sua casa e me tratou com tanta hospitalidade como se eu fosse um filho seu que acabasse de regressar após longa ausência; assim também fizeram os seus filhos; mas disse que não ouvira uma só palavra de qualquer ser humano sobre Ulisses, se estava vivo ou morto. Enviou-me, portanto, com um carro e cavalos para junto de Menelau. Ali vi Helena, por cuja causa tantos, Argivos e Troianos, estavam pela sabedoria do céu destinados a sofrer. Menelau perguntou-me o que me havia trazido a Lacedemónia, e contei-lhe toda a verdade, e ele disse: ‘Então, esses cobardes usurpariam o leito de um homem valente? Tão bem poderia uma cerva colocar a sua cria recém-nascida na cova do leão, e depois ir-se embora para pastar na floresta ou em algum vale relvado. O leão, quando voltar à sua cova, fará em breve obra da parelha, e assim fará Ulisses com estes pretendentes. Por pai Zeus, Minerva e Apolo, se Ulisses ainda é o homem que era quando lutou com Filomelides em Lesbos, e o atirou com tanta força que todos os Gregos o aplaudiram — se ele ainda é assim, e chegasse perto destes pretendentes, eles teriam breve sentença e triste boda. Quanto à tua pergunta, porém, não tergiversarei nem te enganarei, mas o que o velho do mar me disse, isso to contarei por inteiro. Disse que podia ver Ulisses numa ilha, a sofrer amargamente na casa da ninfa Calipso, que o mantinha prisioneiro, e ele não podia chegar a casa, pois não tinha navios nem marinheiros para o atravessar o mar.’ Isto foi o que Menelau me contou, e quando ouvi a sua história parti; os deuses deram-me então um vento favorável e logo me trouxeram são e salvo a casa.”
Com estas palavras comoveu o coração de Penélope. Então Teoclimeno disse-lhe:
“Senhora, esposa de Ulisses, Telémaco não compreende estas coisas; escuta-me pois a mim, que sei adivinhá-las com certeza e nada te ocultarei. Que Zeus, rei do céu, me seja testemunha, e os ritos da hospitalidade, com aquela lareira de Ulisses à qual agora chego, que o próprio Ulisses já está em Ítaca, e, ou percorrendo o campo ou permanecendo num só lugar, está a inteirar-se de todos estes males e a preparar um dia de ajuste de contas para os pretendentes. Vi um presságio quando estava no navio que isto significava, e contei-o a Telémaco.”
“Que assim seja,” respondeu Penélope; “se as tuas palavras se realizarem, terás de mim tais dádivas e tal benevolência que todos quantos te vejam te felicitarão.”
Assim conversavam. Entretanto, os pretendentes atiravam discos, ou visavam com lanças a um alvo no chão nivelado diante da casa, e procediam com toda a sua antiga insolência. Mas quando já era hora de jantar, e o rebanho de ovelhas e cabras tinha entrado na cidade de todo o campo em redor, com os seus pastores como de costume, então Medon, que era o seu servo favorito, e que os servia à mesa, disse: “Agora então, meus jovens senhores, já haveis tido divertimento bastante, entrai para que preparemos o jantar. O jantar não é coisa má, à hora do jantar.”
Eles deixaram os seus jogos como ele lhes disse, e quando estavam dentro da casa, depuseram as capas nos bancos e assentos do interior, e sacrificaram algumas ovelhas, cabras, porcos e uma novilha, todos gordos e bem crescidos. Assim prepararam a sua refeição. Entretanto, Ulisses e o porcariço estavam prestes a sair para a cidade, e o porcariço disse: “Estrangeiro, suponho que ainda queres ir à cidade hoje, como meu mestre disse que ias fazer; eu, por mim, teria preferido que ficasses aqui como trabalhador da herdade, mas tenho de fazer o que meu mestre manda, ou ele repreender-me-á mais tarde, e uma repreensão de um mestre é coisa muito séria. Partamos então, pois já é pleno dia; virá a noite logo a seguir e então acharás mais frio.”
“Já sei e compreendo,” respondeu Ulisses; “não precisas dizer mais. Vamos, pois; mas se tens um pau já cortado, dá-mo para caminhar, pois dizes que o caminho é muito áspero.”
Enquanto falava, atirou a sua miserável e andrajosa sacola por cima dos ombros, pela corda da qual pendia, e Eumeu deu-lhe um pau ao seu gosto. Os dois então partiram, deixando a herdade a cargo dos cães e pastores que ficaram para trás; o porcariço foi à frente e o seu mestre seguia atrás, com o aspeto de algum velho vagabundo desfeito enquanto se apoiava no seu bastão, e as suas roupas estavam todas em farrapos. Quando atravessaram o terreno áspero e escarpado e se aproximavam da cidade, alcançaram a fonte da qual os cidadãos tiravam a água. Esta fora feita por Ítaco, Nerito e Pólictor. Havia um bosque de choupos amantes da água plantado em círculo à volta dela, e a água límpida e fria descia até ela de uma rocha bem acima, enquanto acima da fonte havia um altar às ninfas, no qual todos os viajantes costumavam sacrificar. Ali Melântio, filho de Dólio, alcançou-os enquanto conduzia algumas cabras, as melhores do seu rebanho, para o jantar dos pretendentes, e havia dois pastores com ele. Quando viu Eumeu e Ulisses, cobriu-os de linguagem ultrajante e indecorosa, o que muito enfureceu Ulisses.
“Lá ides vós,” gritou ele, “e que preciosa parelha sois. Vede como o céu junta aves da mesma plumagem. Onde, por favor, mestre porcariço, levas este pobre e miserável objecto? Daria enjoo a qualquer um ver tal criatura à mesa. Um tipo como este nunca ganhou prémio por nada na sua vida, mas andará por aí a esfregar os ombros contra a ombreira da porta de cada um, e a mendigar, não por espadas e caldeirões como um homem, mas só por alguns restos que nem valem o trabalho de mendigar. Se mo desses para um ajudante na minha herdade, ele poderia servir para limpar os apriscos, ou levar um pouco de alimento doce aos cabritos, e poderia engordar as suas coxas à vontade com soro; mas ele entregou-se a maus caminhos e não quer fazer trabalho nenhum; só mendigará comida por toda a cidade, para saciar a sua barriga insaciável. Digo, portanto — e assim será seguramente — se ele se aproximar da casa de Ulisses, partir-lhe-ão a cabeça com os bancos que lhe atirarão, até o expulsarem.”
Com isto, ao passar, deu um pontapé a Ulisses na anca por pura maldade, mas Ulisses manteve-se firme e não saiu do caminho. Por um momento hesitou se deveria ou não atirar-se a Melântio e matá-lo com o seu bastão, ou derrubá-lo e espancar-lhe o cérebro; resolveu, contudo, suportar aquilo e conter-se, mas o porcariço olhou diretamente para Melântio e repreender-o, erguendo as mãos e orando ao céu enquanto o fazia.
“Ninfas da fonte,” exclamou, “filhas de Zeus, se Ulisses alguma vez vos queimou coxas cobertas de gordura, fosse de cordeiros ou cabritos, atendei a minha prece para que o céu o mande para casa. Ele poria breve termo às ameaças fanfarronas com que homens como tu andam a insultar as pessoas — vagueando por toda a cidade enquanto os teus rebanhos se arruínam por mau pastoreio.”
Então Melântio, o cabreiro, respondeu: “Tu, cão de má condição, que estás tu a dizer? Algum dia te porei a bordo de um navio e te levarei a um país estrangeiro, onde te possa vender e embolsar o dinheiro que renderás. Quem me dera ter a certeza de que Apolo feriria Telémaco de morte neste mesmo dia, ou de que os pretendentes o matariam, como tenho a certeza de que Ulisses jamais voltará a casa.”
Com isto, deixou-os para virem ao seu ritmo, enquanto ele seguia depressa e logo alcançou a casa do seu amo. Quando lá chegou entrou e tomou o seu lugar entre os pretendentes defronte de Eurímaco, que mais o estimava do que qualquer dos outros. Os servos trouxeram-lhe a sua porção de carne, e uma serva de mesa colocou pão diante dele para que comesse. Pouco depois, Ulisses e o porcariço chegaram à casa e pararam junto dela, em meio a um som de música, pois Fémio estava a começar a cantar para os pretendentes. Então Ulisses tomou a mão do porcariço e disse:
“Eumeu, esta casa de Ulisses é um lugar muito fino. Por muito longe que vás, encontrarás poucas como ela. Um edifício segue-se ao outro. O pátio exterior tem um muro com ameias ao redor; as portas são de dobradiças duplas, e de bom lavor; seria difícil tomá-la pela força das armas. Percebo também que há muita gente a banquetear-se dentro dela, pois há um cheiro de carne assada, e ouço um som de música, que os deuses fizeram para acompanhar os festins.”
Então Eumeu disse: “Percebestes bem, como de costume; mas pensemos qual será o nosso melhor caminho. Entrarás primeiro e juntar-te-ás aos pretendentes, deixando-me aqui atrás, ou esperas aqui e me deixas entrar primeiro? Mas não esperes muito, ou alguém te verá a vaguear lá fora e atirar-te-á qualquer coisa. Pensa nisto, te peço.”
E Ulisses respondeu: “Compreendo e atendo. Entra primeiro e deixa-me aqui onde estou. Estou bem habituado a ser espancado e a levarem-me coisas atiradas. Tenho sido tão sacudido na guerra e pelo mar que estou endurecido, e isto também pode ir com o resto. Mas um homem não pode esconder as ânsias de uma barriga faminta; este é um inimigo que dá muito trabalho a todos os homens; é por causa disto que os navios são equipados para singrar os mares, e para fazer guerra a outros povos.”
Enquanto assim falavam, um cão que estivera deitado a dormir ergueu a cabeça e levantou as orelhas. Era Argos, que Ulisses criara antes de partir para Tróia, mas de quem nunca tirara trabalho. Nos velhos tempos costumava ser levado pelos jovens quando iam à caça de cabras selvagens, ou cervos, ou lebres, mas agora que o seu amo partira, estava ali deitado, negligenciado, sobre as pilhas de esterco de mula e vaca que havia diante das portas do estábulo, até que os homens viessem tirá-lo para adubar o grande cerrado; e estava cheio de pulgas. Assim que viu Ulisses ali de pé, baixou as orelhas e abanou a cauda, mas não pôde chegar perto do seu amo. Quando Ulisses viu o cão do outro lado do pátio, uma lágrima lhe saltou dos olhos sem que Eumeu o visse, e disse:
“Eumeu, que nobre rafeiro é aquele ali além, sobre o monte de esterco: a sua conformação é esplêndida; será ele tão bom como parece, ou é apenas um daqueles cães que andam a mendigar à volta de uma mesa, e são mantidos só para ostentação?”
—Este cão — respondeu Eumeu — pertenceu àquele que morreu em terras longínquas. Se ele fosse como era quando Ulisses partiu para Troia, bem vos mostraria ele do que era capaz. Não havia fera alguma no bosque que lhe escapasse, uma vez posta no seu rasto. Mas agora caiu em maus tempos, pois o seu amo morreu e desapareceu, e as mulheres não cuidam dele. Os servos nunca cumprem o seu dever quando a mão do amo já não pesa sobre eles, porque Jove tira metade da virtude a um homem, quando o faz escravo.
Enquanto assim falava, entrou nas construções, para o claustro onde estavam os pretendentes; mas Argos morreu, logo que reconheceu o seu amo.
Telémaco viu Eumeu muito antes de qualquer outro, e fez-lhe sinal que viesse sentar-se junto dele; ele olhou em volta e viu uma cadeira que jazia perto do lugar onde o trinchante servia as porções aos pretendentes; pegou nela, levou-a para a mesa de Telémaco e sentou-se defronte dele. Então o servo trouxe-lhe a sua porção e pão do cesto.
Logo depois, Ulisses entrou, com aspecto de pobre e miserável velho mendigo, apoiado ao seu bordão e com os vestidos todos em farrapos. Sentou-se no limiar de freixo, mesmo dentro das portas que levavam do pátio exterior ao interior, e contra um pilar de cipreste que o carpinteiro havia aplainado com perícia e ajustado a esquadria com régua e compasso. Telémaco tomou um pão inteiro do cesto, com tanta carne quanto podia suster nas duas mãos, e disse a Eumeu: «Leva isto ao estrangeiro, e diz-lhe que percorra os pretendentes e peça-lhes esmola; um mendigo não deve ter vergonha.»
Eumeu, pois, aproximou-se dele e disse: «Estrangeiro, Telémaco manda-te isto, e diz que hás-de percorrer os pretendentes a pedir, porque os mendigos não devem ter vergonha.»
Ulisses respondeu: «Que o rei Jove conceda toda a felicidade a Telémaco, e lhe cumpra o desejo do coração.»
Então, com ambas as mãos, tomou o que Telémaco lhe mandara, e depô-lo no sujo e velho alforje aos seus pés. Continuou a comê-lo enquanto o bardo cantava, e acabou de comer justamente quando ele cessou. Os pretendentes aplaudiram o bardo; e Minerva, então, acercou-se de Ulisses e incitou-o a pedir bocados de pão a cada um dos pretendentes, para que visse que espécie de homens eram, e distinguisse os bons dos maus; mas, acontecesse o que acontecesse, ela não havia de salvar nem um só deles. Ulisses, portanto, prosseguiu no seu giro, indo da esquerda para a direita, e estendia as mãos a pedir como se fosse um verdadeiro mendigo. Alguns apiedaram-se dele e mostraram curiosidade, perguntando uns aos outros quem era e donde vinha; então o cabreiro Melântio disse: «Pretendentes da minha nobre senhora, eu vos posso dizer algo acerca dele, pois já o vi antes. O porqueiro trouxe-o para aqui, mas nada sei do homem em si, nem donde ele vem.»
A isto Antínoo começou a ultrajar o porqueiro. — «Precioso idiota — bradou —, para que trouxeste este homem à cidade? Não temos já vadios e mendigos bastantes para nos importunarem quando estamos à mesa? Pensas que é coisa de pouco que tais pessoas se reunam aqui a desperdiçar os haveres do teu amo — e ainda precisas de trazer também este homem?»
E Eumeu respondeu: «Antínoo, a tua origem é boa, mas as tuas palavras são más. Não foi por minha mão que ele aqui veio. Quem há-de convidar um estrangeiro de país alheio, a não ser um daqueles que podem prestar serviço público, como um vidente, um curandeiro, um carpinteiro ou um bardo que nos encanta com o seu canto? Tais homens são bem-vindos por todo o mundo, mas ninguém há-de chamar um mendigo que só há-de incomodar. Tu és sempre mais duro para com os servos de Ulisses do que qualquer dos outros pretendentes, e sobretudo para comigo; mas não me importa, enquanto Telémaco e Penélope forem vivos e estiverem aqui.»
Mas Telémaco disse: «Cala-te, não lhe respondas; Antínoo tem a língua mais amarga de todos os pretendentes, e torna os outros piores.»
Então, voltando-se para Antínoo, disse: «Antínoo, tu cuidas dos meus interesses como se eu fosse teu filho. Por que hás-de querer ver este estrangeiro expulso da casa? Deus me livre; toma qualquer coisa e dá-lha tu mesmo; eu não to recuso; peço-te que a tomes. Não faças caso da minha mãe, nem de nenhum dos outros servos da casa; mas sei que não farás o que eu digo, porque tens mais gosto em comer as coisas tu mesmo do que em dá-las aos outros.»
— Que queres tu dizer, Telémaco — replicou Antínoo —, com este falar fanfarrão? Se todos os pretendentes lhe dessem tanto quanto eu, ele não voltaria aqui por outros três meses.
Enquanto assim falava, puxou de debaixo da mesa o escabelo em que descansava os delicados pés, e fez menção de o arrojar contra Ulisses; mas os outros pretendentes deram-lhe todos alguma coisa, e encheram-lhe o alforje de pão e carne; ele ia, portanto, voltar ao limiar e comer o que os pretendentes lhe tinham dado, mas primeiro acercou-se de Antínoo e disse:
— Senhor, dá-me alguma coisa; não és, por certo, o mais pobre dos homens aqui; pareces ser um chefe, o primeiro entre todos; portanto, devias ser o melhor dadivoso, e eu proclamarei de longe a tua generosidade. Também eu fui outrora um homem rico, e tive uma bela casa minha; nesses dias dava a muitos vadios como eu agora sou, fosse quem fosse nem o que quisesse. Tinha servos em abundância, e tudo o mais que possuem os que vivem bem e são tidos por opulentos, mas aprouve a Jove tirar-m'o tudo. Enviou-me com uma banda de salteadores errantes ao Egito; foi longa a viagem e eu fui desfeito por ela. Estacionei os meus navios no rio Aegyptus, e mandei os meus homens ficar junto deles e guardá-los, enquanto eu enviava batedores a reconhecerem de todos os pontos vantajosos.
«Mas os homens desobedeceram às minhas ordens, seguiram o seu próprio impulso, e assolaram a terra dos egípcios, matando os homens e levando cativas as mulheres e crianças. O alarma cedo chegou à cidade, e quando ouviram o grito de guerra, o povo saiu ao romper do dia, até que a planície se encheu de soldados de cavalaria e infantaria, e com o brilho das armaduras. Então Jove espalhou o pânico entre os meus homens, e eles já não quiseram enfrentar o inimigo, pois viram-se cercados. Os egípcios mataram muitos de nós, e tomaram os restantes vivos para os fazerem trabalhar à força; quanto a mim, deram-me a um amigo que encontraram, para me levar a Chipre, de nome Dmetor, filho de Iasus, que era um grande homem em Chipre. Daqui vim eu até aqui em grande miséria.»
Então Antínoo disse: «Que deus pode ter enviado semelhante praga para nos perseguir durante o nosso jantar? Põe-te fora, para a parte aberta do pátio, senão te darei o Egito e Chipre outra vez pela tua insolência e importunação; pediste a todos os outros, e eles deram-te com largueza, porque têm abundância à sua volta, e é fácil ser generoso com bens alheios quando há fartura deles.»
A isto Ulisses começou a afastar-se e disse: «O teu aspecto, meu bom senhor, é melhor do que a tua criação; se estivesses em tua própria casa, não pouparias a um pobre nem sequer uma pitada de sal, pois, embora estejas em casa alheia e rodeado de abundância, não tens no coração para lhe dar nem um bocado de pão.»
Isto irritou profundamente Antínoo, que o fitou de cara fechada, dizendo: «Vais pagá-lo antes de saíres do pátio.» Com estas palavras, arrojou-lhe um escabelo, e acertou-lhe na omoplata direita, perto do alto das costas. Ulisses manteve-se firme como uma rocha, e o golpe nem sequer o fez cambalear, mas sacudiu a cabeça em silêncio, meditando a sua vingança. Depois voltou ao limiar e sentou-se ali, depositando aos pés o seu alforje bem cheio.
— Ouvi-me — bradou ele —, vós, pretendentes da rainha Penélope, para que eu fale como tenho no ánimo. Um homem não sente dor nem achaque se é ferido quando luta pelo seu dinheiro, ou pelas suas ovelhas ou pelos seus bois; e assim mesmo Antínoo me feriu, ao serviço da minha miserável barriga, que sempre mete os homens em maos passos. Ainda assim, se os pobres têm deuses e divindades vingadoras, rogo-lhes que Antínoo encontre mau fim antes do seu casamento.
— Fica-te aí onde estás e come os teus alimentos em silêncio, ou vai-te embora daqui para fora — gritou Antínoo. — Se dizes mais, mandarei arrastar-te pés e mãos pelos pátios, e os servos hão-de esfolar-te vivo.
Os outros pretendentes ficaram muito descontentes com isto, e um dos jovens disse: «Antínoo, fizeste mal em ferir aquele pobre diabo do vadio; será pior para ti se ele vier a ser algum deus — e bem sabemos que os deuses andam disfarçados de toda a espécie de maneiras, como gente de países estrangeiros, e percorrem o mundo a ver quem age mal e quem com justiça.»
Assim falaram os pretendentes, mas Antínoo não lhes deu ouvidos. Entretanto, Telémaco estava enfurecido com o golpe que fora dado a seu pai, e, embora nenhuma lágrima lhe caísse dos olhos, sacudiu a cabeça em silêncio e meditou a sua vingança.
Ora, quando Penélope soube que o mendigo fora ferido no claustro dos banquetes, disse diante das suas servas: «Quem dera que Apolo ferisse assim a ti, Antínoo»; e a sua criada Eurínome respondeu: «Se as nossas preces fossem ouvidas, nenhum dos pretendentes veria jamais nascer o sol.» Então Penélope disse: «Aia, odeio cada um deles, pois só intentam malefícios, mas odeio Antínoo como as trevas da morte. Um pobre e desventurado vadio veio mendigar pela casa só por pura necessidade. Todos os outros lhe deram alguma coisa para o alforje, mas Antínoo feriu-o na omoplata direita com um escabelo.»
Assim falou com as servas, sentada no seu próprio aposento; e entretanto Ulisses ia jantando. Então ela chamou o porqueiro e disse: «Eumeu, vai dizer ao estrangeiro que venha cá; quero vê-lo e fazer-lhe algumas perguntas. Parece ter muito viajado, e pode ter visto ou ouvido algo do meu desventurado marido.»
A isto respondeste tu, ó porqueiro Eumeu: «Se estes aqueus, senhora, quisessem fazer silêncio, ficaríeis encantada com a história das suas aventuras. Eu tive-o três dias e três noites comigo na minha choça, que foi o primeiro lugar que ele alcançou depois de fugir do seu navio, e ainda não terminou a narrativa das suas desventuras. Se ele fosse o mais inspirado menestrel do mundo inteiro, em cujos lábios todos os ouvintes ficam suspensos e enlevados, não poderia ter-me encantado mais, sentado na minha choça e ouvindo-o. Diz que há uma antiga amizade entre a sua casa e a de Ulisses, e que vem de Creta, onde vivem os descendentes de Minos, depois de ter sido levado de cá para lá por toda a espécie de desventuras; declara também que ouviu dizer que Ulisses está vivo e perto daqui, entre os tesprótios, e que traz grandes riquezas consigo.»
— Chama-o então cá — disse Penélope —, para que eu também ouça a sua história. Quanto aos pretendentes, que se divirtam dentro ou fora de casa como quiserem, pois não têm nada que os apoquente. Os seus cereais e vinho permanecem intactos nas suas casas, só com servos para os consumir, enquanto eles andam de dia a dia à volta da nossa casa a sacrificar bois, ovelhas e cabras gordas para os seus banquetes, e nunca dão um pensamento sequer à quantidade de vinho que bebem. Nenhum património pode aguentar tal desacato, pois já não temos Ulisses para nos proteger. Se ele voltasse, ele e o seu filho teriam logo a sua vingança.
Enquanto assim falava, Telémaco espirrou tão fortemente que a casa toda ressoou. Penélope riu-se ao ouvi-lo e disse a Eumeu: «Vai chamar o estrangeiro; não ouviste como o meu filho espirrou mesmo enquanto eu falava? Isto só pode significar que todos os pretendentes vão ser mortos, e que nem um só escapará. Mais digo, e grava-o no teu coração: se eu ficar satisfeita que o estrangeiro diz a verdade, dar-lhe-ei uma túnica e um manto de bom uso.»
Quando Eumeu ouviu isto, foi direito a Ulisses e disse: «Pai estrangeiro, a minha senhora Penélope, mãe de Telémaco, mandou chamar-te; ela está em grande aflição, mas deseja ouvir tudo quanto lhe possas contar do marido, e, se ficar satisfeita de que dizes a verdade, dar-te-á uma túnica e um manto, que são justamente aquelas coisas de que mais precisas. Quanto a pão, podes arranjar quanto baste para encher a barriga, mendigando pela cidade e deixando dar àqueles que quiserem.»
— Direi a Penélope — respondeu Ulisses —, nada senão o que é estritamente verdade. Sei tudo acerca do marido dela e fui companheiro dele na aflição, mas tenho medo de atravessar esta multidão de pretendentes cruéis, pois a sua soberba e insolência chegam ao céu. Agora mesmo, aliás, enquanto eu andava pela casa sem fazer mal a ninguém, um homem deu-me um golpe que muito me doeu, mas nem Telémaco nem ninguém me defendeu. Diz, pois, a Penélope que tenha paciência e espere até ao pôr-do-sol. Que me dê um assento junto ao lume, pois os meus vestidos estão muito gastos — tu bem o sabes, pois tens visto-os desde que te pedi pela primeira vez que me ajudasses —; então poderá interrogar-me acerca do regresso do marido.
O porqueiro voltou quando ouviu isto, e Penélope, ao vê-lo atravessar o limiar, disse: «Por que o não trazes cá, Eumeu? Tem medo de que alguém o maltrate, ou tem vergonha de entrar em casa de todo? Os mendigos não devem ter vergonha.»
A isto respondeste tu, ó porqueiro Eumeu: «O estrangeiro é bem ajuizado. Está a evitar os pretendentes, e só faz o que qualquer outro faria. Pede-te que esperes até ao pôr-do-sol, e será muito melhor, senhora, que o tenhas só para ti, quando o possas ouvir e falar com ele à vontade.»
— O homem não é tolo — respondeu Penélope —; é muito provável que seja como ele diz, porque não há gente tão abominável no mundo inteiro como estes homens são.
Quando ela acabou de falar, Eumeu voltou para os pretendentes, pois tinha explicado tudo. Então aproximou-se de Telémaco e disse-lhe ao ouvido, sem que ninguém pudesse ouvir: «Meu caro senhor, vou agora voltar para os porcos, a tratar dos teus haveres e dos meus negócios. Tu olharás pelo que se passa aqui, mas, acima de tudo, tem cuidado de te manter fora de perigo, pois são muitos os que te querem mal. Que Jove os leve a mau fim antes que nos façham mal.»
— Muito bem — respondeu Telémaco —; vai para casa depois de teres jantado, e de manhã vem cá com as vítimas que havemos de sacrificar no dia. O resto deixa-o ao céu e a mim.
A isto Eumeu sentou-se outra vez, e, depois de acabar o seu jantar, saiu dos pátios e do claustro onde os homens estavam à mesa, e voltou para os seus porcos. Quanto aos pretendentes, começaram logo a entreter-se com canto e dança, pois já ia avançando a noite.
LIVRO XVIII
A LUTA COM IRO — ULISSES ADVERTE ANFÍNOMO — PENÉLOPE RECEBE PRESENTES DOS PRETENDENTES — OS BRASEIROS — ULISSES REPREENDE EURÍMACO.
Ora, veio um certo vadio que costumava mendigar por toda a cidade de Ítaca, e era notório como glutão incorrigível e beberrão. Este homem não tinha vigor nem firmeza nele, mas era um grandalhão de aspecto; o seu nome verdadeiro, o que a mãe lhe dera, era Arneu, mas os mancebos do lugar chamavam-lhe Iro, porque levava recados de toda a gente que o quisesse mandar. Assim que chegou, começou a insultar Ulisses e a tentar expulsá-lo da própria casa dele.
— Fora daqui, velho — bradou —, da soleira da porta, senão te arrastamos pelo pescoço e pelos pés. Não vês que todos me estão a fazer sinais com os olhos, e querem que te ponha fora à força, só que não me agrada fazê-lo? Levanta-te, pois, e vai-te por ti mesmo, ou chegaremos às vias de facto.
Ulisses franziu o sobrolho para ele e disse: «Meu amigo, eu não te faço mal algum; dão-te muito, mas eu não tenho inveja. Há lugar de sobra nesta soleira para nós os dois, e não precisas de me invejar coisas que não são tuas para dar. Pareces ser outro vadio tal como eu, mas talvez os deuses nos dêem melhor sorte mais tarde. Não fales, porém, demais em lutar, ou hás-de encolerizar-me, e, ainda que velho, cobrir-te-ei a boca e o peito de sangue. Terei mais paz amanhã se o fizer, pois não voltarás à casa de Ulisses nunca mais.»
Iro encheu-se de cólera e respondeu: «Tu, glutão nojento, falas desembaraçado como uma velha peixeira. Tenho grande vontade de te lançar ambas as mãos e arrancar-te os dentes da cabeça como se fossem presas de javali. Põe-te pronto, portanto, e deixa que estes aqui fiquem a olhar. Tu não poderás nunca lutar com quem é muito mais jovem do que tu.»
Assim se increparam um ao outro no chão liso diante da soleira, e quando Antínoo viu o que se passava riu-se com vontade e disse aos outros: «Este é o melhor espetáculo que jamais vistes; o céu nunca mandou a esta casa coisa que se lhe assemelhe. O estrangeiro e Iro andaram à bulha e vão-se pegar; ponhamo-los a lutar já.»
Os pretendentes acercaram-se todos a rir e reuniram-se à volta dos dois esfarrapados vadios. «Ouvi-me — disse Antínoo —; há tripas de cabra ao lume, que enchemos de sangue e gordura, e reservámos para o jantar; quem vencer e se mostrar o melhor homem escolherá a que quiser; ficará livre da nossa mesa e não consentiremos nenhum outro mendigo em casa.»
Os outros concordaram todos, mas Ulisses, para os desencaminhar, disse: «Senhores, um velho como eu, gasto pelo sofrimento, não pode valer-se contra um jovem; mas a minha ventre desmedido me instiga, embora saiba que só pode acabar em tareia. Haveis de jurar, porém, que nenhum de vós me dará um golpe traidor para favorecer Iro e lhe garantir a vitória.»
Juraram como ele lhes pediu, e quando completaram o juramento, Telémaco tomou a palavra e disse: «Estrangeiro, se tendes tenção de ajustar contas com este sujeito, não deveis temer ninguém aqui. Quem vos ferir terá de lutar com mais de um. Sou eu o hospedeiro, e os outros chefes, Antínoo e Eurímaco, ambos homens de bom entendimento, partilham do mesmo parecer que eu.»
Todos anuíram, e Ulisses cingiu à cintura os seus velhos andrajos, descobrindo assim as robustas coxas, o largo peito e ombros e os possantes braços; mas Minerva aproximou-se dele e tornou-lhe os membros ainda mais vigorosos. Os pretendentes ficaram assombrados sem medida, e cada um voltava-se para o vizinho dizendo: «O estrangeiro traz, debaixo dos seus andrajos velhos, uma coxa tal que em breve não restará nada de Iro.»
Iro começou a sentir-se muito perturbado ao ouvi-los, mas os servos cingiram-no à força e levaram-no [para a parte descoberta do pátio] tão assustado que os membros lhe tremiam todos. Antínoo repreendeu-o e disse: «Fanfarrão desbocado, melhor teria sido nunca ter nascido, se tens medo de uma criatura velha e acabada como este vadio é. Digo- te, pois — e assim se cumprirá —: se ele te vencer e se mostrar o melhor homem, embarcar-te-ei numa nau para o continente e mandar-te- ei ao rei Equeto, que mata quantos dele se acercam. Ele te cortará o nariz e as orelhas, e arrancará as entranhas para que os cães as comam.»
Iro ficou ainda mais aterrorizado, mas levaram-no para o meio do pátio, e os dois homens ergueram as mãos para combater. Então Ulisses ponderou se deveria desferir-lhe um golpe tão rijo que lhe pusesse fim ali mesmo, ou se lhe daria antes uma pancada mais ligeira que apenas o derrubasse; por fim julgou ser melhor dar-lhe a pancada ligeira, temendo que os Aqueus começassem a suspeitar de quem ele era. Começaram então a lutar, e Iro acertou Ulisses no ombro direito; mas Ulisses desfechou em Iro um golpe no pescoço, sob a orelha, que lhe esmagou os ossos do crânio, e o sangue jorrou-lhe da boca; ele caiu gemendo no pó, rangendo os dentes e esperneando no chão, mas os pretendentes ergueram as mãos e quase morreram de riso, enquanto Ulisses o agarrava pelo pé e o arrastava pelo pátio exterior até ao corpo da guarda. Ali o encostou à muralha e pôs-lhe o cajado nas mãos. «Senta-te aqui», disse, «e afasta os cães e os porcos; és uma criatura miserável, e se tornares a tentar fazer-te rei dos mendigos, haverás de passar ainda pior.»
Então atirou a sua surrada sacola velha, toda rota e rasgada, ao ombro pela corda com que estava presa, e voltou a sentar-se no limiar; mas os pretendentes recolheram-se aos claustros, rindo e saudando-o: «Que Júpiter e todos os outros deuses», diziam, «vos concedam tudo quanto desejardes, por terdes posto termo à impertinência deste vadio insaciável. Havemos de mandá-lo brevemente para o continente, ao rei Equeto, que mata quantos dele se acercam.»
Ulisses acolheu isto como bom augúrio, e Antínoo pôs diante dele uma grande pança de cabra, cheia de sangue e gordura. Anfinomo tirou dois pães do cesto do pão e levou-lhos, brindando-o enquanto o fazia numa taça de ouro com vinho. «Boa sorte», disse ele, «pai estrangeiro, estais agora muito mal, mas espero que hajais de ter tempos melhores daqui em diante.»
Ulisses respondeu-lhe: «Anfinomo, pareceis ser um homem de bom entendimento, como de facto bem podeis ser, atendendo a quem é vosso pai. Ouvi falar bem do vosso pai; é Niso de Dulíquio, homem valente e rico. Dizem-me que sois seu filho, e pareceis ser pessoa de consideração; escutai, pois, e atendei ao que vos digo. O homem é a mais vã de todas as criaturas que têm existência sobre a terra. Enquanto o céu lhe concede saúde e forças, ele pensa que nenhum mal lhe sobrevirá no futuro, e mesmo quando os deuses bem-aventurados lhe enviam o sofrimento, suporta-o como deve, e tira dele o melhor partido; pois Deus todo-poderoso dá aos homens, dia a dia, o ânimo de cada dia. Conheço bem tudo isto, pois também eu fui rico um dia, e cometi muitas injustiças na teimosia do meu orgulho, e confiando em que meu pai e meus irmãos me sustentariam; por isso, tema o homem a Deus em todas as coisas e sempre, e aceite o bem que o céu julgar mandar-lhe, sem vanglória. Considerai a infâmia do que estes pretendentes estão a fazer; vede como consomem a fazenda e cobrem de opróbrio a esposa de alguém que há-de voltar um dia, e isso aliás daqui a pouco. Mais: ele estará aqui em breve; o céu vos mande primeiro a vós para casa a salvo, para que não o encontreis no dia da sua chegada, porque, uma vez ele aqui, ele e os pretendentes não se separarão sem sangue.»
Ditas estas palavras, fez uma libação, e depois de beber entregou de novo a taça de ouro nas mãos de Anfinomo, que se afastou sombrio e de cabeça inclinada, pois pressentia males. Mas nem assim escapou à destruição, porque Minerva o tinha condenado a cair pela mão de Telémaco. Voltou então a sentar-se no lugar donde tinha vindo.
Então Minerva inspirou a Penélope a ideia de se mostrar aos pretendentes, para os tornar ainda mais enamorados de si e granjear ainda maior honra para o filho e para o marido. Fingiu, pois, um riso de escárnio e disse: «Eurinome, mudei de ideias, e tenho vontade de me mostrar aos pretendentes, embora os abomine. Gostaria também de dar ao meu filho uma insinuação de que mais lhe valerá não voltar a ter nada com eles. Falam com bastante lisura, mas traman maldades.»
«Minha querida filha», respondeu Eurinome, «tudo quanto disseste é verdade; vai falar com teu filho, mas primeiro lava-te e unge o rosto. Não andes com as faces todas cobertas de lágrimas; não é justo que chores assim sem cessar; pois Telémaco, por quem sempre oravas para que lhe pudesses ver a barba, já é um homem feito.»
«Sei, Eurinome», replicou Penélope, «que o teu intento é bom, mas não procures persuadir-me a lavar-me e a ungir-me, pois o céu roubou-me toda a beleza no dia em que o meu marido partiu; todavia, manda chamar Autonoe e Hipodamia. Hão-de estar comigo quando eu estiver no claustro; não vou entrar entre os homens sozinha; não seria decente que o fizesse.»
Com isto, a anciã saiu do aposento para chamar as criadas junto da senhora. Entretanto, lembrou a Minerva outro assunto, e lançou Penélope num doce torpor; deitou-se pois no seu leito e os membros tornaram-se-lhe pesados de sono. Então a deusa derramou sobre ela graça e beleza, para que todos os Aqueus a pudessem admirar. Lavrara-lhe o rosto com a formosura ambrósia que Vénus usa quando vai dançar com as Graças; fê-la mais alta e de presença mais imperiosa, e, quanto ao tez, mais branco do que o marfim serrado. Quando Minerva houve feito tudo isto, afastou-se, e as criadas entraram vindas da casa das mulheres e acordaram Penélope com o som da sua conversa.
«Que sono tão extraordinariamente delicioso que tive», disse ela, passando as mãos pelo rosto, «apesar de toda a minha desgraça. Quem me dera que Diana me deixasse morrer assim, docemente, neste mesmo instante, para que eu não continuasse a consumir-me em desespero pela perda do meu querido marido, que possuía toda a sorte de boas qualidades e era o mais distinto homem entre os Aqueus.»
Com estas palavras desceu do quarto superior, não sozinha mas acompanhada por duas das suas donzelas, e, ao chegar junto dos pretendentes, colocou-se junto a um dos esteios que sustinham o tecto do claustro, segurando diante do rosto um véu, e com uma criada de confiança a um e outro lado. Ao vê-la, ficaram os pretendentes de tal modo subjugados e tão desesperadamente enamorados dela, que cada um rogou poder ganhá-la para companheira do seu leito.
«Telémaco», disse ela, dirigindo-se ao filho, «temo que já não sejas tão ajuizado e bem-comportado como costumavas ser. Quando eras mais novo tinhas maior senso de decoro; agora, porém, que já cresceste, embora um estranho, ao ver-te, te tomasse pelo filho de um pai abastado, pelo que toca a porte e formosura, a tua conduta não é de modo algum a que devia ser. Que distúrbio é todo este que aqui se passou, e como permitiste que um estrangeiro fosse tão indignamente maltratado? Que teria sucedido se ele tivesse sofrido ferimento grave sendo suplicante na nossa casa? Certo seria isso muito desonroso para ti.»
«Não me admira, minha querida mãe», respondeu Telémaco, «a vossa indignação; entendo tudo e sei quando as coisas não estão como devem, o que não podia fazer quando era mais novo; não posso, porém, proceder com perfeita correcção em todas as alturas. Ora um, ora outro destes malvados aqui presentes não cessa de me transtornar o juízo, e não tenho quem me ampare. Afinal, porém, esta luta entre Iro e o estrangeiro não correu como os pretendentes queriam, pois o estrangeiro levou a melhor. Quem me dera que o pai Júpiter, Minerva e Apolo quebrassem o pescoço a cada um destes teus pretendentes, uns dentro de casa e outros fora; e quem me dera que ficassem todos tão molengas como Iro está ali além, à porta do pátio exterior. Olha como meneia a cabeça como um homem ébrio; apanhou tal sova que não se aguanta nos pés nem consegue voltar a casa, seja ela qual for, pois não lhe resta nenhuma força.»
Assim conversavam. Eurímaco adiantou-se então e disse: «Rainha Penélope, filha de Icário, se todos os Aqueus da Argos Jássia te pudessem ver neste momento, terias ainda mais pretendentes em tua casa amanhã de manhã, pois sois a mulher mais admirável de todo o mundo, tanto no que toca a formosura pessoal como a firmeza de entendimento.»
Penélope respondeu-lhe: «Eurímaco, o céu roubou-me toda a beleza, quer de rosto quer de porte, quando os Argivos zarparam para Tróia e o meu querido marido com eles. Se ele voltasse e cuidasse dos meus assuntos, eu seria mais respeitada e daria melhor presença diante do mundo. Tal como estou, ando oprimida de cuidados e com as aflições que o céu houve por bem amontoar sobre mim. O meu marido tudo isto previu, e, ao partir de casa, tomou-me o pulso direito na sua mão: "Esposa", disse ele, "nem todos nós havemos de voltar sãos e salvos de Tróia, porque os Troianos combatem bem, tanto com o arco como com a lança. São exímios também em combater desde os carros, e nada decide o resultado de um combate mais depressa do que isto. Não sei, portanto, se o céu me mandará de volta para ti, ou se não cairei eu mesmo em Tróia. Entretanto, cuida tu das coisas aqui. Trata de meu pai e de minha mãe como até agora, e ainda mais durante a minha ausência, mas, quando vires o nosso filho a cobrir-se de barba, então casa com quem quiseres e deixa esta tua casa presente." Foi isto o que ele disse, e agora tudo se está a cumprir. Uma noite há-de vir em que terei de entregar-me a um casamento que detesto, porque Júpiter me tirou toda a esperança de felicidade. Esta outra mágoa, além disso, me corta até ao fundo do coração. Vós, os pretendentes, não me estais a cortejar segundo o costume do meu país. Quando os homens cortejam uma mulher que julgam haver de ser boa esposa para eles e que é de nobre linhagem, e quando cada um tenta ganhá-la para si, costumam trazer bois e ovelhas para banquetear os amigos da dama, e fazem-lhe presentes magníficos, em vez de comerem a propriedade alheia sem a pagarem.»
Foi isto o que ela disse, e Ulisses alegrou-se ao ouvi-la tentar arrancar presentes aos pretendentes, lisonjeando-os com palavras fagueiras que sabia não serem sinceras.
Então Antínoo disse: «Rainha Penélope, filha de Icário, recebe quantos presentes quiseres de quem tos quiser dar; não é bonito recusar um presente; mas nós não deixaremos o nosso intento nem nos moveremos daqui, até que tenhas desposado o melhor homem entre nós, seja ele quem for.»
Os outros aplaudiram o que Antínoo dissera, e cada um mandou o seu servo trazer o seu presente. O homem de Antínoo voltou com um vestido grande e formoso, ricamente bordado. Trazia doze alfinetes de ouro puríssimo, de lavor primoroso, para o prender. Eurímaco trouxe-lhe de imediato uma corrente magnífica de contas de ouro e âmbar, que refulgia como a luz do sol. Os dois homens de Euridamas voltaram com uns brincos feitos em três pingentes refulgentes, que brilhavam formosíssimos; enquanto o rei Pisandro, filho de Políctor, lhe deu um colar de lavor raríssimo, e todos os outros lhe trouxeram um belo presente de qualquer espécie.
Então a rainha tornou ao seu quarto no andar de cima, e as donzelas levaram os presentes atrás dela. Entretanto, os pretendentes puseram-se a cantar e a dançar, e ficaram até ao anoitecer. Dançaram e cantaram até escurecer; trouxeram então três braseiros para dar luz, e amontoaram neles lenha cortada, muito velha e seca, e deles acenderam tochas, que as donzelas seguravam, revezando-se. Então Ulisses disse:
«Donzelas, servas de Ulisses, que há tanto tempo anda ausente, ide ter com a rainha, lá dentro; sentai-vos com ela e distraí-a, ou fiando e escolhendo lã. Eu segurarei a luz para toda esta gente. Podem ficar até de manhã, mas não me hão-de bater, que eu aguento muita coisa.»
As donzelas entreolharam-se e riram, enquanto a bonita Melanto começou a motejar dele com desprezo. Era filha de Dólio, mas fora criada por Penélope, que costumava dar-lhe brinquedos para brincar e cuidava dela quando era criança; apesar de tudo isto, ela não mostrava nenhuma consideração pelas mágoas da sua senhora, e costumava portar-se mal com Eurímaco, de quem estava enamorada.
«Mísera», disse ela, «perdestes de vez o juízo? Vai dormir a alguma ferraria ou a algum lugar de mexericos, em vez de estar aqui a palrar. Não te dá vergonha de abrir a boca diante dos teus superiores — e tantos quantos são? O vinho subiu-te à cabeça, ou tagarelas sempre assim? Parece que perdeste o siso por teres vencido o vadio Iro; vê que não venha um homem melhor do que ele e te dê com um cacete na cabeça até te fazer sair da casa a sangrar.»
«Fúria», replicou Ulisses, carrancudo para ela, «hei-de ir contar a Telémaco o que disseste, e ele mandar-te-á arrancar membro a membro.»
Com estas palavras, meteu medo às mulheres, e elas foram-se para o interior da casa. Tremiam todas, porque julgavam que ele faria o que dissera. Mas Ulisses postou-se junto dos braseiros a arder, erguendo tochas e olhando para a gente — meditando entrementes nas coisas que forçosamente haviam de acontecer.
Mas Minerva não consentiu que os pretendentes cessassem um só momento a sua insolência, porque queria que Ulisses ficasse ainda mais amarga contra eles; por isso lançou Eurímaco, filho de Polibo, a motejar dele, o que fez rir os outros. «Ouvi-me», disse ele, «vós, os pretendentes da rainha Penélope, para que eu fale conforme o que sinto. Não é por nada que este homem veio à casa de Ulisses; creio que a luz não vem das tochas, mas da própria cabeça dele — pois o cabelo desapareceu-lhe todo, cada fio dele.»
Depois, voltando-se para Ulisses, disse: «Estrangeiro, trabalharias como servo, se eu te mandasse para os campos e te tratasse bem? Sabes construir uma muralha de pedra ou plantar árvores? Dar-te-ei de comer todo o ano e prover-te-ei de calçado e roupa. Irás, pois? Não, não irás; pois caíste em maus caminhos e não queres trabalhar; prefieres encher a barriga andando a mendigar pelo país.»
«Eurímaco», respondeu Ulisses, «se tu e eu houvéssemos de trabalhar um contra o outro no princípio do estio, quando os dias são mais longos — dá-me uma boa fouce e toma outra para ti, e vejamos qual de nós aguenta mais ou sega com mais força, desde a aurora até ao escuro, quando a erva para ceifar está à altura. Ou, se quiseres arar contra mim, tomemos cada um um jugo de bois fulvos, bem aparelhados e de grande força e resistência; mete-me num campo de quatro arpens, e verás qual de nós dois abre o rego mais direito. Se, por outro lado, a guerra rebentasse hoje, dá-me um escudo, um par de lanças e um elmo bem assente nas têmporas — ver-me-eis na primeira linha da refrega, e cessareis com os vossos motejos sobre o meu ventre. És insolente e cruel, e julgas ser um grande homem porque vives num mundo pequeno, e ainda por cima mau. Se Ulisses voltar ao que é seu, as portas da sua casa são largas, mas havê-las- eis de achar estreitas quando tentardes fugir por elas.»
Eurímaco enfureceu com tudo isto. Fitou-o com olhar torvo e bradou: «Desgraçado, hei-de ajustar-te as contas por te atreveres a dizer- me tais coisas, e em público ainda por cima. Subiu-te o vinho à cabeça ou tagarelas sempre assim? Parece que perdeste o siso por teres vencido o vadio Iro.» Dito isto, apanhou um escabelo, mas Ulisses procurou refúgio nos joelhos de Anfinomo de Dulíquio, pois tinha medo. O escabelo acertou no copeiro, na mão direita, e derrubou-o; o homem caiu de costas com um grito, e o seu jarro de vinho tombou retinindo no chão. Os pretendentes no claustrio coberto estavam agora num alvoroço, e cada um se voltava para o vizinho, dizendo: «Quem dera que o estrangeiro se tivesse ido embora para outro lado, maldito seja, por todo o sarilho que nos tem dado. Não podemos permitir semelhante bulha por causa de um mendigo; se tais maus conselhos hão-de prevalecer, não teremos mais gosto no nosso banquete.»
Então Telémaco adiantou-se e disse: «Senhores, estais loucos? Não sabeis comer a vossa carne e beber o vosso vinho com decência? Algum espírito maligno se apossou de vós. Não quero pôr nenhum de vós fora daqui, mas já haveis ceado, e o melhor que tendes a fazer é irdes todos para casa, para a cama.»
Os pretendentes morderam os lábios e maravilharam-se da ousadia das suas palavras; mas Anfinomo, filho de Niso, que era filho de Aretias, disse: «Não nos ofendamos; é justo, e por isso não respondamo-lhe. Nem façamos violência ao estrangeiro nem a nenhum dos servos de Ulisses. Deixe-se o copeiro circular com as libações, para que possamos fazê-las e ir para casa repousar. Quanto ao estrangeiro, deixemo-lo a Telémaco, pois foi à casa dele que ele veio.»
Assim falou ele, e as suas palavras agradaram-lhes bem; então Múlio de Dulíquio, servo de Anfinomo, misturou-lhes uma taça de vinho com água e serviu-a a cada um deles, homem por homem, e eles fizeram as suas libações aos deuses bem-aventurados. Depois, quando fizeram as suas libações e beberam cada um como quis, tomaram cada um o seu caminho, indo para a sua própria morada.
CANTO XIX
TELÉMACO E ULISSES REMOVEM AS ARMAS — ULISSES CONVERSA COM PENÉLOPE — EURICLÉIA LAVA-LHE OS PÉS E RECONHECE A CICATRIZ NA SUA PERNA — PENÉLOPE CONTA O SEU SONHO A ULISSES.
Ulisses ficou no claustro, meditando nos meios pelos quais, com a ajuda de Minerva, poderia matar os pretendentes. Logo disse a Telémaco: «Telémaco, é preciso juntarmos as armas e levá-las para dentro. Inventa alguma desculpa quando os pretendentes te perguntarem por que as tiraste. Diz que as afastaste por causa da fumaça, uma vez que já não são o que eram quando Ulisses partiu, mas ficaram sujas e enegrecidas com o fuligem. Acrescenta, em particular, que tens medo que Jove os incite a contender pelo vinho, e que possam fazer mal uns aos outros, o que desonraria tanto o banquete como o cortejo, pois a vista das armas por vezes tenta as pessoas a usá-las.»
Telémaco aprovou o que o pai dissera; chamou então a ama Euricléia e disse: «Ama, fecha as mulheres no seu quarto, enquanto eu levo as armas que meu pai deixou para a despensa. Ninguém olha por elas agora que meu pai partiu, e ficaram todas manchadas de fuligem durante a minha meninice. Quero levá-las para baixo, onde a fumaça não as possa alcançar.»
«Quem me dera, meu filho», respondeu Euricléia, «que tomasses a gestão da casa inteiramente nas tuas mãos e tratasses de tudo o que é teu. Mas quem há-de ir contigo e iluminar-te até à despensa? As servas fá-lo-iam, mas tu não o consentirias.»
«O estrangeiro», disse Telémaco, «me fará luz; quem come o meu pão deve ganhá-lo, não importa donde venha.»
Euricléia fez como lhe mandaram e trancou as mulheres no seu quarto. Então Ulisses e seu filho apressaram-se a levar para dentro os elmos, os escudos e as lanças; e Minerva ia diante deles com uma lâmpada de ouro na mão, que derramava um brilho suave e refulgente, e Telémaco disse: «Pai, os meus olhos contemplam uma grande maravilha: as paredes, com as vigas, as travessas e os esteios em que se apoiam, estão todos resplandecentes como se houvesse um fogo ardente. Certamente há aqui algum deus que desceu do céu.»
«Cala-te», respondeu Ulisses, «não fales e não faças perguntas, pois esse é o costume dos deuses. Vai para a tua cama e deixa-me aqui falar com tua mãe e com as servas. Tua mãe, na sua dor, há-de fazer-me toda a espécie de perguntas.»
Com isto, Telémaco afastou-se à luz da tocha para o outro lado do pátio interior, para o quarto em que sempre dormia. Ali se deitou na sua cama até à manhã, enquanto Ulisses ficava no claustro a meditar nos meios pelos quais, com a ajuda de Minerva, poderia matar os pretendentes.
Então Penélope desceu do seu quarto, semelhante a Vénus ou a Diana, e colocaram-lhe uma cadeira embutida com volutas de prata e marfim, perto do fogo, no seu lugar de costume. Fora feita por Icálio e tinha um escabelo todo de uma peça com a própria cadeira; e estava coberta com um espesso velo de ovelha: nela se sentou agora, e as servas vieram do quarto das mulheres para junto dela. Puseram-se a retirar as mesas em que os perversos pretendentes haviam jantado, e levaram o pão que restava, com as taças de que tinham bebido. Esvaziaram as brasas dos braseiros e amontoaram muita lenha sobre eles para dar luz e calor; mas Melanto começou a increpar Ulisses uma segunda vez e disse: «Estrangeiro, pretendes afligir-nos andando pela casa a noite toda e a espiar as mulheres? Fora daqui, miserável, e come o teu jantar lá fora, ou serás posto fora com um tição em brasa.»
Ulisses fitou-a com semblante carregado e respondeu: «Boa mulher, por que hás-de estar tão zangada comigo? É porque não estou limpo e os meus andrajos andam todos em farrapos, e porque sou obrigado a mendigar à maneira dos vagabundos e mendigos em geral? Também eu já fui um homem rico e tive uma bela casa minha; nesses dias dava a muitos vagabundos, tais como eu agora sou, não importava quem fosse nem o que quisesse. Tinha qualquer número de servos e todas as outras coisas que têm aqueles que vivem bem e são considerados abastados, mas aprouve a Jove tirar-me tudo; portanto, mulher, guarda-te de vir também a perder esse orgulho e esse lugar em que agora te pavoneias acima das tuas companheiras; cuida em não cair do favor da tua ama e em que Ulisses não volte para casa, pois há ainda a possibilidade de que o faça. Além disso, ainda que esteja morto, como pensas, todavia, por vontade de Apolo, deixou um filho atrás de si, Telémaco, que notará tudo o que de mal fizerem as servas na casa, pois já não está na sua meninice.»
Penélope ouviu o que ele dizia e repreendeu a serva: «Desavergonhada», disse, «vejo como te portas abominavelmente, e hás-de pagá-lo. Sabias perfeitamente, pois eu própria te disse, que ia ver o estrangeiro e perguntar-lhe pelo meu marido, por cuja causa vivo em contínua tristeza.»
Depois disse à sua criada-mor Eurínome: «Traz uma cadeira com um velo por cima, para o estrangeiro se sentar enquanto conta a sua história e ouve o que tenho a dizer. Quero fazer-lhe algumas perguntas.»
Eurínome trouxe imediatamente a cadeira e pôs um velo sobre ela, e logo que Ulisses se sentou Penélope começou por dizer: «Estrangeiro, primeiro quero perguntar-te quem és e donde és. Diz-me da tua cidade e dos teus pais.»
«Senhora», respondeu Ulisses, «quem sobre a face de toda a terra ousará contender contigo? A tua fama alcança o próprio firmamento do céu; és como algum rei irrepreensível que sustenta a justiça, como o monarca de uma grande e valorosa nação: a terra produz o seu trigo e a sua cevada, as árvores carregam-se de fruto, as ovelhas parem cordeiros e o mar abunda em peixe por causa das suas virtudes, e o seu povo pratica boas acções sob o seu mando. Contudo, aqui sentado na tua casa, faz-me outra pergunta e não procures saber a minha raça e família, pois me farás reviver memórias que ainda mais hão-de aumentar a minha tristeza. Estou cheio de amargura, mas não devo sentar-me a chorar e a gemer na casa de outrem, nem é bom estar assim em contínua aflição. Algum dos servos, ou tu mesma, se queixará de mim e dirá que os meus olhos se inundam de lágrimas porque estou pesado de vinho.»
Então Penélope respondeu: «Estrangeiro, o céu roubou-me toda a formosura, fosse do rosto ou do corpo, quando os Argivos zarparam para Tróia e o meu querido marido com eles. Se ele regressasse e cuidasse dos meus assuntos, seria mais respeitada e mostraria melhor presença ao mundo. Tal como as coisas estão, ando oprimida com cuidados e com as aflições que o céu achou por bem acumular sobre mim. Os chefes de todas as nossas ilhas — Dulíquio, Same e Zacinto, como também da própria Ítaca — cortejam-me contra minha vontade e estão a desperdiçar os meus bens. Por isso não posso dar atenção a estrangeiros, nem a suplicantes, nem a quem diz ser artífice entendido, mas passo o tempo todo com o coração partido por causa de Ulisses. Querem que me case outra vez de imediato, e tenho de inventar estratagemas para os enganar. Em primeiro lugar, o céu inspirou-me a armar um grande tear no meu quarto e a começar a trabalhar numa enorme peça de fino bordado. Então disse-lhes: "Amorosos, Ulisses está de facto morto; todavia, não me pressioneis a casar de novo imediatamente; esperai — pois não quero que a minha habilidade no bordado pereça sem ficar registada — até que eu tenha terminado de fazer um pálio para o herói Laertes, para ficar pronto contra o tempo em que a morte o leve. Ele é muito rico, e as mulheres da terra falarão se ele for sepultado sem um pálio." Foi isto o que eu disse, e eles concordaram; então eu costumava trabalhar na minha grande teia todo o dia, mas de noite descosia os pontos à luz da tocha. Enganei-os assim durante três anos sem que dessem pelo logro, mas à medida que o tempo passava e eu entrava no quarto ano, no minguar das luas e muitos dias se haviam cumprido, aquelas boas-para-nada, as minhas servas, me traíram junto dos pretendentes, que irromperem e me surpreenderam; ficaram muito zangados comigo, e assim fui forçada a acabar o trabalho quer quisesse quer não. E agora não vejo como possa encontrar qualquer outro expediente para sair deste casamento. Os meus pais fazem-me grande pressão, e o meu filho irrita-se com a destruição que os pretendentes fazem nos seus bens, pois já tem idade para compreender tudo isto e é perfeitamente capaz de tratar dos seus assuntos, porque o céu o abençoou com excelente disposição. Contudo, apesar de tudo, diz-me quem és e donde vens — pois tiveste decerto algum pai e alguma mãe; não podes ser filho de um carvalho ou de uma rocha.»
Então Ulisses respondeu: «Senhora, esposa de Ulisses, já que insistis em perguntar-me sobre a minha família, responder-vos-ei, não importa o que isso me custe: é de esperar que sofram aqueles que foram exilados tanto tempo como eu e padeceu tanto entre tantos povos. Não obstante, quanto à vossa pergunta, dir-vos-ei tudo o que pedis. Há uma formosa e fértil ilha em pleno mar chamada Creta; é densamente povoada e tem nela noventa cidades: falam-se aí muitas línguas diferentes que se entrecruzam, pois há Aqueus, valentes Eteócretenses, Dórios de três raças e nobres Pelasgos. Há uma grande cidade ali, Cnossos, onde reinou Minos, que de nove em nove anos conferenciava com o próprio Jove. Minos foi pai de Deucalião, de quem eu sou filho, pois Deucalião teve dois filhos: Idomeneu e eu. Idomeneu partiu para Tróia, e eu, que sou o mais novo, sou chamado Áeton; meu irmão, todavia, era ao mesmo tempo o mais velho e o mais valoroso dos dois; por isso foi em Creta que vi Ulisses e lhe dei hospitalidade, pois os ventos ali o levaram quando seguia caminho para Tróia, desviando-o do seu rumo a partir do cabo Maleia e deixando-o em Amniso, junto da gruta de Ilítia, onde os portos são difíceis de entrar e ele a custo pôde encontrar abrigo dos ventos que então sopravam com fúria. Assim que chegou ali, entrou na cidade e perguntou por Idomeneu, dizendo ser seu velho e estimado amigo, mas Idomeneu já havia dez ou doze dias partido para Tróia; por isso levei-o à minha própria casa e mostrei-lhe toda a espécie de hospitalidade, pois tinha abundância de tudo. Além disso, alimentei os homens que vinham com ele com farinha de cevada do celeiro público e obtive para eles contribuições de vinho e bois para que sacrificassem à vontade. Ficaram comigo doze dias, pois soprava um temporal do Norte tão forte que mal se podia manter os pés em terra. Suponho que algum deus hostil lho levantara; mas no décimo terceiro dia o vento amainou e eles partiram.»
Muitas histórias plausíveis Ulisses lhe contou ainda, e Penélope chorava enquanto ouvia, pois o seu coração se derretia. Assim como a neve se derrete nos cumes dos montes quando os ventos do Sueste e do Poente soprarem sobre ela e a derretem até os rios correrem cheios até às margens, assim também as suas faces transbordavam de lágrimas pelo marido que estava todo o tempo sentado ao seu lado. Ulisses compadeceu-se dela e sentiu pena, mas conservou os olhos tão duros como o corno ou o ferro, sem deixá-los nem sequer tremer, tão astuciosamente refreava as suas lágrimas. Então, quando ela se aliviou chorando, voltou-se de novo para ele e disse: «Agora, estrangeiro, hei-de pôr-te à prova e ver se realmente acolheste o meu marido e os seus homens, como dizes que acolheste. Diz-me, pois, como ele ia vestido, que tal homem era de aspecto, e o mesmo quanto aos seus companheiros.»
«Senhora», respondeu Ulisses, «decorreu tanto tempo que mal posso dizer. Vinte anos são decorridos desde que ele saiu da minha casa e partiu para outro lado; mas dir-vos-ei tão bem quanto possa recordar. Ulisses vestia um manto de lã púrpura, de forro duplo, e era preso por uma fivela de ouro com dois fechos para o alfinete. Na face desta havia um lavor que mostrava um cão que segura um gamo malhado entre as patas dianteiras e o olha enquanto este jaz arquejante no chão. Todos maravilhavam o modo como estas coisas tinham sido feitas em ouro, o cão a olhar para o gamo e a estrangulá-lo, enquanto o gamo se debatia convulsivamente para escapar. Quanto à túnica que ele trazia sobre a pele, era tão macia que se lhe ajustava como a casca de uma cebola e resplandecia à luz do sol, para admiração de todas as mulheres que a viam. Além disso digo e ponho no vosso coração o que digo: não sei se Ulisses trazia estas roupas quando saiu de casa, ou se algum dos seus companheiros lhas deu durante a viagem; ou, porventura, alguém em cuja casa se hospedava lhas ofereceu, pois ele era homem de muitos amigos e poucos iguais entre os Aqueus. Eu próprio lhe dei uma espada de bronze e um belo manto de púrpura, de forro duplo, com uma túnica que lhe descia até aos pés, e o embarquei no seu navio com toda a honra. Tinha ele um servo consigo, pouco mais velho do que ele, e posso dizer-vos como ele era: tinha os ombros curvados, era moreno e tinha cabelos espessos e encaracolados. Chamava-se Euríbates, e Ulisses tratava-o com maior intimidade do que a qualquer dos outros, por ser o mais afim de si.»
Penélope ficou ainda mais profundamente comovida ao ouvir as provas irrecusáveis que Ulisses lhe apresentava; e quando de novo se aliviou em lágrimas, disse-lhe: «Estrangeiro, eu já estava disposta a ter pena de ti, mas de ora em diante serás honrado e recebido em minha casa. Fui eu que dei a Ulisses as roupas de que falais. Tirei-as da despensa e dobrei-as eu mesma, e dei-lhe também a fivela de ouro para usar como ornamento. Ai de mim! Jamais o receberei de volta em casa. Foi por um destino funesto que ele partiu para aquela detestada cidade cujo nome nem sequer consigo trazer à boca.»
Então Ulisses respondeu: «Senhora, esposa de Ulisses, não vos desfigureis mais afligindo-vos assim tão amargamente pela vossa perda, embora a custo vos possa culpar por isso. Uma mulher que amou o seu marido e dele teve filhos naturalmente se afligirá ao perdê-lo, ainda que ele fosse pior homem do que Ulisses, que dizem ser semelhante a um deus. Não obstante, cessai as vossas lágrimas e ouvi o que vos posso dizer. Não vos esconderei nada e posso dizer com inteira verdade que há pouco ouvi dizer que Ulisses está vivo e a caminho de casa; ele está entre os Tésprotos e traz consigo muitos e valiosos tesouros que mendigou de uns e de outros; mas o seu navio e toda a sua tripulação perderam-se ao deixar a ilha Trinácia, pois Jove e o deus do sol estavam irados com ele porque os seus homens haviam matado o gado do deus do sol, e todos se afogaram até ao último. Mas Ulisses agarrou-se à quilha do navio e foi levado até à terra dos Feácios, que são da mesma raça dos imortais, e que o trataram como se fosse um deus, dando-lhe muitas prendas e desejando escoltá-lo a salvo até casa. Na verdade Ulisses já aqui estaria há muito, se não tivesse achado melhor ir de terra em terra juntando riqueza; pois não há homem vivo tão astuto como ele; não há ninguém que se lhe compare. Fédon, rei dos Tésprotos, contou-me tudo isto e jurou-me — fazendo libações em sua casa ao fazê-lo — que o navio estava à beira da água e a tripulação encontrada para levar Ulisses ao seu país. Mandou-me embora primeiro, pois por acaso havia um navio Tésproto que ia para a ilha produtora de trigo de Dulíquio, mas mostrou-me todos os tesouros que Ulisses havia juntado, e havia o bastante, na casa do rei Fédon, para manter a sua família durante dez gerações; mas o rei disse que Ulisses fora a Dodona para saber o pensamento de Jove pela alta árvore de carvalho, e saber se, após tão longa ausência, deveria regressar a Ítaca abertamente ou em segredo. Assim, sabei que ele está salvo e que aqui estará brevemente; está perto e não pode permanecer longe de casa muito mais tempo; todavia, confirmarei as minhas palavras com um juramento e chamarei Jove, que é o primeiro e o mais poderoso de todos os deuses, por testemunha, como também aquela lareira de Ulisses a quem agora vim, que tudo o que disse se cumprirá certamente. Ulisses voltará neste mesmo ano; com o fim desta lua e o princípio da seguinte ele aqui estará.»
«Assim seja», respondeu Penélope; «se as vossas palavras se cumprirem, de mim tereis tais prendas e tal boa vontade que todos quantos vos vejam vos felicitarão; mas sei muito bem como será. Ulisses não voltará, nem vós haveis de ter a vossa escolta daqui; pois, tão certo como Ulisses alguma vez foi, já não há agora em casa mestres como ele havia, para receberem honrados estrangeiros ou os encaminharem a caminho de casa. E agora, servas, lavai-lhe os pés e fazei-lhe uma cama num leito com tapetes e cobertores, para que possa estar quente e sossegado até à manhã. Depois, ao romper do dia, lavai-o e ungi-o de novo, para que possa sentar-se no claustro e tomar as suas refeições com Telémaco. Será pior para qualquer um destes odiosos que seja descortês para com ele; goste ou não goste, não terá mais que fazer nesta casa. Pois como, senhor, podereis avaliar se eu sou superior a outras do meu sexo tanto em bondade de coração como em entendimento, se vos deixar jantar nos meus claustros esquálido e mal vestido? Os homens vivem apenas um breve período; se são duros e tratam com dureza, deseja-se-lhes mal enquanto vivem e fala-se deles com desprezo depois de mortos; mas aquele que é justo e trata com justiça, dele se conta o louvor em todas as terras, e muitos o chamarão bem-aventurado.»
Ulisses respondeu: «Senhora, jurei nunca mais usar de tapetes nem de cobertores desde o dia em que parti das nevadas serras de Creta para embarcar. Hei-de deitar-me como tantas vezes me deitei em noites sem sono. Quantas noites passei em durezas de leitos agrestes, à espera da aurora! E, quanto a lavar-me os pés, não quero consentir que mo faça nenhuma das raparigas que servem em vossa casa; mas, se tendes por aí alguma mulher idosa, de respeito, que tenha padecido tanto como eu, essa deixarei que mos lave.»
Penélope respondeu: «Hóspede querido, de quantos hóspedes jamais vieram a esta casa, nenhum houve que em tudo falasse com tão bom e acertado tino como vós. Pois bem: há em casa uma mulher mui anciã e de respeito — a mesma que recebeu nos braços o meu pobre e amado marido na noite em que nasceu e o criou em pequenino. Agora está decrépita, mas há-de lavar-vos os pés. Vem cá, Euricleia — disse — e lava os pés de um homem da mesma idade do teu senhor; suponho que as mãos e os pés de Ulisses serão muito parecidos com os dele, pois as aflições envelhecem a todos depressa.»
A estas palavras, a anciã cobriu o rosto com as mãos; rompeu em pranto e em gemidos, dizendo: «Meu filho querido, não sei que hei-de de fazer de ti. De certeza que ninguém houve jamais mais temente aos deuses do que tu, e no entanto Zeus te odeia. Ninguém no mundo inteiro lhe queimou mais coxas de vítimas, nem lhe ofereceu hecatombes mais formosas, quando rogavas que viesses tu mesmo a uma verde velhice e visses teu filho crescer para se parecer contigo: e todavia, vede como só a ti impediu de voltar à tua casa. Não duvido que as mulheres de algum palácio estrangeiro aonde Ulisses terá chejado andem a motejar dele, como todas estas rameiras daqui te têm motejado a ti. Não me admira que não queiras deixar que te lavem à moda com que te ultrajaram; eu própria te lavarei os pés de bom grado, já que Penélope mandou que assim fizesse; lavar-tos-ei tanto por causa de Penélope como por ti, que me despertas a mais viva compaixão no peito. E ouve mais isto, que te peço atenção: muitos hóspedes desgraçados aqui vieram ter antes de agora, mas atrevo-me a dizer que nenhum ainda houve que se parecesse tanto com Ulisses no corpo, na voz e nos pés como tu.»
«Os que nos viram a ambos — respondeu Ulisses — sempre disseram que nos parecemos extraordinariamente; e vós também o notastes agora.»
Então a anciã pegou na caldeira em que lhe havia de lavar os pés, deitou nela água fria em abundância e juntou água quente até o banho ficar morno. Ulisses sentou-se junto do fogo; mas logo desviou o rosto da luz, porque lhe ocorreu que, quando a anciã lhe tivesse a perna na mão, reconheceria certa cicatriz que ali tinha, e tudo viria a descobrir-se. E, na verdade, assim que ela começou a lavar o seu amo, logo reconheceu a cicatriz — a que um javali lhe fizera quando ele caçava no monte Parnaso com o seu excelente avô Autólico — que era o mais completo ladrão e perjuro de todo o mundo — e com os filhos de Autólico. O próprio Mercúrio lhe dera tal dom, porque ele lhe queimava coxas de cabras e de cabritos, e por isso Mercúrio folgava com a sua companhia. Aconteceu uma vez que Autólico viera a Ítaca e encontrara acabado de nascer o filho da sua filha. Assim que acabou de cear, Euricleia pôs o menino nos joelhos dele e disse: «Autólico, hás-de dar um nome ao teu neto; bem desejavas tu poder ter um.»
«Genro e filha — respondeu Autólico — chama-lhe assim: estou muito indignado contra grande número de gente, aqui e ali, homens e mulheres; portanto, chama-o Ulisses, ou filho da cólera. Quando crescer e vier visitar a família da mãe no monte Parnaso, onde ficam os meus haveres, dar-lhe-ei um presente e mandá-lo-ei embora contente.»
Ulisses, pois, partiu para o Parnaso receber os presentes de Autólico, o qual, com seus filhos, lhe apertou a mão e lhe deu as boas-vindas. Sua avó Anfitéia lançou-lhe os braços ao pescoço, beijou-lhe a cabeça e os formosos olhos, enquanto Autólico mandou aos filhos que preparassem o jantar; e eles fizeram como ele disse. Trouxeram um touro de cinco anos, esfolaram-no, prepararam-no e cortaram-no em peças; depois cortaram estas miudamente em pedaços, ensartaram-nos nos espetos, assaram-nos bem e serviram as rações à roda. Assim, durante todo o dia, até o sol se pôr, banquetearam-se, e cada homem teve a sua parte inteira, de modo que todos ficaram saciados; mas, ao pôr-do-sol, quando a escuridão caiu, foram deitar-se e gozaram do dom do sono.
Quando a filha da manhã, a Aurora de rosados dedos, apareceu, os filhos de Autólico saíram com os seus cães para caçar, e também Ulisses foi com eles. Subiram as encostas arborizadas do Parnaso e logo atingeram os seus frescos e ventilados vales altos; mas, quando o sol começou a bater nos campos, acabadinho de subir das lentas e quietas correntes de Oceano, chegaram a um recôncavo da montanha. Os cães iam na frente a farejar os rastos da fera que perseguiam, e atrás deles vinham os filhos de Autólico, entre os quais ia Ulisses, logo atrás dos cães, com uma longa lança na mão. Ali estava a cova de um javali enorme, entre uns matagais espessos, tão cerrados que nem o vento nem a chuva os atravessavam, nem os raios do sol os podiam furar, e o chão por baixo jazia coberto de folhas caídas. O javali ouviu o ruído dos pés dos homens e os cães a ladrar de todos os lados, conforme os caçadores se aproximavam; por isso saiu da cova, eriçou as cerdas do pescoço e fez frente ao assalto, com o fogo a saltar-lhe dos olhos. Ulisses foi o primeiro a levantar a lança e a tentar cravá-la no bruto, mas o javali foi mais lesto, arremeteu-lhe de lado e rasgou-o por cima do joelho com um golpe que abriu fundo, embora não chegasse a atingir o osso. Quanto ao javali, Ulisses acertou-lhe no ombro direito, e a ponta da lança atravessou-o de parte a parte, de modo que ele caiu gemendo no pó, até a vida se lhe escapar. Os filhos de Autólico cuidaram da carcaça do javali e ligaram o ferimento de Ulisses; depois, depois de dizerem uns ensalmos para estancar o sangue, voltaram para casa o mais depressa que puderam. Mas, quando Autólico e seus filhos o tiveram bem curado, deram-lhe formosos presentes e mandaram-no de volta para Ítaca com muita amizade de parte a parte. Quando chegou, seu pai e sua mãe rejubilaram de o ver e perguntaram-lhe tudo, e como se ferira para trazer a cicatriz; e ele contou-lhes como o javali o rasgara quando andava a caçar com Autólico e seus filhos no monte Parnaso.
Assim que Euricleia teve nas mãos a cicatriz do membro e bem segura dela, reconheceu-a e logo largou o pé. A perna caiu dentro da tina, que soou e se virou, de modo que toda a água se derramou pelo chão; os olhos de Euriclea, entre a alegria e a dor, encheram-se de lágrimas, e ela não podia falar; mas agarrou Ulisses pela barba e disse: «Meu filho querido, tu hás-de ser Ulisses, decerto; só não te conheci até te ter apalpado e tocado.»
Ao dizer isto, olhou para o lado de Penélope, como querendo dizer-lhe que ali estava o seu querido marido; mas Penélope não podia olhar para esse lado e ver o que se passava, porque Minerva lhe desviara a atenção; por isso Ulisses pegou em Euricleia pela garganta com a mão direita e com a esquerda puxou-a para si, e disse: «Aia, queres arruinar-me tu, que me amamentaste ao teu peito, agora que, ao cabo de vinte anos de andanças, cheguei por fim à minha própria casa? Já que o céu te inspirou que me reconhecessas, cala-te e não digas palavra a mais ninguém em casa; porque, se o fizeres, fica sabendo — e assim há-de ser — que, se o céu me conceder tirar a vida a estes pretendentes, não te pouparei a ti, ainda que sejas minha ama, quando matar as outras mulheres.»
«Meu filho — respondeu Euricleia — que estás tu a dizer? Bem sabes tu que nada me pode dobrar nem quebrar. Calar-me-ei como uma pedra ou um pedaço de ferro. E mais te digo — e toma-o a peito: quando o céu te entregar os pretendentes nas mãos, dar-te-ei uma lista das mulheres de casa que se portaram mal e das que são inocentes.»
Ulisses respondeu: «Aia, não devias falar assim; eu sou bem capaz de formar a minha opinião sobre todas elas; cala-te e deixa tudo nas mãos do céu.»
Ao dizer isto, Euriclea saiu do claustro para ir buscar mais água, porque a primeira se entornara toda; e, depois de o lavar e untar com azeite, Ulisses puxou o seu assento para mais perto do fogo, para se aquecer, e escondeu a cicatriz debaixo dos farrapos. Então Penélope começou a falar-lhe e disse:
«Forasteiro, queria trocar contigo breves palavras sobre outro assunto. Já é quase hora de nos deitarmos — pelo menos para os que conseguem dormir apesar da dor. Quanto a mim, o céu deu-me uma vida de tão desmedida desgraça, que mesmo de dia, quando estou a tratar dos meus afazeres e a olhar pelos servos, ando sempre a chorar e a gemer; depois, quando chega a noite e todos nos vamos deitar, fico acordada a pensar, e o meu coração torna-se presa das mais incessantes e cruéis torturas. Como a parda toutinegra, filha de Pandareu, canta no começo da primavera, do seu posto oculto no mais sombrio arvoredo, e com muitos trilos plangentes derrama a história de como, por desventura, matou o seu próprio filho Itilo, filho do rei Zeto, assim também o meu espírito anda às voltas na sua incerteza, sem saber se devo ficar aqui com meu filho e guardar o meu património, os meus servos e a grandeza da minha casa, por respeito à opinião pública e à memória do meu falecido marido, ou se já não é tempo de ir com o melhor destes pretendentes que me requestam e me fazem tão magnificas ofertas. Enquanto meu filho era ainda pequeno e incapaz de entender, ele não queria ouvir falar de eu deixar a casa do marido; mas agora, que já é crescido, suplica-me e roga-me que o faça, indignado com a maneira como os pretendentes lhe comem os haveres. Ouve, pois, um sonho que tive e interpreta-mo, se puderes. Tenho em casa vinte gansos que comem trigo de um alguidar155 e de que gosto muito. Sonhei que uma grande águia vinha a descer, num voo rápido, de uma montanha, e mergulhava o bico recurvo no pescoço de cada um deles até os ter matado a todos. Em seguida ergueu-se para o céu e deixou-os caídos mortos pelo pátio; então eu chorei no meu sonho, até todas as criadas se me juntarem em volta, tão lastimosamente me lamentava porque a águia matara os meus gansos. Depois ele voltou, e pousando numa viga saliente, falou-me com voz humana, e mandou-me parar de chorar. ‘Toma ânimo — disse ele — filha de Icário: este não é um sonho, mas uma visão de bom agoiro que há-de cumprir-se sem falta. Os gansos são os pretendentes, e eu já não sou uma águia, mas o teu próprio marido, que voltou para junto de ti, e que há-de trazer a estes pretendentes um fim ignominioso.’ A isto acordei, e quando olhei fora vi os meus gansos no alguidar a comer o seu trigo como de costume.»
«Este sonho, senhora — respondeu Ulisses — só admite uma interpretação; pois não vos disse o próprio Ulisses como se há-de cumprir? A morte dos pretendentes está pressagiada, e nem um só deles escapará.»
Penélope respondeu: «Forasteiro, os sonhos são coisas muito estranhas e inexplicáveis, e de modo nenhum se realizam sempre. Há duas portas por onde estas formas inconsistentes saem: uma é de chifre, outra de marfim. As que saem pela porta de marfim são enganosas, mas as que vêm pela porta de chifre significam alguma coisa para quem as vê. Não creio, todavia, que o meu sonho tenha saído pela porta de chifre, embora eu e meu filho muito folgássemos se assim fosse. E mais te digo — e toma-o a peito — a aurora que vem há-de trazer o dia de mau agoiro que me há-de separar da casa de Ulisses; vou armar uma justa de machados. Meu marido costumava fincar no pátio doze machados, um diante do outro, como os escoros sobre que se constrói um navio; depois recuava e atirava uma flecha através de todos os doze. Farei que os pretendentes tentem fazer o mesmo; e aquele dentre eles que melhor armar o arco e mandar a sua flecha através dos doze machados, esse seguirei eu, e deixarei esta casa do meu legítimo marido, tão formosa e tão rica em bens. Mas, ainda assim, não duvido de que me hei-de de lembrar disso nos meus sonhos.»
Ulisses respondeu: «Senhora, esposa de Ulisses, não deveis adiar a vossa prova, porque Ulisses voltará antes que eles consigam armar o arco, por mais que o manuseiem, e mandar as suas flechas através do ferro.»
Penélope disse: «Enquanto, senhor, vos aprouver sentar aqui a falar comigo, eu não tenho vontade nenhuma de me ir deitar. Mas os homens não podem passar sem dormir para sempre, e o céu nos marcou, a quantos habitamos a terra, um tempo para todas as coisas. Subirei, pois, ao meu aposento e reclinar-me-ei naquele leito que nunca deixei de regar com as minhas lágrimas, desde o dia em que Ulisses partiu para a cidade de nome odioso.»
Subiu, então, ao seu quarto, não sozinha, mas acompanhada das suas criadas; e, uma vez ali, lamentou o seu querido marido até que Minerva lhe derramou doce sono sobre as pálpebras.
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LIVRO XX
ULISSES NÃO CONSEGUE DORMIR — ORAÇÃO DE PENÉLOPE A DIANA — OS DOIS SINAIS DO CÉU — CHEGADA DE EUMEU E FILÉTIO — OS PRETENDENTES JANTAM — CTESIPO ATIRA O PÉ DE UM BOI A ULISSES — TEOCLIMENO PROFÉTIZA A DESGRAÇA E DEIXA A CASA.
Ulisses dormiu no claustro, sobre um couro de boi não curtido, em cima do qual atirou várias peles das ovelhas que os pretendentes tinham comido; e Eurinome156 lhe lançou uma capa depois de ele se ter deitado. Ali jazia, pois, Ulisses, acordado a ruminar no modo como havia de matar os pretendentes; e, pouco a pouco, as mulheres que tinham por costume portar-se mal com eles saíram da casa, rebolando e rindo umas com as outras. Isto encolerizou muito Ulisses, e ele não sabia se havia de levantar-se e matá-las todas ali mesmo, ou deixá-las dormir mais uma última noite com os pretendentes. O coração rosnou-lhe dentro do peito; e, como uma cadela com cachorros rosna e mostra os dentes quando vê um estranho, assim também lhe rosnou o coração de raiva pelos maus feitos que ali se praticavam; mas ele bateu no peito e disse: «Coração, acalma-te; tiveste pior do que isto para suportar no dia em que o terrível Ciclope comeu os teus valentes companheiros; todavia, suportaste-o em silêncio, até a tua astúcia te tirar são e salvo da caverna, embora desses por certa a morte.»
Assim repreendia o seu coração e o forçava à paciência; mas virava-se e revirava-se como quem revolve diante de fogo ardente um bucho cheio de sangue e gordura, passando-o de um lado para o outro, para que se coza o mais depressa possível; assim se voltava ele de um lado para o outro, pensando sem cessar como, sozinho como era, havia de arranjar maneira de matar aquela grande quantidade de homens que eram os perversos pretendentes. Mas, de pouco em pouco, Minerva desceu do céu sob a figura de uma mulher e pairou-lhe sobre a cabeça, dizendo: «Pobre homem desgraçado, por que te estás assim a velar? Esta é a tua casa; dentro dela está a tua esposa, e está também teu filho, que é já um mancebo de que qualquer pai se pode orgulhar.»
«Deusa — respondeu Ulisses — tudo o que disseste é verdade; mas ando em dúvida sobre como hei-de conseguir, sozinho, matar estes perversos pretendentes, tantos quantos são. E há ainda esta outra dificuldade, ainda maior. Supondo que, com o auxílio de Zeus e teu, consigo matá-los, pensai onde me hei-de eu refugiar, longe dos seus vingadores, quando tudo tiver terminado.»
«Vergonha! — respondeu Minerva — Pois qualquer outro confiaria num aliado pior do que eu, ainda que esse aliado fosse apenas um mortal e menos sábio do que eu. Não sou eu uma deusa, e não te tenho protegido em todas as tuas tribulações? Digo-te claramente que, ainda que houvesse cinqüenta bandos de homens a cercar-nos, ansiosos por nos matar, tu lhes haverias de tomar todas as ovelhas e todo o gado, e levá-los-ias contigo. Mas vai dormir; é muito mau ficar-se a noite toda acordado, e verás as tuas tribulações acabadas dentro em pouco.»
Ao dizê-lo, derramou-lhe o sono sobre os olhos e voltou para o Olimpo.
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Enquanto Ulisses se abandonava assim a um sono profundíssimo que lhe aliviava o peso das amarguras, a sua excelsa esposa despertou e, sentando-se no leito, começou a chorar. Quando se aliviou com o pranto, orou a Diana, dizendo: «Ó grande deusa Diana, filha de Jove, lança-me um dardo no peito e mata-me; ou que algum turbilhão me arrebate e me arraste por sendas de trevas até me deixar nas bocas do transbordante Oceano, como fez às filhas de Pandareu. As filhas de Pandareu perderam o pai e a mãe, pois os deuses os mataram, e ficaram órfãs. Mas Vénus cuidou delas e alimentou-as com queijo, mel e vinho doce. Juno ensinou-as a superar todas as mulheres em formosura de corpo e em entendimento; Diana deu-lhes uma presença imponente, e Minerva dotou-as de toda a espécie de prendas; mas um dia, em que Vénus subira ao Olimpo para tratar com Jove do casamento delas — pois bem sabe ele tanto o que há de acontecer como o que não há de acontecer a cada um —, os ventos tempestuosos vieram e arrebataram-nas, para se tornarem servas das temíveis Erínias. Assim mesmo desejo eu que os deuses que habitam o céu me escondam da vista dos mortais, ou que a formosa Diana me fira, pois de bom grado iria até debaixo da triste terra, se pudesse ir ainda olhando apenas para Ulisses e sem ter de me entregar a homem pior do que ele era. Além disso, por mais que as pessoas possam afligir-se de dia, podem suportar a dor enquanto conseguem dormir à noite, pois quando os olhos se fecham no sono as pessoas esquecem tanto o bem como o mal; ao passo que a minha miséria me persegue até em sonhos. Esta mesma noite pareceu-me que alguém jazia a meu lado, semelhante a Ulisses tal como ele era quando partiu com o seu exército, e eu me alegrei, pois acreditei que não era sonho, mas a pura verdade.»
Nesse momento rompeu o dia, mas Ulisses ouviu o som do pranto dela e ficou perplexo, pois parecia que ela já o conhecia e estava a seu lado. Então juntou a capa e os velos de carneira em que se tinha deitado, pô-los num assento do claustro, mas levou a pele do novilho para fora, ao ar livre. Elevou as mãos ao céu e orou, dizendo: «Pai Jove, já que vos aprouve trazer-me por terra e por mar até à minha casa, depois de todas as aflições que me haveis imposto, dai-me um sinal da boca de alguém daqueles que agora velam dentro da casa, e concedei-me outro sinal qualquer de fora.»
Assim orou. Jove ouviu a sua prece e imediatamente trovejou bem alto por entre as nuvens, do resplendor do Olimpo, e Ulisses alegrou-se ao ouvi-lo. Ao mesmo tempo, dentro da casa, uma moedeira da contígua casa dos moinhos levantou a voz e lhe deu outro sinal. Havia doze moedeiras cujo ofício era moer trigo e cevada, que são o sustento da vida. As outras já tinham moído a sua tarefa e ido repousar, mas esta ainda não tinha acabado, pois não era tão forte como elas, e quando ouviu o trovão parou de moer e deu o sinal ao seu senhor. «Pai Jove», disse ela, «vós que reinais sobre o céu e a terra, trovejastes de céu limpo, sem uma nuvem sequer, e isto significa alguma coisa para alguém; atendei, pois, a prece desta vossa pobre serva que vos invoca, e que este seja o último dia em que os pretendentes jantam na casa de Ulisses. Eles me consumiram com o labor de lhes moer a farinha, e oxalá nunca mais tenham jantar em parte alguma.»
Ulisses alegrou-se ao ouvir os agouros transmitidos pela fala da mulher e pelo trovão, pois sabia que significavam que ele se havia de vingar dos pretendentes.
Então as outras criadas da casa levantaram-se e acenderam o lume na lareira; também Telémaco se levantou e vestiu as suas roupas. Cingiu a espada ao ombro, prendeu as sandálias aos formosos pés e empunhou uma forte lança com ponta de bronze afiado; depois foi até ao limiar do claustro e disse a Euricleia: «Ama, trataste bem o estrangeiro, tanto no que toca ao leito como à mesa, ou deixaste-o arranjar-se sozinho? — porque a minha mãe, embora seja boa mulher, tem o costume de dar grande atenção a pessoas medíocres e de menosprezar outras que são, na verdade, muito melhores.»
«Não te queixes, filho», disse Euricleia, «quando não há de quem se queixar. O estrangeiro sentou-se e bebeu o seu vinho o tempo que quis: a tua mãe perguntou-lhe se queria mais pão e ele disse que não. Quando ele quis ir para a cama, ela disse às servas que lhe preparassem uma, mas ele respondeu que era um tão miserável proscrito que não dormiria em leito nem debaixo de cobertores; exigiu que lhe pusessem no claustro uma pele de novilho em bruto e uns pelegos de ovelha, e eu mesma lhe atirei uma capa por cima.»
Então Telémaco saiu do pátio para o lugar onde os Aqueus se reuniam em assembleia; levava a lança na mão e não ia sozinho, pois os seus dois cães o acompanhavam. Mas Euricleia chamou as criadas e disse: «Vamos, despertai; ponde-vos a varrer os claustros e a salpicá-los com água para assentar o pó; ponde as cobertas nos assentos; limpai as mesas, algumas de vós, com uma esponja molhada; limpai as taças de misturar e as copas, e ide buscar água à fonte sem demora; os pretendentes virão já, virão cedo, pois é dia de festa.»
Assim falou, e elas fizeram exactamente como ela dissera: vinte delas foram à fonte buscar água, e as outras puseram-se diligentemente a trabalhar pela casa. Os homens que estavam ao serviço dos pretendentes também subiram e começaram a cortar lenha. Pouco depois as mulheres regressaram da fonte, e o porquerizo veio atrás delas com os três melhores porcos que conseguiu escolher. Deixou-os pastar pelas imediações e depois disse, de bom humor, a Ulisses: «Estrangeiro, os pretendentes tratam-te melhor agora, ou são tão insolentes como sempre?»
«Que o céu», respondeu Ulisses, «lhes retribua a malvadez com que procedem despoticamente na casa de outro, sem qualquer senso de vergonha.»
Assim conversavam; entretanto Melântio, o cabreiro, subiu também, pois ele igualmente trazia as suas melhores cabras para o jantar dos pretendentes; e tinha consigo dois pastores. Ataram as cabras sob o pórtico do portão, e depois Melântio começou a mofar de Ulisses. «Ainda aqui estás, estrangeiro», disse ele, «a importunar as pessoas, mendigando pela casa? Por que não vais para outro lado? Tu e eu não havemos de nos entender antes de nos termos dado um ao outro uma amostra dos nossos punhos. Mendigas sem qualquer senso de decoro: não há festas noutras partes entre os Aqueus, além desta?»
Ulisses não respondeu, mas curvou a cabeça e ficou a meditar. Então juntou-se-lhes um terceiro homem, Filécio, que trazia uma novilha estéril e algumas cabras. Estes animais tinham sido transportados pelos barqueiros que ali estão para levar as pessoas quando alguém chega. Assim, Filécio prendeu em segurança a novilha e as cabras sob o pórtico do portão, e depois subiu ao porquerizo. «Quem é, porquerizo», disse ele, «este estrangeiro que ultimamente chegou aqui? É um dos teus homens? De que família é? De onde vem? Pobre homem, tem o ar de ter sido outrora um grande varão, mas os deuses dão a dor a quem querem — até a reis, se lhes apraz.»
Enquanto falava, aproximou-se de Ulisses e saudou-o com a mão direita: «Bom dia, pai estranho», disse ele, «pareces estar muito mal instalado agora, mas espero que tenhas tempos melhores daqui em diante. Pai Jove, de todos os deuses sois o mais malévolo. Nós somos vossos próprios filhos, e contudo não nos mostrais misericórdia em toda a nossa miséria e aflições. Um suor me cobriu o corpo quando vi este homem, e os olhos encheram-se-me de lágrimas, porque ele me lembra Ulisses, que temo andar por aí coberto justamente com andrajos como os deste homem, se é que ele ainda se conta entre os vivos. Se já está morto e na casa de Hades, ai de mim, então, pelo meu bom amo, que me fez seu vaqueiro quando eu era bem jovem entre os Cefalenianos, e agora o seu gado é incontável; ninguém o poderia ter tratado melhor do que eu, pois multiplicaram-se como espigas de cereal; contudo tenho de continuar a trazê-los para que outros os comam, que não ligam nenhuma ao seu filho, embora ele esteja em casa, e não temem a ira do céu, mas já anseiam por dividir entre si os bens de Ulisses, porque ele se ausentou há tanto tempo. Muitas vezes pensei — só que não seria próprio enquanto o filho dele é vivo — em fugir com o gado para qualquer terra estrangeira; mau como isso seria, é ainda mais duro ficar aqui e ser mal tratado por causa dos rebanhos alheios. A minha situação é intolerável, e há muito que teria fugido e me posto sob a protecção de outro chefe, se não acreditasse que o meu pobre amo há-de voltar e pôr todos estes pretendentes em fuga da casa.»
«Vaqueiro», respondeu Ulisses, «pareces ser pessoa muito bem disposta, e vejo que és homem de senso. Por isso te direi, e confirmarei as minhas palavras com um juramento. Por Jove, o chefe de todos os deuses, e por essa lareira de Ulisses a que agora cheguei, Ulisses há-de voltar antes que tu deixes este lugar, e, se quiseres, verás com os teus olhos ele a matar os pretendentes que agora aqui são donos.»
«Se Jove trouxesse isto a efeito», replicou o vaqueiro, «verias como eu faria todo o possível para o ajudar.»
E do mesmo modo Eumeu orou pelo regresso de Ulisses.
Assim conversavam. Entretanto, os pretendentes urdiam uma conspiração para matar Telémaco: mas uma ave passou perto deles, do lado esquerdo — uma águia com uma pomba nas garras. Então Anfínomo disse: «Meus amigos, esta nossa conspiração para matar Telémaco não terá êxito; vamo-nos antes para o jantar.»
Os outros concordaram, e assim entraram e depuseram as capas nos bancos e nos assentos. Sacrificaram as ovelhas, as cabras, os porcos e a novilha, e quando as partes internas ficaram cozidas serviram-nas à roda. Misturaram o vinho nas taças de misturar, e o porquerizo deu a cada homem a sua copa, enquanto Filécio passou o pão nos cestos de pão, e Melântio lhes serviu o vinho. Depois deitaram as mãos às iguarias que estavam diante deles.
Telémaco, de propósito, fez Ulisses sentar-se na parte do claustro que era pavimentada de pedra; deu-lhe um assento de mau aspecto, a uma mesinha à parte, e mandou trazer-lhe a sua porção de carne com o seu vinho numa taça de ouro. «Senta-te ali», disse ele, «e bebe o teu vinho entre gente importante. Vou pôr cobro aos motejos e pancadas dos pretendentes, porque isto não é uma hospedaria pública, mas pertence a Ulisses, e dele passou para mim. Portanto, pretendentes, contende as mãos e as línguas, ou haverá desgraça.»
Os pretendentes morderam os lábios e maravilharam-se da audácia da sua fala; então Antínoo disse: «Não nos agrada semelhante linguagem, mas havemos de tolerá-la, pois Telémaco nos ameaça a sério. Se Jove nos tivesse permitido, já lhe teríamos cortado a fala valente.»
Assim falou Antínoo, mas Telémaco não lhe ligou. Entretanto, os arautos traziam a sagrada hecatombe pela cidade, e os Aqueus reuniram-se no frondoso bosque de Apolo.
Então assaram a carne de fora, tiraram-na dos espetos, deram a cada homem a sua porção e banquetearam-se à farta; os que serviam à mesa deram a Ulisses exactamente a mesma porção que aos outros, pois Telémaco lho ordenara.
Mas Minerva não permitiu que os pretendentes por um momento largassem a insolência, pois queria que Ulisses se tornasse ainda mais amargo contra eles. Ora, havia entre eles um tipo desbocado, de nome Ctesipo, natural de Same. Este homem, confiado na sua grande riqueza, cortejava a esposa de Ulisses e disse aos pretendentes: «Ouvi o que vos digo. O estrangeiro já teve uma porção tão grande como qualquer outro; isto é justo, porque não é correcto nem razoável maltratar qualquer hóspede de Telémaco que aqui venha. Porém, da minha própria bolsa, vou fazer-lhe um presente, para que tenha com que dar à mulher do banho, ou a alguma outra serva de Ulisses.»
Enquanto falava, apanhou um pé de novilha do cesto de carnes em que estava e atirou-o a Ulisses, mas Ulisses virou um pouco a cabeça de lado e evitou-o, sorrindo com ar sombrio à maneira da Sardenha, e o pé bateu na parede, não nele. Então Telémaco falou com ferocidade a Ctesipo: «É uma sorte para ti», disse ele, «que o estrangeiro tenha virado a cabeça, e assim o falhaste. Se o tivesses acertado, eu te atravessaria com a minha lança, e o teu pai teria de tratar de te enterrar em vez de te casar nesta casa. Portanto, não quero mais comportamentos indecorosos da parte de nenhum de vós, porque eu já cresci para conhecer o bem e o mal e entendo o que se passa, em vez de ser a criança que era até aqui. Há muito que vos vejo a matar as minhas ovelhas e a dispor livremente do meu trigo e do meu vinho: suportei-o, porque um homem só não pode lutar contra muitos, mas não me façais mais violência. Ainda assim, se quereis matar-me, matai-me; antes queria morrer do que ver tais cenas vergonhosas dia após dia — hóspedes insultados, e homens arrastando as servas pela casa de modo indecoroso.»
Todos se calaram até que por fim Agelao, filho de Damastor, disse: «Ninguém deve ofender-se com o que acaba de ser dito, nem contradizê-lo, pois é perfeitamente razoável. Cessai, portanto, de maltratar o estrangeiro ou qualquer outro dos servos que andam pela casa; no entanto, queria dizer uma palavra amigável a Telémaco e à sua mãe, que espero lhes agrade a ambos. ‘Enquanto’, diria eu, ‘tinheis fundamento para esperar que Ulisses um dia voltasse a casa, ninguém se podia queixar de esperardes e sofrereis os pretendentes na vossa casa. Seria melhor que ele tivesse voltado, mas agora é suficientemente claro que ele nunca o fará; portanto, falai de tudo isto tranquilamente com a vossa mãe e dizei-lhe que case com o melhor homem e o que lhe fizer a oferta mais vantajosa. Assim podereis vós mesmo gerir a vossa herança e comer e beber em paz, enquanto a vossa mãe olhará pela casa de outro homem, não pela vossa.’»
A isto Telémaco respondeu: «Por Jove, Agelao, e pelas dores do meu desventurado pai, que pereceu longe de Ítaca, ou vagueia por alguma terra distante, eu não ponho obstáculos ao casamento da minha mãe; antes a exorto a escolher quem ela quiser, e eu lhe darei无数的 prendas por acréscimo, mas não me atrevo a insistir categoricamente que ela saia da casa contra a sua própria vontade. Deus me livre de fazer tal coisa.»
Minerva fez então os pretendentes caírem em gargalhadas desmedidas e pôs os seus entendimentos a vaguear; mas riam com riso forçado. As suas carnes cobriram-se de sangue; os olhos encheram-se-lhes de lágrimas, e os corações pesavam-lhes de pressentimentos. Teoclimeno viu isto e disse: «Desgraçados, que mal é o vosso? Um sudário de trevas vos cobre da cabeça aos pés, as faces estão-vos molhadas de lágrimas; o ar está cheio de vozes de lamento; as paredes e as vigas do tecto gotejam sangue; o portão dos claustros e o pátio para lá deles estão cheios de fantasmas que descem em tropel para a noite do inferno; o sol está apagado do céu, e uma escuridão devastadora cobre toda a terra.»
Assim falou, e todos eles riram com vontade. Então Eurímaco disse: «Este estrangeiro que chegou há pouco perdeu o juízo. Criados, lançai-o para a rua, uma vez que ele acha aqui tão escuro.»
Mas Teoclimeno disse: «Eurímaco, não precisas de mandar ninguém comigo. Tenho olhos, ouvidos e um par de pés meus, para não falar de um entendimento são. Hei-de levar tudo isto comigo para fora da casa, pois vejo a desgraça iminente sobre vós, da qual nenhum de vós, homens que insultais as pessoas e urdis malefícios na casa de Ulisses, poderá escapar.»
Saiu da casa enquanto falava e voltou para Pireu, que lhe deu acolhimento, mas os pretendentes ficaram a olhar uns para os outros e a provocar Telémaco com mofa dos estrangeiros. Um tipo insolente disse-lhe: «Telémaco, não és feliz nos teus hóspedes; primeiro tens este mendigo importuno, que vem pedir pão e vinho e não tem habilidade para o trabalho nem para o combate duro, mas é perfeitamente inútil, e agora eis aqui outro que se arvora de profeta. Deixa-me persuadir-te, pois será muito melhor pô-los a bordo de um navio e mandá-los aos Sículos para os vender pelo que renderem.»
Telémaco não lhe ligou, mas ficou sentado em silêncio a observar o pai, esperando a todo o momento que ele desse início ao ataque contra os pretendentes.
Entretanto, a filha de Icário, a prudente Penélope, mandara colocar um rico assento de frente para o pátio e os claustros, para que pudesse ouvir tudo o que se dizia. O jantar, na verdade, fora preparado em meio a grande folguedo; fora bom e abundante, pois tinham sacrificado muitas vítimas; mas o supper ainda estava para vir, e nada se pode conceber mais macabro do que a refeição que uma deusa e um homem valente em breve lhes haviam de servir — pois tinham atraído sobre si o seu próprio destino.
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LIVRO XXI
A PROVA DAS MACHADAS, DURANTE A QUAL ULISSES SE REVELA A EUMEU E FILÉCIO
Minerva pôs então no ánimo de Penélope a ideia de fazer com que os pretendentes experimentassem o arco e as machadas de ferro, numa contenda entre si, para que assim viesse a dar-se a sua destruição. Subiu ao andar de cima e foi buscar a chave do guarda-roupa, que era de bronze e tinha cabo de marfim; dirigiu-se então, acompanhada das criadas, ao guarda-roupa ao fundo da casa, onde se guardavam os tesouros do marido — ouro, bronze e ferro trabalhado — e onde também estava o arco dele e a aljava cheia de setas mortais que um amigo lhe oferecera, com quem ele se encontrara na Lacónia — Iftito, filho de Eurito. Os dois haviam topado um com o outro em Messene, na casa de Ortiloco, onde Ulisses se hospedara a fim de cobrar uma dívida que todo o povo lhe devia; pois os messénios haviam levado de Ítaca trezentas ovelhas e se fizeram ao mar com elas e com os seus pastores. Em busca dessas ovelhas, Ulisses fizera uma longa viagem ainda muito jovem, pois o pai e os demais chefes o haviam mandado em embaixada para as recuperar. Também Iftito ali fora a fim de tentar reaver doze éguas de criação que perdera, e os mulos que com elas corriam. Essas éguas viriam a ser causa da sua morte, pois quando se dirigiu à casa do filho de Jove, o poderoso Hércules, que realizou tantos prodígios de valor, Hércules, para vergonha sua, matou-o, embora fosse seu hóspede, pois não temeu a vingança do céu nem respeitou a própria mesa que servira a Iftito; antes o matou apesar de tudo e ficou com as éguas. Foi ao reclamar essas éguas que Iftito encontrou Ulisses, e deu-lhe o arco que o poderoso Eurito costumava usar, e que, por morte dele, ficara para o filho. Ulisses deu-lhe em troca uma espada e uma lança, e esse foi o começo de uma estreita amizade, embora jamais se visitassem um ao outro em casa, pois o filho de Jove, Hércules, matou Iftito antes que tal pudesse acontecer. Este arco, pois, oferecido por Iftito, não fora levado por Ulisses quando navegou para Troia; dele se servira enquanto estivera em casa, mas ali o deixara, por ser prenda de um amigo estimado.
Penélope chegou então ao limiar de carvalho do guarda-roupa; o carpinteiro aplainara-o com esmero e traçara nele uma linha para o deixar bem direito; depois encaixara nele os umbrais e suspendera as folhas da porta. Ela deslaçou a correia do puxador da porta, introduziu a chave e a empurrou bem fundo para fazer recuar os ferrolhos que prendiam as portas; estes voaram abertos com um estrondo como de touro bramindo num prado, e Penélope subiu ao estrado elevado onde se alinhavam os arcos com a fina lã e as roupas, junto com ervas aromáticas; daí retirou o arco, dentro da sua caixa, do prego em que estava dependurado. Sentou-se com ele sobre os joelhos, chorando amargamente enquanto o tirava da caixa, e quando as lágrimas lhe deram algum alívio, dirigiu-se ao claustro onde estavam os pretendentes, levando o arco e a aljava, com as muitas setas mortais que dentro dela estavam. Com ela vinham as criadas, carregando um cofre que continha muito ferro e bronze que o marido ganhara como prémios. Quando chegou junto dos pretendentes, parou junto a um dos esteios que sustentavam o tecto do claustro, tendo um véu diante do rosto, com uma criada de cada lado. Então disse:
«Ouvi-me, vós, pretendentes, que persistis em abusar da hospitalidade desta casa porque o seu dono há muito está ausente, e sem outro pretexto além de quererdes casar comigo; sendo este, portanto, o prémio que disputais, trarei para fora o poderoso arco de Ulisses, e qualquer de vós que o mais facilmente o encordo e enviar a sua seta através de cada uma de doze machadas, esse seguirei eu e deixarei esta casa do meu legítimo esposo, tão formosa e tão abundante em riqueza. Mas nem assim duvido de que hei-de recordá-la em meus sonhos.»
Enquanto falava, mandou Eumeu colocar o arco e as peças de ferro diante dos pretendentes, e Eumeu chorou ao pegá-los para fazer o que ela ordenara. Perto, o boieiro também chorou ao ver o arco do seu senhor, mas Antínoo os repreendeu. «Patões do campo — disse ele —, parvos de gema; por que haveis de aumentar as tristezas da vossa senhora chorando assim? Já tem que bastante com a perda do marido; ficai, pois, quietos e comei os vossos jantares em silêncio, ou sai fora se quereis chorar, e deixai aqui o arco. Nós, os pretendentes, teremos de contender por ele com todas as nossas forças, pois não será tarefa fácil encordar um arco como este. Não há entre nós todos um só homem que seja como Ulisses; pois eu o vi e me lembro dele, embora fosse então apenas uma criança.»
Assim falou, mas o tempo todo esperava poder encordar o arco e disparar através do ferro, quando na verdade ele seria o primeiro a provar as setas das mãos de Ulisses, a quem desonrava na sua própria casa — instigando os outros a fazerem o mesmo.
Telémaco falou então. «Grandes deuses! — exclamou —, Jove deve ter-me roubado o juízo. Eis que a minha querida e excelsa mãe declara que vai deixar esta casa e casar de novo, e eu estou aqui a rir e a divertir-me como se nada se passasse. Mas, pretendentes, uma vez que a prova ficou acordada, prossiga ela. É por causa de uma mulher cuja igual não se encontra em Pilos, Argos ou Micenas, nem tampouco em Ítaca nem no continente. Vós bem o sabeis tão bem como eu; que necessidade tenho de encarecer a minha mãe? Vamos, pois, não vos desculpeis com delongas, mas vejamos se conseguis encordar o arco ou não. Também eu o experimentarei, pois se o conseguir encordar e disparar através do ferro, não consentirei que a minha mãe deixe esta casa com um estranho, se eu puder ganhar os prémios que meu pai ganhou antes de mim.»
Dito isto, saltou do seu assento, arrancou de si o manto cor de carmesim e tirou a espada do ombro. Primeiro dispôs as machadas em fila, numa longa ranhura que lhes cavara e que endireitara com o fio. Depois calcou bem a terra à volta delas, e todos ficaram surpreendidos ao vê-lo dispô-las tão ordenadamente, embora nunca tivesse visto nada semelhante. Feito isto, avançou para o lajedo a fim de experimentar o arco; três vezes o puxou, tentando com todas as suas forças armar a corda, e três vezes teve de desistir, embora esperasse encordar o arco e disparar através do ferro. À quarta tentativa, encordá-lo-ia, se Ulisses não lhe tivesse feito um sinal para que parasse apesar de todo o seu ardor. Disse então:
«Ai de mim! Ou hei-de ser para sempre fraco e sem valentia, ou sou ainda jovem demais e não alcancei a minha plena força, de modo a poder defender-me se alguém me atacar. Vós outros, portanto, que sois mais fortes do que eu, experimentai o arco e resolvei esta contenda.»
Com isto, pousou o arco, encostando-o à porta [que dava para a casa] com a seta apoiada na ponta do arco. Depois sentou-se no assento de onde se levantara, e Antínoo disse:
«Vamos, cada um de vós a sua vez, avançando para a direita a partir do lugar onde o copeiro começa quando serve o vinho.»
Os demais concordaram, e Leídes, filho de Enops, foi o primeiro a levantar-se. Era sacerdote dos sacrifícios dos pretendentes e sentava-se no canto junto da cratera. Era o único que odiava os seus malfeitos e se indignava com os outros. Foi ele, pois, o primeiro a pegar no arco e na seta, pelo que avançou para o lajedo a fim de fazer a sua tentativa, mas não conseguiu encordar o arco, pois as mãos eram débeis e desacostumadas a trabalhos rudes; por isso cansaram-se depressa, e disse aos pretendentes: «Meus amigos, não consigo encordá-lo; que outro o tenha. Este arco há-de tirar a vida e a alma a muitos chefes entre nós, pois é melhor morrer do que viver depois de termos falhado o prémio que tanto tempo disputámos e que por tanto tempo nos trouxe juntos. Algum de nós já agora alimenta a esperança e a oração de desposar Penélope, mas quando tiver visto este arco e o tiver experimentado, que pretenda e faça ofertas de noivado a outra mulher, e que Penélope case com quem melhor a pedir e a quem couber por sorte ganhá-la.»
Com isto, pousou o arco, encostando-o à porta, com a seta apoiada na ponta do arco. Depois sentou-se de novo no assento de onde se levantara; e Antínoo o repreendeu dizendo:
«Leídes, que estás tu a dizer? As tuas palavras são monstruosas e intoleráveis; enoja-me ouvir-te. Então este arco há-de tirar a vida a muitos chefes entre nós, só porque tu próprio não o consegues vergar? É certo que não nasceste para ser arqueiro, mas há outros que depressa o encordarão.»
Depois disse a Melântio, o cabreiro: «Anda depressa, acende uma lareira no pátio e coloca perto um assento com uma pele de ovelha; traze-nos também um grande pingo de unto, do que houver em casa. Vamos aquecer o arco e untá-lo — depois experimentá-lo-emos de novo e levaremos a contenda ao fim.»
Melântio acendeu o fogo e dispôs junto dele um assento coberto de peles de ovelha. Trouxe também um grande pingo de unto do que havia em casa, e os pretendentes aqueceram o arco e tornaram a experimentá-lo, mas nenhum deles era sequer de longe forte bastante para o encordar. Restavam ainda Antínoo e Eurímaco, que eram os cabecilhas dos pretendentes e de longe os mais distintos entre todos eles.
Então o porqueiro e o boieiro saíram juntos do claustro, e Ulisses foi atrás deles. Quando já estavam fora das portas e do pátio exterior, Ulisses disse-lhes em voz baixa:
«Boieiro, e tu, porqueiro, tenho algo no peito que não sei se devo dizer ou não; mas creio que o direi. Que homens seríeis vós para estar ao lado de Ulisses, se algum deus o trouxesse de volta para aqui de repente? Dizei de que lado estais dispostos a ficar — ao lado dos pretendentes, ou ao lado de Ulisses?»
«Pai Jove — respondeu o boieiro —, assim o quisesse tu ordenar! Se algum deus trouxesse Ulisses de volta, verias com que forças todas eu combateria por ele.»
Em idênticas palavras Eumeu rogou a todos os deuses que Ulisses pudesse voltar; quando, portanto, viu com certeza qual era a sua disposição, Ulisses disse: «Sou eu, Ulisses, que aqui estou. Muito padeci, mas por fim, no vigésimo ano, cheguei à minha própria terra. Vejo que vós dois, só entre todos os meus servos, vos alegrais de que eu o faça, pois não ouvi nenhum dos outros a rezar pelo meu regresso. A vós dois, pois, vou revelar a verdade tal como será. Se o céu entregar os pretendentes nas minhas mãos, arranjar-vos-ei esposas a ambos, dar-vos-ei casa e herdade junto da minha, e sereis para mim como se fôsseis irmãos e amigos de Telémaco. Vou agora dar-vos provas convincentes para que me conheçais e fiqueis seguros. Vede, aqui está a cicatriz da presa do javali que me rasgou quando eu andava à caça no monte Parnaso com os filhos de Autólico.»
Enquanto falava, afastou os farrapos e mostrou a grande cicatriz, e depois de a examinarem com todo o cuidado, ambos choraram por Ulisses, lançaram-lhe os braços ao pescoço e beijaram-lhe a cabeça e os ombros, enquanto Ulisses lhes beijava as mãos e o rosto em troca. O sol ter-se-ia posto sobre a sua lamentação se Ulisses não os refreasse, dizendo:
«Cessai o vosso pranto, não vá alguém sair e ver-nos e contá-lo aos que estão lá dentro. Quando entrardes, fazei-o separadamente, não ambos juntos; eu irei primeiro, e vós vireis depois; sirva-nos além disto de sinal combinado entre nós: os pretendentes hão-de todos procurar impedir-me de pegar no arco e na aljava; tu, portanto, Eumeu, coloca-o nas minhas mãos quando o andares a levar, e diz às mulheres que fechem as portas do seu aposento. Se ouvirem qualquer gemido ou tumulto, como de homens que lutam na casa, não devem sair; hão-de ficar caladas e permanecer onde estiverem, ao seu trabalho. E a ti te ordeno, Filécio, que tranque bem as portas do pátio exterior e as firmes com segurança de imediato.»
Depois de assim falar, voltou para a casa e tomou o assento que deixara. Pouco depois, os dois servos seguiram-no para dentro.
Nesse momento o arco estava nas mãos de Eurímaco, que o aquecia ao lume, mas mesmo assim não conseguia encordá-lo, e ele muito se afligiu. Soltou um suspiro profundo e disse: «Lamento-me por mim e por todos nós; lamento-me por ter de renunciar ao casamento, mas não me importa tanto isso, pois há mulheres em abundância tanto em Ítaca como noutras terras; o que mais me pungé é o facto de sermos tão inferiores a Ulisses em força que não conseguimos encordar o seu arco. Isto envergonhar-nos-á aos olhos dos que ainda hão-de nascer.»
«Assim não será, Eurímaco — disse Antínoo —, e tu bem o sabes. Hoje é a festa de Apolo por toda esta terra; quem pode encordar um arco num dia como este? Pousa-o de lado — quanto às machadas, podem ficar onde estão, pois é improvável que alguém venha à casa e as leve: manda o copeiro andar com as suas taças, para que façamos as nossas libações e deixemos este assunto do arco; diremos a Melântio que nos traga amanhã algumas cabras — as melhores que tiver; poderemos então oferecer coxas a Apolo, o poderoso arqueiro, e tornar a experimentar o arco, para levar a contenda ao fim.»
Os demais aprovaram as suas palavras, e logo os servos de mesa deitavam água sobre as mãos dos convivas, enquanto os pajens enchiam as crateras com vinho e água e o serviam depois de dar a cada homem a sua libação. Então, depois de feitas as oferendas e de cada um ter bebido quanto desejava, Ulisses disse, astuto:
«Pretendentes da ilustre rainha, escutai para que eu possa falar como me aprouver. Apelo sobretudo a Eurímaco e a Antínoo, que acabou de falar com tanto acerto. Cessai por agora o tiro e deixai a questão aos deuses, mas amanhã que o céu dê a vitória a quem quiser. Por enquanto, porém, dai-me o arco, a fim de que eu prove diante de vós todos a força das minhas mãos, e veja se ainda tenho tanta robustez como costumava ter, ou se a viagem e o abandono me a terão destruído.»
Isso irritou-os profundamente a todos, pois temiam que ele pudesse encordar o arco; Antínoo, pois, repreendeu-o com ferocidade, dizendo: «Mísera criatura, não tens um grão sequer de juízo em todo o teu corpo; devias dar-te por feliz de te ser permitido jantar incólume entre os teus superiores, sem que te seja servida porção menor do que a nós outros foi dada, e de te ser permitido ouvir a nossa conversa. A nenhum outro mendigo ou estrangeiro foi permitido ouvir o que dizemos entre nós; o vinho deve ter-te feito mal, como faz com todos os que bebem sem moderação. Foi o vinho que inflamou o Centauro Eurítion quando se hospedava com Pirítoo entre os Lápitas. Quando o vinho lhe subiu à cabeça, enlouqueceu e cometeu desatinos na casa de Pirítoo; isto irritou os heróis que ali se haviam reunido, pelo que se lançaram sobre ele e lhe cortaram as orelhas e as narinas; depois arrastaram-no pela porta para fora da casa, e ele foi-se embora enlouquecido, levando o peso do seu crime, privado de entendimento. Desde então, portanto, houve guerra entre os homens e os centauros, mas ele a trouxe sobre si pela sua própria bebedeira. Do mesmo modo te digo que será mal para ti se encordares o arco: não encontrarás misericórdia de ninguém aqui, pois imediatamente te embarcaremos para o rei Equeto, que mata todos quantos se lhe acercam; nunca mais sairás vivo de lá, pelo que bebe e fica quieto, sem te meteres em contenda com homens mais novos do que tu.»
Penélope então lhe falou. «Antínoo — disse ela —, não é justo que trates mal qualquer hóspede de Telémaco que venha a esta casa. Se o estrangeiro se revelar bastante forte para encordar o poderoso arco de Ulisses, podes supor que ele me levará para casa consigo e me fará sua esposa? Nem o próprio homem pode ter tal ideia no espírito; nenhum de vós precisa deixar que isso lhe perturbe o banquete; seria fora de toda a razão.»
«Rainha Penélope — respondeu Eurímaco —, nós não supomos que este homem vos leve consigo; é impossível; mas tememos que qualquer da plebe, homens ou mulheres entre os aqueus, ande a murmurar e diga: 'Estes pretendentes são gente fraca; cortejam a esposa de um homem valente cujo arco nenhum deles foi capaz de encordar, e contudo um mendigo miserável que chegou à casa encordou-o de imediato e enviou uma seta através do ferro.' É isto que se dirá, e será um opróbrio contra nós.»
«Eurímaco — respondeu Penélope —, quem persiste em devorar os bens de um grande chefe e em desonrar a sua casa não pode esperar que os outros pensem bem deles. Pois que vos importa se os homens falam como pensais que falarão? Este estrangeiro é forte e bem constituído, e diz além disso que é de nobre linhagem. Dai-lhe o arco, e vejamos se o consegue encordar ou não. Digo — e assim se cumprirá — que, se Apolo lhe conceder a glória de o encordar, eu lhe darei um manto e uma túnica de bom uso, com um dardo para o defender de cães e ladrões, e uma espada afiada. Dar-lhe-ei também sandálias, e providenciarei para que seja enviado em segurança para onde ele quiser ir.»
Então Telémaco disse: «Mãe, sou eu o único homem, tanto em Ítaca como nas ilhas defronte de Élide, que tem o direito de dar o arco a alguém ou de o recusar. Ninguém me forçará num sentido nem no outro, nem mesmo que eu escolha dar o arco ao estrangeiro de mão beijada e lho deixe levar. Vai, pois, para dentro da casa e ocupa-te dos teus deveres diários, do tear, da roca e do governo das tuas criadas. Este arco é assunto de homem, e meu acima de todos, pois sou eu o senhor aqui.»
Ela voltou a vagar pela casa e guardou no coração a palavra do filho. Depois subiu, com as servas, ao seu quarto e chorou o querido marido, até que Minerva espalhou um doce sono sobre as suas pálpebras.
O porreiro tomou então o arco para o levar a Ulisses, mas os pretendentes gritavam contra ele de todos os lados do claustro, e um deles disse: «Idiota, para onde levas o arco? Perdestes o juízo? Se Febo e os outros deuses quiserem ouvir a nossa oração, as tuas próprias porcas de matilha te levarão a algum cantinho sossegado e te destroçarão até à morte.»
Eumeu assustou-se com a gritaria que todos levantavam, e pousou ali mesmo o arco; mas Telémaco bradou-lhe do outro lado do claustro, ameaçando-o: «Pai Eumeu, traze o arco para diante, apesar deles, senão, por mais novo que eu seja, hei-de apedrejar-te até te mandar de volta ao campo, porque sou eu o mais forte dos dois. Quem me dera ser tão mais forte do que todos os outros pretendentes da casa como o sou de ti — logo eu mandaria alguns deles para a rua enfermos e arrependidos, pois só pensam em maldades.»
Assim falou, e todos eles riram com vontade, o que os tornou mais benévolos para com Telémaco. Eumeu trouxe então o arco e pô-lo nas mãos de Ulisses. Feito isto, chamou Euricleia à parte e disse-lhe: «Euricleia, Telémaco manda que feches as portas dos aposentos das mulheres. Se ouvirem algum gemido ou tumulto, como de homens que se batem dentro da casa, que não saiam, mas se mantenham quietas e fiquem onde estão, ao seu trabalho.»
Euricleia obedeceu e fechou as portas dos aposentos das mulheres.
Enquanto isso, Filetius saiu sem ruído e trancou as portas do pátio exterior. Havia na portaria um cabo de navio de fibra de bíbulo; com ele segurou bem as portas e depois voltou a entrar, retomando o lugar que deixara, de olho posto em Ulisses, que já tinha o arco nas mãos e o voltava de todos os lados, examinando-o todo para ver se os vermes lhe tinham roído as pontas durante a ausência. Então um dizia ao vizinho: «Este é algum velho habilidoso apreciador de arcos; ou tem outro igual em casa, ou quer fabricá-lo — com tanta mestria maneja o arco este velho vagabundo.»
Outro disse: «Quem me dera que ele tivesse tão pouca sorte noutras coisas como há de ter em tensionar este arco.»
Mas Ulisses, depois de o pegar e o examinar por inteiro, entesou-o com a mesma facilidade com que um hábil aedo crava a cravelha nova da sua lira e prende bem a tripa retorcida nas duas pontas. Em seguida tomou-o na mão direita para provar a corda, e ela cantou docemente sob o toque, como o gorjeio de uma andorinha. Os pretendentes ficaram aterrados e mudaram de cor ao ouvi-la; nesse momento, além disso, Jove trovejou fragorosamente como sinal, e o coração de Ulisses alegrou-se ao ouvir o presságio que o filho de Saturno, o astuto, lhe enviava.
Pegou numa flecha que estava sobre a mesa — pois aquelas que os Aqueus tão cedo haviam de provar estavam todas dentro do aljava —, encostou-a ao corpo do arco e puxou para si o entalhe da flecha e a corda, ainda sentado no seu assento. Depois de apontar, disparou, e a flecha atravessou todos os orifícios dos cabos dos machados, do primeiro até ao fim, e saiu para o pátio exterior. Então disse a Telémaco:
«O teu hóspede não te envergonhou, Telémaco. Não errei o alvo, e não demorei a tesar o arco. Ainda sou forte, e não aquele em que os pretendentes querem fazer crer que sou. Agora, porém, é tempo de os Aqueus prepararem a ceia enquanto ainda há luz do dia, e depois de outro modo se entreterem com canto e dança, que são a coroa ornamento de um banquete.»
Ao falar, fez um sinal com as sobrancelhas, e Telémaco cingiu a espada, empunhou a lança e pôs-se armado junto ao assento do pai.
LIVRO XXII
A MATANÇA DOS PRETENDENTES — AS SERVAS QUE SE PORTARAM MAL SÃO OBRIGADAS A LIMPAR O CLAUSTRO E EM SEGUIDA ENFORCADAS.
Então Ulisses arrancou os andrajos, saltou para o largo soalho com o arco e o aljava cheia de flechas. Derramou as flechas no chão junto aos pés e disse: «O grande desafio está terminado. Vou agora ver se Febo me concede acertar noutro alvo que ainda ninguém acertou.»
Com isso apontou uma flecha mortífera a Antínoo, que estava a pegar numa taça de ouro de duas asas para beber o seu vinho e já a tinha nas mãos. Não pensava na morte — quem, entre todos os convivas, pensaria que um homem só, por mais valente, se manteria de pé contra tantos e o mataria? A flecha acertou Antínoo na garganta, e a ponta atravessou-lhe o pescoço de lado a lado, de modo que ele caiu para trás e a taça escapou-lhe da mão, enquanto um jorro espesso de sangue lhe brotava das narinas. Com um pontapé afastou de si a mesa e derrubou o que nela estava, de modo que o pão e as carnes assadas ficaram todos sujos ao cair por terra. Os pretendentes levantaram um alarido quando viram que um homem tinha sido ferido; saltaram assustados dos seus assentos, um por um, e olharam em todas as direções para as paredes, mas não havia escudo nem lança, e repreenderam Ulisses com grande raiva. «Estrangeiro», disseram, «pagarás por disparar contra os homens desta maneira; não verás outro desafio; estás perdido; aquele que mataste era o mais excelente jovem de Ítaca, e os abutres te devorarão por o teres morto.»
Assim falavam, porque pensavam que ele tinha matado Antínoo por engano, e não percebiam que a morte pairava sobre a cabeça de cada um deles. Mas Ulisses fitou-os com olhos de fera e disse:
«Cães, julgáveis que eu não havia de voltar de Tróia? Desbaratastes os meus bens, forçastes as minhas servas a deitar-se convosco e cortejastes a minha mulher enquanto eu ainda era vivo. Não temestes nem deus nem homem, e agora haveis de morrer.»
Empalideceram de medo ao ouvirem-no, e cada um olhou em torno de si para ver para onde poderia fugir a salvar-se, mas só Eurímaco falou:
«Se és Ulisses», disse ele, «então o que disseste é justo. Muito mal fizemos nas tuas terras e na tua casa. Mas Antínoo, que era a cabeça e a frente de toda a ofensa, já jaz por terra. Foi tudo obra dele. Não era que quisesse casar com Penélope; não lhe importava tanto isso; o que ele queria era outra coisa bem diferente, e Jove não lha concedeu — queria matar o teu filho e ser o homem principal de Ítaca. Agora, pois, que encontrou a morte que merecia, poupa a vida do teu povo. Entre nós havemos de reparar tudo e pagar-te por inteiro tudo o que comemos e bebemos. Cada um de nós te pagará uma multa no valor de vinte bois, e continuaremos a dar-te ouro e bronze até que o teu coração se abrand e. Até o fazermos, ninguém pode queixar-se de que estejas enfurecido contra nós.»
Ulisses fitou-o de novo com olhos de fera e disse: «Ainda que me désseis tudo o que tendes no mundo, agora e tudo o que algum dia haveis de ter, não trarei a minha mão, até vos ter pago a todos por inteiro. Tendes de lutar, ou fugir para salvar a vida; e fugir, nem um só de vós há de consegui-lo.»
O coração deles desanimou ao ouvi-lo, mas Eurímaco tornou a falar, dizendo:
«Amigos, este homem não nos dará quartel. Ficará onde está e abater-nos-á a tiro de flecha até nos ter matado a todos. Lutemos, pois; desembainhai as espadas e erguei as mesas para vos protegerdes das suas flechas. Lancemo-nos contra ele de roldão, para o afastar do soalho e da soleira; poderemos então alcançar a cidade e levantar tal alarme que logo ponha cobro ao seu tiroteio.»
Ao falar, desembainhou a sua lâmina afiada de bronze, amolada dos dois lados, e com um grande brado lançou-se contra Ulisses; mas Ulisses disparou de imediato uma flecha que lhe acertou no peito, apanhou-o pelo mamilo e se lhe cravou no fígado. Ele deixou cair a espada e caiu dobrado sobre a mesa. A taça e todas as comidas rolaram para o chão, quando bateu com a testa na terra em agonia, e pontapeou o escabelo com os pés até que os olhos se lhe fecharam nas trevas.
Então Anfínomo desembainhou a espada e foi direito a Ulisses para tentar afastá-lo da porta; mas Telémaco foi mais rápido e feriu-o por trás; a lança apanhou-o entre as omoplatas e atravessou-lhe o peito de lado a lado, de modo que ele caiu pesadamente ao chão e bateu com a testa na terra. Telémaco saltou então para longe dele, deixando a lança ainda no corpo, porque temia que, se ficasse para a arrancar, algum dos Aqueus lhe viesse por trás e lhe cortasse com a espada, ou o derrubasse; pelo que se pôs a correr e imediatamente se colocou ao lado do pai. Então disse:
«Pai, deixa-me trazer-te um escudo, duas lanças e um capacete de bronze para as tuas têmporas. Eu me armarei também e trarei outras armas para o porreiro e para o boieiro, porque é melhor irmos armados.»
«Corre e traze-as», respondeu Ulisses, «enquanto as minhas flechas durarem, senão, quando estiver sozinho, poderão afastar-me da porta.»
Telémaco fez como o pai disse e foi ao armazém onde se guardavam as armas. Escolheu quatro escudos, oito lanças e quatro capacetes de bronze com plumas de crina. Trouxe-os com toda a pressa ao pai, e armou-se primeiro, enquanto o boieiro e o porreiro também vestiam as suas armas e tomavam os seus lugares junto de Ulisses. Entretanto, Ulisses, enquanto as flechas lhe bastaram, fora abatendo os pretendentes um a um, e eles caíam uns sobre os outros. Quando as flechas se esgotaram, encostou o arco à parede da casa, junto ao umbral, e pendurou dos ombros um escudo de quatro couros; na cabeça formosa pôs o capacete, bem forjado com uma crista de crina de cavalo que se movia ameaçadoramente por cima, e empunhou duas formidáveis lanças com pontas de bronze.
Havia agora uma escotilha na parede, enquanto numa extremidade do soalho havia uma saída para um corredor estreito, e essa saída estava fechada por uma porta bem feita. Ulisses disse a Filetius que se postasse junto a essa porta e a guardasse, pois só uma pessoa de cada vez a podia atacar. Mas Agelau gritou: «Não pode alguém de nós subir à escotilha e ir contar ao povo o que se passa? O socorro viria logo, e depressa acabaríamos com este homem e com o seu tiroteio.»
«Isso não pode ser, Agelau», respondeu Melântio, «a boca do corredor estreito está perigosamente perto da entrada do pátio exterior. Um homem valente pode impedir que entre quantos forem. Mas sei o que hei-de fazer: vou trazer-vos armas do armazém, pois tenho a certeza de que é lá que Ulisses e o filho as guardaram.»
Com isto, o cabreiro Melântio foi por passagens traseiras ao armazém da casa de Ulisses. Escolheu doze escudos, com outros tantos capacetes e lanças, e trouxe-os tão depressa quanto pôde para os entregar aos pretendentes. O coração de Ulisses começou a fraquejar quando viu os pretendentes a vestirem as armas e a brandirem as lanças. Viu a grandeza do perigo e disse a Telémaco: «Alguma das mulheres de dentro está a ajudar os pretendentes contra nós, ou então é Melântio.»
Telémaco respondeu: «A culpa, pai, é minha, e só minha; deixei a porta do armazém aberta, e eles estiveram mais atentos do que eu. Vai, Eumeu, fecha a porta, e vê se é uma das mulheres que faz isto, ou se, como eu suspeito, é Melântio, filho de Dólio.»
Assim conversavam. Entretanto, Melântio tornava a ir ao armazém para buscar mais armas, mas o porreiro viu-o e disse a Ulisses, que estava ao seu lado: «Ulisses, nobre filho de Laertes, é aquele patife do Melântio, tal como suspeitávamos, que vai ao armazém. Diz: mato-o, se eu conseguir dominá-lo, ou trago-o para aqui, para que tomes tu a tua vingança de todos os muitos males que ele fez na tua casa?»
Ulisses respondeu: «Telémaco e eu conteremos estes pretendentes, aconteça o que acontecer; voltai vós os dois e prendei Melântio de mãos e pés atrás das costas. Atirai-o para o armazém e trancai bem a porta atrás de vós; depois passai-lhe uma corda à volta do corpo e içai-o bem junto às vigas do tecto, preso a uma coluna alta, para que ele fique a agonizar muito tempo.»
Assim falou, e eles fizeram exactamente como ele dissera; foram ao armazém, no qual entraram antes que Melântio os visse, porque ele andava ocupado a procurar armas na parte mais interior da divisão; então os dois tomaram posição de cada lado da porta e esperaram. Pouco depois, Melântio saiu com um capacete numa mão e, na outra, um escudo velho e seco de podridão, que Laertes usara quando era jovem, mas que havia muito fora posto de lado, e as correias se tinham desapertado; sobre ele os dois lançaram-se, arrastaram-no para trás pelos cabelos e atiraram-no a debater-se para o chão. Dobraram-lhe bem as mãos e os pés para trás das costas e amarraram-nos bem com uma ligadura apertada, como Ulisses lhes dissera; depois passaram-lhe uma corda à volta do corpo e içaram-no de uma coluna alta, até ficar bem junto às vigas do tecto. E sobre ele vauteaste então, ó porreiro Eumeu, dizendo: «Melântio, hás-de passar a noite numa cama macia, como mereces. Saberás muito bem quando a manhã vier das correntes de Oceano, e for tempo de levares as tuas cabras para os pretendentes as devorarem no festim.»
Ali, pois, o deixaram em cruelíssimo cativeiro, e tendo vestido as suas armas, fecharam a porta atrás de si e voltaram para os seus lugares ao lado de Ulisses; com isto os quatro homens pararam no claustro, ferozes e cheios de furor; contudo, os que estavam no corpo do pátio eram ainda valentes e numerosos. Então a filha de Jove, Minerva, chegou-se a eles, tendo assumido a voz e a forma de Mentor. Ulisses alegrou-se ao vê-la e disse: «Mentor, dá-me a tua ajuda, e não te esqueças do teu velho companheiro, nem dos muitos bons serviços que te prestei. Além disso, és meu contemporâneo.»
Mas em todo o momento ele tinha a certeza de que era Minerva, e os pretendentes do outro lado levantaram um alarido ao vê-la. Agelau foi o primeiro a repreendê-la. «Mentor», gritou, «não deixes que Ulisses te iluda e te ponha do seu lado, a combater os pretendentes. Eis o que faremos: depois de matarmos estes, pai e filho, mataremos também a ti. Pagarás com a cabeça, e quando te tivermos matado, tomaremos tudo o que tens, dentro ou fora de portas, e meteremos tudo no mesmo saco com os haveres de Ulisses; não deixaremos os teus filhos viverem na tua casa, nem as tuas filhas, nem a tua viúva continuará a viver na cidade de Ítaca.»
Isto enfureceu Minerva ainda mais, e repreendeu Ulisses com grande cólera. «Ulisses», disse ela, «a tua força e o teu valor já não são os que foram quando lutaste nove longos anos entre os Teucros por causa da nobre Helena. Muitos homens mataste nesses dias, e foi pela tua astúcia que a cidade de Príamo foi tomada. Como é que agora és tão lastimavelmente menos valente, no teu próprio solo, cara a cara com os pretendentes na tua própria casa? Anda, meu bom homem, põe-te ao meu lado e vê como Mentor, filho de Alcimo, combaterá os teus inimigos e te recompensará das finezas que lhe fizeste.»
Mas ela não lhe concedeu ainda a vitória completa, porque queria continuar a provar o seu próprio valor e o do seu valente filho; pelo que voou para cima de uma das vigas do tecto do claustro e ali se sentou, em forma de andorinha.
Entretanto Agelau, filho de Damastor, Eurínomo, Anfimedonte, Demoptólemo, Pisandro e Polibo, filho de Polictor, suportaram o peso da luta pelo lado dos pretendentes; de todos os que ainda combatiam pela vida, eram de longe os mais valentes, pois os outros já tinham caído sob as flechas de Ulisses. Agelau gritou-lhes e disse: «Amigos, ele terá de ceder em breve, porque Mentor foi-se embora depois de não lhe ter feito nada senar gabar-se. Eles estão ali parados junto às portas, sem apoio. Não lhe dispareis todos ao mesmo tempo, mas seis de vós atirem primeiro as lanças, e vede se não podeis cobrir-vos de glória matando-o. Quando ele cair, não precisamos de nos preocupar com os outros.»
Atiraram as lanças como ele ordenara, mas Minerva tornou-as todas sem efeito. Uma acertou no umbral da porta; outra foi contra a porta; o haste pontiagudo de outra bateu na parede; e, logo que evitaram todas as lanças dos pretendentes, Ulisses disse aos seus: «Amigos, eu diria que também nós devíamos disparar para o meio deles, senão coroarão todo o mal que nos têm feito, matando-nos de vez.»
Apontaram, pois, bem em frente e atiraram as lanças. Ulisses matou Demoptólemo, Telémaco Euriades, Eumeu Elato, e o boieiro matou Pisandro. Todos estes morderam o pó, e quando os outros recuaram para um canto, Ulisses e os seus homens avançaram e recuperaram as suas lanças, tirando-as dos corpos dos mortos.
Os pretendentes apontaram então uma segunda vez, mas outra vez Minerva tornou as suas armas, na sua maior parte, sem efeito. Uma acertou numa coluna de apoio do claustro; outra foi contra a porta; o haste pontiagudo de outra bateu na parede. Ainda assim, Anfimedonte mal tirou um pedaço de pele do pulso de Telémaco, e Ctesipo conseguiu raspar o ombro de Eumeu por cima do escudo; mas a lança continuou e caiu ao chão. Então Ulisses e os seus homens dispararam contra a multidão dos pretendentes. Ulisses acertou em Euridamas, Telémaco em Anfimedonte, e Eumeu em Polibo. Depois disto, o boieiro acertou a Ctesipo no peito e escarneceu-o, dizendo: «Filho de Politerses de boca suja, não sejas tão tolo a falar mal outra vez, mas deixa que o céu governe a tua palavra, porque os deuses são muito mais fortes que os homens. Esta prenda te faço, para te pagar o pé que deste a Ulisses quando ele andava a mendigar na sua própria casa.»
Assim falou o boieiro, e Ulisses feriu de perto com a lança o filho de Damastor, enquanto Telémaco atingiu Leócrito, filho de Evenor, no ventre, e o dardo atravessou-o de lado a lado, de modo que ele caiu de rosto no chão. Então Minerva, do seu assento na viga, ergueu a égide mortífera, e o coração dos pretendentes encolheu-se. Fugiram para a outra extremidade do pátio como um rebanho de bois enlouquecidos pelo moscardo no princípio do verão, quando os dias são os mais compridos. Assim como abutres de bico curvo e garras aduncos, vindos dos montes, se lançam sobre as aves menores que se acovardam em bandos pelo chão e as matam — pois elas não podem nem lutar nem fugir — e os que assistem gozam o espetáculo, do mesmo modo Ulisses e os seus homens caíram sobre os pretendentes e feriram-nos por todos os lados. Ergueram-se geminiços horrendos enquanto os miolos lhes eram esmagados, e o chão fumegava com o sangue deles.
Leodes então lançou-se aos joelhos de Ulisses e disse: «Ulisses, suplico-te que tenhas piedade de mim e me perdoes. Nunca ofendi nenhuma das mulheres da tua casa, nem em palavras nem em obras, e tentei impedir os outros. Vi-os, mas não quiseram ouvir-me, e agora pagam a sua loucura. Eu era o seu sacerdote sacrificador; se me matares, morrerei sem ter feito nada que o merecesse, e sem ter recebido gratidão por todo o bem que fiz.»
Ulisses fitou-o com olhar severo e respondeu: «Se eras o seu sacerdote sacrificador, deves ter muitas vezes rezado para que eu tardasse muito a voltar, e para que tu pudesses casar com a minha esposa e ter filhos dela. Por isso hás de morrer.»
Dizendo isto, apanhou a espada que Ágelao deixara cair ao ser morto, e que jazia no chão. Depois feriu Leodes na nuca, de modo que a cabeça dele rolou no pó enquanto ainda falava.
O aedo Fêmio, filho de Terpes — ele que fora forçado pelos pretendentes a cantar para eles — tentou agora salvar a vida. Estava de pé perto da porta de rede, e tinha a lira na mão. Não sabia se fugiria do claustro e se sentaria junto ao altar de Júpiter que ficava no pátio exterior, e sobre o qual tanto Laertes como Ulisses tinham oferecido as coxas de muitos bois, ou se iria direito a Ulisses e abraçaria os seus joelhos; mas por fim achou melhor abraçar os joelhos de Ulisses. Pousou então a lira no chão, entre a cratera e o assento cravejado de prata; depois, subindo até Ulisses, lançou mão dos seus joelhos e disse: «Ulisses, suplico-te que tenhas piedade de mim e me perdoes. Hás de arrepender-te depois se matares um bardo que pode cantar para deuses e homens como eu canto. Todos os meus cantos componho-os eu mesmo, e o céu me visita com toda a espécie de inspiração. Cantaria para ti como se fosses um deus; não tenhas pois tanta pressa de me cortar a cabeça. O teu próprio filho Telémaco te dirá que eu não queria frequentar a tua casa e cantar para os pretendentes depois das suas refeições, mas eles eram em número demasiado e demasiado fortes para mim, e obrigaram-me.»
Telémaco ouviu-o, e logo subiu ao encontro do pai. «Para!» gritou ele, «esse homem é inocente, não lhe faças mal; e pouparemos também Medon, que sempre foi bom para mim quando eu era menino, a não ser que Filoetio ou Eumeu já o tenham matado, ou que ele tenha caído no teu caminho enquanto andavas enfurecido pelo pátio.»
Medon apanhou estas palavras de Telémaco, pois estava agachado sob um assento debaixo do qual se escondera cobrindo-se com a pele de uma novilha acabada de esfolar; então atirou a pele fora, subiu ao encontro de Telémaco e lançou mão dos seus joelhos.
«Aqui estou, meu senhor», disse ele, «suspende pois a tua mão, e diz ao teu pai, senão ele me mata na sua cólera contra os pretendentes por lhe terem consumido os bens e faltado tão loucamente ao respeito que te é devido.»
Ulisses sorriu para ele e respondeu: «Não temas; Telémaco salvou-te a vida, para que saibas doravante, e digas aos outros, quão muito melhor prosperam as boas obras do que as más. Vai, pois, para fora do claustro, para o pátio exterior, e fica fora do alcance da carnificina — tu e o aedo — enquanto eu termino aqui dentro a minha tarefa.»
Os dois saíram para o pátio exterior o mais depressa que puderam, e sentaram-se junto ao grande altar de Júpiter, olhando assustados em redor e esperando ainda que os matassem. Então Ulisses percorreu todo o pátio com cuidado, para ver se alguém conseguira esconder-se e ainda vivia, mas achou-os a todos jazendo no pó e a espojar-se no próprio sangue. Pareciam peixes que os pescadores tinham retirado do mar com a rede e lançado na praia a arquejar por água até que o calor do sol lhes desse cabo. Assim mesmo jaziam os pretendentes, amontoados uns contra os outros.
Então Ulisses disse a Telémaco: «Chama a ama Euricleia; tenho algo a dizer-lhe.»
Telémaco foi e bateu à porta do quarto das mulheres. «Depressa», disse ele, «tu, velha, a quem foi confiada a vigilância de todas as outras mulheres da casa. Sai para fora; meu pai quer falar-te.»
Quando Euricleia ouviu isto, abriu a porta do quarto das mulheres e saiu, seguindo Telémaco. Encontrou Ulisses entre os cadáveres, besuntado de sangue e imundície como um leão que acabou de devorar um boi, com o peito e ambas as faces cheios de sangue, de modo que era um espetáculo medonho; assim mesmo estava Ulisses enlameado da cabeça aos pés com sangue. Quando ela viu todos os cadáveres e tanta quantidade de sangue, ia começar a gritar de alegria, porque via que uma grande obra fora feita; mas Ulisses deteve-a: «Velha», disse ele, «alegra-te em silêncio; contém-te e não alardes; é coisa ímpia vangloriar-se sobre homens mortos. O destino do céu e as suas próprias maldades conduziram estes homens à destruição, pois não respeitavam homem nenhum no mundo inteiro, nem rico nem pobre, que deles se aproximasse, e tiveram um mau fim como castigo da sua maldade e loucura. Agora, porém, diz-me quais das mulheres da casa se portaram mal e quais são inocentes.»
«Vou-te dizer a verdade, meu filho», respondeu Euricleia. «Há cinquenta mulheres na casa a quem ensinamos a fazer coisas, tais como cardar lã e todo o género de trabalhos domésticos. De entre elas, doze ao todo se portaram mal e faltaram ao respeito para comigo e também para com Penélope. Para com Telémaco não mostraram falta de respeito, porque só há pouco cresceu e a sua mãe nunca lhe permitiu dar ordens às servas; mas deixa-me ir ao quarto de cima e contar à tua esposa tudo o que aconteceu, pois algum deus a tem estado a fazer dormir.»
«Não a acordes ainda», respondeu Ulisses, «mas dize às mulheres que se portaram mal que venham ter comigo.»
Euricleia saiu do claustro para dizer às mulheres e mandá-las vir ter com Ulisses; entretanto ele chamou Telémaco, o boieiro e o porqueiro. «Começai», disse ele, «por remover os mortos e fazei que as mulheres vos ajudem. Depois trazei esponjas e água limpa para lavar as mesas e os assentos. Quando tiverdes limpo todo o claustro a fundo, levai as mulheres para o espaço entre a sala abobadada e a parede do pátio exterior, e passai-as com as espadas até que estejam bem mortas e tenham esquecido todo o amor e a maneira como costumavam deitar-se em segredo com os pretendentes.»
Então as mulheres desceram em grupo, chorando e gemendo amargamente. Primeiro carregaram os corpos mortos para fora e encostaram-nos uns aos outros no pórtico. Ulisses asseverou-as e fê-las trabalhar depressa, de modo que tiveram de levar os corpos para fora. Quando acabaram isto, limparam todas as mesas e assentos com esponjas e água, enquanto Telémaco e os outros dois apanharam com pás o sangue e a sujidade do chão, e as mulheres levaram tudo para fora e puseram-no à porta. Depois, quando tornaram todo o lugar limpo e em ordem, levaram as mulheres para fora e fecharam-nas no espaço estreito entre a parede da sala abobadada e a do pátio, de modo que não pudessem fugir; e Telémaco disse aos outros dois: «Não deixarei que estas mulheres morram de morte limpa, porque foram insolentes para comigo e com a minha mãe, e costumavam dormir com os pretendentes.»
Dizendo isto, prendeu um cabo de navio a um dos esteios que sustinham o tecto da sala abobadada e amarrou-o em volta do edifício, a boa altura, para que os pés de nenhuma das mulheres tocassem no chão; e como tordos ou pombos batem contra uma rede que lhes foi armada no silvado precisamente quando iam chegar ao ninho, e um destino terrível os espera, assim mesmo tiveram as mulheres de meter uma a uma a cabeça nos laços e morrer miseravelmente. Os pés delas agitaram-se convulsivamente por algum tempo, mas não por muito.
Quanto a Melântio, levaram-no através do claustro para o pátio interior. Ali cortaram-lhe o nariz e as orelhas; arrancaram-lhe as entranhas e deram-nas aos cães em bruto, e depois, na sua fúria, cortaram-lhe as mãos e os pés.
Quando acabaram isto, lavaram as mãos e os pés e voltaram para a casa, pois tudo estava terminado; e Ulisses disse à estimada ama Euricleia: «Traz-me enxofre, que purifica toda a污染, e busca também fogo para que eu o queime e purifique os claustros. Vai, além disso, e dize a Penélope que venha aqui com as suas servas e também com todas as criadas que estão na casa.»
«Tudo o que disseste é verdade», respondeu Euricleia, «mas deixa-me trazer-te algumas roupas limpas — uma túnica e um manto. Não continues com estes farrapos nas costas. Não é justo.»
«Primeiro acende-me uma fogueira», replicou Ulisses.
Ela trouxe a fogueira e o enxofre, como ele mandara, e Ulisses purificou a fundo o claustro e tanto o pátio interior como o exterior. Depois ela entrou para chamar as mulheres e dizer-lhes o que acontecera; whereupon elas saíram do seu aposento com tochas nas mãos e apertaram-se em volta de Ulisses para o abraçar, beijando-lhe a cabeça e os ombros e tomando-lhe as mãos. Isso fê-lo sentir como se lhe apetecesse chorar, porque se lembrava de cada uma delas.
LIVRO XXIII
PENÉLOPE RECONHECE FINALMENTE O MARIDO — DE MADRUGADA, ULISSES, TELÉMACO, EUMEU E FILOETIO SAEM DA CIDADE.
Euricleia subiu agora as escadas a rir, para dizer à sua senhora que o seu querido marido voltara a casa. Os joelhos idosos tornaram-se jovens de novo e os pés ficaram ligeiros de alegria, enquanto subia para a sua senhora e se inclinava sobre a cabeça dela para lhe falar. «Acorda, Penélope, minha querida filha», exclamou ela, «e vê com os teus próprios olhos aquilo que há tanto tempo desejavas. Ulisses afinal voltou mesmo a casa e matou os pretendentes que tantos transtornos causavam na sua casa, comendo-lhe os haveres e maltratando o filho.»
«Minha boa ama», respondeu Penélope, «deves ter enlouquecido. Os deuses por vezes tiram o juízo a pessoas muito ajuizadas e tornam ajuizadas pessoas loucas. Foi isso que devem ter feito contigo; porque sempre foste uma pessoa razoável. Porque te hás de estar assim a escarnecer de mim quando já tenho tristezas de sobra — a dizer tais disparates e a acordar-me de um sono doce que se tinha apoderado dos meus olhos e os fechara? Nunca dormi tão profundamente desde o dia em que o meu pobre marido partiu para aquela cidade de nome maldito. Volta outra vez para o quarto das mulheres; se fosse outra pessoa quem me tivesse acordado para me trazer uma tal notícia absurda, tê-la-ia mandado embora com uma severa repreensão. Como é, a tua idade te protegerá.»
«Minha querida filha», respondeu Euricleia, «não estou a escarnecer de ti. É bem verdade como te digo que Ulisses voltou a casa. Ele era o estrangeiro que todos tratavam tão mal no claustro. Telémaco soube sempre que ele tinha voltado, mas guardou o segredo do pai para que ele pudesse vingar-se de toda essa gente perversa.»
Então Penélope saltou do leito, lançou os braços em volta de Euricleia e chorou de alegria. «Mas minha querida ama», disse ela, «explica-me isto; se ele realmente voltou a casa como dizes, como conseguiu vencer sozinho os perversos pretendentes, sendo certo que eram sempre tantos?»
«Eu não estava lá», respondeu Euricleia, «e não sei; apenas os ouvi gemir enquanto eram mortos. Sentámo-nos agachadas e encolhidas num canto do quarto das mulheres com as portas fechadas, até o teu filho vir chamar-me porque o pai o mandou. Então encontrei Ulisses de pé por cima dos cadáveres que jaziam no chão à volta dele, uns em cima dos outros. Terias gostado de o ver ali de pé, todo besuntado de sangue e imundície, parecendo-se exactamente com um leão. Mas os cadáveres estão agora todos amontoados no pórtico que fica no pátio exterior, e Ulisses acendeu um grande fogo para purificar a casa com enxofre. Enviou-me para te chamar; vem comigo, para que ambos sejais felizes depois de tudo; pois agora por fim o desejo do teu coração se cumpriu; o teu marido voltou para encontrar vivos e de boa saúde a esposa e o filho, e para se vingar na sua própria casa dos pretendentes que tão mal se portaram para com ele.»
«Minha querida ama», disse Penélope, «não te regozijos com demasiada confiança de tudo isto. Sabes como todos ficariam contentes por ver Ulisses voltar a casa — mais particularmente eu, e o filho que ambos tivemos; mas o que me contas não pode ser verdadeiramente real. É algum deus que está irado com os pretendentes pela sua enorme perversidade e lhes deu cabo; pois não respeitavam homem nenhum no mundo inteiro, nem rico nem pobre, que deles se aproximasse, e tiveram um mau fim em consequência da sua iniquidade; Ulisses está morto longe da terra dos Aqueus; nunca mais voltará a casa.»
Então a ama Euricleia disse: «Minha filha, que estás tu a dizer? mas sempre foste dura de crença e fizeste o teu juízo de que o teu marido nunca mais vinha, embora esteja na casa e junto à sua própria lareira neste preciso momento. Além disso posso dar-te outra prova: quando o lavava, percebi a cicatriz que o javali lhe fez, e queria contar-to, mas ele na sua sabedoria não mo permitiu e tapou-me a boca com as mãos; vem comigo e farei este trato contigo — se te estiver a enganar, poderás mandar matar-me da morte mais cruel que te ocorrer.»
«Minha querida ama», disse Penélope, «por mais sábia que sejas, mal poderás sondar os desígnios dos deuses. Contudo, vamos em busca do meu filho, para que eu veja os cadáveres dos pretendentes e o homem que os matou.»
Com isto ela desceu do seu quarto de cima, e ao fazê-lo considerou se havia de ficar à distância do marido e interrogá-lo, ou se havia de ir logo ao encontro dele e abraçá-lo. Quando, porém, atravessou o pavimento de pedra do claustro, sentou-se em frente de Ulisses junto ao fogo, contra a parede em ângulo recto [com aquela por onde entrara], enquanto Ulisses se sentava perto de um dos esteios, olhando para o chão e esperando para ver o que a sua valorosa esposa lhe diria quando o visse. Durante muito tempo ela ficou sentada em silêncio e como que perdida em assombro. Num momento fitou-o bem de frente, mas logo a seguir, directamente, deixava-se enganar pelas suas roupas andrajosas e não conseguia reconhecê-lo, até que Telémaco começou a repreendê-la e disse:
«Mãe — mas tu és tão dura que não te posso chamar por tal nome — porque te afastas assim do meu pai? Porque te não sentas ao lado dele e começas a falar com ele e a fazer-lhe perguntas? Nenhuma outra mulher poderia suportar manter-se longe do marido quando ele lhe regressara após vinte anos de ausência e depois de ter passado por tantas coisas; mas o teu coração sempre foi tão duro como uma pedra.»
Penélope respondeu: «Meu filho, estou tão perdida de espanto que não encontro palavras nem para fazer perguntas nem para responder. Nem sequer o consigo olhar de frente. Ainda assim, se ele é realmente Ulisses de volta à sua própria casa, acabaremos por nos entender melhor um com o outro, pois há sinais com que só nós dois estamos inteiramente familiarizados e que estão ocultos de todos os outros.»
Ulisses sorriu com isto e disse a Telémaco: «Deixa que a tua mãe me ponha à prova como quiser; ela decidirá daqui a pouco. Rejeita-me por agora e acredita que sou outra pessoa, porque estou coberto de sujidade e tenho tão más roupas; consideremos, porém, o que será melhor fazermos a seguir. Quando um homem mata outro — mesmo que não fosse dos que deixam muitos amigos para vingar a sua causa — o homem que o matou tem ainda de despedir-se dos amigos e fugir do país; ao passo que nós matámos o esteio de uma cidade inteira e toda a flor da mocidade de Ítaca. Quisera que considerasses este assunto.»
«Olha tu por isso, pai», respondeu Telémaco, «pois dizem que és o mais sábio conselheiro do mundo e que não há outro mortal que se possa comparar contigo. Seguir-te-emos com muito boa vontade, nem nos verás falhar na medida em que as nossas forças aguentarem.»
«Direi o que me parece melhor», respondeu Ulisses. «Primeiro lavai-vos e vesti as túnicas; dizei também às criadas que vão para o seu quarto e se vistam; Fêmio então fará soar na lira uma melodia de dança, para que se alguém de fora ouvir, ou algum vizinho, ou alguém que vá pela rua dê pelo caso, possa pensar que há um banquete de boda na casa, e não corram rumores sobre a morte dos pretendentes pela cidade antes de podermos fugir para os bosques, na minha própria terra. Uma vez lá, decidiremos qual dos rumos que o céu nos conceder nos parecer mais sábio.»
Assim falou, e eles fizeram mesmo como ele dissera. Primeiro lavaram-se e vestiram as túnicas, enquanto as mulheres se aprontavam. Depois Fêmio tomou a lira e fê-los a todos ansiar por doce canto e dança majestosa. A casa ecoou com o som dos homens e mulheres que dançavam, e o povo de fora disse: «Suponho que a rainha afinal se casou. Devia ter vergonha de si mesma por não ter continuado a proteger os bens do marido até ele voltar a casa.»
Assim falavam eles, mas não sabiam o que acontecera. A criada Eurínome lavou e perfumou Ulisses em sua própria casa e deu-lhe uma túnica e um manto, enquanto Minerva o fez parecer mais alto e mais forte do que antes; fêz também o cabelo crescer espesso no topo da cabeça e cair em madeixas como flores de jacinto; glorificou-o da cabeça aos ombros, tal como um artífice hábil, que estudou todas as artes sob Vulcano e Minerva — e a sua obra é cheia de beleza — enriquece uma peça de prata dourando-a. Ele saiu do banho com ar de um dos imortais e sentou-se diante da esposa no assento que havia deixado. — Minha cara — disse ele —, o céu dotou-te de um coração mais inflexível do que qualquer mulher jamais teve. Nenhuma outra mulher suportaria manter-se longe do marido, quando ele regressou depois de vinte anos de ausência e depois de ter passado por tantas provações. Mas vamos, ama, prepara-me uma cama; dormirei sozinho, pois esta mulher tem um coração duro como ferro.
— Meu caro — respondeu Penélope —, não tenho vontade de me exaltar nem de te diminuir; mas não me impressiona a tua aparência, pois lembro-me muito bem do homem que eras quando zarpaste de Ítaca. Contudo, Euricleia, leva a cama dele para fora do quarto que ele próprio construiu. Leva a cama para fora deste aposento e põe sobre ela colchões de lã, boas cobertas e mantas.
Disse isto para o pôr à prova, mas Ulisses ficou muito indignado e disse: — Esposa, muito me desagrada o que acabaste de dizer. Quem tirou a minha cama do lugar onde a deixei? Terá achado uma tarefa árdua, por mais hábil artífice que fosse, a menos que algum deus tivesse vindo ajudá-lo a deslocá-la. Não há homem vivo, por mais forte e no vigor da idade, que conseguisse movê-la do seu lugar, pois é uma maravilha que eu fiz com as minhas próprias mãos. Havia uma oliveira jovem crescendo dentro do recinto da casa, em pleno vigor, e tão grossa como um poste que sustenta telhado. Construí o meu quarto à volta dela, com paredes fortes de pedra e um tecto por cima, e fiz as portas sólidas e bem ajustadas. Depois cortei os ramos de cima da oliveira e deixei o tronco de pé. A partir desse tronco, trabalhando de baixo para cima com ferramentas de carpinteiro, bem e com habilidade, endireitando o trabalho com um traço traçado na madeira, fiz dele um pé de cama. Depois perfurei um furo no meio e fiz dele a coluna central da minha cama, na qual trabalhei até a terminar, embutindo-a de ouro e de prata; depois estendi uma pele de couro cor de púrpura de um lado ao outro. Assim vês que eu sei tudo a respeito dela, e desejo saber se ainda lá está, ou se alguém a removeu cortando a oliveira pela raiz.
Quando ouviu os sinais certos que Ulisses agora lhe dava, ela desfaleceu. Correu a chorar para o lado dele, lançou-lhe os braços ao pescoço e beijou-o. — Não te irrites comigo, Ulisses — exclamou ela —, tu, que és o mais sábio dos mortais. Ambos sofremos. O céu negou-nos a felicidade de passar juntos a juventude e de envelhecer juntos; não te aflijas nem leves a mal que não te tenha abraçado assim mal te vi. Estive a tremer o tempo todo, com medo de que alguém viesse aqui e me enganasse com uma história mentirosa; pois há muitas pessoas muito perversas por aí. A filha de Jove, Helena, jamais se teria entregado a um homem de país estrangeiro, se soubesse que os filhos dos Aqueus viriam atrás dela e a trariam de volta. O céu lhe pôs no coração que fizesse o mal, e ela não pensou nesse pecado, que foi a fonte de todas as nossas dores. Agora, porém, que me convenceste ao mostrares que sabes tudo a respeito da nossa cama (que nenhum mortal jamais viu, excepto tu e eu e uma única criada, filha de Actor, que meu pai me deu no meu casamento e que guarda as portas do nosso quarto) — por mais difícil de crer que eu tenha sido, já não posso duvidar.
Então Ulisses, por seu turno, comoveu-se e chorou enquanto estreitava contra o peito a sua querida e fiel esposa. Como é bem-vinda a vista da terra aos homens que nadam em direcção à praia, quando Neptuno destruiu o seu navio com a fúria dos seus ventos e das suas ondas; apenas uns poucos alcançam a terra, e estes, cobertos de água salgada, agradecem quando se encontram em terreno firme e fora de perigo — assim o marido lhe era bem-vindo ao vê-lo, e ela não conseguia desatar os seus formosos braços do pescoço dele. Teriam continuado a entregar-se à dor até que a Aurora de dedos rosados aparecesse, se Minerva não tivesse decidido de outro modo, e tivesse detido a noite no longínquo ocidente, enquanto não permitia que a Aurora deixasse Oceano, nem que atrelasse os dois corceis Lampo e Faetonte, que a levam para trás a fim de romper o dia sobre os homens.
Por fim, porém, Ulisses disse: — Esposa, ainda não chegámos ao fim dos nossos males. Tenho ainda uma quantidade desconhecida de trabalhos a enfrentar. É longo e difícil, mas tenho de ir até ao fim, pois assim o espírito de Tirésias profetizou a meu respeito, no dia em que desci ao Hades para perguntar pelo meu regresso e pelo dos meus companheiros. Mas agora vamos para a cama, para nos deitarmos e gozarmos a bênção abençoada do sono.
— Irás para a cama quando quiseres — respondeu Penélope —, agora que os deuses te enviaram para casa à tua própria casa e à tua terra. Mas, como o céu te pôs no coração falar nisso, conta-me a tarefa que te espera. Hei-de ouvi-la mais tarde, de modo que é melhor que ma digas já.
— Minha cara — respondeu Ulisses —, por que me hás-de pressionar a contar-te? Ainda assim, não to ocultarei, embora não te agrade. Também não me agrada a mim, pois Tirésias mandou-me viajar longe e por toda a parte, levando um remo, até chegar a um país onde o povo nunca ouviu falar do mar e nem sequer mistura sal nos alimentos. Nada sabem de navios nem de remos que são como asas de um navio. Ele deu-me este sinal certo, que não te esconderei. Disse que um viajante me haveria de encontrar e me perguntaria se era uma pá de joeirar a que eu trazia ao ombro. Então eu havia de cravar o meu remo no chão e sacrificar a Neptuno um carneiro, um touro e um javali; depois havia de voltar para casa e oferecer hecatombes a todos os deuses do céu, uma após outra. Quanto a mim, disse que a morte me viria do mar, e que a minha vida escoar-se-ia muito suavemente, quando estivesse cheio de anos e em paz de espírito, e o meu povo me haveria de bendizer. Tudo isto, disse ele, haveria de acontecer com certeza.
E Penélope disse: — Se os deuses te vão garantir um tempo mais feliz na tua velhice, podes então esperar ter algum descanso das desventuras.
Assim conversavam. Entretanto Eurínome e a ama pegaram em tochas e prepararam a cama com cobertas macias; logo que as dispuseram, a ama voltou para dentro da casa para ir repousar, deixando a criada do quarto, Eurínome, para guiar Ulisses e Penélope até à cama à luz das tochas. Quando os conduziu ao quarto, retirou-se, e então eles vieram jubilosos para os ritos do seu antigo leito. Telémaco, Filécio e o porqueiro cessaram de dançar e fizeram as mulheres pararem também. Depois deitaram-se a dormir nos claustros.
Quando Ulisses e Penélope se fartaram de amor, puseram-se a falar um com o outro. Ela contou-lhe quanto tivera de suportar ao ver a casa cheia de uma multidão de pretendentes perversos que haviam morto tantas ovelhas e bois por causa dela, e haviam bebido tantas vasilhas de vinho. Ulisses, por seu turno, contou-lhe o que sofrera e quanto trabalho ele próprio dera a outras pessoas. Contou-lhe tudo, e ela ficou tão deliciada a ouvir que nunca adormeceu até ele ter terminado toda a sua narrativa.
Começou pela vitória sobre os Cícones, e como daí alcançara a terra fecunda dos Lotófagos. Contou-lhe tudo sobre o Ciclope e como o castigara por ter comido sem piedade os seus bravos companheiros; como depois seguira para Éolo, que o acolheu com hospitalidade e o ajudou no caminho, mas mesmo assim não chegou a casa, pois para sua grande dor um furacão o levou de novo para o mar; como prosseguiu até à cidade dos Lestrigões, Telépilos, onde o povo destruiu todos os seus navios com as tripulações, excepto ele e o seu próprio navio. Contou então da astuta Circe e dos seus ardis, e como navegou até a fria morada de Hades para consultar o espírito do profeta tebano Tirésias, e como viu os seus antigos companheiros de armas, e a sua mãe que o deu à luz e o criou quando era criança; como depois ouviu o maravilhoso canto das Sereias, e seguiu para os rochedos errantes e a terrível Caríbdis e para Cila, que nenhum homem jamais ultrapassara em segurança; como os seus homens depois comeram o gado do deus sol, e como Jove por isso feriu o navio com os seus raios, de modo que todos os seus homens pereceram juntos, ficando ele sozinho com vida; como por fim chegou à ilha Ogígia e à ninfa Calipso, que o manteve numa gruta e o alimentou, e queria que ele a desposasse, caso em que tencionava torná-lo imortal para que nunca envelhecesse, mas ela não o pôde persuadir a deixar que o fizesse; e como depois de muito sofrimento encontrara o caminho para os Feácios, que o haviam tratado como se fosse um deus, e o haviam mandado de volta num navio para a sua própria terra, depois de lhe terem dado ouro, bronze e vestuário em grande abundância. Esta foi a última coisa que lhe contou, pois aqui um sono profundo se apoderou dele e aliviou o peso das suas tristezas.
Então Minerva lembrou-se de outra coisa. Quando considerou que Ulisses tinha gozado tanto da esposa como do repouso, mandou que a Aurora de trono de ouro se erguesse de Oceano para derramar luz sobre os homens. Então Ulisses levantou-se da sua cama confortável e disse a Penélope: — Esposa, ambos já tivemos a nossa parte de males, tu, aqui, a lamentar a minha ausência, e eu a ser impedido de chegar a casa, embora ansiasse o tempo todo por fazê-lo. Agora, porém, que enfim estamos juntos, cuida dos bens que estão na casa. Quanto às ovelhas e cabras que os perversos pretendentes comeram, eu próprio tomarei muitas à força de outras pessoas, e obrigarei os Aqueus a reporem o resto até encherem todos os meus currais. Vou agora para as terras arborizadas no campo, para ver o meu pai, que tanto tempo se tem afligido por minha causa; e a ti darei estas instruções, embora pouco delas precises. Ao nascer do sol, logo se espalhará a notícia de que eu matei os pretendentes; sobe portanto ao andar de cima e fica lá com as tuas mulheres. Não vejas ninguém nem faças perguntas.
Enquanto falava, cingiu a armadura. Depois despertou Telémaco, Filécio e Eumeu, e disse-lhes que vestissem também a armadura. Assim fizeram e armaram-se. Quando terminaram, abriram os portões e saíram, Ulisses à frente. Era já dia, mas Minerva, mesmo assim, ocultou-os na escuridão e levou-os rapidamente para fora da cidade.
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LIVRO XXIV
AS ALMAS DOS PRETENDENTES NO HADES — ULISSES E OS SEUS HOMENS VÃO À CASA DE LAERTE — O POVO DE ÍTACA SAI PARA ATACAR ULISSES, MAS MINERVA CONCLUI UMA PAZ.
Então Mercúrio de Cilene convocou as almas dos pretendentes, e na mão trazia a bela varinha de ouro com que fecha os olhos dos homens no sono ou os desperta como lhe apraz; com ela despertou as almas e guiou-as, enquanto elas o seguiam ganindo e tagarelando atrás dele. Como morcegos voam guinchando no oco de alguma grande gruta, quando um deles caiu do aglomerado em que se penduram, assim ganiam e guinchavam as almas, enquanto Mercúrio, o curador de tristezas, as conduzia para a morada escura da morte. Quando atravessaram as águas de Oceano e o rochedo Leucas, chegaram aos portões do sol e à terra dos sonhos, onde alcançaram a pradaria de asfódelos, onde habitam as almas e sombras daqueles que já não podem trabalhar.
Aqui encontraram a alma de Aquiles, filho de Peleu, com as de Pátroclo, Antíloco e Ájax, que era o mais belo e formoso de todos os Dânaos depois do filho de Peleu.
Reuniram-se em volta da alma do filho de Peleu, e a alma de Agamémnon juntou-se a elas, amargamente aflita. Em volta dele estavam também reunidas as almas dos que haviam perecido com ele na casa de Egisto; e a alma de Aquiles falou primeiro.
— Filho de Atreu — disse —, costumávamos dizer que Jove te amara mais, do princípio ao fim, do que a qualquer outro herói, pois eras capitão de muitos e bravos homens, quando combatíamos todos juntos diante de Troia; contudo, a mão da morte, de que nenhum mortal pode escapar, se abateu sobre todos vós cedo demais. Melhor para ti terias caído em Troia no auge da tua glória, pois os Aqueus teriam erguido um túmulo sobre as tuas cinzas, e teu filho teria sido herdeiro do teu bom nome; mas o teu destino foi vires a um fim miserabilíssimo.
— Ditoso filho de Peleu — respondeu a alma de Agamémnon —, por teres morrido em Troia longe de Argos, enquanto os mais bravos dos Troianos e dos Aqueus caíam à tua volta a lutar pelo teu corpo. Ali jazias nos turbilhões de poeira, enorme e imenso, indiferente agora à tua cavalaria. Luta-mos o dia inteiro, e jamais teríamos parado se Jove não tivesse enviado um furacão para nos conter. Então, quando te levámos do combate para os navios, depusemo-te no teu leito e limpámos a tua formosa pele com água morna e unguentos. Os Dânaos arrancavam os cabelos e choravam amargamente à tua volta. Tua mãe, quando soube, veio com as suas ninfas imortais do seio do mar, e o som de um grande lamento espalhou-se sobre as águas, de modo que os Aqueus tremeram de medo. Teriam fugido em pânico para os navios, se o prudente velho Nestor, cujo conselho era sempre o mais justo, os não tivesse contido, dizendo: «Detende-vos, Argivos, não fujais, filhos dos Aqueus; esta é a mãe dele que vem do mar com as suas ninfas imortais para ver o corpo do filho.»
— Assim falou, e os Aqueus não mais temeram. As filhas do velho do mar puseram-se à tua volta a chorar amargamente, e cobriram-te de vestes imortais. As nove musas também vieram e levantaram as suas doces vozes em lamento — chamando e respondendo umas às outras; não havia um Argivo que não chorasse por piedade do canto fúnebre que entoavam. Durante dezassete dias, noites e dias, te chorámos, mortais e imortais, mas no décimo oitavo dia entregámo-te às chamas, e muitas ovelhas gordas com muitos bois sacrificámos à tua volta. Foste queimado em vestes dos deuses, com resinas preciosas e com mel, enquanto heróis, a cavalo e a pé, faziam ressoar as suas armas à volta da pira enquanto ardias, com um estrondo como de uma grande multidão. Mas quando as chamas do céu cumpriram o seu trabalho, recolhemos os teus brancos ossos ao amanhecer e depusemo-los em unguentos e em vinho puro. Tua mãe trouxe-nos um vaso de ouro para guardá-los — prenda de Baco e obra do próprio Vulcano; nele misturámos os teus ossos descorados com os de Pátroclo, que te havia precedido, e à parte encerrámos também os de Antíloco, que te fora mais chegado do que qualquer outro dos teus companheiros, agora que Pátroclo já não existia.
— Sobre estes o exército dos Argivos ergueu um túmulo nobre, num promontório que avança sobre o aberto Helesponto, para que fosse visto de longe no mar por aqueles que agora vivem e pelos que hão-de nascer depois. Tua mãe pediu prémios aos deuses e ofereceu-os para que os mais nobres dos Aqueus disputassem. Terás estado presente nos funerais de muitos heróis, quando os jovens se cingem e se preparam para contender por prémios por causa da morte de algum grande chefe; mas jamais viste tais prémios como os que Tétis de pés de prata ofereceu em tua honra; pois os deuses te amavam bem. Assim, mesmo na morte, a tua fama, Aquiles, não se perdeu, e o teu nome vive para sempre entre todos os homens. Quanto a mim, que consolação tive eu, quando os dias do meu combate terminaram? Pois Jove quis a minha destruição no meu regresso, pelas mãos de Egisto e da minha perversa esposa.
Assim conversavam, e logo Mercúrio se lhes acercou com as almas dos pretendentes que haviam sido mortos por Ulisses. As almas de Agamémnon e de Aquiles ficaram maravilhadas ao vê-las e logo se aproximaram delas. A alma de Agamémnon reconheceu Anfimedonte, filho de Melaneu, que vivia em Ítaca e fora seu hóspede, e por isso começou a falar-lhe.
— Anfimedonte — disse —, que vos aconteceu a todos vós, jovens tão formosos — todos da mesma idade —, para que tenhais descido aqui sob a terra? Não se poderia escolher melhor grupo de homens em nenhuma cidade. Foi Neptuno que levantou os seus ventos e ondas contra vós quando estáveis no mar, ou foram os vossos inimigos que vos mataram em terra, quando roubáveis gado ou ovelhas, ou enquanto lutáveis na defesa das suas mulheres e da sua cidade? Responde à minha pergunta, pois eu fui teu hóspede. Não te lembras de como vim à tua casa com Menelau para persuadir Ulisses a juntar-se a nós com os seus navios contra Troia? Foi um mês inteiro antes que pudéssemos prosseguir a nossa viagem, pois tivemos muito trabalho para persuadir Ulisses a vir connosco.
E o fantasma de Anfimedonte respondeu: «Agamémnon, filho de Atreu, rei dos homens, lembro-me de tudo o que disseste e contar-te-ei inteira e fielmente o modo como sobreveio o nosso fim. Ulisses partira havia muito, e nós cortejávamos a sua esposa, que não dizia abertamente que não casaria, nem porém punha cobro ao assunto, pois intentava tramar a nossa destruição: este foi, pois, o ar dil que ela nos pregou. Armou um grande bastidor no seu quarto e pôs-se a trabalhar numa enorme peça de fino bordado. "Amados", disse ela, "embora Ulisses de facto tenha morrido, não me apresseis a casar de novo imediatamente; esperai — pois não quero que a minha habilidade no bordado pereça sem memória — até que eu tenha completado um pano funeral para o herói Laertes, para quando a morte o levar. Ele é muito rico, e as mulheres da terra hão-de murmurar se ele for sepultado sem pano funeral." Foi isto o que ela disse, e nós concordámos; pelo que pudemos vê-la a trabalhar na sua grande teia todo o dia, mas de noite, à luz das tochas, desmanchava os pontos. Enganou-nos assim durante três anos sem que déssemos pelo logro, mas com o correr do tempo, já no quarto ano, na quadratura das luas e depois de muitos dias cumpridos, uma das suas criadas, que sabia o que ela fazia, nos revelou o estratagema, e nós apanhámo-la em flagrante a desfazer o trabalho, pelo que ela teve de acabá-lo querendo ou não; e quando nos mostrou a túnica que fizera, depois de a mandar lavar, o seu resplendor era como o do sol ou o da lua.
»Depois alguma divindade maléfica conduziu Ulisses até à quinta da serra onde vive o seu porqueiro. Aí chegou também em seguida o seu filho, de regresso de uma viagem a Pilos, e ambos vieram à cidade depois de terem engendrado o plano da nossa destruição. Telémaco veio primeiro, e depois dele, acompanhado do porqueiro, veio Ulisses, envolto em andrajos e apoiado num bordão, como se fosse um miserável velho mendigo. Veio tão de improviso que nenhum de nós o reconheceu, nem sequer os mais velhos entre nós, e ultrajámo-lo e atirámos-lhe coisas. Ele suportou tanto os golpes como os insultos sem uma palavra, embora estivesse na sua própria casa; mas quando a vontade de Jove que traz a égide o inspirou, ele e Telémaco tomaram as armas e esconderam-nas num aposento interior, fechando as portas atrás de si. Então, astutamente, fez a sua esposa propor o seu arco e uma porção de ferros para serem disputados por nós, desgraçados pretendentes; e este foi o começo do nosso fim, pois nenhum de nós conseguiu tensionar o arco — nem quase consegui-lo. Quando estava prestes a chegar às mãos de Ulisses, todos nós gritámos que não lhe fosse entregue, dissesse ele o que dissesse, mas Telémaco insistiu em que ele o tivesse. Quando o teve nas mãos, armou-o com facilidade e disparou a sua flecha através do ferro. Então pôs-se no chão do claustro e derramou as flechas pelo chão, lançando olhares ferozes em torno. Matou primeiro Antínoo, e depois, apontando bem em frente, disparou os seus dardos mortíferos e eles caíram uns sobre os outros em abundância. Era manifesto que algum dos deuses os ajudava, pois caíram sobre nós com todo o vigor por todos os claustros, e houve um som horrendo de gemidos enquanto os nossos cérebros eram esmagados, e o chão borbulhava com o nosso sangue. Assim, Agamémnon, foi como sobreveio o nosso fim, e os nossos corpos jazem ainda sem cuidados na casa de Ulisses, pois os nossos amigos em casa ainda não sabem o que sucedeu, de modo que não nos podem preparar e lavar o negro sangue das feridas, gemendo sobre nós segundo os ritos devidos aos que partiram.»
«Ditoso Ulisses, filho de Laertes», replicou o fantasma de Agamémnon, «sois deveras abençoado na posse de uma esposa dotada de tão rara excelência de entendimento, e tão fiel ao seu legítimo esposo como Penélope, a filha de Icário. A fama da sua virtude, portanto, jamais morrerá, e os imortais comporão um cântico que será bem-vindo a todos os homens em honra da constância de Penélope. Quão diferente foi a maldade da filha de Tindareu, que matou o seu legítimo marido; o seu cântico será odioso entre os homens, pois trouxe desonra sobre todo o sexo feminino, até sobre as boas.»
Assim conversavam na casa de Hades, bem no fundo das entranhas da terra. Entretanto Ulisses e os outros saíram da cidade e em breve alcançaram a bela e bem cultivada quinta de Laertes, que ele havia recuperado com infinito labor. Ali ficava a sua casa, com um alpendre que a rodeava, onde os escravos que trabalhavam para ele dormiam, se sentavam e comiam, enquanto dentro da casa havia uma velha siciliana, que dele cuidava naquela sua quinta rural. Quando Ulisses ali chegou, disse ao filho e aos outros dois:
«Ide à casa e matai o melhor porco que encontrardes para o jantar. Entretanto quero ver se o meu pai me reconhece, ou se deixa de me reconhecer após tão longa ausência.»
Então despiu a sua armadura e deu-a a Eumeu e Filóteu, que seguiram diretamente para a casa, enquanto ele se desviou para a vinha para provar o pai. Ao descer pelo grande pomar, não viu Doliu, nem nenhum dos seus filhos nem dos outros servos, pois estavam todos a recolher espinhos para fazer uma sebe para a vinha, no lugar onde o velho lhes havia indicado; por isso encontrou o pai sozinho, sachando uma videira. Trazia uma camisa velha e suja, remendada e muito gasta; as pernas estavam atadas com tiras de couro de boi para o proteger dos espinhos, e usava também mangas de couro; tinha na cabeça um gorro de pele de cabra, e mostrava um aspeto muito desditoso. Quando Ulisses o viu tão consumido, tão velho e tão cheio de mágoa, deteve-se sob um alto pereiro e começou a chorar. Duvidou se o abraçaria, beijaria e lhe contaria tudo acerca do seu regresso a casa, ou se primeiro o deveria interrogar para ver o que ele diria. Por fim, julgou ser melhor usar de astúcia com ele; com este intento aproximou-se do pai, que estava curvado a cavar junto a uma planta.
«Vejo, senhor», disse Ulisses, «que sois um excelente jardineiro — que cuidado pondes nisto, por certo. Não há uma única planta, nem figueira, videira, oliveira, pereira, nem canteiro de flores, que não traga o sinal da vossa atenção. Confio, porém, que não vos ofendereis se vos disser que cuidais melhor do vosso jardim do que de vós mesmo. Sois velho, desasseado e muito mal vestido. Não pode ser por serdes preguiçoso que o vosso senhor tão mal cuida de vós; na verdade, o vosso rosto e a vossa figura nada têm de escravo, e proclamam a vossa nobre origem. Eu diria que éreis um daqueles que deveriam lavar-se bem, comer bem e dormir em boas camas à noite, como os velhos têm direito; mas dizei-me, e dizei-me a verdade, de quem sois escravo, e em cujo jardim estais a trabalhar? Dizei-me também acerca de outro assunto. É este o lugar aonde cheguei realmente Ítaca? Acabei de encontrar um homem que o afirmou, mas era um sujeito estúpido, e não teve paciência para ouvir a minha história até ao fim, quando eu lhe perguntava por um velho amigo meu, se ele ainda vivia, ou se já tinha morrido e estava na casa de Hades. Acreditai-me quando vos digo que este homem veio à minha casa uma vez, quando eu estava na minha própria terra, e nunca veio a mim nenhum estrangeiro de quem eu gostasse mais. Disse-me que a sua família era de Ítaca e que o seu pai era Laertes, filho de Arceseu. Recebi-o hospitalariamente, pondo à sua disposição toda a abundância da minha casa, e quando partiu dei-lhe todos os presentes do costume. Dei-lhe sete talentos de ouro fino, e uma taça de prata maciça com flores relevadas. Dei-lhe doze mantos leves, e outras tantas peças de tapecaria; dei-lhe também doze mantos de pano simples, doze cobertores, doze belas capas e igual número de túnicas. A tudo isto acrescentei quatro mulheres de boa aparência, hábeis em todas as artes úteis, e deixei-o escolher.»
O pai derramou lágrimas e respondeu: «Senhor, de facto chegastes à terra que nomeastes, mas ela caiu nas mãos de gente perversa. Toda esta riqueza de presentes foi dada em vão. Se pudésseis ter encontrado o vosso amigo aqui vivo em Ítaca, ele ter-vos-ia hospedado com hospitalidade e ter-vos-ia retribuído abundantemente os presentes quando partísseis — como teria sido justo, atendendo ao que já lhe tínheis dado. Mas dizei-me, e dizei-me a verdade, quantos anos há que hospedastes este hóspede — o meu desventurado filho, como nunca houve outro! Ai de mim! Ele pereceu longe da sua pátria; os peixes do mar o comeram, ou ele foi presa das aves e feras de algum continente. Nem a sua mãe, nem eu seu pai, que fomos os seus progenitores, pudemos lançá-lo nos braços e cobri-lo com o seu sudário, nem a sua excelsa e ricamente dotada esposa Penélope chorou o marido como era natural junto ao seu leito de morte, e lhe fechou os olhos segundo os ritos devidos aos que partiram. Mas agora, dizei-me com verdade, pois quero saber. Quem e de onde sois — dizei-me da vossa cidade e dos vossos pais? Onde está o navio ancorado que vos trouxe a vós e aos vossos homens a Ítaca? Ou fostes passageiro no navio de outrem, e os que vos trouxeram já seguiram o seu caminho e vos deixaram?»
«Contar-vos-ei tudo», respondeu Ulisses, «com inteira verdade. Venho de Álibas, onde tenho uma bela casa. Sou filho do rei Apheidas, que é filho de Polipémon. O meu nome é Epérito; o céu desviou-me do meu rumo ao deixar a Sicília, e fui aqui trazido contra minha vontade. Quanto ao meu navio, está ancorado acolá, defronte da campina fora da cidade, e é o quinto ano desde que Ulisses deixou a minha terra. Pobre dele, e no entanto os auspícios eram bons quando me deixou. Os pássaros voavam todos pela nossa mão direita, e tanto ele como eu nos regozijámos ao vê-los, ao partir, pois tínhamos toda a esperança de ter outro encontro amigo e trocar presentes.»
Uma nuvem escura de tristeza caiu sobre Laertes ao ouvir. Encheu ambas as mãos de poeira do chão e derramou-a sobre a sua cabeça grisalha, gemendo profundamente ao fazê-lo. O coração de Ulisses comoveu-se, e as suas narinas tremeram ao olhar para o pai; então lançou-se para ele, lançou-lhe os braços e beijou-o, dizendo: «Sou eu, pai, por quem perguntais — voltei depois de ter estado ausente vinte anos. Mas cessai os vossos suspiros e lamentos — não temos tempo a perder, pois devo dizer-vos que matei os pretendentes na minha casa, para os punir pela sua insolência e crimes.»
«Se realmente sois o meu filho Ulisses», replicou Laertes, «e voltastes de novo, haveis de me dar prova tão manifesta da vossa identidade que me convença.»
«Observai primeiro esta cicatriz», respondeu Ulisses, «que recebi da presa de um javali quando caçava no monte Parnasso. Vós e a minha mãe me havíeis mandado a Autólico, pai da minha mãe, para receber os presentes que, quando estivera aqui, prometera dar-me. Além disso, vou mostrar-vos as árvores na vinha que me destes, e perguntei-vos por todas elas enquanto vos seguia pelo jardim. Passámos por todas, e vós dissestes-me os seus nomes e o que todas eram. Deste-me treze pereiras, dez macieiras e quarenta figueiras; dissestes também que me havíeis de dar cinqueira fileiras de vides; havia cereal plantado entre cada fileira, e dão uvas de toda a espécie quando o calor do céu se faz sentir.»
As forças de Laertes faltaram ao ouvir as provas convincentes que o filho lhe dera. Lançou-lhe os braços, e Ulisses teve de o suster, ou ele teria desmaiado; mas logo que recobrou os sentidos e começava a recuperar a razão, disse: «Ó pai Júpiter, então vós, deuses, ainda estais no Olimpo afinal, se os pretendentes foram de facto punidos pela sua insolência e loucura. Contudo, muito temo que todos os habitantes da cidade de Ítaca venham já aqui, e estejam a enviar mensageiros por toda a parte, pelas cidades dos cefalénios.»
Ulisses respondeu: «Tende ânimo e não vos preocupeis com isso; mas vamos à casa ali perto do vosso jardim. Já disse a Telémaco, Filóteu e Eumeu que fossem para lá e preparassem o jantar o mais depressa possível.»
Assim conversando, os dois encaminharam-se para a casa. Quando lá chegaram, encontraram Telémaco com o boieiro e o porqueiro a cortar carne e a misturar vinho com água. Então a velha siciliana levou Laertes para dentro e lavou-o e untou-o com azeite. Pôs-lhe um bom manto, e Minerva aproximou-se dele e deu-lhe uma presença mais imponente, tornando-o mais alto e mais robusto do que antes. Quando voltou, o filho surpreendeu-se ao vê-lo com tão semelhante aspeto de um imortal, e disse-lhe: «Meu querido pai, algum dos deuses vos tornou muito mais alto e de melhor aparência.»
Laertes respondeu: «Oxalá, por pai Júpiter, Minerva e Apolo, eu fosse o homem que era quando reinava entre os cefalénios e tomei Nerico, aquela fortaleza forte no promontório. Se eu ainda fosse o que então era e tivesse estado ontem na nossa casa com a minha armadura, ter-vos-ia podido acompanhar e ajudar contra os pretendentes. Teria matado muitos deles, e vós vos teríeis regozijado ao vê-lo.»
Assim conversavam; mas os outros, quando terminaram o trabalho e o banquete ficou pronto, cessaram o labor e tomaram cada um o seu lugar devido nos bancos e assentos. Então começaram a comer; pouco depois o velho Doliu e os seus filhos deixaram o trabalho e subiram, pois a sua mãe, a siciliana que cuidava de Laertes agora que ele envelhecia, fora buscá-los. Quando viram Ulisses e tiveram a certeza de que era ele, ficaram ali pasmados de assombro; mas Ulisses repreendeu-os de boa sombra e disse: «Sentai-vos à vossa mesa, velho, e não vos preocupeis com a vossa surpresa; já há muito que queríamos começar e estávamos à vossa espera.»
Então Doliu estendeu ambas as mãos e acercou-se de Ulisses. «Senhor», disse, tomando a mão do seu amo e beijando-a no pulso, «há muito que desejávamos o vosso regresso; e agora o céu vos restaurou a nós depois de termos perdido a esperança. Saúde, pois, e que os deuses vos prosperem. Mas dizei-me: Penélope já sabe do vosso regresso, ou havemos de mandar alguém avisá-la?»
«Velho», respondeu Ulisses, «ela já sabe, por isso não vos preocupeis com isso.» Com isto tomou o seu lugar, e os filhos de Doliu reuniram-se em volta de Ulisses para o saudar e abraçar um após outro; depois tomaram os seus lugares em ordem devida junto de Doliu, o seu pai.
Enquanto assim se ocupavam a preparar o jantar, o Rumor espalhou-se pela cidade e divulgou o terrível destino que alcançara os pretendentes; logo que o povo o ouviu, acorreu de toda a parte, gemendo e silvando diante da casa de Ulisses. Levaram os mortos, cada um enterrou o seu, e puseram os corpos dos que vinham de fora em embarcações de pesca, para que os pescadores levassem cada um ao seu lugar. Depois reuniram-se furiosos na praça da assembleia, e quando se reuniram, Eupites levantou-se para falar. Ele estava transbordado de dor pela morte do seu filho Antínoo, que fora o primeiro homem morto por Ulisses; disse, pois, chorando amargamente: «Amigos, este homem praticou grande injustiça contra os aqueus. Levou muitos dos nossos melhores homens consigo na sua frota, e perdeu tanto navios como homens; agora, além disso, ao regressar, matou todos os homens mais notáveis entre os cefalénios. Levantemo-nos e façamos algo antes que ele possa fugir para Pilos ou para Élis, onde reinam os epeus, ou teremos vergonha para todo o sempre. Será uma vergonha eterna para nós se não vingarmos o assassínio dos nossos filhos e irmãos. Por mim, não teria mais prazer na vida, antes preferiria morrer de imediato. Levantemo-nos, pois, e vamos atrás deles, antes que possam atravessar para o continente.»
Chorava ao falar e todos o compadeceram. Mas Medon e o aedo Fémio tinham então acordado e vieram ter com eles desde a casa de Ulisses. Todos se admiraram ao vê-los, mas eles colocaram-se no meio da assembleia, e Medon disse: «Ouvi-me, homens de Ítaca. Ulisses não fez estas coisas contra a vontade do céu. Eu próprio vi um deus imortal tomar a forma de Mentor e colocar-se ao lado dele. Este deus apareceu, ora diante dele encorajando-o, ora correndo furiosamente pelo pátio e atacando os pretendentes, sobre os quais caíram uns sobre os outros em abundância.»
A isto, um pálido medo apoderou-se deles, e o velho Haliterses, filho de Mastor, levantou-se para falar, pois era o único homem entre eles que conhecia tanto o passado como o futuro; assim lhes falou claramente e com toda a honestidade, dizendo:
«Homens de Ítaca, foi tudo culpa vossa que as coisas tenham corrido como correram; não quisestes ouvir-me, nem a Mentor, quando vos pedimos que refreásseis a loucura dos vossos filhos, que cometiam grandes males na devassidão dos seus corações — desperdiçando os bens e desonrando a esposa de um chefe que eles julgavam não haver de voltar. Agora, porém, faça-se como eu digo, e fazei como vos digo. Não saiais contra Ulisses, ou podereis descobrir que atraístes o mal sobre as vossas próprias cabeças.»
Isto foi o que ele disse, e mais de metade levantou um grande clamor, e abandonou de imediato a assembleia. Mas o resto ficou onde estava, pois o discurso de Haliterses lhes desagradou, e tomaram o partido de Eupites; por isso correram a buscar as suas armas, e quando se armaram, reuniram-se diante da cidade, e Eupites conduziu-os na sua loucura. Pensava que ia vingar a morte do seu filho, quando na verdade jamais havia de regressar, mas havia ele próprio de perecer na sua tentativa.
Então Minerva disse a Jove: «Pai, filho de Saturno, rei dos reis, responde-me a esta pergunta — que te proponhas fazer? Hás-de deixá-los ainda a combater, ou hás-de fazer as pazes entre eles?»
E Jove respondeu: «Minha filha, para que mo perguntas? Não foi por tua própria decisão que Ulisses voltou para casa e se vingou dos pretendentes? Faze o que quiseres, mas eu te direi o que penso ser mais razoável. Agora que Ulises está vingado, fazei com que jurem um pacto solene, em virtude do qual ele continuará a reinar, enquanto nós levamos os outros a perdoar e esquecer a matança dos seus filhos e irmãos. Que se tornem todos amigos como dantes, e que reine a paz e a abundância.»
Era isto o que Minerva já ardia em concretizar, por isso desceu apressada das mais altas cumeeiras do Olimpo.
Quando Laertes e os outros acabaram de jantar, Ulisses começou por dizer: «Que saia alguém de vós e veja se já não se aproximam de nós.» Assim, um dos filhos de Dolio saiu conforme lhe fora ordenado. Posto no limiar, podia vê-los todos bem perto, e disse a Ulisses: «Aqui estão eles, armemo-nos de imediato.»
Vestiram as armas o mais depressa que puderam — a saber, Ulisses, os seus três homens e os seis filhos de Dolio. Laertes e Dolio fizeram o mesmo — guerreiros por necessidade, a despeito dos cabelos brancos. Quando todos se armaram, abriram o portão e saíram, Ulisses à frente.
Então a filha de Jove, Minerva, veio ao encontro deles, tendo tomado a forma e a voz de Mentor. Ulisses alegrou-se ao vê-la e disse ao filho Telémaco: «Telémaco, agora que vais combater num encontro que mostrará o valor de cada homem, vê que não cobras de vergonha os teus antepassados, que foram por todo o mundo notáveis pela sua força e coragem.»
«Dizes bem, meu querido pai», respondeu Telémaco, «e verás, se quiseres, que não tenho nenhuma intenção de desonrar a tua família.»
Laertes deliciou-se ao ouvir isto. «Bons deuses», exclamou, «que dia estou a viver! Com efeito, alegro-me com ele. Meu filho e meu neto rivalizam em valentia.»
Nisto Minerva aproximou-se dele e disse: «Filho de Arcesio — melhor amigo que tenho no mundo — suplica à donzela de olhos azuis e a Jove, seu pai; depois, equilibra a lança e arroja-a.»
Enquanto assim falava, infundiu-lhe novo vigor, e ele, depois de ter suplicado à deusa, equilibrou a lança e arrojou-a. Atingiu o elmo de Eupites, e a lança atravessou-o de lado a lado, pois o elmo não a deteve, e a armadura tilintou ao redor dele quando caiu pesadamente ao chão. Entretanto Ulisses e o filho caíram sobre a primeira linha dos inimigos e feriram-nos com as suas espadas e lanças; na verdade, teriam matado cada um deles e impedido-os de jamais voltar para casa, não fora Minerva erguer bem alto a voz e fazer toda a gente parar. «Homens de Itaca», clamou ela, «cessai esta guerra terrível e resolvei a questão de uma vez, sem mais efusão de sangue.»
Nisto, o pálido medo apoderou-se de todos; ficaram tão assustados que as armas lhes caíram das mãos e vieram ao chão ao som da voz da deusa, e fugiram de volta para a cidade, buscando salvar a vida. Mas Ulisses deu um grande grito e, reunindo as forças, arremessou-se como uma águia em voo. Então o filho de Saturno enviou um raio flamejante que caiu mesmo diante de Minerva, pelo que ela disse a Ulisses: «Ulisses, nobre filho de Laertes, põe termo a esta contenda guerreira, ou Jove se irritará contigo.»
Assim falou Minerva, e Ulisses obedeceu-lhe de boa vontade. Então Minerva tomou a forma e a voz de Mentor e, imediatamente, estabeleceu um pacto de paz entre as duas partes contendoras.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] [ É evidente que o escritor conhece as raças negras estendendo-se por toda a África, uma metade voltada para o Ocidente, sobre o Atlântico, e a outra para Oriente, sobre o Oceano Índico.]
[2] [ O uso original do escabelo era provavelmente menos para pousar os pés do que para os guardar (sobretudo quando descalços) de um chão que muitas vezes estava húmido e sujo.]
[3] [ O θρόνος, ou assento, é por vezes chamado «alto», por ser mais alto do que o θρῆνυς, ou escabelo baixo. Provavelmente não era mais alto do que uma cadeira comum é hoje, e parece não ter encosto.]
[4] [ Temesa ficava na costa ocidental da ponta da Itália, no que é hoje o golfo de Santa Eufémia. Era famosa em tempos remotos pelas suas minas de cobre, as quais, todavia, já se achavam esgotadas quando Estrabão escreveu.]
[5] [ Ou seja, «com corrente» — ver ilustrações e mapa perto do fim dos livros v e vi, respetivamente.]
[6] [ Lendo Νηρίτῳ em vez de Νηίῳ, cf. «Od.» iii. 81, onde o mesmo erro ocorre, e xiii. 351, onde a montanha é chamada Nerito, sendo o mesmo lugar aqui e no livro xiii.]
[7] [ Nunca se explica de modo plausível por que razão Penélope não pode fazê-lo, e do livro ii é claro que ela continuou deliberadamente a animar os pretendentes, embora nos peçam para acreditar que apenas os iludia.]
[8] [ Ver nota a «Od.» i. 365.]
[9] [ Argos do meio significa o Peloponeso, que, todavia, nunca é assim chamado na «Ilíada». Presumo que «do meio» signifique «no meio entre os dois países de língua grega da Ásia Menor e da Sicília, com o Sul de Itália»; pois que partes da Sicília, e também grandes partes, embora não a totalidade do Sul de Itália, eram habitadas por povos de língua grega séculos antes das colonizações dóricas, disso dificilmente se pode duvidar. Os Sícanos e também os Sículos falavam provavelmente grego.]
[10] [ cf. «Il.» vi. 490-495. Na «Ilíada», é a «guerra», e não a «palavra», que é a tarefa de um homem. Argumenta uma certa dureza, ou pelo menos aversão à «Ilíada», por parte do autor da «Odisseia», o facto de ela ter adotado aqui a despedida de Heitor a Andrómaca, como noutras partes do poema, para uma cena de pathos tão inferior.]
[11] [ μέγαρα σκιοέντα Todo o pátio descoberto com o alpendre coberto que o rodeava era chamado μέγαρον, ou μέγαρα, mas a parte coberta distinguia-se por ser chamada «sombria» ou «sombreada». Era nesta parte que se punham as mesas dos pretendentes. O Pátio da Fonte em Hampton Court pode servir de ilustração (exceto quanto ao uso de arcos em vez de suportes de madeira e traves) e a disposição é ainda comum na Sicília. A tradução habitual «salas sombrias» ou «salas escuras» dá uma ideia falsa da cena.]
[12] [ O leitor notará o extremo cuidado que o escritor põe em tornar claro que a nenhum dos pretendentes era permitido dormir na casa de Ulisses.]
[13] [ Ver Apêndice; g, na planta da casa de Ulisses.]
[14] [ Imagino que esta passagem seja uma réplica a «Il.» xxiii. 702-705, em que um tripé é avaliado em doze bois, e uma boa criada de todo o serviço em apenas quatro. O escrúpulo de Laertes pelos sentimentos da esposa é da mesma natureza do zelo extremo pela honra da mulher, manifesto em toda a «Odisseia».]
[15] [ χιτῶνα «O χιτών, ou túnica, era uma camisa ou camisa-interior, e servia como principal peça de roupa interior dos Gregos e Romanos, tanto homens como mulheres.» Dicionário de Antigüidades Gregas e Romanas de Smith, sob «Tunica».]
[16] [ Podem ver-se portas fechadas, para todos os efeitos e propósitos, conforme aqui descrito, nas casas mais antigas de Trapani. Há uma ranhura no lado exterior da porta, por meio da qual uma pessoa que tenha saído do quarto pode disparar o ferrolho. O meu quarto no Albergo Centrale estava fechado deste modo.]
[17] [ πύματον δ’ ὡπλίσσατο δόρπον. Assim dizemos vulgarmente «cozinhou o seu ganso», ou «arranjou-lhe a conta». Égipto não pode, obviamente, saber do destino que Antifo havia tido, pois ainda não havia notícias de ou sobre Ulisses.]
[18] [ «Il.» xxii. 416. σχέσθε φίλοι, καὶ μ’ οἷον ἐάσατε...... A autora cometeu um erro de palmatória ao tomar emprestadas estas palavras ipsis verbis da «Ilíada», sem prefixar o necessário «não», que eu supri.]
[19] [ Ou seja, tu tens dinheiro, e poderias pagar quando eu obtivesse sentença, ao passo que os pretendentes são homens sem substância.]
[20] [ cf. «Il.» ii. 76. ἦ τοι ὄ γ’ ὦς εὶπὼν κατ’ ἄρ’ ἔζετο τοῖσι δ’ ἀνέστη Νέστωρ, ὄς ῥα....................................... ὄ σφιν ἐὺ φρονέων ἀγορήσατο καὶ μετέειπεν. O passo odisseico diz — ἦ τοι ὄ γ’ ὦς εὶπὼν κατ’ ἄρ’ ἔζετο τοῖσι δ’ ἀνέστη Μεντορ ὄς ῥ’....................................... ὄ σφιν ἐὺ φρονέων ἀγορήσατο καὶ μετέειπεν. Será possível não suspeitar que o nome Mentor foi cunhado a partir do de Nestor?]
[21] [ Ou seja, no pátio exterior, e na parte descoberta da casa interior.]
[22] [ Seria razoável da Sicília, que fazia as vezes de Itaca no espírito do escritor, mas um vento do Norte teria sido preferível para uma viagem da verdadeira Itaca a Pilos.]
[23] [ κελάδοντ’ ἐπὶ οὶνοπα πόντον O vento não silva sobre ondas. Só silva através de cordame ou de qualquer outro obstáculo que o corte.]
[24] [ cf. «Il.» v.20. Ἰδαῖος δ’ ἀπόρουσε λιπὼν περικαλλέα δίφρον, o verso odisseico é ἠέλιος δ’ ἀνόρουσε λιπὼν περικαλλέα λίμνην. Não pode haver dúvida de que o verso odisseico foi sugerido pelo ilíadico, mas nada pode explicar por que razão Idaeus saltando do seu carro sugeriria ao autor da «Odisseia» o sol saltando do mar. A probabilidade é que ela nunca pensou no assunto, mas tomou o verso em questão como efeito da saturação com a «Ilíada» e de cerebração inconsciente. A «Odisseia» contém muitos exemplos deste tipo.]
[25] [ O coração, o fígado, os pulmões, os rins, etc., eram retirados do interior e comidos primeiro por estarem mais prontamente cozidos; a {Greek}, ou carne com osso, estava a cozinhar enquanto a {Greek}, ou partes internas, estava a ser comida. Imagino que os ossos da coxa faziam uma espécie de grelhador, enquanto ao mesmo tempo a medula dentro deles ia cozinhando.]
[26] [ Ou seja, espetos, de um, dois, ou mesmo cinco bicos. A carne seria atravessada pelo espeto e posta sobre as cinzas a grelhar — as duas extremidades do espeto sendo apoiadas da maneira mais conveniente. Carne assim a cozinhar pode ver-se em qualquer casa de pasto em Esmirna, ou em qualquer cidade do Oriente. Quando cavalguei através da Tróade, dos Dardanelos a Hissarlik e ao Monte Ida, notei que o meu dragomano e os seus homens faziam toda a nossa cozinha ao ar livre exatamente à moda odisseica e ilíadica.]
[27] [ cf. «Il.» xvii. 567. {Greek} Os versos odisseicos são — {Greek}]
[28] [ Lendo {Greek} por {Greek}, cf. «Od.» i. 186.]
[29] [ A geografia do Egeu acima descrita está correta, mas é provavelmente tirada do poema perdido, os Nostos, cuja existência é referida em «Od.» i. 326, 327 e 350, etc. Um olhar para o mapa mostrará que o céu aconselhou os seus suplicantes muito corretamente.]
[30] [ O escritor — sempre zeloso pela honra das mulheres — atenua tanto quanto possível a culpa de Clitemnestra, e explica-a como devida ao facto de ela ter sido deixada sem proteção e ter caído nas mãos de um homem perverso.]
[31] [ O grego é {Greek} cf. «Ilíada» ii. 408 {Greek} Certamente o {Greek} do passo odisseico se deveu ao {Greek} da «Ilíada». Nenhuma outra razão se sugere para fazer Menelau regressar no próprio dia do banquete oferecido por Orestes. O facto de, na «Ilíada», Menelau ter vindo a um banquete sem esperar por convite, determina o autor da «Odisseia» a fazê-lo vir também a um banquete, igualmente sem convite, mas como as circunstâncias não permitiam que tivesse sido convidado, mostra-se que a sua vinda sem convite se deveu ao acaso. Não creio que a autora tenha pensado em tudo isto, mas atribuo a estranheza da coincidência à cerebração inconsciente e à saturação.]
[32] [ cf. «Il.» I. 458, II. 421. O escritor interrompe aqui uma passagem ilíadica (à qual regressa imediatamente) com o duplo propósito de se deter sobre a matança da novilha e de deixar a mulher e a filha de Nestor também dela fruírem. Um escritor varão, se estivesse a servir-se da «Ilíada», ter-se-ia mantido fiel ao seu modelo.]
[33] [ cf. «Il.» xxiv. 587, 588, onde os versos se referem à lavagem do corpo morto de Heitor.]
[34] [ Ver ilustração na página ao lado. O pátio é típico de muitos que se podem ver na Sicília. A planta atual é provavelmente inalterada desde os tempos odisseicos, e mesmo pré-odisseicos, mas os edifícios mais antigos não teriam arcos, e seriam, supõe-se, principalmente de madeira. Os {Greek} odisseicos eram os telheiros que corriam à volta do pátio como os arcos fazem agora. O {Greek} era aquele por onde passava a entrada principal, e que era por isso «ruidoso», ou reverberante. Tinha um andar superior em que os visitantes eram muitas vezes alojados.]
[35] [ Esta viagem é impossível. Telémaco e Pisístrato teriam sido obrigados a conduzir através da cordilheira do Taigeto, sobre a qual nunca houve ainda uma estrada para veículos de rodas. É claro, portanto, que o público para quem a «Odisseia» foi escrita era um público que dificilmente saberia algo sobre a topografia do Peloponeso, de modo que o escritor podia tomar as liberdades que quisesse.]
[36] [ Os versos que coloquei entre parênteses são evidentemente um acrescento posterior — acrescentado provavelmente pela própria escritora — pois revelam o mesmo instintivo e maior interesse por tudo o que possa dizer respeito a uma mulher, que é tão notório em todo o poema. Não há mais nenhum sinal de festas especiais nem de outros convidados além de Telémaco e Pisístrato, até que os versos 621-624 (normalmente entre parênteses) são bruscamente introduzidos, provavelmente com o objetivo de tentar desculpar a introdução dos versos agora em causa. Imagino que o acrescento tenha sido sugerido pelo desejo de desculpar e explicar o não aparecimento de Hermíone no livro xv, bem como o de Hermíone e Megapentes no resto do livro iv. Megapentes, no livro xv, parece ser ainda solteiro: a presunção é, portanto, de que o livro xv foi escrito antes da história do seu casamento aqui dada. Entendo que ele é casado aqui apenas porque a sua irmã está a ser casada. Tendo ela sido devidamente atendida, Megapentes poderia muito bem casar-se ao mesmo tempo. Hermíone não pode agora ter menos de trinta anos. Lidei com esta passagem com um pouco mais de desenvolvimento na minha «Authoress of the Odyssey», pp. 136-138. Ver também p. 256 do mesmo livro.]
[37] [ Esparta e Lacónia são aqui tratadas como dois lugares diferentes, embora noutras partes do poema seja claro que o escritor as entende como um só. O catálogo da «Ilíada», que o escritor aqui presume seguir, comete o mesmo erro («Il.» ii. 581, 582).]
[38] [ Estes últimos três versos são idênticos a «Il.» xviii. 604-606.]
[39] [ A partir do grego {Greek} é claro que Menelau pegou no pedaço de carne com os dedos.]
[40] [ O âmbar nunca é mencionado na «Ilíada». A Sicília, onde suponho que a «Odisseia» tenha sido escrita, tem sido sempre, e continua a ser, um dos principais países produtores de âmbar. Era provavelmente o único conhecido na era odisseica. Ver «The Authoress of the Odyssey», Longmans 1898, p. 186.]
[41] [ Isto refere-se, sem dúvida, à história contada no último poema dos Cipria sobre Paris e Helena roubando a Menelau a maior parte dos seus tesouros, quando navegaram juntos para Tróia.]
[42] [ É inconcebível que Helena entre assim, no meio do jantar, com a intenção de trabalhar com o seu fuso, se grandes festividades estivessem em curso. Telémaco e Pisístrato estão visivelmente a jantar em família.]
[43] [ Na insurreição italiana de 1848, oito jovens que eram perseguidos acesos pela polícia austríaca esconderam-se dentro do colossal cavalo de madeira de Donatello, no Salone de Pádua, e ali permaneceram durante uma semana, sendo alimentados pelos seus confederados. Em 1898, o último sobrevivente foi levado em triunfo por Pádua.]
[44] [ O grego é {Greek}. Será injusto argumentar que o escritor é uma pessoa de sensibilidade algo delicada, para quem um cheiro forte de peixe é desagradável?]
[45] [ O grego é {Greek}. Acredito que isto é um golpe nos próprios compatriotas do escritor, que eram de origem foceia, e que o verso seguinte é uma réplica a queixas feitas contra ela no livro vi. 273-288, no sentido de que se dava ares e não queria casar com nenhum dos seus. Que o autor da «Odisseia» tenha sido a pessoa que foi introduzida no poema sob o nome de Nausicaa, não me é possível questionar. Posso recordar aos leitores ingleses que {Greek} (isto é, phoca) significa «foca». Focas aparecem quase sempre nas moedas foceias.]
[46] [ Certamente aqui estamos de novo nas mãos de um escritor de sensibilidade delicada. Não é como se as focas estivessem passadas; tinham acabado de ser mortas. O escritor, todavia, está obviamente a rir-se dos seus compatriotas, e a insultá-los tão abertamente quanto ousa.]
[47] [ Foi-nos dito acima (versos 356, 357) que era apenas um dia de navegação.]
[48] [ Dou a tradução usual, mas não creio que o grego a justifique. O grego diz {Greek}.
Isto é geralmente considerado significar que Itaca é uma ilha apta para a criação de cabras, e por essa razão mais deleitável para o orador do que seria se fosse apta para a criação de cavalos. Encontro pouca autoridade para tal tradução; a tradução mais equitativa do texto tal como está é: «Itaca é uma ilha apta para a criação de cabras, e deleitável mais do que apta para a criação de cavalos; pois nenhuma das ilhas é bom terreno de condução, nem bem apascentada.» Certamente o escritor não quer dizer que uma ilha agradável ou deleitável não seria apta para a criação de cavalos? A tradução mais equitativa, portanto, do presente texto sendo assim coxa e impotente, podemos suspeitar de corrupção, e arrisco a seguinte emenda, embora a não tenha adotado na minha tradução, por temer que fosse considerada demasiado fantasiosa. Eu leria: — {Greek}.
No que toca ao escansão, o {Greek} não é necessário; {Greek} iv. 72, (Nota de rodapé Grego) iv. 233, para não ir mais longe do que versos anteriores do mesmo livro, dão autoridade suficiente para {Greek}, mas o {Greek} não seria redundante; salientaria a surpresa do contraste, e eu preferiria tê-lo, embora não seja muito importante de uma maneira ou de outra. Esta leitura, claro, deveria ser traduzida por «Itaca é uma ilha apta para a criação de cabras, e (com a vossa licença) ela mesma um cavaleiro mais do que apta para a criação de cavalos — pois nenhuma das ilhas é bom terreno e bem apascentado.»
Isto certamente confundiria os editores alexandrinos. «Como», perguntariam eles a si próprios, «poderia uma ilha ser um cavaleiro?» e andariam à procura de uma emenda. Uma visita ao topo do Monte Eryx talvez pudesse tornar o sentido inteligível, e sugerir a minha proposta restauração do texto ao leitor tão prontamente como a mim. Declarei noutro lugar a minha convicção de que o autor da «Odisseia» estava familiarizado com a antiga cidade sicana no topo do Monte Eryx, e de que as ilhas Egadi, que são tão impressionantes quando vistas de lá, faziam as vezes, para ela, das ilhas Jónicas — Marettimo, a mais alta e a mais ocidental do grupo, fazendo de Itaca. Vista do topo do Monte Eryx, Marettimo aparece como deve aparecer segundo «Od.» ix. 25, 26, «no horizonte, a mais alta no mar para o Ocidente», enquanto as outras ilhas se estendem «um pouco para Leste dela». À medida que descemos para Trapani, Marettimo parece afundar-se no topo da ilha de Levanzo, atrás da qual desaparece. O meu amigo, o falecido Signor E. Biaggini, apontou-ma uma vez, quando ela estava mesmo pousada no topo de Levanzo, e disse-me «Come cavalca bene» («Como cavalga bem»), e isto sugeriu-me imediatamente a minha emenda. Mais tarde encontrei no hino a Apolo Pítio (que abunda em chavões tomados da «Odisseia») um verso terminado em {Greek} que fortaleceu a minha suspeita de que esta era a terminação original do segundo dos dois versos acima em causa.]
[49] [ Veja-se a nota sobre o verso 3 deste livro. O leitor observará que a autora não conseguiu manter as mulheres fora de uma interpolação que consiste apenas em quatro versos.]
[50] [ Scheria significa uma porção de terra que se projeta para dentro do mar. Na minha “Authoress of the Odyssey” pensei que “Jutlândia” seria uma tradução adequada, mas foi-me assinalado que “Jutlândia” significa apenas a terra dos Jutos.]
[51] [ A irrigação aqui descrita é comum em jardins perto de Trapani. A água que abastece os canais é tirada de poços por uma mula que gira uma roda com baldes.]
[52] [ Não há aqui uma única palavra sobre o gado do deus-sol.]
[53] [ A autora显然 pensou que a madeira verde e em crescimento pudesse também estar bem seca.]
[54] [ O leitor notará que o rio corria com água salgada, isto é, que era sujeito a marés.]
[55] [ Então a ilha Ogygia não ficava tão longe que Nausícaa pudesse presumir-se saber onde ela estava.]
[56] [ Grego {Greek}]
[57] [ Suspeito de uma piada de família, ou de uma alusão discreta a alguma coisa de que nada sabemos, nesta história de Eurimedusa ter sido trazida de Apeira. A palavra grega “apeiros” significa “inexperiente”, “ignorante”. Será possível que Eurimedusa fosse notoriamente incompetente?]
[58] [ Polifemo era também filho de Neptuno, veja-se “Od.” ix. 412, 529. Era, portanto, meio-irmão de Nausítoo, meio-tio do rei Alcínoo, e meio-tio-avô de Nausícaa.]
[59] [ Parece que a autora pensava que Maratona ficava perto de Atenas.]
[60] [ Aqui a autora, sabendo que está a desenhar (com enfeites) a partir de coisas que realmente existem, impacienta-se com os pretéritos e resvala para o presente.]
[61] [ Esta é malícia disfarçada, implicando que os magnatas feácios não eram melhores do que deviam ser. A libação final deveria ter sido feita a Júpiter ou Neptuno, e não ao deus da gatunice e da patifaria de toda a espécie. No verso 164, na verdade, encontramos Equeneu a propor que se faça uma libação a Júpiter, mas Mercúrio é evidentemente, segundo a nossa autora, o deus que mais provavelmente lhes seria útil.]
[62] [ O facto de Alcínoo saber alguma coisa sobre os Ciclopes sugere que na mente da autora Esquéria e o país dos Ciclopes não ficavam muito longe um do outro. Tomo os Ciclopes e os gigantes como sendo um único e mesmo povo.]
[63] [ “O meu património, etc.” A autora está aqui a adoptar um verso ilíaco (xix. 333), e isto deve explicar a ausência de qualquer referência a Penélope. Se ela tivesse por acaso lembrado “Il.” v. 213, sem dúvida o teria preferido, pois esse verso diz “a minha pátria, a minha esposa, e toda a grandeza da minha casa.”]
[64] [ O sono a princípio inexplicável de Ulisses (livro xiii. 79, etc.) está aqui, como também em viii. 445, a ser obviamente preparado. A autora显然 atribuía-lhe a maior importância. Os que sabem que o porto que servia a autora da “Odisseia” para aquele em que Ulisses desembarcou em Ítaca ficava apenas a cerca de 2 milhas do lugar em que Ulisses está agora a conversar com Alcínoo, compreenderão por que razão o sono era tão necessário.]
[65] [ Havia duas classes — os inferiores, que recebiam provisões que tinham de cozinhar por si mesmos nos pátios e recintos exteriores, onde também comiam — e os superiores, que comiam nos claustros do pátio interior e tinham a sua comida cozinhada por terceiros.]
[66] [ Tradução muito duvidosa. Suponho que o {Greek} aqui seja os cobertos cobertos que corriam à volta do pátio exterior. Vejam-se as ilustrações no fim do livro iii.]
[67] [ A autora显然 considera que as palavras “em comparação com o que os bois podem lavrar no mesmo tempo” se subentendem. Não assim o autor da “Ilíada”, de onde o passo da Odisseia é provavelmente retirado. Ele explica que os mulos podem lavrar mais depressa do que os bois (“Il.” x. 351-353)]
[68] [ Foi muito feliz que tal disco ali estivesse, visto que nenhum igual estava em uso comum.]
[69] [ “Il.” xiii. 37. Aqui, como tantas outras vezes na “Odisseia”, a apropriação de um verso ilíaco que não é inteiramente apropriado deixa o leitor perplexo. O “eles” não são as cadeias, nem Marte e Vénus. É um excesso do passo ilíaco em que Neptuno prende os seus cavalos em grilhões “que ninguém podia nem desatar nem quebrar, de modo que ficassem ali naquele lugar”. Se o verso tivesse escandido sem a adição das palavras “de modo que ficassem ali naquele lugar”, elas teriam sido omitidas na “Odisseia.”]
[70] [ O leitor notará que Alcínoo nunca vai além de dizer que vai dar o gobé; nunca o dá. Noutras passagens tanto da “Ilíada” como da “Odisseia”, a oferta de um presente é imediatamente seguida da afirmação de que foi dado e recebido com alegria — Alcínoo de facto dá um arca, um manto e uma camisa — provavelmente também algum do trigo e vinho para a longa viagem de duas milhas foi por ele fornecido — mas é perfeitamente claro que ele não deu nenhum talento e nenhuma taça.]
[71] [ “Il.” xviii. 344-349. Estes versos da “Ilíada” contam a preparação para lavar o corpo de Pátroclo, e não me agrada que a autora da “Odisseia” os tenha adoptado aqui.]
[72] [ veja-se a nota [64]: ]
[73] [ veja-se a nota [43]: ]
[74] [ O leitor verificará esta ameaça cumprida no livro xiii]
[75] [ Se as outras ilhas ficavam a alguma distância de Ítaca (o que a palavra {Greek} sugere), o que é feito do πόρθμος ou estreito entre Ítaca e Samos de que ouvimos falar nos Livros iv. e xv.? Suspeito que a autora na sua mente faz Telémaco voltar de Pilos ao promontório Lilibeu e daí a Trapani pelo estreito entre a Isola Grande e a terra firme — a ilha de Asteria sendo aquela sobre a qual Motia depois se ergueu.]
[76] [ “Il.” xviii. 533-534. A queda repentina na terceira pessoa aqui por um par de versos deve-se ao facto de os dois versos ilíacos tomados estarem na terceira pessoa.]
[77] [ cf. “Il.” ii. 776. As palavras tanto na “Ilíada” como na “Odisseia” são [Footnote Greek]. Na “Ilíada” são aplicadas aos cavalos dos seguidores de Aquiles, quando estavam parados, a “mastigar loto.”]
[78] [ Tomo toda esta passagem sobre os Ciclopes não terem navios como sendo sarcástica — querendo dizer: “Vós, povo de Drepanum, não tendes desculpa para não colonizardes a ilha de Favignana, o que poderíeis fazer facilmente, pois tendes navios em abundância, e a ilha é muito boa.” Que a ilha aqui tão plenamente descrita seja a ilha Egadina ou “de cabras” de Favignana, e que os Ciclopes sejam os antigos habitantes sicanos do Monte Erice, não deve ser posto em dúvida.]
[79] [ Para as razões por que era necessário que a noite fosse tão excepcionalmente escura, veja-se “The Authoress of the Odyssey” pp. 188-189.]
[80] [ Só ficariam no aprisco os borregos que mamassem se estivessem com as mães. Os borregos mais velhos deviam estar fora a pastar. A autora trocou tudo, mas não importa. Veja-se “The Authoress of the Odyssey” p. 148.]
[81] [ Este verso está entre parênteses rectos no texto recebido, e é omitido (com nota) por Butcher & Lang. Mas versos entre parênteses rectos são quase sempre genuínos; tudo o que os parênteses rectos significam é que a passagem assim marcada deixou perplexo algum editor antigo, que no entanto a encontrou demasiado bem firmada no texto para se atrever a omiti-la. No presente caso, o verso entre parênteses rectos é precisamente o último que um editor adulto do sexo masculino provavelmente interpolaria. É mais seguro inferir que a autora, uma jovem mulher, sem saber ou sem se importar com a extremidade do navio em que o leme deveria estar, decidiu certificar-se colocando-o em ambas as extremidades, o que verificaremos que ela faz em breve repetindo-o (verso 340) na popa do navio. Quanto às duas rochas arremessadas, a primeira tomo-a como sendo os Asinelli, veja-se o mapa em frente a p. 80. A segunda vejo-a como as duas ilhas contíguas das Formiche, que são tratadas como uma só, veja-se o mapa em frente a p. 108. Os Asinelli são uma ilha em forma de barco, e apontando para a ilha de Favignana. Penso que os compatriotas da autora, que provavelmente não a estimavam muito mais do que ela a eles, zombaram do absurdo da conduta de Ulisses, e viram os Asinelli ou “burros”, não como a rocha arremessada por Polifemo, mas como o próprio barco que continha Ulisses e os seus homens.]
[82] [ Este verso existe no texto aqui, mas não na passagem correspondente xii. 141. Sou inclinado a pensar que é interpolado (provavelmente pela própria poetisa) a partir do primeiro dos versos xi. 115-137, que dificilmente posso duvidar terem sido acrescentados pela autora quando o esquema da obra foi alargado e alterado. Veja-se “The Authoress of the Odyssey” pp. 254-255.]
[83] [ “Flutuante” (πλωτῇ) não deve ser tomado à letra. A ilha em si, independentemente dos seus habitantes, era perfeitamente normal. Não há indicação de que se tenha movido durante o mês que Ulisses ficou com Eolo, e ao regressar da sua desastrosa viagem, ele parece tê-la encontrado no mesmo lugar. O πλωτῇ de facto não deve ser mais pressionado do que θοῇσι aplicado a ilhas, “Odisseia” xv. 299 — onde são chamadas “voadoras” porque o navio passaria voando por elas. Assim também as “Errantes”, como explicou Buttmann; veja-se a nota sobre “Odisseia” xii. 57.]
[84] [ Literalmente “pois os caminhos da noite e do dia estão próximos”. Vi o que o Sr. Andrew Lang diz (“Homer and the Epic”, p. 236, e “Longman’s Magazine” de janeiro de 1898, p. 277) sobre a “rota do âmbar” e a “Via Sacra” a este respeito; mas até ele dar as suas razões para sustentar que os povos mediterrânicos na idade odisseica costumavam ir muito para Norte buscar o seu âmbar em vez de o obterem na Sicília, onde ainda se encontra em quantidades consideráveis, não sei que peso devo atribuir à sua opinião. Não consegui encontrar fundamentos para afirmar que em 1000 a.C. houvesse qualquer comércio entre o Mediterrâneo e o “Extremo Norte”, mas estarei muito pronto a aprender se o Sr. Lang me esclarecer. Veja-se “The Authoress of the Odyssey” pp. 185-186.]
[85] [ Ter-se-ia pensado que, quando o sol empurrava o cervo para a água, Ulisses pudesse ter observado o lugar onde este se encontrava.]
[86] [ Veja-se a tradução de Hobbes de Malmesbury.]
[87] [ “Il.” xviii. 349. De novo a autora bebe em lavar o corpo de Pátroclo — o que ofende.]
[88] [ Esta visita é totalmente desprovida de significação topográfica.]
[89] [ As noivas apresentavam-se instintivamente à imaginação da autora, como a fase da humanidade que ela achava mais interessante.]
[90] [ Ulisses ia, de facto, tornar-se um missionário e pregar Neptuno a povos que não conheciam o seu nome. Tive a felicidade de encontrar na Sicília uma mulher que transportava uma destas pás de joeirar; não era muito mais curta do que um remo, e pude imediatamente ver o que a autora da “Odisseia” tencionava.]
[91] [ Suponho que os versos que pus entre parênteses rectos tenham sido acrescentados pela autora quando ela alargou o seu esquema original com a adição dos livros i.-iv. e xiii. (a partir do verso 187)-xxiv. O leitor observará que na passagem correspondente (xii. 137-141) a profecia termina com “depois de perder todos os vossos companheiros”, e que não há alusão aos pretendentes. Para explicação mais completa veja-se “The Authoress of the Odyssey” pp. 254-255.]
[92] [ O leitor lembrar-se-á de que estamos no primeiro ano das errâncias de Ulisses, Telémaco tinha portanto apenas onze anos. O mesmo anacronismo é cometido mais adiante neste livro. Veja-se “The Authoress of the Odyssey” pp. 132-133.]
[93] [ A tradição diz que ela se tinha enforcado. Cf. “Odisseia” xv. 355, etc.]
[94] [ Não confundir com Eolo, rei dos ventos.]
[95] [ Melampus, vide livro xv. 223, etc.]
[96] [ Já disse numa nota sobre o livro xi. 186 que neste ponto da viagem de Ulisses Telémaco só podia ter entre onze e doze anos.]
[97] [ Será a autora um homem ou uma mulher?]
[98] [ Cf. “Il.” iv. 521, {Greek}. O verso odisseico lê-se, {Greek}. O famoso dactilismo, portanto, do verso odisseico foi provavelmente sugerido pelo do ilíaco, mais do que por um desejo de acomodar o som ao sentido. De qualquer modo, a dupla coincidência de um verso dactílico e de uma terminação {Greek} parece conclusiva quanto à familiaridade da autora da “Odisseia” com o verso ilíaco.]
[99] [ Ao largo da costa da Sicília e do Sul de Itália, no mês de Maio, vi homens amarrados a meio do mastro de um barco, com os pés pousados num travessão apenas suficientemente grande para os sustentar. Deste ponto elevado arpoam peixes-espada. Quando vi homens assim ocupados, mal pude duvidar que a autora da “Odisseia” tivesse visto outros semelhantes, e os tivesse em mente ao descrever a amarração de Ulisses. Por isso, com alguma hesitação, atrevi-me a afastar-me da tradução recebida de ἰστοπέδη (cf. Alceu frag. 18, onde, todavia, é muito difícil dizer o que ἰστοπέδαν significa). No Léxico de Sófocles encontro uma referência a Crisóstomo (l, 242, A. Ed. Benedictine Paris 1834-1839) para a palavra ἰστοπόδη, que é provavelmente a mesma que ἰστοπέδη, mas procurei a passagem em vão.]
[100] [ A autora está em falta aqui e tenta transferi-la para Circe. Quando Ulisses vem tomar a rota prescrita por Circe, devia passar ou pelas Errantes ou por alguma outra dificuldade de que não somos informados, mas não o faz. As Planctas, ou Errantes, fundem-se em Cila e Caríbdis, e a alternativa entre elas e algo por contar funde-se na alternativa de saber se Ulisses deveria escolher Cila ou Caríbdis. Contudo, a partir do verso 260, parece que devemos considerar que as Errantes foram passadas por Ulisses; isto aparece ainda mais claramente em xxiii. 327, em que Ulisses menciona expressamente os rochedos Errantes como tendo ficado entre as Sereias e Cila e Caríbdis. A autora, contudo, está显然 inconsciente de que não compreende bem a sua própria história; a sua dificuldade talvez se deva ao facto de que, embora os marinheiros de Trapani lhe tivessem dado uma ideia razoável de onde ficavam todas as suas outras localidades, ninguém naqueles dias mais do que nos nossos conseguia localizar as Planctas, que de facto, como Buttmann argumentou, foram derivadas não de qualquer local particular, mas de histórias de marinheiros sobre as dificuldades de navegar o grupo das ilhas Eólias como um todo (veja-se a nota sobre “Od.” x. 3). Ainda assim, a história das pobres pombas fascinou-a, por isso não quis prescindir delas. Os turbilhões de fogo e o fumo que paira sobre Cila sugerem alusão a Stromboli e talvez mesmo ao Etna. Cila está do lado italiano, e portanto pode dizer-se que olha para Oeste. Daí até à costa siciliana são cerca de 8 milhas, pelo que Ulisses pode perfeitamente ser informado de que, depois de passar Cila, chegará à ilha Trinácia ou Sicília. Caríbdis é transposta para um local algumas milhas ao norte da sua posição real.]
[101] [ Suponho que este verso tenha sido intercalado pela autora quando os versos 426-446 foram acrescentados.]
[102] [ Para as razões que nos permitem identificar a ilha das duas Sereias com a ilha Lipari agora Salinas — a antiga Didyme, ou ilha “gémea” — veja-se The Authoress of the Odyssey, pp. 195, 196. As duas Sereias eram sem dúvida, como o seu nome sugere, as rajadas assobiantes, ou avalanches de ar, que por vezes descendem sem aviso prévio das duas altas montanhas de Salinas — como também de todos os pontos altos da vizinhança.]
[103] [ Veja-se o Almirante Smyth sobre as correntes no Estreito de Messina, citado em “The Authoress of the Odyssey”, p. 197.]
[104] [ Nas ilhas de Favignana e Marettimo, ao largo de Trapani, vi homens pescar exactamente como aqui se descreve. Mastigam pão até fazerem uma pasta e atiram-na ao mar para atrair os peixes, que depois arpoam. Não se usa linha.]
[105] [ A autora显然 considera Ulisses numa costa que olhava para Este, não a grande distância a sul do Estreito de Messina, algures, por exemplo, perto de Tauroménio, agora Taormina.]
[106] [ Deveras deve faltar aqui um verso que nos diga que a quilha e o mastro foram arrastados para dentro de Caríbdis. Além disso, o aoristo {Greek} no seu contexto presente é perplexo. Traduzi-o como se fosse um imperfeito; vejo que Butcher e Lang o traduzem como pretérito-mais-que-perfeito, mas deveras Caríbdis estava a sugar a água quando Ulisses chegou.]
[107] [ Suponho que a passagem dentro de parênteses rectos tenha sido um pensamento posterior, mas escrita pela mesma mão do resto do poema. Suponho que xii. 103 tenha sido também acrescentado pela autora quando ela decidiu mandar Ulisses de volta a Caríbdis. A comparação sugere a mão da esposa ou filha de um magistrado que muitas vezes tinha visto o pai chegar de mau humor e cansado.]
[108] [ Gr. πολυδαίδαλος. Isto põe fora de questão moeda cunhada, mas implica nevertheless que o ouro tinha sido trabalhado em ornamentos de algum tipo.]
[109] [ Suponho que a profecia de Tirésias no livro xi. 114-120 não tivesse feito impressão em Ulisses. Mais provavelmente a profecia foi um pensamento posterior, intercalada, como já disse, pela autora quando ela mudou o seu esquema.]
[110] [ Um autor do sexo masculino teria feito Ulisses dizer, não “possais dar satisfação às vossas esposas”, mas “possam as vossas esposas dar-vos satisfação.”]
[111] [ Veja-se a nota [64].]
[112] [ A terra era na realidade a enseada pouco profunda, agora as salinas de S. Cusumano — a vizinhança de Trapani e do Monte Erice fazendo duplo papel, tanto como Esquéria como como Ítaca. Daí a necessidade de fazer Ulisses partir depois do anoitecer, cair instantemente num sono profundo, e acordar numa manhã tão nevoenta que não pudesse ver nada até que as entrevistas entre Neptuno e Júpiter e entre Ulisses e Minerva tivessem dado ao público tempo para aceitar a situação. Vejam-se as ilustrações e o mapa perto do fim dos livros v. e vi. respectivamente.]
[113] [ Esta caverna, que é identificável com singular precisão, é agora chamada a “grotta del toro”, provavelmente uma corrupção de “tesoro”, pois acredita-se que contém um tesouro. Veja-se The Authoress of the Odyssey, pp. 167-170.]
[114] [ Provavelmente teriam.]
[115] [ Então tinha um fundo pouco profundo e em declive.]
[116] [ Sem dúvida a estrada passaria pelo porto nos tempos odisseicos, como passa agora pelas salinas; de facto, se há-de haver uma estrada, não há outro terreno plano que ela pudesse tomar. Veja-se o mapa acima referido.]
[117] [ A rocha na extremidade do porto Norte de Trapani, à qual suponho que a autora da “Odisseia” se esteja aqui a referir, ainda tem o nome Malconsiglio — “a rocha do mau conselho”. Há uma lenda de que era um navio de piratas turcos que pretendiam atacar Trapani, mas a “Madonna di Trapani” os esmagou sob esta rocha mesmo quando estavam a entrar no porto. O meu amigo Cavaliere Giannitrapani de Trapani contou-me que o seu pai lhe dizia quando ele era rapaz que, se deixasse cair exactamente três gotas de azeite na água perto da rocha, veria o navio ainda no fundo. A lenda é evidentemente uma versão cristianizada da história odisseica, enquanto o nome fornece o detalhe adicional de que o desastre aconteceu em consequência de um mau conselho.]
[118] [ Parece então que o navio tinha voltado todo o caminho desde Ítaca em cerca de um quarto de hora.]
[119] [ E poderemos nós acrescentar “e também para impedir que ele reconhecesse que estava apenas no lugar onde tinha encontrado Nausícaa dois dias antes.”]
[120] [ Tudo isto serve para desculpar a completa ausência de Minerva dos livros ix-xii, que, suponho, já tinham sido escritos antes de a autora ter decidido fazer de Minerva uma personagem tão proeminente.]
[121] [ Já nos deparámos com esta tentativa algo desajeitada de cobrir a mudança de plano da escritora no fim do livro vi.]
[122] [ Retiro o seguinte de The Authoress of the Odyssey, p. 167. "É claro pelo texto que havia duas [cavernas] e não uma, mas alguém encerrou entre parênteses retos os dois versos em que a segunda caverna é mencionada, presumo porque se sentiu perplexo ao ver surgir-lhe uma segunda caverna quando até este ponto só lhe tinha sido falada de uma.
"Ouso pensar que, se conhecesse o terreno, não se teria sentido perplexo, pois há duas cavernas, distantes cerca de 80 ou 100 jardas uma da outra." A caverna em que Ulisses escondeu o seu tesouro é, como já disse, identificável com singular exatidão. A outra caverna não apresenta particularidades especiais, nem no poema nem na natureza.]
[123] [ Não se tenta disfarçar o facto de que Penélope há muito vinha encorajando os pretendentes. A única defesa apresentada é que ela não queria realmente encorajá-los. Não teria sido mais sensato tentar um pouco de desencorajamento?]
[124] [ Veja-se o mapa perto do fim do livro vi. Ruccazzù dei corvi significa, evidentemente, "a rocha dos corvos." Tanto o nome como os corvos ainda existem.]
[125] [ Veja-se The Authoress of the Odyssey, pp. 140, 141. A verdadeira razão para mandar Telémaco a Pilos e à Lacónia era que a autora pudesse introduzir Helena de Troia no seu poema. Ele foi mandado no único ponto da história em que podia ser mandado, de modo que ou tinha de ir nessa altura ou não iria de todo.]
[126] [ O local que atribuo à cabana de Eumeu, perto do Ruccazzù dei corvi, situa-se a cerca de 2.000 pés acima do nível do mar e domina uma vista muito extensa.]
[127] [ Sandálias como as que Eumeu estava a fabricar ainda hoje se usam nos Abruzzos e noutras paragens. Uma peça oblonga de couro forma a sola: fazem-se furos nos quatro cantos, e por esses furos passam-se correias de couro, que se atam em volta do pé e se cruzam em liga até à barriga da perna.]
[128] [ Veja-se a nota [75]: ]
[129] [ Telémaco, como tantos outros bons jovens, parece esperar que todos lhe vão buscar e trazer tudo.]
[130] [ "Il." vi. 288. A arrecadação era perfumada porque era feita de madeira de cedro. Veja-se "Il." xxiv. 192.]
[131] [ cf. "Il." vi. 289 e 293-296. O vestido era guardado no fundo do baú, como um traje que só seria preciso nas maiores ocasiões; mas decerto o casamento de Hermiona e o de Megapentes (livro iv, ad init.) poderiam ter induzido Helena a usá-lo na véspera, e nesse caso dificilmente teria podido regressar a tempo. Não encontramos aqui qualquer alusão ao recente casamento de Megapentes.]
[132] [ Veja-se a nota [83].]
[133] [ cf. "Od." xi. 196, etc.]
[134] [ Os nomes Syra e Ortígia, na ilha onde foi originalmente construída grande parte da Siracusa dórica, sugerem que mesmo em tempos odisseicos já existia uma Siracusa pré-histórica, cuja existência era conhecida da autora do poema.]
[135] [ Literalmente "onde estão as voltas do sol." Assumindo, como seguramente podemos fazer, que a Syra e Ortígia da "Odisseia" se referem a Siracusa, é facto que não muito para o Sul destes locais a terra vira bruscamente, de modo que os marinheiros que seguissem a costa encontrariam o sol no outro lado do seu navio em relação àquele em que o tinham tido até então.
O Sr. A. S. Griffith teve a amabilidade de chamar a minha atenção para Heródoto iv. 42, onde, falando da circumnavegação da África por marinheiros fenícios sob Necos, ele escreve:
"Na sua volta declararam — eu, quanto a mim, não lhes dou crédito, mas talvez outros possam dar — que, navegando em torno da Líbia [isto é, África], tiveram o sol à sua direita. Foi assim que a extensão da Líbia foi pela primeira vez descoberta.
"Presumo que Eumeu foi feito vir de Siracusa porque a autora pensou que devia, de algum modo, fazer acontecer algo em Siracusa durante a sua narrativa das viagens de Ulisses. Não podia, contudo, interromper a longa deriva dele de Caríbdis à ilha de Pantelária; resolveu, portanto, compensá-lo de outra forma relativamente a Siracusa."
As escavações modernas estabelecem a existência de duas e apenas duas comunidades pré-dóricas em Siracusa; estavam, segundo o Dr. Orsi me informou, em Plemmirio e Cozzo Pantano. Veja-se The Authoress of the Odyssey, pp. 211-213.]
[136] [ Este porto é, de novo, evidentemente o porto em que Ulisses tinha desembarcado, isto é, o porto que é agora as salinas de S. Cusumano.]
[137] [ Esta nunca poderia ter sido mais do que uma paga muito miserável por uns oito ou nove dias de serviço. Suponho que a tripulação deveria considerar o prazer de ter feito uma viagem a Pilos como compensação. Não há qualquer vestígio de o jantar ter sido efetivamente dado, nem na manhã seguinte nem em qualquer outra.]
[138] [ Nenhum falcão pode rasgar a presa enquanto está em voo.]
[139] [ O texto está aqui aparentemente corrompido, e não faz sentido tal como está. Sigo os Srs. Butcher & Lang omitindo o verso 101.]
[140] [ isto é, para ser ordenhada, como nas cidades do Sul de Itália e da Sicília nos dias de hoje.]
[141] [ A matança e o preparo das carcaças tiveram lugar parcialmente no pátio exterior e parcialmente na parte aberta do pátio interior.]
[142] [ Estas palavras não podem significar que seria fim de tarde pouco depois de terem sido pronunciadas. Ulisses e Eumeu chegaram à cidade, que ficava "a alguma distância" (xvii. 25), a tempo para a refeição matinal dos pretendentes (xvii. 170 e 176), digamos pelas dez ou onze horas. O contexto do resto do livro mostra isto. Eumeu e Ulisses, portanto, não podem ter partido depois das oito ou nove, e as palavras de Eumeu devem ser entendidas como um exagero destinado a fazer Ulisses apressar-se.]
[143] [ Imagino a fonte algures perto de onde se ergue hoje a igreja da Madonna di Trapani, e que era alimentada por água daquilo a que agora se chama a Fontana Diffali, no monte Érix.]
[144] [ Desta e de outras passagens da "Odisseia" depreende-se que estamos numa era anterior ao uso de moeda cunhada — uma era em que caldeirões, tripés, espadas, gado, bens de toda a espécie, medidas de cereal, vinho ou azeite, etc., etc., para não falar de peças de ouro, prata, bronze ou mesmo ferro, mais ou menos trabalhadas mas sem cunho, eram a aproximação mais próxima de uma moeda de câmbio que até então se tinha alcançado.]
[145] [ Gr. ἐς μέσσον.]
[146] [ Corrijo estas provas no estrangeiro e não tenho acesso a Hesíodo, mas decerto esta passagem sugere familiaridade com Os Trabalhos e os Dias, embora de modo nenhum o imponha.]
[147] [ Parece que Eurínome e Euricleia eram a mesma pessoa. Veja-se a nota 156]
[148] [ É claro, portanto, que Íris era comummente aceite como a mensageira dos deuses, embora a nossa autora nunca lhe permita ir buscar ou levar algo para ninguém.]
[149] [ isto é, a porta que conduzia do pátio interior para o pátio exterior.]
[150] [ Veja-se a nota 156]
[151] [ Estas, imagino, deveriam estar na parte aberta do pátio interior, onde também estavam as servas, e projetavam a luz das suas tochas para o claustro coberto que o circundava. De outro modo, o fumo teria sido intolerável.]
[152] [ Tradução muito incerta; vide Liddell and Scott, sob {Greek}]
[153] [ Veja-se a fotografia na página em frente.]
[154] [ cf. "Il." ii. 184, e 217, 218. Sendo necessário um traço adicional bem marcado para convencer Penélope, a escritora pegou nas costas curvadas de Tersites (que é mencionado imediatamente a seguir a Euríbates na "Ilíada") e colocou-as nas costas de Euríbates.]
[155] [ É assim que os gansos são agora alimentados na Sicília, pelo menos no verão, quando a erva está toda queimada. Nunca os vi a pastar.]
[156] [ Mais abaixo (verso 143) Euricleia diz que foi ela própria que atirou o manto sobre Ulisses — pois o plural não deve ser tomado como implicando mais de uma pessoa. A escritora está, evidentemente, ainda a oscilar entre Euricleia e Eurínome como nome da velha ama. Provavelmente pretendia originalmente chamar-lhe Euricleia, mas, verificando que não era imediatamente fácil fazer Euricleia escandir em xvii. 495, chamou-lhe à pressa Eurínome, intending ou alterar este nome mais tarde ou mudar a Euricleia anterior para Eurínome. Depois derivou para Eurínome conforme a conveniência ditava, continuando nevertheless a suspirar por Euricleia, até que por fim descobriu que o caminho de menor resistência seria fazer de Eurínome e Euricleia duas pessoas. Portanto, em xxiii. 289-292, surgem juntas Eurínome e "a ama" (que não pode ser senão Euricleia). Não digo que isto seja feminino, mas também não é desfeminino.]
[157] [ Veja-se a nota [156]]
[158] [ Isto, pelo que eu percebo, ficava imediatamente em frente da entrada principal do pátio interior para o corpo da casa.]
[159] [ Esta é a única alusão à Sardenha na "Ilíada" e na "Odisseia."]
[160] [ A tradução normal da palavra grega seria "contendo", "coibindo", "restringindo", mas não posso pensar que a escritora quisesse dizer isso — deve ter usado a palavra no seu outro sentido de "ter", "segurar", "manter", "conservar."]
[161] [ Tentei em vão perceber a construção do fecho aqui descrito.]
[162] [ Veja-se a planta da casa de Ulisses no apêndice. É evidente que a parte aberta do pátio não tinha outro pavimento senão a terra natural.]
[163] [ Veja-se a planta da casa de Ulisses, e a nota [175].]
[164] [ isto é, a porta que dava para o corpo da casa.]
[165] [ Esta era, sem dúvida, a mesinha que foi posta para Ulisses, "Od." xx. 259.
Decerto a dificuldade deste passo foi sobrevalorizada. Suponho que a parte de ferro do machado estivesse encaixada no cabo, ou atada com segurança a este — estando o cabo meio enterrado no chão. O machado seria colocado de cutelo voltado para o arqueiro, e ele teria de fazer passar a sua flecha pelo buraco no qual o cabo encaixava quando o machado estava em uso. Doze machados foram dispostos em fila, todos à mesma altura, todos exatamente em frente uns dos outros, todos de cutelo para Ulisses, cuja flecha passou por todos os buracos desde o primeiro em diante. Não vejo como o grego possa ter outra interpretação, sendo as palavras {Greek}
"Não falhou um único buraco, desde o primeiro em diante." {Greek} segundo Liddell and Scott é "o buraco para o cabo de um machado, etc.", enquanto {Greek} ("Od." v. 236) é, segundo as mesmas autoridades, o próprio cabo. A proeza é absurdamente impossível, mas a nossa autora tem por vezes uma alma acima das impossibilidades.]
[166] [ O leitor notará como a autora se vê atormentada pela destruição de boa comida mesmo num momento tão supremo como este.]
[167] [ Aqui temos isso de novo. O desperdício de bens vem em primeiro lugar.]
[168] [ cf. "Il." iii. 337 e outros três passos. É estranho que o autor da "Ilíada" considere um pouco de crina de cavalo tão assustador. É possível que se limitasse a tomar emprestado um verso formular comum de algum poeta anterior — ou poetisa — pois isto é mais um verso de mulher do que de homem.]
[169] [ Ou talvez simplesmente "janela". Veja-se a planta no apêndice.]
[170] [ isto é, o pavimento sobre o qual Ulisses estava de pé.]
[171] [ A interpretação dos versos 126-143 é extremamente duvidosa, e na melhor das hipóteses estamos numa região de melodrama: cf., contudo, i. 425, etc., donde se deduz que havia uma torre no pátio exterior, e que Telémaco ali costumava dormir. A ὀρσοθύρα considero ser uma porta, ou alçapão, que dava para o telhado por cima do quarto de Telémaco, que sabemos estar num local visível de toda a volta — ou poderá ser simplesmente uma janela no quarto de Telémaco, dando para a rua. Do topo da torre, o mundo exterior deveria ser informado do que se passava, mas as pessoas não podiam entrar pela ὀρσοθύρα: teriam de entrar pela entrada principal, e Melântio explica que a boca do corredor estreito (que estava nas mãos de Ulisses e seus amigos) comandava a única entrada por onde podia vir ajuda, de modo que não se ganharia nada em dar o alarme.
Quanto às ῥῶγες do verso 143, nenhum comentador, antigo ou moderno, conseguiu dizer o que se pretendia — mas, fossem o que fossem, Melântio nunca poderia transportar doze escudos, doze elmos e doze lanças. Além disso, para onde ele pudesse ir, os outros também podiam ir. Se uma dúzia de pretendentes tivesse seguido Melântio para dentro da casa, poderiam ter atacado Ulisses pela retaguarda, e nesse caso, a menos que Minerva tivesse intervindo prontamente, a "Odisseia" teria tido um desfecho diferente. Mas ao longo de toda a cena estamos numa região de extravagância e não de verdadeira ficção — não pode ser levada a sério por ninguém, a não ser pelos muito sérios, até chegarmos ao episódio de Fémio e Medon, onde a autora começa de novo a estar em terreno firme.]
[172] [ Presumo que se pretendia que houvesse um gancho cravado no poste de apoio.]
[173] [ Para quê?]
[174] [ Gr: {Greek}. Isto não é {Greek}.]
[175] [ Pelos versos 333 e 341 deste livro, e pelos versos 145 e 146 do livro xxi, podemos situar com alguma certeza a aproximação à {Greek}.]
[176] [ Mas em xix. 500-502 Ulisses repreendeu Euricleia por ter oferecido informações justamente sobre este ponto, e declarou-se perfeitamente capaz de resolvê-lo por si mesmo.]
[177] [ Havia cento e oito pretendentes.]
[178] [ Lord Grimthorpe, cuja compreensão não se presta facilmente a ser ludibriada, teve a amabilidade de me escrever acerca da minha convicção de que a "Odisseia" foi escrita por uma mulher, e de me enviar observações sobre o grotesco absurdo do incidente aqui registado. É claro que a autora só se preocupava era que as mulheres fossem enforcadas: quanto a tentar realizar, ou fazer os leitores realizarem, como o enforcamento foi executado, isso era coisa de nenhuma importância. O leitor deve aceitar a sua palavra e não fazer perguntas. Lord Grimthorpe escreveu:
"É melhor enviar-lhe as minhas ideias sobre o enforcamento das criadas por Nausícaa (não 'donzelas', sobre as quais Froude escreveu tão bem na sua 'Ciência da História') antes que me esqueça de tudo. Por sorte para mim, Liddell & Scott traduziram especialmente a maioria das palavras duvidosas, remetendo precisamente para este passo.
"Um cabo de navio. Não sei que tamanho de navio ela tinha em mente, mas teria de ser um muito pequeno mesmo se o seu 'cabo' pudesse ser usado para atar com firmeza o pescoço de uma mulher, e ainda mais de uma dúzia delas 'em fila', além de suficientemente forte para as suster e içá-las a todas.
"Uma dúzia de mulheres de estatura média exigiria o peso e a força de mais de uma dúzia de homens robustos e pesados, mesmo sobre a melhor roldana presa ao teto por cima delas; e a ideia de as içar por uma corda presa de qualquer modo a um pilar {Greek} é absurdamente impossível; e como uma dúzia delas poderia ser enforcada balouçando-se à volta de um mesmo poste é um problema que confundiria até um senior wrangler... Mais valia ter deixado Telémaco usar a espada, como tinha ele próprio intencionado, até que ela lhe mudou a ideia."
]
[179] [ Então todas elas estavam ao serviço de Ulisses havia mais de vinte anos; talvez as doze culpadas tivessem sido contratadas mais recentemente.]
[180] [ Tradução muito duvidosa — cf. "Il." xxiv. 598.]
[181] [ Mas por que não poderia ela pedir imediatamente para ver a cicatriz, de que Euricleia lhe tinha dado conta, ou por que não lha poderia mostrar Ulisses?]
[182] [ Os habitantes de Ítaca parecem ter sido tão dadas à murmuração como os feácios em vi. 273, etc.]
[183] [ Veja-se a nota [156]. O quarto de Ulisses não parece ter estado num andar superior, nem tampouco bem dentro de casa. Será possível que fosse "o quarto abobadado" em torno do exterior do qual as servas pecadoras ainda estavam, tanto quanto sabemos, dependuradas?]
[184] [ O quarto de Ulisses, na mente da escritora, está aqui demasiado aparentemente no rés do chão.]
[185] [ Penélope, uma vez suficientemente branqueada, desaparece do poema.]
[186] [ Uma lavadeira tão experiente como a nossa autora sabia decerto que, a esta altura, a teia devia estar num estado tal que se desfaria em pedaços na lavagem.
Uma senhora chama-me a atenção, mesmo quando estas folhas estão a sair das minhas mãos, para o facto de que nenhuma boa costureira — ninguém, de facto, cujo trabalho ou carácter valesse a pena considerar — poderia ter suportado, fosse por que razão fosse, o desfazer do seu trabalho do dia, dia após dia, durante quase quatro anos.]
[187] [ Devemos supor que Dólio ainda não sabia que o seu filho Melântio tinha sido torturado, mutilado e deixado a morrer por ordem de Ulisses no dia anterior, e que a sua filha Melanto tinha sido enforcada. Dólio era provavelmente excecionalmente simplório, e o seu nome era irónico. Assim, no monte Érix, mostraram-me um homem a quem chamavam sempre Sonza Malizia ou "Sem Malícia" — sendo ele considerado excecionalmente astuto.]