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The Phantom of the Opera

by Gaston Leroux · in Portuguese

O Fantasma da Ópera

por

Gaston Leroux

Autor de "O Mistério do Quarto Amarelo" e "O Perfume da Dama de Preto"

Conteúdo

Capítulo

PRÓLOGO I É O FANTASMA? II A NOVA MARGARITA III A RAZÃO MISTERIOSA IV CAMAROTE CINCO V O VIOLINO ENCANTADO VI UMA VISITA AO CAMAROTE CINCO VII FAUSTO E O QUE SE SEGUIU VIII O BROUGHAM MISTERIOSO IX NO BAILE DE MÁSCARAS X ESQUEÇA O NOME DA VOZ DO HOMEM XI ACIMA DOS ALÇAPÕES XII A LIRA DE APOLO XIII UMA JOGADA DE MESTRE DO AMANTE DOS ALÇAPÕES XIV A ATITUDE SINGULAR DE UM ALFINETE DE SEGURANÇA XV CHRISTINE! CHRISTINE! XVI AS REVELAÇÕES DA SRA. GIRY XVII O ALFINETE DE SEGURANÇA NOVAMENTE XVIII O COMISSÁRIO, O VISCONDE E O PERSA XIX O VISCONDE E O PERSA XX NOS PORÕES DA ÓPERA XXI VICISSITUDES INTERESSANTES XXII NA CÂMARA DE TORTURA XXIII AS TORTURAS COMEÇAM XXIV BARRIS! BARRIS! XXV O ESCORPIÃO OU O GAFANHOTO: QUAL XXVI O FIM DA HISTÓRIA DE AMOR DO FANTASMA EPÍLOGO

{mais um "capítulo bônus" chamado "O TEATRO DA ÓPERA DE PARIS"}

O Fantasma da Ópera

Prólogo

NO QUAL O AUTOR DESTA OBRA SINGULAR INFORMA AO LEITOR COMO ADQUIRIU A CERTEZA DE QUE O FANTASMA DA ÓPERA REALMENTE EXISTIU

O fantasma da Ópera realmente existiu. Ele não era, como se acreditou durante muito tempo, uma criatura da imaginação dos artistas, da superstição dos gerentes, ou um produto dos cérebros absurdos e impressionáveis das jovens do balé, de suas mães, dos bilheteiros, dos funcionários do guarda-volumes ou do zelador. Sim, ele existia de carne e osso, embora assumisse a aparência completa de um verdadeiro fantasma; isto é, de uma sombra espectral.

Quando comecei a remexer os arquivos da Academia Nacional de Música, fui imediatamente atingido pelas surpreendentes coincidências entre os fenômenos atribuídos ao "fantasma" e a tragédia mais extraordinária e fantástica que jamais agitou as classes altas de Paris; e logo concebi a ideia de que esta tragédia poderia razoavelmente ser explicada pelos fenômenos em questão. Os eventos não datam de mais de trinta anos atrás; e não seria difícil encontrar, nos dias de hoje, no foyer do balé, velhos homens da mais alta respeitabilidade, homens em cuja palavra se poderia confiar absolutamente, que se lembrariam, como se tivessem acontecido ontem, das condições misteriosas e dramáticas que acompanharam o sequestro de Christine Daaé, o desaparecimento do Visconde de Chagny e a morte de seu irmão mais velho, o Conde Philippe, cujo corpo foi encontrado na margem do lago que existe nos porões da Ópera, do lado da Rue Scribe. Mas nenhuma dessas testemunhas havia, até aquele dia, pensado que houvesse qualquer razão para conectar a figura mais ou menos lendária do fantasma da Ópera àquela história terrível.

A verdade demorou a entrar em minha mente, intrigada por uma investigação que, a cada momento, era complicada por eventos que, à primeira vista, poderiam ser considerados sobre-humanos; e mais de uma vez estive prestes a abandonar uma tarefa na qual eu me esgotava na busca infrutífera por uma imagem vã. Finalmente, recebi a prova de que meus pressentimentos não me haviam enganado, e fui recompensado por todos os meus esforços no dia em que adquiri a certeza de que o fantasma da Ópera era mais do que uma simples sombra.

Naquele dia, passei longas horas debruçado sobre AS MEMÓRIAS DE UM GERENTE, a obra leve e frívola do cético Moncharmin, que, durante seu mandato na Ópera, não entendeu nada do comportamento misterioso do fantasma e que zombava dele o quanto podia no exato momento em que se tornou a primeira vítima da curiosa operação financeira que ocorria dentro do "envelope mágico".

Eu acabara de deixar a biblioteca em desespero quando encontrei o encantador gerente interino de nossa Academia Nacional, que conversava em um patamar com um homenzinho vivo e bem-apessoado, a quem me apresentou alegremente. O gerente interino sabia tudo sobre minhas investigações e sobre o quão ansiosamente e sem sucesso eu tentava descobrir o paradeiro do magistrado encarregado do famoso caso Chagny, o Sr. Faure. Ninguém sabia o que tinha acontecido com ele, se estava vivo ou morto; e eis que ele estava de volta do Canadá, onde passara quinze anos, e a primeira coisa que fizera, ao retornar a Paris, fora ir aos escritórios da secretaria da Ópera e pedir um ingresso gratuito. O homenzinho era o próprio Sr. Faure.

Passamos boa parte da noite juntos e ele me contou todo o caso Chagny como o entendera na época. Ele foi forçado a concluir pela loucura do visconde e pela morte acidental do irmão mais velho, por falta de provas em contrário; mas estava, no entanto, persuadido de que uma tragédia terrível ocorrera entre os dois irmãos em relação a Christine Daaé. Ele não pôde me dizer o que aconteceu com Christine ou com o visconde. Quando mencionei o fantasma, ele apenas riu. Ele também ouvira falar das curiosas manifestações que pareciam apontar para a existência de um ser anormal, residindo em um dos cantos mais misteriosos da Ópera, e conhecia a história do envelope; mas nunca vira nela nada digno de sua atenção como magistrado encarregado do caso Chagny, e o máximo que fizera fora ouvir o depoimento de uma testemunha que apareceu por vontade própria e declarou que encontrara frequentemente o fantasma. Essa testemunha não era ninguém menos que o homem a quem toda Paris chamava de "o Persa" e que era bem conhecido de todos os assinantes da Ópera. O magistrado o tomou por um visionário.

Fiquei imensamente interessado por essa história do Persa. Queria, se ainda houvesse tempo, encontrar essa testemunha valiosa e excêntrica. Minha sorte começou a melhorar e eu o descobri em seu pequeno apartamento na Rue de Rivoli, onde ele vivera desde então e onde morreu cinco meses após minha visita. A princípio, inclinei-me a ficar desconfiado; mas quando o Persa me contou, com candura infantil, tudo o que sabia sobre o fantasma e me entregou as provas da existência do fantasma — incluindo a estranha correspondência de Christine Daaé — para fazer o que eu quisesse, não fui mais capaz de duvidar. Não, o fantasma não era um mito!

Sei que me disseram que essa correspondência pode ter sido forjada do início ao fim por um homem cuja imaginação certamente fora alimentada com os contos mais sedutores; mas, felizmente, descobri alguns escritos de Christine fora do famoso maço de cartas e, ao comparar os dois, todas as minhas dúvidas foram dissipadas. Também investiguei o passado do Persa e descobri que ele era um homem íntegro, incapaz de inventar uma história que pudesse ter frustrado os fins da justiça.

Esta, aliás, era a opinião das pessoas mais sérias que, em um momento ou outro, estiveram envolvidas no caso Chagny, que eram amigas da família Chagny, a quem mostrei todos os meus documentos e expus todas as minhas inferências. A este respeito, gostaria de imprimir algumas linhas que recebi do General D----:

SENHOR:

Não posso deixar de insistir para que publique os resultados de sua investigação. Lembro-me perfeitamente de que, algumas semanas antes do desaparecimento daquela grande cantora, Christine Daaé, e da tragédia que deixou todo o Faubourg Saint-Germain de luto, falava-se muito, no foyer do balé, sobre o assunto do "fantasma"; e acredito que só se deixou de discuti-lo em consequência do caso posterior que a todos nós tanto agitou. Mas, se for possível — como, depois de ouvi-lo, acredito — explicar a tragédia através do fantasma, então peço-lhe, senhor, que nos fale novamente sobre o fantasma.

Por mais misterioso que o fantasma possa parecer a princípio, ele sempre será mais facilmente explicado do que a história sombria na qual pessoas mal-intencionadas tentaram pintar dois irmãos matando um ao outro, quando se adoraram durante toda a vida.

Acredite-me, etc.

Por fim, com meu maço de papéis em mãos, percorri mais uma vez o vasto domínio do fantasma, o enorme edifício que ele tornara seu reino. Tudo o que meus olhos viram, tudo o que minha mente percebeu, corroborou os documentos do Persa com precisão; e uma descoberta maravilhosa coroou meus trabalhos de forma muito definitiva. Lembrar-se-á de que, mais tarde, ao escavar a subestrutura da Ópera, antes de enterrar os registros fonográficos da voz da artista, os operários desenterraram um cadáver. Bem, fui imediatamente capaz de provar que este cadáver era o do fantasma da Ópera. Fiz com que o gerente interino colocasse essa prova à prova com suas próprias mãos; e agora é uma questão de suprema indiferença para mim se os jornais fingem que o corpo era o de uma vítima da Comuna.

Os miseráveis que foram massacrados, sob a Comuna, nos porões da Ópera, não foram enterrados deste lado; direi onde seus esqueletos podem ser encontrados, em um local não muito longe daquela imensa cripta que foi estocada durante o cerco com todo tipo de provisões. Cheguei a esse rastro exatamente quando procurava os restos mortais do fantasma da Ópera, que jamais teria descoberto não fosse pela chance inaudita descrita acima.

Mas voltaremos ao cadáver e ao que deveria ser feito com ele. Por ora, devo concluir esta introdução muito necessária agradecendo ao Sr. Mifroid (que foi o comissário de polícia chamado para as primeiras investigações após o desaparecimento de Christine Daaé), ao Sr. Remy, o falecido secretário, ao Sr. Mercier, o falecido gerente interino, ao Sr. Gabriel, o falecido mestre do coro, e mais particularmente à Sra. Baronesa de Castelot-Barbezac, que foi outrora a "pequena Meg" da história (e que não se envergonha disso), a estrela mais encantadora de nosso admirável corpo de balé, a filha mais velha da digna Sra. Giry, agora falecida, que cuidava do camarote privado do fantasma. Todos estes foram de grande auxílio para mim; e, graças a eles, serei capaz de reproduzir aquelas horas de puro amor e terror, em seus mínimos detalhes, diante dos olhos do leitor.

E eu seria deveras ingrato se omitisse, ao estar no limiar desta história terrível e verídica, agradecer à atual administração da Ópera, que tão gentilmente me auxiliou em todas as minhas pesquisas, e ao Sr. Messager em particular, juntamente com o Sr. Gabion, o gerente interino, e aquele que é o mais amável dos homens, o arquiteto encarregado da preservação do edifício, que não hesitou em me emprestar as obras de Charles Garnier, embora estivesse quase certo de que eu jamais as devolveria. Por fim, devo prestar uma homenagem pública à generosidade de meu amigo e ex-colaborador, Sr. J. Le Croze, que me permitiu mergulhar em sua esplêndida biblioteca teatral e tomar emprestadas as edições mais raras de livros aos quais ele dava muito valor.

GASTON LEROUX.

Capítulo I É o Fantasma?

Era a noite em que os Srs. Debienne e Poligny, os gerentes da Ópera, davam uma última apresentação de gala para marcar sua aposentadoria. De repente, o camarim de La Sorelli, uma das principais bailarinas, foi invadido por meia dúzia de jovens do balé, que haviam subido do palco após "dançarem" Polyeucte. Entraram em meio a uma grande confusão, algumas soltando risadas forçadas e antinaturais, outras gritos de terror. Sorelli, que desejava ficar sozinha por um momento para "passar" o discurso que faria aos gerentes que se demitiam, olhou com raiva para a multidão louca e tumultuada. Foi a pequena Jammes — a menina com o nariz arrebitado, os olhos cor de miosótis, as bochechas cor de rosa e o pescoço e ombros brancos como lírios — quem deu a explicação com uma voz trêmula:

"É o fantasma!" E trancou a porta.

O camarim de Sorelli era equipado com uma elegância oficial e comum. Um espelho de corpo inteiro, um sofá, uma penteadeira e um ou dois armários forneciam o mobiliário necessário. Nas paredes pendiam algumas gravuras, relíquias da mãe, que conhecera as glórias da antiga Ópera na Rue le Peletier; retratos de Vestris, Gardel, Dupont, Bigottini. Mas o quarto parecia um palácio para as crianças do corpo de balé, que eram alojadas em camarins comuns onde passavam o tempo cantando, brigando, dando tapas nas camareiras e cabeleireiros e comprando umas às outras copos de cassis, cerveja ou até rum, até que o sino do mensageiro tocasse.

Sorelli era muito supersticiosa. Ela estremeceu ao ouvir a pequena Jammes falar do fantasma, chamou-a de "tolinha" e então, como era a primeira a acreditar em fantasmas em geral, e no fantasma da Ópera em particular, pediu imediatamente detalhes:

"Você o viu?"

"Tão claramente quanto vejo você agora!" disse a pequena Jammes, cujas pernas estavam cedendo sob ela, e ela caiu com um gemido em uma cadeira.

Então a pequena Giry — a garota com olhos pretos como bagas de zimbro, cabelos pretos como tinta, uma tez morena e uma pelezinha pobre esticada sobre ossinhos pobres — a pequena Giry acrescentou:

"Se aquele é o fantasma, ele é muito feio!"

"Oh, sim!" gritou o coro das bailarinas.

E todas começaram a falar ao mesmo tempo. O fantasma lhes aparecera na forma de um cavalheiro de fraque, que estivera subitamente diante delas no corredor, sem que soubessem de onde viera. Parecia ter atravessado a parede.

"Puf!" disse uma delas, que tinha mais ou menos mantido a calma. "Vocês veem o fantasma em toda parte!"

E era verdade. Por vários meses, não se discutia nada na Ópera além desse fantasma de fraque que perambulava pelo edifício, de cima a baixo, como uma sombra, que não falava com ninguém, com quem ninguém ousava falar e que desaparecia assim que era visto, sem que ninguém soubesse como ou onde. Como convinha a um verdadeiro fantasma, ele não fazia barulho ao andar. As pessoas começaram rindo e zombando desse espectro vestido como um homem da moda ou um agente funerário; mas a lenda do fantasma logo cresceu para proporções enormes entre o corpo de balé. Todas as garotas fingiam ter encontrado esse ser sobrenatural mais ou menos frequentemente. E as que riam mais alto não eram as que estavam mais à vontade. Quando ele não se mostrava, ele traía sua presença ou sua passagem por acidentes, cômicos ou sérios, pelos quais a superstição geral o considerava responsável. Se alguém sofria uma queda, ou era vítima de uma brincadeira feita por uma das outras garotas, ou perdia um pó de arroz, era imediatamente culpa do fantasma, do fantasma da Ópera.

Afinal, quem o vira? Encontra-se tantos homens de fraque na Ópera que não são fantasmas. Mas esse fraque tinha uma peculiaridade própria. Cobria um esqueleto. Pelo menos, foi o que disseram as bailarinas. E, é claro, ele tinha uma cabeça de morte.

Era tudo sério? A verdade é que a ideia do esqueleto veio da descrição do fantasma dada por Joseph Buquet, o chefe dos contrarregras, que realmente vira o fantasma. Ele esbarrara com o fantasma na escadinha, perto das luzes da ribalta, que leva aos "porões". Ele o vira por um segundo — pois o fantasma fugira — e a qualquer um que se interessasse em ouvi-lo, ele dizia:

"Ele é extraordinariamente magro e seu fraque pende sobre uma estrutura de esqueleto. Seus olhos são tão profundos que mal se pode ver as pupilas fixas. Vê-se apenas dois grandes buracos negros, como no crânio de um homem morto. Sua pele, que está esticada sobre seus ossos como a pele de um tambor, não é branca, mas um amarelo desagradável. Seu nariz é tão pouco digno de nota que não se pode vê-lo de perfil; e A AUSÊNCIA desse nariz é uma coisa horrível DE SE OLHAR. Todo o cabelo que ele tem são três ou quatro longas madeixas escuras em sua testa e atrás de suas orelhas."

Esse chefe dos contrarregras era um homem sério, sóbrio, estável, muito lento para imaginar coisas. Suas palavras foram recebidas com interesse e espanto; e logo houve outras pessoas a dizer que também haviam encontrado um homem de fraque com uma cabeça de morte sobre os ombros. Homens sensatos que tinham ouvido falar da história começaram dizendo que Joseph Buquet fora vítima de uma brincadeira feita por um de seus assistentes. E então, um após o outro, surgiu uma série de incidentes tão curiosos e tão inexplicáveis que as pessoas mais astutas começaram a se sentir inquietas.

Por exemplo, um bombeiro é um sujeito corajoso! Ele não teme nada, muito menos o fogo! Bem, o bombeiro em questão, que fora fazer uma ronda de inspeção nos porões e que, ao que parece, se aventurara um pouco mais longe do que o habitual, reapareceu repentinamente no palco, pálido, assustado, tremendo, com os olhos saltando das órbitas, e praticamente desmaiou nos braços da orgulhosa mãe da pequena Jammes.[1] E por quê? Porque vira vir em sua direção, NA ALTURA DE SUA CABEÇA, MAS SEM UM CORPO LIGADO A ELA, UMA CABEÇA DE FOGO! E, como eu disse, um bombeiro não tem medo do fogo.

O nome do bombeiro era Pampin.

O corpo de balé foi lançado em consternação. À primeira vista, essa cabeça ígnea não correspondia de forma alguma à descrição do fantasma feita por Joseph Buquet. Mas as jovens logo se persuadiram de que o fantasma tinha várias cabeças, que trocava como bem entendia. E, é claro, imaginaram imediatamente que estavam no maior perigo. Uma vez que um bombeiro não hesitou em desmaiar, líderes, meninas da primeira fileira e da última fileira alike tinham desculpas de sobra para o susto que as fazia apressar o passo ao passar por algum canto escuro ou corredor mal iluminado. A própria Sorelli, no dia seguinte à aventura do bombeiro, colocou uma ferradura sobre a mesa em frente à guarita do porteiro do palco, que todos que entrassem na Ópera de outra forma que não como espectadores deveriam tocar antes de colocar os pés no primeiro degrau da escadaria. Essa ferradura não foi inventada por mim — assim como nenhuma outra parte desta história, ai de mim! — e ainda pode ser vista sobre a mesa no corredor, fora da guarita do porteiro do palco, quando você entra na Ópera pelo pátio conhecido como Cour de l'Administration.

Voltando à noite em questão.

"É o fantasma!" gritara a pequena Jammes.

Um silêncio agonizante reinava agora no camarim. Não se ouvia nada além da respiração pesada das garotas. Finalmente, Jammes, lançando-se contra o canto mais distante da parede, com todas as marcas de terror real no rosto, sussurrou:

"Ouçam!"

Todas pareciam ouvir um farfalhar fora da porta. Não havia som de passos. Era como seda leve deslizando sobre o painel. Então parou.

Sorelli tentou demonstrar mais coragem do que as outras. Aproximou-se da porta e, com voz trêmula, perguntou:

"Quem está aí?"

Mas ninguém respondeu. Então, sentindo todos os olhos sobre ela, observando seu último movimento, ela fez um esforço para demonstrar coragem e disse muito alto:

"Há alguém atrás da porta?"

"Oh, sim, sim! É claro que há!" gritou aquela pequena ameixa seca de Meg Giry, segurando heroicamente Sorelli por sua saia de gaze. "Faça o que fizer, não abra a porta! Oh, Deus, não abra a porta!"

Mas Sorelli, armada com um punhal que nunca a deixava, girou a chave e puxou a porta, enquanto as bailarinas recuavam para o camarim interno e Meg Giry suspirava:

"Mãe! Mãe!"

Sorelli olhou para o corredor corajosamente. Estava vazio; uma chama de gás, em sua prisão de vidro, lançava uma luz vermelha e suspeita na escuridão circundante, sem conseguir dissipá-la. E a bailarina bateu a porta novamente, com um suspiro profundo.

"Não," disse ela, "não há ninguém lá."

"Ainda assim, nós o vimos!" Jammes declarou, retornando com passinhos tímidos para o seu lugar ao lado de Sorelli. "Ele deve estar em algum lugar rondando. Não vou voltar para me vestir. É melhor irmos todas juntas para o foyer, imediatamente, para o 'discurso', e subiremos todas juntas novamente."

E a criança tocou reverentemente o pequeno anel de coral que usava como amuleto contra o azar, enquanto Sorelli, furtivamente, com a ponta da unha do polegar direito rosado, fazia uma cruz de Santo André no anel de madeira que adornava o quarto dedo da mão esquerda. Ela disse às pequenas bailarinas:

"Vamos, crianças, recompõem-se! Duvido muito que alguém tenha visto o fantasma."

"Sim, sim, nós o vimos — nós o vimos agora mesmo!" gritaram as meninas. "Ele estava com sua cabeça de morto e seu fraque, exatamente como quando apareceu para Joseph Buquet!"

"E Gabriel também o viu!" disse Jammes. "Ainda ontem! Ontem à tarde — em plena luz do dia..."

"Gabriel, o mestre do coro?"

"Ora, sim, você não sabia?"

"E ele estava usando seu fraque, em plena luz do dia?"

"Quem? Gabriel?"

"Ora, não, o fantasma!"

"Certamente! Gabriel me contou isso ele mesmo. Foi assim que ele o reconheceu. Gabriel estava no escritório do contrarregra. De repente, a porta se abriu e o persa entrou. Você sabe que o persa tem o mau-olhado..."

"Oh, sim!" responderam as pequenas bailarinas em coro, afastando o azar ao apontar o dedo indicador e o dedo mínimo para o persa ausente, enquanto o dedo médio e o anelar ficavam dobrados na palma da mão e presos pelo polegar.

"E vocês sabem como o Gabriel é supersticioso", continuou Jammes. "No entanto, ele é sempre educado. Quando encontra o persa, simplesmente coloca a mão no bolso e toca em suas chaves. Bem, no momento em que o persa apareceu na porta, Gabriel deu um salto da cadeira até a fechadura do armário, para tocar em ferro! Ao fazer isso, rasgou toda a aba do seu sobretudo em um prego. Apressando-se para sair da sala, bateu a testa em um cabide e fez um enorme galo; então, recuando subitamente, arranhou o braço no biombo, perto do piano; tentou se apoiar no piano, mas a tampa caiu sobre suas mãos e esmagou seus dedos; ele saiu correndo do escritório como um louco, escorregou na escadaria e desceu todo o primeiro lance de costas. Eu estava passando com a mamãe. Nós o ajudamos a levantar. Ele estava coberto de hematomas e seu rosto estava todo ensanguentado. Ficamos apavoradas, mas, de repente, ele começou a agradecer à Providência por ter se safado com tão pouco. Então ele nos contou o que o havia assustado. Ele tinha visto o fantasma atrás do persa, O FANTASMA COM A CABEÇA DE MORTO, exatamente como na descrição de Joseph Buquet!"

Jammes contara sua história tão rapidamente, como se o fantasma estivesse em seus calcanhares, e estava completamente sem fôlego ao terminar. Seguiu-se um silêncio, enquanto Sorelli polia as unhas em grande excitação. Foi quebrado pela pequena Giry, que disse:

"Joseph Buquet faria melhor em ficar de boca fechada."

"Por que ele deveria ficar de boca fechada?" perguntou alguém.

"Essa é a opinião da mamãe", respondeu Meg, baixando a voz e olhando ao redor como se temesse que outros ouvidos além daqueles presentes pudessem ouvir.

"E por que essa é a opinião da sua mãe?"

"Shh! A mamãe diz que o fantasma não gosta que falem dele."

"E por que sua mãe diz isso?"

"Porque... porque... nada..."

Essa reticência exasperou a curiosidade das jovens, que se aglomeraram ao redor da pequena Giry, implorando que ela se explicasse. Elas estavam lá, lado a lado, inclinando-se simultaneamente em um movimento de súplica e medo, comunicando o terror umas às outras, sentindo um prazer intenso em sentir o sangue congelar em suas veias.

"Eu jurei não contar!" ofegou Meg.

Mas elas não lhe deram paz e prometeram guardar segredo, até que Meg, ardendo para dizer tudo o que sabia, começou, com os olhos fixos na porta:

"Bem, é por causa do camarote privado."

"Que camarote privado?"

"O camarote do fantasma!"

"O fantasma tem um camarote? Oh, conte-nos, conte-nos!"

"Não tão alto!" disse Meg. "É o Camarote Cinco, sabe, o camarote no grande balcão, ao lado do camarote de palco, à esquerda."

"Oh, bobagem!"

"Eu digo que é. A mamãe é a responsável por ele. Mas vocês juram que não dirão uma palavra?"

"Claro, claro."

"Bem, aquele é o camarote do fantasma. Ninguém o ocupa há mais de um mês, exceto o fantasma, e ordens foram dadas na bilheteria para que ele nunca seja vendido."

"E o fantasma realmente vai lá?"

"Sim."

"Então alguém vai lá?"

"Ora, não! O fantasma vem, mas não há ninguém lá."

As pequenas bailarinas trocaram olhares. Se o fantasma ia ao camarote, ele deveria ser visto, porque usava fraque e cabeça de morto. Foi isso que tentaram fazer Meg entender, mas ela respondeu:

"É exatamente isso! O fantasma não é visto. E ele não tem fraque nem cabeça! Toda essa conversa sobre sua cabeça de morto e sua cabeça de fogo é bobagem! Não há nada disso. Você só o ouve quando ele está no camarote. A mamãe nunca o viu, mas ela o ouviu. A mamãe sabe, porque ela lhe entrega o programa."

Sorelli interferiu.

"Giry, criança, você está zombando de nós!"

Diante disso, a pequena Giry começou a chorar.

"Eu deveria ter ficado calada — se a mamãe soubesse! Mas eu estava com toda a razão, Joseph Buquet não tinha nada que falar de coisas que não lhe dizem respeito — isso vai lhe trazer má sorte — a mamãe estava dizendo isso ontem à noite..."

Houve um som de passos apressados e pesados no corredor e uma voz ofegante gritou:

"Cecile! Cecile! Você está aí?"

"É a voz da mamãe", disse Jammes. "O que houve?"

Ela abriu a porta. Uma senhora respeitável, construída nos moldes de um granadeiro pomerano, irrompeu no camarim e caiu gemendo em uma poltrona vazia. Seus olhos giravam loucamente em seu rosto cor de tijolo.

"Que horror!" ela disse. "Que horror!"

"O quê? O quê?"

"Joseph Buquet!"

"O que tem ele?"

"Joseph Buquet está morto!"

O quarto encheu-se de exclamações, de gritos de espanto, de pedidos assustados por explicações.

"Sim, ele foi encontrado enforcado no porão do terceiro andar!"

"É o fantasma!" a pequena Giry deixou escapar, como se fosse contra sua vontade; mas ela imediatamente se corrigiu, com as mãos pressionadas contra a boca: "Não, não! — Eu não disse isso! — Eu não disse isso!..."

Ao redor dela, suas companheiras em pânico repetiam em voz baixa:

"Sim — deve ser o fantasma!"

Sorelli estava muito pálida.

"Eu nunca serei capaz de recitar meu discurso", disse ela.

A Sra. Jammes deu sua opinião, enquanto esvaziava um copo de licor que por acaso estava sobre a mesa; o fantasma devia ter algo a ver com isso.

A verdade é que ninguém nunca soube como Joseph Buquet encontrou a morte. O veredito no inquérito foi "suicídio natural". Em suas Memórias de Gerente, o Sr. Moncharmin, um dos gerentes conjuntos que sucederam aos Srs. Debienne e Poligny, descreve o incidente da seguinte forma:

"Um acidente lamentável estragou a pequena festa que os Srs. Debienne e Poligny deram para celebrar sua aposentadoria. Eu estava no escritório do gerente, quando Mercier, o gerente interino, entrou subitamente. Ele parecia meio louco e me disse que o corpo de um cenarista havia sido encontrado enforcado no terceiro porão sob o palco, entre uma fazenda e um cenário de O Rei de Lahore. Eu gritei:

"'Venham e cortem a corda!'

"Quando consegui descer a escadaria e a escada de marinheiro, o homem já não estava mais pendurado em sua corda!"

Então, este é um evento que o Sr. Moncharmin acha natural. Um homem se pendura na ponta de uma corda; eles vão cortá-lo; a corda desapareceu. Oh, o Sr. Moncharmin encontrou uma explicação muito simples! Ouçam-no:

"Foi logo após o balé; e os líderes e as dançarinas não perderam tempo em tomar suas precauções contra o mau-olhado."

Aí está! Imaginem o corpo de baile descendo às pressas pela escada de marinheiro e dividindo a corda do suicida entre si em menos tempo do que se leva para escrever! Quando, por outro lado, penso no local exato onde o corpo foi descoberto — o terceiro porão sob o palco! — imaginem que ALGUÉM deve ter tido interesse em ver que a corda desaparecesse após ter cumprido seu propósito; e o tempo dirá se estou enganado.

A notícia horrível logo se espalhou por toda a Ópera, onde Joseph Buquet era muito popular. Os camarins se esvaziaram e as bailarinas, aglomerando-se ao redor de Sorelli como ovelhas tímidas ao redor de sua pastora, dirigiram-se ao foyer pelos corredores e escadarias mal iluminados, trotando o mais rápido que suas pequenas pernas rosadas podiam levar.

[1] Tenho a anedota, que é bastante autêntica, do próprio Sr. Pedro Gailhard, o falecido gerente da Ópera.

Capítulo II A Nova Margarida

No primeiro patamar, Sorelli esbarrou com o Conde de Chagny, que subia as escadas. O conde, que geralmente era tão calmo, parecia muito agitado.

"Eu estava indo ao seu encontro", disse ele, tirando o chapéu. "Oh, Sorelli, que noite! E Christine Daaé: que triunfo!"

"Impossível!" disse Meg Giry. "Seis meses atrás, ela costumava cantar como uma TÁBUA! Mas deixe-nos passar, meu caro conde", continua a pirralha, com uma reverência atrevida. "Estamos indo perguntar sobre um pobre homem que foi encontrado enforcado pelo pescoço."

Nesse momento, o gerente interino passou apressado e parou ao ouvir esse comentário.

"O quê!" ele exclamou rudemente. "Vocês já ouviram? Bem, por favor, esqueçam isso por esta noite — e, acima de tudo, não deixem que os Srs. Debienne e Poligny ouçam; isso os deixaria muito perturbados em seu último dia."

Todas seguiram para o foyer do balé, que já estava cheio de gente. O Conde de Chagny tinha razão; nenhuma apresentação de gala igualou esta. Todos os grandes compositores da época haviam regido suas próprias obras, um após o outro. Faure e Krauss haviam cantado; e, naquela noite, Christine Daaé revelara sua verdadeira face, pela primeira vez, ao público atônito e entusiasta. Gounod havia regido a Marcha Fúnebre de uma Marionete; Reyer, sua bela abertura para Sigurd; Saint-Saëns, a Dança Macabra e um Devaneio Oriental; Massenet, uma marcha húngara inédita; Guiraud, seu Carnaval; Delibes, a Valsa Lenta de Sylvia e os Pizzicati de Coppelia. A Srta. Krauss havia cantado o bolero em Os Vésperas Sicilianas; e a Srta. Denise Bloch a canção de beber em Lucrécia Bórgia.

Mas o verdadeiro triunfo foi reservado para Christine Daaé, que começara cantando algumas passagens de Romeu e Julieta. Foi a primeira vez que a jovem artista cantou nesta obra de Gounod, que não havia sido transferida para a Ópera e que foi revivida na Ópera Cômica após ter sido produzida no antigo Teatro Lírico pela Sra. Carvalho. Aqueles que a ouviram dizem que sua voz, nessas passagens, era seráfica; mas isso não era nada comparado às notas sobre-humanas que ela emitiu na cena da prisão e no trio final de FAUSTO, que ela cantou no lugar de La Carlotta, que estava doente. Ninguém jamais ouvira ou vira nada parecido.

Daaé revelou uma nova Margarida naquela noite, uma Margarida de um esplendor, um brilho até então insuspeitado. A casa inteira enlouqueceu, levantando-se, gritando, aplaudindo, enquanto Christine soluçava e desmaiava nos braços de seus colegas cantores e precisava ser levada para seu camarim. Alguns assinantes, no entanto, protestaram. Por que um tesouro tão grande fora mantido longe deles durante todo esse tempo? Até então, Christine Daaé interpretava uma boa Siebel para a Margarida um tanto esplendidamente material de Carlotta. E fora necessária a ausência incompreensível e inescusável de Carlotta nesta noite de gala para que a pequena Daaé, com um momento de aviso, mostrasse tudo o que podia fazer em uma parte do programa reservada para a diva espanhola! Bem, o que os assinantes queriam saber era: por que Debienne e Poligny recorreram a Daaé quando Carlotta adoeceu? Eles sabiam de seu gênio oculto? E, se sabiam, por que o mantiveram escondido? E por que ela o manteve escondido? Curiosamente, não se sabia que ela tivesse um professor de canto naquele momento. Ela muitas vezes dizia que pretendia praticar sozinha no futuro. Tudo aquilo era um mistério.

O Conde de Chagny, de pé em seu camarote, ouvia todo esse frenesi e participava dele aplaudindo ruidosamente. Philippe Georges Marie, Conde de Chagny, tinha acabado de completar quarenta e um anos. Era um grande aristocrata e um homem bonito, acima da altura média e com traços atraentes, apesar de sua testa dura e seus olhos um tanto frios. Ele era extraordinariamente educado com as mulheres e um pouco arrogante com os homens, que nem sempre o perdoavam por seus sucessos na sociedade. Ele tinha um excelente coração e uma consciência irrepreensível. Com a morte do velho Conde Philibert, tornou-se o chefe de uma das mais antigas e distintas famílias da França, cujos brasões remontavam ao século XIV. Os Chagny possuíam muitas propriedades; e, quando o velho conde, que era viúvo, morreu, não foi uma tarefa fácil para Philippe aceitar a gestão de uma propriedade tão grande. Suas duas irmãs e seu irmão, Raoul, não queriam ouvir falar em divisão e abriram mão de suas partes, deixando-se inteiramente nas mãos de Philippe, como se o direito de primogenitura nunca tivesse deixado de existir. Quando as duas irmãs se casaram, no mesmo dia, elas receberam sua porção do irmão, não como algo que lhes pertencesse por direito, mas como um dote pelo qual lhe agradeceram.

A Condessa de Chagny, nascida de Moerogis de La Martynière, falecera ao dar à luz Raoul, que nasceu vinte anos após seu irmão mais velho. Na época da morte do velho conde, Raoul tinha doze anos de idade. Philippe ocupou-se ativamente com a educação do jovem. Ele foi admiravelmente auxiliado neste trabalho primeiro por suas irmãs e depois por uma velha tia, viúva de um oficial da marinha, que morava em Brest e deu ao jovem Raoul um gosto pelo mar. O rapaz entrou no navio-escola Borda, terminou o curso com honras e fez sua viagem ao redor do mundo tranquilamente. Graças a uma influência poderosa, ele acabara de ser nomeado membro da expedição oficial a bordo do Requin, que seria enviada ao Círculo Polar Ártico em busca dos sobreviventes da expedição de D'Artois, dos quais não se ouvia falar há três anos. Enquanto isso, ele estava desfrutando de uma longa licença que não terminaria antes de seis meses; e já as viúvas do Faubourg Saint-Germain lamentavam o belo e aparentemente delicado rapaz pelo trabalho árduo que o esperava.

A timidez do jovem marinheiro — eu quase diria sua inocência — era notável. Ele parecia ter acabado de sair das saias das mulheres. Na verdade, mimado como era por suas duas irmãs e sua velha tia, ele conservara dessa educação puramente feminina maneiras que eram quase cândidas e marcadas por um encanto que nada ainda conseguira manchar. Ele tinha pouco mais de vinte e um anos e aparentava dezoito. Tinha um pequeno bigode loiro, belos olhos azuis e uma tez como a de uma moça.

Philippe mimava Raoul. Para começar, ele sentia muito orgulho dele e ficava feliz em prever uma carreira gloriosa para seu irmão mais novo na marinha, na qual um de seus ancestrais, o famoso Chagny de La Roche, ocupara o posto de almirante. Ele aproveitou a licença do jovem para lhe mostrar Paris, com todos os seus luxos e delícias artísticas. O conde considerava que, na idade de Raoul, não é bom ser bom demais. O próprio Philippe tinha um caráter muito equilibrado, tanto no trabalho quanto no lazer; seu comportamento era sempre impecável; e ele era incapaz de dar ao irmão um mau exemplo. Ele o levava consigo aonde quer que fosse. Ele até o apresentou ao foyer do balé. Sei que diziam que o conde estava "de relações" com Sorelli. Mas dificilmente poderia ser considerado um crime para esse nobre, solteiro, com muito tempo livre, especialmente desde que suas irmãs estavam estabelecidas, vir passar uma hora ou duas após o jantar na companhia de uma dançarina que, embora não fosse tão, tão inteligente, tinha os olhos mais lindos que já se viu! E, além disso, há lugares onde um verdadeiro parisiense, quando tem o posto de Conde de Chagny, é obrigado a se mostrar; e, naquela época, o foyer do balé na Ópera era um desses lugares.

Por fim, Philippe talvez não tivesse levado seu irmão aos bastidores da Ópera se Raoul não tivesse sido o primeiro a pedir, renovando repetidamente seu pedido com uma gentileza obstinada da qual o conde se lembraria em uma data posterior.

Naquela noite, Philippe, após aplaudir Daaé, virou-se para Raoul e viu que ele estava bastante pálido.

"Você não vê", disse Raoul, "que a mulher está desmaiando?"

"Você parece que vai desmaiar também", disse o conde. "O que há de errado?"

Mas Raoul se recuperara e estava de pé.

"Vamos ver", disse ele, "ela nunca cantou assim antes."

O conde deu ao irmão um olhar curioso e sorridente e parecia bastante satisfeito. Eles logo chegaram à porta que levava da plateia para o palco. Muitos assinantes caminhavam lentamente por ali. Raoul rasgou suas luvas sem saber o que estava fazendo e Philippe tinha um coração bom demais para rir dele por sua impaciência. Mas ele agora entendia por que Raoul ficava distraído quando falavam com ele e por que ele sempre tentava levar qualquer conversa para o assunto da Ópera.

Eles chegaram ao palco e atravessaram a multidão de cavalheiros, cenaristas, figurantes e coristas, com Raoul liderando o caminho, sentindo que seu coração já não lhe pertencia, seu rosto fixo de paixão, enquanto o Conde Philippe o seguia com dificuldade e continuava a sorrir. Nos fundos do palco, Raoul teve que parar diante da investida da pequena tropa de bailarinas que bloqueava o corredor por onde ele tentava entrar. Mais de uma frase provocadora foi lançada por lábios pintados, às quais ele não respondeu; e, finalmente, ele conseguiu passar e mergulhou na semiescuridão de um corredor que ecoava com o nome de "Daaé! Daaé!". O conde ficou surpreso ao descobrir que Raoul conhecia o caminho. Ele nunca o levara ao camarim de Christine e concluiu que Raoul deveria ter ido lá sozinho enquanto o conde ficava conversando no foyer com Sorelli, que muitas vezes lhe pedia para esperar até que chegasse a hora de ela "entrar em cena" e às vezes lhe entregava as polainas com as quais ela corria de seu camarim para preservar a brancura de suas sapatilhas de cetim e suas meias cor de carne. Sorelli tinha uma desculpa; ela perdera a mãe.

Adiando sua visita habitual a Sorelli por alguns minutos, o conde seguiu o irmão pelo corredor que levava ao camarim de Daaé e viu que ele nunca estivera tão apinhado quanto naquela noite, quando a casa inteira parecia excitada por seu sucesso e também por seu desmaio. Pois a moça ainda não tinha recobrado os sentidos; e o médico do teatro acabara de chegar no momento em que Raoul entrou em seus calcanhares. Christine, portanto, recebeu os primeiros socorros de um, enquanto abria os olhos nos braços do outro. O conde e muitos outros permaneceram aglomerados na porta.

"Você não acha, Doutor, que esses cavalheiros deveriam liberar a sala?" perguntou Raoul friamente. "Não há como respirar aqui."

"Você tem toda a razão", disse o médico.

E ele mandou todos embora, exceto Raoul e a camareira, que olhou para Raoul com olhos do mais inegável espanto. Ela nunca o vira antes e, no entanto, não ousou questioná-lo; e o médico imaginou que o jovem estava agindo assim apenas porque tinha o direito. O visconde, portanto, permaneceu no quarto observando Christine enquanto ela lentamente retornava à vida, enquanto até mesmo os gerentes conjuntos, Debienne e Poligny, que tinham vindo oferecer sua simpatia e parabéns, viram-se empurrados para o corredor entre a multidão de dândis. O Conde de Chagny, que era um dos que estavam do lado de fora, riu:

"Oh, o patife, o patife!" E acrescentou, em voz baixa: "Esses jovens com seus ares de colegial! Então ele é um Chagny, afinal!"

Ele se virou para ir ao camarim de Sorelli, mas encontrou-a no caminho, com sua pequena tropa de bailarinas trêmulas, como vimos.

Entretanto, Christine Daaé soltou um suspiro profundo, ao qual respondeu um gemido. Ela virou a cabeça, viu Raoul e sobressaltou-se. Olhou para o médico, a quem presenteou com um sorriso, depois para sua camareira e, em seguida, novamente para Raoul.

— Monsieur — disse ela, numa voz pouco acima de um sussurro —, quem é o senhor?

— Mademoiselle — respondeu o jovem, ajoelhando-se sobre um joelho e pressionando um beijo fervoroso na mão da diva —, EU SOU O MENINO QUE ENTROU NO MAR PARA RESGATAR O SEU LENÇO.

Christine olhou novamente para o médico e para a camareira; e todos os três começaram a rir.

Raoul ficou muito vermelho e levantou-se.

— Mademoiselle — disse ele —, já que a senhorita se compraz em não me reconhecer, gostaria de lhe dizer algo em particular, algo muito importante.

— Quando eu estiver melhor, se não se importa? — E sua voz tremia. — O senhor tem sido muito bom.

— Sim, o senhor deve ir — disse o médico, com seu sorriso mais agradável. — Deixe-me cuidar da mademoiselle.

— Não estou doente agora — disse Christine de repente, com uma energia estranha e inesperada.

Ela levantou-se e passou a mão pelas pálpebras.

— Obrigada, Doutor. Gostaria de ficar sozinha. Por favor, vão embora, todos vocês. Deixem-me. Sinto-me muito inquieta esta noite.

O médico tentou fazer um breve protesto, mas, percebendo a evidente agitação da moça, achou que o melhor remédio era não contrariá-la. E foi embora, dizendo a Raoul, do lado de fora:

— Ela não está em si esta noite. Costuma ser tão gentil.

Então ele deu boa-noite e Raoul ficou sozinho. Toda essa parte do teatro estava agora deserta. A cerimônia de despedida estava, sem dúvida, ocorrendo no foyer do balé. Raoul pensou que Daaé poderia ir até lá e esperou na solidão silenciosa, chegando a esconder-se na sombra propícia de uma porta. Sentia uma dor terrível no coração e era disso que ele queria falar com Daaé sem demora.

De repente, a porta do camarim abriu-se e a camareira saiu sozinha, carregando volumes. Ele a deteve e perguntou como estava sua patroa. A mulher riu e disse que ela estava muito bem, mas que ele não deveria perturbá-la, pois ela desejava ficar sozinha. E seguiu seu caminho. Uma única ideia preenchia o cérebro em brasa de Raoul: é claro, Daaé desejava ficar sozinha POR CAUSA DELE! Não tinha ele lhe dito que queria falar com ela em particular?

Mal respirando, ele aproximou-se do camarim e, com o ouvido na porta para captar a resposta dela, preparou-se para bater. Mas sua mão caiu. Ele ouvira A VOZ DE UM HOMEM no camarim, dizendo, num tom curiosamente autoritário:

— Christine, você deve me amar!

E a voz de Christine, infinitamente triste e trêmula, como se acompanhada por lágrimas, respondeu:

— Como pode falar assim? QUANDO EU CANTO APENAS PARA VOCÊ!

Raoul encostou-se no painel para aliviar sua dor. Seu coração, que parecia ter partido para sempre, voltou ao peito e pulsava fortemente. Todo o corredor ecoava com suas batidas e os ouvidos de Raoul estavam ensurdecidos. Certamente, se seu coração continuasse a fazer tanto barulho, eles ouviriam lá dentro, abririam a porta e o jovem seria expulso em desgraça. Que posição para um Chagny! Ser pego escutando atrás de uma porta! Ele segurou o coração com as duas mãos para fazê-lo parar.

A voz do homem falou novamente: — Você está muito cansada?

— Oh, esta noite eu lhe dei minha alma e estou morta! — respondeu Christine.

— Sua alma é uma coisa bela, criança — respondeu a voz grave do homem —, e eu lhe agradeço. Nenhum imperador jamais recebeu um presente tão formoso. OS ANJOS CHORARAM ESTA NOITE.

Raoul não ouviu mais nada depois disso. No entanto, não foi embora, mas, como se temesse ser pego, voltou ao seu canto escuro, determinado a esperar que o homem deixasse o quarto. Ao mesmo tempo, ele aprendera o que significava o amor, e o ódio. Ele sabia que amava. Queria saber a quem odiava. Para seu grande espanto, a porta abriu-se e Christine Daaé apareceu, envolta em peles, com o rosto escondido num véu de renda, sozinha. Ela fechou a porta atrás de si, mas Raoul observou que ela não a trancou. Ela passou por ele. Ele nem mesmo a seguiu com os olhos, pois seus olhos estavam fixos na porta, que não se abriu novamente.

Quando o corredor estava mais uma vez deserto, ele atravessou-o, abriu a porta do camarim, entrou e fechou a porta. Viu-se na escuridão absoluta. O gás fora apagado.

— Há alguém aqui! — disse Raoul, com as costas contra a porta fechada, em voz trêmula. — Por que você está se escondendo?

Tudo era escuridão e silêncio. Raoul ouvia apenas o som de sua própria respiração. Ele não percebia que a indiscrição de sua conduta estava excedendo todos os limites.

— Você não sairá daqui até que eu permita! — exclamou ele. — Se não responder, você é um covarde! Mas eu vou expor você!

E ele riscou um fósforo. A chama iluminou o quarto. Não havia ninguém no quarto! Raoul, girando primeiro a chave na porta, acendeu os bicos de gás. Entrou no closet, abriu os armários, procurou por toda parte, tateou as paredes com as mãos úmidas. Nada!

— Veja só! — disse ele, em voz alta. — Estou ficando louco?

Ele ficou por dez minutos ouvindo o gás chiar no silêncio do quarto vazio; embora estivesse apaixonado, nem sequer pensou em roubar uma fita que lhe daria o perfume da mulher que amava. Saiu, sem saber o que estava fazendo nem para onde estava indo. Em um determinado momento de seu percurso errante, uma corrente de ar gelado atingiu-lhe o rosto. Viu-se no pé de uma escadaria, pela qual, atrás dele, uma procissão de operários carregava uma espécie de maca, coberta por um lençol branco.

— Por onde é a saída, por favor? — perguntou ele a um dos homens.

— Logo à sua frente, a porta está aberta. Mas deixe-nos passar.

Apontando para a maca, ele perguntou mecanicamente: — O que é aquilo?

Os operários responderam:

— "Aquilo" é Joseph Buquet, que foi encontrado no terceiro subsolo, pendurado entre uma fazenda e um cenário de ROI DE LAHORE.

Ele tirou o chapéu, recuou para abrir caminho para a procissão e saiu.

Capítulo III A Razão Misteriosa

Durante este tempo, a cerimônia de despedida estava ocorrendo. Já disse que esta magnífica função estava sendo dada por ocasião da aposentadoria do Sr. Debienne e do Sr. Poligny, que tinham decidido "morrer dignamente", como dizemos hoje em dia. Tinham sido auxiliados na realização de seu ideal, embora melancólico, programa por tudo o que contava no mundo social e artístico de Paris. Todas essas pessoas reuniram-se, após o espetáculo, no foyer do balé, onde Sorelli aguardava a chegada dos diretores que se aposentavam com uma taça de champanhe na mão e um pequeno discurso preparado na ponta da língua. Atrás dela, os membros do Corpo de Baile, jovens e velhas, discutiam os eventos do dia em sussurros ou trocavam sinais discretos com seus amigos, uma multidão ruidosa que cercava as mesas de jantar arranjadas ao longo do piso inclinado.

Algumas das bailarinas já tinham trocado de roupa para trajes comuns; mas a maioria usava suas saias de gaze diáfana; e todas tinham achado que era o correto colocar um rosto especial para a ocasião: todas, isto é, exceto a pequena Jammes, cujos quinze verões — idade feliz! — pareciam já ter esquecido o fantasma e a morte de Joseph Buquet. Ela não parava de rir e tagarelar, de pular e fazer pegadinhas, até que os Srs. Debienne e Poligny apareceram nos degraus do foyer, quando foi severamente chamada à ordem pela impaciente Sorelli.

Todos notaram que os diretores que se aposentavam pareciam alegres, como é o costume parisiense. Ninguém será jamais um verdadeiro parisiense se não tiver aprendido a usar uma máscara de alegria sobre suas tristezas e uma de tristeza, tédio ou indiferença sobre sua alegria interior. Você sabe que um de seus amigos está em dificuldades; não tente consolá-lo: ele lhe dirá que já está consolado; mas, se ele tiver tido boa sorte, tenha cuidado ao parabenizá-lo: ele acha tão natural que fica surpreso que você fale sobre isso. Em Paris, nossas vidas são um baile de máscaras; e o foyer do balé é o último lugar em que dois homens tão "espertos" como o Sr. Debienne e o Sr. Poligny teriam cometido o erro de trair sua dor, por mais genuína que pudesse ser. E eles já sorriam um pouco largo demais para Sorelli, que tinha começado a recitar seu discurso, quando uma exclamação daquela pequena leviana da Jammes quebrou o sorriso dos diretores tão brutalmente que a expressão de aflição e desânimo que jazia sob ele tornou-se aparente a todos os olhos:

— O fantasma da Ópera!

Jammes gritou essas palavras num tom de terror indescritível; e seu dedo apontava, entre a multidão de dândis, para um rosto tão pálido, tão lúgubre e tão feio, com duas cavidades negras tão profundas sob as sobrancelhas arqueadas, que a cabeça de morto em questão obteve imediatamente um enorme sucesso.

— O fantasma da Ópera! O fantasma da Ópera! — Todos riam e empurravam o vizinho e queriam oferecer uma bebida ao fantasma da Ópera, mas ele se fora. Tinha deslizado pela multidão; e os outros procuraram por ele em vão, enquanto dois senhores idosos tentavam acalmar a pequena Jammes e enquanto a pequena Giry gritava como um pavão.

Sorelli estava furiosa; não tinha conseguido terminar seu discurso; os diretores a tinham beijado, agradecido e fugido tão rápido quanto o próprio fantasma. Ninguém se surpreendeu com isso, pois sabia-se que eles passariam pela mesma cerimônia no andar de cima, no foyer dos cantores, e que, finalmente, receberiam seus amigos pessoais, pela última vez, no grande saguão fora do escritório dos diretores, onde um jantar formal seria servido.

Ali encontraram os novos diretores, o Sr. Armand Moncharmin e o Sr. Firmin Richard, a quem mal conheciam; no entanto, foram pródigos em protestos de amizade e receberam mil elogios lisonjeiros em resposta, de modo que aqueles convidados que temiam ter uma noite um tanto tediosa reservada para eles imediatamente exibiram semblantes mais brilhantes. O jantar foi quase alegre e um discurso particularmente inteligente do representante do governo, misturando as glórias do passado com os sucessos do futuro, fez com que a maior cordialidade prevalecesse.

Os diretores que se aposentavam já tinham entregado aos seus sucessores as duas chaves-mestras minúsculas que abriam todas as portas — milhares de portas — da casa de Ópera. E aquelas pequenas chaves, objeto de curiosidade geral, estavam sendo passadas de mão em mão, quando a atenção de alguns dos convidados foi desviada pela descoberta, na ponta da mesa, daquele rosto estranho, pálido e fantástico, com os olhos encovados, que já tinha aparecido no foyer do balé e sido saudado pela exclamação da pequena Jammes:

— O fantasma da Ópera!

Ali estava o fantasma, tão natural quanto poderia ser, exceto pelo fato de que ele não comia nem bebia. Aqueles que começaram olhando para ele com um sorriso terminaram desviando os olhos, pois a visão dele provocava imediatamente os pensamentos mais fúnebres. Ninguém repetiu a piada do foyer, ninguém exclamou:

— Ali está o fantasma da Ópera!

Ele próprio não disse uma palavra e seus vizinhos não poderiam ter afirmado em que momento preciso ele tinha se sentado entre eles; mas todos sentiam que, se os mortos realmente viessem e se sentassem à mesa dos vivos, não poderiam ter uma figura mais macabra. Os amigos de Firmin Richard e Armand Moncharmin pensaram que aquele convidado magro e seco era um conhecido de Debienne ou Poligny, enquanto os amigos de Debienne e Poligny acreditavam que o indivíduo cadavérico pertencia ao grupo de Firmin Richard e Armand Moncharmin.

O resultado foi que nenhum pedido de explicação foi feito; nenhum comentário desagradável; nenhuma piada de mau gosto, que pudesse ter ofendido aquele visitante do túmulo. Alguns dos presentes que conheciam a história do fantasma e a descrição dele dada pelo chefe dos cenógrafos — eles não sabiam da morte de Joseph Buquet — pensaram, em seus próprios pensamentos, que o homem na ponta da mesa poderia facilmente ter passado por ele; e ainda assim, de acordo com a história, o fantasma não tinha nariz e a pessoa em questão tinha. Mas o Sr. Moncharmin declara, em suas Memórias, que o nariz do convidado era transparente: "longo, fino e transparente" são suas palavras exatas. Eu, por minha parte, acrescentarei que isso poderia muito bem aplicar-se a um nariz postiço. O Sr. Moncharmin pode ter tomado por transparência o que era apenas brilho. Todos sabem que a ciência ortopédica fornece belos narizes postiços para aqueles que perderam seus narizes naturalmente ou como resultado de uma operação.

O fantasma realmente se sentou à mesa de jantar dos diretores naquela noite, sem ser convidado? E podemos ter certeza de que a figura era a do próprio fantasma da Ópera? Quem se atreveria a afirmar tanto? Menciono o incidente, não porque queira por um segundo fazer o leitor acreditar — ou mesmo tentar fazê-lo acreditar — que o fantasma fosse capaz de tal demonstração de insolência; mas porque, afinal, a coisa não é impossível.

O Sr. Armand Moncharmin, no capítulo onze de suas Memórias, diz:

"Quando penso nesta primeira noite, não consigo separar o segredo confiado a nós pelos Srs. Debienne e Poligny em seu escritório da presença em nosso jantar daquela pessoa FANTASMAGÓRICA que nenhum de nós conhecia."

O que aconteceu foi o seguinte: os Srs. Debienne e Poligny, sentados no centro da mesa, não tinham visto o homem com a cabeça de morto. De repente, ele começou a falar.

— As bailarinas têm razão — disse ele. — A morte daquele pobre Buquet talvez não seja tão natural quanto as pessoas pensam.

Debienne e Poligny sobressaltaram-se.

— Buquet está morto? — gritaram eles.

— Sim — respondeu o homem, ou a sombra de um homem, calmamente. — Ele foi encontrado, esta noite, pendurado no terceiro subsolo, entre uma fazenda e um cenário do Roi de Lahore.

Os dois diretores, ou melhor, ex-diretores, levantaram-se imediatamente e olharam estranhamente para o orador. Estavam mais agitados do que precisariam estar, isto é, mais agitados do que qualquer um precisaria estar com o anúncio do suicídio de um chefe de cenógrafos. Olharam um para o outro. Ambos tinham ficado mais brancos que a toalha de mesa. Finalmente, Debienne fez um sinal para os Srs. Richard e Moncharmin; Poligny murmurou algumas palavras de desculpa aos convidados; e todos os quatro foram para o escritório dos diretores. Deixo o Sr. Moncharmin completar a história. Em suas Memórias, ele diz:

"Os Srs. Debienne e Poligny pareciam ficar cada vez mais agitados, e pareciam ter algo muito difícil a nos dizer. Primeiro, perguntaram-nos se conhecíamos o homem, sentado na ponta da mesa, que lhes tinha falado da morte de Joseph Buquet; e, quando respondemos negativamente, eles pareceram ainda mais preocupados. Tiraram as chaves-mestras de nossas mãos, olharam para elas por um momento e nos aconselharam a mandar fazer fechaduras novas, com o maior sigilo, para os quartos, armários e estantes que quiséssemos manter hermeticamente fechados. Disseram isso de um jeito tão engraçado que começamos a rir e a perguntar se havia ladrões na Ópera. Eles responderam que havia algo pior, que era o FANTASMA. Começamos a rir novamente, tendo a certeza de que eles estavam se entregando a alguma piada destinada a coroar nosso pequeno entretenimento. Então, a pedido deles, tornamo-nos 'sérios', resolvendo entrar no espírito da brincadeira. Disseram-nos que nunca teriam nos falado do fantasma se não tivessem recebido ordens formais do próprio fantasma para nos pedir que fôssemos agradáveis com ele e concedêssemos qualquer pedido que ele pudesse fazer. No entanto, em seu alívio por deixar um domínio onde aquele espectro tirânico exercia seu poder, tinham hesitado até o último momento em nos contar esta história curiosa, que nossas mentes céticas certamente não estavam preparadas para entreter. Mas o anúncio da morte de Joseph Buquet servira-lhes como um lembrete brutal de que, sempre que tinham desconsiderado os desejos do fantasma, algum evento fantástico ou desastroso os trazia de volta ao sentido de sua dependência.

"Durante essas declarações inesperadas feitas num tom da mais secreta e importante confidência, olhei para Richard. Richard, em seus tempos de estudante, tinha adquirido uma grande reputação por pregar peças, e parecia saborear o prato que estava sendo servido a ele por sua vez. Não perdeu um bocado, embora o tempero fosse um pouco macabro por causa da morte de Buquet. Ele balançava a cabeça tristemente, enquanto os outros falavam, e suas feições assumiram o ar de um homem que se arrependia amargamente de ter assumido a Ópera, agora que sabia que havia um fantasma metido nos negócios. Não consegui pensar em nada melhor do que lhe dar uma imitação servil dessa atitude de desespero. No entanto, apesar de todos os nossos esforços, não conseguimos, no final, deixar de explodir em risadas na cara dos Srs. Debienne e Poligny, que, vendo-nos passar diretamente do estado de espírito mais sombrio para um de alegria insolente, agiram como se pensassem que tínhamos enlouquecido.

"A piada tornou-se um pouco tediosa; e Richard perguntou, meio a sério e meio de brincadeira:

"'Mas, afinal, o que esse fantasma de vocês quer?'

"O Sr. Poligny foi à sua mesa e retornou com uma cópia do livro de memórias. O livro de memórias começa com as conhecidas palavras dizendo que 'a administração da Ópera dará ao espetáculo da Academia Nacional de Música o esplendor que convém ao primeiro palco lírico da França' e termina com a Cláusula 98, que diz que o privilégio pode ser retirado se o administrador infringir as condições estipuladas no livro de memórias. Seguem-se as condições, que são quatro em número.

"A cópia produzida pelo Sr. Poligny estava escrita em tinta preta e era exatamente semelhante à que estava em nossa posse, exceto pelo fato de que, no final, continha um parágrafo em tinta vermelha e numa caligrafia estranha e trabalhada, como se tivesse sido produzida mergulhando as cabeças de fósforos na tinta, a escrita de uma criança que nunca passou dos traços descendentes e não aprendeu a juntar as letras. Este parágrafo dizia, palavra por palavra, o seguinte:

"'5. Ou se o administrador, em qualquer mês, atrasar por mais de uma quinzena o pagamento da mesada que ele fará ao fantasma da Ópera, uma mesada de vinte mil francos por mês, ou seja, duzentos e quarenta mil francos por ano.'

"O Sr. Poligny apontou com um dedo hesitante para esta última cláusula, que certamente não esperávamos.

"'É só isso? Ele não quer mais nada?' perguntou Richard, com a maior frieza.

"'Sim, ele quer', respondeu Poligny.

"E ele folheou as páginas do livro de memórias até chegar à cláusula que especificava os dias em que certos camarotes particulares deveriam ser reservados para o uso gratuito do presidente da república, dos ministros e assim por diante. Ao final desta cláusula, uma linha tinha sido adicionada, também em tinta vermelha:

"'O Camarote Cinco no grande balcão será colocado à disposição do fantasma da Ópera para todos os espetáculos.'

"Quando vimos isso, não havia mais nada para nós fazermos a não ser levantar de nossas cadeiras, apertar calorosamente a mão de nossos dois predecessores e parabenizá-los por terem pensado nesta pequena piada encantadora, que provava que o velho senso de humor francês provavelmente nunca se extinguiria. Richard acrescentou que agora entendia por que os Srs. Debienne e Poligny estavam se aposentando da direção da Academia Nacional de Música. Negócios eram impossíveis com um fantasma tão irracional."

"Certamente, duzentos e quarenta mil francos não são encontrados por aí a quem os peça", disse o Sr. Poligny, sem mover um músculo do rosto. "E já consideraram o que a perda do Camarote Cinco significou para nós? Não o vendemos nem uma vez; e não apenas isso, mas tivemos que devolver a assinatura: ora, é terrível! Nós realmente não podemos trabalhar para sustentar fantasmas! Preferimos ir embora!"

"Sim", ecoou o Sr. Debienne, "preferimos ir embora. Vamos embora."

E ele se levantou. Richard disse: "Mas, afinal de contas, parece-me que vocês foram gentis demais com o fantasma. Se eu tivesse um fantasma tão problemático quanto esse, não hesitaria em mandá-lo prender."

"Mas como? Onde?", gritaram eles, em coro. "Nós nunca o vimos!"

"Mas quando ele vai ao seu camarote?"

"NÓS NUNCA O VIMOS EM SEU CAMAROTE."

"Então vendam-no."

"Vender o camarote do fantasma da Ópera! Bem, senhores, tentem vocês."

Dito isso, nós quatro saímos do escritório. Richard e eu "nunca havíamos rido tanto em nossas vidas".

Capítulo IV O Camarote Cinco

Armand Moncharmin escreveu memórias tão volumosas durante o período bastante longo de sua codireção que bem podemos nos perguntar se ele encontrou tempo para cuidar dos assuntos da Ópera de outra forma que não fosse relatando o que acontecia por lá. O Sr. Moncharmin não conhecia uma nota de música, mas tratava o ministro da educação e das belas-artes pelo primeiro nome, tinha se aventurado um pouco no jornalismo social e desfrutava de uma renda privada considerável. Por fim, era um sujeito encantador e demonstrou que não lhe faltava inteligência, pois, assim que decidiu ser um sócio capitalista na Ópera, selecionou o melhor gerente ativo possível e foi direto a Firmin Richard.

Firmin Richard era um compositor muito distinto, que havia publicado várias peças de sucesso de todos os tipos e que gostava de quase todas as formas de música e de todo tipo de músico. Claramente, portanto, era dever de todo tipo de músico gostar do Sr. Firmin Richard. As únicas coisas que se podiam dizer contra ele eram que ele era um tanto autoritário em seus modos e dotado de um temperamento muito precipitado.

Os primeiros dias que os sócios passaram na Ópera foram dedicados ao deleite de se verem à frente de um empreendimento tão magnífico; e eles já haviam se esquecido de toda aquela história curiosa e fantástica do fantasma, quando ocorreu um incidente que lhes provou que a piada — se é que era uma piada — não havia terminado. O Sr. Firmin Richard chegou ao seu escritório naquela manhã às onze horas. Seu secretário, o Sr. Remy, mostrou-lhe meia dúzia de cartas que não havia aberto porque estavam marcadas como "pessoais". Uma das cartas chamou imediatamente a atenção de Richard, não apenas porque o envelope estava endereçado com tinta vermelha, mas porque ele parecia já ter visto aquela escrita antes. Logo lembrou que era a caligrafia vermelha com a qual o bloco de notas havia sido tão curiosamente completado. Ele reconheceu a mão desajeitada e infantil. Abriu a carta e leu:

CARO SR. DIRETOR:

Lamento ter que incomodá-lo em um momento em que deve estar tão ocupado, renovando contratos importantes, assinando novos e, de modo geral, exibindo seu excelente gosto. Sei o que fez por Carlotta, Sorelli e pela pequena Jammes e por alguns outros cujas admiráveis qualidades de talento ou gênio você suspeitou.

É claro que, quando uso essas palavras, não quero aplicá-las à Carlotta, que canta como uma bomba de água e que nunca deveria ter tido permissão para deixar o Ambassadeurs e o Café Jacquin; nem à Sorelli, que deve seu sucesso principalmente aos fabricantes de carruagens; nem à pequena Jammes, que dança como um bezerro no campo. E não estou falando de Christine Daae também, embora seu gênio seja certo, enquanto sua inveja a impede de criar qualquer papel importante. No final das contas, você é livre para conduzir seus pequenos negócios como achar melhor, não é?

Mesmo assim, gostaria de aproveitar o fato de que você ainda não expulsou Christine Daae de casa para ouvi-la esta noite no papel de Siebel, já que o de Margarida lhe foi proibido desde seu triunfo da outra noite; e pedirei que não disponha do meu camarote hoje nem nos DIAS SEGUINTES, pois não posso terminar esta carta sem lhe dizer quão desagradavelmente surpreso fiquei, uma ou duas vezes, ao ouvir, ao chegar à Ópera, que meu camarote havia sido vendido, na bilheteria, por suas ordens.

Não protestei, primeiro, porque detesto escândalos e, segundo, porque pensei que seus predecessores, os Srs. Debienne e Poligny, que sempre foram encantadores comigo, tivessem negligenciado, antes de partir, mencionar meus pequenos caprichos a você. Recebi agora uma resposta daqueles senhores à minha carta pedindo uma explicação, e essa resposta prova que você sabe tudo sobre meu Bloco de Notas e, consequentemente, que você está me tratando com um desprezo ultrajante. SE VOCÊ DESEJA VIVER EM PAZ, NÃO DEVE COMEÇAR TIRANDO O MEU CAMAROTE PARTICULAR.

Acredite-me, caro Sr. Diretor, sem prejuízo a estas pequenas observações,

Seu Mais Humilde e Obediente Servidor, FANTASMA DA ÓPERA.

A carta estava acompanhada por um recorte da coluna de pedidos da Revue Théâtrale, que dizia:

F. O. — Não há desculpa para R. e M. Nós lhes dissemos e deixamos seu bloco de notas em suas mãos. Saudações.

O Sr. Firmin Richard mal havia terminado de ler essa carta quando o Sr. Armand Moncharmin entrou, trazendo uma exatamente igual. Eles se olharam e caíram na risada.

"Eles estão mantendo a piada", disse o Sr. Richard, "mas eu não acho graça nenhuma."

"O que tudo isso significa?", perguntou o Sr. Moncharmin. "Será que eles imaginam que, porque foram diretores da Ópera, vamos deixá-los ter um camarote por um período indeterminado?"

"Não estou com disposição para deixar que façam pouco de mim por muito tempo", disse Firmin Richard.

"É inofensivo o suficiente", observou Armand Moncharmin. "O que eles realmente querem? Um camarote para esta noite?"

O Sr. Firmin Richard disse ao seu secretário para enviar o Camarote Cinco, no andar nobre, aos Srs. Debienne e Poligny, se não estivesse vendido. Não estava. Foi enviado a eles. Debienne morava na esquina da Rue Scribe com o Boulevard des Capucines; Poligny, na Rue Auber. As duas cartas do F. Fantasma haviam sido postadas na agência dos correios do Boulevard des Capucines, como Moncharmin notou após examinar os envelopes.

"Vê só!", disse Richard.

Eles deram de ombros e lamentaram que dois homens daquela idade se divertissem com truques tão infantis.

"Eles poderiam ter sido educados, apesar de tudo!", disse Moncharmin. "Você notou como nos tratam em relação a Carlotta, Sorelli e a pequena Jammes?"

"Ora, meu caro, esses dois estão loucos de inveja! Pensar que eles tiveram a despesa de um anúncio na Revue Théâtrale! Eles não têm nada melhor para fazer?"

"A propósito", disse Moncharmin, "eles parecem estar muito interessados naquela pequena Christine Daae!"

"Você sabe tão bem quanto eu que ela tem a reputação de ser muito boa", disse Richard.

"Reputações são facilmente obtidas", respondeu Moncharmin. "Não tenho eu a reputação de saber tudo sobre música? E não sei distinguir uma nota da outra."

"Não tenha medo: você nunca teve essa reputação", declarou Richard.

Em seguida, ele ordenou que os artistas fossem chamados, os quais, nas últimas duas horas, caminhavam de um lado para o outro do lado de fora da porta atrás da qual a fama e a fortuna — ou a demissão — os aguardavam.

O dia inteiro foi passado discutindo, negociando, assinando ou cancelando contratos; e os dois diretores sobrecarregados foram dormir cedo, sem sequer lançar um olhar ao Camarote Cinco para ver se o Sr. Debienne e o Sr. Poligny estavam aproveitando o espetáculo.

Na manhã seguinte, os diretores receberam um cartão de agradecimento do fantasma:

CARO SR. DIRETOR:

Obrigado. Noite encantadora. Daae requintada. Os coros precisam ser acordados. Carlotta é um instrumento esplendidamente comum. Escreverei a você em breve pelos 240.000 francos, ou 233.424 francos e 70 cêntimos, para ser preciso. Os Srs. Debienne e Poligny me enviaram os 6.575 francos e 30 cêntimos representando os primeiros dez dias da minha mesada para o ano atual; os privilégios deles terminaram na noite do dia dez.

Saudações. F. O.

Por outro lado, havia uma carta dos Srs. Debienne e Poligny:

SENHORES:

Estamos muito gratos pela sua gentil lembrança, mas vocês facilmente entenderão que a perspectiva de ouvir Faust novamente, por mais agradável que seja para ex-diretores da Ópera, não pode nos fazer esquecer que não temos o direito de ocupar o Camarote Cinco no andar nobre, que é propriedade exclusiva DAQUELE de quem falamos a vocês quando revisamos o bloco de notas com vocês pela última vez. Vejam a Cláusula 98, parágrafo final.

Aceitem, senhores, etc.

"Ah, esses sujeitos estão começando a me irritar!", gritou Firmin Richard, pegando a carta.

E naquela noite o Camarote Cinco foi vendido.

Na manhã seguinte, os Srs. Richard e Moncharmin, ao chegarem ao escritório, encontraram o relatório de um inspetor referente a um incidente que ocorrera, na noite anterior, no Camarote Cinco. Transcrevo a parte essencial do relatório:

Fui obrigado a chamar um guarda municipal duas vezes, esta noite, para liberar o Camarote Cinco no andar nobre, uma vez no início e outra no meio do segundo ato. Os ocupantes, que chegaram quando o pano subiu para o segundo ato, criaram um verdadeiro escândalo com suas risadas e observações ridículas. Houve gritos de "Psiu!" ao redor deles e toda a sala estava começando a protestar, quando a camareira veio me buscar. Entrei no camarote e disse o que achava necessário. As pessoas não me pareceram estar em seu juízo perfeito; e fizeram comentários estúpidos. Eu disse que, se o barulho se repetisse, seria obrigado a liberar o camarote. No momento em que saí, ouvi as risadas novamente, com novos protestos da sala. Voltei com um guarda municipal, que os expulsou. Eles protestaram, ainda rindo, dizendo que não sairiam a menos que recebessem seu dinheiro de volta. Por fim, ficaram quietos e permiti que entrassem no camarote novamente. As risadas recomeçaram imediatamente; e, desta vez, fiz com que fossem expulsos definitivamente.

"Chame o inspetor", disse Richard ao seu secretário, que já havia lido o relatório e o marcado com lápis azul.

O Sr. Remy, o secretário, havia previsto a ordem e chamado o inspetor imediatamente.

"Conte-nos o que aconteceu", disse Richard bruscamente.

O inspetor começou a gaguejar e referiu-se ao relatório.

"Bem, mas do que aquelas pessoas estavam rindo?", perguntou Moncharmin.

"Devem ter jantado, senhor, e pareciam mais dispostas a brincar do que a ouvir boa música. No momento em que entraram no camarote, saíram novamente e chamaram a camareira, que lhes perguntou o que queriam. Eles disseram: 'Olhe no camarote: não há ninguém lá, há?', 'Não', disse a mulher. 'Bem', disseram eles, 'quando entramos, ouvimos uma voz dizendo QUE O CAMAROTE ESTAVA OCUPADO!'"

O Sr. Moncharmin não pôde deixar de sorrir ao olhar para o Sr. Richard; mas o Sr. Richard não sorriu. Ele mesmo já tinha feito muito disso em seu tempo para não reconhecer, na história do inspetor, todas as marcas daquelas brincadeiras de mau gosto que começam divertindo e terminam enfurecendo as vítimas. O inspetor, para ganhar a simpatia do Sr. Moncharmin, que sorria, achou melhor dar um sorriso também. Um sorriso muito inoportuno! O Sr. Richard fuzilou seu subordinado com o olhar, que a partir daí fez questão de exibir uma expressão de total consternação.

"No entanto, quando as pessoas chegaram", rugiu Richard, "não havia ninguém no camarote, havia?"

"Nenhuma alma, senhor, nenhuma alma! Nem no camarote à direita, nem no camarote à esquerda: nenhuma alma, senhor, eu juro! A camareira me disse isso várias vezes, o que prova que era tudo uma brincadeira."

"Ah, você concorda, é?", disse Richard. "Você concorda! É uma brincadeira! E você acha engraçado, sem dúvida?"

"Acho de muito mau gosto, senhor."

"E o que a camareira disse?"

"Ah, ela apenas disse que era o fantasma da Ópera. Foi só isso que ela disse!"

E o inspetor sorriu. Mas logo descobriu que havia cometido um erro ao sorrir, pois as palavras mal haviam saído de sua boca quando o Sr. Richard, de sombrio, ficou furioso.

"Chame a camareira!", ele gritou. "Chame-a! Imediatamente! Imediatamente! E tragam-na aqui para mim! E expulsem todas aquelas pessoas!"

O inspetor tentou protestar, mas Richard fechou-lhe a boca com uma ordem colérica para que ficasse calado. Então, quando os lábios do infeliz homem pareciam fechados para sempre, o diretor ordenou que ele os abrisse mais uma vez.

"Quem é esse 'fantasma da Ópera'?", ele rosnou.

Mas o inspetor já era, a essa altura, incapaz de dizer uma palavra. Ele conseguiu transmitir, por um gesto de desespero, que não sabia nada a respeito, ou melhor, que não queria saber.

"Você já o viu, você já viu o fantasma da Ópera?"

O inspetor, por meio de um vigoroso balançar de cabeça, negou ter visto o tal fantasma.

"Muito bem!", disse o Sr. Richard friamente.

Os olhos do inspetor saltaram das órbitas, como se perguntassem por que o diretor havia pronunciado aquele "Muito bem!" sinistro.

"Porque eu vou ajustar as contas de quem quer que não o tenha visto!", explicou o diretor. "Como ele parece estar em toda parte, não posso permitir que me digam que não o veem em lugar nenhum. Gosto que as pessoas trabalhem para mim quando as emprego!"

Tendo dito isso, o Sr. Richard não prestou atenção ao inspetor e discutiu vários assuntos de negócios com seu gerente, que havia entrado na sala nesse meio tempo. O inspetor achou que podia ir e estava gentilmente — oh, tão gentilmente! — se esgueirando em direção à porta, quando o Sr. Richard pregou o homem no chão com um trovejante:

"Fique onde está!"

O Sr. Remy havia mandado chamar a camareira na Rue de Provence, perto da Ópera, onde ela trabalhava como porteira. Ela logo apareceu.

"Qual é o seu nome?"

"Sra. Giry. O senhor me conhece muito bem, senhor; sou a mãe da pequena Giry, a pequena Meg, ora!"

Isso foi dito em um tom tão rude e solene que, por um momento, o Sr. Richard ficou impressionado. Ele olhou para a Sra. Giry, com seu xale desbotado, seus sapatos gastos, seu vestido de tafetá velho e seu chapéu surrado. Ficava bem evidente, pela atitude do diretor, que ele não conhecia ou não conseguia se lembrar de ter conhecido a Sra. Giry, nem a pequena Giry, nem mesmo a "pequena Meg!" Mas o orgulho da Sra. Giry era tão grande que a célebre camareira imaginava que todos a conheciam.

"Nunca ouvi falar dela!", declarou o diretor. "Mas isso não é motivo, Sra. Giry, para que eu não lhe pergunte o que aconteceu ontem à noite para fazer você e o inspetor chamarem um guarda municipal."

"Eu estava justamente querendo vê-lo, senhor, e falar com você sobre isso, para que o senhor não tivesse o mesmo aborrecimento que o Sr. Debienne e o Sr. Poligny. Eles também não quiseram me ouvir, no início."

"Não estou lhe perguntando sobre tudo isso. Estou perguntando o que aconteceu ontem à noite."

A Sra. Giry ficou roxa de indignação. Nunca haviam falado com ela daquele jeito. Ela se levantou como se fosse sair, juntando as dobras de sua saia e agitando as penas de seu chapéu surrado com dignidade, mas, mudando de ideia, sentou-se novamente e disse, com voz altiva:

"Vou dizer o que aconteceu. O fantasma estava aborrecido de novo!"

Em seguida, como o Sr. Richard estava prestes a explodir, o Sr. Moncharmin interferiu e conduziu o interrogatório, do qual ficou claro que a Sra. Giry achava perfeitamente natural que se ouvisse uma voz dizer que um camarote estava ocupado, quando não havia ninguém no camarote. Ela não conseguia explicar esse fenômeno, que não era novo para ela, a não ser pela intervenção do fantasma. Ninguém conseguia ver o fantasma em seu camarote, mas todos podiam ouvi-lo. Ela o ouvira muitas vezes; e eles podiam acreditar nela, pois ela sempre dizia a verdade. Eles podiam perguntar ao Sr. Debienne e ao Sr. Poligny, e a qualquer um que a conhecesse; e também ao Sr. Isidore Saack, que teve a perna quebrada pelo fantasma!

"Ora!", disse Moncharmin, interrompendo-a. "O fantasma quebrou a perna do pobre Isidore Saack?"

A Sra. Giry arregalou os olhos de espanto diante de tamanha ignorância. No entanto, ela consentiu em esclarecer aqueles dois pobres inocentes. O fato havia acontecido no tempo do Sr. Debienne e do Sr. Poligny, também no Camarote Cinco e também durante uma apresentação de FAUST. A Sra. Giry tossiu, limpou a garganta — parecia que ela estava se preparando para cantar toda a partitura de Gounod — e começou:

"Foi assim, senhor. Naquela noite, o Sr. Maniera e sua esposa, joalheiros na Rue Mogador, estavam sentados na frente do camarote, com seu grande amigo, o Sr. Isidore Saack, sentado atrás da Sra. Maniera. Mefistófeles estava cantando" — a Sra. Giry aqui também irrompeu em música — "'Catarina, enquanto brincas de dormir', e então o Sr. Maniera ouviu uma voz em seu ouvido direito (sua esposa estava à sua esquerda) dizendo: 'Ha, ha! Julie não está brincando de dormir!' A esposa dele, por acaso, chamava-se Julie. Então, o Sr. Maniera vira-se para a direita para ver quem estava falando com ele daquele jeito. Ninguém lá! Ele esfrega a orelha e pergunta a si mesmo se está sonhando. Então Mefistófeles continuou com sua serenata... Mas, talvez eu esteja entediando os senhores?"

"Não, não, continue."

"O senhor é muito gentil, cavalheiros", disse ela, com um sorriso afetado. "Bem, então, Mefistófeles continuou com sua serenata" — a Sra. Giry irrompeu em música novamente — "'Santa, abre teus portais sagrados e concede a bem-aventurança, a um mortal que se curva humildemente, de um beijo de perdão.' E então o Sr. Maniera ouve novamente a voz em seu ouvido direito, dizendo, desta vez: 'Ha, ha! Julie não se importaria de conceder um beijo a Isidore!' Então ele se vira novamente, mas, desta vez, para a esquerda; e o que vocês acham que ele vê? Isidore, que havia tomado a mão de sua dama e a estava cobrindo de beijos através da pequena abertura redonda na luva — assim, cavalheiros" — beijando enlevadamente o pedaço de palma deixado à mostra no meio de suas luvas de fio. "Então eles tiveram um momento animado entre eles! Bang! Bang! O Sr. Maniera, que era grande e forte, como o senhor, Sr. Richard, deu dois golpes no Sr. Isidore Saack, que era pequeno e fraco como o Sr. Moncharmin, com o perdão da presença. Houve um grande alvoroço. As pessoas na plateia gritavam: 'Já chega! Parem com isso! Ele vai matá-lo!' Então, finalmente, o Sr. Isidore Saack conseguiu fugir."

"Então o fantasma não havia quebrado a perna dele?", perguntou o Sr. Moncharmin, um pouco aborrecido por sua figura ter causado tão pouca impressão na Sra. Giry.

"Ele a quebrou para ele, senhor", respondeu a Sra. Giry altivamente. "Ele a quebrou na grande escadaria, pela qual ele correu rápido demais, senhor, e demorará muito para que o pobre cavalheiro consiga subir por ela novamente!"

"O fantasma lhe disse o que ele disse no ouvido direito do Sr. Maniera?", perguntou o Sr. Moncharmin, com uma gravidade que ele achava extremamente bem-humorada.

"Não, senhor, foi o próprio Sr. Maniera. Então..."

"Mas a senhora já falou com o fantasma, minha boa senhora?"

"Como estou falando com o senhor agora, meu bom senhor!", respondeu a Sra. Giry.

"E, quando o fantasma fala com a senhora, o que ele diz?"

"Bem, ele me diz para trazer um escabelo para ele!"

Desta vez, Richard caiu na risada, assim como Moncharmin e Remy, o secretário. Apenas o inspetor, avisado pela experiência, teve o cuidado de não rir, enquanto a Sra. Giry se aventurou a adotar uma atitude que era positivamente ameaçadora.

"Em vez de rir", ela gritou indignada, "vocês fariam melhor em fazer como o Sr. Poligny, que descobriu por si mesmo."

"Descobriu sobre o quê?", perguntou Moncharmin, que nunca havia se divertido tanto em sua vida.

"Sobre o fantasma, é claro! ... Olhem só..."

Ela se acalmou subitamente, sentindo que aquele era um momento solene em sua vida:

"OLHEM SÓ", ela repetiu. "Eles estavam apresentando La Juive. O Sr. Poligny achou que assistiria ao espetáculo do camarote do fantasma... Bem, quando Leopold grita: 'Fujamos!' — vocês sabem — e Eleazer os detém e diz: 'Para onde ides?'... bem, o Sr. Poligny — eu o observava do fundo do camarote ao lado, que estava vazio — o Sr. Poligny levantou-se e saiu bem rígido, como uma estátua, e antes que eu tivesse tempo de lhe perguntar: 'Para onde ides?', como Eleazer, ele já estava escada abaixo, mas sem quebrar a perna."

"Ainda assim, isso não nos diz como o fantasma da Ópera chegou a pedir-lhe um banquinho", insistiu o Sr. Moncharmin.

"Bem, a partir daquela noite, ninguém tentou tirar do fantasma seu camarote particular. O gerente deu ordens para que ele o tivesse em todas as apresentações. E, sempre que vinha, pedia-me um banquinho."

"Ora, ora! Um fantasma pedindo um banquinho! Então esse seu fantasma é uma mulher?"

"Não, o fantasma é um homem."

"Como sabe?"

"Ele tem uma voz de homem, oh, uma voz de homem tão adorável! É o que acontece: quando ele vem à ópera, geralmente é no meio do primeiro ato. Ele dá três batidinhas na porta do Camarote Cinco. A primeira vez que ouvi aquelas três batidas, quando eu sabia que não havia ninguém no camarote, podem imaginar o quanto fiquei intrigada! Abri a porta, escutei, olhei; ninguém! E então ouvi uma voz dizer: 'Sra. Jules' — o nome do meu pobre marido era Jules — 'um banquinho, por favor'. Perdão pela expressão, senhores, mas isso me deixou toda arrepiada. Mas a voz continuou: 'Não se assuste, Sra. Jules, sou o fantasma da Ópera!' E a voz era tão suave e gentil que quase não senti medo. A VOZ ESTAVA SENTADA NA CADEIRA DO CANTO, À DIREITA, NA PRIMEIRA FILA."

"Havia alguém no camarote à direita do Camarote Cinco?", perguntou Moncharmin.

"Não; o Camarote Sete e o Camarote Três, o da esquerda, estavam ambos vazios. O pano tinha acabado de subir."

"E o que você fez?"

"Bem, eu trouxe o banquinho. É claro, não era para ele que ele queria, mas para a sua dama! Mas eu nunca a ouvi nem a vi."

"Eh? O quê? Então agora o fantasma é casado!" Os olhos dos dois gerentes viajaram da Sra. Giry para o inspetor, que, de pé atrás da camareira, acenava com os braços para atrair a atenção deles. Ele bateu na testa com um dedo aflito, para expressar sua opinião de que a viúva Jules Giry era certamente louca, uma pantomima que confirmou o Sr. Richard em sua determinação de se livrar de um inspetor que mantinha uma lunática a seu serviço. Enquanto isso, a digna senhora continuava a falar sobre seu fantasma, agora pintando sua generosidade:

"Ao final do espetáculo, ele sempre me dá dois francos, às vezes cinco, às vezes até dez, quando faz muitos dias que ele não vem. Apenas, desde que as pessoas começaram a incomodá-lo novamente, ele não me dá mais nada."

"Desculpe-me, minha boa senhora", disse Moncharmin, enquanto a Sra. Giry sacudia as plumas de seu chapéu surrado diante dessa familiaridade persistente, "desculpe-me, como o fantasma consegue lhe dar seus dois francos?"

"Ora, ele os deixa na pequena prateleira do camarote, é claro. Eu os encontro com o programa, que sempre lhe entrego. Algumas noites, encontro flores no camarote, uma rosa que deve ter caído do corpete de sua dama... pois ele traz uma dama consigo às vezes; um dia, eles deixaram um leque para trás."

"Oh, o fantasma deixou um leque, foi? E o que você fez com ele?"

"Bem, eu o levei de volta ao camarote na noite seguinte."

Aqui a voz do inspetor se elevou.

"Você infringiu as regras; terei de multá-la, Sra. Giry."

"Cale a boca, seu tolo!", murmurou o Sr. Firmin Richard.

"Você levou o leque de volta. E depois?"

"Bem, então, eles o levaram consigo, senhor; não estava lá no final do espetáculo; e em seu lugar deixaram-me uma caixa de doces ingleses, de que gosto muito. Esse é um dos gestos gentis do fantasma."

"Isso basta, Sra. Giry. Pode ir."

Quando a Sra. Giry saiu curvando-se, com a dignidade que nunca a abandonava, o gerente disse ao inspetor que haviam decidido dispensar os serviços daquela velha louca; e, quando ele se retirou por sua vez, instruíram o gerente administrativo a liquidar as contas do inspetor. Deixados a sós, os gerentes contaram um ao outro a ideia que ambos tinham em mente, que era a de eles mesmos investigarem aquele pequeno assunto do Camarote Cinco.

Capítulo V O Violino Encantado

Christine Daaé, devido a intrigas às quais voltarei mais tarde, não deu continuidade imediata ao seu triunfo na Ópera. Após a famosa noite de gala, ela cantou uma vez na casa da Duquesa de Zurique; mas essa foi a última ocasião em que foi ouvida em particular. Ela recusou, sem desculpa plausível, aparecer em um concerto de caridade ao qual prometera assistência. Ela agiu durante todo o tempo como se não fosse mais a senhora do seu próprio destino e como se temesse um novo triunfo.

Ela sabia que o Conde de Chagny, para agradar ao irmão, fizera o que podia em seu favor junto ao Sr. Richard; e ela escreveu para agradecer-lhe e também para pedir-lhe que parasse de falar em seu favor. A razão para essa atitude curiosa nunca foi conhecida. Alguns fingiam que se devia a um orgulho excessivo; outros falavam de sua modéstia celestial. Mas as pessoas no palco não são tão modestas assim; e penso que não estarei longe da verdade se atribuir sua ação simplesmente ao medo. Sim, acredito que Christine Daaé estava assustada com o que lhe havia acontecido. Tenho uma carta de Christine (que faz parte da coleção do persa), referente a este período, que sugere um sentimento de absoluta consternação:

"Eu não me reconheço quando canto", escreve a pobre criança.

Ela não se mostrava em lugar nenhum; e o Visconde de Chagny tentou em vão encontrar-se com ela. Ele escreveu-lhe, pedindo para visitá-la, mas desesperava-se de receber uma resposta quando, certa manhã, ela lhe enviou o seguinte bilhete:

MONSIEUR:

Não me esqueci do garotinho que entrou no mar para resgatar meu lenço. Sinto que devo escrever-lhe hoje, quando vou a Perros, no cumprimento de um dever sagrado. Amanhã é o aniversário da morte do meu pobre pai, a quem você conheceu e que gostava muito de você. Ele está enterrado lá, com seu violino, no cemitério da pequena igreja, no sopé da encosta onde costumávamos brincar quando crianças, ao lado da estrada onde, quando éramos um pouco maiores, dissemos adeus pela última vez.

O Visconde de Chagny consultou apressadamente um guia ferroviário, vestiu-se o mais rápido que pôde, escreveu algumas linhas para seu criado levar ao irmão e saltou em um táxi que o levou à Gare Montparnasse a tempo de perder o trem da manhã. Passou um dia sombrio na cidade e só recuperou o ânimo à noite, quando estava sentado em seu compartimento no trem expresso da Bretanha. Lia o bilhete de Christine repetidas vezes, sentindo seu perfume, recordando as doces imagens de sua infância, e passou o resto daquela cansativa viagem noturna em sonhos febris que começavam e terminavam com Christine Daaé. O dia amanhecia quando ele desembarcou em Lannion. Apressou-se para a diligência de Perros-Guirec. Ele era o único passageiro. Questionou o cocheiro e soube que, na noite do dia anterior, uma jovem que parecia parisiense tinha ido a Perros e se hospedado na estalagem conhecida como Sol Poente.

Quanto mais ele se aproximava dela, mais carinhosamente recordava a história da pequena cantora sueca. A maioria dos detalhes ainda é desconhecida pelo público.

Havia outrora, em uma pequena cidade comercial não muito longe de Upsala, um camponês que vivia ali com sua família, cavando a terra durante a semana e cantando no coro aos domingos. Esse camponês tinha uma filhinha a quem ensinou o alfabeto musical antes mesmo que ela soubesse ler. O pai de Daaé era um grande músico, talvez sem o saber. Nenhum violinista em toda a extensão da Escandinávia tocava como ele. Sua reputação era vasta e ele era sempre convidado para fazer os casais dançarem em casamentos e outras festas. Sua esposa morreu quando Christine entrava em seu sexto ano. Então o pai, que só se importava com sua filha e sua música, vendeu seu pedaço de terra e foi a Upsala em busca de fama e fortuna. Não encontrou nada além de pobreza.

Ele retornou ao campo, vagueando de feira em feira, dedilhando suas melodias escandinavas, enquanto sua filha, que nunca saía do seu lado, o ouvia em êxtase ou cantava ao som do seu toque. Um dia, na Feira de Ljimby, o Professor Valerius os ouviu e os levou para Gotemburgo. Ele sustentava que o pai era o primeiro violinista do mundo e que a filha tinha o potencial de uma grande artista. Sua educação e instrução foram providenciadas. Ela fez progressos rápidos e encantou a todos com sua formosura, sua graça e sua genuína ânsia de agradar.

Quando Valerius e sua esposa foram se estabelecer na França, levaram Daaé e Christine consigo. "Mamãe" Valerius tratava Christine como sua filha. Quanto a Daaé, ele começou a definhar de saudades de casa. Ele nunca saía de casa em Paris, mas vivia em uma espécie de sonho que mantinha com seu violino. Por horas a fio, permanecia trancado em seu quarto com sua filha, tocando violino e cantando, muito, muito suavemente. Às vezes, Mamãe Valerius vinha ouvir atrás da porta, limpava uma lágrima e descia novamente na ponta dos pés, suspirando pelos céus escandinavos.

Daaé parecia não recuperar suas forças até o verão, quando toda a família foi passar uma temporada em Perros-Guirec, em um canto distante da Bretanha, onde o mar era da mesma cor que em seu próprio país. Muitas vezes ele tocava suas melodias mais tristes na praia e fingia que o mar parava seu rugido para ouvi-las. E então ele convenceu Mamãe Valerius a satisfazer um capricho estranho seu. Na época dos "pardons", ou peregrinações bretãs, festas e danças do vilarejo, ele partia com seu violino, como nos velhos tempos, e tinha permissão para levar sua filha consigo por uma semana. Eles davam aos menores povoados música suficiente para durar um ano e dormiam à noite em um celeiro, recusando uma cama na estalagem, deitando-se juntos sobre a palha, como quando eram tão pobres na Suécia. Ao mesmo tempo, estavam sempre muito bem vestidos, não faziam coleta, recusavam as moedas que lhes eram oferecidas; e as pessoas ao redor não podiam compreender a conduta daquele violinista rústico, que percorria as estradas com aquela linda criança que cantava como um anjo do Céu. Eles os seguiam de vilarejo em vilarejo.

Um dia, um garotinho, que estava com sua governanta, fez com que ela caminhasse mais do que pretendia, pois ele não conseguia se separar da pequena menina cuja voz pura e doce parecia prendê-lo a ela. Chegaram à margem de uma enseada que ainda é chamada de Trestraou, mas que agora, creio eu, abriga um cassino ou algo do gênero. Naquela época, não havia nada além de céu, mar e um trecho de praia dourada. Apenas, havia também um vento forte, que levou o lenço de Christine mar adentro. Christine deu um grito e estendeu os braços, mas o lenço já estava longe sobre as ondas. Então ela ouviu uma voz dizer:

"Está tudo bem, eu vou buscar seu lenço no mar."

E ela viu um garotinho correndo veloz, apesar dos gritos e dos protestos indignados de uma digna senhora de preto. O garotinho correu para o mar, vestido como estava, e trouxe-lhe o lenço de volta. O menino e o lenço estavam ambos encharcados. A senhora de preto fez um grande alvoroço, mas Christine riu alegremente e beijou o garotinho, que não era outro senão o Visconde Raoul de Chagny, hospedado em Lannion com sua tia.

Durante a temporada, viam-se e brincavam juntos quase todos os dias. A pedido da tia, secundada pelo Professor Valerius, Daaé consentiu em dar ao jovem visconde algumas lições de violino. Dessa forma, Raoul aprendeu a amar as mesmas águas que haviam encantado a infância de Christine. Ambos também tinham a mesma índole calma e sonhadora. Deleitavam-se com histórias, com antigas lendas bretãs; e seu passatempo favorito era ir pedi-las às portas das casas, como mendigos:

"Minha senhora..." ou, "Bom senhor... tem uma pequena história para nos contar, por favor?"

E raramente acontecia que não lhes "dessem" uma; pois quase toda velha avó bretã já viu, pelo menos uma vez na vida, os "korrigans" dançarem ao luar sobre a urze.

Mas o grande deleite deles era, no crepúsculo, no grande silêncio da noite, após o sol ter se posto no mar, quando Daaé vinha sentar-se ao lado deles na beira da estrada e, em voz baixa, como se temesse assustar os fantasmas que evocava, contava-lhes as lendas da terra do Norte. E, no momento em que ele parava, as crianças pediam mais.

Havia uma história que começava assim:

"Um rei estava sentado em um pequeno barco em um daqueles lagos profundos e silenciosos que se abrem como um olho brilhante em meio às montanhas norueguesas..."

E outra:

"A pequena Lotte pensava em tudo e em nada. Seu cabelo era dourado como os raios do sol e sua alma tão clara e azul quanto seus olhos. Ela mimava sua mãe, era gentil com sua boneca, cuidava muito bem de seu vestido e de seus sapatinhos vermelhos e de seu violino, mas, acima de tudo, amava, quando ia dormir, ouvir o Anjo da Música."

Enquanto o velho contava essa história, Raoul olhava para os olhos azuis e o cabelo dourado de Christine; e Christine pensava que Lotte era muito sortuda por ouvir o Anjo da Música quando ia dormir. O Anjo da Música desempenhava um papel em todos os contos do papai Daaé; e ele sustentava que todo grande músico, todo grande artista recebia a visita do Anjo pelo menos uma vez em sua vida. Às vezes, o Anjo se inclina sobre seu berço, como aconteceu com Lotte, e é assim que existem pequenos prodígios que tocam violino aos seis anos melhor do que homens aos cinquenta, o que, você deve admitir, é muito maravilhoso. Às vezes, o Anjo vem muito mais tarde, porque as crianças são travessas e não querem aprender suas lições ou praticar suas escalas. E, às vezes, ele não vem de forma alguma, porque as crianças têm um coração ruim ou uma má consciência.

Ninguém nunca vê o Anjo; mas ele é ouvido por aqueles que devem ouvi-lo. Ele frequentemente vem quando menos o esperam, quando estão tristes e desanimados. Então seus ouvidos percebem subitamente harmonias celestiais, uma voz divina, da qual se lembram por toda a vida. As pessoas que são visitadas pelo Anjo tremem com um frisson desconhecido pelo resto da humanidade. E elas não conseguem tocar um instrumento, ou abrir a boca para cantar, sem produzir sons que envergonham todos os outros sons humanos. Então as pessoas que não sabem que o Anjo visitou essas pessoas dizem que elas têm genialidade.

A pequena Christine perguntou ao pai se ele tinha ouvido o Anjo da Música. Mas o papai Daaé balançou a cabeça tristemente; e então seus olhos brilharam, quando ele disse:

"Você o ouvirá um dia, minha filha! Quando eu estiver no Céu, eu o enviarei para você!"

O papai estava começando a tossir naquela época.

Três anos depois, Raoul e Christine se encontraram novamente em Perros. O Professor Valerius estava morto, mas sua viúva permanecia na França com o papai Daaé e sua filha, que continuavam a tocar violino e cantar, envolvendo em seu sonho de harmonia sua bondosa patrona, que parecia, a partir de então, viver apenas de música. O jovem, como era agora, tinha vindo a Perros na esperança de encontrá-los e foi direto para a casa onde costumavam ficar. Ele viu primeiro o velho; e então Christine entrou, carregando a bandeja de chá. Ela corou ao ver Raoul, que se aproximou dela e a beijou. Ela lhe fez algumas perguntas, desempenhou seus deveres de anfitriã graciosamente, pegou a bandeja novamente e deixou a sala. Então ela correu para o jardim e refugiou-se em um banco, presa de sentimentos que agitavam seu jovem coração pela primeira vez. Raoul seguiu-a e conversaram até a noite, muito timidamente. Estavam completamente mudados, cautelosos como dois diplomatas, e contaram um ao outro coisas que nada tinham a ver com seus sentimentos nascentes. Quando se despediram à beira da estrada, Raoul, depositando um beijo na mão trêmula de Christine, disse:

"Mademoiselle, eu nunca me esquecerei de você!"

E ele se afastou arrependendo-se de suas palavras, pois sabia que Christine não poderia ser a esposa do Visconde de Chagny.

Quanto a Christine, ela tentou não pensar nele e devotou-se inteiramente à sua arte. Ela fez progressos maravilhosos e aqueles que a ouviam profetizavam que ela seria a maior cantora do mundo. Enquanto isso, o pai morreu; e, subitamente, ela pareceu ter perdido, com ele, sua voz, sua alma e sua genialidade. Ela reteve apenas, mas apenas o suficiente para entrar no CONSERVATÓRIO, onde não se distinguiu em nada, frequentando as aulas sem entusiasmo e ganhando um prêmio apenas para agradar à velha Mamãe Valerius, com quem continuou a viver.

A primeira vez que Raoul viu Christine na Ópera, ele ficou encantado com a beleza da moça e com as doces imagens do passado que ela evocava, mas ficou um tanto surpreso com o lado negativo de sua arte. Ele voltou para ouvi-la. Seguiu-a nas coxias. Esperou por ela atrás de uma escada de Jacob. Tentou atrair sua atenção. Mais de uma vez, ele a seguiu até a porta de seu camarote, mas ela não o viu. Ela parecia, aliás, não ver ninguém. Ela era toda indiferença. Raoul sofria, pois ela era muito bela e ele era tímido e não ousava confessar seu amor, nem mesmo para si mesmo. E então veio o relâmpago da apresentação de gala: os céus se rasgando e a voz de um anjo ouvida sobre a terra para o deleite da humanidade e a conquista absoluta do seu coração.

E então... e então houve aquela voz de homem atrás da porta — "Você deve me amar!" — e ninguém na sala...

Por que ela riu quando ele a lembrou do incidente do lenço? Por que ela não o reconheceu? E por que ela havia lhe escrito?...

Perros foi finalmente alcançado. Raoul entrou na sala de estar enfumaçada do Sol Poente e viu imediatamente Christine de pé diante dele, sorrindo e não demonstrando espanto.

"Então você veio", disse ela. "Senti que o encontraria aqui, quando voltasse da missa. Alguém me disse isso, na igreja."

"Quem?", perguntou Raoul, tomando sua pequena mão na dele.

"Ora, meu pobre pai, que está morto."

Houve um silêncio; e então Raoul perguntou:

"Seu pai lhe disse que eu a amo, Christine, e que não posso viver sem você?"

Christine corou até as orelhas e desviou o rosto. Com uma voz trêmula, ela disse:

"Eu? Você está sonhando, meu amigo!"

E ela explodiu em risadas, para se recompor.

"Não ria, Christine; sou muito sério", respondeu Raoul.

E ela replicou gravemente: "Eu não o fiz vir para me dizer tais coisas."

"Você 'me fez vir', Christine; você sabia que sua carta não me deixaria indignado e que eu correria para Perros. Como pode ter pensado isso, se não pensasse que eu a amava?"

"Pensei que você se lembraria de nossas brincadeiras aqui, quando crianças, nas quais meu pai tantas vezes se juntava. Na verdade, não sei o que pensei... Talvez eu estivesse errada ao lhe escrever... Este aniversário e sua aparição repentina no meu camarote da Ópera, na outra noite, lembraram-me do tempo há muito passado e fizeram-me escrever para você como a garotinha que eu era então..."

Havia algo na atitude de Christine que não parecia natural a Raoul. Ele não sentia qualquer hostilidade nela; muito pelo contrário: o afeto angustiado que brilhava em seus olhos dizia-lhe isso. Mas por que esse afeto era angustiado? Era isso que ele desejava saber e o que o estava irritando.

"Quando você me viu no seu camarote, foi a primeira vez que me notou, Christine?"

Ela era incapaz de mentir.

"Não", disse ela, "eu o havia visto várias vezes no camarote de seu irmão. E também no palco."

"Eu imaginei!" disse Raoul, comprimindo os lábios. "Mas então por que, quando você me viu no seu camarote, aos seus pés, lembrando-a de que eu havia resgatado seu cachecol do mar, por que respondeu como se não me conhecesse e por que riu?"

O tom dessas perguntas foi tão rude que Christine encarou Raoul sem responder. O próprio jovem ficou horrorizado com a discussão repentina que ousara levantar exatamente no momento em que resolvera dirigir palavras de doçura, amor e submissão a Christine. Um marido, um amante com todos os direitos, não falaria de modo diferente a uma esposa, a uma amante que o tivesse ofendido. Mas ele fora longe demais e não via outra saída para a situação ridícula a não ser comportar-se de forma odiosa.

"Você não responde!" disse ele, irritado e infeliz. "Bem, eu responderei por você. Foi porque havia alguém no camarote que a atrapalhava, Christine, alguém de quem você não queria que soubesse que você poderia se interessar por qualquer outra pessoa!"

"Se alguém me atrapalhava, meu amigo", interrompeu Christine friamente, "se alguém me atrapalhava, naquela noite, era você mesmo, já que lhe pedi que saísse do camarote!"

"Sim, para que você pudesse ficar com o outro!"

"O que você está dizendo, monsieur?" perguntou a moça, agitada. "E a que outro você se refere?"

"Ao homem a quem você disse: 'Eu canto apenas para você! ... esta noite eu lhe dei minha alma e estou morta!'"

Christine segurou o braço de Raoul e apertou-o com uma força que ninguém suspeitaria em criatura tão frágil.

"Então você estava ouvindo atrás da porta?"

"Sim, porque eu a amo com tudo... E ouvi tudo..."

"Você ouviu o quê?"

E a jovem, tornando-se estranhamente calma, soltou o braço de Raoul.

"Ele disse a você: 'Christine, você deve me amar!'"

A essas palavras, uma palidez mortal espalhou-se pelo rosto de Christine, olheiras profundas formaram-se ao redor de seus olhos, ela cambaleou e pareceu estar prestes a desmaiar. Raoul lançou-se para a frente, com os braços estendidos, mas Christine superou seu desfalecimento passageiro e disse, em voz baixa:

"Continue! Continue! Conte-me tudo o que você ouviu!"

Sem saber o que pensar, Raoul respondeu: "Ouvi-o responder, quando você disse que lhe entregara sua alma: 'Sua alma é uma coisa bela, criança, e eu lhe agradeço. Nenhum imperador jamais recebeu um presente tão formoso. Os anjos choraram esta noite.'"

Christine levou a mão ao coração, presa de uma emoção indescritível. Seus olhos fitavam o nada como os de uma louca. Raoul estava tomado pelo pavor. Mas, de repente, os olhos de Christine umedeceram-se e duas grandes lágrimas escorreram, como duas pérolas, por suas faces de marfim.

"Christine!"

"Raoul!"

O jovem tentou tomá-la nos braços, mas ela escapou e fugiu em grande desordem.

Enquanto Christine permanecia trancada em seu quarto, Raoul não sabia o que fazer. Recusou-se a tomar o café da manhã. Estava terrivelmente preocupado e amargamente triste ao ver as horas, que ele esperara encontrar tão doces, passarem sem a presença da jovem sueca. Por que ela não vinha passear com ele pelo campo onde tinham tantas lembranças em comum? Soube que ela mandara rezar uma missa, naquela manhã, pelo repouso da alma de seu pai e passara muito tempo rezando na pequena igreja e sobre o túmulo do violinista. Então, como parecia não ter mais nada a fazer em Perros e, de fato, não fazia nada ali, por que ela não voltava imediatamente para Paris?

Raoul caminhou, desalentado, até o cemitério onde ficava a igreja e estava, de fato, sozinho entre os túmulos, lendo as inscrições; mas, ao virar atrás da abside, foi subitamente atingido pelo brilho das flores que se espalhavam pelo solo branco. Eram rosas vermelhas maravilhosas que haviam florescido pela manhã, na neve, dando um vislumbre de vida entre os mortos, pois a morte estava por toda parte ao seu redor. Ela também, como as flores, brotava do solo, que lançara de volta um número de seus cadáveres. Esqueletos e crânios aos centenas estavam amontoados contra a parede da igreja, mantidos em posição por um arame que deixava toda a macabra pilha visível. Ossos de mortos, dispostos em fileiras, como tijolos, para formar a primeira camada sobre a qual as paredes da sacristia haviam sido construídas. A porta da sacristia abria-se no meio daquela estrutura óssea, como se vê frequentemente em antigas igrejas bretãs.

Raoul fez uma oração por Daaé e, então, dolorosamente impressionado por todos aqueles sorrisos eternos nas bocas dos crânios, subiu a encosta e sentou-se na borda da charneca com vista para o mar. O vento diminuiu com a noite. Raoul estava cercado por uma escuridão gelada, mas não sentia o frio. Era ali, lembrava-se, que costumava vir com a pequena Christine para ver os Korrigans dançarem ao nascer da lua. Ele nunca vira nenhum, embora seus olhos fossem bons, enquanto Christine, que era um pouco míope, fingia que vira muitos. Ele sorriu com o pensamento e, de repente, sobressaltou-se. Uma voz atrás dele disse:

"Você acha que os Korrigans virão esta noite?"

Era Christine. Ele tentou falar. Ela colocou a mão enluvada sobre sua boca.

"Escute, Raoul. Decidi lhe contar algo sério, muito sério... Você se lembra da lenda do Anjo da Música?"

"Lembro-me muito bem", disse ele. "Creio que foi aqui que seu pai a contou para nós pela primeira vez."

"E foi aqui que ele disse: 'Quando eu estiver no Céu, minha filha, eu o enviarei a você.' Bem, Raoul, meu pai está no Céu, e eu fui visitada pelo Anjo da Música."

"Não tenho dúvidas disso", respondeu o jovem gravemente, pois lhe parecia que sua amiga, em obediência a um pensamento piedoso, estava conectando a memória de seu pai ao brilho de seu último triunfo.

Christine parecia espantada com a frieza do Visconde de Chagny:

"Como você entende isso?" perguntou ela, trazendo seu rosto pálido tão perto do dele que ele poderia ter pensado que Christine ia dar-lhe um beijo; mas ela apenas queria ler seus olhos apesar da escuridão.

"Entendo", disse ele, "que nenhum ser humano pode cantar como você cantou na outra noite sem a intervenção de algum milagre. Nenhum professor na terra pode lhe ensinar tais acentos como aqueles. Você ouviu o Anjo da Música, Christine."

"Sim", disse ela solenemente, "NO MEU CAMAROTE. É lá que ele vem me dar minhas lições diariamente."

"No seu camarote?" repetiu ele estupidamente.

"Sim, é lá que eu o ouvi; e não fui a única a ouvi-lo."

"Quem mais o ouviu, Christine?"

"Você, meu amigo."

"Eu? Eu ouvi o Anjo da Música?"

"Sim, na outra noite, era ele quem estava falando quando você estava ouvindo atrás da porta. Foi ele quem disse: 'Você deve me amar.' Mas eu pensei, então, que era a única a ouvir sua voz. Imagine meu espanto quando você me disse, esta manhã, que podia ouvi-lo também."

Raoul explodiu em risadas. Os primeiros raios da lua vieram e envolveram os dois jovens em sua luz. Christine virou-se para Raoul com um ar hostil. Seus olhos, geralmente tão gentis, faiscaram.

"Do que você está rindo? VOCÊ acha que ouviu a voz de um homem, suponho?"

"Bem! ..." respondeu o jovem, cujas ideias começavam a ficar confusas diante da atitude determinada de Christine.

"É você, Raoul, que diz isso? Você, um antigo companheiro de brincadeiras! Um amigo de meu pai! Mas você mudou desde aqueles dias. O que você está pensando? Sou uma moça honesta, M. le Vicomte de Chagny, e não me tranco em meu camarote com vozes de homens. Se você tivesse aberto a porta, teria visto que não havia ninguém no camarote!"

"Isso é verdade! Eu abri a porta, quando você se foi, e não encontrei ninguém no camarote."

"Então você vê! ... Bem?"

O visconde reuniu toda a sua coragem.

"Bem, Christine, acho que alguém está zombando de você."

Ela deu um grito e saiu correndo. Ele correu atrás dela, mas, em um tom de raiva feroz, ela gritou: "Deixe-me! Deixe-me!" E desapareceu.

Raoul retornou à estalagem sentindo-se muito cansado, muito desanimado e muito triste. Disseram-lhe que Christine fora para seu quarto dizendo que não desceria para o jantar. Raoul jantou sozinho, em um estado de espírito muito sombrio. Depois, foi para seu quarto e tentou ler, deitou-se e tentou dormir. Não houve som no quarto ao lado.

As horas passaram lentamente. Eram cerca de onze e meia quando ele ouviu distintamente alguém se movendo, com um passo leve e furtivo, no quarto ao lado do seu. Então Christine não fora para a cama! Sem se preocupar com um motivo, Raoul vestiu-se, tomando cuidado para não fazer barulho, e esperou. Esperou pelo quê? Como poderia dizer? Mas seu coração batia forte no peito quando ouviu a porta de Christine girar lentamente em suas dobradiças. Onde ela poderia estar indo, a esta hora, quando todos estavam dormindo profundamente em Perros? Abrindo a porta suavemente, ele viu a forma branca de Christine, ao luar, deslizando pelo corredor. Ela desceu as escadas e ele debruçou-se sobre o balaústre acima dela. De repente, ouviu duas vozes em rápida conversação. Pegou uma frase: "Não perca a chave."

Era a voz da estalajadeira. A porta voltada para o mar foi aberta e trancada novamente. Então tudo ficou em silêncio.

Raoul correu de volta para seu quarto e abriu a janela. A forma branca de Christine estava no cais deserto.

O primeiro andar do Sol Poente não ficava a grande altura e uma árvore que crescia contra a parede estendeu seus galhos para os braços impacientes de Raoul, permitindo-lhe descer sem que a estalajadeira percebesse. O espanto dela, portanto, foi ainda maior quando, na manhã seguinte, o jovem foi trazido de volta para ela quase congelado, mais morto do que vivo, e quando soube que ele fora encontrado estendido sobre os degraus do altar-mor da pequena igreja. Ela correu imediatamente para contar a Christine, que se apressou em descer e, com a ajuda da estalajadeira, fez o melhor que pôde para reanimá-lo. Ele logo abriu os olhos e não demorou a recuperar-se ao ver o rosto encantador de sua amiga inclinado sobre ele.

Algumas semanas depois, quando a tragédia na Ópera forçou a intervenção do promotor público, M. Mifroid, o comissário de polícia, interrogou o Visconde de Chagny sobre os eventos da noite em Perros. Cito as perguntas e respostas conforme constam no relatório oficial, pp. 150 e seguintes:

P. "A Srta. Daaé não viu o senhor descer do seu quarto pelo caminho curioso que escolheu?"

R. "Não, monsieur, não, embora, ao caminhar atrás dela, eu não tenha tido o cuidado de abafar o som dos meus passos. Na verdade, eu desejava que ela se virasse e me visse. Percebi que não tinha desculpa para segui-la e que essa maneira de espioná-la era indigna de mim. Mas ela parecia não me ouvir e agiu exatamente como se eu não estivesse ali. Ela deixou o cais calmamente e então, de repente, subiu a estrada rapidamente. O relógio da igreja batera quinze para a meia-noite e pensei que isso devesse tê-la feito apressar-se, pois ela começou quase a correr e continuou acelerando até chegar à igreja."

P. "O portão estava aberto?"

R. "Sim, monsieur, e isso me surpreendeu, mas não pareceu surpreender a Srta. Daaé."

P. "Não havia ninguém no cemitério?"

R. "Não vi ninguém; e, se houvesse, eu teria visto. A lua brilhava sobre a neve e tornava a noite bem clara."

P. "Era possível que alguém se escondesse atrás das lápides?"

R. "Não, monsieur. Eram lápides pequenas, pobres, parcialmente escondidas sob a neve, com suas cruzes logo acima do nível do solo. As únicas sombras eram as das cruzes e as nossas. A igreja destacava-se muito nitidamente. Nunca vi uma noite tão clara. Estava muito bonito e muito frio e podia-se ver tudo."

P. "O senhor é supersticioso?"

R. "Não, monsieur, sou um católico praticante."

P. "Em que estado de espírito o senhor estava?"

R. "Muito saudável e tranquilo, garanto-lhe. A ação curiosa da Srta. Daaé em sair àquela hora me preocupara a princípio; mas, assim que a vi ir para o cemitério, pensei que ela pretendia cumprir algum dever piedoso no túmulo de seu pai e achei isso tão natural que recuperei toda a minha calma. Fiquei apenas surpreso por ela não ter me ouvido caminhar atrás dela, pois meus passos eram perfeitamente audíveis na neve dura. Mas ela devia estar ocupada com suas intenções e resolvi não perturbá-la. Ela ajoelhou-se junto ao túmulo de seu pai, fez o sinal da cruz e começou a rezar. Naquele momento, soou meia-noite. Na última badalada, vi a Srta. Daaé levantar os olhos para o céu e estender os braços como em êxtase. Eu me perguntava qual poderia ser o motivo, quando eu mesmo levantei a cabeça e tudo dentro de mim pareceu ser atraído para o invisível, QUE ESTAVA TOCANDO A MAIS PERFEITA MÚSICA! Christine e eu conhecíamos aquela música; tínhamos ouvido quando crianças. Mas nunca fora executada com tal arte divina, nem mesmo pelo Sr. Daaé. Lembrei-me de tudo o que Christine me contara sobre o Anjo da Música. A melodia era A Ressurreição de Lázaro, que o velho Sr. Daaé costumava tocar para nós em suas horas de melancolia e de fé. Se o Anjo de Christine existisse, não poderia ter tocado melhor, naquela noite, no violino do falecido músico. Quando a música parou, pareceu-me ouvir um ruído vindo dos crânios na pilha de ossos; era como se estivessem rindo e não pude evitar um estremecimento."

P. "Não lhe ocorreu que o músico pudesse estar escondido atrás daquela mesma pilha de ossos?"

R. "Foi o único pensamento que me ocorreu, monsieur, tanto que omiti seguir a Srta. Daaé, quando ela se levantou e caminhou lentamente para o portão. Ela estava tão absorvida naquele momento que não me surpreende que não tenha me visto."

P. "Então o que aconteceu para que o senhor fosse encontrado pela manhã, meio morto, nos degraus do altar-mor?"

R. "Primeiro um crânio rolou aos meus pés... depois outro... depois outro... Era como se eu fosse o alvo daquele macabro jogo de bocha. E tive a ideia de que um passo em falso devia ter destruído o equilíbrio da estrutura atrás da qual nosso músico estava escondido. Essa suposição pareceu ser confirmada quando vi uma sombra deslizar subitamente ao longo da parede da sacristia. Corri. A sombra já havia empurrado a porta e entrado na igreja. Mas fui mais rápido que a sombra e segurei um canto de sua capa. Naquele momento, estávamos exatamente em frente ao altar-mor; e os raios da lua caíam diretamente sobre nós através dos vitrais da abside. Como eu não soltei a capa, a sombra virou-se; e vi uma terrível caveira, que lançou um olhar para mim com um par de olhos abrasadores. Senti como se estivesse face a face com Satanás; e, na presença daquela aparição sobrenatural, meu coração cedeu, minha coragem me faltou... e não me lembro de mais nada até recuperar a consciência no Sol Poente."

Capítulo VI Uma Visita ao Camarote Cinco

Deixamos M. Firmin Richard e M. Armand Moncharmin no momento em que decidiam "investigar aquele pequeno assunto do Camarote Cinco".

Deixando para trás a ampla escadaria que leva do saguão fora dos escritórios dos gerentes até o palco e suas dependências, cruzaram o palco, saíram pela porta dos assinantes e entraram na sala através da primeira pequena passagem à esquerda. Então, fizeram seu caminho pelas primeiras filas da plateia e olharam para o Camarote Cinco no primeiro balcão. Não podiam vê-lo bem, porque estava na penumbra e porque grandes coberturas estavam jogadas sobre o veludo vermelho das bordas de todos os camarotes.

Estavam quase sozinhos na casa enorme e sombria; e um grande silêncio os cercava. Era a hora em que a maioria dos contrarregras sai para beber. A equipe deixara o tablado por um momento, deixando um cenário parcialmente montado. Alguns raios de luz, uma luz pálida e sinistra, que parecia ter sido roubada de um astro expirante, caíam através de alguma abertura sobre uma torre antiga que erguia suas ameias de papelão no palco; tudo, nesta luz enganosa, assumia uma forma fantástica. Na plateia da orquestra, o forro que a cobria parecia um mar furioso, cujas ondas glaucas tinham sido subitamente imobilizadas por uma ordem secreta do fantasma da tempestade, que, como todos sabem, chama-se Adamastor. MM. Moncharmin e Richard eram os náufragos em meio a essa agitação imóvel de um mar de chita. Dirigiram-se aos camarotes da esquerda, abrindo caminho como marinheiros que deixam seu navio e tentam lutar até a costa. As oito grandes colunas polidas erguiam-se na penumbra como tantas estacas enormes suportando os ameaçadores, desmoronantes e bojudos penhascos cujas camadas eram representadas pelas linhas circulares, paralelas e ondulantes das varandas dos camarotes do grande balcão, primeiro e segundo balcão. No topo, bem no topo do penhasco, perdidos no teto de cobre de M. Lenepveu, figuras sorriam e faziam caretas, riam e zombavam do desespero de MM. Richard e Moncharmin. E, no entanto, essas figuras eram geralmente muito sérias. Seus nomes eram Ísis, Anfitrite, Hebe, Pandora, Psiquê, Tétis, Pomona, Dafne, Clítia, Galateia e Aretusa. Sim, a própria Aretusa e Pandora, a quem todos conhecemos por sua caixa, olhavam de cima para os dois novos gerentes da Ópera, que acabaram agarrando-se a algum destroço e, de lá, olharam silenciosamente para o Camarote Cinco no primeiro balcão.

Eu disse que eles estavam angustiados. Pelo menos, presumo que sim. M. Moncharmin, em qualquer caso, admite que ficou impressionado. Para citar suas próprias palavras, em suas Memórias:

"Essa conversa fiada sobre o fantasma da Ópera, na qual, desde que assumimos as funções dos Srs. Poligny e Debienne, vínhamos sendo tão agradavelmente mergulhados" — o estilo de Moncharmin nem sempre é irrepreensível — "sem dúvida acabou por cegar as minhas faculdades imaginativas e também as minhas visuais. Pode ser que o ambiente excepcional em que nos encontrávamos, no meio de um silêncio incrível, nos tenha impressionado de uma maneira incomum. Pode ser que fôssemos joguetes de uma espécie de alucinação provocada pela penumbra do teatro e pela obscuridade parcial que preenchia o Camarote Cinco. Seja como for, eu vi e Richard também viu uma forma no camarote. Richard não disse nada, nem eu. Mas, espontaneamente, agarramos a mão um do outro. Ficamos assim por alguns minutos, sem nos mover, com os olhos fixos no mesmo ponto; mas a figura havia desaparecido. Depois, saímos e, no saguão, comunicamos nossas impressões um ao outro e conversamos sobre 'a forma'. O infortúnio foi que a minha forma não era nem um pouco parecida com a de Richard. Eu vira uma coisa como uma caveira descansando sobre a borda do camarote, enquanto Richard viu a forma de uma velha que parecia a Sra. Giry. Logo descobrimos que havíamos sido, na verdade, vítimas de uma ilusão, momento em que, sem mais demora e rindo como loucos, corremos para o Camarote Cinco no primeiro balcão, entramos e não encontramos forma de espécie alguma."

O Camarote Cinco é exatamente como todos os outros camarotes do primeiro balcão. Não há nada que o distinga de qualquer um dos outros. O Sr. Moncharmin e o Sr. Richard, ostensivamente muito divertidos e rindo um do outro, moveram a mobília do camarote, levantaram as capas e as cadeiras e examinaram particularmente a poltrona em que "a voz do homem" costumava sentar-se. Mas viram que era uma poltrona respeitável, sem qualquer magia. Ao todo, o camarote era o mais comum do mundo, com seus cortinados vermelhos, suas cadeiras, seu tapete e sua borda coberta de veludo vermelho. Depois, sentindo o tapete da maneira mais séria possível, e não descobrindo nada ali nem em qualquer outro lugar, desceram ao camarote correspondente no térreo, logo abaixo. No Camarote Cinco do térreo, que fica logo dentro da primeira saída da plateia à esquerda, também não encontraram nada que valesse a pena mencionar.

"Essas pessoas estão todas nos fazendo de tolos!" exclamou por fim Firmin Richard. "Será FAUST no sábado: vejamos ambos o espetáculo do Camarote Cinco no primeiro balcão!"

Capítulo VII Faust e o que se seguiu

Na manhã de sábado, ao chegar ao escritório, os gerentes conjuntos encontraram uma carta de O. G. redigida nestes termos:

MEUS CAROS GERENTES:

Então será guerra entre nós?

Se ainda prezam a paz, aqui está o meu ultimato. Consiste nas quatro condições seguintes:

1. Devem devolver-me o meu camarote privativo; e desejo que esteja à minha livre disposição de agora em diante.

2. O papel de Margarida deverá ser cantado esta noite por Christine Daaé. Não se preocupem com Carlotta; ela estará doente.

3. Insisto absolutamente nos bons e leais serviços da Sra. Giry, minha camareira de camarote, a quem reinstalarão em suas funções imediatamente.

4. Informem-me por uma carta entregue à Sra. Giry, que cuidará de que chegue a mim, que aceitam, como fizeram seus predecessores, as condições em meu caderno de notas relativas à minha pensão mensal. Informarei mais tarde como devem pagá-la a mim.

Se recusarem, apresentarão FAUST hoje à noite em uma casa sobre a qual pesa uma maldição.

Sigam meu conselho e estejam avisados a tempo. O. G.

"Olha aqui, estou ficando farto dele, farto dele!" gritou Richard, batendo os punhos na mesa do escritório.

Nesse momento, Mercier, o gerente administrativo, entrou.

"Lachenel gostaria de ver um dos senhores," disse ele. "Ele diz que seu assunto é urgente e parece bastante transtornado."

"Quem é Lachenel?" perguntou Richard.

"É o seu mestre de cavalariça."

"O que quer dizer? Meu mestre de cavalariça?"

"Sim, senhor," explicou Mercier, "há vários cavalariços na Ópera e o Sr. Lachenel é o chefe deles."

"E o que faz esse cavalariço?"

"Ele tem a gerência principal do estábulo."

"Que estábulo?"

"Ora, o seu, senhor, o estábulo da Ópera."

"Existe um estábulo na Ópera? Pela minha palavra, eu não sabia. Onde fica?"

"Nos porões, no lado da Rotunda. É um departamento muito importante; temos doze cavalos."

"Doze cavalos! E para quê, em nome dos céus?"

"Ora, precisamos de cavalos treinados para as procissões em La Juive, O Profeta e assim por diante; cavalos 'acostumados ao palco'. É função dos cavalariços treiná-los. O Sr. Lachenel é muito habilidoso nisso. Ele costumava administrar os estábulos de Franconi."

"Muito bem... mas o que ele quer?"

"Não sei; nunca o vi em tal estado."

"Ele pode entrar."

O Sr. Lachenel entrou, carregando um chicote de montaria, com o qual atingiu sua bota direita de maneira irritada.

"Bom dia, Sr. Lachenel," disse Richard, um tanto impressionado. "A que devemos a honra de sua visita?"

"Senhor Gerente, vim pedir-lhe que se livre de todo o estábulo."

"O quê, quer se livrar dos nossos cavalos?"

"Não estou falando dos cavalos, mas dos cavalariços."

"Quantos cavalariços você tem, Sr. Lachenel?"

"Seis cavalariços! Isso é pelo menos dois a mais."

"Esses são 'cargos'," Mercier interveio, "criados e impostos a nós pelo subsecretário de Belas Artes. São preenchidos por protegidos do governo e, se me permite..."

"Não dou a mínima para o governo!" rugiu Richard. "Não precisamos de mais do que quatro cavalariços para doze cavalos."

"Onze," disse o mestre de cavalaria, corrigindo-o.

"Doze," repetiu Richard.

"Onze," repetiu Lachenel.

"Ora, o gerente administrativo me disse que você tinha doze cavalos!"

"Eu tinha doze, mas só tenho onze desde que César foi roubado."

E o Sr. Lachenel deu a si mesmo uma grande palmada na bota com o chicote.

"César foi roubado?" gritou o gerente administrativo. "César, o cavalo branco em O Profeta?"

"Não existem dois Césares," disse o mestre de cavalariça secamente. "Passei dez anos na Franconi e já vi muitos cavalos no meu tempo. Bem, não existem dois Césares. E ele foi roubado."

"Como?"

"Não sei. Ninguém sabe. É por isso que vim pedir-lhe que demita todo o estábulo."

"O que dizem seus cavalariços?"

"Todo tipo de bobagem. Alguns deles acusam os figurantes. Outros fingem que é o porteiro do gerente administrativo..."

"Meu porteiro? Respondo por ele como por mim mesmo!" protestou Mercier.

"Mas, afinal, Sr. Lachenel," gritou Richard, "você deve ter alguma ideia."

"Sim, tenho," declarou o Sr. Lachenel. "Tenho uma ideia e vou lhe dizer qual é. Não há dúvida em minha mente." Ele caminhou até os dois gerentes e sussurrou. "Foi o fantasma quem fez o serviço!"

Richard deu um salto.

"O quê, você também! Você também!"

"Como quer dizer, eu também? Não é natural, depois do que vi?"

"O que você viu?"

"Eu vi, tão claramente quanto vejo vocês agora, uma sombra negra montando um cavalo branco que era tão parecido com César quanto dois grãos de ervilha!"

"E você correu atrás deles?"

"Corri e gritei, mas eles eram rápidos demais para mim e desapareceram na escuridão da galeria subterrânea."

O Sr. Richard levantou-se. "Isso basta, Sr. Lachenel. Pode ir... Faremos uma queixa contra O FANTASMA."

"E demitir meu estábulo?"

"Oh, certamente! Bom dia."

O Sr. Lachenel curvou-se e retirou-se. Richard espumava pela boca.

"Acierte as contas daquele idiota imediatamente, por favor."

"Ele é amigo do representante do governo!" Mercier aventurou-se a dizer.

"E toma seu vermute no Tortoni's com Lagrène, Scholl e Pertuiset, o caçador de leões," acrescentou Moncharmin. "Teremos toda a imprensa contra nós! Ele contará a história do fantasma; e todos estarão rindo às nossas custas! Preferia estar morto a ser ridículo!"

"Está bem, não se fale mais nisso."

Nesse momento a porta se abriu. Deve ter sido abandonada por seu Cérbero habitual, pois a Sra. Giry entrou sem cerimônia, segurando uma carta na mão, e disse apressadamente:

"Peço perdão, desculpem-me, senhores, mas recebi uma carta esta manhã do fantasma da Ópera. Ele me disse para vir até vocês, que vocês tinham algo..."

Ela não completou a frase. Viu o rosto de Firmin Richard; e era uma visão terrível. Ele parecia prestes a explodir. Ele não disse nada, não conseguia falar. Mas, de repente, ele agiu. Primeiro, seu braço esquerdo agarrou a figura pitoresca da Sra. Giry e fê-la descrever um semicírculo tão inesperado que ela soltou um grito de desespero. Em seguida, seu pé direito imprimiu a sola no tafetá preto de uma saia que certamente nunca antes sofrera um ultraje semelhante em um lugar semelhante. A coisa aconteceu tão rapidamente que a Sra. Giry, quando já estava no corredor, ainda estava totalmente atordoada e parecia não entender. Mas, de repente, ela entendeu; e a Ópera ecoou com seus gritos indignados, seus protestos violentos e ameaças.

Por volta da mesma época, Carlotta, que tinha uma pequena casa própria na Rue du Faubourg St. Honoré, chamou sua camareira, que lhe trouxe as cartas para a cama. Entre elas havia uma missiva anônima, escrita em tinta vermelha, com uma caligrafia hesitante e desajeitada, que dizia:

Se você aparecer esta noite, deve estar preparada para um grande infortúnio no momento em que abrir a boca para cantar... um infortúnio pior que a morte.

A carta tirou o apetite de Carlotta para o café da manhã. Ela afastou o chocolate, sentou-se na cama e pensou muito. Não era a primeira carta do gênero que recebia, mas nunca tivera uma formulada em termos tão ameaçadores.

Ela se considerava, naquela época, vítima de mil tentativas de ciúmes e vivia dizendo que tinha um inimigo secreto que jurara arruiná-la. Fingia que um plano perverso estava sendo tramado contra ela, uma cabala que chegaria ao ápice um desses dias; mas acrescentava que não era mulher para ser intimidada.

A verdade é que, se havia uma cabala, era liderada pela própria Carlotta contra a pobre Christine, que não suspeitava disso. Carlotta nunca perdoara Christine pelo triunfo que alcançara ao substituí-la de última hora. Quando Carlotta soube da recepção espantosa concedida à sua substituta, ela se curou imediatamente de um ataque incipiente de bronquite e de um mau humor contra a direção, e perdeu a menor inclinação para se esquivar de seus deveres. A partir daí, trabalhou com todas as forças para "sufocar" sua rival, alistando os serviços de amigos influentes para persuadir os gerentes a não dar a Christine a oportunidade de um novo triunfo. Certos jornais que começaram a exaltar o talento de Christine agora se interessavam apenas pela fama de Carlotta. Por fim, no próprio teatro, a célebre, porém cruel e sem alma diva, fazia os comentários mais escandalosos sobre Christine e tentava causar-lhe intermináveis pequenos aborrecimentos.

Quando Carlotta terminou de pensar sobre a ameaça contida na carta estranha, ela se levantou.

"Veremos," disse ela, acrescentando alguns palavrões em seu espanhol nativo com um ar muito determinado.

A primeira coisa que viu, ao olhar pela janela, foi um carro funerário. Ela era muito supersticiosa; e o carro funerário e a carta a convenceram de que estava correndo os mais sérios perigos naquela noite. Ela reuniu todos os seus apoiadores, disse-lhes que estava ameaçada na apresentação daquela noite por um complô organizado por Christine Daaé e declarou que deveriam pregar uma peça naquela garota enchendo a casa com seus, os de Carlotta, admiradores. Ela não tinha falta deles, tinha? Contava com eles para se manterem preparados para qualquer eventualidade e silenciarem os adversários, se, como ela temia, criassem uma perturbação.

O secretário particular do Sr. Richard ligou para saber da saúde da diva e voltou com a garantia de que ela estava perfeitamente bem e que, "mesmo que estivesse morrendo", ela cantaria o papel de Margarida naquela noite. O secretário insistiu com ela, em nome de seu chefe, para não cometer nenhuma imprudência, para ficar em casa o dia todo e ter cuidado com correntes de ar; e Carlotta não pôde deixar, depois que ele se foi, de comparar esse conselho incomum e inesperado com as ameaças contidas na carta.

Eram cinco horas quando o correio trouxe uma segunda carta anônima com a mesma caligrafia da primeira. Era curta e dizia simplesmente:

Você está com um resfriado forte. Se for sensata, verá que é loucura tentar cantar esta noite.

Carlotta zombou, encolheu os belos ombros e cantou duas ou três notas para se tranquilizar.

Seus amigos foram fiéis à promessa. Estavam todos na Ópera naquela noite, mas procuraram em vão pelos ferozes conspiradores que tinham instruções de suprimir. A única coisa incomum era a presença do Sr. Richard e do Sr. Moncharmin no Camarote Cinco. Os amigos de Carlotta pensaram que, talvez, os gerentes tivessem ouvido, por sua vez, sobre a perturbação proposta e que tivessem decidido estar na casa, para impedi-la ali mesmo; mas esta era uma suposição injustificável, como o leitor sabe. O Sr. Richard e o Sr. Moncharmin não pensavam em nada além de seu fantasma.

"Em vão! Em vão clamo, através da minha vigília cansada, à criação e ao seu Senhor! Nenhuma resposta quebrará o silêncio lúgubre! Nenhum sinal! Nenhuma única palavra!"

O famoso barítono, Carolus Fonta, mal havia terminado o primeiro apelo do Doutor Faust às forças das trevas, quando o Sr. Firmin Richard, que estava sentado na própria cadeira do fantasma, a cadeira da frente à direita, inclinou-se para seu sócio e perguntou-lhe zombeteiramente:

"Bem, o fantasma já sussurrou uma palavra em seu ouvido?"

"Espere, não tenha tanta pressa," respondeu o Sr. Armand Moncharmin, no mesmo tom alegre. "O espetáculo mal começou e você sabe que o fantasma não costuma vir até o meio do primeiro ato."

O primeiro ato passou sem incidentes, o que não surpreendeu os amigos de Carlotta, porque Margarida não canta neste ato. Quanto aos gerentes, olharam um para o outro quando o pano caiu.

"Essa foi uma!" disse Moncharmin.

"Sim, o fantasma está atrasado," disse Firmin Richard.

"Não é uma casa ruim," disse Moncharmin, "para 'uma casa sobre a qual pesa uma maldição'."

O Sr. Richard sorriu e apontou para uma mulher gorda, um tanto vulgar, vestida de preto, sentada em uma cadeira no meio da plateia com um homem de casaca de pano grosso de cada lado dela.

"Quem diabos são 'aqueles'?" perguntou Moncharmin.

"'Aqueles', meu caro, são minha zeladora, seu marido e seu irmão."

"Você lhes deu os ingressos?"

"Dei... Minha zeladora nunca tinha ido à Ópera — esta é a primeira vez — e, como ela vai vir todas as noites agora, eu queria que ela tivesse um bom lugar, antes de passar seu tempo mostrando aos outros os seus."

Moncharmin perguntou o que ele queria dizer e Richard respondeu que convencera sua zeladora, em quem tinha a maior confiança, a vir e tomar o lugar da Sra. Giry. Sim, ele gostaria de ver se, com aquela mulher em vez da velha lunática, o Camarote Cinco continuaria a espantar os nativos?

"A propósito," disse Moncharmin, "você sabe que a Mãe Giry vai entrar com uma queixa contra você."

"Com quem? O fantasma?"

O fantasma! Moncharmin quase o tinha esquecido. No entanto, aquela pessoa misteriosa não fez nada para trazer-se à memória dos gerentes; e eles estavam apenas dizendo isso um ao outro pela segunda vez, quando a porta do camarote se abriu subitamente para admitir o assustado gerente de palco.

"O que houve?" perguntaram ambos, espantados ao vê-lo ali em tal momento.

"Parece que há um complô tramado pelos amigos de Christine Daaé contra Carlotta. Carlotta está furiosa."

"O que diabos...?" disse Richard, franzindo a testa.

Mas o pano subiu na cena da quermesse e Richard fez um sinal ao gerente de palco para que se retirasse. Quando os dois ficaram sozinhos novamente, Moncharmin inclinou-se para Richard:

"Então Daaé tem amigos?" perguntou ele.

"Sim, ela tem."

"Quem?"

Richard olhou para um camarote no primeiro balcão contendo ninguém além de dois homens.

"O Conde de Chagny?"

"Sim, ele falou comigo a favor dela com tanto calor que, se eu não soubesse que ele é amigo da Sorelli..."

"Sério? Sério?" disse Moncharmin. "E quem é aquele jovem pálido ao lado dele?"

"É seu irmão, o visconde."

"Ele deveria estar na cama. Parece doente."

O palco ecoou com uma canção alegre:

"Licor tinto ou branco, Grosso ou fino! O que importa, Se temos vinho?"

Estudantes, cidadãos, soldados, moças e matronas giravam despreocupadamente diante da estalagem com a figura de Baco como letreiro. Siebel fez sua entrada. Christine Daaé parecia encantadora em suas roupas de rapaz; e os partidários de Carlotta esperavam ouvi-la ser saudada com uma ovação que os teria esclarecido sobre as intenções de seus amigos. Mas nada aconteceu.

Por outro lado, quando Margarida atravessou o palco e cantou as únicas duas linhas que lhe cabiam neste segundo ato:

"Não, meu senhor, não sou uma dama, nem mesmo uma beleza, E não preciso de um braço para me ajudar em meu caminho,"

Carlotta foi recebida com aplausos entusiásticos. Foi tão inesperado e tão gratuito que aqueles que nada sabiam sobre os rumores olharam um para o outro e perguntaram o que estava acontecendo. E este ato também terminou sem incidentes.

Então todos disseram: "Claro, será durante o próximo ato."

Alguns, que pareciam estar mais bem informados que o restante, declararam que o "alvoroço" começaria com a balada do REI DE THULE e correram para a entrada dos assinantes para avisar Carlotta. Os gerentes deixaram o camarote durante o intervalo para descobrir mais sobre a cabala da qual o gerente de palco falara; mas logo voltaram aos seus lugares, encolhendo os ombros e tratando o caso todo como uma tolice.

A primeira coisa que viram, ao entrar no camarote, foi uma caixa de doces ingleses na pequena prateleira da borda. Quem a colocara ali? Perguntaram aos camareiros, mas nenhum deles sabia. Depois, voltaram à prateleira e, ao lado da caixa de doces, encontraram um binóculo de ópera. Olharam um para o outro. Não tinham vontade de rir. Tudo o que a Sra. Giry lhes dissera voltou à sua memória... e depois... e depois... pareciam sentir uma curiosa espécie de corrente de ar ao redor deles... Sentaram-se em silêncio.

A cena representava o jardim de Margarida:

"Flores gentis no orvalho, Sejam mensagem minha..."

Ao cantar essas duas primeiras linhas, com seu buquê de rosas e lilases na mão, Christine, levantando a cabeça, viu o Visconde de Chagny em seu camarote; e, a partir daquele momento, sua voz pareceu menos segura, menos cristalina do que o habitual. Algo parecia abafar e amortecer seu canto...

"Que garota estranha ela é!" disse um dos amigos de Carlotta na plateia, quase em voz alta. "Outro dia ela estava divina; e esta noite está simplesmente balindo. Ela não tem experiência, não tem treinamento."

"Flores gentis, deitem-se aí E digam a ela da minha parte..."

O visconde colocou a cabeça sob as mãos e chorou. O conde, atrás dele, roeu o bigode com malícia, encolheu os ombros e franziu a testa. Para ele, geralmente tão frio e correto, trair seus sentimentos internos assim, por sinais externos, o conde devia estar muito zangado. Estava. Ele vira seu irmão retornar de uma viagem rápida e misteriosa em um estado de saúde alarmante. A explicação que se seguiu foi insatisfatória e o conde pediu a Christine Daaé uma entrevista. Ela teve a audácia de responder que não poderia ver nem ele nem seu irmão...

"Se ela ao menos se dignasse a me ouvir E com um sorriso me alegrar..."

"A pequena malandrinha!" rosnou o conde.

E ele se perguntava o que ela queria. No que ela estava esperando... Ela era uma garota virtuosa, dizia-se que não tinha amigos, nem protetor de espécie alguma... Aquele anjo do Norte devia ser muito astuto!

Raoul, atrás da cortina de suas mãos que velavam suas lágrimas de menino, pensava apenas na carta que recebera ao retornar a Paris, onde Christine, fugindo de Perros como uma ladra na noite, chegara antes dele:

MEU CARO PEQUENO COMPANHEIRO DE BRINCADEIRAS:

VOCÊ DEVE TER A CORAGEM DE NÃO ME VER NOVAMENTE, DE NÃO FALAR DE MIM NOVAMENTE. SE VOCÊ ME AMA APENAS UM POUCO, FAÇA ISSO POR MIM, POR MIM QUE JAMAIS TE ESQUECEREI, MEU QUERIDO RAOUL. MINHA VIDA DEPENDE DISSO. SUA VIDA DEPENDE DISSO. SUA PEQUENA CHRISTINE.

Trovões de aplausos. Carlotta fez sua entrada.

"Quem será, desejo saber, Aquele que se dirigiu a mim, Se é nobre, ou, ao menos, qual é seu nome..."

Quando Margarita terminou de cantar a balada do REI DE THULE, foi ruidosamente ovacionada, e novamente quando chegou ao fim da ária das joias:

"Ah, a alegria sem igual De usar estas joias brilhantes!..."

Daí em diante, certa de si mesma, certa de seus amigos na plateia, certa de sua voz e de seu sucesso, não temendo nada, Carlotta lançou-se em seu papel sem a restrição da modéstia... Ela já não era Margarita, era Carmen. Foi aplaudida ainda mais; e sua estreia com Faust parecia prestes a lhe trazer um novo sucesso, quando, subitamente... aconteceu uma coisa terrível.

Faust ajoelhara-se:

"Deixa-me fitar a forma abaixo de mim, Enquanto do éter azul lá longe Olha como a estrela da tarde, brilhante e terna, Paira sobre mim, Para amar tua beleza também!"

E Margarita respondeu:

"Oh, que estranho! Como um feitiço a noite me envolve! E um encanto profundo e lânguido Sinto sem alarme Com sua melodia me envolver E todo o meu coração subjugar."

Nesse momento, naquele exato momento, a coisa terrível aconteceu... Carlotta coaxou como um sapo:

"Co-ac!"

Havia consternação no rosto de Carlotta e consternação no rosto de toda a plateia. Os dois diretores em seu camarote não puderam conter uma exclamação de horror. Todos sentiram que aquilo não era natural, que havia feitiçaria por trás. Aquele sapo cheirava a enxofre. Pobre, miserável, desesperada, esmagada Carlotta!

O tumulto na casa era indescritível. Se aquilo tivesse acontecido com qualquer outra pessoa que não fosse Carlotta, ela teria sido vaiada. Mas todos sabiam quão perfeito era o instrumento de sua voz; e não houve demonstração de raiva, mas apenas de horror e consternação, o tipo de consternação que os homens teriam sentido se tivessem testemunhado a catástrofe que quebrou os braços da Vênus de Milo... E mesmo assim eles teriam visto... e compreendido...

Mas ali, aquele sapo era incompreensível! Tanto que, após alguns segundos gastos perguntando a si mesma se tinha realmente ouvido aquela nota, aquele som, aquele ruído infernal sair de sua garganta, ela tentou persuadir-se de que não fora assim, de que era vítima de uma ilusão, uma ilusão auditiva, e não de um ato de traição por parte de sua voz...

Enquanto isso, no Camarote Cinco, Moncharmin e Richard tinham ficado muito pálidos. Este incidente extraordinário e inexplicável encheu-os de um pavor que era tanto mais misterioso quanto, há algum tempo, eles haviam caído sob a influência direta do fantasma. Tinham sentido seu hálito. Os cabelos de Moncharmin arrepiaram-se. Richard enxugou o suor da testa. Sim, o fantasma estava ali, ao redor deles, atrás deles, ao lado deles; sentiam sua presença sem vê-lo, ouviam seu hálito, perto, perto, perto deles!... Tinham a certeza de que havia três pessoas no camarote... Tremiam... Pensavam em fugir... Não ousavam... Não ousavam fazer um movimento ou trocar uma palavra que teria revelado ao fantasma que sabiam que ele estava lá!... O que ia acontecer?

Aconteceu o seguinte.

"Co-ac!" A exclamação de horror conjunta deles foi ouvida em toda a casa. SENTIRAM QUE ESTAVAM SOFRENDO COM OS ATAQUES DO FANTASMA. Debruçados sobre a mureta do camarote, encaravam Carlotta como se não a reconhecessem. Aquela garota infernal devia ter dado o sinal para alguma catástrofe. Ah, eles estavam esperando a catástrofe! A casa estava sob uma maldição! Os dois diretores ofegavam e arquejavam sob o peso da catástrofe. A voz sufocada de Richard foi ouvida chamando Carlotta:

"Bem, continue!"

Não, Carlotta não continuou... Bravamente, heroicamente, ela recomeçou a linha fatal ao final da qual o sapo aparecera.

Um silêncio terrível sucedeu o tumulto. A voz de Carlotta, sozinha, mais uma vez preencheu a casa ressoante:

"Sinto sem alarme..."

O público também sentia, mas não sem alarme...

"Sinto sem alarme... Sinto sem alarme - co-ac! Com sua melodia me envolver - co-ac! E todo o meu coração subju-co-ac!"

O sapo também tinha recomeçado!

A casa explodiu em um tumulto selvagem. Os dois diretores desabaram em suas cadeiras e não ousaram sequer virar-se; não tinham forças; o fantasma estava rindo pelas costas deles! E, finalmente, ouviram distintamente sua voz em seus ouvidos direitos, a voz impossível, a voz sem boca, dizendo:

"ELA ESTÁ CANTANDO ESTA NOITE PARA DERRUBAR O LUSTRE!"

Em uníssono, ergueram os olhos para o teto e soltaram um grito terrível. O lustre, a massa imensa do lustre, deslizava para baixo, vindo em direção a eles, ao chamado daquela voz demoníaca. Solto de seu gancho, mergulhou do teto e veio espatifar-se no meio da plateia, em meio a milhares de gritos de terror. Uma corrida desenfreada para as saídas seguiu-se.

Os jornais da época afirmam que houve inúmeros feridos e um morto. O lustre tinha desabado sobre a cabeça da pobre mulher que viera à Ópera pela primeira vez na vida, aquela que o Sr. Richard nomeara para suceder a Sra. Giry, a camareira do fantasma, em suas funções! Ela morreu no local e, na manhã seguinte, um jornal publicou com a seguinte manchete:

DUZENTOS QUILOS NA CABEÇA DE UMA ZELADORA

Esse foi seu único epitáfio!

Capítulo VIII O Carruagem Misteriosa

Aquela noite trágica foi ruim para todos. Carlotta adoeceu. Quanto a Christine Daaé, ela desapareceu após a apresentação. Quinze dias se passaram durante os quais ela não foi vista nem na Ópera nem fora dela.

Raoul, naturalmente, foi o primeiro a se espantar com a ausência da prima donna. Escreveu-lhe para o apartamento da Sra. Valerius e não recebeu resposta. Sua dor aumentou e ele terminou por ficar seriamente alarmado ao nunca ver o nome dela no programa. FAUST foi encenado sem ela.

Certa tarde, ele foi ao escritório dos diretores para perguntar o motivo do desaparecimento de Christine. Encontrou ambos parecendo extremamente preocupados. Seus próprios amigos não os reconheciam: tinham perdido toda a alegria e vivacidade. Eram vistos atravessando o palco com a cabeça baixa, a testa vincada, as bochechas pálidas, como se perseguidos por algum pensamento abominável ou presas de algum capricho persistente do destino.

A queda do lustre envolvera-os em não pouca responsabilidade; mas era difícil fazê-los falar sobre isso. O inquérito terminara com um veredito de morte acidental, causada pelo desgaste das correntes pelas quais o lustre estava suspenso no teto; mas era dever tanto dos antigos quanto dos novos diretores ter descoberto esse desgaste e remediado a tempo. E sinto-me no dever de dizer que os Srs. Richard e Moncharmin, nesta época, pareciam tão mudados, tão distraídos, tão misteriosos, tão incompreensíveis que muitos dos assinantes pensavam que algum evento ainda mais horrível do que a queda do lustre devia ter afetado seu estado de espírito.

Em seu trato diário, mostravam-se muito impacientes, exceto com a Sra. Giry, que fora reintegrada em suas funções. E a recepção que deram ao Visconde de Chagny, quando ele veio perguntar por Christine, foi tudo menos cordial. Apenas lhe disseram que ela estava de férias. Ele perguntou por quanto tempo seriam as férias, e responderam secamente que era por um período ilimitado, já que a Srta. Daaé pedira licença por motivos de saúde.

"Então ela está doente!", ele exclamou. "O que ela tem?"

"Não sabemos."

"Vocês não enviaram o médico da Ópera para vê-la?"

"Não, ela não o pediu; e, como confiamos nela, aceitamos sua palavra."

Raoul deixou o edifício, presa aos pensamentos mais sombrios. Decidiu, acontecesse o que acontecesse, ir perguntar à Mamãe Valerius. Ele se lembrava das frases fortes na carta de Christine, proibindo-o de fazer qualquer tentativa de vê-la. Mas o que ele vira em Perros, o que ouvira atrás da porta do camarim, sua conversa com Christine à beira do charco faziam-no suspeitar de alguma maquinação que, por mais diabólica que pudesse ser, não era menos humana. A imaginação altamente sensível da moça, sua mente afetuosa e crédula, a educação primitiva que cercara sua infância com um círculo de lendas, a constante meditação sobre seu pai morto e, acima de tudo, o estado de êxtase sublime em que a música a lançava a partir do momento em que essa arte lhe era manifestada em certas condições excepcionais, como no cemitério em Perros; tudo isso parecia-lhe constituir um terreno moral favorável demais aos desígnios malévolos de alguma pessoa misteriosa e sem escrúpulos. De quem seria Christine Daaé a vítima? Esta era a pergunta muito razoável que Raoul fazia a si mesmo enquanto corria para a Mamãe Valerius.

Ele tremia ao tocar a campainha de um pequeno apartamento na Rue Notre-Dame-des-Victoires. A porta foi aberta pela criada que ele vira sair do camarim de Christine certa noite. Ele perguntou se poderia falar com a Sra. Valerius. Disseram-lhe que ela estava doente na cama e não recebia visitas.

"Leve meu cartão, por favor", disse ele.

A criada logo voltou e levou-o a uma pequena sala de estar pouco mobiliada, na qual retratos do Professor Valerius e do velho Daaé pendiam em paredes opostas.

"Madame pede ao Senhor Visconde que a desculpe", disse a servente. "Ela só pode recebê-lo em seu quarto, porque não consegue mais se sustentar em suas pobres pernas."

Cinco minutos depois, Raoul foi conduzido a um quarto mal iluminado onde reconheceu imediatamente o rosto bom e gentil da benfeitora de Christine na penumbra de uma alcova. O cabelo da Mamãe Valerius estava agora completamente branco, mas seus olhos não tinham envelhecido; nunca, pelo contrário, sua expressão fora tão brilhante, tão pura, tão infantil.

"Sr. de Chagny!", ela exclamou alegremente, estendendo as duas mãos ao visitante. "Ah, é o Céu que o envia aqui!... Podemos falar DELA."

Esta última frase soou muito sombria aos ouvidos do jovem. Ele perguntou imediatamente:

"Madame... onde está Christine?"

E a velha senhora respondeu calmamente:

"Ela está com seu bom gênio!"

"Que bom gênio?", exclamou o pobre Raoul.

"Ora, o Anjo da Música!"

O visconde caiu em uma cadeira. Sério? Christine estava com o Anjo da Música? E ali estava a Mamãe Valerius na cama, sorrindo para ele e levando o dedo aos lábios, para avisá-lo de ficar em silêncio! E ela acrescentou:

"Você não deve contar a ninguém!"

"Pode confiar em mim", disse Raoul.

Ele mal sabia o que estava dizendo, pois suas ideias sobre Christine, já muito confusas, tornavam-se cada vez mais emaranhadas; e parecia que tudo começava a girar ao seu redor, ao redor do quarto, ao redor daquela extraordinária boa senhora de cabelos brancos e olhos de miosótis.

"Eu sei! Eu sei que posso!", ela disse, com uma risada feliz. "Mas por que você não vem perto de mim, como fazia quando era um garotinho? Dê-me suas mãos, como quando você me trouxe a história da pequena Lotte, que o Papai Daaé lhe contara. Gosto muito de você, Sr. Raoul, sabe. E a Christine também!"

"Ela gosta de mim!", suspirou o jovem. Ele sentia dificuldade em reunir seus pensamentos e concentrá-los no "bom gênio" da Mamãe Valerius, no Anjo da Música de quem Christine lhe falara tão estranhamente, na caveira que vira em um tipo de pesadelo no altar-mor em Perros e também no fantasma da Ópera, cuja fama chegara aos seus ouvidos certa noite, quando estava nos bastidores, ao alcance da audição de um grupo de cenógrafos que repetiam a descrição horripilante que o enforcado, Joseph Buquet, dera do fantasma antes de sua morte misteriosa.

Ele perguntou em voz baixa: "O que a faz pensar que Christine gosta de mim, madame?"

"Ela costumava falar de você todos os dias."

"Sério?... E o que ela lhe dizia?"

"Ela me dizia que você a pedira em casamento!"

E a boa velhinha começou a rir de todo o coração. Raoul saltou da cadeira, corando até as têmporas, sofrendo agonias.

"O que é isso? Aonde você vai? Sente-se novamente agora mesmo, quer?... Você acha que vou deixá-lo sair assim?... Se está zangado comigo por rir, peço perdão... Afinal, o que aconteceu não é culpa sua... Você não sabia?... Você achava que Christine era livre?..."

"Christine está noiva?", perguntou o miserável Raoul, com a voz embargada.

"Ora, não! Ora, não!... Você sabe tão bem quanto eu que Christine não poderia se casar, mesmo que quisesse!"

"Mas eu não sei de nada disso!... E por que Christine não pode se casar?"

"Por causa do Anjo da Música, é claro!..."

"Não entendo..."

"Sim, ele a proíbe!"

"Ele a proíbe!... O Anjo da Música a proíbe de se casar!"

"Oh, ele a proíbe... sem proibi-la. É assim: ele diz a ela que, se ela se casasse, ela nunca mais o ouviria. É só isso!... E que ele iria embora para sempre!... Então, você entende, ela não pode deixar o Anjo da Música ir. É muito natural."

"Sim, sim", ecoou Raoul submisso, "é muito natural."

"Além disso, achei que Christine tivesse contado tudo isso a você, quando ela o encontrou em Perros, onde ela foi com seu bom gênio."

"Oh, ela foi a Perros com seu bom gênio, foi?"

"Quer dizer, ele arranjou para encontrá-la lá, no cemitério de Perros, no túmulo de Daaé. Ele prometeu tocar para ela A Ressurreição de Lázaro no violino do pai dela!"

Raoul de Chagny levantou-se e, com um ar muito autoritário, pronunciou estas palavras peremptórias:

"Madame, a senhora terá a bondade de me dizer onde vive esse gênio."

A velha senhora não pareceu surpresa com esse comando indiscreto. Ela ergueu os olhos e disse:

"No Céu!"

Tanta simplicidade o desconcertava. Ele não sabia o que dizer diante daquela fé cândida e perfeita em um gênio que descia todas as noites do Céu para assombrar os camarins da Ópera.

Ele agora percebia o estado de espírito possível de uma garota criada entre um violinista supersticioso e uma velha senhora visionária, e estremeceu ao pensar nas consequências de tudo aquilo.

"Christine ainda é uma boa moça?", ele perguntou de repente, apesar de si mesmo.

"Eu juro, pela minha salvação!", exclamou a velha, que, desta vez, parecia estar indignada. "E, se você duvida disso, senhor, não sei o que você veio fazer aqui!"

Raoul arrancou suas luvas.

"Há quanto tempo ela conhece esse 'gênio'?"

"Cerca de três meses... Sim, já faz três meses que ele começou a lhe dar aulas."

O visconde ergueu os braços com um gesto de desespero.

"O gênio lhe dá aulas!... E onde, por favor?"

"Agora que ela foi embora com ele, não sei dizer; mas, até quinze dias atrás, era no camarim de Christine. Seria impossível neste pequeno apartamento. A casa inteira os ouviria. Enquanto que, na Ópera, às oito horas da manhã, não há ninguém por perto, entende!"

"Sim, entendo! Entendo!", gritou o visconde.

E ele se despediu apressadamente da Sra. Valerius, que se perguntava se o jovem nobre não estava um pouco fora de si.

Ele caminhou para casa, para a residência de seu irmão, em um estado lastimável. Ele poderia ter se esmurrado, batido a cabeça contra as paredes! Pensar que ele acreditara na inocência dela, na pureza dela! O Anjo da Música! Ele o conhecia agora! Ele o via! Era sem dúvida algum tenor indescritível, um bobalhão bonitão, que fazia caretas e sorria enquanto cantava! Ele se achava tão absurdo e tão miserável quanto possível. Oh, que jovem miserável, pequeno e insignificante era o Sr. Visconde de Chagny!, pensava Raoul, furiosamente. E ela, que criatura astuta, ousada e maldita!

Seu irmão estava esperando por ele e Raoul caiu em seus braços, como uma criança. O conde consolou-o, sem pedir explicações; e Raoul certamente teria hesitado muito antes de lhe contar a história do Anjo da Música. Seu irmão sugeriu levá-lo para jantar. Dominado como estava pelo desespero, Raoul provavelmente teria recusado qualquer convite naquela noite, se o conde não lhe tivesse dito, como um incentivo, que a dama de seus pensamentos fora vista, na noite anterior, na companhia do sexo oposto no Bois. A princípio, o visconde recusou-se a acreditar; mas ele recebeu detalhes tão precisos que parou de protestar. Ela fora vista, ao que parecia, andando em um carruagem, com a janela aberta. Ela parecia estar lentamente absorvendo o ar gélido da noite. Havia uma lua gloriosa brilhando. Ela foi reconhecida sem sombra de dúvida. Quanto ao seu companheiro, apenas seu contorno sombrio foi distinguido, reclinado na escuridão. A carruagem ia a passo lento em uma estrada solitária atrás da tribuna em Longchamp.

Raoul vestiu-se com pressa frenética, preparado para esquecer sua angústia lançando-se, como se diz, no "vórtice do prazer". Infelizmente, ele era um convidado muito lamentável e, deixando seu irmão cedo, encontrou-se, às dez horas da noite, em um táxi, atrás da pista de corrida de Longchamp.

Estava um frio cortante. A estrada parecia deserta e muito clara sob o luar. Ele disse ao motorista para esperar por ele pacientemente na esquina de uma curva próxima e, escondendo-se o melhor que podia, ficou batendo os pés para se aquecer. Ele estava praticando esse exercício saudável há meia hora, quando uma carruagem virou a esquina da estrada e veio silenciosamente em sua direção, a passo lento.

À medida que se aproximava, ele viu que uma mulher estava inclinando a cabeça pela janela. E, subitamente, a lua lançou um brilho pálido sobre suas feições.

"Christine!"

O nome sagrado de seu amor brotara de seu coração e de seus lábios. Ele não pôde conter... Teria dado tudo para retirá-lo, pois aquele nome, proclamado na quietude da noite, agira como se fosse o sinal precombinado para uma arrancada furiosa de todo o veículo, que disparou passando por ele antes que ele pudesse colocar em execução seu plano de saltar sobre as cabeças dos cavalos. A janela da carruagem fora fechada e o rosto da moça desaparecera. E a carruagem, atrás da qual ele agora corria, não passava de um ponto negro na estrada branca.

Ele chamou novamente: "Christine!"

Sem resposta. E ele parou em meio ao silêncio.

Com um olho sem brilho, ele fitou aquela estrada fria e desolada e a noite pálida e morta. Nada era mais frio que seu coração, nada tão morto: ele amara um anjo e agora desprezava uma mulher!

Raoul, como essa pequena fada do Norte zombou de você! Era realmente, era realmente necessário ter um rosto tão fresco e jovem, uma testa tão tímida e sempre pronta a cobrir-se com o rubor rosa da modéstia para passar na noite solitária, em uma carruagem, acompanhada por um amante misterioso? Certamente deveria haver algum limite para a hipocrisia e a mentira!...

Ela passara sem responder ao seu grito... E ele pensava em morrer; e ele tinha vinte anos!...

Seu criado encontrou-o de manhã sentado em sua cama. Ele não se despira e o servo temeu, ao ver seu rosto, que algum desastre tivesse ocorrido. Raoul arrancou as cartas das mãos do homem. Reconhecera o papel e a caligrafia de Christine. Ela dizia:

QUERIDO:

Vá ao baile de máscaras na Ópera na noite de depois de amanhã. Às doze horas, esteja na pequena sala atrás da lareira do grande salão de entrada. Fique perto da porta que leva à Rotunda. Não mencione este encontro a ninguém na terra. Use um dominó branco e esteja cuidadosamente mascarado. Como você me ama, não se deixe reconhecer. CHRISTINE.

Capítulo IX No Baile de Máscaras

O envelope estava coberto de lama e sem selo. Trazia as palavras "A ser entregue ao Sr. Visconde Raoul de Chagny", com o endereço escrito a lápis. Deve ter sido jogado fora na esperança de que um transeunte pegasse o bilhete e o entregasse, que foi o que aconteceu. O bilhete foi apanhado no pavimento da Place de l'Opéra.

Raoul leu-o novamente com olhos febris. Nada mais era necessário para reavivar sua esperança. O quadro sombrio que ele imaginara por um momento de uma Christine esquecida de seu dever para consigo mesma deu lugar à sua concepção original de uma criança infeliz e inocente, vítima da imprudência e de uma sensibilidade exagerada. Até que ponto, naquele momento, ela era realmente uma vítima? De quem ela era prisioneira? Em que turbilhão ela fora arrastada? Ele fazia a si mesmo essas perguntas com uma angústia cruel; mas até mesmo essa dor parecia suportável ao lado do frenesi em que era lançado ao pensar em uma Christine mentirosa e enganadora. O que aconteceu? Que influência ela sofrera? Que monstro a levara e por quais meios? ...

Por quais meios, na verdade, senão os da música? Ele conhecia a história de Christine. Após a morte de seu pai, ela adquiriu um desgosto por tudo na vida, inclusive por sua arte. Ela passou pelo CONSERVATOIRE como uma pobre máquina de cantar sem alma. E, de repente, ela despertou como se fosse pela intervenção de um deus. O Anjo da Música apareceu em cena! Ela cantou Margarita em FAUST e triunfou! ...

O Anjo da Música! ... Por três meses, o Anjo da Música dava aulas a Christine ... Ah, ele era um mestre de canto pontual! ... E agora ele a levava para passeios no Bois! ...

Os dedos de Raoul agarraram-se à sua própria carne, acima de seu coração ciumento. Em sua inexperiência, ele agora se perguntava com terror que jogo a garota estava jogando? Até que ponto uma cantora de ópera poderia fazer de bobo um jovem de bom coração, completamente novo no amor? Ó miséria! ...

Assim os pensamentos de Raoul voavam de um extremo ao outro. Ele já não sabia se deveria ter pena de Christine ou amaldiçoá-la; e ele tinha pena e a amaldiçoava alternadamente. De qualquer modo, comprou um dominó branco.

A hora do encontro chegou finalmente. Com o rosto em uma máscara adornada com rendas longas e espessas, parecendo um pierrô em sua capa branca, o visconde achou-se muito ridículo. Homens do mundo não vão ao baile da Ópera fantasiados! Era absurdo. Um pensamento, contudo, consolava o visconde: ele certamente nunca seria reconhecido!

Este baile era uma ocasião excepcional, realizada algum tempo antes da Quaresma, em honra ao aniversário do nascimento de um famoso desenhista; e esperava-se que fosse muito mais alegre, ruidoso e boêmio do que o baile de máscaras comum. Inúmeros artistas combinaram de ir, acompanhados por toda uma coorte de modelos e alunos, que, à meia-noite, começaram a criar um barulho tremendo. Raoul subiu a grande escadaria cinco minutos antes da meia-noite, não se deteve para olhar os trajes heterogêneos exibidos por todos os degraus de mármore, um dos cenários mais ricos do mundo, não permitiu que nenhuma máscara jocosa o arrastasse para uma guerra de inteligência, não respondeu a piadas e afastou a familiaridade ousada de várias duplas que já se tornaram um pouco alegres demais. Atravessando o grande salão de entrada e escapando de um turbilhão louco de dançarinos no qual fora pego por um momento, ele finalmente entrou na sala mencionada na carta de Christine. Encontrou-a apinhada; pois aquele pequeno espaço era o ponto onde todos os que iam jantar na Rotunda cruzavam com os que retornavam de tomar uma taça de champanhe. A diversão, ali, tornava-se rápida e furiosa.

Raoul encostou-se a um batente de porta e esperou. Não esperou muito. Um dominó preto passou e deu um rápido aperto na ponta de seus dedos. Ele entendeu que era ela e seguiu-a:

"É você, Christine?" perguntou ele, entre os dentes.

O dominó preto virou-se prontamente e levou o dedo aos lábios, sem dúvida para avisá-lo de não mencionar seu nome novamente. Raoul continuou a segui-la em silêncio.

Ele estava com medo de perdê-la, depois de encontrá-la novamente em circunstâncias tão estranhas. Seu ressentimento contra ela havia desaparecido. Ele não duvidava mais de que ela "não tinha nada a se repreender", por mais peculiar e inexplicável que sua conduta pudesse parecer. Ele estava pronto para exibir qualquer sinal de clemência, perdão ou covardia. Ele estava apaixonado. E, sem dúvida, logo receberia uma explicação muito natural para sua estranha ausência.

O dominó preto voltava-se de tempos em tempos para ver se o dominó branco ainda o seguia.

À medida que Raoul passava novamente pelo grande salão de entrada, desta vez no rastro de sua guia, ele não pôde deixar de notar um grupo que se aglomerava em torno de uma pessoa cujo disfarce, ar excêntrico e aparência macabra estavam causando sensação. Era um homem vestido todo de escarlate, com um chapéu enorme e penas sobre uma maravilhosa cabeça de morte. De seus ombros pendia uma imensa capa de veludo vermelho, que se arrastava pelo chão como a cauda de um rei; e nesta capa estava bordado, em letras de ouro, que todos liam e repetiam em voz alta: "Não me toquem! Sou a Morte Vermelha vagando por aí!"

Então, um, muito ousado, tentou tocá-lo... mas uma mão de esqueleto disparou de uma manga carmesim e agarrou violentamente o pulso do imprudente; e ele, sentindo o aperto dos ossos, o aperto furioso da Morte, soltou um grito de dor e terror. Quando a Morte Vermelha o soltou finalmente, ele fugiu como um louco, perseguido pelas zombarias dos espectadores.

Foi neste momento que Raoul passou em frente ao mascarado fúnebre, que por acaso acabara de se virar em sua direção. E ele quase exclamou:

"A cabeça de morte de Perros-Guirec!"

Ele o reconhecera! ... Ele quis avançar, esquecendo-se de Christine; mas o dominó preto, que também parecia presa de alguma estranha agitação, segurou-o pelo braço e arrastou-o para fora do salão, longe da multidão louca pela qual a Morte Vermelha vagava...

O dominó preto continuava a olhar para trás e, aparentemente, em duas ocasiões viu algo que a assustou, pois apressou seu passo e o de Raoul como se estivessem sendo perseguidos.

Subiram dois andares. Ali, as escadas e corredores estavam quase desertos. O dominó preto abriu a porta de um camarote privativo e fez sinal para o dominó branco segui-la. Então Christine, a quem ele reconheceu pelo som de sua voz, fechou a porta atrás deles e avisou-o, num sussurro, para permanecer no fundo do camarote e de forma alguma se mostrar. Raoul tirou a máscara. Christine manteve a sua. E, quando Raoul estava prestes a pedir-lhe que a removesse, ficou surpreso ao vê-la encostar o ouvido na divisória e ouvir avidamente qualquer som lá fora. Então ela abriu a porta apenas o suficiente, olhou para o corredor e, em voz baixa, disse:

"Ele deve ter subido mais alto." De repente ela exclamou: "Ele está descendo novamente!"

Ela tentou fechar a porta, mas Raoul a impediu; pois ele vira, no último degrau da escada que levava ao andar de cima, UM PÉ VERMELHO, seguido por outro... e lentamente, majestosamente, todo o vestido escarlate da Morte Vermelha encontrou seus olhos. E ele viu mais uma vez a cabeça de morte de Perros-Guirec.

"É ele!" exclamou. "Desta vez, ele não escapará de mim! ..."

Mas Christine batera a porta no momento em que Raoul estava prestes a sair correndo. Ele tentou afastá-la.

"A quem você se refere por 'ele'?" perguntou ela, com uma voz mudada. "Quem não escapará de você?"

Raoul tentou vencer a resistência da moça pela força, mas ela o repeliu com uma força que ele não teria suspeitado nela. Ele entendeu, ou pensou que entendeu, e imediatamente perdeu o controle.

"Quem?" repetiu ele com raiva. "Ora, ele, o homem que se esconde atrás dessa máscara hedionda de morte! ... O gênio do mal do cemitério em Perros! ... Morte Vermelha! ... Em uma palavra, madame, seu amigo ... seu Anjo da Música! ... Mas eu arrancarei sua máscara, como arrancarei a minha; e, desta vez, olharemos um para o rosto do outro, ele e eu, sem véu e sem mentiras entre nós; e saberei a quem você ama e quem a ama!"

Ele irrompeu em uma risada louca, enquanto Christine soltava um gemido desconsolado atrás de sua máscara de veludo. Com um gesto trágico, ela lançou seus dois braços, que fixaram uma barreira de carne branca contra a porta.

"Em nome do nosso amor, Raoul, você não passará! ..."

Ele parou. O que ela dissera? ... Em nome do amor deles? ... Nunca antes ela confessara que o amava. E, no entanto, ela tivera oportunidades suficientes ... Bah, seu único objetivo era ganhar alguns segundos! ... Ela desejava dar tempo à Morte Vermelha para escapar ... E, com acentos de ódio infantil, ele disse:

"Você mente, madame, pois você não me ama e nunca me amou! Que pobre coitado devo ser para deixar você zombar e desprezar-me como fez! Por que você me deu todos os motivos para esperança, em Perros ... para uma esperança honesta, madame, pois sou um homem honesto e acreditei que você fosse uma mulher honesta, quando sua única intenção era me enganar! Ai de mim, você enganou a todos nós! Você tirou uma vantagem vergonhosa da afeição cândida de sua própria benfeitora, que continua a acreditar em sua sinceridade enquanto você anda pelo baile da Ópera com a Morte Vermelha! ... Eu a desprezo! ..."

E ele irrompeu em lágrimas. Ela permitiu que ele a insultasse. Ela pensava em apenas uma coisa, impedi-lo de sair do camarote.

"Você me pedirá perdão, um dia, por todas essas palavras feias, Raoul, e quando o fizer, eu o perdoarei!"

Ele balançou a cabeça. "Não, não, você me enlouqueceu! Quando penso que eu só tinha um objetivo na vida: dar meu nome a uma cantora de ópera!"

"Raoul! ... Como você pode?"

"Morrerei de vergonha!"

"Não, querido, viva!" disse a voz grave e mudada de Christine. "E ... adeus. Adeus, Raoul ..."

O rapaz deu um passo à frente, cambaleando ao caminhar. Ele arriscou mais um sarcasmo:

"Oh, você deve me deixar vir aplaudi-la de vez em quando!"

"Nunca mais cantarei, Raoul! ..."

"Sério?" respondeu ele, ainda mais satiricamente. "Então ele está tirando você do palco: meus parabéns! ... Mas nos veremos no Bois, em uma destas noites!"

"Nem no Bois nem em lugar algum, Raoul: você não me verá novamente ..."

"Pode-se perguntar pelo menos para que escuridão você está voltando? ... Para que inferno você está partindo, dama misteriosa ... ou para que paraíso?"

"Eu vim para lhe dizer, querido, mas não posso lhe dizer agora ... você não acreditaria em mim! Você perdeu a fé em mim, Raoul; acabou!"

Ela falou com uma voz tão desesperada que o rapaz começou a sentir remorso por sua crueldade.

"Mas veja bem!" gritou ele. "Não pode me dizer o que tudo isso significa! ... Você é livre, não há ninguém para interferir com você... Você anda por Paris ... Você coloca um dominó para vir ao baile... Por que você não vai para casa? ... O que você esteve fazendo nesta última quinzena? ... Que história é essa sobre o Anjo da Música, que você esteve contando para a Mamãe Valerius? Alguém pode ter enganado você, brincado com sua inocência. Eu fui testemunha disso, em Perros ... mas você sabe no que acreditar agora! Você me parece bem sensata, Christine. Você sabe o que está fazendo ... E, enquanto isso, Mamãe Valerius jaz esperando por você em casa e apelando ao seu 'bom gênio!' ... Explique-se, Christine, eu lhe imploro! Qualquer um poderia ter sido enganado como eu fui. Que farsa é essa?"

Christine simplesmente tirou sua máscara e disse: "Querido, é uma tragédia!"

Raoul viu agora seu rosto e não pôde conter uma exclamação de surpresa e terror. A tez fresca de outros tempos havia desaparecido. Uma palidez mortal cobria aquelas feições, que ele conhecera tão encantadoras e tão gentis, e a tristeza as sulcara com linhas impiedosas e traçara sombras escuras e inexprimivelmente tristes sob seus olhos.

"Minha querida! Minha querida!" gemeu ele, estendendo os braços. "Você prometeu me perdoar ..."

"Talvez! ... Algum dia, talvez!" disse ela, retomando sua máscara; e ela foi embora, proibindo-o, com um gesto, de segui-la.

Ele tentou desobedecê-la; mas ela se virou e repetiu seu gesto de despedida com tal autoridade que ele não ousou dar um passo.

Ele a observou até que ela saísse de vista. Então ele também desceu para o meio da multidão, mal sabendo o que estava fazendo, com as têmporas pulsando e o coração doendo; e, ao cruzar o salão de dança, perguntou se alguém vira a Morte Vermelha. Sim, todos tinham visto a Morte Vermelha; mas Raoul não conseguia encontrá-lo; e, às duas horas da manhã, ele dobrou o corredor, atrás dos bastidores, que levava ao camarim de Christine Daaé.

Seus passos levaram-no àquele quarto onde ele conhecera o sofrimento pela primeira vez. Ele bateu à porta. Não houve resposta. Ele entrou, como entrara quando procurava por toda parte "a voz do homem". O quarto estava vazio. Um bico de gás estava aceso, baixo. Ele viu papel de carta sobre uma pequena escrivaninha. Pensou em escrever para Christine, mas ouviu passos no corredor. Teve apenas tempo de se esconder no quarto interno, que era separado do camarim por uma cortina.

Christine entrou, tirou sua máscara com um movimento cansado e jogou-a sobre a mesa. Ela suspirou e deixou sua linda cabeça cair em suas duas mãos. No que ela estava pensando? Em Raoul? Não, pois Raoul a ouviu murmurar: "Pobre Erik!"

A princípio, ele pensou que deveria estar enganado. Para começar, ele estava convencido de que, se alguém deveria ser lamentado, era ele, Raoul. Teria sido muito natural se ela tivesse dito "Pobre Raoul", depois do que acontecera entre eles. Mas, balançando a cabeça, ela repetiu: "Pobre Erik!"

O que este Erik tinha a ver com os suspiros de Christine e por que ela estava lamentando Erik quando Raoul estava tão infeliz?

Christine começou a escrever, deliberadamente, com calma e tão placidamente que Raoul, que ainda tremia pelos efeitos da tragédia que os separava, ficou dolorosamente impressionado.

"Que frieza!" disse ele a si mesmo.

Ela continuou escrevendo, preenchendo duas, três, quatro folhas. De repente, ela levantou a cabeça e escondeu as folhas em seu corpete ... Ela parecia estar ouvindo ... Raoul também ouviu ... De onde vinha aquele som estranho, aquele ritmo distante? ... Um canto fraco parecia emanar das paredes ... sim, era como se as próprias paredes estivessem cantando! ... A canção tornou-se mais clara ... as palavras eram agora distinguíveis ... ele ouviu uma voz, uma voz muito bela, muito suave, muito cativante ... mas, apesar de toda a sua suavidade, permanecia uma voz masculina ... A voz aproximava-se cada vez mais ... ela vinha através da parede ... aproximava-se ... e agora a voz estava NO QUARTO, na frente de Christine. Christine levantou-se e dirigiu-se à voz, como se falasse com alguém:

"Aqui estou, Erik," disse ela. "Estou pronta. Mas você está atrasado."

Raoul, espiando por trás da cortina, não podia acreditar em seus olhos, que não lhe mostravam nada. O rosto de Christine iluminou-se. Um sorriso de felicidade apareceu em seus lábios descorados, um sorriso como o dos doentes quando recebem a primeira esperança de recuperação.

A voz sem corpo continuava a cantar; e certamente Raoul nunca em sua vida ouvira nada mais absoluta e heroicamente doce, mais gloriosamente insidioso, mais delicado, mais poderoso, em suma, mais irresistivelmente triunfante. Ele a ouvia em febre e agora começava a entender como Christine Daaé pôde aparecer uma noite, diante da plateia estupefata, com acentos de uma beleza até então desconhecida, de uma exaltação sobre-humana, enquanto sem dúvida ainda sob a influência do mestre misterioso e invisível.

A voz cantava a Canção da Noite de Núpcias de Romeu e Julieta. Raoul viu Christine estender seus braços para a voz como ela fizera, no cemitério de Perros, para o violino invisível tocando A Ressurreição de Lázaro. E nada poderia descrever a paixão com que a voz cantava:

"O destino nos une para sempre e um dia!"

As notas atravessaram o coração de Raoul. Lutando contra o encanto que parecia privá-lo de toda a sua vontade e toda a sua energia e de quase toda a sua lucidez no momento em que ele mais precisava delas, ele conseguiu afastar a cortina que o escondia e caminhou até onde Christine estava. Ela mesma estava se movendo para o fundo do quarto, cuja parede inteira era ocupada por um grande espelho que refletia sua imagem, mas não a dele, pois ele estava logo atrás dela e inteiramente coberto por ela.

"O destino nos une para sempre e um dia!"

Christine caminhou em direção à sua imagem no espelho e a imagem veio em sua direção. As duas Christines--a verdadeira e o reflexo--terminaram por se tocar; e Raoul estendeu os braços para abraçar as duas em um só abraço. Mas, por uma espécie de milagre ofuscante que o fez cambalear, Raoul foi subitamente lançado para trás, enquanto um sopro gelado varreu seu rosto; ele viu, não duas, mas quatro, oito, vinte Christines girando ao seu redor, rindo dele e fugindo tão velozmente que ele não podia tocar em nenhuma delas. Finalmente, tudo ficou imóvel novamente; e ele viu a si mesmo no espelho. Mas Christine havia desaparecido.

Ele correu para o espelho. Bateu nas paredes. Ninguém! E enquanto isso o quarto ainda ecoava com um canto distante e apaixonado:

"O destino nos une para sempre e um dia!"

Por onde, por onde Christine tinha ido? ... Por onde ela voltaria? ...

Ela voltaria? Ai de mim, ela não tinha declarado a ele que tudo estava acabado? E a voz não estava repetindo:

"O destino nos une para sempre e um dia!"

A mim? A quem?

Então, exausto, derrotado, com a mente vazia, ele sentou-se na cadeira que Christine acabara de deixar. Como ela, ele deixou sua cabeça cair entre as mãos. Quando a levantou, as lágrimas escorriam por suas faces jovens, lágrimas reais, pesadas como as que as crianças ciumentas derramam, lágrimas que choravam por uma mágoa que não era de forma alguma fantasiosa, mas que é comum a todos os amantes da terra e que ele expressou em voz alta:

"Quem é esse Erik?" disse ele.

Capítulo X Esqueça o Nome da Voz do Homem

No dia seguinte ao de Christine ter desaparecido diante de seus olhos em uma espécie de deslumbramento que ainda o fazia duvidar da evidência de seus sentidos, o Sr. Visconde de Chagny foi informar-se na casa da Mamãe Valerius. Ele encontrou um quadro encantador. A própria Christine estava sentada à beira da cama da velha senhora, que estava sentada contra os travesseiros, tricotando. O rosa e o branco haviam retornado às bochechas da jovem. As olheiras profundas ao redor de seus olhos haviam desaparecido. Raoul já não reconhecia o rosto trágico do dia anterior. Se o véu de melancolia sobre aquelas feições adoráveis não parecesse ainda ao jovem como o último vestígio do drama estranho em cujas teias aquela criança misteriosa estava lutando, ele poderia ter acreditado que Christine não era a heroína dele de forma alguma.

Ela levantou-se, sem demonstrar qualquer emoção, e ofereceu-lhe a mão. Mas o estupor de Raoul era tão grande que ele permaneceu ali estupefato, sem um gesto, sem uma palavra.

"Bem, Sr. de Chagny," exclamou a Mamãe Valerius, "não conhece nossa Christine? Seu bom gênio a trouxe de volta para nós!"

"Mamã!" a moça interrompeu prontamente, enquanto um rubor profundo subia aos seus olhos. "Eu pensava, mamã, que não haveria mais perguntas sobre isso! ... Sabe que não existe tal coisa como o Anjo da Música!"

"Mas, criança, ele lhe deu lições durante três meses!"

"Mamã, prometi explicar-lhe tudo um destes dias; e espero fazê-lo, mas a senhora prometeu-me, até esse dia, ficar em silêncio e não me fazer mais pergunta alguma!"

"Desde que você tenha prometido nunca mais me deixar! Mas você prometeu isso, Christine?"

"Mamã, tudo isto não pode interessar ao Sr. de Chagny."

"Pelo contrário, mademoiselle," disse o jovem, numa voz que tentou tornar firme e corajosa, mas que ainda tremia, "tudo o que lhe diz respeito interessa-me a um ponto que talvez a senhora compreenda um dia. Não nego que a minha surpresa é igual ao meu prazer em encontrá-la com a sua mãe adotiva e que, depois do que aconteceu entre nós ontem, depois do que a senhora disse e do que pude adivinhar, dificilmente esperava vê-la aqui tão cedo. Eu seria o primeiro a regozijar-me com o seu regresso, se a senhora não estivesse tão decidida a preservar um segredo que pode ser fatal para si... e sou seu amigo há tempo demais para não ficar alarmado, juntamente com a Sra. Valerius, com uma aventura desastrosa que permanecerá perigosa enquanto não tivermos desenredado os seus fios e da qual a senhora certamente acabará por ser a vítima, Christine."

A estas palavras, a Mamã Valerius agitou-se na sua cama.

"O que significa isto?" exclamou ela. "Christine está em perigo?"

"Sim, madame," disse Raoul corajosamente, apesar dos sinais que Christine lhe fazia.

"Meu Deus!" exclamou a boa e simples velha, ofegante. "Tens de me contar tudo, Christine! Por que tentaste tranquilizar-me? E que perigo é esse, Sr. de Chagny?"

"Um impostor está a abusar da sua boa-fé."

"O Anjo da Música é um impostor?"

"Ela própria lhe disse que não existe Anjo da Música."

"Mas então o que é, em nome do Céu? Vocês vão matar-me!"

"Existe um mistério terrível à nossa volta, madame, à sua volta, à volta de Christine, um mistério muito mais temível do que qualquer quantidade de fantasmas ou génios!"

A Mamã Valerius voltou um rosto aterrorizado para Christine, que já tinha corrido para a sua mãe adotiva e a segurava nos braços.

"Não acredites nele, mamã, não acredites nele," repetia ela.

"Então diz-me que nunca mais me deixarás," implorou a viúva.

Christine ficou em silêncio e Raoul retomou.

"É isso que tem de prometer, Christine. É a única coisa que pode tranquilizar a sua mãe e a mim. Comprometemo-nos a não lhe fazer uma única pergunta sobre o passado, se nos prometer permanecer sob a nossa proteção no futuro."

"Esse é um compromisso que não lhe pedi e uma promessa que me recuso a fazer!" disse a jovem altivamente. "Sou senhora das minhas próprias ações, Sr. de Chagny: não tem o direito de as controlar, e pedir-lhe-ei que desista de agora em diante. Quanto ao que fiz durante a última quinzena, só há um homem no mundo que tem o direito de me pedir contas: o meu marido! Pois bem, não tenho marido e nunca pretendo casar!"

Ela estendeu as mãos para enfatizar as suas palavras e Raoul empalideceu, não apenas por causa das palavras que ouvira, mas porque avistara uma aliança de ouro simples no dedo de Christine.

"A senhora não tem marido e, no entanto, usa uma aliança."

Ele tentou agarrar-lhe a mão, mas ela retirou-a rapidamente.

"É um presente!" disse ela, corando mais uma vez e esforçando-se inutilmente por esconder o seu embaraço.

"Christine! Como não tem marido, esse anel só pode ter sido dado por alguém que espera torná-la sua esposa! Por que continuar a enganar-nos? Por que torturar-me ainda mais? Esse anel é uma promessa; e essa promessa foi aceite!"

"Foi o que eu disse!" exclamou a velha senhora.

"E o que é que ela respondeu, madame?"

"O que eu quis," disse Christine, levada à exasperação. "Não acha, monsieur, que este interrogatório já durou tempo demais? No que me diz respeito..."

Raoul teve medo de deixá-la terminar o seu discurso. Ele interrompeu-a:

"Peço-lhe perdão por falar como falei, mademoiselle. Sabe das boas intenções que me fazem intrometer, neste momento, em assuntos que, a senhora sem dúvida pensa, nada têm que ver comigo. Mas permita-me dizer-lhe o que vi — e vi mais do que a senhora suspeita, Christine — ou o que pensei ter visto, pois, para lhe dizer a verdade, por vezes senti-me inclinado a duvidar da evidência dos meus próprios olhos."

"Bem, o que viu, senhor, ou pensou ter visto?"

"Vi o seu êxtase AO SOM DA VOZ, Christine: a voz que vinha da parede ou do quarto ao lado do seu... sim, O SEU ÊXTASE! E é isso que me deixa alarmado em seu nome. A senhora está sob um feitiço muito perigoso. E, no entanto, parece que tem consciência da impostura, porque diz hoje QUE NÃO EXISTE ANJO DA MÚSICA! Nesse caso, Christine, por que o seguiu naquela vez? Por que se levantou, com os traços radiantes, como se estivesse realmente a ouvir anjos? ... Ah, é uma voz muito perigosa, Christine, pois eu próprio, quando a ouvi, fiquei tão fascinado por ela que a senhora desapareceu diante dos meus olhos sem que eu visse por que caminho passou! Christine, Christine, em nome do Céu, em nome do seu pai que está no Céu agora e que a amava tanto e que também me amava, Christine, diga-nos, diga à sua benfeitora e a mim, a quem pertence essa voz? Se o fizer, nós salvá-la-emos apesar de si própria. Vamos, Christine, o nome do homem! O nome do homem que teve a audácia de colocar um anel no seu dedo!"

"Sr. de Chagny," declarou a moça friamente, "nunca saberá!"

A essa altura, vendo a hostilidade com que a sua protegida se dirigira ao visconde, a Mamã Valerius tomou subitamente o partido de Christine.

"E, se ela ama esse homem, Monsieur le Vicomte, mesmo assim o assunto não é seu!"

"Infelizmente, madame," respondeu Raoul humildemente, incapaz de conter as lágrimas, "infelizmente, acredito que Christine realmente o ama! ... Mas não é apenas isso que me leva ao desespero; pois do que não tenho certeza, madame, é de que o homem que Christine ama seja digno do seu amor!"

"Sou eu quem deve ser a juíza disso, monsieur!" disse Christine, encarando Raoul com raiva.

"Quando um homem," continuou Raoul, "adota métodos tão românticos para conquistar as afeições de uma jovem..."

"O homem deve ser um vilão, ou a moça uma tola: é isso?"

"Christine!"

"Raoul, por que condena um homem que nunca viu, que ninguém conhece e sobre o qual você próprio nada sabe?"

"Sim, Christine... Sim... Eu pelo menos conheço o nome que pensou esconder-me para sempre... O nome do seu Anjo da Música, mademoiselle, é Erik!"

Christine traiu-se imediatamente. Ficou branca como um lençol e gaguejou: "Quem lhe disse?"

"Você mesma!"

"Como quer dizer?"

"Por ter pena dele na outra noite, a noite do baile de máscaras. Quando foi para o seu camarim, não disse: 'Pobre Erik?' Pois bem, Christine, havia um pobre Raoul que a ouviu."

"Esta é a segunda vez que escuta atrás da porta, Sr. de Chagny!"

"Eu não estava atrás da porta... Eu estava no camarim, na sala interior, mademoiselle."

"Oh, homem infeliz!" gemeu a moça, mostrando todos os sinais de um terror indescritível. "Homem infeliz! Quer ser morto?"

"Talvez."

Raoul pronunciou este "talvez" com tanto amor e desespero na voz que Christine não pôde conter um soluço. Ela pegou nas suas mãos e olhou-o com todo o afeto puro de que era capaz:

"Raoul," disse ela, "esqueça A VOZ DO HOMEM e nem se lembre do seu nome... Nunca deve tentar sondar o mistério da VOZ DO HOMEM."

"O mistério é assim tão terrível?"

"Não existe mistério mais horrível sobre esta terra. Jure-me que não fará qualquer tentativa para descobrir," insistiu ela. "Jure-me que nunca virá ao meu camarim, a menos que eu o mande chamar."

"Então promete mandar chamar-me por vezes, Christine?"

"Prometo."

"Quando?"

"Amanhã."

"Então juro fazer como pede."

Ele beijou-lhe as mãos e partiu, amaldiçoando Erik e decidindo ser paciente.

Capítulo XI Acima dos Alçapões

No dia seguinte, viu-a na Ópera. Ela ainda usava a aliança de ouro simples. Foi gentil e carinhosa com ele. Falou-lhe dos planos que ele estava a formar, do seu futuro, da sua carreira.

Ele contou-lhe que a data da expedição polar tinha sido antecipada e que deixaria a França em três semanas, ou um mês, o mais tardar. Ela sugeriu, quase alegremente, que ele devia encarar a viagem com deleite, como uma etapa para a sua futura fama. E quando ele respondeu que a fama sem amor não tinha atração aos seus olhos, ela tratou-o como uma criança cujas mágoas eram apenas de curta duração.

"Como pode falar tão levianamente de coisas tão sérias?" perguntou ele. "Talvez nunca mais nos vejamos! Posso morrer durante essa expedição."

"Ou eu," disse ela simplesmente.

Ela já não sorria nem brincava. Parecia estar a pensar em alguma coisa nova que lhe tinha entrado na mente pela primeira vez. Os seus olhos estavam todos a brilhar com isso.

"Em que estás a pensar, Christine?"

"Estou a pensar que não nos voltaremos a ver..."

"E isso deixa-te tão radiante?"

"E que, dentro de um mês, teremos de nos despedir para sempre!"

"A menos que, Christine, nos comprometamos e esperemos um pelo outro para sempre."

Ela colocou a mão sobre a sua boca.

"Cala-te, Raoul! ... Sabes que não se trata disso... E nunca nos casaremos: isso está entendido!"

Parecia subitamente quase incapaz de conter uma alegria avassaladora. Bateu palmas com alegria infantil. Raoul olhava-a com espanto.

"Mas... mas," continuou ela, estendendo as duas mãos a Raoul, ou melhor, dando-lhas, como se tivesse subitamente resolvido fazer-lhe um presente delas, "mas se não podemos casar, podemos... podemos ficar noivos! Ninguém saberá além de nós mesmos, Raoul. Houve muitos casamentos secretos: por que não um noivado secreto? ... Estamos noivos, querido, por um mês! Daqui a um mês, partirás, e eu poderei ser feliz com o pensamento desse mês durante toda a minha vida!"

Ela estava encantada com a sua inspiração. Depois, tornou-se séria de novo.

"Isto," disse ela, "É UMA FELICIDADE QUE NÃO FARÁ MAL A NINGUÉM."

Raoul aderiu à ideia. Ele curvou-se para Christine e disse:

"Mademoiselle, tenho a honra de pedir a sua mão."

"Ora, você já tem as duas, meu querido noivo! ... Oh, Raoul, como seremos felizes! ... Devemos brincar a estar noivos durante todo o dia."

Era o jogo mais bonito do mundo e eles divertiam-se como as crianças que eram. Oh, os discursos maravilhosos que faziam um ao outro e os votos eternos que trocavam! Brincavam aos corações como outras crianças poderiam brincar à bola; apenas, como eram realmente os seus dois corações que atiravam de um lado para o outro, tinham de ser muito, muito habilidosos para os apanhar, de cada vez, sem os magoar.

Um dia, cerca de uma semana depois de o jogo começar, o coração de Raoul foi gravemente magoado e ele parou de brincar e proferiu estas palavras desesperadas:

"Eu não vou para o Polo Norte!"

Christine, que, na sua inocência, não tinha sonhado com tal possibilidade, descobriu subitamente o perigo do jogo e censurou-se amargamente. Não disse uma palavra em resposta à observação de Raoul e foi diretamente para casa.

Isto aconteceu à tarde, no camarim da cantora, onde eles se encontravam todos os dias e onde se divertiam a jantar três biscoitos, dois copos de vinho do Porto e um ramo de violetas. À noite, ela não cantou; e ele não recebeu a sua carta habitual, embora tivessem combinado escrever um ao outro diariamente durante aquele mês. Na manhã seguinte, ele correu para a Mamã Valerius, que lhe disse que Christine tinha saído por dois dias. Ela tinha partido às cinco horas do dia anterior.

Raoul estava transtornado. Odiava a Mamã Valerius por lhe dar tais notícias com uma calma tão estupefaciente. Tentou sondá-la, mas a velha senhora obviamente não sabia de nada.

Christine regressou no dia seguinte. Regressou em triunfo. Renovou o seu extraordinário sucesso da gala. Desde a aventura do "sapo", Carlotta não tinha conseguido aparecer no palco. O terror de um novo "co-ack" enchia o seu coração e privava-a de toda a capacidade de cantar; e o teatro que testemunhara a sua incompreensível desgraça tinha-se tornado odioso para ela. Conseguiu rescindir o seu contrato. Foi oferecido a Daae o lugar vago para a altura. Ela recebeu trovões de aplausos em La Juive.

O visconde, que, naturalmente, estava presente, foi o único a sofrer ao ouvir os mil ecos deste novo triunfo; pois Christine ainda usava a sua aliança de ouro simples. Uma voz distante sussurrou ao ouvido do jovem:

"Ela usa o anel novamente esta noite; e você não lho deu. Ela deu a sua alma novamente esta noite e não a deu a si... Se ela não lhe quer dizer o que esteve a fazer nos últimos dois dias... deve ir perguntar a Erik!"

Ele correu para os bastidores e colocou-se no seu caminho. Ela viu-o, pois os seus olhos procuravam-no. Ela disse:

"Depressa! Depressa! ... Venha!"

E arrastou-o para o seu camarim.

Raoul atirou-se imediatamente de joelhos diante dela. Jurou-lhe que iria e implorou-lhe que nunca mais retivesse uma única hora da felicidade ideal que ela lhe tinha prometido. Ela deixou correr as lágrimas. Beijaram-se como um irmão e uma irmã desesperados que foram atingidos por uma perda comum e que se encontram para chorar um pai falecido.

Subitamente, ela arrancou-se do abraço suave e tímido do jovem, pareceu ouvir alguma coisa e, com um gesto rápido, apontou para a porta. Quando ele estava no limiar, ela disse, com uma voz tão baixa que o visconde adivinhou mais do que ouviu as suas palavras:

"Amanhã, meu querido noivo! E seja feliz, Raoul: eu cantei para si esta noite!"

Ele regressou no dia seguinte. Mas aqueles dois dias de ausência tinham quebrado o encanto da sua deliciosa fantasia. Olharam um para o outro, no camarim, com os seus olhos tristes, sem trocar uma palavra. Raoul teve de se conter para não gritar:

"Estou com ciúmes! Estou com ciúmes! Estou com ciúmes!"

Mas ela ouviu-o mesmo assim. Então ela disse:

"Vamos dar um passeio, querido. O ar far-lhe-á bem."

Raoul pensou que ela proporia um passeio no campo, longe daquele edifício que ele detestava como uma prisão cujo carcereiro ele podia sentir andar dentro das paredes... o carcereiro Erik... Mas ela levou-o para o palco e fê-lo sentar-se na borda de madeira de um poço, na paz duvidosa e frescura de um primeiro cenário montado para a representação da noite.

Noutro dia, ela passeou com ele, de mãos dadas, ao longo dos caminhos desertos de um jardim cujas trepadeiras tinham sido recortadas pelas mãos habilidosas de um decorador. Era como se o céu real, as flores reais, a terra real lhe estivessem proibidos para todo o sempre e ela estivesse condenada a não respirar outro ar senão o do teatro. Um bombeiro ocasional passava, vigiando o seu idílio melancólico ao longe. E ela arrastava-o para cima, acima das nuvens, na desordem magnífica da teia, onde adorava deixá-lo tonto correndo à frente dele ao longo das pontes frágeis, entre os milhares de cordas presas às polias, aos guindastes, aos rolos, no meio de uma verdadeira floresta de vergas e mastros. Se ele hesitava, ela dizia, com um biquinho adorável nos lábios:

"Você, um marinheiro!"

E depois regressavam a terra firme, isto é, a alguma passagem que os levava à escola de dança das meninas, onde pirralhas entre os seis e os dez anos praticavam os seus passos, na esperança de se tornarem grandes bailarinas um dia, "cobertas de diamantes..." Entretanto, Christine dava-lhes doces.

Ela levou-o ao guarda-roupa e às arrecadações, levou-o por todo o seu império, que era artificial, mas imenso, cobrindo dezassete andares desde o rés-do-chão até ao telhado e habitado por um exército de súbditos. Ela movia-se entre eles como uma rainha popular, encorajando-os nos seus trabalhos, sentando-se nas oficinas, dando conselhos aos operários cujas mãos hesitavam em cortar os ricos tecidos que deveriam vestir os heróis. Havia habitantes daquele país que exerciam todos os ofícios. Havia sapateiros, havia ourives. Todos tinham aprendido a conhecê-la e a amá-la, pois ela interessava-se sempre por todos os seus problemas e por todos os seus pequenos passatempos.

Ela conhecia recantos insuspeitos que eram ocupados secretamente por pequenos casais de velhos. Batia à porta deles e apresentava-lhes Raoul como um Príncipe Encantado que lhe tinha pedido a mão; e os dois, sentados sobre algum "adereço" carcomido, ouviam as lendas da Ópera, tal como, na sua infância, tinham ouvido os velhos contos bretões. Aqueles velhos não se lembravam de nada fora da Ópera. Tinham vivido ali por anos sem conta. As administrações passadas tinham-nos esquecido; as revoluções palacianas não tinham dado por eles; a história da França tinha seguido o seu curso sem que eles soubessem; e ninguém se recordava da sua existência.

Os dias preciosos passavam assim; e Raoul e Christine, ao demonstrarem um interesse excessivo por assuntos externos, esforçavam-se desajeitadamente por esconder um do outro o único pensamento dos seus corações. Um facto era certo, que Christine, que até então se tinha mostrado a mais forte dos dois, tornou-se subitamente inexprimivelmente nervosa. Quando estavam nas suas expedições, ela começava a correr sem razão ou então parava subitamente; e a sua mão, tornando-se gelada num momento, segurava o jovem. Às vezes, os seus olhos pareciam perseguir sombras imaginárias. Ela gritava: "Por aqui", e "Por aqui", e "Por aqui", rindo um riso ofegante que frequentemente terminava em lágrimas. Então Raoul tentava falar, interrogá-la, apesar das suas promessas. Mas, mesmo antes de ter formulado a sua pergunta, ela respondia febrilmente:

"Nada... Juro que não é nada."

Uma vez, quando passavam diante de um alçapão aberto no palco, Raoul parou sobre a cavidade escura.

"Mostrou-me a parte superior do seu império, Christine, mas contam-se histórias estranhas sobre a parte inferior. Vamos descer?"

Ela agarrou-o nos braços, como se temesse vê-lo desaparecer pelo buraco negro, e, com uma voz trémula, sussurrou:

"Nunca! ... Não quero que vás lá abaixo! ... Além disso, não é meu... TUDO O QUE ESTÁ NO SUBSOLO PERTENCE-LHE!"

Raoul olhou-a nos olhos e disse rudemente:

"Então ele vive lá em baixo, não vive?"

"Eu nunca disse isso... Quem lhe contou uma coisa dessas? Vamos embora! Às vezes pergunto-me se está completamente são, Raoul... Você encara sempre as coisas de uma forma tão impossível... Vamos! Vamos!"

E ela arrastou-o literalmente, pois ele era obstinado e queria permanecer junto do alçapão; aquele buraco atraía-o.

Subitamente, o alçapão foi fechado e tão rapidamente que eles nem viram a mão que o operava; e permaneceram completamente atordoados.

"Talvez ELE estivesse lá," disse Raoul, finalmente.

Ela encolheu os ombros, mas não parecia tranquila.

"Não, não, foram os 'fechadores de alçapões'. Eles têm de fazer alguma coisa, sabe... Eles abrem e fecham os alçapões sem qualquer razão em particular... É como os 'fechadores de portas': têm de passar o tempo de qualquer maneira."

"Mas e se fosse ELE, Christine?"

"Não, não! Ele fechou-se, ele está a trabalhar."

— Oh, realmente! Ele está a trabalhar, é isso?

— Sim, ele não pode abrir e fechar os alçapões e trabalhar ao mesmo tempo. Ela estremeceu.

— No que é que ele está a trabalhar?

— Oh, em algo terrível! ... Mas é melhor para nós... Quando ele está a trabalhar nisso, ele não vê nada; não come, não bebe, nem respira por dias e noites a fio... ele torna-se um morto-vivo e não tem tempo para se divertir com os alçapões. Ela estremeceu de novo. Ela ainda o segurava nos braços. Depois suspirou e disse, por sua vez:

— E se fosse ELE!

— Tens medo dele?

— Não, não, claro que não — disse ela.

Apesar de tudo, no dia seguinte e nos dias que se seguiram, Christine teve o cuidado de evitar os alçapões. A sua agitação apenas aumentou à medida que as horas passavam. Finalmente, uma tarde, chegou muito atrasada, com o rosto tão desesperadamente pálido e os olhos tão desesperadamente vermelhos, que Raoul resolveu ir até às últimas consequências, incluindo aquela que pressagiou quando deixou escapar que não iria na expedição ao Polo Norte a menos que ela lhe contasse primeiro o segredo da voz do homem.

— Cala-te! Cala-te, pelo amor de Deus! E se ELE te ouvisse, seu infeliz Raoul!

E os olhos de Christine fitavam selvagemente tudo à sua volta.

— Vou tirar-te do poder dele, Christine, juro-o. E não pensarás mais nele.

— Será possível?

Ela permitiu-se essa dúvida, que era um incentivo, enquanto arrastava o jovem até ao último andar do teatro, longe, muito longe dos alçapões.

— Esconder-te-ei num canto desconhecido do mundo, onde ELE não possa vir procurar-te. Estarás a salvo; e depois irei embora... uma vez que juraste nunca te casares.

Christine agarrou as mãos de Raoul e apertou-as com um arrebatamento incrível. Mas, subitamente alarmada de novo, desviou a cabeça.

— Mais alto! — foi tudo o que disse. — Ainda mais alto!

E arrastou-o em direção ao cume.

Ele teve dificuldade em segui-la. Logo estavam sob o próprio telhado, no labirinto de madeiramento. Deslizaram através dos contrafortes, das vigas, das traves; correram de viga em viga como poderiam ter corrido de árvore em árvore numa floresta.

E, apesar do cuidado que ela teve de olhar para trás a cada momento, não conseguiu ver uma sombra que a seguia como a sua própria sombra, que parava quando ela parava, que recomeçava quando ela o fazia e que não fazia mais ruído do que uma sombra bem-comportada deveria fazer. Quanto a Raoul, ele também não viu nada; pois, quando tinha Christine à sua frente, nada que acontecesse atrás lhe interessava.

Capítulo XII A Lira de Apolo

Desta forma, chegaram ao telhado. Christine atravessou-o tão levemente como uma andorinha. Os seus olhos varreram o espaço vazio entre as três cúpulas e o frontão triangular. Ela respirava livremente sobre Paris, todo o vale da qual era visto a trabalhar lá em baixo. Chamou Raoul para vir bem perto dela e caminharam lado a lado ao longo das ruas de zinco, nas avenidas de chumbo; olharam para as suas formas gémeas nos enormes tanques, cheios de água estagnada, onde, no tempo quente, os meninos do ballet, cerca de vinte, aprendem a nadar e a mergulhar.

A sombra seguira-os agarrada aos seus passos; e as duas crianças pouco suspeitavam da sua presença quando finalmente se sentaram, confiantes, sob a poderosa proteção de Apolo, que, com um grande gesto de bronze, erguia a sua enorme lira para o coração de um céu carmesim.

Era uma tarde de primavera deslumbrante. Nuvens, que tinham acabado de receber o seu manto de gaze de ouro e púrpura do sol poente, passavam lentamente; e Christine disse a Raoul:

— Em breve iremos mais longe e mais depressa do que as nuvens, até ao fim do mundo, e então deixar-me-ás, Raoul. Mas, se, quando chegar o momento de me levares, eu recusar ir contigo — bem, terás de me levar à força!

— Tens medo de mudar de ideias, Christine?

— Não sei — disse ela, abanando a cabeça de uma forma estranha. — Ele é um demónio! — E estremeceu e aninhou-se nos seus braços com um gemido. — Tenho medo agora de voltar a viver com ele... no subsolo!

— O que te obriga a voltar, Christine?

— Se eu não voltar para ele, terríveis infortúnios podem acontecer! ... Mas não consigo, não consigo! ... Sei que deveríamos ter pena das pessoas que vivem no subsolo... Mas ele é demasiado horrível! E, contudo, o momento está próximo; resta-me apenas um dia; e, se eu não for, ele virá buscar-me com a sua voz. E arrastar-me-á com ele, para o subsolo, e por-se-á de joelhos diante de mim, com a sua caveira. E dir-me-á que me ama! E chorará! Oh, essas lágrimas, Raoul, essas lágrimas nas duas órbitas negras da caveira! Não posso voltar a ver essas lágrimas correrem!

Ela torceu as mãos em angústia, enquanto Raoul a apertava contra o seu coração.

— Não, não, nunca mais o ouvirás dizer que te ama! Não verás as suas lágrimas! Fujamos, Christine, fujamos imediatamente!

E tentou arrastá-la, ali mesmo. Mas ela deteve-o.

— Não, não — disse ela, abanando a cabeça tristemente. — Não agora! ... Seria demasiado cruel... deixa que ele me ouça cantar amanhã à noite... e depois iremos embora. Tens de vir buscar-me ao meu camarim exatamente à meia-noite. Ele estará então à minha espera na sala de jantar junto ao lago... seremos livres e tu levar-me-ás... Tens de prometer-me isso, Raoul, mesmo que eu recuse; pois sinto que, se eu voltar desta vez, talvez nunca regresse.

E ela deu um suspiro ao qual lhe pareceu que outro suspiro, atrás dela, respondeu.

— Não ouviste?

Os seus dentes bateram.

— Não — disse Raoul, — não ouvi nada.

— É demasiado terrível — confessou ela, — estar sempre a tremer assim! ... E, no entanto, não corremos perigo aqui; estamos em casa, no céu, ao ar livre, na luz. O sol está a arder; e as aves noturnas não suportam olhar para o sol. Nunca o vi à luz do dia... deve ser horrível! ... Oh, a primeira vez que o vi! ... Pensei que ele ia morrer.

— Porquê? — perguntou Raoul, realmente assustado com o aspeto que esta estranha confidência estava a tomar.

— PORQUE EU O TINHA VISTO!

Desta vez, Raoul e Christine voltaram-se ao mesmo tempo:

— Há alguém a sofrer — disse Raoul. — Talvez alguém se tenha magoado. Ouviste?

— Não sei dizer — confessou Christine. — Mesmo quando ele não está lá, os meus ouvidos estão cheios dos seus suspiros. Ainda assim, se ouviste...

Levantaram-se e olharam à sua volta. Estavam completamente sozinhos no imenso telhado de chumbo. Sentaram-se de novo e Raoul disse:

— Conta-me como o viste pela primeira vez.

— Eu tinha-o ouvido durante três meses sem o ver. A primeira vez que a ouvi, pensei, como tu, que aquela voz adorável cantava noutra sala. Saí e procurei por todo o lado; mas, como sabes, Raoul, o meu camarim é muito isolado; e não conseguia encontrar a voz fora do meu quarto, enquanto ela continuava constantemente lá dentro. E não só cantava, como me falava e respondia às minhas perguntas, como a voz de um homem real, com a diferença de que era tão bela como a voz de um anjo. Eu nunca tinha tido o Anjo da Música que o meu pobre pai tinha prometido enviar-me assim que morresse. Penso realmente que a Mamma Valerius teve um pouco de culpa. Contei-lhe sobre isso; e ela disse imediatamente: "Deve ser o Anjo; de qualquer forma, não fará mal nenhum perguntares-lhe". Fi-lo; e a voz do homem respondeu que, sim, era a voz do Anjo, a voz que eu estava à espera e que o meu pai me tinha prometido. A partir desse momento, a voz e eu tornámo-nos grandes amigos. Pediu permissão para me dar lições todos os dias. Concordei e nunca falhei o compromisso que ela me marcou no meu camarim. Não tens ideia, embora tenhas ouvido a voz, de como eram essas lições.

— Não, não tenho ideia — disse Raoul. — Qual era o teu acompanhamento?

— Éramos acompanhados por uma música que não conheço: estava atrás da parede e era maravilhosamente precisa. A voz parecia entender a minha exatamente, saber precisamente onde o meu pai tinha parado de me ensinar. Em poucas semanas, mal me reconhecia quando cantava. Fiquei até assustada. Parecia recear uma espécie de feitiçaria por trás disso; mas a Mamma Valerius tranquilizou-me. Ela disse que sabia que eu era uma rapariga demasiado simples para dar ao diabo uma oportunidade sobre mim... O meu progresso, por ordem da própria voz, foi mantido em segredo entre a voz, a Mamma Valerius e eu. Era uma coisa curiosa, mas, fora do camarim, eu cantava com a minha voz normal de todos os dias e ninguém notava nada. Fiz tudo o que a voz pediu. Ela dizia: "Espera e verás: vamos surpreender Paris!" E esperei e vivi numa espécie de sonho extasiante. Foi então que te vi pela primeira vez uma noite, na sala. Fiquei tão contente que nunca pensei em esconder o meu deleite quando cheguei ao meu camarim. Infelizmente, a voz estava lá antes de mim e notou logo, pelo meu ar, que algo tinha acontecido. Perguntou o que se passava e não vi razão para manter a nossa história em segredo ou esconder o lugar que ocupavas no meu coração. Então a voz silenciou-se. Chamei por ela, mas não respondeu; implorei e supliquei, mas em vão. Fiquei aterrorizada por ter ido embora para sempre. Oxalá tivesse ido, querido! ... Naquela noite, voltei para casa em estado desesperado. Contei à Mamma Valerius, que disse: "Ora, claro, a voz está com ciúmes!" E isso, querido, revelou-me pela primeira vez que te amava.

Christine parou e pousou a cabeça no ombro de Raoul. Sentaram-se assim por um momento, em silêncio, e não viram, não perceberam o movimento, a poucos passos deles, da sombra rastejante de duas grandes asas negras, uma sombra que vinha pelo telhado tão perto, tão perto deles que poderia tê-los sufocado ao fechar-se sobre eles.

— No dia seguinte — continuou Christine, com um suspiro, — voltei ao meu camarim num estado de espírito muito pensativo. A voz estava lá, falou-me com grande tristeza e disse-me claramente que, se eu tinha de dar o meu coração na terra, não restava à voz senão voltar ao Céu. E disse isto com tal acento de tristeza HUMANA que eu deveria, ali mesmo, ter suspeitado e começado a acreditar que era vítima dos meus sentidos enganados. Mas a minha fé na voz, com a qual a memória do meu pai estava tão estreitamente entrelaçada, permaneceu inabalada. Não temia nada tanto quanto nunca mais a ouvir; tinha pensado no meu amor por ti e compreendido todo o perigo inútil dele; e nem sabia se te lembravas de mim. Acontecesse o que acontecesse, a tua posição na sociedade proibia-me de contemplar a possibilidade de alguma vez me casar contigo; e jurei à voz que tu não eras mais do que um irmão para mim nem nunca serias e que o meu coração era incapaz de qualquer amor terreno. E isso, querido, foi por que me recusei a reconhecer-te ou a ver-te quando te encontrava no palco ou nos corredores. Entretanto, as horas durante as quais a voz me ensinava eram passadas num frenesim divino, até que, finalmente, a voz me disse: "Podes agora, Christine Daae, dar aos homens um pouco da música do Céu". Não sei como aconteceu que a Carlotta não veio ao teatro naquela noite nem por que fui chamada a cantar em seu lugar; mas cantei com um arrebatamento que nunca tinha conhecido antes e senti por um momento como se a minha alma estivesse a deixar o meu corpo!

— Oh, Christine — disse Raoul, — o meu coração vibrou naquela noite a cada acento da tua voz. Vi as lágrimas correrem pelas tuas faces e chorei contigo. Como podias cantar, cantar assim enquanto choravas?

— Senti-me desmaiar — disse Christine, — fechei os olhos. Quando os abri, estavas ao meu lado. Mas a voz estava lá também, Raoul! Tive medo por ti e de novo não quis reconhecer-te e comecei a rir quando me lembraste que tinhas apanhado o meu lenço no mar! ... Ai de mim, não há como enganar a voz! ... A voz reconheceu-te e a voz estava com ciúmes! ... Disse que, se eu não te amasse, não te evitaria, mas tratar-te-ia como qualquer outro velho amigo. Fez-me cena atrás de cena. Finalmente, disse à voz: "Basta! Vou a Perros amanhã, rezar sobre a campa do meu pai, e vou pedir ao Sr. Raoul de Chagny que vá comigo". "Faz como quiseres", respondeu a voz, "mas eu estarei em Perros também, pois estou onde quer que tu estejas, Christine; e, se ainda fores digna de mim, se não me mentiste, tocar-te-ei A Ressurreição de Lázaro, à meia-noite, sobre a campa do teu pai e no violino do teu pai". Foi assim, querido, que escrevi a carta que te levou a Perros. Como pude ter sido tão enganada? Como foi, quando vi o ponto de vista pessoal e egoísta da voz, que não suspeitei de algum impostor? Ai de mim, já não era senhora de mim mesma: tinha-me tornado sua coisa!

— Mas, afinal — gritou Raoul, — depressa conheceste a verdade! Porque não te livraste imediatamente desse pesadelo abominável?

— Conhecer a verdade, Raoul? Livrar-me desse pesadelo? Mas, meu pobre rapaz, eu não estava presa no pesadelo até ao dia em que soube a verdade! ... Tem pena de mim, Raoul, tem pena de mim! ... Lembras-te da noite terrível em que a Carlotta pensou que tinha sido transformada num sapo no palco e em que a sala foi subitamente mergulhada na escuridão quando o candelabro caiu no chão? Houve mortos e feridos naquela noite e todo o teatro ecoou com gritos aterrorizados. O meu primeiro pensamento foi para ti e para a voz. Fiquei imediatamente tranquila, no que te dizia respeito, pois tinha-te visto no camarote do teu irmão e sabia que não estavas em perigo. Mas a voz tinha-me dito que estaria na representação e tive realmente medo por ela, como se fosse uma pessoa comum capaz de morrer. Pensei para comigo: "O candelabro pode ter caído sobre a voz". Eu estava então no palco e quase corria para a sala, para procurar a voz entre os mortos e feridos, quando pensei que, se a voz estivesse a salvo, certamente estaria no meu camarim e corri para o meu quarto. A voz não estava lá. Tranquei a minha porta e, com lágrimas nos olhos, implorei-lhe, se ainda estivesse viva, que se manifestasse a mim. A voz não respondeu, mas de repente ouvi um longo e belo lamento que conhecia bem. É o lamento de Lázaro quando, ao som da voz do Redentor, ele começa a abrir os olhos e a ver a luz do dia. Era a música que tu e eu, Raoul, ouvimos em Perros. E então a voz começou a cantar a frase principal: "Vem! E acredita em mim! Aquele que acredita em mim viverá! Caminha! Aquele que acreditou em mim nunca morrerá! ..." Não te sei dizer o efeito que aquela música teve em mim. Parecia ordenar-me, pessoalmente, que viesse, que me levantasse e fosse ter com ela. Recuou e eu segui. "Vem! E acredita em mim!" Acreditei nela, vim... vim e — isto foi o extraordinário — o meu camarim, à medida que eu me movia, parecia alongar-se... alongar-se... Evidentemente, deve ter sido um efeito de espelhos... pois tinha o espelho à minha frente... E, de repente, estava fora do quarto sem saber como!

— O quê! Sem saber como? Christine, Christine, tens realmente de parar de sonhar!

— Não estava a sonhar, querido, estava fora do meu quarto sem saber como. Tu, que me viste desaparecer do meu quarto uma noite, talvez possas explicar, mas eu não posso. Só te posso dizer que, de repente, não havia espelho à minha frente nem camarim. Estava num corredor escuro, estava assustada e gritei. Estava muito escuro, exceto por um ténue brilho vermelho num canto distante da parede. Gritei. A minha voz era o único som, pois o canto e o violino tinham parado. E, de repente, uma mão pousou na minha... ou melhor, uma coisa óssea e fria como pedra que agarrou o meu pulso e não largou. Gritei de novo. Um braço abraçou-me a cintura e apoiou-me. Lutei um pouco e depois desisti da tentativa. Fui arrastada em direção à pequena luz vermelha e então vi que estava nas mãos de um homem envolto num grande manto e usando uma máscara que lhe escondia todo o rosto. Fiz um último esforço; os meus membros ficaram rígidos, a minha boca abriu-se para gritar, mas uma mão fechou-a, uma mão que senti nos meus lábios, na minha pele... uma mão que cheirava a morte. Depois desmaiei.

— Quando abri os olhos, ainda estávamos rodeados pela escuridão. Uma lanterna, pousada no chão, mostrava um poço a borbulhar. A água que salpicava do poço desaparecia, quase de imediato, sob o chão em que eu estava deitada, com a cabeça no joelho do homem de manto negro e máscara negra. Ele estava a lavar-me as têmporas e as suas mãos cheiravam a morte. Tentei afastá-las e perguntei: "Quem és tu? Onde está a voz?" A sua única resposta foi um suspiro. De repente, um hálito quente passou pelo meu rosto e percebi uma forma branca, ao lado da forma negra do homem, na escuridão. A forma negra levantou-me para a forma branca, um alegre relinchar saudou os meus ouvidos atónitos e murmurei: "Cesar!" O animal vibrou. Raoul, eu estava deitada meio inclinada sobre uma sela e tinha reconhecido o cavalo branco do PROFETA, que tantas vezes tinha alimentado com açúcar e doces. Lembrei-me de que, certa noite, corria um boato no teatro de que o cavalo tinha desaparecido e que tinha sido roubado pelo fantasma da Ópera. Acreditava na voz, mas nunca tinha acreditado no fantasma. Agora, porém, começava a perguntar-me, com um estremecimento, se eu era a prisioneira do fantasma. Chamei pela voz para me ajudar, pois nunca teria imaginado que a voz e o fantasma fossem o mesmo. Já ouviste falar sobre o fantasma da Ópera, não ouviste, Raoul?

— Sim, mas diz-me o que aconteceu quando estavas no cavalo branco do Profeta?

"Não fiz nenhum movimento e deixei-me levar. A forma negra sustentava-me, e não fiz qualquer esforço para escapar. Um sentimento curioso de paz apossou-se de mim e pensei que devia estar sob a influência de algum cordial. Tinha o pleno domínio dos meus sentidos; e os meus olhos habituaram-se à escuridão, que era iluminada, aqui e ali, por clarões intermitentes. Calculei que estávamos numa galeria circular estreita, que provavelmente percorria todo o subsolo da Ópera, que é imenso. Eu já tinha descido àquelas caves, mas tinha parado no terceiro andar, embora existissem dois ainda mais profundos, grandes o suficiente para albergar uma cidade. Mas as figuras que avistei tinham-me feito fugir. Há demónios lá em baixo, completamente negros, em frente a caldeiras, e manuseiam pás e forcados e atiçam fogos e agitam chamas e, se te aproximas demasiado deles, assustam-te abrindo subitamente as bocas vermelhas das suas fornalhas... Bem, enquanto Cesar me transportava calmamente às costas, vi esses demónios negros ao longe, parecendo muito pequenos, em frente aos fogos vermelhos das suas fornalhas: apareciam, desapareciam e voltavam a aparecer, enquanto prosseguíamos o nosso caminho sinuoso. Por fim, desapareceram por completo. A forma continuava a sustentar-me e Cesar caminhava, sem ser guiado e com passo firme. Não te saberia dizer, nem sequer aproximadamente, quanto tempo durou este passeio; apenas sei que parecíamos girar e girar e que, frequentemente, descíamos por uma escada em caracol até ao próprio coração da terra. Mesmo assim, pode ser que a minha cabeça estivesse a andar à roda, mas não creio: não, a minha mente estava bastante lúcida. Por fim, Cesar ergueu as narinas, farejou o ar e apressou um pouco o passo. Senti uma humidade no ar e Cesar parou. A escuridão tinha-se dissipado. Uma espécie de luz azulada rodeava-nos. Estávamos à beira de um lago, cujas águas de chumbo estendiam-se pela distância, pela escuridão; mas a luz azul iluminava a margem e vi um pequeno barco preso a um anel de ferro no cais!"

"Um barco!"

"Sim, mas eu sabia que tudo aquilo existia e que nada havia de sobrenatural naquele lago subterrâneo e naquele barco. Mas pensa nas condições excecionais em que cheguei àquela margem! Não sei se os efeitos do cordial tinham passado quando a forma humana me içou para o barco, mas o meu terror começou tudo de novo. O meu lúgubre acompanhante deve tê-lo notado, pois mandou Cesar para trás e ouvi os seus cascos a trotear escada acima enquanto o homem saltava para o barco, desatava a corda que o prendia e agarrava nos remos. Remou com uma braçada rápida e poderosa; e os seus olhos, por baixo da máscara, nunca me largaram. Deslizámos pela água silenciosa na luz azulada de que te falei; depois, estávamos novamente na escuridão e tocámos a margem. E fui mais uma vez tomada pelos braços do homem. Gritei alto. E, então, de repente, fiquei em silêncio, atordoada pela luz... Sim, uma luz deslumbrante no meio da qual fui pousada. Pus-me de pé. Estava no meio de uma sala de estar que me pareceu estar decorada, ornamentada e mobilada apenas com flores, flores magníficas e estúpidas, por causa das fitas de seda que as prendiam aos cestos, como aquelas que vendem nas lojas dos boulevards. Eram flores civilizadas demais, como aquelas que eu costumava encontrar no meu camarim após uma estreia. E, no meio de todas estas flores, estava a forma negra do homem de máscara, de braços cruzados, e ele disse: 'Não tenhas medo, Christine; não corres perigo.' ERA A VOZ!

"A minha raiva igualou o meu espanto. Lancei-me sobre a máscara e tentei arrancá-la, para ver o rosto da voz. O homem disse: 'Não corres perigo, desde que não toques na máscara.' E, pegando-me gentilmente pelos pulsos, forçou-me a sentar numa cadeira e depois ajoelhou-se diante de mim e não disse mais nada! A sua humildade devolveu-me um pouco da coragem; e a luz devolveu-me às realidades da vida. Por mais extraordinária que a aventura pudesse ser, eu estava agora rodeada por coisas mortais, visíveis, tangíveis. A mobília, os reposteiros, as velas, os vasos e as próprias flores nos seus cestos, das quais quase teria podido dizer de onde vinham e quanto custavam, eram obrigados a confinar a minha imaginação aos limites de uma sala de estar tão comum como qualquer outra que, pelo menos, tivesse a desculpa de não estar nas caves da Ópera. Eu estava, sem dúvida, a lidar com uma pessoa terrível e excêntrica que, de alguma forma misteriosa, tinha conseguido instalar-se ali, sob o edifício da Ópera, cinco andares abaixo do nível do solo. E a voz, a voz que eu tinha reconhecido por baixo da máscara, estava de joelhos diante de mim, ERA UM HOMEM! E comecei a chorar... O homem, ainda de joelhos, deve ter compreendido a causa das minhas lágrimas, pois disse: 'É verdade, Christine! ... Não sou um anjo, nem um génio, nem um fantasma... Eu sou Erik!'"

A narrativa de Christine foi novamente interrompida. Um eco atrás deles parecia repetir a palavra depois dela.

"Erik!"

Que eco? ... Ambos se voltaram e viram que a noite tinha caído. Raoul fez um movimento como se fosse levantar-se, mas Christine manteve-o ao seu lado.

"Não vás", disse ela. "Quero que saibas tudo AQUI!"

"Mas por que aqui, Christine? Tenho medo que te constipes."

"Não temos nada a temer a não ser os alçapões, querido, e aqui estamos a quilómetros de distância dos alçapões... e não me é permitido ver-te fora do teatro. Não é o momento de o irritar. Não devemos despertar a sua suspeita."

"Christine! Christine! Algo me diz que fazemos mal em esperar até amanhã à noite e que devíamos fugir imediatamente."

"Digo-te que, se ele não me ouvir cantar amanhã, isso causar-lhe-á uma dor infinita."

"É difícil não lhe causar dor e, ainda assim, escapar dele para sempre."

"Tens razão nisso, Raoul, pois certamente ele morrerá com a minha fuga." E acrescentou com uma voz baça: "Mas então conta para os dois lados... pois arriscamo-nos a que ele nos mate."

"Ele ama-te assim tanto?"

"Ele cometeria um homicídio por mim."

"Mas pode descobrir-se onde ele mora. Pode ir-se à procura dele. Agora que sabemos que Erik não é um fantasma, pode falar-se com ele e forçá-lo a responder!"

Christine abanou a cabeça.

"Não, não! Não há nada a fazer com o Erik, a não ser fugir!"

"Então por que, quando podias fugir, voltaste para ele?"

"Porque tinha de o fazer. E tu compreenderás isso quando te contar como o deixei."

"Oh, eu odeio-o!" exclamou Raoul. "E tu, Christine, diz-me, tu também o odeias?"

"Não", disse Christine simplesmente.

"Não, claro que não... Ora, tu amas-o! O teu medo, o teu terror, tudo isso é apenas amor e amor do tipo mais requintado, do tipo que as pessoas não admitem nem a si mesmas", disse Raoul amargamente. "Do tipo que te causa um arrepio quando pensas nele... Imagina só: um homem que vive num palácio subterrâneo!" E lançou um olhar de escárnio.

"Então queres que eu volte para lá?" disse a jovem cruelmente. "Cuidado, Raoul; eu disse-te: eu nunca voltaria!"

Houve um silêncio aterrador entre os três: os dois que falavam e a sombra que escutava, atrás deles.

"Antes de responder a isso", disse Raoul, finalmente, falando muito devagar, "gostaria de saber que sentimento ele te inspira, uma vez que não o odeias."

"Horror!" disse ela. "Essa é a coisa terrível nisso. Ele enche-me de horror e eu não o odeio. Como posso odiá-lo, Raoul? Pensa no Erik aos meus pés, na casa sobre o lago, no subsolo. Ele acusa-se, ele amaldiçoa-se, ele implora o meu perdão! ... Ele confessa o seu engodo. Ele ama-me! Ele deposita aos meus pés um amor imenso e trágico... Ele raptou-me por amor! ... Ele encarcerou-me consigo, no subsolo, por amor! ... Mas ele respeita-me: ele arrasta-se, ele geme, ele chora! ... E, quando me levantei, Raoul, e lhe disse que só o poderia desprezar se ele não me desse, ali mesmo, a minha liberdade... ele ofereceu-a... ofereceu-se para me mostrar o caminho misterioso... Apenas... apenas ele levantou-se também... e fui obrigada a recordar que, embora ele não fosse um anjo, nem um fantasma, nem um génio, ele continuava a ser a voz... pois ele cantou. E eu escutei... e fiquei! ... Naquela noite, não trocámos mais nenhuma palavra. Ele cantou até eu adormecer.

"Quando acordei, estava sozinha, deitada num sofá num pequeno quarto mobilado de forma simples, com uma cama de mogno comum, iluminada por um candeeiro sobre o tampo de mármore de uma velha cómoda Luís Filipe. Descobri depressa que era prisioneira e que a única saída do meu quarto dava para uma casa de banho muito confortável. Ao regressar ao quarto, vi na cómoda um bilhete, em tinta vermelha, que dizia: 'Minha querida Christine, não precisas de te preocupar com o teu destino. Não tens melhor nem mais respeitoso amigo no mundo do que eu próprio. Estás sozinha, de momento, neste lar que é teu. Vou sair para fazer compras e trazer-te todas as coisas de que podes precisar.' Tive a certeza de que tinha caído nas mãos de um louco. Corri pelo meu pequeno apartamento, à procura de uma via de fuga que não conseguia encontrar. Repreendi-me pela minha superstição absurda, que me tinha feito cair na armadilha. Sentia vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo.

"Este era o estado de espírito em que Erik me encontrou. Depois de dar três batidas na parede, entrou calmamente por uma porta que eu não tinha notado e que ele deixou aberta. Trazia os braços cheios de caixas e embrulhos e arrumou-os sobre a cama, sem pressa, enquanto eu o cobria de insultos e lhe pedia que tirasse a máscara, se esta cobria o rosto de um homem honesto. Ele respondeu serenamente: 'Nunca verás o rosto de Erik.' E censurou-me por não me ter acabado de vestir àquela hora do dia: teve a bondade de me dizer que eram duas horas da tarde. Disse que me daria meia hora e, enquanto falava, deu corda ao meu relógio e acertou-o para mim. Depois do que, pediu-me para ir à sala de jantar, onde um bom almoço nos esperava.

"Fiquei muito irritada, bati-lhe com a porta na cara e fui para a casa de banho... Quando saí de novo, sentindo-me muito mais fresca, Erik disse que me amava, mas que nunca mo diria a não ser quando eu lho permitisse e que o resto do tempo seria dedicado à música. 'O que queres dizer com o resto do tempo?' perguntei. 'Cinco dias', disse ele, com decisão. Perguntei-lhe se estaria então livre e ele disse: 'Estarás livre, Christine, pois, quando esses cinco dias passarem, terás aprendido a não me ver; e então, de vez em quando, virás ver o teu pobre Erik!' Apontou para uma cadeira à sua frente, numa pequena mesa, e eu sentei-me, sentindo-me muito perturbada. Contudo, comi alguns camarões e a asa de um frango e bebi meio copo de tokay, que ele próprio, disse-me, tinha trazido das caves de Konigsberg. Erik não comeu nem bebeu. Perguntei-lhe qual era a sua nacionalidade e se aquele nome de Erik não apontava para a sua origem escandinava. Ele disse que não tinha nome nem país e que tinha tomado o nome de Erik por acaso.

"Após o almoço, ele levantou-se e deu-me a ponta dos dedos, dizendo que gostaria de me mostrar o seu apartamento; mas arranquei a mão e dei um grito. O que tinha tocado era frio e, ao mesmo tempo, ósseo; e lembrei-me de que as suas mãos cheiravam a morte. 'Oh, perdoa-me!' gemeu ele. E abriu uma porta diante de mim. 'Este é o meu quarto, se te interessar vê-lo. É bastante curioso.' Os seus modos, as suas palavras, a sua atitude deram-me confiança e entrei sem hesitar. Sentia como se estivesse a entrar no quarto de uma pessoa morta. As paredes estavam todas forradas de preto, mas, em vez dos adornos brancos que geralmente realçam esse estofo funerário, havia uma enorme pauta de música com as notas do DIES IRAE, muitas vezes repetidas. No meio do quarto havia um dossel, do qual pendiam cortinas de tecido de brocado vermelho e, debaixo do dossel, um caixão aberto. 'É aí que eu durmo', disse Erik. 'É preciso habituar-se a tudo na vida, até à eternidade.' A visão perturbou-me tanto que virei o rosto.

"Então vi o teclado de um órgão que enchia um dos lados das paredes. Sobre a estante estava um livro de música coberto de notas vermelhas. Pedi licença para o ver e li: 'Don Juan Triunfante'. 'Sim', disse ele, 'componho por vezes. Comecei esse trabalho há vinte anos. Quando o tiver terminado, levá-lo-ei comigo naquele caixão e nunca mais acordarei.' 'Deves trabalhar nele o menos que puderes', disse eu. Ele respondeu: 'Às vezes trabalho nele durante catorze dias e noites seguidos, durante os quais vivo apenas de música, e depois descanso durante anos.' 'Tocar-me-ias algo do teu Don Juan Triunfante?' perguntei, pensando em agradar-lhe. 'Nunca me deves pedir isso', disse ele, com uma voz sombria. 'Tocar-te-ei Mozart, se quiseres, o que apenas te fará chorar; mas o meu Don Juan, Christine, arde; e, contudo, não é atingido pelo fogo do Céu.' Em seguida, regressámos à sala de estar. Notei que não havia espelho em todo o apartamento. Ia comentar isto, mas Erik já se tinha sentado ao piano. Ele disse: 'Vês, Christine, há música que é tão terrível que consome todos os que a abordam. Felizmente, ainda não chegaste a essa música, pois perderias toda a tua bonita cor e ninguém te reconheceria quando regressasses a Paris. Vamos cantar algo da Ópera, Christine Daae.' Ele disse estas últimas palavras como se estivesse a lançar-me um insulto."

"O que fizeste?"

"Não tive tempo para pensar no significado que ele deu às suas palavras. Começámos logo o dueto de Otelo e a catástrofe já estava sobre nós. Cantei Desdêmona com um desespero, um terror que nunca tinha demonstrado antes. Quanto a ele, a sua voz trovejou a sua alma vingativa a cada nota. Amor, ciúme, ódio, irromperam à nossa volta em gritos lancinantes. A máscara negra de Erik fez-me pensar na máscara natural do Mouro de Veneza. Ele era o próprio Otelo. De repente, senti necessidade de ver por baixo da máscara. Queria saber o ROSTO da voz e, com um movimento que fui totalmente incapaz de controlar, os meus dedos arrancaram velozmente a máscara. Oh, horror, horror, horror!"

Christine calou-se, ao pensar na visão que a tinha assustado, enquanto os ecos da noite, que tinham repetido o nome de Erik, agora gemiam três vezes o grito:

"Horror! ... Horror! ... Horror!"

Raoul e Christine, abraçados estreitamente, ergueram os olhos para as estrelas que brilhavam num céu claro e sereno. Raoul disse:

"Estranho, Christine, que esta noite calma e suave seja tão cheia de sons lamentáveis. Dir-se-ia que está a sofrer connosco."

"Quando souberes o segredo, Raoul, os teus ouvidos, como os meus, estarão cheios de lamentações."

Ela pegou nas mãos protetoras de Raoul nas suas e, com um longo tremor, continuou:

"Sim, se eu vivesse até aos cem anos, ouviria sempre o grito sobre-humano de dor e raiva que ele soltou quando a visão terrível surgiu diante dos meus olhos... Raoul, tu já viste caveiras, quando secas e definhadas pelos séculos, e, talvez, se não fosses vítima de um pesadelo, viste a SUA caveira em Perros. E depois viste a Morte Vermelha a deambular no último baile de máscaras. Mas todas essas caveiras estavam imóveis e o seu horror mudo não estava vivo. Mas imagina, se conseguires, a máscara da Morte Vermelha ganhando vida subitamente para exprimir, com os quatro buracos negros dos seus olhos, do seu nariz e da sua boca, a raiva extrema, a fúria poderosa de um demónio; E NEM UM RAIO DE LUZ DAS ÓRBITAS, pois, como vim a saber mais tarde, não se podem ver os seus olhos flamejantes a não ser no escuro.

"Recuei contra a parede e ele aproximou-se de mim, rangendo os dentes e, enquanto eu caía de joelhos, ele sibilava palavras loucas e incoerentes e maldições contra mim. Inclinando-se sobre mim, gritou: 'Olha! Queres ver! Vê! Farta os teus olhos, sacia a tua alma com a minha fealdade maldita! Olha para o rosto de Erik! Agora conheces o rosto da voz! Não te bastava ouvir-me, eh? Querias saber como era a minha aparência! Oh, as mulheres são tão curiosas! Bem, estás satisfeita? Sou um tipo bem parecido, eh? ... Quando uma mulher me vê, como tu viste, ela pertence-me. Ela ama-me para sempre. Sou uma espécie de Don Juan, sabes!' E, erguendo-se em toda a sua altura, com a mão na anca, abanando a coisa hedionda que era a sua cabeça sobre os ombros, rugiu: 'Olha para mim! EU SOU DON JUAN TRIUNFANTE!' E, quando virei o rosto e pedi misericórdia, ele puxou-o para si, brutalmente, enterrando os seus dedos mortos no meu cabelo."

"Basta! Basta!" gritou Raoul. "Vou matá-lo. Em nome do Céu, Christine, diz-me onde fica a sala de jantar no lago! Tenho de o matar!"

"Oh, cala-te, Raoul, se queres saber!"

"Sim, quero saber como e porquê voltaste; tenho de saber! ... Mas, de qualquer forma, vou matá-lo!"

"Oh, Raoul, escuta, escuta! ... Ele arrastou-me pelos cabelos e depois... e depois... Oh, é demasiado horrível!"

"Bem, o quê? Diz logo!" exclamou Raoul ferozmente. "Diz logo, depressa!"

"Então ele sibilou para mim. 'Ah, eu assusto-te, não é? ... Pois calculo que sim! ... Talvez penses que tenho outra máscara, eh, e que esta... esta... a minha cabeça é uma máscara? Pois bem', rugiu ele, 'arranca-a como fizeste à outra! Vamos! Vamos! Eu insisto! As tuas mãos! As tuas mãos! Dá-me as tuas mãos!' E ele agarrou nas minhas mãos e enterrou-as na sua terrível face. Ele rasgou a sua carne com as minhas unhas, rasgou a sua terrível carne morta com as minhas unhas! ... 'Fica a saber', gritou ele, enquanto a sua garganta pulsava e ofegava como uma fornalha, 'fica a saber que sou feito de morte da cabeça aos pés e que é um cadáver que te ama e te adora e que nunca, nunca te deixará! ... Olha, não estou a rir agora, estou a chorar, a chorar por ti, Christine, que arrancaste a minha máscara e que, por isso, nunca mais poderás deixar-me! ... Enquanto me julgasses belo, poderias ter voltado, sei que terias voltado... mas, agora que conheces a minha hediondez, fugirias para sempre... Por isso, vou manter-te aqui! ... Por que quiseste ver-me? Oh, louca Christine, que quiseste ver-me! ... Quando o meu próprio pai nunca me viu e quando a minha mãe, para não me ver, me deu de presente a minha primeira máscara!'

"Ele tinha-me largado finalmente e arrastava-se pelo chão, soltando soluços terríveis. E então rastejou como uma serpente, entrou no seu quarto, fechou a porta e deixou-me sozinha com as minhas reflexões. Pouco depois, ouvi o som do órgão; e então comecei a compreender a frase desprezível de Erik quando falava da música da Ópera. O que ouvi agora era totalmente diferente do que tinha ouvido até ali. O seu Don Juan Triumphant (pois não tive dúvidas de que ele correra para a sua obra-prima para esquecer o horror do momento) pareceu-me, a princípio, um longo, terrível e magnífico soluço. Mas, pouco a pouco, exprimia todas as emoções, todo o sofrimento de que a humanidade é capaz. Embriagou-me; e abri a porta que nos separava. Erik levantou-se, quando entrei, MAS NÃO SE ATREVEU A VIRAR-SE NA MINHA DIREÇÃO. 'Erik', clamei, 'mostra-me o teu rosto sem medo! Juro que és o mais infeliz e sublime dos homens; e, se alguma vez eu tremer ao olhar para ti, será porque estou a pensar no esplendor do teu génio!' Então Erik virou-se, pois acreditou em mim, e eu também tive fé em mim mesma. Caiu aos meus pés, com palavras de amor... com palavras de amor na sua boca morta... e a música cessara... Beijou a bainha do meu vestido e não viu que eu fechei os olhos.

"Que mais posso dizer-te, meu querido? Agora conheces a tragédia. Durou uma quinzena — uma quinzena durante a qual lhe menti. As minhas mentiras eram tão hediondas como o monstro que as inspirava; mas eram o preço da minha liberdade. Queimei a sua máscara; e consegui tão bem que, mesmo quando ele não estava a cantar, tentava encontrar o meu olhar, como um cão sentado junto ao dono. Ele era o meu escravo fiel e dispensava-me infinitas pequenas atenções. Gradualmente, dei-lhe tal confiança que ele se aventurou a levar-me a passear nas margens do lago e a remar comigo no barco sobre as suas águas cor de chumbo; perto do fim do meu cativeiro, deixou-me sair pelos portões que fechavam as passagens subterrâneas na Rue Scribe. Aqui, uma carruagem esperava-nos e levou-nos para o Bois. A noite em que te encontrámos foi quase fatal para mim, pois ele tem um ciúme terrível de ti e eu tive de lhe dizer que ias partir em breve... Então, finalmente, após uma quinzena daquele horrível cativeiro, durante o qual fui preenchida por pena, entusiasmo, desespero e horror, alternadamente, ele acreditou em mim quando disse: 'EU VOLTAREI!'"

"E voltaste, Christine", gemeu Raoul.

"Sim, meu querido, e devo dizer-te que não foram as suas terríveis ameaças ao libertar-me que me ajudaram a cumprir a minha palavra, mas o soluço angustiante que ele deu no limiar da tumba... Esse soluço ligou-me ao homem infeliz mais do que eu própria suspeitava quando me despedi dele. Pobre Erik! Pobre Erik!"

"Christine", disse Raoul, levantando-se, "dizes-me que me amas; mas mal tinhas recuperado a tua liberdade, algumas horas depois, já estavas de volta a Erik! Lembra-te do baile de máscaras!"

"Sim; e lembras-te daquelas horas que passei contigo, Raoul... para grande perigo de ambos?"

"Duvidei do teu amor por mim, durante aquelas horas."

"Ainda duvidas, Raoul? ... Então fica a saber que cada uma das minhas visitas a Erik aumentava o meu horror por ele; pois cada uma dessas visitas, em vez de o acalmar, como eu esperava, deixava-o louco de amor! E estou tão assustada, tão assustada! ..."

"Estás assustada... mas amas-me? Se Erik fosse bonito, amar-me-ias, Christine?"

Ela levantou-se, por sua vez, envolveu o pescoço do jovem com os seus dois braços trémulos e disse:

"Oh, meu noivo de um dia, se eu não te amasse, não te daria os meus lábios! Toma-os, pela primeira e última vez."

Ele beijou-lhe os lábios; mas a noite que os rodeava foi rasgada, fugiram como perante a aproximação de uma tempestade e os seus olhos, cheios do pavor de Erik, mostraram-lhes, antes de desaparecerem, bem alto acima deles, uma imensa ave noturna que os fitava com os seus olhos ardentes e parecia agarrar-se à corda da lira de Apolo.

Capítulo XIII Um Golpe de Mestre do Amante do Alçapão

Raoul e Christine correram, ansiosos por escapar do telhado e dos olhos ardentes que só apareciam na escuridão; e não pararam antes de chegarem ao oitavo andar no caminho descendente.

Não havia espetáculo na Ópera naquela noite e as passagens estavam vazias. De repente, uma forma de aspeto estranho apareceu diante deles e bloqueou o caminho:

"Não, não é por aqui!"

E a forma apontou para outra passagem pela qual deveriam chegar aos bastidores. Raoul queria parar e pedir uma explicação. Mas a forma, que vestia uma espécie de fraque comprido e um gorro pontiagudo, disse:

"Rápido! Vão embora depressa!"

Christine já estava a arrastar Raoul, obrigando-o a começar a correr novamente.

"Mas quem é ele? Quem é esse homem?", perguntou ele.

Christine respondeu: "É o Persa."

"O que é que ele está a fazer aqui?"

"Ninguém sabe. Ele está sempre na Ópera."

"Estás a fazer-me fugir, pela primeira vez na minha vida. Se realmente víssemos Erik, o que eu deveria ter feito era pregá-lo à lira de Apolo, tal como pregamos as corujas às paredes das nossas quintas bretãs; e não se falaria mais nele."

"Meu querido Raoul, primeiro terias de subir até à lira de Apolo: isso não é tarefa fácil."

"Os olhos ardentes estavam lá!"

"Oh, estás a ficar como eu agora, a vê-lo em toda a parte! O que tomei por olhos ardentes eram provavelmente um par de estrelas a brilhar através das cordas da lira."

E Christine desceu mais um andar, com Raoul a segui-la.

"Já que estás decidida a ir embora, Christine, garanto-te que seria melhor ir imediatamente. Porquê esperar por amanhã? Ele pode ter-nos ouvido esta noite."

"Não, não, ele está a trabalhar, digo-te, no seu Don Juan Triumphant e não está a pensar em nós."

"Estás tão certa disso que continuas a olhar para trás!"

"Vem ao meu camarim."

"Não seria melhor encontrarmos-nos fora da Ópera?"

"Nunca, até partirmos para sempre! Trazer-nos-ia má sorte, se eu não cumprisse a minha palavra. Prometi-lhe que só te veria aqui."

"Ainda bem para mim que ele te permitiu sequer isso. Sabes", disse Raoul amargamente, "que foste muito corajosa ao deixares-nos fingir que estamos noivos?"

"Ora, meu querido, ele sabe de tudo! Disse: 'Confio em ti, Christine. O Sr. de Chagny ama-te e vai para o estrangeiro. Antes de ele partir, quero que ele seja tão feliz quanto eu.' Será que as pessoas são tão infelizes quando amam?"

"Sim, Christine, quando amam e não têm a certeza de ser amadas."

Chegaram ao camarim de Christine.

"Por que pensas que estás mais segura neste quarto do que no palco?", perguntou Raoul. "Ouviste-o através das paredes aqui, portanto ele certamente pode ouvir-nos."

"Não. Ele deu-me a sua palavra de não voltar a estar atrás das paredes do meu camarim e acredito na palavra de Erik. Este quarto e o meu quarto no lago são para mim, exclusivamente, e não devem ser abordados por ele."

"Como podes ter ido deste quarto para aquela passagem escura, Christine? Supõe que tentamos repetir os teus movimentos; que achas?"

"É perigoso, querido, pois o espelho poderia levar-me outra vez; e, em vez de fugir, seria obrigada a ir até ao fim da passagem secreta para o lago e lá chamar por Erik."

"Ele ouvir-te-ia?"

"Erik ouvir-me-á onde quer que eu o chame. Ele disse-mo. Ele é um génio muito curioso. Não deves pensar, Raoul, que ele é apenas um homem que se diverte a viver debaixo da terra. Ele faz coisas que nenhum outro homem poderia fazer; ele sabe coisas que ninguém no mundo sabe."

"Tem cuidado, Christine, estás a transformá-lo num fantasma outra vez!"

"Não, ele não é um fantasma; é um homem do Céu e da terra, é só isso."

"Um homem do Céu e da terra... é só isso! ... Uma bela maneira de falar dele! ... E continuas decidida a fugir dele?"

"Sim, amanhã."

"Amanhã, já não terás resolução nenhuma!"

"Então, Raoul, terás de fugir comigo apesar de mim mesma; está entendido?"

"Estarei aqui à meia-noite de amanhã; cumprirei a minha promessa, aconteça o que acontecer. Dizes que, depois de ouvir o espetáculo, ele vai esperar por ti na sala de jantar no lago?"

"Sim."

"E como vais chegar até ele, se não sabes como sair pelo espelho?"

"Ora, indo diretamente para a margem do lago."

Christine abriu uma caixa, tirou uma chave enorme e mostrou-a a Raoul.

"O que é isso?", perguntou ele.

"A chave do portão para a passagem subterrânea na Rue Scribe."

"Compreendo, Christine. Leva diretamente ao lago. Dá-ma, Christine, queres?"

"Nunca!", disse ela. "Isso seria traiçoeiro!"

De repente, Christine mudou de cor. Uma palidez mortal cobriu os seus traços.

"Oh, céus!", gritou ela. "Erik! Erik! Tem piedade de mim!"

"Cala a boca!", disse Raoul. "Disseste-me que ele podia ouvir-te!"

Mas a atitude da cantora tornou-se cada vez mais inexplicável. Ela torcia os dedos, repetindo, com um ar perturbado:

"Oh, Céu! Oh, Céu!"

"Mas o que é? O que é?", implorou Raoul.

"O anel... o anel de ouro que ele me deu."

"Oh, então o Erik deu-te esse anel!"

"Sabes que deu, Raoul! Mas o que não sabes é que, quando ele mo deu, disse: 'Devolvo-te a tua liberdade, Christine, com a condição de que este anel esteja sempre no teu dedo. Enquanto o mantiveres, estarás protegida contra todo o perigo e Erik continuará a ser teu amigo. Mas ai de ti se alguma vez te separares dele, pois Erik vingar-se-á!' ... Meu querido, meu querido, o anel desapareceu! ... Ai de nós os dois!"

Ambos procuraram o anel, mas não o conseguiram encontrar. Christine recusou ser consolada.

"Foi quando te dei aquele beijo, lá em cima, debaixo da lira de Apolo", disse ela. "O anel deve ter escorregado do meu dedo e caído na rua! Nunca o encontraremos. E que infortúnios nos esperam agora! Oh, fugir!"

"Fujamos imediatamente", insistiu Raoul, mais uma vez.

Ela hesitou. Ele pensou que ela ia dizer que sim... Então as suas pupilas brilhantes ficaram baças e ela disse:

"Não! Amanhã!"

E deixou-o apressadamente, ainda torcendo e esfregando os dedos, como se esperasse trazer o anel de volta assim.

Raoul foi para casa, muito perturbado com tudo o que tinha ouvido.

"Se eu não a salvar das mãos daquele impostor", disse ele, em voz alta, enquanto ia para a cama, "ela está perdida. Mas eu salvá-la-ei."

Apagou o seu candeeiro e sentiu necessidade de insultar Erik na escuridão. Três vezes, gritou:

"Impostor! ... Impostor! ... Impostor!"

Mas, de repente, levantou-se sobre o cotovelo. Um suor frio corria-lhe das têmporas. Dois olhos, como brasas ardentes, tinham aparecido ao pé da sua cama. Fitavam-no fixamente, terrivelmente, na escuridão da noite.

Raoul não era cobarde; e, no entanto, tremeu. Estendeu uma mão tateante e hesitante em direção à mesa de cabeceira. Encontrou os fósforos e acendeu a vela. Os olhos desapareceram.

Ainda inquieto, pensou para consigo:

"Ela disse-me que os SEUS olhos só apareciam no escuro. Os seus olhos desapareceram com a luz, mas ELE pode estar aqui ainda."

E levantou-se, espreitou, deu a volta ao quarto. Procurou debaixo da cama, como uma criança. Depois achou-se absurdo, voltou para a cama e apagou a vela. Os olhos reapareceram.

Sentou-se e encarou-os com toda a coragem que possuía. Depois gritou:

"És tu, Erik? Homem, génio ou fantasma, és tu?"

Refletiu: "Se é ele, ele está na varanda!"

Então correu para a cómoda e tateou à procura do seu revólver. Abriu a janela da varanda, olhou para fora, não viu nada e fechou a janela novamente. Voltou para a cama, a tremer, pois a noite estava fria, e colocou o revólver na mesa, ao seu alcance.

Os olhos ainda estavam lá, ao pé da cama. Estariam entre a cama e o vidro da janela ou atrás do vidro, isto é, na varanda? Era isso que Raoul queria saber. Queria também saber se aqueles olhos pertenciam a um ser humano... Queria saber tudo. Então, pacientemente, calmamente, pegou no seu revólver e apontou. Apontou um pouco acima dos dois olhos. Certamente, se fossem olhos e se acima desses dois olhos houvesse uma testa e se Raoul não fosse demasiado desajeitado...

O tiro fez um estrondo terrível no silêncio da casa adormecida. E, enquanto passos corriam pelos corredores, Raoul sentou-se com o braço estendido, pronto para disparar novamente, se necessário.

Desta vez, os dois olhos tinham desaparecido.

Apareceram criados, trazendo luzes; o Conde Philippe, terrivelmente ansioso:

"O que foi?"

"Acho que estive a sonhar", respondeu o jovem. "Disparei contra duas estrelas que não me deixavam dormir."

"Estás a delirar! Estás doente? Pelo amor de Deus, diz-me, Raoul: o que aconteceu?"

E o conde agarrou no revólver.

"Não, não, não estou a delirar... Além disso, logo veremos..."

Saiu da cama, vestiu um robe e chinelos, pegou numa luz das mãos de um criado e, abrindo a janela, saiu para a varanda.

O conde viu que a janela tinha sido perfurada por uma bala à altura de um homem. Raoul estava debruçado sobre a varanda com a sua vela: "Aha!", disse ele. "Sangue! ... Sangue! ... Aqui, ali, mais sangue! ... Isso é bom! Um fantasma que sangra é menos perigoso!", sorriu ele.

"Raoul! Raoul! Raoul!"

O conde abanava-o como se estivesse a tentar acordar um sonâmbulo.

"Mas, meu caro irmão, não estou a dormir!", protestou Raoul impacientemente. "Podes ver o sangue por ti próprio. Pensei que estivesse a sonhar e a disparar contra duas estrelas. Eram os olhos de Erik... e aqui está o sangue dele! ... Afinal, talvez tenha feito mal em disparar; e Christine é perfeitamente capaz de nunca me perdoar... Tudo isto não teria acontecido se eu tivesse fechado as cortinas antes de me deitar."

"Raoul, enlouqueceste de repente? Acorda!"

"O quê, ainda? Farias melhor em ajudar-me a encontrar o Erik... pois, afinal, um fantasma que sangra pode sempre ser encontrado."

O criado do conde disse:

"É verdade, senhor; há sangue na varanda."

O outro criado trouxe um candeeiro, à luz do qual examinaram a varanda cuidadosamente. As manchas de sangue seguiam o corrimão até chegarem a um cano de queda; depois, subiam pelo cano.

"Meu caro", disse o Conde Philippe, "disparaste contra um gato."

"O azar é", disse Raoul, com um sorriso, "que é perfeitamente possível. Com o Erik, nunca se sabe. É o Erik? É o gato? É o fantasma? Não, com o Erik, não se pode saber!"

Raoul continuou a fazer este tipo de observações estranhas que correspondiam tão íntima e logicamente à preocupação do seu cérebro e que, ao mesmo tempo, tendiam a persuadir muitas pessoas de que o seu juízo estava perturbado. O próprio conde foi tomado por esta ideia; e, mais tarde, o juiz de instrução, ao receber o relatório do comissário de polícia, chegou à mesma conclusão.

"Quem é Erik?", perguntou o conde, apertando a mão do irmão.

"Ele é o meu rival. E, se ele não está morto, é uma pena."

Dispensou os criados com um gesto da mão e os dois Chagny ficaram sozinhos. Mas os homens ainda não estavam fora do alcance da voz quando o criado do conde ouviu Raoul dizer, distintamente e com ênfase:

"Vou levar a Christine Daae esta noite."

Esta frase foi posteriormente repetida ao Sr. Faure, o juiz de instrução. Mas ninguém soube exatamente o que se passou entre os dois irmãos nesta entrevista. Os criados declararam que aquela não fora a sua primeira discussão. As suas vozes penetravam na parede; e era sempre uma atriz chamada Christine Daae que estava em questão.

Ao pequeno-almoço — o pequeno-almoço matinal, que o conde tomava no seu escritório — Philippe mandou chamar o irmão. Raoul chegou silencioso e sombrio. A cena foi muito curta. Philippe entregou ao irmão um exemplar do Epoque e disse:

"Lê isso!"

O visconde leu:

"As últimas novidades no Faubourg são que há uma promessa de casamento entre a Srta. Christine Daae, a cantora de ópera, e o Sr. Visconde Raoul de Chagny. Se se deve acreditar nos mexericos, o Conde Philippe jurou que, pela primeira vez na história, os Chagny não cumprirão a sua promessa. Mas, como o amor é todo-poderoso, na Ópera como — e ainda mais do que — em qualquer outro lugar, perguntamo-nos como o Conde Philippe pretende impedir o visconde, seu irmão, de levar a nova Margarida ao altar. Diz-se que os dois irmãos se adoram; mas o conde está curiosamente enganado se imagina que o amor fraternal triunfará sobre o amor puro e simples."

"Estás a ver, Raoul", disse o conde, "estás a tornar-nos ridículos! Aquela miúda virou-te a cabeça com as suas histórias de fantasmas."

O visconde tinha evidentemente repetido a narrativa de Christine ao irmão, durante a noite. Tudo o que disse agora foi:

"Adeus, Philippe."

"Estás mesmo decidido? Vais esta noite? Com ela?"

Nenhuma resposta.

"Certamente não farás nada tão tolo? EU saberei como impedir-te!"

"Adeus, Philippe", disse o visconde novamente e deixou o quarto.

Esta cena foi descrita ao juiz de instrução pelo próprio conde, que não voltou a ver Raoul até àquela noite, na Ópera, alguns minutos antes do desaparecimento de Christine.

Raoul, de facto, dedicou todo o dia aos seus preparativos para a fuga. Os cavalos, a carruagem, o cocheiro, as provisões, a bagagem, o dinheiro necessário para a viagem, o caminho a seguir (decidira não ir de comboio, para despistar o fantasma): tudo isto tinha de ser resolvido e providenciado; e ocupou-o até às nove horas da noite.

Às nove horas, uma espécie de carruagem de viagem, com as cortinas das janelas corridas, tomou o seu lugar na fila, do lado da Rotunda. Era puxada por dois cavalos vigorosos, guiados por um cocheiro cujo rosto estava quase oculto pelas longas dobras de um cachecol. À frente desta carruagem de viagem encontravam-se três broughams, pertencentes, respetivamente, a Carlotta, que regressara subitamente a Paris, a Sorelli e, à cabeça da fila, ao Conde Philippe de Chagny. Ninguém saiu da carruagem. O cocheiro permaneceu na sua boléia, e os outros três cocheiros permaneceram nas suas.

Uma sombra, vestida com uma longa capa preta e um chapéu mole de feltro preto, passou pelo passeio entre a Rotunda e as carruagens, examinou a carruagem cuidadosamente, aproximou-se dos cavalos e do cocheiro e, depois, afastou-se sem dizer uma palavra. O magistrado acreditou mais tarde que esta sombra era a do Visconde Raoul de Chagny; mas eu não concordo, visto que naquela noite, como em todas as noites, o Visconde de Chagny usava uma cartola, a qual, aliás, foi posteriormente encontrada. Estou mais inclinado a pensar que a sombra era a do fantasma, que sabia tudo sobre o caso, como o leitor em breve perceberá.

Dava-se FAUSTO, por acaso, perante uma sala esplêndida. O Faubourg estava magnificamente representado; e o parágrafo no ÉPOQUE daquela manhã já tinha produzido o seu efeito, pois todos os olhares se voltavam para o camarote em que o Conde Philippe se sentava sozinho, aparentemente num estado de espírito muito indiferente e descuidado. O elemento feminino na plateia brilhante parecia curiosamente intrigado; e a ausência do visconde deu azo a uma infinidade de sussurros atrás dos leques. Christine Daaé teve uma receção bastante fria. Aquele público especial não a perdoava por almejar tão alto.

A cantora notou esta atitude desfavorável de uma parte da sala e sentiu-se confusa com ela.

Os frequentadores habituais da Ópera, que pretendiam saber a verdade sobre a história de amor do visconde, trocavam sorrisos significativos em certas passagens da parte de Margarida; e faziam questão de se virar e olhar para o camarote de Philippe de Chagny quando Christine cantava:

"Quem me dera saber quem era ele Que me dirigiu a palavra, Se era nobre, ou, pelo menos, qual o seu nome."

O conde sentava-se com o queixo na mão e parecia não prestar atenção a estas manifestações. Mantinha os olhos fixos no palco; mas os seus pensamentos pareciam estar longe.

Christine perdia a sua autoconfiança cada vez mais. Tremia. Sentia-se à beira de um colapso... Carolus Fonta perguntava-se se ela estaria doente, se conseguiria manter-se no palco até ao fim do Ato do Jardim. Na plateia, as pessoas lembravam-se da catástrofe que tinha acontecido a Carlotta no fim daquele ato e do histórico "có-có" que interrompera momentaneamente a sua carreira em Paris.

Nesse preciso momento, Carlotta fez a sua entrada num camarote em frente ao palco, uma entrada sensacional. A pobre Christine ergueu os olhos sobre este novo motivo de agitação. Reconheceu a sua rival. Julgou ver um escárnio nos seus lábios. Isso salvou-a. Esqueceu tudo, para triunfar mais uma vez.

A partir desse momento, a prima donna cantou com todo o seu coração e alma. Tentou superar tudo o que tinha feito até então; e conseguiu. No último ato, quando começou a invocação aos anjos, fez com que todos os membros da plateia sentissem como se eles próprios tivessem asas.

No centro do anfiteatro, um homem levantou-se e permaneceu de pé, voltado para a cantora. Era Raoul.

"Anjo santo, bendito no Céu..."

E Christine, com os braços estendidos, a garganta cheia de música, a glória dos seus cabelos a cair sobre os ombros nus, soltou o grito divino:

"Meu espírito anseia por descansar contigo!"

Foi nesse momento que o palco mergulhou subitamente na escuridão. Aconteceu tão rapidamente que os espectadores mal tiveram tempo de soltar um som de estupefação, pois o gás iluminou imediatamente o palco de novo. Mas Christine Daaé já lá não estava!

O que teria sido dela? Que milagre era aquele? Todos trocavam olhares sem compreender, e a agitação atingiu imediatamente o seu auge. Nem a tensão era menor no próprio palco. Homens precipitaram-se das coxias para o lugar onde Christine cantava naquele mesmo instante. O espetáculo foi interrompido no meio da maior desordem.

Para onde teria ido Christine? Que feitiçaria a tinha arrebatado, perante os olhos de milhares de espectadores entusiastas e dos braços do próprio Carolus Fonta? Era como se os anjos a tivessem realmente levado para "descansar".

Raoul, ainda de pé no anfiteatro, tinha soltado um grito. O Conde Philippe tinha-se levantado de um salto no seu camarote. As pessoas olhavam para o palco, para o conde, para Raoul, e perguntavam-se se aquele estranho acontecimento estaria ligado de alguma forma ao parágrafo do jornal daquela manhã. Mas Raoul deixou apressadamente o seu lugar, o conde desapareceu do seu camarote e, enquanto o pano baixava, os assinantes precipitaram-se para a porta que dava acesso aos bastidores. O resto do público esperava no meio de um alarido indescritível. Todos falavam ao mesmo tempo. Todos tentavam sugerir uma explicação para o incidente extraordinário.

Por fim, o pano subiu lentamente e Carolus Fonta dirigiu-se para a estante do maestro e, com uma voz triste e grave, disse:

"Minhas senhoras e meus senhores, um acontecimento sem precedentes ocorreu e lançou-nos num estado de grande alarme. A nossa colega artista, Christine Daaé, desapareceu perante os nossos olhos e ninguém nos sabe dizer como!"

Capítulo XIV A Atitude Singular de um Alfinete de Ama

Atrás do pano, havia uma multidão indescritível. Artistas, cenógrafos, bailarinas, figurantes, coristas, assinantes, todos faziam perguntas, gritavam e empurravam-se uns aos outros.

"O que aconteceu com ela?"

"Ela fugiu."

"Com o Visconde de Chagny, claro!"

"Não, com o conde!"

"Ah, aí está a Carlotta! A Carlotta é que fez o serviço!"

"Não, foi o fantasma!" E alguns riram, especialmente porque um exame minucioso dos alçapões e das tábuas tinha eliminado a ideia de um acidente.

No meio desta multidão barulhenta, três homens falavam em voz baixa e com gestos de desespero. Eram Gabriel, o mestre do coro; Mercier, o administrador; e Remy, o secretário. Retiraram-se para um canto do corredor por onde o palco comunica com a larga passagem que leva ao foyer da dança. Ali pararam e discutiram atrás de uns enormes "adereços".

"Bati à porta", disse Remy. "Não responderam. Talvez não estejam no escritório. De qualquer modo, é impossível descobrir, pois levaram as chaves consigo."

"Eles" eram obviamente os diretores, que tinham dado ordens, durante o último intervalo, para não serem incomodados sob pretexto algum. Não estavam para ninguém.

"Ainda assim", exclamou Gabriel, "uma cantora não é raptada, do meio do palco, todos os dias!"

"Gritaste isso para eles?" perguntou Mercier, impaciente.

"Vou voltar", disse Remy, e desapareceu a correr.

Nesse momento, o régulo chegou.

"Bem, Sr. Mercier, vem ou não? O que estão vocês os dois a fazer aqui? Estão a ser chamados, Sr. Administrador."

"Recuso-me a saber ou a fazer qualquer coisa antes que o comissário chegue", declarou Mercier. "Mandei chamar Mifroid. Veremos quando ele chegar!"

"E eu digo-lhe que devia ir imediatamente ao órgão."

"Não antes de o comissário chegar."

"Eu próprio já fui ao órgão."

"Ah! E o que viu?"

"Bem, não vi ninguém! Ouviu bem — ninguém!"

"O que quer que eu vá fazer lá abaixo?"

"Tem razão!" disse o régulo, passando as mãos freneticamente pelos seus cabelos rebeldes. "Tem razão! Mas podia estar alguém no órgão que nos pudesse dizer como é que o palco ficou subitamente às escuras. Agora, Mauclair não se encontra em parte alguma. Percebe isso?"

Mauclair era o homem do gás, que distribuía o dia e a noite à vontade no palco da Ópera.

"Mauclair não se encontra!" repetiu Mercier, surpreendido. "Bem, e os seus assistentes?"

"Não há Mauclair nem assistentes! Ninguém nas luzes, digo-lhe! Pode imaginar", rugiu o régulo, "que aquela menina deve ter sido levada por outra pessoa: ela não fugiu sozinha! Foi um golpe calculado e temos de descobrir o que se passa... E o que estão os diretores a fazer durante todo este tempo?... Dei ordens para que ninguém descesse às luzes e coloquei um bombeiro em frente à caixa do homem do gás ao lado do órgão. Não fiz bem?"

"Sim, sim, muito bem, muito bem. E agora esperemos pelo comissário."

O régulo afastou-se, encolhendo os ombros, bufando, murmurando insultos contra aqueles frouxos que permaneciam calmamente agachados num canto enquanto todo o teatro estava de pernas para o ar.

Gabriel e Mercier não estavam assim tão calmos. Apenas tinham recebido uma ordem que os paralisava. Os diretores não deviam ser incomodados por motivo algum. Remy tinha violado essa ordem e não obteve sucesso.

Nesse momento, ele regressou da sua nova expedição, com um ar curiosamente espantado.

"Bem, viste-os?" perguntou Mercier.

"Moncharmin abriu a porta finalmente. Tinha os olhos a saltar-lhe das órbitas. Pensei que ele me quisesse bater. Não consegui dizer uma palavra; e sabe o que ele me gritou? 'Tem um alfinete de ama?' 'Não!' 'Bem, então, desapareça!' Tentei dizer-lhe que uma coisa inaudita tinha acontecido no palco, mas ele rugiu: 'Um alfinete de ama! Dê-me um alfinete de ama imediatamente!' Um rapaz ouviu-o — ele estava a berrar como um touro — correu com um alfinete de ama e deu-lho; ao que Moncharmin me fechou a porta na cara, e aqui tem!"

"E não podias ter dito, 'Christine Daaé'?"

"Gostava de o ver no meu lugar. Ele espumava pela boca. Não pensava noutra coisa senão no seu alfinete de ama. Acredito que, se não lho tivessem trazido no momento, ele teria caído com um ataque!... Oh, tudo isto não é natural; e os nossos diretores estão a ficar loucos!... Além disso, não pode continuar assim! Não estou habituado a ser tratado dessa maneira!"

De repente, Gabriel sussurrou:

"É outro truque do O. G."

Remy deu um sorriso, Mercier um suspiro e parecia prestes a falar... mas, ao encontrar o olhar de Gabriel, não disse nada.

No entanto, Mercier sentia a sua responsabilidade aumentar à medida que os minutos passavam sem que os diretores aparecessem; e, por fim, não aguentou mais.

"Olhe, vou eu mesmo caçá-los!"

Gabriel, tornando-se muito sombrio e sério, deteve-o.

"Cuidado com o que faz, Mercier! Se eles estão fechados no escritório, provavelmente é porque têm de estar! O. G. tem mais do que um truque na manga!"

Mas Mercier abanou a cabeça.

"Isso é problema deles! Vou! Se as pessoas me tivessem ouvido, a polícia já saberia de tudo há muito tempo!"

E foi.

"O que é 'tudo'?" perguntou Remy. "O que havia para dizer à polícia? Por que não respondes, Gabriel? ... Ah, então tu sabes alguma coisa! Bem, farias melhor em dizer-me a mim também, se não queres que eu grite que vocês estão todos a ficar loucos!... Sim, é isso que vocês são: loucos!"

Gabriel fez um ar estúpido e fingiu não compreender a saída inconveniente do secretário particular.

"Que 'alguma coisa' é que eu deveria saber?" disse ele. "Não percebo o que queres dizer."

Remy começou a perder a paciência.

"Esta noite, Richard e Moncharmin portavam-se como lunáticos, aqui, entre os atos."

"Nunca reparei nisso", resmungou Gabriel, muito aborrecido.

"Então és o único!... Achas que eu não os vi?... E que o Sr. Parabise, o gerente do Crédit Central, não notou nada?... E que o Sr. de La Borderie, o embaixador, não tem olhos na cara?... Ora, todos os assinantes apontavam para os nossos diretores!"

"Mas o que faziam os nossos diretores?" perguntou Gabriel, fazendo o seu ar mais inocente.

"O que faziam? Tu sabes melhor do que ninguém o que eles faziam!... Tu estavas lá!... E estavas a observá-los, tu e o Mercier!... E foram os únicos dois que não se riram."

"Não percebo!"

Gabriel ergueu os braços e deixou-os cair novamente, gesto que pretendia transmitir que a questão não lhe interessava minimamente. Remy continuou:

"Qual é o sentido desta nova mania deles? POR QUE NÃO QUEREM QUE NINGUÉM SE APROXIME DELES AGORA?"

"O quê? NÃO QUEREM QUE NINGUÉM SE APROXIME DELES?"

"E NÃO DEIXAM QUE NINGUÉM LHES TOQUE!"

"A sério? Reparaste QUE ELES NÃO DEIXAM QUE NINGUÉM LHES TOQUE? Isso é certamente estranho!"

"Oh, então admites! Já era tempo! E DEPOIS, ELES ANDAM PARA TRÁS!"

"PARA TRÁS! Viste os nossos diretores ANDAREM PARA TRÁS? Ora, eu pensava que só os caranguejos andavam para trás!"

"Não te rias, Gabriel; não te rias!"

"Não me estou a rir", protestou Gabriel, parecendo tão solene como um juiz.

"Talvez me possas dizer isto, Gabriel, já que és amigo íntimo da direção: Quando me aproximei do Sr. Richard, fora do foyer, durante o intervalo do Jardim, com a mão estendida à minha frente, por que é que o Sr. Moncharmin sussurrou apressadamente para mim: 'Afaste-se! Afaste-se! Seja o que for que faça, não toque no Sr. Diretor!'? Supõe-se que eu tenha uma doença infeciosa?"

"É incrível!"

"E, um pouco mais tarde, quando o Sr. de La Borderie se aproximou do Sr. Richard, não viste o Sr. Moncharmin a lançar-se entre eles e não o ouviste exclamar: 'Sr. Embaixador, suplico-lhe que não toque no Sr. Diretor'?"

"É terrível!... E o que fazia o Richard nesse meio tempo?"

"O que fazia ele? Ora, tu viste! Ele virou-se, FEZ UMA REVERÊNCIA À FRENTE DELE, EMBORA NÃO ESTIVESSE NINGUÉM À FRENTE DELE, E RETIROU-SE A ANDAR PARA TRÁS."

"PARA TRÁS?"

"E o Moncharmin, atrás do Richard, também se virou; isto é, descreveu um semicírculo atrás do Richard e também ANDOU PARA TRÁS!... E eles foram ASSIM até à escadaria que leva ao escritório dos diretores: PARA TRÁS, PARA TRÁS, PARA TRÁS!... Bem, se eles não estão loucos, queres explicar o que significa?"

"Talvez estivessem a ensaiar uma figura do bailado", sugeriu Gabriel, sem muita convicção na voz.

O secretário estava furioso com esta piada miserável, feita num momento tão dramático. Franziu as sobrancelhas e contraiu os lábios. Depois, encostou a boca ao ouvido de Gabriel:

"Não sejas tão matreiro, Gabriel. Estão a passar-se coisas pelas quais tu e o Mercier são parcialmente responsáveis."

"O que queres dizer?" perguntou Gabriel.

"Christine Daaé não é a única que desapareceu subitamente esta noite."

"Oh, não digas disparates!"

"Não há disparates nenhuns. Talvez me possas dizer por que é que, quando a Mãe Giry desceu ao foyer há pouco, o Mercier a agarrou pela mão e a levou apressadamente com ele?"

"A sério?" disse Gabriel, "Nunca vi isso."

"Viste sim, Gabriel, porque tu foste com o Mercier e a Mãe Giry para o escritório do Mercier. Desde então, tu e o Mercier foram vistos, mas ninguém viu a Mãe Giry."

"Achas que a comemos?"

"Não, mas trancaram-na no escritório; e qualquer pessoa que passe pelo escritório pode ouvi-la a gritar: 'Oh, os patifes! Oh, os patifes!'"

Neste ponto desta conversa singular, Mercier chegou, todo ofegante.

"Pronto!" disse ele, com uma voz sombria. "Está pior do que nunca!... Gritei: 'É um assunto sério! Abra a porta! Sou eu, Mercier.' Ouvi passos. A porta abriu-se e apareceu Moncharmin. Estava muito pálido. Disse: 'O que quer?' Respondi: 'Alguém raptou a Christine Daaé.' Sabes o que ele disse? 'E ainda bem!' E fechou a porta, depois de me pôr isto na mão."

Mercier abriu a mão; Remy e Gabriel olharam.

"O alfinete de ama!" gritou Remy.

"Estranho! Estranho!" murmurou Gabriel, que não conseguia evitar estremecer.

De repente, uma voz fê-los aos três virarem-se.

"Peço desculpa, senhores. Podiam dizer-me onde está a Christine Daaé?"

Apesar da gravidade das circunstâncias, o absurdo da pergunta tê-los-ia feito soltar gargalhadas, se não tivessem visto um rosto tão carregado de tristeza que foram imediatamente tomados de piedade. Era o Visconde Raoul de Chagny.

Capítulo XV Christine! Christine!

O primeiro pensamento de Raoul, após o desaparecimento fantástico de Christine Daaé, foi acusar Erik. Já não duvidava dos poderes quase sobrenaturais do Anjo da Música, neste domínio da Ópera em que ele tinha estabelecido o seu império. E Raoul precipitou-se para o palco, num acesso louco de amor e desespero.

"Christine! Christine!" gemia ele, chamando-a como sentia que ela devia estar a chamá-lo das profundezas daquele poço escuro para o qual o monstro a tinha levado. "Christine! Christine!"

E parecia ouvir os gritos da rapariga através das tábuas frágeis que o separavam dela. Inclinou-se para a frente, escutou... vagueou pelo palco como um louco. Ah, descer, descer àquele poço de escuridão cuja entrada lhe estava vedada... pois as escadas que conduziam ao subsolo do palco estavam interditas a todos e a cada um naquela noite!

"Christine! Christine! ..."

As pessoas empurravam-no, rindo. Zombavam dele. Achavam que o cérebro do pobre amante tinha dado de si!

Por que estrada louca, através de que passagens de mistério e escuridão conhecidas apenas por ele, teria Erik arrastado aquela criança de alma pura até ao covil terrível, com o quarto Luís-Filipe, que dava para o lago?

"Christine! Christine! ... Por que não respondes? ... Estás viva? ..."

Pensamentos hediondos atravessaram o cérebro congestionado de Raoul. Com certeza, Erik devia ter descoberto o segredo deles, devia ter sabido que Christine o enganara. Que vingança seria a dele!

E Raoul pensou de novo nas estrelas amarelas que tinham vindo, na véspera, e vagueado sobre a sua varanda. Por que não as tinha apagado de vez? Havia olhos de homens que se dilatavam na escuridão e brilhavam como estrelas ou como olhos de gatos. Certamente os albinos, que pareciam ter olhos de coelho durante o dia, tinham olhos de gato à noite: todos sabiam isso!... Sim, sim, ele tinha disparado sem dúvida contra Erik. Por que não o tinha morto? O monstro tinha fugido pelo cano de escoamento como um gato ou um condenado que — todos sabiam isso também — treparia até aos céus, com a ajuda de um cano de escoamento... Sem dúvida Erik estava naquela altura a contemplar algum passo decisivo contra Raoul, mas tinha sido ferido e fugira para se virar contra a pobre Christine.

Tais eram os pensamentos cruéis que assombravam Raoul enquanto corria para o camarim da cantora.

"Christine! Christine!"

Lágrimas amargas queimaram as pálpebras do rapaz ao ver espalhadas pelos móveis as roupas que a sua bela noiva deveria ter usado à hora da sua fuga. Oh, por que se tinha ela recusado a partir mais cedo?

Por que tinha brincado com a catástrofe ameaçadora? Por que brincado com o coração do monstro? Por que, num acesso final de piedade, tinha ela insistido em atirar, como um último consolo à alma daquele demónio, a sua canção divina:

"Anjo santo, bendito no Céu, Meu espírito anseia por descansar contigo!"

Raoul, com a garganta cheia de soluços, juras e insultos, tateou desajeitadamente o grande espelho que se tinha aberto uma noite, perante os seus olhos, para deixar Christine passar para a moradia sombria lá em baixo. Empurrou, pressionou, apalpou, mas o vidro aparentemente não obedecia a ninguém senão a Erik... Talvez as ações não bastassem com um vidro daquele género? Talvez se esperasse que ele pronunciasse certas palavras? Quando era pequeno, tinha ouvido dizer que havia coisas que obedeciam à palavra falada!

De repente, Raoul lembrou-se de algo sobre um portão que dava para a Rue Scribe, uma passagem subterrânea que corria diretamente para a Rue Scribe a partir do lago... Sim, Christine tinha-lhe falado disso... E, quando descobriu que a chave já não estava na caixa, correu mesmo assim para a Rue Scribe. Lá fora, na rua, passou as mãos trémulas pelas pedras enormes, procurou saídas... encontrou grades de ferro... seriam aquelas?... Ou estas?... Ou poderia ser aquele respiradouro?... Mergulhou os seus olhos inúteis através das grades... Quão escuro estava ali dentro!... Escutou... Tudo era silêncio!... Deu a volta ao edifício... e chegou a grades maiores, portões imensos! ... Era a entrada para o Cour de l'Administration.

Raoul precipitou-se para a portaria.

— Peço perdão, madame, poderia dizer-me onde encontrar um portão ou porta, feito de grades, grades de ferro, que dê para a Rue Scribe... e que leve ao lago? ... Sabe de que lago falo? ... Sim, o lago subterrâneo... sob a Ópera.

— Sim, senhor, sei que há um lago sob a Ópera, mas não sei que porta leva até ele. Nunca lá fui!

— E a Rue Scribe, madame, a Rue Scribe? Nunca foi à Rue Scribe?

A mulher riu, soltou uma gargalhada! Raoul afastou-se, rugindo de raiva, subiu as escadas, quatro degraus de cada vez, desceu, atravessou toda a parte administrativa da ópera, encontrando-se mais uma vez sob a luz do palco.

Ele parou, com o coração a palpitar no peito: e se Christine Daaé tivesse sido encontrada? Viu um grupo de homens e perguntou:

— Peço perdão, senhores. Poderiam dizer-me onde está Christine Daaé?

E alguém riu.

No mesmo instante, o palco zumbiu com um som novo e, no meio de uma multidão de homens em traje de noite, todos a falar e a gesticular ao mesmo tempo, apareceu um homem que parecia muito calmo e exibia um rosto agradável, todo rosado e de bochechas rechonchudas, coroado por cabelos encaracolados e iluminado por um par de olhos azuis maravilhosamente serenos. Mercier, o diretor interino, chamou a atenção do Visconde de Chagny para ele e disse:

— Este é o senhor a quem deve dirigir a sua pergunta, monsieur. Deixe-me apresentar Mifroid, o comissário de polícia.

— Ah, M. le Vicomte de Chagny! Encantado em conhecê-lo, monsieur — disse o comissário. — Importaria-se de vir comigo? ... E agora, onde estão os diretores? ... Onde estão os diretores?

Mercier não respondeu, e Remy, o secretário, ofereceu a informação de que os diretores estavam trancados no seu gabinete e que nada sabiam ainda do que tinha acontecido.

— Não me diga! Vamos até ao gabinete!

E M. Mifroid, seguido por uma multidão cada vez maior, virou-se para o lado administrativo do edifício. Mercier aproveitou a confusão para deslizar uma chave para a mão de Gabriel:

— Isto tudo vai muito mal — sussurrou ele. — É melhor deixar a Mãe Giry sair.

E Gabriel afastou-se.

Logo chegaram à porta dos diretores. Mercier bateu em vão: a porta permaneceu fechada.

— Abram em nome da lei! — ordenou M. Mifroid, com uma voz alta e algo ansiosa.

Finalmente, a porta foi aberta. Todos entraram apressadamente no gabinete, no encalço do comissário.

Raoul foi o último a entrar. Quando estava prestes a seguir os outros para a sala, uma mão pousou no seu ombro e ele ouviu estas palavras ditas ao seu ouvido:

— OS SEGREDOS DE ERIK DIZEM RESPEITO APENAS A ELE PRÓPRIO!

Ele virou-se, com uma exclamação sufocada. A mão que estava pousada no seu ombro estava agora sobre os lábios de uma pessoa com a pele cor de ébano, com olhos de jade e um gorro de astracã na cabeça: o Persa! O estranho manteve o gesto que recomendava discrição e depois, no momento em que o visconde, atónito, estava prestes a perguntar a razão da sua misteriosa intervenção, fez uma vénia e desapareceu.

Capítulo XVI As Espantosas Revelações da Sra. Giry sobre as Suas Relações Pessoais com o Fantasma da Ópera

Antes de seguir o comissário para o gabinete do diretor, devo descrever certos acontecimentos extraordinários que tiveram lugar nesse gabinete, ao qual Remy e Mercier tinham tentado entrar em vão e no qual os Srs. Richard e Moncharmin se tinham trancado com um objetivo que o leitor ainda não conhece, mas que é meu dever, como historiador, revelar sem mais demoras.

Tive ocasião de dizer que o estado de espírito dos diretores tinha sofrido uma mudança desagradável há algum tempo e de transmitir o facto de que essa mudança se devia não apenas à queda do lustre na famosa noite do espetáculo de gala.

O leitor deve saber que o fantasma tinha recebido calmamente os seus primeiros vinte mil francos. Oh, houve lamentos e ranger de dentes, certamente! E, no entanto, a coisa tinha acontecido da forma mais simples possível.

Uma manhã, os diretores encontraram sobre a sua mesa um envelope endereçado a "Monsieur O. G. (particular)" e acompanhado por um bilhete do próprio O. G.:

Chegou a hora de cumprir a cláusula do livro de memórias. Por favor, coloque vinte notas de mil francos cada neste envelope, sele-o com o seu próprio selo e entregue-o à Sra. Giry, que fará o necessário.

Os diretores não hesitaram; sem perder tempo a perguntar como é que estas comunicações malditas chegavam a um gabinete que eles tinham o cuidado de manter trancado, aproveitaram esta oportunidade para pôr as mãos no misterioso chantagista. E, depois de contarem toda a história, sob promessa de segredo, a Gabriel e Mercier, colocaram os vinte mil francos no envelope e, sem pedir explicações, entregaram-no à Sra. Giry, que tinha sido reintegrada nas suas funções. A bilheteira não demonstrou qualquer espanto. Não preciso dizer que ela foi bem vigiada. Ela foi direto ao camarote do fantasma e colocou o precioso envelope na pequena prateleira fixada na borda. Os dois diretores, bem como Gabriel e Mercier, estavam escondidos de forma a não perderem o envelope de vista nem por um segundo durante o espetáculo e até mesmo depois, pois, como o envelope não se tinha movido, aqueles que o vigiavam também não se moveram; e a Sra. Giry foi-se embora enquanto os diretores, Gabriel e Mercier ainda lá estavam. Finalmente, cansaram-se de esperar e abriram o envelope, depois de verificarem que os selos não tinham sido rompidos.

À primeira vista, Richard e Moncharmin pensaram que as notas ainda lá estavam; mas logo perceberam que não eram as mesmas. As vinte notas verdadeiras tinham desaparecido e tinham sido substituídas por vinte notas do "Banco de St. Farce"!

A raiva e o pavor dos diretores eram inconfundíveis. Moncharmin queria chamar o comissário de polícia, mas Richard opôs-se. Ele sem dúvida tinha um plano, pois disse:

— Não nos tornemos ridículos! Toda a Paris rir-se-ia de nós. O. G. ganhou o primeiro jogo: nós ganharemos o segundo.

Ele estava a pensar na mesada do mês seguinte.

No entanto, tinham sido tão absolutamente enganados que estavam condenados a sofrer um certo abatimento. E, por minha honra, não era difícil de entender. Não devemos esquecer que os diretores tinham a ideia, no fundo das suas mentes, durante todo o tempo, de que este estranho incidente poderia ser uma partida de mau gosto por parte dos seus predecessores e que não seria bom divulgá-lo prematuramente. Por outro lado, Moncharmin era por vezes perturbado por uma suspeita sobre o próprio Richard, que ocasionalmente tinha caprichos fantasiosos. E assim contentaram-se em esperar pelos acontecimentos, enquanto vigiavam a Mãe Giry. Richard não queria que se falasse com ela.

— Se ela é uma cúmplice — disse ele — as notas já desapareceram há muito tempo. Mas, na minha opinião, ela é apenas uma idiota.

— Ela não é a única idiota neste negócio — disse Moncharmin, pensativo.

— Bem, quem poderia ter pensado nisso? — lamentou Richard. — Mas não tenhas medo... da próxima vez, terei tomado as minhas precauções.

A próxima vez coincidiu com o mesmo dia que viu o desaparecimento de Christine Daaé. De manhã, um bilhete do fantasma lembrou-lhes que o dinheiro era devido. Dizia:

Faça exatamente como fez da última vez. Correu muito bem. Coloque os vinte mil no envelope e entregue-o à nossa excelente Sra. Giry.

E o bilhete vinha acompanhado pelo envelope habitual. Só tinham de inserir as notas.

Isto foi feito cerca de meia hora antes de o pano subir para o primeiro ato de Fausto. Richard mostrou o envelope a Moncharmin. Depois, contou as vinte notas de mil francos diante dele e colocou-as no envelope, mas sem o fechar.

— E agora — disse ele — vamos chamar a Mãe Giry.

A velha foi chamada. Entrou com uma cortesia efusiva. Ainda usava o seu vestido de tafetá preto, cuja cor estava a tornar-se rapidamente cor de ferrugem e lilás, para não mencionar o chapéu desbotado. Parecia estar de bom humor. Disse logo:

— Boa noite, senhores! É pelo envelope, suponho?

— Sim, Sra. Giry — disse Richard, da forma mais amável. — Pelo envelope... e por algo mais.

— Ao seu dispor, M. Richard, ao seu dispor. E o que seria esse algo mais, por favor?

— Primeiro de tudo, Sra. Giry, tenho uma pequena pergunta a fazer-lhe.

— Com certeza, M. Richard: a Sra. Giry está aqui para lhe responder.

— Continua em bons termos com o fantasma?

— Não poderia estar melhor, senhor; não poderia estar melhor.

— Ah, estamos encantados... Veja aqui, Sra. Giry — disse Richard, no tom de quem faz uma confidência importante. — Podemos muito bem dizer-lhe, entre nós... não é parva nenhuma!

— Ora, senhor — exclamou a bilheteira, parando o aceno agradável das penas pretas no seu chapéu desbotado —, garanto-lhe que ninguém nunca duvidou disso!

— Estamos perfeitamente de acordo e logo nos entenderemos. A história do fantasma é toda uma patranha, não é? ... Bem, ainda entre nós... já durou tempo demais.

A Sra. Giry olhou para os diretores como se estivessem a falar chinês. Aproximou-se da mesa de Richard e perguntou, algo ansiosa:

— O que quer dizer? Não entendo.

— Oh, a senhora entende muito bem. Em qualquer caso, tem de entender... E, primeiro de tudo, diga-nos o nome dele.

— O nome de quem?

— O nome do homem de quem é cúmplice, Sra. Giry!

— Eu sou cúmplice do fantasma? Eu? ... Cúmplice dele em quê, rogo-lhe?

— Faz tudo o que ele quer.

— Oh! Ele não é muito incómodo, sabe.

— E ele ainda lhe dá gorjetas?

— Não me posso queixar.

— Quanto é que ele lhe dá por lhe levar esse envelope?

— Dez francos.

— Coitadinha! Isso não é muito, pois não?

— Porquê?

— Já lhe direi isso daqui a pouco, Sra. Giry. Por agora, gostaríamos de saber por que razão extraordinária se entregou, de corpo e alma, a este fantasma... A amizade e a devoção da Sra. Giry não se compram por cinco ou dez francos.

— Isso é bem verdade... E posso dizer-lhe a razão, senhor. Não há desonra nisso... pelo contrário.

— Temos a certeza disso, Sra. Giry!

— Bem, é assim... só que o fantasma não gosta que eu fale dos seus negócios.

— A sério? — zombou Richard.

— Mas este é um assunto que diz respeito apenas a mim... Bem, foi no Camarote Cinco, uma noite, encontrei uma carta dirigida a mim, uma espécie de bilhete escrito com tinta vermelha. Não preciso de ler a carta ao senhor; sei-a de cor, e nunca a esquecerei se viver até aos cem anos!

E a Sra. Giry, recompondo-se, recitou a carta com uma eloquência tocante:

MADAME:

1825. Mlle. Menetrier, primeira bailarina, tornou-se Marquesa de Cussy.

1832. Mlle. Marie Taglioni, uma dançarina, tornou-se Condessa Gilbert des Voisins.

1846. La Sota, uma dançarina, casou-se com um irmão do Rei de Espanha.

1847. Lola Montes, uma dançarina, tornou-se a esposa morganática do Rei Luís da Baviera e foi feita Condessa de Landsfeld.

1848. Mlle. Maria, uma dançarina, tornou-se Baronesa d'Herneville.

1870. Theresa Hessier, uma dançarina, casou-se com D. Fernando, irmão do Rei de Portugal.

Richard e Moncharmin ouviram a velha, que, à medida que prosseguia com a enumeração destes casamentos gloriosos, se inchava, ganhava coragem e, finalmente, com uma voz cheia de orgulho, lançou a última frase da carta profética:

1885. Meg Giry, Imperatriz!

Exausta por este esforço supremo, a bilheteira caiu numa cadeira, dizendo:

— Senhores, a carta estava assinada, "Fantasma da Ópera". Eu tinha ouvido falar muito do fantasma, mas só acreditava nele pela metade. Desde o dia em que ele declarou que a minha pequena Meg, a carne da minha carne, o fruto do meu ventre, seria imperatriz, acreditei nele totalmente.

E, na verdade, não era necessário fazer um longo estudo das feições excitadas da Sra. Giry para entender o que se podia obter daquela mente fina com as duas palavras "fantasma" e "imperatriz".

Mas quem puxava os cordelinhos daquela marioneta extraordinária? Essa era a questão.

— Nunca o viu; ele fala consigo e a senhora acredita em tudo o que ele diz? — perguntou Moncharmin.

— Sim. Para começar, devo-lhe o facto de a minha pequena Meg ter sido promovida a primeira bailarina. Eu disse ao fantasma: "Se ela há de ser imperatriz em 1885, não há tempo a perder; ela tem de se tornar primeira bailarina imediatamente." Ele disse: "Considere feito." E ele só teve uma palavra a dizer a M. Poligny e a coisa foi feita.

— Então vê que M. Poligny viu-o!

— Não, não mais do que eu; mas ouviu-o. O fantasma disse uma palavra ao ouvido dele, sabe, na noite em que ele saiu do Camarote Cinco, parecendo tão terrivelmente pálido.

Moncharmin soltou um suspiro. — Que negócio! — gemeu ele.

— Ah! — disse a Sra. Giry. — Sempre pensei que houvesse segredos entre o fantasma e M. Poligny. Tudo o que o fantasma pedia a M. Poligny para fazer, M. Poligny fazia. M. Poligny não conseguia recusar nada ao fantasma.

— Ouves, Richard: Poligny não conseguia recusar nada ao fantasma.

— Sim, sim, ouço! — disse Richard. — M. Poligny é amigo do fantasma; e, como a Sra. Giry é amiga de M. Poligny, pronto! ... Mas não me interessa nada M. Poligny — acrescentou ele bruscamente. — A única pessoa cujo destino realmente me interessa é a Sra. Giry... Sra. Giry, sabe o que está neste envelope?

— Ora, claro que não — disse ela.

— Bem, veja.

A Sra. Giry olhou para dentro do envelope com um olhar baço, que logo recuperou o seu brilho.

— Notas de mil francos! — exclamou ela.

— Sim, Sra. Giry, notas de mil francos! E a senhora sabia!

— Eu, senhor? Eu? ... Juro...

— Não jure, Sra. Giry! ... E agora vou-lhe dizer a segunda razão pela qual a chamei. Sra. Giry, vou mandar prendê-la.

As duas penas pretas no chapéu desbotado, que geralmente afetavam a atitude de dois pontos de interrogação, transformaram-se em dois pontos de exclamação; quanto ao chapéu em si, oscilou ameaçadoramente sobre o coque tempestuoso da velha senhora. Surpresa, indignação, protesto e consternação foram ainda exibidos pela mãe da pequena Meg num tipo de movimento extravagante de virtude ofendida, meio salto, meio deslize, que a trouxe mesmo para baixo do nariz de M. Richard, que não pôde evitar recuar a sua cadeira.

— MANDAR PRENDER-ME!

A boca que disse estas palavras parecia cuspir os três dentes que lhe restavam na cara de Richard.

M. Richard comportou-se como um herói. Não recuou mais. O seu dedo indicador ameaçador parecia já estar a apontar a bilheteira do Camarote Cinco para os magistrados ausentes.

— Vou mandar prendê-la, Sra. Giry, como ladra!

— Diga isso outra vez!

E a Sra. Giry deu ao Sr. Diretor Richard uma bofetada valente, antes que o Sr. Diretor Moncharmin tivesse tempo de intervir. Mas não foi a mão murcha da velha zangada que caiu sobre a orelha diretorial, mas o próprio envelope, a causa de todo o problema, o envelope mágico que se abriu com o golpe, espalhando as notas de banco, que escaparam num redemoinho fantástico de borboletas gigantes.

Os dois diretores soltaram um grito, e o mesmo pensamento fez com que ambos se pusessem de joelhos, freneticamente, apanhando e examinando apressadamente os preciosos pedaços de papel.

— Ainda são genuínas, Moncharmin?

— Ainda são genuínas, Richard?

— Sim, ainda são genuínas!

Acima das suas cabeças, os três dentes da Sra. Giry chocavam num concurso ruidoso, cheio de interjeições horríveis. Mas tudo o que se podia distinguir claramente era este LEIT-MOTIV:

— Eu, uma ladra! ... Eu, uma ladra, eu?

Ela engasgava-se de raiva. Gritou:

— Nunca ouvi tal coisa!

E, de repente, lançou-se novamente para cima de Richard.

— Em qualquer caso — gritou ela —, o senhor, M. Richard, deveria saber melhor do que eu para onde foram os vinte mil francos!

— Eu? — perguntou Richard, atónito. — E como é que eu haveria de saber?

Moncharmin, parecendo severo e insatisfeito, insistiu imediatamente que a boa senhora se explicasse.

— O que significa isto, Sra. Giry? — perguntou ele. — E por que diz que M. Richard deveria saber melhor do que a senhora para onde foram os vinte mil francos?

Quanto a Richard, que sentia a si próprio a ficar vermelho sob o olhar de Moncharmin, segurou a Sra. Giry pelo pulso e sacudiu-o violentamente. Com uma voz que rosnava e rolava como um trovão, rugiu:

— Por que haveria eu de saber melhor do que tu para onde foram os vinte mil francos? Porquê? Responde-me!

— Porque eles foram para o seu bolso! — ofegou a velha, olhando para ele como se fosse o diabo encarnado.

Richard ter-se-ia lançado sobre a Sra. Giry, se Moncharmin não tivesse detido a sua mão vingadora e se apressado a perguntar-lhe, mais gentilmente:

— Como pode suspeitar do meu sócio, M. Richard, de pôr vinte mil francos no bolso?

— Nunca disse isso — declarou a Sra. Giry —, vendo que fui eu própria quem pôs os vinte mil francos no bolso de M. Richard. E acrescentou, em voz baixa: — Pronto! Está dito! ... E que o fantasma me perdoe!

Richard começou a bramir novamente, mas Moncharmin ordenou-lhe autoritariamente que se calasse.

— Permita-me! Permita-me! Deixe a mulher explicar-se. Deixe-me interrogá-la. — E acrescentou: — É realmente espantoso que tome um tom desses! ... Estamos prestes a esclarecer todo o mistério. E está furioso! ... Está errado em comportar-se assim... Estou a divertir-me imensamente.

A Sra. Giry, como a mártir que era, levantou a cabeça, o rosto a brilhar com fé na sua própria inocência.

— Dizem-me que havia vinte mil francos no envelope que pus no bolso de M. Richard; mas digo-lhes novamente que não sabia de nada... Nem M. Richard também, por sinal!

— Aha! — disse Richard, assumindo subitamente um ar presunçoso que Moncharmin não gostou. — Não sabia de nada também! Pôs vinte mil francos no meu bolso e eu não sabia de nada também! Estou muito contente por ouvir isso, Sra. Giry!

— Sim — concordou a terrível dama —, sim, é verdade. Nenhum de nós sabia de nada. Mas o senhor, o senhor deve ter acabado por descobrir!

Richard certamente teria engolido a Sra. Giry viva, se Moncharmin não estivesse lá! Mas Moncharmin protegeu-a. Retomou as suas perguntas:

— Que tipo de envelope é que a senhora pôs no bolso de M. Richard? Não era aquele que lhe demos, aquele que a senhora levou ao Camarote Cinco diante dos nossos olhos; e, no entanto, era esse que continha os vinte mil francos.

— Peço perdão. O envelope que M. le Directeur me deu foi o que eu deslizei para o bolso de M. le Directeur — explicou a Sra. Giry. — O que levei para o camarote do fantasma foi outro envelope, igualzinho, que o fantasma me deu de antemão e que escondi na manga.

Dito isto, a Sra. Giry tirou da manga um envelope preparado e endereçado de forma semelhante àquele que continha os vinte mil francos. Os diretores tiraram-no das suas mãos. Examinaram-no e viram que estava fechado com selos estampados com o seu próprio selo diretorial. Abriram-no. Continha vinte notas do Banco de St. Farce, como aquelas que tanto os tinham espantado no mês anterior.

— Que simples! — disse Richard.

— Que simples! — repetiu Moncharmin. E continuou com os olhos fixos na Sra. Giry, como se tentasse hipnotizá-la.

— Então foi o fantasma que lhe deu este envelope e lhe disse para o substituir por aquele que nós lhe demos? E foi o fantasma que lhe disse para pôr o outro no bolso de M. Richard?

— Sim, foi o fantasma.

— Então, importa-se de nos dar uma amostra dos seus pequenos talentos? Aqui está o envelope. Aja como se não soubéssemos de nada.

— Como queiram, senhores.

A Sra. Giry pegou no envelope com as vinte notas dentro e dirigiu-se à porta. Estava prestes a sair quando os dois diretores correram para ela:

— Oh, não! Oh, não! Não vamos ser "enganados" uma segunda vez! Gato escaldado tem medo de água fria!

— Peço perdão, senhores — disse a velha, em sua defesa —, disseram-me para agir como se não soubessem de nada... Bem, se não soubessem de nada, eu iria embora com o vosso envelope!

— E então, como é que você o colocaria no meu bolso? — argumentou Richard, a quem Moncharmin fixou com o olho esquerdo, enquanto mantinha o direito na Sra. Giry: um procedimento suscetível de esforçar a sua vista, mas Moncharmin estava disposto a ir a qualquer extremo para descobrir a verdade.

— Eu devo colocá-lo no seu bolso quando o senhor menos esperar, monsieur. O senhor sabe que eu sempre dou uma voltinha pelos bastidores, no decorrer da noite, e costumo ir com a minha filha ao foyer do balé, o que tenho o direito de fazer, como mãe dela; levo-lhe as sapatilhas quando o balé está prestes a começar... na verdade, entro e saio como quero... Os assinantes também entram e saem... O senhor também, monsieur... Há muita gente por perto... Eu passo atrás do senhor e deslizo o envelope para o bolso traseiro da sua casaca... Não há feitiçaria nenhuma nisso!

— Nenhuma feitiçaria! — rosnou Richard, revirando os olhos como Júpiter Tonante. — Nenhuma feitiçaria! Ora, acabei de apanhá-la numa mentira, sua velha bruxa!

A Sra. Giry eriçou-se, com os seus três dentes a sobressaírem da boca.

— E por que razão, se me permite perguntar?

— Porque passei aquela noite a vigiar o Camarote Cinco e o envelope falso que lá colocou. Não fui ao foyer do balé nem por um segundo.

— Não, senhor, e eu não lhe dei o envelope naquela noite, mas sim na apresentação seguinte... na noite em que o subsecretário de Estado das Belas-Artes...

A estas palavras, o Sr. Richard interrompeu subitamente a Sra. Giry:

— Sim, é verdade, lembro-me agora! O subsecretário foi aos bastidores. Perguntou por mim. Desci ao foyer do balé por um momento. Estava nos degraus do foyer... O subsecretário e o seu secretário-chefe estavam no próprio foyer. De repente, virei-me... a senhora tinha passado por trás de mim, Sra. Giry... Pareceu esbarrar comigo... Oh, ainda a vejo, ainda a vejo!

— Sim, é isso mesmo, monsieur, é isso mesmo. Eu tinha acabado de terminar o meu pequeno negócio. Esse seu bolso, monsieur, é muito prático!

E a Sra. Giry, mais uma vez, fez acompanhar a ação pelas palavras. Passou por trás do Sr. Richard e, tão agilmente que o próprio Moncharmin ficou impressionado, deslizou o envelope para o bolso de uma das abas da casaca do Sr. Richard.

— Naturalmente! — exclamou Richard, parecendo um pouco pálido. — É muito inteligente da parte de O.G. O problema que ele tinha de resolver era este: como eliminar qualquer intermediário perigoso entre o homem que dá os vinte mil francos e o homem que os recebe. E, de longe, a melhor coisa que ele pôde imaginar foi vir buscar o dinheiro ao meu bolso sem que eu o notasse, já que eu mesmo não sabia que ele lá estava. É maravilhoso!

— Oh, maravilhoso, sem dúvida! — concordou Moncharmin. — Só que o senhor esquece, Richard, que eu forneci dez mil francos dos vinte e que ninguém pôs nada no meu bolso!

[1] Notas falsas emitidas pelo "Banco de St. Farce" na França correspondem àquelas emitidas pelo "Banco de Gravação" na Inglaterra. — Nota do Tradutor.

Capítulo XVII O Alfinete de Ama Novamente

A última frase de Moncharmin expressava tão claramente a suspeita que ele agora nutria pelo seu sócio que isso tinha de causar uma explicação tempestuosa, ao fim da qual ficou acordado que Richard cederia a todos os desejos de Moncharmin, com o objetivo de ajudá-lo a descobrir o malfeitor que os estava a vitimar.

Isto leva-nos ao intervalo após o Ato do Jardim, com o estranho comportamento observado pelo Sr. Remy e aqueles curiosos lapsos da dignidade que se poderia esperar dos diretores. Ficou combinado entre Richard e Moncharmin, primeiro, que Richard repetiria os movimentos exatos que tinha feito na noite do desaparecimento dos primeiros vinte mil francos; e, segundo, que Moncharmin não perderia de vista, por um instante que fosse, o bolso da casaca de Richard, no qual a Sra. Giry deveria deslizar os vinte mil francos.

O Sr. Richard foi colocar-se no local idêntico onde estivera quando se curvou perante o subsecretário das Belas-Artes. O Sr. Moncharmin tomou a sua posição a poucos passos atrás dele.

A Sra. Giry passou, roçou pelo Sr. Richard, livrou-se dos seus vinte mil francos no bolso da casaca do diretor e desapareceu... Ou melhor, foi conjurada. De acordo com as instruções recebidas de Moncharmin alguns minutos antes, Mercier levou a boa senhora para o escritório do diretor administrativo e trancou-a à chave, tornando assim impossível que ela comunicasse com o seu fantasma.

Enquanto isso, o Sr. Richard dobrava-se, curvava-se e fazia mesuras e caminhava de costas, exatamente como se tivesse aquele alto e poderoso ministro, o subsecretário de Estado das Belas-Artes, diante de si. Apenas, embora estas marcas de polidez não tivessem causado qualquer espanto se o subsecretário de Estado estivesse realmente à frente do Sr. Richard, causaram um espanto facilmente compreensível aos espectadores desta cena muito natural, mas completamente inexplicável, quando o Sr. Richard não tinha ninguém à sua frente.

O Sr. Richard curvava-se... para ninguém; dobrava as costas... perante ninguém; e caminhava de costas... perante ninguém... E, alguns passos atrás dele, o Sr. Moncharmin fazia a mesma coisa, além de afastar o Sr. Remy e implorar ao Sr. de La Borderie, o embaixador, e ao gerente do Crédit Central para "não tocarem no Sr. Diretor".

Moncharmin, que tinha as suas próprias ideias, não queria que Richard viesse ter com ele mais tarde, quando os vinte mil francos tivessem desaparecido, e dissesse:

"Talvez tenha sido o embaixador... ou o gerente do Crédit Central... ou o Remy."

Tanto mais que, na altura da primeira cena, como o próprio Richard admitiu, Richard não tinha encontrado ninguém naquela parte do teatro depois de a Sra. Giry ter roçado por ele...

Tendo começado por caminhar de costas para se curvar, Richard continuou a fazê-lo por prudência, até chegar à passagem que conduzia aos escritórios da administração. Desta forma, ele era constantemente vigiado por Moncharmin por trás e ele próprio vigiava qualquer pessoa que se aproximasse pela frente. Mais uma vez, este método inovador de caminhar nos bastidores, adotado pelos diretores da nossa Academia Nacional de Música, atraiu a atenção; mas os próprios diretores não pensavam em nada a não ser nos seus vinte mil francos.

Ao chegar à passagem na penumbra, Richard disse a Moncharmin, em voz baixa:

"Tenho a certeza de que ninguém me tocou... É melhor que o senhor mantenha alguma distância de mim e me vigie até eu chegar à porta do escritório: é melhor não levantar suspeitas e podemos ver tudo o que acontecer."

Mas Moncharmin respondeu: "Não, Richard, não! O senhor vai à frente e eu caminharei imediatamente atrás de si! Não o deixarei nem por um passo!"

"Mas, nesse caso," exclamou Richard, "eles nunca roubarão os nossos vinte mil francos!"

"Espero bem que não!" declarou Moncharmin.

"Então o que estamos a fazer é absurdo!"

"Estamos a fazer exatamente o que fizemos da última vez... Da última vez, juntei-me ao senhor quando estava a sair do palco e segui-o de perto por esta passagem."

"É verdade!" suspirou Richard, abanando a cabeça e obedecendo passivamente a Moncharmin.

Dois minutos depois, os diretores conjuntos trancaram-se no seu escritório. O próprio Moncharmin pôs a chave no bolso:

"Permanecemos trancados assim, da última vez," disse ele, "até o senhor sair da Ópera para ir para casa."

"É verdade. Ninguém veio incomodar-nos, suponho?"

"Ninguém."

"Então," disse Richard, que tentava recuperar a memória, "então devo certamente ter sido roubado no meu caminho de casa da Ópera."

"Não," disse Moncharmin num tom mais seco do que nunca, "não, isso é impossível. Pois deixei-o no meu coche. Os vinte mil francos desapareceram na sua casa: não há a menor sombra de dúvida sobre isso."

"É incrível!" protestou Richard. "Estou certo dos meus empregados... e se um deles o tivesse feito, teria desaparecido desde então."

Moncharmin encolheu os ombros, como se quisesse dizer que não desejava entrar em detalhes, e Richard começou a pensar que Moncharmin o estava a tratar de uma forma muito insuportável.

"Moncharmin, já me chega disto!"

"Richard, eu já tive demais!"

"O senhor atreve-se a suspeitar de mim?"

"Sim, de uma partida estúpida."

"Não se brinca com vinte mil francos."

"É o que eu penso," declarou Moncharmin, desdobrando um jornal e estudando ostensivamente o seu conteúdo.

"O que está a fazer?" perguntou Richard. "Vai ler o jornal agora?"

"Sim, Richard, até o levar a casa."

"Como da última vez?"

"Sim, como da última vez."

Richard arrancou o jornal das mãos de Moncharmin. Moncharmin levantou-se, mais irritado do que nunca, e viu-se diante de um Richard exasperado que, cruzando os braços sobre o peito, disse:

"Olhe aqui, estou a pensar nisto, ESTOU A PENSAR NO QUE EU PODERIA PENSAR se, como da última vez, depois de eu passar a noite a sós consigo, o senhor me levasse para casa e se, no momento da despedida, eu percebesse que vinte mil francos tinham desaparecido do bolso da minha casaca... como da última vez."

"E o que poderia o senhor pensar?" perguntou Moncharmin, vermelho de raiva.

"Poderia pensar que, como não se afastou de mim um palmo e como, por seu próprio desejo, foi o único a aproximar-se de mim, como da última vez, poderia pensar que, se esses vinte mil francos já não estavam no meu bolso, tinham uma grande probabilidade de estar no seu!"

Moncharmin saltou com a sugestão.

"Oh!" gritou ele. "Um alfinete de ama!"

"Para que quer um alfinete de ama?"

"Para o prender! ... Um alfinete de ama! ... Um alfinete de ama!"

"O senhor quer prender-me com um alfinete de ama?"

"Sim, para o prender aos vinte mil francos! Então, quer seja aqui, ou no trajeto daqui para a sua casa, ou na sua casa, o senhor sentirá a mão que puxa o seu bolso e verá se é a minha! Oh, então o senhor está a suspeitar de mim agora, é? Um alfinete de ama!"

E foi nesse momento que Moncharmin abriu a porta para a passagem e gritou:

"Um alfinete de ama! ... alguém que me dê um alfinete de ama!"

E sabemos também como, no mesmo momento, Remy, que não tinha alfinete de ama, foi recebido por Moncharmin, enquanto um rapaz arranjava o alfinete tão ansiosamente desejado. E o que aconteceu foi isto: Moncharmin voltou a trancar a porta. Depois, ajoelhou-se atrás das costas de Richard.

"Espero," disse ele, "que as notas ainda estejam lá?"

"Eu também," disse Richard.

"As verdadeiras?" perguntou Moncharmin, decidido a não ser "enganado" desta vez.

"Veja por si mesmo," disse Richard. "Recuso-me a tocar nelas."

Moncharmin tirou o envelope do bolso de Richard e retirou as notas com a mão trémula, pois, desta vez, para verificar frequentemente a presença das notas, não tinha selado o envelope nem sequer o tinha fechado. Sentiu-se tranquilizado ao descobrir que estavam todas lá e eram genuínas. Pôs-las de volta no bolso da aba e prendeu-as com muito cuidado. Depois, sentou-se atrás das abas da casaca de Richard e manteve os olhos fixos nelas, enquanto Richard, sentado à sua secretária, não se mexia.

"Um pouco de paciência, Richard," disse Moncharmin. "Temos apenas alguns minutos para esperar... O relógio logo dará doze badaladas. Da última vez, saímos à última badalada das doze."

"Oh, terei toda a paciência necessária!"

O tempo passou, lento, pesado, misterioso, sufocante. Richard tentou rir.

"Acabarei por acreditar na omnipotência do fantasma," disse ele. "Agora, não acha algo desconfortável, inquietante, alarmante na atmosfera desta sala?"

"O senhor tem toda a razão," disse Moncharmin, que estava realmente impressionado.

"O fantasma!" continuou Richard, em voz baixa, como se temesse ser ouvido por ouvidos invisíveis. "O fantasma! Suponhamos, ainda assim, que fosse um fantasma que coloca os envelopes mágicos sobre a mesa... que fala no Camarote Cinco... que matou Joseph Buquet... que desengatou o lustre... e que nos rouba! Pois, afinal, afinal, afinal, não há ninguém aqui a não ser o senhor e eu, e, se as notas desaparecem e nem o senhor nem eu temos nada a ver com isso, bem, teremos de acreditar no fantasma... no fantasma."

Nesse momento, o relógio sobre a lareira deu o seu clique de aviso e soou a primeira badalada das doze.

Os dois diretores estremeceram. O suor escorria-lhes da testa. A décima segunda badalada soou estranhamente aos seus ouvidos.

Quando o relógio parou, deram um suspiro e levantaram-se das cadeiras.

"Acho que podemos ir agora," disse Moncharmin.

"Acho que sim," concordou Richard.

"Antes de irmos, importa-se que eu veja o seu bolso?"

"Mas, claro, Moncharmin, O SENHOR TEM DE O FAZER! ... Bem?" perguntou ele, enquanto Moncharmin tateava o bolso.

"Bem, consigo sentir o alfinete."

"Claro, como o senhor disse, não podemos ser roubados sem notar."

Mas Moncharmin, cujas mãos ainda tateavam, berrou:

"Consigo sentir o alfinete, mas não consigo sentir as notas!"

"Vamos, sem brincadeiras, Moncharmin! ... Não é altura para isso."

"Bem, veja por si mesmo."

Richard arrancou a casaca. Os dois diretores viraram o bolso do avesso. O BOLSO ESTAVA VAZIO. E a coisa curiosa é que o alfinete permanecia, espetado no mesmo lugar.

Richard e Moncharmin empalideceram. Já não havia qualquer dúvida sobre a feitiçaria.

"O fantasma!" murmurou Moncharmin.

Mas Richard saltou subitamente sobre o seu sócio.

"Ninguém a não ser o senhor tocou no meu bolso! Devolva-me os meus vinte mil francos! ... Devolva-me os meus vinte mil francos! ..."

"Pela minha alma," suspirou Moncharmin, que estava pronto a desmaiar, "pela minha alma, juro que não os tenho!"

Então, alguém bateu à porta. Moncharmin abriu-a automaticamente, pareceu quase não reconhecer Mercier, o seu diretor administrativo, trocou algumas palavras com ele, sem saber o que estava a dizer e, com um movimento inconsciente, pôs o alfinete de ama, para o qual já não tinha uso, nas mãos do seu subordinado perplexo...

Capítulo XVIII O Comissário, O Visconde e o Persa

As primeiras palavras do comissário de polícia, ao entrar no escritório dos diretores, foram para perguntar pela prima donna desaparecida.

"A Christine Daae está aqui?"

"A Christine Daae aqui?" repetiu Richard. "Não. Porquê?"

Quanto a Moncharmin, não tinha forças para articular uma palavra.

Richard repetiu, pois o comissário e a multidão compacta que o seguira até ao escritório observavam um silêncio impressionante.

"Por que pergunta se a Christine Daae está aqui, SR. COMISSÁRIO?"

"Porque ela tem de ser encontrada," declarou o comissário de polícia solenemente.

"O que quer dizer com ela tem de ser encontrada? Ela desapareceu?"

"A meio da apresentação!"

"A meio da apresentação? Isto é extraordinário!"

"Não é? E o que é igualmente extraordinário é que o senhor saiba disso primeiro por mim!"

"Sim," disse Richard, levando a cabeça às mãos e murmurando. "Que novo negócio é este? Oh, é o suficiente para um homem apresentar a sua demissão!"

E arrancou alguns fios do seu bigode sem sequer saber o que estava a fazer.

"Então ela... então ela desapareceu a meio da apresentação?" repetiu ele.

"Sim, ela foi levada no Ato da Prisão, no momento em que invocava a ajuda dos anjos; mas duvido que tenha sido levada por um anjo."

"E eu tenho a certeza de que foi!"

Todos olharam à volta. Um jovem, pálido e a tremer de excitação, repetiu:

"Tenho a certeza disso!"

"Certeza de quê?" perguntou Mifroid.

"Que a Christine Daae foi levada por um anjo, SR. COMISSÁRIO, e posso dizer-lhe o seu nome."

"Aha, Sr. Visconde de Chagny! Então o senhor sustenta que a Christine Daae foi levada por um anjo: um anjo da Ópera, sem dúvida?"

"Sim, monsieur, por um anjo da Ópera; e dir-lhe-ei onde ele vive... quando estivermos a sós."

"O senhor tem razão, monsieur."

E o comissário de polícia, convidando Raoul a sentar-se, esvaziou a sala de todos os outros, exceto dos diretores.

Então Raoul falou:

"Sr. Comissário, o anjo chama-se Erik, ele vive na Ópera e ele é o Anjo da Música!"

"O Anjo da Música! A sério! Isso é muito curioso! ... O Anjo da Música!" E, virando-se para os diretores, o Sr. Mifroid perguntou: "Têm um Anjo da Música nas vossas instalações, senhores?"

Richard e Moncharmin abanaram a cabeça, sem sequer falar.

"Oh," disse o visconde, "estes senhores ouviram falar do fantasma da Ópera. Bem, estou em condições de afirmar que o fantasma da Ópera e o Anjo da Música são a mesma pessoa; e o seu verdadeiro nome é Erik."

O Sr. Mifroid levantou-se e olhou para Raoul atentamente.

"Peço perdão, monsieur, mas é a sua intenção troçar da lei? E, se não, o que é tudo isto sobre o fantasma da Ópera?"

"Digo que estes senhores ouviram falar dele."

"Senhores, parece que conhecem o fantasma da Ópera?"

Richard levantou-se, com os restantes fios do seu bigode na mão.

"Não, Sr. Comissário, não, nós não o conhecemos, mas desejávamos conhecê-lo, pois esta noite ele roubou-nos vinte mil francos!"

E Richard lançou um olhar terrível a Moncharmin, que parecia dizer:

"Devolve-me os vinte mil francos, ou contarei toda a história."

Moncharmin entendeu o que ele queria dizer, pois, com um gesto distraído, disse:

"Oh, conte tudo e acabe com isto!"

Quanto a Mifroid, olhou para os diretores e para Raoul alternadamente e perguntou-se se se tinha extraviado num manicómio. Passou a mão pelo cabelo.

"Um fantasma," disse ele, "que, na mesma noite, leva uma cantora de ópera e rouba vinte mil francos é um fantasma que deve ter as mãos muito ocupadas! Se não se importam, trataremos das perguntas por ordem. A cantora primeiro, os vinte mil francos depois. Vamos, Sr. de Chagny, tentemos falar seriamente. O senhor acredita que a Mlle. Christine Daae foi levada por um indivíduo chamado Erik. Conhece esta pessoa? Já a viu?"

"Sim."

"Onde?"

"Num cemitério."

O Sr. Mifroid deu um salto, começou a perscrutar Raoul novamente e disse:

"Claro! ... É onde os fantasmas costumam andar! ... E o que estava o senhor a fazer naquele cemitério?"

"Monsieur," disse Raoul, "compreendo perfeitamente como as minhas respostas lhe devem parecer absurdas. Mas peço-lhe que acredite que estou em pleno gozo das minhas faculdades. A segurança da pessoa que me é mais querida no mundo está em jogo. Gostaria de convencê-lo em poucas palavras, pois o tempo urge e cada minuto é valioso. Infelizmente, se eu não lhe contar a história mais estranha que jamais existiu desde o início, o senhor não acreditará em mim. Contar-lhe-ei tudo o que sei sobre o fantasma da Ópera, Sr. Comissário. Infelizmente, não sei muito! ..."

"Não importa, continue, continue!" exclamaram Richard e Moncharmin, subitamente muito interessados.

Infelizmente para as suas esperanças de aprender algum detalhe que os pudesse colocar no rasto do seu embusteiro, foram logo compelidos a aceitar o facto de que o Sr. Raoul de Chagny tinha perdido completamente o juízo. Toda aquela história sobre Perros-Guirec, caveiras e violinos encantados, só poderia ter nascido no cérebro desordenado de um jovem louco de amor. Era evidente, também, que o Sr. Comissário Mifroid partilhava a sua opinião; e o magistrado teria certamente interrompido a narrativa incoerente se as circunstâncias não se tivessem encarregado de a interromper.

A porta abriu-se e um homem entrou, curiosamente vestido com um enorme sobrecasaca e uma cartola, simultaneamente gasta e brilhante, que lhe chegava às orelhas. Aproximou-se do comissário e falou-lhe num sussurro. Era, sem dúvida, um detetive que vinha entregar uma comunicação importante.

Durante esta conversa, o Sr. Mifroid não tirou os olhos de Raoul. Finalmente, dirigindo-se a ele, disse:

"Monsieur, falámos o suficiente sobre o fantasma. Falaremos agora um pouco sobre si, se não tem objeção: o senhor ia levar a Mlle. Christine Daae esta noite?"

"Sim, Sr. Comissário."

"Após a apresentação?"

"Sim, Sr. Comissário."

"Todos os seus preparativos estavam feitos?"

"Sim, Sr. Comissário."

"O coche que o trouxe devia levar-vos a ambos... Havia cavalos frescos prontos em cada etapa..."

"É verdade, Sr. Comissário."

"E, no entanto, o seu coche ainda está lá fora na Rotunda à espera das suas ordens, não é?"

"Sim, Sr. Comissário."

"O senhor sabia que havia outros três coches lá, além do seu?"

"Não prestei a menor atenção."

"Eram os coches da Mlle. Sorelli, que não encontrou lugar no Cour de l'Administration; de Carlotta; e do seu irmão, M. le Comte de Chagny..."

"Muito provavelmente..."

"O que é certo é que, embora o seu coche, o da Sorelli e o da Carlotta ainda estejam lá, junto ao passeio da Rotunda, o coche de M. le Comte de Chagny desapareceu."

"Isto não tem nada a ver com..."

"Peço-lhe perdão. Não era M. le Comte contra o seu casamento com Mlle. Daae?"

"Isso é um assunto que só diz respeito à família."

"Respondeu à minha pergunta: ele era contra... e foi por isso que tirou Christine Daae do alcance do seu irmão... Bem, M. de Chagny, permita-me informar que o seu irmão foi mais esperto do que o senhor! Foi ele quem raptou Christine Daae!"

"Oh, impossível!" gemeu Raoul, pressionando a mão contra o coração. "Tem a certeza?"

"Imediatamente após o desaparecimento da artista, que foi obtido por meios que ainda temos de apurar, ele atirou-se para dentro do seu coche, que atravessou Paris a um ritmo furioso."

"Atravessou Paris?" perguntou o pobre Raoul, com voz rouca. "O que quer dizer com atravessar Paris?"

"Atravessar Paris e sair de Paris... pela estrada de Bruxelas."

"Oh," gritou o jovem, "vou alcançá-los!" E correu para fora do gabinete.

"E traga-a de volta para nós!" gritou o comissário alegremente... "Ah, esse é um truque que vale por dois do Anjo da Música!"

E, voltando-se para o seu público, M. Mifroid fez uma pequena palestra sobre métodos policiais.

"Não sei por um momento se M. le Comte de Chagny realmente raptou Christine Daae ou não... mas quero saber e acredito que, neste momento, ninguém está mais ansioso para nos informar do que o seu irmão... E agora ele está a voar em sua perseguição! Ele é o meu principal auxiliar! Isto, cavalheiros, é a arte da polícia, que se acredita ser tão complicada e que, no entanto, parece tão simples assim que se percebe que consiste em fazer o seu trabalho por pessoas que não têm nada a ver com a polícia."

Mas M. le Commissaire de Police Mifroid não estaria tão satisfeito consigo mesmo se soubesse que a corrida do seu rápido emissário foi travada na entrada do primeiro corredor. Uma figura alta bloqueou o caminho de Raoul.

"Aonde vai com tanta pressa, M. de Chagny?" perguntou uma voz.

Raoul ergueu os olhos impacientemente e reconheceu o gorro de astracã de uma hora atrás. Ele parou:

"É o senhor!" gritou ele, com voz febril. "O senhor, que conhece os segredos de Erik e não quer que eu fale deles. Quem é o senhor?"

"Sabe quem eu sou!... Eu sou o Persa!"

Capítulo XIX O Visconde e o Persa

Raoul lembrou-se agora de que o seu irmão lhe tinha mostrado uma vez aquela pessoa misteriosa, de quem nada se sabia, exceto que era persa e que vivia num pequeno apartamento antiquado na Rue de Rivoli.

O homem de pele cor de ébano, olhos de jade e gorro de astracã inclinou-se sobre Raoul.

"Espero, M. de Chagny," disse ele, "que não tenha traído o segredo de Erik?"

"E porque haveria de hesitar em trair esse monstro, senhor?" respondeu Raoul altivamente, tentando afastar o intruso. "É ele seu amigo, por acaso?"

"Espero que não tenha dito nada sobre Erik, senhor, porque o segredo de Erik é também o de Christine Daae e falar de um é falar do outro!"

"Oh, senhor," disse Raoul, tornando-se cada vez mais impaciente, "parece saber muitas coisas que me interessam; e, no entanto, não tenho tempo para o ouvir!"

"Mais uma vez, M. de Chagny, aonde vai com tanta pressa?"

"Não consegue adivinhar? Em auxílio de Christine Daae..."

"Então, senhor, fique aqui, pois Christine Daae está aqui!"

"Com Erik?"

"Com Erik."

"Como sabe?"

"Eu estava no espetáculo e ninguém no mundo, exceto Erik, conseguiria arquitetar um rapto como aquele!... Oh," disse ele, com um suspiro profundo, "reconheci o toque do monstro!..."

"Conhece-o, então?"

O Persa não respondeu, mas soltou um novo suspiro.

"Senhor," disse Raoul, "não sei quais são as suas intenções, mas pode fazer algo para me ajudar? Quero dizer, para ajudar Christine Daae?"

"Penso que sim, M. de Chagny, e é por isso que falei consigo."

"O que pode fazer?"

"Tentar levá-lo até ela... e até ele."

"Se me puder prestar esse serviço, senhor, a minha vida é sua!... Mais uma palavra: o comissário de polícia diz-me que Christine Daae foi raptada pelo meu irmão, o Conde Philippe."

"Oh, M. de Chagny, não acredito numa palavra disso."

"Não é possível, pois não?"

"Não sei se é possível ou não; mas há formas e formas de raptar pessoas; e M. le Comte Philippe nunca, que eu saiba, teve qualquer envolvimento com feitiçaria."

"Os seus argumentos são convincentes, senhor, e eu sou um tolo!... Oh, apressemo-nos! Entrego-me inteiramente nas suas mãos!... Como poderia não acreditar em si, quando é o único que acredita em mim... quando é o único que não sorri quando o nome de Erik é mencionado?"

E o jovem agarrou impetuosamente as mãos do Persa. Estavam frias como gelo.

"Silêncio!" disse o Persa, parando e escutando os sons distantes do teatro. "Não devemos mencionar esse nome aqui. Digamos 'ele' e 'dele'; então haverá menos perigo de atrair a sua atenção."

"Acha que ele está perto de nós?"

"É bem possível, senhor, se ele não estiver, neste momento, com a sua vítima, NA CASA DO LAGO."

"Ah, então também conhece essa casa?"

"Se ele não estiver lá, pode estar aqui, nesta parede, neste chão, neste teto!... Venha!"

E o Persa, pedindo a Raoul que abafasse o som dos seus passos, conduziu-o por passagens que Raoul nunca tinha visto antes, mesmo na época em que Christine o levava a passear por aquele labirinto.

"Se ao menos Darius tivesse vindo!" disse o Persa.

"Quem é Darius?"

"Darius? O meu criado."

Estavam agora no centro de uma verdadeira praça deserta, um apartamento imenso mal iluminado por um pequeno candeeiro. O Persa parou Raoul e, no sussurro mais suave, perguntou:

"O que disse ao comissário?"

"Disse que o raptor de Christine Daae era o Anjo da Música, vulgo o fantasma da Ópera, e que o nome verdadeiro era..."

"Cale-se!... E ele acreditou em si?"

"Não."

"Ele não deu importância ao que disse?"

"Não."

"Ele tomou-o por um pouco louco?"

"Sim."

"Tanto melhor!" suspirou o Persa.

E continuaram o seu caminho. Depois de subir e descer várias escadarias que Raoul nunca tinha visto antes, os dois homens encontraram-se em frente a uma porta que o Persa abriu com uma chave mestra. O Persa e Raoul estavam, claro, em trajes de gala; mas, enquanto Raoul usava cartola, o Persa usava o gorro de astracã que já mencionei. Era uma infração à regra que exige a cartola nos bastidores; mas em França os estrangeiros têm todas as licenças: o inglês o seu gorro de viagem, o persa o seu gorro de astracã.

"Senhor," disse o Persa, "a sua cartola vai atrapalhá-lo: faria bem em deixá-la no camarim."

"Que camarim?" perguntou Raoul.

"O de Christine Daae."

E o Persa, deixando Raoul passar pela porta que acabara de abrir, mostrou-lhe o quarto da atriz em frente. Estavam no fim do corredor que Raoul estava habituado a percorrer antes de bater à porta de Christine.

"Como conhece bem a Ópera, senhor!"

"Não tão bem como 'ele'!" disse o Persa modestamente.

E empurrou o jovem para o camarim de Christine, que estava como Raoul o tinha deixado poucos minutos antes.

Fechando a porta, o Persa foi até a uma divisória muito fina que separava o camarim de um grande depósito ao lado. Escutou e depois tossiu alto.

Ouviu-se o som de alguém a mexer-se no depósito; e, alguns segundos depois, um dedo bateu à porta.

"Entre," disse o Persa.

Um homem entrou, também usando um gorro de astracã e vestido com um sobretudo comprido. Ele inclinou-se e tirou um estojo ricamente esculpido debaixo do casaco, colocou-o na toucador, inclinou-se mais uma vez e foi até à porta.

"Ninguém o viu entrar, Darius?"

"Não, senhor."

"Não deixe que ninguém o veja sair."

O criado olhou pelo corredor e desapareceu rapidamente.

O Persa abriu o estojo. Continha um par de pistolas longas.

"Quando Christine Daae foi raptada, senhor, mandei avisar o meu criado para me trazer estas pistolas. Tenho-as há muito tempo e pode confiar nelas."

"Pretende travar um duelo?" perguntou o jovem.

"Será certamente um duelo que teremos de travar," disse o outro, examinando a escorva das suas pistolas. "E que duelo!" Entregando uma das pistolas a Raoul, acrescentou: "Neste duelo, seremos dois contra um; mas deve estar preparado para tudo, pois estaremos a combater o mais terrível adversário que possa imaginar. Mas ama Christine Daae, não ama?"

"Adoro o chão que ela pisa! Mas o senhor, que não a ama, diga-me por que o encontro pronto a arriscar a sua vida por ela! Deve certamente odiar Erik!"

"Não, senhor," disse o Persa tristemente, "eu não o odeio. Se eu o odiasse, ele há muito teria deixado de causar danos."

"Ele fez-lhe mal?"

"Perdoei-lhe o mal que ele me fez."

"Não o compreendo. Trata-o como um monstro, fala dos seus crimes, ele fez-lhe mal e encontro em si a mesma piedade inexplicável que me levou ao desespero quando a vi em Christine!"

O Persa não respondeu. Foi buscar um banco e colocou-o contra a parede, em frente ao grande espelho que preenchia todo o espaço da parede oposta. Depois subiu para o banco e, com o nariz encostado ao papel de parede, parecia estar à procura de alguma coisa.

"Ah," disse ele, após uma longa busca, "encontrei!" E, levantando o dedo acima da cabeça, pressionou contra um canto do padrão do papel. Depois voltou-se e saltou do banco:

"Em meio minuto," disse ele, "ele estará NO SEU CAMINHO!" e atravessando todo o camarim, apalpou o grande espelho.

"Não, ainda não cede," murmurou ele.

"Oh, vamos sair pelo espelho?" perguntou Raoul. "Como Christine Daae."

"Então sabia que Christine Daae saiu por esse espelho?"

"Ela fê-lo diante dos meus olhos, senhor! Eu estava escondido atrás da cortina do quarto interior e vi-a desaparecer não pelo vidro, mas dentro do vidro!"

"E o que fez?"

"Pensei que fosse uma aberração dos meus sentidos, um sonho louco."

"Ou algum novo capricho do fantasma!" riu o Persa. "Ah, M. de Chagny," continuou ele, ainda com a mão no espelho, "quem dera que tivéssemos de lidar com um fantasma! Poderíamos então deixar as nossas pistolas no estojo... Baixe o seu chapéu, por favor... ali... e agora cubra a sua camisa o máximo que puder com o seu casaco... como eu estou a fazer... Traga as abas para a frente... levante o colarinho... Devemos tornar-nos o mais invisíveis possível."

Apoiando-se contra o espelho, após um curto silêncio, disse:

"Leva algum tempo a libertar o contrapeso, quando se pressiona a mola pelo interior do quarto. É diferente quando se está atrás da parede e se pode agir diretamente sobre o contrapeso. Então o espelho vira-se imediatamente e move-se com uma rapidez incrível."

"Que contrapeso?" perguntou Raoul.

"Ora, o contrapeso que levanta toda esta parede sobre o seu pivô. Certamente não espera que ela se mova sozinha, por encantamento! Se observar, verá primeiro o espelho subir um ou dois centímetros e depois deslocar-se um ou dois centímetros da esquerda para a direita. Estará então sobre um pivô e girará."

"Não está a girar!" disse Raoul impacientemente.

"Oh, espere! Tem tempo suficiente para ser impaciente, senhor! O mecanismo obviamente ficou enferrujado, ou então a mola não está a funcionar... A menos que seja outra coisa," acrescentou o Persa, ansiosamente.

"O quê?"

"Ele pode simplesmente ter cortado o cabo do contrapeso e bloqueado todo o aparelho."

"Por que haveria de o fazer? Ele não sabe que estamos a vir por este caminho!"

"Atrevo-me a dizer que ele suspeita, pois sabe que eu entendo o sistema."

"Não está a girar!... E Christine, senhor, Christine?"

O Persa disse friamente:

"Faremos tudo o que for humanamente possível fazer!... Mas ele pode deter-nos ao primeiro passo!... Ele comanda as paredes, as portas e os alçapões. No meu país, ele era conhecido por um nome que significa o 'amante dos alçapões'."

"Mas por que estas paredes lhe obedecem apenas a ele? Ele não as construiu!"

"Sim, senhor, é exatamente isso que ele fez!"

Raoul olhou-o com espanto; mas o Persa fez-lhe sinal para ficar em silêncio e apontou para o vidro... Havia uma espécie de reflexo trémulo. A imagem deles estava perturbada como numa folha de água ondulante e depois tudo tornou a ficar imóvel.

"Vê, senhor, que não está a girar! Vamos tomar outro caminho!"

"Esta noite, não há outro!" declarou o Persa, com uma voz singularmente lúgubre. "E agora, cuidado! E esteja pronto para disparar."

Ele próprio levantou a sua pistola em frente ao vidro. Raoul imitou o seu movimento. Com o braço livre, o Persa puxou o jovem contra o seu peito e, subitamente, o espelho girou, num deslumbramento ofuscante de luzes cruzadas: girou como uma daquelas portas giratórias que recentemente foram colocadas nas entradas da maioria dos restaurantes, girou, levando Raoul e o Persa consigo e atirando-os subitamente da luz plena para a escuridão mais profunda.

Capítulo XX Nas Caves da Ópera

"A mão alta, pronto para disparar!" repetiu rapidamente o companheiro de Raoul.

A parede, atrás deles, tendo completado o círculo que descrevia sobre si mesma, fechou-se novamente; e os dois homens permaneceram imóveis por um momento, prendendo a respiração.

Finalmente, o Persa decidiu fazer um movimento; e Raoul ouviu-o escorregar para os joelhos e tatear algo no escuro com as suas mãos errantes. De repente, a escuridão tornou-se visível por uma pequena lanterna surda e Raoul recuou instintivamente como se para escapar ao escrutínio de um inimigo secreto. Mas logo percebeu que a luz pertencia ao Persa, cujos movimentos ele observava atentamente. O pequeno disco vermelho foi virado em todas as direções e Raoul viu que o chão, as paredes e o teto eram todos formados por tábuas. Devia ter sido o caminho normal tomado por Erik para chegar ao camarim de Christine e impor-se à sua inocência. E Raoul, lembrando-se da observação do Persa, pensou que tinha sido misteriosamente construído pelo próprio fantasma. Mais tarde, soube que Erik tinha encontrado, tudo preparado para ele, uma passagem secreta, há muito conhecida apenas por ele e concebida na época da Comuna de Paris para permitir aos carcereiros transportar os seus prisioneiros diretamente para as masmorras que tinham sido construídas para eles nas caves; pois os Federados tinham ocupado a ópera logo após o dia dezoito de março e tinham feito um local de partida mesmo no topo para os seus balões Mongolfier, que transportavam as suas proclamações incendiárias para os departamentos, e uma prisão de estado mesmo no fundo.

O Persa pôs-se de joelhos e colocou a sua lanterna no chão. Parecia estar a trabalhar no chão; e de repente apagou a sua luz. Então Raoul ouviu um clique suave e viu um quadrado luminoso muito pálido no chão da passagem. Era como se uma janela se tivesse aberto nas caves da Ópera, que ainda estavam iluminadas. Raoul já não via o Persa, mas sentiu-o subitamente ao seu lado e ouviu-o sussurrar:

"Siga-me e faça tudo o que eu fizer."

Raoul virou-se para a abertura luminosa. Então viu o Persa, que ainda estava de joelhos, pendurar-se pelas mãos na borda da abertura, com a pistola entre os dentes, e deslizar para a cave abaixo.

Curiosamente, o visconde tinha confiança absoluta no Persa, embora não soubesse nada sobre ele. A sua emoção ao falar do "monstro" parecia-lhe sincera; e, se o Persa tivesse nutrido quaisquer planos sinistros contra ele, não o teria armado com as suas próprias mãos. Além disso, Raoul tinha de chegar a Christine a todo o custo. Ele então pôs-se de joelhos também e pendurou-se no alçapão com ambas as mãos.

"Solte-se!" disse uma voz.

E ele caiu nos braços do Persa, que lhe disse para se deitar esticado, fechou o alçapão acima dele e agachou-se ao seu lado. Raoul tentou fazer uma pergunta, mas a mão do Persa estava sobre a sua boca e ele ouviu uma voz que reconheceu como sendo a do comissário de polícia.

Raoul e o Persa estavam completamente escondidos atrás de uma divisória de madeira. Perto deles, uma pequena escadaria levava a uma pequena sala na qual o comissário parecia andar de um lado para o outro, fazendo perguntas. A luz fraca era apenas suficiente para permitir a Raoul distinguir a forma das coisas à sua volta. E ele não pôde conter um grito abafado: havia três cadáveres ali.

O primeiro jazia no patamar estreito da pequena escadaria; os outros dois tinham rolado para o fundo da escadaria. Raoul poderia ter tocado num dos dois pobres infelizes passando os dedos pela divisória.

"Silêncio!" sussurrou o Persa.

Ele também tinha visto os corpos e disse apenas uma palavra em explicação:

"ELE!"

A voz do comissário ouvia-se agora mais distintamente. Ele estava a pedir informações sobre o sistema de iluminação, que o diretor de cena fornecia. O comissário devia, portanto, estar no "órgão" ou nas suas imediações.

Ao contrário do que se poderia pensar, especialmente em relação a uma ópera, o "órgão" não é um instrumento musical. Naquela época, a eletricidade era usada apenas para alguns efeitos cénicos e para as campainhas. O imenso edifício e o próprio palco ainda eram iluminados a gás; o hidrogénio era usado para regular e modificar a iluminação de uma cena; e isto era feito por meio de um aparelho especial que, devido à multiplicidade dos seus tubos, era conhecido como o "órgão". Um camarote ao lado do camarote do ponto era reservado ao encarregado do gás, que a partir de lá dava as suas ordens aos seus assistentes e via que elas eram executadas. Mauclair ficava neste camarote durante todos os espetáculos.

Mas agora Mauclair não estava no seu camarote e os seus assistentes não estavam nos seus lugares.

"Mauclair! Mauclair!"

A voz do diretor de cena ecoava pelas caves. Mas Mauclair não respondia.

Eu disse que uma porta abria para uma pequena escadaria que levava à segunda cave. O comissário empurrou-a, mas ela resistiu.

"Diga-me," disse ele ao diretor de cena, "não consigo abrir esta porta: é sempre tão difícil?"

O diretor de cena forçou-a com o ombro. Viu que, ao mesmo tempo, estava a empurrar um corpo humano e não pôde conter uma exclamação, pois reconheceu o corpo de imediato:

"Mauclair! Pobre diabo! Ele está morto!"

Mas o Sr. Comissário Mifroid, a quem nada surpreendia, estava inclinado sobre aquele grande corpo.

"Não," disse ele, "ele está bêbado como um cacho, o que não é exatamente a mesma coisa."

"É a primeira vez, se assim é," disse o diretor de cena.

"Então alguém lhe deu um narcótico. Isso é bem possível."

Mifroid desceu alguns degraus e disse:

"Olhe!"

À luz de uma pequena lanterna vermelha, ao pé das escadas, viram dois outros corpos. O diretor de cena reconheceu os assistentes de Mauclair. Mifroid desceu e escutou a sua respiração.

"Estão a dormir profundamente," disse ele. "Negócio muito curioso! Alguma pessoa desconhecida deve ter interferido com o encarregado do gás e a sua equipa... e essa pessoa desconhecida estava obviamente a trabalhar em nome do raptor... Mas que ideia engraçada raptar um artista no palco!... Mande chamar o médico do teatro, por favor." E Mifroid repetiu: "Negócio curioso, decididamente curioso!"

Em seguida, virou-se para a pequena sala, dirigindo-se às pessoas que Raoul e o Persa não conseguiam ver do lugar onde estavam deitados.

"O que dizem a tudo isto, senhores? São os únicos que ainda não deram as vossas opiniões. E, no entanto, devem ter uma opinião de algum tipo."

Nesse momento, Raoul e o Persa viram os rostos assustados dos codiretores aparecer acima do patamar — e ouviram a voz agitada de Moncharmin:

"Há coisas a acontecer aqui, Sr. Comissário, que não conseguimos explicar."

E os dois rostos desapareceram.

"Obrigado pela informação, senhores," disse Mifroid, com um escárnio.

Mas o diretor de cena, segurando o queixo na cavidade da mão direita, que é a atitude de pensamento profundo, disse:

"Não é a primeira vez que Mauclair adormece no teatro. Lembro-me de o encontrar, uma noite, a ressonar no seu pequeno nicho, com a sua caixa de rapé ao lado."

"Faz muito tempo?" perguntou o Sr. Mifroid, limpando cuidadosamente os seus óculos.

"Não, não faz muito tempo... Espere um pouco! ... Foi na noite... claro, sim... Foi na noite em que Carlotta — sabe, Sr. Comissário — deu o seu famoso 'co-ack'!"

"A sério? A noite em que Carlotta deu o seu famoso 'co-ack'?"

E o Sr. Mifroid, voltando a colocar os seus óculos brilhantes no nariz, fixou o diretor de cena com um olhar contemplativo.

"Portanto, Mauclair toma rapé, pois não?" perguntou ele descuidadamente.

"Sim, Sr. Comissário... Olhe, ali está a sua caixa de rapé naquela pequena prateleira... Oh! ele é um grande consumidor de rapé!"

"Eu também sou," disse Mifroid e colocou a caixa de rapé no seu bolso.

Raoul e o Persa, eles próprios não observados, viram a remoção dos três corpos por vários cenógrafos, que eram seguidos pelo comissário e por todas as pessoas que estavam com ele. Os seus passos foram ouvidos durante alguns minutos no palco acima. Quando ficaram sozinhos, o Persa fez um sinal a Raoul para se levantar. Raoul fê-lo; mas, como não levantou a mão à frente dos olhos, pronto para disparar, o Persa disse-lhe para retomar essa atitude e continuar assim, acontecesse o que acontecesse.

"Mas isso cansa a mão desnecessariamente," sussurrou Raoul. "Se eu disparar, não terei certeza da minha pontaria."

"Então passe a sua pistola para a outra mão," disse o Persa.

"Não consigo disparar com a mão esquerda."

Nesse momento, o Persa deu esta resposta estranha, que certamente não estava calculada para lançar luz sobre o cérebro perturbado do jovem:

"Não se trata de disparar com a mão direita ou esquerda; trata-se de manter uma das suas mãos como se fosse puxar o gatilho de uma pistola com o braço dobrado. Quanto à pistola em si, no fim de contas, pode metê-la no bolso!" E acrescentou: "Que isto fique bem claro, ou não respondo por nada. É uma questão de vida ou de morte. E agora, silêncio e siga-me!"

As caves da Ópera são enormes e são cinco. Raoul seguiu o Persa e perguntou a si mesmo o que teria feito sem o seu companheiro naquele labirinto extraordinário. Desceram até à terceira cave; e o seu progresso ainda era iluminado por alguma lâmpada distante.

Quanto mais desciam, mais precauções o Persa parecia tomar. Ele voltava-se continuamente para Raoul para ver se ele estava a manter o braço corretamente, mostrando-lhe como ele próprio transportava a mão como se estivesse sempre pronto a disparar, embora a pistola estivesse no seu bolso.

De repente, uma voz alta fez com que parassem. Alguém acima deles gritou:

"Todos os fechadores de portas no palco! O comissário de polícia quer vê-los!"

Passos foram ouvidos e sombras deslizaram pela escuridão. O Persa puxou Raoul para trás de um cenário. Viram passar à frente e acima deles homens idosos curvados pela idade e pelo peso passado dos cenários da ópera. Alguns mal se conseguiam arrastar; outros, por hábito, com corpos curvados e mãos estendidas, procuravam portas para fechar.

Eram os fechadores de portas, os velhos cenógrafos desgastados, de quem uma administração caridosa teve piedade, dando-lhes o trabalho de fechar portas acima e abaixo do palco. Eles andavam incessantemente, do topo ao fundo do edifício, fechando as portas; e eram também chamados de "os expulsores de correntes de ar", pelo menos naquela altura, pois tenho poucas dúvidas de que agora já todos morreram. As correntes de ar são muito más para a voz, de onde quer que venham.[1]

Os dois homens podiam ter tropeçado neles, acordando-os e provocando um pedido de explicações. Por agora, o inquérito do Sr. Mifroid poupou-os de quaisquer encontros desagradáveis.

O Persa e Raoul saudaram este incidente, que os libertou de testemunhas inconvenientes, pois alguns daqueles fechadores de portas, não tendo mais nada para fazer ou onde pousar a cabeça, ficavam na Ópera, por ociosidade ou necessidade, e passavam a noite lá.

Mas não foram deixados a desfrutar da sua solidão por muito tempo. Outras sombras desciam agora pelo mesmo caminho pelo qual os fechadores de portas tinham subido. Cada uma destas sombras carregava uma pequena lanterna e movia-a, acima, abaixo e em redor, como se procurasse algo ou alguém.

"Diabo!" murmurou o Persa. "Não sei o que eles estão a procurar, mas podiam facilmente encontrar-nos... Vamos embora, depressa! ... A sua mão para cima, senhor, pronto para disparar! ... Dobre o braço ... mais ... isso mesmo! ... Mão ao nível do olho, como se estivesse a travar um duelo e à espera da ordem para disparar! Oh, deixe a sua pistola no bolso. Depressa, venha, escada abaixo. Nível do seu olho! Questão de vida ou morte! ... Aqui, por este caminho, estas escadas!" Chegaram à quinta cave. "Oh, que duelo, senhor, que duelo!"

Uma vez na quinta cave, o Persa recuperou o fôlego. Ele parecia desfrutar de uma sensação de segurança um pouco maior do que a que tinha demonstrado quando ambos pararam na terceira; mas nunca alterou a atitude da sua mão. E Raoul, lembrando-se da observação do Persa — "Eu sei que estas pistolas são de confiança" — estava cada vez mais espantado, perguntando-se por que razão alguém ficaria tão satisfeito por poder confiar numa pistola que não pretendia usar!

Mas o Persa não lhe deu tempo para reflexão. Dizendo a Raoul para ficar onde estava, ele subiu alguns degraus da escadaria que tinham acabado de deixar e depois voltou.

"Que estúpidos que fomos!" sussurrou ele. "Em breve veremos o fim daqueles homens com as suas lanternas. São os bombeiros a fazer as suas rondas."[2]

Os dois homens esperaram mais cinco minutos. Então o Persa levou Raoul escada acima novamente; mas de repente parou-o com um gesto. Algo moveu-se na escuridão à frente deles.

"De barriga para o chão!" sussurrou o Persa.

Os dois homens deitaram-se no chão.

Chegaram mesmo a tempo. Uma sombra, desta vez sem luz, apenas uma sombra na sombra, passou. Passou perto deles, perto o suficiente para os tocar.

Sentiram o calor da sua capa sobre eles. Pois conseguiam distinguir a sombra suficientemente para ver que usava uma capa que a envolvia da cabeça aos pés. Na cabeça tinha um chapéu de feltro mole...

Afastou-se, arrastando os pés contra as paredes e dando, por vezes, um pontapé num canto.

"Ufa!" disse o Persa. "Escapámos por um triz; essa sombra conhece-me e já me levou duas vezes ao escritório dos diretores."

"É alguém da polícia do teatro?" perguntou Raoul.

"É alguém muito pior do que isso!" respondeu o Persa, sem dar mais explicações.[3]

"Não é... ele?"

"Ele? ... Se ele não vier atrás de nós, veremos sempre os seus olhos amarelos! Essa é, mais ou menos, a nossa salvaguarda esta noite. Mas ele pode vir por trás, aproximando-se furtivamente; e estamos mortos se não mantivermos as nossas mãos como se estivéssemos prestes a disparar, ao nível dos nossos olhos, pela frente!"

O Persa mal tinha acabado de falar, quando um rosto fantástico apareceu... um rosto inteiro de fogo, não apenas dois olhos amarelos!

Sim, uma cabeça de fogo vinha em direção a eles, à altura de um homem, mas sem corpo ligado a ela. O rosto libertava fogo, parecendo na escuridão como uma chama com a forma de um rosto humano.

"Oh," disse o Persa, entre os dentes. "Nunca vi isto antes! ... Pampin não estava louco, afinal: ele tinha visto! ... O que poderá ser aquela chama? Não é ELE, mas ele pode tê-la enviado! ... Cuidado! ... Cuidado! A sua mão ao nível dos seus olhos, em nome do Céu, ao nível dos seus olhos! ... Conheço a maioria dos seus truques ... mas não este ... Vamos, vamos correr ... é mais seguro. Mão ao nível dos seus olhos!"

E fugiram pelo longo corredor que se abria à frente deles.

Após alguns segundos, que lhes pareceram longos minutos, pararam.

"Ele não vem frequentemente por este caminho," disse o Persa. "Este lado não tem nada a ver com ele. Este lado não leva ao lago nem à casa no lago... Mas talvez ele saiba que estamos nos seus calcanhares... embora eu lhe tenha prometido deixá-lo em paz e nunca mais me meter nos seus assuntos!"

Dito isto, virou a cabeça e Raoul também virou a cabeça; e viram novamente a cabeça de fogo atrás das suas duas cabeças. Tinha-os seguido. E deve ter corrido também, e talvez mais depressa do que eles, pois parecia estar mais perto deles.

Ao mesmo tempo, começaram a perceber um certo ruído cuja natureza não conseguiam adivinhar. Apenas notaram que o som parecia mover-se e aproximar-se com o rosto de fogo. Era um ruído como se milhares de unhas tivessem sido raspadas contra um quadro negro, o ruído perfeitamente insuportável que é por vezes feito por uma pequena pedra dentro do giz que range no quadro negro.

Continuaram a recuar, mas o rosto de fogo vinha, vinha, ganhando terreno sobre eles. Conseguiam ver os seus traços claramente agora. Os olhos eram redondos e arregalados, o nariz um pouco torto e a boca grande, com um lábio inferior pendente, muito semelhante aos olhos, nariz e lábio da lua, quando a lua está bem vermelha, vermelho brilhante.

Como é que aquela lua vermelha conseguia deslizar pela escuridão, à altura de um homem, sem nada que a suportasse, pelo menos aparentemente? E como é que ia tão depressa, tão em frente, com aqueles olhos tão arregalados, arregalados? E o que era aquele som de arranhar, raspar, ranger que ela trazia consigo?

O Persa e Raoul não podiam recuar mais e achataram-se contra a parede, sem saber o que ia acontecer por causa daquela incompreensível cabeça de fogo, e especialmente agora, por causa do som mais intenso, fervilhante, vivo, "numeroso", pois o som era certamente composto por centenas de pequenos sons que se moviam na escuridão, debaixo da cabeça de fogo.

E o rosto de fogo aproximou-se... com o seu ruído... ficou ao nível deles!

E os dois companheiros, achatados contra a sua parede, sentiram o cabelo em pé de horror, pois agora sabiam o que significavam os mil ruídos. Vinham em tropel, empurrados na sombra por inumeráveis pequenas ondas apressadas, mais rápidas do que as ondas que correm sobre a areia na maré alta, pequenas ondas noturnas a espumar sob a lua, sob a cabeça de fogo que era como uma lua. E as pequenas ondas passaram entre as suas pernas, subindo pelas suas pernas, irresistivelmente, e Raoul e o Persa já não podiam conter os seus gritos de horror, desânimo e dor. Nem podiam continuar a manter as suas mãos ao nível dos seus olhos: as suas mãos desceram para as pernas para afastar as ondas, que estavam cheias de pequenas pernas e unhas e garras e dentes.

Sim, Raoul e o Persa estavam prontos a desmaiar, como Pampin, o bombeiro. Mas a cabeça de fogo virou-se em resposta aos seus gritos e falou-lhes:

"Não se mexam! Não se mexam! ... O que quer que façam, não venham atrás de mim! ... Sou o caçador de ratos! ... Deixem-me passar, com os meus ratos! ..."

E a cabeça de fogo desapareceu, desvaneceu-se na escuridão, enquanto o corredor à sua frente se iluminava, como resultado da mudança que o caçador de ratos tinha feito na sua lanterna surda. Antes, para não assustar os ratos à sua frente, tinha virado a sua lanterna surda para si próprio, iluminando a sua própria cabeça; agora, para apressar a sua fuga, iluminava o espaço escuro à sua frente. E saltou, arrastando consigo as ondas de ratos a arranhar, todos os mil sons.

Raoul e o Persa voltaram a respirar, embora ainda a tremer.

"Devia ter-me lembrado de que Erik me falou do caçador de ratos," disse o Persa. "Mas ele nunca me disse que ele parecia com aquilo... e é engraçado que eu nunca o tenha encontrado antes... Claro, Erik nunca vem a esta parte!"

"Estamos muito longe do lago, senhor?" perguntou Raoul. "Quando chegaremos lá? ... Leve-me ao lago, oh, leve-me ao lago! ... Quando estivermos no lago, chamaremos! ... Christine ouvir-nos-á! ... E ELE ouvir-nos-á também! ... E, como o conhece, falaremos com ele!"

"Bebé!" disse o Persa. "Nunca entraremos na casa no lago pelo lago! ... Eu próprio nunca desembarquei na outra margem... a margem onde a casa se encontra... Tem de atravessar o lago primeiro... e está bem guardado! ... Temo que mais de um daqueles homens — velhos cenógrafos, velhos fechadores de portas — que nunca mais foram vistos, foram simplesmente tentados a atravessar o lago... É terrível... Eu próprio quase teria sido morto lá... se o monstro não me tivesse reconhecido a tempo! ... Um conselho, senhor; nunca chegue perto do lago... E, acima de tudo, tape os ouvidos se ouvir a voz a cantar debaixo de água, a voz da sereia!"

"Mas então, o que estamos aqui a fazer?" perguntou Raoul, num transporte de febre, impaciência e raiva. "Se não pode fazer nada por Christine, pelo menos deixe-me morrer por ela!" O Persa tentou acalmar o jovem.

"Temos apenas um meio de salvar Christine Daae, acredite em mim, que é entrar na casa despercebidos pelo monstro."

"E há alguma esperança disso, senhor?"

"Ah, se eu não tivesse essa esperança, não teria vindo buscá-lo!"

"E como se pode entrar na casa no lago sem atravessar o lago?"

"Da terceira cave, de onde fomos tão infelizmente expulsos. Voltaremos lá agora... Vou dizer-lhe," disse o Persa, com uma mudança repentina na sua voz, "vou dizer-lhe o lugar exato, senhor: é entre um cenário e um cenário descartado do ROI DE LAHORE, exatamente no local onde Joseph Buquet morreu... Vamos, senhor, tenha coragem e siga-me! E mantenha a mão ao nível dos seus olhos! ... Mas onde estamos?"

O Persa acendeu a sua lanterna novamente e lançou os seus raios por dois enormes corredores que se cruzavam em ângulos retos.

"Devemos estar," disse ele, "na parte usada mais particularmente para as obras hidráulicas. Não vejo fogo a vir das fornalhas."

Ele foi à frente de Raoul, procurando o seu caminho, parando abruptamente quando tinha medo de encontrar algum barqueiro. Depois tiveram de se proteger contra o brilho de uma espécie de forja subterrânea, que os homens estavam a apagar, e na qual Raoul reconheceu os demónios que Christine tinha visto na altura do seu primeiro cativeiro.

Desta forma, chegaram gradualmente abaixo das enormes caves sob o palco. Devem estar neste momento no fundo do "tanque" e a uma profundidade extremamente grande, quando nos lembramos que a terra foi escavada a cinquenta pés abaixo da água que jazia sob toda aquela parte de Paris.[4]

O Persa tocou numa parede divisória e disse:

"Se não estou em erro, esta é uma parede que poderia facilmente pertencer à casa no lago."

Ele estava a bater numa parede divisória do "tanque", e talvez fosse bom que o leitor soubesse como o fundo e as paredes divisórias do tanque foram construídos. Para evitar que a água que rodeava as operações de construção permanecesse em contacto imediato com as paredes que suportavam toda a maquinaria teatral, o arquiteto foi obrigado a construir uma caixa dupla em todas as direções. O trabalho de construção desta caixa dupla levou um ano inteiro. Foi a parede da primeira caixa interior que o Persa atingiu quando falou a Raoul da casa no lago. Para qualquer pessoa que compreendesse a arquitetura do edifício, a ação do Persa pareceria indicar que a misteriosa casa de Erik tinha sido construída na caixa dupla, formada por uma parede espessa construída como um aterro ou barragem, depois por uma parede de tijolo, uma tremenda camada de cimento e outra parede com vários metros de espessura.

Às palavras do Persa, Raoul atirou-se contra a parede e escutou avidamente. Mas não ouviu nada... nada... exceto passos distantes a soar no chão das partes superiores do teatro.

O Persa escureceu a sua lanterna novamente.

"Cuidado!" disse ele. "Mantenha a mão para cima! E silêncio! Pois tentaremos outra forma de entrar."

E levou-o até à pequena escadaria pela qual tinham descido há pouco.

Subiram, parando a cada degrau, espreitando para a escuridão e o silêncio, até chegarem à terceira cave. Aqui o Persa fez um sinal a Raoul para se pôr de joelhos; e, desta forma, rastejando sobre ambos os joelhos e uma mão — pois a outra mão era mantida na posição indicada — chegaram à parede do fundo.

Contra esta parede estava um grande cenário descartado do ROI DE LAHORE. Perto deste cenário estava um elemento de cenário. Entre o cenário e o elemento de cenário havia apenas espaço para um corpo... para um corpo que um dia foi encontrado lá pendurado. O corpo de Joseph Buquet.

O Persa, ainda de joelhos, parou e escutou. Por um momento, pareceu hesitar e olhou para Raoul; depois voltou os seus olhos para cima, em direção à segunda cave, que enviava o ténue brilho de uma lanterna, através de uma fenda entre duas tábuas. Este brilho parecia incomodar o Persa.

Por fim, sacudiu a cabeça e decidiu agir. Deslizou entre o elemento de cenário e o cenário do ROI DE LAHORE, com Raoul colado nos seus calcanhares. Com a mão livre, o Persa tateou a parede. Raoul viu-o carregar pesadamente na parede, tal como tinha pressionado contra a parede no camarim de Christine. Então uma pedra cedeu, deixando um buraco na parede.

Desta vez, o Persa tirou a sua pistola do bolso e fez um sinal a Raoul para fazer o mesmo. Ele engatilhou a pistola.

E, resolutamente, ainda de joelhos, passou pelo buraco na parede. Raoul, que tinha desejado passar primeiro, teve de se contentar em segui-lo.

O buraco era muito estreito. O Persa parou quase de imediato. Raoul ouviu-o a tatear as pedras à sua volta. Depois o Persa tirou a sua lanterna surda novamente, curvou-se para a frente, examinou algo abaixo dele e extinguiu imediatamente a sua lanterna. Raoul ouviu-o dizer, num sussurro:

"Teremos de descer alguns metros, sem fazer barulho; tire as suas botas."

O Persa entregou os seus próprios sapatos a Raoul.

"Coloque-os fora da parede," disse ele. "Encontrá-los-emos lá quando sairmos."[5]

Rastejou um pouco mais sobre os joelhos, depois virou-se completamente e disse:

"Vou pendurar-me com as mãos na borda da pedra e deixar-me cair PARA DENTRO DA CASA DELE. Deve fazer exatamente o mesmo. Não tenha medo. Eu apanhá-lo-ei nos meus braços."

Raoul ouviu em breve um som surdo, evidentemente produzido pela queda do Persa, e depois deixou-se cair.

Sentiu-se apertado nos braços do Persa.

"Shhh!" disse o Persa.

E ficaram imóveis, a escutar.

A escuridão era espessa à volta deles, o silêncio pesado e terrível.

Então o Persa começou a brincar com a lanterna surda novamente, virando os raios sobre as suas cabeças, à procura do buraco pelo qual tinham vindo, e falhando em encontrá-lo:

— Oh! — disse ele. — A pedra fechou-se sozinha!

E a luz da lanterna varreu a parede e o chão.

O Persa inclinou-se e apanhou qualquer coisa, uma espécie de corda, que examinou por um segundo e atirou para longe com horror.

— O laço do Punjab! — murmurou.

— O que é isso? — perguntou Raoul.

O Persa estremeceu. — Poderia muito bem ser a corda com a qual o homem foi enforcado, e que foi procurada durante tanto tempo.

E, subitamente tomado por uma nova ansiedade, moveu o pequeno disco vermelho da sua lanterna sobre as paredes. Desta forma, iluminou uma coisa curiosa: o tronco de uma árvore, que parecia ainda bem vivo, com as suas folhas; e os ramos dessa árvore subiam pelas paredes e desapareciam no teto.

Devido à pequenez do disco luminoso, era difícil à primeira vista distinguir a aparência das coisas: viam um canto de um ramo... e uma folha... e outra folha... e, ao lado, nada, nada além do raio de luz que parecia refletir-se... Raoul passou a mão sobre aquele nada, sobre aquele reflexo.

— Olá! — disse ele. — A parede é um espelho!

— Sim, um espelho! — disse o Persa, num tom de profunda emoção. E, passando a mão que segurava a pistola pela sua testa húmida, acrescentou: — Caímos na câmara de tortura!

O que o Persa sabia sobre esta câmara de tortura e o que lá aconteceu a ele e ao seu companheiro será contado com as suas próprias palavras, conforme estabelecido num manuscrito que ele deixou, e que copio NA ÍNTEGRA.

[1] O Sr. Pedro Gailhard disse-me pessoalmente que criou alguns cargos adicionais como fechos de portas para antigos carpinteiros de cena que ele não queria despedir do serviço da Ópera.

[2] Naqueles tempos, ainda fazia parte do dever dos bombeiros vigiar a segurança da Ópera fora dos espetáculos; mas este serviço foi desde então suprimido. Perguntei ao Sr. Pedro Gailhard a razão, e ele respondeu:

— Foi porque a direção receava que, na sua total inexperiência das caves da Ópera, os bombeiros pudessem incendiar o edifício!

[3] Tal como o Persa, não posso dar mais explicações sobre a aparição desta sombra. Enquanto, nesta narrativa histórica, tudo o resto será normalmente explicado, por mais anormal que o curso dos acontecimentos possa parecer, não posso dar a entender expressamente ao leitor o que o Persa quis dizer com as palavras: "É alguém muito pior do que isso!" O leitor deve tentar adivinhar por si mesmo, pois prometi ao Sr. Pedro Gailhard, o antigo diretor da Ópera, manter o seu segredo relativamente à personalidade extremamente interessante e útil da sombra errante e encapuçada que, ao mesmo tempo que se condenava a viver nas caves da Ópera, prestava serviços imensos àqueles que, em noites de gala, por exemplo, se aventuram a afastar-se do palco. Falo de serviços de estado; e, pela minha palavra de honra, nada mais posso dizer.

[4] Toda a água teve de ser esgotada, na construção da Ópera. Para dar uma ideia da quantidade de água que foi bombeada, posso dizer ao leitor que representava a área do pátio do Louvre e uma altura metade mais profunda do que as torres de Notre Dame. E, contudo, os engenheiros tiveram de deixar um lago.

[5] Estes dois pares de botas, que foram colocados, segundo os papéis do Persa, logo entre o cenário e a cena do ROI DE LAHORE, no local onde Joseph Buquet foi encontrado enforcado, nunca foram descobertos. Devem ter sido levados por algum carpinteiro de cena ou "fechador de portas".

Capítulo XXI Vicissitudes interessantes e instrutivas de um Persa nas caves da Ópera

A NARRATIVA DO PERSA

Foi a primeira vez que entrei na casa sobre o lago. Tinha pedido muitas vezes ao "amante do alçapão", como costumávamos chamar a Erik no meu país, que me abrisse as suas portas misteriosas. Ele recusou sempre. Fiz muitas tentativas, mas em vão, para obter entrada. Por mais que o vigiasse, depois de saber que ele tinha fixado residência permanente na Ópera, a escuridão era sempre espessa demais para me permitir ver como ele manobrava a porta na parede sobre o lago. Um dia, quando me julguei sozinho, entrei no barco e remei em direção àquela parte da parede pela qual tinha visto Erik desaparecer. Foi então que entrei em contacto com a sereia que guardava o acesso e cujo encanto foi quase fatal para mim.

Não tinha acabado de me afastar da margem quando o silêncio em que flutuava sobre a água foi perturbado por uma espécie de canto sussurrado que pairava à minha volta. Era meio sopro, meio música; subia suavemente das águas do lago; e eu estava rodeado por ele através de não sei que artifício. Seguia-me, movia-se comigo e era tão suave que não me alarmou. Pelo contrário, no meu desejo de me aproximar da fonte daquela harmonia doce e sedutora, inclinei-me do meu pequeno barco sobre a água, pois não havia dúvidas na minha mente de que o canto vinha da própria água. A esta altura, eu estava sozinho no barco no meio do lago; a voz — pois era agora claramente uma voz — estava ao meu lado, sobre a água. Inclinei-me, inclinei-me ainda mais. O lago estava perfeitamente calmo, e um raio de luar que passava pela abertura de ventilação na Rue Scribe mostrava-me absolutamente nada na sua superfície, que era lisa e negra como tinta. Agitei as orelhas para me livrar de um possível zumbido; mas logo tive de aceitar o facto de que não havia zumbido nos ouvidos tão harmonioso quanto o canto sussurrado que me seguia e agora me atraía.

Se eu fosse propenso à superstição, teria certamente pensado que tinha de lidar com alguma sereia cuja função era confundir o viajante que se aventurasse nas águas da casa sobre o lago. Felizmente, venho de um país onde gostamos demasiado de coisas fantásticas para não as conhecer de fio a pavio; e não tive dúvidas de que estava frente a frente com alguma nova invenção de Erik. Mas esta invenção era tão perfeita que, ao inclinar-me do barco, fui impelido menos pelo desejo de descobrir o seu truque do que de desfrutar do seu encanto; e inclinei-me, inclinei-me até quase virar o barco.

De repente, dois braços monstruosos saíram do seio das águas e agarraram-me pelo pescoço, arrastando-me para as profundezas com força irresistível. Teria certamente estado perdido, se não tivesse tido tempo de dar um grito pelo qual Erik me reconheceu. Pois era ele; e, em vez de me afogar, como era certamente a sua primeira intenção, nadou comigo e depositou-me suavemente na margem:

— Como é imprudente! — disse ele, enquanto estava diante de mim, a pingar água. — Por que tentar entrar na minha casa? Nunca o convidei! Não o quero lá, nem a ninguém! Salvou a minha vida apenas para a tornar insuportável para mim? Por maior que seja o serviço que lhe prestou, Erik pode acabar por esquecê-lo; e sabe que nada pode conter Erik, nem mesmo o próprio Erik.

Ele falou, mas eu já não tinha outro desejo senão conhecer o que já chamava de truque da sereia. Ele satisfez a minha curiosidade, pois Erik, que é um verdadeiro monstro — já o vi em ação na Pérsia, infelizmente — é também, em certos aspetos, uma criança autêntica, vaidosa e presunçosa, e não há nada que ele ame tanto, depois de surpreender as pessoas, como provar toda a engenhosidade realmente milagrosa da sua mente.

Ele riu-se e mostrou-me um longo caniço.

— É o truque mais parvo que alguma vez viu — disse ele —, mas é muito útil para respirar e cantar na água. Aprendi-o com os piratas de Tonquim, que são capazes de permanecer escondidos durante horas nos leitos dos rios.[1]

Falei-lhe severamente.

— É um truque que quase me matou! — disse eu. — E pode ter sido fatal para outros! Sabe o que me prometeu, Erik? Chega de assassinatos!

— Cometi realmente assassinatos? — perguntou ele, adotando o seu ar mais amável.

— Desgraçado! — gritei. — Esqueceu-se das horas cor-de-rosa de Mazenderan?

— Sim — respondeu ele, num tom mais triste —, prefiro esquecê-las. Mas eu fazia a pequena sultana rir!

— Tudo isso pertence ao passado — declarei; — mas existe o presente... e é responsável perante mim pelo presente, porque, se eu quisesse, não haveria nenhum para si. Lembre-se disso, Erik: salvei-lhe a vida!

E aproveitei o rumo da conversa para lhe falar de algo que há muito me preocupava:

— Erik — perguntei —, Erik, jure que...

— O quê? — replicou ele. — Sabe que nunca cumpro os meus juramentos. Os juramentos são feitos para apanhar tolos.

— Diga-me... pode dizer-me, pelo menos...

— Bem?

— Bem, o lustre... o lustre, Erik?...

— O que tem o lustre?

— Sabe a que me refiro.

— Oh — riu-se ele —, não me importo de lhe falar sobre o lustre! ... NÃO FUI EU! ... O lustre era muito velho e estava gasto.

Quando Erik se ria, era mais terrível do que nunca. Saltou para o barco, rindo tão horrivelmente que não pude deixar de tremer.

— Muito velho e gasto, meu caro daroga![2] Muito velho e gasto, o lustre! ... Caiu por si mesmo! ... Desceu com um estrondo! ... E agora, daroga, aceite o meu conselho e vá secar-se, ou apanhará uma constipação! ... E nunca mais entre no meu barco... E, faça o que fizer, não tente entrar na minha casa: nem sempre lá estou... daroga! E lamentaria ter de lhe dedicar a minha Missa de Requiem!

Dizendo isto, balançando-se para a frente e para trás, como um macaco, e ainda a rir, afastou-se e desapareceu em breve na escuridão do lago.

A partir desse dia, desisti de qualquer pensamento de penetrar na sua casa pelo lago. Aquela entrada estava obviamente demasiado bem guardada, especialmente desde que ele soube que eu a conhecia. Mas senti que devia haver outra entrada, pois tinha visto frequentemente Erik desaparecer na terceira cave, quando o vigiava, embora não pudesse imaginar como.

Desde que descobri Erik instalado na Ópera, vivia num terror perpétuo das suas fantasias horríveis, não no que me dizia respeito, mas temia tudo pelos outros.[3]

E sempre que algum acidente, algum acontecimento fatal acontecia, pensava sempre para comigo: "Não me surpreenderia se fosse Erik", tal como outros diziam: "É o fantasma!" Quantas vezes não ouvi pessoas proferirem essa frase com um sorriso! Pobres diabos! Se soubessem que o fantasma existia em carne e osso, juro que não se teriam rido!

Embora Erik me tenha anunciado muito solenemente que tinha mudado e que se tinha tornado o mais virtuoso dos homens DESDE QUE ERA AMADO POR SI MESMO — uma frase que, a princípio, me deixou terrivelmente perplexo —, não pude deixar de estremecer quando pensava no monstro. A sua fealdade horrível, inigualável e repulsiva colocava-o fora dos limites da humanidade; e parecia-me muitas vezes que, por esta razão, ele já não acreditava que tinha qualquer dever para com a raça humana. A forma como falava das suas aventuras amorosas apenas aumentava o meu alarme, pois previa a causa de tragédias novas e mais hediondas neste acontecimento a que ele aludia com tanta jactância.

Por outro lado, descobri rapidamente o curioso tráfego moral estabelecido entre o monstro e Christine Daaé. Escondido na arrecadação ao lado do camarim da jovem prima donna, ouvi exibições musicais maravilhosas que evidentemente lançavam Christine num êxtase maravilhoso; mas, ainda assim, nunca teria pensado que a voz de Erik — que era alta como o trovão ou suave como vozes de anjos, à vontade — pudesse ter-lhe feito esquecer a sua fealdade. Entendi tudo quando soube que Christine ainda não o tinha visto! Tive ocasião de ir ao camarim e, lembrando-me das lições que ele me tinha dado outrora, não tive dificuldade em descobrir o truque que fazia a parede com o espelho girar e verifiquei os meios dos tijolos ocos e assim por diante — pelos quais ele fazia a sua voz chegar a Christine como se ela a ouvisse bem perto. Desta forma, descobri também o caminho que levava ao poço e à masmorra — a masmorra dos Comunistas — e também o alçapão que permitia a Erik ir diretamente para as caves sob o palco.

Poucos dias depois, qual não foi o meu espanto ao saber pelos meus próprios olhos e ouvidos que Erik e Christine Daaé se viam e ao apanhar o monstro curvado sobre o pequeno poço, no caminho dos Comunistas, e a aspergir a testa de Christine Daaé, que tinha desmaiado. Um cavalo branco, o cavalo do PROFETA, que tinha desaparecido das cavalariças sob a Ópera, estava parado tranquilamente ao lado deles. Mostrei-me. Foi terrível. Vi faíscas voarem daqueles olhos amarelos e, antes de ter tempo de dizer uma palavra, recebi um golpe na cabeça que me atordoou.

Quando recuperei os sentidos, Erik, Christine e o cavalo branco tinham desaparecido. Senti-me seguro de que a pobre rapariga era prisioneira na casa sobre o lago. Sem hesitação, resolvi regressar à margem, apesar do perigo inerente. Durante vinte e quatro horas, fiquei à espera que o monstro aparecesse; pois sentia que ele tinha de sair, impelido pela necessidade de obter provisões. E, a este respeito, posso dizer que, quando ele saía às ruas ou se aventurava a mostrar-se em público, usava um nariz de cartão, com um bigode preso a ele, em vez do seu próprio horrível buraco de nariz. Isto não tirava completamente o seu ar de cadáver, mas tornava-o quase, digo quase, suportável de olhar.

Vigiei, portanto, na margem do lago e, cansado de uma longa espera, começava a pensar que ele tinha passado pela outra porta, a porta na terceira cave, quando ouvi um ligeiro chapinhar na escuridão, vi os dois olhos amarelos a brilhar como velas e, em breve, o barco tocou a margem. Erik saltou e caminhou até mim:

— Está aqui há vinte e quatro horas — disse ele — e está a irritar-me. Digo-lhe, tudo isto acabará muito mal. E tê-lo-á provocado você mesmo; pois tenho sido extraordinariamente paciente consigo. Pensa que me está a seguir, seu grande estúpido, enquanto sou eu que o sigo a si; e sei tudo o que sabe sobre mim, aqui. Poupei-o ontem, no MEU CAMINHO DOS COMUNISTAS; mas aviso-o, seriamente, não me deixe apanhá-lo lá outra vez! Pela minha palavra, parece incapaz de perceber uma indireta!

Ele estava tão furioso que não pensei, por um momento, em interrompê-lo. Depois de bufar como uma morsa, colocou o seu pensamento horrível em palavras:

— Sim, deve aprender, de uma vez por todas — de uma vez por todas, digo — a perceber uma indireta! Digo-lhe que, com a sua imprudência — pois já foi preso duas vezes pelo homem de chapéu de feltro, que não sabia o que fazia nas caves e o levou aos diretores, que o consideravam um Persa excêntrico interessado na mecânica de cena e na vida dos bastidores: sei tudo sobre isso, eu estava lá, no escritório; sabe que estou em todo o lado — bem, digo-lhe que, com a sua imprudência, acabarão por se perguntar o que pretende aqui... e acabarão por saber que está atrás de Erik... e então eles estarão atrás de Erik eles mesmos e descobrirão a casa sobre o lago... Se o fizerem, será um mau presságio para si, velho amigo, um mau presságio! ... Não me responsabilizo por nada.

Novamente bufou como uma morsa.

— Não me responsabilizo por nada! ... Se os segredos de Erik deixarem de ser os segredos de Erik, SERÁ UM MAU PRESSÁGIO PARA UM BOM NÚMERO DA RAÇA HUMANA! É tudo o que tenho a dizer-lhe, e a menos que seja um grande estúpido, deveria ser suficiente para si... exceto que não sabe como perceber uma indireta.

Ele tinha-se sentado na popa do seu barco e batia os calcanhares contra as tábuas, à espera de ouvir o que eu tinha a responder. Eu simplesmente disse:

— Não é Erik que procuro aqui!

— Quem então?

— Sabe tão bem como eu: é Christine Daaé — respondi.

Ele replicou: — Tenho todo o direito de a ver na minha própria casa. Sou amado pelo que sou.

— Isso não é verdade — disse eu. — Raptou-a e mantém-na trancada.

— Ouça — disse ele. — Prometerá nunca mais se meter nos meus assuntos, se lhe provar que sou amado pelo que sou?

— Sim, prometo-lhe — respondi, sem hesitação, pois sentia-me convencido de que para um monstro a prova era impossível.

— Bem, então, é bastante simples... Christine Daaé sairá daqui como quiser e voltará novamente! ... Sim, voltará novamente, porque ela deseja... voltará por si mesma, porque me ama pelo que sou! ...

— Oh, duvido que ela volte! ... Mas é seu dever deixá-la ir.

— O meu dever, seu grande estúpido! ... É o meu desejo... o meu desejo deixá-la ir; e ela voltará novamente... pois ela ama-me! ... Tudo isto acabará num casamento... um casamento na Madeleine, seu grande estúpido! Acredita em mim agora? Quando lhe digo que a minha missa nupcial está escrita... espere até ouvir o KYRIE...

Ele marcou o compasso com os calcanhares nas tábuas do barco e cantou:

— KYRIE! ... KYRIE! ... KYRIE ELEISON! ... Espere até ouvir, espere até ouvir essa missa.

— Olhe — disse eu. — Acreditarei em si se vir Christine Daaé sair da casa sobre o lago e voltar a ela por sua própria vontade.

— E não se meterá mais nos meus assuntos?

— Não.

— Muito bem, verá isso esta noite. Venha ao baile de máscaras. Christine e eu vamos dar uma volta. Depois pode esconder-se na arrecadação e verá Christine, que terá ido ao seu camarim, encantada por voltar pelo caminho dos Comunistas... E, agora, vá embora, pois tenho de ir fazer umas compras!

Para meu profundo espanto, as coisas aconteceram como ele tinha anunciado. Christine Daaé deixou a casa sobre o lago e regressou a ela várias vezes, sem, aparentemente, ser forçada a tal. Foi muito difícil para mim limpar a minha mente de Erik. No entanto, resolvi ser extremamente prudente, e não cometi o erro de regressar à margem do lago, ou de ir pelo caminho dos Comunistas. Mas a ideia da entrada secreta na terceira cave assombrava-me, e fui repetidamente esperar durante horas atrás de uma cena do Roi de Lahore, que tinha sido deixada lá por qualquer motivo. Finalmente a minha paciência foi recompensada. Um dia, vi o monstro vir em minha direção, de joelhos. Tinha a certeza de que ele não me podia ver. Passou entre a cena atrás da qual eu estava e um cenário, foi à parede e pressionou uma mola que moveu uma pedra e lhe proporcionou uma entrada. Ele passou por ela, e a pedra fechou-se atrás dele.

Esperei pelo menos trinta minutos e depois pressione a mola por minha vez. Tudo aconteceu como com Erik. Mas tive o cuidado de não passar pelo buraco eu mesmo, pois sabia que Erik estava dentro. Por outro lado, a ideia de que eu poderia ser apanhado por Erik fez-me subitamente pensar na morte de Joseph Buquet. Não queria pôr em risco as vantagens de uma descoberta tão grande, que poderia ser útil a muitas pessoas, "a um bom número da raça humana", nas palavras de Erik; e deixei os porões da Ópera depois de colocar cuidadosamente a pedra no lugar.

Continuei a interessar-me muito pelas relações entre Erik e Christine Daaé, não por qualquer curiosidade mórbida, mas por causa do pensamento terrível que obcecava a minha mente: que Erik era capaz de tudo, se um dia descobrisse que não era amado por si mesmo, como ele imaginava. Continuei a vaguear, com muita cautela, pela Ópera e logo soube a verdade sobre o triste caso amoroso do monstro.

Ele preenchia a mente de Christine através do terror com que a inspirava, mas o coração da querida criança pertencia inteiramente ao Visconde Raoul de Chagny. Enquanto brincavam, como um casal de noivos inocente, nos andares superiores da Ópera para evitar o monstro, mal suspeitavam que alguém os vigiava. Eu estava preparado para fazer qualquer coisa: matar o monstro, se necessário, e explicar à polícia depois. Mas Erik não se mostrava; e eu não me sentia mais confortável por causa disso.

Devo explicar todo o meu plano. Pensei que o monstro, sendo expulso da sua casa pelo ciúme, me permitiria assim entrar nela, sem perigo, através da passagem no terceiro subsolo. Era importante, para o bem de todos, que eu soubesse exatamente o que havia lá dentro. Um dia, cansado de esperar por uma oportunidade, movi a pedra e ouvi de imediato uma música assombrosa: o monstro trabalhava no seu Don Juan Triunfante, com todas as portas da sua casa bem abertas. Eu sabia que aquela era a obra da sua vida. Tive o cuidado de não me mexer e permaneci prudentemente no meu buraco escuro.

Ele parou de tocar por um momento e começou a andar pelo seu espaço como um louco. E disse em voz alta, no topo da sua voz:

"Tem de ser terminado PRIMEIRO! Completamente terminado!"

Este discurso não foi feito para me tranquilizar e, quando a música recomeçou, fechei a pedra muito suavemente.

No dia do rapto de Christine Daaé, não cheguei ao teatro até bastante tarde da noite, tremendo por medo de ouvir más notícias. Tinha passado um dia horrível, pois, depois de ler num jornal da manhã o anúncio de um futuro casamento entre Christine e o Visconde de Chagny, perguntei a mim mesmo se, afinal, não faria melhor em denunciar o monstro. Mas a razão voltou a mim, e convenci-me de que essa ação só poderia precipitar uma possível catástrofe.

Quando o meu táxi me deixou diante da Ópera, fiquei realmente quase espantado por vê-la ainda de pé! Mas sou um pouco fatalista, como todos os bons orientais, e entrei preparado para tudo.

O rapto de Christine Daaé no ato da prisão, que naturalmente surpreendeu toda a gente, encontrou-me preparado. Eu tinha a certeza absoluta de que ela tinha sido escamoteada por Erik, esse príncipe dos prestidigitadores. E pensei positivamente que aquele era o fim de Christine e talvez de todos, tanto que pensei em aconselhar todas aquelas pessoas que permaneciam no teatro a fugirem enquanto podiam. Senti, no entanto, que eles certamente me olhariam como um louco e abstive-me.

Por outro lado, resolvi agir sem mais demora, no que me dizia respeito. As probabilidades estavam a meu favor de que Erik, naquele momento, só estivesse a pensar na sua cativa. Este era o momento de entrar na sua casa através do terceiro subsolo; e resolvi levar comigo aquele pobre e desesperado visconde que, à primeira sugestão, aceitou, com uma quantidade de confiança em mim que me comoveu profundamente. Tinha enviado o meu criado buscar as minhas pistolas. Dei uma ao visconde e aconselhei-o a manter-se pronto a disparar, pois, afinal, Erik poderia estar à nossa espera atrás da parede. Íamos pelo caminho dos Comunardos e através do alçapão.

Ao ver as minhas pistolas, o pequeno visconde perguntou-me se iríamos travar um duelo. Eu disse:

"Sim; e que duelo!" Mas, é claro, não tive tempo de lhe explicar nada. O pequeno visconde é um bravo, mas mal sabia nada sobre o seu adversário; e era tanto melhor. O meu grande medo era que ele já estivesse algures perto de nós, preparando o laço de Punjab. Ninguém sabe melhor do que ele como atirar o laço de Punjab, pois ele é o rei dos estranguladores, tal como é o príncipe dos prestidigitadores. Quando acabava de fazer a pequena sultana rir, na época das "horas cor-de-rosa de Mazenderan", ela mesma costumava pedir-lhe para a divertir dando-lhe um arrepio. Foi então que ele introduziu o desporto do laço de Punjab.

Ele tinha vivido na Índia e adquirido uma habilidade incrível na arte do estrangulamento. Fazia com que o fechassem num pátio ao qual traziam um guerreiro — geralmente um homem condenado à morte — armado com uma lança longa e espada larga. Erik tinha apenas o seu laço; e era sempre exatamente quando o guerreiro pensava que ia derrubar Erik com um golpe tremendo que ouvíamos o laço assobiar pelo ar. Com um golpe de pulso, Erik apertava o nó corrediço à volta do pescoço do seu adversário e, desta forma, arrastava-o perante a pequena sultana e as suas mulheres, que ficavam a olhar de uma janela e a aplaudir. A própria pequena sultana aprendeu a manejar o laço de Punjab e matou várias das suas mulheres e até dos amigos que a visitavam. Mas prefiro abandonar este assunto terrível das horas cor-de-rosa de Mazenderan. Mencionei-o apenas para explicar porque, ao chegar com o Visconde de Chagny aos porões da Ópera, eu era obrigado a proteger o meu companheiro contra o perigo sempre ameaçador da morte por estrangulamento. As minhas pistolas não serviriam de nada, pois não era provável que Erik se mostrasse; mas Erik podia sempre estrangular-nos. Não tive tempo de explicar tudo isto ao visconde; além disso, nada se ganharia complicando a posição. Simplesmente disse ao Sr. de Chagny para manter a mão ao nível dos olhos, com o braço dobrado, como se estivesse à espera da ordem para disparar. Com a sua vítima nesta atitude, é impossível até para o mais experiente estrangulador atirar o laço com vantagem. Ele prende-o não apenas à volta do pescoço, mas também à volta do braço ou da mão. Isto permite-lhe facilmente desatar o laço, que então se torna inofensivo.

Depois de evitar o comissário de polícia, vários guarda-portões e os bombeiros, depois de encontrar o caçador de ratos e passar pelo homem de chapéu de feltro sem ser notado, o visconde e eu chegámos sem obstáculo ao terceiro subsolo, entre a peça de cenário e a cena do Roi de Lahore. Manipulei a pedra e saltámos para a casa que Erik tinha construído para si mesmo na parede dupla dos alicerces da Ópera. E isto foi a coisa mais fácil do mundo para ele fazer, porque Erik era um dos principais empreiteiros sob Philippe Garnier, o arquiteto da Ópera, e continuou a trabalhar sozinho quando as obras foram oficialmente suspensas, durante a guerra, o cerco de Paris e a Comuna.

Eu conhecia o meu Erik demasiado bem para me sentir minimamente confortável ao saltar para dentro da sua casa. Sabia o que ele tinha feito de um certo palácio em Mazenderan. De ser o edifício mais honesto concebível, ele transformou-o rapidamente numa casa do próprio diabo, onde não se podia dizer uma palavra sem que fosse ouvida ou repetida por um eco. Com os seus alçapões, o monstro era responsável por tragédias sem fim de todos os tipos. Ele encontrou invenções espantosas. Delas, a mais curiosa, horrível e perigosa era a chamada câmara de tortura. Exceto em casos especiais, quando a pequena sultana se divertia a infligir sofrimento a algum cidadão inocente, ninguém era lá deixado entrar senão desgraçados condenados à morte. E, mesmo assim, quando estes tinham tido "o suficiente", estavam sempre em liberdade de pôr fim a si mesmos com um laço de Punjab ou corda de arco, deixados para o seu uso ao pé de uma árvore de ferro.

O meu alarme, portanto, foi grande quando vi que o quarto para o qual o Sr. Visconde de Chagny e eu tínhamos caído era uma cópia exata da câmara de tortura das horas cor-de-rosa de Mazenderan. Aos nossos pés, encontrei o laço de Punjab que eu temia durante toda a noite. Estava convencido de que esta corda já tinha cumprido a sua função com Joseph Buquet, que, tal como eu, deve ter apanhado Erik uma noite a manipular a pedra no terceiro subsolo. Provavelmente tentou por sua vez, caiu na câmara de tortura e só de lá saiu enforcado. Posso imaginar Erik a arrastar o corpo, para se livrar dele, até à cena do Roi de Lahore, e a pendurá-lo lá como um exemplo, ou para aumentar o terror supersticioso que o deveria ajudar a vigiar as aproximações ao seu covil! Depois, após reflexão, Erik voltou para buscar o laço de Punjab, que é muito curiosamente feito de tripa de gato, e que poderia ter feito um juiz de instrução pensar. Isto explica o desaparecimento da corda.

E agora eu descobria o laço, aos nossos pés, na câmara de tortura! ... Não sou um cobarde, mas um suor frio cobriu a minha testa enquanto movia o pequeno disco vermelho da minha lanterna pelas paredes.

O Sr. de Chagny notou-o e perguntou:

"O que se passa, senhor?"

Fiz-lhe um sinal violento para se calar.

Estamos no meio de um pequeno quarto de seis cantos, cujas paredes estavam cobertas de espelhos de alto a baixo. Nos cantos, podíamos ver claramente as "juntas" nos vidros, os segmentos destinados a girar sobre as suas engrenagens; sim, reconheci-os e reconheci a árvore de ferro no canto, no fundo de um desses segmentos... a árvore de ferro, com o seu ramo de ferro, para os enforcados.

Agarrei o braço do meu companheiro: o Visconde de Chagny estava todo trémulo, ansioso por gritar à sua noiva que lhe trazia ajuda. Temi que ele não fosse capaz de se conter.

Subitamente, ouvimos um ruído à nossa esquerda. Pareceu a princípio uma porta a abrir e a fechar no quarto ao lado; e depois houve um gemido abafado. Agarrei o braço do Sr. de Chagny com mais firmeza ainda; e então ouvimos distintamente estas palavras:

"Tens de fazer a tua escolha! A missa de casamento ou a missa de réquiem!" Reconheci a voz do monstro.

Houve outro gemido, seguido de um longo silêncio.

Eu estava agora persuadido de que o monstro desconhecia a nossa presença na sua casa, pois, caso contrário, certamente teria conseguido não nos deixar ouvi-lo. Teria apenas de fechar a pequena janela invisível através da qual os amantes da tortura olham para a câmara de tortura. Além disso, eu tinha a certeza de que, se ele soubesse da nossa presença, as torturas teriam começado imediatamente.

O importante era não o deixar saber; e eu não temia nada tanto quanto a impulsividade do Visconde de Chagny, que queria correr através das paredes até Christine Daaé, cujos gemidos continuávamos a ouvir a intervalos.

"A missa de réquiem não é nada alegre", retomou a voz de Erik, "enquanto a missa de casamento — podes acreditar na minha palavra — é magnífica! Tens de tomar uma resolução e saber o que queres! Não posso continuar a viver assim, como uma toupeira numa toca! O Don Juan Triunfante está terminado; e agora quero viver como toda a gente. Quero ter uma esposa como toda a gente e levá-la a passear aos domingos. Inventei uma máscara que me faz parecer como qualquer pessoa. As pessoas nem sequer se virarão nas ruas. Serás a mais feliz das mulheres. E cantaremos, sozinhos, até desmaiarmos de prazer. Estás a chorar! Tens medo de mim! E, no entanto, não sou realmente mau. Ama-me e verás! Tudo o que eu queria era ser amado por mim mesmo. Se me amasses, eu seria tão gentil como um cordeiro; e poderias fazer de mim o que bem entendesses."

Logo os gemidos que acompanhavam esta espécie de ladainha de amor aumentaram e aumentaram. Nunca ouvi nada mais desesperante; e o Sr. de Chagny e eu reconhecemos que aquela lamentação terrível vinha do próprio Erik. Christine parecia estar paralisada de horror, sem forças para gritar, enquanto o monstro estava de joelhos diante dela.

Três vezes, Erik lamentou ferozmente o seu destino:

"Não me amas! Não me amas! Não me amas!"

E depois, mais suavemente:

"Por que choras? Sabes que me dói ver-te chorar!"

Um silêncio.

Cada silêncio dava-nos nova esperança. Dizíamos a nós mesmos:

"Talvez ele tenha deixado Christine atrás da parede."

E pensávamos apenas na possibilidade de avisar Christine Daaé da nossa presença, sem que o monstro soubesse. Éramos incapazes de deixar a câmara de tortura agora, a menos que Christine nos abrisse a porta; e era apenas sob esta condição que podíamos ter esperança de a ajudar, pois nem sequer sabíamos onde a porta poderia estar.

Subitamente, o silêncio no quarto ao lado foi perturbado pelo toque de uma campainha elétrica. Houve um salto do outro lado da parede e a voz de trovão de Erik:

"Alguém a tocar! Entre, por favor!"

Uma risada sinistra.

"Quem veio incomodar agora? Espere por mim aqui... VOU DIZER À SEREIA PARA ABRIR A PORTA."

Passos afastaram-se, uma porta fechou-se. Não tive tempo de pensar no novo horror que se preparava; esqueci que o monstro estava apenas a sair talvez para perpetrar um novo crime; entendi apenas uma coisa: Christine estava sozinha atrás da parede!

O Visconde de Chagny já a chamava:

"Christine! Christine!"

Como podíamos ouvir o que era dito no quarto ao lado, não havia razão para que o meu companheiro não fosse ouvido por sua vez. No entanto, o visconde teve de repetir o seu grito vez após vez.

Finalmente, uma voz fraca chegou até nós.

"Estou a sonhar!", disse ela.

"Christine, Christine, sou eu, Raoul!"

Um silêncio.

"Mas responde-me, Christine! ... Em nome do Céu, se estás sozinha, responde-me!"

Então a voz de Christine sussurrou o nome de Raoul.

"Sim! Sim! Sou eu! Não é um sonho! ... Christine, confia em mim! ... Estamos aqui para te salvar ... mas sê prudente! Quando ouvires o monstro, avisa-nos!"

Então Christine cedeu ao medo. Ela tremia por medo que Erik descobrisse onde Raoul estava escondido; disse-nos em poucas palavras apressadas que Erik tinha enlouquecido de amor e que tinha decidido MATAR TODOS E A SI MESMO COM TODOS se ela não consentisse em tornar-se sua esposa. Ele tinha-lhe dado até às onze horas da noite seguinte para refletir. Era o último prazo. Ela tinha de escolher, como ele dizia, entre a missa de casamento e a de réquiem.

E Erik tinha então dito uma frase que Christine não compreendeu bem:

"Sim ou não! Se a tua resposta for não, todos estarão mortos E ENTERRADOS!"

Mas eu compreendi a sentença perfeitamente, pois correspondia de uma maneira terrível com o meu próprio pensamento horrível.

"Podes dizer-nos onde está Erik?", perguntei.

Ela respondeu que ele devia ter deixado a casa.

"Poderias ter a certeza?"

"Não. Estou presa. Não me consigo mexer um centímetro."

Quando ouvimos isto, o Sr. de Chagny e eu soltámos um grito de fúria. A nossa segurança, a segurança de nós três, dependia da liberdade de movimento da rapariga.

"Mas onde estão vocês?", perguntou Christine. "Só há duas portas no meu quarto, o quarto Luís Filipe de que te falei, Raoul; uma porta através da qual Erik entra e sai, e outra que ele nunca abriu perante mim e pela qual me proibiu de passar, porque diz que é a mais perigosa das portas, a porta da câmara de tortura!"

"Christine, é aí que estamos!"

"Vocês estão na câmara de tortura?"

"Sim, mas não conseguimos ver a porta."

"Oh, se eu pudesse arrastar-me até lá! Eu bateria à porta e isso dir-vos-ia onde ela está."

"É uma porta com uma fechadura?", perguntei.

"Sim, com uma fechadura."

"Mademoiselle", disse eu, "é absolutamente necessário que abra essa porta para nós!"

"Mas como?", perguntou a pobre rapariga entre lágrimas.

Ouvimo-la a esforçar-se, a tentar libertar-se das amarras que a prendiam.

"Sei onde está a chave", disse ela, com uma voz que parecia exausta pelo esforço que tinha feito. "Mas estou presa tão apertada... Oh, o miserável!"

E soltou um soluço.

"Onde está a chave?", perguntei, fazendo sinal ao Sr. de Chagny para não falar e para deixar o assunto comigo, pois não tínhamos um momento a perder.

"No quarto ao lado, perto do órgão, com outra pequena chave de bronze, que ele também me proibiu de tocar. Ambas estão num pequeno saco de couro que ele chama o saco da vida e da morte... Raoul! Raoul! Foge! Tudo é misterioso e terrível aqui, e Erik em breve terá enlouquecido de vez, e vocês estão na câmara de tortura! ... Voltem pelo caminho por onde vieram. Deve haver uma razão pela qual o quarto é chamado por esse nome!"

"Christine", disse o jovem. "Sairemos daqui juntos ou morreremos juntos!"

"Temos de manter a calma", sussurrei. "Porque é que ele a prendeu, mademoiselle? Não pode escapar da casa dele; e ele sabe disso!"

"Tentei cometer suicídio! O monstro saiu ontem à noite, depois de me levar para aqui desmaiada e meio cloroformizada. Ele ia AO SEU BANQUEIRO, foi o que disse! ... Quando regressou, encontrou-me com a cara coberta de sangue... Tinha tentado matar-me batendo com a testa contra as paredes."

"Christine!", gemeu Raoul; e começou a soluçar.

"Então ele prendeu-me... Não me é permitido morrer até às onze horas da noite de amanhã."

"Mademoiselle", declarei, "o monstro prendeu-a... e ele há de soltá-la. Só tem de desempenhar o papel necessário! Lembre-se de que ele a ama!"

"Ai de mim!", ouvimos. "Serei capaz de o esquecer!"

"Lembre-se disso e sorria-lhe... suplique-lhe... diga-lhe que as suas amarras a magoam."

Mas Christine Daaé disse:

"Calados! ... Ouço algo na parede sobre o lago! ... É ele! ... Vão-se embora! Vão-se embora! Vão-se embora!"

"Não podemos ir embora, mesmo que quiséssemos", disse eu, o mais impressivamente que pude. "Não podemos deixar isto! E estamos na câmara de tortura!"

"Calados!", sussurrou Christine novamente.

Passos pesados soaram lentamente atrás da parede, depois pararam e fizeram o chão ranger mais uma vez. Seguiu-se um suspiro tremendo, seguido de um grito de horror de Christine, e ouvimos a voz de Erik:

"Peço perdão por deixar que vejas uma cara como esta! Em que estado estou, não é? A culpa é DO OUTRO! Por que é que ele tocou à campainha? Peço eu às pessoas que passam para me dizerem as horas? Ele nunca mais pedirá as horas a ninguém! A culpa é da sereia."

Outro suspiro, mais profundo, mais tremendo ainda, veio das profundezas abismais de uma alma.

"Por que gritaste, Christine?"

"Porque estou com dores, Erik."

"Pensei que te tinha assustado."

"Erik, desata as minhas amarras... Não sou a tua prisioneira?"

"Tu vais tentar matar-te outra vez."

"Deste-me até às onze horas da noite de amanhã, Erik."

Os passos arrastaram-se pelo chão novamente.

"Afinal, já que vamos morrer juntos... e eu estou tão desejoso quanto tu... sim, já me fartei desta vida, sabes... Espera, não te movas, vou libertar-te... Só tens de dizer uma palavra: 'NÃO!' E tudo terminará imediatamente COM TODA A GENTE! ... Tens razão, tens razão; por que esperar até às onze horas da noite de amanhã? É verdade, teria sido mais grandioso, mais elegante... Mas isso são disparates infantis... Só devemos pensar em nós próprios nesta vida, na nossa própria morte... o resto não interessa... ESTÁS A OLHAR PARA MIM PORQUE ESTOU TODO MOLHADO? ... Oh, minha querida, está a chover a cântaros lá fora! ... Tirando isso, Christine, creio que estou sujeito a alucinações... Sabes, o homem que tocou à porta da sereia há pouco — vai ver se ele está a tocar no fundo do poço do lago —, ele era um bocado parecido com... Pronto, vira-te... estás contente? Estás livre agora... Oh, minha pobre Christine, olha para os teus pulsos: diz-me, magoei-os? ... Só isso merece a morte... Por falar em morte, TENHO DE CANTAR O SEU REQUIEM!"

Ao ouvir estas observações terríveis, senti um pressentimento horrível... Eu também tocara uma vez à porta do monstro... e, sem o saber, devia ter posto em movimento alguma corrente de aviso.

E lembrei-me dos dois braços que tinham emergido das águas tintas... Que pobre desgraçado teria errado até àquela margem desta vez? Quem era "o outro", aquele cujo requiem ouvíamos agora cantar?

Erik cantava como o deus do trovão, cantava um DIES IRAE que nos envolvia como numa tempestade. Os elementos pareciam enfurecer-se à nossa volta. De repente, o órgão e a voz cessaram tão subitamente que M. de Chagny recuou, do outro lado da parede, com emoção. E a voz, mudada e transformada, articulou distintamente estas sílabas metálicas: "O QUE FIZESTE COM A MINHA MALA?"

Capítulo XXIII Começam as torturas

A NARRATIVA DO PERSA CONTINUADA.

A voz repetiu furiosamente: "O que fizeste com a minha mala? Então foi para levar a minha mala que me pediste para te soltar!"

Ouvimos passos apressados, Christine a correr de volta para a sala Luís Filipe, como se procurasse abrigo do outro lado da nossa parede.

"Porque estás a fugir?" perguntou a voz furiosa, que a seguira. "Devolve-me a minha mala, queres? Não sabes que é a mala da vida e da morte?"

"Ouve-me, Erik," suspirou a rapariga. "Uma vez que está decidido que vamos viver juntos... que diferença pode fazer para ti?"

"Sabes que só há duas chaves nela," disse o monstro. "O que queres fazer?"

"Quero ver esta sala que nunca vi e que sempre me escondeste... É curiosidade feminina!" disse ela, num tom que tentou tornar brincalhão.

Mas o truque era demasiado infantil para que Erik se deixasse enganar.

"Não gosto de mulheres curiosas," retorquiu ele, "e farías melhor em lembrar-te da história do BARBA-AZUL e ter cuidado... Vamos, devolve-me a minha mala! ... Devolve-me a minha mala! ... Deixa a chave em paz, queres, sua curiosa?"

E ele riu-se, enquanto Christine soltava um grito de dor. Erik tinha evidentemente recuperado a mala.

Naquele momento, o visconde não pôde evitar soltar uma exclamação de raiva impotente.

"Ora, o que é isso?" disse o monstro. "Ouviste, Christine?"

"Não, não," respondeu a pobre rapariga. "Não ouvi nada."

"Julguei ouvir um grito."

"Um grito! Estás a ficar louco, Erik? De quem esperas um grito, nesta casa? ... Eu gritei porque me magoaste! Não ouvi nada."

"Não gosto da maneira como disseste isso! ... Estás a tremer... Estás toda agitada... Estás a mentir! ... Aquele foi um grito, houve um grito! ... Está alguém na câmara de tortura! ... Ah, já percebo agora!"

"Não está lá ninguém, Erik!"

"Eu percebo!"

"Ninguém!"

"O homem com quem te queres casar, talvez!"

"Não me quero casar com ninguém, tu sabes que não quero."

Outro riso desagradável. "Bem, não demorará muito a descobrir. Christine, meu amor, não precisamos de abrir a porta para ver o que se passa na câmara de tortura. Gostarias de ver? Gostarias de ver? Olha aqui! Se estiver lá alguém, se estiver realmente lá alguém, verás a janela invisível acender-se no topo, perto do teto. Só precisamos de puxar a cortina preta e apagar a luz aqui dentro. Pronto, é isso... Vamos apagar a luz! Não tens medo do escuro, quando estás com o teu maridinho!"

Então ouvimos a voz angustiada de Christine:

"Não! ... Tenho medo! ... Digo-te, tenho medo do escuro! ... Já não me interessa essa sala... Estás sempre a assustar-me, como a uma criança, com a tua câmara de tortura! ... E então fiquei curiosa... Mas já não me interessa... nem um pouco... nem um pouco!"

E aquilo que eu temia acima de todas as coisas começou, AUTOMATICAMENTE. Fomos subitamente inundados de luz! Sim, do nosso lado da parede, tudo parecia resplandecer. O Visconde de Chagny ficou tão desconcertado que cambaleou. E a voz furiosa rugiu:

"Eu disse-te que estava lá alguém! Vês a janela agora? A janela iluminada, mesmo ali em cima? O homem atrás da parede não a consegue ver! Mas tu vais subir os degraus dobráveis: é para isso que eles servem! ... Pediste-me muitas vezes para te contar; e agora já sabes! ... Servem para espreitar para dentro da câmara de tortura... sua curiosa!"

"Que torturas? ... Quem está a ser torturado? ... Erik, Erik, diz que só estás a tentar assustar-me! ... Diz, se me amas, Erik! ... Não há torturas, pois não?"

"Vai espreitar pela janelinha, querida!"

Não sei se o visconde ouviu a voz desfalecida da rapariga, pois estava demasiado ocupado com o espetáculo assombroso que surgia agora diante do seu olhar distraído. Quanto a mim, vira aquele espetáculo demasiadas vezes, através da janelinha, na época das horas cor-de-rosa de Mazenderan; e só me interessava o que se dizia ao lado, à procura de uma pista sobre como agir, que resolução tomar.

"Vai espreitar pela janelinha! Diz-me que aspeto tem ele!"

Ouvimos os degraus serem arrastados contra a parede.

"Sobe! ... Não! ... Não, eu próprio subirei, querida!"

"Oh, muito bem, eu subo. Deixa-me ir!"

"Oh, minha querida, minha querida! ... Que gentileza a tua! ... Que bom da tua parte poupar-me o esforço na minha idade! ... Diz-me que aspeto tem ele!"

Naquele momento, ouvimos distintamente estas palavras acima das nossas cabeças:

"Não está lá ninguém, querido!"

"Ninguém? ... Tens a certeza de que não está lá ninguém?"

"Ora, claro que não... ninguém!"

"Bem, está bem! ... O que se passa, Christine? Não vais desmaiar, pois não... já que não está lá ninguém? ... Aqui... desce... pronto! ... Compõe-te... já que não está lá ninguém! ... MAS O QUE ACHAS DA PAISAGEM?"

"Oh, muito boa!"

"Pronto, assim está melhor! ... Já te sentes melhor, não é? ... Está bem, sentes-te melhor! ... Nada de agitação! ... E que casa engraçada, não é, com paisagens assim lá dentro?"

"Sim, parece o Musée Grévin... Mas, diz-me, Erik... não há torturas lá dentro! ... Que susto que me deste!"

"Por que... já que não está lá ninguém?"

"Foste tu que desenhaste aquela sala? É muito bonita. És um grande artista, Erik."

"Sim, um grande artista, à minha maneira."

"Mas diz-me, Erik, por que chamaste àquela sala câmara de tortura?"

"Oh, é muito simples. Primeiro de tudo, o que viste?"

"Vi uma floresta."

"E o que há numa floresta?"

"Árvores."

"E o que há numa árvore?"

"Pássaros."

"Viste alguns pássaros?"

"Não, não vi pássaros."

"Bem, o que viste? Pensa! Viste ramos. E o que são os ramos?" perguntou a voz terrível. "HÁ UMA FORCA! É por isso que chamo ao meu bosque a câmara de tortura! ... Estás a ver, é tudo uma brincadeira. Nunca me expresso como as outras pessoas. Mas estou muito cansado disto! ... Estou farto de ter uma floresta e uma câmara de tortura em minha casa e de viver como um saltimbanco, numa casa com fundo falso! ... Estou farto! Quero ter um apartamento agradável e tranquilo, com portas e janelas normais e uma esposa lá dentro, como qualquer outra pessoa! Uma esposa a quem pudesse amar e levar a passear aos domingos e manter divertida nos dias de semana... Toma, queres que te mostre uns truques de cartas? Isso ajudar-nos-á a passar uns minutos, enquanto esperamos pelas onze horas da noite de amanhã... Minha querida pequena Christine! ... Estás a ouvir-me? ... Diz-me que me amas! ... Não, não me amas... mas não importa, hás-de amar! ... Outrora, não conseguias olhar para a minha máscara porque sabias o que estava por trás... E agora não te importas de olhar para ela e esqueces o que está por trás! ... Pode acostumar-se a tudo... se se quiser... Muitas pessoas jovens que não se importavam uma com a outra antes do casamento adoraram-se depois! Oh, não sei o que estou a dizer! Mas tu divertir-te-ias imenso comigo. Por exemplo, sou o maior ventríloquo que já existiu, sou o primeiro ventríloquo do mundo! ... Estás a rir-te... Talvez não acredites em mim? Ouve."

O miserável, que era realmente o primeiro ventríloquo do mundo, só tentava desviar a atenção da criança da câmara de tortura; mas era um plano estúpido, pois Christine não pensava noutra coisa senão em nós! Ela suplicava-lhe repetidamente, nos tons mais gentis que podia assumir:

"Apaga a luz da janelinha! ... Erik, apaga a luz da janelinha!"

Pois ela via que aquela luz, que surgira tão de repente e da qual o monstro falara com uma voz tão ameaçadora, devia significar algo terrível. Uma coisa devia tê-la acalmado por um momento; e foi ver-nos aos dois, atrás da parede, no meio daquela luz resplandecente, vivos e bem. Mas ela certamente teria sentido muito mais alívio se a luz tivesse sido apagada.

Entretanto, o outro já começara a fazer de ventríloquo. Ele disse:

"Aqui, levanto um pouco a minha máscara... Oh, só um pouco! ... Vês os meus lábios, tais lábios como tenho? Eles não se movem! ... A minha boca está fechada — tal boca como tenho — e ainda assim ouves a minha voz... Onde a queres? No teu ouvido esquerdo? No teu ouvido direito? Na mesa? Nessas pequenas caixas de ébano na lareira? ... Ouve, querida, está na pequena caixa à direita da lareira: o que diz ela? 'DEVO RODAR O ESCORPIÃO?' ... E agora, crac! O que diz na pequena caixa à esquerda? 'DEVO RODAR O GAFANHOTO?' ... E agora, crac! Aqui está ela na pequena mala de couro... O que diz ela? 'EU SOU A PEQUENA MALA DA VIDA E DA MORTE!' ... E agora, crac! Está na garganta da Carlotta, na garganta de ouro da Carlotta, na garganta de cristal da Carlotta, pela minha vida! O que diz ela? Diz: 'Sou eu, Sr. Sapo, sou eu a cantar! SINTO-ME SEM ALARME—CO-ACK—COM A SUA MELODIA ENVOLVER-ME—CO-ACK!' ... E agora, crac! Está numa cadeira no camarote do fantasma e diz: 'A MADAME CARLOTTA ESTÁ A CANTAR ESTA NOITE PARA DEITAR ABAIXO O LUSTRE!' ... E agora, crac! Aha! Onde está a voz do Erik agora? Ouve, Christine, querida! Ouve! Está atrás da porta da câmara de tortura! Ouve! Sou eu próprio na câmara de tortura! E o que digo eu? Digo: 'Ai daqueles que têm nariz, um nariz verdadeiro, e vêm espreitar a câmara de tortura! Aha, aha, aha!'"

Oh, a voz terrível do ventríloquo! Estava em toda a parte, em toda a parte. Passava através da pequena janela invisível, através das paredes. Corria à nossa volta, entre nós. Erik estava ali, a falar connosco! Fizemos um movimento como se nos fôssemos lançar sobre ele. Mas, já, mais veloz, mais fugaz que a voz do eco, a voz de Erik tinha saltado de volta para trás da parede!

Em breve não ouvimos mais nada, pois foi isto que aconteceu:

"Erik! Erik!" disse a voz de Christine. "Cansas-me com a tua voz. Não continues, Erik! Não está muito calor aqui?"

"Oh, sim," respondeu a voz de Erik, "o calor é insuportável!"

"Mas o que significa isto? ... A parede está realmente a ficar muito quente! ... A parede está a arder!"

"Vou dizer-te, Christine, querida: é por causa da floresta ao lado."

"Bem, o que tem isso a ver com o assunto? A floresta?"

"ORA, NÃO VISTE QUE ERA UMA FLORESTA AFRICANA?"

E o monstro riu-se tão alta e horrivelmente que já não conseguíamos distinguir os gritos suplicantes de Christine! O Visconde de Chagny gritava e batia contra as paredes como um louco. Eu não o conseguia conter. Mas não ouvíamos nada a não ser o riso do monstro, e o próprio monstro não pode ter ouvido mais nada. E depois ouviu-se o som de um corpo a cair no chão e a ser arrastado e uma porta a bater e depois nada, mais nada à nossa volta a não ser o silêncio escaldante do sul no coração de uma floresta tropical!

Capítulo XXIV "Barris! ... Barris! ... Algum barril para vender?"

A NARRATIVA DO PERSA CONTINUADA

Disse que a sala onde o M. le Vicomte de Chagny e eu estávamos presos era um hexágono regular, forrado inteiramente com espelhos. Muitas destas salas têm sido vistas desde então, principalmente em exposições: chamam-lhes "palácios de ilusão", ou qualquer nome do género. Mas a invenção pertence inteiramente a Erik, que construiu a primeira sala deste tipo sob os meus olhos, na época das horas cor-de-rosa de Mazenderan. Um objeto decorativo, como uma coluna, por exemplo, era colocado num dos cantos e produzia imediatamente um salão de mil colunas; pois, graças aos espelhos, a sala real era multiplicada por seis salas hexagonais, cada uma das quais, por sua vez, era multiplicada indefinidamente. Mas a pequena sultana logo se cansou desta ilusão infantil, whereupon Erik alterou a sua invenção para uma "câmara de tortura". Pelo motivo arquitetónico colocado num canto, substituiu uma árvore de ferro. Esta árvore, com as suas folhas pintadas, era absolutamente fiel à realidade e era feita de ferro para resistir a todos os ataques do "paciente" que era trancado na câmara de tortura. Veremos como a cena assim obtida era alterada duas vezes instantaneamente para duas outras cenas sucessivas, por meio da rotação automática dos tambores ou rolos nos cantos. Estes estavam divididos em três secções, encaixando nos ângulos dos espelhos e cada um suportando um esquema decorativo que surgia à vista à medida que o rolo girava sobre o seu eixo.

As paredes desta estranha sala não davam ao paciente nada a que se agarrar, porque, à parte o objeto decorativo sólido, estavam simplesmente guarnecidas com espelhos, suficientemente espessos para resistir a qualquer investida da vítima, que era atirada para a câmara de mãos vazias e descalça.

Não havia mobiliário. O teto podia ser iluminado. Um sistema engenhoso de aquecimento elétrico, que desde então foi imitado, permitia que a temperatura das paredes e da sala fosse aumentada à vontade.

Estou a dar todos estes detalhes de uma invenção perfeitamente natural, produzindo, com alguns ramos pintados, a ilusão sobrenatural de uma floresta equatorial a arder sob o sol tropical, para que ninguém duvide do equilíbrio atual do meu cérebro ou se sinta no direito de dizer que estou louco ou a mentir ou que o tomo por um tolo.[1]

Volto agora aos factos onde os deixei. Quando o teto se iluminou e a floresta se tornou visível à nossa volta, o estupor do visconde foi imenso. Aquela floresta impenetrável, com os seus inúmeros troncos e ramos, lançou-o num estado terrível de consternação. Passou as mãos pela testa, como se para afastar um sonho; os olhos pestanejaram; e, por um momento, esqueceu-se de ouvir.

Já disse que a visão da floresta não me surpreendeu de todo; e por isso escutei, por ambos, o que estava a acontecer ao lado. Por fim, a minha atenção foi especialmente atraída, não tanto para a cena, mas para os espelhos que a produziam. Estes espelhos estavam partidos em partes. Sim, estavam marcados e riscados; tinham sido "estalados", apesar da sua solidez; e isto provou-me que a câmara de tortura em que nos encontrávamos AGORA JÁ TINHA SERVIDO PARA UM FIM.

Sim, algum desgraçado, cujos pés não estavam descalços como os das vítimas das horas cor-de-rosa de Mazenderan, tinha certamente caído nesta "ilusão mortal" e, louco de raiva, tinha pontapeado aqueles espelhos que, contudo, continuavam a refletir a sua agonia. E o ramo da árvore em que ele tinha posto fim aos seus próprios sofrimentos estava arranjado de tal maneira que, antes de morrer, ele tinha visto, para seu último consolo, mil homens a contorcerem-se na sua companhia.

Sim, Joseph Buquet tinha sem dúvida passado por tudo isto! Estaríamos nós destinados a morrer como ele? Não o creio, pois sabia que tínhamos algumas horas pela frente e que as poderia empregar para melhor proveito do que Joseph Buquet fora capaz de fazer. Afinal, conhecia perfeitamente a maioria dos "truques" de Erik; e agora ou nunca era a altura de tirar partido do meu conhecimento.

Para começar, desisti de qualquer ideia de regressar à passagem que nos trouxera àquela câmara maldita. Não me preocupei com a possibilidade de manobrar a pedra interior que fechava a passagem; e isto pela simples razão de que fazê-lo estava fora de questão. Tínhamos caído de uma altura demasiado grande para a câmara de tortura; não havia mobiliário que nos ajudasse a alcançar aquela passagem; nem sequer o ramo da árvore de ferro, nem sequer os ombros um do outro eram de qualquer utilidade.

Havia apenas uma saída possível, aquela que dava para a sala Luís Filipe onde Erik e Christine Daaé estavam. Mas, embora esta saída parecesse uma porta comum do lado de Christine, era absolutamente invisível para nós. Devemos, portanto, tentar abri-la sem sequer saber onde ficava.

Quando tive a certeza de que não havia esperança para nós do lado de Christine Daaé, quando ouvi o monstro a arrastar a pobre rapariga da sala Luís Filipe PARA QUE ELA NÃO INTERFERISSE NAS NOSSAS TORTURAS, resolvi pôr mãos à obra sem demora.

Mas tive primeiro de acalmar o M. de Chagny, que já andava de um lado para o outro como um louco, proferindo gritos incoerentes. Os fragmentos de conversa que ele apanhara entre Christine e o monstro tinham contribuído não pouco para o levar à loucura: acrescentem a isso o choque da floresta mágica e o calor escaldante que começava a fazer a transpiração correr pelas suas têmporas e não terão dificuldade em compreender o seu estado de espírito. Ele gritava o nome de Christine, brandia a sua pistola, batia com a testa contra o vidro nas suas tentativas de correr pelas clareiras da ilusória floresta. Em suma, a tortura estava a começar a exercer o seu feitiço sobre um cérebro não preparado para ela.

Fiz o meu melhor para induzir o pobre visconde a ouvir a razão. Fi-lo tocar nos espelhos e na árvore de ferro e nos ramos e expliquei-lhe, pelas leis da ótica, toda a imagética luminosa pela qual estávamos rodeados e da qual não precisávamos de nos deixar ser vítimas, como as pessoas comuns e ignorantes.

"Estamos numa sala, uma pequena sala; é isso que tem de continuar a dizer a si próprio. E sairemos da sala assim que tivermos encontrado a porta."

E prometi-lhe que, se me deixasse agir, sem me incomodar com gritos e andando de um lado para o outro, descobriria o truque da porta em menos de uma hora.

Então ele deitou-se no chão, como se faz num bosque, e declarou que esperaria até que eu encontrasse a porta da floresta, já que não havia nada melhor a fazer! E acrescentou que, de onde estava, "a vista era esplêndida!" A tortura estava a funcionar, apesar de tudo o que eu tinha dito.

Eu próprio, esquecendo a floresta, ataquei um painel de vidro e comecei a tateá-lo em todas as direções, à caça do ponto fraco onde pressionar para girar a porta de acordo com o sistema de pivôs de Erik. Este ponto fraco podia ser uma mera mancha no vidro, não maior do que uma ervilha, sob a qual a mola estava escondida. Procurei e procurei. Tateei tão alto quanto as minhas mãos podiam alcançar. Erik tinha mais ou menos a mesma altura que eu e pensei que ele não teria colocado a mola mais alto do que o que convinha à sua estatura.

Enquanto tateava os painéis sucessivos com o maior cuidado, esforcei-me por não perder um minuto, pois sentia-me cada vez mais dominado pelo calor e estávamos literalmente a ser assados naquela floresta flamejante.

Trabalhava assim há meia hora e tinha terminado três painéis, quando, para meu azar, me virei ao ouvir uma exclamação murmurada do visconde.

"Estou a sufocar", disse ele. "Todos aqueles espelhos estão a emitir um calor infernal! Acha que encontrará essa mola em breve? Se demorar muito mais, seremos assados vivos!"

Não fiquei triste por ouvi-lo falar assim. Ele não tinha dito uma palavra sobre a floresta e eu esperava que a razão do meu companheiro resistisse ainda algum tempo contra a tortura. Mas ele acrescentou:

"O que me consola é que o monstro deu a Christine até às onze de amanhã à noite. Se não conseguirmos sair daqui e ir em seu auxílio, pelo menos estaremos mortos antes dela! Então a massa de Erik poderá servir para todos nós!"

E engoliu um sopro de ar quente que quase o fez desmaiar.

Como eu não tinha as mesmas razões desesperadas do M. le Vicomte para aceitar a morte, voltei, depois de lhe dar uma palavra de encorajamento, para o meu painel, mas cometi o erro de dar alguns passos enquanto falava e, no emaranhado da floresta ilusória, já não era capaz de encontrar o meu painel com certeza! Tive de começar tudo de novo, ao acaso, sentindo, remexendo, tateando.

Agora a febre apoderou-se de mim por minha vez... pois não encontrava nada, absolutamente nada. Na sala ao lado, tudo era silêncio. Estávamos completamente perdidos na floresta, sem uma saída, uma bússola, um guia ou qualquer coisa. Oh, eu sabia o que nos esperava se ninguém viesse em nosso auxílio... ou se eu não encontrasse a mola! Mas, por mais que procurasse, não encontrava nada além de ramos, belos ramos que se erguiam direitos diante de mim, ou que se espalhavam graciosamente sobre a minha cabeça. Mas não davam sombra. E isto era bastante natural, já que estávamos numa floresta equatorial, com o sol mesmo acima das nossas cabeças, uma floresta africana.

O M. de Chagny e eu tínhamos tirado repetidamente os casacos e voltado a vesti-los, achando a dada altura que nos faziam sentir ainda mais calor e noutra que nos protegiam contra o calor. Eu ainda fazia uma resistência moral, mas o M. de Chagny parecia-me completamente "perdido". Ele fingia que caminhava naquela floresta há três dias e noites, sem parar, à procura de Christine Daae! De tempos a tempos, pensava vê-la por detrás do tronco de uma árvore, ou a deslizar entre os ramos; e chamava por ela com palavras de súplica que me levavam as lágrimas aos olhos. E então, finalmente:

"Oh, como tenho sede!" gritou ele, em tons delirantes.

Eu também tinha sede. A minha garganta estava em chamas. E, contudo, agachado no chão, continuei a caçar, a caçar, a caçar a mola da porta invisível... especialmente porque era perigoso permanecer na floresta à medida que a noite se aproximava. Já as sombras da noite começavam a envolver-nos. Tinha acontecido muito rapidamente: a noite cai rapidamente nos países tropicais... subitamente, quase sem crepúsculo.

Ora, a noite, nas florestas do equador, é sempre perigosa, particularmente quando, como nós, não se tem os materiais para uma fogueira para afastar as feras. Tentei de facto por um momento quebrar os ramos, que eu teria acendido com a minha lanterna surda, mas bati também contra os espelhos e lembrei-me, a tempo, de que só tínhamos imagens de ramos com que lidar.

O calor não se foi com a luz do dia; pelo contrário, estava agora ainda mais quente sob os raios azuis da lua. Insisti com o visconde para que mantivesse as nossas armas prontas a disparar e para não se afastar do acampamento, enquanto eu continuava à procura da minha mola.

Subitamente, ouvimos um leão a rugir a poucos metros de distância.

"Oh", sussurrou o visconde, "ele está muito perto! ... Não o vês? ... Ali ... através das árvores ... naquele matagal! Se ele rugir de novo, dispararei! ..."

E o rugido começou de novo, mais alto do que antes. E o visconde disparou, mas não creio que tenha atingido o leão; apenas estilhaçou um espelho, como percebi na manhã seguinte, ao romper do dia. Devemos ter percorrido uma boa distância durante a noite, pois encontrámo-nos subitamente à beira do deserto, um imenso deserto de areia, pedras e rochas. Realmente não valia a pena deixar a floresta para vir dar ao deserto. Exausto, atirei-me para junto do visconde, pois já me tinha fartado de procurar molas que não conseguia encontrar.

Fiquei bastante surpreendido — e disse-o ao visconde — que não tivéssemos encontrado outros animais perigosos durante a noite. Geralmente, depois do leão vinha o leopardo e por vezes o zumbido da mosca tsé-tsé. Eram efeitos facilmente obtidos; e expliquei ao M. de Chagny que Erik imitava o rugido de um leão num tambor longo ou adufe, com uma pele de asno numa das extremidades. Sobre essa pele ele atava uma corda de tripa, que era presa no meio a outra corda semelhante que passava por todo o comprimento do tambor. Erik só tinha de esfregar esta corda com uma luva untada com resina e, de acordo com a maneira como a esfregava, imitava na perfeição a voz do leão ou do leopardo, ou até mesmo o zumbido da mosca tsé-tsé.

A ideia de que Erik estava provavelmente na sala ao nosso lado, a trabalhar o seu truque, fez-me decidir subitamente entrar em parlamentação com ele, pois devíamos obviamente desistir de qualquer pensamento de o apanhar de surpresa. E a esta altura ele já devia estar bem ciente de quem eram os ocupantes da sua câmara de tortura. Chamei-o: "Erik! Erik!"

Gritei tão alto quanto pude através do deserto, mas não houve resposta à minha voz. À nossa volta jazia o silêncio e a imensidão nua daquele deserto pedregoso. O que seria de nós no meio daquela solidão terrível?

Estávamos a começar literalmente a morrer de calor, fome e sede... de sede especialmente. Finalmente, vi o M. de Chagny levantar-se sobre o cotovelo e apontar para um ponto no horizonte. Tinha descoberto um oásis!

Sim, longe na distância havia um oásis... um oásis com água límpida, que refletia as árvores de ferro! ... Tolo, era a cena da miragem ... Reconheci-a imediatamente ... a pior das três! ... Ninguém tinha sido capaz de lutar contra ela ... ninguém... Fiz o meu máximo para manter a cabeça E NÃO ESPERAR PELA ÁGUA, porque sabia que, se um homem esperasse pela água, a água que refletia a árvore de ferro, e se, depois de esperar pela água, batesse contra o espelho, então só havia uma coisa a fazer: enforcar-se na árvore de ferro!

Por isso gritei ao M. de Chagny:

"É a miragem! ... É a miragem! ... Não acredites na água! ... É outro truque dos espelhos! ..."

Então ele disse-me categoricamente para me calar, com os meus truques dos espelhos, as minhas molas, as minhas portas giratórias e os meus palácios de ilusões! Declarou irritado que eu devia estar ou cego ou louco para imaginar que toda aquela água a correr ali, entre aquelas esplêndidas e inumeráveis árvores, não era água real! ... E o deserto era real! ... E a floresta também! ... E não valia a pena tentar enganá-lo ... ele era um viajante velho e experiente ... tinha andado por toda a parte!

E arrastou-se, dizendo: "Água! Água!"

E a sua boca estava aberta, como se estivesse a beber.

E a minha boca também estava aberta, como se estivesse a beber.

Pois não só víamos a água, mas OUVÍAMO-LA! ... Ouvíamo-la correr, ouvíamo-la murmurar! ... Compreende essa palavra "murmurar?" ... É UM SOM QUE SE OUVE COM A LÍNGUA! ... Põe-se a língua de fora da boca para o ouvir melhor!

Por fim — e esta era a tortura mais impiedosa de todas — ouvimos a chuva e não estava a chover! Esta era uma invenção infernal... Oh, eu sabia muito bem como Erik a obtinha! Enchia com pequenas pedras uma caixa muito comprida e estreita, interrompida por dentro com saliências de madeira e metal. As pedras, ao cair, batiam contra estas saliências e ressaltavam de umas para as outras; e o resultado era uma série de sons de tamborilar que imitavam exatamente uma tempestade de chuva.

Ah, devia ter-nos visto a pôr as línguas de fora e a arrastar-nos em direção à margem do rio que murmurava! Os nossos olhos e ouvidos estavam cheios de água, mas as nossas línguas estavam duras e secas como chifre!

Quando chegámos ao espelho, o M. de Chagny lambeu-o... e eu também lambi o vidro.

Estava a escaldar!

Então rebolámos no chão com um grito rouco de desespero. O M. de Chagny pôs a única pistola que ainda estava carregada contra a sua têmpora; e eu fixei o olhar no laço de Punjab ao pé da árvore de ferro. Eu sabia por que a árvore de ferro tinha regressado, nesta terceira mudança de cenário! ... A árvore de ferro estava à minha espera! ...

Mas, enquanto olhava para o laço de Punjab, vi uma coisa que me fez estremecer tão violentamente que o M. de Chagny atrasou a sua tentativa de suicídio. Segurei-lhe o braço. E então arranquei-lhe a pistola... e depois arrastei-me de joelhos em direção ao que tinha visto.

Tinha descoberto, perto do laço de Punjab, numa ranhura no chão, um prego de cabeça preta do qual eu conhecia o uso. Finalmente tinha descoberto a mola! Senti o prego... levantei um rosto radiante para o M. de Chagny... O prego de cabeça preta cedeu à minha pressão...

E então...

E então não vimos uma porta aberta na parede, mas uma alçapão libertado no chão. Ar fresco subiu até nós do buraco negro abaixo. Debruçámo-nos sobre aquele quadrado de escuridão como sobre um poço límpido. Com os queixos na sombra fresca, bebemo-la. E inclinámo-nos mais e mais sobre o alçapão. O que poderia estar naquela cave que se abria diante de nós? Água? Água para beber?

Enfiei o braço na escuridão e encontrei uma pedra e outra pedra... uma escada... uma escada escura que levava para a cave. O visconde queria atirar-se para o buraco; mas eu, temendo um novo truque do monstro, impedi-o, acendi a minha lanterna surda e desci primeiro.

A escada era em caracol e descia para uma escuridão total. Mas oh, quão deliciosamente frescas eram a escuridão e as escadas? O lago não devia estar longe.

Chegámos rapidamente ao fundo. Os nossos olhos começavam a habituar-se ao escuro, a distinguir formas à nossa volta... formas circulares... sobre as quais direcionei a luz da minha lanterna.

Barris!

Estávamos na cave de Erik: era aqui que ele devia guardar o seu vinho e talvez a sua água potável. Eu sabia que Erik era um grande apreciador de bom vinho. Ah, havia muito para beber aqui!

O M. de Chagny deu palmadinhas nas formas redondas e continuava a dizer:

"Barris! Barris! Que quantidade de barris! ..."

De facto, havia um bom número deles, dispostos simetricamente em duas filas, uma de cada lado de nós. Eram barris pequenos e pensei que Erik os devia ter escolhido desse tamanho para facilitar o seu transporte para a casa no lago.

Examinámo-los sucessivamente, para ver se algum deles não tinha um funil, mostrando que tinha sido aberto em algum momento. Mas todos os barris estavam hermeticamente fechados.

Então, depois de levantar ligeiramente um para ter a certeza de que estava cheio, pusemo-nos de joelhos e, com a lâmina de uma faca pequena que eu trazia, preparei-me para abrir o orifício da tampa.

Nesse momento, pareceu-me ouvir, vindo de muito longe, uma espécie de canto monótono que eu conhecia bem, de tantas vezes o ouvir nas ruas de Paris:

"Barris! ... Barris! ... Algum barril para vender?"

A minha mão desistiu do seu trabalho. O M. de Chagny também tinha ouvido. Ele disse:

"Isto é engraçado! Parece que o barril está a cantar!"

A canção renovou-se, mais longe:

"Barris! ... Barris! ... Algum barril para vender? ..."

"Oh, juro", disse o visconde, "que a melodia desaparece dentro do barril! ..."

Levantámo-nos e fomos ver atrás do barril.

"É lá dentro", disse o M. de Chagny, "é lá dentro!"

Mas não ouvimos nada lá e fomos forçados a culpar o mau estado dos nossos sentidos. E voltámos para o orifício da tampa. O M. de Chagny juntou as duas mãos por baixo dele e, com um último esforço, rebentei a tampa.

"O que é isto?" gritou o visconde. "Isto não é água!"

O visconde pôs as duas mãos cheias perto da minha lanterna... inclinei-me para olhar... e de imediato atirei a lanterna com tal violência que ela se partiu e apagou, deixando-nos na escuridão total.

O que eu tinha visto nas mãos do M. de Chagny... era pólvora!

[1] É muito natural que, na altura em que o Persa escrevia, ele tomasse tantas precauções contra qualquer espírito de incredulidade por parte daqueles que provavelmente leriam a sua narrativa. Hoje em dia, quando todos nós já vimos este tipo de sala, as suas precauções seriam supérfluas.

Capítulo XXV O Escorpião ou o Gafanhoto: Qual?

A NARRATIVA DO PERSA CONCLUÍDA

A descoberta lançou-nos num estado de alarme que nos fez esquecer todos os nossos sofrimentos passados e presentes. Sabíamos agora tudo o que o monstro queria dizer quando disse a Christine Daae:

"Sim ou não! Se a sua resposta for não, todos estarão mortos E ENTERRADOS!"

Sim, enterrados sob as ruínas da Grande Ópera de Paris!

O monstro tinha-lhe dado até às onze horas da noite. Tinha escolhido bem o seu momento. Haveria muita gente, muitos "membros da raça humana", lá em cima, no teatro resplandecente. Que melhor cortejo se poderia esperar para o seu funeral? Ele desceria ao túmulo escoltado pelos ombros mais brancos do mundo, adornado com as mais ricas joias.

Onze horas de amanhã à noite!

Íamos ser todos explodidos a meio do espetáculo... se Christine Daae dissesse não!

Onze horas de amanhã à noite! ...

E o que poderia Christine dizer a não ser não? Não preferiria ela esposar a própria morte em vez daquele cadáver vivo? Ela não sabia que da sua aceitação ou recusa dependia o destino terrível de muitos membros da raça humana!

Onze horas de amanhã à noite!

E arrastámo-nos através da escuridão, tateando o caminho para os degraus de pedra, pois a luz no alçapão lá em cima que levava à sala dos espelhos estava agora extinta; e repetíamos para nós próprios:

"Onze horas de amanhã à noite!"

Finalmente, encontrei a escada. Mas, subitamente, endireitei-me no primeiro degrau, pois um pensamento terrível tinha vindo à minha mente:

"Que horas são?"

Ah, que horas eram? ... Pois, afinal de contas, onze horas de amanhã à noite podiam ser agora, podiam ser este preciso momento! Quem nos podia dizer as horas? Parecíamos estar presos naquele inferno há dias e dias... há anos... desde o início do mundo. Talvez fôssemos explodidos ali mesmo! Ah, um som! Um estalido! "Ouviu isso? ... Ali, no canto ... meu Deus! ... Como um som de maquinaria! ... Outra vez! ... Oh, por uma luz! ... Talvez seja a maquinaria que vai explodir com tudo! ... Digo-lhe, um som de estalido: está surdo?"

O M. de Chagny e eu começámos a gritar como loucos. O medo estimulou-nos. Corremos pelos degraus da escada, tropeçando à medida que subíamos, qualquer coisa para escapar ao escuro, para regressar à luz mortal da sala dos espelhos!

Encontrámos o alçapão ainda aberto, mas estava agora tão escuro na sala dos espelhos como na cave que tínhamos deixado. Arrastámo-nos pelo chão da câmara de tortura, o chão que nos separava do paiol de pólvora. Que horas eram? Gritámos, chamámos: M. de Chagny por Christine, eu por Erik. Lembrei-lhe que tinha salvo a sua vida. Mas nenhuma resposta, exceto a do nosso desespero, da nossa loucura: que horas eram? Discutimos, tentámos calcular o tempo que tínhamos passado ali, mas éramos incapazes de raciocinar. Se pudéssemos apenas ver a face de um relógio! ... O meu tinha parado, mas o do M. de Chagny ainda funcionava... Ele disse-me que o tinha dado à corda antes de se vestir para a Ópera... Não tínhamos um fósforo connosco... E ainda assim tínhamos de saber... O M. de Chagny partiu o vidro do seu relógio e sentiu os dois ponteiros... Interrogou os ponteiros do relógio com as pontas dos dedos, guiando-se pela posição da argola do relógio... Julgando pelo espaço entre os ponteiros, achou que poderiam ser exatamente onze horas!

Mas talvez não fossem as onze horas que temíamos. Talvez tivéssemos ainda doze horas pela frente!

Subitamente, exclamei: "Silêncio!"

Pareceu-me ouvir passos na sala ao lado. Alguém bateu contra a parede. A voz de Christine Daae disse:

"Raoul! Raoul!" Estávamos agora todos a falar ao mesmo tempo, de cada lado da parede. Christine soluçava; ela não tinha a certeza de que encontraria o M. de Chagny vivo. O monstro tinha sido terrível, ao que parecia, não tinha feito nada além de delirar, esperando que ela lhe desse o "sim" que ela recusava. E, contudo, ela tinha-lhe prometido esse "sim", se ele a levasse para a câmara de tortura. Mas ele tinha obstinadamente recusado, e tinha proferido ameaças horríveis contra todos os membros da raça humana! Finalmente, depois de horas e horas daquele inferno, ele tinha acabado de sair, deixando-a sozinha para refletir pela última vez.

"Horas e horas? Que horas são agora? Que horas são, Christine?"

"São onze horas! Onze horas, menos cinco minutos!"

"Mas quais onze horas?"

"As onze horas que hão de decidir a vida ou a morte! ... Ele disse-mo logo antes de partir ... Ele é terrível ... Ele está completamente louco: arrancou a máscara e os seus olhos amarelos lançavam chamas! ... Não fazia mais do que rir! ... Disse: 'Dou-te cinco minutos para poupares as tuas faces rubras! Aqui', disse ele, tirando uma chave da pequena bolsa da vida e da morte, 'aqui está a pequena chave de bronze que abre os dois cofres de ébano na lareira da sala Luís-Filipe... Num dos cofres, encontrarás um escorpião, no outro, um gafanhoto, ambos imitados com grande perícia em bronze japonês: eles dirão sim ou não por ti. Se virares o escorpião, isso significará para mim, quando eu regressar, que disseste sim. O gafanhoto significará não.' E riu-se como um demónio embriagado. Não fiz mais do que suplicar e implorar que me desse a chave da câmara de tortura, prometendo ser sua esposa se ele me concedesse esse pedido ... Mas ele disse-me que já não haveria necessidade futura dessa chave e que a ia atirar ao lago! ... E riu-se novamente como um demónio embriagado e deixou-me. Oh, as suas últimas palavras foram: 'O gafanhoto! Tem cuidado com o gafanhoto! Um gafanhoto não roda apenas: ele salta! Ele salta! E salta bem alto!'"

Os cinco minutos tinham quase decorrido e o escorpião e o gafanhoto arranhavam o meu cérebro. Contudo, restava-me lucidez suficiente para compreender que, se o gafanhoto fosse virado, ele saltaria ... e com ele muitos membros da raça humana! Não havia dúvida de que o gafanhoto controlava uma corrente elétrica destinada a explodir o paiol!

O Sr. de Chagny, que parecia ter recuperado toda a sua força moral ao ouvir a voz de Christine, explicou-lhe, em poucas palavras apressadas, a situação em que nós e toda a Ópera nos encontrávamos. Disse-lhe para virar o escorpião imediatamente.

Houve uma pausa.

"Christine", gritei, "onde estás?"

"Junto ao escorpião."

"Não lhe toques!"

A ideia ocorrera-me — pois conhecia o meu Erik — de que o monstro talvez tivesse enganado a rapariga mais uma vez. Talvez fosse o escorpião que faria explodir tudo. Afinal, porque não estava ele ali? Os cinco minutos tinham passado há muito ... e ele não regressara... Talvez se tivesse abrigado e estivesse à espera da explosão! ... Porque não tinha regressado? ... Ele não podia esperar seriamente que Christine consentisse alguma vez em tornar-se a sua presa voluntária! ... Porque não tinha regressado?

"Não toques no escorpião!", disse eu.

"Aí vem ele!", gritou Christine. "Ouço-o! Ei-lo!"

Ouvimos os seus passos a aproximarem-se da sala Luís-Filipe. Ele aproximou-se de Christine, mas não falou. Então, levantei a voz:

"Erik! Sou eu! Conheces-me?"

Com uma calma extraordinária, ele respondeu de imediato:

"Então, não morreste aí dentro? Pois bem, certifica-te de que ficas calado."

Tentei falar, mas ele disse friamente:

"Nem uma palavra, daroga, ou farei explodir tudo." E acrescentou: "A honra cabe à mademoiselle ... A mademoiselle não tocou no escorpião" — quão deliberadamente ele falava! — "a mademoiselle não tocou no gafanhoto" — com aquela compostura! — "mas não é demasiado tarde para fazer a coisa certa. Ali, abro os cofres sem chave, pois sou um amante de alçapões e abro e fecho o que quero e como quero. Abro os pequenos cofres de ébano: mademoiselle, olhe para os pequenos queridos lá dentro. Não são bonitos? Se virar o gafanhoto, mademoiselle, seremos todos explodidos. Há pólvora suficiente debaixo dos nossos pés para explodir um bairro inteiro de Paris. Se virar o escorpião, mademoiselle, toda essa pólvora será ensopada e afogada. Mademoiselle, para celebrar o nosso casamento, fará um presente muito elegante a algumas centenas de parisienses que estão neste momento a aplaudir uma pobre obra-prima de Meyerbeer ... dar-lhes-á o presente das suas vidas ... Pois, com as suas próprias mãos formosas, virará o escorpião ... E alegremente, alegremente, casar-nos-emos!"

Uma pausa; e depois:

"Se, em dois minutos, mademoiselle, não tiver virado o escorpião, virei o gafanhoto ... e o gafanhoto, digo-lhe, SALTA BEM ALTO!"

O silêncio terrível recomeçou. O Visconde de Chagny, percebendo que não restava nada a fazer senão rezar, pôs-se de joelhos e rezou. Quanto a mim, o meu sangue batia tão ferozmente que tive de segurar o coração com ambas as mãos, para que não explodisse. Finalmente, ouvimos a voz de Erik:

"Os dois minutos passaram ... Adeus, mademoiselle... Salta, gafanhoto!" "Erik", gritou Christine, "juras-me, monstro, juras-me que é o escorpião que deve ser virado?"

"Sim, para saltar no nosso casamento."

"Ah, vês! Disseste: para saltar!"

"No nosso casamento, criança ingénua! ... O escorpião abre o baile... Mas chega! ... Não queres o escorpião? Então viro o gafanhoto!"

"Erik!"

"Basta!"

Eu gritava em uníssono com Christine. O Sr. de Chagny continuava de joelhos, a rezar.

"Erik! Eu virei o escorpião!"

Oh, o segundo pelo qual passámos!

À espera! À espera de nos encontrarmos em fragmentos, no meio do estrondo e das ruínas!

Sentir algo estalar debaixo dos nossos pés, ouvir um silvo aterrador através do alçapão aberto, um silvo como o primeiro som de um foguete!

Veio suavemente, a princípio, depois mais alto, depois muito alto. Mas não era o silvo do fogo. Parecia mais o silvo da água. E agora tornava-se um som de gorgolejo: "Gorgolejo! Gorgolejo!"

Corremos para o alçapão. Toda a nossa sede, que desaparecera quando o terror chegou, regressou agora com o lamber da água.

A água subiu na cave, acima dos barris, os barris de pólvora — "Barris! ... Barris! Algum barril para vender?" — e descemos até ela com as gargantas secas. Subiu até aos nossos queixos, às nossas bocas. E bebemos. Ficámos de pé no chão da cave e bebemos. E subimos as escadas novamente no escuro, passo a passo, subimos com a água.

A água saiu da cave connosco e espalhou-se pelo chão da sala. Se isto continuasse, toda a casa sobre o lago seria inundada. O chão da câmara de tortura tornara-se ele próprio um verdadeiro pequeno lago, no qual os nossos pés chapinhavam. Certamente já havia água suficiente! O Erik devia fechar a torneira!

"Erik! Erik! Isso é água suficiente para a pólvora! Fecha a torneira! Vira o escorpião!"

Mas Erik não respondeu. Não ouvíamos nada além da água a subir: estava a meio das nossas cinturas!

"Christine!", gritou o Sr. de Chagny. "Christine! A água está pelos nossos joelhos!"

Mas Christine não respondeu ... Não ouvíamos nada além da água a subir.

Ninguém, ninguém na sala ao lado, ninguém para fechar a torneira, ninguém para virar o escorpião!

Estávamos sozinhos, no escuro, com a água escura que nos agarrou e nos prendeu e nos gelou!

"Erik! Erik!"

"Christine! Christine!"

A esta altura, perdêramos o equilíbrio e girávamos na água, levados por um turbilhão irresistível, pois a água girava connosco e atirava-nos contra o espelho escuro, que nos empurrava de volta; e as nossas gargantas, erguidas acima do remoinho, rugiam bem alto.

Íamos morrer aqui, afogados na câmara de tortura? Nunca tinha visto isso. Erik, na época das horas cor-de-rosa de Mazenderan, nunca me tinha mostrado isso, através da pequena janela invisível.

"Erik! Erik!", gritei. "Eu salvei a tua vida! Lembra-te! ... Foste condenado à morte! Se não fosse por mim, estarias morto agora! ... Erik!"

Girávamos na água como destroços. Mas, de repente, as minhas mãos errantes agarraram o tronco da árvore de ferro! Chamei o Sr. de Chagny, e ambos nos agarrámos ao ramo da árvore de ferro.

E a água subia ainda mais.

"Oh! Oh! Consegues lembrar-te? Quanto espaço há entre o ramo da árvore e o teto em forma de cúpula? Tenta lembrar-te! ... Afinal, a água pode parar, tem de encontrar o seu nível! ... Ali, penso que está a parar! ... Não, não, oh, horrível! ... Nada! Nada pela tua vida!"

Os nossos braços emaranharam-se no esforço de nadar; sufocámos; lutámos na água escura; já mal conseguíamos respirar o ar escuro acima da água escura, o ar que escapava, que podíamos ouvir escapar através de um respiradouro qualquer.

"Oh, viremos e viremos e viremos até encontrarmos o orifício de ar e então colaremos as nossas bocas a ele!"

Mas perdi as minhas forças; tentei agarrar-me às paredes! Oh, como aquelas paredes de vidro escorregavam por baixo dos meus dedos tateantes! ... Girámos de novo! ... Começámos a afundar-nos! ... Um último esforço! ... Um último grito: "Erik! ... Christine! ..."

"Gorgolejo, gorgolejo, gorgolejo!", nos nossos ouvidos. "Gorgolejo! Gorgolejo!" No fundo da água escura, os nossos ouvidos faziam: "Gorgolejo! Gorgolejo!"

E, antes de perder a consciência completamente, pareceu-me ouvir, entre dois gorgolejos:

"Barris! Barris! Algum barril para vender?"

Capítulo XXVI O Fim da História de Amor do Fantasma

O capítulo anterior marca a conclusão da narrativa escrita que o persa deixou atrás de si.

Não obstante os horrores de uma situação que parecia abandoná-los definitivamente à morte, o Sr. de Chagny e a sua companheira foram salvos pela devoção sublime de Christine Daae. E eu tive o resto da história dos lábios do próprio daroga.

Quando fui visitá-lo, ele ainda vivia no seu pequeno apartamento na Rue de Rivoli, em frente às Tulherias. Estava muito doente, e foi preciso todo o meu ardor como historiador empenhado na verdade para o persuadir a reviver a incrível tragédia para meu benefício. O seu velho e fiel criado Dario deixou-me entrar. O daroga recebeu-me junto a uma janela com vista para o jardim das Tulherias. Ele ainda tinha os seus olhos magníficos, mas o seu rosto pobre parecia muito desgastado. Tinha rapado toda a cabeça, que estava habitualmente coberta com um gorro de astracã; vestia um casaco comprido e simples e divertia-se a torcer inconscientemente os polegares dentro das mangas; mas a sua mente estava muito clara, e contou-me a sua história com perfeita lucidez.

Ao que parece, quando abriu os olhos, o daroga encontrou-se deitado numa cama. O Sr. de Chagny estava num sofá, ao lado do guarda-roupa. Um anjo e um demónio vigiavam-nos.

Depois dos enganos e ilusões da câmara de tortura, a precisão dos detalhes daquela pequena e sossegada sala burguesa parecia ter sido inventada com o propósito expresso de confundir a mente do mortal imprudente o suficiente para se perder naquela habitação de pesadelo vivo. A cama de madeira, as cadeiras de mogno enceradas, a cómoda, aqueles metais, os pequenos antimacassares quadrados cuidadosamente colocados nas costas das cadeiras, o relógio na lareira e os cofres de ébano de aspeto inofensivo em cada extremidade, por último, a estante cheia de conchas, de almofadas de alfinetes vermelhas, de barcos de madrepérola e um enorme ovo de avestruz, o todo discretamente iluminado por um candeeiro com abajur pousado numa pequena mesa redonda: esta coleção de mobiliário feio, pacífico e razoável, NO FUNDO DAS CAVES DA ÓPERA, desconcertava a imaginação mais do que todos os acontecimentos fantásticos recentes.

E a figura do homem mascarado parecia ainda mais formidável nesta pequena moldura antiquada, arrumada e cuidada. Ele inclinou-se sobre o persa e disse-lhe ao ouvido:

"Sente-se melhor, daroga? ... Está a olhar para o meu mobiliário? ... É tudo o que me resta da minha pobre e infeliz mãe."

Christine Daae não disse uma palavra: movia-se sem ruído, como uma irmã de caridade que tivesse feito voto de silêncio. Trouxe uma chávena de cordial, ou de chá quente, ele não se recordava qual. O homem da máscara tirou-lha das mãos e deu-a ao persa. O Sr. de Chagny ainda dormia.

Erik deitou uma gota de rum na chávena do daroga e, apontando para o visconde, disse:

"Ele recuperou os sentidos muito antes de sabermos se ainda estava vivo, daroga. Ele está muito bem. Está a dormir. Não o devemos acordar."

Erik saiu da sala por um momento, e o persa ergueu-se sobre o cotovelo, olhou à sua volta e viu Christine Daae sentada junto à lareira. Falou-lhe, chamou-a, mas estava ainda muito fraco e caiu de volta na almofada. Christine veio até ele, pousou a mão na sua testa e afastou-se novamente. E o persa lembrou-se de que, ao sair, ela não lançou um olhar ao Sr. de Chagny, que, é verdade, dormia pacificamente; e sentou-se de novo na sua cadeira junto ao canto da lareira, silenciosa como uma irmã de caridade que tivesse feito voto de silêncio.

Erik regressou com uns frasquinhos que colocou na lareira. E, novamente num sussurro, para não acordar o Sr. de Chagny, disse ao persa, depois de se sentar e sentir o seu pulso:

"Estão agora salvos, ambos. E em breve levá-los-ei à superfície da terra, PARA AGRADAR À MINHA MULHER."

Dito isto, levantou-se, sem mais explicações, e desapareceu mais uma vez.

O persa olhou agora para o perfil sossegado de Christine sob a luz do candeeiro. Ela estava a ler um livrinho, de margens douradas, como um livro religioso. Existem edições de A IMITAÇÃO que têm esse aspeto. O persa ainda tinha nos ouvidos o tom natural com que o outro dissera: "para agradar à minha mulher". Muito suavemente, chamou-a de novo; mas Christine estava absorta no seu livro e não o ouviu.

Erik regressou, preparou ao daroga uma poção e aconselhou-o a não falar novamente com "a sua mulher" nem com ninguém, PORQUE PODERIA SER MUITO PERIGOSO PARA A SAÚDE DE TODOS.

Eventualmente, o persa adormeceu, tal como o Sr. de Chagny, e não acordou até estar no seu próprio quarto, cuidado pelo seu fiel Dario, que lhe disse que, na noite anterior, fora encontrado encostado à porta do seu apartamento, para onde fora trazido por um estranho, que tocou à campainha antes de se ir embora.

Assim que o daroga recuperou as forças e o juízo, mandou perguntar pela saúde do visconde à casa do Conde Filipe. A resposta foi que o jovem não tinha sido visto e que o Conde Filipe estava morto. O seu corpo foi encontrado na margem do lago da Ópera, do lado da Rue-Scribe. O persa lembrou-se da missa de réquiem que ouvira por trás da parede da câmara de tortura, e não teve dúvidas quanto ao crime e ao criminoso. Conhecendo o Erik como conhecia, reconstruiu facilmente a tragédia. Pensando que o seu irmão tinha fugido com Christine Daae, Filipe tinha corrido em perseguição dele ao longo da estrada de Bruxelas, onde sabia que tudo estava preparado para a fuga. Não encontrando o par, apressou-se a regressar à Ópera, recordou-se da estranha confidência de Raoul sobre o seu rival fantástico e soube que o visconde fizera todos os esforços para entrar nas caves do teatro e que desaparecera, deixando o seu chapéu no camarim da prima-dona ao lado de uma caixa de pistola vazia. E o conde, que já não nutria qualquer dúvida sobre a loucura do seu irmão, lançou-se por sua vez naquele labirinto subterrâneo infernal. Isto era o suficiente, aos olhos do persa, para explicar a descoberta do cadáver do Conde de Chagny na margem do lago, onde a sereia, a sereia de Erik, montava guarda.

O persa não hesitou. Determinou informar a polícia. Na altura, o caso estava nas mãos de um juiz de instrução chamado Faure, um tipo incrédulo, comum, superficial, (escrevo como penso), com uma mente absolutamente despreparada para receber uma confidência deste género. O Sr. Faure tomou nota das deposições do daroga e procedeu a tratá-lo como um louco.

Desesperado por conseguir ser ouvido, o persa sentou-se a escrever. Como a polícia não queria o seu testemunho, talvez a imprensa o acolhesse; e tinha acabado de escrever a última linha da narrativa que citei nos capítulos precedentes, quando Dario anunciou a visita de um estranho que recusou o seu nome, que não quis mostrar o rosto e declarou simplesmente que não tencionava deixar o local até ter falado com o daroga.

O persa sentiu logo quem era o seu visitante singular e ordenou que o deixassem entrar. O daroga tinha razão. Era o fantasma, era o Erik!

Parecia extremamente fraco e encostava-se à parede, como se tivesse medo de cair. Tirando o chapéu, revelou uma testa branca como cera. O resto do rosto horrível estava escondido pela máscara.

O persa pôs-se de pé quando Erik entrou.

"Assassino do Conde Filipe, o que fizeste com o seu irmão e Christine Daae?"

Erik cambaleou sob este ataque direto, manteve-se em silêncio por um momento, arrastou-se até uma cadeira e soltou um profundo suspiro. Depois, falando em frases curtas e ofegante entre as palavras:

"Daroga, não me fales ... sobre o Conde Filipe ... Ele estava morto ... na altura ... em que deixei a minha casa ... ele estava morto ... quando ... a sereia cantou ... Foi um ... acidente ... um triste ... um muito triste ... acidente. Ele caiu de forma muito desajeitada ... mas simples e natural ... no lago! ..."

"Tu mentes!", gritou o persa.

Erik baixou a cabeça e disse:

"Eu não vim aqui ... para falar sobre o Conde Filipe ... mas para te dizer que ... eu vou ... morrer..."

"Onde estão Raoul de Chagny e Christine Daae?"

"Eu vou morrer."

"Raoul de Chagny e Christine Daae?"

"De amor ... daroga ... Estou a morrer ... de amor ... É assim ... amava-a tanto! ... E amo-a ainda ... daroga ... e estou a morrer de amor por ela, eu ... eu digo-te! ... Se soubesses quão bonita ela era ... quando me deixou beijá-la ... viva ... Foi a primeira ... vez, daroga, a primeira ... vez que beijei uma mulher ... Sim, viva ... beijei-a viva ... e ela parecia tão bonita como se estivesse morta!"

O persa abanou o Erik pelo braço:

"Diz-me se ela está viva ou morta."

"Porque me abanas assim?", perguntou Erik, fazendo um esforço para falar de forma mais coerente. "Digo-te que vou morrer... Sim, beijei-a viva ..."

"E agora ela está morta?"

"Digo-te que a beijei exatamente assim, na testa ... e ela não afastou a testa dos meus lábios! ... Oh, ela é uma boa rapariga! ... Quanto a ela estar morta, não creio; mas não tem nada a ver comigo ... Não, não, ela não está morta! E ninguém lhe tocará num fio de cabelo! Ela é uma rapariga boa e honesta, e salvou a tua vida, daroga, num momento em que eu não teria dado dois tostões pela tua pele de persa. Na verdade, ninguém se preocupou contigo. Porque estavas tu lá com aquele rapazinho? Terias morrido tal como ele! Palavra, como ela me suplicou pelo seu rapazinho! Mas eu disse-lhe que, como ela tinha virado o escorpião, ela tinha, por esse mesmo facto, e de livre vontade, ficado noiva de mim e que ela não precisava de ter dois homens noivos dela, o que era bem verdade."

"Quanto a ti, tu não existias, tinhas deixado de existir, digo-to eu, e ias morrer com o outro! ... Apenas, repara bem, daroga, quando tu gritavas como um diabo, por causa da água, Christine veio ter comigo com os seus belos olhos azuis bem abertos, e jurou-me, pela sua salvação, que consentia em ser A MINHA ESPOSA VIVA! ... Até aí, nas profundezas dos seus olhos, daroga, eu tinha visto sempre a minha esposa morta; foi a primeira vez que vi A MINHA ESPOSA VIVA neles. Ela era sincera, pela sua salvação. Ela não se mataria. Foi um negócio ... Meio minuto depois, toda a água tinha voltado para o lago; e tive um trabalho difícil contigo, daroga, pois, pela minha honra, pensei que estavas acabado! ... Contudo! ... Lá estavas tu! ... Ficou entendido que eu vos levaria a ambos até à superfície da terra. Quando, finalmente, te tirei da sala Luís Filipe, voltei sozinho ..."

"O que fizeste com o Visconde de Chagny?", perguntou o Persa, interrompendo-o.

"Ah, vês tu, daroga, eu não podia levá-lo para cima assim, de imediato. ... Ele era um refém ... Mas também não podia mantê-lo na casa do lago, por causa da Christine; por isso, tranquei-o confortavelmente, acorrentei-o como deve ser — uma lufada do perfume de Mazenderan deixou-o mole como um trapo — na masmorra dos Comunistas, que fica na parte mais deserta e remota da Ópera, abaixo do quinto andar de caves, onde ninguém vem e onde ninguém te ouve. Depois, voltei para junto da Christine, ela estava à minha espera."

Erik levantou-se então solenemente. Depois continuou, mas, à medida que falava, foi dominado por toda a sua emoção anterior e começou a tremer como uma folha:

"Sim, ela estava à minha espera ... à minha espera, de pé e viva, uma verdadeira noiva viva ... pela sua salvação ... E, quando eu ... me aproximei, mais tímido do que ... uma criança, ela não fugiu ... não, não ... ela ficou ... ela esperou por mim ... Até creio ... daroga ... que ela estendeu a testa ... um pouco ... oh, não muito ... apenas um pouco ... como uma noiva viva ... E ... e ... eu ... beijei-a! ... Eu! ... Eu! ... Eu! ... E ela não morreu! ... Oh, como é bom, daroga, beijar alguém na testa! ... Não podes imaginar! ... Mas eu! Eu! ... A minha mãe, daroga, a minha pobre e infeliz mãe nunca ... me deixou beijá-la ... Ela fugia ... e atirava-me a máscara! ... Nem qualquer outra mulher ... nunca, nunca! ... Ah, podes compreender, a minha felicidade era tão grande, que chorei. E caí aos seus pés, a chorar ... e beijei-lhe os pés ... os seus pezinhos ... a chorar. Tu também estás a chorar, daroga ... e ela também chorou ... o anjo chorou! ..." Erik soluçou alto e o próprio Persa não conseguiu conter as lágrimas na presença daquele homem mascarado que, com os ombros a tremer e as mãos apertadas contra o peito, gemia de dor e de amor alternadamente.

"Sim, daroga ... senti as suas lágrimas a correrem na minha testa ... na minha, na minha! ... Eram suaves ... eram doces! ... Escorreram por baixo da minha máscara ... misturaram-se com as minhas lágrimas nos meus olhos ... sim ... correram entre os meus lábios ... Ouve, daroga, ouve o que fiz ... arranquei a minha máscara para não perder uma só das suas lágrimas ... e ela não fugiu! ... E ela não morreu! ... Permaneceu viva, a chorar por mim, comigo. Chorámos juntos! Saboreei toda a felicidade que o mundo pode oferecer!"

E Erik caiu numa cadeira, ofegante:

"Ah, eu ainda não vou morrer ... daqui a pouco morrerei ... mas deixa-me chorar! ... Ouve, daroga ... ouve isto ... Enquanto eu estava aos seus pés ... ouvi-a dizer: 'Pobre e infeliz Erik!' ... E ELA PEGOU NA MINHA MÃO! ... Eu já não passava, sabes, de um pobre cão pronto a morrer por ela ... digo-o a sério, daroga! ... Segurava na mão um anel, um simples anel de ouro que lhe tinha dado ... que ela tinha perdido ... e que eu tinha reencontrado ... uma aliança, sabes ... Deslizei-o na sua mãozinha e disse: 'Toma! ... Aceita-o! ... Aceita-o para ti ... e para ele! ... Será o meu presente de casamento, um presente do teu pobre e infeliz Erik ... Eu sei que amas o rapaz ... não chores mais!' ... Ela perguntou-me, com uma voz muito suave, o que queria eu dizer ... Então, fiz-lhe entender que, no que a ela dizia respeito, eu era apenas um pobre cão, pronto a morrer por ela ... mas que ela podia casar-se com o jovem quando quisesse, porque ela tinha chorado comigo e misturado as suas lágrimas com as minhas! ..."

A emoção de Erik era tão grande que teve de pedir ao Persa que não olhasse para ele, pois estava a sufocar e tinha de tirar a máscara. O daroga foi até à janela e abriu-a. O seu coração estava cheio de piedade, mas teve o cuidado de manter os olhos fixos nas árvores do jardim das Tulherias, para não ver o rosto do monstro.

"Fui libertar o jovem", continuou Erik, "e disse-lhe para vir comigo ter com a Christine ... Beijaram-se à minha frente na sala Luís Filipe ... Christine tinha o meu anel ... Fiz a Christine jurar que voltaria, uma noite, quando eu estivesse morto, atravessando o lago pelo lado da Rue Scribe, e que me enterraria no maior segredo com o anel de ouro, que ela deveria usar até esse momento. ... Disse-lhe onde encontraria o meu corpo e o que fazer com ele... Depois, a Christine beijou-me, pela primeira vez, ela própria, aqui, na testa — não olhes, daroga! — aqui, na testa ... na minha testa, a minha — não olhes, daroga! — e partiram juntos ... a Christine tinha parado de chorar ... Só eu chorava ... Daroga, daroga, se a Christine cumprir a sua promessa, ela voltará em breve! ..."

O Persa não lhe fez perguntas. Estava completamente descansado quanto ao destino de Raoul Chagny e Christine Daae; ninguém poderia ter duvidado da palavra do Erik a chorar naquela noite.

O monstro voltou a pôr a máscara e reuniu forças para deixar o daroga. Disse-lhe que, quando sentisse que o seu fim estava muito próximo, enviar-lhe-ia, em gratidão pela bondade que o Persa lhe tinha demonstrado outrora, aquilo que ele mais prezava no mundo: todos os papéis de Christine Daae, que ela tinha escrito em benefício de Raoul e deixado com Erik, juntamente com alguns objetos que lhe pertenciam, como um par de luvas, uma fivela de sapato e dois lenços de bolso. Em resposta às perguntas do Persa, Erik disse-lhe que os dois jovens, assim que se viram livres, tinham decidido ir à procura de um padre num local isolado onde pudessem esconder a sua felicidade e que, com esse objetivo, tinham partido da "estação ferroviária do norte do mundo". Por fim, Erik confiou ao Persa, assim que recebesse as relíquias e os papéis prometidos, que informasse o jovem casal da sua morte e que a anunciasse no EPOQUE.

Foi tudo. O Persa acompanhou Erik até à porta do seu apartamento, e Darius ajudou-o a descer para a rua. Um carro esperava-o. Erik entrou; e o Persa, que tinha voltado para a janela, ouviu-o dizer ao cocheiro:

"Vai para a Ópera."

E o carro partiu noite dentro.

O Persa tinha visto o pobre e infeliz Erik pela última vez. Três semanas depois, o Epoque publicou este anúncio:

"Erik morreu."

Epílogo.

Contei agora a singular, mas verídica história do fantasma da Ópera. Como declarei na primeira página desta obra, já não é possível negar que Erik realmente existiu. Existem hoje tantas provas da sua existência ao alcance de todos que podemos seguir as ações de Erik logicamente através de toda a tragédia dos Chagny.

Não há necessidade de repetir aqui o quanto o caso agitou a capital. O rapto da artista, a morte do Conde de Chagny em condições tão excecionais, o desaparecimento do seu irmão, o adormecimento do responsável pelo gás na Ópera e dos seus dois assistentes: que tragédias, que paixões, que crimes tinham rodeado o idílio de Raoul e da doce e encantadora Christine! ... O que terá sido feito daquela maravilhosa e misteriosa artista de quem o mundo nunca, nunca mais ouviria falar? ... Ela foi apresentada como vítima de uma rivalidade entre os dois irmãos; e ninguém suspeitou do que tinha realmente acontecido, ninguém compreendeu que, como Raoul e Christine tinham ambos desaparecido, ambos se tinham retirado para longe do mundo para desfrutar de uma felicidade que não teriam tido o cuidado de tornar pública após a inexplicável morte do Conde Philippe ... Apanharam o comboio um dia na "estação ferroviária do norte do mundo". ... Possivelmente, também eu apanharei o comboio nessa estação, um dia, e irei procurar à volta dos teus lagos, ó Noruega, ó silenciosa Escandinávia, pelos vestígios talvez ainda vivos de Raoul e Christine e também da Mamma Valerius, que desapareceu na mesma altura! ... Possivelmente, algum dia, ouvirei os ecos solitários do Norte repetirem o canto daquela que conheceu o Anjo da Música! ...

Muito tempo depois de o caso ter sido arquivado pelo zelo pouco inteligente do M. le Juge d'Instruction Faure, os jornais fizeram esforços, por vezes, para desvendar o mistério. Um único jornal vespertino, que conhecia todas as bisbilhotices dos teatros, dizia:

"Reconhecemos o toque do fantasma da Ópera."

E até isso foi escrito com ironia.

Só o Persa sabia toda a verdade e detinha as principais provas, que lhe chegaram com as piedosas relíquias prometidas pelo fantasma. Coube-me a mim completar essas provas com a ajuda do próprio daroga. Dia após dia, mantive-o informado do progresso das minhas investigações; e ele orientou-as. Ele não ia à Ópera há anos e anos, mas guardava a recordação mais exata do edifício, e não havia melhor guia do que ele para me ajudar a descobrir os seus recessos mais secretos. Ele também me indicou onde recolher mais informações, a quem perguntar; e enviou-me a casa do M. Poligny, no momento em que o pobre homem estava quase a dar o seu último suspiro. Eu não fazia ideia de que ele estivesse tão doente, e nunca esquecerei o efeito que as minhas perguntas sobre o fantasma produziram nele. Olhou para mim como se eu fosse o diabo e respondeu apenas em algumas frases incoerentes, que mostravam, contudo — e isso era o mais importante — a extensão da perturbação que o O. G., no seu tempo, tinha trazido àquela vida já muito agitada (pois o M. Poligny era o que as pessoas chamam de um homem de prazeres).

Quando vim contar ao Persa o pobre resultado da minha visita ao M. Poligny, o daroga deu um ténue sorriso e disse:

"Poligny nunca soube até que ponto aquele extraordinário patife do Erik o enganou." — O Persa, aliás, falava de Erik ora como um semideus, ora como o mais baixo dos baixos — "Poligny era supersticioso e Erik sabia-o. Erik sabia a maior parte das coisas sobre os assuntos públicos e privados da Ópera. Quando o M. Poligny ouviu uma voz misteriosa dizer-lhe, no camarote cinco, a maneira como ele costumava passar o tempo e abusar da confiança do seu sócio, não esperou para ouvir mais. Pensando, a princípio, que era uma voz do Céu, julgou-se condenado; e depois, quando a voz começou a pedir dinheiro, viu que estava a ser vítima de um chantagista astuto, de quem o próprio Debienne tinha sido presa. Ambos, já cansados da direção por várias razões, partiram sem tentar investigar mais profundamente a personalidade daquele curioso O. G., que lhes tinha imposto um tão singular caderno de apontamentos. Legaram todo o mistério aos seus sucessores e deram um suspiro de alívio quando se viram livres de um negócio que os tinha deixado perplexos sem os divertir minimamente."

Falei então dos dois sucessores e exprimi a minha surpresa por, nas suas Memórias de um Diretor, o M. Moncharmin descrever o comportamento do fantasma da Ópera com tanto detalhe na primeira parte do livro e quase não o mencionar na segunda. Em resposta a isto, o Persa, que conhecia as MEMÓRIAS tão bem como se as tivesse escrito ele próprio, observou que eu encontraria a explicação de todo o negócio se me lembrasse das poucas linhas que Moncharmin dedica ao fantasma na segunda parte referida. Cito estas linhas, que são particularmente interessantes porque descrevem a maneira muito simples como o famoso incidente dos vinte mil francos foi encerrado:

"Quanto ao O. G., cujos truques curiosos relatei na primeira parte das minhas Memórias, direi apenas que ele redimiu, com uma única boa ação espontânea, toda a preocupação que tinha causado ao meu caro amigo e sócio e, sou obrigado a dizer, a mim próprio. Ele sentiu, sem dúvida, que há limites para uma brincadeira, especialmente quando é tão cara e quando o comissário de polícia foi informado, pois, no momento em que tínhamos marcado um encontro no nosso escritório com o M. Mifroid para lhe contar toda a história, alguns dias após o desaparecimento de Christine Daae, encontrámos, na secretária de Richard, um grande envelope, com a inscrição, em tinta vermelha, "COM OS CUMPRIMENTOS DE O. G.". Continha a grande soma de dinheiro que ele tinha conseguido extrair, por brincadeira, por enquanto, do tesouro. Richard foi imediatamente da opinião de que devíamos contentar-nos com isso e esquecer o assunto. Concordei com o Richard. Tudo está bem quando acaba bem. O que dizes tu, O. G.?"

Naturalmente, Moncharmin, especialmente depois de o dinheiro ter sido devolvido, continuou a acreditar que tinha sido, durante algum tempo, o alvo do sentido de humor de Richard, enquanto Richard, por seu lado, estava convencido de que Moncharmin se tinha divertido a inventar todo o caso do fantasma da Ópera, para se vingar de algumas partidas.

Perguntei ao Persa que me dissesse por que truque o fantasma tinha tirado vinte mil francos do bolso de Richard, apesar do alfinete de segurança. Ele respondeu que não se tinha debruçado sobre esse pequeno detalhe, mas que, se eu próprio quisesse fazer uma investigação no local, encontraria certamente a solução do enigma no gabinete dos diretores, lembrando-me de que Erik não tinha sido apelidado de "amante dos alçapões" por acaso. Prometi ao Persa que o faria assim que tivesse tempo, e posso dizer ao leitor desde já que os resultados da minha investigação foram perfeitamente satisfatórios; e mal podia acreditar que viria a descobrir tantas provas inegáveis da autenticidade dos feitos atribuídos ao fantasma.

O manuscrito do Persa, os papéis de Christine Daae, as declarações feitas a mim pelas pessoas que costumavam trabalhar sob as ordens dos MM. Richard e Moncharmin, pela própria pequena Meg (a digna Madame Giry, lamento dizer, já não está entre nós) e pela Sorelli, que vive agora reformada em Louveciennes: todos os documentos relativos à existência do fantasma, que me proponho depositar nos arquivos da Ópera, foram verificados e confirmados por várias descobertas importantes de que me orgulho justamente. Não consegui encontrar a casa no lago, tendo Erik bloqueado todas as entradas secretas.[1] Por outro lado, descobri a passagem secreta dos Comunistas, cujo soalho está a desfazer-se em partes, e também o alçapão através do qual Raoul e o Persa penetraram nas caves da casa da ópera. Na masmorra dos Comunistas, notei números de iniciais traçadas nas paredes pelas pessoas infelizes ali confinadas; e entre estas estavam um "R" e um "C". R. C.: Raoul de Chagny. As letras estão lá até hoje.

Se o leitor visitar a Ópera uma manhã e pedir licença para passear onde quiser, sem ser acompanhado por um guia estúpido, que vá ao camarote cinco e bata com o punho ou com a bengala na enorme coluna que o separa do camarote de proscénio. Descobrirá que a coluna soa a oco. Depois disso, não se admire com a sugestão de que era ocupada pela voz do fantasma: há espaço dentro da coluna para dois homens. Se se surpreender por, quando ocorreram os vários incidentes, ninguém se ter virado para olhar para a coluna, deve lembrar-se de que ela apresentava o aspeto de mármore maciço, e que a voz contida nela parecia vir antes do lado oposto, pois, como vimos, o fantasma era um ventríloquo perito.

A coluna estava elaboradamente esculpida e decorada com o cinzel do escultor; e não desespero de um dia descobrir o ornamento que podia ser elevado ou baixado à vontade, de forma a permitir a misteriosa correspondência do fantasma com a Sra. Giry e a sua generosidade.

No entanto, todas estas descobertas não são nada, na minha opinião, comparadas com aquela que pude fazer, na presença do diretor interino, no gabinete dos diretores, a poucos centímetros da cadeira da secretária, e que consistia num alçapão, com a largura de uma tábua no pavimento e o comprimento do antebraço de um homem e não mais; um alçapão que cai como a tampa de uma caixa; um alçapão através do qual posso ver uma mão sair e remexer destramente no bolso de um fraque.

Foi assim que os quarenta mil francos desapareceram! ... E foi também assim que, através de algum truque ou outro, foram devolvidos.

Falando disto ao Persa, disse:

"Então podemos concluir, como os quarenta mil francos foram devolvidos, que o Erik estava apenas a divertir-se com aquele caderno de apontamentos dele?"

"Não acredites nisso!", respondeu ele. "Erik precisava de dinheiro. Julgando-se fora do alcance da humanidade, não se sentia contido por quaisquer escrúpulos e empregava os seus extraordinários dotes de destreza e imaginação, que tinha recebido como compensação pela sua extraordinária fealdade, para explorar os seus semelhantes. A razão para devolver os quarenta mil francos, por sua própria vontade, foi que já não lhes queria. Tinha renunciado ao seu casamento com Christine Daae. Tinha renunciado a tudo acima da superfície da terra."

Segundo o relato do persa, Erik nasceu numa pequena cidade não longe de Rouen. Era filho de um mestre pedreiro. Fugiu ainda jovem da casa do pai, onde a sua fealdade era um objeto de horror e terror para os seus progenitores. Durante algum tempo, frequentou as feiras, onde um exibicionista o mostrava como o "cadáver vivo". Parece ter atravessado toda a Europa, de feira em feira, e ter completado a sua estranha educação como artista e mágico na própria fonte da arte e da magia, entre os ciganos. Um período da vida de Erik permaneceu bastante obscuro. Foi visto na feira de Nijni-Novgorod, onde se exibiu em toda a sua hedionda glória. Já cantava como ninguém neste mundo jamais cantara antes; praticava ventriloquismo e fazia demonstrações de prestidigitação tão extraordinárias que as caravanas que regressavam à Ásia falavam disso durante toda a extensão da sua viagem. Desta forma, a sua reputação penetrou nas muralhas do palácio em Mazenderan, onde a pequena sultana, a favorita do Shah-in-Shah, morria de tédio. Um negociante de peles, regressando a Samarcanda de Nijni-Novgorod, falou das maravilhas que vira serem executadas na tenda de Erik. O mercador foi convocado ao palácio e ordenou-se ao daroga de Mazenderan que o interrogasse. Em seguida, o daroga recebeu instruções para ir encontrar Erik. Trouxe-o para a Pérsia, onde, durante alguns meses, a vontade de Erik foi lei. Foi culpado de não poucos horrores, pois parecia não conhecer a diferença entre o bem e o mal. Participou calmamente numa série de assassinatos políticos; e voltou os seus diabólicos poderes inventivos contra o Emir do Afeganistão, que estava em guerra com o império persa. O Shah afeiçoou-se a ele.

Esta foi a época das horas cor-de-rosa de Mazenderan, das quais a narrativa do daroga nos deu um vislumbre. Erik tinha ideias muito originais sobre o tema da arquitetura e concebeu um palácio quase como um ilusionista inventa uma caixa de truques. O Shah ordenou-lhe que construísse um edifício deste género. Erik fê-lo; e a construção parece ter sido tão engenhosa que Sua Majestade era capaz de se mover nela sem ser visto e de desaparecer sem possibilidade de o truque ser descoberto. Quando o Shah-in-Shah se viu na posse desta joia, ordenou que os olhos amarelos de Erik fossem arrancados. Mas refletiu que, mesmo cego, Erik ainda seria capaz de construir uma casa tão notável para outro soberano; e também que, enquanto Erik estivesse vivo, alguém conheceria o segredo do maravilhoso palácio. A morte de Erik foi decidida, juntamente com a de todos os trabalhadores que tinham trabalhado sob as suas ordens. A execução deste decreto abominável recaiu sobre o daroga de Mazenderan. Erik tinha-lhe prestado alguns pequenos serviços e proporcionado muitas gargalhadas. Salvou Erik, fornecendo-lhe os meios de fuga, mas quase pagou com a própria cabeça pela sua generosa indulgência.

Felizmente para o daroga, um cadáver, meio comido pelas aves de rapina, foi encontrado na costa do Mar Cáspio e foi tomado pelo corpo de Erik, porque os amigos do daroga tinham vestido os restos mortais com roupas que pertenciam a Erik. O daroga foi absolvido com a perda do favor imperial, o confisco dos seus bens e uma ordem de banimento perpétuo. Como membro da Casa Real, contudo, continuou a receber uma pensão mensal de algumas centenas de francos do tesouro persa; e com ela veio viver para Paris.

Quanto a Erik, foi para a Ásia Menor e de lá para Constantinopla, onde entrou ao serviço do Sultão. Como explicação dos serviços que pôde prestar a um monarca assombrado por terrores perpétuos, basta dizer que foi Erik quem construiu todos os famosos alçapões, câmaras secretas e misteriosos cofres que foram encontrados no Yildiz-Kiosk após a última revolução turca. Inventou também aqueles autómatos, vestidos como o Sultão e assemelhando-se ao Sultão em todos os aspetos, que faziam as pessoas acreditar que o Comandante dos Fiéis estava acordado num lugar, quando, na realidade, estava a dormir noutro.

Naturalmente, teve de deixar o serviço do Sultão pelas mesmas razões que o fizeram fugir da Pérsia: sabia demasiado. Então, cansado da sua vida aventureira, formidável e monstruosa, ansiou por ser alguém "como toda a gente". E tornou-se empreiteiro, como qualquer empreiteiro comum, construindo casas comuns com tijolos comuns. Concorreu a parte das fundações da Ópera. O seu orçamento foi aceite. Quando se encontrou nas caves do enorme teatro, a sua natureza artística, fantástica e mágica retomou o controlo. Além disso, não continuava ele tão feio como sempre? Sonhava criar para seu próprio uso uma habitação desconhecida para o resto da terra, onde pudesse esconder-se dos olhos dos homens para todo o sempre.

O leitor sabe e adivinha o resto. Tudo está em harmonia com esta história incrível e, contudo, verídica. Pobre e infeliz Erik! Devemos ter pena dele? Devemos amaldiçoá-lo? Ele apenas pedia para ser "alguém", como toda a gente. Mas era demasiado feio! E teve de esconder o seu génio OU USÁ-LO PARA FAZER TRUQUES, quando, com um rosto comum, teria sido um dos homens mais distintos da humanidade! Tinha um coração que poderia ter contido o império do mundo; e, no fim, teve de contentar-se com uma cave. Ah, sim, temos de ter pena do fantasma da Ópera.

Rezei sobre os seus restos mortais, para que Deus lhe mostrasse misericórdia apesar dos seus crimes. Sim, tenho a certeza, muita certeza de que rezei junto do seu corpo, no outro dia, quando o retiraram do local onde estavam a enterrar os discos fonográficos. Era o seu esqueleto. Não o reconheci pela fealdade da cabeça, pois todos os homens são feios quando estão mortos há tanto tempo, mas pelo anel de ouro simples que usava e que Christine Daae certamente lhe deslizara no dedo, quando veio enterrá-lo em conformidade com a sua promessa.

O esqueleto estava deitado perto do pequeno poço, no local onde o Anjo da Música segurou pela primeira vez Christine Daae, desmaiada, nos seus braços trêmulos, na noite em que a levou para as caves da ópera.

E, agora, o que tencionam fazer com aquele esqueleto? Certamente não o enterrarão na vala comum! ... Digo que o lugar do esqueleto do fantasma da Ópera é nos arquivos da Academia Nacional de Música. Não é um esqueleto comum.

[1] Mesmo assim, estou convencido de que seria fácil alcançá-lo drenando o lago, como tenho solicitado repetidamente ao Ministério das Belas Artes que faça. Estava a falar sobre isso com o Sr. Dujardin-Beaumetz, o subsecretário das belas-artes, apenas quarenta e oito horas antes da publicação deste livro. Quem sabe se a partitura de DON JUAN TRIUNFANTE não poderia ainda ser descoberta na casa sobre o lago?

[2] Ver a entrevista do correspondente especial do MATIN, com Mohammed-Ali Bey, no dia seguinte à entrada das tropas de Salónica em Constantinopla.

O FIM

A Ópera de Paris

O CENÁRIO DO ROMANCE DE GASTON LEROUX, "O FANTASMA DA ÓPERA"

Que o Sr. Leroux utilizou, para o cenário da sua história, a Ópera de Paris tal como ela é na realidade e não criou um edifício saído da sua imaginação, é demonstrado por esta interessante descrição da mesma, retirada de um artigo que apareceu na Scribner's Magazine em 1879, pouco tempo depois de a construção ter sido concluída:

"A nova Ópera, iniciada sob o Império e terminada sob a República, é o edifício mais completo do seu género no mundo e, em muitos aspetos, o mais belo. Nenhuma capital europeia possui uma ópera tão abrangente em plano e execução, e nenhuma pode gabar-se de um edifício igualmente vasto e esplêndido.

"O local da Ópera foi escolhido em 1861. Determinou-se que a fundação fosse excecionalmente profunda e forte. Sabia-se bem que se encontraria água, mas era impossível prever a que profundidade ou em que quantidade ela seria encontrada. Uma profundidade excecional era também necessária, uma vez que as disposições do palco tinham de ser tais que permitissem que um cenário de cinquenta pés de altura fosse baixado sobre a sua armação. Era, portanto, necessário assentar uma fundação num solo encharcado de água que fosse suficientemente sólido para sustentar um peso de 22.000.000 de libras, e ao mesmo tempo perfeitamente seco, já que as caves se destinavam ao armazenamento de cenários e acessórios. Enquanto o trabalho estava em curso, a escavação foi mantida livre de água por meio de oito bombas, movidas a vapor, e em funcionamento, sem interrupção, dia e noite, de 2 de março a 13 de outubro. O chão da cave foi coberto com uma camada de betão, depois com duas camadas de cimento, outra camada de betão e uma camada de betume. A parede inclui uma parede exterior construída como uma ensecadeira, uma parede de tijolo, uma camada de cimento e uma parede propriamente dita, com pouco mais de um metro de espessura. Depois de tudo isto estar concluído, o conjunto foi cheio de água, para que o fluido, ao penetrar nos interstícios mais ínfimos, pudesse depositar um sedimento que os fecharia de forma mais segura e perfeita do que seria possível fazer manualmente. Doze anos passaram-se até à conclusão do edifício, e durante esse tempo demonstrou-se que as precauções tomadas garantiram uma impermeabilidade e solidez absolutas.

"Os acontecimentos de 1870 interromperam o trabalho exatamente quando este estava prestes a ser realizado com maior vigor, e a nova Ópera foi utilizada para fins novos e inesperados. Durante o cerco, foi convertida num vasto armazém militar e cheia com uma massa heterogénea de mercadorias. Após o cerco, o edifício caiu nas mãos da Comuna e o telhado foi transformado numa estação de balões. Os danos causados, no entanto, foram ligeiros.

"A bela pedra empregada na construção foi trazida de pedreiras na Suécia, Escócia, Itália, Argélia, Finlândia, Espanha, Bélgica e França. Enquanto o trabalho no exterior estava em curso, o edifício foi coberto por uma carapaça de madeira, tornada transparente por milhares de pequenos vidros. Em 1867, um enxame de homens, munidos de martelos e machados, despiu a casa do seu hábito e mostrou em todo o seu esplendor a grande estrutura. Nenhuma imagem pode fazer justiça às cores ricas do edifício ou ao tom harmonioso resultante do uso habilidoso de muitos materiais diversos. O efeito da fachada é completado pela cúpula do auditório, rematada com uma tampa de bronze parcimoniosamente adornada com dourados. Mais à frente, ao nível das torres de Notre-Dame, está a empena do telhado do palco, um 'Pégaso', do Sr. Lequesne, elevando-se em cada extremidade do telhado, e um grupo de bronze do Sr. Millet, representando 'Apolo a erguer a sua lira dourada', comandando o ápice. Apolo, diga-se aqui, é útil além de ornamental, pois a sua lira é rematada com uma ponta metálica que funciona como para-raios e conduz o fluido para o corpo e para baixo, pelos membros inferiores do deus.

"O espectador, tendo subido dez degraus e deixado para trás um portal, chega a um vestíbulo onde se encontram estátuas de Lully, Rameau, Gluck e Handel. Dez degraus de mármore sueco verde conduzem a um segundo vestíbulo para os bilheteiros. Os visitantes que entram pelo pavilhão reservado aos coches passam por um corredor onde se situam as bilheteiras. A maioria do público, antes de entrar no auditório, atravessa um grande vestíbulo circular situado exatamente por baixo dele. O teto desta parte do edifício é sustentado por dezasseis colunas caneladas de pedra do Jura, com capitéis de mármore branco, formando um pórtico. Aqui, os criados devem aguardar pelos seus senhores, e os espectadores podem permanecer até que os seus coches sejam chamados. A terceira entrada, que é bastante distinta das outras, é reservada ao Executivo. A secção do edifício reservada ao uso do Imperador Napoleão deveria ter incluído uma antecâmara para os guarda-costas; um salão para os ajudantes de campo; um salão grande e um mais pequeno para a Imperatriz; bengaleiros, etc. Além disso, deveria haver, na proximidade imediata da entrada, estábulos para três carruagens, para os cavalos dos batedores e para os vinte e um cavaleiros que atuavam como escolta; um posto para um esquadrão de infantaria de trinta e um homens e dez cent-gardes, e um estábulo para os cavalos destes últimos; e, ainda, um salão para quinze ou vinte criados. Assim, tiveram de ser feitos arranjos para acomodar nesta parte do edifício cerca de cem pessoas, cinquenta cavalos e meia dúzia de carruagens. A queda do Império sugeriu algumas alterações, mas ainda existem amplas provisões para emergências.

"A sua conceção inovadora, adequação perfeita e raro esplendor de material tornam a grande escadaria, inquestionavelmente, uma das características mais notáveis do edifício. Apresenta ao espectador, que acaba de passar pelo pavilhão dos assinantes, um cenário magnífico. Deste ponto, ele contempla o teto formado pelo patamar central; este e as colunas que o sustentam, construídas de pedra de Echaillon, estão repletos de arabescos e pesados com ornamentos; os degraus são de mármore branco e balaústres de mármore vermelho antigo assentam em bases de mármore verde e suportam uma balaustrada de ónix. À direita e à esquerda deste patamar encontram-se escadarias para o piso ao nível da primeira fila de camarotes. Neste piso erguem-se trinta colunas monólitas de mármore Sarrancolin, com bases e capitéis de mármore branco. Pilastras de pedra cor de flor de pessegueiro e violeta encontram-se contra as paredes correspondentes. Mais de cinquenta blocos tiveram de ser extraídos da pedreira para encontrar trinta monólitos perfeitos.

"O foyer de la danse tem um interesse particular para os habitués da Ópera. É um local de reunião ao qual os assinantes de três espetáculos por semana são admitidos entre os atos, de acordo com um costume estabelecido em 1870. Três imensos espelhos cobrem a parede traseira do FOYER, e um candelabro com cento e sete bicos fornece-lhe luz. As pinturas incluem vinte medalhões ovais, nos quais estão retratadas as vinte bailarinas de maior celebridade desde que a ópera existe em França, e quatro painéis do Sr. Boulanger, tipificando 'A Dança de Guerra', 'A Dança Rústica', 'A Dança do Amor' e 'A Dança Báquica'. Enquanto as senhoras do ballet recebem os seus admiradores neste foyer, podem praticar os seus passos. Barras almofadadas de veludo foram fixadas para este fim em pontos convenientes, e o chão recebeu a mesma inclinação que o do palco, para que o trabalho despendido possa ser totalmente rentável para o espetáculo. O foyer dos cantores, no mesmo piso, é um local muito menos animado do que o foyer de la danse, uma vez que os vocalistas raramente deixam os seus camarins antes de serem chamados ao palco. Trinta painéis com retratos dos artistas de renome nos anais da Ópera adornam este foyer.

"Alguma estimativa ... pode ser feita sentando-se perante o porteiro uma hora ou mais antes de o espetáculo começar. Primeiro aparecem os carpinteiros de cena, que são sempre setenta, e por vezes, quando L'Africaine, por exemplo, com a sua cena do navio, é a ópera, chegam aos cento e dez. Depois vêm os estofadores de cena, cujo único dever é estender carpetes, pendurar cortinas, etc.; os homens do gás e um esquadrão de bombeiros. Claqueurs, contramestres, aderecistas, camareiros, cabeleireiros, figurantes e artistas seguem-se. Os figurantes são cerca de cem; alguns são contratados pelo ano, mas as 'massas' são geralmente recrutadas à última hora e são, habitualmente, trabalhadores que procuram aumentar os seus parcos ganhos. Existem cerca de cem coristas e cerca de oitenta músicos.

"De seguida vemos os estribeiros, cujos cavalos são içados para o palco por meio de um elevador; eletricistas que gerem as baterias de luz; hydrauliciens para tratar dos jogos de água em ballets como La Source; artifices que preparam o incêndio em Le Profeta; floristas que preparam o jardim de Margarita, e uma multidão de empregados menores. Este pessoal é provido da seguinte forma: Oitenta camarins estão reservados para os artistas, cada um incluindo uma pequena antecâmara, o camarim propriamente dito e um pequeno armário. Além destes apartamentos, a Ópera tem um camarim para sessenta coristas masculinos e outro para cinquenta femininos; um terceiro para trinta e quatro bailarinos masculinos; quatro camarins para vinte bailarinas de diferentes graus; um camarim para cento e noventa figurantes, etc."

Alguns números retirados do artigo sugerem a enorme capacidade e a perfeita conveniência da casa. "Existem 2.531 portas e 7.593 chaves; 14 fornalhas e grelhas aquecem a casa; os canos de gás, se ligados, formariam um cano de quase 25 quilómetros de comprimento; 9 reservatórios e dois tanques contêm cerca de 84.000 litros de água e distribuem o seu conteúdo através de quase 7.000 metros de tubagens; 538 pessoas têm lugares designados onde mudar de traje. Os músicos têm um foyer com 100 armários para os seus instrumentos."

O autor comenta a sua visita à Ópera que "foi quase tão desconcertante quanto agradável. Escadarias gigantes e salões colossais, frescos enormes e espelhos gigantescos, ouro e mármore, cetim e veludo, encontravam-se com o olhar a cada volta."

Numa carta recente, o Sr. André Castaigne, cujas imagens notáveis ilustram o texto, fala de um rio ou lago sob a Ópera e menciona o facto de existirem agora também três túneis ferroviários metropolitanos, um por cima do outro.

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