A ESPOSA DA PRADARIA
Quinta-feira, dezanove
Splash!... Sou eu, Matilda Anne! Sou eu a cair de cabeça na piscina do matrimónio antes mesmo de ter tido tempo para me apaixonar! E oh, Matilda Anne, Matilda Anne, tenho de falar contigo! Podes estar a seis mil milhas de distância, mas continuas a ser a minha válvula de escape. Eu explodiria se não me pudesse expressar a alguém. Porque é tão solitário aqui fora que eu poderia ir conversar com os esquilos-terrestres. Isto não é uma carta em vinte partes, minha querida, e não é um diário. É o anel de coral no qual estou a afiar os meus dentes de desolação. Porque, de vez em quando, tenho simplesmente de me sentar e falar com alguém, ou ficaria louca, completamente, puramente, irremediavelmente louca, e morderia as pontas da relva doce! Pode até acontecer que isto nunca te seja enviado. Mas gosto de pensar em ti a lê-lo, um dia, página a página, quando eu estiver gorda e quarentona, ou, o que é mais provável, quando o Duncan me tiver acorrentado a um poste do curral ou finalmente fechado numa cela almofadada. Pois tu foste quem esteve mais perto de mim nos velhos tempos, Matilda Anne, e quando eu estava em apuros tu eras sempre o bordão em que me apoiava, a Tillie-de-olhos-calmos-e-sempre-pronta que nunca parecia falhar-me! E penso que tu irás compreender.
Mas há tanto sobre o que falar que dificilmente sei por onde começar. A parte engraçada de tudo isto é que fui casar com o Outro Homem. E tu não vais compreender isso nem um pouco, a menos que eu comece pelo princípio. Mas quando olho para trás, não parece haver qualquer princípio, pois só nos livros é que as coisas realmente começam e acabam numa única vida.
Seja como for, como o Chinkie costumava dizer, quando deixei tu e o Scheming Jack naquela engraçada casinha de pedra em Corfu, e cheguei a Palermo, encontrei a Lady Agatha e o Chinkie lá no Hotel des Palmes e o iate a ser abastecido com carvão a partir dos porões de um cargueiro no porto. Por isso, segui com eles para Monte Carlo. Fizemos uma viagem terrível até à Riviera, e eu enjoei imenso, e aquelas romancistas que adoram levar as suas heroínas num iate privado nunca sonham que, exceto com tempo de lago de patos, o iate comum no mar é quase a habitação mais miserável entre o Céu e a terra. Mas foi em Monte Carlo que recebi o telegrama do tio Carlton a dizer-me que a revolução chilena tinha acabado com as nossas concessões de minas de nitrato e que o último pequeno pé-de-meia da tua pobre Tabby tinha sido esmigalhado. Por outras palavras, acordei e descobri que era uma pedinte, e durante algumas horas até pensei que teria de viajar para casa com aquele fundo Viaticum de Monte Carlo que despacha tão discretamente o aventureiro encalhado antes que ele estrague a paisagem do Mediterrâneo suicidando-se. Depois lembrei-me da minha carta de crédito, e firme mas pesarosamente paguei à pobre Hortense, que por entre lágrimas proclamou que iria comigo para qualquer lado, e sem pensar em salários (imagina seres vestida por uma criada a quem devias tais obrigações democratizantes!). Mas fui firme, pois sabia que a situação, bem podia ser encarada logo de início.
Então contei a minha carta de crédito e descobri que tinha exatamente seiscentos e setenta e um dólares, dinheiro americano, entre mim e a mendicidade. Depois enviei um telegrama ao Theobald Gustav (tão condensado que ele pensou que era código) e mais tarde descobri que ele tinha estado a enviar flores e chocolates todo o tempo para o Hotel de L'Athenee, as caixas compridas devidamente empilhadas em camadas, como caixões na morgue. Depois a tia do Theobald, a baronesa, visitou-me, em grande estilo. Ela veio naquele landau engraçado, antiquado e raso dela, onde parecia, para todos os efeitos, uma ostra na meia-concha, e falou tão incisivamente sobre o perigo dos casamentos internacionais que tive a certeza de que ela estava a tentar afastar-me do meu belo e real Theobald Gustav--o que me fez dizer-lhe, de forma bastante calma e solene, que eu pretendia tirar o Theobald dos cargos de subsecretário, que pertenciam realmente aos romances de Oppenheim, e colocá-lo no negócio de calçado em qualquer cidade simpática da Nova Inglaterra!
De Monte Carlo, apressei-me logo para Paris. Dois dias depois, como pretendia escrever-te mas não escrevi, apanhei o comboio para Cherbourg. E lá, na amurada, quando subi ao Baltic, estava o Outro Homem, a saber, Duncan Argyll McKail, com uma gabardina inglesa de xadrez amarelo de aspeto horrível. O rosto dele ficou um pouco vazio quando pos os olhos em mim, pois ele tinha aparecido em Banff no passado outubro quando o Chinkie, a Lady Agatha e eu lá estivemos durante uma semana. Ele tinha sido muito simpático, naquela semana em Banff, e eu gostava muito dele. Mas quando o Chinkie o viu "a abusar um pouco", como ele dizia, e deu discretamente a entender ao Duncan Argyll sobre o Theobald Gustav, o supracitado D. A. fugiu de volta para o seu rancho sem sequer se despedir de mim. Pois o Duncan Argyll McKail não é irlandês, como poderias com o tempo deduzir por aquele nome dele. Ele é um escocês-canadiano, e não passa de um engenheiro civil falido que se dedicou à agricultura no Noroeste. Mas pude ver logo que era um cavalheiro (detesto essa palavra, mas onde vais arranjar outra para a substituir?) e que conhecia pessoas agradáveis, mesmo antes de descobrir que ele tinha ensinado a Duquesa de S. a caçar carneiros-da-montanha. Ele tinha ido a correr a Inglaterra para financiar um projeto cooperativo de cultivo de trigo, mas falhou, porque tudo está tão instável em Inglaterra ultimamente.
Mas tu és mulher, e antes que eu prossiga, vais querer saber como é o Duncan.
Bem, ele não é nada parecido com o nome dele. O Oeste já sacudiu muito do Covenantista que havia nele. É alto, magro e de ombros largos, e tem olhos castanhos com pintas avelãs, e uma boca exatamente como a do "Astrónomo" de Holbein, e uma pele que é quase tão vergonhosamente castanha como a de um índio. No geral, se uma Lina Cavalieri tivesse casado com um Lord Kitchener, e tivesse tido um filho de trinta anos, sinto-me bastante certa de que ele seria a cara chapada, como dizem os irlandeses, do meu próprio Duncan Argyll. E o Duncan Argyll, vulgo Dinky-Dunk, é bastante reservado e calmo e, temo, bastante dominador, mas não como o Theobald Gustav poderia ter sido, pois com toda a sua força, o alemão moderno, parece-me, é como as gaitas de foles, por ser um tanto desprovido de suavidade.
E durante toda a viagem o Dinky-Dunk foi tão simpático que quase me deixou sem fôlego. Foi também bastante audaz, cerrando os dentes perante o perigo alemão, e comecei a gostar tanto dele que decidi secretamente que seríamos sempre bons amigos, bons amigos platónicos, à moda antiga e francos. Mas o problema do amor platónico é que acaba sempre por se tornar demasiado agradável para ser platónico, ou demasiado platónico para ser agradável. Por isso tive de olhar diretamente para o peito daquela horrível gabardina inglesa de xadrez amarelo e dizer a verdade ao Dinky-Dunk. E o Dinky-Dunk ouviu, com a sua boca de astrónomo bastante cerrada, e de resto não se mostrou minimamente perturbado. A sua sensação de confiança preocupava-me. Era como a calma do homem que está a guardar o seu trunfo. E só quando a impossível esposazinha de um impossível madeireiro de Saginaw, Michigan, me mostrou o Paris Herald com o telegrama sobre aquela bailarina russa, L----, quase ter sido morta no carro do Theobald em Long Beach, é que percebi que havia um trunfo e que o Dinky-Dunk tinha sido demasiado cavalheiro para o jogar.
Tive muito em que pensar, nos três dias seguintes.
Quando o Theobald veio de Washington e se encontrou com o navio, a minha consciência perturbou-me e eu ainda deveria ter sido a própria bondade para com ele, se não fosse pelo seu modo possessivo (que, aliás, nunca me tinha incomodado antes), juntamente com o que eu já sabia. Almoçámos na sala Della Robbia no Vanderbilt e eu estava a retirar os marrons de um Nesselrode quando, presto, ocorreu-me subitamente que a baronesa tinha razão e que eu nunca poderia casar com um estrangeiro. Veio como um estrondo. Mas algures naquele senado de instinto que debate sobre tais coisas nas profundezas das câmaras secretas das nossas almas, suponho eu, todo o problema tinha sido discutido e resolvido e posto a votação. E perante o facto de o Theobald Gustav ter sempre parecido mais próximo de um dos semideuses de Ouida do que qualquer homem que eu alguma vez conhecera, a votação tinha sido contra ele. O meu herói já não era um herói. Eu sabia que tinham existido alturas, claro, em que esse herói, sendo alemão, tinha considerado este universo nosso como um grande armazém e esta terra como a secção específica sobre a qual o Augusto Mestre o tinha nomeado contramestre. Tinha pensado nele como o meu Eisenfresser e o meu grande e louro Saebierassler. Mas os meus olhos abriram-se com o meu último marron e sentei-me subitamente e fixei o belo rosto rosado do Theobald com os seus olhos azuis de aço-Krupp e as pontas do bigode altivamente viradas para cima. Ele deve ter visto aquele olhar de avaliação no meu próprio rosto, pois, com todo o seu prussianismo de ferro-e-sangue, ele obscureceu-se como uma criança ferida. Mas era demasiado diplomata para mostrar os seus sentimentos. Tornou-se apenas tão untuosamente educado que me apeteceu picá-lo no seu olho azul-aço com a minha palhinha de hortelã.
Lembra-te, Matilda Anne, não foi dita uma palavra, nem uma sílaba sobre o que estava nas nossas almas. No entanto, foi um dos maiores momentos da vida, o Grande Divisor de toda uma carreira--e eu continuei a comer Nesselrode e o Theobald continuou a fumar agradavelmente o seu cigarro e a inspecionar aprovadoramente as suas unhas bem tratadas.
Foi engraçado, mas fez-me sentir triste e sem rumo e terrivelmente sozinha no mundo. Agora, consigo ver as coisas mais claramente. Sei que esse meu estado de espírito não era mero filho do capricho. Olhando para trás, consigo ver como o Theobald tinha estado mais crítico, mais silenciosamente combativo, desde o momento em que saí do Baltic. Percebi, de repente, _que ele tinha estado secretamente a pôr-me à prova_. Não direi que foi porque o meu dote tinha ido com as Minas de Nitrato, ou que ele tinha descoberto que o Duncan tinha viajado no mesmo navio que eu, ou que ele sabia que eu ouviria em breve o episódio da L----. Mas estes meus ossos proféticos diziam-me que havia problemas à vista. E senti-me tão abandonada e desolada de espírito que, quando o Duncan me levou num carro alugado para Westbury, para ver o Great Neck First ser derrotado pelos Meadow Brook Hunters, fui com a alegria descuidada de uma faltosa que não quer saber do que acontece. O Dinky-Dunk interessava-se por póneis de polo, que, explicou-me ele, não são uma raça específica, mas apenas aparecem por acidente--pois ele tinha criado e vendido montadas para os Clubes de Coronado e San Mateo e para os rapazes da Cavalaria da Cidade de Filadélfia. E ele adorava o jogo. Era tão genuíno, sincero e humano, enquanto ali sentados lado a lado, que não tive medo dele nem um pouco e soube que poderíamos ser amigos e não me importei com os seus silêncios ou com os seus sapatos ingleses de sola extensível e a sua gravata londrina disparatada.
E eu estava feliz, até que o sino da escola tocou--o que tomou a forma da mensagem telefónica do Theobald para o Ritz lembrando-me do nosso compromisso para jantar. Foi um jantar terrível, pois intuitivamente sabia o que viria, e tão intuitivamente ele sabia o que viria, e até o empregado de mesa sabia quando chegou,--pois atirei o anel do Theobald diretamente contra o seu imponente peito alemão. Não adiantaria nada contar-te, Matilda Anne, o que levou a essa ação tão pouco senhoril. Não pretendo queimar incenso à minha frente. Pode ter parecido errado. Mas sei que vais acreditar na minha palavra quando digo que ele mereceu. A única coisa que magoa é que ele teve o triunfo de ser o primeiro a romper relações diplomáticas. Na linguagem de Shorty McCabe e dos meus compatriotas, ele deu-me um pontapé! Vinte minutos depois, após compor a minha alma e pôr pó no nariz, estava a telefonar por toda a cidade a tentar encontrar o Duncan. Consegui apanhá-lo finalmente, e ele veio ao Ritz a correr. Depois apanhámos um velho cavalo de aluguer na Quinta Avenida e fomos a troar pelo Central Park. Lá, eu--que outrora me vangloriei de sete propostas e três vezes esse número de investidas--propus-me pronta e descaradamente ao meu Dinky-Dunk, embora ele seja demasiado cavalheiro para não jurar que é uma mentira horrível e que ele teria lutado através de um acre de fogo grego para me ter!
Mas o que quer que tenha acontecido, o Conde Theobald Gustav Von Guntner deu-me um pontapé, e o Dinky-Dunk apanhou-me no ressalto, e agora, em vez de ir a bailes de embaixada e falar sobre política mundial como uma heroína de Mrs. Humphry Ward, casei com um proprietário de barracão que cultiva trigo no Noroeste canadiano. E em vez de usar uma tiara na plateia do Metropolitan, estou aqui um ponto na pradaria e a usar um avental feito de linho de talhante! Sursum corda! Pois ainda estou no jogo. E não é coisa fácil apaixonar-se e cair de pé. Mas fi-lo. Dei o grande salto. Fiz a minha cama, como o tio Carlton teve a coragem de me dizer, e agora tenho de me deitar nela. Mas _assez d'Etrangers_!
Aquele meu dia de casamento recordar-me-ei sempre como um dia de cheiros, o cheiro das almofadas dos bancos na igreja vazia, o cheiro dos lírios-do-vale que a querida, doce e distraída Fanny-Rain-In-The-Face (ela correu para a cidade uma hora depois de receber o meu telegrama) insistiu em levar, o cheiro do couro no táxi húmido, o cheiro a tabaco do padrinho bastante impossível do Dinky-Dunk, que fora apanhado no hotel, à pressa, para servir de testemunha, e o cheiro das luvas novinhas em folha do Dinky-Dunk enquanto ele erguia o meu queixo e me beijava daquela forma lenta, terna, trágica, de fim-do-mundo que os homens grandes e tímidos por vezes têm com as mulheres. É tudo um amontoado de cheiros.
Depois o Dinky-Dunk recebeu o telegrama a dizer que podia perder a sua oportunidade no Stuart Ranch, se não fechasse negócio antes que os interesses de Calgary se apoderassem dele. E o Dinky-Dunk queria aquele rancho. Por isso falámos sobre o assunto e em cinco minutos tínhamos desistido da ideia de ir para Aiken e estávamos a telefonar para reservar o camarote no Montreal Express. Tive apenas quatro horas para compras, a correr atrás de livros de cozinha e botas de golfe e roupa de mesa e um tacho de chafing dish, e um monte de outras coisas absurdas que achei que precisaríamos no rancho. E depois voámos para o Oeste, antes que as trinta e seis orquídeas de casamento do pobre, extravagante e extasiado Dinky-Dunk da Thorley's tivessem murchado e antes que eu tivesse tido hipótese de mostrar à Fanny as minhas camisas de noite!
Estarei louca? Está tudo errado? Amo o meu Dinky-Dunk? Amo? O Bom Deus só sabe, Matilda Anne! Ó Deus, ó Deus, se acontecesse que eu não o amo, que não consigo? Mas vou conseguir! Sei que vou! E há uma outra coisa que sei, e quando me lembro dela, envia uma onda quente e reconfortante por todo o meu corpo: o Dinky-Dunk ama-me. Ele está louco por mim. Ele merece ser amado de volta. E eu vou amá-lo de volta. Esse é um voto que aqui registo devidamente. _Vou amar o meu Dinky-Dunk._ Mas, oh, não é maravilhoso despertar o amor num homem, num homem forte? Ser capaz de o arrebatar, daquela maneira, numa onda de maré que o deixa um tanto pálido e trémulo na voz e trémulo nos dedos, e parece acender um pequeno fogo luminoso no fundo das suas órbitas, de modo que se podem ver as pupilas brilhar, tal como as de um animal quando os faróis do teu carro as atingem! É como pegar num pequeno fósforo e iniciar um fogo na pradaria e ver as chamas rastejar e espalhar-se até que os céus estejam a rugir! Pergunto-me se sou egoísta? Pergunto-me? Mas não posso responder a isso agora, pois está na hora da ceia, e a tua Tabby tem de tratar da comida!
Sábado, vinte e um
Estou sozinha no barracão esta noite, e estou determinada a não pensar nos meus problemas. Por isso vou escrever-te uma resma, Matilda Anne, quer gostes ou não. E tenho de começar por te falar do próprio barracão, e de como cheguei aqui. Durante toda a viagem de Montreal, o Dinky-Dunk, na sua forma bondosa, continuou a fazer o melhor que pôde para me acalmar e fazer com que não esperasse demasiado. Mas eu segurava-lhe a mão, debaixo da revista que fingia ler, e assobiava Home, Sweet Home! Ele continuava a dizer que seria difícil, no primeiro ou segundo ano, e que haveria um número terrível de coisas de que eu sentiria falta. "Love Me and The World Is Mine!" cantarolei, enquanto me encostava ao seu ombro largo. E ali fiquei deitada, sorridente e feliz, cega para tudo o que estava diante de mim, e só me ri quando o Dinky-Dunk me perguntou se eu diria o mesmo quando descobrisse que não havia um ralador de noz-moscada a menos de sete milhas da minha cozinha.
"Amas-me?" exigi, agarrando-me a ele mesmo à frente do empregado do comboio.
"Amo-te mais do que tudo neste vasto mundo!" foi a sua resposta lenta e solene.
Quando partimos de Winnipeg, ele também tentou dizer-me que tipo de barraca simples teríamos de suportar por um ano ou dois, e como não seria muito melhor do que acampar, e como ele sabia que eu era de fibra e o ajudaria a vencer a batalha daquele primeiro ano. Não havia nada de deprimente para mim no pensamento de uma vida numa barraca na pradaria. Nunca soube, é claro, exatamente como seria, e não tinha como saber. Lembrava-me da pequena quinta adorável do Chinkie em Sussex, e tinha passado uma semana na propriedade dos Westbury em Long Island, com os seus relvados em socalcos, jardins, estufas e estradas macadamizadas. E, no geral, esperava um cruzamento entre um pavilhão de caça e um chalé suíço, um pequeno ninho de casa que era tão pequeno que certamente seria adorável, com uma rosa-trepadeira a cobrir a frente e uma nascente de cristal a borbulhar junto à porta das traseiras, uma pequena ilha florida na pradaria onde poderíamos brincar aos Robinson da família suíça e aventurar-nos a caçar perdizes da pradaria e galinhas-das-avelãs conforme o nosso coração desejasse.
Bem, aquela barraca não era exatamente o que eu esperava! Mas não me devo adiantar na minha história, Matilda Anne, por isso vou voltar ao momento em que o Dinky-Dunk e eu saímos do "comboio de passageiros" secundário em Buckhorn, com as nossas trouxas, baús, malas de mão e malas de viagem. E mal tinham sido empilhadas na plataforma de madeira quando o agente da estação veio a correr ter com o Duncan com uma folha amarela na mão. E o Duncan pareceu preocupado ao lê-la, e parou de falar com o seu homem chamado Olie, que estava ali ao lado da plataforma, com um grande chapéu Stetson manchado de suor, com uma grande parelha atrelada a uma carroça grande com palha no fundo da caixa.
Olie, disse a mim mesma de imediato, era sueco. Era um dos homens mais feios com quem alguma vez me deparei, mas descobri mais tarde que o seu rosto tinha sido congelado numa tempestade de neve, anos antes, e o seu nariz tinha partido. Isso desfigurou-o — e o estrago ficou para toda a vida. Os seus olhos eram grandes e azul-pálidos, e o seu cabelo e sobrancelhas eram de um amarelo pálido. Era o homem mais silencioso que já vi. Mas o Dinky-Dunk já me tinha dito que ele era um grande trabalhador e um excelente sujeito no fundo. E quando o Dinky-Dunk diz que confiaria num homem, aconteça o que acontecer, tem de haver algo de bom nesse homem, por muito bolboso que seja o seu nariz ou por muito assustado que ele pareça quando uma mulher lhe fala. Olie pareceu mais assustado do que nunca quando o Dinky-Dunk correu subitamente para onde o revisor do comboio estava parado ao lado dos degraus da carruagem, pediu-lhe para segurar aquele "comboio de passageiros" por meio minuto, puxou a sua mala de debaixo da minha pilha de trouxas e agarrou a pequena eu nos seus braços.
"Rápido", disse ele, "adeus! Tenho de seguir para Calgary. Há problemas com os meus registos."
Agarrei-me a ele com todas as forças. "Não me vais deixar aqui, Dinky-Dunk, no meio desta selva?" gritei, enquanto o revisor, o guarda-freio e o agente da estação gritavam, berravam e clamavam para que o Duncan se apressasse.
"Olie levar-te-á para casa, querida", tentou assegurar-me o Dinky-Dunk. "Estarás lá à meia-noite e eu estarei de volta no sábado à noite!"
Comecei a berrar. "Não vás! Não me deixes!" implorei-lhe. Mas o revisor simplesmente arrancou-o dos meus braços e empurrou-o para bordo da parte de trás da última carruagem. Fiz uma careta a um homem gordo que olhava para mim pela janela. Fiquei ali, enquanto o comboio começava a mover-se, sentindo que ele arrastava o meu coração consigo.
Então o Dinky-Dunk gritou para o Olie, da plataforma traseira: "Recebeste a minha mensagem e pintaste aquela barraca?" E o Olie, com a minha manta de viagem na mão, apenas olhou com ar vazio e respondeu "Não". Mas não creio que o Dinky-Dunk o tenha ouvido, pois estava ocupado a atirar-me beijos. Fiquei ali, na beira da plataforma, a observar a ponta daquela última carruagem solitária a desaparecer na linha do horizonte solitária. Então limpei os olhos, respirei fundo uma vez, de forma trémula, e disse em voz alta, como Birdalone Pebbley disse que o Shiner fez quando estava ferido no campo de Magersfontein: "Chorão, chorão, quem é um chorão?"
Encontrei a grande caixa da carroça cheia das nossas coisas e Olie sentado à espera, a observar-me com um espanto mudo, porém respeitoso. Olie, de facto, ainda não se habituou a mim. É um bom rapaz, à sua maneira rude e inarticulada, e não há nada que ele não fizesse por mim. Mas sou uma novidade para ele. Os seus olhos azul-pálidos parecem assustados e ele cora quando lhe falo. E estuda-me secretamente, como se eu fosse um dromedário, ou um arcanjo, ou um brinquedo mecânico cujo mecanismo interno o deixava perplexo. Mas ontem descobri através do Dinky-Dunk qual era o provável segredo da mistificação do Olie. Era o meu chapéu. "É tão estúpido!", confessou ele fervorosamente.
Aquela viagem de carroça de Buckhorn até ao rancho pareceu interminável. Pensei que estávamos a viajar até ao Polo Norte. A princípio, havia o que se poderia chamar de estrada, reta e profundamente marcada, entre linhas paralelas de vedações de arame farpado. Mas esta estrada logo se fundiu em nada mais do que um trilho, um trilho interminável que serpenteava suavemente e se estendia pelo chão da pradaria até onde a vista alcançava. Foi uma tarde gloriosa, um daqueles dias de outono opalinos e de abóbada azul em que deveria ter sido uma alegria apenas estar vivo. Mas eu estava com um humor antagónico, e as pequenas casas de quinta semelhantes a cabanas que de vez em quando se erguiam contra a linha do horizonte faziam-me sentir solitária, e o solavanco da carroça pesada deixava-me cansada, e às seis horas estava com tanta fome que as minhas costelas doíam. Estávamos no trilho há quase cinco horas, e Olie informou-me calmamente que faltavam apenas mais algumas horas. Ficou bastante frio quando o sol se pôs, e tive de desatar a minha manta de viagem e embrulhar-me nela. E ainda continuámos. Parecia estar no mar, com uma luz de vez em quando, a milhas e milhas de distância. Algo uivou lugubremente à distância e deu-me arrepios. Olie disse-me que era apenas um coiote. Mas continuámos, e as minhas costelas doíam pior do que nunca.
Então dei um grito que quase assustou o Olie, fazendo-o saltar do banco, pois lembrei-me da caixa de chocolates que tínhamos tido no comboio. Parámos e encontrámos a minha mala de mão, acendemos fósforos e revistámo-la. Depois dei um segundo grito, mais lúgubre, pois lembrei-me que o Dinky-Dunk a tinha enfiado na sua mala de viagem no último momento. Depois seguimos novamente, comigo como uma mulher índia, toda embrulhada na sua manta. Devo ter adormecido, pois acordei com um sobressalto. Olie tinha parado num pântano para dar de beber à sua parelha e disse que chegaríamos a casa dentro de mais uma ou duas horas. Como ele encontrou o caminho através daquela pradaria, só o céu sabe. Já não me preocupava. Estava demasiado cansada para pensar. O ar livre e o balançar e solavancar tinham-me cloroformizado para a insensibilidade. Olie podia ter conduzido para fora da beira de um desfiladeiro e eu nunca o teria impedido.
Em vez de cair num desfiladeiro, no entanto, exatamente às doze menos dez parámos junto à porta da barraca, que tinha sido deixada destrancada, e Olie entrou, acendeu um candeeiro e riscou um fósforo para o lume já preparado no fogão. Não me lembro de ter descido do banco da carroça e não me lembro de ter entrado na barraca. Mas quando o Olie voltou de tratar da parelha, eu estava a dormir profundamente num divã luxuoso feito de uma pele de novilho com um cheiro um pouco forte, esticada sobre dois cedros delgados em quatro pequenas pernas de cedro, com um saco cheio de agulhas de pinheiro na cabeceira. Fiquei ali a observar o Olie, num tipo de torpor. Surpreendeu-me a rapidez com que aquele seu corpo grande e desajeitado se podia mover, e quão hábeis aquelas suas mãos grandes e queimadas do sol podiam ser.
Então, afiado como uma flecha através de uma cortina de veludo, o cheiro a bacon veio através da minha sonolência. E era um odor celestial. Nem sequer me lavei. Comi bacon e ovos, biscoitos torrados, marmelada de laranja e café, este último com leite condensado, que detesto. Não sei como cheguei à minha cama, ou como tirei a roupa, ou onde dormiu o digno Olie, ou quem apagou a luz, ou se a porta tinha sido deixada aberta ou fechada. Nunca soube que a cama era dura, ou que os coiotes estavam a uivar. Só sei que dormi durante dez horas seguidas, sem me virar, e que quando abri os olhos vi um grande quadrado de luz solar dourada a dançar nas tábuas de pinho por pintar da parede da barraca. E a parte engraçada de tudo isto, Matilda Anne, é que não tive a dor de cabeça lancinante que tinha profetizado tão dolorosamente para mim mesma. Em vez disso, sentia-me eufórica. Comecei a cantar enquanto vestia as meias. E de repente lembrei-me de que estava outra vez terrivelmente esfomeada.
Abri a janela ao meu lado, pois era de dobradiças, e pus a cabeça de fora. Podia ver um curral, um edifício comprido e baixo que presumi serem as cavalariças do rancho, outro edifício de aspeto mais recente com telhado de metal, vários montes de feno cercados por uma vedação e uma fila de celeiros portáteis. E para lá deles estendia-se a pradaria aberta, ilimitada e bela sob o sol claro da manhã. Acima dela arqueava-se um céu azul-ovo-de-robin, fundindo-se em opala e ouro pálido em direção à orla do mundo. Respirei golfadas de ar claro, seco e ozónico, e realmente acredito que isso me deixou um pouco atordoada, era tão revigorante, tão champanhizado com as bolhas invisíveis da vida.
Eu precisava daquele estímulo etéreo, Matilda Anne, antes de olhar calma e criticamente à volta da nossa barraca. Oh, aquela barraca, aquela barraca! Que desilusão para a tua Chaddie de coração ferido! Em primeiro lugar, parecia não ser maior do que a cabine de um navio, e nem metade tão organizada. É feita de madeira, e não de troncos, e tem cerca de doze pés de largura e dezoito de comprimento. Tem três janelas, de dobradiças, e apenas uma porta. O chão é bastante áspero e tem uma alçapão que leva a uma pequena cave, onde os vegetais podem ser armazenados para o uso no inverno. A extremidade da barraca está fechada por uma "lona" — que acabei de descobrir ser a abreviatura de encerado. Por outras palavras, a privacidade do meu quarto é assegurada por nada mais substancial do que uma cortina de lona, separando o meu boudoir, onde nunca poderia fazer um birra com muito sucesso, da sala de estar maior.
Esta sala de estar é também a cozinha, a lavandaria, a sala de costura, a sala de receção e a biblioteca. Tem um bom fogão grande, que queima madeira ou carvão, um armário embutido com uma série de pratos de louça indescritivelmente feios, uma fila de prateleiras para guardar conservas, livros e revistas, utensílios de cozinha, cartuchos de arma, frascos de tabaco, ferramentas de carpinteiro e um candeeiro de petróleo. Há também uma mesa de pinho simples, algumas cadeiras, uma cadeira de balanço que foi claramente feita à mão e um barril de farinha. Do lado de fora da porta há um banco de madeira largo onde repousa uma grande bacia de lavar de estanho e um pedaço de sabão numa lata de sardinhas que foi perfurada com buracos ao longo do fundo. Acima dela pendia uma toalha de rolo que parecia um pouco gasta. E aquela ia ser a minha casa, a minha única habitação, por anos e anos a vir! Aquele pequeno cubículo de lugar!
Sentei-me numa tina de lavar virada ao contrário a cerca de vinte passos da barraca e estudei-a com olhos calmos e pensativos. Parecia infinitamente pior vista de fora. A razão para isto era que o revestimento de tábuas tinha sido primeiro coberto com papel alcatroado, para fins de aquecimento, e sobre isto tinham sido pregados pedaços de estanho, estanho de todas as cores, tamanhos e descrições. Algum era cano de fogão achatado, e algum era obviamente as laterais de latas de tomate. Até latas de tabaco de estanho, recipientes de marmelada Dundee, fundos de velhas assadeiras e as laterais de um velho caldeirão de lavar tinham sido unidos e pacientemente pregados sobre as paredes da barraca. Deve ter levado semanas e semanas a fazer. E de repente pareceu-me algo comovente, algo com o toque virgiliano de lágrimas. Parecia tão cheio de história, tão vocal dos expedientes trágicos aos quais os homens na pradaria têm de recorrer. Parecia patético. Trouxe um nó à minha garganta. No entanto, aquele casaco de metal de José era um trabalho bem feito. Tudo o que precisava era de uma ou duas demãos de tinta, e pareceria menos uma colcha de retalhos solidificada numa casa de colono. E lembrei-me subitamente da pergunta do Dinky-Dunk gritada para o Olie da ponta da carruagem — e soube que ele se tinha apressado a enviar uma mensagem para que aquele trabalho de estanho revelador fosse pintado antes que eu o visse.
Como o Olie tinha desaparecido da cena e não se encontrava em lado nenhum, entrei e fiz o meu próprio pequeno-almoço. Foi o jantar de novo, só que fiz ovos mexidos em vez de os fritar. E durante todo o tempo em que comia aquela refeição, estudei as paredes da barraca e tomei nota mental do que deveria ser mudado e do que deveria ser feito. Havia tanto, que me deixou bastante sobrecarregada. Sentei-me à mesa, cheia de pratos sujos, a perguntar por onde começar. E então a vista interminável de tudo aquilo abriu-se subitamente diante de mim. Tornei-me nervosamente consciente do silêncio ininterrupto à minha volta, e percebi quão diferente esta nova vida devia ser da antiga. Parecia a própria morte, e apoderou-se dos meus nervos, e soube que ia fazer figura de parva logo na primeira manhã na minha nova casa, na minha casa e na do Dinky-Dunk. Mas recusei-me a ceder. Fiz algo que me assustou um pouco, algo que não fazia há anos. Pus-me de joelhos ao lado daquela cadeira de madeira simples e rezei a Deus. Pedi-Lhe que me desse força para evitar ser uma cobarde e me tornasse uma esposa digna do homem que me amava, e que me guiasse no caminho de trazer felicidade ao lar que ia ser nosso. Depois arregacei as mangas, atei uma toalha de rosto sobre a cabeça e fui trabalhar.
Foi uma limpeza real, posso garantir-vos. À tarde, tive o Olie de gatas a esfregar o chão. Quando ele lavou as janelas, pedi-lhe que pegasse num ancinho de jardim e limpasse o lixo que espalhava o quintal. Drapiei cortinas de chita sobre as janelas, e pedi ao Olie que pregasse duas prateleiras numa caixa de embalagem e depois a levasse para o meu boudoir atrás da cortina de lona. Sobre esta caixa preguei chita fresca (pois a barraca não possuía algo tão feminino como uma cómoda) e nela coloquei o meu espelho dobrável e o meu relógio de viagem Tiffany e todos os meus tolos e brilhantes artigos de toucador de prata. Depois preguei fotografias e recortes de revistas nas paredes de madeira nuas — e decidi que antes de o inverno chegar aquelas paredes seriam pintadas e empapeladas, ou eu saberia a razão. Depois arejei a roupa de cama e o colchão, e desembrulhei os meus lençóis de linho novos e as ridículas fronhas com bainhas abertas que eu tinha corrido tão freneticamente pela cidade para conseguir, e guardei as minhas coisas nas prateleiras da caixa, e pedi ao Olie que batesse nas almofadas bem expostas ao sol, e refiz a cama cuidadosamente.
E depois ataquei a sala de estar. E não foi uma tarefa fácil, reorganizar aquelas prateleiras horríveis e ter a certeza de que não estava a deitar fora coisas que o Dinky-Dunk pudesse querer mais tarde. Mas a carnificina foi grande, e durante toda a tarde o fumo subiu aos céus das minhas fogueiras de destruição. E quando terminou, disse ao Olie para ir dar um bom passeio, pois pretendia tomar um banho. O que fiz na tina de lavar, com muita alegria e o meu último pedaço de sabão Roger-and-Gallet. E tive de gritar pelo pobre Olie, que andava por ali, durante meia hora antes de o conseguir persuadir a vir jantar. E mesmo assim ele veio tardiamente, com inúmeras hesitações e pausas, como se uma dama suficientemente temerária para tomar um banho fosse para todo o sempre tabu para a raça humana. E quando finalmente se aventurou pela porta, com olhos arregalados e a corar um castanho profundo, ele ficou a olhar para a minha blusa branca e o meu pequeno avental branco com aquela admiração silenciosa mas eloquente que não podia deixar de aquecer o coração da mais impressionável dona de casa.
Segunda-feira, dia vinte e três
O meu Dinky-Dunk está de volta — e oh, a diferença que isso faz para mim! Continuei a dizer a mim mesma que estava demasiado ocupada para sentir a sua falta. Ele veio sábado à noite, quando eu estava a preparar-me para ir para a cama. Eu tinha estado a observar o trilho de vez em quando, durante todo o dia, e às nove horas já tinha desistido dele. Quando o ouvi a gritar pelo Olie, fiz uma corrida para ele, com apenas metade da roupa vestida, e quase choquei o Olie e algum homem desconhecido, que tinha trazido o Dinky-Dunk a casa, até à morte. Como abracei o meu marido! O meu marido — adoro escrever essa palavra. E quando o trouxe para dentro, tivemos tudo outra vez. Ele era exatamente como um rapaz grande e crescido demais. E pôs a mesa entre nós, para ter uma oportunidade de falar. Mas nem isso funcionou. Ele sufocou o meu riso em beijos, e segurou-me junto a ele e disse que eu era maravilhosa. Depois tentávamos voltar à terra outra vez, e falar sensatamente, e depois havia outro abraço mortal. O Dinky-Dunk diz que eu sou pior do que ele. "Claro que está tudo acabado para um homem", confessou ele, "quando ele te vê a vir na direção dele com aquele teu estilo de natação australiano!"
Pelo que fiz o meu melhor para partir as suas costelas flutuantes. Só o céu sabe a que horas falámos naquela noite. E o Dinky-Dunk tinha um monte de surpresas para mim. A primeira foi um candeeiro de leitura de bronze. A segunda foi um tapete pequeno e macio para o quarto — apenas um Axminster, mas muito aceitável. A terceira foi um par de chinelos, forrados a pelo, e oceanos grandes demais para mim. E o Dinky-Dunk diz que até terça-feira teremos duas vacas leiteiras, parte Jersey, no rancho, e dentro de uma semana uma grade de galinhas será nossa. Em seguida, não pude deixar de levar o Duncan ao inventário que eu tinha feito do que tínhamos, e a lista, no lado oposto, do que tínhamos de ter. A segunda coisa sob o cabeçalho de "Necessidades" era "candeeiro", a quinta era "tapete de quarto", a décima terceira era "galinhas", e a seguinte era "vaca". Acho que ele ficou bastante espantado com o comprimento daquela lista de "necessidades", mas diz que terei tudo o que for razoável. E quando ele se acalmou, reparou nas mudanças na sala de estar e depois entrou e inspecionou o quarto, tornou-se muito solene, de repente. Isso preocupou-me.
"Lady Bird", disse ele, tomando-me nos seus braços, "esta é uma vida bastante dura para a qual te atraí. Terá de ser dura por um ano ou dois, mas venceremos, no final, e acho que valerá a pena a luta!"
O Dinky-Dunk é tão querido. Disse-lhe que, claro, venceríamos, mas que não seria muito útil para ele no início. Teria de ser domada e habituada ao freio.
"Mas, oh, Dinky-Dunk, aconteça o que acontecer, tens de me amar sempre!" — e imagino que nadei na sua direção com o meu estilo australiano outra vez. Tudo o que me lembro é que adormecemos nos braços um do outro. E como comecei a dizer e me esqueci de terminar, tinha andado a sentir a falta do meu Dinky-Dunk mais do que imaginava, naqueles últimos dias. Depois daquela noite já não era apenas uma barraca. Era "Casa". Casa — é uma palavra tão bela! Deve significar tanto para cada mulher. E adormeci a dizer a mim mesma que era a palavra mais adorável na língua inglesa.
Pela manhã, esgueirei-me da cama antes que Dinky-Dunk acordasse, pois o café da manhã seria nossa primeira refeição em casa, e eu queria que fosse uma refeição respeitável. Der Mensch ist was er isst — então, devo alimentar meu senhor e mestre com o que há de melhor nesta terra. Consequentemente, coloquei uma colher de sopa extra de creme nos ovos mexidos e dois ovos inteiros no café, para ter a certeza absoluta de que ficaria cristalino. Então, sentindo-me como Van Roon quando Berlim declarou guerra à França, levantei Dinky-Dunk, fiz com que se lavasse e sentei-o à mesa, de pijama e com seu roupão velho e esfarrapado.
"Suponho", disse eu ao ver seus olhos vaguearem pela mesa, "que você se sinta exatamente como um abridor de ostras que acabou de lascar sua Blue-Point e enfiou a ponta da faca sob a concha! E o próximo esforço vai lhe dizer exatamente que tipo de ostra você tem!"
Dinky-Dunk sorriu para mim enquanto eu passava manteiga em sua torrada, saindo bem quente do fogão. "Bem, Lady Bird, você não é o tipo que vai precisar de páprica, de qualquer forma!", anunciou ele enquanto começava a comer. E ele comeu como uma jiboia, deu palmadinhas na frente do pijama e anunciou estentoricamente que havia escolhido uma rainha — só que ele pronunciou "kaveen", ao modo do nosso pobre e velho Olie sueco!
Como aquele era domingo, passamos a manhã a "inspecionar" o lugar. Dinky-Dunk levou-me para fora e mostrou-me os estábulos, as pilhas de feno e os celeiros — que ele tinha acabado de impermeabilizar para que não houvesse mais grãos estragados naquela fazenda — e o "buraco frio" que ele costumava usar antes de o porão ser construído, e as ruínas da cabana de torrões onde morara o primeiro colono que possuíra aquela terra. Depois, ele me mostrou o novo alojamento para os homens, que Olie está terminando em seu tempo livre. Parece muito melhor do que nossa própria barraca, sendo de madeira aplainada. Mas Dinky-Dunk é leal à barraca e diz que ela é realmente melhor construída e a mais quente do Oeste — como descobrirei antes que o inverno termine.
Então paramos na bomba, e Dinky-Dunk fez uma confissão. Quando comprou aquele rancho pela primeira vez, não havia água na barraca, exceto a que ele conseguia captar do telhado. A água tinha de ser transportada por quilômetros e, ainda por cima, era barrenta e salgada. Eles costumavam chamá-la de "sopa de esquilo". Essa falta de água sempre o preocupou, disse ele, pois as mulheres sempre querem água, e aos montes. Foi no ano anterior, depois que ele me deixou em Banff, que ele estava determinado a conseguir água. Foi um trabalho árduo abrir aquele poço e, quase até o último momento, prometia ser um buraco seco. Mas quando encontraram aquela água, diz Dinky-Dunk, ele decidiu em sua alma que me teria, se eu pudesse ser conquistada. Era água digna de uma rainha. E ele queria sua rainha. Mas, é claro, até as rainhas precisam ser bem lavadas e bem cuidadas. Ele disse que não dormiu a noite toda, depois que descobriram que a água estava lá. Ele estava feliz demais; apenas vagueava pela pradaria, cantando para si mesmo.
"Então você tinha certeza de mim, Kitten-Cats, mesmo naquela época?", perguntei.
Ele olhou para mim com seus olhos solenes de escocês-canadense. "Eu não tenho certeza de você, nem mesmo agora", foi sua resposta. Mas eu o obriguei a retirar o que disse.
É um tanto estranho como Dinky-Dunk conseguiu este rancho, que costumava ser chamado de Cochrane Ranch, pois mesmo por trás deste nosso pequeno e pacífico lar, há um toque de tragédia. Hugh Cochrane era um dos agrimensores de Dinky-Dunk quando ele começou o trabalho na ferrovia na Colúmbia Britânica. Hugh tinha um irmão mais novo, Andrew, que era um tanto selvagem e tinha sido trazido para cá e plantado na pradaria para mantê-lo longe de encrencas. Numa noite de inverno, ele cavalgou quase cinquenta quilômetros para um baile (aparentemente, eles fazem isso por aqui e não pensam duas vezes) e, em vez de voltar para casa às cinco da manhã com os outros, visitou um contrabandista de uísque que operava um "porco cego". Lá, ele adquiriu muito mais uísque do que era bom para ele e perdeu-se na trilha. Isso significou que ele ficou gravemente congelado e provavelmente fora de si antes de voltar para a cabana. Ele não conseguiu manter o fogo aceso, é claro, nem fazer nada por si mesmo — e suponho que o pobre rapaz simplesmente morreu congelado. Ele estava sozinho lá, e levou semanas e semanas até que seu corpo fosse encontrado. Mas a parte mais macabra de tudo isso é que seus cavalos tinham sido guardados, amarrados em suas baias sem comida. Foram todos encontrados mortos, pobres criaturas. Tinham até comido as tábuas de madeira de que as manjedouras eram feitas. Hugh Cochrane não conseguiu superar isso e ia vender o rancho por mil e quatrocentos dólares quando Dinky-Dunk ouviu falar e interveio, comprando toda a meia seção. Depois, comprou a propriedade McKinnon, uma meia seção ao norte desta, depois que McKinnon perdeu todos os seus prédios porque era desleixado demais para fazer um aceiro. E quando o trabalho ferroviário terminou, Dinky-Dunk começou a cultivar trigo. Ele é um grande crente no trigo. Ele diz que trigo significa riqueza, neste país. Algumas pessoas o chamam de "minerador de terras", diz ele, mas quando lhe derem a chance de fazer as coisas como ele quer, ele lhes mostrará quem está certo.
Quarta-feira, dia vinte e cinco
Dinky-Dunk e eu temos feito planos. Ele prometeu construir um anexo para a barraca, uma ala no lado norte, para que eu possa ter um depósito e um armário de roupas em uma extremidade e um quarto de hóspedes na outra. E eu terei uma máquina de costura e uma misturadora de pão, e o divã de couro de boi fedorento será banido para o alojamento. E Dinky-Dunk diz que devo ter um pinto, um cavalo de montaria, assim que ele puder colocar as mãos no animal certo. Mais tarde, ele diz que preciso de ajuda, mas aqui no Oeste as mulheres são difíceis de conseguir e mais difíceis ainda de manter. Elas são arrebatadas por solteiros solitários como Dinky-Dunk. Eles não conseguem nem impedir que as professoras (na maioria meninas de Ontário) se casem. Mas eu não quero uma mulher por perto, pelo menos não por mais alguns meses. Eu quero Dinky-Dunk só para mim. E a liberdade do isolamento como este é um luxo tão grande! Ser apenas nós mesmos, na civilização, é um luxo, é o maior luxo do mundo — e também o mais caro, descobri para minha tristeza.
Aqui, não há motivo para ser nada além de si mesmo. A vida é tão simples e honesta, tão ligada aos princípios básicos! Há alegria no pensamento de se livrar de todo o lixo sublimado da vida urbana. Eu sou apenas uma mulher; e Dinky-Dunk é apenas um homem. Temos um teto, uma cama e um fogo. Isso é tudo. E o que existe, realmente, depois disso? Temos de comer, é claro, mas realmente vivemos bem. Há toda a caça que queremos, especialmente patos selvagens e perdizes das pradarias, sem mencionar lebres. Dinky-Dunk sai e as caça conforme precisamos. Conseguimos nossa vitela e carne bovina aos quartos, mas não dura bem até que o tempo esfrie, então coloco o que não precisamos em salmoura e uso para carne cozida. Não temos frutas frescas, mas até pêssegos evaporados podem ser cozidos de forma que fiquem apetitosos. E como tive o bom senso de trazer comigo nada menos que três livros de receitas, da Brentano's, sou capaz de tentar pratos cada vez mais elaborados.
Olie tem um quadrado cercado com arame onde cultivou beterrabas, cenouras, cebolas e nabos, e as maiores batatas que já vi. Elas serão guardadas em covas antes que cheguem as geadas fortes. Conseguimos nossa manteiga e banha por balde, e nossa farinha por saco, mas conseguir as coisas em quantidades às vezes tem suas desvantagens. Quando examinei a caixa de aveia, descobri que tinha gorgulhos nela e prontamente joguei toda aquela farinha fora. Dinky-Dunk, vindo do curral, observou a pilha com espanto de olhos arregalados. "Tem vermes nela!", gritei para ele. Ele pegou um punhado e olhou para aquilo com tristeza trágica. "Ora, eu comi gorgulhos o inverno passado todo", comentou ele, em tom de censura. Dinky-Dunk, com sua linhagem escocesa, adora seu mingau. Então teremos que conseguir uns cinquenta quilos, garantidos como estritamente desabitados, quando formos de carroça para Buckhorn.
Os homens são engraçados! Uma mulher nunca conhece um homem completamente até que tenha vivido com ele e, dia após dia, descoberto suas pequenas idiossincrasias. Ela pode parecer próxima dele, naqueles primeiros dias de romance, mas nunca o conhece de verdade, não mais do que um pardal num fio telegráfico conhece o Código Morse vibrando sob seus pés! Os homens têm tantas pequenas manias e voltas, mesmo os melhores deles. Prendi um oleado numa caixa de sapatos e drapejei chita ao redor dela, e preparei um lugar para Dinky-Dunk se lavar, no quarto, quando ele chega ao meio-dia. À noite, eu sabia que seria impossível, pois ele construiu um pequeno lavatório com uma lona velha de colheitadeira pregada em quatro postes, e lá fora Olie e ele se despem todas as noites e se salpicam com baldes de água de poço. Dinky-Dunk é limpo, qualquer que seja o caso, mas achei que pareceria mais civilizado se ele realizasse suas limitadas abluções do meio-dia no quarto. Ele o fez por um dia, num silêncio pensativo, e depois esgueirou as coisas de lavagem de volta para o banco velho e instável do lado de fora da porta. Ele disse que economizava tempo.
Entre outras coisas vitais, descobri que Dinky-Dunk detesta torrada queimada. Ontem de manhã, Matilda Anne, fiquei pensando em Corfu, Ragusa e em você, e ela queimou um pouco nas bordas, suponho. Então, beijei sua orelha e disse-lhe que o carbono deixaria seus dentes brancos. Mas ele se levantou e saiu com uma espécie de expressão de "por este caminho reside a loucura", e senti-me miserável o dia todo. Então, esta manhã, fui mais cuidadosa. Fiz aquela torrada exatamente no ponto. "Festeje, ó Kaikobad, com a mais loira das torradas!", disse eu enquanto fazia uma reverência e lhe entregava o prato. Ele franziu um pouco a testa, com a pontada daquela fala, mas não conseguiu evitar um sorriso. Além disso, Dinky-Dunk sempre ensaboa as costas da mão, para lavar as costas e alcançar bem alto. Eu também. E nas manhãs frias — ele diz "Um, dois, três, a abelha!" antes de pular da cama — e eu imaginava que era a única adulta em todo o mundo que ainda usava essa rima tola. E outro dia, quando ele estava quente e cansado, encontrei-o bebendo uma concha de água fria fresca do poço. Então eu disse:
"Muitos homens foram para o seu sarcófago Por despejar água fria num esôfago quente!"
Quando recitei essa rima para ele, ele girou como se tivesse levado um tiro. "Onde você ouviu isso?", perguntou ele. Eu disse a ele que era isso que Lady Agatha sempre me dizia quando me pegava bebendo água gelada. "Pensei que fosse o único homem no mundo que conhecia esse velho dístico maluco", confessou ele, e ele me perseguiu pela barraca com o resto da concha de água, para evitar resfriar minha barriga, explicou ele. Então, Dinky-Dunk e eu gostamos de dar apelidos às coisas. Ele me chama de "Lady Bird" e "Gee-Gee" e, às vezes, "Honey", e às vezes "Boca Chica" e "Tabby". E eu o chamo de Dinky-Dunk e "The Dour Maun", e "Kitten-Cats", embora por algum motivo ou outro ele deteste esse último nome. Acho que ele sente que é uma afronta à sua dignidade. E nenhum homem gosta de um traço de zombaria numa mulher. Mas os nomes de Dinky-Dunk nascem do afeto, e eu o amo por eles.
Até os cavalos do rancho foram batizados com nomes. Há "Slip-Along", "Water Light", "Bronk", "Patsy Crocker", "Pick and Shovel" e "Tumble Weed", e outros que não consigo me lembrar no momento. E descubro que estou adquirindo alguns dos pequenos hábitos de Dinky-Dunk e caindo no truque de ver as coisas do ponto de vista dele. Será que os maridos e as esposas realmente se tornam iguais? Há momentos em que Dinky-Dunk parece saber exatamente o que estou pensando, pois quando ele fala, diz exatamente a coisa que eu ia lhe perguntar. E ele é inexorável em sua crença de que o sapato direito deve ser sempre calçado primeiro. Eu também!
Quinta-feira, dia vinte e seis
Dinky-Dunk está um pouco apertado de dinheiro. Ele é o que chamam de "pobre de terras" por aqui. Ele tem grandes planos, mas pouco dinheiro. Então teremos que ser frugais. Eu tinha decidido mudanças vastas e repentinas nesta casa, mas terei que me conter um pouco. Felizmente, ainda tenho quase duzentos dólares do meu próprio dinheiro — e nunca mencionei isso a Dinky-Dunk. Então, quase todas as noites, estudo os anúncios de revistas e o catálogo da empresa de venda por correspondência de Winnipeg. A cada noite, adiciono à minha lista de "Necessidades" e depois volto atrás e risco algumas das anteriores, por serem extravagantes demais, pois o tamanho da minha lista quase me causa uma parada cardíaca. E enquanto fico sentada ali pensando no que tenho que abrir mão, invejo as mulheres que conheci em outros tempos, as mulheres com todo o seu linho branco, seu cristal e prataria, seus tapetes de oração, cômodos temáticos, seus banheiros de azulejos brancos e suas máquinas para tornar a vida tão confortável e tão fácil. Eu as invejo. Guardo minha lista e vou para a cama invejando-as. Mas, oh, durmo tão profundamente e acordo com o coração tão leve, tão ansiosa para começar o trabalho do dia seguinte, tão feliz por ver que estou lentamente deixando as coisas mais organizadas. Não sobra espaço para arrependimentos. E há sempre o futuro, o amanhã mais feliz para o qual nossos pensamentos se voltam. Fico pensando na cidade novamente, nas centenas de mulheres que conheço indo como centenas de esquilos loucos em sua roda de exercícios de diversões, e nas milhares e milhares de mulheres que estão trabalhando sem esperança, seguindo na mesma rotina de dia após dia, confinadas em pequenos apartamentos e quartos dos fundos, com ar ruim, comida ruim e circulação ruim, enquanto eu tenho todo o ar livre de Deus para vagar e posso sentir os rios cantantes da saúde em minhas veias. E aqui eu desvio do meu voluntário Cântico dos Cânticos, pois elas têm uma coisa que realmente sinto falta, e isso é música. Eu gostaria de ter um piano de armário ou um piano de cauda ou um Welte Mignon! Gostaria de ter qualquer tipo de piano velho! Gostaria de ter um acordeão, ou uma flauta alemã, ou até mesmo um harpa de judeu!
Mas qual é o uso de desejar luxos, quando não temos nem um abridor de latas — Dinky-Dunk diz que usa um machado há mais de um ano! E nossa única torradeira é um garfo de cozinha preso à extremidade de uma ripa. Até vi Dinky-Dunk passar meia hora endireitando pregos velhos tirados de uma de nossas caixas de transporte. E o único escorredor que temos foi feito de uma forma de leite furada com buracos perfurados no fundo. E não temos uma panela dupla, nem uma tigela de mistura, nem um cortador de rosquinhas. Quando disse a Dinky-Dunk ontem que estávamos ficando sem sabão, ele disse que construiria um lixiviador de cinzas de madeira e conseguiria sebo de boi para fazer sabão mole. Perguntei-lhe quanto tempo ele gostaria de beijar uma bochecha macia que tinha sido lavada com sabão mole. Ele disse que continuaria me beijando mesmo se eu fosse uma múmia preservada em betume. Mas prefiro não arriscar demais o processo de preservação.
O que me lembra o fato de que acho meu cabelo um incômodo terrível, sem nenhuma Hortense para lutar com ele todas as manhãs. Como você sabe, é grosso como uma corda e longo como meu braço. Lamento o tempo que leva para cuidar dele, e algo como uma boa lavagem é um evento a ser abordado com apreensão e preparado com zelo. "Maldita seja minha beleza!" Acho que vou cortar aquela lã. Mas em cada ocasião em que decido, experimento um dos momentos de "cachorrinho" do Sr. Polly. A coisa que me faz hesitar é o pensamento de que Dinky-Dunk poderia me odiar pelo resto de seus dias. E agora que nossa aristocracia de lojas de departamentos parece ter um monopólio de condes e eu pareço destinada a me preocupar apenas com um marido americano, não pretendo jogar fora as colheres junto com a água da louça! Mas ter que me preocupar tanto com aquele cabelo é um incômodo, especialmente à noite, quando estou tão cansada que meu travesseiro parece latir como um cachorro para que eu venha e lhe dê carinho.
E falar nisso me lembra que tenho que pedir suportes de arco para meus pés. Fico tanto tempo sobre eles que, na hora de dormir, meus tornozelos parecem uma mousse de chocolate que foi deixada ao sol. No entanto, isto não é um lamento, Matilda Anne, pois quando me deito, durmo como uma criança. Chega de contar carneirinhos e ir ao armário de remédios para tomar pílulas de alcatrão. Eu as abjuro. Eu, que costumava ter tantos truques para fazer a deusa de olhos estrelados se curvar sobre meu travesseiro, declaro-me aqui a dorminhoca mais nobre ao norte da Linha! Não preciso mais contar as ovelhas enquanto elas passam sobre o muro, ou tentar pacientemente imaginar o som das ondas do mar, ou laboriosamente redesenhar aquele vestido de jantar perene que mantive guardado no baú de cedro da imaginação desde que me entendo por gente, elaborando-o repetidas vezes até os mínimos detalhes durante a hora mais longa da minha noite mais branca, até que começasse a se fundir nos mantos aveludados do próprio sono! Hoje em dia, um ogro chamado Dez Horas rouba por trás da minha cadeira com um porrete na mão e me atordoa até a inconsciência. Duas ou três vezes, na verdade, meu querido e desajeitado Dinky-Dunk ajudou-me a tirar a roupa. Mas ele diz que o som mais agradável que conhece é deitar-se na cama e ouvir o tilintar dos meus grampos de cabelo enquanto os jogo na pequena bandeja de grampos Coalport em minha cômoda — o que me lembra do que Chinkie disse uma vez sobre sua ideia de Paraíso ser comer meu doce de leite ao som de trombetas!
Eu me gabo de estar ocupada, mas não sou a única pessoa ocupada por este acampamento. Olie e Dinky-Dunk falam sobre pousio de verão e gradagem dupla e gradagem de arrasto e aceiros, e estou começando a entender o que tudo isso significa. Eles estão fora com suas equipes o dia todo, trabalhando como troianos. Temos o jantar ao meio-dia, que Olie engole em silêncio e com a rapidez de um raio. Ele é o mais especialista dos engolidores de espada, com uma faca de mesa, e Dinky-Dunk diz que isso o faz lembrar de como Burbank poderia fazer fortuna inventando uma ervilha quadrada que ficasse parada na lâmina da faca. Mas Dinky-Dunk me impediu de chamá-lo de "O Engolidor de Espadas" e deu a Olie uma dica privada sobre as funções do garfo de mesa. Como os machos desta velha terra se mantêm unidos! O mundo dos homens é uma ordem secreta, e cada homem é um membro!
Tendo engolido seu jantar, Olie sempre sai para o ar livre. Então Dinky-Dunk vem para o meu lado da mesa. Sentamo-nos lado a lado, com nossos braços ao redor um do outro. Às vezes, encho seu cachimbo para ele e o acendo. Então conversamos preguiçosamente, felizmente, contentemente e às vezes chocantemente. Então ele olha para nosso despertador de níquel, nas estantes de livros que fiz com caixas de biscoitos velhas, e invariavelmente diz: "Este não é o espírito que construiu Roma", e me beija três vezes, uma em cada pálpebra, com força, e uma na boca. Nem me importo com o gosto do cachimbo. Então ele vai embora, e eu fico sozinha durante a tarde.
Mas estou organizando as coisas agora para ter um pouco de tempo livre. E com tempo em minhas mãos, sinto-me muito inquieta. Ontem vaguei pela pradaria e quase me perdi. Dinky-Dunk diz que devo ser mais cuidadosa, até que eu conheça melhor o país. Ele me colocou em seu ombro e me fez prometer. Depois ele me colocou no chão. Isso me fez pensar se eu não tinha me casado com um homem dominador. Acima de todas as coisas, sempre quis liberdade.
"Sou uma mulher selvagem, Duncan. Você nunca vai me domar", confessei a ele.
Ele riu um pouco.
"Então você acha que vai?" eu exigi.
"Não, eu não vou, Gee-Gee, mas a vida vai!"
E novamente senti algum espírito fantasmagórico de revolta agitando-se em mim, bem lá no fundo. Acho que ele viu alguma sombra disso, captou algum eco, pois sua maneira mudou e ele afastou o cabelo da minha testa e me beijou, quase com pena.
"Há uma coisa que não deve acontecer!" eu lhe disse enquanto ele me segurava em seus braços.
Ele não deixou que seus olhos encontrassem os meus.
"Por quê?" ele perguntou.
"Estou com medo--aqui fora!" confessei enquanto me agarrava a ele e sentia a necessidade de tê-lo perto de mim. Ele ficou muito quieto e pensativo durante toda a noite. Antes de adormecer, ele me disse que na segunda-feira nós dois iríamos de carroça até Buckhorn para buscar um carregamento de suprimentos.
Sábado, dia vinte e oito
Consegui meu cayuse. Dinky-Dunk pretendia que fosse uma surpresa, mas o cowboy mais tímido e ruivo que já montou em uma sela veio trotando pela trilha, e eu o vi primeiro. Ele estava conduzindo o mais peludo, malhado, barrigudo e insano pequeno cayuse que já usou um cabresto. Dei uma olhada em sua mecha de cor fulva, que ficava em estilo pompadour sobre as orelhas, e gritei: "Paderewski!" Dinky-Dunk veio e ficou ao meu lado e riu. Ele disse que aquele cayuse realmente se parecia com Paderewski, mas o jovem das madeixas ardentes explicou, corando, que seu nome atual era "Jail-Bird" (Pássaro da Cadeia), que algum escandinavo tolo usara em vez de "Grey-Bird" (Pássaro Cinzento), seu apelativo autêntico e original. Mas eu mantive meu nome, embora o tenhamos encurtado para "Paddy". E Paddy deve ter sido mesmo um pássaro da cadeia, ou merecido ser um, pois está marcado e cheio de cicatrizes de ponta a ponta. Mas ele é bem-humorado, duro como nogueira e obrigatoriamente onívoro. Todos no Oeste, homens e mulheres, montam a cavalo, e eu tenho praticado no Paddy. Parece uma maneira muito confortável e sensata de cavalgar, mas terei que me fortalecer um pouco antes de pegar a trilha por qualquer período de tempo.
Tenho me perguntado, Matilda Anne, se tudo isso soa pagão e tolo para você, inculto, como diria Theobald Gustav? Também tenho me perguntado, desde que escrevi aquela última frase, se as pessoas realmente precisam de cultura, ou do que costumávamos chamar de cultura, e se isso significa tanto para a vida quanto muitos imaginam. Aqui estamos nós, sem nenhum dos refinamentos da civilização, e estamos tão em paz com nossas próprias almas quanto os pássaros do ar--quando há pássaros no ar, o que não acontece em nossa terra! A cultura, parece-me ao olhar para trás, tende a tornar as pessoas cada vez mais meras espectadoras da vida, afastando-as dela e elevando-as acima dela. Ou será que os meros espectadores exigem cultura, para substituir o que perdem por não serem construtores e trabalhadores reais?
Somos agricultores, apenas caipiras e broncos, como dizem no meu país. Mas estamos cultivando o solo e produzindo trigo. Estamos transformando o que antes era um deserto em um grande país novo. Para mim, isso parece quase suficiente. Estamos trabalhando para alimentar o mundo, já que o mundo precisa de pão, e há algo satisfatório e edificante no simples pensamento de que podemos responder a Deus, no final, por nossas vidas, não importa quão cruas e rudes tenham sido. E há manhãs em que sou o "Saul" de Browning em carne e osso. A grande onda de ar de um horizonte a outro coloca algo em meu sangue ou cérebro que me deixa quase tonta. Eu fervilho! Isso me faz pulsar, formigar e gritar que a vida é boa--boa! Suponho que não seja nada mais do que altitude e ozônio. Mas, em matéria de intoxicantes, está no mesmo nível de qualquer coisa que já tenha sido servida em garrafas no Martin's ou no Bustanoby's. E ao nascer do sol, quando a pradaria está levemente prateada pelo orvalho, quando as minúsculas redes de teias de aranha balançam um milhão de teias brilhantes enfeitadas com diamantes, quando cada lâmina de grama é uma corda cantante de pérolas, hinhando a Deus nas Alturas pelo nascimento de um dia dourado, posso sentir meu coração inchar, e estou tão abundantemente, tão inexprimivelmente viva, viva até a ponta dos dedos! Tanto espaço, tanta luz, tantas distâncias! E ser Saul é muito melhor do que ler sobre ele!
Quarta-feira, dia primeiro
Estava cansada demais para escrever ontem à noite, embora houvesse tanto para falar. Fomos de carroça até Buckhorn para nossos suprimentos, dois dias de trilha lentos, adoráveis e preguiçosos, que transformamos em uma espécie de feriado cigano. Levamos cobertores, comida e ração para os cavalos e uma frigideira, e acampamos na pradaria. A noite estava bem fria, mas fizemos uma boa fogueira e tomamos café quente. Dinky-Dunk fumou e eu cantei. Depois nos enrolamos em nossos cobertores e, enquanto eu estava deitada observando as estrelas, comecei a pensar nas luzes da Great White Way. Então cutuquei meu marido e perguntei se ele sabia qual costumava ser minha maior ambição na vida. E, claro, ele não sabia. "Bem, Dinky-Dunk", eu lhe disse, "era ser o garoto que abre a porta no Malliard's! Por dois anos inteiros eu me consumi de inveja daquele garoto, que sempre vivia no aroma de um chocolate quente tão celestial e usava duas fileiras de botões brilhantes em seu casaco trançado e nunca estava sem luvas brancas e, de manhã, à tarde e à noite, desfilava com aquele chapeuzinho mais lindo, inclinado para um lado como o de um Granadeiro!" E Dinky-Dunk me disse para dormir ou ele me sufocaria com um cobertor de cavalo. Então me contorci de volta para o meu cobertor, me "aninhei" e observei o fogo apagar enquanto, bem longe, em algum lugar, um coiote uivava. Isso me deixou solitária, então peguei a mão de Dinky-Dunk e adormeci segurando-a na minha.
Acordei cedo. Dinky-Dunk tinha esquecido da minha mão, e ela estava fria. No Leste, havia uma barra baixa de prata etérea e pálida, que se tornou âmbar, depois cinzas de rosas e, finalmente, ouro. Vi uma estrela branca sublime se apagar, no Oeste, e então, atrás das barras de ouro, o céu tornou-se rosado com a manhã até ser um motim borgonhês de cores desconcertantes. Sentei-me e observei. Depois me inclinei e balancei Dinky-Dunk. Era um amanhecer glorioso demais para perder. Ele olhou para mim com um olho aberto, como um cão sonolento.
"Você tem que ver isso, Dinky-Dunk! É tão resplandecente que é positivamente vulgar!"
Ele se sentou, encarou a pompa de cores por um momento e depois se enfiou de volta no cobertor. Fiz cócegas em seu nariz com uma lâmina de grama doce. Depois lavei o rosto no orvalho, como fizemos em Christ-Church Meadow naquele glorioso Primeiro de Maio em Oxford. Quando Dinky-Dunk acordou, eu já tinha o café fervendo e o bacon chiando na frigideira. Foi o cheiro mais celestial que já atingiu narinas humanas, e coro de vergonha ao pensar no quanto comi naquele café da manhã, sentada em um saco de aveia vazio e encostada na roda de uma carroça. Às oito horas estávamos na metrópole de Buckhorn, ocupados recolhendo nossas coisas. E elas formaram um carregamento bem respeitável.
Quinta-feira, dia segundo
Tenho praticado como uma louca para aprender a tocar gaita. Comprei-a em Buckhorn, sem que Dinky-Dunk soubesse, e o dia todo, quando sabia que era seguro, fiquei nela. Então, hoje à noite, quando deixei a mesa de jantar pronta, peguei a escada que estava encostada em um dos celeiros e subi no palheiro mais próximo. Lá, completamente fora de vista, esperei até que Dinky-Dunk chegasse com sua equipe. Vi-o entrar no barraco e depois sair novamente, olhando ao redor, perdido em pensamentos. Então comecei a tocar Traumerei.
Você deveria ter visto o rosto daquele rapaz! Ele olhou para o céu, como se minha pobre gaita fosse o derramamento aéreo de arcanjos. Ele ficou parado, imóvel, bebendo o som. Então correu para os estábulos, achando que vinha de lá. Demorou um pouco para ele me encontrar no topo do meu monte de feno. Então escorreguei para os braços dele. E acredito que ele ama aquela música de gaita. Depois do jantar, ele me fez sair, sentar na caixa de aveia e tocar meu repertório. Ele diz que é maravilhoso, à distância. Mas aquela gaita é um pouco estridente e deixa meus lábios doloridos. Além disso, minha boca não é grande o suficiente para eu "linguajar" corretamente. Quando contei isso a Dinky-Dunk, ele disse:
"Claro que não é! Por que você acha que eu ando te chamando de Boca Chica?"
E acabei de descobrir que "Boca Chica" é espanhol para "Boca Pequena" -- e eu com um bocão, Matilda Anne, que você costumava chamar de Caverna dos Ventos! Agora Dinky-Dunk jura que terá uma Victrola antes que o inverno acabe! Pelos deuses e peixinhos, que luxo! Houve um tempo, não muito tempo atrás, em que eu estava inclinada a zombar do piano elétrico e do gabinete de clássicos enlatados de Westbury! Como a vida nos humilha! E quão cegas são todas as mulheres em seus ideais e em sua busca pela felicidade! As pedras do mar que jazem tão brilhantes nas margens da juventude podem secar tão opacas na mão da experiência! E ainda assim, como a Nannie de Birdalone anunciou uma vez: "Se você as chupa, elas ficam lin-das!" E suponho que deva ser mais ou menos o mesmo com o casamento. Você nem sequer pode se dar ao luxo de abandonar seu trabalho de amar. Quanto mais pedimos, mais devemos dar. Estava pensando naqueles dias da minha infância ferozmente descuidada, quando minha alma costumava flutuar para a felicidade plácida em um pedaço de bolo de ameixa -- só que mesmo então, infelizmente, flutuava como um urso polar em seu iceberg, pois assim que o bolo de ameixa desaparecia, minha paz de espírito ia embora com ele, por mais que eu me agarrasse à última migalha. Mas agora que sou uma mulher casada, não pretendo ser um Hamlet de anáguas. Um bom homem me ama, e eu retribuo. E pretendo manter esse amor vivo.
Sexta-feira, dia terceiro
Acabo de emitir um ultimato sobre os porcos. Não haverá mais suínos soltos vagando pelo meu quintal. É um anúncio de má administração. E o que é mais, quando eu estava estendendo minha lavagem esta manhã, um leitão fuçou minha cesta de roupas brancas com seu focinho sujo, e enquanto eu o perseguia, seu irmão mais velho tentou comer um dos meus guardanapos de mesa molhados. E isso significou mais uma hora de trabalho duro antes que o dano fosse reparado.
Sábado, dia quarto
Olie está pintando o barraco, por dentro e por fora, e agora você nunca reconheceria nosso pobre casaco de José. Disse a Dinky-Dunk que, se colocássemos um camaleão naquela parede, ele morreria de fadiga cerebral tentando acertar os esquemas de cores. Então Dinky-Dunk fez Olie tirar um dia de folga e usar o pincel. Mas o cheiro de tinta me fez pensar em travessias do Canal, então saí com Dinky-Dunk, de carroça, para o Rancho Dixon para ver alguns cavalos, quase cento e dez quilômetros de ida e volta. Foi um dia de outono glorioso, e um passeio glorioso, com "Bronk" e "Tumble-Weed" trotando pela trilha dupla e o ar como cristal.
Dinky-Dunk e eu cantamos durante quase todo o caminho. Os gophers devem ter pensado que éramos loucos. Meu senhor e mestre é incontinenti orgulhoso de sua voz, especialmente dos tons de peito, mas ele fica um pouco atrás de mim na melodia, claramente nem sempre tendo certeza de si mesmo. Jantamos com os Dixon, e cerca de três milhões de moscas. Eles me deixaram triste, aquela família, e especialmente a Sra. Dixon. Ela parecia tornar a vida na pradaria tão feia, vazia e endurecedora. Pobre alma seca e de olhos tristes, ela parecia uma mulher de sessenta anos, e ainda assim seu marido disse que ela tinha apenas trinta e sete. A água deles é forte em álcali, e isso e o vento da pradaria (combinado com algo profundo em sua própria constituição) a tornaram como um abutre, magra, ossuda e seca. Olhei para aquela linha dura da mandíbula e das maçãs do rosto e me perguntei há quanto tempo as curvas suaves estavam lá, e se aquelas mãos sobrecarregadas já foram bonitas, e se aquelas costas retas já foram arredondadas e com covinhas. Seu cabelo estava desarrumado. Seu avental estava indescritivelmente sujo, e ela o usava como lenço e como toalha de mão. Sua voz era dura como pregos, e sua culinária era miserável. Nem uma porta ou janela tinha tela e, como eu disse antes, quase fomos sufocados por moscas.
Dinky-Dunk não ousou olhar para mim durante todo o jantar. E no caminho para casa, os olhos da Sra. Dixon continuaram me assombrando, pareciam tão cansados, vagos e acusadores, como se estivessem secretamente pedindo contas ao próprio Deus por tê-la trapaceado em sua herança feminina de alegria. Perguntei a Dinky-Dunk se algum dia ficaríamos assim. Ele disse: "Nunca na sua vida!", e citou a frase latina sobre a mente controlando a matéria. Os Dixon, ele continuou explicando, eram do tipo "favela", só que eles não viviam em uma cidade. Mas, cansada e sonolenta como eu estava naquela noite, levantei para passar creme frio no rosto e nos braços. E vou escrever pedindo farinha de amêndoas e glicerina da empresa de pedidos por correio amanhã. E um sutiã -- pois vi o que parecia ser a suspeita de um sorriso nos lábios não barbeados de Dinky-Dunk enquanto ele me observava lutando com meu espartilho esta manhã. Foi preciso algum contorcionismo, e mesmo assim mal consegui. Joguei minha esponja molhada nele quando ele se virou na porta com a pergunta levemente impessoal: "Quem é sua amiga gorda?" Então ele disparou para o curral, e eu voltei e estudei meu queixo no espelho da penteadeira, para garantir que não estava ficando com uma papada como a do Tio Carlton.
Mas não consigo parar de pensar nos Dixon, e de sentir uma pena tola e impotente por eles. Estava escurecendo quando voltamos daquela longa viagem ao rancho deles, e as estrelas estavam surgindo. Eu podia ver nosso barraco a quilômetros de distância, um pequeno ponto preto e solitário contra a linha do horizonte. Fiz Dinky-Dunk parar a carroça, e ficamos sentados olhando para ele. Parecia tão minúsculo ali, tão solitário, tão estranho, no meio de tantas milhas e milhas de vazio, com um pequeno fio de fumaça subindo de seu desolado cano. Então eu disse, em voz alta: "Lar! Meu lar!" E do nada, sem motivo terreno algum, comecei a chorar como um bebê. As mulheres são tão tolas, às vezes! Disse a Dinky-Dunk que precisamos conseguir livros, bons livros, e passar as longas noites de inverno lendo juntos, para não apodrecermos.
Ele disse: "Está bem, Gee-Gee", e acariciou meu joelho. Então trotamos ao longo da trilha em direção ao solitário pontinho preto à nossa frente. Mas eu me agarrei ao braço de Dinky-Dunk durante todo o resto do caminho, até pararmos ao lado do barraco, e o pobre velho Olie, com uma frigideira na mão, estava silhuetado contra a luz da porta aberta.
Segunda-feira, dia sexto
Nos últimos dias, não tenho sido nada além de uma retriever de duas pernas, correndo e trazendo coisas para casa comigo. Houve chuvas, mas o tempo continua glorioso. E descobri pilhas e pilhas de cogumelos no antigo Rancho Titchborne. Eles estão densos ao redor do curral e no pasto lá. Agora sou o que seu senhor e mestre inglês chamaria de "uma amazona perfeita" no Paddy, e todas as manhãs vou cavalgar para buscar minha cesta cheia de Agaricus Campestris -- que deveria estar no plural, mas esqueci como! Nós os comemos com creme sobre torradas; nós os comemos fritos na manteiga; e nós os comemos em sopa -- e que belezas! Vou tentar enlatar alguns para uso no inverno e na primavera. Mas a melhor parte do cogumelo é encontrá-lo. Cavalgar para uma pequena cidade branca que surgiu da noite para o dia e parece um acampamento de soldados de fada, ver as cúpulas brancas leitosas contra o verde vívido da grama da pradaria, avistar outro grupo deles, de repente, como estrelas contra um céu de esmeralda, a cem metros de distância, inalar o ar puro da manhã, sentir seu sangue formigar e ouvir o bater de asas dos galos da pradaria e os patos selvagens grasnando ao longo das bordas das ravinas -- eu lhe digo, Matilda Anne, vale a pena perder um pouco do seu sono de beleza para passar por isso! Estou acordada até antes de Dinky-Dunk, e o trouxe de seus sonhos esta manhã cutucando seus dentes com meu dedo mindinho e dizendo:
"Doze cavalos brancos Em uma colina vermelha--"
e perguntei a ele se ele sabia o que era, e ele deu a resposta certa, e disse que não ouvia aquele enigma desde que era um menino.
A tarde toda estive ajudando Dinky-Dunk a montar uma cerca de arame farpado. O arame farpado é quase tão difícil de manejar quanto uma mulher. Dinky-Dunk está cercando parte da pastagem, para uma espécie de caminho de gado para nossas duas vacas leiteiras. Ele diz que é apenas um campo pequeno, mas parecia haver quilômetros e quilômetros daquela cerca. Não tínhamos um tensor, então Dinky-Dunk improvisou comigo e um martelo de unha. Ele segurava o arame, alavancava seu martelo em torno de um poste, e eu cravava o grampo, com um martelo meu. Consegui atingir o grampo quase a cada martelada, embora um grampo tenha saído como estilhaço e atingido a orelha de Diddum. Então, veja, sou útil, mesmo sendo uma chekako! Mas um arame escorregou e rasgou minha saia e meia, arranhou minha perna e fez o sangue correr. Foi apenas o menor dos cortes, na verdade, mas tirei o máximo dele, Dinky-Dunk foi tão adoravelmente gentil ao me cuidar. Voltamos para casa cansados e felizes, cantando juntos, e Olie, como de costume, deve ter pensado que ambos tínhamos enlouquecido.
Este meu marido é tão elementar. Ele secretamente imagina que é um dos homens mais complexos. Mas em muitas coisas ele é tão simples quanto uma criança. E eu o amo por isso, embora eu acredite que gosto de provocar um pouco. Ele é digno e odeia frivolidade. Então, quando o cumprimento com "Bom dia, velhote!", posso ver aquela pequena sombra sem nome passar por seu rosto. Então digo: "Ah, peço perdão ao seu pequeno orgulho!" Ele geralmente sorri, no final, e acho que estou lentamente sacudindo aquele ar de monitor dele, embora uma ou duas vezes tenha tido que lembrá-lo de La Rochefoucauld dizendo que a gravidade era um estratagema inventado para esconder a pobreza de espírito! Mas Dinky-Dunk ainda se opõe a eu colocar meu dedo em seu pomo de Adão quando ele está falando. Ele usa uma camisa de flanela, quando trabalha lá fora, e seu pescoço está nu. Ontem, enterrei meu rosto no canto perto de sua escápula e o fiz se contorcer. Como ele só se barbeia nas manhãs de domingo agora, esse é quase o único ponto macio, pois seu rosto é espinhoso e deixa meu queixo dolorido, o bruto barbudo! Então eu o mordi; não com força -- mas Satanás disse morda, e eu simplesmente tive que fazer isso. Ele ficou pálido, me girou de modo que fiquei flácida em seus braços e fechou sua boca sobre a minha. Eu me soltei, e ele me perseguiu. Derrubamos coisas. Então saí do barraco, corri ao redor do curral de cavalos e depois ao redor dos palheiros, com Dinky-Dunk logo atrás de mim, me dando arrepios a cada curva. Senti-me como uma mulher das cavernas. Ele me agarrou como um homem da idade da pedra, me levantou e me carregou sobre o ombro até uma pilha de grama doce da pradaria que tinha sido deixada lá para o colchão de Olie. Meu cabelo estava solto. Eu estava gritando, meio soluçando e meio rindo. Ele me jogou no feno, como um saco de trigo. Comecei a lutar com ele novamente. Mas não consegui afastá-lo. Então toda a minha força pareceu ir embora. Ele mesmo estava rindo, mas me assustou um pouco ver suas pupilas tão dilatadas que seus olhos pareciam pretos. Senti-me como um cordeiro nas mandíbulas de um leão, Dinky-Dunk é muito mais forte do que eu. Fiquei ali imóvel, com os olhos fechados. Eu desisti. Eu sabia que estava conquistada.
Então, voltei à vida. De repente, percebi que era meio-dia, ao ar livre, entre o chão calvo da pradaria e o céu azul de Deus, onde Olie poderia tropeçar em nós a qualquer momento — e possivelmente morrer de botas! Dinky-Dunk estava beijando minha pálpebra esquerda. Era uma cavidade em que seus lábios pareciam encaixar perfeitamente. Tentei me mover. Mas ele me segurou ali. Segurou-me com tanta firmeza que doeu. No entanto, não pude deixar de abraçá-lo. Pobre, grande, tolo, Dinky-Dunk de coração infantil! E pobre, fraca, louca, eu, fustigada pela tempestade! Mas, oh, Deus, é glorioso, de alguma forma misteriosa, agitar o sangue de um homem forte e grande! É o paraíso — e não sei bem por que. Mas adoro ver os olhos de Dinky-Dunk ficarem pretos. Contudo, isso me deixa um pouco com medo dele. Posso ouvir seu coração bater, às vezes, de forma bem distinta. E, por vezes, parece haver algo tão patético nisso tudo — somos criaturas tão insignificantes de emoção, tocadas pela natureza para seus próprios fins imutáveis! Mas toda mulher quer ser amada. Dinky-Dunk me perguntou por que fecho os olhos quando ele me beija. Eu me pergunto por que? Às vezes, também, ele diz que meus beijos são perversos, e que ele gosta deles perversos. Ele é uma mistura engraçada. Ele tem a alma de um calvinista escocês escondida em algum lugar dentro de si, e após a tempestade ele é muito propenso a ficar piedoso e um pouco moralista. Mas ele tem sentimentos, apenas se envergonha deles. Acho que estou removendo um pouco da crosta de gelo de suas emoções. Ele é um barro rígido que precisa ser bem remexido e revirado antes que possa amadurecer. E eu devo ser um solo arenoso que desperdiça toda a sua força em uma colheita curta. Isso soa como se eu estivesse me tornando uma verdadeira esposa de fazendeiro com um vasto conhecimento de solos, não é? De qualquer forma, meu marido, com seu vasto conhecimento sobre mim, diz que tenho o truque do cedro-do-pântano de brilhar em uma atratividade súbita e explosiva. Então, ele diz, eu lanço faíscas. Como já lhe disse, sou uma mulher selvagem e serei difícil de domar, pois, como Victor Hugo diz em algum lugar, nós, mulheres, somos apenas diabos aperfeiçoados!
Quarta-feira, dia oito
Cortei meu cabelo, cortei de uma vez. Quando me levantei ontem de manhã com tanto trabalho pela frente, com tanto a fazer e tão pouco tempo para realizar, comecei a arrumar o cabelo. Também comecei a pensar naquele francês que cometeu suicídio depois de contar o número de botões que tinha de abotoar e desabotoar todas as manhãs e todas as noites de cada dia de cada ano de sua vida. Tentei calcular o tempo que eu estava desperdiçando com aquela minha cabeleira. Então a Grande Ideia me ocorreu.
Peguei a tesoura e, em seis estalidos, ela estava fora, uma grande pilha emaranhada de ouro acastanhado, bastante desbotado pelo sol nas pontas. E no momento em que a vi ali na minha penteadeira e vi minha cabeça no espelho, arrependi-me. Eu parecia um corvo depenado. Eu poderia ter descarrilado um trem de carga. E me senti positivamente aérea. Mas era tarde demais para lágrimas. Cortei as pontas irregulares o melhor que pude, e o que não caiu nos meus olhos caiu no meu pescoço e coçou tanto que tive de trocar de roupa. Então peguei um saca-pregos da caixa de ferramentas de Dinky-Dunk, aqueci-o sobre a lâmpada e dei um pouco mais de ondulação àquela penugem de cinco centímetros. Não ficou tão mal depois disso, e quando experimentei o casaco de Dinky-Dunk diante do espelho, vi que não pareceria um garoto tão feio.
Mas esperei até o meio-dia com o coração na boca, para ver o que Dinky-Dunk diria. O que ele realmente disse não posso escrever aqui, pois havia um palavrão perverso misturado em sua exclamação de espanto surpreso. Então ele viu as lágrimas nos meus olhos, suponho, pois veio correndo em minha direção com os braços abertos, abraçou-me com força e disse que eu parecia uma gracinha, e que tudo o que ele precisaria fazer seria se acostumar com isso. Mas, durante todo o jantar, ele continuou me olhando como se eu fosse uma mulher estranha, e mais tarde o vi parado em frente à penteadeira, curvado sobre aquela trágica pilha de cobras amarelo-acastanhadas e emaranhadas. Lembrou-me de um homem curvado sobre um túmulo. Saí de fininho sem deixar que ele me visse. Mas esta manhã eu o acordei cedo e perguntei se ele ainda amava sua esposa. E quando ele jurou que sim, tentei fazê-lo me dizer o quanto. Mas isso o deixou sem resposta. Ele se comprometeu dizendo que não poderia baratear seu amor definindo-o em palavras; era ilimitado. Segui-o após o café da manhã, com uma fome no coração que bacon e ovos não tinham ajudado em nada, e disse-lhe que, se ele realmente me amasse, poderia me dizer o quanto.
Ele olhou diretamente nos meus olhos, um pouco piedosamente, pareceu-me, riu e tornou a ficar solene. Então, abaixou-se e pegou uma pequena lâmina de grama da pradaria, e a segurou na minha frente.
"Você tem alguma ideia de quão longe é das Montanhas Rochosas até a Baía de Hudson e da Linha até o Vale do Rio Peace?"
Claro que eu não tinha.
"E você tem alguma ideia de quantos milhões de acres de terra isso representa, e quantos milhões de lâminas de grama como esta existem em cada acre?" ele perguntou sobriamente.
E, novamente, é claro que eu não tinha.
"Bem, esta única lâmina de grama é a quantidade de amor que sou capaz de expressar por você, e todas aquelas outras lâminas em todos esses milhões de acres é o que o amor em si é!"
Pensei sobre isso, tão solenemente quanto ele havia dito. Acho que fiquei satisfeita. Pois quando meu Dinky-Dunk estava bem longe na pradaria, trabalhando como um condenado, e eu estava sozinha no barraco, fui até seu casaco velho pendurado ali — o casaco velho que tinha um aroma sutil do próprio Dinky-Dunk em cada centímetro dele — e beijei-o na manga.
Esta tarde, enquanto Paddy e eu começávamos a voltar para casa com um balde de cogumelos, andei cara a cara com meu primeiro coiote. Ficamos nos encarando. Meu coração saltou direto para a garganta e, por um momento, me perguntei se seria comida por um lobo esfomeado, com Dinky-Dunk encontrando meus ossos limpos como aquelas carcaças de animais que vemos ocasionalmente em um atoleiro de búfalos. Mantive minha parte no olhar, sem saber se avançava ou recuava, e só quando aquele coiote virou o rabo e disparou é que minha coragem voltou. Então Paddy e eu fomos atrás dele, como o vento. Mas tivemos de desistir. E, no jantar, Dinky-Dunk me disse que os coiotes eram covardes demais para chegar perto de uma pessoa e eram bastante inofensivos. Ele disse que, mesmo quando mostravam os dentes, o resto do rosto pedia desculpas pela ameaça. E antes que o jantar terminasse, aquele coiote, pelo menos suponho que fosse o mesmo, estava uivando para a lua cheia que se elevava. Saí com a arma de Dinky-Dunk, mas não consegui chegar perto da fera. Então voltei.
"Cante, seu filho de uma mãe, cante!" gritei para ele da porta do barraco. E isso chocou tanto meu senhor e mestre que ele me repreendeu, pela primeira vez em sua vida. E quando cutuquei seu pomo de Adão com o dedo, ele se armou em dignidade. Ele estava cansado, pobre rapaz, e eu deveria ter me lembrado disso. E quando pedi que não ficasse ali parado me encarando com a rigidez hierática de um ídolo egípcio, pude ver um pequeno rubor de raiva passar pelo seu rosto. Ele não disse nada. Mas pegou uma das lâmpadas e uma revista Pall-Mall de três anos atrás e se trancou no alojamento.
Então eu me arrependi.
Caminhei na ponta dos pés até a porta e descobri que estava trancada. Então fui buscar minha gaita e sentei-me docilmente no degrau da porta e comecei a tocar a valsa "Não Fique Zangado". Arrastei-a de forma lamuriosa, com um tremolo de vox humana no refrãozinho suplicante. Finalmente, ouvi um bufo abafado, a porta se abriu de repente e Dinky-Dunk me pegou, gaita e tudo. Ele me sacudiu e disse que eu era um diabinho, e eu o chamei de grande bruto britânico. Mas ele estava rindo e um pouco envergonhado de seu temperamento, e foi muito gentil comigo durante o resto da noite.
Estou começando, descubro, a depender muito de Dinky-Dunk, e isso me dá medo, às vezes, pelo futuro. Ele parece capaz de deslizar uma mão sob meu coração e levantá-lo, exatamente como se fosse o queixo de uma criança rebelde. Ainda assim, ressentindo-me de seu poder, continuo a abrir caminho a cotoveladas por mais espaço para respirar, como um passageiro em hora de pico no metrô. Às vezes, também, ressinto-me do traço excessivamente solene em sua constituição mental. Ele detesta ragtime, e eu tenho uma certa fraqueza por ele. Então, uma ou duas vezes em seus dias sombrios, encontrei um prazer quase satânico em cantar "The Humming Coon". E o conhecimento de que ele gostaria de me proibir de cantar rag parece dar um sabor especial a isso. Então saio por aí brandindo meu sabre de independência:
"O velho Ephr'm Johnson era diácono da igreja no Tennessee, E é claro que era contra as regras cantar melodia ragtime!"
Mas sou eu, noto, quem sempre faz as pazes primeiro. Hoje à noite, enquanto preparava cacau antes de irmos dormir, tentei dizer ao meu Diddums que havia algo positivamente canino em minha devoção por ele. Ele relinchou como um pônei e disse que ele era o cachorro nessa negociação. Depois, puxou-me para o seu colo e disse que os homens ficam irritadiços quando estão exaustos de preocupação e trabalho duro, e que provavelmente seria difícil até para dois serafins se darem bem o tempo todo em um barraco minúsculo, onde você não pode nem ter um limite de espaço por causa da dignidade. Era principalmente culpa dele, ele sabia, mas ele ia tentar lutar contra isso. E experimentei a alegria irracional de uma mulher irracional que conseguiu colocar o homem que ela ama com todo o coração e alma em erro. Então eu poderia me dar ao luxo de ser humilde e fazer uma tolice enorme por ele. Mas sempre lutarei pelo meu espaço. Pois há momentos em que meu Dinky-Dunk, apesar de todo o seu tamanho e força, tem de ser rebocado com calma, da mesma forma que um automóvel de corrida tem de ser puxado pelas ruas da cidade por um carrinho de baixa potência!
Sábado, dia dez
Tivemos uma onda de frio, com fortes geadas à noite, mas os dias continuam gloriosos. Os dias nublados são tão poucos no Oeste que ando me perguntando se o otimismo dos ocidentais não se deve, na verdade, ao sol que recebem. Quem poderia ser sombrio sob céus tão dourados? Cada poro do meu corpo tem uma garganta e está gritando uma "Tarentella Sincera" própria! Mas não é o clima que me animou desta vez. É outro carregamento de suprimentos que Olie trouxe de Buckhorn ontem. Tenho papel de parede e uma nova cama de ferro para o anexo, e bacias de lavagem galvanizadas e uma manteigueira de barro e botas de inverno e enchimento suficiente para fazer dez travesseiros grandes, e linho não branqueado para duas dúzias de fronhas — adoro um travesseiro grande — e venho guardando penas de pato selvagem há semanas, as penas mais macias em que você já encostou o ouvido, Matilda Anne; e se travesseiros puderem fazer isso, vou fazer esta casa parecer um harém! Você consegue imaginar uma casa com apenas três fronhas, que tinham de ser arrancadas de manhã, lavadas, secas e passadas e colocadas de volta em seus três travesseiros solitários antes da hora de dormir? Bem, não haverá mais nada disso neste barraco.
Mas a notícia importante é que consegui uma espingarda de pato, a espingarda de pato mais charmosa que você já viu, e botas de cano alto, e um casaco e gorro de pele de guaxinim e uma grande bolsa de couro para usar sobre o ombro montada em Paddy. O casaco e o gorro são como aqueles dos quais costumávamos rir quando íamos a Montreal para andar de trenó, nos dias em que eu era jovem, tola e disposta a sacrificar o conforto no altar das aparências externas. As peles de guaxinim me fazem parecer uma lapã, mas serão muito confortáveis quando o tempo frio chegar, pois Dinky-Dunk diz que a temperatura cai para quarenta e cinquenta abaixo de zero, às vezes.
Também peguei várias coisas pequenas que havia pedido por catálogo, pequenas coisas femininas que uma mulher simplesmente precisa ter. Mas a grande coisa foi a espingarda de pato.
Já não tenho insuficiência cardíaca quando ouço o zumbido de uma perdiz-da-pradaria, mas derrubo meu pássaro antes que ele saia do alcance. Pobres, gordinhas, feridas, criaturinhas emplumadas de corpo quente! Algumas delas continuam voando depois de terem sido atingidas em cheio pelo corpo, seguindo em frente por uns sessenta metros, ou até mais, e depois caindo como uma pedra. Quão insensíveis nos tornamos rapidamente! Isso costumava me preocupar. Agora, eu as recolho como se fossem meros pedaços de madeira e as jogo na caixa da carroça; ou na minha bolsa escolar, se for uma expedição particular apenas de Paddy e eu. E é assim que a vida nos trata também.
Tenho praticado com os gophers com minha nova arma, e com o rifle .22 de Dinky-Dunk. Um gopher é apenas um pouco maior que um esquilo-listrado e geralmente não coloca nada além da cabeça para fora de seu buraco, então quando acertei treze de quinze tiros, comecei a sentir que era uma atiradora de elite. Mas não encare isso como crueldade gratuita, pois o gopher é pior que um rato, e neste país os agentes do governo fornecem aos colonos uma cota anual de estricnina gratuita para envenená-los.
Domingo, dia onze
Fiz minha primeira manteiga, que fique registrado — mas, ao fazê-lo, consegui respingar o teto, as paredes e minha própria cabeça lanuda, pois não tive juízo suficiente para amarrar um pano úmido no cabo do batedor da manteigueira até que o dano estivesse feito. Eu estava tão concentrada em conseguir minha manteiga que não prestei atenção aos detalhes, embora tenha levado um tempo desanimadoramente longo e meus braços estivessem cansados antes que eu terminasse. E quando me vi respingada da cabeça aos pés, isso me lembrou do que você disse uma vez sobre mim e minha leitura, que eu tinha o hábito de sair de um livro como um spaniel sai da água, espalhando ideias por onde passava. Mas não há muitos livros novos na minha vida hoje em dia. É principalmente trabalho duro, embora eu tenha lembrado a Dinky-Dunk na noite passada que, embora Omar tenha sugerido que amor, pão e vinho eram suficientes para qualquer deserto, não devemos esquecer que ele também incluiu um livro de versos debaixo da ramada! Meu senhor diz que, no próximo ano, poderemos revestir nossas paredes com livros. Mas sou como Moisés no Monte Nebo — consigo ver minha terra prometida, mas parece terrivelmente longe. Mas isso, como diria Dinky-Dunk, não é o espírito que construiu Roma, e me levou para longe da minha manteiga, cuja confecção deixou meu rosto com tanto creme que parecia que eu tinha neve nos faróis. No entanto, há uma alegria real em encontrar aqueles adoráveis grânulos amarelos no fundo da manteigueira e depois trabalhá-los repetidamente com um pires em uma tigela de cozinha até que se tornem uma massa dourada. Algumas vezes antes, eu tinha batido creme de leite azedo em um pote de vidro, mas esta foi minha primeira verdadeira fabricação de manteiga. Descobri, no entanto, que não a "lavei" o suficiente, de modo que nem todo o leitelho foi removido do meu primeiro produto lácteo. Dinky-Dunk, como o estudioso e cavalheiro que é, jurou que valia seu peso em ouro de Klondike. E da próxima vez farei melhor.
Segunda-feira, dia doze
Tempo dourado novamente, com um céu limpo e ar suave e balsâmico! Pouco antes da nossa refeição do meio-dia, Olie chegou com correspondência para nós. Recebemos cartas de casa! Em vez de me animarem, deixaram-me triste, pois pareciam trazer notícias de outro mundo, um mundo tão, tão distante!
Decidi passar meio dia ao ar livre, então prendi minha espingarda de pato e saí em Paddy, assim que o jantar terminou e os homens se foram. Fomos como o vento, até que tanto Paddy quanto eu nos cansássemos disso. Então encontrei um lago de "água macia" escondido atrás de uma orla de salgueiros e choupos. O sol do meio-dia o aquecera a uma temperatura tentadora. Então amarrei Paddy, me despi e tomei o banho mais glorioso. Eu tinha acabado de me ensaboar com lama da margem (que é um solvente surpreendentemente bom) e tinha mergulhado de cabeça e estava nadando de costas, piscando para o céu azul, tão feliz quanto uma tartaruga em um moinho, quando ouvi Paddy relinchar. Isso me perturbou um pouco, mas senti que não poderia haver ninguém a quilômetros de mim. No entanto, nadei de volta para onde estavam minhas roupas, sequei-me ao sol e estava apenas me levantando para sacudir as pontas deste meu cabelo curto quando vi a cabeça de um homem do outro lado da lagoa, olhando através dos arbustos para mim. Não sei como ou por que é, mas de repente vi vermelho. Não me lembro de ter pegado a espingarda de pato e não me lembro de ter mirado.
Mas disparei, com ambos os canos, direto naquela cabeça que me olhava — ou pelo menos deveria ter sido uma cabeça que me olhava, o que quer que isso signifique! O uivo que surgiu da selva, no momento seguinte, poderia ter sido ouvido a uma milha de distância!
Era Dinky-Dunk, e ele disse que eu poderia ter arrancado seus olhos com o chumbo fino, se ele não tivesse feito o mergulho mais rápido de sua vida. E ele também disse que tinha me visto, uma mancha distinta de branco contra o verde da pradaria, a três boas milhas de distância, e se eu não estava com vergonha de mim mesma, e o que eu teria feito se ele fosse Olie ou o velho Dixon? Mas ele beijou meu ombro onde a coronha da arma o tinha machucado e me ajudou a me vestir.
Então cavalgamos juntos, quatro ou cinco milhas ao norte, onde Dinky-Dunk tinha certeza de que poderíamos conseguir uma caçada de patos. O que conseguimos, treze ao todo, e partimos para casa enquanto o sol baixava e o ar da noite ficava frio. Foi um passeio celestial. No oeste, um pequeno exército de nuvens azuis finas era contornado por ouro flamejante, e entre elas se espalhavam grandes eixos de luz âmbar em forma de leque. Então veio uma profusão de amarelo-laranja e cinza-rosado e o mais pálido dos ouros com pequenas ilhas de azul nele. Então, enquanto o brilho moribundo parecia manter tudo em um banho luminoso de ar, as estrelas apareceram, uma a uma, e um vento suave e fresco varreu a pradaria, e a luz escureceu — e fiquei feliz por ter Dinky-Dunk ali ao meu lado, ou eu teria chorado um pouco, pois a pradaria ao crepúsculo sempre me deixa solitária de uma maneira que nunca poderia ser colocada em palavras.
Tentei explicar o sentimento a Dinky-Dunk. Ele disse que entendia. "Sou um 'Sour-Dough', Gee-Gee, mas ainda me atinge dessa maneira", ele confessou solenemente. Ele disse que, quando ouvia música bonita, sentia o mesmo. E isso me fez pensar em ópera, e naquela noite de *Romeu e Julieta* no La Scala, em Milão, quando conheci Theobald Gustav pela primeira vez. Então parei para contar a Dinky-Dunk que eu tinha sido irremediavelmente apaixonada por um tenor aos treze anos e tinha escrito em meu diário: "Morrerei e virarei pó ainda o adorando". Então contei a ele sobre minha primeira ópera, Rigoletto, e cantarolei "La Donna È Mobile", que é claro que ele mesmo se lembrava. Isso me levou de volta a Florença, e a um camarote no Pagliano, e eu toda de cambraia e cachos em saca-rolhas, chorando deliciosamente por uma dama de branco, cujos problemas eu não conseguia compreender muito bem. Então comecei a pensar em Nova York e no Metropolitan, e nas linhas do pobre velho Morris:
E ainda, com alma atenta, escuto Melodias abafadas por muitos um ano ruidoso: Os acordes apaixonados que despertam a lágrima, Os contos de amor de voz baixa, tão queridos...
Mal mudados, os mesmos músicos tocam Os mesmíssimos temas hoje; As prateadas e rápidas sonatas ressoam, As vozes elevadas cantam!
E eu podia visualizar o velho Metropolitan numa noite de Caruso. Podia ver a Ferradura de Ouro e os adornos cor de gerânio e as costas brancas e acetinadas das mulheres, e sentir aquele cheiro luxuoso e pesado de ar morno, flores de estufa, perfumaria de Paris e corpos humanos felizes, e ouvir o sussurro da seda ao longo das escadarias carmesim. Eu podia ver as luzes se apagarem, num suspiro, antes que a abertura começasse, e as manchas de branco, com aspecto assustado, nas partituras dos músicos e as outras manchas feitas pelas frentes de suas camisas de gala, e os violinos subindo e descendo, subindo e descendo, como se fossem uma única peça de maquinaria, e então a pesada cortina subindo furtivamente, e o frisson quando aquele novo céu se abriu para mim, uma garota desajeitada em seu primeiro vestido de noite decotado!
Contei a Dinky-Dunk que eu tinha me sentado em cada canto daquela velha casa, lá no paraíso dos pobres com os barbeiros italianos, em assentos de imprensa na segunda galeria com a querida e velha Fanny-Rain-in-the-Face, e no camarote dos Westbury com a Primeira-Dama da Terra e uma Princesa espanhola com unhas extremamente sujas. Parecia tão distante, uma outra vida e um outro mundo! E por três horas de "Manon" eu estaria disposta a ficar pendurada como um chimpanzé no lustre central do Metropolitan. Percebi de repente o quanto sentia falta daquilo. Eu poderia ter cantado para a Cidade como a "Louise" do pobre Charpentier cantou para a sua Paris. E um coiote uivou perto da trilha, e a pradaria escureceu, com uma orla de luz verde-pálida ao noroeste, e eu soube que haveria uma geada forte antes do amanhecer.
Hoje à noite, após o jantar, minha alma e eu nos sentamos e fizemos um pouco de contabilidade. Dinky-Dunk, que me observava pelo canto do olho, foi até a janela e disse que parecia que viria uma tempestade. E eu sabia que ele queria dizer que eu era o Medicine Hat de onde ela viria, pois antes de se levantar da mesa ele me explicara que o matrimônio era como dirigir porque era, na verdade, viajar por meio de uma série de explosões. Depois, ele tentou explicar que em poucas semanas a correria do outono teria acabado e teríamos mais tempo para obter o que merecíamos da vida. Mas eu me virei para ele com uma ferocidade súbita e declarei que não ia ser meramente um animal. Eu pretendia manter minha alma viva, que era dever de todos, não importa onde estivessem, enobrecer seu espírito mantendo contato com o melhor que já foi sentido e pensado.
Quando sombriamente peguei minha harmônica e toquei o Coro dos Peregrinos, tão bem quanto conseguia me lembrar, Dinky-Dunk sentou-se a ouvir em silêncio e espanto. Ele manteve o fogo aceso e esperou até que eu terminasse. Então, ele alcançou a bacia de lavar louça e disse, casualmente: "Vou te ajudar a lavar a louça esta noite, Gee-Gee!" E assim guardei a harmônica e lavei a louça. Mas antes de ir para a cama, peguei minha pequena edição em velino de The Ring and the Book, de Browning, e li-o industriosamente, obstinadamente, determinadamente, por uma hora inteira. Sobre o que tudo aquilo é, eu não sei. Em vez de enobrecer meu espírito, apenas cansou meu cérebro e acabou me deixando tão brava que joguei o livro na caixa de lenha... Dinky-Dunk acabou de prender um pedaço de papel na minha porta; é uma sentença de Epicteto. E diz: "Melhor é que grandes almas vivam em pequenas habitações do que escravos abjetos se escondam em grandes casas!"
Domingo, dia dezoito
Passei uma hora hoje tentando atirar num gavião-galinha que pairava sobre o barraco a tarde toda. Ele está atrás das minhas galinhas, e como ovos frescos valem mais do que Browning para uma colona, peguei minha espingarda de caça. Aquilo me deu uma sensação de mal iminente, ter aquele pássaro enorme rondando. Lembrou-me de que havia maldade e rapina no mundo. Odiei o bruto. Mas escondi-me sob uma das caixas da carroça e acabei acertando-o, no fim. Derrubei-o, um turbilhão de asas caindo, como a queda de Satanás do Céu. Quando corri para me apossar de seu corpo satânico, no entanto, ele estava apenas ferido e pronto para lutar. Então vi vermelho novamente. Golpei-o com a coronha da espingarda, atacando-o como uma fúria. Eu estava úmida de suor quando terminei com ele. Ele era um monstro. Preguei-o com as asas abertas na parede do alojamento, e Olie gritou e chamou Dinky-Dunk quando eles voltaram de reunir os cavalos, que tinham escapado pelo pasto. Dinky-Dunk avisou-me solenemente para não correr riscos, pois ele poderia ter arrancado um olho meu, ou rasgado meu rosto com suas garras. Ele disse que poderia ter empalhado e montado meu gavião, se eu não tivesse golpeado a pobre criatura quase até estraçalhá-la. Há um demônio em mim em algum lugar, eu disse a Dinky-Dunk. Mas ele apenas riu.
Segunda-feira, dia dezenove
Hoje à noite, Dinky-Dunk e eu passamos uma hora inteira tentando decidir um nome para o barraco. Eu queria chamá-lo de "Crucknacoola", que em gaélico significa "Uma Pequena Colina do Sono", mas Dinky-Dunk levantou a objeção de que não havia colina nenhuma. Então sugeri "Barnavista", já que tudo o que podemos ver da porta são os estábulos. Depois disse "The Builtmore", em tom de zombaria, e então Dinky-Dunk, em tom de ironia, sugeriu "Casa Grande". E, no final, concordamos em "Casa Grande". É maravilhoso como meu cabelo cresce. Olie agora me observa estudiosamente enquanto como. Posso ver que ele está pacientemente modelando seu comportamento à mesa pelo meu. Não há nada que aquele homem silencioso e de maneiras rudes não faria por mim. Acabei por nunca notar o nariz dele, tanto quanto não costumava notar o queixo retraído do Tio Carlton. Mas não acho que Olie esteja comendo o suficiente. Toda a sua mente parece ocupada em tentar lembrar-se de não beber do seu pires, como a história diz que o próprio George Washington fez uma vez!
Terça-feira, dia vinte
Eu sabia que aquele velho gavião-galinha significava problemas para mim — e o problema veio, com certeza. Receio não conseguir contar isso de forma muito coerente, mas foi assim que começou: eu estava sozinha ontem à tarde, ocupada no barraco, quando um Policial Montado apareceu a cavalo na porta e, por um momento, quase me matou de susto. Fiquei parada olhando para ele, pois ele era o primeiro homem realmente, verdadeiramente vivo, fora Olie e meu marido, que eu via há muito tempo. E ele parecia muito elegante em sua jaqueta escarlate e lapelas amarelas. Mas não tive muito tempo para meditar sobre sua combinação de cores, pois ele anunciou calmamente que um fazendeiro chamado McMein fora assassinado por um vaqueiro bêbado numa disputa salarial, e o assassino fora visto indo em direção ao Rancho Cochrane. Ele (o P. M.) perguntou se eu me importaria que ele revistasse as construções.
Se eu me importaria? Definitivamente não me importei, pois pequenos calafrios começaram a subir e descer pela minha espinha dorsal, e eu não estava exatamente apaixonada pela ideia de ter um assassino foragido saindo de um palheiro à meia-noite e cortando minha garganta. O fazendeiro McMein fora morto no sábado, e o vaqueiro estava sendo perseguido há dois dias. Enquanto me contavam isso, tentei lembrar onde Dinky-Dunk tinha guardado seu coldre de revólver, seu ejetor sem cão e seu rifle Colt. Mas fiz aquele jovem bonito de casaco escarlate entrar logo no barraco e começar sua busca olhando debaixo da cama, e depois indo até o porão.
Fiquei segurando a alçapão e avisei-o para não quebrar meus potes de picles. Então ele subiu e ficou olhando pensativo pela porta.
"Você tem uma arma?" ele me perguntou de repente.
Mostrei-lhe minha espingarda de caça com suas guarnições de prata, e ele sorriu um pouco.
"Você não tem um rifle?" ele exigiu.
Expliquei que meu marido tinha, e ele continuou olhando pela porta enquanto eu procurava pelos cantos do barraco e encontrava o rifle de Dinky-Dunk. Ele era um jovem muito autoritário e seguro de si. Ele tomou o rifle de mim, examinou o carregador e certificou-se de que estava carregado. Então devolveu-o.
"Tenho que revistar aqueles edifícios e palheiros", ele me disse. "E só posso estar em um lugar de cada vez. Se vir um homem sair de um esconderijo em qualquer lugar, enquanto eu estiver lá dentro, tenha a bondade de atirar nele!"
Ele saiu sem outra palavra, com seu grande revólver do exército na mão. Meus dentes começaram a fazer um pequeno fox-trot por conta própria.
"Espere! Pare!" gritei para ele. "Não vá embora!"
Ele parou e perguntou o que havia de errado. "Eu... eu não quero atirar num homem! Eu não quero atirar em nenhum homem!" tentei explicar a ele.
"Provavelmente você não terá que fazer isso", foi sua resposta fria. "Mas é melhor fazer isso do que deixar que ele atire em você, não é?"
Ao que o Sr. Casaco-Vermelho seguiu direto para os palheiros, e eu fiquei na porta, com o rifle de Dinky-Dunk nas mãos e meus joelhos tremendo um pouco.
Observei-o enquanto ele revirava os palheiros. Depois cansei-me de segurar a arma pesada e apoiei-a contra a parede do barraco. Observei o casaco vermelho entrar pela porta do estábulo e senti-me vagamente consternada com o pensamento de que seu dono estava agora totalmente fora de vista.
Então meu coração parou de bater. Pois, de uma pilha de palha que Olie tinha despejado a menos de trinta metros da casa, para forrar uma cova para nossos vegetais de inverno, um homem surgiu subitamente. Ele parecia ter saído da própria terra, como um cogumelo.
Ele era o homem de aspecto mais repulsivo que já tive o prazer de ver. Suas roupas estavam esfarrapadas, rasgadas e manchadas de lama. Seu rosto estava coberto de barba por fazer, suas bochechas eram cavadas e sua pele tinha quase a cor de uma sela nova.
Eu podia ver o branco dos olhos dele enquanto ele corria para o barraco, olhando por cima do ombro em direção à porta do estábulo enquanto vinha. Ele tinha um revólver na mão. Notei isso, mas não pareceu me incomodar muito. Suponho que eu já estivesse tão assustada quanto a carne mortal poderia estar. Na verdade, eu estava pensando claramente no que fazer e não hesitei por um momento.
"Abaixe essa coisa boba", eu disse a ele, enquanto ele corria até mim com a cabeça baixa e aquele olhar indescritivelmente desesperado em seus olhos grandes e assustados. "Se você não é um idiota, posso te esconder", eu disse a ele. Tranquilizou-me ver que os joelhos dele estavam tremendo muito mais do que os meus, enquanto ele estava ali, no centro do barraco! Inclinei-me sobre o alçapão e levantei-o. "Desça aí rápido! Ele revistou aquele porão e não vai lá de novo. Fique aí até eu dizer que ele foi embora!"
Ele deslizou até o alçapão e desceu lentamente os degraus, com os olhos semicerrados e seu revólver erguido à frente, como se ainda esperasse encontrar alguém lá para enfrentá-lo com uma espingarda. Então fechei prontamente o alçapão. Mas não havia maneira de trancá-lo.
Eu tinha meu assassino lá, preso, mas a questão era mantê-lo lá. Sua pequena Chaddie não dedicou muitos momentos preciosos a devaneios. Fui na ponta dos pés até o quarto e levantei o colchão, com roupa de cama e tudo, da estrutura da cama. Arrastei-o para fora e coloquei-o silenciosamente sobre o alçapão. Então, sem fazer barulho, virei a mesa sobre ele. Mas ele ainda poderia levantar aquela mesa, eu sabia, mesmo com eu sentada em cima dela. Então comecei a empilhar coisas sobre a mesa virada, até que parecesse um caminhão de mudança pronto para uma migração de Primeiro de Maio. Então sentei-me em cima daquela pilha de artigos domésticos, alcancei o rifle de Dinky-Dunk e disparei deliberadamente um tiro através da porta aberta.
Fiquei ali, estudando minha pilha, sentindo-me certa de que uma bala de revólver não poderia passar por tudo aquilo. Mas antes que eu tivesse muito tempo para pensar nisso, meu cabo da R. N. W. M. P. (que significa, Matilda Anne, a Real Polícia Montada do Noroeste) entrou pela porta correndo. Ele pareceu aliviado quando me viu triunfante, montada naquela mesa virada, carregada com quase toda a minha tralha doméstica.
"Peguei ele para você", anunciei calmamente.
"Pegou o quê?" ele disse, aparentemente achando que eu tinha enlouquecido.
"Peguei seu homem para você", repeti. "Ele está aí embaixo, no meu porão." E em um minuto eu tinha explicado exatamente o que acontecera. Não houve negociação, nem deliberação, nem hesitação.
"Não seria melhor você sair?" ele sugeriu enquanto começava a tirar as coisas de cima do alçapão.
"Você não vai descer aí?" eu exigi.
"Por que não?" ele perguntou.
"Mas ele tem um revólver", eu gritei, "e ele certamente vai atirar!"
"É por isso que acho que talvez seja melhor você sair por um momento ou dois", foi a resposta casual do meu soldado.
Caminhei até lá e peguei o rifle de Dinky-Dunk. Então atravessei para o lado oposto do barraco, com o rifle nas mãos.
"Vou ficar", anunciei.
"Tudo bem", foi a resposta indiferente do oficial enquanto ele jogava o colchão para um lado e, com um puxão rápido, abria o alçapão.
Um tiro soou, lá de baixo, quando a porta bateu contra a parede. Mas não foi repetido, pois o homem de casaco vermelho saltou fisicamente, de calcanhares primeiro, dentro daquele buraco negro. Ele não pareceu contar com o risco, ou com o que poderia estar à sua frente. Ele apenas saltou, com as esporas para baixo, sobre aquele outro homem com o revólver na mão. Pude ouvir pequenos grunhidos, chiados e um baque ou dois contra os degraus do porão. Então houve silêncio, exceto por um duplo "clique-clique" que eu não pude entender.
Oh, Matilda Anne, como eu observei aquela abertura do porão! E vi um dorso com um casaco vermelho nele subir lentamente do buraco. Ele, o dono do dorso, é claro, estava arrastando o outro homem fisicamente escada acima, pelos degraus estreitos. Havia um par de algemas já em seus pulsos e ele parecia atordoado e indefeso, pois aquele soldado de aparência esguia o havia golpeado impiedosamente, derrubando seus dois dentes da frente, um dos quais encontrei no degrau da porta quando estava varrendo.
"Sinto muito, mas terei que levar um de seus cavalos por um dia ou dois", foi tudo o que meu herói da R. N. W. M. P. condescendeu em me dizer enquanto passava um braço pelo do seu prisioneiro e o ajudava a sair pela porta.
"O que... o que eles vão fazer com ele?" gritei para o cabo.
"Enforcá-lo, é claro", foi a resposta curta.
Então sentei-me para pensar sobre as coisas e, como uma solteirona com vapores, decidi que não me faria mal uma xícara de um bom chá forte. E quando tomei meu chá, arrumei as coisas e, incidentalmente, descobri que nada menos que cinco das minhas latas de cogumelos tinham sido estraçalhadas lá embaixo, ouvi o barulho da carroça e soube que Olie e Dinky-Dunk estavam de volta. E dei um longo suspiro de alívio, pois, com todos os seus inconvenientes, homens não são uma coisa ruim de se ter por perto, de vez em quando!
Quinta-feira, dia vinte e dois
Foi na manhã de terça-feira que Dinky-Dunk anunciou firmemente que ele e eu iríamos fazer uma viagem de caça de três dias. Eu não tinha dormido bem na noite anterior, pois meus nervos ainda estavam um pouco abalados, e Dinky-Dunk disse que eu precisava de um piquenique. Então pegamos armas, cartuchos, cobertores, capas de chuva e utensílios de cozinha, e acomodamo-los na carroça. Depois fizemos uma lista das provisões que precisaríamos, e enquanto Dinky-Dunk ensacava aveia para os cavalos, eu estava ocupada arrumando a caixa de mantimentos. E eu a enchi até não caber mais, e levei também a velha caixa de pão de lata, junto com farinha para panquecas, frutas secas e um pedaço extra de bacon — e bacon é como é chamado agora neste barraco, pois proibi terminantemente Dinky-Dunk de falar sobre ele como "barriga de porca" ou mesmo como uma "fatia de grunhido" novamente.
Então partimos pela pradaria, após instruir devidamente Olie sobre como alimentar as galinhas, cuidar do creme e terminar a cova para os vegetais de inverno. Ainda assim, Olie achou que ambos estávamos um pouco loucos, acredito eu, pois não fazíamos a menor ideia de para onde estávamos indo, tanto quanto o homem na lua.
Mas havia algo glorioso no pensamento de viver como ciganos pela pradaria de outono assim, sem um pensamento ou preocupação sobre onde deveríamos parar ou qual trilha deveríamos seguir. Isso tornava o movimento de cada dia uma grande aventura. E o tempo estava divino.
Dormíamos à noite sob a carroça, com uma lona ao longo de um lado para impedir a entrada do vento, e um fogo cintilando em nossos rostos do outro lado, e os cavalos amarrados, e as estrelas girando acima, e a paz de Deus em nossos corações. Como cada refeição era saborosa! E como aquele ar ágil e cortante tornava o aconchego sob um par de cobertores Hudson Bay de cinco pontos um luxo a ser mencionado apenas nos sussurros mais reverentes! E houve um tempo, como você já sabe, em que eu costumava tomar brometo e às vezes até sulfonal para me fazer dormir! Mas aqui é tão diferente! Ficar com as pernas cansadas ao ar livre, caminhando pelos pântanos com juncos atrás de patos-reais e patos-de-cabeça-vermelha, sentir o cheiro de café, bacon e perdiz frita no frescor da noite, através de um fino véu de fumaça de fogueira, ver o mundo cansado virar-se sobre o ombro e adormecer — tudo é uma espécie de canção de ninar monumental.
O vento da pradaria parece procurar por você, e fazer uma aposta com a Ursa Maior de que ele o fará dormir em quarenta piscadelas, e a orquestra das esferas sussurra através de seus milhões de cordas e canta para que sua alma descanse. Pois digo-lhe aqui e agora, Matilda Anne, eu, pobre, insignificante, imprestável, insignificante eu, ouvi aquela música das esferas tão claramente quanto você já ouviu Funiculi-Funicula naquele pequeno vapor de Nápoles que costumava levá-la a Capri. E quando eu rastejava para fora debaixo daquela velha carroça, como um esquilo-da-terra para fora de sua toca, na primeira delicada rosidade do amanhecer, eu me sentia inefavelmente grata por estar viva, por ouvir as cantatas da saúde cantando profundamente em minha alma, por saber que, não importa o que a vida faça comigo, eu tinha arrebatado minha parte de felicidade da despensa dos deuses! E a infinita mudança de cores, desde o dedaleira fulvo na terra mais clara, o amarelo pálido da pele de um leão sob o sol oblíquo do outono, até as trêmulas e cintilantes glórias das Luzes do Norte que dançam no norte, que lançam suas bandeiras de rubi, ouro e verde, e tremem e se fundem e pulsam até que eu sinta que posso ouvir o choque de címbalos invisíveis. Pergunto-me se você pode entender meu sentimento quando tirei o alfinete de chapéu do meu velho Stetson cinza ontem, descobri minha cabeça e olhei diretamente para o firmamento azul acima de mim. Então eu disse: "Obrigada, Deus, por um dia tão lindo!"
Dinky-Dunk disse prontamente que eu era blasfema — ele é tão rígido e solene! Mas enquanto eu olhava para as profundezas daquela luz opalina intensa, tão clara, tão pura, percebi como o ar, apenas o ar e nada mais, poderia deixar uma dama distraída como eu meio embriagada. Só que é um champanhe que nunca deixa você com dor de cabeça no dia seguinte!
Dinky-Dunk, que parece determinado a manter minha mente ocupada, trouxe-me para casa um maço de revistas antigas na noite passada. Estavam tão puídas e manuseadas que algumas das páginas me lembraram notas bancárias bem gastas. Tenho lido algumas das histórias, e todas parecem bobas. Todos parecem estar apaixonados pela esposa de outra pessoa. Além disso, as pessoas são divididas de forma tão estrita em duas classes, as boas e as más! Quanto à esposa do outro homem, a vida na pradaria logo arrancaria esse absurdo da cabeça das pessoas. Não há muito espaço para o Triângulo em um barraco de dois por dois metros. A vida aqui fora é tão normal, natural e grandiosa que um Pierre Loti seria chutado para um banho de ovelhas antes que pudesse usar sua primeira caixa de rouge! Você quer sua própria esposa, e a quer tanto que fica satisfeito. Não que Dinky-Dunk e eu sejamos tão certinhos! Somos apenas saudáveis e humanos, é só isso, e nunca serviríamos para a ficção. Após as refeições, empurramos os pratos e nos sentamos lado a lado, com nossos braços sobre os ombros um do outro, cheios da alegria de viver, satisfeitos, felizes, de mente saudável, de vez em quando um pouco rabelaisianos em nossa conversa, vagueando com olhos inocentes por aquelas intimidades mais terrenas que a maioria das pessoas casadas parece encarar sem vergonha, contanto que o encarar seja feito em segredo. Não parecemos ter vergonha desse traço terrivelmente humano em nós. E nenhum de nós é mau, no fundo. Mas sei que não somos como aqueles personagens de revista, que parecem ter água-de-colônia em vez de sangue vermelho em suas veias, e estão tão, tão longe da vida.
No entanto, até mesmo aquele mergulho na ficção educadamente erótica pareceu canalizar minha pobre mente coberta de grama para a atividade, e Diddums e eu ficamos acordados até altas horas da madrugada discorrendo sobre vida e letras. Ele começou me fazendo observar de forma um tanto pensativa que todas as mulheres parecem querer ser intelectuais e ter um salão.
"Não, Dinky-Dunk, eu não quero um salão", anunciei prontamente. "Eu nunca quis um, pois não acredito que fossem tão empolgantes quanto imaginamos. E detesto pessoas literárias quase tanto quanto detesto atores. Sempre senti que eles eram como cenários de palco, não feitos para uma inspeção de perto. Pois, após cinco invernos em Nova York e alguns em Londres, você não pode deixar de esbarrar no tipo boêmio, sem mencionar uma colisão ocasional com eles por todo o Continente. Quando são mulheres, parecem sempre usar o tipo errado de espartilho. E quando são homens, ficam se observando nos espelhos, ou falam tanto sobre si mesmos que você não tem chance de falar de si mesma — o que é realmente a definição mais completa de um chato, não é? Prefiro muito mais conhecê-los através de seus livros do que através daquelas terríveis soirées de domingo onde o pobre e velho M---- leonino costumava transpirar lendo aqueles seus poemas socialistas para as damas adoradoras, e o Sanguinary John costumava usar a mesma camisa de flanela que o protegia das rajadas polares lá no Alasca — aberta na garganta, e toda aquela espécie de coisa, exatamente como um caubói de filme, só que John tinha engordado um pouco e vivia estragando a imagem de Homem Forte ao posar eternamente em uma das pontas do piano de cauda! Você sabe o jeito que eles fazem, um cotovelo pensativo na ponta do piano e a palma delicadamente caída sustentando os cérebros cansados, da mesma forma que você apoia um galho de laranja-rei quando ele fica pesado demais com frutas! E então ele tinha uma franja adorável e uma voz como uma senhorita do Maine. E acredite em mim, ó senhor e mestre, aquele homem devorava toda a sua carne crua e sangue em sua fita de máquina de escrever. Eu o apelidei de Rei da escola da Órbita Ocular, e em vez de ficar com raiva, ele realmente me agradeceu por isso. Era o tipo de publicidade que ele buscava."
Dinky-Dunk deu um sorriso de canto enquanto eu tagarelava. Então ele ficou sério novamente. "Por que é", ele perguntou, "que um escritor na Abadia de Westminster é sempre um gênio, mas um escritor no quarto ao lado é uma piada?"
Tentei explicar para ele. "Porque escritores são como índios. Os únicos bons são os mortos. E é o mesmo com aquelas afinidades sedutoras da história. Annie Laurie viveu até os oitenta, embora a balada não diga isso. E Lady Hamilton morreu pobre e feia e andava por aí com arenques vermelhos no bolso. E Cleópatra era na verdade uma velha articuladora política ruiva, e Paris se cansou de Helena de Troia. O que significa que a história, como a literatura, é apenas *Le mensonge convenu*!"
Isso fez Dinky-Dunk sentar-se e olhar para mim. "Olha aqui, Gee-Gee, eu não me importo com um pouco de erudição, mas detesto ver você arrancar a árvore inteira do conhecimento pelas raízes e me derrubar com ela! E eram sobre salões que estávamos falando, e não sobre as damas perversas do passado!"
"Bem, o único salão que já vi na América tinha o ar comercial de uma inauguração de chapelaria onde, por acaso, serviam chá", declarei prontamente. "E a única mulher americana que já conheci que queria ter um salão era uma garota que costumávamos chamar de Anne Assafétida. E se eu explicasse o porquê, você faria uma careta muito pior do que essa, meu Diddums. Mas ela tinha uma fraqueza por peles pretas e nunca lavava o pescoço. Então a Marca Plimpton estava sempre lá!"
"Não fique amarga, Gee-Gee", anunciou Dinky-Dunk enquanto procedia a acender seu cachimbo. E eu podia me dar ao luxo de rir da sua solenidade.
"Não estou amarga, Honey Chile; estou apenas feliz por ter me livrado de todo aquele lixo boêmio. Você pode me chamar de tagarela, e me acusar de ser temperamental de vez em quando — o que não sou —, mas a única coisa na vida que amo é a sanidade. E é por isso, Dinky-Dunk, que eu te amo, mesmo que você seja apenas um grande fazendeiro queimado de sol lutando, planejando e ralando por um lar para uma esposa cabeça-oca que vai falhar em tudo, exceto em fazer você amá-la!"
Então se seguiram alguns momentos em que não fui capaz de falar,
... O desfecho é pouco essencial— Não, mais do que isso, considero ainda Profundamente confidencial!
Então, enquanto sentávamos ali lado a lado, comecei a pensar no passado e nos boêmios diante dos quais eu um dia queimara incenso. E lembrando-me de uma certa visita a Box Hill com a mãe de Lady Agatha, anos e anos atrás, tive que revisar meu veredito sobre os autores, pois uma das memórias mais calorosas de toda a minha vida é a do querido e velho Meredith em sua cadeira de rodas, com seu rosto barbudo ainda inundado por sua luz interior gentil e seu espírito ainda suave com seu amor inesquecível pela vida. E uma vez, quando criança, continuei a contar a Dinky-Dunk, eu havia conhecido Stevenson. Foi em Menton, e ainda consigo lembrá-lo inclinando-se e segurando minha mão. Sua própria mão estava fria e magra, como uma garra, e com o instinto rápido da infância percebi, também, que ele estava sendo condescendente ao falar comigo, apesar de todo o riso que mostrava os dentes brancos sob seu bigode preto caído. Por mais errado que parecesse, eu não gostava dele, assim como não gostei mais tarde do retrato dele feito por Sargent, que era na verdade um eco da minha própria primeira impressão, embora muitas e muitas vezes eu tenha tentado apagar aquela primeira estimativa injusta de um verdadeiro homem de gênio. Há tanto no *Child's Garden of Verse* que eu amo; há tanto na vida daquele homem que exige admiração, que parece errado não capitular diante de seu charme. Mas quando a própria família de alguém são seus biógrafos, é difícil ser mantido humano. "No entanto, há uma coisa, Dinky-Dunk, pela qual eu o respeito", continuei. "Ele tinha visto as partes mais adoráveis deste mundo e, quando precisou, pôde alegremente abrir mão de tudo e viver com simplicidade neste nosso Oeste americano, assim como você e eu!" Ao que Dinky-Dunk argumentou que deveríamos perdoar a um inválido sua pregação estridente sobre bravura e virilidade e sua ênfase excessiva na fortaleza, já que era claramente baseada em um esforço para reagir contra uma fraqueza constitucional pela qual ele mesmo não podia ser culpado.
E confessei que poderia perdoá-lo mais facilmente do que a Sanguinary John com seu diabolismo literário e aquela ostensiva brutalidade da idade da pedra com a qual ele adorava dar arrepios nas damas, fingindo ser um touro em uma loja de porcelanas quando na verdade é apenas um camundongo branco em um tinteiro! E depois que Dinky-Dunk bateu seu cachimbo e deu corda em seu relógio, ele olhou para mim com seu sorriso lento de escocês-canadense. "Para um par de caipiras que estiveram arpoando a ideia de salão", ele anunciou solenemente, "eu chamo isso de uma noite bem literária!" Mas qual é a utilidade de ter uma ou duas ideias na cabeça se você não pode arejá-las de vez em quando?
Terça-feira, vinte e sete
Hoje tropecei na surpresa da minha vida! Era um Homem! Peguei Paddy e galopei até o antigo Rancho Titchborne e estava rondando o curral, esperando encontrar alguns cogumelos atrasados. Mas não havia nenhum. Então assobiei com meus quatro dedos para Paddy (tenho o ensinado a vir a esse chamado) e aconteceu de olhar na direção do barraco abandonado. Então vi a porta se abrir, e um homem saiu caminhando.
Ele era um homem jovem, de perneiras, culotes e paletó Norfolk, e estava fumando um cigarro. Ele me encarou como se eu fosse o Elo Perdido. Então ele disse "Olá!" de forma um tanto inadequada, pareceu-me.
Respondi "Olá", e me perguntei se deveria bater em retirada ou não. Mas minha coragem tomou fôlego e fiquei. Então apertamos as mãos, muito formalmente, e explicamos quem éramos. E descobri que seu nome era Percival Benson Woodhouse (e que o Senhor me perdoe se algum dia o chamarem de Percy para abreviar!) e que sua tia é a Condessa de D---- e que ele conhece várias pessoas de quem você e Lady Agatha frequentemente falaram. Ele tem um criado japonês chamado Kino, ou talvez se escreva Keeno, não sei, que é governanta, lavadeira, criado, jardineiro, cocheiro e chef, tudo em um só — então, pelo menos, Percival Benson me confessou. Ele também confessou que comprou o Rancho Titchborne, por fotografias, de "um daqueles sujeitos de terra" em Londres. Ele queria viver com simplicidade um pouco, e lhe disseram que haveria uma caça muito boa. Então ele até trouxe um fuzil para elefantes, que seu primo tinha usado na Índia. As fotografias que o "sujeito de terra" lhe mostrara acabaram sendo fotos das montanhas Selkirk. E, considerando tudo, ele achou que tinha sido muito bem enganado. Mas Percival parecia aceitar com o estoicismo do britânico bem-nascido. Ele tentaria a sorte no lugar, embora não houvesse caça.
"Mas há caça", eu disse a ele, "de monte, montes dela!"
Ele perguntou suavemente onde e o quê. Eu lhe disse: patos selvagens, galinhas-da-pradaria, gansos selvagens, lebres, de vez em quando uma raposa e montes de coiotes. Ele explicou, então, que se referia a caça grande — e como essas duas palavras, "caça grande", soam grandiosas na língua inglesa! Ele tem uma irmã nas Bahamas, que pode se juntar a ele no próximo verão se ele decidir continuar por aqui. Ele considerou que seria um pouco difícil para uma garota durante a temporada de inverno aqui em cima.
No entanto, antes que eu vá mais longe, devo descrever Percival Benson Woodhouse para você, pois ele não é apenas "do nosso tipo", mas também um tipo em si.
Em primeiro lugar, ele é um homem de Magdalen College, o tipo que vimos andando para cima e para baixo em High muitas e muitas vezes. Ele é um tanto esguio e um tanto alto, e se curva um pouco. "Em casa" eles chamam isso de "curvatura de Oxford", se não me engano muito. Suas mãos são finas, longas e ósseas. Seus olhos são agradáveis, e ele parece muito bem formado. Quero dizer, ele é o tipo de homem que você nunca tomaria por um "intruso" ou "canalha". Ele é do tipo que parece ter o privilégio real de fazer até coisas duvidosamente educadas e ainda assim fazê-las de tal maneira que as faz parecer muito apropriadas. Não sei se torno isso claro ou não, mas uma coisa é clara, e é que nosso Percival Benson é um aristocrata. Você vê isso em seu rosto excessivamente sensível, excessivamente refinado, quase delicadamente feminino, com aqueles olhos idealizadores e nada práticos dele. Você vê isso no nariz fino, arqueado e ósseo (quase um bico tão fino quanto o que pertence a Sua Graça, o Duque de M----!) e você vê isso no rosto triste e um tanto alongado, como se ele tivesse estudado livros grandes demais, um tipo de ar de pathos e distanciamento das coisas. Sua boca impressiona por ser um tanto magra, até que ele sorri, o que é bem frequente, pois, glória seja, ele tem um bom senso de humor. Mas, além disso, ele tem uma polidez, uma frieza, um tipo de facilidade impessoal, que faria você pensar que ele poderia ter saído de um dos primeiros romances de Henry James, por volta da época de *Retrato de uma Senhora*. E eu gosto dele. Eu soube disso imediatamente. Ele é decadente e do velho mundo e provavelmente inútil aqui fora, mas ele representa algo que eu vinha sentindo falta, e ficarei muito surpresa se Percival Benson e Chaddie McKail não forem bons amigos antes que o inverno acabe! Ele perguntou se poderia ter permissão para visitar, e ele virá jantar amanhã à noite, e espero que Dinky-Dunk seja gentil com ele — se é que vamos ser vizinhos. Mas Dinky-Dunk diz que os ocidentais não pedem permissão para visitar. Eles apenas prendem seu cavalo no curral e entram, do mesmo jeito que um índio faz. E Dinky-Dunk diz que se ele vier em traje de gala, ele vai atirar nele, com certeza!
Quinta-feira, vinte e nove
Percy (como odeio esse nome!) esteve aqui para jantar na noite passada, e considerando tudo, não nos saímos tão mal. Tivemos sopa de tomate, batatas gratinadas e galinha-da-pradaria (elas precisam ser bem regadas) e biscoitos quentes e pêssegos secos cozidos com creme. Depois tomamos café e os homens fumaram seus cachimbos. Conversamos até um quarto para a uma da manhã, e meu pobre Dinky-Dunk, que tem trabalhado tanto e não visto ninguém, realmente aproveitou aquela visita e realmente gosta de Percival Benson.
Percy começou a falar sobre Oxford, e dava para ver que ele amava a velha cidade e que se sentia mais em casa no rio Isis do que na pradaria. Ele disse que uma vez ouviu Freeman contar uma história sobre Goldwin Smith, que costumava ser Professor Regius de História na Universidade. G. S. parecia surpreso que F. não pudesse lhe dizer, em algum exame oral, o que quer que isso possa significar, a causa da morte do Rei João. Então G. S. explicou que o pobre João morreu de excesso de pêssegos e cerveja fresca, "o que daria a qualquer homem uma dor de barriga considerável", o Professor Regius de História anunciou solenemente a Freeman.
Percy disse que seus pulmões o incomodavam um pouco na Inglaterra, e que ele passou mais de um ano em Florença e Roma e pode falar sobre quadros como um guia de viagem de Grant Allen. E ele assistiu a muitas óperas no La Scala, mas considerava o coiote canadense um vocalista muito melhor do que a maioria dos tenores italianos menores. E ele conhece Capri e Taormina e diz que gostaria de envelhecer e morrer na Sicília. Ele pegou pneumonia em Messina, e quase morreu jovem lá, e após cinco meses na Suíça um especialista lhe disse para tentar o Canadá.
Notei que um dos delírios dos americanos é que um inglês é silencioso. Agora, minha convicção pessoal é que os ingleses são os maiores faladores do mundo, e tenho Percy para me apoiar nisso. De fato, sentamos para conversar por tanto tempo que Percy perguntou se não poderia ficar a noite toda, já que ele era um cavaleiro ruim e ainda não tinha certeza das trilhas. Então improvisamos uma cama para ele na sala de estar. E quando Dinky-Dunk foi se deitar, ele me confidenciou que Percy estava calmamente lendo e fumando até adormecer, com meu exemplar tristemente desprezado de *O Anel e o Livro*, com a lâmpada no chão, de um lado dele, e um pires do outro, como cinzeiro. Mas ele estava de pé e saiu esta manhã, antes que qualquer um de nós estivesse de pé, voltando para a Casa Grande, no entanto, quando viu a fumaça no topo da chaminé. Suas bochechas magras estavam bem rosadas e ele explicou, de forma apologética, que estava tentando há uma hora e meia pegar seu cavalo. Olie veio em seu resgate. Mas nosso exilado de Oxford de ombros finos disse que nunca tinha visto um nascer do sol tão glorioso, e que o ozônio o deixara um pouco embriagado. Falando em espécimes de ombros finos, Matilda Anne, eu já fui tamanho trinta e seis; agora sou um quarenta e dois perfeito.
Sexta-feira, dia cinco
O tempo esteve ruim durante toda esta semana, mas tive muito trabalho de costura para fazer, e por dois dias Dinky-Dunk ficou dentro e me ajudou a arrumar o barraco. Fiz mais estantes de livros com mais caixas de biscoitos velhas e meu senhor fez um suporte para nossas armas de fogo. Percival Benson veio a cavalo uma vez, através da tempestade, e levamos meia hora para descongelá-lo. Mas ele trouxe alguns livros, e diz que tem quatro caixas, no total, e que somos bem-vindos a todos que quisermos. Ele ficou até o meio-dia do dia seguinte, desta vez dormindo no anexo, que Dinky-Dunk e eu forramos com papel, de modo que parece bastante apresentável. Mas, até agora, não há como aquecê-lo. Nosso novo vizinho, imagino, está muito solitário.
Domingo, dia sete
O tempo limpou: há um arco de chinook no céu, e um tipo de névoa de verão de São Martinho em toda a pradaria. Mas há notícias hoje. Kino, o japonês do nosso novo vizinho, fugiu com uma boa quantia de dinheiro e quase todos os objetos de valor de Percival Benson. O pobre rapaz está quase desamparado, mas não é um desistente. Ele disse que cortou sua própria lenha hoje, embora tivesse que ficar em cima de uma tina de lavar enquanto fazia isso, para evitar cortar os pés. O aniversário de Dinky-Dunk é daqui a apenas três semanas, e estou fazendo planos para uma celebração.
Terça-feira, dia nove
Os dias passam, e mal me deixam tempo para escrever. Dinky-Dunk é uma espécie de pêndulo, indo trabalhar, voltando para comer, depois saindo, e depois voltando novamente. Olie está transportando madeira e ferro galvanizado para uma nova construção de algum tipo. Meu senhor, nas noites, senta-se com papel e lápis, calculando medidas e fazendo planos. Eu sento do outro lado da mesa, geralmente, costurando. Às vezes vou para o lado dele da mesa e faço com que guarde seus planos por alguns minutos. Somos muito felizes. Mas para onde os dias voam eu mal sei. Estamos sempre olhando para o futuro, falando sobre o futuro, "concebendo" para o futuro, como dizem os irlandeses. O próximo verão será nosso ano de ouro. Dinky-Dunk vai arriscar tudo no trigo. Ele é como um general traçando um futuro plano de campanha — pois quando o trabalho vier, ele diz, virá com uma pressa. Ajuda será difícil de conseguir, então ele venderá seus direitos de madeira na Colúmbia Britânica e comprará um trator a gasolina de quarenta cavalos de força. Ele vai, pelo menos se a gasolina ficar mais barata, pois com a "gas" ainda a vinte e seis centavos o galão, a força animal é mais barata. Mas durante a temporada de aragem em abril e maio, um desses motores pode puxar oito arados de uma vez. Em vinte e quatro horas ele será capaz de revirar trinta e cinco acres de solo de pradaria — e um homem comum com uma parelha conta dois acres de aragem como um dia de trabalho decente.
Hoje à noite perguntei a Dinky-Dunk por que ele arriscava tudo no trigo e o avisei que talvez tivéssemos que revisar o antigo slogan dos colonos do Kansas para—
"No trigo confiamos, No trigo quebramos!"
Dinky-Dunk explicou que continuar cultivando apenas trigo seria ruim para a terra, e que mesmo agora significava correr um risco, mas, na situação em que ele se encontrava, era o que trazia dinheiro mais rapidamente. E ele queria dinheiro com urgência, pois tinha um ninho para forrar para uma avezinha selvagem que ele havia capturado — o que significava eu. Mais tarde, ele pretende dedicar-se ao linho — para fibra e não para semente — e, como nossa terra deveria produzir duas toneladas da melhor palha de linho por acre e como o produto belga e irlandês vale agora mais de quatrocentos dólares a tonelada, ele me disse para sentar e calcular o que quatrocentos acres produziriam, mesmo com uma safra de dois terços.
O fazendeiro canadense do Oeste, ele continuou a explicar, cultivava principalmente linho apenas pela semente, queimando mais de um milhão de toneladas de palha todo ano, apenas para se livrar dela, da mesma forma que faz com a palha de trigo. Mas tudo isso logo mudará. Apenas na semana passada, Dinky-Dunk escreveu ao Departamento de Agricultura pedindo informações sobre a fibra de courtai — esse é o tipo usado para rendas de ponto e vale um dólar a libra — pois meu senhor se sente convencido de que seu solo e condições climáticas são especialmente adequados para certas variedades mais finas. Ele até admitiu que o linho seria melhor em suas terras no momento, pois liberaria alguns dos fertilizantes naturais que, às vezes, deixam o solo virgem rico demais para o trigo. Mas o que mais me impressionou na conversa de Dinky-Dunk foi sua fé absoluta e inabalável neste nosso Oeste, assim que ele despertar para suas oportunidades. É um celeiro de riqueza armazenado, ele declara, e tudo o que fizemos até agora foi beliscar ao longo das rachaduras do assoalho!
Sábado, dia vinte e um
Hoje é aniversário de Dinky-Dunk. Ele sempre pensou, é claro, que eu sou uma indigente, e nunca sonhou com meu pobre e pequeno pecúlio residual. Eu tinha encomendado uma caixa de maçãs do Okanagan Valley, um gramofone e uma dúzia de discos de ópera, um cachimbo de raiz de urze e meio quilo de "Honey-Dew" inglês, uma jaqueta de fumar, algumas gravatas, meias e camisas novas, e um Stetson novinho em folha, pois o chapéu velho de Dinky-Dunk é quase um trapo. E encomendei meia dúzia dos romances mais novos e uma coleção de Herbert Spencer que ouvi ele dizer que queria, e uma impressão em sépia da Mona Lisa (com a qual meu senhor diz que eu me pareço quando estou planejando confusão) e um colchão de feltro e um jogo de molas para cama (então, adeus, velho amigo de estrado cedido cujas saliências machucaram meu corpo e espírito em tantas noites!) e uma dúzia de laranjas grandes e três dúzias de velinhas para o bolo de aniversário. E então fiquei sem um tostão — cada centavo abençoado se foi! Mas Percy (nós, como vê, fomos incapazes de escapar desse nome) encomendou uma caixa de charutos e um par de chinelos acolchoados, então foi uma variedade bastante formidável.
Eu, consequentemente, fiz com que Olie transportasse secretamente essa variedade de Buckhorn até a casa de Percy, onde foi devidamente emboscada e entrincheirada, para aguardar o dia fatal. Como quis a sorte, ou parecia querer, Dinky-Dunk teve que pegar a estrada para passar a noite fora, para tratar do registro de suas transferências para sua nova meia seção, na cidade de H----. Então, assim que Dinky-Dunk sumiu de vista, apressei meu trabalho e fiz Tumble-Weed e Bronk seguirem para o antigo Rancho Titchborne.
Cheguei lá no meio da tarde, e que tempo tivemos, desembalando aquelas coisas, examinando-as, planejando e conversando! Mas a coisa toda foi estragada.
Esquecemos de amarrar os cavalos. Então, enquanto tomávamos chá, Bronk e Tumble-Weed pegaram a estrada, por conta própria. Eles foram para casa, arreios e tudo, mas é claro que eu nunca soube disso na época. Procuramos e procuramos, voltamos para o jantar e depois saímos novamente. Procuramos até escurecer. Meus pés estavam como chumbo, e eu não poderia ter andado mais um quilômetro. Eu estava tão rígida e cansada que simplesmente tive que desistir. Percy ficou preocupado, é claro, pois não tínhamos como mandar notícias para Dinky-Dunk. Então nos sentamos e discutimos as possibilidades, como um par de náufragos em uma ilha de Robinson Crusoe. Percy se ofereceu para dormir no estábulo e me deixar o barraco. Mas eu não quis nem ouvir falar disso. Em primeiro lugar, sentia quase certeza de que Percy era o que chamam por aqui de "lunger" (tuberculoso), e não apreciei a ideia de dormir em uma cama com tuberculose. Pedi um cobertor e disse a ele que dormiria debaixo da carroça, como muitas vezes fiz com Dinky-Dunk. Percy finalmente consentiu, mas isso também o preocupou. Ele até trouxe sua arma de "caça grossa", para que eu tivesse proteção, e tateou a grama para ver se estava úmida, e declarou que não conseguiria dormir em um colchão sabendo que eu estava no chão duro. Eu disse a ele que adorava, e que fosse dormir, pois queria me livrar de um pouco da minha armadura. Ele foi, relutantemente.
Era uma noite linda, e não tão fria, com quase nenhum sopro de vento. Fiquei deitada olhando através dos raios das rodas para a Via Láctea, e estava quase adormecendo quando Percy saiu novamente. Ele estava com um robe acolchoado e um cobertor sobre os ombros. Isso o fazia parecer com o próprio Pai Tempo. Ele queria saber se eu estava bem, e tinha me trazido um travesseiro — que não usei. Então ele se sentou no chão da pradaria, perto da carroça, fumou e conversou. Ele me apontou algumas das constelações e disse que a única vez que viu as estrelas maiores foi em uma noite calma no Oceano Índico, quando voltava de Cingapura. Ele nunca esqueceria aquela noite, disse ele, as estrelas eram tão maravilhosas, tão grandes, tão próximas, tão suaves e luminosas. Mas as estrelas do norte eram diferentes. Elas não tinham o tom alaranjado que pertence ao Sul. Pareciam mais remotas e mais inspiradoras de temor, e sempre havia um tom esverdeado em sua brancura.
Então começamos a falar sobre "partes estrangeiras" e Percy me perguntou se eu já tinha visto Nápoles à noite de San Martino, e eu perguntei a ele se já tinha visto a Broadway à noite do alto do Edifício Times. Então ele me perguntou se eu já tinha observado Paris de Montmartre, ou visto o Templo de Netuno em Paestum banhado pelo luar lucano — o que eu prontamente lhe disse que sim, pois foi no caminho de volta de Paestum que certa pessoa me pedira em casamento. Falamos sobre templos e deuses gregos e a idade do mundo e lendas indígenas até que fiquei realmente sonolenta. Então Percy jogou fora seu último cigarro e se levantou. Ele disse "Boa noite"; eu disse "Boa noite"; e ele entrou no barraco. Ele disse que deixaria a porta aberta, caso eu chamasse. Éramos apenas nós dois, entre a terra e o céu, naquela noite, e nenhuma outra alma num raio de sete milhas em qualquer direção. Ele ficou muito feliz por ter alguém com quem conversar. Ele provavelmente é um ou dois anos mais velho que eu, mas sou bem maternal com ele. E ele é chocantemente incompetente, como colono, pelo aspecto de seu barraco. Mas é um cavalheiro, quase "gentil" demais, sinto às vezes, um laodicense, mentalmente refinado demais a ponto de deixá-lo incapaz de lidar com a vida real. Ele é um daqueles homens feitos para ser um "espectador", e não um ator, na vida. E há algo tão absurdo em ele estar onde está que sinto pena dele.
Dormi como uma pedra. Assim que adormeci, esqueci o chão duro, o cheiro dos cobertores de cavalo e o fato de ter perdido a parelha do meu pobre Dinky-Dunk. Quando acordei, era o primeiro cinza da alvorada. Dois homens estavam lado a lado, olhando para mim debaixo da carroça. Um era Percy, e o outro era o próprio Dinky-Dunk.
Ele tinha chegado em casa às três da manhã, correndo, pois estava nervoso por eu estar sozinha. Mas encontrou a casa vazia, a parelha parada ao lado do curral, e eu desaparecida. Naturalmente, não foi uma situação muito feliz. O pobre Dinky-Dunk pegou a estrada imediatamente e cavalgou a noite toda procurando sua esposa perdida. Então ele foi até a casa de Percy, acordou-o e descobriu-a placidamente roncando debaixo de uma carroça. Ele nem sorriu com isso. Estava muito cansado e muito silencioso. Pensei, por um momento, ter visto desconfiança no rosto de Dinky-Dunk, pela primeira vez. Mas ele não disse nada. Odiou vê-lo sair para trabalhar, quando chegamos em casa, mas ele se recusou a tirar uma soneca ao meio-dia, como eu queria. Então, hoje à noite, quando ele entrou para o jantar, eu tinha o bolo de aniversário devidamente decorado e os presentes todos à mostra.
Mas seu entusiasmo foi forçado, e durante toda a refeição ele mostrou uma tendência a ser distraído. Eu não tinha explicações a dar, então não dei nenhuma. Mas notei que ele calçou seus chinelos velhos. Achei que ele tinha feito isso deliberadamente.
"Você não parece amadurecer com a idade", anunciei, com as sobrancelhas erguidas. Ele corou com isso, bem claramente. Então ele se esticou e pegou minha mão. Mas o fez apenas com esforço, e após alguma luta interior tremenda que não foi totalmente lisonjeira para mim.
"Por favor, tire sua mão para que eu possa alcançar o pano de prato", eu disse a ele. E a mão saiu como um tiro. Depois que terminei meu trabalho, peguei meu George Meredith e li *Modern Love*. Dinky-Dunk não foi para a cama até tarde. Eu estava acordada quando ele veio, mas não deixei que ele soubesse disso.
Domingo, dia vinte e nove
Não tive muita vontade de escrever esta última semana. Dificilmente sei por quê. Acho que é porque Dinky-Dunk está em sua dignidade. Ele está ficando magro, a propósito. Suas maçãs do rosto aparecem e seu pomo de adão se destaca. Ele está preocupado com os pagamentos de suas terras, e eu digo a ele que seria mais feliz com meia seção. Mas Dinky-Dunk quer riqueza. E eu não posso ajudá-lo muito. Receio ser um estorvo. E as estrelas me deixam solitária, e o vento da pradaria às vezes me dá arrepios! E o inverno está chegando.
Receio estar fora do meu ambiente, tão fora quanto Percival Benson. Não seria tão ruim, suponho, se eu nunca tivesse visto cantos tão adoráveis do mundo, antes de vir para cá para ser um ponto no deserto. Se eu nunca tivesse tido aquele verão celestial em Fiesole, e aqueles meses com você em Corfu, e aquele inverno em Roma com a pobre e querida Katrinka morta! Às vezes penso nas noites em que costumávamos olhar para Paris, do telhado acima do estúdio de Tite Daneau. E às vezes penso no Pincio, com a banda tocando, e as carruagens passando rapidamente, e os oficiais de uniforme, e as estátuas brancas leitosas entre as árvores, e as névoas douradas do fim da tarde sobre a Cidade Imortal. E digo a mim mesma que tudo aquilo foi um sonho. E então sinto que eu sou todo um sonho, e a pradaria é um sonho, e Paddy e Olie e Dinky-Dunk e toda essa nova vida nada mais são do que um sonho. Oh, Matilda Anne, estive com saudades de casa esta semana, tão infeliz e com saudades de algo — de algo, e eu nem sei o que é!
Segunda-feira, dia sétimo
Glória seja! O inverno chegou com um vento de sabre de dois gumes vindo do norte e neve no chão. Isso dá um ânimo às coisas. Faz nosso barraco pequeno e aconchegante parecer tão confortável quanto a cabine de um navio. E eu tenho um trenó, e com meu casaco de pele de guaxinim, luvas e gorro, posso ficar quente como uma torrada em qualquer vento. E há tanto para fazer. E eu não vou ser uma covarde. Esta é a terra onde as pessoas se dão bem ou enlouquecem. Você só tem a si mesma para depender, e a si mesma para culpar, se as coisas derem errado. E eu vou fazer com que elas deem certo. Não adianta lamentar aqui no Oeste. Uma linha ou duas de Laurence Hope estiveram passando o dia todo pela minha cabeça:
"Este é o meu povo, e esta a minha terra; Ouço o pulso de sua alma secreta. Esta é a vida que eu compreendo, Selvagem e simples, sã e inteira."
Sexta-feira, dia décimo primeiro
Dinky-Dunk veio para casa com uma garota indígena hoje, uma jovem mestiça de uns dezesseis anos. Ela será tanto companheira quanto empregada, pois Dinky-Dunk tem que correr para a Colúmbia Britânica, para tentar vender seus direitos de exploração de madeira lá para pagar suas dívidas da terra. Ele parte amanhã. Isso me faz sentir miserável, mas estou engolindo meu próprio orgulho, pois não quero que ele me ache um estorvo. Minha garota indígena fala um pouco de inglês. Ela também come açúcar aos punhados, sempre que pode roubá-lo. Perguntei a ela qual era seu nome e ela me disse "Queenie MacKenzie". Esse nome quase tirou meu fôlego. Como aquela aborígene inculta do Noroeste adotou para si esse nome de corista da Broadway, só o Céu sabe! Mas tenho minhas suspeitas sobre Queenie. Ela tem certos movimentos exploratórios que me convencem de que ela está cheia de piolhos. Ela dorme no anexo, fico feliz em dizer.
No jantar de hoje, quando eu estava ensinando Dinky-Dunk a fazer um coelho com seu guardanapo de mesa e um passageiro enjoado com a última de suas laranjas, ele explicou que talvez não voltasse a tempo para o Natal, e perguntou se eu me importaria. Eu sabia que sua viagem era importante, então mantive o queixo erguido e disse que é claro que não me importaria. Mas o pensamento de um Natal sozinha gelou meu coração. Tentei ser alegre, e dei meu repertório na gaita, o que parou prontamente todas as atividades por parte da Queenie MacKenzie de olhos arregalados. Mas toda aquela palhaçada foi tão forçada quanto a frivolidade da Conciergerie da Revolução Francesa, onde os alegres comensais não conseguiam esquecer que perderiam suas cabeças pela manhã!
Domingo, dia décimo terceiro
Não apenas Duncan se foi, mas Queenie também partiu de forma bastante desajeitada. Surgiu do fato de que pedi a ela que tomasse um banho. O único membro decepcionado da família é o pobre e velho Olie, que estava realmente fazendo olhares de namorado para aquela criatura cheia de piolhos. A imaginação vacila ao pensar no que ele poderia ter feito com um dólar de açúcar mascavo. Quando Queenie foi embora, descobri que minha gaita foi com ela. Eu gostaria de aplicar o *ling chih* naquela garota indígena!
Quarta-feira, dia décimo sexto
Foi um dia claro e cintilante hoje, sem vento, então andei até o antigo Rancho Titchborne com meu pequeno trenó. Lá encontrei Percival Benson em uma condição mais lamentável. Ele estava de cama com uma gripe. Seu lugar estava desarrumado, seus pratos não estavam lavados e seu combustível estava acabando. Sua aparência, na verdade, me assustou um pouco. Então o agasalhei, coloquei-o no trenó e o trouxe direto para casa comigo. Ele teve um calafrio no caminho, então, assim que chegamos à Casa Grande, mandei-o para a cama, dei-lhe uísque quente e coloquei minha bolsa de água quente em seus pés. Ele tentou aceitar a coisa toda como uma piada e jurou que eu estava cozinhando-o alegremente. Mas hoje à noite ele está com febre alta e receio que ele esteja prestes a enfrentar um grave cerco de doença. Pretendo mandar Olie buscar algumas de suas coisas e fazer com que seu gado seja trazido para junto do nosso.
Domingo, dia vigésimo
Percy teve três noites muito ruins, mas parece um pouco melhor hoje. Seu pulmão está congestionado, e pode ser pneumonia, mas acho que meu emplastro de mostarda salvou o dia. Ele se esforça tanto para ser alegre, e é tão grato por cada pequena coisa. Mas eu queria que Dinky-Dunk estivesse aqui para me dizer o que fazer.
Eu nunca teria sobrevivido a esta última semana sem Olie. Ele é tão atento e pronto quanto um *collie* de fazenda. Mas eu quero meu Dinky-Dunk! Posso ter mimado meu Dinky-Dunk um pouco, mas é apenas uma vez a cada século ou dois que Deus faz um homem como ele. Quero ser uma boa esposa. Quero fazer minha parte, e manter o ombro na roda, se o caminho tiver que ser pesado pelos próximos um ou dois anos. Eu não serei do tipo Dixon. Eu não serei — eu não serei! Meu Duncan precisará de mim durante este próximo ano, e será uma alegria ajudá-lo. Pois eu amo aquele homem, Matilda Anne — eu o amo tanto que dói!
Domingo, dia vigésimo sétimo
O Natal chegou e se foi. Foi muito solitário na Casa Grande. Prefiro não escrever sobre isso. Percy está melhorando, mas ainda está um pouco fraco. Acho que ele escapou por um triz.
Quarta-feira, dia trigésimo
Meu paciente está de pé e andando, parecendo um homem diferente. Ele mostra os efeitos da minha alimentação forçada, embora declare que estou tentando transformá-lo em um ganso de Estrasburgo, por causa do *pâté de foie gras* quando eu o cortar. Mas ele decidiu ir para Santa Barbara passar o inverno: e acho que ele é sensato. Então, esta tarde, me vesti com meus casacos de pele, peguei o trenó e fui voando até o Rancho Titchborne. Oh, que barraco! Que desordem, que falta de limpeza, que desolação entorpecente! Não culpo o pobre Percival Benson por fugir para a Califórnia. Peguei as coisas de que ele precisava, no entanto, e fui voando para casa novamente.
Quinta-feira, dia trigésimo primeiro
Mal sei como começar. Mas tem que ser escrito ou eu vou subitamente enlouquecer e começar a morder as paredes do barraco. Ontem à noite, depois que Percy me ajudou a girar a batedeira de pão (pois, aconteça o que acontecer, temos pelo menos que comer), ajudei-o a fazer as malas. Entre outras coisas, ele encontrou um exemplar de *A Shropshire Lad*, de Housman, e, depois de folheá-lo, anunciou que gostaria de ler para mim duas ou três pequenas coisas dele. Então me agachei em frente ao fogo, cutucando ociosamente as brasas vermelhas, e ele se sentou ao lado do fogão com seu livro, de chinelos e robe. E lá estava ele solenemente lendo em voz alta quando a porta se abriu e Dinky-Dunk entrou.
Eu digo que ele entrou, mas isso não está exatamente certo. Ele ficou parado na porta aberta, olhando para nós, com uma expressão que teria feito jus à Musa Trágica. Imagino que Enoch Arden usou o mesmo olhar quando viu o círculo doméstico após aquela longa ausência dele. Então Dinky-Dunk fez uma coisa imperdoável. Em vez de dizer "Olá!" como um estudioso e um cavalheiro, ele recuou para fora do barraco e bateu a porta. Quando recuperei o fôlego, saí por aquela porta atrás dele. Era uma noite amargamente fria, mas não parei para colocar nada. Eu estava muito espantada, muito indignada, muito arrebatada pelo absurdo de tudo aquilo. Eu podia ver Dinky-Dunk sob a luz clara das estrelas, tirando os cobertores de sua parelha. Ele tinha corrido para o barraco, sem nem mesmo tirar os arreios dos cavalos. Eu podia ouvir os pneus das rodas gemendo na neve crocante, pois os pobres animais estavam cansados e inquietos. Fui direto para a carroça na qual Dinky-Dunk estava subindo. Ele parecia um urso-canela em seu casaco grande e peludo. E eu não conseguia ver seu rosto. Mas lembrei-me de como ele estava na porta. Tinha a cor de um sapato bronzeado. Estava tão castigado pelo tempo e queimado pelo vento e pelo reflexo do sol que nunca ficaria branco, ou, suponho, teria sido da cor de papel.
"Você não tem", indaguei, "você não tem nenhuma explicação para agir assim?" Ele sentou-se no banco da carroça, com as rédeas nas mãos.
"Acho que tenho o primeiro direito a essa pergunta", disse ele finalmente com uma voz abafada.
"Então por que não a faz?" foi minha resposta a ele. Novamente ele esperou um momento antes de falar, como se sentisse a necessidade de pesar suas palavras.
"Não preciso — agora!" disse ele, enquanto apertava as rédeas.
"Espere", chamei por ele. "Há certas coisas que quero que você saiba!"
Eu não ia dar explicações. Não dignificaria sua estupidez de homem bruto com tais coisas. Mal sei o que pretendia fazer. Ao olhar para ele ali em seu casaco de pele grosseiro, por um momento, pareceu-me estar a milhões e milhões de milhas de distância. Encarei-o, tentando compreender sua total falta de compreensão. Parecia vê-lo através do mesmo abismo que separa um visitante meditativo de um zoológico de algum animal abismalmente hirsuto que, éons e éons atrás, deve ter sido seu companheiro de caverna e colega de lareira. Mas agora parecia não termos nada em comum, nem mesmo uma língua com a qual conectar aquelas eras perdidas. Contudo, de toda aquela mistura de sentimentos, apenas um sobreviveu: eu não queria que meu marido fosse embora.
Foi a parelha, até onde me lembro, que realmente decidiu a coisa. Eles estavam inquietos, recuando e dando solavancos e cavando o chão e relinchando por sua caixa de ração. E, de repente, saltaram para a frente. Mas desta vez continuaram. Se Dinky-Dunk tentou segurá-los ou não, não sei dizer. Mas voltei para o barraco, tremendo. Percy, graças ao Céu, estava em seu quarto.
"Acho que vou deitar!", ele chamou, casualmente, através da divisória.
Eu disse "Está bem" e sentei-me diante do fogo, tentando colocar as coisas em ordem. Meu Dinky-Dunk tinha ido embora! Ele tinha me encarado, com ódio nos olhos, enquanto sentava naquela carroça. Está tudo acabado. Ele não tem fé em mim, sua própria esposa!
Fui para a cama e tentei dormir. Mas dormir estava fora de cogitação. A coisa toda parecia tão absurda, tão irracional, tão injusta. Eu podia sentir ondas de raiva percorrerem meu corpo ao simples pensamento disso. Então, uma onda de outra coisa, de algo entre a ansiedade e o terror, tomava o lugar da raiva. Meu marido tinha ido embora, e nunca mais voltaria. Eu tinha colocado todos os ovos em uma cesta só, e a cesta tinha virado, fazendo um omelete de açafrão de toda a minha vida.
E foi assim que vi o Ano Novo chegar; eu não podia nem me dar ao luxo de um chorinho, pois temia que Percy me ouvisse. Deve ter sido quase manhã quando adormeci.
Quando acordei, Percival Benson tinha ido embora, com armas e bagagens. A princípio, ressenti-me do pensamento de ele ter partido assim, sem uma palavra, mas ao refletir, decidi que ele tinha feito a coisa certa. Não há nada como a luz fria e dura de uma manhã de inverno para trazê-la de volta aos fatos frios e duros. Olie tinha levado Percy de carro até a estação. Então fiquei sozinha no barraco o dia todo. Pensei um bocado durante aquelas longas horas de solidão. E, de toda aquela palha de autoexame, debulhei apenas um pequeno grão de verdade. Eu nunca poderia viver sozinha na pradaria. E, não importava o que eu fizesse, ou onde eu fosse, eu nunca poderia ser feliz sem meu Dinky-Dunk....
Eu tinha acabado de jantar hoje à noite, tão triste quanto um índigo e tão sem espírito quanto uma galinha molhada, quando ouvi o som de vozes. Levei apenas dez segundos para ter certeza de quem eram. Dinky-Dunk tinha voltado com Olie! Dei um mergulho em busca de um livro na estante mais próxima, girei a poltrona com um solavanco e afundei luxuosamente nela, com os pés sobre o registrador quente e meus olhos lenta e contentemente lendo Confissões de um Jovem, de George Moore (embora eu odeie esse material libidinoso como veneno!). Então Dinky-Dunk entrou. Eu podia vê-lo me encarar um pouco sem jeito e arrependido (que mulher não consegue ler um livro e estudar um homem ao mesmo tempo?) e pude ver que ele estava esperando uma abertura. Mas não lhe dei nenhuma. Naturalmente, Olie tinha explicado tudo a ele. Mas eu tinha sido humilhada, meu orgulho tinha sido pisoteado, de ponta a ponta. Meu espírito tinha sido esmagado — e eu tinha decidido meu plano de ação. Simplesmente ignorei Duncan.
Li por um tempo, depois peguei uma lamparina, fui para o meu quarto e tranquei deliberadamente a porta. Meu único arrependimento foi não poder ver o rosto de Dinky-Dunk quando aquela chave girou. E agora devo parar de escrever e ir para a cama, pois estou exausta. Sei que dormirei melhor esta noite. É bom lembrar que há um homem por perto, se ele for o homem de quem você se importa um pouquinho, mesmo que você tenha calmamente trancado a porta para ele.
Domingo, dia três
Dinky-Dunk tem, pelo menos, a sensibilidade de respeitar a privacidade da minha vida. Ele sabe onde fica a linha limite e não a ignora. Mas é terrivelmente difícil ser trágica em um barraco de dois por quatro. Você sente falta dos toques dignificantes. E você não tem muita margem para os balanços volumosos da grandeza.
Por um dia inteiro não falei com Dinky-Dunk, nem sequer reconheci sua existência. Comi sozinha e fiz meu trabalho — quando o monstro estava por perto — com toda a preocupação de uma sonâmbula. Mas algo aconteceu, e me esqueci de mim mesma. Antes que percebesse, estava lhe fazendo uma pergunta. Ele respondeu, com bastante sobriedade, bastante casualmente. Se ele tivesse sorrido, ou mostrado um pingo de triunfo, eu teria saído do barraco e nunca mais falado com ele. Acho que ele sabia que estava em terreno terrivelmente perigoso. Ele escolheu seu caminho com cuidado. Ele me fez uma pergunta de volta, de forma bastante indiferente, e por enquanto deixou o assunto por ali. Mas a brecha estava em minhas paredes, Matilda Anne, e eu estava totalmente indefesa. Estávamos ambos muito impessoais e muito educados quando ele entrou na hora do jantar, embora ache que fiquei visivelmente cor-de-rosa quando me sentei à mesa, pois nossos olhos se encontraram ali, apenas por um momento e nada mais. Eu sabia que ele estava me observando, secretamente, o tempo todo. E eu sabia que estava deixando-o muito infeliz. Mas não senti o menor pingo de vergonha disso.
Depois do jantar, ele anunciou indiferentemente que não tinha nada para fazer e que poderia muito bem me ajudar a lavar a louça. Fui entregar-lhe um pano de prato. Em vez de pegar o pano, ele pegou minha mão, com a exclamação muito profana, ao fazê-lo: "Oh, inferno, Gee-Gee, para que serve isso?"
Então, antes que eu percebesse, ele me tinha em seus braços (nossa manteigueira quebrou na colisão) e eu fui fraca o suficiente para sentir pena dele e de seus olhos suplicantes e tragicamente pobres. Então eu desisti. Se eu fui boba o suficiente para chorar um pouco no ombro dele, tive a satisfação de senti-lo dar um ou dois soluços também.
"Você é a mulher mais maravilhosa do mundo!", ele me disse solenemente, e então, de uma maneira muito menos solene, começou a me beijar novamente. Mas as barreiras caíram. E como conversamos naquela noite! E como tudo parecia diferente! E como era bom sentir seu braço sobre meu ombro e sua respiração calma na nuca enquanto eu adormecia. Parecia que o Amor estava me abanando com suas asas mais suaves. Estou feliz novamente. Mas tenho me perguntado se é o ambiente que molda o caráter, ou o caráter que molda o ambiente. Às vezes penso que é de um jeito, e às vezes sinto que é do outro. Mas não tenho certeza da minha resposta — ainda! É difícil para uma mulher mimada lembrar que sua vida tem que ser fundida na vida de outra pessoa. Tenho me perguntado se o casamento não é como um biombo de dois painéis, que não se mantém em pé se ambos os painéis estiverem muito alinhados. Deus sabe, eu quero harmonia! Mas uma mulher gosta de sentir que, em vez de estar fora de compasso com todo o seu regimento de vida, é o regimento que está fora de compasso com ela. Hoje à noite desatei os sapatos de Dinky-Dunk, calcei seus chinelos e sentei no chão entre seus joelhos com a cabeça encostada no tique-taque constante do bolso de seu relógio. "Dinky-Dunk", anunciei solenemente, "aquele sujeito chamado Pope era um péssimo adivinho. O estudo adequado do homem deveria ter sido a mulher!"
Quinta-feira, dia sete
Tudo na Casa Grande voltou ao ritmo normal. Há muito o que fazer no barraco. O fantasma mais terrível do trabalho doméstico é lavar a louça. Uma pilha de pratos gordurosos é a única coisa que me irrita. E é uma pequena Waterloo que deve ser enfrentada três vezes por dia, de cada semana, de cada mês, de cada ano. E eu nunca fui devidamente "educada" para a lida doméstica e a bacia de lavar louça! Por que algum gênio não inventa uma frigideira que se lava sozinha? Meu cabelo está crescendo tanto que agora consigo prendê-lo em uma espécie de coque francês sem muito entusiasmo. Tem estado bem frio, com uma queda de neve maravilhosa. O passeio de trenó não poderia estar melhor.
Sábado, dia nove
O presente de Natal de Dinky-Dunk chegou hoje, com mais de duas semanas de atraso. Ele nunca tinha mencionado isso, e eu não só mantive a paz, como tinha desistido de qualquer pensamento de ganhar um presente de verdade do meu senhor e mestre.
Trouxeram-no de Buckhorn, no trenó, todo embrulhado em mantas de búfalo velhas, cobertores e encerados. *É um piano de cauda*, e uma beleza, e veio de Winnipeg. Mas, seja o transporte, o chacoalhar ou o frio extremo, deixou-o terrivelmente desafinado, e não pode ser usado até que o afinador de piano viaje algumas centenas de quilômetros até aqui para consertá-lo. E é grande demais para o barraco, mesmo quando empurrado bem para o canto. Mas Dinky-Dunk diz que, antes do próximo inverno, haverá um tipo diferente de casa neste local onde a Casa Grande agora se encontra.
"E isso é para manter sua alma viva, enquanto isso", ele anunciou. Repreendi-o por ser tão extravagante, quando ele precisava de cada dólar que podia colocar as mãos. Mas ele não quis me ouvir. Na verdade, isso só deu início a uma explosão.
"Meu Deus, Gee-Gee", ele gritou, "você já não abriu mão de coisas demais por mim? Você já não sacrificou o suficiente vindo para cá, para o fim do mundo, e deixando para trás tudo o que tornava a vida decente?"
"Ora, Honey Chile, eu não ganhei você?", eu indaguei. Mas nem isso o parou.
"Você não supõe que eu penso alguma vez no que isso significou para você, para uma mulher como você? Há certas coisas que não podemos ter, mas há algumas coisas que vamos ter. Estes próximos dez ou doze meses serão difíceis, mas depois disso haverá uma mudança — se o Senhor estiver comigo, e eu tiver a sorte de um homem branco!"
"E supondo que tenhamos má sorte?", perguntei-lhe. Ele ficou em silêncio por um momento ou dois.
"Sempre podemos desistir e voltar para a cidade", ele finalmente disse.
"Desistir!", eu disse com um grito. "Desistir? Nem por um decreto, Sr. Homem Carrancudo! Não vamos ser Dixonites! Nós vamos vencer!" E estávamos juntos em um aperto mortal, abraçando o fôlego um do outro, quando Olie entrou para perguntar se não seria melhor ele levar o gado para o estábulo, pois vinha vindo mau tempo.
Segunda-feira, dia onze
Estamos tendo a primeira nevasca de verdade do inverno. Começou ontem, como Olie deu a entender, e durante todo o final do dia meu Dinky-Dunk esteve em movimento, no frio amargo, cuidando do combustível e da ração e deixando as coisas em ordem, como um capitão que leu seu barômetro e viu um furacão chegando. Não havia vento há dois dias, apenas céus opacos e pesados com uma sensação inquietante de quietude. Mesmo quando ouvi Olie e Dinky-Dunk gritando lá fora, e escorando as paredes do barraco com postes, não consegui entender bem o que significava.
Então a nevasca veio. Veio do noroeste, como uma tromba d'água. Zumbiu e cantou, e depois gemeu, e depois gritou, gritou em um falsete agudo que fazia você pensar que a pobre e velha Mãe Terra estava em sua última agonia! A neve era fina e dura, na verdade partículas diminutas de gelo, e não neve, como a conhecemos no Leste, pequenos pontos de diamante de ângulos agudos que picavam a pele como fogo. Veio em linhas quase horizontais, dirigindo-se através da pradaria ininterrupta e desafiando qualquer coisa feita por Deus ou pelo homem para detê-la. Nada a deteve. Nosso barraco, o alojamento, os estábulos e os montes de feno arrancaram algumas penas de seu peito, contudo; e essas poucas penas são montes de neve mais altos que minha cabeça, acumulados contra cada um dos edifícios.
Risquei a geada de uma vidraça, onde pequenos montes de neve estavam se infiltrando pelas rachaduras do peitoril, quando começou. Mas o vento soprava cada vez mais forte e o barraco balançava e tremia com a tensão. Oh, que vento! Fazia um barulho de gemido e lamento, com cada nota mais alta, e quando você sentia que não podia aumentar, que simplesmente tinha que diminuir, ou o mundo inteiro iria se despedaçar, bem, aquela nota de gemido apenas crescia mais tensa e o vento crescia mais forte. Como ele açoitava as coisas! Como ele sacudia e flagelava e pisoteava esta nossa pobre e velha terra! Pouco antes do jantar, Olie anunciou que cuidaria dos meus pintinhos. Eu disse a ele, casualmente, que eu mesma cuidaria deles. Costumo espalhar uma mistura de trigo e aveia na ninhada do galinheiro durante a noite. Isso tinha duas vantagens, uma era que não me tirava da cama tão cedo pela manhã, e a outra era que os pintinhos começavam a ciscar logo cedo e assim faziam exercício e mantinham seus corpos mais aquecidos e com melhor saúde.
Não era essencial que eu fosse ao galinheiro, mas fui possuída por um desejo repentino de enfrentar aquele tornado branco cantante. Então coloquei minhas coisas, enquanto Dinky-Dunk estava trabalhando nos estábulos. Coloquei peles, perneiras e luvas e tudo mais, como se estivesse começando uma viagem de cento e cinquenta quilômetros, e saí. Dinky-Dunk tinha feito um túnel através do monte de neve na frente da porta, mas aquele túnel já estava começando a encher novamente. atravessei-o e tentei olhar ao meu redor. Tudo era uma espécie de cinza nebuloso e listrado, um turbilhão de chumbo abafado e envolvente que machucava sua pele quando você erguia a cabeça e tentava encará-lo. Uma vez, em uma calmaria do vento quando a neve não estava tão densa, avistei os montes de feno. Isso me deu um rumo para o galinheiro. Então fui para lá, correndo, mantendo a cabeça baixa enquanto ia.
Foi glorioso, a princípio, fez meus pulmões bombearem e meu sangue correr e minhas pernas formigarem. Então os demônios da tempestade uivaram em meus olhos e os chicotes de gelo estalaram em meu rosto. Então o vento enlouqueceu novamente, e eu não conseguia ver. Eu não conseguia seguir em frente. Eu não conseguia nem respirar. Então fiquei com medo.
Inclinei-me ali contra o vento chamando por Dinky-Dunk e Olie, sempre que conseguia fôlego suficiente para fazer um som. Mas eu poderia muito bem ter sido um bebê chorando no meio do oceano para uma enfermeira de Kensington Gardens.
Então soube que estava perdida. Ninguém jamais poderia me ouvir naquele rugido. E não havia nada para ser visto, apenas um manto cinza, cortante e cegante de fúria voadora que irritava a pele nua como massagem elétrica e tirava o fôlego do seu corpo golpeado. Não havia marco, nenhum vislumbre de qualquer edifício, absolutamente nada para me guiar. E me senti tão impotente diante daquele vento! Parecia tirar o poder de locomoção das minhas pernas. Não fiquei totalmente surpresa com o pensamento de que poderia morrer ali, a cem metros da minha própria casa, tão perto daquelas paredes estreitas dentro das quais havia calor, abrigo e sossego. Imaginei como encontrariam meu corpo, bem fundo sob a neve, alguma manhã; como Dinky-Dunk procuraria, talvez por dias. Senti tanta pena dele que decidi não desistir, que não me perderia, que não morreria ali como uma mosca em uma folha de papel mata-moscas!
Eu tinha caído de joelhos, de costas para o vento, e a neve já tinha se acumulado ao meu redor. Também descobri que meus cílios estavam congelados juntos, e perdi vários pelos ao me livrar daquelas lágrimas solidificadas. Mas fiquei de pé e lutei, chamando quando podia. Continuei, dando voltas e voltas em círculo, suponho, como as pessoas sempre fazem quando estão perdidas em uma tempestade. Então o vento piorou novamente. Não conseguia avançar contra ele. Tive que desistir. Eu simplesmente tive que fazer isso! Eu não estava com medo. Não estava aterrorizada com o pensamento do que estava acontecendo comigo. Eu estava apenas arrependida, com uma espécie de tristeza nebulosa que não consigo explicar. E não me lembro de ter me sentido particularmente desconfortável, exceto pelo fato de achar bastante difícil respirar.
Foi Olie quem me encontrou. Ele veio cambaleando pela neve com combustível extra para o alojamento, e quase passou por cima de mim. Como descobrimos depois, eu não estava a mais de trinta passos daquela porta do alojamento. Olie me puxou para fora da neve do mesmo jeito que você puxaria uma meada de seda de um cesto de costura. Ele quase me carregou para o alojamento, orientou-se e depois me guiou para o barraco. Foi uma luta, mas conseguimos. E Dinky-Dunk ainda estava lá fora cuidando de seu gado e não sabe o quão perto esteve de perder sua Lady Bird. Fiz Olie prometer não dizer uma palavra sobre isso. Mas a ponta do meu nariz está vermelha e inchada. Acho que deve ter sofrido um pouco de queimadura de frio no encontro. O tempo limpou agora, e o vento diminuiu. Mas está muito frio, e Dinky-Dunk acaba de informar que já está quarenta e oito graus abaixo de zero.
Terça-feira, dia dezenove
Os dias passam e mal sei para onde vão. O tempo está maravilhoso. Claro e frio, com tantos montes de sol que você nunca imaginaria que fosse um tempo abaixo de zero. Mas você tem que ter cuidado, e sempre usar peles quando estiver dirigindo, ou fora por qualquer período de tempo. Três horas ao ar livre é tão bom quanto uma garrafa do melhor champanhe de Chinkie. Faz-me formigar. Estamos vivendo bem, com vários barris de carne de caça congelada — gansos, patos e galinhas-da-pradaria — e também um velho baú de lata cheio de assados de carne bovina, cortados no tamanho certo. Trago-os para dentro e descongelo durante a noite, conforme preciso. O congelamento os torna muito macios. Mas eles devem estar completamente descongelados antes de irem para o forno, ou o exterior ficará passado demais e o interior ainda cru. Aprendi isso por experiência. Meu apetite é vergonhoso, e ainda estou ganhando peso. Chinkie nunca mais poderia dizer que eu o lembrava de uma das vacas magras do sonho de Faraó.
Tenho perguntado a Dinky-Dunk se não é crueldade absoluta deixar cavalos e gado na pastagem com um tempo como este. Meu marido diz que não, desde que eles tenham uma proteção contra o vento em tempos de tempestade. Os animais cavam a neve em busca de grama para comer, e quando ficam com sede podem comer a própria neve, o que, Dinky-Dunk me garante solenemente, quase nunca lhes dá dor de garganta! Mas a pradaria aberta, justamente nesta estação, é uma pastagem de aparência muito inóspita, e o brilho ininterrupto do branco faz meus olhos doerem.... Há uma grande tarefa interna que finalmente concluí, e essa é afinar meu piano. Ele deixava meu coração pesado, parado ali inútil, um monumento sombrio de grandeza irônica.
Quando menina, eu costumava observar o Alsaciano de pelo comprido de Katrinka ajeitando o seu piano de cauda, e eu sabia que meu ouvido era confiável o suficiente. Então, no segundo dia após a chegada do meu piano de meia cauda, fui à luta com uma chave inglesa. Mas aquilo foi um fracasso. Então fiz um desenho de uma chave de afinação e pedi a Olie que o levasse secretamente ao ferreiro de Buckhorn, que por sua vez fabricou uma grande monstruosidade de aço com cabeça oca que realmente se encaixa nos pinos onde as cordas do piano são presas, embora a referida monstruosidade seja pesada o bastante para atordoar um boi. Mas deu resultado, ainda que tenha levado cerca de dois meios-dias, e agora cada nota está correta. Então, agora tenho música! E Dinky-Dunk realmente aprecia minha execução nestas longas noites de inverno. Algumas noites deixamos Olie entrar e ouvir o concerto. Ele fica arrebatado, especialmente quando toco ragtime, que parece ser a única coisa que toca seu santo dos santos. Pobre Olie! Certamente tenho um bom amigo naquele sueco silencioso, fiel e rude!
Dinky-Dunk está tão magro que isso me preocupa. Mas ele come bem e não amaldiçoa minha culinária. Ele está começando a ter alguns fios de cabelo grisalhos nas têmporas. Acho que fazem com que pareça bastante distingué. Mas eles preocupam meu pobre Dinky-Dunk. "Hully Gee", disse ele ontem, estudando-se pela terceira vez no espelho de barbear, "estou ficando velho!" Ele riu quando comecei a assobiar "Believe me if all those endearing young charms, which I gaze on so fondly to-day", mas, no fundo, ele ficou realmente perturbado com a descoberta daqueles poucos fios brancos. Tenho lhe dito que as mulheres não vão mais amá-lo e que seus dias de galanteador acabaram. Ele diz que terei de compensar pelos outros. Então, parti para cima dele com meu nado crawl australiano. Levei uma hora para tirar o gosto de sabão de barbear da minha boca. Dinky-Dunk diz que sou tão cheia de vida que cintilo. Tudo o que sei é que sou feliz, suprema e ridiculamente feliz!
Domingo, trinta e um
O inevitável aconteceu. Não sei como escrever sobre isso! Não consigo escrever sobre isso! Meu coração desce como um elevador de carga, lenta e nauseantemente, mesmo quando penso nisso. Dinky-Dunk entrou e me viu estudando uma pequena fileira de datas escrita no papel de parede ao lado da janela do quarto. Fingi que estava arrumando a cortina. "O que há de errado, Lady Bird?", ele exigiu ao ver meu rosto. Calmamente disse a ele que não havia nada de errado. Mas ele não me deixou ir. Eu queria ficar sozinha, pensar nas coisas. Mas ele continuou me segurando ali, com meu rosto voltado para a luz. Suponho que eu devesse estar cheia de olhos e provavelmente tremendo um pouco. E eu não queria que ele suspeitasse.
"Desculpe-me se o acho insuportavelmente irritante!", disse com uma voz que era tão desesperadamente fria que surpreendeu até meus próprios ouvidos. Ele me soltou como se eu fosse uma batata quente. Pude ver que o havia magoado, e magoado muito. Meu primeiro impulso foi correr até ele com uma chuva de beijos arrependidos, como geralmente se faz, da mesma forma que se polvilha sal em manchas de vinho. Mas nele contemplei a causa original e completa — e simplesmente não consegui fazê-lo. Ele me chamou de diaba de espírito elevado com temperamento de gatilho fácil. Mas ele me deixou sozinha para pensar nas coisas.
Terça-feira, nove
Comecei a fazer minhas orações novamente. Isso assustou um pouco Dinky-Dunk, que se sentou na cama e me perguntou se eu não estava me sentindo bem. Prontamente assegurei a ele que estava com a melhor saúde. Ele não apenas concordou comigo, mas disse que eu estava gordinha como uma perdiz. Quando estou sozinha, no entanto, fico assustada e inquieta. Então, ajoelho-me todas as noites e manhãs agora e peço a Deus ajuda e orientação. Quero ser uma boa mulher e uma esposa melhor. Mas nunca deixarei Duncan saber — nunca!
Quarta-feira, dezessete
Você se lembra da tia Harriet, que sempre chorava ao ler The Isles of Greece? Ela nem sabia onde ficavam e nunca tinha estado a leste de Salem. Mas todos os Woodberry eram assim. Dinky-Dunk entrou e me encontrou chorando hoje, pela segunda vez em uma semana. Ele fez esforços tão valentemente ponderados para me animar, pobre rapaz, e balançou a cabeça e disse que logo eu seria uma melhoria do Sistema Snider, que é um sistema de irrigação por pulverização noturna a partir de canos! Meus nervos não parecem tão bons quanto antes. O inverno é tão longo. Já estou contando os dias para a primavera.
Quinta-feira, vinte e cinco
Dinky-Dunk concluiu que estou muito sozinha; ele tem se preocupado com isso. Posso notar. Tento não ser temperamental, mas às vezes simplesmente não consigo evitar. Ontem à tarde ele dirigiu até Casa Grande, orgulhoso como um pavão, com um gatinho preto e branco na dobra do braço. Ele percorreu quarenta e cinco quilômetros de trilha por aquele gatinho! Será minha companhia. Mas o gatinho está tão solitário quanto eu, e tem chorado, quase me deixando louca.
Terça-feira, dois
O tempo tem estado ruim, mas o inverno está indo embora. Dinky-Dunk tem ficado em casa sem trabalhar, nestas manhãs, ajudando-me com a casa. Ele é desajeitado e lento, e quebrou dois ou três pratos. Mas detesto dizer qualquer coisa; seus olhos tornam-se tão trágicos. Ele declara que, assim que as trilhas estiverem transitáveis, ele terá uma mulher para me ajudar, que esse tipo de coisa não pode continuar. Ele imagina que é apenas a monotonia do trabalho doméstico que está deixando meus nervos tão ruins.
Ontem de manhã eu estava secando a louça e Dinky-Dunk estava lavando. Encontrei a segunda colher com ovo nela. Não sei por que foi, mas aquela marca trivial de amarelo ao longo da borda da colher de repente pareceu me enfurecer. Tornou-se monumental, um emblema de vagas incapacidades que eu teria de enfrentar até o fim dos meus dias. Arremessei aquela colher de volta na bacia. Então me virei para meu marido e gritei para ele, com uma voz que não parecia muito a minha: "Oh, Deus, você não pode lavá-las direito? Não pode lavá-las direito?". Acho até que corri de um lado para o outro da sala e fiz muito bem o que Percival Benson chamaria de "um belo idiota" de mim mesma. Dinky-Dunk nem me respondeu. Mas secou as mãos, pegou suas coisas e saiu para o ar livre, para os estábulos, suponho. Seu rosto estava tão pálido quanto poderia estar. Senti pena; mas era tarde demais. E meus soluços não ajudaram em nada. E assustou-me, enquanto eu estava sentada pensando nas coisas, perceber que eu havia perdido meu senso de humor.
Quinta-feira, quatro
Dinky-Dunk acha que estou louca. Tenho certeza absoluta de que ele acha. Ele entrou ao meio-dia de hoje e me encontrou no chão com o gatinho. Eu tinha amarrado um pedaço de pele na ponta de um barbante. Oh, como aquele gatinho se atrapalhou atrás daquela pele, girando em círculo até cair sobre as próprias orelhas! Eu estava guinchando e fraca de tanto rir quando Dinky-Dunk parou na porta. Pobre rapaz, ele leva as coisas tão solenemente! Mas sei que ele acha que estou completamente louca. Talvez eu esteja. Chorei até dormir ontem à noite. E há vários dias tenho um desejo por caviar.
Quarta-feira, dezessete
A primavera está certamente chegando. Promete ser precoce. Sinto-me melhor com o pensamento disso e de sair novamente. Mas as estradas estão completamente intransitáveis. Que lama! Que oceanos de terra pegajosa! Dizem por aqui que o solo é tão rico quanto pegajoso. Se isso for verdade, Dinky-Dunk tem um segundo Jardim do Éden. Essa lama gruda em tudo, nos pés, nas roupas, nas rodas das carroças. Mas está começando a haver um calor real no sol que brilha através da minha janela.
Sábado, vinte e sete
Um Chinook quente lambeu o que restava da neve. Até Dinky-Dunk admite que a primavera está chegando. Por três horas seguidas, uma varejeira despertada tem zumbido contra o vidro da janela do meu quarto. Pergunto-me se a maioria de nós não é como aquela mosca, mistificada pela ilusão de luz que não consegue levar à liberdade? Esta manhã, vislumbrei Dinky-Dunk em seu casaco de pele, subindo na charrete. Sempre detestarei vê-lo com aquela vestimenta. Faz-me pensar em uma certa noite. E detestamos que a memória coloque o dedo em nossas cicatrizes mentais. Quando eu era menina, o segundo marido de tia Charlotte, um demônio, trancou-me naquela casa solitária de Derby deles porque joguei pedras nos cisnes. Então eles saíram para jantar em algum lugar e me deixaram prisioneira lá, onde fiquei ouvindo os sinos de Todos os Santos enquanto a casa gradualmente escurecia. E desde então, sinos ao entardecer me fazem sentir solitária e me deixam infeliz.
Mas o renascimento da charrete significa que a primavera está aqui novamente. E para o meu Dinky-Dunk isso significa mais trabalho. Ele é o que chamam de "rustler" por aqui. Ele acredita em velocidade. Ele nem espera até que o gelo saia do chão antes de começar a semear — apenas passa uma semeadora sobre uma camada de cinco centímetros de lama descongelada, ele está tão louco para começar cedo na terra. Ele diz que quer trigo precoce ou nada de trigo. Mas ele precisa de ajuda, e homens são quase impossíveis de conseguir. Ele esperava um trator a gasolina, mas não pode ser financiado nesta primavera, ele confessou para mim. E eu sei, no segredo do meu coração, que o trator teria estado aqui se não fosse pelo meu piano!
Ainda há centenas e centenas de acres de grama da pradaria para "arar" para o trigo de primavera. Dinky-Dunk declara que vai arriscar tudo no trigo este ano. Ele diz que, ao trabalhar com duas juntas de cavalos, ele mesmo pode semear quarenta acres por dia, mas isso significa manter os cavalos ao trote parte do tempo. Ele está pensando tanto em sua colheita que o acusei de me negligenciar.
"O verniz está começando a sair?", perguntei com um gole secreto de autopiedade feminina. Ele salvou o dia declarando que eu estava tão louca e tão adorável quanto sempre fui. Então ele me perguntou, um tanto tristemente, se eu estava entediada. "Entediada?", disse eu, "como poderia estar entediada com todos esses desconfortos? Ninguém fica entediado até estar confortável!". Mas logo depois de ter dito isso, arrependi-me.
Terça-feira, seis
A primavera está aqui, com um Chinook quente rastejando das Montanhas Rochosas e um céu de azul-ovo-de-robin. Os gophers saíram de seus quartéis de inverno e estão tagarelando e correndo por aí. Vimos uma falange de gansos selvagens indo para o norte, e Dinky-Dunk diz que viu inúmeros patos. Eles voam em Vs sinuosas, e adoro vê-los derreter na linha do horizonte. O chão da pradaria está se tornando o mais adorável dos verdes, e é uma alegria simplesmente estar viva. Estive fora a tarde toda. Os gophers não vão me vencer!
Segunda-feira, doze
O que você diria se visse Brunhild dirigir até a porta dos fundos da sua casa? O que você faria se descobrisse uma deusa nórdica observando-a placidamente de um banco de carroça verde? Como você agiria se visse uma grande Valquíria loira se apresentando repentinamente aos seus pequenos assuntos terrenos?
Bem, você pode se perguntar por que eu encarei, cheia de olhos, quando Dinky-Dunk trouxe para casa uma figura como essa, na forma de uma garota finlandesa chamada Olga Sarristo? Olga trabalhará nos campos e me ajudará quando tiver tempo. Mas nunca me acostumarei a ter uma Lenda Nórdica parada ao meu lado, pois Olga é a criatura mais maravilhosa que já vi. Digo isso sem dúvida e sem exagero. E o que tornou o quadro completo, ela veio dirigindo uma junta de bois — pois Dinky-Dunk precisará de cada cavalo e animal de tração que puder colocar as mãos. Simplesmente prendi a respiração enquanto olhava para ela, lá no alto de seu banco de carroça, bloqueada em silhueta contra a linha do horizonte pálida, uma Brunhild com botas de couro bovino. Ela usava uma anágua azul-clara e um xale preto com aspecto sueco com flores de cores vivas bordadas ao longo da bainha. Ela não usava chapéu. Mas tinha duas grandes tranças de cabelo de ouro pálido, quase tão grossas quanto meu braço, e penduradas quase até os joelhos. Ela parecia colossal lá no banco da carroça, mas quando desceu ao solo não era tão imensa. Ela é, no entanto, uma mulher grande e robusta, e não acho que já tenha visto tais ombros! Ela é Olímpica, Titânica! Ela me faz pensar na Vênus de Milo; há tal grandiosidade, calma e suavidade de superfície nela. Suponho que um Saint-Gaudens pudesse dizer que sua boca era grande demais e um Gibson poderia acrescentar que seu nariz não tinha a retidão estreita da estátua grega, mas ela é uma linda, uma linda... "mulher" era a palavra que eu ia escrever, mas a palavra "animal" simplesmente se intromete, como uma vaca estabulada insistindo em sua própria baia. Mas se você a considera apenas como animal, deve pelo menos aceitá-la como um perfeito. Sua boca é grande, mas nunca vi lábios tão vermelhos, cheios, vermelhos e úmidos. Sua testa é baixa e quadrada, mas lisa como leite, e sei que ela poderia quebrar um osso de galinha entre aqueles dentes brancos dela. Até sua língua, notei, é vermelha como melancia. Ela deve ser saudável. Dinky-Dunk diz que ela é um achado, que ela pode dirigir uma semeadeira dupla tão bem quanto qualquer homem no Oeste, e que, ao contratá-la para a temporada, ele obtém o uso da junta de bois também. Ele me avisou para não perguntar sobre sua família, já que apenas algumas semanas atrás seu pai e irmão mais novo foram queimados até a morte em sua cabana, a cem milhas ou mais ao norte de nós.
Terça-feira, vinte
Olga está conosco há uma semana, e ela ainda me fascina. Ela está instalada no anexo e parece calmamente satisfeita com o ambiente. Ela trouxe tudo o que possui amarrado em um saco de aveia. Dei a ela algumas das minhas coisas, pelas quais ela parece silenciosamente grata. Ela raramente fala e nunca ri. Mas estou ensinando-a a dizer "sim" em vez de "yaw". Ela me estuda com seus límpidos olhos azuis e, se ela é silenciosa, nunca é rabugenta. Ela não tem a testa e o maxilar pesados das mulheres galicianas e não tem a feição asiática que pertence ao camponês russo. E ela tem a melhor boca de dentes que já vi em uma cabeça humana — e ela nunca usou uma escova de dentes na vida! Ela tem apenas dezenove anos, mas que busto, que membros, que força!
Isso é muito falar sobre Olga, receio, mas você deve lembrar que Olga é um evento. Eu esperava que Olie ficasse atordoado com sua chegada, mas eles parecem se tratar com desprezo silencioso. Suponho que seja porque, racialmente e fisicamente, são do mesmo tipo. Estou ansiosa para ver o que Percival Benson pensa de Olga quando ele voltar — eles seriam opostos. Olga está trabalhando com sua junta de bois na terra. Dois dias atrás, montei em Paddy e a observei. Havia algo homérico nisso, algo que Sorolla teria aproveitado. Ela parecia tão parecida com seus bois. Ela se movia como eles, e seus olhos eram como os deles. Ela tem a mesma força e solenidade quando caminha. Ela é tão primitiva, natural e instintiva em suas ações. Ontem, depois do jantar, ela se encolheu em uma pilha de feno em uma extremidade do curral e adormeceu por alguns minutos, estirada na forte luz do meio-dia. Vi Dinky-Dunk parar a caminho do estábulo e ficar parado olhando para ela. Escorreguei para fora ao lado dele. "Deus, que mulher!", ele disse em voz baixa. Uma vaga pontada de ciúme percorreu-me ao ouvi-lo dizer aquilo. Então olhei para sua mão, grande, relaxada, endurecida com todos os tipos de clima e calejada com o trabalho pesado. E desta vez foi uma pontada igualmente vaga de pena que me percorreu.
Segunda-feira, vinte e seis
A correria começou, e Dinky-Dunk está sempre fora antes das seis. Se é verdade, como alguém disse uma vez, que os prazeres da vida dependem de suas ansiedades, então deveríamos ser uma casa hilariante. Todos estão ocupados, e eu faço o que posso para ajudar. Não sei por que, mas encontro um conforto estranho no pensamento de ter outra mulher perto de mim, mesmo Olga. Ela também me ajuda muito com o trabalho doméstico. Aquelas mãos enormes dela têm uma destreza que você nunca imaginaria. Ela acha o piano uma espécie de milagre, e eu, um segundo milagre por ser capaz de tocá-lo. À noite, ela se senta em um canto, o canto mais escuro que consegue encontrar, e ouve. Ela nunca fala, nunca se move, nunca expressa um pingo de emoção. Mas, na penumbra, muitas vezes consigo captar o brilho animal de seus olhos. Eles parecem quase fosforescentes. Dinky-Dunk recebeu uma longa carta de Percival Benson hoje. Foi interessante e casualmente alegre, exatamente do jeito certo. E Percy diz que estará de volta à propriedade Titchborne em algumas semanas.
Quarta-feira, vinte e oito
Olga atravessou as tábuas da carroça e teve um corte feio na perna. Ela me mostrou a extensão de seus ferimentos, sem a menor hesitação, e eu lhe dei o primeiro atendimento com minha vaselina carbolizada. E, mais uma vez, tive de pensar na Vênus de Milo, pois era um joelho como o de uma estátua, branco como leite, redondo e liso, com uma pele como a de um bebê, e tão diferente de seus antebraços queimados de sol. Era mais olímpico do que da Quinta Avenida. Era uma perna que me fez pensar, não em Rubens, mas em Ticiano, e meus pensamentos foram imediatamente para a dama à direita do "Amor Sagrado e Amor Profano", no Borghese; havia tal suavidade e arredondamento combinados com sua força. E Dinky-Dunk entrou e ficou parado olhando para aquilo, ele mesmo, sem a menor palavra de desculpa. Olga olhou para ele sem um piscar de seus olhos bovinos. Só quando fiz um movimento irritado para ela baixar a saia é que ela percebeu qualquer necessidade de cobrir o joelho de Ticiano. Mas, novamente, senti aquela estranha pontada de ciúme agulhar-me ao ver seu rosto. Pelo menos suponho que fosse ciúme, o ciúme de uma pequena Mona Lisa astuta que nem sequer se classificava com os semideuses. Quando Olga se foi, no entanto, eu disse a Dinky-Dunk: "Não é um membro para a vida?"
Ele apenas disse: "Nós não cultivamos membros aqui, Tabby. São pernas, apenas pernas simples!"
"Tudo menos simples!", corrigi-o. Então ele admitiu que já tinha visto aqueles joelhos antes. Ele tropeçou em Olga e seu irmão com lama e esterco de vaca até os joelhos, pisando em uma mistura para rebocar sua cabana, da mesma forma que os Doukhobors fazem. Isso me deixou menos invejosa daqueles joelhos junonianos.
Segunda-feira, dois
Criar galinhas é algo muito mais complicado do que o observador externo imagina. Por exemplo, várias das minhas melhores galinhas, totalmente intocadas pelo espírito moderno de inquietação feminina, têm desenvolvido o "choco" e eu tenho tentado "quebrá-las", como dizem os avicultores. Mas elas estão determinadas a chocar. Esse instinto materno é uma coisa muito boa à sua maneira, mas tem estragado muitos ovos bons. Então, tenho tentado emancipar essas fêmeas arrepiadas. Eu as levanto do ninho pelas penas da cauda, dez vezes ao dia. Jogo água fria em seus rostos maternos solenes. Coloco pequenos anéis de arame farpado sob seus peitos sentimentais. Mas elas ainda chocam. E uma, tendo me bicado no pulso até o sangue sair, teve suas orelhas prontamente puxadas — diante do fato de que todos os criadores de aves reconhecem que a bondade para com uma galinha melhora suas qualidades de postura.
Quinta-feira, cinco
Casa Grande é uma colmeia de atividade. Cada um tem um papel a desempenhar. Já não se espera que eu me sente perto da lareira e ronrone. À noite, eu costuro. Dinky-Dunk é tão descuidado com suas roupas! Quando não estou colocando remendos, estou pregando botões. Depois, vamos para a cama às nove e meia. Às nove e meia, pensem nisto! Aquela pequena eu, que mais de uma vez ia cantarolando pela Quinta Avenida quando a manhã despontava cinzenta sobre o East River, e frequentemente deixava o Sherry’s (oh, aqueles queridos e velhos tempos de dança!) quando as carroças de leite passavam estrondosamente pela Rua Quarenta e Quatro, e certa vez anunciei triunfantemente, ao sair do Dorlon’s e estudar o antigo relógio Oyster-Letter, que tinha resistido até Y minutos passados de O! Mas não é nenhum sacrifício levantar às cinco nestas manhãs gloriosas. Os dias ficam mais longos e o tempo está perfeito. E a pradaria parece que foi submetida a um aspirador de pó durante a noite. Positivamente, existe uma faxineira que refaz este velho mundo enquanto dormimos! Pela manhã, está impecável como um alfinete novo. E aqui fora todos pensam no dia que virá; Dinky-Dunk, em sua colheita; Olga, no par de espartilhos azul-celeste que encomendei para ela na casa de vendas por catálogo de Winnipeg; Olie, na impermeabilização final dos celeiros para que o trigo não se estrague mais; Gee-Gee, ela mesma, em... em algo sobre o qual quase tem medo de pensar.
Dinky-Dunk, em seus momentos de provocação, diz que agora sou uma velha mulher casada, que estou sossegada, que já comi minha fatia de bolo! Talvez eu tenha. Não sou imaginativa, então preciso depender dos outros para minha alegria de viver. Sei agora que nunca poderei criar, nunca realmente me expressar de maneira que valha a pena, seja no papel, na tela ou no teclado. E pessoas sem imaginação, suponho, simplesmente têm que voltar às simplicidades raciais — o que significa que terei que ter uma família, alimentar bocas famintas e manter um lar. E terei que obter toda a minha arte de segunda mão, de revistas, discos de gramofone e moldes de gesso. Apenas uma dona de casa! E eu, outrora, tanto queria ser algo mais! No entanto, pergunto-me se, afinal, uma coisa é muito melhor que a outra? Será? E aqui vem meu Dinky-Dunk, e em três minutos ele estará me beijando na ponta do queixo e perguntando o que teremos de bom para o jantar! E isso é melhor do que a fama! Pois durante toda a tarde aqueles doze versinhos de Dobson ficaram passando pela minha cabeça:
A fama é um alimento que os mortos comem — Não tenho estômago para tal carne. Em quartos estreitos e pouco iluminados, Eles a comem nos túmulos silenciosos, Sem a voz bondosa de nenhum companheiro por perto Para convidar o banquete a ser de alegria.
Mas a Amizade é uma coisa nobre — Da Amizade é bom cantar, Pois verdadeiramente, quando um homem chega ao fim, Ele vive na memória de seu amigo Que relembra a sua melhor parte E faz dos seus defeitos um funeral!
Mas quando você coloca a palavra "amor" ali em vez de "amizade", você torna ainda melhor... Olga, a propósito, não é tão estúpida quanto você poderia imaginar. Ela descobriu algo que eu não pretendia que ela descobrisse... E Olie, também a propósito, resolveu o problema de "quebrar" minhas galinhas chocas. Ele fez um galinheiro suspenso com fundo de tela de arame, que lembra em tudo os jardins suspensos da Babilônia, e nele todas as mães arrepiadas foram colocadas e o galinheiro pendurado na parede do galinheiro. Arame aberto é uma coisa muito desconfortável para se chocar, e essas galinhas finalmente descobriram esse fato. Eu estive lá fora olhando para elas. Nunca vi tal parlamento de indignação solene. Mas o orgulho delas foi quebrado, e elas estão começando a mostrar um interesse mais saudável em suas refeições.
Terça-feira, dia dez
Tenho me perguntado se Dinky-Dunk vai se apaixonar por Olga. Ontem eu o vi encarando o pescoço dela. Ela é o tipo de mulher que realmente tornaria o tipo certo de esposa para o deserto. Ela parece uma parte integrante da pradaria, de peito largo, fecunda, opulenta. E ela é tão plácida, grande, de fala mansa e fácil de conviver. Ela não tem minhas variações de humor e acessos de raiva.
Os espartilhos dela chegaram hoje, e eu a ensinei a colocá-los. Ela está imensamente orgulhosa deles, mas, a meu ver, eles só a tornam ridícula. É tão tolo quanto colocar um toque francês em um de seus bois. A pele dos grandes ombros de Olga é tão lisa e cremosa quanto a de um bebê. Tenho observado os olhos dela. Não são azul-escuros, mas, sob uma luz lateral forte, parecem poços profundos de luz, camada sobre camada de azul. E ela é misteriosa para mim, calma e magnificamente inescrutável. E eu um dia a achei um animal rude. Mas ela é de grande ajuda. Ela plantou fileiras e fileiras de ervilhas de cheiro por toda a Casa Grande e está começando a fazer uma horta, que pretende cercar e cuidar com as próprias mãos. Será duas vezes maior que a de Olie. Mas espero que ela nunca se torne algo misterioso para o meu Dinky-Dunk. Esta manhã, ela disse que eu deveria trabalhar no jardim, que quanto mais eu me mantivesse de pé, melhor seria para mim mais tarde.
Quanto a Dinky-Dunk, o pobre rapaz está trabalhando até ficar abatido. No entanto, cansado como está, ele tenta ler algumas páginas de algo que valha a pena todas as noites. Às vezes, revezamo-nos na leitura. Ontem à noite, ele me passou seu volume de Spencer com uma marca de lápis ao longo de uma passagem. Esta passagem dizia: "A atividade intelectual nas mulheres é passível de ser diminuída após o casamento por aquele antagonismo entre individuação e reprodução, operante em toda parte ao longo do mundo orgânico". Não sei por que, mas essa passagem me deixou furiosa como uma vespa. No fundo da minha mente, guardava alguma memória vaga de George Eliot certa vez flagrando esse mesmo filósofo Spencer pescando com uma mosca composta e, comentando sua paixão por generalizações, declarando que ele até pescava com uma generalização. Então, pude rir. "A ideia de tragédia de Spencer", eu disse a Dinky-Dunk, "é uma dedução morta por um fato!" E novamente sorri meu sorriso de Mona Lisa. "E eu serei um dos fatos!" proclamei orgulhosamente.
Dinky-Dunk, depois de pensar sobre isso, caiu na risada. "Sabe, Gee-Gee", anunciou ele solenemente, "há momentos em que você parece quase inteligente!" Mas eu não fui inteligente neste caso, pois foi horas depois que vi a armadilha que Dinky-Dunk tinha armado para mim!
Segunda-feira, dia dezesseis
Durante todo o sábado, Olga e Dinky-Dunk estiveram fora na carroça, trabalhando longe demais para voltar para o jantar. O pensamento de eles estarem lá fora, lado a lado, pairava sobre mim como uma nuvem. Lembrei-me de como ele tinha encarado distraidamente a coluna branca do pescoço dela. E imaginei-o parando em seu trabalho e estudando sua blusa de algodão azul desbotada, puxada bem apertada sobre a linha daquele busto opulento. Que homem não ficaria impressionado com tal magnificência corporal, tal juventude e força luxuriantes e ondulantes? E há algo tão suave e difuso naqueles olhos bovinos dela! Você não pensa, então, que os olhos dela sejam de um azul tão pálido, assim como você não poderia parar para acusar o luar de verão de não ser avermelhado. E aqueles olhos azuis imperturbáveis nunca parecem ver você; eles parecem antes banhá-lo em um olhar tão suave e impessoal quanto o próprio luar.
Eu simplesmente não aguentei mais. Montei no Paddy e galopei até meu Dinky-Dunk, como se fosse meu súbito e solene dever salvá-lo de alguma catástrofe iminente e terrível.
Parei no caminho para observar um par de galinhas-da-pradaria dançando minuete através das voltas de seus cortejos primaveris. Os pequenos pedintes pomposos, com barbelas infladas e babados no pescoço, estavam positivamente fazendo cancãs e passos de dois ao longo do chão da pradaria. O amor estava no ar, naquela tarde perfeita de primavera, até mesmo para o mundo animal. Então, em vez de cavalgar aberta e honestamente até Dinky-Dunk e Olga, mantive-me escondida o máximo que pude e os persegui, como se fosse um lobo cinzento.
Então, senti-me completa e indescritivelmente envergonhada de mim mesma, pois avistei Olga no alto de sua carroça, como uma Valquíria em uma nuvem, e Dinky-Dunk trabalhando arduamente a uns bons três quilômetros de distância.
Ele ficou um pouco surpreso ao me ver chegar trotando no Paddy. Não sei se foi bobagem ou não, mas contei a ele exatamente o que me trouxera. Ele me abraçou como um urso e depois sentou-se na pradaria e riu. "Com aquela vaca?" ele gritou. E tenho certeza de que nenhum homem jamais poderia chamar a mulher que ama de vaca... Acredito que Dinky-Dunk suspeita de algo. Ele acabou de me pedir para ser mais cuidadosa ao montar no Paddy. E ele tem sido mais solenemente gentil ultimamente. Mas eu nunca direi a ele — nunca — nunca!
Terça-feira, dia vinte e quatro
Percy estará de volta amanhã. Será um país com aparência diferente do que era quando ele partiu. Tenho olhado para um céu cobalto e começo a entender por que as pessoas costumavam pensar que o Céu ficava em algum lugar no meio de tal azul celestial. E na pradaria o céu é seu primeiro e último amigo. Não foi Emerson quem disse em algum lugar que o firmamento era o pão de cada dia para os olhos? E oh, o adorável chão esverdeado da terra do trigo agora! Tal glória amarelo-esverdeada suave estendendo-se tão longe em todas as direções, crescendo tão mais profundamente dia após dia! E o sol, o espaço e a luz clara na linha do horizonte, as colunas de fumaça a quilômetros de distância e a promessa maravilhosa e misteriosa que paira sobre este abundante, largo e fervilhante seio da terra! Isso me emociona de uma maneira que não consigo explicar. De noite e de dia, antes do café da manhã e depois do jantar, a conversa é sobre trigo, trigo, trigo, até quase enlouquecer. Reclamei com Dinky-Dunk que ele estava sonhando trigo, vivendo trigo, respirando trigo, que ele e todo o resto do mundo pareciam loucos por trigo.
"E há apenas uma outra coisa de que você deve se lembrar, Lady Bird", foi sua resposta. "Todo o resto do mundo está comendo trigo. Não pode viver sem trigo. E eu prefiro estar cultivando o pão que alimenta os famintos do que enriquecer fabricando cordita e canhões Krupp!" Então ele está arriscando tudo nesta colheita sua, e está eternamente calculando, planejando e se preparando para a grande débacle. Ele diz que será como uma batalha. E nenhum general entra em uma batalha sem estar preparado para ela. Mas, quando lemos sobre os acontecimentos do mundo exterior, parece ler sobre fatos que ocorreram no planeta Marte. Somos nosso próprio pequeno mundo agora, autossuficiente, arredondado, completo.
Sexta-feira, dia três
Duas coisas de vasta importância aconteceram. Dinky-Dunk fez as malas e partiu para Edmonton para entrevistar alguns funcionários da ferrovia, e Percy está de volta. Dinky-Dunk é tão misteriosamente silencioso quanto ao assunto de sua viagem que temo que esteja preocupado com questões financeiras. E ele me perguntou se eu me importaria de manter as despesas domésticas tão baixas quanto pudesse, sem privações reais, pelos próximos meses.
Quanto a Percy, ele parecia um pouco contido, mas parecia muito melhor. Ele está bem bronzeado, gosta da Califórnia e diz que deveríamos ter um bangalô de inverno lá (e Dinky-Dunk apenas me avisando para economizar nos centavos da despensa!). Ele trouxe consigo uma senhora inglesa exigente como governanta, uma tal Sra. Watson, e ela parece capaz e prática. Apesar do fato de parecer ter saído diretamente de Dickens e carregar um enorme gato de Manx consigo, Percy disse que achava que eles se arranjariam de alguma forma. Rapaz atencioso que era, trouxe-me uma mala cheia dos romances e revistas mais recentes, e um pote de dois quilos de tabaco para Dinky-Dunk.
Quinta-feira, dia nove
Um Belasco não poderia ter encenado com mais cuidado o primeiro encontro entre Percy e Olga. Senti que ela era minha descoberta e queria apresentá-la a ele no momento certo e da maneira certa. Eu queria obter o efeito de Valquíria em uma nuvem. Então, mantive Percy na casa sob o pretexto de lhe dar uma xícara de chá, até que pudesse ouvir o estrondo da carroça e saber que Olga estava voltando para casa com sua parelha. Aconteceu que, quando ouvi o primeiro trovão distante e fraco daquela carroça que voltava, Percy estava sentado na minha poltrona, com uma xícara da minha porcelana mais fina em uma mão e um exemplar de _Marius, o Epicurista_, de Walter Pater, na outra. Tínhamos falado sobre clima, e ele queria procurar a passagem onde Pater dizia: "sempre se morre de frio" — o que considero uma calúnia contra o Noroeste!
Não pude deixar de notar, enquanto observava Percy, o rosto fino e supersensível, o nariz de arco alto e excessivamente refinado, e os ombros estreitos, curvados e excessivamente delicados, o quanto ele era o oposto direto de Olga, em todos os aspectos. Em vez de porcelana fina e Pater em sua mão naquele exato momento, lembrei-me de que ela provavelmente teria um garfo de quatro dentes ou um tensor de cerca manchado de lama.
Fui até a porta e olhei para fora. No momento apropriado, chamei Percy. Olga estava em pé na carroça, balançando em torno de uma esquina do curral. Ela estava com os ombros bem para trás, pois seu peso já estava nas rédeas para parar a parelha. A barra de sua saia azul solta estava tremulando ao vento, mas na frente estava presa contra suas pernas, como a cortina da figura da Paz na estátua de Sherman na Plaza. Através daquele busto semelhante ao de Ártemis, sua cintura fina estava esticada. Ela não usava chapéu, e seu cabelo loiro pálido, que tinha sido trançado e torcido em uma coroa pesada, tinha o brilho de metal nele, sob o sol do final da tarde. E naquele brilho claro de luz, que tantas vezes prega truques de miragem com a visão, ela surgiu como um semideus, ou uma mercúrio-fêmea que deveria ter tido pequenas rodas de bicicleta presas aos calcanhares.
Percy nunca é efusivo. Mas pude ver que ele estava mais do que impressionado. Ele estava maravilhado.
"Meu Deus!" disse ele muito baixinho.
"Com o que ela faz você pensar?" indaguei.
Percy pousou sua xícara de chá.
"Não vá embora", ordenei, "mas me diga com o que ela faz você pensar." Ele ainda estava parado, olhando para ela com os olhos franzidos.
"Ela é como uma banda de música passando!" ele proclamou. "Não, ela é mais do que isso; ela é Wagner sobre rodas", disse ele finalmente. "Não, não isso! Um mito nórdico em cambraia!"
Eu disse a ele que não era cambraia, mas ele estava interessado demais em Olga para me ouvir.
Meia hora depois, quando ela o encontrou, ela estava muito tímida. Ela ficou com um tom de rosa adorável e, em seguida, calmamente abotoou os dois botões superiores de sua blusa, que estavam soltos. E notei que Percy fez exatamente o que vi Dinky-Dunk fazer uma vez. Ele sentou-se, encarando distraidamente, mas com estudo, a coluna branco-leitosa do pescoço de Olga! E tive que falar com ele duas vezes antes mesmo que ele acordasse para o fato de que estava sendo abordado por sua anfitriã.
Quarta-feira, dia quinze
Dinky-Dunk está de volta e muito ocupado novamente. Durante o dia, mal consigo vislumbrá-lo, exceto nas horas das refeições. Tenho a sensação crescente de estar sendo negligenciada, mas sei como um homem preocupado odeia a petulância. A coisa realmente importante é que Percy está dando aulas de leitura e escrita para Olga. Pois, embora finlandesa, ela é uma finlandesa canadense de quase a sombra dos subárticos e teve pouca chance de educação. Mas sua mente não é obtusa.
Ontem perguntei a Olga o que ela achava de Percival Benson. "Eu gosto dele", ela admitiu calmamente em seu modo majestoso e monossilábico. "Ele é um homenzinho engraçado." E o "homenzinho engraçado", que na verdade não é pequeno, parece gostar de Olga, por mais estranho que possa soar. Eles são tão opostos, tantas contradições! Percy diz que ela é homérica. Ele diz que nunca viu olhos tão límpidos, ou poças de paz e calma tão profundas. Ele insiste no fato de que ela é essencialmente maternal, tão maternal quanto o solo sobre o qual caminha, como Percy colocou. Contei-lhe o que Dinky-Dunk já me tinha dito sobre Olga matar um touro. O touro era um bruto cruel que atacara seu pai e o derrubara. Ele estava atacando o homem caído com as patas dianteiras quando Olga ouviu seus gritos. Ela prontamente veio para cima daquele touro com um forcado. E falando em Homero, deve ter sido uma batalha bastante épica, pois ela matou o touro e deixou os dentes do forcado oito centímetros cravados em seu corpo enquanto pegava seu pai e o levava de volta para a casa. E eu não mato nem minhas próprias galinhas, tendo sempre nomeado Olie como o executor.
Sexta-feira, dia dezessete
É engraçado ver Percy ensinando Olga. Ela o observa como se ele fosse um homem milagroso. Seus lábios vermelhos e úmidos formam as palavras lentamente, e a garganta branca e cheia as profere de forma ampla, laboriosa, colocando instrumentos nelas e, de uma maneira talvez rude, torna-as adoráveis. Sento-me com minha costura, ouvindo. Às vezes, abro o piano e toco. Mas sinto-me por fora. Parece que estou na periferia de coisas que são momentosas apenas para outras pessoas. Ontem à noite, quando Percy disse que achava que venderia seu rancho, Dinky-Dunk levantou os olhos de sua mesa cheia de papéis e disse-lhe para se agarrar àquela terra como um carrapato. Mas ele não explicou por quê.
Sábado, dia dezenove
Não consigo nem me lembrar da data. Mas sei que o verão chegou, que os homens estão tão ocupados que tenho que me virar sozinha, e que a conversa continua sobre trigo, sobre como ele está espigando e como o tempo seco das últimas semanas afetará o comprimento do palha. Dinky-Dunk está fazendo esforços desesperados para conseguir homens para cortar o feno selvagem. Ele comprou os direitos de feno de um grande trecho entre alguns pântanos a cerca de onze quilômetros a leste de nossa propriedade. Ele diz que homens são mais raros que dentes de galinha, mas conseguiu a promessa de alguns malfeitores que foram expulsos de um trem de carga perto de Buckhorn. Percy se ofereceu para ajudar e estava convencido de que conseguiria dirigir um cortador de grama. Olie, que nutre um vasto desprezo por Percy e, secretamente acredito, ressente-se um pouco de suas atenções para com Olga, colocou a nova parelha de potros no cortador. Eles prontamente fugiram com Percy, que ficou por um triz de ser jogado diante da lâmina do cortador, o que o teria transformado em carne moída muito pouco acadêmica. Olga montou em um cavalo, sem sela, e reuniu os potros. Depois, ela mimou o pobre e machucado Percy e tentou convencê-lo a vir para a casa. Mas Percy disse que ia dirigir aquela parelha, mesmo que tivesse que ser amarrado ao assento do cortador. E, estranhamente, ele "os venceu", como Olga expressou, mas isso o esgotou e murchou seu colarinho e o suor escorria pelo seu rosto quando ele entrou ao meio-dia. Olga está muito orgulhosa dele. Mas ela anunciou que ela mesma dirigiria aquele cortador e atacou Olie por dar a um novato uma parelha como aquela para dirigir. Foi seu primeiro acesso. Não consegui entender uma palavra do que ela disse, mas sei que ela foi magnífica. Ela parecia uma estátua da Justiça que tinha saltado de repente de seu pedestal e estava fazendo o seu melhor para colocar um Daniel Webster fora de cena!
Sexta-feira, dia vinte e oito
O tempo continua muito seco. Mas Dinky-Dunk tem certeza de que isso não afetará sua colheita. Ele diz que os filamentos de uma planta de trigo vão quase sessenta centímetros de profundidade em busca de umidade. Ontem, Percy apareceu com uma camisa de flanela e sem seus óculos. Acho que ele está praticando calistenia secretamente. Ele disse que ia cortar esse chá da tarde, porque não parece combinar com a vida na pradaria. Imagino que vejo a influência rebarbarizante de Olga agindo sobre Percival Benson Woodhouse. Ou Dinky-Dunk ou Olie, descobri, escondeu minha sela!
Sábado, dia vinte e nove
Dinky-Dunk tem estado terrivelmente ocupado com a debulha. A máquina de debulha é uma criatura ruidosa e esfomeada que parece devorar todo o nosso tempo e toda a nossa energia. O barulho é ensurdecedor, e o pó de palha se infiltra por todas as frestas da Casa Grande. Olga tem trabalhado como um homem, ajudando a levar a água e a comida para os homens que trabalham na máquina. Me sinto tão inútil, tão frágil, observando todo esse esforço titânico para colher os frutos da terra. O trigo está todo empilhado em montes dourados que brilham sob o sol de outono, e cada grão parece representar uma gota de suor de meu pobre Dinky-Dunk.
Ontem à noite, enquanto a lua surgia sobre a vasta escuridão da pradaria, sentei-me na varanda com Dinky-Dunk. Ele estava exausto, com as mãos calejadas e o rosto marcado pelo cansaço, mas havia um brilho de satisfação em seus olhos. Ele me contou que a safra foi melhor do que o esperado, que teremos o suficiente para garantir nosso futuro e talvez até expandir nossas terras na próxima estação. Fiquei em silêncio, sentindo o peso de suas palavras e a imensidão do que havíamos construído juntos neste lugar, longe de tudo o que eu um dia considerei importante. Perguntei-lhe se ele se arrependia de ter me trazido para cá, e ele apenas riu, aquele riso profundo e seguro que me faz sentir que, apesar de todos os meus medos, estou exatamente onde deveria estar.
Hoje, o ar está estranhamente parado, com aquele silêncio denso que precede as mudanças de estação. Sinto uma paz que não conhecia antes, uma quietude que se aprofunda conforme os dias ficam mais curtos. O medo que me assombrava parece ter se dissipado na vastidão deste horizonte, dissolvido pela rotina simples e honesta da vida no campo. Talvez seja a maturidade, ou talvez seja apenas a aceitação de que a vida, em sua forma mais bruta e direta, possui uma beleza que não pode ser capturada por versos ou pinturas. Sou uma mulher da pradaria agora, e embora ainda guarde meus segredos sob a superfície, não sinto mais a necessidade de fugir deles.
A colheita está quase no fim, e o inverno se aproxima com seu hálito gelado. Dinky-Dunk começou a preparar a casa para os meses frios, reforçando as paredes e estocando suprimentos como se estivéssemos nos preparando para um cerco. E, de certa forma, estamos — um cerco contra os elementos, contra o isolamento, contra o esquecimento. Mas, enquanto tivermos um ao outro e esta terra que nos sustenta, não temo o que virá. Sinto-me forte, mais forte do que jamais fui em Paris ou em qualquer outro lugar. A vida me moldou, me quebrou e me reconstruiu, e estou grata por cada cicatriz e cada momento de alegria compartilhada. O sol se põe, pintando o céu com tons de violeta e fogo, e pela primeira vez, não sinto falta de nada além deste instante.
Em primeiro lugar, tudo parecia cinzento. A cama era cinzenta, meus próprios braços eram cinzentos, as paredes pareciam cinzentas, o vidro da janela era cinzento e até o rosto de Dinky-Dunk era cinzento. Não quis me mover, por um longo tempo. Depois, encontrei forças para dizer à Sra. Watson que queria falar com meu marido. Ela estava embrulhando algo em flanela macia e murmurando carinhosamente sobre aquilo, chamando-o de um cordeirinho abençoado. Quando o pobre Dinky-Dunk, de rosto pálido, inclinou-se sobre a cama, perguntei-lhe se o bebê tinha o queixo retraído, ou se tinha um nariz como o de Olie. E ele disse que não tinha nenhum dos dois, que era um menino magnífico e que sabia berrar como um valente.
Então, contei a Dinky-Dunk o que guardara em minha alma secreta por tantos meses. O tio Carlton tinha um queixo retraído, um tipo de queixo sem ossos, com papada, que eu sempre detestara, e eu temia que isso pudesse, de certa forma, saltar uma geração e se fixar em minha inocente prole. Depois, mais tarde, temi o nariz congelado de Olie, com a fenda no centro. E, durante todo o tempo, ficava me lembrando do que a velha enfermeira negra dos Morley me dissera quando eu era uma colegial, uma menina de apenas dezessete anos, passando minhas primeiras férias na Virgínia: "Meu Deus, menina, você não é maior que um minuto! Nunca tenha um bebê, menina!"
Não é engraçado como essas tolices antigas ficam presas na memória de uma mulher? Pois tive meu bebê e ainda estou viva, e embora às vezes desejasse uma menina, Dinky-Dunk está tão ridiculamente orgulhoso e feliz por ser um menino que não me importo muito. Mas vou ficar boa e forte em poucos dias, e aqui contra meu peito seguro o pedacinho mais adorável, pulsante e masculino, a esperança mais querida, solene, plácida e rosada da raça branca que já tornou a vida plena e perfeita para uma mãe tola.
O médico que finalmente chegou — quando tanto Olga quanto a Sra. Dixon concordaram que ele não poderia fazer absolutamente nada — anunciou que eu passara por tudo como a verdadeira Mulher da Pradaria que eu era. Então, ele explicou de forma algo pomposa e redundante que eu era uma indivíduo altamente organizado, "um tanto tensa", como disse a Sra. Dixon. Sorri contra o travesseiro quando ele se voltou para meu Dinky-Dunk de olhos ansiosos e, de forma condescendente, discorreu sobre o fato de que não havia nada de anormal em uma mulher como eu ser — bem, um tanto anormal quanto ao temperamento e nervos nos últimos meses. Mas Dinky-Dunk o interrompeu.
"Pelo contrário, senhor; ela foi maravilhosa, simplesmente maravilhosa!" declarou Dinky-Dunk com firmeza. Então, ele alcançou minha mão sob a colcha. "Ela foi um anjo!"
Apertei a mão que segurava a minha. Então olhei para o médico, que se virara para dar algumas ordens a Olga.
"Doutor", declarei com a mesma firmeza, "eu fui um verdadeiro demônio, e este querido velho mentiroso sabe disso!" Mas nosso médico estava ocupado demais para prestar muita atenção ao que eu dizia. Ele apenas murmurou que era tudo normal, perfeitamente normal, dadas as circunstâncias. Portanto, afinal, sou apenas uma mulher comum, do dia a dia! Mas o homem da medicina ordenou que eu ficasse na cama por doze dias — o que Olga considera um absurdo inominável, já que um dia, ela anunciou orgulhosamente, era tudo o que sua mãe sempre exigia. O que mostra as desvantagens de ser civilizada demais!
Domingo, dia nove
Estou ficando mais forte a cada dia, embora seja uma dama de luxo e fique na cama até as dez todas as manhãs. Hoje, quando estava sentada para tomar café da manhã, com o cabelo trançado em duas maria-chiquinhas e um agasalho rosa e branco sobre a camisola, Dinky-Dunk entrou e sentou-se ao lado da cama. Ele tentou me amolecer dizendo que ficaria muito feliz quando eu estivesse cuidando de tudo novamente para que ele pudesse comer algo decente. Olga, ele admitiu, era uma boa pessoa, mas não tinha o toque da sua Gee-Gee. Ele confessou que, por quase um mês, a casa tinha sido uma maldita ginocracia e que estava cansado de ser mandado por um par de mulheres. *Mio piccino* já não parece um filhote de animal recém-nascido, como parecia no início. Seu rostinho enrugado e seus olhos bem fechados costumavam me fazer pensar em um homenzinho, com toda a sabedoria das eras contida em seu corpo minúsculo. E é um corpinho tão sabido, com todos os seus instintos armazenados e apetites guardiões! Meu pequeno *tenor robusto*, como ele sabe cantar quando está com fome! Ontem à noite, sentei-me na cama, ouvindo a respiração do meu filho — Dinky-Dink. A princípio, pensei que ele pudesse estar morto, estava tão quieto. Então ouvi seus lábios se moverem na deglutição rapsódica dos sonhos da infância. "Dinky-Dunk", perguntei, "o que faríamos se o bebê morresse?" E o sacudi para que respondesse. Ele olhou para mim com um olho sonolento. "Aquela baleia?" ele comentou, enquanto piscava contente para seu rebento e depois virou-se para o lado e adormeceu. Mas deslizei uma mão sob o corpo do pequeno Dinky-Dink e o encontrei tão quente quanto um pássaro no ninho.
Segunda-feira, dia dez
Notei que Dinky-Dunk não andava fumando ultimamente, então perguntei o que havia acontecido com o resto de seus charutos. Ele admitiu que os tinha dado a Olie. "Quando?", perguntei. E Dinky-Dunk corou enquanto respondia, de forma casual: "Ah, no dia em que o Buddy Boy nasceu!" Como os homens se fundem ao convencional em seus momentos mais marcantes!
No segundo dia após o nascimento do meu bebê, Olga me deixou sem fôlego ao trazer um berço de madeira tão elegante quanto qualquer príncipe de sangue real gostaria de usar. Olie o tinha feito. Trabalhou nele durante suas horas vagas à noite, e nem Dinky-Dunk sabia. Pedi a Olga que o segurasse ao pé da cama para que eu pudesse vê-lo melhor. Tinha sido recortado, lixado e polido como qualquer berço de fábrica, e meu fiel velho Olie até tentou fazer algumas entalhes à mão ao longo dos balancins e da cabeceira. Mas, ao olhar para ele, percebi que deve ter levado semanas e semanas para ser feito. E isso me deu uma estranha sensação de tremor na região do estômago, pois eu sabia então que meu segredo não tinha sido segredo algum. Dinky-Dunk, a propósito, acaba de anunciar que vamos ter um carro de turismo. Ele diz que eu mereço!
Terça-feira, dia onze
Ontem estava tão quente que sentei ao sol e tomei um banho de ozônio. Fiquei ali, olhando para meu menino, percebendo que era mãe. Meu menino — osso dos meus ossos e carne da minha carne! É tão difícil de acreditar! E agora faço parte da cadeia mística, e não sou mais o elo ocioso. Sou mãe. E daria um braço se você, Chinkie e Scheming-Jack pudessem ver meu menino neste momento. Ele é como uma pétala de rosa e tem seis covinhas, sem contar as das mãos e dos pés — pois encontrei e beijei todas elas — em diferentes partes de seu corpo abençoado. Dinky-Dunk voltou de Buckhorn ontem com um monte das coisas mais tolas que você já viu — um grande elefante de pano que grunhe quando se puxa o rabo, um pião musical, uma cadeira alta e uma lanterna de projeção. São para Dinky-Dink, é claro. Mas levará uma ou duas semanas até que ele possa manipular a lanterna!
Quarta-feira, dia treze
Dinky-Dunk levou a Sra. Dixon para casa e voltou com um novo "ajudante", que, é claro, é a sinédoque das pradarias para um novo empregado. Seu nome é Terry Dillon e, como o nome pode levar a imaginar, ele é tão irlandês quanto o porco de Paddy. Ele é abençoado com lábios grossos, um sotaque de leitelho e um nariz que, se ele seguir fielmente, um dia o levará direto ao Céu. Mas Terry, diz-me Dinky-Dunk, é um trabalhador constante e um bom homem com cavalos, e isso, é claro, completa sua imagem como um modelo aos olhos do meu senhor e mestre, o capataz. Perguntei de onde Terry vinha. Dinky-Dunk, com um sorriso um tanto sombrio, reconheceu que ele estivera trabalhando para Percy.
Terry, ao que parece, não tem nenhum amor especial por um inglês. E Percy ofendera seu orgulhoso espírito irlandês com certas ideias de casta que não podem ser importadas para o Oeste canadense, onde o empregado é tão bom quanto seu mestre — como esse mestre descobrirá tragicamente em breve se tentar fazer com que seus ajudantes comam na segunda mesa! De qualquer forma, Percy e o Terry de lábios grossos desenvolveram um atrito que terminou em toda a promessa de uma briga, só que Dinky-Dunk chegou na hora certa e tirou Terry das mãos de seu vizinho atormentado. Eu lhe disse que ele tinha o hábito de pegar as pessoas no rebote. Mas estou reservando minha opinião sobre Terry Dillon. Somos uma família feliz aqui, e não quero encrenqueiros na minha vizinhança.
Tenho estudado algumas das revistas de Nova York, passando um tanto faminta por seus anúncios onde são descritos enxovais tão adoráveis. As coisas do meu pobre pequeno Dinky-Dink são tão simples, grosseiras e escassas. Invejo aquelas mães da cidade com todos aqueles belos linhos e rendas. Mas meu pequeno menino espartano nunca conheceu um único dia de doença. E um dia ele vai mostrar a eles!
Quinta-feira, dia catorze
Quando Olie entrou depois do jantar ontem, perguntei-lhe onde estava meu marido. Olie, após alguma hesitação, admitiu que ele estava no estábulo. Perguntei exatamente o que Dinky-Dunk estava fazendo lá, pois notei que, após cada refeição, ele escapava silenciosamente. Novamente Olie hesitou. Então, finalmente admitiu que achava que talvez meu senhor estivesse lá fora fumando. Então fui lá fora, e lá encontrei meu pobre velho Dinky-Dunk sentado em uma caixa de grãos, soprando melancolicamente seu velho cachimbo. Por um minuto ou dois, ele não me viu, então fui direto até ele. "O que isso significa?", perguntei.
"Por quê?", ele tergiversou com um ar de culpa.
"Por que você está fumando aqui fora?"
"Eu... er... achei que você poderia pensar que não seria bom para o Menino!" Ele pareceu patético ao dizer isso, não sei por que, embora eu o amasse por isso. Ele me fez pensar em um rei que fora destronado, um estranho, um homem sem lar. Isso me deu um nó na garganta.
Aproximei-me dele na caixa de grãos, de modo que ele teve que me segurar para que eu não caísse da ponta. "Escute-me", ordenei. "Você é meu Verdadeiro Amor, meu Kaikobad, meu Homem-Deus e minha Alma Gêmea! E nenhum bebê vai se colocar entre mim e você!"
"Você não deveria dizer essas coisas terríveis", ele declarou, mas o fez apenas sem convicção.
"Mas eu quero que você se sente e fume comigo, amado, da mesma forma que sempre fez", eu lhe disse. "Podemos deixar as janelas um pouco abertas e não fará mal ao Dinky-Dink, pois esse menino recebe mais ozônio do que qualquer criança da cidade que já foi passeada no Mall! Não pode lhe fazer mal. O que me machuca é ficar tanto tempo longe de você. E agora me dê um abraço, um bem apertado, e me diga que você ainda ama sua Lady Bird!" Ele me deu dois, e depois mais dois, até que Tumble-Weed se virou na baia e relinchou para que nos comportássemos.
Sexta-feira, dia quinze
Tenho mantido Terry sob observação e não acredito que ele seja um encrenqueiro. Seu primeiro gesto foi tirar o bebê do berço, segurá-lo e anunciar publicamente que ele era um querido. Depois, apontou-me que cabeça maravilhosa a criança tinha, sentindo seu osso frontal e declarando que ele certamente se tornaria um grande estudioso em seu tempo. Dinky-Dunk, sorrindo com a seriedade com que eu estava engolindo aquilo, perguntou incisivamente a Terry se era Milton ou Arquimedes a quem o bebê mais se assemelhava quanto à formação do crânio. Mas não é a conversa fiada de Terry que me fez capitular; é o fato de que ele se mostrou tão sociável e entrou tão silenciosamente em seu lugar em nosso pequeno círculo solitário de vidas nesta borda esfarrapada do nada.
E ele é limpo como um gato, barbeando-se todas as manhãs abençoadas com uma navalha velha de cabo quebrado que ele afia em uma tira de couro de bota oleada. Ele declara que aquela navalha é o melhor pedaço de aço de todas as Américas, e exibiu-se diante de Olie e Olga na manhã de ontem ao se barbear sem espelho, truque que disse ter aprendido no exército. Ele também cortou o cabelo de Olie, que estava precisando muito, e prometeu que, no domingo, vai preparar um ferro de solda e consertar todas as minhas panelas. Ele parece ter pouco mais de vinte anos, mas na verdade tem mais de trinta e já esteve na Índia, no México e no Alasca.
Peguei-o remendando habilmente suas próprias meias de lã. Em vez de demonstrar vergonha por ser flagrado nesse passatempo efeminado, ele explicou orgulhosamente que aprendera a fazer um pouco de costura no exército. Ele não tem muitos pertences, mas é muito organizado na disposição deles. Um bom soldado, disse-me solenemente, sempre precisa ser um pouco uma velha solteirona. "E você foi um grande soldado, Terry, eu sei", disse-lhe francamente. "Já matei um pouco no meu tempo!", reconheceu ele com orgulho. Mas, enquanto estava ali sentado remendando o calcanhar da meia, parecia que não seria capaz de matar um camundongo de campo. E, em suas horas vagas, lê Nick Carter, uma série de histórias de detetive de capa mole, quase reduzidas a farrapos, que ele está lendo pela segunda ou terceira vez. Essas aventuras, descubro, ele relata mais tarde a Olie, que está lenta, mas seguramente sucumbindo ao veneno dos folhetins baratos e ao vírus dos romances de um xelim! Até peguei Dinky-Dunk lendo um desses romances de arrepiar os cabelos na outra noite, embora ele tenha rido um pouco enquanto eu o arrastava para a cama, diante do absurdo das situações. Os olhos de Terry brilharam quando viu meus livros e revistas. Quando lhe disse que poderia pegar o que quisesse, ele sorriu e disse que certamente teria um inverno glorioso, com toda aquela leitura quando as noites longas chegassem. Mas, antes que essas noites longas terminem, vou tentar guiar Terry pelos canais da literatura respeitável.
Sábado, dia dezesseis
Amo o cheiro leitoso do meu Dinky-Dink mais do que o perfume de qualquer flor que já cresceu. Ele está tão forte agora que quase consegue se levantar sozinho com suas duas mãozinhas. Pelo menos ele realmente consegue dar um puxãozinho. Há dois dias nosso carro de turismo chegou. É uma beleza. Desliza sobre essas trilhas suaves da pradaria como um iate. De agora em diante, podemos ir a Buckhorn, fazer nossas compras e voltar em duas ou três horas. Também podemos chegar às cidades maiores sem problemas e será muito mais fácil reunir o que precisamos para a Casa Grande. Dinky-Dink parece adorar o carro. Dez minutos depois que partimos, ele está sempre profundamente adormecido. Olga, que o segura no banco de trás quando me canso, senta-se em êxtase arrebatado e silencioso enquanto balançamos a trinta milhas por hora. E não é de se admirar, pois é a segunda melhor coisa depois de navegar no alto-mar!
Não posso deixar de pensar na atitude de Terry em relação a Olga. Ele não a desaprova ativamente, mas a ignora silenciosamente, ainda mais do que Olie. Tenho me perguntado por que nenhum dos dois sucumbiu a tal grandeza física. Talvez seja porque eles mesmos são físicos. E então penso que a imensidão dela oprime Terry, pois nenhum homem, seja ele soldado ou não, gosta de ser superado por uma mulher.
A única exceção, é claro, é Percy. Mas Percy é um homem de imaginação. Ele pode perceber que Olga é mais do que um mero tipo. Ele concorda comigo que ela é uma espécie de milagre. Para Terry, ela é apenas uma serva finlandesa muda e musculosa com um braço como o de um granadeiro. Para Percy, ela é uma deusa manifesta, um corpo sobre-humano de vigor e beleza sobre-humanos e, ao mesmo tempo, um corpo coroado de majestade e envolto em mistério. E ainda me inclino para a opinião de Percy. Olga é sempre maravilhosa para mim. Seus lábios são de um vermelho tão suave e derretido, o vermelho da saúde animal perfeita. A própria brancura de sua pele é um anúncio daquela vitalidade régia e conquistadora que a eleva tanto acima da massa comum da humanidade. E seus grandes olhos ruminantes são tão claros e límpidos quanto qualquer poça na floresta.
Ela cora de cor de rosa às vezes quando Percy entra. Acho que ele encontra uma alegria secreta em sentir essa reação em algo tão colossal. Mas ele se defende por trás daquela máscara de fria impessoalidade, que é o último atributo do aristocrata mental, não importa quais sejam seus sentimentos. A atitude dele em relação a Terry, a propósito, é notavelmente sociável, tendo em vista o fato de suas contendas anteriores. Eles podem deixar o passado para trás e conversar, fumar e rir juntos. É Terry, se alguém, que é apenas um pouquinho condescendente. E imagino que seja a aura de Olga que trouxe essa condição de coisas estranhamente democratizante. Ela parece dar um novo relacionamento às coisas, suavizando um ponto aqui e iluminando um ponto ali, tão silenciosamente quanto o próprio luar pode fazer.
Segunda-feira, dia dezessete
Ontem, Olga trouxe para casa um balde cheio de cogumelos, pois um veranico parece ter trazido uma segunda safra deles. Eram adoráveis. Mas ela se recusou a comer qualquer um. Perguntei-lhe por quê. Ela ergueu seus ombros enormes e disse que não sabia. Mas ela sabe, sinto certeza, e tenho me perguntado por que ela tem medo de qualquer coisa que possa ter um gosto tão bom, uma vez que sejam preparados com creme e empilhados sobre uma fatia de torradas. Quanto a mim
Eu os amo, eu os amo, e quem ousará Me censurar por amar esse manjar de cogumelos?
Quarta-feira, dia dezenove
Peguei-me cantando com todas as minhas forças enquanto fazia meu trabalho esta manhã. Dinky-Dunk veio e ficou na porta e disse que soava como nos velhos tempos. Sinto-me forte novamente e me aventurei a perguntar ao meu senhor e mestre se eu não poderia ter um galope curtinho em Paddy mais uma vez. Mas ele me fez prometer esperar por uma ou duas semanas. As últimas duas ou três noites foram bem frias, e bem longe, milhas e milhas através da pradaria, podemos ver o brilho das fogueiras onde diferentes fazendeiros estão queimando sua palha, depois que as trilhadoras a sopraram. Às vezes, queima a noite toda.
Sexta-feira, dia vinte e um
Descobri esta manhã por que Olga não quer comer cogumelos. Estava muito frio de novo ontem à noite, para esta época do ano. Percy veio, fizemos uma fogueira maravilhosa e estouramos pipoca de Ontário com xarope de bordo de Ontário derramado sobre ela. Olga, Olie e Terry vieram e sentaram-se ao redor do fogão. E, estando absolutamente felizes, contentes e satisfeitos com a vida em geral, começamos prontamente a falar de horrores, da mesma forma que um cozinheiro mistura suco de limão ao molho de seu pudim, suponho, para evitar que sua doçura seja enjoativa demais. Aquela farra nos caminhos secundários do estilo de Poe começou com a referência casual de Dinky-Dunk ao rancho McKinnon e a pergunta de Percy sobre por que seu antigo proprietário desistira dele. Então, Dinky-Dunk contou a história da morte de Andrew Cochrane. E foi notável que o pobre velho Olie traiu sinais visíveis de angústia com esse conto de um jovem fazendeiro que morrera congelado sozinho em sua cabana no meio do inverno. Então Dinky-Dunk, aparentemente com dolo premeditado, aumentou seu tema, descrevendo como todo o gado do jovem Cochrane morrera de fome em suas baias e como seu cão collie, que estava acorrentado a uma casinha do lado de fora da cabana, chamara a atenção pela primeira vez para a tragédia. Um inspetor do governo, ao passar a cavalo, notara a cabana fechada, batera na porta e descobrira prontamente o esqueleto do cão com uma corrente e uma coleira ainda presas aos ossos do pescoço limpos. E, dentro da cabana, encontrara o próprio homem morto, tão realista, por causa do frio intenso, como se tivesse adormecido na noite anterior.
Não era uma história agradável, e meus esforços para imaginar a cena me causaram uma sensação de arrepio na área das penas do meu próprio corpo. E, novamente, sinais claros de angústia manifestaram-se no pobre Olie. O rosto daquele sueco de alma simples assumiu tal expressão de perplexidade e preocupação que Dinky-Dunk deliberadamente, e com muitos detalhes, contou a história de um fantasma que fora visto repetidamente em um wickyup abandonado, um pouco mais a oeste na província.
E isso, é claro, inflamou a alma celta de Terry, que contou a história da irmã de seu mestre da Velha Pátria que certa vez fora levada a um hospital. E, exatamente ao anoitecer do terceiro dia depois disso, seu jovem mestre caminhava pelo corredor escuro. Ao passar pela porta da irmã, lá estava ela, toda de branco, penteando o cabelo calmamente, tão nítida aos seus olhos quanto em plena luz do dia. E com isso, o mestre correu escada abaixo para perguntar à mãe como Sheila tinha voltado do hospital. E sua velha mãe, sendo lenta nos movimentos, começou a ir para o quarto de Sheila. Mas, antes mesmo de chegar ao pé da escada, uma vizinha entrou correndo, enxugando os olhos com a ponta do xale e dizendo: "A pobre Sheila morreu neste exato minuto no hospital!" Não sei contar como Terry contou, e não sei se ele mesmo acreditava na história ou não, mas o enorme Olie Larson sentou-se ali, banhado em um suor frio, com os olhos fixos na frente do fogão. Ele não estava nada feliz e, no entanto, parecia incapaz de se afastar, assim como Gimlets e eu costumávamos ficar presos ao lugar enquanto o avô Heppelwhite continuava a entoar a dolorosa história dos "Babes in the Woods" até o nosso colapso final e inevitável em lágrimas!
Então, Percy, que não deixa de ter seu espírito de provocação, contou várias mentiras cabeludas, as quais ele mais tarde confessou terem vindo dos registros da Sociedade de Pesquisas Psíquicas. E eu, com a voz embargada, narrei a história do tio Carlton sobre a paciente neurastênica que foi ao consultório de um médico e viu um crânio sobre sua mesa de jacarandá polido. Então, enquanto ela o observava, o crânio começou a mover-se lentamente em sua direção. Mais tarde, descobriu-se que era apenas um peso de papel de gesso, e um rato entrara nele e encontrara um pedaço de bolacha lá dentro — e "cracker", tive de explicar a Percy, era o nome pelo qual um biscoito geralmente se disfarçava na América. Aquele rato, em seus esforços para pegar o resto da bolacha, tinha, é claro, deslocado o crânio sobre a madeira polida.
Isso lembrou Dinky-Dunk dos três estudantes de medicina que tentaram assustar a filha de sua senhoria contrabandeando um braço da sala de dissecção e escondendo-o sob o travesseiro da moça. Dinky-Dunk chegou a afirmar solenemente que os três homens eram colegas de faculdade dele. Eles esperaram para ouvir o grito da moça, mas como não houve nada além de silêncio, finalmente entraram sorrateiramente no quarto. E lá viram a moça sentada no chão, segurando o braço nas mãos. Enquanto estava sentada ali, ela murmurava sozinha e comia uma das pontas dele! É claro que a pobre criatura tinha enlouquecido completamente.
Olie gemeu audivelmente com isso e enxugou a testa com a manga do casaco. Mas, antes que ele pudesse escapar, Terry começou a contar a história do capitão de mar irlandês, apreciador de quatro garrafas, que só ficava sóbrio quando estava no mar e, certa noite no porto, tropeçou em direção à cama "com três copos a mais". Quando ele navegou até o que pensou ser seu próprio quarto, ficou atônito ao encontrar um homem já na cama, ainda mais bêbado do que ele, bêbado demais, de fato, para se mover. E até as velas tinham sido deixadas acesas. Mas o velho capitão subiu para o lado da parede, com roupa e tudo, e teria adormecido profundamente em dois minutos se duas velhas senhoras robustas não tivessem entrado e começado a chorar e a dizer uma ou duas orações ao lado da cama. Então, o velho capitão, confuso como estava, estendeu a mão silenciosa e curiosamente e tocou o homem ao seu lado. *E aquele homem estava frio como gelo!* O capitão deu um uivo e correu para a porta. Mas as velhas senhoras foram na frente, e todos rolaram escada abaixo, um após o outro, e os três levantaram-se e correram como o vento. "E nunca mais pararam", declarou Terry com seu sotaque carregado, "até se chocarem contra o paredão do mar!"
Olie, que tinha se mudado para a outra extremidade da mesa, levantou-se neste momento, foi até a porta e olhou para fora. Ele suspirou lúgubremente enquanto fitava a escuridão da noite. A escuridão exterior, aparentemente, era demais para ele, pois voltou lenta e relutantemente para sua cadeira na outra ponta da mesa, e era fácil ver que ele estava tão assustado quanto uma criança de cinco anos. Os homens, suponho, teriam provocado-o até a meia-noite, pois Terry tinha começado uma história sobre um negro que fora enviado para roubar uma sepultura e descobrira que o morto não estava exatamente morto. Mas eu declarei que já tínhamos tido horrores demais e recusei-me a ouvir qualquer outra coisa sobre fantasmas ou defuntos. Eu estava, na verdade, começando a sentir um pouco de arrepios nas terminações nervosas. E Babe choramingou um pouco em seu berço e nos trouxe a todos, subitamente, da Era de Wendigo para o tempo da lamparina de querosene. "Das bruxas e feiticeiros", entoei solenemente, "dos espíritos malignos e de todas as coisas estranhas que choramingam e batem na noite, que o bom Deus nos livre!" E esse encantamento, tenho certeza, limpou o ar tanto para o meu próprio filho, ameaçado pelos espíritos, quanto para o simples Olie, embora Dinky-Dunk tenha explicado que meu escocês era um pouco pior do que as histórias.
Mas foi nesta manhã, após o café da manhã, que soube por Olga por que ela nunca gostava de comer cogumelos. E, durante todo o dia, a história dela pairou entre mim e o sol, como uma nuvem. Não que haja algo tão maravilhoso na história em si, além de sua tragédia nua. Mas acho que foi mais a maneira como aquela moça enorme de olhar plácido a contou, com seu inglês quebrado e suas pausas ocasionais para procurar a palavra certa. Ou talvez tenha sido porque ela veio como uma realidade tão sombria após as grotescas trivialidades da noite anterior. De qualquer forma, como ouvi esta manhã, pareceu-me tão terrível quanto qualquer coisa no "Coração das Trevas" de Tolstoi, e mais de uma vez fez meus pensamentos voltarem às dores da casa de Édipo. Também me assustou um pouco, pois nunca pensei em captar um eco da tragédia grega dos lábios cheios e suaves de uma finlandesa que me ajudava a lavar a louça do café da manhã.
Começou enquanto eu decidia o menu do jantar e verificava se todos os nossos cogumelos tinham sido usados. Isso me levou a perguntar à moça por que ela nunca os comia. Pude ver um olhar de barricada surgir em seus olhos, mas ela apenas deu de ombros e disse que, às vezes, eles eram venenosos e matavam pessoas. Eu disse a ela que isso era um absurdo e que qualquer pessoa com inteligência comum logo aprendia a reconhecer um cogumelo de pasto quando via um. Mas, às vezes, insistia Olga, eles eram chapéus-da-morte. Se você comesse um chapéu-da-morte, morria, e nada poderia salvá-lo. Tentei convencê-la de que isso era apenas uma superstição camponesa, mas ela anunciou que tinha visto chapéus-da-morte, muitos deles, e tinha visto pessoas que foram mortas por eles. E então, aos pedaços, e com muitos gestos pesados de hesitação, ela me contou a história.
Quase setenta quilômetros a noroeste de nós, perto de sua antiga casa, dizia ela, viviam um polonês chamado Andrei Przenikowski e sua esposa. Eles tinham um filho, cujo nome era Jozef. Eram pobres, sempre pobres, e nunca conseguiam prosperar. Então, quando Jozef tinha quinze anos, ele foi para o litoral fazer sua fortuna. E o velho pai e a mãe tiveram muitas dificuldades, pois o velho Andrei não achava fácil se locomover, tendo tido os pés congelados anos antes. Ele mancava como uma galinha com garras congeladas, dizia Olga, e sua esposa, velha como era, tinha de ajudá-lo nos campos. Um inverno inteiro, contou ela ao pai de Olga, eles viveram de nabos. Mas estação após estação se arrastava, e eles continuavam existindo, Deus sabe como. De Jozef, nunca mais tiveram notícias. Mas, com o próprio Jozef, a história era diferente. O rapaz foi para o Alasca, antes dos dias da corrida do ouro de Klondike. Lá, ele trabalhou nas pescarias, nos acampamentos madeireiros, e mais tarde juntou-se a um grupo de mineração. Então ele entrou no Yukon.
Isso foi doze anos depois que ele saíra de casa pela primeira vez. Ele era um homem forte agora e falava inglês muito bem. E, no ano seguinte, ele teve sorte e encontrou muito ouro, milhares de dólares em ouro. Mas ele economizou tudo, pois nunca esquecera os velhos em sua pequena fazenda. Então, ele juntou seu dinheiro e foi para Seattle, e depois atravessou para Vancouver. De lá, fez o caminho de volta para sua antiga casa, vestido como um homem de mundo, usando um grande relógio de ouro com corrente e um anel de ouro. E quando ele apareceu de surpresa para os velhos, eles não o reconheceram — e isso Jozef achou a melhor das piadas. Ele encheu a pequena cabana coberta de grama com sua risada, pois estava feliz. Ele sabia que, pelo resto de seus dias, os problemas deles tinham acabado. Então, ele caminhou e fez planos, mas ainda não lhes disse quem ele era. Era uma piada tão boa que ele pretendia tirar o máximo proveito dela. Mas disse que tinha notícias do Jozef deles, que não estava tão mal para um fracassado. Antes de partir no dia seguinte, prometeu, eles saberiam do seu menino. E ele riu novamente e deu um tapinha em seu bolso cheio de ouro, e os dois velhos ficaram piscando para ele em admiração, até que ele anunciou que estava com fome e confidenciou-lhes que seu amigo Jozef certa vez lhe dissera que havia cogumelos maravilhosos por ali naquela época do ano.
Andrei e sua esposa conversaram no estábulo, antes de o velho sair mancando para colher os cogumelos. A pobreza e o sofrimento os tinham endurecido, e a visão daquele estranho com tanto ouro era demais para eles. Então, foi um prato cheio de chapéus-da-morte que a esposa de Andrei cozinhou para o estranho de rosto bronzeado e risada alta. E eles ficaram por perto e observaram-no comê-los. Então ele morreu, como Andrei sabia que ele tinha de morrer. Mas a velha escondeu-se no estábulo até que tudo terminasse, pois levou algum tempo. Juntos, então, o velho casal revistou as malas e os bolsos do morto. Encontraram papéis e certas marcas em seu corpo. Eles souberam então que tinham assassinado o próprio filho. O velho mancou até a aldeia mais próxima, onde enviou uma carta ao pai de Olga e comprou uma corda de varal para levar para casa. A viagem levou um dia inteiro. Com aquela corda, Andrei Przenikowski e sua esposa enforcaram-se, em uma das vigas do estábulo.
Olga disse que tinha apenas cinco anos na época, mas lembra-se de ter ido de carro com os outros, depois que a carta chegou à casa de seu pai. Ela ainda consegue se lembrar de ver os dois corpos velhos pendurados lado a lado e balançando lentamente ao vento. E ela viu o que restou dos cogumelos. Ela diz que nunca consegue esquecer e sonha com isso com frequência. E Olga não é o que se chamaria de emotiva. Ela me contou, enquanto secava as mãos e pendurava a bacia, que ainda consegue ver seu povo olhando para o que restou daquele prato de chapéus-da-morte envenenados, que tinham ficado bem pretos, quase tão pretos quanto o homem morto que ela os viu levantar sobre a cama suja.
Segunda-feira, dia doze
Ontem foi domingo e Olga, em seu melhor traje, sentou-se ao sol com Dinky-Dunk. Ela parecia perfeitamente feliz apenas em segurá-lo. Olhei para fora, para ter certeza de que ele estava bem, pois alguns dias antes Olga quase me causara uma falha cardíaca ao equilibrar meu menino em uma mão enorme, como se fosse uma costeleta de carneiro, para que o adorável Olie pudesse vê-lo chutar. Enquanto eu observava Olga cantarolando para Buddy Boy, Percy chegou a cavalo. Então ele veio e juntou-se a Olga, que cuidadosamente levantou o véu que cobria o rosto de Dinky-Dunk e o mostrou ao um tanto intimidado Percy. Percy cutucou-o com o dedo, fez sons absurdos, sentiu suas pernas como Olga indicou e depois sentou-se à frente dela.
Eles conversaram ali por muito tempo, completamente alheios a tudo ao redor. Pelo menos Percy conversava, pois as respostas de Olga pareciam ser, na maioria, monossilábicas. Mas ela continuava banhando-o com aquele olhar místico de luar dela e, às vezes, mostrava os dentes em um sorriso lento e melancólico. Percy tagarelava, completamente inconsciente de que eu estava parada na porta observando-o. Eles pareciam ser grandes amigos. E tenho me perguntado sobre o que eles conversavam.
Quarta-feira, dia catorze
Hoje, depois do jantar, Dinky-Dunk pegou o menino e segurou-o sobre o lombo de Paddy, onde ele parecia um calombo em um tronco. E isso me fez pensar que não demoraria muito para que minha pequena Snoozerette tivesse seu próprio pônei e estivesse galopando pela pradaria como um macaco em um cavalo de circo. Pois quero que meu filho monte, e monte bem. E, logo depois, ele estaria galopando para a escola. E então não demoraria muito para que ele estivesse seguindo a trilha lado a lado com alguma moça de olhos claros da pradaria em um pinto malhado, e eu seria uma velha senhora de cabelos prateados imaginando se aquela moça de olhos claros era boa o suficiente para o meu filho! E lá estava eu, como sempre, sonhando com o futuro!
Durante todo o dia, o fato de Dinky-Dunk estar se tornando extravagante tem me atingido logo abaixo da quinta costela. Então perguntei a ele se realmente poderíamos pagar um carro de seis cilindros com capas de proteção bege e luzes elétricas. "Pagar?" ele ecoou, "é claro que podemos. Podemos pagar qualquer coisa. Droga, nossos dias de vacas magras acabaram e não tivemos a imaginação de acordar para esse fato. E você sabe o que vou fazer se certas coisas derem certo? Vou mandar você e o Babe para Nova York no inverno!"
"E onde você ficará?" perguntei prontamente. O olhar de orgulho e determinação desapareceu de seu rosto.
"Oh, terei de ficar por aqui nas regiões polares para cuidar das coisas. Mas você e o menino precisam ter sua chance. E eu descerei por duas semanas na Páscoa e trarei vocês para casa comigo!"
"E você estará se divertindo por aqui?" indaguei.
"É claro que não", reconheceu Dinky-Dunk. "Mas pense no que significará para você, Gee-Gee, ter alguns meses na cidade novamente! E pense no que você tem perdido!"
"Ganso, ganso, ganso!" eu disse enquanto segurava sua velha cabeça tola. "Eu quero que você me escute. Não há nada que eu tenha perdido. E você está completamente louco, Honey Chile, se acha que eu poderia ser feliz longe de você, em Nova York ou em qualquer outra cidade. E eu não iria para lá no inverno nem se você me desse o Plaza e todo o Parque como quintal!"
Aquela minha declaração pareceu confundi-lo. "Mas pense no que significaria para o menino!" ele argumentou.
"Bem, o quê?" eu exigi.
"Oh, boas... er... boas pinturas e música e todo esse tipo de coisa!" ele explicou vagamente. Não pude deixar de rir dele.
"Mas, Dinky-Dunk, você não acha que Babe é um mês ou mais jovem demais para começar com Debussy e os pós-impressionistas, seu grande, bobo, adorável e confuso capturador de corações de damas indefesas!" E anunciei firmemente que ele nunca, nunca poderia se livrar de mim.
Quinta-feira, dia quinze
Agora que Olga está trabalhando totalmente dentro de casa comigo, ela está perdendo um pouco do seu bronzeado. Sua pele está mais macia e ela adquiriu um pouco mais daquele olhar de Leonardo da Vinci. Ela quase parece estar se espiritualizando — mas pode ser simplesmente porque ela alongou suas saias. Ela adora Babe e, receio, está mimando-o um pouco. Acho-a uma companhia cada vez melhor, não apenas porque ela fala mais, mas porque parece, de alguma forma, estar subindo para um nível mais elevado. Nos intervalos, estou ensinando-a a cozinhar. Ela aprende prontamente e se orgulha de seu progresso. Mas a coisa da qual ela mais se orgulha é de seu espartilho. E eles fazem diferença. Até Dinky-Dunk percebeu isso. Ontem ele ficou parado observando-a.
"Puxa", ele observou sabiamente, "aquela moça está ganhando curvas!" Os homens são tão absurdos. Quando essa mesma Olga andava por aí quase descoberta, ele nunca a notou. Agora que ela mistificou seus membros inferiores com um pouco de tecido, ele fica parado olhando para ela como se fosse uma Vênus de Milo que ganhou vida. E Olga está lenta, mas seguramente, perdendo um pouco de sua simplicidade árcade. Ontem eu a peguei queimando suas botas de couro cru. Ela tem vergonha delas. E ela está gastando a maior parte do seu dinheiro com roupas, fazendo-me muitas perguntas estranhas sobre vestimentas e levando minhas revistas de moda para seu quarto para leitura secreta. Pela primeira vez em sua vida, ela está usando creme de limpeza. E o fim parece justificar os meios, pois sua pele agora parece flores de macieira. Rodin, estou certa, teria carregado aquela mulher através da América em suas costas, apenas para tê-la em seu ateliê!
Na semana passada, convenci Terry a experimentar Meredith e emprestei-lhe meu exemplar de capa de tecido verde de "Harry Richmond". Três dias atrás, encontrei a sétima página dobrada no canto e, suspeitando que isso marcava a fronteira final de seu avanço, amarrei um fio de seda verde ao redor do volume. Ele ainda estava lá esta manhã, embora Terry mantenha diária e firmemente que está se dando muito bem com aquele meu belo livro verde! Mas, ao meio-dia de hoje, quando Dinky-Dunk voltou de Buckhorn, entregou a Terry um pacote, e notei que este último olhou de forma um tanto inquieta ao redor enquanto o desembrulhava. Esta tarde descobri que continha dois novos livros em capa de papel. Um era "The Hidden Hand" e o outro chamava-se "The Terror of Tamaraska Gulch". Terry, ultimamente, tem feito sua leitura em seu próprio quarto. E Nick Carter, aparentemente, não será tão facilmente substituído. Mas um homem que pode fazer você ler seus livros pela terceira vez deve ser um gênio. Se eu fosse uma autora, esse é o tipo de homem que eu invejaria. E acho que vou tentar Percival Benson com "The Terror of Tamaraska Gulch" quando Terry terminar!
Sexta-feira, dia dezesseis
Acabávamos de terminar o jantar hoje, e um jantar extraordinariamente bom, ao que me pareceu, e eu olhava satisfeita para o meu pequeno círculo familiar, imaginando o que mais a vida poderia reservar para uma mulher grande, robusta e corpulenta como eu, quando o zumbido e o ronronar de um automóvel que se aproximava romperam o som da nossa conversa. Dinky-Dunk, na verdade, estava sentando cátedra sobre o fazendeiro do Oeste, sustentando que ele era um homem de espírito mais amplo e mente maior do que seu irmão do Leste, e ressaltando que a esposa do habitante do Oeste era uma rainha que, se tinha pouco descanso, pelo menos tinha grande honra. E eu estava justamente pensando que uma coisa gloriosa sobre essa mesma rainha era que ela, pelo menos, escapava de toda a tensão e deslocamento do século vinte no relacionamento entre os homens e as mulheres da cidade, quando o zumbido daquele carro me trouxe de volta à terra e me lembrou de que eu poderia ter uma mesa cheia de convidados para alimentar. O carro em si parou, com um tremeluzir do motor, a meio caminho entre o barraco e o curral, e com aquele som imagino que todos nós nos sentimos como Robinson Crusoés ouvindo o ruído de uma corrente de âncora na baía mais tranquila de Juan Fernandez. E, através da janela aberta, consegui distinguir um enorme carro de turismo, bastante empoeirado e com nada menos que seis homens nele.
Terry, todo olhos, mergulhou para a janela, e Olie, todo boca, para a porta. Olga inclinou-se até a metade da mesa para olhar para fora, e eu mesma fiquei um pouco a observar. A única pessoa que permaneceu quieta foi Dinky-Dunk. Ele bateu o cachimbo, enfiou-o no bolso, colocou o chapéu e pegou um pacote de papéis da sua mesa de trabalho. Depois, saiu caminhando de forma imponente, com aquele olhar cinzento e combativo nos olhos. Ele saiu exatamente quando um dos homens maiores estava prestes a descer do carro, de modo que o homem maior mudou de ideia e subiu de volta para o seu assento, como um rei reassumindo seu trono. E todos eles ficaram ali tão sérios, evasivos e dignos, parecendo mais carregadores de caixão poeirentos em uma carruagem funerária, que decidi imediatamente que tinham vindo para executar uma hipoteca e tomar a terra do meu Dinky-Dunk, de uma só vez!
Pude ver meu senhor caminhar diretamente até o estribo, com pequenos acenos curtos aos seus visitantes, e soube pelo porte dos seus ombros que havia problemas à frente. Ainda assim, começaram a conversar com bastante calma. Mas, em menos de dois minutos, meu Dinky-Dunk estava agitando o punho no rosto de um dos homens mais jovens e maiores, chamando-o de mentiroso e acusando-o, de forma um tanto tautológica, de saber que ele era um mentiroso e que sempre fora um. Essa linguagem, totalmente desprovida de cavalheirismo, naturalmente provocou uma linguagem tão indelicada quanto a do acusado, que se levantou no carro e teve sua vez de dançar e agitar o próprio punho. E então os outros pareceram tomar partido, e as vozes subiram para um grito, e vi que haveria outra briga na Casa Grande — e decidi prontamente participar dela. Então, tirei meu avental e saí.
Foi engraçado. Pois, estranhamente, o efeito da minha entrada em cena foi como o de uma sala de aula barulhenta com o retorno da professora. O tumulto parou, de forma um tanto envergonhada, e aquela orelhada de homens instintivamente vestiu sua armadura de galanteria excessivamente servil. Eles sabiam que eu não era uma pessoa vulgar. Fui direto até eles, embora algo no seu desconforto fúnebre me fizesse sorrir. Então, Dinky-Dunk, furioso como uma galinha molhada, teve que me apresentar cada um deles! Um era membro do Parlamento, outro pertencia a algum tipo de comitê ferroviário, outro era um funcionário de construção de estradas, e outro era um mero capitalista que possuía dois ou três jornais. O homem a quem Dinky-Dunk chamara de mentiroso era um engenheiro civil, embora me parecesse que ele agia de forma decididamente incivil. Eles arriscaram um lugar-comum sobre o belo tempo de verão indígena e esforçaram-se para fazer uma ou duas piadas pesadas sobre um homem tão mal-humorado ter uma esposa tão bonita — pelo que os desprezei a todos. Mas pude ver que, mesmo que minha intrusão tivesse suavizado sua conversa, ela também deixou tudo desconfortavelmente hesitante e evasivo. Por alguma razão, aquela era uma luta de homens, uma que precisava ser resolvida à maneira dos homens. Então, decidi retirar-me com dignidade exterior, ainda que com embaraço interior. Mas ressenti a sua galanteria comercial grosseira quase tanto quanto detestei a sua tentativa de intimidar meu Verdadeiro Amor. E lancei-lhes uma última flechada enquanto me virava.
"A última briga de boxe que vi foi num tipo de cabaré de souteneur na Avenue des Tilleuls", expliquei-lhes docemente. "Mas isso foi há quase três anos. Portanto, se vai haver um combate no meu quintal, espero que os senhores sejam tão gentis a ponto de me chamar!"
E, sorrindo para os seus rostos um tanto perplexos, virei nos calcanhares e entrei na casa. Um dos homens riu alto e profundamente com esse meu discurso, e alguns dos outros pareciam ficar sentados a refletir sobre ele. No entanto, dois minutos depois de eu estar dentro do barraco, aquele engenheiro civil mais incivil e Dinky-Dunk recomeçaram. A linguagem deles era mais do que eu gostaria de repetir. O fim disso, no entanto, foi que os seis carregadores de caixão poeirentos desceram rigidamente do carro e Dinky-Dunk gritou por Olie e Terry. A princípio, pensei que fosse um duelo, só que não conseguia entender como poderia ser travado com um perfurador de buracos de mourão e alguns pedaços de canos de gás articulados, pois era isso que os homens carregavam consigo.
Longe, através da pradaria, pude vê-los aparentemente envolvidos na ocupação tola e bastante inútil de fazer um buraco de mourão onde não era nem um pouco necessário, e depois agrupando-se em torno desse buraco como um bando de figurões professoriais em torno de um novo espécime numa lâmina de microscópio. Depois, mudaram-se e fizeram outro buraco, e ainda outro, até que me cansei de observá-los. Foi duas horas depois que voltaram. As suas vozes agora pareciam mais facetas e havia mais risadas e brincadeiras, sendo Dinky-Dunk e o engenheiro civil incivil os únicos silenciosos. E então o motor do carro ronronou e zumbiu, eles subiram pesadamente, acenderam charutos, acenaram com as mãos e partiram em uma nuvem de poeira.
Mas Dinky-Dunk, quando voltou ao barraco com os seus papéis, não estava com disposição para conversar. E eu sabia melhor do que tentar sondá-lo. Hoje à noite ele chegou cedo para o jantar e anunciou que precisaria partir para Winnipeg imediatamente e talvez até tivesse que seguir para Ottawa. Então, preparei o seu jantar, fiz a sua mala e segurei Babe para que ele desse um beijo de despedida. Mas, ainda assim, não o incomodei com perguntas, pois estava com medo de más notícias. E ele sabia que eu sabia que podia confiar nele.
Ele me beijou em despedida de uma maneira tragicamente terna, ou melhor, ternamente trágica, o que me fez perguntar por um momento se ele possivelmente nunca mais voltaria. Então, fiz com que todos esperassem enquanto eu dava um beijo extra, para garantir, caso eu fosse uma viúva de grama pelo resto dos meus dias.
Hoje à noite, porém, sentei Terry na ponta da mesa e submeti-o a um interrogatório de primeira. A briga, pelo que pude aprender com este jovem irlandês indireto, é toda sobre um direito de passagem através da nossa parte da província. Dinky-Dunk, ao que parece, tem trabalhado nisso há mais de um ano. E o homem a quem ele chamou de nomes perversos tinha sido enviado pelos funcionários para relatar sobre o território. Meu marido afirma que ele foi subornado pelo partido de oposição e entregou um relatório dizendo que o nosso distrito estava sem água. Ele também proclamou que a nossa terra — a nossa terra, veja bem! — era um solo invariavelmente pobre e inferior! Não é de admirar que o meu Dinky-Dunk tivesse explodido! Então, Terry me deixou um tanto inquieto ao anunciar, com uma risadinha, que eles tinham passado a perna em todo o grupo. Pois, três dias antes, ele tinha colocado silenciosamente vinte buracos de teste de solo e água e os preenchera cuidadosamente de novo. Mas ele encontrou o que buscava. E aquele pequeno exército de difamadores pagos, ele reconheceu, tinha sido conduzido para a vizinhança onde o solo era mais profundo e a água era mais próxima. E isso logo mostrou quem era o mentiroso, pois, é claro, tudo saiu como Dinky-Dunk queria que saísse!
Mas essa fase disso não discuti com Terry, pois não tinha desejo de expor as obliquidades morais do meu marido diante do seu empregado. Ainda assim, continuo perturbada com o que ouvi. Oh, Dinky-Dunk, nunca imaginei que você fosse nem um pouco astuto, mesmo nos negócios!
Domingo, dia dezoito
Olie e Terry parecem convencidos do fato de que a agricultura de Dinky-Dunk tem sido um sucesso. Nós salvamos toda a nossa colheita de trigo, e é fenomenal. Terry, com seus entusiasmos celtas malucos, diz que, no próximo ano, eles chamarão Dinky-Dunk de Rei do Trigo do Oeste. Olga e Percy foram passear de charrete esta tarde. Eu gostaria de ter algum tipo de balança para pesar meu Snoozerette. Sei que ele dobrou de peso nas últimas três semanas.
Domingo, dia vinte e cinco
Meu Dinky-Dunk está de volta em casa. Ele parece um pouco cansado e com os olhos encovados, mas quando o Menino fez barulhos de alegria e sorriu para ele, seu rosto pobre e cansado suavizou-se tão maravilhosamente que trouxe lágrimas aos meus olhos. Finalmente convenci-o a parar de acariciar Babe e prestar um pouco de atenção em mim. Depois do jantar, ele abriu a sua mala extra e tirou os montes de coisas que tinha trazido para Babe e para mim. Então, sentei-me no colo dele e segurei as suas orelhas e fiz com que ele soprasse a fumaça, cada vestígio dela, para que eu pudesse beijá-lo nos meus lugares particulares.
Terça-feira, dia vinte e sete
Dinky-Dunk partiu para Buckhorn para fazer alguns telegramas que deveria ter feito na noite de sábado. Minhas suspeitas sobre a sua astúcia, a propósito, eram totalmente infundadas. Foi o ingênuo Terry quem conduziu aqueles funcionários da ferrovia até o local onde ele já tinha testado secretamente a água e encontrado sinais dela. E Terry nem sequer consegue entender por que Dinky-Dunk está tão furioso com tudo isso!
Quarta-feira, dia vinte e oito
Quando Dinky-Dunk chegou ontem à noite, depois da sua viagem vindo de Buckhorn, havia um olhar no seu rosto que me assustou um pouco. Encostei-o contra a porta, depois de ele ter dado uma espiada no Menino, e disse: "Deixe-me sentir o seu hálito, senhor!" Pois, com aquele brilho estranho nos olhos, certamente pensei que ele estivesse bebendo. "Lábios que tocam licor", cantei, "nunca tocarão os meus!"
Mas eu estava enganada. E Dinky-Dunk apenas riu de uma maneira silenciosa e retumbante que era nova para ele. "Acredito que estou bêbado, Boca Chica", ele confessou solenemente, "bêbado como um lorde!" Então, ele pegou ambas as minhas mãos nas suas.
"Você sabe o que vai acontecer?" ele perguntou. E, claro, eu não sabia. Então, ele lançou isso diretamente para mim.
"A ferrovia vai vir!"
"Vir para onde?" eu exclamei.
"Vir aqui, bem através das nossas terras! Está decidido. E não há erro sobre isso desta vez. Em dez meses haverá trens passando a vapor pela Casa Grande!"
"Skookum!" gritei.
"E haverá uma estação a uma milha de onde você está! E dentro de dois anos, esses mil e setecentos ou mil e oitocentos acres de terra valerão quarenta dólares por acre, facilmente, e talvez até cinquenta. E o que isso significa, você mesma pode calcular!"
"Whoopee!" ofeguei, tentando em vão calcular quanto era quarenta vezes mil e setecentos.
Mas isso não era tudo. Isso eliminaria o transporte rodoviário para o elevador, o que poderia ter tirado a maior parte do lucro do seu cultivo de grãos. Transportar trigo para Buckhorn teria sido um desconto terrível, não importando que sorte ele pudesse ter com as suas colheitas. Então, ele tinha movido céu e terra para fazer o aço vir para o seu lado. Ele tinha feito contatos e entrevistado membros e garantido um fornecimento de tanque de água e prometido um direito de passagem e feito uso dos seus velhos amigos engenheiros — até que a sua batalha foi ganha. E a sua última luta tinha sido contra o mentiroso que tinha enviado relatórios falsos sobre o seu distrito. Mas isso tinha acabado agora, e a Casa Grande não será mais o lugar de partida da civilização, o ponto no deserto. Ela estará nos horários e nas rotas de correio, e eu sei que o meu Dinky-Dunk será o primeiro prefeito da nova cidade, se é que algum dia haverá uma cidade para ser prefeito!
Sexta-feira, dia trinta
Dinky-Dunk entrou ao meio-dia hoje, caminhou na ponta dos pés até o berço para ver se o Menino estava bem, e depois veio e colocou as mãos nos meus ombros, olhando-me solenemente nos olhos: "O que você supõe que aconteceu?" ele perguntou.
"Outra ferrovia", arrisquei.
Ele balançou a cabeça. É claro que era inútil para mim tentar adivinhar. Empurrei meu dedo contra o pomo de adão de Dinky-Dunk e perguntei-lhe qual era a novidade.
"Percival Benson Woodhouse acaba de anunciar calmamente para mim que, na próxima semana, ele vai se casar com Olga", foi a resposta do meu marido.
E ele se perguntou por que eu sorri.
Domingo, dia primeiro
O pequeno Dinky-Dink está profundamente adormecido no seu berço escandinavo esculpido à mão. A noite está fria, então temos um fogo aceso. O grande Dinky-Dunk, que tem fumado o seu cachimbo, está sentado de um lado da mesa, e eu estou sentada do outro. Entre nós jaz o maço de plantas da casa que acabaram de nos ser enviadas por correio de Filadélfia. Esta é a segunda noite em que as examinamos. E decidimos o que faremos na Casa Grande. Teremos um telefone, assim que a ferrovia chegar, e um moinho de vento e água corrente, e um novo celeiro com um grande tanque de água da chuva numa extremidade, e uma fornalha de água quente na nova casa e varandas para dormir e uma copa de mordomo e um duto de lavanderia — e o próximo inverno na Califórnia, se quisermos. E Dinky-Dunk se culpa por nunca ter tido cérebro suficiente para plantar uma ou duas avenidas de choupos ou bordos de Manitoba ao redor da Casa Grande, pois agora teremos que esperar alguns anos pela folhagem e sombra. E ele pretende ter um parquinho para o pequeno Dinky-Dink, pois ele concorda comigo que o nosso menino deve ser forte, viril e musculoso, e não deve usar tabaco de forma alguma até ter pelo menos vinte anos. E Dinky-Dunk também concordou que eu farei todos os castigos — se algum castigo for necessário! O pai dele, a propósito, acaba de anunciar que quer que Babe vá para McGill e depois para Oxford. Mas eu tenho insistido em Harvard, e serei firme quanto a isso.
Isso prometia nos levar a um impasse, então voltamos para as nossas plantas da casa novamente, e Dinky-Dunk apontou que a nova sala de estar seria maior do que todo o nosso barraco atual e o anexo juntos. E isso fez com que eu olhasse ao redor do nosso pobre pequeno cubículo de cabana e, pela primeira vez, percebesse que o nosso primeiro lar seria apagado do mapa. E nada seria igual novamente, e até a pradaria sobre a qual eu tinha olhado em minha alegria e em minha tristeza seria sempre diferente! Um nó surgiu na minha garganta. E quando Olga entrou e eu entreguei Dinky-Dink para ela, ela pôde ver que meus cílios estavam molhados. Mas ela não conseguia entender.
Então, esgueirei-me até o piano e comecei a tocar. Muito calmamente cantei a canção irlandesa de Herman Lohr que começa:
No silêncio da noite, acushla, Quando a nova casa grande está quieta...
Mas antes de chegar aos dois últimos versos, receio que minha voz estivesse um tanto trêmula.
No silêncio do ano, acushla, Quando meus novos campos largos estão castanhos, Penso numa pequena casa velha, Na orla de uma velha cidade cinzenta!
Penso nos rostos iluminados por lamparinas de junco, Onde o quarto e o pão eram pequenos: _Mas os anos novos parecem os anos magros, E os anos velhos, os melhores de todos!_
Dinky-Dunk veio e ficou perto de mim. "Minha Gee-Gee tem uma grande tristeza em seu pequeno coração de pradaria?" ele perguntou enquanto envolvia meus braços ao meu redor. Mas eu estava fungando e não conseguia responder-lhe. E o aperto dos seus abençoados braços grandes ao meu redor só parecia piorar tudo. Então, eu estava chorando abertamente quando ele ergueu meu rosto e se serviu do que deve ter sido um beijo terrivelmente salgado. Mas escapei para o meu quarto, pois não sou uma daquelas mulheres de flor de macieira que podem chorar e ainda parecer bonitas. E por duas abençoadas horas tenho estado sentada aqui, Matilda Anne, perguntando-me se a nossa nova vida será tão feliz quanto a nossa antiga vida foi... Esses velhos dias acabaram e se foram, e a página deve ser virada. E nessa última página eu estava prestes a escrever "Tamam shud". Mas, real e imperativo através da quietude da Casa Grande, ouço o chamado do meu amado pequeno tenor robusto — e se é a voz da fome, é também a voz da esperança!
O FIM
Cabbages and Kings. De O. Henry. Cabin Fever. De B. M. Bower. Calling of Dan Matthews, The. De Harold Bell Wright. Cape Cod Stories. De Joseph C. Lincoln. Cap'n Abe, Storekeeper. De James A. Cooper. Cap'n Dan's Daughter. De Joseph C. Lincoln. Cap'n Eri. De Joseph C. Lincoln. Cap'n Jonah's Fortune. De James A. Cooper. Cap'n Warren's Wards. De Joseph C. Lincoln. Chain of Evidence, A. De Carolyn Wells. Chief Legatee, The. De Anna Katharine Green. Cinderella Jane. De Marjorie B. Cooke. Cinema Murder, The. De E. Phillips Oppenheim. City of Masks, The. De George Barr McCutcheon. Cleek of Scotland Yard. De T. W. Hanshew. Cleek, The Man of Forty Faces. De Thomas W. Hanshew. Cleek's Government Cases. De Thomas W. Hanshew. Clipped Wings. De Rupert Hughes. Clue, The. De Carolyn Wells. Clutch of Circumstance, The. De Marjorie Benton Cooke. Coast of Adventure, The. De Harold Bindloss. Coming of Cassidy, The. De Clarence E. Mulford. Coming of the Law, The. De Chas. A. Seltzer. Conquest of Canaan, The. De Booth Tarkington. Conspirators, The. De Robert W. Chambers. Court of Inquiry, A. De Grace S. Richmond. Cow Puncher, The. De Robert J. C. Stead. Crimson Gardenia, The, and Other Tales of Adventure. De Rex Beach. Cross Currents. Da autora de "Pollyanna". Cry in the Wilderness, A. De Mary E. Waller. Danger, And Other Stories. De A. Conan Doyle. Dark Hollow, The. De Anna Katharine Green. Dark Star, The. De Robert W. Chambers. Daughter Pays, The. De Sra. Baillie Reynolds. Day of Days, The. De Louis Joseph Vance. Depot Master, The. De Joseph C. Lincoln. Desired Woman, The. De Will N. Harben.
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Man with the Club Foot, The. De Valentine Williams. Mary-'Gusta. De Joseph C. Lincoln. Mary Moreland. De Marie Van Vorst. Mary Regan. De Leroy Scott. Master Mummer, The. De E. Phillips Oppenheim. Memoirs of Sherlock Holmes. De A. Conan Doyle. Men Who Wrought, The. De Ridgwell Cullum. Mischief Maker, The. De E. Phillips Oppenheim. Missioner, The. De E. Phillips Oppenheim. Miss Million's Maid. De Berta Ruck. Molly McDonald. De Randall Parrish. Money Master, The. De Gilbert Parker. Money Moon, The. De Jeffery Farnol. Mountain Girl, The. De Payne Erskine. Moving Finger, The. De Natalie Sumner Lincoln. Mr. Bingle. De George Barr McCutcheon. Mr. Grex of Monte Carlo. De E. Phillips Oppenheim. Mr. Pratt. De Joseph C. Lincoln. Mr. Pratt's Patients. De Joseph C. Lincoln. Mrs. Belfame. De Gertrude Atherton. Mrs. Red Pepper. De Grace S. Richmond. My Lady Caprice. De Jeffrey Farnol. My Lady of the North. De Randall Parrish. My Lady of the South. De Randall Parrish. Mystery of the Hasty Arrow, The. De Anna K. Green. Nameless Man, The. De Natalie Sumner Lincoln. Ne'er-Do-Well, The. De Rex Beach. Nest Builders, The. De Beatrice Forbes-Robertson Hale. Net, The. De Rex Beach. New Clarion. De Will N. Harben. Night Operator, The. De Frank L. Packard. Night Riders, The. De Ridgwell Cullum. Nobody. De Louis Joseph Vance. Okewood of the Secret Service. Do autor de "The Man with the Club Foot". One Way Trail, The. De Ridgwell Cullum. Open Sesame. De Sra. Baillie Reynolds. Otherwise Phyllis. De Meredith Nicholson. Outlaw, The. De Jackson Gregory.
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Paradise Auction. De Nalbro Bartley. Pardners. De Rex Beach. Parrot & Co. De Harold MacGrath. Partners of the Night. De Leroy Scott. Partners of the Tide. De Joseph C. Lincoln. Passionate Friends, The. De H. G. Wells. Patrol of the Sun Dance Trail, The. De Ralph Connor. Paul Anthony, Christian. De Hiram W. Hays. Pawns Count, The. De E. Phillips Oppenheim. People's Man, A. De E. Phillips Oppenheim. Perch of the Devil. De Gertrude Atherton. Peter Ruff and the Double Four. De E. Phillips Oppenheim. Pidgin Island. De Harold MacGrath. Place of Honeymoon, The. De Harold MacGrath. Pool of Flame, The. De Louis Joseph Vance. Postmaster, The. De Joseph C. Lincoln. Prairie Wife, The. De Arthur Stringer. Price of the Prairie, The. De Margaret Hill McCarter. Prince of Sinners, A. De E. Phillips Oppenheim. Promise, The. De J. B. Hendryx. Proof of the Pudding, The. De Meredith Nicholson. Rainbow's End, The. De Rex Beach. Ranch at the Wolverine, The. De B. M. Bower. Ranching for Sylvia. De Harold Bindloss. Ransom. De Arthur Somers Roche. Reason Why, The. De Elinor Glyn. Reclaimers, The. De Margaret Hill McCarter. Red Mist, The. De Randall Parrish. Red Pepper Burns. De Grace S. Richmond. Red Pepper's Patients. De Grace S. Richmond. Rejuvenation of Aunt Mary, The. De Anne Warner. Restless Sex, The. De Robert W. Chambers. Return of Dr. Fu-Manchu, The. De Sax Rohmer. Return of Tarzan, The. De Edgar Rice Burroughs. Riddle of Night, The. De Thomas W. Hanshew. Rim of the Desert, The. De Ada Woodruff Anderson. Rise of Roscoe Paine, The. De J. C. Lincoln. Rising Tide, The. De Margaret Deland.
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Rocks of Valpre, The. De Ethel M. Dell. Rogue by Compulsion, A. De Victor Bridges. Room Number 3. De Anna Katharine Green. Rose in the Ring, The. De George Barr McCutcheon. Rose of Old Harpeth, The. De Maria Thompson Daviess. Round the Corner in Gay Street. De Grace S. Richmond. Second Choice. De Will N. Harben. Second Violin, The. De Grace S. Richmond. Secret History. De C. N. & A. M. Williamson. Secret of the Reef, The. De Harold Bindloss. Seven Darlings, The. De Gouverneur Morris. Shavings. De Joseph C. Lincoln. Shepherd of the Hills, The. De Harold Bell Wright. Sheriff of Dyke Hole, The. De Ridgwell Cullum. Sherry. De George Barr McCutcheon. Side of the Angels, The. De Basil King. Silver Horde, The. De Rex Beach. Sin That Was His, The. De Frank L. Packard. Sixty-first Second, The. De Owen Johnson. Soldier of the Legion, A. De C. N. & A. M. Williamson. Son of His Father, The. De Ridgwell Cullum. Son of Tarzan, The. De Edgar Rice Burroughs. Source, The. De Clarence Buddington Kelland. Speckled Bird, A. De Augusta Evans Wilson. Spirit in Prison, A. De Robert Hichens. Spirit of the Border, The. (Nova Edição.) De Zane Grey. Spoilers, The. De Rex Beach. Steele of the Royal Mounted. De James Oliver Curwood. Still Jim. De Honore Willsie. Story of Foss River Ranch, The. De Ridgwell Cullum. Story of Marco, The. De Eleanor H. Porter. Strange Case of Cavendish, The. De Randall Parrish. Strawberry Acres. De Grace S. Richmond. Sudden Jim. De Clarence B. Kelland. Tales of Sherlock Holmes. De A. Conan Doyle. Tarzan of the Apes. De Edgar R. Burroughs. Tarzan and the Jewels of Opar. De Edgar Rice Burroughs.
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Tempting of Tavernake, The. De E. Phillips Oppenheim. Tess of the D'Urbervilles. De Thos. Hardy. Thankful's Inheritance. De Joseph C. Lincoln. That Affair Next Door. De Anna Katharine Green. That Printer of Udell's. De Harold Bell Wright. Their Yesterdays. De Harold Bell Wright. Thirteenth Commandment, The. De Rupert Hughes. Three of Hearts, The. De Berta Ruck. Three Strings, The. De Natalie Sumner Lincoln. Threshold, The. De Marjorie Benton Cooke. Throwback, The. De Alfred Henry Lewis. Tish. De Mary Roberts Rinehart. To M. L. G.; or, He Who Passed. Anon. Trail of the Axe, The. De Ridgwell Cullum. Trail to Yesterday, The. De Chas. A. Seltzer. Treasure of Heaven, The. De Marie Corelli. Triumph, The. De Will N. Harben. T. Tembarom. De Frances Hodgson Burnett. Turn of the Tide. Da autora de "Pollyanna". Twenty-fourth of June, The. De Grace S. Richmond. Twins of Suffering Creek, The. De Ridgwell Cullum. Two-Gun Man, The. De Chas. A. Seltzer. Uncle William. De Jeannette Lee. Under Handicap. De Jackson Gregory. Under the Country Sky. De Grace S. Richmond. Unforgiving Offender, The. De John Reed Scott. Unknown Mr. Kent, The. De Roy Norton. Unpardonable Sin, The. De Major Rupert Hughes. Up From Slavery. De Booker T. Washington. Valiants of Virginia, The. De Hallie Ermine Rives. Valley of Fear, The. De Sir A. Conan Doyle. Vanished Messenger, The. De E. Phillips Oppenheim. Vanguards of the Plains. De Margaret Hill McCarter. Vashti. De Augusta Evans Wilson. Virtuous Wives. De Owen Johnson. Visioning, The. De Susan Glaspell.
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Waif-o'-the-Sea. De Cyrus Townsend Brady. Wall of Men, A. De Margaret H. McCarter. Watchers of the Plains, The. De Ridgwell Cullum. Way Home, The. De Basil King. Way of an Eagle, The. De E. M. Dell. Way of the Strong, The. De Ridgwell Cullum. Way of These Women, The. De E. Phillips Oppenheim. We Can't Have Everything. De Major Rupert Hughes. Weavers, The. De Gilbert Parker. When a Man's a Man. De Harold Bell Wright. When Wilderness Was King. De Randall Parrish. Where the Trail Divides. De Will Lillibridge. Where There's a Will. De Mary R. Rinehart. White Sister, The. De Marion Crawford. Who Goes There? De Robert W. Chambers. Why Not. De Margaret Widdemer. Window at the White Cat, The. De Mary Roberts Rinehart. Winds of Chance, The. De Rex Beach. Wings of Youth, The. De Elizabeth Jordan. Winning of Barbara Worth, The. De Harold Bell Wright. Wire Devils, The. De Frank L. Packard. Winning the Wilderness. De Margaret Hill McCarter. Wishing Ring Man, The. De Margaret Widdemer. With Juliet in England. De Grace S. Richmond. Wolves of the Sea. De Randall Parrish. Woman Gives, The. De Owen Johnson. Woman Haters, The. De Joseph C. Lincoln. Woman in Question, The. De John Reed Scott. Woman Thou Gavest Me, The. De Hall Caine. Woodcarver of 'Lympus, The. De Mary E. Waller. Wooing of Rosamond Fayre, The. De Berta Ruck. World for Sale, The. De Gilbert Parker. Years for Rachel, The. De Berta Ruck. Yellow Claw, The. De Sax Rohmer. You Never Know Your Luck. De Gilbert Parker. Zeppelin's Passenger, The. De E. Phillips Oppenheim.
NOTAS DO TRANSCRITOR
1. A pontuação foi normalizada para os padrões contemporâneos. 2. Adicionado o Índice, que não constava na edição original. 3. As ligaduras do inglês arcaico foram expandidas.