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The Red House Mystery

by A. A. (Alan Alexander) Milne · in Portuguese

O Mistério da Casa Vermelha

por A. A. Milne

A JOHN VINE MILNE

Meu querido Pai,

Como todas as pessoas verdadeiramente agradáveis, o senhor tem uma fraqueza por histórias de detetive e sente que não há o suficiente delas. Portanto, depois de tudo o que o senhor fez por mim, o mínimo que posso fazer pelo senhor é escrever-lhe uma. Aqui está: com mais gratidão e afeição do que posso expressar bem aqui.

A.A.M.

Conteúdo

CAPÍTULO I. A Sra. Stevens está assustada CAPÍTULO II. O Sr. Gillingham desce na estação errada CAPÍTULO III. Dois homens e um corpo CAPÍTULO IV. O irmão da Austrália CAPÍTULO V. O Sr. Gillingham escolhe uma nova profissão CAPÍTULO VI. Do lado de fora ou de dentro? CAPÍTULO VII. Retrato de um cavalheiro CAPÍTULO VIII. "Acompanha-me, Watson?" CAPÍTULO IX. Possibilidades de um jogo de críquete CAPÍTULO X. O Sr. Gillingham fala disparates CAPÍTULO XI. O reverendo Theodore Ussher CAPÍTULO XII. Uma sombra na parede CAPÍTULO XIII. A janela aberta CAPÍTULO XIV. O Sr. Beverley qualifica-se para o palco CAPÍTULO XV. A Sra. Norbury confidencia ao querido Sr. Gillingham CAPÍTULO XVI. Preparando-se para a noite CAPÍTULO XVII. O Sr. Beverley vai à água CAPÍTULO XVIII. Suposições CAPÍTULO XIX. O inquérito CAPÍTULO XX. O Sr. Beverley é diplomata CAPÍTULO XXI. O pedido de desculpas de Cayley CAPÍTULO XXII. O Sr. Beverley segue em frente

CAPÍTULO I. A Sra. Stevens está assustada

No calor modorrento da tarde de verão, a Casa Vermelha fazia a sua sesta. Havia um murmúrio preguiçoso de abelhas nas orlas das flores, um arrulhar suave de pombos no topo dos ulmeiros. Dos relvados distantes vinha o zumbido de uma máquina de cortar relva, o mais repousante de todos os sons do campo; tornando o descanso mais doce por ser aproveitado enquanto outros trabalham.

Era a hora em que mesmo aqueles cujo trabalho é atender às necessidades dos outros têm um momento ou dois para si próprios. No quarto da governanta, Audrey Stevens, a bonita empregada de mesa, retocava o seu melhor chapéu e conversava ociosamente com a sua tia, a cozinheira-governanta da casa de solteiro do Sr. Mark Ablett.

"Para o Joe?", disse a Sra. Stevens placidamente, com os olhos no chapéu. Audrey assentiu. Tirou um alfinete da boca, encontrou um lugar para ele no chapéu e disse: "Ele gosta de um toque de cor-de-rosa."

"Não digo que eu própria me importe com um toque de cor-de-rosa", disse a sua tia. "O Joe Turner não é o único."

"Não é a cor de toda a gente", disse Audrey, segurando o chapéu à distância de um braço e observando-o pensativamente. "Elegante, não é?"

"Oh, há de servir-te bem, e teria servido a mim na tua idade. Um pouco vistoso demais para mim agora, embora me conserve melhor do que algumas outras pessoas, atrevo-me a dizer. Nunca fui de fingir ser o que não era. Se tenho cinquenta e cinco anos, tenho cinquenta e cinco — é o que digo."

"Cinquenta e oito, não é, tia?"

"Estava apenas a dar um exemplo", disse a Sra. Stevens com grande dignidade.

Audrey enfiou a linha na agulha, estendeu a mão, olhou criticamente para as unhas por um momento e começou a coser.

"Coisa estranha essa sobre o irmão do Sr. Mark. Imagina não ver o teu irmão durante quinze anos." Ela deu uma risada embaraçada e continuou: "Imagino o que faria se não visse o Joe durante quinze anos."

"Como vos disse a todas esta manhã", disse a sua tia, "estou aqui há cinco anos e nunca ouvi falar de um irmão. Podia dizê-lo diante de toda a gente se fosse morrer amanhã. Não houve irmão nenhum aqui enquanto cá estive."

"Poderiam ter-me deitado abaixo com uma pena quando ele falou dele ao pequeno-almoço esta manhã. Não ouvi o que foi antes, naturalmente, mas estavam todos a falar do irmão quando entrei — agora, o que foi que eu fui lá buscar? Leite quente ou torradas? — bem, estavam todos a falar, e o Sr. Mark vira-se para mim e diz — já sabes o jeito dele — 'Stevens', diz ele, 'o meu irmão vem visitar-me esta tarde; espero-o por volta das três', diz ele. 'Leve-o para o escritório', diz ele, assim mesmo. 'Sim, senhor', digo eu muito calmamente, mas nunca estive tão surpreendida na minha vida, sem saber que ele tinha um irmão. 'O meu irmão da Austrália', diz ele — pronto, tinha-me esquecido disso. Da Austrália."

"Bem, ele pode ter estado na Austrália", disse a Sra. Stevens, judicialmente; "não posso dizer quanto a isso, por não conhecer o país; mas o que digo é que ele nunca esteve aqui. Não enquanto eu estive aqui, e isso são cinco anos."

"Bem, mas, tia, ele não vem cá há quinze anos. Ouvi o Sr. Mark a dizer ao Sr. Cayley. 'Quinze anos', diz ele. O Sr. Cayley tendo-lhe perguntado quando é que o irmão esteve pela última vez em Inglaterra. O Sr. Cayley sabia da existência dele, ouvi-o a dizer ao Sr. Beverley, mas não sabia quando esteve pela última vez em Inglaterra — vês? Então foi por isso que perguntou ao Sr. Mark."

"Não estou a dizer nada sobre quinze anos, Audrey. Só posso falar do que sei, e isso são cinco anos no Pentecostes. Posso jurar que ele não pôs os pés na casa desde o Pentecostes de há cinco anos. E se ele esteve na Austrália, como dizes, bem, atrevo-me a dizer que ele teria as suas razões."

"Que razões?", disse Audrey levianamente.

"Não interessa que razões. Fazendo as vezes de mãe para ti, desde que a tua pobre mãe morreu, digo isto, Audrey — quando um cavalheiro vai para a Austrália, ele tem as suas razões. E quando ele fica na Austrália quinze anos, como diz o Sr. Mark, e como eu sei por mim mesma há cinco anos, ele tem as suas razões. E uma rapariga educada respeitosamente não pergunta que razões."

"Metou-se em sarilhos, suponho", disse Audrey descuidadamente. "Estavam a dizer ao pequeno-almoço que ele tinha sido um rapaz selvagem. Dívidas. Estou contente por o Joe não ser assim. Ele tem quinze libras na caixa económica dos correios. Já te contei?"

Mas não haveria mais conversa sobre o Joe Turner naquela tarde. O toque de uma campainha pôs Audrey de pé — já não era Audrey, mas sim Stevens. Ajustou a touca diante do espelho.

"Pronto, é a porta da frente", disse ela. "É ele. 'Leve-o para o escritório', disse o Sr. Mark. Suponho que ele não queira que as outras senhoras e cavalheiros o vejam. Bem, de qualquer forma, estão todos no golfe — pergunto-me se ele vai ficar — talvez tenha trazido muito ouro da Austrália — podia ouvir alguma coisa sobre a Austrália, porque se alguém pode arranjar ouro lá, então não digo que o Joe e eu..."

"Agora, agora, despacha-te, Audrey."

"Já vou, querida." Ela saiu.

Para qualquer pessoa que tivesse acabado de descer a entrada sob o sol de agosto, a porta aberta da Casa Vermelha revelava um hall deliciosamente convidativo, do qual a simples visão era refrescante. Era um local amplo, de teto baixo e vigas de carvalho, com paredes caiadas de creme e janelas de vidro em losangos, com cortinas azuis. À direita e à esquerda havia portas que davam para outras salas de estar, mas no lado que ficava de frente para quem entrava havia janelas novamente, dando para um pequeno pátio relvado, e de janelas abertas para janelas abertas, o ar que existia circulava suavemente. A escadaria subia em degraus largos e baixos ao longo da parede direita e, virando à esquerda, conduzia a uma galeria que atravessava a largura do hall até ao quarto de dormir. Isto é, se a pessoa fosse passar a noite. As intenções do Sr. Robert Ablett a este respeito eram, até ao momento, desconhecidas.

Quando Audrey atravessou o hall, deu um pequeno salto ao ver o Sr. Cayley, sentado discretamente num assento sob uma das janelas da frente, a ler. Não havia razão para ele não estar ali; certamente um lugar muito mais fresco do que os campos de golfe num dia daqueles; mas, de alguma forma, havia um ar de abandono na casa naquela tarde, como se todos os hóspedes estivessem lá fora, ou — talvez o lugar mais sensato de todos — nos seus quartos, a dormir. O Sr. Cayley, primo do patrão, foi uma surpresa; e, tendo dado uma pequena exclamação ao deparar-se subitamente com ele, ela corou e disse: "Oh, peço perdão, senhor, não o tinha visto a princípio", e ele levantou os olhos do livro e sorriu para ela. Era um sorriso atraente naquele rosto grande e feio. "Um verdadeiro cavalheiro, o Sr. Cayley", pensou ela consigo mesma enquanto seguia caminho, e perguntou-se o que faria o patrão sem ele. Se este irmão, por exemplo, tivesse de ser mandado de volta para a Austrália, seria o Sr. Cayley quem faria a maior parte do serviço.

"Então este é o Sr. Robert", disse Audrey para si mesma, ao ver o visitante.

Mais tarde, ela disse à tia que o teria reconhecido em qualquer lugar como irmão do Sr. Mark, mas ela diria isso de qualquer forma. Na verdade, ela estava surpreendida. O pequeno e elegante Mark, com a sua barba pontiaguda e o bigode cuidadosamente enrolado; com os seus olhos rápidos e inquietos, movendo-se sempre de um para o outro em qualquer companhia em que estivesse, para registar mais um sorriso a seu crédito quando dizia algo espirituoso, mais um olhar expectante quando esperava apenas a sua vez de falar; ele era um homem muito diferente deste colonial de aspeto rude e mal vestido, que a olhava de forma ameaçadora.

"Quero ver o Sr. Mark Ablett", rosnou ele. Parecia quase uma ameaça.

Audrey recompôs-se e sorriu de forma tranquilizadora para ele. Ela tinha um sorriso para toda a gente.

"Sim, senhor. Ele está à sua espera, se quiser vir por aqui."

"Oh! Então sabes quem eu sou, eh?"

"O Sr. Robert Ablett?"

"Sim, é isso mesmo. Então ele está à minha espera, eh? Ele ficará contente por me ver, eh?"

"Se quiser vir por aqui, senhor", disse Audrey afetadamente.

Ela dirigiu-se à segunda porta à esquerda e abriu-a.

"O Sr. Robert Ab..." começou ela, e depois interrompeu-se. A sala estava vazia. Ela virou-se para o homem atrás dela. "Se o senhor quiser sentar-se, eu procurarei o patrão. Sei que ele está, porque me disse que o senhor viria esta tarde."

"Oh!" Ele olhou em volta da sala. "Como chamas a este lugar, eh?"

"O escritório, senhor."

"O escritório?"

"A sala onde o patrão trabalha, senhor."

"Trabalha, eh? Isso é novidade. Não sabia que ele tinha dado um prego na vida."

"Onde ele escreve, senhor", disse Audrey, com dignidade. O facto de o Sr. Mark "escrever", embora ninguém soubesse o quê, era motivo de orgulho na sala da governanta.

"Não está bem vestido o suficiente para a sala de estar, eh?"

"Vou dizer ao patrão que o senhor está aqui, senhor", disse Audrey decisivamente.

Ela fechou a porta e deixou-o lá.

Bem! Isto era algo para contar à tia! A sua mente estava ocupada de imediato, repassando todas as coisas que ele lhe tinha dito e que ela lhe tinha respondido — baixinho. "Assim que o vi, disse para comigo..." Ora, poderiam tê-la deitado abaixo com uma pena. Penas, na verdade, eram uma ameaça perpétua para Audrey.

No entanto, o assunto imediato era encontrar o patrão. Ela atravessou o hall até à biblioteca, espreitou, voltou um pouco incerta e parou diante de Cayley.

"Se faz favor, senhor", disse ela com uma voz baixa e respeitosa, "pode dizer-me onde está o patrão? É o Sr. Robert que veio."

"O quê?", disse Cayley, levantando os olhos do livro. "Quem?"

Audrey repetiu a sua pergunta.

"Não sei. Ele não está no escritório? Ele foi ao Templo depois do almoço. Não creio tê-lo visto desde então."

"Obrigada, senhor. Vou ao Templo."

Cayley voltou ao seu livro.

O "Templo" era um pavilhão de verão de tijolo, nos jardins atrás da casa, a cerca de trezentos metros de distância. Aqui Mark meditava por vezes antes de se retirar para o "escritório" para colocar os seus pensamentos no papel. Os pensamentos não eram de grande valor; além disso, eram expressos à mesa de jantar mais vezes do que iam parar ao papel, e iam parar ao papel mais vezes do que iam parar à impressão. Mas isso não impedia o mestre da Casa Vermelha de ficar um pouco ofendido quando um visitante tratava o Templo com descuido, como se tivesse sido erguido para os propósitos comuns de namoricos e fumo de cigarros. Houve uma ocasião em que dois dos seus convidados foram encontrados a jogar à bola contra a parede lá dentro. Mark não disse nada na altura, a não ser perguntar — com um pouco menos do que o seu ponto de vista habitual — se não conseguiam encontrar outro lugar para o seu jogo, mas os ofensores nunca mais foram convidados para a Casa Vermelha.

Audrey caminhou lentamente até ao Templo, espreitou e caminhou lentamente de volta. Toda aquela caminhada por nada. Talvez o patrão estivesse lá em cima, no seu quarto. "Não está bem vestido o suficiente para a sala de estar." Bem, agora, tia, gostarias de ter alguém na tua sala de estar com um lenço vermelho ao pescoço e botas grandes e empoeiradas, e — ouve! Um dos homens a disparar a coelhos. A tia era parcial a um bom coelho com molho de cebola. Que calor que estava; ela não diria que não a uma chávena de chá. Bem, uma coisa era certa, o Sr. Robert não ia passar a noite; não tinha bagagem. Claro que o Sr. Mark podia emprestar-lhe coisas; ele tinha roupa suficiente para seis. Ela tê-lo-ia reconhecido em qualquer lugar como irmão do Sr. Mark.

Ela entrou na casa. Ao passar pelo quarto da governanta a caminho do hall, a porta abriu-se subitamente e um rosto bastante assustado espreitou.

"Olá, Aud", disse Elsie. "É a Audrey", disse ela, voltando-se para o interior do quarto.

"Entra, Audrey", chamou a Sra. Stevens.

"O que se passa?", disse Audrey, espreitando pela porta.

"Oh, minha querida, deste-me um susto daqueles. Onde estiveste?"

"Lá no Templo."

"Ouviste alguma coisa?"

"Ouvir o quê?"

"Estrondos e explosões e coisas terríveis."

"Oh!", disse Audrey, bastante aliviada. "Um dos homens a disparar a coelhos. Ora, eu disse para comigo enquanto vinha, 'A tia é parcial a um bom coelho', disse eu, e não me surpreenderia se..."

"Coelhos!", disse a sua tia com desprezo. "Foi dentro da casa, minha rapariga."

"Verdade que foi", disse Elsie. Ela era uma das empregadas de quarto. "Eu disse à Sra. Stevens — não disse, Sra. Stevens? — 'Aquilo foi dentro da casa', disse eu."

Audrey olhou para a sua tia e depois para Elsie.

"Acham que ele trazia um revólver consigo?", disse ela com uma voz abafada.

"Quem?", disse Elsie excitada.

"Aquele irmão dele. Da Austrália. Eu disse logo que pus os olhos nele: 'Você é um tipo perigoso, meu homem!' Foi o que eu disse, Elsie. Mesmo antes de ele falar comigo. Mal-educado!" Ela virou-se para a tia. "Bem, dou-vos a minha palavra."

"Se bem te lembras, Audrey, eu sempre disse que não se podia confiar em ninguém vindo da Austrália." A Sra. Stevens recostou-se na cadeira, respirando bastante depressa. "Não sairia deste quarto agora, nem que me pagassem cem mil libras."

"Oh, Sra. Stevens!", disse Elsie, que queria desesperadamente cinco xelins para um par de sapatos novos, "eu não iria tão longe, nem eu própria, mas..."

"Ali!", gritou a Sra. Stevens, sentando-se com um salto. Elas ouviram ansiosamente, as duas raparigas instintivamente aproximando-se da cadeira da mulher mais velha.

Uma porta estava a ser sacudida, pontapeada, batida.

"Ouve!"

Audrey e Elsie olharam uma para a outra com olhos assustados.

Ouviram a voz de um homem, alta, zangada.

"Abre a porta!", gritava ele. "Abre a porta! Eu disse, abre a porta!"

"Não abram a porta!", gritou a Sra. Stevens em pânico, como se fosse a sua própria porta que estivesse ameaçada. "Audrey! Elsie! Não o deixem entrar!"

"Diabos, abre a porta!", veio a voz novamente.

"Vamos ser todos assassinados nas nossas camas", murmurou ela. Aterrorizadas, as duas raparigas amontoaram-se mais perto e, com um braço à volta de cada uma, a Sra. Stevens sentou-se ali, à espera.

CAPÍTULO II. O Sr. Gillingham desce na estação errada

Se Mark Ablett era um maçador ou não, dependia do ponto de vista, mas pode dizer-se desde já que ele nunca aborreceu a sua companhia sobre o assunto da sua vida pregressa. No entanto, as histórias espalham-se. Há sempre alguém que sabe. Entendia-se — e isto, de qualquer modo, por autoridade do próprio Mark — que o seu pai tinha sido um clérigo rural. Dizia-se que, quando rapaz, Mark tinha atraído a atenção e o patrocínio de alguma solteirona rica da vizinhança, que tinha pago a sua educação, tanto na escola como na universidade. Por volta da altura em que ele estava a sair de Cambridge, o seu pai tinha morrido; deixando para trás algumas dívidas, como um aviso à sua família, e uma reputação de sermões curtos, como um exemplo para o seu sucessor. Nem o aviso nem o exemplo parecem ter sido eficazes. Mark foi para Londres, com uma mesada da sua patrona, e (é geralmente aceite) fez amizade com os agiotas. Supunha-se, pela sua patrona e quaisquer outros que perguntassem, que ele estivesse a "escrever"; mas o que ele escrevia, além de cartas pedindo mais tempo para pagar, nunca foi descoberto. No entanto, ele frequentava os teatros e as casas de espetáculos muito regularmente — sem dúvida com vista a alguns artigos sérios no "Spectator" sobre a decadência do palco inglês.

Felizmente (do ponto de vista de Mark), a sua patrona morreu durante o seu terceiro ano em Londres e deixou-lhe todo o dinheiro que ele queria. A partir desse momento, a sua vida perde o seu caráter lendário e torna-se mais uma questão de história. Ele saldou contas com os agiotas, abandonou as suas loucuras de juventude à colheita de outros e tornou-se, por sua vez, um patrono. Ele patrocinou as Artes. Não foram apenas os usurários que descobriram que Mark Ablett já não escrevia por dinheiro; aos editores eram agora oferecidas contribuições gratuitas, bem como almoços grátis; aos editores eram dados contratos para um ocasional volume esguio, no qual o autor pagava todas as despesas e renunciava a todos os direitos de autor; pintores e poetas jovens e promissores jantavam com ele; e ele chegou a levar uma companhia de teatro em digressão, desempenhando o papel de anfitrião e "ator principal" com igual prodigalidade.

Ele não era o que a maioria das pessoas chama de esnobe. Um esnobe foi definido descuidadamente como um homem que ama um lorde; e, mais cuidadosamente, como um amante mesquinho de coisas mesquinhas — o que seria um pouco indelicado para com a nobreza se a primeira definição fosse verdadeira. Mark tinha as suas vaidades, sem dúvida, mas teria preferido encontrar um ator-empresário a um conde; ele teria falado da sua amizade com Dante — se isso tivesse sido possível — com mais fluidez do que da sua amizade com o Duque. Chamem-lhe esnobe se quiserem, mas não o pior tipo de esnobe; um aproveitador, mas das franjas da Arte, não da Sociedade; um alpinista, mas nas vizinhanças do Parnaso, não de Hay Hill.

O seu patrocínio não parava nas Artes. Incluía também Matthew Cayley, um primo de treze anos, cujas circunstâncias eram tão limitadas como tinham sido as do próprio Mark antes de a sua patrona o ter resgatado. Ele enviou o primo Cayley para a escola e para Cambridge. Os seus motivos, sem dúvida, eram suficientemente mundanos no início; um mero reembolso na sua conta no livro do Anjo Guardião da generosidade que tinha sido prodigalizada a si mesmo; um tesouro guardado no céu. Mas é provável que, à medida que o rapaz crescia, os planos de Mark para o seu futuro se baseassem tanto nos seus próprios interesses quanto nos do seu primo, e que um Matthew Cayley de vinte e três anos, adequadamente educado, fosse sentido por ele como uma propriedade útil para um homem na sua posição; um homem, quer dizer, cujas vaidades lhe deixavam tão pouco tempo para os seus negócios.

Cayley, então, aos vinte e três anos, cuidava dos negócios do seu primo. Por esta altura, Mark tinha comprado a Casa Vermelha e a quantidade considerável de terra que a acompanhava. Cayley supervisionava o pessoal necessário. Os seus deveres, de facto, eram muitos. Ele não era bem secretário, não bem agente imobiliário, não bem consultor de negócios, não bem companheiro, mas algo de todos os quatro. Mark apoiava-se nele e chamava-lhe "Cay", objetando com toda a razão nas circunstâncias ao nome de Matthew. Cay, ele sentia, era, acima de tudo, fiável; um tipo grande, de mandíbula pesada e sólido, que não o incomodava com conversas desnecessárias — uma bênção para um homem que gostava de fazer a maior parte da conversa.

Cayley tinha agora vinte e oito anos, mas tinha toda a aparência de quarenta, que era a idade do seu patrão. Esporadicamente, eles entretinham bastante na Casa Vermelha, e a preferência de Mark — chamem-lhe bondade ou vaidade, como quiserem — era por convidados que não estivessem em posição de retribuir a sua hospitalidade. Vamos dar uma vista de olhos neles enquanto desciam para aquele pequeno-almoço, do qual Stevens, a empregada de mesa, já nos deu um vislumbre.

O primeiro a aparecer foi o Major Rumbold, um homem alto, de cabelos grisalhos, bigode grisalho e silencioso, que usava um casaco Norfolk e calças de flanela cinzentas, que vivia da sua reforma e escrevia artigos de história natural para os jornais. Inspecionou os pratos na mesa lateral, decidiu-se cuidadosamente pelo *kedgeree* e pôs-se a trabalhar nele. Já tinha passado para uma salsicha quando chegou o seguinte. Tratava-se de Bill Beverly, um jovem alegre de calças de flanela brancas e blazer.

“Olá, Major”, disse ele ao entrar, “como está a gota?”

“Não é gota”, disse o Major de forma brusca.

“Bem, seja o que for.”

O Major resmungou.

“Faço questão de ser educado ao pequeno-almoço”, disse Bill, servindo-se abundantemente de papas de aveia. “A maioria das pessoas é tão rude. É por isso que lhe perguntei. Mas não me diga se for um segredo. Café?”, acrescentou, enquanto servia uma chávena para si próprio.

“Não, obrigado. Nunca bebo até acabar de comer.”

“Muito bem, Major; são apenas maneiras.” Sentou-se em frente ao outro. “Bem, temos um bom dia para o nosso jogo. Vai estar um calor dos diabos, mas é aí que a Betty e eu levamos vantagem. No quinto *green*, a sua velha ferida, aquela que apanhou naquela escaramuça na fronteira em ’43, começará a incomodá-lo; no oitavo, o seu fígado, minado por anos de caril, vai desfazer-se em pedaços; no décimo segundo—”

“Oh, cala-te, seu asno!”

“Bem, estou apenas a avisá-lo. Olá; bom dia, Miss Norris. Estava precisamente a dizer ao Major o que ia acontecer a ele e a si esta manhã. Quer ajuda ou prefere escolher o seu próprio pequeno-almoço?”

“Por favor, não se levante”, disse Miss Norris. “Eu sirvo-me. Bom dia, Major.” Ela sorriu-lhe agradavelmente. O Major acenou com a cabeça.

“Bom dia. Vai estar calor.”

“Como eu estava a dizer-lhe”, começou Bill, “é aí que—Olá, aqui está a Betty. Bom dia, Cayley.”

Betty Calladine e Cayley tinham entrado juntos. Betty era a filha de dezoito anos da Sra. John Calladine, viúva do pintor, que estava a servir de anfitriã nesta ocasião para Mark. Ruth Norris levava-se a sério como atriz e, nas suas férias, a sério como jogadora de golfe. Era bastante competente em ambos. Nem a *Stage Society* nem Sandwich tinham quaisquer terrores para ela.

“A propósito, o carro estará cá às 10h30”, disse Cayley, levantando os olhos das suas cartas. “Vão almoçar lá e regressar diretamente a seguir. Não é assim?”

“Não vejo porque não havemos de fazer... duas voltas”, disse Bill, esperançoso.

“Demasiado calor à tarde”, disse o Major. “Regressar confortavelmente para o chá.”

Mark entrou. Geralmente era o último. Cumprimentou-os e sentou-se para torrada e chá. O pequeno-almoço não era a sua refeição. Os outros conversavam suavemente enquanto ele lia as suas cartas.

“Bom Deus!”, disse Mark subitamente.

Houve um virar instintivo de cabeças na sua direção. “Peço perdão, Miss Norris. Desculpe, Betty.”

Miss Norris sorriu o seu perdão. Ela própria queria dizer isso muitas vezes, particularmente nos ensaios.

“Diz-me, Cay!” Ele estava a franzir o sobrolho — aborrecido, intrigado. Ergueu uma carta e abanou-a. “Quem achas que manda isto?”

Cayley, na outra extremidade da mesa, encolheu os ombros. Como poderia ele possivelmente adivinhar?

“Robert”, disse Mark.

“Robert?” Era difícil surpreender Cayley. “Bem?”

“É muito bonito dizer ‘bem?’ assim”, disse Mark, irritadiço. “Ele vem cá esta tarde.”

“Pensei que ele estivesse na Austrália, ou algures.”

“Claro. Eu também.” Ele olhou para Rumbold. “Tem irmãos, Major?”

“Não.”

“Bem, siga o meu conselho e não tenha nenhum.”

“É pouco provável agora”, disse o Major.

Bill riu-se. Miss Norris disse educadamente: “Mas o senhor não tem irmãos, Mr. Ablett?”

“Um”, disse Mark, severamente. “Se estiverem de volta a tempo, vê-lo-ão esta tarde. Provavelmente pedir-vos-á para lhe emprestarem cinco libras. Não o façam.”

Toda a gente sentiu-se um pouco desconfortável.

“Eu tenho um irmão”, disse Bill, prestativo, “mas sou sempre eu que peço emprestado a ele.”

“Como o Robert”, disse Mark.

“Quando foi a última vez que ele esteve em Inglaterra?”, perguntou Cayley.

“Há cerca de quinze anos, não foi? Tu serias um rapaz, naturalmente.”

“Sim, lembro-me de o ver uma vez por essa altura, mas não sabia se tinha voltado desde então.”

“Não. Que eu saiba.” Mark, ainda obviamente perturbado, voltou à sua carta.

“Pessoalmente”, disse Bill, “acho que os parentes são um grande erro.”

“Ainda assim”, disse Betty, um pouco audaz, “deve ser bastante divertido ter um esqueleto no armário.”

Mark levantou os olhos, franzindo a testa.

“Se achas que é divertido, passo-to, Betty. Se ele é alguma coisa parecida com o que costumava ser, e como as suas poucas cartas têm sido — bem, o Cay sabe.”

Cayley resmungou.

“Tudo o que eu sabia era que não se faziam perguntas sobre ele.”

Pode ter sido pretendido como uma dica para qualquer convidado demasiado curioso não fazer mais perguntas, ou um lembrete ao seu anfitrião para não falar demasiado livremente à frente de estranhos, embora o tenha dito com o tom de uma mera constatação de facto. Mas o assunto morreu, para ser sucedido pelo mais fascinante sobre o *foursome* que se aproximava. A Sra. Calladine ia de carro com os jogadores para almoçar com uma velha amiga que vivia perto do campo de golfe, e Mark e Cayley iam ficar em casa — para tratar de assuntos. Aparentemente, os “assuntos” incluíam agora um irmão pródigo. Mas isso não tinha de tornar o *foursome* menos agradável.

Por volta da altura em que o Major (seja por que razões for) estava a falhar a sua tacada de saída no décimo sexto buraco, e Mark e o seu primo estavam nos seus negócios na Casa Vermelha, um cavalheiro atraente pelo nome de Antony Gillingham estava a entregar o seu bilhete na estação de Woodham e a pedir informações sobre o caminho para a aldeia. Tendo recebido indicações, deixou a sua mala com o chefe da estação e caminhou descontraidamente. Ele é uma pessoa importante para esta história, pelo que é bom que saibamos algo sobre ele antes de o soltarmos nela. Vamos detê-lo no cimo da colina com qualquer desculpa, e dar uma boa olhadela nele.

A primeira coisa que percebemos é que ele está a observar muito mais do que nós. Acima de um rosto bem definido e barbeado, do tipo geralmente associado à Marinha, ele transporta um par de olhos cinzentos que parecem absorver cada detalhe da nossa pessoa. Para estranhos, este olhar é quase alarmante ao princípio, até descobrirem que a sua mente está muitas vezes noutro lugar; que ele, por assim dizer, deixou os seus olhos de sentinela, enquanto ele próprio segue uma linha de pensamento noutra direção. Muitas pessoas fazem isto, claro; quando, por exemplo, estão a falar com uma pessoa e a tentar ouvir outra; mas os seus olhos traem-nas. Os de Antony nunca traíram.

Ele tinha visto uma boa parte do mundo com aqueles olhos, embora nunca como marinheiro. Quando, aos vinte e um anos, recebeu o dinheiro da sua mãe, 400 libras por ano, o velho Gillingham levantou os olhos da *Gazette* dos criadores de gado para perguntar o que ele ia fazer.

“Ver o mundo”, disse Antony.

“Bem, manda-me umas linhas da América, ou de onde quer que vás parar.”

“Certo”, disse Antony.

O velho Gillingham voltou ao seu jornal. Antony era um filho mais novo e, no geral, não era tão interessante para o seu pai como os descendentes de certas outras famílias; a de Champion Birket, por exemplo. Mas, então, Champion Birket era o melhor touro Hereford que ele alguma vez tinha criado.

Antony, contudo, não tinha intenção de ir mais longe do que Londres. A sua ideia de ver o mundo era ver, não países, mas pessoas; e vê-las de tantos ângulos quanto possível. Há todo o tipo de gente em Londres se souberes como olhar para eles. Então Antony olhou para eles — de vários cantos estranhos; do ponto de vista do criado, do repórter de jornal, do empregado de mesa, do balconista. Com a independência de 400 libras por ano por trás dele, ele divertia-se imenso. Nunca ficava muito tempo num emprego e, geralmente, terminava a sua ligação a ele dizendo ao seu patrão (ao contrário de toda a etiqueta como entendida entre amo e criado) exatamente o que pensava dele. Não teve dificuldade em encontrar uma nova profissão. Em vez de experiência e referências, oferecia a sua personalidade e uma aposta desportiva. Não aceitaria salário no primeiro mês e — se satisfizesse o seu patrão — o dobro do salário no segundo. Recebia sempre o seu salário a dobrar.

Tinha agora trinta anos. Tinha vindo a Woodham para umas férias, porque gostou do aspeto da estação. O seu bilhete dava-lhe direito a viajar mais longe, mas ele sempre teve a intenção de fazer o que lhe aprouvesse no assunto. Woodham atraiu-o, e ele tinha uma mala na carruagem consigo e dinheiro no bolso. Por que não sair?

A dona da *The George* ficou mais do que contente por o alojar, e prometeu que o seu marido iria de carro nessa tarde buscar a sua bagagem.

“E o senhor gostaria de almoçar, suponho.”

“Sim, mas não se dê ao trabalho com isso. Qualquer coisa fria que tenha.”

“Que tal carne de vaca, senhor?”, perguntou ela, como se tivesse cem variedades de carne por onde escolher, e estivesse a oferecer-lhe o seu melhor.

“Isso servirá perfeitamente. E uma caneca de cerveja.”

Enquanto ele terminava o seu almoço, o proprietário veio perguntar sobre a bagagem. Antony pediu outra caneca e logo o pôs a falar.

“Deve ser divertido manter uma estalagem no campo”, disse ele, pensando que estava na altura de começar outra profissão.

“Não sei se é divertido, senhor. Dá-nos o sustento e um pouco mais.”

“Devia tirar umas férias”, disse Antony, olhando para ele pensativo.

“Curioso dizer isso”, disse o proprietário, com um sorriso. “Outro cavalheiro, vindo da Casa Vermelha, dizia o mesmo ainda ontem. Ofereceu-se para ocupar o meu lugar e tudo.” Ele riu-se de forma retumbante.

“A Casa Vermelha? Não a Casa Vermelha em Stanton?”

“É isso mesmo, senhor. Stanton é a estação a seguir a Woodham. A Casa Vermelha fica a cerca de uma milha daqui — do Mr. Ablett.”

Antony tirou uma carta do bolso. Estava endereçada de “A Casa Vermelha, Stanton,” e assinada por “Bill.”

“Bom velho Bill”, murmurou para si próprio. “Ele está a progredir.”

Antony tinha conhecido Bill Beverley dois anos antes numa loja de tabacaria. Gillingham estava de um lado do balcão e Mr. Beverley do outro. Algo em Bill, a sua juventude e frescura, talvez, atraiu Antony; e quando os cigarros foram encomendados e dado um endereço para o qual deviam ser enviados, ele lembrou-se de que tinha encontrado uma tia de Beverley uma vez numa casa de campo. Beverley e ele encontraram-se novamente um pouco mais tarde num restaurante. Ambos estavam de fato de noite, mas faziam coisas diferentes com os seus guardanapos, e Antony era o mais educado dos dois. No entanto, ele ainda gostava de Bill. Por isso, numa das suas férias, quando estava desempregado, arranjou uma apresentação através de um amigo comum. Beverley ficou um pouco inclinado a ficar chocado quando foi lembrado dos seus encontros anteriores, mas o seu sentimento desconfortável depressa desapareceu, e ele e Antony tornaram-se rapidamente íntimos. Mas Bill dirigia-se geralmente a ele como “Querido Louco” quando escrevia.

Antony decidiu passear até à Casa Vermelha depois do almoço e visitar o seu amigo. Tendo inspecionado o seu quarto, que não era bem o quarto de estalagem de campo com cheiro a alfazema da ficção, mas suficientemente limpo e confortável, pôs-se a caminho pelos campos.

À medida que descia a entrada e se aproximava da velha frente de tijolo vermelho da casa, ouvia-se um murmúrio preguiçoso de abelhas nas bordas das flores, um suave arrulhar de pombos nos topos dos ulmeiros, e de relvados distantes o zumbido de uma máquina de cortar relva, esse som mais repousante de todos os sons do campo...

E no corredor um homem batia numa porta fechada à chave, e gritava: “Abram a porta, digo eu; abram a porta!”

“Olá!”, disse Antony, espantado.

CAPÍTULO III. Dois Homens e um Corpo

Cayley olhou à volta subitamente para a voz.

“Posso ajudar?”, disse Antony educadamente.

“Algo aconteceu”, disse Cayley. Ele respirava rapidamente. “Ouvi um disparo — soou como um disparo — eu estava na biblioteca. Um estrondo alto — não sabia o que era. E a porta está trancada.” Ele chocalhou a maçaneta novamente e abanou-a. “Abram a porta!”, gritou. “Digo, Mark, o que se passa? Abram a porta!”

“Mas ele deve ter trancado a porta de propósito”, disse Antony. “Então por que haveria de abri-la só porque o senhor lho pede?”

Cayley olhou para ele de uma forma atónita. Depois virou-se novamente para a porta. “Temos de a arrombar”, disse, colocando o ombro contra ela. “Ajude-me.”

“Não há uma janela?”

Cayley virou-se para ele, estúpido.

“Janela? Janela?”

“Tão mais fácil arrombar uma janela”, disse Antony com um sorriso. Parecia muito calmo e composto, enquanto estava parado logo dentro do corredor, apoiado na sua bengala, e a pensar, sem dúvida, que se estava a fazer um grande alarido por nada. Mas, então, ele não tinha ouvido o disparo.

“Janela — claro! Que idiota que eu sou.”

Passou por Antony e começou a correr para a entrada. Antony seguiu-o. Correram ao longo da frente da casa, por um caminho à esquerda, e depois para a esquerda novamente sobre a relva, Cayley à frente, o outro logo atrás dele. Subitamente, Cayley olhou por cima do ombro e travou bruscamente.

“Aqui”, disse ele.

Tinham chegado às janelas da sala trancada, janelas de sacada que davam para os relvados nas traseiras da casa. Mas agora estavam fechadas. Antony não pôde deixar de sentir um frisson de excitação ao seguir o exemplo de Cayley e encostar o rosto ao vidro. Pela primeira vez perguntou-se se tinha realmente havido um disparo de revólver nesta sala misteriosa. Tudo parecia tão absurdo e melodramático do outro lado da porta. Mas se tinha havido um disparo, por que não haveria mais dois? — aos tolos descuidados que estavam a pressionar os narizes contra os vidros, e a pedi-los.

“Meu Deus, consegue vê-lo?”, disse Cayley com uma voz trémula. “Ali em baixo. Olhe!”

No momento seguinte, Antony viu. Um homem estava deitado no chão no extremo da sala, de costas para eles. Um homem? Ou o corpo de um homem?

“Quem é?”, disse Antony.

“Não sei”, sussurrou o outro.

“Bem, é melhor irmos ver.” Ele considerou as janelas por um momento. “Acho que, se colocar o seu peso nela, exatamente onde se unem, elas cederão. Caso contrário, podemos pontapear o vidro para dentro.”

Sem dizer nada, Cayley colocou o seu peso nela. A janela cedeu e eles entraram na sala. Cayley caminhou rapidamente para o corpo e caiu de joelhos junto dele. Por um momento pareceu hesitar; depois, com um esforço, colocou uma mão no seu ombro e puxou-o para o lado.

“Graças a Deus!”, murmurou, e largou o corpo novamente.

“Quem é?”, disse Antony.

“Robert Ablett.”

“Oh!”, disse Antony. “Pensei que o nome dele fosse Mark”, acrescentou, mais para si próprio do que para o outro.

“Sim, Mark Ablett vive aqui. Robert é o seu irmão.” Ele estremeceu e disse: “Tive medo que fosse o Mark.”

“O Mark também estava na sala?”

“Sim”, disse Cayley, distraído. Depois, como se ressentindo subitamente destas perguntas de um estranho, “Quem é o senhor?”

Mas Antony tinha ido até à porta trancada e estava a rodar a maçaneta. “Suponho que ele pôs a chave no bolso”, disse, ao voltar novamente para o corpo.

“Quem?”

Antony encolheu os ombros.

“Quem quer que tenha feito isto”, disse, apontando para o homem no chão. “Está morto?”

“Ajude-me”, disse Cayley simplesmente.

Viraram o corpo de costas, ganhando coragem para olhar para ele. Robert Ablett tinha sido atingido entre os olhos. Não era uma visão agradável e, com o seu horror, Antony sentiu uma piedade súbita pelo homem ao seu lado, e um remorso súbito pela maneira descuidada e fácil com que tinha tratado o assunto. Mas, depois, anda-se sempre a imaginar que estas coisas não acontecem — exceto aos outros. É difícil acreditar nelas logo ao princípio, quando acontecem a nós próprios.

“Conhecia-o bem?”, disse Antony calmamente. Ele queria dizer: “Gostava dele?”

“Quase nada. Mark é meu primo. Quero dizer, Mark é o irmão que conheço melhor.”

“O seu primo?”

“Sim.” Ele hesitou e depois disse: “Está morto? Suponho que sim. O senhor... sabe alguma coisa sobre... sobre esse tipo de coisas? Talvez seja melhor ir buscar água.”

Havia outra porta em frente à trancada, que levava, como Antony estava prestes a descobrir por si próprio, a um corredor de onde abriam mais duas salas. Cayley entrou no corredor e abriu a porta à direita. A porta do escritório, através da qual ele tinha passado, permanecia aberta. A porta no fundo do curto corredor estava fechada. Antony, de joelhos junto ao corpo, seguiu Cayley com os olhos e, depois de ele ter desaparecido, manteve os olhos na parede vazia do corredor, mas não estava consciente do que via, pois a sua mente estava com o outro homem, simpatizando com ele.

“Não que a água sirva de algo a um corpo morto”, disse ele para si próprio, “mas a sensação de que se está a fazer alguma coisa, quando obviamente não há nada a fazer, é um grande conforto.”

Cayley entrou novamente na sala. Tinha uma esponja numa mão e um lenço na outra. Olhou para Antony. Antony acenou. Cayley murmurou qualquer coisa e ajoelhou-se para banhar o rosto do homem morto. Depois colocou o lenço sobre ele. Um pequeno suspiro escapou de Antony, um suspiro de alívio.

Eles levantaram-se e olharam um para o outro.

“Se puder ser de alguma ajuda”, disse Antony, “por favor, diga-me.”

“É muito gentil da sua parte. Haverá coisas a fazer. Polícia, médicos... não sei. Mas não deve deixar que eu abuse da sua bondade. Na verdade, devia pedir desculpa por ter abusado tanto já.”

“Vim ver o Beverley. É um velho amigo meu.”

“Ele está fora a jogar golfe. Estará de volta dentro de momentos.” Depois, como se só agora se tivesse apercebido, “Eles estarão todos de volta dentro de momentos.”

“Ficarei se puder ser de alguma ajuda.”

“Por favor, fique. Veja, há mulheres. Será bastante doloroso. Se o senhor pudesse...” Ele hesitou e deu a Antony um pequeno sorriso tímido, patético num homem tão grande e autoconfiante. “Apenas o seu apoio moral, sabe. Já seria alguma coisa.”

“Claro.” Antony sorriu-lhe de volta e disse alegremente: “Bem, então, vou começar por sugerir que chame a polícia.”

“A polícia? S-sim.” Ele olhou duvidosamente para o outro. “Suponho que...”

Antony falou francamente.

“Agora, veja lá, Mr... er...”

“Cayley. Sou primo do Mark Ablett. Vivo com ele.”

“O meu nome é Gillingham. Lamento, devia ter-lhe dito antes. Bem agora, Mr. Cayley, não ganhamos nada com fingimentos. Aqui está um homem que foi atingido — bem, alguém atingiu-o.”

“Ele pode ter disparado sobre si próprio”, murmurou Cayley.

“Sim, podia, mas não disparou. Ou se disparou, alguém estava na sala na altura, e esse alguém não está aqui agora. E esse alguém levou um revólver consigo. Bem, a polícia vai querer dizer uma palavra sobre isso, não vai?”

Cayley ficou em silêncio, olhando para o chão.

“Oh, eu sei o que está a pensar, e acredite que simpatizo consigo, mas não podemos ser crianças quanto a isto. Se o seu primo Mark Ablett estava na sala com este” — ele indicou o corpo — “este homem, então...”

“Quem disse que ele estava?”, disse Cayley, levantando a cabeça subitamente para Antony.

“O senhor.”

“Eu estava na biblioteca. Mark entrou — ele pode ter saído novamente — não sei de nada. Alguém pode ter entrado...”

“Sim, sim”, disse Antony pacientemente, como se a uma criança pequena. “Conhece o seu primo; eu não. Concordemos que ele não teve nada a ver com isto. Mas alguém estava na sala quando este homem foi atingido e — bem, a polícia terá de saber. Não acha...?” Ele olhou para o telefone. “Ou prefere que o faça eu?”

Cayley encolheu os ombros e foi até ao telefone.

“Posso... er... espreitar um pouco?” Antony acenou em direção à porta aberta.

“Oh, faça-o. Sim.” Ele sentou-se e puxou o telefone para si. “Tem de ter paciência comigo, Mr. Gillingham. Veja, conheço o Mark há muito tempo. Mas, claro, o senhor tem toda a razão, e eu estou apenas a ser estúpido.” Ele tirou o auscultador.

Suponhamos que, com o propósito de travar um primeiro conhecimento com este “escritório”, entremos nele a partir do corredor, através da porta que se encontra agora trancada, mas que, para nossa especial conveniência, foi magicamente destrancada para nós. Ao pararmos logo dentro da porta, a extensão da sala estende-se para a direita e para a esquerda; ou, mais precisamente, apenas para a direita, pois a parede do lado esquerdo está quase ao nosso alcance. Imediatamente em frente a nós, através da largura da sala (cerca de quatro metros e meio), encontra-se aquela outra porta, pela qual Cayley saiu e regressou há poucos minutos. Na parede da direita, a nove metros de nós, estão as janelas de sacada. Atravessando a sala e saindo pela porta oposta, entramos numa passagem, da qual partem duas divisões. A da direita, na qual Cayley entrou, tem menos de metade do comprimento do escritório, uma pequena sala quadrada que foi, evidentemente, usada noutros tempos como quarto de dormir. A cama já lá não está, mas há um lavatório, com torneiras de água quente e fria, num canto; cadeiras; um ou dois armários e uma cómoda. A janela está voltada para o mesmo lado que as janelas de sacada da sala contígua; mas quem quer que olhe pela janela do quarto vê a sua vista, imediatamente à direita, bloqueada pela parede exterior do escritório, que se projeta, devido ao seu maior comprimento, quatro metros e meio mais para dentro do relvado.

A divisão do outro lado do quarto é uma casa de banho. As três divisões, na verdade, formam uma espécie de suite privada; utilizada, talvez, durante a ocupação do proprietário anterior, por algum inválido que não conseguia subir as escadas, mas deixada por Mark cair em desuso, à exceção da sala de estar. De qualquer forma, ele nunca dormia no rés-do-chão.

Antony lançou um olhar à casa de banho e depois deambulou até ao quarto, a divisão onde Cayley estivera. A janela estava aberta, e ele olhou para o relvado bem cuidado abaixo de si, e para a pacífica extensão de parque que se estendia para lá dele; e sentiu muita pena do dono de tudo aquilo, que estava agora envolvido num assunto tão sombrio.

“Cayley pensa que foi ele quem o fez”, disse Antony para consigo mesmo. “Isso é óbvio. Explica por que perdeu tanto tempo a bater na porta. Por que razão tentaria arrombar uma fechadura quando é muito mais fácil partir uma janela? É claro que ele poderia simplesmente ter perdido a cabeça; por outro lado, ele poderia... bem, ele poderia ter querido dar ao primo uma oportunidade de fugir. O mesmo se aplica à polícia e... oh, a muitas coisas. Por que razão, por exemplo, corremos à volta da casa toda para chegar às janelas? Certamente que existe uma saída pelas traseiras através do corredor. Hei de dar uma vista de olhos mais tarde.”

Antony, como se pode observar, não tinha de todo perdido a cabeça.

Ouviu-se um passo na passagem exterior, e ele virou-se para ver Cayley à porta. Permaneceu a olhar para ele por um momento, fazendo a si mesmo uma pergunta. Era uma pergunta bastante curiosa. Perguntava a si mesmo por que razão a porta estava aberta.

Bem, não exatamente por que razão a porta estava aberta; isso explicava-se facilmente. Mas por que motivo esperava ele que a porta estivesse fechada? Não se lembrava de a ter fechado, mas, de alguma forma, ficou surpreendido ao vê-la aberta agora, ao ver Cayley através da ombreira, a entrar no quarto. Algo que trabalhava subconscientemente no seu cérebro tinha-lhe dito que era surpreendente. Porquê?

Guardou o assunto num canto da sua mente por um momento; a resposta surgir-lhe-ia mais tarde. Ele tinha uma mente maravilhosamente retentiva. Tudo o que via ou ouvia parecia deixar a sua impressão correspondente algures no seu cérebro; muitas vezes sem que ele tivesse consciência disso; e estas impressões fotográficas estavam sempre lá, prontas para ele quando quisesse revelá-las.

Cayley juntou-se a ele na janela.

“Telefonei”, disse ele. “Vão enviar um inspetor ou alguém de Middleston, e a polícia local e o médico de Stanton.” Ele encolheu os ombros. “Estamos metidos numa boa agora.”

“A que distância fica Middleston?” Era a cidade para a qual Antony tinha comprado um bilhete naquela manhã — há apenas seis horas. Como parecia absurdo.

“Cerca de trinta quilómetros. Estas pessoas vão voltar em breve.”

“Beverley e os outros?”

“Sim. Suponho que queiram ir embora imediatamente.”

“Muito melhor que o façam.”

“Sim.” Cayley ficou em silêncio por um momento. Depois disse: “Está hospedado perto daqui?”

“Estou no ‘The George’, em Woodham.”

“Se está sozinho, gostaria que ficasse aqui. Veja”, continuou ele de forma embaraçada, “terá de estar presente — para o... o inquérito e... e assim por diante. Se me permite oferecer-lhe a hospitalidade do meu primo no seu... quero dizer, se ele não... se ele realmente...”

Antony interrompeu apressadamente com os seus agradecimentos e aceitação.

“Isso é bom. Talvez Beverley fique, se for seu amigo. É um bom rapaz.”

Antony sentiu-se bastante seguro, pelo que Cayley tinha dito e tinha hesitado em dizer, de que Mark tinha sido o último a ver o irmão vivo. Não se seguia que Mark Ablett fosse um assassino. Os revólveres disparam acidentalmente; e quando disparam, as pessoas perdem a cabeça e fogem, temendo que a sua história não seja acreditada. No entanto, quando as pessoas fogem, quer inocente ou culpada, não se pode deixar de querer saber para que lado foram.

“Suponho que por aqui”, disse Antony em voz alta, olhando pela janela.

“Quem?”, disse Cayley obstinadamente.

“Bem, quem quer que tenha sido”, disse Antony, sorrindo para si mesmo. “O assassino. Ou, digamos, o homem que trancou a porta depois de Robert Ablett ter sido morto.”

“Pergunto-me.”

“Bem, de que outra forma poderia ele ter escapado? Não foi pelas janelas da sala ao lado, porque estavam fechadas.”

“Não é um pouco estranho?”

“Bem, eu também achei ao princípio, mas...” Ele apontou para a parede que se projetava à direita. “Veja, está protegido do resto da casa se sair por aqui, e está bastante perto do arboredo. Se sair pelas janelas de sacada, imagino que seja muito mais visível. Toda aquela parte da casa...” — ele agitou a mão direita — “...o oeste, bem, quase noroeste, onde ficam as partes da cozinha... veja, aqui está escondido delas. Oh, sim! Ele conhecia a casa, quem quer que fosse, e fez muito bem em sair por esta janela. Iria para o arboredo imediatamente.”

Cayley olhou para ele pensativo.

“Parece-me, Mr. Gillingham, que conhece a casa bastante bem, considerando que esta é a primeira vez que cá vem.”

Antony riu-se.

“Oh, bem, eu reparo nas coisas, sabe. Nasci a reparar. Mas tenho razão, não tenho, sobre a razão pela qual ele saiu por aqui?”

“Sim, penso que sim.” Cayley desviou o olhar — na direção do arboredo. “Quer ir reparar lá dentro agora?” Ele fez um aceno de cabeça na direção do mesmo.

“Penso que poderíamos deixar isso para a polícia”, disse Antony gentilmente. “É... bem, não há pressa.”

Cayley deu um pequeno suspiro, como se tivesse estado a suster a respiração pela resposta, e pudesse agora respirar de novo.

“Obrigado, Mr. Gillingham”, disse ele.

CAPÍTULO IV. O irmão da Austrália

Os hóspedes da Red House podiam fazer o que quisessem, dentro do razoável — sendo a razoabilidade ou não disso decidida por Mark. Mas, uma vez que eles (ou Mark) se decidiam sobre o que queriam fazer, o plano tinha de ser mantido. Mrs. Calladine, que conhecia esta pequena fraqueza do seu anfitrião, resistiu, portanto, à sugestão de Bill de que deviam fazer uma segunda partida à tarde e conduzir até casa confortavelmente depois do chá. Os outros jogadores de golfe estavam bastante dispostos, mas Mrs. Calladine, sem dizer exatamente que o Mr. Ablett não gostaria disso, foi firme no ponto de que, tendo combinado estar de volta às quatro, deveriam estar de volta às quatro.

“Realmente não penso que o Mark precise de nós, sabe”, disse o Major. Tendo jogado mal de manhã, queria provar a si mesmo à tarde que era realmente melhor do que aquilo. “Com este irmão dele a chegar, ele ficará demasiado contente por nos ter fora do caminho.”

“Claro que ficará, Major.” Isto por parte de Bill. “Gostaria de jogar, não gostaria, Miss Norris?”

Miss Norris olhou com dúvida para a anfitriã.

“Claro, se quer voltar, querida, não a devemos manter aqui. Além disso, é tão aborrecido para si, não jogar.”

“Apenas nove buracos, mãe”, suplicou Betty.

“O carro podia levá-la de volta, e podia dizer-lhes que estávamos a fazer outra partida, e depois podia voltar para nós”, disse Bill brilhantemente.

“Está certamente muito mais fresco aqui do que eu esperava”, acrescentou o Major.

Mrs. Calladine cedeu. Estava um frescor muito agradável fora da casa de golfe e, claro, Mark ficaria bastante contente por tê-los fora do caminho. Por isso, ela consentiu nos nove buracos; e tendo a partida terminado empatada, e toda a gente tendo jogado muito melhor do que de manhã, conduziram de volta para a Red House, muito satisfeitos consigo mesmos.

“Olá”, disse Bill para consigo mesmo, à medida que se aproximavam da casa, “não é aquele o velho Tony?”

Antony estava de pé em frente à casa, à espera deles. Bill acenou, e ele acenou de volta. Depois, quando o carro parou, Bill, que ia à frente com o motorista, saltou e cumprimentou-o avidamente.

“Olá, seu louco, veio para ficar, ou o quê?” Teve uma ideia súbita. “Não me diga que é o irmão há muito perdido de Mark Ablett, vindo da Austrália, embora eu pudesse acreditar nisso vindo de si.” Riu-se infantilmente.

“Olá, Bill”, disse Antony calmamente. “Vai apresentar-me? Receio ter algumas más notícias.”

Bill, um pouco sóbrio com isto, apresentou-o. O Major e Mrs. Calladine estavam do lado próximo do carro, e Antony falou-lhes em voz baixa.

“Receio que vá dar-lhes um choque considerável”, disse ele. “Robert Ablett, o irmão do Mr. Mark Ablett, foi morto.” Ele deu um puxão com o polegar por cima do ombro. “Na casa.”

“Meu Deus!”, disse o Major.

“Quer dizer que ele se matou?”, perguntou Mrs. Calladine. “Agora mesmo?”

“Foi há cerca de duas horas. Aconteceu eu vir aqui...” — ele voltou-se ligeiramente para Beverley e explicou — “...estava a vir visitar-te, Bill, e cheguei logo após a... a morte. O Mr. Cayley e eu encontrámos o corpo. Como o Mr. Cayley está ocupado agora — há polícia, médicos e tal na casa — ele pediu-me para lhes dizer. Ele diz que, sem dúvida, prefeririam, tendo o grupo da casa sido dispersado desta forma trágica, partir o mais rapidamente possível.” Ele deu um sorriso pequeno, agradável e apologético, e continuou: “Estou a expor isto mal, mas o que ele quer dizer, naturalmente, é que devem consultar inteiramente os vossos próprios sentimentos sobre o assunto, e, por favor, façam as vossas próprias disposições sobre a encomenda do carro para qualquer comboio que desejem apanhar. Há um esta noite, compreendo, pelo qual poderiam ir se o desejassem.”

Bill olhou de boca aberta para Antony. Não tinha palavras no seu vocabulário para expressar o que queria dizer, para além daquelas que o Major já tinha usado. Betty estava inclinada na direção de Miss Norris e a dizer, “Quem é que foi morto?”, numa voz cheia de admiração, e Miss Norris, que parecia instintivamente tão trágica como parecia no palco quando um mensageiro anunciava a morte de um dos membros do elenco, parou por um momento para explicar. Mrs. Calladine estava calmamente dona de si.

“Estaremos no caminho, sim, compreendo perfeitamente”, disse ela; “mas não podemos simplesmente sacudir o pó do lugar dos nossos sapatos só porque algo terrível aconteceu lá. Tenho de ver o Mark, e podemos combinar mais tarde o que fazer. Ele tem de saber o quanto sentimos profundamente por ele. Talvez nós...” — ela hesitou.

“O Major e eu poderíamos ser úteis de qualquer maneira”, disse Bill. “Não é isso que quer dizer, Mrs. Calladine?”

“Onde está o Mark?”, perguntou o Major subitamente, olhando fixamente para Antony.

Antony olhou de volta inabalavelmente — e não disse nada.

“Penso”, disse o Major suavemente, inclinando-se para Mrs. Calladine, “que seria melhor se levasse a Betty de volta para Londres esta noite.”

“Muito bem”, concordou ela calmamente. “Virá connosco, Ruth?”

“Vou garantir que cheguem lá em segurança”, disse Bill com uma voz humilde. Ele não sabia bem o que estava a acontecer e, tendo esperado ficar na Red House por mais uma semana, não tinha para onde ir em Londres, mas Londres parecia ser o lugar para onde toda a gente ia, e quando pudesse ter o Tony a sós por um momento, Tony sem dúvida explicaria.

“Cayley quer que fique, Bill. De qualquer forma, tem de ir amanhã, Major Rumbold?”

“Sim. Vou convosco, Mrs. Calladine.”

“O Mr. Cayley gostaria que dissesse de novo que, por favor, não hesitem em dar as vossas próprias ordens, tanto no que diz respeito ao carro como no que diz respeito a qualquer telefonema ou telegrama que queiram fazer.” Ele sorriu de novo e acrescentou: “Por favor, perdoem-me se pareço ter assumido muito sobre mim, mas aconteceu estar à mão como porta-voz do Cayley.” Ele fez uma vénia para eles e entrou na casa.

“Bem!”, disse Miss Norris dramaticamente.

À medida que Antony reentrava no hall, o Inspetor de Middleston estava precisamente a passar para a biblioteca com Cayley. Este último parou e acenou a Antony.

“Espere um momento, Inspetor. Aqui está o Mr. Gillingham. É melhor que venha connosco.” E depois para Antony: “Este é o Inspetor Birch.”

Birch olhou inquisitivamente de um para o outro.

“O Mr. Gillingham e eu encontrámos o corpo juntos”, explicou Cayley.

“Oh! Bem, venham, e vamos ordenar um pouco os factos. Gosto de saber onde estou, Mr. Gillingham.”

“Todos gostamos.”

“Oh!” Ele olhou para Antony com interesse. “Sabe onde está neste caso?”

“Sei onde vou estar.”

“Onde é isso?”

“A ser interrogado pelo Inspetor Birch”, disse Antony com um sorriso.

O inspetor riu-se jovialmente.

“Bem, poupá-lo-ei tanto quanto puder. Venha.”

Eles foram para a biblioteca. O inspetor sentou-se a uma secretária, e Cayley sentou-se numa cadeira ao lado. Antony acomodou-se numa poltrona e preparou-se para se interessar.

“Começaremos com o morto”, disse o Inspetor. “Robert Ablett, não disse?” Ele tirou o seu bloco de notas.

“Sim. Irmão de Mark Ablett, que vive aqui.”

“Ah!” Ele começou a afiar um lápis. “A passar uma temporada na casa?”

“Oh, não!”

Antony ouviu atentamente enquanto Cayley explicava tudo o que sabia sobre Robert. Isto era novidade para ele. “Compreendo. Enviado para fora do país em desgraça. O que tinha ele feito?”

“Dificilmente sei. Eu tinha apenas cerca de doze anos na altura. Aquele tipo de idade em que lhe dizem para não fazer perguntas.”

“Perguntas inconvenientes?”

“Exatamente.”

“Portanto, não sabe realmente se ele tinha sido apenas selvagem ou... ou perverso?”

“Não. O velho Mr. Ablett era um clérigo”, acrescentou Cayley. “Talvez o que pudesse parecer perverso para um clérigo pudesse parecer apenas selvagem para um homem do mundo.”

“Arrisco dizer que sim, Mr. Cayley”, sorriu o Inspetor. “De qualquer forma, era mais conveniente tê-lo na Austrália?”

“Sim.”

“Mark Ablett nunca falava sobre ele?”

“Dificilmente alguma vez. Ele tinha muita vergonha dele e... bem, estava muito contente por ele estar na Austrália.”

“Ele escrevia ao Mark por vezes?”

“Ocasionalmente. Talvez três ou quatro vezes nos últimos cinco anos.”

“A pedir dinheiro?”

“Algo desse género. Não penso que o Mark respondesse sempre. Tanto quanto sei, ele nunca enviou dinheiro nenhum.”

“Agora a sua própria opinião privada, Mr. Cayley. Acha que o Mark foi injusto com o seu irmão? Indevidamente duro com ele?”

“Eles nunca gostaram um do outro quando rapazes. Nunca houve qualquer afeição entre eles. Não sei de quem foi a culpa em primeiro lugar — se é que foi de alguém.”

“Ainda assim, Mark poderia ter-lhe dado uma ajuda?”

“Compreendo”, disse Cayley, “que Robert passou a vida inteira a pedir ajudas.”

O inspetor assentiu.

“Conheço esse tipo. Bem, agora, vamos passar a esta manhã. Esta carta que o Mark recebeu — viu-a?”

“Não na altura. Ele mostrou-ma depois.”

“Algum endereço?”

“Não. Meia folha de papel bastante sujo.”

“Onde está ela agora?”

“Não sei. No bolso do Mark, suponho.”

“Ah!” Ele puxou a barba. “Bem, chegaremos a isso. Consegue lembrar-se do que dizia?”

“Tanto quanto me lembro, algo como isto: ‘Mark, o teu querido irmão vem ver-te amanhã, vindo de toda a Austrália. Dou-te aviso para que possas esconder a tua surpresa, mas não espero que a tua alegria. Espera por ele às três, ou por volta dessa hora’.”

“Ah!” O inspetor copiou-a cuidadosamente. “Reparou no carimbo do correio?”

“Londres.”

“E qual foi a atitude do Mark?”

“Aborrecimento, nojo...” Cayley hesitou.

“Apreensão?”

“N-não, não exatamente. Ou, melhor, apreensão de uma entrevista desagradável, não de qualquer resultado desagradável para si mesmo.”

“Quer dizer que ele não tinha medo de violência, ou chantagem, ou qualquer coisa desse género?”

“Ele não parecia ter.”

“Certo... Agora então, ele chegou, diz, por volta das três horas?”

“Sim, por volta dessa hora.”

“Quem estava na casa então?”

“O Mark e eu, e alguns dos criados. Não sei quais. Claro, vai perguntar-lhes diretamente, sem dúvida.”

“Com a sua permissão. Nenhum hóspede?”

“Eles estiveram fora o dia todo a jogar golfe”, explicou Cayley. “Oh, a propósito”, acrescentou ele, “se me permite interromper por um momento, vai querer vê-los? Não é muito agradável para eles agora, naturalmente, e eu sugeri...” — ele virou-se para Antony, que lhe acenou de volta. “Compreendo que eles querem voltar para Londres esta noite. Não há objeção a isso, suponho?”

“Vai deixar-me os seus nomes e endereços no caso de eu querer comunicar com eles?”

“Claro. Um deles vai ficar, se quiser vê-lo mais tarde, mas eles apenas regressaram do seu golfe quando atravessámos o hall.”

“Está bem, Mr. Cayley. Bem, agora então, vamos voltar às três horas. Onde estava quando o Robert chegou?”

Cayley explicou como esteve sentado no hall, como Audrey lhe tinha perguntado onde estava o patrão, e como ele tinha dito que o tinha visto pela última vez a ir para o Temple.

“Ela foi-se embora, e eu continuei com o meu livro. Ouviu-se um passo nas escadas, e olhei para cima para ver o Mark a descer. Ele entrou no escritório, e eu continuei com o meu livro de novo. Fui à biblioteca por um momento, para consultar outro livro, e quando lá estava ouvi um disparo. Pelo menos, foi um estrondo alto, não tinha a certeza se era um disparo. Fiquei a ouvir. Depois vim lentamente até à porta e olhei para fora. Depois voltei para trás, hesitei um pouco, sabe, e finalmente decidi ir até ao escritório, e certificar-me de que estava tudo bem. Rodei o puxador da porta e descobri que estava trancada. Depois fiquei assustado, e bati à porta, e gritei, e... bem, foi quando o Mr. Gillingham chegou.” Ele continuou a explicar como encontraram o corpo.

O inspetor olhou para ele com um sorriso.

“Sim, bem, teremos de rever parte disso de novo, Mr. Cayley. Mr. Mark, agora. Achava que ele estava no Temple. Poderia ele ter entrado, e subido para o seu quarto, sem que o visse?”

“Há escadas das traseiras. Ele não as usaria da forma habitual, claro. Mas eu não estive no hall a tarde toda. Ele poderia facilmente ter subido sem que eu soubesse de nada.”

“Portanto, não ficou surpreendido quando o viu a descer?”

“Oh, nem um pouco.”

“Bem, ele disse alguma coisa?”

“Ele disse: ‘O Robert está aqui?’, ou algo desse género. Suponho que tivesse ouvido a campainha, ou as vozes no hall.”

“Para que lado está virado o quarto dele? Poderia ele tê-lo visto a descer a entrada?”

“Poderia, sim.”

“Bem?”

“Bem, então, eu disse ‘Sim’, e ele deu uma espécie de encolher de ombros, e disse: ‘Não vás para muito longe, posso precisar de ti’; e depois entrou.”

“O que acha que ele queria dizer com isso?”

“Bem, ele consulta-me bastante, sabe. Sou uma espécie de solicitador não oficial dele, de certa maneira.”

“Isto foi uma reunião de negócios em vez de uma reunião fraternal?”

“Oh, sim. É assim que ele a via, tenho a certeza.”

“Sim. Quanto tempo passou até ouvir o disparo?”

“Muito pouco. Dois minutos, talvez.”

“Dois minutos?” repetiu o inspetor, escrevendo algo no seu bloco. “Não mais do que isso?”

“Talvez três. Não tenho a certeza. Foi quase imediatamente.”

“E o que fez quando ouviu o disparo?”

“Fiquei parado, a ouvir. O silêncio que se seguiu foi o mais estranho. Depois, quando nada mais aconteceu, bati à porta. E, como não houve resposta, chamei o senhor Gillingham.”

“Acha que, se tivesse forçado a porta imediatamente, poderia ter salvado a vida do senhor Robert?”

Cayley hesitou. “Não sei. É uma pergunta difícil. Se o Mark já o tinha atingido…”

“Exato. Bem, senhor Gillingham, o senhor estava por perto quando o inspetor estava a recolher os depoimentos dos criados. Alguma coisa lhe chamou a atenção?”

Antony, que tinha estado a observar Cayley enquanto este falava, voltou a sua atenção para o inspetor. “Apenas uma coisa. A Elsie mencionou ter ouvido o senhor Mark dizer: ‘É a minha vez agora. Espera.’ E depois o senhor Robert a falar de ‘trabalhar a passagem’. É uma frase curiosa, não acha?”

“‘Trabalhar a passagem’?” repetiu o inspetor. “Sim, é. Pode significar várias coisas. Trabalhar a passagem para a Austrália, por exemplo. Mas, como o senhor Robert tinha acabado de chegar da Austrália…” Ele parou. “O senhor Mark estava a dar-lhe dinheiro para regressar? Ou talvez quisesse que ele fizesse algo por ele? Um favor?”

“Ou talvez,” sugeriu Antony, “o senhor Robert estivesse a ameaçar revelar algo, e o senhor Mark estivesse a tomar o controlo da situação.”

“Uma teoria interessante,” disse o inspetor. “Muito bem, vou ver o senhor Beverley agora. Cayley, pode indicar-me o caminho?”

“Com certeza,” disse Cayley, levantando-se.

Enquanto se afastava, o inspetor lançou um último olhar a Antony. “Não se vá embora, senhor Gillingham. Podemos precisar de si mais tarde.”

Antony fez um gesto de assentimento e ficou ali, sozinho no salão. O silêncio da casa era opressivo. Ele começou a percorrer a sala com o olhar, detendo-se no local onde, há pouco, o corpo de Robert tinha estado. O inspetor parecia convicto de que o caso estava resolvido. Mas havia algo, um detalhe minúsculo, que o incomodava. A porta. Por que razão Robert a teria trancado por dentro, se a intenção era um confronto? Ou teria sido o Mark a trancá-la? E, se foi o Mark, por que razão o fez?

Ele aproximou-se da porta do gabinete e tocou no puxador. Estava trancada. Olhou para a fechadura, depois para as janelas que davam para o relvado. A lógica do inspetor era simples, mas a simplicidade, por vezes, é apenas o disfarce de um erro. Ele precisava de ver o quarto de Mark. Talvez lá encontrasse a resposta que lhe faltava.

Saiu para o corredor e, encontrando um dos criados, perguntou onde ficava o quarto do anfitrião. Com uma indicação precisa, subiu as escadas. A casa era silenciosa, como se estivesse a conter a respiração. Ao chegar ao quarto de Mark, encontrou a porta entreaberta. Entrou. O quarto estava em perfeita ordem, à exceção de uma gaveta da secretária que estava ligeiramente puxada para fora.

Antony aproximou-se e viu um maço de papéis. Estavam ali as cartas que Robert enviara? Ele não queria bisbilhotar, mas o seu dever como “detetive amador” parecia exigir uma pequena transgressão. Abriu a gaveta. Não eram cartas de Robert. Eram faturas, contas de criados, uma carta de uma imobiliária. Nada de suspeito.

Sentou-se na cadeira de Mark e suspirou. “Onde estás tu, Mark Ablett?” murmurou para si mesmo. “E que jogo é este em que te meteste?”

De repente, ouviu passos no corredor. Levantou-se rapidamente e dirigiu-se à janela. Lá fora, viu o inspetor Birch a caminhar pelo relvado com Cayley. Estavam a conversar animadamente. O inspetor apontava para as janelas do gabinete.

Antony sorriu. O inspetor estava a refazer o percurso, a tentar entender a geometria da tragédia. Ele esperou que se afastassem e saiu do quarto, descendo as escadas com a discrição de quem não quer ser notado. O jogo tinha começado, e ele não tencionava perder a primeira jogada.

— Bem, toda a gente foi despachada menos eu, e aquele inspetor interrogou-me como se eu soubesse tudo sobre o assunto — qual é a ideia?

Antony sorriu-lhe.

— Bem, não há motivo para preocupações, sabes. Naturalmente, Birch queria ver um de vós para saber o que todos tinham estado a fazer durante o dia. E Cayley teve a gentileza de pensar que serias companhia para mim, uma vez que já te conhecia. E... bem, é só isso.

— Vais ficar aqui, na casa? — perguntou Bill, ansioso. — Boa. Isso é excelente.

— Isso consola-te da partida de... algumas das outras pessoas?

Bill corou.

— Ah, bem, de qualquer das formas, vejo-a novamente na próxima semana — murmurou ele.

— Dou-te os parabéns. Gostei do aspeto dela. E daquele vestido cinzento. Um tipo de mulher agradável e confortável...

— Seu idiota, essa é a mãe dela.

— Ah, peço desculpa. Mas, de qualquer forma, Bill, neste momento preciso mais de ti do que ela. Por isso, tenta tolerar a minha presença.

— Digo-te, precisas mesmo? — perguntou Bill, bastante lisonjeado. Ele nutria uma grande admiração por Antony e sentia-se muito orgulhoso por ser do seu agrado.

— Sim. Vês, as coisas vão acontecer aqui em breve.

— Inquéritos e esse tipo de coisas?

— Bem, talvez algo antes disso. Olá, aí vem Cayley.

Cayley caminhava pelo relvado em direção a eles, um homem grande, de ombros largos, com um daqueles rostos fortes, barbeados e feios que nunca podem ser chamados de vulgares. — Má sorte para o Cayley — disse Bill. — Digo, será que devo dizer-lhe o quanto lamento e todo esse tipo de coisas? Parece tão estúpido e inadequado.

— Eu não me incomodaria — disse Antony.

Cayley fez um aceno de cabeça quando chegou até eles e permaneceu ali por um momento.

— Podemos arranjar lugar para si — disse Bill, levantando-se.

— Ah, não se incomodem, obrigado. Vim apenas dizer — continuou ele para Antony — que, naturalmente, perderam um pouco a cabeça na cozinha e o jantar só será às oito e meia. Façam como quiserem quanto a vestir-se, claro. E quanto à vossa bagagem?

— Pensei que o Bill e eu fôssemos a pé até à estalagem tratar disso agora mesmo.

— O carro pode ir buscá-la assim que regressar da estação.

— É muito gentil da sua parte, mas de qualquer forma terei de ir eu mesmo para fazer as malas e pagar a conta. Além disso, é uma boa tarde para uma caminhada. Se não te importares, Bill?

— Adoraria.

— Bem, então, se deixarem a mala lá, mandarei o carro buscá-la mais tarde.

— Muito obrigado.

Tendo dito o que queria dizer, Cayley permaneceu ali um pouco desconfortável, como se não tivesse a certeza se deveria ir ou ficar. Antony perguntou-se se ele queria falar sobre os acontecimentos da tarde ou se esse era o único assunto que desejava evitar. Para quebrar o silêncio, perguntou casualmente se o inspetor já tinha ido embora.

Cayley assentiu. Depois, disse abruptamente: — Ele vai pedir um mandado para a detenção do Mark.

Bill fez um som de simpatia adequado e Antony disse, encolhendo os ombros: — Bem, ele era obrigado a fazer isso, não era? Não significa que... bem, não significa nada. Eles naturalmente querem deitar a mão ao seu primo, inocente ou culpado.

— Qual deles acha que ele é, Sr. Gillingham? — disse Cayley, olhando-o fixamente.

— O Mark? É absurdo — disse Bill, impetuoso.

— O Bill é leal, veja bem, Sr. Cayley.

— E o senhor não deve lealdade a ninguém envolvido?

— Exatamente. Por isso, talvez eu possa ser demasiado franco.

Bill tinha-se sentado na relva e Cayley ocupou o seu lugar no banco, sentando-se pesadamente, com os cotovelos nos joelhos, o queixo sobre as mãos, a olhar para o chão.

— Quero que seja bastante franco — disse ele, por fim. — Naturalmente, sou tendencioso no que toca ao Mark. Por isso, quero saber o que pensa da minha sugestão — o senhor que não tem preconceitos de nenhum dos lados.

— A sua sugestão?

— A minha teoria de que, se o Mark matou o irmão, foi puramente acidental — como disse ao inspetor.

Bill olhou para cima com interesse.

— Quer dizer que o Robert é que tentou o assalto — disse ele — e houve uma luta, e o revólver disparou, e depois o Mark perdeu a cabeça e fugiu? Esse tipo de ideia?

— Exatamente.

— Bem, isso parece bem. — Ele virou-se para Antony. — Não há nada de errado com isso, pois não? É a explicação mais natural para quem conhece o Mark.

Antony deu uma tragada no seu cachimbo.

— Suponho que sim — disse lentamente. — Mas há uma coisa que me preocupa um pouco.

— O quê? — perguntaram Bill e Cayley simultaneamente.

— A chave.

— A chave? — disse Bill.

Cayley levantou a cabeça e olhou para Antony. — O que tem a chave? — perguntou.

— Bem, pode não ser nada; eu apenas me questionei. Suponhamos que o Robert foi morto como o senhor diz, e suponhamos que o Mark perdeu a cabeça e só pensou em fugir antes que alguém o pudesse ver. Bem, é muito provável que ele trancasse a porta e metesse a chave no bolso. Fê-lo-ia sem pensar, apenas para ganhar um momento de tempo.

— Sim, é isso que eu sugiro.

— Parece bastante sólido — disse Bill. — O tipo de coisa que se faz sem pensar. Além disso, se se vai fugir, dá-nos mais hipóteses.

— Sim, está tudo bem se a chave estiver lá. Mas e se não estiver?

A sugestão, feita como se já fosse um facto estabelecido, surpreendeu ambos. Olharam para ele com estranheza.

— O que quer dizer? — perguntou Cayley.

— Bem, é apenas uma questão de onde as pessoas guardam as chaves. Vai ao seu quarto e talvez goste de trancar a porta, caso alguém apareça a deambular quando só tem uma meia e um par de suspensórios vestidos. Bem, isso é natural. E se olhar para os quartos de quase qualquer casa, encontrará as chaves todas prontas, para que se possa trancar num instante. Mas, no andar de baixo, as pessoas não se trancam. Na verdade, isso nunca se faz. O Bill, por exemplo, nunca se trancou na sala de jantar para ficar sozinho com o xerez. Por outro lado, todas as mulheres, e particularmente os criados, têm horror a ladrões. E se um ladrão entra pela janela, eles gostam de limitar as suas atividades àquela divisão específica. Por isso, guardam as chaves pelo lado de fora das portas e trancam-nas quando vão para a cama. — Ele bateu com o cachimbo para tirar as cinzas e acrescentou: — Pelo menos, a minha mãe costumava fazer isso.

— Quer dizer — disse Bill, excitado — que a chave estava pelo lado de fora da porta quando o Mark entrou na divisão?

— Bem, eu estava apenas a questionar-me.

— Já reparou nas outras divisões — a sala de bilhar, a biblioteca, e assim por diante? — disse Cayley.

— Acabei de pensar nisso enquanto estava sentado aqui fora. O senhor vive aqui — nunca reparou nisso?

Cayley ficou a ponderar, com a cabeça inclinada.

— Parece um pouco absurdo, sabe, mas não posso dizer que tenha reparado. — Ele virou-se para Bill. — Reparou?

— Valha-me Deus, não. Nunca me preocuparia com uma coisa dessas.

— Tenho a certeza de que não — riu-se Antony. — Bem, podemos dar uma vista de olhos quando entrarmos. Se as outras chaves estiverem pelo lado de fora, então esta provavelmente também estaria, e nesse caso... bem, torna tudo mais interessante.

Cayley não disse nada. Bill mastigou um pedaço de relva e, depois, disse: — Faz muita diferença?

— Torna mais difícil compreender o que aconteceu lá dentro. Pegue na sua teoria do acidente e veja onde chega. Agora já não há o rodar instintivo da chave, pois não? Ele tem de abrir a porta para a conseguir, e abrir a porta significa mostrar a cara a qualquer pessoa no corredor — ao seu primo, por exemplo, que ele deixou lá há dois minutos. Será que um homem no estado de espírito do Mark, aterrorizado por medo de ser encontrado com o corpo, faria algo tão temerário como isso?

— Ele não precisava de ter medo de mim — disse Cayley.

— Então porque não chamou por si? Sabia que o senhor estava por perto. Podia tê-lo aconselhado; o céu sabe que ele precisava de conselhos. Mas toda a teoria da fuga do Mark baseia-se no facto de ele ter tido medo de si e de todos os outros, e de não ter outra ideia a não ser a de sair da sala e impedir que o senhor ou os criados entrassem nela. Se a chave estivesse por dentro, ele provavelmente teria trancado a porta. Se estivesse por fora, quase certamente não o teria feito.

— Sim, espero que tenha razão — disse Bill, pensativo. — A menos que ele tenha levado a chave consigo e trancado a porta imediatamente.

— Exatamente. Mas, nesse caso, tem de construir uma teoria completamente nova.

— Quer dizer que parece algo mais deliberado?

— Sim; isso, certamente. Mas também parece tornar o Mark num idiota absoluto. Imagine por um momento que, por razões urgentes que nenhum de vós conhece, ele quisesse livrar-se do irmão. Tê-lo-ia feito assim? Apenas matá-lo e depois fugir? Ora, isso é praticamente suicídio — suicídio com perturbação mental. Não. Se quisesse mesmo eliminar um irmão indesejado, tê-lo-ia feito de forma um pouco mais inteligente. Começaria por tratá-lo como um amigo, para evitar suspeitas, e quando finalmente o matasse, tentaria fazer com que parecesse um acidente, ou suicídio, ou o trabalho de outra pessoa. Não faria?

— Quer dizer que tentaria ganhar algum tempo para si próprio?

— Sim, é isso que quero dizer. Se fosse fazê-lo deliberadamente, quero dizer — e trancar-se por dentro antes de começar.

Cayley manteve-se em silêncio, aparentemente a refletir sobre esta nova ideia. Com os olhos ainda no chão, disse então: — Mantenho a minha opinião de que foi puramente acidental e que o Mark perdeu a cabeça e fugiu.

— Mas e quanto à chave? — perguntou Bill.

— Ainda não sabemos se as chaves estavam pelo lado de fora. Não concordo de todo com o Sr. Gillingham que as chaves das divisões do andar de baixo estejam sempre do lado de fora das portas. Às vezes estão, sem dúvida; mas penso que provavelmente descobriremos que estas estão por dentro.

— Ah, bem, claro, se estiverem por dentro, então a sua teoria original é provavelmente a correta. Tendo-as visto muitas vezes por fora, apenas me questionei — é só isso. Pediu-me para ser bastante franco, sabe, e para lhe dizer o que pensava. Mas sem dúvida que tem razão, e havemos de as encontrar por dentro, como diz.

— Mesmo que a chave estivesse por fora — continuou Cayley, obstinado —, ainda penso que poderia ter sido acidental. Ele podia tê-la levado consigo, sabendo que a conversa seria desagradável e não querendo ser interrompido.

— Mas ele tinha acabado de lhe pedir que ficasse por perto caso precisasse de si; por que motivo o haveria de trancar lá fora? Além disso, penso que, se um homem fosse ter uma conversa desagradável com um parente ameaçador, a última coisa que faria seria barricar-se lá dentro com ele. Ele quereria abrir todas as portas e dizer: "Ponha-se a andar daqui!"

Cayley ficou em silêncio, mas a sua boca parecia obstinada. Antony deu uma pequena risada de desculpa e levantou-se.

— Bem, vamos, Bill — disse ele; — devemos estar a caminho. — Estendeu a mão e puxou o amigo para cima. Depois, virando-se para Cayley, continuou: — Deve perdoar-me se deixei os meus pensamentos correrem um pouco. Claro que estava a considerar o assunto puramente como um estranho; apenas como um problema, quero dizer, que não dizia respeito à felicidade de nenhum dos meus amigos.

— Está tudo bem, Sr. Gillingham — disse Cayley, levantando-se também. — Cabe-lhe a si ser compreensivo comigo. Tenho a certeza de que o será. Diz que vai agora à estalagem buscar a mala?

— Sim. — Ele olhou para o sol e depois para a paisagem que se estendia em redor da casa. — Deixe-me ver; é naquela direção, não é? — Apontou para sul. — Podemos chegar à aldeia por ali, ou temos de ir pela estrada?

— Eu mostro-lhe, rapaz — disse Bill.

— O Bill mostrar-lhe-á. O parque estende-se quase até à aldeia. Então, mandarei o carro dentro de meia hora.

— Muito obrigado.

Cayley assentiu e virou-se para entrar na casa. Antony agarrou no braço de Bill e afastou-se com ele na direção oposta.

CAPÍTULO VII. Retrato de um Cavalheiro

Caminharam em silêncio durante algum tempo, até terem deixado a casa e os jardins bem para trás. À sua frente e à direita, o parque declinava e depois subia lentamente, fechando o resto do mundo. Uma espessa faixa de árvores, à esquerda, dividia-os da estrada principal.

— Já alguma vez estiveste aqui? — disse Antony, subitamente.

— Ah, claro. Dezenas de vezes.

— Referia-me precisamente aqui — onde estamos agora. Ou ficas dentro de casa a jogar bilhar o tempo todo?

— Ah, Deus, não!

— Bem, ténis e coisas do género. Muitas pessoas com parques lindos nunca os usam, e todos os coitados que passam pela estrada poeirenta pensam na sorte que os proprietários têm em tê-los, e imaginam-nos a fazer todo o tipo de coisas alegres lá dentro. — Ele apontou para a direita. — Já alguma vez estiveste ali?

Bill riu-se, como se estivesse um pouco envergonhado.

— Bem, não muito. Muitas vezes passei por aqui, claro, porque é o caminho mais curto para a aldeia.

— Sim... Muito bem; agora conta-me algo sobre o Mark.

— Que tipo de coisas?

— Bem, não te preocupes com o facto de ele ser o teu anfitrião, nem com o facto de seres um perfeito cavalheiro, ou algo desse género. Esquece as Boas Maneiras e diz-me o que pensas do Mark, e como gostas de estar com ele, e quantas discussões teve o teu pequeno grupo esta semana, e como te dás com o Cayley, e tudo o resto.

Bill olhou para ele, ansioso.

— Digo, estás a fazer de detetive completo?

— Bem, queria uma nova profissão — sorriu o outro.

— Que divertido! Quer dizer — corrigiu-se ele, em tom de desculpa —, não se devia dizer isto quando há um homem morto na casa e o anfitrião é... — Ele interrompeu-se um pouco incerto e depois completou a frase dizendo novamente: — Por Júpiter, que espetáculo tão estranho é este. Valha-me Deus!

— Bem? — disse Antony. — Continua, Mark.

— O que penso dele?

— Sim.

Bill ficou em silêncio, a interrogar-se sobre como colocar em palavras pensamentos que nunca se tinham formado de maneira muito definida na sua própria mente. O que pensava do Mark? Vendo a sua hesitação, Antony disse:

— Devia ter-te avisado de que nada do que disseres será registado pelos jornalistas, por isso não te preocupes com um ou dois infinitivos separados. Fala sobre o que quiseres, como quiseres. Bem, vou dar-te um começo. O que gostas mais — um fim de semana aqui ou na casa dos Barrington, por exemplo?

— Bem, claro, isso dependeria...

— Supõe que ela lá estava em ambos os casos.

— Burro — disse Bill, dando uma cotovelada nas costelas de Antony. — É um pouco difícil dizer — continuou ele. — Claro que te tratam maravilhosamente bem aqui.

— Sim. Não me parece que conheça alguma casa onde as coisas sejam tão confortáveis. O quarto de um — a comida — bebidas — charutos — a forma como tudo está organizado. Todo esse tipo de coisas. Tratam-te maravilhosamente bem.

— Sim?

— Sim. — Ele repetiu-o lentamente para si mesmo, como se aquilo lhe tivesse dado uma nova ideia: — Tratam-te maravilhosamente bem. Bem, é exatamente isso em relação ao Mark. Essa é uma das suas pequenas manias. Fraquezas. Cuidar de ti.

— Organizar as coisas para ti?

— Sim. Claro, é uma casa encantadora, e há muito que fazer, e oportunidades para todos os jogos ou desportos que alguma vez foram inventados, e, como digo, trata-se muito bem; mas, com tudo isto, Tony, há uma ligeira sensação de que... bem, de que um está em parada, por assim dizer. Tens de fazer o que te mandam.

— Como queres dizer?

— Bem, o Mark tem a mania de organizar as coisas. Ele organiza, e fica subentendido que os convidados seguem a organização. Por exemplo, a Betty — a Srta. Calladine — e eu íamos jogar um singelo logo antes do chá, no outro dia. Ténis. Ela é terrivelmente boa ao ténis e apostou que me ganhava a nível. Eu sou um bocado irregular, sabes. O Mark viu-nos a sair com as nossas raquetes e perguntou-nos o que íamos fazer. Bem, ele tinha organizado um pequeno torneio para nós depois do chá — handicaps todos arranjados por ele, e tudo riscado cuidadosamente com tinta vermelha e preta — prémios e tudo — prémios bastante decentes, sabes. Tinha mandado cortar e marcar o relvado especialmente para isso. Bem, claro que a Betty e eu não teríamos estragado o campo, e teríamos estado perfeitamente prontos para jogar novamente depois do chá — eu tive de lhe dar meio-quinze de acordo com o handicap dele — mas, de alguma forma... — Bill parou e encolheu os ombros.

— Não encaixava bem?

— Não. Estragava o efeito do torneio dele. Tirava-lhe o brilho apenas um pouco, suponho que ele tenha sentido. Por isso, não jogámos. — Ele riu-se e acrescentou: — Teria sido o mesmo que pôr em risco a nossa estadia se tivéssemos jogado.

— Queres dizer que não terias sido convidado de novo?

— Provavelmente. Bem, não sei. Não durante algum tempo, de qualquer forma.

— A sério, Bill?

— Ah, claro! Ele é um diabo para ficar ofendido. Aquela Srta. Norris — viste-a? — acabou com ela própria. Não me importo de apostar o que quiseres que ela nunca mais volta aqui.

— Porquê?

Bill riu-se para si próprio.

— Estávamos todos metidos nisso, na verdade — pelo menos, a Betty e eu. Supõe-se que há um fantasma associado à casa. Lady Anne Patten. Já ouviste falar dela?

— Nunca.

— O Mark falou-nos dela ao jantar uma noite. Ele gostava bastante da ideia de haver um fantasma na sua casa, sabes; exceto que ele não acredita em fantasmas. Acho que ele queria que todos nós acreditássemos nela, e ainda assim ficou irritado com a Betty e a Sra. Calladine por acreditarem em fantasmas. Um tipo estranho. Bem, de qualquer forma, a Srta. Norris — ela é atriz, uma excelente atriz — vestiu-se de fantasma e fez um pouco o papel de tola. E o pobre Mark ficou assustado de morte. Só por um momento, sabes.

— E os outros?

— Bem, a Betty e eu sabíamos; na verdade, eu tinha-lhe dito — à Srta. Norris, quero dizer — para não ser uma totó. Conhecendo o Mark. A Sra. Calladine não estava lá — a Betty não a deixou estar. Quanto ao Major, não acredito que nada o assustasse.

— Onde apareceu o fantasma?

— Lá em baixo, perto do relvado de bowling. É esse o suposto local assombrado, sabes. Estávamos todos lá em baixo, ao luar, a fingir que esperávamos por ele. Conheces o relvado de bowling?

— Não.

— Mostro-to depois do jantar.

— Gostava que o fizesses... O Mark ficou muito zangado depois?

— Ah, Deus, sim. Emburrou durante um dia inteiro. Bem, ele é mesmo assim.

— Ele ficou zangado com todos vós?

— Ah, sim — emburrado, sabes.

— Esta manhã?

— Ah, não. Ele passou-lhe — ele geralmente passa. Ele é como uma criança. É mesmo isso, Tony; ele é como uma criança em certos aspetos. Na verdade, ele estava invulgarmente bem disposto esta manhã. E ontem.

— Ontem?

— Claro. Todos dissemos que nunca o tínhamos visto em tal forma.

— Ele está geralmente em forma?

— Ele é uma companhia bastante agradável, sabes, se o souberes levar pelo lado certo. É um bocado vaidoso e infantil — bem, como te tenho estado a dizer — e convencido; mas bastante divertido à sua maneira, e... — Bill interrompeu-se subitamente. — Digo, sabes, é mesmo o limite estar a falar do teu anfitrião desta maneira.

— Não penses nele como teu anfitrião. Pensa nele como um suposto assassino contra quem há um mandado de detenção.

— Ah! mas isso é tudo treta, sabes.

— É um facto, Bill.

— Sim, mas quero dizer, ele não o fez. Ele não mataria ninguém. É uma coisa engraçada de dizer, mas... bem, ele não tem envergadura para isso. Ele tem os seus defeitos, como todos nós, mas não são dessa escala.

— Pode-se matar qualquer pessoa num acesso infantil de temperamento.

Bill resmungou a concordância, mas sem prejuízo para o Mark. — Ainda assim — disse ele —, não consigo acreditar. Que ele o faria deliberadamente, quero dizer.

— Supondo que foi um acidente, como diz o Cayley, será que ele perderia a cabeça e fugiria?

Bill ponderou por um momento.

— Sim, acho mesmo que ele poderia, sabes. Ele quase fugiu quando viu o fantasma. Claro, isso é um pouco diferente.

— Ah, não sei. Em cada caso é uma questão de obedecer ao instinto em vez da razão.

— Mas o que é que nos diz que foi um acidente? — perguntou Antony, voltando a acender o seu cachimbo, cujas brasas tinham quase morrido durante a conversa. — Cayley diz que foi um acidente. Mark, que, segundo nos dão a entender, não era propriamente um génio da lógica, deve ter chegado à mesma conclusão. Mas tu, Bill? Tu viste o corpo. Tu viste o quarto. O que é que o teu instinto te diz?

Bill balançou a cabeça.

— Não sei. Não me parece um acidente. Mas também não me parece um crime. É... é simplesmente um mistério. O que me faz sentir um idiota é pensar que o Mark está algures, talvez a precisar de ajuda, enquanto nós estamos aqui a discutir se o Cayley tem ou não uma chave no bolso.

— O Mark não está a precisar de ajuda — disse Antony gravemente. — Se o Mark estivesse vivo, o Cayley não estaria a agir desta forma. O Cayley é um homem inteligente, Bill. Ele sabe que, se o Mark aparecesse, qualquer que fosse a explicação para o seu desaparecimento, o jogo terminaria. O facto de ele estar a tratar disto como se o Mark fosse voltar a qualquer momento é a prova de que ele sabe que o Mark não voltará.

— Estás a sugerir... — Bill hesitou, olhando para o amigo. — Estás a sugerir que o Cayley sabe que o Mark está morto?

— Estou a sugerir que o Cayley é o único homem que sabe exatamente onde está o Mark. E que, enquanto ele não quiser que o encontremos, o Mark não será encontrado.

— Mas porquê? Que motivo teria ele?

— Não faço ideia. Ainda. Mas vamos descobrir. E agora, chega de mistérios por hoje. Tenho de confessar que estou exausto. O dia de hoje foi longo, e a ideia de uma cama confortável é, neste momento, muito mais atraente do que a resolução de qualquer crime.

Voltaram a caminhar em direção à casa. A lua, agora mais alta no céu, banhava o parque numa luz prateada e fria, tornando as sombras das árvores mais profundas e mais extensas. De vez em quando, o som de um animal noturno quebrava o silêncio, mas, de resto, tudo estava calmo.

Quando chegaram à porta das traseiras, Antony parou por um momento e olhou para trás, para o parque que tinham acabado de atravessar.

— Sabes, Bill — disse ele, num tom quase inaudível —, há uma coisa que não me sai da cabeça. O facto de o Cayley ter sido tão rápido a aceitar a minha teoria sobre as chaves. Ele não tentou argumentar, não tentou defender-se. Ele simplesmente... cedeu. Como se quisesse que nos convencêssemos de algo que não é a verdade.

— Ou talvez ele apenas tenha percebido que a teoria era estúpida — sugeriu Bill, abrindo a porta.

— Talvez — respondeu Antony, entrando no corredor. — Ou talvez ele apenas nos tenha dado exatamente o que queríamos, para que parássemos de fazer perguntas sobre o que realmente importa.

Subiram as escadas em silêncio. À porta do quarto de Antony, Bill despediu-se.

— Até amanhã, Holmes. Tenta não sonhar com chaves.

Antony sorriu.

— Prometo tentar, Watson.

Entrou no quarto e fechou a porta. O quarto parecia exatamente como o tinha deixado. A luz do candeeiro de mesa projetava uma sombra suave sobre a secretária, onde ainda permaneciam os objetos que tinha tirado dos bolsos antes do jantar. Sentou-se na beira da cama, tirou os sapatos e ficou a olhar para o vazio. A sua mente, porém, não estava em descanso. Estava a rever, uma a uma, todas as peças daquele puzzle que, segundo parecia, se tinha tornado a sua vida. E, no centro de tudo, estava a figura silenciosa e enigmática de Cayley, a observar, a aguardar, a esconder.

Antony suspirou, desligou a luz e deitou-se. O dia seguinte traria o inquérito. E com o inquérito, viriam as respostas. Ou, pelo menos, as perguntas certas.

— É apenas um palpite. Mas imagino que Cayley tenha ficado completamente perturbado com a questão da chave. De repente, percebeu que fora descuidado e não teve tempo para pensar em tudo. Por isso, não quis comprometer-se definitivamente com a afirmação de que a chave estava fora ou dentro. Queria deixar isso vago. Era mais seguro assim.

— Compreendo — disse Bill, lentamente.

Mas a sua mente estava noutro lugar. De repente, estava a pensar em Cayley. Cayley era apenas um homem comum — como ele próprio. Bill já tinha feito pequenas brincadeiras com ele por vezes; não que Cayley fosse muito dado a brincadeiras. Bill tinha-lhe servido salsichas, jogado ténis com ele, pedido tabaco emprestado, emprestado-lhe um taco de golfe... e ali estava Antony a dizer que ele era... o quê? Bem, não um homem comum, de qualquer forma. Um homem com um segredo. Talvez um... um assassino. Não, um assassino não; Cayley não. Isso era uma parvoíce, de qualquer modo. Ora, tinham jogado ténis juntos.

— Muito bem, Watson — disse Antony, subitamente. — Está na hora de dizeres alguma coisa.

— Diga lá, Tony, estás mesmo a falar a sério?

— Falar a sério sobre quê?

— Sobre o Cayley.

— Estou a falar a sério sobre o que disse, Bill. Nada mais.

— Bem, a que é que isso conduz?

— Simplesmente que Robert Ablett morreu no escritório esta tarde e que Cayley sabe exatamente como morreu. É só isso. Não se segue que Cayley o tenha matado.

— Não. Não, claro que não. — Bill deu um suspiro de alívio. — Ele está apenas a proteger o Mark, não é?

— Pergunto-me.

— Bem, não é essa a explicação mais simples?

— É a mais simples se fores amigo do Cayley e quiseres livrá-lo de apuros. Mas, como vês, eu não sou.

— Porque é que não é simples, de qualquer modo?

— Bem, vamos lá então a essa explicação, e eu comprometo-me a dar-te uma mais simples a seguir. Continua. Só te lembro: a chave está no lado de fora da porta para começar.

— Sim; bem, isso não me importa. Mark entra para ver o irmão, eles discutem e tudo o resto, tal como Cayley estava a dizer. Cayley ouve o tiro e, para dar tempo ao Mark de fugir, tranca a porta, põe a chave no bolso e finge que o Mark trancou a porta e que ele não consegue entrar. O que achas?

— Sem esperança, Watson, sem esperança.

— Porquê?

— Como é que o Cayley sabe que foi o Mark quem disparou sobre o Robert, e não o contrário?

— Oh! — disse Bill, algo perturbado. — Sim. — Pensou por um momento. — Está bem. Digamos que o Cayley entrou primeiro no quarto e viu o Robert no chão.

— Bem?

— Bem, aí tens.

— E o que é que ele diz ao Mark? Que está uma tarde agradável e se lhe pode emprestar um lenço de bolso? Ou pergunta-lhe o que aconteceu?

— Bem, claro, suponho que pergunta o que aconteceu — disse Bill, relutante.

— E o que é que o Mark diz?

— Explica que o revólver disparou acidentalmente durante uma luta.

— Ao que Cayley o protege... fazendo o quê, Bill? Encorajando-o a fazer a coisa mais estúpida que qualquer homem poderia fazer: confessar a sua culpa ao fugir!

— Não, isso não tem qualquer sentido, pois não? — Bill pensou de novo. — Bem — disse ele, hesitante —, suponhamos que o Mark confessou que tinha assassinado o irmão?

— Isso é melhor, Bill. Não tenhas receio de te afastar da ideia do acidente. Bem, então a tua nova teoria é esta: Mark confessa a Cayley que disparou sobre Robert de propósito, e Cayley decide, mesmo correndo o risco de cometer perjúrio e de se meter em sarilhos, ajudar o Mark a escapar. É isso?

Bill assentiu.

— Muito bem, quero fazer-te duas perguntas. Primeiro: é possível, como disse antes do jantar, que algum homem cometesse um homicídio tão idiota — um homicídio que coloca a corda tão apertada à volta do seu pescoço? Segundo: se Cayley está disposto a perjurar-se pelo Mark (como ele tem de fazer, de qualquer modo, agora), não seria mais simples ele dizer que esteve no escritório o tempo todo e que a morte de Robert foi acidental?

Bill considerou isto cuidadosamente e, depois, assentiu lentamente de novo.

— Sim, a minha explicação simples é um fracasso — disse ele. — Agora vamos à tua.

Antony não lhe respondeu. Tinha começado a pensar noutra coisa completamente diferente.

CAPÍTULO IX. Possibilidades de um Conjunto de Croquet

— O que se passa? — disse Bill, bruscamente.

Antony olhou para ele com as sobrancelhas arqueadas.

— Pensaste em algo de repente — disse Bill. — O que é?

Antony riu-se.

— Meu caro Watson — disse ele —, não se supõe que sejas tão esperto.

— Oh, não me podes enganar!

— Não... Bem, eu estava a pensar neste teu fantasma, Bill. Parece-me que...

— Oh, isso! — Bill ficou profundamente desapontado. — Que raio é que o fantasma tem a ver com isto?

— Não sei — disse Antony, em tom de desculpa. — Não sei o que é que quer que seja tem a ver com isto. Estava apenas a pensar. Não me devias ter trazido aqui se não quisesses que eu pensasse no fantasma. Foi aqui que ela apareceu, não foi?

— Sim. — Bill foi claramente seco na resposta.

— Como?

— Quê?

— Eu disse: "Como?"

— Como? Como é que os fantasmas aparecem? Não sei. Eles simplesmente aparecem.

— Por cima de quatrocentos ou quinhentos metros de parque aberto?

— Bem, mas ela tinha de aparecer aqui, porque é aqui que a original — Lady Anne, sabes — deveria passear.

— Oh, esquece a Lady Anne! Um fantasma verdadeiro pode fazer qualquer coisa. Mas como é que a Srta. Norris apareceu de repente — por cima de quinhentos metros de parque descoberto?

Bill olhou para Antony de boca aberta.

— Eu... eu não sei — gaguejou. — Nunca pensámos nisso.

— Teriam-na visto muito antes, não teriam, se ela tivesse vindo pelo caminho por onde viemos?

— Claro que teríamos.

— E isso teria estragado tudo, de certa forma. Terias tido tempo de reconhecer o seu andar.

Bill estava interessado agora.

— Isso é bastante curioso, sabes, Tony. Nenhum de nós pensou nisso.

— Tens a certeza de que ela não atravessou o parque quando nenhum de vós estava a olhar?

— Absoluta. Porque, vês, a Betty e eu estávamos à espera dela e continuámos a olhar em volta, caso a víssemos, para que estivéssemos todos a jogar de costas para ela.

— Tu e a Srta. Calladine estavam a jogar juntos?

— Diga lá, como é que sabes isso?

— Brilhante raciocínio dedutivo. Bem, então viram-na de repente?

— Sim, ela passou por aquele lado do relvado. — Ele indicou o lado oposto, mais perto da casa.

— Ela não podia estar escondida na vala? Chamam-lhe o fosso, a propósito?

— O Mark chama. Nós não, entre nós. Não, ela não podia. A Betty e eu estivemos aqui antes dos outros e demos uma volta. Teríamo-la visto.

— Então ela deve ter estado escondida no abrigo. Ou chamam-lhe a casa de verão?

— Tivemos de lá ir buscar as bolas de jogo, claro. Ela não podia ter estado lá.

— Oh!

— É um bocado estranho — disse Bill, após um intervalo para pensar. — Mas não interessa, pois não? Não tem nada a ver com o Robert.

— Será que não?

— Diga lá, será que tem? — perguntou Bill, ficando excitado de novo.

— Não sei. Não sabemos o que tem ou o que não tem. Mas tem algo a ver com a Srta. Norris. E a Srta. Norris... — Ele interrompeu-se de repente.

— O que tem ela?

— Bem, vocês estão todos metidos nisto, de certa forma. E se algo inexplicável acontece a um de vós um ou dois dias antes de algo inexplicável acontecer a toda a casa, um fica... bem, interessado. — Era uma razão suficientemente boa, mas não era a razão que ele estivera prestes a dar.

— Compreendo. Bem?

Antony despejou o cachimbo e levantou-se lentamente.

— Bem, então vamos encontrar o caminho da casa por onde a Srta. Norris veio.

Bill saltou de entusiasmo.

— Por Júpiter! Queres dizer que há uma passagem secreta?

— Uma passagem isolada, pelo menos. Tem de haver.

— Diga lá, que divertido! Adoro passagens secretas. Meu Deus, e esta tarde estive a jogar golfe como um vulgar comerciante! Que vida! Passagens secretas!

Dirigiram-se para o fosso. Se se encontrasse uma abertura que conduzisse à casa, provavelmente seria do lado da casa do relvado e no exterior do fosso. O lugar mais óbvio para começar a procura era o abrigo onde as bolas eram guardadas. Era um lugar arrumado — como tudo no estabelecimento de Mark seria. Havia duas caixas de artigos de croquet, uma delas com a tampa aberta, como se as bolas, os tacos e os aros (embora arrumados com bastante cuidado) tivessem sido usados recentemente; uma caixa de bolas de jogo, um pequeno corta-relvas, um rolo e coisas do género. Um banco percorria a parte de trás, onde os jogadores podiam sentar-se quando chovia.

Antony bateu na parede ao fundo.

— É aqui que a passagem devia começar. Não soa muito oca, pois não?

— Não tem de começar aqui de todo, tem? — disse Bill, andando à volta com a cabeça curvada e batendo nas outras paredes. Ele era alto demais para ficar de pé no abrigo.

— Só há uma razão pela qual devia, e é que nos pouparia o trabalho de procurar em qualquer outro lado. De certeza que o Mark não vos deixou jogar croquet no seu relvado de jogo? — Ele apontou para os artigos de croquet.

— Ele não o encorajou na altura, mas este ano ficou bastante entusiasmado com isso. Não há realmente mais nenhum sítio onde jogar. Pessoalmente, detesto o jogo. Ele não era muito dado a bolas de jogo, sabes, mas gostava de lhe chamar relvado de jogo e de surpreender os seus visitantes com isso.

Antony riu-se.

— Adoro ouvir-te falar sobre o Mark — disse ele. — És impagável.

Começou a apalpar os bolsos à procura do cachimbo e do tabaco, e de repente parou e ficou tenso. Por um momento, ficou a ouvir, com a cabeça inclinada, levantando um dedo para pedir a Bill que ouvisse também.

— O que é? — sussurrou Bill.

Antony pediu silêncio com um gesto e continuou a ouvir. Muito silenciosamente, pôs-se de joelhos e ouviu de novo. Depois, encostou o ouvido ao chão. Levantou-se, limpou a roupa rapidamente, caminhou até Bill e sussurrou-lhe ao ouvido:

— Passos. Alguém a chegar. Quando eu começar a falar, apoia-me.

Bill assentiu. Antony deu-lhe uma palmada encorajadora nas costas e caminhou firmemente até à caixa de bolas de jogo, assobiando alto para si mesmo. Tirou as bolas, deixou cair uma com um estrondo no chão, disse: "Oh, raios!", e continuou:

— Diga lá, Bill, acho que não quero jogar às bolas, afinal.

— Bem, porque é que disseste que querias? — resmungou Bill.

Antony lançou-lhe um sorriso de agradecimento.

— Bem, eu queria quando disse que queria, e agora não quero.

— Então o que é que queres fazer?

— Falar.

— Oh, certo! — disse Bill, entusiasmado.

— Há um banco no relvado — vi-o. Vamos levar estas coisas no caso de querermos jogar, afinal.

— Certo! — disse Bill de novo. Sentia-se seguro com isso, não querendo comprometer-se até saber o que se esperava que ele dissesse.

Enquanto atravessavam o relvado, Antony largou as bolas e tirou o cachimbo.

— Tens fósforos? — disse ele em voz alta.

Enquanto inclinava a cabeça sobre o fósforo, sussurrou: "Vai haver alguém a ouvir-nos. Tu assume a visão do Cayley", e depois continuou no seu tom de voz normal: "Não acho grande coisa aos teus fósforos, Bill", e acendeu outro. Caminharam até ao banco e sentaram-se.

— Que noite celestial! — disse Antony.

— Magnífica.

— Pergunto-me onde estará aquele pobre diabo do Mark agora.

— É um assunto estranho.

— Concordas com o Cayley — que foi um acidente?

— Sim. Vês, eu conheço o Mark.

— H’m. — Antony tirou um lápis e um pedaço de papel e começou a escrever no joelho, mas, enquanto escrevia, falava. Disse que achava que o Mark tinha disparado sobre o irmão num acesso de raiva, e que Cayley sabia, ou pelo menos suspeitava disso, e tinha tentado dar ao seu primo uma oportunidade de fugir.

— Repara, acho que ele tem razão. Acho que é o que qualquer um de nós faria. Não vou denunciá-lo, claro, mas, de alguma forma, há uma ou duas pequenas coisas que me fazem pensar que o Mark disparou realmente sobre o irmão — quero dizer, para além de acidentalmente.

— Assassinou-o?

— Bem, homicídio por negligência, de qualquer forma. Posso estar enganado. De qualquer modo, não é da minha conta.

— Mas porque é que pensas isso? Por causa das chaves?

— Oh, as chaves são um fracasso. Ainda assim, foi uma ideia brilhante a minha, não foi? E teria sido uma boa jogada da minha parte se estivessem todas do lado de fora.

Tinha terminado a escrita e passou agora o papel a Bill. À luz clara do luar, as letras cuidadosamente impressas podiam ser facilmente lidas:

"CONTINUA A FALAR COMO SE EU ESTIVESSE AQUI. APÓS UM MINUTO OU DOIS, VIRA-TE COMO SE EU ESTIVESSE SENTADO NA RELVA ATRÁS DE TI, MAS CONTINUA A FALAR."

— Sei que não concordas comigo — continuou Antony enquanto Bill lia —, mas vais ver que tenho razão.

Bill olhou para cima e assentiu entusiasmado. Tinha-se esquecido do golfe, da Betty e de todas as outras coisas que tinham feito parte do seu mundo ultimamente. Isto era a realidade. Isto era a vida. — Bem — começou ele, deliberadamente —, o ponto principal é que eu conheço o Mark. Ora, o Mark...

Mas Antony já tinha saído do banco e estava a descer suavemente para o fosso. A sua intenção era rastejar à volta dele até que o abrigo aparecesse. Os passos que ele ouvira pareciam vir de baixo do abrigo; provavelmente havia algum tipo de alçapão no chão. Quem quer que fosse teria ouvido as suas vozes e provavelmente acharia que valia a pena ouvir o que estavam a dizer. Ele poderia fazer isso apenas abrindo um pouco a porta sem se mostrar, caso em que Antony teria encontrado a entrada da passagem sem qualquer dificuldade. Mas quando Bill virou a cabeça e falou por cima das costas do banco, era provável que o ouvinte tivesse de pôr a cabeça de fora para ouvir, e então Antony seria capaz de descobrir quem era. Além disso, se ele se aventurasse a sair totalmente do seu esconderijo e os espreitasse por cima da margem, o facto de Bill estar a falar por cima das costas do banco levaria o observador a pensar erradamente que Antony ainda lá estava, sentado na relva, sem dúvida, atrás do banco, balançando as pernas sobre o lado do fosso.

Caminhou rápida mas muito silenciosamente ao longo de metade do relvado de jogo até ao primeiro canto, passou cautelosamente a volta e depois seguiu ainda mais cuidadosamente ao longo da largura dele até ao segundo canto. Conseguia ouvir Bill a esforçar-se, argumentando a partir do seu conhecimento do carácter de Mark que isto, aquilo e aqueloutro tinham de ter acontecido, e sorriu, apreciativo, para si próprio. Bill era um grande conspirador, valia por cem Watsons. À medida que se aproximava do segundo canto, abrandou e fez os últimos metros de gatas. Depois, deitado de corpo inteiro, polegada a polegada, a sua cabeça contornou o canto.

O abrigo ficava a dois ou três metros à sua esquerda, no lado oposto do fosso. De onde estava deitado, conseguia ver quase todo o seu interior. Tudo parecia estar como o tinham deixado. A caixa de bolas de jogo, o corta-relvas, o rolo, a caixa de croquet aberta, a...

— Por Júpiter! — disse Antony para si próprio. — Isto é bem feito.

A tampa da outra caixa de croquet estava aberta também. Bill estava a virar-se agora; a sua voz tornou-se mais difícil de ouvir. — Estás a ver o que quero dizer — dizia ele. — Se o Cayley...

E da segunda caixa de croquet saiu a cabeça negra de Cayley.

Antony quis gritar o seu aplauso. Era bem feito, diabolicamente bem feito. Por um momento, ficou a olhar, fascinado, para aquele maravilhoso novo tipo de bola de croquet que aparecera tão dramaticamente fora da caixa, e depois, relutantemente, rastejou para trás. Não havia nada a ganhar em ficar ali, e muito a perder, pois Bill mostrava sinais de se calar. Tão rapidamente quanto pôde, Antony apressou-se a contornar o fosso e tomou o seu lugar nas costas do banco. Depois, levantou-se com um bocejo, espreguiçou-se e disse, descontraidamente: — Bem, não te preocupes com isso, Bill, meu velho. Suponho que tenhas razão. Tu conheces o Mark, eu não; e essa é a diferença. Jogamos uma partida ou vamos para a cama?

Bill olhou para ele à procura de inspiração e, recebendo-a, disse: — Oh, vamos só jogar uma partida, queres?

— Combinado — disse Antony.

Mas Bill estava demasiado excitado para levar a partida que se seguiu muito a sério. Antony, por outro lado, parecia não pensar em nada a não ser nas bolas de jogo. Jogou com grande deliberação durante dez minutos e depois anunciou que ia para a cama. Bill olhou para ele, ansioso.

— Está tudo bem — riu-se Antony. — Podes falar se quiseres. Só vamos arrumar isto primeiro, no entanto.

Dirigiram-se para o abrigo e, enquanto Bill guardava as bolas, Antony experimentou a tampa da caixa de croquet fechada. Como esperava, estava trancada.

— Muito bem — disse Bill, enquanto voltavam a caminhar para a casa —, estou simplesmente a rebentar por saber. Quem era?

— Cayley.

— Meu Deus! Onde?

— Dentro de uma das caixas de croquet.

— Não sejas asno.

— É a mais pura verdade, Bill. — Ele contou ao outro o que tinha visto.

— Mas não vamos dar uma vista de olhos? — perguntou Bill, muito desapontado. — Estou com vontade de explorar. Não estás?

— Amanhã e amanhã e amanhã. Veremos o Cayley a vir por este caminho dentro em breve. Além disso, quero entrar pela outra extremidade, se puder. Duvido muito que consigamos fazê-lo por este lado sem nos denunciarmos. Olha, lá está o Cayley.

Conseguiam vê-lo a vir pelo caminho em direção a eles. Quando estavam um pouco mais próximos, acenaram-lhe e ele acenou de volta.

— Perguntava-me onde estavam — disse ele, quando chegou junto deles. — Pensei que podiam vir por este caminho. Que tal irmos para a cama?

— Cama, sem dúvida — disse Antony.

— Estivemos a jogar às bolas — acrescentou Bill —, e a falar, e... e a jogar às bolas. Noite magnífica, não é?

Mas deixou o resto da conversa, enquanto voltavam para a casa, a cargo de Antony. Queria pensar. Não parecia haver dúvida agora de que Cayley era um vilão. Bill nunca tinha convivido com um vilão antes. De certa forma, não parecia justo por parte de Cayley; estava a tirar uma vantagem bastante mesquinha dos seus amigos. Havia muita gente estranha no mundo — gente estranha com segredos. Olha para o Tony, aquela primeira vez que o encontrou numa tabacaria. Qualquer pessoa teria pensado que ele era um empregado de tabacaria. E o Cayley. Qualquer pessoa teria pensado que o Cayley era uma pessoa comum e decente. E o Mark. Raios! nunca se podia ter a certeza de ninguém. Ora, o Robert era diferente. Toda a gente tinha dito sempre que o Robert era um tipo obscuro.

Mas que raio tinha a Srta. Norris a ver com isto? Que tinha a Srta. Norris a ver com isto? Esta era uma pergunta que Antony já se tinha feito naquela tarde, e parecia-lhe agora que tinha encontrado a resposta. Enquanto estava deitado na cama naquela noite, reviu as suas ideias e olhou para elas à luz nova que os acontecimentos da noite lançavam sobre os cantos escuros do seu cérebro.

Claro que era natural que Cayley quisesse ver-se livre dos seus convidados assim que a tragédia fosse descoberta. Ele desejaria isso para o bem deles, bem como para o seu. Mas tinha sido um pouco rápido demais a sugerir isso e a ver a sugestão ser levada a cabo. Tinham sido despachados assim que podiam ser arrumados. A sugestão de que estavam nas mãos dele, para ir ou ficar como ele desejasse, poderia ter sido deixada tranquilamente para eles. Tal como foi, não lhes foi dada alternativa, e a Srta. Norris, que se tinha proposto apanhar um comboio depois do jantar na estação, na esperança óbvia de que pudesse ter desta forma um interrogatório dramático nas mãos de algum detetive de olhos atentos, foi encorajada, com tato mas com bastante firmeza, a viajar no comboio mais cedo com os outros. Antony sentira que Cayley, na tragédia que tinha subitamente caído sobre a casa, deveria ter sido igualmente indiferente à presença ou ausência dela. Mas não o foi; e Antony supôs, a partir daí, que Cayley estava muito consciente da necessidade da ausência dela.

Porquê?

Bem, essa pergunta não podia ser respondida de pronto. Mas o facto de ser assim tornara Antony interessado nela; e foi por este motivo que ele acompanhara com tanta atenção a menção casual de Bill sobre ela em ligação com o negócio dos disfarces. Sentia que queria saber um pouco mais sobre a Miss Norris e o papel que ela tinha desempenhado no círculo da Red House. Por pura sorte, como lhe pareceu, ele tinha tropeçado na resposta à sua pergunta.

A Miss Norris foi levada à pressa porque sabia da passagem secreta.

A passagem, então, tinha algo a ver com o mistério da morte de Robert. A Miss Norris tinha-a usado para conseguir a sua entrada dramática como fantasma. Possivelmente tinha-a descoberto por si mesma; possivelmente Mark tinha-lha revelado secretamente um dia, nunca imaginando que ela faria um uso tão indelicado dela mais tarde; possivelmente Cayley, tendo sido deixado entrar na brincadeira dos disfarces, tinha-lhe mostrado como ela podia tornar a sua aparição no relvado de bowling ainda mais misteriosa e sobrenatural. De uma forma ou de outra, ela sabia da passagem secreta. Por isso, tinha de ser levada à pressa.

Porquê? Porque se ela ficasse e falasse, poderia fazer alguma menção inocente a ela. E Cayley não queria qualquer menção a ela.

Porquê, novamente? Obviamente porque a passagem, ou mesmo a simples consciência da sua existência, poderia fornecer uma pista.

“Pergunto-me se Mark se esconde lá”, pensou Antony; e adormeceu.

CAPÍTULO X. O Sr. Gillingham diz disparates

Antony desceu com muito bom humor para o pequeno-almoço na manhã seguinte, e descobriu que o seu anfitrião estava lá antes dele. Cayley levantou o olhar das suas cartas e acenou.

“Alguma notícia do Sr. Ablett — do Mark?”, disse Antony, enquanto servia o seu café.

“Não. O inspetor quer dragar o lago esta tarde.”

“Oh! Existe um lago?”

Houve apenas o vislumbre de um sorriso no rosto de Cayley, mas desapareceu tão depressa como veio.

“Bem, é na verdade um charco”, disse ele, “mas era chamado ‘o lago’.”

“Pelo Mark”, pensou Antony. Em voz alta, disse: “O que esperam encontrar?”

“Eles pensam que o Mark—” Ele interrompeu-se e encolheu os ombros.

“Pode ter-se afogado, sabendo que não podia fugir? E sabendo que se tinha comprometido por tentar fugir de todo?”

“Sim; suponho que sim”, disse Cayley lentamente.

“Eu teria pensado que ele se teria dado a mais tempo de avanço. Afinal, ele tinha um revólver. Se estava determinado a não ser apanhado vivo, podia sempre ter evitado isso. Não podia ter apanhado um comboio para Londres antes de a polícia saber alguma coisa sobre isso?”

“Ele podia ter conseguido. Havia um comboio. Eles tê-lo-iam notado em Woodham, claro, mas ele poderia ter conseguido em Stanton. Ele não é tão conhecido lá, naturalmente. O inspetor tem andado a investigar. Ninguém parece tê-lo visto.”

“Haverá certamente pessoas que dirão que o viram, mais tarde. Nunca houve um homem desaparecido sem que uma dúzia de pessoas se apresentasse a jurar tê-lo visto em uma dúzia de lugares diferentes ao mesmo tempo.”

Cayley sorriu.

“Sim. É verdade. Seja como for, ele quer dragar o charco primeiro.” Acrescentou secamente: “Do que li de histórias de detetives, os inspetores querem sempre dragar o charco primeiro.”

“É fundo?”

“Bastante fundo”, disse Cayley enquanto se levantava. A caminho da porta, parou e olhou para Antony. “Lamento muito que o tenhamos aqui assim, mas será apenas até amanhã. O inquérito é amanhã à tarde. Diverta-se como quiser até lá. Beverley tratará de si.”

“Muito obrigado. Ficarei realmente muito bem.”

Antony continuou o seu pequeno-almoço. Talvez fosse verdade que os inspetores gostavam de dragar charcos, mas a questão era: os Cayleys gostam de os ver dragados? Estaria Cayley ansioso com isso, ou totalmente indiferente? Ele certamente não parecia estar ansioso, mas podia esconder os seus sentimentos muito facilmente por baixo daquele rosto pesado e sólido, e não era frequente que o verdadeiro Cayley espreitasse. Talvez um pouco demasiado ansioso uma ou duas vezes, mas não havia nada a aprender com isso esta manhã. Talvez ele soubesse que o charco não tinha segredos para revelar. Afinal, os inspetores estavam sempre a dragar charcos.

Bill entrou ruidosamente.

O rosto de Bill era um livro aberto. A excitação estava escrita em toda a parte.

“Bem”, disse ele ansiosamente, enquanto se sentava para o trabalho da refeição, “o que vamos fazer esta manhã?”

“Não falar tão alto, para começar”, disse Antony. Bill olhou à sua volta apreensivo. Estaria Cayley debaixo da mesa, por exemplo? Depois da noite passada, nunca se sabia.

“Está—er—” Ele levantou as sobrancelhas.

“Não. Mas não se quer gritar. Deve-se modular a voz, meu caro William, enquanto se respira suavemente a partir das ancas. Assim evitam-se aquelas notas de peito que traíram muitos segredos. Por outras palavras, passe a torrada.”

“Pareces bem-disposto esta manhã.”

“Estou. Muito bem-disposto. Cayley notou. Cayley disse: ‘Não fosse eu ter outros negócios, viria apanhar nozes e flores contigo. Tão desejoso eu estaria de girar à volta do arbusto de amoreira e saltar sobre as colinas. Mas as águas do Jordão cercam-me e o Inspetor Birch espera lá fora com a sua rede de camarão. O meu amigo William Beverley tratar-te-á em breve. Adeus, um longo adeus a todos — os teus cereais.’ Ele então saiu pelo centro. Entra W. Beverley, D.”

“Estás muitas vezes assim ao pequeno-almoço?”

“Quase invariavelmente. Disse ele de boca cheia. Sai W. Beverley, E.”

“É um toque de sol, suponho”, disse Bill, abanando a cabeça tristemente.

“É o sol e a lua e as estrelas, tudo a atuar em conjunto num estômago vazio. Sabes alguma coisa sobre as estrelas, Sr. Beverley? Sabes alguma coisa sobre o Cinturão de Orion, por exemplo? E porque não há uma estrela chamada Cinturão de Beverley? Ou um romance? Disse ele a mastigar. Reentra W. Beverley através de alçapão.”

“Falando em alçapões—”

“Não”, disse Antony, levantando-se. “Alguns falam de Alexandre e outros de Hércules, mas ninguém fala sobre — qual é o latim para alçapão? — Mensa — uma mesa; podes tirar isso daí. Bem, Sr. Beverley” — e deu-lhe uma palmada cordial nas costas enquanto passava por ele — “ver-te-ei mais tarde. Cayley diz que me vais divertir, mas até agora não me fizeste rir uma única vez. Tens de tentar ser mais divertido quando acabares o teu pequeno-almoço. Mas não te apresses. Deixa as mandíbulas superiores terem tempo de fazer o trabalho.” Com estas palavras, o Sr. Gillingham deixou então o espaçoso apartamento.

Bill continuou o seu pequeno-almoço com um ar ligeiramente confuso. Ele não sabia que Cayley estava a fumar um cigarro lá fora, atrás das janelas; não a ouvir, talvez; possivelmente nem sequer a escutar; mas dentro da vista de Antony, que não ia correr riscos. Por isso, continuou o seu pequeno-almoço, refletindo que Antony era um tipo estranho, e perguntando-se se tinha apenas sonhado com as coisas espantosas que tinham acontecido no dia anterior.

Antony subiu ao seu quarto para ir buscar o seu cachimbo. Estava ocupado por uma criada, e ele fez um pedido de desculpas educado por a incomodar. Então lembrou-se.

“É a Elsie?”, perguntou ele, dando-lhe um sorriso amigável.

“Sim, senhor”, disse ela, tímida mas orgulhosa. Ela não tinha dúvidas sobre o motivo pelo qual tinha alcançado tal notoriedade.

“Foste tu que ouviste o Sr. Mark ontem, não foi? Espero que o inspetor tenha sido simpático contigo?”

“Sim, obrigado, senhor.”

“‘Agora é a minha vez. Tu espera’”, murmurou Antony para si mesmo.

“Sim, senhor. Com um tom desagradável. Querendo dizer que a sua oportunidade tinha chegado.”

“Pergunto-me.”

“Bem, foi o que ouvi, senhor. Verdadeiramente.”

Antony olhou para ela pensativo e acenou.

“Sim. Pergunto-me. Pergunto-me porquê.”

“Porquê o quê, senhor?”

“Oh, muitas coisas, Elsie... Foi um completo acidente estares lá fora naquela altura?”

Elsie corou. Ela não tinha esquecido o que a Sra. Stevens tinha dito sobre isso.

“Completo, senhor. Por norma, uso as outras escadas.”

“Claro.”

Ele tinha encontrado o seu cachimbo e estava prestes a descer novamente quando ela o parou.

“Peço perdão, senhor, mas haverá um inquérito?”

“Oh, sim. Amanhã, creio eu.”

“Terei de dar o meu testemunho, senhor?”

“Claro. Não há nada de que ter medo.”

“Eu ouvi-o, senhor. Verdadeiramente.”

“Ora, claro que ouviste. Quem diz que não ouviste?”

“Alguns dos outros, senhor — a Sra. Stevens e todos.”

“Oh, isso é apenas porque têm ciúmes”, disse Antony com um sorriso.

Ele estava contente por ter falado com ela, porque reconhecera de imediato a imensa importância do seu testemunho. Para o Inspetor, sem dúvida, tinha parecido apenas de importância por ter mostrado que Mark adotara algo de uma atitude ameaçadora para com o seu irmão. Para Antony, tinha muito mais significado. Era o único testemunho fiável de que Mark tinha estado no escritório de todo naquela tarde.

Pois quem viu Mark entrar no escritório? Apenas Cayley. E se Cayley tinha andado a esconder a verdade sobre as chaves, porque não deveria estar a esconder a verdade sobre a entrada de Mark no escritório? Obviamente, todo o testemunho de Cayley não valia nada. Algumas partes, sem dúvida, eram verdadeiras; mas ele estava a prestá-lo, tanto a verdade como a falsidade, com um propósito. Qual era o propósito, Antony ainda não sabia — proteger Mark, proteger-se a si mesmo — até mesmo trair Mark — poderia ser qualquer um destes. Mas uma vez que o seu testemunho era prestado para os seus próprios fins, era impossível que pudesse ser tratado como o testemunho de um espectador imparcial e fiável. Tal como, por exemplo, Elsie parecia ser.

O testemunho de Elsie, contudo, parecia resolver a questão. Mark tinha ido ao escritório para ver o seu irmão; Elsie tinha ouvido ambos a falar; e então Antony e Cayley tinham encontrado o corpo de Robert... e o Inspetor ia dragar o charco.

Mas certamente o testemunho de Elsie não provava nada mais do que a mera presença de Mark na sala. “Agora é a minha vez; tu espera.” Aquilo não era uma ameaça imediata; — era uma ameaça para o futuro. Se Mark tivesse disparado sobre o seu irmão imediatamente a seguir, teria de ter sido um acidente, o resultado de uma luta, digamos, provocada por aquele tom de voz “desagradável”. Ninguém diria “Tu espera” a um homem que estava prestes a ser baleado. “Tu espera” significava “Tu espera, e vê o que te vai acontecer mais tarde”. O proprietário da Red House tinha tido o suficiente das explorações do seu irmão, da chantagem do seu irmão; agora era a vez de Mark recuperar um pouco do que era seu. Deixa o Robert esperar um pouco, e ele veria. A conversa que Elsie tinha ouvido poderia ter significado algo deste género. Não poderia ter significado homicídio. De qualquer modo, não o homicídio de Robert por Mark.

“É um negócio engraçado”, pensou Antony. “A solução óbvia é tão fácil e, contudo, tão errada. E tenho cem coisas na cabeça, e não as consigo juntar. E esta tarde fará cento e uma. Não me devo esquecer desta tarde.”

Ele encontrou Bill no hall e propôs um passeio. Bill estava mais do que disposto. “Onde queres ir?”, perguntou ele.

“Não me importo muito. Mostra-me o parque.”

“Está bem.”

Caminharam juntos para fora.

“Watson, meu velho”, disse Antony, assim que se afastaram da casa, “não deves mesmo falar tão alto dentro de casa. Havia um cavalheiro lá fora, logo atrás de ti, o tempo todo.”

“Oh, digo-te”, disse Bill, ficando cor-de-rosa. “Lamento imenso. Então foi por isso que estavas a dizer tantos disparates.”

“Em parte, sim. E em parte porque me sinto bastante bem-disposto esta manhã. Vamos ter um dia ocupado.”

“Vamos mesmo? O que vamos fazer?”

“Eles vão dragar o charco — peço desculpa, o lago. Onde fica o lago?”

“Estamos a caminho dele agora, se quiseres vê-lo.”

“Podemos olhar para ele. Frequentam muito o lago por norma?”

“Oh, não, de todo. Não há nada para fazer lá.”

“Não se pode nadar?”

“Bem, eu não me importaria. Demasiado sujo.”

“Compreendo... Este é o caminho por onde viemos ontem, não é? O caminho para a aldeia?”

“Sim. Vamos um pouco para a direita diretamente. Por que o estão a dragar?”

“Mark.”

“Oh, disparates”, disse Bill inquieto. Ficou em silêncio por um pouco, e depois, esquecendo os seus pensamentos desconfortáveis na sua súbita lembrança dos tempos excitantes que estavam a viver, disse ansiosamente: “Diz-me, quando vamos procurar aquela passagem?”

“Não podemos fazer muito enquanto o Cayley estiver em casa.”

“E esta tarde, quando estiverem a dragar o charco? Ele de certeza que vai estar lá.”

Antony abanou a cabeça.

“Há algo que tenho de fazer esta tarde”, disse ele. “Claro que poderíamos ter tempo para ambos.”

“O Cayley tem de estar fora de casa para a outra coisa também?”

“Bem, penso que deveria estar.”

“Diz-me, é algo bastante excitante?”

“Não sei. Pode ser bastante interessante. Até admito que poderia fazê-lo noutra altura, mas de alguma forma, apetece-me às três horas. Tenho estado a guardá-lo especialmente para essa hora.”

“Diz-me, que divertido! Precisas mesmo de mim, não precisas?”

“Claro que preciso. Apenas, Bill, não fales sobre as coisas dentro de casa, a menos que eu comece. És um bom Watson.”

“Não falarei. Juro que não falarei.”

Tinham chegado ao charco — o lago de Mark — e caminharam silenciosamente à volta dele. Quando fizeram o círculo, Antony sentou-se na relva e reacendeu o seu cachimbo. Bill seguiu o seu exemplo.

“Bem, o Mark não está aqui”, disse Antony.

“Não”, disse Bill. “Pelo menos, não percebo bem como sabes que ele não está.”

“Não é ‘saber’, é ‘adivinhar’”, disse Antony rapidamente. “É muito mais fácil dar um tiro a si próprio do que afogar-se, e se o Mark quisesse dar um tiro a si próprio na água, com alguma ideia de não deixar o corpo ser encontrado, teria posto pedras grandes nos bolsos, e as únicas pedras grandes estão perto da margem da água, e teriam deixado marcas, e não deixaram, e portanto ele não o fez, e — oh, que se lixe o charco; isso pode esperar até esta tarde. Bill, onde começa a passagem secreta?”

“Bem, é isso que temos de descobrir, não é?”

“Sim. Vês, a minha ideia é esta.”

Ele explicou as suas razões para pensar que o segredo da passagem estava relacionado de alguma forma com o segredo da morte de Robert, e continuou:

“A minha teoria é que o Mark descobriu a passagem há cerca de um ano — a altura em que começou a interessar-se por croquet. A passagem saía para o chão do abrigo, e provavelmente foi ideia do Cayley pôr uma caixa de croquet sobre o alçapão, de modo a escondê-lo mais completamente. Sabes, quando descobres um segredo por ti próprio, parece sempre que deve ser tão óbvio para toda a gente. Consigo imaginar que o Mark adorava ter este pequeno segredo só para si — e para o Cayley, claro, mas o Cayley não contava — e eles devem ter tido muita diversão a arranjá-lo, e a torná-lo mais difícil para outras pessoas descobrirem. Bem, então, quando a Miss Norris ia disfarçar-se, o Cayley deixou-o escapar. Provavelmente disse-lhe que ela nunca poderia chegar ao relvado de bowling sem ser descoberta, e depois talvez tenha mostrado que sabia que havia uma forma de ela o poder fazer, e ela extraiu o segredo dele de alguma forma.”

“Mas isto foi dois ou três dias antes de o Robert aparecer.”

“Exatamente. Não estou a sugerir que houvesse algo de sinistro sobre a passagem em primeiro lugar. Era apenas um pequeno pedaço privado de romance e aventura para o Mark, há três dias. Ele nem sequer sabia que o Robert vinha. Mas de alguma forma a passagem tem sido usada desde então, em relação ao Robert. Talvez o Mark tenha escapado por lá; talvez ele esteja escondido lá agora. E se assim for, então a única pessoa que o poderia denunciar era a Miss Norris. E ela, claro, só o faria inocentemente — não sabendo que a passagem tinha algo a ver com isso.”

“Portanto, era mais seguro tê-la fora do caminho?”

“Sim.”

“Mas, olha aqui, Tony, porque te queres preocupar com esta ponta disto? Podemos sempre entrar pela ponta do relvado de bowling.”

“Eu sei, mas se fizermos isso teremos de o fazer abertamente. Significará arrombar a caixa, e deixar o Cayley saber que o fizemos. Vês, Bill, se não descobrirmos nada por nós mesmos no próximo dia ou dois, temos de dizer à polícia o que descobrimos, e então eles podem explorar a passagem por si mesmos. Mas não quero fazer isso ainda.”

“Claro que não.”

“Portanto, temos de continuar secretamente por um bocado. É a única maneira.” Ele sorriu e acrescentou: “E é muito mais divertido.”

“Claro!” Bill riu-se para si mesmo.

“Muito bem. Onde começa a passagem secreta?”

CAPÍTULO XI. O Reverendo Theodore Ussher

“Há uma coisa que temos de perceber de imediato”, disse Antony, “e é que se não a encontrarmos facilmente, não a encontraremos de todo.”

“Queres dizer que não teremos tempo?”

“Nem tempo nem oportunidade. O que é um pensamento bastante consolador para uma pessoa preguiçosa como eu.”

“Mas torna-o muito mais difícil, se não pudermos procurar devidamente.”

“Mais difícil de encontrar, sim, mas muito mais fácil de procurar. Por exemplo, a passagem poderia começar no quarto do Cayley. Bem, agora sabemos que não começa.”

“Não sabemos nada disso”, protestou Bill.

“Sabemos para efeitos da nossa busca. Obviamente não podemos andar a meter-nos no quarto do Cayley e a bater nos seus guarda-fatos; e obviamente, portanto, se vamos procurar por ela, temos de assumir que não começa lá.”

“Oh, compreendo.” Bill mastigou um pedaço de erva pensativamente. “De qualquer forma, não começaria num andar de cima, pois não?”

“Provavelmente não. Bem, estamos a avançar.”

“Podes riscar a cozinha e toda essa parte da casa”, disse Bill, depois de mais reflexão. “Não podemos ir lá.”

“Certo. E as caves, se houver alguma.”

“Bem, isso não nos deixa muito.”

“Não. Claro que é apenas uma hipótese em cem que a encontramos, mas o que queremos considerar é qual é o lugar mais provável dos poucos lugares onde podemos procurar com segurança.”

“Tudo o que sobra”, disse Bill, “são as salas de estar no andar de baixo — sala de jantar, biblioteca, hall, sala de bilhar e as divisões do escritório.”

“Sim, é tudo.”

“Bem, o escritório é o mais provável, não é?”

“Sim. Exceto por uma coisa.”

“O que é?”

“Bem, fica do lado errado da casa. Esperar-se-ia que a passagem começasse a partir do lugar mais próximo para onde ela vai. Porquê torná-la mais longa passando primeiro por baixo da casa?”

“Sim, é verdade. Bem, então, pensas na sala de jantar ou na biblioteca?”

“Sim. E na biblioteca de preferência. Quero dizer, para a nossa preferência. Há sempre criados a entrar nas salas de jantar. Não teríamos muitas hipóteses de explorar devidamente lá dentro. Além disso, há outra coisa a lembrar. O Mark manteve isto em segredo durante um ano. Poderia ele ter mantido isto em segredo na sala de jantar? Poderia a Miss Norris ter entrado na sala de jantar e usado a porta secreta logo após o jantar sem ser vista? Teria sido demasiado arriscado.”

Bill levantou-se ansiosamente.

“Vamos”, disse ele, “vamos experimentar a biblioteca. Se o Cayley entrar, podemos sempre fingir que estamos a escolher um livro.”

Antony levantou-se lentamente, deu-lhe o braço e caminhou de volta para a casa com ele.

Valeu a pena entrar na biblioteca, com ou sem passagens. Antony nunca conseguia resistir às estantes de outra pessoa. Assim que entrou na sala, deu por si a percorrê-la para ver que livros o dono lia, ou (mais provavelmente) não lia, mas mantinha pelo ar que conferiam à casa. Mark orgulhava-se da sua biblioteca. Era uma coleção mista de livros. Livros que herdara tanto do pai como do seu patrono; livros que comprara porque se interessava por eles ou, se não por eles, pelos autores a quem desejava conceder o seu patrocínio; livros que encomendara em edições encadernadas com esmero, em parte porque ficavam bem nas estantes, emprestando uma cor nobre aos seus aposentos, em parte porque nenhum homem culto deveria estar sem eles; edições antigas, edições novas, livros caros, livros baratos — uma biblioteca na qual qualquer pessoa, fosse qual fosse o seu gosto, poderia ter a certeza de encontrar algo que lhe agradasse.

“E qual é a tua preferência, Bill?”, disse Antony, olhando de uma estante para outra. “Ou estás sempre a jogar bilhar?”

“De vez em quando dou uma vista de olhos no ‘Badminton’”, disse Bill. “Está ali naquele canto.” Ele acenou com a mão.

“Aqui?”, disse Antony, dirigindo-se para lá.

“Sim.” Corrigiu-se subitamente. “Oh, não, não está. Agora está ali à direita. O Mark fez uma grande reorganização da sua biblioteca há cerca de um ano. Levou-lhe mais de uma semana, disse-nos ele. Ele tem uma quantidade assustadora, não tem?”

“Ora, isso é muito interessante”, disse Antony, sentando-se e enchendo o seu cachimbo novamente.

Havia, de facto, uma “quantidade assustadora” de livros. As quatro paredes da biblioteca estavam cobertas deles do chão ao teto, salvo onde a porta e as duas janelas insistiam em viver a sua própria vida, ainda que de forma analfabeta. Para Bill, parecia a sala mais desesperante de todas para se procurar uma abertura secreta.

“Vamos ter de tirar todos os benditos livros”, disse ele, “antes de podermos ter a certeza de que não a perdemos.”

“De qualquer forma”, disse Antony, “se os tirarmos um a um, ninguém nos pode suspeitar de desígnios sinistros. Afinal de contas, para que é que alguém entra numa biblioteca, se não para tirar livros?”

“Mas há uma quantidade tão assustadora.”

O cachimbo de Antony estava agora a funcionar satisfatoriamente, e ele levantou-se e caminhou calmamente até ao fim da parede oposta à porta.

“Bem, vamos dar uma vista de olhos”, disse ele, “e ver se são assim tão assustadores. Olá, aqui está o teu ‘Badminton’. Costumas ler isso, dizes tu?”

“Se é que leio alguma coisa.”

“Sim.” Ele olhou para baixo e para cima na estante. “Desporto e Viagens, principalmente. Gosto de livros de viagens, e tu?”

“Regra geral são bastante aborrecidos.”

“Bem, de qualquer modo, algumas pessoas gostam muito deles”, disse Antony, com tom de censura. Ele passou para a fila seguinte de estantes. “Teatro. Os dramaturgos da Restauração. Podes ficar com a maioria deles. Ainda assim, como bem observaste, muitas pessoas parecem adorá-los. Shaw, Wilde, Robertson — gosto de ler peças, Bill. Não há muitas pessoas que o façam, mas as que o fazem são geralmente muito entusiastas. Sigamos em frente.”

“Diz-me, não temos muito tempo”, disse Bill, inquieto.

“Não temos. É por isso que não estamos a desperdiçar nenhum. Poesia. Quem é que lê poesia hoje em dia? Bill, quando foi a última vez que leste ‘Paraíso Perdido’?”

“Nunca.”

“Imaginei que não. E quando foi a última vez que a Miss Calladine te leu ‘The Excursion’ em voz alta?”

“Na verdade, a Betty — a Miss Calladine — por acaso é muito entusiasta do... qual é o nome daquele tipo?”

“Não importa o nome. Já disseste o suficiente. Sigamos em frente.”

Ele passou para a estante seguinte.

“Biografia. Oh, há imensas. Adoro biografias. És membro do Johnson Club? Aposto que o Mark é. ‘Memórias de Muitas Cortes’ — tenho a certeza de que a Mrs. Calladine lê isso. De qualquer forma, as biografias são tão interessantes como a maioria dos romances, por isso para que demorar? Sigamos em frente.” Ele foi até à estante seguinte e depois deu um assobio repentino. “Olá, olá!”

“O que se passa?”, disse Bill, um tanto irritado.

“Recua aí. Mantém a multidão afastada, Bill. Estamos a chegar ao meio disto. Sermões, por tudo o que é mais sagrado. Sermões. O pai do Mark era clérigo, ou o Mark dedica-se a isto naturalmente?”

“O pai dele era pastor, creio eu. Oh, sim, sei que era.”

“Ah, então estes são os livros do pai. ‘Meias-Horas com o Infinito’ — tenho de encomendar isso da biblioteca quando voltar. ‘A Ovelha Perdida’, ‘Jones sobre a Trindade’, ‘As Epístolas de S. Paulo Explicadas’. Oh, Bill, estamos no meio disto. ‘O Caminho Estreito, sendo Sermões do Rev. Theodore Ussher’ — olá!”

“O que se passa?”

“William, estou inspirado. Prepara-te.” Ele tirou a obra clássica do reverendo Theodore Ussher, olhou para ela com um sorriso feliz por um momento e depois entregou-a a Bill.

“Aqui, segura o Ussher por um bocado.”

Bill pegou no livro obedientemente.

“Não, devolve-mo. Vai só até ao corredor e vê se consegues ouvir o Cayley em algum lado. Diz ‘Olá’ alto, se ouvires.”

Bill saiu rapidamente, escutou e voltou.

“Está tudo bem.”

“Bom.” Ele tirou o livro da estante novamente. “Então agora podes segurar o Ussher. Segura-o na mão esquerda — assim. Com a mão direita ou destra, agarra esta estante firmemente — assim. Agora, quando eu disser ‘Puxa’, puxa gradualmente. Percebeste?”

Bill acenou, com o rosto iluminado de entusiasmo.

“Bom.” Antony meteu a mão no espaço deixado pelo robusto Ussher e tateou a parte de trás da estante. “Puxa”, disse ele.

Bill puxou.

“Agora continua a puxar assim. Eu apanho-o já. Não com força, sabes, apenas mantendo a tensão.”

Os seus dedos mexeram-se ali novamente com azáfama.

E então, de repente, toda a fila de estantes, de cima a baixo, abriu-se suavemente na direção deles.

“Meu Deus!”, disse Bill, largando a estante no seu espanto.

Antony empurrou as estantes para o lugar, extraiu Ussher dos dedos de Bill, substituiu-o e depois, pegando no braço de Bill, levou-o até ao sofá e depositou-o nele. Parado à sua frente, fez uma vénia grave.

“Brincadeira de criança, Watson”, disse ele; “brincadeira de criança.”

“Como é que, diabo...”

Antony riu-se alegremente e sentou-se no sofá ao lado dele.

“Tu não queres que te expliquem”, disse ele, dando-lhe uma palmada no joelho; “estás apenas a ser Watsoniano. É muito simpático da tua parte, claro, e eu aprecio isso.”

“Não, mas a sério, Tony.”

“Oh, meu caro Bill!” Ele fumou silenciosamente por um momento e depois continuou: “É o que eu estava a dizer agora mesmo — um segredo é um segredo até o teres descoberto, e assim que o descobres, perguntas-te porque é que os outros não o estão a descobrir, e como é que aquilo alguma vez pôde ter sido um segredo. Esta passagem esteve aqui durante anos, com uma abertura numa extremidade para a biblioteca e na outra para o barracão. Depois o Mark descobriu-a e sentiu imediatamente que todos os outros a deveriam descobrir. Por isso, tornou a extremidade do barracão mais difícil, colocando lá a caixa de croquet, e esta extremidade mais difícil ao...” ele parou e olhou para o outro “ao quê, Bill?”

Mas Bill estava a ser Watsoniano.

“Quê?”

“Obviamente, reorganizando os seus livros. Ele por acaso tirou ‘A Vida de Nelson’ ou ‘Três Homens num Barco’, ou o que quer que fosse, e por mero acaso descobriu o segredo. Naturalmente, sentiu que todos os outros estariam a tirar ‘A Vida de Nelson’ ou ‘Três Homens num Barco’. Naturalmente, sentiu que o segredo estaria mais seguro se ninguém interferisse com aquela estante. Quando disseste que os livros tinham sido reorganizados há um ano — exatamente na altura em que a caixa de croquet apareceu —, claro que adivinhei porquê. Por isso, procurei os livros mais aborrecidos que consegui encontrar, os livros que ninguém lê. Obviamente, a coleção de livros de sermões de um clérigo vitoriano era a estante que queríamos.”

“Sim, percebo. Mas porque é que estavas tão certo daquele lugar em particular?”

“Bem, ele tinha de marcar o lugar em particular com algum livro. Pensei que a piada de colocar ‘O Caminho Estreito’ logo acima da entrada da passagem lhe pudesse agradar. Aparentemente, agradou.”

Bill acenou para si mesmo pensativamente várias vezes. “Sim, isso é muito engenhoso”, disse ele. “És um diabo esperto, Tony.”

Tony riu-se.

“Encorajas-me a pensar isso, o que é mau para mim, mas muito delicioso.”

“Bem, vamos lá, então”, disse Bill, levantando-se e estendendo a mão.

“Vamos para onde?”

“Explorar a passagem, é claro.”

Antony abanou a cabeça.

“Porque não?”

“Bem, o que esperas encontrar lá?”

“Não sei. Mas parecias pensar que poderíamos encontrar algo que ajudasse.”

“E se encontrarmos o Mark?”, disse Antony em voz baixa.

“Diz-me, achas mesmo que ele está lá?”

“E se estiver?”

“Bem, então, lá estamos nós.”

Antony caminhou até à lareira, despejou as cinzas do seu cachimbo e virou-se para Bill. Olhou para ele gravemente sem falar.

“O que vais dizer-lhe?”, disse ele finalmente.

“Como assim?”

“Vais prendê-lo ou ajudá-lo a fugir?”

“Eu... eu... bem, claro, eu...”, começou Bill, gaguejando, e terminou de forma fraca: “Bem, não sei.”

“Exatamente. Temos de nos decidir, não temos?”

Bill não respondeu. Muito perturbado de espírito, caminhou inquieto pela sala, franzindo a testa para si próprio, parando de vez em quando na porta recém-descoberta e olhando para ela como se estivesse a tentar aprender o que jazia por trás dela. De que lado estava ele, se tivesse de escolher lados — o de Mark ou o da Lei?

“Sabes, não podes simplesmente dizer ‘Oh... hum... olá!’ para ele”, disse Antony, interrompendo os seus pensamentos de forma bastante apropriada.

Bill olhou para ele com um sobressalto.

“Nem”, continuou Antony, “podes dizer: ‘Este é o meu amigo Mr. Gillingham, que está hospedado consigo. Estávamos apenas a pensar jogar umas partidas de bowls’.”

“Sim, é terrivelmente difícil. Não sei o que dizer. Tenho andado a esquecer-me um bocado do Mark.” Ele caminhou até à janela e olhou para os relvados. Havia um jardineiro a aparar as bordas da relva. Não havia razão para o relvado estar desarrumado só porque o dono da casa tinha desaparecido. Ia ser um dia quente de novo. Diabos, claro que se tinha esquecido do Mark. Como podia ele pensar nele como um assassino em fuga, um fugitivo da justiça, quando tudo estava a decorrer exatamente como no dia anterior, e o sol brilhava exatamente como brilhava quando todos partiram para o golfe, há apenas vinte e quatro horas? Como podia ele deixar de sentir que aquilo não era uma tragédia real, mas apenas um género divertido de jogo de detetives que ele e Antony estavam a jogar?

Ele virou-se para o amigo.

“Ainda assim”, disse ele, “querias encontrar a passagem, e agora encontraste-a. Não vais entrar lá de todo?”

Antony pegou-lhe no braço.

“Vamos lá fora de novo”, disse ele. “De qualquer forma, não podemos entrar lá agora. É demasiado arriscado, com o Cayley por perto. Bill, sinto-me como tu — apenas um bocadinho assustado. Mas não sei bem com o que estou assustado. De qualquer forma, queres continuar com isto, não queres?”

“Sim”, disse Bill firmemente. “Temos de o fazer.”

“Então exploraremos a passagem esta tarde, se tivermos oportunidade. E se não tivermos oportunidade, tentaremos esta noite.”

Caminharam pelo corredor e saíram para a luz do sol novamente.

“Achas mesmo que poderíamos encontrar o Mark escondido lá?”, perguntou Bill.

“É possível”, disse Antony. “Ou o Mark ou...” Ele conteve-se rapidamente. “Não”, murmurou para si próprio, “não me deixarei pensar nisso — não ainda, de qualquer forma. É demasiado horrível.”

CAPÍTULO XII. Uma Sombra na Parede

Nas vinte horas ou mais que teve à sua disposição, o inspetor Birch esteve ocupado. Tinha telegrafado para Londres uma descrição completa de Mark no fato de flanela castanho que tinha sido visto a usar pela última vez; tinha feito averiguações em Stanton sobre se alguém correspondente àquela descrição tinha sido visto a partir no comboio das 4.20; e, embora as provas que lhe tinham sido oferecidas voluntariamente fossem inconclusivas, tornavam possível que o Mark tivesse de facto apanhado aquele comboio e chegado a Londres antes de a polícia na outra ponta estar pronta para o receber. Mas o facto de ser dia de mercado em Stanton, e de a pequena cidade estar mais cheia do que o habitual de visitantes, tornava menos provável que a partida de Mark no comboio das 4.20, ou a chegada de Robert no comboio das 2.10 na tarde anterior, tivesse sido particularmente notada. Como Antony tinha dito a Cayley, haveria sempre alguém pronto a fornecer à polícia uma história circunstanciada dos movimentos de qualquer homem em quem a polícia estivesse interessada.

Que Robert tinha vindo no comboio das 2.10 parecia bastante certo. Descobrir mais sobre ele a tempo para o inquérito seria difícil. Tudo o que se sabia sobre ele na aldeia onde ele e Mark tinham vivido em rapazes confirmava o depoimento de Cayley. Era um filho insatisfatório e tinha sido despachado para a Austrália; nem tinha sido visto desde então na aldeia. Se havia motivos de conflito mais substanciais entre os dois irmãos do que o facto de o mais novo estar em casa e bem de vida, enquanto o mais velho era pobre e um exilado, não se sabia, nem, tanto quanto o inspetor podia ver, era provável que se soubesse até que Mark fosse capturado.

A descoberta de Mark era tudo o que importava imediatamente. Dragar o lago talvez não ajudasse a este fim, mas certamente daria a impressão no tribunal de amanhã de que o inspetor Birch estava a tratar o caso com zelo. E se apenas o revólver com que o ato fora cometido fosse trazido à superfície, o seu trabalho seria bem recompensado. “Inspetor Birch apresenta a arma” faria um excelente título no jornal local.

Sentia-se, portanto, satisfeito consigo mesmo enquanto caminhava para o lago, onde os seus homens o esperavam, e perfeitamente disposto a uma pequena e agradável conversa com o Mr. Gillingham e o seu amigo, Mr. Beverley. Deu-lhes um alegre “Boa tarde” e acrescentou com um sorriso: “Vêm ajudar-nos?”

“Você não quer realmente a nossa ajuda”, disse Antony, sorrindo de volta para ele.

“Podem vir se quiserem.”

Antony deu um pequeno estremecimento.

“Pode dizer-me depois o que encontrar”, disse ele. “A propósito”, acrescentou, “espero que o senhorio do ‘The George’ me tenha dado boas referências?”

O inspetor olhou para ele rapidamente.

“Como é que diabo sabe alguma coisa sobre isso?”

Antony fez-lhe uma vénia grave.

“Porque adivinhei que o senhor era um membro muito eficiente da Força.”

O inspetor riu-se.

“Bem, saiu-se bem, Mr. Gillingham. Recebeu um atestado de boa conduta. Mas tive de ter a certeza sobre si.”

“Claro que teve. Bem, desejo-lhe sorte. Mas não creio que encontre muito no lago. É um pouco fora de mão, não é, para alguém que está a fugir?”

“Foi exatamente o que eu disse ao Mr. Cayley, quando ele chamou a minha atenção para o lago. No entanto, não faremos mal em procurar. É o inesperado que é mais provável neste tipo de caso.”

“Tem toda a razão, inspetor. Bem, não o devemos deter. Boa tarde”, e Antony sorriu-lhe agradavelmente.

“Boa tarde, senhor.”

“Boa tarde”, disse Bill.

Antony ficou a olhar para o inspetor enquanto este se afastava, em silêncio durante tanto tempo que Bill acabou por abalá-lo pelo braço e perguntar-lhe com bastante azedume o que se passava.

Antony abanou a cabeça lentamente de um lado para o outro.

“Não sei; realmente não sei. É demasiado diabólico o que não paro de pensar. Ele não pode ser tão sangue-frio quanto isso.”

“Quem?”

Sem responder, Antony abriu caminho de volta para o banco do jardim onde se tinham sentado. Sentou-se lá com a cabeça entre as mãos.

“Oh, espero que eles encontrem alguma coisa”, murmurou. “Oh, espero que encontrem.”

“No lago?”

“Sim.”

“Mas o quê?”

“Qualquer coisa, Bill; qualquer coisa.”

Bill ficou irritado. “Diz-me, Tony, isto não pode ser. Realmente não deves ser tão maldito misterioso. O que é que te aconteceu de repente?”

Antony olhou para ele com surpresa.

“Não ouviste o que ele disse?”

“O quê, especificamente?”

“Que foi ideia do Cayley dragar o lago.”

“Oh! Oh, diz-me!” Bill estava bastante entusiasmado de novo. “Queres dizer que ele escondeu algo lá? Alguma pista falsa que ele quer que a polícia encontre?”

“Espero que sim”, disse Antony seriamente, “mas tenho medo...” Ele parou subitamente.

“Com medo de quê?”

“Com medo de que ele não tenha escondido nada lá. Com medo de que...”

“Bem?”

“Qual é o lugar mais seguro para esconder algo muito importante?”

“Algures onde ninguém procure.”

“Existe um lugar melhor do que esse.”

“Quê?”

“Algures onde todos já procuraram.”

“Por Júpiter! Queres dizer que, assim que o lago for dragado, o Cayley vai esconder algo lá?”

“Sim, temo que sim.”

“Mas porque tens medo?”

“Porque penso que deve ser algo muito importante, algo que não poderia ser facilmente escondido noutro lugar.”

“O quê?”, perguntou Bill ansiosamente.

Antony abanou a cabeça.

“Não, não vou falar sobre isso ainda. Podemos esperar para ver o que o inspetor encontra. Ele pode encontrar algo — não sei o quê — algo que o Cayley lá pôs para ele encontrar. Mas se não encontrar, então será porque o Cayley vai esconder algo lá esta noite.”

“O quê?”, perguntou Bill novamente.

“Verás o quê, Bill”, disse Antony; “porque nós lá estaremos.”

“Vamos vigiá-lo?”

“Sim, se o inspetor não encontrar nada.”

“Isso é bom”, disse Bill.

Se fosse uma questão de Cayley ou da Lei, ele estava decidido sobre que lado tomar. Antes da tragédia de ontem, ele tinha-se dado bem com ambos os primos, sem ser minimamente íntimo com nenhum. Na verdade, dos dois, preferia talvez o silencioso e sólido Cayley ao mais volátil Mark. As qualidades de Cayley, tal como pareciam a Bill, podiam ter sido principalmente negativas; mas mesmo que este mérito residisse no facto de ele nunca expor quaisquer fraquezas que pudesse ter, esta é uma excelente qualidade num co-hóspede (ou, se quiser, co-anfitrião) numa casa onde se visita continuamente. As fraquezas de Mark, por outro lado, eram muito evidentes, e Bill tinha visto muitas delas.

No entanto, embora tivesse hesitado em definir a sua posição naquela manhã em relação a Mark, não hesitou em colocar-se do lado da Lei contra Cayley. Mark, afinal, não lhe tinha feito nenhum mal, mas Cayley tinha cometido uma ofensa imperdoável. Cayley tinha escutado secretamente uma conversa privada entre ele e Tony. Que o Cayley seja enforcado, se a Lei o exigir.

Antony olhou para o seu relógio e levantou-se.

“Vamos”, disse ele. “Está na hora daquele trabalho de que falei.”

“A passagem?”, disse Bill ansiosamente.

“Não; a coisa que eu disse que tinha de fazer esta tarde.”

“Oh, claro. O que é?”

Sem dizer nada, Antony liderou o caminho para o escritório.

Eram três horas, e às três horas de ontem Antony e Cayley tinham encontrado o corpo. Alguns minutos depois das três, ele tinha estado a olhar pela janela da sala adjacente e tinha ficado surpreendido, de repente, ao encontrar a porta aberta e Cayley atrás dele. Ele tinha-se perguntado vagamente na altura porque é que esperava que a porta estivesse fechada, mas não tinha tido tempo então para resolver o assunto, e prometera a si próprio investigar com calma depois. Possivelmente não significava nada; possivelmente, se significasse algo, poderia ter descoberto o seu significado com uma visita ao escritório naquela manhã. Mas sentira que seria mais provável recapturar as impressões de ontem se escolhesse, tanto quanto possível, as mesmas condições para a sua experiência. Por isso, decidira que as três horas daquela tarde o encontrariam novamente no escritório.

Ao entrar na sala, seguido por Bill, sentiu quase como um choque que não havia agora nenhum corpo de Robert deitado ali entre as duas portas. Mas havia uma mancha escura que mostrava onde estivera a cabeça do homem morto, e Antony ajoelhou-se sobre ela, como se tinha ajoelhado vinte e quatro horas antes.

“Quero repetir o processo,” disse ele. “Você deve ser Cayley. Cayley disse que iria buscar um pouco de água. Lembro-me de pensar que água não serviria de muito a um homem morto, e que, provavelmente, ele estava apenas contente demais por fazer qualquer coisa em vez de nada. Ele voltou com uma esponja molhada e um lenço. Suponho que tenha tirado o lenço da cômoda. Espere um pouco.”

Ele levantou-se e foi para o cômodo contíguo; olhou em volta, abriu uma ou duas gavetas e, depois de fechar todas as portas, voltou ao escritório.

“A esponja está lá, e há lenços na gaveta superior direita. Muito bem, Bill, finja apenas que você é Cayley. Você acabou de dizer algo sobre água e levanta-se.”

Sentindo que tudo aquilo era um pouco estranho, Bill, que estivera ajoelhado ao lado do amigo, levantou-se e saiu. Antony, como fizera no dia anterior, olhou para ele enquanto se afastava. Bill virou para o cômodo à direita, abriu a gaveta e pegou o lenço, umedeceu a esponja e voltou.

“Bem?” disse ele, maravilhado.

Antony balançou a cabeça.

“Está tudo diferente,” disse. “Para começar, você fez um barulho dos diabos e Cayley não fez.”

“Talvez você não estivesse ouvindo quando Cayley entrou?”

“Eu não estava. Mas deveria tê-lo ouvido se pudesse tê-lo ouvido, e deveria ter me lembrado depois.”

“Talvez Cayley tenha fechado a porta atrás de si.”

“Espere!”

Ele pressionou a mão sobre os olhos e pensou. Não era nada que tivesse ouvido, mas algo que tinha visto. Tentou desesperadamente ver de novo... Viu Cayley levantando-se, abrindo a porta do escritório, deixando-a aberta e caminhando pelo corredor, virando para a porta à direita, abrindo-a, entrando e então — O que seus olhos viram depois daquilo? Se ao menos pudessem lhe contar novamente!

De repente, ele saltou, com o rosto iluminado. “Bill, eu entendi!” gritou ele.

“O quê?”

“A sombra na parede! Eu estava olhando para a sombra na parede. Oh, asno, e dez vezes asno!”

Bill olhou para ele sem compreender. Antony pegou seu braço e apontou para a parede do corredor.

“Olhe a luz do sol nela,” disse. “Isso é porque você deixou a porta daquele cômodo aberta. O sol entra direto pelas janelas. Agora, vou fechar a porta. Olhe! Vê como a sombra se move? Foi isso que vi — a sombra movendo-se enquanto a porta se fechava atrás dele. Bill, entre e feche a porta atrás de você — bem naturalmente. Rápido!”

Bill saiu e Antony ajoelhou-se, observando ansiosamente.

“Eu sabia!” gritou. “Eu sabia que não poderia ter sido aquilo.”

“O que aconteceu?” disse Bill, voltando.

“Exatamente o que você esperaria. A luz do sol veio e a sombra voltou — tudo em um único movimento.”

“E o que aconteceu ontem?”

“A luz do sol permaneceu lá; e então a sombra voltou muito lentamente, e não houve barulho de porta sendo fechada.”

Bill olhou para ele com olhos arregalados.

“Puxa! Quer dizer que Cayley fechou a porta depois, por reflexo — e muito silenciosamente — para que você não pudesse ouvir?”

Antony assentiu.

“Sim. Isso explica por que fiquei surpreso depois, quando entrei no cômodo e encontrei a porta aberta atrás de mim. Sabe como aquelas portas com molas se fecham?”

“O tipo que os velhos cavalheiros usam para evitar correntes de ar?”

“Sim. Logo no início elas quase não se movem e, depois, muito, muito lentamente, elas se fecham — bem, foi assim que a sombra se moveu, e subconscientemente devo ter associado isso ao movimento daquele tipo de porta. Puxa!” Ele levantou-se e limpou os joelhos. “Agora, Bill, apenas para ter certeza, entre e feche a porta assim. Por reflexo, entende; e muito silenciosamente, para que eu não ouça o clique.”

Bill fez como lhe foi pedido e então colocou a cabeça para fora, ansioso para ouvir o que tinha acontecido.

“Foi isso,” disse Antony, com absoluta convicção. “Foi exatamente o que vi ontem.” Ele saiu do escritório e juntou-se a Bill no pequeno cômodo.

“E agora,” disse ele, “vamos tentar descobrir o que o Sr. Cayley estava fazendo aqui e por que ele precisava ser tão cuidadoso para que seu amigo, o Sr. Gillingham, não o ouvisse.”

CAPÍTULO XIII. A Janela Aberta

O primeiro pensamento de Antony foi que Cayley havia escondido algo; algo, talvez, que ele tivesse encontrado perto do corpo, e — mas isso era um absurdo. No tempo que tinha à disposição, não poderia ter feito mais do que guardar em uma gaveta, onde estaria muito mais sujeito a ser descoberto por Antony do que se tivesse mantido no bolso. De qualquer modo, ele já teria removido aquilo a esta altura e escondido em um lugar mais secreto. Além disso, por que, nesse caso, preocupar-se em fechar a porta?

Bill abriu uma gaveta na cômoda e olhou para dentro.

“Você acha que vale a pena revistar estas?” perguntou ele.

Antony olhou por cima de seu ombro.

“Por que ele guardava roupas aqui?” perguntou. “Ele costumava se trocar aqui embaixo?”

“Meu caro Tony, ele tinha mais roupas do que qualquer pessoa no mundo. Suponho que ele as mantinha aqui apenas caso fossem úteis. Quando você e eu viajamos de Londres para o campo, levamos nossas roupas conosco. Mark nunca fazia isso. Em seu apartamento em Londres, ele tinha tudo o que tem aqui. Era um hobby dele, colecionar roupas. Se ele tivesse meia dúzia de casas, todas estariam cheias com um traje completo de cidade e campo para um cavalheiro.”

“Entendo.”

“Claro, poderia ser útil às vezes, quando ele estava ocupado no cômodo ao lado, não ter que subir as escadas para pegar um lenço ou um casaco mais confortável.”

“Entendo. Sim.” Ele caminhava pelo cômodo enquanto respondia, levantou a tampa do cesto de roupa suja que ficava perto da bacia e olhou para dentro. “Parece que ele veio aqui por causa de um colarinho ultimamente.”

Bill espiou. Havia um colarinho no fundo do cesto.

“Sim. Imagino que sim,” concordou. “Se ele de repente descobrisse que o que estava usando não era confortável ou estava um pouco sujo, ou algo assim. Ele era muito exigente.”

Antony inclinou-se e pegou-o.

“Deve ter sido desconfortável desta vez,” disse, após examiná-lo cuidadosamente. “Não poderia estar mais limpo.” Ele o deixou cair de volta. “De qualquer forma, ele vinha aqui às vezes?”

“Oh, sim, com certeza.”

“Sim, mas por que Cayley vinha aqui tão secretamente?”

“Por que ele queria fechar a porta?” disse Bill. “É isso que não entendo. De qualquer forma, você não poderia tê-lo visto.”

“Não. Portanto, segue-se que eu poderia tê-lo ouvido. Ele ia fazer algo que não queria que eu ouvisse.”

“Puxa, é isso mesmo!” disse Bill, ansioso.

“Sim; mas o quê?”

Bill franziu a testa, esperançoso, mas nenhuma inspiração veio.

“Bem, vamos respirar um pouco de ar, de qualquer maneira,” disse ele finalmente, exausto pelo esforço, e foi até a janela, abriu-a e olhou para fora. Então, atingido por uma ideia, virou-se para Antony e disse: “Você acha que devo ir até o lago para garantir que eles ainda estão lá? Porque—”

Ele parou de repente ao ver o rosto de Antony.

“Oh, idiota, idiota!” Antony gritou. “Oh, o mais excelente dos Watsons! Oh, seu cordeiro, sua bênção! Oh, Gillingham, seu asno incomparável!”

“O que diabos—”

“A janela, a janela!” gritou Antony, apontando para ela.

Bill voltou-se para a janela, esperando que ela dissesse algo. Como ela não disse nada, olhou para Antony novamente.

“Ele estava abrindo a janela!” gritou Antony.

“Quem?”

“Cayley, é claro.” Muito séria e lentamente, ele explicou. “Ele veio aqui para abrir a janela. Ele fechou a porta para que eu não o ouvisse abrir a janela. Ele abriu a janela. Eu vim aqui e encontrei a janela aberta. Eu disse: ‘Esta janela está aberta. Meus incríveis poderes de análise me dizem que o assassino deve ter escapado por esta janela.’ ‘Oh,’ disse Cayley, arqueando as sobrancelhas. ‘Bem,’ disse ele, ‘suponho que você deva estar certo.’ Eu disse orgulhosamente: ‘Estou. Pois a janela está aberta,’ eu disse. Oh, seu asno incomparável!”

Ele entendia agora. Isso explicava tantas coisas que o intrigavam.

Ele tentou colocar-se no lugar de Cayley — Cayley, quando Antony o descobrira pela primeira vez, batendo na porta e gritando: “Deixe-me entrar!” O que quer que tivesse acontecido dentro do escritório, quem quer que tivesse matado Robert, Cayley sabia de tudo, e sabia que Mark não estava lá dentro e não tinha escapado pela janela. Mas era necessário para os planos de Cayley — para os planos de Mark, se estivessem agindo em conjunto — que se pensasse que ele tinha escapado por ali. Em algum momento, então, enquanto ele batia (com a chave no bolso) na porta trancada, deve ter se lembrado de repente — com que choque! — de que um erro tinha sido cometido. Uma janela não tinha sido deixada aberta!

Provavelmente teria sido apenas uma dúvida horrível no início. A janela do escritório estava aberta? Certamente estava aberta! Estava?.... Ele teria tempo agora de destrancar a porta, entrar, abrir as janelas francesas e sair novamente? Não. A qualquer momento os criados poderiam vir. Era muito arriscado. Fatal, se ele fosse descoberto. Mas os criados eram estúpidos. Ele poderia abrir as janelas com segurança enquanto eles estivessem aglomerados em volta do corpo. Eles não notariam. Ele poderia fazer isso de alguma forma.

E então o aparecimento repentino de Antony! Aqui estava uma complicação. E Antony sugerindo que deveriam testar a janela! Ora, a janela era exatamente o que ele queria evitar. Não é de admirar que ele parecesse atordoado no início.

Ah, e aqui finalmente estava a explicação de por que tinham feito o caminho mais longo e ainda assim corrido. Era a única chance de Cayley de ganhar uma vantagem sobre Antony, de chegar primeiro às janelas, de conseguir abri-las de alguma forma antes que Antony o alcançasse. Mesmo que isso fosse impossível, ele precisava chegar lá primeiro, apenas para ter certeza. Talvez estivessem abertas. Ele precisava se afastar de Antony e ver. E se estivessem fechadas, irremediavelmente fechadas, então ele precisaria de um momento sozinho, um momento para pensar em outro plano e evitar a ruína que parecia tão repentinamente ameaçá-lo.

Então ele correra. Mas Antony o acompanhara. Eles tinham arrombado a janela juntos e entrado no escritório. Mas Cayley ainda não tinha acabado. Havia a janela do vestiário! Mas silenciosamente, silenciosamente. Antony não deveria ouvir.

E Antony não ouviu. De fato, ele colaborou com Cayley esplendidamente. Não apenas chamou a atenção para a janela aberta, mas explicou cuidadosamente a Cayley por que Mark escolhera aquela janela em particular em vez da janela do escritório. E Cayley concordou que provavelmente esse era o motivo. Como ele deve ter rido de si mesmo! Mas ele ainda estava um pouco assustado. Com medo de que Antony examinasse o arbusto. Por quê? Obviamente porque não havia sinal de que alguém tivesse atravessado o arbusto. Sem dúvida, Cayley providenciara os vestígios necessários desde então e ajudara o Inspetor a encontrá-los. Será que ele tinha chegado ao ponto de criar marcas de pegadas — com os sapatos de Mark? Mas o solo era muito duro. Talvez marcas de pegadas não fossem necessárias. Antony sorriu ao pensar no grande Cayley tentando se espremer nos sapatos do pequeno e elegante Mark. Cayley deve ter ficado feliz por marcas de pegadas não serem necessárias.

Não, a janela aberta era o suficiente; a janela aberta e um galho ou dois quebrados. Mas silenciosamente, silenciosamente. Antony não deveria ouvir. E Antony não tinha ouvido.... Mas ele vira uma sombra na parede.

Eles estavam lá fora no gramado agora, Bill e Antony, e Bill ouvia de boca aberta a teoria de seu amigo sobre os acontecimentos de ontem. Ela se encaixava, explicava as coisas, mas não os levava adiante. Apenas lhes dava outro mistério para resolver.

“O que é isso?” disse Antony.

“Mark. Onde está Mark? Se ele nunca entrou no escritório, então onde ele está agora?”

“Não digo que ele nunca entrou no escritório. De fato, ele deve ter entrado. Elsie o ouviu.” Ele parou e repetiu lentamente: “Ela o ouviu — pelo menos diz que ouviu. Mas, se ele estava lá, saiu novamente pela porta.”

“Bem, mas onde isso leva você?”

“Onde levou Mark. O corredor.”

“Você quer dizer que ele esteve escondido lá esse tempo todo?” Antony ficou em silêncio até que Bill repetisse sua pergunta, e então, com um esforço, saiu de seus pensamentos e respondeu-lhe.

“Eu não sei. Mas veja bem. Aqui está uma explicação possível. Não sei se é a correta — não sei, Bill; estou um pouco assustado. Assustado com o que pode ter acontecido, com o que pode vir a acontecer. No entanto, aqui está uma explicação. Veja se consegue encontrar algum erro nela.”

Com as pernas esticadas e as mãos fundo nos bolsos, ele recostou-se no banco do jardim, olhando para o céu azul de verão acima dele, e, como se visse lá em cima os eventos de ontem sendo encenados novamente, descreveu-os lentamente para Bill conforme aconteciam.

“Começaremos no momento em que Mark atira em Robert. Chame de acidente; provavelmente foi. Mark diria que foi, de qualquer forma. Ele está em pânico, naturalmente. Mas ele não tranca a porta e sai correndo. Por um lado, a chave está do lado de fora da porta; por outro, ele não é tão tolo assim. Mas ele está em uma posição horrível. Sabe-se que ele não está em bons termos com seu irmão; ele acabou de fazer uma ameaça tola a ele, que pode ter sido ouvida. O que ele deve fazer? Ele faz a coisa natural, a coisa que Mark sempre faria nessas circunstâncias. Ele consulta Cayley, o inestimável e inevitável Cayley.

“Cayley está logo ali fora, Cayley deve ter ouvido o tiro, Cayley dirá a ele o que fazer. Ele abre a porta exatamente quando Cayley está chegando para ver o que está acontecendo. Ele explica rapidamente. ‘O que deve ser feito, Cay? O que deve ser feito? Foi um acidente. Juro que foi um acidente. Ele me ameaçou. Ele teria atirado em mim se eu não tivesse feito. Pense em algo, rápido!’

“Cayley pensou em algo. ‘Deixe comigo,’ ele diz. ‘Você caia fora. Eu atirei nele, se quiser. Eu farei toda a explicação. Vá embora. Esconda-se. Ninguém viu você entrar. Entre no corredor, rápido. Eu irei até você lá assim que puder.’

“Bom Cayley. Fiel Cayley! A coragem de Mark retorna. Cayley explicará tudo direitinho. Cayley dirá aos criados que foi um acidente. Ele ligará para a polícia. Ninguém suspeitará de Cayley — Cayley não tem nenhuma briga com Robert. E então Cayley entrará no corredor e dirá a ele que está tudo bem, e Mark sairá pela outra extremidade e caminhará lentamente de volta para a casa. Ele receberá a notícia por um dos criados. Robert acidentalmente baleado? Meu Deus!

“Então, muito tranquilizado, Mark entra na biblioteca. E Cayley vai até a porta do escritório... e tranca-a. E então ele bate na porta e grita: ‘Deixe-me entrar!’”

Antony ficou em silêncio. Bill olhou para ele e balançou a cabeça.

“Sim, Tony, mas isso não faz sentido. Qual é o sentido de Cayley se comportar assim?”

Antony deu de ombros sem responder.

“E o que aconteceu com Mark desde então?”

Antony deu de ombros novamente.

“Bem, quanto mais cedo entrarmos naquele corredor, melhor,” disse Bill.

“Você está pronto para ir?”

“Completamente,” disse Bill, surpreso.

“Você está realmente pronto para o que possamos encontrar?”

“Você está sendo terrivelmente misterioso, meu velho.”

“Eu sei que estou.” Ele deu uma risadinha e continuou: “Talvez eu esteja sendo um asno, apenas um asno melodramático. Bem, espero que sim.” Ele olhou para o relógio.

“É seguro, não é? Eles ainda estão ocupados no lago?”

“É melhor termos certeza. Você conseguiria ser um cão farejador, Bill — um daqueles que viajam sobre a barriga muito silenciosamente? Quero dizer, você conseguiria chegar perto o suficiente do lago para ter certeza de que Cayley ainda está lá, sem deixar que ele o veja?”

“Com certeza!” Ele levantou-se ansioso. “Espere por mim.”

A cabeça de Antony disparou de repente. “Ora, foi isso que Mark disse,” gritou ele.

“Mark?”

“Sim. O que Elsie ouviu ele dizer.”

“Oh, aquilo.”

“Sim, suponho que ela não poderia ter se enganado, Bill? Ela ouviu mesmo ele?”

“Ela não poderia ter confundido a voz dele, se é isso que quer dizer.”

“Oh?”

“Mark tinha uma voz característica extraordinária.”

“Oh!”

“Bastante aguda, sabe, e — bem, não dá para explicar, mas—”

“Sim?”

“Bem, bem parecido com isto, sabe, ou até mais, se é que é possível.” Ele disparou essas palavras na voz monótona e aguda de Mark, e então riu e acrescentou em sua voz natural: “Digo, essa foi muito boa mesmo.”

Antony assentiu rapidamente. “Era como a dele?” disse.

“Exatamente.”

“Sim.” Ele levantou-se e apertou o braço de Bill. “Bem, vá ver sobre Cayley, e então nós vamos nos mexer. Estarei na biblioteca.”

“Certo.”

Bill assentiu e caminhou na direção do lago. Aquilo era uma diversão gloriosa; aquilo era a vida. O programa imediato dificilmente poderia ser melhorado. Primeiro de tudo, ele ia espreitar Cayley. Havia um pequeno bosque acima do nível do lago, a cerca de cem jardas de distância. Ele chegaria ali por trás, rastejaria cautelosamente por ele, tomando cuidado para que nenhum galho quebrasse, e então, arrastando-se de barriga até a borda, espiaria a cena abaixo dele. As pessoas sempre faziam esse tipo de coisa nos livros, e ele fora preenchido por uma inveja sem esperança delas; bem, agora ele mesmo ia fazer isso. Que diversão!

E então, quando ele voltasse despercebido para a casa e relatasse a Antony, eles iam explorar a passagem secreta! Novamente, que diversão! Infelizmente, não parecia haver chance de tesouros enterrados, mas poderia haver pistas enterradas. Mesmo que você não encontrasse nada, não poderia fugir do fato de que uma passagem secreta era uma passagem secreta, e qualquer coisa poderia acontecer nela. Mas nem mesmo isso era o fim daquele dia emocionante. Eles iam observar o lago naquela noite; iam observar Cayley sob o luar, observá-lo enquanto ele jogava no silêncio do lago — o quê? O revólver? Bem, de qualquer forma, eles iam observá-lo. Que diversão!

Para Antony, que era mais velho e percebia em que águas profundas eles estavam entrando, não parecia divertido. Mas era incrivelmente interessante. Ele via tanto, e ainda assim, de alguma forma, estava tudo fora de foco. Era como olhar para uma opala e descobrir, a cada movimento dela, alguma cor nova, algum novo brilho de luz refletido, e ainda assim nunca ver a opala como um todo. Ele estava perto demais, ou longe demais; ele forçava os olhos e relaxava os olhos; não adiantava. Seu cérebro não conseguia captar aquilo.

Mas havia momentos em que ele quase conseguia... e então se afastava. Ele tinha visto mais da vida do que Bill, mas nunca tinha visto um assassinato antes, e isso que estava em sua mente agora, e que ele tinha medo de ouvir, não era apenas o assassinato passional a que qualquer homem pode chegar se perder o controle. Era algo muito mais horrível. Horrível demais para ser verdade. Então, deixe-o procurar a verdade novamente. Ele olhou de novo — mas estava tudo fora de foco.

“Não vou olhar de novo,” disse ele em voz alta, enquanto começava a caminhar em direção à casa. “Não ainda, de qualquer forma.” Ele continuaria colecionando fatos e impressões. Talvez o único fato surgisse, por si só, que tornaria tudo claro.

CAPÍTULO XIV. O Sr. Beverley Qualifica-se para o Palco

Bill tinha voltado e relatado, um tanto sem fôlego, que Cayley ainda estava no lago.

“Mas não acho que eles estejam conseguindo muito além de lama,” disse ele. “Corri a maior parte do caminho de volta para nos dar o máximo de tempo possível.”

Antony assentiu.

“Bem, então venha,” disse ele. “Quanto mais cedo, mais rápido.”

Eles estavam em frente à fileira de sermões. Antony tirou o famoso volume do Reverendo Theodore Ussher e procurou pela mola. Bill puxou. As prateleiras abriram-se em direção a eles.

“Por Júpiter!” disse Bill, “é um caminho estreito.”

Havia uma abertura de cerca de um metro quadrado diante deles, que tinha algo da aparência de uma lareira de tijolos, uma lareira elevada a uns sessenta centímetros do chão. Mas, exceto por uma fileira de tijolos na frente, o piso dela era o vazio. Antony tirou uma lanterna do bolso e iluminou a escuridão lá embaixo.

“Olhe,” sussurrou ele ao ansioso Bill. “Os degraus começam lá embaixo. A dois metros de profundidade.”

Ele iluminou com a lanterna novamente. Havia um apoio para a mão de ferro, uma espécie de grande grampo de ferro, nos tijolos à frente deles.

“Você se balança a partir dali,” disse Bill. “Pelo menos, suponho que seja assim. Imagino como Ruth Norris gostou de fazer isso.”

“Cayley a ajudou, eu imagino... É estranho.”

“Devo ir primeiro?” perguntou Bill, obviamente desejando fazê-lo. Antony balançou a cabeça com um sorriso.

“Acho que eu irei, se você não se importar muito, Bill. Só por precaução.”

“Por precaução de quê?”

“Bem, por precaução.”

Bill teve de se contentar com isso, mas estava excitado demais para imaginar o que Antony queria dizer.

“Está bem,” disse ele. “Vá em frente.”

“Bem, primeiro vamos apenas ter certeza de que podemos voltar. Realmente não seria justo com o Inspetor se ficássemos presos aqui para o resto de nossas vidas. Ele já tem trabalho suficiente tentando encontrar Mark, mas se tiver que encontrar você e eu também—”

“Sempre podemos sair pela outra extremidade.”

“Bem, ainda não temos certeza. Acho melhor eu apenas descer e voltar. Prometo fielmente não explorar.”

“Combinado.”

Antony sentou-se na borda de tijolos, balançou os pés sobre o vão e ficou sentado ali por um momento, com as pernas penduradas. Ele iluminou a escuridão novamente, para ter certeza de onde os degraus começavam; depois guardou a lanterna no bolso, agarrou o grampo à sua frente e balançou o corpo para baixo. Seus pés tocaram os degraus abaixo dele, e ele soltou.

“Está tudo bem?” disse Bill ansiosamente.

“Tudo bem. Vou apenas descer até o final dos degraus e voltar. Fique aí.”

A luz brilhou lá embaixo, perto de seus pés. Sua cabeça começou a desaparecer. Por um breve tempo, Bill, debruçado na abertura, ainda pôde ver tênues clarões de luz e ouvir passos lentos e incertos; por um pouco mais de tempo, pôde imaginar que os via e ouvia; então, ficou sozinho...

Bem, não exatamente sozinho. Houve uma voz repentina no saguão lá fora.

“Meu Deus!” disse Bill, virando-se com um sobressalto, “Cayley!”

Se ele não era tão rápido no pensamento quanto Antony, era rápido o suficiente na ação. O pensamento não era exigido agora. Fechar a porta secreta com segurança, mas sem ruído, certificar-se de que os livros estivessem nos lugares certos, afastar-se para outra fileira de prateleiras para ser descoberto imerso em “Badminton” ou “Baedeker” ou quem quer que os deuses bondosos enviassem em seu auxílio — a dificuldade não era decidir o que fazer, mas fazer tudo isso em cinco segundos em vez de seis.

“Ah, aí está você,” disse Cayley da porta.

“Olá!” disse Bill, surpreso, levantando os olhos do quarto volume de “A Vida e as Obras de Samuel Taylor Coleridge”. “Eles terminaram?”

“Terminaram o quê?”

“O lago,” disse Bill, imaginando por que estava lendo Coleridge em uma tarde tão bonita. Desesperadamente, ele tentou pensar em uma boa razão... verificar uma citação — uma discussão com Antony — isso serviria. Mas que citação?

“Ah, não. Eles ainda estão nisso. Onde está Gillingham?”

‘O Velho Marinheiro’ — água, água por toda parte — ou será que era outra coisa? E onde estava Gillingham? Água, água por toda parte...

“Tony? Ah, ele está por aí em algum lugar. Estamos apenas indo até o vilarejo. Eles não estão encontrando nada no lago, estão?”

“Não. Mas eles gostam de fazer isso. Ficam com a consciência mais leve quando podem dizer que fizeram a parte deles.”

Bill, absorto em seu livro, levantou os olhos, disse “Sim” e voltou a ele. Ele estava chegando à parte certa.

“Que livro é esse?” disse Cayley, aproximando-se dele. Pelo canto do olho, ele lançou um olhar para a prateleira de sermões enquanto se aproximava. Bill viu aquele olhar e ficou intrigado. Havia algo ali que pudesse revelar o segredo?

“Eu estava apenas procurando uma citação,” ele disse arrastado. “Tony e eu fizemos uma aposta sobre isso. Você sabe aquela coisa sobre — er — água, água por toda parte, e — er — nem uma gota para beber.” (Mas o que raios, ele se perguntou, eles estariam apostando?)

“‘Nem uma gota para beber’, para ser preciso.”

Bill olhou para ele com surpresa. Então, um sorriso feliz surgiu em seu rosto.

“Tem certeza?” disse ele.

“Claro.”

“Então você me poupou de um grande trabalho. Era sobre isso a aposta.” Ele fechou o livro com um estrondo, colocou-o de volta na prateleira e começou a procurar seu cachimbo e tabaco. “Fui um tolo em apostar com Tony,” acrescentou. “Ele sempre sabe esse tipo de coisa.”

Até aqui, tudo bem. Mas eis que Cayley ainda estava na biblioteca, e Antony, sem suspeitar de nada, estava na passagem. Quando Antony voltasse, não ficaria surpreso ao encontrar a porta fechada, porque o objetivo de sua ida fora justamente ver se conseguia abri-la facilmente por dentro. A qualquer momento, então, a estante de livros poderia girar de volta e mostrar a cabeça de Antony no vão. Uma bela surpresa para Cayley!

“Vem conosco?” disse ele casualmente, enquanto riscava um fósforo. Ele puxou vigorosamente a chama enquanto esperava a resposta, esperando esconder sua ansiedade, pois se Cayley aceitasse, ele estaria perdido.

“Tenho que ir a Stanton.”

Bill soltou uma grande nuvem de fumaça com uma expiração que cobriu também um suspiro sincero de alívio.

“Ah, que pena. Você vai dirigir, suponho?”

“Sim. O carro estará aqui diretamente. Há uma carta que preciso escrever antes.” Ele sentou-se a uma escrivaninha e pegou uma folha de papel de carta.

Ele estava de frente para a porta secreta; se ela se abrisse, ele a veria. A qualquer momento ela poderia se abrir.

Bill caiu em uma cadeira e pensou. Antony precisava ser avisado. Obviamente. Mas como? Como se sinaliza para alguém? Por código. Código Morse. Antony sabia? O próprio Bill sabia, se chegasse ao caso? Ele tinha aprendido um pouco no Exército — não o suficiente para enviar uma mensagem, é claro. Mas uma mensagem era impossível, de qualquer forma; Cayley o ouviria batucando. Não adiantaria enviar mais do que uma única letra. Que letras ele sabia? E que letra transmitiria algo a Antony?... Ele puxou seu cachimbo, seus olhos vagando de Cayley em sua mesa para o Reverendo Theodore Ussher em sua prateleira. Que letra?

C de Cayley. Antony entenderia? Provavelmente não, mas valia a pena tentar. O que era C? Longo, curto, longo, curto. Tum-tá-tum-tá. Era isso? C — sim, era C. Ele tinha certeza disso. C. Tum-tá-tum-tá.

Com as mãos nos bolsos, ele se levantou e vagou pelo quarto, cantarolando vagamente para si mesmo, o retrato de um homem esperando por outro homem (como poderia ser seu amigo Gillingham) para entrar e levá-lo para uma caminhada ou algo parecido. Ele caminhou até os livros atrás de Cayley e começou a batucar distraidamente nas prateleiras enquanto olhava os títulos. Tum-tá-tum-tá. Não que parecesse muito com isso no início; ele não conseguia pegar o ritmo...

Tum-tá-tum-tá. Isso estava melhor. Ele estava de volta a Samuel Taylor Coleridge agora. Antony começaria a ouvi-lo em breve. Tum-tá-tum-tá; apenas a batida sem rumo de um homem que está se perguntando que livro levará para ler no gramado. Antony ouviria? Sempre se ouve o vizinho do apartamento ao lado batendo o cachimbo. Antony entenderia? Tum-tá-tum-tá. C de Cayley, Antony. Cayley está aqui. Pelo amor de Deus, espere.

“Meu Deus! Sermões!” disse Bill, com uma risada alta. (Tum-tá-tum-tá) “Já leu algum deles, Cayley?”

“O quê?” Cayley olhou para cima repentinamente. As costas de Bill moviam-se lentamente, seus dedos batendo uma tatuagem nas prateleiras enquanto ele andava.

“Er — não,” disse Cayley, com uma pequena risada. Uma risada pequena, desajeitada e desconfortável, pareceu a Bill.

“Nem eu.” Ele já tinha passado pelos sermões — passado pela porta secreta — mas ainda batucava da mesma maneira sem rumo.

“Ah, pelo amor de Deus, sente-se,” explodiu Cayley. “Ou vá lá fora se quiser andar por aí.”

Bill virou-se com espanto.

“Olá, qual é o problema?”

Cayley sentiu-se um pouco envergonhado com sua explosão.

“Desculpe, Bill,” ele se desculpou. “Meus nervos estão à flor da pele. Esse seu batucar constante e agitação...”

“Batucar?” disse Bill com um ar de completa surpresa.

“Batucar nas prateleiras e cantarolar. Desculpe. Isso me deixou nervoso.”

“Meu caro amigo, sinto muito. Vou lá para o saguão.”

“Está tudo bem,” disse Cayley, e continuou com sua carta. Bill sentou-se em sua cadeira novamente. Será que Antony tinha entendido? Bem, de qualquer forma, não havia nada a fazer agora a não ser esperar Cayley sair. “E se você quer saber,” disse Bill para si mesmo, muito satisfeito, “eu deveria ser ator. É onde eu deveria estar. O ator completo.”

Um minuto, dois minutos, três minutos... cinco minutos. Estava seguro agora. Antony tinha adivinhado.

“O carro está aí?” perguntou Cayley, enquanto selava sua carta.

Bill caminhou até o saguão, respondeu “Sim” e saiu para falar com o motorista. Cayley juntou-se a ele, e ficaram ali por um momento.

“Olá,” disse uma voz agradável atrás deles. Eles se viraram e viram Antony.

“Desculpe por mantê-lo esperando, Bill.”

Com um esforço tremendo, Bill conteve seus sentimentos e disse, casualmente o suficiente, que estava tudo bem.

“Bem, preciso ir,” disse Cayley. “Vocês estão indo ao vilarejo?”

“Essa é a ideia.”

“Será que você poderia levar esta carta a Jallands para mim?”

“Claro.”

“Muito obrigado. Bem, vejo vocês mais tarde.”

Ele assentiu e entrou no carro.

Assim que ficaram sozinhos, Bill virou-se ansiosamente para seu amigo.

“Bem?” disse ele, excitado.

“Venha para a biblioteca.”

Eles entraram, e Tony desabou em uma cadeira.

“Você tem que me dar um momento,” ele ofegou. “Estive correndo.”

“Correndo?”

“Bem, é claro. Como você acha que eu voltei aqui?”

“Você não quer dizer que saiu pela outra extremidade?”

Antony assentiu.

“Diga-me, você ouviu eu batucar?”

“Ouvi, de fato. Bill, você é um gênio.”

Bill corou.

“Eu sabia que você entenderia,” disse ele. “Você adivinhou que eu queria dizer Cayley?”

“Eu entendi. Era o mínimo que eu poderia fazer depois de você ter sido tão brilhante. Você deve ter tido um momento bastante emocionante.”

“Emocionante? Meu Deus, eu acho que sim.”

“Conte-me sobre isso.”

O mais modestamente possível, o Sr. Beverley explicou suas qualificações para uma vida no palco.

“Bom rapaz,” disse Antony ao terminar. “Você é o Watson mais perfeito que já existiu. Bill, meu caro,” continuou ele dramaticamente, levantando-se e segurando a mão de Bill com as duas suas, “Não há nada que você e eu não pudéssemos realizar juntos, se nos déssemos ao trabalho.”

“Tolo, velho asno.”

“É o que você sempre diz quando estou sendo sério. Bem, de qualquer modo, muito obrigado. Você realmente nos salvou desta vez.”

“Você estava voltando?”

“Sim. Pelo menos acho que estava. Eu estava justamente me perguntando quando ouvi você batucar. O fato de a porta estar fechada foi bastante surpreendente. É claro que a ideia toda era ver se ela poderia ser aberta facilmente pelo outro lado, mas senti de alguma forma que você não a fecharia até o último momento possível — até que você me visse voltando. Bem, então ouvi as batidas e soube que deveria significar algo, então fiquei quieto. Depois, quando C começou a aparecer, eu disse: ‘Cayley, por Júpiter’ — esperto, não sou? — e simplesmente disparei para a outra extremidade da passagem com toda a força que tinha. E disparei de volta. Porque pensei que você pudesse estar se complicando um pouco com explicações — sobre onde eu estava, e assim por diante.”

“Você não viu Mark, então?”

“Não. Nem o seu... Não, não vi nada.”

“Nem o quê?”

Antony ficou em silêncio por um momento.

“Eu não vi nada, Bill. Ou melhor, eu vi algo; vi uma porta na parede, um armário. E está trancada. Então, se há algo que queremos encontrar, é lá que está.”

“Mark poderia estar escondido lá?”

“Eu chamei pelo buraco da fechadura — em um sussurro — ‘Mark, você está aí?’ — ele teria pensado que era Cayley. Não houve resposta.”

“Bem, vamos descer e tentar de novo. Podemos conseguir abrir a porta.”

Antony balançou a cabeça.

“Eu não vou mesmo?” disse Bill com grande decepção.

Quando Antony falou, foi para fazer outra pergunta:

“Cayley sabe dirigir um carro?”

“Sim, claro. Por quê?”

“Então ele poderia facilmente deixar o motorista em sua casa e seguir para Stanton, ou onde quisesse, sozinho?”

“Suponho que sim — se ele quisesse.”

“Sim.” Antony levantou-se. “Bem, veja, como dissemos que estávamos indo ao vilarejo e como prometemos deixar aquela carta, acho quase melhor fazermos isso.”

“Ah!... Ah, muito bem.”

“Jallands. O que você estava me contando sobre isso? Ah, sim; a viúva Norbury.”

“É isso mesmo. Cayley costumava ser bastante interessado na filha. A carta é para ela.”

“Sim; bem, vamos levá-la. Só por segurança.”

“Eu vou ficar fora dessa passagem secreta completamente?” perguntou Bill irritado.

“Não há nada para ver, realmente, eu prometo a você.”

“Você está muito misterioso. O que te deixou chateado? Você viu algo lá embaixo, tenho certeza disso.”

“Eu vi e já te contei sobre isso.”

“Não, não contou. Você só me falou sobre a porta na parede.”

“É isso, Bill. E está trancada. E estou com medo do que está atrás dela.”

“Mas então nunca saberemos o que há lá se não formos olhar.”

“Saberemos hoje à noite,” disse Antony, pegando no braço de Bill e levando-o para o saguão, “quando virmos nosso querido amigo Cayley jogando-a no lago.”

CAPÍTULO XV. A Sra. Norbury confidencia ao querido Sr. Gillingham

Eles deixaram a estrada e pegaram o caminho através dos campos que desciam suavemente em direção a Jallands. Antony estava em silêncio e, como é difícil manter uma conversa com um homem silencioso por muito tempo, Bill também caiu em silêncio. Ou melhor, ele cantarolava para si mesmo, batia nas urtigas na grama com sua bengala e fazia ruídos desconfortáveis com seu cachimbo. Mas ele notou que seu companheiro olhava para trás por cima do ombro, quase como se quisesse se lembrar para uma ocasião futura do caminho pelo qual estavam vindo. No entanto, não havia dificuldade nisso, pois eles permaneciam o tempo todo à vista da estrada, e a faixa de árvores acima do longo muro do parque que margeava seu lado oposto destacava-se claramente contra o céu.

Antony, que acabara de olhar para trás novamente, voltou-se com um sorriso.

“Qual é a piada?” disse Bill, contente com a atmosfera mais social.

“Cayley. Você não viu?”

“Ver o quê?”

“O carro. Passando na estrada ali.”

“Então era isso que você estava procurando. Você tem olhos muito bons, meu rapaz, se reconhece o carro a essa distância depois de vê-lo apenas duas vezes.”

“Bem, eu tenho olhos muito bons.”

“Pensei que ele estivesse indo para Stanton.”

“Ele esperava que você pensasse assim — obviamente.”

“Então para onde ele está indo?”

“Para a biblioteca, provavelmente. Para consultar nosso amigo Ussher. Depois de ter certeza absoluta de que seus amigos Beverley e Gillingham estavam realmente indo para Jallands, como disseram.”

Bill parou repentinamente no meio do caminho.

“Diga, você acha mesmo?”

Antony deu de ombros.

“Eu não ficaria surpreso. Devemos ser diabolicamente inconvenientes para ele, ficando por perto da casa. Qualquer momento que ele consiga, quando estamos definitivamente em outro lugar, deve ser muito útil para ele.”

“Útil para quê?”

“Bem, útil para seus nervos, se não para outra coisa. Sabemos que ele está envolvido nesse negócio; sabemos que ele está escondendo um ou dois segredos. Mesmo que ele não suspeite que estamos em seu encalço, ele deve sentir que a qualquer momento podemos tropeçar em algo.”

Bill deu um grunhido de concordância, e eles continuaram lentamente.

“O que faremos hoje à noite?” disse ele, após uma longa baforada em seu cachimbo.

“Experimente um pedaço de grama,” disse Antony, oferecendo-lhe. Bill empurrou-o pelo bocal, soprou novamente, disse “Isso é melhor” e devolveu o cachimbo ao bolso.

“Como vamos sair sem Cayley saber?”

“Bem, isso exige reflexão. Vai ser difícil. Gostaria que estivéssemos dormindo na estalagem... Esta é a Srta. Norbury, por acaso?”

Bill olhou para cima rapidamente. Eles estavam perto de Jallands agora, uma antiga casa de fazenda com telhado de colmo que, após séculos de sono, tinha acordado para um novo mundo e, imediatamente, criado asas; asas, contudo, de um crescimento tão discreto que não trouxeram consigo qualquer mudança óbvia de caráter, e Jallands, mesmo com um banheiro, ainda era Jallands. À vista de fora, pelo menos. Por dentro, era mais claramente da Sra. Norbury.

“Sim — Angela Norbury,” murmurou Bill. “Nada mal, não é?”

A garota que estava perto do pequeno portão branco de Jallands era algo mais do que “nada mal”, mas, nesse assunto, Bill estava guardando seus superlativos para outra. Aos olhos de Bill, ela deveria ser julgada, e condenada, por tudo o que a distinguia de Betty Calladine. Para Antony, não impedido por esses padrões de comparação, ela parecia, simplesmente, bonita.

“Cayley nos pediu para trazer uma carta,” explicou Bill, quando os cumprimentos e apresentações necessários terminaram. “Aqui está.”

“Você vai dizer a ele, não vai, o quanto sinto profundamente sobre — sobre o que aconteceu? Parece tão inútil dizer qualquer coisa; tão inútil até acreditar nisso. Se for verdade o que ouvimos.”

Bill repetiu o resumo dos eventos de ontem.

“Sim... E o Sr. Ablett ainda não foi encontrado?” Ela balançou a cabeça em angústia. “Ainda parece ter acontecido com outra pessoa; alguém que mal conhecíamos.” Então, com um sorriso grave e repentino que incluiu ambos, “Mas vocês precisam entrar e tomar um chá.”

“É muito gentil da sua parte,” disse Bill desajeitadamente, “mas nós — er —”

“Vocês vão, não vão?” ela disse a Antony.

“Muito obrigado.”

A Sra. Norbury ficou encantada em vê-los, como sempre ficava ao ver qualquer homem em sua casa que atendesse ao padrão necessário de elegibilidade. Quando o trabalho de sua vida fosse concluído e resumido naquelas belas palavras: “Um casamento foi arranjado, e ocorrerá em breve, entre Angela, filha do falecido John Norbury...”, então ela proferiria um grato Nunc dimittis e partiria em paz — para um mundo melhor, se o Céu insistisse, mas, de preferência, para o estabelecimento mais digno de seu novo genro. Pois não havia dúvida de que elegibilidade significava não apenas elegibilidade como marido.

Mas não foi como “elegíveis” que os visitantes da Casa Vermelha foram recebidos com tanta avidez hoje, e mesmo que seu sorriso especial para “possíveis” estivesse lá, era instintivo em vez de racional. Tudo o que ela queria naquele momento eram notícias — notícias de Mark. Pois ela estava finalmente conseguindo; e, se as colunas de noivado do “Morning Post” fossem precedidas, como no caso de suas colunas de obituário, por um boletim premonitório, o anúncio de ontem teria gritado triunfalmente para o mundo, ou para a parte do mundo que interessava: “Um casamento foi quase arranjado (pela Sra. Norbury), e certamente ocorrerá, entre Angela, única filha do falecido John Norbury, e Mark Ablett da Casa Vermelha.” E, ao encontrar isso a caminho da página de esportes, Bill teria ficado surpreso. Pois ele pensava que, se alguém, era Cayley.

Para a garota, não era nenhum dos dois. Ela era frequentemente divertida pelos modos de sua mãe; às vezes envergonhada deles; às vezes angustiada por eles. O caso de Mark Ablett parecia-lhe particularmente angustiante, pois Mark estava tão obviamente em conluio com sua mãe contra ela. Outros pretendentes, aos quais sua mãe sorrira, haviam ficado embaraçados com esse patrocínio; Mark parecia depender dele tanto quanto de seus próprios atrativos; grandes embora ele achasse que fossem. Eles cortejavam juntos. Era um prazer recorrer a Cayley, aquele inaceitável sem esperança.

Mas ai! Cayley a havia compreendido mal. Ela não conseguia imaginar Cayley apaixonado — até que o viu, e tentou, tarde demais, impedi-lo. Isso foi há quatro dias. Ela não o vira desde então, e agora aqui estava esta carta. Ela temia abri-la. Foi um alívio sentir que, pelo menos, ela tinha uma desculpa para não fazê-lo enquanto seus hóspedes estivessem na casa.

A Sra. Norbury reconheceu imediatamente que Antony provavelmente seria o ouvinte mais compreensivo; e quando o chá terminou, e Bill e Angela foram despachados para o jardim com a presteza e eficiência de especialistas, o caro Sr. Gillingham viu-se no sofá ao lado dela, ouvindo muitas coisas que eram de um interesse ainda maior para ele do que ela poderia ter esperado.

“É terrível, terrível”, disse ela. “E sugerir que o caro Sr. Ablett—”

Antony fez sons adequados.

“Você viu o Sr. Ablett pessoalmente. Um homem mais gentil, mais caloroso—”

Antony explicou que não tinha visto o Sr. Ablett.

“Claro, sim, eu estava me esquecendo. Mas, acredite em mim, Sr. Gillingham, você pode confiar na intuição de uma mulher nesses assuntos.”

Antony disse que tinha certeza disso.

“Pense nos meus sentimentos como mãe.”

Antony pensava nos sentimentos da Srta. Norbury como filha, e se perguntava se ela adivinhava que seus assuntos estavam agora sendo discutidos com um estranho. Mas o que ele poderia fazer? O que, na verdade, ele queria fazer senão ouvir, na esperança de aprender? Mark noivo, ou prestes a ficar noivo! Isso teria alguma relação com os acontecimentos de ontem? O que, por exemplo, a Sra. Norbury teria pensado do irmão Robert, aquele esqueleto da família? Seria esse outro motivo para querer o irmão Robert fora do caminho?

“Eu nunca gostei dele, nunca!”

“Nunca gostou de——?” disse Antony, perplexo.

“Daquele primo dele — o Sr. Cayley.”

“Oh!”

“Eu lhe pergunto, Sr. Gillingham, sou eu o tipo de mulher que confiaria minha filhinha a um homem que sairia por aí atirando no seu próprio irmão?”

“Tenho certeza de que não, Sra. Norbury.”

“Se houve algum disparo, foi feito por outra pessoa.”

Antony olhou para ela interrogativamente.

“Eu nunca gostei dele”, disse a Sra. Norbury firmemente. “Nunca.” No entanto, pensou Antony consigo mesmo, isso não provava exatamente que Cayley fosse um assassino.

“Como a Srta. Norbury se dava com ele?”, perguntou ele cautelosamente.

“Não havia nada naquilo, absolutamente nada”, disse a mãe da Srta. Norbury enfaticamente. “Nada. Eu diria isso a qualquer um.”

“Oh, peço perdão. Eu não quis dizer—”

“Nada. Posso dizer isso pela querida Angela com perfeita confiança. Se ele fez investidas—” Ela parou com um encolher de ombros de seus ombros rechonchudos.

Antony esperou ansiosamente.

“Naturalmente eles se encontravam. Possivelmente ele pode ter — eu não sei. Mas meu dever como mãe era claro, Sr. Gillingham.”

O Sr. Gillingham fez um som encorajador.

“Eu disse a ele francamente que — como direi? — que ele estava sendo intrometido. Com tato, claro. Mas francamente.”

“Quer dizer”, disse Antony, tentando falar calmamente, “que a senhora disse a ele que — er — o Sr. Ablett e sua filha—?”

A Sra. Norbury acenou várias vezes.

“Exatamente, Sr. Gillingham. Eu tinha meu dever como mãe.”

“Tenho certeza, Sra. Norbury, de que nada a impediria de cumprir seu dever. Mas deve ter sido desagradável. Particularmente se a senhora não tivesse certeza—”

“Ele estava atraído, Sr. Gillingham. Obviamente atraído.”

“Quem não estaria?”, disse Antony, com um sorriso encantador. “Deve ter sido um choque para ele—”

“Foi justamente isso que me deixou tão feliz por ter falado. Vi imediatamente que não tinha falado um momento cedo demais.”

“Deve ter havido um certo constrangimento no encontro seguinte”, sugeriu Antony.

“Naturalmente, ele não esteve aqui desde então. Sem dúvida eles teriam se encontrado na Red House cedo ou tarde.”

“Oh, isso foi apenas muito recentemente?”

“Na semana passada, Sr. Gillingham. Falei bem a tempo.”

“Ah!”, disse Antony, em voz baixa. Ele estava esperando por isso.

Ele gostaria agora de ter ido embora, para que pudesse refletir sobre a nova situação sozinho; ou, talvez preferencialmente, ter trocado de parceiros por um tempo com Bill. A Srta. Norbury dificilmente estaria pronta para confidenciar a um estranho com a presteza de uma mãe, mas ele poderia ter aprendido algo ouvindo-a. Por quem ela tinha o maior sentimento — Cayley ou Mark? Ela estava realmente preparada para se casar com Mark? Ela o amava — ou ao outro — ou a nenhum dos dois? A Sra. Norbury era apenas uma testemunha confiável em relação às suas próprias ações e pensamentos; ele aprendera tudo o que era necessário sobre eles, e apenas a filha agora tinha algo a lhe dizer. Mas a Sra. Norbury ainda estava falando.

“As moças são tão tolas, Sr. Gillingham”, ela dizia. “É uma sorte que elas tenham mães para guiá-las. Ficou tão óbvio para mim desde o início que o caro Sr. Ablett era exatamente o marido para minha filhinha. Você nunca o conheceu?”

Antony disse novamente que não tinha visto o Sr. Ablett.

“Um verdadeiro cavalheiro. Tão bonito, em seu estilo artístico. Um verdadeiro Velázquez — eu deveria dizer Van Dyck. Angela insistia que nunca poderia se casar com um homem com barba. Como se isso importasse, quando—” Ela parou, e Antony terminou sua frase por ela.

“A Red House é certamente encantadora”, disse ele.

“Encantadora. Muito encantadora. E não é como se a aparência do Sr. Ablett fosse de alguma forma indistinta. Pelo contrário. Tenho certeza de que você concorda comigo?”

Antony disse que nunca teve o prazer de ver o Sr. Ablett.

“Sim. E bem no centro do mundo literário e artístico. Tão desejável em todos os sentidos.”

Ela deu um suspiro profundo e comungou consigo mesma por um tempo. Antony estava prestes a aproveitar a oportunidade de sair, quando a Sra. Norbury começou novamente.

“E então há este irmão dissipado dele. Ele foi perfeitamente franco comigo, Sr. Gillingham. Ele seria. Ele me contou sobre esse irmão, e eu disse a ele que tinha certeza absoluta de que isso não faria diferença nos sentimentos da minha filha por ele... Afinal, o irmão estava na Austrália.”

“Quando foi isso? Ontem?” Antony sentiu que, se Mark só tivesse mencionado isso depois do anúncio do irmão sobre uma visita pessoal à Red House, essa perfeita franqueza tinha uma boa dose de sabedoria por trás.

“Não poderia ter sido ontem, Sr. Gillingham. Ontem—” ela estremeceu e balançou a cabeça.

“Pensei que talvez ele tivesse estado aqui de manhã.”

“Oh, não! Existe algo, Sr. Gillingham, como ser um amante devotado demais. Não de manhã, não. Nós dois concordamos que a querida Angela— Oh, não. Não; anteontem, quando ele por acaso apareceu na hora do chá.”

Ocorreu a Antony que a Sra. Norbury tinha se distanciado muito de sua declaração inicial de que Mark e a Srta. Norbury estavam praticamente noivos. Ela estava agora admitindo que a querida Angela não podia ser pressionada, que a querida Angela não tinha, de fato, nenhum interesse no casamento.

“Anteontem. Por acaso, a querida Angela estava fora. Não que isso importasse. Ele estava indo para Middleston. Mal teve tempo para uma xícara de chá, de modo que, mesmo que ela estivesse dentro—”

Antony assentiu distraidamente. Isso era algo novo. Por que Mark foi a Middleston anteontem? Mas, afinal, por que ele não iria? Cem motivos não relacionados à morte de Robert poderiam tê-lo levado até lá.

Ele se levantou para ir embora. Ele queria estar sozinho — sozinho, pelo menos, com Bill. A Sra. Norbury lhe dera muitas coisas para refletir, mas o grande fato notável que surgiu foi este: que Cayley tinha motivos para odiar Mark — a Sra. Norbury tinha lhe dado esse motivo. Odiar? Bem, estar com ciúmes, de qualquer forma. Mas isso era o bastante.

“Você vê”, ele disse a Bill, enquanto caminhavam de volta, “sabemos que Cayley está se perjurando e se arriscando com esse negócio, e isso deve ser por um de dois motivos. Ou para salvar Mark ou para colocá-lo em perigo. Ou seja, ele está de todo o coração a favor dele ou de todo o coração contra ele. Bem, agora sabemos que ele é contra ele, definitivamente contra ele.”

“Mas, espere, sabe”, protestou Bill, “a gente não tenta necessariamente arruinar o rival no amor.”

“Não tenta?”, disse Antony, virando-se para ele com um sorriso.

Bill corou.

“Bem, claro, nunca se sabe, mas eu quero dizer—”

“Você talvez não tentasse arruiná-lo, Bill, mas não se perjuria para tirá-lo de uma enrascada criada por ele mesmo.”

“Deus! Não.”

“Portanto, das duas alternativas, a outra é a mais provável.”

Eles tinham chegado ao portão do último campo que os separava da estrada e, tendo passado por ele, viraram-se e encostaram-se nele, descansando por um momento e olhando para a casa que tinham deixado.

“Lugarzinho alegre, não é?”, disse Bill.

“Muito. Mas bastante misterioso.”

“De que maneira?”

“Bem, onde fica a porta da frente?”

“A porta da frente? Ora, você acabou de sair por ela.”

“Mas não há uma entrada, ou uma estrada ou qualquer coisa?”

Bill riu.

“Não; essa é a beleza disso para algumas pessoas. E é por isso que é tão barato, e por que os Norbury podem pagar, eu suponho. Eles não são muito ricos.”

“Mas e quanto à bagagem e aos comerciantes e esse tipo de coisa?”

“Oh, há uma trilha de carroça, mas os automóveis não podem chegar mais perto do que a estrada” — ele se virou e apontou — “lá em cima. Então, o pessoal milionário de fim de semana não a quer. Pelo menos, eles teriam que construir uma estrada e uma garagem e tudo o mais, se quisessem.”

“Entendo”, disse Antony descuidadamente, e eles se viraram e continuaram sua caminhada até a estrada. Mas mais tarde ele se lembrou dessa conversa casual no portão e viu a importância dela.

CAPÍTULO XVI. Preparando-se para a noite

O que era que Cayley ia esconder naquele lago naquela noite? Antony achava que sabia agora. Era o corpo de Mark.

Desde o início ele tinha visto essa resposta chegar e tinha recuado dela. Pois, se Mark tinha sido morto, parecia um assassinato tão frio. Cayley seria capaz disso? Bill teria dito “Não”, mas isso era porque ele tinha tomado café da manhã com Cayley, almoçado com ele e jantado com ele; tinha brincado e jogado com ele. Bill teria dito “Não”, porque o próprio Bill não teria matado ninguém a sangue frio, e porque ele tomava como certo que as outras pessoas se comportavam mais ou menos como ele. Mas Antony não tinha tais ilusões. Assassinatos eram cometidos; um assassinato tinha realmente sido cometido aqui, pois lá estava o cadáver de Robert. Por que não outro assassinato?

Mark teria estado no escritório naquela tarde? A única evidência (além da de Cayley, que obviamente não contava) era a de Elsie. Elsie tinha certeza de que ouvira a voz dele. Mas Bill tinha dito que era uma voz muito característica — uma voz fácil, portanto, de imitar. Se Bill podia imitá-la tão bem, por que não Cayley?

Mas talvez não tivesse sido um assassinato tão a sangue frio, afinal. Suponha que Cayley tivesse tido uma briga com seu primo naquela tarde por causa da moça que ambos estavam cortejando. Suponha que Cayley tivesse matado Mark, ou propositalmente, em um acesso súbito de paixão, ou acidentalmente, pretendendo apenas derrubá-lo. Suponha que isso tivesse acontecido no corredor, digamos por volta das duas horas, ou porque Cayley o levara deliberadamente para lá, ou porque Mark tinha casualmente sugerido uma visita a ele. (Podia-se imaginar Mark continuamente se vangloriando daquela passagem secreta.) Suponha Cayley lá, com o corpo aos seus pés, sentindo já a corda em torno de seu pescoço; sua mente correndo daqui para lá em busca frenética de uma saída; e suponha que, subitamente e de forma irrelevante, ele se lembre de que Robert viria à casa às três horas daquela tarde — automaticamente ele olha para o seu relógio — daqui a meia hora... Daqui a meia hora. Ele deve pensar em algo rapidamente, rapidamente. Deve enterrar o corpo na passagem e deixar que pensem que Mark fugiu, assustado com a simples ideia da chegada de seu irmão? Mas havia a evidência da mesa de café da manhã. Mark parecia incomodado com essa ressurreição da ovelha negra, mas certamente não assustado. Não; essa era uma história muito fraca. Mas suponha que Mark tivesse realmente visto seu irmão e tido uma briga com ele; suponha que pudesse ser feito parecer que Robert tinha matado Mark—

Antony imaginou Cayley no corredor, de pé sobre o corpo morto de seu primo, e resolvendo isso. Como Robert poderia ser feito parecer o assassino, se Robert estivesse vivo para negar? Mas suponha que Robert estivesse morto também?

Ele olha para o seu relógio novamente. (Apenas vinte e cinco minutos agora.) Suponha que Robert estivesse morto também? Robert morto no escritório, e Mark morto no corredor — como isso ajuda? Loucura! Mas se os corpos fossem trazidos juntos de alguma forma e a morte de Robert parecesse um suicídio?... Seria possível?

Loucura novamente. Difícil demais. (Apenas vinte minutos agora.) Difícil demais para arranjar em vinte minutos. Não se pode arranjar um suicídio. Difícil demais... Apenas dezenove minutos...

E então a inspiração súbita! Robert morto no escritório, o corpo de Mark escondido na passagem — impossível fazer Robert parecer o assassino, mas que fácil fazer Mark! Robert morto e Mark desaparecido; ora, isso saltava aos olhos imediatamente. Mark tinha matado Robert — acidentalmente; sim, isso seria mais provável — e então tinha fugido. Pânico súbito... (Ele olha para seu relógio novamente. Quinze minutos, mas tempo de sobra agora. A coisa se arranja por si mesma.)

Seria essa a solução, perguntava-se Antony. Parecia se encaixar nos fatos como eles os conheciam; mas, então, também se encaixava aquela outra teoria que ele tinha sugerido a Bill pela manhã.

“Qual delas?”, disse Bill.

Eles tinham voltado de Jallands pelo parque e estavam sentados no bosque acima do lago, de onde o Inspetor e seus pescadores tinham agora se retirado. Bill tinha ouvido com a boca aberta a teoria de Antony, e exceto por um ocasional “Por Júpiter!”, tinha ouvido em silêncio. “Homem esperto, Cayley”, tinha sido seu único comentário no final.

“Qual outra teoria?”

“Que Mark tinha matado Robert acidentalmente e tinha ido procurar Cayley em busca de ajuda, e que Cayley, tendo-o escondido na passagem, trancou a porta do escritório por fora e bateu nela.”

“Sim, mas você foi tão misterioso sobre isso. Perguntei-lhe qual era o objetivo e você não disse nada.” Ele pensou um pouco e depois continuou: “Suponho que você quis dizer que Cayley traiu Mark deliberadamente e tentou fazer com que ele parecesse um assassino?”

“Eu queria avisá-lo de que provavelmente encontraríamos Mark na passagem, vivo ou morto.”

“E agora você não acha?”

“Agora eu acho que o cadáver dele está lá.”

“Significando que Cayley desceu e o matou depois — depois que você chegou, depois que a polícia chegou?”

“Bem, é disso que eu recuo, Bill. É tão horrivelmente a sangue frio. Cayley pode ser capaz disso, mas odeio pensar nisso.”

“Mas, droga, seu outro jeito é a sangue frio o suficiente. Segundo você, ele vai ao escritório e atira deliberadamente em um homem com quem não tem briga, que ele não vê há quinze anos!”

“Sim, mas para salvar seu próprio pescoço. Isso faz diferença. Minha teoria é que ele brigou violentamente com Mark por causa da moça, e o matou em um acesso de paixão. Qualquer coisa que tenha acontecido depois disso seria legítima defesa. Não quero dizer que eu desculpe, mas que eu entendo. E acho que o cadáver de Mark está na passagem agora, e tem estado lá desde, digamos, duas e meia de ontem à tarde. E hoje à noite Cayley vai escondê-lo no lago.”

Bill puxou o musgo no chão ao lado dele, jogou fora um punhado ou dois e disse lentamente: “Você pode estar certo, mas é tudo suposição, sabe.”

Antony riu.

“Bom Deus, é claro que é”, disse ele. “E hoje à noite saberemos se é um bom palpite ou um ruim.”

Bill animou-se de repente.

“Hoje à noite”, disse ele. “Digo, hoje à noite vai ser divertido. Como fazemos isso?”

Antony ficou em silêncio por um tempo.

“Claro”, disse ele finalmente, “deveríamos informar a polícia, para que eles pudessem vir aqui e vigiar o lago hoje à noite.”

“Claro”, Bill sorriu.

“Mas acho que talvez seja um pouco cedo para apresentar nossas teorias a eles.”

“Acho que talvez seja”, disse Bill solenemente.

Antony olhou para ele com um sorriso repentino.

“Bill, seu velho patife.”

“Bem, droga, é o nosso show. Não vejo por que não deveríamos tirar nossa pequena parte de diversão disso.”

“Nem eu. Tudo bem, então, faremos sem a polícia hoje à noite.”

“Sentiremos falta deles”, disse Bill tristemente, “mas é melhor assim.”

Havia dois problemas diante deles: primeiro, o problema de sair da casa sem ser descoberto por Cayley e, segundo, o problema de recuperar o que quer que fosse que Cayley jogasse no lago naquela noite.

“Vamos olhar do ponto de vista de Cayley”, disse Antony. “Ele pode não saber que estamos em seu encalço, mas não pode deixar de suspeitar de nós. Ele é obrigado a suspeitar de todos na casa, e mais particularmente de nós, porque presumivelmente somos mais inteligentes que os outros.”

Ele parou por um momento para acender seu cachimbo, e Bill aproveitou a oportunidade para parecer mais inteligente que a Sra. Stevens.

“Agora, ele tem algo a esconder hoje à noite, e ele vai ter o cuidado de garantir que não estejamos vigiando-o. Bem, o que ele fará?”

“Garantir que estejamos dormindo primeiro, antes de começar.”

“Sim. Vir nos colocar na cama e ver se estamos bem confortáveis.”

“Sim, isso é complicado”, disse Bill. “Mas poderíamos trancar nossas portas, e então ele não saberia que não estávamos lá.”

“Você já trancou sua porta?”

“Nunca.”

“Não. E você pode apostar que Cayley sabe disso. De qualquer forma, ele bateria nela, e você não responderia, e então o que ele pensaria?”

Bill ficou em silêncio; esmagado.

“Então não vejo como vamos fazer isso”, disse ele, após profunda reflexão. “Ele obviamente virá até nós pouco antes de começar, e isso não nos dá tempo para chegar ao lago antes dele.”

“Vamos nos colocar no lugar dele”, disse Antony, tragando lentamente seu cachimbo. “Ele tem o corpo, ou o que quer que seja, na passagem. Ele não vai subir as escadas, carregando-o nos braços, e olhar em nossas portas para ver se estamos acordados. Ele terá que ter certeza sobre nós primeiro, e depois descer para buscar o corpo. Então isso nos dá um pouco de tempo.”

“S-sim”, disse Bill pensativo. “Poderíamos conseguir, mas vai ser uma correria.”

“Mas espere. Quando ele tiver descido para a passagem e pego o corpo, o que ele fará a seguir?”

“Sair novamente”, disse Bill prestativo.

“Sim; mas por qual extremidade?”

Bill sentou-se com um salto.

“Por Júpiter, você quer dizer que ele sairá pela extremidade distante, perto do campo de bocha?”

“Você não acha? Apenas imagine-o atravessando o gramado à vista de toda a casa, à meia-noite, com um corpo nos braços. Pense na sensação terrível que ele teria na nuca, imaginando se alguém, algum dorminhoco inquieto, tinha escolhido justamente aquele momento para caminhar até a janela e olhar para a noite. Ainda há muito luar, Bill. Ele vai atravessar o parque ao luar, com todas aquelas janelas olhando para ele? Não se ele puder evitar. Mas ele pode sair pelo campo de bocha e depois vir para o lago sem nunca ser visto da casa.”

“Você tem razão. E isso nos dará tempo suficiente. Bom. Agora, qual é a próxima coisa?”

“A próxima coisa é marcar o local exato no lago onde ele deixar cair — o que quer que ele deixe cair.”

“Para que possamos pescar de volta.”

“Se pudermos ver o que é, não precisaremos. A polícia pode tentar amanhã. Mas se for algo que não possamos identificar à distância, então devemos tentar retirá-lo. Para ver se vale a pena contar à polícia.”

“S-sim”, disse Bill, franzindo a testa. “Claro, o problema com a água é que uma parte parece muito com a outra. Não sei se isso lhe ocorreu.”

“Isso ocorreu”, sorriu Antony. “Vamos lá dar uma olhada.”

Caminharam até a orla do bosque e deitaram-se ali em silêncio, olhando para o lago abaixo deles.

“Vê alguma coisa?”, disse Antony, por fim.

“O quê?”

“A cerca do outro lado.”

“O que tem ela?”

“Bem, ela é bastante útil, só isso.”

“Disse Sherlock Holmes enigmaticamente”, acrescentou Bill. “Um momento depois, seu amigo Watson o atirou no lago.”

Antony riu.

“Adoro ser como Sherlock”, disse ele. “É muito injusto da sua parte não entrar no jogo comigo.”

“Por que essa cerca é útil, meu caro Holmes?”, disse Bill, obediente.

“Porque você pode tomar uma orientação a partir dela. Veja—”

“Sim, não precisa parar para me explicar o que é uma orientação.”

“Eu não ia. Mas você está deitado aqui” — ele olhou para cima — “debaixo deste pinheiro. Cayley sai no barco velho e deixa cair o embrulho. Você traça uma linha daqui até o barco e marca na cerca ali. Digamos que seja a quinta estaca a partir da extremidade. Bem, então eu traço uma linha da minha árvore — logo encontraremos uma para mim — e ela dá na vigésima estaca, digamos. E onde as duas linhas se encontram, ali se reunirão as águias. Q.E.D. E ali, quase me esqueci de mencionar, a águia mais alta, Beverley pelo nome, fará seu famoso número de mergulho. Como realizado todas as noites no Hippodrome.”

Bill olhou para ele, inquieto.

“Digo, sério? É uma água imunda, sabe.”

“Receio que sim, Bill. Assim está escrito no livro de Jasher.”

“Claro que eu sabia que um de nós teria de fazê-lo, mas eu esperava… ah, bem, é uma noite quente.”

“Justo a noite para um banho”, concordou Antony, levantando-se. “Bem, agora, vamos procurar minha árvore.”

Caminharam até a margem do lago e depois olharam para trás. A árvore de Bill erguia-se e recebia o entardecer, alta e inconfundível, quinze metros mais perto do céu do que as vizinhas. Mas tinha sua companheira na outra extremidade do bosque, talvez não tão alta, mas igualmente visível.

“É ali que eu ficarei”, disse Antony, apontando para ela. “Agora, pelo amor de Deus, conte suas estacas com precisão.”

“Muito obrigado, mas farei isso pelo meu próprio bem”, disse Bill com ênfase. “Não quero passar a noite inteira mergulhando.”

“Fixe o olhar na estaca em linha reta com você e o respingo, e depois conte para trás até o início da cerca.”

“Certo, meu velho. Deixe comigo. Faço isso de olhos fechados.”

“Bem, é assim que você terá de fazer a última parte”, disse Antony com um sorriso.

Ele olhou para o relógio. Estava quase na hora de trocar de roupa para o jantar. Começaram a caminhar de volta para a casa juntos.

“Há uma coisa que me preocupa um pouco”, disse Antony. “Onde Cayley dorme?”

“Ao lado do meu quarto. Por quê?”

“Bem, é possível que ele dê outra olhada em você depois que voltar do lago. Não creio que ele se preocupasse com isso normalmente, mas se ele estiver passando pela sua porta, acho que ele pode dar uma espiada.”

“Eu não estarei lá. Estarei no fundo do lago, sugando lama.”

“Sim... Você acha que poderia deixar algo na sua cama que parecesse vagamente com você no escuro? Um travesseiro comprido com um casaco de pijama em volta, e um braço para fora do cobertor, e um par de meias ou algo assim para a cabeça. Sabe o tipo de coisa. Acho que o agradaria sentir que você ainda estava dormindo pacificamente.”

Bill riu para si mesmo.

“Claro. Sou muito bom nisso. Farei algo muito bom para ele. Mas e você?”

“Estou na outra extremidade da casa; é pouco provável que ele se preocupe comigo uma segunda vez. E estarei dormindo profundamente na primeira visita dele. Ainda assim, farei o mesmo, por segurança.”

Entraram na casa. Cayley estava no saguão quando chegaram. Ele assentiu e tirou o relógio.

“Hora de trocar de roupa?”, disse ele.

“Mais ou menos”, disse Bill.

“Não esqueceu minha carta?”

“Não esqueci. Na verdade, tomamos chá lá.”

“Ah!” Ele olhou para o lado e disse casualmente: “Como todos estavam?”

“Eles enviaram todo tipo de mensagens simpáticas para você, e… e todo esse tipo de coisa.”

“Ah, sim.”

Bill esperou que ele dissesse mais alguma coisa e, como nada veio, ele se virou, disse: “Vamos, Tony”, e subiu as escadas na frente.

“Tem tudo o que precisa?”, disse ele no topo da escada.

“Acho que sim. Venha me ver antes de descer.”

“Certo.”

Antony fechou a porta do quarto atrás de si e caminhou até a janela. Abriu uma das folhas e olhou para fora. Seu quarto ficava logo acima da porta nos fundos da casa. A parede lateral do escritório, que se projetava para o gramado além do restante da casa, estava à sua esquerda. Ele podia sair para o topo da porta e, de lá, descer facilmente para o chão. Voltar seria um pouco mais difícil. Havia um cano de água conveniente que ajudaria.

Ele tinha acabado de terminar de se vestir quando Bill entrou. “Instruções finais?”, perguntou ele, sentando-se na cama. “A propósito, como vamos nos divertir depois do jantar? Digo, imediatamente após o jantar.”

“Bilhar?”

“Certo. O que você quiser.”

“Não fale muito alto”, disse Antony em voz mais baixa. “Estamos mais ou menos sobre o saguão, e Cayley pode estar lá.” Ele foi até a janela. “Sairemos por aqui hoje à noite. Descer pelas escadas é arriscado demais. É fácil o bastante; melhor calçar tênis.”

“Certo. Digo, caso eu não tenha outra chance a sós com você — o que faço quando Cayley vier me cobrir?”

“É difícil dizer. Seja o mais natural possível. Quero dizer, se ele apenas bater levemente e olhar, esteja dormindo. Não exagere no ronco. Mas se ele fizer um barulho infernal, você terá de acordar, esfregar os olhos e se perguntar o que diabos ele está fazendo no seu quarto. Sabe o tipo de coisa.”

“Certo. E sobre o manequim. Vou montá-lo assim que subirmos e escondê-lo debaixo da cama.”

“Sim... Acho melhor irmos para a cama de verdade. Não perderemos tempo para nos vestir de novo, e isso lhe dará tempo para chegar em segurança ao corredor. Depois, venha ao meu quarto.”

“Certo... Está pronto?”

“Sim.”

Desceram juntos.

CAPÍTULO XVII. O Sr. Beverley Entra na Água

Cayley parecia muito afeiçoado a eles naquela noite. Após o jantar, ele sugeriu um passeio lá fora. Caminharam de um lado para o outro no cascalho em frente à casa, falando muito pouco entre si, até que Bill não aguentou mais. Nas últimas vinte voltas, ele diminuía o passo esperançoso cada vez que passavam pela porta, mas a dica sempre passava despercebida pelos companheiros, e a cada vez davam mais uma volta. Mas, no fim, ele foi firme.

“Que tal um pouco de bilhar?”, disse ele, desvencilhando-se dos outros.

“Vai jogar?”, disse Antony a Cayley.

“Vou observá-los”, disse ele, e observou-os resolutamente até que a partida, e depois outra partida, tivessem terminado.

Foram para o saguão e atacaram as bebidas.

“Bem, graças aos céus pela cama”, disse Bill, pousando o copo. “Você vem?”

“Sim”, disse Antony, e terminou sua bebida. Ele olhou para Cayley.

“Só tenho uma ou duas pequenas coisas para fazer”, disse Cayley. “Não demorarei a segui-los.”

“Bem, boa noite, então.”

“Boa noite.”

“Boa noite”, chamou Bill do meio da escada. “Boa noite, Tony.”

“Boa noite.”

Bill olhou para o relógio. Onze e meia. Pouca chance de qualquer coisa acontecer por mais uma hora. Ele abriu uma gaveta e perguntou-se o que vestir na expedição. Calças de flanela cinza, camisa de flanela e um casaco escuro; talvez um suéter, já que poderiam ficar deitados no bosque por algum tempo. E — boa ideia — uma toalha. Ele precisaria dela mais tarde e, enquanto isso, poderia usá-la em volta da cintura.

Tênis... Pronto. Tudo estava preparado. Agora, o manequim.

Ele olhou para o relógio novamente antes de entrar na cama. Doze e quinze. Quanto tempo esperar até que Cayley subisse? Ele apagou a luz e, em seguida, parado junto à porta de pijama, esperou que seus olhos se acostumassem à nova escuridão... Ele mal conseguia distinguir a cama no canto do quarto. Cayley precisaria de mais luz do que aquela se quisesse se certificar, da porta, de que a cama estava ocupada. Ele afastou as cortinas um pouco. Estava bom. Ele poderia dar outra olhada mais tarde, quando tivesse colocado o manequim na cama.

Quanto tempo levaria até Cayley subir? Não era que ele quisesse que seus amigos, Beverley e Gillingham, estivessem dormindo antes que ele começasse seu negócio no lago; tudo o que ele queria era ter certeza de que estavam em segurança em seus quartos. O negócio de Cayley não faria barulho, não daria sinal para atrair o membro mais desperto da casa, contanto que a casa estivesse realmente dentro da casa. Mas se ele quisesse se tranquilizar sobre seus convidados, teria de esperar até que eles estivessem no caminho do sono, para não serem perturbados por ele enquanto subia para se tranquilizar. Então, na verdade, dava no mesmo. Ele esperaria até que estivessem dormindo... até que estivessem dormindo... dormindo...

Com um grande esforço, Bill recuperou o controle sobre seus pensamentos errantes e despertou novamente. Isso não daria certo. Seria fatal se ele adormecesse... se ele adormecesse... adormecesse... E então, em um instante, ele estava intensamente desperto. Suponha que Cayley nunca viesse!

Suponha que Cayley fosse tão pouco desconfiado que, assim que eles subissem, ele tivesse corrido para o corredor e começado seu trabalho. Suponha que, mesmo agora, ele estivesse no lago, jogando nele aquele seu segredo. Céus, que tolos eles tinham sido! Como Antony pôde correr um risco desses? Coloque-se no lugar de Cayley, ele havia dito. Mas como seria possível? Eles não eram Cayley. Cayley estava no lago agora. Eles nunca saberiam o que ele tinha jogado nele.

Escute!... Alguém à porta. Ele estava dormindo. Bem naturalmente agora. Respire um pouco mais alto, talvez. Ele estava dormindo... A porta estava se abrindo. Ele podia senti-la abrindo atrás de si... Meu Deus, suponha que Cayley fosse realmente um assassino! Ora, até agora ele poderia estar — não, ele não deve pensar nisso. Se ele pensasse nisso, teria de se virar. Ele não deve se virar. Ele estava dormindo; apenas dormindo pacificamente. Mas por que a porta não fechava? Onde estava Cayley agora? Logo atrás dele? E na mão dele — não, ele não deve pensar nisso. Ele estava dormindo. Mas por que a porta não fechava?

A porta estava fechando. Houve um suspiro do que dormia na cama, um suspiro de alívio que escapou involuntariamente. Mas tinha um som muito natural — uma respiração profunda de quem dorme pesado. Ele acrescentou outro para torná-lo mais natural. A porta estava fechada.

Bill contou até cem lentamente e depois se levantou. O mais rápido e silenciosamente possível, ele se vestiu no escuro. Colocou o manequim na cama, arrumou as roupas para que apenas o suficiente, mas não demais, fosse visível, e ficou junto à porta olhando para ele. Para um olhar casual, o quarto estava claro o bastante. Então, muito quietamente, muito lentamente, ele abriu a porta. Tudo estava imóvel. Não havia luz debaixo da porta do quarto de Cayley. Muito quietamente, muito cuidadosamente, ele se arrastou pelo corredor até o quarto de Antony. Abriu a porta e entrou.

Antony ainda estava na cama. Bill caminhou para acordá-lo, então parou rígido, e seu coração martelou contra as costelas. Havia mais alguém no quarto.

“Está tudo bem, Bill”, disse uma voz sussurrante, e Antony saiu de trás das cortinas.

Bill olhou para ele sem dizer nada.

“Muito bom, não é?”, disse Antony, aproximando-se e apontando para a cama. “Vamos; quanto mais cedo sairmos agora, melhor.”

Ele saiu pela janela, com o silencioso Bill seguindo-o. Chegaram ao chão com segurança e sem ruído, atravessaram rapidamente o gramado e, assim, sobre a cerca, entraram no parque. Foi só quando perderam a casa de vista que Bill sentiu ser seguro falar.

“Achei mesmo que era você na cama”, disse ele.

“Eu esperava que você achasse. Ficarei um pouco desapontado agora se Cayley não voltar. É uma pena desperdiçar isso.”

“Ele veio mesmo agora há pouco?”

“Ah, com certeza. E você?”

Bill explicou seus sentimentos de forma pitoresca.

“Não teria muito sentido ele matar você”, disse Antony prosaicamente. “Além de ser arriscado demais.”

“Ah!”, disse Bill. E depois: “Eu esperava que fosse o amor dele por mim que o restringisse.”

Antony riu.

“Duvido... Você não acendeu a luz quando se vestiu?”

“Meu Deus, não. Você queria que eu acendesse?”

Antony riu novamente e pegou-o pelo braço.

“Você é um conspirador esplêndido, Bill. Você e eu poderíamos enfrentar qualquer coisa juntos.”

O lago estava à espera deles, mais solene sob o luar. As árvores que coroavam a margem inclinada do lado oposto estavam misteriosamente silenciosas. Parecia que eles tinham o mundo só para si.

Quase inconscientemente, Antony falou em um sussurro.

“Ali está sua árvore, ali está a minha. Contanto que você não se mova, não há chance de ele ver você. Depois que ele for embora, não saia até que eu saia. Ele não estará aqui por uns quinze minutos, então não seja impaciente.”

“Certo”, sussurrou Bill.

Antony deu-lhe um aceno e um sorriso, e eles caminharam para seus postos.

Os minutos passaram lentamente. Para Antony, escondido no matagal ao pé de sua árvore, um novo problema se apresentava. Suponha que Cayley tivesse de fazer mais de uma viagem naquela noite? Ele poderia voltar e encontrá-los no barco; um deles, na verdade, na água. E se decidissem esperar escondidos, na chance de Cayley voltar novamente, qual seria o tempo mínimo que poderiam permitir com segurança? Talvez fosse melhor contornar a frente da casa e vigiar o retorno dele ali, a luz em seu quarto, antes de realizar seus experimentos no lago. Mas então eles poderiam perder a segunda visita dele dessa forma, caso ele fizesse uma segunda visita. Era difícil.

Seus olhos estavam fixos no barco enquanto ele considerava essas coisas, e de repente, como se materializado do nada, Cayley estava parado junto ao barco. Em sua mão havia uma pequena bolsa marrom.

Cayley colocou a bolsa no fundo do barco, entrou e, usando um remo como vara de empurrar, afastou-se lentamente. Então, muito silenciosamente, ele remou até o meio do lago.

Ele parou. Os remos descansavam na água. Ele pegou a bolsa de entre seus pés, inclinou-se sobre a proa do barco e descansou-a levemente na água por um momento. Então soltou. Ela afundou lentamente. Ele esperou ali, observando; com medo, talvez, de que pudesse subir novamente. Antony começou a contar...

E agora Cayley estava de volta ao seu ponto de partida. Ele amarrou o barco, olhou cuidadosamente em volta para ver se não tinha deixado vestígios, e então se voltou para a água novamente. Por muito tempo, como pareceu aos observadores, ele ficou ali, muito grande, muito silencioso, sob o luar. Por fim, ele pareceu satisfeito. Seja qual fosse seu segredo, ele o tinha escondido; e assim, com um suspiro suave, tão inconfundível para Antony como se o tivesse ouvido, Cayley se virou e desapareceu novamente tão silenciosamente quanto tinha vindo.

Antony deu-lhe três minutos e saiu de entre as árvores. Esperou ali por Bill.

“Seis”, sussurrou Bill.

Antony assentiu.

“Vou contornar a casa até a frente. Volte para sua árvore e vigie, caso Cayley volte. Seu quarto é o da esquerda, e o de Cayley é o penúltimo? É isso?”

Bill assentiu.

“Certo. Espere escondido até que eu volte. Não sei quanto tempo levarei, mas não seja impaciente. Vai parecer mais longo do que é.” Ele deu um tapinha no ombro de Bill e, com um sorriso e um aceno de cabeça, deixou-o ali.

O que havia na bolsa? O que Cayley poderia querer esconder além de uma chave ou um revólver? Chaves e revólveres afundam por si sós; não há necessidade de colocá-los em uma bolsa antes. O que havia na bolsa? Algo que não afundaria por si só; algo que precisava ser ajudado com pedras antes que pudesse se esconder com segurança na lama.

Bem, eles descobririam. Não havia objetivo em se preocupar com isso agora. Bill tinha um trabalho sujo pela frente naquela noite. Mas onde estava o corpo que Antony esperava tão confiantemente ou, se não houvesse corpo, onde estava Mark?

Mais imediatamente, porém, onde estava Cayley? O mais rápido que pôde, Antony chegou à frente da casa e agora estava deitado no arbusto que margeava o gramado, esperando a luz acender na janela de Cayley. Se ela acendesse na janela de Bill, então eles estavam descobertos. Significaria que Cayley tinha dado uma olhada no quarto de Bill, ficado desconfiado do manequim na cama e acendido a luz para ter certeza. Depois disso, seria guerra entre eles. Mas se acendesse no quarto de Cayley...

Houve uma luz. Antony sentiu uma súbita onda de emoção. Era no quarto de Bill. Guerra!

A luz permaneceu lá, brilhando vividamente, pois o vento tinha aumentado, soprando a lua para trás de uma nuvem e lançando uma sombra sobre o restante da casa. Bill tinha deixado suas cortinas abertas. Foi descuidado da parte dele; a primeira coisa estúpida que ele tinha feito, mas...

A lua surgiu novamente... e Antony riu sozinho nos arbustos. Havia outra janela além da de Cayley, e não havia luz nela. A declaração de guerra foi adiada.

Antony deitou-se ali, observando Cayley ir para a cama. Afinal, era apenas educado retribuir a solicitude de Cayley no início da noite. A educação exigia que não se divertisse no lago até que seus amigos estivessem confortavelmente acomodados.

Enquanto isso, Bill estava se cansando de esperar. Seu maior medo era estragar tudo esquecendo o número “seis”. Era a sexta estaca. Seis. Ele quebrou um galho e dividiu-o em seis pedaços. Colocou-os no chão à sua frente. Seis. Ele olhou para o lago, contou até a sexta estaca e murmurou “seis” para si mesmo novamente. Então olhou para seus galhos. Um — dois — três — quatro — cinco — seis — sete. Sete! Seria sete? Ou aquele sétimo pedacinho de galho era um pedaço acidental que estava no chão de qualquer maneira? Certamente era seis! Ele tinha dito “seis” para Antony? Se disse, Antony lembraria, e estava tudo bem. Seis. Ele jogou fora o sétimo galho e juntou os outros seis. Talvez ficassem mais seguros em seu bolso. Seis. A altura de um homem alto — bem, sua própria altura. Um metro e oitenta. Sim, era assim que se lembrava. Sentindo-se um pouco mais seguro quanto ao ponto, começou a se perguntar sobre a bolsa, e o que Antony diria sobre ela, e a possível profundidade da água e da lama no fundo; e ainda estava se perguntando, dizendo “Meu Deus, que vida!” para si mesmo, quando Antony reapareceu.

Bill levantou-se e desceu a encosta para encontrá-lo.

“Seis”, disse ele firmemente. “Sexta estaca a partir da extremidade.”

“Bom”, sorriu Antony. “A minha foi a décima oitava — um pouco depois dela.”

“Por que você saiu?”

“Para ver Cayley ir para a cama.”

“Está tudo bem?”

“Sim. Melhor pendurar seu casaco na sexta estaca, e assim a veremos mais facilmente. Colocarei o meu na décima oitava. Vai se despir aqui ou no barco?”

“Algumas aqui, e outras no barco. Você tem certeza absoluta de que não gostaria de mergulhar você mesmo?”

“Absoluta, obrigado.”

Eles caminharam até o outro lado do lago. Ao chegarem à sexta estaca da cerca, Bill tirou o casaco e o colocou na posição, e então terminou de se despir, enquanto Antony seguiu para marcar a décima oitava estaca. Quando estavam prontos, entraram no barco, com Antony assumindo os remos.

“Agora, Bill, me avise assim que eu estiver alinhado com suas duas marcas.”

Ele remou lentamente em direção ao meio do lago.

“Você está quase lá”, disse Bill, finalmente.

Antony parou de remar e olhou em volta.

“Sim, está quase perfeito.” Ele girou a proa do barco até que estivesse apontada para o pinheiro sob o qual Bill estivera deitado. “Você vê minha árvore e o outro casaco?”

“Sim”, disse Bill.

“Certo. Agora, vou remar suavemente ao longo desta linha até ficarmos exatamente entre os dois. Tente ser o mais preciso possível — pelo seu próprio bem.”

“Firme!” disse Bill, em tom de aviso. “Um pouco para trás... um pouco mais... um pouco mais para frente novamente... Certo.” Antony deixou os remos na água e olhou ao redor. Até onde podia dizer, eles estavam em uma linha exata com cada par de pontos de referência.

“Muito bem, Bill, pode entrar.”

Bill tirou a camisa e as calças e levantou-se.

“Você não deve mergulhar do barco, meu caro”, disse Antony apressadamente. “Você vai deslocá-lo. Deslize para dentro suavemente.”

Bill deslizou pela popa e nadou lentamente até Antony.

“Como está a água?” perguntou Antony.

“Fria. Bem, boa sorte para isso.”

Ele deu um chute repentino, brilhou por um momento na água e desapareceu. Antony estabilizou o barco e deu outra olhada em seus pontos de referência.

Bill surgiu atrás dele com um forte ruído de água. “É bem lamacento”, protestou.

“Algas?”

“Não, graças a Deus.”

“Bem, tente de novo.”

Bill deu outro chute e desapareceu. Novamente Antony conduziu o barco de volta à posição, e novamente Bill surgiu, desta vez na sua frente.

“Sinto que se eu lhe jogasse uma sardinha”, disse Antony, com um sorriso, “você a pegaria na boca muito graciosamente.”

“É terrivelmente fácil ser engraçado daí onde você está. Por quanto tempo mais terei que continuar fazendo isso?”

Antony olhou para o relógio.

“Cerca de três horas. Precisamos voltar antes do amanhecer. Mas seja mais rápido se puder, porque está um pouco frio para mim ficar sentado aqui.”

Bill lançou um punhado de água nele e desapareceu novamente. Desta vez, ele ficou submerso por quase um minuto, e havia um sorriso em seu rosto quando ele voltou a ser visível.

“Eu peguei, mas é diabolicamente difícil de trazer para cima. Não tenho certeza se não é pesado demais para mim.”

“Está tudo bem”, disse Antony. Ele tirou um rolo de barbante grosso do bolso. “Passe isso pela alça se puder, e então nós dois poderemos puxar.”

“Bom rapaz.” Ele remou até a lateral, pegou uma ponta do barbante e remou de volta. “Agora sim.”

Dois minutos depois, a bolsa estava em segurança no barco. Bill subiu logo atrás dela, e Antony remou de volta. “Muito bem, Watson”, disse ele calmamente, ao desembarcarem. Ele buscou os dois casacos e esperou, com a bolsa na mão, enquanto Bill se secava e se vestia. Assim que este último estava pronto, ele o segurou pelo braço e o levou para o bosque. Ele colocou a bolsa no chão e apalpou os bolsos.

“Vou acender um cachimbo antes de abri-la”, disse ele. “E você?”

“Sim.”

Com muito cuidado, eles encheram e acenderam seus cachimbos. A mão de Bill estava um pouco trêmula. Antony notou e deu-lhe um sorriso tranquilizador.

“Pronto?”

“Sim.”

Eles sentaram-se e, tomando a bolsa entre os joelhos, Antony apertou a trava e abriu-a.

“Roupas!” disse Bill.

Antony puxou a peça de cima e a sacudiu. Era um casaco de flanela marrom molhado.

“Você a reconhece?” perguntou ele.

“O terno de flanela marrom de Mark.”

“Aquele com o qual anunciaram que ele fugiu?”

“Sim. Parece ser. Claro, ele tinha uma quantidade danada de roupas.”

Antony colocou a mão no bolso do peito e tirou algumas cartas. Ele as examinou com dúvida por um momento.

“Suponho que seja melhor eu lê-las”, disse ele. “Quero dizer, só para ver...” Ele olhou interrogativamente para Bill, que assentiu. Antony ligou sua lanterna e as examinou. Bill esperou ansiosamente.

“Sim. Mark... Olá!”

“O que foi?”

“A carta sobre a qual Cayley estava falando ao inspetor. De Robert. ‘Mark, seu irmão amoroso está vindo visitá-lo...’ Sim, suponho que seja melhor eu guardar isto. Bem, esse é o casaco dele. Vamos tirar o resto.” Ele tirou as roupas restantes da bolsa e as espalhou.

“Estão todas aqui”, disse Bill. “Camisa, gravata, meias, roupas de baixo, sapatos — sim, todas.”

“Tudo o que ele estava vestindo ontem?”

“Sim.”

“O que você acha disso?”

Bill balançou a cabeça e fez outra pergunta.

“É o que você esperava?”

Antony riu de repente.

“É absurdo demais”, disse ele. “Eu esperava... bem, você sabe o que eu esperava. Um corpo. Um corpo vestido. Bem, talvez fosse mais seguro escondê-los separadamente. O corpo aqui, e as roupas na passagem, onde nunca se trairiam. E agora ele se dá ao trabalho de esconder as roupas aqui, e nem se incomoda com o corpo.” Ele balançou a cabeça. “Estou um pouco perdido no momento, Bill, essa é a verdade.”

“Mais alguma coisa aí?”

Antony tateou a bolsa.

“Pedras e... sim, tem mais alguma coisa.” Ele a tirou e a ergueu. “Aqui está, Bill.”

Era a chave do escritório.

“Por Júpiter, você estava certo.”

Antony tateou a bolsa novamente e então a virou gentilmente de cabeça para baixo sobre a grama. Uma dúzia de pedras grandes caiu — e mais alguma coisa. Ele apontou a lanterna.

“Outra chave”, disse ele.

Ele colocou as duas chaves no bolso e ficou sentado ali por muito tempo em silêncio, pensando. Bill também estava em silêncio, sem querer interromper seus pensamentos, mas, finalmente, disse:

“Devo colocar essas coisas de volta?”

Antony levantou os olhos, sobressaltado.

“O quê? Oh, sim. Não, eu as colocarei de volta. Você me ilumina, por favor?”

Muito lenta e cuidadosamente ele colocou as roupas de volta na bolsa, fazendo uma pausa a cada peça que pegava, com a certeza, como parecia a Bill, de que ela tinha algo a lhe dizer se ele pudesse apenas ler. Quando a última delas estava dentro, ele ainda esperou ali de joelhos, pensando.

“É tudo”, disse Bill.

Antony assentiu para ele.

“Sim, é tudo”, disse ele; “e é isso que é engraçado. Você tem certeza de que é tudo?”

“O que você quer dizer?”

“Dê-me a lanterna um momento.” Ele a pegou e a passou sobre o chão entre eles. “Sim, é tudo. É engraçado.” Ele se levantou, com a bolsa nas mãos. “Agora vamos encontrar um esconderijo para isto, e então...” Ele não disse mais nada, mas saiu caminhando por entre as árvores, com Bill seguindo-o docilmente.

Assim que se livraram da bolsa e saíram do bosque, Antony tornou-se mais comunicativo. Ele tirou as duas chaves do bolso.

“Uma delas é a chave do escritório, suponho, e a outra é a chave do armário da passagem. Então, pensei que talvez pudéssemos dar uma olhada no armário.”

“Diga, você realmente acha que é?”

“Bem, não vejo o que mais poderia ser.”

“Mas por que ele iria querer jogá-la fora?”

“Porque ela já cumpriu seu propósito, qualquer que tenha sido, e ele quer lavar as mãos quanto à passagem. Ele jogaria a passagem fora se pudesse. Não acho que importe muito de um jeito ou de outro, e não suponho que haja nada para encontrar no armário, mas sinto que devemos olhar.”

“Você ainda acha que o corpo de Mark pode estar lá?”

“Não. E, no entanto, onde mais poderia estar? A não ser que eu esteja irremediavelmente enganado, e Cayley nunca o tenha matado.”

Bill hesitou, imaginando se ousaria apresentar sua teoria.

“Sei que vai me achar um idiota...”

“Meu caro Bill, sou um idiota tão óbvio que ficaria encantado em pensar que você também é.”

“Bem, então, suponha que Mark tenha matado Robert, e Cayley o ajudou a escapar, exatamente como pensamos no início. Sei que você provou depois que era impossível, mas suponha que tenha acontecido de uma maneira que não sabemos e por razões que desconhecemos. Quero dizer, há tantas coisas engraçadas em todo esse show que... bem, quase tudo poderia ter acontecido.”

“Você tem toda a razão. Bem?”

“Bem, então, esse negócio das roupas. Isso não parece confirmar a teoria da fuga? O terno marrom de Mark era conhecido pela polícia. Cayley não poderia ter trazido a ele outro na passagem, para escapar, e então ter ficado com o marrom nas mãos? E ter achado mais seguro escondê-lo no lago?”

“Sim”, disse Antony pensativo. Então: “Continue.”

Bill continuou ansiosamente:

“Tudo parece se encaixar, sabe. Quero dizer, mesmo com sua primeira teoria — de que Mark o matou acidentalmente e depois foi pedir ajuda a Cayley. Claro, se Cayley tivesse jogado limpo, teria dito a Mark que ele não tinha nada a temer. Mas ele não está jogando limpo; ele quer tirar Mark do caminho por causa da moça. Bem, esta é sua chance. Ele deixa Mark o mais assustado possível e lhe diz que sua única esperança é fugir. Bem, naturalmente, ele faz tudo o que pode para que ele vá bem longe, porque se Mark for capturado, toda a história da traição de Cayley virá à tona.”

“Sim. Mas não é um exagero fazê-lo trocar de roupa de baixo e tudo mais? Você sabe, isso desperdiça muito tempo.”

Bill foi interrompido bruscamente e disse “Oh!” com grande desapontamento.

“Não, não é tão ruim assim, Bill”, disse Antony com um sorriso. “Ouso dizer que a roupa de baixo poderia ser explicada. Mas aqui está a dificuldade. Por que Mark precisaria trocar o marrom pelo azul, ou qualquer outra cor, quando Cayley era a única pessoa que o viu de marrom?”

“A descrição dele pela polícia diz que ele está com um terno marrom.”

“Sim, porque Cayley disse à polícia. Veja, mesmo que Mark tivesse almoçado com seu terno marrom, e os empregados tivessem notado, Cayley sempre poderia ter fingido que ele tinha trocado para o azul depois do almoço, porque só Cayley o viu depois. Então, se Cayley tivesse dito ao inspetor que ele estava vestindo azul, Mark poderia ter escapado confortavelmente com seu marrom, sem precisar trocar de roupa.”

“Mas foi exatamente o que ele fez”, gritou Bill triunfante. “Que tolos nós somos!”

Antony olhou para ele com surpresa e então balançou a cabeça.

“Sim, sim!” insistiu Bill. “Claro! Você não vê? Mark trocou de roupa depois do almoço e, para lhe dar mais chance de escapar, Cayley mentiu e disse que ele estava vestindo o terno marrom que os empregados tinham visto. Bem, então ele ficou com medo de que a polícia pudesse examinar as roupas de Mark e encontrar o terno marrom ainda lá, então ele o escondeu, e depois o jogou no lago.”

Ele se voltou ansiosamente para o amigo, mas Antony não disse nada. Bill começou a falar novamente e foi prontamente silenciado por um gesto de mão.

“Não diga mais nada, meu caro; você já me deu o suficiente para pensar. Não vamos nos preocupar com isso hoje à noite. Vamos apenas dar uma olhada neste armário e depois ir para a cama.”

Mas o armário não tinha muito a lhes dizer naquela noite. Estava vazio, exceto por algumas garrafas velhas.

“Bem, é isso”, disse Bill.

Mas Antony, de joelhos com a lanterna na mão, continuou a procurar por algo.

“O que você está procurando?” perguntou Bill, finalmente.

“Algo que não está aqui”, disse Antony, levantando-se e espanando as calças. E ele trancou a porta novamente.

CAPÍTULO XVIII. Suposições

O inquérito seria às três horas; depois disso, Antony não poderia mais reivindicar a hospitalidade da Red House. Às dez horas, sua mala estava feita e esperando para ser levada para o ‘The George’. Para Bill, que subia as escadas após um café da manhã mais prolongado, essa agitação matinal era um pouco surpreendente.

“Qual é a pressa?” perguntou ele.

“Nenhuma. Mas não queremos voltar aqui depois do inquérito. Termine suas malas agora e então poderemos ter a manhã só para nós.”

“Certo.” Ele se virou para ir para seu quarto e então voltou. “Diga, vamos dizer a Cayley que ficaremos no ‘The George’?”

“Você não vai ficar no ‘The George’, Bill. Não oficialmente. Você vai voltar para Londres.”

“Oh!”

“Sim. Peça a Cayley para enviar sua bagagem para Stanton, pronta para você quando pegar um trem lá após o inquérito. Você pode dizer a ele que precisa ver o Bispo de Londres imediatamente. O fato de você estar correndo de volta para Londres para ser crismado fará parecer mais natural que eu retome minha solidão interrompida no ‘The George’ assim que você se for.”

“Então onde vou dormir hoje à noite?”

“Oficialmente, suponho, em Fulham Place; não oficialmente, suspeito que em minha cama, a menos que eles tenham outro quarto vago no ‘The George’. Coloquei suas vestes de crisma — quero dizer, seu pijama, escovas e coisas do tipo — na minha mala, pronta para você. Há mais alguma coisa que você queira saber? Não? Então vá fazer as malas. E encontre-me às dez e meia sob o carvalho atingido pelo raio ou no saguão ou em algum lugar. Quero falar, falar e falar, e preciso do meu Watson.”

“Ótimo”, disse Bill e foi para seu quarto.

Uma hora depois, tendo comunicado seus planos oficiais a Cayley, eles passearam juntos pelo parque.

“Bem?” disse Bill, ao se sentarem sob uma árvore conveniente. “Fale.”

“Tive muitos pensamentos brilhantes no meu banho esta manhã”, começou Antony. “O mais brilhante de todos foi que estávamos sendo uns tolos, e trabalhando nisso pela extremidade errada.”

“Bem, isso é útil.”

“Claro, é muito limitante ser um detetive quando você não sabe nada sobre detecção, e quando ninguém sabe que você está investigando, e você não pode levar as pessoas para interrogá-las, e você não tem energia nem meios para fazer investigações adequadas; e, em suma, quando você está fazendo tudo de uma maneira totalmente amadora e aleatória.”

“Para amadores, não acho que estamos nos saindo mal”, protestou Bill.

“Não; não para amadores. Mas se fôssemos profissionais, acredito que teríamos começado pela outra ponta. A ponta de Robert. Ficamos nos perguntando sobre Mark e Cayley o tempo todo. Agora vamos nos perguntar sobre Robert um pouco.”

“Sabemos tão pouco sobre ele.”

“Bem, vejamos o que sabemos. Primeiro, sabemos vagamente que ele era um sujeito mau — o tipo de irmão que é abafado na frente dos outros.”

“Sim.”

“Sabemos que ele anunciou sua chegada iminente a Mark em uma carta bastante desagradável, que tenho no meu bolso.”

“Sim.”

“E então sabemos de uma coisa bastante curiosa. Sabemos que Mark contou a vocês todos que essa ovelha negra estava vindo. Agora, por que ele contou a vocês?”

Bill ficou pensativo por um momento.

“Suponho”, disse ele lentamente, “que ele sabia que teríamos que vê-lo e pensou que a melhor maneira era ser totalmente franco a respeito dele.”

“Mas vocês eram obrigados a vê-lo? Vocês estavam todos fora jogando golfe.”

“Éramos obrigados a vê-lo se ele ficasse na casa naquela noite.”

“Muito bem, então. Essa é uma coisa que descobrimos. Mark sabia que Robert ficaria na casa naquela noite. Ou vamos colocar desta forma — ele sabia que não havia chance de tirar Robert da casa imediatamente.”

Bill olhou para o amigo ansiosamente.

“Continue”, disse ele. “Isto está ficando interessante.”

“Ele também sabia de outra coisa”, continuou Antony. “Ele sabia que Robert era obrigado a revelar seu verdadeiro caráter para vocês assim que se encontrassem. Ele não podia passá-lo para vocês apenas como um irmão viajado dos Domínios, talvez com um pouco de sotaque; ele teve que contar a vocês imediatamente, porque vocês iriam descobrir, que Robert era um desordeiro.”

“Sim. Isso parece razoável.”

“Bem, agora, não lhe parece que Mark decidiu tudo isso muito rapidamente?”

“Como assim?”

“Ele recebeu esta carta no café da manhã. Ele a leu; e assim que a leu, começou a confiar tudo a vocês. Ou seja, em cerca de um segundo ele pensou em todo o negócio e tomou uma decisão — duas decisões. Ele considerou a possibilidade de tirar Robert do caminho antes que vocês voltassem, e decidiu que era impossível. Ele considerou a possibilidade de Robert se comportar como uma pessoa comum e decente em público, e decidiu que era muito improvável. Ele tomou essas duas decisões instantaneamente, enquanto lia a carta. Não é um trabalho rápido demais?”

“Bem, qual é a explicação?”

Antony esperou até ter reabastecido e acendido seu cachimbo antes de responder.

“Qual é a explicação? Bem, vamos deixar isso por um momento e dar outra olhada nos dois irmãos. Em conjunto, desta vez, com a Sra. Norbury.”

“Sra. Norbury?” disse Bill, surpreso.

“Sim. Mark esperava se casar com a Srta. Norbury. Agora, se Robert realmente fosse uma mancha na honra da família, Mark gostaria de fazer uma de duas coisas. Ou esconder isso dos Norbury completamente, ou então, se tivesse que vir à tona, contar a eles ele mesmo antes que a notícia chegasse a eles indiretamente. Bem, ele contou a eles. Mas o engraçado é que ele contou a eles no dia anterior à chegada da carta de Robert. Robert veio e foi morto, anteontem — terça-feira. Mark contou à Sra. Norbury sobre ele na segunda-feira. O que você acha disso?”

“Coincidência”, disse Bill, após cuidadosa reflexão. “Ele sempre teve a intenção de contar a ela; seu romance estava prosperando e, pouco antes de ser finalmente decidido, ele contou a ela. Por acaso foi segunda-feira. Na terça-feira, ele recebeu a carta de Robert e sentiu-se muito feliz por ter contado a ela a tempo.”

“Bem, pode ser isso, mas é uma coincidência bastante curiosa. E aqui está algo que a torna muito curiosa, de fato. Só me ocorreu no banho esta manhã. Lugar inspirador, um banheiro. Bem, é isto — ele contou a ela na segunda-feira de manhã, a caminho de Middleston no carro.”

“Bem?”

“Bem.”

“Desculpe, Tony; estou denso esta manhã.”

“No carro, Bill. E quão perto o carro pode chegar de Jallands?”

“Cerca de seiscentos metros.”

“Sim. E a caminho de Middleston, para tratar de algum negócio ou outro, Mark para o carro, caminha seiscentos metros colina abaixo até Jallands, diz: ‘Ah, a propósito, Sra. Norbury, não creio que lhe contei que tenho um irmão sombrio chamado Robert’, caminha seiscentos metros colina acima novamente, entra no carro e vai para Middleston. É provável?”

Bill franziu a testa pesadamente.

“Sim, mas não vejo onde você quer chegar. Provável ou não, sabemos que ele fez isso.”

“Claro que ele fez. Tudo o que quero dizer é que ele deve ter tido uma razão forte para contar à Sra. Norbury imediatamente. E a razão que sugiro é que ele sabia naquela manhã — segunda-feira de manhã, não terça-feira — que Robert estava vindo vê-lo, e precisava se antecipar com a notícia.”

“Mas... mas...”

“E isso explicaria o outro ponto — sua decisão instantânea no café da manhã de contar tudo a vocês sobre seu irmão. Não foi instantânea. Ele sabia na segunda-feira que Robert estava vindo, e decidiu então que todos vocês teriam que saber.”

“Então como você explica a carta?”

“Bem, vamos dar uma olhada nela.”

Antony tirou a carta do bolso e a espalhou na grama entre eles.

_“Mark, seu irmão amoroso está vindo visitá-lo amanhã, vindo de toda a Austrália. Dou-lhe um aviso, para que você possa esconder sua surpresa, mas não espero que esconda seu prazer. Espere por ele às três ou por volta disso.”_

“Nenhuma data mencionada, veja bem”, disse Antony. “Apenas amanhã.”

“Mas ele recebeu isso na terça-feira.”

“Recebeu?”

“Bem, ele leu para nós na terça-feira.”

“Oh, sim! Ele leu para vocês.”

Bill leu a carta novamente e então virou-a e olhou para o verso. O verso não tinha nada a lhe dizer.

“E quanto ao carimbo postal?”, perguntou ele.

“Infelizmente, não temos o envelope.”

“E você acha que ele recebeu esta carta na segunda-feira.”

“Estou inclinado a pensar que sim, Bill. De qualquer forma, penso — sinto-me quase certo — que ele sabia na segunda-feira que seu irmão estava vindo.”

“Isso vai nos ajudar muito?”

“Não. Torna tudo mais difícil. Há algo bastante estranho em tudo isso. Não entendo.” Ele ficou em silêncio por um momento e então acrescentou: “Pergunto-me se o inquérito vai nos ajudar.”

“E quanto à noite passada? Estou ansioso para ouvir o que você conclui disso. Você tem pensado a respeito?”

“A noite passada”, disse Antony pensativo para si mesmo. “Sim, a noite passada precisa de explicação.”

Bill esperou esperançoso que ele explicasse. O que, por exemplo, Antony estava procurando no armário?

“Acho”, começou Antony lentamente, “que depois da noite passada devemos desistir da ideia de que Mark foi morto; morto, quero dizer, por Cayley. Não acredito que alguém teria tanto trabalho para esconder um terno quando estivesse com um corpo nas mãos. O corpo pareceria muito mais importante. Acho que podemos aceitar agora que as roupas são tudo o que Cayley tinha a esconder.”

“Mas por que não tê-las mantido na passagem?”

“Ele estava com medo da passagem. A Srta. Norris sabia sobre ela.”

“Bem, então, no seu próprio quarto, ou até mesmo no de Mark. Pelo que você, eu ou qualquer pessoa sabíamos, Mark poderia ter dois ternos marrons. Ele provavelmente tinha, eu diria.”

“Provavelmente. Mas duvido que isso tranquilizasse Cayley. O terno marrom escondia um segredo e, portanto, o terno marrom tinha que ser escondido. Todos nós sabemos que, em teoria, o esconderijo mais seguro é o mais óbvio, mas, na prática, pouquíssimas pessoas têm coragem de arriscar.”

Bill parecia um tanto desapontado.

“Então voltamos exatamente para onde estávamos”, queixou-se ele. “Mark matou seu irmão e Cayley o ajudou a escapar pela passagem; seja para comprometê-lo, ou porque não havia outra saída. E ele o ajudou contando uma mentira sobre seu terno marrom.”

Antony sorriu para ele com genuína diversão.

“Azar, Bill”, disse ele compreensivamente. “Só há um assassinato, afinal. Sinto muito mesmo por isso. Foi culpa minha por—”

“Cale a boca, seu asno. Você sabe que eu não quis dizer isso.”

“Bem, você parecia terrivelmente desapontado.”

Bill não disse nada por um momento e então, com uma risada repentina, confessou.

“Foi tão emocionante ontem”, disse ele em tom de desculpa, “e parecíamos estar quase chegando lá, descobrindo as coisas mais maravilhosas, e agora—”

“E agora?”

“Bem, é tudo tão mais comum.”

Antony soltou uma gargalhada.

“Comum!”, exclamou ele. “Comum! Ora, estou pasmo! Comum! Se ao menos uma coisa acontecesse de uma maneira comum, poderíamos fazer alguma coisa, mas tudo é ridículo.”

Bill animou-se novamente.

“Ridículo? Como?”

“De todas as formas. Pegue aquelas roupas ridículas que encontramos ontem à noite. Você pode explicar o terno marrom, mas por que as roupas de baixo? Você pode explicar as roupas de baixo de uma maneira absurda, se quiser — pode dizer que Mark sempre trocava de roupa de baixo sempre que entrevistava alguém da Austrália — mas por que, nesse caso, meu caro Watson, por que ele não trocou de colarinho?”

“De colarinho?”, disse Bill, espantado.

“De colarinho, Watson.”

“Não entendo.”

“E é tudo tão comum”, zombou Antony.

“Desculpe, Tony, eu não quis dizer isso. Conte-me sobre o colarinho.”

“Bem, é só isso. Não havia colarinho na mala ontem à noite. Camisa, meias, gravata — tudo, exceto um colarinho. Por quê?”

“Era isso que você estava procurando no armário?”, disse Bill ansiosamente.

“Claro. ‘Por que nenhum colarinho?’, eu disse. Por algum motivo, Cayley considerou necessário esconder todas as roupas de Mark; não apenas o terno, mas tudo o que ele estava vestindo, ou supostamente vestindo, no momento do assassinato. Mas ele não escondeu o colarinho. Por quê? Teria ele deixado de fora por engano? Então procurei no armário. Não estava lá. Teria ele deixado de fora de propósito? Se sim, por quê? — e onde estava? Naturalmente, comecei a dizer a mim mesmo: ‘Onde vi um colarinho ultimamente? Um colarinho sozinho?’ E me lembrei — do quê, Bill?”

Bill franziu a testa pesadamente para si mesmo e balançou a cabeça.

“Não me pergunte, Tony. Eu não consigo... Por Júpiter!” Ele ergueu a cabeça. “Na cesta no quarto do escritório!”

“Exatamente.”

“Mas é aquele?”

“Aquele que acompanha o resto das roupas? Não sei. Onde mais poderia estar? Mas, se sim, por que enviar o colarinho casualmente para a lavagem da maneira comum e ter um trabalho imenso para esconder todo o resto? Por quê, por quê, por quê?”

Bill mordeu forte seu cachimbo, mas não conseguiu pensar em nada para dizer.

“De qualquer forma”, disse Antony, levantando-se inquieto, “tenho certeza de uma coisa. Mark sabia na segunda-feira que Robert estava vindo para cá.”

CAPÍTULO XIX. O Inquérito

O legista, tendo feito algumas observações banais sobre a natureza terrível da tragédia que eles haviam se reunido para investigar naquela tarde, procedeu a descrever o caso para o júri. Testemunhas seriam chamadas para identificar o falecido como Robert Ablett, o irmão do proprietário da Red House, Mark Ablett. Ficaria demonstrado que ele era uma espécie de desocupado, que passara a maior parte da vida na Austrália, e que ele anunciara, no que quase poderia ser chamado de uma carta ameaçadora, sua intenção de visitar seu irmão naquela tarde. Haveria evidências de sua chegada, de ele ter sido levado ao local da tragédia — um cômodo na Red House, comumente chamado de “o escritório” — e da entrada de seu irmão naquele cômodo. O júri teria que formar sua própria opinião sobre o que aconteceu lá. Mas, acontecesse o que acontecesse, aconteceu quase instantaneamente. Dois minutos após a entrada de Mark Ablett, como seria demonstrado nas evidências, um tiro foi ouvido e, quando — talvez cinco minutos depois — o cômodo foi arrombado, o cadáver de Robert Ablett foi encontrado estendido no chão. Quanto a Mark Ablett, ninguém o tinha visto desde o momento em que entrou no cômodo, mas evidências seriam chamadas para mostrar que ele tinha dinheiro suficiente consigo na época para levá-lo a qualquer outra parte do país, e que um homem correspondendo à sua descrição tinha sido observado na plataforma da estação de Stanton, aparentemente esperando para pegar o trem das 3h55 para Londres. Como o júri perceberia, tal evidência de identidade nem sempre era confiável. Homens desaparecidos tinham o hábito de serem vistos em uma dúzia de lugares diferentes ao mesmo tempo. De qualquer forma, não havia dúvida de que, por enquanto, Mark Ablett havia desaparecido.

“Parece um homem sensato”, sussurrou Antony para Bill. “Não fala demais.”

Antony não esperava aprender muito com as evidências — ele conhecia os fatos do caso tão bem a essa altura — mas ele se perguntava se o inspetor Birch havia desenvolvido alguma nova teoria. Se sim, elas apareceriam no exame do legista, pois o legista certamente teria sido instruído pela polícia sobre os fatos importantes a serem extraídos de cada testemunha. Bill foi o primeiro a ser interrogado.

“Agora, sobre esta carta, Sr. Beverley?”, perguntaram-lhe quando seu depoimento principal terminou. “O senhor a viu de fato?”

“Não vi a escrita em si. Vi o verso. Mark estava segurando-a quando nos contou sobre seu irmão.”

“O senhor não sabe o que havia nela, então?”

Bill teve um choque repentino. Ele havia lido a carta apenas naquela manhã. Ele sabia muito bem o que havia nela. Mas não seria bom admitir isso. E então, exatamente quando estava prestes a perjurar-se, ele se lembrou: Antony tinha ouvido Cayley contar ao inspetor.

“Soube depois. Fui informado. Mas Mark não a leu no café da manhã.”

“O senhor concluiu, no entanto, que era uma carta indesejada?”

“Oh, sim!”

“O senhor diria que Mark ficou assustado com ela?”

“Não assustado. Uma espécie de amargura — e resignação. Uma espécie de ‘Oh, céus, lá vamos nós de novo!’”

Houve um risinho aqui e ali. O legista sorriu e tentou fingir que não tinha sorrido.

“Obrigado, Sr. Beverley.”

A testemunha seguinte foi convocada pelo nome de Andrew Amos, e Antony olhou com interesse, perguntando-se quem ele era.

“Ele mora na portaria interna”, sussurrou Bill para ele.

Tudo o que Amos tinha a dizer era que um estranho passara por sua portaria pouco antes das três daquela tarde e falara com ele. Ele vira o corpo e o reconhecera como sendo o homem.

“O que ele disse?”

“‘Este é o caminho certo para a Red House?’ ou algo assim, senhor.”

“O que o senhor disse?”

“Eu disse: ‘Esta é a Red House. Quem o senhor deseja ver?’ Ele tinha uma aparência um pouco grosseira, sabe, senhor, e eu não sabia o que ele estava fazendo ali.”

“Bem?”

“Bem, senhor, ele disse: ‘O senhor Mark Ablett está em casa?’ Não soa muito dito assim, senhor, mas não gostei da maneira como ele disse. Então me coloquei à frente dele, por assim dizer, e disse: ‘O que você quer, hein?’, e ele deu uma espécie de risadinha e disse: ‘Quero ver meu querido irmão Mark.’ Bem, então dei uma olhada mais atenta nele e vi que talvez ele pudesse ser seu irmão, então disse: ‘Se o senhor seguir pela entrada, chegará à casa. É claro que não posso dizer se o Sr. Ablett está em casa.’ E ele deu uma risada desagradável novamente e disse: ‘Belo lugar que o Sr. Mark Ablett tem aqui. Muito dinheiro para gastar, hein?’ Bem, então dei outra olhada nele, senhor, porque cavalheiros não falam assim, e se ele fosse irmão do Sr. Ablett... mas antes que eu pudesse me decidir, ele riu e seguiu em frente. Isso é tudo o que posso lhe dizer, senhor.”

Andrew Amos desceu e afastou-se para o fundo da sala, nem Antony desviou os olhos dele até ter certeza de que Amos pretendia permanecer ali até que o inquérito terminasse.

“Com quem Amos está falando agora?”, sussurrou ele para Bill.

“Parsons. Um dos jardineiros. Ele fica na portaria externa na estrada de Stanton. Estão todos aqui hoje. Uma espécie de feriado para eles.”

“Pergunto-me se ele também está dando depoimento”, pensou Antony. Ele estava. Ele seguiu Amos. Ele estivera trabalhando no gramado em frente à casa e vira Robert Ablett chegar. Ele não ouviu o tiro — não a ponto de notar. Ele era um pouco surdo. Ele vira um cavalheiro chegar cerca de cinco minutos depois do Sr. Robert.

“O senhor pode vê-lo no tribunal agora?”, perguntou o legista. Parsons olhou ao redor lentamente. Antony encontrou seu olhar e sorriu.

“É ele”, disse Parsons, apontando.

Todos olharam para Antony.

“Isso foi cerca de cinco minutos depois?”

“Cerca disso, senhor.”

“Alguém saiu da casa antes da chegada deste cavalheiro?”

“Não, senhor. Isto é, eu não os vi.”

Stevens seguiu. Ela deu seu depoimento quase da mesma forma que o dera ao inspetor. Nada de novo foi trazido por seu exame. Então veio Elsie. Enquanto os repórteres rabiscavam o que ela tinha ouvido, eles adicionaram entre parênteses “Sensação” pela primeira vez naquela tarde.

“Quanto tempo depois de ter ouvido isso o tiro veio?”, perguntou o legista.

“Quase imediatamente, senhor.”

“Um minuto?”

“Eu realmente não saberia dizer, senhor. Foi tão rápido.”

“Você ainda estava no saguão?”

“Oh, não, senhor. Eu estava logo fora do quarto da Sra. Stevens. A governanta, senhor.”

“Você não pensou em voltar ao saguão para ver o que tinha acontecido?”

“Oh, não, senhor. Eu apenas entrei onde a Sra. Stevens estava, e ela disse: ‘Oh, o que foi isso?’, assustada. E eu disse: ‘Isso foi dentro da casa, Sra. Stevens, isso foi.’ Foi como algo disparando, sabe.”

“Obrigado”, disse o legista.

Houve outra perturbação emocional na sala quando Cayley entrou na caixa das testemunhas; não “Sensação” desta vez, mas um interesse ávido e, como parecia a Antony, simpático. Agora eles estavam lidando com o drama.

Ele deu seu depoimento com cuidado, sem emoção — as mentiras com a mesma deliberação lenta que a verdade. Antony observava-o atentamente, perguntando-se o que havia nele que exercia esse estranho tipo de atratividade. Pois Antony, que sabia que ele estava mentindo, e mentindo (como acreditava) não pelo bem de Mark, mas pelo seu próprio, ainda assim não podia evitar compartilhar parte daquela simpatia geral por ele.

“Mark já esteve de posse de um revólver?”, perguntou o legista.

“Não que eu saiba. Acho que eu teria sabido se ele tivesse.”

“O senhor estava sozinho com ele durante toda aquela manhã. Ele falou sobre essa visita de Robert?”

“Não o vi muito pela manhã. Eu estava trabalhando no meu escritório, lá fora, e assim por diante. Almoçamos juntos e ele falou um pouco sobre isso então.”

“Em que termos?”

“Bem...” ele hesitou e então continuou. “Não consigo pensar em uma palavra melhor do que ‘irritadiço’. Ocasionalmente ele dizia: ‘O que você acha que ele quer?’, ou ‘Por que ele não podia ter ficado onde estava?’, ou ‘Não gosto do tom da carta dele. Você acha que ele quer problemas?’ Ele falava mais ou menos desse tipo de maneira.”

“Ele expressou sua surpresa por seu irmão estar na Inglaterra?”

“Acho que ele sempre teve medo de que ele aparecesse um dia.”

“Sim... O senhor não ouviu nenhuma conversa entre os irmãos quando eles estavam no escritório juntos?”

“Não. Por acaso fui à biblioteca logo após Mark ter entrado, e fiquei lá o tempo todo.”

“A porta da biblioteca estava aberta?”

“Oh, sim.”

“O senhor viu ou ouviu a última testemunha?”

“Não.”

“Se alguém tivesse saído do escritório enquanto o senhor estava na biblioteca, o senhor teria ouvido?”

“Acho que sim. A menos que tivessem saído muito silenciosamente de propósito.”

“O senhor chamaria Mark de um homem de temperamento precipitado?”

Cayley considerou isso cuidadosamente antes de responder.

“De temperamento precipitado, sim”, disse ele. “Mas não de temperamento violento.”

“Ele era bastante atlético? Ativo e rápido?”

“Ativo e rápido, sim. Não particularmente forte.”

“Sim... Mais uma pergunta. Mark tinha o hábito de carregar consigo alguma quantia considerável de dinheiro?”

“Sim. Ele sempre tinha uma nota de £100 consigo, e talvez dez ou vinte libras também.”

“Obrigado, Sr. Cayley.”

Cayley voltou pesadamente ao seu lugar. “Droga”, disse Antony para si mesmo, “por que eu gosto desse sujeito?”

“Antony Gillingham!”

Novamente o interesse ávido da sala podia ser sentido. Quem era esse estranho que se envolvera nos negócios tão misteriosamente?

Antony sorriu para Bill e subiu para dar seu depoimento.

Ele explicou como veio parar hospedado no ‘The George’ em Woodham, como ouvira dizer que a Red House ficava nas redondezas, como caminhara até lá para ver seu amigo Beverley e chegara logo após a tragédia. Pensando nisso depois, ele tinha quase certeza de que ouvira o tiro, mas isso não lhe causara nenhuma impressão na época. Ele viera para a casa pelo lado de Woodham e, consequentemente, não vira nada de Robert Ablett, que estivera alguns minutos à sua frente. A partir desse ponto, seu depoimento coincidia com o de Cayley.

“O senhor e a última testemunha chegaram juntos às janelas francesas e as encontraram fechadas?”

“Sim.”

“O senhor as empurrou e chegou ao corpo. É claro que o senhor não tinha ideia de quem era o corpo?”

“Não.”

“O Sr. Cayley disse alguma coisa?”

“Ele virou o corpo, apenas para ver o rosto, e quando viu, disse: ‘Graças a Deus’.”

Novamente os repórteres escreveram “Sensação”.

“O senhor entendeu o que ele quis dizer com isso?”

“Perguntei-lhe quem era, e ele disse que era Robert Ablett. Depois explicou que estava com medo, a princípio, de que fosse o primo com quem ele morava — Mark.”

“Sim. Ele pareceu abalado?”

“Muito, a princípio. Menos quando descobriu que não era Mark.”

Houve um risinho repentino de um cavalheiro nervoso na multidão no fundo da sala, e o legista colocou seus óculos e olhou severamente na direção de onde vinha. O cavalheiro nervoso decidiu apressadamente que chegara a hora de amarrar o cadarço de seu sapato. O legista abaixou os óculos e continuou.

“Alguém saiu da casa enquanto o senhor estava subindo pela entrada?”

“Não.”

“Obrigado, Sr. Gillingham.”

Ele foi seguido pelo Inspetor Birch. O Inspetor, percebendo que aquela era sua tarde e que os olhos do mundo estavam sobre ele, produziu uma planta da casa e explicou a situação dos diferentes cômodos. A planta foi então entregue ao júri.

O Inspetor Birch, como disse ao mundo, chegara à Red House às 16h42 na tarde em questão. Ele fora recebido pelo Sr. Matthew Cayley, que fizera uma breve declaração a ele, e então ele procedera a examinar o local do crime. As janelas francesas tinham sido arrombadas por fora. A porta que dava para o saguão estava trancada; ele revistara o cômodo minuciosamente e não encontrara nenhum vestígio de chave. No quarto que dava para o escritório, ele encontrara uma janela aberta. Não havia marcas na janela, mas era baixa e, como ele descobriu por experiência, era muito fácil sair sem tocá-la com as botas. Alguns metros fora da janela, começava um arbusto. Não havia pegadas recentes fora da janela, mas o solo estava em uma condição muito dura devido à ausência de chuva. No arbusto, no entanto, ele encontrou vários galhos no chão, quebrados recentemente, juntamente com outras evidências de que algum corpo estivera forçando sua passagem. Ele questionara todos os ligados à propriedade, e nenhum deles estivera no arbusto recentemente. Forçando uma passagem pelo arbusto, era possível para uma pessoa fazer um desvio da casa e chegar ao lado de Stanton do parque sem nunca ser vista da própria casa.

Ele fizera perguntas sobre o falecido. O falecido partira para a Austrália há uns quinze anos, devido a algum problema financeiro em casa. O falecido não era bem falado na vila de onde ele e seu irmão vieram. O falecido e seu irmão nunca estiveram em bons termos, e o fato de Mark Ablett ter herdado dinheiro fora uma causa de grande amargura entre eles. Foi pouco depois disso que Robert partira para a Austrália.

Ele fizera perguntas na estação de Stanton. Fora dia de feira em Stanton e a estação estivera mais cheia de chegadas do que o habitual. Ninguém notara particularmente a chegada de Robert Ablett; houvera muitos passageiros no trem das 14h10 daquela tarde, o trem pelo qual Robert viera indubitavelmente de Londres. Uma testemunha, no entanto, afirmaria que notara um homem parecido com Mark Ablett na estação às 15h53 daquela tarde, e esse homem pegou o trem das 15h55 para a cidade.

Havia um lago nos terrenos da Red House. Ele o arrastara, mas sem resultado...

Antony ouviu-o descuidadamente, pensando seus próprios pensamentos o tempo todo. A evidência médica seguiu, mas não havia nada a ser obtido com isso. Ele sentia-se tão perto da verdade; a qualquer momento algo poderia dar ao seu cérebro a pequena dica que ele queria. O Inspetor Birch estava apenas perseguindo o comum. O que quer que este caso fosse, não era comum. Havia algo estranho nele.

John Borden estava dando depoimento. Ele estava na plataforma de subida vendo um amigo partir no trem das 15h55 na tarde de terça-feira. Ele notara um homem na plataforma com a gola do casaco levantada e um cachecol em torno do queixo. Ele se perguntara por que o homem faria isso em um dia tão quente. O homem parecia estar tentando escapar da observação. Assim que o trem chegou, ele correu para uma carruagem. E assim por diante.

“Sempre há um John Borden em cada caso de assassinato”, disse Antony a si mesmo.

“O senhor já viu Mark Ablett?”

“Uma ou duas vezes, senhor.”

“Era ele?”

— Nunca cheguei a vê-lo bem, senhor, com a gola levantada, o cachecol e tudo mais. Mas, assim que soube do triste acontecimento e que o Sr. Ablett estava desaparecido, eu disse à Sra. Borden: “Será que era o Sr. Ablett que vi na estação?”. Então conversamos sobre o assunto e decidimos que eu deveria vir e contar ao Inspetor Birch. Era exatamente da altura do Sr. Ablett, senhor.

Antony prosseguiu com seus pensamentos....

O legista estava fazendo o resumo. O júri, disse ele, já ouvira todas as evidências e teria de decidir o que acontecera naquela sala entre os dois irmãos. Como o falecido encontrara a morte? As evidências médicas provavelmente os convenceriam de que Robert Ablett morrera em decorrência de um ferimento de bala na cabeça. Quem disparara aquela bala? Se Robert Ablett a disparara contra si mesmo, sem dúvida eles chegariam a um veredito de suicídio, mas, se assim fosse, onde estaria o revólver que a disparara, e o que teria acontecido com Mark Ablett? Se eles não acreditassem nessa possibilidade de suicídio, o que restaria? Morte acidental, homicídio justificável e assassinato. Poderia o falecido ter sido morto acidentalmente? Era possível, mas, nesse caso, teria Mark Ablett fugido? A evidência de que ele fugira da cena do crime era forte. Seu primo o vira entrar na sala, a criada Elsie Wood o ouvira discutindo com o irmão na sala, a porta fora trancada por dentro e havia sinais de que, do lado de fora da janela aberta, alguém abrira caminho recentemente através do arbusto. Quem, se não Mark? Eles teriam então de considerar se ele teria fugido caso fosse inocente da morte do irmão. Sem dúvida, pessoas inocentes perdem a cabeça às vezes. Era possível que, se ficasse provado posteriormente que Mark Ablett atirara no irmão, também pudesse ficar provado que ele agira de forma justificada e que, ao fugir do cadáver do irmão, ele realmente não tinha nada a temer das mãos da Lei. A esse respeito, ele mal precisava lembrar ao júri que eles não eram o tribunal final e que, se considerassem Mark Ablett culpado de assassinato, isso não prejudicaria seu julgamento de forma alguma, caso e quando ele fosse preso.... O júri poderia considerar seu veredito.

Eles o consideraram. Anunciaram que o falecido morrera em consequência de um ferimento de bala e que a bala fora disparada por seu irmão, Mark Ablett.

Bill virou-se para Antony ao seu lado. Mas Antony tinha ido embora. Do outro lado da sala, ele viu Andrew Amos e Parsons saindo pela porta juntos, e Antony estava entre eles.

CAPÍTULO XX. O Sr. Beverley é discreto

O inquérito fora realizado no “Lamb”, em Stanton; em Stanton, Robert Ablett seria enterrado no dia seguinte. Bill esperou do lado de fora pelo amigo, imaginando para onde ele tinha ido. Então, percebendo que Cayley sairia em breve para seu carro e que uma conversa de despedida com Cayley seria um pouco embaraçosa, ele caminhou até o pátio atrás da estalagem, acendeu um cigarro e ficou observando um cartaz rasgado e castigado pelo tempo na parede do estábulo. “GRANDE ESPETÁCULO TEATRAL” anunciava, a ocorrer na “quarta-feira, de dezembro”. Bill sorriu para si mesmo enquanto olhava para ele, pois o papel de Joe, um carteiro falador, fora interpretado por “William B. Beverl”, como os restos do cartaz ainda sustentavam, e ele fora muito menos falador do que o autor pretendera, tendo esquecido suas falas completamente, mas fora tudo muito divertido. E então ele parou de sorrir, pois não haveria mais diversão agora na Red House.

— Desculpe por mantê-lo esperando — disse a voz de Antony atrás dele. — Meus velhos amigos Amos e Parsons insistiram em me pagar uma bebida.

Ele deslizou a mão pelo braço de Bill e sorriu alegremente para ele.

— Por que você estava tão interessado neles? — perguntou Bill um pouco ressentido. — Eu não conseguia imaginar onde diabos você tinha ido parar.

Antony não disse nada. Ele estava encarando o cartaz.

— Quando isso aconteceu? — ele perguntou.

— O quê?

Antony apontou para o cartaz.

— Ah, isso? No Natal passado. Foi bem divertido.

Antony começou a rir para si mesmo.

— Você foi bom?

— Terrível. Não pretendo ser ator.

— Mark foi bom?

— Ah, com certeza. Ele adora isso.

— Rev. Henry Stutters — Sr. Matthew Cay — leu Antony.

— Esse era nosso amigo Cayley?

— Sim.

— Alguma qualidade?

— Bem, muito melhor do que eu esperava. Ele não estava interessado, mas Mark o obrigou.

— A Srta. Norris não estava atuando, vejo.

— Meu caro Tony, ela é uma profissional. É claro que não estava.

Antony riu novamente.

— Foi um grande sucesso, não foi?

— Ah, com certeza!

— Sou um tolo, e um maldito tolo — anunciou Antony solenemente. — E um maldito tolo — disse ele novamente em voz baixa, enquanto afastava Bill do cartaz e do pátio para a estrada. — E um maldito tolo. Mesmo agora... — Ele interrompeu-se e então perguntou de repente: — Mark sempre teve muitos problemas com os dentes?

— Ele ia muito ao dentista. Mas o que diabos...

Antony riu pela terceira vez.

— Que sorte! — ele riu. — Mas como você sabe?

— Nós vamos ao mesmo homem; Mark o recomendou para mim. Cartwright, na Wimpole Street.

— Cartwright, na Wimpole Street — repetiu Antony pensativo. — Sim, posso me lembrar disso. Cartwright, na Wimpole Street. Cayley ia a ele também, por acaso?

— Imagino que sim. Ah, sim, eu sei que ele ia. Mas o que diabos...

— Como era a saúde geral de Mark? Ele ia muito ao médico?

— Dificilmente, eu acho. Ele fazia muitos exercícios de manhã cedo que deveriam deixá-lo animado e alegre no café da manhã. Eles não faziam isso, mas pareciam mantê-lo em boa forma. Tony, eu gostaria que você...

Antony ergueu uma mão e o calou.

— Uma última pergunta — disse ele. — Mark gostava de nadar?

— Não, ele odiava. Não acredito que ele soubesse nadar. Tony, você está louco, ou eu estou? Ou isso é um novo jogo?

Antony apertou seu braço.

— Querido velho Bill — disse ele. — É um jogo. Que jogo! E a resposta é Cartwright, na Wimpole Street.

Eles caminharam em silêncio por oitocentos metros ao longo da estrada para Woodham. Bill tentou duas ou três vezes fazer o amigo falar, mas Antony apenas resmungou como resposta. Ele estava prestes a fazer outra tentativa quando Antony parou de repente e virou-se para ele ansiosamente.

— Eu gostaria de saber se você faria algo por mim — disse ele, olhando para ele com alguma dúvida.

— Que tipo de coisa?

— Bem, é realmente muito importante. É a única coisa que eu quero agora.

Bill ficou subitamente entusiasmado de novo.

— Diga, você realmente descobriu tudo?

Antony assentiu.

— Pelo menos, estou quase lá, Bill. É só essa única coisa que eu quero agora. Significa que você tem de voltar a Stanton. Bem, não viemos de longe; não vai levar muito tempo. Você se importa?

— Meu caro Holmes, estou ao seu dispor.

Antony deu-lhe um sorriso e ficou em silêncio por um momento, pensando.

— Existe outra estalagem em Stanton — bem perto da estação?

— O “Plough and Horses” — logo na esquina onde a estrada sobe para a estação — é essa a que você quer dizer?

— Essa deve ser a tal. Suponho que você aceitaria uma bebida, não aceitaria?

— Com certeza! — disse Bill, com um sorriso.

— Bom. Então tome uma no “Plough and Horses”. Tome duas, se quiser, e fale com o dono, ou a dona, ou quem quer que o atenda. Quero que você descubra se alguém ficou lá na segunda-feira à noite.

— Robert? — disse Bill ansiosamente.

— Eu não disse Robert — disse Antony, sorrindo. — Só quero que você descubra se eles tiveram um visitante que dormiu lá na segunda-feira à noite. Um estranho. Se sim, então qualquer detalhe que você puder obter sobre ele, sem deixar o dono saber que você está interessado...

— Deixe comigo — interrompeu Bill. — Sei exatamente o que você quer.

— Não presuma que foi Robert — ou qualquer outra pessoa. Deixe que eles descrevam o homem para você. Não os influencie inconscientemente sugerindo que ele era baixo ou alto, ou qualquer coisa desse tipo. Apenas faça com que falem. Se for o dono, é melhor você oferecer uma ou duas bebidas a ele.

— Certo — disse Bill confiantemente. — Onde eu te encontro de novo?

— Provavelmente no “The George”. Se você chegar lá antes de mim, pode pedir o jantar para as oito horas. De qualquer forma, nos encontraremos às oito, se não antes.

— Bom. — Ele acenou para Antony e caminhou rapidamente de volta para Stanton.

Antony ficou observando-o com um pequeno sorriso diante de seu entusiasmo. Então, olhou em volta lentamente, como se estivesse em busca de algo. De repente, viu o que queria. Vinte metros adiante, uma trilha seguia para a esquerda, e havia um portão um pouco mais à frente, no lado direito. Antony caminhou até o portão, enchendo seu cachimbo enquanto seguia. Então, acendeu o cachimbo, sentou-se no portão e segurou a cabeça com as mãos.

— Muito bem — disse ele para si mesmo —, vamos começar do começo.

Eram quase oito horas quando William Beverley, o famoso detetive, chegou, cansado e empoeirado, ao “The George”, para encontrar Antony, fresco e limpo, parado sem chapéu à porta, esperando por ele.

— O jantar está pronto? — foram as primeiras palavras de Bill.

— Sim.

— Então vou apenas me lavar. Deus, estou exausto.

— Eu nunca deveria ter pedido isso a você — disse Antony arrependido.

— Está tudo bem. Não demoro nada. — No meio da escada, ele se virou e perguntou: — Estou no seu quarto?

— Sim. Sabe o caminho?

— Sim. Comece a servir, quer? E peça bastante cerveja. — Ele desapareceu no topo da escada. Antony entrou lentamente.

Quando o primeiro impacto de seu apetite diminuiu e ele conseguiu reservar um pouco de tempo entre as garfadas, Bill deu um relato de suas aventuras. O dono do “Plough and Horses” fora difícil, decididamente difícil — Bill não conseguira, a princípio, tirar nada dele. Mas Bill fora discreto; céus, como ele fora discreto.

— Ele continuou falando sobre o inquérito, e que caso estranho fora, e assim por diante, e como houve um inquérito na família de sua esposa uma vez, do qual ele parecia bastante orgulhoso, e eu continuava dizendo: “Bastante ocupado, suponho, agora, hein?”, e então ele dizia: “Razoável”, e continuava sobre Susan — aquela que teve o inquérito — ele falava sobre isso como se fosse uma doença — e então eu tentava de novo e dizia: “Tempos calmos, imagino, agora, eh?”, e ele dizia “Razoável” de novo, e então era hora de lhe oferecer outra bebida, e eu não parecia chegar muito perto. Mas finalmente consegui. Perguntei se ele conhecia John Borden — ele foi o homem que disse ter visto Mark na estação. Bem, ele sabia tudo sobre Borden, e depois que ele me contou tudo sobre a família da esposa de Borden, e como um deles morrera queimado — depois de você com a cerveja; obrigado — bem, então eu disse casualmente que deve ser muito difícil lembrar de alguém que você acabou de ver uma vez, para identificá-lo depois, e ele concordou que seria “razoavelmente difícil”, e então...

— Me dê três palpites — interrompeu Antony. — Você perguntou se ele se lembrava de todo mundo que vinha à estalagem?

— Isso mesmo. Esperto, não foi?

— Brilhante. E qual foi o resultado?

— O resultado foi uma mulher.

— Uma mulher? — disse Antony ansiosamente.

— Uma mulher — disse Bill enfaticamente. — É claro que eu achei que ia ser Robert — você também achou, não achou? — mas não foi. Foi uma mulher. Chegou bem tarde na segunda-feira à noite em um carro — dirigindo sozinha — partiu cedo na manhã seguinte.

— Ele a descreveu?

— Sim. Ela era razoável. Razoavelmente alta, idade razoável, cor razoável, e assim por diante. Não ajuda muito, ajuda? Mas ainda assim — uma mulher. Isso estraga sua teoria?

Antony balançou a cabeça.

— Não, Bill, de jeito nenhum — disse ele.

— Você sabia o tempo todo? Pelo menos, você adivinhou?

— Espere até amanhã. Contarei tudo amanhã.

— Amanhã! — disse Bill com grande decepção.

— Bem, vou lhe contar uma coisa esta noite, se você prometer não fazer mais perguntas. Mas você provavelmente já sabe.

— O que é?

— Apenas que Mark Ablett não matou o irmão.

— E Cayley matou?

— Essa é outra pergunta, Bill. No entanto, a resposta é que Cayley também não matou.

— Então quem diabos...

— Tome mais cerveja — disse Antony com um sorriso. E Bill teve de se contentar com isso.

Eles foram cedo para a cama naquela noite, pois ambos estavam cansados. Bill dormiu alto e desafiadoramente, mas Antony ficou acordado, imaginando. O que estava acontecendo na Red House agora? Talvez ele ouvisse algo pela manhã; talvez recebesse uma carta. Ele repassou toda a história desde o início — existia alguma possibilidade de erro? O que a polícia faria? Eles descobririam algum dia? Ele deveria ter contado a eles? Bem, deixe que eles descubram; era o trabalho deles. Certamente ele não poderia ter cometido um erro desta vez. Não adiantava imaginar agora; ele saberia definitivamente pela manhã.

Pela manhã, havia uma carta para ele.

CAPÍTULO XXI. O pedido de desculpas de Cayley

“Meu caro Sr. Gillingham,

“Deduzo de sua carta que você fez certas descobertas que sente ser seu dever comunicar à polícia e que, nesse caso, minha prisão sob a acusação de assassinato seguiria inevitavelmente. Por que, nessas circunstâncias, você me daria um aviso tão amplo de suas intenções, eu não entendo, a menos que seja porque você não está totalmente sem simpatia por mim. Mas, quer você simpatize ou não, de qualquer forma você vai querer saber — e eu quero que você saiba — a maneira exata pela qual Ablett encontrou a morte e as razões que tornaram essa morte necessária. Se a polícia precisa ser informada de algo, prefiro que eles também saibam de toda a história. Eles, e até mesmo você, podem chamar isso de assassinato, mas, a essa altura, eu já estarei fora do caminho. Deixe que chamem do que quiserem.

“Devo começar levando-o de volta a um dia de verão, quinze anos atrás, quando eu era um menino de treze anos e Mark, um jovem de vinte e cinco. Toda a sua vida era uma encenação, e, naquele momento, ele estava fingindo ser um filantropo. Ele sentava-se em nossa pequena sala de estar, batendo suas luvas contra as costas da mão esquerda, e minha mãe, boa alma, pensava que nobre jovem cavalheiro ele era, e Philip e eu, apressadamente lavados e enfiados em golas, ficávamos à sua frente, dando cotoveladas um no outro e chutando os calcanhares, amaldiçoando-o em nossos corações por ter interrompido nosso jogo. Ele decidira adotar um de nós, o bondoso primo Mark. O céu sabe por que ele me escolheu. Philip tinha onze anos; dois anos a mais para esperar. Talvez fosse por isso.

“Bem, Mark me educou. Fui para uma escola pública e para Cambridge, e tornei-me seu secretário. Bem, muito mais do que seu secretário, como seu amigo Beverley talvez lhe tenha dito: seu agente imobiliário, seu consultor financeiro, seu mensageiro, seu... mas, acima de tudo, seu público. Mark nunca pôde viver sozinho. Sempre tinha de haver alguém para ouvi-lo. Acho que, no fundo, ele esperava que eu fosse seu Boswell. Ele me disse um dia que me tornara seu testamenteiro literário — pobre diabo. E ele costumava me escrever as mais absurdas e longas cartas quando eu estava longe dele, cartas que eu lia uma vez e depois rasgava. A futilidade daquele homem!

“Foi há três anos que Philip se meteu em problemas. Ele fora apressado através de uma escola secundária barata e para um escritório em Londres, e descobrira lá que não havia muita diversão a ser obtida neste mundo com duas libras por semana. Recebi uma carta frenética dele um dia, dizendo que precisava de cem de imediato, ou estaria arruinado, e fui a Mark pedir o dinheiro. Apenas para emprestar, você entende; ele me dava um bom salário e eu poderia ter pago de volta em três meses. Mas não. Ele não viu nada para si mesmo nisso, suponho; sem aplausos, sem admiração. A gratidão de Philip seria para mim, não para ele. Implorei, ameacei, discutimos; e, enquanto discutíamos, Philip foi preso. Isso matou minha mãe — ele sempre fora o favorito dela —, mas Mark, como de costume, obteve sua satisfação com isso. Ele se vangloriou de seu julgamento de caráter por ter escolhido a mim e não a Philip doze anos antes!

“Mais tarde, pedi desculpas a Mark pelas coisas imprudentes que eu dissera a ele, e ele desempenhou o papel de um cavalheiro magnânimo com sua habilidade habitual, mas, embora externamente fôssemos como antes um para o outro, daquele dia em diante, embora sua vaidade nunca o deixasse ver, eu era seu inimigo mais amargo. Se isso fosse tudo, pergunto-me se eu o teria matado? Viver em termos de amizade íntima com um homem que você odeia é um trabalho perigoso para seu amigo. Por causa de sua crença em mim como seu protegido admirador e grato, e sua crença em si mesmo como meu benfeitor, ele estava agora totalmente em meu poder. Eu poderia levar meu tempo e escolher minha oportunidade. Talvez eu não o tivesse matado, mas jurei me vingar — e lá estava ele, pobre tolo vaidoso, à minha mercê. Eu não tinha pressa.

“Dois anos depois, tive de reconsiderar minha posição, pois minha vingança estava sendo tirada de minhas mãos. Mark começou a beber. Poderia eu tê-lo impedido? Não creio, mas, para minha imensa surpresa, vi-me tentando. Instinto, talvez, superando a razão; ou será que ponderei e disse a mim mesmo que, se ele bebesse até morrer, eu perderia minha vingança? Pela minha honra, não posso lhe dizer; mas, por qualquer motivo que fosse, eu realmente queria impedi-lo. Beber é algo tão vil, de qualquer forma.

“Não pude impedi-lo, mas mantive-o dentro de certos limites, de modo que ninguém além de mim sabia de seu segredo. Sim, mantive-o externamente decente; e talvez agora eu estivesse me tornando como o canibal que mantém sua vítima em boas condições para seus próprios fins. Eu costumava regozijar-me com Mark, pensando em como ele era totalmente meu para arruinar como eu quisesse, financeiramente, moralmente, da maneira que me desse mais satisfação. Eu só precisava retirar minha mão de cima dele e ele afundaria. Mas, novamente, eu não tinha pressa.

“Então ele se matou. Aquele pequeno bêbado fútil, consumido por seu próprio egoísmo e vaidade, ofereceu sua vileza à mulher mais verdadeira e pura desta terra. Você a viu, Sr. Gillingham, mas nunca conheceu Mark Ablett. Mesmo que ele não fosse um bêbado, não havia chance de felicidade para ela com ele. Eu o conhecia há muitos anos, mas nunca uma vez o vi comovido por qualquer emoção generosa. Ter vivido com aquela pequena alma murcha teria sido o inferno para ela; e um inferno mil vezes pior quando ele começou a beber.

“Então ele tinha de ser morto. Eu era o único que restava para protegê-la, pois sua mãe estava mancomunada com Mark para causar sua ruína. Eu o teria matado abertamente por causa dela, e com que alegria, mas eu não tinha intenção de me sacrificar desnecessariamente. Ele estava em meu poder; eu poderia persuadi-lo a quase qualquer coisa com lisonjas; certamente não seria difícil dar à sua morte a aparência de um acidente.

“Não preciso ocupar seu tempo contando-lhe sobre os muitos planos que fiz e rejeitei. Durante alguns dias, inclinei-me para um infeliz acidente de barco no lago — Mark, um nadador muito indiferente, eu mesmo quase exausto em uma tentativa galante de sustentá-lo. E então ele mesmo me deu a ideia, ele e a Srta. Norris juntos, e assim se colocou em minhas mãos; sem risco de descoberta, eu teria dito, se você não tivesse me descoberto.”

“Estávamos falando sobre fantasmas. Mark tinha sido ainda mais vaidoso, pomposo e absurdo do que o habitual, e percebi que a Srta. Norris estava irritada com isso. Depois do jantar, ela sugeriu que se vestisse de fantasma e o assustasse. Achei que era meu dever avisá-la de que Mark recebia muito mal qualquer piada feita às suas custas, mas ela estava decidida a fazê-lo. Cedi com relutância. Com relutância, também, contei-lhe o segredo da passagem. (Existe uma passagem subterrânea da biblioteca até o campo de bocha. Você deveria exercitar sua engenhosidade, Sr. Gillingham, tentando descobri-la. Mark a encontrou por acaso há um ano. Foi uma dádiva para ele; podia beber lá com maior discrição. Mas ele teve de me contar sobre ela. Ele queria um público, mesmo para seus vícios.)

“Contei à Srta. Norris, então, porque era necessário para o meu plano que Mark ficasse completamente assustado. Sem a passagem, ela nunca poderia ter chegado perto o suficiente do campo de bocha para alarmá-lo adequadamente, mas, como combinei com ela, ela fez a aparição mais eficaz, e Mark estava exatamente no estado de fúria e vingança que eu precisava. A Srta. Norris, entenda, é uma atriz profissional. Não preciso dizer que, para ela, parecia que eu estava animado por nenhum outro sentimento senão um desejo juvenil de realizar uma boa brincadeira — uma brincadeira direcionada tanto contra os outros quanto contra Mark.

“Ele veio até mim naquela noite, como eu esperava, ainda tremendo de indignação. A Srta. Norris nunca deveria ser convidada para a casa novamente; eu deveria tomar nota especial disso; nunca mais. Foi ultrajante. Se ele não tivesse uma reputação de anfitrião a manter, ele a expulsaria na manhã seguinte. Como estava, ela podia ficar; a hospitalidade exigia isso; mas nunca mais ela viria à Red House — ele estava absolutamente determinado quanto a isso. Eu deveria tomar nota especial disso.

“Eu o consolei, alisei suas penas eriçadas. Ela tinha se comportado muito mal, mas ele estava com toda a razão; ele deveria tentar não demonstrar o quanto a reprovava. E, claro, ela nunca mais voltaria — isso era óbvio. E então, de repente, comecei a rir. Ele olhou para mim, indignado.

“‘Há alguma piada?’ disse ele, friamente.

“Ri suavemente de novo.

“‘Eu estava apenas pensando’, disse eu, ‘que seria bastante divertido se você... bem, se vingasse.’

“‘Minha vingança? Como quer dizer?’

“‘Bem, pagasse na mesma moeda.’

“‘Quer dizer, tentar assustá-la?’

“‘Não, não; mas se vestir e enganá-la um pouco. Fazer com que ela parecesse uma tola na frente dos outros.’ Ri de mim mesmo novamente. ‘Serviria muito bem para ela.’

“Ele saltou, excitado.

“‘Por Júpiter, Cay!’ ele gritou. ‘Se eu pudesse! Como? Você deve pensar em um jeito.’

“Não sei se Beverley lhe contou sobre a atuação de Mark. Ele era um amante de todas as artes e vaidoso de seus pequenos talentos, mas, como ator, considerava-se o mais maravilhoso. Certamente ele tinha alguma habilidade para o palco, desde que tivesse o palco só para si e estivesse atuando para uma plateia admirada. Como ator profissional em um pequeno papel, ele teria sido um caso perdido; como amador interpretando o papel principal, ele merecia tudo o que os jornais locais já tinham dito a seu respeito. E, assim, a ideia de nos dar uma apresentação privada, dirigida contra uma atriz profissional que zombara dele, apelou igualmente à sua vaidade e ao seu desejo de retaliação. Se ele, Mark Ablett, com sua atuação maravilhosa, pudesse fazer Ruth Norris parecer uma tola diante dos outros, pudesse enganá-la e, depois, juntar-se à risada sobre ela, ele teria, de fato, uma vingança digna!

“Isso lhe parece infantil, Sr. Gillingham? Ah, você nunca conheceu Mark Ablett.

“‘Como, Cay, como?’ ele disse, ansioso.

“‘Bem, eu não pensei nisso realmente’, protestei. ‘Foi apenas uma ideia.’

“Ele começou a pensar por si mesmo.

“‘Eu poderia fingir ser um empresário, que veio vê-la — mas suponho que ela conheça todos eles. Que tal um entrevistador?’

“‘Vai ser difícil’, disse eu, pensativo. ‘Você tem um rosto bastante característico, sabe. E sua barba...’

“‘Eu a rasparia’, ele rebateu.

“‘Meu caro Mark!’

“Ele desviou o olhar e murmurou: ‘De qualquer forma, tenho pensado em tirá-la. E, além disso, se vou fazer a coisa, vou fazê-la corretamente.’

“‘Sim, você sempre foi um artista’, disse eu, olhando para ele com admiração.

“Ele ronronou. Ser chamado de artista era o que ele mais desejava. Agora eu sabia que o tinha.

“‘Mesmo assim’, continuei, ‘mesmo sem sua barba e bigode você poderia ser reconhecido. A menos, é claro...’ Parei.

“‘A menos o quê?’

“‘Você finge ser Robert.’ Comecei a rir de mim mesmo novamente. ‘Por Júpiter!’ eu disse, ‘essa não é uma má ideia. Finja ser Robert, o irmão dissipado, e torne-se desagradável para a Srta. Norris. Peça dinheiro emprestado a ela, e coisas desse tipo.’

“Ele olhou para mim, com seus olhinhos brilhantes, balançando a cabeça ansiosamente.

“‘Robert’, disse ele. ‘Sim. Como vamos fazer isso?’

“Havia realmente um Robert, Sr. Gillingham, como não tenho dúvidas de que você e o Inspetor descobriram. E ele era um dissipado e foi para a Austrália. Mas ele nunca veio à Red House na terça-feira à tarde. Ele não poderia ter vindo, porque morreu (sem ser lamentado) há três anos. Mas não havia ninguém que soubesse disso, exceto Mark e eu, pois Mark era o único da família que restava, já que sua irmã morrera no ano passado. Embora eu duvide, de qualquer modo, se ela sabia se Robert estava vivo ou morto. Não se falava dele.

“Nos dois dias seguintes, Mark e eu elaboramos nossos planos. Você entende agora que nossos objetivos não eram idênticos. O esforço de Mark era que seu engano durasse, digamos, um par de horas; o meu, que ele fosse para o túmulo com ele. Ele só tinha que enganar a Srta. Norris e os outros convidados; eu tinha que enganar o mundo. Quando ele estivesse vestido como Robert, eu iria matá-lo. Robert estaria, então, morto, Mark (claro) desaparecido. O que alguém poderia pensar senão que Mark matara Robert? Mas você vê como era importante que Mark entrasse totalmente em sua última (e definitiva) interpretação. Meias medidas seriam fatais.

“Você dirá que era impossível fazer a coisa com total perfeição. Respondo novamente que você nunca conheceu Mark. Ele estava sendo o que mais desejava ser — um artista. Nenhum Otelo pintou-se de preto com tanto entusiasmo quanto Mark. Sua barba iria de qualquer maneira — talvez um comentário casual da Srta. Norbury tenha ajudado aqui. Ela não gostava de barbas. Mas era importante para mim que as mãos do homem morto não fossem as mãos de um cavalheiro manicurado. Cinco minutos brincando com a vaidade do artista cuidaram de suas mãos. Ele deixou as unhas crescerem e depois as cortou de forma irregular. ‘A Srta. Norris notaria suas mãos imediatamente’, eu disse. ‘Além disso, como um artista...’

“Assim com suas roupas de baixo. Mal era necessário avisá-lo de que suas ceroulas poderiam aparecer acima da borda de suas meias; como artista, ele já tinha decidido pelas ceroulas ao estilo de Robert. Eu as comprei, e outras coisas, em Londres para ele. Mesmo que eu não tivesse cortado todo vestígio do nome do fabricante, ele o teria feito instintivamente. Como australiano e artista, ele não poderia ter um endereço no Leste de Londres em suas roupas de baixo. Sim, estávamos fazendo a coisa minuciosamente, ambos nós; ele como artista, eu como... bem, você pode dizer assassino, se quiser. Não me importarei agora.

“Nossos planos estavam definidos. Fui a Londres na segunda-feira e escrevi para ele uma carta de Robert. (O toque artístico novamente.) Também comprei um revólver. Na manhã de terça-feira, ele anunciou a chegada de Robert à mesa do café da manhã. Robert estava vivo agora — tínhamos seis testemunhas para provar; seis testemunhas que sabiam que ele viria naquela tarde. Nosso plano privado era que Robert se apresentasse às três horas, pronto para o retorno do grupo de golfe pouco depois. A empregada iria procurar por Mark e, não o encontrando, voltaria ao escritório para me encontrar entretendo Robert na ausência de Mark. Eu explicaria que Mark deve ter saído para algum lugar e eu mesmo apresentaria o irmão dissipado à mesa do chá. A ausência de Mark não causaria nenhum comentário, pois seria geralmente sentido — de fato, Robert sugeriria isso — que ele estava com medo de encontrar seu irmão. Então, Robert se tornaria divertidamente ofensivo com os convidados, particularmente, é claro, com a Srta. Norris, até que achasse que a brincadeira já tinha ido longe demais.

“Esse era nosso plano privado. Talvez eu devesse dizer que era o plano privado de Mark. O meu era diferente.

“O anúncio no café da manhã correu bem. Depois que o grupo de golfe saiu, tivemos a manhã para completar nossos preparativos. O que mais me preocupava era estabelecer, da forma mais completa possível, a identidade de Robert. Por essa razão, sugeri a Mark que, quando vestido, ele saísse pela passagem secreta até o campo de bocha e voltasse pelo caminho de carruagens, tendo o cuidado de entrar em conversa com o porteiro. Dessa forma, eu teria mais duas testemunhas da chegada de Robert — primeiro o porteiro e, segundo, um dos jardineiros que eu colocaria trabalhando no gramado da frente. Mark, é claro, estava disposto o suficiente. Ele poderia praticar seu sotaque australiano com o porteiro. Era realmente divertido ver com que prontidão ele caía em cada sugestão que eu fazia. Nunca uma morte foi tão cuidadosamente planejada por sua vítima.

“Ele trocou de roupa pelas roupas de Robert no quarto do escritório. Esse era o caminho mais seguro — para ambos. Quando estava pronto, ele me chamou e eu o inspecionei. Era extraordinário como ele parecia bem no papel. Suponho que os sinais de sua dissipação já tivessem se marcado em seu rosto, mas tinham sido escondidos até então por seu bigode e barba; pois agora, barbeado, eles ficaram expostos ao mundo do qual os tínhamos escondido tão cuidadosamente, e ele era, de fato, o dissipado que fingia ser.

“‘Por Júpiter, você está maravilhoso’, disse eu.

“Ele sorriu e chamou minha atenção para os vários toques artísticos que eu poderia ter perdido.

“‘Maravilhoso’, disse eu para mim mesmo novamente. ‘Ninguém poderia adivinhar.’

“Espiei o corredor. Estava vazio. Corremos para a biblioteca; ele entrou na passagem e foi embora. Voltei ao quarto, recolhi todas as roupas que ele descartou, fiz um pacote com elas e voltei para a passagem. Então, sentei-me no corredor e esperei.

“Você ouviu o depoimento de Stevens, a empregada. Assim que ela estava a caminho do Templo em busca de Mark, entrei no escritório. Minha mão estava no bolso lateral e, em minha mão, estava o revólver.

“Ele começou imediatamente em seu personagem de Robert — alguma conversa fiada sobre trabalhar na sua passagem da Austrália; uma pequena apresentação privada para minha edificação. Então, com sua voz natural, regozijando-se com sua retaliação bem planejada contra a Srta. Norris, ele explodiu: ‘Minha vez agora. Espere só.’ Foi isso que Elsie ouviu. Ela não tinha nada que estar lá e poderia ter arruinado tudo, mas, como aconteceu, foi a coisa mais sortuda que poderia ter ocorrido. Pois foi a única peça de evidência que eu queria; evidência, além da minha, de que Mark e Robert estavam na sala juntos.

“Eu não disse nada. Eu não ia correr o risco de ser ouvido falando naquela sala. Apenas sorri para o pobre tolo, tirei meu revólver e atirei nele. Então voltei para a biblioteca e esperei — exatamente como disse no meu depoimento.

“Você consegue imaginar, Sr. Gillingham, o choque que sua aparição repentina me causou? Você consegue imaginar os sentimentos de um ‘assassino’ que (como ele pensa) planejou para todas as possibilidades e é então confrontado repentinamente com um problema totalmente novo? Que diferença sua vinda faria? Eu não sabia. Talvez nenhuma; talvez tudo. E eu tinha esquecido de abrir a janela!

“Não sei se você achará meu plano para matar Mark engenhoso. Talvez não. Mas, se mereço algum elogio no assunto, acho que mereço pela maneira como me recompus diante da catástrofe inesperada de sua chegada. Sim, abri uma janela, Sr. Gillingham, bem debaixo do seu nariz; a janela certa também, você teve a gentileza de dizer. E as chaves — sim, isso foi esperto da sua parte, mas acho que fui mais esperto. Eu o enganei sobre as chaves, Sr. Gillingham, como descobri quando tomei a liberdade de ouvir uma conversa no campo de bocha entre você e seu amigo Beverley. Onde eu estava? Ah, você deve procurar por aquela passagem secreta, Sr. Gillingham.

“Mas o que estou dizendo? Eu o enganei mesmo? Você descobriu o segredo — que Robert era Mark — e isso é tudo o que importa. Como você descobriu? Nunca saberei agora. Onde errei? Talvez você tenha me enganado o tempo todo. Talvez você soubesse sobre as chaves, sobre a janela, até mesmo sobre a passagem secreta. Você é um homem inteligente, Sr. Gillingham.

“Eu estava com as roupas de Mark nas mãos. Eu poderia tê-las deixado na passagem, mas o segredo da passagem agora estava revelado. A Srta. Norris sabia disso. Esse era o ponto fraco do meu plano, talvez, que a Srta. Norris tivesse que saber. Então, escondi-as no lago, tendo o Inspetor, gentilmente, o dragado para mim primeiro. Um par de chaves juntou-se a elas, mas fiquei com o revólver. Foi uma sorte, não foi, Sr. Gillingham?

“Não creio que haja mais nada para lhe contar. Esta é uma longa carta, mas, afinal, é a última que escreverei. Houve um tempo em que eu esperava que pudesse haver um futuro feliz para mim, não na Red House, não sozinho. Talvez nunca tenha passado de um devaneio ocioso, pois não sou mais digno dela do que Mark era. Mas eu poderia tê-la feito feliz, Sr. Gillingham. Deus, como eu teria trabalhado para fazê-la feliz! Mas agora isso é impossível. Oferecer-lhe a mão de um assassino seria tão ruim quanto oferecer-lhe a mão de um bêbado. E Mark morreu por isso. Eu a vi esta manhã. Ela foi muito doce. É um mundo difícil de entender.

“Bem, bem, todos nós nos fomos agora — os Abletts e os Cayleys. Imagino o que o velho avô Cayley pensa de tudo isso. Talvez seja melhor que tenhamos nos extinguido. Não que houvesse algo de errado com Sarah — exceto seu gênio. E ela tinha o nariz dos Ablett — não se pode fazer muito com aquilo. Estou feliz que ela não tenha deixado filhos.

“Adeus, Sr. Gillingham. Sinto muito que sua estadia conosco não tenha sido de uma natureza mais agradável, mas você entende as dificuldades em que fui colocado. Não deixe que Bill pense muito mal de mim. Ele é um bom sujeito; cuide dele. Ele ficará surpreso. Os jovens estão sempre surpresos. E obrigado por me deixar terminar do meu próprio jeito. Suponho que você tenha simpatizado um pouco, sabe. Poderíamos ter sido amigos em outro mundo — você e eu, e eu e ela. Diga a ela o que quiser. Tudo ou nada. Você saberá o que é melhor. Adeus, Sr. Gillingham.

“MATTHEW CAYLEY.

“Estou solitário esta noite sem Mark. Isso é engraçado, não é?”

— Bem, presumi que fosse. Então, comecei a ver um x que se encaixaria exatamente nesta parte do problema — a parte das roupas. Vi Mark trocando de roupa; vi-o instintivamente jogando o colarinho no cesto de roupa suja, exatamente como sempre jogara todos os colarinhos que já tirara, mas deixando o resto das roupas sobre uma cadeira da maneira habitual; e vi Cayley recolhendo todas as roupas depois — todas as roupas visíveis — e não percebendo que o colarinho não estava lá.

— Continue — disse Bill, ansioso.

— Bem, eu estava bastante seguro quanto a isso, e queria uma explicação. Por que Mark se trocara lá embaixo em vez de em seu quarto? A única resposta era que o fato de ele se trocar tinha de ser mantido em segredo. Quando ele se trocou? O único momento possível foi entre o almoço (quando ele seria visto pelos criados) e o momento da chegada de Robert. E quando Cayley recolheu as roupas em um embrulho? Novamente, a única resposta era "antes da chegada de Robert". Então, outro x era necessário — para se encaixar nessas três condições.

— E a resposta foi que um assassinato era pretendido, mesmo antes de Robert chegar?

— Sim. Bem, agora, não poderia ser pretendido apenas com base naquela carta, a menos que houvesse muito mais por trás da carta do que sabíamos. Tampouco era possível que um assassinato fosse pretendido sem mais preparação do que trocar para um terno diferente para escapar. Aquilo era infantil demais. Além disso, se Robert deveria ser assassinado, por que se dar ao trabalho de anunciar a existência dele a todos vocês — até mesmo, ao custo de algum transtorno, à Sra. Norbury? O que tudo aquilo significava? Eu não sabia. Mas comecei a sentir agora que Robert era apenas um incidente; que o plano era um plano de Cayley contra Mark — ou para levá-lo a matar seu irmão, ou para levar seu irmão a matá-lo — e que, por alguma razão inexplicável, Mark parecia estar se prestando ao plano. — Ele ficou em silêncio por um momento e então disse, quase para si mesmo: — Eu tinha visto as garrafas de conhaque vazias naquele armário.

— Você nunca disse nada sobre elas — queixou-se Bill.

— Só as vi depois. Eu estava procurando o colarinho, lembra-se. Elas voltaram à minha mente depois; eu sabia como Cayley se sentiria a respeito... Pobre diabo!

— Continue — disse Bill.

— Bem, então tivemos o inquérito e, é claro, notei, e suponho que você também, o fato curioso de que Robert pedira informações sobre o caminho na segunda guarita e não na primeira. Então falei com Amos e Parsons. Isso tornou a coisa mais curiosa. Amos me disse que Robert fizera um esforço para falar com ele; na verdade, chamara por ele. Parsons me disse que sua esposa estivera em seu pequeno jardim na primeira guarita a tarde toda e tinha certeza de que Robert nunca passara por lá. Ele também me disse que Cayley o colocara para fazer um serviço no gramado da frente naquela tarde. Então, fiz outra suposição. Robert usara a passagem secreta — a passagem que sai no parque entre a primeira e a segunda guaritas. Robert, então, estivera na casa; fora um plano combinado entre Robert e Cayley. Mas como Robert poderia estar lá sem que Mark soubesse? Obviamente, Mark também sabia. O que tudo aquilo significava?

— Quando foi isso? — interrompeu Bill. — Logo depois do inquérito — depois que você viu Amos e Parsons, é claro?

— Sim. Levantei-me, deixei-os e vim procurar você. Eu tinha voltado às roupas então. Por que Mark trocou de roupa tão secretamente? Disfarce? Mas e quanto ao rosto dele? Isso era muito mais importante do que as roupas. O rosto dele, a barba dele — ele teria de raspar a barba — e então... oh, idiota! Eu vi você olhando para aquele cartaz. Mark atuando, Mark maquiado, Mark disfarçado. Oh, idiota inestimável! Mark era Robert... Fósforos, por favor.

Bill passou os fósforos novamente, esperou até que Antony reacendesse o cachimbo e então estendeu a mão para eles, exatamente quando estavam indo para o bolso do outro.

— Sim — disse Bill, pensativo. — Sim... Mas espere um momento. E quanto ao "Plough and Horses"? — Antony olhou comicamente para ele.

— Você nunca me perdoará, Bill — disse ele. — Você nunca mais virá caçar pistas comigo.

— O que você quer dizer?

Antony suspirou.

— Foi uma farsa, Watson. Eu queria você fora do caminho. Queria ficar sozinho. Eu tinha adivinhado meu x e queria testá-lo — testá-lo de todas as maneiras, por tudo o que tínhamos descoberto. Eu simplesmente precisava ficar sozinho naquele momento. Então... — ele sorriu e acrescentou: — Bem, eu sabia que você queria beber algo.

— Você é um diabo — disse Bill, olhando fixamente para ele. — E seu interesse quando lhe contei que uma mulher estivera hospedada lá...

— Bem, foi apenas educado demonstrar interesse quando você se deu a tanto trabalho.

— Seu bruto! Você... você Sherlock! E então você continua tentando roubar meus fósforos. Bem, continue.

— É só isso. Meu x se encaixou.

— Você adivinhou sobre a Srta. Norris e tudo aquilo?

— Bem, não exatamente. Eu não percebi que Cayley tinha trabalhado para isso desde o início — tinha incitado a Srta. Norris a assustar Mark. Achei que ele apenas aproveitara a oportunidade.

Bill ficou em silêncio por um longo tempo. Então, tragando seu cachimbo, disse lentamente: — Cayley se matou?

Antony deu de ombros.

— Pobre diabo — disse Bill. — Foi decente da sua parte dar a ele uma chance. Fico feliz que tenha feito isso.

— Eu não pude evitar gostar de Cayley de certa forma, sabe.

— Ele é um diabo inteligente. Se você não tivesse aparecido exatamente quando apareceu, ele nunca teria sido descoberto.

— Eu me pergunto. Foi engenhoso, mas é frequentemente a coisa engenhosa que acaba sendo descoberta. A coisa embaraçosa do ponto de vista de Cayley era que, embora Mark estivesse desaparecido, nem ele nem seu corpo podiam ser encontrados. Bem, isso não acontece frequentemente com um homem desaparecido. Ele geralmente é descoberto no final; um criminoso profissional; talvez não — mas um amador como Mark! Ele poderia ter guardado o segredo de como matou Mark, mas acho que teria se tornado óbvio, mais cedo ou mais tarde, que ele o matara.

— Sim, há algo nisso... Oh, apenas me diga uma coisa. Por que Mark contou à Srta. Norbury sobre seu irmão imaginário?

— Isso também me intrigou um pouco, Bill. Pode ser que ele estivesse apenas fazendo o número de Otelo — pintando-se de preto por inteiro. Quero dizer, ele pode ter ficado tão absorto em sua aparência como Robert que quase passou a acreditar em Robert, e teve de contar a todos. É mais provável, no entanto, que ele sentisse que, tendo contado a todos vocês na casa, seria melhor contar à Srta. Norbury, caso ela encontrasse um de vocês; caso em que, se vocês mencionassem a chegada iminente de Robert, ela poderia dizer: "Oh, tenho certeza de que ele não tem irmão; ele teria me dito se tivesse", e assim estragaria sua piada. Possivelmente, também, Cayley o incentivou; Cayley obviamente queria que o maior número possível de pessoas soubesse sobre Robert.

— Você vai contar à polícia?

— Sim, suponho que eles terão de saber. Cayley pode ter deixado outra confissão. Espero que ele não me entregue; veja, eu fui uma espécie de cúmplice desde ontem à noite. E preciso ir ver a Srta. Norbury.

— Eu perguntei — explicou Bill — porque estava me perguntando o que deveria dizer a... a Betty. Srta. Calladine. Veja, ela certamente perguntará.

— Talvez você não a veja novamente por um longo, longo tempo — disse Antony tristemente.

— Na verdade, acontece que sei que ela estará nos Barrington. E eu vou para lá amanhã.

— Bem, é melhor você contar a ela. Você obviamente está morrendo de vontade. Apenas não deixe que ela diga nada por um dia ou dois. Eu escreverei para você.

— Combinado!

Antony bateu as cinzas de seu cachimbo e levantou-se.

— Os Barrington — disse ele. — Uma festa grande?

— Acho que sim, mais ou menos.

Antony sorriu para o amigo.

— Sim. Bem, se algum deles por acaso for assassinado, você pode me chamar. Estou apenas começando a pegar o jeito.

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