O LÍRIO VERMELHO
De Anatole France
O verdadeiro nome do sujeito deste prefácio é Jacques-Anatole Thibault. Nasceu em Paris, a 16 de abril de 1844, filho de um livreiro do Quai Malaquais, à sombra do Instituto. Foi educado no Collège Stanislas e publicou, em 1868, um ensaio sobre Alfred de Vigny. A este seguiram-se dois volumes de poesia: ‘Les Poèmes Dorés’ (1873) e ‘Les Noces Corinthiennes’ (1876). Com este último livro, a sua reputação consolidou-se.
Anatole France pertence à classe de poetas conhecidos como “Les Parnassiens”. Contudo, um livro como ‘Les Noces Corinthiennes’ deveria ser classificado entre um grupo de líricos anteriores, na medida em que mostra, em grande grau, a influência de André Chénier e Alfred de Vigny. France foi, e é, também um colaborador diligente de muitos jornais e revistas, entre outros, ‘Le Globe, Les Débats, Le Journal Officiel, L’Echo de Paris, La Revue de Famille’ e ‘Le Temps’. No último jornal mencionado, sucedeu a Jules Claretie. É, do mesmo modo, Bibliotecário do Senado e membro da Academia Francesa desde 1896.
Aos dois volumes de poesia acima mencionados seguiram-se muitas obras em prosa, que notaremos. Os escritos críticos de France estão reunidos em quatro volumes, sob o título ‘La Vie Littéraire’ (1888-1892); os seus artigos políticos em ‘Opinions Sociales’ (2 vols., 1902). Combina no seu estilo traços de Racine, Voltaire, Flaubert e Renan e, de facto, alguns dos seus romances, especialmente ‘Thaïs’ (1890), ‘Jérôme Coignard’ (1893) e ‘Le Lys Rouge’ (1894), que foi coroado pela Academia, são romances de primeira ordem.
A crítica parece a Anatole France a mais recente e possivelmente a derradeira evolução da expressão literária, “admiravelmente adequada a uma sociedade altamente civilizada, rica em recordações e antigas tradições... Procede”, na sua opinião, “da filosofia e da história, e exige para o seu desenvolvimento uma absoluta liberdade intelectual... É a última em data de todas as formas literárias, e acabará por absorvê-las a todas... Para ser perfeitamente franco, o crítico deveria dizer: ‘Senhores, proponho-me a discorrer sobre os meus próprios pensamentos acerca de Shakespeare, Racine, Pascal, Goethe, ou qualquer outro escritor’.”
Não é de todo necessário dizer muito sobre um crítico com ideias tão pronunciadas como Anatole France. Ele dá-nos, com efeito, a flor plena do renanismo crítico, mas tão individualizado que se torna perfeição em graça, o extremo florescimento do génio latino. Não é exagero dizer que os escritos críticos de Anatole France recordam as ‘Causeries du Lundi’, a idade de ouro de Sainte-Beuve!
Como escritor de ficção, Anatole France fez a sua estreia em 1879 com ‘Jocaste’ e ‘Le Chat Maigre’. O sucesso neste campo era ainda decididamente duvidoso quando ‘Le Crime de Sylvestre Bonnard’ apareceu em 1881. Estabeleceu imediatamente a sua reputação; ‘Sylvestre Bonnard’, tal como ‘Le Lys Rouge’ mais tarde, foi coroado pela Academia Francesa. Estes romances estão repletos de fina ironia, ceticismo benevolente e toques picantes, e sobreviverão à maior parte dos romances lidos atualmente em França. A lista das obras de ficção de Anatole France é vasta. Os títulos de quase todas, dispostos por ordem cronológica, são os seguintes: ‘Les Désirs de Jean Servien’ (1882); ‘Abeille’ (1883); ‘Le Livre de mon Ami’ (1885); ‘Nos Enfants’ (1886); ‘Balthazar’ (1889); ‘Thaïs’ (1890); ‘L’Étui de Nacre’ (1892); ‘Jérôme Coignard’ e ‘La Rôtisserie de la Reine Pédauque’ (1893); e ‘Histoire Contemporaine’ (1897-1900), sendo esta última composta por quatro obras distintas: ‘L’Orme du Mail, Le Mannequin d’Osier, L’Anneau d’Améthyste’ e ‘Monsieur Bergeret à Paris’. Todos os seus escritos mostram a sua análise delicadamente crítica da paixão, a princípio ludicamente terna na sua ironia, mas mais tarde, sob a influência do seu antagonismo crítico a Brunetière, tornando-se mais aguda, mais forte e mais amarga. Em ‘Thaïs’, empreendeu mostrar o laço de simpatia que une o cético pessimista ao asceta cristão, uma vez que ambos desprezam o mundo. Em ‘Le Lys Rouge’, o seu maior romance, traça a linha perigosamente estreita que separa o amor do ódio; em ‘Opinions de M. l’Abbé Jérôme Coignard’, deu-nos o mais radical breviário de ceticismo que apareceu desde Montaigne. ‘Le Livre de mon Ami’ é maioritariamente autobiográfico; ‘Clio’ (1900) contém esboços históricos.
Representar Anatole France como um dos nomes imortais da literatura dificilmente seria extravagante. Não que eu dotasse Ariel com a estatura e os tendões de um Titã; isso seria perder as suas qualidades distintivas: delicadeza, elegância, charme. Ele pertence a uma categoria de escritores que são mais lidos e que, provavelmente, exercerão sempre maior influência do que alguns de nome mais sonante. Estes últimos mostram-nos a vida como um todo; mas a vida como um todo é demasiado vasta e demasiado remota para excitar na maioria de nós mais do que uma curiosidade um tanto lânguida. France confina-se a temas do mais vivo interesse pessoal, a vida do mundo em que vivemos. É nisto que ele se destaca! O seu conhecimento é vasto, as suas simpatias são multifacetadas, o seu poder de exposição é insuperável. Ninguém apresentou perante nós a mente do nosso tempo, com as suas penumbras, as suas perspetivas sombrias, a sua indefinição, a sua névoa no horizonte, tão vividamente como ele.
No notório romance de Octave Mirbeau, um romance que seria um elogio descrever como naturalista, a heroína é avisada pelo seu diretor contra as obras de Anatole France: “Ne lisez jamais du Voltaire... C’est un péché mortel... ni de Renan... ni de l’Anatole France. Voilà qui est dangereux.” Os nomes estão apropriadamente unidos; uma sucessão real, se não precisamente apostólica, existe entre os três escritores.
JULES LEMAÎTRE da Academia Francesa
LIVRO 1.
CAPÍTULO I. “PRECISO DE AMOR”
Ela deitou um olhar às poltronas colocadas diante da lareira, à mesa de chá, que brilhava na sombra, e aos caules altos e pálidos das flores que ascendiam acima dos vasos chineses. Enfiou a mão por entre os ramos floridos das bolas-de-neve para fazer vibrar as suas esferas prateadas. Depois, olhou-se num espelho com atenção séria. Manteve-se de lado, o pescoço virado sobre o ombro, para seguir com os olhos o salto da sua bela forma no seu vestido de cetim preto, semelhante a uma bainha, em torno do qual flutuava uma túnica leve cravejada de pérolas, onde cintilavam luzes sombrias. Aproximou-se, curiosa por conhecer o seu rosto daquele dia. O espelho devolveu-lhe o olhar com tranquilidade, como se esta mulher amável que ela examinava, e que não lhe era desagradável, vivesse sem alegria aguda nem tristeza profunda.
Nas paredes do grande salão, vazio e silencioso, as figuras das tapeçarias, vagas como sombras, mostravam-se pálidas entre os seus jogos antigos e graças moribundas. Como elas, as estatuetas de terracota sobre colunas esguias, os grupos da velha Saxónia e as pinturas de Sèvres falavam de glórias passadas. Sobre um pedestal ornamentado com bronzes preciosos, o busto de mármore de alguma princesa real disfarçada de Diana parecia prestes a fugir da sua drapería turbulenta, enquanto no teto uma figura da Noite, empoada como uma marquesa e rodeada de cupidos, semeava flores. Tudo estava adormecido, e apenas se ouvia o estalar das toras e o leve tilintar das pérolas de Thérèse.
Virando-se do espelho, levantou o canto de uma cortina e viu através da janela, para lá das árvores escuras do cais, o Sena a espalhar os seus reflexos amarelos. O cansaço do céu e da água refletia-se nos seus belos olhos cinzentos. O barco passava, o ‘Hirondelle’, emergindo de um arco da Ponte Alma, e levando humildes viajantes em direção a Grenelle e Billancourt. Seguiu-o com os olhos, depois deixou cair a cortina e, sentando-se sob as flores, pegou num livro da mesa. Na capa de linho cor de palha brilhava o título em ouro: ‘Yseult la Blonde’, de Vivian Bell. Era uma coleção de versos franceses compostos por uma inglesa, e impressos em Londres. Lia indiferente, à espera de visitantes, e pensando menos na poesia do que na poetisa, Miss Bell, que era talvez a sua amiga mais agradável, e a quem quase nunca via; que, em cada um dos seus encontros, que eram tão raros, a beijava, chamando-a de “querida”, e tagarelava; que, simples mas sedutora, quase ridícula, contudo totalmente requintada, vivia em Fiesole como uma filósofa, enquanto a Inglaterra a celebrava como a sua poetisa mais amada. Como Vernon Lee e como Mary Robinson, apaixonara-se pela vida e pela arte da Toscana; e, sem sequer terminar o seu ‘Tristan’, cuja primeira parte inspirara a Burne-Jones aguarelas oníricas, escrevia versos provençais e poemas franceses que expressavam ideias italianas. Tinha enviado o seu ‘Yseult la Blonde’ à “Querida”, com uma carta convidando-a a passar um mês com ela em Fiesole. Tinha escrito: “Vem; verás as coisas mais belas do mundo, e embelezá-las-ás.”
E a “querida” dizia a si mesma que não iria, que devia permanecer em Paris. Mas a ideia de ver Miss Bell em Itália não lhe era indiferente. E, folheando o livro, deteve-se por acaso nesta linha:
Amor e coração gentil são um só.
E perguntou a si mesma, com suave ironia, se Miss Bell alguma vez estivera apaixonada, e que género de homem poderia ser o ideal de Miss Bell. A poetisa tinha em Fiesole um escolta, o Príncipe Albertinelli. Era muito bonito, mas um tanto grosseiro e vulgar; demasiado para agradar a uma esteta que misturava, com o desejo de amor, o misticismo de uma Anunciação.
“Boa tarde, Thérèse. Estou positivamente exausta.”
A Princesa Seniavine tinha entrado, flexível nas suas peles, que quase pareciam formar parte da sua beleza sombria. Sentou-se bruscamente e, com uma voz ao mesmo tempo áspera e carinhosa, disse:
“Esta manhã caminhei pelo parque com o General Larivière. Encontrei-o numa alameda e fiz com que me acompanhasse até à ponte, onde ele queria comprar ao guarda uma pega erudita que faz o exercício de armas com uma espingarda. Oh! Estou tão cansada!”
“Mas por que arrastaste o General até à ponte?”
“Porque ele tinha gota no dedo do pé.”
Thérèse encolheu os ombros, sorrindo:
“Desperdiças a tua maldade. Estragas as coisas.”
“E tu queres que eu, querida, guarde a minha bondade e a minha maldade para um investimento sério?”
Thérèse fê-la beber um pouco de Tokay.
Precedido pelo som da sua respiração poderosa, o General Larivière aproximou-se com peso solene e sentou-se entre as duas mulheres, parecendo obstinado e autossatisfeito, rindo em cada ruga do seu rosto.
“Como está o Monsieur Martin-Bellevue? Sempre ocupado?”
Thérèse pensava que ele estava na Câmara, e até que estava a fazer um discurso lá.
A Princesa Seniavine, que comia sanduíches de caviar, perguntou à Madame Martin porque não tinha ido a casa da Madame Meillan no dia anterior. Tinham representado uma comédia lá.
“Uma peça escandinava? Foi um sucesso?”
“Sim — não sei. Eu estava na pequena sala verde, sob o retrato do Duque d’Orléans. O Monsieur Le Ménil veio ter comigo e fez-me uma daquelas boas voltas que nunca se esquecem. Salvou-me do Monsieur Garain.”
O General, que conhecia o Anuário e guardava toda a informação útil, aguçou os ouvidos.
“Garain”, perguntou ele, “o ministro que estava no Gabinete quando os príncipes foram exilados?”
“Ele mesmo. Eu fui excessivamente agradável para ele. Falou-me dos anseios do seu coração e olhou para mim com uma ternura alarmante. E de tempos a tempos fitava, com suspiros, o retrato do Duque d’Orléans. Disse-lhe: ‘Monsieur Garain, o senhor está a cometer um erro. É a minha cunhada que é orleanista. Eu não sou.’ Nesse momento o Monsieur Le Ménil veio escoltar-me até ao buffet. Fez grandes elogios — aos meus cavalos! Disse, também, que não havia nada tão belo como a floresta no inverno. Falou sobre lobos. Isso refrescou-me.”
O General, que não gostava de rapazes novos, disse que tinha encontrado Le Ménil no dia anterior na floresta, a galopar, com um vasto espaço entre ele e a sela.
Declarou que só os velhos cavaleiros conservavam as tradições da boa equitação; que as pessoas na sociedade atual cavalgavam como jóqueis.
“É o mesmo com a esgrima”, acrescentou. “Antigamente...”
A Princesa Seniavine interrompeu-o:
“General, olhe e veja quão encantadora está a Madame Martin. Ela está sempre encantadora, mas neste momento está mais bonita do que nunca. É porque ela está aborrecida. Nada lhe fica melhor do que estar aborrecida. Desde que estamos aqui, aborrecemo-la terrivelmente. Olhe para ela: a testa nublada, o olhar vago, a boca dolorosa. Eis uma vítima!”
Levantou-se, beijou Thérèse tumultuosamente e fugiu, deixando o General espantado.
A Madame Martin-Bellevue suplicou-lhe que não ouvisse o que a Princesa tinha dito.
Ele recompôs-se e perguntou:
“E como estão os seus poetas, Madame?”
Era-lhe difícil perdoar à Madame Martin a sua preferência por pessoas que viviam da escrita e não eram do seu círculo.
“Sim, os seus poetas. Que aconteceu àquele Monsieur Choulette, que a visita embrulhado num cachecol vermelho?”
“Os meus poetas? Esquecem-se de mim, abandonam-me. Não se deve confiar em ninguém. Homens e mulheres — nada é seguro. A vida é uma traição contínua. Apenas aquela pobre Miss Bell não se esquece de mim. Escreveu-me de Florença e enviou-me o seu livro.”
“Miss Bell? Não será aquela jovem que se parece, com o seu cabelo louro ondulado, com um pequeno cão de colo?”
Refletiu e expressou a opinião de que ela devia ter pelo menos trinta anos.
Uma senhora idosa, ostentando com dignidade modesta a sua coroa de cabelos brancos, e um homem pequeno e vivaz de olhos astutos entraram subitamente — Madame Marmet e o Sr. Paul Vence. Depois, mantendo-se muito rígido, com um monóculo quadrado no olho, apareceu o Sr. Daniel Salomon, o árbitro da elegância. O General apressou-se a sair.
Falaram do romance da semana. Madame Marmet tinha jantado frequentemente com o autor, um homem jovem e muito amável. Paul Vence achava o livro tedioso.
“Oh”, suspirou a Madame Martin, “todos os livros são tediosos. Mas os homens são mais tediosos do que os livros, e são mais exigentes.”
Madame Marmet disse que o seu marido, que tinha muito gosto literário, tinha mantido, até ao fim dos seus dias, um horror ao naturalismo. Ela era a viúva de um membro da ‘Académie des Inscriptions’ e orgulhava-se da sua ilustre viuvez. Era doce e modesta no seu vestido preto e nos seus belos cabelos brancos.
A Madame Martin disse ao Sr. Daniel Salomon que desejava consultá-lo particularmente sobre o retrato de um grupo de belas crianças.
“Dir-me-á se lhe agrada. Pode também dar-me a sua opinião, Monsieur Vence, a menos que desdenhe tais ninharias.”
O Sr. Daniel Salomon olhou para Paul Vence através do seu monóculo com desdém. Paul Vence inspecionou o salão.
“Tem belas coisas, Madame. Isso não seria nada. Mas tem apenas belas coisas, e todas servem para realçar a sua própria beleza.”
Ela não escondeu o seu prazer ao ouvi-lo falar dessa forma. Considerava Paul Vence o único homem realmente inteligente que conhecia. Tinha-o apreciado antes de os seus livros o terem tornado célebre. A sua má saúde, o seu humor sombrio, o seu trabalho assíduo, separavam-no da sociedade. O pequeno homem bilioso não era muito agradável; contudo, atraía-a. Tinha em alta estima a sua profunda ironia, o seu grande orgulho, o seu talento amadurecido na solidão, e admirava-o, com razão, como um excelente escritor, autor de poderosos ensaios sobre a arte e sobre a vida.
Pouco a pouco, a sala encheu-se com uma multidão brilhante. Dentro do grande círculo de poltronas estavam a Madame de Wesson, sobre quem as pessoas contavam histórias horríveis, e que mantinha, após vinte anos de escândalo meio abafado, os olhos de uma criança e bochechas de suavidade virginal; a velha Madame de Morlaine, que gritava as suas frases espirituosas em gritos penetrantes; a Madame Raymond, esposa do Académico; a Madame Garain, esposa do ex-ministro; três outras senhoras; e, de pé com naturalidade junto à lareira, o Sr. Berthier d’Eyzelles, editor do ‘Journal des Débats’, um deputado que acariciava a sua barba branca enquanto a Madame de Morlaine gritava para ele:
“O seu artigo sobre o bimetalismo é uma pérola, uma joia! Especialmente o final.”
De pé no fundo da sala, jovens frequentadores de clubes, muito graves, ceceavam entre si:
“O que é que ele fez para conseguir o botão do Príncipe?”
“Ele, nada. A sua mulher, tudo.”
Tinham a sua própria filosofia cínica. Um deles não tinha fé nas promessas dos homens.
“São tipos que não me servem. Têm o coração nas mãos e na boca. Candidatas-te a ser admitido num clube. Eles dizem: ‘Prometo dar-te uma bola branca. Será uma bola de alabastro — uma bola de neve!’ Eles votam. É uma bola preta. A vida parece um assunto vil quando penso nisso.”
“Então não penses nisso.”
Daniel Salomon, que se juntara a eles, sussurrava nos seus ouvidos histórias picantes com voz baixa. E a cada revelação estranha sobre a Madame Raymond, ou a Madame Berthier, ou a Princesa Seniavine, acrescentava, negligentemente:
“Toda a gente sabe.”
Depois, pouco a pouco, a multidão de visitantes dispersou-se. Apenas Madame Marmet e Paul Vence permaneceram.
Este último dirigiu-se à Madame Martin e perguntou:
“Quando deseja que eu lhe apresente Dechartre?”
Era a segunda vez que ele a pedia. Ela não gostava de ver rostos novos. Respondeu, indiferente:
“O seu escultor? Quando desejar. Vi no ‘Champ de Mars’ medalhões feitos por ele que são muito bons. Mas ele não trabalha muito. É um amador, não é?”
“É um artista delicado. Ele não precisa de trabalhar para viver. Acaricia as suas figuras com uma lentidão amorosa. Mas não se iluda sobre ele, Madame. Ele sabe e ele sente. Seria um mestre se não vivesse sozinho. Conheço-o desde a sua infância. As pessoas pensam que ele é solitário e moroso. Ele é apaixonado e tímido. O que lhe falta, o que lhe faltará sempre para atingir o ponto mais alto da sua arte, é simplicidade de espírito. Ele é inquieto e estraga as suas mais belas impressões. Na minha opinião, ele foi criado menos para a escultura do que para a poesia ou a filosofia. Ele sabe muito, e a senhora ficará espantada com a riqueza da sua mente.”
Madame Marmet aprovou.
Ela agradava à sociedade por parecer encontrar prazer nela. Ouve muito e fala pouco. Muito afável, dava valor à sua afabilidade não a desperdiçando. Quer porque gostasse da Madame Martin, quer porque soubesse dar sinais discretos de preferência em todas as casas a que ia, aquecia-se satisfeita, como um parente, num canto da lareira Luís XVI, que combinava com a sua beleza. Faltava-lhe apenas o seu cão.
“Como está o Toby?” perguntou a Madame Martin. “Monsieur Vence, conhece o Toby? Ele tem um pelo longo e sedoso e um narizinho preto adorável.”
Madame Marmet saboreava o elogio a Toby, quando um velho, rosado e louro, de cabelos encaracolados, míope, quase cego sob os seus óculos de ouro, algo baixo, chocando contra os móveis, curvando-se perante poltronas vazias, esbarrando nos espelhos, empurrou o seu nariz torto diante da Madame Marmet, que o olhou indignada.
Era o Sr. Schmoll, membro da ‘Académie des Inscriptions’. Sorriu e formulou um madrigal para a Condessa Martin com aquela voz hereditária, áspera e grosseira, com a qual os judeus, os seus pais, pressionavam os seus credores, os camponeses da Alsácia, da Polónia e da Crimeia. Arrastava as suas frases pesadamente. Este grande filólogo conhecia todas as línguas exceto o francês. E a Madame Martin desfrutava das suas frases afáveis, pesadas e enferrujadas como as ferragens das lojas de antiguidades, entre as quais caíam folhas secas de antologia. O Sr. Schmoll gostava de poetas e de mulheres, e tinha espírito.
Madame Marmet fingiu não o conhecer e saiu sem retribuir o cumprimento.
Quando exauriu os seus belos madrigais, o Sr. Schmoll tornou-se sombrio e lamentável. Queixava-se piedosamente. Não era suficientemente condecorado, nem provido de sinecuras suficientes, nem bem alimentado pelo Estado — ele, a Madame Schmoll e as suas cinco filhas. As suas lamentações tinham alguma grandeza. Algo da alma de Ezequiel e de Jeremias estava nelas.
Infelizmente, virando os seus olhos de óculos dourados para a mesa, descobriu o livro de Vivian Bell.
— Oh, «Yseult La Blonde» — exclamou ele, amargamente. — A senhora está a ler esse livro, Madame? Pois saiba que a Mademoiselle Vivian Bell me roubou uma inscrição e que, além disso, a alterou, pondo-a em verso. Encontrá-la-á na página 109 do seu livro: «Uma sombra pode chorar sobre uma sombra.» Ouve, Madame? «Uma sombra pode chorar sobre uma sombra.» Ora, essas palavras são traduzidas literalmente de uma inscrição funerária que fui o primeiro a publicar e a ilustrar. No ano passado, um dia, quando eu jantava em sua casa, estando sentado ao lado da Mademoiselle Bell, citei-lhe esta frase, e ela agradou-lhe muito. A seu pedido, no dia seguinte, traduzi para francês a inscrição completa e enviei-lha. E agora encontro-a alterada neste volume de versos sob este título: «Na Via Sagrada» — a via sagrada, isso sou eu.
E ele repetiu, no seu mau humor:
— Eu, Madame, sou a via sagrada.
Ele estava aborrecido por a poetisa não lhe ter falado sobre essa inscrição. Teria gostado de ver o seu nome no topo do poema, nos versos, nas rimas. Desejava ver o seu nome em toda a parte, e procurava-o sempre nos jornais com que tinha os bolsos atulhados. Mas não tinha rancor. Não estava verdadeiramente zangado com a Miss Bell. Admitia graciosamente que ela era uma pessoa distinta e uma poetisa que fazia grande honra à Inglaterra.
Quando ele se foi embora, a Condessa Martin perguntou ingenuamente a Paul Vence se ele sabia por que razão aquela boa Madame Marmet olhara para o Sr. Schmoll com tal zanga marcada, embora silenciosa. Ele surpreendeu-se por ela não saber.
— Eu nunca sei nada — disse ela.
— Mas a querela entre Schmoll e Marmet é famosa. Só cessou com a morte de Marmet.
— No dia em que o pobre Marmet foi enterrado, caía neve. Estávamos molhados e gelados até aos ossos. Junto à sepultura, ao vento, na lama, Schmoll leu debaixo do seu guarda-chuva um discurso cheio de crueldade jovial e de piedade triunfante, que levou depois aos jornais numa carruagem de luto. Um amigo indiscreto deixou que Madame Marmet disso soubesse, e ela desmaiou. É possível, Madame, que não tenha ouvido falar desta erudita e feroz querela?
— A língua etrusca foi a causa disso. Marmet fez dela o seu estudo único. Chamavam-lhe Marmet o Etrusco. Nem ele nem ninguém sabia uma palavra dessa língua, cujo último vestígio se perdeu. Schmoll dizia continuamente a Marmet: «Não sabe etrusco, meu caro colega; essa é a razão pela qual é um sábio honrado e um homem de espírito justo.» Picado pelo seu elogio irónico, Marmet pensou em aprender um pouco de etrusco. Leu ao seu colega um relatório sobre o papel desempenhado pelas flexões no idioma dos antigos toscanos.
Madame Martin perguntou o que era uma flexão.
— Oh, Madame, se lhe explicar qualquer coisa, isso baralhará tudo. Contente-se em saber que, nesse relatório, o pobre Marmet citou textos latinos e citou-os mal. Schmoll é um latinista de grande saber e, depois de Mommsen, o principal epigrafista do mundo.
— Repreendeu o seu jovem colega — Marmet não tinha cinquenta anos — por ler etrusco demasiado bem e latim não suficientemente bem. A partir desse momento, Marmet não teve descanso. Em todas as reuniões era alvo de zombaria impiedosa; e, finalmente, apesar da sua brandura, zangou-se. Schmoll não tem rancor. É uma virtude da sua raça. Não guarda má vontade àqueles que persegue. Um dia, ao subir a escadaria do Instituto com Renan e Oppert, encontrou Marmet e estendeu-lhe a mão. Marmet recusou-se a apertá-la e disse: «Não o conheço.» — «Toma-me por uma inscrição latina?» — respondeu Schmoll. Marmet morreu e foi enterrado por causa dessa sátira. Agora sabe a razão pela qual a sua viúva vê o seu inimigo com horror.
— E eu fiz com que jantassem juntos, lado a lado.
— Madame, não foi imoral, mas foi cruel.
— Meu caro senhor, talvez o choque; mas se tivesse de escolher, preferiria fazer uma coisa imoral do que uma cruel.
Um jovem, alto, magro, moreno, com um bigode comprido, entrou e fez uma vénia com brusca flexibilidade.
— Monsieur Vence, creio que conhece o Monsieur Le Menil.
Já se tinham encontrado antes em casa de Madame Martin e viam-se frequentemente no Clube de Esgrima. No dia anterior, tinham-se encontrado em casa de Madame Meillan.
— Casa de Madame Meillan — eis uma casa onde nos aborrecemos — disse Paul Vence.
— Contudo, os académicos vão lá — disse o Sr. Robert Le Menil. — Não exagero o seu valor, mas são a elite.
Madame Martin sorriu.
— Sabemos, Monsieur Le Menil, que em casa de Madame Meillan está mais preocupado com as mulheres do que com os académicos. Acompanhou a Princesa Seniavine ao bufete e falou-lhe de lobos.
— Que lobos?
— Lobos, e florestas enegrecidas pelo inverno. Pensámos que, com uma mulher tão bonita, a sua conversa era um tanto selvagem!
Paul Vence levantou-se.
— Então permite, Madame, que traga o meu amigo Dechartre? Ele tem um grande desejo de a conhecer e espero que ele não lhe desagrade. Há vida no seu espírito. Está cheio de ideias.
— Oh, não peço tanto — disse Madame Martin. — As pessoas que são naturais e se mostram como são raramente me aborrecem, e por vezes divertem-me.
Quando Paul Vence saiu, Le Menil escutou até que o ruído dos passos desaparecesse; então, aproximando-se:
— Amanhã, às três horas? Ainda me ama?
Ele pediu-lhe que respondesse enquanto estavam a sós. Ela respondeu que era tarde, que não esperava mais visitas e que ninguém, exceto o seu marido, viria.
Ele suplicou. Então ela disse:
— Estarei livre amanhã durante todo o dia. Espere por mim às três horas.
Ele agradeceu-lhe com um olhar. Depois, colocando-se do outro lado da chaminé, perguntou quem era esse Dechartre que ela desejava que lhe fosse apresentado.
— Não desejo que ele me seja apresentado. Ele é que há de ser-me apresentado. É um escultor.
Ele deplorou o facto de ela precisar de ver caras novas, acrescentando:
— Um escultor? Costumam ser brutais.
— Oh, mas este faz tão pouca escultura! Mas se o incomoda que eu me encontre com ele, não o farei.
— Lamentaria se a sociedade ocupasse qualquer parte do tempo que poderia dar-me.
— Meu amigo, não se pode queixar disso. Nem sequer fui ontem a casa de Madame Meillan.
— Faz bem em aparecer lá o menos possível. Não é uma casa para si.
Ele explicou. Todas as mulheres que lá iam tinham tido alguma aventura picante que era conhecida e comentada. Além disso, Madame Meillan favorecia a intriga. Deu exemplos. Madame Martin, contudo, com as mãos estendidas nos braços da poltrona em encantador repouso, a cabeça inclinada, olhava para as brasas agonizantes na lareira. O seu estado de espírito pensativo tinha voado. Nada dele restava no seu rosto, um pouco entristecido, nem no seu corpo lânguido, mais desejável do que nunca na quietude da sua mente. Manteve por um momento uma imobilidade profunda, que acrescentava à sua atração pessoal o encanto das coisas que a arte criara.
Ele perguntou-lhe em que estava a pensar. Escapando à magia da chama nas cinzas, ela disse:
— Iremos amanhã, se quiser, a lugares muito distantes, aos bairros estranhos onde vive a gente pobre. Gosto das ruas antigas onde habita a miséria.
Ele prometeu satisfazer o seu gosto, embora lhe deixasse saber que o achava absurdo. Os passeios a que ela o levava aborreciam-no por vezes, e achava-os perigosos. As pessoas podiam vê-los.
— E uma vez que temos tido sucesso até agora em não causar mexericos...
Ela abanou a cabeça.
— Acha que as pessoas não têm falado de nós? Quer saibam ou não saibam, falam. Nem tudo se sabe, mas tudo se diz.
Ela recaiu no seu sonho. Ele achou-a descontente, rabugenta, por qualquer motivo que ela não queria contar. Inclinou sobre ela os seus belos olhos graves que refletiam a luz da lareira. Mas ela tranquilizou-o.
— Não sei se alguém fala de mim. E que me importa? Nada importa.
Ele deixou-a. Ia jantar ao clube, onde um amigo o esperava. Ela seguiu-o com os olhos, com pacífica simpatia. Depois, começou de novo a ler nas cinzas.
Viu nelas os dias da sua infância; o castelo onde tinha passado os doces e tristes verões; o parque sombrio e húmido; o lago onde dormia a água verde; as ninfas de mármore debaixo das castanheiras, e o banco onde tinha chorado e desejado a morte. Hoje ainda ignorava a causa do seu desespero juvenil, quando o despertar ardente da sua imaginação a lançou num labirinto perturbado de desejos e de medos. Quando era criança, a vida assustava-a. E agora sabia que a vida não vale tanta ansiedade nem tanta esperança; que é uma coisa muito vulgar. Devia ter sabido isto. Ela pensou:
— Vi a mamã; era boa, muito simples e não muito feliz. Sonhei com um destino diferente do dela. Porquê? Sentia à minha volta o sabor insípido da vida e parecia inalar o futuro como um aroma salgado e pungente. Porquê? O que queria eu, e o que esperava? Não estava eu suficientemente avisada da tristeza de tudo?
Tinha nascido rica, no brilho de uma fortuna demasiado nova. Era filha daquele Montessuy que, a princípio escriturário num banco parisiense, fundou e governou dois grandes estabelecimentos, trouxe para os sustentar os recursos de um espírito brilhante, força invencível de caráter, uma rara aliança de inteligência e honestidade, e tratou com o Governo como se fosse uma potência estrangeira. Tinha crescido no castelo histórico de Joinville, comprado, restaurado e magnificamente mobilado pelo seu pai. Montessuy fazia com que a vida desse tudo o que podia produzir. Um ateu instintivo e poderoso, queria todos os bens deste mundo e todas as coisas desejáveis que a terra produz. Acumulava quadros de antigos mestres e esculturas preciosas. Aos cinquenta anos conhecera todas as mulheres mais bonitas do palco, e muitas na sociedade. Desfrutava de tudo o que era mundano com a brutalidade do seu temperamento e a perspicácia da sua mente.
A pobre Madame Montessuy, económica e cuidadosa, definhava em Joinville, delicada e pobre, sob o sobrolho de doze cariátides gigantescas que sustentavam um teto no qual Lebrun pintara os Titãs atingidos por Júpiter. Ali, no berço de ferro, colocado ao pé da cama grande, morreu uma noite de tristeza e exaustão, nunca tendo amado nada na terra exceto o seu marido e a sua pequena sala de estar na Rue Maubeuge.
Nunca tivera qualquer intimidade com a filha, que sentia instintivamente demasiado diferente de si própria, demasiado livre, demasiado ousada de coração; e adivinhava em Thérèse, embora ela fosse doce e boa, o sangue forte dos Montessuy, o ardor que a fizera sofrer tanto, e que ela perdoava no marido, mas não na filha.
Mas Montessuy reconheceu a sua filha e amou-a. Como a maioria dos homens cordiais e vigorosos, tinha horas de encantadora alegria. Embora vivesse muito fora de casa, tomava o pequeno-almoço com ela quase todos os dias, e por vezes levava-a a passear. Entendia de vestidos e enfeites. Instruiu e formou Thérèse. Divertia-a. Perto dela, o seu instinto de conquista inspirava-o ainda. Desejava vencer sempre, e venceu a sua filha. Separou-a da mãe. Thérèse admirava-o, ela adorava-o.
No seu sonho via-o como a alegria única da sua infância. Estava persuadida de que nenhum homem no mundo era tão amável como o seu pai.
À sua entrada na vida, desesperou imediatamente de encontrar noutro lugar uma natureza tão rica, tal plenitude de forças ativas e pensantes. Este desencorajamento seguiu-a na escolha de um marido, e talvez mais tarde numa escolha secreta e mais livre.
Não tinha realmente escolhido o seu marido. Não sabia: tinha permitido que a casassem pelo seu pai, que, então viúvo, embaraçado com o cuidado de uma rapariga, tinha desejado fazer as coisas rápida e bem. Considerou as vantagens exteriores, estimou os oitenta anos de nobreza imperial que o Conde Martin trazia. A ideia nunca lhe passou pela cabeça de que ela pudesse desejar encontrar amor no casamento.
Ele lisonjeava-se de que ela encontraria nele a satisfação dos desejos luxuosos que lhe atribuía, a alegria de fazer uma exibição de grandeza, o orgulho vulgar, a dominação material, que eram para ele todo o valor da vida, já que não tinha ideias sobre o assunto da felicidade de uma verdadeira mulher, embora estivesse certo de que a sua filha permaneceria virtuosa.
Enquanto pensava na sua fé absurda mas natural nela, que se harmonizava tão mal com as suas próprias experiências e ideias relativas às mulheres, ela sorriu com melancólica ironia. E admirava o seu pai ainda mais.
Afinal, ela não estava tão mal casada. O seu marido era tão bom quanto qualquer outro homem. Tinha-se tornado bastante suportável. De tudo o que lia nas cinzas, na brandura velada dos candeeiros, de todas as suas reminiscências, a do seu casamento era a mais vaga. Encontrou nela alguns traços isolados, algumas imagens absurdas, uma impressão fugaz e fastidiosa. O tempo não tinha parecido longo e não tinha deixado nada para trás. Seis anos tinham passado, e ela nem sequer se lembrava de como tinha recuperado a sua liberdade, tão pronta e fácil fora a sua conquista daquele marido, frio, doentio, egoísta e educado; daquele homem seco e amarelado pelos negócios e pela política, laborioso, ambicioso e vulgar. Ele gostava das mulheres apenas por vaidade, e nunca tinha amado a sua esposa. A separação tinha sido franca e completa. E desde então, estranhos um ao outro, sentiam uma tácita gratidão mútua pela sua liberdade. Ela teria tido algum afeto por ele se não o achasse hipócrita e demasiado subtil na arte de obter a sua assinatura quando precisava de dinheiro para empreendimentos que eram mais para ostentação do que para benefício real. O homem com quem ela jantava e falava todos os dias não tinha significado para ela.
Com a face apoiada na mão, diante da lareira, como se interrogasse uma sibila, viu de novo o rosto do Marquês de Ré. Viu-o tão precisamente que isso a surpreendeu. O Marquês de Ré tinha-lhe sido apresentado pelo seu pai, que o admirava, e ele aparecia-lhe grandioso e deslumbrante pelos seus trinta anos de triunfos íntimos e glórias mundanas. As suas aventuras seguiam-no como uma procissão. Tinha cativado três gerações de mulheres, e deixara no coração de todas aquelas que tinha amado uma memória imperecível. A sua graça viril, a sua elegância tranquila e o seu hábito de agradar tinham prolongado a sua juventude muito para lá do termo comum dos anos. Ele notou particularmente a jovem Condessa Martin. A homenagem deste perito lisonjeou-a. Pensou nele agora com prazer. Ele tinha uma arte maravilhosa de conversação. Divertia-a. Ela deixou-o vê-lo, e imediatamente ele prometeu a si próprio, na sua heroica frivolidade, terminar dignamente a sua feliz vida pela subjugação desta jovem mulher a quem ele apreciava acima de toda a gente e que, evidentemente, o admirava. Ele exibiu, para a capturar, os estratagemas mais eruditos. Mas ela escapou-lhe muito facilmente.
Ela cedeu, dois anos depois, a Robert Le Menil, que a desejava ardentemente, com todo o calor da sua juventude, com toda a simplicidade da sua mente. Ela disse para consigo: «Entreguei-me a ele porque ele me amava.» Era a verdade. A verdade era, também, que um instinto mudo mas poderoso a tinha impelido, e que ela tinha obedecido ao impulso escondido do seu ser. Mas mesmo isto não era o seu verdadeiro eu; o que despertou a sua natureza finalmente foi o facto de ela acreditar na sinceridade do seu sentimento. Ela tinha cedido assim que sentira que era amada. Tinha-se entregue, rápida, simplesmente. Ele pensou que ela tinha cedido facilmente. Ele estava enganado. Ela tinha sentido o desencorajamento que o irreparável dá, e aquele tipo de vergonha que advém de ter subitamente algo a esconder. Tudo o que tinha sido sussurrado antes dela sobre outras mulheres ressoava nos seus ouvidos ardentes. Mas, orgulhosa e delicada, teve o cuidado de esconder o valor da dádiva que estava a fazer. Ele nunca suspeitou da sua inquietação moral, que durou apenas alguns dias, e foi substituída por perfeita tranquilidade. Ao fim de três anos, ela defendia a sua conduta como inocente e natural.
Tendo feito mal a ninguém, ela não tinha remorsos. Estava contente. Estava apaixonada, era amada. Sem dúvida, não tinha sentido a embriaguez que esperara, mas será que alguém a sente alguma vez? Ela era a amiga do bom e honesto sujeito, muito apreciado por mulheres que passavam por desdenhosas e difíceis de agradar, e ele tinha um verdadeiro afeto por ela. O prazer que ela lhe dava e a alegria de ser bonita para ele ligavam-na a este amigo. Ele tornava a vida para ela não continuamente deliciosa, mas fácil de suportar, e por vezes agradável.
Aquilo que ela não tinha adivinhado na sua solidão, não obstante os anseios vagos e a tristeza aparentemente sem causa, ele tinha-lhe revelado. Ela conheceu-se a si própria quando o conheceu. Foi um feliz espanto. As suas simpatias não estavam nas suas mentes. A sua inclinação para ele era simples e franca, e neste momento ela encontrava prazer na ideia de se encontrar com ele no dia seguinte no pequeno apartamento onde se tinham encontrado durante três anos. Com um abanar de cabeça e um encolher de ombros, mais grosseiro do que se esperaria desta mulher requintada, sentada sozinha junto ao fogo agonizante, ela disse para consigo: «Lá está! Preciso de amor!»
CAPÍTULO II. «PODE VER-SE QUE É JOVEM!»
Já não era dia quando saíram do pequeno apartamento na Rue Spontini. Robert Le Menil fez um sinal a um cocheiro e entrou na carruagem com Thérèse. Próximos um do outro, rolaram entre as sombras vagas, cortadas por luzes súbitas, através da cidade fantasmagórica, tendo nas suas mentes apenas doces e fugazes impressões enquanto tudo à sua volta parecia confuso e efémero.
A carruagem aproximou-se da Pont-Neuf. Saíram. Um frio seco tornava vívido o sombrio tempo de janeiro. Sob o seu véu, Thérèse inalava alegremente o vento que varria no solo endurecido um pó branco como sal. Estava contente por vaguear livremente entre coisas desconhecidas. Gostava de ver a paisagem pedregosa que a clareza do ar tornava distinta; de caminhar rápida e firmemente no cais onde as árvores exibiam o traçado negro dos seus ramos no horizonte avermelhado pelo fumo da cidade; de olhar para o Sena. No céu, as primeiras estrelas apareciam.
— Dir-se-ia que o vento as apagaria — disse ela.
Ele observou, também, que elas cintilavam muito. Ele não achava que fosse um sinal de chuva, como os camponeses acreditam. Ele tinha observado, pelo contrário, que nove vezes em dez a cintilação das estrelas era um augúrio de bom tempo.
Perto da pequena ponte, encontraram velhas lojas de ferro iluminadas por candeeiros enfumaçados. Ela correu para dentro delas. Virou uma esquina e entrou numa loja em que tecidos estranhos pendiam. Atrás dos vidros sujos, uma vela acesa mostrava potes, vasos de porcelana, um clarinete e uma grinalda de noiva.
Ele não compreendia que prazer ela encontrava na sua busca.
— Estas lojas estão cheias de bicharada. O que pode encontrar de interessante nelas?
— Tudo. Penso na pobre noiva cuja grinalda está debaixo daquele globo. O jantar ocorreu em Maillot. Havia um polícia na procissão. Há um em quase todas as procissões nupciais que se veem no parque aos sábados. Não o comovem, meu amigo, todos estes seres pobres, ridículos, miseráveis que contribuem para a grandeza do passado?
Entre as chávenas decoradas com flores, descobriu uma pequena faca, cujo cabo de marfim representava uma mulher alta e magra, com o cabelo arranjado à la Maintenon. Comprou-a por alguns soldos. Agradou-lhe, porque já possuía um garfo semelhante. Le Menil confessou que não tinha gosto por tais coisas, mas disse que a sua tia sabia muito sobre o assunto. Em Caen, todos os mercadores a conheciam. Tinha restaurado e mobilado a sua casa com o devido estilo. Esta casa era notável desde 1690. Num dos seus salões, havia vitrinas brancas cheias de livros. A sua tia tinha querido pô-los em ordem. Encontrara neles livros frívolos, ornamentados com gravuras tão pouco convencionais que os queimara.
— É tola, a tua tia? — perguntou Thérèse.
Há muito que as suas anedotas sobre a tia a deixavam impaciente. O seu amigo tinha no campo uma mãe, irmãs, tias e numerosos parentes que ela não conhecia e que a irritavam. Ele falava deles com admiração. Incomodava-a que ele os visitasse frequentemente. Quando ele voltava, ela imaginava que ele trazia consigo o odor das coisas que tinham estado empacotadas durante anos. Ele ficava surpreendido, ingenuamente, e sofria com a antipatia dela por eles.
Ele não disse nada. A visão de uma taberna, cujas vidraças estavam a arder, lembrou-lhe o poeta Choulette, que passava por bêbado. Perguntou-lhe se ela ainda via esse Choulette, que a visitava vestindo uma capa impermeável e um cachecol vermelho.
Incomodava-a que ele falasse como o General Larivière. Ela não disse que não via Choulette desde o outono, e que ele a negligenciava com o capricho de um homem que não é da sociedade.
— Ele tem espírito — disse ela —, fantasia e um temperamento original. Ele agrada-me.
E como ele a censurava por ter um gosto estranho, ela respondeu:
— Eu não tenho um gosto, tenho gostos. Suponho que não os desaproves a todos.
Ele respondeu que não a criticava. Tinha apenas medo de que ela pudesse fazer mal a si própria ao receber um boémio que não era bem-vindo em casas respeitáveis.
Ela exclamou:
— Não é bem-vindo em casas respeitáveis — o Choulette? Não sabes que ele vai todos os anos passar um mês à casa da Marquesa de Rieu? Sim, à Marquesa de Rieu, a católica, a monárquica. Mas, já que o Choulette te interessa, ouve a sua última aventura. Paul Vence contou-ma. Compreendo-a melhor nesta rua, onde há camisas e vasos de flores nas janelas.
— Este inverno, numa noite em que chovia, Choulette entrou numa taberna numa rua cujo nome esqueci, mas que deve ser parecida com esta, e encontrou lá uma rapariga infeliz que os empregados não teriam notado, e de quem ele gostou pela sua humildade. O nome dela era Maria. O nome não era dela. Encontrou-o pregado na sua porta, no cimo da escada onde foi alojar-se. Choulette ficou comovido com esta perfeição de pobreza e infâmia. Chamou-lhe irmã e beijou-lhe as mãos. Desde então, não a deixou um momento. Leva-a aos cafés do Quartier Latin, onde os estudantes ricos leem as suas revistas. Diz-lhe coisas doces. Ele chora, ela chora. Bebem; e quando estão bêbados, lutam. Ele ama-a. Chama-lhe a sua casta, a sua cruz e a sua salvação. Ela estava descalça; ele deu-lhe fio e agulhas de tricotar para que pudesse fazer meias. E ele próprio fez sapatos para esta rapariga infeliz, com pregos enormes. Ensina-lhe versos fáceis de compreender. Tem medo de alterar a sua beleza moral tirando-a da vergonha onde vive em perfeita simplicidade e admirável indigência.
Le Menil encolheu os ombros.
— Mas esse Choulette é louco, e Paul Vence não tem o direito de te contar tais histórias. Não sou austero, certamente; mas há imoralidades que me causam repugnância. — Eles caminhavam ao acaso. Ela perdeu-se num sonho.
— Sim, a moralidade, eu sei — o dever! Mas o dever — é preciso o diabo para o descobrir. Posso assegurar-te que não sei onde está o dever. É como a tartaruga de uma jovem em Joinville. Passámos a noite toda à procura dela debaixo dos móveis e, quando a encontrámos, fomos deitar-nos.
Ele achou que havia alguma verdade no que ela dizia. Pensaria nisso quando estivesse sozinho.
— Arrependo-me às vezes de não ter ficado no exército. Sei o que vais dizer — torna-se um bruto nessa profissão. Sem dúvida, mas sabe-se exatamente o que se tem de fazer, e isso é muito na vida. Penso que a vida do meu tio é muito bela e muito agradável. Mas agora que toda a gente está no exército, não há oficiais nem soldados. Parece tudo uma estação de caminhos de ferro ao domingo. O meu tio conhecia pessoalmente todos os oficiais e todos os soldados da sua brigada. Hoje em dia, como podes esperar que um oficial conheça os seus homens?
Ela tinha deixado de ouvir. Estava a olhar para uma mulher que vendia batatas fritas. Percebeu que tinha fome e queria comer batatas fritas.
Ele protestou:
— Ninguém sabe como são cozinhadas.
Mas teve de comprar dois soldos de batatas fritas e garantir que a mulher lhes punha sal.
Enquanto Thérèse as comia, ele levou-a para ruas desertas, longe da luz do gás. Em breve, encontravam-se em frente da catedral. A lua prateava os telhados.
— Notre-Dame — disse ela. — Vê, é tão pesada como um elefante e, no entanto, tão delicada como um inseto. A lua trepa por cima dela e olha-a com a malícia de um macaco. Ela não parece a lua do campo em Joinville. Em Joinville tenho um caminho — um caminho plano — com a lua no fim dele. Ela não está lá todas as noites; mas regressa fielmente, cheia, vermelha, familiar. É uma vizinha do campo. Vou seriamente ao seu encontro. Mas esta lua de Paris, eu não gostaria de a conhecer. Não é companhia respeitável. Oh, as coisas que ela viu durante o tempo que tem andado a vaguear pelos telhados!
Ele sorriu um sorriso terno.
— Oh, o teu pequeno caminho por onde caminhavas sozinha e que gostavas porque o céu estava no fim dele! Vejo-o como se estivesse lá.
Foi no castelo de Joinville que ele a tinha visto pela primeira vez e a tinha amado de imediato. Foi lá, numa noite, que ele lhe tinha falado do seu amor, ao qual ela tinha ouvido, muda, com uma expressão de dor na boca e um olhar vago nos olhos.
A reminiscência deste pequeno caminho onde ela caminhava sozinha comoveu-o, perturbou-o, fez reviver as horas encantadas dos seus primeiros desejos e esperanças. Tentou encontrar a mão dela na sua manga e apertou-lhe o pulso fino sob a pele.
Uma menina que carregava violetas viu que eles eram amantes e ofereceu-lhes flores. Ele comprou um ramo de dois soldos e ofereceu-o a Thérèse.
Ela caminhava em direção à catedral. Pensava: "É como uma fera enorme — uma fera do Apocalipse."
Na outra extremidade da ponte, uma florista, enrugada, barbuda, cinzenta pelos anos e pelo pó, seguiu-os com o seu cesto cheio de mimosas e rosas. Thérèse, que segurava as suas violetas e tentava enfiá-las na cintura, disse, alegremente:
— Obrigada, já tenho algumas.
— Nota-se que és jovem — gritou a velha com um ar maldoso, enquanto se afastava.
Thérèse compreendeu de imediato, e um sorriso surgiu nos seus lábios e olhos. Passavam perto do pórtico, diante das figuras de pedra que usam cetros e coroas.
— Entremos — disse ela.
Ele não queria entrar. Declarou que a porta estava fechada. Ela empurrou-a e deslizou para a imensa nave, onde as árvores inanimadas das colunas ascendiam na escuridão. Ao fundo, velas moviam-se em frente de padres espectrais, sob as últimas reverberações dos órgãos. Ela tremeu no silêncio e disse:
— A tristeza das igrejas à noite comove-me; sinto nelas a grandeza do nada.
Ele respondeu:
— Devemos acreditar em alguma coisa. Se Deus não existisse, se as nossas almas não fossem imortais, seria demasiado triste.
Ela permaneceu por um momento imóvel sob as cortinas de sombra que pendiam dos arcos. Depois disse:
— Meu pobre amigo, não sabemos o que fazer desta vida, que é tão curta, e no entanto desejas outra vida que nunca terá fim.
Na carruagem que os levou de volta, ele disse alegremente que tinha passado uma bela tarde. Beijou-a, satisfeito com ela e consigo próprio. Mas a sua boa disposição não foi comunicada a ela. Os últimos momentos que passavam juntos eram sempre estragados para ela pelo pressentimento de que ele não diria, ao partir, a coisa que deveria dizer. Habitualmente, ele deixava-a bruscamente, como se o que tivesse acontecido não fosse para durar. Em cada uma das suas despedidas, ela tinha uma sensação confusa de que se separavam para sempre. Sofria com isso antecipadamente e tornava-se irritável.
Sob as árvores, ele pegou-lhe na mão e beijou-a.
— Não é raro, Thérèse, amarmo-nos como nos amamos?
— Raro? Não sei; mas penso que tu me amas.
— E tu?
— Eu também te amo.
— E amar-me-ás sempre?
— O que é que se sabe alguma vez?
E vendo o rosto do seu amante escurecer:
— Ficarias mais contente com uma mulher que jurasse amar apenas a ti para todo o sempre?
Ele permaneceu ansioso, com um ar miserável. Ela foi gentil e tranquilizou-o:
— Sabes muito bem, meu amigo, que não sou volúvel.
Quase no fim da alameda, despediram-se. Ele ficou com a carruagem para regressar à Rue Royale. Tinha de jantar no clube e ir ao teatro, e não tinha tempo a perder.
Thérèse regressou a casa a pé. Em frente do Trocadéro, lembrou-se do que a velha florista tinha dito: "Nota-se que és jovem." As palavras voltaram a ela com um significado não imoral, mas triste. "Nota-se que és jovem!" Sim, ela era jovem, era amada e estava entediada até à morte.
CAPÍTULO III. UMA DISCUSSÃO SOBRE O PEQUENO CABORAL
No centro da mesa, as flores estavam dispostas num cesto de bronze dourado, decorado com águias, estrelas e abelhas, e pegas formadas como cornucópias. Nos seus lados, Vitórias aladas suportavam os braços de candelabros. Esta peça central, de estilo Império, tinha sido oferecida por Napoleão, em 1812, ao Conde Martin de l'Aisne, avô do atual Conde Martin-Belleme. Martin de l'Aisne, deputado do Corpo Legislativo em 1809, foi nomeado no ano seguinte membro da Comissão de Finanças, cujos trabalhos assíduos e secretos se adequavam ao seu temperamento laborioso. Embora liberal, agradou ao Imperador pela sua aplicação e pela sua honestidade exata. Durante dois anos, esteve sob uma chuva de favores. Em 1813, fez parte da maioria moderada que aprovou o relatório em que Lainé censurava o poder e a desgraça, dando ao Império um conselho tardio. A 1 de janeiro de 1814, foi com os seus colegas às Tulherias. O Imperador recebeu-os de uma forma terrível. Investiu contra as suas fileiras. Violento e sombrio, no horror da sua força presente e da sua queda iminente, atordoou-os com a sua raiva e o seu desprezo.
Ele ia e vinha entre as suas filas e, subitamente, pegou no Conde Martin pelos ombros, abanou-o e arrastou-o, exclamando: "Um trono são quatro pedaços de madeira cobertos de veludo? Não! Um trono é um homem, e esse homem sou eu. Tentastes atirar-me lama. É esta a altura de me fazerem reprimendas quando há duzentos mil cossacos nas fronteiras? O vosso Lainé é um homem mau. Deve-se lavar a roupa suja em casa." E enquanto, na sua raiva, torcia na mão o colarinho bordado do deputado, dizia: "O povo conhece-me. Não vos conhece a vós. Eu sou o eleito da nação. Vós sois os delegados obscuros de um departamento." Ele previu-lhes o destino dos Girondinos. O ruído das suas esporas acompanhava o som da sua voz. O Conde Martin permaneceu a tremer pelo resto da vida e, tremendo, apelou aos Bourbons após a derrota do Imperador. As duas restaurações foram em vão; o governo de julho e o Segundo Império cobriram o seu peito oprimido com cruzes e cordões. Elevado às mais altas funções, carregado de honras por três reis e um imperador, sentiu para sempre no seu ombro a mão do corso. Morreu senador de Napoleão III e deixou um filho agitado pelo mesmo medo.
Este filho tinha casado com a Mademoiselle Belleme, filha do primeiro presidente do tribunal de Bourges, e com ela as glórias políticas de uma família que deu três ministros à monarquia moderada. Os Belleme, advogados no tempo de Luís XV, elevaram as origens jacobinas dos Martin. O segundo Conde Martin foi membro de todas as Assembleias até à sua morte, em 1881. O seu filho ocupou sem dificuldade o seu lugar na Câmara dos Deputados. Tendo casado com a Mademoiselle Thérèse Montessuy, cujo dote sustentava a sua fortuna política, apareceu discretamente entre os quatro ou cinco burgueses, titulados e abastados, que se aliaram à democracia e foram recebidos sem muita má vontade pelos republicanos, a quem a aristocracia lisonjeava.
Na sala de jantar, o Conde Martin-Belleme fazia as honras da sua mesa com a boa graça, a triste polidez, recentemente prescrita no Eliseu para representar a França isolada numa grande corte do norte. De vez em quando, dirigia frases vazias à Madame Garain, à sua direita; à Princesa Seniavine, à sua esquerda, que, carregada de diamantes, se sentia entediada. Em frente dele, do outro lado da mesa, a Condessa Martin, tendo ao seu lado o General Larivière e M. Schmoll, membro da Académie des Inscriptions, acariciava com o seu leque os ombros brancos e suaves. Nos dois semicírculos, pelos quais a mesa de jantar era prolongada, estavam M. Montessuy, robusto, de olhos azuis e tez avermelhada; uma jovem prima, Madame Belleme de Saint-Nom, embaraçada pelos seus braços longos e finos; o pintor Duviquet; M. Daniel Salomon; depois Paul Vence e Garain, o deputado; Belleme de Saint-Nom; um senador desconhecido; e Dechartre, que jantava em casa deles pela primeira vez. A conversa, a princípio trivial e insignificante, prolongou-se num murmúrio confuso, acima do qual se ergueu a voz de Garain:
— Toda a ideia falsa é perigosa. As pessoas pensam que os sonhadores não fazem mal. Estão enganadas: os sonhadores fazem muito mal. Mesmo as ideias utópicas aparentemente inofensivas exercem realmente uma influência nociva. Tendem a inspirar nojo pela realidade.
— É, talvez, porque a realidade não é bela — disse Paul Vence.
M. Garain disse que sempre fora a favor de todas as melhorias possíveis. Tinha pedido a supressão dos exércitos permanentes no tempo do Império, a separação da igreja e do estado, e tinha permanecido sempre fiel à democracia. O seu lema, dizia, era "Ordem e Progresso". Pensava ter descoberto esse lema.
Montessuy disse:
— Bem, Monsieur Garain, seja sincero. Confesse que não há reformas a fazer, e que é o máximo que se pode conseguir mudar a cor dos selos postais. Boas ou más, as coisas são como devem ser. Sim, as coisas são como devem ser; mas mudam incessantemente. Desde 1870, a situação industrial e financeira do país passou por quatro ou cinco revoluções que os economistas políticos não tinham previsto e que ainda não compreendem. Na sociedade, tal como na natureza, as transformações realizam-se a partir de dentro.
Quanto a assuntos de governo, as suas ideias eram concisas e decididas. Estava fortemente ligado ao presente, desatento ao futuro, e os socialistas preocupavam-no pouco. Sem se importar se o sol e o capital seriam extintos um dia, ele desfrutava-os. Segundo ele, devia-se deixar levar. Ninguém, exceto os tolos, resistia à corrente ou tentava ir em frente dela.
Mas o Conde Martin, naturalmente triste, tinha pressentimentos sombrios. Em palavras veladas, anunciava catástrofes. As suas frases tímidas vinham através das flores e irritavam M. Schmoll, que começou a resmungar e a profetizar. Explicou que as nações cristãs eram incapazes, sós e por si mesmas, de se libertarem da barbárie, e que, sem os judeus e os árabes, a Europa estaria hoje, como no tempo das Cruzadas, mergulhada na ignorância, na miséria e na crueldade.
— A Idade Média — disse ele — só está encerrada nos manuais históricos que são dados aos alunos para lhes estragar as mentes. Na realidade, os bárbaros são sempre bárbaros. A missão de Israel é instruir as nações. Foi Israel que, na Idade Média, trouxe à Europa a sabedoria das idades. O socialismo assusta-vos. É um mal cristão, tal como o sacerdócio. E a anarquia? Não reconheceis nela a peste dos albigenses e dos valdenses? Os judeus, que instruíram e poliram a Europa, são os únicos que a podem salvar hoje do mal evangélico pelo qual é devorada. Mas não cumpriram o seu dever. Tornaram-se cristãos entre os cristãos. E Deus pune-os. Permite que sejam exilados e espoliados. O antissemitismo está a fazer progressos terríveis em toda a parte. Da Rússia, os meus correligionários são expulsos como bestas selvagens. Em França, os empregos civis e militares estão a fechar-se aos judeus. Já não têm acesso aos círculos aristocráticos. O meu sobrinho, o jovem Isaac Coblentz, teve de renunciar a uma carreira diplomática, depois de ter passado brilhantemente o seu exame de admissão. As esposas de vários dos meus colegas, quando a Madame Schmoll lhes faz uma visita, exibem com intenção, sob os seus olhos, jornais antissemitas. E acreditaríeis que o Ministro da Instrução Pública se recusou a dar-me a cruz da Legião de Honra que solicitei? Que ingratidão! O antissemitismo é a morte — é a morte, ouvem-me? para a civilização europeia.
O pequeno homem tinha uma maneira natural que superava toda a arte do mundo. Grotesco e terrível, lançou a mesa na consternação com a sua sinceridade. A Madame Martin, a quem ele divertia, cumprimentou-o por isso:
— Pelo menos — disse ela —, defende os seus correligionários. Não é, Monsieur Schmoll, como uma bela senhora judia de meu conhecimento que, tendo lido num jornal que recebia a elite da sociedade judaica, foi a toda a parte gritar que tinha sido insultada.
— Tenho a certeza, Madame, que não sabe quão bela e superior a todas as outras moralidades é a moralidade judaica. Conhece a parábola dos três anéis?
Esta pergunta perdeu-se no murmúrio dos diálogos onde se misturavam a política externa, as exposições de pintura, os escândalos da moda e os discursos da Academia. Falavam do novo romance e da peça que se seguiria. Tratava-se de uma comédia. Napoleão era uma personagem incidental nela.
A conversa centrou-se em Napoleão I, frequentemente colocado em cena e recentemente estudado em livros — um objeto de curiosidade, uma personagem da moda, já não um herói popular, um semideus, vestindo botas pelo seu país, como nos dias em que Norvins e Béranger, Charlet e Raffet compunham a sua lenda; mas uma personagem curiosa, um tipo divertido na sua infinidade viva, uma figura cujo estilo é agradável aos artistas, cujos movimentos atraem os ociosos irrefletidos.
Garain, que fundara a sua fortuna política no ódio ao Império, julgava sinceramente que este regresso do gosto nacional era apenas uma infatuada absurda. Não via perigo nele e não sentia medo a seu respeito. Nele, o medo era súbito e feroz. Por um momento, estava muito calado; não falava de proibir espetáculos nem de apreender livros, de aprisionar autores ou de suprimir o que quer que fosse. Calmo e severo, via em Napoleão apenas o condottiere de Taine que pontapeou Volney no estômago. Toda a gente queria definir o verdadeiro Napoleão. O Conde Martin, perante a peça central imperial e as Vitórias aladas, falava adequadamente de Napoleão como um organizador e administrador, e colocava-o numa posição elevada como presidente do conselho de estado, onde as suas palavras esclareciam questões obscuras. Garain afirmava que, nas suas sessões, demasiado famosas, Napoleão, a pretexto de tomar rapé, pedia aos conselheiros que lhe passassem as suas caixas de ouro ornamentadas com miniaturas e adornadas com diamantes, que eles nunca mais voltavam a ver. A anedota tinha-lhe sido contada pelo próprio filho de Mounier.
Montessuy admirava em Napoleão o génio da ordem. “Ele gostava”, dizia, “de trabalho bem feito. É um gosto que a maioria das pessoas perdeu.”
O pintor Duviquet, cujas ideias eram as de um artista, sentia-se embaraçado. Não encontrava na máscara mortuária trazida de Santa Helena as características daquele rosto, belo e poderoso, que as medalhas e os bustos consagraram. Era preciso estar convencido disso agora que o bronze daquela máscara pendia em todas as lojas de antiguidades, entre águias e esfinges feitas de madeira dourada. E, segundo ele, já que o verdadeiro rosto de Napoleão não era o do Napoleão ideal, a sua verdadeira alma talvez não fosse como os idealistas a imaginavam. Talvez fosse a alma de um bom burguês. Alguém o dissera, e ele inclinava-se a pensar que era verdade. De qualquer modo, Duviquet, que se vangloriava de ter feito os melhores retratos do século, sabia que os homens célebres raramente se parecem com as ideias que se formam deles.
O Sr. Daniel Salomon observou que a bela máscara de que falava Duviquet, o molde de gesso tirado do rosto inanimado do Imperador e trazido para a Europa pelo Dr. Antommarchi, fora fundida em bronze e vendida por subscrição pela primeira vez em 1833, sob Luís Filipe, e que na altura inspirara surpresa e desconfiança. As pessoas suspeitavam que o químico italiano, que era uma espécie de bufão, sempre falador e esfomeado, tivesse tentado troçar das pessoas. Os discípulos do Dr. Gall, cujo sistema estava então em voga, consideravam a máscara suspeita. Não encontravam nela as protuberâncias do génio; e a testa, examinada de acordo com as teorias do mestre, não apresentava nada de notável na sua formação.
“Precisamente”, disse a Princesa Seniavine. “Napoleão foi notável apenas por ter pontapeado Volney no estômago e roubado uma caixa de rapé ornamentada com diamantes. O Senhor Garain acaba de nos ensinar.”
“E, no entanto”, disse Madame Martin, “ninguém tem a certeza de que ele tenha pontapeado Volney.”
“Tudo se acaba por saber”, respondeu a Princesa, alegremente. “Napoleão não fez absolutamente nada. Nem sequer pontapeou Volney, e a sua cabeça era a de um idiota.”
O General Lariviere sentiu que devia dizer algo. Lançou esta frase:
“Napoleão... a sua campanha de 1813 é muito discutida.”
O General queria agradar a Garain e não tinha outra ideia. Contudo, conseguiu, após um esforço, formular um juízo:
“Napoleão cometeu erros; na sua situação, não deveria ter cometido nenhum.” E calou-se abruptamente, muito vermelho.
Madame Martin perguntou:
“E o senhor, Monsieur Vence, o que pensa de Napoleão?”
“Madame, não tenho muito amor por portadores de espada, e os conquistadores parecem-me tolos perigosos. Mas, apesar de tudo, essa figura do Imperador interessa-me, tal como interessa ao público. Encontro nela carácter e vida. Não há poema ou romance que valha as Memórias de Santa Helena, embora estejam escritas de forma ridícula. O que penso de Napoleão, se quer saber, é que, feito para a glória, ele tinha a brilhante simplicidade do herói de um poema épico. Um herói deve ser humano. Napoleão era humano.”
“Oh, oh!” exclamaram todos.
Mas Paul Vence continuou:
“Ele era violento e frívolo; portanto, profundamente humano. Quero dizer, semelhante a toda a gente. Desejava, com singular força, tudo o que a maioria dos homens estima e deseja. Tinha ilusões, que transmitiu ao povo. Esse era o seu poder e a sua fraqueza; era a sua beleza. Ele acreditava na glória. Tinha da vida e do mundo a mesma opinião que qualquer um dos seus granadeiros. Conservou sempre a gravidade infantil que encontra prazer em brincar com espadas e tambores, e o tipo de inocência que faz bons militares. Estimava a força sinceramente. Era um homem entre homens, carne da carne humana. Não tinha um pensamento que não estivesse em ação, e todas as suas ações eram grandiosas, porém vulgares. É esta grandeza vulgar que faz os heróis. E Napoleão é o herói perfeito. O seu cérebro nunca superou a sua mão — aquela mão, pequena e bela, que agarrou o mundo. Nunca teve, por um momento, o menor cuidado pelo que não podia alcançar.”
“Então”, disse Garain, “segundo o senhor, ele não era um génio intelectual. Sou da sua opinião.”
“Certamente”, continuou Paul Vence, “ele tinha génio suficiente para ser brilhante na arena civil e militar do mundo. Mas não tinha génio especulativo. Esse génio é outro par de mangas, como diz Buffon. Temos uma coleção dos seus escritos e discursos. O seu estilo tem movimento e imaginação. E nessa massa de pensamentos não se consegue encontrar uma curiosidade filosófica, nem uma expressão de angústia perante o incognoscível, nem uma expressão de medo do mistério que rodeia o destino. Em Santa Helena, quando fala de Deus e da alma, parece um rapazola de catorze anos. Lançado ao mundo, o seu espírito mostrou-se apto para o mundo e abraçou-o todo. Nada desse espírito se perdeu no infinito. Ele próprio um poeta, conhecia apenas a poesia da ação. Limitou à terra o seu poderoso sonho de vida. Na sua terrível e tocante ingenuidade, acreditava que um homem podia ser grande, e nem o tempo nem o infortúnio o fizeram perder essa ideia. A sua juventude, ou melhor, a sua sublime adolescência, durou enquanto viveu, porque a vida nunca lhe trouxe uma verdadeira maturidade. Tal é o estado anormal dos homens de ação. Vivem inteiramente no presente, e o seu génio concentra-se num ponto. As horas da sua existência não estão ligadas por uma cadeia de meditações graves e desinteressadas. Sucedem-se numa série de atos. Falta-lhes vida interior. Este defeito é particularmente visível em Napoleão, que nunca viveu dentro de si mesmo. Daí deriva a frivolidade de temperamento que o fez suportar facilmente a carga enorme dos seus males e dos seus erros. O seu espírito renascia todos os dias. Tinha, mais do que qualquer outra pessoa, uma capacidade de diversão. No primeiro dia em que viu o sol nascer no seu rochedo fúnebre em Santa Helena, saltou da cama, assobiando um ária romântica. Era a paz de um espírito superior à fortuna; era a frivolidade de um espírito pronto para a ressurreição. Ele vivia do exterior.”
Garain, que não gostava do engenho e da linguagem de Paul Vence, tentou apressar a conclusão:
“Numa palavra”, disse ele, “havia algo de monstro no homem.”
“Não existem monstros”, respondeu Paul Vence; “e os homens que passam por monstros inspiram horror. Napoleão foi amado por todo um povo. Tinha o poder de conquistar o amor dos homens. A alegria dos seus soldados era morrer por ele.”
A Condessa Martin teria desejado que Dechartre desse a sua opinião. Mas ele escusou-se com uma espécie de susto.
“Conhecem”, perguntou Schmoll novamente, “a parábola dos três anéis, sublime inspiração de um judeu português.”
Garain, enquanto felicitava Paul Vence pelo seu brilhante paradoxo, lamentava que o engenho fosse exercido à custa da moralidade e da justiça.
“Um grande princípio”, disse ele, “é que os homens devem ser julgados pelos seus atos.”
“E as mulheres?” perguntou a Princesa Seniavine, bruscamente; “julga-as pelos seus atos? E como sabe o que elas fazem?”
O som das vozes misturava-se com o tilintar claro dos talheres. Um ar quente banhava a sala. As rosas deixavam cair as suas pétalas sobre a toalha. Pensamentos mais ardentes subiam ao cérebro.
O General Lariviere perdeu-se em sonhos.
“Quando o clamor público me tiver rompido os tímpanos”, disse ele ao seu vizinho, “irei viver para Tours. Vou cultivar flores.”
Ele vangloriava-se de ser um bom jardineiro; o seu nome fora dado a uma rosa. Isso agradava-lhe imenso.
Schmoll perguntou novamente se conheciam a parábola dos três anéis.
A Princesa provocou o Deputado.
“Então não sabe, Monsieur Garain, que se fazem as mesmas coisas por razões muito diferentes?”
Montessuy disse que ela tinha razão.
“É muito verdade, como diz, Madame, que as ações não provam nada. Este pensamento é marcante num episódio da vida de Don Juan, que não era conhecido nem por Molière nem por Mozart, mas que é revelado numa lenda inglesa, cujo conhecimento devo ao meu amigo James Russell Lowell, de Londres. Aprende-se nela que o grande sedutor perdeu o seu tempo com três mulheres. Uma era uma burguesa: estava apaixonada pelo seu marido; a outra era uma freira: não consentiria em violar os seus votos; a terceira, que levara durante muito tempo uma vida de deboche, tornara-se feia e era criada num covil. Depois do que fizera, depois do que vira, o amor não significava nada para ela. Estas três mulheres comportaram-se da mesma maneira por razões muito diferentes. Uma ação não prova nada. É o conjunto das ações, o seu peso, a sua soma total, que faz o valor do ser humano.”
“Algumas das nossas ações”, disse Madame Martin, “têm o nosso aspeto, o nosso rosto: são as nossas filhas. Outras não se parecem nada connosco.”
Ela levantou-se e deu o braço ao General.
No caminho para a sala de estar, a Princesa disse:
“Therese tem razão. Algumas ações não exprimem nada do nosso verdadeiro eu. São como as coisas que fazemos em pesadelos.”
As ninfas das tapeçarias sorriam em vão, na sua beleza desbotada, aos convidados, que não as viam.
Madame Martin serviu o café com a sua jovem prima, Madame Belleme de Saint-Nom. Elogiou Paul Vence pelo que tinha dito à mesa.
“Falou de Napoleão com uma liberdade de espírito que é rara nas conversas que oiço. Notei que as crianças, quando são bonitas, parecem-se, quando fazem beicinho, com Napoleão em Waterloo. Fez-me sentir as razões profundas dessa semelhança.”
Depois, voltando-se para Dechartre:
“Gosta de Napoleão?”
“Madame, não gosto da Revolução. E Napoleão é a Revolução de botas.”
“Monsieur Dechartre, porque não disse isto ao jantar? Mas vejo que prefere ser espirituoso apenas em tête-à-têtes.”
O Conde Martin-Belleme acompanhou os homens para a sala de fumo. Paul Vence permaneceu sozinho com as mulheres. A Princesa Seniavine perguntou-lhe se tinha terminado o seu romance e qual era o assunto. Era um estudo em que tentava chegar à verdade através de uma série de condições plausíveis.
“Assim”, disse ele, “o romance adquire uma força moral que a história, na sua pesada frivolidade, nunca teve.”
Ela perguntou se o livro fora escrito para mulheres. Ele disse que não.
“Faz mal, Monsieur Vence, em não escrever para as mulheres. Um homem superior não pode fazer outra coisa por elas.”
Ele quis saber o que lhe dava essa ideia.
“Porque vejo que todas as mulheres inteligentes amam os tolos.”
“Que as aborrecem.”
“Certamente! Mas os homens superiores aborrecê-las-iam mais. Teriam mais recursos para empregar a aborrecê-las. Mas diga-me o assunto do seu romance.”
“Insiste?”
“Oh, não insisto em nada.”
“Bem, vou contar-lhe. É um estudo de costumes populares; a história de um jovem operário, sóbrio e casto, tão bonito como uma rapariga, com o espírito de um virgem, uma alma sensível. É entalhador e trabalha bem. À noite, perto da mãe, a quem ama, estuda, lê livros. Na sua mente, simples e recetiva, as ideias alojam-se como balas numa parede. Não tem desejos. Não tem as paixões nem os vícios que nos prendem à vida. É solitário e puro. Dotado de fortes virtudes, torna-se presunçoso. Vive entre pessoas miseráveis. Vê o sofrimento. Tem devoção sem humanidade. Tem aquela espécie de caridade fria que se chama altruísmo. Não é humano porque não é sensual.”
“Oh! É preciso ser sensual para ser humano?”
“Certamente, Madame. A verdadeira piedade, tal como a ternura, vem do coração. Ele não é suficientemente inteligente para duvidar. Acredita no que leu. E leu que, para estabelecer a felicidade universal, a sociedade deve ser destruída. A sede de martírio devora-o. Uma manhã, depois de beijar a mãe, sai; vigia o deputado socialista do seu distrito, vê-o, atira-se a ele e enterra-lhe um punhal no peito. Viva a anarquia! É preso, medido, fotografado, interrogado, julgado, condenado à morte e guilhotinado. Esse é o meu romance.”
“Não é muito divertido”, disse a Princesa; “mas isso não é culpa sua. Os seus anarquistas são tão tímidos e moderados como os outros franceses. Os russos têm mais audácia e mais imaginação.”
A Condessa Martin perguntou a Paul Vence se conhecia um homem silencioso e de aspeto tímido entre os convidados. O seu marido tinha-o convidado. Ela não sabia nada dele, nem sequer o nome. Paul Vence apenas pôde dizer que era senador. Vira-o um dia por acaso no Luxemburgo, na galeria que servia de biblioteca.
“Fui lá ver a cúpula, onde Delacroix pintou, num bosque de murtas azuladas, heróis e sábios da antiguidade. Aquele senhor estava lá, com o mesmo ar miserável e lastimoso. O seu casaco estava húmido e ele aquecia-se. Conversava com antigos colegas e dizia, enquanto esfregava as mãos: ‘A prova de que a República é o melhor dos governos é que, em 1871, pôde matar numa semana sessenta mil insurgentes sem se tornar impopular. Após tal repressão, qualquer outro regime teria sido impossível.’”
“É um homem muito perverso”, disse Madame Martin. “E pensar que eu estava a ter pena dele!”
Madame Garain, com o queixo suavemente caído sobre o peito, dormia na paz da sua mente caseira e sonhava com a sua horta nas margens do Loire, onde sociedades de canto vinham serená-la.
Joseph Schmoll e o General Lariviere saíram da sala de fumo. O General sentou-se entre a Princesa Seniavine e Madame Martin.
“Encontrei esta manhã, no parque, a Baronesa Warburg, montada num cavalo magnífico. Ela disse: ‘General, como faz para ter cavalos tão bons?’ Respondi: ‘Madame, para ter bons cavalos, tem de ser ou muito rica ou muito esperta.’”
Ele estava tão satisfeito com a sua resposta que a repetiu duas vezes.
Paul Vence aproximou-se da Condessa Martin:
“Sei o nome desse senador: é Lyer. É vice-presidente de uma sociedade política e autor de um livro intitulado O Crime de Dois de Dezembro.”
O General continuou:
“O tempo estava horrível. Entrei numa cabana e encontrei lá Le Menil. Estava de mau humor. Vi que ele troçava de mim, porque eu procurava abrigo. Ele imagina que, por ser general, devo gostar de vento e neve. Disse que gostava de mau tempo e que ia caçar raposas com amigos na próxima semana.”
Houve uma pausa; o General continuou:
“Desejo-lhe muita alegria, mas não o invejo. A caça à raposa não é agradável.”
“Mas é útil”, disse Montessuy.
O General encolheu os ombros.
“As raposas são perigosas para os galinheiros na primavera, quando as galinhas têm de alimentar as suas famílias.”
“As raposas são caçadores furtivos astutos, que fazem menos mal aos agricultores do que aos caçadores. Sei algo sobre isto.”
Therese não estava a ouvir a Princesa, que lhe falava. Pensava:
“Ele não me disse que ia embora!”
“Em que estás a pensar, querida?” perguntou a Princesa.
“Em nada de interessante”, respondeu Therese.
CAPÍTULO IV. O FIM DE UM SONHO
Na pequena sala sombria, onde o som era abafado por cortinas, reposteiros, almofadas, peles de urso e tapetes do Oriente, a luz do fogo brilhava em espadas cintilantes penduradas entre as lembranças desbotadas dos cotilhões de três invernos. A cómoda de pau-rosa era encimada por uma taça de prata, um prémio de algum clube desportivo. Numa placa de porcelana, no centro da mesa, estava um vaso de cristal que continha ramos de lilases brancos; e luzes palpitavam nas sombras quentes. Therese e Robert, com os olhos habituados à obscuridade, moviam-se facilmente entre estes objetos familiares. Ele acendeu um cigarro enquanto ela arranjava o cabelo, de pé diante do espelho, num canto tão escuro que mal conseguia ver-se. Tirou ganchos do pequeno copo de vidro da Boémia que estava sobre a mesa, onde o guardara durante três anos. Ele olhou para ela, passando os dedos leves rapidamente pelas ondas douradas do cabelo, enquanto o seu rosto, endurecido e bronzeado pela sombra, adquiria uma expressão misteriosa. Ela não falou.
Ele disse-lhe:
“Já não estás zangada, minha querida?”
E, como ele insistia em ter uma resposta, ela disse:
“O que queres que te diga, meu amigo? Só posso repetir o que disse ao princípio. Acho estranho ter de saber dos teus projetos pelo General Lariviere.”
Ele sabia muito bem que ela não o tinha perdoado; que tinha permanecido fria e reservada para com ele. Mas fingiu pensar que ela apenas fazia beicinho.
“Minha querida, já te expliquei. Disse-te que, quando encontrei Lariviere, tinha acabado de receber uma carta de Caumont, recordando-me a minha promessa de caçar a raposa nos seus bosques, e respondi no correio de volta. Tinha a intenção de te falar disso hoje. Lamento que o General Lariviere te tenha dito primeiro, mas não houve qualquer significado nisso.”
Os seus braços estavam levantados como as pegas de um vaso. Ela virou para ele um olhar dos seus olhos tranquilos, que ele não compreendeu.
“Então vais mesmo?”
“Na próxima semana, terça ou quarta-feira. Estarei fora apenas dez dias, no máximo.”
Ela pôs o seu toque de pele de foca, ornamentado com um ramo de azevinho.
“É algo que não podes adiar?”
“Oh, sim. As peles de raposa não valerão nada dentro de um mês. Além disso, Caumont convidou bons amigos meus, que lamentariam a minha ausência.”
Fixando o toque na cabeça com um gancho longo, ela franziu a testa.
“A caça à raposa é interessante?”
“Oh, sim, muito. A raposa tem estratagemas que é preciso decifrar. A inteligência daquele animal é verdadeiramente maravilhosa. Observei à noite uma raposa a caçar um coelho. Tinha organizado uma verdadeira caçada. Garanto-te que não é fácil desalojar uma raposa. Caumont tem uma excelente cave. Não me importo, mas é geralmente apreciada. Levar-te-ei meia dúzia de peles.”
“O que queres que faça com elas?”
“Oh, podes fazer tapetes com elas.”
“E vais estar a caçar oito dias?”
“Não o tempo todo. Vou visitar a minha tia, que me espera. O ano passado, por esta altura, houve uma reunião deliciosa em casa dela. Ela tinha consigo as suas duas filhas e as suas três sobrinhas com os maridos. Todas as cinco mulheres são bonitas, alegres, encantadoras e irrepreensíveis. Provavelmente encontrá-las-ei no início do próximo mês, reunidas para o aniversário da minha tia, e ficarei lá dois dias.”
“Meu amigo, fica o tempo que te aprouver. Eu ficaria inconsolável se encurtasses por minha causa uma estadia que é tão agradável.”
“Mas tu, Therese?”
“Eu, meu amigo? Sei cuidar de mim.”
O fogo estava a desfalecer. As sombras aprofundavam-se entre eles. Ela disse, num tom sonhador:
“É verdade, contudo, que nunca é prudente deixar uma mulher sozinha.”
Ele aproximou-se dela, tentando ver-lhe os olhos na escuridão. Pegou-lhe na mão.
“Tu amas-me?” disse ele.
“Oh, garanto-te que não amo outro senão...”
“O que queres dizer?”
“Nada. Estou a pensar... estou a pensar que estamos separados durante todo o verão; que no inverno vives com os teus pais e os teus amigos metade do tempo; e que, se nos havemos de ver tão pouco, é melhor não nos vermos de todo.”
Ele acendeu o candelabro. O seu rosto franco e duro foi iluminado. Olhou para ela com uma confiança que provinha menos da presunção comum a todos os amantes do que da sua natural falta de dignidade. Acreditava nela pela força da educação e pela simplicidade da inteligência.
“Therese, eu amo-te, e tu amas-me, eu sei. Porque me atormentas? Às vezes és penosamente dura.”
Ela abanou a sua cabecinha bruscamente.
“O que queres tu? Sou dura e obstinada. Está no sangue. Herdei-o do meu pai. Conheces Joinville; viste o castelo, os tetos, as tapeçarias, os jardins, o parque, as coutadas; disseste que não havia melhores em França; mas não viste a oficina do meu pai — uma mesa de madeira branca e uma secretária de mogno. Tudo em mim tem origem aí. Nessa mesa, o meu pai fabricou figuras durante quarenta anos; primeiro num quartinho, depois no apartamento onde nasci. Não éramos muito ricos nessa altura. Sou filha de um parvenu, ou filha de um conquistador, vai dar ao mesmo. Somos gente de interesses materiais. O meu pai queria ganhar dinheiro, possuir o que podia comprar — isto é, tudo. Eu desejo ganhar e guardar — o quê? Não sei — a felicidade que tenho — ou que não tenho. Tenho a minha própria forma de ser exigente. Anseio por sonhos e ilusões. Oh, sei muito bem que tudo isto não vale o trabalho que uma mulher tem ao entregar-se a um homem; mas é um trabalho que vale alguma coisa, porque o meu trabalho sou eu própria, a minha vida. Gosto de desfrutar do que gosto, ou de pensar no que gosto. Não quero perder. Sou como o papá: exijo o que me é devido. E depois...”
Ela baixou a voz:
“E depois, tenho... impulsos! Agora, meu querido, estou a aborrecer-te. O que queres tu? Não me devias ter amado.”
Esta linguagem, a que ela o habituara, estragava-lhe muitas vezes o prazer. Mas não o alarmava. Ele era sensível a tudo o que ela fazia, mas não de todo ao que dizia; e não atribuía importância às palavras de uma mulher. Falando pouco ele próprio, não conseguia imaginar que, muitas vezes, as palavras são o mesmo que as ações.
Embora a amasse, ou, melhor dizendo, porque a amava com força e confiança, achava que era seu dever resistir aos seus caprichos, que julgava absurdos. Sempre que fazia de senhor, tinha êxito com ela; e, ingenuamente, acabava sempre por fazê-lo.
“Sabes muito bem, Therese, que não desejo outra coisa senão ser-te agradável. Não sejas caprichosa comigo.”
“E porque não hei de ser caprichosa? Se me entreguei a ti, não foi porque fosse lógica, nem porque pensasse que devia. Foi porque fui caprichosa.”
Ele olhou para ela, espantado e entristecido.
“A palavra não te agrada, meu amigo? Bem, digamos que foi amor. Verdadeiramente foi, com todo o meu coração, e porque senti que me amavas. Mas o amor deve ser um prazer, e se nele não encontro a satisfação do que chamas o meu capricho, mas que é, na verdade, o meu desejo, a minha vida, o meu amor, não o quero; prefiro viver sozinha. Tu és espantoso! Os meus caprichos! Existe mais alguma coisa na vida? A tua caça à raposa, não é isso um capricho?”
Ele respondeu, muito sinceramente:
“Se não tivesse prometido, juro-te, Therese, que sacrificaria esse pequeno prazer com grande alegria.”
Ela sentiu que ele dizia a verdade. Sabia quão exato ele era em cumprir os mais insignificantes compromissos, contudo, percebia que, se ela insistisse, ele não iria. Mas era demasiado tarde: ela não desejava ganhar. De agora em diante, procuraria apenas o prazer violento de perder. Fingiu levar a sua razão a sério, e disse:
“Ah, tu prometeste!”
E fingiu ceder.
Surpreendido de início, ele congratulou-se finalmente por a ter feito ouvir a razão. Agradeceu-lhe por não ter sido teimosa. Passou o braço pela cintura dela e beijou-a no pescoço e nas pálpebras como recompensa. Disse:
“Podemos encontrar-nos três ou quatro vezes antes de eu partir, e mais, se quiseres. Esperar-te-ei tantas vezes quantas queiras vir. Encontrar-me-ás aqui amanhã?”
Ela deu a si mesma a satisfação de dizer que não poderia vir no dia seguinte nem em nenhum outro dia.
Suavemente, mencionou as coisas que a impediam.
Os obstáculos pareciam leves; visitas, um vestido para experimentar, uma feira de caridade, exposições. À medida que se alongava sobre as dificuldades, elas pareciam aumentar. As visitas não podiam ser adiadas; havia três feiras; as exposições fechariam em breve. Em suma, era-lhe impossível vê-lo novamente antes da sua partida.
Como ele estava bem habituado a dar desculpas desse género, não reparou que não era natural que Therese as oferecesse. Embaraçado por aquele emaranhado de obrigações sociais, não insistiu, permanecendo em silêncio e infeliz.
Com o braço esquerdo, ela levantou a cortina, colocou a mão direita na chave da porta; e, de pé contra o rico pano de fundo das dobras cor de safira e rubi das tapeçarias orientais, virou a cabeça para o amigo que deixava, e disse, um pouco zombeteira, mas com um toque de emoção trágica:
“Adeus, Robert. Diverte-te. As minhas visitas, os meus recados, as tuas pequenas visitas não são nada. A vida é feita precisamente de tais ninharias. Adeus!”
Ela saiu. Ele teria gostado de a acompanhar, mas fazia questão de não se mostrar com ela na rua, a menos que ela o forçasse absolutamente a fazê-lo.
Na rua, Therese sentiu, de repente, que estava sozinha no mundo, sem alegria e sem dor. Voltou para casa a pé, como era seu hábito. Era noite; o ar estava gelado, claro e tranquilo. Mas as avenidas por onde caminhava, em sombras salpicadas de luzes, envolviam-na naquela atmosfera amena da rainha das cidades, tão agradável aos seus habitantes, que se faz sentir mesmo no frio do inverno. Caminhou entre as filas de barracas e casas antigas, restos dos dias de festa de Auteuil, que casas altas interrompiam aqui e ali. Estas pequenas lojas, estas janelas monótonas, não eram nada para ela. Contudo, sentiu que estava sob o feitiço misterioso da amizade das coisas inanimadas; e parecia-lhe que as pedras, as portas das casas, as luzes por trás das vidraças, olhavam para ela com bondade. Estava sozinha, e desejava estar sozinha. Os passos que dava entre as duas casas onde os seus hábitos eram quase iguais, os passos que dera tantas vezes, hoje pareciam-lhe irrevogáveis. Porquê? O que trouxera aquele dia? Não exatamente uma discussão. E, contudo, as palavras ditas naquele dia tinham deixado uma picada subtil, estranha, persistente, que nunca a abandonaria. O que tinha acontecido? Nada. E esse nada tinha apagado tudo. Tinha uma espécie de certeza obscura de que nunca voltaria àquele quarto que tão recentemente encerrara as fases mais secretas e mais queridas da sua vida. Tinha amado Robert com a seriedade de uma alegria necessária. Feita para ser amada, e muito sensata, não tinha perdido, no abandono de si mesma, aquele instinto de reflexão, aquela necessidade de segurança, que era tão forte nela. Não tinha escolhido: raramente se escolhe. Não se tinha deixado levar ao acaso e de surpresa. Tinha feito o que tinha desejado fazer, tanto quanto se faz sempre o que se deseja fazer em tais casos. Não tinha nada de que se arrepender. Ele tinha sido para ela o que era seu dever ser. Sentia, apesar de tudo, que tudo chegara ao fim. Pensou, com secura e tristeza, que três anos da sua vida tinham sido dados a um homem honesto que a amara e a quem ela amara. “Pois eu amava-o. Devo tê-lo amado para me entregar a ele.” Mas não conseguia sentir de novo os sentimentos dos primeiros dias, os movimentos da sua mente quando cedera. Recordou circunstâncias pequenas e insignificantes: as flores no papel de parede e os quadros no quarto. Recordou as palavras, um pouco ridículas e quase comoventes, que ele lhe dissera. Mas parecia-lhe que a aventura tinha acontecido a outra mulher, a uma estranha de quem não gostava e a quem mal compreendia. E o que tinha acontecido há apenas um momento parecia agora muito distante. O quarto, os lilases no vaso de cristal, a pequena taça de vidro da Boémia onde encontrava os seus alfinetes — via todas estas coisas como se fosse através de uma janela pela qual se passa na rua. Estava sem amargura, e até sem tristeza. Não tinha nada a perdoar, infelizmente! Esta ausência de uma semana não era uma traição, não era uma falta contra ela; não era nada, contudo era tudo. Era o fim. Ela sabia-o. Desejava terminar. Era o consentimento de todas as forças do seu ser. Disse a si mesma: “Não tenho razão para o amar menos. Já não o amo? Alguma vez o amei?” Não sabia e não se importava de saber. Três anos, durante os quais houve meses em que se viam todos os dias — era tudo isto nada? A vida não é uma coisa grande. E aquilo que nela pomos, quão pouco isso é!
Em suma, não tinha de que se queixar. Mas era melhor terminar com tudo. Todas estas reflexões traziam-na de volta a esse ponto. Não era uma resolução; as resoluções podem ser mudadas. Era mais grave: era um estado do corpo e da mente.
Quando chegou à praça, no centro da qual existe uma fonte, e de um lado da qual se ergue uma igreja de estilo rústico, mostrando o seu sino num campanário aberto, recordou o pequeno ramo de violetas que ele lhe dera numa noite na ponte perto de Notre Dame. Tinham-se amado naquele dia — talvez mais do que o habitual. O seu coração amoleceu com essa reminiscência. Mas o pequeno ramo permaneceu sozinho, um pobre esqueleto de flor, na sua memória.
Enquanto pensava, transeuntes, enganados pela simplicidade do seu vestido, seguiam-na. Um deles fez-lhe propostas: um jantar e o teatro. Isso divertiu-a. Não estava de todo perturbada; não era uma crise. Pensou: “Como fazem outras mulheres tais coisas? E eu, que prometi a mim mesma não estragar a minha vida. O que vale a vida?”
Em frente à lanterna grega do Musée des Religions, encontrou o solo remexido por operários. Havia pedras de calçada atravessadas por uma ponte feita de uma prancha estreita e flexível. Tinha acabado de pisar nela quando viu na outra extremidade, à sua frente, um homem que a esperava. Ele reconheceu-a e fez uma vénia. Era Dechartre. Viu que ele estava feliz por a encontrar; agradeceu-lhe com um sorriso. Ele pediu-lhe permissão para caminhar alguns passos com ela, e entraram no espaço amplo e arejado. Neste lugar, as casas altas, colocadas um pouco atrás, apagam-se e revelam um vislumbre do céu.
Ele disse-lhe que a tinha reconhecido à distância pelo ritmo da sua figura e dos seus movimentos, que eram exclusivamente seus.
“Movimentos graciosos”, acrescentou, “são como música para os olhos.”
Ela respondeu que gostava de caminhar; era o seu prazer, e a causa da sua boa saúde.
Ele também gostava de caminhar em cidades populosas e campos belos. O mistério das estradas tentava-o. Gostava de viajar. Embora as viagens se tivessem tornado comuns e fáceis, conservavam para ele o seu encanto poderoso. Tinha visto dias dourados e noites cristalinas, a Grécia, o Egito e o Bósforo; mas era à Itália que voltava sempre, como à terra-mãe da sua mente.
“Irei lá na próxima semana”, disse ele. “Anseio por ver de novo Ravena adormecida entre os pinheiros negros da sua costa estéril. Viu Ravena, Madame? É um túmulo encantado onde aparecem fantasmas cintilantes. A magia da morte reside ali. As obras de mosaico de São Vitale, com os seus anjos bárbaros e as suas imperatrizes aureoladas, fazem sentir os prazeres monstruosos do Oriente. Despojado hoje das suas lamelas de prata, o túmulo de Gala Placídia é aterrador sob a sua cripta, luminoso mas sombrio. Quando se olha através de uma abertura no sarcófago, parece que se vê a filha de Teodósio, sentada na sua cadeira de ouro, ereta no seu vestido cravejado de pedras e bordado com cenas do Antigo Testamento; o seu rosto belo e cruel preservado duro e negro com plantas aromáticas, e as suas mãos de ébano imóveis sobre os joelhos. Durante treze séculos ela reteve esta majestade fúnebre, até que um dia uma criança passou uma vela pela abertura do túmulo e queimou o corpo.”
Madame Martin-Belleme perguntou o que tinha feito aquela mulher morta, tão obstinada na sua vaidade, durante a sua vida.
“Duas vezes escrava”, disse Dechartre, “tornou-se duas vezes imperatriz.”
“Deve ter sido bela”, disse Madame Martin. “Fez-me vê-la demasiado vividamente no seu túmulo. Ela assusta-me. Irá a Veneza, Monsieur Dechartre? Ou está cansado das gôndolas, dos canais ladeados por palácios e dos pombos de São Marcos? Confesso que ainda gosto de Veneza, depois de lá ter estado três vezes.”
Ele disse que ela tinha razão. Ele também gostava de Veneza.
Sempre que lá ia, de escultor tornava-se pintor, e fazia estudos. Gostaria de pintar a sua atmosfera.
“Noutros lugares”, disse ele, “mesmo em Florença, o céu é demasiado alto. Em Veneza está em toda a parte; acaricia a terra e a água. Envolve amorosamente as cúpulas de chumbo e as fachadas de mármore, e lança na atmosfera iridescente as suas pérolas e os seus cristais. A beleza de Veneza está no seu céu e nas suas mulheres. Que criaturas bonitas são as mulheres venezianas! As suas formas são tão esguias e flexíveis sob os seus xailes pretos. Se não restasse nada destas mulheres senão um osso, encontrar-se-ia nesse osso o encanto da sua estrutura requintada. Aos domingos, na igreja, formam grupos risonhos, agitados, com ancas um pouco pontiagudas, pescoços elegantes, sorrisos floridos e olhares inflamados. E todas se dobram, com a flexibilidade de animais jovens, à passagem de um padre cuja cabeça se assemelha à de Vitélio, e que transporta o cálice, precedido por dois coroinhas.”
Ele caminhava com passo desigual, seguindo o ritmo das suas ideias, por vezes rápido, por vezes lento. Ela caminhava mais regularmente, e quase o ultrapassava. Ele olhava-a de lado, e gostava do seu porte firme e flexível. Observava o pequeno abanão que, a momentos, a sua cabeça obstinada dava ao azevinho no seu toque.
Sem o esperar, sentiu um encanto nesse encontro, quase íntimo, com uma jovem quase desconhecida.
Tinham chegado ao local onde a grande avenida desenrola as suas quatro filas de árvores. Seguiam o parapeito de pedra encimado por uma sebe de buxo, que esconde inteiramente a fealdade dos edifícios no cais. Sentia-se a presença do rio pela atmosfera leitosa que, em dias de nevoeiro, parece repousar sobre a água. O céu estava limpo. As luzes da cidade confundiam-se com as estrelas. A sul brilhavam os três pregos dourados do cinturão de Órion. Dechartre continuou:
“No ano passado, em Veneza, todas as manhãs, ao sair de casa, via à sua porta, elevada por três degraus acima do canal, uma rapariga encantadora, de cabeça pequena, pescoço redondo e forte, e ancas graciosas. Estava ali, ao sol e rodeada de vermes, tão pura como uma ânfora, perfumada como uma flor. Ela sorria. Que boca! A joia mais rica na luz mais bela. Percebi a tempo que aquele sorriso era dirigido a um talhante que estava de pé atrás de mim com o seu cesto na cabeça.”
Na esquina da rua curta que vai para o cais, entre duas filas de pequenos jardins, Madame Martin caminhou mais devagar.
“É verdade que em Veneza”, disse ela, “todas as mulheres são bonitas.”
“São quase todas bonitas, Madame. Falo das raparigas comuns — as raparigas dos cigarros, as raparigas entre os vidreiros. As outras são bastante vulgares.”
“Por outras, refere-se às mulheres da sociedade; e não gosta destas?”
“Mulheres da sociedade? Oh, algumas são encantadoras. Quanto a amá-las, isso é outro assunto.”
“Acha?”
Ela estendeu-lhe a mão e, subitamente, virou a esquina.
CAPÍTULO V. UM JANTAR ‘EN FAMILLE’
Jantou naquela noite sozinha com o marido. A mesa estreita não tinha o cesto com águias douradas e Vitórias aladas. Os candelabros não iluminavam as pinturas de Oudry. Enquanto ele falava dos acontecimentos do dia, ela mergulhou num devaneio triste. Parecia-lhe que flutuava num nevoeiro. Era um sofrimento pacífico e quase doce. Viu vagamente através das nuvens o pequeno quarto da Rue Spontini transportado por anjos para um dos cumes das montanhas do Himalaia, e Robert Le Menil — no estremecimento de uma espécie de fim do mundo — tinha desaparecido enquanto calçava as suas luvas. Sentiu o pulso para ver se estava febril. Um tilintar de talheres na mesa despertou-a. Ouviu o marido a dizer:
“O meu querido amigo Gavaut fez hoje, na Câmara, um excelente discurso sobre a questão dos fundos de reserva. É extraordinário como as suas ideias se tornaram sãs e justas. Oh, ele melhorou muito.”
Ela não pôde conter um sorriso.
“Mas Gavaut, meu amigo, é um pobre diabo que nunca pensou em nada, exceto em escapar à multidão daqueles que morrem de fome. Gavaut nunca teve ideias, exceto nos cotovelos. Alguém o leva a sério no mundo político? Podes estar certo de que ele nunca deu uma ilusão a nenhuma mulher, nem sequer à sua mulher. E, no entanto, para produzir esse tipo de ilusão, um homem não precisa de muito.” Acrescentou, bruscamente:
“Sabes que a Miss Bell me convidou para passar um mês com ela em Fiesole. Aceitei; vou.”
Menos espantado do que descontente, perguntou-lhe com quem ia.
Imediatamente ela respondeu:
“Com Madame Marmet.”
Não havia objeção a fazer. Madame Marmet era uma companheira adequada, e era apropriado que ela visitasse a Itália, onde o seu marido fizera algumas escavações. Ele perguntou apenas:
“Convidaste-a? Quando vais?”
“Na próxima semana.”
Ele teve a sabedoria de não apresentar qualquer objeção, julgando que a oposição apenas tornaria a sua caprichosidade mais firme, e temendo dar impulso a essa ideia insensata. Disse:
“Certamente, viajar é um passatempo agradável. Pensei que poderíamos na primavera visitar o Cáucaso e o Turquestão. É um país interessante. O General Annenkoff colocará à nossa disposição carruagens, comboios e tudo o resto na sua ferrovia. É um amigo meu; ele está bastante encantado contigo. Ele providenciar-nos-á uma escolta de cossacos.”
Ele insistia em tentar lisonjear a sua vaidade, incapaz de perceber que a mente dela não era mundana. Ela respondeu, negligentemente, que poderia ser uma viagem agradável. Depois, ele elogiou as montanhas, as cidades antigas, os bazares, os trajes, as armaduras.
Acrescentou:
“Levaremos alguns amigos connosco — a Princesa Seniavine, o General Lariviere, talvez Vence ou Le Menil.”
Ela respondeu, com uma pequena risada seca, que tinham tempo para escolher os seus convidados.
Ele tornou-se atento às necessidades dela.
“Não estás a comer. Vais prejudicar a tua saúde.”
Sem ainda acreditar nesta partida imediata, sentiu alguma ansiedade com isso. Cada um tinha recuperado a liberdade, mas ele não gostava de estar sozinho. Sentia que era ele próprio apenas quando a sua mulher estava lá. E depois, tinha decidido oferecer dois ou três jantares políticos durante a sessão. Via o seu partido a crescer. Este era o momento de se afirmar, de fazer uma demonstração deslumbrante. Disse, misteriosamente:
“Algo poderá acontecer que exija a ajuda de todos os nossos amigos. Não tens acompanhado a marcha dos acontecimentos, Therese?”
“Não, meu querido.”
“Lamento. Tens discernimento, liberalidade de espírito. Se tivesses acompanhado a marcha dos acontecimentos, terias ficado impressionada com a corrente que está a levar o país de volta a opiniões moderadas. O país está cansado de exageros. Rejeita os homens comprometidos pela política radical e pela perseguição religiosa. Um dia ou outro será necessário formar um ministério Casimir-Perier com outros homens, e nesse dia...”
Ele parou: na verdade, ela ouvia com demasiada desatenção.
Ela pensava, triste e desencantada. Parecia-lhe que a bela mulher, que, entre as sombras mornas de um quarto fechado, pousava os pés nus sobre a pele de um tapete de urso pardo, e a quem o amante dava beijos enquanto ela enrolava o cabelo diante de um espelho, não era ela mesma, não era sequer uma mulher que ela conhecesse bem, ou que desejasse conhecer, mas uma pessoa cujos assuntos não lhe despertavam interesse. Um alfinete mal posto no cabelo, um dos alfinetes do copo de vidro da Boémia, caiu-lhe sobre o pescoço. Ela estremeceu.
“Contudo, temos mesmo de oferecer três ou quatro jantares aos nossos bons amigos políticos”, disse o Sr. Martin-Belleme. “Convidaremos alguns dos antigos radicais para conhecerem as pessoas do nosso círculo. Será bom encontrar algumas mulheres bonitas. Poderíamos convidar a Madame Berard de la Malle; não há mexericos sobre ela há dois anos. O que achas?”
“Mas, meu querido, uma vez que vou partir na próxima semana...”
Isto encheu-o de consternação.
Entraram, ambos silenciosos e taciturnos, na sala de estar, onde Paul Vence esperava. Ele vinha frequentemente à noite.
Ela estendeu-lhe a mão.
“Estou muito contente por vê-lo. Vou sair da cidade. Paris está fria e sombria. Este tempo cansa-me e entristece-me. Vou para Florença, por seis semanas, visitar a Miss Bell.”
O Sr. Martin-Belleme levantou então os olhos ao céu.
Vence perguntou se ela tinha ido a Itália muitas vezes.
“Três vezes; mas não vi nada. Desta vez desejo ver, lançar-me nas coisas. De Florença farei passeios pela Toscana, pela Úmbria. E, finalmente, irei a Veneza.”
“Fará bem. Veneza sugere a paz do dia de Sábado na grande semana da Itália criativa e divina.”
“O seu amigo Dechartre falou-me muito lindamente de Veneza, da atmosfera de Veneza, que semeia pérolas.”
“Sim, em Veneza o céu é um colorista. Florença inspira a mente. Um velho autor disse: ‘O céu de Florença é leve e subtil, e alimenta as belas ideias dos homens.’ Vivi dias deliciosos na Toscana. Gostaria de poder vivê-los novamente.”
“Venha ver-me lá.”
Ele suspirou.
O jornal, os livros e o seu trabalho diário impediam-no.
O Sr. Martin-Belleme disse que todos deveriam curvar-se perante tais razões, e que se era demasiado feliz por ler os artigos e os belos livros escritos pelo Sr. Paul Vence para ter qualquer desejo de o afastar do seu trabalho.
“Oh, os meus livros! Nunca se diz num livro aquilo que se deseja dizer. É impossível expressarmo-nos. Sei falar com a minha pena tão bem como qualquer outra pessoa; mas, afinal, falar ou escrever, que ocupações fúteis! Como são miseravelmente inadequados os pequenos sinais que formam sílabas, palavras e frases. O que se torna da ideia, a bela ideia, que estes hieróglifos miseráveis escondem? O que faz o leitor da minha escrita? Uma série de falsos sentidos, de contra-sensos e de disparates. Ler, ouvir, é traduzir. Existem belas traduções, talvez. Não existem traduções fiéis. Por que deveria importar-me com a admiração que dedicam aos meus livros, uma vez que é o que eles próprios neles veem que admiram? Cada leitor substitui as nossas visões pelas dele. Nós fornecemo-lhe os meios para avivar a sua imaginação. É uma coisa horrível ser a causa de tais exercícios. É uma profissão infame.”
“Está a brincar”, disse o Sr. Martin-Belleme.
“Não creio”, disse Thérèse. “Ele reconhece que uma mente é impenetrável a outra mente, e sofre com isso. Sente que está só quando pensa, só quando escreve. O que quer que se faça, está-se sempre só no mundo. É isso que ele deseja dizer. Ele tem razão. Pode-se explicar sempre: nunca se é compreendido.”
“Existem sinais...” disse Paul Vence.
“Não acha, Monsieur Vence, que os sinais também são uma forma de hieróglifos? Dê-me notícias do Monsieur Choulette. Já não o vejo.”
Vence respondeu que Choulette estava muito ocupado a formar a Terceira Ordem de São Francisco.
“A ideia, Madame, ocorreu-lhe de uma maneira maravilhosa um dia em que tinha ido visitar a sua Maria na rua onde ela vive, atrás do hospital público — uma rua sempre húmida, cujas casas estão a vacilar. Deve saber que ele considera Maria a santa e mártir que é responsável pelos pecados do povo.”
“Ele puxou o cordão da campainha, engordurado por dois séculos de visitantes. Quer porque a mártir estivesse na taberna, onde é familiarmente conhecida, ou porque estivesse ocupada no seu quarto, ela não abriu a porta. Choulette tocou durante muito tempo, e tão violentamente que o cordão da campainha ficou na sua mão. Habilidoso em compreender símbolos e o significado oculto das coisas, compreendeu de imediato que aquele cordão não se tinha soltado sem a permissão dos poderes espirituais. Fez dele um cinto e compreendeu que tinha sido escolhido para conduzir de volta à sua pureza primitiva a Terceira Ordem de São Francisco. Renunciou à beleza das mulheres, aos prazeres da poesia, ao brilho da glória, e estudou a vida e a doutrina de São Francisco. Contudo, vendeu ao seu editor um livro intitulado ‘Les Blandices’, que contém, diz ele, a descrição de todo o tipo de amores. Ele gaba-se de que nele se mostrou um criminoso com alguma elegância. Mas, longe de prejudicar os seus empreendimentos místicos, este livro favorece-os, neste sentido, de que, corrigido pelo seu trabalho posterior, ele tornar-se-á honesto e exemplar; e o ouro que recebeu como pagamento, que não lhe teria sido pago por um volume mais casto, servirá para uma peregrinação a Assis.”
Madame Martin perguntou quanto desta história era realmente verdade. Vence respondeu que ela não devia tentar saber.
Confessou que era o historiador idealista do poeta, e que as aventuras que ele relatava sobre ele não deviam ser tomadas no sentido literal e judaico.
Afirmou que, pelo menos, Choulette estava a publicar ‘Les Blandices’, e desejava visitar a cela e o túmulo de São Francisco.
“Então”, exclamou Madame Martin, “levá-lo-ei para Itália comigo. Encontre-o, Monsieur Vence, e traga-mo. Vou partir na próxima semana.”
O Sr. Martin desculpou-se então, não podendo permanecer mais tempo. Tinha de terminar um relatório que deveria ser apresentado à Câmara no dia seguinte.
Madame Martin disse que ninguém a interessava tanto como Choulette. Paul Vence disse que ele era um espécime singular da humanidade.
“Ele não é muito diferente dos santos cujas vidas extraordinárias lemos. É tão sincero como eles. Tem uma delicadeza de sentimento requintada e uma violência de mente terrível. Se choca alguém por muitos dos seus atos, a razão é que ele é mais fraco, menos apoiado, ou talvez menos observado de perto. E depois, há santos indignos, tal como há anjos maus: Choulette é um santo mundano, isso é tudo. Mas os seus poemas são verdadeiros poemas, e muito melhores do que aqueles escritos pelos bispos do século XVII.”
Ela interrompeu-o:
“Já que penso nisso, desejo felicitá-lo pelo seu amigo Dechartre. Ele tem uma mente encantadora.”
Ela acrescentou:
“Talvez seja um pouco demasiado tímido.”
Vence lembrou-lhe que lhe tinha dito que acharia Dechartre interessante.
“Conheço-o de cor; ele é meu amigo desde a nossa infância.”
“Conheceu os seus pais?”
“Sim. Ele é o único filho de Philippe Dechartre.”
“O arquiteto?”
“O arquiteto que, sob Napoleão III, restaurou tantos castelos e igrejas na Touraine e no Orleanais. Tinha gosto e conhecimento. Solitário e silencioso na sua vida, teve a imprudência de atacar Viollet-le-Duc, então todo-poderoso. Reprovava-o por tentar restabelecer os edifícios no seu plano primitivo, como tinham sido, ou como poderiam ter sido, no início. Philippe Dechartre, pelo contrário, queria que tudo o que o passar dos séculos tinha acrescentado a uma igreja, uma abadia ou um castelo fosse respeitado. Abolir anacronismos e restaurar um edifício à sua unidade primitiva parecia-lhe uma barbárie científica tão culpável como a da ignorância. Ele dizia: ‘É um crime apagar as sucessivas marcas feitas na pedra pelas mãos dos nossos antepassados. Pedras novas cortadas ao estilo antigo são falsas testemunhas.’ Ele queria limitar a tarefa do arquiteto arqueológico à de apoiar e consolidar muros. Ele tinha razão. Todos diziam que ele estava errado. Alcançou a sua ruína ao morrer jovem, enquanto o seu rival triunfava. Legou uma fortuna honesta à sua viúva e ao seu filho. Jacques Dechartre foi criado pela sua mãe, que o adorava. Não creio que a ternura maternal tenha sido alguma vez mais impetuosa. Jacques é um rapaz encantador; mas é uma criança mimada.”
“Contudo, parece tão indiferente, tão fácil de compreender, tão distante de tudo.”
“Não confie nisto. Ele tem uma imaginação atormentada e atormentadora.”
“Ele gosta de mulheres?”
“Por que pergunta?”
“Oh, não é com nenhuma ideia de fazer casamentos.”
“Sim, ele gosta delas. Disse-lhe que ele era um egoísta. Apenas os homens egoístas amam verdadeiramente as mulheres. Após a morte da sua mãe, teve uma longa ligação com uma atriz bem conhecida, Jeanne Tancrède.”
Madame Martin lembrava-se de Jeanne Tancrède; não muito bonita, mas graciosa, com uma certa lentidão de ação ao interpretar papéis românticos.
“Viviam quase juntos numa pequena casa em Auteuil”, continuou Paul Vence. “Eu visitava-os frequentemente. Encontrava-o perdido nos seus sonhos, esquecendo-se de modelar uma figura que secava sob os seus panos, só consigo mesmo, perseguindo a sua ideia, absolutamente incapaz de ouvir quem quer que fosse; ela, a estudar os seus papéis, a tez queimada pelo rouge, os olhos ternos, bonita devido à sua inteligência e à sua atividade. Ela queixava-se a mim de que ele era desatento, rabugento e irracional. Ela amava-o e enganava-o apenas para obter papéis. E quando ela o enganava, era feito no calor do momento. Depois disso, ela nunca mais pensava nisso. Uma mulher típica! Mas ela foi imprudente; sorriu para Joseph Springer na esperança de que ele a tornasse membro da Comédie Française. Dechartre deixou-a. Agora ela acha mais prático viver com os seus diretores, e Jacques acha mais agradável viajar.”
“Ele arrepende-se dela?”
“Como pode alguém conhecer as coisas que agitam uma mente ansiosa e móvel, egoísta e apaixonada, desejosa de se entregar, pronta a desenvencilhar-se, gostando de si mesma acima de tudo entre as belas coisas que encontra no mundo?”
Bruscamente, ela mudou de assunto.
“E o seu romance, Monsieur Vence?”
“Cheguei ao último capítulo, Madame. O meu pequeno operário foi guilhotinado. Morreu com aquela indiferença das virgens sem desejo, que nunca sentiram nos lábios o gosto quente da vida. Os jornais e o público aprovam o ato de justiça que acaba de ser realizado. Mas noutro sótão, outro operário, sóbrio, triste e químico, jura a si mesmo que cometerá um homicídio expiatório.”
Ele levantou-se e disse boa noite.
Ela chamou-o de volta.
“Monsieur Vence, sabe que eu estava a falar a sério. Traga-me o Choulette.”
Quando ela subiu para o seu quarto, o seu marido esperava-a, com o seu roupão de pelúcia castanho-avermelhado, com uma espécie de barrete de doge a emoldurar o seu rosto pálido e cavado. Ele tinha um ar de gravidade. Atrás dele, pela porta aberta do seu gabinete, aparecia sob o candeeiro uma massa de documentos encadernados em azul, uma coleção dos orçamentos anuais. Antes que ela pudesse chegar ao seu quarto, ele fez um gesto de que desejava falar-lhe.
“Minha cara, não consigo compreender-te. És muito inconsequente. Isso faz-te muito mal. Pretendes deixar a tua casa sem qualquer razão, sem sequer um pretexto. E queres correr a Europa com quem? Com um boémio, um bêbado — esse homem Choulette.”
Ela respondeu que viajaria com a Madame Marmet, no que não poderia haver nada de censurável.
“Mas anuncias a tua partida a toda a gente, contudo nem sequer sabes se a Madame Marmet pode acompanhar-te.”
“Oh, a Madame Marmet fará as malas rapidamente. Nada a retém em Paris, exceto o seu cão. Deixar-to-ei; podes tratar dele.”
“O teu pai sabe do teu projeto?”
Era o seu último recurso invocar a autoridade de Montessuy. Ele sabia que a sua esposa receava desagradar ao pai. Ele insistiu:
“O teu pai é cheio de bom senso e tato. Fiquei feliz por o encontrar a concordar comigo várias vezes nos conselhos que me permiti dar-te. Ele pensa como eu, que a casa da Madame Meillan não é um lugar adequado para visitares. A companhia que lá se encontra é mista, e a dona da casa favorece intrigas. Estás errada, devo dizer, em não ter em conta o que as pessoas pensam. Engano-me se o teu pai não achar singular que tu vás embora com tanta frivolidade, e a ausência será tanto mais notada, minha cara, uma vez que as circunstâncias me tornaram eminente no decurso desta legislatura. O meu mérito não tem nada a ver com o caso, certamente. Mas se tivesses consentido em ouvir-me ao jantar, ter-te-ia demonstrado que o grupo de políticos a que pertenço quase chegou ao poder. Num momento desses, não deves renunciar aos teus deveres como dona da casa. Deves compreender isto por ti mesma.”
Ela respondeu: “Aborreces-me.” E, virando-lhe as costas, fechou a porta do seu quarto entre eles. Naquela noite, na sua cama, abriu um livro, como fazia sempre antes de ir dormir. Era um romance. Estava a folhear as páginas com indiferença, quando os seus olhos caíram nestas linhas:
“O amor é como a devoção: chega tarde. Uma mulher quase não está apaixonada ou devota aos vinte anos, a menos que tenha uma disposição especial para ser uma ou outra, uma espécie de santidade nativa. As mulheres que estão predestinadas ao amor lutam elas próprias durante muito tempo contra essa graça do amor que é mais terrível do que o raio que caiu na estrada de Damasco. Uma mulher, na maioria das vezes, rende-se à paixão do amor apenas quando a idade ou a solidão não a assustam. A paixão é um deserto árido e ardente. A paixão é um ascetismo profano, tão duro como o ascetismo religioso. As grandes mulheres amantes são tão raras como as grandes mulheres penitentes. Aqueles que conhecem bem a vida sabem que as mulheres não se prendem facilmente nas correntes do verdadeiro amor. Sabem que nada é menos comum do que o sacrifício entre elas. E considere quanto uma mulher mundana deve sacrificar quando está apaixonada — liberdade, tranquilidade, o jogo encantador de uma mente livre, vaidade, diversão, prazer — ela perde tudo.”
“A vaidade é permissível. Pode-se conciliar isso com todas as exigências da vida elegante. Não o amor. O amor é a menos mundana das paixões, a mais antissocial, a mais selvagem, a mais bárbara. Por isso, o mundo julga-o mais severamente do que a mera galanteria ou a liberalidade de costumes. Num sentido, o mundo tem razão. Uma mulher apaixonada trai a sua natureza e falha na sua função, que é ser admirada por todos os homens, como uma obra de arte. Uma mulher é uma obra de arte, a mais maravilhosa que a indústria humana alguma vez produziu. Uma mulher é um artifício maravilhoso, devido ao concurso de todas as artes mecânicas e de todas as artes liberais. Ela é a obra de todos, ela pertence ao mundo.”
Thérèse fechou o livro e pensou que estas ideias eram apenas os sonhos de romancistas que não conheciam a vida. Ela sabia muito bem que não havia na realidade nem um Carmelo de paixão, nem uma corrente de amor, nem uma bela e terrível vocação contra a qual a predestinada resistia em vão; ela sabia muito bem que o amor era apenas uma breve embriaguez da qual se recuperava um pouco mais triste. E, contudo, talvez ela não soubesse tudo; talvez houvesse amores nos quais se estava deliciosamente perdido. Apagou o seu candeeiro. Os sonhos da sua primeira juventude voltaram a ela.
CAPÍTULO VI. UMA RELÍQUIA DISTINTA
Estava a chover. Madame Martin-Belleme via confusamente através do vidro do seu coupé a multidão de guarda-chuvas a passar, como tartarugas negras sob os céus aquosos. Ela estava a pensar. Os seus pensamentos eram cinzentos e indistintos, como o aspeto das ruas e das praças.
Já não sabia por que lhe tinha ocorrido a ideia de passar um mês com a Miss Bell. Na verdade, nunca tinha sabido. A ideia tinha sido como uma nascente, inicialmente escondida pelas folhas, e agora a formar a corrente de um riacho profundo e rápido. Lembrou-se de que na terça-feira à noite, ao jantar, tinha dito subitamente que desejava ir, mas não conseguia recordar-se do primeiro ímpeto desse desejo. Não era o desejo de agir para com Robert Le Ménil como ele estava a agir para com ela. Sem dúvida, achava excelente viajar em Itália enquanto ele ia à caça à raposa. Isto parecia-lhe um arranjo justo. Robert, que estava sempre satisfeito por vê-la quando regressava, não a encontraria no seu retorno. Ela achava que isso seria correto. Não tinha pensado nisso de início. E desde então tinha pensado pouco nisso, e realmente não ia pelo prazer de o fazer sofrer. Ela tinha contra ele um pensamento menos picante, e mais duro. Não desejava vê-lo em breve. Ele tinha-se tornado para ela quase um estranho. Parecia-lhe um homem como os outros — melhor do que a maioria dos outros — bonito, estimável, e que não a desagradava; mas ele não a preocupava. De repente, ele tinha saído da sua vida. Ela não conseguia lembrar-se de como se tinha misturado nela. A ideia de pertencer-lhe chocava-a. O pensamento de que poderiam encontrar-se novamente no pequeno apartamento da Rue Spontini era-lhe tão doloroso que o descartou imediatamente. Preferia pensar que um evento imprevisto impediria o seu reencontro — o fim do mundo, por exemplo. O Sr. Lagrange, membro da Académie des Sciences, tinha-lhe falado no dia anterior de um cometa que algum dia poderia encontrar a terra, envolvê-la com o seu cabelo flamejante, imbuir animais e plantas com venenos desconhecidos, e fazer com que todos os homens morressem num frenesim de riso. Ela esperava que isto, ou outra coisa, acontecesse no próximo mês. Não era inexplicável que ela desejasse ir. Mas que o seu desejo de ir contivesse uma vaga alegria, que ela sentisse o encanto do que ia encontrar, era para ela inexplicável.
A sua carruagem deixou-a na esquina de uma rua.
Ali, sob o telhado de uma casa alta, atrás de cinco janelas, num pequeno e arrumado apartamento, Madame Marmet vivia desde a morte do seu marido.
A Condessa Martin encontrou-a na sua modesta sala de estar, em frente ao Sr. Lagrange, meio adormecido numa poltrona profunda. Este velho sábio mundano tinha permanecido sempre fiel a ela. Foi ele quem, no dia seguinte ao funeral do Sr. Marmet, tinha transmitido à infeliz viúva o discurso envenenado proferido por Schmoll. Ela tinha desmaiado nos seus braços. Madame Marmet achava que lhe faltava discernimento, mas ele era o seu melhor amigo. Jantavam juntos frequentemente com amigos ricos.
A Madame Martin, esguia e aprumada no seu corpete de zibelina que se abria sobre uma profusão de rendas, despertou com o brilho encantador dos seus olhos cinzentos o bom homem, que era suscetível às graças das mulheres. Ele dissera-lhe no dia anterior como o mundo chegaria ao fim. Perguntou-lhe se ela não se sentira assustada, durante a noite, com imagens da terra devorada pelas chamas ou congelada numa massa de gelo. Enquanto ele lhe falava com uma galanteria afetada, ela olhava para a estante de mogno. Não havia muitos livros nela, mas numa das prateleiras estava um esqueleto com armadura. Era espantoso ver, na casa desta boa senhora, aquele guerreiro etrusco usando um capacete de bronze verde e uma couraça. Ele dormia entre caixas de bombons, vasos de porcelana dourada e imagens esculpidas da Virgem, trazidas de Lucerna e do Righi. A Madame Marmet, na sua viuvez, vendera os livros que o marido deixara. De todos os objetos antigos colecionados pelo arqueólogo, ela não conservara nada além do etrusco. Muitas pessoas tinham tentado vendê-lo por ela. Paul Vence obtivera da administração uma promessa de o comprar para o Louvre, mas a boa viúva não se separava dele. Parecia-lhe que, se perdesse aquele guerreiro com o seu capacete de bronze verde, perderia o nome que ostentava dignamente e deixaria de ser a viúva de Louis Marmet, da Académie des Inscriptions.
— Não tenha medo, Madame; um cometa não atingirá a terra tão cedo. Tal fenómeno é muito improvável.
A Madame Martin respondeu que não conhecia nenhuma razão séria para que a terra e a humanidade não fossem aniquiladas de imediato.
O velho Lagrange exclamou com profunda sinceridade que esperava que o cataclismo viesse o mais tarde possível.
Ela olhou para ele. A sua cabeça calva só podia ostentar alguns cabelos tingidos de preto. As suas pálpebras caíam como trapos sobre olhos ainda sorridentes; as suas bochechas pendiam em dobras flácidas, e adivinhava-se que o seu corpo estava igualmente mirrado. Ela pensou: "E até ele gosta da vida!"
A Madame Marmet esperava, também, que o fim do mundo não estivesse próximo.
— Monsieur Lagrange — disse a Madame Martin —, o senhor vive, não é verdade, numa casinha bonita, cujas janelas dão para o Jardim Botânico? Parece-me que deve ser uma alegria viver naquele jardim, que me faz pensar na Arca de Noé da minha infância e nos paraísos terrestres das antigas Bíblias.
Mas ele não estava nada encantado com a sua casa. Era pequena, sem melhorias, infestada de ratos.
Ela reconheceu que raramente nos sentimos em casa em parte alguma, e que os ratos são encontrados em toda a parte, reais ou simbólicos, legiões de pragas que nos atormentam. Contudo, ela gostava do Jardim Botânico; sempre desejara ir lá, mas nunca tinha ido. Havia também o museu, que ela tinha curiosidade em visitar.
Sorridente, feliz, ele ofereceu-se para a acompanhar até lá. Considerava-o a sua casa. Mostrar-lhe-ia espécimes raros, alguns dos quais eram soberbos.
Ela não sabia o que era um bólide. Recordou-se de que alguém lhe dissera que no museu havia ossos esculpidos por homens primitivos, e placas de marfim nas quais estavam gravadas imagens de animais há muito extintos. Ela perguntou se isso era verdade. Lagrange deixou de sorrir. Respondeu indiferentemente que tais objetos diziam respeito a um dos seus colegas.
— Ah! — disse a Madame Martin. — Então não estão na sua vitrina.
Ela observou que os homens doutos não são curiosos, e que é indiscreto interrogá-los sobre coisas que não estão nas suas próprias vitrinas. É verdade que Lagrange fizera uma fortuna científica estudando meteoros. Isto levara-o a estudar cometas. Mas ele era sensato. Há vinte anos que não se preocupava com nada, exceto em jantar fora.
Quando ele partiu, a Condessa Martin disse à Madame Marmet o que esperava dela.
— Vou na próxima semana a Fiesole, para visitar a Miss Bell, e a senhora vem comigo.
A boa Madame Marmet, de fronte plácida, mas olhos perscrutadores, ficou em silêncio por um momento; depois recusou gentilmente, mas finalmente consentiu.
CAPÍTULO VII. A MADAME FAZ O QUE QUER
O expresso de Marselha estava pronto na gare, onde os carteiros corriam e as carruagens rolavam entre o fumo e o ruído, sob a luz que caía das janelas. Através das portas abertas, viajantes em longos mantos iam e vinham. No fundo da estação, ofuscante com fuligem e pó, podia distinguir-se um pequeno arco-íris, não maior do que a mão de alguém. A Condessa Martin e a boa Madame Marmet já estavam na sua carruagem, sob o porta-bagagens carregado de malas, entre jornais atirados para cima dos estofos. Choulette não aparecera, e a Madame Martin já não esperava por ele. Contudo, ele prometera estar na estação. Fizera os seus preparativos para ir e recebera do seu editor o preço de Les Blandices. Paul Vence levara-o uma noite à casa da Madame Martin. Ele fora doce, polido, cheio de sagaz alegria e alegria ingénua. Ela prometera a si mesma muito prazer em viajar com um homem de génio, original, pitorescamente feio, com uma simplicidade divertida; como uma criança prematuramente velha e abandonada, cheia de vícios, mas com um certo grau de inocência. As portas fecharam-se. Ela já não esperava por ele. Não devia ter contado com o seu espírito impulsivo e vagabundo. No momento em que a locomotiva começou a respirar roucamente, a Madame Marmet, que olhava pela janela, disse calmamente:
— Creio que o Monsieur Choulette está a chegar.
Ele caminhava ao longo da gare, mancando, com o chapéu na nuca, a barba desalinhada, e arrastando um velho saco de tapete. Era quase repulsivo; contudo, apesar dos seus cinquenta anos de idade, parecia jovem, tão claros e lustrosos eram os seus olhos, tanta audácia ingénua fora conservada no seu rosto amarelo e encovado, tão vividamente este velho expressava a eterna adolescência do poeta e artista. Quando ela o viu, Thérèse arrependeu-se de ter convidado um companheiro tão estranho. Ele caminhava, lançando um olhar apressado para cada carruagem — um olhar que, pouco a pouco, se tornou soturno e desconfiado. Mas, quando reconheceu a Madame Martin, sorriu tão docemente e disse-lhe bom-dia com uma voz tão carinhosa que nada restou do velho vagabundo feroz que caminhava na gare, nada exceto o velho saco de tapete, cujas pegas estavam meio partidas.
Ele colocou-o no porta-bagagens com grande cuidado, entre as malas elegantes envoltas em tecido cinzento, ao lado das quais parecia ostensivamente sórdido. Estava cravejado de flores amarelas sobre um fundo cor de sangue.
Ele sentiu-se logo perfeitamente à vontade e elogiou a Madame Martin pela elegância do seu traje de viagem.
— Desculpem-me, minhas senhoras — acrescentou ele —, tive medo de chegar atrasado. Fui à missa das seis em Saint-Séverin, a minha paróquia, na Capela da Virgem, sob aquelas colunas bonitas, mas absurdas, que apontam para o céu, embora frágeis como juncos — como nós, pobres pecadores que somos.
— Ah — disse a Madame Martin —, o senhor está piedoso hoje.
E perguntou-lhe se ele usava o cordão da ordem que estava a fundar. Ele assumiu um ar grave e penitente.
— Temo, Madame, que o Monsieur Paul Vence lhe tenha contado muitas histórias absurdas sobre mim. Ouvi dizer que ele anda por aí a fazer circular rumores de que a minha fita é uma corda de sino — e de que sino! Eu sentir-me-ia penalizado se alguém acreditasse numa história tão miserável. A minha fita, Madame, é uma fita simbólica. É representada por um fio simples, que se usa por baixo das roupas depois de um mendigo lhe ter tocado, como um sinal de que a pobreza é santa, e de que ela salvará o mundo. Não há nada de bom senão na pobreza; e, desde que recebi o preço de Les Blandices, sinto que sou injusto e duro. É uma coisa boa ter colocado na minha mala várias destas fitas místicas.
E, apontando para o horrível saco de tapete:
— Coloquei também nele uma hóstia que um mau padre me deu, as obras de Monsieur de Maistre, camisas e várias outras coisas.
A Madame Martin arqueou as sobrancelhas, um pouco incomodada. Mas a boa Madame Marmet conservou a sua placidez habitual.
À medida que o comboio rolava através das cenas singelas dos subúrbios, essa franja negra que faz uma borda pouco atraente à cidade, Choulette tirou do bolso um livro velho que começou a remexer. O escritor, escondido sob o vagabundo, revelou-se. Choulette, sem querer parecer cuidadoso com os seus papéis, era muito organizado com eles. Assegurou-se de que não tinha perdido os pedaços de papel nos quais anotava, no café, as suas ideias para poemas, nem a dúzia de cartas lisonjeiras que, sujas e manchadas, trazia consigo continuamente, para as ler aos seus recém-feitos companheiros à noite. Depois de se assegurar de que nada faltava, tirou do livro uma carta dobrada num envelope aberto. Agitou-a por um momento, com um ar de impudência misteriosa, depois entregou-a à Condessa Martin. Era uma carta de apresentação da Marquesa de Rieu para uma princesa da Casa de França, uma parente próxima do Comte de Chambord, que, velha e viúva, vivia retirada perto dos portões de Florença. Tendo desfrutado do efeito que esperava produzir, disse que talvez visitasse a Princesa; que ela era uma boa pessoa, e piedosa.
— Uma senhora verdadeiramente grande — acrescentou ele —, que não mostra a sua magnificência em vestidos e chapéus. Ela usa as suas camisas durante seis semanas, e por vezes mais. Os cavalheiros da sua comitiva viram-na usar meias brancas muito sujas, que caíam à volta dos seus calcanhares. As virtudes das grandes rainhas de Espanha são revividas nela. Oh, aquelas meias sujas, que glória real existe nelas!
Ele pegou na carta e guardou-a de novo no seu livro. Depois, armando-se com uma faca de cabo de chifre, começou, com a ponta, a terminar uma figura esboçada no cabo da sua bengala. Elogiou-se por isso:
— Sou habilidoso em todas as artes dos mendigos e vagabundos. Sei como abrir fechaduras com um prego, e como esculpir madeira com uma faca má.
A cabeça começou a aparecer. Era a cabeça de uma mulher magra, a chorar.
Choulette desejava expressar nela a miséria humana, não simples e tocante, tal como os homens de outros tempos podem tê-la sentido num mundo de dureza e bondade misturadas; mas hedionda, e refletindo o estado de fealdade criado pelos burgueses de espírito livre e pelos patriotas militares da Revolução Francesa. Segundo ele, o regime atual encarnava apenas hipocrisia e brutalidade.
— Os seus quartéis são uma invenção hedionda dos tempos modernos. Datam do século XVII. Antes desse tempo, havia apenas corpos da guarda onde os soldados jogavam às cartas e contavam histórias. Luís XIV foi um precursor de Bonaparte. Mas o mal atingiu a sua plenitude desde a monstruosa instituição do alistamento obrigatório. A vergonha dos imperadores e das repúblicas é ter feito disso uma obrigação para os homens matarem. Nas idades chamadas bárbaras, cidades e príncipes confiavam a sua defesa a mercenários, que lutavam prudentemente. Numa grande batalha, apenas cinco ou seis homens eram mortos. E quando os cavaleiros iam para as guerras, pelo menos não eram forçados a fazê-lo; morriam pelo seu prazer. Não serviam para mais nada. Ninguém, no tempo de São Luís, teria pensado em enviar para a batalha um homem de saber. E o trabalhador não era arrancado do solo para ser morto. Hoje em dia, é um dever para um pobre camponês ser soldado. Ele é exilado da sua casa, cujo telhado deita fumo no silêncio da noite; das pradarias gordas onde pastam os bois; dos campos e dos bosques paternos. Ensinam-lhe como matar homens; é ameaçado, insultado, posto na prisão e dizem-lhe que é uma honra; e, se ele não se importa com esse tipo de honra, é fuzilado. Ele obedece porque está aterrorizado, e é, de todos os animais domésticos, o mais dócil e manso. Somos bélicos em França, e somos cidadãos. Outra razão para estar orgulhoso, isto de ser um cidadão! Para os pobres, consiste em sustentar e preservar os abastados no seu poder e na sua preguiça. O pobre deve trabalhar para isto, na presença da majestosa qualidade da lei que proíbe tanto o rico como o pobre de dormir debaixo das pontes, de mendigar nas ruas e de roubar pão. Esse é um dos bons efeitos da Revolução. Como esta Revolução foi feita por tolos e idiotas para benefício daqueles que adquiriram bens nacionais, e não resultou senão em fazer a fortuna de camponeses astutos e burgueses financeiros, a Revolução só tornou mais forte, sob o pretexto de tornar todos os homens iguais, o império da riqueza. Traiu a França para as mãos dos homens de riqueza. Eles são mestres e senhores. O governo aparente, composto por pobres diabos, está a soldo dos financeiros. Durante cem anos, neste país envenenado, quem quer que tenha amado os pobres tem sido considerado um traidor à sociedade. Um homem é chamado de perigoso quando diz que há pessoas miseráveis. Há leis contra a indignação e a piedade, e o que eu digo aqui não poderia ir para a imprensa.
Choulette excitou-se e agitou a sua faca, enquanto sob a luz do sol invernal passavam campos de terra castanha, árvores despojadas pelo inverno e cortinas de choupos junto de rios prateados.
Ele olhou com ternura para a figura esculpida na sua bengala.
— Aqui estás tu — disse ele —, pobre humanidade, magra e a chorar, estúpida de vergonha e miséria, tal como foste feita pelos teus mestres — soldados e homens de riqueza.
A boa Madame Marmet, cujo sobrinho era capitão de artilharia, ficou chocada com a violência com que Choulette atacava o exército. A Madame Martin viu nisto apenas uma fantasia divertida. As ideias de Choulette não a assustavam. Ela não tinha medo de nada. Mas achava que eram um pouco absurdas. Ela não pensava que o passado tivesse sido alguma vez melhor do que o presente.
— Creio, Monsieur Choulette, que os homens foram sempre como são hoje, egoístas, gananciosos e impiedosos. Creio que as leis e os costumes foram sempre duros e cruéis para os infelizes.
Entre La Roche e Dijon, tomaram o pequeno-almoço na carruagem-restaurante e deixaram Choulette nela, sozinho com o seu cachimbo, o seu copo de benedictine e a sua irritação.
Na carruagem, a Madame Marmet falava com uma ternura pacífica do marido que perdera. Ele casara-se com ela por amor; escrevera-lhe versos admiráveis, que ela guardara e nunca mostrara a ninguém. Ele era vivo e muito alegre. Não se diria, vendo-o mais tarde, cansado pelo trabalho e debilitado pela doença. Estudava até ao último momento. Duas horas antes de morrer, estava a tentar ler de novo. Era afetuoso e amável. Mesmo sofrendo, conservou toda a sua doçura. A Madame Martin disse-lhe:
— A senhora teve longos anos de felicidade; guardou a reminiscência deles; essa é uma quota de felicidade neste mundo.
Mas a boa Madame Marmet suspirou; uma nuvem passou pela sua fronte tranquila.
— Sim — disse ela —, Louis era o melhor dos homens e o melhor dos maridos. Contudo, fez-me muito miserável. Ele tinha apenas um defeito, mas eu sofria com ele cruelmente. Ele era ciumento. Bom, bondoso, terno e generoso como era, esta paixão horrível tornava-o injusto, irónico e violento. Posso garantir-lhe que o meu comportamento não deu a menor causa para suspeitas. Eu não era uma coquete. Mas era jovem, fresca; passava por bonita. Isso bastava. Ele não me deixava sair sozinha, e não me deixava receber visitas na sua ausência. Sempre que íamos a uma receção, eu tremia de antemão com o medo da cena que ele faria mais tarde na carruagem.
E a boa Madame Marmet acrescentou, com um suspiro:
— É verdade que eu gostava de dançar. Mas tive de renunciar a ir a bailes; isso fazia-o sofrer demasiado.
A Condessa Martin expressou espanto. Imaginara sempre Marmet como um homem velho, tímido e absorvido pelos seus pensamentos; um pouco ridículo, entre a sua mulher, rechonchuda, branca e amável, e o esqueleto que usava um capacete de bronze e ouro. Mas a excelente viúva confidenciou-lhe que, aos cinquenta e cinco anos de idade, quando ela tinha cinquenta e três, Louis era tão ciumento como no primeiro dia do casamento.
E Thérèse pensou que Robert nunca a atormentara com ciúmes. Seria da parte dele uma prova de tato e bom gosto, uma marca de confiança, ou seria que ele não a amava o suficiente para a fazer sofrer? Ela não sabia, e não tinha coragem para tentar saber. Teria de olhar através dos recantos da sua mente que preferia não abrir.
Ela murmurou descuidadamente:
— Desejamos ser amados, e quando somos amados somos atormentados ou preocupados.
O dia terminou em leituras e reflexões. Choulette não reapareceu. A noite cobriu pouco a pouco, com as suas nuvens cinzentas, as amoreiras do Dauphiné. A Madame Marmet adormeceu pacificamente, descansando sobre si mesma como sobre uma massa de almofadas. Thérèse olhou para ela e pensou:
— Ela é feliz, uma vez que gosta de recordar.
A tristeza da noite penetrou-lhe o coração. E quando a lua se levantou sobre os campos de oliveiras, vendo passar as linhas suaves das planícies e das colinas, Thérèse, nesta paisagem onde tudo falava de paz e esquecimento, e nada falava dela, sentiu saudades do Sena, do Arco do Triunfo com as suas avenidas radiantes, e das alamedas do parque onde, pelo menos, as árvores e as pedras a conheciam.
De repente, Choulette atirou-se para dentro da carruagem. Armado com a sua bengala nodosa, o rosto e a cabeça envolvidos em lã vermelha e num gorro de pele, ele quase a assustou. Era o que ele queria fazer. As suas atitudes violentas e o seu traje selvagem eram estudados. Procurando sempre produzir efeitos, agradava-lhe parecer assustador.
Ele próprio era um cobarde, e sentia-se feliz por inspirar os medos que frequentemente sentia. Um momento antes, enquanto fumava o seu cachimbo, sentira, ao ver a lua engolida pelas nuvens, um daqueles medos infantis que atormentavam o seu espírito leve. Aproximara-se da Condessa para ser tranquilizado.
— Arles — disse ele. — Conhece Arles? É um lugar de pura beleza. Vi, no claustro, pombas descansando nos ombros das estátuas, e vi os pequenos lagartos cinzentos aquecendo-se ao sol sobre os túmulos. Os túmulos estão agora em duas filas na estrada que conduz à igreja. São formados como cisternas, e servem de cama aos pobres à noite. Uma noite, quando eu caminhava entre eles, encontrei uma boa velha que colocava ervas secas no túmulo de uma solteirona que morrera no dia do seu casamento. Dissemos-lhe boa-noite. Ela respondeu: "Que Deus vos ouça! Mas o destino quer que este túmulo se abra do lado do vento noroeste. Se apenas estivesse aberto do outro lado, eu estaria deitada tão confortavelmente como a Rainha Jeanne."
Thérèse não respondeu. Ela estava a cochilar. E Choulette tremia com o frio da noite, com o medo da morte.
No seu carrinho inglês, que ela própria conduzia, a Srta. Bell trouxera pelas colinas, desde a estação ferroviária de Florença, a Condessa Martin-Belleme e Madame Marmet até à sua casa de tons rosados em Fiesole, que, coroada por uma longa balaustrada, dominava a cidade incomparável. A criada seguia com a bagagem. Choulette, alojado, por atenção da Srta. Bell, na casa da viúva de um sacristão, à sombra da catedral de Fiesole, não era esperado antes do jantar. Simples e gentil, de cabelo curto, usando um colete, uma camisa de homem sobre um peito como o de um rapaz, quase graciosa, de ancas estreitas, a poetisa fazia para os seus amigos franceses as honras da casa, que refletia a ardente delicadeza do seu gosto. Nas paredes da sala de estar, Virgens pálidas, de mãos longas, reinavam pacificamente entre anjos, patriarcas e santos em belas molduras douradas. Num pedestal erguia-se uma Madalena, vestida apenas com o seu cabelo, assustadora pela magreza e pela velhice, um qualquer mendigo do caminho de Pistoia, queimado pelos sóis e pelas neves, que algum precursor desconhecido de Donatello moldara. E por toda a parte estavam os braços escolhidos da Srta. Bell — sinos e címbalos. Os maiores erguiam os seus badalos de bronze nos ângulos da sala; outros formavam uma corrente ao pé das paredes. Os mais pequenos corriam ao longo das cornijas. Havia sinos sobre a lareira, sobre as arcas e sobre as cadeiras. As prateleiras estavam cheias de sinos de prata e de ouro. Havia grandes sinos de bronze marcados com a flor-de-lis florentina; sinos do Renascimento, representando uma dama com um vestido branco; sinos dos mortos, decorados com lágrimas e ossos; sinos cobertos de animais simbólicos e folhas, que tinham tocado nas igrejas no tempo de São Luís; sinos de mesa do século XVII, tendo uma estatueta como pega; os sinos de vaca, planos e claros, do Vale de Ruth; sinos hindus; sinos chineses formados como cilindros — tinham vindo de todos os países e de todos os tempos, ao apelo mágico da pequena Srta. Bell.
"Olha para os meus braços falantes", disse ela a Madame Martin. "Penso que todas estas Misses Bell estão satisfeitas por estarem aqui, e não me admiraria se, um dia, todas começassem a cantar juntas. Mas não as deves admirar a todas por igual. Reserva o teu louvor mais puro e fervoroso para este aqui."
E, batendo com o dedo num sino escuro e nu que deu um som ténue:
"Este", disse ela, "é um santo sino de aldeia do século V. Ela é uma filha espiritual de Saint Paulin de Nole, que foi o primeiro a fazer o céu cantar sobre as nossas cabeças. O metal é raro. Em breve mostrar-te-ei uma gentil florentina, a rainha dos sinos. Ela está a chegar. Mas maço-te, querida, com o meu tagarelar. E maço também a boa Madame Marmet. É um erro."
Ela acompanhou-as até aos seus quartos.
Uma hora depois, Madame Martin, descansada, fresca, num vestido de foulard e renda, foi para o terraço onde a Srta. Bell a esperava. O ar húmido, aquecido pelo sol, exalava a doce inquietação da primavera. Thérèse, apoiada na balaustrada, banhava os olhos na luz. Aos seus pés, os ciprestes erguiam os seus fusos negros, e as oliveiras pareciam ovelhas nas colinas. No vale, Florença estendia as suas cúpulas, as suas torres e a multidão dos seus telhados vermelhos, através dos quais o Arno mostrava a sua linha ondulante. Para além, viam-se as suaves colinas azuis.
Ela tentou reconhecer os Jardins de Boboli, onde caminhara na sua primeira visita; as Cascine, de que não gostava; o Palácio Pitti. Depois, o encanto infinito do céu atraiu-a. Olhou para as formas nas nuvens.
Após um longo silêncio, Vivian Bell estendeu a mão para o horizonte.
"Querida, não sei como dizer o que desejo. Mas olha, querida, olha outra vez. O que vês ali é único no mundo. A natureza não é em parte alguma tão subtil, elegante e fina. O deus que fez as colinas de Florença era um artista. Oh, ele era um joalheiro, um gravador, um escultor, um fundidor de bronze e um pintor; ele era um florentino. Ele não fez mais nada no mundo, querida. O resto foi feito por uma mão menos delicada, cujo trabalho foi menos perfeito. Como podes pensar que aquela colina violeta de San Miniato, tão firme e tão pura no relevo, foi feita pelo autor do Mont Blanc? Não é possível. Esta paisagem tem a beleza de uma medalha antiga e de uma pintura preciosa. É uma obra de arte perfeita e medida. E aqui está outra coisa que não sei como dizer, que não consigo sequer compreender, mas que é uma coisa real. Neste país sinto-me — e tu sentir-te-ás como eu, querida — metade viva e metade morta; numa condição que é triste, nobre e muito doce. Olha, olha outra vez; perceberás a melancolia daquelas colinas que rodeiam Florença e verás uma tristeza deliciosa ascender da terra dos mortos."
O sol estava baixo sobre o horizonte. Os pontos brilhantes dos picos das montanhas desvaneciam-se um a um, enquanto as nuvens inflamavam o céu. Madame Marmet espirrou.
A Srta. Bell mandou buscar alguns xailes e avisou as francesas de que as noites eram frescas e que o ar noturno era perigoso.
Então, subitamente, disse:
"Querida, conheces o Monsieur Jacques Dechartre? Bem, ele escreveu-me a dizer que estaria em Florença na próxima semana. Estou contente por o Monsieur Jacques Dechartre se encontrar contigo na nossa cidade. Ele acompanhar-nos-á às igrejas e aos museus, e será um bom guia. Ele compreende as coisas belas, porque as ama. E tem um talento requintado como escultor. As suas figuras em medalhões são mais admiradas em Inglaterra do que em França. Oh, estou tão contente por o Monsieur Jacques Dechartre e tu vos encontrardes em Florença, querida!"
CAPÍTULO IX. CHOULETTE ENCONTRA UM NOVO AMIGO
No dia seguinte, enquanto atravessavam a praça onde estão plantados, à imitação dos anfiteatros antigos, dois pilares de mármore, Madame Marmet disse à Condessa Martin:
"Penso que vejo o Monsieur Choulette."
Sentado numa sapataria, com o cachimbo na mão, Choulette fazia gestos rítmicos e parecia estar a recitar versos. O sapateiro florentino ouvia com um sorriso bondoso. Era um homem pequeno, calvo, e representava um dos tipos familiares aos pintores flamengos. Numa mesa, entre formas de madeira, pregos, couro e cera, uma planta de manjericão exibia a sua cabeça redonda e verde. Um pardal, sem uma pata, que fora substituída por um fósforo, saltitava sobre o ombro e a cabeça do velho.
Madame Martin, divertida com este espetáculo, chamou Choulette do limiar. Ele cantarolava suavemente uma melodia, e ela perguntou-lhe por que não fora com ela visitar a capela espanhola.
Ele levantou-se e respondeu:
"Madame, estais preocupada com imagens vãs; mas eu vivo na vida e na verdade."
Ele apertou a mão ao sapateiro e seguiu as duas senhoras.
"Enquanto ia para a igreja", disse ele, "vi este velho que, curvado sobre o seu trabalho, e apertando uma forma entre os joelhos como num torno, cosia sapatos grosseiros. Senti que ele era simples e bondoso. Disse-lhe, em italiano: 'Meu pai, quereis beber comigo um copo de Chianti?' Ele consentiu. Foi buscar um garrafão e alguns copos, e eu tomei conta da loja."
E Choulette apontou para dois copos e um garrafão colocados sobre um fogareiro.
"Quando ele voltou, bebemos juntos; disse-lhe coisas vagas mas bondosas, e encantei-o com a doçura dos sons. Voltarei à sua loja; aprenderei com ele a fazer sapatos e a viver sem desejo. Depois disso, não voltarei a estar triste. Pois só o desejo e a ociosidade nos tornam tristes."
A Condessa Martin sorriu.
"Monsieur Choulette, não desejo nada e, contudo, não estou alegre. Devo fazer sapatos também?"
Choulette respondeu, gravemente:
"Ainda não é tempo para isso."
Quando chegaram aos jardins dos Oricellari, Madame Marmet caiu num banco. Tinha examinado em Santa Maria-Novella os frescos de Ghirlandajo, as cadeiras do coro, a Virgem de Cimabue, as pinturas no claustro. Tinha-o feito cuidadosamente, em memória do marido, que muito apreciara a arte italiana. Estava cansada. Choulette sentou-se ao seu lado e disse:
"Madame, poderíeis dizer-me se é verdade que as batinas do Papa são feitas por Worth?"
Madame Marmet achava que não. Contudo, Choulette ouvira pessoas dizerem isso nos cafés. Madame Marmet estava espantada por Choulette, um católico e socialista, falar tão desrespeitosamente de um papa amigo da república. Mas ele não gostava de Leão XIII.
"A sabedoria dos príncipes é de vista curta", disse ele; "a salvação da Igreja deve vir da república italiana, como Leão XIII acredita e deseja; mas a Igreja não será salva da maneira que este piedoso Maquiavel pensa. A revolução fará com que o Papa perca o seu último tostão, com o resto do seu património. E será a salvação. O Papa, destituído e pobre, tornar-se-á então poderoso. Ele agitará o mundo. Veremos de novo Pedro, Lino, Cleto, Anacleto e Clemente; os humildes, os ignorantes; homens como os primeiros santos mudarão a face da terra. Se amanhã, na cátedra de Pedro, viesse sentar-se um verdadeiro bispo, um verdadeiro cristão, eu ir-me-ia ter com ele e diria: 'Não sejais um velho enterrado vivo num túmulo de ouro; deixai os vossos nobres guardas e os vossos cardeais; deixai a vossa corte e os seus simulacros de poder. Tomai o meu braço e vinde comigo pedir o vosso pão entre as nações. Coberto de trapos, pobre, doente, moribundo, percorrei as estradas, mostrando em vós a imagem de Jesus. Dizei: "Peço o meu pão para a condenação dos ricos." Ide às cidades e gritai de porta em porta, com uma sublime estupidez: "Sede humildes, sede gentis, sede pobres!" Anunciai a paz e a caridade às cidades, às antros e aos quartéis. Sereis desdenhado; a ralé atirar-vos-á pedras. Os polícias arrastar-vos-ão para a prisão. Sereis para os humildes como para os poderosos, para os pobres como para os ricos, um assunto de riso, um objeto de desgosto e de piedade. Os vossos padres destronar-vos-ão e elevarão contra vós um antipapa, ou dirão que estais louco. E é necessário que eles digam a verdade; é necessário que sejais louco; os lunáticos salvaram o mundo. Os homens dar-vos-ão a coroa de espinhos e o cetro de cana, e cuspir-vos-ão na cara, e é por esse sinal que aparecereis como Cristo e verdadeiro rei; e é por tais meios que estabelecereis o socialismo cristão, que é o reino de Deus na terra.'"
Tendo falado desta maneira, Choulette acendeu um daqueles longos e tortuosos charutos italianos, que são perfurados com uma palha. Deu dele várias baforadas de vapor infecioso, depois continuou, tranquilamente:
"E seria prático. Podeis recusar-vos a reconhecer-me qualquer qualidade exceto a minha visão clara das situações. Ah, Madame Marmet, nunca sabereis quão verdade é que as grandes obras deste mundo foram sempre realizadas por loucos. Pensais, Madame Martin, que se São Francisco de Assis tivesse sido sensato, ele teria derramado sobre a terra, para o refresco dos povos, a água viva da caridade e todos os perfumes do amor?"
"Não sei", respondeu Madame Martin; "mas as pessoas sensatas sempre me pareceram ser uns chatos. Posso dizer-vos isto, Monsieur Choulette."
Voltaram para Fiesole no elétrico a vapor que sobe a colina. A chuva caía. Madame Marmet adormeceu e Choulette queixou-se. Todos os seus males vieram atacá-lo ao mesmo tempo: a humidade no ar deu-lhe uma dor no joelho, e ele não conseguia dobrar a perna; a sua mala de tapete, perdida no dia anterior na viagem da estação para Fiesole, não fora encontrada, e era um desastre irreparável; uma revista de Paris acabara de publicar um dos seus poemas, com erros tipográficos tão gritantes como a concha de Afrodite.
Ele acusava os homens e as coisas de lhe serem hostis. Tornou-se pueril, absurdo, odioso. Madame Martin, a quem Choulette e a chuva entristeciam, pensou que a viagem nunca mais terminaria. Quando chegou a casa, encontrou a Srta. Bell na sala de estar, a copiar com tinta dourada numa folha de pergaminho, com uma caligrafia formada segundo os itálicos aldinos, versos que compusera durante a noite. À chegada da amiga, ela ergueu o seu rosto pequeno, sem beleza, mas iluminado por olhos esplêndidos.
"Querida, permite-me que te apresente o Príncipe Albertinelli."
O Príncipe possuía uma certa beleza juvenil e divina, que a sua barba negra intensificava. Ele fez uma vénia.
"Madame, faríeis alguém amar a França, se esse sentimento não estivesse já nos nossos corações."
A Condessa e Choulette pediram à Srta. Bell que lhes lesse os versos que estava a escrever. Ela desculpou-se de recitar a sua cadência incerta ao poeta francês, de quem ela gostava mais depois de François Villon. Depois, recitou com a sua voz bonita, sibilante, como a de um pássaro.
"Isso é muito bonito", disse Choulette, "e traz a marca da Itália suavemente velada pelas brumas de Thule."
"Sim", disse a Condessa Martin, "isso é bonito. Mas por que, querida Vivian, é que os teus dois belos inocentes desejaram morrer?"
"Oh, querida, porque se sentiam tão felizes quanto possível, e não desejavam mais nada. Era desencorajador, querida, desencorajador. Como é que não compreendes isso?"
"E pensas que se vivemos a razão é que temos esperança?"
"Oh, sim. Vivemos na esperança do que o amanhã, o amanhã, rei da terra das fadas, trará no seu manto negro semeado de estrelas, flores e lágrimas. Oh, rei brilhante, Amanhã!"
LIVRO 2.
CAPÍTULO X. DECHARTRE CHEGA A FLORENÇA
Tinham-se vestido para o jantar. Na sala de estar, a Srta. Bell esboçava monstros à imitação de Leonardo. Criava-os, para saber o que diriam depois, certa de que falariam e expressariam ideias raras em ritmos estranhos, e que ela os ouviria. Era assim que ela encontrava frequentemente a sua inspiração.
O Príncipe Albertinelli dedilhava no piano a canção siciliana 'O Lola'! Os seus dedos suaves mal tocavam nas teclas.
Choulette, ainda mais ríspido do que era seu hábito, pediu linha e agulhas para poder remendar as suas roupas. Reclamava por ter perdido uma agulheira que trazia há trinta anos no bolso, e que lhe era cara pela doçura das reminiscências e pela força dos bons conselhos que dela recebera. Pensava tê-la perdido na sala dedicada aos temas históricos no Palácio Pitti; e culpava por esta perda os Médicis e todos os pintores italianos.
Olhando para a Srta. Bell com um olho mau, disse:
"Componho versos enquanto remendo as minhas roupas. Gosto de trabalhar com as minhas mãos. Canto canções para mim mesmo enquanto varro o meu quarto; é por isso que as minhas canções chegaram ao coração dos homens, como as antigas canções dos camponeses e artesãos, que são ainda mais belas do que as minhas, mas não mais naturais. Tenho orgulho suficiente para não querer outro criado além de mim mesmo. A viúva do sacristão ofereceu-se para reparar as minhas roupas. Não lhe permiti que o fizesse. É errado fazer os outros realizarem servilmente por nós um trabalho que podemos fazer nós mesmos com nobre orgulho."
O Príncipe tocava nonchalant a sua música nonchalant. Thérèse, que durante oito dias correra às igrejas e museus na companhia de Madame Marmet, pensava no incómodo que a sua companheira lhe causava ao descobrir nas faces dos velhos pintores parecenças com pessoas que ela conhecia. De manhã, no Palácio Ricardi, nos frescos de Gozzoli, tinha reconhecido o Sr. Gamin, o Sr. Lagrange, o Sr. Schmoll, a Princesa Seniavine como um pajem, e o Sr. Renan a cavalo. Estava aterrorizada por encontrar o Sr. Renan por toda a parte. Ela levava todas as suas ideias de volta ao seu pequeno círculo de académicos e pessoas elegantes, por um volteio fácil, que irritava a sua amiga. Recordava com a sua voz suave as reuniões públicas no Instituto, as aulas na Sorbonne, as receções noturnas onde brilhavam os filósofos mundanos e espiritualistas. Quanto às mulheres, eram todas encantadoras e irrepreensíveis. Ela jantava com todas elas. E Thérèse pensava: "Ela é demasiado prudente. Ela maça-me." E pensava em deixá-la em Fiesole e visitar as igrejas sozinha. Empregando uma palavra que Le Menil lhe ensinara, disse para si própria:
"Vou 'plantar' a Madame Marmet."
Um velho ágil entrou na sala. O seu bigode encerado e o seu quebra-luz branco faziam-no parecer um velho soldado; mas o seu olhar traía, sob os seus óculos, a fina suavidade de olhos gastos pela ciência e pela volúpia. Era um florentino, amigo da Srta. Bell e do Príncipe, o Professor Arrighi, outrora adorado pelas mulheres, e agora célebre na Toscana pelos seus estudos de agricultura. Ele agradou à Condessa Martin de imediato. Ela questionou-o sobre os seus métodos, e sobre os resultados que obtinha com eles. Ele disse que trabalhava com prudente energia. "A terra", disse ele, "é como as mulheres. A terra não deseja que a tratem nem com timidez nem com brutalidade." O Ave Maria tocou em todos os campanários, parecendo fazer do céu um imenso instrumento de música religiosa. "Querida", disse a Srta. Bell, "observas que o ar de Florença se torna sonoro e prateado à noite pelo som dos sinos?"
"É singular", disse Choulette, "temos o ar de pessoas que estão à espera de alguma coisa."
Vivian Bell respondeu que estavam à espera do Sr. Dechartre. Ele estava um pouco atrasado; ela temia que ele tivesse perdido o comboio.
Choulette aproximou-se de Madame Marmet, e disse, gravemente: "Madame Marmet, é possível para vós olhar para uma porta — uma simples porta de madeira pintada, como a vossa, suponho, ou como a minha, ou como esta, ou como qualquer outra — sem ser aterrorizada pelo pensamento do visitante que poderia, a qualquer momento, entrar? A porta do quarto de alguém, Madame Marmet, abre-se para o infinito. Alguma vez pensastes nisso? Alguma vez se sabe o verdadeiro nome do homem ou da mulher, que, sob um disfarce humano, com um rosto conhecido, em roupas comuns, entra na casa de alguém?"
Ele acrescentou que, quando estava fechado no seu quarto, não conseguia olhar para a porta sem sentir o cabelo em pé. Mas Madame Marmet via as portas dos seus quartos abrirem-se sem medo. Ela sabia o nome de todos os que iam visitá-la — pessoas encantadoras.
Choulette olhou para ela tristemente, e disse, abanando a cabeça: "Madame Marmet, aqueles a quem chamais pelos seus nomes terrestres têm outros nomes que desconheceis, e que são os seus nomes reais."
Madame Martin perguntou a Choulette se ele achava que a desgraça precisava de cruzar o limiar para entrar na vida de alguém.
"A desgraça é engenhosa e subtil. Ela entra pela janela, ela passa através das paredes. Ela não se mostra sempre, mas está lá sempre. As pobres portas são inocentes da chegada desse visitante indesejado."
Choulette avisou severamente Madame Martin de que ela não devia chamar à desgraça um visitante indesejado.
"A desgraça é o nosso maior mestre e o nosso melhor amigo. A desgraça ensina-nos o significado da vida. Madame, quando sofreis, sabeis o que deveis saber; acreditais no que deveis acreditar; fazeis o que deveis fazer; sois o que deveis ser. E tereis a alegria, que o prazer expulsa. A verdadeira alegria é tímida, e não encontra prazer entre uma multidão."
O Príncipe Albertinelli disse que a Srta. Bell e os seus amigos franceses não precisavam de ser desgraçados para serem perfeitos, e que a doutrina da perfeição alcançada pelo sofrimento era uma crueldade bárbara, tida em horror sob o belo céu da Itália. Quando a conversa definhou, ele procurou prudentemente de novo no piano as frases da graciosa e banal melodia siciliana, temendo deslizar para uma ária de Trovatore, que fora escrita da mesma maneira.
Vivian Bell questionou os monstros que tinha criado, e queixou-se das suas respostas absurdas.
"Neste momento", disse ela, "gostaria de ouvir falar apenas figuras em tapeçarias que dissessem coisas ternas, antigas e preciosas como elas próprias."
E o belo Príncipe, arrebatado pela torrente da melodia, cantou. A sua voz exibia-se como a plumagem de um pavão e morria em espasmos de "ohs" e "ahs".
A boa Madame Marmet, com os olhos fixos na porta, disse:
"Creio que o Monsieur Dechartre está a chegar."
Ele entrou, animado, com alegria no seu rosto habitualmente grave.
A Miss Bell deu-lhe as boas-vindas com gritos semelhantes aos de um pássaro.
"Monsieur Dechartre, estávamos impacientes por vê-lo. O Monsieur Choulette estava a dizer mal das portas — sim, das portas das casas; e dizia também que o infortúnio é um velho cavalheiro muito prestável. Perdeu todas estas coisas belas. Fez-nos esperar muito tempo, Monsieur Dechartre. Porquê?"
Ele desculpou-se; apenas perdera o tempo necessário para ir ao seu hotel e mudar de traje. Nem sequer fora saudar o seu velho amigo, o bronze San Marco, tão imponente no seu nicho na parede de San Michele. Elogiou a poetisa e saudou a Condessa Martin com uma alegria mal disfarçada.
"Antes de deixar Paris fui a sua casa, onde me disseram que tinha ido esperar pela primavera a Fiesole, com a Miss Bell. Tive então a esperança de a encontrar nesta terra, que amo agora mais do que nunca."
Ela perguntou-lhe se ele tinha ido a Veneza, e se tinha visto novamente em Ravena as imperatrizes com auréolas, e os fantasmas que outrora o tinham deslumbrado.
Não, ele não se detivera em parte alguma.
Ela não disse nada. Os seus olhos permaneceram fixos no canto da parede, no sino de St. Paulin.
Ele disse-lhe:
"Está a olhar para o Nolette."
Vivian Bell deixou de lado os seus papéis e os seus lápis.
"Em breve verá uma maravilha, Monsieur Dechartre. Encontrei a rainha dos pequenos sinos. Encontrei-o em Rimini, num edifício antigo em ruínas, que é usado como armazém. Comprei-o e embalei-o eu mesma. Estou à espera dele. Irá ver. Traz um Cristo numa cruz, entre a Virgem e São João, a data de 1400 e as armas dos Malatesta — Monsieur Dechartre, não está a ouvir com a devida atenção. Ouça-me atentamente. Em 1400, Lorenzo Ghiberti, fugindo da guerra e da peste, refugiou-se em Rimini, na casa de Paola Malatesta. Foi ele quem modelou as figuras do meu sino. E verá aqui, na próxima semana, o trabalho de Ghiberti."
O criado anunciou que o jantar estava servido.
A Miss Bell desculpou-se por lhes servir pratos italianos. O seu cozinheiro era um poeta de Fiesole.
À mesa, perante os fiascani envoltos em palha de milho, falaram do século XV, que ambos amavam. O Príncipe Albertinelli elogiou os artistas daquela época pela sua universalidade, pelo amor fervoroso que dedicavam à sua arte e pelo génio que os devorava. Falava com ênfase, numa voz acariciante.
Dechartre admirava-os. Mas admirava-os de outra forma.
"Para louvar de maneira conveniente", disse ele, "aqueles homens, que trabalhavam tão calorosamente, o louvor deveria ser modesto e justo. Deveriam ser colocados nas suas oficinas, nas lojas onde trabalhavam como artesãos. É aí que se pode admirar a sua simplicidade e o seu génio. Eram ignorantes e rudes. Tinham lido pouco e visto pouco. As colinas que rodeiam Florença eram o limite do seu horizonte. Conheciam apenas a sua cidade, as Sagradas Escrituras e alguns fragmentos de esculturas antigas, estudados e acariciados amorosamente."
"Tem razão", disse o Professor Arrighi. "Não tinham outro cuidado senão o de usar os melhores processos. As suas mentes inclinavam-se apenas para preparar vernizes e misturar cores. Aquele que primeiro pensou em colar uma tela sobre um painel, para que a pintura não se partisse quando a madeira se fendesse, passou por um homem maravilhoso. Cada mestre tinha as suas fórmulas secretas."
"Tempo feliz", disse Dechartre, "em que ninguém se preocupava com essa originalidade que hoje procuramos tão avidamente. O aprendiz tentava trabalhar como o mestre. Não tinha outra ambição senão a de se lhe assemelhar, e era sem tentar sê-lo que ele era diferente dos outros. Trabalhavam não pela glória, mas para viver."
"Tinham razão", disse Choulette. "Nada é melhor do que trabalhar para viver."
"O desejo de alcançar a fama", continuou Dechartre, "não os perturbava. Como não conheciam o passado, não concebiam o futuro; e o seu sonho não ia além das suas vidas. Exerciam uma vontade poderosa em trabalhar bem. Sendo simples, cometiam poucos erros e viam a verdade que a nossa inteligência nos oculta."
Choulette começou a relatar à Madame Marmet os incidentes de uma visita que fizera durante o dia à Princesa da Casa de França, a quem a Marquesa de Rieu lhe dera uma carta de apresentação. Gostava de impressionar as pessoas com o facto de ele, o boémio e vagabundo, ter sido recebido por aquela Princesa real, em cuja casa nem a Miss Bell nem a Condessa Martin teriam sido admitidas, e que o Príncipe Albertinelli se orgulhava de ter encontrado um dia numa cerimónia qualquer.
"Ela dedica-se", disse o Príncipe, "às práticas de piedade."
"Ela é admirável pela sua nobreza e pela sua simplicidade", disse Choulette. "Em sua casa, rodeada pelos seus gentis-homens e pelas suas damas, ela faz observar a etiqueta mais rigorosa, de modo que a sua grandeza é quase uma penitência, e todas as manhãs ela esfrega o pavimento da igreja. É uma igreja de aldeia, onde as galinhas vagueiam, enquanto o 'curé' joga bisca com o sacristão."
E Choulette, debruçando-se sobre a mesa, imitou, com o seu guardanapo, um criado a esfregar; depois, levantando a cabeça, disse, gravemente:
"Após esperar em antecâmaras consecutivas, fui finalmente autorizado a beijar-lhe a mão."
E parou.
A Madame Martin perguntou, impacientemente:
"O que lhe disse ela, essa Princesa tão admirável pela sua nobreza e pela sua simplicidade?"
"Ela disse-me: 'Visitou Florença? Disseram-me que recentemente foram abertas lojas novas e bonitas que são iluminadas à noite.' Disse também: 'Temos um bom boticário aqui. Os boticários austríacos não são melhores. Ele colocou-me na perna, há seis meses, um emplastro poroso que ainda não saiu.' Tais são as palavras que Maria Teresa se dignou dirigir-me. Ó simplicidade grandiosa! Ó virtude cristã! Ó filha de São Luís! Ó eco maravilhoso da tua voz, santa Isabel da Hungria!"
A Madame Martin sorriu. Pensou que Choulette estava a zombar. Mas ele negou a acusação, indignado, e a Miss Bell disse que a Madame Martin estava enganada. Era uma falha dos franceses, disse ela, pensarem que as pessoas estavam sempre a gracejar.
Depois, voltaram ao tema da arte, que naquele país é inalada com o ar.
"Quanto a mim", disse a Condessa Martin, "não sou suficientemente culta para admirar Giotto e a sua escola. O que me impressiona é a sensualidade daquela arte do século XV que se diz ser cristã. Só vi piedade e pureza nas imagens de Fra Angelico, embora sejam muito bonitas. O resto, essas figuras de Virgens e anjos, são voluptuosas, acariciantes e, por vezes, perversamente ingénuas. O que há de religioso naqueles jovens reis magos, belos como mulheres; naquele São Sebastião, brilhante de juventude, que parece apenas o Baco doloroso do cristianismo?"
Dechartre respondeu que pensava como ela, e que eles deviam estar certos, ela e ele; visto que Savonarola era da mesma opinião e, não encontrando piedade em nenhuma obra de arte, desejava queimá-las todas.
"Havia em Florença, no tempo do soberbo Manfredo, que era meio muçulmano, homens que se dizia serem da seita de Epicuro e que procuravam argumentos contra a existência de Deus. Guido Cavalcanti desdenhava a gente ignorante que acreditava na imortalidade da alma. Citava-se a seguinte frase dele: 'A morte do homem é exatamente semelhante à dos brutos.' Mais tarde, quando a beleza antiga foi escavada das ruínas, o estilo cristão de arte pareceu triste. Os pintores que trabalhavam nas igrejas e nos claustros não eram devotos nem castos. Perugino era ateu e não o escondia."
"Sim", disse a Miss Bell; "mas dizia-se que a sua cabeça era dura e que as verdades celestiais não podiam penetrar o seu crânio espesso. Era rude e avarento, e totalmente imerso em interesses materiais. Só pensava em comprar casas."
O Professor Arrighi defendeu Pietro Vanucci de Perugia.
"Ele era", disse, "um homem honesto. E o prior dos Gesuati de Florença estava enganado ao desconfiar dele. Aquele monge praticava a arte de fabricar azul-ultramarino esmagando pedras de lápis-lazúli queimadas. O ultramarino valia então o seu peso em ouro; e o prior, que sem dúvida tinha um segredo, estimava-o mais precioso do que rubis ou safiras. Pediu a Pietro Vanucci para decorar os dois claustros do seu convento e esperava maravilhas, menos da habilidade do mestre do que da beleza daquele ultramarino nos céus. Durante todo o tempo que o pintor trabalhou nos claustros sobre a história de Jesus Cristo, o prior manteve-se ao seu lado e apresentava-lhe o pó precioso num saco que nunca largava. Pietro tirava dele, sob os olhos do santo homem, a quantidade de que necessitava, e mergulhava o seu pincel, carregado de cor, numa chávena cheia de água, antes de esfregar a parede com ele. Usou dessa maneira uma grande quantidade do pó. E o bom padre, vendo o seu saco a ficar mais leve, suspirou: 'Jesus! Como aquela cal devora o ultramarino!' Quando os frescos terminaram e Perugino recebeu do monge o preço acordado, colocou-lhe na mão um pacote de pó azul: 'Isto é para si, padre. O seu ultramarino que eu tirei com o meu pincel caiu para o fundo da minha chávena, de onde o recolhi todos os dias. Devolvo-lho. Aprenda a confiar nas pessoas honestas.'"
"Oh", disse Therese, "não há nada de extraordinário no facto de Perugino ser avarento e, contudo, honesto. As pessoas interessadas nem sempre são as menos escrupulosas. Há muitos avarentos que são honestos."
"Naturalmente, querida", disse a Miss Bell. "Os avarentos não desejam dever nada, e as pessoas pródigas suportam ter dívidas. Não pensam no dinheiro que têm, e pensam menos no dinheiro que devem. Não disse que Pietro Vanucci de Perugia era um homem sem posses. Disse que tinha uma cabeça de negócios dura e que comprava casas. Fico muito contente por saber que ele devolveu o ultramarino ao prior dos Gesuati."
"Já que o seu Pietro era rico", disse Choulette, "era seu dever devolver o ultramarino. Os ricos são moralmente obrigados a ser honestos; os pobres não o são."
Nesse momento, Choulette, a quem o empregado apresentava uma taça de prata, estendeu as mãos para a água perfumada. Vinha de um vaso que a Miss Bell passava aos seus convidados, de acordo com o uso antigo, após as refeições.
"Lavo as minhas mãos", disse ele, "do mal que a Madame Martin faz ou possa fazer com a sua fala, ou de outra forma."
E levantou-se, desajeitadamente, seguindo a Miss Bell, que tomou o braço do Professor Arrighi.
Na sala de estar, ela disse, enquanto servia o café:
"Monsieur Choulette, por que nos condena à tristeza selvagem da igualdade? Ora, a flauta de Dafne não seria melodiosa se fosse feita de sete canas iguais. Deseja destruir as belas harmonias entre mestres e criados, aristocratas e artesãos. Oh, temo que seja um bárbaro triste, Monsieur Choulette. Está cheio de piedade por aqueles que estão em necessidade, e não tem piedade pela beleza divina, que exila deste mundo. Expulsa a beleza, Monsieur Choulette; repudia-a, nua e em lágrimas. Esteja certo disto: ela não permanecerá na terra quando os pobres homenzinhos forem todos fracos, delicados e ignorantes. Acredite em mim, abolir o engenhoso agrupamento que homens de diversas condições formam na sociedade, os humildes com os magníficos, é ser inimigo dos pobres e dos ricos, é ser inimigo da raça humana."
"Inimigos da raça humana!", replicou Choulette, enquanto mexia o seu café. "Essa é a frase que o severo romano aplicava aos cristãos que lhe falavam de amor divino."
Dechartre, sentado perto da Madame Martin, interrogava-a sobre os seus gostos acerca da arte e da beleza, sustentava, conduzia, animava as suas admirações, por vezes incitava-a com brusquidão acariciante, desejava que ela visse tudo o que ele tinha visto, que amasse tudo o que ele amava.
Desejava que ela fosse aos jardins ao primeiro despontar da primavera. Contemplava-a com antecedência nos nobres terraços; via já a luz a brincar no seu pescoço e no seu cabelo; a sombra das árvores de louro a cair sobre os seus olhos. Para ele, a terra e o céu de Florença não tinham mais nada a fazer senão servir de adorno a esta jovem mulher.
Elogiava a simplicidade com que ela se vestia, as características da sua forma e da sua graça, a franqueza encantadora das linhas que cada um dos seus movimentos criava. Gostava, dizia, dos vestidos animados e vivos, subtis e livres que se veem tão raramente, que nunca se esquecem.
Embora tivesse sido muito elogiada, nunca tinha ouvido elogios que lhe tivessem agradado mais. Sabia que se vestia bem, com gosto ousado e seguro. Mas nenhum homem, exceto o seu pai, lhe tinha feito sobre o assunto os elogios de um perito. Pensava que os homens eram capazes de sentir apenas o efeito de um vestido, sem compreender os detalhes engenhosos dele. Alguns homens que conheciam vestidos repugnavam-na pelo seu ar efeminado. Estava resignada à apreciação das mulheres apenas, e estas tinham na sua apreciação estreiteza de espírito, malignidade e inveja. A admiração artística de Dechartre surpreendia-a e agradava-lhe. Recebeu agradavelmente o elogio que ele lhe fez, sem pensar que talvez fosse demasiado íntimo e quase indiscreto.
"Então, o senhor repara nos vestidos, Monsieur Dechartre?"
Não, raramente reparava neles. Havia tão poucas mulheres bem vestidas, mesmo agora, quando as mulheres se vestem tão bem, e até melhor, do que nunca. Não encontrava prazer em ver pacotes de mercadorias secas a caminhar. Mas se uma mulher com ritmo e linha passasse diante dele, ele abençoava-a.
Continuou, num tom um pouco mais elevado:
"Não consigo pensar numa mulher que se preocupa em adornar-se todos os dias, sem meditar na grande lição que ela dá aos artistas. Veste-se para algumas horas, e o cuidado que teve não está perdido. Devemos, como ela, ornamentar a vida sem pensar no futuro. Pintar, esculpir ou escrever para a posteridade é apenas a tolice da vaidade."
"Monsieur Dechartre", perguntou o Príncipe Albertinelli, "como acha que uma cintura malva cravejada de flores de prata ficaria na Miss Bell?"
"Penso", disse Choulette, "tão pouco num futuro terrestre, que escrevi os meus melhores poemas em papel de cigarros. Desvaneceram-se facilmente, deixando aos meus versos apenas uma espécie de existência metafísica."
Ele tinha um ar de negligência com o qual posava. Na verdade, nunca tinha perdido uma linha do que escrevia. Dechartre era mais sincero. Não desejava a imortalidade. A Miss Bell censurou-o por isso.
"Monsieur Dechartre, para que a vida possa ser grande e completa, é preciso colocar nela o passado e o futuro. As nossas obras de poesia e de arte devem ser realizadas em honra dos mortos e com o pensamento naqueles que hão de vir depois de nós. Assim participaremos daquilo que foi, daquilo que é e daquilo que será. Não deseja ser imortal, Monsieur Dechartre? Cuidado, pois Deus pode ouvi-lo."
Dechartre respondeu:
"Bastar-me-ia viver mais um momento."
E deu as boas-noites, prometendo voltar no dia seguinte para acompanhar a Madame Martin à capela Brancacci.
Uma hora mais tarde, na sala estética forrada com tapeçaria, onde limoeiros carregados de frutos dourados formavam uma floresta de fadas, Therese, com a cabeça na almofada e os seus belos braços nus dobrados sob a cabeça, pensava, vendo flutuar confusamente diante de si as imagens da sua nova vida: Vivian Bell e os seus sinos, as suas figuras pré-rafaelitas, leves como sombras, damas, cavaleiros isolados, indiferentes entre cenas piedosas, um pouco tristes e a olhar para ver quem vinha; pensava também no Príncipe Albertinelli, no Professor Arrighi, em Choulette, com o seu estranho jogo de ideias, e em Dechartre, com olhos juvenis num rosto preocupado.
Pensava que ele tinha uma imaginação encantadora, uma mente mais rica do que todas as que lhe tinham sido reveladas e uma atração à qual já não tentava resistir. Tinha sempre reconhecido o seu dom para agradar. Descobria agora que ele tinha a vontade de agradar. Esta ideia era-lhe deliciosa; fechou os olhos para a reter. Depois, subitamente, estremeceu. Tinha sentido um golpe profundo desferido dentro dela, nas profundezas do seu ser. Teve uma visão súbita de Robert, a espingarda debaixo do braço, nos bosques. Ele caminhava com passo firme e regular no matagal sombrio. Ela não conseguia ver o seu rosto, e isso perturbava-a. Não lhe guardava rancor. Não estava descontente com ele, mas consigo mesma. Robert seguia em frente, sem virar a cabeça, para longe, e cada vez mais longe, até ser apenas um ponto negro no bosque desolado. Pensou que talvez tivesse sido caprichosa e rude ao deixá-lo sem uma palavra de despedida, sem sequer uma carta. Ele era o seu amante e o seu único amigo. Nunca tinha tido outro. "Não desejo que ele seja infeliz por minha causa", pensou.
Pouco a pouco, tranquilizou-se. Ele amava-a, sem dúvida; mas não era suscetível, nem engenhoso, felizmente, em atormentar-se. Disse para consigo mesma:
"Ele está a caçar e a desfrutar da caça. Está com a tia, que ele admira." Acalmou os seus receios e regressou à alegria encantadora de Florença. Tinha visto casualmente, nos Ofícios, um quadro que Dechartre apreciava. Era uma cabeça decapitada da Medusa, uma obra onde Leonardo, dizia o escultor, tinha expressado a profundeza minuciosa e o refinamento trágico do seu génio. Desejava vê-lo de novo, lamentando não o ter visto melhor à primeira. Apagou a sua lâmpada e adormeceu.
Sonhou que encontrava numa igreja deserta Robert Le Menil envolto em peles que nunca o vira usar. Ele estava à espera dela, mas uma multidão de padres separava-os. Ela não sabia o que tinha acontecido com ele. Não tinha visto o seu rosto, e isso assustava-a. Acordou e ouviu à janela aberta um grito triste e monótono, e viu um colibri a dardear na luz do início da madrugada. Então, sem causa, começou a chorar numa paixão de autopiedade, e com o abandono de uma criança.
CAPÍTULO XI. "O DESPERTAR DA FÉ E DO AMOR"
Ela sentia prazer em vestir-se cedo, com um gosto delicado e subtil. O seu quarto de vestir, uma fantasia estética de Vivian Bell, com a sua cerâmica grosseiramente envernizada, os seus altos jarros de cobre e o seu pavimento de faiança, como um tabuleiro de xadrez, parecia a cozinha de uma fada. Era rústico e maravilhoso, e a Condessa Martin podia ter nele a surpresa agradável de se confundir com uma fada. Enquanto a sua criada lhe penteava o cabelo, ouvia Dechartre e Choulette a falar debaixo das suas janelas. Rearranjou todo o trabalho que Pauline tinha feito e descobriu a linha da sua nuca, que era fina e pura. Olhou-se ao espelho e foi para o jardim.
Dechartre estava lá, a recitar versos de Dante e a olhar para Florença: "Na hora em que a nossa mente, mais estranha à carne..."
Perto dele, Choulette, sentado na balaustrada do terraço, com as pernas pendentes e o nariz metido na barba, ainda estava a trabalhar na figura da Miséria no seu bordão.
Dechartre retomou as rimas do cântico: "Na hora em que a nossa mente, mais estranha à carne; e menos sob a obsessão dos pensamentos, é quase divina nas suas visões..."
Ela aproximou-se junto da sebe de buxo, segurando uma sombrinha e vestida com um traje cor de palha. A ténue luz do sol de inverno envolvia-a em ouro pálido.
Dechartre saudou-a alegremente.
Ela disse:
"Está a recitar versos que não conheço. Só conheço Metastasio. O meu professor só gostava de Metastasio. Qual é a hora em que a mente tem visões divinas?"
"Madame, essa hora é o despertar do dia. Pode ser também o despertar da fé e do amor."
Choulette duvidava que o poeta se referisse aos sonhos da manhã, que deixam ao despertar impressões vívidas e dolorosas, e que não são de todo estranhos à carne. Mas Dechartre citara estes versos no prazer da alvorada gloriosa que vira naquela manhã nas colinas douradas. Ele andava, há muito, perturbado com as imagens que se veem no sono, e acreditava que essas imagens não estavam relacionadas com o objeto que mais nos preocupa, mas, pelo contrário, com ideias abandonadas durante o dia.
Thérèse recordou o seu sonho matinal, o caçador perdido no bosque.
— Sim — disse Dechartre — as coisas que vemos à noite são restos infelizes do que negligenciámos no dia anterior. Os sonhos vingam as coisas que se desdenharam. São reproches de amigos abandonados. Daí a sua tristeza.
Ela perdeu-se em sonhos por um momento, depois disse:
— Talvez seja verdade.
Então, rapidamente, perguntou a Choulette se ele tinha terminado o retrato da Miséria no seu bordão. A Miséria tornara-se agora uma figura de Piedade, e Choulette reconhecia nela a Virgem. Tinha até composto uma quadra que deveria escrever nela em forma de espiral — uma quadra didática e moral. Ele deixaria de escrever, exceto no estilo dos mandamentos de Deus vertidos em versos franceses. As quatro linhas expressavam simplicidade e bondade. Ele consentiu em recitá-las.
Thérèse descansou na balaustrada do terraço e procurou ao longe, na profundidade do mar de luz, os picos de Vallambrosa, quase tão azuis como o céu. Jacques Dechartre olhou-a. Pareceu-lhe que a via pela primeira vez, tal era a delicadeza que descobria no seu rosto, que a ternura e a inteligência tinham investido de reflexão sem alterar a sua graça jovem e fresca. A luz do dia, de que ela gostava, era indulgente para com ela. E, verdadeiramente, ela era bonita, banhada naquela luz de Florença, que acaricia as formas belas e alimenta os pensamentos nobres. Uma cor fina e rosada subia às suas faces arredondadas; os seus olhos, azul-acinzentados, riam; e, quando falava, o brilho dos seus dentes realçava os seus lábios de ardente doçura. O seu olhar abrangia o seu busto flexível, as suas ancas cheias e a atitude audaz da sua cintura. Ela segurava a sombrinha com a mão esquerda, a outra mão brincava com violetas. Dechartre tinha a mania das mãos bonitas. As mãos apresentavam aos seus olhos uma fisionomia tão marcante como o rosto — um caráter, uma alma. Estas mãos encantavam-no. Eram requintadas. Adorava os seus dedos delgados, as suas unhas rosadas, as suas palmas suaves e ternas, atravessadas por linhas tão elegantes como arabescos, e subindo na base dos dedos em montes harmoniosos. Examinou-as com atenção encantada até ela as fechar no cabo do seu guarda-chuva. Então, de pé atrás dela, olhou-a novamente. O seu busto e braços, graciosos e puros nas linhas, a sua bela forma, que era como a de uma ânfora viva, agradavam-lhe.
— Monsieur Dechartre, aquela mancha negra ali é o Jardim de Boboli, não é? Vi os jardins há três anos. Não havia muitas flores neles. Contudo, gostei das suas árvores altas e sombrias.
Surpreendeu-o que ela falasse, que ela pensasse. O som claro da sua voz espantou-o, como se nunca a tivesse ouvido.
Ele respondeu ao acaso. Estava desajeitado. Ela fingiu não notar, mas sentiu uma profunda alegria interior. A sua voz grave, velada e suavizada, parecia acariciá-la. Ela disse coisas triviais:
— Essa vista é bela. O tempo está bom.
CAPÍTULO XII. CORAÇÕES DESPERTOS
Pela manhã, com a cabeça na almofada bordada, Thérèse pensava nos passeios do dia anterior; nas Virgens, emolduradas por anjos; nas inúmeras crianças, pintadas ou esculpidas, todas belas, todas felizes, que cantam ingenuamente o Aleluia da graça e da beleza. Na ilustre capela dos Brancacci, diante daqueles frescos, pálidos e resplandecentes como uma alvorada divina, ele tinha-lhe falado de Masaccio, numa linguagem tão viva que lhe parecera tê-lo visto, o mestre adolescente dos mestres, a boca entreaberta, os olhos escuros e azuis, a morrer, encantado. E ela gostara destas maravilhas de uma manhã mais encantadora do que um dia. Dechartre era para ela a alma daquelas formas magníficas, a mente daquelas coisas nobres. Foi por ele, foi através dele, que ela compreendeu a arte e a vida. Não se interessava por coisas que não o interessavam. Como lhe viera esta afeição? Não tinha uma lembrança precisa disso. Inicialmente, quando Paul Vence quis apresentá-lo, ela não teve desejo de o conhecer, nenhum pressentimento de que ele lhe agradaria. Recordava-se de estatuetas de bronze elegantes, finos trabalhos em cera assinados com o seu nome, que tinha notado no salão do Champ de Mars ou na galeria de Durand-Ruel. Mas não imaginava que ele pudesse ser-lhe agradável, ou mais sedutor do que muitos artistas e amantes da arte de quem ela se ria com as suas amigas. Quando o viu, ele agradou-lhe; teve o desejo de o atrair, de o ver frequentemente. Na noite em que ele jantou em sua casa, ela percebeu que sentia por ele uma afeição nobre e edificante. Mas, pouco depois, ele irritou-a um pouco; dava-lhe impaciência vê-lo fechado em si mesmo e demasiado pouco preocupado com ela. Teria gostado de o perturbar. Estava nesse estado de impaciência quando o encontrou, certa noite, diante da grade do Musée des Religions, e ele falou-lhe de Ravena e da Imperatriz sentada numa cadeira de ouro no seu túmulo. Achara-o sério e encantador, a voz quente, os olhos suaves na sombra da noite, mas demasiado estranho, demasiado distante dela, demasiado desconhecido. Sentira uma espécie de mal-estar e não sabia, quando caminhava ao longo do buxo que marginava o terraço, se desejava vê-lo todos os dias ou nunca mais o ver.
Desde então, em Florença, o seu único prazer era sentir que ele estava perto, ouvi-lo. Ele tornava a vida para ela encantadora, diversa, animada, nova. Revelava-lhe alegrias delicadas e uma tristeza deliciosa; despertava nela uma volúpia que sempre estivera adormecida. Agora estava decidida a nunca o abandonar. Mas como? Previa dificuldades; a sua mente lúcida e o seu temperamento apresentavam-nas todas. Por um momento, tentou enganar-se a si mesma; refletiu que talvez ele, um sonhador, exaltado, perdido nos seus estudos de arte, pudesse permanecer assíduo sem ser exigente. Mas não queria tranquilizar-se com essa ideia. Se Dechartre não fosse um amante, perdia todo o seu encanto. Não ousava pensar no futuro. Vivia no presente, feliz, ansiosa e fechando os olhos.
Sonhava assim, na sombra atravessada por setas de luz, quando Pauline lhe trouxe algumas cartas com o chá da manhã. Num envelope marcado com o monograma do Clube da Rue Royale, reconheceu a caligrafia de Le Ménil. Esperava aquela carta. Estava apenas espantada por aquilo que tinha a certeza de vir ter chegado, como na sua infância, quando o relógio infalível batia a hora da sua lição de piano.
Na sua carta, Robert fazia recriminações razoáveis. Porque fora ela sem dizer nada, sem deixar uma palavra de despedida? Desde o seu regresso a Paris, esperara todas as manhãs uma carta que não chegara. Estava mais feliz no ano anterior, quando recebia de manhã, duas ou três vezes por semana, cartas tão gentis e tão bem escritas que ele lamentava não as poder imprimir. Ansioso, fora a sua casa.
"Fiquei estupefacto ao saber da tua partida. O teu marido recebeu-me. Disse que, cedendo ao seu conselho, tinhas ido terminar o inverno em Florença com a Miss Bell. Disse que, há algum tempo, parecias pálida e magra. Achou que uma mudança de ares te faria bem. Tu não tinhas querido ir, mas, como sofrias cada vez mais, ele conseguiu persuadir-te."
"Eu não tinha notado que estavas magra. Parecia-me, pelo contrário, que a tua saúde era boa. E depois, Florença não é um bom destino de inverno. Não consigo compreender a tua partida. Estou muito atormentado por isso. Tranquiliza-me imediatamente, rezo-te."
"Achas que é agradável para mim ter notícias tuas pelo teu marido e receber as suas confidências? Ele sente a tua falta; irrita-o que as obrigações da vida pública o obriguem a permanecer em Paris. Ouvi no clube que ele tinha hipóteses de se tornar ministro. Isto espanta-me, porque os ministros não são habitualmente escolhidos entre pessoas da alta sociedade."
Depois, contou-lhe histórias de caça. Trouxera-lhe três peles de raposa, uma das quais era muito bela; a pele de um animal corajoso que ele puxara pela cauda e que lhe mordera a mão.
Em Paris, estava preocupado. O seu primo fora apresentado no clube. Temia que pudesse ser rejeitado. A sua candidatura fora afixada. Nessas condições, não ousava aconselhá-lo a retirar-se; seria assumir uma responsabilidade demasiado grande. Se fosse rejeitado, seria muito desagradável. Terminou rezando-lhe para escrever e voltar em breve.
Tendo lido esta carta, ela rasgou-a suavemente, atirou-a para o fogo e observou calmamente a queimar.
Sem dúvida, ele tinha razão. Ele dissera o que tinha a dizer; queixara-se, como era o seu dever queixar-se. O que poderia ela responder? Deveria continuar a sua discussão? O assunto dela tornara-se tão indiferente que precisava de reflexão para o recordar. Oh, não; não tinha desejo de ser atormentada. Sentia-se, pelo contrário, muito gentil para com ele! Vendo que ele a amava com confiança, numa tranquilidade teimosa, ela tornou-se triste e assustada. Ele não mudara. Era o mesmo homem que fora antes. Ela não era a mesma mulher. Estavam separados agora por influências impercetíveis, mas fortes, como essências no ar que nos fazem viver ou morrer. Quando a sua criada entrou para a vestir, ela não tinha começado a escrever uma resposta.
Ansiosa, pensava: "Ele confia em mim. Não suspeita de nada." Isto tornava-a mais impaciente do que qualquer outra coisa. Irritava-a pensar que havia pessoas simples que não duvidam nem de si mesmas nem dos outros.
Foi para a sala de estar, onde encontrou Vivian Bell a escrever. Esta disse:
— Queres saber, querida, o que eu estava a fazer enquanto esperava por ti? Nada e tudo. Versos. Oh, querida, a poesia deve ser as nossas almas expressas naturalmente.
Thérèse beijou a Miss Bell, descansou a cabeça no ombro da amiga e disse:
— Posso ver?
— Vê se quiseres, querida. São versos feitos segundo o modelo das canções populares do teu país.
— É um símbolo, Vivian? Explica-mo.
— Oh, querida, porquê explicar, porquê? Uma imagem poética deve ter vários significados. Aquele que tu encontras é o verdadeiro. Mas há um significado muito claro neles, meu amor; isto é, que não se deve libertar levianamente o que se acolheu no coração.
Os cavalos estavam atrelados. Foram, como tinha sido acordado, visitar a galeria Albertinelli. O Príncipe esperava-as, e Dechartre encontrar-se-ia com elas no palácio. No caminho, enquanto a carruagem rolava pela estrada larga, Vivian Bell falava com o seu habitual transcendentalismo. Enquanto desciam entre casas cor-de-rosa e brancas, jardins e terraços ornamentados com estátuas e fontes, mostrava à amiga a villa, escondida sob pinheiros azulados, onde as damas e os cavaleiros do Decameron se refugiaram da peste que assolava Florença, e se divertiam uns aos outros com contos frívolos, facéciosos ou trágicos. Depois, confessou o pensamento que lhe ocorrera no dia anterior.
— Tinhas ido, querida, ao Carmine com o Monsieur Dechartre, e tinhas deixado em Fiesole a Madame Marmet, que é uma pessoa agradável, uma mulher moderada e polida. Ela conhece muitas anedotas sobre pessoas distintas que vivem em Paris. E quando as conta, ela faz como o meu cozinheiro Pompaloni quando serve ovos: não põe sal neles, mas coloca o saleiro ao lado. A língua da Madame Marmet é muito doce, mas o sal está perto dela, nos seus olhos. A sua conversação é como o prato do Pompaloni, meu amor — cada um tempera a seu gosto. Oh, gosto muito da Madame Marmet. Ontem, depois de teres ido, encontrei-a sozinha e triste num canto da sala. Ela pensava melancolicamente no seu marido. Disse-lhe: "Queres que eu pense no teu marido também? Pensarei nele contigo. Disseram-me que ele era um homem culto, membro da Royal Society de Paris. Madame Marmet, fala-me dele." Ela respondeu que ele se tinha dedicado aos etruscos, e que lhes tinha dado toda a sua vida. Oh, querida, acariciei logo a memória daquele Monsieur Marmet, que viveu para os etruscos. E depois uma boa ideia veio-me. Disse à Madame Marmet: "Temos em Fiesole, no Palácio Pretorio, um modesto pequeno museu etrusco. Vem visitá-lo comigo. Queres?" Ela respondeu que era o que mais desejava ver em Itália. Fomos ao Palácio Pretorio; vimos uma leoa e muitas pequenas figuras de bronze, grotescas, muito gordas ou muito magras. Os etruscos eram um povo seriamente alegre. Faziam caricaturas de bronze. Mas os macacos — alguns aflitos com grandes estômagos, outros espantados por mostrar os seus ossos — a Madame Marmet olhou para eles com uma admiração relutante. Contemplou-os como... há uma bela palavra francesa que me escapa... como os monumentos e os troféus do Monsieur Marmet.
A Madame Martin sorriu. Mas estava inquieta. Achava o céu baço, as ruas feias, os transeuntes vulgares.
— Oh, querida, o Príncipe ficará muito contente por vos receber no seu palácio.
— Não creio.
— Porquê, querida, porquê?
— Porque não lhe agrado muito.
Vivian Bell declarou que o Príncipe, pelo contrário, era um grande admirador da Condessa Martin.
Os cavalos pararam diante do palácio Albertinelli. Na fachada sombria estavam selados aqueles anéis de bronze que outrora, nas noites de festa, seguravam tochas de resina. Estes anéis de bronze marcam, em Florença, os palácios das famílias mais ilustres. O palácio tinha um ar de altivo orgulho. O Príncipe apressou-se a encontrá-las e conduziu-as através das salas vazias para a galeria. Desculpou-se por mostrar telas que talvez não tivessem um aspeto atraente. A galeria tinha sido formada pelo Cardeal Giulio Albertinelli numa época em que o gosto por Guido e Carracci, agora caído, predominava. O seu antepassado tinha tido prazer em reunir as obras da escola de Bolonha. Mas mostraria à Madame Martin várias pinturas que não tinham desagradado à Miss Bell, entre outras, um Mantegna.
A Condessa Martin reconheceu logo uma coleção banal e duvidosa; sentiu-se aborrecida no meio da multidão de pequenos Parrocels, mostrando na escuridão um bocado de armadura e um cavalo branco.
Um criado apresentou um cartão.
O Príncipe leu em voz alta o nome de Jacques Dechartre. Naquele momento, ele estava de costas para as duas visitantes. O seu rosto trazia a expressão de cruel desagrado que se encontra nos bustos de mármore dos imperadores romanos. Dechartre estava na escadaria.
O Príncipe foi ao seu encontro com um sorriso lânguido. Já não era Nero, mas Antinous.
— Convidei o Monsieur Dechartre a vir ao palácio Albertinelli — disse a Miss Bell. — Sabia que lhe agradaria. Ele desejava ver a sua galeria.
E é verdade que Dechartre desejara estar ali com a Madame Martin. Agora, os quatro caminhavam entre os Guidos e os Albanos.
A Miss Bell balbuciava para o Príncipe — o seu falatório habitual sobre aqueles velhos e aquelas Virgens cujos mantos azuis eram agitados por uma tempestade imóvel. Dechartre, pálido, enervado, aproximou-se de Thérèse e disse-lhe, em voz baixa:
— Esta galeria é um armazém onde os negociantes de quadros de todo o mundo penduram as coisas que não conseguem vender. E o Príncipe vende aqui coisas que os judeus não conseguiriam vender.
Levou-a a uma Sagrada Família exposta num cavalete drapeado com veludo verde, e ostentando na borda o nome de Miguel Ângelo.
— Vi essa Sagrada Família nas lojas de negociantes de quadros de Londres, de Basileia e de Paris. Como não conseguiram obter as vinte e cinco libras que vale, encarregaram o último dos Albertinellis de a vender por cinquenta mil francos.
O Príncipe, adivinhando o que diziam, aproximou-se deles graciosamente.
— Há uma cópia deste quadro quase em toda a parte. Não afirmo que este seja o original. Mas esteve sempre na família, e inventários antigos atribuem-no a Miguel Ângelo. É tudo o que posso dizer sobre isso.
E o Príncipe voltou-se para a Miss Bell, que tentava encontrar quadros dos pré-rafaelitas.
Dechartre sentia-se inquieto. Desde o dia anterior, pensara em Thérèse. Tinha sonhado toda a noite e ansiado pela sua imagem. Via-a de novo, deliciosa, mas de outra maneira, e ainda mais desejável do que imaginara na sua insónia; menos visionária, de uma picância mais vívida, e também de uma mente mais misteriosamente impenetrável. Ela estava triste; parecia fria e indiferente. Disse a si próprio que não era nada para ela; que se estava a tornar importuno e ridículo. Isto irritou-o. Murmurou amargamente ao ouvido dela: "Refleti. Não queria vir. Porque vim?" Ela compreendeu logo o que ele queria dizer, que ele a temia agora, e que ele estava impaciente, tímido e desajeitado. Agradou-lhe que ele estivesse assim, e sentiu-se grata pelo tormento e pelos desejos que ele nela inspirava. O seu coração batia mais depressa. Mas, fingindo compreender que ele lamentava ter-se deslocado para ver pinturas más, respondeu que, na verdade, esta galeria não era interessante. Já, sob o terror de a desagradar, ele sentiu-se tranquilizado, e acreditou que, realmente indiferente, ela não tinha percebido o acento nem o significado do que dissera. Disse: "Não, nada de interessante." O Príncipe, que tinha convidado as duas visitantes para o pequeno-almoço, pediu ao amigo delas para ficar com eles. Dechartre desculpou-se. Estava prestes a partir quando, na grande sala vazia, se encontrou sozinho com a Madame Martin. Tivera a ideia de fugir dela. Não tinha outro desejo agora senão vê-la de novo. Lembrou-lhe que ela deveria visitar o Bargello na manhã seguinte. "Permitiu-me que a acompanhasse." Ela perguntou-lhe se não a achara melancólica e cansativa. Oh, não; não a achara cansativa, mas temia que ela estivesse triste.
— Ai — acrescentou ele — a sua tristeza, as suas alegrias, não tenho o direito de as conhecer. Ela voltou para ele um olhar quase áspero. — Não pensa que a tomarei como confidente, pois não? E afastou-se bruscamente.
CAPÍTULO XIII. "TEM DE ME ACEITAR COM A MINHA PRÓPRIA ALMA!"
Depois do jantar, na sala dos sinos, sob as lâmpadas das quais os grandes abajures permitiam filtrar apenas uma luz obscura, a boa Madame Marmet aquecia-se junto à lareira, com um gato branco nos joelhos. A noite estava fresca. A Madame Martin, os olhos rememorando a luz dourada, os picos violetas e as árvores antigas de Florença, sorria com um cansaço feliz. Tinha ido com a Miss Bell, Dechartre e a Madame Marmet ao convento cartuxo de Ema. E agora, na embriaguez das suas visões, esquecia o cuidado do dia anterior, as cartas importunas, os reproches distantes, e não pensava em nada no mundo senão em claustros cinzelados e pintados, aldeias com telhados vermelhos e estradas onde via o primeiro rubor da primavera. Dechartre tinha modelado para a Miss Bell uma figura de cera de Beatriz. Vivian estava a pintar anjos. Suavemente curvado sobre ela, o Príncipe Albertinelli acariciava a barba e lançava à sua volta olhares que pareciam procurar admiração.
Respondendo a uma reflexão de Vivian Bell sobre o casamento e o amor:
“Uma mulher deve escolher”, disse ele. “Com um homem a quem as mulheres amam, o seu coração não está sossegado. Com um homem a quem as mulheres não amam, ela não é feliz.”
“Querido”, perguntou a Srta. Bell, “o que desejaria para uma amiga sua querida?”
“Desejaria, Vivian, que a minha amiga fosse feliz. Desejaria também que ela fosse sossegada. Ela deveria estar sossegada no ódio à traição, às suspeitas humilhantes e à desconfiança.”
“Mas, querido, uma vez que o Príncipe disse que uma mulher não pode ter ao mesmo tempo felicidade e segurança, diga-me o que a sua amiga deveria escolher.”
“Nunca se escolhe, Vivian; nunca se escolhe. Não me faça dizer o que penso sobre o casamento.”
Neste momento, Choulette apareceu, exibindo o ar magnífico daqueles mendigos de que as pequenas cidades se orgulham. Tinha jogado briscola com camponeses numa casa de café de Fiesole.
“Aqui está o Monsieur Choulette”, disse a Srta. Bell. “Ele nos ensinará o que devemos pensar do casamento. Estou inclinada a ouvi-lo como a um oráculo. Ele não vê as coisas que nós vemos, e vê coisas que nós não vemos. Monsieur Choulette, o que pensa do casamento?”
Ele tomou um assento e ergueu no ar um dedo socrático:
“Fala, Mademoiselle, da união solene entre homem e mulher? Nesse sentido, o casamento é um sacramento. Mas, por vezes, infelizmente! é quase um sacrilégio. Quanto ao casamento civil, é uma formalidade. A importância que lhe é dada na nossa sociedade é uma coisa idiota que teria feito rir as mulheres de outros tempos. Devemos este preconceito, como tantos outros, aos burgueses, às loucas representações de um monte de financeiros a que chamaram Revolução, e que parecem admiráveis aos que lucraram com ela. O casamento civil, na realidade, é apenas um registo, como tantos outros que o Estado exige para ter certeza da condição das pessoas: em todo o Estado bem organizado, toda a gente deve estar indexada. Moralmente, este registo num grande livro de contas nem sequer tem a virtude de induzir uma esposa a arranjar um amante. Quem pensa alguma vez em trair um juramento feito perante um presidente de câmara? Para encontrar alegria no adultério, é preciso ser piedoso.”
“Mas, Monsieur”, disse Therese, “nós casámo-nos na igreja.”
Então, com um acento de sinceridade:
“Não consigo compreender como é que um homem alguma vez se decide a casar; nem como uma mulher, depois de atingir uma idade em que sabe o que está a fazer, pode cometer essa loucura.”
O Príncipe olhou para ela com desconfiança. Ele era esperto, mas incapaz de conceber que se pudesse falar sem um objetivo, desinteressadamente, e para expressar ideias gerais. Imaginou que a Condessa Martin-Belleme lhe estava a sugerir projetos que desejava que ele considerasse. E, como pensava em defender-se e também vingar-se, fez-lhe olhos de veludo e falou com terna galantaria:
“A senhora exibe, Madame, o orgulho das belas e inteligentes mulheres francesas que a sujeição irrita. As mulheres francesas amam a liberdade, e nenhuma delas é tão digna de liberdade como a senhora. Vivi um pouco em França. Conheci e admirei a sociedade elegante de Paris, os salões, as festas, as conversas, as peças de teatro. Mas nas nossas montanhas, sob as nossas oliveiras, tornamo-nos rústicos novamente. Assumimos modos da idade de ouro, e o casamento é para nós um idílio cheio de frescura.”
Vivian Bell examinou a estatueta que Dechartre tinha deixado sobre a mesa.
“Oh! era assim que Beatriz parecia, tenho a certeza. E sabe, Monsieur Dechartre, há homens maldosos que dizem que Beatriz nunca existiu?”
Choulette declarou que desejava ser contado entre esses homens maldosos. Ele não acreditava que Beatriz tivesse mais realidade do que outras senhoras através das quais os poetas antigos que cantavam o amor representavam alguma ideia escolástica, ridiculamente subtil.
Impaciente com elogios que não eram destinados a si próprio, ciumento de Dante como do universo, um refinado homem de letras, Choulette continuou:
“Suspeito que a irmãzinha dos anjos nunca viveu, exceto na imaginação do poeta. Parece uma pura alegoria, ou, melhor, um exercício de aritmética ou um tema de astrologia. Dante, que era um bom doutor de Bolonha e tinha muitas luas na cabeça, sob o seu barrete pontiagudo — Dante acreditava na virtude dos números. Aquele matemático inflamado sonhava com figuras, e a sua Beatriz é a flor da aritmética, isso é tudo.”
E acendeu o seu cachimbo.
Vivian Bell exclamou:
“Oh, não fale dessa maneira, Monsieur Choulette. O senhor magoa-me muito, e se o nosso amigo Monsieur Gebhart o ouvisse, ele não ficaria satisfeito consigo. Para o castigar, o Príncipe Albertinelli ler-lhe-á o cântico em que Beatriz explica as manchas na lua. Pegue na Divina Comédia, Eusebio. É o livro branco que vê sobre a mesa. Abra-o e leia-o.”
Durante a leitura do Príncipe, Dechartre, sentado no sofá perto da Condessa Martin, falou de Dante com entusiasmo como o melhor escultor entre os poetas. Lembrou a Therese a pintura que tinham visto juntos dois dias antes, na porta dos Servi, um fresco quase apagado, onde mal se adivinhava a presença do poeta usando uma coroa de louros, Florença e os sete círculos. Isto era o suficiente para exaltar o artista. Mas ela não tinha distinguido nada, não tinha ficado comovida. E então confessou que Dante não a atraía. Dechartre, habituado a que ela partilhasse todas as suas ideias de arte e poesia, sentiu espanto e algum descontentamento. Disse, em voz alta:
“Há muitas coisas grandes e fortes que a senhora não sente.”
A Srta. Bell, levantando a cabeça, perguntou quais eram essas coisas que a “querida” não sentia; e quando soube que era o génio de Dante, exclamou, numa fúria fingida:
“Oh, não honra o pai, o mestre digno de todo o louvor, o deus? Já não a amo, querida. Detesto-a.”
E, como uma censura a Choulette e à Condessa Martin, recordou a piedade daquele cidadão de Florença que retirou do altar as velas que tinham sido acesas em honra de Cristo, e as colocou perante o busto de Dante.
O Príncipe retomou a sua leitura interrompida. Dechartre insistia em tentar fazer com que Therese admirasse o que ela não conhecia. Certamente, ele teria sacrificado facilmente Dante e todos os poetas do universo por ela. Mas perto dele, tranquila, e um objeto de desejo, ela irritava-o, quase sem ele se aperceber, pelo encanto da sua beleza risonha. Ele insistia em impor-lhe as suas ideias, as suas paixões artísticas, até a sua fantasia, e os seus caprichos. Insistia num tom baixo, em frases concisas e briguentas. Ela disse:
“Oh, como é violento!”
Então ele inclinou-se para o seu ouvido, e com uma voz ardente, que tentou suavizar:
“A senhora tem de me aceitar com a minha própria alma!”
Therese sentiu um arrepio de medo misturado com alegria.
CAPÍTULO XIV. A CONFISSÃO
No dia seguinte, disse a si mesma que responderia a Robert. Estava a chover. Ouviu languidamente as gotas a caírem no terraço. Vivian Bell, cuidadosa e refinada, tinha colocado sobre a mesa papel de carta artístico, folhas a imitar o velame de missais, outras de violeta pálido salpicado de pó de prata; canetas de celuloide, brancas e leves, que era preciso manobrar como pincéis; uma tinta de íris que, numa página, espalhava uma névoa de azul e ouro. Therese não gostava de tal delicadeza. Parecia-lhe não ser apropriada para cartas que ela desejava tornar simples e modestas. Quando viu que o nome de “amigo”, dado a Robert na primeira linha, colocado sobre o papel prateado, se matizava como madrepérola, um meio sorriso surgiu nos seus lábios. As primeiras frases foram difíceis de escrever. Apressou o resto, falou muito de Vivian Bell e do Príncipe Albertinelli, um pouco de Choulette, e que tinha visto Dechartre em Florença. Elogiou alguns quadros dos museus, mas sem discernimento, e apenas para preencher as páginas. Sabia que Robert não tinha apreciação pela pintura; que ele não admirava nada exceto um pequeno couraçado de Detaille, comprado na Goupil’s.
Vi novamente na sua mente este couraçado, que ele lhe tinha mostrado um dia, com orgulho, no seu quarto, perto do espelho, sob retratos de família. Tudo isto, à distância, parecia-lhe mesquinho e cansativo. Terminou a sua carta com palavras de amizade, cuja doçura não era fingida. Verdadeiramente, ela nunca se tinha sentido mais pacífica e gentil para com o seu amante. Em quatro páginas, tinha dito pouco e explicado menos. Anunciou apenas que deveria ficar um mês em Florença, cujo ar lhe fazia bem. Depois escreveu ao seu pai, ao seu marido e à Princesa Seniavine. Desceu a escadaria com as cartas na mão. No vestíbulo, deitou três delas no tabuleiro de prata destinado a receber papéis para a estação de correios. Desconfiando de Madame Marmet, deslizou para o seu bolso a carta para Le Menil, contando com o acaso para a deitar numa caixa de correio.
Quase ao mesmo tempo, Dechartre veio para acompanhar as três amigas num passeio pela cidade. Enquanto esperava, viu as cartas no tabuleiro.
Sem acreditar que os caracteres pudessem ser adivinhados através da caligrafia, ele era suscetível à forma das letras como à elegância do traço. A escrita de Therese encantava-o, e ele gostava da sua abertura, da curva ousada e simples das suas linhas. Olhou para os endereços sem os ler, com a admiração de um artista.
Visitaram, naquela manhã, Santa Maria Novella, onde a Condessa Martin já tinha ido com Madame Marmet. Mas a Srta. Bell tinha-lhes censurado por não observarem a bela Ginevra de Benci num fresco do coro. “Devem visitar essa figura da manhã à luz da manhã”, disse Vivian. Enquanto a poetisa e Therese falavam juntas, Dechartre ouvia pacientemente a conversa de Madame Marmet, cheia de anedotas, em que académicos jantavam com mulheres elegantes, e partilhava a ansiedade daquela dama, muito preocupada há vários dias pela necessidade de comprar um véu de tule. Não conseguia encontrar nenhum a seu gosto nas lojas de Florença.
Quando saíram da igreja, passaram pela sapataria. O bom homem estava a remendar sapatos rústicos. Madame Martin perguntou ao velho se estava bem, se tinha trabalho suficiente para viver, se estava feliz. A todas estas perguntas ele respondia com a afirmativa encantadora da Itália, o musical si, que soava melodioso até na sua boca desdentada. Ela fê-lo contar a história do seu pardal. O pobre pássaro tinha, certa vez, mergulhado a pata em cera a arder.
“Fiz para o meu pequeno companheiro uma perna de pau com um fósforo, e ele salta para o meu ombro como anteriormente”, disse o sapateiro.
“É este bom velho”, disse a Srta. Bell, “que ensina a sabedoria ao Monsieur Choulette. Havia em Atenas um sapateiro chamado Simão, que escrevia livros sobre filosofia, e que era amigo de Sócrates. Sempre pensei que o Monsieur Choulette se parecia com Sócrates.”
Therese pediu ao sapateiro para dizer o seu nome e a sua história. O seu nome era Serafino Stoppini, e era natural de Stia. Era velho. Tinha tido muitos problemas na sua vida.
Ele levantou os óculos para a testa, descobrindo olhos azuis, muito suaves, e quase extintos sob as suas pálpebras vermelhas.
“Tive uma mulher e filhos; já não os tenho. Conheci coisas que já não conheço.”
A Srta. Bell e Madame Marmet foram procurar um véu.
“Ele não tem nada no mundo”, pensou Therese, “além das suas ferramentas, um punhado de pregos, a tina onde mergulha o couro, e um vaso de manjericão, contudo, é feliz.”
Ela disse-lhe:
“Esta planta é perfumada, e em breve estará em flor.”
Ele respondeu:
“Se a pobre pequena planta entrar em flor, morrerá.”
Therese, quando o deixou, colocou uma moeda sobre a mesa.
Dechartre estava perto dela. Gravemente, quase severamente, disse-lhe:
“Sabe...”
Ela olhou para ele e esperou.
Ele terminou a sua frase:
“... que a amo?”
Ela continuou a fixar nele, silenciosamente, o olhar dos seus olhos claros, cujas pálpebras estavam a tremer. Então ela fez um movimento com a cabeça que significava Sim. E, sem que ele tentasse impedi-la, ela voltou a juntar-se à Srta. Bell e a Madame Marmet, que a esperavam na esquina.
CAPÍTULO XV. A CARTA MISTERIOSA
Therese, depois de deixar Dechartre, tomou o pequeno-almoço com a sua amiga e Madame Marmet na casa de uma velha senhora florentina a quem Vítor Emanuel tinha amado quando ele era Duque de Saboia. Durante trinta anos, ela não tinha saído uma única vez do seu palácio no Arno, onde ela pintava, e usando uma peruca, tocava guitarra no seu espaçoso salão branco. Ela recebia a melhor sociedade de Florença, e a Srta. Bell visitava-a frequentemente. À mesa, esta reclusa, de oitenta e sete anos de idade, questionava a Condessa Martin sobre o mundo da moda de Paris, cujo movimento lhe era familiar através dos jornais. Solitária, ela conservava o respeito e uma espécie de devoção pelo mundo do prazer.
Quando saíram do palazzo, para evitar o vento que soprava no rio, a Srta. Bell levou as suas amigas para as ruas antigas com casas de pedra preta e uma vista do horizonte distante, onde, no ar puro, se ergue uma colina com três árvores esguias. Caminhavam; e Vivian mostrava à sua amiga, nas fachadas onde trapos vermelhos pendiam, alguma obra-prima de mármore — uma Virgem, um lírio, uma Santa Catarina. Caminharam através destas ruelas da cidade antiga até à igreja de Or San Michele, onde tinha sido combinado que Dechartre se encontrasse com elas. Therese pensava nele agora com o mais profundo interesse. Madame Marmet pensava em comprar um véu; esperava encontrar um no Corso. Este assunto lembrou-lhe o M. Lagrange, que, numa das suas palestras regulares, tirou do bolso um véu com pontos de ouro e limpou a testa com ele, pensando que era o seu lenço. O público ficou espantado, e sussurrou uns com os outros. Era um véu que lhe tinha sido confiado no dia anterior pela sua sobrinha, Mademoiselle Jeanne Michot, a quem ele tinha acompanhado ao teatro, e Madame Marmet explicou como, encontrando-o no bolso do seu sobretudo, ele o tinha levado para o devolver à sobrinha.
Ao nome de Lagrange, Therese recordou o cometa flamejante anunciado pelo sábio, e disse a si mesma, com uma tristeza trocista, que era altura de esse cometa pôr fim ao mundo e tirá-la dos seus problemas. Mas acima das paredes da velha igreja, ela viu o céu, que, limpo de nuvens pelo vento do mar, brilhava azul pálido e frio. A Srta. Bell mostrou-lhe uma das estátuas de bronze que, nos seus nichos cinzelados, ornamentam a fachada da igreja.
“Veja, querida, quão jovem e orgulhoso é São Jorge. São Jorge era antigamente o cavaleiro com quem as jovens sonhavam.”
Mas a “querida” disse que ele parecia preciso, cansativo e teimoso. Neste momento, ela recordou subitamente a carta que ainda estava no seu bolso.
“Ah! aí vem o Monsieur Dechartre”, disse a boa Madame Marmet.
Ele tinha-as procurado na igreja, perante o tabernáculo. Ele deveria ter-se lembrado da atração irresistível que o São Jorge de Donatello exercia sobre a Srta. Bell. Ele também admirava essa famosa figura. Mas conservava uma amizade particular por São Marcos, rústico e franco, que podiam ver no seu nicho à esquerda.
Quando Therese se aproximou da estátua que ele lhe estava a indicar, viu uma caixa de correio contra a parede da rua estreita oposta ao santo. Dechartre, colocado no ponto de vista mais conveniente, falava do seu São Marcos com abundante amizade.
“É a ele que faço a minha primeira visita quando venho a Florença. Falhei em fazer isto apenas uma vez. Ele perdoar-me-á; é um excelente homem. Ele não é apreciado pela multidão, e não atrai a atenção. Tenho prazer na sua companhia, contudo. Ele é vívido. Compreendo que Donatello, depois de lhe dar uma alma, exclamou: ‘Marcos, por que não falas?’”
Madame Marmet, cansada de admirar São Marcos, e sentindo no seu rosto o vento a arder, arrastou a Srta. Bell em direção à Rua Calzaioli em busca de um véu.
Therese e Dechartre permaneceram.
“Gosto dele”, continuou o escultor; “gosto de São Marcos porque sinto nele, muito mais do que no São Jorge, a mão e a mente de Donatello, que era um bom trabalhador. Gosto ainda mais dele hoje, porque me recorda, na sua candura venerável e tocante, o velho sapateiro a quem a senhora falava tão gentilmente esta manhã.”
“Ah”, disse ela, “esqueci o seu nome. Quando falamos com o Monsieur Choulette, chamamo-lhe Quentin Matsys, porque ele se parece com os velhos daquele pintor.”
Quando estavam a virar a esquina da igreja para ver a fachada, ela encontrou-se perante a caixa de correio, que estava tão poeirenta e enferrujada que parecia que o carteiro nunca se aproximava dela. Ela colocou a sua carta nela sob o olhar ingénuo de São Marcos.
Dechartre viu-a, e sentiu como se um golpe pesado tivesse sido desferido no seu coração. Tentou falar, sorrir; mas a mão enluvada que tinha deixado cair a carta permaneceu perante os seus olhos. Recordou ter visto de manhã as cartas de Therese no tabuleiro do vestíbulo. Por que não tinha ela colocado aquela com as outras? A razão não era difícil de adivinhar. Ele permaneceu imóvel, sonhador, e olhou sem ver. Tentou tranquilizar-se; talvez fosse uma carta insignificante que ela tentava esconder da curiosidade cansativa de Madame Marmet.
“Monsieur Dechartre, está na hora de nos juntarmos às nossas amigas na modista.”
Talvez fosse uma carta para Madame Schmoll, que não era amiga de Madame Marmet, mas imediatamente ele percebeu que essa ideia era estúpida.
Tudo estava claro. Ela tinha um amante. Estava a escrever-lhe. Talvez lhe estivesse a dizer: “Vi o Dechartre hoje; o pobre coitado está profundamente apaixonado por mim.” Mas quer ela escrevesse isso ou outra coisa, ela tinha um amante. Ele não tinha pensado nisso. Saber que ela pertencia a outro fê-lo sofrer profundamente. E aquela mão, aquela pequena mão a deixar cair a carta, permaneceu nos seus olhos e fê-los arder.
Ela não sabia por que ele se tinha tornado subitamente mudo e sombrio. Quando o viu lançar um olhar ansioso para a caixa de correio, ela adivinhou a razão. Achou estranho que ele tivesse ciúmes sem ter o direito de ter ciúmes; mas isto não a desagradou.
Quando chegaram ao Corso, viram a Srta. Bell e Madame Marmet a sair da loja da modista.
Dechartre disse a Therese, numa voz imperiosa e suplicante:
“Tenho de falar consigo. Tenho de a ver a sós amanhã; encontre-me às seis horas no Lungarno Acciaoli.”
Ela não respondeu.
CAPÍTULO XVI. “AMANHÃ?”
Quando, com o seu manto carmelita, ela chegou ao Lungarno Acciaoli, por volta das seis e meia, Dechartre saudou-a com um olhar humilde que a comoveu. O sol poente tornou o Arno púrpura. Permaneceram em silêncio por um momento. Enquanto caminhavam pela linha monótona de palácios até à ponte antiga, ela foi a primeira a falar.
“Vê, eu vim. Achei que deveria vir. Não penso que seja totalmente inocente do que aconteceu. Sei: fiz o que era o meu destino para que o senhor fosse para mim o que é agora. A minha atitude colocou pensamentos na sua cabeça que o senhor não teria tido de outra forma.”
Ele parecia não compreender. Ela continuou:
“Eu fui egoísta, fui imprudente. O senhor era agradável para mim; eu gostava do seu engenho; não conseguia passar sem si. Fiz o que pude para o atrair, para o reter. Fui uma coquete — não friamente, nem perfidamente, mas uma coquete.”
Ele abanou a cabeça, negando que alguma vez tivesse visto um sinal disso.
“Sim, eu fui uma coquete. Contudo, não era o meu hábito. Mas fui uma coquete consigo. Não digo que tenha tentado tirar partido disso, como tinha o direito de fazer, nem que seja vaidoso a esse respeito. Não notei vaidade em si. Pode ser possível que não se tenha apercebido. Os homens superiores por vezes carecem de perspicácia. Mas sei muito bem que não fui como deveria ter sido, e peço-lhe perdão. É essa a razão pela qual vim. Sejamos bons amigos, enquanto ainda há tempo.”
Ele repetiu, com uma suavidade sombria, que a amava. As primeiras horas desse amor tinham sido fáceis e deleitosas. Ele apenas desejava vê-la, e vê-la de novo. Mas, em breve, ela perturbou-o. O mal tinha chegado súbita e violentamente um dia no terraço de Fiesole. E agora ele não tinha coragem para sofrer e não dizer nada. Não tinha vindo com um propósito fixo. Se falava da sua paixão, falava por força e contra a sua vontade; na necessidade premente de falar dela para ela mesma, uma vez que ela era para ele o único ser no mundo. A sua vida já não estava nele, estava nela. Ela deveria saber, então, que ele estava apaixonado por ela, não com uma ternura vaga, mas com um ardor cruel. Ai! a sua imaginação era exata e precisa. Ele via-a continuamente, e ela torturava-o.
E então, parecia-lhe que eles poderiam ter alegrias que tornariam a vida digna de ser vivida. A sua existência poderia ser uma obra de arte, bela e oculta. Pensariam, compreenderiam e sentiriam juntos. Seria um mundo maravilhoso de emoções e ideias.
“Poderíamos fazer da vida um jardim deleitoso.”
Ela fingiu pensar que o sonho era inocente.
“O senhor sabe muito bem que sou suscetível ao encanto do seu espírito. Tornou-se uma necessidade vê-lo e ouvi-lo. Permiti que isso ficasse demasiado claro para si. Conte com a minha amizade e não se atormente.” Ela estendeu-lhe a mão. Ele não a tomou, mas respondeu, bruscamente:
“Não desejo a sua amizade. Não a quero. Tenho de a ter inteiramente ou nunca mais a ver. A senhora sabe isso muito bem. Por que me estende a mão com frases irónicas? Querendo ou não, fez-me apaixonar desesperadamente por si. Tornou-se o meu mal, o meu sofrimento, a minha tortura, e pede-me que seja um amigo agradável. Agora está a ser coquete e cruel. Se não me pode amar, deixe-me ir; irei, não sei para onde, para a esquecer e odiar. Pois tenho contra si um sentimento latente de ódio e cólera. Oh, eu amo-a, eu amo-a!”
Ela acreditou no que ele estava a dizer, temeu que ele partisse e temeu a tristeza de viver sem ele. Ela respondeu:
“Encontrei-o no meu caminho. Não quero perdê-lo. Não, não quero perdê-lo.”
Tímido, porém violento, ele gaguejou; as palavras ficaram sufocadas na sua garganta. O crepúsculo desceu das montanhas distantes, e os últimos reflexos do sol tornaram-se pálidos no leste. Ela disse:
“Se conhecesse a minha vida, se tivesse visto quão vazia era antes de o conhecer, saberia o que representa para mim e não pensaria em abandonar-me.”
Mas, com o tom tranquilo da sua voz e com o roçar das suas saias no pavimento, ela irritava-o.
Ele disse-lhe como sofria. Conhecia agora a divina doença do amor.
“A graça dos seus pensamentos, a sua magnífica coragem, o seu orgulho soberbo, eu inalo-os como um perfume. Parece-me, quando fala, que o seu espírito flutua nos seus lábios. O seu espírito é para mim apenas o odor da sua beleza. Retive os instintos de um homem primitivo; a senhora despertou-os. Sinto que a amo com selvagem simplicidade.”
Ela olhou para ele suavemente e não disse nada. Viram as luzes da noite e ouviram cânticos lúgubres aproximarem-se. E então, como espectros perseguidos pelo vento, apareceram os penitentes negros. O crucifixo estava diante deles. Eram Irmãos da Misericórdia, segurando archotes, cantando salmos a caminho do cemitério. De acordo com o costume italiano, o cortejo marchava rapidamente. As cruzes, o caixão, os estandartes pareciam saltar no cais deserto. Jacques e Thérèse encostaram-se à parede para que o cortejo fúnebre pudesse passar.
A avalanche negra tinha desaparecido. Havia mulheres a chorar atrás do caixão transportado pelos fantasmas negros, que calçavam sapatos pesados.
Thérèse suspirou:
“De que servirá ter-nos atormentado neste mundo?”
Ele parecia não ter ouvido e disse:
“Antes de a conhecer, eu não era infeliz. Gostava da vida. Era retido nela por sonhos. Gostava das formas, e do espírito nas formas, das aparências que acariciam e lisonjeiam. Tinha a alegria de ver e de sonhar. Desfrutava de tudo e não dependia de nada. Os meus desejos, abundantes e leves, satisfazia-os sem fadiga. Interessava-me por tudo e nada desejava. Sofre-se apenas através da vontade. Sem o saber, era feliz. Oh, não era muito, era apenas o suficiente para viver. Agora não tenho alegria na vida. Os meus prazeres, o interesse que eu tinha pelas imagens da vida e da arte, a diversão vívida de criar com as minhas mãos as figuras dos meus sonhos — a senhora fez-me perder tudo e não me deixou nem sequer o arrependimento. Não quero de volta a minha liberdade e tranquilidade. Parece-me que antes de a conhecer eu não vivia; e agora que sinto que estou a viver, não posso viver nem longe de si nem perto de si. Sou mais desgraçado do que os mendigos que vimos na estrada para Ema. Eles tinham ar para respirar, e eu só posso respirar a senhora, a quem não tenho. Contudo, estou contente por a ter conhecido. Só isso conta na minha existência. Há um momento, pensei que a odiava. Estava enganado; adoro-a e abençoo-a pelo mal que me fez. Amo tudo o que me vem de si.”
Aproximavam-se das árvores escuras à entrada da ponte San Niccola. Do outro lado do rio, os campos vagos exibiam a sua tristeza, intensificada pela noite. Vendo que ele estava calmo e cheio de um suave languor, ela pensou que o seu amor, todo imaginação, tinha fugido em palavras, e que os seus desejos se tinham tornado apenas um devaneio. Ela não esperava uma resignação tão rápida. Quase a desapontou escapar ao perigo que temera.
Ela estendeu-lhe a mão, mais ousadamente desta vez do que antes.
“Então, sejamos amigos. É tarde. Voltemos. Leve-me à minha carruagem. Serei o que tenho sido para si, uma excelente amiga. Não a desagradei.”
Mas ele levou-a para os campos, na crescente solidão da margem.
“Não, não a deixarei ir sem lhe ter dito o que desejo dizer. Mas já não sei como falar; não encontro as palavras. Amo-a. Desejo saber que é minha. Juro-lhe que não passarei outra noite no horror de duvidar disso.”
Ele apertou-a nos seus braços; e procurando a luz dos olhos dela através da obscuridade do seu véu, disse: “Tem de me amar. Desejo que me ame, e a culpa é sua, pois a senhora também o desejou. Diga que é minha. Diga.”
Tendo-se soltado suavemente, ela respondeu, fraca e lentamente: “Não posso! Não posso! Vê que estou a ser franca consigo. Disse-lhe há pouco que não me desagradou. Mas não posso fazer o que deseja.”
E, trazendo à memória o ausente que a esperava, repetiu: “Não posso!” Inclinando-se sobre ela, ele questionava ansiosamente os seus olhos, as estrelas duplas que tremiam e se velavam. “Porquê? Ama-me, eu sinto-o, eu vejo-o. Ama-me. Por que me quer fazer este mal?”
Ele puxou-a para si, desejando depositar a sua alma, com os seus lábios, nos lábios dela velados. Ela escapou-lhe rapidamente, dizendo: “Não posso. Não peça mais. Não posso ser sua.”
Os seus lábios tremiam, o seu rosto estava convulso. Ele exclamou: “Tem um amante, e ama-o. Por que zomba de mim?”
“Juro-lhe que não tenho qualquer desejo de zombar de si, e que, se amasse alguém no mundo, seria a si.” Mas ele não a estava a ouvir.
“Deixe-me, deixe-me!” E correu em direção aos campos escuros. O Arno formava lagoas, sobre as quais a lua, meio velada, brilhava intermitentemente. Ele caminhava através da água e da lama, com um passo rápido, cego, como o de um ébrio. Ela assustou-se e gritou. Chamou-o. Mas ele não virou a cabeça e não respondeu. Fugiu com uma imprudência alarmante. Ela correu atrás dele. Os seus pés foram feridos pelas pedras, e a sua saia estava pesada de água, mas logo o alcançou.
“O que estava prestes a fazer?”
Ele olhou para ela e viu o medo nos seus olhos. “Não tenha medo,” disse ele. “Não vi para onde ia. Garanto-lhe que não pretendia matar-me. Estou desesperado, mas estou calmo. Estava apenas a tentar fugir de si. Peço-lhe perdão. Mas já não a podia ver. Deixe-me, peço-lhe. Adeus!”
Ela respondeu, agitada e a tremer: “Venha! Faremos o que pudermos.”
Ele permaneceu sombrio e não respondeu. Ela repetiu: “Venha!”
Ela tomou o seu braço. O calor vivo da sua mão animou-o. Ele disse:
“Deseja-o?”
“Não posso deixá-lo.”
“Promete?”
“Tenho de o fazer.”
E, na sua ansiedade e angústia, ela quase sorriu, ao pensar que ele tinha tido sucesso tão rapidamente com a sua loucura.
“Amanhã?” disse ele, interrogativamente.
Ela respondeu rapidamente, com um instinto defensivo:
“Oh, não; não amanhã!”
“Não me ama; arrepende-se de ter prometido.”
“Não, não me arrependo, mas...”
Ele implorou, suplicou-lhe. Ela olhou para ele por um momento, virou a cabeça, hesitou e disse, em tom baixo:
“Sábado.”
CAPÍTULO XVII. MISS BELL FAZ UMA PERGUNTA
Após o jantar, Miss Bell estava a desenhar na sala de estar. Traçava, em tela, perfis de etruscos barbudos para uma almofada que a Madame Marmet iria bordar. O Príncipe Albertinelli estava a selecionar a lã com um conhecimento quase feminino das tonalidades. Já era tarde quando Choulette, tendo, como era seu hábito, jogado briscola com o cozinheiro no fornecedor, apareceu, tão alegre como se possuísse a mente de um deus. Sentou-se num sofá, ao lado da Madame Martin, e olhou para ela ternamente. A voluptuosidade brilhava nos seus olhos verdes. Envolveu-a, enquanto falava com ela, com frases poéticas e pitorescas. Era como o esboço de uma canção de amor que ele improvisava para ela. Em frases estranhamente complexas, falou-lhe do encanto que ela exalava.
“Ele também!” disse ela para si mesma.
Divertiu-se a provocá-lo. Perguntou-lhe se ele não tinha encontrado em Florença, nos bairros baixos, um dos tipos de mulheres que ele gostava de visitar. As suas preferências eram conhecidas. Ele podia negá-lo o quanto quisesse: ninguém ignorava a porta onde ele tinha encontrado o cordão da sua Terceira Ordem. Os seus amigos tinham-no encontrado no boulevard. O seu gosto por mulheres infelizes era evidente nos seus mais belos poemas.
“Oh, Monsieur Choulette, tanto quanto sou capaz de julgar, o senhor gosta de mulheres muito más.”
Ele respondeu com solenidade:
“Madame, pode recolher o grão da calúnia semeado pelo Monsieur Paul Vence e atirar-mo aos punhados. Não tentarei evitá-lo. Não é necessário que saiba que sou casto e que a minha mente é pura. Mas não julgue levianamente aquelas a quem chama infelizes, e que deveriam ser sagradas para si, uma vez que são infelizes. A rapariga desdenhada e perdida é o barro dócil sob o dedo do Oleiro Divino: ela é a vítima e o altar do holocausto. As infelizes estão mais próximas de Deus do que as mulheres honestas: perderam a vaidade. Não se glorificam com a virtude não testada de que a matrona se orgulha. Elas possuem a humildade, que é a pedra angular das virtudes agradáveis ao céu. Um curto arrependimento será suficiente para que sejam as primeiras no céu; pois os seus pecados, sem malícia e sem alegria, contêm o seu próprio perdão. As suas faltas, que são dores, participam dos méritos ligados à dor; escravas da paixão brutal, são privadas de toda a voluptuosidade, e nisto são como os homens que praticam a continência pelo reino de Deus. Elas são como nós, culpadas; mas a vergonha cai sobre o seu crime como um bálsamo, o sofrimento purifica-o como o fogo. É essa a razão pela qual Deus ouvirá a primeira voz que elas lhe enviarem. Um trono está preparado para elas à direita do Pai. No reino de Deus, a rainha e a imperatriz ficarão felizes por se sentarem aos pés das infelizes; pois não deve pensar que a casa celestial é construída sobre um plano humano. Longe disso, Madame.”
Contudo, ele admitiu que mais do que um caminho levava à salvação. Poder-se-ia seguir o caminho do amor.
“O amor do homem é terreno,” disse ele, “mas ele eleva-se por graus dolorosos, e finalmente conduz a Deus.”
O Príncipe tinha-se levantado. Beijando a mão de Miss Bell, disse:
“Sábado.”
“Sim, depois de amanhã, sábado,” respondeu Vivian.
Thérèse estremeceu. Sábado! Falavam de sábado calmamente, como de um dia comum. Até então, ela não tinha querido pensar que o sábado chegaria tão cedo ou tão naturalmente.
Os convidados tinham ido embora há meia hora. Thérèse, cansada, pensava na sua cama, quando ouviu uma batida à porta do seu quarto. O painel abriu-se e a pequena cabeça de Vivian apareceu.
“Não estou a incomodar, querida? Não tem sono?”
Não, Thérèse não tinha desejo de dormir. Ergueu-se sobre o cotovelo. Vivian sentou-se na cama, tão leve que não fez pressão sobre ela.
“Querida, tenho a certeza de que tem muita razão. Oh, tenho a certeza disso. A senhora é razoável da mesma maneira que o Monsieur Sadler é violinista. Ele toca um pouco desafinado quando deseja. E a senhora, também, quando não é completamente lógica, é para seu próprio prazer. Oh, querida, tem muita razão e discernimento, e venho pedir-lhe um conselho.”
Assombrada, e um pouco ansiosa, Thérèse negou que fosse lógica. Negou-o muito sinceramente. Mas Vivian não queria ouvi-la.
“Li muito François Rabelais, meu amor. Foi em Rabelais e em Villon que estudei francês. Eles são bons velhos mestres da língua. Mas, querida, conhece o ‘Pantagruel’? ‘Pantagruel’ é como uma cidade bela e nobre, cheia de palácios, na madrugada resplandecente, antes de os varredores de Paris terem chegado. Os varredores não tiraram a sujidade, e as criadas não lavaram os degraus de mármore. E vi que as mulheres francesas não leem o ‘Pantagruel’. Não o conhece? Bem, não é necessário. No ‘Pantagruel’, Panurge pergunta se deve casar-se, e cobre-se de ridículo, meu amor. Bem, sou tão risível quanto ele, uma vez que lhe estou a fazer a mesma pergunta.”
Thérèse respondeu com um mal-estar que não tentou esconder:
“Quanto a isso, minha querida, não me pergunte. Já lhe disse a minha opinião.”
“Mas, querida, a senhora disse que apenas os homens estão errados em casar. Não posso seguir esse conselho para mim mesma.”
Madame Martin olhou para o pequeno rosto infantil e a cabeça de Miss Bell, que estranhamente expressava ternura e modéstia.
Então abraçou-a, dizendo:
“Querida, não há um homem no mundo requintado e delicado o suficiente para si.”
Acrescentou, com uma expressão de afetuosa gravidade:
“A senhora não é uma criança. Se alguém a ama, e a senhora o ama, faça o que pensa que deve fazer, sem misturar interesses e combinações que nada têm a ver com o sentimento. Este é o conselho de uma amiga.”
Miss Bell hesitou por um momento. Depois corou e levantou-se. Tinha ficado um pouco chocada.
CAPÍTULO XVIII. “BEIJO OS SEUS PÉS PORQUE ELES VIERAM!”
Sábado, às quatro horas, Thérèse foi, como tinha prometido, ao portão do cemitério inglês. Lá encontrou Dechartre. Ele estava sério e agitado; falava pouco. Ela ficou feliz por ele não exibir a sua alegria. Ele conduziu-a pelas muralhas desertas dos jardins até uma rua estreita que ela não conhecia. Leu numa tabuleta: Via Alfieri. Depois de terem dado cinquenta passos, ele parou diante de um beco sombrio:
“É ali dentro,” disse ele.
Ela olhou para ele com infinita tristeza.
“Quer que eu entre?”
Ela viu que ele estava resoluto, e seguiu-o, sem dizer uma palavra, para a sombra húmida do beco. Ele atravessou um pátio onde a erva crescia entre as pedras. Nas traseiras, havia um pavilhão com três janelas, com colunas e uma fachada ornamentada com cabras e ninfas. Nos degraus cobertos de musgo, ele rodou na fechadura uma chave que rangeu e resistiu. Murmurou:
“Está enferrujada.”
Ela respondeu, sem pensar: “Todas as chaves estão enferrujadas neste país.”
Subiram uma escadaria tão silenciosa que parecia ter esquecido o som dos passos. Ele empurrou uma porta e fez Thérèse entrar no quarto. Ela foi direta a uma janela que dava para o cemitério. Acima da muralha erguiam-se as copas dos pinheiros, que não são fúnebres nesta terra onde o luto se mistura com a alegria sem a perturbar, onde a doçura de viver se estende à cidade dos mortos. Ele pegou-lhe na mão e levou-a a uma poltrona. Permaneceu de pé, e olhou para o quarto que tinha preparado para que ela não se sentisse perdida nele. Painéis de pano estampado antigo, com figuras da Comédia, davam às paredes a tristeza de alegrias passadas. Ele tinha colocado num canto um pastel baço que tinham visto juntos num antiquário, e que, pela sua graça sombria, ela chamava a sombra de Rosalba. Havia uma poltrona de avó; cadeiras brancas; e sobre a mesa chávenas pintadas e copos venezianos. Em todos os cantos havia biombos de papel colorido, onde estavam máscaras, figuras grotescas, a alma leve de Florença, de Bolonha e de Veneza no tempo dos Grão-Duques e dos últimos Doges. Um espelho e um tapete completavam o mobiliário.
Ele fechou a janela e acendeu o fogo. Ela sentou-se na poltrona, e como permanecia nela ereta, ele ajoelhou-se diante dela, tomou-lhe as mãos, beijou-as e olhou-a com uma expressão de assombro, timorata e orgulhosa. Depois, pressionou os lábios na ponta da sua bota.
“O que está a fazer?”
“Beijo os seus pés porque eles vieram.”
Ele levantou-se, puxou-a suavemente para si e depositou um longo beijo nos seus lábios. Ela permaneceu inerte, com a cabeça atirada para trás, os olhos fechados. O seu chapéu caiu, o seu cabelo soltou-se sobre os ombros.
Duas horas mais tarde, quando o sol poente tornava incomensuravelmente maiores as sombras nas pedras, Thérèse, que tinha desejado caminhar sozinha na cidade, encontrou-se diante dos dois obeliscos de Santa Maria Novella sem saber como lá tinha chegado. Viu, na esquina da praça, o velho sapateiro a puxar o seu fio com o seu gesto eterno. Ele sorriu, trazendo o seu pardal no ombro.
Ela entrou na loja e sentou-se numa cadeira. Disse em francês:
“Quentin Matsys, meu amigo, o que fiz, e o que será de mim?”
Ele olhou para ela calmamente, com uma bondade risonha, sem compreender nem se importar. Nada o espantava. Ela abanou a cabeça.
“O que fiz, meu bom Quentin, fiz porque ele estava a sofrer, e porque o amava. Não me arrependo de nada.”
Ele respondeu, como era seu hábito, com a sonora sílaba da Itália:
“Si! si!”
“Não é assim, Quentin? Não fiz mal? Mas, meu Deus! o que acontecerá agora?”
Ela preparou-se para partir. Ele deu-lhe a entender que desejava que ela esperasse. Colheu cuidadosamente um pouco de manjericão e ofereceu-lho.
“Pela sua fragrância, signora!”
CAPÍTULO XIX. CHOULETTE FAZ UMA VIAGEM
Era o dia seguinte.
Tendo colocado cuidadosamente sobre a mesa da sala de estar o seu cajado nodoso, o seu cachimbo e a sua antiga mala de tapete, Choulette fez uma vénia a Madame Martin, que lia à janela. Ia para Assis. Usava um casaco de pele de ovelha e parecia-se com os velhos pastores nos quadros da Natividade.
“Adeus, Madame. Deixo Fiesole, a si, Dechartre, o demasiado belo Príncipe Albertinelli e essa gentil ogra, Miss Bell. Vou visitar a montanha de Assis, que o poeta diz não dever chamar-se mais Assis, mas o Oriente, porque foi lá que nasceu o sol do amor. Vou ajoelhar-me diante da feliz cripta onde São Francisco repousa numa manjedoura de pedra, com uma pedra por travesseiro. Pois ele não quis sequer levar deste mundo uma mortalha — deste mundo onde deixou a revelação de toda a alegria e de toda a bondade.”
“Adeus, Monsieur Choulette. Traga-me uma medalha de Santa Clara. Gosto muito de Santa Clara.”
“Tem razão, Madame; ela era uma mulher de força e prudência. Quando São Francisco, doente e quase cego, veio passar alguns dias em São Damião, perto da sua amiga, ela construiu com as suas próprias mãos uma cabana para ele no jardim. A dor, o langueur e as pálpebras ardentes privavam-no do sono. Enormes ratos vinham atacá-lo à noite. Então, ele compôs um cântico jubiloso em louvor do nosso esplêndido irmão Sol, e da nossa irmã Água, casta, útil e pura. Os meus versos mais belos têm menos encanto e esplendor. E é justo que assim seja, pois a alma de São Francisco era mais bela do que o seu espírito. Sou melhor do que todos os meus contemporâneos que conheci, contudo, não valho nada. Quando São Francisco compôs o seu Cântico do Sol, rejubilou. Pensou: ‘Iremos, os meus irmãos e eu, pelas cidades, e colocar-nos-emos nas praças públicas, com um alaúde, em dia de mercado. As boas pessoas aproximar-se-ão de nós e dir-lhes-emos: “Somos os saltimbancos de Deus, e cantar-vos-emos uma balada. Se estiverdes satisfeitos, recompensar-nos-eis.” Eles prometerão, e quando tivermos cantado, recordar-lhes-emos a sua promessa. Dir-lhes-emos: “Deveis-nos uma recompensa. E aquela que vos pedimos é que vos ameis uns aos outros.” Sem dúvida, para manter a sua palavra e não ferir os pobres saltimbancos de Deus, evitarão fazer mal aos outros.’”
Madame Martin pensou que São Francisco era o mais amável dos santos.
“A sua obra”, respondeu Choulette, “foi destruída enquanto ele vivia. Contudo, morreu feliz, porque nele havia alegria com humildade. Ele era, de facto, o doce cantor de Deus. E é justo que outro pobre poeta assuma a sua tarefa e ensine ao mundo a verdadeira religião e a verdadeira alegria. Serei esse poeta, Madame, se conseguir despojar-me da razão e da vaidade. Pois toda a beleza moral é alcançada neste mundo através da sabedoria inconcebível que vem de Deus e se assemelha à loucura.”
“Não a desencorajarei, Monsieur Choulette. Mas estou ansiosa quanto ao destino que reserva às pobres mulheres na sua nova sociedade. Encerrá-las-á todas em conventos.”
“Confesso”, respondeu Choulette, “que elas me embaraçam muito no meu projeto de reforma. A violência com que se as ama é dura e injuriosa. O prazer que dão não é pacífico e não conduz à alegria. Cometi por elas, na minha vida, dois ou três crimes abomináveis dos quais ninguém sabe. Duvido que a convide alguma vez para jantar, Madame, na nova Santa Maria dos Anjos.” Ele pegou no seu cachimbo, na sua mala de tapete e no seu cajado:
“Os crimes de amor serão perdoados. Ou, melhor, não se pode fazer o mal quando se ama puramente. Mas o amor sensual é formado de ódio, egoísmo e ira tanto quanto de paixão. Porque a achei bela uma noite, neste sofá, fui assaltado por uma nuvem de pensamentos violentos. Vinha do Albergo, onde ouvira o cozinheiro de Miss Bell improvisar magnificamente doze mil versos sobre a Primavera. Fui inundado por uma alegria celestial que o espetáculo da sua pessoa me fez perder. Deve ser que uma verdade profunda está encerrada na maldição de Eva. Pois, perto de si, senti-me imprudente e perverso. Tinha palavras doces nos lábios. Eram mentiras. Senti que era o seu adversário e o seu inimigo; odiava-a. Quando a vi sorrir, senti o desejo de a matar.”
“A sério?”
“Oh, Madame, é um sentimento muito natural, que a senhora deve ter inspirado mais de uma vez. Mas as pessoas comuns sentem-no sem estarem conscientes disso, enquanto a minha imaginação vívida representa-me incessantemente a mim próprio. Contemplo a minha mente, por vezes esplêndida, muitas vezes hedionda. Se tivesse podido ler a minha mente naquela noite, teria gritado de susto.”
Thérèse sorriu:
“Adeus, Monsieur Choulette. Não se esqueça da minha medalha de Santa Clara.”
Ele pousou a mala no chão, ergueu o braço e apontou o dedo:
“Não tem nada a temer de mim. Mas aquele a quem amará e que a amará, causar-lhe-á dano. Adeus, Madame.”
Ele pegou na sua bagagem e saiu. Ela viu a sua forma longa e rústica desaparecer por trás dos arbustos do jardim.
À tarde, foi a São Marcos, onde Dechartre a esperava. Desejava, mas temia vê-lo novamente tão cedo. Sentiu uma angústia que um sentimento desconhecido, profundamente suave, apaziguou. Não sentiu o estupor da primeira vez em que se entregara por amor; não sentiu a visão brusca do irreparável. Estava sob influências mais lentas, mais vagas e mais poderosas. Desta vez, um devaneio encantador banhava a reminiscência das carícias que recebera. Estava cheia de perturbação e ansiedade, mas não sentia qualquer arrependimento. Agira menos pela sua vontade do que por uma força que adivinhava ser superior. Absolvia-se por causa do seu desinteresse. Não contava com nada, não tendo calculado nada.
Sem dúvida, estivera errada ao ceder, uma vez que não era livre; mas não exigira nada. Talvez ela fosse para ele apenas um capricho violento. Não o conhecia. Não tinha uma daquelas imaginações vívidas que superam imensamente, no bem como no mal, a mediocridade comum. Se ele se fosse embora e desaparecesse, ela não o censuraria por isso; pelo menos, pensava que não. Guardaria a reminiscência e a marca da coisa mais rara e preciosa que se pode encontrar no mundo. Talvez ele fosse incapaz de um apego real. Ele pensava que a amava. Amara-a durante uma hora. Ela não ousava desejar mais, no embaraço da falsa situação que irritava a sua franqueza e o seu orgulho, e que perturbava a lucidez da sua inteligência. Enquanto a carruagem a levava para São Marcos, persuadia-se de que ele não lhe diria nada sobre o dia anterior, e que o quarto de onde se podiam ver os pinheiros erguer-se até ao céu lhes deixaria apenas o sonho de um sonho.
Ele estendeu-lhe a mão. Antes de ele falar, ela viu no seu olhar que ele a amava tanto agora como antes, e percebeu ao mesmo tempo que desejava que ele fosse assim.
“A senhora...” disse ele, “estou aqui desde o meio-dia. Estava à espera, sabendo que não viria tão cedo, mas capaz de viver apenas no lugar onde a veria. É a senhora! Fale; deixe-me vê-la e ouvi-la.”
“Então ainda me ama?”
“É agora que a amo. Pensava que a amava quando era apenas um fantasma. Agora, é o ser em cujas mãos pus a minha alma. É verdade que é minha! O que fiz para obter o maior, o único, bem deste mundo? E esses homens com quem a terra está coberta pensam que estão a viver! Eu, apenas eu, vivo! Diga-me, o que fiz para a obter?”
“Oh, o que tinha de ser feito, fiz. Digo-lho francamente. Se chegámos a este ponto, a culpa é minha. Sabe, as mulheres nem sempre o confessam, mas é sempre culpa delas. Portanto, aconteça o que acontecer, nunca o censurarei por nada.”
Uma ágil tropa de pedintes, guias e cocheiros aos gritos rodeou-os com uma importunação na qual se misturava a graciosidade que os italianos nunca perdem. A sua subtileza fê-los adivinhar que se tratava de amantes, e sabiam que os amantes são pródigos. Dechartre atirou-lhes moedas e todos regressaram à sua feliz preguiça.
Um guarda municipal recebeu os visitantes. Madame Martin lamentou que não houvesse nenhum monge. O hábito branco dos Dominicanos era tão belo sob as arcadas do claustro!
Visitaram as celas onde, sobre o reboco nu, Fra Angelico, ajudado pelo seu irmão Benedetto, pintou quadros inocentes para os seus companheiros.
“Recorda-se da noite de inverno em que, encontrando-a diante do Museu Guimet, a acompanhei até à rua estreita ladeada por pequenos jardins que conduz ao Cais Billy? Antes de nos separarmos, parámos um momento no parapeito ao longo do qual corre uma fina sebe de buxo. A senhora olhou para esse buxo, seco pelo inverno. E quando foi embora, olhei para ele durante muito tempo.”
Estavam na cela onde Savonarola viveu. O guia mostrou-lhes o retrato e as relíquias do mártir.
“O que pode ter havido em mim que a senhora gostou naquele dia? Estava escuro.”
“Vi-a caminhar. É nos movimentos que as formas falam. Cada um dos seus passos dizia-me os segredos da sua beleza encantadora. Oh! a minha imaginação nunca foi discreta em nada que a dissesse respeito. Não ousava falar-lhe. Quando a via, assustava-me. Assustava-me porque a senhora podia fazer tudo por mim. Quando estava presente, adorava-a a tremer. Quando estava longe de mim, sentia todas as impiedades do desejo.”
“Não suspeitava disto. Mas recorda-se da primeira vez que nos vimos, quando Paul Vence nos apresentou? Estava sentada perto de um biombo. Olhava para as miniaturas. Disse-me: ‘Esta senhora, pintada por Siccardi, parece-se com a mãe de André Chénier.’ Respondi-lhe: ‘É a bisavó do meu marido. Como era a mãe de André Chénier?’ E a senhora disse: ‘Há um retrato dela: uma levantina desbotada.’”
Ele desculpou-se e pensou que não tinha falado de forma tão impertinente.
“Falou. A minha memória é melhor do que a sua.”
Caminhavam no silêncio branco do convento. Viram a cela que Angelico tinha ornamentado com a pintura mais adorável. E ali, perante a Virgem que, no céu pálido, recebe de Deus Pai a coroa imortal, ele tomou Thérèse nos seus braços e deu-lhe um beijo nos lábios, quase à vista de duas inglesas que percorriam os corredores, consultando o seu Baedeker. Ela disse-lhe:
“Não devemos esquecer a cela de Santo António.”
“Thérèse, sofro na minha felicidade por tudo o que é seu e que me escapa. Sofro porque a senhora não vive apenas para mim. Desejo tê-la inteiramente, e tê-la tido no passado.”
Ela encolheu um pouco os ombros.
“Oh, o passado!”
“O passado é a única realidade humana. Tudo o que é, é passado.”
Ela levantou para ele os olhos, que se pareciam com bocados de céu azul cheios de sol e chuva misturados.
“Bem, posso dizer-lhe isto: nunca senti que vivi a não ser consigo.”
Quando regressou a Fiesole, encontrou uma carta breve e ameaçadora de Le Ménil. Ele não conseguia compreender a sua ausência prolongada, o seu silêncio. Se ela não anunciasse imediatamente o seu regresso, ele iria a Florença buscá-la.
Ela leu sem espanto, mas ficou aborrecida ao ver que tudo o que de desagradável podia acontecer estava a acontecer, e que nada lhe seria poupado do que temera. Ainda poderia acalmá-lo e tranquilizá-lo: bastava dizer-lhe que o amava; que regressaria em breve a Paris; que ele deveria renunciar à ideia tola de a vir encontrar aqui; que Florença era uma aldeia onde seriam vigiados imediatamente. Mas teria de escrever: “Amo-te.” Teria de o acalmar com frases carinhosas.
Não teve coragem para o fazer. Deixá-lo-ia adivinhar a verdade. Acusou-se em termos velados. Escreveu obscuramente sobre almas arrastadas pela torrente da vida, e sobre o átomo que se é no oceano movediço dos acontecimentos. Pediu-lhe, com uma tristeza afetuosa, que guardasse dela uma doce reminiscência num canto da sua alma.
Levou a carta à caixa de correio na praça de Fiesole. As crianças brincavam ao crepúsculo. Olhou do cimo da colina para a bela taça que transportava a bela Florença como uma joia. E a paz da noite fez com que ela estremecesse. Deixou cair a carta na caixa. Só então teve a visão clara do que tinha feito e do que seria o resultado.
CAPÍTULO XX. O QUE É A FRANQUEZA?
Na praça, onde o sol de primavera espalhava as suas rosas amarelas, os sinos ao meio-dia dispersavam a multidão rústica de comerciantes de cereais reunidos para vender as suas mercadorias. Aos pés da Loggia dei Lanzi, diante das estátuas, os vendedores de gelados tinham colocado, sobre mesas cobertas com tecido vermelho, pequenos castelos com a inscrição: ‘Bibite ghiacciate’. E a alegria descia do céu à terra. Thérèse e Jacques, regressando de um passeio matinal nos Jardins de Boboli, passavam diante da ilustre loggia. Thérèse olhou para a Sabina de Giovanni da Bologna com aquela curiosidade interessada de uma mulher que examina outra mulher. Mas Dechartre olhava apenas para Thérèse. Disse-lhe:
“É maravilhoso como a luz vívida do dia lisonjeia a sua beleza, a ama e acaricia o madrepérola das suas faces.”
“Sim”, disse ela. “A luz das velas endurece os meus traços. Observei isso. Não sou uma mulher de serão, infelizmente. É à noite que as mulheres têm a oportunidade de se mostrarem e de agradarem. À noite, a Princesa Seniavine tem uma bela tez loira; ao sol, ela é amarela como um limão. É preciso reconhecer que ela não se importa. Não é uma coquete.”
“E a senhora é?”
“Oh, sim. Antigamente, eu era uma coquete para mim própria; agora, sou uma coquete para si.”
Ela olhou para a mulher Sabina, que com os seus braços ondulantes, longos e robustos, tentava evitar os abraços do romano.
“Para ser bela, deve uma mulher ter essa forma fina e esse comprimento de membros? Não sou feita dessa maneira.”
Ele esforçou-se por tranquilizá-la. Mas ela não ficou perturbada com isso. Olhava agora para o pequeno castelo do vendedor de gelados. Um desejo súbito tinha-lhe vindo de comer um gelado de pé ali, como as operárias da cidade estavam.
“Espere um momento”, disse Dechartre.
Ele correu em direção à rua que segue o lado esquerdo da Loggia e desapareceu.
Após um momento, regressou e deu-lhe uma pequena colher de ouro, cujo cabo terminava num lírio de Florença, com o seu cálice esmaltado a vermelho.
“Deve comer o seu gelado com isto. O homem não dá colher com os seus gelados. Teria de ter posto a língua de fora. Teria sido bonito, mas não está habituada a isso.”
Ela reconheceu a colher, uma joia que tinha notado no dia anterior na vitrine de um antiquário.
Eram felizes; disseminavam a sua alegria, que era plena e simples, em palavras leves que não faziam sentido. E riam quando o florentino lhes repetia passagens dos velhos escritores italianos. Ela desfrutava do jogo da sua face, que era de estilo antigo e expressão jovial. Mas nem sempre compreendia o que ele dizia. Perguntou a Jacques:
“O que é que ele disse?”
“Quer mesmo saber?”
Sim, ela queria saber.
“Bem, ele disse que seria feliz se as pulgas na sua cama tivessem a forma da senhora!”
Quando ela terminou o gelado, ele pediu-lhe que regressassem a São Miguel. Era tão perto! Atravessariam a praça e descobririam de imediato a obra-prima em pedra. Foram. Olharam para o São Jorge e para o São Marcos de bronze. Dechartre viu de novo na parede a caixa de correio, e recordou-se com dolorosa exatidão da pequena mão enluvada que tinha deixado cair a carta. Achou-a hedionda, aquela boca de cobre que engolira o segredo de Thérèse. Não conseguia desviar os olhos dela. Toda a sua alegria tinha fugido. Ela admirava a estátua rude do Evangelista.
“É verdade que ele parece honesto e franco, e parece que, se falasse, nada mais do que palavras de verdade sairiam da sua boca.”
Ele respondeu amargamente:
“Não é uma boca de mulher.”
Ela compreendeu o seu pensamento e disse, no seu tom suave:
“Meu amigo, por que me diz isto? Eu sou franca.”
“O que chama de franco? Sabe que uma mulher é obrigada a mentir.”
Ela hesitou. Depois, disse:
“Uma mulher é franca quando não mente inutilmente.”
CAPÍTULO XXI. “NUNCA AMEI NINGUÉM A NÃO SER A TI!”
Thérèse estava vestida de cinzento sombrio. Os arbustos na orla do terraço estavam cobertos de estrelas prateadas e, nas encostas, os loureiros lançavam a sua chama odorífera. A taça de Florença estava em flor.
Vivian Bell caminhava, vestida de branco, no jardim perfumado.
“Vê, querida, Florença é verdadeiramente a cidade das flores, e não é inapropriado que tenha um lírio vermelho como emblema. É um festival hoje, querida.”
“Um festival, hoje?”
“Querida, não sabe que este é o primeiro dia de Maio? Não acordou esta manhã num encantador espetáculo de fadas? Não celebra o Festival das Flores? Não se sente alegre, a senhora que adora flores? Pois a senhora adora-as, meu amor, eu sei-o: é muito boa para elas. Disse-me que elas sentem alegria e dor; que sofrem como nós.”
“Ah! eu disse que elas sofrem como nós?”
“Sim, disse-o. É o festival delas hoje. Devemos celebrá-lo com os ritos consagrados pelos velhos pintores.”
Thérèse ouvia sem compreender. Estava a amachucar sob a sua luva uma carta que tinha acabado de receber, ostentando o selo italiano, e contendo apenas estas duas linhas:
“Estou hospedado no Hotel Great Britain, Lungarno Acciaoli. Esperá-la-ei amanhã de manhã. N.º 18.”
“Querida, não sabe que é o costume de Florença celebrar a primavera no primeiro dia de Maio de cada ano? Então não compreendeu o significado do quadro de Botticelli consagrado ao Festival das Flores? Antigamente, querida, no primeiro dia de Maio, a cidade inteira entregava-se à alegria. Jovens raparigas, coroadas com silvas e outras flores, faziam um longo cortejo pelo Corso, sob arcos, e cantavam coros na erva nova. Faremos como elas fizeram. Dançaremos no jardim.”
“Ah, dançaremos no jardim?”
“Sim, querida; e ensinar-lhe-ei passos toscanos do século XV que foram encontrados num manuscrito pelo Sr. Morrison, o mais antigo bibliotecário de Londres. Volte depressa, meu amor; poremos chapéus de flores e dançaremos.”
“Sim, querida, dançaremos”, disse Thérèse.
E abrindo o portão, correu pelo pequeno caminho que escondia as suas pedras sob roseiras. Lançou-se na primeira carruagem que encontrou. O cocheiro usava miosótis no seu chapéu e no cabo do seu chicote:
“Hotel Great Britain, Lungarno Acciaoli.”
Ela sabia onde ficava, Lungarno Acciaoli. Fora lá ao pôr do sol e vira os raios do sol na superfície agitada do rio. Depois viera a noite, o murmúrio das águas no silêncio, as palavras e os olhares que a tinham perturbado, o primeiro beijo do seu amante, o início de um amor incomparável. Oh, sim, recordava-se de Lungarno Acciaoli e da margem do rio para lá da ponte velha — Hotel Great Britain — ela sabia: uma grande fachada de pedra no cais. Era uma sorte, uma vez que ele viria, que ele tivesse ido para lá. Poderia tão facilmente ter ido para o Hotel de la Ville, onde estava Dechartre. Era uma sorte não estarem lado a lado no mesmo corredor. Lungarno Acciaoli! O cadáver que tinham visto passar estava em paz algures no pequeno cemitério florido.
“Número 18.”
Era um quarto de hotel despido, com um fogão à moda italiana, um conjunto de escovas expostas na mesa e um horário. Nem um livro, nem um jornal. Ele estava lá; ela via sofrimento no seu rosto ossudo, um ar de febre. Isto causou-lhe uma impressão triste. Ele esperou um momento por uma palavra, um gesto; mas ela não ousou fazer nada. Ele ofereceu-lhe uma cadeira. Ela recusou e permaneceu de pé.
“Thérèse, aconteceu algo que eu desconheço. Fala.”
Após um momento de silêncio, ela respondeu, com penosa lentidão:
“Meu amigo, quando eu estava em Paris, por que te afastaste de mim?”
Pela tristeza do seu acento ele acreditou, ele quis acreditar, na expressão de uma censura afetuosa. O seu rosto corou. Ele respondeu, ardentemente:
“Ah, se eu pudesse ter previsto! Aquela caçada — pouco me importava, como podes imaginar! Mas tu — a tua carta, a de vinte e sete” — ele tinha um dom para as datas — “lançou-me numa ansiedade horrível. Aconteceu alguma coisa. Conta-me tudo.”
“Meu amigo, acreditei que tinhas deixado de me amar.”
“Mas agora que sabes o contrário?”
“Agora...”
Ela hesitou, os seus braços caíram diante dela e as suas mãos uniram-se.
Então, com uma tranquilidade afetada, ela continuou:
“Bem, meu amigo, unimo-nos sem saber. Nunca se sabe. Tu és jovem; mais jovem do que eu, uma vez que temos a mesma idade. Tens, sem dúvida, projetos para o futuro.”
Ele olhou para ela com orgulho. Ela continuou:
“A tua família, a tua mãe, as tuas tias, o teu tio General, têm projetos para ti. Isso é natural. Eu poderia ter-me tornado um obstáculo. É melhor que eu desapareça da tua vida. Guardaremos uma lembrança afetuosa um do outro.”
Ela estendeu a sua mão enluvada. Ele cruzou os braços:
“Então, não me queres? Fizeste-me feliz, como nenhum outro homem jamais foi, e pensas agora em afastar-me? Verdadeiramente, pareces pensar que acabaste comigo. O que vieste dizer-me? Que foi uma ligação, que se rompe facilmente? Que as pessoas se tomam, se deixam — bem, não! Tu não és uma pessoa que se possa deixar facilmente.”
“Sim”, disse Thérèse, “talvez me tenhas dado mais do teu coração do que se dá ordinariamente em tais casos. Fui mais do que um divertimento para ti. Mas, se eu não sou a mulher que pensavas que eu era, se te enganei, se sou frívola — sabes que as pessoas o disseram — bem, se não fui para ti o que deveria ter sido...”
Ela hesitou e continuou num tom corajoso, contrastando com o que dizia:
“Se, enquanto fui tua, me desviei; se fui curiosa; se te digo que não fui feita para sentimentos sérios...”
Ele interrompeu-a:
“Não estás a dizer a verdade.”
“Não, não estou a dizer a verdade. E não sei mentir. Quis estragar o nosso passado. Enganei-me. Foi... sabes o que foi. Mas...”
“Mas?”
“Sempre te disse que não tinha certeza de mim mesma. Há mulheres, dizem, que têm certeza de si mesmas. Avisei-te de que eu não era como elas.”
Ele abanou a cabeça violentamente, como um animal irritado.
“O que queres dizer? Não compreendo. Não compreendo nada. Fala claramente. Há algo entre nós. Não sei o que é. Exijo saber o que é. O que é?”
“Há o facto de eu não ser uma mulher com certeza de si mesma, e de que não deves confiar em mim. Não, não deves confiar em mim. Nada prometera — e depois, se tivesse prometido, o que são palavras?”
“Tu não me amas. Oh, tu já não me amas! Posso vê-lo. Mas é tanto pior para ti! Eu amo-te. Não devias ter-te dado a mim. Não penses que podes recuperar-te. Eu amo-te e vou manter-te. Então, pensaste que podias sair disto muito calmamente? Ouve um momento. Fizeste tudo para que eu te amasse, para me ligares a ti, para me tornares impossível viver sem ti.
“Há seis semanas não pedias nada melhor. Tu eras tudo para mim, eu era tudo para ti. E agora desejas subitamente que eu já não te conheça; que sejas para mim um estranho, uma dama que se encontra na sociedade. Ah, tens uma bela audácia! Sonhei? Todo o passado é um sonho? Inventei tudo? Oh, não pode haver dúvida. Tu amavas-me. Sinto-o ainda. Bem, eu não mudei. Sou o que era; não tens do que te queixar. Não te traí com outros homens. Não é crédito que reclamo. Não o poderia ter feito. Quando se conhece alguém como tu, acham-se as mulheres mais bonitas insípidas. Nunca tive a ideia de te enganar. Sempre agi bem contigo. Por que não me haverias de amar? Responde! Fala! Diz que me amas ainda. Diz, já que é verdade. Vem, Thérèse, sentirás de imediato que amas como me amavas antigamente no pequeno ninho onde éramos tão felizes. Vem!”
Ele aproximou-se dela ardentemente. Ela, com os olhos cheios de susto, afastou-o com uma espécie de horror.
Ele compreendeu, parou e disse:
“Tens um amante.”
Ela baixou a cabeça, depois ergueu-a, grave e muda.
Então ele fez um gesto como se fosse bater-lhe e recuou de imediato, envergonhado. Baixou os olhos e silenciou. Com os dedos nos lábios e a roer as unhas, viu que a sua mão tinha sido picada por um alfinete no corpete dela e sangrava. Atirou-se para uma poltrona, puxou o lenço para limpar o sangue e permaneceu indiferente e sem pensamento.
Ela, de costas para a porta, com o rosto calmo e pálido, o olhar vago, arranjou o chapéu com cuidado instintivo. Ao ruído, outrora delicioso, que o roçar das suas saias fazia, ele sobressaltou-se, olhou-a e perguntou furiosamente:
“Quem é ele? Quero saber.”
Ela não se moveu. Respondeu com suave firmeza:
“Disse-te tudo o que podia. Não peças mais; seria inútil.”
Ele olhou para ela com uma expressão cruel que ela nunca tinha visto antes.
“Oh, não me digas o seu nome. Não será difícil para mim descobri-lo.”
Ela não disse uma palavra, entristecida por ele, ansiosa por outro, cheia de angústia e medo, e contudo sem arrependimento, sem amargura, porque a sua alma real estava noutro lugar.
Ele teve uma sensação vaga do que passava na mente dela. Na sua raiva ao vê-la tão doce e tão serena, ao encontrá-la bela, e bela para outro, sentiu um desejo de a matar, e gritou-lhe:
“Sai!”
Então, enfraquecido por este esforço de ódio, que não lhe era natural, enterrou a cabeça nas mãos e soluçou.
A sua dor tocou-a, deu-lhe a esperança de o acalmar. Pensou que poderia talvez consolá-lo pela sua perda. Amigavelmente e confortavelmente sentou-se ao lado dele.
“Meu amigo, culpa-me. Tenho culpa, mas sou mais digna de piedade. Desdenha-me, se quiseres, se se pode desdenhar uma criatura infeliz que é o joguete da vida. Enfim, julga-me como quiseres. Mas guarda para mim um pouco de amizade na tua raiva, uma pequena reminiscência agridoce, algo como aqueles dias de outono em que há luz solar e vento forte. É isso que mereço. Não sejas duro para com a visitante agradável mas frívola que passou pela tua vida. Despede-te de mim como de um viajante que vai não se sabe para onde, e que está triste. Há tanta tristeza na separação! Estavas irritado comigo há pouco. Oh, não te censuro por isso. Apenas sofro por isso. Reserva um pouco de simpatia para mim. Quem sabe? O futuro é sempre desconhecido. É muito cinzento e obscuro diante de mim. Deixa-me dizer a mim mesma que fui gentil, simples, franca contigo, e que não te esqueceste disso. Com o tempo compreenderás, perdoarás; hoje tem um pouco de piedade.”
Ele não estava a ouvir as suas palavras. Foi apaziguado simplesmente pela carícia da sua voz, cujo tom era límpido e claro. Ele exclamou:
“Tu não o amas. Eu sou aquele a quem amas. Então...”
Ela hesitou:
“Ah, dizer a quem se ama ou não se ama não é uma coisa fácil para uma mulher, ou pelo menos para mim. Não sei como as outras mulheres fazem. Mas a vida não é boa para mim. Sou lançada de um lado para o outro pela força das circunstâncias.”
Ele olhou para ela calmamente. Uma ideia ocorreu-lhe. Tinha tomado uma resolução; perdoava, esquecia, desde que ela voltasse para ele imediatamente.
“Thérèse, tu não o amas. Foi um erro, um momento de esquecimento, uma coisa horrível e estúpida que fizeste por fraqueza, por surpresa, talvez por despeito. Jura-me que nunca mais o verás.”
Ele pegou no braço dela:
“Jura-me!”
Ela não disse uma palavra, os seus dentes estavam cerrados, o seu rosto sombrio. Ele torceu-lhe o pulso. Ela exclamou:
“Magou-me!”
Contudo, ele seguiu a sua ideia; levou-a até à mesa, na qual, perto das escovas, estavam um tinteiro e várias folhas de papel de carta ornamentadas com uma grande vinheta azul, representando a fachada do hotel, com inúmeras janelas.
“Escreve o que vou ditar-te. Chamarei alguém para levar a carta.”
E como ela resistia, ele fê-la cair de joelhos. Orgulhosa e determinada, ela disse:
“Não posso, não quero.”
“Porquê?”
“Porque... queres saber? Porque o amo.”
Bruscamente ele soltou-a. Se tivesse tido o seu revólver à mão, talvez a tivesse matado. Mas quase de imediato a sua raiva foi amortecida pela tristeza; e agora, desesperado, era ele quem queria morrer.
“É verdade o que dizes? É possível?”
“Como hei de saber? Posso dizer? Compreendo? Tenho uma ideia, um sentimento, sobre qualquer coisa?”
Com um esforço ela acrescentou:
“Tenho neste momento consciência de qualquer coisa exceto da minha tristeza e do teu desespero?”
“Tu amas-o, tu amas-o! O que é ele, quem é ele, para que o ames?”
A sua surpresa tornava-o estúpido; ele estava num abismo de espanto. Mas o que ela tinha dito separava-os. Ele não ousava queixar-se. Apenas repetia:
“Tu amas-o, tu amas-o! Mas o que é que ele te fez, o que é que ele te disse, para te fazer amá-lo? Eu conheço-te. Não te disse todas as vezes que as tuas ideias me chocavam. Apostaria que ele nem sequer é um homem da sociedade. E tu acreditas que ele te ama? Acreditas? Bem, estás a enganar-te. Ele não te ama. Tu lisonjeias-o, simplesmente. Ele deixar-te-á à primeira oportunidade. Quando ele te tiver comprometido, ele abandonar-te-á. Para o ano, as pessoas dirão de ti: ‘Ela não é nada exclusiva.’ Sinto muito pelo teu pai; ele é um dos meus amigos e saberá do teu comportamento. Não podes esperar enganá-lo.”
Ela ouviu, humilhada mas consolada, pensando em como teria sofrido se o tivesse achado generoso.
Na sua simplicidade ele desdenhava-a sinceramente. Este desdém aliviava-o.
“Como aconteceu a coisa? Podes contar-me.”
Ela encolheu os ombros com tanta piedade que ele não ousou continuar. Tornou-se desprezativo novamente.
“Imaginas que te ajudarei a salvar as aparências, que voltarei a tua casa, que continuarei a visitar o teu marido?”
“Penso que continuarás a fazer o que um cavalheiro deve fazer. Não peço nada de ti. Teria gostado de conservar de ti a reminiscência de um excelente amigo. Pensei que poderias ser indulgente e gentil comigo, mas não é possível. Vejo que os amantes nunca se separam amigavelmente. Mais tarde, julgar-me-ás melhor. Adeus!”
Ele olhou para ela. Agora o seu rosto expressava mais dor do que raiva. Ela nunca tinha visto os seus olhos tão secos e tão negros. Parecia que ele tinha envelhecido numa hora.
“Prefiro dizer-te de antemão. Será impossível para mim ver-te de novo. Não és uma mulher que se possa encontrar depois de se ter sido amado por ela. Não és como as outras. Tens um veneno próprio, que me deste, e que sinto em mim, nas minhas veias. Por que te conheci?”
Ela olhou para ele gentilmente.
“Adeus! Diz a ti mesmo que não sou digna de ser tão lamentada.”
Então, quando ele viu que ela colocava a mão no trinco da porta, quando ele sentiu com esse gesto que a ia perder, que nunca mais a teria, ele gritou. Esqueceu tudo. Permaneceu nele apenas a sensação atordoada de um grande infortúnio consumado, de uma calamidade irreparável. E do fundo do seu estupor um desejo ascendeu. Desejou possuir de novo a mulher que o deixava e que nunca voltaria. Puxou-a para si. Desejou-a, com toda a força da sua natureza animal. Ela resistiu com toda a força da sua vontade, que estava livre e alerta. Desvencilhou-se, amarrotada, dilacerada, sem sequer ter tido medo.
Ele compreendeu que tudo era inútil; percebeu que ela já não era para ele, porque pertencia a outro. À medida que o seu sofrimento regressava, empurrou-a para fora da porta.
Ela permaneceu um momento no corredor, orgulhosamente à espera de uma palavra.
Mas ele gritou de novo: “Sai!”, e fechou a porta violentamente.
Na Via Alfieri, ela viu de novo o pavilhão nas traseiras do pátio onde cresciam ervas pálidas. Encontrou-o silencioso e tranquilo, fiel, com as suas cabras e ninfas, aos amantes do tempo da Grã-Duquesa Elisa. Sentiu-se de imediato libertada do mundo doloroso e brutal, e transportada para épocas em que não tinha conhecido a tristeza da vida. Ao pé das escadas, cujos degraus estavam cobertos de rosas, Dechartre esperava. Ela atirou-se para os seus braços. Ele carregou-a inerte, como um troféu precioso perante o qual ele tinha ficado pálido e trémulo. Ela saboreou, as pálpebras semicerradas, a soberba humilhação de ser uma bela presa. O seu cansaço, a sua tristeza, o seu desgosto pelo dia, a reminiscência da violência, a sua liberdade reconquistada, a necessidade de esquecer, restos de susto, tudo vivificava, despertava a sua ternura. Ela envolveu o pescoço do seu amante com os braços.
Estavam alegres como crianças. Riam, diziam coisas doces, brincavam, comiam limões, laranjas e outros frutos empilhados perto deles em pratos pintados. Os seus lábios, entreabertos, mostravam os seus dentes brilhantes. Ela perguntou, com ansiedade coquete, se ele não estava desiludido após o belo sonho que tinha feito dela.
Na luz acariciadora do dia, para o desfrute da qual ele tinha arranjado, ele contemplava-a com alegria juvenil. Ele cumulava-a de elogios e beijos. Esqueciam-se em carícias, em querelas amigáveis, em olhares felizes.
Ele perguntou-lhe como tinha aparecido uma pequena marca vermelha na sua têmpora. Ela respondeu que tinha esquecido; que não era nada. Ela quase não mentiu; tinha realmente esquecido.
Recordavam um ao outro a sua curta mas bela história, toda a sua vida, que começou no dia em que se tinham encontrado.
“Sabes, no terraço, no dia seguinte à tua chegada, disseste-me coisas vagas. Adivinhei que me amavas.”
“Tinha medo de parecer estúpido para ti.”
“Eras, um pouco. Foi o meu triunfo. Deixava-me impaciente ver-te tão pouco perturbado perto de mim. Eu amava-te antes de tu me amares. Oh, não me envergonho disso!”
Ele deu-lhe um copo de Asti. Mas havia uma garrafa de Trasimeno. Ela quis prová-lo, em memória do lago que tinha visto silencioso e belo à noite na sua taça de opala. Isso foi quando tinha visitado a Itália pela primeira vez, seis anos antes.
Ele censurou-a por ter descoberto a beleza das coisas sem a sua ajuda.
Ela disse:
“Sem ti, não sabia ver nada. Por que não vieste ter comigo antes?”
Ele fechou-lhe os lábios com um beijo. Depois ela disse:
“Sim, amo-te! Sim, nunca amei ninguém além de ti!”
CAPÍTULO XXII. UM ENCONTRO NA ESTAÇÃO
Le Ménil tinha escrito: “Parto amanhã à noite às sete horas. Encontra-me na estação.”
Ela tinha ido encontrar-se com ele. Viu-o de casaco comprido e capa, preciso e calmo, em frente das carruagens do hotel. Ele disse apenas:
“Ah, vieste.”
“Mas, meu amigo, chamaste-me.”
Ele não confessou que tinha escrito com a esperança absurda de que ela voltasse a amá-lo e que o resto fosse esquecido, ou que ela lhe dissesse: “Foi apenas um teste ao teu amor.”
Se ela o tivesse dito, ele tê-lo-ia acreditado, no entanto.
Assombrado porque ela não falava, ele disse, secamente:
“O que tens para me dizer? Não cabe a mim falar, mas a ti. Não tenho explicações para te dar. Não tenho de justificar uma traição.”
“Meu amigo, não sejas cruel, não sejas ingrato. É isto que eu tinha para te dizer. E devo repetir que te deixo com a tristeza de uma amiga real.”
“É só isso? Vai dizer isto ao outro homem. Interessar-lhe-á mais do que a mim.”
“Chamaste-me e eu vim; não me faças arrepender disso.”
“Lamento ter-te incomodado. Poderias sem dúvida encontrar um emprego melhor para o teu tempo. Não te vou deter. Reune-te a ele, já que estás ansiosa por fazê-lo.”
Ao pensamento de que as suas infelizes palavras expressavam um momento de eterna dor humana, e que a tragédia tinha ilustrado muitos pesares semelhantes, ela sentiu toda a tristeza e ironia da situação, que um franzir dos seus lábios traiu. Ele pensou que ela estava a rir.
“Não te rias; ouve-me. No outro dia, no hotel, eu queria matar-te. Estive tão perto de o fazer que agora sei o que escapei. Não o farei. Podes ficar descansada. Para que serviria? Como desejo manter as aparências, visitar-te-ei em Paris. Entristecer-me-á saber que não me podes receber. Verei o teu marido, verei o teu pai também. Será para me despedir deles, pois tenciono fazer uma longa viagem. Adeus, Madame!”
No momento em que ele lhe virou as costas, Thérèse viu a Srta. Bell e o Príncipe Albertinelli a saírem da estação de mercadorias em direção a ela. O Príncipe era muito bonito. Vivian caminhava ao seu lado com a leveza de uma alegria casta.
“Oh, querida, que surpresa agradável encontrar-te aqui! O Príncipe e eu vimos, na alfândega, o novo sino, que acaba de chegar.”
“Ah, o sino chegou?”
“Está aqui, querida, o sino de Ghiberti. Vi-o na sua gaiola de madeira. Não tocou, porque era um prisioneiro. Mas terá um campanário na minha casa de Fiesole.”
“Quando sentir o ar de Florença, terá todo o prazer em deixar ouvir a sua voz prateada. Visitado pelas pombas, tocará por todas as nossas alegrias e por todos os nossos sofrimentos. Tocar-te-á a ti, a mim, ao Príncipe, à boa Madame Marmet, ao Monsieur Choulette, a todos os nossos amigos.”
“Querida, os sinos nunca tocam pelas verdadeiras alegrias nem pelos verdadeiros sofrimentos. Os sinos são funcionários honestos, que só conhecem sentimentos oficiais.”
“Oh, querido, estás muito enganado. Os sinos conhecem os segredos das almas; sabem tudo. Mas estou muito contente por te encontrar aqui. Sei, meu amor, porque vieste à estação. A tua criada traiu-te. Disse-me que estavas à espera de um vestido cor-de-rosa que se atrasou a chegar e que estavas muito impaciente. Mas não deixes que isso te perturbe. Estás sempre bonita, meu amor.”
Ela fez Madame Martin entrar na sua carruagem.
“Vamos, depressa, querida; o Monsieur Jacques Dechartre janta em casa esta noite, e eu não gostaria de o fazer esperar.”
E enquanto atravessavam o silêncio da noite, pelos caminhos cheios do perfume fresco das flores silvestres, ela disse:
“Vês ali, querida, os fusos negros das Parcas, os ciprestes do cemitério? É lá que desejo dormir.”
Mas Therese pensava, ansiosa: “Viram-no. Terão-no reconhecido? Creio que não. O lugar estava escuro e tinha apenas pequenas luzes ofuscantes. Será que ela o conhecia? Não me recordo se ela o viu em minha casa no ano passado.”
O que a deixava ansiosa era um sorriso astuto no rosto do Príncipe.
“Querida, desejas um lugar perto de mim naquele cemitério rústico? Descansaremos lado a lado sob um pouco de terra e uma grande quantidade de céu? Mas faço mal em estender-te um convite que não podes aceitar. Não te será permitido dormir o teu sono eterno ao pé da colina de Fiesole, meu amor. Deves descansar em Paris, num belo túmulo, ao lado do Conde Martin-Belleme.”
“Porquê? Achas, querido, que a esposa deve estar unida ao marido mesmo depois da morte?”
“Certamente que deve, querida. O casamento é para o tempo e para a eternidade. Não conheces a história de um jovem casal que se amava na província de Auvergne? Morreram quase ao mesmo tempo e foram colocados em dois túmulos separados por uma estrada. Mas todas as noites, um arbusto de roseira brava atirava de um túmulo para o outro os seus ramos floridos. Os dois caixões tiveram de ser enterrados juntos.”
Quando passaram pela Badia, viram uma procissão a subir a encosta da colina. O vento soprava sobre as velas transportadas em castiçais de madeira dourada. As raparigas das irmandades, vestidas de branco e azul, carregavam estandartes pintados. Depois vinha um pequeno São João, loiro, de caracóis, nu, sob uma pele de cordeiro que mostrava os braços e os ombros; e uma Santa Maria Madalena, de sete anos, coroada apenas pelos seus ondulantes cabelos dourados. O povo de Fiesole seguia-os. A Condessa Martin reconheceu Choulette entre eles. Com uma vela numa mão, um livro na outra e óculos azuis na ponta do nariz, ele cantava. A sua barba desalinhada movia-se ao ritmo da canção. Na dureza da luz e da sombra que se imprimia no seu rosto, ele tinha um ar que sugeria um monge solitário capaz de cumprir um século de penitência.
“Como ele é divertido!” disse Therese. “Está a fazer um espetáculo de si mesmo para si mesmo. É um grande artista.”
“Querida, porque insistes que o Monsieur Choulette não é um homem piedoso? Porquê? Há muita alegria e muita beleza na fé. Os poetas sabem isto. Se o Monsieur Choulette não tivesse fé, não poderia escrever os versos admiráveis que escreve.”
“E tu, querido, tens fé?”
“Oh, sim; acredito em Deus e na palavra de Cristo.”
Agora, os estandartes e os véus brancos tinham desaparecido pela estrada fora. Mas podia ver-se no crânio calvo de Choulette a chama da vela refletida em raios de ouro.
Dechartre, contudo, esperava sozinho no jardim. Therese encontrou-o a descansar na varanda do terraço onde sentira os primeiros sofrimentos do amor. Enquanto a Miss Bell e o Príncipe tentavam decidir um lugar adequado para o campanário, Dechartre conduziu a sua amada por entre as árvores.
“Prometeste-me que estarias no jardim quando eu chegasse. Estou à tua espera há uma hora, que pareceu eterna. Não devias ter saído. A tua ausência surpreendeu-me e entristeceu-me.”
Ela respondeu vagamente que tinha sido obrigada a ir à estação e que a Miss Bell a tinha trazido de volta na carruagem.
Ele pediu-lhe perdão pela sua ansiedade, mas tudo o alarmava. A sua felicidade fazia-o sentir medo.
Já estavam à mesa quando Choulette apareceu, com o rosto de um sátiro antigo. Uma alegria terrível brilhava nos seus olhos fosforescentes. Desde o seu regresso de Assis, vivia apenas entre os pobres, bebia chianti todo o dia com raparigas e artesãos a quem ensinava a beleza da alegria e da inocência, o advento de Jesus Cristo e a iminente abolição dos impostos e do serviço militar. No início da procissão, tinha reunido vagabundos nas ruínas do teatro romano e tinha-lhes proferido, numa língua macarrónica, metade francês e metade toscano, um sermão que tinha prazer em repetir:
“Reis, senadores e juízes disseram: ‘A vida das nações está em nós.’ Bem, eles mentem; e eles são o caixão a dizer: ‘Eu sou o berço.’
“A vida das nações está nas colheitas dos campos que amarelecem sob o olhar do Senhor. Está nas vinhas, e nos sorrisos e lágrimas com que o céu banha os frutos nas árvores.
“A vida das nações não está nas leis, que foram feitas pelos ricos e poderosos para a preservação das riquezas e do poder.
“Os chefes dos reinos e das repúblicas disseram nos seus livros que o direito dos povos é o direito da guerra, e glorificaram a violência. E prestam honras aos conquistadores, e levantam nas praças públicas estátuas ao homem e ao cavalo vitoriosos. Mas não se tem o direito de matar; é essa a razão pela qual o homem justo não tirará da urna um número que o envie para a guerra. O direito não é o de mimar a loucura e os crimes de um príncipe erguido sobre um reino ou sobre uma república; e é essa a razão pela qual o homem justo não pagará impostos e não dará dinheiro aos publicanos. Desfrutará em paz do fruto do seu trabalho, fará pão com o trigo que semeou e comerá os frutos das árvores que plantou.”
“Ah, Monsieur Choulette,” disse o Príncipe Albertinelli, gravemente, “tem razão em interessar-se pelo estado dos nossos infelizes campos, que os impostos esgotam. Que fruto pode ser extraído de um solo taxado a trinta e três por cento do seu rendimento líquido? O senhor e os servos são a presa dos publicanos.”
Dechartre e Madame Martin ficaram impressionados com a inesperada sinceridade do seu tom.
Ele acrescentou:
“Gosto do Rei. Estou seguro da minha lealdade, mas as desgraças dos camponeses comovem-me.”
A verdade era que ele perseguia com obstinação um objetivo único: restabelecer o domínio de Casentino que o seu pai, o Príncipe Carlo, oficial de Vítor Emanuel, tinha deixado devorado pelos usurários. A sua gentilidade afetada escondia a sua teimosia. Tinha apenas vícios úteis. Foi para se tornar um grande proprietário de terras toscano que negociou quadros, vendeu os famosos tetos do seu palácio, fez a corte a mulheres ricas e velhas e, finalmente, procurou a mão da Miss Bell, que sabia ser habilidosa a ganhar dinheiro e praticante na arte de gerir a casa. Ele gostava realmente dos camponeses. Os elogios ardentes de Choulette, que ele compreendia vagamente, despertavam nele esse afeto. Esqueceu-se a ponto de expressar o que pensava:
“Num país onde o senhor e os servos formam uma família, o destino de uns depende do dos outros. Os impostos despojam-nos. Como são bons os nossos agricultores! São os melhores homens do mundo para lavrar a terra.”
Madame Martin confessou que não teria acreditado. Apenas a região da Lombardia lhe parecia bem cultivada. A Toscana parecia um belo pomar selvagem.
O Príncipe respondeu, sorrindo, que talvez ela não falasse dessa maneira se lhe tivesse feito a honra de visitar as suas quintas de Casentino, embora estas tivessem sofrido com longos e ruinosos processos judiciais. Teria visto lá o que é realmente uma paisagem italiana.
“Cuido muito do meu domínio. Vinha de lá esta noite quando tive o duplo prazer de encontrar na estação a Miss Bell, que tinha ido lá buscar o seu sino de Ghiberti, e a Senhora, que falava com um amigo de Paris.”
Ele teve a ideia de que lhe seria desagradável ouvi-lo falar desse encontro. Olhou à volta da mesa e viu a expressão de surpresa ansiosa que Dechartre não conseguiu conter. Ele insistiu:
“Perdoe, Madame, num rústico, uma certa pretensão de saber algo sobre o mundo. No homem que falava consigo, reconheci um parisiense, porque tinha um ar inglês; e embora afetasse rigidez, mostrava uma facilidade perfeita e uma vivacidade particular.”
“Oh,” disse Therese, com negligência, “não o vejo há muito tempo. Fiquei muito surpreendida por encontrá-lo em Florença no momento da sua partida.”
Ela olhou para Dechartre, que fingia não ouvir.
“Conheço esse cavalheiro,” disse a Miss Bell. “É o Monsieur Le Menil. Jantei com ele duas vezes em casa da Madame Martin, e ele conversou comigo muito bem. Disse que gostava de futebol; que introduziu o jogo em França e que agora o futebol está muito na moda. Também me contou as suas aventuras de caça. Gosta de animais. Observei que os caçadores gostam de animais. Garanto-lhe, querida, que o Monsieur Le Menil fala admiravelmente sobre lebres. Conhece os seus hábitos. Disse-me que era um prazer vê-las a dançar ao luar nas planícies. Garantiu-me que eram muito inteligentes e que tinha visto uma lebre velha, perseguida pelos cães, forçar outra lebre a sair do rasto para enganar os caçadores. Querida, o Monsieur Le Menil falou-te alguma vez de lebres?”
Therese respondeu que não sabia e que achava que os caçadores eram maçadores.
A Miss Bell exclamou. Não achava que o Monsieur Le Menil fosse alguma vez maçador quando falava das lebres que dançavam ao luar nas planícies e por entre as vinhas. Gostaria de criar uma lebre, como Phanion.
“Querida, não conheces Phanion. Oh, tenho a certeza de que o Monsieur Dechartre a conhece. Era bela e querida dos poetas. Vivia na Ilha de Cos, ao lado de um vale que, coberto de limoeiros, descia até ao mar azul. E dizem que ela olhava para as ondas azuis. Contei a história de Phanion ao Monsieur Le Menil, e ele ficou muito contente por ouvi-la. Ela tinha recebido de um caçador uma pequena lebre de orelhas compridas. Mantinha-a nos joelhos e alimentava-a com flores da primavera. Ela adorava Phanion e esqueceu a sua mãe. Morreu antes de ter comido demasiadas flores. Phanion lamentou a sua perda. Enterrou-a no limoeiral, numa sepultura que podia ver da sua cama. E a sombra da pequena lebre foi consolada pelas canções dos poetas.”
A boa Madame Marmet disse que o Monsieur Le Menil agradava pelos seus modos elegantes e discretos, que os jovens já não praticam. Teria gostado de o ver. Queria que ele fizesse algo por ela.
“Ou, melhor, pelo meu sobrinho,” disse ela. “É capitão de artilharia e os seus chefes gostam dele. O seu coronel esteve durante muito tempo sob as ordens do tio do Monsieur Le Menil, o General La Briche. Se o Monsieur Le Menil pedisse ao seu tio que escrevesse ao Coronel Faure em favor do meu sobrinho, ficar-lhe-ia grata. O meu sobrinho não é um estranho para o Monsieur Le Menil. Encontraram-se no ano passado no baile de máscaras que o Capitão de Lassay deu no hotel em Caen.”
Madame Marmet baixou os olhos e acrescentou:
“Os convidados, naturalmente, não eram mulheres da sociedade. Mas diz-se que algumas delas eram muito bonitas. Vinham de Paris. O meu sobrinho, que me deu estes detalhes, estava vestido de cocheiro. O Monsieur Le Menil estava vestido de Hussardo da Morte, e teve muito sucesso.”
A Miss Bell disse que lamentava não ter sabido que o Monsieur Le Menil estava em Florença. Certamente, tê-lo-ia convidado a vir a Fiesole.
Dechartre permaneceu sombrio e distante durante o resto do jantar; e quando, no momento da partida, Therese lhe estendeu a mão, sentiu que ele evitava apertá-la na sua.
LIVRO 3.
CAPÍTULO XXIII. “NUNCA SE É GENTIL QUANDO SE ESTÁ APAIXONADO”
No dia seguinte, no pavilhão escondido da Via Alfieri, encontrou-o preocupado. Tentou distraí-lo com uma alegria ardente, com a doçura de uma intimidade urgente, com uma soberba humildade. Mas ele permaneceu sombrio. Tinha passado a noite a meditar, a elaborar e a reconhecer a sua tristeza. Tinha encontrado motivos para sofrer. O seu pensamento tinha reunido a mão que deixava cair uma carta na caixa do correio perante o bronze de San Marco e o terrível desconhecido que tinha sido visto na estação. Agora, Jacques Dechartre dava um rosto e um nome à causa do seu sofrimento. Na poltrona da avó onde Therese se tinha sentado no dia da sua receção, e que ela desta vez lhe tinha oferecido, ele era assaltado por imagens dolorosas; enquanto ela, curvada sobre um dos seus braços, envolvia-o com o seu abraço quente e o seu coração amoroso. Ela adivinhava demasiado bem o que ele sofria para lho perguntar simplesmente.
Para o trazer de volta a ideias mais agradáveis, recordou os segredos do quarto onde estavam e reminiscências dos seus passeios pela cidade. Era graciosamente familiar.
“A colherzinha que me deste, a colher do lírio vermelho, uso-a para o meu chá de manhã. E sei, pelo prazer que sinto ao vê-la quando acordo, o quanto te amo.”
Então, como ele respondia apenas com frases tristes e evasivas, ela disse:
“Estou perto de ti, mas tu não te importas comigo. Estás preocupado com alguma ideia que eu não decifro. No entanto, eu estou viva, e uma ideia não é nada.”
“Uma ideia não é nada? Achas isso? Pode-se ser miserável ou feliz por causa de uma ideia; pode-se viver e pode-se morrer por uma ideia. Bem, estou a pensar.”
“No que estás a pensar?”
“Porque perguntas? Sabes muito bem que estou a pensar no que ouvi ontem à noite, que me tinhas escondido. Estou a pensar no teu encontro na estação, que não se deveu ao acaso, mas que uma carta causou, uma carta deixada — lembra-te! — na caixa do correio de San Michele. Oh, não te censuro por isso. Não tenho esse direito. Mas porque te entregaste a mim se não estavas livre?”
Ela pensou que devia dizer uma inverdade.
“Referes-te a alguém que encontrei na estação ontem? Garanto-te que foi o encontro mais comum do mundo.”
Ele ficou dolorosamente impressionado com o facto de ela não se atrever a nomear aquele de quem falava. Ele próprio evitava pronunciar esse nome.
“Therese, ele não tinha vindo por ti? Não sabias que ele estava em Florença? Ele não é mais do que um homem que encontras socialmente? Não é aquele que, na sua ausência, te fazia dizer-me: ‘Eu não posso’? Ele não é nada para ti?”
Ela respondeu resolutamente:
“Ele vem a minha casa por vezes. Foi-me apresentado pelo General Lariviere. Não tenho mais nada a dizer-te sobre ele. Garanto-te que ele não tem qualquer interesse para mim, e não consigo conceber o que possa estar na tua mente a respeito dele.”
Ela sentiu uma espécie de satisfação em repudiar o homem que tinha insistido contra ela; com tanta dureza e violência, nos seus direitos de propriedade. Mas tinha pressa em sair do seu caminho tortuoso. Levantou-se e olhou para o seu amante, com olhos belos, ternos e graves.
“Ouve-me: no dia em que entreguei o meu coração a ti, a minha vida foi toda tua. Se uma dúvida ou uma suspeita te assalta, interroga-me. O presente é teu, e sabes bem que só tu, só tu, estás nele. Quanto ao meu passado, se soubesses que nada ele foi, ficar-te-ias contente. Não creio que outra mulher, feita como eu fui para amar, te pudesse ter trazido uma mente mais nova para o amor do que a minha. Isso eu juro-te. Os anos que foram passados sem ti — eu não vivi! Não falemos deles. Não há nada neles de que me deva envergonhar. Arrepender-me deles é outra coisa. Arrependo-me de te ter conhecido tão tarde. Porque não vieste mais cedo? Poderias ter-me conhecido há cinco anos tão facilmente como hoje. Mas, acredita em mim, não nos devemos cansar a falar do tempo que já passou. Lembra-te de Lohengrin. Se me amas, sou para ti como o cavaleiro do cisne. Não te pedi nada. Não quis saber de nada. Não te repreendi sobre a Mademoiselle Jeanne Tancrede. Vi que me amavas, que estavas a sofrer, e isso bastou — porque eu amava-te.”
“Uma mulher não pode ter ciúmes da mesma maneira que um homem, nem sentir o que nos faz sofrer.”
“Não sei disso. Porque não pode ela?”
“Porque? Porque não há no sangue, na carne de uma mulher, essa absurda e generosa fúria pela propriedade, esse instinto primitivo de que o homem fez um direito. O homem é o deus que quer a sua companheira só para si. Desde tempos imemoriais, a mulher está habituada a partilhar o amor dos homens. É o passado, o passado obscuro, que determina as nossas paixões. Já somos tão velhos quando nascemos! O ciúme, para uma mulher, é apenas uma ferida ao seu próprio amor-próprio. Para um homem, é uma tortura tão profunda como um sofrimento moral, tão contínua como um sofrimento físico. Perguntas a razão? Porque, apesar da minha submissão e do meu respeito, apesar do alarme que me causas, tu és a matéria e eu sou a ideia; tu és a coisa e eu sou a mente; tu és o barro e eu sou o artesão. Não te queixes disto. Junto à ânfora perfeita, rodeada de grinaldas, o que é o oleiro rude e humilde? A ânfora é tranquila e bela; ele é miserável; ele é atormentado; ele quer; ele sofre; pois querer é sofrer. Sim, sou ciumento. Sei o que há no meu ciúme. Quando o examino, encontro nele preconceitos hereditários, vaidade selvagem, suscetibilidade doentia, uma mistura da mais rude violência e cruel fraqueza, imbecil e perversa revolta contra as leis da vida e da sociedade. Mas não importa que eu saiba o que ele é: ele existe e atormenta-me. Sou o químico que, estudando as propriedades de um ácido que bebeu, sabe como ele foi combinado e que sais o formam. No entanto, o ácido queima-o, e queimá-lo-á até aos ossos.”
“Meu amor, és um absurdo.”
“Sim, sou absurdo. Sinto-o melhor do que tu própria o sentes. Desejar uma mulher em todo o esplendor da sua beleza e do seu espírito, senhora de si mesma, que sabe e que ousa; mais bela nisso e mais desejável, e cuja escolha é livre, voluntária, deliberada; desejá-la, amá-la pelo que ela é, e sofrer porque ela não é candura pueril nem pálida inocência, o que seria chocante nela se fosse possível encontrá-las lá; pedir-lhe ao mesmo tempo que seja ela mesma e que não o seja; adorá-la como a vida a fez, e lamentar amargamente que a vida, que a tornou tão bela, a tenha tocado — Oh, isto é absurdo! Eu amo-te! Amo-te com tudo o que me trazes de sensações, de hábitos, com tudo o que vem das tuas experiências, com tudo o que vem dele — talvez, deles — como hei de saber? Estas coisas são o meu deleite e são a minha tortura. Deve haver um sentido profundo na idiotice pública que diz que um amor como o nosso é culpado. A alegria é culpada quando é imensa. Essa é a razão pela qual sofro, minha amada.”
Ela ajoelhou-se diante dele, tomou-lhe as mãos e puxou-o para si.
“Não quero que sofras; não o permitirei. Seria loucura. Amo-te e nunca amei ninguém além de ti. Podes acreditar-me; não minto.”
Ele beijou-lhe a testa.
“Se me enganasses, minha querida, não te reprovaria por isso; pelo contrário, ser-te-ia grato. Nada é tão legítimo, tão humano, como enganar a dor. Que seria de nós se as mulheres não tivessem por nós a piedade da mentira? Mente, minha amada, mente por caridade. Dá-me o sonho que colore a tristeza negra. Mente; não tenhas escrúpulos. Apenas acrescentarás outra ilusão à ilusão do amor e da beleza.”
Ele suspirou:
“Oh, senso comum, sabedoria comum!”
Ela perguntou-lhe o que queria dizer e o que era a sabedoria comum. Ele disse que era um provérbio sensato, mas brutal, que era melhor não repetir.
“Repete-o mesmo assim.”
“Queres que te diga: ‘Lábios beijados não perdem a frescura.’”
E acrescentou:
“É verdade que o amor preserva a beleza, e que a beleza das mulheres se alimenta de carícias como as abelhas se alimentam de flores.”
Ela depositou nos lábios dele um penhor num beijo.
“Juro-te que nunca amei ninguém além de ti. Oh, não, não são as carícias que preservaram os poucos encantos que me sinto feliz por ter para tos oferecer. Amo-te! Amo-te!”
Mas ele ainda se lembrava da carta deixada na caixa de correio e da pessoa desconhecida encontrada na estação.
“Se me amasses verdadeiramente, amar-me-ias apenas a mim.”
Ela levantou-se, indignada:
“Então acreditas que amo outro? O que estás a dizer é monstruoso. É isso que pensas de mim? E dizes que me amas! Tenho pena de ti, porque és um insano.”
“Verdade, sou um insano.”
Ela, ajoelhada, com as palmas das mãos flexíveis, envolveu-lhe as têmporas e as faces. Ele disse novamente que era louco por se preocupar com um encontro casual e banal. Ela forçou-o a acreditar nela, ou, melhor dizendo, a esquecer. Ele já não via nem sabia de nada. A amargura e a raiva que se desvaneceram não lhe deixaram nada além do desejo áspero de esquecer tudo, de a fazer esquecer tudo.
Ela perguntou-lhe por que estava triste.
“Eras feliz há um momento. Por que não és feliz agora?”
E como ele abanou a cabeça e não disse nada:
“Fala! Gosto mais das tuas queixas do que do teu silêncio.”
Então ele disse:
“Queres saber? Não te zangues. Sofro agora mais do que nunca, porque sei agora o que és capaz de dar.”
Ela retirou-se bruscamente dos braços dele e, com os olhos cheios de dor e reprovação, disse:
“Podes acreditar que eu alguma vez fui para outro o que sou para ti! Feres-me no meu sentimento mais suscetível, no meu amor por ti. Não te perdoo por isto. Amo-te! Nunca amei ninguém além de ti. Nunca sofri senão por tua causa. Contentas-te. Tu fazes-me muito mal. Como podes ser tão cruel?”
“Thérèse, nunca se é gentil quando se está apaixonado.”
Ela permaneceu por um longo tempo imóvel e sonhadora. O rosto corou e uma lágrima subiu aos olhos.
“Thérèse, estás a chorar!”
“Perdoa-me, meu coração, é a primeira vez que amo e que sou realmente amada. Tenho medo.”
CAPÍTULO XXIV. A AMBIÇÃO DE CHOULETTE
Enquanto o rodar das caixas que chegavam enchia a villa Bell; enquanto Pauline, carregada de embrulhos, descia levemente os degraus; enquanto a boa Madame Marmet, com vigilância tranquila, supervisionava tudo; e enquanto a Srta. Bell terminava de se vestir no seu quarto, Thérèse, vestida de cinzento, descansando no terraço, olhava mais uma vez para a Cidade das Flores.
Decidira voltar para casa. O marido chamava-a em cada uma das suas cartas. Se, como ele lhe pedia para fazer, regressasse a Paris nos primeiros dias de maio, poderiam oferecer dois ou três jantares, seguidos de receções. O seu grupo político era apoiado pela opinião pública. A maré empurrava-o, e Garain pensava que o salão da Condessa Martin poderia exercer uma excelente influência sobre o futuro do país. Estas razões não a comoviam; mas sentia o desejo de ser agradável ao marido. Recebera no dia anterior uma carta do pai, Monsieur Montessuy, que, sem partilhar as opiniões políticas do genro e sem dar qualquer conselho à filha, insinuava que a sociedade começava a bisbilhotar sobre a misteriosa estadia da Condessa Martin em Florença, entre poetas e artistas. A villa Bell assumia, à distância, um ar de fantasia sentimental. Ela própria sentia que era observada de perto demais em Resole. Madame Marmet irritava-a. O Príncipe Albertinelli inquietava-a. Os encontros no pavilhão da Via Alfieri tinham-se tornado difíceis e perigosos. O Professor Arrighi, que o Príncipe encontrava frequentemente, vira-a uma noite enquanto caminhava pelas ruas desertas apoiada em Dechartre. O Professor Arrighi, autor de um tratado sobre agricultura, era o mais amável dos sábios. Voltara o seu belo rosto heroico e dissera, logo no dia seguinte, à jovem: “Antigamente, eu podia discernir de longa distância a aproximação de uma mulher bela. Agora que ultrapassei a idade de ser visto favoravelmente pelas mulheres, o céu tem pena de mim. O céu impede-me de as ver. Os meus olhos estão muito mal. Já não consigo reconhecer o rosto mais encantador.” Ela compreendera e atendera ao aviso. Queria agora ocultar a sua alegria na vastidão de Paris.
Vivian, a quem anunciara a sua partida, pedira-lhe que ficasse mais alguns dias. Mas Thérèse suspeitava que a amiga ainda estava chocada com o conselho que recebera uma noite na sala decorada com limões; que, pelo menos, não se sentia totalmente à vontade na familiaridade de uma confidente que desaprovava a sua escolha, e a quem o Príncipe representara como uma coquete, e talvez pior. A data da sua partida fora fixada para 5 de maio.
O dia brilhava, puro e encantador, sobre o vale do Arno. Thérèse, sonhadora, via do terraço a imensa rosa matinal colocada na taça azul de Florença. Inclinou-se para descobrir, ao pé das colinas floridas, o ponto impercetível onde conhecera alegrias infinitas. Ali, o jardim do cemitério formava uma pequena mancha sombria perto da qual adivinhava a Via Alfieri. Viu-se novamente no quarto onde, sem dúvida, nunca mais voltaria a entrar. As horas passadas ali tinham para ela a tristeza de um sonho. Sentia os olhos a velarem-se, os joelhos a fraquejarem e a alma a estremecer. Parecia-lhe que a vida já não estava nela, e que a deixara naquele canto onde via os pinheiros negros erguerem os seus cumes imóveis. Repreendia-se por sentir ansiedade sem motivo, quando, pelo contrário, deveria estar tranquilizada e alegre. Sabia que encontraria Jacques Dechartre em Paris. Teria gostado de chegar lá ao mesmo tempo, ou, melhor, de ir lá juntos. Tinham considerado indispensável que ele permanecesse mais três ou quatro dias em Florença, mas o encontro deles não seria retardado além disso. Tinham marcado um encontro, e ela regozijava-se com o pensamento. Ela usava o seu amor misturado ao seu ser e a correr-lhe no sangue. Ainda assim, uma parte de si mesma permanecia no pavilhão decorado com cabras e ninfas, uma parte de si mesma que nunca mais voltaria a ela. No pleno ardor da vida, ela morria por coisas infinitamente delicadas e preciosas. Lembrou-se de que Dechartre lhe dissera: “O amor gosta de encantos. Colhi do terraço as folhas de uma árvore que admiraste.” Por que não pensara em levar uma pedra do pavilhão onde esquecera o mundo?
Um grito de Pauline tirou-a dos seus pensamentos. Choulette, saltando de um arbusto, beijara subitamente a criada, que carregava sobretudos e malas para a carruagem. Agora corria pelos caminhos, alegre, com as orelhas salientes como chifres. Fez uma vénia à Condessa Martin.
“Tenho, pois, de lhe dizer adeus, Madame.”
Ele pretendia permanecer na Itália. Uma senhora chamava-o, dizia ele: era Roma. Ele queria ver os cardeais. Um deles, a quem o povo louvava como um velho cheio de bom senso, partilharia talvez as ideias da igreja socialista e revolucionária. Choulette tinha o seu objetivo: plantar sobre as ruínas de uma civilização injusta e cruel a Cruz do Calvário, não morta e nua, mas vívida, e com os seus braços floridos a abraçarem o mundo. Ele estava a fundar com esse desígnio uma ordem e um jornal. Madame Martin conhecia a ordem. O jornal seria vendido por um cêntimo e escrito em frases rítmicas. Era um jornal para ser cantado. O verso, simples, violento ou alegre, era a única língua que convinha ao povo. A prosa agradava apenas a pessoas cuja inteligência era muito subtil. Ele tinha visto anarquistas nas tabernas da Rue Saint-Jacques. Passavam as noites a recitar e a ouvir romances.
E acrescentou:
“Um jornal que seja ao mesmo tempo um livro de canções tocará a alma do povo. As pessoas dizem que tenho génio. Não sei se têm razão. Mas é preciso admitir que tenho um espírito prático.”
A Srta. Bell desceu os degraus, calçando as luvas:
“Oh, querida, a cidade, as montanhas e o céu desejam que lamente a tua partida. Fazem-se belos hoje para te fazerem arrepender de os deixar e desejar vê-los de novo.”
Mas Choulette, a quem a secura do clima toscano cansava, lamentava a verde Úmbria e o seu céu húmido. Lembrou-se de Assis. Disse:
“Há bosques e rochas, um céu claro e nuvens brancas. Caminhei lá nos passos do bom São Francisco, e transcrevi o seu cântico ao sol em rimas francesas antigas, simples e pobres.”
Madame Martin disse que gostaria de o ouvir. A Srta. Bell já estava a ouvir, e o seu rosto usava a expressão fervorosa de um anjo esculpido por Mino.
Choulette disse-lhes que era uma obra rústica e ingénua. Os versos não tentavam ser belos. Eram simples, embora desiguais, por causa da leveza. Então, com uma voz lenta e monótona, recitou o cântico.
“Oh, Monsieur Choulette,” disse a Srta. Bell, “este cântico sobe ao céu, como o eremita no Campo Santo de Pisa, que alguém viu subir a montanha que as cabras gostavam. Vou dizer-lhe. O velho eremita subia, apoiado no cajado da fé, e o seu passo era desigual porque a muleta, estando de um lado, dava a um dos seus pés uma vantagem sobre o outro. Essa é a razão pela qual os seus versos são desiguais. Compreendi-o.”
O poeta aceitou este elogio, persuadido de que o merecera sem o saber.
“Tem fé, Monsieur Choulette,” disse Thérèse. “De que lhe serve ela se não para escrever belos versos?”
“A fé serve-me para cometer pecado, Madame.”
“Oh, cometemos pecados sem isso.”
Madame Marmet apareceu, equipada para a viagem, na alegria tranquila de regressar ao seu bonito apartamento, ao seu cãozinho Toby, ao seu velho amigo Lagrange, e de rever, depois dos etruscos de Fiesole, o guerreiro esqueleto que, entre as caixas de bombons, olhava pela janela.
A Srta. Bell acompanhou os seus amigos até à estação na sua carruagem.
CAPÍTULO XXV. “ESTAMOS A ROUBAR A VIDA”
Dechartre veio à carruagem saudar os dois viajantes. Separada dele, Thérèse sentia o que ele era para ela: ele dera-lhe um novo gosto da vida, delicioso e tão vívido, tão real, que ela o sentia nos lábios. Vivia sob um encanto no sonho de o ver de novo, e surpreendeu-se quando Madame Marmet, ao longo da viagem, disse: “Acho que estamos a atravessar a fronteira,” ou “Roseiras estão em flor à beira-mar.” Ela estava alegre quando, após uma noite no hotel em Marselha, viu as oliveiras cinzentas nos campos pedregosos, depois as amoreiras e o perfil distante do Monte Pilatus, e o Ródano, e Lyon, e depois as paisagens familiares, as árvores erguendo os seus cumes em ramos vestidos de verde tenro, e as linhas de choupos ao lado dos rios. Ela saboreou a plenitude das horas que viveu e o espanto das alegrias profundas. E foi com o sorriso de um adormecido subitamente acordado que, na estação em Paris, à luz da estação, saudou o marido, que estava contente por a ver. Quando beijou Madame Marmet, disse-lhe que lhe agradecia de todo o coração. E verdadeiramente ela estava grata a todas as coisas, como o São Francisco do Sr. Choulette.
No coupé, que seguia os cais na luz poeirenta do sol poente, ela ouviu sem impaciência o marido confidenciar-lhe os seus sucessos como orador, as intenções dos seus grupos parlamentares, os seus projetos, as suas esperanças e a necessidade de oferecer dois ou três jantares políticos. Fechou os olhos para pensar melhor. Disse para si mesma: “Terei uma carta amanhã, e vê-lo-ei de novo dentro de oito dias.” Quando o coupé passou na ponte, olhou para a água, que parecia rolar chamas; para os arcos enfumados; para as filas de árvores; para as cabeças das castanheiras em flor no Cours-la-Reine; todos estes aspetos familiares pareciam estar vestidos para ela de magnificência nova. Parecia-lhe que o seu amor tinha dado uma cor nova ao universo. E perguntou-se se as árvores e as pedras a reconheciam. Pensava: “Como é que o meu silêncio, os meus olhos, e o céu e a terra não contam o meu segredo querido?”
O Sr. Martin-Bélème, pensando que ela estava um pouco cansada, aconselhou-a a descansar. E à noite, fechada no seu quarto, no silêncio onde ouvia as palpitações do coração, escreveu ao ausente uma carta cheia destas palavras, que são semelhantes a flores na sua novidade perpétua: “Amo-te. Estou à tua espera. Sou feliz. Sinto que estás perto de mim. Não há ninguém além de ti e de mim no mundo. Vejo da minha janela uma estrela azul que treme, e olho para ela, pensando que a vês em Florença. Pus na minha mesa a pequena colher de lírio vermelho. Vem! Vem!” E encontrou assim, fresca na sua mente, as sensações e imagens eternas.
Durante uma semana viveu uma vida interior, sentindo dentro de si o calor suave que restava dos dias passados na Via Alfieri, respirando os beijos que recebera, e amando-se por ser amada. Teve um cuidado delicado e exibiu um gosto atento em vestidos novos. Era a si mesma, também, que ela estava a agradar. Loucamente ansiosa quando não havia nada para ela nos correios, a tremer e alegre quando recebia através da pequena janela uma carta onde reconhecia a caligrafia grande do seu amado, ela devorava as suas reminiscências, os seus desejos e as suas esperanças. Assim, as horas passaram rapidamente.
A manhã do dia em que ele deveria chegar pareceu-lhe odiosamente longa. Ela estava na estação antes de o comboio chegar. Um atraso tinha sido sinalizado. Pesava-lhe. Otimista nos seus projetos, e colocando à força, como o pai, a fé ao lado da sua vontade, aquele atraso que ela não tinha previsto pareceu-lhe ser uma traição. A luz cinzenta, que os três quartos de hora filtravam através das vidraças da estação, caía sobre ela como os raios de uma imensa ampulheta que media para ela os minutos de felicidade perdidos. Ela lamentava o seu destino, quando, na luz vermelha do sol, viu a locomotiva do expresso parar, monstruosa e dócil, no cais, e, na multidão de viajantes que saíam das carruagens, Jacques aproximou-se dela. Ele olhava-a com aquele tipo de alegria sombria e violenta que ela tinha observado frequentemente nele. Ele disse:
“Finalmente, aqui estás. Tive medo de morrer antes de te ver de novo. Não sabes, eu próprio não sabia, que tortura é viver uma semana longe de ti. Voltei ao pequeno pavilhão da Via Alfieri. No quarto que conheces, em frente ao velho pastel, chorei de amor e de raiva.”
Ela olhou para ele ternamente.
“E eu, não pensas que te chamei, que te quis, que quando sozinha estendia os meus braços em tua direção? Tinha escondido as tuas cartas na cómoda onde estão as minhas joias. Lia-as à noite: era delicioso, mas era imprudente. As tuas cartas eras tu — demasiado e não o suficiente.”
Atravessaram o pátio onde fiacres partiam carregados de malas. Ela perguntou se deveriam tomar uma carruagem.
Ele não respondeu. Parecia não ouvir. Ela disse:
“Fui ver a tua casa; não tive coragem de entrar. Olhei através da grade e vi janelas escondidas em roseiras nas traseiras de um pátio, atrás de uma árvore, e disse: ‘É ali!’ Nunca estive tão comovida.”
Ele não a estava a ouvir nem a olhar para ela. Caminhou rapidamente com ela ao longo da rua pavimentada e, através de uma escadaria estreita, alcançou uma rua deserta perto da estação. Ali, entre depósitos de madeira e carvão, ficava um hotel com um restaurante no primeiro andar e mesas no passeio. Sob o letreiro pintado, havia cortinas brancas nas janelas. Dechartre parou diante da pequena porta e empurrou Thérèse para o beco escuro. Ela perguntou:
“Onde me estás a levar? Que horas são? Devo estar em casa às sete e meia. Estamos loucos.”
Quando deixaram a casa, ela disse:
“Jacques, meu querido, estamos demasiado felizes; estamos a roubar a vida.”
CAPÍTULO XXVI. NO ATELIÊ DE DECHARTRE
Um fiacre levou-a, no dia seguinte, a uma rua populosa, meio triste, meio alegre, com muros de jardins nos intervalos de casas novas, e parou no ponto onde o passeio passa sob a arcada de um solar da Regência, coberto agora de pó e esquecimento, e fantasticamente colocado através da rua. Aqui e ali, ramos verdes emprestavam alegria àquele canto da cidade. Thérèse, enquanto tocava à campainha, viu na perspectiva limitada das casas uma roldana numa janela e uma chave dourada, o sinal de um serralheiro. Os seus olhos estavam cheios daquela imagem, que era nova para ela. Pombos voavam acima da sua cabeça; ouviu galinhas cacarejar. Um criado com aspeto militar abriu a porta. Encontrou-se num pátio coberto de areia, sombreado por uma árvore, onde, à esquerda, ficava a portaria com gaiolas de pássaros nas janelas. Daquele lado erguia-se, sob uma latada verde, a mansarda da casa vizinha. O ateliê de um escultor apoiava-se nela com o seu teto envidraçado, que mostrava figuras de gesso adormecidas no pó. À direita, o muro que fechava o pátio ostentava restos de monumentos, bases partidas de colunelos. Ao fundo, a casa, não muito grande, mostrava as seis janelas da sua fachada, meio escondidas por vinhas e roseiras.
Philippe Dechartre, apaixonado pela arquitetura do século XV em França, reproduzira ali, com muita perícia, as características de uma casa particular do tempo de Luís XII. Aquela casa, iniciada em pleno Segundo Império, não fora terminada. O construtor de tantos castelos morreu sem conseguir acabar a sua própria casa. Foi melhor assim. Concebida de uma maneira que tinha então a sua distinção e o seu valor, mas que parece hoje banal e estranha, tendo perdido pouco a pouco a sua vasta moldura de jardins, apertada agora entre os muros dos edifícios altos, a pequena casa de Philippe Dechartre, pela rugosidade das suas pedras, pela ingénua pesadez das suas janelas, pela simplicidade do teto, que a viúva do arquiteto mandara cobrir com pouca despesa, por todos os acidentes felizes do inacabado e do não premeditado, corrigia a falta de graça da sua nova e afetada antiguidade e o seu romantismo arqueológico, e harmonizava-se com a humildade de um bairro tornado feio pelo progresso da população.
Em suma, não obstante o seu aspeto de ruína e a sua roupagem verde, aquela pequena casa tinha o seu charme. Súbita e instintivamente, Thérèse descobriu nela outras harmonias. Na negligência elegante que se estendia das paredes cobertas de vinhas aos vidros escurecidos do ateliê, e até na árvore curvada, cuja casca salpicava de conchas a erva brava do pátio, ela adivinhava o espírito do mestre, nonchalant, pouco dado a preservar, vivendo na longa solidão dos homens apaixonados. Ela sentia, na sua alegria, uma espécie de pesar ao observar aquele estado de descuido em que o seu amante deixava as coisas à sua volta. Encontrava nele uma espécie de graça e nobreza, mas também um espírito de indiferença contrário à sua própria natureza, oposto ao espírito interessado e cuidadoso dos Montessuy. Pensou logo que, sem estragar a suavidade pensativa daquele canto rude, lhe traria a sua atividade bem ordenada; mandaria deitar areia na alameda, e no ângulo onde entrava um pouco de luz solar colocaria a alegria das flores. Olhou com simpatia para uma estátua que ali chegara de algum parque, uma Flora, deitada na terra, comida pelo musgo negro, os dois braços caídos ao longo do corpo. Pensou em erguê-la em breve, em fazer dela a peça central de uma fonte. Dechartre, que há uma hora a esperava, alegre, ansioso, tremendo na sua felicidade agitada, desceu os degraus. Na sombra fresca do vestíbulo, onde adivinhava confusamente o esplendor severo de estátuas de bronze e mármore, ela parou, perturbada pelas batidas do seu coração, que latejava com toda a força no peito. Ele apertou-a nos braços e beijou-a. Ela ouviu-o, por entre o tumulto das suas têmporas, recordar-lhe os breves deleites do dia anterior. Viu de novo o leão do Atlas sobre o tapete e retribuiu a Jacques os seus beijos com uma lentidão deliciosa. Ele levou-a, por uma escada de madeira, ao vasto salão que servira antigamente de oficina, onde ele desenhava e modelava as suas figuras e, sobretudo, lia; gostava de ler como se fosse ópio.
Tapeçarias góticas de tons pálidos, que deixavam perceber numa floresta maravilhosa uma dama aos pés de quem um unicórnio jazia sobre a erva, estendiam-se acima de armários até às vigas pintadas do teto. Ele conduziu-a a um divã grande e baixo, carregado de almofadas cobertas com sumptuosos fragmentos de capas espanholas e bizantinas; mas ela sentou-se numa poltrona. “Estás aqui! Estás aqui! O mundo pode acabar.”
Ela respondeu: “Antigamente pensava no fim do mundo, mas não tinha medo dele. O Senhor Lagrange tinha-mo prometido e eu esperava por ele. Quando não te conhecia, sentia-me tão sozinha.” Ela olhou para as mesas carregadas de vasos e estatuetas, as tapeçarias, a massa confusa e esplêndida de armas, os animais, os mármores, as pinturas, os livros antigos. “Tens coisas belas.”
“A maior parte vem do meu pai, que viveu na idade de ouro dos colecionadores. Estas histórias do unicórnio, cuja série completa está em Cluny, foram encontradas pelo meu pai em 1851 numa estalagem.”
Mas, curiosa e desapontada, ela disse: “Não vejo nada do que tu fizeste; nem uma estátua, nem uma daquelas figuras de cera que são tão apreciadas em Inglaterra, nem uma estatueta, nem uma placa, nem uma medalha.”
“Se pensas que eu poderia encontrar algum prazer em viver entre as minhas obras! Conheço demasiado bem as minhas figuras — elas cansam-me. Tudo o que não tem segredo carece de charme.” Ela olhou para ele com um despeito afetado.
“Não me tinhas dito que se perdia todo o charme quando se deixava de ter segredos.”
Ele passou o braço pela cintura dela.
“Ah! As coisas que vivem são demasiado misteriosas; e tu permaneces para mim, minha amada, um enigma, cujo sentido desconhecido contém a luz da vida. Não tenhas medo de te entregares a mim. Desejar-te-ei sempre, mas nunca te conhecerei. Possui-se alguma vez o que se ama? Serão os beijos, as carícias, algo mais do que o esforço de um desespero delicioso? Quando te abraço, ainda te procuro e nunca te tenho; uma vez que te quero sempre, uma vez que em ti espero o impossível e o infinito. O que tu és, o diabo sabe se algum dia saberei! Porque modelei algumas figuras más, não sou um escultor; sou antes uma espécie de poeta e filósofo que procura na natureza temas de ansiedade e tormento. O sentimento da forma não me basta. Os meus colegas riem-se de mim porque não tenho a sua simplicidade. Eles têm razão. E aquele bruto do Choulette também tem razão, quando diz que devemos viver sem pensar e sem desejar. O nosso amigo sapateiro de Santa Maria Novella, que não sabe nada do que o poderia tornar injusto e infeliz, é um mestre na arte de viver. Eu deveria amar-te ingenuamente, sem essa espécie de metafísica que é passional e me torna absurdo e perverso. Não há nada de bom senão ignorar e esquecer. Vem, vem, pensei em ti demasiado cruelmente nos suplícios da tua ausência; vem, minha amada! Preciso de te esquecer contigo. É apenas contigo que posso esquecer-te e perder-me.”
Ele tomou-a nos braços e, erguendo-lhe o véu, beijou-a nos lábios.
Um pouco assustada naquele vasto salão desconhecido, embaraçada pelo olhar de coisas estranhas, ela puxou o tule negro até ao queixo.
“Aqui! Não podes pensar nisso.”
Ele disse que estavam sozinhos.
“Sozinhos? E o homem de bigodes terríveis que abriu a porta?”
Ele sorriu:
“Esse é Fusellier, o antigo criado do meu pai. Ele e a sua mulher tomam conta da casa. Não tenhas medo. Eles ficam na sua portaria. Verás a Madame Fusellier; ela é dada a familiaridades. Aviso-te.”
“Meu amigo, porque tem o Senhor Fusellier, um porteiro, bigodes como um tártaro?”
“Minha querida, a natureza deu-lhos. Não me importo que ele tenha ar de sargento-ajudante e me dê a ilusão de ser um vizinho do campo.”
Sentado no canto do divã, puxou-a para os seus joelhos e deu-lhe beijos que ela retribuiu.
Ela levantou-se rapidamente.
“Mostra-me as outras divisões. Estou curiosa. Quero ver tudo.”
Ele escoltou-a até ao segundo andar. Aguarelas de Philippe Dechartre cobriam as paredes do corredor. Ele abriu a porta e fê-la entrar num quarto mobilado com mogno branco.
Era o quarto da sua mãe. Mantinha-o intacto no seu passado. Inabitado há nove anos, o quarto não parecia resignado à sua solidão. O espelho esperava pelo olhar da velha senhora, e sobre o relógio de ónix uma Safo pensativa sentia-se só por não ouvir o ruído do pêndulo.
Havia dois retratos nas paredes. Um, de Ricard, representava Philippe Dechartre, muito pálido, de cabelos despenteados e olhos perdidos num sonho romântico. O outro mostrava uma mulher de meia-idade, quase bela na sua magreza ardente. Era Madame Philippe Dechartre.
“O quarto da minha pobre mãe é como eu”, disse Jacques; “ele recorda.”
“Tu pareces-te com a tua mãe”, disse Thérèse; “tens os olhos dela. Paul Vence disse-me que ela te adorava.”
“Sim”, respondeu ele, sorrindo. “A minha mãe era excelente, inteligente, requintada, maravilhosamente absurda. A sua loucura era o amor maternal. Não me dava um momento de descanso. Ela atormentava-se e atormentava-me.”
Thérèse olhou para uma figura de bronze de Carpeaux, colocada sobre a cómoda.
“Reconheces”, disse Dechartre, “o Príncipe Imperial pelas suas orelhas, que são como as asas de um zéfiro e que animam o seu rosto frio. Este bronze é um presente de Napoleão III. Os meus pais foram a Compiègne. O meu pai, enquanto a corte estava em Fontainebleau, fez o plano do castelo e desenhou a galeria. De manhã, o Imperador vinha, de casaco comprido e fumando o seu cachimbo de espuma, sentar-se ao pé dele como um pinguim numa rocha. Nessa altura, eu ia para a escola. Ouvia as suas histórias à mesa e não as esqueci. O Imperador ficava ali, calmo e tranquilo, interrompendo o seu longo silêncio com poucas palavras abafadas sob o seu grande bigode; depois animava-se um pouco e explicava as suas ideias sobre maquinaria. Ele era um inventor. Tirava um lápis do bolso e fazia desenhos sobre os projetos do meu pai. Estragava assim dois ou três estudos por semana. Ele gostava muito do meu pai e prometeu-lhe obras e honras que nunca chegaram. O Imperador era bondoso, mas não tinha influência, como dizia a mamã. Nessa altura eu era um rapazinho. Desde então, uma vaga simpatia permaneceu em mim por aquele homem, que carecia de génio, mas cujo espírito era afetuoso e belo, e que levava através de grandes aventuras uma coragem simples e um fatalismo gentil. Além disso, é-me simpático porque foi combatido e insultado por pessoas que estavam ávidas de tomar o seu lugar e que não tinham, como ele, nas profundezas das suas almas, um amor pelo povo. Temos visto essas pessoas no poder desde então. Céus, como elas são feias! O Senador Loyer, por exemplo, que em tua casa, na sala de fumo, enchia os bolsos de charutos e me convidava a fazer o mesmo. Esse Loyer é um homem mau, duro para os infelizes, para os fracos e para os humildes. E Garain, não achas que o espírito dele é repugnante? Lembras-te da primeira vez que jantei em tua casa e falámos de Napoleão? O teu cabelo, torcido acima do pescoço e atravessado por uma flecha de diamantes, estava adorável. Paul Vence disse coisas subtis. Garain não compreendeu. Pediste a minha opinião.”
“Foi para te fazer brilhar. Eu já estava vaidosa por ti.”
“Oh, eu nunca conseguiria dizer uma única frase perante pessoas tão sérias. No entanto, tive um grande desejo de dizer que Napoleão III me agradava mais do que Napoleão I; que o achava mais comovente; mas talvez essa ideia tivesse produzido um mau efeito. Mas não sou tão desprovido de talento ao ponto de me importar com política.”
Ele olhou em volta do quarto e para os móveis com ternura familiar. Abriu uma gaveta:
“Aqui estão os óculos da mamã. Como ela procurava estes óculos! Agora vou mostrar-te o meu quarto. Se não estiver em ordem, deves desculpar a Madame Fusellier, que está treinada para respeitar a minha desordem.”
As cortinas das janelas estavam corridas. Ele não as levantou. Passada uma hora, ela afastou os reposteiros de cetim vermelho; raios de luz deslumbraram-lhe os olhos e caíram sobre o seu cabelo flutuante. Ela procurou um espelho e encontrou apenas um espelho de Veneza, baço na sua larga moldura de ébano. Erguendo-se na ponta dos pés para se ver nele, disse:
“Serei eu esse espectro sombrio e distante? As mulheres que se olharam neste vidro não te devem ter feito elogios por causa dele.”
Enquanto tirava alfinetes da mesa, notou uma pequena figura de bronze que ainda não tinha visto. Era uma obra italiana antiga de gosto flamengo: uma mulher nua, de pernas curtas e estômago pesado, que aparentemente corria com um braço estendido. Ela achou que a figura tinha um ar divertido. Perguntou o que estava a fazer.
“Ela está a fazer o que a Madame Mundanidade faz no portal da catedral de Basileia.”
Mas Thérèse, que tinha estado em Basileia, não conhecia a Madame Mundanidade. Olhou de novo para a figura, não compreendeu e perguntou:
“É algo muito mau? Como pode uma coisa mostrada no portal de uma igreja ser tão difícil de dizer aqui?”
Súbita, uma ansiedade apoderou-se dela:
“O que pensarão de mim o Senhor e a Madame Fusellier?”
Então, descobrindo na parede um medalhão onde Dechartre tinha modelado o perfil de uma rapariga, divertida e viciosa:
“O que é aquilo?”
“Aquela é a Clara, uma vendedora de jornais. Trazia-me o Figaro todas as manhãs. Ela tinha covinhas nas bochechas, ninhos para beijos. Um dia disse-lhe: ‘Vou fazer o teu retrato.’ Ela veio, numa manhã de verão, com brincos e anéis que tinha comprado na feira de Neuilly. Nunca mais a vi. Não sei o que aconteceu com ela. Era demasiado instintiva para se tornar uma demi-mondaine da moda. Devo tirá-lo?”
“Não; fica muito bem naquele canto. Não tenho ciúmes da Clara.”
Era hora de voltar para casa e ela não se decidia a partir. Envolveu o pescoço do seu amante com os braços.
“Oh, amo-te! E depois, tu tens estado hoje bem-disposto e alegre. A alegria assenta-te tão bem. Gostaria de te fazer alegre sempre. Preciso de alegria quase tanto como de amor; e quem me dará alegria se não fores tu?”
CAPÍTULO XXVII. O CAMINHO DAS PRÍMULAS
Após o seu regresso a Paris, durante seis semanas, Thérèse viveu no ardente meio-sono da felicidade e prolongou deliciosamente o seu sonho irrefletido. Ia ver Jacques todos os dias à pequena casa sombreada por uma árvore; e quando finalmente se separavam à noite, ela levava consigo recordações adoradas. Tinham os mesmos gostos; cediam às mesmas fantasias. Os mesmos pensamentos caprichosos levavam-nos. Encontravam prazer em correr para os subúrbios que margeiam a cidade, as ruas onde as tabernas são sombreadas por acácias, as estradas pedregosas onde a erva cresce ao pé dos muros, os pequenos bosques e os campos sobre os quais se estendia o céu azul riscado pelo fumo das fábricas. Ela estava feliz por senti-lo perto de si nesta região onde não se reconhecia e onde se dava a ilusão de estar perdida com ele.
Um dia tinham apanhado o barco que ela vira passar tantas vezes sob as suas janelas. Não tinha medo de ser reconhecida. O seu perigo não era grande e, como estava apaixonada, perdera a prudência. Viram margens que pouco a pouco se tornavam alegres, escapando à aridez poeirenta dos subúrbios; passaram por ilhas com ramos de árvores a sombrear tabernas e inúmeros barcos amarrados sob os salgueiros. Desembarcaram em Bas-Meudon. Como ela disse que estava com calor e sede, ele fê-la entrar numa taberna. Era um edifício com galerias de madeira, que a solidão fazia parecer maior e que dormia em paz rústica, à espera do domingo para se encher com o riso das raparigas, os gritos dos barqueiros, o cheiro a peixe frito e o fumo dos cozinhados.
Subiram a escada que rangia, em forma de escadote, e numa sala do primeiro andar uma servente trouxe-lhes vinho e biscoitos. Na lareira, num dos cantos da sala, havia um espelho oval numa moldura coberta de flores. Pela janela aberta, via-se o Sena, as suas margens verdes e as colinas ao longe, banhadas por um ar quente. A paz trémula de uma tarde de verão enchia o céu, a terra e a água.
Thérèse olhava para o rio a correr. O barco passava sobre a água e, quando a esteira que deixava chegava à margem, parecia que a casa oscilava como uma embarcação.
“Gosto da água”, disse Thérèse. “Como estou feliz!”
Os seus lábios encontraram-se.
Perdidos no desesperado encanto do amor, o tempo não era marcado para eles senão pelo salpicar fresco da água, que a intervalos se quebrava sob a janela entreaberta. Ao louvor carinhoso do seu amante, ela respondeu:
“É verdade que fui feita para o amor. Amo-me a mim mesma porque tu me amas.”
Certamente, ele amava-a; e não lhe era possível explicar a si mesmo por que a amava com piedade ardente, com uma espécie de fúria sagrada. Não era por causa da sua beleza, embora ela fosse rara e infinitamente preciosa. Ela tinha linhas requintadas, mas as linhas seguem o movimento e escapam incessantemente; perdem-se e reencontram-se; causam alegrias estéticas e desespero. Uma linha bela é o relâmpago que fere deliciosamente os olhos. Admira-se e fica-se surpreendido. O que faz amar é uma força suave e terrível, mais poderosa do que a beleza. Encontra-se uma mulher entre mil que se quer sempre. Thérèse era aquela mulher que não se pode deixar ou trair.
Ela exclamou, alegremente:
“Nunca serei abandonada?”
Perguntou por que ele não fazia o seu busto, já que a achava bela.
“Porquê? Porque sou um escultor comum e sei-o; o que não é a faculdade de uma mente comum. Mas se desejas pensar que sou um grande artista, dar-te-ei outras razões. Para criar uma figura que viva, é preciso tomar o modelo como material comum de que se extrairá a beleza, comprimi-lo, esmagá-lo e obter a sua essência. Não há nada em ti que não seja precioso para mim. Se eu fizesse o teu busto, estar-me-ia servilmente ligado a estas coisas que são tudo para mim porque são algo de ti. Aderir-me-ia obstinadamente aos detalhes e não conseguiria compor uma figura acabada.”
Ela olhou para ele, espantada.
Ele continuou:
“De memória, poderia. Tentei um esboço a lápis.” Como ela quis ver, ele mostrou-lho. Estava numa folha de álbum, um esboço muito simples. Ela não se reconheceu nele e achou que ele a tinha representado com uma espécie de alma que ela não tinha.
“Ah, é assim que me vês? É assim que me amas?”
Ele fechou o álbum.
“Não; isto é apenas uma nota. Mas penso que a nota é justa. É provável que não te vejas exatamente como eu te vejo. Cada criatura humana é um ser diferente para cada um que a olha.”
Acrescentou, com uma espécie de alegria:
“Nesse sentido, pode dizer-se que uma mulher nunca pertenceu a dois homens. Essa é uma das ideias de Paul Vence.”
“Penso que é verdade”, disse Thérèse.
“É uma verdade que nos consola de muitas mentiras”, disse ele. “Mas voltemos ao que nos diz respeito. Quando te vejo, esqueço-me da minha filosofia, que é, contudo, a única coisa que me resta quando não estás aqui. A tua presença é uma violência que me fazes. Despojas-me da minha razão e da minha vontade. E, no entanto, é apenas quando estou contigo que me sinto vivo. Se eu tivesse de escolher entre a minha paz e a tua presença, escolheria a tua presença, ainda que ela me devesse custar o meu espírito e a minha honra.”
Thérèse sentiu o seu coração apertar-se com uma doçura dolorosa.
“Jacques, não fales assim. É por isso que te amo tanto, porque me dás tudo, sem reserva. Mas porque te deixas atormentar por essas sombras? Aquele homem, o Daniel Salomon, é um maledicente que inventa o que não sabe apenas para ver a perturbação nos outros. Esquece-o. Esquece tudo o que te disseram. O passado não existe. Só existe este momento, e este momento é nosso.”
Ele olhou para ela com uma intensidade que a fez tremer.
“O passado é um fantasma que não se deixa enterrar. Ele persegue-me, Thérèse. Quando não te vejo, interrogo o silêncio. E o silêncio responde-me com nomes que eu preferiria nunca ter ouvido. Mas quando estás aqui, quando toco nas tuas mãos, quando sinto o perfume do teu cabelo, as sombras dissipam-se. És tu a minha única realidade.”
Ela inclinou a cabeça sobre o ombro dele.
“Então, não me deixes partir. Leva-me para longe daqui, para um lugar onde ninguém nos conheça, onde não haja mais subcomités, nem jantares, nem conversas de salão. Leva-me para onde possamos ser apenas nós.”
Ele sorriu tristemente, acariciando-lhe o rosto.
“Tu sabes que isso é um sonho. As nossas vidas estão ligadas a mil fios, a mil deveres, a mil conveniências. Somos prisioneiros de um mundo que construímos tijolo a tijolo, sem saber que estávamos a edificar a nossa própria cela. Mas, por agora, esqueçamos os muros.”
A tarde avançava, tingindo o atelier com os tons quentes e declinantes do crepúsculo. Lá fora, o ruído da rua era um murmúrio distante e sem importância. Dentro, o silêncio era habitado apenas pela respiração deles e pelo peso daquele amor que, apesar de todas as sombras, os mantinha unidos no centro de um turbilhão. Thérèse sabia que, em breve, teria de regressar, de vestir novamente a máscara de condessa, de enfrentar o olhar do marido e as perguntas insidiosas dos amigos. Mas ali, naquele pequeno santuário, ela era apenas uma mulher entregue ao seu destino.
“Tenho de ir”, disse ela, por fim, com a voz quase inaudível.
Ele levantou-se e, durante um momento, ficaram em silêncio, como se o tempo tivesse parado para lhes conceder uma última trégua. Ele acompanhou-a até à porta. Ao despedirem-se, não houve promessas grandiosas, apenas o reconhecimento de uma fatalidade partilhada. Ela saiu para a luz crua do dia, sentindo-se estranhamente leve e, ao mesmo tempo, carregada com o peso de uma tristeza que sabia ser indestrutível.
No caminho de volta, Thérèse observava as carruagens que passavam, as pessoas que seguiam com os seus rostos indiferentes, as suas preocupações banais. Perguntava-se se alguma daquelas mulheres carregava, sob o veludo dos vestidos, um segredo tão avassalador como o dela. E, pela primeira vez, sentiu um estranho alívio ao pensar na solidão de todas as existências humanas. Cada um de nós, pensou ela, é um estranho para o outro, mesmo para aquele a quem entregamos a alma. E, nessa separação irremediável, residia talvez a única forma de liberdade possível.
Chegou a casa e encontrou o marido a rever papéis. Ele levantou os olhos, com o seu habitual ar de ocupação, e disse:
“Estavas a passear? O tempo está agradável para uma caminhada. Amanhã teremos o jantar com os Garain. Não te esqueças de que o lugar de honra pertence à senhora do ministro.”
Ela sorriu, aquele sorriso que aprendera a usar como um escudo.
“Não me esquecerei, meu amigo. Estarei pronta.”
Enquanto subia para o seu quarto, ela sentiu, como uma vaga premonição, que aquele jantar seria mais um ato de uma comédia que ela já não sabia se conseguia representar até ao fim. Mas, por agora, a noite caía sobre Paris, e ela teria tempo para se perder, uma última vez, nas sombras do seu próprio sonho, antes que a luz do dia viesse exigir-lhe, novamente, a sua presença.
“Sim, coloquei nessa figura a emoção do meu amor. É triste, e eu gostaria que fosse bela. Sabe, Thérèse, a beleza é dolorosa. É por isso que, sendo a vida bela, eu sofro.”
Ele tirou do seu casaco de flanela a sua piteira, mas ela pediu-lhe que se vestisse. Ela levá-lo-ia a tomar o pequeno-almoço consigo. Não se separariam naquele dia. Seria delicioso.
Ela olhou para ele com uma alegria infantil. Depois, tornou-se triste, pensando que teria de regressar a Dinard no fim da semana, ir mais tarde para Joinville, e que durante esse tempo estariam separados.
Em Joinville, em casa do seu pai, ela faria com que o convidassem por alguns dias. Mas não estariam livres e sós ali, como estavam em Paris.
“É verdade”, disse ele, “que Paris é boa para nós na sua imensa confusão.”
E acrescentou:
“Mesmo na tua ausência, não consigo deixar Paris. Seria terrível para mim viver em países que não te conhecem. Um céu, montanhas, árvores, fontes, estátuas que não sabem falar de ti não teriam nada para me dizer.”
Enquanto ele se vestia, ela folheava um livro que tinha encontrado em cima da mesa. Eram As Mil e Uma Noites. Gravuras românticas exibiam aqui e ali no texto grandes vizires, sultanas, túnicas negras, bazares e caravanas.
Ela perguntou:
“As Mil e Uma Noites — isso diverte-o?”
“Muito”, respondeu ele, atando a gravata. “Acredito tanto quanto desejo nestes príncipes árabes cujas pernas se tornam de mármore negro, e nestas mulheres do harém que vagueiam à noite nos cemitérios. Estes contos dão-me sonhos agradáveis que me fazem esquecer a vida. Ontem à noite fui para a cama com tristeza e li a história dos Três Calendares.”
Ela disse, com um pouco de amargura:
“Tu tentas esquecer. Eu não consentiria por nada deste mundo perder a memória de uma dor que me veio de ti.”
Desceram juntos para a rua. Ela devia apanhar uma carruagem um pouco mais à frente e precedê-lo em casa por alguns minutos.
“O meu marido espera-o para o pequeno-almoço.”
Conversaram, pelo caminho, de coisas insignificantes, que o seu amor tornava grandes e encantadoras. Combinaram a sua tarde com antecedência para nela colocar a infinidade de alegria profunda e de prazer engenhoso. Ela consultou-o sobre os seus vestidos. Não se decidia a deixá-lo, feliz por caminhar com ele nas ruas, que o sol e a alegria do meio-dia enchiam. Quando chegaram à Avenue des Ternes, viram diante de si, na avenida, lojas exibindo lado a lado uma magnífica abundância de comida. Havia cadeias de frangos no fornecedor de víveres, e, no fruticultor, caixas de alperces e pêssegos, cestos de uvas, pilhas de peras. Carroças cheias de frutas e flores ladeavam o passeio. Sob o toldo de um restaurante, homens e mulheres tomavam o pequeno-almoço. Thérèse reconheceu entre eles, sozinho, numa pequena mesa encostada a um loureiro num vaso, Choulette a acender o seu cachimbo.
Tendo-a visto, ele atirou soberbamente uma moeda de cinco francos sobre a mesa, levantou-se e fez uma vénia. Estava grave; o seu longo sobrecasaca dava-lhe um ar de decência e austeridade.
Disse que gostaria de ter visitado a Madame Martin em Dinard, mas tinha sido detido na Vendée pela Marquise de Rieu. Contudo, tinha publicado uma nova edição do Jardin Clos, aumentada pelo Verger de Sainte-Claire. Tinha movido almas que se julgavam insensíveis e tinha feito brotar fontes das rochas.
“Portanto”, disse ele, “fui, de certa forma, um Moisés.”
Ele remexeu no bolso e tirou de um livro uma carta, gasta e manchada.
“É isto que a Madame Raymond, a esposa do Académico, me escreve. Publico o que ela diz, porque lhe é creditável.”
E, desdobrando as folhas finas, leu:
“Fiz com que o meu marido conhecesse o seu livro, o qual exclamou: ‘É espiritualismo puro. Eis um jardim fechado, que do lado dos lírios e das rosas brancas tem, imagino, um pequeno portão que se abre para o caminho da Académie.’”
Choulette saboreou estas frases, misturadas na sua boca com o perfume do uísque, e voltou a colocar cuidadosamente a carta no seu livro.
A Madame Martin felicitou o poeta por ser o candidato da Madame Raymond.
“Deveria ser o meu, Monsieur Choulette, se eu me interessasse por eleições académicas. Mas o Institut desperta a sua inveja?”
Ele manteve por alguns momentos um silêncio solene, depois:
“Vou agora, Madame, conferenciar com diversas pessoas notáveis dos mundos político e religioso que residem em Neuilly. A Marquise de Rieu deseja que eu seja candidato, na sua terra, a um lugar de senador que ficou vago pela morte de um velho, que foi, dizem, um general durante a sua vida ilusória. Consultarei padres, mulheres e crianças — oh, eterna sabedoria! — do Boulevard Bineau. O eleitorado cujos sufrágios tentarei obter habita uma terra ondulada e arborizada onde salgueiros emolduram os campos. E não é coisa rara encontrar no oco de um destes velhos salgueiros o esqueleto de um Chouan a apertar a sua arma contra o peito e a segurar o seu rosário nos dedos descarnados. Farei afixar o meu programa na casca dos carvalhos. Direi: ‘Paz aos presbitérios! Que venha o dia em que os bispos, segurando nas mãos o báculo de madeira, se tornem semelhantes ao mais pobre servo da mais pobre paróquia! Foram os bispos que crucificaram Jesus Cristo. Os seus nomes eram Anás e Caifás. E eles ainda conservam estes nomes perante o Filho de Deus. Enquanto O pregavam na cruz, eu era o bom ladrão enforcado ao Seu lado.’”
Ele levantou a bengala e apontou para Neuilly:
“Dechartre, meu amigo, não acha que o Boulevard Bineau é aquele poeirento ali, à direita?”
“Adeus, Monsieur Choulette”, disse Thérèse. “Lembre-se de mim quando for senador.”
“Madame, não me esqueço de si em nenhuma das minhas orações, de manhã e à noite. E digo a Deus: ‘Já que, na tua ira, lhe deste riquezas e beleza, olha para ela, Senhor, com bondade, e trata-a de acordo com a tua misericórdia soberana.’”
E seguiu direito, arrastando a perna, ao longo da avenida populosa.
CAPÍTULO XXX. UMA CARTA DE ROBERT
Envolta num manto de pano cor-de-rosa, Thérèse desceu os degraus com Dechartre. Ele tinha vindo de manhã a Joinville. Ela tinha-o feito entrar no círculo dos seus amigos íntimos, antes da caçada para a qual ela temia que Le Menil tivesse sido convidado, como era costume. O ar leve de setembro agitava os caracóis do seu cabelo, e o sol fazia brilhar dardos dourados no cinzento profundo dos seus olhos. Atrás deles, a fachada do palácio exibia acima das três arcadas do primeiro andar, nos intervalos das janelas, sobre mesas longas, bustos de imperadores romanos. A casa estava situada entre dois pavilhões altos que os seus grandes telhados de ardósia tornavam mais elevados, sobre colunas da ordem jónica. Este estilo denunciava a arte do arquiteto Leveau, que tinha construído, em 1650, o castelo de Joinville-sur-Oise para aquele rico Mareuilles, criatura de Mazarino e afortunado cúmplice de Fouquet.
Thérèse e Jacques viam diante de si os canteiros desenhados por Le Nôtre, o tapete verde, a fonte; depois, a gruta com as suas cinco arcadas rústicas coroadas pelas árvores altas nas quais o outono já começara a espalhar o seu manto dourado.
“Esta geometria verde é bela”, disse Dechartre.
“Sim”, disse Thérèse. “Mas penso na árvore curvada no pequeno pátio onde a erva cresce entre as pedras. Construiremos nele uma bela fonte, não é verdade, e poremos flores nela?”
Apoiada num dos leões de pedra com faces quase humanas, que guardavam os degraus, ela virou a cabeça para o castelo e, olhando para uma das janelas, disse:
“Ali está o seu quarto; entrei nele ontem à noite. No mesmo andar, do outro lado, na outra extremidade, fica o escritório do meu pai. Uma mesa de madeira branca, uma pasta de mogno, um decantador sobre a lareira: o seu escritório quando ele era um homem jovem. Toda a nossa fortuna veio daquele lugar.”
Pelos caminhos cobertos de areia entre os canteiros, caminharam até à sebe de buxo que ladeava o parque no lado sul. Passaram diante do laranjal, cuja porta monumental era encimada pela cruz de Lorena de Mareuilles, e depois passaram sob os tílios que formavam uma alameda no relvado. Estátuas de ninfas tremiam na sombra húmida salpicada de luzes pálidas. Um pombo, pousado no ombro de uma das mulheres brancas, fugiu. De tempos a tempos, um sopro de vento desprendia uma folha seca que caía, uma concha de ouro vermelho, onde restava uma gota de chuva. Thérèse apontou para a ninfa e disse:
“Ela viu-me quando eu era uma rapariga e desejava morrer. Eu sofria de sonhos e de medo. Estava à tua espera. Mas tu estavas tão longe!”
A alameda de tílios parava perto da grande bacia, no centro da qual estava um grupo de tritões a soprar nas suas conchas para formar, quando as águas jorravam, um diadema líquido com flores de espuma.
“É a coroa de Joinville”, disse ela.
Ela apontou para um caminho que, partindo da bacia, se perdia nos campos, na direção do sol nascente.
“Este é o meu caminho. Quantas vezes o percorri tristemente! Eu estava triste quando não te conhecia.”
Encontraram a alameda que, com outros tílios e outras ninfas, continuava para além. E seguiram-na até às grutas. Havia, na parte de trás do parque, um semicírculo de cinco grandes nichos de rochas coroados por balaustradas e separados por gigantescos deuses Terminus. Um destes deuses, num canto do monumento, dominava todos os outros pela sua nudez monstruosa e baixava sobre eles o seu olhar pétreo.
“Quando o meu pai comprou Joinville”, disse ela, “as grutas eram apenas ruínas, cheias de erva e víboras. Mil coelhos tinham feito nelas buracos. Ele restaurou os deuses Terminus e as arcadas de acordo com gravuras de Perrelle, que estão conservadas na Bibliothèque Nationale. Ele foi o seu próprio arquiteto.”
Um desejo de sombra e mistério levou-os para o caramanchão perto das grutas. Mas o ruído de passos que ouviram, vindo da alameda coberta, fê-los parar por um momento, e viram, através das folhas, Montessuy, com o braço à volta da cintura da Princesa Seniavine. Calmamente, caminhavam em direção ao palácio. Jacques e Thérèse, escondendo-se atrás do enorme deus Terminus, esperaram até que tivessem passado.
Depois, ela disse a Dechartre, que a olhava silenciosamente:
“Isso é espantoso! Compreendo agora porque é que a Princesa Seniavine, este inverno, pediu ao meu pai que a aconselhasse sobre a compra de cavalos.”
No entanto, Thérèse admirava o seu pai por ter conquistado aquela bela mulher, que passava por ser difícil de agradar, e que era conhecida por ser abastada, apesar dos embaraços que a sua louca desordem lhe tinha causado. Perguntou a Jacques se ele não achava a Princesa bela. Ele disse que ela tinha elegância. Era bela, sem dúvida.
Thérèse levou Jacques aos degraus cobertos de musgo que, subindo atrás das grutas, levavam à Gerbe-de-l’Oise, formada por juncos de chumbo no meio de um grande vaso de mármore cor-de-rosa. Árvores altas fechavam a perspetiva do parque e erguiam-se no início da floresta. Caminharam sob elas. Estavam silenciosos sob o ténue lamento das folhas.
Ele apertou-a nos braços e pousou beijos nas suas pálpebras. A noite descia, as primeiras estrelas tremiam entre os ramos. Na erva húmida suspiravam as flautas dos sapos. Não foram mais longe.
Quando ela tomou com ele, na escuridão, o caminho para o palácio, o sabor dos beijos e da menta permanecia nos seus lábios, e nos seus olhos estava a imagem do seu amante. Ela sorria sob os tílios para as ninfas que tinham visto as lágrimas da sua infância. O Cisne erguia no céu a sua cruz de estrelas, e a lua espelhava o seu corno esguio na bacia da coroa. Insetos na erva emitiam apelos ao amor. Na última curva da sebe de buxo, Thérèse e Jacques viram a tripla massa negra do castelo, e através das grandes janelas de sacada do primeiro andar distinguiram formas em movimento na luz vermelha. O sino tocou.
Thérèse exclamou:
“Quase não tenho tempo para me vestir para o jantar.”
E passou velozmente entre os leões de pedra, deixando o seu amante sob a impressão de uma visão de conto de fadas.
Na sala de estar, depois do jantar, M. Berthier d’Eyzelles lia o jornal, e a Princesa Seniavine jogava paciência. Thérèse sentava-se, com os olhos semicerrados sobre um livro.
A Princesa perguntou se ela achava divertido o que estava a ler.
“Não sei. Estava a ler e a pensar. Paul Vence tem razão: ‘Encontramo-nos apenas a nós próprios nos livros.’”
Através das tapeçarias vinham da sala de bilhar as vozes dos jogadores e o clique das bolas.
“Consegui!”, exclamou a Princesa, atirando as cartas para o chão.
Ela tinha apostado uma grande soma num cavalo que corria naquele dia nas corridas de Chantilly.
Thérèse disse que tinha recebido uma carta de Fiesole. A Miss Bell anunciava o seu próximo casamento com o Príncipe Eusebia Albertinelli della Spina.
A Princesa riu-se:
“Eis um homem que lhe prestará um serviço.”
“Que serviço?”, perguntou Thérèse.
“Ele vai fazê-la desgostar dos homens, claro.”
Montessuy entrou na sala alegremente. Tinha ganho o jogo.
Sentou-se ao lado de Berthier-d’Eyzelles e, pegando num jornal no sofá, disse:
“O Ministro das Finanças anuncia que proporá, quando a Câmara se reunir, o seu projeto de lei das caixas económicas.”
Este projeto de lei devia dar às caixas económicas a autoridade para emprestar dinheiro às comunas, um procedimento que retiraria às casas de negócios de Montessuy os seus melhores clientes.
“Berthier”, perguntou o financeiro, “está resolutamente hostil a esse projeto de lei?”
Berthier acenou que sim.
Montessuy levantou-se, colocou a mão no ombro do Deputado e disse:
“Meu caro Berthier, tenho a ideia de que o Gabinete cairá no início da sessão.”
Aproximou-se da sua filha.
“Recebi uma carta estranha de Le Menil.”
Thérèse levantou-se e fechou a porta que separava a sala de estar da sala de bilhar.
Tinha medo das correntes de ar, disse ela.
“Uma carta singular”, continuou Montessuy. “Le Menil não virá a Joinville. Comprou o iate Rosebud. Está no Mediterrâneo e não consegue viver senão na água. É uma pena. É o único que sabe como gerir uma caçada.”
Nesse instante, Dechartre entrou na sala com o Conde Martin, que, depois de o vencer ao bilhar, tinha adquirido por ele uma grande afeição e lhe explicava os perigos de um imposto pessoal baseado no número de criados que se mantinha.
CAPÍTULO XXXI. UMA APARIÇÃO INDESEJADA
Um sol pálido de inverno, furando os nevoeiros do Sena, iluminava os cães pintados por Oudry nas portas da sala de jantar.
A Madame Martin tinha à sua direita Garain, o Deputado, outrora Chanceler, também Presidente do Conselho, e à sua esquerda o Senador Loyer. À direita do Conde Martin-Belleme estava Monsieur Berthier-d’Eyzelles. Era uma reunião de negócios íntima e séria. Em conformidade com a previsão de Montessuy, o Gabinete tinha caído quatro dias antes. Chamado ao Élysée na mesma manhã, Garain tinha aceite a tarefa de formar um gabinete. Preparava, enquanto tomava o pequeno-almoço, a combinação que seria submetida à noite ao Presidente. E, enquanto discutiam nomes, Thérèse revia dentro de si as imagens da sua vida íntima.
Ela tinha regressado a Paris com o Conde Martin na abertura da sessão parlamentar e, desde esse momento, tinha levado uma vida encantada.
Jacques amava-a; amava-a com uma deliciosa mistura de paixão e ternura, de experiência erudita e engenho curioso. Ele era nervoso, irritável, ansioso. Mas a incerteza do seu humor tornava a sua alegria mais encantadora. Essa alegria artística, irrompendo subitamente como uma chama, acariciava o amor sem o ofender. E a inteligência brincalhona do seu amante maravilhava Thérèse. Ela nunca poderia ter imaginado o gosto infalível que ele exercia naturalmente no capricho alegre e na fantasia familiar. A princípio, ele tinha exibido apenas a monotonia do ardor apaixonado. Isso, por si só, tinha-a capturado. Mas, desde então, tinha descoberto nele uma mente alegre, bem armazenada e diversa, bem como o dom da lisonja agradável.
“Montar um ministério homogéneo”, exclamou Garain, “é fácil de dizer. Contudo, é preciso ser guiado pelas tendências das várias fações da Câmara.”
Ele estava inquieto. Via-se rodeado por tantas armadilhas como aquelas que ele tinha montado. Até os seus colaboradores se tornavam hostis para com ele.
O Conde Martin desejava que o novo ministério satisfizesse as aspirações dos novos homens.
“A sua lista é formada por personalidades essencialmente diferentes em origem e em tendência”, disse ele. “Contudo, o facto mais importante na história política dos anos recentes é a possibilidade, diria a necessidade, de introduzir unidade de pontos de vista no governo da república. Estas são ideias que o senhor, meu caro Garain, exprimiu com rara eloquência.”
M. Berthier-d’Eyzelles manteve o silêncio.
O Senador Loyer rolava migalhas com os dedos. Tinha sido outrora um frequentador de cervejarias e, enquanto moldava migalhas ou cortava rolhas, encontrava ideias. Levantou a sua face vermelha. E, olhando para Garain com olhos enrugados onde brilhava um fogo vermelho, disse:
“Eu disse-o, e ninguém quis acreditar. A aniquilação da Direita monárquica foi para os chefes do partido Republicano um infortúnio irreparável. Governávamos outrora contra ela. O verdadeiro apoio de um governo é a Oposição. O Império governou contra os Orleanistas e contra nós; MacMahon governou contra os Republicanos. Mais afortunados, governámos contra a Direita. A Direita — que magnífica Oposição era! Ameaçava, era cândida, impotente, grande, honesta, impopular! Deveríamos tê-la acalentado. Não soubemos fazer isso. E depois, é claro, tudo se gasta. Contudo, é sempre necessário governar contra alguma coisa. Há hoje apenas Socialistas para nos dar o apoio que a Direita nos emprestou há quinze anos com tão constante generosidade. Mas eles são demasiado fracos. Deveríamos reforçá-los, fazer deles um partido político. Fazer isto na hora presente é o primeiro dever de um ministro de Estado.”
Garain, que não era cínico, não respondeu.
“Garain, ainda não sabe”, perguntou o Conde Martin, “se com a Presidência do Conselho vai assumir o Ministério da Justiça ou o do Interior?”
Garain respondeu que a sua decisão dependeria da escolha que outra pessoa faria. A presença dessa personagem no Gabinete era necessária, e ele hesitava entre duas pastas. Garain sacrificava a sua conveniência pessoal a interesses superiores.
O Senador Loyer fez uma careta. Ele queria a pasta da Justiça. Era um desejo há muito acalentado. Professor de direito sob o Império, dava, nos cafés, lições que eram apreciadas. Ele tinha o sentido da chicana. Tendo começado a sua fortuna política com artigos habilmente escritos a fim de atrair sobre si processos, ações judiciais e várias semanas de prisão, tinha considerado a imprensa como uma arma de oposição que todo o bom governo deveria quebrar. Desde 4 de setembro de 1870, tinha a ambição de se tornar Guardião dos Selos, para que todos pudessem ver como o velho boémio que outrora explicava o código enquanto jantava chucrute, apareceria como chefe supremo da magistratura.
Idiotas às dezenas tinham subido pelas suas costas. Agora, tendo envelhecido nas honras ordinárias do Senado, sem polimento, casado com uma rapariga de cervejaria, pobre, preguiçoso, desiludido, o seu velho espírito jacobino e o seu desprezo sincero pelo povo, sobrevivendo à sua ambição, faziam dele um bom homem para o Governo. Desta vez, como parte da combinação de Garain, imaginava que detinha o Ministério da Justiça. E o seu protetor, que não lho queria dar, era um rival infeliz. Ele ria-se, enquanto moldava um cão a partir de um bocado de pão.
M. Berthier-d’Eyzelles, calmo e grave, acariciava a sua bela barba branca.
“Não acha, Monsieur Garain, que seria bom dar um lugar no Gabinete aos homens que seguiram desde o início os princípios políticos para os quais nos orientamos hoje?”
“Eles perderam-se a fazê-lo”, respondeu Garain, impacientemente. “O político nunca deveria estar à frente das circunstâncias. É um erro ter razão demasiado cedo. Os pensadores não são homens de negócios. E depois — falemos francamente — se quer um Ministério do género Centro-Esquerda, diga-o: eu retiro-me. Mas aviso-o de que nem a Câmara nem o país o sustentarão.”
“É evidente”, disse o Conde Martin, “que devemos estar seguros de uma maioria.”
“Com a minha lista, temos uma maioria”, disse Garain. “É a minoria que sustentou o Ministério contra nós. Cavalheiros, apelo à vossa devoção.”
E a laboriosa distribuição das pastas começou de novo. O Conde Martin recebeu, em primeiro lugar, as Obras Públicas, que recusou por falta de competência, e depois os Negócios Estrangeiros, que aceitou sem objeções.
Mas M. Berthier-d’Eyzelles, a quem Garain ofereceu o Comércio e a Agricultura, reservou a sua decisão.
Loyer obteve as Colónias. Parecia muito ocupado a tentar fazer o seu cão de pão ficar de pé sobre a toalha. Contudo, observava pelos cantos das suas pálpebras pequenas e enrugadas a Condessa Martin e pensava que ela era desejável. Pensou vagamente no prazer de a encontrar novamente.
Deixando Garain com a sua combinação, estava preocupado com a sua bela anfitriã, tentando adivinhar os seus gostos e hábitos, perguntando-lhe se ia ao teatro e se alguma vez ia à noite ao café com o seu marido. E Thérèse começava a achar que ele era mais interessante do que os outros, com a sua aparente ignorância do mundo dela e o seu soberbo cinismo.
Garain levantou-se. Tinha de ver várias pessoas antes de submeter a sua lista ao Presidente da República. O Conde Martin ofereceu a sua carruagem, mas Garain tinha uma.
“Não acha”, perguntou o Conde Martin, “que o Presidente poderá objetar a alguns nomes?”
“O Presidente”, respondeu Garain, “inspirar-se-á nas necessidades da situação.”
Já tinha saído pela porta quando bateu com a mão na testa.
“Esquecemo-nos do Ministério da Guerra.”
“Encontraremos facilmente alguém para ele entre os generais”, disse o Conde Martin.
“Ah”, exclamou Garain, “acha que a escolha de um ministro da guerra é fácil. É evidente que não foi, como eu, membro de três gabinetes e Presidente do Conselho. Nos meus gabinetes, e durante a minha presidência, as maiores dificuldades vieram do Ministério da Guerra. Os generais são todos iguais. Conhece aquele que escolhi para o gabinete que formei. Quando o escolhemos, não sabia nada de assuntos públicos. Mal sabia que existiam duas Câmaras. Tivemos de lhe explicar todas as engrenagens da máquina parlamentar; tivemos de o ensinar de que existiam uma comissão do exército, comissão de finanças, subcomissões, presidentes de comissões, um orçamento. Ele pediu que toda esta informação fosse escrita para ele num pedaço de papel. A sua ignorância dos homens e das coisas espantou-nos e alarmou-nos. Em quinze dias, conhecia os truques mais subtis do ofício; conhecia pessoalmente todos os senadores e todos os deputados, e estava a conspirar com eles contra nós. Se não fosse a ajuda do Presidente Grévy, ele ter-nos-ia derrubado. E era um general muito comum, um general como qualquer outro. Oh, não; não pense que a pasta da guerra pode ser entregue à pressa, sem reflexão.”
E Garain ainda tremia ao pensar no seu antigo colega.
Thérèse levantou-se. O Senador Loyer ofereceu-lhe o braço, com a atitude graciosa que aprendera quarenta anos antes no salão de dança Bullier. Ela deixou os políticos na sala de estar e apressou-se a encontrar Dechartre.
Uma névoa rosada cobria o Sena, os cais de pedra e as árvores douradas. O sol vermelho lançava no céu nublado as últimas glórias do ano. Thérèse, ao sair, saboreava a agudeza do ar e o esplendor moribundo do dia. Desde o seu regresso a Paris, feliz, encontrava prazer todas as manhãs nas mudanças do tempo. Parecia-lhe, no seu generoso egoísmo, que era por ela que o vento soprava nas árvores, ou a chuva fina e cinzenta molhava o horizonte das avenidas; por ela, para que pudesse dizer, ao entrar na pequena casa de Ternes: “Está vento; está a chover; o tempo está agradável;” misturando assim o oceano das coisas na intimidade do seu amor. E cada dia era belo para ela, uma vez que cada um a trazia para os braços do seu amado.
Enquanto seguia nesse dia para a pequena casa de Ternes, pensava na sua felicidade inesperada, tão plena e tão segura. Caminhava sob a última glória do sol já tocado pelo inverno, e dizia para consigo:
“Ele ama-me; creio que me ama inteiramente. Amar é mais fácil e mais natural para ele do que para outros homens. Eles têm na vida ideias que consideram superiores ao amor — fé, hábitos, interesses. Acreditam em Deus, ou em deveres, ou em si próprios. Ele acredita apenas em mim. Sou o seu Deus, o seu dever e a sua vida.”
Depois pensou:
“É verdade, também, que ele não precisa de ninguém, nem mesmo de mim. Os seus pensamentos sozinhos são um mundo magnífico no qual ele poderia facilmente viver sozinho. Mas eu não posso viver sem ele. O que seria de mim se não o tivesse?”
Ela não se sentia alarmada pela paixão violenta que ele tinha por ela. Lembrou-se de que lhe dissera um dia: “O seu amor por mim é apenas sensual. Não me queixo disso; é talvez o único amor verdadeiro.” E ele respondera: “É também o único amor grande e forte. Tem a sua medida e as suas armas. É pleno de significado e de imagens. É violento e misterioso. Prende-se à carne e à alma da carne. O resto é apenas ilusão e falsidade.” Ela estava quase tranquila na sua alegria. Suspeitas e ansiedades tinham fugido como as névoas de uma tempestade de verão. O pior tempo do seu amor tinha ocorrido quando tinham estado separados um do outro. Nunca se deve deixar aquele que se ama.
Na esquina da Avenue Marceau com a Rue Galilée, ela adivinhou mais do que reconheceu uma sombra que tinha passado por ela, uma forma esquecida. Pensou, desejou pensar, que se tinha enganado. Aquele que ela pensava ter visto já não existia, nunca tinha existido. Era um espectro visto no limbo de outro mundo, na escuridão de uma meia-luz. E continuou a caminhar, retendo daquele encontro mal definido uma impressão de frieza, de vago embaraço e de dor no coração.
À medida que avançava pela avenida, viu aproximarem-se distribuidores de jornais segurando as folhas da tarde que anunciavam o novo Gabinete. Atravessou a praça; os seus passos seguiam a impaciência feliz do seu desejo. Tinha visões de Jacques à espera dela ao pé da escada, entre as figuras de mármore; pegando-a nos braços e levando-a, a tremer de beijos, para aquele quarto cheio de sombras e de deleites, onde a doçura da vida a fazia esquecer a vida.
Mas, na solidão da Avenue MacMahon, a sombra que ela tinha visto na esquina da Rue Galilée aproximou-se dela com uma determinação inconfundível.
Reconheceu Robert Le Ménil, que, tendo-a seguido desde o cais, a estava a deter no lugar mais calmo e seguro.
O seu ar, a sua atitude, expressavam a simplicidade de motivo que tinha anteriormente agradado a Thérèse. O seu rosto, naturalmente duro, escurecido pelo sol, um pouco cavado, mas calmo, expressava um sofrimento profundo.
“Tenho de falar consigo.”
Ela abrandou o passo. Ele caminhou ao seu lado.
“Tentei esquecê-la. Depois do que aconteceu, era natural, não era? Fiz tudo o que pude. Era melhor esquecê-la, certamente; mas não consegui. Por isso comprei um barco e tenho viajado há seis meses. Sabe, talvez?”
Ela fez um sinal de que sabia.
Ele continuou:
“O Rosebud, um iate lindo. Havia seis homens na tripulação. Manobrei com eles. Foi um passatempo.”
Ele fez uma pausa. Ela caminhava devagar, entristecida e, acima de tudo, incomodada. Parecia-lhe uma coisa absurda e dolorosa, para além de qualquer expressão, ter de ouvir tais palavras de um estranho.
Ele continuou:
“O que sofri naquele barco, teria vergonha de lhe contar.”
Ela sentiu que ele falava a verdade.
“Oh, perdoo-lhe — refleti muito sozinho. Passei muitas noites e dias no divã da casa do convés, voltando sempre às mesmas ideias na minha mente. Durante seis meses pensei mais do que alguma vez fiz na minha vida. Não se ria. Não há nada como o sofrimento para expandir a mente. Compreendo que, se a perdi, a culpa é minha. Deveria ter sabido como a manter. E disse para comigo: ‘Eu não sabia. Oh, se pudesse recomeçar!’ À força de pensar e de sofrer, compreendo. Sei agora que não partilhei suficientemente os seus gostos e as suas ideias. É uma mulher superior. Não o notei antes, porque não foi por isso que a amei. Sem suspeitar, irritei-a.”
Ela abanou a cabeça. Ele insistiu.
“Sim, sim, magoei muitas vezes os seus sentimentos. Não considerei a sua delicadeza. Houve mal-entendidos entre nós. A razão é que não temos o mesmo temperamento. E depois, não soube como a divertir. Não soube como lhe proporcionar a diversão de que necessita. Não lhe procurei os prazeres que uma mulher tão inteligente quanto você requer.”
Tão simples e tão verdadeiro era ele nos seus arrependimentos e na sua dor, que ela o achou digno de simpatia. Disse-lhe, suavemente:
“Meu amigo, nunca tive razões para me queixar de si.”
Ele continuou:
“Tudo o que lhe disse é verdade. Compreendi isto quando estava sozinho no meu barco. Passei horas nele a que não condenaria o meu pior inimigo. Muitas vezes tive vontade de me atirar à água. Não o fiz. Foi porque tenho princípios religiosos ou sentimentos familiares, ou porque não tenho coragem? Não sei. A razão é, talvez, que à distância você me manteve ligado à vida. Fui atraído por si, uma vez que estou aqui. Há dois dias que a observo. Não quis reaparecer na sua casa. Não a teria encontrado sozinha; não teria podido falar consigo. E depois, teria sido forçada a receber-me. Achei melhor falar consigo na rua. A ideia veio-me no barco. Disse para comigo: ‘Na rua ela só me ouvirá se quiser, como quis há quatro anos no parque de Joinville, sabe, debaixo das estátuas, perto da coroa.’”
Ele continuou, com um suspiro:
“Sim, como em Joinville, uma vez que tudo está para ser recomeçado. Há dois dias que a observo. Ontem estava a chover; saiu de carruagem. Poderia ter-lhe seguido e sabido para onde ia, se quisesse fazê-lo. Não o fiz. Não quero fazer o que a desagradaria.”
Ela estendeu-lhe a mão.
“Agradeço-lhe. Sabia que não me arrependeria da confiança que depositei em si.”
Alarmada, impaciente, temendo o que mais ele pudesse dizer, ela tentou escapar-lhe.
“Adeus! Tem toda a vida pela frente. Deve ser feliz. Aprecie-a e não se atormente por coisas que não valem o trabalho.”
Ele deteve-a com um olhar. O seu rosto tinha mudado para a expressão violenta e resoluta que ela conhecia.
“Disse-lhe que tenho de falar consigo. Ouça-me por um minuto.”
Ela pensava em Jacques, que estava à espera dela. Um transeunte ocasional olhava para ela e seguia o seu caminho. Ela parou debaixo dos ramos negros de uma árvore e esperou com piedade e medo na alma.
Ele disse:
“Perdoo-lhe e esqueço tudo. Volte para mim. Prometo nunca dizer uma palavra sobre o passado.”
Ela estremeceu e fez um movimento de surpresa e desagrado tão natural que ele parou. Depois, após um momento de reflexão:
“A minha proposta para si não é comum, sei-o bem. Mas refleti. Pensei em tudo. É a única coisa possível. Pense nisso, Thérèse, e não responda de imediato.”
“Seria errado enganá-lo. Não posso, não quero fazer o que diz; e sabe a razão porquê.”
Um táxi passava lentamente perto deles. Ela fez sinal ao cocheiro para parar. Le Ménil reteve-a mais um momento.
“Sabia que me diria isto, e é por isso que lhe digo: não responda de imediato.”
Com os dedos na maçaneta da porta, ela voltou para ele o brilho dos seus olhos cinzentos.
Foi um momento doloroso para ele. Lembrou-se da época em que via aqueles olhos cinzentos encantadores brilharem sob as pálpebras semicerradas. Ele sufocou um soluço e murmurou:
“Ouça; não posso viver sem si. Amo-a. É agora que a amo. Antigamente não sabia.”
E enquanto ela dava ao cocheiro, ao acaso, a morada de um alfaiate, Le Ménil afastou-se.
O encontro causou-lhe muito desconforto e ansiedade. Uma vez que era forçada a encontrá-lo novamente, teria preferido vê-lo violento e brutal, como fora em Florença. Na esquina da avenida, ela disse ao cocheiro:
“Para Ternes.”
CAPÍTULO XXXII. O LÍRIO VERMELHO
Era sexta-feira, na ópera. O pano caíra sobre o laboratório de Fausto. Da orquestra, os óculos de ópera eram erguidos numa inspeção ao teatro de ouro e púrpura. A cortina sombria dos camarotes emoldurava as cabeças deslumbrantes e os ombros nus das mulheres. O anfiteatro dobrava sobre a plateia a sua grinalda de diamantes, cabelos, gaze e cetim. Nos camarotes de proscénio estavam a esposa do Embaixador da Áustria e a Duquesa Gladwin; no anfiteatro, Berthe d’Osigny e Jane Tulle, esta última tornada famosa no dia anterior pelo suicídio de um dos seus amantes; nos camarotes, Madame Bérard de La Malle, de olhos baixos, as suas longas pestanas a sombrear as suas faces puras; a Princesa Seniavine, que, parecendo soberba, escondia sob o leque bocejos de pantera; Madame de Morlaine, entre duas jovens que ela formava nas elegâncias do espírito; Madame Meillan, descansando segura sobre trinta anos de beleza soberana; Madame Berthier-d’Eyzelles, ereta sob cabelos grisalhos a brilhar com diamantes. O florescer das suas faces realçava a austeridade digna da sua atitude. Ela atraía muita atenção. Tinha-se sabido de manhã que, após o fracasso da última combinação de Garain, M. Berthier-d’Eyzelles tinha assumido a tarefa de formar um Ministério. Os jornais publicavam listas com o nome de Martin-Belleme para o tesouro, e os óculos de ópera voltavam-se para o camarote ainda vazio da Condessa Martin.
Um murmúrio de vozes enchia a sala. Na terceira fila da plateia, o General Larivière, de pé no seu lugar, falava com o General de La Briche.
“Farei como tu, meu velho camarada, vou plantar couves em Touraine.”
Ele estava num dos seus momentos de melancolia, em que o nada lhe parecia ser o fim da vida. Adulara Garain, e Garain, achando-o demasiado esperto, preferira para Ministro da Guerra um general de artilharia míope e nacional. Pelo menos, o General saboreava o prazer de ver Garain abandonado, traído pelos seus amigos Berthier-d’Eyzelles e Martin-Belleme. Fazia-o rir até às rugas dos seus pequenos olhos. Ria-se de perfil. Cansado de uma longa vida de dissimulação, deu a si próprio subitamente a alegria de expressar os seus pensamentos.
“Vês, meu bom La Briche, fazem-nos de parvos com o seu exército civil, que custa muito e não vale nada. Pequenos exércitos são os únicos bons. Esta era a opinião de Napoleão I, que sabia.”
“É verdade, é muito verdade”, suspirou o General de La Briche, com lágrimas nos olhos.
Montessuy passou por eles; Larivière estendeu-lhe a mão.
“Dizem, Montessuy, que foste tu quem travou Garain. Aceita os meus cumprimentos.”
Montessuy negou ter exercido qualquer influência política. Não era senador, nem deputado, nem conselheiro-geral. E, olhando através dos seus óculos para a sala:
“Vê, Larivière, naquele camarote à direita, uma mulher muito bonita, uma morena.”
E sentou-se calmamente, saboreando os doces do poder.
Entretanto, na sala, nos corredores, os nomes dos novos Ministros passavam de boca em boca no meio de uma indiferença profunda: Presidente do Conselho e Ministro do Interior, Berthier-d’Eyzelles; Justiça e Religiões, Loyer; Tesouro, Martin-Belleme. Todos os ministros eram conhecidos, exceto os do Comércio, da Guerra e da Marinha, que ainda não estavam designados.
O pano levantou-se sobre a taberna de Baco. Os estudantes cantavam o seu segundo coro quando Madame Martin apareceu no seu camarote. O seu vestido branco tinha mangas como asas, e no drapeado do seu corpete, no peito esquerdo, brilhava um grande lírio de rubi.
Miss Bell estava sentada perto dela, num vestido de veludo verde ao estilo da Rainha Ana. Noiva do Príncipe Eusebio Albertinelli della Spina, tinha vindo a Paris para encomendar o seu enxoval.
No movimento e no ruído da quermesse, ela disse:
“Querida, deixaste em Florença um amigo que retém o encanto da tua memória. É o Professor Arrighi. Ele reserva para ti o elogio — que ele diz ser o mais belo. Ele diz que és uma criatura musical. Mas como poderia o Professor Arrighi esquecer-te, querida, uma vez que as árvores no jardim não se esqueceram de ti? Os seus ramos sem folhas lamentam a tua ausência. Até eles sentem a tua falta, querida.”
“Diz-lhes”, disse Thérèse, “que tenho de Fiesole uma reminiscência deliciosa, que guardarei sempre.”
No fundo do camarote da ópera, M. Martin-Belleme explicava em voz baixa as suas ideias a Joseph Springer e a Duviquet. Ele dizia: “A assinatura de França é a melhor do mundo.” Ele inclinava-se para a prudência em assuntos financeiros.
E Miss Bell disse:
“Querida, direi às árvores de Fiesole que sentes a falta delas e que em breve virás visitá-las nas suas colinas. Mas pergunto-te, vês o Monsieur Dechartre em Paris? Gostaria muito de o ver. Gosto dele porque o seu espírito é gracioso. Querida, o espírito do Monsieur Dechartre é cheio de graça e elegância.”
Thérèse respondeu que o Monsieur Jacques Dechartre estava sem dúvida no teatro, e que ele não deixaria de vir cumprimentar Miss Bell.
O pano caiu sobre a alegria da cena da valsa. Os visitantes enchiam os foyers. Banqueiros, artistas, deputados encontravam-se na antecâmara contígua ao camarote. Rodeavam M. Martin-Belleme, murmuravam congratulações educadas, faziam gestos graciosos para ele e empurravam-se para lhe apertar a mão. Joseph Schmoll, a tossir, a queixar-se, cego e surdo, abria caminho através da multidão e chegava junto de Madame Martin. Ele pegou-lhe na mão e disse:
“Dizem que o seu marido foi nomeado Ministro. É verdade?”
Ela sabia que falavam disso, mas não pensava que ele tivesse sido nomeado ainda. O seu marido estava lá, por que não perguntar-lhe?
Sensível apenas a verdades literais, Schmoll disse:
“O seu marido ainda não é Ministro? Quando for nomeado, pedir-lhe-ei uma entrevista. É um assunto da maior importância.”
Ele fez uma pausa, lançando dos seus óculos de ouro os olhares de um cego e de um visionário, que o mantinham, apesar da brutal exatidão do seu temperamento, num tipo de estado de espírito místico. Ele perguntou, bruscamente:
“Esteve em Itália este ano, Madame?”
E, sem lhe dar tempo para responder:
“Sei, sei. Foi a Roma. Viu o arco do infame Tito, esse monumento execrável, onde se pode ver o candelabro de sete braços entre os despojos dos judeus. Pois bem, Madame, é uma vergonha para o mundo que esse monumento permaneça de pé na cidade de Roma, onde os Papas apenas subsistiram graças à arte dos judeus, financistas e cambistas. Os judeus trouxeram para a Itália a ciência da Grécia e do Oriente. O Renascimento, Madame, é obra de Israel. Esta é a verdade, certa, mas incompreendida.”
E atravessou a multidão de visitantes, esmagando chapéus à sua passagem.
A Princesa Seniavine observava a amiga do seu camarote com a curiosidade que a beleza das mulheres por vezes nela suscitava. Fez um sinal a Paul Vence, que estava perto dela:
“Não acha que a Madame Martin está extraordinariamente bela este ano?”
No saguão, cheio de luz e de ouro, o General de La Briche perguntou a Lariviere:
“Viu o meu sobrinho?”
“O seu sobrinho, Le Menil?”
“Sim — Robert. Ele estava no teatro há pouco.”
La Briche permaneceu pensativo por um momento. Depois disse:
“Ele veio este verão a Semanville. Achei-o estranho. Um rapaz encantador, franco e inteligente. Mas deveria ter alguma ocupação, algum objetivo na vida.”
A campainha que anunciava o fim do intervalo entre os atos tinha silenciado. No foyer, os dois velhos caminhavam sós.
“Um objetivo na vida”, repetiu La Briche, alto, magro e curvado, enquanto o seu companheiro, aliviado e rejuvenescido, apressava-se para dentro, temendo perder uma cena.
Marguerite, no jardim, fiava e cantava. Quando terminou, Miss Bell disse à Madame Martin:
“Querida, o Monsieur Choulette escreveu-me uma carta perfeitamente linda. Disse-me que é muito célebre. E fico contente por saber disso. Disse também: ‘A glória de outros poetas repousa em mirra e plantas aromáticas. A minha sangra e geme debaixo de uma chuva de pedras e de cascas de ostra.’ Será, minha querida, que os franceses atiram mesmo pedras ao Monsieur Choulette?”
Enquanto Therese tranquilizava Miss Bell, Loyer, imperioso e algo ruidoso, fez abrir a porta do camarote. Apareceu molhado e salpicado de lama.
“Venho do Eliseu”, disse ele.
Teve a gentileza de anunciar à Madame Martin, em primeiro lugar, a boa nova que trazia:
“Os decretos estão assinados. O seu marido tem as Finanças. É uma boa pasta.”
“O Presidente da República”, indagou o M. Martin-Belleme, “não levantou qualquer objeção quando o meu nome foi pronunciado?”
“Não; Berthier louvou a propriedade hereditária dos Martins, a sua prudência e os laços com que está ligado a certas personalidades do mundo financeiro cujo concurso pode ser útil ao governo. E o Presidente, de acordo com a feliz expressão de Garain, inspirou-se nas necessidades da situação. Assinou.”
No rosto amarelado do Conde Martin surgiram duas ou três rugas. Ele sorria.
“O decreto”, continuou Loyer, “será publicado amanhã. Acompanhei eu próprio o funcionário que o levou para a tipografia. Era mais seguro. No tempo de Grévy, e Grévy não era um idiota, os decretos eram interceptados na viagem do Eliseu ao Quai Voltaire.”
E Loyer atirou-se para uma cadeira. Ali, desfrutando a visão da Madame Martin, continuou:
“As pessoas não dirão, como faziam no tempo do meu pobre amigo Gambetta, que à república faltam mulheres. Dar-nos-á belas festas, Madame, nos salões do Ministério.”
Marguerite, olhando-se ao espelho, com o seu colar e brincos, cantava a ária das joias.
“Teremos de redigir a declaração”, disse o Conde Martin. “Pensei nisso. Para o meu departamento encontrei, creio eu, uma bela fórmula.”
Loyer encolheu os ombros.
“Meu caro Martin, não temos nada de essencial a mudar na declaração do Gabinete precedente; a situação é inalterada.”
Bateu na testa com a mão.
“Oh, esquecia-me. Fizemos do seu amigo, o velho Lariviere, Ministro da Guerra, sem o consultar. Tenho de o avisar.”
Achou que o poderia encontrar no café do boulevard, onde os militares costumam ir. Mas o Conde Martin sabia que o General estava no teatro.
“Tenho de o encontrar”, disse Loyer.
Inclinando-se para Therese, disse:
“Permite-me, Condessa, que lhe leve o seu marido?”
Tinham acabado de sair quando Jacques Dechartre e Paul Vence entraram no camarote.
“Parabéns, Madame”, disse Paul Vence.
Mas ela voltou-se para Dechartre:
“Espero que não tenha vindo também para me dar os parabéns.”
Paul Vence perguntou-lhe se se mudaria para os apartamentos do Ministério.
“Oh, não”, respondeu ela.
“Pelo menos, Madame”, disse Paul Vence, “irá aos bailes do Eliseu, e admiraremos a arte com que mantém o seu charme misterioso.”
“As mudanças de gabinete”, disse a Madame Martin, “inspiram-lhe, Monsieur Vence, reflexões muito frívolas.”
“Madame”, continuou Paul Vence, “não direi como Renan, o meu amado mestre: ‘O que importa a Sirius?’, porque alguém responderia com razão ‘O que importa à pequena Terra a grande Sirius?’ Mas fico sempre surpreendido quando pessoas adultas, e até idosas, se deixam iludir pela ilusão do poder, como se a fome, o amor e a morte, todas as necessidades ignóbeis ou sublimes da vida, não exercessem sobre os homens um império demasiado soberano para lhes deixar outra coisa que não seja poder escrito em papel e um império de palavras. E, o que é ainda mais maravilhoso, as pessoas imaginam ter outros chefes de estado e outros ministros que não as suas misérias, os seus desejos e a sua imbecilidade. Foi um homem sábio quem disse: ‘Demos aos homens a ironia e a piedade como testemunhas e juízes.’”
“Mas, Monsieur Vence”, disse a Madame Martin, a rir, “é o senhor quem escreveu isso. Li-o.”
Os dois Ministros procuraram inutilmente no teatro e nos corredores pelo General. Por conselho dos porteiros, foram aos bastidores.
Duas bailarinas estavam de pé, tristemente, com um pé na barra colocada contra a parede. Aqui e ali, homens de casaca e mulheres de gaze formavam grupos quase silenciosos.
Loyer e Martin-Belleme, ao entrarem, tiraram os chapéus. Viram, no fundo da sala, Lariviere com uma rapariga bonita cuja túnica cor-de-rosa, presa por um cinto de ouro, estava aberta nas ancas.
Ela segurava na mão uma taça de cartão dourado. Quando eles se aproximaram, ouviram-na dizer ao General:
“É velho, com certeza, mas acho que faz tanto como ele.”
E apontava desdenhosamente para um jovem sorridente, com uma gardénia na botoeira, que estava perto deles.
Loyer fez sinal ao General de que queria falar-lhe e, empurrando-o contra a barra, disse:
“Tenho o prazer de lhe anunciar que foi nomeado Ministro da Guerra.”
Lariviere, desconfiado, não disse nada. Aquele homem mal vestido e de cabelos compridos, que, sob o seu casaco poeirento, parecia um palhaço, inspirava-lhe tão pouca confiança que suspeitou de uma armadilha, talvez uma má partida.
“O Monsieur Loyer é o Guardião dos Selos”, disse o Conde Martin.
“General, não pode recusar”, disse Loyer. “Disse que aceitaria. Se hesitar, estará a favorecer o regresso ofensivo de Garain. Ele é um traidor.”
“Meu caro colega, exagera”, disse o Conde Martin; “mas Garain, talvez, peque um pouco pela falta de franqueza. E o apoio do General é urgente.”
“A Pátria antes de tudo”, respondeu Lariviere com emoção.
“Sabe, General”, continuou Loyer, “as leis existentes devem ser aplicadas com moderação.”
Ele olhou para as duas bailarinas que estendiam as suas pernas curtas e musculosas na barra.
Lariviere murmurou:
“O patriotismo do exército é excelente; a boa vontade dos chefes está à altura das circunstâncias mais críticas.”
Loyer deu-lhe uma palmada no ombro.
“Meu caro colega, há alguma utilidade em ter grandes exércitos.”
“Penso como o senhor”, respondeu Lariviere; “o exército atual preenche as necessidades superiores da defesa nacional.”
“A utilidade dos grandes exércitos”, continuou Loyer, “é tornar a guerra impossível. Seria loucura empenhar numa guerra estas forças imensuráveis, cuja gestão supera toda a faculdade humana. Não é a sua opinião, General?”
O General Lariviere piscou o olho.
“A situação”, disse ele, “exige circunspeção. Estamos perante um desconhecido perigoso.”
Então Loyer, olhando para o seu colega da guerra com cínico desprezo, disse:
“No caso muito improvável de uma guerra, não acha, meu caro colega, que os verdadeiros generais seriam os chefes de estação?”
Os três Ministros saíram pela escada privada. O Presidente do Conselho esperava-os.
O último ato tinha começado; a Madame Martin tinha no seu camarote apenas Dechartre e Miss Bell. Miss Bell dizia:
“Regozijo-me, querida, estou exaltada, ao pensar que usa sobre o seu coração o lírio vermelho de Florença. O Monsieur Dechartre, cuja alma é artística, deve estar muito contente também por ver no seu decote essa joia encantadora.
Gostaria de saber qual foi o joalheiro que a fez, querida. Este lírio é ágil e flexível como uma íris. Oh, é elegante, magnífico e cruel. Já reparou, minha querida, que as joias bonitas têm um ar de magnífica crueldade?”
“O meu joalheiro”, disse Therese, “está aqui, e o senhor nomeou-o; é o Monsieur Dechartre quem desenhou esta joia.”
A porta do camarote abriu-se. Therese virou ligeiramente a cabeça e viu na sombra Le Menil, que a cumprimentava com a sua brusca flexibilidade.
“Transmiti, rogo-lhe, Madame, os meus parabéns ao seu marido.”
Elogiou-a pelo seu belo aspeto. Dirigiu a Miss Bell algumas palavras corteses e precisas.
Therese ouvia ansiosamente, a boca entreaberta no esforço doloroso de dizer coisas insignificantes em resposta. Ele perguntou-lhe se tinha passado uma boa temporada em Joinville. Teria gostado de ir na época da caça, mas não pôde. Tinha ido ao Mediterrâneo, depois caçara em Semanville.
“Oh, Monsieur Le Menil”, disse Miss Bell, “o senhor vagueou pelo mar azul. Viu sereias?”
Não, não tinha visto sereias, mas durante três dias um golfinho nadara na esteira do iate.
Miss Bell perguntou-lhe se aquele golfinho gostava de música.
Ele achou que não.
“Os golfinhos”, disse ele, “são peixes muito comuns a que os marinheiros chamam gansos-do-mar, porque têm cabeças com o formato de ganso.”
Mas Miss Bell não queria acreditar que o monstro que tinha conquistado o poeta Árion tivesse uma cabeça com o formato de ganso.
“Monsieur Le Menil, se no próximo ano um golfinho vier nadar perto do seu barco, peço-lhe que toque para ele na flauta o Hino Délfico a Apolo. Gosta do mar, Monsieur Le Menil?”
“Prefiro os bosques.”
Reservado, simples, falava calmamente.
“Oh, Monsieur Le Menil, sei que gosta dos bosques onde as lebres dançam ao luar.”
Dechartre, pálido, levantou-se e saiu.
A cena da igreja estava a decorrer. Marguerite, de joelhos, torcia as mãos, e a sua cabeça pendia com o peso das suas longas tranças. As vozes do órgão e do coro cantavam o canto fúnebre.
“Oh, querida, sabe que esse canto fúnebre, que é cantado apenas nas igrejas católicas, vem de um eremitério franciscano? Soa como o vento que sopra no inverno nas árvores sobre o cume do Alverne.”
Therese não ouvia. A sua alma tinha seguido Dechartre através da porta do seu camarote.
Na antecâmara ouvia-se um ruído de cadeiras derrubadas. Era Schmoll que voltava. Tinha sabido que o M. Martin-Belleme tinha sido recentemente nomeado Ministro. Imediatamente reclamou a cruz de Comendador da Legião de Honra e um apartamento maior no Instituto. O seu apartamento era pequeno, estreito, insuficiente para a sua mulher e as suas cinco filhas. Fora forçado a colocar a sua oficina debaixo do telhado. Fez longas queixas e só consentiu em ir-se embora depois de a Madame Martin ter prometido que falaria com o seu marido.
“Monsieur Le Menil”, perguntou Miss Bell, “irá andar de iate no próximo ano?”
Le Menil achou que não. Não pretendia manter o Rosebud. A água era cansativa.
E calmo, enérgico, determinado, olhou para Therese.
No palco, na prisão de Marguerite, Mefistófeles cantava, e a orquestra imitava o galope dos cavalos. Therese murmurou:
“Tenho dor de cabeça. Está muito calor aqui.”
Le Menil abriu a porta.
A frase límpida de Marguerite chamando os anjos subiu ao céu em faíscas brancas.
“Querida, dir-lhe-ei que a pobre Marguerite não deseja ser salva segundo a carne, e por essa razão é salva em espírito e em verdade. Acredito numa coisa, querida, acredito firmemente que seremos todos salvos. Oh, sim, acredito na purificação final dos pecadores.”
Therese levantou-se, alta e branca, com a flor vermelha ao peito. Miss Bell, imóvel, ouvia a música. Le Menil, na antecâmara, pegou no manto da Madame Martin e, enquanto o segurava desdobrado, ela atravessou o camarote, a antecâmara, e parou diante do espelho da porta entreaberta. Ele colocou nos seus ombros nus a capa de veludo vermelho bordada a ouro e forrada de arminho, e disse, em tom baixo, mas distinto:
“Therese, amo-te. Lembra-te do que te pedi anteontem. Estarei todos os dias, às três horas, na nossa casa, na Rue Spontini.”
Nesse momento, ao fazer um movimento com a cabeça para receber o manto, viu Dechartre com a mão no trinco da porta. Ele tinha ouvido. Olhou-a com todo o reproche e sofrimento que olhos humanos podem conter. Depois entrou no corredor escuro. Ela sentiu martelos de fogo a bater no seu peito e permaneceu imóvel no limiar.
“Estava à minha espera?” disse Montessuy. “Ficou sozinha hoje. Eu escoltá-la-ei a si e à Miss Bell.”
CAPÍTULO XXXIII. UMA NOITE BRANCA
Na carruagem, e no seu quarto, viu de novo o olhar do seu amante, esse olhar cruel e doloroso. Sabia com que facilidade ele caía no desespero, a rapidez da sua vontade em não querer. Tinha-o visto fugir assim na margem do Arno. Feliz então na sua tristeza e na sua angústia, pôde correr atrás dele e dizer: “Vem.” Agora, novamente rodeada, vigiada, deveria ter encontrado algo a dizer, e não o ter deixado ir, mudo e desolado. Tinha permanecido surpreendida, atordoada. O acidente fora tão absurdo e tão rápido! Tinha contra Le Menil o sentimento de simples raiva que as coisas maldosas causam. Repreendia-se amargamente por ter permitido que o seu amante partisse sem uma palavra, sem um olhar, onde pudesse ter depositado a sua alma.
Enquanto Pauline esperava para a despir, Therese andava de um lado para o outro impacientemente. Depois parou subitamente. Nos espelhos obscuros, onde os reflexos das velas se afogavam, viu o corredor do teatro, e o seu amado a fugir dela através dele.
Onde estaria ele agora? O que estaria ele a dizer a si próprio, sozinho? Era uma tortura para ela não poder juntar-se a ele e vê-lo de novo imediatamente.
Pressionou o coração com as mãos; estava a sufocar.
Pauline soltou um grito. Viu gotas de sangue no corpete branco da sua patroa.
Therese, sem saber, tinha picado a mão com o lírio vermelho.
Desprendeu a joia emblemática que tinha usado perante todos como o segredo deslumbrante do seu coração, e, segurando-a entre os dedos, contemplou-a durante muito tempo. Depois viu de novo os dias de Florença — a cela de São Marcos, onde o beijo do seu amante pesava delicadamente na sua boca, enquanto, através das suas pestanas baixadas, percebia vagamente de novo os anjos e o céu pintados na parede, e a fonte deslumbrante do vendedor de gelo contra o pano brilhante; o pavilhão da Via Alfieri, as suas ninfas, as suas cabras, e o quarto onde os pastores e as máscaras nos biombos ouviam os seus suspiros e notavam os seus longos silêncios.
Não, todas estas coisas não eram sombras do passado, espetros de horas antigas. Eram a realidade presente do seu amor. E uma palavra estupidamente lançada por um estranho destruiria estas coisas belas! Felizmente, não era possível. O seu amor, o seu amante, não dependiam de assuntos tão insignificantes. Se pudesse apenas correr para a casa dele! Encontrá-lo-ia diante da lareira, os cotovelos nos joelhos, a cabeça nas mãos, triste. Então passaria os dedos pelos cabelos dele, forçá-lo-ia a levantar a cabeça, a ver que ela o amava, que ela era o seu tesouro, palpitando de alegria e de amor.
Tinha dispensado a sua criada. Na cama pensava apenas numa coisa.
Era um acidente, um acidente absurdo. Ele compreendê-lo-ia; ele saberia que o amor deles não tinha nada que ver com nada tão estúpido. Que loucura a dele preocupar-se com outro! Como se houvesse outros homens no mundo!
O M. Martin-Belleme entreabriu a porta do quarto. Vendo luz, entrou.
“Não estás a dormir, Therese?”
Tinha estado numa conferência com os seus colegas. Queria conselhos da sua mulher sobre certos pontos. Precisava de ouvir palavras sinceras.
“Está feito”, disse ele. “Ajudar-me-ás, tenho a certeza, na minha situação, que é muito invejada, mas muito difícil e até perigosa. Devo-a a ti um pouco, já que me veio através da poderosa influência do teu pai.”
Consultou-a sobre a escolha de um Chefe de Gabinete.
Ela aconselhou-o como pôde. Achava-o sensato, calmo e não mais tolo do que muitos outros.
Ele perdia-se em reflexões.
“Tenho de defender perante o Senado o orçamento votado pela Câmara dos Deputados. O orçamento contém inovações que não aprovei. Quando era deputado lutei contra elas. Agora que sou ministro tenho de as apoiar. Via as coisas do exterior antigamente. Vejo-as do interior agora, e o seu aspeto mudou. E, depois, já não sou livre.”
Ele suspirou:
“Ah, se o povo soubesse o pouco que podemos fazer quando somos poderosos!”
Contou-lhe as suas impressões. Berthier era reservado. Os outros eram impenetráveis. Só Loyer era excessivamente autoritário.
Ela ouvia-o sem atenção e sem impaciência. O seu rosto pálido e a sua voz marcavam para ela, como um relógio, os minutos que passavam com uma lentidão intolerável.
Loyer tinha tiradas de espírito estranhas. Imediatamente depois de ter declarado a sua estrita adesão à Concordata, disse: “Os bispos são prefeitos espirituais. Protegê-los-ei já que me pertencem. E através deles controlarei os guardiões das almas, os curas.”
Ele relembrou-lhe que teria de conhecer pessoas que não eram da sua classe e que a chocariam pela sua vulgaridade. Mas a sua situação exigia que não desdenhasse ninguém. De qualquer modo, contava com o seu tato e com a sua devoção.
Ela olhou para ele, um pouco espantada.
“Não há pressa, meu querido. Veremos mais tarde.”
Ele estava cansado. Disse boa-noite e aconselhou-a a dormir. Ela estava a arruinar a sua saúde ao ler toda a noite. Ele deixou-a.
Ela ouviu o ruído dos seus passos, mais pesados do que o habitual, enquanto ele atravessava a biblioteca, atulhada de livros azuis e jornais, para chegar ao seu quarto, onde talvez dormisse. Então sentiu sobre si o peso do silêncio da noite. Olhou para o seu relógio. Eram uma hora e meia.
Disse para consigo: “Ele, também, está a sofrer. Olhou para mim com tanto desespero e raiva.”
Ela era corajosa e ardente. Estava impaciente por ser prisioneira. Quando o dia chegasse, ela iria, ver-lo-ia, explicar-lhe-ia tudo. Era tão claro! Na monotonia dolorosa do seu pensamento, ouvia o rolar das carroças que, a longos intervalos, passavam no cais. Esse ruído preocupava-a, quase a interessava. Ouvia o estrondo, primeiro fraco e distante, depois mais forte, no qual conseguia distinguir o rolar das rodas, o ranger dos eixos, o choque das ferraduras dos cavalos, que, diminuindo pouco a pouco, terminava num murmúrio impercetível.
E quando o silêncio regressava, caía de novo na sua devaneio.
Ele compreenderia que ela o amava, que nunca tinha amado ninguém exceto ele. Era infeliz que a noite fosse tão longa. Não se atrevia a olhar para o relógio por medo de ver nele a imobilidade do tempo.
Levantou-se, foi até à janela e correu as cortinas. Havia uma luz pálida no céu nublado. Pensou que pudesse ser o início da alvorada. Olhou para o relógio. Eram três e meia.
Voltou para a janela. A infinidade sombria do exterior atraía-a. Olhou. Os passeios brilhavam sob os bicos de gás. Caía uma chuva suave. De repente, uma voz elevou-se no silêncio; aguda e, depois, grave, parecia composta por várias vozes que se respondiam. Era um bêbado a discutir com os seres do seu sonho, aos quais generosamente dava a palavra, e com os quais se confundia depois com grandes gestos e frases furiosas. Thérèse podia ver o pobre homem caminhar ao longo do parapeito na sua blusa branca, e podia ouvir as palavras que se repetiam incessantemente: "É isto que eu digo ao governo."
Enregelada, regressou à cama. Pensou: "Ele está ciumento, está loucamente ciumento. É uma questão de nervos e de sangue. Mas o seu amor também é um assunto de sangue e de nervos. O seu amor e o seu ciúme são a mesma coisa. Outro compreenderia. Bastaria agradar ao seu amor-próprio." Mas ele estava ciumento do fundo da sua alma. Ela sabia-o; sabia que, nele, o ciúme era uma tortura física, uma ferida ampliada pela imaginação. Sabia quão profundo era o mal. Vira-o empalidecer diante do São Marcos de bronze quando ela atirara a carta para a caixa na parede da velha casa florentina, numa altura em que ela só era dele nos sonhos.
Recordou as suas queixas abafadas, os seus súbitos ataques de tristeza e o mistério doloroso das palavras que ele repetia frequentemente: "Só te consigo esquecer quando estou contigo." Viu de novo a carta de Dinard e o seu desespero furioso perante uma palavra ouvida à mesa de uma taberna. Sentiu que o golpe fora desferido acidentalmente no ponto mais sensível, na ferida aberta. Mas não perdeu a coragem. Diria tudo, confessaria tudo, e todas as suas confissões dir-lhe-iam: "Amo-te. Nunca amei ninguém exceto tu!" Não o traíra. Não lhe diria nada que ele não tivesse adivinhado. Mentira tão pouco, o menos possível, e apenas para não lhe causar dor. Como podia ele não compreender? Era melhor que ele soubesse tudo, uma vez que tudo não significava nada. Representava incessantemente para si as mesmas ideias, repetia para si as mesmas palavras.
O seu candeeiro dava apenas uma luz esfumada. Acendeu velas. Eram seis horas. Apercebeu-se de que tinha adormecido. Correu para a janela. O céu estava negro e misturava-se com a terra num caos de escuridão espessa. Depois, teve curiosidade de saber exatamente a que horas o sol nasceria. Não fazia ideia disso. Pensava apenas que as noites eram longas em dezembro. Não pensou em olhar para o calendário. O passo pesado dos trabalhadores que caminhavam em grupos, o ruído das carroças dos leiteiros e dos vendedores ambulantes, chegavam aos seus ouvidos como sons de bom augúrio. Estremeceu com este primeiro despertar da cidade.
CAPÍTULO XXXIV. "VEJO SEMPRE O OUTRO CONTIGO!"
Às nove horas, no pátio da pequena casa, observou o Sr. Fusellier a varrer, à chuva, enquanto fumava o seu cachimbo. A Sra. Fusellier saiu da sua guarita. Ambos pareciam embaraçados. A Sra. Fusellier foi a primeira a falar:
"O senhor Jacques não está em casa." E, como Thérèse permanecesse silenciosa, imóvel, Fusellier aproximou-se dela com a sua vassoura, escondendo com a mão esquerda o cachimbo atrás das costas--
"O senhor Jacques ainda não chegou a casa."
"Esperarei por ele", disse Thérèse.
A Sra. Fusellier levou-a para a sala, onde acendeu o lume. Como a madeira fumegava e não queria arder, ficou curvada, com as mãos sobre os joelhos.
"É a chuva", disse ela, "que causa o fumo."
A Sra. Martin disse que não valia a pena fazer lume, que não sentia frio.
Viu-se no espelho.
Estava lívida, com manchas brilhantes nas faces. Só então sentiu que tinha os pés gelados. Aproximou-se do lume. A Sra. Fusellier, vendo-a ansiosa, falou-lhe suavemente:
"O senhor Jacques virá em breve. Deixe a senhora aquecer-se enquanto espera por ele."
Uma luz difusa caía com a chuva sobre o teto de vidro.
Na parede, a dama com o unicórnio não era bela entre os cavaleiros, numa floresta cheia de flores e pássaros. Thérèse repetia para si mesma as palavras: "Ele ainda não chegou a casa." E à força de dizer isto, perdeu-lhe o sentido. Com olhos ardentes, olhou para a porta.
Permaneceu assim sem um movimento, sem um pensamento, durante um tempo cuja duração desconhecia; talvez meia hora. O ruído de um passo chegou-lhe aos ouvidos, a porta abriu-se. Ele entrou. Ela viu que ele estava molhado da chuva e da lama, e a arder em febre.
Fixou nele um olhar tão sincero e tão franco que o atingiu. Mas, quase de imediato, ele recordou dentro de si todos os seus sofrimentos.
Disse-lhe:
"O que queres de mim? Fizeste-me todo o mal que podias fazer-me."
O cansaço dava-lhe um ar de doçura. Isso assustou-a.
"Jacques, ouve-me!"
Ele fez-lhe um gesto de que não queria ouvir nada dela.
"Jacques, ouve-me. Eu não te enganei. Oh, não, eu não te enganei. Seria possível? Teria sido..."
Ele interrompeu-a:
"Tem piedade de mim. Não me faças sofrer outra vez. Deixa-me, suplico-te. Se soubesses a noite que passei, não terias a coragem de me atormentar novamente."
Deixou-se cair no divã. Tinha caminhado toda a noite. Para não sofrer demasiado, tentara encontrar distrações. No Quai de Bercy, olhara para a lua a flutuar nas nuvens. Durante uma hora, vira-a velar-se e reaparecer. Depois, contara as janelas das casas com um cuidado minucioso. A chuva começara a cair. Fora ao mercado e bebera uísque numa taberna. Uma rapariga grande que era estrábica dissera-lhe: "Não pareces feliz." Adormecera a meio no banco de couro. Fora um momento de esquecimento. As imagens daquela noite dolorosa passaram diante dos seus olhos. Ele disse: "Recordei a noite do Arno. Estragaste-me toda a alegria e a beleza do mundo." Pediu-lhe que o deixasse sozinho. Na sua lassidão, sentia uma grande piedade de si mesmo. Teria gostado de dormir -- não de morrer; tinha horror à morte -- mas de dormir e nunca mais acordar. Contudo, diante dele, tão desejável como dantes, apesar da imobilidade dolorosa dos seus olhos secos, e mais misteriosa do que nunca, ele via-a. O seu ódio era vivificado pelo sofrimento.
Ela estendeu-lhe os braços. "Ouve-me, Jacques." Ele fez-lhe um sinal de que era inútil falar. Contudo, ele queria ouvi-la, e já a ouvia com avidez. Detestava e rejeitava de antemão o que ela diria, mas nada mais no mundo o interessava.
Ela disse:
"Podes ter acreditado que te estava a trair, que não vivia só para ti. Mas não consegues compreender nada? Não vês que, se esse homem fosse meu amante, não seria necessário que ele falasse comigo no teatro, naquele camarote; ele teria mil outras maneiras de me encontrar. Oh, não, meu amigo, garanto-te que, desde o dia em que tive a felicidade de te conhecer, fui inteiramente tua. Poderia eu ter sido de outro? O que imaginas é monstruoso. Mas eu amo-te, eu amo-te! Só amo a ti. Nunca amei ninguém exceto tu."
Ele respondeu lentamente, com uma crueldade pesada:
"'Estarei todos os dias, às três horas, em nossa casa, na Rue Spontini.' Não foi um amante, o teu amante, que disse estas coisas? Não! Foi um estranho, uma pessoa desconhecida."
Ela endireitou-se e, com uma gravidade dolorosa, disse:
"Sim, eu tinha sido dele. Tu sabias. Eu neguei-o, disse uma inverdade, para não te irritar ou entristecer. Via-te tão ansioso. Mas menti tão pouco e tão mal. Tu sabias. Não me censures por isso. Tu sabias; falavas-me frequentemente do passado, e depois um dia alguém te disse no restaurante -- e imaginaste muito mais do que alguma vez aconteceu. Ao dizer uma inverdade, eu não te estava a enganar. Se soubesses o pouco que ele foi na minha vida! Pois! Eu não te conhecia. Não sabia que tu virias. Estava sozinha."
Caiu de joelhos.
"Errei. Devia ter esperado por ti. Mas se soubesses quão insignificante foi isso na minha vida!"
E com a voz modulada num lamento suave e cantante, disse:
"Porque não vieste mais cedo, porque?"
Arrastou-se até ele, tentou pegar-lhe nas mãos. Ele repeliu-a.
"Fui estúpido. Não pensei. Não sabia. Não queria saber."
Ele levantou-se e exclamou, numa explosão de ódio:
"Eu não queria que ele fosse esse homem."
Ela sentou-se no lugar que ele deixara, e ali, de forma plangente, em voz baixa, explicou o passado. Naquele tempo, ela vivia num mundo horrivelmente comum. Cdera, mas arrependera-se de imediato. Se ele soubesse a tristeza da sua vida, não teria ciúmes. Teria pena dela. Ela abanou a cabeça e disse, olhando para ele através das mechas de cabelo que lhe caíam:
"Estou a falar-te de outra mulher. Não há nada em comum entre essa mulher e eu. Só existo desde que te conheci, desde que te pertenço."
Ele caminhava pelo quarto loucamente. Ria de forma dolorosa.
"Sim; mas enquanto me amavas, a outra mulher -- aquela que não eras tu?"
Ela olhou para ele com indignação:
"Podes acreditar..."
"Não o voltaste a ver em Florença? Não o acompanhaste à estação?"
Ela contou-lhe que ele viera a Itália à sua procura; que o vira; que rompera com ele; que ele partira, irritado, e que desde então tentava reconquistá-la; mas que ela nem sequer lhe tinha prestado atenção.
"Meu amado, eu só vejo, só conheço, tu no mundo." Ele abanou a cabeça.
"Não acredito em ti."
Ela revoltou-se.
"Disse-te tudo. Acusa-me, condena-me, mas não me ofendas no meu amor por ti."
Ele abanou a cabeça.
"Deixa-me. Fizeste-me demasiado mal. Amei-te tanto que toda a dor que me poderias ter dado eu a teria tomado, guardado, amado; mas isto é demasiado hediondo. Odeio-o. Deixa-me. Estou a sofrer demasiado. Adeus!"
Ela permaneceu ereta.
"Eu vim. É a minha felicidade, é a minha vida, pela qual estou a lutar. Não irei."
E disse de novo tudo o que já dissera. Violenta e sincera, segura de si, explicou como quebrara o laço que já estava frouxo e a irritava; como desde o dia em que o amara, fora apenas dele, sem remorso, sem um olhar ou um pensamento errante. Mas ao falar-lhe de outro, ela irritava-o. E ele gritou-lhe:
"Não acredito em ti."
Ela apenas repetia as suas declarações.
E, de repente, instintivamente, olhou para o relógio:
"Oh, é meio-dia!"
Tinha dado muitas vezes esse grito de alarme quando a hora da despedida os surpreendia. E Jacques estremeceu com a frase que era tão familiar, tão dolorosa, e que era desta vez tão desesperada. Durante mais alguns minutos, ela disse palavras ardentes e verteu lágrimas. Depois, deixou-o; não tinha ganho nada.
Em sua casa, encontrou na sala de espera a vendedora do mercado, que viera oferecer-lhe um ramo de flores. Lembrou-se de que o seu marido era um ministro de Estado. Havia telegramas, cartões de visita e cartas, felicitações e solicitações. A Sra. Marmet escrevia a recomendar o seu sobrinho ao General Larivière.
Entrou na sala de jantar e caiu numa cadeira. O Sr. Martin-Belleme estava a terminar o pequeno-almoço. Era esperado no Conselho de Ministros e na casa do antigo Ministro das Finanças, a quem devia uma visita.
"Não te esqueças, minha querida amiga, de visitar a Sra. Berthier d’Eyzelles. Sabes quão sensível ela é."
Ela não respondeu. Enquanto ele mergulhava os dedos na taça de vidro, viu que ela estava tão cansada que não se atreveu a dizer mais nada. Encontrava-se na presença de um segredo que não queria conhecer; na presença de um sofrimento íntimo que uma única palavra revelaria. Sentiu ansiedade, medo e um certo respeito.
Atirou o guardanapo.
"Desculpa, querida."
Saiu.
Ela tentou comer, mas não conseguiu engolir nada.
Às duas horas, regressou à pequena casa de Ternes. Encontrou Jacques no seu quarto. Ele fumava um cachimbo de madeira. Uma chávena de café quase vazia estava sobre a mesa. Ele olhou para ela com uma dureza que a enregelou. Ela não se atreveu a falar, sentindo que tudo o que pudesse dizer o ofenderia e irritaria, e ainda assim sabia que, ao permanecer discreta e muda, intensificava a sua raiva. Ele sabia que ela voltaria; tinha-a esperado com impaciência. Uma luz súbita surgiu-lhe, e viu que tinha feito mal em vir; que, se ela estivesse ausente, ele talvez a desejasse, a quisesse, a chamasse. Mas era demasiado tarde; e, de qualquer modo, ela não estava a tentar ser astuta.
Disse-lhe:
"Vês que voltei. Não podia fazer de outra forma. E depois era natural, uma vez que te amo. E tu sabes disso."
Ela sabia muito bem que tudo o que pudesse dizer apenas o irritaria. Ele perguntou-lhe se era assim que ela falava na Rue Spontini.
Ela olhou para ele com tristeza.
"Jacques, tu disseste-me muitas vezes que havia ódio e raiva no teu coração contra mim. Gostas de me fazer sofrer. Consigo ver isso."
Com paciência ardente, finalmente, contou-lhe toda a sua vida, o pouco que nela tinha posto; a tristeza do passado; e como, desde que ele a conhecera, ela vivera apenas através dele e nele.
As palavras caíam tão límpidas como o seu olhar. Sentou-se perto dele. Ele ouvia-a com uma avidez amarga. Cruel consigo próprio, ele queria saber tudo sobre os seus últimos encontros com o outro. Ela relatou fielmente os acontecimentos do Hotel Great Britain; mas mudou o cenário para o exterior, num corredor do Casino, por medo de que a imagem da sua triste entrevista num quarto fechado irritasse o seu amante. Depois, explicou o encontro na estação. Ela não tinha querido causar desespero a um homem sofredor que era tão violento. Mas, desde então, não tivera notícias dele até ao dia em que ele lhe falou na rua. Repetiu o que lhe tinha respondido. Dois dias depois, vira-o na ópera, no seu camarote. Certamente, não o tinha encorajado a vir. Era a verdade.
Era a verdade. Mas o veneno antigo, acumulando-se lentamente na sua mente, queimava-o. Ela tornava o passado, o passado irreparável, presente para ele, pelas suas confissões. Ele via imagens dele que o torturavam. Ele disse:
"Não acredito em ti."
E acrescentou:
"E se acreditasse em ti, não te poderia ver novamente, por causa da ideia de que amaste esse homem. Eu disse-te, escrevi-te, lembras-te, que eu não queria que ele fosse esse homem. E desde então..."
Ele parou.
Ela disse:
"Sabes muito bem que, desde então, nada aconteceu."
Ele respondeu, com violência:
"Desde então, vi-o."
Permaneceram em silêncio durante muito tempo. Depois, ela disse, surpreendida e plangente:
"Mas, meu amigo, devias ter pensado que uma mulher como eu, casada como eu estava -- todos os dias se veem mulheres trazer aos seus amantes um passado mais sombrio que o meu e, ainda assim, inspiram amor. Ah, o meu passado -- se soubesses quão insignificante foi!"
"Eu sei o que tu podes dar. Não se pode perdoar-te o que se pode perdoar a outra."
"Mas, meu amigo, sou como as outras."
"Não, tu não és como as outras. A ti, não se pode perdoar nada."
Ele falava com os dentes cerrados. Os seus olhos, que ela tinha visto tão grandes, a brilhar com ternura, estavam agora secos, ásperos, estreitados entre pálpebras enrugadas, e lançaram-lhe um novo olhar. Ele assustou-a. Ela foi para o fundo do quarto, sentou-se numa cadeira, e ali permaneceu, a tremer, durante muito tempo, sufocada pelos seus soluços. Depois, desatou a chorar.
Ele suspirou:
"Porque é que eu te conheci?"
Ela respondeu, a chorar:
"Não me arrependo de te ter conhecido. Estou a morrer disso, e não me arrependo. Eu amei."
Ele continuava obstinadamente a fazê-la sofrer. Sentia que estava a desempenhar um papel odioso, mas não conseguia parar.
"É possível, afinal, que também me tenhas amado."
Ela respondeu, com uma amargura suave:
"Mas eu só amei a ti. Amei-te demasiado. E é por isso que me estás a punir. Oh, podes pensar que eu fui para outro o que fui para ti?"
"Porque não?"
Ela olhou para ele sem força e sem coragem.
"É verdade que não acreditas em mim."
Acrescentou suavemente:
"Se eu me matasse, acreditar-se-ias?"
"Não, não acreditaria em ti."
Ela limpou as faces com o lenço; depois, levantando os olhos, brilhantes através das suas lágrimas, disse:
"Então, tudo está acabado!"
Levantou-se, viu de novo no quarto as mil coisas com as quais tinha vivido em intimidade risonha, que tinha considerado como suas, agora subitamente tornadas nada para ela, e a confrontá-la como uma estranha e uma inimiga. Viu de novo a mulher nua que fazia, enquanto corria, o gesto que não lhe tinha sido explicado; os modelos florentinos que lhe recordavam Fiesole e as horas encantadas de Itália; o esboço de perfil de Dechartre da rapariga que ria na sua magreza bonita e patética. Parou um momento, com simpatia, em frente daquela pequena vendedora de jornais que também ali tinha vindo, e tinha desaparecido, levada pela corrente irresistível da vida e dos acontecimentos.
Repetiu:
"Então tudo está acabado?"
Ele permaneceu em silêncio.
O crepúsculo tornava o quarto sombrio.
"O que será de mim?" perguntou ela.
"E o que será de mim?" respondeu ele.
Olharam um para o outro com simpatia, porque cada um estava comovido com a piedade de si mesmo.
Thérèse disse de novo:
"E eu, que temia envelhecer aos teus olhos, por medo de que o nosso belo amor terminasse! Teria sido melhor que nunca tivesse acontecido. Sim, seria melhor que eu não tivesse nascido. Que pressentimento foi esse que me veio, quando criança, sob as tílias de Joinville, diante das ninfas de mármore! Eu desejava morrer então."
Os seus braços caíram, e juntando as mãos, levantou os olhos; o seu olhar húmido lançou uma luz nas sombras.
"Não haverá uma maneira de eu te fazer sentir que o que te estou a dizer é verdade? Que nunca desde que fui tua, nunca... Mas como poderia? A própria ideia parece horrível, absurda. Conheces-me tão pouco?"
Ele abanou a cabeça tristemente. "Eu não te conheço."
Ela interrogou mais uma vez com os olhos todos os objetos do quarto.
"Mas então, o que fomos um para o outro foi vão, inútil. Homens e mulheres partem-se uns contra os outros; não se misturam."
Ela revoltou-se. Não era possível que ele não sentisse o que ela era para ele. E, no ardor do seu amor, lançou-se sobre ele e cobriu-o de beijos e lágrimas. Ele esqueceu tudo e tomou-a nos braços — soluçante, frágil, mas feliz — e apertou-a com a ferocidade do desejo. Com a cabeça inclinada para trás contra a almofada, ela sorria por entre as lágrimas. Então, bruscamente, ele desvencilhou-se.
"Eu não te vejo sozinha. Vejo sempre o outro contigo." Ela olhou para ele, muda, indignada, desesperada. Então, sentindo que tudo estava de facto terminado, lançou à sua volta um olhar surpreendido dos seus olhos que já não viam, e afastou-se lentamente.
MARCADORES DO EDITOR DO E-TEXTO:
Uma mulher é franca quando não mente inutilmente Um herói deve ser humano. Napoleão era humano O antissemitismo está a fazer um progresso temível em toda a parte Brilhantismo de uma fortuna demasiado nova Curiosa por conhecer o seu rosto daquele dia Decepcionou-a escapar ao perigo que temera Pensas que as pessoas não têm falado sobre nós? Não deseja que se trate disso nem com timidez nem com brutalidade Alguma vez se possui aquilo que se ama? Cada um recuperara a liberdade, mas ele não gostava de estar só Cada um estava comovido com a autocomiseração Toda a gente sabe disso Franja que faz uma margem pouco bela à cidade Dava valor à sua afabilidade não a desperdiçando Ele não conseguia imaginar que muitas vezes as palavras são o mesmo que as ações Ele estudou até ao último momento Ele não é suficientemente inteligente para duvidar Ele não guarda rancor àqueles que persegue Ele conhecia agora a divina doença do amor O seu marido tinha-se tornado bastante suportável O seu hábito de agradar prolongara a sua juventude (A criada) está treinada para respeitar a minha desordem Eu amo-me a mim próprio porque tu me amas Só te consigo esquecer quando estou contigo Eu desejava estragar o nosso passado Sinto neles (igrejas) a grandeza do nada Tenho de pagar pela felicidade que me dás Entreguei-me a ele porque ele me amava Eu não tenho um gosto, eu tenho gostos Conheci coisas que já não conheço Não desejo a tua amizade Ideias que eles pensam ser superiores ao amor — fé, hábitos, interesses Imobilidade do tempo Impaciente com elogios que não se destinavam a ele próprio Incapaz de conceber que alguém pudesse falar sem um objetivo Era uma tortura para ela não ser capaz de se reunir a ele É um erro ter razão demasiado cedo Era demasiado tarde: ela não desejava vencer Ciumento sem ter o direito de ser ciumento Beijos e carícias são o esforço de um desespero delicioso Sabia que a vida não vale tanta ansiedade nem tanta esperança Rindo em cada ruga do seu rosto Aprender a viver sem desejo Demos aos homens a ironia e a piedade como testemunhas e juízes A vida como um todo é demasiado vasta e demasiado remota A vida é feita precisamente de tais trivialidades A vida não é uma grande coisa Pouco que podemos fazer quando somos poderosos O amor é uma força suave e terrível, mais poderosa que a beleza O amor foi apenas uma breve embriaguez Os amantes nunca se separam amigavelmente Fez a vida dar tudo o que podia render Ar magnífico daqueles mendigos de que as pequenas cidades se orgulham Seres miseráveis que contribuem para a grandeza do passado Ninguém se preocupava com aquela originalidade Ninguém exceto os tolos resistia à corrente Nem tudo é conhecido, mas tudo é dito Nada é tão legítimo, tão humano, como enganar a dor Pensar-se-ia que o vento os apagaria: as estrelas Alguém que pensou primeiro em colar uma tela num painel Nunca se é gentil quando se está apaixonado Nunca se deve deixar aquela pessoa que se ama Pitorescamente feio Recantos da sua mente que ela preferia não abrir Parentes que ela não conhecia e que a irritavam Parecia-lhe que os homens eram grãos num moinho de café Ela agradava à sociedade por parecer encontrar prazer nela Ela é feliz, uma vez que gosta de se recordar Preferiria fazer uma coisa imoral a uma cruel Pessoas simples que não duvidam nem de si próprias nem dos outros Desde que estava apaixonada, tinha perdido a prudência Tão satisfeito com a sua resposta que a repetiu duas vezes Os homens superiores por vezes carecem de astúcia Aquele tipo de caridade fria que é chamada altruísmo Que se vivemos é porque esperamos Aquela absurda e generosa fúria pela posse O mais radical breviário de ceticismo desde Montaigne A porta do quarto de alguém abre-se para o infinito O passado é a única realidade humana — Tudo o que é, é passado Aquela que amarás e que te amará far-te-á mal O prazer violento de perder O desencorajamento que o irreparável provoca O verdadeiro apoio de um governo é a Oposição O político nunca deve estar à frente das circunstâncias Não há nada de bom exceto ignorar e esquecer Há muitas coisas grandes e fortes que tu não sentes Eles são o caixão a dizer: "Eu sou o berço" Para ser bela, deve uma mulher ter aquela forma delgada Tentando fazer com que Thérèse admirasse o que não conhecia Guarda-chuvas, como tartarugas negras sob os céus aquosos Criatura infeliz que é o brinquedo da vida Não fui eu suficientemente avisada da tristeza de tudo? Somos demasiado felizes; estamos a roubar a vida De que servirá ter-nos atormentado neste mundo Quer saibam ou não saibam, eles falam As mulheres nem sempre o confessam, mas é sempre culpa delas Tens de me aceitar com a minha própria alma!