O Regresso de Sherlock Holmes
por Sir Arthur Conan Doyle
Conteúdo
A Aventura da Casa Vazia A Aventura do Construtor de Norwood A Aventura dos Bonecos Dançantes A Aventura do Ciclista Solitário A Aventura da Escola do Priorado A Aventura de Black Peter A Aventura de Charles Augustus Milverton A Aventura dos Seis Napoleões A Aventura dos Três Estudantes A Aventura do Pince-Nez Dourado A Aventura do Três-Quartos Desaparecido A Aventura da Mansão Abbey A Aventura da Segunda Mancha
A AVENTURA DA CASA VAZIA
Foi na primavera do ano de 1894 que toda a cidade de Londres se viu interessada, e o mundo elegante consternado, pelo homicídio do Honorável Ronald Adair, sob circunstâncias deveras invulgares e inexplicáveis. O público já conhece os pormenores do crime que vieram a lume na investigação policial, mas muita coisa foi omitida naquela ocasião, uma vez que a acusação era tão esmagadoramente forte que não se tornou necessário apresentar todos os factos. Só agora, passados quase dez anos, me é permitido fornecer os elos perdidos que completam toda essa notável corrente. O crime era interessante por si só, mas esse interesse nada significava para mim em comparação com o desfecho inconcebível, que me proporcionou o maior choque e surpresa de qualquer evento da minha vida aventureira. Ainda agora, após este longo intervalo, sinto-me arrepiado ao pensar nisso e sinto, uma vez mais, aquela súbita vaga de alegria, espanto e incredulidade que submergeu completamente a minha mente. Deixem-me dizer a esse público, que demonstrou algum interesse nos vislumbres que ocasionalmente lhes dei sobre os pensamentos e ações de um homem deveras notável, que não me devem culpar se não partilhei o meu conhecimento com eles, pois teria considerado o meu primeiro dever fazê-lo, se não tivesse sido impedido por uma proibição expressa dos seus próprios lábios, que só foi retirada no dia três do mês passado.
Pode imaginar-se que a minha estreita intimidade com Sherlock Holmes me interessou profundamente pelo crime e que, após o seu desaparecimento, nunca deixei de ler com atenção os vários problemas que surgiam perante o público. E até tentei, mais do que uma vez, para minha própria satisfação, empregar os seus métodos na sua resolução, embora com sucesso indiferente. Não houve, contudo, nenhum que me apelasse como esta tragédia de Ronald Adair. Ao ler as provas no inquérito, que levaram a um veredito de homicídio voluntário contra pessoa ou pessoas desconhecidas, compreendi mais claramente do que alguma vez tinha compreendido a perda que a comunidade sofreu com a morte de Sherlock Holmes. Havia pontos neste estranho caso que, tinha a certeza, lhe teriam apelado especialmente, e os esforços da polícia teriam sido complementados, ou mais provavelmente antecipados, pela observação treinada e pela mente alerta do primeiro agente criminal da Europa. Durante todo o dia, enquanto conduzia nas minhas rondas, ruminava o caso na minha mente e não encontrei qualquer explicação que me parecesse adequada. Com o risco de contar uma história já contada, recapitularei os factos tal como eram conhecidos pelo público no final do inquérito.
O Honorável Ronald Adair era o segundo filho do Conde de Maynooth, na altura governador de uma das colónias australianas. A mãe de Adair regressara da Austrália para ser operada a cataratas e ela, o seu filho Ronald e a sua filha Hilda viviam juntos no número 427 de Park Lane. O jovem movia-se na melhor sociedade — não tinha, tanto quanto se sabia, inimigos nem vícios particulares. Tinha estado noivo da Srta. Edith Woodley, de Carstairs, mas o noivado tinha sido rompido por consentimento mútuo alguns meses antes, e não havia sinal de que isso tivesse deixado qualquer sentimento profundo. De resto, a vida do homem movia-se num círculo estreito e convencional, pois os seus hábitos eram sossegados e a sua natureza pouco emocional. Contudo, foi sobre este jovem aristocrata despreocupado que a morte se abateu, sob uma forma muito estranha e inesperada, entre as dez horas e as onze e vinte da noite de 30 de março de 1894.
Ronald Adair gostava de cartas — jogava continuamente, mas nunca por quantias que o pudessem prejudicar. Era membro dos clubes de cartas Baldwin, Cavendish e Bagatelle. Ficou provado que, após o jantar no dia da sua morte, jogou uma partida de whist neste último clube. Tinha jogado lá também durante a tarde. O testemunho daqueles que tinham jogado com ele — o Sr. Murray, Sir John Hardy e o Coronel Moran — mostrou que o jogo era whist e que houve um desenrolar das cartas razoavelmente equilibrado. Adair poderia ter perdido cinco libras, mas não mais. A sua fortuna era considerável e tal perda não o poderia afetar de forma alguma. Jogava quase todos os dias num clube ou noutro, mas era um jogador cauteloso e, habitualmente, saía a ganhar. Veio a saber-se no depoimento que, em parceria com o Coronel Moran, tinha chegado a ganhar quatrocentas e vinte libras numa sessão, algumas semanas antes, a Godfrey Milner e ao Lord Balmoral. Tanto sobre a sua história recente, conforme revelado no inquérito.
Na noite do crime, regressou do clube exatamente às dez horas. A mãe e a irmã estavam fora, a passar a noite com um parente. A criada declarou que o ouviu entrar na sala da frente do segundo andar, geralmente usada como a sua sala de estar. Ela tinha acendido uma lareira lá e, como fazia fumo, tinha aberto a janela. Não se ouviu qualquer som vindo da sala até às onze e vinte, a hora do regresso de Lady Maynooth e da sua filha. Desejando dar as boas-noites, tentou entrar no quarto do filho. A porta estava trancada pelo lado de dentro e não se obteve resposta aos seus gritos e batidas. Pediu-se ajuda e a porta foi arrombada. O infeliz jovem foi encontrado caído perto da mesa. A sua cabeça tinha sido horrivelmente mutilada por uma bala de revólver de ponta oca, mas não se encontrou qualquer arma de qualquer tipo na sala. Sobre a mesa jaziam duas notas de dez libras cada e dezassete libras e dez xelins em prata e ouro, o dinheiro arrumado em pequenas pilhas de valor variável. Havia também alguns números numa folha de papel, com os nomes de alguns amigos do clube ao lado, a partir dos quais se supôs que, antes da sua morte, ele tentava calcular as suas perdas ou ganhos no jogo.
Um exame minucioso das circunstâncias serviu apenas para tornar o caso mais complexo. Em primeiro lugar, não se podia dar qualquer razão para o jovem ter trancado a porta pelo lado de dentro. Havia a possibilidade de o assassino ter feito isso e, posteriormente, escapado pela janela. No entanto, a queda era de pelo menos seis metros e, por baixo, existia um canteiro de açafrões em plena floração. Nem as flores nem a terra mostravam qualquer sinal de terem sido perturbadas, nem havia quaisquer marcas na estreita faixa de relva que separava a casa da estrada. Aparentemente, portanto, foi o próprio jovem quem trancou a porta. Mas como é que encontrou a morte? Ninguém poderia ter subido à janela sem deixar vestígios. Supondo que um homem tivesse disparado através da janela, seria de facto um atirador notável aquele que conseguisse, com um revólver, infligir uma ferida tão mortal. Mais uma vez, Park Lane é uma via movimentada; existe uma praça de táxis a menos de cem metros da casa. Ninguém ouviu um tiro. E, contudo, lá estava o morto e lá estava a bala de revólver, que se tinha espalmado, como fazem as balas de ponta macia, e assim infligido uma ferida que deve ter causado a morte instantânea. Tais eram as circunstâncias do Mistério de Park Lane, que foram ainda mais complicadas pela ausência total de motivo, uma vez que, como disse, não se sabia que o jovem Adair tivesse qualquer inimigo e não tinha sido feita qualquer tentativa de remover o dinheiro ou os objetos de valor da sala.
Durante todo o dia, ponderei estes factos na minha mente, esforçando-me por encontrar alguma teoria que os pudesse reconciliar a todos e por encontrar essa linha de menor resistência que o meu pobre amigo declarara ser o ponto de partida de qualquer investigação. Confesso que fiz pouco progresso. À noite, passei pelo Parque e encontrei-me por volta das seis horas no extremo de Oxford Street de Park Lane. Um grupo de vadios nos passeios, todos a olhar para uma janela específica, indicou-me a casa que eu viera ver. Um homem alto e magro com óculos coloridos, que eu suspeitava fortemente ser um detetive à paisana, estava a apontar alguma teoria sua, enquanto os outros se amontoavam para ouvir o que ele dizia. Cheguei o mais perto possível, mas as suas observações pareceram-me absurdas, por isso retirei-me com algum desgosto. Ao fazê-lo, choquei contra um homem idoso e deformado que estava atrás de mim e derrubei vários livros que ele transportava. Lembro-me de que, ao apanhá-los, observei o título de um deles, A Origem do Culto das Árvores, e ocorreu-me que o sujeito deveria ser um pobre bibliófilo que, por profissão ou por passatempo, era um colecionador de volumes obscuros. Tentei pedir desculpa pelo acidente, mas era evidente que estes livros que eu tinha tão infelizmente maltratado eram objetos muito preciosos aos olhos do seu dono. Com um rosnar de desprezo, ele virou-se nos calcanhares e vi as suas costas curvas e as suíças brancas desaparecerem no meio da multidão.
As minhas observações do número 427 de Park Lane pouco fizeram para esclarecer o problema em que eu estava interessado. A casa estava separada da rua por um muro baixo e grades, o conjunto não medindo mais de um metro e meio de altura. Era perfeitamente fácil, portanto, para qualquer pessoa entrar no jardim, mas a janela era totalmente inacessível, uma vez que não havia tubo de queda de água ou qualquer coisa que pudesse ajudar o homem mais ágil a subi-la. Mais confuso do que nunca, refiz os meus passos para Kensington. Não estava há cinco minutos no meu gabinete quando a criada entrou para dizer que uma pessoa desejava ver-me. Para meu espanto, não era outro senão o meu estranho e velho colecionador de livros, o seu rosto afiado e enrugado a espreitar de uma moldura de cabelo branco, e os seus preciosos volumes, pelo menos uma dúzia deles, entalados sob o braço direito.
— Está surpreendido por me ver, senhor — disse ele, com uma voz estranha e rouca.
Confessei que estava.
— Bem, eu tenho consciência, senhor, e quando por acaso o vi entrar nesta casa, enquanto vinha a coxear atrás de si, pensei comigo mesmo: vou entrar e ver aquele senhor gentil, e dizer-lhe que, se fui um pouco brusco na minha maneira de ser, não tive má intenção e que lhe estou muito grato por ter apanhado os meus livros.
— Faz demasiado caso de uma ninharia — disse eu. — Posso perguntar como sabia quem eu era?
— Bem, senhor, se não for uma liberdade demasiado grande, sou seu vizinho, pois encontrará a minha pequena livraria na esquina de Church Street, e estou certamente muito feliz por vê-lo. Talvez o senhor próprio colecione. Aqui tem Aves Britânicas, e Catulo, e A Guerra Santa — uma pechincha, cada um deles. Com cinco volumes poderia preencher aquele espaço na segunda prateleira. Parece desarrumado, não parece, senhor?
Movi a cabeça para olhar para a estante atrás de mim. Quando me virei de novo, Sherlock Holmes estava de pé, sorrindo para mim do outro lado da minha mesa de estudo. Levantei-me, olhei para ele durante alguns segundos em total espanto e depois parece que devo ter desmaiado pela primeira e última vez na minha vida. Certamente uma névoa cinzenta rodopiou diante dos meus olhos e, quando clareou, encontrei as pontas do meu colarinho desapertadas e o sabor persistente de conhaque nos meus lábios. Holmes estava debruçado sobre a minha cadeira, com o seu frasco na mão.
— Meu caro Watson — disse a voz bem lembrada —, devo-lhe mil desculpas. Não fazia ideia de que ficaria tão afetado.
Agarrei-o pelos braços.
— Holmes! — gritei. — É realmente você? Pode de facto ser que esteja vivo? É possível que tenha conseguido sair daquele abismo terrível?
— Espere um momento — disse ele. — Tem a certeza de que está realmente apto a discutir assuntos? Dei-lhe um choque sério com o meu reaparecimento desnecessariamente dramático.
— Estou bem, mas, de facto, Holmes, dificilmente consigo acreditar nos meus olhos. Santo Deus! pensar que você — você, de entre todos os homens — deveria estar de pé no meu gabinete. — Agarrei-o novamente pela manga e senti o braço fino e nervoso por baixo dela. — Bem, de qualquer forma, não é um espírito — disse eu. — Meu caro amigo, estou sobremodo feliz por vê-lo. Sente-se e diga-me como saiu vivo daquele terrível abismo.
Ele sentou-se à minha frente e acendeu um cigarro à sua maneira antiga e indiferente. Estava vestido com a casaca gasta do mercador de livros, mas o resto desse indivíduo jazia num monte de cabelo branco e livros velhos sobre a mesa. Holmes parecia ainda mais magro e perspicaz do que antigamente, mas havia um tom branco-cadavérico no seu rosto aquilino que me dizia que a sua vida recentemente não tinha sido saudável.
— Estou contente por me esticar, Watson — disse ele. — Não é uma brincadeira quando um homem alto tem de reduzir a sua estatura por várias horas seguidas. Agora, meu caro amigo, quanto a estas explicações, temos, se me permite pedir a sua cooperação, uma noite de trabalho árduo e perigosa pela frente. Talvez fosse melhor se eu lhe desse uma conta de toda a situação quando esse trabalho estiver terminado.
— Estou cheio de curiosidade. Preferiria muito mais ouvir agora.
— Virá comigo esta noite?
— Quando quiser e onde quiser.
— Isto é, de facto, como nos velhos tempos. Teremos tempo para um bocado de jantar antes de precisarmos de ir. Bem, então, sobre esse abismo. Não tive dificuldades sérias em sair dele, pela simples razão de que nunca lá estive.
— Nunca lá esteve?
— Não, Watson, nunca lá estive. O meu bilhete para si era absolutamente genuíno. Tive poucas dúvidas de que tinha chegado ao fim da minha carreira quando percebi a figura um tanto sinistra do falecido Professor Moriarty a pé no caminho estreito que conduzia à segurança. Li um propósito inexorável nos seus olhos cinzentos. Troquei, portanto, algumas observações com ele e obtive a sua cortês permissão para escrever o curto bilhete que recebeu depois. Deixei-o com a minha caixa de cigarros e a minha bengala, e caminhei ao longo do caminho, com Moriarty ainda nos meus calcanhares. Quando cheguei ao fim, fiquei encurralado. Ele não sacou qualquer arma, mas lançou-se a mim e envolveu-me com os seus braços longos. Ele sabia que o seu próprio jogo tinha acabado e estava apenas ansioso por se vingar de mim. Cambaleámos juntos à beira da queda. Tenho algum conhecimento, contudo, de baritsu, ou o sistema japonês de luta livre, que mais do que uma vez me foi muito útil. Escapuli-me do seu aperto e ele, com um grito horrível, pontapeou loucamente por alguns segundos e arranhou o ar com ambas as mãos. Mas, apesar de todos os seus esforços, não conseguiu equilibrar-se e lá foi ele. Com o meu rosto sobre a borda, vi-o cair por um longo caminho. Depois, bateu numa rocha, ressaltou e mergulhou na água.
Ouvi com espanto esta explicação, que Holmes proferiu entre as baforadas do seu cigarro.
— Mas os rastos! — gritei. — Vi, com os meus próprios olhos, que dois desceram o caminho e nenhum regressou.
— Aconteceu desta forma. No instante em que o Professor desapareceu, ocorreu-me que oportunidade extraordinariamente sortuda o Destino tinha colocado no meu caminho. Eu sabia que Moriarty não era o único homem que tinha jurado a minha morte. Havia pelo menos três outros cujo desejo de vingança sobre mim seria apenas aumentado pela morte do seu líder. Eram todos homens muito perigosos. Um ou outro certamente apanhar-me-ia. Por outro lado, se todo o mundo estivesse convencido de que eu estava morto, eles tomariam liberdades, esses homens, cedo se exporiam e, mais tarde ou mais cedo, eu poderia destruí-los. Então seria a altura de eu anunciar que ainda estava na terra dos vivos. Tão rapidamente atua o cérebro que acredito que tinha pensado nisto tudo antes de o Professor Moriarty ter chegado ao fundo da Queda de Reichenbach.
— Levantei-me e examinei a parede rochosa atrás de mim. No seu relato pitoresco do assunto, que li com grande interesse alguns meses mais tarde, afirma que a parede era vertical. Isso não era literalmente verdade. Apresentavam-se alguns pequenos apoios para os pés e havia alguma indicação de uma saliência. O penhasco é tão alto que subi-lo todo era uma impossibilidade óbvia, e era igualmente impossível fazer o meu caminho ao longo do caminho molhado sem deixar alguns rastos. Eu poderia, é verdade, ter invertido as minhas botas, como fiz em ocasiões semelhantes, mas a visão de três conjuntos de rastos numa direção teria certamente sugerido um engano. No geral, então, era melhor que eu arriscasse a subida. Não foi um negócio agradável, Watson. A queda rugia por baixo de mim. Não sou uma pessoa fantasiosa, mas dou-lhe a minha palavra de que me pareceu ouvir a voz de Moriarty a gritar comigo vinda do abismo. Um erro teria sido fatal. Mais do que uma vez, quando tufos de relva saíam na minha mão ou o meu pé escorregava nos entalhes molhados da rocha, pensei que estava perdido. Mas lutei para cima e, finalmente, cheguei a uma saliência com vários pés de profundidade e coberta de musgo verde suave, onde podia deitar-me sem ser visto, no maior conforto. Lá estava eu esticado, quando você, meu caro Watson, e todo o seu séquito estavam a investigar da maneira mais simpática e ineficiente as circunstâncias da minha morte.
— Finalmente, quando tinham todos formado as vossas inevitáveis e totalmente erradas conclusões, partiram para o hotel e eu fiquei sozinho. Tinha imaginado que tinha chegado ao fim das minhas aventuras, mas uma ocorrência muito inesperada mostrou-me que ainda havia surpresas guardadas para mim. Uma rocha enorme, caindo de cima, passou estrondosamente por mim, bateu no caminho e ressaltou para o abismo. Por um instante pensei que tinha sido um acidente, mas um momento depois, olhando para cima, vi a cabeça de um homem contra o céu escurecido, e outra pedra atingiu a própria saliência onde eu estava esticado, a menos de um pé da minha cabeça. Claro, o significado disto era óbvio. Moriarty não tinha estado sozinho. Um confederado — e até aquele único olhar tinha-me dito quão perigoso era esse confederado — tinha mantido guarda enquanto o Professor me atacava. À distância, sem ser visto por mim, tinha sido testemunha da morte do seu amigo e da minha fuga. Tinha esperado e, depois, fazendo o seu caminho para o topo do penhasco, tinha tentado ter sucesso onde o seu camarada tinha falhado.
— Não demorei a refletir sobre isso, Watson. Vi novamente aquele rosto sombrio sobre o penhasco e soube que era o prenúncio de outra pedra. Desci apressado ao caminho. Não creio que poderia tê‑lo feito a sangue frio. Foi cem vezes mais difícil descer do que subir. Mas não tive tempo de pensar no perigo, pois outra pedra cantou ao passar por mim enquanto eu me pendurava das mãos na beira da cornija. A meio caminho escorreguei, mas, pela bênção de Deus, caí, dilacerado e sangrando, sobre o trilho. Corri a toda velocidade, percorri dez milhas pelas montanhas na escuridão e, uma semana depois, achei‑me em Florença, certo de que ninguém no mundo sabia o que se tornara de mim.
— Só tinha um confidente — meu irmão Mycroft. Devo‑te muitas desculpas, meu caro Watson, mas era imprescindível que se pensasse que eu estava morto, e é bastante certo que não terias escrito um relato tão convincente do meu triste fim se não o tivesses acreditado. Em várias ocasiões, durante os últimos três anos, peguei a pena para lhe escrever, mas sempre temia que o teu afetuoso carinho por mim te induzisse a alguma indiscrição que revelasse o meu segredo. Por isso desviei‑te neste entardecer, quando tumultuaste os meus livros, pois eu estava em perigo, e qualquer demonstração de surpresa ou emoção da tua parte poderia atrair atenção para a minha identidade e levar a resultados deploráveis e irreparáveis. Quanto a Mycroft, tive de confiar nele para obter o dinheiro de que precisava. Os acontecimentos em Londres não correram tão bem como esperava; o julgamento da quadrilha de Moriarty deixou dois dos seus membros mais perigosos, meus próprios inimigos mais vindicativos, em liberdade. Viajei dois anos pelo Tibete, divertindo‑me em Lhassa e passando alguns dias com o lama‑chefe. Talvez tenhas lido sobre as notáveis explorações de um norueguês chamado Sigerson, mas tenho certeza de que nunca te ocorreu que recebias notícias do teu amigo. Depois passei pela Pérsia, dei uma olhadela a Meca e fiz uma breve, porém interessante, visita ao Califa em Cartum, cujos resultados comuniquei ao Foreign Office. De volta à França, passei alguns meses em pesquisa sobre os derivados do alcatrão, conduzida num laboratório em Montpellier, ao sul da França. Tendo concluído isso a meu contento e sabendo que só restava um dos meus inimigos em Londres, estava para regressar quando os novos acontecimentos sobre o notável mistério de Park Lane apressaram os meus movimentos; não só me atraía por seus próprios méritos, como parecia oferecer oportunidades pessoais muito peculiares. Vim imediatamente a Londres, compareci pessoalmente na Baker Street, lancei a Sra. Hudson em violenta histeria e descobri que Mycroft preservara os meus quartos e os meus papéis exatamente como sempre estiveram. Foi assim, meu caro Watson, que às duas horas de hoje encontrei‑me na minha velha poltrona, no meu velho quarto, desejando apenas ter visto o velho amigo Watson na outra cadeira que tanto costumava adornar.
Tal foi a notável narrativa à qual eu escutei naquela noite de abril — narrativa que teria sido absolutamente incrível para mim se não fosse confirmada pela visão real da figura alta e esguia e do rosto ávido e atento, que nunca pensei voltar a ver. De algum modo ele soube do meu triste luto, e a sua simpatia manifestou‑se em postura, não em palavras. — O trabalho é o melhor antídoto contra a tristeza, meu caro Watson — disse ele — e tenho um caso para nós dois esta noite que, se concluirmos com sucesso, por si só justificará a vida de um homem neste planeta. Em vão lhe implorei que me contasse mais. — Ouvirás e verás o bastante antes da manhã — respondeu ele — temos três anos de passado a discutir. Que isso basta até as duas e meia, quando começaremos a notável aventura da casa vazia.
Era, de fato, como nos velhos tempos, quando, àquela hora, encontrei‑me sentado ao lado dele num hansom, o revólver no bolso e a emoção da aventura no coração. Holmes estava frio, severo e mudo. Enquanto o brilho dos postes refletia em seus traços austere, vi que as sobrancelhas estavam franzidas em pensamento e os lábios finos comprimidos. Não sabia que fera selvagem estávamos prestes a caçar na selva obscura do Londres criminoso, mas tinha plena confiança, pela postura daquele mestre caçador, de que a aventura seria das mais graves — enquanto o sorriso sardônico que ocasionalmente rompia sua melancolia ascética prenunciava poucos bons resultados para o objeto da nossa busca.
Imaginara que íamos para a Baker Street, mas Holmes parou o coche na esquina da Cavendish Square. Observei que, ao descer, ele lançava um olhar minucioso à direita e à esquerda, e a cada esquina subsequente tomava o máximo de cuidado para assegurar que não fosse seguido. Nosso trajeto era, de fato, singular. O conhecimento de Holmes pelos becos de Londres era extraordinário, e, nesta ocasião, ele cruzou rapidamente, passo confiante, uma rede de pátios e estábulos cuja existência eu nunca soubera. Por fim emergimos numa rua estreita, ladeada por casas antigas e lúgubres, que nos conduziu à Manchester Street e, daí, à Blandford Street. Ali girou abruptamente por uma passagem estreita, atravessou um portão de madeira para um pátio deserto e, então, abriu com uma chave a porta dos fundos de uma casa. Entramos juntos, e ele a fechou atrás de nós.
O lugar era totalmente escuro, mas me era evidente que se tratava de uma casa vazia. Nossos passos rangiam sobre a tábuas nuas, e minha mão estendida tocou uma parede de onde o papel pendia em tiras. Os dedos frios e finos de Holmes fecharam‑se ao meu pulso e conduziram‑me adiante por um longo corredor, até que, timidamente, avistei a luz difusa sobre a porta. Nesse instante Holmes girou bruscamente à direita e encontramo‑nos numa ampla sala quadrada, vazia, sombreada nos cantos, mas levemente iluminada ao centro pela luz da rua além. Não havia lâmpada próxima, e a janela estava espessa de pó, de modo que só podíamos distinguir vagamente as silhuetas um do outro. Meu companheiro colocou a mão no meu ombro e aproximou os lábios do meu ouvido.
— Sabes onde estamos? — sussurrou ele.
— Certamente isso é a Baker Street — respondi, fitando a janela escurecida.
— Exatamente. Estamos na Camden House, que fica em frente aos nossos antigos aposentos.
— Mas por que estamos aqui?
— Porque oferece uma vista tão excelente daquele pitoresco monte. Poderia, meu caro Watson, aproximar‑te um pouco mais da janela, tomando todo o cuidado de não te mostrar, e então olhar para cima, para os nossos antigos quartos — ponto de partida de tantos dos teus pequenos contos de fadas? Veremos se os meus três anos de ausência retiraram completamente a minha capacidade de te surpreender.
Arrastei‑me para a frente e olhei para a janela familiar. Quando meus olhos pousaram nela, soltei um suspiro e um grito de espanto. As persianas estavam abaixadas e uma luz forte ardia na sala. A sombra de um homem sentado numa cadeira dentro daquela sala projetou‑se em forte contorno negro sobre a luminosa tela da janela. Não havia como confundir a postura da cabeça, a retidão dos ombros, a nitidez das feições. O rosto estava meio virado, produzindo o efeito de uma das sombras negras que nossos avós adoravam enquadrar. Era uma reprodução perfeita de Holmes. Fiquei tão maravilhado que estendi a mão para assegurar que o próprio homem estivesse ao meu lado. Ele tremia de riso silencioso.
— E então? — disse ele.
— Céus! — exclamei. — É maravilhoso.
— Confio que a idade não murcha nem o costume estagna a minha infinita variedade — disse ele, e reconheci em sua voz a alegria e o orgulho que o artista sente por sua própria criação. — Realmente parece comigo, não é?
— Eu poderia jurar que eras tu.
— O crédito da execução deve‑se ao Monsieur Oscar Meunier, de Grenoble, que passou alguns dias a moldar. É um busto em cera. O resto eu mesmo arranjei durante a minha visita à Baker Street esta tarde.
— Mas por quê?
— Porque, meu caro Watson, eu tinha o motivo mais forte possível para fazer certas pessoas acreditarem que eu estava ali quando, na verdade, eu estava em outro lugar.
— E acreditavas que os quartos estavam vigiados?
— Sabia que estavam vigiados.
— Por quem?
— Pelos meus antigos inimigos, Watson. Pela charmosa sociedade cujo líder reside na Cascata de Reichenbach. Deves lembrar‑te de que eles sabiam — e só eles sabiam — que eu ainda estava vivo. Mais cedo ou mais tarde acreditaram que eu voltaria aos meus quartos. Vigiaram‑nos continuamente, e esta manhã viram‑me chegar.
— Como sabes?
— Porque reconheci o sentinela quando olhei pela janela. É um sujeito inofensivo, chamado Parker, um enforcador de profissão e um notável virtuoso da harmônica. Não me importava com ele. Mas importava‑me imensamente o muito mais formidável que estava por trás dele, o amigo íntimo de Moriarty, o homem que lançou as pedras sobre o penhasco, o criminoso mais astuto e perigoso de Londres. Esse é o homem que me persegue esta noite, Watson, e esse é o homem que sequer suspeita que estamos à sua caça.
Os planos do meu amigo revelavam‑se gradualmente. A partir daquele refúgio conveniente, os vigilantes eram vigiados e os rastreadores, rastreados. A sombra angular lá em cima era a isca, e nós, os caçadores. Em silêncio permanecíamos juntos na escuridão, observando as figuras que passavam e recrossavam diante de nós. Holmes permanecia imóvel; porém percebi que estava intensamente alerta, os olhos fixos na corrente de transeuntes. Era uma noite lúgubre e barulhenta, o vento assobiava agudo pela longa rua. Muitas pessoas iam e vinham, a maioria com casacos e gravatas abafados. Uma ou duas vezes pensei ter visto a mesma figura antes, e notei especialmente dois homens que pareciam abrigar‑se da ventania na porta de uma casa mais adiante. Tentei chamar a atenção do meu companheiro para eles; mas ele soltou um leve suspiro de impaciência e continuou a encarar a rua. Mais de uma vez mexeu nos pés e batucou rapidamente com os dedos na parede. Era evidente que ele se tornava inquieto e que seus planos não se desenrolavam como esperava. Por fim, quando a meia‑noite se aproximava e a rua se esvaziava gradualmente, ele percorria o recinto de um lado ao outro em agitação incontrolável. Eu estava prestes a fazer-lhe algum comentário, quando levantei os olhos para a janela iluminada e, novamente, experimentei quase o mesmo assombro que antes. Agarrei o braço de Holmes e apontei para cima.
— A sombra mudou! — gritei.
De fato, já não era o perfil, mas o dorso que se virava para nós.
Três anos certamente não alisaram as asperezas do seu temperamento nem a sua impaciência com uma inteligência menos ativa que a sua.
— Claro que mudou — respondeu ele. — Sou tão caricatural, Watson, a ponto de erguer um manequim óbvio e esperar que os homens mais perspicazes da Europa sejam enganados por ele? Passamos duas horas neste quarto, e a Sra. Hudson mudou aquela figura oito vezes, ou uma a cada quinze minutos. Ela a move da frente, para que a sombra nunca seja vista. Ah! — ele respirou num tom agudo e excitado. Na luz tênue vi sua cabeça projetada para a frente, toda a sua postura rígida de atenção. Fora, a rua estava absolutamente deserta. Aqueles dois homens ainda poderiam estar agachados na porta, mas já não os via. Tudo permanecia quieto e escuro, exceto aquela tela amarela brilhante à nossa frente, com a figura negra delineada em seu centro. Novamente, no silêncio total, ouvi aquele fino som sibilante que denunciava uma excitação intensa e reprimida. Um instante depois puxou‑me para o canto mais negro do quarto e senti sua mão de aviso sobre os meus lábios. Os dedos que o seguravam tremiam. Nunca tinha visto o meu amigo tão agitado, e ainda assim a rua escura se estendia solitária e imóvel diante de nós.
Então, de repente, percebi o que os sentidos mais aguçados de Holmes já haviam distinguido. Um som baixo e furtivo chegou aos meus ouvidos, não vindouro da direção da Baker Street, mas da parte traseira da própria casa onde estávamos ocultos. Uma porta se abriu e fechou. Um instante depois passos deslizaram pelo corredor — passos que deveriam ser silenciosos, mas que reverberaram ruidosamente pela casa vazia. Holmes recostou‑se contra a parede, e eu fiz o mesmo, a mão fechando‑se no cabo do revólver. Ao espreitar pela penumbra, avistei o contorno vago de um homem, mais escuro que a própria escuridão da porta aberta. Ele permaneceu parado um instante e, então, avançou, agachado, ameaçador, para dentro do quarto. Estava a menos de três metros de nós, essa figura sinistra, e eu me preparei para enfrentar o seu ataque, antes de perceber que ele não tinha ideia da nossa presença. Passou próximo a nós, aproximou‑se da janela e, suavemente, levantou‑a apenas um pouco. Ao se alinhar ao nível da abertura, a luz da rua, já não amolada pelo vidro empoeirado, iluminou plenamente o seu rosto. O homem parecia estar à beira da euforia. Os dois olhos cintilavam como estrelas, e as feições contraíam‑se convulsivamente. Era um velho, com nariz fino e proeminente, fronte alta e calva, e um enorme bigode grisalho. Um chapéu de ópera estava empurrado para trás da cabeça, e a frente de sua camisa de noite reluzia sob o sobretudo aberto. O rosto era magro e escurecido, marcado por linhas profundas e selvagens. Em sua mão carregava o que parecia ser um bastão, mas ao depositá‑lo no chão produziu um clangor metálico. Então, do bolso do sobretudo, tirou um objeto volumoso e se ocupou numa tarefa que terminou com um estalo alto e nítido, como se uma mola ou um ferrolho caísse em seu lugar. Ainda ajoelhado no chão, curvou‑se e lançou todo o seu peso e força sobre uma alavanca, resultando num longo ruído de rotação e moagem, que terminou novamente num clique potente. Endireitou‑se então, e vi que o que segurava era uma espécie de arma, com um cabo curiosamente deformado. Abriu‑a a coronha, inseriu algo e travou‑a com um estalo. Ajoelhando‑se novamente, apoiou a extremidade do cano no parapeito da janela aberta; seu longo bigode pendia sobre a coronha e seu olho brilhava ao alinhar‑se com a mira. Ouviu‑se um leve suspiro de satisfação quando ele acomodou o cabo no ombro; e vi o alvo incrível, o homem negro no chão amarelo, claramente à vista da sua perspectiva. Por um instante ficou rígido e imóvel. Então, apertou o gatilho. Houve um som estranho, um assobio alto e um longo tilintar prateado de vidro quebrado. Nesse instante Holmes saltou como um tigre sobre as costas do atirador e o arremessou ao chão, de bruços. Levantou‑se num momento, e com força convulsiva agarrou Holmes pelo pescoço; eu então golpei‑o na cabeça com o cabo do revólver, e ele despencou novamente no chão. Caí sobre ele, e enquanto o segurava, meu companheiro soprou um agudo assobio. O som de passos correndo sobre o pavimento ecoou, e dois policiais em farda, acompanhados de um detetive à paisana, precipitaram‑se pela porta da frente e adentraram o quarto.
— É você, Lestrade? — disse Holmes.
— Sim, Sr. Holmes. Eu mesmo assumi o caso. É bom vê‑lo de volta a Londres, senhor.
— Creio que queira um pouco de ajuda não oficial. Três assassinatos não detectados num ano não é suficiente, Lestrade. Mas lidou com o Mistério de Molesey com menos do que o habitual — isto é, foi bem‑sucedido.
Levantámos‑nos todos, o nosso prisioneiro arfando, com um robusto cabo ao seu lado. Já alguns curiosos começavam a se aglomerar na rua. Holmes aproximou‑se da janela, fechou‑a e baixou as persianas. Lestrade trouxe duas velas, e os policiais acenderam as lanternas. Finalmente pude observar bem o nosso cativo.
Era um rosto tremendamente viril e, ao mesmo tempo, sinistro, voltado para nós. Com a testa de filósofo acima e a mandíbula de sensualista abaixo, o homem devia ter nascido com grandes aptidões para o bem ou para o mal. Mas não se podia encarar seus olhos azuis cruéis, com pálpebras caídas e cínicas, nem o nariz feroz e agressivo, nem a sobrancelha profunda e ameaçadora, sem ler os sinais mais claros de perigo da Natureza. Não lhe deu atenção a nenhum de nós, mas seus olhos estavam fixos no rosto de Holmes, com uma expressão em que ódio e espanto se mesclavam igualmente. — Seu demônio! — murmurava ele. — Seu demônio engenhoso, engenhoso!
— Ah, Coronel! — disse Holmes, ajeitando o colarinho amassado. — “Os destinos terminam em encontros de amantes”, como diz a velha peça. Não acho que tenha tido o prazer de vê‑lo desde que me agraciou com aquelas atenções enquanto eu estava na beira da Cascata de Reichenbach.
O coronel ainda olhava meu amigo como um homem em transe. — Seu demônio astuto, astuto! — foi tudo o que conseguiu dizer.
— Ainda não o apresentei — disse Holmes. — Senhores, este é o Coronel Sebastian Moran, antigo oficial do Exército Indiano da Sua Majestade, e o melhor atirador de caça pesada que o nosso Império Oriental já produziu. Creio estar correto, Coronel, ao dizer que a sua coleção de tigres ainda permanece incomparável?
O velho feroz não respondeu, mas continuou a encarar meu companheiro. Com seus olhos selvagens e bigode eriçado, era maravilhosamente como um tigre.
— Maravilha que a minha simples estratégia possa enganar um caçador tão velho — disse Holmes. — Deve ser muito familiar para você. Não amarrou um filhote sob uma árvore, deitado acima dela com seu rifle, esperando a isca trazer o tigre? Esta casa vazia é a minha árvore, e tu és o meu tigre. Talvez tenhas outras armas em reserva caso haja vários tigres, ou na improvável hipótese de tua própria mira falhar. Estas — apontou, gesticulando ao redor — são as minhas outras armas. O paralelo é exato.
O Coronel Moran avançou num rugido de fúria, mas os cabos o arrastaram de volta. A fúria em seu rosto era terrível de se ver.
— Confesso que me reservaste uma pequena surpresa — disse Holmes. — Não antecipava que usarías tu mesmo esta casa vazia e esta conveniente janela frontal. Imaginava‑te operando da rua, onde meu amigo, o Sr. Lestrade e seus alegres homens esperavam por ti. Fora essa exceção, tudo correu como esperava.
O Coronel Moran dirigiu‑se ao detetive oficial.
— Pode ser que tenhas justa causa para me prender — disse ele —, mas ao menos não pode haver razão para eu submeter‑me aos escárnios desta pessoa. Se estou nas mãos da lei, que as coisas sejam feitas legalmente.
— Bem, isso parece razoável — disse Lestrade. — Não há mais nada que queira dizer, Sr. Holmes, antes de partirmos?
Holmes havia levantado a poderosa pistola de ar do chão e examinava seu mecanismo.
— Uma arma admirável e única — disse ele — silenciosa e de tremenda potência: conheci Von Herder, o mecânico alemão cego, que a construiu a mando do falecido Professor Moriarty. Há anos sabia da sua existência, embora nunca antes tivesse tido a oportunidade de manuseá‑la. Recomendo‑a especialmente a vossa atenção, Lestrade, bem como as balas que lhe servem.
— Pode confiar que cuidaremos disso, Sr. Holmes — disse Lestrade, enquanto todo o grupo se dirigia à porta. — Mais alguma coisa a dizer?
— Só quero saber qual acusação pretendem apresentar?
— Que acusação, senhor? Claro, a tentativa de homicídio do Sr. Sherlock Holmes.
— Não, Lestrade. Não pretendo aparecer nesse caso. A glória da notável prisão que efetuou pertence apenas a vós. Sim, Lestrade, felicito‑vos! Com a vossa habitual mistura de astúcia e audácia, apanhaste‑o.
— Apanhaste‑o! A quem, Sr. Holmes?
— Ao homem que toda a polícia tem procurado em vão — o Coronel Sebastian Moran, que feriu o honrado Ronald Adair com uma bala expansiva disparada por uma pistola de ar, através da janela aberta do segundo andar da frente do número 427 da Park Lane, no dia 30 do mês passado. Essa é a acusação, Lestrade. E agora, Watson, se puder suportar o frio de uma janela quebrada, creio que meia hora no meu estudo, fumando um charuto, lhe proporcionará alguma distração proveitosa.
Nossos antigos aposentos permaneceram inalterados sob a supervisão de Mycroft Holmes e o cuidado imediato da Sra. Hudson. Ao entrar, vi, de fato, uma ordem incomum, mas os velhos marcos continuavam em seus devidos lugares. Havia o canto químico e a mesa encimada de folha de linho, manchada de ácido. Sobre uma prateleira encontrava‑se a fileira de imponentes cadernos de recortes e livros de referência que muitos dos nossos concidadãos teriam desejado queimar. Os diagramas, o estojo de violino, o suporte de cachimbos — até o chinelo persa que continha o tabaco — cruzaram o meu olhar enquanto eu olhava ao redor. Havia dois ocupantes na sala — uma, a Sra. Hudson, que nos saudou com um sorriso ao entrarmos — a outra, o estranho manequim que desempenhou papel tão importante nas aventuras da noite. Era um modelo de cera do meu amigo, tão admiravelmente feito que constituía uma réplica perfeita. Estava sobre um pequeno pedestal, envolto num roupão antigo de Holmes, de tal maneira que a ilusão vista da rua era absolutamente perfeita.
— Espero que tenha observado todas as precauções, Sra. Hudson? — perguntou Holmes.
— Apontei‑lhe com os joelhos, senhor, exatamente como me indicou.
— Excelente. Manipulou a coisa muito bem. Observou para onde a bala foi?
— Sim, senhor. Receio que tenha danificado o seu belo busto, pois atravessou a cabeça e ficou achatada na parede. Recolhi‑a do tapete. Eis‑a!
Holmes estendeu‑a a mim. — Uma bala de revólver macia, como percebe, Watson. Há genialidade nisso, pois quem esperaria encontrar tal coisa disparada por uma pistola de ar? Muito bem, Sra. Hudson. Estou profundamente agradecido pela sua ajuda. E agora, Watson, deixe‑me vê‑lo ocupar o seu antigo assento mais uma vez, pois há vários pontos que desejo discutir consigo.
Ele havia despido o esfarrapado sobretudo, e agora era o Holmes de outrora, vestido com o roupão cor de rato que tirara da sua efígie.
— Os nervos do velho caçador não perderam a firmeza, nem os olhos a acuidade — disse ele, rindo, enquanto inspecionava a fronte despedaçada do busto.
— Um furo bem no centro da parte posterior da cabeça, atravessando o cérebro. Ele foi o melhor atirador da Índia, e espero que haja poucos melhores em Londres. Já ouviu o nome?
— Não, não ouvi.
— Bem, bem, assim é a fama! Mas, então, se bem me lembro, ainda não tinha ouvido falar do Professor James Moriarty, que possuía um dos grandes cérebros do século. Dê‑me meu índice de biografias da prateleira.
Folheou as páginas com indolência, recostado na cadeira, exalando grandes nuvens de fumaça do charuto.
— Minha coleção de M’s é excelente — disse ele. — Moriarty por si só basta para tornar qualquer letra ilustre, e aqui está Morgan, o envenenador, e Merridew, de memória abominável, e Mathews, que derrubou meu canino esquerdo na sala de espera de Charing Cross, e, finalmente, aqui está o nosso amigo desta noite.
Entregou‑me o volume, e eu li:
Moran, Sebastian, Coronel. Desempregado. Ex‑primeiro dos Pioneiros de Bangalore. Nascido em Londres, 1840. Filho de Sir Augustus Moran, C.B., antigo Ministro Britânico na Pérsia. Educado em Eton e Oxford. Serviu na campanha de Jowaki, na campanha afegã, em Charasiab (despachos), Sherpur e Cabul. Autor de *Heavy Game of the Western Himalayas* (1881); *Three Months in the Jungle* (1884). Endereço: Conduit Street. Clubes: The Anglo‑Indian, o Tankerville, o Bagatelle Card Club.
Na margem, escrito à mão precisa de Holmes:
O segundo homem mais perigoso de Londres.
— Isso é assombroso — comentei, devolvendo o volume. — A carreira do homem revela um soldado honrado.
— É verdade — respondeu Holmes. — Até certo ponto ele agiu bem. Sempre foi um homem de nervos de ferro, e a história ainda se conta na Índia sobre como ele rastejou por um esgoto após ser ferido por um tigre canibal. Há árvores, Watson, que crescem até certa altura e então, de súbito, desenvolvem alguma estranheza desagradável. Você verá isso frequentemente nos humanos. Tenho uma teoria de que o indivíduo representa, em seu desenvolvimento, todo o percurso de seus ancestrais, e que tal mudança repentina para o bem ou para o mal indica alguma forte influência que entrou na linha de sua descendência. A pessoa torna‑se, por assim dizer, a epítome da história de sua própria família.
— É, sem dúvida, bastante fantasiosa.
— Bem, não insisto. Seja qual for a causa, o Coronel Moran começou a errar. Sem escândalo aberto, ainda tornou a Índia demasiado quente para que o mantivessem. Aposentou‑se, veio a Londres e, novamente, adquiriu um nome infame. Foi então que o Professor Moriarty o procurou, a quem por um tempo serviu como chefe de equipe. Moriarty lhe forneceu liberalmente dinheiro, e o utilizou apenas em um ou dois trabalhos de alta classe, que nenhum criminoso ordinário poderia ter realizado. Talvez se lembre da morte da Sra. Stewart, de Lauder, em 1887. Não? Tenho a certeza de que Moran esteve por trás disso, embora nada se tenha provado. Tão habilmente escondido ficou o coronel que, mesmo quando a quadrilha de Moriarty foi desmantelada, não pudemos incriminá‑lo. Lembra‑se, naquela época, quando vim à sua casa e coloquei as venezianas por medo de pistolas de ar? Sem dúvida pensou que eu era fantasioso. Eu sabia exatamente o que fazia, pois conhecia a existência dessa notável arma, e sabia também que um dos melhores atiradores do mundo estaria por trás dela. Quando estávamos na Suíça, ele nos seguiu com Moriarty, e foi, sem dúvida, ele quem me deu aqueles cinco minutos malignos na fenda de Reichenbach.
— Pode pensar que eu li os jornais com alguma atenção durante a minha estadia na França, à procura de qualquer oportunidade de apanhá‑lo pelos calcanhares. Enquanto ele permanecesse livre em Londres, minha vida não teria realmente valido a pena ser vivida. Dia e noite a sombra o seguiria, e mais cedo ou mais tarde a sua oportunidade surgiria. O que poderia fazer? Não poderia atirar nele à primeira vista, pois eu próprio seria processado. Não adiantava apelar a um magistrado; eles não podem intervir com base no que lhes pareceria mera suspeita. Assim, nada pude fazer. Mas acompanhava as notícias criminais, sabendo que, tarde ou cedo, o apanharia. Então chegou a morte de Ronald Adair. Minha oportunidade enfim chegou. Sabendo o que fiz, não era certo que o Coronel Moran fosse o autor? Ele jogou cartas com o rapaz, o seguiu até casa a partir do clube, disparou-lhe pela janela aberta. Não havia dúvida. As balas bastam para colocar sua cabeça em um laço. Corri imediatamente. Fui visto pelo sentinela, que, eu sabia, chamaria a atenção do coronel para a minha presença. Ele não poderia deixar de associar meu repentino retorno ao seu crime, e ficaria terrivelmente alarmado. Estava certo de que ele tentaria afastar‑me de imediato, trazendo sua arma assassina para tal fim. Deixei‑lhe uma ótima marca na janela e, avisando a polícia de que poderiam ser necessários — a propósito, Watson, você avistou sua presença naquele vão com precisão infalível —, assumi o que me pareceu um posto judicioso de observação, sem jamais imaginar que ele escolheria o mesmo ponto para o ataque. Agora, meu caro Watson, resta‑me algo a explicar?
— Sim — respondi. — Não ficou claro qual foi o motivo do Coronel Moran ao assassinar o honrado Ronald Adair?
— Ah! meu caro Watson, aqui adentramos nos domínios da conjectura, onde a mente mais lógica pode falhar. Cada qual pode formular sua própria hipótese a partir das evidências presentes, e a sua tem tanto chance de acertar quanto a minha.
— Formulou então uma hipótese?
— Creio não ser difícil explicar os fatos. Surgiu em prova que o Coronel Moran e o jovem Adair, entre si, ganharam uma quantia considerável de dinheiro. Agora, Moran indubitavelmente trapaceou — disso já estou ciente há tempos. Acredito que, no dia do homicídio, Adair descobriu que Moran o ludibriava. Muito provavelmente o confrontou a sós e ameaçou expô‑lo, a menos que ele renunciasse voluntariamente à sua filiação ao clube e prometesse não mais jogar cartas. É improvável que um rapaz como Adair, de imediato, causasse um escândalo tão horrendo expondo um homem renomado muito mais velho que ele. Provavelmente agiu como eu sugiro. A exclusão dos clubes seria ruína para Moran, que vivia de jogos de cartas ilícitos. Assim, assassinou Adair, que naquele instante se esforçava para calcular quanto dinheiro deveria devolver, pois não poderia lucrar com a trapaça de seu parceiro. Trancou a porta para que as damas não o surpreendessem e exigissem saber o que fazia com aqueles nomes e moedas. Concorda?
— Não tenho dúvida de que acertou a verdade.
— Será verificado ou refutado no julgamento. Enquanto isso, venha o que vier, o Coronel Moran não nos incomodará mais. A famosa pistola de ar de Von Herder adornará o Museu da Scotland Yard, e mais uma vez o Sr. Sherlock Holmes está livre para dedicar sua vida a examinar aqueles pequenos problemas interessantes que a complexa vida londrina tão abundantemente apresenta.
A AVENTURA DO CONSTRUTOR DE NORWOOD
— Do ponto de vista do perito criminal — disse o Sr. Sherlock Holmes — Londres tornou‑se uma cidade singularmente desinteressante desde a morte do já falecido Professor Moriarty.
— Mal consigo imaginar que encontraria muitos cidadãos decentes que concordem com isso — respondi.
— Bem, bem, não devo ser egoísta — disse ele, sorrindo, ao recuar a cadeira da mesa de pequeno‑almoço. — A comunidade é certamente a beneficiária, e ninguém o perde, salvo o pobre especialista desempregado, cuja ocupação desapareceu. Com esse homem em ação, o jornal matinal trazia possibilidades infinitas. Muitas vezes bastava o menor vestígio, Watson, a indicação mais tênue, e ainda assim era suficiente para dizer‑me que o grande cérebro maligno estava ali, como as mais leves vibrações nas bordas da teia lembram a aranha vil que se esconde no centro. Pequenos furtos, agressões arbitrárias, ultrajes sem propósito — ao homem que detinha a pista tudo poderia ser encaixado num todo coeso. Ao estudante científico do mundo criminal superior, nenhuma capital europeia oferecia as vantagens que Londres então possuía. Mas agora — — ele deu de ombros num tom humorístico, depreciando o estado das coisas que ele próprio ajudara a criar.
Na época de que falo, Holmes havia regressado há alguns meses, e eu, a seu pedido, vendi minha prática e voltei a dividir o antigo apartamento na Baker Street. Um jovem médico, chamado Verner, comprou minha pequena prática em Kensington e, com surpreendente pouca hesitação, pagou o preço mais alto que me atrevi a pedir — um incidente que só se explicou alguns anos depois, quando descobri que Verner era parente distante de Holmes, e que foi meu amigo quem realmente encontrou o dinheiro.
Nossos meses de parceria não foram tão desprovidos de acontecimentos como ele afirmara; ao rever minhas anotações, constatou‑se que esse período inclui o caso dos papéis do ex‑presidente Murillo e também o chocante episódio do navio a vapor holandês *Friesland*, que quase nos custou a vida a ambos. Seu caráter frio e orgulhoso sempre se mostrou avesso, porém, a qualquer forma de aplauso público, e ele me obrigou nos termos mais rigorosos a não divulgar mais palavra sobre si, seus métodos ou sucessos — proibição esta que, como expliquei, só agora foi removida.
O Sr. Sherlock Holmes reclinava‑se na cadeira após seu protesto caprichoso, folheando o jornal matinal de forma despreocupada, quando nossa atenção foi atraída por um forte toque da campainha, seguido imediatamente por um som oco de batidas, como se alguém percutisse a porta externa com o punho. Ao abrir‑se, veio um tumultuado afluxo pelo hall, pés rápidos subiram a escada, e, num instante, um jovem de olhar desvairado e frenético, pálido, desarrumado e palpitante, irrompeu na sala. Ele olhou de um para o outro, e sob nosso olhar inquisitivo percebeu que precisava pedir desculpas por aquela entrada descomedida.
— Desculpe, Sr. Holmes — exclamou. — Não pode culpar‑me. Estou quase louco. Sr. Holmes, sou o infeliz John Hector McFarlane.
Fez o anúncio como se o nome por si só explicasse tanto a visita quanto o modo, mas eu podia ver, pelo rosto impassível do meu companheiro, que aquilo não significava mais para ele do que para mim.
— Aceite um cigarro, Sr. McFarlane — disse ele, empurrando a caixa. — Tenho a certeza de que, com os seus sintomas, meu amigo Dr. Watson aqui lhe prescreveria um sedativo. O tempo tem estado tão quente nos últimos dias. Agora, se se sentir um pouco mais composto, ficarei grato se se sentar naquela cadeira e nos contar, bem lenta e quietamente, quem é, e o que deseja. Mencionou o seu nome, como se eu devesse reconhecê‑lo, mas asseguro‑lhe que, além dos fatos óbvios de que é solteiro, advogado, maçom e asmático, não sei nada sobre si.
Familiarizado com os métodos do meu amigo, não me foi difícil seguir suas deduções e observar a desordem da roupa, o maço de papéis legais, o pingente de relógio e a respiração que os motivavam. Nosso cliente, porém, ficou estupefato.
— Sim, sou tudo isso, Sr. Holmes; e, além disso, sou o homem mais infeliz deste momento em Londres. Pelo amor de Deus, não me abandone, Sr. Holmes! Se vierem prender‑me antes que eu termine a história, conceda‑me tempo para que eu lhe conte toda a verdade. Eu poderia ir para a prisão feliz se soubesse que está a meu favor.
— Prender‑lhe! — exclamou Holmes. — Isto é realmente… muito… interessante. Sob que acusação espera ser preso?
— Sob a acusação de homicídio do Sr. Jonas Oldacre, de Lower Norwood.
O rosto expressivo do meu companheiro mostrou uma simpatia que, temo, não estava totalmente destituída de satisfação.
— Ah, minha! — disse ele — era apenas neste momento do pequeno‑almoço que eu dizia ao meu amigo, Dr. Watson, que os casos sensacionais haviam desaparecido dos nossos jornais.
Nosso visitante estendeu a mão trêmula e pegou o *Daily Telegraph*, ainda repousando no colo de Holmes.
— Se o tivesse visto, senhor, teria percebido de imediato o assunto que me traz aqui nesta manhã. Sinto como se o meu nome e a minha desgraça estivessem na boca de todo mundo. — virou‑o para revelar a página central. — Eis‑a, e, com a sua permissão, lerei‑a para si. Ouça, Sr. Holmes. As manchetes são: “Caso Misterioso em Lower Norwood. Desaparecimento de um Construtor de Renome. Suspeita de Homicídio e Incêndio. Uma Pista para o Criminoso.” Essa é a pista que já seguem, Sr. Holmes, e sei que leva infalivelmente a mim. Fui seguido desde a estação London Bridge, e tenho certeza de que aguardam apenas o mandado de prisão. Partirá o coração da minha mãe — partirá o coração dela! — Ele torcia as mãos numa agonia de apreensão, balançando‑se para a frente e para trás na cadeira.
Observei‑o com interesse, acusado de ser perpetrador de um crime violento. Era loiro, de aparência atraente, de feição lavada, olhos azuis assustados, rosto limpo e barbeado, boca frágil e sensível. Parecia ter cerca de vinte e sete anos, trajando‑se como um cavalheiro. Do bolso de seu leve sobretudo de verão despontava o fardo de papéis endossados que anunciavam sua profissão.
— Devemos usar o tempo que temos — disse Holmes. — Watson, poderia ter a gentileza de apanhar o jornal e ler o parágrafo em questão?
Sob as vigorosas manchetes citadas pelo cliente, li a narrativa sugestiva que se seguia:
“Tarde da noite de ontem, ou cedo nesta manhã, ocorreu um incidente em Lower Norwood que aponta, teme-se, para um crime grave. O Sr. Jonas Oldacre é um residente bem conhecido daquele subúrbio, onde exerceu sua profissão de construtor por muitos anos. O Sr. Oldacre é solteiro, com cinquenta e dois anos de idade, e vive em Deep Dene House, na extremidade da rua de mesmo nome que dá para Sydenham. Ele tem a reputação de ser um homem de hábitos excêntricos, reservado e recluso. Há alguns anos ele praticamente se retirou dos negócios, nos quais se diz que acumulou considerável fortuna. Um pequeno depósito de madeira ainda existe, contudo, nos fundos da casa, e ontem à noite, por volta das doze horas, foi dado o alarme de que uma das pilhas estava em chamas. Os bombeiros logo chegaram ao local, mas a madeira seca ardeu com grande fúria, e foi impossível conter o incêndio até que a pilha tivesse sido inteiramente consumida. Até este ponto, o incidente apresentava a aparência de um acidente comum, mas novas indicações parecem apontar para um crime grave. Expressou-se surpresa com a ausência do dono do estabelecimento na cena do incêndio, e seguiu-se uma investigação que mostrou que ele havia desaparecido da casa. Um exame de seu quarto revelou que a cama não fora usada, que um cofre que ali ficava estava aberto, que vários papéis importantes estavam espalhados pelo cômodo e, finalmente, que havia sinais de uma luta violenta, sendo encontrados leves vestígios de sangue dentro do quarto, além de uma bengala de carvalho, que também mostrava manchas de sangue no punho. Sabe-se que o Sr. Jonas Oldacre recebeu um visitante tardio em seu quarto naquela noite, e a bengala encontrada foi identificada como propriedade desta pessoa, que é um jovem advogado de Londres chamado John Hector McFarlane, sócio júnior da Graham and McFarlane, de 426, Gresham Buildings, E.C. A polícia acredita que possui provas que fornecem um motivo muito convincente para o crime e, ao todo, não se pode duvidar de que desenvolvimentos sensacionais ocorrerão.
“MAIS TARDE. — Rumores que circulam enquanto fechamos esta edição indicam que o Sr. John Hector McFarlane foi efetivamente preso sob a acusação de homicídio do Sr. Jonas Oldacre. É pelo menos certo que um mandado foi emitido. Houve outros desenvolvimentos sinistros na investigação em Norwood. Além dos sinais de luta no quarto do infeliz construtor, sabe-se agora que as janelas francesas de seu quarto (que fica no andar térreo) foram encontradas abertas, que havia marcas como se algum objeto volumoso tivesse sido arrastado até a pilha de madeira e, finalmente, afirma-se que restos carbonizados foram encontrados entre as cinzas de carvão do incêndio. A teoria da polícia é que um crime dos mais sensacionais foi cometido, que a vítima foi espancada até a morte em seu próprio quarto, seus papéis saqueados e seu corpo sem vida arrastado para a pilha de madeira, que foi então incendiada para ocultar todos os vestígios do crime. A condução da investigação criminal foi deixada nas mãos experientes do Inspetor Lestrade, da Scotland Yard, que está seguindo as pistas com sua habitual energia e sagacidade.”
Sherlock Holmes ouviu com os olhos fechados e a ponta dos dedos unidas este relato notável.
“O caso certamente tem alguns pontos de interesse”, disse ele, em seu modo lânguido. “Posso perguntar, em primeiro lugar, Sr. McFarlane, como é que o senhor ainda está em liberdade, já que parece haver evidências suficientes para justificar sua prisão?”
“Eu moro em Torrington Lodge, Blackheath, com meus pais, Sr. Holmes, mas ontem à noite, tendo de tratar de negócios muito tarde com o Sr. Jonas Oldacre, fiquei em um hotel em Norwood e vim para o meu trabalho de lá. Não sabia nada deste caso até estar no trem, quando li o que o senhor acabou de ouvir. Vi imediatamente o perigo horrível da minha posição e me apressei em colocar o caso em suas mãos. Não tenho dúvidas de que teria sido preso em meu escritório na cidade ou em minha casa. Um homem me seguiu desde a estação de London Bridge, e não tenho dúvidas — Grande Deus! O que é isso?”
Foi um toque de campainha, seguido instantaneamente por passos pesados na escada. Um momento depois, nosso velho amigo Lestrade apareceu no umbral. Por cima de seu ombro, vislumbrei um ou dois policiais uniformizados do lado de fora.
“Sr. John Hector McFarlane?”, disse Lestrade.
Nosso infeliz cliente levantou-se com o rosto lívido.
“Eu o prendo pelo assassinato premeditado do Sr. Jonas Oldacre, de Lower Norwood.”
McFarlane virou-se para nós com um gesto de desespero e afundou novamente em sua cadeira, como alguém que está arrasado.
“Um momento, Lestrade”, disse Holmes. “Meia hora a mais ou a menos não pode fazer diferença para você, e o cavalheiro estava prestes a nos dar um relato deste caso muito interessante, o que poderia nos ajudar a esclarecê-lo.”
“Acho que não haverá dificuldade em esclarecê-lo”, disse Lestrade, severamente.
“Não obstante, com sua permissão, eu estaria muito interessado em ouvir seu relato.”
“Bem, Sr. Holmes, é difícil para mim lhe recusar qualquer coisa, pois o senhor já foi útil à força uma ou duas vezes no passado, e lhe devemos um favor na Scotland Yard”, disse Lestrade. “Ao mesmo tempo, devo permanecer com meu prisioneiro e sou obrigado a avisá-lo de que tudo o que ele disser servirá como prova contra ele.”
“Não desejo nada melhor”, disse nosso cliente. “Tudo o que peço é que o senhor ouça e reconheça a absoluta verdade.”
Lestrade olhou para seu relógio. “Vou lhe dar meia hora”, disse ele.
“Devo explicar primeiro”, disse McFarlane, “que eu não sabia nada do Sr. Jonas Oldacre. Seu nome era familiar para mim, pois, muitos anos atrás, meus pais tinham conhecimento dele, mas se distanciaram. Fiquei muito surpreso, portanto, quando ontem, por volta das três horas da tarde, ele entrou em meu escritório na cidade. Mas fiquei ainda mais atônito quando ele me disse o objeto de sua visita. Ele tinha em mãos várias folhas de um caderno, cobertas com escrita rabiscada — aqui estão elas — e as colocou sobre minha mesa.
“‘Aqui está meu testamento’, disse ele. ‘Quero que o senhor, Sr. McFarlane, o dê uma forma legal adequada. Vou sentar aqui enquanto o senhor faz isso.’
“Coloquei-me a copiá-lo, e o senhor pode imaginar meu espanto quando descobri que, com algumas ressalvas, ele havia deixado todos os seus bens para mim. Ele era um homenzinho estranho, semelhante a um furão, com cílios brancos, e quando olhei para ele, encontrei seus olhos cinzentos e penetrantes fixos em mim com uma expressão divertida. Eu mal podia acreditar nos meus próprios olhos enquanto lia os termos do testamento; mas ele explicou que era um solteiro com quase nenhum parente vivo, que conhecera meus pais em sua juventude, que sempre ouvira falar de mim como um jovem muito merecedor e que estava certo de que seu dinheiro estaria em mãos dignas. Naturalmente, só pude balbuciar meus agradecimentos. O testamento foi devidamente finalizado, assinado e testemunhado pelo meu funcionário. Este é o que está no papel azul, e estes rascunhos, como expliquei, são o esboço original. O Sr. Jonas Oldacre então me informou que havia vários documentos — contratos de construção, escrituras, hipotecas, títulos e assim por diante — que era necessário que eu visse e entendesse. Ele disse que sua mente não ficaria tranquila até que tudo estivesse resolvido, e implorou que eu fosse à sua casa em Norwood naquela noite, trazendo o testamento comigo, para arrumar as coisas. ‘Lembre-se, meu rapaz, nem uma palavra aos seus pais sobre o assunto até que tudo esteja resolvido. Vamos manter isso como uma pequena surpresa para eles.’ Ele foi muito insistente neste ponto e me fez prometer fielmente.
“O senhor pode imaginar, Sr. Holmes, que eu não estava com disposição para lhe recusar qualquer coisa que ele pudesse pedir. Ele era meu benfeitor, e todo o meu desejo era cumprir seus desejos em cada detalhe. Enviei um telegrama para casa, portanto, para dizer que tinha negócios importantes em mãos e que seria impossível dizer o quão tarde eu poderia chegar. O Sr. Oldacre me dissera que gostaria que eu jantasse com ele às nove, já que ele poderia não estar em casa antes dessa hora. Tive alguma dificuldade em encontrar sua casa, contudo, e eram quase nove e meia quando cheguei. Encontrei-o...”
“Um momento!”, disse Holmes. “Quem abriu a porta?”
“Uma mulher de meia-idade, que era, suponho, sua governanta.”
“E foi ela, presumo, quem mencionou seu nome?”
“Exatamente”, disse McFarlane.
“Por favor, prossiga.”
McFarlane enxugou a testa úmida e então continuou sua narrativa:
“Fui conduzido por esta mulher a uma sala de estar, onde um jantar frugal estava servido. Depois, o Sr. Jonas Oldacre me levou ao seu quarto, no qual havia um cofre pesado. Ele o abriu e tirou uma massa de documentos, que analisamos juntos. Eram entre onze e doze horas quando terminamos. Ele observou que não deveríamos incomodar a governanta. Ele me acompanhou até a saída pela sua própria janela francesa, que estivera aberta todo esse tempo.”
“A persiana estava abaixada?”, perguntou Holmes.
“Não tenho certeza, mas acredito que estava apenas pela metade. Sim, lembro-me de como ele a puxou para cima a fim de abrir a janela. Não consegui encontrar minha bengala, e ele disse: ‘Não se preocupe, meu rapaz, espero ver bastante de você agora, e guardarei sua bengala até que você volte para buscá-la.’ Deixei-o lá, com o cofre aberto e os papéis organizados em pacotes sobre a mesa. Era tão tarde que eu não conseguia voltar para Blackheath, então passei a noite no Anerley Arms, e não soube de mais nada até ler sobre este caso horrível pela manhã.”
“Mais alguma coisa que o senhor gostaria de perguntar, Sr. Holmes?”, disse Lestrade, cujas sobrancelhas haviam se erguido uma ou duas vezes durante esta explicação notável.
“Não até que eu tenha ido a Blackheath.”
“O senhor quer dizer Norwood”, disse Lestrade.
“Oh, sim, sem dúvida é isso que eu quis dizer”, disse Holmes, com seu sorriso enigmático. Lestrade aprendera, por mais experiências do que gostaria de admitir, que aquele cérebro podia atravessar o que era impenetrável para ele. Vi-o olhar curiosamente para meu companheiro.
“Acho que gostaria de ter uma palavra com o senhor em breve, Sr. Sherlock Holmes”, disse ele. “Agora, Sr. McFarlane, dois dos meus policiais estão à porta, e há um carro de praça esperando.” O infeliz jovem levantou-se e, com um último olhar suplicante para nós, saiu do cômodo. Os oficiais o conduziram até o táxi, mas Lestrade permaneceu.
Holmes havia pegado as páginas que formavam o esboço do testamento e estava olhando para elas com o maior interesse estampado no rosto.
“Há alguns pontos sobre esse documento, Lestrade, não há?”, disse ele, empurrando-os para o outro lado.
O oficial olhou para eles com uma expressão intrigada.
“Posso ler as primeiras linhas e estas no meio da segunda página, e uma ou duas no final. Essas são tão claras quanto a impressão”, disse ele, “mas a escrita entre elas é muito ruim, e há três lugares onde não consigo ler absolutamente nada.”
“O que o senhor deduz disso?”, disse Holmes.
“Bem, o que o senhor deduz?”
“Que foi escrito em um trem. A escrita boa representa as estações, a escrita ruim o movimento, e a escrita muito ruim a passagem sobre os desvios. Um perito científico declararia imediatamente que isto foi redigido em uma linha suburbana, já que em nenhum lugar, exceto na vizinhança imediata de uma grande cidade, poderia haver uma sucessão tão rápida de desvios. Aceitando que toda a sua viagem foi ocupada na elaboração do testamento, então o trem era um expresso, parando apenas uma vez entre Norwood e London Bridge.”
Lestrade começou a rir.
“O senhor é demais para mim quando começa a criar suas teorias, Sr. Holmes”, disse ele. “Como isso se relaciona com o caso?”
“Bem, corrobora a história do jovem na medida em que o testamento foi redigido por Jonas Oldacre em sua viagem de ontem. É curioso, não é, que um homem redija um documento tão importante de uma maneira tão casual? Sugere que ele não achava que isso teria muita importância prática. Se um homem redigisse um testamento que ele não pretendia que fosse eficaz, ele poderia fazê-lo assim.”
“Bem, ele redigiu sua própria sentença de morte ao mesmo tempo”, disse Lestrade.
“Oh, o senhor acha?”
“Não acha?”
“Bem, é perfeitamente possível, mas o caso ainda não está claro para mim.”
“Não está claro? Bem, se isso não está claro, o que poderia ser mais claro? Aqui está um jovem que descobre repentinamente que, se um certo homem mais velho morrer, ele herdará uma fortuna. O que ele faz? Ele não diz nada a ninguém, mas arranja para ir sob algum pretexto ver seu cliente naquela noite. Ele espera até que a única outra pessoa na casa esteja na cama e, então, na solidão do quarto do homem, ele o assassina, queima seu corpo na pilha de madeira e parte para um hotel vizinho. As manchas de sangue no quarto e também na bengala são muito leves. É provável que ele tenha imaginado que seu crime fosse sem derramamento de sangue e esperava que, se o corpo fosse consumido, isso ocultaria todos os vestígios do método de sua morte — vestígios que, por alguma razão, devem ter apontado para ele. Não é tudo isso óbvio?”
“Para mim, meu caro Lestrade, parece um pouco óbvio demais”, disse Holmes. “O senhor não acrescenta imaginação às suas outras grandes qualidades, mas se pudesse por um momento se colocar no lugar deste jovem, escolheria justamente a noite após a criação do testamento para cometer seu crime? Não lhe pareceria perigoso criar uma relação tão próxima entre os dois incidentes? Novamente, o senhor escolheria uma ocasião em que sabe que está na casa, quando um criado o deixou entrar? E, finalmente, o senhor se daria ao grande trabalho de ocultar o corpo e ainda deixaria sua própria bengala como um sinal de que o senhor era o criminoso? Confesse, Lestrade, que tudo isso é muito improvável.”
“Quanto à bengala, Sr. Holmes, o senhor sabe tão bem quanto eu que um criminoso muitas vezes está agitado e faz tais coisas, que um homem calmo evitaria. Ele provavelmente estava com medo de voltar ao quarto. Dê-me outra teoria que se encaixe nos fatos.”
“Eu poderia facilmente lhe dar meia dúzia”, disse Holmes. “Aqui, por exemplo, está uma muito possível e até provável. Eu lhe dou de presente. O homem mais velho está mostrando documentos que são de valor evidente. Um vagabundo que passa os vê pela janela, cuja persiana está apenas pela metade. Sai o advogado. Entra o vagabundo! Ele pega uma bengala, que observa ali, mata Oldacre e parte após queimar o corpo.”
“Por que o vagabundo queimaria o corpo?”
“Pelo mesmo motivo, por que McFarlane o faria?”
“Para ocultar alguma prova.”
“Possivelmente o vagabundo queria ocultar que qualquer assassinato tivesse sido cometido.”
“E por que o vagabundo não levou nada?”
“Porque eram papéis que ele não conseguiria negociar.”
Lestrade balançou a cabeça, embora me parecesse que seu modo estivesse menos absolutamente seguro do que antes.
“Bem, Sr. Sherlock Holmes, o senhor pode procurar seu vagabundo, e enquanto o encontra, nós nos manteremos com nosso homem. O futuro mostrará quem está certo. Apenas note este ponto, Sr. Holmes: que até onde sabemos, nenhum dos papéis foi removido, e que o prisioneiro é o único homem no mundo que não tinha motivos para removê-los, já que ele era o herdeiro legal e ficaria com eles de qualquer maneira.”
Meu amigo pareceu impressionado com essa observação.
“Não pretendo negar que as evidências sejam de certa forma muito favoráveis à sua teoria”, disse ele. “Só desejo ressaltar que outras teorias são possíveis. Como o senhor diz, o futuro decidirá. Bom dia! Acredito que no decorrer do dia darei um pulo em Norwood para ver como o senhor está se saindo.”
Quando o detetive partiu, meu amigo levantou-se e fez seus preparativos para o trabalho do dia com o ar alerta de um homem que tem uma tarefa agradável à sua frente.
“Meu primeiro movimento, Watson”, disse ele, enquanto se ajustava em seu sobretudo, “deve, como eu disse, ser na direção de Blackheath.”
“E por que não Norwood?”
“Porque temos neste caso um incidente singular seguindo os passos de outro incidente singular. A polícia está cometendo o erro de concentrar sua atenção no segundo, porque acontece de ser o que é realmente criminoso. Mas é evidente para mim que a maneira lógica de abordar o caso é começar tentando lançar alguma luz sobre o primeiro incidente — o testamento curioso, feito tão repentinamente, e para um herdeiro tão inesperado. Pode fazer algo para simplificar o que se seguiu. Não, meu caro amigo, não acho que você possa me ajudar. Não há perspectiva de perigo, ou eu não sonharia em sair sem você. Confio que, quando eu o vir à noite, poderei relatar que fui capaz de fazer algo por este rapaz infeliz, que se lançou sob minha proteção.”
Era tarde quando meu amigo retornou, e pude ver, por um olhar em seu rosto abatido e ansioso, que as grandes esperanças com as quais ele começara não haviam sido cumpridas. Por uma hora ele dedilhou seu violino, esforçando-se para acalmar seu próprio espírito perturbado. Por fim, ele largou o instrumento e mergulhou em um relato detalhado de seus infortúnios.
“Está tudo dando errado, Watson — tudo o que pode dar errado. Mantive uma cara corajosa diante de Lestrade, mas, por minha alma, acredito que, pela primeira vez, o sujeito está no caminho certo e nós estamos no errado. Todos os meus instintos dizem uma coisa, e todos os fatos dizem outra, e temo muito que os júris britânicos ainda não tenham atingido aquele nível de inteligência em que darão preferência às minhas teorias sobre os fatos de Lestrade.”
“Você foi a Blackheath?”
“Sim, Watson, fui lá e descobri muito rapidamente que o falecido e lamentado Oldacre era um crápula considerável. O pai estava fora em busca de seu filho. A mãe estava em casa — uma pequena pessoa de olhos azuis e aparência frágil, tremendo de medo e indignação. Naturalmente, ela não admitiria nem a possibilidade de sua culpa. Mas não expressou surpresa nem pesar pelo destino de Oldacre. Pelo contrário, falou dele com tanta amargura que, inconscientemente, fortaleceu consideravelmente o caso da polícia, pois, é claro, se seu filho a tivesse ouvido falar do homem dessa maneira, isso o predisporia ao ódio e à violência. ‘Ele era mais parecido com um macaco maligno e astuto do que com um ser humano’, disse ela, ‘e sempre foi, desde que era jovem’.”
“‘A senhora o conhecia naquela época?’, perguntei.”
“‘Sim, eu o conhecia bem; na verdade, ele era um antigo pretendente meu. Graças aos céus que tive o bom senso de me afastar dele e me casar com um homem melhor, ainda que mais pobre. Eu estava noiva dele, Sr. Holmes, quando ouvi uma história chocante de como ele soltou um gato em um viveiro, e fiquei tão horrorizada com sua crueldade brutal que não quis ter mais nada com ele.’ Ela revirou uma escrivaninha e, logo, produziu uma fotografia de uma mulher, vergonhosamente desfigurada e mutilada com uma faca. ‘Essa é minha própria fotografia’, disse ela. ‘Ele a enviou para mim naquele estado, com sua maldição, na manhã do meu casamento.’”
“‘Bem’, eu disse, ‘pelo menos ele a perdoou agora, já que deixou todos os seus bens para seu filho.’”
— Nem meu filho nem eu queremos nada de Jonas Oldacre, vivo ou morto! — exclamou ela, com um espírito adequado. — Existe um Deus no céu, Sr. Holmes, e esse mesmo Deus que puniu aquele homem perverso mostrará, no Seu devido tempo, que as mãos do meu filho estão limpas de seu sangue.
— Bem, tentei uma ou duas pistas, mas não consegui nada que corroborasse nossa hipótese, e vários pontos que militavam contra ela. Por fim, desisti e fui para Norwood.
— Este lugar, Deep Dene House, é uma grande vila moderna de tijolos aparentes, situada em seu próprio terreno, com um gramado cercado de loureiros à frente. À direita e a certa distância da estrada ficava a madeireira que foi palco do incêndio. Aqui está um esboço grosseiro na folha do meu caderno. Esta janela à esquerda é a que dá para o quarto de Oldacre. Dá para ver o interior da estrada, como pode notar. Essa é praticamente a única consolação que tive hoje. Lestrade não estava lá, mas seu inspetor-chefe fez as honras. Eles tinham acabado de encontrar um grande tesouro. Tinham passado a manhã remexendo nas cinzas da pilha de madeira queimada e, além dos restos orgânicos carbonizados, garantiram vários discos metálicos descoloridos. Examinei-os com atenção e não havia dúvida de que eram botões de calça. Consegui até distinguir que um deles estava marcado com o nome de “Hyams”, que era o alfaiate de Oldacre. Depois, analisei o gramado com muito cuidado em busca de sinais e rastros, mas esta seca deixou tudo duro como ferro. Nada se via, exceto que algum corpo ou fardo fora arrastado através de uma cerca baixa de alfeneiro que fica na mesma linha da pilha de madeira. Tudo isso, é claro, se encaixa na teoria oficial. Rastejei pelo gramado com um sol de agosto nas costas, mas, ao fim de uma hora, levantei-me sem saber mais do que antes.
— Bem, depois desse fiasco, entrei no quarto e examinei-o também. As manchas de sangue eram muito leves, meras marcas e descolorações, mas, sem dúvida, frescas. A bengala fora removida, mas ali também as marcas eram leves. Não há dúvida de que a bengala pertencia ao nosso cliente. Ele admite isso. As marcas de pegadas de ambos os homens podiam ser distinguidas no tapete, mas nenhuma de uma terceira pessoa, o que, novamente, é uma armadilha para o outro lado. Eles estavam acumulando pontos o tempo todo e nós estávamos num impasse.
— Apenas um pequeno vislumbre de esperança tive — e, no entanto, não deu em nada. Examinei o conteúdo do cofre, a maior parte do qual fora retirado e deixado sobre a mesa. Os papéis tinham sido colocados em envelopes lacrados, um ou dois dos quais haviam sido abertos pela polícia. Eles não eram, até onde pude julgar, de grande valor, nem o talão de cheques mostrava que o Sr. Oldacre estivesse em circunstâncias tão abastadas. Mas pareceu-me que nem todos os papéis estavam lá. Havia alusões a algumas escrituras — possivelmente as mais valiosas — que não consegui encontrar. Isso, é claro, se pudéssemos provar definitivamente, voltaria o argumento de Lestrade contra ele mesmo, pois quem roubaria algo se soubesse que logo o herdaria?
— Finalmente, tendo revistado todos os outros esconderijos e não encontrado nenhum rastro, tentei a sorte com a governanta. Sra. Lexington é seu nome — uma pessoa pequena, morena, silenciosa, com olhos desconfiados e enviesados. Ela poderia nos dizer algo se quisesse — estou convencido disso. Mas ela era fechada como uma ostra. Sim, ela deixara o Sr. McFarlane entrar às nove e meia. Desejara que sua mão tivesse secado antes de tê-lo feito. Fora dormir às dez e meia. Seu quarto ficava no outro extremo da casa e ela não podia ouvir nada do que acontecera. O Sr. McFarlane deixara seu chapéu e, segundo ela acreditava, sua bengala no corredor. Fora acordada pelo alarme de incêndio. Seu pobre e querido patrão fora certamente assassinado. Ele tinha inimigos? Bem, todo homem tem inimigos, mas o Sr. Oldacre era muito reservado e só encontrava pessoas por negócios. Ela vira os botões e tinha certeza de que pertenciam às roupas que ele usara na noite anterior. A pilha de madeira estava muito seca, pois não chovia há um mês. Queimou como palha e, quando chegou ao local, nada se via além de chamas. Ela e todos os bombeiros sentiram o cheiro de carne queimada vindo de dentro. Ela não sabia nada sobre os papéis, nem sobre os negócios particulares do Sr. Oldacre.
— Então, meu caro Watson, eis o meu relatório de um fracasso. E, no entanto... e, no entanto... — ele cerrou as mãos finas num paroxismo de convicção — eu sei que tudo está errado. Sinto isso nos ossos. Há algo que não veio à tona, e aquela governanta sabe. Havia uma espécie de desafio amuado em seus olhos, que só combina com um conhecimento culpado. Contudo, não adianta mais falar sobre isso, Watson; mas, a menos que alguma chance de sorte apareça, temo que o Caso do Desaparecimento de Norwood não figurará naquela crônica de nossos sucessos que prevejo que um público paciente terá, cedo ou tarde, de suportar.
— Certamente — disse eu —, a aparência do homem pesaria muito para qualquer júri?
— Esse é um argumento perigoso, meu caro Watson. Você se lembra daquele terrível assassino, Bert Stevens, que queria que o livrássemos em 87? Já houve um jovem de maneiras mais suaves e frequentador de escola dominical?
— É verdade.
— A menos que consigamos estabelecer uma teoria alternativa, este homem está perdido. Dificilmente se pode encontrar uma falha no caso que agora pode ser apresentado contra ele, e toda investigação posterior serviu para fortalecê-lo. A propósito, há um pequeno ponto curioso sobre aqueles papéis que pode nos servir como ponto de partida para uma investigação. Ao examinar o talão de cheques, descobri que o saldo baixo se devia principalmente a grandes cheques que foram emitidos durante o último ano para o Sr. Cornelius. Confesso que estaria interessado em saber quem pode ser esse Sr. Cornelius com quem um construtor aposentado tem transações tão grandes. É possível que ele tenha tido participação no caso? Cornelius poderia ser um corretor, mas não encontramos papéis que correspondam a esses grandes pagamentos. Na falta de qualquer outra indicação, minhas pesquisas devem agora tomar a direção de uma investigação no banco sobre o cavalheiro que descontou esses cheques. Mas temo, meu caro amigo, que nosso caso termine ingloriamente com Lestrade enforcando nosso cliente, o que certamente será um triunfo para a Scotland Yard.
Não sei quanto Sherlock Holmes dormiu naquela noite, mas, quando desci para o café da manhã, encontrei-o pálido e abatido, seus olhos brilhantes ainda mais brilhantes pelas sombras escuras ao redor deles. O tapete em volta de sua cadeira estava coberto de pontas de cigarro e das primeiras edições dos jornais da manhã. Um telegrama aberto jazia sobre a mesa.
— O que você acha disso, Watson? — perguntou ele, lançando-o sobre a mesa.
Era de Norwood e dizia o seguinte:
Nova evidência importante em mãos. Culpa de McFarlane definitivamente estabelecida. Aconselho abandonar o caso. — LESTRADE.
— Isso soa sério — disse eu.
— É o pequeno cocorocó de vitória de Lestrade — respondeu Holmes, com um sorriso amargo. — E, no entanto, pode ser prematuro abandonar o caso. Afinal, uma nova evidência importante é uma faca de dois gumes e pode possivelmente cortar numa direção muito diferente da que Lestrade imagina. Tome seu café da manhã, Watson, e sairemos juntos para ver o que podemos fazer. Sinto que precisarei da sua companhia e do seu apoio moral hoje.
Meu amigo não tomou café da manhã, pois era uma de suas peculiaridades que, em seus momentos mais intensos, ele não se permitia nenhum alimento, e já o vi abusar de sua força de ferro até desmaiar de pura inanição. “No momento, não posso dispensar energia e força nervosa para a digestão”, costumava dizer em resposta às minhas censuras médicas. Não me surpreendi, portanto, quando naquela manhã ele deixou sua refeição intocada para trás e partiu comigo para Norwood. Uma multidão de curiosos mórbidos ainda estava reunida em torno da Deep Dene House, que era exatamente a vila suburbana que eu havia imaginado. Dentro dos portões, Lestrade nos encontrou, o rosto corado de vitória, seu jeito grosseiramente triunfante.
— Bem, Sr. Holmes, já provou que estamos errados? Encontrou seu vagabundo? — gritou ele.
— Não formei conclusão alguma — respondeu meu companheiro.
— Mas nós formamos a nossa ontem, e agora ela prova estar correta, então deve reconhecer que estivemos um pouco à sua frente desta vez, Sr. Holmes.
— Você certamente tem o ar de que algo incomum ocorreu — disse Holmes.
Lestrade riu alto.
— Você não gosta de ser batido mais do que o resto de nós — disse ele. — Um homem não pode esperar ter sempre a sua maneira, pode, Dr. Watson? Venham por aqui, por favor, cavalheiros, e acho que posso convencê-los de uma vez por todas de que foi John McFarlane quem cometeu este crime.
Ele nos conduziu pelo corredor e saiu para um saguão escuro adiante.
— É aqui que o jovem McFarlane deve ter saído para pegar seu chapéu depois que o crime foi cometido — disse ele. — Agora olhem para isto. Com uma súbita dramaticidade, ele riscou um fósforo e, à sua luz, expôs uma mancha de sangue na parede caiada. À medida que aproximava o fósforo, vi que era mais do que uma mancha. Era a impressão bem marcada de um polegar.
— Olhe para isso com sua lupa, Sr. Holmes.
— Sim, estou fazendo isso.
— Você está ciente de que não existem duas marcas de polegar iguais?
— Ouvi dizer algo do tipo.
— Bem, então, por favor, compare essa marca com esta impressão em cera do polegar direito do jovem McFarlane, tirada por minhas ordens esta manhã?
Enquanto ele segurava a impressão de cera perto da mancha de sangue, não foi preciso uma lupa para ver que as duas eram, sem dúvida, do mesmo polegar. Ficou evidente para mim que nosso infeliz cliente estava perdido.
— Isso é definitivo — disse Lestrade.
— Sim, isso é definitivo — ecoei involuntariamente.
— É definitivo — disse Holmes.
Algo em seu tom chamou minha atenção e eu me virei para olhá-lo. Uma mudança extraordinária ocorrera em seu rosto. Ele se contorcia com um regozijo interior. Seus dois olhos brilhavam como estrelas. Parecia-me que ele estava fazendo esforços desesperados para conter um ataque convulsivo de riso.
— Meu Deus! Meu Deus! — disse ele, por fim. — Bem, agora, quem diria? E como as aparências podem ser enganosas, com certeza! Um jovem tão simpático de se olhar! É uma lição para não confiarmos em nosso próprio julgamento, não é, Lestrade?
— Sim, alguns de nós estão um pouco inclinados demais a ter certeza absoluta, Sr. Holmes — disse Lestrade. A insolência do homem era enlouquecedora, mas não podíamos nos ressentir.
— Que coisa providencial que este jovem pressione seu polegar direito contra a parede ao pegar seu chapéu do gancho! Uma ação tão natural, se você parar para pensar nisso. — Holmes estava exteriormente calmo, mas todo o seu corpo deu um movimento de emoção reprimida enquanto falava.
— A propósito, Lestrade, quem fez esta descoberta notável?
— Foi a governanta, Sra. Lexington, que chamou a atenção do policial noturno para isso.
— Onde estava o policial noturno?
— Ele permaneceu de guarda no quarto onde o crime foi cometido, para ver se nada era tocado.
— Mas por que a polícia não viu esta marca ontem?
— Bem, não tínhamos motivo especial para fazer um exame cuidadoso do saguão. Além disso, não está num lugar muito proeminente, como pode ver.
— Não, não — claro que não. Suponho que não haja dúvida de que a marca estava lá ontem?
Lestrade olhou para Holmes como se achasse que ele estava perdendo o juízo. Confesso que eu mesmo fiquei surpreso tanto com seu jeito hilário quanto com sua observação um tanto insensata.
— Não sei se você acha que McFarlane saiu da cadeia no meio da noite para fortalecer a evidência contra si mesmo — disse Lestrade. — Deixo para qualquer especialista no mundo se aquela não é a marca de seu polegar.
— É inquestionavelmente a marca de seu polegar.
— Pronto, isso basta — disse Lestrade. — Sou um homem prático, Sr. Holmes, e quando tenho minha evidência, chego às minhas conclusões. Se tem algo a dizer, encontrará-me escrevendo meu relatório na sala de estar.
Holmes recuperara sua equanimidade, embora eu ainda parecesse detectar lampejos de divertimento em sua expressão.
— Meu Deus, este é um desdobramento muito triste, Watson, não é? — disse ele. — E, no entanto, há pontos singulares a respeito que mantêm algumas esperanças para nosso cliente.
— Fico encantado em ouvir isso — disse eu, sinceramente. — Tive medo de que tudo estivesse acabado para ele.
— Dificilmente iria tão longe a ponto de dizer isso, meu caro Watson. O fato é que há uma falha realmente séria nesta evidência à qual nosso amigo atribui tanta importância.
— De fato, Holmes! O que é?
— Apenas isto: que eu sei que aquela marca não estava lá quando examinei o saguão ontem. E agora, Watson, vamos dar um pequeno passeio ao sol.
Com o cérebro confuso, mas com um coração no qual algum calor de esperança retornava, acompanhei meu amigo numa caminhada pelo jardim. Holmes examinou cada face da casa por vez, e analisou-a com grande interesse. Em seguida, liderou o caminho para dentro e percorreu todo o edifício, do porão ao sótão. A maioria dos cômodos não estava mobiliada, mas, ainda assim, Holmes inspecionou todos minuciosamente. Finalmente, no corredor superior, que passava por fora de três quartos desocupados, ele foi novamente tomado por um espasmo de divertimento.
— Há realmente algumas características muito singulares sobre este caso, Watson — disse ele. — Acho que é hora de confiarmos em nosso amigo Lestrade. Ele deu sua pequena risada às nossas custas, e talvez possamos fazer o mesmo com ele, se minha leitura deste problema provar estar correta. Sim, sim, acho que vejo como devemos abordá-lo.
O inspetor da Scotland Yard ainda estava escrevendo na sala de estar quando Holmes o interrompeu.
— Entendi que você estava escrevendo um relatório deste caso — disse ele.
— Assim estou.
— Não acha que pode ser um pouco prematuro? Não posso deixar de pensar que sua evidência não está completa.
Lestrade conhecia meu amigo bem demais para desconsiderar suas palavras. Ele pousou a pena e olhou para ele com curiosidade.
— O que quer dizer, Sr. Holmes?
— Apenas que há uma testemunha importante que você não viu.
— Pode apresentá-la?
— Acho que posso.
— Então faça-o.
— Farei o meu melhor. Quantos policiais você tem?
— Há três ao alcance.
— Excelente! — disse Holmes. — Posso perguntar se são todos homens grandes, robustos, com vozes poderosas?
— Não tenho dúvida de que são, embora não veja o que suas vozes têm a ver com isso.
— Talvez eu possa ajudá-lo a ver isso e uma ou duas outras coisas também — disse Holmes. — Por favor, chame seus homens, e eu tentarei.
Cinco minutos depois, três policiais estavam reunidos no saguão.
— No anexo, vocês encontrarão uma quantidade considerável de palha — disse Holmes. — Pedirei que tragam dois feixes dela. Acho que será da maior ajuda para produzir a testemunha que preciso. Muito obrigado. Acredito que você tenha alguns fósforos no bolso, Watson. Agora, Sr. Lestrade, pedirei a todos que me acompanhem até o patamar superior.
Como eu disse, havia um corredor largo ali, que passava por fora de três quartos vazios. Numa extremidade do corredor, fomos todos organizados por Sherlock Holmes, os policiais rindo e Lestrade olhando para meu amigo com espanto, expectativa e escárnio cruzando suas feições. Holmes estava diante de nós com o ar de um mágico que está realizando um truque.
— Poderia gentilmente enviar um de seus policiais para buscar dois baldes de água? Coloque a palha no chão aqui, livre da parede de ambos os lados. Agora acho que estamos todos prontos.
O rosto de Lestrade começara a ficar vermelho e irritado. — Não sei se você está jogando um jogo conosco, Sr. Sherlock Holmes — disse ele. — Se sabe de algo, certamente pode dizê-lo sem toda essa palhaçada.
— Garanto-lhe, meu caro Lestrade, que tenho uma excelente razão para tudo o que faço. Você pode possivelmente lembrar que zombou de mim um pouco, algumas horas atrás, quando o sol parecia estar do seu lado, então não deve me negar um pouco de pompa e cerimônia agora. Poderia pedir-lhe, Watson, para abrir aquela janela e, então, colocar um fósforo na borda da palha?
Eu o fiz e, impulsionada pela corrente de ar, uma espiral de fumaça cinzenta contorceu-se pelo corredor, enquanto a palha seca estalava e flamejava.
— Agora devemos ver se conseguimos encontrar esta testemunha para você, Lestrade. Poderia pedir a todos que se juntem ao grito de “Fogo!”? Agora então; um, dois, três...
— Fogo! — gritamos todos.
— Obrigado. Vou incomodá-los mais uma vez.
— Fogo!
— Apenas mais uma vez, cavalheiros, e todos juntos.
— Fogo! O grito deve ter ressoado por Norwood.
Mal tinha morrido quando uma coisa incrível aconteceu. Uma porta de repente abriu-se no que parecia ser uma parede sólida no final do corredor, e um homem pequeno e franzino disparou para fora dela, como um coelho de sua toca.
— Capital! — disse Holmes, calmamente. — Watson, um balde de água sobre a palha. Isso servirá! Lestrade, permita-me apresentar-lhe sua principal testemunha desaparecida, Sr. Jonas Oldacre.
O detetive olhou para o recém-chegado com espanto vazio. Este último estava piscando na luz forte do corredor, observando-nos e ao fogo que fumegava. Era um rosto odioso — astuto, vicioso, maligno, com olhos cinzentos e inquietos e cílios brancos.
— O que é isso, então? — disse Lestrade, por fim. — O que você esteve fazendo todo esse tempo, hein?
Oldacre deu uma risada inquieta, encolhendo-se diante do rosto vermelho e furioso do detetive irritado.
— Não fiz nenhum mal.
— Nenhum mal? Você fez o seu melhor para que um homem inocente fosse enforcado. Se não fosse por este cavalheiro aqui, não tenho certeza se você não teria tido sucesso.
A criatura miserável começou a choramingar.
— Tenho certeza, senhor, que foi apenas minha brincadeira prática.
— Ah! Uma brincadeira, foi? Você não achará graça do seu lado, eu prometo. Levem-no para baixo e mantenham-no na sala de estar até que eu chegue. Sr. Holmes — continuou ele, quando eles partiram —, não pude falar antes dos policiais, mas não me importo de dizer, na presença do Dr. Watson, que esta é a coisa mais brilhante que você fez até agora, embora seja um mistério para mim como você fez. Você salvou a vida de um homem inocente e impediu um escândalo muito grave, que teria arruinado minha reputação na Força.
Holmes sorriu e deu um tapinha no ombro de Lestrade.
— Em vez de ser arruinado, meu caro senhor, você descobrirá que sua reputação foi enormemente realçada. Apenas faça algumas alterações naquele relatório que você estava escrevendo, e eles entenderão quão difícil é jogar poeira nos olhos do inspetor Lestrade.
— E você não quer que seu nome apareça?
— De jeito nenhum. O trabalho é sua própria recompensa. Talvez eu receba o crédito também num dia distante, quando eu permitir que meu zeloso historiador apresente seu papel mais uma vez — eh, Watson? Bem, agora, vamos ver onde este rato esteve escondido.
Uma divisória de ripas e gesso fora erguida através da passagem a dois metros do fim, com uma porta astuciosamente escondida nela. Era iluminada por dentro por fendas sob os beirais. Alguns artigos de mobiliário e um suprimento de comida e água estavam lá dentro, juntamente com vários livros e papéis.
“Essa é a vantagem de ser construtor,” disse Holmes, ao sairmos. “Ele conseguiu montar seu próprio pequeno esconderijo sem nenhum comparsa — salvo, claro, aquela preciosa empregada dele, a quem não tardaria em acrescentar à sua bolsa, Lestrade.”
“Seguirei o seu conselho. Mas como soube desse lugar, Sr. Holmes?”
“Resolvi que o sujeito se escondia na casa. Quando percorri um corredor e achei‑o seis pés mais curto que o correspondente abaixo, ficou bem claro onde ele estava. Pensei que ele não teria coragem de permanecer quieto diante de um alarme de incêndio. Poderíamos, evidentemente, ter entrado e capturado‑o, mas divertiu‑me fazê‑lo revelar‑se. Além disso, devia-lhe uma pequena mistificação, Lestrade, por suas tolices matinais.”
“Pois bem, senhor, isso certamente me igualou a você nessa questão. Mas, como diabos sabia que ele estava na casa?”
“A marca do polegar, Lestrade. Você disse que era definitiva; e assim foi, num sentido muito diferente. Sabia que não estava lá no dia anterior. Dou muita atenção aos detalhes, como deve ter notado, e examinei o hall, estando certo de que a parede estava limpa. Portanto, fora colocada durante a noite.”
“Mas como?”
“Muito simples. Quando aqueles pacotes foram lacrados, Jonas Oldacre fez com que McFarlane assegurasse um dos selos pressionando o polegar sobre a cera mole. Fez‑se tão rápido e naturalmente que ouso dizer que o próprio jovem nem se lembra do gesto. Muito provavelmente aconteceu por acaso, e Oldacre não tinha ideia da utilidade que lhe daria. Meditando o caso naquele seu canto, lhe ocorreu que poderia produzir contra McFarlane uma prova absolutamente condenatória usando aquela marca de polegar. Foi a coisa mais simples do mundo para ele retirar uma impressão de cera do selo, umedecê‑la com o máximo de sangue que conseguisse de um picadinho, e colocar a marca na parede durante a noite, seja com a própria mão ou com a da empregada. Se examinar os documentos que ele levou ao seu refúgio, arrisco que encontrará o selo com a marca de polegar.”
“Maravilhoso!” exclamou Lestrade. “Maravilhoso! Está tudo tão claro como cristal, como diz. Mas qual é o objetivo desse engano profundo, Sr. Holmes?”
Divertiu‑me observar como o modo arrogante do detetive mudou subitamente para o de uma criança a fazer perguntas ao seu professor.
“Bem, não creio que seja difícil de explicar. Um homem muito profundo, malicioso e vindicativo é o cavalheiro que agora nos espera lá embaixo. Sabe que foi recusado pela mãe de McFarlane? Não sabe! Eu lhe disse que deveria ir primeiro a Blackheath e depois a Norwood. Pois bem, essa injúria, como ele a consideraria, fermentou em seu cérebro perverso e conspirador, e toda a sua vida desejou vingança, sem nunca encontrar ocasião. Nos últimos um ou dois anos, as coisas lhe voltaram contra — especulação secreta, ao que parece — e ele se viu em maus lençóis. Decidiu fraudar seus credores e, para tanto, paga grandes cheques a certo Sr. Cornelius, que imagino estar sob outro nome. Ainda não localizei esses cheques, mas não duvido que tenham sido depositados sob esse nome numa cidade provincial onde Oldacre, de tempos em tempos, levava uma vida dupla. Pretendia mudar de nome completamente, levantar o dinheiro e desaparecer, recomeçando a vida em outro lugar.”
“Bem, isso basta para crer.”
“Pensou que, ao desaparecer, poderia despistar toda a perseguição e, simultaneamente, exercer uma vingança ampla e esmagadora sobre sua antiga amada, se conseguisse dar a impressão de que ela havia sido assassinada pelo único filho. Foi uma obra‑prima de vilania, executada como um mestre. A ideia do testamento, que daria um motivo evidente para o crime, a visita secreta desconhecida pelos próprios pais, a retenção do bastão, o sangue, os restos animais e botões no monte de lenha, tudo era admirável. Parecia uma rede da qual, há poucas horas, eu via que não havia escapatória possível. Mas lhe faltava o dom supremo do artista, o saber de quando parar. Queria melhorar o que já era perfeito — apertar ainda mais a corda ao redor do pescoço de sua infeliz vítima — e assim estragou tudo. Desçamos, Lestrade. Restam‑nos uma ou duas questões que eu lhe faria.”
A criatura malévola estava sentada em seu próprio salão, com um policial de cada lado.
“Foi uma piada, meu bom senhor — uma brincadeira prática, nada mais,” ele choramingava incessantemente. “Asseguro‑le, senhor, que apenas me escondi para observar o efeito de meu desaparecimento, e tenho certeza de que não seria tão injusto a ponto de imaginar que eu permitiria algum dano ao pobre jovem Sr. McFarlane.”
“Isso cabe a um júri decidir,” disse Lestrade. “Enfim, o acusaremos de conspiração, senão de tentativa de homicídio.”
“E provavelmente descobrirá que seus credores confiscarão a conta bancária do Sr. Cornelius,” acrescentou Holmes.
O pequeno homem sobressaltou‑se e voltou seus olhos malévolos para o meu amigo.
“Tenho muito a lhe agradecer,” disse ele. “Talvez um dia pague minha dívida.”
Holmes sorriu indulgente.
“Imagino que, por alguns anos, encontrará o seu tempo bastante ocupado,” comentou ele. “A propósito, o que pôs no monte de lenha além das suas velhas calças? Um cão morto, coelhos, ou quê? Não vai me contar? Meu Deus, como é cruel da sua parte! Pois bem, ouso dizer que dois coelhos bastariam para explicar tanto o sangue quanto as cinzas carbonizadas. Se algum dia escrever um relato, Watson, pode fazer os coelhos servir ao seu turno.”
THE ADVENTURE OF THE DANCING MEN
Holmes permanecia sentado, por algumas horas, em silêncio, com as costas longas e finas curvadas sobre um recipiente químico no qual preparava um produto particularmente fétido. A cabeça estava encostada ao peito, e, ao meu ver, parecia um pássaro estranho e esguio, de plumagem cinzenta opaca e um topete negro.
“Então, Watson,” disse ele, de repente, “não pretende investir em títulos sul‑africanos?”
Dei um sobressalto de espanto. Acostumado às curiosas faculdades de Holmes, aquela intrusão repentina nos meus pensamentos mais íntimos foi totalmente inexplicável.
“Como diabos sabe disso?” perguntei.
Ele girou no banquinho, com um tubo de ensaio fumegante na mão e um brilho de divertimento nos olhos fundos.
“Agora, Watson, confesse que está totalmente perplexo,” disse ele.
“Estou.”
“Devo fazê‑lo assinar um papel nesse sentido.”
“Por quê?”
“Porque em cinco minutos dirá que tudo isto é absurdamente simples.”
“Tenho certeza de que não direi nada desse tipo.”
“Vê, meu caro Watson,” — apoiou o tubo de ensaio no suporte e começou a palestrar com a ares de professor diante da classe — “não é realmente difícil construir uma série de inferências, cada qual dependente da anterior e cada uma simples por si só. Se, depois de fazê‑las, simplesmente eliminar todas as inferências centrais e apresentar ao seu público o ponto de partida e a conclusão, pode produzir um efeito surpreendente, embora talvez meretrício. Agora, não foi difícil, ao examinar o sulco entre o seu dedo indicador esquerdo e o polegar, ter certeza de que não pretendia investir seu pequeno capital nos campos de ouro.”
“Não vejo conexão.”
“Muito provável que não haja; mas posso mostrar rapidamente uma conexão estreita. Eis os elos faltantes da cadeia muito simples: 1. Tinha giz entre o dedo esquerdo e o polegar quando voltou do clube ontem à noite. 2. Usa giz ao jogar bilhar, para estabilizar o taco. 3. Só joga bilhar com Thurston. 4. Há quatro semanas disse‑me que Thurston tinha uma opção sobre alguma propriedade sul‑africana que expiraria em um mês, e que desejava que você a partilhasse. 5. Seu talão de cheques está trancado na minha gaveta, e não pediu a chave. 6. Não pretende investir seu dinheiro dessa maneira.”
“Quão absurdamente simples!” exclamei.
“Exatamente!” respondeu ele, ligeiramente irritado. “Todo problema torna‑se muito infantil quando lhe é explicado. Eis um não‑explicado. Veja o que pode fazer disso, amigo Watson.” Ele lançou uma folha de papel sobre a mesa e voltou novamente à sua análise química.
Olhei, admirado, para os hieróglifos absurdos sobre o papel.
“Por que, Holmes, é um desenho de criança,” clamei.
“Oh, essa é a sua ideia!”
“O que mais poderia ser?”
“É isso que o Sr. Hilton Cubitt, de Riding Thorpe Manor, Norfolk, está muito ansioso por saber. Este pequeno enigma chegou pelo primeiro correio, e ele deveria seguir no próximo trem. Há um toque ao sino, Watson. Não ficaria muito surpreso se fosse ele.”
Um passo pesado ouviu‑se nas escadas, e instantes depois entrou um alto cavalheiro rubicundo, bem barbeado, cujos olhos claros e faces coradas denunciavam uma vida longe das névoas de Baker Street. Parecia trazer consigo um sopro do seu forte, fresco e vigoroso ar da costa leste ao adentrar. Depois de apertar as mãos de cada um de nós, estava prestes a sentar‑se, quando o olhar pousou sobre o papel com as marcações curiosas que eu acabara de examinar e deixar sobre a mesa.
“Bem, Sr. Holmes, o que pensa destas?” exclamou. “Disseram‑me que o senhor gosta de mistérios peculiares, e não creio que haja um mais estranho do que este. Enviei o papel adiantado, para que pudesse estudá‑lo antes da minha chegada.”
“É, sem dúvida, uma produção bastante curiosa,” disse Holmes. “À primeira vista poderia parecer uma brincadeira infantil. Consiste num número de figuras absurdas dançando sobre o papel onde foram desenhadas. Por que atribuiria importância a tão grotesco objeto?”
“Jamais o faria, Sr. Holmes. Mas minha esposa sim. Isto a assusta até a morte. Não diz nada, mas vejo terror em seus olhos. Por isso quero chegar ao fundo da questão.”
Holmes levantou o papel para que a luz do sol o iluminasse totalmente. Era uma página rasgada de um caderno. As marcas estavam feitas a lápis e seguiam assim:
AM‑HERE‑ABE‑SLANEY
Holmes examinou‑o por algum tempo e, então, dobrando‑o cuidadosamente, pôs‑o em seu bolso.
“Isto promete ser um caso muito interessante e incomum,” comentou. “Você me deu alguns pormenores em sua carta, Sr. Hilton Cubitt, mas ficaria muito agradecido se fizesse o favor de recapitular tudo novamente, para o benefício do meu amigo, Dr. Watson.”
“Não sou muito contador de histórias,” disse nosso visitante, apertando e desapertando as mãos grandes e fortes. “Só me pergunte o que não deixar claro. Começarei pelo momento do meu casamento no ano passado, mas antes devo dizer que, embora não seja rico, minha família está em Riding Thorpe há cerca de cinco séculos, e não há família mais conhecida no condado de Norfolk. No ano passado fui a Londres para o Jubileu e parei num boarding‑house em Russell Square, porque o reverendo Parker, pároco da nossa paróquia, estava lá hospedado. Havia uma jovem americana — Patrick era o sobrenome — Elsie Patrick. De alguma forma tornámo‑nos amigos, até que, antes de terminar o mês, eu estava tão apaixonado quanto um homem pode estar. Casámo‑nos discretamente num cartório e voltamos a Norfolk como casal recém‑casado. Pensará, Sr. Holmes, que é muito insano um homem de família tão antiga casar‑se assim, sem saber nada de seu passado ou de sua gente, mas se a visse e a conhecesse, ajudaria a compreender.
“Ela foi muito direta, era Elsie. Não posso dizer que não me deu todas as chances de sair dessa se eu quisesse. ‘Tive algumas associações muito desagradáveis na vida’, dizia ela, ‘quero esquecer tudo. Prefiro nunca mencionar o passado, pois é muito doloroso para mim. Se me tomar, Hilton, tomará uma mulher que não tem nada que a faça pessoalmente envergonhada, mas terá de ficar com a minha palavra e me permitir silenciar tudo o que passou até eu me tornar sua’. Se essas condições forem muito rígidas, volte a Norfolk e deixe‑me viver a vida solitária em que me encontrou.’ Foi só no dia anterior ao nosso casamento que ela me disse estas palavras. Eu lhe respondi que aceitaria tomá‑la nos seus próprios termos, e mantive a palavra.
“Bem, já estamos casados há um ano e muito felizes. Mas, há cerca de um mês, no final de junho, vi, pela primeira vez, sinais de problema. Um dia minha esposa recebeu uma carta da América. Vi o selo americano. Ela ficou morta de palidez, leu a carta e a lançou ao fogo. Não fez mais alusão a ela, e eu não a fiz, pois promessa é promessa, mas nunca mais teve um momento tranquilo desde então. Sempre há um olhar de medo em seu rosto — como se esperasse algo. Ela faria bem em confiar em mim. Ela encontraria em mim seu melhor amigo. Mas enquanto não falar, nada posso dizer. Diga‑se, senhor, ela é uma mulher sincera, Sr. Holmes, e qualquer dificuldade que tenha tido no passado não foi culpa dela. Sou apenas um simples senhor de terras de Norfolk, mas não há homem na Inglaterra que valorize a honra da família mais que eu. Ela sabe disso bem, e sabia disso antes de se casar comigo. Nunca traria mancha à honra — disso estou certo.
“Agora vem a parte estranha da história. Há cerca de uma semana — foi a terça‑feira da semana passada — encontrei numa das repisas da janela vários pequenos desenhos absurdos de figuras dançantes como estas, feitos com giz. Pensei que fosse o criado da estabulação que os tivesse desenhado, mas o rapaz jurou não saber nada. De qualquer forma, apareceram durante a noite. Lavei‑os, e só depois mencionei o fato à esposa. Para minha surpresa, ela levou‑o muito a sério e implorou que, se mais viessem, lhe mostrasse. Nenhum veio por uma semana, e então, ontem de manhã, encontrei este papel sobre o relógio de sol no jardim. Mostrei‑o a Elsie, e ela desabou em um desmaio. Desde então parece uma mulher em um sonho, meio aturdida, com terror sempre nos olhos. Foi então que escrevi e enviei o papel ao senhor, Sr. Holmes. Não era algo que eu pudesse levar à polícia, pois ririam de mim, mas o senhor me dirá o que fazer. Não sou rico, mas se houver perigo à minha pequena esposa, gastarei o último centavo para protegê‑la.”
Era um homem de fineza, desse solo inglês antigo — simples, direto e gentil, com seus grandes olhos azuis sinceros e rosto largo e agradável. Seu amor pela esposa e a confiança nela reluziam em seus traços. Holmes escutou a história com a máxima atenção e, então, ficou um tempo em silêncio, refletindo.
“Não acha, Sr. Cubitt,” disse ao fim, “que o melhor plano seria fazer um apelo direto à sua esposa e pedir que lhe revele o segredo?”
Hilton Cubitt balançou a cabeça maciça.
“Uma promessa é uma promessa, Sr. Holmes. Se Elsie quiser contar, contará. Se não, não cabe a mim forçar sua confidência. Mas estou justificado em seguir meu próprio caminho — e assim o farei.”
“Então ajudarei de todo o coração. Em primeiro lugar, ouviu falar de algum estranho na vizinhança?”
“Não.”
“Presumo que seja um lugar muito calmo. Qualquer rosto novo causaria comentário?”
“No entorno imediato, sim. Mas temos vários pequenos poços de água não muito longe. E os fazendeiros recebem inquilinos.”
“Esses hieróglifos evidentemente têm um sentido. Se for puramente arbitrário, pode ser impossível decifrá‑los. Se, ao contrário, for sistemático, não tenho dúvidas de que chegaremos ao fundo. Mas esta amostra é tão curta que não posso fazer nada, e os fatos que trouxe são tão indefinidos que não temos base para investigação. Sugiro que retorne a Norfolk, mantenha vigilância e faça cópia exata de quaisquer novos “homens dançantes” que apareçam. Lamentamos não ter uma reprodução daqueles feitos em giz na janela. Investigue discretamente também a presença de estranhos no bairro. Quando recolher novas evidências, volte a mim. Esse é o melhor conselho que posso dar, Sr. Hilton Cubitt. Se houver desenvolvimentos urgentes, estarei sempre pronto para ir ao seu lar em Norfolk.”
A entrevista deixou Sherlock Holmes muito pensativo, e várias vezes nos dias seguintes vi‑o tirar o pedaço de papel do seu caderno e olhar longamente para as curiosas figuras inscritas. Não fez alusão ao caso, porém, até uma tarde, umas duas semanas depois. Eu estava saindo quando ele me chamou de volta.
“É melhor ficar aqui, Watson.”
“Por quê?”
“Porque recebi um telegrama de Hilton Cubitt esta manhã. Lembra‑se de Hilton Cubitt, dos homens dançantes? Ele devia chegar à Liverpool Street às uma e vinte. Pode estar aqui a qualquer momento. Pelo telegrama soube que houveram novos incidentes de importância.”
Não demorou muito, pois nosso senhor de Norfolk chegou direto da estação tão rápido quanto um hansom lhe poderia trazer. Parecia preocupado e abatido, com olhos cansados e a testa marcada.
“Isso está mexendo comigo, esse caso, Sr. Holmes,” disse, afundando‑se, como um homem cansado, numa poltrona. “É ruim o bastante sentir que está cercado por gente invisível e desconhecida, que tem algum plano contra si, mas, além disso, saber que está matando sua esposa a poucos passos, então chega ao limite que carne e sangue podem suportar. Ela está se desgastando sob isso — literalmente se desgastando diante dos meus olhos.”
“Ela já disse algo?”
“Não, Sr. Holmes, não disse. E, porém, houve momentos em que a pobre menina quis falar, mas não conseguiu dar o passo. Tentei ajudá‑la, mas creio que fui desajeitado e a assustei. Ela falou sobre minha antiga família, nossa reputação no condado, nosso orgulho de honra imaculada, e eu sempre senti que ia chegar ao ponto, mas algo desviou antes que alcançássemos.”
“Mas descobriu algo por si mesmo?”
“Bastante, Sr. Holmes. Tenho várias novas imagens dos homens dançantes para o senhor examinar e, o que é mais importante, vi o sujeito.”
“O quê, o homem que os desenha?”
— Sim, eu o vi a trabalhar. Mas contarei tudo em ordem. Quando voltei da visita a vossa casa, a primeira coisa que vi na manhã seguinte foi um fresco conjunto de homens a dançar. Eles tinham sido desenhados com giz na porta de madeira escura da oficina de ferramentas, que fica ao lado do gramado, à vista das janelas frontais. Fiz uma cópia exata, e aqui está. — Ele desdobrou um papel e pô-lo sobre a mesa. Eis uma cópia dos hieróglifos:
AT‑ELRIGES
— Excelente! — exclamou Holmes. — Excelente! Continue, por favor.
— Quando tomei a cópia, apaguei as marcas, mas, duas manhãs depois, uma nova inscrição aparecera. Tenho aqui uma cópia:
COME‑ELSIE
Holmes esfregou as mãos e riu, deliciado.
— Nosso material acumula‑se rapidamente — disse ele.
— Três dias depois apareceu uma mensagem rabiscada em papel, colocada sob uma pedrinha do relógio‑sol. Eis o que está escrito. Os caracteres são, como pode ver, exatamente os mesmos do último. Depois disso decidi ficar de guarda, então tirei o revólver e sentei‑me no meu escritório, que tem vista para o gramado e o jardim. Por volta das duas da manhã, eu estava sentado à janela, tudo escuro exceto pela luz da lua, quando ouvi passos atrás de mim; era minha esposa, de roupão. Ela implorou que eu fosse para a cama. Respondi-lhe francamente que desejava ver quem era o autor daqueles truques absurdos. Ela disse que se tratava de uma piada sem sentido e que eu não deveria dar importância a isso.
— “Se isso realmente o incomoda, Hilton, poderíamos viajar, eu e o senhor, e assim evitar este incômodo.”
— “O quê, ser expulso da própria casa por um brincalhão?” eu disse. “Então todo o condado vai rir de nós.”
— “Então venha para a cama, e conversaremos de manhã.”
De repente, enquanto ela falava, vi seu rosto branco ficar ainda mais pálido à luz da lua, e sua mão apertar o meu ombro. Algo se movia na sombra da oficina de ferramentas. Vi uma figura escura, rastejante, que contornou o canto e se agachou diante da porta. Apanhando o revólver, fui sair correndo, quando minha esposa me abraçou com força convulsiva. Tentei afastá‑la, mas ela se agarrou desesperadamente. Por fim consegui me libertar, mas, ao abrir a porta e alcançar a casa, a criatura já havia desaparecido. Contudo deixara um sinal de sua presença: na porta estava novamente a mesma disposição de homens a dançar que já aparecera duas vezes, que copiei neste papel. Não havia outro vestígio do sujeito em nenhum lugar, embora eu tenha revistado toda a propriedade. E ainda assim o surpreendente é que ele devia estar ali o tempo todo, pois, ao examinar a porta novamente pela manhã, ele havia rabiscado mais alguns de seus desenhos sob a linha que eu já vira.
— Tem o desenho novo?
— Sim, é muito curto, mas fiz uma cópia, e aqui está.
Novamente ele produziu um papel. O novo bailado aparecia assim:
NEVER
— Diga‑me — disse Holmes, e pude ver pelos olhos que ele estava muito excitado — isso foi apenas uma adição ao primeiro ou parece totalmente separado?
— Foi em um painel diferente da porta.
— Excelente! Esse é, de longe, o mais importante para o nosso propósito. Enche‑me de esperança. Agora, Sr. Hilton Cubitt, por favor, continue sua declaração tão interessante.
— Não tenho mais nada a dizer, Sr. Holmes, exceto que naquela noite eu estava irritado com minha esposa por ter me impedido quando poderia ter apanhado o ladrão. Ela disse que temia que eu me ferisse. Por um instante pensei que talvez o que ela realmente temesse fosse que ele se ferisse, pois não duvido que soubesse quem era esse homem e o que significavam aqueles sinais estranhos. Mas há um tom na voz da minha esposa, Sr. Holmes, e um olhar nos olhos dela que proíbem dúvidas, e tenho certeza de que era a minha própria segurança que lhe preocupava. Esse é o caso inteiro, e agora peço seu conselho sobre o que devo fazer. Minha inclinação é colocar meia dúzia dos meus rapazes da fazenda nos arbustos, e, quando esse sujeito voltar, dar-lhe um castigo que nos deixe em paz daqui para o futuro.
— Receio que seja um caso demasiado profundo para remédios tão simples — disse Holmes. — Quanto tempo pode permanecer em Londres?
— Devo partir hoje. Não deixaria minha esposa sozinha a noite por nada. Ela está muito nervosa e implorou que eu voltasse.
— Imagino que tenha razão. Mas se tivesse parado, eu poderia ter voltado com o senhor em um ou dois dias. Enquanto isso, deixará esses papéis comigo, e penso que será muito provável que eu possa visitá‑lo em breve e lançar alguma luz sobre seu caso.
Sherlock Holmes manteve sua calma profissional até que nosso visitante se retirou, embora fosse fácil para mim, que o conheço tão bem, perceber o quão profundamente estava excitado. No momento em que o largo dorso de Hilton Cubitt desapareceu pela porta, meu companheiro correu até a mesa, espalhou todos os papéis contendo os homens a dançar diante dele, e mergulhou num cálculo intrincado e elaborado. Por duas horas o observei enquanto cobria folha após folha de papel com figuras e letras, tão absorvido na tarefa que evidentemente havia esquecido minha presença. Às vezes progredia, assobiava e cantava enquanto trabalhava; às vezes se mostrava perplexo e permanecia longos períodos com a testa franzida e o olhar vazio. Finalmente saltou da cadeira num grito de satisfação, caminhou de um lado ao outro da sala esfregando as mãos. Então escreveu um longo telegrama num formulário de cabo. — Se a minha resposta for como espero, terá um caso muito interessante para acrescentar à sua coleção, Watson — disse ele. — Creio que poderemos descer a Norfolk amanhã e trazer ao nosso amigo notícias muito definitivas sobre o segredo da sua irritação.
Confesso que fui tomado pela curiosidade, mas sabia que Holmes gostava de fazer suas revelações no seu próprio tempo e à sua maneira, por isso esperei até que fosse conveniente para ele confiar-me o que soubesse.
Mas houve atraso naquele telegrama de resposta, e dois dias de impaciência se seguiram, durante os quais Holmes afinava os ouvidos a cada toque da campainha. Na noite do segundo dia chegou uma carta de Hilton Cubitt. Tudo com ele estava calmo, salvo que uma longa inscrição havia aparecido aquela manhã sobre o pedestal do relógio‑sol. Ele incluía uma cópia, que reproduzo:
ELSIE‑PREPARE‑TO‑MEET‑THY‑GOD
Holmes estudou essa grotesca frisa por alguns minutos, e então, de repente, saltou em pé com um grito de surpresa e consternação. Seu rosto estava abatido pela ansiedade.
— Deixamos este caso avançar o suficiente — disse ele. — Há um trem para North Walsham esta noite?
Verifiquei o horário. O último já havia partido.
— Então tomaremos o café da manhã cedo e pegaremos o primeiro amanhã de manhã — disse Holmes. — Nossa presença é urgentemente necessária. Ah! aqui está nosso telegrama esperado. Um momento, Sra. Hudson, pode haver uma resposta. Não, isso está exatamente como eu esperava. Esta mensagem torna ainda mais essencial que não percamos uma hora a informar Hilton Cubitt como as coisas estão, pois trata‑se de uma teia singular e perigosa em que nosso simples esquire de Norfolk está enredado.
Assim, de fato, provou‑se, e enquanto chego ao sombrio desfecho de uma história que me parecia apenas infantil e bizarra, experimento novamente o desânimo e o horror que me encheram. Quem me dera ter algum final mais luminoso para comunicar aos leitores, mas estas são as crônicas de fato, e devo seguir até sua crise sombria a estranha cadeia de eventos que, por alguns dias, fez de Riding Thorpe Manor um nome conhecido por toda a Inglaterra.
Mal havíamos desembarcado em North Walsham e mencionado o nome de nosso destino, o chefe da estação correu até nós.
— Suponho que sejam os detetives de Londres? — disse ele.
Um olhar de irritação cruzou o rosto de Holmes.
— O que o faz pensar isso?
— Porque o Inspetor Martin, de Norwich, acaba de passar por aqui. Mas talvez sejam os cirurgiões. Ela não está morta — ou não estava, segundo as últimas notícias. Vocês podem ainda salvá‑la — ainda que seja para a forca.
O sobrolho de Holmes escureceu com ansiedade.
— Vamos a Riding Thorpe Manor — disse ele —, mas não ouvimos nada sobre o que ocorreu lá.
— É um caso terrível — disse o chefe da estação. — Atiraram, tanto o Sr. Hilton Cubitt quanto sua esposa. Ela o atirou e depois a si própria — assim dizem os criados. Ele está morto e a vida dela está desesperada. Uma das famílias mais antigas do condado de Norfolk, e uma das mais honradas.
Sem dizer uma palavra, Holmes correu para uma carruagem, e durante os longos sete quilômetros de viagem não abriu a boca. Raramente o vi tão desanimado. Ele estava inquieto durante todo o trajeto, e percebi que revisava os jornais matinais com atenção ansiosa; mas agora aquela súbita compreensão de seus piores temores o mergulhava numa melancolia profunda. Ele reclinou‑se no assento, perdido em especulações sombrias. Ainda assim havia muito ao nosso redor que despertava interesse, pois atravessávamos uma paisagem tão singular quanto qualquer outra da Inglaterra, onde algumas casas dispersas representavam a população atual, enquanto por toda parte enormes igrejas de torre quadrada se erguiam do verde plano, lembrando a glória e a prosperidade da antiga East Anglia. Finalmente o violeta horizonte do Oceano Alemão apareceu sobre a faixa verde da costa de Norfolk, e o cocheiro apontou com o chicote duas antigas fachadas de tijolo e madeira que se projetavam de um bosque. — Aí está Riding Thorpe Manor — disse ele.
Ao aproximarmo‑nos da porta frontal com pórtico, observei, diante dela, ao lado do gramado de tênis, a oficina de ferramentas negra e o relógio‑sol com pedestal, com os quais tínhamos tais associações estranhas. Um homem elegante, de modo rápido e alerta e de bigode engraxado, desceu de uma alta carroça de cães. Apresentou‑se como Inspetor Martin, da Constabulary de Norfolk, e ficou consideravelmente espantado ao ouvir o nome do meu companheiro.
— Por que, Sr. Holmes, o crime foi cometido apenas às três da manhã. Como pôde o senhor saber disso em Londres e chegar ao local tão depressa quanto eu?
— Antecipei‑o. Vim na esperança de impedi‑lo.
— Então deve ter evidências importantes das quais ignoramos, pois diz‑se que eram um casal muito unido.
— Tenho apenas as evidências dos homens a dançar — disse Holmes. — Explicarei o assunto mais tarde. Entretanto, como já é tarde demais para impedir esta tragédia, estou muito ansioso para usar o conhecimento que possuo a fim de garantir que a justiça seja feita. Quer associar‑se à minha investigação, ou prefere agir de forma independente?
— Eu ficaria honrado em sentir que agimos juntos, Sr. Holmes — respondeu o inspetor, sinceramente.
— Nesse caso, ficarei feliz em ouvir as evidências e examinar o local sem o menor atraso desnecessário.
O Inspetor Martin teve a sensatez de permitir que meu amigo procedesse à sua maneira, limitando‑se a registrar cuidadosamente os resultados. O cirurgião local, um velho de cabelos brancos, acabara de descer do quarto da Sra. Hilton Cubitt e relatou que os ferimentos eram graves, mas não necessariamente fatais. A bala havia atravessado a frente de seu cérebro, e provavelmente levaria algum tempo até que recobrasse a consciência. Quando perguntado se ela fora atingida por disparo alheio ou se havia atirado em si mesma, não se pronunciou com certeza. Certamente o disparo fora de curta distância. Só havia um revólver encontrado na sala, cujos dois canos estavam vazios. O Sr. Hilton Cubitt fora alvejado no coração. É igualmente concebível que ele a tenha disparado e depois a si mesmo, ou que ela fosse a criminosa, pois o revólver jazia no chão, a meio caminho entre eles.
— Foi ele movido? — indagou Holmes.
— Não movemos nada, exceto a senhora. Não podíamos deixá‑la ferida no chão.
— Há quanto tempo está aqui, doutor?
— Desde as quatro horas.
— Mais alguém?
— Sim, o policial.
— E nada tocaram?
— Nada.
— Agiram com muita discrição. Quem os enviou?
— A empregada, Saunders.
— Foi ela quem deu o alarme?
— Ela e a Sra. King, a cozinheira.
— Onde estão agora?
— Na cozinha, creio eu.
— Então acho que devemos ouvir seu relato imediatamente.
O antigo salão, painelado de carvalho e com janelas altas, fora transformado numa corte de investigação. Holmes sentou‑se numa grande cadeira antiga, seus olhos inexoráveis brilhando sob o rosto cansado. Podia ler neles um propósito firme de dedicar sua vida a esta missão até que o cliente que não conseguiu salvar fosse finalmente vingado. O impecável Inspetor Martin, o velho médico campestre de cabeça cinzenta, eu próprio, e um policial de aldeia robusto completavam aquela estranha companhia.
As duas mulheres contaram sua história com clareza. Foram despertadas do sono por uma explosão, seguida, um minuto depois, por outra. Dormiam em quartos contíguos, e a Sra. King correu para Saunders. Juntas desceram as escadas. A porta do escritório estava aberta, e uma vela queimava sobre a mesa. O mestre jazia de bruços no centro da sala, totalmente morto. Perto da janela, sua esposa estava agachada, com a cabeça encostada na parede. Estava horrivelmente ferida, o lado do rosto encharcado de sangue. Respirava com dificuldade, incapaz de dizer algo. O corredor, assim como a sala, estavam cheios de fumaça e do cheiro de pólvora. A janela estava certamente fechada e trancada por dentro. Ambas as mulheres estavam certas quanto a isso. Chamaram imediatamente o médico e o policial. Então, com a ajuda do cocheiro e do paturro, conduziram a senhora ferida ao seu quarto. Tanto ela quanto o marido estavam na cama. Ela vestia seu vestido — ele, o roupão de dormir sobre o pijama. Nada fora movido no escritório. Até onde sabiam, nunca houve qualquer desentendimento entre marido e mulher. Sempre os viram como um casal muito unido.
Esses foram os pontos principais do depoimento dos criados. Em resposta ao Inspetor Martin, confirmaram que todas as portas estavam trancadas por dentro e que ninguém poderia ter escapado da casa. Em resposta a Holmes, lembraram‑se de ter sentido o cheiro de pólvora desde o instante em que saíram de seus quartos no alto do andar. — Reitero esse fato com grande atenção, senhor Holmes — disse ele ao colega. — E agora creio que podemos proceder a um exame minucioso da sala.
O escritório revelou‑se uma pequena câmara, revestida em três lados por livros, com uma mesa de escrita voltada para uma janela comum que dava para o jardim. Primeiro dirigimo‑nos ao corpo do infeliz esquire, cujo enorme tronco jazia estendido pela sala. Sua roupa desarrumada mostrava que fora despertado às pressas. A bala fora disparada contra ele pela frente, permanecendo em seu corpo após perfurar o coração. Sua morte fora certamente instantânea e indolor. Não havia vestígios de pólvora nem em seu roupão nem nas mãos. Segundo o cirurgião campestre, a senhora tinha manchas no rosto, mas nenhuma na mão.
— A ausência da última não significa nada, embora sua presença possa significar tudo — disse Holmes. — A menos que o pó de uma cartucho mal encaixado retrodispare, pode‑se disparar vários tiros sem deixar sinal. Sugiro que o corpo do Sr. Cubitt seja retirado agora. Suponho, doutor, que ainda não recuperou a bala que feriu a senhora?
— Será necessária uma operação séria antes disso. Mas ainda há quatro cartuchos no revólver. Dois foram disparados e duas feridas foram infligidas, de modo que cada bala pode ser contabilizada.
— Parece‑se, então — disse Holmes. — Talvez também possa explicar a bala que evidentemente atingiu a borda da janela?
Ele virou‑se subitamente, e seu longo dedo fino apontava para um furo perfurado bem através da folha inferior da janela, a cerca de uma polegada do fundo.
— Por São Jorge! — exclamou o inspetor. — Como viu isso?
— Porque procurei.
— Maravilhoso! — disse o médico campestre. — Está certo, senhor. Então um terceiro tiro foi disparado, e, portanto, uma terceira pessoa deve ter estado presente. Mas quem poderia ser, e como escapou?
— Esse é o problema que agora vamos resolver — disse Sherlock Holmes. — Lembra‑se, Inspetor Martin, quando os criados disseram que, ao deixar o quarto, sentiram imediatamente o cheiro de pólvora? Eu comentei que esse ponto era extremamente importante?
— Sim, senhor; mas confesso que não o compreendi bem.
— Sugeri que, no momento do disparo, tanto a janela quanto a porta da sala estavam abertas. Caso contrário, a fumaça da pólvora não poderia ter se espalhado tão rapidamente pela casa. Uma corrente de ar no quarto seria necessária para isso. Ambas, porta e janela, estiveram apenas brevemente abertas.
— Como provar isso?
— Porque a vela não estava apagada.
— Capital! — gritou o inspetor. — Capital!
— Convencido de que a janela estava aberta na hora da tragédia, concebi que poderia haver um terceiro indivíduo no caso, que permanecia fora desse vão e disparava através dele. Qualquer tiro dirigido a essa pessoa poderia acertar a própria caixa da janela. Olhei, e ali estava, como eu suspeitava, a marca da bala!
— Mas como a janela ficou fechada e trancada?
— O primeiro instinto da mulher seria fechar e trancar a janela. Mas, aha! O que é isso?
Era uma bolsa de mão feminina sobre a mesa do escritório — uma bolsa de couro de crocodilo e prata, elegante. Holmes abriu‑a e espalhou o conteúdo. Havia vinte notas de cinquenta libras do Banco da Inglaterra, mantidas juntas por uma faixa de borracha indiana — nada mais.
— Isso deve ser preservado, pois será usado no julgamento — disse Holmes, entregando a bolsa ao inspetor. — Agora precisamos tentar esclarecer a origem dessa terceira bala, que claramente, pelo estilhaçamento da madeira, foi disparada de dentro da sala. Quero ver a Sra. King, a cozinheira, novamente. Disse‑a, Sra. King, que foi acordada por uma forte explosão. Quando a descreveu, quis dizer que lhe pareceu mais alta que a segunda?
— Bem, senhor, acordou‑me do sono, então é difícil julgar. Mas pareceu muito alta.
— Não acha que podem ter sido dois disparos quase simultâneos?
— Não posso afirmar, senhor.
— Creio que de fato foram. Acho, Inspetor Martin, que esgotamos tudo o que esta sala pode nos ensinar. Se quiserem, acompanhem‑me, e veremos que novas evidências o jardim oferece.
Um canteiro de flores estendia-se até a janela do escritório, e todos soltamos uma exclamação ao nos aproximarmos. As flores estavam pisoteadas, e o solo macio estava marcado por toda parte com pegadas. Eram pés grandes, masculinos, com dedos peculiarmente longos e aguçados. Holmes vasculhou a relva e as folhas como um cão perdigueiro atrás de uma ave ferida. Então, com um grito de satisfação, inclinou-se e apanhou um pequeno cilindro de latão.
“Eu bem pensava”, disse ele, “o revólver tinha um extrator, e aqui está o terceiro cartucho. Creio realmente, Inspetor Martin, que o nosso caso está quase completo.”
O rosto do inspetor rural demonstrava seu intenso espanto com o rápido e magistral progresso da investigação de Holmes. A princípio, ele mostrara certa disposição em afirmar sua própria posição, mas agora estava tomado de admiração, pronto para seguir sem questionar onde quer que Holmes conduzisse.
“A quem suspeita?” perguntou ele.
“Falarei sobre isso mais tarde. Há vários pontos neste problema que ainda não pude explicar-lhe. Agora que cheguei tão longe, é melhor que proceda pelos meus próprios meios e, então, esclareça toda a questão de uma vez por todas.”
“Como desejar, Sr. Holmes, desde que consigamos o nosso homem.”
“Não tenho desejo de criar mistérios, mas é impossível, no momento da ação, entrar em explicações longas e complexas. Tenho os fios deste assunto todos em minhas mãos. Mesmo que esta senhora nunca recupere a consciência, ainda podemos reconstruir os eventos da noite passada e garantir que a justiça seja feita. Antes de mais nada, desejo saber se há alguma estalagem nesta vizinhança conhecida como ‘Elrige’s’?”
Os criados foram interrogados, mas nenhum deles ouvira falar de tal lugar. O cavalariço lançou luz sobre o assunto ao lembrar que um fazendeiro com esse nome vivia a algumas milhas de distância, na direção de East Ruston.
“É uma fazenda isolada?”
“Muito isolada, senhor.”
“Talvez ainda não tenham ouvido falar de tudo o que aconteceu aqui durante a noite?”
“Talvez não, senhor.”
Holmes pensou um pouco e, então, um sorriso curioso brincou em seu rosto.
“Sela um cavalo, meu rapaz”, disse ele. “Desejo que leves um bilhete para a Fazenda Elrige.”
Ele tirou do bolso os vários papéis dos homens dançantes. Com eles à sua frente, trabalhou por algum tempo na mesa do escritório. Finalmente, entregou um bilhete ao rapaz, com instruções para colocá-lo nas mãos da pessoa a quem era endereçado e, especialmente, para não responder a perguntas de espécie alguma que lhe pudessem ser feitas. Vi a parte externa do bilhete, endereçado com caracteres irregulares e trêmulos, muito diferentes da caligrafia habitual e precisa de Holmes. Estava destinado ao Sr. Abe Slaney, Fazenda Elriges, East Ruston, Norfolk.
“Penso, Inspetor”, observou Holmes, “que faria bem em telegrafar pedindo uma escolta, pois, se os meus cálculos estiverem corretos, poderá ter um prisioneiro particularmente perigoso para levar à cadeia do condado. O rapaz que leva este bilhete poderia, sem dúvida, encaminhar o seu telegrama. Se houver um trem à tarde para a cidade, Watson, creio que faríamos bem em pegá-lo, pois tenho uma análise química de certo interesse para terminar, e esta investigação aproxima-se rapidamente do fim.”
Quando o jovem foi despachado com o bilhete, Sherlock Holmes deu suas instruções aos criados. Se algum visitante viesse perguntar pela Sra. Hilton Cubitt, nenhuma informação deveria ser dada sobre sua condição, mas ele deveria ser conduzido imediatamente à sala de visitas. Ele enfatizou esses pontos com a maior seriedade. Finalmente, conduziu-nos à sala de visitas, com a observação de que o assunto estava agora fora de nossas mãos e que deveríamos passar o tempo da melhor maneira possível até podermos ver o que nos estava reservado. O médico partira para seus pacientes, e apenas o inspetor e eu permanecemos.
“Creio que posso ajudá-los a passar uma hora de maneira interessante e proveitosa”, disse Holmes, puxando sua cadeira para perto da mesa e espalhando à sua frente os vários papéis nos quais estavam registrados os trejeitos dos homens dançantes. “Quanto a você, amigo Watson, devo-lhe toda reparação por ter permitido que sua curiosidade natural permanecesse insatisfeita por tanto tempo. Para o senhor, Inspetor, todo o incidente pode atrair como um notável estudo profissional. Devo contar-lhes, antes de tudo, as circunstâncias interessantes relacionadas com as consultas anteriores que o Sr. Hilton Cubitt teve comigo em Baker Street.” Ele então recapitulou brevemente os fatos que já foram registrados. “Tenho aqui à minha frente estas produções singulares, das quais alguém poderia sorrir, se não tivessem provado ser as precursoras de uma tragédia tão terrível. Estou bastante familiarizado com todas as formas de escritas secretas e sou eu mesmo o autor de uma monografia trivial sobre o assunto, na qual analiso cento e sessenta cifras separadas, mas confesso que esta é inteiramente nova para mim. O objetivo daqueles que inventaram o sistema foi, aparentemente, ocultar que esses caracteres transmitem uma mensagem e dar a ideia de que são meros esboços aleatórios de crianças.
“Tendo, contudo, reconhecido que os símbolos representavam letras e tendo aplicado as regras que nos guiam em todas as formas de escritas secretas, a solução foi fácil o bastante. A primeira mensagem submetida a mim era tão curta que foi impossível fazer mais do que dizer, com certa confiança, que o símbolo XXX representava E. Como sabe, E é a letra mais comum no alfabeto inglês, e predomina a tal ponto que, mesmo em uma frase curta, seria de esperar que aparecesse com mais frequência. De quinze símbolos na primeira mensagem, quatro eram iguais, por isso era razoável determinar que este fosse E. É verdade que em alguns casos a figura ostentava uma bandeira, e em outros não, mas era provável, pela forma como as bandeiras estavam distribuídas, que fossem usadas para dividir a frase em palavras. Aceitei isto como uma hipótese e notei que E era representado por
E
“Mas agora vinha a verdadeira dificuldade da investigação. A ordem das letras inglesas após E não está de forma alguma bem marcada, e qualquer preponderância que possa ser demonstrada na média de uma folha impressa pode ser invertida em uma única frase curta. Falando a grosso modo, T, A, O, I, N, S, H, R, D e L são a ordem numérica em que as letras ocorrem, mas T, A, O e I estão quase lado a lado, e seria uma tarefa interminável tentar cada combinação até que um significado fosse alcançado. Portanto, esperei por material novo. Na minha segunda entrevista com o Sr. Hilton Cubitt, ele pôde dar-me outras duas frases curtas e uma mensagem, que parecia — já que não havia bandeira — ser uma única palavra. Aqui estão os símbolos. Agora, na palavra única, eu já tinha os dois E’s aparecendo em segundo e quarto lugares em uma palavra de cinco letras. Poderia ser ‘sever’, ou ‘lever’, ou ‘never’. Não pode haver dúvida de que a última, como resposta a um apelo, é de longe a mais provável, e as circunstâncias apontavam para ser uma resposta escrita pela senhora. Aceitando-a como correta, podemos agora dizer que os símbolos representam, respectivamente, N, V e R.
N-V-R
“Mesmo agora eu estava em considerável dificuldade, mas um pensamento feliz colocou-me na posse de várias outras letras. Ocorreu-me que, se esses apelos vinham, como eu esperava, de alguém que fora íntimo da senhora no início de sua vida, uma combinação que contivesse dois E’s com três letras entre eles poderia muito bem representar o nome ‘ELSIE’. Ao examinar, descobri que tal combinação formava a terminação da mensagem que foi repetida três vezes. Era certamente algum apelo a ‘Elsie’. Desta forma, obtive meu L, S e I. Mas que apelo poderia ser? Havia apenas quatro letras na palavra que precedia ‘Elsie’, e terminava em E. Certamente a palavra devia ser ‘COME’. Tentei todas as outras quatro letras terminando em E, mas não pude encontrar nenhuma que se encaixasse no caso. Assim, agora eu estava na posse de C, O e M, e estava em condições de atacar a primeira mensagem mais uma vez, dividindo-a em palavras e colocando pontos para cada símbolo que ainda era desconhecido. Assim tratado, funcionou desta maneira:
.M .ERE ..E SL.NE.
“Agora, a primeira letra só pode ser A, o que é uma descoberta muito útil, uma vez que ocorre não menos que três vezes nesta frase curta, e o H também é aparente na segunda palavra. Agora torna-se:
AM HERE A.E SLANE.
Ou, preenchendo as lacunas óbvias no nome:
AM HERE ABE SLANEY.
Eu tinha tantas letras agora que podia prosseguir com considerável confiança para a segunda mensagem, que funcionou desta maneira:
A. ELRI. ES.
Aqui, só pude fazer sentido colocando T e G nas letras que faltavam e supondo que o nome fosse o de alguma casa ou estalagem onde o escritor estava hospedado.”
O Inspetor Martin e eu tínhamos ouvido com o maior interesse o relato completo e claro de como meu amigo tinha produzido resultados que levaram a um domínio tão completo sobre nossas dificuldades.
“O que fez então, senhor?” perguntou o inspetor.
“Eu tinha todas as razões para supor que este Abe Slaney era um americano, uma vez que Abe é uma contração americana, e uma vez que uma carta da América fora o ponto de partida de todos os problemas. Tinha também todas as causas para pensar que havia algum segredo criminoso no assunto. As alusões da senhora ao seu passado e sua recusa em confiar no marido apontavam ambas nessa direção. Enviei, portanto, um cabo ao meu amigo, Wilson Hargreave, do Departamento de Polícia de Nova Iorque, que mais de uma vez fez uso do meu conhecimento sobre o crime em Londres. Perguntei-lhe se o nome de Abe Slaney lhe era conhecido. Eis a sua resposta: ‘O mais perigoso criminoso de Chicago’. Na mesma noite em que recebi a sua resposta, Hilton Cubitt enviou-me a última mensagem de Slaney. Trabalhando com as letras conhecidas, assumiu esta forma:
ELSIE .RE.ARE TO MEET THY GO.
A adição de um P e um D completou uma mensagem que me mostrou que o patife estava passando da persuasão às ameaças, e o meu conhecimento dos criminosos de Chicago preparou-me para constatar que ele poderia colocar as suas palavras em ação muito rapidamente. Vim imediatamente para Norfolk com o meu amigo e colega, Dr. Watson, mas, infelizmente, apenas a tempo de descobrir que o pior já tinha ocorrido.”
“É um privilégio estar associado a si no tratamento de um caso”, disse o inspetor, calorosamente. “Desculpar-me-á, contudo, se lhe falo com franqueza. O senhor só responde perante si mesmo, mas eu tenho de responder perante os meus superiores. Se este Abe Slaney, que vive em Elrige’s, é de fato o assassino, e se ele escapou enquanto estou aqui sentado, certamente terei sérios problemas.”
“Não precisa ficar inquieto. Ele não tentará escapar.”
“Como sabe?”
“Fugir seria uma confissão de culpa.”
“Então vamos prendê-lo.”
“Espero-o aqui a cada instante.”
“Mas por que ele viria?”
“Porque escrevi e pedi-lhe.”
“Mas isto é inacreditável, Sr. Holmes! Por que ele viria porque o senhor pediu? Tal pedido não despertaria antes as suas suspeitas e fá-lo-ia fugir?”
“Creio que soube redigir a carta”, disse Sherlock Holmes. “De fato, se não estou muito enganado, eis o próprio cavalheiro subindo a entrada.”
Um homem caminhava a passos largos pelo caminho que levava à porta. Era um indivíduo alto, bonito, de pele morena, vestido com um terno de flanela cinza, com um chapéu Panamá, uma barba preta eriçada e um nariz grande, agressivo e adunco, brandindo uma bengala enquanto caminhava. Ele pavoneou-se pelo caminho como se o lugar lhe pertencesse, e ouvimos o seu toque alto e confiante na campainha.
“Creio, cavalheiros”, disse Holmes, calmamente, “que seria melhor tomarmos a nossa posição atrás da porta. Toda a precaução é necessária ao lidar com tal indivíduo. Precisará das suas algemas, Inspetor. Pode deixar o falar por minha conta.”
Esperamos em silêncio por um minuto — um daqueles minutos que nunca se podem esquecer. Então a porta abriu-se e o homem entrou. Num instante, Holmes apontou uma pistola à sua cabeça, e Martin deslizou as algemas pelos seus pulsos. Tudo foi feito tão rápida e habilmente que o indivíduo ficou indefeso antes mesmo de saber que estava sendo atacado. Ele olhou de um para o outro com um par de olhos negros faiscantes. Então, explodiu numa risada amarga.
“Bem, cavalheiros, desta vez vocês levaram a melhor. Parece que esbarrei em algo duro. Mas vim aqui em resposta a uma carta da Sra. Hilton Cubitt. Não me digam que ela está metida nisso? Não me digam que ela ajudou a preparar-me uma armadilha?”
“A Sra. Hilton Cubitt ficou gravemente ferida e está às portas da morte.”
O homem deu um grito rouco de dor, que ecoou pela casa.
“Estão loucos!” gritou ele, ferozmente. “Foi ele quem foi ferido, não ela. Quem teria ferido a pequena Elsie? Posso tê-la ameaçado — Deus me perdoe! — mas não teria tocado num fio do seu lindo cabelo. Retirem o que disseram — vocês! Digam que ela não está ferida!”
“Ela foi encontrada gravemente ferida, ao lado do seu marido morto.”
Ele afundou-se com um gemido profundo no sofá e enterrou o rosto nas mãos algemadas. Por cinco minutos ficou em silêncio. Então, levantou o rosto mais uma vez e falou com a fria compostura do desespero.
“Não tenho nada a esconder de vocês, cavalheiros”, disse ele. “Se disparei contra o homem, ele teve o seu disparo contra mim, e não há homicídio nisso. Mas se pensam que eu poderia ter ferido aquela mulher, então não me conhecem nem a mim nem a ela. Digo-lhes, nunca houve homem neste mundo que amasse uma mulher mais do que eu a amei. Eu tinha direito a ela. Ela estava prometida a mim há anos. Quem era este inglês para se colocar entre nós? Digo-lhes que eu tinha o primeiro direito sobre ela, e que apenas estava reivindicando o que era meu.”
“Ela rompeu com a sua influência quando descobriu o homem que é”, disse Holmes, severamente. “Ela fugiu da América para evitá-lo, e casou-se com um cavalheiro honrado na Inglaterra. O senhor perseguiu-a, seguiu-a e tornou a sua vida uma miséria, a fim de induzi-la a abandonar o marido a quem ela amava e respeitava, para fugir com o senhor, a quem ela temia e odiava. Terminou por causar a morte de um homem nobre e levar a sua mulher ao suicídio. Esse é o seu histórico neste assunto, Sr. Abe Slaney, e responderá por ele perante a lei.”
“Se Elsie morrer, não me importa o que aconteça comigo”, disse o americano. Ele abriu uma das mãos e olhou para um bilhete amassado na palma. “Vejam aqui, senhor”, gritou ele, com um brilho de suspeita nos olhos, “não estão tentando assustar-me com isso, estão? Se a senhora está tão ferida como dizem, quem foi que escreveu este bilhete?” Ele atirou-o para cima da mesa.
“Eu escrevi-o, para o trazer aqui.”
“O senhor escreveu-o? Não havia ninguém na Terra, fora do ‘Joint’, que conhecesse o segredo dos homens dançantes. Como conseguiu escrevê-lo?”
“O que um homem pode inventar, outro pode descobrir”, disse Holmes. “Há um táxi vindo para o levar para Norwich, Sr. Slaney. Mas, entretanto, tem tempo para fazer alguma pequena reparação pelo dano que causou. Tem conhecimento de que a Sra. Hilton Cubitt esteve ela própria sob grave suspeita do assassinato do marido, e que foi apenas a minha presença aqui, e o conhecimento que por acaso possuía, que a salvaram da acusação? O mínimo que lhe deve é deixar claro para todo o mundo que ela não foi, direta ou indiretamente, responsável pelo seu fim trágico.”
“Não peço nada melhor”, disse o americano. “Suponho que o melhor caso que posso fazer para mim mesmo é a verdade absoluta e nua.”
“É meu dever avisá-lo de que será usado contra si”, gritou o inspetor, com o magnífico jogo limpo da lei criminal britânica.
Slaney encolheu os ombros.
“Arriscarei isso”, disse ele. “Antes de mais nada, quero que os senhores entendam que conheço esta senhora desde que ela era uma criança. Éramos sete num bando em Chicago, e o pai de Elsie era o chefe do ‘Joint’. Ele era um homem inteligente, o velho Patrick. Foi ele quem inventou aquela escrita, que passaria como um rabisco de criança a menos que por acaso se tivesse a chave dela. Bem, Elsie aprendeu alguns dos nossos métodos, mas não suportava o negócio, e ela tinha um pouco de dinheiro honesto dela, por isso enganou-nos a todos e fugiu para Londres. Ela estava noiva de mim, e teria casado comigo, acredito, se eu tivesse escolhido outra profissão, mas ela não queria ter nada a ver com nada que fosse desonesto. Foi só depois do seu casamento com este inglês que consegui descobrir onde ela estava. Escrevi-lhe, mas não obtive resposta. Depois disso, vim para cá e, como as cartas não serviam de nada, coloquei as minhas mensagens onde ela as pudesse ler.
“Bem, estou aqui há um mês. Vivi naquela fazenda, onde tinha um quarto no andar de baixo, e podia entrar e sair todas as noites, sem que ninguém soubesse. Tentei tudo o que pude para convencer Elsie a sair. Sabia que ela lia as mensagens, pois uma vez escreveu uma resposta por baixo de uma delas. Então o meu temperamento levou a melhor, e comecei a ameaçá-la. Ela enviou-me uma carta então, implorando-me que fosse embora, e dizendo que partiria o seu coração se algum escândalo caísse sobre o seu marido. Ela disse que viria abaixo quando o seu marido estivesse a dormir, às três da manhã, e falaria comigo pela janela do fundo, se eu fosse embora depois e a deixasse em paz. Ela desceu e trouxe dinheiro consigo, tentando subornar-me para ir embora. Isto deixou-me louco, e agarrei-a pelo braço e tentei puxá-la pela janela. Nesse momento, o marido entrou correndo com o seu revólver na mão. Elsie tinha caído no chão, e ficamos cara a cara. Eu também estava armado, e levantei a minha arma para o assustar e me deixar ir embora. Ele disparou e errou-me. Disparei quase no mesmo instante, e ele caiu. Escapei pelo jardim e, enquanto ia, ouvi a janela fechar-se atrás de mim. Essa é a verdade de Deus, cavalheiros, cada palavra dela, e não ouvi mais nada sobre o assunto até aquele rapaz vir cavalgando com um bilhete que me fez vir aqui, como um idiota, e entregar-me nas suas mãos.”
Um táxi tinha chegado enquanto o americano falava. Dois policiais uniformizados estavam sentados dentro. O inspetor Martin levantou-se e tocou no ombro do seu prisioneiro.
“É hora de irmos.”
“Posso vê-la primeiro?”
“Não, ela não está consciente. Sr. Sherlock Holmes, apenas espero que, se alguma vez tiver outro caso importante, tenha a boa sorte de o ter ao meu lado.”
Ficamos na janela e observamos o táxi partir. Ao voltar-me, o meu olhar caiu sobre a pequena bola de papel que o prisioneiro tinha atirado sobre a mesa. Era o bilhete com o qual Holmes o tinha atraído.
“Veja se consegue lê-lo, Watson”, disse ele, com um sorriso.
Não continha nenhuma palavra, apenas esta pequena linha de homens dançantes:
VENHA-AQUI-IMEDIATAMENTE
“Se usar o código que expliquei”, disse Holmes, “descobrirá que simplesmente significa ‘Venha aqui imediatamente’. Eu estava convencido de que era um convite que ele não recusaria, uma vez que nunca poderia imaginar que pudesse vir de outra pessoa que não a senhora. E assim, meu caro Watson, terminamos por transformar os homens dançantes para o bem quando tantas vezes foram agentes do mal, e creio que cumpri a minha promessa de lhe dar algo invulgar para o seu bloco de notas. O nosso comboio é às três e quarenta, e imagino que devamos estar de volta a Baker Street para o jantar.”
Apenas uma palavra de epílogo. O americano, Abe Slaney, foi condenado à morte nas sessões judiciais de inverno em Norwich, mas a sua pena foi comutada para trabalhos forçados em consideração das circunstâncias atenuantes e da certeza de que Hilton Cubitt tinha disparado o primeiro tiro. Da Sra. Hilton Cubitt, apenas sei que ouvi dizer que recuperou totalmente e que continua viúva, dedicando toda a sua vida ao cuidado dos pobres e à administração da propriedade do seu marido.
A AVENTURA DO CICLISTA SOLITÁRIO
Dos anos 1894 a 1901, inclusive, o Sr. Sherlock Holmes foi um homem muito ocupado. É seguro dizer que não houve qualquer caso público de alguma dificuldade em que não tenha sido consultado durante esses oito anos, e houve centenas de casos privados, alguns deles do caráter mais intrincado e extraordinário, nos quais desempenhou um papel proeminente. Muitos sucessos surpreendentes e algumas falhas inevitáveis foram o resultado deste longo período de trabalho contínuo. Como preservei notas muito completas de todos estes casos, e estive eu próprio pessoalmente envolvido em muitos deles, pode imaginar-se que não é tarefa fácil saber quais devo selecionar para apresentar ao público. Manterei, contudo, a minha regra anterior, e darei preferência aos casos que derivam o seu interesse não tanto da brutalidade do crime, mas da engenhosidade e qualidade dramática da solução. Por esta razão, apresentarei agora ao leitor os factos relacionados com a Srta. Violet Smith, a ciclista solitária de Charlington, e a curiosa sequela da nossa investigação, que culminou numa tragédia inesperada. É verdade que a circunstância não permitiu qualquer ilustração marcante daqueles poderes pelos quais o meu amigo era famoso, mas houve alguns pontos sobre o caso que o fizeram destacar-se naqueles longos registos de crime dos quais recolho o material para estas pequenas narrativas.
Ao consultar o meu bloco de notas referente ao ano de 1895, verifico que foi no sábado, 23 de abril, que ouvimos falar pela primeira vez da Srta. Violet Smith. A sua visita foi, recordo-me, extremamente inoportuna para Holmes, pois ele estava, naquele momento, imerso num problema muito abstruso e complicado relativo à peculiar perseguição a que John Vincent Harden, o conhecido milionário do tabaco, tinha sido sujeito. O meu amigo, que amava acima de tudo a precisão e a concentração de pensamento, ressentia-se de qualquer coisa que distraísse a sua atenção do assunto em mãos. E, no entanto, sem uma aspereza que era estranha à sua natureza, era impossível recusar ouvir a história da jovem e bela mulher, alta, graciosa e majestosa, que se apresentou em Baker Street tarde da noite e implorou a sua assistência e conselho. Foi em vão insistir que o seu tempo estava já totalmente ocupado, pois a jovem senhora tinha vindo com a determinação de contar a sua história, e era evidente que nada menos do que a força a poderia fazer sair da sala até que o tivesse feito. Com um ar resignado e um sorriso um tanto cansado, Holmes pediu à bela intrusa que se sentasse e nos informasse do que a preocupava.
“Pelo menos não pode ser da sua saúde”, disse ele, enquanto os seus olhos atentos a examinavam, “uma ciclista tão ardente deve estar cheia de energia.”
Ela olhou para baixo, surpreendida, para os seus próprios pés, e observei o ligeiro desgaste na parte lateral da sola causado pela fricção da borda do pedal.
“Sim, ando muito de bicicleta, Sr. Holmes, e isso tem algo a ver com a minha visita ao senhor hoje.”
O meu amigo pegou na mão sem luva da senhora e examinou-a com uma atenção tão próxima e tão pouco sentimental como um cientista mostraria a um espécime.
“Desculpar-me-á, tenho a certeza. É o meu trabalho”, disse ele, ao soltá-la. “Quase caí no erro de supor que estava a escrever à máquina. Claro, é óbvio que é música. Observa as pontas dos dedos espalmadas, Watson, que são comuns a ambas as profissões? Há uma espiritualidade no rosto, no entanto” — ela virou-o gentilmente para a luz — “que a máquina de escrever não gera. Esta senhora é musicista.”
“Sim, Sr. Holmes, dou aulas de música.”
“No campo, presumo, pelo seu tom de pele.”
“Sim, senhor, perto de Farnham, nas fronteiras de Surrey.”
“Uma vizinhança bela e cheia das associações mais interessantes. Lembra-se, Watson, que foi perto dali que apanhámos Archie Stamford, o falsificador. Agora, Srta. Violet, o que aconteceu consigo, perto de Farnham, nas fronteiras de Surrey?”
A jovem senhora, com grande clareza e compostura, fez a seguinte declaração curiosa:
“O meu pai faleceu, Sr. Holmes. Era James Smith, que dirigia a orquestra no antigo Imperial Theatre. A minha mãe e eu ficámos sem um parente no mundo, exceto um tio, Ralph Smith, que foi para África há vinte e cinco anos, e nunca mais tivemos notícias dele desde então. Quando o meu pai morreu, ficámos muito pobres, mas um dia disseram-nos que havia um anúncio no The Times, a perguntar pelo nosso paradeiro. Pode imaginar o quão excitadas ficámos, pois pensámos que alguém nos tinha deixado uma fortuna. Fomos imediatamente ao advogado cujo nome estava no jornal. Lá encontrámos dois cavalheiros, o Sr. Carruthers e o Sr. Woodley, que estavam de visita da África do Sul. Disseram que o meu tio era amigo deles, que tinha morrido alguns meses antes, na maior pobreza, em Joanesburgo, e que lhes tinha pedido, com o seu último suspiro, que procurassem os seus parentes e se certificassem de que não lhes faltava nada. Pareceu-nos estranho que o Tio Ralph, que não nos ligava nenhuma enquanto vivo, fosse tão cuidadoso em zelar por nós quando morto, mas o Sr. Carruthers explicou que a razão era que o meu tio tinha acabado de saber da morte do seu irmão, e por isso sentia-se responsável pelo nosso destino.”
“Desculpe-me”, disse Holmes. “Quando foi esta entrevista?”
“Em dezembro passado — há quatro meses.”
“Por favor, prossiga.”
“O Sr. Woodley pareceu-me ser uma pessoa odiosa. Estava sempre a fazer-me olhares — um jovem grosseiro, de rosto inchado e bigode ruivo, com o cabelo colado de cada lado da testa. Achei-o perfeitamente detestável — e tinha a certeza de que o Cyril não desejaria que eu conhecesse tal pessoa.”
“Oh, Cyril é o seu nome!” disse Holmes, sorrindo.
A jovem corou e riu-se.
“Sim, Sr. Holmes, Cyril Morton, um engenheiro eletrotécnico, e esperamos casar-nos no final do verão. Meu Deus, como fui falar dele? O que eu queria dizer era que o Sr. Woodley era perfeitamente odioso, mas que o Sr. Carruthers, que era um homem muito mais velho, era mais agradável. Era uma pessoa morena, de pele amarelada, bem barbeada e silenciosa, mas tinha maneiras polidas e um sorriso agradável. Perguntou como ficáramos e, ao descobrir que éramos muito pobres, sugeriu que eu viesse ensinar música à sua única filha, de dez anos. Disse que não gostava de deixar a minha mãe, ao que ele sugeriu que eu fosse a casa dela todos os fins de semana, e ofereceu-me cem por ano, o que era certamente um pagamento esplêndido. Por isso, acabei por aceitar e fui para Chiltern Grange, a cerca de seis milhas de Farnham. O Sr. Carruthers era viúvo, mas tinha contratado uma governanta, uma pessoa idosa muito respeitável, chamada Sra. Dixon, para cuidar do seu estabelecimento. A criança era um amor, e tudo prometia correr bem. O Sr. Carruthers era muito gentil e muito musical, e passámos noites muito agradáveis juntos. Todos os fins de semana ia para casa da minha mãe, na cidade.”
“A primeira falha na minha felicidade foi a chegada do Sr. Woodley, de bigode ruivo. Veio para uma visita de uma semana, e oh! pareceram-me três meses. Era uma pessoa terrível — um valentão para todos os outros, mas para mim algo infinitamente pior. Fazia-me declarações odiosas, gabava-se da sua riqueza, dizia que se eu me casasse com ele poderia ter os melhores diamantes de Londres, e finalmente, quando eu não quis ter nada a ver com ele, agarrou-me nos braços um dia após o jantar — ele era terrivelmente forte — e jurou que não me deixaria ir até que o beijasse. O Sr. Carruthers entrou e arrancou-o de mim, ao que ele se virou contra o seu próprio anfitrião, derrubando-o e cortando-lhe o rosto. Esse foi o fim da sua visita, como pode imaginar. O Sr. Carruthers pediu-me desculpas no dia seguinte e garantiu-me que eu nunca mais seria exposta a tal insulto. Não vi o Sr. Woodley desde então.”
“E agora, Sr. Holmes, chego finalmente à coisa especial que me levou a pedir o seu conselho hoje. Deve saber que todos os sábados de manhã ando na minha bicicleta até à Estação de Farnham, para apanhar o comboio das 12:22 para a cidade. A estrada de Chiltern Grange é isolada e, num ponto, é particularmente solitária, pois estende-se por mais de uma milha entre Charlington Heath, de um lado, e os bosques que rodeiam Charlington Hall, do outro. Não se poderia encontrar um trecho de estrada mais solitário em parte alguma, e é bastante raro encontrar sequer uma carroça, ou um camponês, até chegar à estrada principal perto de Crooksbury Hill. Há duas semanas, passava por este local quando olhei, por acaso, por cima do ombro e, a cerca de duzentos metros atrás de mim, vi um homem, também numa bicicleta. Parecia ser um homem de meia-idade, com uma barba curta e escura. Olhei para trás antes de chegar a Farnham, mas o homem tinha desaparecido, por isso não pensei mais nisso. Mas pode imaginar a minha surpresa, Sr. Holmes, quando, no meu regresso na segunda-feira, vi o mesmo homem no mesmo trecho de estrada. O meu espanto aumentou quando o incidente ocorreu de novo, exatamente como antes, no sábado e na segunda-feira seguintes. Ele mantinha sempre a distância e não me incomodou de forma alguma, mas ainda assim era certamente muito estranho. Mencionei-o ao Sr. Carruthers, que pareceu interessado no que eu disse e me contou que tinha encomendado um cavalo e uma carruagem, para que no futuro eu não passasse por essas estradas isoladas sem algum companheiro.”
“O cavalo e a carruagem deveriam ter vindo esta semana, mas, por alguma razão, não foram entregues, e tive de andar novamente de bicicleta até à estação. Isso foi esta manhã. Pode imaginar que olhei à volta quando cheguei a Charlington Heath, e lá, com certeza, estava o homem, exatamente como tinha estado nas duas semanas anteriores. Ele mantinha-se sempre tão longe de mim que eu não conseguia ver claramente o seu rosto, mas era certamente alguém que eu não conhecia. Estava vestido com um fato escuro e um boné de pano. A única coisa no seu rosto que eu conseguia ver claramente era a sua barba escura. Hoje não fiquei alarmada, mas fiquei cheia de curiosidade e decidi descobrir quem ele era e o que queria. Abrandei a minha máquina, mas ele abrandou a dele. Depois parei completamente, mas ele parou também. Então, preparei-lhe uma armadilha. Há uma curva acentuada na estrada e pedalei muito depressa à volta desta, depois parei e esperei. Esperei que ele aparecesse a correr e me ultrapassasse antes que pudesse parar. Mas ele nunca apareceu. Depois voltei atrás e olhei à volta da esquina. Podia ver uma milha de estrada, mas ele não estava nela. Para tornar tudo ainda mais extraordinário, não havia nenhuma estrada lateral neste ponto pela qual ele pudesse ter ido.”
Holmes riu-se entre dentes e esfregou as mãos. “Este caso apresenta certamente algumas características próprias”, disse ele. “Quanto tempo decorreu entre a sua curva na esquina e a sua descoberta de que a estrada estava livre?”
“Dois ou três minutos.”
“Então ele não pode ter recuado pela estrada, e diz que não há estradas laterais?”
“Nenhuma.”
“Então, certamente, ele tomou um caminho pedonal de um lado ou do outro.”
“Não poderia ter sido do lado da charneca, ou tê-lo-ia visto.”
“Portanto, pelo processo de exclusão, chegamos ao facto de que ele se dirigiu para Charlington Hall, que, conforme entendo, está situado nos seus próprios terrenos, de um lado da estrada. Mais alguma coisa?”
“Nada, Sr. Holmes, a não ser que estava tão perplexa que senti que não ficaria feliz até o ver e ter o seu conselho.”
Holmes sentou-se em silêncio durante algum tempo.
“Onde está o cavalheiro com quem está noiva?” perguntou ele, por fim.
“Ele está na Midland Electrical Company, em Coventry.”
“Ele não lhe faria uma visita de surpresa?”
“Oh, Sr. Holmes! Como se eu não o conhecesse!”
“Teve outros admiradores?”
“Vários antes de conhecer o Cyril.”
“E desde então?”
“Houve este homem terrível, Woodley, se é que se pode chamar-lhe um admirador.”
“Mais ninguém?”
A nossa bela cliente pareceu um pouco confusa.
“Quem era ele?” perguntou Holmes.
“Oh, pode ser apenas uma fantasia minha; mas pareceu-me, por vezes, que o meu empregador, o Sr. Carruthers, tem muito interesse em mim. Estamos um pouco juntos. Toco os seus acompanhamentos à noite. Ele nunca disse nada. É um perfeito cavalheiro. Mas uma rapariga sabe sempre.”
“Ha!” Holmes pareceu grave. “O que faz ele para viver?”
“É um homem rico.”
“Sem carruagens ou cavalos?”
“Bem, pelo menos ele é bastante abastado. Mas vai à cidade duas ou três vezes por semana. Ele está profundamente interessado em ações de ouro da África do Sul.”
“Informe-me de qualquer novo desenvolvimento, Srta. Smith. Estou muito ocupado agora, mas encontrarei tempo para fazer algumas perguntas sobre o seu caso. Entretanto, não tome qualquer medida sem me avisar. Adeus, e espero que tenhamos apenas boas notícias da sua parte.”
“Faz parte da ordem estabelecida da Natureza que uma rapariga dessas tenha seguidores”, disse Holmes, enquanto puxava o seu cachimbo meditativo, “mas, à escolha, não em bicicletas em estradas rurais isoladas. Algum amante secreto, sem dúvida. Mas há detalhes curiosos e sugestivos sobre o caso, Watson.”
“Que ele apareça apenas naquele ponto?”
“Exatamente. O nosso primeiro esforço deve ser descobrir quem são os inquilinos de Charlington Hall. Depois, novamente, que dizer da ligação entre Carruthers e Woodley, uma vez que parecem ser homens de tipos tão diferentes? Como vieram ambos a estar tão interessados em procurar os parentes de Ralph Smith? Mais um ponto. Que tipo de ménage é esta que paga o dobro do preço de mercado por uma governanta, mas não mantém um cavalo, embora esteja a seis milhas da estação? Estranho, Watson — muito estranho!”
“Vai lá abaixo?”
“Não, meu caro amigo, você é que vai. Isto pode ser alguma intriga insignificante, e não posso interromper a minha outra pesquisa importante por causa dela. Na segunda-feira chegará cedo a Farnham; esconder-se-á perto de Charlington Heath; observará estes factos por si mesmo e agirá conforme o seu próprio julgamento aconselhar. Depois, tendo perguntado sobre os ocupantes do Hall, voltará para mim e relatará. E agora, Watson, nem mais uma palavra sobre o assunto até termos alguns degraus sólidos sobre os quais possamos esperar atravessar para a nossa solução.”
Tínhamos confirmado pela senhora que ela ia na segunda-feira pelo comboio que sai de Waterloo às 9:50, por isso parti cedo e apanhei o das 9:13. Na Estação de Farnham não tive dificuldade em ser orientado para Charlington Heath. Era impossível enganar-se sobre o cenário da aventura da jovem, pois a estrada corre entre a charneca aberta, de um lado, e uma velha sebe de teixos, do outro, rodeando um parque que está salpicado de árvores magníficas. Havia um portão principal de pedra coberto de líquenes, cada pilar lateral encimado por emblemas heráldicos em decomposição, mas, para além desta entrada central para carruagens, observei vários pontos onde havia lacunas na sebe e caminhos que passavam por elas. A casa era invisível da estrada, mas os arredores falavam de tristeza e decadência.
A charneca estava coberta de manchas douradas de tojo em flor, brilhando magnificamente à luz do sol brilhante da primavera. Atrás de um destes arbustos, tomei a minha posição, de modo a dominar tanto o portão do Hall como um longo trecho da estrada de ambos os lados. Estava deserta quando a deixei, mas agora vi um ciclista a pedalar por ela na direção oposta àquela em que tinha vindo. Estava vestido com um fato escuro e vi que tinha uma barba preta. Ao chegar ao fim dos terrenos de Charlington, saltou da sua máquina e conduziu-a através de uma abertura na sebe, desaparecendo da minha vista.
Passou um quarto de hora e, então, um segundo ciclista apareceu. Desta vez era a jovem senhora que vinha da estação. Vi-a olhar à sua volta quando chegou à sebe de Charlington. Um instante depois, o homem emergiu do seu esconderijo, saltou para a sua bicicleta e seguiu-a. Em toda a vasta paisagem, essas eram as únicas figuras em movimento, a rapariga graciosa sentada muito direita na sua máquina, e o homem atrás dela curvado sobre o guiador com uma sugestão curiosamente furtiva em cada movimento. Ela olhou para trás, para ele, e abrandou o ritmo. Ele abrandou também. Ela parou. Ele parou imediatamente, mantendo-se a duzentos metros atrás dela. O seu movimento seguinte foi tão inesperado quanto vigoroso. Ela girou subitamente as rodas e investiu diretamente contra ele. Ele foi tão rápido como ela, no entanto, e partiu numa fuga desesperada. Pouco depois, ela voltou pela estrada, com a cabeça altiva no ar, não se dignando a tomar mais qualquer nota do seu atento silencioso. Ele tinha virado também e mantinha a distância até que a curva da estrada os escondeu da minha vista.
Permaneci no meu esconderijo, e foi bom que o tivesse feito, pois pouco depois o homem reapareceu, pedalando lentamente de volta. Virou-se nos portões do Hall e desmontou da sua máquina. Durante alguns minutos, pude vê-lo parado entre as árvores. As suas mãos estavam levantadas e parecia estar a ajeitar a gravata. Depois montou na sua bicicleta e afastou-se de mim pela entrada, em direção ao Hall. Corri através da charneca e espreitei através das árvores. Ao longe, pude vislumbrar o antigo edifício cinzento com as suas chaminés Tudor eriçadas, mas a entrada passava por um denso arbusto, e não vi mais nada do meu homem.
No entanto, pareceu-me que tinha feito um trabalho bastante bom naquela manhã, e caminhei de volta para Farnham com o espírito elevado. O agente imobiliário local não me pôde dizer nada sobre Charlington Hall e remeteu-me para uma empresa bem conhecida em Pall Mall. Lá parei no meu caminho para casa e fui recebido com cortesia pelo representante. Não, eu não poderia ter Charlington Hall para o verão. Eu estava demasiado atrasado. Tinha sido alugado há cerca de um mês. O Sr. Williamson era o nome do inquilino. Era um cavalheiro idoso e respeitável. O agente polido temia não poder dizer mais nada, uma vez que os assuntos dos seus clientes não eram matérias que pudesse discutir.
O Sr. Sherlock Holmes escutou com atenção o longo relatório que pude apresentar-lhe naquela noite, mas ele não provocou aquela palavra de elogio seco que eu esperava e que teria valorizado. Pelo contrário, o seu rosto austero estava ainda mais severo do que o habitual enquanto comentava as coisas que fiz e as que não fiz.
"O seu esconderijo, meu caro Watson, foi muito falho. Deveria ter estado atrás da sebe; teria tido uma visão de perto desta pessoa interessante. Tal como as coisas foram, você estava a algumas centenas de metros de distância e pode dizer-me ainda menos do que a Srta. Smith. Ela pensa que não conhece o homem; eu estou convencido de que conhece. Por que razão, de outro modo, estaria ele tão desesperadamente ansioso para que ela não chegasse tão perto a ponto de ver os seus traços? Você descreve-o debruçado sobre o guiador. Mais uma vez, ocultação, está a ver. Você realmente saiu-se extraordinariamente mal. Ele regressa à casa, e você quer descobrir quem ele é. Vai a um agente imobiliário de Londres!"
"O que deveria ter feito?", exclamei, com algum calor.
"Ido à taberna mais próxima. Esse é o centro das mexericos rurais. Ter-lhe-iam dito todos os nomes, desde o patrão até à criada da copa. Williamson? Não me diz nada. Se é um homem idoso, não é este ciclista ativo que arranca a toda a velocidade da perseguição atlética daquela jovem. O que ganhámos com a sua expedição? O conhecimento de que a história da rapariga é verdadeira. Nunca duvidei disso. Que existe uma ligação entre o ciclista e o Hall. Também nunca duvidei disso. Que o Hall está arrendado a Williamson. Quem beneficia com isso? Bem, bem, meu caro senhor, não pareça tão deprimido. Podemos fazer pouco mais até ao próximo sábado e, entretanto, talvez eu próprio faça uma ou duas averiguações."
Na manhã seguinte, recebemos um bilhete da Srta. Smith, contando de forma breve e precisa os próprios incidentes que eu vira, mas o âmago da carta residia no pós-escrito:
"Tenho a certeza de que respeitará a minha confiança, Sr. Holmes, quando lhe disser que o meu lugar aqui se tornou difícil, devido ao facto de o meu empregador me ter pedido em casamento. Estou convencida de que os seus sentimentos são muito profundos e muito honrados. Ao mesmo tempo, a minha promessa foi, naturalmente, dada. Ele levou a minha recusa muito a sério, mas também muito gentilmente. Pode compreender, contudo, que a situação está um pouco tensa."
"A nossa jovem amiga parece estar a meter-se em águas profundas", disse Holmes, pensativo, ao terminar a carta. "O caso apresenta certamente mais traços de interesse e mais possibilidade de desenvolvimento do que eu tinha pensado originalmente. Não me faria mal um dia tranquilo e pacífico no campo, e sinto-me inclinado a ir lá abaixo esta tarde para testar uma ou duas teorias que formei."
O dia tranquilo de Holmes no campo teve um final singular, pois ele chegou a Baker Street tarde da noite, com o lábio cortado e um inchaço descolorado na testa, além de um ar geral de dissipação que teria feito dele próprio o objeto adequado para uma investigação da Scotland Yard. Estava imensamente divertido com as suas próprias aventuras e riu-se de bom grado enquanto as contava.
"Faço tão pouco exercício ativo que é sempre um regalo", disse ele. "Você sabe que tenho alguma proficiência no bom e velho desporto britânico do boxe. Ocasionalmente, é útil; hoje, por exemplo, teria tido um fim muito ignominioso sem ele."
Supliquei-lhe que me contasse o que tinha acontecido.
"Encontrei aquela taberna rural que eu já tinha recomendado à sua atenção e lá fiz as minhas averiguações discretas. Estava no bar e um taberneiro tagarela estava a dar-me tudo o que eu queria. Williamson é um homem de barba branca e vive sozinho com um pequeno grupo de criados no Hall. Corre o rumor de que ele é ou foi clérigo, mas um ou dois incidentes da sua curta residência no Hall pareceram-me peculiarmente não eclesiásticos. Já fiz algumas perguntas numa agência clerical e disseram-me que havia um homem com esse nome na ordem, cuja carreira foi singularmente obscura. O taberneiro informou-me ainda que há habitualmente visitantes de fim de semana — 'uma gente calorosa, senhor' — no Hall, e especialmente um cavalheiro de bigode ruivo, o Sr. Woodley por nome, que estava sempre lá. Tínhamos chegado a este ponto, quando quem entra senão o próprio cavalheiro, que tinha estado a beber a sua cerveja na sala comum e tinha ouvido a conversa toda. Quem era eu? O que queria? O que queria dizer com aquelas perguntas? Ele tinha um belo fluxo de linguagem e os seus adjetivos eram muito vigorosos. Terminou uma série de insultos com um revés vicioso, que não consegui evitar totalmente. Os minutos seguintes foram deliciosos. Foi um direto de esquerda contra um rufia espancador. Emergi como me vê. O Sr. Woodley foi para casa numa carroça. Assim terminou a minha viagem ao campo, e é preciso confessar que, por mais agradável que tenha sido, o meu dia na fronteira de Surrey não foi muito mais proveitoso do que o seu."
A quinta-feira trouxe-nos outra carta da nossa cliente.
"Não ficará surpreendido, Sr. Holmes (dizia ela), ao ouvir que vou deixar o emprego do Sr. Carruthers. Nem o salário elevado me consegue reconciliar com os desconfortos da minha situação. No sábado, vou para a cidade e não pretendo voltar. O Sr. Carruthers arranjou uma charrete, por isso os perigos da estrada solitária, se é que alguma vez existiram perigos, terminaram agora. Quanto à causa específica da minha partida, não é apenas a situação tensa com o Sr. Carruthers, mas é o reaparecimento daquele homem odioso, o Sr. Woodley. Ele era sempre hediondo, mas parece mais terrível do que nunca agora, pois parece ter tido um acidente e está muito desfigurado. Vi-o da janela, mas estou contente por dizer que não me encontrei com ele. Teve uma longa conversa com o Sr. Carruthers, que parecia muito agitado depois. Woodley deve estar a ficar nas redondezas, pois não dormiu aqui, e ainda assim apanhei um vislumbre dele novamente esta manhã, esgueirando-se pelos arbustos. Preferiria ter um animal selvagem feroz à solta pelo local. Detesto-o e temo-o mais do que posso dizer. Como pode o Sr. Carruthers suportar tal criatura por um momento? De qualquer forma, todos os meus problemas terminarão no sábado."
"Assim espero, Watson, assim espero", disse Holmes, gravemente. "Há uma intriga profunda a decorrer em torno daquela pequena mulher, e é nosso dever garantir que ninguém a moleste nessa última viagem. Penso, Watson, que temos de arranjar tempo para descer lá juntos no sábado de manhã e garantir que esta curiosa e abrangente investigação não tenha um fim infeliz."
Confesso que, até agora, não tinha adotado uma visão muito séria do caso, que me parecia mais grotesco e bizarro do que perigoso. Que um homem fique à espera e siga uma mulher muito bonita não é algo inédito, e se ele tem tão pouca audácia que não só não ousou dirigir-lhe a palavra, como até fugiu da sua aproximação, não era um agressor muito temível. O rufia Woodley era uma pessoa muito diferente, mas, exceto numa ocasião, ele não tinha molestado a nossa cliente e agora visitava a casa de Carruthers sem invadir a sua presença. O homem da bicicleta era, sem dúvida, um membro daquelas festas de fim de semana no Hall de que o taberneiro tinha falado, mas quem era ele, ou o que queria, era tão obscuro como sempre. Foi a severidade do comportamento de Holmes e o facto de ele ter metido um revólver no bolso antes de sair dos nossos aposentos que me impressionou com a sensação de que a tragédia poderia estar à espreita por trás desta curiosa sucessão de eventos.
Uma noite chuvosa tinha sido seguida por uma manhã gloriosa, e a paisagem coberta de charnecas, com os aglomerados brilhantes de tojo em flor, parecia ainda mais bonita aos olhos que estavam cansados dos castanhos, dos cinzentos e dos cinzentos-ardósia de Londres. Holmes e eu caminhávamos pela estrada larga e arenosa, inalando o ar fresco da manhã e regozijando-nos com a música dos pássaros e o hálito fresco da primavera. De uma subida da estrada no ombro de Crooksbury Hill, podíamos ver o sombrio Hall a sobressair do meio dos antigos carvalhos, que, velhos como eram, eram ainda mais novos do que o edifício que rodeavam. Holmes apontou para o longo troço de estrada que serpenteava, uma faixa amarelo-avermelhada, entre o castanho da charneca e o verde brotante dos bosques. Ao longe, um ponto preto, podíamos ver um veículo a mover-se na nossa direção. Holmes soltou uma exclamação de impaciência.
"Dei uma margem de meia hora", disse ele. "Se aquela é a charrete dela, ela deve estar a dirigir-se para o comboio mais cedo. Receio, Watson, que ela já tenha passado por Charlington antes que possamos possivelmente encontrá-la."
A partir do instante em que passámos a subida, já não podíamos ver o veículo, mas apressámo-nos a tal ritmo que a minha vida sedentária começou a afetar-me e fui obrigado a ficar para trás. Holmes, contudo, estava sempre em forma, pois tinha inesgotáveis reservas de energia nervosa nas quais podia recorrer. O seu passo elástico nunca abrandou até que, de repente, quando estava a cem metros à minha frente, parou, e vi-o levantar a mão com um gesto de dor e desespero. No mesmo instante, uma charrete vazia, com o cavalo a trote e as rédeas a arrastar, apareceu na curva da estrada e chocalhou rapidamente na nossa direção.
"Demasiado tarde, Watson, demasiado tarde!", gritou Holmes, enquanto eu corria ofegante para o seu lado. "Tolo que fui por não ter previsto aquele comboio mais cedo! É um rapto, Watson — um rapto! Assassinato! O céu sabe o que mais! Bloqueiem a estrada! Parem o cavalo! Isso mesmo. Agora, saltem para dentro e deixem-me ver se consigo reparar as consequências da minha própria asneira."
Tínhamos saltado para a charrete e Holmes, depois de virar o cavalo, deu-lhe um golpe seco com o chicote, e voámos de volta pela estrada. Quando contornámos a curva, toda a extensão da estrada entre o Hall e a charneca ficou aberta. Agarrei o braço de Holmes.
"É aquele o homem!", arfei.
Um ciclista solitário vinha na nossa direção. Tinha a cabeça baixa e os ombros encurvados, enquanto colocava cada grama de energia que possuía nos pedais. Voava como um corredor. De repente, levantou o seu rosto barbudo, viu-nos perto dele e parou, saltando da sua máquina. Aquela barba negra como o carvão estava em contraste singular com a palidez do seu rosto, e os seus olhos eram tão brilhantes como se tivesse febre. Ele olhou para nós e para a charrete. Então, um olhar de espanto surgiu no seu rosto.
"Olá! Parem aí!", gritou ele, segurando a sua bicicleta para bloquear a nossa estrada. "Onde arranjaram essa charrete? Parem, homem!", berrou ele, tirando uma pistola do bolso lateral. "Parem, digo eu, ou, por Deus, meto uma bala no vosso cavalo."
Holmes atirou-me as rédeas para o colo e saltou da carroça.
"Você é o homem que queremos ver. Onde está a Srta. Violet Smith?", disse ele, da sua maneira rápida e clara.
"É isso que eu estou a perguntar-vos. Estão na charrete dela. Deviam saber onde ela está."
"Encontrámos a charrete na estrada. Não estava ninguém nela. Voltámos para ajudar a jovem senhora."
"Meu Deus! Meu Deus! O que hei de fazer?", gritou o estranho, num êxtase de desespero. "Levaram-na, aquele cão do inferno Woodley e o pároco patife. Venha, homem, venha, se é realmente amigo dela. Fique ao meu lado e salvá-la-emos, mesmo que eu tenha de deixar o meu cadáver em Charlington Wood."
Ele correu distraído, com a pistola na mão, em direção a uma abertura na sebe. Holmes seguiu-o, e eu, deixando o cavalo a pastar junto à estrada, segui Holmes.
"Foi por aqui que eles passaram", disse ele, apontando para as marcas de vários pés no caminho lamacento. "Olá! Parem um minuto! Quem é este no arbusto?"
Era um rapaz jovem, com cerca de dezassete anos, vestido como um cavalariço, com calções de couro e polainas. Estava deitado de costas, com os joelhos dobrados, um corte terrível na cabeça. Estava insensível, mas vivo. Um olhar para o seu ferimento disse-me que não tinha penetrado o osso.
"É o Peter, o cavalariço", gritou o estranho. "Ele levava-a. As bestas puxaram-no para fora e espancaram-no. Deixem-no estar; não podemos fazer nada por ele, mas talvez possamos salvá-la do pior destino que pode acontecer a uma mulher."
Corremos freneticamente pelo caminho, que serpenteava por entre as árvores. Tínhamos chegado aos arbustos que rodeavam a casa quando Holmes parou.
"Eles não foram para a casa. Aqui estão as suas marcas à esquerda — aqui, junto aos arbustos de louro. Ah! Eu bem disse."
Enquanto falava, um grito agudo de mulher — um grito que vibrava com um frenesim de horror — irrompeu do espesso aglomerado verde de arbustos à nossa frente. Terminou subitamente na sua nota mais alta com um engasgo e um gorgolejo.
"Por aqui! Por aqui! Eles estão na pista de bowling", gritou o estranho, lançando-se através dos arbustos. "Ah, os cães cobardes! Sigam-me, senhores! Demasiado tarde! Demasiado tarde! Pelo Deus vivo!"
Tínhamos irrompido subitamente num lindo relvado rodeado de árvores antigas. Do outro lado, sob a sombra de um carvalho imponente, havia um grupo singular de três pessoas. Uma era uma mulher, a nossa cliente, cabisbaixa e fraca, um lenço à volta da boca. Em frente dela estava um jovem brutal, de rosto pesado e bigode ruivo, as suas pernas cobertas de polainas bem afastadas, um braço na cintura, o outro a agitar uma chibata, toda a sua atitude sugestiva de um bravado triunfante. Entre eles, um homem idoso, de barba cinzenta, vestindo uma sobrepeliz curta sobre um fato de tweed claro, tinha evidentemente acabado de completar o serviço de casamento, pois guardou o seu livro de orações no bolso quando aparecemos e deu uma palmada nas costas do sinistro noivo em sinal de congratulação jovial.
"Eles estão casados!", arfei.
"Vamos!", gritou o nosso guia, "vamos!" Ele correu pelo relvado, com Holmes e eu nos seus calcanhares. À medida que nos aproximávamos, a senhora cambaleou contra o tronco da árvore para se apoiar. Williamson, o ex-clérigo, inclinou-se para nós com uma cortesia fingida, e o valentão, Woodley, avançou com um grito de riso brutal e exultante.
"Podes tirar a barba, Bob", disse ele. "Conheço-te muito bem. Bem, tu e os teus amigos chegaram mesmo a tempo para eu poder apresentar-vos à Sra. Woodley."
A resposta do nosso guia foi singular. Ele arrancou a barba escura que o tinha disfarçado e atirou-a ao chão, revelando um rosto longo, pálido e barbeado por baixo. Depois, levantou o seu revólver e cobriu o jovem rufia, que avançava sobre ele com a sua perigosa chibata a balançar na mão.
"Sim", disse o nosso aliado, "sou o Bob Carruthers, e farei com que se faça justiça a esta mulher, mesmo que tenha de ir para a forca por isso. Disse-te o que faria se a molestasses, e, por Deus! Serei fiel à minha palavra."
"Chegaste tarde demais. Ela é minha mulher."
"Não, ela é tua viúva."
O seu revólver disparou e vi o sangue jorrar da frente do colete de Woodley. Ele girou sobre si mesmo com um grito e caiu de costas, o seu horrível rosto vermelho a tornar-se subitamente de uma terrível palidez mosqueada. O velho, ainda vestido com a sua sobrepeliz, irrompeu numa tal série de insultos imundos como nunca tinha ouvido, e tirou um revólver do seu próprio bolso, mas, antes que pudesse levantá-lo, estava a olhar para o cano da arma de Holmes.
"Chega disto", disse o meu amigo, friamente. "Larga essa pistola! Watson, apanha-a! Aponta-a à cabeça dele. Obrigado. Você, Carruthers, dê-me esse revólver. Não teremos mais violência. Vamos, entregue-o!"
"Quem é você, então?"
"O meu nome é Sherlock Holmes."
"Meu Deus!"
"Já ouviu falar de mim, vejo eu. Representarei a polícia oficial até à sua chegada. Aqui, você!", gritou ele para um cavalariço assustado, que aparecera na orla do relvado. "Venha aqui. Leve este bilhete o mais depressa que puder montar até Farnham." Ele rabiscou algumas palavras numa folha do seu bloco de notas. "Entregue-o ao superintendente na esquadra da polícia. Até que ele chegue, devo detê-los a todos sob a minha custódia pessoal."
A personalidade forte e dominadora de Holmes dominou a cena trágica, e todos foram igualmente marionetas nas suas mãos. Williamson e Carruthers viram-se a carregar o ferido Woodley para dentro da casa, e eu dei o meu braço à rapariga assustada. O homem ferido foi deitado na sua cama e, a pedido de Holmes, examinei-o. Levei o meu relatório para onde ele estava sentado na antiga sala de jantar forrada a tapeçarias, com os seus dois prisioneiros à sua frente.
"Ele vai viver", disse eu.
"O quê!", gritou Carruthers, saltando da sua cadeira. "Vou lá acima e acabo com ele primeiro. Diz-me que aquele anjo vai estar ligada ao 'Roaring Jack' Woodley para o resto da vida?"
"Não precisa de se preocupar com isso", disse Holmes. "Há duas razões muito boas pelas quais ela não deveria, sob circunstância alguma, ser sua esposa. Em primeiro lugar, estamos muito seguros ao questionar o direito do Sr. Williamson de celebrar um casamento."
"Eu fui ordenado", gritou o velho patife.
"E também destituído."
"Uma vez clérigo, clérigo para sempre."
"Penso que não. E quanto à licença?"
"Tínhamos uma licença para o casamento. Tenho-a aqui no meu bolso."
"Então obteve-a por truque. Mas, em qualquer caso, um casamento forçado não é casamento, mas é um crime muito grave, como descobrirá antes de terminar. Terá tempo para pensar nesse ponto durante os próximos dez anos ou mais, a menos que eu esteja enganado. Quanto a si, Carruthers, teria feito melhor se mantivesse a sua pistola no bolso."
"Começo a pensar nisso, Sr. Holmes, mas quando pensava em toda a precaução que tinha tomado para proteger esta rapariga — pois eu amava-a, Sr. Holmes, e é a única vez que soube o que era o amor — deixava-me verdadeiramente louco pensar que ela estava sob o poder do maior bruto e valentão da África do Sul — um homem cujo nome é um terror sagrado desde Kimberley até Joanesburgo. Ora, Sr. Holmes, dificilmente acreditará, mas desde que aquela rapariga está ao meu serviço, nunca a deixei passar por esta casa, onde sabia que os rufias estavam à espreita, sem a seguir na minha bicicleta, só para ver que ela não sofria nenhum mal. Mantive a minha distância dela e usei uma barba, para que ela não me reconhecesse, pois ela é uma rapariga boa e de espírito elevado, e não teria permanecido ao meu serviço por muito tempo se tivesse pensado que eu a andava a seguir pelas estradas rurais."
"Porque não lhe disse o perigo que corria?"
"Porque então, de novo, ela ter-me-ia deixado, e eu não suportava enfrentar isso. Mesmo que ela não me pudesse amar, era muito para mim apenas ver a sua forma delicada pela casa e ouvir o som da sua voz."
"Bem", disse eu, "chama a isso amor, Sr. Carruthers, mas eu chamaria a isso egoísmo."
"Talvez as duas coisas andem juntas. De qualquer forma, não a podia deixar partir. Além disso, com esta gente por perto, era bom que ela tivesse alguém por perto para cuidar dela. Depois, quando o cabo chegou, sabia que eles eram obrigados a fazer um movimento."
"Que cabo?"
Carruthers tirou um telegrama do bolso.
"É este", disse ele.
Era curto e conciso:
O velho está morto.
"Hum!", disse Holmes. "Penso que vejo como as coisas funcionaram, e posso compreender como esta mensagem, como diz, os levaria a um ponto crítico. Mas enquanto espera, talvez me possa dizer o que puder."
O velho réprobo com a sobrepeliz irrompeu numa saraivada de linguagem obscena.
— Pelos céus! — disse ele. — Se você nos dedurar, Bob Carruthers, farei com você o que fez a Jack Woodley. Pode balir sobre a garota o quanto quiser, pois isso é problema seu, mas se você nos entregar a este policial à paisana, será o pior dia de trabalho que você já teve.
— Sua reverência não precisa ficar agitado — disse Holmes, acendendo um cigarro. — O caso contra vocês é suficientemente claro, e tudo o que peço são alguns detalhes para minha curiosidade pessoal. No entanto, se houver qualquer dificuldade em me contar, eu farei a parte do discurso, e então verá o quanto terá a chance de guardar seus segredos. Em primeiro lugar, três de vocês vieram da África do Sul para este jogo — você Williamson, você Carruthers e Woodley.
— Mentira número um — disse o velho; — nunca vi nenhum deles até dois meses atrás, e nunca estive na África em toda a minha vida, então pode colocar isso no seu cachimbo e fumar, Sr. Curioso Holmes!
— O que ele diz é verdade — disse Carruthers.
— Bem, bem, dois de vocês vieram. Sua reverência é nosso artigo de fabricação caseira. Vocês conheciam Ralph Smith na África do Sul. Tinham razões para acreditar que ele não viveria muito. Descobriram que sua sobrinha herdaria sua fortuna. Como é isso, hein?
Carruthers assentiu e Williamson praguejou.
— Ela era a parente mais próxima, sem dúvida, e vocês sabiam que o velho não faria testamento.
— Não sabia ler nem escrever — disse Carruthers.
— Então vocês vieram, os dois, e procuraram a garota. A ideia era que um de vocês se casasse com ela, e o outro tivesse uma parte do espólio. Por alguma razão, Woodley foi o escolhido para ser o marido. Por que isso?
— Jogamos cartas por ela na viagem. Ele ganhou.
— Entendo. Vocês colocaram a jovem a seu serviço, e ali Woodley deveria cortejá-la. Ela reconheceu o bruto bêbado que ele era e não quis saber dele. Enquanto isso, o arranjo de vocês foi bastante perturbado pelo fato de que você próprio se apaixonou pela dama. Não suportava mais a ideia de que este rufião a possuísse?
— Não, por Deus, eu não suportava!
— Houve uma briga entre vocês. Ele o deixou furioso e começou a fazer seus próprios planos independentemente de você.
— Parece-me, Williamson, que não há muito que possamos contar a este cavalheiro — exclamou Carruthers, com uma risada amarga. — Sim, brigamos, e ele me derrubou. Estou quite com ele quanto a isso, de qualquer modo. Depois, perdi-o de vista. Foi quando ele se juntou a este padre proscrito aqui. Descobri que eles tinham montado residência juntos neste lugar, na linha que ela tinha que passar para ir à estação. Fiquei de olho nela depois disso, pois sabia que havia alguma vilania no ar. Eu os via de tempos em tempos, pois estava ansioso para saber o que pretendiam. Dois dias atrás, Woodley veio à minha casa com este telegrama, que mostrava que Ralph Smith estava morto. Perguntou-me se eu cumpriria o acordo. Eu disse que não. Perguntou-me se eu mesmo me casaria com a garota e lhe daria uma parte. Disse que o faria voluntariamente, mas que ela não me aceitaria. Ele disse: "Vamos casá-la primeiro e, depois de uma semana ou duas, ela pode ver as coisas de um jeito diferente". Eu disse que não teria nada a ver com violência. Então ele foi embora xingando, como o canalha de língua suja que era, e jurando que a teria ainda assim. Ela estava me deixando neste fim de semana, e eu tinha um veículo para levá-la à estação, mas estava tão inquieto que a segui na minha bicicleta. Ela tinha ganhado vantagem, no entanto, e antes que eu pudesse alcançá-la, o mal estava feito. A primeira coisa que soube foi quando vi os dois senhores voltando na charrete dela.
Holmes levantou-se e jogou a ponta do cigarro na grelha. — Fui muito obtuso, Watson — disse ele. — Quando, em seu relatório, você disse que tinha visto o ciclista, como pensou, arrumar a gravata no arbusto, isso por si só deveria ter me contado tudo. No entanto, podemos nos congratular por um caso curioso e, sob alguns aspectos, único. Percebo três policiais do condado na entrada, e fico feliz em ver que o pequeno cavalariço é capaz de acompanhá-los, de modo que é provável que nem ele nem o interessante noivo sofram danos permanentes com as aventuras desta manhã. Acho, Watson, que, em sua capacidade médica, você poderia atender a Srta. Smith e dizer-lhe que, se ela estiver suficientemente recuperada, ficaremos felizes em escoltá-la até a casa de sua mãe. Se ela não estiver completamente convalescente, você descobrirá que uma sugestão de que estávamos prestes a enviar um telegrama para um jovem eletricista em Midlands provavelmente completará a cura. Quanto a você, Sr. Carruthers, acho que fez o que pôde para compensar sua participação em um plano maligno. Aqui está meu cartão, senhor, e se meu depoimento puder ser útil em seu julgamento, estará à sua disposição.
No turbilhão de nossa incessante atividade, tem sido muitas vezes difícil para mim, como o leitor provavelmente observou, concluir minhas narrativas e fornecer os detalhes finais que os curiosos poderiam esperar. Cada caso foi o prelúdio de outro e, uma vez superada a crise, os atores desapareceram para sempre de nossas vidas ocupadas. Encontro, porém, uma breve nota ao final do meu manuscrito sobre este caso, na qual registrei que a Srta. Violet Smith de fato herdou uma grande fortuna e que ela é agora a esposa de Cyril Morton, o sócio principal da Morton & Kennedy, os famosos eletricistas de Westminster. Williamson e Woodley foram ambos julgados por rapto e agressão, sendo o primeiro condenado a sete anos e o último a dez. Sobre o destino de Carruthers, não tenho registro, mas estou certo de que sua agressão não foi vista com muita gravidade pelo tribunal, uma vez que Woodley tinha a reputação de ser um rufião muito perigoso, e creio que alguns meses foram suficientes para satisfazer as exigências da justiça.
A AVENTURA DA ESCOLA DO PRIORADO
Tivemos algumas entradas e saídas dramáticas em nosso pequeno palco na Baker Street, mas não consigo me lembrar de nada mais repentino e surpreendente do que a primeira aparição de Thorneycroft Huxtable, M.A., Ph.D., etc. Seu cartão, que parecia pequeno demais para carregar o peso de suas distinções acadêmicas, precedeu-o por alguns segundos, e então ele mesmo entrou — tão grande, tão pomposo e tão dignificado que era a própria personificação da compostura e solidez. E, no entanto, sua primeira ação, quando a porta se fechou atrás dele, foi cambalear contra a mesa, de onde escorregou para o chão, e lá estava aquela figura majestosa prostrada e insensível sobre nosso tapete de pele de urso.
Saltamos de nossos lugares e, por alguns momentos, olhamos em silêncio e espanto para esse pesado pedaço de destroço, que denunciava alguma tempestade repentina e fatal muito longe no oceano da vida. Então, Holmes correu com uma almofada para sua cabeça, e eu com conhaque para seus lábios. O rosto pesado e branco estava marcado por linhas de preocupação, as bolsas pendentes sob os olhos fechados tinham uma cor de chumbo, a boca frouxa caía dolosamente nos cantos, os queixos rolantes estavam por fazer. O colarinho e a camisa traziam a sujeira de uma longa viagem, e o cabelo eriçava-se desgrenhado da cabeça bem formada. Era um homem gravemente abatido que jazia diante de nós.
— O que é, Watson? — perguntou Holmes.
— Exaustão absoluta — possivelmente apenas fome e fadiga — disse eu, com o dedo no pulso fraco, onde o fluxo da vida corria tênue e escasso.
— Bilhete de retorno de Mackleton, no norte da Inglaterra — disse Holmes, tirando-o do bolso do relógio. — Ainda não são doze horas. Ele certamente começou cedo.
As pálpebras enrugadas começaram a tremer e, agora, um par de olhos cinzentos e vagos olhou para nós. Um instante depois, o homem tinha lutado para ficar de pé, com o rosto vermelho de vergonha.
— Perdoem esta fraqueza, Sr. Holmes, estive um pouco sobrecarregado. Obrigado, se eu pudesse ter um copo de leite e um biscoito, não tenho dúvidas de que estaria melhor. Vim pessoalmente, Sr. Holmes, a fim de garantir que o senhor voltasse comigo. Tive medo de que nenhum telegrama o convencesse da absoluta urgência do caso.
— Quando estiver completamente recuperado...
— Estou bem novamente. Não consigo imaginar como pude ficar tão fraco. Quero que o senhor, Sr. Holmes, venha a Mackleton comigo no próximo trem.
Meu amigo balançou a cabeça.
— Meu colega, Dr. Watson, poderia dizer-lhe que estamos muito ocupados no momento. Estou retido neste caso dos Documentos Ferrers, e o assassinato de Abergavenny está prestes a ir a julgamento. Apenas uma questão muito importante poderia me tirar de Londres agora.
— Importante! — Nosso visitante ergueu as mãos. — O senhor não ouviu nada sobre o rapto do único filho do Duque de Holdernesse?
— O quê! O falecido Ministro de Gabinete?
— Exatamente. Tentamos mantê-lo fora dos jornais, mas havia algum boato no Globe ontem à noite. Pensei que pudesse ter chegado aos seus ouvidos.
Holmes esticou seu braço longo e fino e pegou o Volume "H" em sua enciclopédia de referência.
— "Holdernesse, 6º Duque, K.G., P.C." — metade do alfabeto! "Barão Beverley, Conde de Carston" — meu Deus, que lista! "Lorde Tenente de Hallamshire desde 1900. Casado com Edith, filha de Sir Charles Appledore, 1888. Herdeiro e único filho, Lorde Saltire. Possui cerca de duzentos e cinquenta mil acres. Minerais em Lancashire e no País de Gales. Endereço: Carlton House Terrace; Holdernesse Hall, Hallamshire; Carston Castle, Bangor, País de Gales. Lorde do Almirantado, 1872; Secretário-Chefe de Estado para..." Bem, bem, este homem é certamente um dos maiores súditos da Coroa!
— O maior e talvez o mais rico. Estou ciente, Sr. Holmes, de que o senhor assume uma posição muito elevada em assuntos profissionais e de que está preparado para trabalhar pelo trabalho em si. Posso dizer-lhe, no entanto, que Sua Graça já deu a entender que um cheque de cinco mil libras será entregue à pessoa que puder dizer-lhe onde seu filho está, e mais mil para quem puder nomear o homem ou os homens que o levaram.
— É uma oferta principesca — disse Holmes. — Watson, acho que acompanharemos o Dr. Huxtable de volta ao norte da Inglaterra. E agora, Dr. Huxtable, quando tiver consumido esse leite, gentilmente me dirá o que aconteceu, quando aconteceu, como aconteceu e, finalmente, o que o Dr. Thorneycroft Huxtable, da Escola do Priorado, perto de Mackleton, tem a ver com o assunto, e por que ele vem três dias depois de um evento — o estado do seu queixo indica a data — para pedir meus humildes serviços.
Nosso visitante havia consumido seu leite e biscoitos. A luz tinha voltado aos seus olhos e a cor às suas bochechas, enquanto ele se preparava com grande vigor e lucidez para explicar a situação.
— Devo informá-los, senhores, que o Priorado é uma escola preparatória, da qual sou o fundador e diretor. *Sidelights on Horace*, de Huxtable, pode possivelmente relembrar meu nome às suas memórias. O Priorado é, sem exceção, a melhor e mais seleta escola preparatória da Inglaterra. Lorde Leverstoke, o Conde de Blackwater, Sir Cathcart Soames — todos eles confiaram seus filhos a mim. Mas senti que minha escola tinha atingido seu zênite quando, semanas atrás, o Duque de Holdernesse enviou o Sr. James Wilder, seu secretário, com a informação de que o jovem Lorde Saltire, dez anos de idade, seu único filho e herdeiro, estava prestes a ser entregue aos meus cuidados. Mal sabia eu que este seria o prelúdio do infortúnio mais esmagador da minha vida.
— No dia 1º de maio o menino chegou, sendo esse o início do período de verão. Ele era um jovem encantador, e logo se adaptou aos nossos costumes. Posso dizer-lhes — confio que não estou sendo indiscreto, mas meias-confidências são absurdas em tal caso — que ele não era inteiramente feliz em casa. É um segredo aberto que a vida conjugal do Duque não tinha sido pacífica, e o assunto tinha terminado em uma separação por consentimento mútuo, com a Duquesa residindo no sul da França. Isso tinha ocorrido muito pouco antes, e sabe-se que as simpatias do menino estavam fortemente voltadas para sua mãe. Ele ficou abatido após a partida dela de Holdernesse Hall, e foi por esta razão que o Duque desejou enviá-lo ao meu estabelecimento. Em quinze dias o menino estava completamente em casa conosco e aparentemente absolutamente feliz.
— Ele foi visto pela última vez na noite de 13 de maio — isto é, a noite da última segunda-feira. Seu quarto ficava no segundo andar e era acessado por meio de outro quarto maior, no qual dois meninos dormiam. Esses meninos não viram nem ouviram nada, de modo que é certo que o jovem Saltire não saiu por ali. Sua janela estava aberta, e há uma planta de hera robusta que leva ao chão. Não pudemos rastrear pegadas abaixo, mas é certo que esta é a única saída possível.
— Sua ausência foi descoberta às sete horas na manhã de terça-feira. Sua cama tinha sido usada. Ele tinha se vestido completamente, antes de sair, com seu terno escolar habitual de jaqueta Eton preta e calças cinza escuras. Não havia sinais de que alguém tivesse entrado no quarto, e é bastante certo que qualquer coisa da natureza de gritos ou luta teria sido ouvida, uma vez que Caunter, o menino mais velho no quarto interno, tem um sono muito leve.
— Quando o desaparecimento de Lorde Saltire foi descoberto, chamei imediatamente a lista de todo o estabelecimento — meninos, mestres e criados. Foi então que constatamos que Lorde Saltire não tinha estado sozinho em sua fuga. Heidegger, o mestre de alemão, estava desaparecido. Seu quarto ficava no segundo andar, na extremidade do edifício, voltado para o mesmo lado que o de Lorde Saltire. Sua cama também tinha sido usada, mas ele aparentemente tinha ido embora parcialmente vestido, uma vez que sua camisa e meias estavam espalhadas no chão. Ele sem dúvida tinha se descido pela hera, pois podíamos ver as marcas de seus pés onde ele tinha pousado no gramado. Sua bicicleta era mantida em um pequeno galpão ao lado deste gramado, e ela também tinha desaparecido.
— Ele estava comigo há dois anos e veio com as melhores referências, mas era um homem silencioso e carrancudo, não muito popular nem entre os mestres nem entre os meninos. Nenhum rastro pôde ser encontrado dos fugitivos, e agora, na manhã de quinta-feira, estamos tão ignorantes quanto estávamos na terça-feira. Inquérito foi, naturalmente, feito imediatamente em Holdernesse Hall. Fica a apenas algumas milhas de distância, e imaginamos que, em algum ataque repentino de saudade de casa, ele tinha voltado para seu pai, mas nada tinha sido ouvido sobre ele. O Duque está muito agitado e, quanto a mim, vocês mesmos viram o estado de prostração nervosa a que o suspense e a responsabilidade me reduziram. Sr. Holmes, se alguma vez o senhor colocou em prática todos os seus poderes, imploro-lhe que o faça agora, pois nunca em sua vida o senhor poderia ter um caso que fosse mais digno deles.
Sherlock Holmes tinha ouvido com a máxima atenção o relato do infeliz diretor. Suas sobrancelhas franzidas e o sulco profundo entre elas mostravam que ele não precisava de exortação para concentrar toda a sua atenção em um problema que, além dos tremendos interesses envolvidos, deve apelar tão diretamente ao seu amor pelo complexo e pelo incomum. Ele agora tirou seu caderno e anotou um ou dois memorandos.
— O senhor tem sido muito negligente em não vir até mim mais cedo — disse ele, severamente. — O senhor começa minha investigação com uma desvantagem muito séria. É inconcebível, por exemplo, que esta hera e este gramado não tenham rendido nada a um observador especialista.
— Não sou o culpado, Sr. Holmes. Sua Graça estava extremamente desejoso de evitar todo escândalo público. Ele tinha medo de que sua infelicidade familiar fosse arrastada perante o mundo. Ele tem um horror profundo a qualquer coisa desse tipo.
— Mas houve alguma investigação oficial?
— Sim, senhor, e provou ser muito decepcionante. Uma pista aparente foi obtida imediatamente, uma vez que um menino e um jovem foram relatados como tendo sido vistos deixando uma estação vizinha por um trem matinal. Apenas ontem à noite tivemos notícias de que a dupla tinha sido caçada em Liverpool, e provaram não ter conexão alguma com o assunto em questão. Foi então que, em meu desespero e decepção, após uma noite sem dormir, vim diretamente ao senhor pelo trem matinal.
— Suponho que a investigação local tenha sido relaxada enquanto esta pista falsa estava sendo seguida?
— Foi inteiramente abandonada.
— De modo que três dias foram desperdiçados. O caso foi muito deploravelmente tratado.
— Eu sinto isso e admito.
— E, no entanto, o problema deve ser capaz de uma solução definitiva. Ficarei muito feliz em examiná-lo. O senhor foi capaz de rastrear alguma conexão entre o menino desaparecido e este mestre de alemão?
— Nenhuma.
— Ele era da turma do mestre?
— Não, ele nunca trocou uma palavra com ele, até onde eu sei.
— Isso é certamente muito singular. O menino tinha uma bicicleta?
— Não.
— Alguma outra bicicleta estava faltando?
— Não.
— Isso é certo?
— Totalmente.
— Bem, agora, o senhor não pretende sugerir seriamente que este alemão saiu montado em uma bicicleta no meio da noite, carregando o menino em seus braços?
— Certamente que não.
— Então, qual é a teoria em sua mente?
— A bicicleta pode ter sido uma manobra. Pode ter sido escondida em algum lugar, e a dupla ter partido a pé.
— Exatamente, mas parece uma manobra bastante absurda, não é? Havia outras bicicletas neste galpão?
— Várias.
— Ele não teria escondido algumas, se tivesse desejado dar a ideia de que tinham partido nelas?
— Suponho que sim.
— Naturalmente que sim. A teoria da manobra não serve. Mas o incidente é um ponto de partida admirável para uma investigação. Afinal, uma bicicleta não é uma coisa fácil de esconder ou destruir. Uma outra pergunta. Alguém veio ver o menino no dia anterior ao seu desaparecimento?
— Não.
— Ele recebeu alguma carta?
— Sim, uma carta.
— De quem?
— De seu pai.
— O senhor abre as cartas dos meninos?
— Não.
— Como sabe que era do pai?
— O brasão estava no envelope, e estava endereçado na caligrafia rígida e peculiar do Duque. Além disso, o Duque lembra-se de ter escrito.
— Quando ele recebeu uma carta antes disso?
— Não há vários dias.
— Ele já recebeu alguma da França?
— Não, nunca.
— O senhor percebe o ponto das minhas perguntas, é claro. Ou o menino foi levado à força ou ele foi por vontade própria. Neste último caso, o senhor esperaria que alguma solicitação externa fosse necessária para fazer um rapaz tão jovem cometer tal coisa. Se ele não teve visitantes, essa solicitação deve ter vindo em cartas; por isso tento descobrir quem eram seus correspondentes.
— Temo que não possa ajudá-lo muito. Seu único correspondente, até onde sei, era seu próprio pai.
— Que escreveu para ele no próprio dia de seu desaparecimento. As relações entre pai e filho eram muito amigáveis?
— Sua Graça nunca é muito amigável com ninguém. Ele está completamente imerso em grandes questões públicas e é bastante inacessível a todas as emoções comuns. Mas ele sempre foi gentil com o menino à sua própria maneira.
— Mas as simpatias deste último eram pela mãe?
— Sim.
— Ele disse isso?
— Não.
— O Duque, então?
— Bons céus, não!
— Então como o senhor poderia saber?
— Tive algumas conversas confidenciais com o Sr. James Wilder, secretário de Sua Graça. Foi ele quem me deu a informação sobre os sentimentos de Lorde Saltire.
— Entendo. A propósito, aquela última carta do Duque — foi encontrada no quarto do menino depois que ele se foi?
— Não, ele a tinha levado consigo. Acho, Sr. Holmes, que está na hora de partirmos para Euston.
“Enviarei um quatro‑rodas. Dentro de quinze minutos estaremos ao seu dispor. Se está a mandar telegrama para casa, Sr. Huxtable, seria sensato permitir que os moradores da sua vizinhança imaginem que a investigação ainda segue em Liverpool, ou onde quer que aquele peixe‑falso tenha levado a sua matilha. Enquanto isso farei um pequeno trabalho silencioso nas suas próprias portas, e talvez o rastro não esteja tão frio, de modo que dois velhos cães como Watson e eu possamos farejá‑lo.”
Naquela tarde
— Ora, Watson — disse ele —, colhemos duas pistas esta manhã. Uma é a bicicleta com o pneu Palmer, e já vemos aonde isso levou. A outra é a bicicleta com o Dunlop remendado. Antes de começarmos a investigar essa, tentemos compreender o que sabemos, de modo a tirar o máximo proveito e separar o essencial do acidental.
— Em primeiro lugar, desejo impressioná-lo com o fato de que o rapaz certamente partiu por livre e espontânea vontade. Ele desceu pela janela e foi embora, sozinho ou com alguém. Isso é certo.
Eu assenti.
— Bem, agora, voltemos a este infeliz professor alemão. O rapaz estava totalmente vestido quando fugiu. Portanto, ele previa o que faria. Mas o alemão partiu sem as meias. Certamente agiu com muito pouco aviso.
— Sem dúvida.
— Por que ele foi? Porque, da janela do seu quarto, viu a fuga do rapaz, porque desejava alcançá-lo e trazê-lo de volta. Ele pegou sua bicicleta, perseguiu o garoto e, ao persegui-lo, encontrou a morte.
— Assim parece.
— Agora chego à parte crítica do meu argumento. A ação natural de um homem ao perseguir um garotinho seria correr atrás dele. Ele saberia que poderia alcançá-lo. Mas o alemão não o faz. Ele volta-se para sua bicicleta. Disseram-me que ele era um excelente ciclista. Ele não faria isso se não visse que o rapaz tinha algum meio veloz de fuga.
— A outra bicicleta.
— Continuemos nossa reconstrução. Ele encontra a morte a oito quilômetros da escola — não por uma bala, note bem, que até um rapaz poderia concebivelmente disparar, mas por um golpe selvagem desferido por um braço vigoroso. O rapaz, então, tinha um companheiro em sua fuga. E a fuga foi veloz, já que levou oito quilômetros para que um ciclista especialista pudesse alcançá-los. No entanto, examinamos o terreno ao redor da cena da tragédia. O que encontramos? Algumas pegadas de gado, nada mais. Dei uma volta ampla, e não há caminho a menos de quarenta e cinco metros. Outro ciclista nada poderia ter a ver com o assassinato real, nem havia quaisquer pegadas humanas.
— Holmes — exclamei —, isso é impossível.
— Admirável! — disse ele. — Uma observação muito esclarecedora. É impossível como eu a exponho e, portanto, devo tê-la exposto errado em algum aspecto. No entanto, você viu por si mesmo. Pode sugerir alguma falácia?
— Ele não poderia ter fraturado o crânio em uma queda?
— Em um pântano, Watson?
— Estou no meu limite.
— Ora, ora, resolvemos problemas piores. Pelo menos temos bastante material, se apenas soubermos usá-lo. Venha, então, e, tendo esgotado o Palmer, vejamos o que o Dunlop com a cobertura remendada tem a nos oferecer.
Recolhemos o rastro e seguimos em frente por alguma distância, mas logo o charneca elevou-se em uma longa curva coberta de urze, e deixamos o curso d'água para trás. Não se podia esperar mais ajuda de rastros. No ponto onde vimos o último pneu Dunlop, ele poderia igualmente ter levado a Holdernesse Hall, cujas torres imponentes erguiam-se a alguns quilômetros à nossa esquerda, ou a uma aldeia baixa e cinzenta que ficava à nossa frente e marcava a posição da estrada principal de Chesterfield.
À medida que nos aproximávamos da estalagem proibitiva e sórdida, com o sinal de um galo de briga acima da porta, Holmes deu um gemido repentino e agarrou-me pelo ombro para evitar cair. Ele teve um daqueles estiramentos violentos no tornozelo que deixam um homem indefeso. Com dificuldade, ele mancou até a porta, onde um homem atarracado, escuro e de meia-idade estava fumando um cachimbo de barro preto.
— Como vai, Sr. Reuben Hayes? — disse Holmes.
— Quem é você, e como sabe meu nome tão bem? — respondeu o camponês, com um brilho suspeito de um par de olhos astutos.
— Bem, está impresso na placa acima de sua cabeça. É fácil ver um homem que é dono da própria casa. Suponho que o senhor não tenha algo como uma carruagem em seus estábulos?
— Não, não tenho.
— Mal consigo colocar o pé no chão.
— Não coloque no chão.
— Mas não consigo andar.
— Bem, então salte.
O modo do Sr. Reuben Hayes estava longe de ser gentil, mas Holmes o aceitou com admirável bom humor.
— Veja bem, meu caro — disse ele. — Isso é realmente um apuro bastante incômodo para mim. Não me importo como seguirei.
— Nem eu — disse o estalajadeiro mal-humorado.
— O assunto é muito importante. Eu lhe ofereceria uma libra pelo uso de uma bicicleta.
O estalajadeiro arregalou os ouvidos.
— Para onde quer ir?
— Para Holdernesse Hall.
— Amigos do Duque, suponho? — disse o estalajadeiro, examinando nossas roupas manchadas de lama com olhos irônicos.
Holmes riu com bom humor.
— Ele ficará feliz em nos ver, de qualquer maneira.
— Por quê?
— Porque lhe trazemos notícias de seu filho perdido.
O estalajadeiro deu um sobressalto muito visível.
— O quê, vocês estão na pista dele?
— Ele foi ouvido em Liverpool. Esperam pegá-lo a qualquer hora.
Novamente uma mudança rápida passou pelo rosto pesado e por fazer. Seu modo tornou-se subitamente afável.
— Tenho menos motivos para desejar o bem ao Duque do que a maioria dos homens — disse ele —, pois fui cocheiro-chefe uma vez, e ele me tratou muito mal. Foi ele quem me despediu sem referências, pela palavra de um mercador de milho mentiroso. Mas fico feliz em saber que o jovem lorde foi ouvido em Liverpool, e ajudarei vocês a levar a notícia ao Hall.
— Obrigado — disse Holmes. — Comeremos algo primeiro. Depois, pode trazer a bicicleta.
— Não tenho bicicleta.
Holmes ergueu uma libra.
— Eu lhe digo, homem, que não tenho uma. Deixarei que tenha dois cavalos até o Hall.
— Bem, bem — disse Holmes —, conversaremos sobre isso quando tivermos comido algo.
Quando ficamos sozinhos na cozinha de piso de pedra, foi surpreendente a rapidez com que aquele tornozelo torcido se recuperou. Já era quase anoitecer, e não comíamos nada desde o início da manhã, então passamos algum tempo com nossa refeição. Holmes estava perdido em pensamentos e, uma ou duas vezes, caminhou até a janela e olhou ansiosamente para fora. Ela dava para um pátio sórdido. No canto distante havia uma ferraria, onde um rapaz sujo estava trabalhando. Do outro lado ficavam os estábulos. Holmes tinha se sentado novamente após uma dessas excursões, quando saltou subitamente da cadeira com uma exclamação alta.
— Pelos céus, Watson, creio que entendi! — gritou ele. — Sim, sim, deve ser isso. Watson, você se lembra de ter visto rastros de vaca hoje?
— Sim, vários.
— Onde?
— Bem, em todo lugar. Estavam no pântano, e novamente no caminho, e novamente perto de onde o pobre Heidegger encontrou a morte.
— Exatamente. Bem, agora, Watson, quantas vacas você viu na charneca?
— Não me lembro de ter visto nenhuma.
— Estranho, Watson, que víssemos rastros ao longo de toda a nossa linha, mas nunca uma vaca em toda a charneca. Muito estranho, Watson, não?
— Sim, é estranho.
— Agora, Watson, faça um esforço, volte sua mente. Você consegue ver aqueles rastros no caminho?
— Sim, consigo.
— Você consegue recordar que os rastros eram às vezes assim, Watson — ele arranjou uma série de migalhas de pão desta maneira — : : : : : — e às vezes assim — : . : . : . — e ocasionalmente assim — .・.・.・. — Você consegue se lembrar disso?
— Não, não consigo.
— Mas eu consigo. Eu poderia jurar. No entanto, voltaremos com calma e verificaremos. Que besouro cego eu tenho sido, por não tirar minha conclusão.
— E qual é a sua conclusão?
— Apenas que é uma vaca notável a que anda, trota e galopa. Puxa! Watson, não foi o cérebro de um taberneiro rural que pensou em tal disfarce como esse. A costa parece estar limpa, exceto por aquele rapaz na ferraria. Vamos sair sorrateiramente e ver o que podemos ver.
Havia dois cavalos de pelos ásperos e desgrenhados no estábulo em ruínas. Holmes levantou a pata traseira de um deles e riu alto.
— Ferraduras velhas, mas recém-ferradas — ferraduras velhas, mas pregos novos. Este caso merece ser um clássico. Vamos até a ferraria.
O rapaz continuou seu trabalho sem nos notar. Vi o olho de Holmes dardejando para a direita e para a esquerda entre a bagunça de ferro e madeira espalhada pelo chão. De repente, porém, ouvimos um passo atrás de nós, e lá estava o estalajadeiro, suas sobrancelhas pesadas franzidas sobre seus olhos selvagens, suas feições morenas convulsionadas de paixão. Ele segurava um bastão curto de ponta de metal na mão, e avançou de uma maneira tão ameaçadora que fiquei muito feliz em sentir o revólver em meu bolso.
— Seus espiões infernais! — gritou o homem. — O que estão fazendo aí?
— Ora, Sr. Reuben Hayes — disse Holmes, friamente —, poder-se-ia pensar que o senhor tem medo de que descubramos algo.
O homem dominou-se com um esforço violento, e sua boca sombria relaxou em um riso falso, que era mais ameaçador do que sua carranca.
— Sejam bem-vindos a tudo que puderem descobrir na minha ferraria — disse ele. — Mas veja bem, senhor, não gosto de gente bisbilhotando meu lugar sem minha permissão, então quanto mais cedo pagarem sua conta e saírem daqui, mais satisfeito ficarei.
— Tudo bem, Sr. Hayes, sem intenção de causar mal — disse Holmes. — Estávamos dando uma olhada em seus cavalos, mas acho que vou caminhar, afinal. Não é longe, creio eu.
— Não mais que dois quilômetros até os portões do Hall. Aquele é o caminho à esquerda. — Ele nos observou com olhos carrancudos até que deixamos suas dependências.
Não fomos muito longe pela estrada, pois Holmes parou no instante em que a curva nos escondeu da vista do estalajadeiro.
— Estávamos quentes, como dizem as crianças, naquela estalagem — disse ele. — Parece que fico mais frio a cada passo que dou para longe dela. Não, não, não posso de forma alguma deixá-la.
— Estou convencido — disse eu — de que esse Reuben Hayes sabe tudo sobre isso. Um vilão mais evidente nunca vi.
— Oh! Ele impressionou você dessa maneira, não é? Lá estão os cavalos, lá está a ferraria. Sim, é um lugar interessante, este Fighting Cock. Acho que daremos outra olhada nele de uma forma discreta.
Uma longa encosta inclinada, pontilhada com pedras de calcário cinzentas, estendia-se atrás de nós. Tínhamos saído da estrada e estávamos subindo a colina quando, olhando na direção de Holdernesse Hall, vi um ciclista vindo rapidamente.
— Abaixe-se, Watson! — gritou Holmes, com uma mão pesada sobre meu ombro. Mal tínhamos saído da vista quando o homem passou por nós na estrada. Em meio a uma nuvem de poeira, vislumbrei um rosto pálido e agitado — um rosto com horror em cada linha, a boca aberta, os olhos fixos selvagemente à frente. Era como uma caricatura estranha do dândi James Wilder que tínhamos visto na noite anterior.
— O secretário do Duque! — gritou Holmes. — Venha, Watson, vejamos o que ele faz.
Nós escalamos de rocha em rocha até que, em poucos instantes, chegamos a um ponto de onde podíamos ver a porta da frente da estalagem. A bicicleta de Wilder estava encostada na parede ao lado dela. Ninguém se movia pela casa, nem conseguimos vislumbrar rostos nas janelas. Lentamente o crepúsculo desceu enquanto o sol se punha atrás das torres altas de Holdernesse Hall. Então, na penumbra, vimos as duas lanternas laterais de uma charrete se acenderem no pátio dos estábulos da estalagem e, pouco depois, ouvimos o tropel de cascos, enquanto ela girava para a estrada e partia em ritmo furioso na direção de Chesterfield.
— O que você acha disso, Watson? — sussurrou Holmes.
— Parece uma fuga.
— Um único homem em um dog-cart, pelo que pude ver. Bem, certamente não era o Sr. James Wilder, pois lá está ele na porta.
Um quadrado vermelho de luz surgiu na escuridão. No meio dele estava a figura negra do secretário, com a cabeça avançada, espiando para a noite. Era evidente que ele esperava alguém. Então, finalmente, houve passos na estrada, uma segunda figura foi visível por um instante contra a luz, a porta se fechou e tudo ficou negro mais uma vez. Cinco minutos depois, uma lâmpada foi acesa em um cômodo no primeiro andar.
— Parece ser um tipo curioso de clientela que é atendida pelo Fighting Cock — disse Holmes.
— O bar fica do outro lado.
— Exatamente. Estes são o que se pode chamar de hóspedes particulares. Agora, o que diabos o Sr. James Wilder está fazendo naquela toca a esta hora da noite, e quem é o companheiro que vem encontrá-lo ali? Venha, Watson, precisamos realmente correr um risco e tentar investigar isso um pouco mais de perto.
Juntos, descemos até a estrada e rastejamos até a porta da estalagem. A bicicleta ainda estava encostada na parede. Holmes riscou um fósforo e o segurou contra a roda traseira, e eu o ouvi rir quando a luz caiu sobre um pneu Dunlop remendado. Acima de nós estava a janela iluminada.
— Preciso dar uma olhada através dela, Watson. Se você curvar as costas e se apoiar na parede, acho que consigo me arranjar.
Um instante depois, seus pés estavam em meus ombros, mas mal subiu e já desceu.
— Venha, meu amigo — disse ele —, nosso dia de trabalho já foi longo o suficiente. Acho que reunimos tudo o que podíamos. É uma longa caminhada até a escola, e quanto mais cedo começarmos, melhor.
Ele mal abriu os lábios durante aquela trôpega caminhada pela charneca, nem quis entrar na escola quando chegamos, mas seguiu para a Estação de Mackleton, de onde poderia enviar alguns telegramas. Tarde da noite, ouvi-o consolando o Dr. Huxtable, prostrado pela tragédia da morte de seu professor, e mais tarde ainda ele entrou em meu quarto tão alerta e vigoroso quanto estava quando partiu de manhã. — Tudo vai bem, meu amigo — disse ele. — Prometo que, antes de amanhã à noite, teremos chegado à solução do mistério.
Às onze horas da manhã seguinte, meu amigo e eu estávamos subindo a famosa avenida de teixos de Holdernesse Hall. Fomos conduzidos através da magnífica entrada elisabetana para o escritório de Sua Graça. Lá encontramos o Sr. James Wilder, recatado e cortês, mas com algum traço daquele terror selvagem da noite anterior ainda à espreita em seus olhos furtivos e em suas feições trêmulas.
— Vocês vieram ver Sua Graça? Lamento, mas o fato é que o Duque não está nada bem. Ele ficou muito perturbado com as notícias trágicas. Recebemos um telegrama do Dr. Huxtable ontem à tarde, que nos contou sobre sua descoberta.
— Preciso ver o Duque, Sr. Wilder.
— Mas ele está em seu quarto.
— Então preciso ir ao seu quarto.
— Acredito que ele esteja na cama.
— Eu o verei lá.
O modo frio e inexorável de Holmes mostrou ao secretário que era inútil discutir com ele.
— Muito bem, Sr. Holmes, direi a ele que vocês estão aqui.
Após uma hora de atraso, o grande nobre apareceu. Seu rosto estava mais cadavérico do que nunca, seus ombros tinham se curvado e ele me pareceu um homem muito mais velho do que na manhã anterior. Ele nos cumprimentou com uma cortesia imponente e sentou-se à sua mesa, sua barba ruiva escorrendo sobre o tampo.
— Bem, Sr. Holmes? — disse ele.
Mas os olhos do meu amigo estavam fixos no secretário, que estava ao lado da cadeira de seu mestre.
— Creio, Sua Graça, que poderia falar mais livremente na ausência do Sr. Wilder.
O homem ficou um tom mais pálido e lançou um olhar maligno para Holmes.
— Se Sua Graça desejar...
— Sim, sim, é melhor você ir. Agora, Sr. Holmes, o que tem a dizer?
Meu amigo esperou até que a porta se fechasse atrás do secretário que se retirava.
— O fato é, Sua Graça — disse ele —, que meu colega, Dr. Watson, e eu tivemos a garantia do Dr. Huxtable de que uma recompensa foi oferecida neste caso. Gostaria que isso fosse confirmado por seus próprios lábios.
— Certamente, Sr. Holmes.
— Chegava, se fui corretamente informado, a cinco mil libras para qualquer um que lhe dissesse onde está seu filho?
— Exatamente.
— E outra mil para o homem que nomear a pessoa ou pessoas que o mantêm sob custódia?
— Exatamente.
— Sob o último tópico está incluído, sem dúvida, não apenas aqueles que podem tê-lo levado, mas também aqueles que conspiram para mantê-lo em sua posição atual?
— Sim, sim — gritou o Duque, impacientemente. — Se fizer bem o seu trabalho, Sr. Sherlock Holmes, não terá motivos para reclamar de tratamento mesquinho.
Meu amigo esfregou suas mãos finas com uma aparência de avidez que foi uma surpresa para mim, que conhecia seus gostos frugais.
— Imagino que vejo o talão de cheques de Sua Graça sobre a mesa — disse ele. — Ficaria satisfeito se o senhor pudesse me fazer um cheque de seis mil libras. Seria bom, talvez, que o cruzasse. O Capital and Counties Bank, agência de Oxford Street, são meus agentes.
Sua Graça sentou-se muito rígido e ereto em sua cadeira e olhou friamente para meu amigo.
— Isso é uma brincadeira, Sr. Holmes? Dificilmente é um assunto para gracejos.
— De forma alguma, Sua Graça. Nunca fui tão sério em minha vida.
— O que quer dizer, então?
— Quero dizer que ganhei a recompensa. Sei onde está seu filho e sei, pelo menos, alguns daqueles que o estão mantendo.
A barba do Duque tinha ficado mais agressivamente ruiva do que nunca contra seu rosto branco fantasmagórico.
— Onde ele está? — ofegou ele.
— Ele está, ou estava ontem à noite, na estalagem Fighting Cock, a cerca de três quilômetros do portão do seu parque.
O Duque caiu para trás em sua cadeira.
— E a quem o senhor acusa?
A resposta de Sherlock Holmes foi surpreendente. Ele deu um passo rápido à frente e tocou o Duque no ombro.
— Acuso o senhor — disse ele. — E agora, Sua Graça, vou incomodá-lo com aquele cheque.
Nunca esquecerei a aparência do Duque quando ele saltou e arranhou com as mãos, como alguém que está afundando em um abismo. Então, com um esforço extraordinário de autocontrole aristocrático, ele se sentou e afundou o rosto nas mãos. Passaram-se alguns minutos antes que ele falasse.
— Quanto o senhor sabe? — perguntou ele finalmente, sem levantar a cabeça.
— Eu os vi juntos ontem à noite.
— Alguém mais além do seu amigo sabe?
— Não falei com ninguém.
O Duque pegou uma caneta com os dedos trêmulos e abriu seu talão de cheques.
— Serei fiel à minha palavra, Sr. Holmes. Estou prestes a escrever seu cheque, por mais indesejada que a informação que o senhor obteve possa ser para mim. Quando a oferta foi feita pela primeira vez, pouco pensei no rumo que os eventos poderiam tomar. Mas o senhor e seu amigo são homens de discrição, Sr. Holmes?
— Dificilmente entendo Sua Graça.
— Devo dizer claramente, Sr. Holmes. Se apenas vocês dois sabem deste incidente, não há motivo para que vá mais longe. Acho que doze mil libras é a quantia que lhe devo, não é?
Mas Holmes sorriu e balançou a cabeça.
— Receio, Sua Graça, que as coisas dificilmente possam ser resolvidas tão facilmente. Há a morte deste professor a ser explicada.
— Mas James não sabia nada disso. O senhor não pode considerá-lo responsável por isso. Foi obra deste rufião brutal que ele teve o infortúnio de contratar.
— Devo considerar, Sua Graça, que quando um homem embarca em um crime, ele é moralmente culpado por qualquer outro crime que possa surgir dele.
“Moralmente, Sr. Holmes. Não há dúvida de que o senhor está certo. Mas, certamente, não aos olhos da lei. Um homem não pode ser condenado por um assassinato ao qual não esteve presente, e que ele detesta e abomina tanto quanto o senhor. No instante em que soube dele fez‑me uma confissão completa, tão cheio de horror e remorso. Não tardou nem uma hora a romper totalmente com o assassino. Oh, Sr. Holmes, tem de salvá‑lo — tem de salvá‑lo! Digo‑lhe que tem de salvá‑lo!” O duque abandonou a última tentativa de autocontrole e percorria a sala com o rosto convulsionado e as mãos cerradas gesticulando no ar. Por fim dominou‑se e sentou‑se novamente à sua escrivaninha. “Agradeço a sua conduta ao vir aqui antes de falar com qualquer outra pessoa”, disse ele. “Ao menos, podemos aconselhar‑nos sobre até onde podemos minimizar este escandaloso escândalo.”
“Exatamente”, disse Holmes. “Creio, Vossa Graça, que isso só pode ser feito com absoluta franqueza entre nós. Estou disposto a ajudar Vossa Graça ao melhor de minha capacidade, mas, para tanto, devo compreender até o último detalhe como está a questão. Percebo que suas palavras referiam‑se ao Sr. James Wilder, e que ele não é o assassino.”
“Não, o assassino escapou.”
Sherlock Holmes sorriu modestamente.
“Vossa Graça dificilmente ouviu falar de qualquer reputação humilde que eu possua, ou não imaginaria que seja tão fácil escapar de mim. O Sr. Reuben Hayes foi preso em Chesterfield, por minha informação, à onze horas da noite passada. Recebi um telegrama do chefe da polícia local antes de deixar a escola esta manhã.”
O duque recostou‑se na cadeira e fitou‑me, seu amigo, com espanto.
“Parece que possui poderes quase sobrehumanos”, disse ele. “Então Reuben Hayes foi capturado? Fico muito satisfeito em ouvir isso, se não houver repercussão sobre o destino de James.”
“Seu secretário?”
“Não, senhor, meu filho.”
Caiu sobre Holmes o olhar de espanto.
“Confesso que isso me é absolutamente novo, Vossa Graça. Peço‑lhe que seja mais explícito.”
“Não lhe ocultarei nada. Concordo que a franqueza completa, por mais dolorosa que me seja, é a melhor política nesta situação desesperadora para a qual a loucura e a ciúmes de James nos reduziram. Quando eu era muito jovem, Sr. Holmes, amei com um amor que só ocorre uma vez na vida. Propus casamento à dama, mas ela recusou‑o, alegando que tal união poderia manchar minha carreira. Se ela ainda vivesse, jamais teria casado outra pessoa. Ela morreu, deixando um filho, que por seu bem cuidei e criei. Não pude reconhecer a paternidade ao mundo, mas ofereci‑lhe a melhor educação, e, desde que alcançou a idade adulta, mantive‑o próximo a mim. Ele suspeitou do meu segredo e, desde então, reivindicou o que tem sobre mim, bem como o poder de provocar um escândalo que me seria odioso. Sua presença teve algo a ver com o infeliz desfecho do meu matrimônio. Acima de tudo, odiava meu legítimo herdeiro desde o princípio, com um ódio persistente. Pode bem me perguntar por que, sob tais circunstâncias, ainda mantinha James sob o mesmo teto. Respondo que era porque via o rosto de sua mãe nele, e, por causa dela, não havia fim ao meu sofrimento prolongado. Todas as suas delicadezas também — não havia uma que ele não pudesse evocar e trazer à minha memória. Não podia enviá‑lo embora. Mas temia, temia tanto que fizesse a Arthur — isto é, Lorde Saltire — um mal, que o despachei para a segurança da escola do Dr. Huxtable.”
“James entrou em contato com esse tal Hayes, porque o homem era meu inquilino, e James atuava como agente. O sujeito era um patife desde o princípio, porém, de modo extraordinário, James tornou‑se íntimo dele. Sempre teve predileção por companhia vulgar. Quando James decidiu sequestrar Lorde Saltire, serviu‑se dos serviços daquele homem. Lembra‑se de que escrevi a Arthur naquele último dia. Pois bem, James abriu a carta e inseriu um bilhete pedindo a Arthur que o encontrasse numa pequena floresta chamada Ragged Shaw, perto da escola. Usou o nome da Duquesa e, assim, fez o garoto aparecer. Naquela noite James chegou de bicicleta — relato o que ele mesmo me confessou — e contou a Arthur, que encontrou na floresta, que sua mãe ansiava por vê‑lo, que o esperava na charneca, e que, se ele voltasse à floresta à meia‑noite, encontraria um homem a cavalo que o levaria até ela. O pobre Arthur caiu na armadilha. Compareceu ao encontro e encontrou o tal Hayes com um pônei atado. Arthur montou, e partiram juntos. Acontece — embora James só soubesse ontem — que foram perseguidos, que Hayes golpeou o perseguidor com o cajado, e que o homem morreu de seus ferimentos. Hayes levou Arthur à sua estalagem, o Cock de Luta, onde o prendeu num quarto superior, sob os cuidados da Sra. Hayes, mulher bondosa, porém inteiramente dominada pelo marido brutal.”
“Bem, Sr. Holmes, assim estavam as coisas quando o vi pela primeira vez há dois dias. Não sabia mais da verdade do que o senhor. Perguntará qual foi o motivo de James para tal ato. Respondo que havia um grande ímpeto irracional e fanático no ódio que sentia contra meu herdeiro. Em sua concepção, ele próprio deveria ser o herdeiro de todas as minhas propriedades, e ressentia profundamente as leis sociais que o impediam. Ao mesmo tempo, tinha um motivo definido. Queria que eu rompesse a primogenitura, e acreditava estar ao meu alcance fazê‑lo. Pretendia fazer um acordo comigo — restaurar Arthur se eu quebrasse a primogenitura, tornando possível que a propriedade fosse deixada a ele por testamento. Sabia bem que jamais invocaria voluntariamente a polícia contra ele. Digo que teria proposto tal acordo, porém não o fez, pois os acontecimentos se desenrolaram rapidamente demais, e lhe faltou tempo para pôr os planos em prática.”
“O que acabou por desmoronar todo o seu pérfido plano foi a descoberta do corpo morto de Heidegger. James ficou horrorizado ao saber da notícia. Soube‑nos ontem, enquanto estávamos reunidos neste estudo. O Dr. Huxtable enviara um telegrama. James ficou tão sobrecarregado de dor e agitação que minhas suspeitas, nunca totalmente ausentes, se converteram instantaneamente em certeza, e acusei‑o do crime. Fez‑lhe uma confissão completa e voluntária. Depois implorou‑me que mantivesse seu segredo por mais três dias, a fim de dar ao pobre cúmplice a chance de salvar sua vida culpada. Concedi‑lhe — como sempre — e, imediatamente, James correu ao Cock de Luta para avisar Hayes e lhe dar os meios de fuga. Não poderia ir lá à luz do dia sem suscitar suspeitas, mas, ao cair da noite, corri ao encontro de meu querido Arthur. Encontrei‑o salvo e bem, porém horrorizado além de qualquer expressão pelo terrível feito que presenciara. Por respeito à minha promessa, e contra minha própria vontade, consenti deixá‑lo ali por três dias, sob a guarda da Sra. Hayes, pois era evidente que seria impossível informar a polícia de seu paradeiro sem revelar também quem era o assassino, e não via como esse assassino poderia ser punido sem arruinar meu infeliz James. O senhor pediu franqueza, Sr. Holmes, e cumpri‑lhe a palavra, pois agora lhe contei tudo, sem rodeios nem ocultações. Seja, por sua vez, tão franco comigo.”
“Eu serei”, disse Holmes. “Em primeiro lugar, Vossa Graça, devo dizer que se colocou numa posição gravíssima aos olhos da lei. Conjurou um delito e ajudou a fuga de um assassino, pois não há dúvida de que o dinheiro que James Wilder tomou para ajudar seu cúmplice na fuga veio da bolsa de Vossa Graça.”
O duque assentiu com a cabeça.
“É, de fato, um assunto de extrema gravidade. Ainda mais culpável, a meu ver, Vossa Graça, é sua atitude para com o filho mais novo. Deixa‑o neste esconderijo por três dias.”
“Sob promessas solenes —”
“O que são promessas para gente como eles? Não tem garantia de que não será raptado novamente. Para agradar o filho maior culpado, expôs o filho mais novo inocente a perigo iminente e desnecessário. Foi uma ação totalmente injustificável.”
O orgulhoso senhor de Holdernesse não estava habituado a ser tão repreendido em seu próprio salão ducal. O sangue ruborizou-lhe a fronte alta, mas a consciência o deixou mudo.
“Eu ajudarei, mas sob única condição: que chame o criado e me deixe dar as ordens que quiser.”
Sem dizer palavra, o duque apertou o sino elétrico. Um criado entrou.
“Ficará feliz em saber”, disse Holmes, “que o seu jovem mestre foi encontrado. É desejo do duque que a carruagem parta imediatamente para o inn Cock de Luta a fim de trazer Lorde Saltire de volta para casa.”
“Agora”, prosseguiu Holmes, quando o servo jubiloso desaparecera, “tendo assegurado o futuro, podemos ser mais brandos quanto ao passado. Não ocupo cargo oficial, e não há razão, enquanto os fins da justiça forem alcançados, para que eu revele tudo o que sei. Quanto a Hayes, nada direi. A forca o aguarda, e nada faria para salvá‑lo dela. O que ele revelar não posso dizer, mas não duvido que Vossa Graça possa fazê‑lo compreender que lhe convém permanecer em silêncio. Sob o ponto de vista policial, ele terá sequestrado o garoto com fins de resgate. Se eles próprios não descobrirem, não vejo motivo para incitá‑los a adotar uma visão mais ampla. Aviso, porém, Vossa Graça, que a presença contínua do Sr. James Wilder em sua casa só pode trazer infortúnio.”
“Compreendo, Sr. Holmes, e já está decidido que ele me deixará para sempre e partirá à procura de fortuna na Austrália.”
“Nesse caso, Vossa Graça, já que declarou que toda infelicidade no seu casamento deveu‑se à sua presença, sugeriria que reparasse o que for possível com a Duquesa e procurasse restabelecer as relações tão infelizes que foram interrompidas.”
“Também providenciei isso, Sr. Holmes. Escrevi à Duquesa esta manhã.”
“Nesse caso”, disse Holmes, levantando‑se, “creio que meu amigo e eu podemos congratular‑nos pelos vários resultados felizes de nossa curta visita ao Norte. Há ainda um ponto menor sobre o qual desejo esclarecimento. Esse tal Hayes calçou seus cavalos com ferraduras que imitam as pegadas de vacas. Foi de Sr. Wilder que aprendeu esse dispositivo tão extraordinário?”
O duque ficou pensativo por um instante, com um olhar de intensa surpresa. Então abriu uma porta e conduziu‑nos a uma ampla sala mobiliada como um museu. Conduziu‑nos até um vitrine de vidro num canto e apontou para a inscrição.
“Estas ferraduras”, dizia a legenda, “foram desenterradas no fosso de Holdernesse Hall. São para uso de cavalos, mas têm a sola inferior em forma de pé bípede de ferro, a fim de despistar os perseguidores. Supõe‑se que pertenciam a alguns dos barões saqueadores de Holdernesse na Idade Média.”
Holmes abriu a caixa, e, umedecendo o dedo, passou‑o sobre a ferradura. Uma fina película de lama recente ficou sobre sua pele.
“Obrigado”, disse ele, ao recolocar o vidro. “É o segundo objeto mais interessante que vi no Norte.”
“E o primeiro?”
Holmes dobrou o cheque e o colocou cuidadosamente em seu caderno. “Sou um homem pobre”, disse, acariciando‑o carinhosamente, e o enfiou nas profundezas do bolso interno.
THE ADVENTURE OF BLACK PETER
Nunca conheci meu amigo em melhor forma, tanto mental quanto física, do que no ano de 1895. Sua fama crescente trouxe consigo uma prática imensa, e eu seria culpado de indiscrição se me atrevesse a insinuar a identidade de alguns dos ilustres clientes que cruzaram o humilde limiar de nossa Baker Street. Holmes, porém, como todos os grandes artistas, vivia por seu arte, e, salvo no caso do Duque de Holdernesse, raramente o vi reivindicar grande recompensa por seus serviços inestimáveis. Era tão alheio ao mundo — ou tão caprichoso — que frequentemente recusava ajudar os poderosos e ricos quando o problema não lhe provocava simpatia, ao passo que devotava semanas de aplicação intensa aos assuntos de algum humilde cliente cujo caso apresentava aquelas qualidades estranhas e dramáticas que atraíam sua imaginação e desafiavam sua engenhosidade.
Nesse memorável ano de 1895, uma curiosa e incongruente sucessão de casos absorveu sua atenção, desde sua famosa investigação da morte súbita do Cardeal Tosca — inquérito realizado a pedido expresso de Sua Santidade o Papa — até sua prisão de Wilson, o notório adestrador de canários, que eliminou um foco de peste no East End de Londres. Logo após esses dois casos célebres veio a tragédia de Woodman’s Lee e as circunstâncias muito obscuras que envolveram a morte do Capitão Peter Carey. Nenhum registro das façanhas do Sr. Sherlock Holmes estaria completo sem mencionar esse caso tão incomum.
Durante a primeira semana de julho, meu amigo esteve ausente tão frequentemente e por tanto tempo de nossa residência que eu sabia que algo se trazia nas mãos. O fato de vários homens de aspecto rude terem aparecido naquele período, questionando por Cap
Deve ter lido no relatório da investigação sobre a cabana do homem, Sr. Holmes, mas talvez o seu amigo aqui ainda não tenha ouvido falar dela. Ele havia construído para si um pequeno alpendre de madeira — chamava‑a sempre de “cabana” — a algumas centenas de metros da sua casa, e era lá que dormia todas as noites. Era uma cabana diminuta, de um único cômodo, dezesseis pés por dez. Guardava a chave no bolso, fez a própria cama, limpava‑a ele mesmo e não permitia que nenhum outro pé cruzasse o limiar. Há pequenas janelas em cada lado, cobertas por cortinas que nunca se abriam. Uma dessas janelas dava para a estrada principal, e quando a luz se acendia nela à noite as pessoas costumavam apontá‑la umas às outras e perguntar o que o Capitão Peter Carey estaria fazendo ali. Essa é a janela, Sr. Holmes, que nos forneceu uma das raras provas positivas apresentadas na inquirição.
Lembra‑se de que um pedreiro chamado Slater, vindo de Forest Row por volta de uma hora da manhã — dois dias antes do assassinato — parou ao passar pelos terrenos e observou o quadrado de luz ainda brilhando entre as árvores. Jura que a sombra da cabeça de um homem, virada de lado, era claramente visível na persiana, e que essa sombra certamente não era a de Peter Carey, a quem conhecia bem. Era a de um homem barbudo, mas a barba era curta e eriçada para a frente de maneira muito diferente da do capitão. Assim diz, mas havia passado duas horas na taverna, e há certa distância da estrada até a janela. Além disso, ele se refere à segunda‑feira, e o crime ocorreu na quarta‑feira.
Na terça‑feira, Peter Carey encontrava‑se num dos seus humores mais negros, embriagado e tão feroz quanto uma besta selvagem perigosa. Percorria a casa, e as mulheres corriam para se esconder ao ouvi‑lo aproximar‑se. Tarde da noite, desceu para a sua própria cabana. Por volta das duas da manhã seguinte, sua filha, que dormia com a janela aberta, ouviu um grito terrível naquela direção, mas não era incomum que ele gritasse e berrasse quando bebia, de modo que ninguém deu atenção. Ao levantar‑se às sete, uma das criadas notou que a porta da cabana estava aberta, mas o terror que o homem provocara era tal que só ao meio‑dia alguém se atreveu a descer para ver o que lhe havia acontecido. Espreitando pela porta aberta, viram uma cena que as fez fugir, com o rosto pálido, para a aldeia. Dentro de uma hora, eu estava no local e assumi o caso.
Bem, tenho nervos razoavelmente firmes, como bem sabe, Sr. Holmes, mas dou‑lhe a minha palavra de que senti um calafrio ao pôr a cabeça naquela pequena casa. Era um zumbido como o de um harmônio entre as moscas e as moscas‑d’água, e o chão e as paredes eram como um matadouro. Ele a chamava de cabana, e cabana era, de fato, pois poderia ter pensado que estava a bordo de um navio. Havia um beliche num extremo, um baú de mar, mapas e cartas náuticas, um quadro do Unicórnio do Mar, uma fileira de diários de bordo numa prateleira, tudo exatamente como se esperaria encontrar na cabine de um capitão. E ali, no meio de tudo, estava o próprio homem — o rosto contorcido como a alma de um condenado em tormento, e sua grande barba manchada de feltrão erguida em agonia. Um arpão de aço havia sido cravado bem através de seu peito amplo, e afundara profundamente na madeira da parede atrás dele. Ficara preso como um besouro num cartão. Claro que estava já morto, e assim permanecera desde o instante em que proferira o último grito de agonia.
Conheço os seus métodos, senhor, e apliquei‑os. Antes de permitir que algo fosse movido, examinei meticulosamente o chão ao redor e também o piso da sala. Não havia marcas de pés.
“Quer dizer que não viu nenhuma?”
“Garanto‑lhe, senhor, que não havia nenhuma.”
“Meu bom Hopkins, investiguei inúmeros crimes, mas nunca vi um cometido por criatura alada. Enquanto o criminoso permanece sobre duas pernas, deve haver alguma impressão, alguma abrasão, algum deslocamento insignificante que o pesquisador científico possa detectar. É incrível que esta sala encharcada de sangue não contenha vestígio que nos pudesse auxiliar. Contudo, entendi, a partir da inquirição, que havia alguns objetos que você deixou passar despercebidos?”
O jovem inspetor fez uma careta diante dos comentários irônicos do meu companheiro.
“Fui insensato por não chamá‑lo antes, Sr. Holmes. Contudo, isso já ficou para trás. Sim, havia vários objetos na sala que mereciam atenção especial. Um era o arpão com que o ato foi consumado. Tinha sido arrancado de um suporte na parede. Dois permaneciam lá, e havia um espaço vago para o terceiro. No cabo estava gravado ‘SS. _Sea Unicorn_, Dundee.’ Isso parecia indicar que o crime fora cometido num momento de fúria, e que o assassino apanhara a primeira arma que lhe surgiu. O fato de o crime ter ocorrido às duas da manhã, e ainda assim Peter Carey estar completamente vestido, sugeria que ele tinha um encontro marcado com o assassino, o que se confirma pelo fato de uma garrafa de rum e dois copos sujos estarem sobre a mesa.”
“Sim”, disse Holmes, “creio que ambas as inferências são admissíveis. Havia algum outro espírito além do rum na sala?”
“Sim, havia um tantalus contendo brandy e whisky no baú de mar. Não nos interessa, porém, pois os decantadores estavam cheios, de modo que não fora usado.”
“Mesmo assim, sua presença tem alguma importância”, disse Holmes. “Mas vamos ouvir mais sobre os objetos que lhe parecem relevantes ao caso.”
“Havia um bolso de tabaco sobre a mesa.”
“Qual parte da mesa?”
“Ficava no meio. Era de pele de foca áspera — a pele de pelos retos, com uma tira de couro para amarrá‑la. Dentro havia ‘P.C.’ na aba. Continha meia onça de tabaco forte de navio.”
“Excelente! O que mais?”
Stanley Hopkins tirou do bolso um caderno encapuzado de pano esverdeado. A capa era áspera e gasta, as folhas estavam descoloridas. Na primeira página estavam anotadas as iniciais “J.H.N.” e a data “1883”. Holmes pôs‑o sobre a mesa e examinou‑o minuciosamente, enquanto Hopkins e eu observávamos por sobre o ombro. Na segunda página estavam as letras impressas “C.P.R.”, seguidas de várias folhas de números. Outro título dizia “Argentine”, outro “Costa Rica”, e outro “San Paulo”, cada um acompanhado de páginas de sinais e cifras.
“O que faz das contas?” perguntou Holmes.
“Parecem ser listas de títulos da Bolsa de Valores. Pensei que ‘J.H.N.’ fossem as iniciais de um corretor, e que ‘C.P.R.’ fosse seu cliente.”
“Tente Canadian Pacific Railway”, sugeriu Holmes.
Stanley Hopkins prendeu‑se a palavra entre os dentes, e bateu a coxa com a mão cerrada.
“Que tolo fui!”, exclamou. “Claro, como dizes. Então ‘J.H.N.’ são as únicas iniciais que nos resta decifrar. Já examinei as antigas listas da Bolsa e não encontro, em 1883, nem na casa nem entre os corretores externos, alguém cujas iniciais coincidam. Contudo sinto que a pista é a mais importante que possuo. Admitirá, Sr. Holmes, que há a possibilidade de que essas iniciais pertençam à segunda pessoa presente — isto é, ao assassino? Também sugiro que a introdução neste caso de um documento relativo a grandes massas de valores valiosos nos dê, pela primeira vez, alguma indicação de motivo para o crime.”
O rosto de Sherlock Holmes mostrou que ficou profundamente surpreso com essa nova revelação.
“Devo admitir ambos os seus pontos”, disse ele. “Confesso que este caderno, que não apareceu na inquirição, altera quaisquer opiniões que eu pudesse ter formado. Cheguei a uma teoria do crime na qual não encontrava lugar para ele. Já tentou rastrear algum dos valores aqui mencionados?”
“Estão a ser feitas averiguações nos escritórios, mas temo que o registro completo dos acionistas dessas companhias sul‑americanas esteja na própria América do Sul, e que algumas semanas terão de transcorrer antes de podermos localizar as ações.”
Holmes examinava a capa do caderno com a lupa.
“Certamente há alguma descoloração aqui”, comentou.
“Sim, senhor, é uma mancha de sangue. Disse‑lhe que recolhi o livro do chão.”
“A mancha estava acima ou abaixo?”
“Na lateral junto às tábuas.”
“O que prova, naturalmente, que o livro foi deixado cair após o crime ter sido cometido.”
“Exatamente, Sr. Holmes. Apreciei esse ponto, e conjeturei que foi largado pelo assassino na sua fuga precipitada. Encontrava‑se próximo à porta.”
“Supõe‑se que nenhuma dessas ações tenha sido encontrada entre os pertences do morto?”
“Não, senhor.”
“Tem alguma razão para suspeitar de roubo?”
“Não, senhor. Nada parece ter sido tocado.”
“Meu Deus, é realmente um caso muito interessante. Houve também uma faca, não foi?”
“Um canivete de bainha, ainda na bainha. Encontrava‑se aos pés do morto. A Sra. Carey identificou‑o como propriedade do marido.”
Holmes ficou pensativo por algum tempo.
“Bem”, disse ele finalmente, “creio que precisarei sair e dar uma olhada.”
Stanley Hopkins soltou um grito de júbilo.
“Obrigado, senhor. Isso realmente aliviará meu espírito.”
Holmes apontou o dedo para o inspetor.
“Teria sido tarefa mais fácil há uma semana”, disse ele. “Mas ainda agora minha visita pode não ser inteiramente infrutífera. Watson, se puder dispensar um pouco do seu tempo, ficarei muito agradecido com a sua companhia. Se chamar um carrinho de quatro rodas, Hopkins, partiremos para Forest Row em quinze minutos.”
Desembarcando na pequena estação de caminho, seguimos alguns quilômetros através dos remanescentes de extensas matas, que antes faziam parte daquele grande bosque que por tanto tempo manteve os invasores saxões à distância — o impenetrável “weald”, baluarte da Grã‑Bretanha por sessenta anos. Vastíssimas áreas foram desmatadas, pois ali se ergue a sede das primeiras siderúrgicas do país, e as árvores foram derrubadas para fundir o minério. Agora os campos mais férteis do Norte absorveram o comércio, e nada resta, salvo esses bosques devastados e grandes cicatrizes na terra, que revelam o trabalho do passado. Aqui, numa clareira sobre a encosta verde de uma colina, erguia‑se uma casa de pedra longa e baixa, acessada por uma estrada curva que serpenteava pelos campos. Mais próximo da estrada, cercada por três lados de arbustos, havia um pequeno alpendre, com uma janela e a porta voltadas para nós. Era o cenário do assassinato.
Stanley Hopkins conduziu‑nos primeiro à casa, onde nos apresentou a uma mulher pálida, de cabelos grisalhos, viúva do assassinado, cujo rosto magro e profundamente marcado, com o olhar furtivo de terror nos olhos circundados por vermelhidão, denunciava os anos de penúria e maus‑tratos que suportara. Ao seu lado estava a filha, uma moça pálida, de cabelos claros, cujos olhos ardiam desafiadores ao nos ouvir dizer que estava contente pela morte do pai e que abençoava a mão que o havia abatido. Era um lar terrível que o Capitão Peter Carey havia criado para si, e ficamos aliviados ao retornar à luz do sol, seguindo um caminho que o pé do morto havia desgastado nos campos.
O alpendre era o mais simples dos abrigos, de paredes de madeira, telhado de telhas, uma janela ao lado da porta e outra no lado oposto. Stanley Hopkins tirou a chave do bolso e curvou‑se para a fechadura, quando parou com um olhar atento e surpreso no rosto.
“Algu
“Foi o meu pai quem ficou realmente preocupado. Dawson tinha se aposentado. Eu tinha apenas dez anos de idade na época, mas era velho o suficiente para sentir a vergonha e o horror de tudo aquilo. Sempre se disse que meu pai roubou todos os títulos e fugiu. Não é verdade. Ele acreditava que, se lhe dessem tempo para liquidá-los, tudo ficaria bem e cada credor seria pago integralmente. Ele partiu em seu pequeno iate para a Noruega pouco antes de o mandado de prisão ser emitido. Lembro-me daquela última noite, quando ele se despediu da minha mãe. Deixou-nos uma lista dos títulos que estava levando e jurou que voltaria com sua honra limpa e que ninguém que tivesse confiado nele sofreria. Bem, nunca mais se teve notícia dele. Tanto o iate quanto ele desapareceram por completo. Minha mãe e eu acreditávamos que ele e a embarcação, com os títulos que levara consigo, estavam no fundo do mar. Tínhamos, contudo, um amigo fiel, que é um homem de negócios, e foi ele quem descobriu, algum tempo atrás, que alguns dos títulos que meu pai levava consigo reapareceram no mercado de Londres. Pode imaginar o nosso espanto. Passei meses tentando rastreá-los e, por fim, após muitas dúvidas e dificuldades, descobri que o vendedor original fora o Capitão Peter Carey, o proprietário desta cabana.
“Naturalmente, fiz algumas perguntas sobre o homem. Descobri que ele estivera no comando de um baleeiro que deveria retornar dos mares árticos exatamente na época em que meu pai atravessava para a Noruega. O outono daquele ano foi tempestuoso, e houve uma longa sucessão de vendavais do sul. O iate do meu pai pode muito bem ter sido levado para o norte e lá encontrado pelo navio do Capitão Peter Carey. Se isso aconteceu, o que teria sido feito do meu pai? De qualquer forma, se eu pudesse provar, a partir do testemunho de Peter Carey, como esses títulos chegaram ao mercado, seria a prova de que meu pai não os vendera e que não tinha qualquer objetivo de lucro pessoal quando os levou.
“Vim para Sussex com a intenção de ver o capitão, mas foi nesse momento que ocorreu sua terrível morte. Li no inquérito uma descrição de sua cabine, na qual se declarava que os antigos diários de bordo de seu navio estavam preservados nela. Ocorreu-me que, se eu pudesse ver o que aconteceu no mês de agosto de 1883 a bordo do Sea Unicorn, talvez pudesse resolver o mistério do destino do meu pai. Tentei, ontem à noite, acessar esses diários, mas não consegui abrir a porta. Hoje à noite tentei novamente e tive sucesso, mas descobri que as páginas que tratam daquele mês foram arrancadas do livro. Foi nesse momento que me vi um prisioneiro em suas mãos.”
“É só isso?”, perguntou Hopkins.
“Sim, é só isso.” Seus olhos desviaram-se enquanto ele dizia isso.
“Você não tem mais nada a nos dizer?”
Ele hesitou.
“Não, não há nada.”
“Você não esteve aqui antes de ontem à noite?”
“Não.”
“Então, como explica isto?”, gritou Hopkins, enquanto segurava o caderno incriminador, com as iniciais do nosso prisioneiro na primeira folha e a mancha de sangue na capa.
O homem miserável entrou em colapso. Ele afundou o rosto nas mãos e tremeu por completo.
“Onde você conseguiu isso?”, gemeu ele. “Eu não sabia. Pensei que o tivesse perdido no hotel.”
“Isso é o suficiente”, disse Hopkins, severamente. “O que quer que você tenha a dizer, deve dizer no tribunal. Você virá agora comigo para a delegacia. Bem, Sr. Holmes, estou muito grato a você e ao seu amigo por terem vindo me ajudar. Como se vê, sua presença era desnecessária, e eu teria levado o caso a este desfecho bem-sucedido sem vocês, mas, ainda assim, estou grato. Quartos foram reservados para vocês no Brambletye Hotel, então podemos todos caminhar juntos até a aldeia.”
“Bem, Watson, o que você acha disso?”, perguntou Holmes, enquanto viajávamos de volta na manhã seguinte.
“Posso ver que você não está satisfeito.”
“Oh, sim, meu caro Watson, estou perfeitamente satisfeito. Ao mesmo tempo, os métodos de Stanley Hopkins não me agradam. Estou decepcionado com Stanley Hopkins. Esperava coisas melhores dele. Deve-se sempre procurar uma alternativa possível e precaver-se contra ela. É a primeira regra da investigação criminal.”
“Qual é, então, a alternativa?”
“A linha de investigação que eu mesmo tenho seguido. Pode não nos dar nada. Não posso dizer. Mas, pelo menos, a seguirei até o fim.”
Várias cartas esperavam por Holmes na Baker Street. Ele pegou uma delas, abriu-a e explodiu em uma risada triunfante.
“Excelente, Watson! A alternativa se desenvolve. Você tem formulários de telegrama? Escreva apenas um par de mensagens para mim: ‘Sumner, Agente Marítimo, Ratcliff Highway. Envie três homens, para chegar às dez de amanhã.—Basil.’ Esse é meu nome naquelas bandas. O outro é: ‘Inspetor Stanley Hopkins, 46 Lord Street, Brixton. Venha tomar café da manhã amanhã às nove e meia. Importante. Telegrafar se não puder vir.—Sherlock Holmes.’ Pronto, Watson, este caso infernal me persegue há dez dias. Por meio deste, eu o bano completamente da minha presença. Amanhã, confio que ouviremos a última palavra sobre isso para sempre.”
Pontualmente na hora marcada, o Inspetor Stanley Hopkins apareceu, e sentamo-nos juntos para o excelente café da manhã que a Sra. Hudson havia preparado. O jovem detetive estava muito animado com seu sucesso.
“Você realmente acha que sua solução deve estar correta?”, perguntou Holmes.
“Não poderia imaginar um caso mais completo.”
“Não me pareceu conclusivo.”
“Você me surpreende, Sr. Holmes. O que mais se poderia pedir?”
“Sua explicação cobre todos os pontos?”
“Sem dúvida. Descobri que o jovem Neligan chegou ao Brambletye Hotel no próprio dia do crime. Ele veio com o pretexto de jogar golfe. Seu quarto ficava no térreo, e ele podia sair quando quisesse. Naquela mesma noite, ele desceu até Woodman’s Lee, viu Peter Carey na cabana, discutiu com ele e o matou com o arpão. Então, horrorizado com o que fizera, fugiu da cabana, deixando cair o caderno que levara consigo para interrogar Peter Carey sobre esses diferentes títulos. Você pode ter observado que alguns deles estavam marcados com sinais, e os outros — a grande maioria — não estavam. Aqueles que estão marcados foram rastreados no mercado de Londres, mas os outros, presumivelmente, ainda estavam na posse de Carey, e o jovem Neligan, segundo seu próprio relato, estava ansioso para recuperá-los a fim de fazer a coisa certa pelos credores de seu pai. Após sua fuga, ele não se atreveu a se aproximar da cabana novamente por algum tempo, mas, finalmente, forçou-se a fazê-lo para obter a informação de que precisava. Certamente, tudo isso é simples e óbvio?”
Holmes sorriu e balançou a cabeça.
“Parece-me ter apenas um inconveniente, Hopkins, e é que é intrinsecamente impossível. Você já tentou atravessar um corpo com um arpão? Não? Tut, tut, meu caro senhor, você deve realmente prestar atenção a esses detalhes. Meu amigo Watson poderia lhe dizer que passei uma manhã inteira nesse exercício. Não é uma tarefa fácil e exige um braço forte e treinado. Mas este golpe foi desferido com tanta violência que a ponta da arma afundou profundamente na parede. Você imagina que este jovem anêmico fosse capaz de um ataque tão terrível? É ele o homem que bebia rum com água com o Black Peter na calada da noite? Foi o perfil dele que foi visto na persiana duas noites antes? Não, não, Hopkins, é outra pessoa, mais formidável, que devemos procurar.”
O rosto do detetive tinha ficado cada vez mais longo durante o discurso de Holmes. Suas esperanças e ambições estavam todas desmoronando ao seu redor. Mas ele não abandonaria sua posição sem lutar.
“Você não pode negar que Neligan estava presente naquela noite, Sr. Holmes. O livro provará isso. Imagino que tenho provas suficientes para satisfazer um júri, mesmo que você seja capaz de encontrar uma brecha nisso. Além disso, Sr. Holmes, eu coloquei as mãos no meu homem. Quanto a essa sua pessoa terrível, onde ela está?”
“Imagino que ele esteja na escada”, disse Holmes, serenamente. “Acho, Watson, que você faria bem em colocar aquele revólver onde possa alcançá-lo.” Ele se levantou e colocou um papel escrito em uma mesa lateral. “Agora estamos prontos”, disse ele.
Houve uma conversa em vozes ásperas lá fora, e agora a Sra. Hudson abria a porta para dizer que havia três homens perguntando pelo Capitão Basil.
“Mostre-os um por um”, disse Holmes.
O primeiro que entrou era um homem pequeno, com bochechas rosadas e costeletas brancas e felpudas. Holmes tirara uma carta do bolso.
“Qual o seu nome?”, perguntou ele.
“James Lancaster.”
“Sinto muito, Lancaster, mas a vaga está preenchida. Aqui está meio soberano pelo seu incômodo. Apenas entre nesta sala e espere ali por alguns minutos.”
O segundo homem era uma criatura longa e seca, com cabelos lisos e bochechas amareladas. Seu nome era Hugh Pattins. Ele também recebeu sua dispensa, seu meio soberano e a ordem de esperar.
O terceiro candidato era um homem de aparência notável. Um rosto feroz de buldogue era emoldurado por um emaranhado de cabelos e barba, e dois olhos escuros e ousados brilhavam por trás de sobrancelhas grossas, tufadas e pendentes. Ele saudou e ficou na posição de marinheiro, girando seu boné nas mãos.
“Seu nome?”, perguntou Holmes.
“Patrick Cairns.”
“Arpoador?”
“Sim, senhor. Vinte e seis viagens.”
“Dundee, suponho?”
“Sim, senhor.”
“E pronto para partir com um navio de exploração?”
“Sim, senhor.”
“Qual o salário?”
“Oito libras por mês.”
“Poderia partir imediatamente?”
“Assim que eu pegar meu kit.”
“Você tem seus papéis?”
“Sim, senhor.” Ele tirou um maço de formulários gastos e engordurados do bolso. Holmes deu uma olhada neles e os devolveu.
“Você é exatamente o homem que eu quero”, disse ele. “Aqui está o contrato na mesa lateral. Se você o assinar, todo o assunto estará resolvido.”
O marinheiro cambaleou pelo quarto e pegou a caneta.
“Devo assinar aqui?”, perguntou ele, curvando-se sobre a mesa.
Holmes inclinou-se sobre seu ombro e passou as duas mãos pelo pescoço dele.
“Isso bastará”, disse ele.
Ouvi um clique de aço e um berro como o de um touro enfurecido. No instante seguinte, Holmes e o marinheiro rolavam pelo chão juntos. Ele era um homem de força tão gigantesca que, mesmo com as algemas que Holmes prendera tão habilmente em seus pulsos, ele teria rapidamente subjugado meu amigo se Hopkins e eu não tivéssemos corrido para o resgate. Somente quando pressionei o cano frio do revólver contra sua têmpora é que ele finalmente entendeu que a resistência era vã. Amarramos seus tornozelos com uma corda e nos levantamos sem fôlego da luta.
“Devo realmente pedir desculpas, Hopkins”, disse Sherlock Holmes. “Temo que os ovos mexidos estejam frios. No entanto, você aproveitará o resto do seu café da manhã muito melhor, não é, com o pensamento de que levou seu caso a uma conclusão triunfante.”
Stanley Hopkins estava sem fala de espanto.
“Não sei o que dizer, Sr. Holmes”, soltou ele finalmente, com o rosto muito vermelho. “Parece-me que tenho feito um tolo de mim mesmo desde o início. Entendo agora, o que nunca deveria ter esquecido, que eu sou o aluno e você é o mestre. Mesmo agora vejo o que você fez, mas não sei como você fez ou o que isso significa.”
“Bem, bem”, disse Holmes, bem-humorado. “Todos nós aprendemos com a experiência, e sua lição desta vez é que você nunca deve perder de vista a alternativa. Você estava tão absorto no jovem Neligan que não conseguia pensar em Patrick Cairns, o verdadeiro assassino de Peter Carey.”
A voz rouca do marinheiro interrompeu nossa conversa.
“Veja aqui, senhor”, disse ele, “não reclamo de ser tratado desta forma, mas gostaria que você chamasse as coisas pelos seus nomes corretos. Você diz que assassinei Peter Carey, eu digo que matei Peter Carey, e há toda a diferença. Talvez você não acredite no que digo. Talvez pense que estou apenas contando uma história.”
“De modo algum”, disse Holmes. “Vamos ouvir o que você tem a dizer.”
“É logo contada e, pelo Senhor, cada palavra é a verdade. Eu conhecia Black Peter, e quando ele puxou sua faca, eu enfiei um arpão nele rapidamente, pois sabia que era ele ou eu. Foi assim que ele morreu. Você pode chamar de assassinato. De qualquer forma, prefiro morrer com uma corda no pescoço do que com a faca de Black Peter no meu coração.”
“Como você veio parar aqui?”, perguntou Holmes.
“Vou contar desde o início. Apenas me ajude a sentar um pouco, para que eu possa falar com calma. Foi em ’83 que aconteceu — agosto daquele ano. Peter Carey era o mestre do Sea Unicorn, e eu era o arpoador reserva. Estávamos saindo do bloco de gelo a caminho de casa, com ventos contrários e uma semana de vendaval do sul, quando pegamos uma pequena embarcação que fora levada para o norte. Havia um homem nela — um civil. A tripulação achou que ela naufragaria e partiu para a costa norueguesa no bote. Acho que todos se afogaram. Bem, nós o levamos a bordo, este homem, e ele e o capitão tiveram longas conversas na cabine. Toda a bagagem que tiramos com ele foi uma caixa de estanho. Até onde sei, o nome do homem nunca foi mencionado, e na segunda noite ele desapareceu como se nunca tivesse existido. Foi dito que ele havia se jogado ao mar ou caído na água durante o tempo ruim que estávamos enfrentando. Apenas um homem sabia o que lhe acontecera, e esse homem era eu, pois, com meus próprios olhos, vi o capitão levantar seus calcanhares e colocá-lo sobre o corrimão no meio da vigília de uma noite escura, dois dias antes de avistarmos as Luzes de Shetland. Bem, guardei meu conhecimento para mim e esperei para ver o que resultaria disso. Quando voltamos para a Escócia, foi facilmente abafado, e ninguém fez perguntas. Um estranho morreu por acidente e não era da conta de ninguém investigar. Pouco tempo depois, Peter Carey abandonou o mar, e foram longos anos até que eu pudesse descobrir onde ele estava. Adivinhei que ele fizera o serviço por causa do que havia naquela caixa de estanho, e que agora ele poderia pagar bem para que eu mantivesse minha boca fechada. Descobri onde ele estava por meio de um marinheiro que o encontrara em Londres, e lá fui eu para extorqui-lo. Na primeira noite, ele foi razoável o suficiente e estava pronto para me dar o que me tornaria livre do mar para toda a vida. Estávamos para acertar tudo duas noites depois. Quando cheguei, encontrei-o três quartos bêbado e de péssimo humor. Sentamo-nos, bebemos e conversamos sobre os velhos tempos, mas quanto mais ele bebia, menos eu gostava da expressão em seu rosto. Avistei aquele arpão na parede e pensei que poderia precisar dele antes de terminar. Então, finalmente, ele explodiu contra mim, cuspindo e xingando, com assassinato nos olhos e uma grande faca de bolso na mão. Ele não teve tempo de tirá-la da bainha antes que eu atravessasse ele com o arpão. Céus! Que grito ele deu! E seu rosto fica entre mim e meu sono. Fiquei lá, com o sangue dele espirrando ao meu redor, e esperei um pouco, mas tudo estava quieto, então criei coragem mais uma vez. Olhei em volta, e lá estava a caixa de estanho na prateleira. Eu tinha tanto direito a ela quanto Peter Carey, de qualquer forma, então a levei comigo e deixei a cabana. Como um tolo, deixei minha bolsa de fumo sobre a mesa.
“Agora vou lhe contar a parte mais estranha de toda a história. Mal tinha saído da cabana quando ouvi alguém se aproximando e me escondi entre os arbustos. Um homem veio esgueirando-se, entrou na cabana, deu um grito como se tivesse visto um fantasma e saiu correndo o mais rápido que pôde até desaparecer de vista. Quem ele era ou o que queria é mais do que posso dizer. Da minha parte, caminhei dezesseis quilômetros, peguei um trem em Tunbridge Wells e cheguei a Londres, sem que ninguém soubesse de nada.
“Bem, quando examinei a caixa, descobri que não havia dinheiro nela, e nada além de papéis que eu não ousaria vender. Eu tinha perdido meu controle sobre Black Peter e estava abandonado em Londres sem um xelim. Só me restava meu ofício. Vi esses anúncios sobre arpoadores e salários altos, então fui aos agentes marítimos, e eles me enviaram para cá. Isso é tudo o que sei, e digo novamente que, se matei Black Peter, a lei deveria me agradecer, pois economizei para eles o preço de uma corda de cânhamo.”
“Uma declaração muito clara”, disse Holmes, levantando-se e acendendo seu cachimbo. “Acho, Hopkins, que você não deve perder tempo em levar seu prisioneiro para um lugar seguro. Este quarto não é bem adaptado para uma cela, e o Sr. Patrick Cairns ocupa uma proporção grande demais do nosso tapete.”
“Sr. Holmes”, disse Hopkins, “não sei como expressar minha gratidão. Mesmo agora não entendo como você alcançou este resultado.”
“Simplesmente por ter a boa sorte de obter a pista certa desde o início. É muito possível que, se eu soubesse desse caderno, ele poderia ter desviado meus pensamentos, como fez com os seus. Mas tudo o que ouvi apontava na mesma direção. A força surpreendente, a habilidade no uso do arpão, o rum com água, a bolsa de tabaco de pele de foca com o tabaco grosso — tudo isso apontava para um marinheiro, e alguém que fora um baleeiro. Eu estava convencido de que as iniciais ‘P.C.’ na bolsa eram uma coincidência, e não as de Peter Carey, já que ele raramente fumava, e nenhum cachimbo foi encontrado em sua cabana. Você se lembra que perguntei se havia uísque e conhaque na cabana? Você disse que havia. Quantos civis existem que beberiam rum quando pudessem obter essas outras bebidas? Sim, eu tinha certeza de que era um marinheiro.”
“E como você o encontrou?”
“Meu caro senhor, o problema tornou-se muito simples. Se era um marinheiro, só poderia ser um marinheiro que estivera com ele no Sea Unicorn. Até onde pude saber, ele não navegou em nenhum outro navio. Passei três dias telegrafando para Dundee e, ao final desse tempo, verifiquei os nomes da tripulação do Sea Unicorn em 1883. Quando encontrei Patrick Cairns entre os arpoadores, minha pesquisa estava chegando ao fim. Argumentei que o homem provavelmente estava em Londres e que desejaria deixar o país por um tempo. Portanto, passei alguns dias no East End, planejei uma expedição ao Ártico, apresentei termos tentadores para arpoadores que serviriam sob o comando do Capitão Basil — e eis o resultado!”
“Maravilhoso!”, gritou Hopkins. “Maravilhoso!”
“Você deve obter a libertação do jovem Neligan o mais rápido possível”, disse Holmes. “Confesso que acho que você lhe deve algum pedido de desculpas. A caixa de estanho deve ser devolvida a ele, mas, é claro, os títulos que Peter Carey vendeu estão perdidos para sempre. Lá está o táxi, Hopkins, e você pode levar seu homem. Se você precisar de mim para o julgamento, meu endereço e o de Watson estarão em algum lugar na Noruega — enviarei detalhes mais tarde.”
Passaram-se anos desde que os incidentes de que falo tiveram lugar, e ainda assim é com hesitação que lhes aludo. Durante muito tempo, mesmo com a maior discrição e reticência, teria sido impossível tornar os factos públicos, mas agora a principal pessoa envolvida está fora do alcance da lei humana e, com a devida omissão, a história pode ser contada de tal forma que ninguém seja prejudicado. Regista uma experiência absolutamente única na carreira tanto do Sr. Sherlock Holmes quanto na minha. O leitor desculpar-me-á se ocultar a data ou qualquer outro facto através do qual pudesse rastrear a ocorrência real.
Tínhamos saído para um dos nossos passeios noturnos, Holmes e eu, e regressáramos por volta das seis horas numa fria e gelada noite de inverno. Enquanto Holmes acendia o candeeiro, a luz caiu sobre um cartão em cima da mesa. Ele lançou-lhe um olhar e, depois, com uma exclamação de desagrado, atirou-o ao chão. Peguei nele e li:
CHARLES AUGUSTUS MILVERTON, Appledore Towers, Hampstead. Agente.
— Quem é ele? — perguntei.
— O pior homem de Londres — respondeu Holmes, enquanto se sentava e esticava as pernas perante a lareira. — Há algo no verso do cartão?
Virei-o.
— Passarei às 6:30 — C.A.M. — li.
— Hum! Está quase na hora. Sente uma sensação de rastejar e de encolhimento, Watson, quando está perante as serpentes no Jardim Zoológico e vê as criaturas viscosas, deslizantes e venenosas, com os seus olhos mortíferos e caras perversas e achatadas? Bem, é assim que Milverton me impressiona. Tive de lidar com cinquenta assassinos na minha carreira, mas o pior deles nunca me causou a repulsa que sinto por este sujeito. E, contudo, não posso evitar de fazer negócios com ele; na verdade, ele está aqui a meu convite.
— Mas quem é ele?
— Eu dir-lhe-ei, Watson. Ele é o rei de todos os chantagistas. Que o Céu ajude o homem, e ainda mais a mulher, cujo segredo e reputação caiam no poder de Milverton! Com um rosto sorridente e um coração de mármore, ele espremerá e espremerá até os deixar secos. O sujeito é um génio à sua maneira e teria deixado a sua marca num negócio mais honesto. O seu método é o seguinte: ele deixa saber que está preparado para pagar somas muito elevadas por cartas que comprometam pessoas de riqueza e posição. Recebe estes bens não só de criados ou criadas traiçoeiros, mas frequentemente de rufiões de alta sociedade que ganharam a confiança e o afeto de mulheres crédulas. Ele não lida com mão mesquinha. Por acaso sei que pagou setecentas libras a um lacaio por um bilhete de duas linhas de extensão, e que a ruína de uma família nobre foi o resultado. Tudo o que está no mercado vai para Milverton, e há centenas nesta grande cidade que empalidecem ao ouvir o seu nome. Ninguém sabe onde o seu aperto pode cair, pois ele é demasiado rico e demasiado astuto para viver um dia de cada vez. Ele guardará um trunfo durante anos para o jogar no momento em que a aposta valer mais a pena. Disse que ele é o pior homem de Londres, e perguntar-lhe-ia: como se pode comparar o rufião que, de sangue quente, espanca o seu companheiro, com este homem que, metódica e calmamente, tortura a alma e esmaga os nervos para aumentar os seus já inchados sacos de dinheiro?
Raramente tinha ouvido o meu amigo falar com tanta intensidade de sentimento.
— Mas, certamente — disse eu —, o sujeito deve estar ao alcance da lei?
— Tecnicamente, sem dúvida, mas praticamente não. O que lucraria uma mulher, por exemplo, em metê-lo alguns meses na prisão se a sua própria ruína se seguisse imediatamente? As suas vítimas não se atrevem a ripostar. Se ele alguma vez chantageasse uma pessoa inocente, então, de facto, tê-lo-íamos, mas ele é tão astuto como o Diabo. Não, não, temos de encontrar outras formas de o combater.
— E porque é que ele está aqui?
— Porque uma cliente ilustre colocou o seu caso lastimoso nas minhas mãos. É Lady Eva Blackwell, a mais bela estreante da última temporada. Ela vai casar-se dentro de quinze dias com o Conde de Dovercourt. Este demónio tem várias cartas imprudentes — imprudentes, Watson, nada pior — que foram escritas a um jovem escudeiro sem dinheiro no campo. Bastariam para romper o noivado. Milverton enviará as cartas ao Conde, a menos que lhe seja paga uma grande quantia de dinheiro. Fui incumbido de o encontrar e... de obter as melhores condições que puder.
Nesse instante, ouviu-se um estrépito e um matraquear na rua, lá em baixo. Olhando para baixo, vi uma carruagem imponente puxada por dois cavalos, as luzes brilhantes a refletirem-se nas ancas lustrosas dos nobres castanhos. Um lacaio abriu a porta e um homem pequeno e robusto, com um casaco de pele de astracã felpudo, desceu. Um minuto depois, estava na sala.
Charles Augustus Milverton era um homem de cinquenta anos, com uma cabeça grande e intelectual, um rosto redondo, rechonchudo e sem pelos, um sorriso perpetuamente congelado e dois olhos cinzentos e aguçados que brilhavam intensamente por detrás de óculos largos de aro dourado. Havia algo da benevolência do Sr. Pickwick na sua aparência, apenas manchada pela insinceridade do sorriso fixo e pelo brilho duro daqueles olhos inquietos e penetrantes. A sua voz era tão suave e insinuante como o seu rosto, enquanto avançava com uma mão pequena e gorda estendida, murmurando o seu pesar por nos ter perdido na sua primeira visita. Holmes ignorou a mão estendida e olhou para ele com um rosto de granito. O sorriso de Milverton alargou-se, ele encolheu os ombros, tirou o sobretudo, dobrou-o com grande deliberação sobre as costas de uma cadeira e, depois, sentou-se.
— Este cavalheiro? — disse ele, com um gesto na minha direção. — É discreto? É correto?
— O Dr. Watson é meu amigo e sócio.
— Muito bem, Sr. Holmes. Foi apenas nos interesses da sua cliente que protestei. O assunto é tão delicado...
— O Dr. Watson já ouviu falar dele.
— Então podemos prosseguir com os negócios. Diz que está a atuar em nome de Lady Eva. Ela deu-lhe poderes para aceitar os meus termos?
— Quais são os seus termos?
— Sete mil libras.
— E a alternativa?
— Meu caro senhor, é doloroso para mim discuti-la, mas se o dinheiro não for pago no dia 14, certamente não haverá casamento no dia 18. O seu sorriso insuportável estava mais complacente do que nunca.
Holmes pensou um pouco.
— Parece-me — disse ele, finalmente — que está a tomar as coisas como garantidas demais. Estou, naturalmente, familiarizado com o conteúdo destas cartas. A minha cliente fará certamente o que eu aconselhar. Aconselhá-la-ei a contar toda a história ao seu futuro marido e a confiar na sua generosidade.
Milverton riu-se.
— Evidentemente, não conhece o Conde — disse ele.
Pelo olhar desconcertado no rosto de Holmes, pude ver claramente que ele o conhecia.
— Que mal há nas cartas? — perguntou ele.
— São vivazes, muito vivazes — respondeu Milverton. — A senhora era uma correspondente encantadora. Mas posso garantir-lhe que o Conde de Dovercourt não as apreciaria. No entanto, uma vez que pensa de outra forma, deixaremos ficar por aqui. É puramente uma questão de negócios. Se acha que é do melhor interesse da sua cliente que estas cartas sejam colocadas nas mãos do Conde, então seria, de facto, tolo pagar uma quantia tão grande de dinheiro para as recuperar. — Ele levantou-se e pegou no seu casaco de astracã.
Holmes estava cinzento de raiva e humilhação.
— Espere um pouco — disse ele. — Vai demasiado depressa. Deveríamos certamente fazer todos os esforços para evitar o escândalo num assunto tão delicado.
Milverton voltou a sentar-se na sua cadeira.
— Tinha a certeza de que veria o assunto por esse prisma — murmurou ele.
— Ao mesmo tempo — continuou Holmes —, Lady Eva não é uma mulher rica. Garanto-lhe que duas mil libras seriam um esgotamento para os seus recursos, e que a soma que menciona está totalmente fora do seu alcance. Imploro, portanto, que modere as suas exigências e que devolva as cartas ao preço que indico, que é, garanto-lhe, o mais alto que pode obter.
O sorriso de Milverton alargou-se e os seus olhos brilharam de forma divertida.
— Estou ciente de que o que diz é verdade sobre os recursos da senhora — disse ele. — Ao mesmo tempo, deve admitir que a ocasião do casamento de uma senhora é uma altura muito adequada para que os seus amigos e familiares façam algum pequeno esforço em seu nome. Podem hesitar quanto a um presente de casamento aceitável. Deixe-me garantir-lhes que este pequeno pacote de cartas daria mais alegria do que todos os candelabros e pratos de manteiga em Londres.
— É impossível — disse Holmes.
— Meu Deus, meu Deus, que infelicidade! — exclamou Milverton, tirando uma carteira volumosa. — Não posso deixar de pensar que as senhoras são mal aconselhadas ao não fazerem um esforço. Olhe para isto! — Ele ergueu um pequeno bilhete com um brasão no envelope. — Isso pertence a... bem, talvez não seja justo dizer o nome até amanhã de manhã. Mas, nessa altura, estará nas mãos do marido da senhora. E tudo porque ela não consegue arranjar uma soma miserável que poderia obter transformando os seus diamantes em bijuteria. É uma pena! Ora, recorda-se do fim repentino do noivado entre a Honorável Miss Miles e o Coronel Dorking? Apenas dois dias antes do casamento, houve um parágrafo no Morning Post a dizer que tudo tinha acabado. E porquê? É quase inacreditável, mas a soma absurda de mil e duzentas libras teria resolvido toda a questão. Não é lastimável? E aqui encontro-o, um homem de bom senso, a hesitar quanto aos termos, quando o futuro e a honra da sua cliente estão em jogo. Surpreende-me, Sr. Holmes.
— O que digo é verdade — respondeu Holmes. — O dinheiro não pode ser arranjado. Certamente é melhor para si aceitar a soma considerável que ofereço do que arruinar a carreira desta mulher, o que não lhe pode trazer lucro algum?
— Aí comete um erro, Sr. Holmes. Uma exposição beneficiar-me-ia indiretamente de uma forma considerável. Tenho oito ou dez casos semelhantes a amadurecer. Se circulasse entre eles que dei um exemplo severo de Lady Eva, achá-los-ia a todos muito mais abertos à razão. Vê o meu ponto de vista?
Holmes saltou da cadeira.
— Atrás dele, Watson! Não o deixe sair! Agora, senhor, vejamos o conteúdo desse bloco de notas.
Milverton tinha deslizado tão rápido como um rato para o lado da sala e estava de costas para a parede.
— Sr. Holmes, Sr. Holmes — disse ele, abrindo a frente do casaco e exibindo o cabo de um grande revólver, que sobressaía do bolso interior. — Estava à espera que fizesse algo original. Isto tem sido feito tantas vezes, e que bem alguma vez resultou disso? Garanto-lhe que estou armado até aos dentes e estou perfeitamente preparado para usar as minhas armas, sabendo que a lei me apoiará. Além disso, a sua suposição de que eu traria as cartas aqui num bloco de notas é inteiramente errada. Eu não faria nada tão tolo. E agora, cavalheiros, tenho uma ou duas pequenas entrevistas esta noite, e a viagem para Hampstead é longa. — Ele avançou, pegou no seu casaco, pousou a mão no seu revólver e virou-se para a porta. Peguei numa cadeira, mas Holmes abanou a cabeça e voltei a pousá-la. Com uma vénia, um sorriso e um brilho nos olhos, Milverton saiu da sala e, momentos depois, ouvimos o bater da porta da carruagem e o matraquear das rodas enquanto ele se afastava.
Holmes sentou-se imóvel junto à lareira, com as mãos enterradas profundamente nos bolsos das calças, o queixo caído sobre o peito, os olhos fixos nas brasas incandescentes. Durante meia hora, ficou silencioso e imóvel. Então, com o gesto de um homem que tomou uma decisão, saltou para os pés e passou para o seu quarto. Pouco depois, um jovem trabalhador de aspeto dissoluto, com um cavanhaque e um ar arrogante, acendeu o seu cachimbo de barro no candeeiro antes de descer para a rua. — Voltarei a qualquer altura, Watson — disse ele, e desapareceu na noite. Compreendi que ele tinha aberto a sua campanha contra Charles Augustus Milverton, mas mal sonhava eu a estranha forma que essa campanha estava destinada a tomar.
Durante alguns dias, Holmes vinha e ia a todas as horas com este traje, mas, para além de um comentário de que o seu tempo era passado em Hampstead e de que não era tempo desperdiçado, não sabia nada do que ele estava a fazer. Finalmente, contudo, numa noite tempestuosa e selvagem, em que o vento gritava e batia contra as janelas, ele regressou da sua última expedição e, tendo retirado o disfarce, sentou-se perante a lareira e riu-se de coração, à sua maneira silenciosa e interior.
— Não me chamaria um homem para casar, Watson?
— Não, de facto!
— Ficará interessado em saber que estou noivo.
— Meu caro amigo! Eu paraben...
— Da criada de Milverton.
— Santo Deus, Holmes!
— Eu queria informações, Watson.
— Certamente foi longe demais?
— Foi um passo muito necessário. Sou um canalizador com um negócio em ascensão, Escott, de nome. Tenho saído com ela todas as noites e tenho conversado com ela. Santo Deus, aquelas conversas! No entanto, consegui tudo o que queria. Conheço a casa de Milverton como conheço a palma da minha mão.
— Mas a rapariga, Holmes?
Ele encolheu os ombros.
— Não pode evitar, meu caro Watson. Tem de jogar as suas cartas da melhor forma que puder quando uma aposta dessas está em cima da mesa. No entanto, regozijo-me em dizer que tenho um rival odiado, que certamente me ultrapassará no instante em que eu virar as costas. Que noite esplêndida que está!
— Gosta deste tempo?
— Serve o meu propósito. Watson, pretendo assaltar a casa de Milverton esta noite.
Tive um aperto na respiração e a pele arrepiou-se-me com as palavras, que foram lentamente proferidas num tom de resolução concentrada. Como um clarão de relâmpago na noite revela num instante cada detalhe de uma paisagem selvagem, assim, de um só golpe, pareceu-me ver cada resultado possível de tal ação: a deteção, a captura, a carreira honrada a terminar em falhanço e desgraça irreparáveis, o meu próprio amigo a deitar-se à mercê do odioso Milverton.
— Pelo amor de Deus, Holmes, pense no que está a fazer — gritei.
— Meu caro amigo, dei a isso toda a consideração. Nunca sou precipitado nas minhas ações, nem adotaria um rumo tão enérgico e, de facto, tão perigoso, se qualquer outro fosse possível. Analisemos o assunto de forma clara e justa. Suponho que admitirá que a ação é moralmente justificável, embora tecnicamente criminosa. Assaltar a sua casa não é mais do que tirar-lhe à força a carteira: uma ação na qual estava preparado para me ajudar.
Ponderei sobre isto.
— Sim — disse eu —, é moralmente justificável desde que o nosso objetivo seja não levar artigos exceto aqueles que são usados para um fim ilegal.
— Exatamente. Uma vez que é moralmente justificável, só tenho de considerar a questão do risco pessoal. Certamente um cavalheiro não deveria dar muita importância a isto, quando uma senhora está na mais desesperada necessidade da sua ajuda?
— Estará numa posição tão falsa.
— Bem, isso faz parte do risco. Não há outra forma possível de recuperar estas cartas. A infeliz senhora não tem dinheiro, e não há ninguém do seu povo em quem ela possa confiar. Amanhã é o último dia de graça e, a menos que consigamos as cartas esta noite, este vilão cumprirá a sua palavra e causará a sua ruína. Devo, portanto, abandonar a minha cliente ao seu destino ou devo jogar esta última cartada. Entre nós, Watson, é um duelo desportivo entre este sujeito Milverton e eu. Ele teve, como viu, o melhor das primeiras trocas, mas o meu autorrespeito e a minha reputação estão em causa para lutar até ao fim.
— Bem, não gosto disso, mas suponho que tem de ser — disse eu. — Quando partimos?
— Você não vem.
— Então você não vai — disse eu. — Dou-lhe a minha palavra de honra — e nunca a quebrei na minha vida — de que apanharei um táxi diretamente para a esquadra da polícia e o entregarei, a menos que me deixe partilhar esta aventura consigo.
— Não me pode ajudar.
— Como sabe disso? Não pode dizer o que pode acontecer. De qualquer forma, a minha resolução está tomada. Outras pessoas, além de si, têm autorrespeito e até reputações.
Holmes tinha parecido aborrecido, mas o seu sobrolho suavizou-se e ele deu-me um toque no ombro.
— Bem, bem, meu caro amigo, que assim seja. Partilhámos a mesma sala durante alguns anos, e seria divertido se acabássemos por partilhar a mesma cela. Sabe, Watson, não me importo de lhe confessar que sempre tive a ideia de que teria feito um criminoso altamente eficiente. Esta é a oportunidade da minha vida nesse sentido. Veja aqui! — Ele tirou um pequeno estojo de couro de uma gaveta e, ao abri-lo, exibiu uma série de instrumentos brilhantes. — Este é um kit de assalto de primeira classe e atualizado, com pé-de-cabra niquelado, corta-vidros com ponta de diamante, chaves adaptáveis e todas as melhorias modernas que o progresso da civilização exige. Aqui também está a minha lanterna escura. Está tudo em ordem. Tem um par de sapatos silenciosos?
— Tenho sapatos de ténis com sola de borracha.
— Excelente! E uma máscara?
— Posso fazer um par com seda preta.
— Vejo que tem uma forte inclinação natural para este tipo de coisas. Muito bem, faça as máscaras. Comeremos algo frio antes de partirmos. São agora nove e meia. Às onze iremos de carruagem até Church Row. Fica a um quarto de hora a pé de lá até Appledore Towers. Estaremos a trabalhar antes da meia-noite. Milverton tem um sono pesado e retira-se pontualmente às dez e meia. Com um pouco de sorte, deveríamos estar de volta aqui às duas, com as cartas de Lady Eva no meu bolso.
Holmes e eu vestimos os nossos trajes de gala, para que pudéssemos parecer dois frequentadores de teatro a caminho de casa. Em Oxford Street, apanhámos um hansom e conduzimos até uma morada em Hampstead. Aqui pagámos o nosso táxi e, com os nossos sobretudos abotoados, pois estava um frio cortante e o vento parecia soprar através de nós, caminhámos ao longo da orla da charneca.
— É um negócio que requer um tratamento delicado — disse Holmes. — Estes documentos estão contidos num cofre no escritório do sujeito, e o escritório é a antecâmara do seu quarto de dormir. Por outro lado, como todos estes homens pequenos e robustos que vivem bem, ele é um dorminhoco pletórico. Agatha — é a minha noiva — diz que é uma piada na sala dos criados que é impossível acordar o patrão. Ele tem um secretário que é devotado aos seus interesses e nunca sai do escritório durante todo o dia. É por isso que vamos à noite. Depois, ele tem um cão, uma besta, que vagueia pelo jardim. Encontrei a Agatha tarde nas últimas duas noites e ela tranca a besta para me dar caminho livre. É esta a casa, esta grande, dentro dos seus próprios terrenos. Pelo portão; agora à direita, entre os loureiros. Talvez possamos colocar as nossas máscaras aqui, penso eu. Vê, não há um vislumbre de luz em nenhuma das janelas, e tudo está a correr maravilhosamente.
Com as nossas coberturas faciais de seda preta, que nos transformaram em duas das figuras mais truculentas de Londres, esgueirámo-nos até à casa silenciosa e sombria. Uma espécie de varanda de azulejos estendia-se ao longo de um dos seus lados, ladeada por várias janelas e duas portas.
— Aquele é o seu quarto — sussurrou Holmes. — Esta porta abre diretamente para o escritório. Seria o que melhor nos servia, mas está trancada e com ferrolho, e faríamos demasiado barulho a entrar. Venha por aqui. Há uma estufa que dá para a sala de estar.
O lugar estava trancado, mas Holmes retirou um círculo de vidro e girou a chave por dentro. Num instante ele havia fechado a porta atrás de nós, e nos tornamos criminosos aos olhos da lei. O ar denso e quente da estufa, com o perfume rico e sufocante das plantas exóticas, apertou-nos à garganta. Ele agarrou minha mão na escuridão e conduziu‑me rapidamente por entre bancos de arbustos que roçavam nossos rostos. Holmes possuía poderes notáveis, cultivados com cuidado, de ver no escuro. Ainda segurando‑me pela mão, abriu uma porta, e eu estava vagamente consciente de que havíamos entrado num grande aposento onde um cigarro fora fumado pouco antes. Sentiu o caminho entre os móveis, abriu outra porta e fechou‑a atrás de nós. Ao estender a mão, percebi vários casacos pendurados na parede e compreendi que estávamos em um corredor. Avançamos por ele e Holmes, muito delicadamente, abriu uma porta à direita. Algo correu na nossa direção e meu coração saltou à boca, mas pude rir ao perceber que era o gato. Um fogo ardia naquele novo quarto, e novamente o ar estava pesado com fumaça de tabaco. Holmes entrou na ponta dos pés, esperou que eu o seguisse, e então fechou a porta suavemente. Estávamos no estudo de Milverton, e uma porteira no fundo mostrava a entrada para o seu quarto.
Era um bom fogo, e o aposento era iluminado por ele. Perto da porta vi o brilho de um interruptor elétrico, mas era desnecessário, ainda que fosse seguro, ligá‑lo. De um lado da lareira havia uma pesada cortina que cobria a janela em beiral que tínhamos visto do lado de fora. Do outro lado estava a porta que se comunicava com a varanda. No centro havia uma escrivaninha, com uma cadeira giratória de couro vermelho reluzente. Em frente, uma imensa estante, no topo da qual repousava um busto mármore de Atena. No canto, entre a estante e a parede, erguia‑se um alto cofre verde, a luz do fogo refletindo nos botões de latão polido que adornavam sua face. Holmes atravessou rapidamente e olhou para ele. Depois, arrastou‑se até a porta do quarto e ficou de cabeça inclinada, escutando atentamente. Não se ouviu som de dentro. Contudo, me ocorreu que seria prudente assegurar nossa fuga pela porta externa, então examinei‑a. Para minha surpresa, não estava trancada nem com ferrolho. Toquei o braço de Holmes, que voltou o rosto mascarado para mim. Vi-o sobressaltar‑se, tão surpreso quanto eu.
— Não gosto disso — sussurrou, aproximando os lábios do meu ouvido. — Não consigo entender bem. De qualquer forma, não temos tempo a perder.
— Posso fazer alguma coisa? — perguntei.
— Sim, fique junto à porta. Se ouvir alguém aproximar‑se, tranque‑a por dentro, e poderemos sair como viemos. Se eles vierem por outro caminho, poderemos atravessar a porta se nossa missão já estiver concluída, ou esconder‑nos atrás das cortinas se não estiver. Entende?
Assenti, permanecendo ao lado da porta. O primeiro medo já havia desaparecido, e sentia‑me agora excitado com um vigor mais intenso do que jamais experimentei quando éramos defensores da lei e não seus transgressores. O alto objetivo da nossa missão, a consciência de que era altruísta e cavalheiresca, o caráter vil do nosso adversário, tudo contribuía para o interesse esportivo da aventura. Longe de sentir culpa, regozijava‑me e exultava nos perigos. Com admiração, vi Holmes desenrolar sua caixa de instrumentos e escolher a ferramenta com a calma e a precisão científica de um cirurgião a operar delicadamente. Sabia que a abertura de cofres era um hobby particular dele, e compreendia o prazer que lhe dava confrontar aquele monstro verde e dourado, o dragão que guardava nas fauces as reputações de muitas damas. Arreganhando as mangas de seu casaco — havia deixado o sobretudo sobre uma cadeira — Holmes dispôs dois brocas, um alicate de arrombamento e várias chaves‑esqueleto. Fiquei na porta central, os olhos percorrendo cada um dos outros, pronto para qualquer emergência, embora meus planos fossem vagos quanto ao que fazer se fossemos interrompidos. Por meia hora, Holmes trabalhou com energia concentrada, alternando ferramentas, manejando‑as com a força e delicadeza de um mecânico experiente. Finalmente ouvi um clique, a larga porta verde balançou‑se, e dentro vislumbrei vários pacotes de papel, cada um atado, lacrado e rubricado. Holmes retirou um, mas era difícil lê‑lo à luz trêmula do fogo; então trouxe sua pequena lanterna escura, pois seria perigoso, com Milverton no quarto ao lado, acender a luz elétrica. De repente vi‑o parar, escutar atentamente, e num instante girou a porta do cofre, pegou o sobretudo, enfiou as ferramentas nos bolsos e correu para trás da cortina da janela, gesticulando‑me a fazer o mesmo.
Só quando me juntei a ele ali ouvi o que havia alarmado seus sentidos mais rápidos. Um ruído surgia em algum ponto da casa. Uma porta bateu ao longe. Então um murmúrio confuso e surdo transformou‑se no passo pesado e ritmado de passos que se aproximavam rapidamente. Eles estavam no corredor fora do quarto. Pararam na porta. A porta abriu. Um estalo agudo soou ao acender a luz elétrica. A porta fechou novamente, e o fedor pungente de um forte cigarro invadiu nossos narizes. Então os passos continuaram indo e vindo, indo e vindo, a poucos metros de nós. Por fim, um rangido veio de uma cadeira, e os passos cessaram. Uma chave clicou numa fechadura, e ouvi o farfalhar de papéis.
Até então não ousara olhar, mas agora separei delicadamente a divisão das cortinas à minha frente e espreitei. Pela pressão do ombro de Holmes contra o meu, soube que ele compartilhava minhas observações. Bem diante de nós, quase ao nosso alcance, estava as costas largas e arredondadas de Milverton. Era evidente que tínhamos calculado mal seus movimentos, que nunca fora ao seu quarto, mas que estava sentado num salão de fumo ou de bilhar da ala mais distante da casa, cujas janelas não havíamos visto. Sua cabeça larga e grisalha, com a mancha brilhante de calvície, aparecia em imediato primeiro plano da nossa visão. Estava reclinado profundamente na cadeira de couro vermelho, as pernas esticadas, um longo cigarro preto projetando‑se em ângulo da boca. Vestia um smoking semi‑militar, cor de clarete, com gola de veludo negro. Em sua mão segurava um longo documento legal que lia de forma indolente, soprando anéis de fumaça de tabaco dos lábios enquanto o fazia. Não havia promessa de partida rápida em sua postura composta e atitude confortável.
Senti a mão de Holmes deslizar para a minha e dar-me um aperto reconfortante, como se dissesse que a situação estava sob seu controle e que ele estava tranquilo. Não sabia se ele havia percebido o óbvio da minha posição, que a porta do cofre estava imperfeitamente fechada, e que Milverton poderia a qualquer momento avistá‑la. Em minha mente, determinei que, se percebesse, pelo olhar rígido, que a porta lhe chamara a atenção, eu sairia de imediato, jogaria meu grande sobretudo sobre a cabeça dele, imobilizá‑lo‑ia e deixaria o resto a Holmes. Mas Milverton nunca levantou os olhos. Estava vagamente interessado nos papéis em sua mão, virando página após página enquanto seguia o argumento do advogado. Pelo menos, pensei, quando terminasse o documento e o cigarro, ele se dirigiria ao seu quarto; porém, antes que concluísse qualquer um dos dois, ocorreu um desenvolvimento notável que mudou nossos pensamentos para outro rumo.
Várias vezes observei Milverton olhar para o relógio, e uma vez ele se levantou e sentou‑se novamente, com gesto de impaciência. A ideia, porém, de que ele poderia ter um compromisso a uma hora tão estranha nunca me ocorreu até que um som fraco chegou aos meus ouvidos vindo da varanda externa. Milverton largou os papéis e ficou rígido na cadeira. O som se repetiu, e então houve um leve toque à porta. Milverton levantou‑se e abriu‑a.
— Bem — disse ele, de modo seco — — você está quase meia hora atrasado.
Assim se explicou a porta destrancada e a vigília noturna de Milverton. Houve o suave farfalhar de um vestido de mulher. Fechara a fenda entre as cortinas quando o rosto de Milverton se voltou para nós, mas agora atrevi‑me, com muito cuidado, a abri‑la novamente. Ele reassumira o assento, o cigarro ainda projetando‑se em ângulo insolente da ponta da boca. Diante dele, sob a luz plena da lâmpada elétrica, estava uma mulher alta, esguia, escura, com véu sobre o rosto e manto envolvendo o queixo. Sua respiração era rápida e ofegante, e cada centímetro da figura ágil tremia de forte emoção.
— Bem — disse Milverton — — você me fez perder uma boa noite de sono, minha cara. Espero que prove valer a pena. Você não poderia ter vindo em outro horário — hein?
A mulher balançou a cabeça.
— Bem, se não poderia, não poderia. Se a Condessa é uma senhora rígida, agora tem a chance de se igualar a ela. Bendita a moça, do que está a tremer? Isso mesmo. Refaça‑se. Agora, vamos ao que interessa. — Ele pegou um caderno da gaveta da escrivaninha. — Você diz que tem cinco cartas que comprometem a Condessa d’Albert. Quer vendê‑las. Eu quero comprá‑las. Até aqui tudo bem. Falta apenas fixar um preço. Quero, evidentemente, inspecionar as cartas. Se forem realmente bons espécimes — Céus, é você? —
A mulher, sem dizer palavra, ergueu o véu e retirou o manto do queixo. Era um rosto escuro, bonito e bem definido que confrontava Milverton — um rosto de nariz curvo, sobrancelhas fortes e escuras que sombriam olhos cintilantes, e boca reta e fina, curvada em um sorriso perigoso.
— Sou eu — disse ela — a mulher cuja vida o senhor destruiu.
Milverton riu, mas o medo vibrou em sua voz. — Você foi tão obstinada — afirmou. — Por que me conduziu a tais extremidades? Asseguro‑lhe que não machucaria uma mosca por vontade própria, mas todo homem tem seus negócios, e o que eu poderia fazer? Pus o preço bem dentro de seus meios. Você não pagaria.
— Então enviou as cartas ao meu marido, e ele — o nobre cavalheiro que jamais conheci — quebrou o coração galante e morreu. Lembra‑se da noite passada, quando atravessei aquela porta, implorei‑lhe por misericórdia, e o senhor riu‑me na cara como agora tenta rir, embora seu coração covarde não consiga impedir que seus lábios se contorçam. Sim, nunca pensou em me ver novamente aqui, mas foi naquela noite que aprendi como poderia encontrá‑lo cara a cara, e só. Bem, Charles Milverton, o que tem a dizer?
— Não imagine que pode me intimidar — disse ele, levantando‑se. — Basta eu erguer a voz para chamar os criados e fazê‑lo prender. Mas farei concessão à sua ira natural. Saia da sala imediatamente como entrou, e não direi mais nada.
A mulher ficou com a mão enterrada no peito, o mesmo sorriso mortal nos lábios finos.
— Você não destruir‑á mais vidas como destruiu a minha. Não apertará mais corações como apertou o meu. Livrarei o mundo de coisa venenosa. Tome isso, seu cão — e isso — e isso — e isso!
Ela sacou um pequeno revólver reluzente, e disparou tiro após tiro no corpo de Milverton, a coronha a dois passos da frente da camisa. Ele recuou, então caiu sobre a mesa, tossindo furiosamente e rasgando os papéis. Levantou‑se cambaleando, recebeu outro disparo e rolou no chão. — Você me fez — gritou, permanecendo imóvel. A mulher olhou‑o intensamente, cravando o calcanhar em seu rosto virado para cima. Olhou novamente, mas não houve som nem movimento. Ouvi um farfalhar agudo, o ar da noite invadiu a sala aquecida, e a vingadora se foi.
Nenhuma ação nossa poderia ter salvo o homem de seu destino, mas, enquanto a mulher despejava bala após bala no corpo encolhido de Milverton, eu estava prestes a saltar quando senti a mão fria e forte de Holmes firmar‑se no meu pulso. Entendi todo o sentido daquele aperto firme e restritivo — não era assunto nosso, a justiça havia alcançado um vilão, tínhamos nossos próprios deveres e nossos próprios objetivos, que não deviam ser perdidos de vista. Mal a mulher se lançara da sala, Holmes, com passos rápidos e silenciosos, já se encontrava à outra porta. Girou a chave na fechadura. No mesmo instante ouvimos vozes na casa e o som de passos apressados. Os disparos haviam despertado a família. Com perfeita frieza, Holmes deslizou até o cofre, encheu os dois braços de fardos de cartas e as lançou ao fogo. Repetiu‑a operação até que o cofre ficou vazio. Alguém girou a manivela e bateu na parte externa da porta. Holmes olhou rapidamente ao redor. A carta que fora mensageira da morte de Milverton jazia, toda manchada de sangue, sobre a mesa. Holmes a arremessou entre os papéis em chamas. Então tirou a chave da porta exterior, passou por ela após mim e trancou‑a por fora. — Por aqui, Watson — disse — podemos escalar o muro do jardim por este lado.
Não pude acreditar que o alarme se propagasse tão velozmente. Olhando para trás, a enorme casa era um clarão de luz. A porta da frente estava aberta, e figuras corriam pela entrada. Todo o jardim vivia de gente, e um sujeito levantou um grito de “viva!” enquanto surgíamos da varanda e
“Loucura, de qualquer modo. E uma loucura estranha também. Você não imaginaria que houvesse alguém vivo nesta hora do dia que nutrisse tanto ódio por Napoleão I a ponto de quebrar qualquer imagem dele que pudesse ver.”
Holmes recostou-se na cadeira.
“Não é da minha conta”, respondeu ele.
“Exatamente. Foi o que eu disse. Mas então, quando o homem comete um arrombamento para destruir imagens que não são suas, isso o afasta do médico e o leva ao policial.”
Holmes sentou-se novamente.
“Arrombamento! Isto é mais interessante. Quero ouvir os detalhes.”
Lestrade tirou o caderno oficial e refrescou a memória nas suas páginas.
“O primeiro caso relatado foi há quatro dias”, disse ele. “ Foi na loja de Morse Hudson, que tem um estabelecimento para a venda de quadros e estátuas na Kennington Road. O ajudante saiu da frente da loja por um instante, quando ouviu um estrondo, e, ao voltar, encontrou um busto de gesso de Napoleão, que estava entre várias outras obras de arte sobre o balcão, despedaçado em fragmentos. Saiu correndo para a rua, mas, embora vários transeuntes afirmassem ter visto um homem sair da loja, ele não viu ninguém nem conseguiu identificar o patife. Parecia um daqueles atos insensatos de vandalismo que ocorrem de tempos em tempos, e foi relatado ao policial da ronda como tal. O molde de gesso não valia mais que alguns xelins, e todo o caso pareceu infantil demais para qualquer investigação específica.
“O segundo caso, porém, foi mais grave, e também mais singular. Ocorreu apenas na noite passada.
“Na Kennington Road, a poucos cem metros da loja de Morse Hudson, mora um médico bem conhecido, chamado Dr. Barnicot, que tem uma das maiores práticas no lado sul do Tâmisa. Sua residência e principal consultório ficam na Kennington Road, mas tem uma filial de cirurgia e dispensário na Lower Brixton Road, a duas milhas de distância. Esse Dr. Barnicot é um admirador entusiástico de Napoleão, e sua casa está repleta de livros, quadros e relíquias do Imperador francês. Há pouco tempo, ele comprou de Morse Hudson dois moldes duplicados do famoso busto de Napoleão, esculpido pelo escultor francês Devine. Um deles colocou no hall da casa da Kennington Road, e o outro sobre a lareira da clínica da Lower Brixton. Bem, quando o Dr. Barnicot desceu esta manhãs, ficou espantado ao descobrir que sua casa fora arrombada durante a noite, mas que nada havia sido levado, exceto o busto de gesso do hall. O ladrão o levou e o despedaçou violentamente contra a parede do jardim, onde seus fragmentos estilhaçados foram encontrados.”
Holmes esfregou as mãos.
“Isso é, sem dúvida, muito inusitado”, disse ele.
“Pensei que lhe agradaria. Mas ainda não cheguei ao fim. O Dr. Barnicot tinha consulta às doze horas, e pode imaginar o espanto dele ao chegar e encontrar a janela aberta na noite e os pedaços quebrados de seu segundo busto espalhados por toda a sala. O busto havia sido despedaçado até os átomos onde estava. Em nenhum dos casos havia indícios que nos pudessem dar pista sobre o criminoso ou lunático que fez a travessura. Agora, Sr. Holmes, tem os fatos.”
“São fatos singulares, nem se pode dizer grotescos”, disse Holmes. “Posso perguntar se os dois bustos destruidos nos aposentos do Dr. Barnicot eram réplicas exatas daquele que foi destruído na loja de Morse Hudson?”
“Eles foram tirados do mesmo molde.”
“Tal fato deve contrariar a teoria de que o homem que os quebra seja motivado por um ódio geral a Napoleão. Considerando quantas centenas de estátuas do grande Imperador devem existir em Londres, seria exagerado supor tal coincidência de que um íconoclasta promíscuo se deparasse com três exemplares do mesmo busto.”
“Bem, eu penso como você”, disse Lestrade. “Por outro lado, esse Morse Hudson é o fornecedor de bustos naquela parte de Londres, e esses três foram os únicos que estiveram em sua loja por anos. Assim, embora, como diz, haja muitas centenas de estátuas em Londres, é muito provável que esses três fossem os únicos naquele distrito. Portanto, um fanático local começaria por eles. O que acha, Dr. Watson?”
“Não há limites para as possibilidades da monomania”, respondi. “Existe a condição que os psicólogos franceses modernos chamam de idée fixe, que pode ser insignificante em caráter e acompanhada de completa sanidade em todo o resto. Um homem que leu profundamente sobre Napoleão, ou que talvez tenha recebido alguma lesão hereditária familiar devido à grande guerra, poderia conceber tal idée fixe e, sob sua influência, ser capaz de qualquer ultraje fantástico.”
“Isso não resolve, caro Watson”, disse Holmes, balançando a cabeça, “pois nenhuma dose de idée fixe habilitaria seu interessante monomaníaco a descobrir onde esses bustos estavam situados.”
“Então, como o explica?”
“Não tento explicá‑lo. Apenas observo que há um certo método nas ações excêntricas do cavalheiro. Por exemplo, no hall do Dr. Barnicot, onde um som poderia despertar a família, o busto foi retirado para fora antes de ser despedaçado, enquanto na clínica, onde havia menos perigo de alarme, foi quebrado onde estava. O caso parece absurdamente insignificante, e ainda assim ouso dizer que nada é trivial quando reflito que alguns dos meus casos mais clássicos tiveram os comícios menos promissores. Lembrará, Watson, como o terrível caso da família Abernetty chegou ao meu conhecimento pela profundidade que a salsa afundou na manteiga num dia quente. Não posso, portanto, sorrir aos seus três bustos despedaçados, Lestrade, e ficaria muito grato se me deixasse saber de qualquer desenvolvimento novo dessa cadeia tão singular de eventos.”
O desenvolvimento que meu amigo havia solicitado chegou de forma mais rápida e infinitamente mais trágica do que ele poderia imaginar. Eu ainda me vestia no meu quarto na manhã seguinte, quando houve batida na porta e Holmes entrou, segurando um telegrama. Leu‑o em voz alta:
“Venha imediatamente, 131, Pitt Street, Kensington.—LESTRADE.”
“O que é, então?” perguntei.
“Não sei—pode ser qualquer coisa…”
“Mas suspeito que seja a continuação da história das estátuas. Nesse caso, nosso amigo, o destruidor de imagens, iniciou operações em outro bairro de Londres. Há café na mesa, Watson, e tenho um táxi à porta.”
Em meia‑hora chegamos à Pitt Street, um quieto recanto atrás de um dos mais animados fluxos da vida londrina. O nº 131 era uma das moradias de uma fileira, todas de fachada discreta, respeitáveis e pouco românticas. Ao subir, vimos as grades em frente à casa cercadas por uma curiosa multidão. Holmes assobiou.
“Pelo amor de São Galo! É, no mínimo, tentativa de homicídio. Nada menos prenderá o mensageiro londrino. Há um ato de violência indicado nos ombros largos desse sujeito e no pescoço erguido. O que há, Watson? O primeiro degrau desabou e o outro ficou seco. Passos bastam, de qualquer forma! Bem, bem, há Lestrade na janela da frente, e logo saberemos tudo.”
O oficial recebeu‑nos com semblante muito grave e conduziu‑nos a uma sala de estar, onde um idoso extremamente desleixado e agitado, trajando um roupão de flanela, caminhava de um lado para o outro. Apresentaram‑nos como proprietário da casa—Sr. Horace Harker, da Central Press Syndicate.
“É novamente o caso dos bustos de Napoleão”, disse Lestrade. “Pareceu interessado na noite passada, Sr. Holmes, então imaginei que gostaria de estar presente agora que o caso tomou um rumo muito mais grave.”
“O que aconteceu, então?”
“Um assassinato. Sr. Harker, pode dizer a esses cavalheiros exatamente o que ocorreu?”
O homem de roupão virou‑se para nós com um semblante extremamente melancólico.
“É algo extraordinário”, disse ele, “que toda a minha vida recolhi notícias alheias e agora que uma notícia verdadeira chegou ao meu próprio caminho estou tão confuso e perturbado que não consigo articular duas palavras. Se eu viesse aqui como jornalista, teria entrevistado a mim mesmo e teria duas colunas em todos os jornais vespertinos. Assim como está, estou desperdiçando cópias valiosas ao contar minha história repetidamente a uma sucessão de pessoas diferentes, e não consigo fazer uso dela. Contudo, ouvi o seu nome, Sr. Sherlock Holmes, e se quiser explicar esse caso estranho, serei pago pelo esforço de lhe contar a história.”
Holmes sentou‑se e ouviu.
“Tudo se resume ao busto de Napoleão que comprei para este mesmo cômodo há cerca de quatro meses. Peguei‑o barato na Harding Brothers, a duas portas da High Street Station. Grande parte do meu trabalho jornalístico ocorre à noite, e costumo escrever até de madrugada. Foi assim hoje. Eu estava sentado no meu refúgio, no fundo da parte superior da casa, por volta das três horas, quando me convenci de ter ouvido alguns ruídos no andar de baixo. Ouvi, mas não se repetiram, e concluí que vinham de fora. Então, de repente, cerca de cinco minutos depois, ouvi um grito horrível—o som mais terrível, Sr. Holmes, que já ouvi. Ecoará nos meus ouvidos enquanto eu viver. Fiquei congelado de horror por um ou dois minutos. Então agarrei o cabo do fogão e desci. Ao entrar no quarto, encontrei a janela escancarada e percebi de imediato que o busto havia desaparecido da lareira. Por que um ladrão levaria tal coisa escapa ao meu entendimento, pois tratava‑se apenas de um molde de gesso, sem valor real algum.
“Pode ver por si mesmo que quem sai por aquela janela aberta poderia alcançar o degrau da porta da frente com um grande passo. Isso foi claramente o que o ladrão fez, então rodei e abri a porta. Ao sair para a escuridão, quase tropecei num homem morto que jazia ali. Corri atrás de uma luz e lá estava o pobre sujeito, com uma grande ferida na garganta e o lugar inteiro banhado de sangue. Ele jazia de costas, com os joelhos dobrados e a boca horrivelmente aberta. Vê‑lo‑ei nos meus sonhos. Consegui apenas assobiar com o apito da polícia e então, devo ter desmaiado, pois nada soube até encontrar o policial de pé sobre mim no hall.”
— “Bem, quem foi o assassinado?” — perguntou Holmes.
— “Não há nada que indique quem era”, disse Lestrade. “Verá o corpo no necrotério, mas ainda não descobrimos nada. É um homem alto, bronzeado, muito forte, não aparenta ter mais de trinta anos. Está mal vestido, mas não parece ser operário. Um canivete de cabo de chifre jazia numa poça de sangue ao seu lado. Não sei se foi a arma do crime ou pertenceu ao falecido. Não havia nome na roupa, e nada nos bolsos além de uma maçã, um cordão, um mapa de Londres de um xelim e uma fotografia. Aqui está.”
A fotografia fora claramente tirada com uma pequena câmera. Retratava um homem simiano, de feições aguçadas, sobrancelhas espessas e uma projeção peculiar da parte inferior do rosto, semelhante ao focinho de um babuíno.
— “E o que aconteceu com o busto?” — indagou Holmes após analisar a imagem com atenção.
— “Recebemos notícia dele pouco antes de chegar. Foi encontrado no jardim da frente de uma casa vazia na Campden House Road. Estava despedaçado em fragmentos. Estou a caminho para vê‑lo. Quer vir?”
— “Certamente. Só preciso dar uma olhada rápida.” Ele examinou o tapete e a janela. “ O sujeito tinha pernas muito longas ou era extremamente ágil”, comentou. “Com um espaço abaixo, não foi façanha menor alcançar a beirada da janela e abri‑la. Voltar foi relativamente simples. Vai conosco ver os restos do seu busto, Sr. Harker?”
O jornalista desolado sentou‑se à escrivaninha.
— “Preciso tentar extrair algo disso”, disse ele, “embora não tenha dúvidas de que as primeiras edições dos jornais vespertinos já estejam circulando com todos os detalhes. Que azar o meu! Lembra‑se quando o estande caiu em Doncaster? Eu era o único jornalista presente, e meu jornal foi o único que não registrou o fato, pois estava abalado demais para escrevê‑lo. E agora serei demasiado tarde para um assassinato que aconteceu na minha própria porta.”
Ao deixarmos a sala, ouvimos a pena rasgando o papel.
O local onde os fragmentos do busto foram encontrados ficava a apenas algumas centenas de metros. Pela primeira vez, nossos olhos pousaram sobre aquela representação do grande imperador, que parecia incitar um ódio tão frenético e destrutivo na mente do desconhecido. Ele jazia espalhado, em estilhaços, sobre a relva. Holmes recolheu vários pedaços e examinou‑os minuciosamente. Eu percebi, pelo seu rosto concentrado e postura resoluta, que enfim ele havia encontrado uma pista.
— “Então?” — perguntou Lestrade.
Holmes deu um encolher de ombros.
— “Ainda temos um longo caminho pela frente”, disse ele. “E, contudo—e ainda—bem, temos alguns fatos sugestivos para agir. Possuir esse busto insignificante valia, aos olhos desse estranho criminoso, mais que uma vida humana. Esse é um ponto. Há também o fato singular de que ele não o quebrou dentro da casa, nem imediatamente fora dela, se o objetivo fosse apenas destruí‑lo.”
— “Ele ficou agitado ao encontrar aquele outro sujeito. Mal sabia o que fazia.”
— “Isso parece suficiente. Mas quero chamar sua atenção, de modo muito especial, para a posição desta casa, cujo jardim foi onde o busto foi destruído.”
Lestrade olhou ao redor.
— “Era uma casa vazia, então ele sabia que não seria incomodado no jardim.”
— “Sim, mas há outra casa vazia mais adiante na rua que ele deve ter passado antes de chegar a esta. Por que não a destruiu ali, já que cada passo que dava aumentava o risco de encontrar alguém?”
— “Desisto”, disse Lestrade.
Holmes apontou para o poste de luz acima de nossas cabeças.
— “Ele podia ver o que fazia aqui, e não podia lá. Essa foi a razão.”
— “Pela voz de Júpiter! É verdade”, exclamou o detetive. “Agora que penso nisso, o busto do Dr. Barnicot foi quebrado não muito longe de sua lâmpada vermelha. Bem, Sr. Holmes, que fare
mos agora?” — “Agora, Lestrade, o resto é com você. Se você levar este homem para a delegacia, terá feito um bom trabalho. Ele tem o busto na bolsa e, se você examinar a parte de trás da base, verá que o segredo que ele tanto buscou, e pelo qual cometeu tantos crimes, está escondido ali.” — Ele se virou para o homem, que, com as mãos algemadas, nos olhava com um ódio selvagem. — “É uma pena, Beppo”, disse Holmes. “Você deveria ter se mantido no caminho do trabalho honesto.”
O homem soltou um grunhido, e Lestrade o levou embora, ainda intrigado e cético em relação à teoria de Holmes. Quando eles saíram, meu amigo, com um movimento rápido e vigoroso, pegou o busto de cima da mesa e atirou-o com força contra o chão. Ele se estilhaçou em mil pedaços. Holmes ajoelhou-se entre os fragmentos e, com um grito de triunfo, ergueu um objeto que brilhou intensamente sob a luz da lâmpada. Era uma pérola, grande, redonda e de um brilho inigualável.
— A Pérola Negra dos Bórgias! — exclamou Holmes. — A história está completa. Watson, se você consultar os jornais da época em que Beppo foi preso, verá que o roubo da pérola na casa de Lorde Cantlemere foi o crime que causou tanto alvoroço. O culpado, acuado pela polícia, escondeu o produto do roubo no primeiro lugar que encontrou — o gesso ainda mole do busto que ele estava moldando. Ele foi preso, mas o busto já havia sido vendido. Após um ano, ele saiu, recuperou o rastro dos bustos e, um a um, destruiu-os para recuperar a joia que era sua condenação e sua única esperança de fortuna.
Fiquei estupefato com a simplicidade da solução. Holmes, com um sorriso de satisfação, guardou a pérola no bolso e deu por encerrado o caso que, por tantos dias, havia nos mantido em um estado de constante perplexidade e perigo.
Quando nosso visitante desapareceu, os movimentos de Sherlock Holmes foram de molde a prender nossa atenção. Ele começou pegando um pano branco limpo de uma gaveta e estendendo-o sobre a mesa. Em seguida, colocou seu busto recém-adquirido no centro do pano. Finalmente, apanhou seu chicote de montaria e desferiu um golpe certeiro no topo da cabeça de Napoleão. A figura partiu-se em fragmentos, e Holmes inclinou-se ansiosamente sobre os restos estilhaçados. No instante seguinte, com um forte grito de triunfo, ele ergueu uma lasca na qual um objeto redondo e escuro estava fixado como uma ameixa em um pudim.
“Cavalheiros”, exclamou ele, “permitam-me apresentar-lhes a famosa pérola negra dos Bórgia.”
Lestrade e eu permanecemos em silêncio por um momento e, então, por um impulso espontâneo, ambos começamos a aplaudir, como no clímax bem executado de uma peça de teatro. Um rubor surgiu nas faces pálidas de Holmes, e ele fez uma reverência para nós como o dramaturgo mestre que recebe a homenagem de seu público. Era em tais momentos que, por um instante, ele deixava de ser uma máquina de raciocinar e traía seu amor humano pela admiração e pelos aplausos. A mesma natureza singularmente orgulhosa e reservada que se afastava com desdém da notoriedade popular era capaz de ser profundamente comovida pelo deslumbramento e louvor espontâneos de um amigo.
“Sim, cavalheiros”, disse ele, “é a pérola mais famosa que existe atualmente no mundo, e tive a boa fortuna, por meio de uma corrente conectada de raciocínio indutivo, de rastreá-la desde o quarto do Príncipe de Colonna no Dacre Hotel, onde foi perdida, até o interior deste, o último dos seis bustos de Napoleão que foram fabricados pela Gelder & Co., de Stepney. Vocês se lembrarão, Lestrade, da sensação causada pelo desaparecimento desta joia valiosa e dos vãos esforços da polícia de Londres para recuperá-la. Fui eu mesmo consultado sobre o caso, mas não fui capaz de lançar qualquer luz sobre ele. A suspeita recaiu sobre a camareira da Princesa, que era italiana, e provou-se que ela tinha um irmão em Londres, mas falhamos em traçar qualquer conexão entre eles. O nome da camareira era Lucretia Venucci, e não há dúvida em minha mente de que este Pietro, que foi assassinado há duas noites, era o irmão. Tenho consultado as datas nos arquivos antigos do jornal e descobri que o desaparecimento da pérola foi exatamente dois dias antes da prisão de Beppo por algum crime violento — um evento que ocorreu na fábrica da Gelder & Co., no exato momento em que esses bustos estavam sendo feitos. Agora vocês veem claramente a sequência de eventos, embora os vejam, é claro, na ordem inversa daquela em que se apresentaram a mim. Beppo tinha a pérola em sua posse. Ele pode tê-la roubado de Pietro, pode ter sido confederado de Pietro, pode ter sido o intermediário entre Pietro e sua irmã. Não tem importância para nós qual é a solução correta.
“O fato principal é que ele tinha a pérola e, naquele momento, quando ela estava com ele, foi perseguido pela polícia. Ele dirigiu-se à fábrica onde trabalhava e sabia que tinha apenas alguns minutos para esconder esse prêmio enormemente valioso, que de outra forma seria encontrado com ele quando fosse revistado. Seis moldes de gesso de Napoleão estavam secando no corredor. Um deles ainda estava úmido. Em um instante, Beppo, um operário habilidoso, fez um pequeno buraco no gesso úmido, deixou cair a pérola e, com alguns toques, cobriu a abertura novamente. Foi um esconderijo admirável. Ninguém poderia possivelmente encontrá-la. Mas Beppo foi condenado a um ano de prisão e, nesse ínterim, seus seis bustos foram espalhados por Londres. Ele não podia dizer qual continha seu tesouro. Somente quebrando-os ele poderia ver. Nem mesmo sacudi-los lhe diria nada, pois, como o gesso estava úmido, era provável que a pérola aderisse a ele — como, de fato, aconteceu. Beppo não se desesperou e conduziu sua busca com considerável engenhosidade e perseverança. Por meio de um primo que trabalha com a Gelder, ele descobriu as empresas varejistas que haviam comprado os bustos. Conseguiu emprego com Morse Hudson e, dessa maneira, localizou três deles. A pérola não estava lá. Então, com a ajuda de algum funcionário italiano, ele conseguiu descobrir para onde os outros três bustos haviam ido. O primeiro estava com Harker. Lá, ele foi seguido por seu confederado, que responsabilizava Beppo pela perda da pérola, e ele o esfaqueou na briga que se seguiu.”
“Se ele era seu confederado, por que carregaria sua fotografia?” perguntei.
“Como um meio de rastreá-lo, caso desejasse indagar sobre ele a qualquer terceira pessoa. Esse era o motivo óbvio. Bem, após o assassinato, calculei que Beppo provavelmente apressaria em vez de atrasar seus movimentos. Ele temeria que a polícia lesse seu segredo e, por isso, apressou-se antes que eles pudessem se antecipar. É claro que eu não poderia afirmar que ele não havia encontrado a pérola no busto de Harker. Eu nem tinha concluído com certeza que era a pérola, mas era evidente para mim que ele estava procurando por algo, já que levou o busto para além das outras casas a fim de quebrá-lo no jardim que tinha uma lâmpada voltada para ele. Como o busto de Harker era um de três, as chances eram exatamente como lhes disse — dois para um contra a pérola estar dentro dele. Restavam dois bustos, e era óbvio que ele iria primeiro para o de Londres. Avisei os moradores da casa, a fim de evitar uma segunda tragédia, e fomos lá, com os resultados mais felizes. Naquela altura, é claro, eu sabia com certeza que era a pérola dos Bórgia que estávamos buscando. O nome do homem assassinado ligava um evento ao outro. Restava apenas um único busto — o de Reading — e a pérola deveria estar lá. Comprei-o na presença de vocês do proprietário — e lá está ela.”
Sentamo-nos em silêncio por um momento.
“Bem”, disse Lestrade, “já o vi lidar com muitos casos, Sr. Holmes, mas não sei se já conheci um mais profissional do que este. Não temos inveja do senhor na Scotland Yard. Não, senhor, estamos muito orgulhosos do senhor e, se o senhor vier amanhã, não haverá um homem, do inspetor mais velho ao policial mais jovem, que não ficaria feliz em lhe apertar a mão.”
“Obrigado!” disse Holmes. “Obrigado!” e, enquanto ele se virava, pareceu-me que ele estava mais próximo de ser movido pelas emoções humanas mais suaves do que eu jamais o vira. Um momento depois, ele era novamente o pensador frio e prático. “Coloque a pérola no cofre, Watson”, disse ele, “e pegue os papéis do caso de falsificação Conk-Singleton. Adeus, Lestrade. Se algum pequeno problema surgir em seu caminho, ficarei feliz, se puder, em lhe dar uma dica ou duas quanto à sua solução.”
A AVENTURA DOS TRÊS ESTUDANTES
Foi no ano de 95 que uma combinação de eventos, nos quais não preciso entrar, fez com que o Sr. Sherlock Holmes e eu passássemos algumas semanas em uma de nossas grandes cidades universitárias, e foi durante esse período que a pequena, mas instrutiva, aventura que estou prestes a relatar nos aconteceu. Será óbvio que quaisquer detalhes que ajudassem o leitor a identificar exatamente a faculdade ou o criminoso seriam imprudentes e ofensivos. Um escândalo tão doloroso pode muito bem ser deixado morrer. Com a devida discrição, o incidente em si pode, no entanto, ser descrito, uma vez que serve para ilustrar algumas daquelas qualidades pelas quais meu amigo era notável. Esforçar-me-ei, em meu relato, para evitar termos que sirvam para limitar os eventos a qualquer lugar em particular, ou dar uma pista sobre as pessoas envolvidas.
Estávamos residindo na época em alojamentos mobiliados próximos a uma biblioteca onde Sherlock Holmes estava realizando algumas pesquisas laboriosas em antigas cartas inglesas — pesquisas que levaram a resultados tão notáveis que podem ser o assunto de uma das minhas futuras narrativas. Foi aqui que, certa noite, recebemos a visita de um conhecido, o Sr. Hilton Soames, tutor e professor no College of St. Luke’s. O Sr. Soames era um homem alto e magro, de temperamento nervoso e excitável. Eu sempre o conhecera por ser inquieto em seus modos, mas, nesta ocasião em particular, ele estava em um estado de agitação incontrolável, de modo que era claro que algo muito incomum havia ocorrido.
“Confio, Sr. Holmes, que o senhor possa me poupar algumas horas de seu valioso tempo. Tivemos um incidente muito doloroso em St. Luke’s e, realmente, não fosse pela feliz coincidência de o senhor estar na cidade, eu não saberia o que fazer.”
“Estou muito ocupado agora e não desejo distrações”, respondeu meu amigo. “Eu preferiria muito mais que o senhor recorresse à ajuda da polícia.”
“Não, não, meu caro senhor; tal curso é totalmente impossível. Quando a lei é invocada, ela não pode ser interrompida novamente, e este é exatamente um daqueles casos em que, pelo crédito da faculdade, é essencial evitar o escândalo. Sua discrição é tão conhecida quanto seus poderes, e o senhor é o único homem no mundo que pode me ajudar. Imploro-lhe, Sr. Holmes, que faça o que puder.”
O temperamento do meu amigo não havia melhorado desde que fora privado do ambiente familiar de Baker Street. Sem seus álbuns de recortes, seus produtos químicos e sua desordem caseira, ele era um homem desconfortável. Ele encolheu os ombros em uma aquiescência pouco graciosa, enquanto nosso visitante, com palavras apressadas e muita gesticulação excitável, despejava sua história.
“Devo explicar-lhe, Sr. Holmes, que amanhã é o primeiro dia do exame para a Bolsa Fortescue. Sou um dos examinadores. Minha matéria é grego, e a primeira das provas consiste em uma longa passagem de tradução de grego que o candidato não viu. Esta passagem é impressa na folha de exame, e seria, naturalmente, uma vantagem imensa se o candidato pudesse prepará-la com antecedência. Por esta razão, toma-se muito cuidado para manter a prova em segredo.
“Hoje, por volta das três horas, as provas desta folha chegaram dos impressores. O exercício consiste em meio capítulo de Tucídides. Tive de lê-lo cuidadosamente, pois o texto deve estar absolutamente correto. Às quatro e trinta, minha tarefa ainda não estava concluída. Eu, porém, havia prometido tomar chá nos aposentos de um amigo, então deixei a prova sobre minha escrivaninha. Estive ausente por pouco mais de uma hora.
“O senhor está ciente, Sr. Holmes, de que nossas portas da faculdade são duplas — uma de baeta verde por dentro e uma pesada de carvalho por fora. Ao me aproximar da minha porta externa, fiquei surpreso ao ver uma chave nela. Por um instante, imaginei que tivesse deixado a minha lá, mas, ao sentir meu bolso, descobri que estava tudo bem. A única duplicata que existia, até onde eu sabia, era a que pertencia ao meu criado, Bannister — um homem que cuidou do meu quarto por dez anos e cuja honestidade está absolutamente acima de qualquer suspeita. Descobri que a chave era de fato dele, que ele havia entrado no meu quarto para saber se eu queria chá e que ele havia deixado a chave na porta muito descuidadamente quando saiu. Sua visita ao meu quarto deve ter sido dentro de poucos minutos depois que saí. Seu esquecimento sobre a chave teria importado pouco em qualquer outra ocasião, mas neste dia ele produziu as consequências mais deploráveis.
“No momento em que olhei para minha mesa, percebi que alguém havia remexido meus papéis. A prova estava em três longas folhas. Eu as deixara todas juntas. Agora, descobri que uma delas estava caída no chão, uma estava na mesa lateral perto da janela e a terceira estava onde eu a havia deixado.”
Holmes mexeu-se pela primeira vez.
“A primeira página no chão, a segunda na janela, a terceira onde você a deixou”, disse ele.
“Exatamente, Sr. Holmes. O senhor me surpreende. Como poderia saber disso?”
“Por favor, continue seu relato muito interessante.”
“Por um instante, imaginei que Bannister tivesse tomado a liberdade imperdoável de examinar meus papéis. Ele negou, porém, com a maior seriedade, e estou convencido de que ele estava dizendo a verdade. A alternativa era que alguém que passava tivesse observado a chave na porta, soubesse que eu estava fora e tivesse entrado para olhar os papéis. Uma grande soma de dinheiro está em jogo, pois a bolsa é muito valiosa, e um homem inescrupuloso poderia muito bem correr um risco para obter uma vantagem sobre seus colegas.
“Bannister ficou muito perturbado com o incidente. Ele quase desmaiou quando descobrimos que os papéis tinham sido inequivocamente adulterados. Dei-lhe um pouco de conhaque e deixei-o desfalecido em uma cadeira, enquanto eu fazia um exame muito cuidadoso do quarto. Logo vi que o intruso havia deixado outros vestígios de sua presença além dos papéis amassados. Sobre a mesa na janela havia várias aparas de um lápis que havia sido apontado. Uma ponta de grafite quebrada também estava lá. Evidentemente, o patife havia copiado o papel com muita pressa, quebrado seu lápis e sido forçado a fazer uma nova ponta nele.”
“Excelente!” disse Holmes, que estava recuperando seu bom humor à medida que sua atenção se tornava mais absorvida pelo caso. “A sorte tem sido sua amiga.”
“Isso não foi tudo. Tenho uma nova escrivaninha com uma bela superfície de couro vermelho. Estou pronto para jurar, e Bannister também, que ela estava lisa e sem manchas. Agora, encontrei um corte limpo nela com cerca de três polegadas de comprimento — não um simples arranhão, mas um corte positivo. Não apenas isso, mas na mesa encontrei uma pequena bola de massa ou argila preta, com partículas do que parece ser serragem nela. Estou convencido de que essas marcas foram deixadas pelo homem que revistou os papéis. Não havia pegadas e nenhuma outra evidência quanto à sua identidade. Eu estava no meu limite quando, de repente, ocorreu-me a feliz ideia de que o senhor estava na cidade, e vim direto para colocar o assunto em suas mãos. Ajude-me, Sr. Holmes. O senhor vê meu dilema. Ou devo encontrar o homem ou então o exame deve ser adiado até que novas provas sejam preparadas e, como isso não pode ser feito sem explicações, seguirá um escândalo horrível, que lançará uma sombra não apenas sobre a faculdade, mas sobre a universidade. Acima de tudo, desejo resolver o assunto de forma tranquila e discreta.”
“Ficarei feliz em examinar o caso e dar-lhe o conselho que puder”, disse Holmes, levantando-se e vestindo seu sobretudo. “O caso não é totalmente desprovido de interesse. Alguém o visitou em seu quarto depois que os papéis chegaram até o senhor?”
“Sim, o jovem Daulat Ras, um estudante indiano que mora na mesma escadaria, entrou para me perguntar alguns detalhes sobre o exame.”
“Para o qual ele estava inscrito?”
“Sim.”
“E os papéis estavam na sua mesa?”
“Até onde sei, estavam enrolados.”
“Mas poderiam ser reconhecidos como provas?”
“Possivelmente.”
“Mais ninguém no seu quarto?”
“Não.”
“Alguém sabia que essas provas estariam lá?”
“Ninguém além do impressor.”
“Este homem Bannister sabia?”
“Não, certamente não. Ninguém sabia.”
“Onde está Bannister agora?”
“Ele estava muito doente, pobre rapaz. Deixei-o desfalecido na cadeira. Eu estava com tanta pressa para vir ao senhor.”
“O senhor deixou sua porta aberta?”
“Tranquei os papéis primeiro.”
“Então se resume a isto, Sr. Soames: que, a menos que o estudante indiano tenha reconhecido o rolo como sendo provas, o homem que os adulterou deparou-se com eles acidentalmente, sem saber que estavam lá.”
“Assim me parece.”
Holmes deu um sorriso enigmático.
“Bem”, disse ele, “vamos lá. Não é um dos seus casos, Watson — mental, não físico. Tudo bem; venha se quiser. Agora, Sr. Soames — à sua disposição!”
A sala de estar de nosso cliente abria-se por uma janela longa, baixa e gradeada para o antigo pátio, manchado de líquen, da velha faculdade. Uma porta em arco gótico levava a uma escadaria de pedra gasta. No andar térreo ficava o quarto do tutor. Acima, havia três estudantes, um em cada andar. Já era crepúsculo quando chegamos ao local do nosso problema. Holmes parou e olhou seriamente para a janela. Então ele se aproximou dela e, ficando na ponta dos pés com o pescoço esticado, olhou para dentro do quarto.
“Ele deve ter entrado pela porta. Não há abertura, exceto aquela vidraça”, disse nosso douto guia.
“Ora, veja só!” disse Holmes, e ele sorriu de uma maneira singular enquanto olhava para nosso companheiro. “Bem, se não há nada para ser aprendido aqui, é melhor entrarmos.”
O professor destrancou a porta externa e nos conduziu ao seu quarto. Ficamos na entrada enquanto Holmes fazia um exame do tapete.
“Receio que não haja sinais aqui”, disse ele. “Dificilmente se poderia esperar algum em um dia tão seco. Seu criado parece ter se recuperado completamente. O senhor o deixou em uma cadeira, diz o senhor. Qual cadeira?”
“Perto da janela, ali.”
“Entendo. Perto desta pequena mesa. Podem entrar agora. Terminei com o tapete. Vamos começar pela pequena mesa. É claro, o que aconteceu está muito claro. O homem entrou e pegou os papéis, folha por folha, da mesa central. Ele os levou para a mesa da janela, porque de lá ele podia ver se o senhor atravessava o pátio e, assim, podia efetuar uma fuga.”
“Na verdade, ele não poderia”, disse Soames, “pois entrei pela porta lateral.”
“Ah, isso é bom! Bem, de qualquer forma, isso estava em sua mente. Deixe-me ver as três tiras. Sem impressões digitais — não! Bem, ele levou esta primeiro e a copiou. Quanto tempo levaria para fazer isso, usando todas as contrações possíveis? Um quarto de hora, não menos. Então ele a jogou fora e pegou a seguinte. Ele estava no meio disso quando seu retorno o forçou a fazer um retiro muito apressado — muito apressado, já que não teve tempo de recolocar os papéis que lhe diriam que ele estivera lá. O senhor não percebeu nenhum pé apressado na escada quando entrou pela porta externa?”
“Não, não posso dizer que percebi.”
“Bem, ele escreveu com tanta fúria que quebrou o lápis e teve, como o senhor observa, que apontá-lo novamente. Isso é de interesse, Watson. O lápis não era comum. Era acima do tamanho habitual, com um grafite macio, a cor externa era azul-escura, o nome do fabricante estava impresso em letras prateadas, e o pedaço restante tem apenas cerca de uma polegada e meia de comprimento. Procure por tal lápis, Sr. Soames, e o senhor terá seu homem. Quando acrescento que ele possui uma faca grande e muito cega, o senhor tem uma ajuda adicional.”
O Sr. Soames ficou um tanto sobrecarregado por essa enxurrada de informações. “Posso acompanhar os outros pontos”, disse ele, “mas, realmente, nesta questão do comprimento...”
Holmes estendeu uma pequena lasca com as letras NN e um espaço de madeira clara depois delas.
“O senhor vê?”
“Não, receio que mesmo agora...”
“Watson, eu sempre lhe fiz uma injustiça. Há outros. O que poderia ser esse NN? Está no fim de uma palavra. Você sabe que Johann Faber é o nome de fabricante mais comum. Não está claro que resta tanto lápis quanto normalmente segue o Johann?” Ele segurou a pequena mesa de lado à luz elétrica. “Esperava que, se o papel em que ele escrevia fosse fino, algum vestígio pudesse transparecer nesta superfície polida. Não, não vejo nada. Não acho que haja mais a aprender aqui. Agora, a mesa central. Esta pequena pastilha é, presumo, a massa preta e pastosa de que falaste. Aproximadamente piramidal em forma e oca, percebo. Como dizes, parecem haver grãos de serragem nela. Caramba, isso é muito interessante. E o corte — uma rasga positiva, vejo. Começou com um risco fino e terminou em um buraco irregular. Estou muito em dívida contigo por direcionar minha atenção a este caso, Sr. Soames. Para onde leva aquela porta?”
“Para o meu quarto.”
“Você esteve nele desde sua aventura?”
“Não, vim direto para você.”
“Gostaria de dar uma olhada. Que sala encantadora, à moda antiga! Talvez possa esperar um minuto, até que eu examine o chão. Não, não vejo nada. E essa cortina? Você pendura suas roupas atrás dela. Se alguém fosse forçado a se ocultar nesta sala, teria de fazê-lo lá, pois a cama é baixa demais e o armário raso demais. Ninguém lá, suponho?”
Quando Holmes puxou a cortina, percebi, pela pequena rigidez e alerta de sua postura, que ele estava preparado para uma emergência. Na verdade, a cortina aberta não revelava nada além de três ou quatro trajes pendurados numa fileira de ganchos. Holmes virou-se e curvou-se repentinamente ao chão.
“Halloa! O que é isto?” disse ele.
Era uma pequena pirâmide de material negro, parecido com massa de modelar, exatamente como a que estava sobre a mesa do estudo. Holmes segurou-a na palma aberta sob a luz da lâmpada elétrica.
“Seu visitante parece ter deixado vestígios tanto em seu quarto quanto em sua sala de estar, Sr. Soames.”
“O que ele poderia ter querido ali?”
“Acho que está suficientemente claro. Você voltou por um caminho inesperado, e ele não teve aviso até que você estivesse à porta. O que poderia fazer? Apanhou tudo que o traíra e correu para o seu quarto para se ocultar.”
“Bom Deus, Sr. Holmes, quer dizer-me que, enquanto eu falava com Bannister nesta sala, tínhamos o homem preso se soubéssemos?”
“Então eu leio isso.”
“Certamente há outra alternativa, Sr. Holmes. Não sei se observou a janela do meu quarto?”
“De guilhotina, estrutura de chumbo, três janelas separadas, uma balançando sobre dobradiça, e grande o suficiente para admitir um homem.”
“Exatamente. E ela dá para um ângulo do pátio de modo a ficar parcialmente invisível. O homem pode ter entrado por ali, deixado vestígios ao passar pelo quarto e, finalmente, encontrando a porta aberta, escapado por esse caminho.”
Holmes balançou a cabeça impacientemente.
“Sejamos práticos”, disse ele. “Entendo que haja três estudantes que usam esta escada e costumam passar pela sua porta?”
“Sim, há.”
“E todos estão inscritos para este exame?”
“Sim.”
“Tem algum motivo para suspeitar de algum deles mais do que dos outros?”
Soames hesitou.
“É uma questão muito delicada”, disse ele. “Mal se gosta de lançar suspeitas onde não há provas.”
“Ouça as suspeitas. Eu cuidarei das provas.”
“Direi, então, em poucas palavras o caráter dos três homens que habitam esses quartos. O mais baixo dos três é Gilchrist, um estudioso e atleta exímio, joga no time de rúgbi e no de críquete da faculdade, e recebeu seu Blue nos obstáculos e no salto em distância. É um jovem vigoroso e viril. Seu pai foi o notório Sir Jabez Gilchrist, que se arruinou nos corridas de cavalos. Meu estudante ficou muito pobre, mas é trabalhador e industrioso. Irã bem.
“No segundo andar mora Daulat Ras, o indiano. É um sujeito calmo e inescrutável, como a maioria dos indianos. Está bem nos estudos, embora seu grego seja seu ponto fraco. É estável e metódico.
“No andar superior pertence a Miles McLaren. É um jovem brilhante quando decide trabalhar — uma das mentes mais brilhantes da universidade; mas é volúvel, dissipado e sem princípios. Quase foi expulso por um escândalo de cartas no primeiro ano. Tem vadiado todo este semestre e olha para o exame com terror.”
“Então é ele quem você suspeita?”
“Não ouso ir tão longe. Mas, dos três, ele é talvez o menos improvável.”
“Exatamente. Agora, Sr. Soames, vejamos seu criado, Bannister.”
Era um rapaz de rosto pálido, sem barba, cabelos grisalhos, de cinquenta anos. Ainda sofria com a súbita perturbação da rotina tranquila de sua vida. Seu rosto rechoncho tremia de nervosismo, e os dedos não paravam quietos.
“Estamos investigando este caso infeliz, Bannister”, disse seu mestre.
“Sim, senhor.”
“Entendo”, disse Holmes, “que você deixou a chave na porta?”
“Sim, senhor.”
“Não foi extraordinário fazer isso no mesmo dia em que havia papéis dentro?”
“Foi muito infeliz, senhor. Mas às vezes fiz a mesma coisa em outras ocasiões.”
“Quando entrou no quarto?”
“Por volta de quatro e meia. Esse é o horário do chá do Sr. Soames.”
“Quanto tempo ficou?”
“Quando vi que ele estava ausente, retirei-me de imediato.”
“Olhou os papéis na mesa?”
“Não, senhor—certamente não.”
“Como deixou a chave na porta?”
“Tinha a bandeja de chá na mão. Pensei que voltaria pela chave. Então esqueci.”
“A porta externa tem fechadura de mola?”
“Não, senhor.”
“Então ficou aberta o tempo todo?”
“Sim, senhor.”
“Qualquer um no quarto poderia sair?”
“Sim, senhor.”
“Quando o Sr. Soames retornou e o chamou, você ficou muito perturbado?”
“Sim, senhor. Nunca aconteceu isso nos muitos anos que estou aqui. Quase desmaiei, senhor.”
“Então compreendo. Onde estava quando começou a sentir-se mal?”
“Onde eu estava, senhor? Aqui, perto da porta.”
“Isto é singular, pois sentou naquela cadeira ali perto do canto. Por que passou por essas outras cadeiras?”
“Não sei, senhor, não me importava onde sentava.”
“Realmente não acho que ele soubesse muito disso, Sr. Holmes. Ele parecia muito mal — absolutamente pálido.”
“Você ficou aqui quando seu mestre saiu?”
“Só por um minuto ou dois. Depois tranquei a porta e fui ao meu quarto.”
“A quem suspeita?”
“Ah, não me aventuraria a dizer, senhor. Não acredito que haja qualquer cavalheiro nesta universidade capaz de lucrar com tal ação. Não, senhor, não acredito nisso.”
“Obrigado, isso basta”, disse Holmes. “Ah, mais uma coisa. Não mencionou a nenhum dos três cavalheiros a quem atende que algo está errado?”
“Não, senhor—uma
“O que aconteceu foi o seguinte. Este jovem rapaz empregara a sua tarde nos campos de atletismo, onde vinha a praticar o salto. Regressou carregando os seus sapatos de salto, que são providos, como sabe, de vários espigões afiados. Ao passar pela sua janela, ele viu, graças à sua grande estatura, estas provas sobre a sua mesa e conjecturou o que seriam. Nenhum mal teria sido feito se não fosse pelo facto de, ao passar pela sua porta, ter percebido a chave que fora deixada pelo desleixo do seu criado. Um impulso súbito apoderou-se dele para entrar e ver se eram, de facto, as provas. Não era um feito perigoso, pois poderia sempre fingir que tinha simplesmente espreitado para fazer uma pergunta.
“Bem, quando ele viu que eram, de facto, as provas, foi então que cedeu à tentação. Ele colocou os seus sapatos sobre a mesa. O que foi que o senhor colocou sobre aquela cadeira perto da janela?”
“Luvas”, disse o jovem.
Holmes olhou triunfante para Bannister. “Ele colocou as suas luvas sobre a cadeira e pegou nas provas, folha por folha, para as copiar. Ele pensou que o tutor devia regressar pelo portão principal e que o veria. Como sabemos, ele voltou pelo portão lateral. De repente, ouviu-o mesmo à porta. Não havia fuga possível. Esqueceu as suas luvas, mas agarrou nos seus sapatos e precipitou-se para o quarto. Observe que o arranhão naquela mesa é ligeiro de um lado, mas aprofunda-se na direção da porta do quarto. Isso, por si só, é suficiente para nos mostrar que o sapato foi arrastado naquela direção e que o culpado se refugiou ali. A terra em volta do espigão tinha ficado na mesa, e uma segunda amostra soltou-se e caiu no quarto. Posso acrescentar que caminhei até aos campos de atletismo esta manhã, vi que aquela argila preta tenaz é usada na caixa de saltos e trouxe comigo uma amostra, juntamente com um pouco daquela areia fina ou serradura que é espalhada sobre ela para evitar que o atleta escorregue. Disse a verdade, Sr. Gilchrist?”
O estudante tinha-se posto de pé.
“Sim, senhor, é verdade”, disse ele.
“Valha-me Deus! Não tem nada a acrescentar?” gritou Soames.
“Sim, senhor, tenho, mas o choque desta exposição vergonhosa deixou-me atordoado. Tenho aqui uma carta, Sr. Soames, que lhe escrevi hoje de manhã cedo, a meio de uma noite agitada. Foi antes de saber que o meu pecado me tinha descoberto. Aqui está, senhor. Verá que escrevi: ‘Decidi não participar no exame. Foi-me oferecida uma comissão na Polícia da Rodésia e vou partir imediatamente para a África do Sul’.”
“Fico, de facto, satisfeito por saber que não pretendia tirar proveito da sua vantagem injusta”, disse Soames. “Mas por que mudou de intenções?”
Gilchrist apontou para Bannister.
“Ali está o homem que me colocou no caminho certo”, disse ele.
“Vamos agora, Bannister”, disse Holmes. “Ficará claro para si, pelo que disse, que só o senhor poderia ter deixado este jovem sair, uma vez que ficou na sala e deve ter trancado a porta quando saiu. Quanto à sua fuga por aquela janela, era incrível. Não pode esclarecer o último ponto deste mistério e dizer-nos as razões da sua atitude?”
“Era bastante simples, senhor, se só soubesse, mas, com toda a sua inteligência, era impossível que pudesse saber. Houve um tempo, senhor, em que fui mordomo do velho Sir Jabez Gilchrist, o pai deste jovem cavalheiro. Quando ele faliu, vim para a faculdade como criado, mas nunca me esqueci do meu antigo patrão porque ele estava em dificuldades. Vigiei o filho dele tanto quanto pude por causa dos velhos tempos. Bem, senhor, quando entrei nesta sala ontem, quando o alarme foi dado, a primeira coisa que vi foram as luvas de camurça do Sr. Gilchrist a jazem naquela cadeira. Conhecia bem aquelas luvas e compreendi a sua mensagem. Se o Sr. Soames as visse, o jogo tinha acabado. Deixei-me cair naquela cadeira e nada me faria mover até que o Sr. Soames fosse buscá-lo. Depois, o meu pobre jovem mestre, a quem tinha embalado nos meus joelhos, saiu e confessou-me tudo. Não era natural, senhor, que eu o salvasse, e não era também natural que tentasse falar-lhe como o seu falecido pai teria feito, e fazê-lo compreender que não podia tirar proveito de tal ação? Poderia culpar-me, senhor?”
“Não, de facto”, disse Holmes, calorosamente, saltando para os seus pés. “Bem, Soames, penso que resolvemos o seu pequeno problema e o nosso pequeno-almoço espera-nos em casa. Vamos, Watson! Quanto a si, senhor, espero que um futuro brilhante o aguarde na Rodésia. Por uma vez, caiu baixo. Vamos ver, no futuro, quão alto pode subir.”
A AVENTURA DO PINCENÊ DOURADO
Quando olho para os três volumes maciços de manuscritos que contêm o nosso trabalho do ano de 1894, confesso que me é muito difícil, de entre tamanha riqueza de material, selecionar os casos que são mais interessantes em si mesmos e, ao mesmo tempo, mais conducentes a uma demonstração daqueles poderes peculiares pelos quais o meu amigo era famoso. À medida que folheio as páginas, vejo as minhas notas sobre a história repulsiva da sanguessuga vermelha e a terrível morte de Crosby, o banqueiro. Encontro aqui também um relato da tragédia de Addleton e o conteúdo singular do antigo túmulo britânico. O famoso caso da sucessão Smith-Mortimer também ocorre neste período, tal como a perseguição e detenção de Huret, o assassino do Boulevard — um feito que valeu a Holmes uma carta autografada de agradecimento do Presidente francês e a Ordem da Legião de Honra. Cada um deles forneceria uma narrativa, mas, no geral, sou da opinião de que nenhum deles reúne tantos pontos singulares de interesse como o episódio de Yoxley Old Place, que inclui não só a lamentável morte do jovem Willoughby Smith, mas também aqueles desenvolvimentos subsequentes que lançaram uma luz tão curiosa sobre as causas do crime.
Era uma noite selvagem e tempestuosa, perto do fim de novembro. Holmes e eu sentámo-nos juntos em silêncio durante toda a noite, ele ocupado com uma lente poderosa a decifrar os vestígios da inscrição original num palimpsesto, eu mergulhado num tratado recente sobre cirurgia. Lá fora, o vento uivava pela Baker Street, enquanto a chuva batia ferozmente contra as janelas. Era estranho ali, nas profundezas da cidade, com dez milhas de obra humana à nossa volta, sentir o aperto de ferro da Natureza e ter a consciência de que, para as enormes forças elementares, toda a Londres não era mais do que as toupeiras que pontilham os campos. Caminhei até à janela e olhei para a rua deserta. Os candeeiros ocasionais brilhavam na extensão da estrada lamacenta e do pavimento reluzente. Um único táxi abria caminho desde o lado da Oxford Street.
“Bem, Watson, ainda bem que não temos de sair esta noite”, disse Holmes, deixando de lado a sua lente e enrolando o palimpsesto. “Já fiz o suficiente por uma sessão. É um trabalho cansativo para os olhos. Pelo que consigo perceber, não é nada mais excitante do que as contas de uma Abadia datadas da segunda metade do século XV. Olá! olá! olá! O que é isto?”
Por entre o zumbido do vento, ouvira-se o bater dos cascos de um cavalo e o longo ranger de uma roda ao raspar contra o lancil. O táxi que eu vira tinha parado à nossa porta.
“O que quererá ele?” exclamei, enquanto um homem saía dele.
“Querer? Ele quer-nos a nós. E nós, meu pobre Watson, queremos sobretudos, gravatas, galochas e todos os auxílios que o homem alguma vez inventou para combater o tempo. Espere um pouco, no entanto! Lá vai o táxi outra vez! Ainda há esperança. Ele tê-lo-ia mantido se quisesse que fôssemos. Desça, meu caro amigo, e abra a porta, pois todas as pessoas virtuosas já estão na cama há muito tempo.”
Quando a luz da lâmpada do corredor caiu sobre o nosso visitante da meia-noite, não tive dificuldade em reconhecê-lo. Era o jovem Stanley Hopkins, um detetive promissor, na carreira do qual Holmes tinha, por diversas vezes, mostrado um interesse muito prático.
“Ele está?” perguntou ele, ansiosamente.
“Suba, meu caro senhor”, disse a voz de Holmes lá de cima. “Espero que não tenha planos contra nós numa noite como esta.”
O detetive subiu as escadas e a nossa lâmpada brilhou sobre o seu impermeável cintilante. Ajudei-o a despi-lo, enquanto Holmes batia nos troncos da lareira para fazer subir as chamas.
“Agora, meu caro Hopkins, chegue-se e aqueça os pés”, disse ele. “Aqui tem um charuto, e o doutor tem uma receita que contém água quente e um limão, que é um bom remédio numa noite como esta. Deve ser algo importante que o trouxe para fora com este vendaval.”
“É, de facto, Sr. Holmes. Tive uma tarde agitada, garanto-lhe. Vi alguma coisa sobre o caso de Yoxley nas últimas edições?”
“Não vi nada mais recente do que o século XV hoje.”
“Bem, foi apenas um parágrafo, e totalmente errado, por isso não perdeu nada. Não deixei a erva crescer debaixo dos meus pés. É em Kent, a sete milhas de Chatham e a três da linha férrea. Fui chamado por telegrama às 3:15, cheguei a Yoxley Old Place às 5, conduzi a minha investigação, estava de volta a Charing Cross no último comboio e vim direto para si de táxi.”
“O que significa, suponho, que não está muito esclarecido quanto ao seu caso?”
“Significa que não consigo tirar nem pés nem cabeça disto. Pelo que vejo, é um negócio tão confuso como qualquer outro que já tenha tratado, e, no entanto, ao princípio, parecia tão simples que ninguém se poderia enganar. Não há motivo, Sr. Holmes. É isso que me incomoda — não consigo encontrar um motivo. Aqui está um homem morto — não há como negar isso — mas, pelo que vejo, não há razão na terra para que alguém lhe desejasse mal.”
Holmes acendeu o seu charuto e recostou-se na sua cadeira.
“Vamos ouvir sobre isso”, disse ele.
“Tenho os meus factos bastante claros”, disse Stanley Hopkins. “Tudo o que quero agora é saber o que significam todos eles. A história, pelo que consegui apurar, é assim. Há alguns anos, esta casa de campo, Yoxley Old Place, foi alugada por um homem idoso, que deu o nome de Professor Coram. Ele era um inválido, mantendo-se na cama metade do tempo e, na outra metade, coxinhando pela casa com uma bengala ou sendo empurrado pelos jardins pelo jardineiro numa cadeira de rodas. Era bem visto pelos poucos vizinhos que o visitavam e tem a reputação, ali, de ser um homem muito erudito. O seu agregado familiar costumava consistir numa governanta idosa, a Sra. Marker, e numa criada, Susan Tarlton. Ambas estão com ele desde a sua chegada e parecem ser mulheres de excelente caráter. O professor está a escrever um livro erudito e achou necessário, há cerca de um ano, contratar um secretário. Os dois primeiros que tentou não foram um sucesso, mas o terceiro, o Sr. Willoughby Smith, um jovem recém-saído da universidade, parece ter sido exatamente o que o seu patrão queria. O seu trabalho consistia em escrever toda a manhã sob o ditado do professor, e ele passava geralmente a noite a procurar referências e passagens que tivessem relação com o trabalho do dia seguinte. Este Willoughby Smith não tem nada contra ele, quer como rapaz em Uppingham, quer como jovem em Cambridge. Vi as suas referências e, desde o início, foi um rapaz decente, silencioso e trabalhador, sem qualquer ponto fraco. E, no entanto, este é o rapaz que encontrou a morte esta manhã no escritório do professor, em circunstâncias que só podem apontar para homicídio.”
O vento uivava e gritava nas janelas. Holmes e eu aproximámo-nos do fogo, enquanto o jovem inspetor, lenta e ponto por ponto, desenvolvia a sua singular narrativa.
“Se fosse procurar por toda a Inglaterra”, disse ele, “não creio que pudesse encontrar um agregado familiar mais autónomo ou mais livre de influências externas. Passavam semanas inteiras sem que nenhum deles ultrapassasse o portão do jardim. O professor estava enterrado no seu trabalho e não vivia para mais nada. O jovem Smith não conhecia ninguém na vizinhança e vivia muito à semelhança do seu patrão. As duas mulheres não tinham nada que as tirasse da casa. Mortimer, o jardineiro, que empurra a cadeira de rodas, é um pensionista do exército — um velho homem da Crimeia de excelente caráter. Ele não vive na casa, mas num chalé de três divisões na outra extremidade do jardim. Essas são as únicas pessoas que encontraria dentro dos terrenos de Yoxley Old Place. Ao mesmo tempo, o portão do jardim fica a cem jardas da estrada principal de Londres para Chatham. Abre-se com um trinco e não há nada que impeça alguém de entrar.
“Agora, vou dar-lhe o testemunho de Susan Tarlton, que é a única pessoa que pode dizer algo de positivo sobre o assunto. Foi de manhã, entre as onze e as doze. Ela estava ocupada no momento a pendurar umas cortinas no quarto do andar de cima, virado para a frente. O Professor Coram ainda estava na cama, pois, quando o tempo está mau, raramente se levanta antes do meio-dia. A governanta estava ocupada com algum trabalho nas traseiras da casa. Willoughby Smith tinha estado no seu quarto, que usa como sala de estar, mas a criada ouviu-o, naquele momento, passar pelo corredor e descer para o escritório imediatamente abaixo dela. Ela não o viu, mas diz que não se poderia enganar no seu passo rápido e firme. Ela não ouviu a porta do escritório fechar, mas, um minuto ou dois depois, houve um grito terrível na sala de baixo. Foi um grito selvagem e rouco, tão estranho e antinatural que poderia ter vindo de um homem ou de uma mulher. No mesmo instante, houve um baque pesado, que abalou a casa velha, e depois tudo ficou em silêncio. A criada ficou petrificada por um momento e, depois, recuperando a coragem, correu escada abaixo. A porta do escritório estava fechada e ela abriu-a. Lá dentro, o jovem Sr. Willoughby Smith estava estendido no chão. Ao princípio, ela não conseguiu ver qualquer ferimento, mas, ao tentar levantá-lo, viu que o sangue jorrava da parte inferior do seu pescoço. Estava atravessado por uma ferida muito pequena, mas muito profunda, que tinha seccionado a artéria carótida. O instrumento com que o ferimento fora infligido jazia no tapete ao lado dele. Era uma daquelas pequenas facas de lacre que se encontram em mesas de escrita antigas, com um cabo de marfim e uma lâmina rígida. Fazia parte do equipamento da própria secretária do professor.
“Ao princípio, a criada pensou que o jovem Smith já estava morto, mas, ao verter um pouco de água da garrafa sobre a sua testa, ele abriu os olhos por um instante. ‘O professor’, murmurou ele — ‘foi ela’. A criada está pronta a jurar que foram essas as palavras exatas. Ele tentou desesperadamente dizer mais alguma coisa e ergueu a mão direita no ar. Depois, caiu morto.
“Entretanto, a governanta também tinha chegado ao local, mas chegou tarde demais para ouvir as últimas palavras do jovem. Deixando Susan com o corpo, ela correu para o quarto do professor. Ele estava sentado na cama, horrivelmente agitado, pois ouvira o suficiente para o convencer de que algo terrível tinha ocorrido. A Sra. Marker está pronta a jurar que o professor ainda estava com a roupa de dormir e, de facto, era impossível para ele vestir-se sem a ajuda de Mortimer, cujas ordens eram de vir às doze horas. O professor declara que ouviu o grito distante, mas que não sabe mais nada. Não pode dar qualquer explicação para as últimas palavras do jovem, ‘O professor — foi ela’, mas imagina que foram o resultado de delírio. Ele acredita que Willoughby Smith não tinha um inimigo no mundo e não pode dar qualquer razão para o crime. A sua primeira ação foi enviar Mortimer, o jardineiro, para chamar a polícia local. Pouco depois, o chefe da polícia enviou-me um aviso. Nada foi movido antes de eu chegar lá, e foram dadas ordens estritas para que ninguém caminhasse nos caminhos que levam à casa. Foi uma oportunidade esplêndida de pôr as suas teorias em prática, Sr. Sherlock Holmes. Não faltava, realmente, nada.”
“Exceto o Sr. Sherlock Holmes”, disse o meu companheiro, com um sorriso um tanto amargo. “Bem, vamos ouvir sobre isso. Que tipo de trabalho fez?”
“Peço-lhe primeiro, Sr. Holmes, que dê uma vista de olhos neste esboço, que lhe dará uma ideia geral da posição do escritório do professor e dos vários pontos do caso. Ajudá-lo-á a acompanhar a minha investigação.”
Ele desenrolou o esboço, que aqui reproduzo, e colocou-o sobre os joelhos de Holmes. Levantei-me e, ficando atrás de Holmes, estudei-o por cima do seu ombro.
Escritório-do-Professor
“É muito rudimentar, claro, e trata apenas dos pontos que me parecem ser essenciais. Tudo o resto verá mais tarde por si mesmo. Ora, em primeiro lugar, presumindo que o assassino entrou na casa, como é que ele ou ela entrou? Sem dúvida pelo caminho do jardim e pela porta das traseiras, de onde há acesso direto ao escritório. Qualquer outro caminho teria sido excessivamente complicado. A fuga deve ter sido feita também por essa linha, pois, das duas outras saídas da sala, uma estava bloqueada por Susan enquanto ela corria para baixo e a outra leva diretamente ao quarto do professor. Por isso, dirigi a minha atenção imediatamente para o caminho do jardim, que estava saturado pela chuva recente e mostraria certamente quaisquer marcas de pés.
“O meu exame mostrou-me que eu estava a lidar com um criminoso cauteloso e experiente. Não se encontravam marcas de pés no caminho. Não poderia haver dúvida, no entanto, de que alguém tinha passado ao longo da borda de relva que ladeia o caminho, e que o tinha feito de modo a evitar deixar um rasto. Não consegui encontrar nada que se assemelhasse a uma impressão distinta, mas a relva estava pisada e alguém tinha, sem dúvida, passado. Só poderia ter sido o assassino, uma vez que nem o jardineiro nem ninguém tinha estado lá naquela manhã, e a chuva só tinha começado durante a noite.”
“Um momento”, disse Holmes. “Para onde leva este caminho?”
“Para a estrada.”
“Quanto tempo tem?”
“Cem jardas ou mais.”
“No ponto em que o caminho passa pelo portão, poderia certamente encontrar os rastos?”
“Infelizmente, o caminho era ladrilhado naquele ponto.”
“Bem, na própria estrada?”
“Não, estava tudo pisado em lama.”
“Tut-tut! Bem, então, estes rastos na relva, estavam a vir ou a ir?”
“Era impossível dizer. Nunca houve qualquer contorno.”
“Um pé grande ou pequeno?”
“Não se podia distinguir.”
Holmes deu um sinal de impaciência.
“Tem estado a cair chuva e a soprar um furacão desde então”, disse ele. “Será mais difícil de ler agora do que aquele palimpsesto. Bem, bem, não há nada a fazer. O que fez, Hopkins, depois de se certificar de que se tinha certificado de nada?”
“Creio ter constatado algo importante, Sr. Holmes. Sabia que alguém havia entrado na casa cautelosamente por fora. Em seguida examinei o corredor. Está forrado com tapete de coco e não deixou qualquer impressão. Isso levou-me ao próprio estudo. É um aposento escasamente mobiliado. O móvel principal é uma grande escrivaninha com um gabinete fixo. Esse gabinete consiste em duas colunas de gavetas, com um pequeno armário central entre elas. As gavetas estavam abertas, o armário trancado. As gavetas, ao que parece, estavam sempre abertas, e nada de valor era guardado nelas. Havia alguns papéis importantes no armário, mas não havia sinais de que houvesse sido violado, e o professor assegura-me que nada falta. É certo que nenhum roubo ocorreu.
“Venho agora falar do corpo do jovem. Foi encontrado próximo ao gabinete, e logo à sua esquerda, como indicado naquele diagrama. A facada está no lado direito do pescoço e, vindo de trás para a frente, de sorte que é quase impossível que tenha sido autoinfligida.”
“A menos que ele tenha caído sobre a faca”, disse Holmes.
“Exatamente. Essa ideia me passou pela cabeça. Mas achamos a faca a alguns pés do corpo, o que parece impossível. Depois, claro, há as últimas palavras do homem. E, por fim, havia esta prova muito importante, encontrada apertada na mão direita do morto.”
Do bolso, Stanley Hopkins tirou um pequeno pacote de papel. Desdobrou‑o e revelou um pince‑nez dourado, com duas pontas quebradas de cordão de seda negra pendendo da extremidade. “Willoughby Smith tinha excelente visão”, acrescentou. “Não há dúvida de que isso foi arrancado da face ou da pessoa do assassino.”
Sherlock Holmes pegou os óculos nas mãos e examinou‑os com a maior atenção e interesse. Colocou‑os no nariz, tentou ler através deles, foi à janela e fitou a rua com eles, observou‑os minuciosamente à luz plena da lâmpada e, finalmente, com uma risadinha, sentou‑se à mesa e escreveu algumas linhas num pedaço de papel, que lançou a Stanley Hopkins.
“É o melhor que consigo fazer por você”, disse ele. “Pode ser de alguma utilidade.”
O detetive, atônito, leu a nota em voz alta. Ela dizia:
“Procura‑se uma mulher de boa posição, vestida como dama. Tem nariz notavelmente grosso, com os olhos muito próximos um do outro, ao lado de cada parte do nariz. Tem a testa franzida, expressão perscrutadora, e provavelmente ombros arredondados. Há indícios de que tenha acudido a um óptico pelo menos duas vezes nos últimos meses. Como os óculos são de força extraordinária, e como os ópticos não são muitos, não deverá haver dificuldade em localizá‑la.”
Holmes sorriu à surpresa de Hopkins, que devia ter se refletido em minhas feições. “Certamente as minhas deduções são a própria simplicidade”, disse ele. “É difícil encontrar objeto que ofereça campo mais fino para inferência que um par de óculos, sobretudo um par tão notável como estes. Que pertençam a uma mulher deduzo pela delicadeza, e também, naturalmente, pelas últimas palavras do moribundo. Quanto ao fato de ser pessoa de refinamento e bem‑vestida, como percebe, estão elegantemente montados em ouro maciço, e é inconcebível que quem use tais óculos possa ser desleixado em outros aspectos. Notará que as hastes são largas demais para o seu nariz, revelando que o nariz da dama era muito largo na base. Esse tipo de nariz costuma ser curto e robusto, mas há número suficiente de exceções para que eu não seja dogmático nem insista nesse ponto na descrição. Meu próprio rosto é estreito, e mesmo assim não consigo colocar os meus olhos no centro, nem próximo do centro, destes óculos. Portanto, os olhos da dama ficam muito próximos das laterais do nariz. Perceberá, Watson, que os óculos são côncavos e de força incomum. Uma senhora cuja visão foi tão extremamente contraída durante toda a vida deve ter as características físicas dessa visão, visíveis na testa, nas pálpebras e nos ombros.”
“Sim”, disse eu, “posso seguir cada um dos seus argumentos. Confesso, porém, que não entiendo como chega à dupla visita ao óptico.”
Holmes pegou os óculos nas mãos.
“Perceberá”, disse ele, “que as hastes são forradas com minúsculas tiras de cortiça para suavizar a pressão sobre o nariz. Uma delas está descolorida e ligeiramente desgastada, mas a outra é nova. Evidentemente uma caiu e foi substituída. Julgaria que a mais antiga não está ali há mais de alguns meses. Corresponde exatamente, de modo que concluo que a senhora voltou ao mesmo estabelecimento para a segunda visita.”
“Pelo George, que maravilha!” exclamou Hopkins, em êxtase de admiração. “Pensar que eu tinha toda aquela prova nas mãos e nunca a notei! Eu pretendia, porém, percorrer o circuito dos ópticos de Londres.”
“Claro que faria. Enquanto isso, tem algo mais a nos contar sobre o caso?”
“Nada, Sr. Holmes. Creio que sabe tanto quanto eu agora—provavelmente mais. Fizemos inquéritos sobre algum estranho visto nas estradas rurais ou na estação ferroviária. Não ouvimos nada. O que me intriga é a total ausência de motivo no crime. Nem o menor fantasma de motivação alguém consegue sugerir.”
“Ah! Nessa parte não posso ajudá‑lo. Mas suponho que queira que venhamos amanhã?”
“Se não for pedir muito, Sr. Holmes. Há um trem de Charing Cross a Chatham às seis da manhã, e deveremos chegar a Yoxley Old Place entre oito e nove.”
“Então pegaremos. Seu caso tem, sem dúvida, traços de grande interesse, e ficarei encantado em investigá‑lo. Bem, são quase uma hora, e seria melhor dormirmos algumas horas. Creio que pode acomodar‑se bem no sofá à frente da lareira. Acenderei a lâmpada a álcool e lhe oferecerei uma chávena de café antes de partirmos.”
A ventania tinha cessado no dia seguinte, mas era uma manhã fria quando iniciámos a viagem. Vimos o sol de inverno erguer‑se sobre os pântanos lúgubres do Tâmisa e sobre os longos e melancólicos trechos do rio, que para sempre associarei à nossa perseguição ao indiano das Andaman nos primeiros dias da nossa carreira. Após longa e cansativa jornada, descemos numa pequena estação a algumas milhas de Chatham. Enquanto um cavalo era colocado numa carruagem na estalagem local, apanhámos um pequeno desjejum apressado, e assim estávamos prontos para o trabalho quando, finalmente, chegamos a Yoxley Old Place. Um guard‑carteiro encontrou‑nos no portão do jardim.
“Bem, Wilson, alguma novidade?”
“Não, senhor—nada.”
“Nenhum relato de estranho visto?”
“Não, senhor. Na estação têm a certeza de que nenhum estranho chegou ou partiu ontem.”
“Fizeram inquéritos em pousadas e albergues?”
“Sim, senhor: não há ninguém que não possamos localizar.”
“Bem, é apenas uma caminhada razoável até Chatham. Qualquer um pode ficar lá ou apanhar um comboio sem ser observado. Este é o caminho do jardim de que falei, Sr. Holmes. Dou a minha palavra de que não havia marca nele ontem.”
“Em que lado estavam as marcas na relva?”
“Neste lado, senhor. Esta estreita faixa de relva entre o caminho e o canteiro de flores. Não consigo ver os vestígios agora, mas estavam claros para mim então.”
“Sim, sim: alguém passou por aqui”, disse Holmes, curvando‑se sobre a borda da relva. “A nossa dama deve ter escolhido os passos com cuidado, não é? Pois, de um lado deixaria rasto no caminho, e do outro um ainda mais nítido no leito macio.”
“Sim, senhor, devia ter sido mão fria.”
Vi um olhar atento cruzar o rosto de Holmes.
“Diz que ela deve ter voltado por este caminho?”
“Sim, senhor, não há outra saída.”
“Nesta faixa de relva?”
“Certamente, Sr. Holmes.”
“Hum! Foi uma atuação notável—realmente notável. Bem, creio que esgotámos o caminho. Avancemos. Esta porta de jardim costuma ficar aberta, suponho? Então a visitante só precisava entrar. A ideia de assassinato não lhe ocorreu, senão teria providenciado alguma arma, em vez de ter de pegar a faca da escrivaninha. Avançou pelo corredor, sem deixar vestígios no tapete de coco. Depois encontrou‑se neste estudo. Quanto tempo ficou lá? Não temos meio de julgar.”
“Não mais que alguns minutos, senhor. Esqueci‑me de dizer que a senhorita Marker, a governanta, esteve a limpar lá não faz muito—cerca de quinze minutos, diz ela.”
“Bom, isso nos fixa um limite. A nossa senhora entra no aposento e o que faz? Vai até à escrivaninha. Para quê? Não procura nada nas gavetas. Se houvesse algo que valesse a pena levar, estaria trancado. Não, procura algo naquele gabinete de madeira. Halloa! que arranhão há na sua face? Segure um fósforo, Watson. Por que não me contou isto, Hopkins?”
O sinal que examinava começava no metal do lado direito da fechadura e estendia‑se por cerca de quatro polegadas, raspando o verniz da superfície.
“Notei‑o, Sr. Holmes, mas sempre há arranhões à volta de uma fechadura.”
“Isto é recente, muito recente. Veja como o metal brilha onde está cortado. Um arranhão antigo teria a mesma cor da superfície. Olhe‑o através da minha lente. Há o verniz, também, como terra a cada lado de uma sulco. A senhora Marker está aqui?”
Uma senhora de rosto triste e idade avançada entrou na sala.
“Limparam este gabinete ontem de manhã?”
“Sim, senhor.”
“Notou este arranhão?”
“Não, senhor, não notei.”
“Tenho a certeza de que não notou, pois um espanador teria varrido esses fragmentos de verniz. Quem tem a chave deste gabinete?”
“O Professor a mantém na sua corrente de relógio.”
“É uma chave simples?”
“Não, senhor, é uma chave Chubb’s.”
“Muito bem. Senhora Marker, pode retirar‑se. Agora estamos a avançar um pouco. A nossa dama entra, avança ao gabinete e tenta abri‑lo. Enquanto está assim ocupada
Vagamos a manhã inteira no jardim. Stanley Hopkins desceu à aldeia para investigar alguns rumores sobre uma mulher estranha que havia sido avistada por algumas crianças na Chatham Road na manhã anterior. Quanto ao meu amigo, toda a sua energia habitual parecia-lhe ter abandonado. Nunca o tinha visto conduzir um caso de forma tão desanimada. Até as notícias trazidas por Hopkins — de que havia encontrado as crianças, que certamente tinham visto uma mulher que correspondia exatamente à descrição de Holmes, usando óculos ou lunetas — não despertaram nele qualquer sinal de interesse aguçado. Ele tornou‑se mais atento quando Susan, que nos servia ao almoço, ofereceu a informação de que acreditava que o Sr. Smith tinha saído para passear na manhã de ontem, e que só regressara meia‑hora antes da tragédia ocorrer. Eu mesmo não conseguia perceber a relevância desse incidente, mas percebia claramente que Holmes o estava entrelaçando ao esquema geral que tinha formado na sua mente. De repente, saltou da cadeira e olhou para o relógio. — São duas horas, senhores — disse ele. — Temos de subir e confrontar o nosso amigo, o professor.
O velho acabara de terminar o almoço, e certamente o prato vazio dava testemunho do bom apetite com que a sua empregada lhe havia servido. Era, de fato, uma figura curiosa, ao virar a sua cabeleira branca e os olhos incandescentes para nós. O cigarro eterno ainda fumegava na sua boca. Estava vestido e sentado numa poltrona junto à lareira.
— Então, Sr. Holmes, já resolveu este mistério? — Ele empurrou a grande lata de cigarros que estava sobre a mesa ao lado dele na direção do meu companheiro. Holmes estendeu a mão ao mesmo tempo, e entre eles fizeram a caixa cair da borda. Por um ou dois minutos, ficámos de joelhos a recolher cigarros perdidos de lugares impossíveis. Quando nos levantámos novamente, observo que os olhos de Holmes brilhavam e as suas faces estavam coradas. Só em crise vi aqueles sinais de batalha a voar.
— Sim — disse ele — resolvi.
Stanley Hopkins e eu ficámos boquiabertos. Um sorriso sardônico tremulou sobre as feições cadavéricas do velho professor.
— De fato! No jardim?
— Não, aqui.
— Aqui! Quando?
— Neste instante.
— Está a brincar, Sr. Sherlock Holmes. Compel‑me a dizer‑lhe que isto é demasiado sério para ser tratado de forma tão leviana.
— Forjei e testei cada elo da minha corrente, Professor Coram, e tenho a certeza de que está sólida. Os seus motivos, ou a parte exacta que desempenha neste estranho negócio, ainda não consigo dizer. Dentro de poucos minutos ouvirei isso dos seus próprios lábios. Enquanto isso, reconstruirei o que já aconteceu para o seu benefício, para que conheça a informação que ainda preciso.
— Uma dama entrou ontem no seu escritório. Veio com a intenção de apoderar‑se de certos documentos que estavam no seu gabinete. Tinha uma chave própria. Tive oportunidade de examinar a sua, e não encontro a ligeira descoloração que o arranhão teria provocado no verniz. Portanto, não foi acessório, e ela veio, tanto quanto consigo ler nas provas, sem o seu conhecimento, para roubá‑lo.
O professor exalou uma nuvem dos lábios. — Isto é muito interessante e instrutivo — disse. — Não tem mais nada a acrescentar? Certamente, tendo rastreado tão bem esta dama, pode também dizer o que se tornou dela.
— Esforçar‑me‑ei para o fazer. Em primeiro lugar, foi presa pelo seu secretário, e esfaqueou‑o para escapar. Esta catástrofe inclino‑a a considerar um infeliz acidente, pois estou convencido de que a senhora não pretendia infligir um ferimento tão grave. Um assassino não vem desarmado. Horrorizada com o que fizera, fugiu descontrolada da cena da tragédia. Infelizmente para ela, perdeu os óculos na luta, e sendo extremamente míope ficou realmente indefesa sem eles. Correu por um corredor que imaginou ser o pelo qual entrara — ambos forrados com esteira de coco — e só quando já era tarde percebeu que havia tomado o caminho errado, tendo a sua fuga cortada atrás de si. O que fazer? Não podia voltar. Não podia permanecer onde estava. Tinha de seguir. Seguiu. Subiu um lance de escadas, empurrou uma porta e encontrou‑se no seu quarto.
O velho sentou‑se com a boca aberta, olhando‑o freneticamente. O espanto e o medo estampavam‑se nas suas feições expressivas. Então, com esforço, deu de ombros e rompeu num riso forçado.
— Tudo muito bem, Sr. Holmes — disse ele. — Mas há um pequeno defeito na sua esplêndida teoria. Eu estava no meu quarto, e não o deixei durante o dia.
— Estou ciente disso, Professor Coram.
— E pretende dizer que eu poderia estar deitado nessa cama sem saber que uma mulher entrou no meu quarto?
— Nunca afirmei isso. Você sabia. Conversou com ela. Reconheceu‑a. Ajudou‑a a escapar.
Novamente o professor riu descontroladamente. Levantou‑se, e os olhos lhe brilhavam como brasas.
— Você está louco! — gritou. — Está a falar insensatamente. Eu ajudei‑a a escapar? Onde está ela agora?
— Ela está ali — respondeu Holmes, apontando para uma estante alta no canto da sala.
Vi o velho erguer os braços, uma terrível convulsão cruzou o seu rosto sombrio, e despencou na cadeira. No mesmo instante, a estante para a qual Holmes apontara girou sobre uma dobradiça, e uma mulher precipitou‑se para a sala. — Você está certa! — exclamou, numa voz estranha e estrangeira. — Você está certa! Estou aqui.
Estava coberta de pó e revestida de teias que lhe vinham das paredes do seu esconderijo. O rosto, também, estava manchado de sujeira; jamais poderia ter sido bonita, pois possuía as exatas características físicas que Holmes havia deduzido, acrescidas de um queixo longo e obstinado. Pela sua cegueira natural, e pela mudança da escuridão para a luz, permanecia aturdida, piscando, tentando perceber onde e quem éramos. E ainda assim, apesar de todas essas desvantagens, havia uma certa nobreza na postura da mulher — uma galhardia no queixo desafiador e na cabeça erguida, que impunha respeito e admiração.
Stanley Hopkins colocou a mão no seu braço e reclamou‑a como prisioneira, mas ela afastou‑o delicadamente, com uma dignidade dominante que compeliu a obediência. O velho recostou‑se na cadeira, o rosto convulsionado, e fitou‑a com olhos pensativos.
— Sim, senhor, sou sua prisioneira — disse ela. — De onde eu estava, podia ouvir tudo, e sei que descobriram a verdade. Confesso tudo. Fui eu quem matou o jovem. Mas tem razão — o senhor diz que foi um acidente. Nem sequer sabia que era uma faca que eu segurava na mão; na minha desespero agarrei o que encontrava na mesa e golpei‑o para me deixar ir. Essa é a verdade que relato.
— Senhora — disse Holmes — tenho a certeza de que é a verdade. Receio que esteja longe de estar bem.
Ela ficou pálida, ainda mais cadavérica sob as manchas de pó escuro no rosto. Sentou‑se à beira da cama; então prosseguiu.
— Tenho pouco tempo aqui — disse — mas quero que conheça toda a verdade. Sou a esposa desse homem. Ele não é inglês; é russo. O nome não o revelarei.
Pela primeira vez, o velho moveu‑se. — Deus lhe dê, Anna! — exclamou — Deus lhe dê!
Lançou‑lhe um olhar de profundo desprezo. — Por que se apega tão ferozmente à sua miserável vida, Sergius? — indagou — tem causado dano a muitos e bem a nenhum, nem a si próprio. Contudo, não me cabe cortar o fio frágil antes da hora que Deus determinou. Já carrego suficiente sobre a minha alma desde que cruzei o limiar desta casa amaldiçoada. Mas devo falar, ou será tarde demais.
— Disse, senhores, que sou a esposa desse homem. Ele tinha cinquenta anos e eu, uma tola de vinte, quando nos casámos. Foi numa cidade da Rússia, numa universidade — não revelarei o lugar.
— Deus lhe dê, Anna! — murmurou o velho novamente.
— Éramos reformadores — revolucionários — nihilistas, compreende? Ele, eu e muitos outros. Houve então um tempo de problemas: um policial foi morto, muitos foram presos, provas eram procuradas, e para salvar a própria vida e receber grande recompensa, o meu marido traiu a sua esposa e os seus companheiros. Sim, fomos todos presos após a sua confissão. Alguns foram à forca, outros à Sibéria. Eu estava entre estes últimos, mas a minha pena não era de por vida. Ele veio à Inglaterra com os ganhos ilícitos e tem vivido em silêncio, sabendo que, se a Irmandade soubesse onde está, não passaria nem uma semana antes que a justiça fosse feita.
O velho estendeu uma mão trêmula e pegou um cigarro. — Estou nas suas mãos, Anna — disse. — Sempre foi boa comigo.
— Ainda não lhe contei a extensão da sua vilania — prosseguiu. — Entre os nossos camaradas da Ordem havia um que era amigo do meu coração. Era nobre, altruísta, amoroso — tudo o que meu marido não era. Odiava a violência. Todos nós éramos culpados — se assim se pode chamar — mas ele não era. Escrevia‑nos constantemente, dissuadindo‑nos desse caminho. Essas cartas teriam‑nos salvo. Também o meu diário, no qual, dia a dia, anotava tanto os meus sentimentos por ele como a visão que cada um de nós tinha. O meu marido encontrou‑os e os guardou. Escondia‑os, e tentou arduamente negar a vida do jovem. Falhou nisso, mas Alexis foi enviado como convictos à Sibéria, onde agora, neste momento, trabalha numa mina de sal. Pense nisso, seu vilão! — agora, neste mesmo instante, Alexis, um homem cujo nome você não tem o direito de pronunciar, trabalha e vive como escravo, e ainda assim tenho a sua vida nas minhas mãos, e deixo‑o ir.
— Sempre foi uma mulher nobre, Anna — disse o velho, soprando o cigarro.
Ela levantou‑se, mas caiu novamente com um pequeno gemido de dor.
— Preciso terminar — disse. — Quando a minha pena acabou, propus‑me obter o diário e as cartas que, se enviadas ao governo russo, libertariam o meu amigo. Sabia que o meu marido tinha vindo à Inglaterra. Depois de meses de busca, descobri onde estava. Sabia que ainda guardava o diário, pois quando eu estava na Sibéria recebi‑lhe uma carta, repreendendo‑me e citando trechos das suas páginas. Porém, tinha a certeza de que, com a sua natureza vingativa, nunca o entregaria de bom grado. Precisava recuperá‑lo. Para tal, contratei um agente de uma agência privada de detetives, que entrou na casa do meu marido como secretário — era o seu segundo secretário, Sergius, aquele que lhe deixou tão depressa. Ele descobriu que os papéis estavam no armário e fez um molde da chave. Não avançou mais. Forneceu‑me um plano da casa e contou‑me que, pela manhã, o estudo ficava sempre vazio, pois o secretário estava aqui. Assim, tomei coragem, desci e tomei os papéis eu mesma. Consegui‑os, mas a que preço!
— Eu acabara de apanhar o papel e estava a fechar o armário, quando o jovem me agarrou. Já o vira naquela manhã. Encontrara‑me na estrada e pedi‑lhe que me indicasse onde morava o Professor Coram, sem saber que trabalhava para ele.
— Exactamente! Exactamente! — exclamou Holmes. — O secretário regressou e relatou ao patrão a mulher que encontrara. Então, em seu último suspiro, tentou enviar a mensagem de que era ela — a mulher de que falara.
— Deixe‑me falar — disse a mulher, com voz imperativa, o rosto contraído como em dor. — Quando ele caiu, fugi do quarto, escolhi a porta errada e encontrei‑me no quarto do meu marido. Ele falava de me entregar. Mostrei‑lhe que, se o fizesse, a sua vida ficaria nas minhas mãos. Se me entregasse à lei, eu poderia entregá‑lo à Irmandade. Não era por querer viver por mim, mas para cumprir o meu objetivo. Ele sabia que eu faria o que dizia — que o seu próprio destino estava entrelaçado ao meu. Por isso, e por nada mais, protegeu‑me. Empurrou‑me para aquele esconderijo escuro — uma relíquia dos tempos antigos, conhecida só por ele. Tomava as suas refeições no próprio quarto, podendo assim dar‑me parte da sua comida. Concordou que, quando a polícia deixasse a casa, eu escaparia à noite e nunca mais voltaria. Mas, de algum modo, leram‑nos os planos.
Tirou do bolso do vestido um pequeno pacote. — Estas são as minhas últimas palavras — disse — aqui está o pacote que salvará Alexis. Confio‑o ao seu dever e ao seu amor pela justiça. Leve‑o! Entregue‑o à Embaixada Russa. Agora cumpri o meu dever, e—
— Parem‑a! — gritou Holmes. Corria‑se pela sala e arrancou-lhe o pequeno frasco da mão.
— Tarde demais! — disse ela, recostando‑se na cama. — Tarde demais! Tomei o veneno antes de deixar o esconderijo. A cabeça está a rodar! Vou morrer! Peço‑lhe, senhor, que se lembre do pacote.
— Um caso simples, e ainda assim, de certa forma, instrutivo — observou Holmes, enquanto regressávamos à cidade. — Dependia, desde o princípio, das pince‑nez. Mas, se não fosse pela feliz coincidência de o moribundo ter apanhado-as, não sei se teríamos chegado à solução. Foi claro para mim, pela força dos óculos, que quem os usava devia estar muito cego e indefeso quando os perdeu. Quando me pediu para acreditar que ela caminhava por uma faixa estreita de relva sem jamais errar um passo, lembrei‑me, como pode recordar, que era um feito notável. Na minha mente anotava‑o como um feito impossível, salvo no improvável caso de ela possuir um segundo par de óculos. Fui forçado, pois, a considerar seriamente a hipótese de que permanecera dentro da casa. Ao perceber a semelhança dos dois corredores, ficou evidente que poderia muito facilmente ter cometido tal erro, e, nesse caso, era evidente que teria entrado no quarto do professor. Estava, pois, alerta para tudo o que corroborasse essa suposição, e examinei a sala minuciosamente à procura de qualquer indício de esconderijo. O tapete parecia contínuo e firmemente pregado, assim descartei a ideia de uma porta‑casa. Poderia haver, porém, um nicho atrás dos livros. Como sabe, esses dispositivos são comuns nas bibliotecas antigas. Observei que os livros estavam empilhados no chão em todos os outros pontos, mas que uma estante permanecia vazia. Esta, então, poderia ser a porta. Não via marcas que me guiassem, mas o tapete era de cor areia, o que facilita a inspeção. Assim, consumi um grande número daqueles excelentes cigarros e espalhei a cinza por todo o espaço diante da estante suspeita. Foi um truque simples, mas extremamente eficaz. Depois fui ao piso inferior e, na sua presença, Watson, sem que percebesse a intenção dos meus comentários, constatei que o consumo de alimentos do Professor Coram havia aumentado — como se se esperasse alimentar uma segunda pessoa. Subimos novamente ao quarto e, ao derrubar a caixa de cigarros, obtive uma vista excelente do chão, percebendo claramente, pelas marcas de cinza, que a prisioneira, na nossa ausência, havia saído do seu refúgio. Bem, Hopkins, aqui estamos em Charing Cross, e congratulo‑o por ter concluído o seu caso com sucesso. Vai para a sede, não tenho dúvidas. Creio, Watson, que o senhor e eu iremos juntos à Embaixada Russa.
— É terrível, Sr. Holmes — simplesmente terrível! Admiro-me de o meu cabelo não estar branco. Godfrey Staunton — já ouviu falar dele, naturalmente? Ele é simplesmente a dobradiça sobre a qual toda a equipa gira. Preferiria dispensar dois do grupo e ter o Godfrey para a minha linha de três quartos. Seja a passar, a placar ou a conduzir a bola, não há ninguém que o iguale, e além disso, ele tem cabeça e consegue manter-nos todos unidos. O que hei de fazer? É isso que lhe pergunto, Sr. Holmes. Há o Moorhouse, primeiro reserva, mas ele é treinado como médio e entra sempre direto para o scrum em vez de se manter na linha lateral. É um excelente pontapeador, é verdade, mas não tem discernimento e não consegue correr nem um pouco. Ora, o Morton ou o Johnson, os velocistas de Oxford, podiam correr à volta dele. O Stevenson é suficientemente rápido, mas não conseguia chutar da linha das vinte e cinco jardas, e um três-quartos que não sabe pontapear não merece um lugar só pela velocidade. Não, Sr. Holmes, estamos perdidos a menos que me possa ajudar a encontrar Godfrey Staunton.
O meu amigo tinha escutado com uma surpresa divertida este longo discurso, que foi proferido com extraordinário vigor e seriedade, sendo cada ponto enfatizado por uma palmada de uma mão musculada sobre o joelho do orador. Quando o nosso visitante se calou, Holmes estendeu a mão e retirou a letra “S” do seu livro de apontamentos. Pela primeira vez, escavou em vão nessa mina de informações variadas.
— Existe o Arthur H. Staunton, o promissor falsificador — disse ele —, e houve Henry Staunton, a quem ajudei a enviar para a forca, mas Godfrey Staunton é um nome novo para mim.
Foi a vez de o nosso visitante parecer surpreendido.
— Ora, Sr. Holmes, pensava que o senhor sabia das coisas — disse ele. — Suponho, então, que se nunca ouviu falar de Godfrey Staunton, também não conhece Cyril Overton?
Holmes abanou a cabeça com bom humor.
— Raios partam! — exclamou o atleta. — Ora, eu fui o primeiro reserva da Inglaterra contra o País de Gales e fui o capitão da Universidade durante todo este ano. Mas isso não é nada! Não pensei que houvesse uma alma em Inglaterra que não conhecesse Godfrey Staunton, o brilhante três-quartos, Cambridge, Blackheath e cinco vezes internacional. Meu Deus! Sr. Holmes, onde é que o senhor tem vivido?
Holmes riu-se do espanto ingénuo do jovem gigante.
— O senhor vive num mundo diferente do meu, Sr. Overton — um mundo mais doce e mais saudável. As minhas ramificações estendem-se por muitas camadas da sociedade, mas nunca, fico feliz por dizer, pelo desporto amador, que é a melhor e mais sã coisa em Inglaterra. No entanto, a sua visita inesperada desta manhã mostra-me que até nesse mundo de ar puro e jogo limpo, pode haver trabalho para eu fazer. Portanto, meu caro senhor, peço-lhe que se sente e me conte, lenta e calmamente, exatamente o que aconteceu e como deseja que eu o ajude.
O rosto do jovem Overton assumiu o aspeto incomodado de um homem que está mais habituado a usar os músculos do que o engenho, mas gradualmente, com muitas repetições e obscuridades que posso omitir da sua narrativa, expôs-nos a sua estranha história.
— É desta forma, Sr. Holmes. Como disse, sou o capitão da equipa de râguebi da Universidade de Cambridge, e Godfrey Staunton é o meu melhor homem. Amanhã jogamos contra Oxford. Ontem chegámos todos e instalámo-nos no hotel privado de Bentley. Às dez horas, fui ver se todos os rapazes se tinham ido deitar, pois acredito num treino rigoroso e em muito sono para manter a equipa em forma. Troquei umas palavras com o Godfrey antes de ele se deitar. Pareceu-me pálido e incomodado. Perguntei-lhe o que se passava. Ele disse que estava bem — apenas um toque de dor de cabeça. Dei-lhe as boas-noites e deixei-o. Meia hora depois, o porteiro diz-me que um homem de aspeto rude com barba apareceu com um bilhete para o Godfrey. Ele ainda não se tinha deitado e o bilhete foi levado ao seu quarto. Godfrey leu-o e caiu para trás numa cadeira como se tivesse levado um golpe de machado. O porteiro ficou tão assustado que ia chamar-me, mas Godfrey deteve-o, bebeu um pouco de água e recompos-se. Depois, desceu as escadas, disse algumas palavras ao homem que esperava no átrio e ambos saíram juntos. A última coisa que o porteiro viu deles foi que estavam quase a correr pela rua em direção ao Strand. Esta manhã, o quarto de Godfrey estava vazio, a sua cama nunca fora usada e as suas coisas estavam todas exatamente como as tinha visto na noite anterior. Tinha partido sem aviso com este estranho e não houve mais notícias dele desde então. Não acredito que ele volte. Ele era um desportista, o Godfrey, até à medula, e não teria interrompido o seu treino e deixado ficar mal o seu capitão se não fosse por uma causa que era demasiado forte para ele. Não: sinto como se ele tivesse desaparecido para sempre e nunca mais o fôssemos ver.
Sherlock Holmes ouviu com a maior atenção esta narrativa singular.
— O que fez? — perguntou ele.
— Enviei um telegrama para Cambridge para saber se tinham tido notícias dele lá. Recebi uma resposta. Ninguém o viu.
— Poderá ele ter voltado para Cambridge?
— Sim, há um comboio tardio — às onze e um quarto.
— Mas, até onde pode verificar, ele não o apanhou?
— Não, não foi visto.
— O que fez a seguir?
— Enviei um telegrama a Lord Mount-James.
— Porquê a Lord Mount-James?
— Godfrey é órfão e Lord Mount-James é o seu parente mais próximo — o seu tio, creio eu.
— De facto. Isto lança uma nova luz sobre o assunto. Lord Mount-James é um dos homens mais ricos de Inglaterra.
— Foi o que ouvi o Godfrey dizer.
— E o seu amigo era um parente próximo?
— Sim, ele era o seu herdeiro, e o velho está com quase oitenta anos — cheio de gota, também. Dizem que ele poderia marcar o seu taco de bilhar com os nós dos dedos. Nunca deu um xelim ao Godfrey em toda a sua vida, pois é um avarento absoluto, mas tudo lhe virá parar às mãos, certamente.
— Teve notícias de Lord Mount-James?
— Não.
— Que motivo poderia ter o seu amigo para ir ter com Lord Mount-James?
— Bem, algo o preocupava na noite anterior, e se tinha a ver com dinheiro, é possível que ele se dirigisse ao seu parente mais próximo, que tinha tanto dele, embora, por tudo o que ouvi, ele não tivesse muitas hipóteses de o obter. Godfrey não gostava do velho. Ele não iria se pudesse evitar.
— Bem, podemos determinar isso rapidamente. Se o seu amigo ia ter com o seu parente, Lord Mount-James, então terá de explicar a visita deste indivíduo de aspeto rude a uma hora tão tardia e a agitação que a sua vinda causou.
Cyril Overton pressionou as mãos contra a cabeça. — Não consigo entender nada disto — disse ele.
— Bem, bem, tenho um dia livre e ficarei feliz por investigar o assunto — disse Holmes. — Recomendaria vivamente que fizesse os seus preparativos para o jogo sem referência a este jovem cavalheiro. Deve ter sido, como diz, uma necessidade avassaladora que o arrastou de tal maneira, e a mesma necessidade provavelmente mantê-lo-á afastado. Vamos juntos ao hotel e vejamos se o porteiro pode lançar alguma luz nova sobre o assunto.
Sherlock Holmes era um mestre na arte de deixar à vontade uma testemunha humilde e, muito em breve, na privacidade do quarto abandonado de Godfrey Staunton, extraiu tudo o que o porteiro tinha para contar. O visitante da noite anterior não era um cavalheiro, nem um trabalhador. Era simplesmente o que o porteiro descreveu como um "tipo de aspeto comum", um homem de cinquenta anos, barba grisalha, rosto pálido, vestido discretamente. Ele próprio parecia agitado. O porteiro observou a sua mão a tremer quando estendeu o bilhete. Godfrey Staunton tinha enfiado o bilhete no bolso. Staunton não apertou a mão ao homem no átrio. Trocaram algumas frases, das quais o porteiro apenas distinguiu a palavra "tempo". Depois, apressaram-se a sair da maneira descrita. Eram exatamente dez e meia pelo relógio do átrio.
— Deixe-me ver — disse Holmes, sentando-se na cama de Staunton. — O senhor é o porteiro do dia, não é?
— Sim, senhor, termino o meu turno às onze.
— O porteiro da noite não viu nada, suponho?
— Não, senhor, um grupo de teatro chegou tarde. Ninguém mais.
— Estava de serviço durante todo o dia de ontem?
— Sim, senhor.
— Entregou alguma mensagem ao Sr. Staunton?
— Sim, senhor, um telegrama.
— Ah! Isso é interessante. A que horas foi isto?
— Cerca das seis.
— Onde estava o Sr. Staunton quando o recebeu?
— Aqui no seu quarto.
— Estava presente quando ele o abriu?
— Sim, senhor, esperei para ver se havia resposta.
— Bem, houve?
— Sim, senhor, ele escreveu uma resposta.
— Foi o senhor que a levou?
— Não, ele levou-a pessoalmente.
— Mas escreveu-a na sua presença.
— Sim, senhor. Eu estava ao pé da porta e ele, de costas, junto àquela mesa. Quando a escreveu, disse: "Está bem, porteiro, eu levo isto pessoalmente."
— Com o que é que ele a escreveu?
— Uma caneta, senhor.
— O formulário telegráfico era um destes que estão na mesa?
— Sim, senhor, era o que estava no topo.
Holmes levantou-se. Pegando nos formulários, levou-os até à janela e examinou cuidadosamente o que estava por cima.
— É uma pena que ele não tenha escrito a lápis — disse ele, atirando-os de novo com um encolher de ombros de desapontamento. — Como sem dúvida observou frequentemente, Watson, a marca passa geralmente para baixo — um facto que dissolveu muitos casamentos felizes. No entanto, não consigo encontrar aqui qualquer rasto. Alegro-me, porém, ao perceber que ele escreveu com uma caneta de aparo largo, e dificilmente posso duvidar que encontraremos alguma marca nesta almofada de mata-borrão. Ah, sim, certamente isto é exatamente o que procuramos!
Ele arrancou uma tira do mata-borrão e virou para nós o seguinte hieróglifo:
hieróglifo
Cyril Overton estava muito excitado. — Ponha-o contra o vidro! — exclamou ele.
— Isso é desnecessário — disse Holmes. — O papel é fino e o reverso dará a mensagem. Aqui está. — Ele virou-o e lemos:
o reverso
— Portanto, essa é a parte final do telegrama que Godfrey Staunton enviou poucas horas antes do seu desaparecimento. Há pelo menos seis palavras da mensagem que nos escaparam; mas o que resta — "Apoiem-nos pelo amor de Deus!" — prova que este jovem viu um perigo formidável que se aproximava e do qual alguém o poderia proteger. "Nós", note bem! Outra pessoa estava envolvida. Quem seria senão o homem de barba e rosto pálido, que ele próprio parecia num estado tão nervoso? Qual é, então, a ligação entre Godfrey Staunton e o homem barbudo? E qual é a terceira fonte de onde cada um deles procurou ajuda contra um perigo iminente? A nossa investigação já se restringiu a isso.
— Só temos de descobrir a quem é que esse telegrama foi endereçado — sugeri eu.
— Exatamente, meu caro Watson. A sua reflexão, embora profunda, já me tinha passado pela cabeça. Mas ouso dizer que pode ter notado que, com o duplicado da mensagem de outro homem, pode haver alguma relutância por parte dos funcionários em colaborar. Há tanta burocracia nestas questões. No entanto, não tenho dúvidas de que com um pouco de delicadeza e subtileza o fim poderá ser alcançado. Entretanto, gostaria, na sua presença, Sr. Overton, de examinar estes papéis que foram deixados sobre a mesa.
Havia uma série de cartas, contas e cadernos, que Holmes folheou e examinou com dedos rápidos e nervosos e olhos penetrantes e ágeis. — Nada aqui — disse ele, finalmente. — A propósito, suponho que o seu amigo fosse um jovem saudável — nada de errado com ele?
— Forte como um carvalho.
— Alguma vez o conheceu doente?
— Nem um dia. Ficou de cama com uma tosse, e uma vez deslocou a rótula, mas não foi nada.
— Talvez ele não fosse tão forte como supõe. Acho que pode ter tido algum problema secreto. Com a sua concordância, colocarei um ou dois destes papéis no meu bolso, para o caso de terem importância na nossa futura investigação.
— Um momento — um momento! — gritou uma voz queixosa, e olhámos para cima para encontrar um homenzinho estranho, a espasmos e contrções à porta. Estava vestido de preto gasto, com uma cartola de abas muito largas e uma gravata branca folgada — o efeito total era o de um pastor muito rústico ou de um mudo de funerária. No entanto, apesar da sua aparência desalinhada e até absurda, a sua voz tinha um estalido agudo e a sua maneira uma intensidade rápida que impunha atenção.
— Quem é o senhor e com que direito toca nos papéis deste cavalheiro? — perguntou ele.
— Sou um detetive privado e estou a tentar explicar o seu desaparecimento.
— Oh, é, é? E quem o instruiu, eh?
— Este cavalheiro, amigo do Sr. Staunton, foi encaminhado para mim pela Scotland Yard.
— Quem é o senhor?
— Sou Cyril Overton.
— Então foi o senhor quem me enviou um telegrama. O meu nome é Lord Mount-James. Vim o mais rapidamente que o autocarro de Bayswater me trouxe. Portanto, contratou um detetive?
— Sim, senhor.
— E está preparado para suportar o custo?
— Não tenho dúvidas, senhor, de que o meu amigo Godfrey, quando o encontrarmos, estará preparado para o fazer.
— Mas se ele nunca for encontrado, eh? Responda-me a isso!
— Nesse caso, sem dúvida que a sua família...
— Nada disso, senhor! — gritou o homenzinho. — Não conte comigo para um centavo — nem um centavo! Entende isso, Sr. Detetive! Sou toda a família que este jovem tem e digo-lhe que não sou responsável. Se ele tem alguma expectativa, deve-se ao facto de eu nunca ter desperdiçado dinheiro e não pretendo começar a fazê-lo agora. Quanto a esses papéis com os quais está a ser tão livre, posso dizer-lhe que, no caso de haver algo de valor entre eles, será responsabilizado rigorosamente pelo que fizer com eles.
— Muito bem, senhor — disse Sherlock Holmes. — Posso perguntar, entretanto, se o próprio senhor tem alguma teoria para explicar o desaparecimento deste jovem?
— Não, senhor, não tenho. Ele é suficientemente grande e velho para cuidar de si próprio, e se é tão tolo a ponto de se perder, recuso-me inteiramente a aceitar a responsabilidade de o caçar.
— Compreendo perfeitamente a sua posição — disse Holmes, com um brilho malicioso nos olhos. — Talvez não compreenda bem a minha. Godfrey Staunton parece ter sido um homem pobre. Se ele foi raptado, não poderia ter sido por algo que ele próprio possua. A fama da sua riqueza espalhou-se, Lord Mount-James, e é inteiramente possível que um bando de ladrões tenha capturado o seu sobrinho para obter dele alguma informação sobre a sua casa, os seus hábitos e o seu tesouro.
O rosto do nosso visitante desagradável tornou-se tão branco como o seu lenço de pescoço.
— Céus, senhor, que ideia! Nunca pensei em tal vilania! Que patifes desumanos existem no mundo! Mas o Godfrey é um bom rapaz — um rapaz leal. Nada o induziria a trair o seu velho tio. Vou mandar levar a prataria para o banco esta noite. Entretanto, não poupe esforços, Sr. Detetive! Suplico-lhe que não deixe pedra sobre pedra para o trazer de volta em segurança. Quanto ao dinheiro, bem, no que toca a cinco ou até dez libras, pode sempre contar comigo.
Mesmo no seu estado de espírito amansado, o nobre avarento não nos pôde dar qualquer informação que nos pudesse ajudar, pois sabia pouco da vida privada do seu sobrinho. A nossa única pista residia no telegrama truncado, e com uma cópia deste na mão, Holmes partiu para encontrar um segundo elo para a sua corrente. Tínhamos despachado Lord Mount-James, e Overton tinha ido consultar os outros membros da sua equipa sobre o infortúnio que lhes tinha acontecido.
Havia uma estação de correios a pouca distância do hotel. Parámos à frente dela.
— Vale a pena tentar, Watson — disse Holmes. — É claro que, com um mandado, poderíamos exigir ver os duplicados, mas ainda não chegámos a esse ponto. Não suponho que se lembrem de rostos num lugar tão movimentado. Vamos arriscar.
— Lamento incomodá-lo — disse ele, da sua maneira mais suave, à jovem atrás da grade; — há um pequeno erro com um telegrama que enviei ontem. Não recebi resposta e receio muito ter-me esquecido de pôr o meu nome no final. Poderia dizer-me se foi o caso?
A jovem folheou um maço de duplicados.
— A que horas foi? — perguntou ela.
— Um pouco depois das seis.
— Para quem era?
Holmes pôs o dedo nos lábios e lançou-me um olhar. — As últimas palavras eram "Pelo amor de Deus" — sussurrou ele, confidencialmente; — estou muito ansioso por não ter recebido resposta.
A jovem separou um dos formulários.
— É este. Não tem nome — disse ela, alisando-o sobre o balcão.
— Então isso explica, naturalmente, por que não recebi resposta — disse Holmes. — Meu Deus, que estupidez a minha, sem dúvida! Bom dia, menina, e muito obrigado por me ter aliviado a mente. — Ele riu-se e esfregou as mãos quando nos encontrámos na rua mais uma vez.
— Bem? — perguntei.
— Progredimos, meu caro Watson, progredimos. Tinha sete esquemas diferentes para vislumbrar esse telegrama, mas dificilmente poderia esperar ter sucesso logo à primeira.
— E o que ganhou?
— Um ponto de partida para a nossa investigação. — Ele chamou um táxi. — Estação de King’s Cross — disse ele.
— Temos uma viagem, então?
— Sim, creio que devemos ir juntos a Cambridge. Todas as indicações parecem-me apontar nessa direção.
— Diga-me — perguntei, enquanto percorríamos ruidosamente a Gray’s Inn Road —, tem alguma suspeita quanto à causa do desaparecimento? Não creio que entre todos os nossos casos tenha conhecido algum onde os motivos sejam mais obscuros. Certamente não imagina mesmo que ele possa ter sido raptado para dar informações contra o seu rico tio?
— Confesso, meu caro Watson, que isso não me parece uma explicação muito provável. Impressionou-me, contudo, por ser a que mais provavelmente interessaria àquela pessoa extremamente desagradável.
— Certamente que o fez; mas quais são as suas alternativas?
— Poderia mencionar várias. Deve admitir que é curioso e sugestivo que este incidente ocorra na véspera deste jogo importante e envolva o único homem cuja presença parece essencial para o sucesso da equipa. Pode ser, claro, uma coincidência, mas é interessante. O desporto amador está livre de apostas, mas uma boa quantidade de apostas externas ocorre entre o público, e é possível que valha a pena para alguém tentar manipular um jogador como os rufias das corridas manipulam um cavalo de corrida. Essa é uma explicação. Uma segunda, muito óbvia, é que este jovem seja realmente herdeiro de uma grande propriedade, por mais modestos que sejam os seus meios atualmente, e não é impossível que um plano para o manter como refém possa ser engendrado.
— Essas teorias não têm em conta o telegrama.
— Muito certo, Watson. O telegrama continua a ser a única coisa sólida com que temos de lidar e não devemos permitir que a nossa atenção se desvie dele. É para obter luz sobre o propósito deste telegrama que estamos agora a caminho de Cambridge. O caminho da nossa investigação é, de momento, obscuro, mas ficarei muito surpreendido se antes da noite não o tivermos esclarecido ou feito um progresso considerável ao longo dele.
Já estava escuro quando chegámos à velha cidade universitária. Holmes apanhou um táxi na estação e ordenou ao homem que seguisse para a casa do Dr. Leslie Armstrong. Poucos minutos depois, parámos numa grande mansão na artéria mais movimentada. Fomos deixados entrar e, após uma longa espera, fomos finalmente admitidos na sala de consultas, onde encontrámos o médico sentado atrás da sua mesa.
Argumenta‑se, no grau em que perdi o contato com a minha profissão, que o nome de Leslie Armstrong me era desconhecido. Agora sei que ele não é só um dos chefes da faculdade de medicina da universidade, mas um pensador de reputação europeia em mais de um ramo da ciência. Ainda que sem conhecer o seu brilhante percurso, não se poderia deixar de ficar impressionado com um simples olhar ao homem: o rosto quadrado, maciço, os olhos pensativos sob as sobrancelhas arqueadas, e o molde granítico da mandíbula inflexível. Um homem de carácter profundo, de mente alerta, sombrio, ascético, autossuficiente, formidável – assim eu leio o Dr. Leslie Armstrong. Tinha o cartão do meu amigo na mão, e levantou‑se com uma expressão pouco satisfeita nos traços sisudos.
— Ouvi o seu nome, Sr. Sherlock Holmes, e estou ciente da sua profissão – uma das quais não aprovo de modo algum.
— Nisso, Doutor, encontrará concordância com todo criminoso do país — disse o meu amigo, calmamente.
— No sentido de que os seus esforços são dirigidos à supressão do crime, senhor, eles devem contar com o apoio de todo membro razoável da comunidade, embora não duvide que a máquina oficial seja amplamente suficiente para o fim. Onde a sua vocação se abre mais à crítica é quando se intromete nos segredos de particulares, quando escava assuntos familiares que seria melhor manter ocultos, e quando, incidentalmente, desperdiça o tempo de homens mais ocupados que o senhor. No momento presente, por exemplo, eu deveria estar a escrever um tratado em vez de conversar consigo.
— Sem dúvida, Doutor; entretanto a conversa pode provar‑se mais importante que o tratado. Por sinal, posso dizer‑lhe que estamos a fazer o inverso do que tão justamente me culpa, e que nos empenhamos em evitar toda exposição pública de questões privadas que inevitavelmente surgiriam quando o caso estivesse nas mãos da polícia oficial. Pode considerar‑me simplesmente um pioneiro irregular, que vai à frente das forças regulares do país. Vim perguntar‑lhe sobre o Sr. Godfrey Staunton.
— O que tem a ver com ele?
— Conhece‑o, não é?
— É um amigo íntimo meu.
— Está ciente de que desapareceu?
— Ah, certamente! — Não houve mudança de expressão nos traços robustos do doutor.
— Partiu do hotel na noite passada – não se tem notícias dele.
— Sem dúvida retornará.
— Amanhã há o jogo de futebol da universidade.
— Não tenho simpatia por estes jogos infantis. O destino do jovem interessa‑me profundamente, pois o conheço e gosto dele. O jogo de futebol nada tem a ver com o meu horizonte.
— Requeiro, pois, a sua simpatia na investigação do destino do Sr. Staunton. Sabe onde está?
— Certamente não.
— Não o viu desde ontem?
— Não, não o vi.
— O Sr. Staunton era um homem saudável?
— Absolutamente.
— Já lhe viu doente?
— Nunca.
Holmes mostrou ao doutor uma folha de papel. — Então talvez explique esta fatura de treze guinées, paga pelo Sr. Godfrey Staunton no mês passado ao Dr. Leslie Armstrong, de Cambridge. Escolhi‑a entre os papéis na sua secretária.
O médico corou de ira.
— Não vejo razão para lhe devo uma explicação, Sr. Holmes.
Holmes recolheu a fatura no seu caderno. — Se prefere uma explicação pública, virá mais cedo ou mais tarde — disse ele. — Já lhe disse que posso silenciar o que outros se veem obrigados a publicar, e seria mais sábio confiar‑me plenamente.
— Não sei nada a respeito.
— Ouviu o Sr. Staunton em Londres?
— Certamente não.
— Ó céus, o correio outra vez! — suspirou Holmes, cansado. — Um telegrama muito urgente foi-lhe enviado de Londres por Godfrey Staunton às seis e quinze da noite de ontem – um telegrama, sem dúvida, ligado ao seu desaparecimento – e ainda assim não o recebeu. É extremamente irresponsável. Irei ao correio aqui e apresentarei queixa.
O Dr. Leslie Armstrong saltou da sua secretária, o rosto escurecido de fúria.
— Vou pedir‑lhe que se retire da minha casa, senhor — disse ele. — Pode dizer ao seu patrão, Lorde Mount‑James, que não desejo ter nada a ver com ele nem com os seus agentes. Não, senhor – nem uma palavra a mais! — bateu a campainha furiosamente. — João, expulse esses cavalheiros! — Um mordomo pomposo conduziu‑nos severamente até a porta, e ficámos na rua. Holmes saiu a rir.
— O Dr. Leslie Armstrong é, sem dúvida, um homem de energia e carácter — comentou ele. — Nunca vi alguém que, se aplicasse o talento dessa maneira, fosse mais calculado para preencher o vazio deixado pelo ilustre Moriarty. E agora, meu pobre Watson, aqui estamos, encalhados e desamparados nesta cidade inóspita, que não podemos deixar sem abandonar o caso. Esta pequena pousada ao lado da casa de Armstrong adapta‑se singularmente às nossas necessidades. Se quiser reservar um quarto‑frente e comprar o necessário para a noite, poderei ter tempo para fazer algumas indagações.
Essas indagações, porém, revelaram‑se mais longas do que Holmes havia imaginado, pois só regressou à pousada por volta das nove horas. Estava pálido e abatido, coberto de pó, exausto de fome e fadiga. Um jantar frio esperava na mesa; quando satisfeitos os apetites e acesa a pipa, assumiu a visão meio cômica e totalmente filosófica que lhe era natural quando as coisas corriam mal. O som das rodas de carroça fez‑o erguer‑se e olhar pela janela. Um brougham e um par de cavalos cinzentos, sob a luz de uma lamparina a gás, pararam diante da porta do doutor.
— Está fora há três horas — disse Holmes — partiu às seis e meia, e já está de volta. Isso dá um raio de dez ou doze milhas, e ele faz isso uma, às vezes duas vezes por dia.
— Nada de extraordinário para um médico em exercício.
— Mas Armstrong não é realmente um médico de prática. É professor e consultor, mas não se dedica à prática geral, pois isso o distrai do seu trabalho literário. Por que, então, faz essas longas viagens, que devem ser extremamente cansativas para ele, e a quem visita?
— Ao seu cocheiro…
— Meu caro Watson, pode duvidar que foi a ele que primeiro me dirigi? Não sei se veio de sua própria depravação inata ou dos impulsos de seu mestre, mas foi rude o bastante para mandar um cão contra mim. Nem o cão nem o homem gostaram da minha bengala, porém, e o assunto acabou. As relações ficaram tensas depois disso, e novas indagações ficaram fora de questão. Tudo o que aprendi obtive de um nativo amigável no quintal da nossa pousada. Foi ele quem me contou os hábitos do doutor e a sua viagem diária. Nesse instante, para dar sentido às suas palavras, o coche chegou à porta.
— Não pôde segui‑lo?
— Excelente, Watson! Está a brilhar esta noite. A ideia me ocorreu. Há, como deve ter notado, uma loja de bicicletas ao lado da pousada. Entrei, apanhei uma bicicleta e consegui partir antes que o coche desaparecesse da vista. Ultrapassei‑o rapidamente, mantendo‑o a cerca de cem metros de distância, segui‑o pelas luzes até nos afastarmos da cidade. Quando estávamos bem longe na estrada de campo, ocorreu um incidente bastante embaraçoso. O coche parou, o doutor desceu, caminhou rapidamente até onde eu também havia parado, e disse‑me, com excelente sarcasmo, que temia que a estrada fosse estreita e que esperava que o seu coche não impedisse a passagem da minha bicicleta. Nada poderia ser mais admirável que a forma como o formulou. Imediatamente passei a bicicleta, mantendo‑me na estrada principal, e continuei alguns milhas, depois parei num ponto conveniente para ver se o coche passava. Não havia sinal dele, porém, tornando‑se evidente que havia virado para uma das várias vias laterais que eu observara. Voltei, mas novamente nada vi do coche, e agora, como percebe, ele voltou atrás. Claro, no princípio não tinha razão particular para ligar essas viagens ao desaparecimento de Godfrey Staunton, e investiguei‑as apenas por motivos gerais, pois tudo o que concerne ao Dr. Armstrong interessa‑nos agora; porém, ao constatar que ele vigia tão atentamente quem o segue nessas excursões, o caso parece mais importante, e não ficarei satisfeito enquanto não esclarecer tudo.
— Podemos segui‑lo amanhã.
— Podemos? Não é tão fácil como pensa. Não conhece a paisagem de Cambridgeshire, conhece? Não favorece o disfarce. Todo este campo que atravessamos esta noite é tão plano e limpo como a palma da mão, e o homem que seguimos não é tolo, como ficou claro esta noite. Enviei um telegrama a Overton para nos avisar de quaisquer novidades de Londres neste endereço, e, enquanto isso, só podemos concentrar‑nos no Dr. Armstrong, cujo nome a gentilhoma da secretaria me permitiu ler no verso da mensagem urgente de Staunton. Ele sabe onde está o jovem – juro por isso – e se sabe, então será culpa nossa se não conseguirmos descobrir também. Admito que, por ora, o truque está na sua posse e, como bem sabe, Watson, não é meu hábito deixar o jogo assim.
E ainda assim, o dia seguinte não nos aproximou da solução do mistério. Um bilhete foi entregue após o pequeno‑almoço, que Holmes passou‑me com um sorriso.
SENHOR — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —
Posso assegurar‑lhe que está a desperdiçar o seu tempo ao perseguir os meus movimentos. Como descobriu anoche, tenho uma janela na traseira do meu brougham, e se deseja um trajeto de vinte milhas que o leve ao ponto de partida, basta seguir‑me. Enquanto isso, informo‑lhe que nenhuma espionagem sobre mim poderá de forma alguma ajudar o Sr. Godfrey Staunton, e estou convencido de que o melhor serviço que pode prestar a esse cavalheiro é regressar imediatamente a Londres e relatar ao seu patrono que lhe é impossível rastreá‑lo. O seu tempo em Cambridge será, certamente, desperdiçado.
Atenciosamente, LESLIE ARMSTRONG.
— Um antagonista franco e honesto é o doutor — disse Holmes. — Bem, bem, desperta a minha curiosidade, e devo realmente saber antes de o deixar.
— A sua coche está agora à porta — comentei. — Lá está ele a entrar. Vi‑o olhar para a nossa janela ao fazê‑lo. E se eu tentar a sorte com a bicicleta?
— Não, não, meu caro Watson! Apesar do respeito pela sua perspicácia natural, não creio que esteja à altura do digno doutor. Creio que talvez eu alcance o fim desejado por vias independentes minhas. Receio ter de deixá‑lo às suas próprias custas, pois a aparição de dois estranhos inquisitivos numa zona rural adormecida poderia gerar mais fofocas do que desejo. Sem dúvida encontrará algumas vistas para o entreter nesta venerável cidade, e espero trazer‑lhe um relato mais favorável antes do crepúsculo.
Mais uma vez, porém, o meu amigo viu‑se desapontado. Retornou à noite cansado e sem sucesso.
— Tive um dia vazio, Watson. Tendo obtido a direção geral do doutor, passei o dia a visitar todas as aldeias desse lado de Cambridge, comparando notas com taberneiros e outras agências locais de notícias. Cobri algum terreno. Chesterton, Histon, Waterbeach e Oakington foram explorados, e todos provaram‑se decepcionantes. A aparição diária de um brougham e um par não poderia ter passado despercebida nestes vales sonolentos. O doutor marcou outra vez. Há um telegrama para mim?
— Sim, abri‑o. Eis‑a:
“Peça por Pompey a Jeremy Dixon, Trinity College.”
— Não o compreendo.
— Ah, é simples. Vem do nosso amigo Overton, em resposta a uma pergunta minha. Enviarei uma nota ao Sr. Jeremy Dixon, e então não tenho dúvidas de que a nossa sorte mudará. A propósito, há notícias do jogo?
— Sim, o jornal noturno local tem um excelente relato na última edição. Oxford venceu por um gol e duas tentativas. As últimas frases da descrição dizem:
“‘A derrota dos Light Blues pode ser inteiramente atribuída à infeliz ausência do crack Internacional, Godfrey Staunton, cuja falta se sentiu a cada instante do jogo. A falta de combinação na linha dos três‑quartos e a sua fraqueza tanto no ataque como na defesa neutralizaram mais do que o esforço de um pack pesado e trabalhador.’”
— Então as previsões do nosso amigo Overton foram confirmadas — disse Holmes. — Pessoalmente concordo com o Dr. Armstrong, e o futebol está fora do meu horizonte. Vai para a cama cedo esta noite, Watson, pois prevejo que amanhã será um dia movimentado.
Fiquei horrorizado ao ver Holmes na manhã seguinte, sentado junto ao fogo segurando a sua pequena seringa hipodérmica. Associei aquele instrumento à única fraqueza da sua natureza, temendo o pior ao vê‑lo brilhar na mão. Riu‑se da minha expressão de consternação e pôs‑a sobre a mesa.
— Não, não, meu caro, não há motivo para alarme. Não é, nesta ocasião, o instrumento do mal, mas será a chave que destrancará o nosso mistério. Nesta seringa baseio todas as minhas esperanças. Acabei de regressar de uma pequena expedição de reconhecimento, e tudo está favorável. Tome um bom pequeno‑almoço, Watson, pois pretendo seguir o rastro do Dr. Armstrong hoje, e, uma vez nele, não me deterei para repouso ou refeição até o alcançar.
— Nesse caso — respondi — é melhor levarmos o pequeno‑almoço conosco, pois ele parte cedo. A sua coche está à porta.
— Não importa. Deixe‑o ir. Será esperto se conduzir onde eu não consigo segui‑lo. Quando terminar, desça comigo e apresentarei‑lhe um detetive que é especialista eminente na obra que nos espera.
Descemos ao estábulo, onde ele abriu a porta da caixa‑solta e tirou um cão baço, de orelhas caídas, branco e amarelo, algo entre um beagle e um foxhound.
— Deixe‑me apresentar‑lhe Pompey — disse ele. — Pompey é o orgulho dos draghounds locais — não é muito ágil, como sua constituição mostra, mas é um cão obstinado no rastro. Bem, Pompey, pode não ser veloz, mas espero que seja rápido demais para um par de cavalheiros londrinos de meia‑idade, por isso tomarei a liberdade de prender esta correia de couro ao seu colar. Agora, rapaz, venha, mostre o que pode fazer. — Levou‑o até a porta do doutor. O cão farejou por um instante, depois, com um uivo agudo de excitação, lançou‑se pela rua, puxando a guia. Em meia hora estávamos fora da cidade, apressando‑nos por uma estrada rural.
— O que fez, Holmes? — perguntei.
— Um artifício gasto e venerável, mas útil em certas ocasiões. Esta manhã entrei no pátio do doutor e lancei a seringa cheia de anis sobre a roda traseira. Um draghound segue o cheiro de anis daqui até John o’Groats, e o nosso amigo Armstrong teria de atravessar o Cam antes de abandonar Pompey do seu rastro. Ah, o astuto ladino! Foi assim que escapou de mim na outra noite.
O cão virou repentinamente da estrada principal para um caminho coberto de relva. Metade de milha mais adiante, esse caminho abriu para outra estrada larga, e o rastro virou bruscamente à direita, em direção à cidade que acabara de deixar. A estrada fez um arco ao sul da cidade e continuou na direção oposta ao nosso ponto de partida.
— Este desvio foi inteiramente para o nosso benefício, então? — disse Holmes. — Não é de admirar que as minhas indagações entre os aldeões não tenham resultado. O doutor certamente jogou o jogo ao máximo, e gostaria de saber a razão de tamanha artimanha elaborada. Esta deve ser a aldeia de Trumpington à nossa direita. E, por Júpiter! ali vem o brougham virando a esquina. Rápido, Watson — rápido, ou está perdido!
Ele saltou por um portão para um campo, arrastando o relutante Pompey. Mal tínhamos entrado sob a proteção da sebe quando a coche passou rangendo. Avistamos o Dr. Armstrong dentro, os ombros curvados, a cabeça apoiada nas mãos, a imagem viva da aflição. Pude perceber, pelo rosto mais grave do meu companheiro, que ele também a vira.
— Receio que haja um fim sombrio para a nossa busca — disse ele. — Não tardará para o sabermos. Vamos, Pompey! Ah, é a casa de campo no campo!
Não havia dúvida de que havíamos chegado ao fim da jornada. Pompey correu e latiu ansioso fora do portão, onde ainda se viam as marcas das rodas do brougham. Um sentiero levava até a solitária casa. Holmes amarrou o cão à sebe e avançámos. O meu amigo bateu à porta rústica, bateu novamente, sem resposta. Ainda assim, a casa não estava deserta; um som baixo chegava aos nossos ouvidos — um tipo de zumbido de miséria e desespero indescritivelmente melancólico. Holmes hesitou, então voltou a olhar para a estrada que acabara de percorrer. Um brougham descia, impossível confundir aqueles cavalos cinzentos.
— Por Júpiter, o doutor está a voltar! — exclamou Holmes. — Isso resolve tudo. Veremos o que significa antes que ele chegue.
Abriu‑se a porta e adentramos o salão. O som de zumbido aumentou até tornar‑se um lamento longo e profundo. Provenia do andar de cima. Holmes subiu apressado, eu segui‑o. Empurrou‑a uma porta meio fechada e ambos ficámos horrorizados com a cena à nossa frente.
Uma mulher, jovem e bela, jazia morta sobre a cama. O rosto pálido e sereno, com olhos azuis amplamente abertos, olhava para o alto entre uma grande mara de cabelos dourados. Aos pés da cama, meio sentado, meio ajoelhado, o rosto enterrado nas roupas, havia um jovem, cujo corpo tremia de soluços. Tão absorvido pela dor amarga que não ergueu os olhos até que a mão de Holmes pousou sobre o seu ombro.
— É o Sr. Godfrey Staunton?
— Sim, sim, sou eu — respondeu — mas chegou tarde demais. Ela está morta.
O homem estava tão atordoado que não se lhe conseguiu fazer entender que não éramos senão médicos enviados em seu auxílio. Holmes tentava proferir algumas palavras de consolo e explicar o alarme que os amigos tinham sentido com o seu desaparecimento repentinamente, quando houve um passo nas escadas e o rosto pesado, severo e inquisitivo do Dr. Armstrong apareceu à porta.
— Então, senhores — disse ele — atingiram o fim e escolheram um momento particularmente delicado para a vossa invasão. Não briguaria na presença da morte, mas asseguro‑lhe que, se fosse um homem mais jovem, a sua conduta monstruosa não passaria impune.
— Desculpe, Dr. Armstrong, acho que estamos em desacordo — disse o meu amigo, com dignidade. — Se puder descer connosco, talvez cada um de nós consiga lançar alguma luz sobre este assunto miserável.
Um minuto depois, o médico sombrio e nós estávamos na sala de estar abaixo.
— Bem, senhor? — perguntou ele.
“Desejo que compreenda, antes de tudo, que não estou a serviço de Lord Mount‑James, e que as minhas simpatias neste caso são totalmente contra esse nobre. Quando um homem se perde, é meu dever averiguar o seu destino, mas, depois de o fazer, a questão termina, no que me diz respeito, e, enquanto não houver crime, prefiro calar escândalos privados a dar-lhes publicidade. Se, como imagino, não há violação da lei nesta matéria, pode contar absolutamente com a minha discrição e com a minha cooperação para manter os fatos fora dos jornais.”
O Dr. Armstrong deu um passo rápido à frente e apertou a mão de Holmes.
“És um bom sujeito,” disse ele. “Julguei‑te mal. Agradeço ao céu que a minha compunção por ter deixado o pobre Staunton totalmente só nesta situação me fez voltar a carruagem e assim fazer a sua conhecida. Sabendo tanto quanto sabes, a situação pode ser explicada muito facilmente. Há um ano, Godfrey Staunton alojou‑se em Londres por algum tempo e ficou apaixonadamente apegado à filha
de um dos seus senhorios, uma jovem de uma família muito modesta, mas de caráter irrepreensível. A oposição da família de Staunton, que era rica e de linhagem antiga, tornou o casamento impossível. Eles casaram‑se, contudo, em segredo. Ela morreu no parto na semana passada, e ele, que é um homem de sentimentos profundos, ficou tão perturbado que não conseguiu enfrentar a sua vida normal e, num excesso de tristeza, abandonou tudo para ir passar estes dias com a criança e com o pai da sua esposa, que vive em Reading. Ele não queria que ninguém soubesse da sua situação, nem do seu casamento, nem da sua perda, até que o luto tivesse diminuído. O seu silêncio, que causou tanta angústia a Lord Mount‑James, deveu‑se inteiramente a este estado de prostração mental em que se encontra.”
Holmes soltou um suspiro de alívio e estendeu a mão ao Dr. Armstrong. “Está tudo bem,” disse ele. “É uma história lamentável, mas não há crime no que aconteceu. Onde está o jovem Staunton?”
“Ele está no comboio para Reading, onde a criança está aos cuidados da avó.”
“Então, o meu trabalho aqui está terminado. Watson, acho que o nosso comboio de regresso parte dentro de uma hora. Agradeço‑lhe imenso, Dr. Armstrong, pela sua franqueza. O nosso amigo, Lord Mount‑James, terá de se conformar com a situação, pois não há dúvida de que o casamento foi legal. A sua responsabilidade agora, doutor, é garantir que o jovem Staunton recupere o equilíbrio emocional, pois um homem que se perde nestes estados de alma pode vir a ser um perigo para si próprio.”
Enquanto voltávamos para a estação, Holmes estava silencioso e pensativo. Por fim, ele sorriu e disse: “A vida é infinitamente mais estranha do que qualquer coisa que a mente do homem possa inventar. Não nos atreveríamos a conceber as coisas que são, na realidade, meros lugares‑comuns da existência. Se pudéssemos voar por aquela janela, flutuar sobre esta grande cidade, examinar suavemente os estranhos enigmas que nela se desenrolam, os planos frustrados, as longas cadeias de acontecimentos que começam em gerações anteriores e culminam em resultados bizarros, quão triviais pareceriam todas as nossas ficções e os nossos estudos de casos criminais.”
“Sim, mas o estudo do crime é o seu próprio caso, Holmes,” respondi eu.
“É,” disse ele, “e quase tudo o que é estranho é, no fundo, o resultado da ação humana, que é o que torna a vida tão perigosa, mas ao mesmo tempo tão fascinante. Agora, Watson, vamos esquecer o caso de Godfrey Staunton e o seu segredo. O comboio está a chegar, e eu tenho uma carta para escrever antes de chegarmos a Baker Street.”
O cartão de Holmes entregue ao gerente garantiu atenção imediata, e ele não tardou a obter todas as informações de que necessitava. Em junho de 95, apenas um navio da sua linha tinha chegado a um porto de destino. Tratava-se do Rock of Gibraltar, o seu maior e melhor navio. Uma consulta à lista de passageiros mostrou que a Srta. Fraser, de Adelaide, com a sua criada, tinha feito a viagem nele. O barco encontrava-se agora algures a sul do Canal do Suez, a caminho da Austrália. Os seus oficiais eram os mesmos de 95, com uma exceção. O imediato, Sr. Jack Crocker, tinha sido promovido a capitão e ia assumir o comando do seu novo navio, o Bass Rock, que zarparia dentro de dois dias de Southampton. Ele vivia em Sydenham, mas era provável que aparecesse naquela manhã para receber instruções, caso estivéssemos dispostos a esperar por ele.
Não, o Sr. Holmes não tinha qualquer desejo de o ver, mas ficaria satisfeito por saber mais sobre o seu historial e caráter.
O seu historial era magnífico. Não havia um oficial na frota que lhe chegasse aos calcanhares. Quanto ao seu caráter, era de confiança no serviço, mas um homem selvagem e desesperado fora do convés do seu navio — de cabeça quente, excitável, mas leal, honesto e de bom coração. Esse foi o essencial da informação com que Holmes deixou o escritório da companhia Adelaide-Southampton. De lá, dirigiu-se para a Scotland Yard, mas, em vez de entrar, ficou sentado na sua carruagem com as sobrancelhas franzidas, perdido em pensamentos profundos. Finalmente, dirigiu-se ao posto de telégrafo de Charing Cross, enviou uma mensagem e, então, finalmente, rumámos a Baker Street mais uma vez.
“Não, não poderia fazê-lo, Watson”, disse ele, ao reentrarmos na nossa sala. “Uma vez emitido esse mandado, nada na terra o salvaria. Uma ou duas vezes na minha carreira, sinto que causei mais dano real com a descoberta do criminoso do que ele próprio alguma vez causou com o seu crime. Aprendi a ser cauteloso agora, e prefiro pregar partidas à lei de Inglaterra do que à minha própria consciência. Saibamos um pouco mais antes de agir.”
Antes do anoitecer, tivemos a visita do Inspetor Stanley Hopkins. As coisas não estavam a correr muito bem para ele.
“Acredito que é um feiticeiro, Sr. Holmes. Por vezes, penso mesmo que possui poderes que não são humanos. Ora, como raio poderia saber que a prata roubada estava no fundo daquele lago?”
“Não sabia.”
“Mas disse-me para o examinar.”
“Encontrou-a, então?”
“Sim, encontrei-a.”
“Fico muito contente se o ajudei.”
“Mas não me ajudou. Tornou o assunto muito mais difícil. Que espécie de ladrões são aqueles que roubam prata e depois atiram-na para o lago mais próximo?”
“Foi, certamente, um comportamento bastante excêntrico. Partia apenas da ideia de que, se a prata tivesse sido levada por pessoas que não a queriam — que a levaram apenas como uma distração, por assim dizer —, então ficariam naturalmente ansiosas por se livrarem dela.”
“Mas por que motivo tal ideia lhe passaria pela cabeça?”
“Bem, pensei que fosse possível. Quando saíram pela porta de vidro, lá estava o lago com aquele pequeno buraco tentador no gelo, mesmo à frente dos seus narizes. Poderia haver melhor esconderijo?”
“Ah, um esconderijo — isso já é melhor!” exclamou Stanley Hopkins. “Sim, sim, agora vejo tudo! Era cedo, havia gente nas estradas, eles tinham medo de serem vistos com a prata, por isso afundaram-na no lago, pretendendo voltar para a recuperar quando o caminho estivesse livre. Excelente, Sr. Holmes — isso é melhor do que a sua ideia de uma distração.”
“Exatamente, tem uma teoria admirável. Não tenho dúvidas de que as minhas próprias ideias foram bastante disparatadas, mas tem de admitir que terminaram por descobrir a prata.”
“Sim, senhor — sim. Foi tudo obra sua. Mas tive um grande contratempo.”
“Um contratempo?”
“Sim, Sr. Holmes. O gangue Randall foi preso em Nova Iorque esta manhã.”
“Valha-me Deus, Hopkins! Isso vai certamente contra a sua teoria de que eles cometeram um homicídio em Kent na noite passada.”
“É fatal, Sr. Holmes — absolutamente fatal. Ainda assim, há outros gangues de três além dos Randall, ou pode ser algum gangue novo de que a polícia nunca ouviu falar.”
“Exatamente, é perfeitamente possível. Ora, já vai?”
“Sim, Sr. Holmes, não há descanso para mim até chegar ao fundo desta história. Suponho que não tem nenhuma pista para me dar?”
“Já lhe dei uma.”
“Qual?”
“Bem, sugeri uma distração.”
“Mas porquê, Sr. Holmes, porquê?”
“Ah, essa é a questão, claro. Mas recomendo a ideia à sua reflexão. Poderá possivelmente descobrir que havia algo nela. Não vai ficar para jantar? Bem, adeus, e deixe-nos saber como se sai.”
O jantar tinha terminado e a mesa estava limpa antes de Holmes aludir ao assunto novamente. Tinha acendido o cachimbo e mantinha os pés calçados com pantufas junto ao brilho alegre da lareira. De repente, olhou para o relógio.
“Espero desenvolvimentos, Watson.”
“Quando?”
“Agora — dentro de poucos minutos. Suponho que achou que agi de forma bastante má com Stanley Hopkins há pouco?”
“Confio no seu discernimento.”
“Uma resposta muito sensata, Watson. Deve ver as coisas desta forma: o que eu sei é oficioso, o que ele sabe é oficial. Eu tenho o direito ao juízo privado, mas ele não. Ele tem de revelar tudo, ou é um traidor ao seu serviço. Num caso duvidoso, eu não o colocaria numa posição tão penosa, e por isso reservo a minha informação até que a minha própria mente esteja clara sobre o assunto.”
“Mas quando é que isso será?”
“O momento chegou. Vai agora assistir à última cena de um pequeno drama notável.”
Ouviu-se um som nas escadas e a nossa porta abriu-se para admitir um espécime de homem tão fino como algum dia passou por ela. Era um jovem muito alto, de bigode dourado, olhos azuis, com uma pele que tinha sido queimada por sóis tropicais e um passo elástico, que mostrava que aquele corpo enorme era tão ativo quanto forte. Fechou a porta atrás de si e, então, ficou parado com as mãos cerradas e o peito ofegante, sufocando alguma emoção avassaladora.
“Sente-se, Capitão Crocker. Recebeu o meu telegrama?”
O nosso visitante afundou-se numa poltrona e olhou de um para o outro com olhos interrogativos.
“Recebi o seu telegrama e vim à hora que disse. Soube que esteve no escritório. Não havia como escapar de si. Vamos ouvir o pior. O que vai fazer comigo? Prender-me? Fale, homem! Não pode sentar-se aí e brincar comigo como um gato com um rato.”
“Dê-lhe um charuto”, disse Holmes. “Morda isso, Capitão Crocker, e não deixe que os seus nervos tomem conta de si. Pode ter a certeza de que eu não estaria aqui sentado a fumar consigo se achasse que era um criminoso comum. Seja franco comigo e poderemos fazer algum bem. Pregue partidas comigo e eu esmagá-lo-ei.”
“O que deseja que eu faça?”
“Dar-me um relato verdadeiro de tudo o que aconteceu em Abbey Grange na noite passada — um relato verdadeiro, preste atenção, sem nada acrescentado e nada retirado. Sei tanto que, se se desviar um milímetro do caminho reto, tocarei este apito da polícia pela minha janela e o assunto sai das minhas mãos para sempre.”
O marinheiro pensou por um momento. Depois, bateu na perna com a sua grande mão queimada pelo sol.
“Vou arriscar”, exclamou. “Acredito que é um homem de palavra e um homem honrado, e contar-lhe-ei toda a história. Mas uma coisa direi primeiro. No que me diz respeito, não me arrependo de nada e não temo nada, e faria tudo de novo e sentir-me-ia orgulhoso do trabalho. Maldita seja a besta, se ele tivesse tantas vidas como um gato, ele devia-as todas a mim! Mas é a senhora, Mary — Mary Fraser — pois nunca a chamarei por esse nome maldito. Quando penso em metê-la em sarilhos, eu que daria a minha vida apenas para trazer um sorriso àquele rosto querido, é isso que transforma a minha alma em água. E ainda assim — e ainda assim — o que menos poderia eu fazer? Contar-lhe-ei a minha história, cavalheiros, e depois perguntar-lhes-ei, de homem para homem, que menos poderia eu ter feito?
“Tenho de recuar um pouco. Parece saber tudo, por isso espero que saiba que a conheci quando ela era passageira e eu era imediato do Rock of Gibraltar. Desde o primeiro dia em que a conheci, ela foi a única mulher para mim. Todos os dias dessa viagem amei-a mais, e muitas vezes desde então ajoelhei-me na escuridão da vigília noturna e beijei o convés daquele navio porque sabia que os seus pés queridos o tinham pisado. Ela nunca esteve noiva de mim. Tratou-me tão justamente quanto uma mulher alguma vez tratou um homem. Não tenho queixas a fazer. Foi tudo amor da minha parte, e toda uma boa camaradagem e amizade da parte dela. Quando nos separámos, ela era uma mulher livre, mas eu nunca mais poderia ser um homem livre.
“Da vez seguinte que voltei do mar, soube do seu casamento. Bem, porque não deveria ela casar com quem quisesse? Título e dinheiro — quem os poderia ostentar melhor do que ela? Ela nasceu para tudo o que é belo e delicado. Não sofri pelo seu casamento. Não era um cão tão egoísta quanto isso. Apenas me alegrei por a boa sorte ter cruzado o seu caminho e por ela não se ter atirado a um marinheiro sem um tostão. Foi assim que amei Mary Fraser.
“Bem, nunca pensei voltar a vê-la, mas na última viagem fui promovido, e o novo barco ainda não tinha sido lançado, por isso tive de esperar uns par de meses com os meus familiares em Sydenham. Um dia, num caminho rural, encontrei Theresa Wright, a sua velha criada. Ela contou-me tudo sobre ela, sobre ele, sobre tudo. Digo-lhe, cavalheiros, quase me deixou louco. Este cão bêbado, que se atrevesse a levantar a mão a ela, cujas botas ele não era digno de lamber! Encontrei Theresa novamente. Depois encontrei a própria Mary — e encontrei-a de novo. Depois, ela não quis encontrar-me mais. Mas no outro dia recebi um aviso de que deveria partir na minha viagem dentro de uma semana, e decidi que a veria uma vez antes de partir. Theresa foi sempre minha amiga, pois ela amava Mary e odiava este vilão quase tanto quanto eu. Dela soube dos hábitos da casa. Mary costumava ficar acordada a ler no seu pequeno quarto no andar de baixo. Rastejei até lá na noite passada e arranhei a janela. Ao princípio ela não quis abrir-me, mas no seu coração sei que agora ela me ama, e não me pôde deixar na noite gelada. Sussurrou-me para ir dar a volta à grande janela da frente, e encontrei-a aberta à minha frente, para me deixar entrar na sala de jantar. Ouvi novamente dos seus próprios lábios coisas que fizeram o meu sangue ferver, e amaldiçoei novamente este bruto que maltratava a mulher que eu amava. Bem, cavalheiros, eu estava parado com ela mesmo dentro da janela, na maior inocência, por Deus que é meu juiz, quando ele entrou como um louco na sala, chamou-a pelo nome mais vil que um homem poderia usar com uma mulher e chicoteou-a na cara com a bengala que tinha na mão. Saltei para o atiçador, e foi uma luta justa entre nós. Veja aqui, no meu braço, onde caiu o primeiro golpe dele. Depois foi a minha vez, e atravessei-o como se ele fosse uma abóbora podre. Acha que me arrependi? Eu não! Era a vida dele ou a minha, mas muito mais do que isso, era a vida dele ou a dela, pois como poderia eu deixá-la ao poder deste louco? Foi assim que o matei. Estava errado? Bem, então, o que teria qualquer um de vós, cavalheiros, feito, se estivesse na minha posição?
“Ela tinha gritado quando ele a atingiu, e isso trouxe a velha Theresa do quarto de cima. Havia uma garrafa de vinho no aparador, e eu abri-a e deitei um pouco entre os lábios de Mary, pois ela estava meio morta de choque. Depois tomei um gole eu próprio. Theresa estava fria como gelo, e a culpa foi dela tanto quanto minha. Tínhamos de fazer parecer que tinham sido ladrões a fazer o serviço. Theresa continuava a repetir a nossa história à patroa, enquanto eu trepava e cortava a corda da campainha. Depois amarrei-a à sua cadeira e desfiei a ponta da corda para parecer natural, senão eles perguntar-se-iam como é que, raio, um ladrão poderia ter subido ali para a cortar. Depois juntei alguns pratos e peças de prata, para levar avante a ideia do roubo, e deixei-os lá, com ordens para darem o alarme quando eu tivesse um quarto de hora de avanço. Deitei a prata no lago e fugi para Sydenham, sentindo que, pela primeira vez na minha vida, tinha feito um trabalho notável. E essa é a verdade e toda a verdade, Sr. Holmes, mesmo que isso me custe o pescoço.”
Holmes fumou durante algum tempo em silêncio. Depois, atravessou a sala e apertou a mão ao nosso visitante.
“É o que eu penso”, disse ele. “Sei que cada palavra é verdadeira, pois mal disse uma palavra que eu já não soubesse. Ninguém, exceto um acrobata ou um marinheiro, poderia ter subido até à corda da campainha a partir do suporte, e ninguém, exceto um marinheiro, poderia ter feito os nós com que a corda estava presa à cadeira. Só uma vez esta senhora tinha sido posta em contacto com marinheiros, e foi na sua viagem, e era alguém da sua própria classe social, já que ela estava a esforçar-se muito para o proteger, mostrando assim que o amava. Vê como foi fácil para mim deitar-lhe as mãos assim que comecei na pista certa.”
“Pensei que a polícia nunca teria visto através do nosso estratagema.”
“E a polícia não viu, nem verá, segundo creio. Agora, veja lá, Capitão Crocker, isto é um assunto muito sério, embora eu esteja disposto a admitir que agiu sob a provocação mais extrema a que qualquer homem poderia ser sujeito. Não tenho a certeza de que, em defesa da sua própria vida, a sua ação não venha a ser considerada legítima. No entanto, isso cabe a um júri britânico decidir. Entretanto, tenho tanta simpatia por si que, se optar por desaparecer nas próximas vinte e quatro horas, prometo-lhe que ninguém o impedirá.”
“E depois tudo virá a público?”
“Certamente que virá a público.”
O marinheiro corou de raiva.
“Que espécie de proposta é essa para fazer a um homem? Sei o suficiente de lei para compreender que a Mary seria considerada cúmplice. Acha que eu a deixaria sozinha para enfrentar a música enquanto eu me escapulia? Não, senhor, que façam o pior comigo, mas pelo amor de Deus, Sr. Holmes, encontre alguma maneira de manter a minha pobre Mary fora dos tribunais.”
Holmes, pela segunda vez, estendeu a mão ao marinheiro.
“Eu estava apenas a testá-lo, e o senhor revela-se verdadeiro a cada passo. Bem, é uma grande responsabilidade que assumo, mas dei ao Hopkins uma excelente pista e, se ele não conseguir tirar proveito dela, não posso fazer mais nada. Veja lá, Capitão Crocker, vamos fazer isto na devida forma da lei. O senhor é o prisioneiro. Watson, o senhor é um júri britânico, e nunca conheci um homem que fosse mais eminentemente apto para representar um. Eu sou o juiz. Ora, senhores do júri, ouviram as provas. Consideram o prisioneiro culpado ou não culpado?”
“Não culpado, meritíssimo”, disse eu.
“Vox populi, vox Dei. Está absolvido, Capitão Crocker. Desde que a lei não encontre outra vítima, está a salvo de mim. Volte para esta senhora dentro de um ano, e que o futuro dela e o seu justifiquem-nos no julgamento que proferimos esta noite!”
A AVENTURA DA SEGUNDA MANCHA
Eu tinha a intenção de que “A Aventura de Abbey Grange” fosse a última daquelas proezas do meu amigo, o Sr. Sherlock Holmes, que eu alguma vez comunicaria ao público. Esta minha resolução não se deveu a qualquer falta de material, uma vez que tenho notas de muitas centenas de casos aos quais nunca aludi, nem foi causada por qualquer declínio do interesse por parte dos meus leitores na personalidade singular e nos métodos únicos deste homem notável. A razão real residia na relutância que o Sr. Holmes tem demonstrado quanto à continuação da publicação das suas experiências. Enquanto ele estava em prática profissional efetiva, os registos dos seus sucessos tinham algum valor prático para ele, mas desde que se retirou definitivamente de Londres e se dedicou ao estudo e à apicultura nas Sussex Downs, a notoriedade tornou-se odiosa para ele, e ele solicitou peremptoriamente que os seus desejos nesta matéria fossem estritamente observados. Foi apenas quando lhe representei que tinha dado a minha palavra de que “A Aventura da Segunda Mancha” deveria ser publicada quando chegasse a altura certa, e lhe apontei que é apenas apropriado que esta longa série de episódios culmine no caso internacional mais importante que alguma vez foi chamado a tratar, que finalmente consegui obter o seu consentimento para que um relato cuidadosamente guardado do incidente fosse finalmente apresentado ao público. Se, ao contar a história, pareço ser um pouco vago em certos detalhes, o público compreenderá prontamente que existe uma excelente razão para a minha reticência.
Foi, então, num ano, e até numa década, que permanecerá sem nome, que, numa terça-feira de manhã de outono, encontrámos dois visitantes de fama europeia dentro das paredes da nossa humilde sala em Baker Street. Um, austero, de nariz proeminente, olhos de águia e dominante, não era outro senão o ilustre Lord Bellinger, duas vezes Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha. O outro, moreno, de traços definidos e elegante, quase ainda não na meia-idade e dotado de toda a beleza do corpo e da mente, era o Muito Honorável Trelawney Hope, Secretário para os Assuntos Europeus e o estadista mais promissor do país. Sentaram-se lado a lado no nosso sofá atulhado de papéis, e era fácil ver pelos seus rostos cansados e ansiosos que era um assunto da maior importância que os tinha trazido. As mãos finas e de veias azuis do Primeiro-Ministro estavam entrelaçadas firmemente sobre o punho de marfim do seu guarda-chuva, e o seu rosto magro e ascético olhava sombriamente de Holmes para mim. O Secretário Europeu puxava nervosamente o bigode e mexia nos selos da corrente do seu relógio.
“Quando descobri a minha perda, Sr. Holmes, o que foi às oito horas desta manhã, informei imediatamente o Primeiro-Ministro. Foi por sugestão dele que ambos viemos ter consigo.”
“Informou a polícia?”
“Não, senhor”, disse o Primeiro-Ministro, com a forma rápida e decisiva pela qual era famoso. “Não o fizemos, nem é possível que o façamos. Informar a polícia deve, a longo prazo, significar informar o público. Isto é o que desejamos evitar particularmente.”
“E porquê, senhor?”
“Porque o documento em questão é de tal importância imensa que a sua publicação poderia muito facilmente — diria quase provavelmente — levar a complicações europeias do maior peso. Não é exagero dizer que a paz ou a guerra podem depender do desfecho. A menos que a sua recuperação possa ser acompanhada pelo maior secretismo, então mais valeria que não fosse recuperado de todo, pois tudo o que é pretendido por aqueles que o levaram é que o seu conteúdo seja geralmente conhecido.”
“Compreendo. Ora, Sr. Trelawney Hope, ficaria muito grato se me dissesse exatamente as circunstâncias sob as quais este documento desapareceu.”
“Isso pode ser dito em pouquíssimas palavras, Sr. Holmes. A carta — pois tratava-se de uma carta de um potentado estrangeiro — foi recebida há seis dias. Era de tal importância que nunca a deixei no meu cofre, mas levei-a comigo todas as noites para a minha casa em Whitehall Terrace, e mantive-a no meu quarto numa pasta trancada à chave. Estava lá ontem à noite. Disso tenho a certeza. Cheguei a abrir a pasta enquanto me vestia para o jantar e vi o documento lá dentro. Esta manhã, tinha desaparecido. A pasta estivera ao lado do espelho na minha toucadeira durante toda a noite. Sou um sono leve, e a minha mulher também. Estamos ambos preparados para jurar que ninguém poderia ter entrado no quarto durante a noite. E, no entanto, repito que o documento desapareceu.”
“A que horas jantou?”
“Às sete e meia.”
“Quanto tempo passou até se deitar?”
“A minha mulher tinha ido ao teatro. Esperei por ela. Eram onze e meia quando fomos para o nosso quarto.”
“Então, durante quatro horas, a pasta esteve sem vigilância?”
“Ninguém tem permissão para entrar naquele quarto, exceto a criada de quarto pela manhã, e o meu criado pessoal, ou a criada da minha mulher, durante o resto do dia. Ambos são criados de confiança que estão connosco há algum tempo. Além disso, nenhum deles poderia, possivelmente, saber que havia algo mais valioso do que os papéis departamentais comuns na minha pasta.”
“Quem sabia da existência dessa carta?”
“Ninguém na casa.”
“Certamente a sua mulher sabia?”
“Não, senhor. Não disse nada à minha mulher até dar pela falta do papel esta manhã.”
O Primeiro-Ministro acenou com a cabeça em aprovação.
“Há muito que sei, senhor, quão elevado é o seu sentido de dever público”, disse ele. “Estou convencido de que, no caso de um segredo desta importância, ele se sobreporia aos laços domésticos mais íntimos.”
O Secretário Europeu fez uma vénia.
“Não me faz mais do que justiça, senhor. Até esta manhã, nunca proferi uma palavra à minha mulher sobre este assunto.”
“Poderá ela ter adivinhado?”
“Não, Sr. Holmes, ela não poderia ter adivinhado — nem ninguém poderia ter adivinhado.”
“Já perdeu algum documento anteriormente?”
“Não, senhor.”
“Quem existe em Inglaterra que soubesse da existência desta carta?”
“Cada membro do Gabinete foi informado dela ontem, mas a promessa de segredo que acompanha cada reunião de Gabinete foi reforçada pelo aviso solene dado pelo Primeiro-Ministro. Valha-me Deus, pensar que em poucas horas eu próprio a teria perdido!” O seu rosto elegante estava distorcido por um espasmo de desespero, e as suas mãos puxavam os cabelos. Por um momento, vislumbrámos o homem natural, impulsivo, ardente, profundamente sensível. No instante seguinte, a máscara aristocrática foi reposta, e a voz suave regressou. “Para além dos membros do Gabinete, há dois, ou possivelmente três, funcionários departamentais que sabem da carta. Ninguém mais em Inglaterra, Sr. Holmes, garanto-lhe.”
“Mas no estrangeiro?”
“Creio que ninguém no estrangeiro a viu, exceto o homem que a escreveu. Estou bem convencido de que os seus Ministros — de que os canais oficiais habituais — não foram empregues.”
Holmes ponderou durante algum tempo.
“Agora, senhor, devo pedir-lhe mais especificamente o que é este documento e por que é que o seu desaparecimento teria consequências tão momentosas?”
Os dois estadistas trocaram um olhar rápido e as sobrancelhas espessas do Primeiro-Ministro franziram-se.
“Sr. Holmes, o envelope é comprido e fino, de cor azul-pálida. Há um selo de cera vermelha estampado com um leão agachado. Está endereçado com uma caligrafia grande e ousada a——”
“Receio, senhor”, disse Holmes, “que, por mais interessantes e, na verdade, essenciais que sejam estes detalhes, as minhas investigações devam ir mais à raiz das coisas. O que era a carta?”
“Isso é um segredo de Estado da maior importância, e receio não lhe poder dizer, nem vejo que seja necessário. Se, com a ajuda dos poderes que se diz que possui, conseguir encontrar um envelope como o que descrevo com o seu conteúdo, terá merecido bem do seu país e conquistado qualquer recompensa que esteja ao nosso alcance conceder.”
Sherlock Holmes levantou-se com um sorriso.
“São dois dos homens mais ocupados do país”, disse ele, “e, à minha pequena maneira, também tenho muitas solicitações. Lamento imensamente não poder ajudá-los neste assunto, e qualquer continuação desta entrevista seria uma perda de tempo.”
O Primeiro-Ministro saltou para os pés com aquele brilho rápido e feroz dos seus olhos profundos, perante o qual um Gabinete já se encolheu. “Não estou habituado, senhor”, começou ele, mas dominou a sua raiva e retomou o seu assento. Durante um minuto ou mais, sentámo-nos todos em silêncio. Depois, o velho estadista encolheu os ombros.
“Temos de aceitar os seus termos, Sr. Holmes. Sem dúvida que tem razão, e é irracional da nossa parte esperar que aja a menos que lhe demos a nossa total confiança.”
“Concordo consigo”, disse o estadista mais jovem.
“Então dir-lhe-ei, confiando inteiramente na sua honra e na do seu colega, Dr. Watson. Posso apelar também ao seu patriotismo, pois não poderia imaginar maior infortúnio para o país do que este assunto vir a público.”
“Pode confiar em nós.”
“A carta, então, é de um certo potentado estrangeiro que foi irritado por alguns desenvolvimentos coloniais recentes deste país. Foi escrita à pressa e inteiramente por sua própria responsabilidade. As investigações mostraram que os seus Ministros nada sabem sobre o assunto. Ao mesmo tempo, está redigida de forma tão infeliz, e certas frases nela contidas são de um caráter tão provocatório, que a sua publicação levaria, sem dúvida, a um estado de espírito muito perigoso neste país. Haveria tal fermentação, senhor, que não hesito em dizer que, no prazo de uma semana após a publicação dessa carta, este país estaria envolvido numa grande guerra.”
Holmes escreveu um nome num pedaço de papel e entregou-o ao Primeiro-Ministro.
“Exatamente. Foi ele. E é esta carta — esta carta que bem pode significar o gasto de mil milhões e a vida de cem mil homens — que se perdeu desta forma inexplicável.”
“Informaram o remetente?”
“Sim, senhor, foi enviado um telegrama cifrado.”
“Talvez ele deseje a publicação da carta.”
“Não, senhor, temos fortes razões para acreditar que ele já compreende ter agido de forma indiscreta e precipitada. Seria um golpe maior para ele e para o seu país do que para nós se esta carta viesse a público.”
“Se isto é assim, a quem interessa que a carta venha a público? Por que haveria alguém de querer roubá-la ou publicá-la?”
“Aí, Sr. Holmes, leva-me para regiões de alta política internacional. Mas se considerar a situação europeia, não terá dificuldade em perceber o motivo. Toda a Europa é um campo armado. Existe uma liga dupla que cria um equilíbrio justo de poder militar. A Grã-Bretanha detém a balança. Se a Grã-Bretanha fosse arrastada para uma guerra com uma confederação, isso asseguraria a supremacia da outra, quer se juntassem à guerra ou não. Acompanha-me?”
“Muito claramente. É então do interesse dos inimigos deste potentado obter e publicar esta carta, de modo a criar uma rutura entre o seu país e o nosso?”
“Sim, senhor.”
“E a quem seria enviado este documento se caísse nas mãos de um inimigo?”
“A qualquer das grandes Chancelarias da Europa. Provavelmente, está a caminho de lá neste preciso momento, tão depressa quanto o vapor pode levar.”
O Sr. Trelawney Hope deixou cair a cabeça sobre o peito e gemeu alto. O Primeiro-Ministro colocou a mão gentilmente sobre o seu ombro.
“É o seu azar, meu caro. Ninguém o pode culpar. Não houve precaução que tenha negligenciado. Agora, Sr. Holmes, tem total conhecimento dos factos. Que rumo recomenda?”
Holmes abanou a cabeça tristemente.
“Pensa, senhor, que a menos que este documento seja recuperado, haverá guerra?”
“Penso que é muito provável.”
“Então, senhor, prepare-se para a guerra.”
“Essa é uma afirmação dura, Sr. Holmes.”
“Considere os factos, senhor. É inconcebível que tenha sido levado depois das onze e meia da noite, uma vez que compreendo que o Sr. Hope e a sua mulher estiveram ambos no quarto desde essa hora até que a perda foi descoberta. Foi levado, então, ontem à noite entre as sete e meia e as onze e meia, provavelmente perto da hora mais cedo, uma vez que quem o levou sabia evidentemente que estava lá e, naturalmente, tê-lo-ia garantido o mais cedo possível. Ora, senhor, se um documento desta importância foi levado a essa hora, onde pode estar agora? Ninguém tem qualquer razão para o reter. Foi passado rapidamente para aqueles que dele necessitam. Que hipótese temos agora de o alcançar ou mesmo de o rastrear? Está fora do nosso alcance.”
O Primeiro-Ministro levantou-se do sofá.
“O que diz é perfeitamente lógico, Sr. Holmes. Sinto que o assunto está, de facto, fora das nossas mãos.”
“Presumamos, para efeitos de argumentação, que o documento foi levado pela criada ou pelo criado pessoal——”
“São ambos criados antigos e de confiança.”
“Compreendi que disse que o seu quarto fica no segundo andar, que não há entrada pelo exterior e que, pelo interior, ninguém poderia subir sem ser visto. Deve ser, então, alguém da casa que o levou. A quem o levaria o ladrão? A um de vários espiões internacionais e agentes secretos, cujos nomes me são toleravelmente familiares. Há três que podem ser considerados os chefes da sua profissão. Começarei a minha pesquisa circulando e descobrindo se cada um deles está no seu posto. Se um estiver em falta — especialmente se desapareceu desde ontem à noite — teremos alguma indicação de para onde foi o documento.”
“Por que haveria de estar em falta?” perguntou o Secretário Europeu. “Ele levaria a carta a uma Embaixada em Londres, quase de certeza.”
“Creio que não. Estes agentes trabalham de forma independente, e as suas relações com as Embaixadas são muitas vezes tensas.”
O Primeiro-Ministro acenou em concordância.
“Creio que tem razão, Sr. Holmes. Ele levaria um prémio tão valioso ao quartel-general pelas suas próprias mãos. Penso que o seu curso de ação é excelente. Entretanto, Hope, não podemos negligenciar todos os nossos outros deveres por causa deste infortúnio. Se houver desenvolvimentos novos durante o dia, comunicar-lhe-emos, e o senhor, sem dúvida, dar-nos-á os resultados das suas próprias investigações.”
Os dois estadistas fizeram uma vénia e caminharam gravemente para fora da sala.
Quando os nossos ilustres visitantes partiram, Holmes acendeu o cachimbo em silêncio e sentou-se durante algum tempo perdido nos pensamentos mais profundos. Eu tinha aberto o jornal da manhã e estava imerso num crime sensacional que ocorrera em Londres na noite anterior, quando o meu amigo soltou uma exclamação, saltou para os pés e pousou o cachimbo na lareira.
“Sim”, disse ele, “não há melhor maneira de abordar isto. A situação é desesperada, mas não sem esperança. Mesmo agora, se pudéssemos ter a certeza de qual deles o levou, é possível que ainda não tenha passado das suas mãos. Afinal, é uma questão de dinheiro com estes tipos, e tenho o tesouro britânico por trás de mim. Se estiver no mercado, comprá-lo-ei — mesmo que signifique mais um cêntimo no imposto sobre o rendimento. É concebível que o sujeito o retenha para ver que ofertas vêm deste lado antes de tentar a sua sorte do outro. Só existem aqueles três capazes de jogar um jogo tão ousado — são Oberstein, La Rothiere e Eduardo Lucas. Verei cada um deles.”
Lancei um olhar ao meu jornal da manhã.
“É aquele Eduardo Lucas de Godolphin Street?”
“Sim.”
“Não o verá.”
“Por que não?”
“Foi assassinado na sua casa ontem à noite.”
O meu amigo surpreendeu-me tantas vezes ao longo das nossas aventuras que foi com um sentimento de exultação que percebi o quão completamente eu o tinha surpreendido. Ele olhou com espanto e depois arrancou o jornal das minhas mãos. Este era o parágrafo que eu estivera a ler quando ele se levantou da cadeira:
ASSASSÍNIO EM WESTMINSTER
Um crime de caráter misterioso foi cometido ontem à noite no n.º 16 da Godolphin Street, uma das filas de casas antigas e isoladas do século XVIII que ficam entre o rio e a Abadia, quase à sombra da grande Torre do Palácio de Westminster. Esta pequena, mas selecionada, mansão tem sido habitada há alguns anos pelo Sr. Eduardo Lucas, bem conhecido nos círculos sociais tanto devido à sua personalidade encantadora como porque tem a bem merecida reputação de ser um dos melhores tenores amadores do país. O Sr. Lucas é um homem solteiro, de trinta e quatro anos, e o seu pessoal consiste na Sra. Pringle, uma governanta idosa, e em Mitton, o seu criado. A primeira retira-se cedo e dorme no topo da casa. O criado estava fora durante a noite, a visitar um amigo em Hammersmith. A partir das dez horas, o Sr. Lucas teve a casa para si. O que ocorreu durante esse tempo ainda não foi apurado, mas, às onze e três quartos, o agente da polícia Barrett, ao passar pela Godolphin Street, observou que a porta do n.º 16 estava entreaberta. Bateu, mas não obteve resposta. Ao perceber uma luz na sala da frente, avançou para a passagem e bateu novamente, mas sem resposta. Empurrou então a porta e entrou. A sala estava num estado de desordem selvagem, o mobiliário todo varrido para um lado, e uma cadeira deitada de costas no centro. Ao lado desta cadeira, e ainda agarrado a uma das suas pernas, jazia o infeliz inquilino da casa. Tinha sido esfaqueado no coração e deve ter morrido instantaneamente. A faca com que o crime fora cometido era um punhal indiano curvo, arrancado de um troféu de armas orientais que adornava uma das paredes. O roubo não parece ter sido o motivo do crime, pois não houve qualquer tentativa de remover os conteúdos valiosos da sala. O Sr. Eduardo Lucas era tão conhecido e popular que o seu destino violento e misterioso despertará um interesse doloroso e intensa simpatia num vasto círculo de amigos.
“Bem, Watson, o que faz disto?” perguntou Holmes, após uma longa pausa.
“É uma coincidência espantosa.”
“Uma coincidência! Aqui está um dos três homens que tínhamos nomeado como possíveis atores neste drama, e ele encontra uma morte violenta durante as mesmas horas em que sabemos que esse drama estava a ser encenado. As probabilidades são enormes contra ser coincidência. Nenhuns números poderiam expressá-las. Não, meu caro Watson, os dois eventos estão ligados — têm de estar ligados. Cabe-nos a nós encontrar a ligação.”
“Mas agora a polícia oficial deve saber tudo.”
“De modo algum. Sabem tudo o que veem na Godolphin Street. Sabem — e saberão — nada sobre Whitehall Terrace. Só nós sabemos de ambos os eventos e podemos traçar a relação entre eles. Há um ponto óbvio que, em qualquer caso, teria virado as minhas suspeitas contra Lucas. Godolphin Street, em Westminster, fica a apenas alguns minutos a pé de Whitehall Terrace. Os outros agentes secretos que nomeei vivem no extremo do West End. Era mais fácil, portanto, para Lucas do que para os outros estabelecer uma ligação ou receber uma mensagem da casa do Secretário Europeu — uma coisa pequena, e ainda assim, onde os eventos são comprimidos em poucas horas, pode revelar-se essencial. Olá! que temos aqui?”
A Sra. Hudson tinha aparecido com o cartão de uma senhora na sua bandeja. Holmes lançou-lhe um olhar, ergueu as sobrancelhas e entregou-mo.
“Peça à Lady Hilda Trelawney Hope se teria a bondade de subir”, disse ele.
Um momento depois, o nosso modesto apartamento, já tão distinguido naquela manhã, foi ainda mais honrado pela entrada da mulher mais adorável de Londres. Eu tinha ouvido falar muitas vezes da beleza da filha mais nova do Duque de Belminster, mas nenhuma descrição dela, e nenhuma contemplação de fotografias sem cor, me tinha preparado para o encanto subtil e delicado e a bela coloração daquela cabeça requintada. E, no entanto, como a vimos naquela manhã de outono, não foi a sua beleza a primeira coisa a impressionar o observador. A face era adorável, mas estava empalidecida pela emoção; os olhos eram brilhantes, mas era o brilho da febre; a boca sensível estava apertada e contraída num esforço de autocontrolo. Terror — não beleza — foi o que saltou primeiro à vista quando a nossa bela visitante ficou enquadrada por um instante na porta aberta.
“O meu marido esteve aqui, Sr. Holmes?”
“Sim, senhora, ele esteve aqui.”
“Sr. Holmes. Imploro-lhe que não lhe diga que vim aqui.” Holmes fez uma vénia friamente e indicou uma cadeira à senhora.
“Sua Excelência coloca-me numa posição muito delicada. Peço que se sente e me diga o que deseja, mas receio não poder fazer qualquer promessa incondicional.”
Ela atravessou a sala e sentou-se de costas para a janela. Era uma presença majestosa — alta, graciosa e intensamente feminina. “Sr. Holmes”, disse ela — e as suas mãos enluvadas de branco apertavam-se e desapertavam-se enquanto falava — “falarei francamente consigo na esperança de que isso o induza a falar francamente em troca. Existe uma confiança completa entre o meu marido e eu em todos os assuntos, exceto um. Esse é a política. Sobre isto, os seus lábios estão selados. Ele não me diz nada. Ora, estou ciente de que houve um acontecimento muito deplorável na nossa casa ontem à noite. Sei que um papel desapareceu. Mas porque o assunto é político, o meu marido recusa-se a dar-me a sua total confiança. Ora, é essencial — essencial, digo eu — que eu compreenda isto a fundo. É a única outra pessoa, exceto estes políticos, que conhece os verdadeiros factos. Peço-lhe então, Sr. Holmes, que me diga exatamente o que aconteceu e a que levará. Diga-me tudo, Sr. Holmes. Que nenhuma consideração pelos interesses do seu cliente o mantenha em silêncio, pois garanto-lhe que os seus interesses, se ele apenas o visse, seriam melhor servidos ao dar-me a sua total confiança. O que era este papel que foi roubado?”
“Senhora, o que me pede é realmente impossível.”
Ela gemeu e escondeu o rosto nas mãos.
“Deve ver que é assim, senhora. Se o seu marido acha adequado mantê-la às escuras sobre este assunto, cabe a mim, que apenas soube dos verdadeiros factos sob a promessa de segredo profissional, contar o que ele reteve? Não é justo pedi-lo. É a ele que deve perguntar.”
“Já lhe perguntei. Venho a si como um último recurso. Mas, sem que me diga nada de definitivo, Sr. Holmes, pode prestar um grande serviço se me esclarecer sobre um ponto.”
“Que ponto é esse, senhora?”
“É provável que a carreira política do meu marido sofra com este incidente?”
“Bem, senhora, a menos que seja corrigido, pode certamente ter um efeito muito infeliz.”
“Ah!” Ela suspirou profundamente como alguém cujas dúvidas são resolvidas.
“Mais uma pergunta, Sr. Holmes. De uma expressão que o meu marido deixou escapar no primeiro choque deste desastre, compreendi que consequências públicas terríveis poderiam surgir da perda deste documento.”
“Se ele o disse, certamente não o posso negar.”
“De que natureza são elas?”
“Não, senhora, aí novamente pede-me mais do que posso possivelmente responder.”
“Então não tomarei mais do seu tempo. Não o posso culpar, Sr. Holmes, por se ter recusado a falar mais livremente, e o senhor, por seu lado, não pensará, tenho a certeza, pior de mim porque desejo, mesmo contra a sua vontade, partilhar as ansiedades do meu marido. Mais uma vez, peço que não diga nada sobre a minha visita.”
Ela olhou para nós da porta, e fiquei com uma última impressão daquele belo rosto assombrado, os olhos assustados e a boca contraída. Depois, ela partiu.
— Agora, Watson, o belo sexo é da sua competência — disse Holmes, com um sorriso, quando o frêmito decrescente das saias terminou com o bater da porta da frente. — Qual era o jogo da bela dama? O que ela realmente queria?
— Certamente a sua própria declaração é clara e a sua ansiedade muito natural.
— Hum! Pense na sua aparência, Watson — nos seus modos, na sua agitação reprimida, na sua inquietação, na sua tenacidade ao fazer perguntas. Lembre-se de que ela provém de uma casta que não demonstra emoções levianamente.
— Ela estava, sem dúvida, muito comovida.
— Lembre-se também da curiosa seriedade com que nos garantiu que era melhor para o marido que ela soubesse de tudo. O que ela quis dizer com isso? E deve ter observado, Watson, como ela manobrou para ficar de costas para a luz. Ela não desejava que lêssemos a sua expressão.
— Sim, ela escolheu a única cadeira no quarto.
— E, contudo, os motivos das mulheres são tão inescrutáveis. Lembra-se da mulher em Margate, de quem suspeitei pelo mesmo motivo? Sem pó no nariz — isso provou ser a solução correta. Como se pode construir sobre uma areia movediça dessas? A sua ação mais trivial pode significar volumes, ou a sua conduta mais extraordinária pode depender de um gancho de cabelo ou de um modelador de caracóis. Bom dia, Watson.
— Vai sair?
— Sim, vou passar a manhã em Godolphin Street com os nossos amigos do corpo policial. Com Eduardo Lucas reside a solução do nosso problema, embora deva admitir que não tenho a menor ideia de que forma ela possa tomar. É um erro capital teorizar antes de ter os fatos. Fique de guarda, meu caro Watson, e receba quaisquer novos visitantes. Juntar-me-ei a si no almoço, se puder.
Durante todo aquele dia, e o seguinte, e o outro, Holmes esteve num estado de espírito que os seus amigos chamariam de taciturno, e outros de moroso. Entrava e saía, fumava incessantemente, tocava trechos no violino, mergulhava em devaneios, devorava sanduíches a horas irregulares e mal respondia às perguntas casuais que lhe fazia. Era evidente para mim que as coisas não iam bem com ele ou com a sua busca. Ele nada dizia sobre o caso, e foi pelos jornais que soube dos detalhes do inquérito e da detenção, com a subsequente libertação, de John Mitton, o criado do falecido. O júri do legista declarou o óbvio Homicídio Voluntário, mas as partes envolvidas permaneciam tão desconhecidas como sempre. Nenhum motivo foi sugerido. O quarto estava cheio de artigos de valor, mas nada tinha sido levado. Os papéis do homem morto não tinham sido mexidos. Foram cuidadosamente examinados e mostravam que ele era um estudioso atento da política internacional, um mexeriqueiro incansável, um linguista notável e um escritor de cartas infatigável. Mantinha relações íntimas com os principais políticos de vários países. Mas nada de sensacional foi descoberto entre os documentos que enchiam as suas gavetas. Quanto às suas relações com mulheres, pareciam ter sido promíscuas, porém superficiais. Tinha muitas conhecidas entre elas, mas poucos amigos, e ninguém a quem amasse. Os seus hábitos eram regulares, a sua conduta inofensiva. A sua morte era um mistério absoluto e provavelmente assim permaneceria.
Quanto à detenção de John Mitton, o criado, foi um conselho de desespero como alternativa à inação absoluta. Mas nenhum caso pôde ser sustentado contra ele. Ele tinha visitado amigos em Hammersmith naquela noite. O álibi era completo. É verdade que ele partiu para casa a uma hora que o deveria ter trazido a Westminster antes da altura em que o crime foi descoberto, mas a sua própria explicação de que tinha feito parte do caminho a pé parecia bastante provável, tendo em conta a beleza da noite. Ele tinha, de fato, chegado às doze horas e parecia estar devastado pela tragédia inesperada. Tinha estado sempre em bons termos com o seu patrão. Vários dos bens do homem morto — nomeadamente uma pequena caixa de navalhas — tinham sido encontrados nas malas do criado, mas ele explicou que tinham sido presentes do falecido, e a governanta conseguiu corroborar a história. Mitton estava ao serviço de Lucas há três anos. Era notável que Lucas não levasse Mitton consigo para o continente. Por vezes visitava Paris durante três meses seguidos, mas Mitton ficava encarregado da casa em Godolphin Street. Quanto à governanta, ela não tinha ouvido nada na noite do crime. Se o seu patrão teve uma visita, ele próprio o admitiu.
Assim, durante três manhãs o mistério permaneceu, tanto quanto pude acompanhar pelos jornais. Se Holmes sabia mais, guardou o segredo para si, mas, como me disse que o Inspetor Lestrade o tinha tomado na sua confiança no caso, sabia que ele estava em estreito contato com todos os desenvolvimentos. No quarto dia apareceu um longo telegrama de Paris que parecia resolver toda a questão.
"Uma descoberta acaba de ser feita pela polícia parisiense (dizia o Daily Telegraph) que levanta o véu que pairava sobre o trágico destino do Sr. Eduardo Lucas, que encontrou a morte por violência na última segunda-feira à noite em Godolphin Street, Westminster. Os nossos leitores recordarão que o cavalheiro falecido foi encontrado esfaqueado no seu quarto e que algumas suspeitas recaíram sobre o seu criado, mas que o caso caiu por terra devido a um álibi. Ontem, uma senhora, conhecida como Mme. Henri Fournaye, que ocupava uma pequena vila na Rue Austerlitz, foi denunciada às autoridades pelos seus criados como estando insana. Um exame mostrou que ela tinha, de fato, desenvolvido uma mania de forma perigosa e permanente. Após averiguações, a polícia descobriu que Mme. Henri Fournaye só regressou de uma viagem a Londres na última terça-feira, e há provas que a ligam ao crime em Westminster. Uma comparação de fotografias provou conclusivamente que M. Henri Fournaye e Eduardo Lucas eram, na realidade, a mesma pessoa, e que o falecido vivia, por alguma razão, uma vida dupla em Londres e Paris. Mme. Fournaye, que é de origem crioula, é de uma natureza extremamente excitável e sofreu no passado de ataques de ciúmes que chegaram ao frenesim. Conjecture-se que foi num destes que ela cometeu o terrível crime que causou tal sensação em Londres. Os seus movimentos na noite de segunda-feira ainda não foram rastreados, mas é indubitável que uma mulher correspondente à sua descrição atraiu muita atenção na estação de Charing Cross na terça-feira de manhã pela selvageria da sua aparência e a violência dos seus gestos. É provável, portanto, que o crime tenha sido cometido quando ela estava insana, ou que o seu efeito imediato tenha sido levar a infeliz mulher à loucura. Presentemente, ela é incapaz de dar qualquer relato coerente do passado, e os médicos não têm esperanças quanto ao restabelecimento da sua razão. Há provas de que uma mulher, que poderia ter sido Mme. Fournaye, foi vista durante algumas horas na noite de segunda-feira vigiando a casa em Godolphin Street."
— O que acha disso, Holmes? — Eu tinha lido o relato em voz alta para ele, enquanto ele terminava o seu pequeno-almoço.
— Meu caro Watson — disse ele, ao levantar-se da mesa e andar de um lado para o outro no quarto —, o senhor é muito paciente, mas se não lhe disse nada nos últimos três dias, é porque não há nada para dizer. Mesmo agora, este relatório de Paris não nos ajuda muito.
— Certamente é definitivo no que diz respeito à morte do homem.
— A morte do homem é um mero incidente — um episódio trivial — em comparação com a nossa verdadeira tarefa, que é rastrear este documento e salvar uma catástrofe europeia. Apenas uma coisa importante aconteceu nos últimos três dias, e é que nada aconteceu. Recebo relatórios quase de hora a hora do governo, e é certo que em lugar nenhum da Europa há qualquer sinal de problemas. Agora, se esta carta estivesse solta — não, não pode estar solta — mas se não está solta, onde pode ela estar? Quem a tem? Porque é que está a ser retida? Essa é a questão que martela no meu cérebro como um martelo. Foi, de fato, uma coincidência que Lucas encontrasse a morte na noite em que a carta desapareceu? Terá a carta chegado até ele? Se sim, porque não está entre os seus papéis? Terá esta sua esposa louca levado a carta consigo? Se sim, estará ela na sua casa em Paris? Como poderia eu procurá-la sem que a polícia francesa ficasse suspeita? É um caso, meu caro Watson, em que a lei é tão perigosa para nós quanto os criminosos. A mão de cada homem está contra nós, e ainda assim os interesses em jogo são colossais. Se eu conseguir levá-lo a uma conclusão bem-sucedida, representará certamente a glória suprema da minha carreira. Ah, aqui está o meu último relato da frente! — Ele olhou apressadamente para o bilhete que tinha sido entregue. — Alô! Lestrade parece ter observado algo de interesse. Ponha o seu chapéu, Watson, e passearemos juntos até Westminster.
Foi a minha primeira visita ao local do crime — uma casa alta, sombria, de peito estreito, austera, formal e sólida, como o século que lhe deu origem. As feições de buldogue de Lestrade olhavam para nós da janela da frente, e ele saudou-nos calorosamente quando um grande agente da polícia abriu a porta e nos deixou entrar. O quarto para onde fomos mostrados era aquele em que o crime tinha sido cometido, mas nenhum vestígio dele agora restava, exceto uma mancha feia e irregular no tapete. Este tapete era um pequeno quadrado de carpete no centro do quarto, rodeado por uma vasta extensão de um belo e antigo pavimento de madeira em blocos quadrados, altamente polido. Sobre a lareira havia um magnífico troféu de armas, uma das quais tinha sido usada naquela trágica noite. Na janela estava uma sumptuosa escrivaninha, e cada detalhe do apartamento, as imagens, os tapetes e as cortinas, tudo apontava para um gosto que era luxuoso até ao limite da efeminação.
— Viu as notícias de Paris? — perguntou Lestrade.
Holmes assentiu.
— Os nossos amigos franceses parecem ter acertado em cheio desta vez. Sem dúvida, é exatamente como dizem. Ela bateu à porta — uma visita surpresa, suponho, pois ele mantinha a sua vida em compartimentos estanques — ele deixou-a entrar, não podia mantê-la na rua. Ela disse-lhe como o tinha rastreado, repreendeu-o. Uma coisa levou à outra, e depois com aquele punhal tão à mão o fim chegou rapidamente. Não foi tudo feito num instante, contudo, pois estas cadeiras foram todas varridas para ali, e ele tinha uma na mão como se tivesse tentado afastar-se com ela. Temos tudo tão claro como se o tivéssemos visto.
Holmes ergueu as sobrancelhas.
— E, contudo, mandou chamar-me?
— Ah, sim, isso é outra matéria — uma mera ninharia, mas o tipo de coisa em que o senhor se interessa — estranho, sabe, e o que se poderia chamar de extravagante. Não tem nada a ver com o fato principal — não pode ter, à primeira vista.
— O que é, então?
— Bem, sabe, após um crime deste tipo, somos muito cuidadosos em manter as coisas na sua posição. Nada foi movido. Agente encarregado aqui dia e noite. Esta manhã, como o homem foi enterrado e a investigação terminada — no que diz respeito a este quarto — pensamos que poderíamos arrumar um pouco. Este tapete. Vê, não está preso, apenas colocado ali. Tivemos ocasião de o levantar. Encontrámos...
— Sim? Encontraram...
O rosto de Holmes tornou-se tenso de ansiedade.
— Bem, estou certo de que nunca adivinharia em cem anos o que encontrámos. Vê aquela mancha no tapete? Bem, uma grande parte deve ter ensopado, não é?
— Indubitavelmente.
— Bem, ficará surpreendido ao saber que não há mancha na madeira branca que corresponda.
— Nenhuma mancha! Mas tem de haver...
— Sim, é o que diria. Mas o fato é que não há.
Ele pegou na ponta do tapete com a mão e, virando-a, mostrou que era de fato como dizia.
— Mas o lado inferior está tão manchado quanto o superior. Tem de ter deixado uma marca.
Lestrade riu-se de deleite por ter intrigado o famoso perito.
— Agora, vou mostrar-lhe a explicação. Há uma segunda mancha, mas não corresponde à outra. Veja por si mesmo. — À medida que falava, virou outra parte do tapete, e lá estava, de fato, um grande derrame carmesim sobre o quadrado branco do pavimento antigo. — O que acha disso, Sr. Holmes?
— Ora, é bastante simples. As duas manchas correspondiam, mas o tapete foi rodado. Como era quadrado e não estava preso, foi facilmente feito.
— A polícia oficial não precisa de si, Sr. Holmes, para lhes dizer que o tapete deve ter sido rodado. Isso é bastante claro, pois as manchas ficam uma sobre a outra — se o colocar desta forma. Mas o que eu quero saber é, quem mudou o tapete, e porquê?
Pude ver pelo rosto rígido de Holmes que ele estava a vibrar de excitação interior.
— Olhe aqui, Lestrade — disse ele —, aquele agente no corredor esteve encarregado do local todo o tempo?
— Sim, esteve.
— Bem, aceite o meu conselho. Interrogue-o cuidadosamente. Não o faça diante de nós. Esperaremos aqui. Leve-o para o quarto das traseiras. Será mais provável obter uma confissão dele sozinho. Pergunte-lhe como se atreveu a admitir pessoas e deixá-las sozinhas neste quarto. Não lhe pergunte se ele o fez. Dê como certo. Diga-lhe que sabe que alguém esteve aqui. Pressione-o. Diga-lhe que uma confissão completa é a sua única hipótese de perdão. Faça exatamente o que lhe digo!
— Por Deus, se ele sabe, eu tirarei isso dele! — gritou Lestrade. Ele lançou-se para o corredor e, alguns momentos depois, a sua voz autoritária soou do quarto das traseiras.
— Agora, Watson, agora! — gritou Holmes com uma avidez frenética. Toda a força demoníaca do homem, mascarada por trás daquele modo apático, irrompeu num paroxismo de energia. Ele arrancou a carpete do chão e, num instante, estava de mãos e joelhos a arranhar cada um dos quadrados de madeira por baixo dela. Um virou-se lateralmente à medida que ele cravava as unhas na borda. Dobrou-se como a tampa de uma caixa. Uma pequena cavidade preta abriu-se por baixo. Holmes mergulhou a sua mão ávida nela e retirou-a com um rosnado amargo de raiva e desapontamento. Estava vazia.
— Rápido, Watson, rápido! Ponha-a de volta! — A tampa de madeira foi reposta e a carpete tinha acabado de ser esticada quando a voz de Lestrade foi ouvida no corredor. Ele encontrou Holmes encostado languidamente à lareira, resignado e paciente, esforçando-se por esconder os seus bocejos irreprimíveis.
— Desculpe por tê-lo feito esperar, Sr. Holmes, posso ver que está entediado até à morte com todo este assunto. Bem, ele confessou, tudo bem. Entre aqui, MacPherson. Deixe estes cavalheiros ouvirem a sua conduta mais inescusável.
O grande agente, muito quente e penitente, entrou furtivamente no quarto.
— Não quis fazer mal, senhor, tenho a certeza. A jovem mulher veio à porta ontem à noite — enganou-se na casa, ela enganou-se. E depois começámos a conversar. É solitário quando se está de serviço aqui o dia todo.
— Bem, o que aconteceu depois?
— Ela queria ver onde o crime foi cometido — tinha lido sobre isso nos jornais, disse ela. Era uma jovem muito respeitável e bem falante, senhor, e não vi mal nenhum em deixá-la dar uma espreitadela. Quando ela viu aquela marca no tapete, desabou no chão e ficou como se estivesse morta. Corri para as traseiras e busquei um pouco de água, mas não a consegui despertar. Depois fui à esquina ao Ivy Plant buscar um pouco de conhaque, e quando voltei com ele a jovem tinha recuperado e ido embora — envergonhada de si mesma, suponho, e não ousou encarar-me.
— E quanto a mover aquela carpete?
— Bem, senhor, estava um pouco amarrotada, certamente, quando voltei. Vê, ela caiu em cima dela e ela fica num chão polido sem nada que a mantenha no lugar. Endireitei-a depois.
— É uma lição para si que não pode enganar-me, Agente MacPherson — disse Lestrade, com dignidade. — Sem dúvida pensou que a sua violação de dever nunca poderia ser descoberta, e, contudo, um simples olhar para aquela carpete foi suficiente para me convencer de que alguém tinha sido admitido no quarto. É uma sorte para si, meu homem, que nada tenha desaparecido, ou encontrar-se-ia em maus lençóis. Lamento tê-lo chamado por um assunto tão insignificante, Sr. Holmes, mas pensei que o ponto da segunda mancha não corresponder à primeira o interessaria.
— Certamente, foi muito interessante. Esta mulher só esteve aqui uma vez, agente?
— Sim, senhor, apenas uma vez.
— Quem era ela?
— Não sei o nome, senhor. Estava a responder a um anúncio sobre dactilografia e veio para o número errado — uma jovem muito agradável e distinta, senhor.
— Alta? Bonita?
— Sim, senhor, era uma jovem bem-apresentada. Suponho que se poderia dizer que era bonita. Talvez alguns dissessem que era muito bonita. "Oh, agente, deixe-me dar uma espreitadela!", dizia ela. Ela tinha modos bonitos e cativantes, por assim dizer, e pensei que não havia mal em deixá-la apenas colocar a cabeça pela porta.
— Como estava vestida?
— Discreta, senhor — um longo manto até aos pés.
— Que horas eram?
— Estava a anoitecer na altura. Estavam a acender os candeeiros quando voltei com o conhaque.
— Muito bem — disse Holmes. — Venha, Watson, creio que temos trabalho mais importante noutro lugar.
Ao sairmos da casa, Lestrade permaneceu no quarto da frente, enquanto o agente penitente abria a porta para nos deixar sair. Holmes virou-se no degrau e ergueu algo na mão. O agente olhou fixamente.
— Meu Deus, senhor! — gritou ele, com espanto no rosto. Holmes colocou o dedo nos lábios, repôs a mão no bolso do peito e desatou a rir enquanto virávamos a rua. — Excelente! — disse ele. — Venha, amigo Watson, o pano sobe para o último ato. Ficará aliviado ao saber que não haverá guerra, que o Muito Honorável Trelawney Hope não sofrerá qualquer contratempo na sua brilhante carreira, que o Soberano indiscreto não receberá qualquer punição pela sua indiscrição, que o Primeiro-Ministro não terá qualquer complicação europeia para lidar, e que com um pouco de tato e gestão da nossa parte, ninguém sofrerá um centavo com o que poderia ter sido um incidente muito feio.
A minha mente encheu-se de admiração por este homem extraordinário.
— Resolveu-o! — exclamei.
— Dificilmente, Watson. Há alguns pontos que estão tão escuros como sempre. Mas temos tanto que será nossa culpa se não conseguirmos o resto. Iremos direto para Whitehall Terrace e traremos o assunto a um desfecho.
Quando chegámos à residência do Secretário Europeu, foi por Lady Hilda Trelawney Hope que Sherlock Holmes perguntou. Fomos conduzidos à sala de estar.
— Sr. Holmes! — disse a dama, e o seu rosto estava rosado de indignação. — Isto é certamente muito injusto e pouco generoso da sua parte. Eu desejei, como expliquei, manter a minha visita ao senhor em segredo, para que o meu marido não pensasse que eu estava a intrometer-me nos seus assuntos. E, contudo, o senhor compromete-me ao vir aqui e ao mostrar assim que existem relações de negócios entre nós.
— Infelizmente, senhora, não tinha alternativa possível. Fui incumbido de recuperar este documento imensamente importante. Devo, portanto, pedir-lhe, senhora, que seja gentil o suficiente para o colocar nas minhas mãos.
A dama saltou para os seus pés, com a cor a desaparecer num instante do seu belo rosto. Os seus olhos vidraram — ela cambaleou — pensei que fosse desmaiar. Depois, com um grande esforço, ela recuperou-se do choque, e um espanto e indignação supremos expulsaram qualquer outra expressão das suas feições.
— O senhor... o senhor insulta-me, Sr. Holmes.
— Vamos, vamos, senhora, é inútil. Entregue a carta.
Ela correu para a campainha.
— O mordomo acompanhá-lo-á até à saída.
— Não toque, Lady Hilda. Se o fizer, então todos os meus esforços sinceros para evitar um escândalo serão frustrados. Entregue a carta e tudo será corrigido. Se trabalhar comigo, posso arranjar tudo. Se trabalhar contra mim, terei de a expor.
Ela mantinha-se grandiosamente desafiadora, uma figura régia, com os olhos fixos nos dele como se quisesse ler-lhe a própria alma. Tinha a mão na campainha, mas abstivera-se de a tocar.
— O senhor está a tentar assustar-me. Não é uma atitude muito varonil, Sr. Holmes, vir aqui intimidar uma mulher. Diz que sabe alguma coisa. O que é que sabe?
— Peço-lhe que se sente, senhora. Fará mal a si própria se cair. Não falarei enquanto não se sentar. Obrigado.
— Dou-lhe cinco minutos, Sr. Holmes.
— Um é suficiente, Lady Hilda. Sei da sua visita a Eduardo Lucas, da entrega deste documento, do seu regresso engenhoso ao quarto na noite passada e da forma como retirou a carta do esconderijo debaixo do tapete.
Ela fitou-o com o rosto cinzento e engoliu em seco duas vezes antes de conseguir falar.
— O senhor está louco, Sr. Holmes — está louco! — exclamou, por fim.
Ele tirou um pequeno pedaço de cartão do bolso. Era o rosto de uma mulher recortado de um retrato.
— Trouxe isto porque pensei que pudesse ser útil — disse ele. — O polícia reconheceu-o.
Ela soltou um suspiro e a cabeça caiu para trás na cadeira.
— Vamos, Lady Hilda. A senhora tem a carta. O assunto ainda pode ser resolvido. Não tenho qualquer desejo de lhe trazer problemas. O meu dever termina quando eu devolver a carta perdida ao seu marido. Siga o meu conselho e seja franca comigo. É a sua única oportunidade.
A coragem dela era admirável. Mesmo agora, não queria admitir a derrota.
— Digo-lhe novamente, Sr. Holmes, que o senhor está sob alguma ilusão absurda.
Holmes levantou-se da cadeira.
— Sinto muito por si, Lady Hilda. Fiz o meu melhor por si. Vejo que é tudo em vão.
Ele tocou a campainha. O mordomo entrou.
— O Sr. Trelawney Hope está em casa?
— Estará em casa, senhor, à uma menos um quarto.
Holmes olhou para o relógio.
— Ainda faltam quinze minutos — disse ele. — Muito bem, esperarei.
O mordomo mal tinha fechado a porta atrás de si quando Lady Hilda se ajoelhou aos pés de Holmes, com as mãos estendidas, o rosto belo voltado para cima e molhado de lágrimas.
— Oh, poupe-me, Sr. Holmes! Poupe-me! — suplicou ela, num frenesim de súplica. — Pelo amor de Deus, não lhe conte! Amo-o tanto! Não traria uma sombra que fosse sobre a sua vida, e sei que isto partiria o seu coração nobre.
Holmes levantou a senhora. — Estou grato, senhora, por ter recuperado o juízo, mesmo neste último momento! Não há um instante a perder. Onde está a carta?
Ela correu para uma secretária, destrancou-a e tirou um longo envelope azul.
— Aqui está, Sr. Holmes. Oxalá nunca a tivesse visto!
— Como podemos devolvê-la? — murmurou Holmes. — Depressa, depressa, temos de pensar numa forma! Onde está a pasta de despachos?
— Ainda no quarto dele.
— Que golpe de sorte! Depressa, senhora, traga-a aqui! Um momento depois, ela apareceu com uma pasta plana e vermelha na mão.
— Como a abriu antes? Tem uma chave duplicada? Sim, claro que tem. Abra-a!
Do seio, Lady Hilda tirou uma pequena chave. A pasta abriu-se de um solavanco. Estava cheia de papéis. Holmes enfiou o envelope azul bem fundo no meio deles, entre as folhas de outro documento qualquer. A pasta foi fechada, trancada e devolvida ao quarto.
— Agora estamos prontos para ele — disse Holmes. — Ainda temos dez minutos. Vou esforçar-me muito para a proteger, Lady Hilda. Em troca, passará o tempo a contar-me francamente o verdadeiro significado deste caso extraordinário.
— Sr. Holmes, contar-lhe-ei tudo — clamou a senhora. — Oh, Sr. Holmes, eu cortaria a minha mão direita antes de lhe causar um momento de tristeza! Não há mulher em toda a Londres que ame o marido como eu, e contudo, se ele soubesse como agi — como fui forçada a agir —, ele nunca me perdoaria. Pois a sua própria honra está tão elevada que ele não poderia esquecer ou perdoar um deslize de outrem. Ajude-me, Sr. Holmes! A minha felicidade, a felicidade dele, as nossas próprias vidas estão em jogo!
— Depressa, senhora, o tempo urge!
— Era uma carta minha, Sr. Holmes, uma carta indiscreta escrita antes do meu casamento — uma carta tola, a carta de uma rapariga impulsiva e apaixonada. Não pretendia fazer mal, e contudo ele tê-la-ia considerado criminosa. Se ele tivesse lido aquela carta, a sua confiança teria sido destruída para sempre. Já passaram anos desde que a escrevi. Tinha pensado que todo o assunto estava esquecido. Depois, finalmente, recebi notícias deste homem, Lucas, de que ela tinha ido parar às mãos dele e de que ele a apresentaria ao meu marido. Implorei pela sua misericórdia. Ele disse que me devolveria a carta se eu lhe trouxesse um certo documento que ele descreveu, que se encontrava na pasta de despachos do meu marido. Ele tinha um espião no escritório que lhe tinha falado da sua existência. Garantiu-me que nenhum mal poderia advir ao meu marido. Ponha-se na minha posição, Sr. Holmes! O que é que eu devia fazer?
— Confiar no seu marido.
— Eu não podia, Sr. Holmes, eu não podia! Por um lado, parecia a ruína certa; por outro, embora parecesse terrível tirar o papel do meu marido, ainda assim, num assunto de política, eu não conseguia compreender as consequências, enquanto num assunto de amor e confiança, elas eram demasiado claras para mim. Fiz isso, Sr. Holmes! Tirei uma impressão da sua chave. Este homem, Lucas, forneceu um duplicado. Abri a sua pasta de despachos, tirei o papel e levei-o para Godolphin Street.
— O que aconteceu lá, senhora?
— Bati à porta como combinado. Lucas abriu-a. Segui-o até ao seu quarto, deixando a porta do corredor entreaberta atrás de mim, pois temia estar a sós com o homem. Lembro-me de que havia uma mulher lá fora quando entrei. O nosso negócio ficou logo concluído. Ele tinha a minha carta na secretária, entreguei-lhe o documento. Ele deu-me a carta. Nesse instante, ouviu-se um ruído à porta. Havia passos no corredor. Lucas rapidamente virou o tapete, enfiou o documento num esconderijo ali e cobriu-o.
— O que aconteceu depois disso parece um sonho horrível. Tenho a visão de um rosto escuro e frenético, de uma voz de mulher que gritava em francês: "A minha espera não foi em vão. Finalmente, finalmente encontrei-te com ela!" Houve uma luta selvagem. Vi-o com uma cadeira na mão, uma faca brilhou na dela. Saí a correr daquela cena horrível, fugi da casa e só na manhã seguinte, no jornal, soube do resultado terrível. Naquela noite, estava feliz, pois tinha a minha carta e ainda não tinha visto o que o futuro traria.
— Foi na manhã seguinte que percebi que tinha apenas trocado um problema por outro. A angústia do meu marido pela perda do seu papel tocou-me o coração. Mal conseguia impedir-me de me ajoelhar ali mesmo, aos pés dele, e contar-lhe o que tinha feito. Mas isso significaria, mais uma vez, uma confissão do passado. Vim ter consigo naquela manhã para compreender a total enormidade da minha ofensa. A partir do instante em que a compreendi, toda a minha mente voltou-se para o único pensamento de recuperar o papel do meu marido. Tinha de estar onde Lucas o tinha colocado, pois foi escondido antes de esta mulher terrível entrar na sala. Se não fosse pela sua chegada, eu não teria sabido onde era o seu esconderijo. Como é que eu havia de entrar no quarto? Durante dois dias vigiei o local, mas a porta nunca ficou aberta. Ontem à noite fiz uma última tentativa. O que fiz e como tive sucesso, já o senhor sabe. Trouxe o papel comigo e pensei em destruí-lo, uma vez que não via forma de o devolver sem confessar a minha culpa ao meu marido. Céus, ouço os seus passos na escada!
O Secretário de Estado para os Assuntos Europeus entrou precipitadamente na sala. — Alguma notícia, Sr. Holmes, alguma notícia? — exclamou.
— Tenho algumas esperanças.
— Ah, graças a Deus! O seu rosto tornou-se radiante. — O Primeiro-Ministro está a almoçar comigo. Pode ele partilhar as suas esperanças? Ele tem nervos de aço, e contudo sei que mal dormiu desde este evento terrível. Jacobs, quer pedir ao Primeiro-Ministro para subir? Quanto a si, querida, temo que isto seja um assunto de política. Juntar-nos-emos a si dentro de alguns minutos na sala de jantar.
O comportamento do Primeiro-Ministro era contido, mas pude ver pelo brilho dos seus olhos e pelos espasmos das suas mãos ossudas que ele partilhava a excitação do seu jovem colega.
— Compreendo que tem algo a relatar, Sr. Holmes?
— Puramente negativo até agora — respondeu o meu amigo. — Inquiri em todos os pontos onde poderia estar, e estou certo de que não há perigo a temer.
— Mas isso não é suficiente, Sr. Holmes. Não podemos viver para sempre sobre um vulcão. Precisamos de algo definitivo.
— Tenho esperança de o obter. É por isso que estou aqui. Quanto mais penso no assunto, mais convencido fico de que a carta nunca saiu desta casa.
— Sr. Holmes!
— Se tivesse saído, certamente já seria pública.
— Mas porque haveria alguém de a levar para a manter na sua própria casa?
— Não estou convencido de que alguém a tenha levado.
— Então como é que ela poderia sair da pasta de despachos?
— Não estou convencido de que ela tenha alguma vez saído da pasta de despachos.
— Sr. Holmes, esta brincadeira é muito inoportuna. Tem a minha garantia de que ela saiu da pasta.
— Examinou a pasta desde terça-feira de manhã?
— Não. Não era necessário.
— Pode, concebivelmente, ter-lhe escapado.
— Impossível, digo-lhe.
— Mas não estou convencido disso. Já vi tais coisas acontecerem. Suponho que existam outros papéis lá. Bem, pode ter-se misturado com eles.
— Estava no topo.
— Alguém pode ter abanado a pasta e tê-la deslocado.
— Não, não, tirei tudo para fora.
— Certamente é fácil de decidir, Hope — disse o Primeiro-Ministro. — Vamos pedir que tragam a pasta de despachos.
O Secretário tocou a campainha.
— Jacobs, traga a minha pasta de despachos. Isto é um desperdício de tempo farsesco, mas ainda assim, se nada mais o satisfizer, será feito. Obrigado, Jacobs, coloque-a aqui. Sempre tive a chave na corrente do meu relógio. Aqui estão os papéis, vê. Carta de Lord Merrow, relatório de Sir Charles Hardy, memorando de Belgrado, nota sobre os impostos sobre os cereais russo-alemães, carta de Madrid, nota de Lord Flowers... Bons céus! O que é isto? Lord Bellinger! Lord Bellinger!
O Primeiro-Ministro arrancou o envelope azul das suas mãos.
— Sim, é ela — e a carta está intacta. Hope, dou-lhe os meus parabéns.
— Obrigado! Obrigado! Que peso retirado do meu coração. Mas isto é inconcebível — impossível. Sr. Holmes, é um feiticeiro, um mago! Como sabia que estava lá?
— Porque sabia que não estava em mais lado nenhum.
— Não posso acreditar no que vejo! — Ele correu desvairadamente para a porta. — Onde está a minha mulher? Tenho de lhe dizer que está tudo bem. Hilda! Hilda! — ouvimos a sua voz nas escadas.
O Primeiro-Ministro olhou para Holmes com olhos cintilantes.
— Vamos, senhor — disse ele. — Há mais nisto do que aquilo que os olhos alcançam. Como é que a carta voltou para a pasta?
Holmes afastou-se, sorrindo perante o exame atento daqueles olhos maravilhosos.
— Nós também temos os nossos segredos diplomáticos — disse ele e, pegando no seu chapéu, virou-se para a porta.
FIM