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The Secret Agent: A Simple Tale

by Joseph Conrad · in Portuguese

O AGENTE SECRETO UM CONTO SIMPLES

POR JOSEPH CONRAD

SEGUNDA EDIÇÃO

METHUEN & CO., 36 ESSEX STREET W C. LONDRES

Publicado pela primeira vez . . . Setembro de 1907

Segunda Edição . . . Outubro de 1907

A H. G. WELLS

O CRONISTA DO AMOR DO SR. LEWISHAM O BIÓGRAFO DE KIPPS E O HISTORIADOR DOS TEMPOS VINDOUROS

ESTE CONTO SIMPLES DO SÉCULO XIX É AFETUOSAMENTE DEDICADO

CAPÍTULO I

O Sr. Verloc, ao sair pela manhã, deixava a sua loja nominalmente sob os cuidados do seu cunhado. Era possível fazê-lo, porque havia muito pouco movimento a qualquer hora e, praticamente, nenhum antes da noite. O Sr. Verloc pouco se importava com o seu negócio ostensivo. E, além disso, a sua esposa estava encarregada do cunhado.

A loja era pequena, assim como a casa. Era uma daquelas casas de tijolo imundas que existiam em grandes quantidades antes que a era da reconstrução amanhecesse sobre Londres. A loja era um lugar quadrado, com a fachada envidraçada em pequenas vidraças. Durante o dia, a porta permanecia fechada; à noite, ficava discreta, porém suspeitosamente entreaberta.

A montra continha fotografias de bailarinas mais ou menos despidas; pacotes indefinidos em invólucros semelhantes aos de remédios patenteados; envelopes de papel amarelo fechados, muito frágeis e marcados com dois e seis em algarismos negros pesados; alguns números de antigas publicações cómicas francesas pendurados num fio, como se estivessem a secar; uma taça de porcelana azul baça, um estojo de madeira preta, frascos de tinta de marcar e carimbos de borracha; alguns livros, com títulos que insinuavam impropriedade; algumas cópias aparentemente antigas de jornais obscuros, mal impressos, com títulos como O Archote, O Gongo — títulos incitantes. E os dois bicos de gás no interior das vidraças estavam sempre baixos, fosse por economia ou por consideração aos clientes.

Estes clientes eram ou homens muito jovens, que rondavam a montra durante algum tempo antes de entrarem subitamente; ou homens de idade mais madura, mas com o aspeto geral de não terem fundos. Alguns deste último tipo tinham as golas dos sobretudos viradas até aos bigodes e vestígios de lama na parte inferior das suas peças de vestuário inferiores, que davam a impressão de serem muito gastas e de pouco valor. E as pernas dentro delas também não pareciam, em regra geral, valer muito. Com as mãos profundamente enterradas nos bolsos laterais dos casacos, entravam de lado, com um ombro primeiro, como se receassem fazer tocar a campainha.

A campainha, suspensa na porta por meio de uma fita de aço curva, era difícil de contornar. Estava irremediavelmente rachada; mas, à noite, à mínima provocação, ela retinia atrás do cliente com uma virulência insolente.

Ela retinia; e a esse sinal, através da porta de vidro poeirento atrás do balcão de madeira pintada, o Sr. Verloc emergia apressadamente da sala de estar das traseiras. Os seus olhos eram naturalmente pesados; ele tinha o ar de quem esteve a chafurdar, totalmente vestido, o dia todo numa cama por fazer. Outro homem teria sentido tal aparência como uma desvantagem distinta. Numa transação comercial a retalho, muito depende do aspeto cativante e amável do vendedor. Mas o Sr. Verloc conhecia o seu negócio e permanecia imperturbável por qualquer tipo de dúvida estética sobre a sua aparência. Com uma insolência firme e de olhar fixo, que parecia conter a ameaça de algum perigo abominável, ele procedia a vender sobre o balcão algum objeto que, óbvia e escandalosamente, não valia o dinheiro que passava na transação: uma pequena caixa de cartão aparentemente sem nada dentro, por exemplo, ou um daqueles envelopes amarelos frágeis cuidadosamente fechados, ou um volume sujo de capa de papel com um título prometedor. De vez em quando, acontecia que uma das bailarinas amarelas desbotadas era vendida a um amador, como se tivesse sido viva e jovem.

Às vezes, era a Sra. Verloc que aparecia ao chamado da campainha rachada. Winnie Verloc era uma mulher jovem com um busto cheio, num corpete justo, e ancas largas. O seu cabelo era muito arrumado. De olhar fixo como o marido, ela preservava um ar de indiferença insondável atrás do baluarte do balcão. Então, o cliente de tenra idade ficava subitamente desconcertado por ter de lidar com uma mulher e, com raiva no coração, fazia um pedido de um frasco de tinta de marcar, valor de retalho seis pence (preço na loja de Verloc um xelim e seis pence), o qual, assim que estivesse fora, deixava cair furtivamente na sarjeta.

Os visitantes da noite — os homens com golas viradas e chapéus macios puxados para baixo — acenavam familiarmente à Sra. Verloc e, com um cumprimento murmurado, levantavam a aba na extremidade do balcão para passar para a sala de estar das traseiras, que dava acesso a um corredor e a um lance íngreme de escadas. A porta da loja era o único meio de entrada para a casa na qual o Sr. Verloc exercia o seu negócio de vendedor de mercadorias duvidosas, praticava a sua vocação de protetor da sociedade e cultivava as suas virtudes domésticas. Estas últimas eram pronunciadas. Ele era completamente domesticado. Nem as suas necessidades espirituais, nem mentais, nem físicas eram do tipo que o levasse muito para fora. Ele encontrava em casa o conforto do seu corpo e a paz da sua consciência, juntamente com as atenções conjugais da Sra. Verloc e a consideração deferente da mãe da Sra. Verloc.

A mãe de Winnie era uma mulher robusta e ofegante, com um rosto grande e castanho. Usava uma peruca preta sob uma touca branca. As suas pernas inchadas tornavam-na inativa. Considerava-se de ascendência francesa, o que poderia ter sido verdade; e, após muitos anos de vida conjugal com um estalajadeiro do tipo mais comum, ela assegurou os anos de viuvez alugando quartos mobilados para cavalheiros perto de Vauxhall Bridge Road, numa praça outrora de algum esplendor e ainda incluída no distrito de Belgravia. Este facto topográfico era de alguma vantagem na publicidade dos seus quartos; mas os clientes da digna viúva não eram exatamente do tipo elegante. Tais como eram, a sua filha Winnie ajudava a cuidar deles. Vestígios da ascendência francesa de que a viúva se gabava também eram aparentes em Winnie. Eram visíveis na disposição extremamente arrumada e artística do seu cabelo escuro e brilhante. Winnie tinha também outros encantos: a sua juventude; a sua forma cheia e arredondada; a sua tez clara; a provocação da sua reserva insondável, que nunca ia tão longe a ponto de impedir a conversação, levada a cabo da parte dos inquilinos com animação, e da dela com uma amabilidade equânime. Deve ser que o Sr. Verloc era suscetível a estes encantos. O Sr. Verloc era um cliente intermitente. Vinha e ia sem qualquer motivo muito aparente. Geralmente chegava a Londres (como a gripe) do Continente, apenas chegava sem ser anunciado pela Imprensa; e as suas visitações ocorriam com grande severidade. Tomava o pequeno-almoço na cama e permanecia lá chafurdando com um ar de prazer silencioso até ao meio-dia todos os dias — e, por vezes, até uma hora mais tardia. Mas quando saía, parecia ter uma grande dificuldade em encontrar o caminho de volta para a sua casa temporária na praça de Belgravia. Saía tarde e regressava cedo — tão cedo como às três ou quatro da manhã; e ao acordar às dez, dirigia-se a Winnie, que trazia o tabuleiro do pequeno-almoço, com uma jovialidade exausta, nos tons roucos e falhantes de um homem que estivera a falar veementemente durante muitas horas seguidas. Os seus olhos proeminentes e de pálpebras pesadas rolavam lateralmente de forma amorosa e lânguida, os lençóis da cama eram puxados até ao queixo e o seu bigode escuro e liso cobria os seus lábios grossos, capazes de muitas brincadeiras melosas.

Na opinião da mãe de Winnie, o Sr. Verloc era um cavalheiro muito agradável. Da experiência da sua vida reunida em várias "casas de negócios", a boa mulher tinha levado para a sua reforma um ideal de cavalheirismo, tal como exibido pelos clientes dos bares privados. O Sr. Verloc aproximava-se desse ideal; ele atingia-o, de facto.

"Claro, vamos ficar com os seus móveis, mãe", tinha observado Winnie.

A pensão ia ser abandonada. Parece que não seria viável continuar com ela. Teria sido demasiado trabalho para o Sr. Verloc. Não teria sido conveniente para o seu outro negócio. Qual era o seu negócio, ele não dizia; mas após o seu noivado com Winnie, ele deu-se ao trabalho de se levantar antes do meio-dia e, descendo as escadas da cave, tornar-se agradável para a mãe de Winnie na sala de pequeno-almoço no andar de baixo, onde ela tinha a sua existência imóvel. Ele acariciava o gato, mexia no lume, tomava o seu almoço servido lá. Deixava o seu aconchego ligeiramente abafado com evidente relutância, mas, ainda assim, permanecia fora até a noite estar muito avançada. Ele nunca se ofereceu para levar Winnie aos teatros, como um cavalheiro tão agradável deveria ter feito. As suas noites estavam ocupadas. O seu trabalho era, de certa forma, político, disse ele a Winnie uma vez. Ela teria, avisou-a ele, de ser muito simpática com os seus amigos políticos.

E com o seu olhar direto e insondável, ela respondeu que o seria, claro.

Quanto mais ele lhe disse sobre a sua ocupação, era impossível para a mãe de Winnie descobrir. O casal levou-a com os móveis. O aspeto miserável da loja surpreendeu-a. A mudança da praça de Belgravia para a rua estreita em Soho afetou as suas pernas de forma adversa. Tornaram-se de um tamanho enorme. Por outro lado, ela experimentou um completo alívio de preocupações materiais. A boa natureza pesada do seu genro inspirava-lhe um sentido de segurança absoluta. O futuro da sua filha estava obviamente assegurado e, mesmo quanto ao seu filho Stevie, ela não precisava de ter qualquer ansiedade. Ela não tinha sido capaz de esconder de si mesma que ele era um encargo terrível, aquele pobre Stevie. Mas tendo em conta a afeição de Winnie pelo seu irmão delicado e a disposição gentil e generosa do Sr. Verloc, ela sentia que o pobre rapaz estava bastante seguro neste mundo rude. E, no fundo do seu coração, talvez não estivesse desagradada por os Verloc não terem filhos. Como essa circunstância parecia perfeitamente indiferente ao Sr. Verloc e como Winnie encontrava um objeto de afeição quase maternal no seu irmão, talvez fosse melhor assim para o pobre Stevie.

Pois ele era difícil de colocar, aquele rapaz. Ele era delicado e, de uma forma frágil, também bem-parecido, exceto pelo cair vago do seu lábio inferior. Sob o nosso excelente sistema de educação obrigatória, ele tinha aprendido a ler e escrever, apesar do aspeto desfavorável do lábio inferior. Mas como estafeta não se revelou um grande sucesso. Ele esquecia as suas mensagens; era facilmente desviado do caminho reto do dever pelas atrações de gatos e cães vadios, que seguia por vielas estreitas até pátios desagradáveis; pelas comédias das ruas, que contemplava de boca aberta, em detrimento dos interesses do seu empregador; ou pelos dramas dos cavalos caídos, cujo pathos e violência levavam-no, por vezes, a gritar estridentemente numa multidão, que não gostava de ser perturbada por sons de angústia no seu desfrute silencioso do espetáculo nacional. Quando conduzido por um polícia grave e protetor, tornava-se frequentemente aparente que o pobre Stevie tinha esquecido o seu endereço — pelo menos por algum tempo. Uma pergunta brusca levava-o a gaguejar até ao ponto de sufocação. Quando sobressaltado por qualquer coisa desconcertante, ele costumava estrábico horrivelmente. No entanto, nunca tinha ataques (o que era encorajador); e perante as explosões naturais de impaciência por parte do seu pai, ele podia sempre, nos seus dias de infância, correr para proteção atrás das saias curtas da sua irmã Winnie. Por outro lado, poderia ter sido suspeito de esconder um fundo de maldade imprudente. Quando atingiu a idade de catorze anos, um amigo do seu falecido pai, agente de uma firma estrangeira de leite conservado, tendo-lhe dado uma oportunidade como rapaz de escritório, ele foi descoberto numa tarde de nevoeiro, na ausência do seu chefe, ocupado a lançar fogo-de-artifício na escada. Ele acendeu em rápida sucessão um conjunto de foguetes ferozes, girândolas zangadas, petardos que explodiam ruidosamente — e o caso poderia ter acabado muito mal. Um pânico terrível espalhou-se por todo o edifício. Funcionários de olhos arregalados e sufocados debandaram pelos corredores cheios de fumo; cartolas e empresários idosos podiam ser vistos a rebolar independentemente escada abaixo. Stevie não parecia tirar qualquer gratificação pessoal do que tinha feito. Os seus motivos para este golpe de originalidade eram difíceis de descobrir. Foi só mais tarde que Winnie obteve dele uma confissão enevoada e confusa. Parece que outros dois rapazes de escritório no edifício tinham trabalhado sobre os seus sentimentos com histórias de injustiça e opressão até terem levado a sua compaixão ao auge desse frenesim. Mas o amigo do seu pai, claro, despediu-o sumariamente por provavelmente arruinar o seu negócio. Após esse feito altruísta, Stevie foi posto a ajudar a lavar a loiça na cozinha da cave e a engraxar as botas dos cavalheiros que frequentavam a mansão de Belgravia. Obviamente não havia futuro em tal trabalho. Os cavalheiros davam-lhe uma gorjeta de um xelim de vez em quando. O Sr. Verloc mostrou-se o mais generoso dos inquilinos. Mas, no geral, tudo aquilo não somava muito em termos de ganhos ou perspetivas; de modo que, quando Winnie anunciou o seu noivado com o Sr. Verloc, a sua mãe não pôde deixar de se interrogar, com um suspiro e um olhar em direção à copa, o que seria do pobre Stephen agora.

Parecia que o Sr. Verloc estava pronto a levá-lo, juntamente com a mãe da sua esposa e com os móveis, que eram toda a fortuna visível da família. O Sr. Verloc acolheu tudo o que vinha para o seu peito largo e bondoso. Os móveis foram dispostos da melhor maneira por toda a casa, mas a mãe da Sra. Verloc ficou confinada a dois quartos nas traseiras no primeiro andar. O infeliz Stevie dormia num deles. Por esta altura, um crescimento de cabelo fino e fofo tinha vindo a esbater, como uma névoa dourada, a linha nítida do seu pequeno maxilar inferior. Ele ajudava a sua irmã com amor cego e docilidade nos seus deveres domésticos. O Sr. Verloc achava que alguma ocupação seria boa para ele. O seu tempo livre ele ocupava desenhando círculos com compasso e lápis num pedaço de papel. Ele aplicava-se a esse passatempo com grande diligência, com os cotovelos espalhados e curvado sobre a mesa da cozinha. Através da porta aberta da sala de estar nas traseiras da loja, Winnie, a sua irmã, olhava para ele de tempos a tempos com vigilância maternal.

CAPÍTULO II

Tal era a casa, o agregado familiar e o negócio que o Sr. Verloc deixava para trás a caminho do oeste, à hora de meia-hora depois das dez da manhã. Era invulgarmente cedo para ele; toda a sua pessoa exalava o charme de uma frescura quase orvalhada; ele usava o seu sobretudo de pano azul desabotoado; as suas botas estavam brilhantes; as suas bochechas, frescas de barbeadas, tinham uma espécie de brilho; e até os seus olhos de pálpebras pesadas, refrescados por uma noite de sono tranquilo, enviavam olhares de relativa vivacidade. Através das grades do parque, estes olhares contemplavam homens e mulheres a montar na Row, casais a galopar harmoniosamente, outros a avançar serenamente a passo, grupos vadios de três ou quatro, cavaleiros solitários com ar antissocial e mulheres solitárias seguidas a longa distância por um cavalariço com um cocar no chapéu e um cinto de couro sobre o seu casaco justo. Carruagens passavam a rolar, na maioria broughams de dois cavalos, com aqui e ali uma victoria com a pele de algum animal selvagem no interior e o rosto e chapéu de uma mulher emergindo acima da capota dobrada. E um sol peculiarmente londrino — contra o qual nada se poderia dizer, exceto que parecia congestionado — glorificava tudo isto com o seu olhar fixo. Ele pendia a uma altitude moderada acima de Hyde Park Corner com um ar de vigilância pontual e benigna. O próprio pavimento sob os pés do Sr. Verloc tinha um tom de ouro velho naquela luz difusa, na qual nem parede, nem árvore, nem besta, nem homem lançavam sombra. O Sr. Verloc ia para oeste através de uma cidade sem sombras numa atmosfera de ouro velho em pó. Havia reflexos vermelhos, acobreados, nos telhados das casas, nas esquinas das paredes, nos painéis das carruagens, nos próprios casacos dos cavalos e nas costas largas do sobretudo do Sr. Verloc, onde produziam um efeito baço de ferrugem. Mas o Sr. Verloc não estava minimamente consciente de ter enferrujado. Ele observava através das grades do parque os indícios da opulência e luxo da cidade com um olho aprovador. Todas aquelas pessoas tinham de ser protegidas. A proteção é a primeira necessidade da opulência e do luxo. Elas tinham de ser protegidas; e os seus cavalos, carruagens, casas, servos tinham de ser protegidos; e a fonte da sua riqueza tinha de ser protegida no coração da cidade e no coração do país; toda a ordem social favorável à sua ociosidade higiénica tinha de ser protegida contra a inveja superficial do trabalho não higiénico. Tinha de ser — e o Sr. Verloc teria esfregado as mãos de satisfação se não fosse constitucionalmente avesso a qualquer esforço supérfluo. A sua ociosidade não era higiénica, mas servia-lhe muito bem. Ele estava de certa forma dedicado a ela com uma espécie de fanatismo inerte, ou talvez antes com uma inércia fanática. Nascido de pais industriosos para uma vida de labuta, ele tinha abraçado a indolência por um impulso tão profundo quanto inexplicável e tão imperioso como o impulso que direciona a preferência de um homem por uma mulher particular num dado milhar. Ele era demasiado preguiçoso até para um mero demagogo, para um orador operário, para um líder sindical. Era demasiado trabalho. Ele exigia uma forma mais perfeita de descanso; ou poderia ter sido que ele era vítima de uma descrença filosófica na eficácia de todo o esforço humano. Tal forma de indolência requer, implica, uma certa quantidade de inteligência. O Sr. Verloc não era desprovido de inteligência — e perante a noção de uma ordem social ameaçada, ele talvez tivesse piscado o olho a si mesmo se não houvesse um esforço a fazer nesse sinal de ceticismo. Os seus olhos grandes e proeminentes não eram bem adaptados para piscar. Eram antes do tipo que se fecha solenemente no sono com efeito majestoso.

Sem demonstrar nada e corpulento ao estilo de um porco gordo, o Sr. Verloc, sem esfregar as mãos de satisfação nem piscar ceticamente perante os seus pensamentos, prosseguiu o seu caminho. Ele pisava o pavimento pesadamente com as suas botas brilhantes, e o seu vestuário geral era o de um mecânico abastado que trabalhava por conta própria. Poderia ter sido qualquer coisa, desde um fabricante de molduras a um serralheiro; um empregador de mão de obra numa pequena escala. Mas havia também nele um ar indescritível que nenhum mecânico poderia ter adquirido na prática do seu ofício, por mais desonestamente exercido: o ar comum aos homens que vivem dos vícios, das loucuras ou dos medos mais baixos da humanidade; o ar de niilismo moral comum aos donos de antros de jogo e casas de má fama; aos detetives privados e agentes de investigação; aos vendedores de bebidas e, diria eu, aos vendedores de cintos elétricos revigorantes e aos inventores de remédios patenteados. Mas disso último não tenho certeza, não tendo levado as minhas investigações tão longe nas profundezas. Pelo que sei, a expressão destes últimos pode ser perfeitamente diabólica. Não me surpreenderia. O que quero afirmar é que a expressão do Sr. Verloc não era de modo algum diabólica.

Não. O que eu quero dizer é que a sua expressão era de um tédio profundo. E, contudo, ele era um homem de negócios. Ele era o proprietário de uma loja que vendia, conforme o letreiro da montra indicava, artigos de papelaria e publicações francesas. O negócio não era, contudo, do tipo que se pudesse chamar de próspero. A loja, situada numa rua estreita e sombria de Belgravia, era um lugar de mistérios, onde o Sr. Verloc passava a maior parte do seu tempo a contemplar a montra. A clientela, se é que se podia chamar assim, era composta por homens de aspecto suspeito que entravam e saíam rapidamente, deixando um rasto de silêncio atrás de si.

O Sr. Vladimir, na sua poltrona, inclinou-se para a frente, com os cotovelos apoiados na secretária de mogno. O seu rosto, outrora jovial, endurecera-se.

— O que nós precisamos — continuou ele, numa voz cortante — é de algo que abale o sistema. Algo que faça com que esta gente respeitável, que dorme tranquilamente nos seus leitos, acorde a tremer. O senhor conhece o Observatório de Greenwich?

O Sr. Verloc permaneceu imóvel. A sua figura, pesada e inexpressiva, parecia ter absorvido a luz sombria da sala.

— Sim — respondeu ele, com a voz rouca e baixa.

— Pois bem — disse o Sr. Vladimir, os seus olhos brilhando com uma crueldade calculada. — O Observatório de Greenwich. O ponto zero da longitude. O centro do tempo. Pense na publicidade, no choque, no horror que isso causaria. Uma explosão ali seria um ato de uma pureza tal, de uma desrazão tão absoluta, que não poderia deixar de ser atribuída à loucura anarquista. É isso que queremos. Um fato, Sr. Verloc. Um fato significativo.

O Sr. Verloc sentiu um frio percorrer-lhe a espinha, mas não desviou o olhar.

— É uma tarefa perigosa — murmurou.

— A vida é perigosa — retorquiu o Primeiro Secretário com um sorriso desdenhoso. — E o seu ordenado não é pago por riscos que não corre. Vá para casa, Sr. Verloc. Pense nisso. Tem um mês. Se for capaz de realizar este pequeno serviço à causa da ordem, será devidamente recompensado. Caso contrário... bem, o seu passado, creio eu, não suportaria um escrutínio muito rigoroso por parte das autoridades inglesas, pois não?

O Sr. Verloc inclinou a cabeça. O peso do seu sobretuto parecia ter aumentado. Sem dizer mais uma palavra, virou-se e saiu da sala com o mesmo passo pesado e hesitante, atravessando o corredor silencioso em direção à saída da Embaixada. O ar frio da tarde londrina atingiu-o como um veredito, enquanto se misturava novamente à multidão anónima das ruas.

O Sr. Verloc, contudo, não se dirigiu imediatamente para casa. Caminhou durante algum tempo, com os ombros curvados e o olhar fixo no passeio, como se estivesse a contar as pedras da calçada. O peso daquela entrevista pesava-lhe no espírito como uma carga de chumbo. A ideia do meridiano, aquela loucura astronómica sugerida pelo Primeiro Secretário, parecia-lhe cada vez mais absurda à medida que a luz do dia se esbatia numa penumbra suja. Ele, que sempre se movera nas sombras da conspiração com a cautela de um homem que conhece o valor da rotina e do anonimato, sentia-se agora empurrado para o centro de um palco onde não desejava atuar.

Ao passar por uma montra iluminada, o seu reflexo devolveu-lhe a imagem de um homem comum, um pequeno comerciante cuja única ambição, até então, fora manter a fachada da sua loja e a quietude do seu lar. O contraste entre essa existência modesta e a exigência de Vladimir — uma exigência de violência pura, sem causa aparente, desprovida de qualquer lógica revolucionária que ele pudesse compreender — causava-lhe um mal-estar físico. O Sr. Verloc detestava a ideia de ser notado, de causar alvoroço; a sua utilidade, ao longo daqueles onze anos, baseara-se precisamente na sua capacidade de passar despercebido, de ser um observador invisível entre os que gritavam palavras de ordem.

No entanto, a ameaça de despedimento era real e cortante. O Sr. Vladimir não era um homem de meias medidas, nem de piedade. Se o seu salário cessasse, o que seria da sua vida, da sua loja, da sua pequena família que ele, à sua maneira, tentava proteger? O pensamento da sua casa em Soho, com a sua esposa Winnie e o seu cunhado Stevie, trouxe-lhe um breve momento de clareza. Eram seres simples, alheios às intrigas que o envolviam. A sua existência dependia daquela máscara de respeitabilidade que ele mantinha com tanto esforço, e que agora ameaçava desmoronar-se sob o peso daquela missão insensata.

Ele parou diante de um quiosque de jornais, olhando distraidamente para as manchetes. O mundo parecia continuar o seu curso normal, indiferente à tempestade que se preparava na mente de um homem que, por um capricho do destino, se tornara o instrumento de uma política cujas ramificações mal conseguia vislumbrar. O Sr. Verloc suspirou, ajustou o chapéu e, com um passo mais firme, embora ainda hesitante, começou a dirigir-se para os bairros mais movimentados. Tinha um mês. Um mês para navegar entre as exigências de um diplomata cínico e a sua própria necessidade de sobrevivência. O destino, pensou, era uma coisa estranha; e ele, o agente [delta], sentia-se, pela primeira vez, como um peão num jogo cujas regras tinham sido subitamente alteradas.

O lacaio de calças, surgindo subitamente no corredor, deixou o Sr. Verloc sair por outro caminho e através de uma pequena porta no canto do pátio. O porteiro, de pé junto ao portão, ignorou completamente a sua saída; e o Sr. Verloc refez o caminho da sua peregrinação matinal como se estivesse num sonho — um sonho de raiva. Este desprendimento do mundo material era tão completo que, embora o envelope mortal do Sr. Verloc não tivesse apressado o passo indevidamente ao longo das ruas, aquela parte dele a que seria injustificavelmente grosseiro recusar a imortalidade encontrou-se à porta da loja de uma só vez, como se fosse transportada de oeste para este nas asas de um grande vento. Caminhou diretamente para trás do balcão e sentou-se numa cadeira de madeira que lá estava. Ninguém apareceu para perturbar a sua solidão. Stevie, metido num avental de baeta verde, estava agora a varrer e a tirar o pó no andar de cima, atento e consciencioso, como se estivesse a brincar; e a Sra. Verloc, avisada na cozinha pelo tinir da campainha rachada, tinha apenas vindo até à porta envidraçada da sala e, afastando um pouco a cortina, espreitou para a loja sombria. Ao ver o marido sentado ali, vultuoso e corpulento, com o chapéu inclinado bem para trás na cabeça, regressou imediatamente para o seu fogão. Uma hora ou mais tarde, tirou o avental de baeta verde ao seu irmão Stevie e instruiu-o a lavar as mãos e o rosto com o tom peremptório que usava a esse respeito há uns quinze anos — desde que, de facto, deixara de tratar pessoalmente das mãos e do rosto do rapaz. Pouco depois, poupou um olhar, desviando-o do serviço da comida, para a inspeção daquele rosto e daquelas mãos que Stevie, aproximando-se da mesa da cozinha, oferecia para a sua aprovação com um ar de autoconfiança que escondia um resíduo perpétuo de ansiedade. Antigamente, a raiva do pai era a sanção supremamente eficaz destes ritos, mas a placidez do Sr. Verloc na vida doméstica teria tornado qualquer menção à raiva inacreditável, mesmo para o nervosismo do pobre Stevie. A teoria era que o Sr. Verloc ficaria inexprimivelmente magoado e chocado com qualquer falta de limpeza nas horas das refeições. Winnie, após a morte do pai, encontrou um consolo considerável no sentimento de que já não precisava de tremer pelo pobre Stevie. Não suportava ver o rapaz magoado. Enlouquecia-a. Quando pequena, muitas vezes enfrentara com olhos flamejantes o irascível taberneiro em defesa do seu irmão. Nada agora na aparência da Sra. Verloc poderia levar alguém a supor que ela fosse capaz de uma demonstração apaixonada.

Terminou de servir a comida. A mesa estava posta na sala. Indo até ao fundo das escadas, gritou: "Mãe!" Depois, abrindo a porta envidraçada que dava para a loja, disse calmamente: "Adolf!" O Sr. Verloc não tinha mudado de posição; aparentemente, não mexera um membro durante uma hora e meia. Levantou-se pesadamente e veio jantar de sobretudo e com o chapéu na cabeça, sem proferir uma palavra. O seu silêncio, por si só, não tinha nada de surpreendentemente incomum naquela casa, escondida nas sombras da rua sórdida raramente tocada pelo sol, atrás da loja sombria com os seus artigos de lixo pouco recomendável. Apenas naquele dia a taciturnidade do Sr. Verloc era tão obviamente pensativa que as duas mulheres ficaram impressionadas. Sentaram-se em silêncio, mantendo um olhar vigilante sobre o pobre Stevie, para que ele não irrompesse num dos seus ataques de loquacidade. Ele estava de frente para o Sr. Verloc, do outro lado da mesa, e permaneceu muito bem comportado e quieto, a olhar fixamente para o vazio. O esforço para evitar que ele se tornasse desagradável de qualquer forma para o dono da casa colocava uma ansiedade não desprezível na vida daquelas duas mulheres. "Aquele rapaz", como se referiam a ele suavemente entre si, fora uma fonte desse tipo de ansiedade quase desde o próprio dia do seu nascimento. A humilhação do falecido taberneiro por ter um filho tão peculiar manifestava-se por uma propensão para o tratamento brutal; pois ele era uma pessoa de sensibilidades refinadas, e os seus sofrimentos como homem e como pai eram perfeitamente genuínos. Mais tarde, foi preciso evitar que Stevie se tornasse um incómodo para os cavalheiros hóspedes solteiros, que são eles próprios um grupo estranho e facilmente ofendido. E havia sempre a ansiedade da sua mera existência para enfrentar. Visões de uma enfermaria de asilo para o seu filho assombravam a velha na sala de pequenos-almoços da cave da decadente casa de Belgravia. "Se não tivesses encontrado um marido tão bom, minha querida", costumava ela dizer à filha, "não sei o que teria sido daquele pobre rapaz."

O Sr. Verloc estendia a Stevie tanto reconhecimento quanto um homem que não gosta particularmente de animais pode dar ao gato adorado da sua esposa; e este reconhecimento, benevolente e perfunctório, era essencialmente da mesma qualidade. Ambas as mulheres admitiam para si mesmas que não se podia esperar razoavelmente muito mais. Era o suficiente para ganhar ao Sr. Verloc a gratidão reverente da velha. Nos primeiros tempos, tornada cética pelas provações de uma vida sem amigos, ela perguntava por vezes, ansiosa: "Não achas, minha querida, que o Sr. Verloc se está a cansar de ver o Stevie por perto?" A isto, Winnie respondia habitualmente com um ligeiro sacudir de cabeça. Uma vez, porém, retorquiu, com uma impertinência bastante sombria: "Ele terá de se cansar de mim primeiro." Seguiu-se um longo silêncio. A mãe, com os pés apoiados num banco, parecia estar a tentar chegar ao fundo daquela resposta, cuja profundidade feminina a deixara atordoada. Nunca tinha compreendido verdadeiramente por que Winnie casara com o Sr. Verloc. Foi muito sensato da sua parte, e evidentemente resultou para o melhor, mas a sua rapariga poderia naturalmente ter esperado encontrar alguém de uma idade mais adequada. Havia um rapaz firme, filho único de um talhante da rua seguinte, que ajudava o pai no negócio, com quem Winnie andava a sair com um gosto óbvio. Ele dependia do pai, é verdade; mas o negócio era bom e as suas perspetivas excelentes. Levou a sua rapariga ao teatro em várias noites. Então, precisamente quando ela começou a recear ouvir falar do noivado deles (pois o que teria feito ela com aquela casa grande sozinha, com o Stevie a seu cargo), esse romance terminou abruptamente, e Winnie andava por aí com um ar muito apático. Mas o Sr. Verloc, aparecendo providencialmente para ocupar o quarto da frente do primeiro andar, já não se falou mais do jovem talhante. Foi claramente providencial.

CAPÍTULO III

"... Toda a idealização torna a vida mais pobre. Embelezá-la é retirar-lhe o seu caráter de complexidade — é destruí-la. Deixa isso para os moralistas, meu rapaz. A história é feita pelos homens, mas eles não a fazem com as suas cabeças. As ideias que nascem na sua consciência desempenham um papel insignificante no curso dos acontecimentos. A história é dominada e determinada pela ferramenta e pela produção — pela força das condições económicas. O capitalismo criou o socialismo, e as leis feitas pelo capitalismo para a proteção da propriedade são responsáveis pelo anarquismo. Ninguém pode dizer que forma a organização social poderá tomar no futuro. Então, por que entregar-se a fantasias proféticas? Na melhor das hipóteses, podem apenas interpretar a mente do profeta e não podem ter valor objetivo. Deixa esse passatempo para os moralistas, meu rapaz."

Michaelis, o apóstolo em liberdade condicional, falava com uma voz uniforme, uma voz que chiava como se estivesse abafada e oprimida pela camada de gordura no seu peito. Tinha saído de uma prisão altamente higiénica redondo como um barril, com um estômago enorme e bochechas distendidas de uma tez pálida e semitransparente, como se, durante quinze anos, os servos de uma sociedade ultrajada tivessem feito questão de o empanturrar com alimentos que engordam numa cave húmida e sem luz. E, desde então, nunca tinha conseguido reduzir o seu peso nem que fosse uma onça.

Dizia-se que, durante três estações seguidas, uma senhora muito rica e idosa o tinha enviado para uma cura em Marienbad — onde esteve prestes a partilhar a curiosidade pública com uma cabeça coroada — mas a polícia, nessa ocasião, ordenou-lhe que partisse no prazo de doze horas. O seu martírio foi continuado ao proibir-lhe todo o acesso às águas curativas. Mas ele estava resignado agora.

Com o cotovelo sem qualquer aparência de articulação, mas mais como uma dobra no membro de um manequim, atirado sobre o encosto de uma cadeira, inclinou-se ligeiramente para a frente sobre as suas coxas curtas e enormes para cuspir na grelha.

"Sim! Tive tempo para pensar um pouco nas coisas", acrescentou sem ênfase. "A sociedade deu-me muito tempo para meditar."

Do outro lado da lareira, na poltrona de crina de cavalo onde a mãe da Sra. Verloc tinha geralmente o privilégio de se sentar, Karl Yundt riu-se sombriamente, com uma ténue careta negra de uma boca sem dentes. O terrorista, como ele próprio se intitulava, era velho e careca, com uma madeixa estreita e branca como a neve de um cavanhaque pendendo mole do queixo. Uma expressão extraordinária de malevolência dissimulada sobrevivia nos seus olhos apagados. Quando se levantou penosamente, o impulso para a frente de uma mão esquelética e tateante, deformada por inchaços gotosos, sugeria o esforço de um assassino moribundo reunindo todas as suas forças restantes para uma última punhalada. Apoiava-se num cajado grosso, que tremia sob a sua outra mão.

"Sempre sonhei", disse ele ferozmente, "com um bando de homens absolutos na sua resolução de descartar todos os escrúpulos na escolha dos meios, fortes o suficiente para se darem francamente o nome de destruidores e livres da mácula desse pessimismo resignado que apodrece o mundo. Sem piedade por nada na terra, incluindo eles próprios, e a morte alistada de vez ao serviço da humanidade — é isso que eu teria gostado de ver."

A sua pequena cabeça careca tremia, transmitindo uma vibração cómica à madeixa do cavanhaque branco. A sua dicção teria sido quase totalmente ininteligível para um estranho. A sua paixão esgotada, assemelhando-se na sua ferocidade impotente à excitação de um sensualista senil, era mal servida por uma garganta seca e gengivas sem dentes que pareciam prender a ponta da língua. O Sr. Verloc, instalado no canto do sofá na outra extremidade da sala, emitiu dois grunhidos cordiais de assentimento.

O velho terrorista virou lentamente a cabeça no seu pescoço esquelético de um lado para o outro.

"E nunca consegui reunir três homens desses. Tanto para o vosso pessimismo podre", rosnou ele para Michaelis, que descruzou as suas pernas grossas, semelhantes a chouriços, e deslizou os pés abruptamente para debaixo da cadeira em sinal de exasperação.

Ele um pessimista! Absurdo! Gritou que a acusação era ultrajante. Estava tão longe do pessimismo que já via o fim de toda a propriedade privada a chegar lógica e inevitavelmente, pelo simples desenvolvimento da sua viciosidade inerente. Os possuidores de propriedade tinham não só de enfrentar o proletariado desperto, como também tinham de lutar entre si. Sim. Luta, guerra, era a condição da propriedade privada. Era fatal. Ah! ele não dependia da excitação emocional para manter a sua crença, nada de declamações, nada de raiva, nada de visões de bandeiras vermelho-sangue a ondular, ou sóis metafóricos e sinistros de vingança a elevar-se acima do horizonte de uma sociedade condenada. Ele não! A razão fria, gabava-se, era a base do seu otimismo. Sim, otimismo —

A sua respiração trabalhosa parou, depois, após um ou dois arquejos, acrescentou:

"Não achas que, se eu não fosse o otimista que sou, não poderia ter encontrado em quinze anos algum meio de cortar a garganta? E, em última instância, havia sempre as paredes da minha cela contra as quais esmagar a cabeça."

A falta de ar tirava todo o fogo, toda a animação da sua voz; as suas grandes bochechas pálidas pendiam como bolsas cheias, imóveis, sem um tremor; mas nos seus olhos azuis, semicerrados como se estivessem a espreitar, havia o mesmo olhar de astúcia confiante, um pouco louco na sua fixidez, que eles deviam ter tido enquanto o otimista indomável se sentava a pensar à noite na sua cela. Diante dele, Karl Yundt permanecia de pé, com uma aba da sua capa esverdeada desbotada atirada cavalheirescamente sobre o ombro. Sentado em frente à lareira, o camarada Ossipon, ex-estudante de medicina, o principal autor dos panfletos do F.P., esticou as suas pernas robustas, mantendo as solas das botas viradas para o brilho da grelha. Um arbusto de cabelo amarelo encaracolado cobria o seu rosto vermelho e sardento, com um nariz achatado e uma boca proeminente moldada no molde grosseiro do tipo negro. Os seus olhos amendoados olhavam languidamente por cima das maçãs do rosto altas. Usava uma camisa de flanela cinzenta, as pontas soltas de uma gravata de seda preta pendiam pelo peito abotoado do seu casaco de sarja; e com a cabeça apoiada no encosto da cadeira, com a garganta amplamente exposta, levava aos lábios um cigarro num longo tubo de madeira, expelindo jatos de fumo diretamente para o teto.

Michaelis prosseguiu a sua ideia — a ideia da sua reclusão solitária — o pensamento concedido ao seu cativeiro e crescendo como uma fé revelada em visões. Falava para si mesmo, indiferente à simpatia ou hostilidade dos seus ouvintes, indiferente na verdade à sua presença, pelo hábito que adquirira de pensar em voz alta e esperançosa na solidão das quatro paredes caiadas da sua cela, no silêncio sepulcral da grande pilha cega de tijolos perto de um rio, sinistra e feia como um necrotério colossal para os afogados sociais.

Ele não era bom em discussões, não porque qualquer quantidade de argumentos pudesse abalar a sua fé, mas porque o simples facto de ouvir outra voz o desconcertava dolorosamente, confundindo os seus pensamentos de imediato — esses pensamentos que, durante tantos anos, numa solidão mental mais estéril do que um deserto sem água, nenhuma voz viva jamais tinha combatido, comentado ou aprovado.

Ninguém o interrompeu agora, e ele fez novamente a confissão da sua fé, dominando-o irresistível e completa como um ato de graça: o segredo do destino descoberto no lado material da vida; a condição económica do mundo responsável pelo passado e a moldar o futuro; a fonte de toda a história, de todas as ideias, a guiar o desenvolvimento mental da humanidade e os próprios impulsos da sua paixão —

Uma gargalhada áspera do camarada Ossipon cortou a tirada a meio, num repentino vacilar da língua e numa instabilidade atónita dos olhos suavemente exaltados do apóstolo. Fechou-os lentamente por um momento, como para recolher os seus pensamentos derrotados. Um silêncio caiu; mas entre os dois bicos de gás sobre a mesa e a grelha incandescente, a pequena sala atrás da loja do Sr. Verloc tornara-se terrivelmente quente. O Sr. Verloc, levantando-se do sofá com uma relutância pesada, abriu a porta que dava para a cozinha para apanhar mais ar, e revelou assim o inocente Stevie, sentado muito bem comportado e quieto numa mesa de madeira, desenhando círculos, círculos, círculos; inúmeros círculos, concêntricos, excêntricos; um turbilhão coruscante de círculos que, pela sua multidão emaranhada de curvas repetidas, uniformidade de forma e confusão de linhas que se cruzam, sugeriam uma representação do caos cósmico, o simbolismo de uma arte louca a tentar o inconcebível. O artista nunca virou a cabeça; e em toda a aplicação da sua alma à tarefa, as suas costas tremiam, o seu pescoço fino, afundado numa cova profunda na base do crânio, parecia prestes a quebrar.

O Sr. Verloc, após um grunhido de surpresa desaprovadora, regressou ao sofá. Alexander Ossipon levantou-se, alto no seu fato de sarja azul puído sob o teto baixo, sacudiu a rigidez da longa imobilidade e passeou-se até à cozinha (descendo dois degraus) para espreitar por cima do ombro de Stevie. Voltou, pronunciando oracularmente: "Muito bom. Muito característico, perfeitamente típico."

"O que é muito bom?" grunhiu interrogativamente o Sr. Verloc, instalado novamente no canto do sofá. O outro explicou o seu significado negligentemente, com um toque de condescendência e um sacudir de cabeça em direção à cozinha:

"Típico desta forma de degenerescência — estes desenhos, quero dizer."

"Chamarias a esse rapaz um degenerado, chamarias?" resmungou o Sr. Verloc.

O camarada Alexander Ossipon — alcunhado de Doutor, ex-estudante de medicina sem curso; depois conferencista itinerante para associações de trabalhadores sobre os aspetos socialistas da higiene; autor de um estudo quase médico popular (sob a forma de um panfleto barato prontamente confiscado pela polícia) intitulado "Os Vícios Corrosivos das Classes Médias"; delegado especial do mais ou menos misterioso Comité Vermelho, juntamente com Karl Yundt e Michaelis para o trabalho de propaganda literária — voltou para o obscuro familiar de pelo menos duas Embaixadas aquele olhar de suficiência insuportável e irremediavelmente densa que nada mais do que a frequentação da ciência pode dar à falta de inteligência dos mortais comuns.

"É assim que ele pode ser chamado cientificamente. Muito bom tipo também, no geral, desse tipo de degenerado. Basta olhar para os lóbulos das suas orelhas. Se leres Lombroso —"

O Sr. Verloc, de mau humor e estendido largamente no sofá, continuou a olhar para a fila dos botões do seu colete; mas as suas bochechas ficaram tingidas por um ténue rubor. Ultimamente, até o mero derivado da palavra ciência (um termo por si só inofensivo e de significado indefinido) tinha o curioso poder de evocar uma visão mental definitivamente ofensiva do Sr. Vladimir, no seu corpo tal como vivia, com uma clareza quase sobrenatural. E este fenómeno, merecendo justamente ser classificado entre as maravilhas da ciência, induziu no Sr. Verloc um estado emocional de medo e exasperação que tendia a expressar-se em palavrões violentos. Mas ele não disse nada. Foi Karl Yundt que se ouviu, implacável até ao seu último suspiro.

"Lombroso é um asno."

O camarada Ossipon enfrentou o choque desta blasfémia com um olhar terrível e vago. E o outro, os seus olhos apagados sem brilhos a escurecer as sombras profundas sob a grande testa óssea, resmungou, prendendo a ponta da língua entre os lábios a cada segunda palavra como se a estivesse a mastigar furiosamente:

"Já alguma vez viste tal idiota? Para ele, o criminoso é o prisioneiro. Simples, não é? E quanto àqueles que o trancam lá dentro — que o forçaram a entrar lá? Exatamente. Forçaram-no a entrar lá. E o que é o crime? Será que ele sabe disso, este imbecil que abriu caminho neste mundo de tolos empanturrados ao olhar para as orelhas e dentes de um monte de pobres diabos sem sorte? Dentes e orelhas marcam o criminoso? Marcam? E quanto à lei que o marca ainda melhor — o bonito instrumento de marcação inventado pelos superalimentados para se protegerem contra os famintos? Aplicações em brasa nas suas peles vis — hã? Não consegues cheirar e ouvir daqui a pele grossa do povo a queimar e a chiar? É assim que se fazem criminosos para os teus Lombrosos escreverem as suas coisas parvas."

O pomo do seu cajado e as suas pernas tremiam juntos com paixão, enquanto o tronco, drapeado nas abas da capa, preservava a sua atitude histórica de desafio. Parecia farejar o ar contaminado da crueldade social, esticar o ouvido para os seus sons atrozes. Havia uma força extraordinária de sugestão nesta postura. O veterano quase moribundo das guerras da dinamite tinha sido um grande ator no seu tempo — ator em palanques, em assembleias secretas, em entrevistas privadas. O famoso terrorista nunca na sua vida levantou pessoalmente nem que fosse o dedo mínimo contra o edifício social. Não era um homem de ação; nem sequer era um orador de eloquência torrencial, arrastando as massas no ruído e na espuma de um grande entusiasmo. Com uma intenção mais subtil, assumia o papel de um evocador insolente e venenoso de impulsos sinistros que se escondem na inveja cega e na vaidade exasperada da ignorância, no sofrimento e na miséria da pobreza, em todas as ilusões esperançosas e nobres da raiva justa, da piedade e da revolta. A sombra do seu dom maligno agarrava-se-lhe ainda como o cheiro de uma droga mortal num velho frasco de veneno, agora vazio, inútil, pronto a ser atirado para o monte de lixo das coisas que serviram o seu tempo.

Michaelis, o apóstolo em liberdade condicional, sorriu vagamente com os lábios colados; o seu rosto de lua pastoso caiu sob o peso de um assentimento melancólico. Tinha sido prisioneiro ele próprio. A sua própria pele tinha chiar sob a marca em brasa, murmurou ele suavemente. Mas o camarada Ossipon, alcunhado de Doutor, já tinha superado o choque a essa altura.

"Tu não percebes", começou ele desdenhosamente, mas parou subitamente, intimidado pelo negrume morto dos olhos cavernosos no rosto virado lentamente para ele com um olhar cego, como se guiado apenas pelo som. Desistiu da discussão, com um ligeiro encolher de ombros.

Stevie, acostumado a mover-se sem ser notado, levantara-se da mesa da cozinha, levando consigo o seu desenho para a cama. Tinha chegado à porta da sala a tempo de receber em cheio o impacto da eloquente imagética de Karl Yundt. A folha de papel coberta de círculos caiu-lhe dos dedos, e ele permaneceu a olhar fixamente para o velho terrorista, como se estivesse subitamente pregado ao chão pelo seu horror mórbido e pavor da dor física. Stevie sabia muito bem que o ferro quente aplicado na pele de alguém doía imenso. Os seus olhos assustados brilharam de indignação: doeria terrivelmente. A boca abriu-se-lhe.

Michaelis, ao encarar fixamente o lume, tinha recuperado aquele sentimento de isolamento necessário para a continuidade do seu pensamento. O seu otimismo começara a fluir dos seus lábios. Via o Capitalismo condenado no seu berço, nascido com o veneno do princípio da concorrência no seu sistema. Os grandes capitalistas a devorar os pequenos capitalistas, concentrando o poder e os meios de produção em grandes massas, aperfeiçoando os processos industriais e, na loucura da sua própria exacerbação, apenas a preparar, organizar, enriquecer, a deixar pronta a legítima herança do proletariado sofredor. Michaelis pronunciou a grande palavra "Paciência" — e o seu olhar azul e límpido, erguido para o teto baixo da sala do Sr. Verloc, tinha um carácter de confiança seráfica. À porta, Stevie, acalmado, parecia mergulhado em hebetude.

O rosto do camarada Ossipon contraiu-se de exasperação.

— Então não vale a pena fazer nada — não vale a pena de todo.

— Não digo isso — protestou Michaelis suavemente. A sua visão da verdade tornara-se tão intensa que o som de uma voz estranha não conseguiu interrompê-la desta vez. Continuou a olhar para as brasas vermelhas. A preparação para o futuro era necessária, e ele estava disposto a admitir que a grande mudança talvez viesse na convulsão de uma revolução. Mas argumentava que a propaganda revolucionária era um trabalho delicado de elevada consciência. Era a educação dos mestres do mundo. Deveria ser tão cuidadosa como a educação dada aos reis. Ele queria que os seus dogmas avançassem cautelosamente, até timidamente, na nossa ignorância do efeito que pode ter o

intelecto, a história da humanidade. Pois a história é feita com ferramentas, não com ideias; e tudo é mudado pelas condições económicas — a arte, a filosofia, o amor, a virtude — a própria verdade!

As brasas na grelha assentaram com um ligeiro estalo; e Michaelis, o eremita de visões no deserto de uma penitenciária, levantou-se impetuosamente. Redondo como um balão distendido, abriu os seus braços curtos e grossos, como se numa tentativa pateticamente desesperada de abraçar e apertar contra o peito um universo autorregenerado. Ofegou com ardor.

— O futuro é tão certo como o passado — escravatura, feudalismo, individualismo, coletivismo. Esta é a declaração de uma lei, não uma profecia vazia.

O beicinho desdenhoso dos lábios grossos do camarada Ossipon acentuou o tipo negro do seu rosto.

— Disparates — disse ele com bastante calma. — Não há lei nem certeza. Que se lixe a propaganda de ensino. O que o povo sabe não importa, mesmo que o seu conhecimento fosse muito preciso. A única coisa que nos importa é o estado emocional das massas. Sem emoção, não há ação.

Fez uma pausa e, depois, acrescentou com modesta firmeza:

— Estou a falar-te agora cientificamente — cientificamente — Eh? O que disseste, Verloc?

— Nada — rosnou do sofá o Sr. Verloc, que, provocado pelo som abominável, apenas murmurou um "Diabos".

Ouviu-se o crepitar venenoso do velho terrorista sem dentes.

— Sabes como eu chamaria a natureza das presentes condições económicas? Chamar-lhe-ia canibalesca. É o que é! Estão a nutrir a sua ganância com a carne trémula e o sangue quente do povo — nada mais.

Stevie engoliu a declaração aterrorizante com um soluço audível e, de imediato, como se fosse um veneno rápido, afundou-se, mole, numa posição sentada nos degraus da porta da cozinha.

Michaelis não deu sinal de ter ouvido nada. Os seus lábios pareciam colados um ao outro para sempre; nem um tremor passou pelas suas bochechas pesadas. Com olhos perturbados, procurou o seu chapéu redondo e duro e colocou-o na cabeça redonda. O seu corpo redondo e obeso parecia flutuar baixo entre as cadeiras, sob o cotovelo aguçado de Karl Yundt. O velho terrorista, levantando uma mão incerta e semelhante a uma garra, deu uma inclinação fanfarrona a um sombrero de feltro preto que sombreava as covas e as saliências do seu rosto consumido. Pôs-se em movimento lentamente, batendo no chão com a bengala a cada passo. Era um verdadeiro assunto tirá-lo de casa porque, de vez em quando, ele parava, como se para pensar, e não se oferecia para se mover novamente até ser impelido para a frente por Michaelis. O gentil apóstolo agarrou-lhe o braço com cuidado fraternal; e, atrás deles, com as mãos nos bolsos, o robusto Ossipon bocejou vagamente. Um boné azul com uma pala de verniz, bem puxado para trás da sua cabeleira amarela, dava-lhe o aspeto de um marinheiro norueguês aborrecido com o mundo após uma estrondosa bebedeira. O Sr. Verloc viu os seus convidados sair das instalações, acompanhando-os de cabeça descoberta, o seu pesado sobretudo aberto, os olhos no chão.

Fechou a porta atrás das costas deles com violência contida, rodou a chave, correu o ferrolho. Não estava satisfeito com os seus amigos. À luz da filosofia do lançamento de bombas do Sr. Vladimir, eles pareciam irremediavelmente fúteis. Sendo o papel do Sr. Verloc na política revolucionária o de observar, ele não podia, de repente, quer na sua própria casa quer em assembleias maiores, tomar a iniciativa da ação. Tinha de ser cauteloso. Movido pela justa indignação de um homem com bem mais de quarenta anos, ameaçado no que lhe era mais caro — o seu repouso e a sua segurança — perguntou a si mesmo, com desprezo, o que mais se poderia esperar de tal grupo: este Karl Yundt, este Michaelis — este Ossipon.

Parando na sua intenção de apagar o gás que ardia no meio da loja, o Sr. Verloc desceu ao abismo das reflexões morais. Com a perspicácia de um temperamento semelhante, proferiu o seu veredito. Um bando de preguiçosos — este Karl Yundt, cuidado por uma velha de olhos remelentos, uma mulher que ele, anos atrás, tinha aliciado de um amigo e, mais tarde, tentara mais de uma vez despachar para a sarjeta. Que sorte grande para Yundt que ela tivesse persistido em aparecer, vez após vez, ou então não haveria agora ninguém para o ajudar a sair do autocarro junto às grades do Green Park, onde aquele espectro fazia o seu passeio higiénico todas as manhãs de bom tempo. Quando aquela velha bruxa indomável e rabugenta morresse, o espectro fanfarrão também teria de desaparecer — seria o fim do fogoso Karl Yundt. E a moral do Sr. Verloc era também ofendida pelo otimismo de Michaelis, anexado pela sua velha senhora abastada, que se tinha dado recentemente ao trabalho de o enviar para uma casa que ela tinha no campo. O ex-prisioneiro podia vaguear pelas veredas sombrias durante dias a fio numa deliciosa e humanitária ociosidade. Quanto a Ossipon, aquele pedinte teria a certeza de não precisar de nada enquanto houvesse raparigas tolas com cadernetas de poupança no mundo. E o Sr. Verloc, temperamentalmente idêntico aos seus associados, traçava distinções subtis na sua mente com base em diferenças insignificantes. Traçava-as com uma certa complacência, porque o instinto de respeitabilidade convencional era forte dentro dele, sendo apenas superado pelo seu desdém por todo o tipo de trabalho reconhecido — um defeito temperamental que partilhava com uma grande proporção de reformadores revolucionários de um dado estado social. Pois, obviamente, não se revolta contra as vantagens e oportunidades desse estado, mas contra o preço que deve ser pago pelas mesmas na moeda da moralidade aceite, do autocontrolo e do trabalho. A maioria dos revolucionários são, sobretudo, inimigos da disciplina e da fadiga. Há naturezas, também, para cujo sentido de justiça o preço exigido se afigura monstruosamente enorme, odioso, opressivo, preocupante, humilhante, extorsivo, intolerável. Esses são os fanáticos. A parte restante dos rebeldes sociais explica-se pela vaidade, a mãe de todas as ilusões nobres e vis, a companheira de poetas, reformadores, charlatães, profetas e incendiários.

Perdido durante um minuto inteiro no abismo da meditação, o Sr. Verloc não atingiu a profundidade destas considerações abstratas. Talvez não fosse capaz. Em todo o caso, não tinha tempo. Foi interrompido dolorosamente pela recordação repentina do Sr. Vladimir, outro dos seus associados, a quem, em virtude de afinidades morais subtis, ele era capaz de julgar corretamente. Considerava-o perigoso. Uma sombra de inveja deslizou nos seus pensamentos. Vadiar era muito bom para estes tipos, que não conheciam o Sr. Vladimir e tinham mulheres com quem contar; ao passo que ele tinha uma mulher para sustentar —

Neste ponto, por uma simples associação de ideias, o Sr. Verloc foi colocado frente a frente com a necessidade de se ir deitar a dada altura daquela noite. Então, por que não ir agora — de imediato? Suspirou. A necessidade não era tão normalmente prazerosa como deveria ter sido para um homem da sua idade e temperamento. Temia o demónio da insónia, que sentia tê-lo marcado como seu. Levantou o braço e apagou o bico de gás que ardia sobre a sua cabeça.

Uma faixa de luz viva caiu através da porta da sala para a parte da loja atrás do balcão. Permitiu ao Sr. Verloc verificar de relance o número de moedas de prata na caixa. Eram poucas; e, pela primeira vez desde que abrira a loja, fez uma avaliação comercial do seu valor. Esta avaliação foi desfavorável. Não se tinha metido no comércio por razões comerciais. Tinha sido guiado na seleção deste peculiar ramo de negócio por uma inclinação instintiva para transações duvidosas, onde o dinheiro se apanha facilmente. Além disso, não o retirava da sua própria esfera — a esfera que é vigiada pela polícia. Pelo contrário, dava-lhe uma posição publicamente confessada nessa esfera e, como o Sr. Verloc tinha relações não confessadas que o tornavam familiar, embora descuidado, com a polícia, havia uma vantagem distinta em tal situação. Mas, como meio de subsistência, era por si só insuficiente.

Tirou a caixa de dinheiro da gaveta e, ao virar-se para sair da loja, apercebeu-se de que Stevie ainda estava lá em baixo.

Que raio estará ele a fazer ali? — perguntou a si mesmo o Sr. Verloc. Qual é o significado destas tropelias? Olhou com dúvida para o seu cunhado, mas não lhe pediu explicações. O convívio do Sr. Verloc com Stevie limitava-se ao murmúrio casual de uma manhã, após o pequeno-almoço: "As minhas botas", e mesmo isso era mais uma comunicação geral de uma necessidade do que uma ordem ou pedido direto. O Sr. Verloc percebeu com alguma surpresa que não sabia realmente o que dizer a Stevie. Ficou parado no meio da sala e olhou para a cozinha em silêncio. Também não sabia o que aconteceria se dissesse alguma coisa. E isso pareceu muito estranho ao Sr. Verloc, tendo em conta o facto, que lhe ocorreu subitamente, de que ele tinha de sustentar este tipo também. Nunca tinha dado um momento de pensamento até então a esse aspeto da existência de Stevie.

Positivamente, não sabia como falar com o rapaz. Observou-o a gesticular e a murmurar na cozinha. Stevie rondava a mesa como um animal excitado numa jaula. Um hesitante "Não seria melhor ires para a cama agora?" não produziu efeito algum; e o Sr. Verloc, abandonando a contemplação pétrea do comportamento do seu cunhado, atravessou a sala cansado, com a caixa de dinheiro na mão. Sendo a causa da lassidão geral que sentia ao subir as escadas puramente mental, ficou alarmado pelo seu carácter inexplicável. Esperava não estar a ficar doente com nada. Parou no patamar escuro para examinar as suas sensações. Mas um som ligeiro e contínuo de ressonar que pairava na obscuridade interferiu com a sua clareza. O som vinha do quarto da sua sogra. Mais uma para sustentar, pensou ele — e, com este pensamento, entrou no quarto.

A Sra. Verloc tinha adormecido com o candeeiro (não havia gás ligado no andar de cima) aceso no máximo, na mesa ao lado da cama. A luz projetada pela sombra caía ofuscante sobre a almofada branca, afundada pelo peso da sua cabeça que repousava com os olhos fechados e o cabelo escuro preso em várias tranças para a noite. Acordou com o som do seu nome nos ouvidos e viu o marido de pé sobre ela.

— Winnie! Winnie!

A princípio, ela não se mexeu, deitada muito quieta e a olhar para a caixa de dinheiro na mão do Sr. Verloc. Mas, quando compreendeu que o seu irmão estava a "saltar por todo o lado lá em baixo", ela balançou-se num movimento repentino para a beira da cama. Os seus pés nus, como se tivessem sido enfiados pelo fundo de um saco de chita sem adornos e de mangas, abotoado apertadamente no pescoço e nos pulsos, tatearam o tapete à procura dos chinelos enquanto ela olhava para cima, para o rosto do marido.

— Não sei como lidar com ele — explicou o Sr. Verloc, rabugento. — Não é bom deixá-lo lá em baixo sozinho com as luzes.

Ela não disse nada, deslizou pelo quarto rapidamente e a porta fechou-se sobre a sua forma branca.

O Sr. Verloc depositou a caixa de dinheiro na mesa de cabeceira e começou a operação de se despir atirando o sobretudo para uma cadeira distante. O seu casaco e colete seguiram-se. Andou pelo quarto em meias, e a sua figura corpulenta, com as mãos a mexer nervosamente no colarinho, passou e repassou pela longa tira de espelho na porta do guarda-roupa da mulher. Depois, após tirar as alças dos ombros, puxou violentamente o estore veneziano e encostou a testa ao vidro frio da janela — uma película frágil de vidro esticada entre ele e a enormidade da acumulação fria, negra, húmida, lamacenta e inóspita de tijolos, ardósias e pedras, coisas que, por si só, não eram amáveis nem amigas do homem.

O Sr. Verloc sentiu a hostilidade latente de tudo o que estava lá fora com uma força que se aproximava de uma agonia corporal positiva. Não há ocupação que falhe mais completamente a um homem do que a de agente secreto da polícia. É como o seu cavalo cair subitamente morto debaixo de si no meio de uma planície desabitada e árida. A comparação ocorreu ao Sr. Verloc porque ele tinha andado montado em vários cavalos do exército no seu tempo, e tinha agora a sensação de uma queda iminente. A perspetiva era tão negra como o vidro da janela contra o qual encostava a testa. E, de repente, o rosto do Sr. Vladimir, barbeado e espirituoso, apareceu aureolado no brilho da sua tez rosada como uma espécie de selo cor-de-rosa impresso na escuridão fatal.

Esta visão luminosa e mutilada era tão fisicamente macabra que o Sr. Verloc afastou-se da janela, deixando cair o estore veneziano com um grande estrépito. Descomposto e sem fala com o receio de mais visões como aquela, viu a sua mulher reentrar no quarto e deitar-se na cama de uma forma calma e pragmática, o que o fez sentir irremediavelmente sozinho no mundo. A Sra. Verloc expressou a sua surpresa por vê-lo ainda de pé.

— Não me sinto muito bem — murmurou ele, passando as mãos pela testa húmida.

— Tonturas?

— Sim. Nada bem.

A Sra. Verloc, com toda a placidez de uma esposa experiente, expressou uma opinião confiante quanto à causa e sugeriu os remédios habituais; mas o seu marido, pregado no meio do quarto, abanou tristemente a cabeça baixa.

— Vais constipar-te aí parado — observou ela.

O Sr. Verloc fez um esforço, acabou de se despir e entrou na cama. Lá em baixo, na rua estreita e silenciosa, passos medidos aproximaram-se da casa e, depois, esmoreceram, sem pressa e firmes, como se quem passava tivesse começado a medir toda a eternidade, de candeeiro em candeeiro, numa noite sem fim; e o tiquetaque sonolento do velho relógio no patamar tornou-se distintamente audível no quarto.

A Sra. Verloc, de costas e a olhar para o teto, fez um comentário.

— Os ganhos foram muito pequenos hoje.

O Sr. Verloc, na mesma posição, pigarreou como se para uma declaração importante, mas apenas perguntou:

— Apagaste o gás lá em baixo?

— Sim; apaguei — respondeu a Sra. Verloc conscienciosamente. — Aquele pobre rapaz está num estado muito excitado esta noite — murmurou ela, após uma pausa que durou três tiques do relógio.

O Sr. Verloc não se importava nada com a excitação de Stevie, mas sentia-se horrivelmente desperto e temia enfrentar a escuridão e o silêncio que se seguiriam à extinção do candeeiro. Este receio levou-o a fazer o comentário de que Stevie tinha ignorado a sua sugestão de ir para a cama. A Sra. Verloc, caindo na armadilha, começou a demonstrar longamente ao marido que aquilo não era "insolência" de qualquer tipo, mas simplesmente "excitação". Não havia jovem da idade dele em Londres mais disposto e dócil do que Stephen, afirmou ela; nenhum mais afetuoso e pronto a agradar, e até útil, desde que as pessoas não perturbassem a sua pobre cabeça. A Sra. Verloc, virando-se para o marido deitado, ergueu-se sobre o cotovelo e debruçou-se sobre ele na sua ansiedade de que ele acreditasse que Stevie era um membro útil da família. Aquele ardor de compaixão protetora, exaltado morbidamente na sua infância pela miséria de outra criança, tingiu as suas bochechas amareladas com um ténue rubor escuro e fez os seus grandes olhos brilhar sob as pálpebras sombrias. A Sra. Verloc parecia então mais jovem; parecia tão jovem quanto Winnie costumava parecer, e muito mais animada do que a Winnie dos dias da mansão de Belgravia alguma vez se tinha permitido parecer aos cavalheiros hóspedes. As ansiedades do Sr. Verloc tinham-no impedido de atribuir qualquer sentido ao que a sua mulher dizia. Era como se a voz dela estivesse a falar do outro lado de uma parede muito espessa. Foi o aspeto dela que o trouxe de volta a si mesmo.

Ele apreciava esta mulher, e o sentimento desta apreciação, provocado por uma demonstração de algo semelhante a emoção, apenas adicionou outra dor à sua angústia mental. Quando a voz dela cessou, ele moveu-se inquieto e disse:

— Não me tenho sentido bem nos últimos dias.

Poderia ter pretendido que isto fosse um início para uma confiança total; mas a Sra. Verloc pousou a cabeça na almofada novamente e, a olhar para cima, continuou:

— Aquele rapaz ouve demasiado do que se fala aqui. Se eu soubesse que eles vinham esta noite, ter-me-ia assegurado de que ele ia para a cama ao mesmo tempo que eu. Ele ficou fora de si com algo que ouviu sobre comer carne humana e beber sangue. Para que serve falar assim?

Havia uma nota de desprezo indignado na sua voz. O Sr. Verloc estava agora totalmente recetivo.

— Pergunta ao Karl Yundt — rosnou ele selvaticamente.

A Sra. Verloc, com grande decisão, declarou Karl Yundt "um velho repugnante". Declarou abertamente o seu afeto por Michaelis. Do robusto Ossipon, em cuja presença ela se sentia sempre inquieta por detrás de uma atitude de reserva pétrea, não disse absolutamente nada. E, continuando a falar daquele irmão, que fora durante tantos anos um objeto de cuidados e medos:

— Ele não está apto para ouvir o que é dito aqui. Ele acredita que é tudo verdade. Ele não conhece nada melhor. Ele entra em paixões por causa disso.

O Sr. Verloc não fez comentários.

— Ele olhou para mim, como se não soubesse quem eu era, quando desci as escadas. O coração dele batia como um martelo. Ele não consegue evitar ser excitável. Acordei a mãe e pedi-lhe para ficar com ele até ele adormecer. Não é culpa dele. Ele não dá trabalho nenhum quando é deixado sozinho.

O Sr. Verloc não fez comentários.

— Oxalá ele nunca tivesse ido à escola — recomeçou a Sra. Verloc bruscamente. — Ele está sempre a tirar aqueles jornais da janela para os ler. Fica com a cara vermelha de tanto os ler. Não nos livramos de uma dúzia de números por mês. Apenas ocupam espaço na montra. E o Sr. Ossipon traz todas as semanas uma pilha desses folhetos da F. P. para vender a um meio pêni cada. Eu não daria um meio pêni por toda a pilha. É uma leitura estúpida — é o que é. Não há venda para isso. No outro dia, o Stevie apanhou um e havia lá uma história de um oficial soldado alemão a arrancar metade da orelha de um recruta, e nada lhe foi feito por isso. O bruto! Não consegui fazer nada com o Stevie nessa tarde. A história era, aliás, suficiente para fazer ferver o sangue de qualquer um. Mas para que serve imprimir coisas assim? Nós não somos escravos alemães aqui, graças a Deus. Não é da nossa conta — pois não?

O Sr. Verloc não deu resposta.

— Tive de tirar a faca de trinchar ao rapaz — continuou a Sra. Verloc, agora um pouco sonolenta. — Ele estava a gritar, a bater o pé e a soluçar. Não suporta a ideia de qualquer crueldade. Se tivesse visto aquele oficial naquela altura, tê-lo-ia espetado como a um porco. E é verdade! Algumas pessoas não merecem muita misericórdia. A voz da Sra. Verloc cessou, e a expressão dos seus olhos imóveis tornou-se cada vez mais contemplativa e velada durante a longa pausa. — Estás confortável, querido? — perguntou ela com uma voz ténue e distante. — Apago a luz agora?

A convicção lúgubre de que não havia sono para ele manteve o Sr. Verloc mudo e irremediavelmente inerte no seu medo da escuridão. Fez um grande esforço.

— Sim. Apaga-a — disse ele por fim num tom oco.

CAPÍTULO IV

A maioria das cerca de trinta pequenas mesas cobertas por toalhas vermelhas com um desenho branco estava disposta em ângulos retos em relação ao lambrim castanho-escuro do salão subterrâneo. Lustres de bronze com muitos globos pendiam do teto baixo, ligeiramente abobadado, e as pinturas a fresco estendiam-se planas e baças por todas as paredes sem janelas, representando cenas de caça e de folia ao ar livre com trajes medievais. Lacaios de gibões verdes brandiam facas de caça e erguiam no alto canecas de cerveja espumante.

— A menos que eu esteja muito enganado, tu és o homem que saberia o que se passa nos bastidores deste caso absurdo — disse o robusto Ossipon, inclinando-se, com os cotovelos bem para fora sobre a mesa e os pés enfiados completamente debaixo da cadeira. Os seus olhos fixavam-se com uma avidez selvagem.

Um piano vertical de meia cauda perto da porta, ladeado por duas palmeiras em vasos, executou subitamente, por si só, uma melodia de valsa com um virtuosismo agressivo. O estrondo que provocou foi ensurdecedor. Quando cessou, tão abruptamente como tinha começado, o homenzinho de óculos e aspeto gasto que enfrentava Ossipon, atrás de uma pesada caneca de vidro cheia de cerveja, emitiu calmamente o que parecia ser uma proposição geral.

— Em princípio, o que um de nós pode ou não saber sobre qualquer facto dado não pode ser objeto de investigação para os outros.

— Certamente que não — concordou o camarada Ossipon num tom de voz baixo e tranquilo. — Em princípio.

Com o rosto grande e corado entre as mãos, continuou a olhar fixamente, enquanto o homenzinho de óculos bebia calmamente um gole de cerveja e voltava a pousar a caneca de vidro na mesa. As suas orelhas largas e planas afastavam-se muito das laterais do crânio, que parecia suficientemente frágil para Ossipon o esmagar entre o polegar e o indicador; a cúpula da testa parecia repousar sobre o aro dos óculos; as faces planas, de uma tez gordurosa e doentia, estavam meramente manchadas pela miséria deplorável de uns bigodes escuros e ralos. A lamentável inferioridade de todo o físico tornava-se ridícula pelo porte supremamente autoconfiante do indivíduo. O seu discurso era seco e ele tinha uma forma particularmente impressionante de permanecer em silêncio.

Ossipon falou de novo, de entre as mãos, num murmúrio.

— Tens andado muito fora hoje?

— Não. Fiquei na cama toda a manhã — respondeu o outro. — Porquê?

— Oh! Nada — disse Ossipon, olhando atentamente e tremendo interiormente com o desejo de descobrir alguma coisa, mas obviamente intimidado pelo ar avassalador de indiferença do homenzinho. Ao falar com este camarada — o que acontecia raramente — o grande Ossipon sofria de uma sensação de insignificância moral e até física. No entanto, aventurou-se com outra pergunta. — Vieste para aqui a pé?

— Não; de autocarro — respondeu o homenzinho com bastante prontidão. Ele vivia longe, em Islington, numa casa pequena numa rua degradada, cheia de palha e papel sujo, onde, fora das horas de escola, uma tropa de crianças variadas corria e discutia com um clamor estridente, sem alegria e arruaceiro. O seu quarto individual nas traseiras, notável por ter um armário extremamente grande, era alugado mobilado a duas solteironas idosas, costureiras de um nível humilde, com uma clientela composta maioritariamente por criadas. Ele tinha colocado um cadeado pesado no armário, mas, fora isso, era um inquilino modelo, não causando problemas e não exigindo praticamente qualquer assistência. As suas excentricidades eram o facto de insistir em estar presente quando o seu quarto era varrido e o facto de, quando saía, trancar a porta e levar a chave consigo.

Ossipon teve uma visão destes óculos redondos de aro preto a avançar pelas ruas no topo de um autocarro, o seu brilho autoconfiante caindo aqui e ali nas paredes das casas ou baixando-se sobre as cabeças do fluxo inconsciente de pessoas nos passeios. O fantasma de um sorriso doentio alterou a rigidez dos lábios grossos de Ossipon ao pensar nas paredes a acenar, nas pessoas a correrem para salvar a vida ao verem aqueles óculos. Se eles soubessem! Que pânico! Ele murmurou interrogativamente: — Estás aqui sentado há muito tempo?

— Há uma hora ou mais — respondeu o outro com negligência, e deu um gole na cerveja escura. Todos os seus movimentos — a forma como agarrava a caneca, o ato de beber, a forma como pousava o vidro pesado e cruzava os braços — tinham uma firmeza, uma precisão assegurada que fazia o grande e musculado Ossipon, inclinado para a frente com olhos fixos e lábios protuberantes, parecer a própria imagem da indecisão ansiosa.

— Uma hora — disse ele. — Então é possível que ainda não tenhas ouvido as notícias que acabei de ouvir agora — na rua. Ouviste?

O homenzinho abanou a cabeça negativamente, o mínimo que fosse. Mas, como não deu qualquer indicação de curiosidade, Ossipon aventurou-se a acrescentar que as tinha ouvido mesmo à porta do local. Um ardina tinha gritado a coisa mesmo debaixo do seu nariz e, não estando preparado para nada daquele género, ficou muito sobressaltado e perturbado. Teve de entrar ali com a boca seca. — Nunca pensei encontrar-te aqui — acrescentou, murmurando constantemente, com os cotovelos plantados na mesa.

— Venho aqui às vezes — disse o outro, mantendo a sua provocadora frieza de comportamento.

— É maravilhoso que tu, entre todas as pessoas, não tenhas ouvido nada sobre isso — continuou o grande Ossipon. As suas pálpebras pestanejavam nervosamente sobre os olhos brilhantes. — Tu, entre todas as pessoas — repetiu ele tentativamente. Esta contenção óbvia argumentava uma timidez incrível e inexplicável do grandalhão perante o homenzinho calmo, que voltou a levantar a caneca de vidro, bebeu e pousou-a com movimentos bruscos e seguros. E foi só isso.

Ossipon, depois de esperar por algo, palavra ou sinal, que não veio, fez um esforço para assumir uma espécie de indiferença.

— Tu — disse ele, abafando ainda mais a voz — dás o teu material a qualquer um que te peça?

— A minha regra absoluta é nunca recusar ninguém — desde que tenha um pouco comigo — respondeu o homenzinho com decisão.

— Isso é um princípio? — comentou Ossipon.

— É um princípio.

— E achas que é sensato?

Os óculos grandes e redondos, que davam um ar de autoconfiança fixa ao rosto amarelado, confrontaram Ossipon como orbes sem sono e sem piscar que emitiam um fogo frio.

— Perfeitamente. Sempre. Em todas as circunstâncias. O que me poderia impedir? Por que não o deveria fazer? Por que deveria pensar duas vezes sobre isso?

Ossipon ofegou, por assim dizer, discretamente.

— Queres dizer que entregarias o material a um detetive se um deles viesse pedir-te a mercadoria?

O outro sorriu levemente.

— Deixa-os vir tentar, e verás — disse ele. — Eles conhecem-me, mas eu também conheço cada um deles. Eles não se aproximarão de mim — não eles.

Os seus lábios finos e lívidos fecharam-se com firmeza. Ossipon começou a argumentar.

— Mas eles podiam enviar alguém — armar uma cilada para ti. Não percebes? Obter o material dessa forma e depois prender-te com a prova nas mãos.

— Prova de quê? De comércio de explosivos sem licença, talvez. — Isto foi dito como uma zombaria desprezível, embora a expressão do rosto fino e doentio permanecesse inalterada e a declaração fosse negligente. — Não creio que haja um único deles ansioso por fazer essa detenção. Não creio que conseguissem que um deles pedisse um mandado. Refiro-me a um dos melhores. Nenhum.

— Porquê? — perguntou Ossipon.

— Porque eles sabem muito bem que tenho o cuidado de nunca me separar do último punhado da minha mercadoria. Tenho-o sempre comigo. — Ele tocou levemente no peito do casaco. — Num frasco de vidro grosso — acrescentou.

— Assim me disseram — disse Ossipon, com um toque de admiração na voz. — Mas eu não sabia se...

— Eles sabem — interrompeu o homenzinho com vivacidade, inclinando-se contra o encosto da cadeira reta, que se erguia mais alto do que a sua cabeça frágil. — Nunca serei preso. O jogo não vale o esforço para nenhum polícia de todos eles. Para lidar com um homem como eu, é preciso um heroísmo puro, nu e inglório. — Mais uma vez, os seus lábios fecharam-se com um estalido autoconfiante. Ossipon reprimiu um movimento de impaciência.

— Ou imprudência — ou simplesmente ignorância — retorquiu ele. — Eles só precisam de arranjar alguém para o trabalho que não saiba que trazes no bolso material suficiente para fazer voar pelos ares a ti próprio e tudo o que estiver a sessenta metros de ti.

— Nunca afirmei que não pudesse ser eliminado — respondeu o outro. — Mas isso não seria uma detenção. Além disso, não é tão fácil como parece.

— Bah! — contradisse Ossipon. — Não estejas demasiado seguro disso. O que impede meia dúzia deles de te saltarem para cima por trás na rua? Com os braços presos aos lados, não poderias fazer nada — pois não?

— Sim, poderia. Raramente estou na rua depois de escurecer — disse o homenzinho impassível — e nunca muito tarde. Ando sempre com a mão direita fechada à volta da bola de borracha que tenho no bolso das calças. O apertar desta bola aciona um detonador dentro do frasco que levo no bolso. É o princípio do obturador pneumático instantâneo para a objetiva de uma câmara fotográfica. O tubo sobe...

Com um gesto rápido e revelador, deu a Ossipon um vislumbre de um tubo de borracha, semelhante a um verme castanho fino, que saía da cava do seu colete e mergulhava no bolso interior do peito do casaco. As suas roupas, de uma mistura de castanho indefinido, estavam gastas e marcadas com manchas, poeirentas nas pregas, com casas de botão esfarrapadas. — O detonador é parcialmente mecânico, parcialmente químico — explicou, com condescendência casual.

— É instantâneo, claro? — murmurou Ossipon, com um ligeiro estremecimento.

— Longe disso — confessou o outro, com uma relutância que parecia torcer-lhe a boca dolorosamente. — Devem passar vinte segundos completos desde o momento em que aperto a bola até à ocorrência da explosão.

— Ufa! — assobiou Ossipon, completamente horrorizado. — Vinte segundos! Horrores! Queres dizer que conseguirias enfrentar isso? Eu ficaria louco...

— Não interessaria se ficasses. Claro que é o ponto fraco deste sistema especial, que é apenas para meu uso. O pior é que a forma de explodir é sempre o ponto fraco connosco. Estou a tentar inventar um detonador que se ajuste a todas as condições de ação, e até a mudanças inesperadas de condições. Um mecanismo variável e, contudo, perfeitamente preciso. Um detonador realmente inteligente.

— Vinte segundos — murmurou Ossipon novamente. — Ah! E depois...

Com um ligeiro virar de cabeça, o brilho dos óculos parecia avaliar o tamanho do salão de cerveja no subsolo do renomado Restaurante Silenus.

— Ninguém nesta sala poderia esperar escapar — foi o veredito dessa inspeção. — Nem este casal que está a subir as escadas agora.

O piano ao fundo da escadaria clangorou uma mazurka com impetuosidade audaz, como se um fantasma vulgar e insolente se estivesse a exibir. As teclas desceram e subiram misteriosamente. Depois, tudo ficou imóvel. Por um momento, Ossipon imaginou o local superiluminado transformado num terrível buraco negro a expelir fumos horríveis, sufocado com detritos macabros de alvenaria esmagada e cadáveres mutilados. Teve uma perceção tão clara de ruína e morte que estremeceu novamente. O outro observou, com um ar de calma suficiência:

— Em última análise, é o caráter, por si só, que garante a segurança de alguém. Há muito poucas pessoas no mundo cujo caráter esteja tão bem estabelecido como o meu.

— Pergunto-me como conseguiste isso — rosnou Ossipon.

— Força de personalidade — disse o outro, sem elevar a voz; e, vinda da boca daquele organismo obviamente miserável, a afirmação fez o robusto Ossipon morder o lábio inferior. — Força de personalidade — repetiu, com calma ostensiva. — Tenho os meios para me tornar mortífero, mas isso por si só, compreendes, não é absolutamente nada em termos de proteção. O que é eficaz é a crença que aquelas pessoas têm na minha vontade de usar esses meios. Essa é a sua impressão. É absoluta. Portanto, sou mortífero.

— Há indivíduos de caráter entre esse grupo também — murmurou Ossipon de forma sinistra.

— Possivelmente. Mas é uma questão de grau, obviamente, uma vez que, por exemplo, não fico impressionado com eles. Portanto, são inferiores. Não podem ser de outra forma. O seu caráter baseia-se na moralidade convencional. Apoia-se na ordem social. O meu permanece livre de tudo o que é artificial. Eles estão presos em todo o tipo de convenções. Dependem da vida, que, neste contexto, é um facto histórico rodeado de todo o tipo de restrições e considerações, um facto organizado complexo, aberto ao ataque em todos os pontos; ao passo que eu dependo da morte, que não conhece restrições e não pode ser atacada. A minha superioridade é evidente.

— Essa é uma forma transcendental de colocar as coisas — disse Ossipon, observando o brilho frio dos óculos redondos. — Ouvi Karl Yundt dizer quase o mesmo não há muito tempo.

— Karl Yundt — murmurou o outro com desprezo —, o delegado do Comité Vermelho Internacional, tem sido uma sombra que posa toda a sua vida. Vocês são três delegados, não são? Não vou definir os outros dois, já que tu és um deles. Mas o que dizes não significa nada. Vocês são os dignos delegados da propaganda revolucionária, mas o problema não é apenas que vocês são tão incapazes de pensar independentemente como qualquer merceeiro ou jornalista respeitável de todos eles, mas que vocês não têm qualquer caráter.

Ossipon não conseguiu conter um sobressalto de indignação.

— Mas o que queres de nós? — exclamou ele com uma voz abafada. — O que é que tu próprio procuras?

— Um detonador perfeito — foi a resposta peremptória. — Por que estás a fazer essa cara? Vês, não consegues sequer suportar a menção de algo conclusivo.

— Não estou a fazer cara nenhuma — rosnou o irritado Ossipon, de forma grosseira.

— Vocês, revolucionários — continuou o outro com autoconfiança pausada —, são escravos da convenção social, que tem medo de vocês; escravos dela tanto como a própria polícia que se levanta em defesa dessa convenção. Claramente que são, uma vez que querem revolucioná-la. Ela governa o vosso pensamento, é claro, e a vossa ação também, e assim nem o vosso pensamento nem a vossa ação podem ser conclusivos. — Ele fez uma pausa, tranquilo, com aquele ar de silêncio próximo e interminável, e depois, quase imediatamente, continuou. — Vocês não são um pouco melhores do que as forças alinhadas contra vocês — do que a polícia, por exemplo. No outro dia, encontrei-me subitamente com o Inspetor-Chefe Heat na esquina da Tottenham Court Road. Ele olhou para mim de forma muito firme. Mas eu não olhei para ele. Por que deveria dar-lhe mais do que um olhar? Ele estava a pensar em muitas coisas — nos seus superiores, na sua reputação, nos tribunais, no seu salário, nos jornais — em cem coisas. Mas eu estava a pensar apenas no meu detonador perfeito. Ele não significava nada para mim. Ele era tão insignificante como... não me lembro de nada suficientemente insignificante para comparar com ele — exceto Karl Yundt, talvez. Iguais a iguais. O terrorista e o polícia vêm ambos do mesmo cesto. Revolução, legalidade — contra-movimentos no mesmo jogo; formas de ociosidade, no fundo, idênticas. Ele joga o seu joguinho — tal como vocês, propagandistas. Mas eu não jogo; trabalho catorze horas por dia e passo fome por vezes. As minhas experiências custam dinheiro de vez em quando, e então tenho de passar um dia ou dois sem comer. Estás a olhar para a minha cerveja. Sim. Já bebi dois copos e vou beber outro daqui a pouco. Este é um pequeno feriado, e celebro-o sozinho. Por que não? Tenho a coragem de trabalhar sozinho, totalmente sozinho, absolutamente sozinho. Trabalhei sozinho durante anos.

O rosto de Ossipon tinha ficado vermelho-escuro.

— No detonador perfeito — eh? — troçou ele, muito baixo.

— Sim — retorquiu o outro. — É uma boa definição. Não consegues encontrar nada metade tão preciso para definir a natureza da tua atividade com todos os vossos comités e delegações. Sou eu quem é o verdadeiro propagandista.

— Não vamos discutir esse ponto — disse Ossipon, com um ar de se elevar acima de considerações pessoais. — Receio, contudo, que tenha de estragar o teu feriado. Há um homem que explodiu no Greenwich Park esta manhã.

— Como sabes?

— Estão a gritar as notícias nas ruas desde as duas horas. Comprei o jornal e entrei logo aqui. Depois vi-te sentado a esta mesa. Tenho-o no bolso agora.

Ele puxou o jornal. Era uma folha rosada de tamanho razoável, como se estivesse corada pelo calor das suas próprias convicções, que eram otimistas. Ele examinou as páginas rapidamente.

— Ah! Aqui está. Bomba no Greenwich Park. Não há muito até agora. Onze e meia. Manhã de nevoeiro. Efeitos da explosão sentidos até Romney Road e Park Place. Buraco enorme no chão debaixo de uma árvore, cheio de raízes esmagadas e ramos partidos. À volta, fragmentos do corpo de um homem despedaçado. É tudo. O resto é apenas tagarelice de jornal. Sem dúvida, uma tentativa perversa de explodir o Observatório, dizem eles. H’m. Isso é pouco credível.

Ele olhou para o jornal por mais algum tempo em silêncio e depois passou-o ao outro, que, depois de olhar abstratamente para o texto, o pousou sem comentários.

Foi Ossipon quem falou primeiro — ainda ressentido.

— Os fragmentos de apenas um homem, nota tu. Ergo: explodiu-se a si próprio. Isso estraga o teu dia de folga — não estraga? Estavas à espera desse tipo de movimento? Eu não tinha a menor ideia — nem o fantasma de uma ideia de que algo do género estivesse planeado para acontecer aqui — neste país. Nas circunstâncias atuais, não é menos do que criminoso.

O homenzinho levantou as suas sobrancelhas negras e finas com desdém impassível.

— Criminoso! O que é isso? O que é o crime? Qual pode ser o significado de tal afirmação?

— Como hei de expressar-me? É preciso usar as palavras correntes — disse Ossipon com impaciência. — O significado desta afirmação é que este assunto pode afetar a nossa posição de forma muito adversa neste país. Não é crime suficiente para ti? Estou convencido de que tens distribuído algum do teu material ultimamente.

Ossipon olhou fixamente. O outro, sem vacilar, baixou e levantou a cabeça lentamente.

— Tu tens! — explodiu o editor dos folhetos da F.P. num sussurro intenso. — Não! E estás realmente a entregá-lo por aí, assim, a quem o pede, ao primeiro tolo que aparece?

— Exatamente! A ordem social condenada não foi construída com papel e tinta, e não imagino que uma combinação de papel e tinta acabe algum dia com ela, seja o que for que penses. Sim, eu daria o material com ambas as mãos a cada homem, mulher ou tolo que gostasse de aparecer. Sei no que estás a pensar. Mas não estou a seguir as ordens do Comité Vermelho. Eu ver-vos-ia a todos expulsos daqui, ou presos — ou decapitados, já agora — sem pestanejar. O que nos acontece como indivíduos não é da mínima importância.

Ele falou descuidadamente, sem calor, quase sem sentimento, e Ossipon, secretamente muito afetado, tentou copiar este distanciamento.

— Se a polícia aqui conhecesse o seu trabalho, dispararia sobre ti até te encher de buracos com revólveres, ou então tentaria atacar-te com sacos de areia por trás, em plena luz do dia.

O homenzinho parecia já ter considerado esse ponto de vista de uma forma desapaixonada e autoconfiante.

— Sim — assentiu ele com a maior prontidão. — Mas, para isso, teriam de enfrentar as suas próprias instituições. Vês? Isso requer uma coragem invulgar. Coragem de um tipo especial.

Ossipon pestanejou.

— Imagino que é exatamente o que te aconteceria se montasses o teu laboratório nos Estados Unidos. Eles não se preocupam com cerimónias com as suas instituições lá.

— É pouco provável que eu vá lá ver. Caso contrário, a tua observação é justa — admitiu o outro. — Eles têm mais caráter por lá, e o seu caráter é essencialmente anárquico. Terreno fértil para nós, os Estados Unidos — muito bom terreno. A grande República tem a raiz da matéria destrutiva nela. O temperamento coletivo é sem lei. Excelente. Eles podem disparar sobre nós, mas...

— És demasiado transcendental para mim — rosnou Ossipon, com uma preocupação melancólica.

“Lógico”, protestou o outro. “Existem vários tipos de lógica. Este é o tipo esclarecido. A América está bem. É este país que é perigoso, com a sua conceção idealista de legalidade. O espírito social deste povo está envolto em preconceitos escrupulosos, e isso é fatal para o nosso trabalho. Tu falas da Inglaterra como sendo o nosso único refúgio! Tanto pior. Cápua! O que queremos nós com refúgios? Aqui tu falas, imprimes, planeias e não fazes nada. Atrevo-me a dizer que é muito conveniente para tais Karl Yundts.”

Ele encolheu ligeiramente os ombros e acrescentou com a mesma segurança descontraída: “Destruir a superstição e o culto da legalidade deveria ser o nosso objetivo. Nada me agradaria mais do que ver o Inspetor Heat e os seus semelhantes dispararem sobre nós em plena luz do dia com a aprovação do público. Metade da nossa batalha estaria ganha então; a desintegração da velha moralidade ter-se-ia instalado no seu próprio templo. É nisso que deves visar. Mas vocês, revolucionários, nunca compreenderão isso. Planeiam o futuro, perdem-se em devaneios de sistemas económicos derivados do que existe; enquanto o que é preciso é uma limpeza total e um começo claro para uma nova conceção de vida. Esse tipo de futuro tratará de si mesmo se apenas lhe abrirem espaço. Por isso, eu empilharia a minha mercadoria nas esquinas das ruas se tivesse o suficiente para tal; e como não tenho, faço o meu melhor aperfeiçoando um detonador verdadeiramente fiável.”

Ossipon, que mentalmente nadava em águas profundas, agarrou-se à última palavra como se fosse uma tábua de salvação.

“Sim. Os teus detonadores. Não me admiraria se não tivesse sido um dos teus detonadores a fazer uma limpeza total do homem no parque.”

Uma sombra de vexame escureceu o rosto determinado e amarelado que enfrentava Ossipon.

“A minha dificuldade consiste precisamente em experimentar praticamente os vários tipos. Eles têm de ser testados, afinal de contas. Além disso—”

Ossipon interrompeu.

“Quem poderia ser aquele indivíduo? Garanto-te que nós em Londres não tínhamos conhecimento... Não poderias descrever a pessoa a quem deste o material?”

O outro virou os seus óculos para Ossipon como se fossem um par de holofotes.

“Descrevê-lo”, repetiu lentamente. “Não creio que possa haver a menor objeção agora. Descrevê-lo-ei com uma palavra — Verloc.”

Ossipon, que a curiosidade tinha levantado alguns centímetros do assento, deixou-se cair para trás, como se tivesse levado um murro na cara.

“Verloc! Impossível.”

O pequeno homem seguro de si acenou ligeiramente uma vez.

“Sim. É ele a pessoa. Não podes dizer que neste caso eu estivesse a dar o meu material ao primeiro tolo que aparecesse. Ele era um membro proeminente do grupo, até onde compreendo.”

“Sim”, disse Ossipon. “Proeminente. Não, não exatamente. Ele era o centro de informações gerais e recebia habitualmente os camaradas que vinham para cá. Mais útil do que importante. Um homem sem ideias. Há anos que costumava falar em reuniões — em França, creio eu. Não muito bem, no entanto. Ele era da confiança de homens como Latorre, Moser e toda aquela velha guarda. O único talento que demonstrou realmente foi a sua habilidade para escapar às atenções da polícia de alguma forma. Aqui, por exemplo, não parecia ser vigiado muito de perto. Ele era casado regularmente, sabes. Suponho que foi com o dinheiro dela que ele abriu aquela loja. Parecia dar lucro, também.”

Ossipon fez uma pausa abrupta, murmurou para si mesmo “Pergunto-me o que fará aquela mulher agora?” e mergulhou em pensamentos.

O outro esperou com uma indiferença ostensiva. A sua ascendência era obscura, e ele era geralmente conhecido apenas pela alcunha de Professor. O seu título para essa designação consistia em ter sido outrora assistente demonstrador de química em algum instituto técnico. Entrou em conflito com as autoridades por uma questão de tratamento injusto. Posteriormente, obteve um lugar no laboratório de uma fábrica de tintas. Lá também fora tratado com uma injustiça revoltante. As suas lutas, as suas privações, o seu trabalho árduo para se elevar na escala social, tinham-no enchido com uma convicção tão exaltada dos seus méritos que era extremamente difícil para o mundo tratá-lo com justiça — dependendo o padrão dessa noção muito da paciência do indivíduo. O Professor tinha génio, mas faltava-lhe a grande virtude social da resignação.

“Intelectualmente uma nulidade”, pronunciou Ossipon em voz alta, abandonando subitamente a contemplação interior da pessoa e do negócio da Sra. Verloc. “Uma personalidade bastante comum. Estás errado em não te manteres mais em contacto com os camaradas, Professor”, acrescentou num tom de reprovação. “Ele disse-te alguma coisa? Deu-te alguma ideia das suas intenções? Não o via há um mês. Parece impossível que ele tenha partido.”

“Disse-me que ia ser uma demonstração contra um edifício”, disse o Professor. “Tinha de saber isso para preparar o engenho. Salientei-lhe que dificilmente teria uma quantidade suficiente para um resultado completamente destrutivo, mas ele insistiu muito seriamente para que fizesse o meu melhor. Como queria algo que pudesse ser carregado abertamente na mão, propus utilizar uma velha lata de verniz copal de um galão que tinha por perto. Ele ficou satisfeito com a ideia. Deu-me algum trabalho, porque tive primeiro de cortar o fundo e soldá-lo de novo depois. Quando preparado para uso, a lata envolvia um frasco de vidro grosso, de boca larga e bem arrolhado, preenchido à volta com um pouco de argila húmida e contendo dezasseis onças de pó verde X2. O detonador estava ligado à tampa de rosca da lata. Era engenhoso — uma combinação de tempo e choque. Expliquei-lhe o sistema. Era um tubo fino de estanho envolvendo um—”

A atenção de Ossipon desviara-se.

“O que achas que aconteceu?” interrompeu ele.

“Não sei dizer. Apertou a tampa com força, o que faria a ligação, e depois esqueceu-se do tempo. Estava programado para vinte minutos. Por outro lado, feito o contacto temporal, um choque brusco provocaria a explosão de imediato. Ou ele deixou o tempo passar demasiado, ou simplesmente deixou a coisa cair. O contacto foi feito, certamente — isso está claro para mim, pelo menos. O sistema funcionou na perfeição. E, no entanto, pensar-se-ia que um tolo comum com pressa seria muito mais propenso a esquecer-se de fazer o contacto. Eu preocupava-me principalmente com esse tipo de falha. Mas há mais tipos de tolos do que se pode prever. Não se pode esperar que um detonador seja à prova de tolos.”

Ele fez um gesto a um empregado. Ossipon permaneceu rígido, com o olhar abstraído pelo esforço mental. Depois de o homem se ter ido embora com o dinheiro, ele reanimou-se, com um ar de profunda insatisfação.

“É extremamente desagradável para mim”, refletiu ele. “Karl tem estado de cama com bronquite durante uma semana. Há uma hipótese real de que nunca mais se levante. Michaelis está a gozar a vida no campo algures. Um editor da moda ofereceu-lhe quinhentas libras por um livro. Será um fracasso terrível. Ele perdeu o hábito do pensamento consecutivo na prisão, sabes.”

O Professor, de pé, agora a abotoar o casaco, olhava em volta com perfeita indiferença.

“O que vais fazer?” perguntou Ossipon, exausto. Ele temia a culpa do Comité Vermelho Central, um organismo que não tinha lugar de residência permanente e cujos membros ele não conhecia exatamente. Se este caso resultasse na interrupção do modesto subsídio atribuído à publicação dos panfletos do F. P., então, de facto, ele teria de lamentar a inexplicável loucura de Verloc.

“Solidariedade com a forma mais extrema de ação é uma coisa, e imprudência estúpida é outra”, disse ele, com uma espécie de brutalidade taciturna. “Não sei o que deu a Verloc. Há algum mistério aí. Seja como for, ele já não está cá. Podes encarar como quiseres, mas, dadas as circunstâncias, a única política para o grupo revolucionário militante é negar qualquer ligação com esta tua maldita maluquice. Como tornar a negação suficientemente convincente é o que me preocupa.”

O pequeno homem de pé, abotoado e pronto a partir, não era mais alto que Ossipon sentado. Ele apontou os seus óculos para a cara deste último.

“Poderias pedir à polícia um atestado de bons antecedentes. Eles sabem onde cada um de vocês dormiu na noite passada. Talvez se lhes pedisses, eles consentissem em publicar algum tipo de declaração oficial.”

“Sem dúvida que eles sabem muito bem que não tivemos nada a ver com isto”, resmungou Ossipon amargamente. “O que eles dirão é outra história.” Permaneceu pensativo, ignorando a figura baixa, corujesca e desalinhada de pé ao seu lado. “Tenho de pôr as mãos em Michaelis imediatamente e levá-lo a falar do fundo do coração numa das nossas reuniões. O público tem uma espécie de consideração sentimental por esse sujeito. O seu nome é conhecido. E eu estou em contacto com alguns repórteres dos grandes jornais diários. O que ele diria seria uma asneira completa, mas ele tem um jeito de falar que faz com que seja aceite de qualquer modo.”

“Como melado”, interrompeu o Professor, em voz baixa, mantendo uma expressão impassível.

O perplexo Ossipon continuou a comungar consigo mesmo, em voz semi-audível, à maneira de um homem a refletir na mais completa solidão.

“Asno desgraçado! Deixar um negócio tão imbecil nas minhas mãos. E eu nem sequer sei se—”

Sentou-se com os lábios comprimidos. A ideia de ir diretamente à loja em busca de notícias não lhe parecia atraente. A sua noção era que a loja de Verloc podia já ter sido transformada numa armadilha policial. Eles serão obrigados a fazer algumas detenções, pensou, com algo semelhante a uma indignação virtuosa, pois o curso regular da sua vida revolucionária estava ameaçado sem culpa sua. E, no entanto, a menos que fosse lá, corria o risco de permanecer na ignorância do que talvez fosse muito importante para ele saber. Depois, refletiu que, se o homem no parque tivesse sido tão destroçado como os jornais da tarde diziam, não poderia ter sido identificado. E, sendo assim, a polícia não poderia ter nenhuma razão especial para vigiar a loja de Verloc mais de perto do que qualquer outro lugar conhecido por ser frequentado por anarquistas sinalizados — não mais razão, de facto, do que para vigiar as portas do Silenus. Haveria muita vigilância por todo o lado, independentemente de para onde ele fosse. Ainda assim—

“Pergunto-me o que será melhor fazer agora?” murmurou, aconselhando-se a si mesmo.

Uma voz áspera ao seu lado disse, com um escárnio comedido:

“Agarra-te à mulher com tudo o que ela valer.”

Após proferir estas palavras, o Professor afastou-se da mesa. Ossipon, que tinha sido apanhado de surpresa por aquela perspicácia, deu um arranco ineficaz e permaneceu imóvel, com um olhar desamparado, como se estivesse pregado ao assento da sua cadeira. O piano solitário, sem sequer um banco para o ajudar, tocou alguns acordes corajosamente e, começando uma seleção de hinos nacionais, tocou-o finalmente para fora com a melodia de “Blue Bells of Scotland”. As notas dolorosamente destacadas tornaram-se ténues atrás das suas costas enquanto ele subia lentamente as escadas, atravessava o vestíbulo e saía para a rua.

Em frente à grande porta, uma fila lúgubre de vendedores de jornais, afastados do passeio, distribuía as suas mercadorias a partir da sarjeta. Era um dia cru e sombrio do início da primavera; e o céu sujo, a lama das ruas, os trapos dos homens imundos, harmonizavam-se perfeitamente com a erupção das folhas de papel húmidas e inúteis, sujas com tinta de impressão. Os cartazes, maculados de imundície, ornamentavam como tapeçaria a extensão do lancil. O comércio de jornais da tarde era intenso; contudo, em comparação com a marcha rápida e constante do tráfego a pé, o efeito era de indiferença, de uma distribuição ignorada. Ossipon olhou apressadamente para ambos os lados antes de se aventurar pelas correntes cruzadas, mas o Professor já estava fora de vista.

CAPÍTULO V

O Professor virara para uma rua à esquerda e caminhava com a cabeça erguida rigidamente, no meio de uma multidão em que quase todos os indivíduos superavam a sua estatura atarracada. Era vão fingir para si mesmo que não estava desapontado. Mas isso era apenas sentimento; o estoicismo do seu pensamento não podia ser perturbado por esta ou qualquer outra falha. Na próxima vez, ou na seguinte, seria desferido um golpe decisivo — algo realmente surpreendente — um golpe capaz de abrir a primeira fresta na imponente fachada do grande edifício de conceções legais que abrigava a atroz injustiça da sociedade. De origem humilde, e com uma aparência tão medíocre que impedia as suas consideráveis capacidades naturais, a sua imaginação tinha sido cedo inflamada pelas histórias de homens que ascendiam das profundezas da pobreza a posições de autoridade e afluência. A pureza extrema, quase ascética, do seu pensamento, combinada com uma ignorância espantosa das condições mundanas, tinha-lhe colocado diante um objetivo de poder e prestígio a ser alcançado sem o recurso a artes, graças, tato, riqueza — pelo puro peso do mérito. Sob esse aspeto, considerava-se com direito a um sucesso indiscutível. O seu pai, um entusiasta delicado e sombrio de testa inclinada, tinha sido um pregador itinerante e impetuoso de alguma seita cristã obscura mas rígida — um homem supremamente confiante nos privilégios da sua retidão. No filho, individualista por temperamento, uma vez que a ciência das faculdades tinha substituído completamente a fé dos conventículos, esta atitude moral traduziu-se num puritanismo frenético de ambição. Ele nutria-o como algo secularmente sagrado. Vê-lo frustrado abriu-lhe os olhos para a verdadeira natureza do mundo, cuja moralidade era artificial, corrupta e blasfema. O caminho até das revoluções mais justificáveis é preparado por impulsos pessoais disfarçados de credos. A indignação do Professor encontrou em si mesma uma causa final que o absolveu do pecado de se voltar para a destruição como o agente da sua ambição. Destruir a fé pública na legalidade era a fórmula imperfeita do seu fanatismo pedante; mas a convicção subconsciente de que a estrutura de uma ordem social estabelecida não pode ser eficazmente destruída exceto por alguma forma de violência coletiva ou individual era precisa e correta. Ele era um agente moral — isso estava decidido na sua mente. Ao exercer a sua agência com um desafio implacável, procurava para si as aparências de poder e prestígio pessoal. Isso era inegável para a sua amargura vingativa. Acalmava a sua inquietação; e, à sua maneira, os mais ardentes dos revolucionários talvez não estejam a fazer mais do que procurar a paz em comum com o resto da humanidade — a paz da vaidade acalmada, dos apetites satisfeitos, ou talvez da consciência apaziguada.

Perdido na multidão, miserável e subdimensionado, meditava confiantemente sobre o seu poder, mantendo a mão no bolso esquerdo das calças, agarrando levemente a bola de borracha, a suprema garantia da sua liberdade sinistra; mas, após algum tempo, sentiu-se desagradavelmente afetado pela visão da estrada cheia de veículos e do passeio apinhado de homens e mulheres. Ele estava numa rua longa e reta, povoada por apenas uma fração de uma multidão imensa; mas à sua volta, continuamente, até aos limites do horizonte escondidos pelas enormes pilhas de tijolos, sentia a massa da humanidade poderosa no seu número. Eles formigavam numerosos como gafanhotos, laboriosos como formigas, irrefletidos como uma força natural, avançando cegos, ordenados e absorvidos, impermeáveis ao sentimento, à lógica, talvez até ao terror.

Essa era a forma de dúvida que ele mais temia. Impermeáveis ao medo! Frequentemente, enquanto caminhava pelo exterior, quando lhe acontecia sair também de si mesmo, ele tinha tais momentos de terrível e sã desconfiança da humanidade. E se nada os pudesse mover? Tais momentos chegam a todos os homens cuja ambição visa um controlo direto sobre a humanidade — a artistas, políticos, pensadores, reformadores ou santos. Um estado emocional desprezível este, contra o qual a solidão fortifica um caráter superior; e com severa exaltação o Professor pensava no refúgio do seu quarto, com o seu armário cadeado, perdido num deserto de casas pobres, o eremitério do anarquista perfeito. Para chegar mais cedo ao ponto onde poderia apanhar o seu autocarro, virou bruscamente da rua populosa para um beco estreito e sombrio pavimentado com lajes. De um lado, as casas baixas de tijolo tinham, nas suas janelas poeirentas, o aspeto cego e moribundo da decadência incurável — carcaças vazias à espera de demolição. Do outro lado, a vida ainda não tinha partido completamente. De frente para o único candeeiro a gás bocejava a caverna de um negociante de móveis em segunda mão, onde, profundo na penumbra de uma espécie de alameda estreita que serpenteava por uma floresta bizarra de guarda-vestidos, com um emaranhado de pernas de mesas como vegetação rasteira, um espelho alto cintilava como uma poça de água num bosque. Um sofá infeliz e sem lar, acompanhado por duas cadeiras sem relação, estava ao relento. O único ser humano que usava o beco além do Professor, vindo robusto e ereto da direção oposta, deteve subitamente o seu passo balançante.

“Olá!” disse ele, e manteve-se um pouco de lado, atento.

O Professor já tinha parado, com uma meia volta pronta que trouxe os seus ombros muito perto da outra parede. A sua mão direita caiu levemente sobre o encosto do sofá abandonado, a esquerda permaneceu propositadamente mergulhada no fundo do bolso das calças, e a redondeza dos óculos de aro pesado conferia um caráter corujesco ao seu rosto taciturno e imperturbável.

Era como um encontro num corredor lateral de uma mansão cheia de vida. O homem robusto estava abotoado num sobretudo escuro e carregava um guarda-chuva. O seu chapéu, inclinado para trás, descobria uma grande parte da testa, que parecia muito branca na penumbra. Nas manchas escuras das órbitas, os globos oculares cintilavam penetrantemente. Longos bigodes descaídos, da cor de milho maduro, emolduravam com as suas pontas o bloco quadrado do seu queixo rapado.

“Não estou à tua procura”, disse ele secamente.

O Professor não se mexeu um centímetro. Os ruídos misturados da enorme cidade afundaram-se num murmúrio baixo e inarticulado. O Inspetor-Chefe Heat, do Departamento de Crimes Especiais, mudou de tom.

“Não tens pressa de chegar a casa?” perguntou, com uma simplicidade zombeteira.

O pequeno agente moral de destruição, de aspeto doentio, exultava silenciosamente na posse de prestígio pessoal, mantendo sob controlo este homem armado com o mandato defensivo de uma sociedade ameaçada. Mais afortunado que Calígula, que desejava que o Senado Romano tivesse apenas uma cabeça para a melhor satisfação da sua luxúria cruel, ele contemplava naquele único homem todas as forças a que tinha desafiado: a força da lei, da propriedade, da opressão e da injustiça. Ele contemplava todos os seus inimigos e enfrentava-os destemidamente, numa satisfação suprema da sua vaidade. Eles permaneciam perplexos diante dele como se estivessem diante de um terrível presságio. Ele regozijava-se interiormente com a oportunidade deste encontro afirmar a sua superioridade sobre toda a multidão da humanidade.

Era, na realidade, um encontro casual. O Inspetor-Chefe Heat tivera um dia desagradavelmente ocupado desde que o seu departamento recebera o primeiro telegrama de Greenwich, pouco antes das onze da manhã. Em primeiro lugar, o facto de o atentado ter sido tentado menos de uma semana depois de ter assegurado a um alto funcionário que não se devia recear qualquer surto de atividade anarquista era suficientemente irritante. Se alguma vez pensou que estava seguro ao fazer uma declaração, era então. Ele tinha feito essa declaração com infinita satisfação para si próprio, porque estava claro que o alto funcionário desejava muito ouvir exatamente aquilo. Tinha afirmado que nada do género poderia sequer ser pensado sem que o departamento tivesse conhecimento disso no prazo de vinte e quatro horas; e falara assim na consciência de ser o grande perito do seu departamento. Fora mesmo ao ponto de proferir palavras que a verdadeira sabedoria teria mantido de volta. Mas o Inspetor-Chefe Heat não era muito sábio — pelo menos não verdadeiramente. A verdadeira sabedoria, que não tem a certeza de nada neste mundo de contradições, tê-lo-ia impedido de atingir a sua posição atual. Teria alarmado os seus superiores e acabado com as suas hipóteses de promoção. A sua promoção fora muito rápida.

“Não há um deles, senhor, em quem não possamos pôr as mãos a qualquer hora da noite ou do dia. Sabemos o que cada um deles está a fazer hora a hora”, declarara ele. E o alto funcionário dignara-se a sorrir. Era tão obviamente a coisa certa a dizer para um oficial com a reputação do Inspetor-Chefe Heat, que era perfeitamente delicioso. O alto funcionário acreditou na declaração, que se harmonizava com a sua ideia da conveniência das coisas. A sua sabedoria era de um tipo oficial, caso contrário poderia ter refletido sobre uma questão não de teoria, mas de experiência: que no tecido densamente entrelaçado das relações entre conspiradores e a polícia ocorrem soluções inesperadas de continuidade, buracos súbitos no espaço e no tempo. Um dado anarquista pode ser vigiado centímetro a centímetro e minuto a minuto, mas chega sempre um momento em que, de alguma forma, toda a visão e contacto com ele se perdem por algumas horas, durante as quais algo (geralmente uma explosão) mais ou menos deplorável acontece. Mas o alto funcionário, levado pelo seu sentido da conveniência das coisas, sorrira, e agora a recordação desse sorriso era muito irritante para o Inspetor-Chefe Heat, perito principal em procedimentos anarquistas.

Esta não era a única circunstância cuja recordação deprimia a serenidade habitual do eminente especialista. Havia outra, que remontava apenas àquela mesma manhã. O pensamento de que, quando chamado urgentemente ao gabinete privado do seu Comissário Assistente, fora incapaz de ocultar o seu espanto, era distintamente vexatório. O seu instinto de homem de sucesso ensinara-lhe há muito que, como regra geral, uma reputação é construída tanto sobre a maneira como sobre a realização. E sentia que a sua maneira, quando confrontado com o telegrama, não fora impressionante. Abrira bem os olhos e exclamara “Impossível!”, expondo-se assim à réplica irrespondível de uma ponta de dedo pousada com força sobre o telegrama que o Comissário Assistente, depois de o ler em voz alta, atirara sobre a secretária. Ser esmagado, por assim dizer, sob a ponta de um dedo indicador era uma experiência desagradável. Muito prejudicial, também! Além disso, o Inspetor-Chefe Heat estava consciente de não ter melhorado as coisas ao permitir-se expressar uma convicção.

“Uma coisa posso dizer-lhe de imediato: nenhum dos nossos teve qualquer coisa a ver com isto.”

Ele era forte na sua integridade de bom detetive, mas via agora que uma reserva impenetravelmente atenta em relação a este incidente teria servido melhor a sua reputação. Por outro lado, admitia para consigo mesmo que era difícil preservar a reputação se estranhos fossem intervir no assunto. Os estranhos são a ruína da polícia, tal como de outras profissões. O tom das observações do Comissário Assistente fora suficientemente ácido para pôr os dentes de qualquer um em polvorosa.

E, desde o pequeno-almoço, o Inspetor-Chefe Heat não conseguira comer nada.

Começando imediatamente a sua investigação no local, engolira uma boa dose de nevoeiro cru e insalubre no parque. Depois caminhara até ao hospital; e quando a investigação em Greenwich foi finalmente concluída, perdera o apetite. Não habituado, como os médicos, a examinar de perto os restos retalhados de seres humanos, ficara chocado com a visão que se revelara aos seus olhos quando uma folha impermeável foi levantada de uma mesa num certo compartimento do hospital.

Outra folha impermeável estava estendida sobre essa mesa como uma toalha, com os cantos virados para cima sobre uma espécie de monte — uma pilha de trapos, chamuscados e manchados de sangue, ocultando metade do que poderia ter sido uma acumulação de matéria-prima para um banquete canibal. Exigia uma firmeza de espírito considerável não recuar perante aquela visão. O Inspetor-Chefe Heat, um oficial eficiente do seu departamento, manteve a posição, mas durante um minuto inteiro não avançou. Um agente local fardado lançou um olhar de soslaio e disse, com estoica simplicidade:

“Ele está todo aí. Cada pedaço dele. Foi um trabalho.”

Ele fora o primeiro homem no local após a explosão. Mencionou o facto novamente. Vira algo como um relâmpago pesado no nevoeiro. Naquela altura, estava parado à porta do King William Street Lodge a falar com o guarda. A concussão fê-lo formigar por todo o corpo. Correu por entre as árvores em direção ao Observatório. “Tão rápido quanto as minhas pernas me podiam levar”, repetiu duas vezes.

O Inspetor-Chefe Heat, curvando-se sobre a mesa de maneira cautelosa e horrorizada, deixou-o continuar. O porteiro do hospital e outro homem baixaram os cantos do pano e afastaram-se. Os olhos do Inspetor-Chefe perscrutavam o detalhe horrível daquela pilha de coisas misturadas, que pareciam ter sido recolhidas em matadouros e lojas de trapos.

“Usou uma pá”, observou ele, observando uma dispersão de gravilha fina, minúsculos pedaços castanhos de casca e partículas de madeira lascada tão finas como agulhas.

“Tive de o fazer num sítio”, disse o estoico agente. “Mandei um guarda ir buscar uma pá. Quando me ouviu a raspar o chão com ela, encostou a testa a uma árvore e ficou doente como um cão.”

O Inspetor-Chefe, curvado defensivamente sobre a mesa, lutou contra a sensação desagradável na garganta. A violência destruidora que fizera daquele corpo uma pilha de fragmentos sem nome afetou os seus sentimentos com um sentido de crueldade implacável, embora a sua razão lhe dissesse que o efeito devia ter sido tão rápido como um relâmpago. O homem, quem quer que fosse, morrera instantaneamente; e, no entanto, parecia impossível acreditar que um corpo humano pudesse ter atingido aquele estado de desintegração sem passar pelas dores de uma agonia inconcebível. Não sendo fisiologista, e menos ainda metafísico, o Inspetor-Chefe Heat elevou-se, pela força da simpatia, que é uma forma de medo, acima da conceção vulgar do tempo. Instantâneo! Lembrou-se de tudo o que lera em publicações populares sobre sonhos longos e aterradores sonhados no instante de acordar; de toda a vida passada vivida com uma intensidade assustadora por um homem que se afoga enquanto a sua cabeça condenada emerge, a pingar, pela última vez. Os mistérios inexplicáveis da existência consciente assaltaram o Inspetor-Chefe Heat até ele conceber uma ideia horrível de que eras de dor atroz e tortura mental poderiam estar contidas entre duas piscadelas sucessivas. E, entretanto, o Inspetor-Chefe continuava, perscrutando a mesa com um rosto calmo e a atenção ligeiramente ansiosa de um cliente indigente debruçado sobre o que se pode chamar de subprodutos de um talho com vista a um jantar de domingo barato. Durante todo o tempo, as suas faculdades treinadas de excelente investigador, que não despreza nenhuma hipótese de informação, seguiam a loquacidade autossatisfeita e desconexa do agente.

“Um tipo de cabelo claro”, observou o último num tom plácido, e fez uma pausa. “A velha que falou com o sargento notou um tipo de cabelo claro a sair da estação de Maze Hill.” Fez uma pausa. “E ele era um tipo de cabelo claro. Ela notou dois homens a sair da estação depois de o comboio de subida ter partido”, continuou lentamente. “Não podia dizer se estavam juntos. Não reparou particularmente no maior, mas o outro era um sujeito claro e franzino, a carregar uma lata de verniz numa mão.” O agente calou-se.

“Conhece a mulher?”, murmurou o Inspetor-Chefe, com os olhos fixos na mesa e uma noção vaga na mente de um inquérito a ser realizado em breve sobre uma pessoa com probabilidade de permanecer para sempre desconhecida.

“Sim. É governanta de um taberneiro reformado e frequenta a capela em Park Place por vezes”, disse o agente com peso, e fez uma pausa, com outro olhar oblíquo para a mesa.

Depois, subitamente: “Bem, aqui está ele — tudo o que consegui ver. Claro. Franzino — bastante franzino. Olhe para aquele pé ali. Recolhi as pernas primeiro, uma atrás da outra. Ele ficou tão espalhado que não se sabia por onde começar.”

O agente fez uma pausa; o menor vislumbre de um sorriso inocente e autolaudatório conferiu ao seu rosto redondo uma expressão infantil.

“Tropeçou”, anunciou positivamente. “Eu próprio tropecei uma vez, e caí de cabeça também, enquanto corria. Aquelas raízes ficam salientes por todo o lado. Tropeçou na raiz de uma árvore e caiu, e aquela coisa que ele carregava deve ter explodido mesmo debaixo do peito dele, suponho.”

O eco das palavras “Pessoa desconhecida”, repetindo-se na sua consciência interior, incomodou o Inspetor-Chefe consideravelmente. Ele teria gostado de rastrear este caso até à sua origem misteriosa para a sua própria informação. Era profissionalmente curioso. Perante o público, teria gostado de justificar a eficiência do seu departamento estabelecendo a identidade daquele homem. Era um servidor leal. Isso, contudo, parecia impossível. O primeiro termo do problema era ilegível — não continha qualquer sugestão além da de uma crueldade atroz.

Superando a sua repugnância física, o Inspetor-Chefe Heat estendeu a mão, sem convicção para o alívio da sua consciência, e pegou no menos sujo dos trapos. Era uma tira estreita de veludo com um pedaço triangular maior de tecido azul-escuro pendurado nela. Ergueu-o até aos olhos; e o agente da polícia falou.

“Colarinho de veludo. É curioso que a velha tenha notado o colarinho de veludo. Sobretudo azul-escuro com um colarinho de veludo, foi o que nos disse. Ele era o sujeito que ela viu, sem dúvida. E aqui está ele, completo, colarinho de veludo e tudo. Não creio que me tenha escapado um único pedaço do tamanho de um selo postal.”

Neste ponto, as faculdades treinadas do Inspetor-Chefe deixaram de ouvir a voz do agente. Moveu-se para uma das janelas para obter melhor luz. O seu rosto, desviado da sala, expressava um interesse intenso e sobressaltado enquanto examinava de perto o pedaço triangular de pano grosso. Com um puxão súbito, separou-o e, só depois de o enfiar no bolso, virou-se para a sala e atirou o colarinho de veludo de volta para a mesa—

“Cubram”, ordenou secamente aos assistentes, sem olhar novamente, e, saudado pelo agente, levou o seu espólio apressadamente.

Um comboio conveniente levou-o até à cidade, sozinho e ponderando profundamente, num compartimento de terceira classe. Aquele pedaço de tecido chamuscado era incrivelmente valioso, e ele não conseguia defender-se do espanto pela forma casual como tinha caído na sua posse. Era como se o Destino tivesse empurrado aquela pista para as suas mãos. E, à maneira do homem comum, cuja ambição é dominar os eventos, começou a desconfiar de um sucesso tão gratuito e acidental — apenas porque parecia imposto. O valor prático do sucesso depende não pouco da forma como o encaramos. Mas o Destino não olha para nada. Não tem discrição. Já não considerava eminentemente desejável, em todos os aspetos, estabelecer publicamente a identidade do homem que se fizera explodir naquela manhã com tal completude horrível. Mas não tinha a certeza da visão que o seu departamento tomaria. Um departamento é, para aqueles que emprega, uma personalidade complexa com ideias e até manias próprias. Depende da lealdade leal dos seus servos, e a lealdade devota dos servos de confiança está associada a uma certa quantidade de desprezo afetuoso, que a mantém doce, por assim dizer. Por uma providência benevolente da Natureza, nenhum homem é herói para o seu criado, caso contrário os heróis teriam de escovar as suas próprias roupas. Da mesma forma, nenhum departamento parece perfeitamente sábio para a intimidade dos seus trabalhadores. Um departamento não sabe tanto como alguns dos seus servos. Sendo um organismo impassível, nunca pode ser perfeitamente informado. Não seria bom para a sua eficiência saber demasiado. O Inspetor-Chefe Heat saiu do comboio num estado de reflexão inteiramente imaculado de deslealdade, mas não totalmente livre daquele desconfiado ciúme que tantas vezes surge no solo da devoção perfeita, seja para com mulheres ou instituições.

Foi nesta disposição mental, fisicamente muito vazio, mas ainda nauseado pelo que vira, que se deparou com o Professor. Sob estas condições, que contribuem para a irascibilidade num homem são e normal, este encontro foi especialmente indesejado para o Inspetor-Chefe Heat. Ele não estivera a pensar no Professor; não estivera a pensar em nenhum anarquista individual. A complexidade daquele caso forçara-o de alguma forma à ideia geral do absurdo das coisas humanas, o que, abstratamente, é suficientemente irritante para um temperamento não filosófico, e, em instâncias concretas, torna-se exasperante além da resistência. No início da sua carreira, o Inspetor-Chefe Heat estivera preocupado com as formas mais energéticas de roubo. Ganhara as suas esporas nessa esfera e, naturalmente, mantivera por ela, após a sua promoção para outro departamento, um sentimento não muito distante do afeto. Roubar não era um puro absurdo. Era uma forma de indústria humana, perversa, na verdade, mas ainda assim uma indústria exercida num mundo industrioso; era trabalho empreendido pela mesma razão que o trabalho nas olarias, nas minas de carvão, nos campos, nas oficinas de ferramentas. Era trabalho, cuja diferença prática das outras formas de trabalho consistia na natureza do seu risco, que não residia na anquilose, ou envenenamento por chumbo, ou grisu, ou pó arenoso, mas no que pode ser brevemente definido na sua fraseologia especial como “Sete anos de trabalhos forçados”. O Inspetor-Chefe Heat, claro, não era insensível à gravidade das diferenças morais. Mas os ladrões que ele vigiava também não. Submetiam-se às sanções severas de uma moralidade familiar ao Inspetor-Chefe Heat com uma certa resignação.

Eram os seus concidadãos desviados por causa de uma educação imperfeita, acreditava o Inspetor-Chefe Heat; mas, descontando essa diferença, ele conseguia compreender a mente de um arrombador, porque, na verdade, a mente e os instintos de um arrombador são do mesmo tipo que a mente e os instintos de um oficial de polícia. Ambos reconhecem as mesmas convenções e têm um conhecimento prático dos métodos um do outro e da rotina dos seus respetivos ofícios. Compreendem-se mutuamente, o que é vantajoso para ambos, e estabelece uma espécie de amenidade nas suas relações. Produtos da mesma máquina, um classificado como útil e o outro como nocivo, tomam a máquina como garantida de maneiras diferentes, mas com uma seriedade essencialmente a mesma. A mente do Inspetor-Chefe Heat era inacessível a ideias de revolta. Mas os seus ladrões não eram rebeldes. O seu vigor corporal, a sua maneira fria e inflexível, a sua coragem e a sua justiça, tinham-lhe garantido muito respeito e alguma adulação na esfera dos seus sucessos iniciais. Sentia-se venerado e admirado. E o Inspetor-Chefe Heat, detido a seis passos do anarquista alcunhado de Professor, pensou com pesar no mundo dos ladrões — sãos, sem ideais mórbidos, trabalhando por rotina, respeitadores das autoridades constituídas, livres de qualquer mancha de ódio e desespero.

Após prestar esta homenagem ao que é normal na constituição da sociedade (pois a ideia de roubar parecia ao seu instinto tão normal como a ideia de propriedade), o Inspetor-Chefe Heat sentiu-se muito zangado consigo mesmo por ter parado, por ter falado, por ter tomado aquele caminho como um atalho da estação para o quartel-general. E voltou a falar com a sua voz grande e autoritária, que, sendo moderada, tinha um caráter ameaçador.

“Não és procurado, digo-te”, repetiu ele.

O anarquista não se mexeu. Um riso interior de escárnio descobriu não apenas os seus dentes, mas também as gengivas, sacudindo-o todo, sem o menor som. O Inspetor-Chefe Heat foi levado a acrescentar, contra o seu melhor julgamento:

“Ainda não. Quando eu te quiser, saberei onde te encontrar.”

Foram palavras perfeitamente adequadas, dentro da tradição e adequadas ao seu caráter de oficial de polícia dirigindo-se a um do seu bando especial. Mas a receção que obtiveram afastou-se da tradição e da conveniência. Foi ultrajante. A figura atrofiada e fraca à sua frente falou finalmente.

“Não tenho dúvidas de que os jornais te dariam um obituário então. Sabes melhor o que isso valeria para ti. Suponho que possas imaginar facilmente o tipo de material que seria impresso. Mas podes estar exposto ao desagrado de ser enterrado comigo, embora suponha que os teus amigos fariam um esforço para nos separar o máximo possível.”

Com todo o seu desprezo saudável pelo espírito que dita tais discursos, a alusividade atroz das palavras teve o seu efeito no Inspetor-Chefe Heat. Ele tinha perspicácia demais, e informação exata demais também, para as descartar como lixo. O crepúsculo desta viela estreita adquiriu um tom sinistro a partir da figura esguia e escura, de costas para a parede, falando com uma voz fraca e autoconfiante. Para a vitalidade vigorosa e tenaz do Inspetor-Chefe, a miséria física daquele ser, tão obviamente não apto para viver, era um presságio; pois parecia-lhe que, se tivesse o infortúnio de ser um objeto tão miserável, não se importaria com quão cedo morreria. A vida tinha um domínio tão forte sobre ele que uma nova onda de náusea irrompeu num suor ligeiro na sua testa. O murmúrio da vida urbana, o rumor abafado das rodas nas duas ruas invisíveis à direita e à esquerda, chegavam através da curva da viela sórdida aos seus ouvidos com uma familiaridade preciosa e uma doçura apelativa. Ele era humano. Mas o Inspetor-Chefe Heat era também um homem, e não podia deixar passar tais palavras.

“Tudo isto é bom para assustar crianças”, disse ele. “Ainda te apanho.”

Foi muito bem dito, sem escárnio, com uma quietude quase austera.

“Sem dúvida”, foi a resposta; “mas não há altura como a presente, acredita. Para um homem de convicções reais, esta é uma bela oportunidade de autossacrifício. Talvez não encontres outra tão favorável, tão humana. Nem sequer há um gato perto de nós, e estas velhas casas condenadas fariam uma boa pilha de tijolos onde estás. Nunca me apanharás com tão pouco custo para a vida e propriedade, que te pagam para proteger.”

“Não sabes com quem estás a falar”, disse o Inspetor-Chefe Heat firmemente. “Se eu te pusesse as mãos em cima agora, não seria melhor do que tu.”

“Ah! O jogo!”

“Podes ter a certeza de que o nosso lado ganhará no final. Talvez ainda seja necessário fazer as pessoas acreditar que alguns de vós deveriam ser abatidos à vista como cães raivosos. Então esse será o jogo. Mas que me lixem se sei qual é o vosso. Não acredito que vós próprios saibam. Nunca conseguirão nada com isso.”

“Entretanto, és tu que consegues algo com isso — até agora. E consegues facilmente, também. Não falarei do teu salário, mas não fizeste o teu nome simplesmente por não entenderes o que pretendemos?”

“O que pretendem, então?”, perguntou o Inspetor-Chefe Heat, com pressa desdenhosa, como um homem com pressa que percebe que está a perder o seu tempo.

O anarquista perfeito respondeu com um sorriso que não separou os seus lábios finos e incolores; e o célebre Inspetor-Chefe sentiu um sentido de superioridade que o levou a levantar um dedo de aviso.

“Desiste — seja o que for”, disse ele num tom de admoestação, mas não tão amavelmente como se estivesse a condescender em dar um bom conselho a um arrombador de renome. “Desiste. Verás que somos demasiados para ti.”

O sorriso fixo nos lábios do Professor vacilou, como se o espírito zombeteiro interior tivesse perdido a sua segurança. O Inspetor-Chefe Heat continuou:

“Não acreditas em mim, eh? Bem, só tens de olhar à tua volta. Nós somos. E, de qualquer forma, não o estás a fazer bem. Estás sempre a fazer uma confusão. Ora, se os ladrões não soubessem melhor o seu trabalho, morreriam à fome.”

A alusão a uma multidão invencível atrás das costas daquele homem despertou uma indignação sombria no peito do Professor. Ele já não sorria o seu sorriso enigmático e zombeteiro. O poder de resistência dos números, a estoicidade inatacável de uma grande multidão, era o medo persistente da sua solidão sinistra. Os seus lábios tremeram durante algum tempo antes de conseguir dizer com uma voz estrangulada:

“Estou a fazer o meu trabalho melhor do que tu estás a fazer o teu.”

“Isso chega por agora”, interrompeu o Inspetor-Chefe Heat apressadamente; e o Professor soltou uma gargalhada desta vez. Ainda a rir, seguiu o seu caminho; mas não riu por muito tempo. Era um homenzinho de rosto triste e miserável o que emergiu da passagem estreita para a agitação da larga via pública. Caminhava com o passo sem energia de um vagabundo que segue, sempre a seguir, indiferente à chuva ou ao sol, num destacamento sinistro face aos aspetos do céu e da terra. O Inspetor-Chefe Heat, por outro lado, depois de o observar durante algum tempo, avançou com a vivacidade determinada de um homem que, embora ignorando as inclemências do tempo, tem consciência de possuir uma missão autorizada nesta terra e o apoio moral dos seus semelhantes. Todos os habitantes da imensa cidade, a população de todo o país, e até os milhões fervilhantes que lutam no planeta, estavam com ele — até aos próprios ladrões e mendigos. Sim, os próprios ladrões estariam certamente com ele no seu trabalho atual. A consciência do apoio universal na sua atividade geral encorajou-o a lidar com o problema específico.

O problema imediatamente diante do Inspetor-Chefe era o de gerir o Comissário Adjunto do seu departamento, o seu superior imediato. Este é o problema perene dos servidores de confiança e leais; o anarquismo deu-lhe o seu carácter particular, mas nada mais. A bem dizer, o Inspetor-Chefe Heat pensava pouco no anarquismo. Não lhe atribuía uma importância indevida e nunca conseguia levar-se a considerá-lo seriamente. Tinha mais o carácter de conduta desordeira; desordeira sem a desculpa humana da embriaguez, que, de qualquer modo, implica bons sentimentos e uma inclinação amável para a festividade. Como criminosos, os anarquistas não eram claramente uma classe — de todo. E recordando o Professor, o Inspetor-Chefe Heat, sem interromper o seu passo balançado, murmurou entre dentes:

“Lunático.”

Apanhar ladrões era uma questão totalmente diferente. Tinha aquela qualidade de seriedade que pertence a toda a forma de desporto aberto onde o melhor vence sob regras perfeitamente compreensíveis. Não havia regras para lidar com anarquistas. E isso era desagradável para o Inspetor-Chefe. Era tudo tolice, mas essa tolice agitava a mente pública, afetava pessoas em lugares altos e tocava em relações internacionais. Um desprezo duro e impiedoso instalou-se rigidamente no rosto do Inspetor-Chefe enquanto caminhava. A sua mente percorreu todos os anarquistas do seu rebanho. Nenhum deles tinha metade da coragem deste ou daquele assaltante que ele conhecera. Nem metade — nem um décimo.

No quartel-general, o Inspetor-Chefe foi admitido de imediato na sala privada do Comissário Adjunto. Encontrou-o, caneta na mão, debruçado sobre uma grande mesa coberta de papéis, como se adorasse um enorme tinteiro duplo de bronze e cristal. Tubos acústicos que lembravam serpentes estavam atados pelas extremidades ao espaldar da cadeira de madeira do Comissário Adjunto, e as suas bocas escancaradas pareciam prontas a morder-lhe os cotovelos. E, nesta atitude, ele levantou apenas os olhos, cujas pálpebras eram mais escuras do que o seu rosto e muito vincadas. Os relatórios tinham chegado: cada anarquista tinha sido contabilizado com exatidão.

Depois de dizer isto, baixou os olhos, assinou rapidamente duas folhas de papel e só então pousou a caneta e sentou-se recuado, dirigindo um olhar inquisidor ao seu famoso subordinado. O Inspetor-Chefe aguentou bem, deferente mas impenetrável.

“Suponho que tinha razão”, disse o Comissário Adjunto, “ao dizer-me, inicialmente, que os anarquistas de Londres nada tinham a ver com isto. Agradeço muito a excelente vigilância mantida sobre eles pelos seus homens. Por outro lado, isto, para o público, não passa de uma confissão de ignorância.”

A forma de falar do Comissário Adjunto era pausada, por assim dizer, cautelosa. O seu pensamento parecia pairar sobre uma palavra antes de passar para outra, como se as palavras fossem degraus para o seu intelecto encontrar o caminho através das águas do erro. “A menos que tenha trazido algo de útil de Greenwich”, acrescentou.

O Inspetor-Chefe começou de imediato o relato da sua investigação de uma forma clara e objetiva. O seu superior, virando um pouco a cadeira e cruzando as pernas finas, inclinou-se de lado sobre o cotovelo, com uma mão a sombrear os olhos. A sua atitude de escuta tinha uma espécie de graça angular e pesarosa. Reflexos como de prata altamente polida brilhavam nas laterais da sua cabeça negra como ébano quando a inclinou lentamente no final.

O Inspetor-Chefe Heat aguardou com a aparência de estar a ponderar tudo o que acabara de dizer, mas, na realidade, a considerar a conveniência de dizer mais alguma coisa. O Comissário Adjunto interrompeu a sua hesitação.

“Acredita que eram dois homens?”, perguntou, sem descobrir os olhos.

O Inspetor-Chefe achava mais do que provável. Na sua opinião, os dois homens tinham-se separado a menos de cem metros das muralhas do Observatório. Explicou também como o outro homem poderia ter saído do parque rapidamente sem ser observado. O nevoeiro, embora não muito denso, estava a seu favor. Parecia ter escoltado o outro até ao local e depois tê-lo deixado lá para realizar o trabalho sozinho. Tendo em conta a hora em que aqueles dois foram vistos a sair da estação de Maze Hill pela velha, e a hora em que a explosão foi ouvida, o Inspetor-Chefe achava que o outro homem poderia estar, de facto, na estação de Greenwich Park, pronto para apanhar o comboio seguinte para cima, no momento em que o seu camarada se destruía tão completamente.

“Muito completamente — eh?”, murmurou o Comissário Adjunto debaixo da sombra da sua mão.

O Inspetor-Chefe descreveu, em poucas palavras vigorosas, o aspeto dos restos mortais. “O júri do inquérito vai ter um mimo”, acrescentou sombriamente.

O Comissário Adjunto descobriu os olhos.

“Não teremos nada para lhes dizer”, observou languidamente.

Olhou para cima e, durante algum tempo, observou a atitude marcadamente evasiva do seu Inspetor-Chefe. A sua natureza não era facilmente acessível a ilusões. Sabia que um departamento está à mercê dos seus funcionários subordinados, que têm as suas próprias conceções de lealdade. A sua carreira começara numa colónia tropical. Gostara do seu trabalho lá. Era trabalho policial. Tivera muito sucesso em rastrear e desmantelar certas sociedades secretas nefastas entre os nativos. Depois, tirou a sua longa licença e casou-se um tanto impulsivamente. Foi um bom casamento do ponto de vista mundano, mas a sua esposa formou uma opinião desfavorável sobre o clima colonial por ouvir dizer. Por outro lado, ela tinha ligações influentes. Foi um excelente casamento. Mas ele não gostava do trabalho que tinha de fazer agora. Sentia-se dependente de demasiados subordinados e demasiados mestres. A presença próxima daquele estranho fenómeno emocional chamado opinião pública pesava-lhe no espírito e alarmava-o pela sua natureza irracional. Sem dúvida que, por ignorância, exagerava para si mesmo o seu poder para o bem e para o mal — especialmente para o mal; e os ventos de leste agrestes da primavera inglesa (que faziam bem à sua esposa) aumentavam a sua desconfiança geral quanto aos motivos dos homens e à eficiência da sua organização. A futilidade do trabalho de escritório, especialmente, chocava-o naqueles dias tão penosos para o seu fígado sensível.

Levantou-se, desdobrando-se até à sua altura total e, com uma pesadez de passo notável num homem tão esguio, atravessou a sala até à janela. Os vidros escorriam chuva e a rua curta para a qual olhava estava molhada e vazia, como se subitamente varrida por uma grande inundação. Era um dia muito penoso, sufocado por um nevoeiro cru para começar e agora afogado em chuva fria. As chamas trémulas e difusas dos candeeiros a gás pareciam dissolver-se numa atmosfera aquosa. E as elevadas pretensões de uma humanidade oprimida pelas indignidades miseráveis do tempo pareciam uma vaidade colossal e sem esperança, digna de desprezo, espanto e compaixão.

“Horrível, horrível!”, pensou o Comissário Adjunto para si mesmo, com o rosto próximo do vidro da janela. “Temos tido este tipo de coisa há dez dias; não, quinze dias — quinze dias.” Deixou de pensar completamente por um momento. Aquela imobilidade total do seu cérebro durou cerca de três segundos. Depois disse, por dever de ofício: “Iniciou diligências para localizar esse outro homem ao longo da linha?”

Não tinha dúvidas de que tudo o que era necessário fora feito. O Inspetor-Chefe Heat conhecia, naturalmente, a fundo o negócio da caça ao homem. E estes eram os procedimentos de rotina que seriam tomados, como é óbvio, pelo mais principiante. Algumas perguntas entre os revisores e os empregados das duas pequenas estações ferroviárias dariam detalhes adicionais quanto ao aspeto dos dois homens; a inspeção dos bilhetes recolhidos mostraria imediatamente de onde vinham naquela manhã. Era elementar e não poderia ter sido negligenciado. Consequentemente, o Inspetor-Chefe respondeu que tudo isso tinha sido feito assim que a velha se apresentara com o seu depoimento. E mencionou o nome de uma estação. “É de lá que eles vieram, senhor”, continuou. “O empregado que recolheu os bilhetes em Maze Hill lembra-se de dois tipos que correspondiam à descrição a passarem pela barreira. Pareceram-lhe dois trabalhadores respeitáveis de um tipo superior — pintores de tabuletas ou decoradores de interiores. O homem grande saiu de um compartimento de terceira classe de costas, com uma lata de folha brilhante na mão. Na plataforma, deu-a a carregar ao jovem loiro que o seguia. Tudo isto concorda exatamente com o que a velha disse ao sargento da polícia em Greenwich.”

O Comissário Adjunto, ainda com o rosto voltado para a janela, expressou a sua dúvida quanto a estes dois homens terem tido alguma coisa a ver com o atentado. Toda esta teoria baseava-se nas declarações de uma velha mulher da limpeza que tinha sido quase atropelada por um homem com pressa. Não era uma autoridade muito sólida, de facto, a menos que por motivo de inspiração súbita, o que era dificilmente sustentável.

“Francamente, ela poderia ter sido realmente inspirada?”, questionou, com grave ironia, mantendo as costas voltadas para a sala, como se encantado pela contemplação das formas colossais da cidade meio perdidas na noite. Nem sequer olhou para trás quando ouviu o murmúrio da palavra “Providencial” do principal subordinado do seu departamento, cujo nome, impresso por vezes nos jornais, era familiar ao grande público como sendo o de um dos seus zelosos e trabalhadores protetores. O Inspetor-Chefe Heat levantou um pouco a voz.

“Tiras e bocados de folha brilhante eram bem visíveis para mim”, disse. “Isso é uma corroboração bastante boa.”

“E estes homens vieram daquela pequena estação rural”, refletiu o Comissário Adjunto em voz alta, interrogativo. Foi-lhe dito que esse era o nome em dois bilhetes de entre três entregues daquele comboio em Maze Hill. A terceira pessoa que saiu foi um vendedor ambulante de Gravesend, bem conhecido dos empregados. O Inspetor-Chefe transmitiu essa informação num tom de finalidade, com algum mau humor, como fazem os servidores leais com a consciência da sua fidelidade e com o sentido do valor dos seus esforços leais. E, ainda assim, o Comissário Adjunto não se virou para a escuridão lá fora, tão vasta como um mar.

“Dois anarquistas estrangeiros vindos daquele lugar”, disse ele, aparentemente para o vidro da janela. “É bastante inexplicável.”

“Sim, senhor. Mas seria ainda mais inexplicável se esse Michaelis não estivesse hospedado num chalé nas redondezas.”

Ao som daquele nome, caindo inesperadamente neste assunto irritante, o Comissário Adjunto afastou bruscamente a vaga lembrança do seu jogo de bridge diário no seu clube. Era o hábito mais reconfortante da sua vida, numa demonstração maioritariamente bem-sucedida da sua habilidade sem a assistência de nenhum subordinado. Entrava no clube para jogar das cinco às sete, antes de ir para casa jantar, esquecendo durante essas duas horas tudo o que era desagradável na sua vida, como se o jogo fosse uma droga benéfica para aliviar as dores do descontentamento moral. Os seus parceiros eram o editor sombriamente bem-humorado de uma revista célebre; um advogado idoso e silencioso com pequenos olhos maliciosos; e um velho coronel de mentalidade simples e muito marcial, com mãos castanhas nervosas. Eram apenas os seus conhecidos de clube. Nunca os encontrava noutro lugar, exceto à mesa de jogo. Mas todos pareciam abordar o jogo com o espírito de co-sofredores, como se fosse, de facto, uma droga contra os males secretos da existência; e todos os dias, à medida que o sol declinava sobre os incontáveis telhados da cidade, uma impaciência suave e prazerosa, semelhante ao impulso de uma amizade segura e profunda, aligeirava os seus trabalhos profissionais. E agora esta sensação prazerosa desvaneceu-se com algo que lembrava um choque físico e foi substituída por um tipo especial de interesse no seu trabalho de proteção social — um tipo impróprio de interesse, que pode ser definido melhor como uma súbita e alerta desconfiança da arma na sua mão.

CAPÍTULO VI

A senhora patrona de Michaelis, o apóstolo em liberdade condicional de esperanças humanitárias, era uma das ligações mais influentes e distintas da esposa do Comissário Adjunto, a quem ela chamava Annie e tratava ainda como uma rapariga não muito sensata e totalmente inexperiente. Mas consentira em aceitá-lo num plano amigável, o que não era, de forma alguma, o caso com todas as ligações influentes da sua esposa. Casada jovem e esplendidamente numa época remota do passado, tivera, durante algum tempo, uma visão próxima de grandes assuntos e até de alguns grandes homens. Ela própria era uma grande senhora. Velha agora no número dos seus anos, possuía aquele tipo de temperamento excecional que desafia o tempo com desdém, como se fosse uma convenção bastante vulgar a que a massa da humanidade inferior se submetia. Muitas outras convenções, mais fáceis de pôr de lado, infelizmente, não conseguiram obter o seu reconhecimento, também por razões temperamentais — ou porque a aborreciam, ou porque se atravessavam no caminho dos seus desprezos e simpatias. A admiração era um sentimento que lhe era desconhecido (era uma das mágoas secretas do seu nobilíssimo marido contra ela) — primeiro, como sempre mais ou menos manchada de mediocridade e, a seguir, como sendo, de certa forma, uma admissão de inferioridade. E ambas eram francamente inconcebíveis para a sua natureza. Ser destemidamente direta nas suas opiniões era-lhe fácil, uma vez que julgava apenas do ponto de vista da sua posição social. Era igualmente desinibida nas suas ações; e como o seu tato provinha de uma humanidade genuína, o seu vigor físico permanecia notável e a sua superioridade era serena e cordial; três gerações tinham-na admirado infinitamente e a última que ela provavelmente veria tinha-a proclamado uma mulher maravilhosa. Entretanto, inteligente, com uma espécie de simplicidade elevada e curiosa de coração, mas não como muitas mulheres meramente de mexericos sociais, ela divertia a sua velhice atraindo para o seu alcance, através do poder do seu grande, quase histórico, prestígio social, tudo o que se elevava acima do nível morto da humanidade, legal ou ilegalmente, por posição, engenho, audácia, fortuna ou infortúnio. Altezas Reais, artistas, homens de ciência, jovens estadistas e charlatães de todas as idades e condições, que, insubstanciais e leves, saltitando como rolhas, mostram melhor a direção das correntes de superfície, tinham sido bem-vindos naquela casa, ouvidos, penetrados, compreendidos, avaliados, para a sua própria edificação. Nas suas próprias palavras, gostava de observar para onde o mundo caminhava. E como tinha uma mente prática, o seu julgamento dos homens e das coisas, embora baseado em preconceitos especiais, estava raramente errado e quase nunca era obstinado. O seu salão era provavelmente o único lugar no vasto mundo onde um Comissário Adjunto da Polícia podia encontrar um condenado libertado sob condicional em bases que não fossem profissionais e oficiais. Quem trouxera Michaelis lá uma tarde, o Comissário Adjunto não recordava muito bem. Tinha uma ideia de que deveria ter sido um certo Membro do Parlamento de linhagem ilustre e simpatias pouco convencionais, que eram a piada constante dos jornais satíricos. As notabilidades e até as simples notoriedades do dia traziam-se livremente umas às outras àquele templo de uma curiosidade não ignóbil de uma velha. Nunca se podia adivinhar quem se iria encontrar a ser recebido em semiprivacidade dentro do biombo de seda azul desbotada e moldura dourada, criando um recanto acolhedor para um canapé e algumas poltronas no grande salão, com o seu zumbido de vozes e os grupos de pessoas sentadas ou de pé à luz de seis janelas altas.

Michaelis tinha sido o objeto de uma reviravolta no sentimento popular, o mesmo sentimento que, anos atrás, aplaudira a ferocidade da pena de prisão perpétua que lhe fora aplicada por cumplicidade numa tentativa um tanto louca de resgatar alguns prisioneiros de um veículo policial. O plano dos conspiradores tinha sido abater os cavalos e subjugar a escolta. Infelizmente, um dos agentes da polícia também foi baleado. Deixou uma esposa e três filhos pequenos, e a morte daquele homem despertou, por toda a extensão de um reino para cuja defesa, bem-estar e glória os homens morrem todos os dias como dever, uma explosão de fúria indignada, de uma piedade raivosa e implacável pela vítima. Três dos cabecilhas foram enforcados. Michaelis, jovem e magro, serralheiro de profissão e grande frequentador de escolas noturnas, nem sequer sabia que alguém fora morto, sendo o seu papel, com alguns outros, forçar a abertura da porta na parte de trás da viatura especial. Quando preso, tinha um molho de gazuas num bolso, um cinzel pesado noutro e um pé-de-cabra curto na mão: nem mais nem menos do que um assaltante. Mas nenhum assaltante teria recebido uma sentença tão pesada. A morte do agente tinha-o deixado miserável de coração, mas o fracasso do plano também. Não escondeu nenhum destes sentimentos aos seus compatriotas do júri, e aquele tipo de remorso pareceu chocantemente imperfeito ao tribunal apinhado. O juiz, ao proferir a sentença, comentou com pesar a depravação e a insensibilidade do jovem prisioneiro.

Isso fez a fama infundada da sua condenação; a fama da sua libertação foi feita para ele sem melhores fundamentos por pessoas que desejavam explorar o aspeto sentimental da sua prisão, quer para propósitos próprios, quer para nenhum propósito inteligível. Ele deixou que o fizessem na inocência do seu coração e na simplicidade da sua mente. Nada do que lhe aconteceu individualmente tinha qualquer importância. Era como aqueles homens santos cuja personalidade se perde na contemplação da sua fé. As suas ideias não eram da natureza de convicções. Eram inacessíveis ao raciocínio. Formavam, em todas as suas contradições e obscuridades, um credo invencível e humanitário, que ele confessava mais do que pregava, com uma gentileza obstinada, um sorriso de garantia pacífica nos lábios e os seus cândidos olhos azuis voltados para baixo porque a visão dos rostos perturbava a sua inspiração desenvolvida na solidão. Nessa atitude característica, patética na sua obesidade grotesca e incurável que tinha de arrastar como a bala de um galeote até ao fim dos seus dias, o Comissário Adjunto da Polícia contemplou o apóstolo em liberdade condicional ocupando uma poltrona privilegiada dentro do biombo. Sentava-se ali, junto à cabeceira do canapé da velha senhora, de voz suave e tranquilo, sem mais autoconsciência do que uma criança muito pequena e com algo do encanto de uma criança — o encanto apelativo da confiança. Confiante no futuro, cujos caminhos secretos lhe tinham sido revelados entre as quatro paredes de uma conhecida penitenciária, não tinha motivos para olhar com suspeita para ninguém. Se não podia dar à grande e curiosa senhora uma ideia muito definida sobre para onde o mundo caminhava, tinha conseguido, sem esforço, impressioná-la pela sua fé não amargurada, pela qualidade genuína do seu otimismo.

Uma certa simplicidade de pensamento é comum às almas serenas em ambas as extremidades da escala social. A grande senhora era simples à sua própria maneira. As opiniões e crenças dele não tinham nada que pudesse chocá-la ou surpreendê-la, uma vez que ela as julgava a partir do ponto de vista da sua posição elevada. De fato, as suas simpatias eram facilmente acessíveis a um homem daquela espécie. Ela própria não era uma capitalista exploradora; ela estava, por assim dizer, acima do jogo das condições económicas. E possuía uma grande capacidade de comiseração pelas formas mais óbvias das misérias humanas comuns, precisamente porque era uma completa estranha a elas, de modo que tinha de traduzir a sua conceção para termos de sofrimento mental antes de conseguir apreender a noção da sua crueldade. O Comissário Adjunto lembrava-se muito bem da conversa entre os dois. Ele tinha ouvido em silêncio. Era algo tão excitante, de certa forma, e até comovente na sua futilidade predestinada, quanto os esforços de intercâmbio moral entre os habitantes de planetas remotos. Mas esta encarnação grotesca da paixão humanitária apelava, de algum modo, à imaginação de alguém. Finalmente, Michaelis levantou-se e, tomando a mão estendida da grande senhora, apertou-a, reteve-a por um momento na sua grande palma almofadada com uma amabilidade desembaraçada e virou para o recanto semiprivado da sala de visitas as suas costas, vastas e quadradas, e como que distendidas sob o casaco curto de tweed. Olhando à volta com serena benevolência, ele seguiu bamboleante até à porta distante, por entre os grupos de outros visitantes. O murmúrio das conversas suspendeu-se à sua passagem. Ele sorriu inocentemente para uma rapariga alta e brilhante, cujos olhos encontraram os seus por acaso, e saiu alheio aos olhares que o seguiam através da sala. A primeira aparição de Michaelis no mundo foi um sucesso — um sucesso de estima, não manchado por um único murmúrio de escárnio. As conversas interrompidas foram retomadas no seu tom apropriado, grave ou leve. Apenas um homem bem constituído, de membros longos e aspeto ativo, de quarenta anos, que falava com duas senhoras perto de uma janela, comentou em voz alta, com uma profundidade de sentimento inesperada: "Cento e catorze quilos, diria eu, e nem um metro e setenta. Pobre homem! É terrível — terrível."

A dona da casa, fitando distraidamente o Comissário Adjunto, deixado a sós com ela no lado privado do biombo, parecia estar a reorganizar as suas impressões mentais por detrás da sua imobilidade pensativa de rosto belo e envelhecido. Homens de bigodes grisalhos e semblantes cheios, saudáveis e vagamente sorridentes aproximaram-se, circundando o biombo; duas mulheres maduras com um ar matronal de graciosa resolução; um indivíduo de rosto rapado e faces encovadas, que trazia pendurado um monóculo com montura de ouro numa fita preta larga, com um efeito elegante à moda antiga. Um silêncio deferente, mas cheio de reservas, reinou por um momento, e então a grande senhora exclamou, não com ressentimento, mas com uma espécie de indignação protestante:

"E esse, oficialmente, é suposto ser um revolucionário! Que disparate." Ela olhou fixamente para o Comissário Adjunto, que murmurou, em tom de desculpa:

"Talvez não seja um perigoso."

"Não é perigoso — eu diria que não, de facto. Ele é um mero crente. É o temperamento de um santo", declarou a grande senhora num tom firme. "E mantiveram-no fechado durante vinte anos. Estremece-se perante a estupidez disso. E agora que o deixaram sair, todos os que lhe pertenciam partiram para algum lado ou morreram. Os seus pais morreram; a rapariga com quem ele ia casar morreu enquanto ele estava na prisão; ele perdeu a destreza necessária para a sua ocupação manual. Ele contou-me tudo isto pessoalmente com a mais doce paciência; mas depois, disse ele, teve tempo de sobra para pensar nas coisas por si próprio. Uma bela compensação! Se é desta massa que os revolucionários são feitos, alguns de nós podem bem cair de joelhos perante eles", continuou ela num tom ligeiramente jocoso, enquanto os sorrisos banais da sociedade endureciam nos rostos mundanos virados para ela com deferência convencional. "A pobre criatura, obviamente, já não está em condições de cuidar de si própria. Alguém terá de tomar um pouco conta dele."

"Deveria ser aconselhado a seguir um tratamento de algum género", ouviu-se a voz marcial do homem de aspeto ativo a aconselhar seriamente a partir de uma certa distância. Ele estava na melhor das condições para a sua idade, e até a textura do seu longo casaco tinha um caráter de elasticidade sólida, como se fosse um tecido vivo. "O homem é praticamente um aleijado", acrescentou ele com um sentimento inconfundível.

Outras vozes, como se se alegrassem com a abertura, murmuraram uma compaixão apressada. "Bastante surpreendente", "Monstruoso", "Muito penoso de ver". O homem esguio, com o monóculo numa fita larga, pronunciou de forma afetada a palavra "Grotesco", cuja justeza foi apreciada pelos que se encontravam perto dele. Sorriram uns para os outros.

O Comissário Adjunto não expressou qualquer opinião, nem então nem mais tarde, sendo a sua posição um impedimento para que ventilasse qualquer ponto de vista independente sobre um condenado em liberdade condicional. Mas, na verdade, ele partilhava da opinião da amiga e patrona da sua esposa de que Michaelis era um sentimentalista humanitário, um pouco louco, mas, no geral, incapaz de ferir uma mosca intencionalmente. Por isso, quando esse nome surgiu subitamente neste incómodo caso da bomba, ele percebeu todo o perigo que isso representava para o apóstolo da liberdade condicional, e a sua mente voltou-se imediatamente para a paixão bem estabelecida da velha senhora. A sua bondade arbitrária não toleraria pacientemente qualquer interferência na liberdade de Michaelis. Era uma paixão profunda, calma e convicta. Ela não só sentia que ele era inofensivo, como o tinha dito, o que, por uma confusão da sua mente absolutista, se tornou numa espécie de demonstração incontestável. Era como se a monstruosidade do homem, com os seus olhos cândidos de criança e um sorriso angelical e gordo, a tivesse fascinado. Ela tinha chegado a acreditar quase na sua teoria do futuro, uma vez que esta não era repugnante aos seus preconceitos. Ela não gostava do novo elemento da plutocracia no composto social, e o industrialismo como método de desenvolvimento humano parecia-lhe singularmente repulsivo no seu caráter mecânico e insensível. As esperanças humanitárias do suave Michaelis não tendiam para a destruição total, mas apenas para a completa ruína económica do sistema. E ela não via realmente onde estava o mal moral disso. Isso acabaria com toda a multidão dos "parvenus", de quem ela não gostava e em quem não confiava, não porque tivessem chegado a algum lado (ela negava isso), mas por causa da sua profunda falta de inteligência sobre o mundo, que era a causa primária da crueza das suas perceções e da aridez dos seus corações. Com a aniquilação de todo o capital, eles também desapareceriam; mas a ruína universal (desde que fosse universal, como tinha sido revelado a Michaelis) deixaria os valores sociais intocados. O desaparecimento da última moeda não poderia afetar pessoas de posição. Ela não conseguia conceber como isso poderia afetar a sua posição, por exemplo. Ela tinha exposto estas descobertas ao Comissário Adjunto com toda a coragem serena de uma velha que tinha escapado à praga da indiferença. Ele tinha feito para si próprio a regra de receber tudo o que fosse desse género num silêncio que, por política e inclinação, se preocupava em não tornar ofensivo. Ele nutria afeição pela velha discípula de Michaelis, um sentimento complexo que dependia um pouco do seu prestígio, da sua personalidade, mas sobretudo do instinto de gratidão lisonjeada. Ele sentia-se realmente apreciado na casa dela. Ela era a própria bondade personificada. E era também praticamente sábia, à maneira das mulheres experientes. Ela tornou a sua vida conjugal muito mais fácil do que teria sido sem o seu reconhecimento generosamente pleno dos seus direitos como marido de Annie. A sua influência sobre a sua esposa, uma mulher devorada por todo o tipo de pequenos egoísmos, pequenas invejas, pequenos ciúmes, era excelente. Infelizmente, tanto a sua bondade como a sua sabedoria eram de compleição irracional, distintamente feminina, e difíceis de lidar. Ela permaneceu uma mulher perfeita ao longo de todo o seu pleno conto de anos, e não como algumas delas se tornam — uma espécie de velho escorregadio e pestilencial em saiotes. E foi como mulher que ele pensou nela — a encarnação especialmente escolhida do feminino, onde é recrutada a guarda-costas terna, ingénua e feroz para todo o tipo de homens que falam sob a influência de uma emoção, verdadeira ou fraudulenta; para pregadores, videntes, profetas ou reformadores.

Apreciando a distinta e boa amiga da sua esposa, e dele próprio, dessa forma, o Comissário Adjunto alarmou-se com o possível destino do condenado Michaelis. Uma vez preso sob a suspeita de ser de alguma forma, por mais remota que fosse, parte desta indignação, o homem dificilmente poderia escapar a ser enviado de volta para terminar a sua sentença, no mínimo. E isso matá-lo-ia; ele nunca sairia vivo. O Comissário Adjunto fez uma reflexão extremamente imprópria para a sua posição oficial, sem ser verdadeiramente meritória para a sua humanidade.

"Se apanharem o sujeito outra vez", pensou ele, "ela nunca me perdoará."

A franqueza de um pensamento tão secretamente expresso não podia passar sem alguma autocrítica irónica. Nenhum homem envolvido num trabalho de que não gosta pode preservar muitas ilusões salvadoras sobre si próprio. O desinteresse, a ausência de brilho, estendem-se da ocupação à personalidade. É apenas quando as nossas atividades designadas parecem, por um acidente de sorte, obedecer à seriedade particular do nosso temperamento que podemos saborear o conforto do autoengano completo. O Comissário Adjunto não gostava do seu trabalho em casa. O trabalho policial em que tinha estado envolvido numa parte distante do globo tinha o caráter salvador de um tipo irregular de guerra ou, pelo menos, o risco e a emoção de um desporto ao ar livre. As suas verdadeiras capacidades, que eram principalmente de ordem administrativa, combinavam-se com uma disposição aventureira. Acorrentado a uma secretária no meio de quatro milhões de homens, considerava-se vítima de um destino irónico — o mesmo, sem dúvida, que tinha provocado o seu casamento com uma mulher excecionalmente sensível em questões de clima colonial, além de outras limitações que testificavam a delicadeza da sua natureza — e dos seus gostos. Embora julgasse o seu alarme de forma sardónica, não descartou o pensamento impróprio da sua mente. O instinto de autopreservação era forte nele. Pelo contrário, repetiu-o mentalmente com ênfase profana e uma precisão mais completa: "Diabo! Se aquele maldito Heat fizer à sua maneira, o sujeito morrerá na prisão sufocado na sua gordura, e ela nunca me perdoará."

A sua figura preta e estreita, com a faixa branca do colarinho sob os brilhos prateados no cabelo rapado na parte de trás da cabeça, permaneceu imóvel. O silêncio durou tanto tempo que o Inspetor-Chefe Heat se aventurou a limpar a garganta. Este ruído produziu o seu efeito. O zeloso e inteligente oficial foi questionado pelo seu superior, cujas costas permaneciam voltadas para ele imperturbavelmente:

"Liga Michaelis a este assunto?"

O Inspetor-Chefe Heat foi muito positivo, mas cauteloso.

"Bem, senhor", disse ele, "temos o suficiente para avançar. Um homem como aquele não tem nada que andar à solta, de qualquer maneira."

"Vai precisar de algumas provas conclusivas", veio a observação num murmúrio.

O Inspetor-Chefe Heat arqueou as sobrancelhas para as costas pretas e estreitas, que permaneciam obstinadamente apresentadas à sua inteligência e ao seu zelo.

"Não haverá qualquer dificuldade em arranjar provas suficientes contra ele", disse ele, com virtuosidade complacente. "Pode confiar em mim para isso, senhor", acrescentou, de forma completamente desnecessária, da plenitude do seu coração; pois parecia-lhe uma excelente coisa ter aquele homem à mão para ser atirado ao público, caso este achasse por bem rugir com qualquer indignação especial neste caso. Era impossível dizer ainda se rugiria ou não. Isso, em última instância, dependia, naturalmente, da imprensa. Mas, em qualquer caso, o Inspetor-Chefe Heat, fornecedor de prisões por ofício, e um homem de instintos legais, acreditava logicamente que a encarceramento era o destino apropriado para cada inimigo declarado da lei. Na força dessa convicção, cometeu uma falha de tato. Permitiu-se uma pequena risada presunçosa e repetiu:

"Confie em mim para isso, senhor."

Isto foi demasiado para a calma forçada sob a qual o Comissário Adjunto tinha, durante mais de dezoito meses, escondido a sua irritação com o sistema e os subordinados do seu gabinete. Uma peça quadrada forçada num buraco redondo, ele tinha sentido como um ultraje diário aquela redondeza suave, há muito estabelecida, na qual um homem de forma menos agudamente angular se teria encaixado, com voluptuosa aquiescência, depois de um ou dois encolheres de ombros. O que ele mais ressentia era justamente a necessidade de aceitar tanto sob confiança. Com a pequena risada do Inspetor-Chefe Heat, ele girou rapidamente sobre os calcanhares, como se tivesse sido afastado da vidraça por um choque elétrico. Captou no rosto deste último não só a complacência própria da ocasião que espreitava sob o bigode, mas os vestígios de vigilância experimental nos olhos redondos, que tinham estado, sem dúvida, fixados nas suas costas, e que agora encontraram o seu olhar por um segundo antes que o caráter intencional do seu stare tivesse tempo de mudar para uma aparência meramente surpreendida.

O Comissário Adjunto da Polícia tinha realmente algumas qualificações para o seu posto. Subitamente, a sua suspeita foi despertada. É justo dizer que as suas suspeitas sobre os métodos policiais (a menos que a polícia fosse um corpo semimilitar organizado por ele próprio) não eram difíceis de despertar. Se alguma vez adormeciam por puro cansaço, era apenas levemente; e a sua apreciação do zelo e da capacidade do Inspetor-Chefe Heat, moderada em si mesma, excluía qualquer noção de confiança moral. "Ele está a tramar alguma coisa", exclamou mentalmente, e de imediato ficou zangado. Atravessando a sala até à sua secretária com passos precipitados, sentou-se violentamente. "Aqui estou eu, preso numa ninhada de papel", refletiu, com ressentimento irracional, "suposto conter todos os fios nas minhas mãos, e contudo só posso segurar o que é posto na minha mão, e nada mais. E eles podem prender as outras pontas dos fios onde quiserem."

Ele levantou a cabeça e virou-se para o seu subordinado, um rosto longo e magro com os traços acentuados de um Don Quixote enérgico.

"Agora, o que é que tens na manga?"

O outro fitou-o. Fitou-o sem piscar, numa imobilidade perfeita dos seus olhos redondos, como estava habituado a fitar os vários membros da classe criminosa quando, depois de devidamente advertidos, faziam as suas declarações nos tons de inocência ferida, ou falsa simplicidade, ou resignação sombria. Mas por detrás dessa fixidez profissional e pétrea havia também alguma surpresa, pois, num tal tom, combinando bem a nota de desprezo e impaciência, o Inspetor-Chefe Heat, o braço direito do departamento, não estava habituado a ser tratado. Começou de uma forma procrastinadora, como um homem apanhado de surpresa por uma experiência nova e inesperada.

"O que tenho contra aquele homem Michaelis, quer dizer, senhor?"

O Comissário Adjunto observou a cabeça de bala; as pontas daquele bigode de navegador nórdico, caindo abaixo da linha do maxilar pesado; toda a fisionomia cheia e pálida, cujo caráter determinado era estragado por demasiada carne; as rugas astutas que irradiavam dos cantos externos dos olhos — e nessa contemplação determinada do oficial valioso e de confiança, ele extraiu uma convicção tão súbita que o moveu como uma inspiração.

"Tenho razões para pensar que, quando entrou nesta sala", disse ele em tons medidos, "não era Michaelis que estava na sua mente; não principalmente — talvez de todo."

"Tem razões para pensar, senhor?" murmurou o Inspetor-Chefe Heat, com todas as aparências de espanto, que até certo ponto era genuíno o suficiente. Ele tinha descoberto neste assunto um lado delicado e desconcertante, forçando sobre o descobridor uma certa quantidade de insinceridade — aquele tipo de insinceridade que, sob os nomes de perícia, prudência, discrição, aparece num ponto ou noutro na maioria dos assuntos humanos. Sentia-se, naquele momento, como um artista de corda bamba se poderia sentir se, subitamente, a meio da atuação, o gerente do Music Hall irrompesse da reclusão gerencial adequada e começasse a abanar a corda. A indignação, a sensação de insegurança moral engendrada por tal procedimento traiçoeiro, juntamente com o receio imediato de partir o pescoço, colocá-lo-iam, na expressão coloquial, num estado. E haveria também alguma preocupação escandalizada pela sua arte, uma vez que um homem deve identificar-se com algo mais tangível do que a sua própria personalidade, e estabelecer o seu orgulho algures, quer na sua posição social, quer na qualidade do trabalho que é obrigado a fazer, ou simplesmente na superioridade da ociosidade que possa ter a sorte de desfrutar.

"Sim", disse o Comissário Adjunto; "tenho. Não quero dizer que não tenha pensado em Michaelis de todo. Mas está a dar ao facto que mencionou um destaque que me parece não ser totalmente sincero, Inspetor Heat. Se esse é realmente o rasto da descoberta, porque não o seguiu imediatamente, pessoalmente ou enviando um dos seus homens àquela aldeia?"

"Acha, senhor, que falhei no meu dever aí?" perguntou o Inspetor-Chefe, num tom que tentou tornar simplesmente reflexivo. Forçado inesperadamente a concentrar as suas faculdades na tarefa de preservar o seu equilíbrio, ele tinha-se agarrado a esse ponto e expôs-se a uma repreensão; pois, o Comissário Adjunto, franzindo ligeiramente a testa, observou que aquele era um comentário muito impróprio de se fazer.

"Mas já que o fez", continuou ele friamente, "dir-lhe-ei que não é esse o meu significado."

Ele fez uma pausa, com um olhar direto dos seus olhos encovados que era o equivalente total da terminação não dita "e você sabe disso". O chefe do chamado Departamento de Crimes Especiais, impedido pela sua posição de sair pessoalmente à rua em busca de segredos trancados em peitos culpados, tinha uma propensão para exercer os seus consideráveis dons para a deteção da verdade incriminatória sobre os seus próprios subordinados. Esse instinto peculiar dificilmente poderia ser chamado de fraqueza. Era natural. Ele era um detetive nato. Tinha governado inconscientemente a sua escolha de carreira, e se alguma vez lhe falhou na vida foi talvez na única circunstância excecional do seu casamento — que também era natural. Alimentava-se, já que não podia vaguear pelo exterior, do material humano que lhe era trazido na sua reclusão oficial. Nunca podemos deixar de ser nós próprios.

O cotovelo na secretária, as pernas finas cruzadas, e cuidando da face na palma da sua mão magra, o Comissário Adjunto encarregado da secção de Crimes Especiais estava a agarrar o caso com interesse crescente. O seu Inspetor-Chefe, se não fosse um adversário absolutamente digno da sua penetração, era pelo menos o mais digno de todos ao seu alcance. Uma desconfiança das reputações estabelecidas era estritamente coerente com a habilidade do Comissário Adjunto como detetor. A sua memória evocava um certo chefe nativo, gordo e rico, na colónia distante, a quem era tradição para os sucessivos Governadores Coloniais confiar e estimar como um amigo firme e apoiante da ordem e legalidade estabelecidas pelos homens brancos; ao passo que, quando examinado ceticamente, descobriu-se ser principalmente o seu próprio bom amigo, e de ninguém mais. Não propriamente um traidor, mas ainda assim um homem de muitas reservas perigosas na sua fidelidade, causadas por um devido respeito pela sua própria vantagem, conforto e segurança. Um sujeito de alguma inocência na sua duplicação ingénua, mas não menos perigoso. Ele deu trabalho a descobrir. Ele era fisicamente um homem grande, também, e (permitindo a diferença de cor, claro) o aspeto do Inspetor-Chefe Heat recordou-o à memória do seu superior. Não eram os olhos, nem exatamente os lábios. Era bizarro. Mas não relata Alfred Wallace no seu famoso livro sobre o Arquipélago Malaio como, entre os habitantes das ilhas Aru, descobriu num selvagem velho e nu com uma pele fuliginosa uma semelhança peculiar com um amigo querido lá em casa?

Pela primeira vez desde que assumiu o seu cargo, o Comissário Adjunto sentiu como se fosse fazer algum trabalho real pelo seu salário. E essa era uma sensação prazerosa. "Vou virá-lo do avesso como uma luva velha", pensou o Comissário Adjunto, com os olhos pousados pensativamente sobre o Inspetor-Chefe Heat.

"Não, esse não era o meu pensamento", começou ele novamente. "Não há dúvidas sobre você conhecer o seu ofício — não há dúvida nenhuma; e é precisamente por isso que eu..." Ele parou bruscamente e, mudando de tom: "O que poderia apresentar contra Michaelis de natureza definida? Quero dizer, para além do facto de que os dois homens sob suspeita — tem a certeza de que foram dois — vieram da última estação ferroviária a menos de cinco quilómetros da aldeia onde Michaelis vive agora."

“Nada de natureza definida, senhor”, respondeu o Inspetor-Chefe, com uma seriedade que beirava a tristeza. “Apenas a minha convicção absoluta de que ele é o homem que precisamos de ter sob custódia. Ele é o elo central, por assim dizer. O resto é circunstancial.”

“Circunstancial”, repetiu o Comissário Assistente, pensativo. “E o Sr. Verloc, o dono da loja, o homem da etiqueta na casaca? Ele não é, por acaso, um elo ainda mais central?”

O Inspetor-Chefe Heat sentiu-se subitamente num terreno mais firme. A menção ao seu informador privado trazia de volta o conforto do controle profissional.

“O Sr. Verloc é um instrumento, senhor. Um instrumento que eu tenho vindo a afinar e a manter em uso há anos, como lhe contei. Ele conhece os homens que o senhor quer encontrar. Ele frequenta os círculos que o senhor deseja vigiar. Prendê-lo agora seria destruir uma fonte de informação inestimável, uma fonte que, aliás, não tem qualquer lealdade para com os seus associados. Ele é um homem que vive do medo e da conveniência. Michaelis, por outro lado... Michaelis é um símbolo. É um fanático que acredita verdadeiramente no que diz, e, como tal, é o homem ideal para ser usado como exemplo perante o público.”

O Comissário Assistente inclinou-se para a frente, a sua expressão agora de uma curiosidade gélida.

“Portanto, a sua estratégia é sacrificar o peão de maior visibilidade para proteger a sua rede de espionagem privada?”

“Eu chamaria a isso uma manobra de gestão de crise, senhor”, respondeu Heat, mantendo o tom impessoal. “Não estou a proteger o Sr. Verloc por afeto. Estou a proteger a eficácia do Departamento. Se o senhor quer resultados imediatos que satisfaçam a opinião pública e o Ministério, Michaelis é o nome que deve constar no relatório de detenção. O Sr. Verloc, se o deixarmos em paz, levar-nos-á a quem realmente preparou o engenho.”

O Comissário Assistente permaneceu em silêncio por um longo momento, observando o Inspetor-Chefe com um olhar que parecia despir a sua alma burocrática. Havia uma tensão palpável na sala, o eco de um jogo de xadrez onde as peças tinham vida própria e o tabuleiro estava a começar a inclinar-se.

“Muito bem”, disse finalmente o Comissário Assistente, levantando-se. “Siga o seu plano quanto a Michaelis. Mas tenha em mente, Inspetor, que se esta linha de investigação falhar em produzir o culpado, o Departamento não aceitará a desculpa da ‘conveniência’. Quero resultados. E quero-os rapidamente.”

O Inspetor-Chefe Heat fez uma vénia rígida, o seu rosto impassível escondendo a satisfação que sentia por ter, uma vez mais, desviado o curso de uma investigação que ameaçava tocar em feridas que ele preferia manter fechadas.

“Sim, senhor. A vigilância sobre o Sr. Verloc será mantida, e o relatório sobre Michaelis estará na sua mesa antes do anoitecer.”

Com estas palavras, o Inspetor-Chefe retirou-se, saindo da sala com o passo firme de um homem que, apesar das aparências, acreditava ter acabado de salvar a sua própria posição. O Comissário Assistente ficou parado junto à janela, olhando para a rua cinzenta, onde a chuva começava a cair, lavando as pedras da calçada de Londres com uma indiferença que nada tinha a ver com as tramas que se desenrolavam lá dentro.

— Nada há de oficial neles — disse o Inspetor-Chefe com amargura. — Entrei na sua loja certa noite, disse-lhe quem eu era e lembrei-o do nosso primeiro encontro. Ele nem sequer moveu uma sobrancelha. Disse que estava casado e estabelecido agora, e que tudo o que queria era não ser incomodado no seu pequeno negócio. Tomei a liberdade de lhe prometer que, desde que não se envolvesse em nada de obviamente escandaloso, a polícia não o molestaria. Isso valia-lhe alguma coisa, pois uma palavra nossa aos funcionários da Alfândega teria bastado para que alguns destes pacotes que ele recebe de Paris e Bruxelas fossem abertos em Dover, com a consequente confiscação, e talvez até um processo no final.

— É um comércio muito precário — murmurou o Comissário Assistente. — Por que se meteu nisso?

O Inspetor-Chefe ergueu as sobrancelhas com um desprezo impassível.

— Muito provavelmente, estabeleceu uma ligação — amigos no Continente — entre pessoas que negociam tais mercadorias. Seriam exatamente o tipo de gente com quem ele se daria. Além disso, é um preguiçoso, como todos os outros.

— O que obtém dele em troca da sua proteção?

O Inspetor-Chefe não estava inclinado a alongar-se sobre o valor dos serviços do Sr. Verloc.

— Ele não serviria de muito a ninguém, exceto a mim. É preciso saber muita coisa de antemão para tirar partido de um homem como aquele. Compreendo o tipo de dica que ele pode dar. E, quando preciso de uma pista, ele geralmente consegue fornecê-la.

O Inspetor-Chefe perdeu-se subitamente num estado de espírito discretamente reflexivo; e o Comissário Assistente reprimiu um sorriso perante o pensamento fugaz de que a reputação do Inspetor-Chefe Heat poderia, em grande parte, ter sido construída pelo Agente Secreto Verloc.

— De uma forma mais geral, todos os nossos homens da secção de Crimes Especiais de serviço em Charing Cross e Victoria têm ordens para observar atentamente qualquer pessoa que vejam com ele. Ele encontra-se frequentemente com os recém-chegados e, depois, segue-lhes o rasto. Parece ter sido destacado para esse tipo de função. Quando preciso de uma morada à pressa, consigo sempre obtê-la através dele. Claro que sei como gerir as nossas relações. Não o vi para falar com ele três vezes nos últimos dois anos. Escrevo-lhe um bilhete, sem assinatura, e ele responde-me da mesma forma para o meu endereço privado.

De tempos a tempos, o Comissário Assistente dava um aceno de cabeça quase impercetível. O Inspetor-Chefe acrescentou que não supunha que o Sr. Verloc estivesse profundamente na confiança dos membros proeminentes do Conselho Revolucionário Internacional, mas que, de um modo geral, gozava de confiança, disso não havia dúvida. — Sempre que tive razões para pensar que algo estava no ar — concluiu —, descobri sempre que ele me podia dizer algo que valia a pena saber.

O Comissário Assistente fez uma observação significativa.

— Desta vez ele falhou-lhe.

— Eu também não tinha tido vento de nada por qualquer outra via — retorquiu o Inspetor-Chefe Heat. — Não lhe perguntei nada, por isso ele não me pôde dizer nada. Ele não é um dos nossos homens. Não é como se estivesse a nosso soldo.

— Não — murmurou o Comissário Assistente. — Ele é um espião a soldo de um governo estrangeiro. Nunca poderíamos confessá-lo.

— Devo fazer o meu trabalho à minha maneira — declarou o Inspetor-Chefe. — Quando chega a esse ponto, lidaria com o próprio diabo e assumiria as consequências. Há coisas que não convêm que toda a gente saiba.

— A sua ideia de segredo parece consistir em manter o chefe do seu departamento às escuras. Isso é esticar um pouco a corda, não é? Ele vive por cima da loja?

— Quem? Verloc? Oh, sim. Vive por cima da loja. A mãe da esposa, creio eu, vive com eles.

— A casa é vigiada?

— Oh, claro que não. Não resultaria. Certas pessoas que lá vão é que são vigiadas. A minha opinião é que ele não sabe nada sobre este caso.

— Como explica isto? — O Comissário Assistente apontou para o trapo de tecido que jazia sobre a mesa à sua frente.

— Não explico de forma alguma, senhor. É simplesmente inexplicável. Não pode ser explicado pelo que sei. — O Inspetor-Chefe fez estas admissões com a franqueza de um homem cuja reputação está estabelecida como sobre uma rocha. — Pelo menos, não neste momento. Penso que o homem que teve mais que ver com isso acabará por ser Michaelis.

— Acha?

— Sim, senhor; porque posso responder por todos os outros.

— E quanto àquele outro homem que se supõe ter escapado do parque?

— Suponho que já esteja longe a esta hora — opinou o Inspetor-Chefe.

O Comissário Assistente olhou-o fixamente e levantou-se subitamente, como se tivesse tomado uma decisão. Na verdade, naquele preciso momento, sucumbira a uma tentação fascinante. O Inspetor-Chefe ouviu-se ser dispensado com instruções para se encontrar com o seu superior na manhã seguinte, cedo, para uma nova consulta sobre o caso. Ouviu com um rosto impenetrável e saiu da sala com passos medidos.

Quaisquer que fossem os planos do Comissário Assistente, nada tinham que ver com aquele trabalho de secretaria, que era o flagelo da sua existência devido à sua natureza confinada e aparente falta de realidade. Não poderia ter sido, caso contrário, o ar geral de prontidão que invadiu o Comissário Assistente teria sido inexplicável. Assim que ficou sozinho, procurou o chapéu por impulso e colocou-o na cabeça. Tendo-o feito, sentou-se novamente para reconsiderar toda a questão. Mas, como já estava decidido, não demorou muito. E, antes que o Inspetor-Chefe Heat tivesse ido muito longe no caminho de casa, ele também saiu do edifício.

CAPÍTULO VII

O Comissário Assistente caminhou ao longo de uma rua curta e estreita, semelhante a uma vala húmida e lamacenta, depois, atravessando uma avenida muito larga, entrou num edifício público e procurou falar com um jovem secretário particular (não remunerado) de uma grande personagem.

Este jovem loiro e de rosto liso, cujo cabelo arranjado simetricamente lhe conferia o ar de um rapaz grande e asseado, recebeu o pedido do Comissário Assistente com um olhar de dúvida e falou com a voz contida.

— Será que ele o recebe? Não sei dizer. Ele veio a pé da Câmara há uma hora para falar com o Subsecretário permanente e agora está pronto para voltar a pé. Podia tê-lo mandado chamar; mas fá-lo por causa de um pouco de exercício, suponho. É todo o exercício que ele consegue arranjar tempo para fazer enquanto esta sessão dura. Não me queixo; até gosto destes pequenos passeios. Ele apoia-se no meu braço e não abre os lábios. Mas, olhe, ele está muito cansado e... bem... não está com o melhor dos humores agora.

— É em relação ao caso de Greenwich.

— Oh! Diga! Ele está muito irritado convosco. Mas vou ver, se insiste.

— Vá. É um bom rapaz — disse o Comissário Assistente.

O secretário não remunerado admirou aquela coragem. Compondo para si um rosto inocente, abriu uma porta e entrou com a segurança de uma criança simpática e privilegiada. E, pouco depois, reapareceu com um aceno para o Comissário Assistente, que, passando pela mesma porta deixada aberta para si, encontrou-se com a grande personagem numa sala ampla.

Vasto em volume e estatura, com um rosto longo e branco que, alargado na base por um papo duplo, parecia ter a forma de ovo dentro de uma orla de finas patilhas grisalhas, a grande personagem parecia um homem em expansão. Infelizes do ponto de vista da alfaiataria, as pregas transversais no meio de um casaco preto abotoado aumentavam a impressão, como se os fechos da peça de vestuário estivessem a ser testados ao limite. Da cabeça, assente num pescoço grosso, os olhos, com pálpebras inferiores inchadas, olhavam com um caimento altivo de cada lado de um nariz adunco e agressivo, nobremente saliente na vasta circunferência pálida do rosto. Uma cartola brilhante e um par de luvas gastas, deixadas prontas na ponta de uma mesa longa, pareciam também expandidas, enormes.

Ele estava parado sobre o tapete da lareira com botas grandes e largas, e não pronunciou uma palavra de cumprimento.

— Gostaria de saber se este é o início de outra campanha de dinamite — perguntou de imediato com uma voz profunda e muito suave. — Não entre em detalhes. Não tenho tempo para isso.

A figura do Comissário Assistente diante daquela Presença grande e rústica tinha a fragilidade delgada de um caniço a dirigir-se a um carvalho. E, de facto, o registo ininterrupto da ascendência daquele homem superava em número de séculos a idade do carvalho mais antigo do país.

— Não. Na medida em que se pode ter certeza de qualquer coisa, posso assegurar-lhe que não é.

— Sim. Mas a vossa ideia de garantias lá fora — disse o grande homem, com um gesto de desdém da mão em direção a uma janela que dava para a avenida larga — parece consistir principalmente em fazer com que o Secretário de Estado pareça um tolo. Disseram-me positivamente nesta mesma sala, há menos de um mês, que nada desse género era sequer possível.

O Comissário Assistente olhou na direção da janela com calma.

— Permitir-me-á observar, Sir Ethelred, que até agora não tive oportunidade de lhe dar garantias de qualquer espécie.

O caimento altivo dos olhos estava focado agora no Comissário Assistente.

— Verdade — confessou a voz profunda e suave. — Mandei chamar Heat. Ainda é um tanto novato no seu novo posto. E como está a correr por lá?

— Acredito que estou a aprender algo todos os dias.

— Claro, claro. Espero que se dê bem.

— Obrigado, Sir Ethelred. Aprendi algo hoje, e até na última hora ou mais. Há muito neste caso de um tipo que não é óbvio num atentado anarquista comum, mesmo que se olhasse para ele tão profundamente quanto possível. É por isso que estou aqui.

O grande homem pôs os braços em jarra, com as costas das mãos grandes apoiadas nas ancas.

— Muito bem. Continue. Só não entre em detalhes, peço-lhe. Poupe-me aos detalhes.

— Não será incomodado com eles, Sir Ethelred — começou o Comissário Assistente, com uma calma e tranquila segurança. Enquanto falava, os ponteiros do relógio atrás das costas da grande personagem — um objeto pesado e reluzente de volutas maciças no mesmo mármore escuro da lareira, e com um tiquetaque fantasmagórico e evanescente — tinham percorrido o espaço de sete minutos. Ele falou com uma fidelidade estudada a um estilo parentético, no qual cada pequeno facto — isto é, cada detalhe — se encaixava com uma facilidade deliciosa. Nem um murmúrio nem sequer um movimento indicaram interrupção. A grande Personagem poderia ter sido a estátua de um dos seus próprios ancestrais principescos despido da armadura de cruzado e metido num casaco mal ajustado. O Comissário Assistente sentia-se como se estivesse livre para falar durante uma hora. Mas manteve a cabeça fria e, ao fim do tempo mencionado acima, interrompeu-se com uma conclusão súbita que, reproduzindo a declaração inicial, surpreendeu agradavelmente Sir Ethelred pela sua aparente rapidez e força.

— O tipo de coisa que nos deparamos sob a superfície deste caso, aliás sem gravidade, é invulgar — nesta forma precisa, pelo menos — e requer um tratamento especial.

O tom de Sir Ethelred tornou-se mais profundo, cheio de convicção.

— Suponho que sim — envolvendo o Embaixador de uma potência estrangeira!

— Oh! O Embaixador! — protestou o outro, ereto e esguio, permitindo-se apenas um meio sorriso. — Seria estúpido da minha parte adiantar algo do género. E é absolutamente desnecessário, porque, se estou correto nas minhas suposições, quer seja embaixador ou porteiro, é apenas um detalhe.

Sir Ethelred abriu uma boca larga, como uma caverna, para a qual o nariz adunco parecia ansioso por espreitar; dela saiu um som contido e retumbante, como o de um órgão distante com o registo de indignação desdenhosa.

— Não! Estas pessoas são demasiado impossíveis. O que pretendem elas ao importar os seus métodos da Crim-Tartária para aqui? Um turco teria mais decência.

— Esquece, Sir Ethelred, que, falando estritamente, não sabemos nada positivamente — ainda.

— Não! Mas como definiria isto? De forma breve?

— Audácia descarada, que chega a ser infantilidade de um tipo peculiar.

— Não podemos tolerar a inocência de crianças pequenas e desagradáveis — disse a grande e expandida personagem, expandindo-se um pouco mais, por assim dizer. O olhar altivo e caído atingiu de forma esmagadora o tapete aos pés do Comissário Assistente. — Terão de levar um puxão de orelhas por causa deste caso. Temos de estar em posição de... Qual é a sua ideia geral, declarada de forma breve? Não é preciso entrar em detalhes.

— Não, Sir Ethelred. Em princípio, estabeleceria que a existência de agentes secretos não deveria ser tolerada, por tender a aumentar os perigos positivos do mal contra o qual são utilizados. Que o espião fabricará as suas informações é um mero lugar-comum. Mas, na esfera da ação política e revolucionária, que depende em parte da violência, o espião profissional tem todas as facilidades para fabricar os próprios factos, e espalhará o duplo mal da emulação numa direção e do pânico, da legislação apressada e do ódio irrefletido, na outra. Contudo, este é um mundo imperfeito...

A Presença de voz profunda sobre o tapete da lareira, imóvel, com os cotovelos grandes salientes, disse apressadamente:

— Seja lúcido, por favor.

— Sim, Sir Ethelred. Um mundo imperfeito. Portanto, assim que o carácter deste caso me surgiu, pensei que deveria ser tratado com um segredo especial e arrisquei-me a vir aqui.

— Está certo — aprovou a grande Personagem, olhando para baixo, complacente, sobre o seu papo duplo. — Fico contente por haver alguém aí no seu posto que pensa que o Secretário de Estado pode ser confiado de vez em quando.

O Comissário Assistente deu um sorriso divertido.

— Eu estava realmente a pensar que poderia ser melhor, nesta fase, que Heat fosse substituído por...

— O quê? Heat? Um asno, eh? — exclamou o grande homem, com clara animosidade.

— De forma alguma. Por favor, Sir Ethelred, não faça essa interpretação injusta das minhas observações.

— Então o quê? Demasiado esperto?

— Nem uma coisa nem outra — pelo menos não como regra. Todos os fundamentos das minhas suposições obtive-os dele. A única coisa que descobri por mim mesmo é que ele tem usado esse homem privadamente. Quem o poderia culpar? Ele é um velho agente da polícia. Ele disse-me, virtualmente, que tem de ter ferramentas com que trabalhar. Ocorreu-me que esta ferramenta deveria ser entregue à divisão de Crimes Especiais como um todo, em vez de permanecer propriedade privada do Inspetor-Chefe Heat. Estendo a minha conceção dos nossos deveres departamentais à supressão do agente secreto. Mas o Inspetor-Chefe Heat é um velho agente do departamento. Ele acusar-me-ia de perverter a sua moralidade e atacar a sua eficiência. Ele definiria isso amargamente como proteção estendida à classe criminosa dos revolucionários. Significar-lhe-ia apenas isso.

— Sim. Mas o que quer dizer?

— Quero dizer, primeiro, que há pouco conforto em poder declarar que qualquer ato de violência — danificar propriedade ou destruir vidas — não é obra do anarquismo, mas de outra coisa qualquer — alguma espécie de canalhice autorizada. Isto, imagino, é muito mais frequente do que supomos. Em seguida, é óbvio que a existência destas pessoas a soldo de governos estrangeiros destrói, em certa medida, a eficiência da nossa supervisão. Um espião desse género pode dar-se ao luxo de ser mais imprudente do que o mais imprudente dos conspiradores. A sua ocupação está livre de toda a restrição. Ele está sem tanta fé quanto a necessária para a negação completa, e sem tanta lei quanto a implícita na ausência de lei. Em terceiro lugar, a existência destes espiões entre os grupos revolucionários, que nos censuram por albergar aqui, elimina toda a certeza. Recebeu uma declaração tranquilizadora do Inspetor-Chefe Heat há algum tempo. Não era de todo infundada — e, no entanto, este episódio acontece. Chamo-lhe episódio, porque este caso, atrevo-me a dizer, é episódico; não faz parte de nenhum plano geral, por mais selvagem que seja. As próprias peculiaridades que surpreendem e confundem o Inspetor-Chefe Heat estabelecem o seu carácter aos meus olhos. Estou a manter-me afastado de detalhes, Sir Ethelred.

A Personagem sobre o tapete da lareira tinha estado a ouvir com profunda atenção.

— Exatamente. Seja o mais conciso que puder.

O Comissário Assistente indicou, com um gesto sério e respeitoso, que estava ansioso por ser conciso.

— Há uma estupidez e debilidade peculiares na condução deste caso que me dão excelentes esperanças de ver o que está por trás dele e encontrar aí algo mais do que um capricho individual de fanatismo. Pois é uma coisa planeada, sem dúvida. O autor real parece ter sido levado pela mão até ao local e depois abandonado apressadamente à sua própria sorte. A inferência é que foi importado do estrangeiro com o propósito de cometer este atentado. Ao mesmo tempo, é-se forçado a concluir que ele não sabia inglês suficiente para perguntar o caminho, a menos que se aceitasse a teoria fantástica de que era surdo-mudo. Pergunto-me agora... Mas isto é inútil. Ele destruiu-se a si próprio por um acidente, obviamente. Não um acidente extraordinário. Mas um pequeno facto extraordinário permanece: o endereço na sua roupa, descoberto também pelo mais puro dos acasos. É um pequeno facto incrível, tão incrível que a explicação que o justificará terá de tocar o fundo desta questão. Em vez de instruir Heat para continuar com este caso, a minha intenção é procurar esta explicação pessoalmente — por mim mesmo, quero dizer — onde ela possa ser apanhada. Isso é numa certa loja na Brett Street, e nos lábios de um certo agente secreto, outrora o espião confidencial e de confiança do falecido Barão Stott-Wartenheim, Embaixador de uma Grande Potência na Corte de St. James.

O Comissário Assistente fez uma pausa e depois acrescentou: — Esses tipos são uma verdadeira praga. — Para elevar o seu olhar caído até ao rosto do interlocutor, a Personagem sobre o tapete da lareira tinha inclinado gradualmente a cabeça mais para trás, o que lhe conferia um aspeto de extraordinária altivez.

— Por que não deixá-lo para o Heat?

— Porque ele é um velho agente do departamento. Eles têm a sua própria moralidade. A minha linha de investigação parecer-lhe-ia uma terrível perversão do dever. Para ele, o dever evidente é incriminar o maior número possível de anarquistas proeminentes com base em alguns pequenos indícios que recolheu no curso da sua investigação no local; enquanto que eu, diria ele, estou determinado em provar a sua inocência. Estou a tentar ser o mais lúcido que posso ao apresentar-lhe este assunto obscuro sem detalhes.

— Ele faria isso, faria? — murmurou a orgulhosa cabeça de Sir Ethelred da sua elevação altiva.

— Receio que sim — com uma indignação e um nojo dos quais nem você nem eu podemos ter ideia. Ele é um excelente servidor. Não devemos exercer uma pressão indevida sobre a sua lealdade. Isso é sempre um erro. Além disso, quero liberdade de ação — uma liberdade maior do que a que talvez fosse aconselhável dar ao Inspetor-Chefe Heat. Não tenho o menor desejo de poupar este homem Verloc. Ele ficará, imagino, extremamente sobressaltado ao ver a sua ligação a este caso, seja ela qual for, trazida a si tão rapidamente. Assustá-lo não será muito difícil. Mas o nosso verdadeiro objetivo reside algures por trás dele. Quero a sua autoridade para lhe dar as garantias de segurança pessoal que eu considerar adequadas.

— Certamente — disse a Personagem sobre o tapete da lareira. — Descubra o máximo que puder; descubra-o à sua própria maneira.

— Tenho de começar sem perda de tempo, ainda esta noite — disse o Comissário Assistente.

Sir Ethelred deslocou uma mão sob as abas do casaco e, inclinando a cabeça para trás, olhou-o fixamente.

— Teremos uma sessão tardia esta noite — disse ele. — Venha à Câmara com as suas descobertas se não tivermos ido para casa. Avisarei Toodles para estar à sua espera. Ele levá-lo-á ao meu gabinete.

A numerosa família e as vastas relações do jovem secretário particular acalentavam para ele a esperança de um destino austero e exaltado. Entretanto, a esfera social que ele adornava nas suas horas de lazer escolheu mimá-lo sob a alcunha acima mencionada. E Sir Ethelred, ouvindo-a dos lábios da esposa e das filhas todos os dias (principalmente à hora do pequeno-almoço), conferiu-lhe a dignidade de uma adoção sem sorrisos.

O Comissário Assistente ficou extremamente surpreendido e satisfeito.

“Certamente levarei as minhas descobertas à Câmara, na eventualidade de o senhor ter tempo para—”

“Não terei tempo”, interrompeu o grande Personagem. “Mas ver-lhe-ei. Não tenho tempo agora — E o senhor vai pessoalmente?”

“Sim, Sir Ethelred. Penso que é a melhor maneira.”

O Personagem tinha inclinado a cabeça tanto para trás que, para manter o Comissário Assistente sob observação, teve de fechar quase os olhos.

“H’m. Há! E como tenciona... Vai assumir um disfarce?”

“Dificilmente um disfarce! Mudarei de roupa, naturalmente.”

“Naturalmente”, repetiu o grande homem, com uma espécie de altivez distraída. Virou a sua grande cabeça lentamente e, por cima do ombro, lançou um olhar oblíquo e altivo ao pesado relógio de mármore com o seu tiquetaque subtil e fraco. Os ponteiros dourados tinham aproveitado a oportunidade para deslizar nada menos que vinte e cinco minutos pelas suas costas.

O Comissário Assistente, que não os podia ver, ficou um pouco nervoso no intervalo. Mas o grande homem apresentou-lhe um rosto calmo e imperturbável.

“Muito bem”, disse ele, e fez uma pausa, como se em desprezo deliberado pelo relógio oficial. “Mas o que o levou a mover-se nesta direção?”

“Tenho sido sempre da opinião”, começou o Comissário Assistente.

“Ah. Sim! Opinião. Isso é natural. Mas o motivo imediato?”

“O que hei de dizer, Sir Ethelred? O antagonismo de um homem novo a métodos antigos. Um desejo de saber algo em primeira mão. Alguma impaciência. É o meu antigo trabalho, mas o arreio é diferente. Tem-me magoado um pouco em um ou dois pontos sensíveis.”

“Espero que se dê bem por lá”, disse o grande homem amavelmente, estendendo a mão, macia ao toque, mas larga e poderosa como a mão de um agricultor glorificado. O Comissário Assistente apertou-a e retirou-se.

Na sala exterior, Toodles, que estivera à espera empoleirado na borda de uma mesa, avançou ao seu encontro, reprimindo a sua natural exuberância.

“Bem? Satisfatório?” perguntou ele, com uma importância aérea.

“Perfeitamente. Ganhou a minha gratidão eterna”, respondeu o Comissário Assistente, cujo rosto comprido parecia de madeira em contraste com o caráter peculiar da gravidade do outro, que parecia perpetuamente pronto a romper em ondas e risinhos.

“Isso está bem. Mas, falando a sério, não pode imaginar o quão irritado ele está com os ataques ao seu Projeto de Lei para a Nacionalização das Pescas. Chamam-lhe o início da revolução social. Claro, é uma medida revolucionária. Mas estes tipos não têm decência. Os ataques pessoais...”

“Leio os jornais”, comentou o Comissário Assistente.

“Odiáveis? Eh? E não faz ideia da quantidade de trabalho que ele tem de realizar todos os dias. Ele faz tudo sozinho. Parece incapaz de confiar a alguém estas Pescas.”

“E, no entanto, dedicou meia hora inteira à consideração do meu pequeno peixe”, interveio o Comissário Assistente.

“Pequeno! É? Fico contente por ouvir isso. Mas é pena que não se tenha mantido afastado, então. Esta luta consome-o terrivelmente. O homem está a ficar exausto. Sinto-o pela maneira como se apoia no meu braço enquanto caminhamos para ali. E, diga-me, estará ele seguro nas ruas? Mullins tem feito marchar os seus homens para aqui esta tarde. Há um polícia colado a cada poste de iluminação, e cada segunda pessoa que encontramos entre aqui e Palace Yard é um óbvio detetive. Isso dar-lhe-á cabo dos nervos em breve. Diga-me, estes canalhas estrangeiros não serão capazes de lhe atirar alguma coisa, pois não? Seria uma calamidade nacional. O país não pode dispensá-lo.”

“Para não mencionar a si próprio. Ele apoia-se no seu braço”, sugeriu o Comissário Assistente com sobriedade. “Iriam ambos.”

“Seria uma forma fácil para um jovem entrar para a história? Não foram tantos os Ministros britânicos assassinados a ponto de fazer disso um incidente menor. Mas, falando a sério agora...”

“Receio que, se quer entrar para a história, terá de fazer algo por isso. Falando a sério, não há perigo algum para ambos, a não ser o excesso de trabalho.”

O compreensivo Toodles acolheu esta deixa para um risinho.

“As Pescas não me hão de matar. Estou habituado a horas tardias”, declarou ele, com uma leviandade ingénua. Mas, sentindo um remorso instantâneo, começou a assumir um ar de melancolia de estadista, como quem calça uma luva. “O seu intelecto maciço aguenta qualquer quantidade de trabalho. São os seus nervos que me preocupam. O bando reacionário, com aquele bruto abusivo Cheeseman à cabeça, insulta-o todas as noites.”

“Se ele insiste em começar uma revolução!” murmurou o Comissário Assistente.

“Chegou a hora, e ele é o único homem suficientemente grande para o trabalho”, protestou o revolucionário Toodles, inflamando-se sob o olhar calmo e especulativo do Comissário Assistente. Algures num corredor, uma campainha distante tocou urgentemente e, com devota vigilância, o jovem aguçou os ouvidos ao som. “Ele está pronto para ir agora”, exclamou num sussurro, agarrou no chapéu e desapareceu da sala.

O Comissário Assistente saiu por outra porta de uma forma menos elástica. Atravessou novamente a larga via, caminhou por uma rua estreita e reentrou apressadamente nos seus próprios edifícios departamentais. Manteve este passo acelerado até à porta do seu gabinete privado. Antes de a ter fechado completamente, os seus olhos procuraram a secretária. Parou por um momento, depois aproximou-se, olhou para todo o chão, sentou-se na sua cadeira, tocou uma campainha e esperou.

“O Inspetor-Chefe Heat já foi?”

“Sim, senhor. Saiu há meia hora.”

Ele assentiu. “Está bem.” E sentado, com o chapéu empurrado para trás da testa, pensou que era bem daquela insolência irritante de Heat levar calmamente a única peça de prova material. Mas pensou nisto sem animosidade. Servidores antigos e valorizados tomam liberdades. O pedaço de sobretudo com o endereço cosido não era, certamente, uma coisa para se deixar por ali. Afastando da mente esta manifestação de desconfiança do Inspetor-Chefe Heat, escreveu e enviou um bilhete à esposa, encarregando-a de apresentar as suas desculpas à grande dama de Michaelis, com quem estavam comprometidos para jantar nessa noite.

O casaco curto e o chapéu redondo e baixo que vestiu num tipo de alcova com cortinas, que continha um lavatório, uma fila de ganchos de madeira e uma prateleira, realçaram maravilhosamente o comprimento do seu rosto grave e moreno. Voltou a entrar na luz plena da sala, parecendo a visão de um Don Quixote frio e reflexivo, com os olhos encovados de um entusiasta sombrio e uma maneira muito deliberada. Deixou o cenário dos seus labores diários rapidamente, como uma sombra impercetível. A sua descida à rua foi como a descida a um aquário viscoso do qual a água tivesse sido escoada. Uma humidade sombria e lúgubre envolveu-o. As paredes das casas estavam molhadas, a lama da estrada brilhava com um efeito de fosforescência e, quando emergiu para o Strand a partir de uma rua estreita ao lado da estação de Charing Cross, o génio da localidade assimilou-o. Ele poderia ter sido apenas mais um dos estranhos peixes estrangeiros que se podem ver ao cair da noite por ali, a esvoaçar pelos cantos escuros.

Parou mesmo no limite do passeio e esperou. Os seus olhos treinados tinham distinguido, no movimento confuso de luzes e sombras que inundavam a estrada, a aproximação rastejante de um hansom. Não deu sinal; mas, quando o degrau baixo que deslizava ao longo do lancil chegou aos seus pés, ele esquivou-se habilmente em frente à grande roda que virava e falou através da pequena portinhola, quase antes de o homem que olhava supino em frente a partir da sua poleiro se ter apercebido de que fora abordado por um passageiro.

Não foi um trajeto longo. Terminou por sinal bruscamente, em parte nenhuma em particular, entre dois postes de iluminação em frente a um grande estabelecimento de tecidos — uma longa fila de lojas já envoltas para a noite em folhas de ferro ondulado. Entregando uma moeda através da portinhola, o passageiro esgueirou-se e partiu, deixando um efeito de estranha e excêntrica macabrice na mente do cocheiro. Mas o tamanho da moeda foi satisfatório ao seu toque e, como a sua educação não era literária, permaneceu sem ser perturbado pelo medo de a encontrar mais tarde transformada numa folha morta no seu bolso. Elevado acima do mundo dos passageiros pela natureza da sua profissão, contemplava as suas ações com um interesse limitado. O puxar brusco do seu cavalo para o lado expressava a sua filosofia.

Entretanto, o Comissário Assistente já estava a dar o seu pedido a um empregado num pequeno restaurante italiano ao virar da esquina — uma daquelas armadilhas para os famintos, longa e estreita, iscada com uma perspetiva de espelhos e toalhas brancas; sem ar, mas com uma atmosfera própria — uma atmosfera de culinária fraudulenta que troçava de uma humanidade abjeta nas suas necessidades mais prementes e miseráveis. Nesta atmosfera imoral, o Comissário Assistente, refletindo sobre o seu empreendimento, parecia perder ainda mais da sua identidade. Tinha uma sensação de solidão, de liberdade maligna. Era bastante agradável. Quando, depois de pagar a sua refeição rápida, se levantou e esperou pelo troco, viu-se na lâmina de vidro e ficou impressionado com a sua aparência estrangeira. Contemplou a sua própria imagem com um olhar melancólico e inquisitivo, depois, por uma inspiração repentina, levantou a gola do casaco. Este arranjo pareceu-lhe louvável e completou-o dando uma torção para cima às pontas do seu bigode preto. Ficou satisfeito com a modificação subtil do seu aspeto pessoal causada por estas pequenas mudanças. “Isso servirá muito bem”, pensou. “Ficarei um pouco molhado, um pouco salpicado...”

Percebeu a presença do empregado ao seu cotovelo e de uma pequena pilha de moedas de prata na borda da mesa à sua frente. O empregado manteve um olho nela, enquanto o outro seguia as costas longas de uma rapariga alta, não muito jovem, que passou em direção a uma mesa distante, parecendo perfeitamente cega e totalmente inacessível. Parecia ser uma cliente habitual.

Ao sair, o Comissário Assistente observou para si mesmo que os frequentadores daquele lugar tinham perdido, na convivência com a culinária fraudulenta, todas as suas características nacionais e privadas. E isto era estranho, uma vez que o restaurante italiano é uma instituição tão peculiarmente britânica. Mas aquelas pessoas estavam tão desnacionalizadas como os pratos que lhes eram postos à frente com todas as circunstâncias de uma respeitabilidade sem selo. Tampouco a sua personalidade estava marcada de qualquer forma, profissional, social ou racialmente. Pareciam criadas para o restaurante italiano, a menos que o restaurante italiano tivesse sido, talvez, criado para elas. Mas essa última hipótese era impensável, uma vez que não se poderiam colocar em lado nenhum fora daqueles estabelecimentos especiais. Nunca se encontravam estas pessoas enigmáticas noutro lugar qualquer. Era impossível formar uma ideia precisa de que ocupações seguiam durante o dia e onde iam dormir à noite. E ele próprio tinha-se tornado deslocalizado. Teria sido impossível para qualquer pessoa adivinhar a sua ocupação. Quanto a ir dormir, havia uma dúvida até na sua própria mente. Não, de facto, em relação ao seu domicílio em si, mas muito em relação à hora em que seria capaz de lá regressar. Um sentimento prazeroso de independência possuiu-o quando ouviu as portas de vidro baterem atrás das suas costas com uma espécie de baque abafado e imperfeito. Avançou imediatamente para uma imensidão de lodo gorduroso e gesso húmido, intercalado com candeeiros, e envolvido, oprimido, penetrado, sufocado e asfixiado pela negrura de uma noite de Londres húmida, que é composta de fuligem e gotas de água.

Brett Street não ficava muito longe. Ramificava-se, estreita, do lado de um espaço triangular aberto rodeado por casas escuras e misteriosas, templos de pequeno comércio esvaziados de mercadores para a noite. Apenas uma banca de frutas na esquina criava um brilho violento de luz e cor. Para além disso, tudo era negro, e as poucas pessoas que passavam naquela direção desapareciam num passo para além dos montes brilhantes de laranjas e limões. Nenhum passo ecoava. Nunca mais se ouviria falar delas. O aventureiro chefe do Departamento de Crimes Especiais observava estes desaparecimentos à distância com um olho interessado. Sentia-se leve, como se tivesse estado emboscado sozinho numa selva a muitos milhares de quilómetros de secretárias departamentais e tinteiros oficiais. Esta alegria e dispersão de pensamento perante uma tarefa de alguma importância parece provar que este nosso mundo não é, afinal, um assunto tão sério. Pois o Comissário Assistente não era constitucionalmente inclinado à leviandade.

O polícia que fazia a ronda projetou a sua forma sombria e móvel contra a glória luminosa das laranjas e limões e entrou em Brett Street sem pressa. O Comissário Assistente, como se fosse um membro das classes criminosas, demorou-se fora de vista, aguardando o seu regresso. Mas este polícia parecia estar perdido para sempre para a força. Nunca regressou: deve ter saído pela outra extremidade de Brett Street.

O Comissário Assistente, chegando a esta conclusão, entrou na rua por sua vez e deu com uma grande carrinha parada em frente aos vidros pouco iluminados de uma casa de pasto para carroceiros. O homem refrescava-se lá dentro, e os cavalos, com as suas grandes cabeças baixadas para o chão, comiam de sacos de focinheira de forma constante. Mais à frente, do lado oposto da rua, outro ponto suspeito de luz fraca emanava da montra da loja do Sr. Verloc, pendurada com papéis, erguida com pilhas vagas de caixas de cartão e formas de livros. O Comissário Assistente ficou a observá-la do outro lado da estrada. Não podia haver engano. Ao lado da montra frontal, obstruída pelas sombras de coisas indefinidas, a porta, entreaberta, deixava escapar para o passeio um traço estreito e claro de luz de gás do interior.

Atrás do Comissário Assistente, a carrinha e os cavalos, fundidos numa só massa, pareciam algo vivo — um monstro negro de costas quadradas a bloquear metade da rua, com repentinos batimentos ferrados, tilintares ferozes e pesados suspiros bufantes. O brilho asperamente festivo e agourento de um grande e próspero pub enfrentava a outra extremidade de Brett Street através de uma larga estrada. Esta barreira de luzes flamejantes, opondo-se às sombras acumuladas em torno da humilde morada da felicidade doméstica do Sr. Verloc, parecia empurrar a obscuridade da rua de volta sobre si mesma, torná-la mais soturna, ruminante e sinistra.

CAPÍTULO VIII

Tendo infundido, através de importunações persistentes, algum tipo de calor no interesse gelado de vários taberneiros licenciados (conhecidos de há muito do seu falecido e infeliz marido), a mãe da Sra. Verloc tinha finalmente assegurado a sua admissão a certos asilos fundados por um abastado estalajadeiro para as viúvas indigentes do ramo.

Este fim, concebido na astúcia do seu coração inquieto, a velha mulher tinha perseguido com secretismo e determinação. Foi na altura em que a sua filha Winnie não pôde deixar de comentar ao Sr. Verloc que “a mãe tem gasto meias-coroas e cinco xelins quase todos os dias nesta última semana em viagens de carro”. Mas o comentário não foi feito de má vontade. Winnie respeitava as enfermidades da mãe. Ficou apenas um pouco surpreendida com aquela súbita mania de locomoção. O Sr. Verloc, que era suficientemente magnífico à sua maneira, tinha resmungado o comentário impacientemente, de lado, como algo que interferia nas suas meditações. Estas eram frequentes, profundas e prolongadas; incidiam sobre um assunto mais importante do que cinco xelins. Claramente mais importante e, para além de qualquer comparação, mais difícil de considerar em todos os seus aspetos com serenidade filosófica.

O seu objetivo alcançado em astuto secretismo, a heroica velha mulher tinha feito uma confissão total à Sra. Verloc. A sua alma estava triunfante e o seu coração trémulo. Internamente, tremia, porque temia e admirava o caráter calmo e contido da sua filha Winnie, cujo descontentamento era tornado redobrável por uma diversidade de silêncios terríveis. Mas não permitiu que as suas apreensões internas a roubassem da vantagem da placidez venerável conferida à sua pessoa exterior pelo seu queixo triplo, pela amplidão flutuante da sua forma antiga e pela condição impotente das suas pernas.

O choque da informação foi tão inesperado que a Sra. Verloc, contrariando a sua prática habitual quando interpelada, interrompeu a ocupação doméstica em que estava empenhada. Era a limpeza do pó dos móveis na sala de estar atrás da loja. Virou a cabeça para a mãe.

“Mas porque é que te querias dar a esse trabalho?” exclamou, em espanto escandalizado.

O choque deve ter sido severo para a fazer afastar daquela aceitação distante e pouco inquisitiva dos factos que era a sua força e a sua salvaguarda na vida.

“Não estavas confortável o suficiente aqui?”

Tinha caído nestes inquéritos, mas no momento seguinte salvou a consistência da sua conduta ao retomar a limpeza do pó, enquanto a velha mulher se sentava assustada e muda sob a sua touca branca encardida e peruca escura sem brilho.

Winnie terminou a cadeira e passou o espanador ao longo do mogno nas costas do sofá de crina de cavalo no qual o Sr. Verloc adorava descansar de chapéu e sobretudo. Estava concentrada no seu trabalho, mas pouco depois permitiu-se outra pergunta.

“Como é que, em nome de tudo, conseguiste isso, mãe?”

Como não afetava a essência das coisas, que era princípio da Sra. Verloc ignorar, esta curiosidade era desculpável. Incidia meramente sobre os métodos. A velha mulher acolheu-a avidamente como algo que podia ser discutido com muita sinceridade.

Favoreceu a filha com uma resposta exaustiva, cheia de nomes e enriquecida por comentários laterais sobre as devastações do tempo, conforme observado na alteração das fisionomias humanas. Os nomes eram principalmente os nomes de taberneiros licenciados — “amigos do pobre pai, minha querida”. Alongou-se com especial apreço sobre a bondade e condescendência de um grande cervejeiro, um Baronete e um Membro do Parlamento, o Presidente dos Governadores da Instituição de Caridade. Expressou-se calorosamente porque lhe fora permitido entrevistar, por marcação, o seu Secretário Particular — “um cavalheiro muito educado, todo de preto, com uma voz suave e triste, mas tão, tão magro e quieto. Era como uma sombra, minha querida”.

Winnie, prolongando as suas operações de limpeza até que o conto fosse terminado, saiu da sala de estar para a cozinha (descendo dois degraus) à sua maneira habitual, sem o menor comentário.

Derramando algumas lágrimas como sinal de regozijo pela mansuetude da sua filha neste terrível caso, a mãe da Sra. Verloc deu largas à sua astúcia em relação ao seu mobiliário, porque era seu; e, por vezes, desejava que não o fosse. O heroísmo é muito bonito, mas há circunstâncias em que a disposição de algumas mesas e cadeiras, camas de latão, e por aí fora, pode estar grávida de consequências remotas e desastrosas. Ela própria precisava de algumas peças, sendo que a Fundação que, após muitas importunações, a tinha acolhido no seu peito caritativo, não dava nada além de tábuas nuas e tijolos revestidos com papel barato aos objetos da sua solicitude. A delicadeza que guiou a sua escolha para os artigos menos valiosos e mais dilapidados passou despercebida, porque a filosofia de Winnie consistia em não reparar no interior dos factos; ela assumia que a mãe levava o que lhe convinha mais. Quanto ao Sr. Verloc, a sua intensa meditação, como uma espécie de muralha da China, isolava-o completamente dos fenómenos deste mundo de esforços vãos e aparências ilusórias.

Feita a sua seleção, a disposição do resto tornou-se uma questão desconcertante de uma forma particular. Ela ia deixá-lo em Brett Street, claro. Mas tinha dois filhos. Winnie estava provida pela sua união sensata com aquele excelente marido, o Sr. Verloc. Stevie era indigente — e um pouco peculiar. A sua posição tinha de ser considerada antes das exigências da justiça legal e até dos impulsos de parcialidade. A posse do mobiliário não seria, em nenhum sentido, uma provisão. Ele devia tê-lo — o pobre rapaz. Mas dar-lho seria como mexer na sua posição de total dependência. Era uma espécie de reivindicação que ela temia enfraquecer. Além disso, as suscetibilidades do Sr. Verloc talvez não suportassem estar em dívida para com o seu cunhado pelas cadeiras em que se sentava. Numa longa experiência com cavalheiros hóspedes, a mãe da Sra. Verloc tinha adquirido uma noção sombria mas resignada do lado fantástico da natureza humana. E se o Sr. Verloc de repente lhe desse na cabeça dizer a Stevie para levar os seus benditos paus para outro lado qualquer? Uma divisão, por outro lado, por mais cuidadosamente feita que fosse, poderia dar algum motivo de ofensa a Winnie. Não, Stevie tinha de permanecer indigente e dependente. E, no momento de sair de Brett Street, tinha dito à filha: “Não vale a pena esperar até que eu morra, pois não? Tudo o que deixo aqui é totalmente teu agora, minha querida.”

Winnie, de chapéu posto, silenciosa por detrás das costas da mãe, continuava a arranjar o colarinho do manto da velha. Pegou na sua mala de mão, num guarda-chuva, com uma expressão impassível. Chegara a hora de despender a soma de três xelins e seis pence naquilo que bem se poderia supor ser a última viagem de táxi da vida da mãe da senhora Verloc. Saíram pela porta da loja.

O veículo que as aguardava teria ilustrado o provérbio de que “a verdade pode ser mais cruel do que a caricatura”, se tal provérbio existisse. Arrastando-se atrás de um cavalo enfermo, uma carruagem metropolitana aproximou-se sobre rodas bambas e com um cocheiro estropiado na bolina. Esta última particularidade causou algum embaraço. Ao vislumbrar um engenho de ferro em forma de gancho que sobressaía da manga esquerda do casaco do homem, a mãe da senhora Verloc perdeu subitamente a coragem heroica daqueles dias. Ela realmente não se podia fiar. “Que achas, Winnie?” Hesitou. As expostulações apaixonadas do cocheiro de cara larga pareciam ser espremidas de uma garganta obstruída. Debruçando-se da sua bolina, sussurrou com uma indignação misteriosa. Que se passava agora? Seria possível tratar um homem assim? O seu rosto enorme e por lavar flamejava de vermelho na extensão enlameada da rua. Seria provável que lhe tivessem dado uma licença, inquiriu desesperadamente, se...

O polícia da localidade acalmou-o com um olhar amigável; depois, dirigindo-se às duas mulheres sem consideração marcada, disse:

“Ele conduz táxis há vinte anos. Nunca soube que tivesse tido um acidente.”

“Acidente!” gritou o condutor num sussurro desdenhoso.

O testemunho do polícia resolveu a questão. A modesta assembleia de sete pessoas, a maioria menor de idade, dispersou-se. Winnie seguiu a mãe para dentro do táxi. Stevie subiu para a bolina. A sua boca vaga e os seus olhos aflitos retratavam o estado do seu espírito em relação às transações que estavam a decorrer. Nas ruas estreitas, o progresso da viagem tornava-se sensível aos que estavam dentro pelas frentes próximas das casas que deslizavam lentamente e a tremer, com um grande matraquear e tilintar de vidros, como se estivessem prestes a colapsar atrás do táxi; e o cavalo enfermo, com a arreata pendurada sobre o dorso agudo a abanar muito solta à volta das coxas, parecia dançar com minudência sobre os cascos com infinita paciência. Mais adiante, no espaço mais vasto de Whitehall, todas as evidências visuais de movimento tornaram-se impercetíveis. O matraquear e tilintar de vidros continuou indefinidamente em frente ao longo edifício do Tesouro — e o tempo, ele próprio, parecia parado.

Por fim, Winnie observou: “Este não é um cavalo muito bom.”

Os seus olhos brilhavam na sombra do táxi diretamente à frente, imóveis. Na bolina, Stevie fechou primeiro a boca vaga, a fim de ejacular com fervor: “Não.”

O condutor, segurando no alto as rédeas enroladas à volta do gancho, não prestou atenção. Talvez não tivesse ouvido. O peito de Stevie arquejou.

“Não chicoteies.”

O homem voltou lentamente a sua face inchada e empapada de muitas cores, eriçada de pelos brancos. Os seus pequenos olhos vermelhos luziam com humidade. Os seus lábios grandes tinham um tom violeta. Permaneceram fechados. Com o dorso sujo da mão que segurava o chicote, esfregou o restolho que brotava no seu queixo enorme.

“Não deves,” balbuciou Stevie violentamente. “Dói.”

“Não devo chicotear,” questionou o outro num sussurro pensativo, e imediatamente chicoteou. Fez isto, não porque a sua alma fosse cruel e o seu coração perverso, mas porque tinha de ganhar o sustento. E, por momentos, as muralhas de St. Stephen’s, com as suas torres e pináculos, contemplaram em imobilidade e silêncio um táxi que tilintava. Contudo, também rolava. Mas na ponte houve uma comoção. Stevie começou subitamente a descer da bolina. Houve gritos no passeio, as pessoas correram para a frente, o condutor parou, sussurrando pragas de indignação e espanto. Winnie baixou o vidro e pôs a cabeça de fora, branca como um fantasma. Nas profundezas do táxi, a sua mãe exclamava, em tons de angústia: “Aquele rapaz está ferido? Aquele rapaz está ferido?”

Stevie não estava ferido, nem sequer tinha caído, mas a excitação, como de costume, roubara-lhe o poder de um discurso articulado. Não podia fazer mais do que balbuciar à janela. “Demasiado pesado. Demasiado pesado.” Winnie pousou a mão no seu ombro.

“Stevie! Sobe para a bolina imediatamente e não tentes descer outra vez.”

“Não. Não. Andar. Tenho de andar.”

Ao tentar declarar a natureza dessa necessidade, balbuciou até à total incoerência. Nenhuma impossibilidade física impedia o seu capricho. Stevie poderia facilmente ter conseguido acompanhar o cavalo enfermo e dançante sem ficar sem fôlego. Mas a sua irmã recusou o consentimento de forma decisiva. “Que ideia! Quem já ouviu tal coisa! Correr atrás de um táxi!” A sua mãe, assustada e indefesa nas profundezas do veículo, suplicou: “Oh, não o deixes, Winnie. Ele vai perder-se. Não o deixes.”

“Certamente que não. O que se segue! O Sr. Verloc ficará triste ao saber desta insensatez, Stevie — posso garantir-te. Ele não ficará nada contente.”

A ideia da dor e da infelicidade do Sr. Verloc a atuar, como de costume, poderosamente sobre a disposição fundamentalmente dócil de Stevie, ele abandonou toda a resistência e subiu de novo para a bolina, com uma face de desespero.

O cocheiro voltou para ele a sua face enorme e inflamada, truculento. “Não te ponhas a tentar este jogo estúpido outra vez, rapazinho.”

Depois de se expressar assim num sussurro severo, esticado quase até à extinção, seguiu viagem, ruminando solenemente. Para ele, o incidente permanecia algo obscuro. Mas o seu intelecto, embora tivesse perdido a sua vivacidade primitiva nos anos entorpecedores de exposição sedentária ao tempo, não carecia de independência ou sanidade. Gravemente, descartou a hipótese de Stevie ser um rapazola bêbado.

Dentro do táxi, o feitiço do silêncio, em que as duas mulheres tinham suportado, ombro a ombro, os solavancos, o matraquear e o tilintar da viagem, fora quebrado pela explosão de Stevie. Winnie elevou a voz.

“Fizeste o que querias, mãe. Só a ti própria terás de agradecer se não fores feliz depois. E não creio que sejas. Isso não. Não estavas suficientemente confortável em casa? O que é que as pessoas pensarão de nós — tu a atirares-te assim para uma Instituição de Caridade?”

“Minha querida,” gritou a velha fervorosamente acima do ruído, “tens sido a melhor das filhas para mim. Quanto ao Sr. Verloc — bem...”

Faltando-lhe as palavras sobre o assunto da excelência do Sr. Verloc, voltou os seus olhos velhos e lacrimejantes para o teto do táxi. Depois desviou a cabeça com o pretexto de olhar pela janela, como se para julgar o seu progresso. Era insignificante e seguia rente ao lancil. A noite, a noite suja e prematura, a noite sinistra, barulhenta, sem esperança e ruidosa do Sul de Londres, tinha-a alcançado na sua última viagem de táxi. À luz do gás das lojas de frente baixa, as suas bochechas grandes brilhavam com um tom alaranjado sob um chapéu preto e malva.

A tez da mãe da senhora Verloc tornara-se amarelada pelo efeito da idade e por uma predisposição natural para a bilis, favorecida pelas provações de uma existência difícil e preocupada, primeiro como esposa, depois como viúva. Era uma tez que, sob a influência de um rubor, assumia um tom alaranjado. E esta mulher, modesta na verdade, mas endurecida nos fogos da adversidade, de uma idade, aliás, em que não se esperam rubores, tinha positivamente corado perante a filha. Na privacidade de um táxi de quatro rodas, a caminho de uma casa de caridade (uma de uma fila) que, pela exiguuidade das suas dimensões e a simplicidade do seu alojamento, poderia bem ter sido concebida por bondade como um lugar de treino para as circunstâncias ainda mais estreitas da sepultura, via-se forçada a esconder da sua própria filha um rubor de remorso e vergonha.

O que é que as pessoas pensarão? Ela sabia muito bem o que pensavam, as pessoas que Winnie tinha em mente — os velhos amigos do seu marido e outros também, cujo interesse ela solicitara com tanto sucesso lisonjeiro. Não sabia antes que boa pedinte podia ser. Mas adivinhava muito bem que inferência era tirada do seu pedido. Devido àquela delicadeza retraída, que existe lado a lado com a brutalidade agressiva na natureza masculina, as inquirições sobre as suas circunstâncias não tinham sido levadas muito longe. Ela detinha-as com uma compressão visível dos lábios e alguma exibição de uma emoção determinada a ser eloquentemente silenciosa. E os homens tornavam-se subitamente desinteressados, à maneira da sua espécie. Congratulava-se mais de uma vez por não ter nada a ver com mulheres que, sendo naturalmente mais insensíveis e ávidas de detalhes, estariam ansiosas por ser exatamente informadas sobre que tipo de conduta pouco bondosa a filha e o genro a tinham levado a tal triste extremidade. Foi apenas perante o Secretário do grande cervejeiro, Membro do Parlamento e Presidente da Caridade, que, atuando pelo seu superior, se sentia obrigado a ser conscienciosamente inquisitivo quanto às reais circunstâncias da requerente, que ela rebentou em lágrimas francamente e em voz alta, como uma mulher encurralada chorará. O cavalheiro magro e educado, depois de a contemplar com um ar de estar “completamente baralhado”, abandonou a sua posição sob a capa de observações calmantes. Ela não se devia angustiar. O estatuto da Caridade não especificava absolutamente “viúvas sem filhos”. De facto, de modo algum a desqualificava. Mas a discrição do Comité tinha de ser uma discrição informada. Podia-se compreender muito bem a sua relutância em ser um fardo, etc., etc. Com isso, para seu profundo desapontamento, a mãe da senhora Verloc chorou mais um pouco com uma veemência aumentada.

As lágrimas daquela fêmea grande, de peruca escura e poeirenta e antigo vestido de seda festonado com renda de algodão branca e suja, eram as lágrimas de uma angústia genuína. Ela chorara porque era heroica e sem escrúpulos e cheia de amor por ambos os seus filhos. As raparigas são frequentemente sacrificadas ao bem-estar dos rapazes. Neste caso, ela estava a sacrificar Winnie. Pela supressão da verdade, estava a caluniá-la. Naturalmente, Winnie era independente e não precisava de se preocupar com a opinião de pessoas que nunca veria e que nunca a veriam; enquanto o pobre Stevie não tinha nada no mundo a que pudesse chamar seu, exceto o heroísmo e a falta de escrúpulos da sua mãe.

O primeiro sentido de segurança que se seguiu ao casamento de Winnie dissipou-se com o tempo (pois nada dura), e a mãe da senhora Verloc, no isolamento do quarto das traseiras, recordara o ensinamento daquela experiência que o mundo imprime a uma mulher viúva. Mas recordara-o sem amargura vã; a sua reserva de resignação equivalia quase a dignidade. Refletia estoicamente que tudo se decompõe, gasta-se, neste mundo; que o caminho da bondade deveria ser facilitado aos bem-intencionados; que a sua filha Winnie era uma irmã muito dedicada e uma esposa, de facto, muito autoconfiante. No que diz respeito à devoção fraternal de Winnie, o seu estoicismo vacilou. Excecionou esse sentimento da regra da decadência que afeta todas as coisas humanas e algumas divinas. Não pôde evitá-lo; não o fazer tê-la-ia assustado demasiado. Mas, ao considerar as condições do estado conjugal da filha, rejeitou firmemente todas as ilusões lisonjeiras. Adotou a visão fria e racional de que quanto menos pressão fosse colocada sobre a bondade do Sr. Verloc, mais tempo os seus efeitos provavelmente durariam. Aquele homem excelente amava a sua esposa, naturalmente, mas preferiria, sem dúvida, manter o mínimo de parentes que fosse consistente com a exibição adequada desse sentimento. Seria melhor que todo o seu efeito se concentrasse no pobre Stevie. E a velha heroica resolveu afastar-se dos seus filhos como um ato de devoção e como um movimento de profunda estratégia.

A “virtude” desta estratégia consistia nisto (a mãe da senhora Verloc era subtil à sua maneira), que a pretensão moral de Stevie seria fortalecida. O pobre rapaz — um rapaz bom e útil, embora um pouco peculiar — não tinha uma posição suficiente. Fora levado com a sua mãe, um pouco da mesma forma que o mobiliário da mansão de Belgravia fora levado, como se com base em pertencer-lhe exclusivamente. O que acontecerá, perguntou a si mesma (pois a mãe da senhora Verloc era, em certa medida, imaginativa), quando eu morrer? E quando se perguntou isso, foi com pavor. Era também terrível pensar que ela não teria então meios de saber o que acontecia ao pobre rapaz. Mas, ao entregá-lo à sua irmã, ao partir assim, deu-lhe a vantagem de uma posição diretamente dependente. Esta era a sanção mais subtil do heroísmo e falta de escrúpulos da mãe da senhora Verloc. O seu ato de abandono era, na verdade, um arranjo para estabelecer o seu filho permanentemente na vida. Outras pessoas faziam sacrifícios materiais para tal objetivo, ela fê-lo daquela maneira. Era a única maneira. Além disso, seria capaz de ver como funcionava. Bem ou mal, evitaria a horrível incerteza no leito de morte. Mas era duro, duro, cruelmente duro.

O táxi matraqueava, tilintava, solavancava; de facto, este último era bastante extraordinário. Pela sua violência e magnitude desproporcionadas, obliterava toda a sensação de movimento para a frente; e o efeito era o de ser sacudido num aparelho estacionário como um engenho medieval para o castigo do crime, ou alguma invenção muito recente para a cura de um fígado preguiçoso. Era extremamente angustiante; e o elevar da voz da mãe da senhora Verloc soava como um lamento de dor.

“Sei, minha querida, que virás ver-me tão frequentemente quanto puderes dispensar tempo. Não virás?”

“Claro,” respondeu Winnie secamente, olhando fixamente em frente.

E o táxi solavancava em frente a uma loja fumegante e gordurosa, num clarão de gás e com o cheiro a peixe frito.

A velha soltou um lamento novamente.

“E, minha querida, tenho de ver aquele pobre rapaz todos os domingos. Ele não se importará de passar o dia com a sua velha mãe—”

Winnie gritou estoicamente:

“Importar-se! Creio que não. Aquele pobre rapaz sentir-te-á uma falta cruel. Gostava que tivesses pensado um pouco nisso, mãe.”

Não pensar nisso! A mulher heroica engoliu um objeto lúdico e inconveniente como uma bola de bilhar, que tentara saltar da sua garganta. Winnie ficou muda por momentos, fazendo beicinho para a frente do táxi, depois estalou, o que era um tom invulgar nela:

“Espero ter trabalho com ele no início, ele será tão irrequieto—”

“Faças o que fizeres, não o deixes preocupar o teu marido, minha querida.”

Assim discutiram em moldes familiares as implicações de uma nova situação. E o táxi solavancava. A mãe da senhora Verloc exprimiu algumas dúvidas. Poderia Stevie ser de confiança para vir todo aquele caminho sozinho? Winnie sustentava que ele estava muito menos “distraído” agora. Concordaram quanto a isso. Não se podia negar. Muito menos — quase nada. Gritaram uma com a outra no tilintar com uma alegria comparativa. Mas, subitamente, a ansiedade materna eclodiu de novo. Havia dois autocarros para apanhar e uma curta caminhada pelo meio. Era demasiado difícil! A velha entregou-se ao luto e à consternação.

Winnie olhou em frente.

“Não te perturbes assim, mãe. Tens de o ver, naturalmente.”

“Não, minha querida. Tentarei não o fazer.”

Limpou os olhos lacrimejantes.

“Mas não podes dispensar tempo para vir com ele, e se ele se esquecer e perder o caminho e alguém lhe falar bruscamente, o seu nome e morada podem escapar-lhe da memória, e ele ficará perdido por dias e dias—”

A visão de uma enfermaria de asilo para o pobre Stevie — ainda que apenas durante as inquirições — apertou-lhe o coração. Pois era uma mulher orgulhosa. O olhar de Winnie tornara-se duro, atento, inventivo.

“Não posso levá-lo até ti eu mesma todas as semanas,” gritou ela. “Mas não te preocupes, mãe. Tomarei providências para que ele não se perca por muito tempo.”

Sentiram um solavanco peculiar; uma visão de pilares de tijolo perdurou perante as janelas matraqueantes do táxi; uma cessação súbita de solavancos atrozes e tilintares ruidosos deixou as duas mulheres atordoadas. O que tinha acontecido? Ficaram imóveis e assustadas na quietude profunda, até que a porta se abriu e se ouviu um sussurro áspero e tenso:

“Chegámos!”

Uma fila de pequenas casas com empenas, cada uma com uma janela amarela e baça no rés-do-chão, rodeava o escuro espaço aberto de um relvado plantado com arbustos e vedado do mosaico de luzes e sombras na larga estrada, que ressoava com o rumor abafado do tráfego. Perante a porta de uma destas casas minúsculas — uma sem luz na pequena janela de baixo — o táxi tinha parado. A mãe da senhora Verloc saiu primeiro, de costas, com uma chave na mão. Winnie hesitou no caminho de laje para pagar ao cocheiro. Stevie, depois de ajudar a levar para dentro um monte de pequenos embrulhos, saiu e ficou sob a luz de um candeeiro a gás pertencente à Caridade. O cocheiro olhou para as peças de prata que, parecendo muito diminutas na sua palma grande e imunda, simbolizavam os resultados insignificantes que recompensam a coragem ambiciosa e o trabalho de uma humanidade cujo dia é curto nesta terra de maldade.

Fora pago decentemente — quatro peças de um xelim — e contemplou-as num silêncio perfeito, como se fossem os termos surpreendentes de um problema melancólico. A lenta transferência daquele tesouro para um bolso interior exigiu muito tatear laborioso nas profundezas de vestuário decrépito. A sua forma era atarracada e sem flexibilidade. Stevie, esguio, com os ombros um pouco levantados e as mãos enfiadas fundo nos bolsos laterais do seu sobretudo quente, estava à beira do caminho, fazendo beicinho.

O cocheiro, fazendo uma pausa nos seus movimentos deliberados, pareceu atingido por uma recordação enevoada.

“Oh! Aqui estás, rapazinho,” sussurrou ele. “Vais reconhecê-lo outra vez — não vais?”

Stevie estava a olhar para o cavalo, cujos quartos traseiros pareciam indevidamente elevados pelo efeito da emaciação. A pequena cauda rígida parecia ter sido encaixada para uma piada cruel; e na outra extremidade o pescoço fino e plano, como uma tábua coberta de pele de cavalo velha, pendia até ao chão sob o peso de uma cabeça óssea enorme. As orelhas pendiam em ângulos diferentes, negligentemente; e a figura macabra daquele habitante mudo da terra fumegava diretamente das costelas e do dorso na quietude húmida do ar.

O cocheiro bateu levemente no peito de Stevie com o gancho de ferro que sobressaía de uma manga esfarrapada e gordurosa.

“Olha aqui, rapazinho. Como gostarias de te sentar atrás deste cavalo até às duas da manhã, talvez?”

Stevie olhou vago para os olhos ferozes e pequenos com pálpebras de bordos vermelhos.

“Ele não é coxo,” prosseguiu o outro, sussurrando com energia. “Ele não tem feridas nele. Aqui está ele. Como gostarias—”

A sua voz tensa e extinta investiu a sua fala com um caráter de sigilo veemente. O olhar vago de Stevie estava a transformar-se lentamente em pavor.

“Bem podes olhar! Até às três ou quatro da manhã. Frio e com fome. À procura de passageiros. Bêbados.”

As suas bochechas roxas e joviais eriçavam-se de pelos brancos; e como o Sileno de Virgílio, que, com a cara manchada pelo sumo das bagas, discorria sobre os Deuses Olímpicos para os pastores inocentes da Sicília, ele falava a Stevie de assuntos domésticos e dos negócios de homens cujos sofrimentos são grandes e a imortalidade de modo nenhum assegurada.

“Eu sou um cocheiro noturno, eu sou,” sussurrou ele, com uma espécie de exasperação jactanciosa. “Tenho de levar o que eles quiserem dar-me no pátio. Tenho a minha mulher e quatro filhos em casa.”

A natureza monstruosa daquela declaração de paternidade pareceu deixar o mundo mudo. Um silêncio reinou durante o qual os flancos do velho cavalo, o corcel da miséria apocalíptica, fumegavam para o alto à luz do candeeiro a gás caridoso.

O cocheiro resmungou, depois acrescentou no seu sussurro misterioso:

“Este não é um mundo fácil.” A face de Stevie estava a contrair-se há algum tempo e, finalmente, os seus sentimentos irromperam na sua forma concisa habitual.

“Mau! Mau!”

O seu olhar permaneceu fixo nas costelas do cavalo, autoconsciente e sombrio, como se tivesse medo de olhar à sua volta para a maldade do mundo. E a sua esbelteza, os seus lábios rosados e a sua tez clara e pálida davam-lhe o aspeto de um rapaz delicado, apesar do crescimento fofo de cabelo dourado nas suas bochechas. Fazia beicinho de um modo assustado como uma criança. O cocheiro, baixo e largo, observava-o com os seus olhos ferozes e pequenos que pareciam arder num líquido claro e corrosivo.

“Duro para os cavalos, mas muito mais duro para tipos pobres como eu,” sibilou ele apenas audivelmente.

“Pobre! Pobre!” balbuciou Stevie, empurrando as mãos mais fundo nos bolsos com uma simpatia convulsiva. Não conseguia dizer nada; pois a ternura por toda a dor e toda a miséria, o desejo de tornar o cavalo feliz e o cocheiro feliz, tinham atingido o ponto de um desejo bizarro de os levar para a cama com ele. E isso, sabia ele, era impossível. Pois Stevie não era louco. Era, por assim dizer, um desejo simbólico; e, ao mesmo tempo, era muito distinto, porque brotava da experiência, a mãe da sabedoria. Assim, quando em criança se encolhia num canto escuro, assustado, infeliz, dorido e miserável com a negra, negra miséria da alma, a sua irmã Winnie costumava vir e levá-lo para a cama com ela, como para um paraíso de paz consoladora. Stevie, embora propenso a esquecer factos triviais, como o seu nome e morada, por exemplo, tinha uma memória fiel das sensações. Ser levado para uma cama de compaixão era o remédio supremo, com a única desvantagem de ser difícil de aplicar em larga escala. E, olhando para o cocheiro, Stevie percebeu isso claramente, porque ele era razoável.

O cocheiro continuou com os seus preparativos vagarosos como se Stevie não existisse. Fez menção de se içar para a boléia, mas, no último momento, por algum motivo obscuro, talvez meramente por desgosto do exercício da carruagem, desistiu. Aproximou-se, em vez disso, do parceiro imóvel dos seus trabalhos e, inclinando-se para agarrar a rédea, levantou a cabeça grande e cansada até à altura do seu ombro com um só esforço do braço direito, como um feito de força.

“Vamos,” sussurrou ele secretamente.

Coxeando, conduziu a carruagem para longe. Havia um ar de austeridade nesta partida, o cascalho triturado da entrada a queixar-se sob as rodas que giravam lentamente, as coxas magras do cavalo a moverem-se com uma deliberação ascética para longe da luz, em direção à obscuridade do espaço aberto, debruado tenuemente pelos telhados pontiagudos e pelas janelas fracamente iluminadas das pequenas casas de caridade. O lamento do cascalho viajou lentamente por toda a volta da entrada. Entre os candeeiros do portal da caridade, o lento cortejo reapareceu, iluminado por um momento, o homem baixo e robusto a coxear afadigado, com a cabeça do cavalo erguida no seu punho, o animal esguio a caminhar com uma dignidade rígida e desolada, a caixa escura e baixa sobre rodas a rolar atrás, comicamente, com um ar de gingar. Viraram à esquerda. Havia um bar ao fundo da rua, a cinquenta metros do portão.

Stevie, deixado sozinho junto ao candeeiro privado da Caridade, com as mãos enfiadas fundo nos bolsos, olhava com uma hostilidade vaga. No fundo dos bolsos, as suas mãos fracas e incapazes estavam cerradas com força em dois punhos raivosos. Perante qualquer coisa que afetasse, direta ou indiretamente, o seu medo mórbido da dor, Stevie acabava por se tornar vicioso. Uma indignação magnânima inchava o seu peito frágil até rebentar, e fazia com que os seus olhos cândidos se cruzassem. Supremamente sábio ao conhecer a sua própria impotência, Stevie não era suficientemente sábio para refrear as suas paixões. A ternura da sua caridade universal tinha duas fases, indissoluvelmente unidas e ligadas como o reverso e o anverso de uma medalha. A angústia da compaixão desmedida era sucedida pela dor de uma raiva inocente, mas impiedosa. Como esses dois estados se expressavam exteriormente pelos mesmos sinais de fútil agitação corporal, a sua irmã Winnie acalmava a sua agitação sem nunca sondar o seu carácter duplo. A Sra. Verloc não desperdiçava nenhuma parte desta vida transitória à procura de informações fundamentais. Isto é uma espécie de economia que tem todas as aparências e algumas das vantagens da prudência. Obviamente, pode ser bom para alguém não saber demasiado. E tal ponto de vista concorda muito bem com uma indolência constitucional.

Naquela noite, na qual se pode dizer que a mãe da Sra. Verloc, tendo-se despedido para sempre dos seus filhos, tinha também partido desta vida, Winnie Verloc não investigou a psicologia do irmão. O pobre rapaz estava excitado, claro. Depois de assegurar mais uma vez à velha, no limiar, que saberia como precaver-se contra o risco de Stevie se perder por muito tempo nas suas peregrinações de piedade filial, ela pegou no braço do irmão para se afastar. Stevie nem sequer murmurou para si mesmo, mas, com o sentido especial de devoção fraternal desenvolvido desde a sua mais tenra infância, ela sentiu que o rapaz estava, de facto, muito excitado. Segurando firme o braço dele, sob a aparência de se apoiar nele, ela pensou em algumas palavras adequadas à ocasião.

“Agora, Stevie, tens de cuidar bem de mim nas passadeiras e entrar primeiro no autocarro, como um bom irmão.”

Este apelo à proteção masculina foi recebido por Stevie com a sua docilidade habitual. Isso lisonjeou-o. Ele levantou a cabeça e estufou o peito.

“Não estejas nervosa, Winnie. Não podes estar nervosa! O autocarro está bem,” respondeu ele num balbucio brusco e arrastado, que participava da timidez de uma criança e da resolução de um homem. Avançou destemidamente com a mulher no braço, mas o seu lábio inferior caiu. Não obstante, no passeio da via pública sórdida e larga, cuja pobreza em todos os confortos da vida estava tolamente exposta por uma profusão louca de luzes de gás, a semelhança entre ambos era tão pronunciada que impressionava os transeuntes ocasionais.

Diante das portas do bar na esquina, onde a profusão de luz de gás atingia o auge de uma maldade positiva, uma carruagem de quatro rodas, parada junto ao lancil sem ninguém na boléia, parecia atirada para a sarjeta devido a uma decadência irremediável. A Sra. Verloc reconheceu o transporte. O seu aspeto era tão profundamente lamentável, com tal perfeição de miséria grotesca e estranheza de detalhes macabros, como se fosse a própria Carruagem da Morte, que a Sra. Verloc, com aquela compaixão pronta de uma mulher por um cavalo (quando não está sentada atrás dele), exclamou vagamente:

“Pobre bruto!”

Recuando subitamente, Stevie infligiu um solavanco de paragem à irmã.

“Pobre! Pobre!” exclamou ele, apreciativamente. “O cocheiro também é pobre. Ele disse-me a ele próprio.”

A contemplação do corcel enfermo e solitário dominou-o. Empurrado, mas obstinado, ele queria permanecer ali, tentando expressar o ponto de vista recém-aberto às suas simpatias da miséria humana e equina em estreita associação. Mas era muito difícil. “Pobre bruto, pobres pessoas!” era tudo o que ele conseguia repetir. Não parecia suficientemente contundente, e ele terminou com um cuspir raivoso: “Vergonha!” Stevie não era mestre em frases e, talvez por essa mesma razão, os seus pensamentos careciam de clareza e precisão. Mas ele sentia com maior plenitude e alguma profundidade. Aquela pequena palavra continha todo o seu sentido de indignação e horror por um tipo de desgraça ter de se alimentar da angústia do outro — pelo pobre cocheiro bater no pobre cavalo em nome, por assim dizer, dos seus pobres filhos em casa. E Stevie sabia o que era ser batido. Sabia-o por experiência. Era um mundo mau. Mau! Mau!

A Sra. Verloc, a sua única irmã, tutora e protetora, não podia pretender tal profundidade de discernimento. Além disso, não tinha experimentado a magia da eloquência do cocheiro. Ela estava às escuras quanto ao significado interno da palavra “Vergonha”. E disse placidamente:

“Vem, Stevie. Não podes fazer nada quanto a isso.”

O dócil Stevie seguiu; mas agora ia sem orgulho, arrastando os pés e murmurando meias palavras, e até palavras que seriam inteiras se não fossem compostas por metades que não pertenciam uma à outra. Era como se ele estivesse a tentar ajustar todas as palavras de que se lembrava aos seus sentimentos, a fim de obter algum tipo de ideia correspondente. E, na verdade, conseguiu-o finalmente. Ele atrasou-se para a proferir de imediato.

“Mundo mau para as pessoas pobres.”

Diretamente após ter expressado esse pensamento, apercebeu-se de que ele já lhe era familiar em todas as suas consequências. Esta circunstância reforçou imensamente a sua convicção, mas também aumentou a sua indignação. Alguém, sentia ele, deveria ser punido por isso — punido com grande severidade. Não sendo um cético, mas uma criatura moral, ele estava, de certa forma, à mercê das suas paixões justas.

“Bestial!” acrescentou ele concisamente.

Era evidente para a Sra. Verloc que ele estava muito excitado.

“Ninguém pode fazer nada quanto a isso,” disse ela. “Anda logo. É assim que cuidas de mim?”

Stevie apressou o passo obedientemente. Ele orgulhava-se de ser um bom irmão. A sua moralidade, que era muito completa, exigia isso dele. Contudo, sentiu-se magoado com a informação dada pela sua irmã Winnie, que era boa. Ninguém podia fazer nada quanto a isso! Ele caminhava de forma sombria, mas logo se animou. Tal como o resto da humanidade, perplexo com o mistério do universo, ele tinha os seus momentos de confiança consoladora nos poderes organizados da terra.

“Polícia,” sugeriu ele confiantemente.

“A polícia não serve para isso,” observou a Sra. Verloc, de passagem, apressando-se no seu caminho.

O rosto de Stevie alongou-se consideravelmente. Ele estava a pensar. Quanto mais intenso o seu pensamento, mais frouxo era o cair do seu maxilar inferior.

E foi com um aspeto de vacuidade sem esperança que ele desistiu do seu empreendimento intelectual.

“Não serve para isso?” murmurou ele, resignado, mas surpreendido. “Não serve para isso?” Ele tinha formado para si mesmo uma conceção ideal da polícia metropolitana como uma espécie de instituição benevolente para a supressão do mal. A noção de benevolência, especialmente, estava muito estreitamente associada ao seu sentido do poder dos homens de azul. Ele gostava de todos os polícias ternamente, com uma confiança ingénua. E estava magoado. Estava irritado, também, por uma suspeita de duplicidade nos membros da força. Pois Stevie era franco e tão aberto como o próprio dia. O que queriam eles dizer, então, ao fingir? Ao contrário da sua irmã, que depositava a sua confiança nas aparências, ele queria chegar ao fundo da questão. Levou a sua investigação por meio de um desafio raivoso.

“Para que servem eles então, Winn? Para que servem? Diz-me.”

Winnie detestava controvérsias. Mas, temendo acima de tudo um ataque de depressão negra resultante de Stevie sentir muito a falta da mãe nos primeiros tempos, ela não recusou totalmente a discussão. Inocente de toda a ironia, respondeu contudo de uma forma que talvez não fosse antinatural na esposa do Sr. Verloc, Delegado do Comité Central Vermelho, amigo pessoal de certos anarquistas e devoto da revolução social.

“Não sabes para que serve a polícia, Stevie? Eles estão lá para que aqueles que não têm nada não tirem nada àqueles que têm.”

Ela evitou usar o verbo “roubar”, porque isso deixava sempre o irmão desconfortável. Pois Stevie era delicadamente honesto. Certos princípios simples tinham-lhe sido incutidos tão ansiosamente (por causa da sua “estranheza”) que os meros nomes de certas transgressões enchiam-no de horror. Ele tinha sido sempre facilmente impressionado por discursos. Estava impressionado e sobressaltado agora, e a sua inteligência estava muito alerta.

“O quê?” perguntou ele de imediato, ansioso. “Nem mesmo se estiverem com fome? Não podem?”

Os dois tinham feito uma pausa na caminhada.

“Nem mesmo se estiverem muito,” disse a Sra. Verloc, com a equanimidade de uma pessoa não perturbada pelo problema da distribuição da riqueza e a explorar a perspetiva da estrada em busca de um autocarro da cor certa. “Certamente que não. Mas de que serve falar sobre tudo isso? Tu nunca tens fome.”

Ela lançou um olhar rápido ao rapaz, tal como um jovem, ao seu lado. Viu-o amável, atraente, afetuoso e apenas um pouco, muito pouco, peculiar. E não conseguia vê-lo de outra forma, pois ele estava ligado ao que havia de sal da paixão na sua vida insípida — a paixão da indignação, da coragem, da piedade e até do autossacrifício. Ela não acrescentou: “E dificilmente terás enquanto eu for viva.” Mas ela bem poderia tê-lo feito, já que tinha tomado medidas eficazes para esse fim. O Sr. Verloc era um marido muito bom. Era a sua impressão honesta que ninguém podia deixar de gostar do rapaz. Ela exclamou subitamente:

“Rápido, Stevie. Para aquele autocarro verde.”

E Stevie, trémulo e importante com a sua irmã Winnie no braço, atirou a outra mão bem acima da cabeça para o autocarro que se aproximava, com sucesso total.

Uma hora depois, o Sr. Verloc levantou os olhos de um jornal que lia, ou pelo menos olhava, atrás do balcão e, no tilintar expirante da campainha da porta, viu Winnie, a sua esposa, entrar e atravessar a loja a caminho do andar de cima, seguida por Stevie, o seu cunhado. A visão da sua esposa foi agradável para o Sr. Verloc. Era a sua idiossincrasia. A figura do seu cunhado permaneceu impercetível para ele devido ao pensamento moroso que ultimamente caíra como um véu entre o Sr. Verloc e as aparências do mundo dos sentidos. Olhou para a sua esposa fixamente, sem uma palavra, como se ela fosse um fantasma. A sua voz para uso doméstico era rouca e plácida, mas agora não se ouvia de todo. Não se ouviu ao jantar, para o qual foi chamado pela sua esposa da forma breve habitual: “Adolf.” Sentou-se para o consumir sem convicção, usando o chapéu empurrado para trás na cabeça. Não era devoção a uma vida ao ar livre, mas a frequência de cafés estrangeiros que era responsável por esse hábito, conferindo um caráter de impermanência sem cerimónias à fidelidade constante do Sr. Verloc ao seu próprio lar. Duas vezes, ao tilintar da campainha rachada, ele levantou-se sem uma palavra, desapareceu na loja e voltou silenciosamente. Durante estas ausências, a Sra. Verloc, tornando-se agudamente consciente do lugar vazio à sua direita, sentiu muito a falta da sua mãe e olhou fixamente; enquanto Stevie, pela mesma razão, continuava a arrastar os pés, como se o chão debaixo da mesa estivesse desconfortavelmente quente. Quando o Sr. Verloc regressou para se sentar no seu lugar, como a própria personificação do silêncio, o carácter do olhar da Sra. Verloc sofreu uma mudança subtil e Stevie parou de se mexer com os pés, devido ao seu grande e respeitoso apreço pelo marido da sua irmã. Dirigiu-lhe olhares de compaixão respeitosa. O Sr. Verloc estava triste. A sua irmã Winnie tinha-lhe incutido (no autocarro) que o Sr. Verloc seria encontrado em casa num estado de tristeza e não deveria ser incomodado. A raiva do seu pai, a irritabilidade dos inquilinos cavalheiros e a predisposição do Sr. Verloc para um luto imoderado tinham sido as principais sanções do autocontrolo de Stevie. Destes sentimentos, todos facilmente provocados, mas nem sempre fáceis de compreender, o último tinha a maior eficiência moral — porque o Sr. Verloc era bom. A sua mãe e a sua irmã tinham estabelecido esse facto ético sobre uma base inabalável. Tinham estabelecido, erigido, consagrado isso pelas costas do Sr. Verloc, por razões que nada tinham a ver com a moralidade abstrata. E o Sr. Verloc não estava consciente disso. É apenas pura justiça para com ele dizer que ele não tinha noção de parecer bom para Stevie. No entanto, assim era. Ele era até o único homem tão qualificado no conhecimento de Stevie, porque os inquilinos cavalheiros tinham sido demasiado transitórios e demasiado distantes para terem algo muito distinto sobre eles, exceto talvez as suas botas; e no que diz respeito às medidas disciplinares do seu pai, a desolação da sua mãe e da sua irmã recuava perante o estabelecimento de uma teoria de bondade perante a vítima. Teria sido demasiado cruel. E era até possível que Stevie não acreditasse nelas. No que dizia respeito ao Sr. Verloc, nada podia impedir a crença de Stevie. O Sr. Verloc era obviamente, ainda que misteriosamente, bom. E o luto de um homem bom é augusto.

Stevie lançou olhares de compaixão reverente ao seu cunhado. O Sr. Verloc estava triste. O irmão de Winnie nunca antes se tinha sentido em tão estreita comunhão com o mistério da bondade daquele homem. Era uma tristeza compreensível. E o próprio Stevie estava triste. Ele estava muito triste. O mesmo tipo de tristeza. E, sendo a sua atenção atraída para este estado desagradável, Stevie arrastou os pés. Os seus sentimentos eram habitualmente manifestados pela agitação dos seus membros.

“Mantém os pés quietos, querido,” disse a Sra. Verloc, com autoridade e ternura; depois, voltando-se para o seu marido com uma voz indiferente, a conquista magistral do tato instintivo: “Vais sair esta noite?” perguntou ela.

A mera sugestão parecia repugnante ao Sr. Verloc. Ele abanou a cabeça de forma melancólica e depois sentou-se imóvel com os olhos baixos, olhando para o pedaço de queijo no seu prato durante um minuto inteiro. Ao fim desse tempo, levantou-se e saiu — saiu mesmo, ao tilintar da campainha da porta da loja. Agiu assim de forma inconsistente, não por qualquer desejo de se tornar desagradável, mas por causa de uma inquietação invencível. Não servia de nada sair. Não conseguia encontrar em parte alguma de Londres o que queria. Mas saiu. Conduziu um cortejo de pensamentos sombrios ao longo de ruas escuras, através de ruas iluminadas, dentro e fora de dois bares vistosos, como numa tentativa hesitante de passar a noite, e finalmente de volta ao seu lar ameaçado, onde se sentou fatigado atrás do balcão, e eles amontoaram-se urgentemente à sua volta, como uma matilha de cães negros esfomeados. Depois de trancar a casa e apagar o gás, levou-os para cima consigo — uma escolta terrível para um homem que ia para a cama. A sua esposa tinha-o precedido algum tempo antes e, com a sua forma ampla definida vagamente sob a colcha, a cabeça na almofada e uma mão sob a face, oferecia à distração dele a visão de uma sonolência precoce que argumentava a posse de uma alma equânime. Os seus olhos grandes permaneciam abertos, inertes e escuros contra a brancura da neve do linho. Ela não se moveu.

Ela tinha uma alma equânime. Sentia profundamente que as coisas não suportam um exame muito atento. Ela fazia da sua força e da sua sabedoria esse instinto. Mas a taciturnidade do Sr. Verloc pesava sobre ela há muitos dias. Estava, na verdade, a afetar os seus nervos. Deitada e imóvel, ela disse placidamente:

“Vais apanhar uma constipação a andar assim de meias.”

Este discurso, tornando-se a solicitude da esposa e a prudência da mulher, apanhou o Sr. Verloc desprevenido. Ele tinha deixado as botas lá em baixo, mas esqueceu-se de calçar os chinelos e andava pelo quarto em passos silenciosos como um urso numa jaula. Ao som da voz da sua esposa, ele parou e olhou para ela com um olhar sonambúlico e inexpressivo durante tanto tempo que a Sra. Verloc moveu ligeiramente os membros sob os lençóis. Mas ela não moveu a sua cabeça negra afundada na almofada branca, uma mão sob a face e os olhos grandes, escuros e sem piscar.

Sob o olhar inexpressivo do marido e lembrando-se do quarto vazio da sua mãe do outro lado do patamar, sentiu uma pontada aguda de solidão. Nunca se tinha separado da sua mãe antes. Elas tinham estado uma pela outra. Ela sentia que tinham, e dizia para si mesma que agora a mãe tinha ido — ido para sempre. A Sra. Verloc não tinha ilusões. Stevie, contudo, permanecia. E ela disse:

“A mãe fez o que queria fazer. Não vejo sentido nisso que possa ver. Tenho a certeza de que ela não pode ter pensado que já estavas farto dela. É perfeitamente perverso deixar-nos assim.”

O Sr. Verloc não era uma pessoa culta; a sua gama de frases alusivas era limitada, mas havia uma aptidão peculiar nas circunstâncias que o fazia pensar em ratos a abandonar um navio condenado. Quase o disse. Tinha-se tornado suspeito e amargurado. Será que a velha tinha um nariz tão excelente? Mas a irracionalidade de tal suspeita era patente e o Sr. Verloc guardou a língua. Não totalmente, contudo. Murmurou pesadamente:

“Talvez seja melhor assim.”

Começou a despir-se. A Sra. Verloc manteve-se muito quieta, perfeitamente quieta, com os olhos fixos num olhar sonhador e tranquilo. E o seu coração, por uma fração de segundo, pareceu parar também. Naquela noite ela “não estava bem”, como se costuma dizer, e ocorreu-lhe com alguma força que uma frase simples pode conter vários significados diversos — na sua maioria desagradáveis. Como era melhor assim? E porquê? Mas ela não se permitiu cair na ociosidade da especulação estéril. Estava antes confirmada na sua crença de que as coisas não suportam ser examinadas. Prática e subtil à sua maneira, ela trouxe Stevie para a frente sem perda de tempo, porque nela a unidade de propósito tinha a natureza infalível e a força de um instinto.

“O que vou fazer para animar aquele rapaz durante os primeiros dias, certamente não sei. Ele vai andar preocupado de manhã à noite antes de se habituar à ausência da mãe. E ele é um rapaz tão bom. Eu não conseguiria viver sem ele.”

O Sr. Verloc continuou a despir-se com a concentração interior e alheia de um homem que se despe na solidão de um deserto vasto e sem esperança. Pois era assim, de forma tão inóspita, que esta bela terra, a nossa herança comum, se apresentava à visão mental do Sr. Verloc. Tudo estava tão imóvel por fora e por dentro que o tiquetaque solitário do relógio no patamar se infiltrava no quarto como se fosse por companhia.

O Sr. Verloc, deitando-se no seu lado da cama, permaneceu de bruços e mudo atrás das costas da Sra. Verloc. Os seus braços grossos descansavam abandonados sobre a colcha como armas largadas, como ferramentas descartadas. Naquele momento, esteve por um triz de confessar tudo à sua esposa. O momento parecia propício. Espreitando pelo canto dos olhos, viu os ombros amplos dela drapeados em branco, a nuca, com o cabelo arranjado para a noite em três tranças atadas nas pontas com fitas pretas. E conteve-se. O Sr. Verloc amava a sua esposa como uma esposa deve ser amada — isto é, maritalmente, com a consideração que se tem pela nossa posse principal. Aquela cabeça arranjada para a noite, aqueles ombros amplos, tinham um aspeto de sacralidade familiar — a sacralidade da paz doméstica. Ela não se movia, maciça e informe como uma estátua deitada em bruto; ele recordou-se dos seus olhos arregalados a fitar o quarto vazio. Ela era misteriosa, com o mistério dos seres vivos. O famoso agente secreto [delta] dos despachos alarmistas do falecido Barão Stott-Wartenheim não era homem para penetrar em tais mistérios. Era facilmente intimidado. E era também indolente, com a indolência que é tantas vezes o segredo de uma boa natureza. Ele absteve-se de tocar naquele mistério por amor, timidez e indolência. Haveria sempre tempo suficiente. Durante vários minutos, suportou os seus sofrimentos silenciosamente no silêncio sonolento do quarto. E então perturbou-o com uma declaração resoluta.

“Vou ao Continente amanhã.”

A sua esposa poderia já estar a dormir. Ele não podia saber. Na verdade, a Sra. Verloc tinha-o ouvido. Os seus olhos permaneceram muito abertos, e ela permaneceu muito imóvel, confirmada na sua convicção instintiva de que as coisas não suportam ser examinadas muito a fundo. E, no entanto, não era nada de invulgar o Sr. Verloc fazer tal viagem. Ele renovava o seu stock em Paris e Bruxelas. Frequentemente ia lá fazer as suas compras pessoalmente. Uma pequena e seleta rede de amadores formava-se à volta da loja na Brett Street, uma rede secreta eminentemente apropriada para qualquer negócio empreendido pelo Sr. Verloc, que, por um acordo místico de temperamento e necessidade, tinha sido destinado a ser um agente secreto toda a sua vida.

Ele esperou um pouco, depois acrescentou: “Ficarei fora uma semana ou talvez uma quinzena. Pede à Sra. Neale que venha passar o dia.”

A Sra. Neale era a mulher a dias da Brett Street. Vítima do seu casamento com um carpinteiro devasso, era oprimida pelas necessidades de muitos filhos pequenos. De braços vermelhos e avental de serapilheira grosseira até às axilas, exalava a angústia dos pobres num hálito de água de sabão e rum, no alarido da esfregadela, no estrondo dos baldes de lata.

A Sra. Verloc, cheia de um propósito profundo, falou no tom da mais superficial indiferença.

“Não há necessidade de ter a mulher aqui o dia todo. Eu desenrasco-me muito bem com o Stevie.”

Deixou o relógio solitário no patamar contar quinze tiquetaques no abismo da eternidade, e perguntou:

“Apago a luz?”

O Sr. Verloc respondeu à sua esposa com rispidez.

“Apaga.”

CAPÍTULO IX

O Sr. Verloc, regressando do Continente ao fim de dez dias, trazia uma mente evidentemente não refrescada pelas maravilhas das viagens estrangeiras e um semblante não iluminado pelas alegrias do regresso a casa. Entrou com o tilintar da campainha da loja com um ar de exaustão sombria e vexada. Com a mala na mão, a cabeça baixa, caminhou direto para trás do balcão e deixou-se cair na cadeira, como se tivesse vindo a pé desde Dover. Era de manhã cedo. Stevie, a limpar o pó a vários objetos expostos nas montras da frente, virou-se para ficar a olhá-lo com reverência e admiração.

“Toma!” disse o Sr. Verloc, dando um leve pontapé na mala Gladstone no chão; e Stevie atirou-se a ela, agarrou-a, levou-a embora com devoção triunfante. Foi tão pronto que o Sr. Verloc ficou distintamente surpreendido.

Já com o tilintar da campainha da loja, a Sra. Neale, a polir a grelha da sala de estar, tinha espreitado pela porta e, levantando-se dos joelhos, fora, de avental e suja pelo trabalho eterno, dizer à Sra. Verloc na cozinha que “o patrão tinha voltado”.

Winnie não foi mais longe do que a porta interior da loja.

“Vais querer o pequeno-almoço”, disse ela de longe.

O Sr. Verloc moveu levemente as mãos, como se estivesse vencido por uma sugestão impossível. Mas, uma vez atraído para a sala de estar, não rejeitou a comida que lhe foi posta à frente. Comeu como se estivesse num lugar público, o chapéu empurrado para trás da testa, as abas do seu pesado sobretudo penduradas em triângulo de cada lado da cadeira. E, ao longo da mesa coberta com oleado castanho, Winnie, a sua esposa, falava-lhe calmamente a conversa conjugal, tão engenhosamente adaptada, sem dúvida, às circunstâncias deste regresso como a conversa de Penélope ao regresso do errante Odisseu. A Sra. Verloc, contudo, não tinha feito tecelagem durante a ausência do marido. Mas tinha mandado limpar a fundo todo o quarto do andar de cima, vendido algumas mercadorias, visto o Sr. Michaelis várias vezes. Ele tinha-lhe dito da última vez que ia embora viver para uma casa de campo, algures na linha de London, Chatham, and Dover. Karl Yundt também tinha aparecido, uma vez, conduzido debaixo do braço por aquela “velha governanta malvada dele”. Ele era “um velho repugnante”. Do camarada Ossipon, que ela recebera com frieza, entrincheirada atrás do balcão com um rosto de pedra e um olhar distante, ela não disse nada, sendo a sua referência mental ao robusto anarquista marcada por uma curta pausa, com o mais leve rubor possível. E, trazendo o seu irmão Stevie o mais depressa que pôde para a corrente dos acontecimentos domésticos, mencionou que o rapaz tinha andado muito abatido.

“É tudo por causa da mãe nos ter deixado assim.”

O Sr. Verloc não disse “Diabo!” nem “Que se lixe o Stevie!”. E a Sra. Verloc, não iniciada no segredo dos seus pensamentos, não conseguiu apreciar a generosidade dessa contenção.

“Não é que ele não trabalhe tão bem como sempre”, continuou ela. “Tem sido muito útil. Dir-se-ia que não consegue fazer o suficiente por nós.”

O Sr. Verloc dirigiu um olhar casual e sonolento a Stevie, que se sentava à sua direita, delicado, de rosto pálido, a boca rosada aberta de forma vácua. Não foi um olhar crítico. Não tinha intenção. E se o Sr. Verloc pensou por um momento que o irmão da sua esposa parecia extraordinariamente inútil, foi apenas um pensamento baço e fugaz, desprovido daquela força e durabilidade que permite, por vezes, a um pensamento mover o mundo. Inclinando-se para trás, o Sr. Verloc descobriu a cabeça. Antes que o seu braço estendido pudesse pousar o chapéu, Stevie saltou sobre ele e levou-o reverentemente para a cozinha. E, mais uma vez, o Sr. Verloc ficou surpreendido.

“Podes fazer qualquer coisa com aquele rapaz, Adolf”, disse a Sra. Verloc, com o seu melhor ar de calma inflexível. “Ele atravessaria o fogo por ti. Ele…”

Ela fez uma pausa, atenta, com o ouvido virado para a porta da cozinha.

Lá dentro, a Sra. Neale estava a esfregar o chão. Ao aparecimento de Stevie, ela gemeu lamentavelmente, tendo observado que ele podia ser facilmente induzido a doar, em benefício dos seus filhos pequenos, o xelim que a sua irmã Winnie lhe dava de tempos a tempos. De gatas entre as poças, molhada e encardida, como uma espécie de animal anfíbio e doméstico que vive em caixotes do lixo e água suja, ela proferiu o exórdio habitual: “É muito fácil para ti, que ficas sem fazer nada como um cavalheiro.” E seguiu-se a queixa eterna dos pobres, pateticamente mentirosa, miseravelmente autenticada pelo hálito horrível de rum barato e água de sabão. Esfregou com força, fungando a todo o momento e falando de forma volúvel. E era sincera. E de cada lado do seu nariz fino e vermelho, os seus olhos turvos e nublados nadavam em lágrimas, porque sentia verdadeiramente a falta de algum tipo de estimulante de manhã.

Na sala de estar, a Sra. Verloc observou, com conhecimento de causa:

“Lá está a Sra. Neale outra vez com as suas histórias lancinantes sobre os filhos pequenos. Não podem ser todos tão pequenos como ela diz. Alguns deles já devem ter idade suficiente para tentar fazer algo por si próprios. Isso só faz com que o Stevie fique zangado.”

Estas palavras foram confirmadas por um baque, como o de um punho a bater na mesa da cozinha. Na evolução normal da sua simpatia, Stevie ficara zangado ao descobrir que não tinha nenhum xelim no bolso. Na sua incapacidade de aliviar imediatamente as privações dos “pequeninos” da Sra. Neale, sentia que alguém deveria ser obrigado a sofrer por isso. A Sra. Verloc levantou-se e foi à cozinha para “acabar com aquela parvoíce”. E fê-lo com firmeza, mas delicadeza. Ela sabia muito bem que, assim que a Sra. Neale recebia o seu dinheiro, ia à esquina beber bebidas espirituosas num pub mesquinho e bolorento — a paragem inevitável na via dolorosa da sua vida. O comentário da Sra. Verloc sobre esta prática tinha uma profundidade inesperada, vindo de uma pessoa pouco inclinada a olhar para debaixo da superfície das coisas. “Claro, o que é que ela há de fazer para se aguentar? Se eu fosse como a Sra. Neale, creio que não agiria de forma diferente.”

Na tarde do mesmo dia, enquanto o Sr. Verloc, saindo sobressaltado da última de uma longa série de sestas diante da lareira da sala de estar, declarava a sua intenção de sair para um passeio, Winnie disse da loja:

“Gostava que levasses aquele rapaz contigo, Adolf.”

Pela terceira vez naquele dia, o Sr. Verloc ficou surpreendido. Fitou a esposa estupidamente. Ela continuou com o seu modo sereno. O rapaz, sempre que não estava a fazer nada, andava abatido pela casa. Isso deixava-a inquieta; deixava-a nervosa, confessou ela. E isso, vindo da calma Winnie, soava a exagero. Mas, na verdade, Stevie andava abatido com o modo marcante de um animal doméstico infeliz. Subia ao patamar escuro, para se sentar no chão ao pé do relógio alto, com os joelhos encolhidos e a cabeça entre as mãos. Encontrar o seu rosto pálido, com os olhos grandes a brilhar no crepúsculo, era desconcertante; pensar nele lá em cima era incómodo.

O Sr. Verloc habituou-se à novidade surpreendente da ideia. Gostava da sua esposa como um homem deve gostar — isto é, generosamente. Mas uma objeção importante apresentou-se ao seu espírito, e ele formulou-a.

“Ele pode perder-me de vista, talvez, e perder-se na rua”, disse ele.

A Sra. Verloc abanou a cabeça com competência.

“Não perderá. Não o conheces. Aquele rapaz adora-te. Mas se o perderes…”

A Sra. Verloc fez uma pausa por um momento, mas apenas por um momento.

“Tu continua, e vai passear. Não te preocupes. Ele ficará bem. É certo que aparecerá são e salvo aqui antes de muito tempo.”

Este otimismo proporcionou ao Sr. Verloc a sua quarta surpresa do dia.

“Será?” resmungou ele, duvidoso. Mas talvez o seu cunhado não fosse um idiota tão grande como parecia. A sua esposa saberia melhor. Ele desviou os olhos pesados, dizendo com rispidez: “Bem, que venha então”, e caiu de novo nas garras do cuidado sombrio, que talvez prefira sentar-se atrás de um cavaleiro, mas que também sabe como seguir de perto os passos de pessoas não suficientemente abastadas para manter cavalos — como o Sr. Verloc, por exemplo.

Winnie, à porta da loja, não viu este acompanhante fatal dos passeios do Sr. Verloc. Observou as duas figuras ao longo da rua sórdida, uma alta e corpulenta, a outra leve e curta, com um pescoço fino e os ombros pontiagudos ligeiramente levantados sob as grandes orelhas semitransparentes. O material dos seus sobretudos era o mesmo, os seus chapéus eram pretos e de forma redonda. Inspirada pela semelhança do vestuário, a Sra. Verloc deu rédea solta à sua imaginação.

“Podiam ser pai e filho”, disse para consigo. Pensou também que o Sr. Verloc era o pai que o pobre Stevie alguma vez teve na vida. Estava também consciente de que era obra sua. E, com orgulho pacífico, congratulou-se por uma certa resolução que tinha tomado há alguns anos. Custara-lhe algum esforço e até algumas lágrimas.

Congratulou-se ainda mais ao observar, ao longo dos dias, que o Sr. Verloc parecia estar a ganhar gosto pela companhia de Stevie. Agora, quando pronto para sair para o seu passeio, o Sr. Verloc chamava o rapaz em voz alta, no espírito, sem dúvida, em que um homem convida a assistência do cão da casa, embora, claro, de uma forma diferente. Em casa, o Sr. Verloc podia ser visto a olhar curiosamente para Stevie com bastante frequência. O seu próprio comportamento tinha mudado. Taciturno ainda, não era tão apático. A Sra. Verloc achava que ele estava bastante sobressaltado por vezes. Poderia ter sido encarado como uma melhoria. Quanto a Stevie, já não andava abatido ao pé do relógio, mas resmungava sozinho pelos cantos, em vez disso, num tom ameaçador. Quando lhe perguntavam “O que é que estás a dizer, Stevie?”, ele apenas abria a boca e olhava de esguelha para a irmã. Por vezes, cerrava os punhos sem causa aparente e, quando descoberto na solidão, estaria a lançar olhares furiosos à parede, com a folha de papel e o lápis que lhe tinham dado para desenhar círculos a jazem vazios e inativos na mesa da cozinha. Isto era uma mudança, mas não era uma melhoria. A Sra. Verloc, incluindo todos estes caprichos sob a definição geral de agitação, começou a recear que Stevie estivesse a ouvir mais do que seria bom para ele das conversas do seu marido com os seus amigos. Durante os seus “passeios”, o Sr. Verloc, naturalmente, encontrava e conversava com várias pessoas. Dificilmente poderia ser de outra forma. Os seus passeios eram parte integrante das suas atividades ao ar livre, nas quais a sua esposa nunca tinha mergulhado profundamente. A Sra. Verloc sentia que a situação era delicada, mas enfrentava-a com a mesma calma impenetrável que impressionava e até espantava os clientes da loja e fazia com que os outros visitantes mantivessem um pouco de distância, maravilhados. Não! Ela receava que houvesse coisas que não eram boas para o Stevie ouvir, disse ao marido. Isso apenas excitava o pobre rapaz, porque ele não podia evitar que fossem assim. Ninguém podia.

Era na loja. O Sr. Verloc não fez comentários. Não replicou, e contudo a réplica era óbvia. Mas absteve-se de apontar à sua esposa que a ideia de tornar o Stevie o companheiro dos seus passeios era dela, e de mais ninguém. Naquele momento, para um observador imparcial, o Sr. Verloc teria parecido mais do que humano na sua magnanimidade. Tirou uma pequena caixa de cartão de uma prateleira, espreitou para dentro para ver se o conteúdo estava em ordem, e pousou-a suavemente no balcão. Só quando isso foi feito é que quebrou o silêncio, no sentido de que, muito provavelmente, o Stevie beneficiaria imenso em ser enviado para fora da cidade por algum tempo; só que supunha que a sua esposa não se conseguiria desenrascar sem ele.

“Não me conseguiria desenrascar sem ele!” repetiu a Sra. Verloc lentamente. “Não me conseguiria desenrascar sem ele se fosse para o bem dele! Que ideia! Claro que me consigo desenrascar sem ele. Mas não há nenhum lugar para onde ele possa ir.”

O Sr. Verloc tirou papel castanho e um novelo de cordel; e, entretanto, murmurou que Michaelis estava a viver numa pequena casa de campo no campo. O Michaelis não se importaria de dar ao Stevie um quarto para dormir. Não havia visitantes nem conversas lá. Michaelis estava a escrever um livro.

A Sra. Verloc declarou o seu afeto por Michaelis; mencionou a sua aversão por Karl Yundt, “velho nojento”; e de Ossipon não disse nada. Quanto a Stevie, não poderia deixar de ficar muito contente. O Sr. Michaelis era sempre tão simpático e gentil com ele. Parecia gostar do rapaz. Bem, o rapaz era um bom rapaz.

“Tu também pareces ter ganho bastante carinho por ele ultimamente”, acrescentou ela, após uma pausa, com a sua inflexível segurança.

O Sr. Verloc, a atar a caixa de cartão para enviar pelo correio, partiu o cordel com um puxão imprudente e murmurou várias palavras de baixo calão, confidencialmente para si próprio. Depois, elevando o tom para o habitual murmúrio rouco, anunciou a sua disposição de levar o Stevie para o campo ele próprio, e deixá-lo são e salvo com Michaelis.

Ele levou a cabo este plano logo no dia seguinte. Stevie não ofereceu qualquer objeção. Parecia até ansioso, de uma forma atordoada. Voltou o seu olhar cândido e inquisitivo para o semblante pesado do Sr. Verloc em intervalos frequentes, especialmente quando a sua irmã não estava a olhar para ele. A sua expressão era orgulhosa, apreensiva e concentrada, como a de uma criança pequena a quem se confia pela primeira vez uma caixa de fósforos e a permissão para riscar um lume. Mas a Sra. Verloc, gratificada pela docilidade do irmão, recomendou-lhe que não sujasse demasiado a roupa no campo. A isto, Stevie lançou à sua irmã, guardiã e protetora, um olhar que, pela primeira vez na sua vida, parecia carecer da qualidade de perfeita confiança infantil. Era arrogantemente sombrio. A Sra. Verloc sorriu.

“Valha-me Deus! Não precisas de ficar ofendido. Sabes que ficas mesmo muito desarrumado quando tens oportunidade, Stevie.”

O Sr. Verloc já ia a alguma distância pela rua.

Assim, como consequência dos procedimentos heroicos da sua mãe e da ausência do seu irmão nesta villegiatura, a Sra. Verloc viu-se mais vezes do que o habitual toda sozinha, não só na loja, mas na casa. Pois o Sr. Verloc tinha de dar os seus passeios. Ela esteve sozinha durante mais tempo do que o habitual no dia da tentativa de atentado à bomba no Greenwich Park, porque o Sr. Verloc saiu muito cedo nessa manhã e não voltou até quase ao anoitecer. Ela não se importava de estar sozinha. Não tinha qualquer desejo de sair. O tempo estava demasiado mau e a loja era mais acolhedora do que as ruas. Sentada atrás do balcão com alguma costura, não levantou os olhos do seu trabalho quando o Sr. Verloc entrou no tilintar agressivo da campainha. Tinha reconhecido os seus passos no passeio lá fora.

Não levantou os olhos, mas quando o Sr. Verloc, silencioso e com o chapéu enterrado na testa, se dirigiu diretamente para a porta da sala de estar, ela disse serenamente:

“Que dia miserável. Talvez tenhas ido ver o Stevie?”

“Não! Não fui”, disse o Sr. Verloc suavemente, e bateu com a porta envidraçada da sala de estar atrás de si com uma energia inesperada.

Durante algum tempo, a Sra. Verloc permaneceu imóvel, com o seu trabalho caído no colo, antes de o guardar debaixo do balcão e se levantar para acender o gás. Feito isto, entrou na sala de estar a caminho da cozinha. O Sr. Verloc quererá o seu chá dentro em pouco. Confiante no poder dos seus encantos, Winnie não esperava do seu marido, no convívio diário da sua vida conjugal, uma amabilidade cerimoniosa de trato e cortesia de maneiras; formas vãs e antiquadas, na melhor das hipóteses, provavelmente nunca muito exatamente observadas, descartadas hoje em dia até nas esferas mais altas, e sempre estranhas aos padrões da sua classe. Ela não esperava cortesias dele. Mas ele era um bom marido, e ela tinha um respeito leal pelos direitos dele.

A Sra. Verloc teria atravessado a sala de estar e seguido para os seus deveres domésticos na cozinha com a perfeita serenidade de uma mulher segura do poder dos seus encantos. Mas um som leve, muito leve e rápido de matraquear cresceu na sua audição. Bizarro e incompreensível, prendeu a atenção da Sra. Verloc. Depois, à medida que o seu caráter se tornou claro para o ouvido, ela parou subitamente, espantada e preocupada. Riscou um fósforo na caixa que segurava na mão e acendeu, acima da mesa da sala de estar, um dos dois bicos de gás que, sendo defeituosos, primeiro assobiaram como se estivessem espantados e depois continuaram a ronronar confortavelmente como um gato.

O Sr. Verloc, contra o seu costume, tinha tirado o sobretudo. Estava deitado no sofá. O seu chapéu, que também devia ter atirado, descansava virado ao contrário sob a extremidade do sofá. Tinha arrastado uma cadeira para a frente da lareira e, com os pés plantados dentro do para-fogo e a cabeça entre as mãos, estava debruçado sobre a grelha incandescente. Os seus dentes batiam com uma violência incontrolável, fazendo com que todas as suas costas enormes tremessem ao mesmo ritmo. A Sra. Verloc ficou sobressaltada.

— Apanhaste chuva — disse ela.

— Não muita — conseguiu balbuciar o Sr. Verloc, num estremecimento profundo. Com um grande esforço, suprimiu o bater dos dentes.

— Ainda vais ficar de cama às minhas custas — disse ela, com uma inquietação genuína.

— Não me parece — observou o Sr. Verloc, fungando de forma rouca.

Tinha, certamente, conseguido arranjar uma constipação abominável entre as sete da manhã e as cinco da tarde. A Sra. Verloc olhou para as suas costas curvadas.

— Onde estiveste hoje? — perguntou ela.

— Em lado nenhum — respondeu o Sr. Verloc num tom nasal baixo e abafado. A sua atitude sugeria um amuo ressentido ou uma forte dor de cabeça. A insuficiência e a falta de franqueza da sua resposta tornaram-se dolorosamente evidentes no silêncio morto da sala. Ele fungou de forma desculpante e acrescentou: — Estive no banco.

A Sra. Verloc ficou atenta.

— Estiveste! — disse ela, imparcial. — Para quê?

O Sr. Verloc murmurou, com o nariz sobre a grelha e uma relutância marcada.

— Levantar o dinheiro!

— O que queres dizer? Todo?

— Sim. Todo.

A Sra. Verloc estendeu com cuidado a toalha de mesa escassa, tirou duas facas e dois garfos da gaveta da mesa e parou subitamente nos seus procedimentos metódicos.

— Porque é que fizeste isso?

— Pode fazer falta em breve — fungou vagamente o Sr. Verloc, que estava a chegar ao fim das suas indiscrições calculadas.

— Não percebo o que queres dizer — observou a esposa, num tom perfeitamente casual, mas mantendo-se imóvel entre a mesa e o armário.

— Sabes que podes confiar em mim — observou o Sr. Verloc para a grelha, com um sentimento rouco.

A Sra. Verloc virou-se lentamente para o armário, dizendo com deliberação:

— Ah, sim. Posso confiar em ti.

E continuou com os seus procedimentos metódicos. Pôs dois pratos, foi buscar o pão, a manteiga, indo e vindo silenciosamente entre a mesa e o armário na paz e no silêncio do seu lar. Prestes a tirar a compota, refletiu de forma prática: "Ele vai sentir fome, por ter estado fora o dia todo", e voltou ao armário mais uma vez para buscar a carne fria. Colocou-a sob o bico de gás que roncava e, com um olhar fugaz para o marido imóvel que se aquecia ao lume, entrou (descendo dois degraus) na cozinha. Foi apenas ao voltar, com a faca de trinchar e o garfo na mão, que voltou a falar.

— Se eu não confiasse em ti, não me teria casado contigo.

Curvado sob a cornija da lareira, o Sr. Verloc, segurando a cabeça com ambas as mãos, parecia ter adormecido. Winnie preparou o chá e chamou num tom baixo:

— Adolf.

O Sr. Verloc levantou-se imediatamente e cambaleou um pouco antes de se sentar à mesa. A esposa, examinando o fio afiado da faca de trinchar, colocou-a no prato e chamou-lhe a atenção para a carne fria. Ele permaneceu insensível à sugestão, com o queixo sobre o peito.

— Devias alimentar a tua constipação — disse a Sra. Verloc dogmaticamente.

Ele olhou para cima e abanou a cabeça. Os seus olhos estavam injetados de sangue e o rosto vermelho. Os seus dedos tinham despenteado o cabelo numa desordem dissipada. No geral, tinha um aspeto pouco recomendável, expressando o desconforto, a irritação e a melancolia que se seguem a uma grande bebedeira. Mas o Sr. Verloc não era um homem dado a excessos. Na sua conduta, era respeitável. A sua aparência poderia ter sido o efeito de uma constipação febril. Bebeu três chávenas de chá, mas absteve-se completamente de comer. Recuou com uma aversão sombria quando instado pela Sra. Verloc, que disse a dada altura:

— Não tens os pés molhados? Era melhor calçares as tuas pantufas. Já não vais sair mais esta noite.

O Sr. Verloc deu a entender, com grunhidos e sinais morosos, que os seus pés não estavam molhados e que, de qualquer forma, não se importava. A proposta quanto às pantufas foi ignorada por estar abaixo da sua consideração. Mas a questão de sair à noite teve um desenvolvimento inesperado. Não era em sair à noite que o Sr. Verloc estava a pensar. Os seus pensamentos abrangiam um plano mais vasto. De frases melancólicas e incompletas, tornou-se evidente que o Sr. Verloc tinha estado a considerar a conveniência de emigrar. Não era muito claro se tinha em mente a França ou a Califórnia.

A total imprevisibilidade, improbabilidade e inconcebibilidade de tal evento roubaram a esta vaga declaração todo o seu efeito. A Sra. Verloc, tão placidamente como se o marido a estivesse a ameaçar com o fim do mundo, disse:

— Que ideia!

O Sr. Verloc declarou-se farto e cansado de tudo e, além disso... Ela interrompeu-o.

— Tens uma constipação forte.

Era, de facto, óbvio que o Sr. Verloc não estava no seu estado habitual, física e até mentalmente. Uma indecisão sombria manteve-o em silêncio durante algum tempo. Depois, murmurou algumas generalidades ominosas sobre o tema da necessidade.

— Terá de ser — repetiu Winnie, sentando-se calmamente, com os braços cruzados, em frente ao marido. — Gostava de saber quem é que te obriga. Não és um escravo. Ninguém precisa de ser escravo neste país — e não te faças de um. — Ela hesitou e, com uma candura invencível e firme: — O negócio não é assim tão mau — continuou ela. — Tens um lar confortável.

Ela lançou um olhar por toda a sala de estar, desde o armário de canto até ao bom fogo na grelha. Aconchegada confortavelmente atrás da loja de mercadorias duvidosas, com a sua janela misteriosamente baça e a porta suspeitosamente entreaberta na rua obscura e estreita, era, em todos os aspetos de propriedade e conforto domésticos, um lar respeitável. O seu afeto dedicado sentia falta do seu irmão Stevie, que desfrutava agora de uma villegiatura húmida nas veredas de Kent sob os cuidados do Sr. Michaelis. Ela sentia a sua falta de forma pungente, com toda a força da sua paixão protetora. Este também era o lar do rapaz — o teto, o armário, a grelha acesa. Com este pensamento, a Sra. Verloc levantou-se e, caminhando até à outra extremidade da mesa, disse com o coração cheio:

— E tu não estás farto de mim.

O Sr. Verloc não emitiu qualquer som. Winnie debruçou-se sobre o seu ombro por trás e pressionou os lábios na sua testa. Assim permaneceu. Nem um sussurro os alcançou do mundo exterior.

O som de passos no pavimento morreu na discrição baça da loja. Apenas o bico de gás acima da mesa continuava a ronronar de forma equável no silêncio meditativo da sala.

Durante o contacto daquele beijo inesperado e prolongado, o Sr. Verloc, agarrando com ambas as mãos as extremidades da cadeira, preservou uma imobilidade hierática. Quando a pressão foi removida, soltou a cadeira, levantou-se e foi colocar-se diante da lareira. Já não virava as costas à sala. Com as feições inchadas e um ar de estar drogado, seguia os movimentos da esposa com os olhos.

A Sra. Verloc movia-se serenamente, limpando a mesa. A sua voz tranquila comentava a ideia lançada num tom razoável e doméstico. Não resistiria a uma análise. Ela condenou-a de todos os pontos de vista. Mas a sua única preocupação real era o bem-estar de Stevie. Ele aparecia-lhe no pensamento, a esse respeito, como suficientemente "peculiar" para não ser levado de ânimo leve para o estrangeiro. E era só isso. Mas, falando em torno desse ponto vital, aproximou-se da veemência absoluta na sua exposição. Entretanto, com movimentos bruscos, vestiu um avental para lavar as chávenas. E, como se estivesse excitada pelo som da sua voz não contrariada, chegou ao ponto de dizer num tom quase azedo:

— Se fores para o estrangeiro, terás de ir sem mim.

— Sabes que eu não iria — disse o Sr. Verloc, de forma rouca, e a voz sem ressonância da sua vida privada tremeu com uma emoção enigmática.

A Sra. Verloc já se estava a arrepender das suas palavras. Tinham soado mais cruéis do que a sua intenção. Tinham também a imprudência das coisas desnecessárias. Na verdade, ela não tinha querido dizer nada daquilo. Era o tipo de frase sugerida pelo demónio da inspiração perversa. Mas ela sabia uma forma de fazer com que fosse como se nunca tivesse existido.

Virou a cabeça por cima do ombro e lançou àquele homem, plantado pesadamente em frente à lareira, um olhar, metade atrevido, metade cruel, dos seus grandes olhos — um olhar do qual a Winnie dos tempos da mansão de Belgravia teria sido incapaz, devido à sua respeitabilidade e ignorância. Mas o homem era agora o seu marido e ela já não era ignorante. Manteve o olhar nele durante um segundo inteiro, com o rosto grave imóvel como uma máscara, enquanto dizia, de forma brincalhona:

— Não podias. Sentirias demasiado a minha falta.

O Sr. Verloc avançou de repente.

— Exatamente — disse ele num tom mais alto, lançando os braços e dando um passo em direção a ela. Algo de selvagem e duvidoso na sua expressão tornava incerto se ele pretendia estrangular ou abraçar a esposa. Mas a atenção da Sra. Verloc foi desviada dessa manifestação pelo barulho da campainha da loja.

— Loja, Adolf. Vai tu.

Ele parou, os seus braços desceram lentamente.

— Vai tu — repetiu a Sra. Verloc. — Tenho o avental posto.

O Sr. Verloc obedeceu mecanicamente, com olhos de pedra, e como um autómato cujo rosto tinha sido pintado de vermelho. E esta semelhança com uma figura mecânica ia tão longe que ele tinha o ar absurdo de um autómato que está ciente da maquinaria dentro de si.

Ele fechou a porta da sala e a Sra. Verloc, movendo-se agilmente, levou o tabuleiro para a cozinha. Lavou as chávenas e algumas outras coisas antes de parar o seu trabalho para ouvir. Nenhum som a alcançou. O cliente estava há muito tempo na loja. Era um cliente, pois se não fosse, o Sr. Verloc tê-lo-ia levado para dentro. Desatando os laços do avental com um puxão, atirou-o para uma cadeira e voltou para a sala de estar lentamente.

Nesse preciso momento, o Sr. Verloc entrou vindo da loja.

Tinha entrado vermelho. Saiu de um branco papiráceo estranho. O seu rosto, perdendo o seu estupor febril e drogado, tinha adquirido, naquele curto espaço de tempo, uma expressão confusa e perturbada. Caminhou diretamente para o sofá e ficou parado a olhar para o seu sobretudo ali deitado, como se tivesse medo de lhe tocar.

— Que se passa? — perguntou a Sra. Verloc com uma voz contida. Através da porta deixada entreaberta, podia ver que o cliente ainda não se tinha ido embora.

— Descobri que tenho de sair esta noite — disse o Sr. Verloc. Não tentou pegar na sua peça de vestuário exterior.

Sem uma palavra, Winnie dirigiu-se à loja e, fechando a porta atrás de si, caminhou para trás do balcão. Não olhou abertamente para o cliente até se ter estabelecido confortavelmente na cadeira. Mas, por essa altura, já tinha notado que ele era alto e magro, e usava os bigodes torcidos para cima. De facto, ele deu às pontas aguçadas uma torção naquele momento. O seu rosto longo e ossudo erguia-se de um colarinho virado para cima. Estava um pouco salpicado, um pouco húmido. Um homem moreno, com o cume da maçã do rosto bem definido sob a têmpora ligeiramente côncava. Um completo estranho. Nem sequer um cliente.

A Sra. Verloc olhou para ele placidamente.

— Veio do Continente? — disse ela após algum tempo.

O estranho, longo e fino, sem olhar exatamente para a Sra. Verloc, respondeu apenas com um sorriso ténue e peculiar.

O olhar fixo e pouco curioso da Sra. Verloc repousou nele.

— Compreende inglês, não compreende?

— Oh, sim. Compreendo inglês.

Não havia nada de estrangeiro no seu sotaque, exceto que ele parecia, na sua enunciação lenta, estar a esforçar-se com ele. E a Sra. Verloc, na sua variada experiência, tinha chegado à conclusão de que alguns estrangeiros podiam falar melhor inglês do que os nativos. Ela disse, olhando fixamente para a porta da sala:

— Não pensa, talvez, ficar em Inglaterra para sempre?

O estranho deu-lhe de novo um sorriso silencioso. Ele tinha uma boca bondosa e olhos indagadores. E abanou a cabeça um pouco tristemente, ao que parecia.

— O meu marido tratará de tudo. Entretanto, por alguns dias, não faria melhor do que ficar alojado com o Sr. Giugliani. Hotel Continental, chama-se. Privado. É sossegado. O meu marido levá-lo-á lá.

— Uma boa ideia — disse o homem magro e moreno, cujo olhar endurecera subitamente.

— Conhecia o Sr. Verloc de antes — não conhecia? Talvez em França?

— Ouvi falar dele — admitiu o visitante no seu tom lento e trabalhoso, que ainda assim tinha uma certa brusquidão de intenção.

Houve uma pausa. Depois, ele falou de novo, de uma forma muito menos elaborada.

— O seu marido não terá saído por acaso para ficar à minha espera na rua?

— Na rua! — repetiu a Sra. Verloc, surpreendida. — Ele não podia. Não há outra porta para a casa.

Por um momento, ela sentou-se impassível, depois deixou o seu lugar para ir espreitar através da porta envidraçada. De repente, abriu-a e desapareceu na sala de estar.

O Sr. Verloc não tinha feito mais do que vestir o seu sobretudo. Mas por que razão ele deveria ficar depois a inclinar-se sobre a mesa, apoiado nos seus dois braços como se estivesse a sentir-se tonto ou enjoado, ela não conseguia compreender. "Adolf", chamou ela em voz alta; e quando ele se levantou:

— Conheces aquele homem? — perguntou ela rapidamente.

— Ouvi falar dele — sussurrou o Sr. Verloc, inquieto, lançando um olhar selvagem para a porta.

Os olhos finos e pouco curiosos da Sra. Verloc iluminaram-se com um lampejo de abominação.

— Um dos amigos do Karl Yundt — velho asqueroso.

— Não! Não! — protestou o Sr. Verloc, ocupado a pescar o seu chapéu. Mas quando o tirou debaixo do sofá, segurou-o como se não soubesse o uso de um chapéu.

— Bem... ele está à tua espera — disse a Sra. Verloc finalmente. — Digo-te, Adolf, ele não é um daquelas pessoas da Embaixada com quem te tens preocupado ultimamente?

— Preocupado com pessoas da Embaixada — repetiu o Sr. Verloc, com um pesado sobressalto de surpresa e medo. — Quem é que te tem falado das pessoas da Embaixada?

— Tu próprio.

— Eu! Eu! Falei-te da Embaixada!

O Sr. Verloc parecia assustado e confuso além da medida. A sua esposa explicou:

— Tens falado um pouco a dormir ultimamente, Adolf.

— O quê... o que é que eu disse? O que é que tu sabes?

— Nada de especial. Parecia principalmente disparates. O suficiente para me deixar adivinhar que algo te preocupava.

O Sr. Verloc enfiou o chapéu na cabeça. Uma onda carmesim de raiva percorreu o seu rosto.

— Disparates... eh? As pessoas da Embaixada! Eu arrancava-lhes o coração um a um. Mas que tenham cuidado. Eu tenho língua na boca.

Ele fumegou, andando de um lado para o outro entre a mesa e o sofá, com o sobretudo aberto a prender nos cantos. A onda vermelha de raiva esmoreceu e deixou o seu rosto todo branco, com as narinas a tremer. A Sra. Verloc, para efeitos de existência prática, atribuiu estas aparências à constipação.

— Bem — disse ela, — livra-te do homem, seja ele quem for, assim que puderes, e volta para casa. Precisas de ser cuidado durante um ou dois dias.

O Sr. Verloc acalmou-se e, com a resolução impressa no seu rosto pálido, já tinha aberto a porta, quando a sua esposa o chamou de volta num sussurro:

— Adolf! Adolf! — Ele voltou sobressaltado. — E aquele dinheiro que levantaste? — perguntou ela. — Tens no bolso? Não era melhor...

O Sr. Verloc olhou estupidamente para a palma da mão estendida da esposa durante algum tempo antes de bater na testa.

— Dinheiro! Sim! Sim! Não sabia o que querias dizer.

Tirou do bolso do peito uma carteira nova de pele de porco. A Sra. Verloc recebeu-a sem mais uma palavra e ficou parada até que a campainha, tilintando atrás do Sr. Verloc e do visitante do Sr. Verloc, se tivesse acalmado. Só então espreitou o montante, tirando as notas para esse fim. Após esta inspeção, olhou pensativa em volta, com um ar de desconfiança perante o silêncio e a solidão da casa. Esta habitação da sua vida de casada parecia-lhe tão solitária e insegura como se estivesse situada no meio de uma floresta. Nenhum recipiente em que pudesse pensar, entre o mobiliário sólido e pesado, parecia outra coisa senão frágil e particularmente tentador para a sua conceção de um ladrão de casas. Era uma conceção ideal, dotada de faculdades sublimes e uma perceção milagrosa. A caixa não era de considerar. Era o primeiro lugar para onde um ladrão se dirigiria. A Sra. Verloc, desapertando apressadamente um par de colchetes, deslizou a carteira para debaixo do corpete do seu vestido. Tendo assim disposto do capital do seu marido, ficou bastante satisfeita por ouvir o tilintar da campainha da porta, anunciando uma chegada. Assumindo o olhar fixo e imperturbável e a expressão de pedra reservada para o cliente ocasional, caminhou para trás do balcão.

Um homem, parado no meio da loja, inspecionava-a com um olhar rápido, frio e abrangente. Os seus olhos percorreram as paredes, absorveram o teto, notaram o chão — tudo num momento. As pontas de um bigode longo e claro caíam abaixo da linha do maxilar. Ele sorriu o sorriso de um velho, ainda que distante, conhecido, e a Sra. Verloc lembrou-se de o ter visto antes. Não era um cliente. Ela suavizou o seu "olhar de cliente" para mera indiferença e enfrentou-o do outro lado do balcão.

Ele aproximou-se, da sua parte, de forma confidencial, mas não demasiado marcada.

— Marido em casa, Sra. Verloc? — perguntou ele num tom fácil e cheio.

— Não. Saiu.

— Lamento isso. Vim para obter dele uma pequena informação privada.

Esta era a exata verdade. O Inspetor-Chefe Heat tinha ido até casa e tinha mesmo chegado ao ponto de pensar em calçar as suas pantufas, uma vez que, praticamente, estava, dizia ele a si próprio, fora daquele caso. Entregou-se a alguns pensamentos de desdém e a alguns de raiva, e achou a ocupação tão insatisfatória que resolveu procurar alívio ao ar livre. Nada o impedia de fazer uma visita amigável ao Sr. Verloc, casualmente, por assim dizer. Foi no caráter de um cidadão privado que, saindo privadamente, fez uso dos seus meios de transporte habituais. A sua direção geral era para a casa do Sr. Verloc. O Inspetor-Chefe Heat respeitava o seu próprio caráter privado tão consistentemente que se esforçou especialmente por evitar todos os polícias na ronda e no serviço de patrulha nas proximidades de Brett Street. Esta precaução era muito mais necessária para um homem da sua categoria do que para um obscuro Comissário Assistente. O Cidadão Privado Heat entrou na rua, manobrando de uma forma que, num membro das classes criminosas, teria sido estigmatizada como sorrateira. O pedaço de pano recolhido em Greenwich estava no seu bolso. Não que tivesse a mínima intenção de o produzir na sua capacidade privada. Pelo contrário, queria saber exatamente o que o Sr. Verloc estaria disposto a dizer voluntariamente. Esperava que a conversa do Sr. Verloc fosse de natureza a incriminar Michaelis. Era uma esperança conscienciosamente profissional no essencial, mas não sem o seu valor moral. Pois o Inspetor-Chefe Heat era um servidor da justiça. Ao encontrar o Sr. Verloc fora de casa, sentiu-se desapontado.

— Esperaria por ele um pouco se tivesse a certeza de que ele não demoraria — disse ele.

A Sra. Verloc não se ofereceu para qualquer garantia de qualquer tipo.

— A informação de que preciso é bastante privada — repetiu ele. — Compreende o que quero dizer? Gostava de saber se me pode dar uma ideia de para onde ele foi?

A Sra. Verloc abanou a cabeça.

— Não sei dizer.

Ela virou-se para arrumar algumas caixas nas prateleiras atrás do balcão. O Inspetor-Chefe Heat olhou-a pensativamente durante algum tempo.

— Suponho que saiba quem eu sou? — disse ele.

A Sra. Verloc olhou por cima do ombro. O Inspetor-Chefe Heat ficou espantado com a sua frieza.

— Vamos lá! Sabe que sou da polícia — disse ele bruscamente.

— Não me preocupo muito com isso — observou a Sra. Verloc, regressando à arrumação das suas caixas.

— O meu nome é Heat. Inspetor-Chefe Heat da secção de Crimes Especiais.

A Sra. Verloc ajustou cuidadosamente no seu lugar uma pequena caixa de cartão e, virando-se, enfrentou-o de novo, com olhos pesados e mãos ociosas pendentes. Um silêncio reinou durante algum tempo.

— Então o seu marido saiu há um quarto de hora! E ele não disse quando voltaria?

— Ele não saiu sozinho — deixou cair a Sra. Verloc negligentemente.

— Um amigo?

A Sra. Verloc tocou na parte de trás do cabelo. Estava em perfeita ordem.

— Um estranho que veio cá.

— Percebo. Que espécie de homem era esse estranho? Importar-se-ia de me dizer?

A Sra. Verloc não se importava. E quando o Inspetor-Chefe Heat ouviu falar de um homem moreno, magro, de rosto comprido e bigodes revirados, deu sinais de perturbação e exclamou:

— Que me levem se eu não pensava nisso! Ele não perdeu tempo.

Sentia um nojo intenso no segredo do seu coração pela conduta não oficial do seu chefe imediato. Mas não era quixotesco. Perdeu todo o desejo de aguardar o regresso do Sr. Verloc. O que tinham ido fazer, não sabia, mas imaginou ser possível que regressassem juntos. O caso não está a ser seguido como deve ser, está a ser adulterado, pensou amargamente.

— Receio não ter tempo para esperar pelo seu marido — disse ele.

A Sra. Verloc recebeu esta declaração com apatia. O seu distanciamento impressionara o Inspetor-Chefe Heat desde o início. Neste preciso momento, isso aguuçou-lhe a curiosidade. O Inspetor-Chefe Heat ficou hesitante, balançado pelas suas paixões como o mais comum dos cidadãos privados.

— Penso — disse ele, olhando-a fixamente — que me poderia dar uma ideia bastante clara do que se está a passar, se quisesse.

Forçando os seus olhos belos e inertes a devolverem-lhe o olhar, a Sra. Verloc murmurou:

— A passar! O que é que se está a passar?

— Ora, o caso sobre o qual vim falar um pouco com o seu marido.

Naquele dia, a Sra. Verloc tinha espreitado um jornal da manhã como de costume. Mas não tinha saído de casa. Os ardinas nunca invadiam a Brett Street. Não era uma rua para o negócio deles. E o eco dos seus gritos, derivando pelas artérias populosas, expirava entre as paredes de tijolo sujo sem chegar ao limiar da loja. O seu marido não tinha trazido um jornal da tarde para casa. De qualquer modo, ela não o tinha visto. A Sra. Verloc não sabia absolutamente nada sobre qualquer caso. E disse-o, com uma nota genuína de espanto na sua voz calma.

O Inspetor-Chefe Heat não acreditou nem por um momento em tanta ignorância. De forma seca, sem amabilidade, expôs o facto cru.

A Sra. Verloc desviou o olhar.

— Acho isso parvo — pronunciou ela lentamente. Fez uma pausa. — Nós não somos escravos oprimidos aqui.

O Inspetor-Chefe esperou, atento. Não veio mais nada.

— E o seu marido não lhe mencionou nada quando chegou a casa?

A Sra. Verloc simplesmente virou o rosto da direita para a esquerda em sinal de negação. Um silêncio lânguido e desconcertante reinava na loja. O Inspetor-Chefe Heat sentiu-se provocado para além da resistência.

— Havia outro pequeno assunto — começou ele num tom distante —, sobre o qual eu queria falar com o seu marido. Chegou às nossas mãos um—um—o que acreditamos ser—um sobretudo roubado.

A Sra. Verloc, com a mente especialmente alerta para ladrões naquela noite, tocou levemente no peito do seu vestido.

— Não perdemos nenhum sobretudo — disse ela calmamente.

— Isso é engraçado — continuou o Cidadão Privado Heat. — Vejo que guarda aqui muita tinta de marcação...

Pegou num pequeno frasco e olhou para ele contra o bico de gás no meio da loja.

— Púrpura — não é? — comentou, voltando a pousá-lo. — Como disse, é estranho. Porque o sobretudo tem uma etiqueta cosida no interior com o seu endereço escrito a tinta de marcação.

A Sra. Verloc inclinou-se sobre o balcão com uma exclamação contida.

— Então é do meu irmão.

— Onde está o seu irmão? Posso vê-lo? — perguntou o Inspetor-Chefe prontamente. A Sra. Verloc inclinou-se um pouco mais sobre o balcão.

— Não. Ele não está aqui. Fui eu que escrevi essa etiqueta.

— Onde está o seu irmão agora?

— Tem estado fora a viver com... um amigo... no campo.

— O sobretudo vem do campo. E qual é o nome do amigo?

— Michaelis — confessou a Sra. Verloc num sussurro reverente.

O Inspetor-Chefe soltou um assobio. Os seus olhos estalaram.

— Exatamente. Ótimo. E o seu irmão, agora, como é ele... um tipo robusto e moreno... eh?

— Oh, não — exclamou a Sra. Verloc fervorosamente. — Esse deve ser o ladrão. O Stevie é franzino e claro.

— Bom — disse o Inspetor-Chefe num tom de aprovação. E enquanto a Sra. Verloc, hesitante entre o alarme e o espanto, o encarava, ele procurou informações. Por que ter o endereço cosido desta forma dentro do casaco? E ouviu que os restos mutilados que tinha inspecionado naquela manhã com extrema repugnância eram os de um jovem, nervoso, distraído, peculiar, e também que a mulher que falava com ele tinha ficado com o encargo daquele rapaz desde bebé.

— Facilmente excitável? — sugeriu ele.

— Oh, sim. Ele é. Mas como é que ele perdeu o casaco...

O Inspetor-Chefe Heat tirou subitamente um jornal cor-de-rosa que tinha comprado há menos de meia hora. Ele interessava-se por cavalos. Forçado pela sua profissão a uma atitude de dúvida e suspeita para com os seus concidadãos, o Inspetor-Chefe Heat aliviava o instinto de credulidade implantado no peito humano depositando uma fé ilimitada nos profetas desportivos daquela publicação vespertina em particular. Lançando a edição especial sobre o balcão, mergulhou a mão novamente no bolso e, tirando o pedaço de pano que o destino lhe tinha apresentado a partir de um monte de coisas que pareciam ter sido recolhidas em talhos e lojas de trapos, ofereceu-o à Sra. Verloc para inspeção.

— Suponho que reconheça isto?

Ela pegou nele mecanicamente com ambas as mãos. Os seus olhos pareciam aumentar à medida que olhava.

— Sim — sussurrou ela, depois levantou a cabeça e cambaleou um pouco para trás.

— Por que razão está arrancado assim?

O Inspetor-Chefe arrancou o pano das mãos dela por cima do balcão, e ela sentou-se pesadamente na cadeira. Ele pensou: a identificação é perfeita. E naquele momento teve um vislumbre de toda a verdade espantosa. Verloc era o "outro homem".

— Sra. Verloc — disse ele —, parece-me que a senhora sabe mais sobre este caso da bomba do que a própria admite.

A Sra. Verloc permaneceu sentada, surpreendida, perdida num espanto sem limites. Qual era a ligação? E ficou tão rígida por todo o corpo que não foi capaz de virar a cabeça ao tilintar da campainha, o que levou o investigador privado Heat a girar sobre o calcanhar. O Sr. Verloc tinha fechado a porta e, por um momento, os dois homens olharam um para o outro.

O Sr. Verloc, sem olhar para a esposa, caminhou até ao Inspetor-Chefe, que ficou aliviado ao vê-lo regressar sozinho.

— Você aqui! — murmurou o Sr. Verloc pesadamente. — Atrás de quem você vem?

— De ninguém — disse o Inspetor-Chefe Heat num tom baixo. — Olhe, queria trocar duas palavras consigo.

O Sr. Verloc, ainda pálido, trazia um ar de resolução consigo. Ainda assim, não olhou para a esposa. Disse:

— Entre aqui, então. — E abriu o caminho para a sala.

A porta mal se tinha fechado quando a Sra. Verloc, saltando da cadeira, correu para ela como se a fosse abrir de rompante, mas, em vez disso, caiu de joelhos, com o ouvido na fechadura. Os dois homens deviam ter parado assim que entraram, porque ela ouviu claramente a voz do Inspetor-Chefe, embora não pudesse ver o dedo dele pressionado enfaticamente contra o peito do marido.

— Você é o outro homem, Verloc. Viram dois homens a entrar no parque.

E a voz do Sr. Verloc disse:

— Bem, leve-me agora. O que o impede? Você tem o direito.

— Oh, não! Sei muito bem a quem você se tem entregado. Ele que trate deste pequeno assunto sozinho. Mas não se engane, fui eu que o descobri a si.

Depois, ela só ouviu murmúrios. O Inspetor Heat devia estar a mostrar ao Sr. Verloc o pedaço do sobretudo do Stevie, porque a irmã, guardiã e protetora de Stevie ouviu o marido um pouco mais alto.

— Nunca reparei que ela tivesse descoberto esse truque.

Mais uma vez, durante algum tempo, a Sra. Verloc não ouviu nada além de murmúrios, cuja misteriosidade era menos pesadelesca para o seu cérebro do que as sugestões horríveis de palavras formadas. Então, o Inspetor-Chefe Heat, do outro lado da porta, levantou a voz.

— Você deve ter ficado louco.

E a voz do Sr. Verloc respondeu, com uma espécie de fúria sombria:

— Estive louco há um mês ou mais, mas não estou louco agora. Acabou-se. Tudo sairá da minha cabeça, e que se lixem as consequências.

Houve um silêncio, e depois o Cidadão Privado Heat murmurou:

— O que é que vai sair?

— Tudo — exclamou a voz do Sr. Verloc, e depois baixou muito.

Passado algum tempo, voltou a subir.

— Você conhece-me há vários anos, e também me achou útil. Você sabe que eu era um homem direito. Sim, direito.

Este apelo ao velho conhecimento deve ter sido extremamente desagradável para o Inspetor-Chefe.

A sua voz assumiu um tom de aviso.

— Não confie tanto no que lhe prometeram. Se eu fosse você, punha-me ao fresco. Não creio que vamos correr atrás de si.

Ouviu-se o Sr. Verloc soltar uma pequena risada.

— Oh, sim; você espera que os outros se livrem de mim por si... não é? Não, não; você não me despacha agora. Fui um homem direito para essa gente durante demasiado tempo, e agora tudo tem de vir cá fora.

— Que venha cá fora, então — assentiu a voz indiferente do Inspetor-Chefe Heat. — Mas diga-me agora, como é que você escapou.

— Eu estava a dirigir-me para Chesterfield Walk — ouviu a Sra. Verloc a voz do marido —, quando ouvi o estrondo. Foi então que comecei a correr. Nevoeiro. Não vi ninguém até passar o fim da George Street. Não me parece que tenha encontrado alguém até lá.

— Tão fácil quanto isso! — maravilhou-se a voz do Inspetor-Chefe Heat. — O estrondo assustou-o, eh?

— Sim; veio cedo demais — confessou a voz sombria e rouca do Sr. Verloc.

A Sra. Verloc pressionou o ouvido contra a fechadura; os seus lábios estavam azuis, as suas mãos frias como gelo, e o seu rosto pálido, no qual os dois olhos pareciam dois buracos negros, sentia-se como se estivesse envolvido em chamas.

Do outro lado da porta, as vozes baixaram muito. Ela apanhava palavras de vez em quando, às vezes na voz do marido, outras vezes nos tons suaves do Inspetor-Chefe. Ouviu este último dizer:

— Acreditamos que ele tropeçou na raiz de uma árvore?

Houve um murmúrio rouco e loquaz, que durou algum tempo, e depois o Inspetor-Chefe, como se respondesse a alguma pergunta, falou enfaticamente.

— Claro. Feito em mil pedaços: membros, gravilha, roupa, ossos, lascas... tudo misturado. Digo-lhe que tiveram de ir buscar uma pá para o recolher.

A Sra. Verloc levantou-se subitamente da sua posição agachada e, tapando os ouvidos, cambaleou para um lado e para o outro entre o balcão e as prateleiras na parede em direção à cadeira. Os seus olhos loucos notaram a folha desportiva deixada pelo Inspetor-Chefe e, ao bater contra o balcão, agarrou-a, caiu na cadeira, rasgou a folha otimista e cor-de-rosa ao meio ao tentar abri-la e, depois, atirou-a para o chão. Do outro lado da porta, o Inspetor-Chefe Heat dizia ao Sr. Verloc, o agente secreto:

— Então a sua defesa será praticamente uma confissão completa?

— Será. Vou contar a história toda.

— Não vão acreditar em si tanto quanto você imagina.

E o Inspetor-Chefe permaneceu pensativo. O rumo que este caso estava a tomar significava a revelação de muitas coisas — a devastação de campos de conhecimento que, cultivados por um homem capaz, tinham um valor distinto para o indivíduo e para a sociedade. Era uma intromissão lamentável, lamentável. Deixaria Michaelis incólume; traria à luz a indústria caseira do Professor; desorganizaria todo o sistema de vigilância; faria um alarido sem fim nos jornais, que, desse ponto de vista, lhe pareceram por uma iluminação súbita como sendo invariavelmente escritos por tolos para a leitura de imbecis. Mentalmente, concordou com as palavras que o Sr. Verloc deixou escapar finalmente em resposta à sua última observação.

— Talvez não. Mas vai transtornar muitas coisas. Fui um homem direito, e serei direito nisto...

— Se eles o deixarem — disse o Inspetor-Chefe cinicamente. — Será alvo de sermões, sem dúvida, antes de o porem no banco dos réus. E no final ainda pode vir a apanhar uma sentença que o surpreenderá. Eu não confiaria demasiado no cavalheiro que tem estado a falar consigo.

O Sr. Verloc ouviu, franzindo o sobrolho.

— O meu conselho para si é que se ponha ao fresco enquanto pode. Não tenho instruções. Há alguns deles — continuou o Inspetor-Chefe Heat, dando um peso peculiar à palavra "eles" —, que pensam que você já não está neste mundo.

— A sério! — o Sr. Verloc sentiu-se impelido a dizer. Embora desde o seu regresso de Greenwich tivesse passado a maior parte do tempo sentado na sala de um pequeno e obscuro bar, dificilmente poderia ter esperado notícias tão favoráveis.

— Essa é a impressão sobre si. — O Inspetor-Chefe assentiu para ele. — Desapareça. Ponha-se ao fresco.

— Para onde? — rosnou o Sr. Verloc. Ele levantou a cabeça e, olhando para a porta fechada da sala, murmurou com sentimento: — Só desejava que você me levasse embora esta noite. Eu iria sem resistência.

— Imagino que sim — assentiu sardonicamente o Inspetor-Chefe, seguindo a direção do seu olhar.

A testa do Sr. Verloc cobriu-se de um ligeiro suor. Ele baixou a voz rouca confidencialmente perante o imperturbável Inspetor-Chefe.

— O rapaz era deficiente mental, irresponsável. Qualquer tribunal teria visto isso imediatamente. Só servia para o hospício. E esse teria sido o pior que lhe teria acontecido se...

O Inspetor-Chefe, com a mão no puxador da porta, sussurrou para o rosto do Sr. Verloc:

— Ele pode ter sido deficiente mental, mas você deve ter ficado louco. O que é que o levou a perder o juízo desta maneira?

O Sr. Verloc, pensando no Sr. Vladimir, não hesitou na escolha das palavras.

— Um porco hiperbóreo — sibilou ele com força. — Um daquilo a que se poderia chamar um... um cavalheiro.

O Inspetor-Chefe, de olhos firmes, assentiu brevemente à sua compreensão e abriu a porta. A Sra. Verloc, atrás do balcão, poderia ter ouvido, mas não viu a sua partida, perseguida pelo tilintar agressivo da campainha. Ela sentou-se no seu posto de serviço atrás do balcão. Estava sentada rigidamente ereta na cadeira, com dois pedaços de papel cor-de-rosa sujos espalhados aos seus pés. As palmas das mãos estavam pressionadas convulsivamente contra o rosto, com as pontas dos dedos contraídas contra a testa, como se a pele fosse uma máscara que ela estava pronta a arrancar violentamente. A imobilidade perfeita da sua pose expressava a agitação da raiva e do desespero, toda a violência potencial das paixões trágicas, melhor do que qualquer exibição superficial de gritos, com o bater de uma cabeça transtornada contra as paredes, poderia ter feito. O Inspetor-Chefe Heat, atravessando a loja ao seu passo ocupado e balançante, deu-lhe apenas um olhar superficial. E quando a campainha rachada deixou de tremer na sua fita curva de aço, nada se mexeu perto da Sra. Verloc, como se a sua atitude tivesse o poder de bloqueio de um feitiço. Até as chamas de gás em forma de borboleta, pousadas nas extremidades do suporte em T suspenso, queimavam sem um tremor. Naquela loja de mercadorias duvidosas equipada com prateleiras de madeira pintadas de um castanho baço, que pareciam devorar o brilho da luz, o círculo de ouro da aliança de casamento na mão esquerda da Sra. Verloc brilhava excessivamente com a glória inalterada de uma peça de um esplêndido tesouro de joias, deixada num caixote do lixo.

CAPÍTULO X

O Comissário Assistente, levado rapidamente num cab de Soho na direção de Westminster, saiu no próprio centro do Império sobre o qual o sol nunca se põe. Alguns agentes robustos, que não pareciam particularmente impressionados com o dever de vigiar o local augusto, saudaram-no. Penetrando através de um portal de modo algum alto nas imediações da Casa que é a Casa, por excelência nas mentes de muitos milhões de homens, foi finalmente recebido pelo volátil e revolucionário Toodles.

Aquele jovem elegante e simpático ocultou o seu espanto com a aparição precoce do Comissário Assistente, que lhe tinham dito para esperar por volta da meia-noite. O facto de ele aparecer tão cedo, concluiu, era sinal de que as coisas, quaisquer que fossem, tinham corrido mal. Com uma simpatia extremamente pronta, que nos jovens simpáticos acompanha frequentemente um temperamento alegre, sentiu pena da grande Presença a que chamava "O Chefe", e também do Comissário Assistente, cujo rosto lhe parecia mais ominosamente inexpressivo do que nunca, e bastante maravilhosamente comprido. "Que tipo estranho e com aspeto estrangeiro ele é", pensou para si próprio, sorrindo à distância com uma jovialidade amigável. E assim que se encontraram, começou a falar com a intenção bondosa de enterrar o embaraço do fracasso sob um monte de palavras. Parecia que o grande ataque ameaçado para aquela noite ia acabar em água. Um subordinado inferior daquele bruto Cheeseman estava a aborrecer impiedosamente uma Câmara muito vazia com algumas estatísticas descaradamente cozinhadas. Ele, Toodles, esperava que os aborrecesse até uma contagem a cada minuto. Mas então, poderia estar apenas a ganhar tempo para deixar aquele comilão Cheeseman jantar à sua vontade. De qualquer modo, o Chefe não podia ser persuadido a ir para casa.

— Ele vê-o imediatamente, creio. Está sentado sozinho no seu quarto a pensar em todos os peixes do mar — concluiu Toodles, de forma despreocupada. — Vamos.

Apesar da bondade do seu temperamento, o jovem secretário particular (não remunerado) era acessível às falhas comuns da humanidade. Não queria angustiar os sentimentos do Comissário Assistente, que lhe parecia invulgarmente um homem que tinha feito uma asneira no seu trabalho. Mas a sua curiosidade era demasiado forte para ser contida pela mera compaixão. Não conseguiu evitar, à medida que avançavam, atirar por cima do ombro levemente:

— E o seu espadarte?

— Apanhei-o — respondeu o Comissário Assistente com uma concisão que não pretendia ser repelente, de todo.

— Bom. Não faz ideia de como estes grandes homens detestam ser desapontados em pequenas coisas.

Após esta observação profunda, o experiente Toodles pareceu refletir. De qualquer modo, não disse nada durante dois segundos inteiros. Depois:

— Fico contente. Mas... digo... é realmente uma coisa tão pequena quanto faz crer?

— Sabe o que se pode fazer com um espadarte? — perguntou o Comissário Assistente, por sua vez.

— Às vezes é posto numa lata de sardinhas — riu-se Toodles, cuja erudição sobre o assunto da indústria pesqueira era fresca e, em comparação com a sua ignorância sobre todos os outros assuntos industriais, imensa. — Há fábricas de conserva de sardinha na costa espanhola que...

O Comissário Assistente interrompeu o aprendiz de estadista.

— Sim. Sim. Mas um espadarte também é por vezes atirado fora para apanhar uma baleia.

— Uma baleia. Phew! — exclamou Toodles, com a respiração suspensa. — Está atrás de uma baleia, então?

— Não exatamente. O que procuro é mais parecido com um cação. Talvez não saiba como é um cação.

— Sim; eu sei. Estamos enterrados em livros especiais até ao pescoço — estantes inteiras deles — com gravuras... É uma besta nociva, de aspeto vil, totalmente detestável, com uma espécie de rosto suave e bigodes.

— Descrito a rigor — elogiou o Comissário Assistente. — Só que o meu é completamente barbeado. Já o viu. É um peixe espirituoso.

— Eu já o vi! — disse Toodles, incrédulo. — Não consigo conceber onde o poderia ter visto.

— No Explorers, diria eu — deixou cair o Comissário Assistente calmamente. Ao nome daquele clube extremamente exclusivo, Toodles pareceu assustado e parou de repente.

— Absurdo — protestou ele, mas num tom de reverência. — O que quer dizer? Um membro?

— Honorário — murmurou o Comissário Assistente entre os dentes.

— Céus!

Toodles parecia tão estupefacto que o Comissário Assistente sorriu fracamente.

— Isso fica estritamente entre nós — disse ele.

— Essa é a coisa mais horrível que já ouvi na minha vida — declarou Toodles debilmente, como se o espanto o tivesse roubado de toda a sua força jovial num segundo.

O Comissário Assistente deu-lhe um olhar sem sorriso. Até chegarem à porta do quarto do grande homem, Toodles preservou um silêncio escandalizado e solene, como se estivesse ofendido com o Comissário Assistente por expor um facto tão desagradável e perturbador. Isso revolucionou a sua ideia da extrema seletividade do Clube Explorers, da sua pureza social. Toodles era revolucionário apenas na política; as suas crenças sociais e sentimentos pessoais desejava preservar inalterados durante todos os anos que lhe fossem concedidos nesta terra que, no geral, acreditava ser um lugar simpático para se viver.

Ele afastou-se.

— Entre sem bater — disse ele.

Tons de seda verde ajustados sobre todas as luzes conferiam ao quarto algo da escuridão profunda de uma floresta. Os olhos altivos eram fisicamente o ponto fraco do grande homem. Este ponto estava envolvido em segredo. Quando surgia uma oportunidade, ele descansava-os conscienciosamente.

O comissário assistente, ao entrar, viu a princípio apenas uma mão grande e pálida que sustentava uma cabeça grande, ocultando a parte superior de um rosto grande e pálido. Uma pasta de despachos aberta estava sobre a escrivaninha, perto de algumas folhas de papel oblongas e um punhado espalhado de penas de ganso. Não havia absolutamente nada mais na grande superfície plana, exceto uma pequena estatueta de bronze drapeada em uma toga, misteriosamente vigilante em sua imobilidade sombria. O comissário assistente, convidado a tomar uma cadeira, sentou-se. Na luz fraca, os pontos salientes de sua personalidade, o rosto longo, o cabelo preto, a sua magreza, faziam-no parecer mais estrangeiro do que nunca.

O grande homem não manifestou surpresa, nem avidez, nem qualquer sentimento. A atitude na qual ele descansava os seus olhos ameaçados era profundamente meditativa. Ele não a alterou nem um pouco. Mas o seu tom não era sonhador.

— Bem! O que é que você já descobriu? Você deparou-se com algo inesperado logo no primeiro passo.

— Não exatamente inesperado, Sir Ethelred. O que encontrei principalmente foi um estado psicológico.

A Grande Presença fez um ligeiro movimento. — Seja lúcido, por favor.

— Sim, Sir Ethelred. O senhor sabe, sem dúvida, que a maioria dos criminosos, em algum momento ou outro, sente uma necessidade irresistível de confessar — de abrir o coração a alguém, a qualquer um. E fazem-no frequentemente à polícia. Nesse Verloc, a quem Heat desejava tanto proteger, encontrei um homem nesse estado psicológico particular. O homem, figurativamente falando, lançou-se sobre o meu peito. Bastou-me sussurrar-lhe quem eu era e acrescentar: "Eu sei que você está por trás deste caso". Deve ter-lhe parecido milagroso que já soubéssemos, mas ele aceitou tudo com naturalidade. A maravilha disso nunca o deteve por um momento sequer. Restava-me apenas colocar-lhe as duas perguntas: Quem o incitou a isso? E quem foi o homem que o fez? Ele respondeu à primeira com uma ênfase notável. Quanto à segunda pergunta, deduzo que o sujeito com a bomba era o seu cunhado — um rapazinho — uma criatura de mente fraca... É um caso bastante curioso — talvez demasiado longo para ser exposto detalhadamente agora.

— O que aprendeu, então? — perguntou o grande homem.

— Primeiro, aprendi que o ex-condenado Michaelis não teve nada a ver com isso, embora, de fato, o rapaz estivesse vivendo com ele temporariamente no campo até às oito horas desta manhã. É mais do que provável que Michaelis não saiba de nada até este momento.

— Você tem certeza disso? — perguntou o grande homem.

— Absoluta, Sir Ethelred. Esse tal Verloc foi lá esta manhã e levou o rapaz sob o pretexto de sair para uma caminhada pelas veredas. Como não era a primeira vez que ele fazia isso, Michaelis não poderia ter a menor suspeita de algo incomum. Quanto ao resto, Sir Ethelred, a indignação deste homem Verloc não deixou nada em dúvida — nada mesmo. Ele tinha sido levado quase à loucura por uma atuação extraordinária, que para o senhor ou para mim seria difícil levar a sério, mas que obviamente produziu uma grande impressão nele.

O comissário assistente então transmitiu brevemente ao grande homem, que permanecia sentado, descansando os olhos sob a proteção da mão, a apreciação do Sr. Verloc sobre os procedimentos e o caráter do Sr. Vladimir. O comissário assistente não pareceu recusar-lhe uma certa dose de competência. Mas o grande personagem observou:

— Tudo isso parece muito fantástico.

— Não parece? Pensar-se-ia numa piada feroz. Mas o nosso homem levou-a a sério, ao que parece. Sentiu-se ameaçado. Na altura, o senhor sabe, ele estava em comunicação direta com o próprio velho Stott-Wartenheim e tinha passado a considerar os seus serviços como indispensáveis. Foi um despertar extremamente brusco. Imagino que ele tenha perdido a cabeça. Ficou zangado e assustado. Pela minha palavra, a minha impressão é que ele achou que esse pessoal da Embaixada era perfeitamente capaz não só de o expulsar, mas também de o denunciar de uma maneira ou de outra...

— Quanto tempo você esteve com ele? — interrompeu a Presença por trás da sua mão grande.

— Cerca de quarenta minutos, Sir Ethelred, numa casa de má fama chamada Continental Hotel, trancados num quarto que, aliás, aluguei para a noite. Encontrei-o sob a influência daquela reação que se segue ao esforço do crime. O homem não pode ser definido como um criminoso endurecido. É óbvio que ele não planejou a morte daquele pobre rapaz — seu cunhado. Isso foi um choque para ele — pude ver isso. Talvez ele seja um homem de sensibilidade aguçada. Talvez até gostasse do rapaz — quem sabe? Ele poderia ter esperado que o sujeito conseguisse fugir; caso em que teria sido quase impossível atribuir isto a alguém. De qualquer modo, ele não arriscou conscientemente nada mais além da prisão por ele.

O comissário assistente fez uma pausa nas suas especulações para refletir por um momento.

— Embora como, nesse último caso, ele pudesse esperar manter oculta a sua própria participação no negócio, é mais do que posso dizer — continuou ele, na sua ignorância da devoção do pobre Stevie ao Sr. Verloc (que era bom), e da sua mudez verdadeiramente peculiar, que no antigo caso dos fogos de artifício nas escadas tinha, durante muitos anos, resistido a súplicas, mimos, zangas e outros meios de investigação usados pela sua adorada irmã. Pois Stevie era leal... — Não, não consigo imaginar. É possível que ele nunca tenha pensado nisso. Soa como uma maneira extravagante de colocar a questão, Sir Ethelred, mas o seu estado de consternação sugeriu-me um homem impulsivo que, depois de cometer suicídio com a noção de que isso acabaria com todos os seus problemas, descobriu que não fazia nada disso.

O comissário assistente deu esta definição com uma voz desculpante. Mas, na verdade, existe uma espécie de lucidez própria da linguagem extravagante, e o grande homem não se ofendeu. Um ligeiro movimento brusco do corpo grande, meio perdido na penumbra das cortinas de seda verde, da cabeça grande apoiada na mão grande, acompanhou um som intermitente, abafado, mas poderoso. O grande homem tinha rido.

— O que você fez com ele?

O comissário assistente respondeu prontamente:

— Como ele parecia muito ansioso para voltar para a sua esposa na loja, deixei-o ir, Sir Ethelred.

— Você deixou? Mas o sujeito vai desaparecer.

— Perdoe-me. Acho que não. Para onde poderia ele ir? Além disso, o senhor deve lembrar-se de que ele tem de pensar no perigo que corre da parte dos seus camaradas também. Ele está lá no seu posto. Como poderia ele explicar o abandono do mesmo? Mas, mesmo que não houvesse obstáculos à sua liberdade de ação, ele não faria nada. No momento, ele não tem energia moral suficiente para tomar uma resolução de qualquer tipo. Permita-me também salientar que, se eu o tivesse detido, teríamos ficado comprometidos com um curso de ação sobre o qual eu queria saber primeiro as suas intenções precisas.

O grande personagem levantou-se pesadamente, uma forma sombria e imponente na penumbra esverdeada do quarto.

— Verei o Procurador-Geral esta noite e mandarei chamá-lo amanhã de manhã. Há mais alguma coisa que queira dizer-me agora?

O comissário assistente levantara-se também, esguio e flexível.

— Penso que não, Sir Ethelred, a menos que entrasse em detalhes que...

— Não. Sem detalhes, por favor.

A grande forma sombria pareceu retrair-se como se tivesse um medo físico de detalhes; depois veio para a frente, expandiu-se, enorme e pesada, oferecendo uma mão grande. — E você diz que este homem tem uma esposa?

— Sim, Sir Ethelred — disse o comissário assistente, apertando deferentemente a mão estendida. — Uma esposa genuína e uma relação conjugal genuína e respeitável. Ele disse-me que, após a sua entrevista na Embaixada, teria abandonado tudo, teria tentado vender a sua loja e deixar o país, apenas sentia que a sua esposa nem sequer ouviria falar em ir para o estrangeiro. Nada poderia ser mais característico do vínculo respeitável do que isso — continuou, com um toque de severidade, o comissário assistente, cuja própria esposa também se tinha recusado a ouvir falar em ir para o estrangeiro. — Sim, uma esposa genuína. E a vítima era um cunhado genuíno. De um certo ponto de vista, estamos aqui na presença de um drama doméstico.

O comissário assistente riu um pouco; mas os pensamentos do grande homem pareciam ter vagueado para muito longe, talvez para as questões da política interna do seu país, o campo de batalha do seu valor de cruzado contra o pagão Cheeseman. O comissário assistente retirou-se silenciosamente, despercebido, como se já tivesse sido esquecido.

Ele tinha os seus próprios instintos de cruzado. Este caso, que, de uma forma ou de outra, desgastava o inspetor-chefe Heat, parecia-lhe um ponto de partida providencialmente dado para uma cruzada. Ele tinha muito em mente começar. Caminhou lentamente para casa, meditando sobre esse empreendimento no caminho e pensando sobre a psicologia do Sr. Verloc num estado de espírito composto de repugnância e satisfação. Ele foi todo o caminho a pé para casa. Encontrando a sala de estar escura, subiu e passou algum tempo entre o quarto e o vestiário, trocando de roupa, indo e vindo com o ar de um sonâmbulo pensativo. Mas sacudiu isso antes de sair novamente para se juntar à esposa na casa da grande dama patrona de Michaelis.

Ele sabia que seria bem recebido lá. Ao entrar na menor das duas salas de estar, viu a sua esposa num pequeno grupo perto do piano. Um compositor jovem, em vias de se tornar famoso, discursava de um banco de piano para dois homens corpulentos cujas costas pareciam velhas, e três mulheres esguias cujas costas pareciam jovens. Atrás do biombo, a grande dama tinha apenas duas pessoas consigo: um homem e uma mulher, que se sentavam lado a lado em poltronas ao pé do seu divã. Ela estendeu a mão ao comissário assistente.

— Nunca esperei vê-lo aqui esta noite. Annie disse-me...

— Sim. Eu mesmo não fazia ideia de que o meu trabalho terminaria tão cedo.

O comissário assistente acrescentou em tom baixo: — Tenho o prazer de lhe dizer que Michaelis está completamente livre disto...

A patrona do ex-condenado recebeu esta garantia com indignação.

— Por quê? O seu pessoal foi estúpido o suficiente para ligá-lo a...

— Não estúpido — interrompeu o comissário assistente, contradizendo deferentemente. — Inteligente o suficiente — bastante inteligente o suficiente para isso.

Fez-se silêncio. O homem ao pé do divã tinha parado de falar com a dama e olhava com um sorriso fraco.

— Não sei se já se conheceram antes — disse a grande dama.

O Sr. Vladimir e o comissário assistente, apresentados, reconheceram a existência um do outro com cortesia pontilhada e cautelosa.

— Ele tem-me assustado — declarou de repente a dama que se sentava ao lado do Sr. Vladimir, com uma inclinação de cabeça em direção a esse cavalheiro. O comissário assistente conhecia a dama.

— A senhora não parece assustada — pronunciou ele, depois de a observar conscienciosamente com o seu olhar cansado e sereno. Ele pensava, entretanto, que naquela casa se encontrava toda a gente, mais cedo ou mais tarde. O semblante rosado do Sr. Vladimir estava envolto em sorrisos, porque ele era espirituoso, mas os seus olhos permaneciam sérios, como os olhos de um homem convicto.

— Bem, ele tentou, pelo menos — corrigiu a dama.

— Força do hábito, talvez — disse o comissário assistente, movido por uma inspiração irresistível.

— Ele tem ameaçado a sociedade com todo o tipo de horrores — continuou a dama, cuja enunciação era carinhosa e lenta —, a propósito desta explosão em Greenwich Park. Parece que todos deveríamos tremer nas nossas botas pelo que aí vem se essas pessoas não forem suprimidas em todo o mundo. Eu não fazia ideia de que este era um caso tão grave.

O Sr. Vladimir, fingindo não ouvir, inclinou-se para o divã, falando amavelmente em tons suaves, mas ouviu o comissário assistente dizer:

— Não tenho dúvida de que o Sr. Vladimir tem uma noção muito precisa da verdadeira importância deste caso.

O Sr. Vladimir perguntou a si mesmo o que aquele polícia intrometido e confuso pretendia. Descendente de gerações vitimizadas pelos instrumentos de um poder arbitrário, ele tinha, racialmente, nacionalmente e individualmente, medo da polícia. Era uma fraqueza herdada, totalmente independente do seu julgamento, da sua razão, da sua experiência. Ele nasceu com isso. Mas esse sentimento, que se assemelhava ao horror irracional que algumas pessoas têm de gatos, não impedia o seu imenso desprezo pela polícia inglesa. Terminou a frase dirigida à grande dama e virou-se ligeiramente na sua cadeira.

— O senhor quer dizer que temos uma grande experiência com estas pessoas. Sim; de fato, sofremos muito com a sua atividade, enquanto vocês — o Sr. Vladimir hesitou por um momento, em perplexidade sorridente — enquanto vocês sofrem a sua presença alegremente no vosso meio — terminou, exibindo uma covinha em cada bochecha barbeada. Depois acrescentou mais gravemente: — Posso até dizer — porque vocês sofrem.

Quando o Sr. Vladimir parou de falar, o comissário assistente baixou o olhar e a conversa caiu. Quase imediatamente depois, o Sr. Vladimir despediu-se.

Logo que as suas costas foram viradas para o divã, o comissário assistente levantou-se também.

— Pensei que fosse ficar e levar a Annie para casa — disse a dama patrona de Michaelis.

— Descobri que ainda tenho um pouco de trabalho para fazer esta noite.

— Em conexão...?

— Bem, sim — de certa forma.

— Diga-me, o que é realmente — este horror?

— É difícil dizer o que é, mas pode vir a ser uma cause célèbre — disse o comissário assistente.

Ele deixou a sala de estar apressadamente e encontrou o Sr. Vladimir ainda no saguão, envolvendo cuidadosamente a garganta com um grande lenço de seda. Atrás dele, um lacaio esperava, segurando o seu sobretudo. Outro estava pronto para abrir a porta. O comissário assistente foi devidamente ajudado a vestir o casaco e foi deixado sair imediatamente. Depois de descer os degraus da frente, parou, como se para considerar o caminho que deveria tomar. Ao ver isso através da porta aberta, o Sr. Vladimir demorou-se no saguão para tirar um charuto e pediu lume. Foi-lhe fornecido por um homem idoso, fora da libré, com um ar de calma solicitude. Mas o fósforo apagou-se; o lacaio então fechou a porta e o Sr. Vladimir acendeu o seu grande Havana com cuidado vagaroso.

Quando finalmente saiu da casa, viu com desgosto o "polícia confuso" ainda parado no pavimento.

— Será que ele está à minha espera — pensou o Sr. Vladimir, olhando para cima e para baixo à procura de sinais de um hansom. Não viu nenhum. Um par de carruagens esperava junto ao meio-fio, as suas luzes brilhando constantemente, os cavalos parados perfeitamente imóveis, como se esculpidos em pedra, os cocheiros sentados sem movimento sob as grandes capas de pele, sem sequer um estremecimento a agitar as tiras brancas dos seus grandes chicotes. O Sr. Vladimir continuou a caminhar, e o "polícia confuso" entrou no passo ao seu lado. Ele não disse nada. Ao fim do quarto passo, o Sr. Vladimir sentiu-se enfurecido e inquieto. Isto não podia durar.

— Tempo horrível — rosnou ele selvagemente.

— Suave — disse o comissário assistente sem paixão. Permaneceu em silêncio por um pouco. — Apoderamo-nos de um homem chamado Verloc — anunciou casualmente.

O Sr. Vladimir não tropeçou, não cambaleou para trás, não mudou o passo. Mas não conseguiu evitar exclamar: — O quê? O comissário assistente não repetiu a sua afirmação. — O senhor conhece-o — continuou ele no mesmo tom.

O Sr. Vladimir parou e tornou-se gutural. — O que o faz dizer isso?

— Eu não. É Verloc quem diz isso.

— Um cão mentiroso de qualquer espécie — disse o Sr. Vladimir numa fraseologia um tanto oriental. Mas, no seu coração, ele estava quase impressionado com a inteligência milagrosa da polícia inglesa. A mudança da sua opinião sobre o assunto foi tão violenta que o fez sentir-se momentaneamente ligeiramente doente. Atirou fora o seu charuto e seguiu em frente.

— O que mais me agradou neste caso — continuou o assistente, falando lentamente —, é que ele constitui um excelente ponto de partida para um trabalho que senti que deve ser realizado — isto é, a limpeza deste país de todos os espiões políticos estrangeiros, polícia, e esse tipo de... de... cães. Na minha opinião, eles são um incômodo terrível; também um elemento de perigo. Mas não podemos muito bem procurá-los individualmente. A única maneira é tornar o seu emprego desagradável para os seus empregadores. A coisa está a tornar-se indecente. E perigosa também, para nós, aqui.

O Sr. Vladimir parou novamente por um momento.

— O que quer dizer?

— A acusação deste Verloc demonstrará ao público tanto o perigo como a indecência.

— Ninguém acreditará no que um homem desse tipo diz — disse o Sr. Vladimir com desprezo.

— A riqueza e a precisão dos detalhes convencerão a grande massa do público — avançou o comissário assistente suavemente.

— Então é isso que o senhor pretende fazer seriamente.

— Temos o homem; não temos escolha.

— O senhor estará apenas a alimentar o espírito mentiroso destes canalhas revolucionários — protestou o Sr. Vladimir. — Por que quer fazer um escândalo? — por moralidade — ou quê?

A ansiedade do Sr. Vladimir era óbvia. O comissário assistente, tendo verificado desta forma que deveria haver alguma verdade nas declarações sumárias do Sr. Verloc, disse indiferentemente:

— Há um lado prático também. Temos realmente o suficiente para cuidar do artigo genuíno. Não pode dizer que não somos eficazes. Mas não pretendemos deixar-nos incomodar por farsas sob qualquer pretexto.

O tom do Sr. Vladimir tornou-se elevado.

— Da minha parte, não posso partilhar a sua opinião. É egoísta. Os meus sentimentos pelo meu próprio país não podem ser postos em dúvida; mas sempre senti que deveríamos ser bons europeus também — quero dizer, governos e homens.

— Sim — disse o comissário assistente simplesmente. — Só que o senhor olha para a Europa pela outra extremidade. Mas — continuou em tom de bom humor —, os governos estrangeiros não podem queixar-se da ineficiência da nossa polícia. Veja este ultraje; um caso especialmente difícil de rastrear, na medida em que foi uma farsa. Em menos de doze horas, estabelecemos a identidade de um homem literalmente explodido em pedaços, encontrámos o organizador da tentativa e tivemos um vislumbre do incitador por trás dele. E poderíamos ter ido mais longe; apenas parámos nos limites do nosso território.

— Então este crime instrutivo foi planeado no estrangeiro — disse o Sr. Vladimir rapidamente. — O senhor admite que foi planeado no estrangeiro?

— Teoricamente. Teoricamente apenas, em território estrangeiro; no estrangeiro apenas por uma ficção — disse o comissário assistente, aludindo ao caráter das Embaixadas, que se supõe serem parte integrante do país a que pertencem. — Mas isso é um detalhe. Falei-lhe deste assunto porque é o seu governo que mais se queixa da nossa polícia. O senhor vê que não somos tão maus. Queria particularmente contar-lhe o nosso sucesso.

— Tenho a certeza de que estou muito grato — murmurou o Sr. Vladimir entre os dentes.

— Podemos colocar o dedo em cada anarquista aqui — continuou o comissário assistente, como se estivesse a citar o inspetor-chefe Heat. — Tudo o que é preciso agora é acabar com o agente provocador para tornar tudo seguro.

O Sr. Vladimir levantou a mão para um hansom que passava.

— O senhor não vai entrar aqui — observou o comissário assistente, olhando para um edifício de proporções nobres e aspeto hospitaleiro, com a luz de um grande saguão caindo através das suas portas de vidro sobre um largo lance de degraus.

Mas o Sr. Vladimir, sentado, de olhos pétreos, dentro do hansom, partiu sem uma palavra.

O próprio comissário assistente não se virou para o nobre edifício. Era o Explorers’ Club. O pensamento passou-lhe pela mente que o Sr. Vladimir, membro honorário, não seria visto muito frequentemente lá no futuro. Olhou para o relógio. Eram apenas dez e meia. Tinha tido uma noite muito cheia.

CAPÍTULO XI

Depois de o inspetor-chefe Heat o ter deixado, o Sr. Verloc moveu-se pela sala.

De tempos a tempos, ele observava a sua esposa através da porta aberta. "Ela sabe tudo sobre isso agora", pensou consigo mesmo, com comiseração pelo seu sofrimento e com alguma satisfação no que lhe dizia respeito. A alma do Sr. Verloc, se talvez carecesse de grandeza, era capaz de sentimentos ternos. A perspetiva de ter de lhe dar a notícia tinha-o deixado em febre. O inspetor-chefe Heat tinha-o aliviado da tarefa. Isso era bom, na medida do possível. Restava-lhe agora enfrentar a sua dor.

O Sr. Verloc nunca esperara ter de enfrentar isso por causa da morte, cujo caráter catastrófico não pode ser refutado por raciocínios sofisticados ou eloquência persuasiva. O Sr. Verloc nunca pretendeu que Stevie perecesse com tamanha violência abrupta. Ele não pretendia que ele perecesse de todo. Stevie morto era um incômodo muito maior do que jamais fora quando vivo. O Sr. Verloc havia augurado um desfecho favorável para o seu empreendimento, baseando-se não na inteligência de Stevie, que por vezes prega partidas estranhas a um homem, mas na docilidade cega e na devoção cega do rapaz. Embora não fosse um grande psicólogo, o Sr. Verloc havia avaliado a profundidade do fanatismo de Stevie. Ele ousou acalentar a esperança de que Stevie se afastasse dos muros do Observatório como lhe fora instruído a fazer, seguindo o caminho que lhe fora mostrado várias vezes anteriormente, e reencontrando o seu cunhado, o sábio e bom Sr. Verloc, fora dos limites do parque. Quinze minutos deveriam ter sido suficientes para o maior dos tolos depositar o engenho e afastar-se. E o Professor havia garantido mais de quinze minutos. Mas Stevie tropeçara cinco minutos depois de ter sido deixado entregue a si mesmo. E o Sr. Verloc estava moralmente despedaçado. Ele previra tudo, exceto aquilo. Previra Stevie distraído e perdido — procurado — encontrado, por fim, em alguma esquadra de polícia ou casa de trabalho provincial. Previra Stevie preso, e não tivera medo, porque o Sr. Verloc tinha uma grande opinião da lealdade de Stevie, que fora cuidadosamente doutrinado com a necessidade do silêncio no decorrer de muitos passeios. Como um filósofo peripatético, o Sr. Verloc, passeando pelas ruas de Londres, havia modificado a visão de Stevie sobre a polícia através de conversas repletas de raciocínios subtis. Nunca um sábio teve um discípulo mais atento e admirador. A submissão e a adoração eram tão aparentes que o Sr. Verloc chegara a sentir algo semelhante a um gosto pelo rapaz. Em todo o caso, ele não previra a rápida entrega do seu parente em casa. Que a sua esposa tivesse a precaução de coser o endereço do rapaz no interior do seu sobretudo era a última coisa em que o Sr. Verloc pensaria. Não se pode pensar em tudo. Era isso que ela queria dizer quando afirmou que ele não precisava de se preocupar se perdesse Stevie durante os seus passeios. Ela havia-lhe garantido que o rapaz apareceria são e salvo. Bem, ele apareceu, e de que maneira!

“Bem, bem”, murmurou o Sr. Verloc no seu espanto. O que queria ela dizer com aquilo? Poupar-lhe o trabalho de manter um olhar ansioso sobre Stevie? Muito provavelmente ela tinha boas intenções. Só que ela deveria ter-lhe falado da precaução que tomara.

O Sr. Verloc caminhou para trás do balcão da loja. A sua intenção não era sobrecarregar a esposa com amargos reproches. O Sr. Verloc não sentia amargura. O desenrolar inesperado dos acontecimentos converteu-o à doutrina do fatalismo. Já nada podia ser feito. Ele disse:

“Eu não pretendia que nenhum mal acontecesse ao rapaz.”

A Sra. Verloc estremeceu ao som da voz do marido. Ela não destapou o rosto. O agente secreto de confiança do falecido Barão Stott-Wartenheim olhou para ela durante algum tempo com um olhar pesado, persistente e impercetível. O jornal da tarde, rasgado, estava aos seus pés. Não lhe devia ter dito muito. O Sr. Verloc sentiu a necessidade de falar com a sua esposa.

“É aquele maldito Heat — eh?”, disse ele. “Ele perturbou-te. É um bruto, despejar isto assim para cima de uma mulher. Eu senti-me doente a pensar em como te dar a notícia. Fiquei horas sentado na pequena sala do Cheshire Cheese a pensar na melhor maneira. Compreendes que eu nunca pretendi que nenhum mal acontecesse àquele rapaz.”

O Sr. Verloc, o Agente Secreto, estava a dizer a verdade. Foi o seu afeto conjugal que sofrera o maior choque com a explosão prematura. Ele acrescentou:

“Eu não me senti particularmente alegre ali sentado a pensar em ti.”

Ele observou outro ligeiro estremecimento da sua esposa, o que afetou a sua sensibilidade. Como ela persistia em esconder o rosto nas mãos, ele achou melhor deixá-la sozinha por algum tempo. Sob este impulso delicado, o Sr. Verloc retirou-se novamente para a sala, onde o bico de gás sussurrava como um gato satisfeito. A previdência conjugal da Sra. Verloc deixara a carne fria sobre a mesa com a faca e o garfo de trinchar e metade de um pão para a ceia do Sr. Verloc. Ele notou todas essas coisas agora pela primeira vez e, cortando para si um bocado de pão e carne, começou a comer.

O seu apetite não provinha de insensibilidade. O Sr. Verloc não tomara o pequeno-almoço naquele dia. Saíra de casa em jejum. Não sendo um homem enérgico, ele encontrava a sua resolução numa excitação nervosa, que parecia segurá-lo principalmente pela garganta. Ele não conseguiria engolir nada sólido. A casa de campo de Michaelis estava tão desprovida de provisões como a cela de um prisioneiro. O apóstolo em liberdade condicional vivia de um pouco de leite e côdeas de pão amanhecido. Além disso, quando o Sr. Verloc chegou, ele já tinha subido após a sua refeição frugal. Absorto no trabalho e no deleite da composição literária, nem sequer respondera ao grito do Sr. Verloc para o pequeno vão de escada.

“Vou levar este jovem para casa por um dia ou dois.”

E, na verdade, o Sr. Verloc não esperou por uma resposta, mas marchara para fora da casa imediatamente, seguido pelo obediente Stevie.

Agora que toda a ação terminara e o seu destino fora retirado das suas mãos com uma rapidez inesperada, o Sr. Verloc sentia-se fisicamente terrível e vazio. Ele trinchou a carne, cortou o pão e devorou a sua ceia de pé junto à mesa, lançando de vez em quando um olhar em direção à sua esposa. A sua imobilidade prolongada perturbava o conforto da sua refeição. Ele caminhou novamente até à loja e aproximou-se muito dela. Aquela tristeza com o rosto velado deixava o Sr. Verloc inquieto. Ele esperava, claro, que a sua esposa ficasse muito perturbada, mas queria que ela se recompusesse. Ele precisava de toda a sua assistência e de toda a sua lealdade nestas novas conjunturas que o seu fatalismo já aceitara.

“Não há nada a fazer”, disse ele num tom de lúgubre simpatia. “Vamos, Winnie, temos de pensar no amanhã. Vais precisar de todo o teu juízo depois de eu ser levado.”

Ele fez uma pausa. O peito da Sra. Verloc subia e descia convulsivamente. Isso não era tranquilizador para o Sr. Verloc, na visão de quem a situação recém-criada exigia das duas pessoas mais envolvidas nela calma, decisão e outras qualidades incompatíveis com a desordem mental de uma dor apaixonada. O Sr. Verloc era um homem humano; ele chegara a casa preparado para conceder toda a latitude ao afeto da sua esposa pelo seu irmão.

Apenas não compreendia nem a natureza nem a extensão total desse sentimento. E nisto ele era desculpável, uma vez que lhe era impossível compreendê-lo sem deixar de ser ele mesmo. Ele ficou sobressaltado e desapontado, e o seu discurso transmitiu isso através de uma certa aspereza de tom.

“Podias olhar para uma pessoa”, observou ele após esperar um pouco.

Como se forçada através das mãos que cobriam o rosto da Sra. Verloc, a resposta veio, abafada, quase piedosa.

“Não quero olhar para ti enquanto viver.”

“Eh? Quê!” O Sr. Verloc ficou meramente sobressaltado com o significado superficial e literal daquela declaração. Era obviamente irracional, o mero grito de uma dor exagerada. Ele lançou sobre ela o manto da sua indulgência conjugal. A mente do Sr. Verloc carecia de profundidade. Sob a impressão errada de que o valor dos indivíduos consiste naquilo que eles são em si mesmos, ele não conseguia de modo algum compreender o valor de Stevie aos olhos da Sra. Verloc. Ela estava a sofrer terrivelmente, pensou ele para consigo. Era tudo culpa daquele maldito Heat. Por que se teria ele dado ao trabalho de perturbar a mulher? Mas não se lhe devia permitir, para o seu próprio bem, que continuasse assim até perder completamente o juízo.

“Olha aqui! Não podes sentar-te assim na loja”, disse ele com severidade fingida, na qual havia algum aborrecimento real; pois questões práticas urgentes tinham de ser discutidas, mesmo que tivessem de ficar acordados a noite toda. “Alguém pode entrar a qualquer minuto”, acrescentou, e esperou novamente. Nenhum efeito foi produzido, e a ideia da finalidade da morte ocorreu ao Sr. Verloc durante a pausa. Ele mudou o seu tom. “Vamos. Isso não o trará de volta”, disse ele gentilmente, sentindo-se pronto para a tomar nos braços e apertá-la contra o peito, onde a impaciência e a compaixão habitavam lado a lado. Mas, exceto por um curto estremecimento, a Sra. Verloc permaneceu aparentemente inalterada pela força daquele terrível truísmo. Foi o próprio Sr. Verloc quem ficou comovido. Ele sentiu-se comovido, na sua simplicidade, a exortar à moderação ao afirmar as reivindicações da sua própria personalidade.

“Sê razoável, Winnie. O que teria sido se me tivesses perdido!”

Ele esperara vagamente ouvi-la gritar. Mas ela não se mexeu. Ela inclinou-se um pouco para trás, acalmando-se para uma quietude completa e ilegível. O coração do Sr. Verloc começou a bater mais depressa com exasperação e algo semelhante a alarme. Ele colocou a mão no ombro dela, dizendo:

“Não sejas parva, Winnie.”

Ela não deu sinal. Era impossível conversar com qualquer propósito com uma mulher cujo rosto não se pode ver. O Sr. Verloc agarrou os pulsos da sua esposa. Mas as mãos dela pareciam coladas. Ela oscilou para a frente, fisicamente, com o puxão dele, e quase caiu da cadeira. Sobressaltado ao senti-la tão impotente e flácida, ele tentava colocá-la de volta na cadeira quando ela enrijeceu subitamente, soltou-se das suas mãos, correu para fora da loja, atravessou a sala e entrou na cozinha. Foi muito rápido. Ele teve apenas um vislumbre do rosto dela e dos seus olhos, o suficiente para saber que ela não tinha olhado para ele.

Tudo tinha a aparência de uma luta pela posse de uma cadeira, porque o Sr. Verloc ocupou instantaneamente o lugar da sua esposa nela. O Sr. Verloc não cobriu o rosto com as mãos, mas uma reflexão sombria velou as suas feições. Um período de prisão não poderia ser evitado. Ele não desejava evitá-lo agora. Uma prisão era um lugar tão seguro de certas vinganças ilegais como a sepultura, com esta vantagem: que numa prisão há lugar para a esperança. O que ele via diante de si era um período de prisão, uma libertação antecipada e, depois, uma vida no estrangeiro em qualquer lugar, tal como ele já contemplara, em caso de fracasso. Bem, fora um fracasso, se não exatamente o tipo de fracasso que ele temera. Tivera estado tão perto do sucesso que ele poderia ter positivamente aterrorizado o Sr. Vladimir, forçando-o a abandonar o seu escárnio feroz com esta prova de eficiência oculta. Assim parecia, pelo menos agora, ao Sr. Verloc. O seu prestígio junto da Embaixada teria sido imenso se — se a sua esposa não tivesse tido a infeliz ideia de coser o endereço no interior do sobretudo de Stevie. O Sr. Verloc, que não era tolo, percebera rapidamente o caráter extraordinário da influência que exercia sobre Stevie, embora não compreendesse exatamente a sua origem — a doutrina da sua suprema sabedoria e bondade inculcada por duas mulheres ansiosas. Em todas as eventualidades que previra, o Sr. Verloc calculara com correto discernimento a lealdade instintiva e a discrição cega de Stevie. A eventualidade que não previra horrorizara-o como homem humano e marido afetuoso. De qualquer outro ponto de vista, era bastante vantajosa. Nada pode igualar a discrição eterna da morte. O Sr. Verloc, sentado, perplexo e assustado na pequena sala do Cheshire Cheese, não podia deixar de admitir isso para consigo mesmo, porque a sua sensibilidade não impedia o seu julgamento. A violenta desintegração de Stevie, por mais perturbadora que fosse de pensar, apenas assegurava o sucesso; pois, claro, a demolição de um muro não era o objetivo das ameaças do Sr. Vladimir, mas a produção de um efeito moral. Com muito esforço e angústia da parte do Sr. Verloc, poderia dizer-se que o efeito fora produzido. Quando, no entanto, de forma mais inesperada, o caso veio bater à porta na Brett Street, o Sr. Verloc, que lutava como um homem num pesadelo pela preservação da sua posição, aceitou o golpe com o espírito de um fatalista convicto. A posição fora perdida, realmente por culpa de ninguém. Um pequeno, minúsculo facto causara-o. Era como escorregar numa casca de banana no escuro e partir uma perna.

O Sr. Verloc soltou um suspiro de cansaço. Não nutria qualquer ressentimento contra a sua esposa. Pensou: Ela terá de cuidar da loja enquanto me mantiverem fechado. E pensando também em como ela sentiria cruelmente a falta de Stevie no início, sentiu-se muito preocupado com a sua saúde e o seu estado de espírito. Como aguentaria ela a sua solidão — absolutamente sozinha naquela casa? Não seria bom que ela colapsasse enquanto ele estivesse preso? O que seria da loja então? A loja era um ativo. Embora o fatalismo do Sr. Verloc aceitasse a sua ruína como agente secreto, ele não tinha intenção de ser totalmente arruinado, principalmente, deve admitir-se, por consideração pela sua esposa.

Silenciosa, e fora do seu campo de visão na cozinha, ela assustava-o. Se ao menos ela tivesse a mãe consigo. Mas aquela velha tola — Um desânimo irado apoderou-se do Sr. Verloc. Ele tinha de falar com a sua esposa. Ele podia certamente dizer-lhe que um homem se torna desesperado sob certas circunstâncias. Mas ele não foi incontinenti transmitir-lhe essa informação. Antes de mais, estava claro para ele que aquela noite não era altura para negócios. Ele levantou-se para fechar a porta da rua e apagar o gás na loja.

Tendo assim assegurado uma solidão em torno da sua lareira, o Sr. Verloc caminhou para a sala e espreitou para a cozinha. A Sra. Verloc estava sentada no lugar onde o pobre Stevie costumava estabelecer-se à noite com papel e lápis para o passatempo de desenhar aquelas coruscações de inúmeros círculos que sugeriam o caos e a eternidade. Os seus braços estavam cruzados sobre a mesa e a sua cabeça repousava sobre os braços. O Sr. Verloc contemplou as costas dela e o arranjo do seu cabelo durante algum tempo, depois afastou-se da porta da cozinha. A curiosidade filosófica, quase desdenhosa da Sra. Verloc, a base do seu acordo na vida doméstica, tornava extremamente difícil entrar em contacto com ela, agora que esta necessidade trágica surgira. O Sr. Verloc sentia essa dificuldade agudamente. Ele deu a volta à mesa na sala com o seu ar habitual de um animal grande numa jaula.

Sendo a curiosidade uma das formas de autorrevelação, uma pessoa sistematicamente sem curiosidade permanece sempre parcialmente misteriosa. Cada vez que passava perto da porta, o Sr. Verloc olhava para a sua esposa com inquietação. Não era que tivesse medo dela. O Sr. Verloc imaginava-se amado por aquela mulher. Mas ela não o habituara a fazer confidências. E a confidência que ele tinha de fazer era de uma ordem psicológica profunda. Como, com a sua falta de prática, poderia ele dizer-lhe o que ele próprio sentia apenas vagamente: que existem conspirações de destino fatal, que uma noção cresce numa mente por vezes até adquirir uma existência externa, um poder independente próprio, e até uma voz sugestiva? Ele não a podia informar de que um homem pode ser assombrado por um rosto gordo, espirituoso e bem barbeado até que o estratagema mais selvagem para se livrar dele pareça um filho da sabedoria.

Nesta referência mental a um Primeiro Secretário de uma grande Embaixada, o Sr. Verloc parou no vão da porta e, olhando para a cozinha com um rosto irado e punhos cerrados, dirigiu-se à esposa.

“Não sabes com que bruto eu tive de lidar.”

Ele começou a fazer outra perambulação pela mesa; depois, quando chegou novamente à porta, parou, olhando lá de cima, da altura de dois degraus.

“Um bruto tolo, zombeteiro, perigoso, com menos bom senso que — Depois de todos estes anos! Um homem como eu! E estive a arriscar a minha cabeça nesse jogo. Tu não sabias. Muito bem também. Que bem faria dizer-te que corri o risco de levar uma facada a qualquer momento nestes sete anos em que estamos casados? Eu não sou um tipo de preocupar uma mulher que gosta de mim. Não tinhas nada que saber.” O Sr. Verloc deu outra volta pela sala, fumegante.

“Uma besta venenosa”, recomeçou ele a partir do vão da porta. “Expulsar-me para uma vala para morrer à fome por uma piada. Eu via que ele achava que era uma piada excelente. Um homem como eu! Olha aqui! Alguns dos mais altos do mundo têm de me agradecer por andarem sobre as suas duas pernas até hoje. Esse é o homem com quem tu casaste, minha rapariga!”

Ele percebeu que a sua esposa se tinha sentado. Os braços da Sra. Verloc permaneceram esticados sobre a mesa. O Sr. Verloc observava as costas dela como se pudesse ler nelas o efeito das suas palavras.

“Não houve uma conspiração assassina nos últimos onze anos em que eu não tivesse metido a minha mão, com risco da minha vida. Há dezenas destes revolucionários que eu enviei para fora, com as suas bombas nos seus malditos bolsos, para se deixarem apanhar na fronteira. O velho Barão sabia o que eu valia para o seu país. E aqui, subitamente, aparece um porco — um porco ignorante e autoritário.”

O Sr. Verloc, descendo lentamente dois degraus, entrou na cozinha, tirou um copo da cristaleira e, segurando-o na mão, aproximou-se do lava-loiça, sem olhar para a sua esposa. “Não teria sido o velho Barão a ter a malvada loucura de me fazer ir ter com ele às onze da manhã. Há dois ou três nesta cidade que, se me tivessem visto entrar, não teriam hesitado em partir-me a cabeça mais cedo ou mais tarde. Foi um truque tolo e assassino expor, por nada, um homem — como eu.”

O Sr. Verloc, abrindo a torneira sobre o lava-loiça, entornou três copos de água, um após outro, pela garganta abaixo para extinguir os fogos da sua indignação. A conduta do Sr. Vladimir era como uma marca em brasa que incendiava a sua economia interna. Ele não conseguia superar a deslealdade daquilo. Este homem, que não queria trabalhar nas tarefas duras usuais que a sociedade impõe aos seus membros mais humildes, exercera a sua indústria secreta com uma devoção incansável. Havia no Sr. Verloc um fundo de lealdade. Ele fora leal aos seus patrões, à causa da estabilidade social — e aos seus afetos também — como se tornou aparente quando, após pousar o copo no lava-loiça, ele se virou, dizendo:

“Se eu não tivesse pensado em ti, teria agarrado o bruto prepotente pela garganta e enfiado a sua cabeça na lareira. Eu teria sido mais do que um adversário para aquele de cara rosada e bem barbeado—”

O Sr. Verloc negligenciou terminar a frase, como se não pudesse haver dúvida quanto à palavra final. Pela primeira vez na sua vida, ele estava a incluir aquela mulher sem curiosidade na sua confiança. A singularidade do evento, a força e a importância dos sentimentos pessoais despertados no decorrer daquela confissão, expulsaram o destino de Stevie completamente da mente do Sr. Verloc. A existência gaguejante de medos e indignações do rapaz, juntamente com a violência do seu fim, tinham desaparecido do campo de visão mental do Sr. Verloc por algum tempo. Por essa razão, quando ele olhou para cima, ficou sobressaltado com o caráter inapropriado do olhar da sua esposa. Não era um olhar selvagem, e não era desatento, mas a sua atenção era peculiar e pouco satisfatória, na medida em que parecia concentrada em algum ponto para além da pessoa do Sr. Verloc. A impressão era tão forte que o Sr. Verloc olhou por cima do ombro. Não havia nada atrás dele: havia apenas a parede caiada. O excelente marido de Winnie Verloc não viu nenhuma escrita na parede. Ele voltou-se novamente para a esposa, repetindo, com alguma ênfase:

“Eu tê-lo-ia agarrado pela garganta. Tão certo como aqui estou, se não tivesse pensado em ti, tê-lo-ia quase sufocado até à morte antes de o deixar levantar-se. E não penses que ele estaria ansioso por chamar a polícia também. Ele não teria ousado. Tu compreendes porquê — não compreendes?”

Ele piscou o olho à sua esposa de forma conhecedora.

“Não”, disse a Sra. Verloc com uma voz sem ressonância, e sem olhar para ele de todo. “De que estás a falar?”

Ele soltou uma risada curta, uma tosse seca e abafada, que revelava a sua satisfação com a própria astúcia e a natureza dos seus segredos. "De que estou a falar? Ora, de que seria? De que ele sabe que eu sei, e que eu sei que ele sabe. É um jogo, Winnie. Um jogo de sombras. Mas agora, chega de jogos. A minha paciência esgotou-se. Já não há mais margem para hesitações."

O Sr. Verloc começou a andar de um lado para o outro na cozinha, um movimento pesado e rítmico que parecia sublinhar a sua súbita determinação. A Sra. Verloc permanecia imóvel, a sua figura destacando-se contra a parede caiada como um monumento a um luto indizível. O ar na divisão parecia denso, saturado com o odor do gás e o peso da revelação que ela ainda processava.

"É preciso agir," continuou ele, ignorando a ausência de resposta da esposa. "Não me vou deixar destruir por causa da incompetência dos outros. Eles pensam que podem usar-me, descartar-me como uma peça gasta? Estão muito enganados. Eu possuo informações que os fariam tremer nos seus gabinetes luxuosos. Se eu cair, levo-os comigo."

Houve um breve silêncio, interrompido apenas pelo tiquetaque de um relógio algures na casa, um som que parecia contar os segundos de uma existência que já não tinha qualquer significado para a Sra. Verloc. Ela sentia-se como se estivesse a observar o Sr. Verloc através de um vidro espesso, uma criatura de outro mundo cujas palavras, embora audíveis, careciam de qualquer substância vital.

"Compreendes o que isto significa?" perguntou ele, parando subitamente à frente dela. "Significa a nossa liberdade. Uma nova vida, longe de tudo isto. Só temos de ser cautelosos por mais algum tempo. Se fores inteligente, se fores capaz de manter a calma e a discrição, tudo correrá bem."

A Sra. Verloc levantou o olhar, finalmente, encontrando os olhos do marido. Havia nelas uma vacuidade que o Sr. Verloc não foi capaz de interpretar, interpretando-a apenas como o choque natural da situação. "Sim," murmurou ela, uma palavra que flutuou no ar como um espectro. "Compreendo."

Ele sentiu-se encorajado por aquele consentimento, por mais ténue que fosse. A sua mente, habituada a maquinar, já traçava os contornos da sua fuga, da sua vingança e da sua sobrevivência. Não lhe passava pela cabeça que, no silêncio daquela cozinha, a mulher que ele pensava conhecer tão bem estivesse a desatar o último nó que a prendia àquela união, a libertar-se, através da dor absoluta, de qualquer dever ou lealdade. O Sr. Verloc, no seu orgulho e na sua miopia, não viu que a mulher à sua frente já não era a sua esposa, mas sim um ser transformado pela perda irreparável, alguém para quem a sua própria vida e a dele tinham deixado de ter qualquer valor.

Ela tinha a sua liberdade. O seu contrato com a existência, tal como representado por aquele homem ali de pé, chegara ao fim. Era uma mulher livre. Se esta visão se tivesse tornado de alguma forma percetível ao Sr. Verloc, ele ter-se-ia sentido extremamente chocado. Nos seus assuntos do coração, o Sr. Verloc fora sempre descuidadamente generoso, embora sempre sem outra ideia que não a de ser amado por si mesmo. Sobre esta matéria, sendo as suas noções éticas concordantes com a sua vaidade, ele era completamente incorrigível. De que assim deveria ser no caso da sua virtuosa e legal ligação, ele estava perfeitamente certo. Envelhecera, engordara, tornara-se mais pesado, na crença de que não lhe faltava fascínio para ser amado pelo que era. Quando viu a Sra. Verloc começar a sair da cozinha sem uma palavra, ficou desapontado.

"Onde vais?", perguntou ele com um tom bastante brusco. "Para cima?"

A Sra. Verloc, na ombreira da porta, voltou-se ao ouvir a voz. Um instinto de prudência nascido do medo, o medo excessivo de ser abordada e tocada por aquele homem, levou-a a acenar-lhe ligeiramente (da altura de dois degraus), com um movimento dos lábios que o otimismo conjugal do Sr. Verloc tomou por um sorriso pálido e incerto.

"Isso mesmo", encorajou-a ele, rudemente. "Descanso e sossego é o que precisas. Vai. Não demorarei a ir ter contigo."

A Sra. Verloc, a mulher livre que não tinha, na verdade, ideia de para onde ia, obedeceu à sugestão com uma rigidez constante.

O Sr. Verloc observou-a. Ela desapareceu escada acima. Ele estava desapontado. Havia nele algo que teria ficado mais satisfeito se ela tivesse sido levada a lançar-se sobre o seu peito. Mas ele era generoso e indulgente. Winnie era sempre pouco demonstrativa e silenciosa. Nem o próprio Sr. Verloc era, por norma, pródigo em carinhos e palavras. Mas esta não era uma noite comum. Era uma ocasião em que um homem deseja ser fortificado e fortalecido por provas abertas de simpatia e afeição. O Sr. Verloc suspirou e apagou o gás na cozinha. A simpatia do Sr. Verloc pela sua esposa era genuína e intensa. Quase lhe trouxe lágrimas aos olhos enquanto estava na sala, a refletir sobre a solidão que pairava sobre a cabeça dela. Neste estado de espírito, o Sr. Verloc sentiu imensamente a falta de Stevie num mundo difícil. Pensou melancolicamente no seu fim. Se apenas aquele rapaz não se tivesse estupidamente destruído a si mesmo!

A sensação de uma fome insaciável, não desconhecida após a tensão de um empreendimento arriscado para aventureiros de fibra mais rija que a do Sr. Verloc, dominou-o novamente. O naco de carne assada, disposto à semelhança de manjares fúnebres para as exéquias de Stevie, ofereceu-se largamente à sua atenção. E o Sr. Verloc voltou a comer. Comeu vorazmente, sem contenção nem decência, cortando fatias grossas com a faca de trinchar afiada e engolindo-as sem pão. No decorrer dessa refeição, ocorreu ao Sr. Verloc que não estava a ouvir a sua esposa movimentar-se pelo quarto como deveria ter acontecido. O pensamento de a encontrar talvez sentada na cama, no escuro, não só cortou o apetite do Sr. Verloc, como também lhe retirou a inclinação para a seguir escada acima por enquanto. Pousando a faca de trinchar, o Sr. Verloc escutou com atenção preocupada.

Sentiu-se reconfortado ao ouvi-la movimentar-se finalmente. Ela atravessou subitamente o quarto e abriu a janela. Após um período de imobilidade lá em cima, durante o qual ele a imaginou com a cabeça de fora, ouviu o caixilho a ser baixado lentamente. Depois, ela deu alguns passos e sentou-se. Cada ressonância da sua casa era familiar ao Sr. Verloc, que era um homem profundamente doméstico. Quando a seguir ouviu os passos da sua esposa no andar de cima, soube, tão bem como se a tivesse visto a fazê-lo, que ela estivera a calçar os seus sapatos de rua. O Sr. Verloc encolheu os ombros ligeiramente perante este sintoma ominoso e, afastando-se da mesa, ficou de costas para a lareira, com a cabeça inclinada para um lado, roendo perplexo as pontas dos dedos. Acompanhou os movimentos dela pelo som. Ela caminhava aqui e ali violentamente, com paragens abruptas, agora diante da cómoda, depois em frente ao roupeiro. Um imenso peso de cansaço, a colheita de um dia de choques e surpresas, oprimia as energias do Sr. Verloc até ao chão.

Ele não levantou os olhos até ouvir a sua esposa a descer as escadas. Era como ele adivinhara. Ela estava vestida para sair.

A Sra. Verloc era uma mulher livre. Abrira a janela do quarto com a intenção de gritar "Assassínio! Socorro!" ou de se atirar lá para fora. Pois não sabia exatamente que uso dar à sua liberdade. A sua personalidade parecia ter sido rasgada em dois pedaços, cujas operações mentais não se ajustavam muito bem uma à outra. A rua, silenciosa e deserta de uma ponta à outra, repelia-a por tomar o partido daquele homem que estava tão certo da sua impunidade. Teve medo de gritar, receando que ninguém viesse. Obviamente, ninguém viria. O seu instinto de autopreservação recuou perante a profundidade da queda para aquele tipo de trincheira viscosa e profunda. A Sra. Verloc fechou a janela e vestiu-se para sair para a rua por outro caminho. Era uma mulher livre. Vestira-se completamente, até ao atar de um véu preto sobre o rosto. Quando apareceu diante dele sob a luz da sala, o Sr. Verloc observou que ela tinha até a sua pequena mala de mão pendurada no pulso esquerdo... Fugindo para casa da mãe, claro.

O pensamento de que as mulheres eram criaturas cansativas, afinal, apresentou-se ao seu cérebro fatigado. Mas ele era demasiado generoso para o acolher por mais de um instante. Este homem, ferido cruelmente na sua vaidade, manteve-se magnânimo na sua conduta, não se permitindo a satisfação de um sorriso amargo ou de um gesto de desprezo. Com verdadeira grandeza de alma, limitou-se a olhar para o relógio de madeira na parede e disse, de uma forma perfeitamente calma, mas enérgica:

"Vinte e cinco minutos depois das oito, Winnie. Não faz sentido ir lá a esta hora. Nunca conseguirás voltar hoje à noite."

Diante da mão estendida dele, a Sra. Verloc parara subitamente. Ele acrescentou pesadamente: "A tua mãe já se terá deitado antes de lá chegares. Este é o tipo de notícia que pode esperar."

Nada estava mais longe dos pensamentos da Sra. Verloc do que ir ter com a sua mãe. Ela recuou perante a mera ideia e, sentindo uma cadeira atrás de si, obedeceu à sugestão do contacto e sentou-se. A sua intenção tinha sido simplesmente passar pela porta para sempre. E se este sentimento estava correto, a sua forma mental assumiu um aspeto grosseiro, correspondente à sua origem e condição. "Preferiria andar pelas ruas todos os dias da minha vida", pensou ela. Mas esta criatura, cuja natureza moral fora sujeita a um choque do qual, na ordem física, o terramoto mais violento da história seria apenas uma representação ténue e lânguida, estava à mercê de meros detalhes, de contactos casuais. Sentou-se. Com o seu chapéu e véu, tinha o ar de uma visitante, de alguém que passara por casa do Sr. Verloc por um momento. A sua docilidade instantânea encorajou-o, enquanto o seu aspeto de aquiescência apenas temporária e silenciosa o provocou um pouco.

"Deixa-me dizer-te, Winnie", disse ele com autoridade, "que o teu lugar é aqui esta noite. Diabos! Trouxeste a maldita polícia de rastos até mim. Não te culpo — mas a culpa é tua na mesma. É melhor tirares esse chapéu dos infernos. Não posso deixar-te sair, minha velha", acrescentou ele com uma voz suavizada.

A mente da Sra. Verloc apoderou-se dessa declaração com tenacidade mórbida. O homem que levara Stevie debaixo dos seus próprios olhos para o assassinar numa localidade cujo nome, naquele momento, não lhe vinha à memória, não a deixava sair. Claro que não a deixaria.

Agora que ele assassinara Stevie, nunca a deixaria partir. Queria mantê-la por nada. E, com este raciocínio característico, que tinha toda a força de uma lógica insana, o espírito desconexo da Sra. Verloc começou a trabalhar de forma prática. Ela podia passar por ele, abrir a porta, correr para fora. Mas ele lançar-se-ia atrás dela, agarrá-la-ia pelo corpo, arrastá-la-ia de volta para a loja. Ela podia arranhar, pontapear e morder — e esfaquear também; mas, para esfaquear, precisava de uma faca. A Sra. Verloc permaneceu imóvel sob o seu véu preto, na sua própria casa, como uma visitante mascarada e misteriosa de intenções impenetráveis.

A magnanimidade do Sr. Verloc não era mais do que humana. Ela exasperara-o finalmente.

"Não dizes nada? Tens os teus próprios truques para irritar um homem. Oh, sim! Conheço o teu truque de surda-muda. Já te vi a fazê-lo antes de hoje. Mas, agora, isso não serve. E, para começar, tira esta coisa maldita. Não se sabe se se está a falar com um manequim ou com uma mulher viva."

Ele avançou e, estendendo a mão, puxou o véu, desmascarando um rosto imóvel e ilegível, contra o qual a sua exasperação nervosa se desfez como uma bolha de vidro atirada contra uma rocha. "Assim é melhor", disse ele, para cobrir o seu desconforto momentâneo, e retirou-se para a sua posição habitual junto à lareira. Nunca lhe passou pela cabeça que a sua esposa pudesse denunciá-lo. Sentiu-se um pouco envergonhado de si mesmo, pois era carinhoso e generoso. O que podia ele fazer? Tudo já fora dito. Ele protestou veementemente.

"Pelos céus! Sabes que procurei por todo o lado. Corri o risco de me denunciar para encontrar alguém para aquele trabalho maldito. E digo-te novamente que não consegui encontrar ninguém suficientemente louco ou esfomeado. O que pensas que eu sou — um assassino, ou quê? O rapaz foi-se. Achas que eu queria que ele se fizesse explodir? Ele foi-se. Os seus problemas acabaram. Os nossos estão apenas a começar, digo-te, precisamente porque ele se explodiu. Não te culpo. Mas tenta apenas compreender que foi um puro acidente; tanto um acidente como se ele tivesse sido atropelado por um autocarro ao atravessar a rua."

A sua generosidade não era infinita, porque ele era um ser humano — e não um monstro, como a Sra. Verloc acreditava que ele fosse. Ele fez uma pausa, e um rosnado que levantou os seus bigodes acima de um brilho de dentes brancos deu-lhe a expressão de uma besta pensativa, não muito perigosa — uma besta lenta com uma cabeça elegante, mais sombria do que uma foca, e com uma voz rouca.

"E, quando se chega a esse ponto, a culpa é tanto tua como minha. É assim. Podes olhar fixamente o quanto quiseres. Sei o que consegues fazer nesse aspeto. Que Deus me mate se alguma vez me teria passado pela cabeça usar o rapaz para esse propósito. Foste tu que não paravas de o pôr no meu caminho quando eu estava meio distraído com a preocupação de manter todos nós fora de sarilhos. Que diabo te deu? Dir-se-ia que o fazias de propósito. E, se eu soubesse, até diria que o fazias mesmo. Não se pode dizer o quanto do que se está a passar tu apanhaste às escondidas com a tua maneira infernal de não querer saber de nada, de não olhar para lado nenhum em particular e de não dizer absolutamente nada..."

A sua voz doméstica e rouca cessou por um momento. A Sra. Verloc não respondeu. Perante aquele silêncio, ele sentiu-se envergonhado do que dissera. Mas, como acontece frequentemente aos homens pacíficos em discussões domésticas, estando envergonhado, insistiu noutro ponto.

"Tens uma forma diabólica de manter a língua calada, por vezes", começou ele de novo, sem elevar a voz. "O suficiente para levar um homem à loucura. Ainda bem para ti que eu não fico tão facilmente perturbado como alguns ficariam com os teus silêncios de surda-muda. Gosto de ti. Mas não vás longe demais. Não é o momento para isso. Devíamos estar a pensar no que temos de fazer. E não posso deixar-te sair esta noite, a galopar para casa da tua mãe com alguma história louca ou outra sobre mim. Não o permitirei. Não te enganes quanto a isso: se insistes que eu matei o rapaz, então tu mataste-o tanto quanto eu."

Em sinceridade de sentimento e abertura de declaração, estas palavras foram muito além de tudo o que alguma vez fora dito naquele lar, mantido com o salário de uma indústria secreta complementada pela venda de mercadorias mais ou menos secretas: os pobres expedientes concebidos por uma humanidade medíocre para preservar uma sociedade imperfeita dos perigos da corrupção moral e física, ambos também secretos à sua maneira. Foram ditas porque o Sr. Verloc se sentira realmente ultrajado; mas as recatadas decências daquela vida doméstica, aninhada numa rua sombria atrás de uma loja onde o sol nunca brilhava, permaneceram aparentemente inperturbáveis. A Sra. Verloc ouviu-o até ao fim com perfeita propriedade e, em seguida, levantou-se da cadeira, com o chapéu e o casaco, como uma visitante no final de uma visita. Avançou para o marido, com um braço estendido como que para uma despedida silenciosa. O seu véu de rede, pendurado por uma ponta no lado esquerdo do rosto, dava um ar de formalidade desordenada aos seus movimentos contidos. Mas, quando chegou à carpete da lareira, o Sr. Verloc já lá não estava. Ele tinha-se movido na direção do sofá, sem levantar os olhos para observar o efeito da sua tirada. Estava cansado, resignado num espírito verdadeiramente marital. Mas sentia-se ferido no ponto sensível da sua fraqueza secreta. Se ela quisesse continuar a fazer bico naquele silêncio terrível e sobrecarregado — então que o fizesse. Ela era mestre nessa arte doméstica. O Sr. Verloc atirou-se pesadamente sobre o sofá, ignorando como de costume o destino do seu chapéu, que, como se estivesse habituado a tratar de si próprio, procurou um abrigo seguro debaixo da mesa.

Ele estava cansado. A última partícula da sua força nervosa fora gasta nas maravilhas e agonias daquele dia cheio de falhas surpreendentes, que surgiram no final de um mês extenuante de esquemas e insónias. Ele estava cansado. Um homem não é feito de pedra. Que se lixe tudo! O Sr. Verloc repousava caracteristicamente, vestido com as suas roupas de rua. Uma das abas do seu sobretudo aberto estava parcialmente no chão. O Sr. Verloc estirou-se de costas. Mas ansiava por um descanso mais perfeito — pelo sono — por algumas horas de delicioso esquecimento. Isso viria mais tarde. Provisoriamente, descansava. E pensou: "Quem me dera que ela acabasse com esta parvoíce maldita. É exasperante."

Deve ter havido algo de imperfeito no sentimento de liberdade recuperada da Sra. Verloc. Em vez de seguir o caminho da porta, ela inclinou-se para trás, com os ombros contra a prateleira da lareira, tal como um viajante descansa contra uma vedação. Um toque de selvajaria no seu aspeto derivava do véu preto, pendurado como um trapo contra a bochecha, e da fixidez do seu olhar negro, onde a luz da sala era absorvida e perdida sem o rasto de um único brilho. Esta mulher, capaz de um negócio cuja mera suspeita teria sido infinitamente chocante para a ideia de amor do Sr. Verloc, permanecia irresoluta, como se estivesse escrupulosamente consciente de algo em falta da sua parte para o encerramento formal da transação.

No sofá, o Sr. Verloc ajustou os ombros para um conforto perfeito e, da plenitude do seu coração, emitiu um desejo que era certamente tão piedoso como qualquer coisa que pudesse vir de tal fonte.

"Quem me dera", resmungou ele roucamente, "nunca ter visto o Greenwich Park ou qualquer coisa que a ele pertencesse."

O som velado encheu a pequena sala com o seu volume moderado, bem adaptado à natureza modesta do desejo. As ondas de ar, com o comprimento adequado, propagadas de acordo com as fórmulas matemáticas corretas, fluíram à volta de todas as coisas inanimadas na sala, banharam a cabeça da Sra. Verloc como se fosse uma cabeça de pedra. E, por incrível que pareça, os olhos da Sra. Verloc pareciam tornar-se ainda maiores. O desejo audível do coração transbordante do Sr. Verloc fluiu para um lugar vazio na memória da sua esposa. Greenwich Park. Um parque! Foi aí que o rapaz foi morto. Um parque — ramos partidos, folhas rasgadas, gravilha, bocados de carne e osso fraternos, tudo a jorrar junto à maneira de um fogo de artifício. Ela lembrava-se agora do que ouvira, e lembrava-se pictoricamente. Tiveram de o recolher com uma pá. Tremendo por todo o corpo com arrepios irreprimíveis, ela viu diante de si o próprio utensílio com a sua carga macabra raspada do chão. A Sra. Verloc fechou os olhos desesperadamente, lançando sobre essa visão a noite das suas pálpebras, onde, após uma queda semelhante a chuva de membros mutilados, a cabeça decapitada de Stevie pairava suspensa e sozinha, desvanecendo-se lentamente como a última estrela de um espetáculo pirotécnico. A Sra. Verloc abriu os olhos.

O seu rosto já não estava petrificado. Qualquer um poderia ter notado a mudança subtil nos seus traços, no olhar dos seus olhos, dando-lhe uma expressão nova e surpreendente; uma expressão raramente observada por pessoas competentes sob as condições de lazer e segurança exigidas para uma análise aprofundada, mas cujo significado não podia ser confundido num relance. As dúvidas da Sra. Verloc quanto ao fim do negócio já não existiam; o seu espírito, já não desconexo, trabalhava sob o controlo da sua vontade. Mas o Sr. Verloc não observou nada. Ele repousava naquela condição patética de otimismo induzida pelo excesso de fadiga. Não queria mais problemas — ainda por cima com a sua esposa, entre todas as pessoas do mundo. Ele fora irrefutável na sua justificação. Ele era amado por si mesmo. A fase presente do silêncio dela, ele interpretou-a favoravelmente. Era o momento de fazer as pazes com ela. O silêncio durara o suficiente. Ele quebrou-o, chamando-a em voz baixa.

"Winnie."

"Sim", respondeu obedientemente a Sra. Verloc, a mulher livre. Ela comandava agora o seu espírito, os seus órgãos vocais; sentia-se em controlo quase sobrenaturalmente perfeito de cada fibra do seu corpo. Era tudo seu, porque o negócio chegara ao fim. Ela via com clareza. Tornara-se astuta. Escolheu responder-lhe tão prontamente por um propósito. Não desejava que aquele homem mudasse a sua posição no sofá, que era muito adequada às circunstâncias. Ela conseguiu. O homem não se mexeu. Mas, após responder-lhe, permaneceu inclinada negligentemente contra a lareira, na atitude de um viajante a descansar. Ela não tinha pressa. A sua testa estava lisa. A cabeça e os ombros do Sr. Verloc estavam escondidos dela pela lateral alta do sofá. Ela manteve os olhos fixos nos pés dele.

Permaneceu assim, misteriosamente imóvel e subitamente composta, até que se ouviu o Sr. Verloc com um acento de autoridade marital, movendo-se ligeiramente para abrir espaço para ela se sentar na beira do sofá.

"Vem aqui", disse ele num tom peculiar, que poderia ter sido o tom da brutalidade, mas que era intimamente conhecido pela Sra. Verloc como a nota do cortejo.

Ela lançou-se para a frente de imediato, como se ainda fosse uma mulher leal, ligada àquele homem por um contrato ininterrupto. A sua mão direita roçou ligeiramente a extremidade da mesa e, quando ela passou em direção ao sofá, a faca de trinchar desaparecera sem o menor ruído do lado do prato. O Sr. Verloc ouviu a tábua do chão a ranger e ficou contente. Ele esperou. A Sra. Verloc estava a chegar. Como se a alma sem lar de Stevie tivesse voado para abrigo diretamente para o peito da sua irmã, guardiã e protetora, a semelhança do seu rosto com o do seu irmão crescia a cada passo, até ao descair do lábio inferior, até à ligeira divergência dos olhos. Mas o Sr. Verloc não viu isso. Ele estava deitado de costas e a olhar para cima. Viu, parte no teto e parte na parede, a sombra em movimento de um braço com uma mão fechada a segurar uma faca de trinchar. Ela tremeluzia para cima e para baixo. Os seus movimentos eram lentos. Eram suficientemente lentos para o Sr. Verloc reconhecer o membro e a arma.

Eram suficientemente lentos para que ele apreendesse o pleno significado do presságio e sentisse o sabor da morte a subir-lhe pela garganta. A sua mulher enlouquecera — enlouquecera para o homicídio. Eram suficientemente lentos para que o efeito paralisante inicial dessa descoberta se dissipasse antes de uma determinação resoluta de sair vitorioso da luta medonha com aquela lunática armada. Eram suficientemente lentos para que o Sr. Verloc elaborasse um plano de defesa que envolvia uma investida para trás da mesa e o derrube da mulher até ao chão com uma cadeira de madeira pesada. Mas não eram suficientemente lentos para permitir ao Sr. Verloc tempo para mover quer a mão, quer o pé. A faca já estava cravada no seu peito. Não encontrou resistência no seu caminho. O acaso tem dessas precisões. Nesse golpe profundo, desferido sobre o lado do canapé, a Sra. Verloc depositara toda a herança da sua ascendência imemorial e obscura, a ferocidade simples da era das cavernas e a fúria nervosa e desequilibrada da era das tabernas. O Sr. Verloc, o Agente Secreto, virando-se ligeiramente de lado com a força do golpe, expirou sem mexer um membro, no som murmurado da palavra "Não" a título de protesto.

A Sra. Verloc soltara a faca, e a sua extraordinária semelhança com o falecido irmão esvaíra-se, tornando-se agora muito comum. Respirou fundo, o primeiro fôlego tranquilo desde que o Inspetor-Chefe Heat lhe mostrara o pedaço etiquetado do sobretudo de Stevie. Inclinou-se para a frente, com os braços cruzados sobre o lado do sofá. Adotou essa atitude relaxada não para observar ou regozijar-se com o corpo do Sr. Verloc, mas por causa dos movimentos ondulatórios e oscilantes da sala, que durante algum tempo se comportou como se estivesse no mar durante uma tempestade. Estava tonta, mas calma. Tornara-se uma mulher livre, com uma perfeição de liberdade que não lhe deixava nada a desejar e absolutamente nada para fazer, uma vez que a reivindicação urgente de Stevie sobre a sua devoção já não existia. A Sra. Verloc, que pensava em imagens, não era agora perturbada por visões, porque não pensava de todo. E não se movia. Era uma mulher a desfrutar da sua completa irresponsabilidade e lazer sem fim, quase à maneira de um cadáver. Não se movia, não pensava. Nem o invólucro mortal do falecido Sr. Verloc, que repousava no sofá. Exceto pelo facto de a Sra. Verloc respirar, estes dois estariam em perfeita concordância: aquela concordância de reserva prudente, sem palavras supérfluas e poupada em sinais, que fora a base da sua respeitável vida doméstica. Pois tinha sido respeitável, cobrindo com uma reticência decente os problemas que podem surgir na prática de uma profissão secreta e no comércio de mercadorias duvidosas. Até ao fim, o seu decoro permaneceu imperturbado por gritos indecorosos e outras sinceridades de conduta desajustadas. E, após o desferir do golpe, essa respeitabilidade continuou na imobilidade e no silêncio.

Nada se moveu na sala até que a Sra. Verloc levantou a cabeça lentamente e olhou para o relógio com desconfiança interrogativa. Tornara-se consciente de um som de tique-taque na divisão. Crescia no seu ouvido, enquanto se lembrava claramente de que o relógio na parede estava silencioso, não tinha um tique audível. O que significaria ele começar a bater tão alto de repente? O seu mostrador indicava dez minutos para as nove. A Sra. Verloc não se importava com as horas, e o tique-taque continuava. Concluiu que não podia ser o relógio, e o seu olhar sombrio percorreu as paredes, vacilou e tornou-se vago, enquanto ela forçava a audição para localizar o som. Tique, tique, tique.

Depois de ouvir durante algum tempo, a Sra. Verloc baixou o olhar deliberadamente para o corpo do marido. A sua atitude de repouso era tão caseira e familiar que ela podia fazê-lo sem se sentir embaraçada por qualquer novidade pronunciada nos fenómenos da sua vida doméstica. O Sr. Verloc estava a descansar o seu descanso habitual. Parecia confortável.

Pela posição do corpo, o rosto do Sr. Verloc não era visível para a Sra. Verloc, a sua viúva. Os seus olhos belos e sonolentos, percorrendo o caminho do som, tornaram-se contemplativos ao encontrar um objeto plano de osso que sobressaía um pouco além da borda do sofá. Era o cabo da faca de trinchar doméstica, sem nada de estranho a não ser a sua posição em ângulo reto com o colete do Sr. Verloc e o facto de algo pingar dele. Gotas escuras caíam no pavimento, uma após outra, com um som de tique-taque que crescia rápido e furioso como a pulsação de um relógio insano. Na sua velocidade máxima, este tique-taque transformou-se num som contínuo de gotejar. A Sra. Verloc observou essa transformação com sombras de ansiedade a ir e vir no seu rosto. Era um fio, escuro, rápido, fino... Sangue!

Perante esta circunstância imprevista, a Sra. Verloc abandonou a sua pose de ociosidade e irresponsabilidade.

Com um puxão súbito nas saias e um grito fraco, ela correu para a porta, como se o fio de sangue fosse o primeiro sinal de uma inundação destruidora. Ao encontrar a mesa no seu caminho, empurrou-a com ambas as mãos como se ela estivesse viva, com tanta força que a mesa avançou uma certa distância sobre as suas quatro pernas, fazendo um barulho estridente e arranhado, enquanto o prato grande com o assado se espatifava pesadamente no chão.

Depois, tudo ficou imóvel. A Sra. Verloc, ao chegar à porta, parou. Um chapéu redondo, revelado no meio do chão com o movimento da mesa, balançou ligeiramente sobre a sua copa ao vento da sua fuga.

CAPÍTULO XII

Winnie Verloc, a viúva do Sr. Verloc, a irmã do falecido e fiel Stevie (reduzido a fragmentos num estado de inocência e na convicção de estar envolvido numa empresa humanitária), não correu além da porta da sala. Tinha, de facto, fugido para longe de um mero fio de sangue, mas isso foi um movimento de repulsa instintiva. E ali parou, com os olhos arregalados e a cabeça baixa. Como se tivesse atravessado longos anos na sua fuga pela pequena sala, a Sra. Verloc junto à porta era uma pessoa completamente diferente da mulher que estivera debruçada sobre o sofá, um pouco tonta da cabeça, mas de resto livre para desfrutar da calma profunda da ociosidade e da irresponsabilidade. A Sra. Verloc já não estava tonta. A sua cabeça estava firme. Por outro lado, já não estava calma. Estava com medo.

Se evitava olhar na direção do marido em repouso, não era porque tivesse medo dele. O Sr. Verloc não era assustador de contemplar. Parecia confortável. Além disso, estava morto. A Sra. Verloc não alimentava ilusões vãs sobre o assunto dos mortos. Nada os traz de volta, nem o amor nem o ódio. Eles não podem fazer nada contra ti. Eles são como nada. O seu estado mental era tingido por uma espécie de desprezo austero por aquele homem que se deixara matar tão facilmente. Ele tinha sido o mestre de uma casa, o marido de uma mulher e o assassino do seu Stevie. E agora não era de nenhuma importância em todos os aspetos. Era de menos importância prática do que a roupa no seu corpo, do que o seu sobretudo, do que as suas botas — do que aquele chapéu caído no chão. Ele não era nada. Não valia a pena olhar para ele. Já nem era sequer o assassino do pobre Stevie. O único assassino que seria encontrado na sala quando as pessoas viessem procurar o Sr. Verloc seria... ela própria!

As suas mãos tremiam tanto que falhou duas vezes a tarefa de voltar a prender o seu véu. A Sra. Verloc já não era uma pessoa de lazer e irresponsabilidade. Estava com medo. O esfaqueamento do Sr. Verloc fora apenas um golpe. Tinha aliviado a agonia contida de gritos estrangulados na sua garganta, de lágrimas secas nos seus olhos quentes, da raiva enlouquecedora e indignada pelo papel atroz desempenhado por aquele homem, que era menos que nada agora, ao roubar-lhe o rapaz.

Fora um golpe instigado obscuramente. O sangue a pingar no chão do cabo da faca transformara-o num caso extremamente claro de homicídio. A Sra. Verloc, que sempre evitava olhar profundamente para as coisas, foi obrigada a olhar para o fundo desta coisa. Não viu ali nenhum rosto assombroso, nenhuma sombra de reprovação, nenhuma visão de remorso, nenhum tipo de conceção ideal. Viu ali um objeto. Esse objeto era a forca. A Sra. Verloc tinha medo da forca.

Ela estava aterrorizada com ela idealmente. Nunca tendo posto os olhos naquele argumento final da justiça dos homens, exceto em ilustrações de xilogravura num certo tipo de contos, viu-as primeiro erguidas contra um fundo negro e tempestuoso, festonadas com correntes e ossos humanos, rodeadas por aves que picam os olhos dos homens mortos. Isto era suficientemente assustador, mas a Sra. Verloc, embora não fosse uma mulher bem informada, tinha conhecimento suficiente das instituições do seu país para saber que as forcas já não são erguidas romanticamente nas margens de rios lúgubres ou em promontórios varridos pelo vento, mas nos pátios das prisões. Ali, dentro de quatro paredes altas, como se fosse para um fosso, ao romper do dia, o assassino era trazido para ser executado, com uma quietude horrível e, como as notícias nos jornais sempre diziam, "na presença das autoridades". Com os olhos fixos no chão, as narinas a tremer de angústia e vergonha, imaginou-se sozinha entre um grupo de cavalheiros estranhos de cartola que procediam calmamente ao negócio de a enforcar pelo pescoço. Isso — nunca! Nunca! E como era feito? A impossibilidade de imaginar os detalhes de tal execução silenciosa acrescentava algo de enlouquecedor ao seu terror abstrato. Os jornais nunca davam quaisquer detalhes, exceto um, mas esse, com alguma afetação, estava sempre lá no fim de uma notícia escassa. A Sra. Verloc lembrava-se da sua natureza. Veio com uma dor ardente e cruel à sua cabeça, como se as palavras "A queda dada foi de catorze pés" tivessem sido riscadas no seu cérebro com uma agulha quente. "A queda dada foi de catorze pés."

Estas palavras afetaram-na fisicamente também. A sua garganta tornou-se convulsa em ondas para resistir ao estrangulamento; e a apreensão do solavanco era tão vívida que ela agarrou a cabeça com ambas as mãos como se para evitar que esta fosse arrancada dos seus ombros. "A queda dada foi de catorze pés." Não! Isso nunca pode acontecer. Ela não suportaria isso. Só o pensamento disso era insuportável. Ela não suportava pensar nisso. Portanto, a Sra. Verloc formou a resolução de ir imediatamente e atirar-se ao rio a partir de uma das pontes.

Desta vez conseguiu voltar a prender o véu. Com o rosto como se estivesse mascarado, toda de preto da cabeça aos pés, exceto por algumas flores no seu chapéu, olhou mecanicamente para o relógio. Pensou que ele devia ter parado. Não podia acreditar que apenas dois minutos tinham passado desde a última vez que olhara para ele. Claro que não. Ele estivera parado o tempo todo. De facto, apenas três minutos tinham decorrido desde o momento em que ela dera o primeiro fôlego profundo e fácil após o golpe até este momento em que a Sra. Verloc formou a resolução de se afogar no Tamisa. Mas a Sra. Verloc não conseguia acreditar nisso. Parecia ter ouvido ou lido que os relógios e as máquinas de marcar as horas paravam sempre no momento do homicídio para a desgraça do homicida. Ela não queria saber. "Para a ponte — e lá vou eu."... Mas os seus movimentos eram lentos.

Arrastou-se penosamente pela loja e teve de se segurar ao puxador da porta antes de encontrar a fortaleza necessária para a abrir. A rua assustava-a, uma vez que levava ou à forca ou ao rio. Atirou-se pelo degrau da porta com a cabeça para a frente, braços estendidos, como uma pessoa a cair sobre o parapeito de uma ponte. Esta entrada ao ar livre tinha um prenúncio de afogamento; uma humidade viscosa envolveu-a, entrou-lhe pelas narinas, agarrou-se ao seu cabelo. Não estava propriamente a chover, mas cada candeeiro a gás tinha um pequeno halo ferrugento de nevoeiro. A carrinha e os cavalos tinham ido embora, e na rua negra a janela com cortinas da casa de pasto dos carroceiros fazia uma mancha quadrada de luz vermelho-sangue suja, brilhando fracamente muito perto do nível do pavimento. A Sra. Verloc, arrastando-se lentamente em direção a ela, pensou que era uma mulher muito desamparada. Era verdade. Era tão verdade que, num desejo súbito de ver algum rosto amigável, não conseguiu pensar em ninguém a não ser na Sra. Neale, a mulher das limpezas. Ela não tinha conhecidos próprios. Ninguém sentiria a sua falta socialmente. Não se deve imaginar que a Viúva Verloc se tinha esquecido da sua mãe. Não era esse o caso. Winnie tinha sido uma boa filha porque fora uma irmã dedicada. A sua mãe sempre se apoiara nela. Nenhuma consolação ou conselho poderia ser esperado dali. Agora que Stevie estava morto, o laço parecia ter-se quebrado. Não conseguia encarar a velha senhora com a história horrível. Além disso, era demasiado longe. O rio era o seu destino presente. A Sra. Verloc tentou esquecer a sua mãe.

Cada passo custava-lhe um esforço de vontade que parecia o último possível. A Sra. Verloc arrastara-se para lá do brilho vermelho da janela da casa de pasto. "Para a ponte — e lá vou eu", repetiu para si mesma com obstinação feroz. Estendeu a mão a tempo de se equilibrar contra um poste de iluminação. "Nunca chegarei lá antes da manhã", pensou. O medo da morte paralisava os seus esforços para escapar à forca. Parecia-lhe que andava a cambalear naquela rua há horas. "Nunca chegarei lá", pensou. "Vão encontrar-me às voltas pelas ruas. É demasiado longe." Agarrou-se, ofegante sob o seu véu preto.

"A queda dada foi de catorze pés."

Empurrou o poste de iluminação violentamente para longe de si e deu por si a caminhar. Mas outra onda de desmaio apoderou-se dela como um grande mar, lavando o seu coração para fora do peito. "Nunca chegarei lá", murmurou, subitamente detida, balançando-se levemente onde estava. "Nunca."

E, percebendo a completa impossibilidade de caminhar até à ponte mais próxima, a Sra. Verloc pensou numa fuga para o estrangeiro.

Veio-lhe subitamente. Os homicidas escapavam. Escapavam para o estrangeiro. Espanha ou Califórnia. Meros nomes. O vasto mundo criado para a glória do homem era apenas um vasto vazio para a Sra. Verloc. Ela não sabia para que lado se virar. Os homicidas tinham amigos, parentes, ajudantes — eles tinham conhecimento. Ela não tinha nada. Era a mais solitária dos homicidas que alguma vez desferira um golpe mortal. Estava sozinha em Londres: e toda a cidade de maravilhas e lama, com o seu labirinto de ruas e a sua massa de luzes, estava submersa numa noite sem esperança, repousava no fundo de um abismo negro do qual nenhuma mulher sem ajuda poderia esperar sair.

Balançou-se para a frente e recomeçou cegamente, com um pavor terrível de cair; mas ao fim de alguns passos, inesperadamente, encontrou uma sensação de apoio, de segurança. Levantando a cabeça, viu o rosto de um homem a espreitar de perto o seu véu. O Camarada Ossipon não tinha medo de mulheres estranhas, e nenhum sentimento de falsa delicadeza o podia impedir de travar conhecimento com uma mulher aparentemente muito embriagada. O Camarada Ossipon interessava-se por mulheres. Segurou esta entre as suas duas palmas grandes, espreitando-a de uma forma profissional até que a ouviu dizer fracamente "Sr. Ossipon!", e então quase a deixou cair ao chão.

"Sra. Verloc!", exclamou ele. "A senhora aqui!"

Parecia-lhe impossível que ela tivesse estado a beber. Mas nunca se sabe. Ele não entrou por aí, mas, atento a não desencorajar o destino gentil que lhe entregava a viúva do Camarada Verloc, tentou puxá-la para o seu peito. Para seu espanto, ela veio com bastante facilidade, e até descansou no seu braço por um momento antes de tentar soltar-se. O Camarada Ossipon não seria brusco com o destino gentil. Retirou o braço de uma forma natural.

"Reconheceu-me", balbuciou ela, de pé diante dele, bastante firme nas pernas.

"Claro que sim", disse Ossipon com total prontidão. "Estava com medo que caísse. Tenho pensado demasiado em si ultimamente para não a reconhecer em qualquer lugar, a qualquer hora. Sempre pensei em si — desde que posei os olhos em si pela primeira vez."

A Sra. Verloc parecia não ouvir. "Estava a caminho da loja?", perguntou nervosamente.

"Sim; imediatamente", respondeu Ossipon. "Logo que li o jornal."

De facto, o Camarada Ossipon andava a rondar há umas boas duas horas as imediações de Brett Street, incapaz de se decidir por um movimento ousado. O anarquista robusto não era exatamente um conquistador ousado. Lembrava-se de que a Sra. Verloc nunca retribuíra os seus olhares com o menor sinal de encorajamento. Além disso, pensava que a loja podia estar vigiada pela polícia, e o Camarada Ossipon não queria que a polícia formasse uma ideia exagerada das suas simpatias revolucionárias. Mesmo agora não sabia precisamente o que fazer. Comparado com as suas especulações amorosas habituais, este era um empreendimento grande e sério. Ele ignorava quanto havia nele e quão longe teria de ir para deitar a mão ao que havia para obter — supondo que houvesse alguma oportunidade. Estas perplexidades, travando a sua euforia, conferiram ao seu tom uma sobriedade bem ajustada às circunstâncias.

"Posso perguntar-lhe para onde ia?", inquiriu ele com uma voz contida.

"Não me pergunte!", gritou a Sra. Verloc com uma violência reprimida e trémula. Toda a sua forte vitalidade recuou perante a ideia da morte. "Não importa para onde eu ia..."

Ossipon concluiu que ela estava muito agitada, mas perfeitamente sóbria. Ela permaneceu em silêncio ao seu lado por um momento, depois, de repente, ela fez algo que ele não esperava. Ela enfiou a mão debaixo do braço dele. Ele ficou surpreendido com o ato em si, certamente, e tanto quanto pelo caráter palpavelmente resoluto deste movimento. Mas, sendo este um assunto delicado, o Camarada Ossipon comportou-se com delicadeza. Conteve-se em pressionar a mão ligeiramente contra as suas costelas robustas. Ao mesmo tempo, sentiu-se a ser impelido para a frente e cedeu ao impulso. No fim de Brett Street, apercebeu-se de que estava a ser dirigido para a esquerda. Submeteu-se.

O fruticultor da esquina tinha apagado a glória flamejante das suas laranjas e limões, e Brett Place estava envolto em trevas, entrecortadas pelos halos enevoados dos poucos candeeiros que definiam a sua forma triangular, com um conjunto de três luzes num poste no meio. As formas escuras do homem e da mulher deslizavam lentamente, de braço dado, ao longo das paredes, com um aspeto amoroso e sem-abrigo na noite miserável.

"O que diria se eu lhe contasse que ia à sua procura?", perguntou a Sra. Verloc, apertando o braço dele com força.

"Diria que não poderia encontrar ninguém mais pronto a ajudá-la nos seus apuros", respondeu Ossipon, com uma noção de estar a fazer um avanço tremendo. De facto, o progresso deste caso delicado estava quase a deixá-lo sem fôlego.

"Nos meus apuros!", repetiu a Sra. Verloc lentamente.

"Sim."

"E sabe quais são os meus apuros?", sussurrou ela com uma intensidade estranha.

"Dez minutos depois de ver o jornal da tarde", explicou Ossipon com ardor, "encontrei um tipo que talvez tenha visto uma ou duas vezes na loja, talvez, e tive uma conversa com ele que não deixou qualquer dúvida na minha mente. Então vim para aqui, a perguntar-me se a senhora — tenho tido uma afeição por si que não se pode exprimir por palavras desde que posei os olhos no seu rosto", gritou ele, como se fosse incapaz de controlar os seus sentimentos.

O Camarada Ossipon assumiu corretamente que nenhuma mulher era capaz de não acreditar totalmente numa afirmação destas. Mas não sabia que a Sra. Verloc a aceitava com toda a ferocidade que o instinto de autopreservação coloca no aperto de uma pessoa que se afoga. Para a viúva do Sr. Verloc, o anarquista robusto era como um mensageiro radiante de vida.

Caminhavam lentamente, a passo marcado. "Eu pensava nisso", murmurou a Sra. Verloc fracamente.

"Leu isso nos meus olhos", sugeriu Ossipon com grande segurança.

"Sim", soprou ela para o ouvido inclinado dele.

“Um amor como o meu não podia ser ocultado a uma mulher como você”, continuou ele, tentando afastar a mente de considerações materiais, tais como o valor comercial da loja e a quantia de dinheiro que o Sr. Verloc poderia ter deixado no banco. Aplicou-se ao lado sentimental do caso. No fundo do seu coração, estava um pouco chocado com o seu sucesso. Verloc tinha sido um bom sujeito e, certamente, um marido muito decente, tanto quanto se podia ver. Contudo, o camarada Ossipon não ia discutir com a sua sorte por causa de um homem morto. Reprimiu resolutamente a sua simpatia pelo fantasma do camarada Verloc e prosseguiu.

“Eu não o podia ocultar. Estava demasiado cheio de si. Suponho que não pôde evitar vê-lo nos meus olhos. Mas eu não podia adivinhá-lo. Você era sempre tão distante...”

“O que mais esperava?”, explodiu a Sra. Verloc. “Eu era uma mulher respeitável—”

Ela fez uma pausa e depois acrescentou, como se falasse consigo mesma, com um ressentimento sinistro: “Até que ele fez de mim o que sou.”

Ossipon deixou passar isso e retomou o fio à meada. “Ele nunca me pareceu ser verdadeiramente digno de si”, começou, atirando a lealdade para o vento. “Você era digna de um destino melhor.”

A Sra. Verloc interrompeu, amargamente:

“Destino melhor! Ele roubou-me sete anos de vida.”

“Parecia viver tão feliz com ele.” Ossipon tentou desculpar a tibieza da sua conduta passada. “É isso que me tem tornado tímido. Você parecia amá-lo. Fiquei surpreendido — e com ciúmes”, acrescentou.

“Amá-lo!”, exclamou a Sra. Verloc num sussurro, cheio de desprezo e fúria. “Amá-lo! Eu fui uma boa esposa para ele. Sou uma mulher respeitável. Você pensou que eu o amava! Pensou mesmo! Veja bem, Tom—”

O som deste nome entusiasmou o camarada Ossipon com orgulho. Pois o seu nome era Alexander, e ele era chamado de Tom por um acordo com a mais familiar das suas íntimas. Era um nome de amizade — de momentos de expansão. Ele não fazia ideia de que ela alguma vez o tivesse ouvido ser usado por alguém. Era evidente que ela não só o tinha apanhado, como o guardara na memória — talvez no coração.

“Veja bem, Tom! Eu era uma rapariga nova. Eu estava exausta. Estava cansada. Tinha duas pessoas a depender do que eu podia fazer, e parecia que eu não conseguia fazer mais nada. Duas pessoas — a mãe e o rapaz. Ele era muito mais meu do que da mãe. Passei noites e noites com ele ao colo, sozinha lá em cima, quando eu própria não tinha mais de oito anos. E depois — Ele era meu, digo-lhe... Você não pode entender isso. Nenhum homem pode entendê-lo. O que é que eu havia de fazer? Havia um rapaz—”

A memória do início do romance com o jovem talhante sobreviveu, tenaz, como a imagem de um ideal vislumbrado naquele coração que tremia perante o medo da forca e cheio de revolta contra a morte.

“Esse era o homem que eu amava então”, continuou a viúva do Sr. Verloc. “Suponho que ele também o podia ver nos meus olhos. Vinte e cinco xelins por semana, e o pai dele ameaçou expulsá-lo do negócio se ele fizesse a tolice de se casar com uma rapariga com uma mãe aleijada e um rapaz parvo e idiota a seu cargo. Mas ele andava sempre atrás de mim, até que uma noite encontrei coragem para lhe bater com a porta na cara. Tive de o fazer. Amava-o profundamente. Vinte e cinco xelins por semana! Havia aquele outro homem — um bom inquilino. O que é que uma rapariga há de fazer? Podia ter ido para a rua? Ele parecia gentil. De qualquer forma, ele queria-me. O que é que eu havia de fazer com a mãe e com aquele pobre rapaz? Eh? Eu disse que sim. Ele parecia bem-humorado, era generoso, tinha dinheiro, nunca dizia nada. Sete anos — sete anos como uma boa esposa para ele, o tipo, o bom, o generoso, o... E ele amava-me. Oh, sim. Ele amava-me até ao ponto em que às vezes desejava estar... Sete anos. Sete anos a ser sua esposa. E sabe o que ele era, esse seu caro amigo? Sabe o que ele era? Ele era um demónio!”

A veemência sobre-humana daquela afirmação sussurrada deixou o camarada Ossipon completamente atordoado. Winnie Verloc, voltando-se, segurou-o pelos dois braços, enfrentando-o sob o nevoeiro que caía, na escuridão e solidão de Brett Place, onde todos os sons da vida pareciam perdidos como num poço triangular de asfalto e tijolos, de casas cegas e pedras insensíveis.

“Não; eu não sabia”, declarou ele, com uma espécie de estupidez flácida, cujo aspeto cómico passou despercebido a uma mulher assombrada pelo medo da forca, “mas agora sei. Eu... eu compreendo”, balbuciou ele, com a mente a especular sobre que tipo de atrocidades Verloc poderia ter praticado sob a aparência sonolenta e plácida da sua vida conjugal. Era positivamente terrível. “Compreendo”, repetiu, e depois, por uma inspiração súbita, pronunciou um — “Mulher infeliz!” de elevada comiseração, em vez do mais familiar “Pobre querida!” do seu uso habitual. Este não era um caso comum. Sentia que algo de anormal estava a acontecer, enquanto nunca perdia de vista a grandeza do que estava em jogo. “Mulher infeliz, mulher corajosa!”

Ficou contente por ter descoberto essa variação; mas não conseguiu descobrir mais nada.

“Ah, mas ele está morto agora”, foi o melhor que conseguiu. E colocou uma quantidade notável de animosidade na sua exclamação cautelosa. A Sra. Verloc agarrou-se ao braço dele com uma espécie de frenesim.

“Adivinhou então que ele estava morto”, murmurou ela, como se estivesse fora de si. “Você! Você adivinhou o que eu tive de fazer. Tive!”

Havia sugestões de triunfo, alívio e gratidão no tom indefinível destas palavras. Isso absorveu toda a atenção de Ossipon, em detrimento do simples sentido literal. Ele perguntava-se o que se passava com ela, por que razão se tinha deixado levar por aquele estado de agitação selvagem. Começou até a interrogar-se se as causas ocultas daquele caso do Greenwich Park não estariam profundamente enraizadas nas infelizes circunstâncias da vida conjugal dos Verloc. Foi ao ponto de suspeitar que o Sr. Verloc tinha escolhido aquela forma extraordinária de cometer suicídio. Por Júpiter! Isso explicaria a total inanidade e a teimosia da coisa. Nenhuma manifestação anarquista era exigida pelas circunstâncias. Pelo contrário; e Verloc estava tão consciente disso como qualquer outro revolucionário da sua posição. Que piada imensa se Verloc tivesse simplesmente feito de tolos toda a Europa, o mundo revolucionário, a polícia, a imprensa e também o convencido Professor. Na verdade, pensou Ossipon, espantado, parecia quase certo que ele o tinha feito! Pobre coitado! Impressionou-o como sendo muito possível que, daquele agregado de dois, não fosse precisamente o homem quem era o demónio.

Alexander Ossipon, alcunhado de Doutor, estava naturalmente inclinado a pensar com indulgência nos seus amigos homens. Olhou para a Sra. Verloc, que estava pendurada no seu braço. Quanto às suas amigas mulheres, pensava nelas de uma forma especialmente prática. O facto de a Sra. Verloc exclamar sobre o seu conhecimento da morte do Sr. Verloc, que não era uma suposição de todo, não o perturbou excessivamente. Elas falavam muitas vezes como lunáticas. Mas ele estava curioso por saber como ela tinha sido informada. Os jornais não lhe podiam dizer nada para além do simples facto: o homem feito em pedaços no Greenwich Park não tinha sido identificado. Era inconcebível, segundo qualquer teoria, que Verloc lhe tivesse dado uma ideia da sua intenção — qualquer que ela fosse. Este problema interessava imensamente o camarada Ossipon. Ele parou subitamente. Tinham percorrido os três lados de Brett Place e estavam novamente perto do fim de Brett Street.

“Como é que soube disso pela primeira vez?”, perguntou ele num tom que tentou tornar apropriado ao caráter das revelações que lhe tinham sido feitas pela mulher ao seu lado.

Ela tremeu violentamente durante algum tempo antes de responder com uma voz apática.

“Pela polícia. Um inspetor-chefe veio, Inspetor-Chefe Heat, disse ele que era. Ele mostrou-me...”

A Sra. Verloc engasgou-se. “Oh, Tom, tiveram de o recolher com uma pá.”

O seu peito arfou com soluços secos. Num momento, Ossipon recuperou a voz.

“A polícia! Quer dizer que a polícia já veio? Que o próprio Inspetor-Chefe Heat veio contar-lhe?”

“Sim”, confirmou ela no mesmo tom apático. “Ele veio exatamente assim. Ele veio. Eu não sabia. Ele mostrou-me um pedaço de sobretuto e... exatamente assim. Conhece isto? ele diz.”

“Heat! Heat! E o que é que ele fez?”

A cabeça da Sra. Verloc caiu. “Nada. Ele não fez nada. Ele foi-se embora. A polícia estava do lado daquele homem”, murmurou ela tragicamente. “Veio outro também.”

“Outro — quer dizer outro inspetor?”, perguntou Ossipon, muito agitado, e muito no tom de uma criança assustada.

“Não sei. Ele veio. Parecia um estrangeiro. Pode ter sido um daqueles homens da Embaixada.”

O camarada Ossipon quase colapsou com este novo choque.

“Embaixada! Sabe o que está a dizer? Que Embaixada? O que raio quer dizer com Embaixada?”

“É aquele lugar em Chesham Square. As pessoas que ele amaldiçoava tanto. Não sei. Que importa isso!”

“E esse sujeito, o que é que ele fez ou lhe disse?”

“Não me lembro... Nada... Não quero saber. Não me pergunte”, implorou ela com uma voz cansada.

“Está bem. Não perguntarei”, assentiu Ossipon ternamente. E ele falava a sério, não porque estivesse sensibilizado pelo patos da voz suplicante, mas porque sentia que estava a perder o pé nas profundezas deste assunto tenebroso. Polícia! Embaixada! Puf! Por medo de aventurar a sua inteligência por caminhos onde as suas luzes naturais poderiam não o guiar em segurança, descartou resolutamente todas as suposições, conjeturas e teorias da sua mente. Ele tinha a mulher ali, atirando-se literalmente para cima dele, e essa era a consideração principal. Mas depois do que tinha ouvido, nada o podia espantar mais. E quando a Sra. Verloc, como se subitamente acordada de um sonho de segurança, começou a insistir com ele, freneticamente, sobre a necessidade de uma fuga imediata para o Continente, ele não exclamou minimamente. Limitou-se a dizer, com um pesar sem afetação, que não havia comboio até de manhã, e ficou a olhar pensativo para o rosto dela, velado por uma rede preta, sob a luz de um candeeiro a gás velado por uma gaze de nevoeiro.

Perto dele, a sua forma negra fundia-se na noite, como uma figura meio esculpida num bloco de pedra negra. Era impossível dizer o que ela sabia, quão profundamente estava envolvida com polícias e Embaixadas. Mas se ela queria ir embora, não era a ele que competia opor-se. Ele próprio estava ansioso por partir. Sentia que o negócio, a loja tão estranhamente familiar aos inspetores-chefes e aos membros de Embaixadas estrangeiras, não era o lugar para ele. Isso tinha de ser abandonado. Mas havia o resto. As poupanças. O dinheiro!

“Tem de me esconder em algum lado até de manhã”, disse ela com uma voz consternada.

“A verdade, minha querida, é que não posso levá-la para onde vivo. Partilho o quarto com um amigo.”

Ele próprio estava algo consternado. De manhã, os polícias estarão certamente em todas as estações. E se eles a apanhassem, por uma razão ou por outra, ela estaria perdida para ele, de facto.

“Mas tem de o fazer. Não gosta de mim de todo — de todo? Em que é que está a pensar?”

Ela disse isto violentamente, mas deixou cair as mãos entrelaçadas, desanimada. Houve um silêncio, enquanto o nevoeiro caía e a escuridão reinava imperturbável sobre Brett Place. Nem uma alma, nem sequer a alma vadia, sem lei e amorosa de um gato, se aproximou do homem e da mulher que se enfrentavam.

“Talvez fosse possível encontrar um alojamento seguro em qualquer lado”, falou Ossipon, por fim. “Mas a verdade é, minha querida, que não tenho dinheiro suficiente para ir tentar — apenas alguns cêntimos. Nós, os revolucionários, não somos ricos.”

Ele tinha quinze xelins no bolso. Acrescentou:

“E ainda temos a viagem pela frente — logo de manhã, aliás.”

Ela não se mexeu, não fez qualquer som, e o coração do camarada Ossipon afundou-se um pouco. Aparentemente, ela não tinha nenhuma sugestão a oferecer. De repente, ela levou a mão ao peito, como se tivesse sentido uma dor aguda ali.

“Mas eu tenho”, ofegou ela. “Eu tenho o dinheiro. Tenho dinheiro suficiente. Tom! Vamos embora daqui.”

“Quanto é que você tem?”, perguntou ele, sem se mover ao puxão dela; pois era um homem cauteloso.

“Eu tenho o dinheiro, digo-lhe. Todo o dinheiro.”

“O que quer dizer com isso? Todo o dinheiro que estava no banco, ou quê?”, perguntou ele, incrédulo, mas pronto para não se espantar com nada que fosse sorte.

“Sim, sim!”, disse ela, nervosa. “Todo o que havia. Tenho-o todo.”

“Como raio conseguiu deitar-lhe a mão tão depressa?”, maravilhou-se ele.

“Ele deu-mo”, murmurou ela, subitamente submissa e a tremer. O camarada Ossipon suprimiu com mão firme a sua crescente surpresa.

“Ora bem, então — estamos salvos”, proferiu ele, lentamente.

Ela inclinou-se para a frente e caiu contra o peito dele. Ele deu-lhe as boas-vindas. Ela tinha todo o dinheiro. O chapéu atrapalhava qualquer efusão marcada; o véu também. Ele foi adequado nas suas manifestações, mas não mais do que isso. Ela recebeu-as sem resistência e sem entrega, passivamente, como se estivesse apenas semi-consciente. Ela libertou-se dos abraços frouxos dele sem dificuldade.

“Você vai salvar-me, Tom”, soltou ela, recuando, mas mantendo-o agarrado pelas duas lapelas do seu casaco húmido. “Salva-me. Esconde-me. Não deixes que eles me apanhem. Tens de me matar primeiro. Eu não o conseguiria fazer sozinha — eu não conseguiria, eu não conseguiria — nem mesmo por causa daquilo de que tenho medo.”

Ela era irritantemente bizarra, pensou ele. Estava a começar a inspirar-lhe uma inquietação indefinida. Ele disse, de mau humor, pois estava ocupado com pensamentos importantes:

“Do que é que raio tens medo?”

“Ainda não adivinhaste o que fui levada a fazer!”, gritou a mulher. Distraída pela vivacidade das suas terríveis apreensões, com a cabeça a zumbir com palavras fortes, que mantinham o horror da sua posição perante a sua mente, ela imaginara que a sua incoerência era a própria clareza. Ela não tinha consciência de quão pouco tinha dito audivelmente nas frases desconexas, completadas apenas no seu pensamento. Ela tinha sentido o alívio de uma confissão completa e dava um significado especial a cada frase dita pelo camarada Ossipon, cujo conhecimento não se assemelhava em nada ao dela. “Ainda não adivinhaste o que fui levada a fazer!” A sua voz baixou. “Então não precisas de muito tempo para adivinhar do que tenho medo”, continuou ela, num murmúrio amargo e sombrio. “Eu não quero isso. Eu não quero. Eu não quero. Eu não quero. Tens de prometer matar-me primeiro!” Ela sacudiu as lapelas do casaco dele. “Isso nunca deve acontecer!”

Ele garantiu-lhe, secamente, que não eram necessárias promessas da sua parte, mas teve o cuidado de não a contradizer em termos diretos, porque tinha lidado muito com mulheres excitadas e, em geral, tendia a deixar que a sua experiência guiasse a sua conduta, em vez de aplicar a sua sagacidade a cada caso especial. A sua sagacidade, neste caso, estava ocupada noutras direções. As palavras das mulheres caíam na água, mas as falhas dos horários permaneciam. A natureza insular da Grã-Bretanha impunha-se à sua atenção de uma forma odiosa. “Bem podia ser posta à chave todas as noites”, pensou ele, irritado, tão desconcertado como se tivesse uma parede para escalar com a mulher às costas. De repente, deu uma palmada na testa. À força de espremer o cérebro, tinha acabado de se lembrar do serviço Southampton—St Malo. O barco partia por volta da meia-noite. Havia um comboio às 10.30. Tornou-se alegre e pronto a agir.

“De Waterloo. Há tempo de sobra. Afinal, estamos bem... O que é que se passa agora? Este não é o caminho”, protestou ele.

A Sra. Verloc, tendo enganchado o braço no dele, estava a tentar arrastá-lo para Brett Street novamente.

“Esqueci-me de fechar a porta da loja quando saí”, sussurrou ela, terrivelmente agitada.

A loja e tudo o que lá estava tinham deixado de interessar ao camarada Ossipon. Ele sabia como limitar os seus desejos. Estava prestes a dizer “Que importa isso? Deixa estar”, mas conteve-se. Não gostava de discutir ninharias. Até apressou consideravelmente o passo ao pensar que ela podia ter deixado o dinheiro na gaveta. Mas a sua disposição ficou atrás da impaciência febril dela.

A loja parecia estar completamente às escuras, a princípio. A porta estava entreaberta. A Sra. Verloc, apoiada na frente, arquejou:

“Ninguém entrou. Olha! A luz — a luz na sala.”

Ossipon, esticando a cabeça para a frente, viu um brilho ténue na escuridão da loja.

“Está”, disse ele.

“Esqueci-me dela.” A voz da Sra. Verloc veio de trás do véu, fracamente. E, enquanto ele esperava que ela entrasse primeiro, ela disse mais alto: “Entra e apaga-a — ou vou enlouquecer.”

Ele não fez qualquer objeção imediata a esta proposta, tão estranhamente motivada. “Onde está todo esse dinheiro?”, perguntou ele.

“Comigo! Vai, Tom. Depressa! Apaga-a... Entra!”, gritou ela, agarrando-o pelos dois ombros por trás.

Não estando preparado para uma demonstração de força física, o camarada Ossipon tropeçou loja adentro perante o empurrão dela. Ficou espantado com a força da mulher e escandalizado com os seus procedimentos. Mas não voltou atrás para a repreender severamente na rua. Estava a começar a ficar desagradavelmente impressionado com o comportamento fantástico dela. Além disso, esta era a altura ideal para condescender com a mulher, se alguma vez o fosse. O camarada Ossipon contornou facilmente a ponta do balcão e aproximou-se calmamente da porta envidraçada da sala. Como a cortina sobre os vidros estava um pouco aberta, ele, por um impulso muito natural, olhou para dentro, no momento em que se preparava para girar o puxador. Olhou para dentro sem pensar, sem intenção, sem curiosidade de espécie alguma. Olhou porque não pôde evitar olhar. Olhou para dentro e descobriu o Sr. Verloc a repousar calmamente no sofá.

Um grito, vindo das profundezas do seu peito, morreu sem ser ouvido e transformou-se num sabor gorduroso e enjoativo nos seus lábios. Ao mesmo tempo, a personalidade mental do camarada Ossipon deu um salto frenético para trás. Mas o seu corpo, deixado assim sem orientação intelectual, manteve-se agarrado ao puxador da porta com a força impensada de um instinto. O robusto anarquista nem sequer cambaleou. E fixou o olhar, com o rosto junto ao vidro, os olhos a saltarem-lhe das órbitas. Teria dado tudo para se ir embora, mas a sua razão, que regressava, informou-o de que não ficaria bem soltar o puxador da porta. O que era aquilo — loucura, um pesadelo ou uma armadilha em que tinha sido atraído com uma astúcia diabólica? Porquê — para quê? Ele não sabia. Sem qualquer sentimento de culpa no peito, com a consciência em plena paz no que dizia respeito àquelas pessoas, a ideia de que seria assassinado por razões misteriosas pelo casal Verloc passou, não tanto pela sua mente, mas pela boca do seu estômago, e partiu, deixando atrás de si um rasto de desmaio enjoativo — uma indisposição. O camarada Ossipon não se sentiu muito bem, de uma forma muito especial, durante um momento — um longo momento. E ele fixou o olhar. O Sr. Verloc jazia muito imóvel, entretanto, simulando dormir por razões próprias, enquanto aquela sua mulher selvagem guardava a porta — invisível e silenciosa na rua escura e deserta. Seria tudo isto uma espécie de arranjo aterrorizante inventado pela polícia para seu benefício especial? A sua modéstia recuou perante essa explicação.

Mas o verdadeiro sentido da cena que ele contemplava chegou a Ossipon através da observação do chapéu. Parecia uma coisa extraordinária, um objeto ominoso, um sinal. Preto, e com a aba voltada para cima, jazia no chão diante do sofá como se estivesse preparado para receber contribuições de moedas de pessoas que em breve viriam contemplar o Sr. Verloc na plenitude do seu conforto doméstico, repousando num canapé. Do chapéu, os olhos do robusto anarquista vaguearam para a mesa deslocada, fixaram-se por um momento no prato quebrado, receberam uma espécie de choque ótico ao observar um brilho branco sob as pálpebras imperfeitamente fechadas do homem no sofá. O Sr. Verloc não parecia agora tanto estar a dormir, mas sim deitado com a cabeça curvada, olhando insistentemente para o seu peito esquerdo. E quando o camarada Ossipon distinguiu o cabo da faca, afastou-se da porta envidraçada e teve um violento acesso de vómitos.

O estrondo da porta da rua ao bater fez a sua própria alma saltar em pânico. Esta casa, com o seu inquilino inofensivo, ainda podia ser transformada numa armadilha — uma armadilha de um tipo terrível. O camarada Ossipon não tinha agora qualquer conceção definida do que lhe estava a acontecer. Ao bater com a coxa contra a extremidade do balcão, girou, cambaleou com um grito de dor, sentiu, no estrépito perturbador da campainha, os seus braços imobilizados contra o corpo por um abraço convulsivo, enquanto os lábios frios de uma mulher se moviam arrepiantemente contra a sua própria orelha para formar as palavras:

— Policial! Ele viu-me!

Ele cessou de lutar; ela nunca o soltou. As mãos dela tinham-se fechado com um entrelaçar inseparável de dedos nas suas costas robustas. Enquanto os passos se aproximavam, respiravam rapidamente, peito contra peito, com respirações duras e ofegantes, como se a deles tivesse sido a atitude de uma luta mortal, quando, de facto, era a atitude de um medo mortal. E o tempo foi longo.

O agente da patrulha tinha, na verdade, visto algo da Sra. Verloc; apenas, vindo da rua iluminada na outra extremidade de Brett Street, ela não passara para ele de um movimento na escuridão. E ele nem sequer tinha a certeza de que tivesse havido tal movimento. Não tinha motivos para se apressar. Ao chegar à altura da loja, observou que tinha sido fechada cedo. Não havia nada de muito invulgar nisso. Os homens de serviço tinham instruções especiais sobre aquela loja: o que se passava por ali não devia ser perturbado a menos que houvesse uma desordem absoluta, mas quaisquer observações feitas deveriam ser comunicadas. Não havia observações a fazer; mas, por sentido de dever e pela paz da sua consciência, devido também àquele movimento duvidoso na escuridão, o agente atravessou a rua e experimentou a porta. O trinco de mola, cuja chave repousava para sempre fora de serviço no bolso do colete do falecido Sr. Verloc, segurava tão bem como de costume. Enquanto o consciencioso oficial agitava a maçaneta, Ossipon sentiu os lábios frios da mulher a moverem-se novamente de forma arrepiante contra a sua própria orelha:

— Se ele entrar, mata-me — mata-me, Tom.

O agente afastou-se, brilhando ao passar a luz da sua lanterna surda, apenas por descargo de consciência, para a montra da loja. Por mais um momento, o homem e a mulher lá dentro ficaram imóveis, ofegantes, peito contra peito; depois, os dedos dela soltaram-se e os seus braços caíram lentamente ao longo do corpo. Ossipon encostou-se ao balcão. O robusto anarquista precisava muito de apoio. Aquilo era terrível. Estava quase demasiado enjoado para falar. Contudo, conseguiu proferir um pensamento queixoso, mostrando pelo menos que compreendia a sua posição.

— Só mais um par de minutos e terias feito com que eu me esbarrasse contra o tipo a bisbilhotar aqui com a sua lanterna maldita.

A viúva do Sr. Verloc, imóvel no meio da loja, disse insistentemente:

— Entra e apaga aquela luz, Tom. Vai deixar-me louca.

Ela viu vagamente o seu gesto veemente de recusa. Nada no mundo teria induzido Ossipon a entrar na sala. Ele não era supersticioso, mas havia sangue a mais no chão; uma poça bestial dele à volta do chapéu. Julgou que já estivera demasiado perto daquele cadáver para a paz da sua mente — talvez para a segurança do seu pescoço!

— No contador, então! Ali. Olha. Naquele canto.

A forma robusta do camarada Ossipon, caminhando de forma brusca e sombria através da loja, agachou-se obedientemente num canto; mas essa obediência foi sem graça. Ele mexeu-se nervosamente — e, de repente, no som de um palavrão murmurado, a luz atrás da porta envidraçada apagou-se com um suspiro ofegante e histérico de uma mulher. A noite, a recompensa inevitável dos trabalhos fiéis dos homens nesta terra, a noite tinha caído sobre o Sr. Verloc, o revolucionário experimentado — "um do velho lote" — o humilde guardião da sociedade; o inestimável Agente Secreto [delta] dos despachos do Barão Stott-Wartenheim; um servo da lei e da ordem, fiel, de confiança, preciso, admirável, com talvez uma única fraqueza amável: a crença idealista em ser amado por si mesmo.

Ossipon tateou o caminho de volta através da atmosfera abafada, agora negra como tinta, até ao balcão. A voz da Sra. Verloc, de pé no meio da loja, vibrou atrás dele naquela escuridão com um protesto desesperado.

— Eu não serei enforcada, Tom. Eu não serei...

Ela interrompeu-se. Ossipon, desde o balcão, emitiu um aviso: "Não grites assim", depois pareceu refletir profundamente. "Fizeste isto tudo sozinha?" — perguntou ele com uma voz oca, mas com uma aparência de calma autoritária que encheu o coração da Sra. Verloc de uma confiança grata na sua força protetora.

— Sim — sussurrou ela, invisível.

— Eu não teria acreditado ser possível — murmurou ele. — Ninguém acreditaria.

Ela ouviu-o mover-se e o estalido de uma fechadura na porta da sala. O camarada Ossipon tinha trancado o repouso do Sr. Verloc; e fê-lo não por reverência pela sua natureza eterna ou qualquer outra consideração obscuramente sentimental, mas pela razão precisa de que não tinha a certeza de que não houvesse mais alguém escondido algures na casa. Ele não acreditava na mulher, ou melhor, era incapaz agora de julgar o que poderia ser verdadeiro, possível ou até provável neste universo espantoso. Estava aterrorizado, sem qualquer capacidade de acreditar ou descrer em relação a este caso extraordinário, que começara com inspetores de polícia e embaixadas e terminaria sabe Deus onde — no cadafalso para alguém. Estava aterrorizado com o pensamento de que não poderia provar o uso que fez do seu tempo desde as sete horas, pois andara a esgueirar-se por Brett Street. Estava aterrorizado com esta mulher selvagem que o trouxera para ali e que provavelmente o culparia de cumplicidade, pelo menos se ele não tivesse cuidado. Estava aterrorizado com a rapidez com que fora envolvido em tais perigos — atraído para eles. Fazia uns vinte minutos desde que a encontrara — não mais.

A voz da Sra. Verloc subiu, contida, suplicando piedosamente: "Não deixes que me enforquem, Tom! Tira-me do país. Eu trabalharei para ti. Serei tua escrava. Amar-te-ei. Não tenho ninguém no mundo... Quem olharia para mim se não fores tu!" Ela cessou por um momento; depois, nas profundezas da solidão que se formara à sua volta por um fio insignificante de sangue escorrendo do cabo de uma faca, encontrou uma inspiração terrível para ela — que fora a rapariga respeitável da mansão de Belgravia, a leal e respeitável esposa do Sr. Verloc. "Não te pedirei para casares comigo", disse ela com um tom envergonhado.

Ela deu um passo em frente na escuridão. Ele estava aterrorizado com ela. Não se teria surpreendido se ela tivesse subitamente produzido outra faca destinada ao seu peito. Certamente não teria oferecido qualquer resistência. Ele não tinha, naquele momento, fortaleza suficiente para lhe dizer para se manter afastada. Mas perguntou, num tom cavernoso e estranho: "Ele estava a dormir?"

— Não — gritou ela, e continuou rapidamente. — Não estava. Nem um pouco. Ele esteve a dizer-me que nada o poderia atingir. Depois de tirar o rapaz debaixo dos meus próprios olhos para o matar — o rapaz amoroso, inocente e inofensivo. O meu próprio, digo-te. Ele estava deitado no sofá, tão tranquilo — depois de matar o rapaz — o meu rapaz. Eu teria ido para as ruas para sair da vista dele. E ele diz-me isto: "Vem cá", depois de me dizer que eu ajudei a matar o rapaz. Ouves, Tom? Ele diz isto: "Vem cá", depois de me arrancar o próprio coração juntamente com o rapaz para o esmagar na lama.

Ela cessou, depois repetiu sonhadoramente duas vezes: "Sangue e lama. Sangue e lama." Uma grande luz iluminou o camarada Ossipon. Era então aquele rapaz deficiente que tinha perecido no parque. E o ato de enganar toda a gente à volta parecia mais completo do que nunca — colossal. Ele exclamou cientificamente, no extremo do seu espanto: "O degenerado — por todos os céus!"

— Vem cá. — A voz da Sra. Verloc subiu novamente. — O que é que ele pensava que eu era? Diz-me, Tom. Vem cá! Eu! Assim! Eu tinha estado a olhar para a faca e pensei que iria se ele tanto me quisesse. Oh, sim! Eu vim — pela última vez... Com a faca.

Ele estava excessivamente aterrorizado com ela — a irmã do degenerado — uma degenerada ela própria de um tipo assassino... ou então do tipo mentiroso. O camarada Ossipon podia dizer-se que estava aterrorizado cientificamente, para além de todos os outros tipos de medo. Era um pavor incomensurável e composto, que, pelo seu próprio excesso, lhe dava no escuro uma falsa aparência de calma e deliberação ponderada. Pois ele movia-se e falava com dificuldade, como se estivesse meio congelado na sua vontade e mente — e ninguém podia ver o seu rosto lívido. Sentia-se meio morto.

Ele deu um salto de meio metro. Inesperadamente, a Sra. Verloc profanara a decência reservada e ininterrupta do seu lar com um grito estridente e terrível.

— Ajuda-me, Tom! Salva-me. Eu não serei enforcada!

Ele correu para a frente, tateando a boca dela com uma mão para silenciá-la, e o grito extinguiu-se. Mas, na sua corrida, ele derrubou-a. Sentiu-a agora agarrada às suas pernas, e o seu terror atingiu o ponto culminante, tornou-se uma espécie de embriaguez, alimentou delírios, adquiriu as características de *delirium tremens*. Ele via positivamente cobras agora. Via a mulher enrolada nele como uma cobra, impossível de sacudir. Ela não era mortal. Ela era a própria morte — a companheira da vida.

A Sra. Verloc, como se estivesse aliviada pelo desabafo, estava muito longe de se comportar de forma ruidosa agora. Ela era digna de pena.

— Tom, não podes livrar-te de mim agora — murmurou ela do chão. — A não ser que me esmagues a cabeça com o teu calcanhar. Não te deixarei.

— Levanta-te — disse Ossipon.

O seu rosto estava tão pálido que se tornava quase visível na profunda escuridão negra da loja; enquanto a Sra. Verloc, com véu, não tinha rosto, quase nenhuma forma discernível. O tremor de algo pequeno e branco, uma flor no seu chapéu, marcava o seu lugar, os seus movimentos.

Ela levantou-se na escuridão. Tinha-se erguido do chão, e Ossipon lamentou não ter corrido imediatamente para a rua. Mas percebeu facilmente que não daria. Não daria. Ela correria atrás dele. persegui-lo-ia a gritar até enviar todos os polícias ao alcance em sua perseguição. E então, só Deus sabia o que ela diria dele. Estava tão assustado que, por um momento, a ideia insana de a estrangular no escuro passou-lhe pela mente. E tornou-se mais assustado do que nunca! Ela tinha-o! Via-se a viver num terror abjeto nalguma aldeia obscura em Espanha ou Itália; até que, numa bela manhã, o encontrassem morto também, com uma faca no peito — como o Sr. Verloc. Ele suspirou profundamente. Não ousava mover-se. E a Sra. Verloc aguardava em silêncio o bom prazer do seu salvador, derivando conforto do seu silêncio reflexivo.

De repente, ele falou com uma voz quase natural. As suas reflexões tinham chegado ao fim.

— Vamos sair, ou perderemos o comboio.

— Onde vamos, Tom? — perguntou ela timidamente. A Sra. Verloc já não era uma mulher livre.

— Vamos primeiro para Paris, da melhor maneira que pudermos... Sai primeiro e vê se o caminho está livre.

Ela obedeceu. A sua voz veio contida através da porta aberta cautelosamente.

— Está tudo bem.

Ossipon saiu. Apesar dos seus esforços para ser gentil, a campainha rachada tilintou atrás da porta fechada na loja vazia, como se tentasse em vão avisar o repousante Sr. Verloc da partida final da sua esposa — acompanhada pelo seu amigo.

No *hansom* que apanharam pouco depois, o robusto anarquista tornou-se explicativo. Estava ainda terrivelmente pálido, com olhos que pareciam ter afundado uns bons dois centímetros no seu rosto tenso. Mas parecia ter pensado em tudo com um método extraordinário.

— Quando chegarmos — discursou ele num tom estranho e monótono — deves entrar na estação à minha frente, como se não nos conhecêssemos. Eu comprarei os bilhetes e meterei o teu na tua mão à medida que passar por ti. Depois, irás para a sala de espera de primeira classe para senhoras e sentar-te-ás lá até dez minutos antes de o comboio partir. Depois, tu sais. Eu estarei do lado de fora. Entras primeiro na plataforma, como se não me conhecesses. Pode haver olhos a observar ali que sabem o que é o quê. Sozinha, és apenas uma mulher a partir de comboio. Eu sou conhecido. Comigo, podes ser identificada como a Sra. Verloc a fugir. Compreendes, minha querida? — acrescentou ele, com um esforço.

— Sim — disse a Sra. Verloc, sentada ali contra ele no *hansom*, toda rígida com o pavor da forca e o medo da morte. — Sim, Tom. — E acrescentou para si mesma, como um refrão terrível: "A queda dada foi de catorze pés."

Ossipon, sem olhar para ela, e com um rosto como um molde de gesso fresco de si mesmo após uma doença debilitante, disse: "A propósito, devo ter o dinheiro para os bilhetes agora."

A Sra. Verloc, desfazendo alguns ganchos do seu corpete, enquanto continuava a olhar para a frente para além do painel, entregou-lhe a nova carteira de pele de porco. Ele recebeu-a sem uma palavra e pareceu mergulhá-la profundamente algures no seu próprio peito. Depois, deu uma palmada no seu casaco pelo lado de fora.

Tudo isto foi feito sem a troca de um único olhar; eram como duas pessoas à procura da primeira visão de um objetivo desejado. Não foi até o *hansom* virar numa esquina e em direção à ponte que Ossipon abriu os lábios novamente.

— Sabes quanto dinheiro há dentro dessa coisa? — perguntou ele, como se se dirigisse lentamente a algum duende sentado entre as orelhas do cavalo.

— Não — disse a Sra. Verloc. — Ele deu-ma. Não contei. Não pensei nisso na altura. Depois...

Ela moveu um pouco a mão direita. Foi tão expressivo aquele pequeno movimento daquela mão direita que desferira o golpe mortal no coração de um homem menos de uma hora antes, que Ossipon não conseguiu reprimir um estremecimento. Exagerou-o então propositadamente e murmurou:

— Tenho frio. Fiquei gelado.

A Sra. Verloc olhou diretamente em frente para a perspetiva da sua fuga. De vez em quando, como uma serpentina de luto soprada através de uma estrada, as palavras "A queda dada foi de catorze pés" entravam no caminho do seu olhar tenso. Através do seu véu preto, o branco dos seus olhos grandes brilhava lustroso como os olhos de uma mulher mascarada.

A rigidez de Ossipon tinha algo de profissional, uma estranha expressão oficial. Foi ouvido novamente de repente, como se tivesse soltado um trinco para falar.

— Ouve lá! Sabes se o teu... se ele mantinha a sua conta no banco em nome próprio ou noutro nome?

A Sra. Verloc voltou para ele o seu rosto mascarado e o grande brilho branco dos seus olhos.

— Outro nome? — disse ela pensativa.

— Sê exata no que dizes — deu uma aula Ossipon no movimento veloz do *hansom*. — É extremamente importante. Explicar-te-ei. O banco tem os números destas notas. Se lhe foram pagas em nome próprio, então, quando a sua... a sua morte for conhecida, as notas podem servir para nos localizar, uma vez que não temos outro dinheiro. Não tens outro dinheiro contigo?

Ela abanou a cabeça negativamente.

— Nenhum mesmo? — insistiu ele.

— Algumas moedas.

— Seria perigoso nesse caso. O dinheiro teria de ser tratado de forma especial. Muito especial. Teríamos talvez de perder mais de metade da quantia para conseguir trocar estas notas num certo lugar seguro que conheço em Paris. No outro caso, quero dizer, se ele tinha a sua conta e recebia pagamentos sob outro nome — digamos Smith, por exemplo — o dinheiro é perfeitamente seguro para usar. Compreendes? O banco não tem meios de saber que o Sr. Verloc e, digamos, Smith são a mesma pessoa. Vês como é importante que não cometas erros ao responder-me? Podes responder a essa pergunta? Talvez não. Hein?

Ela disse calmamente:

— Lembro-me agora! Ele não fazia depósitos em nome próprio. Disse-me uma vez que estava em depósito em nome de Prozor.

— Tens a certeza?

— Certa.

— Não achas que o banco tinha conhecimento do seu verdadeiro nome? Ou alguém no banco ou...

Ela encolheu os ombros.

— Como posso saber? É provável, Tom?

— Não. Suponho que não seja provável. Teria sido mais confortável saber... Aqui estamos. Sai primeiro e entra diretamente. Move-te com agilidade.

Ele permaneceu para trás e pagou ao cocheiro com a sua própria prata solta. O programa traçado pela sua previsão minuciosa foi cumprido. Quando a Sra. Verloc, com o seu bilhete para St. Malo na mão, entrou na sala de espera para senhoras, o camarada Ossipon entrou no bar e, em sete minutos, absorveu três doses de conhaque quente com água.

— A tentar expulsar uma constipação — explicou ele à empregada do bar, com um aceno amigável e um sorriso esgarçado. Depois saiu, trazendo daquele interlúdio festivo o rosto de um homem que tinha bebido na própria Fonte da Tristeza. Levantou os olhos para o relógio. Era hora. Esperou.

Pontual, a Sra. Verloc saiu, com o véu para baixo, e toda de preto — preta como a própria morte banal, coroada com algumas flores baratas e pálidas. Passou perto de um pequeno grupo de homens que se riam, mas cujo riso poderia ter sido morto por uma única palavra. O seu andar era indolente, mas as suas costas estavam direitas, e o camarada Ossipon olhou para elas com terror antes de ele próprio começar a andar.

O comboio estava parado, com quase ninguém perto da sua fila de portas abertas. Devido à época do ano e ao tempo abominável, quase não havia passageiros. A Sra. Verloc caminhou lentamente ao longo da linha de compartimentos vazios até Ossipon lhe tocar no cotovelo por trás.

— Aqui dentro.

Ela entrou e ele permaneceu na plataforma a olhar à volta. Ela inclinou-se para a frente e, num sussurro:

— O que é, Tom? Há algum perigo? Espera um momento. Aí está o guarda.

Ela viu-o abordar o homem de uniforme. Conversaram durante algum tempo. Ouviu o guarda dizer "Muito bem, senhor" e viu-o tocar no boné. Depois Ossipon voltou, dizendo: "Disse-lhe para não deixar ninguém entrar no nosso compartimento."

Ela estava inclinada para a frente no seu assento. "Pensas em tudo... Vais tirar-me daqui, Tom?" — perguntou ela numa rajada de angústia, levantando o véu bruscamente para olhar para o seu salvador.

Ela tinha descoberto um rosto como diamante. E, deste rosto, os olhos continuavam a olhar, grandes, secos, dilatados, sem luz, queimados como dois buracos negros nos globos brancos e brilhantes.

— Não há perigo — disse ele, fitando-os com uma seriedade quase arrebatada, que para a Sra. Verloc, em fuga da forca, parecia estar cheia de força e ternura. Esta devoção comoveu-a profundamente — e o rosto adamantino perdeu a rigidez severa do seu terror. O camarada Ossipon fitou-o como nenhum amante jamais fitou o rosto da sua amada. Alexander Ossipon, anarquista, alcunhado o Doutor, autor de um folheto médico (e impróprio), outrora conferencista sobre os aspetos sociais da higiene em clubes de trabalhadores, estava livre dos entraves da moralidade convencional — mas submetia-se à regra da ciência. Ele era científico, e fitou cientificamente aquela mulher, a irmã de um degenerado, ela própria uma degenerada — de um tipo assassino. Fitou-a e invocou Lombroso, como um camponês italiano se recomenda ao seu santo favorito. Fitou-a cientificamente. Fitou as suas faces, o seu nariz, os seus olhos, as suas orelhas... Mau! Fatal! Os lábios pálidos da Sra. Verloc entreabrindo-se, ligeiramente relaxados sob o seu olhar apaixonadamente atento, ele fitou também os dentes dela... Não restava dúvida... um tipo assassino... Se o camarada Ossipon não recomendou a sua alma aterrorizada a Lombroso, foi apenas porque, por fundamentos científicos, não podia acreditar que carregava consigo algo como uma alma. Mas ele possuía o espírito científico, que o levava a testemunhar na plataforma de uma estação ferroviária em frases nervosas e espasmódicas.

— Ele era um rapaz extraordinário, esse teu irmão. Muito interessante de estudar. Um tipo perfeito, de certa forma. Perfeito!

Falou cientificamente no seu medo secreto. E a Sra. Verloc, ouvindo estas palavras de louvor concedidas aos seus amados mortos, inclinou-se para a frente com um lampejo de luz nos seus olhos sombrios, como um raio de sol a anunciar uma tempestade de chuva.

— Ele era isso mesmo — sussurrou ela suavemente, com os lábios a tremer. — Tu prestavas muita atenção a ele, Tom. Eu amava-te por isso.

— É quase inacreditável a semelhança que havia entre vocês os dois — prosseguiu Ossipon, dando voz ao seu temor persistente e tentando esconder a sua impaciência nervosa e nauseante para que o comboio partisse. — Sim; ele parecia-se contigo.

Estas palavras não foram especialmente comoventes ou simpáticas. Mas o facto de insistir nessa semelhança foi suficiente, por si só, para atuar poderosamente sobre as suas emoções. Com um pequeno grito ténue e estendendo os braços, a Sra. Verloc desfez-se finalmente em lágrimas.

Ossipon entrou na carruagem, fechou apressadamente a porta e olhou para fora para ver as horas no relógio da estação. Mais oito minutos. Durante os três primeiros, a Sra. Verloc chorou violenta e desamparadamente, sem pausa ou interrupção. Depois, recuperou um pouco e soluçou suavemente numa queda abundante de lágrimas. Tentou falar com o seu salvador, com o homem que era o mensageiro da vida.

— Oh, Tom! Como pude eu ter medo de morrer depois de ele me ter sido tirado tão cruelmente! Como pude! Como pude ser tão cobarde!

Lamentou em voz alta o seu amor pela vida, aquela vida sem graça ou encanto, e quase sem decência, mas de uma fidelidade de propósito exaltada, até ao homicídio. E, como acontece frequentemente no lamento da pobre humanidade, rica em sofrimento mas indigente em palavras, a verdade — o verdadeiro grito da verdade — foi encontrada numa forma gasta e artificial, apanhada algures entre as frases de falso sentimento.

— Como pude ter tanto medo da morte! Tom, eu tentei. Mas tenho medo. Tentei acabar comigo mesma. E não consegui. Serei eu dura? Suponho que a taça de horrores não estava cheia o suficiente para alguém como eu. Depois, quando tu vieste...

Ela fez uma pausa. Depois, numa rajada de confiança e gratidão: — Viverei todos os meus dias para ti, Tom! — soluçou ela.

— Vai para o outro canto da carruagem, longe da plataforma — disse Ossipon, solícito. Ela deixou que o seu salvador a acomodasse confortavelmente, e ele observou o início de outra crise de choro, ainda mais violenta do que a primeira. Observou os sintomas com um certo ar médico, como se estivesse a contar os segundos. Ouviu finalmente o apito do guarda. Uma contração involuntária do lábio superior expôs os seus dentes com todo o aspeto de uma resolução selvagem ao sentir o comboio começar a mover-se. A Sra. Verloc não ouviu nem sentiu nada, e Ossipon, o seu salvador, permaneceu imóvel. Sentiu o comboio rolar mais depressa, trovejando pesadamente ao som dos soluços altos da mulher, e então, atravessando a carruagem em duas passadas largas, abriu a porta deliberadamente e saltou.

Saltou mesmo no fim da plataforma; e tal era a sua determinação em manter o seu plano desesperado que conseguiu, por uma espécie de milagre, realizado quase no ar, bater a porta da carruagem. Só então se viu a rebolar, de cabeça para baixo, como um coelho alvejado. Estava nódoa negra, abalado, pálido como a morte e sem fôlego quando se levantou. Mas estava calmo e perfeitamente capaz de enfrentar a multidão agitada de ferroviários que se tinha reunido à sua volta num momento. Explicou, em tons gentis e convincentes, que a sua esposa tinha partido de um momento para o outro para a Bretanha, para junto da mãe moribunda; que, claro, ela estava muito perturbada e ele consideravelmente preocupado com o seu estado; que ele estava a tentar animá-la e não se apercebeu absolutamente nada, a princípio, de que o comboio estava a sair. À exclamação geral: "Porque não seguiu então para Southampton, senhor?", ele opôs a inexperiência de uma cunhada jovem deixada sozinha em casa com três crianças pequenas, e o alarme dela perante a sua ausência, estando os correios fechados. Tinha agido por impulso. "Mas não creio que volte a tentar isso", concluiu; sorriu para todos; distribuiu algum troco e marchou sem coxear para fora da estação.

Lá fora, o camarada Ossipon, com mais notas de banco seguras do que alguma vez tivera na vida, recusou a oferta de um táxi.

— Posso ir a pé — disse ele, com uma pequena risada amigável para o condutor civil.

Podia ir a pé. Ele caminhou. Atravessou a ponte. Mais tarde, as torres da Abadia viram, na sua imobilidade maciça, o tufo amarelo do seu cabelo passar sob os candeeiros. As luzes de Victoria viram-no também, e Sloane Square, e as grades do parque. E o camarada Ossipon encontrou-se uma vez mais numa ponte. O rio, uma maravilha sinistra de sombras imóveis e reflexos correntes que se misturavam abaixo num silêncio negro, prendeu-lhe a atenção. Ficou muito tempo a olhar sobre o parapeito. A torre do relógio trovejou uma explosão de bronze sobre a sua cabeça pendida. Ele olhou para o mostrador... Meia-noite e meia de uma noite selvagem no Canal.

E novamente o camarada Ossipon caminhou. A sua forma robusta foi vista naquela noite em partes distantes da enorme cidade, que dormia monstruosamente sobre um tapete de lama sob um véu de névoa crua. Foi vista a atravessar ruas sem vida e som, ou a diminuir nas intermináveis perspetivas retas de casas sombrias que ladeavam estradas vazias alinhadas por cordas de candeeiros a gás. Caminhou através de Squares, Places, Ovals, Commons, através de ruas monótonas com nomes desconhecidos onde o pó da humanidade se deposita inerte e sem esperança, fora do fluxo da vida. Caminhou. E, virando subitamente para a faixa de um jardim frontal com um relvado sarnento, entrou numa casa pequena e suja com uma chave que tirou do bolso.

Atirou-se para a cama, ainda vestido, e ficou imóvel durante um quarto de hora inteiro. Depois sentou-se de repente, puxando os joelhos e abraçando as pernas. O primeiro amanhecer encontrou-o de olhos abertos, na mesma postura. Este homem que conseguia caminhar tanto tempo, tão longe, tão sem destino, sem mostrar um sinal de fadiga, conseguia também permanecer sentado, imóvel, durante horas, sem mexer um membro ou uma pálpebra. Mas quando o sol tardio enviou os seus raios para o quarto, ele descruzou as mãos e caiu para trás, sobre a almofada. Os seus olhos fitavam o teto. E, de repente, fecharam-se. O camarada Ossipon dormiu à luz do sol.

CAPÍTULO XIII

O enorme cadeado de ferro nas portas do armário de parede era o único objeto no quarto sobre o qual o olhar podia descansar sem ser afligido pela desoladora falta de beleza das formas e pela pobreza do material. Invendável no decurso normal dos negócios devido às suas nobres proporções, tinha sido cedido ao Professor por uns poucos cêntimos por um negociante marítimo no leste de Londres. O quarto era grande, limpo, respeitável e pobre, com aquela pobreza que sugere a inanição de cada necessidade humana exceto o simples pão. Não havia nada nas paredes a não ser o papel, uma extensão de verde arsenical, sujo com manchas indeléveis aqui e ali, e com nódoas que lembravam mapas desbotados de continentes inabitados.

À mesa de pinho, perto de uma janela, estava sentado o camarada Ossipon, segurando a cabeça entre os punhos. O Professor, vestido com o seu único fato de tweed de má qualidade, mas batendo de um lado para o outro sobre as tábuas nuas com um par de chinelos incrivelmente dilapidados, tinha enfiado as mãos profundamente nos bolsos esticados do seu casaco. Estava a relatar ao seu convidado robusto uma visita que fizera recentemente ao apóstolo Michaelis. O anarquista perfeito tinha até cedido um pouco.

— O tipo não sabia nada da morte de Verloc. Claro! Nunca lê os jornais. Diz que o deixam demasiado triste. Mas não importa. Entrei na sua casa de campo. Nem uma alma em lado nenhum. Tive de gritar meia dúzia de vezes antes que ele me respondesse. Pensei que ainda estivesse a dormir profundamente, na cama. Mas nada disso. Ele já escrevia o seu livro há quatro horas. Estava sentado naquela minúscula gaiola, num montão de manuscritos. Havia uma cenoura crua meio comida sobre a mesa, perto dele. O seu pequeno-almoço. Agora, ele vive com uma dieta de cenouras cruas e um pouco de leite.

— Com que aspeto é que ele fica com isso? — perguntou o camarada Ossipon, apático.

— Angélico... Apanhei um punhado das suas páginas do chão. A pobreza de raciocínio é espantosa. Ele não tem lógica. Não consegue pensar de forma consecutiva. Mas isso não é nada. Ele dividiu a sua biografia em três partes, intituladas: "Fé, Esperança, Caridade". Está agora a elaborar a ideia de um mundo planeado como um hospital imenso e agradável, com jardins e flores, no qual os fortes devem dedicar-se a cuidar dos fracos.

O Professor fez uma pausa.

— Consegues conceber esta loucura, Ossipon? Os fracos! A fonte de todo o mal nesta terra! — continuou ele com a sua severa segurança. — Disse-lhe que sonhava com um mundo como um matadouro, onde os fracos seriam tratados para uma completa exterminação.

— Percebes, Ossipon? A fonte de todo o mal! Eles são os nossos mestres sinistros — os fracos, os moles, os tolos, os cobardes, os de coração fraco e mente escrava. Eles têm o poder. Eles são a multidão. Deles é o reino da terra. Exterminar, exterminar! Esse é o único caminho para o progresso. É! Segue-me, Ossipon. Primeiro a grande multidão dos fracos deve ir, depois os únicos relativamente fortes. Percebes? Primeiro os cegos, depois os surdos e os mudos, depois os coxos e os mancos — e por aí adiante. Cada mácula, cada vício, cada preconceito, cada convenção deve encontrar o seu fim.

— E o que resta? — perguntou Ossipon com uma voz sufocada.

— Resto eu — se for suficientemente forte — afirmou o pequeno Professor macilento, cujas orelhas grandes, finas como membranas, e que sobressaíam muito dos lados do seu crânio frágil, ganharam subitamente um tom vermelho profundo.

— Não sofri eu o suficiente com esta opressão dos fracos? — continuou ele com força. Depois, dando um toque no bolso do peito do seu casaco: — E, no entanto, eu sou a força — prosseguiu. — Mas o tempo! O tempo! Dá-me tempo! Ah! Aquela multidão, demasiado estúpida para sentir pena ou medo. Às vezes penso que eles têm tudo do seu lado. Tudo — até a morte — a minha própria arma.

— Vem beber um pouco de cerveja comigo ao Silenus — disse o robusto Ossipon após um intervalo de silêncio, invadido pelo rápido bater, bater dos chinelos nos pés do anarquista perfeito. Este último aceitou. Estava jovial naquele dia, à sua maneira peculiar. Deu uma palmada no ombro de Ossipon.

— Cerveja! Que assim seja! Bebamos e sejamos alegres, pois somos fortes, e amanhã morreremos.

Ocupou-se a calçar as botas e falou, entretanto, nos seus tons curtos e resolutos.

— O que se passa contigo, Ossipon? Pareces sombrio e procuras até a minha companhia. Ouço dizer que és visto constantemente em lugares onde os homens dizem coisas tolas sobre copos de licor. Porquê? Abandonaste a tua coleção de mulheres? Elas são as fracas que alimentam os fortes — eh?

Bateu com um pé e apanhou a outra bota com atacadores, pesada, de sola grossa, sem graxa, remendada muitas vezes. Sorriu para si mesmo, severamente.

— Diz-me, Ossipon, homem terrível, alguma das tuas vítimas já se matou por ti — ou os teus triunfos são até agora incompletos — pois só o sangue sela a grandeza? Sangue. Morte. Olha para a história.

— Vai-te lixar — disse Ossipon, sem virar a cabeça.

— Porquê? Que essa seja a esperança dos fracos, cuja teologia inventou o inferno para os fortes. Ossipon, o meu sentimento por ti é de desprezo amigável. Não serias capaz de matar uma mosca.

Mas, a caminho do festim no topo do autocarro, o Professor perdeu o seu bom humor. A contemplação das multidões que enchiam os passeios extinguiu a sua segurança sob um peso de dúvida e inquietação, que só conseguia sacudir após um período de reclusão no quarto com o grande armário fechado por um enorme cadeado.

— E assim — disse por cima do ombro o camarada Ossipon, que se sentava no banco de trás. — E assim Michaelis sonha com um mundo como um hospital bonito e alegre.

— Exatamente. Uma caridade imensa para a cura dos fracos — assentiu o Professor de forma sardónica.

— Isso é estúpido — admitiu Ossipon. — Não podes curar a fraqueza. Mas, afinal, Michaelis talvez não esteja tão errado. Daqui a duzentos anos, os médicos governarão o mundo. A ciência já reina. Reina nas sombras, talvez — mas reina. E toda a ciência deve culminar finalmente na ciência da cura — não dos fracos, mas dos fortes. A humanidade quer viver — viver.

— A humanidade — afirmou o Professor com um brilho autoconfiante dos seus óculos de aro de ferro — não sabe o que quer.

— Mas tu sabes — rosnou Ossipon. — Ainda agora estavas a clamar por tempo — tempo. Bem. Os médicos dar-te-ão o teu tempo — se fores um bom rapaz. Tu professas ser um dos fortes — porque carregas no bolso matéria suficiente para enviar a ti próprio e, digamos, a vinte outras pessoas para a eternidade. Mas a eternidade é um buraco maldito. É de tempo que precisas. Tu — se encontrasses um homem que te pudesse dar com certeza dez anos de tempo, chamá-lo-ias o teu mestre.

— O meu lema é: Sem Deus! Sem Mestre — disse o Professor sentenciosamente enquanto se levantava para sair do autocarro.

Ossipon seguiu-o. — Espera até estares deitado de costas, no fim do teu tempo — retorquiu ele, saltando do estribo atrás do outro. — O teu miserável, gasto e sarnento bocadinho de tempo — continuou ele a atravessar a rua, saltando para o passeio.

— Ossipon, acho que és um impostor — disse o Professor, abrindo magistralmente as portas do famoso Silenus. E, quando se instalaram a uma pequena mesa, desenvolveu ainda mais este pensamento gracioso. — Nem sequer és médico. Mas és engraçado. A tua noção de uma humanidade que universalmente deita a língua de fora e toma a pílula de polo a polo, às ordens de alguns brincalhões solenes, é digna do profeta. Profecia! Que bem faz pensar no que será! — Ergueu o copo. — À destruição do que é — disse ele calmamente.

Bebeu e recaiu no seu modo de silêncio peculiarmente fechado. O pensamento de uma humanidade tão numerosa como as areias da margem do mar, tão indestrutível, tão difícil de manusear, oprimia-o. O som das bombas a explodir perdia-se na sua imensidão de grãos passivos, sem eco. Por exemplo, este caso Verloc. Quem pensava nele agora?

Ossipon, como se subitamente compelido por alguma força misteriosa, tirou um jornal muito dobrado do bolso. O Professor levantou a cabeça com o farfalhar.

— Que jornal é esse? Tem alguma coisa lá? — perguntou ele.

Ossipon sobressaltou-se como um sonâmbulo assustado.

— Nada. Nada de especial. A coisa tem dez dias. Esqueci-a no bolso, suponho.

Mas não deitou fora a velha coisa. Antes de a devolver ao bolso, lançou um olhar furtivo às últimas linhas de um parágrafo. Diziam assim: "_Um mistério impenetrável parece destinado a pairar para sempre sobre este ato de loucura ou desespero_."

Eram estas as palavras finais de uma notícia intitulada: "Suicídio de Passageira de um Barco que atravessa o Canal". O camarada Ossipon estava familiarizado com as belezas do seu estilo jornalístico. "_Um mistério impenetrável parece destinado a pairar para sempre..._" Sabia cada palavra de cor. "_Um mistério impenetrável..._"

E o robusto anarquista, pendendo a cabeça sobre o peito, caiu numa longa divagação.

Estava ameaçado por esta coisa nas próprias fontes da sua existência. Não podia sair para encontrar as suas várias conquistas, aquelas que cortejava nos bancos dos Kensington Gardens, e aquelas que encontrava perto das grades das caves, sem o terror de começar a falar-lhes de um mistério impenetrável destinado... Estava a tornar-se cientificamente temeroso da insanidade à espreita por ele entre aquelas linhas. "_A pairar para sempre sobre_". Era uma obsessão, uma tortura. Ultimamente não tinha conseguido comparecer a vários desses encontros, cuja tónica costumava ser uma confiança ilimitada na linguagem do sentimento e da ternura viril. A disposição confiante de várias classes de mulheres satisfazia as necessidades do seu amor-próprio e punha alguns meios materiais nas suas mãos. Ele precisava disso para viver. Estava lá. Mas se já não pudesse fazer uso disso, corria o risco de matar à fome os seus ideais e o seu corpo... "_Este ato de loucura ou desespero_".

Um "mistério impenetrável" estava destinado "a pairar para sempre" no que dizia respeito a toda a humanidade. Mas que importava isso se ele, sozinho entre todos os homens, nunca se podia livrar do conhecimento maldito? E o conhecimento do camarada Ossipon era tão preciso quanto o homem do jornal o podia fazer — até ao próprio limiar do "mistério destinado a pairar para sempre..."

O camarada Ossipon estava bem informado. Sabia o que o homem da ponte do navio tinha visto: "Uma senhora de vestido preto e véu preto, a vaguear à meia-noite ao longo do cais. 'Vai seguir no barco, senhora?', tinha-lhe perguntado ele, encorajador. 'Por aqui'. Ela parecia não saber o que fazer. Ele ajudou-a a subir a bordo. Ela parecia fraca."

E ele sabia também o que a hospedeira tinha visto: uma senhora de preto com um rosto branco, de pé no meio da cabina das senhoras, vazia. A hospedeira persuadiu-a a deitar-se lá. A senhora parecia muito pouco disposta a falar, e como se estivesse em algum terrível aflição. A coisa seguinte que a hospedeira soube foi que ela tinha desaparecido da cabina das senhoras. A hospedeira então foi ao convés à procura dela, e o camarada Ossipon foi informado de que a boa mulher encontrou a infeliz senhora deitada num dos assentos com capota. Os seus olhos estavam abertos, mas ela não respondia a nada do que lhe era dito. Parecia muito doente. A hospedeira foi buscar o comissário de bordo, e aquelas duas pessoas ficaram ao lado do assento com capota, consultando-se sobre a sua extraordinária e trágica passageira. Falavam em sussurros audíveis (pois ela parecia já não ouvir) sobre St. Malo e o cônsul lá, sobre comunicar com os seus familiares em Inglaterra. Depois foram-se embora para tratar da sua remoção para baixo, pois, na verdade, pelo que podiam ver do seu rosto, parecia-lhes que estava a morrer. Mas o camarada Ossipon sabia que, por trás daquela máscara branca de desespero, havia, a lutar contra o terror e o desespero, um vigor de vitalidade, um amor pela vida que podia resistir à angústia furiosa que leva ao assassinato e ao medo, o medo cego e louco da forca. Ele sabia. Mas a hospedeira e o comissário de bordo não sabiam nada, exceto que, quando voltaram para ela em menos de cinco minutos, a senhora de preto já não estava no assento com capota. Não estava em lado nenhum. Tinha desaparecido. Eram então cinco horas da manhã, e também não foi um acidente. Uma hora depois, um dos marinheiros do vapor encontrou uma aliança de casamento deixada caída no assento. Tinha ficado colada à madeira por um pouco de humidade, e o seu brilho chamou a atenção do homem. Havia uma data, 24 de junho de 1879, gravada no interior. "Um mistério impenetrável está destinado a pairar para sempre. . . . "

E o camarada Ossipon ergueu a sua cabeça curvada, amada por várias mulheres humildes destas ilhas, semelhante a Apolo na luminosidade da sua cabeleira espessa.

O Professor tinha ficado inquieto entretanto. Levantou-se.

"Fica", disse Ossipon apressadamente. "Diz-me, o que sabes tu da loucura e do desespero?"

O Professor passou a ponta da língua pelos seus lábios secos e finos, e disse de forma doutoral:

"Não existem tais coisas. Toda a paixão está perdida agora. O mundo é medíocre, mole, sem força. E a loucura e o desespero são uma força. E a força é um crime aos olhos dos tolos, dos fracos e dos parvos que mandam nisto tudo. Tu és medíocre. Verloc, cujo assunto a polícia conseguiu abafar tão bem, era medíocre. E a polícia assassinou-o. Ele era medíocre. Toda a gente é medíocre. Loucura e desespero! Dá-me isso como alavanca e eu moverei o mundo. Ossipon, tens o meu cordial desprezo. És incapaz de conceber até aquilo que o cidadão bem alimentado chamaria de crime. Não tens força." Ele fez uma pausa, sorrindo sardonicamente sob o brilho feroz dos seus óculos grossos.

"E deixa-me dizer-te que esse pequeno legado que dizem que recebeste não melhorou a tua inteligência. Ficas sentado à tua cerveja como um boneco. Adeus."

"Queres ficar com ele?", disse Ossipon, olhando para cima com um sorriso idiota.

"Ficar com o quê?"

"O legado. Todo ele."

O incorruptível Professor apenas sorriu. As suas roupas estavam quase a cair-lhe do corpo, as suas botas, disformes de tantas reparações, pesadas como chumbo, deixavam entrar água a cada passo. Ele disse:

"Vou enviar-te daqui a pouco uma pequena conta de certos produtos químicos que encomendarei amanhã. Preciso deles urgentemente. Entendido, eh?"

Ossipon baixou a cabeça lentamente. Estava sozinho. "Um mistério impenetrável. . . . " Parecia-lhe que, suspenso no ar à sua frente, via o seu próprio cérebro a pulsar ao ritmo de um mistério impenetrável. Estava doente, claramente. . . . "Este ato de loucura ou desespero."

O piano mecânico perto da porta tocou uma valsa de forma atrevida, depois ficou silencioso de repente, como se tivesse ficado rabugento.

O camarada Ossipon, apelidado de Doutor, saiu da cervejaria Silenus. À porta hesitou, piscando os olhos perante uma luz solar não muito esplêndida — e o papel com a notícia do suicídio de uma senhora estava no seu bolso. O seu coração batia contra ele. O suicídio de uma senhora — este ato de loucura ou desespero.

Caminhou pela rua sem olhar para onde punha os pés; e caminhou numa direção que não o levaria ao local do encontro com outra senhora (uma governanta idosa que depositava a sua confiança numa cabeça ambrosial semelhante à de Apolo). Estava a afastar-se dele. Não podia encarar nenhuma mulher. Era a ruína. Não conseguia pensar, trabalhar, dormir nem comer. Mas começava a beber com prazer, com antecipação, com esperança. Era a ruína. A sua carreira revolucionária, sustentada pelo sentimento e pela credulidade de muitas mulheres, estava ameaçada por um mistério impenetrável — o mistério de um cérebro humano a pulsar erradamente ao ritmo de frases jornalísticas. ". . . Pairará para sempre sobre este ato. . . . Estava a inclinar-se para a sarjeta . . . da loucura ou do desespero."

"Estou seriamente doente", murmurou para si próprio com perspicácia científica. Já a sua forma robusta, com o dinheiro do serviço secreto de uma embaixada (herdado do Sr. Verloc) nos bolsos, marchava na sarjeta como se estivesse em treino para a tarefa de um futuro inevitável. Já curvava os seus ombros largos, a sua cabeça de madeixas ambrosiais, como se estivesse pronto para receber o jugo de couro do cartaz publicitário. Como naquela noite, há mais de uma semana, o camarada Ossipon caminhava sem olhar para onde punha os pés, sem sentir cansaço, sem sentir nada, sem ver nada, sem ouvir um som. "Um mistério impenetrável. . . ." Ele caminhava ignorado. . . . "Este ato de loucura ou desespero."

E o incorruptível Professor caminhava também, desviando os olhos da odiosa multidão da humanidade. Ele não tinha futuro. Desdenhava-o. Ele era uma força. Os seus pensamentos acariciavam as imagens da ruína e da destruição. Caminhava frágil, insignificante, andrajoso, miserável — e terrível na simplicidade da sua ideia que invocava a loucura e o desespero para a regeneração do mundo. Ninguém olhava para ele. Ele passava insuspeito e mortal, como uma peste na rua cheia de homens.

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