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The Secret of the Night

by Gaston Leroux · in Portuguese

O SEGREDO DA NOITE

I. ALEGRIA E DINAMITE

— Barinia, o jovem estranho chegou.

— Onde ele está?

— Oh, ele está esperando na portaria.

— Eu lhe disse para levá-lo à sala de estar de Natacha. Não me compreendeu, Ermolai?

— Perdão, Barinia, mas o jovem estranho, quando pedi para revistá-lo, conforme a senhora ordenou, recusou-se terminantemente.

— Você explicou a ele que todos são revistados antes de ter permissão para entrar, que é a ordem e que até a minha própria mãe se submeteu a isso?

— Disse-lhe tudo isso, Barinia; e falei-lhe sobre madame, sua mãe.

— O que ele respondeu a isso?

— Que ele não era madame, sua mãe. Ele agiu como se estivesse zangado.

— Bem, deixe-o entrar sem ser revistado.

— O Chefe de Polícia não vai gostar disso.

— Faça como eu digo.

Ermolai fez uma reverência e retornou ao jardim. A “barinia” deixou a varanda, onde viera para esta conversa com o velho criado do General Trebassof, seu marido, e voltou para a sala de jantar na datcha des Iles, onde o alegre Conselheiro Ivan Petrovitch regalava seus divertidos associados com sua última façanha no estabelecimento de Cubat. Eram uma companhia barulhenta, e certamente o mais silencioso entre eles não era o general, que tratava num sofá a perna que ainda o mantinha cativo após o recente atentado, que para seu velho cocheiro e seus dois cavalos malhados fora fatal. A história do sempre amável Ivan Petrovitch (um homem idoso, vivo e pequeno, com a cabeça careca como um ovo) era sobre a noite anterior. Depois de ter, como ele dizia, “recure la bouche” — pois estes senhores falavam francês como sua própria língua e usavam-no entre si para evitar que os criados entendessem —, depois de ter molhado o bico com uma grande taça de espumante vinho francês rosado, ele exclamou:

— Vocês teriam rido, Feodor Feodorovitch. Tínhamos cantado canções no Barque* e então os boêmios partiram com sua música e nós fomos para a margem do rio esticar as pernas e refrescar o rosto com o frescor do amanhecer, quando uma companhia de cossacos da Guarda passou. Eu conhecia o oficial no comando e convidei-o a vir conosco e beber à saúde do Imperador no local de Cubat. Aquele oficial, Feodor Feodorovitch, é um homem que entende de safras e gaba-se de nunca ter engolido uma taça de algo tão comum quanto o vinho da Crimeia. Quando mencionei champanhe, ele gritou: “Vive l’Empereur!”. Um verdadeiro patriota. Então começamos, alegres como crianças da escola. A companhia inteira seguiu, depois todos os clientes soprando pequenos apitos, e todos os criados também, em fila indiana. No Cubat, odiei deixar os oficiais companheiros do meu amigo na porta, então convidei-os a entrar também. Eles aceitaram, naturalmente. Mas os subalternos também estavam com sede. Eu entendo de disciplina. Vocês sabem, Feodor Feodorovitch, que sou um defensor da disciplina. Só porque se está alegre numa manhã de primavera, a disciplina não deve ser esquecida. Convidei os oficiais para beber numa sala privada e enviei os subalternos para o salão principal do restaurante. Então os soldados estavam com sede também, e mandei servir bebidas para eles no pátio. Então, palavra, houve um negócio intrigante, pois agora os cavalos relinchavam. Os bravos cavalos, Feodor Feodorovitch, que também desejavam beber à saúde do Imperador. Fiquei incomodado com a disciplina. Salão, pátio, tudo estava cheio. E eu não podia colocar os cavalos em salas privadas. Bem, fiz com que servissem champanhe em baldes e então veio o negócio intrigante que eu tanto tentei evitar, uma grande mistura de botas e ferraduras que foi certamente a coisa mais animada que já vi na minha vida. Mas os cavalos eram os mais jubilosos, e dançavam como se uma tocha fosse mantida sob suas narinas, e todos eles, palavra! estavam prontos para derrubar seus cavaleiros porque os homens não tinham a mesma opinião que eles quanto à rota a seguir! Da nossa janela rimos até morrer com tal mistura de botas espalhadas e cascos dançantes. Mas os soldados finalmente levaram todos os seus cavalos para o quartel, com paciência, pois a cavalaria do Imperador é a melhor montaria do mundo, Feodor Feodorovitch. E nós certamente rimos muito! — À sua saúde, Matrena Petrovna.

[* O “Barque” é um restaurante num barco, entre as ilhas, perto do Golfo da Finlândia, numa margem do Neva.]

Estas últimas palavras graciosas foram dirigidas à Madame Trebassof, que encolheu os ombros diante da galanteria indesejada do alegre Conselheiro. Ela não participou da conversa, exceto para acalmar o general, que desejava enviar o regimento inteiro para o xadrez, homens e cavalos. E enquanto os foliões riam da aventura, ela disse ao marido com a voz consultiva da esposa prestativa:

— Feodor, você não deve dar importância ao que aquele velho tolo do Ivan lhe diz. Ele é o homem mais imaginativo da capital quando bebeu champanhe.

— Ivan, você certamente não serviu cavalos com champanhe em baldes — protestou ciumentamente o velho fanfarrão, Athanase Georgevitch. Ele era um advogado, conhecido por suas proezas à mesa, que reivindicava a reputação de beber mais que qualquer homem na capital, e lamentava não ter inventado aquele conto.

— Pela minha palavra! E das melhores marcas! Eu ganhei quatro mil rublos. Deixei a pequena festa com quinze copeques.

Matrena Petrovna estava ouvindo Ermolai, o fiel criado do campo que usava sempre, mesmo aqui na cidade, seu traje de brim fresco, seu cinto de couro preto, suas largas calças azuis e suas botas brilhando como gelo, seu traje rural na casa da cidade de seu mestre. Madame Matrena levantou-se, depois de acariciar levemente o cabelo de sua enteada Natacha, cujos olhos a seguiram até a porta, aparentemente indiferente às manifestações ternas do ordenança de seu pai, o soldado-poeta Boris Mourazoff, que escrevera belos versos sobre a morte dos estudantes de Moscou, depois de tê-los fuzilado, no cumprimento do dever, em suas barricadas.

Ermolai conduziu sua patroa até a sala de estar e apontou para uma porta que ele deixara aberta, que levava à sala de estar antes do quarto de Natacha.

— Ele está aí — disse Ermolai em voz baixa.

Ermolai não precisaria ter dito nada, na verdade, já que Madame Matrena percebeu a presença de um estranho na sala de estar pela atitude extraordinária de um indivíduo num casaco castanho debruado com falso astracã, como o que está nos casacos de todos os agentes da polícia russa e torna os agentes secretos reconhecíveis à primeira vista. Este policial estava de joelhos na sala de estar, observando o que passava na sala ao lado através do estreito espaço de luz na fresta da porta. Desta maneira, ou de outra, todas as pessoas que desejavam se aproximar do General Trebassof eram mantidas sob observação sem que soubessem, depois de terem sido primeiro revistadas na portaria, uma medida adotada desde o último atentado.

Madame Matrena tocou o ombro do policial com aquela mão heroica que salvara a vida de seu marido e que ainda trazia vestígios da terrível explosão no último atentado, quando ela segurara a máquina infernal destinada ao general com a mão nua. O policial levantou-se e silenciosamente deixou a sala, alcançou a varanda e recostou-se ali num sofá, fingindo estar dormindo, mas na realidade observando os caminhos do jardim.

Matrena Petrovna tomou seu lugar na fresta. Esta era sua regra; ela sempre dava a última olhada em tudo e em todos. Ela rondava a todas as horas do dia e da noite em torno do general, como um cão de guarda, pronta para morder, para se lançar diante do perigo, para receber os golpes, para perecer pelo seu mestre. Isto começara em Moscou após a terrível repressão, o massacre de revolucionários sob as muralhas de Presnia, quando os niilistas sobreviventes deixaram atrás de si um cartaz condenando o vitorioso General Trebassof à morte. Matrena Petrovna vivia apenas para o general. Ela jurara que não sobreviveria a ele. Portanto, tinha o dobro de razões para guardá-lo.

Mas ela perdera toda a confiança, mesmo dentro das paredes de seu próprio lar.

Coisas tinham acontecido até ali que desafiavam sua cautela, seu instinto, seu amor. Ela não falara destas coisas a não ser ao Chefe de Polícia, Koupriane, que as relatara ao Imperador. E eis que agora estava o homem que o Imperador enviara, como recurso supremo, este jovem estranho — Joseph Rouletabille, repórter.

— Mas ele é apenas um menino! — exclamou ela, sem compreender de todo o assunto, esta figura juvenil, com bochechas macias e arredondadas, olhos claros e, à primeira vista, extraordinariamente ingênuos, os olhos de uma criança. É verdade que, no momento, a expressão de Rouletabille dificilmente sugeria qualquer profundidade de pensamento sobre-humana, pois, deixado à vista de uma mesa, coberta com hors-d’oeuvres, o jovem parecia ocupado unicamente em escavar com uma colher todo o caviar que restava nos potes. Matrena notou o frescor rosado de suas bochechas, a ausência de penugem em seu lábio e nem um sinal de barba, o cabelo grosso, com o cacho sobre a testa. Ah, aquela testa — a testa era curiosa, com grandes protuberâncias cranianas que se moviam acima da arcada profunda das órbitas oculares enquanto a boca estava ocupada — bem, ter-se-ia dito que Rouletabille não comia há uma semana. Ele estava demolindo uma grande fatia de esturjão do Volga, contemplando ao mesmo tempo com imenso interesse uma salada de pepinos com creme, quando Matrena Petrovna apareceu.

Ele quis desculpar-se imediatamente e falou de boca cheia.

— Peço perdão, madame, mas o Czar esqueceu de me convidar para o café da manhã.

Madame Matrena sorriu e deu-lhe um aperto de mão caloroso enquanto o instava a sentar-se.

— Você viu Sua Majestade?

— Venho da parte dele, madame. É com Madame Trebassof que tenho a honra de falar?

— Sim. E você é o senhor...?

— Joseph Rouletabille, madame. Não acrescento: “Ao seu dispor” — porque ainda não sei se estarei. Foi o que acabei de dizer a Sua Majestade.

— Então? — perguntou Madame Matrena, bastante divertida pelo tom que a conversa tomara e pelo ar levemente agitado de Rouletabille.

— Ora, então, sou um repórter, veja bem. Foi o que disse imediatamente ao meu editor em Paris: “Não vou tomar parte em assuntos revolucionários que não dizem respeito ao meu país”, ao que meu editor respondeu: “Você não tem que tomar parte. Você deve ir à Rússia fazer um inquérito sobre o status atual dos diferentes partidos. Começará entrevistando o Imperador”. Eu disse: “Bem, então, lá vamos nós”, e peguei o trem.

— E você entrevistou o Imperador?

— Oh, sim, isso não foi difícil. Eu esperava chegar direto a São Petersburgo, mas em Krasnoie-Coelo o trem parou e o grão-marechal da corte veio a mim e pediu-me para segui-lo. Foi muito lisonjeiro. Vinte minutos depois eu estava diante de Sua Majestade. Ele me esperava! Compreendi imediatamente que isso era obviamente algo fora do comum.

— E o que ele lhe disse?

— Ele é um homem de majestade genuína. Ele me tranquilizou imediatamente quando expliquei meus escrúpulos a ele. Ele disse que não havia ocasião para eu tomar parte na política do assunto, mas para salvar seu mais fiel servidor, que estava prestes a se tornar a vítima do mais estranho drama familiar já concebido.

Madame Matrena, branca como um lençol, levantou-se.

— Ah — disse ela simplesmente.

Mas Rouletabille, a quem nada escapava, viu a mão dela tremer no encosto da cadeira.

Ele continuou, não parecendo ter notado a emoção dela:

— Sua Majestade acrescentou estas palavras exatas: “Sou eu quem pede isso a você; eu e Madame Trebassof. Vá, monsieur, ela o espera”.

Ele calou-se e esperou que Madame Trebassof falasse.

Ela decidiu-se após breve reflexão.

— Você viu Koupriane?

— O Chefe de Polícia? Sim. O grão-marechal acompanhou-me de volta à estação em Krasnoie-Coelo, e o Chefe de Polícia acompanhou-me até a estação de São Petersburgo. Não se poderia ter sido melhor recebido.

— Monsieur Rouletabille — disse Matrena, que visivelmente se esforçava para recuperar o autocontrole —, não sou da opinião de Koupriane e não sou — aqui ela baixou a voz trêmula — da opinião que Sua Majestade sustenta. É melhor que eu lhe diga imediatamente, para que você não se arrependa de intervir num caso onde há — onde há — riscos — riscos terríveis a correr. Não, este não é um drama familiar. A família é pequena, muito pequena: o general, sua filha Natacha (de seu casamento anterior) e eu. Não poderia haver um drama familiar entre nós três. Trata-se simplesmente do meu marido, monsieur, que cumpriu seu dever como soldado ao defender o trono de seu soberano, meu marido a quem eles pretendem assassinar! Não há nada mais, nenhuma outra situação, meu pequeno convidado.

Para esconder sua angústia, ela começou a fatiar um pedaço de vitela em geleia com cenoura.

— Você não comeu, você está com fome. É terrível, meu caro jovem. Veja, você deve jantar conosco, e então... você dirá adeus. Sim, você me deixará sozinha. Eu me encarregarei de salvá-lo sozinha. Certamente, eu me encarregarei.

Uma lágrima caiu sobre a fatia que ela cortava. Rouletabille, que sentia a emoção daquela mulher corajosa afetando-o também, preparou-se para não demonstrá-la.

— Sou capaz de ajudá-la um pouco, apesar de tudo — disse ele. — O Monsieur Koupriane disse-me que há um profundo mistério. É minha vocação chegar ao fundo dos mistérios.

— Sei o que Koupriane pensa — disse ela, balançando a cabeça. — Mas se eu pudesse me convencer a pensar isso por um único dia, preferiria estar morta.

A boa Matrena Petrovna levantou seus belos olhos para Rouletabille, transbordando das lágrimas que ela segurava.

Ela acrescentou rapidamente:

— Mas coma agora, meu caro convidado; coma. Meu caro filho, você deve esquecer o que Koupriane lhe disse quando estiver de volta à França.

— Prometo-lhe isso, madame.

— Foi o Imperador que lhe causou esta longa viagem. Por mim, eu não desejava isso. Ele tem, de fato, tanta confiança em você? — perguntou ela ingenuamente, olhando-o fixamente através das lágrimas.

— Madame, eu estava prestes a lhe contar. Tenho sido ativo em alguns assuntos importantes que foram relatados a ele, e então, às vezes, seu Imperador tem permissão para ver os jornais. Ele ouviu falar também (pois todos falaram deles, madame) sobre o Mistério do Quarto Amarelo e o Perfume da Dama de Preto.

Aqui, Rouletabille observou Madame Trebassof e ficou muito mortificado com a inegável ignorância que transparecia em seu rosto franco sobre o quarto amarelo ou o perfume negro.

— Meu jovem amigo — disse ela, com uma voz cada vez mais hesitante —, você deve me desculpar, mas faz muito tempo que não tenho bons olhos para a leitura.

Lágrimas, finalmente, correram por suas bochechas.

Rouletabille não pôde mais se conter. Ele viu num relance tudo o que aquela mulher heroica sofrera em seu combate dia após dia com a morte que pairava. Ele tomou as mãozinhas gorduchas dela, cujos dedos estavam sobrecarregados de anéis, trêmulo nas suas próprias:

— Madame, não chore. Eles querem matar seu marido. Pois bem, seremos dois pelo menos para defendê-lo, eu lhe juro.

— Mesmo contra os niilistas!

— Sim, madame, contra todo o mundo. Eu comi todo o seu caviar. Sou seu convidado. Sou seu amigo.

Ao dizer isto, ele estava tão excitado, tão sincero e tão engraçado que Madame Trebassof não pôde deixar de sorrir através das lágrimas. Ela fez com que ele se sentasse ao seu lado.

— O Chefe de Polícia falou muito de você. Ele veio aqui abruptamente após o último atentado e um acontecimento misterioso sobre o qual lhe falarei. Ele gritou: “Ah, precisamos de Rouletabille para desvendar isso!”. No dia seguinte, ele veio aqui novamente. Ele fora à Corte. Lá, todos, ao que parece, falavam de você. O Imperador desejava conhecê-lo. Foi por isso que foram tomadas providências através do embaixador em Paris.

— Sim, sim. E naturalmente todo o mundo soube disso. Isso torna tudo tão animado. Os niilistas avisaram-me imediatamente de que eu não chegaria à Rússia vivo. Isso, finalmente, foi o que me decidiu a vir. Sou naturalmente muito contrário.

— E como você se saiu na viagem?

— Nada mal. Descobri imediatamente no trem um jovem eslavo designado para me matar, e cheguei a um entendimento com ele. Ele era um jovem encantador, então foi facilmente arranjado.

Rouletabille estava comendo agora iguarias estranhas que teria sido difícil para ele nomear. Matrena Petrovna colocou sua mãozinha gorda no braço dele:

— Você fala sério?

— Muito seriamente.

— Um pequeno copo de vodka?

— Sem álcool.

Madame Matrena esvaziou seu copinho num gole só.

— E como você o descobriu? Como você o conheceu?

— Primeiro, ele usava óculos. Todos os niilistas usam óculos quando viajam. E depois eu tinha uma boa pista. Um minuto antes da partida de Paris, fiz um amigo entrar no corredor do vagão-leito, um repórter que faria tudo o que eu dissesse sem sequer querer saber por quê. Eu disse: “Você grita de repente e muito alto: ‘Olá, aqui está Rouletabille’”. Então ele gritou: “Olá, aqui está Rouletabille”, e todos os que estavam no corredor se viraram e todos os que já estavam nos compartimentos saíram, exceto o homem dos óculos. Então tive certeza sobre ele.

Madame Trebassof olhou para Rouletabille, que ficou vermelho como a crista de um galo e ficou bastante embaraçado com sua fatuidade.

— Isso merece uma repreensão, eu sei, madame, mas a partir do momento em que o Imperador de todas as Rússias desejava ver-me, eu não podia admitir que qualquer homem com óculos não tivesse a curiosidade de ver que cara eu tinha. Não era natural. Assim que o trem partiu, sentei-me ao lado desse homem e disse-lhe quem eu pensava que ele era. Eu estava certo. Ele removeu os óculos e, olhando-me diretamente nos olhos, disse que estava feliz por ter uma pequena conversa comigo antes que algo infeliz acontecesse. Meia hora depois, a entente-cordiale estava assinada. Dei-lhe a entender que eu estava vindo aqui simplesmente a negócios como repórter e que sempre havia tempo para me deter caso eu fosse indiscreto. Na fronteira alemã, ele deixou-me para seguir, e retornou tranquilamente para sua nitroglicerina.

— Você é um homem marcado também, meu pobre rapaz.

— Oh, eles ainda não nos pegaram.

Matrena Petrovna tossiu. Esse “nós” a sobrecarregou. Com que calma este rapaz que ela não conhecia há uma hora propunha compartilhar os perigos de uma situação que despertava piedade geral, mas da qual os mais bravos se mantinham afastados, fosse por prudência ou consternação.

— Ah, meu amigo, um pouco desta fina carne bovina defumada de Hamburgo?

Mas o jovem já estava servindo cerveja amarela fresca.

— Pronto — disse ele. — Agora, madame, estou ouvindo. Conte-me primeiro sobre o primeiro atentado.

— Agora — disse Matrena —, devemos ir jantar.

Rouletabille olhou para ela com os olhos arregalados.

— Mas, madame, o que acabei de fazer?

Madame Matrena sorriu. Todos esses estranhos eram iguais. Porque tinham comido alguns hors-d’oeuvres, alguns zakouskis, imaginavam que seu anfitrião ficaria satisfeito. Eles não sabiam comer.

— Vamos para a sala de jantar. O general está esperando por você. Eles estão à mesa.

— Compreendo que devo conhecê-lo.

— Sim, vocês se conheceram em Paris. É inteiramente natural que, ao passar por São Petersburgo, você lhe faça uma visita. Você o conhece muito bem, de fato, tão bem que ele abre sua casa para você. Ah, sim, minha enteada também... — ela corou um pouco — Natacha acredita que seu pai o conhece.

Ela abriu a porta da sala de estar, que eles tiveram que atravessar para chegar à sala de jantar.

Da sua posição atual, Rouletabille podia ver todos os cantos da sala de visitas, a varanda, o jardim e a guarita da entrada, junto ao portão. Na varanda, o homem de sobrecasaca bordô guarnecida de astracã falso parecia ainda dormir no sofá; em um dos cantos da sala de visitas, outro indivíduo, silencioso e imóvel como uma estátua, vestido exatamente da mesma forma, com uma sobrecasaca bordô e astracã falso, permanecia com as mãos nas costas, aparentemente atingido por uma paralisia geral ao contemplar um pôr do sol fulgurante que iluminava, como uma tocha, as espiras douradas de São Pedro e São Paulo. E, no jardim e diante da guarita, três outros, vestidos de bordô, vagavam como almas penadas pelo gramado ou caminhavam de um lado para o outro na entrada. Rouletabille fez um gesto para Madame Matrena, recuou para a sala de estar e fechou a porta.

— Polícia? — perguntou ele.

Matrena Petrovna balançou a cabeça e levou o dedo aos lábios de uma maneira ingênua, como alguém que aconselha silêncio a uma criança. Rouletabille sorriu.

— Quantos são?

— Dez, rendidos a cada seis horas.

— Isso perfaz quarenta homens desconhecidos ao redor de sua casa por dia.

— Não desconhecidos — respondeu ela. — Polícia.

— Contudo, apesar deles, a senhora teve o caso do buquê no quarto do general.

— Não, só havia três na época. É desde o caso do buquê que há dez.

— Pouco importa. É desde esses dez que a senhora teve...

— O quê? — perguntou ela, ansiosa.

— A senhora sabe bem... o assoalho.

— Sh-h-h.

Ela lançou um olhar para a porta, vigiando o policial estatuário diante do sol poente.

— Ninguém sabe disso — nem mesmo meu marido.

— Foi o que o Sr. Koupriane me disse. Então, foi a senhora quem providenciou esses dez agentes de polícia?

— Certamente.

— Bem, começaremos agora mandando embora toda essa polícia.

Matrena Petrovna segurou a mão dele, estupefata.

— Certamente o senhor não pensa em fazer uma coisa dessas!

— Sim. Precisamos saber de onde vem o golpe. A senhora tem quatro grupos diferentes de pessoas por aqui — a polícia, os domésticos, seus amigos, sua família. Livre-se da polícia primeiro. Eles não devem ter permissão para cruzar seu limiar. Não foram capazes de protegê-la. A senhora não tem nada a lamentar. E se, depois que eles se forem, algo novo surgir, podemos deixar o Sr. Koupriane conduzir as investigações sem que ele precise se preocupar aqui na casa.

— Mas o senhor não conhece a admirável polícia de Koupriane. Esses bravos homens deram provas de sua devoção.

— Madame, se eu estivesse face a face com um niilista, a primeira coisa que eu me perguntaria a respeito dele seria: "É ele um policial?". A primeira coisa que pergunto na presença de um agente da sua polícia é: "Não será ele um niilista?".

— Mas eles não vão querer ir embora.

— Algum deles fala francês?

— Sim, o sargento deles, que está ali no salão.

— Por favor, chame-o.

Madame Trebassof entrou no salão e fez um sinal. O homem apareceu. Rouletabille entregou-lhe um papel, que o outro leu.

— Reúna seus homens e abandonem a vila — ordenou Rouletabille. — Vocês retornarão ao quartel-general da polícia. Digam ao Sr. Koupriane que eu ordenei isso e que exijo que todo o serviço policial ao redor da vila seja suspenso até segunda ordem.

O homem curvou-se, pareceu não compreender, olhou para Madame Trebassof e disse ao jovem:

— À sua disposição.

Ele saiu.

— Espere aqui um momento — insistiu Madame Trebassof, que não sabia como reagir àquela ação abrupta e cuja ansiedade era realmente dolorosa de se ver.

Ela desapareceu atrás do homem do astracã falso. Poucos momentos depois, ela retornou. Parecia ainda mais agitada.

— Peço perdão — murmurou ela —, mas não posso deixá-los ir assim. Estão muito desgostosos. Insistiram em saber onde falharam em seu serviço. Eu os apaziguei com dinheiro.

— Sim, e diga-me a verdade, madame. A senhora os instruiu a não irem para longe, mas a permanecerem perto da vila para vigiá-la o mais de perto possível.

Ela corou.

— É verdade. Mas eles foram, apesar de tudo. Tiveram de obedecer ao senhor. Que papel pode ser esse que o senhor lhes mostrou?

Rouletabille retirou novamente o bilhete coberto de selos, sinais e cabalísticas que ele não compreendia. Madame Trebassof traduziu em voz alta: "Ordem a todos os oficiais em vigilância da Villa Trebassof para obedecerem absolutamente ao portador. Assinado: Koupriane."

— É possível! — murmurou Matrena Petrovna. — Mas Koupriane jamais teria lhe dado este papel se imaginasse que o senhor o usaria para dispensar seus agentes.

— Evidentemente. Não lhe pedi conselhos, madame, pode ter certeza. Mas o verei amanhã e ele compreenderá.

— Enquanto isso, quem vigiará a ele? — exclamou ela.

Rouletabille tomou as mãos dela novamente. Viu o sofrimento dela, presa a uma angústia quase paralisante. Ele a compadeceu. Quis transmitir-lhe confiança imediata.

— Nós — disse ele.

Ela viu seus olhos jovens e claros, tão profundos, tão inteligentes, a cabeça bem-feita, o rosto voluntarioso, todo aquele ardor juvenil dedicado a ela, e isso a tranquilizou. Rouletabille esperou pelo que ela diria. Ela não disse nada. Tomou-o nos braços e abraçou-o.

II. NATACHA

Na sala de jantar, era a vez de Thaddeus Tchnichnikoff contar histórias de caçada. Ele era o maior comerciante de madeira da Lituânia. Possuía imensas florestas e amava Feodor Feodorovitch* como a um irmão, pois haviam brincado juntos durante toda a infância, e uma vez ele o salvara de um urso que estava prestes a esmagar-lhe o crânio como quem derruba um chapéu. O pai do general Trebassof era governador da Curlândia naquela época, pela graça de Deus e do Pequeno Pai. Thaddeus, que tinha apenas treze anos, matou o urso com um único golpe de sua lança de caça, e bem a tempo. Laços estreitos foram tecidos entre as duas famílias por esse acontecimento e, embora Thaddeus não fosse de linhagem nobre nem militar, Feodor considerava-o seu irmão e sentia por ele como tal. Agora, Thaddeus tornara-se o maior comerciante de madeira das províncias ocidentais, com suas próprias florestas e também com seu corpo maciço, seu rosto gordo e oleoso, seu pescoço de touro e sua barriga ampla. Ele largou tudo de imediato — todos os seus negócios, sua família — assim que soube do primeiro atentado, para vir permanecer ao lado de seu caro camarada Feodor. Ele fizera isso após cada ataque, sem esquecer um sequer. Era um amigo fiel. Mas ele se aborrecia porque não podiam sair para caçar ursos como em sua juventude. "Onde", perguntava ele, "ainda existem ursos na Curlândia, ou árvores, aliás, o que se pode chamar de árvores, crescendo desde os tempos dos grão-duques da Lituânia, árvores gigantescas que lançavam sua sombra até a própria beira das cidades? Onde existiam tais coisas hoje em dia?". Thaddeus era muito divertido, pois era ele, certamente, quem as cortara tranquilamente e vira as mesmas desaparecerem na fumaça das locomotivas. Era o que chamavam de Progresso. Ah, a caça perdia seu caráter nacional, certamente, com pequenas árvores de novo crescimento que não tinham tempo de crescer. E, além disso, hoje em dia não se tinha tempo para caçar. Toda a grande caça ficava tão longe. Sorte se alguém encontrasse tempo para abater um par de galinholas logo cedo pela manhã. Nesse ponto da conversa de Thaddeus, houve um burburinho de vozes entre os cavalheiros de espírito convivial, pois todos tinham todo o tempo do mundo à disposição e não compreendiam por que ele se preocupava tanto em abocanhar um pouco de tempo pela manhã ou à noite, ou ao meio-dia, diga-se de passagem. O champanhe corria como um rio quando Rouletabille foi trazido por Matrena Petrovna. O general, cujos olhos estavam voltados para a porta havia algum tempo, exclamou de imediato, como se respondesse a uma deixa:

— Ah, meu caro Rouletabille! Eu estava à sua procura. Nossos amigos me escreveram que o senhor viria a São Petersburgo.

* Nesta história, segundo o hábito russo, o general Trebassof é chamado alternadamente por esse nome ou pelo nome de família Feodor Feodorovitch, e Madame Trebassof por esse nome ou pelo seu nome de família, Matrena Petrovna. — Nota do Tradutor.

Rouletabille apressou-se até ele e apertaram as mãos como amigos que se encontram após uma longa separação. O repórter foi apresentado à companhia como um jovem amigo próximo, vindo de Paris, de quem eles tinham gostado muito durante sua última visita à Cidade Luz. Todos perguntaram pelas últimas notícias de Paris como se fossem de um caro conhecido.

— Como vão todos no Maxim’s? — insistiu o excelente Athanase Georgevitch.

Thaddeus, também, estivera uma vez em Paris e retornara com um entusiasmo pela companhia das demoiselles francesas.

— Vos gogottes, monsieur — disse ele, parecendo muito amável e enfatizando cada palavra, com uma tônica gutural comum nas províncias ocidentais —, ah, vos gogottes!

Matrena Petrovna tentou silenciá-lo, mas Thaddeus insistiu em seu direito de apreciar o belo sexo longe de casa. Ele tinha uma esposa turgida e sentimental, sempre chorando e empurrando suas noções religiosas goela abaixo.

Naturalmente, alguém perguntou a Rouletabille o que ele pensava da Rússia, mas ele mal abrira a boca para responder quando Athanase Georgevitch fechou-a, interrompendo:

— Permettez! Permettez! Vocês outros, da geração jovem, o que sabem disso? É preciso ter vivido muito tempo e em todos os seus distritos para apreciar a Rússia em seu verdadeiro valor. A Rússia, meu jovem senhor, ainda é um livro fechado para você.

— Naturalmente — respondeu Rouletabille, sorrindo.

— Bem, bem, aqui está à sua saúde! O que eu apontaria para você, antes de tudo, é que ela é uma boa consumidora de champanhe, eh? — e ele deu um sorriso enorme. — Mas o bebedor mais inveterado que conheci nasceu às margens do Sena. O senhor o conheceu, Feodor Feodorovitch? O pobre Charles Dufour, que morreu há dois anos na festa dos oficiais da Guarda. Ele apostou, ao final do banquete, que conseguiria beber uma taça de champanhe à saúde de cada homem presente. Eram sessenta, quando se contava. Ele começou a rodada da mesa e a coisa ia esplendidamente até o quinquagésimo oitavo homem. Mas no quinquagésimo nono — pense no infortúnio! — o champanhe acabou! Aquele pobre, aquele charmoso, aquele excelente Charles pegou uma taça de vinho dourado que estava na mão desse quinquagésimo nono, desejou-lhe vida longa, esvaziou a taça de um só gole, teve apenas tempo de murmurar: "Tokay, 1807", e caiu morto! Ah, ele conhecia as marcas, palavra de honra! E provou isso até seu último suspiro! Paz às suas cinzas! Perguntaram de que ele morreu. Eu sabia que ele morrera devido à mistura inapropriada de sabores. Deve haver disciplina em todas as coisas e não misturas promíscuas. Mais uma taça de champanhe e ele estaria bebendo conosco esta noite. À sua saúde, Matrena Petrovna. Champanhe, Feodor Feodorovitch! Vive la France, monsieur! Natacha, minha filha, você deve cantar algo. Boris a acompanhará na guzla. Seu pai vai gostar.

Todos os olhos se voltaram para Natacha quando ela se levantou.

Rouletabille ficou impressionado com sua beleza serena. Essa foi a primeira impressão avassaladora, uma impressão tão forte que o surpreendeu: a perfeita serenidade, a calma suprema, a harmonia tranquila de seus traços nobres. Natacha tinha vinte anos. Cabelos castanhos espessos circulavam sua testa e contornavam suas orelhas, que ficavam semiescondidas. Seu perfil era bem definido; sua boca era forte e revelava, entre lábios vermelhos e firmes, a brancura uniforme de seus dentes. Ela era de estatura média. Ao caminhar, tinha o passo livre e leve das donzelas de alta linhagem que, em tempos primordiais, pisavam nas flores ao passar sem esmagá-las. Mas toda a sua verdadeira graça parecia concentrada em seus olhos, que eram profundos e de um azul escuro. A impressão que ela causava ao observador era muito complexa. E teria sido difícil dizer se a calma que impregnava cada manifestação de sua beleza era o resultado de um controle consciente ou da mais perfeita naturalidade.

Ela pegou a guzla e entregou-a a Boris, que tocou alguns acordes preliminares e lamentosos.

— O que devo cantar? — perguntou ela, erguendo a mão do pai do encosto do sofá onde ele descansava e beijando-a com ternura filial.

— Improvise — disse o general. — Improvise em francês, em consideração ao nosso convidado.

— Oh, sim — exclamou Boris; — improvise como fez na outra noite.

Ele tocou imediatamente um acorde em tom menor.

Natacha olhou carinhosamente para o pai enquanto cantava:

"Quando chega o momento que nos separa ao fim do dia, quando o Anjo do Sono o cobre com asas azuladas; Oh, que seus olhos descansem de tantas lágrimas, e seu coração oprimido encontre a calma; Em cada momento que temos juntos, querido Pai, que nossas almas sintam uma harmonia doce e mística; E quando seus pensamentos tiverem voado para outros mundos, oh, que minha imagem, ao menos, se aninhe em seus olhos adormecidos."

A voz de Natacha era doce, e o encanto dela sutilmente contagiante. As palavras, da forma como ela as proferia, pareciam ter toda a qualidade de uma oração, e havia lágrimas em todos os olhos, exceto nos de Michael Korsakoff, o segundo ordenança, a quem Rouletabille avaliou como um homem de coração rude, pouco aberto ao sentimento.

— Feodor Feodorovitch — disse este oficial, quando a voz da jovem desvaneceu-se na mistura com a última nota da guzla —, Feodor Feodorovitch é um homem e um soldado glorioso que pode dormir em paz, porque trabalhou por seu país e por seu Czar.

— Sim, sim. Trabalhou bem! Um soldado glorioso! — repetiram Athanase Georgevitch e Ivan Petrovitch. — Que ele durma em paz.

— Natacha cantou como um anjo — disse Boris, o primeiro ordenança, com voz trêmula.

— Como um anjo, Boris Nikolaievitch. Mas por que ela falou de seu coração oprimido? Eu não vejo que o General Trebassof tenha o coração oprimido, da minha parte. — Michael Korsakoff falou rudemente enquanto esvaziava sua taça.

— Não, é verdade, não é? — concordaram os outros.

— Uma jovem pode desejar um sono agradável ao pai, certamente! — disse Matrena Petrovna, com um certo bom senso. — Natacha comoveu a todos nós, não é, Feodor?

— Sim, ela me fez chorar — declarou o general. — Mas vamos tomar champanhe para nos alegrar. Nosso jovem amigo aqui vai pensar que somos covardes.

— Nunca pense isso — disse Rouletabille. — A senhorita me tocou profundamente também. Ela é uma artista, realmente uma grande artista. E uma poeta.

— Ele é de Paris; ele sabe — disseram os outros.

E todos beberam.

Depois, falaram sobre música, com grande exibição de conhecimento sobre questões operísticas. Primeiro um, depois outro foi ao piano e executou algum motivo que os demais cantarolaram um pouco, depois gritaram em um coro vibrante. Então beberam mais, em meio a um fracasso total de conversa e risadas. Ivan Petrovitch e Athanase Georgevitch atravessaram a sala e beijaram o general. Rouletabille via ao seu redor grandes crianças que se divertiam com uma ingenuidade inacreditável e que bebiam de uma forma mais inacreditável ainda. Matrena Petrovna fumava cigarros de tabaco amarelo incessantemente, levantando-se quase continuamente para fazer uma ronda apressada pelos cômodos e, após ter instado os criados a uma maior vigilância, sentava-se e olhava longamente para Rouletabille, que não se movia, mas captava cada palavra, cada gesto de cada um ali. Finalmente, suspirando, ela sentou-se ao lado de Feodor e perguntou como estava sua perna. Michael e Natacha, em um canto, estavam mergulhados em conversa, e Boris observava-os com óbvia impaciência, ainda dedilhando a guzla. Mas o que atingiu a imaginação juvenil de Rouletabille acima de tudo foi o semblante suave do general. Ele não imaginara o terrível Trebassof com uma expressão tão paternal e simpática. Os jornais de Paris haviam impresso retratos formidáveis dele, mais ou menos autênticos, mas as artes da fotografia e da gravura haviam esculpido traços vigorosos e rudes de um oficial que não conhecia a piedade. Tais imagens estavam em perfeita concordância com a ideia que se tinha naturalmente da figura dominante do governo em Moscou, o homem que, durante oito dias — a Semana Vermelha —, fizera tantos cadáveres de estudantes e operários que os corredores da Universidade e as fábricas abriram suas portas desde então em vão. Os mortos teriam de ressuscitar para que esses lugares fossem povoados! Dias de batalha terrível onde, em um bairro ou outro da cidade, não havia senão massacre ou incêndios, até que Matrena Petrovna e sua enteada, Natacha (todos os jornais falavam disso), caíram de joelhos diante do general e imploraram termos para o último dos revolucionários, encurralado no bairro de Presnia, e foram recusadas por ele. "Guerra é guerra", fora sua resposta, com lógica irrefutável. "Como podem pedir misericórdia para esses homens que nunca a dão?". Diga-se, em favor dos jovens das barricadas, que eles nunca se renderam, e diga-se, igualmente, em favor de Trebassof, que ele necessariamente os fuzilou. "Se eu tivesse apenas a mim mesmo a considerar", dissera o general a um jornalista de Paris, "eu poderia ter sido gentil como um cordeiro com esses infelizes, e assim eu não estaria agora, eu mesmo, condenado à morte. Afinal, não vejo o que me reprovam. Servi ao meu senhor como um súdito bravo e leal, nada mais, e, após os combates, deixei que outros farejassem as crianças que se esconderam sob as saias de suas mães. Todos falam da repressão de Moscou, mas falemos, meu amigo, da Comuna. Ali houve um trabalho que eu não teria feito, massacrar dentro de um pátio uma multidão desarmada de homens, mulheres e crianças. Sou um soldado rude e fiel de Sua Majestade, mas não sou um monstro, e tenho os sentimentos de um marido e pai, meu caro monsieur. Diga isso aos seus leitores, se desejar, e não conjecture mais sobre se pareço lamentar estar condenado à morte".

Certamente, o que estupefazia Rouletabille agora era esta figura firme do homem condenado que parecia desfrutar tão tranquilamente de sua vida. Quando o general não estava fomentando a alegria de seus amigos, conversava com sua esposa e filha, que o adoravam e o acariciavam continuamente, e ele parecia perfeitamente feliz. Com seu enorme bigode grisalho, sua cor rubicunda, seus olhos penetrantes, ele parecia o típico pai mimado.

O repórter estudou todos esses tipos amplamente diferentes e fez suas observações enquanto fingia um apetite voraz, que servia, aliás, para fixá-lo nas boas graças de seus anfitriões da datcha des Iles. Mas, na realidade, ele passava a comida para um enorme buldogue debaixo da mesa, em cujas boas graças ele também estava se estabelecendo firmemente. Como Trebassof pedira aos seus companheiros que deixassem seu jovem amigo satisfazer sua fome voraz em paz, eles não se preocuparam em entretê-lo. Além disso, a música servia para distrair a atenção dele, e, em um momento um pouco mais tarde, quando Matrena Petrovna virou-se para falar com o jovem, ela se assustou ao não vê-lo. Para onde ele fora? Ela foi até a varanda e olhou. Não se atreveu a chamar. Entrou no grande salão e viu o repórter exatamente quando ele saía da sala de estar.

— Onde você estava? — perguntou ela.

— A sala de estar é certamente encantadora e decorada com requinte — elogiou Rouletabille. — Parece quase um boudoir.

— Ela serve de boudoir para minha enteada, cujo quarto se abre diretamente para ela; o senhor vê a porta ali. É simplesmente pelo momento que a mesa de almoço está montada lá, porque, há algum tempo, a polícia tomou conta da varanda.

— O seu cão é um cão de guarda, madame? — perguntou Rouletabille, acariciando o animal, que o seguira.

— Khor é fiel e tem nos guardado bem até agora.

— Ele dorme agora, então?

— Sim. Koupriane mantém-no trancado na guarita para impedi-lo de latir à noite. Koupriane teme que, se ele estiver solto, devorará um dos policiais que vigiam o jardim à noite. Eu queria que ele dormisse na casa, ou perto da porta de seu mestre, ou mesmo ao pé da cama, mas Koupriane disse: "Não, não; nada de cão. Não conte com o cão. Nada é mais perigoso do que contar com o cão". Desde então, ele mantém Khor trancado à noite. Mas eu não compreendo a ideia de Koupriane.

— O Sr. Koupriane tem razão — disse o repórter. — Cães são úteis apenas contra estranhos.

— Oh — ofegou a pobre mulher, baixando os olhos. — Koupriane certamente conhece seu trabalho; ele pensa em tudo.

— Venha — acrescentou ela rapidamente, como se quisesse ocultar seu desassossego —, não saia assim sem me avisar. Querem-no na sala de jantar.

— Preciso que me conte agora mesmo sobre essa tentativa.

— Na sala de jantar, na sala de jantar. Apesar de mim mesma — disse ela em voz baixa —, é mais forte do que eu. Não sou capaz de deixar o general sozinho enquanto ele está no andar térreo.

Ela conduziu Rouletabille para a sala de jantar, onde os senhores contavam agora histórias estranhas sobre assaltos de rua entre gargalhadas ruidosas. Natacha ainda conversava com Michael Korsakoff; Boris, cujos olhos nunca os abandonavam, estava tão pálido quanto a cera em sua guzla, que ele sacudia violentamente de tempos em tempos. Matrena fez Rouletabille sentar-se num canto do sofá, perto dela, e, contando nos dedos como uma dona de casa cuidadosa que não deseja esquecer nada em seus cálculos domésticos, disse:

— Houve três tentativas; as duas primeiras em Moscou. A primeira aconteceu de forma muito simples. O general sabia que fora condenado à morte. Haviam-lhe entregado no palácio, à tarde, o cartaz revolucionário que proclamava seu destino pretendido a toda a cidade e ao país. Então Feodor, que estava prestes a cavalgar até a cidade, dispensou sua escolta. Ordenou que atrelassem cavalos a um trenó. Eu tremi e perguntei o que ele ia fazer. Ele disse que ia passear calmamente por todas as partes da cidade, a fim de mostrar aos moscovitas que um governador nomeado conforme a lei pelo Pequeno Pai e que tinha em sua consciência apenas o sentimento de ter cumprido seu dever plenamente não deveria ser intimidado. Eram quase quatro horas, perto do fim de um dia de inverno que fora claro e brilhante, mas muito frio. Envolvi-me em minhas peles e tomei meu assento ao lado dele, e ele disse: "Isto é bom, Matrena; isto terá um grande efeito sobre esses imbecis". Então partimos. A princípio, dirigimo-nos ao longo da Naberjnaia. O trenó deslizava como o vento. O general deu ao cocheiro um golpe pesado nas costas, gritando: "Mais devagar, tolo; pensarão que estamos com medo", e assim os cavalos estavam quase caminhando quando, passando por trás da Igreja da Proteção e Intercessão, chegamos à Place Rouge. Até então, os poucos transeuntes nos haviam olhado e, ao reconhecê-lo, apressavam-se para não perdê-lo de vista. Na Place Rouge, havia apenas um pequeno grupo de mulheres ajoelhadas diante da Virgem. Assim que essas mulheres nos viram e reconheceram o equipamento do Governador, dispersaram-se como um bando de corvos, com gritos de medo. Feodor riu tanto que, ao passarmos sob a abóbada da Virgem, seu riso parecia sacudir as pedras. Senti-me tranquilizada, monsieur. Nosso passeio continuou sem qualquer incidente notável. A cidade estava quase deserta. Tudo jazia prostrado sob o golpe terrível daquela batalha na rua. Feodor disse: "Ah, eles me dão um largo espaço; eles não sabem o quanto eu os amo", e durante todo aquele passeio ele me disse muitas outras coisas encantadoras e delicadas.

— Enquanto conversávamos agradavelmente sob nossas peles, chegamos à Place Koudrinsky, à rue Koudrinsky, para ser exata. Eram exatamente quatro horas, e uma leve névoa começara a se misturar com a neve que caía, e as casas à direita e à esquerda eram visíveis apenas como massas de sombra. Deslizávamos sobre a neve como um barco ao longo do rio em uma calma enevoada. Então, de repente, ouvimos gritos lancinantes e vimos sombras de soldados correndo, com movimentos que pareciam maiores do que os humanos através da névoa; seus chicotes curtos pareciam enormes enquanto golpeavam outras sombras que vimos cair como troncos. O general parou o trenó e desceu para ver o que estava acontecendo. Desci com ele. Eram soldados do famoso regimento Semenowsky, que tinham dois prisioneiros, um jovem e uma criança. A criança estava sendo espancada na nuca. Ela se contorcia no chão e chorava de tormento. Não devia ter mais de nove anos. O outro, o jovem, mantinha-se de pé e marchava sem um único grito enquanto as tiras de couro caíam brutalmente sobre ele. Fiquei horrorizada. Não dei tempo ao meu marido para abrir a boca antes que eu gritasse ao subalterno que comandava o destacamento: "Deveria ter vergonha de bater em uma criança e em um cristão como esse, que não pode se defender". O general disse-lhe a mesma coisa. Então o subalterno nos disse que a criancinha acabara de matar um tenente na rua disparando um revólver, que ele nos mostrou, e era o maior que já vi, e deve ter sido tão pesado para aquele infante levantar quanto um pequeno canhão. Era inacreditável.

— "E o outro" — perguntou o general — "o que ele fez?"

— "É um estudante perigoso" — respondeu o subalterno — "que se entregou como prisioneiro porque prometeu ao proprietário da casa onde mora que o faria para evitar que a casa fosse derrubada a canhão."

— "Mas isso é correto da parte dele. Por que vocês o batem?"

— "Porque ele nos disse que é um estudante perigoso."

— "Isso não é motivo" — disse-lhe Feodor. — "Ele será fuzilado se merecer, e a criança também, mas eu proíbo vocês de baterem nele. Vocês não foram providos desses chicotes para bater em prisioneiros isolados, mas para atacar a multidão quando ela não obedece às ordens do governador. Em tal caso, vocês recebem a ordem 'Atacar', e vocês sabem o que fazer. Entenderam?" — Feodor disse asperamente. — "Eu sou o General Trebassof, seu governador."

— Feodor foi plenamente humano ao dizer isso. Ah, bem, ele foi mal recompensado por isso, muito mal, digo-lhe. O estudante era verdadeiramente perigoso, porque não tinha acabado de ouvir meu marido dizer "Eu sou o General Trebassof, seu governador", quando ele gritou: "Ah, é você, Trebassof?" e sacou um revólver de onde ninguém sabe e disparou direto contra o general, quase contra o peito dele. Mas o general não foi atingido, felizmente, nem eu também, que estava ao lado dele e tinha me lançado sobre o estudante para desarmá-lo e então fui jogada aos pés dos soldados na batalha que travaram em torno do estudante enquanto o revólver disparava. Três soldados foram mortos. Você pode entender que os outros estavam furiosos. Eles me levantaram com muitas desculpas e, todos juntos, começaram a chutar o estudante nos rins e a golpeá-lo enquanto ele jazia no chão. O subalterno atingiu o rosto dele com um golpe que poderia tê-lo cegado. Feodor atingiu o oficial na cabeça com o punho e chamou: "Você não ouviu o que eu disse?". O oficial caiu sob o golpe e o próprio Feodor carregou-o para o trenó e colocou-o com os mortos. Então ele assumiu o comando dos soldados e levou-os para o quartel. Eu segui, como uma espécie de retaguarda. Voltamos ao palácio uma hora depois. Já estava bem escuro então, e quase na entrada do palácio fomos alvo de tiros de um grupo de revolucionários que passou rapidamente em dois trenós e desapareceu na escuridão tão rápido que não puderam ser alcançados. Tive uma bala em minha toque. O general não foi tocado desta vez também, mas nossas peles foram arruinadas pelo sangue dos soldados mortos que se esqueceram de limpar do trenó. Essa foi a primeira tentativa, que significou pouco, afinal, porque era combate em campo aberto. Foi alguns dias depois que começaram a tentar o assassinato.

Neste momento, Ermolai trouxe quatro garrafas de champanhe e Thaddeus tocou levemente no piano.

— Rapidamente, madame, a segunda tentativa — disse Rouletabille, que fazia anotações apressadas em seu punho, nunca parando, entretanto, de observar o grupo festivo e ouvindo com ambas as orelhas bem abertas para Matrena.

— A segunda aconteceu ainda em Moscou. Tivemos um jantar alegre porque pensávamos que finalmente os bons tempos estavam de volta e os bons cidadãos podiam viver em paz; e Boris tinha experimentado a guzla cantando canções da região de Orel para me agradar; ele é tão fino e simpático. Natacha tinha ido a algum lugar. O trenó esperava à porta e nós saímos e entramos. Quase instantaneamente houve um barulho terrível, e fomos jogados na neve, tanto o general quanto eu. Não restou traço de trenó ou cocheiro; os dois cavalos estavam estripados, dois magníficos cavalos malhados, meu caro jovem monsieur, aos quais o general era tão apegado. Quanto a Feodor, ele teve aquele ferimento grave na perna direita; a panturrilha estava estilhaçada. Eu simplesmente tive meu ombro um pouco distendido, praticamente nada. A bomba tinha sido colocada sob o assento do infeliz cocheiro, cujo chapéu apenas encontramos, em uma poça de sangue. Desde aquele ataque, o general ficou dois meses na cama. No segundo mês, prenderam dois criados que foram pegos uma noite no patamar que leva ao andar superior, onde não tinham negócios, e depois disso enviei imediatamente buscar nossos velhos criados em Orel para virem nos servir. Descobriu-se que esses criados detectados estavam em contato com os revolucionários, então foram enforcados. O Imperador nomeou um governador provisório, e agora que o general estava melhor decidimos por uma convalescença para ele no midi da França. Pegamos o trem para São Petersburgo, mas a viagem iniciou febre alta em meu marido e reabriu o ferimento na panturrilha. Os médicos ordenaram repouso absoluto e então nos estabelecemos aqui na datcha des Iles. Desde então, nem um dia se passou sem que o general recebesse uma carta anônima dizendo-lhe que nada pode salvá-lo da vingança dos revolucionários. Ele é corajoso e apenas sorri sobre elas, mas para mim, sei bem que enquanto estivermos na Rússia não temos um momento de segurança. Então eu o vigio a cada minuto e não deixo ninguém se aproximar dele exceto seus amigos íntimos e nós da família. Trouxe uma velha gniagnia que me viu crescer, Ermolai, e os criados de Orel. Nesse meio tempo, dois meses depois, a terceira tentativa ocorreu de repente. É certamente de todas a mais assustadora, porque é tão misteriosa, um mistério que ainda não foi, infelizmente, resolvido.

Mas Athanase Georgevitch tinha contado uma "boa história" que causou tanto alvoroço que nada mais podia ser ouvido. Feodor Feodorovitch estava tão divertido que tinha lágrimas nos olhos. Rouletabille disse a si mesmo enquanto Matrena falava: "Nunca vi homens tão alegres, e ainda assim eles sabem perfeitamente que podem ser explodidos todos juntos a qualquer momento".

O General Trebassof, que observava constantemente Rouletabille, que, aliás, vinha sendo vigiado por todos ali, disse:

— Eh, eh, monsieur le journaliste, você nos acha muito alegres?

— Acho-o muito corajoso — disse Rouletabille calmamente.

— Como assim? — disse Feodor Feodorovitch, sorrindo.

— Deve me perdoar por pensar nas coisas que você parece ter esquecido inteiramente.

Ele indicou a perna ferida do general.

— Os riscos da guerra! Os riscos da guerra! — disse o general. — Uma perna aqui, um braço ali. Mas, como vê, ainda estou aqui. Eles acabarão por se cansar e me deixar em paz. À sua saúde, meu amigo!

— À sua saúde, general!

— Você entende — continuou Feodor Feodorovitch —, não há motivo para nos exaltarmos. É nosso trabalho defender o império sob o risco de nossas vidas. Achamos isso muito natural, e não há motivo para pensar nisso. Tive terrores suficientes em outras direções, para não falar dos terrores do amor, que são mais ferozes do que você pode ainda imaginar. Olhe para o que fizeram ao meu pobre amigo o Chefe da Sureté, Boichlikoff. Ele era louvável, certamente. Era um homem corajoso. De noite, quando seu trabalho terminava, ele sempre deixava o escritório da prefeitura e ia encontrar sua esposa e filhos em seu apartamento na ruelle des Loups. Nem um soldado! Nem guarda! Os outros tiveram todas as chances. Uma noite, vinte revolucionários, depois de terem afugentado os criados aterrorizados, subiram aos seus apartamentos. Ele jantava com sua família. Bateram e ele abriu a porta. Ele viu quem eram, e tentou falar. Não lhe deram tempo. Diante de sua esposa e filhos, loucos de terror e de joelhos diante dos revolucionários, eles leram para ele sua sentença de morte. Um belo fim esse para um jantar!

Ao ouvir, Rouletabille empalideceu e manteve os olhos na porta como se esperasse vê-la abrir-se sozinha, dando acesso a niilistas ferozes dos quais um, com um papel na mão, leria a sentença de morte para Feodor Feodorovitch. O estômago de Rouletabille ainda não estava temperado para tais histórias. Ele quase lamentou, momentaneamente, ter assumido a terrível responsabilidade de dispensar a polícia. Depois do que Koupriane lhe confidenciara sobre coisas que tinham acontecido nesta casa, ele não hesitou em arriscar tudo naquela decisão audaciosa, mas, ainda assim, ainda assim... essas histórias de niilistas que aparecem ao fim de uma refeição, sentença de morte na mão, elas o assombravam, elas o perturbavam. Certamente tinha sido uma temeridade dispensar a polícia!

— Bem — perguntou ele, vencendo suas dúvidas e retomando, como sempre, sua confiança em si mesmo —, então, o que fizeram depois, após ler a sentença?

— O Chefe da Sureté sabia que não tinha tempo a perder. Ele não pediu por isso. Os revolucionários ordenaram-lhe que se despedisse de sua família. Ele levantou sua esposa, seus filhos, abraçou-os, pediu-lhes que tivessem coragem, então disse que estava pronto. Levaram-no para a rua. Colocaram-no contra uma parede. Sua esposa e filhos assistiram de uma janela. Uma salva de tiros soou. Desceram para assegurar o corpo, perfurado com vinte e cinco balas.

— Esse foi exatamente o número de ferimentos que foram feitos no corpo do pequeno Jacques Zloriksky — veio nos tons uniformes de Natacha.

— Oh, você, você sempre encontra uma desculpa — resmungou o general. — O pobre Boichlikoff fez seu dever, como eu fiz o meu.

— Sim, papai, você agiu como um soldado. É isso que os revolucionários não deveriam esquecer. Mas não tenha medos por nós, papai; porque se eles o matarem, todos nós morreremos com você.

— E alegremente também — declarou Athanase Georgevitch.

— Eles deveriam vir esta noite. Estamos em forma!

Sobre o que Athanase encheu os copos novamente.

— Não obstante, permita-me dizer — aventurou-se o madeireiro, Thaddeus Tchnitchnikof, timidamente —, permita-me dizer que esse Boichlikoff foi muito imprudente.

— Sim, de fato, muito gravemente imprudente — concordou Rouletabille. — Quando um homem disparou vinte e cinco boas balas no corpo de uma criança, ele deveria certamente manter sua casa bem vigiada se deseja jantar em paz.

Ele gaguejou um pouco no final disso, porque lhe ocorreu que era um pouco inconsistente expressar tais opiniões, vendo o que tinha feito com a guarda do general.

— Ah — gritou Athanase Georgevitch, com uma voz de teatro —, ah, não foi imprudência! Foi desprezo pela morte! Sim, foi o desprezo pela morte que o matou! Assim como o desprezo pela morte nos mantém, neste momento, em perfeita saúde. À saúde de vocês, senhoras e senhores! Conhecem algo mais adorável, mais grandioso, no mundo do que o desprezo pela morte? Olhem para Feodor Feodorovitch e respondam-me. Soberbo! Pela minha palavra, soberbo! À saúde de todos! Os revolucionários que não são da polícia são da mesma opinião a respeito de nossos heróis. Eles podem amaldiçoar os tchinownicks que executam as ordens terríveis dadas por aqueles acima, mas aqueles que não são da polícia (há alguns, creio) — estes certamente reconhecem que homens como o Chefe da Sureté, nosso falecido amigo, são corajosos.

— Certamente — endossou o general. — Considerando todas as coisas, eles precisam de mais heroísmo para um passeio em um salão do que um soldado em um campo de batalha.

— Eu conheci alguns desses homens — continuou Athanase em veia exaltada. — Encontrei em todas as suas casas a mesma... imprudência, como nosso jovem amigo francês chama. Alguns dias após o assassinato do Chefe de Polícia em Moscou, fui recebido por seu sucessor no mesmo lugar onde o assassinato tinha ocorrido. Ele não tomou a menor precaução comigo, a quem ele não conhecia absolutamente, nem com homens da classe média que vieram apresentar suas petições, apesar do fato de que foi sob condições precisamente idênticas que seu predecessor tinha sido morto. Antes de sair, olhei para onde, no chão, tinha ocorrido tão recentemente tal agonia. Tinham colocado um tapete ali e sobre o tapete uma mesa, e sobre essa mesa havia um livro. Adivinhem que livro. "Meias de Mulher", por Willy! E... e então... À sua saúde, Matrena Petrovna. O que importa!

— Vocês mesmos, meus amigos — declarou o general —, provam sua grande coragem vindo compartilhar as horas que restam da minha vida comigo.

— De forma alguma, de forma alguma! É guerra.

— Sim, é guerra.

— Oh, não há motivo para dar tapinhas em nossas costas, Athanase — insistiu Thaddeus modestamente. — Que risco corremos? Estamos bem vigiados.

— Estamos protegidos pelo dedo de Deus — declarou Athanase —, porque a polícia... bem, não tenho confiança na polícia.

Michael Korsakoff, que tinha saído para um passeio no jardim, entrou durante a observação.

— Fique feliz, então, Athanase Georgevitch — disse ele —, pois agora não há polícia ao redor da vila.

— Onde eles estão? — indagou o madeireiro inquieto.

— Uma ordem veio de Koupriane para removê-los — explicou Matrena Petrovna, que se esforçava para parecer calma.

— E não foram substituídos? — perguntou Michael.

— Não. É incompreensível. Deve ter havido alguma confusão nas ordens dadas. — E Matrena corou, pois detestava mentir e foi em tribulação de espírito que ela usou essa fábula sob as instruções de Rouletabille.

— Oh, bem, ainda melhor — disse o general. — Será um prazer ver minha casa livre por um tempo de tais pessoas.

Athanase era naturalmente da mesma opinião que o general, e quando Thaddeus e Ivan Petrovitch e os ajudantes de ordens se ofereceram para passar a noite na vila e tomar o lugar da polícia ausente, Feodor Feodorovitch captou um gesto de Rouletabille que desaprovava a ideia dessa nova guarda.

— Não, não — gritou o general enfaticamente. — Vocês partem no horário habitual. Quero agora voltar ao curso normal das coisas, pela minha palavra! Viver como todos os outros fazem. Ficaremos bem. Koupriane e eu arranjamos o assunto. Koupriane tem menos certeza de seus homens, afinal, do que eu de meus criados. Você me entende. Não preciso explicar mais. Vocês irão para casa dormir — e todos dormiremos. Essas são as ordens. Além disso, vocês devem lembrar que o posto de guarda fica a apenas um passo daqui, na esquina da estrada, e só temos que dar um sinal para trazer todos eles para cá. Mas... mais agentes secretos ou polícia especial... não, não! Boa noite. Todos nós para a cama agora!

Eles não insistiram mais. Quando Feodor dizia: "Essas são as ordens", não havia espaço para mais nada, nem mesmo em termos de insistência educada.

Mas antes de irem para suas camas, todos foram para a varanda, onde licores foram servidos pelo bravo Ermolai, como sempre. Matrena empurrou a cadeira de rodas do general para lá, e ele continuava repetindo: "Não, não. Chega de tais pessoas. Chega de polícia. Eles só trazem problemas".

— Feodor! Feodor! — suspirava Matrena, cuja ansiedade se aprofundava apesar de tudo o que pudesse fazer —, eles vigiavam sua querida vida.

— A vida só é cara para mim por sua causa, Matrena Petrovna.

— E de forma alguma por minha causa, papai? — disse Natacha.

— Oh, Natacha!

Ele tomou ambas as mãos dela nas suas. Foi um vislumbre comovente de intimidade familiar.

De tempos em tempos, enquanto Ermolai servia os licores, Feodor batia com a mão nas cobertas sobre sua perna.

— Está melhorando — dizia ele. — Está melhorando.

Então, a melancolia transpareceu em seu rosto rude, e ele observou a noite aprofundar-se sobre as ilhas, a noite dourada de São Petersburgo. Ainda não era bem a época do ano para o que lá chamam de noites douradas, as "noites brancas", noites que nunca se aprofundam na escuridão, mas já eram belas em sua clareza suave, acariciadas, aqui pelo Golfo da Finlândia, quase ao mesmo tempo pelos últimos e pelos primeiros raios do sol, pelo crepúsculo e pela aurora.

Da altura da varanda, um dos pedaços mais belos das ilhas estava à vista, e a hora era tão adorável que seu encanto comoveu estas pessoas, das quais várias, como Thaddeus, ainda estavam próximas à natureza. Foi ele, primeiro, quem chamou Natacha:

"Natacha! Natacha! Canta-nos o teu 'Soir des Iles'."

A voz de Natacha flutuou sobre a paz das ilhas sob o céu arqueado e sombrio, leve e clara como uma rosa noturna, e a guzla de Boris a acompanhava. Natacha cantou:

"Esta é a noite das Ilhas — ao norte do mundo. O céu pressiona em seus braços imaculados o seio da terra, a Noite beija a rosa que o alvorecer deu ao crepúsculo. E o ar noturno é doce e fresco vindo através do golfo trêmulo, Como o hálito de jovens moças do mundo ainda mais ao norte. Sob os dois horizontes iluminados, afundando e elevando-se ao mesmo tempo, O sol rola rebatendo nos deuses ao norte do mundo. Neste momento, amado, quando nas sombras claras desta noite manchada de rosa estou aqui a sós contigo, Responde, responde com um coração menos tímido ao santo, costumeiro grito de 'Boa noite'."

Ah, como Boris Nikolaievitch e Michael Korsakoff a observavam enquanto ela cantava! Verdadeiramente, ninguém jamais pode adivinhar a raiva ou o amor que paira em um coração eslavo sob a túnica de um soldado, quer o soldado toque sabiamente a guzla, como o correto Boris, ou apenas descanse, torcendo o bigode com seus dedos manicurados e perfumados, como Michael, o indiferente.

Natacha cessou de cantar, mas todos pareciam ainda ouvi-la — o grupo convivial no terraço parecia estar mantido em atenção encantada, e as estatuetas de porcelana dos homens no gramado, de acordo com a moda das Iles, pareciam elevar-se em suas pernas curtas para melhor ouvir passar a harmonia suspirante de Natacha nas noites cor-de-rosa ao norte do mundo.

Enquanto isso, Matrena vagava pela casa do porão ao sótão, vigiando seu marido como um cão de guarda, pronta para morder, para lançar-se no caminho do perigo, para receber os golpes, para morrer por seu mestre — e procurando por Rouletabille, que desaparecera novamente.

III. A VIGÍLIA

Ela saiu para advertir os criados para uma vigilância rigorosa, armados até os dentes, diante do portão durante toda a noite, e atravessou o jardim deserto. Sob a varanda, o schwitzar estava estendendo um colchão para Ermolai. Ela perguntou-lhe se tinha visto o jovem francês em algum lugar e, após a resposta, só pôde dizer a si mesma: "Onde ele está, então?" Para onde teria ido Rouletabille? O general, a quem ela carregara até seu quarto nas costas, sem qualquer ajuda, e a quem ajudara a ir para a cama sem assistência, estava perturbado com este desaparecimento singular. Teria alguém já levado "o seu" Rouletabille? Seus amigos tinham ido embora e os ordenanças tinham partido sem poder dizer para onde este rapaz jornalista tinha ido. Mas seria tolice preocupar-se com o desaparecimento de um jornalista, tinham dito. Esse tipo de homem — esses jornalistas — vinha, ia, chegava quando menos se esperava deles e deixava sua companhia — até mesmo a da mais alta sociedade — sem formalidades. Era o que chamavam na França de "sair à inglesa". No entanto, parecia que não era para ser indelicado. Talvez ele tivesse ido telegrafar. Um jornalista tinha de manter contato com o telégrafo a todas as horas. A pobre Matrena Petrovna vagava pelo jardim solitário em tumulto de coração. Havia a luz na janela do general no primeiro andar. Havia luzes no porão, vindas das cozinhas. Havia uma luz no andar térreo, perto da sala de estar, da janela do quarto de Natacha. Ah, a noite era difícil de suportar. E nesta noite as sombras pesavam mais do que nunca sobre o peito valente de Matrena. Enquanto respirava, sentia como se levantasse todo o peso da noite ameaçadora. Ela examinava tudo — tudo. Tudo estava bem fechado, perfeitamente seguro, e não havia ninguém lá dentro, exceto pessoas de quem ela tinha certeza absoluta — mas a quem, mesmo assim, ela não permitia ir a lugar nenhum na casa, exceto onde seu trabalho os chamava. Cada um em seu lugar. Isso tornava as coisas mais seguras. Ela desejava que cada um pudesse permanecer fixo como as estátuas de porcelana dos homens lá fora no gramado. Mesmo enquanto pensava nisso, ali a seus pés, bem aos seus pés, uma sombra de um dos homens de porcelana moveu-se, esticou-se, ergueu-se sobre os joelhos, agarrou sua saia e falou com a voz de Rouletabille. Ah, bom! Era Rouletabille. "O próprio, cara madame; o próprio."

"Por que Ermolai está na varanda? Mande-o de volta para as cozinhas e diga ao schwitzar para ir dormir. Os criados são suficientes para uma guarda comum do lado de fora. Então, entre imediatamente, feche a porta e não se preocupe comigo, cara madame. Boa noite."

Rouletabille tinha retomado, nas sombras, entre as outras figuras de porcelana, sua pose de homem de porcelana.

Matrena Petrovna fez como lhe foi dito, voltou para a casa, falou com o schwitzar, que se retirou para a guarita com Ermolai, e sua patroa fechou a porta externa. Ela tinha fechado muito antes a porta da escada da cozinha, que permitia aos domésticos entrar na vila por baixo. Lá embaixo, cada noite, a devotada gniagnia e o fiel Ermolai vigiavam por turnos.

Dentro da vila, agora fechada, havia no andar térreo apenas Matrena e sua enteada Natacha, que dormia no quarto ao lado da sala de estar, e, acima, no primeiro andar, o general adormecido, ou que deveria estar adormecido se tivesse tomado sua poção. Matrena permaneceu na escuridão da sala de estar, sua lanterna surda na mão. Todas as suas noites passavam assim, deslizando de porta em porta, de quarto em quarto, vigiando sobre a vigília da polícia, sem ousar interromper seu passeio furtivo nem para lançar-se sobre o colchão que ela tinha colocado através do umbral do quarto de seu marido. Será que ela dormia algum dia? Ela mesma mal poderia dizer. Quem mais poderia, então? Um pedaço de sono aqui e ali, sobre o braço de uma cadeira, ou encostada na parede, sempre acordada por algum ruído que ouvia ou sonhava, algum aviso, talvez, que só ela tinha ouvido. E esta noite, esta noite há a guarda alerta de Rouletabille para ajudá-la, e ela sente um pouco menos o terror doloroso da vigilância, até que surge de volta em sua mente a recordação de que a polícia não está mais lá. Ele estava certo, este jovem? Certamente ela não podia negar que, de alguma forma, sentia mais confiança agora que a polícia tinha ido embora. Ela não precisava passar seu tempo vigiando as sombras deles nas sombras, vasculhando a escuridão, as poltronas, os sofás, para despertá-los, para apelar em tons baixos a tudo o que eles consideravam obrigatório, pelo próprio nome deles e pelo nome de seu pai, para prometer-lhes um bônus que equivaleria a alguma coisa se vigiassem bem, para contá-los a fim de saber onde todos estavam, e, subitamente, para lançar bem no rosto deles o raio de luz de sua pequena lanterna surda a fim de ter certeza, certeza absoluta, de que ela estava cara a cara com eles, um dos policiais, e não com algum outro, algum outro com uma máquina infernal debaixo do braço. Sim, ela certamente tinha menos trabalho agora que não precisava mais vigiar a polícia. E ela tinha menos medo!

Ela agradeceu ao jovem repórter por isso. Onde ele estava? Ele permanecia na pose de uma estátua de porcelana todo esse tempo lá fora no gramado? Ela espiou através das treliças das persianas da varanda e olhou ansiosamente para o jardim escurecido. Onde ele poderia estar? Seria ele, lá embaixo, aquele monte negro agachado com um cachimbo apagado na boca? Não, não. Aquele, ela sabia bem, era o anão que ela genuinamente amava, seu pequeno domovoi-doukh, o espírito familiar da casa, que vigiava com ela sobre a vida do general e graças ao qual ferimentos graves ainda não tinham acometido Feodor Feodorovitch — não se podia considerar uma perna mutilada algo tão grave. Ordinariamente, em seu próprio país (ela era do distrito de Orel), não se gostava de ver o domovoi-doukh aparecer em carne e osso. Quando pequena, ela sempre tinha medo de encontrá-lo em uma curva do caminho no jardim de seu pai. Ela sempre pensava nele não mais alto que isso, sentado sobre seus calcanhares e fumando seu cachimbo. Então, depois que se casou, ela o encontrou subitamente em uma curva no bazar em Moscou. Ele era exatamente como ela o tinha imaginado, e ela o comprou imediatamente, carregou-o para casa ela mesma e colocou-o, com muitas precauções, pois ele era de porcelana muito delicada, no vestíbulo do palácio. E, ao deixar Moscou, ela teve o cuidado de não deixá-lo lá. Ela o carregou ela mesma em uma caixa e o colocou ela mesma no gramado da datcha des Iles, para que ele pudesse continuar a vigiar sobre sua felicidade e sobre a vida de seu Feodor. E para que ele não ficasse entediado, eternamente fumando seu cachimbo todo sozinho, ela o rodeou com um grupo de pequenos gênios de porcelana, à moda dos Jardins des Iles. Deus! Como aquele jovem francês a tinha assustado, erguendo-se subitamente assim, sem aviso, no gramado. Ela tinha acreditado por um momento que era o próprio domovoi-doukh erguendo-se para esticar as pernas. Felizmente ele tinha falado imediatamente e ela tinha reconhecido sua voz. E, além disso, seu domovoi certamente não falaria francês. Ah! Matrena Petrovna respirou livremente agora. Parecia-lhe, nesta noite, que havia dois pequenos gênios familiares vigiando a casa. E isso valia mais do que toda a polícia do mundo, certamente. Como aquele pequeno sujeito era astuto ao mandar todos aqueles homens embora. Havia algo que era necessário saber; era necessário, portanto, que nada estivesse no caminho para aprender isso. Como as coisas estavam agora, o mistério poderia operar sem suspeita ou interferência. Apenas um homem vigiava, e ele não tinha o ar de estar vigiando. Certamente Rouletabille não tinha o ar de estar constantemente vigiando nada. Ele tinha a maneira, lá na noite, de um pequeno homem fácil de porcelana, nem mais nem menos, contudo ele podia ver tudo — se houvesse algo para ver — e ele podia ouvir tudo — se houvesse algo para ouvir. Passava-se ao lado dele sem suspeitar dele, e os homens podiam conversar uns com os outros sem a ideia de que ele os ouvia, e até falar sozinhos, de acordo com o hábito que as pessoas têm às vezes quando se julgam completamente sozinhas. Todos os convidados tinham partido assim, passando perto dele, quase roçando nele, tinham trocado seus "Adeus", seus "Até logo" e todas as suas despedidas finais e prolongadas. Aquele querido pequeno domovoi vivo era certamente um patife! Oh, aquele querido pequeno domovoi que tinha ficado tão afetado pelas lágrimas de Matrena Petrovna! A boa, gorda, sentimental e heroica mulher desejava ouvir, naquele momento, sua voz tranquilizadora.

"Sou eu. Aqui estou", disse a voz de seu pequeno espírito familiar vivo naquele instante, e ela sentiu sua saia ser agarrada. Ela esperou pelo que ele diria. Ela não sentiu medo. Contudo, ela supusera que ele estivesse fora da casa. Ainda assim, afinal, ela não estava tão espantada por ele estar dentro. Ele era tão adestrado! Ele tinha entrado atrás dela, na sombra de suas saias, de gatinhas, e tinha escapado sem que ninguém o notasse, enquanto ela falava com seu enorme e majestoso schwitzar.

"Então você estava aqui?", disse ela, tomando sua mão e apertando-a nervosamente nas suas.

"Sim, sim. Observei você fechando a casa. É uma tarefa bem feita, certamente. Você não esqueceu nada."

"Mas onde você estava, meu querido pequeno demônio? Eu fui a todos os cantos, e minhas mãos não tocaram em você."

"Eu estava debaixo da mesa posta com hors-d’oeuvres na sala de estar."

"Ah, debaixo da mesa de zakouskis! Eu proibi a eles antes de agora de espalhar uma longa toalha pendurada ali, o que me obriga a chutar meu pé por baixo casualmente para ter certeza de que não há ninguém por baixo. É imprudente, muito imprudente, tais toalhas de mesa. E debaixo da mesa de zakouskis, você foi capaz de ver ou ouvir alguma coisa?"

"Madame, a senhora acha que alguém poderia possivelmente ver ou ouvir alguma coisa na vila quando a senhora está vigiando-a sozinha, quando o general está adormecido e sua enteada está se preparando para dormir?"

"Não. Não. Eu não acredito nisso. Eu não. Não, ó Cristo!"

Eles conversavam assim muito baixo no escuro, ambos sentados em um canto do sofá, a mão de Rouletabille mantida firmemente nas mãos ardentes de Matrena Petrovna.

Ela suspirou ansiosamente. "E no jardim — você ouviu alguma coisa?"

"Ouvi o oficial Boris dizer ao oficial Michael, em francês: 'Voltaremos imediatamente para a vila?'. O outro respondeu em russo de uma maneira que eu pude ver que era uma recusa. Então eles tiveram uma discussão em russo que eu, naturalmente, não pude entender. Mas, pela maneira como falaram, concluí que eles discordavam e que não havia amor perdido entre eles."

"Não, eles não se amam. Eles dois amam Natacha."

"E ela, qual deles ela ama? É necessário me dizer."

"Ela finge que ama Boris, e eu acredito que ama, e ainda assim ela é muito amigável com Michael e frequentemente ela vai a recantos e cantos para conversar com ele, o que deixa Boris louco de ciúmes. Ela proibiu Boris de falar ao pai dela sobre o casamento deles, sob o pretexto de que não deseja deixar seu pai agora, enquanto a cada dia, cada minuto, a vida do general está em perigo."

"E a senhora, madame — a senhora ama sua enteada?", perguntou brutalmente o repórter.

"Sim — sinceramente", respondeu Matrena Petrovna, retirando sua mão das de Rouletabille.

"E ela — ela ama a senhora?"

"Acredito que sim, monsieur, acredito que sim sinceramente. Sim, ela me ama, e não há qualquer razão pela qual ela não deveria me amar. Eu acredito — entenda-me perfeitamente, porque vem do meu coração — que todos nós aqui nesta casa nos amamos. Nossos amigos são velhos amigos comprovados. Boris tem sido ordenança do meu marido por muito tempo. Não compartilhamos nenhuma de suas ideias modernas demais, e houve muitas discussões sobre o dever dos soldados na época dos massacres. Eu o reprovei por ser tão feminino quanto nós ao cair de joelhos diante do general atrás de Natacha e de mim, quando se tornou necessário matar todos aqueles pobres moujiks de Presnia. Não era o papel dele. Um soldado é um soldado. Meu marido o criou rudemente e ordenou-lhe, por seus esforços, que marchasse à frente das tropas. Estava correto. O que mais ele poderia fazer? O general já tinha o suficiente para lutar, com toda a revolução, com sua consciência, com a piedade natural no coração de um homem bravo e com as lágrimas e gemidos insuportáveis, em tal momento, de sua filha e de sua esposa. Boris entendeu e obedeceu-lhe, mas, após a morte dos pobres estudantes, ele comportou-se novamente como uma mulher ao compor aqueles versos sobre os heróis das barricadas; não acha? Versos que Natacha e ele aprenderam de cor, trabalhando juntos, quando foram surpreendidos por isso pelo general. Houve uma cena terrível. Foi antes do penúltimo ataque. O general então tinha o uso de ambas as pernas. Ele bateu os pés e sacudiu realmente a casa."

"Madame", disse Rouletabille, "a propósito dos ataques, a senhora deve me contar sobre o terceiro."

Ao dizer isso, inclinando-se para ela, Matrena Petrovna exclamou um "Escute!" que o deixou rígido na noite com a orelha alerta. O que ela tinha ouvido? Para ele, ele não tinha ouvido nada.

"A senhora não ouve nada?", ela sussurrou para ele com um esforço. "Um tique-taque?"

"Não, não ouço nada."

"A senhora sabe — como o tique-taque de um relógio. Escute."

"Como a senhora pode ouvir o tique-taque? Notei que nenhum relógio está funcionando aqui."

"A senhora não entende? É para que sejamos capazes de ouvir o tique-taque melhor."

"Oh, sim, eu entendo. Mas não ouço nada."

"Por mim, acho que ouço o tique-taque o tempo todo desde a última tentativa. Ele assombra meus ouvidos, é assustador, dizer para si mesma: Há um mecanismo de relógio em algum lugar, prestes a atingir o tique mortal — e não saber onde, não saber onde! Quando a polícia estava aqui, eu os fiz todos ouvir, e não tive certeza nem mesmo quando eles tinham todos ouvido e dito que não havia tique-taque. É terrível ouvi-lo em meu ouvido a qualquer momento quando menos espero. Tique-taque! Tique-taque! É o sangue batendo no meu ouvido, por exemplo, forte, como se batesse em uma caixa de ressonância. Ora, aqui estão gotas de suor nas minhas mãos! Escute!"

"Ah, desta vez alguém está falando — está chorando", disse o jovem.

"Sh-h-h!" E Rouletabille sentiu a mão rígida de Matrena Petrovna em seu braço. "É o general. O general está sonhando!"

Ela o levou para a sala de jantar, para um canto onde eles não podiam mais ouvir os gemidos. Mas todas as portas que se comunicavam com a sala de jantar, a sala de estar e a sala de estar permaneceram abertas atrás dele, por precaução secreta de Rouletabille.

Ele esperou enquanto Matrena, cuja respiração ele ouviu vir ofegante, estava um pouco atrás. Em um momento, bastante falante, e como se ela quisesse distrair a atenção de Rouletabille dos sons lá de cima, das palavras quebradas e suspiros, ela continuou:

"Veja, você fala de relógios. Meu marido tem um relógio que bate. Bem, eu parei o relógio dele porque mais de uma vez fui sobressaltada ao ouvir o tique-taque de seu relógio no bolso do colete. Koupriane me deu esse conselho um dia quando esteve aqui e tinha aguçado seus ouvidos ao ruído dos pêndulos, para parar todos os meus relógios e despertadores para que não houvesse chance de confundi-los com o tique-taque que pudesse vir de uma máquina infernal plantada em algum canto. Ele falou por experiência, meu pequeno monsieur, e foi por ordem dele que todos os relógios no Ministério, na Naberjnaia, foram parados, meu caro pequeno amigo. Os niilistas, ele me disse, frequentemente usam mecanismos de relógio para disparar suas máquinas no momento que decidem. Ninguém pode adivinhar todas as invenções que eles têm, aqueles bandidos. Da mesma forma, Koupriane aconselhou-me a retirar todos os anteparos das lareiras. Por essa precaução eles foram capazes de evitar um desastre terrível no Ministério perto da Pont-des-chantres, você sabe, petit demovoi? Eles viram uma bomba logo quando estava sendo baixada para a lareira do gabinete do ministro. Os niilistas seguravam-na por uma corda e estavam no telhado baixando-a pela chaminé. Um deles foi capturado, levado para Schlusselbourg e enforcado. Aqui você pode ver que todos os anteparos das lareiras estão limpos."

"Madame", interrompeu Rouletabille (Matrena Petrovna não sabia que ninguém jamais conseguia distrair a atenção de Rouletabille), "madame, alguém geme ainda, lá em cima."

"Oh, isso não é nada, meu pequeno amigo. É o general, que tem noites ruins. Ele não consegue dormir sem um narcótico, e isso lhe dá febre. Vou lhe contar agora como o terceiro ataque aconteceu. E então você entenderá, pela Virgem Maria, como é que eu ainda tenho, sempre tenho, o tique-taque em meus ouvidos."

«Numa noite em que o general tinha adormecido e eu estava no meu quarto, ouvi distintamente o tique-taque de um mecanismo de relojoaria em funcionamento. Todos os relógios tinham sido parados, como Koupriane aconselhara, e eu arranjara um pretexto para enviar o grande relógio de Feodor ao relojoeiro. Pode compreender como me senti ao ouvir aquele tique-taque. Fiquei frenética. Virei a cabeça em todas as direções e decidi que o som vinha do quarto do meu marido. Corri para lá. Ele ainda dormia, homem que ele é! O tique-taque estava lá. Mas onde? Virei-me daqui e dali como uma tola. O quarto estava na escuridão e parecia-me absolutamente impossível acender um candeeiro porque pensei que não teria tempo, com medo de que a máquina infernal explodisse naqueles poucos segundos. Atirei-me ao chão e escutei debaixo da cama. O ruído vinha de cima. Mas onde? Saltei para a lareira, esperando que, contra as minhas ordens, alguém tivesse posto a funcionar o relógio da chaminé. Não, não era isso! Parecia-me agora que o tique-taque vinha da própria cama, que a máquina estava na cama. O general acordou nesse momento e gritou-me: "O que é, Matrena? O que estás a fazer?" E ele ergueu-se na cama, enquanto eu gritava: "Escuta! Ouve o tique-taque. Não ouves o tique-taque?" Atirei-me sobre ele e levantei-o nos meus braços para o carregar, mas tremia demasiado, estava demasiado fraca de medo, e caí de volta com ele sobre a cama, gritando: "Socorro!" Ele afastou-me e disse rudemente: "Escuta." O tique-taque assustador estava agora atrás de nós, sobre a mesa. Mas não havia nada na mesa, apenas a luz de presença, o copo com a poção e um vaso de ouro onde eu tinha colocado, com as minhas próprias mãos, naquela manhã, um ramo de ervas e flores silvestres que Ermolai tinha trazido nessa manhã, no seu regresso da região de Orel. Com um salto, estava sobre a mesa e junto das flores. Afundei os dedos entre as ervas e as flores e senti uma resistência. O tique-taque estava no bouquet! Peguei no bouquet com ambas as mãos, abri a janela e atirei-o tão longe quanto pude para o jardim. No mesmo instante, a bomba rebentou com um ruído terrível, causando-me um ferimento bastante profundo na mão. Na verdade, meu querido pequeno domovoi, naquele dia estivemos muito perto da morte, mas Deus e o Pequeno Pai velaram por nós.»

E Matrena Petrovna fez o sinal da cruz.

«Todas as janelas da casa partiram-se. Ao todo, escapámos com o susto e uma visita do vidraceiro, meu pequeno amigo, mas acreditei certamente que tudo tinha acabado.»

«E a Mademoiselle Natacha?», indagou Rouletabille. «Ela também deve ter ficado terrivelmente assustada, porque a casa toda deve ter tremido.»

«Certamente. Mas Natacha não estava aqui naquela noite. Era um sábado. Ela tinha sido convidada para a soirée do ‘Michel’ pelos pais de Boris Nikolaievitch, e dormiu em casa deles, depois da ceia no Ours, como estava planeado. No dia seguinte, quando soube do perigo que o general tinha escapado, ela tremeu em todos os membros. Atirou-se aos braços do pai, a chorar, o que era natural, e declarou que nunca mais se afastaria dele. O general contou-lhe como eu tinha conseguido. Então ela apertou-me contra o seu coração, dizendo que nunca esqueceria tal ação e que me amava mais do que se eu fosse verdadeiramente a sua mãe. Foi tudo em vão que, durante os dias seguintes, procurámos compreender como a máquina infernal tinha sido colocada no bouquet de flores silvestres. Apenas os amigos do general que viu esta noite, Natacha e eu, tínhamos entrado no quarto do general durante o dia ou à noite. Nenhum criado, nenhuma criada, tinha estado naquele andar. De dia, assim como durante toda a noite, todo aquele andar está fechado e eu tenho as chaves. A porta da escada de serviço que abre para aquele andar, diretamente para o quarto do general, está sempre trancada e barrada pelo lado de dentro com ferro. Natacha e eu fazemos o trabalho do quarto. Não há forma de tomar maiores precauções. Três agentes da polícia vigiaram-nos dia e noite. Na noite do bouquet, dois tinham passado o tempo a vigiar em redor da casa, e o terceiro estava deitado no sofá da varanda. Além disso, encontrámos todas as portas e janelas da villa bem fechadas. Em tais circunstâncias, pode julgar se a minha angústia não era mais profunda do que qualquer outra que eu tivesse conhecido até então. Porque em quem, doravante, nos poderíamos confiar? Em que e em quem poderíamos acreditar? Em que e em quem poderíamos vigiar? Desde esse dia, nenhuma outra pessoa além de Natacha e eu tem o direito de ir ao primeiro andar. O quarto do general foi proibido aos seus amigos. De qualquer modo, o general melhorou e logo teve o prazer de os receber ele mesmo à sua mesa. Eu carrego o general para baixo e levo-o de volta ao seu quarto às costas. Não desejo que ninguém ajude. Sou forte o suficiente para isso. Sinto que poderia carregá-lo até ao fim do mundo se isso o salvasse. Em vez de três polícias, tínhamos dez; cinco fora, cinco dentro. Os dias corriam bem o suficiente, mas as noites eram terríveis, porque as sombras da polícia que encontrava faziam-me sempre temer estar frente a frente com os niilistas. Uma noite, quase estrangulei um com a minha mão. Foi depois desse incidente que combinámos com Koupriane que os agentes que vigiavam à noite, por dentro, deveriam permanecer colocados na varanda, depois de terem, no final da noite, feito uma inspeção completa de tudo. Eles não deveriam sair da varanda a menos que ouvissem um ruído suspeito ou eu os chamasse. E foi depois desse arranjo que aconteceu o incidente do soalho, que tanto intrigou Koupriane e a mim.»

«Perdão, madame», interrompeu Rouletabille, «mas os agentes, durante a inspeção de tudo, nunca foram ao andar do quarto?»

«Não, meu filho, apenas eu e Natacha, repito, que, desde o bouquet, vamos lá.»

«Bem, madame, é necessário levar-me lá imediatamente.»

«Imediatamente!»

«Sim, ao quarto do general.»

«Mas ele está a dormir, meu filho. Deixe-me contar-lhe exatamente como o caso do soalho aconteceu, e saberá tanto quanto eu e quanto Koupriane.»

«Ao quarto do general, imediatamente.»

Ela pegou nas suas mãos e apertou-as nervosamente. «Pequeno amigo! Pequeno amigo! Ouvem-se lá às vezes coisas que são o segredo da noite! Compreende-me?»

«Ao quarto do general, imediatamente, madame.»

Abruptamente, ela decidiu levá-lo lá, agitada, perturbada como estava por ideias e sentimentos que a mantinham sem descanso entre a inquietação mais selvagem e a audácia mais imprudente.

IV. «A JUVENTUDE DE MOSCOVO ESTÁ MORTA»

Rouletabille deixou-se guiar por Matrena pela noite, mas tropeçava e as suas mãos desajeitadas batiam contra várias coisas. A subida para o primeiro andar foi realizada em silêncio profundo. Nada o quebrava, exceto aquele gemido inquieto que tanto tinha afetado o jovem pouco antes.

O calor tépido, o perfume de um boudoir de mulher, depois, mais à frente, através de duas portas que abriam para o quarto de vestir que ficava entre o quarto de Matrena e o de Feodor, o brilho ténue de uma luz de presença mostrava a cama onde estava estendido o tirano de Moscovo adormecido. Ah, ele era assustador de se ver, com o jogo de luz amarela fraca e sombras difusas sobre ele. Tais sobrancelhas arqueadas e pesadas, tal aspeto de dor e ameaça, o maxilar maciço de um selvagem vindo das planícies da Tartária para ser o Flagelo de Deus, a barba rígida, espessa e espalhada. Esta era uma forma semelhante à galeria dos velhos nobres em Kazan, e o jovem Rouletabille imaginava-o como ninguém menos que o próprio Ivan, o Terrível. Assim aparecia enquanto dormia o excelente Feodor Feodorovitch, o pai de família fácil e mimado da mesa, o amigo do advogado célebre pelas suas proezas com faca e garfo e do gracejador madeireiro e amável caçador de ursos, o alegre Thaddeus e Athanase; Feodor, o fiel esposo de Matrena Petrovna e o adorado papá de Natacha, um homem corajoso que tinha o infortúnio de ter noites de insónia cruel ou sonhos mais terríveis ainda.

Nesse momento, um suspiro rouco elevou o seu peito enorme num ritmo irregular, e Rouletabille, debruçado no vão da porta do quarto de vestir, observava — mas já não era o general que ele observava, era outra coisa, mais abaixo, junto à parede, perto da porta, e foi isso que o pôs a andar na ponta dos pés tão levemente pelo chão que não produziu som algum. Não havia o menor som no quarto, exceto a respiração pesada que levantava o peito rude. Atrás de Rouletabille, Matrena ergueu os braços, como se desejasse detê-lo, porque não sabia para onde ele ia. O que estava ele a fazer? Por que se curvava assim ao lado da porta e por que pressionava o polegar ao longo de todo o soalho no vão da porta? Ele levantou-se de novo e regressou. Passou outra vez diante da cama, onde retumbava agora, como os foles de uma forja, a respiração do adormecido. Matrena agarrou Rouletabille pela mão. E ela já o tinha apressado para o quarto de vestir quando um gemido os deteve.

«A juventude de Moscovo está morta!»

Era o adormecido a falar. A boca que tinha dado as ordens rigorosas gemia. E a lamentação era ainda uma ameaça. No sono assombrado imposto àquele homem pelo narcótico inadequado, as palavras que Feodor Feodorovitch pronunciava eram palavras de luto e piedade. Este perfeito demónio de soldado, a quem nem balas nem bombas podiam intimidar, tinha um jeito de dizer palavras que transformavam o seu significado à medida que saíam da sua boca terrível. Os ouvintes não podiam deixar de se sentir absortos nos tons do vencedor brutal.

Matrena Petrovna e Rouletabille tinham encostado as suas duas sombras, misturadas uma na outra, contra a porta aberta, logo para lá do brilho da luz de presença, e ouviram com horror:

«A juventude de Moscovo está morta! Limparam os cadáveres. Não resta nada a não ser ruína. O próprio Kremlin fechou as suas portas — para que não possa ver. A juventude de Moscovo está morta!»

O punho de Feodor Feodorovitch abanou sobre a sua cama; parecia que ele estava prestes a golpear, a matar de novo, e Rouletabille sentiu Matrena a tremer contra si, enquanto ele tremia também perante a visão terrível do assassino na Semana Vermelha!

Feodor deu um suspiro imenso e o seu peito desceu sob as cobertas, o punho relaxou e caiu, a grande cabeça tombou sobre a orelha. Fez-se silêncio. Teria ele repouso finalmente? Não, não. Ele suspirou, engasgou-se de novo, agitou-se no seu leito como um condenado em tormento, e as palavras escritas pela sua filha — pela sua filha — arderam nos seus olhos, que agora estavam bem abertos — palavras escritas na parede, que ele lia na parede, escritas em sangue.

«A juventude de Moscovo está morta! Foram tão jovens para os campos e para as minas, E não encontraram um único canto da terra russa onde não houvesse gemidos. Agora a juventude de Moscovo está morta e já não se ouvem gemidos, Porque aqueles por quem toda a juventude morreu não se atrevem sequer a gemer mais.

Mas — quê? A voz de Feodor perdeu o seu tom ameaçador. O seu fôlego veio como o de uma criança a chorar. E foi com soluços na garganta que ele disse o último verso, o verso escrito pela sua filha no álbum, em letras vermelhas:

«A última barricada tinha lá de pé a rapariga de dezoito invernos, a virgem de Moscovo, flor da neve. Que deu os seus beijos aos operários atingidos pelas balas dos soldados do Czar; Ela despertou a admiração dos próprios soldados que, chorando, a mataram: Que matança! Todas as casas fechadas, as janelas com pálpebras pesadas de tábuas para não ver! — E o próprio Kremlin fechou as suas portas — para que não possa ver. A juventude de Moscovo está morta!»

«Feodor! Feodor!»

Ela tinha-o apanhado nos braços, segurando-o com firmeza, confortando-o enquanto ele ainda delirava: «A juventude de Moscovo está morta», e parecia afastar com gestos insensatos uma multidão de fantasmas. Ela apertou-o contra o seu peito, pôs as mãos sobre a sua boca para o fazer parar, mas ele, dizendo: «Ouves? Ouves? O que é que eles dizem? Eles não dizem nada, agora. Que emaranhado de corpos debaixo do trenó, Matrena! Olha para aquelas pernas congeladas daquelas pobres raparigas por quem passamos, espetadas em todas as direções, como toros, debaixo das suas saias geladas e ensanguentadas. Olha, Matrena!»

E então veio mais delírio proferido em russo, que era ainda mais terrível para Rouletabille porque ele não o conseguia compreender.

Então, subitamente, Feodor silenciou e afastou Matrena Petrovna.

«É aquele narcótico abominável», disse ele com um suspiro imenso. «Não beberei mais dele. Não desejo bebê-lo.»

Com uma mão, ele apontou para um copo grande sobre a mesa ao seu lado, ainda meio cheio de uma mistura soporífera com a qual ele humedecia os lábios cada vez que acordava; com a outra mão, limpou a transpiração do seu rosto. Matrena Petrovna ficou a tremer perto dele, subitamente dominada pela ideia de que ele poderia descobrir que havia alguém ali atrás da porta, que tinha visto e ouvido o sono do General Trebassof! Ah, se ele soubesse disso, tudo estava acabado. Ela podia rezar as suas orações; ela deveria morrer.

Mas Rouletabille teve o cuidado de não dar sinal. Mal respirava. Que pesadelo! Ele compreendia agora a emoção dos amigos do general quando Natacha tinha cantado com a sua voz baixa e doce: «Boa noite. Que os teus olhos tenham descanso das lágrimas e a calma reentre no teu coração oprimido.» Os amigos tinham certamente sido alertados, pela conversa ansiosa de Matrena, sobre a insónia do general, e não podiam conter as suas lágrimas enquanto ouviam o desejo poético da encantadora Natacha. «Ainda assim», pensou Rouletabille, «ninguém poderia imaginar o que acabei de ver. Eles não estão mortos para toda a gente no mundo, os jovens de Moscovo, e todas as noites sei agora de um quarto onde, sob o brilho da luz de presença, eles erguem-se — erguem-se — erguem-se!» e o jovem, franca e ingenuamente, arrependeu-se de ter intrudido onde estava; de ter penetrado, ainda que involuntariamente, num assunto que, afinal, dizia respeito apenas aos muitos mortos e ao único vivo. Por que tinha ele vindo colocar-se entre os mortos e o vivo? Poder-se-ia dizer-lhe: «O vivo cumpriu todo o seu dever heroico», mas os mortos, o que mais teria sido aquilo que eles tinham feito?

Ah, Rouletabille amaldiçoou a sua curiosidade, pois — ele via-o agora — era o desejo de abordar o mistério revelado por Koupriane e de penetrar mais uma vez, através de todos os perigos que o cercavam, num enigma espantoso e talvez monstruoso, que o tinha trazido ao limiar da datcha des Iles, que o tinha colocado nas mãos trémulas de Matrena Petrovna ao prometer-lhe a sua ajuda. Ele tinha mostrado piedade, certamente, piedade pelo sofrimento delirante daquela mulher heroica. Mas havia mais curiosidade do que piedade nos seus motivos. E agora tinha de pagar, porque era tarde demais para retirar, para dizer casualmente: «Lavo as minhas mãos disto.» Ele tinha mandado embora a polícia e ele sozinho permanecia entre o general e a vingança dos mortos! Ele podia desertar, talvez! Essa única ideia trouxe-o a si mesmo, despertou todo o seu espírito. As circunstâncias tinham-no trazido para um campo que ele deveria defender a qualquer custo, a menos que tivesse medo!

O general dormia agora, ou, pelo menos, com as pálpebras fechadas simulava o sono, sem dúvida para tranquilizar a pobre Matrena que, de joelhos ao lado da sua almofada, tinha retido a mão do seu terrível marido na sua. Pouco depois ela levantou-se e juntou-se a Rouletabille no seu quarto. Ela levou-o então para um pequeno quarto de hóspedes onde ela o instou a dormir um pouco. Ele respondeu que era ela quem precisava de descansar. Mas, agitada ainda pelo que tinha acabado de acontecer, ela balbuciou:

«Não, não! Depois de uma cena dessas, eu própria teria pesadelos também. Ah, é terrível! Apavorante! Apavorante! Querido pequeno monsieur, é o segredo da noite. O pobre homem! Pobre homem infeliz! Ele não consegue afastar os seus pensamentos disso. É o seu pior e imerecido castigo, esta tradução que Natacha fez dos versos abomináveis de Boris. Ele sabe-os de cor, eles estão no seu cérebro e na sua língua a noite toda, apesar dos narcóticos, e ele diz vezes sem conta o tempo todo: "É a minha filha que escreveu isso! — a minha filha! — a minha filha!" É o suficiente para extrair todas as lágrimas do corpo de alguém — que um ajudante de campo de um general, que ele próprio matou a juventude de Moscovo, tenha permissão para escrever tais versos e que Natacha se encarregue de os traduzir para um francês poético adorável para o seu álbum. É difícil explicar o que eles fazem hoje em dia, para a nossa miséria.»

Ela calou-se, pois nesse momento ouviram o soalho ranger sob um passo lá em baixo. Rouletabille deteve Matrena bruscamente e sacou do seu revólver. Desejou descer sozinho, mas não teve tempo. Quando o soalho rangeu uma segunda vez, a voz angustiada de Matrena chamou escada abaixo em russo: «Quem está aí?» e imediatamente a voz calma de Natacha respondeu algo na mesma língua. Então Matrena, a tremer cada vez mais, e muito excitada, mantendo-se firmemente no mesmo lugar como se tivesse sido pregada ao degrau da escada, disse em francês: «Sim, tudo está bem; o teu pai está a descansar. Boa noite, Natacha.» Ouviram o passo de Natacha atravessar a sala de estar e a sala de visitas. Então a porta do seu quarto fechou-se. Matrena e Rouletabille desceram, prendendo a respiração. Chegaram à sala de jantar e Matrena apontou a sua lanterna surda para o sofá onde o general sempre se deitava. O sofá estava no seu lugar habitual sobre o tapete. Ela empurrou-o para trás e levantou o tapete, expondo o chão. Então pôs-se de joelhos e examinou o soalho minuciosamente. Levantou-se, limpando a transpiração da testa, pôs o tapete de volta no lugar, ajustou o sofá e deixou-se cair sobre ele com um grande suspiro.

«Bem?», perguntou Rouletabille.

«Absolutamente nada», disse ela.

«Por que chamou tão abertamente?»

«Porque não havia dúvida de que só poderia ser a minha enteada no andar térreo àquela hora.»

«E por que esta ansiedade de examinar o chão novamente?»

«Imploro-lhe, meu querido pequeno filho, não veja nos meus atos nada de misterioso, nada de difícil de explicar. Essa ansiedade de que fala nunca me deixa. Sempre que tenho a oportunidade, examino o soalho.»

«Madame», perguntou o jovem, «o que estava a sua filha a fazer nesta sala?»

«Ela veio buscar um copo de água mineral; a garrafa ainda está na mesa.»

«Madame, é necessário que me diga precisamente o que Koupriane apenas me deu a entender, a menos que eu esteja completamente enganado. A primeira vez que pensou examinar o chão, foi depois de ter ouvido um ruído no andar térreo tal como acaba de acontecer?»

«Sim. Dir-lhe-ei tudo o que é necessário. Foi na noite a seguir à tentativa com o ramo de flores, meu caro pequeno monsieur, meu caro pequeno domovoi; pareceu-me ouvir um ruído no rés-do-chão. Desci apressadamente e, a princípio, não vi nada de suspeito. Estava tudo bem fechado. Abri suavemente a porta do quarto da Natacha. Queria perguntar-lhe se tinha ouvido alguma coisa. Mas ela dormia tão profundamente que não tive coragem de a acordar. Abri a porta da varanda e todos os polícias — todos, compreende — dormiam a sono solto. Dei mais uma volta pelo mobiliário e, com a minha lanterna na mão, estava prestes a sair da sala de jantar quando reparei que o tapete no chão estava desalinhado num dos cantos. Abaixei-me e a minha mão bateu numa grande dobra do tapete perto do sofá do general. Dir-se-ia que o sofá tinha sido arrastado descuidadamente, tentando colocá-lo na posição que ocupava habitualmente. Impelida por um pressentimento sinistro, empurrei o sofá e levantei o tapete. À primeira vista não vi nada, mas quando examinei as coisas mais de perto, vi que uma ripa de madeira não estava bem alinhada com as outras no chão. Com uma faca, consegui levantar essa ripa e descobri que dois pregos que a prendiam à viga de baixo tinham sido recém-arrancados. Era exatamente para que eu pudesse levantar um pouco a extremidade da tábua sem conseguir enfiar a mão por baixo. Para a levantar mais, seria necessário puxar pelo menos meia dúzia de pregos. O que poderia significar? Estaria eu prestes a descobrir algum novo plano terrível e misterioso? Deixei a tábua cair de volta no lugar. Estendi o tapete novamente com cuidado, pus o sofá no lugar e, pela manhã, mandei chamar Koupriane.»

Rouletabille interrompeu.

«A senhora não tinha falado com ninguém sobre esta descoberta?»

«Com ninguém.»

«Nem sequer com a sua enteada?»

«Não», disse a voz rouca de Matrena, «nem sequer com a minha enteada.»

«Porquê?», perguntou Rouletabille.

«Porque», respondeu Matrena, após um momento de hesitação, «já havia coisas assustadoras que chegue. Não teria falado com a minha filha mais do que teria dito uma palavra ao general. Para que aumentar o desassossego que já sofriam tanto, no caso de nada se desenvolver?»

«E o que disse Koupriane?»

«Examinámos o chão juntos, secretamente. Koupriane enfiou a mão por baixo mais facilmente do que eu e constatou que, debaixo da tábua, isto é, entre a viga e o teto da cozinha, havia um espaço oco onde qualquer número de coisas poderia ser colocado. Por enquanto, a tábua ainda estava pouco solta para que qualquer manobra fosse possível. Koupriane, ao levantar-se, disse-me: "A senhora, por acaso, interrompeu a pessoa nas suas operações. Mas estamos preparados daqui em diante. Sabemos o que ela faz e ela não sabe que sabemos. Aja como se não tivesse notado nada; não fale disso com ninguém — e vigie. Deixe o general continuar a sentar-se no seu lugar habitual e não deixe ninguém suspeitar que descobrimos o início desta tentativa. É a única maneira de podermos planear para que eles continuem. Ainda assim", acrescentou ele, "darei ordens aos meus agentes para patrulharem novamente o rés-do-chão durante a noite. Arriscaria demasiado se deixasse a pessoa continuar o seu trabalho todas as noites. Ela poderia continuá-lo tão bem que seria capaz de o realizar — compreende-me? Mas, de dia, arranje de modo a que as divisões do rés-do-chão fiquem livres de vez em quando — não por muito tempo, mas de vez em quando." Não sei porquê, mas o que ele disse e a forma como o disse assustou-me mais do que nunca. No entanto, levei a cabo o seu programa. Então, três dias depois, por volta das oito horas, quando a guarda noturna ainda não tinha começado, isto é, no momento em que os polícias ainda estavam todos no jardim ou a passear à volta da casa, no exterior, e quando eu tinha deixado o rés-do-chão perfeitamente livre enquanto ajudava o general a deitar-se, senti-me subitamente atraída, até contra a minha vontade, para a sala de jantar. Levantei o tapete e examinei o chão. Mais três pregos tinham sido arrancados da tábua, que se levantava mais facilmente agora, e por baixo dela pude ver que a cavidade normal tinha sido alargada ainda mais!»

Quando disse isto, Matrena parou, como se, vencida, não pudesse dizer mais.

«Bem?», insistiu Rouletabille.

«Bem, voltei a colocar as coisas como as encontrei e fiz perguntas rápidas aos polícias e ao seu chefe; ninguém tinha entrado no rés-do-chão. Compreende-me? — ninguém de todo. Nem ninguém tinha saído de lá.»

«Como é que alguém poderia sair se ninguém tinha entrado?»

«Quero dizer», disse ela com um soluço, «que Natacha, durante este espaço de tempo, tinha estado no seu quarto, no seu quarto no rés-do-chão.»

«Parece estar muito perturbada, madame, com esta recordação. Pode dizer-me mais, e precisamente, por que está agitada?»

«Compreende-me, certamente», disse ela, abanando a cabeça.

«Se a compreendo corretamente, tenho de entender que, desde a vez anterior em que examinou o chão até à altura em que notou mais três pregos arrancados, nenhuma outra pessoa poderia ter entrado na sala de jantar senão a senhora e a sua enteada Natacha.»

Matrena pegou na mão de Rouletabille como se tivesse tomado uma decisão importante.

«Meu pequeno amigo», gemeu ela, «há coisas em que não sou capaz de pensar e que já não posso conceber quando a Natacha me abraça. É um mistério mais terrível do que tudo o resto. Koupriane diz-me que tem a certeza, absoluta certeza, dos agentes que manteve aqui; a minha única consolação, vê, meu pequeno amigo pode dizer-lhe francamente, agora que mandou embora aqueles homens — a minha única consolação desde aquele dia tem sido o facto de Koupriane estar menos seguro dos seus homens do que eu estou da Natacha.»

Ela desfez-se em soluços.

Quando se acalmou, procurou Rouletabille e não o encontrou. Então, limpou os olhos, pegou na sua lanterna surda e, furtivamente, esgueirou-se para o seu posto ao lado do general.

Para esse dia, estes são os pontos no caderno de Rouletabille:

«Topografia: Villa rodeada por um grande jardim em três lados. O quarto lado dá diretamente para um campo arborizado que se estende até ao rio Neva. Deste lado, o nível do solo é muito mais baixo, tão baixo que a única janela que abre nessa parede (a janela da sala de estar de Natacha no rés-do-chão) está tão alta em relação ao solo como se estivesse no andar de cima em qualquer outra parte da casa. Esta janela está fechada por persianas de ferro, presas por dentro por uma barra de ferro.

Amigos: Athanase Georgevitch, Ivan Petrovitch, Thaddeus o comerciante de madeira (botas de turfa), Michael e Boris (sapatos finos). Matrena, amor sincero, heroísmo desastrado. Natacha desconhecida. Contra Natacha: Nunca lá esteve durante os ataques. Em Moscovo, na altura da bomba na carruagem, ninguém sabe onde ela estava, e é ela quem deveria ter acompanhado o general (detalhe fornecido por Koupriane que Matrena generosamente ocultou). A noite do ramo de flores é a única noite em que Natacha dormiu fora de casa. Coincidência do desaparecimento dos pregos e da presença, toda sozinha no rés-do-chão, de Natacha, caso, claro, Matrena não os tenha arrancado ela própria. Por Natacha: Os seus olhos quando olha para o pai.»

E esta frase bizarra:

«Não devemos ser precipitados. Esta noite ainda não falei com Matrena Petrovna sobre o pequeno alfinete de chapéu. Esse pequeno alfinete de chapéu é o maior alívio da minha vida.»

V. POR ORDEM DE ROULETABILLE, O GENERAL PASSEIA

«Bom dia, meu caro pequeno espírito familiar. O general dormiu esplendidamente na última parte da noite. Ele não tocou no seu narcótico. Tenho a certeza de que é aquela mistura terrível que lhe dá sonhos tão horríveis. E tu, meu caro pequeno amigo, não dormiste um instante. Eu sei. Senti-te a ir a todo o lado pela casa como um ratinho. Ah, parece tão bom, tão bom. Dormi tão pacificamente, ouvindo o movimento suave dos teus pequenos passos. Obrigada pelo sono que me deste, pequeno amigo.»

Matrena continuou a falar com Rouletabille, que tinha encontrado na manhã seguinte ao pesadelo tranquilamente a fumar o seu cachimbo no jardim.

«Ah, ah, fumas cachimbo. Agora ficas exatamente parecido com um querido pequeno domovoi-doukh. Vê como são parecidos. Ele fuma exatamente como tu. Nada de novo, eh? Não pareces muito radiante esta manhã. Estás exausto. Acabei de arranjar o pequeno quarto de hóspedes para ti, o único que temos, logo atrás do meu. A tua cama está à tua espera. Precisas de alguma coisa? Diz-me. Tudo aqui está ao teu dispor.»

«Não preciso de nada, madame», disse o jovem sorrindo, depois deste jorro de palavras da boa e heroica senhora.

«Como podes dizer isso, querido filho? Vais deixar-te adoecer. Quero que entendas que desejo que descanses. Quero ser uma mãe para ti, se me permites, e tens de me obedecer, meu filho. Já tomaste o pequeno-almoço esta manhã? Se não tomares o pequeno-almoço prontamente de manhã, pensarei que estás aborrecido. Estou tão aborrecida por teres ouvido o segredo da noite. Tive medo que quisesses partir imediatamente e para sempre, e que tivesses ideias erradas sobre o general. Não há homem melhor no mundo do que Feodor, e ele deve ter uma boa, uma muito boa consciência para ousar, infalivelmente, cumprir deveres tão terríveis como aqueles em Moscovo, quando ele é tão bom de coração. Estas coisas são fáceis o suficiente para as pessoas más, mas para os homens bons, para os homens bons que conseguem raciocinar sobre isso, que sabem o que fazem e que, por acréscimo, estão condenados à morte, é terrível, é terrível! Ora, eu disse-lhe no momento em que as coisas começaram a correr mal em Moscovo: "Sabes o que te espera, Feodor. Aqui tens um tempo terrível para passar — finge que estás doente." Acreditei que ele ia bater-me, matar-me no local. "Eu! Trair o Imperador num momento destes! Sua Majestade, a quem tudo devo! O que estás a pensar, Matrena Petrovna!" E ele não me falou depois disso durante dois dias. Só quando viu que eu estava a ficar muito doente é que me perdoou, mas ele tinha de ser atormentado com as minhas jeremiadas e os olhares suplicantes de Natacha sem fim na sua própria casa cada vez que ouvíamos tiros na rua. Natacha frequentava as aulas da Faculdade, sabes. E ela conhecia muitos deles, e até alguns daqueles que estavam a ser mortos nas barricadas. Ah, a vida não era fácil para ele na sua própria casa, o pobre general! Além disso, havia também Boris, a quem amo, aliás, tão bem como ao meu próprio filho, porque ficarei muito feliz por vê-lo casado com Natacha — havia o pobre Boris, que chegava sempre a casa dos ataques mais pálido do que um cadáver e que não conseguia deixar de gemer connosco.»

«E Michael?», perguntou Rouletabille.

«Oh, Michael só veio para o fim. Ele é um novo ajudante de ordens do general. O governo em São Petersburgo enviou-o, porque é claro que não podiam deixar de saber que Boris tinha alguma falta de zelo em reprimir os estudantes e não encorajava o general a ser tão severo quanto era necessário para a segurança do Império. Mas Michael, ele tem um coração de pedra; não conhece nada a não ser a senha e massacra pais e mães, gritando: "Viva o Tsar!" Verdadeiramente, parece que o seu coração só pode ser tocado pela visão de Natacha. E isso, mais uma vez, causou um bom bocado de ansiedade a Feodor e a mim. Apanhou-nos numa complicação inútil que teríamos gostado de terminar pelo casamento imediato de Natacha e Boris. Mas Natacha, para nossa grande surpresa, não quis que assim fosse. Não, ela não quis, dizendo que há sempre tempo para pensar no seu casamento e que não tem pressa em deixar-nos. Entretanto, ela entretém-se com este Michael como se não temesse a sua paixão, e nem Michael tem o ar desesperado de um homem que conhece o compromisso definitivo de Natacha e Boris. E a minha enteada não é uma coquete. Não, não. Ninguém pode dizer que ela é uma coquete. Pelo menos, ninguém tinha conseguido dizê-lo até ao momento em que Michael chegou. Será que ela é uma coquete? Elas são misteriosas, estas jovens raparigas, muito misteriosas, acima de tudo quando têm aquele aspeto calmo e tranquilo que a Natacha sempre tem; um rosto, monsieur, como talvez tenha notado, cuja beleza é bastante passiva, aconteça o que acontecer, exceto quando as descargas nas ruas matam os seus jovens camaradas das escolas. Então, vi-a quase desmaiar, o que prova que ela tem um grande coração sob a sua beleza tranquila. Pobre Natacha! Vi-a agitada como eu com a vida do seu pai. Meu pequeno amigo, vi-a à procura a meio da noite, comigo, por máquinas infernais debaixo do mobiliário, e então ela expressou a opinião de que é nervoso, infantil, indigno de nós agir assim, como bestas tímidas debaixo dos sofás, e deixou-me a procurar sozinha. Verdade, ela nunca deixa o general. Ela está mais tranquilizada, e é tranquilizadora para ele, ao seu lado. Tem um excelente efeito moral sobre ele, enquanto eu ando de um lado para o outro e procuro como uma besta. E ela tornou-se tão fatalista como ele, e agora canta versos à guzla, como Boris, ou fala em cantos com Michael, o que deixa os dois enfurecidos um com o outro. Elas são curiosas, as jovens mulheres de São Petersburgo e Moscovo, muito curiosas. Nós não éramos assim no nosso tempo, em Orel. Nós não tentávamos enfurecer as pessoas. Teríamos recebido uma bofetada se o tivéssemos feito.»

Natacha entrou durante esta conversa, feliz, de voile branco, fresca e sorridente como uma rapariga que tinha passado uma excelente noite. Perguntou pela saúde do jovem muito gentilmente e abraçou Matrena, na verdade como se abraça uma mãe muito amada. Queixou-se novamente da vigilância noturna de Matrena.

«Não a paraste, mamã; não a paraste, eh? Não vais ser um bocadinho razoável finalmente? Suplico-te! O que me deu uma mãe assim! Porque não dormes? A noite é feita para dormir. Koupriane perturbou-te. Todas as coisas terríveis acabaram em Moscovo. Não há motivo para pensar mais nelas. Esse Koupriane faz-se importante com os seus agentes da polícia e obceca-nos a todos. Estou convencida de que o caso do ramo de flores foi obra da sua polícia.»

«Mademoiselle», disse Rouletabille, «acabei de mandar todos embora, todos eles — porque penso quase o mesmo que a senhora.»

«Bem, então, será meu amigo, Monsieur Rouletabille, prometo-lhe, já que fez isso. Agora que a polícia se foi, não temos mais nada a temer. Nada. Digo-te, mamã; podes acreditar em mim e não chorar mais, mamã querida.»

«Sim, sim; beija-me. Beija-me outra vez!», repetia Matrena, enxugando os olhos. «Quando me beijas, esqueço tudo. Amas-me como a tua própria mãe, não amas?»

«Como a minha mãe. Como a minha própria mãe.»

«Não tens nada para esconder de mim? — diz-me, Natacha.»

«Nada para esconder.»

«Então por que fazes o Boris sofrer tanto? Por que não casas com ele?»

«Porque não desejo deixar-te, mamã querida.»

Ela escapou a mais conversas saltando para a borda do jardim, para longe de Khor, que tinha acabado de ser solto para o dia.

«A querida criança», disse Matrena; «a querida pequena, ela pouco sabe quanto sofrimento nos causou sem se aperceber, pelas suas ideias, as suas ideias extravagantes. O seu pai disse-me um dia em Moscovo: "Matrena Petrovna, dir-te-ei o que penso — Natacha é vítima dos livros perversos que transformaram os cérebros de todos estes pobres estudantes rebeldes. Sim, sim; seria melhor para ela e para nós se ela não soubesse ler, pois há momentos — palavra de honra! — em que ela fala de forma muito selvagem, e disse a mim mesmo mais do que uma vez que, com tais ideias, o seu lugar não é no nosso salão, mas atrás de uma barricada. Ainda assim", acrescentou após reflexão, "prefiro encontrá-la no salão onde a posso abraçar do que atrás de uma barricada onde a mataria como a um cão raivoso." Mas o meu marido, meu caro pequeno monsieur, não disse o que realmente pensa, pois ele ama a sua filha mais do que tudo o resto no mundo reunido, e há coisas que nem um general, sim, nem um governador-geral, seria capaz de fazer sem violar tanto as leis divinas como as humanas. Ele suspeita também que Boris esteja a baralhar os sentidos de Natacha. Temos realmente de considerar que, quando estiverem casados, eles lerão tudo o que lhes apetecer. O meu marido tem muito mais respeito real por Michael Korsakoff por causa do seu caráter inexpugnável e da sua consciência de granito. Mais do que uma vez ele disse: "Eis o ajudante que eu deveria ter tido nos piores dias de Moscovo. Ele ter-me-ia poupado muita dor individual." Posso entender como isso agradaria ao general, mas como tal natureza feroz consegue atrair a Natacha, como consegue não a revoltar realmente, estas jovens raparigas da capital, nunca se pode saber sobre elas — elas escapam a todas as nossas noções sobre elas.»

Rouletabille inquiriu:

«Por que disse Boris a Michael: "Voltaremos juntos"? Eles vivem juntos?»

«Sim, na pequena villa em Krestowsky Ostrov, a ilha em frente à nossa, que podes ver da janela da sala de estar. Boris escolheu-a por causa disso. Os ajudantes de ordens queriam ter camas de campanha preparadas para eles aqui mesmo na casa do general, por uma devoção natural a ele; mas eu opus-me, para manter ambos longe de Natacha, em quem, claro, tenho a mais completa confiança, mas não se pode ter a certeza sobre a extravagância dos homens hoje em dia.»

Ermolai veio anunciar o petit-dejeuner. Encontraram Natacha já à mesa e ela serviu-lhes café com leite, comendo a todo o tempo uma sanduíche de anchovas e caviar.

«Diz-me, mamã, sabes o que me dá tal apetite? É o pensamento da forma como o pobre Koupriane deve ter recebido este despedimento dos seus homens. Gostaria de ir vê-lo.»

«Se o vir», disse Rouletabille, «é desnecessário dizer-lhe que o general fará um longo passeio pelas ilhas esta tarde, porque infalivelmente ele enviar-nos-ia uma escolta de gendarmes.»

«Papá! Um passeio pelas ilhas? Verdadeiramente? Oh, isso vai ser adorável!»

Matrena Petrovna saltou da cadeira.

«Estás louco, meu caro pequeno domovoi, realmente louco?»

«Porquê? Porquê? É agradável. Tenho de correr e dizer ao papá.»

«O quarto do teu pai está trancado», disse Matrena bruscamente.

«Sim, sim; ele está trancado lá dentro. Tu tens a chave. Trancado até à morte! Tu vais matá-lo. Serás tu quem o mata.»

Ela deixou a mesa sem esperar por uma resposta e foi trancar-se também no seu quarto.

Matrena olhou para Rouletabille, que continuava o seu pequeno-almoço como se nada tivesse acontecido.

«É possível que fales seriamente?», perguntou ela, aproximando-se e sentando-se ao lado dele. «Um passeio! Sem a polícia, quando recebemos novamente esta manhã uma carta a dizer agora que, antes de quarenta e oito horas, o general estará morto!»

«Quarenta e oito horas», disse Rouletabille, molhando o pão no seu chocolate, «quarenta e oito horas? É possível. De qualquer forma, sei que eles tentarão algo muito em breve.»

«Meu Deus, como é que tu acreditas nisso? Falas com segurança.»

«Madame, é necessário fazer tudo o que lhe digo, à letra.»

«Mas deixar o general sair, a não ser que vá escoltado... como pode assumir tal responsabilidade? Quando penso nisso, quando realmente penso nisso, pergunto a mim própria como se atreveu a despedir a polícia. Mas aqui, pelo menos, sei o que fazer para me sentir um pouco segura, sei que lá em baixo, com Gniagnia e Ermolai, nada temos a temer. Nenhum estranho se pode aproximar sequer da cave. As provisões são trazidas da portaria pelos nossos dvorniks, que mandámos vir da casa da minha mãe, na região de Orel, e que nos são tão devotados como cães buldogues. Não entra uma garrafa de conservas nas cozinhas sem ter sido previamente aberta lá fora. Nenhum pacote vem de qualquer comerciante sem ser aberto na portaria. Aqui, no interior, conseguimos sentir-nos um pouco seguros, mesmo sem a polícia... mas longe daqui... lá fora!»

«Madame, eles vão tentar matar o seu marido dentro de quarenta e oito horas. Deseja que eu o salve, talvez por muito tempo... talvez para sempre?»

«Ah, ouça-o! Ouça-o, o querido pequeno domovoi! Mas o que dirá Koupriane? Ele não permitirá qualquer saída para lá da villa; nenhuma, pelo menos por agora. Ah, veja como ele olha para mim, o querido pequeno domovoi! Oh, bem, está bem. Pronto, farei como deseja.»

«Muito bem, venha comigo ao jardim.»

Ela acompanhou-o, apoiada no seu braço.

«A ideia é esta», disse Rouletabille. «Esta tarde, a senhora irá com o general na sua cadeira de rodas. Todos os outros seguirão. Todos, compreende, Madame... compreenda-me bem, quero dizer que todos os que desejarem vir devem ser convidados. Apenas aqueles que desejarem ficar para trás o farão. E não insista. Ah, agora vejo, a senhora compreende-me. Por que treme?»

«Mas quem guardará a casa?»

«Ninguém. Diga simplesmente ao criado na portaria para observar a partir da portaria quem entra na villa, mas simplesmente a partir da portaria, sem interferir com eles e sem lhes dizer nada, nada.»

«Farei como deseja. Quer que eu anuncie o nosso passeio com antecedência?»

«Ora, certamente. Não fique inquieta; que toda a gente receba a boa nova.»

«Oh, eu direi apenas ao general e aos seus amigos, pode estar certo.»

«Agora, querida Madame, apenas mais uma palavra. Não me espere para o almoço.»

«O quê! Vai deixar-nos?» exclamou ela instantaneamente, sem fôlego. «Não, não. Eu não quero isso. Estou disposta a prescindir da polícia, mas não estou disposta a prescindir de si. Tudo poderia acontecer na sua ausência. Tudo! Tudo!» repetiu ela com singular energia. «Porque, quanto a mim, não me consigo sentir segura como deveria, talvez. Ah, faz-me dizer estas coisas. Tais coisas! Mas não vá.»

«Não tenha medo; não a vou deixar, madame.»

«Ah, o senhor é bom! É gentil, gentil! Caracho! (Muito bem).»

«Não a deixarei. Mas não devo estar no almoço. Se alguém perguntar onde estou, diga que tenho os meus negócios para tratar e que fui entrevistar personalidades políticas na cidade.»

«Só existe uma personalidade política na Rússia», respondeu Matrena Petrovna sem rodeios; «é o Tsar.»

«Muito bem; diga que fui entrevistar o Tsar.»

«Mas ninguém acreditará nisso. E onde estará o senhor?»

«Eu próprio não sei. Mas estarei por perto da casa.»

«Muito bem, muito bem, querido pequeno domovoi.»

Ela deixou-o, sem saber o que pensar de tudo aquilo, nem o que deveria pensar... a sua cabeça estava uma confusão.

No decurso da manhã, Athanase Georgevitch e Thaddeus Tchnitchnikof chegaram. O general já estava na varanda. Michael e Boris chegaram pouco depois e perguntaram, por sua vez, como ele tinha passado a noite sem a polícia. Quando lhes disseram que Feodor ia dar um passeio nessa tarde, aplaudiram a sua decisão. «Bravo! Um passeio à la strielka (até à ponta da ilha) à hora em que todo o São Petersburgo lá circula. Isso é ótimo. Estaremos todos lá.» O general fê-los ficar para o almoço. Natacha apareceu para a refeição, com um humor bastante melancólico. Pouco antes do almoço, ela tivera uma conversa dupla no jardim com Michael e Boris. Ninguém poderia ter sabido o que aqueles três jovens tinham dito se algumas notas taquigráficas no caderno de apontamentos de Rouletabille não nos dessem uma ideia; o repórter tinha ouvido, por acaso certamente, uma vez que todos os repórteres que se prezam são totalmente incapazes de bisbilhotar.

O caderno aponta:

Natacha foi para o jardim com um livro, que deu a Boris, o qual pressionou a mão dela longamente contra os seus lábios. «Aqui está o seu livro; devolvo-lho. Não quero mais deles, as ideias surgem tão intensamente no meu cérebro. Faz-me doer a cabeça. É verdade, tem razão, não amo novidades. Consigo satisfazer-me perfeitamente com Pouchkine. O resto é-me indiferente. Passou uma boa noite?»

Boris (jovem de boa aparência, com cerca de trinta anos, louro, um pouco efeminado, melancólico. Um curioso apêndice na casa militar de um general tão vigoroso). «Natacha, não há uma hora que eu possa chamar verdadeiramente boa se a passar longe de si, querida, querida Natacha.»

«Pergunto-lhe seriamente se passou uma boa noite?»

Ela tocou-lhe na mão por um momento e olhou-o nos olhos, mas ele abanou a cabeça.

«O que fez ontem à noite depois de chegar a casa?» perguntou ela insistentemente. «Ficou acordado?»

«Obedeci-lhe; fiquei apenas meia hora junto à janela a olhar para aqui, para a villa, e depois fui para a cama.»

«Sim, é necessário que descanse. Desejo-o para si como para todos os outros. Esta vida febril é impossível. Matrena Petrovna está a deixar-nos a todos doentes e ficaremos prostrados.»

«Ontem», disse Boris, «olhei para a villa durante meia hora da minha janela. Querida, querida villa, querida noite em que posso senti-la a respirar, a viver perto de mim. Como se estivesse contra o meu coração. Poderia ter chorado porque podia ouvir Michael a ressonar no seu quarto. Ele parecia feliz. Por fim, não ouvi mais nada, não havia mais nada a ouvir a não ser o coro duplo de rãs nas poças da ilha. As nossas poças, Natacha, são como os lagos encantados do Cáucaso que são silenciosos de dia e cantam ao anoitecer; há multidões inumeráveis de rãs que cantam no mesmo acorde, algumas delas num tom maior e outras num tom menor. O coro fala de poça em poça, lamentando-se e gemendo através dos campos e jardins, e ecoando como harpas eólias colocadas umas em frente das outras.»

«As harpas eólias fazem tanto barulho, Boris?»

«Ri-se? Não a encontro a si própria metade do tempo. É Michael quem a mudou, e eu estou fora disto. (Aqui falaram em russo.) Não estarei tranquilo enquanto não for o seu marido. Não consigo compreender nada da sua maneira de agir com Michael.»

(Aqui mais palavras em russo que não compreendo.)

«Fale francês; aí vem o jardineiro», disse Natacha.

«Não gosto da forma como está a gerir as nossas vidas. Por que adia o nosso casamento? Porquê?»

(Palavras em russo de Natacha. Gesto de desespero de Boris.)

«Quanto tempo? Diz que muito tempo? Mas isso não diz nada... muito tempo. Quanto tempo? Um ano? Dois anos? Dez anos? Diga-me, ou matar-me-ei aos seus pés. Não, não; fale ou matarei Michael. Pela minha palavra! Como um cão!»

«Juro-lhe, pela cabeça querida da sua mãe, Boris, que a data do nosso casamento não depende de Michael.»

(Algumas palavras em russo. Boris, um pouco consolado, segura a mão dela longamente contra os seus lábios.)

Conversa entre Michael e Natacha no jardim:

«Bem? Contou-lhe?»

«Acabei por fim por lhe fazer compreender que não há qualquer esperança. Nenhuma. É necessário ter paciência. Eu própria tenho de a ter.»

«Ele é estúpido e provocador.»

«Estúpido, não. Provocador, sim, se quiser. Mas você também, você é provocador.»

«Natacha! Natacha!»

(Aqui mais russo.) Quando Natacha começou a sair, Michael colocou a mão no ombro dela, deteve-a e disse, olhando-a diretamente nos olhos:

«Haverá uma carta de Annouchka esta noite, por um mensageiro às cinco horas.» Ele tornou cada sílaba explícita. «Muito importante e requerendo uma resposta imediata.»

Estas notas de Rouletabille não são seguidas de qualquer comentário.

Depois do almoço, os cavalheiros jogaram póquer até às quatro e meia, que é a hora «chique» para o passeio até à ponta da ilha. Rouletabille tinha instruído Matrena a partir exatamente às cinco menos um quarto. Ele apareceu nesse intervalo, anunciando que tinha acabado de entrevistar o presidente da câmara de São Petersburgo, o que fez Athanase rir, ele que não conseguia compreender que alguém viesse de tão longe, de Paris, para falar com homens como aquele. Natacha veio do seu quarto para se juntar a eles para o passeio. O seu pai disse-lhe que ela parecia demasiado preocupada.

Deixaram a villa. Rouletabille notou que os dvornicks estavam diante do portão e que o schwitzar estava no seu posto, de onde podia detetar todos os que pudessem entrar ou sair da villa. Matrena empurrava a cadeira de rodas ela própria. O general estava radiante. Tinha Natacha à sua direita e, à sua esquerda, Athanase e Thaddeus. Os dois ordenanças seguiam atrás, conversando com Rouletabille, que os monopolizara. A conversa girou em torno da devoção de Matrena Petrovna, que eles colocavam acima dos mais belos traços heroicos das mulheres da antiguidade, e também sobre o amor de Natacha pelo seu pai. Rouletabille fez com que eles falassem.

Boris Mourazoff explicou que este amor excecional se explicava pelo facto de a própria mãe de Natacha, a primeira mulher do general, ter morrido ao dar à luz a sua filha, e consequentemente Feodor Feodorovitch tinha sido pai e mãe para a sua filha. Ele tinha-a criado com os cuidados mais comovedores, não permitindo que mais ninguém, quando ela estava doente, tivesse o cuidado de passar as noites junto ao seu leito.

Natacha tinha sete anos quando Feodor Feodorovitch foi nomeado governador de Orel. No campo, perto de Orel, durante o verão, o general e a sua filha viviam em termos de vizinhança perto da família do velho Petroff, um dos mais ricos comerciantes de peles na Rússia. O velho Petroff tinha uma filha, Matrena, que era magnífica de se ver, como uma bela flor do campo. Ela estava sempre de excelente humor, nunca falava mal de ninguém na vizinhança, e não só tinha as boas maneiras de uma dama da cidade, mas um grande e simples coração, que ela derramava sobre a pequena Natacha.

A criança retribuía o afeto da bela Matrena, e foi ao vê-las sempre felizes por se encontrarem que Trebassof sonhou restabelecer o seu lar. As núpcias foram rapidamente arranjadas, e a criança, quando soube que a sua boa Matrena ia casar com o seu papá, dançou de alegria. Depois, o infortúnio chegou apenas algumas semanas antes da cerimónia. O velho Petroff, que especulava na Bolsa há muito tempo sem ninguém saber de nada, ficou arruinado de alto a baixo. Matrena veio uma noite informar Feodor Feodorovitch desta triste notícia e devolver-lhe a sua promessa. Por toda a resposta, Feodor colocou Natacha nos braços de Matrena. «Abraça a tua mãe», disse ele à criança, e a Matrena: «Desde hoje considero-a minha mulher, Matrena Petrovna. Deve obedecer-me em todas as coisas. Leve essa resposta ao seu pai e diga-lhe que a minha bolsa está à sua disposição.»

O general já era, naquela época, mesmo antes de ter herdado os Cheremaieff, imensamente rico. Tinha terras atrás de Nijni tão vastas como uma província, e seria difícil contar o número de mujiques que trabalhavam para ele nas suas propriedades. O velho Petroff deu a sua filha e não quis aceitar nada em troca. Feodor quis instituir uma grande mesada à sua mulher; o pai dela opôs-se a isso, e Matrena tomou o partido dele no assunto contra o seu marido, por causa de Natacha. «Tudo pertence à pequena», insistia ela. «Aceito a posição de sua mãe, mas com a condição de que ela nunca perca um copeque da sua herança.»

«De modo que», concluiu Boris, «se o general morresse amanhã, ela seria mais pobre que Job.»

«Então o general é o único recurso de Matrena», refletiu Rouletabille em voz alta.

«Consigo compreendê-la agarrada a ele», disse Michael Korsakoff, soprando o fumo do seu cigarro amarelo. «Olhem para ela. Ela vigia-o como um tesouro.»

«O que quer dizer, Michael Nikolaievitch?» disse Boris, secamente. «Acredita, por acaso, que a devoção de Matrena Petrovna não é desinteressada. Deve conhecê-la muito mal para se atrever a proferir tal pensamento.»

«Nunca tive esse pensamento, Boris Alexandrovitch», respondeu o outro num tom mais seco ainda. «Para ser capaz de imaginar que alguém que vive na casa dos Trebassof poderia ter tal pensamento é preciso ter cabeça de burro, certamente.»

«Voltaremos a falar disso, Michael Nikolaievitch.»

«Como quiser, Boris Alexandrovitch.»

Tinham trocado estas últimas palavras tranquilamente, continuando a sua caminhada e fumando negligentemente o seu tabaco amarelo. Rouletabille estava entre eles. Ele não os olhava; não prestou atenção sequer à discussão deles; tinha olhos apenas para Natacha, que acabara de deixar o seu lugar ao lado da cadeira de rodas do seu pai e passava por eles com um pequeno aceno de cabeça, parecendo com pressa para refazer o caminho de volta para a villa.

«Está a deixar-nos?» perguntou-lhe Boris.

«Oh, juntar-me-ei a vocês imediatamente. Esqueci-me do meu guarda-chuva.»

«Mas eu irei buscá-lo para si», propôs Michael.

«Não, não. Tenho de ir à villa; voltarei logo.»

Ela já tinha passado por eles. Rouletabille, durante isto, olhou para Matrena Petrovna, que olhou para ele também, virando para o jovem um rosto pálido como cera. Mas ninguém mais notou a emoção da boa Matrena, que recomeçou a empurrar a cadeira de rodas do general.

Rouletabille perguntou aos oficiais: «Este arranjo deveu-se ao facto de a primeira mulher do general, a mãe de Natacha, ser rica?»

«Não. O general, que sempre teve o coração na mão», disse Boris, «casou com ela pela sua grande beleza. Era uma bela rapariga do Cáucaso, de excelente família aliás, que Feodor Feodorovitch tinha conhecido quando estava na guarnição em Tiflis.»

«Em suma», disse Rouletabille, «no dia em que o General Trebassof morrer, a Madame Trebassof, que agora possui tudo, não terá nada, e a filha, que agora não tem nada, terá tudo.»

«Exatamente isso», disse Michael.

«Isso não impede que Matrena Petrovna e Natacha Feodorovna se amem profundamente», observou Boris.

O pequeno grupo aproximava-se da «Ponta». Até ali, o passeio tinha sido ao longo de uma zona rural agradável e aberta, entre os prados baixos atravessados por riachos frescos, sobre os quais tinham sido construídas pequenas pontes, entre jardins luminosos guardados por anões de porcelana, ou à sombra de pequenas árvores dos pés das quais a erva recém-cortada dava um aroma sazonal. Tudo se refletia nas poças — que jaziam como vidro onde um cenógrafo tinha cortado os corações verdes das folhas dos nenúfares. Um vislumbre adorável de campo que parecia ter sido criado há séculos para o divertimento de uma rainha e preservado, imaculadamente aparado e limpo, de geração em geração, para o eterno encanto de uma hora como esta nas margens do Golfo da Finlândia.

Agora tinham chegado à margem do Golfo, e as ondas ondulavam até às proas dos navios ligeiros, que mergulhavam graciosamente como gaivotas enormes e rápidas, sob a pressão das suas grandes velas brancas.

Ao longo da estrada, mais larga agora, deslizava, silenciosamente e a passo de caminhada, a fila dupla de equipagens luxuosas com cavalos impacientes, as carruagens abertas nas quais as grandes personalidades da corte viam a paisagem e se deixavam ver. Enormes cocheiros seguravam as rédeas no alto. Mulheres jovens e vivas, negligentemente reclinadas contra as almofadas, exibiam as suas novas toilettes de Paris e mantinham jovens oficiais a cavalo ocupados com saudações. Havia todo o tipo de uniformes. Não se ouvia falar. Todos estavam ocupados a olhar. Ecoava no ar puro e rarefeito apenas o ruído dos freios a mastigar e a tintinabulação dos guizos presos aos colares dos peludos póneis finlandeses. E tudo aquilo, tão belo, fresco, encantador e claro, e silencioso, parecia mais um sonho do que até aquilo que pairava nas poças, suspenso entre o cristal do ar e o cristal da água. A transparência do céu e a transparência do golfo misturavam as suas duas irrealidades de tal forma que não se podia notar onde os horizontes se encontravam.

Rouletabille olhou para a vista e olhou para o general, e em toda a sua alma jovem e vibrante havia uma sensação de infinita tristeza, pois recordava aquelas palavras terríveis na noite: «Eles foram a todos os cantos da terra russa, e não encontraram um único canto dessa terra onde não existam lamentos.» «Bem», pensou ele, «pelos vistos não vieram a este canto. Não conheço nada mais adorável ou feliz no mundo.» Não, não, Rouletabille, eles não vieram aqui. Em todos os países existe um canto de vida feliz, que os pobres têm vergonha de abordar, do qual não sabem nada, e cuja mera visão tornaria mães famintas enfurecidas, com os seus seios magros, e, se não for mais belo do que isso, certamente nenhuma parte da terra é feita tão atroz para viver para uns, nem tão feliz para outros como neste país cita, o país boreal do mundo.

Entretanto, o pequeno grupo em torno da cadeira de rodas do general tinha atraído a atenção. Alguns transeuntes saudaram, e a notícia espalhou-se rapidamente de que o General Trebassof tinha vindo dar um passeio à «Ponta». As cabeças voltaram-se à medida que as carruagens passavam; o general, notando quanto entusiasmo a sua presença produzia, pediu a Matrena Petrovna para empurrar a sua cadeira para um caminho adjacente, atrás de um escudo de árvores onde ele poderia desfrutar do espetáculo em paz.

Foi encontrado, contudo, por Koupriane, o Chefe da Polícia, que o procurava. Ele tinha ido à datcha e tinham-lhe dito lá que o general, acompanhado pelos seus amigos e pelo jovem francês, tinha ido dar uma volta ao longo do golfo. Koupriane tinha deixado a sua carruagem na datcha e tomado o caminho mais curto atrás deles.

Ele era um homem elegante, grande, sólido, de olhos claros. O seu uniforme realçava a sua bela compleição. Ele era geralmente apreciado em São Petersburgo, onde o seu porte marcial e a sua bravura bem conhecida lhe tinham dado uma espécie de popularidade na sociedade, a qual, por outro lado, tinha grande desdém por Gounsovski, o chefe da Polícia Secreta, que se sabia ser capaz de qualquer coisa desonesta e que tinha sido acusado de por vezes jogar a favor dos niilistas, a quem ele disfarçava como agentes provocadores, sem que ninguém duvidasse realmente disso, e ele tinha de lutar contra estas suspeitas políticas generalizadas.

Homens bem informados declaravam que a morte do anterior «primeiro-ministro», que tinha sido explodido diante da estação de Varsóvia quando estava a caminho do Tsar em Peterhof, era obra de Gounsovski e que, nisto, ele foi o instrumento do partido na corte que jurara a morte do ministro que a incomodava.* Por outro lado, todos consideravam Koupriane como incapaz de participar em quaisquer horrores desses e que ele se contentava com o desempenho honesto dos seus deveres óbvios, limitando-se a limpar as ruas dos seus elementos problemáticos, e enviando para a Sibéria tantos quantos podia dos cabeças quentes, sem se rebaixar aos compromissos que, mais do que uma vez, tinham dado motivos aos inimigos do império para manter que era difícil dizer se os chefes da polícia russa desempenhavam o papel da lei ou o do partido revolucionário, e até que a polícia tinha ficado, ao fim de um certo tempo de tal procedimento misto, dificilmente capaz de decidir ela própria o que fazia.

* Rumores sobre a causa do assassínio de Plehve.

Esta tarde, Koupriane parecia muito nervoso. Apresentou os seus cumprimentos ao general, resmungou sobre a sua imprudência, elogiou-o pela sua bravura e depois, imediatamente, escolheu Rouletabille, a quem levou para o lado para falar.

“O senhor mandou-me de volta os meus homens”, disse ele ao jovem repórter. “O senhor compreende que eu não permito isso. Eles estão furiosos, e com toda a razão. O senhor deu publicamente, como explicação da partida deles — uma partida que naturalmente espantou e estupefez os amigos do general —, a suspeita da sua possível participação no último ataque. Isso é abominável, e eu não o permitirei. Os meus homens não foram treinados nos métodos de Gounsovski, e faz-lhes um dano cruel, que eu, aliás, considero pessoalmente, tratá-los desta maneira. Mas deixemos isso de lado, como uma questão de sentimento, e regressemos ao simples facto em si, que prova a sua excessiva imprudência, para não dizer mais, e que envolve o senhor, só o senhor, numa responsabilidade da qual certamente não mediu a importância. Ao fim e ao cabo, considero que abusou estranhamente da autoridade total que lhe dei por ordens do Imperador. Quando soube o que tinha feito, fui encontrar-me com o Tsar, como era meu dever, e contei-lhe tudo. Ele ficou mais espantado do que se pode exprimir. Ordenou-me que fosse eu próprio verificar como estavam as coisas e que fornecesse ao general a guarda que o senhor tinha removido. Chego às ilhas e não só encontro a villa aberta como um moinho onde qualquer um pode entrar, como sou informado, e depois vejo, que o general passeia no meio da multidão, à mercê do primeiro miserável que por ali se aventure. Monsieur Rouletabille, não estou satisfeito. O Tsar não está satisfeito. E, dentro de uma hora, os meus homens regressarão para assumir a sua guarda na datcha.”

Rouletabille ouviu até ao fim. Ninguém lhe falara nunca naquele tom. Estava vermelho e tão pronto a rebentar como um balão de criança soprado com demasiada força. Ele disse:

“E eu apanharei o comboio esta noite.”

“O senhor vai-se embora?”

“Sim, e pode guardar o seu general sozinho. Já tive o suficiente. Ah, o senhor não está satisfeito! Ah, o Tsar não está satisfeito! É uma pena. Para mim, chega. Monsieur, eu não estou satisfeito, e dou-lhe os meus bons-dias. Apenas não se esqueça de me enviar daqui a cada três ou quatro dias uma carta que me mantenha informado da saúde do general, a quem amo muito. Rezarei uma pequena prece por ele.”

Dito isto, calou-se, pois apanhou o olhar de Matrena Petrovna, um olhar tão desolado, tão suplicante, tão desesperado, que a pobre mulher lhe inspirou de novo uma grande piedade. Natacha não tinha voltado. O que estaria a jovem a fazer naquele momento? Se Matrena amava realmente Natacha, devia estar a sofrer atrozmente. Koupriane falou; Rouletabille não o ouviu, e já tinha esquecido a sua própria raiva. O seu espírito estava envolto no mistério.

“Monsieur”, terminou Koupriane por dizer, puxando-lhe a manga, “está a ouvir-me? Peço-lhe que, pelo menos, me responda. Ofereço todas as desculpas possíveis por lhe falar naquele tom. Reitero-as. Peço-lhe perdão. Rogo-lhe que explique a sua conduta, que me pareceu imprudente, mas que, afinal, deve ter alguma razão. Tenho de explicar ao Imperador. Quer dizer-me? O que devo eu dizer ao Imperador?”

“Absolutamente nada”, disse Rouletabille. “Não tenho qualquer explicação a dar-lhe a si, ou ao Imperador, ou a quem quer que seja. Pode oferecer-lhe as minhas mais sinceras homenagens e fazer-me a gentileza de visar o meu passaporte para esta noite.”

E suspirou:

“É uma pena, pois estávamos prestes a ver algo interessante.”

Koupriane olhou para ele. Rouletabille não tinha desviado os olhos de Matrena Petrovna, e a palidez dela impressionou Koupriane.

“Só um minuto”, continuou o jovem. “Tenho a certeza de que há alguém que sentirá a minha falta — aquela brava mulher ali. Pergunte-lhe o que prefere, toda a sua polícia ou o seu querido domovoi. Já somos bons amigos. E... não se esqueça de lhe apresentar as minhas condolências quando chegar o momento terrível.”

Foi a vez de Koupriane ficar perturbado.

Ele tossiu e disse:

“Acredita, então, que o general corre um grande perigo imediato?”

“Não só acredito, monsieur, como tenho a certeza. A morte dele é uma questão de horas para o pobre homem. Antes de partir, não deixarei de lho dizer, para que ele se possa preparar confortavelmente para a grande viagem e pedir perdão ao Senhor pela mão um tanto pesada que pousou sobre estes pobres homens de Presnia.”

“Monsieur Rouletabille, descobriu alguma coisa?”

“Meu Deus, sim, descobri alguma coisa, Monsieur Koupriane. Não supõe que vim de tão longe para perder o meu tempo, pois não?”

“Algo que mais ninguém sabe?”

“Sim, Monsieur Koupriane, caso contrário não me teria dado ao trabalho de me preocupar. Algo que não confiei a ninguém, nem sequer ao meu caderno de notas, porque um caderno, sabe, um caderno pode sempre perder-se. Menciono isto apenas no caso de ter tido a ideia de me revistar antes da minha partida.”

“Oh, Monsieur Rouletabille!”

“Eh, eh, ao jeito da polícia do seu país; no meu também, aliás. Sim, isso vê-se muitas vezes. A polícia, furiosa por não conseguir encontrar uma pista num caso que lhe interessa, prende um repórter que sabe mais do que eles, para o fazer falar. Mas... nada desse género comigo, monsieur. Poderia mandar levar-me para a sua famosa ‘Secção Terrível’, eu não abriria a boca, nem mesmo na famosa cadeira de balanço, nem mesmo sob os golpes de punhos cerrados.”

“Monsieur Rouletabille, o que pensa que somos? O senhor é convidado do Tsar.”

“Ah, tenho a palavra de um homem honesto. Muito bem, tratá-lo-ei como um homem honesto. Dir-lhe-ei o que descobri. Não desejo, por qualquer falso orgulho, mantê-lo na escuridão sobre algo que possa talvez — digo talvez — permitir-lhe salvar o general.”

“Diga-me. Estou a ouvir.”

“Mas fica perfeitamente entendido que, assim que eu lhe tiver dito isto, o senhor dar-me-á o meu passaporte e permitir-me-á partir?”

“Sente que não poderia, de forma alguma”, perguntou Koupriane, cada vez mais perturbado, e após um momento de hesitação, “não poderia, de forma alguma, dizer-me isso e ainda assim ficar?”

“Não, monsieur. A partir do momento em que me coloca na necessidade de explicar cada um dos meus movimentos e cada um dos meus atos, prefiro ir-me embora e deixar-lhe essa ‘responsabilidade’ de que falou há pouco, meu caro Monsieur Koupriane.”

Espantada e inquieta com esta longa conversa entre Rouletabille e o Chefe de Polícia, Matrena Petrovna voltava continuamente para eles o seu olhar angustiado, que sempre, insensivelmente, se suavizava ao pousar em Rouletabille. Koupriane leu ali toda a esperança que a brava mulher depositava no jovem repórter, e leu também nos olhos de Rouletabille toda a extraordinária confiança que o rapaz tinha em si próprio. Como última consideração, não teria ele já algo nas mãos em circunstâncias nas quais toda a polícia do mundo se admitira vencida? Koupriane apertou a mão de Rouletabille e disse-lhe apenas uma palavra:

“Fique.”

Tendo saudado afetuosamente o general e Matrena, e um grupo de amigos com um gesto cortês, partiu com a testa pensativa.

Durante todo este tempo, o general, encantado com o passeio, contava histórias do Cáucaso aos seus amigos, julgando-se jovem de novo e revivendo as suas noites como subtenente em Tills. Quanto a Natacha, ninguém a vira. Refizeram o caminho até à villa por atalhos desertos. A visita de Koupriane deu ocasião a Athanase Georgevitch e a Thaddeus, e aos dois oficiais também, para dizerem que ele era o único homem honesto em toda a polícia russa, e que Matrena Petrovna era uma grande mulher por ter ousado livrar-se de todo o bando de agentes, que são muitas vezes mais revolucionários do que os próprios niilistas. Assim chegaram à datcha.

O general perguntou por Natacha, não compreendendo por que ela o deixara assim durante a sua primeira saída. O schwitzar respondeu que a jovem patroa regressara a casa e saíra de novo cerca de um quarto de hora mais tarde, tomando o caminho que o grupo fizera no passeio, e que não a vira desde então.

Boris tomou a palavra:

“Ela deve ter passado do outro lado das carruagens enquanto estávamos atrás das árvores, general, e, não nos vendo, terá continuado o seu caminho, dando a volta à ilha, até à Barque.”

A explicação pareceu a mais plausível.

“Esteve cá mais alguém?”, perguntou Matrena, forçando a voz a ser calma. Rouletabille viu a mão dela tremer na pega da cadeira de rodas, a qual ela não largara por um segundo durante todo o passeio, recusando a ajuda dos oficiais, dos amigos e até de Rouletabille.

“Primeiro veio o Chefe de Polícia, que me disse que iria ter consigo, Barinia, e logo a seguir, Sua Excelência o Marechal da Corte. Sua Excelência voltará, embora esteja muito apressado, antes de apanhar o comboio das sete para Krasnoie-Coelo.”

Tudo isto tinha sido dito em russo, naturalmente, mas Matrena traduziu as palavras do schwitzar para francês, em voz baixa, para Rouletabille, que estava perto dela. O general, durante este tempo, tinha tomado a mão de Rouletabille e apertara-a afetuosamente, como se, daquela forma muda, lhe agradecesse tudo o que o jovem fizera por eles. Feodor também tinha confiança e estava grato pelo ar mais puro que lhe era permitido respirar. Parecia-lhe que estava a sair da prisão. No entanto, como o passeio fora um pouco fatigante, Matrena ordenou-lhe que fosse descansar imediatamente. Athanase e Thaddeus despediram-se. Os dois oficiais já estavam no fundo do jardim, falando friamente e quase a confrontarem-se, como soldados de madeira. Sem dúvida, estavam a combinar as condições de um encontro para resolver a sua pequena diferença de imediato.

O schwitzar colheu o general nos seus grandes braços e levou-o para a varanda. Feodor pediu cinco minutos de descanso antes de ser levado para o seu quarto. Matrena Petrovna mandou trazer um almoço ligeiro, a seu pedido. Na verdade, a boa mulher tremia de impaciência e mal ousava mover-se sem consultar o rosto de Rouletabille. Enquanto o general falava com Ermolai, que lhe servia o chá, Rouletabille fez um sinal a Matrena que ela compreendeu de imediato. Ela juntou-se ao jovem na sala de estar.

“Madame”, disse ele rapidamente, em voz baixa, “deve ir imediatamente ver o que aconteceu ali.”

Apontou para a sala de jantar.

“Está bem.”

Era penoso observá-la.

“Vá, madame, com coragem.”

“Porque não vem comigo?”

“Porque, madame, tenho algo a fazer noutro lado. Dê-me as chaves do andar seguinte.”

“Não, não. Para quê?”

“Nem um segundo de atraso, pelo amor de Deus. Faça o que lhe digo do seu lado, e deixe-me fazer o meu. As chaves! Vamos, as chaves!”

Ele arrancou-lhas mais do que as tomou, e apontou uma última vez para a sala de jantar com um gesto tão imperativo que ela não hesitou mais. Ela entrou na sala de jantar, a tremer, enquanto ele se lançava para o andar superior. Não demorou. Apenas teve tempo de abrir as portas, lançar um olhar ao quarto do general, um único olhar, e regressar, deixando escapar um grito de alegria, emprestado do seu novo e muito limitado conhecimento de russo: “Caracho!”

Como Rouletabille, que não passara meio segundo a examinar o quarto do general, pôde ter a certeza de que tudo corria bem daquele lado, quando levava a Matrena — e isso quantas vezes por dia! — pelo menos um quarto de hora a vasculhar todos os cantos cada vez que explorava a sua casa antes de estar sequer inadequadamente tranquilizada, era uma questão. Se aquela querida mulher heroica estivesse com ele durante aquela “informação instantânea”, teria recebido tal choque que, com toda a confiança perdida, teria mandado chamar Koupriane imediatamente, e todos os seus agentes, reforçados pelo pessoal da Okrana (Polícia Secreta). Rouletabille juntou-se logo ao general, assobiando. Feodor e Ermolai estavam imersos numa conversa sobre a região de Orel. O jovem não os perturbou. Depois, logo a seguir, Matrena reapareceu. Viu-a entrar bastante radiante. Devolveu-lhe as chaves e ela pegou nelas mecanicamente. Estava felicíssima e não tentou escondê-lo. O próprio general notou e perguntou o que a tornara assim.

“É a minha felicidade pelo nosso primeiro passeio desde que chegámos à datcha des Iles”, explicou ela. “E agora deve subir para ir para a cama, Feodor. Passará uma boa noite, tenho a certeza.”

“Só posso dormir se tu dormires, Matrena.”

“Prometo-te. É muito possível agora que temos o nosso querido domovoi. Sabes, Feodor, que ele fuma o seu cachimbo tal como o querido domovoi de porcelana.”

“Ele assemelha-se-lhe, sem dúvida”, disse Feodor. “Isso faz-nos sentir felizes, mas quero que ele durma também.”

“Sim, sim”, sorriu Rouletabille, “toda a gente dormirá aqui. Essa é a senha. Já vigiámos o suficiente. Como a polícia se foi embora, todos podemos dormir, acredite em mim, general.”

“Eh, eh, acredito em si, palavra de honra, facilmente. Só eles na casa eram capazes de tentar esse caso do bouquet. Pensei nisso tudo e agora estou descansado. E, de qualquer modo, aconteça o que acontecer, é preciso dormir, não é? Os acasos da guerra! Nichevo!” Apertou a mão de Rouletabille, e Matrena Petrovna tomou, como era seu hábito, Feodor Feodorovitch às costas e carregou-o para o seu quarto. Também nisso recusou ajuda de quem quer que fosse. O general agarrou-se ao pescoço da mulher durante a subida e riu-se como uma criança. Rouletabille permaneceu no corredor, observando o jardim atentamente. Ermolai saiu da villa e atravessou o jardim, indo ao encontro de uma personagem de uniforme que o jovem reconheceu imediatamente como o grão-marechal da corte, que o apresentara ao Tsar. Ermolai informou-o de que Madame Matrena estava ocupada a ajudar o marido a retirar-se, e o marechal permaneceu no fundo do jardim, onde encontrara Michael e Boris a conversar no quiosque. Os três permaneceram ali durante algum tempo à conversa, de pé junto a uma mesa onde o general e Madame Trebassof por vezes jantavam quando não tinham convidados. Enquanto falavam, o marechal brincava com uma caixa de cartão branco atada com um fio cor-de-rosa. Nesse momento, Matrena, que não tinha conseguido resistir ao desejo de falar um momento com Rouletabille e dizer-lhe o quão feliz estava, juntou-se ao jovem.

“Pequeno domovoi”, disse ela, pousando a mão no ombro dele, “não vigiou deste lado?”

Apontou por sua vez para a sala de jantar.

“Não, não. A senhora viu, madame, e estou suficientemente informado.”

“Perfeitamente. Não há nada. Ninguém trabalhou lá! Ninguém tocou na tábua. Eu sabia. Tenho a certeza. É terrível o que pensámos sobre isso! Oh, não sabe o quão aliviada e feliz estou. Ah, Natacha, Natacha, não te amei em vão. (Ela pronunciou estas palavras com acentos de grande beleza e sinceridade trágica.) Quando a vi deixar-nos, meu caro, ah, as minhas pernas cederam. Quando ela disse: ‘Esqueci-me de algo; tenho de voltar a correr’, senti que não tinha forças para dar um único passo. Mas agora estou certamente feliz, esse peso pelo menos saiu do meu coração, do meu coração, querido pequeno domovoi, por sua causa, por sua causa.”

Ela abraçou-o e depois correu, como se possuída, para retomar o seu posto junto do general.

Notas no caderno de memórias de Rouletabille: O caso da pequena cavidade sob o soalho não ter sido tocado novamente não prova nada a favor ou contra Natacha (mesmo que a excelente Matrena Petrovna assim o pense). Natacha poderia muito bem ter sido avisada pelo cuidado excessivo com que Madame Matrena vigiava o soalho. A minha opinião, desde que vi Matrena levantar o tapete da primeira vez sem qualquer precaução real, é que eles abandonaram definitivamente a preparação desse ataque e estão a tentar justificar o facto de o segredo ter sido descoberto. O que Matrena sente com tanta certeza é que a armadilha que montei com o passeio à Ponta era contra Natacha particularmente. Eu sabia de antemão que Natacha se ausentaria durante o passeio. Não procuro nada de novo da parte de Natacha, mas o que eu precisava era ter a certeza de que Matrena não detestava Natacha e que não tinha forjado os preparativos para um ataque sob o soalho de modo a lançar uma suspeita quase certa sobre a sua enteada. Tenho a certeza disso agora. Matrena é inocente de tal coisa, a pobre alma querida. Se Matrena fosse um monstro, a ocasião era demasiado boa. A ausência de Natacha, a sua presença solitária durante um quarto de hora na villa vazia, tudo teria levado Matrena, que enviei sozinha para procurar sob o tapete na sala de jantar, a arrancar os últimos pregos da tábua se ela fosse realmente culpada de ter arrancado os outros. Natacha estaria perdida então! Matrena voltou sinceramente, tragicamente feliz por não ter encontrado nada de novo, e agora tenho a prova material de que precisava. Moral e fisicamente, Matrena está fora disso. Por isso, vou falar-lhe sobre o alfinete de chapéu. Acredito que o assunto é urgente desse lado mais do que do lado dos pregos no soalho.

VI. A MÃO MISTERIOSA

Após a partida de Matrena, Rouletabille voltou a sua atenção para o jardim. Nem o marechal da corte nem os oficiais ali estavam já. Os três homens tinham desaparecido. Rouletabille queria saber imediatamente para onde tinham ido. Foi rapidamente até ao portão, nomeou os oficiais e o marechal para Ermolai, e Ermolai fez um sinal de que tinham saído. Enquanto falava, viu a carruagem do marechal desaparecer numa curva da estrada. Quanto aos dois oficiais, não estavam em lado nenhum na estrada. Surpreendeu-o que o marechal tivesse ido sem ver Matrena, ou o general, ou ele próprio, e, acima de tudo, ficou inquieto com o desaparecimento dos ordenanças. Percebeu pelos gestos de Ermolai que tinham passado pela portaria apenas alguns minutos após a partida do marechal. Tinham ido juntos. Rouletabille pôs-se a segui-los, traçou os passos deles na terra macia da estrada e logo eles atravessaram para a relva. Neste ponto, os trilhos através da massa de fetos tornaram-se muito difíceis de seguir. Apressou-se, curvando-se rente ao chão sobre os vestígios que podia ver, que continuamente o levavam por caminhos errados, mas que o conduziram finalmente àquilo que procurava. Um ruído de vozes fê-lo levantar a cabeça e depois lançar-se atrás de uma árvore. A vinte passos dele, Natacha e Boris tinham uma conversa animada. O jovem oficial mantinha-se direito, em frente dela, franzindo a testa e impaciente. Sob a capa de uniforme que envolvera à volta do corpo sem se ter dado ao trabalho de usar as mangas, que estavam atiradas sobre o peito, Boris tinha os braços cruzados. Toda a sua atitude indicava altivez, frieza e desdém pelo que estava a ouvir. Natacha nunca parecera mais calma ou mais dona de si. Falava-lhe rapidamente e, na maior parte, em voz baixa. Por vezes, soava uma palavra em russo, e depois ela retomava o cuidado de falar baixo. Finalmente calou-se, e Boris, após um curto silêncio, no qual parecera refletir profundamente, pronunciou distintamente estas palavras em francês, pronunciando-as sílaba por sílaba, como se quisesse dar-lhes força adicional:

“Pede-me uma coisa terrível.”

“É necessário que mos conceda”, disse a jovem com uma energia singular. “Compreende, Boris Alexandrovitch! É necessário.”

O seu olhar, depois de ter esquadrinhado penetrantemente tudo à sua volta e não ter descoberto nada de suspeito, pousou ternamente sobre o jovem oficial, enquanto ela murmurava: “Meu Boris!” O jovem não pôde resistir nem à doçura daquela voz, nem ao encanto cativante daquele olhar. Ele pegou na mão que ela lhe estendia e beijou-a apaixonadamente. Os seus olhos, fixos em Natacha, proclamavam que ele concedia tudo o que ela desejava e admitia-se vencido. Então ela disse, sempre com aquele olhar adorável sobre ele: “Esta noite!” Ele respondeu: “Sim, sim. Esta noite! Esta noite!” Ao que Natacha retirou a mão e fez um sinal ao oficial para que se fosse embora, ao qual ele obedeceu prontamente. Natacha permaneceu ali ainda muito tempo, mergulhada em pensamentos. Rouletabille já tinha tomado o caminho de regresso para a villa. Matrena Petrovna vigiava o seu regresso, sentada no primeiro degrau do patamar da grande escadaria que subia a partir da varanda. Quando ela o viu, correu até ele. Ele já tinha chegado à sala de jantar.

“Alguém em casa?” perguntou ele.

“Ninguém. Natacha não voltou, e...”

“A sua enteada está a chegar agora. Pergunte-lhe onde esteve, se viu os ordenanças, e se disseram que voltariam esta noite, caso ela responda que os viu.”

“Muito bem, pequeno domovoi doukh. Os ordenanças saíram sem eu ver quando foram.”

“Ah,” interrompeu Rouletabille, “antes que ela chegue, dê-me todos os seus alfinetes de chapéu.”

“O quê!”

“Eu disse, todos os seus alfinetes de chapéu. Depressa!”

Matrena correu para o quarto de Natacha e voltou com três alfinetes de chapéu enormes com pedras belamente lapidadas neles.

“São todos?”

“São todos os que encontrei. Sei que ela tem outros dois. Ela tem um na cabeça, ou dois, talvez; não os consigo encontrar.”

“Leve-os de volta para onde os encontrou,” disse o repórter, após lançar-lhes um olhar.

Matrena voltou imediatamente, sem compreender o que ele estava a fazer.

“E agora, os seus alfinetes de chapéu. Sim, os seus alfinetes de chapéu.”

“Oh, eu só tenho dois, e aqui estão eles,” disse ela, tirando-os da toca que usava e que tinha atirado para o sofá quando entrou em casa.

Rouletabille deu aos dela a mesma inspeção.

“Obrigado. Aqui está a sua enteada.”

Natacha entrou, corada e sorridente.

“Ah, bem,” disse ela, bastante ofegante, “pode gabar-se de que tive de o procurar. Dei a volta completa, até passar o Barque. O passeio fez bem ao papá?”

“Sim, ele está a dormir,” respondeu Matrena. “Encontraste o Boris e o Michael?”

Ela pareceu hesitar um segundo, depois respondeu:

“Sim, por um instante.”

“Disseram se voltariam esta noite?”

“Não,” respondeu ela, ligeiramente perturbada. “Por que todas estas perguntas?”

Ela corou ainda mais.

“Porque achei estranho,” esquivou-se Matrena, “que eles se fossem embora como fizeram, sem se despedirem, sem uma palavra, sem perguntar se o general precisava deles. Há algo ainda mais estranho. Viste o Kaltsof com eles, o grão-marechal da corte?”

“Não.”

“O Kaltsof veio por um momento, entrou no jardim e saiu novamente sem nos ver, sem dizer sequer uma palavra ao general.”

“Ah,” disse Natacha.

Com aparente indiferença, ela levantou os braços e tirou os seus alfinetes de chapéu. Rouletabille observou o alfinete sem dizer uma palavra. A jovem parecia pouco consciente da presença deles. Inteiramente absorvida em pensamentos estranhos, ela substituiu o alfinete no chapéu e foi pendurá-lo na varanda, que servia também como vestíbulo. Rouletabille nunca a perdeu de vista. Matrena observava o repórter com um olhar estúpido. Natacha atravessou a sala de estar e entrou no seu quarto passando pela sua pequena sala de estar, através da qual se tinha de fazer toda a entrada para o seu quarto. Essa pequena sala, porém, tinha três portas. Uma abria para o quarto de Natacha, uma para a sala de estar, e a terceira para a pequena passagem num canto da casa onde ficava a escadaria pela qual os criados passavam das cozinhas para o piso térreo e o andar superior. Esta passagem tinha também uma porta que dava diretamente para a sala de estar. Era certamente uma disposição pobre para servir a sala de jantar, que ficava do outro lado da sala de estar e atrás da varanda, tal disposição casual de uma casa como muitas vezes se vê no planeamento improvisado de muitos lugares no campo.

Sozinha novamente com Rouletabille, Matrena notou que ele não tinha perdido de vista o canto da varanda onde Natacha tinha pendurado o seu chapéu. Ao lado deste chapéu havia uma toca que Ermolai tinha trazido. O velho criado tinha-a encontrado num qualquer canto do jardim ou da estufa onde tinha estado. Um alfinete de chapéu também sobressaía dessa toca.

“De quem é aquela toca?” perguntou Rouletabille. “Não a vi na cabeça de ninguém aqui.”

“É da Natacha,” respondeu Matrena.

Ela moveu-se em direção a ela, mas o jovem deteve-a, entrou ele próprio na varanda e, sem lhe tocar, na ponta dos pés, examinou o alfinete. Ele caiu sobre os calcanhares e voltou-se para Matrena. Ela vislumbrou uma emoção fugaz no rosto do seu pequeno amigo.

“Explique-me,” disse ela.

Mas ele lançou-lhe um olhar que a assustou, e disse em voz baixa:

“Vá e dê ordens imediatamente para que o jantar seja servido na varanda. Durante todo o jantar é absolutamente necessário que a porta da sala de estar de Natacha, a da passagem da escadaria e a da varanda que dá para a sala de estar permaneçam abertas todo o tempo. Entende-me? Assim que tiver dado as suas ordens, vá para o quarto do general e não saia da cabeceira do general, mantenha-a à vista. Desça para jantar quando for anunciado, e não se preocupe com mais nada.”

Dizendo isto, ele encheu o seu cachimbo, acendeu-o com uma espécie de suspiro de alívio, e, após uma última ordem a Matrena, “Vá”, ele foi para o jardim, lançando grandes nuvens de fumo. Qualquer um teria dito que ele não fumava há uma semana. Ele parecia não estar a pensar, mas apenas a divertir-se ociosamente. De facto, ele brincava como uma criança com Milinki, a gata de estimação de Matrena, que ele perseguiu atrás dos arbustos, até ao pequeno quiosque que, erguido sobre estacas, levantava o seu telhado íngreme de colmo acima do panorama das ilhas que Rouletabille se instalou a contemplar como um artista com tempo livre.

O jantar, onde Matrena, Natacha e Rouletabille estavam juntos novamente, foi animado. Tendo o jovem declarado que estava cada vez mais convencido de que o mistério da bomba no ramo de flores era simplesmente uma partida da polícia, Natacha reforçou a sua opinião, e a seguir a isso eles encontraram-se em concordância sobre quase tudo o resto. Quanto a si, o repórter durante essa conversa escondeu um horror real que o tinha tomado perante a tranquilidade cínica e inadequada com que a jovem recebia todas as sugestões que acusavam a polícia ou que pressupunham que o general já não corria qualquer perigo imediato. Em suma, ele trabalhava, ou pelo menos acreditava que trabalhava, para inocentar Natacha como tinha inocentado Matrena, para que se desenvolvesse a necessidade absoluta de supor a intervenção de uma terceira pessoa nos factos revelados tão claramente por Koupriane onde Matrena ou Natacha pareciam ser as únicas agentes possíveis. Ao ouvir Natacha, Rouletabille começou a duvidar e a tremer tal como tinha visto Matrena fazer. Quanto mais ele investigava a natureza de Natacha, mais tonto ficava. Que obscuridades abismais existiam na sua natureza!

Nada de interessante aconteceu durante o jantar. Várias vezes, apesar da impaciência óbvia de Rouletabille para com ela por o fazer, Matrena subiu até ao general. Ela voltava dizendo: “Ele está sossegado. Não dorme. Não quer nada. Pediu-me para preparar o seu narcótico. É uma pena. Ele tentou em vão, não consegue passar sem ele.”

“Você, também, mamã, deveria tomar algo para a fazer dormir. Dizem que a morfina é muito boa.”

“Quanto a mim,” disse Rouletabille, cuja cabeça há alguns minutos pendia agora para um ombro e agora para outro, “não preciso de qualquer narcótico para me fazer dormir. Se me permitir, vou deitar-me imediatamente.”

“Eh, meu pequeno domovoi doukh, vou carregá-lo até lá nos meus braços.”

Matrena estendeu os seus braços grandes e redondos, pronta para levar Rouletabille como se ele fosse um bebé.

“Não, não. Eu subo lá sozinho,” disse Rouletabille, levantando-se estupidamente e parecendo envergonhado da sua sonolência excessiva.

“Oh, bem, vamos acompanhá-lo ambos ao seu quarto,” disse Natacha, “e eu direi boa-noite ao papá. Eu própria estou ansiosa pela cama. Vamos todos ter uma boa noite. O Ermolai e a Gniagnia vigiarão com o schwitzar na portaria. As coisas estão razoavelmente arranjadas agora.”

Subiram todos as escadas. Rouletabille nem sequer foi ver o general, mas atirou-se para a sua cama. Natacha subiu para a cama ao lado do pai, abraçou-o uma dúzia de vezes e voltou a descer. Matrena seguiu atrás dela, fechou portas e janelas, subiu novamente para fechar a porta do patamar e encontrou Rouletabille sentado na sua cama, com os braços cruzados, não parecendo ter qualquer desejo de dormir. O seu rosto estava também tão estranhamente pensativo que a ansiedade de Matrena, que não tinha conseguido compreender nada dos seus atos e olhares durante todo o dia, voltou instantaneamente com mais força do que nunca. Ela tocou-lhe no braço para ter a certeza de que ele sabia que ela estava ali.

“Meu pequeno amigo,” disse ela, “vai dizer-me agora?”

“Sim, madame,” respondeu ele de imediato. “Sente-se nessa cadeira e ouça-me. Há coisas que tem de saber imediatamente, porque chegámos a uma hora perigosa.”

“Os alfinetes de chapéu primeiro. Os alfinetes de chapéu!”

Rouletabille levantou-se levemente da cama e, de frente para ela, mas observando algo além dela, disse:

“É necessário que saiba que alguém quase imediatamente vai renovar a tentativa do ramo de flores.”

Matrena saltou para a sua frente tão rapidamente como se lhe tivessem dito que havia uma bomba no assento da sua cadeira. Ela forçou-se a sentar novamente, no entanto, em obediência ao olhar urgente de Rouletabille que ordenava silêncio absoluto.

“Renovar a tentativa do ramo de flores!” murmurou ela com uma voz sufocada. “Mas não há uma flor no quarto do general.”

“Tenha calma, madame. Entenda-me e responda-me: Ouviu o tique-taque do ramo de flores enquanto estava no seu próprio quarto?”

“Sim, com as portas abertas, naturalmente.”

“Disse-me as pessoas que vieram dizer boa-noite ao general. Nessa altura não houve ruído de tique-taque?”

“Não, não.”

“Acha que se tivesse havido qualquer tique-taque nessa altura o teria ouvido, com todas aquelas pessoas a falar no quarto?”

“Eu oiço tudo. Eu oiço tudo.”

“Desceu as escadas ao mesmo tempo que aquelas pessoas?”

“Não, não; permaneci perto do general durante algum tempo, até ele estar a dormir profundamente.”

“E não ouviu nada?”

“Nada.”

“Fechou as portas atrás daquelas pessoas?”

“Sim, a porta da grande escadaria. A porta da escadaria dos criados foi condenada há muito tempo; foi trancada por mim, só eu tenho a chave e no interior da porta que abre para o quarto do general há também um ferrolho que está sempre fechado. Todas as outras portas dos quartos foram condenadas por mim. Para entrar em qualquer um dos quatro quartos deste andar é necessário agora passar pela porta do meu quarto, que dá para a escadaria principal.”

“Perfeito. Então, ninguém pôde entrar no apartamento. Ninguém esteve no apartamento durante pelo menos duas horas, excetuando você e o general, quando ouviu o mecanismo de relojoaria. Daí a única conclusão é que só o general e você poderiam tê-lo posto a funcionar.”

“O que está a tentar dizer?” perguntou Matrena, estupefacta.

“Quero provar-lhe com esta conclusão absurda, madame, que é necessário nunca — nunca, entende? Nunca — raciocinar apenas sobre as evidências externas mais evidentes quando essas aparências aparentemente conclusivas estão em conflito com certas verdades morais que também são claras como a luz do dia. A luz do dia para mim, madame, é que o general não deseja cometer suicídio e, acima de tudo, que ele não escolheria o método estranho de suicídio por mecanismo de relojoaria. A luz do dia para mim é que você adora o seu marido e que está pronta a sacrificar a sua vida pela dele.”

“Agora!” exclamou Matrena, cujas lágrimas, sempre prontas em momentos emocionais, fluíam livremente. “Mas, Santa Maria, por que fala comigo sem olhar para mim? O que é? O que é?”

“Não se vire! Não faça um movimento! Ouça — não se mova! E fale baixo, muito baixo. E não chore, pelo amor de Deus!”

“Mas você diz de imediato... o ramo de flores! Venha ao quarto do general!”

“Nem um movimento. E continue a ouvir-me sem me interromper,” disse ele, ainda inclinando o ouvido, e ainda sem olhar para ela. “É porque estas coisas eram como a luz do dia para mim que digo para comigo: ‘É impossível que seja impossível que uma terceira pessoa não tenha colocado a bomba no ramo de flores. Alguém é capaz de entrar no quarto do general mesmo quando o general está a vigiar e todas as portas estão trancadas’.”

“Oh, não. Ninguém poderia possivelmente entrar. Juro-lho.”

Ao jurá-lo um pouco alto demais, Rouletabille agarrou-lhe o braço de modo a que ela quase gritou, mas ela entendeu instantaneamente que era para a manter quieta.

“Digo-lhe para não me interromper, de uma vez por todas.”

“Mas, então, diga-me o que está a olhar assim.”

“Estou a vigiar o canto onde alguém vai entrar no quarto do general quando tudo está trancado, madame. Não se mova!”

Matrena, com os dentes a bater, recordou que quando entrou no quarto de Rouletabille tinha encontrado todas as portas abertas que comunicavam com a cadeia de divisões: o quarto do jovem com o dela, o vestiário e o quarto do general. Ela tentou, sob o olhar de Rouletabille, manter a calma, mas apesar de todas as exortações do repórter, não conseguiu segurar a língua.

“Mas por que caminho? Onde vão entrar?”

“Pela porta.”

“Qual porta?”

“A do quarto que dá para a escadaria dos criados.”

“Mas como? A chave! O ferrolho!”

“Eles fizeram uma chave.”

“Mas o ferrolho está corrido deste lado.”

“Eles vão puxá-lo para trás do outro lado.”

“O quê! Isso é impossível.”

Rouletabille colocou as suas duas mãos nos ombros fortes de Matrena e repetiu, destacando cada sílaba: “Eles vão puxá-lo para trás do outro lado.”

“É impossível. Repito.”

“Madame, os seus niilistas não inventaram nada. É um truque muito em voga com ladrões em hotéis. Tudo o que é preciso é um pequeno buraco do tamanho de um alfinete perfurado no painel da porta acima do ferrolho.”

“Deus!” tremia Matrena. “Não percebo o que quer dizer com o seu pequeno buraco. Explique-me, pequeno domovoi.”

“Siga-me com atenção, então,” continuou Rouletabille, com os olhos todo o tempo fixos noutro lugar. “A pessoa que deseja entrar insere através do buraco um fio de latão ao qual já deu a curvatura necessária e que está equipado na sua extremidade com uma leve ponta de aço curvada para dentro. Com tal instrumento é uma brincadeira de criança, se o buraco tiver sido feito onde deve ser, tocar no ferrolho pelo interior a partir do exterior, escolher o botão nele, retirá-lo, e abrir a porta se o ferrolho for como este, um pequeno ferrolho de porta.”

“Oh, oh, oh,” gemia Matrena, que empalideceu visivelmente. “E esse buraco?”

“Ele existe.”

“Você descobriu-o?”

“Sim, na primeira hora em que estive aqui.”

“Oh, domovoi! Mas como fez isso quando nunca entrou no quarto do general até esta noite?”

“Sem dúvida, mas subi aquela escadaria dos criados muito antes disso. E dir-lhe-ei porquê. Quando fui trazido para a villa a primeira vez, e você vigiou-me, escondida atrás da porta, sabe o que eu estava a vigiar, enquanto parecia estar unicamente ocupado a escavar o caviar? A marca fresca de pregos de bota que deixou o tapete perto da mesa, onde alguém tinha derramado cerveja (a cerveja ainda corria pelo pano). Alguém tinha pisado na cerveja. A marca da bota não era claramente visível exceto ali. Mas a partir dali ia para a porta da escadaria dos criados e subia as escadas. Aquela bota era demasiado fina para estar a subir uma escadaria reservada aos criados e que Koupriane me disse ter sido condenada, e foi isso que me fez notá-la num momento; mas logo a seguir você entrou.”

“Você nunca me disse nada sobre isso. Claro que se eu soubesse que havia uma marca de bota...”

“Não lhe disse nada sobre isso porque tinha as minhas razões para isso, e, de qualquer forma, o rasto secou enquanto lhe contava sobre a minha jornada.”

“Ah, por que não me disse mais tarde?”

“Porque ainda não a conhecia.”

“Diabo subtil! Vai matar-me. Já não consigo... Vamos ao quarto do general. Vamos acordá-lo.”

“Permaneça aqui. Permaneça aqui. Não lhe contei nada. Aquela marca de bota preocupou-me, e mais tarde, quando pude afastar-me da sala de jantar, não fiquei sossegado até ter subido aquela escadaria eu próprio e ido ver aquela porta, onde descobri o que lhe acabei de dizer e o que vou dizer-lhe agora.”

“O quê? O quê? Em tudo o que disse não houve nada sobre os alfinetes de chapéu.”

“Chegámos a eles agora.”

“E o ataque do ramo de flores, que vai acontecer de novo? Porquê? Porquê?”

“É isto. Quando esta noite você me deixou ir ao quarto do general, examinei o ferrolho da porta sem você suspeitar. A minha opinião foi confirmada. Foi por esse caminho que a bomba foi trazida, e é por esse caminho que alguém se preparou para regressar.”

“Mas como? Tem a certeza de que o pequeno buraco é o caminho por onde alguém veio? Mas o que o faz pensar que é assim que tencionam regressar? Sabe bem o suficiente que, não tendo tido sucesso no quarto do general, eles estão a trabalhar na sala de jantar.”

“Madame, é provável, é certo que eles desistiram do trabalho na sala de jantar desde que começaram este mesmo dia a trabalhar novamente no quarto do general. Sim, alguém voltou, voltou por esse caminho, e eu estava tão certo disso, do regresso iminente, que afastei a polícia para poder estudar tudo mais à minha vontade. Entende agora a minha confiança e por que fui capaz de assumir uma responsabilidade tão pesada? É porque sabia que tinha apenas uma coisa a vigiar: um pequeno alfinete de chapéu. Não é difícil, madame, vigiar um único pequeno alfinete de chapéu.”

“Um erro,” disse Matrena, em voz baixa. “Miserável pequeno domovoi que não me disse nada, a mim a quem deixou ir dormir no meu colchão, em frente àquela porta que poderia abrir a qualquer momento.”

“Não, madame. Pois eu estava atrás dela!”

“Ah, querido pequeno anjo santo! Mas no que estavas a pensar! Essa porta não foi vigiada esta tarde. Na nossa ausência ela poderia ter sido aberta. Se alguém colocou uma bomba durante a nossa ausência!”

“Foi por isso que a enviei de imediato para a sala de jantar naquela busca que achei que seria infrutífera, querida madame. E foi por isso que me apressei a subir para o quarto. Fui à porta da escadaria instantaneamente. Tinha preparado uma prova positiva se alguém a tivesse empurrado apenas meio milímetro. Não, ninguém tinha tocado na porta na nossa ausência.”

“Ah, querido pequeno amigo heroico de Jesus! Mas ouça-me. Ouça-me, meu anjo. Ah, não sei onde estou ou o que digo. O meu cérebro não é mais do que um balão flácido perfurado com alfinetes, com pequenos buracos de alfinetes de chapéu. Fale-me dos alfinetes de chapéu. De imediato! Não, primeiro, o que o faz acreditar — bom Deus! — que alguém voltará por essa porta? Como pode ver isso, tudo isso, num pobre pequeno alfinete de chapéu?”

“Madame, não é um único buraco de alfinete de chapéu; são dois.”

“Dois buracos de alfinete de chapéu?”

— Sim, dois. Um antigo e um novo. Um muito novo. Por que este segundo buraco? Porque o antigo foi julgado um pouco estreito demais e quiseram alargá-lo, e ao alargá-lo partiram a ponta de um alfinete de chapéu lá dentro. Madame, a ponta ainda lá está, a encher o pequeno buraco antigo e o pedaço de metal é muito afiado e muito brilhante.

— Agora compreendo o exame dos alfinetes de chapéu. Então é tão fácil assim passar por uma porta com um alfinete de chapéu?

— Nada mais fácil, especialmente se o painel for de pinho. Às vezes, acontece partir-se a ponta de um alfinete no primeiro buraco. Então, por necessidade, faz-se um segundo. Para começar o segundo buraco, estando a ponta do alfinete partida, usaram a ponta de um canivete, depois terminaram o buraco com o alfinete de chapéu. O segundo buraco está ainda mais perto do ferrolho do que o primeiro. Não se mexa assim, madame.

— Mas eles vão vir! Eles vão vir!

— Acredito que sim.

— Mas não consigo entender como pode permanecer tão calmo com tal certeza. Grande Deus! Que prova tem de que eles ainda não estiveram lá?

— Apenas um alfinete comum, madame, não um alfinete de chapéu desta vez. Não confunda os alfinetes. Mostrar-lhe-ei dentro de pouco tempo.

— Ele vai deixar-me perturbada com os seus alfinetes, querida luz dos meus olhos! Bondade do Céu! Enviado de Deus! Querido pequeno portador da felicidade!

No seu transporte, ela tentou tomá-lo nos seus braços trémulos, mas ele afastou-a com um gesto. Ela recuperou o fôlego e retomou:

— O exame de todos os alfinetes de chapéu disse-lhe alguma coisa?

— Sim. O quinto alfinete de chapéu da Mademoiselle Natacha, aquele que está na toque lá na varanda, tem a ponta partida recentemente.

— Ó miséria! — gritou Matrena, amachucando-se na sua cadeira.

Rouletabille ergueu-a.

— Que quer que faça? Examinei os seus próprios alfinetes de chapéu. Acha que a teria suspeitado se tivesse encontrado um deles partido? Teria simplesmente pensado que alguém tinha usado a sua propriedade para um propósito abominável, é tudo.

— Oh, isso é verdade, isso é verdade. Perdoe-me. Mãe de Cristo, este rapaz enlouquece-me! Ele consola-me e horroriza-me. Ele faz-me pensar em coisas tão terríveis, e depois tranquiliza-me. Ele faz o que quer de mim. O que seria de mim sem ele?

E desta vez ela conseguiu tomar a cabeça dele nas suas duas mãos e beijá-lo apaixonadamente. Rouletabille empurrou-a rudemente.

— Impede-me de ver — disse ele.

Ela estava em lágrimas devido à sua rejeição. Ela compreendia agora. Rouletabille, durante toda esta conversa, não tinha cessado de vigiar, através das portas abertas do quarto de Matrena e do toucador, a porta fatal mais distante, cujo ferrolho de latão brilhava na luz amarela da lamparina noturna.

Finalmente, ele fez-lhe um sinal e o repórter, seguido por Matrena, avançou na ponta dos pés até ao limiar do quarto do general, mantendo-se rente à parede. Feodor Feodorovitch dormia. Ouviam a sua respiração pesada, mas ele parecia estar a desfrutar de um sono tranquilo. Os horrores da noite anterior tinham fugido. Matrena tinha talvez razão ao atribuir os pesadelos ao narcótico preparado para ele todas as noites, pois o copo do qual ele bebia quando sentia que não conseguia dormir estava ainda cheio e, obviamente, não tinha sido tocado. A cama do general estava colocada de tal forma que quem a ocupasse, mesmo que estivesse bem acordado, não podia ver a porta que dava para a escada de serviço. A pequena mesa onde o copo e várias ampolas estavam colocados e que tinha suportado o bouquet perigoso, estava situada perto da cama, um pouco atrás dela, e mais próxima da porta. Nada seria mais fácil do que alguém que pudesse abrir a porta estender um braço e colocar a máquina infernal entre as flores silvestres, sobretudo, como se podia facilmente acreditar, se tivesse esperado por essa traição até que a respiração pesada do general dissesse aos que estavam fora que ele estava a dormir profundamente, e se, olhando pelo buraco da fechadura, se tivesse certificado de que Matrena estava ocupada no seu próprio quarto. Rouletabille, no limiar, deslizou para um lado, fora da linha de visão do buraco, e pôs-se de gatas. Rastejou em direção à porta. Com a cabeça rente ao chão, certificou-se de que o pequeno alfinete comum que ele tinha colocado de guarda naquela noite, espetado no chão contra a porta, ainda estava ereto, tendo assim a prova adicional de que a porta não tinha sido movida. Em qualquer outro caso, o alfinete ter-se-ia deitado no chão. Ele rastejou de volta, pôs-se de pé, passou para o toucador e, num canto, teve uma conversa rápida em voz baixa com Matrena.

— Irá — disse ele — e levará o seu colchão para o canto do toucador onde ainda pode ver a porta, mas ninguém a pode ver olhando pelo buraco da fechadura. Faça isso com toda a naturalidade e depois vá descansar. Passarei a noite no colchão, e rogo-lhe que acredite que estarei mais confortável lá do que numa cama de madeira de escada, onde passei a noite passada, atrás da porta.

— Sim, mas adormecerá. Não quero isso.

— O que está a pensar, madame?

— Não quero. Não quero. Não quero deixar a porta onde está o olho. E como não consigo dormir, deixe-me vigiar.

Ele não insistiu, e agacharam-se juntos sobre o colchão. Rouletabille estava sentado como um alfaiate a trabalhar; mas Matrena permanecia de gatas, com o maxilar saliente, os olhos fixos, como um buldogue pronto a saltar. Os minutos passavam num silêncio profundo, interrompido apenas pela respiração irregular e pelo bufar do general. O seu rosto destacava-se, pálido e trágico, na almofada; a sua boca estava aberta e, por vezes, os lábios moviam-se. Havia o receio, a qualquer momento, de um pesadelo ou do seu despertar. Inconscientemente, ele atirou um braço em direção à mesa onde estava o copo de narcótico. Depois, permaneceu imóvel novamente e ressonou levemente. A lamparina noturna sobre a lareira captava reflexos amarelos estranhos dos cantos dos móveis, da moldura dourada de um quadro na parede e das ampolas e copos sobre a mesa. Mas, em todo o quarto, Matrena Petrovna não via nada, não pensava em nada além do ferrolho de latão que brilhava ali na porta. Cansada de estar de joelhos, mudou de posição, com o queixo nas mãos, o olhar fixamente cravado. À medida que o tempo passava e nada acontecia, ela soltou um suspiro. Não teria sabido dizer se esperava ou temia a chegada daquela coisa nova que Rouletabille tinha indicado. Rouletabille sentia-a tremer de angústia e impaciência.

Quanto a ele, não tinha esperado que nada acontecesse até perto do amanhecer, o momento, como todos sabem, em que o sono profundo é mais apto a vencer toda a vigilância e toda a insónia. E enquanto esperava por esse momento, não se tinha mexido mais do que um macaco chinês ou o querido pequeno domovoi doukh de porcelana no jardim. Claro que podia ser que não acontecesse nesta noite.

Subitamente, a mão de Matrena caiu sobre a de Rouletabille. Ele prendeu a dela com tanta firmeza que ela compreendeu que lhe era proibido fazer o menor movimento. E ambos, com os pescoços esticados, ouvidos atentos, vigiavam como bestas, como bestas à caça.

Sim, sim, tinha havido um ruído ligeiro na fechadura. Uma chave girou, suavemente, suavemente, na fechadura, e depois — silêncio; e depois outro pequeno ruído, um som de ranger, um ligeiro atrito de arame, acima, depois no ferrolho; sobre o ferrolho que brilhava no brilho suave da lamparina noturna. O ferrolho suavemente, muito suavemente, deslizou lentamente.

Depois a porta foi empurrada lentamente, tão lentamente. Abriu-se.

Através da abertura, a sombra de um braço estendeu-se, um braço que segurava nos dedos algo que brilhava. Rouletabille sentiu Matrena pronta a saltar. Ele envolveu-a, apertou-a nos seus braços, conteve-a em silêncio, e teve um medo horrível de a ouvir gritar subitamente, enquanto o braço se estendia, quase tocando a almofada na cama onde o general continuava a dormir um sono de paz como não conhecia há muito tempo.

VII. ARSENIATO DE SÓDIO

A mão misteriosa segurava uma ampola e derramou todo o conteúdo na poção. Depois, a mão retirou-se como tinha vindo, lentamente, prudentemente, furtivamente, e a chave girou na fechadura e o ferrolho deslizou de volta para o lugar.

Como um lobo, Rouletabille, avisando Matrena pela última vez para não se mexer, ganhou o patamar, saltou em direção às escadas, deslizou pelo corrimão até à varanda, atravessou a sala de estar como um raio, e alcançou a pequena sala de estar sem ter esbarrado num único móvel. Não notou nada, não viu nada. Tudo em redor estava imperturbado e silencioso.

A primeira luz do amanhecer filtrava-se através das persianas. Ele pôde distinguir que a única porta fechada era a do quarto de Natacha. Parou diante dessa porta, com o coração a bater, e escutou. Mas nenhum som chegou aos seus ouvidos. Tinha deslizado tão levemente sobre o tapete que tinha a certeza de não ter sido ouvido. Talvez aquela porta se abrisse. Esperou. Em vão. Parecia-lhe que não havia nada vivo naquela casa, exceto o seu coração. Estava sufocado pelo horror que vislumbrava, que quase tocava, embora aquela porta permanecesse fechada. Apalpou a parede para alcançar a janela e puxou a cortina. A janela e as persianas do pequeno quarto que davam para o Neva estavam fechadas. A barra de ferro no interior estava no seu devido lugar. Depois, foi para a passagem, subiu e desceu a estreita escada de serviço, olhou por toda a parte, em todos os quartos, apalpando tudo com mãos silenciosas, certificando-se de que nenhuma fechadura tinha sido violada. Ao seu regresso à varanda, quando ergueu a cabeça, viu no topo da escadaria principal uma figura pálida como a morte, uma aparição espectral no meio das sombras da noite que passava, que se inclinava na sua direção. Era Matrena Petrovna. Ela desceu, silenciosa como um fantasma, e ele já não reconheceu a sua voz quando ela lhe exigiu: "Onde? Exijo que me diga. Onde?"

— Procurei por toda a parte — disse ele, tão baixo que Matrena teve de se aproximar para compreender o seu sussurro. — Está tudo bem fechado. E não há ninguém por perto.

Matrena olhou para Rouletabille com todo o poder dos seus olhos, como se quisesse descobrir os seus pensamentos mais íntimos, mas o seu olhar claro não vacilou, e ela viu que não havia nada que ele quisesse esconder. Então, Matrena apontou o dedo para o quarto de Natacha.

— Não entrou lá? — perguntou ela.

Ele respondeu: — Não é necessário entrar lá.

— Eu entrarei lá, contudo — disse ela, e cerrou os dentes.

Ele barrou-lhe o caminho com os braços estendidos.

— Se estima a vida de alguém querido — disse ele —, não dê mais um passo.

— Mas a pessoa está naquele quarto. A pessoa está lá! É lá que descobrirá! — E ela afastou-o com um gesto, como se estivesse a sonâmbula.

Para a trazer de volta à realidade do que lhe tinha dito e para a fazer compreender o que desejava, ele teve de agarrar o seu pulso com o torno da sua mão nervosa.

— A pessoa não está lá, talvez — disse ele, abanando a cabeça. — Compreenda-me agora.

Mas ela não o compreendeu. Ela disse:

— Já que a pessoa não está em nenhum outro lugar, a pessoa tem de estar lá.

Mas Rouletabille continuou obstinadamente:

— Não, não. Talvez ele tenha ido embora.

— Embora! E tudo trancado por dentro!

— Isso não é razão — respondeu ele.

Mas ela não conseguia seguir os seus pensamentos mais longe. Ela desejava absolutamente entrar no quarto de Natacha. A obsessão disso estava sobre ela.

— Se entrar lá — disse ele — e se (como é mais provável) não encontrar o que procura lá, tudo está perdido! E quanto a mim, desisto de tudo.

Ela caiu desamparada numa cadeira.

— Não se desespere — murmurou ele. — Ainda não sabemos com certeza.

Ela abanou a sua pobre cabeça velha, desanimada.

— Sabemos que apenas ela está aqui, já que ninguém conseguiu entrar e já que ninguém conseguiu sair.

Isso, na verdade, enchia o seu cérebro, impedia-a de discernir em qualquer canto da sua mente o pensamento de Rouletabille. Então, o diálogo impossível recomeçou.

— Repito que não sabemos se a pessoa não foi embora — repetiu o repórter, e pediu as suas chaves.

— Tola — disse ela. — Para que as quer?

— Para procurar fora como procurámos dentro.

— Ora, está tudo trancado por dentro!

— Madame, mais uma vez, isso não é razão para que a pessoa não possa estar fora.

Ele consumiu cinco minutos a abrir a porta da varanda, tantas eram as suas precauções. Ela observava-o com impaciência.

Ele sussurrou-lhe:

— Vou sair, mas não perca de vista a pequena sala de estar. Ao menor movimento, chame-me; dispare um revólver se precisar.

Ele deslizou para o jardim com as mesmas precauções de silêncio. Do canto onde se mantinha, através das portas deixadas abertas, Matrena podia seguir todos os movimentos do repórter e vigiar o quarto de Natacha ao mesmo tempo. A atitude de Rouletabille continuava a confundi-la além de toda a expressão. Ela observava o que ele fazia como se o julgasse embrutecido. O dyernick de guarda na estrada também observava o jovem através das grades do portão em consternação, como se o achasse um tolo. Ao longo dos caminhos de terra batida ou cimento, que não ofereciam hipótese para pegadas, Rouletabille apressava-se silenciosamente. À sua volta, notou que a relva do jardim não tinha sido pisada. E depois não prestou mais atenção aos seus passos. Parecia estudar atentamente a cor rosada no oriente, respirando a delicadeza da manhã que amanhecia nas Ilhas, no meio do silêncio da terra, que ainda adormecia.

Descoberto, rosto lançado para trás, mãos atrás das costas, olhos erguidos e fixos, ele deu alguns passos, depois parou subitamente como se tivesse levado um choque elétrico. Assim que pareceu ter recuperado desse choque, voltou-se e recuou alguns passos para outro caminho, no qual avançou, direito, com o rosto levantado, com o mesmo olhar fixo que tinha tido até ao momento em que parou tão subitamente, como se algo ou alguém o aconselhasse ou avisasse para não ir mais longe. Ele voltava continuamente para a casa, e assim percorreu todos os caminhos que levavam da vivenda, mas em todas estas excursões teve o cuidado de não se colocar no campo de visão da janela de Natacha, um campo restrito devido à sua localização mesmo atrás de um pilar do edifício. Para se certificar sobre esta janela, rastejou de gatas até à orla do jardim que corria ao longo do pé da parede e teve prova suficiente de que ninguém tinha saltado por ali. Depois foi juntar-se a Matrena na varanda.

— Ninguém veio ao jardim esta manhã — disse ele — e ninguém saiu da vivenda para o jardim. Agora vou procurar fora da propriedade. Espere aqui; estarei de volta em cinco minutos.

Ele foi-se embora, bateu discretamente na janela da portaria e esperou alguns segundos. Ermolai saiu e abriu-lhe o portão. Matrena moveu-se para o limiar da pequena sala de estar e observou a porta de Natacha com horror. Sentiu as pernas cederem sob si, não conseguia manter-se de pé sob o pensamento diabólico de tal crime. Ah, aquele braço, aquele braço! a estender-se, a abrir caminho, com uma pequena ampola brilhante na mão. Dores de Cristo! O que poderia haver nos livros malditos sobre os quais Natacha e os seus companheiros se debruçavam que pudesse tornar tais crimes abomináveis possíveis? Ah, Natacha, Natacha! era dela que ela teria desejado a resposta, apertando-a quase até sufocar no seu peito rude e estrangulando-a com a sua própria mão forte para que não pudesse ouvir a resposta. Ah, Natacha, Natacha, a quem ela tanto tinha amado! Ela caiu no chão, rastejou pelo tapete até à porta, e ficou lá, estendida como uma besta, e enterrou a cabeça nos braços enquanto chorava pela sua filha. Natacha, Natacha, a quem ela tinha acalentado como se fosse a sua própria filha, e que não a ouvia. Ah, de que servia que o pequeno rapaz tivesse ido procurar fora quando toda a verdade jazia atrás desta porta? Pensando nele, ficou embaraçada com o receio de que ele a encontrasse naquela postura animal, e pôs-se de joelhos e dirigiu-se para a janela que dava para o Neva. O ângulo das persianas inclinadas deixava-a ver bem o suficiente o que se passava lá fora, e o que ela viu fê-la saltar de pé. Abaixo dela, o repórter realizava as mesmas manobras incompreensíveis que a tinha visto fazer no jardim. Três caminhos levavam à pequena estrada que corria ao longo do muro da vivenda pela margem do Neva. O jovem, ainda com as mãos atrás das costas e com o rosto virado para cima, tomou-os um após o outro. No primeiro, parou ao primeiro passo. Não deu mais de dois passos no segundo. No terceiro, que cortava obliquamente para a direita e parecia correr para a margem mais próxima de Krestowsky Ostrow, ela viu-o avançar lentamente no início, depois mais rapidamente entre as pequenas árvores e sebes. Uma vez apenas parou e olhou atentamente para o tronco de uma árvore contra o qual parecia escolher algo invisível, e depois continuou para a margem. Lá, sentou-se numa pedra e pareceu refletir, e depois subitamente despiu o casaco e as calças, escolheu um certo lugar na margem oposta a si, terminou de se despir e mergulhou no rio. Ela viu de imediato que ele nadava como um boto, mantendo-se por baixo e mostrando a cabeça de tempos a tempos, respirando, depois mergulhando abaixo da superfície novamente. Alcançou Krestowsky Ostrow num tufo de juncos. Depois desapareceu. Abaixo dele, rodeado de árvores, podiam ver-se os telhados vermelhos da vivenda que abrigava Boris e Michael. Dessa vivenda, uma pessoa podia ver a janela da sala de estar na residência do General Trebassof, mas não o que poderia ocorrer ao longo da margem do rio, logo abaixo das suas paredes. Um isvotchick conduzia ao longo da rota distante de Krestowsky, transportando na sua carruagem uma companhia de jovens oficiais e jovens mulheres que tinham estado a festejar e que cantavam enquanto seguiam; depois um silêncio profundo seguiu-se. Os olhos de Matrena procuraram Rouletabille, mas não o conseguiram encontrar. Quanto tempo ele ia ficar escondido daquela forma? Ela pressionou o rosto contra a janela fria. O que estava ela à espera? Esperava talvez que alguém fizesse um movimento deste lado, que a porta perto dela se abrisse e a figura traidora do Outro aparecesse.

Uma mão tocou-a cuidadosamente. Ela virou-se.

Rouletabille estava lá, o rosto todo marcado por arranhões vermelhos, sem colarinho nem gravata, tendo-se vestido apressadamente. Ele parecia furioso ao surpreendê-la no seu desalinho. Ela deixou que ele a conduzisse como se fosse uma criança. Ele levou-a para o seu quarto e fechou a porta.

— Madame — começou ele —, é impossível trabalhar consigo. Por que cargas de água chorou a nem meio metro da porta da sua enteada? Você e o seu Koupriane, começam a fazer-me lamentar o Faubourg Poissoniere, sabe. A sua enteada certamente ouviu-a. É uma sorte que ela não atribua qualquer importância às suas fantasmagorias noturnas, e que esteja habituada a elas há muito tempo. Ela tem mais juízo do que você, a Mademoiselle Natacha tem. Ela dorme, ou pelo menos finge dormir, o que deixa toda a gente em paz. Que resposta lhe dará se acontecer que ela lhe pergunte hoje a razão do seu marchar e contramarchar pela sala de estar e se queixe de que a impediu de dormir?

Matrena apenas abanou a sua cabeça muito, muito velha.

— Não, não, ela não me ouviu. Eu estava ali como uma sombra, como uma sombra de mim mesma. Ela nunca me ouvirá. Ninguém ouve uma sombra.

Rouletabille sentiu um retorno de piedade por ela e falou com mais suavidade.

— De qualquer modo, é necessário, tem de compreender, que ela não atribua maior importância ao que fez esta noite do que às coisas que sabe que a senhora faz noutras noites. Não é a primeira vez, pois não, que vagueia pela sala de estar? Compreende-me? E amanhã, madame, abrace-a como sempre fez.

— Não, isso não — gemeu ela. — Nunca isso. Eu não conseguiria.

— Por que não?

Matrena não respondeu. Chorava. Ele tomou-a nos braços como uma criança a consolar a sua mãe.

— Não chore. Não chore. Nem tudo está perdido. Alguém saiu da villa esta manhã.

— Oh, pequeno domovoi! Como é isso? Como é isso? Como descobriu isso?

— Já que não encontrámos nada lá dentro, era certamente necessário encontrar algo lá fora.

— E encontrou?

— Certamente.

— Que a Virgem o proteja!

— ELA está connosco. Ela não nos abandonará. Direi até que acredito que ela tem uma tutela especial sobre as Ilhas. Ela vigia-as da noite até de manhã.

— O que está a dizer?

— Certamente. Não sabe o que chamamos em França de "as vigias da Virgem"?

— Oh, sim, são as teias que os queridos bichinhos do bom Deus fiam entre as árvores e que...

— Exatamente. Compreende-me e compreenderá melhor quando souber que, no jardim, a primeira coisa que me bateu na cara quando entrei foi o rosto dessas vigias da Virgem fiadas pelas queridas aranhas do bom Deus. No início, quando as senti na minha cara, disse para comigo: "Espera, ninguém passou por aqui", e por isso fui procurar noutros lugares. As teias paravam-me em toda a parte no jardim. Mas, fora do jardim, elas mantiveram-se afastadas e deixaram-me passar sem ser incomodado por um caminho que levava ao Neva. Então disse para comigo: "Ora, terá a Virgem, por acidente, negligenciado o seu trabalho neste caminho? Certamente que não. Alguém o arruinou". Encontrei os restos delas pendurados nos arbustos e assim cheguei ao rio.

— E atirou-se ao rio, meu querido anjo. O senhor nada como um pequeno deus.

— E cheguei onde o outro chegou. Sim, lá estavam os juncos todos recém-quebrados. E deslizei para dentro dos arbustos.

— Para onde?

— Até à Villa Krestowsky, madame — onde ambos vivem.

— Ah, foi de lá que alguém veio?

Houve um silêncio entre eles.

Ela questionou:

— Boris?

— Alguém que veio da villa e que lá regressou. Boris ou Michael, ou outro. Eles foram e voltaram através dos juncos. Mas, ao vir, usaram um barco; voltaram a nadar.

A sua agitação habitual manifestou-se novamente.

Ela exigiu ardentemente:

— E tem a certeza de que ele veio aqui e que saiu daqui?

— Sim, tenho a certeza disso.

— Como?

— Pela janela da sala de estar.

— É impossível, pois encontrámo-la trancada.

— É possível, se alguém a fechou atrás de si.

— Ah!

Ela começou a tremer novamente e, caindo de volta no seu horror de pesadelo, já não desperdiçava expressões carinhosas com o seu domovoi como se fosse um querido anjinho que lhe acabara de prestar um serviço dez vezes mais precioso do que a vida. Enquanto ele ouvia pacientemente, ela disse brutalmente:

— Por que me impediu de me atirar a ele, de me lançar sobre ele quando ele abriu a porta? Ah, eu teria, eu teria... saberíamos.

— Não. Ao menor ruído ele teria fechado a porta. Uma volta à chave e ele teria escapado para sempre. E teria sido avisado.

— Rapaz imprudente! Por que então, se sabia que ele viria, não me deixou no quarto e ficou você mesmo a vigiar em baixo?

— Porque, enquanto eu estivesse em baixo, ele não teria vindo. Ele só vem quando não está ninguém no andar de baixo.

— Ah, Santos Pedro e Paulo, tenham piedade de uma pobre mulher. Quem pensa que é, então? Quem pensa que é? Já não consigo pensar. Diga-me, diga-me isso. Deve saber — sabe tudo. Vamos — quem? Exijo a verdade. Quem? Ainda algum agente do Comité, do Comité Central? Ainda os Niilistas?

— Se fosse apenas isso! — disse Rouletabille calmamente.

— Jurou levar-me à loucura! O que quer dizer com o seu "se fosse apenas isso"?

Rouletabille, imperturbável, não respondeu.

— O que fez com a poção? — disse ele.

— A poção? O copo do crime! Tranquei-o no meu quarto, no armário — seguro, seguro!

— Ah, mas, madame, é necessário colocá-lo de volta onde o tirou.

— O quê!

— Sim, depois de ter vertido o veneno num frasco, lavar o copo e enchê-lo com outra poção.

— Tem razão. Pensa em tudo. Se o general acordar e quiser a sua poção, ele não deve suspeitar de nada, e deve poder tomar a sua bebida.

— Não é necessário que ele beba.

— Bem, então, por que ter a bebida ali?

— Para que a pessoa possa ter a certeza, madame, de que, se ele não bebeu, é simplesmente porque não quis. Um puro acaso, madame, que ele não esteja envenenado. Compreende-me desta vez?

— Sim, sim. Ó Cristo! Mas como agora, se o general acordar e quiser beber o seu narcótico?

— Diga-lhe que eu proíbo. E aqui está outra coisa que deve fazer. Quando — Alguém — entrar no quarto do general, de manhã, deve, aberta e naturalmente, deitar fora a poção, inútil e insípida, vê, e assim Alguém não terá o direito de se espantar que o general continue a desfrutar de excelente saúde.

— Sim, sim, pequeno; é mais sábio do que o Rei Salomão. E o que farei com o frasco de veneno?

— Traga-mo.

— Imediatamente.

Ela foi buscá-lo e voltou cinco minutos depois.

— Ele ainda está a dormir. Coloquei o copo na mesa, fora do alcance dele. Ele terá de me chamar.

— Muito bem. Então feche a porta, feche-a; temos de conversar sobre as coisas.

— Mas se alguém subir pela escada dos criados?

— Fique descansada quanto a isso. Eles pensam que o general já está envenenado. É o primeiro momento de despreocupação que pude desfrutar nesta casa.

— Quando vai parar de me fazer tremer de horror, pequeno demónio! Guarda bem o seu segredo, devo dizer. O general está a dormir melhor do que se estivesse realmente envenenado. Mas o que faremos em relação a Natacha? Ouso perguntar-lhe isso — a si e só a si.

— Absolutamente nada.

— Como — nada?

— Vamos vigiá-la...

— Ah, sim, sim.

— Ainda assim, Matrena, deixe-me vigiá-la sozinho.

— Sim, sim, prometo-lhe. Não lhe prestarei qualquer atenção. Está prometido. Está prometido. Faça como quiser. Por que, ainda há pouco, quando lhe falei dos Niilistas, disse: "Se fosse apenas isso!"? Acredita, então, que ela não é uma Niilista? Ela lê essas coisas — coisas como as das barricadas...

— Madame, madame, a senhora não pensa em nada a não ser na Natacha. Prometeu-me não a vigiar; prometa-me não pensar nela.

— Por que, por que disse: "Se fosse apenas isso!"?

— Porque, se houvesse apenas Niilistas no seu caso, querida madame, seria demasiado simples, ou, melhor dizendo, teria sido mais simples. Pode acreditar, madame, que simplesmente um Niilista, um Niilista que fosse apenas um Niilista, se daria ao trabalho de que a sua bomba explodisse a partir de um vaso de flores? — que teria importado onde, desde que esmagasse o general? Imagina que a bomba teria tido menos efeito atrás da porta do que à frente dela? E a pequena cavidade debaixo do soalho, acredita que um verdadeiro revolucionário, tal como o que tem aqui na Rússia, se divertiria a penetrar na villa apenas para tirar dois pregos de uma tábua, quando um acontece dar-lhe tempo entre duas visitas à sala de jantar? Supõe que um revolucionário que quisesse vingar os mortos de Moscovo e que conseguisse chegar à porta atrás da qual o General Trebassof dormia se divertiria a fazer um buraquinho com um alfinete para puxar o ferrolho e se divertiria a verter veneno num copo? Ora, num caso desses, ele teria lançado a sua bomba diretamente, quer ela o fizesse voar pelos ares juntamente com a villa, ou ele fosse preso no local, ou tivesse de se submeter ao martírio das masmorras na Fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, ou fosse enforcado em Schlusselburg. Não é isso que acontece sempre? É assim que ele teria feito, e não teria agido como um rato de hotel! Ora, há alguém na sua casa (ou que vem à sua casa) que age como um rato de hotel porque não quer ser visto, porque não quer ser descoberto, porque não quer ser apanhado em flagrante. Ora, no momento em que ele não teme nada tanto como ser apanhado em flagrante, de modo que ele faz todos estes truques de prestidigitação, é certo que o seu objetivo reside para além do ato em si, para além da bomba, para além do veneno. Por que toda esta necessidade de bombas de explosão diferida, de mecanismos de relojoaria colocados onde serão confundidos com outras coisas, e não numa escada nua proibida a toda a gente, embora a visite vinte vezes por dia?

— Mas este homem entra como quer, de dia e de noite? Não responde. Conhece-o, talvez?

— Conheço-o, talvez, mas ainda não tenho a certeza de quem é.

— Não é curioso, pequeno domovoi doukh! Um amigo da casa, certamente, e que entra na casa como quer, à noite, porque alguém lhe abre a janela. E que vem da Villa Krestowsky! Boris ou Michael! Ah, pobre e miserável Matrena! Por que não matam a pobre Matrena? O seu general! O seu general! E eles são soldados — soldados que vêm à noite para matar o seu general. Ajudados por... por quem? Acredita nisso? O senhor? Luz dos meus olhos! Acredita nisso! Não, não, isso não é possível! Quero que compreenda, monsieur le domovoi, que não sou capaz de acreditar em nada tão horrível. Não, não, por Jesus Cristo que morreu na Cruz, e que sonda os nossos corações, não acredito que Boris — que, no entanto, tem ideias muito avançadas, admito — é necessário não esquecer isso; muito avançadas; e que compõe versos muito avançados também, como sempre lhe disse — não acreditarei que Boris seja capaz de um crime tão temível. Quanto a Michael, é um homem honesto, e a minha filha, a minha Natacha, é uma rapariga honesta. Tudo parece muito mau, verdadeiramente, mas não suspeito nem de Michael, nem de Boris, nem da minha pura e amada Natacha (mesmo que ela tenha feito uma tradução para francês de versos muito avançados, certamente muito impróprios para a filha de um general). É isso que está no fundo da minha mente, no fundo do meu coração — compreendeu-me perfeitamente, pequeno anjo do paraíso? Ah, é a si que o general deve a vida, que Matrena deve a vida. Sem si, esta casa já seria um caixão. Como o recompensarei alguma vez? Não quer nada! Eu aborreço-o! Nem sequer me ouve! Um caixão — estaríamos todos nos nossos caixões! Diga-me o que deseja. Tudo o que tenho pertence-lhe!

— Desejo fumar um cachimbo.

— Ah, um cachimbo! Quer um pouco de tabaco amarelo perfumado que recebo todos os meses de Constantinopla, uma iguaria diretamente do harém? Arrumarei o suficiente para si, se gostar, para fumar dez mil cachimbos cheios.

— Prefiro caporal — respondeu Rouletabille. — Mas tem razão. Não é sensato suspeitar de ninguém. Veja, observe, espere. Há sempre tempo, uma vez apanhada a caça, para dizer se é uma lebre ou um javali. Escute-me, então, minha boa mamã. Temos de saber primeiro o que está no frasco. Onde está ele?

— Aqui está.

Ela tirou-o da manga. Ele guardou-o no bolso.

— Deseje ao general um bom apetite, por mim. Vou sair. Estarei de volta em duas horas, no máximo. E, acima de tudo, não deixe o general saber de nada. Vou ver um dos meus amigos que vive no Aptiekarski pereolek. *

* A pequena rua dos boticários.

— Conte comigo, e volte depressa por amor a mim. O meu sangue coagula no meu coração quando não está aqui, querido servo de Deus.

Ela subiu para o quarto do general e desceu pelo menos dez vezes para ver se Rouletabille não tinha voltado. Duas horas depois, ele estava perto da villa, como tinha prometido. Ela não se conseguiu conter de correr ao encontro dele, pelo que foi repreendida.

— Acalme-se. Acalme-se. Sabe o que estava no frasco?

— Não.

— Arseniato de sódio, suficiente para matar dez pessoas.

— Santa Maria!

— Silêncio. Suba para o general.

Feodor Feodorovitch estava de ótimo humor. Foi a sua primeira boa noite desde a morte do jovem de Moscovo. Ele atribuiu-a ao facto de não ter tocado no narcótico e resolveu, mais uma vez, desistir do narcótico, uma resolução que Rouletabille e Matrena encorajaram. Durante a conversa, bateram à porta do quarto de Matrena. Ela correu para ver quem era e voltou com Natacha, que queria abraçar o seu pai. O seu rosto mostrava sinais de fadiga. Certamente não tinha passado uma noite tão boa quanto o seu pai, e o general repreendeu-a por parecer tão abatida.

— É verdade. Tive sonhos terríveis. Mas e o senhor, papá, dormiu bem? Tomou o seu narcótico?

— Não, não, não toquei numa gota da minha poção.

— Sim, vejo. Oh, bem, está tudo bem; isso é muito bom. O sono natural deve estar a voltar...

Matrena, como se estivesse hipnotizada por Rouletabille, tinha pegado no copo da mesa e levado ostensivamente para o vestiário para o deitar fora, e demorou-se ali para recuperar a sua compostura.

Natacha continuou:

— Verá, papá, que será capaz de viver tal como toda a gente finalmente. O mais importante foi afastar a polícia, a terrível polícia; não foi, Monsieur Rouletabille?

— Sempre disse, por mim, que sou inteiramente da opinião da Mademoiselle Natacha. Pode ficar inteiramente descansada agora, e eu deixá-la-ei sentindo-me descansado. Sim, tenho de pensar em acabar as minhas entrevistas rapidamente e partir. Ah, bem, só posso dizer o que penso. Geram as coisas vocês mesmos e não correrão qualquer perigo. Além disso, o general está muito melhor, e em breve espero ver-vos a todos em França. Devo agradecer-lhe agora pela sua amigável hospitalidade.

— Ah, mas o senhor não vai? Não vai! — Matrena já se tinha preparado para protestar com todo o veemente torrente de palavras do seu pobre coração desolado, quando um olhar do repórter cortou as suas expressões desesperadas.

— Terei de ficar mais uma semana na cidade. Aluguei um quarto no Hotel de France. É necessário. Tenho tantas pessoas para ver e para receber. Virei fazer-lhes uma pequena visita de tempos a tempos.

— Está então muito tranquilo — perguntou o general gravemente — em deixar-me todo sozinho?

— Inteiramente tranquilo. E, além disso, não o deixo todo sozinho. Deixo-o com a Madame Trebassof e a Mademoiselle. Repito: fiquem os três como vejo agora. Nada de mais polícia, ou, em todo o caso, o menos possível.

— Ele tem razão, ele tem razão — repetiu Natacha novamente.

Neste momento, houve novas batidas na porta do quarto de Matrena. Era Ermolai, que anunciou que a Sua Excelência o Marechal da Corte, Conde Keltzof, desejava ver o general, agindo em nome de Sua Majestade.

— Vá receber o Conde, Natacha, e diga-lhe que o seu pai estará em baixo num momento.

Natacha e Rouletabille desceram e encontraram o Conde na sala de estar. Ele era um espécime magnífico, bonito e grande como um dos guardas suíços do papa. Parecia atento em todas as direções e por entre toda a mobília, e estava evidentemente inquieto. Ele avançou imediatamente ao encontro da jovem, perguntando pelas novidades.

— São todas boas notícias — respondeu Natacha. — Toda a gente aqui está esplêndida. O general está muito alegre. Mas que notícias tem o senhor, monsieur le marechal? Parece preocupado.

O marechal tinha apertado a mão de Rouletabille.

— E as minhas uvas? — perguntou ele a Natacha.

— Como, as suas uvas? Que uvas?

— Se não lhes tocou, tanto melhor. Cheguei aqui muito ansioso. Trouxe-lhe ontem, de Krasnoie-Coelo, algumas das uvas do Imperador que Feodor Feodorovitch tanto apreciou. Ora, esta manhã soube que o filho mais velho de Doucet, o jardineiro-chefe francês das estufas imperiais em Krasnoie, tinha morrido por ter comido essas uvas, que ele tinha tirado das que foram colhidas para eu trazer aqui. Imagine o meu desânimo. Eu sabia, no entanto, que à mesa do general as uvas não seriam comidas sem terem sido lavadas, mas repreendi-me por não ter tomado a precaução de deixar dito que Doucet recomendasse que fossem lavadas minuciosamente. Ainda assim, não suponho que importasse. Não conseguia ver como o meu presente poderia ser perigoso, mas quando soube da morte do pequeno Doucet esta manhã, saltei para o primeiro comboio e vim diretamente para aqui.

— Mas, Sua Excelência — interrompeu Natacha —, não vimos as suas uvas.

— Ah, ainda não foram servidas? Tanto melhor. Graças a Deus!

— As uvas do Imperador estão doentes, então? — interrogou Rouletabille. — A praga da filoxera entrou nas estufas?

— Nada a pode parar, disse-me Doucet. Por isso ele não queria que eu partisse ontem à noite sem que ele tivesse lavado as uvas. Infelizmente, eu estava com pressa e levei-as como estavam, sem qualquer ideia de que a mistura que eles pulverizam nas uvas para as proteger era tão mortal. Parece que na região vinícola eles têm desses acidentes todos os anos. Eles chamam-lhe, penso eu, a... a mistura...

— A mistura bordalesa — ouviu-se na voz trémula de Rouletabille. — E sabe o que é, Sua Excelência, esta mistura bordalesa?

— Ora, não.

Neste momento, o general desceu as escadas, agarrando-se ao corrimão e apoiado por Matrena Petrovna.

— Bem — continuou Rouletabille, observando Natacha —, a mistura bordalesa que cobria as uvas que trouxe ao general ontem não era nada mais nem menos do que arseniato de sódio.

— Ah, Deus! — gritou Natacha.

Quanto a Matrena Petrovna, soltou uma exclamação baixa e largou o general, que quase caiu pela escadaria. Todos correram. O general riu-se. Matrena, sob o olhar rigoroso de Rouletabille, gaguejou que se tinha sentido subitamente desfalecida. Finalmente, estavam todos juntos na varanda. O general acomodou-se no seu sofá e perguntou:

— Bem, agora, estava a dizer algo, meu caro marechal, sobre umas uvas que me trouxe?

— Sim, de facto — disse Natacha, muito assustada —, e o que ele disse não é nada agradável. O filho de Doucet, o jardineiro da corte, acaba de ser envenenado pelas mesmas uvas que o monsieur le marechal, ao que parece, lhe trouxe.

— Onde foi isto? Uvas? Que uvas? Não vi uvas nenhumas! — exclamou Matrena. — Notei-o, ontem, marechal, lá fora no jardim, mas o senhor foi-se embora quase imediatamente, e fiquei certamente surpreendida por não ter entrado. Que história é esta?

— Bem, temos de esclarecer este assunto. É absolutamente necessário que saibamos o que aconteceu a essas uvas.

— Certamente — disse Rouletabille —, elas poderiam causar uma catástrofe.

— Se não aconteceu já — preocupou-se o marechal.

— Mas como? Onde estão elas? A quem as deu?

“Levei-as numa caixa de cartão branca, a primeira que me veio à mão no estabelecimento de Doucet. Vim aqui a primeira vez e não o encontrei. Voltei novamente com a caixa, e o general estava apenas a deitar-se. Eu estava pressionado pelo meu comboio e Michael Nikolaievitch e Boris Alexandrovitch estavam no jardim, por isso pedi-lhes que executassem a minha comissão, e pousei a caixa perto deles sobre a pequena mesa de jardim, dizendo-lhes para não se esquecerem de lhe dizer que era necessário lavar as uvas, como Doucet recomendou expressamente.”

“Mas é inacreditável! É terrível!” tremia Matrena. “Onde podem estar as uvas? Temos de saber.”

“Absolutamente”, aprovou Rouletabille.

“Temos de perguntar ao Boris e ao Michael”, disse Natacha. “Meu Deus! Certamente não as terão comido! Talvez estejam doentes.”

“Aqui estão eles”, disse o general. Todos se voltaram. Michael e Boris subiam os degraus. Rouletabille, que estava num canto sombrio sob a escadaria principal, não perdeu um único movimento muscular nos dois rostos que, para ele, eram dois problemas a resolver. Ambos os rostos estavam a sorrir; demasiado sorridentes, talvez.

“Michael! Boris! Venham aqui”, gritou Feodor Feodorovitch. “O que fizeram com as uvas do monsieur le marechal?”

Ambos olharam para ele perante este interrogatório brusco, pareceram não entender, e então, recordando-se subitamente, declararam de forma muito natural que as tinham deixado na mesa do jardim e que não tinham pensado nelas.

“Esqueceram-se da minha advertência, então?” disse o Conde Kaltzof severamente.

“Que advertência?” disse Boris. “Oh, sim, a lavagem das uvas. A advertência de Doucet.”

“Sabem o que aconteceu a Doucet com essas uvas? O seu filho mais velho morreu, envenenado. Entendem agora por que estamos ansiosos por saber o que aconteceu às minhas uvas?”

“Mas elas deveriam estar lá fora, na mesa”, disse Michael.

“Ninguém as consegue encontrar em lado nenhum”, declarou Matrena, que, não menos que Rouletabille, observava cada mudança na fisionomia dos dois oficiais. “Como é que aconteceu terem-se ido embora ontem à noite sem dizer adeus, sem nos verem, sem se preocuparem se o general poderia ou não precisar de vocês?”

“Madame”, disse Michael, friamente, de forma militar, como se respondesse ao seu próprio oficial superior, “temos uma desculpa ampla para oferecer a si e ao general. É necessário que façamos uma admissão, e o general perdoar-nos-á, tenho a certeza. O Boris e eu, durante o passeio, acabámos por discutir. Essa discussão estava no auge quando chegámos aqui e estávamos a debater a forma de a terminar mais prontamente quando o monsieur le marechal entrou no jardim. Devemos usar isso como desculpa por termos dado atenção dividida ao que ele tinha para dizer. Assim que ele se foi embora, só tivemos um pensamento: sair daqui para resolver a nossa diferença com armas nas mãos.”

“Sem falarem comigo sobre isso!” interrompeu Trehassof. “Nunca perdoarei tal coisa.”

“Vocês batem-se numa altura destas, quando o general está ameaçado! É como se se batessem entre vocês em frente ao inimigo. É traição!” acrescentou Matrena.

“Madame”, disse Boris, “não lutámos. Alguém apontou-nos o nosso erro, e eu ofereci as minhas desculpas a Michael Nikolaievitch, que as aceitou generosamente. Não é assim, Michael Nikolaievitch?”

“E quem foi esse que vos apontou o erro?” exigiu o marechal.

“Natacha.”

“Bravo, Natacha. Vem, abraça-me, minha filha.”

O general pressionou a filha efusivamente contra o seu peito largo.

“E espero que não voltem a ter disputas”, gritou ele, olhando por cima do ombro de Natacha.

“Prometemos-lhe isso, General”, declarou Boris. “As nossas vidas pertencem-lhe.”

“Fizeram bem, meus queridos. Façamos todos o mesmo. Passei uma noite excelente, messieurs. Sono a sério! Tive apenas um longo sono.”

“É verdade”, disse Matrena lentamente. “O general não precisou de narcótico. Dormiu como uma criança e não tocou na sua poção.”

“E a minha perna está quase boa.”

“Ainda assim, é singular que essas uvas tenham desaparecido”, insistiu o marechal, seguindo a sua ideia fixa.

“Ermolai”, chamou Matrena.

O velho criado apareceu.

“Ontem à noite, depois de estes senhores terem saído de casa, reparaste numa pequena caixa branca sobre a mesa do jardim?”

“Não, Barinia.”

“E os criados? Algum deles esteve doente? Os dvornicks? O schwitzar? Nas cozinhas? Ninguém doente? Não? Vai ver; depois volta e diz-me.”

Ele voltou, dizendo: “Ninguém doente.”

Tal como o marechal, Matrena Petrovna e Feodor Feodorovitch olharam um para o outro, repetindo em francês: “Ninguém doente! Isso é estranho!”

Rouletabille aproximou-se e deu a única explicação que era plausível — para os outros.

“Mas, General, isso não é estranho de todo. As uvas foram roubadas e comidas por algum doméstico, e se o criado não esteve doente é simplesmente porque as uvas que o monsieur le marechal trouxe escaparam à pulverização da mistura de Bordéus. Esse é todo o mistério.”

“O rapazinho deve ter razão”, gritou o marechal encantado.

“Ele tem sempre razão, este rapazinho”, sorriu Matrena, tão orgulhosa como se o tivesse trazido ao mundo.

Mas o “rapazinho”, aproveitando os cumprimentos à medida que Athanase Georgevitch e Ivan Petrovitch chegavam, deixou a villa, apertando no bolso a ampola que continha o necessário para fazer as uvas florescer ou para matar um general que está de excelente saúde. Quando tinha percorrido algumas centenas de passos em direção às pontes que se devem atravessar para ir para a cidade, foi alcançado por um dvornick ofegante, que lhe trouxe uma carta que acabara de chegar por correio. A caligrafia no envelope era-lhe totalmente desconhecida. Rasgou-a e leu, num excelente francês:

“Pedido ao M. Joseph Rouletabille para não se misturar em assuntos que não lhe dizem respeito. O segundo aviso será o último.” Estava assinado: “O Comité Central Revolucionário.”

“Ora, ora!” disse Rouletabille, deslizando o papel para o bolso, “é esse o rumo que as coisas tomam, é? Felizmente, já não tenho mais nada com que me ocupar. Agora é a vez de Koupriane! Vamos lá a casa de Koupriane!”

Nesta data, bloco de notas de Rouletabille: “Natacha para o pai: ‘Mas tu, papá, tiveste uma boa noite? Tomaste o teu narcótico?’

“Aterrorizante, e (para que não confunda o céu com o inferno) não tenho o direito de tomar mais notas.” *

* De facto, depois deste dia não se encontram mais notas no bloco de notas de Rouletabille. A última é a que se encontra acima, bizarra e romântica, e necessária, como Sainclair, o advogado de Paris e amigo de Rouletabille, indica ao lado dela nos papéis dos quais extraímos todos os detalhes desta história.

VIII. A PEQUENA CAPELA DOS GUARDAS

Rouletabille deu uma longa caminhada que o levou à Ponte Troitsky, depois, descendo a Naberjnaia, chegou ao Palácio de Inverno. Parecia ter afastado toda a preocupação, e teve um prazer de criança nos diferentes aspetos da vida que caracteriza a cidade do Grande Pedro. Parou diante do Palácio de Inverno, atravessou lentamente a praça onde o prodigioso monólito da Coluna de Alexandre se ergue do seu suporte de bronze, passeou entre o palácio e as colunatas, passou sob um imenso arco: tudo lhe parecia ciclópico, e nunca se sentira tão pequeno, tão insignificante. No entanto, estava feliz na sua insignificância, estava satisfeito consigo mesmo na presença destas coisas colossais; tudo o agradava nesta manhã. A velocidade dos isvos, o humor conflituoso dos osvotchicks, a elegância das mulheres, a bela presença dos oficiais e a sua naturalidade sob os uniformes, tão oposta à postura rígida dos militares de Berlim que ele notara nos “Tilleuls” e na Friederichstrasse entre dois comboios. Tudo o encantava — até o traje dos moujiks, blusas vivas, as camisas vermelhas sobre as calças, as pernas largas e as botas até aos joelhos, até os infelizes que, apesar da atmosfera suave, estavam embrulhados em casacos de pele de carneiro, tudo o impressionava favoravelmente, tudo lhe parecia original e agradável.

A ordem reinava na cidade. Os guardas eram educados, decorativos e soberbos no porte. Os transeuntes naquele bairro falavam alegremente entre si, muitas vezes em francês, e tinham maneiras tão civilizadas como em qualquer parte do mundo. Onde estava, então, o Urso do Norte? Ele nunca tinha visto ursos tão bem tratados. Seria esta a mesma cidade que ainda ontem estava em revolução? Este era certamente o Parque Alexandre, onde tropas, poucas semanas antes, tinham disparado sobre crianças que tinham procurado refúgio nas árvores, como pardais. Seria este o mesmo pavimento onde os cossacos tinham deixado tantos corpos? Finalmente viu diante de si a Nevsky Prospect, onde as balas caíam como granizo, não há muito tempo, sobre um povo vestido para festividades e muito alegre. Nichevo! Nichevo! Tudo isso foi tão cedo esquecido. Esqueceram o ontem como esquecem o amanhã. Os Niilistas? Poetas, que imaginavam que uma bomba poderia realizar algo naquela Babilónia do Norte mais importante do que o ruído da sua explosão! Olhem para estas pessoas que passam. Não pensam mais no antigo atentado do que naqueles que agora se preparam na sombra dos “tracktirs”. Homens felizes, cheios de serenidade neste bairro luminoso, que se movem nos seus negócios e nos seus prazeres no ar mais puro, o mais leve, o mais transparente da terra. Não, não; ninguém conhece a alegria de simplesmente respirar se não respirou o ar de lá, o melhor do norte do mundo, que dá comida e bebida de bela eau-de-vie branca e pivo amarela, e atinge o sangue e torna-nos uma besta vigorosa e alegre e fatalista, e troça dos Niilistas e, também, dos dez mil olhos da polícia que espreitam debaixo dos alpendres das casas, debaixo dos crânios dos dvornicks — todos polícia, os dvornicks; todos polícia, também, os alegres porteiros de mãos estendidas. Ah, ah, troça-se de tudo isso com tal ar, desde que se tenha rublos nos bolsos, muitos rublos, e que não se esteja embotado pela leitura daqueles livros extraordinários que pregam a felicidade de toda a humanidade aos estudantes e às pobres estudantes também. Ah, ah, semente dos Niilistas, tudo isso! Estes pobres rapazinhos e pobres rapariguinhas que têm as cabeças voltadas por palestras que não conseguem digerir! Esse é todo o problema, a digestão. A digestão é necessária. Os senhores caixeiros-viajantes de champanhe, que falam juntos com importância nos átrios do Grande Hotel Morskaia e que estudaram o povo russo até nas cidades mais distantes onde o champanhe é vendido, dir-vos-ão isso sobre qualquer mesa de hors-d’oeuvres, e regularão toda a questão da Revolução entre dois copinhos de vodka, engolidos devidamente, rapidamente, cotovelo para cima, de um só trago, à maneira russa. Simplesmente uma questão de digestão, dizem eles. Quem é o tolo que se atreveria a comparar um jovem cavalheiro que digeriu bem uma ou duas garrafas de champanhe, e outro jovem que digeriu mal as lucubrações de, quem diremos nós? — as lucubrações dos economistas? Os economistas? Os economistas! Tolos que competem para ver quem consegue fazer as declarações mais violentas! Aqueles que os leem e não os entendem explodem como uma bomba! À sua saúde! Nichevo! O mundo continua a girar, não é?

Discussão política, económica, revolucionária e outra na sala onde trincam hors-d’oeuvres! Ouvir-las-á todas ao passar pelo hotel para o seu quarto, jovem Rouletabille. Vá rapidamente agora para casa de Koupriane, se não quiser chegar lá à hora de almoço; então teria de adiar estes assuntos sérios para a noite.

O Departamento de Polícia. Entrada massiva, pesadamente guardada, um grande átrio, corredores com portas giratórias, muitos schwitzars obsequiosos à procura de gorjetas, muitas criaturas pobres sentadas contra as paredes em bancos sujos, secretárias e escriturários, botas brilhantes e dragonas de jovens oficiais alegres que contam histórias do Aquário com grande prazer.

“Monsieur Rouletabille! Ah, sim. Por favor, sente-se. Encantado, o M. Koupriane ficará muito feliz por o receber, mas precisamente neste momento ele está na inspeção. Sim, a inspeção dos dormitórios da polícia nos quartéis. Levá-lo-emos até lá. Ideia dele! Ele não descura nada, pois não? Um grande Chefe. Já viu o dormitório dos guardas policiais? Admirável! Os primeiros dormitórios do mundo. Dizemos isso sem querer ofender a França. Amamos a França. Uma grande nação! Levá-lo-ei imediatamente ao M. Koupriane. Ficarei encantado.”

“Eu também”, disse Rouletabille, que colocou um rublo na mão do honrado funcionário.

“Permita-me que o preceda.”

vénias e saudações. Por dois rublos, ele teria caminhado obsequiosamente à sua frente até ao fim do mundo.

“Estes funcionários são admiráveis”, pensou Rouletabille enquanto era conduzido aos quartéis. Sentia que não tinha pago demasiado pelos serviços de um personagem cujo uniforme estava completamente coberto de renda. Caminharam, subiram, desceram. Escadarias, corredores. Ah, o quartel, finalmente. Parecia ter entrado num convento. Camas muito brancas, muito estreitas, e imagens da Virgem e de santos por toda parte, limpeza monástica e o silêncio mais absoluto. Subitamente, uma ordem soou no corredor lá fora, e os guardas policiais, que surgiram de onde ninguém poderia dizer, puseram-se em sentido à cabeceira das suas camas. Koupriane e o seu ajudante apareceram. Koupriane olhava para tudo de perto, falava com cada homem por sua vez, chamava-os pelos nomes, perguntava pelas suas necessidades, e os homens balbuciavam respostas, sem saber o que responder, corando como crianças. Koupriane observou Rouletabille. Dispensou o seu ajudante com um gesto. A inspeção tinha terminado. Levou o jovem para uma pequena sala logo ao lado do dormitório. Rouletabille, assustado, olhou à sua volta. Viu-se numa capela. Esta pequena capela completava o efeito do dormitório dos guardas. Era toda dourada, decorada com cores maravilhosas, repleta de pequenos ícones que trazem felicidade e, naturalmente, com o retrato do Tsar, o querido Paizinho.

“Vê”, disse Koupriane, sorrindo perante o espanto de Rouletabille, “não lhes negamos nada. Damo-lhes os seus santos aqui mesmo nos seus aposentos.” Fechando a porta, puxou uma cadeira para Rouletabille e fez-lhe sinal para se sentar. Sentaram-se diante do pequeno altar carregado de flores, de papel colorido e santos alados.

“Podemos falar aqui sem sermos perturbados”, disse ele. “Ali fora há uma multidão de pessoas à minha espera. Estou pronto a ouvir.”

“Monsieur”, disse Rouletabille, “vim dar-lhe o relatório da minha missão aqui, e terminar a minha ligação a ela. Tudo o que resta para esclarecer este assunto obscuro é prender a pessoa culpada, com o que não tenho nada a ver. Isso diz-lhe respeito a si. Informo-o simplesmente de que alguém tentou envenenar o general ontem à noite, vertendo arseniato de sódio na sua poção de dormir, que lhe trago nesta ampola, arseniato que foi obtido muito provavelmente ao ser lavado de uvas trazidas ao General Trebassof pelo marechal da corte, e que desapareceu sem que ninguém conseguisse dizer como.”

“Ah, ah, um caso de família, uma conspiração dentro da família. Eu bem lhe disse”, murmurou Koupriane.

“O caso, pelo menos, aconteceu dentro da família, como pensa, embora o assassino tenha vindo de fora. Ao contrário do que poderá acreditar, ele não vive na casa.”

“Então como é que ele entra lá?” exigiu Koupriane.

“Pela janela do quarto que dá para o Neva. Ele tem vindo muitas vezes por esse caminho. E é por esse caminho que ele também regressa, tenho a certeza. É aí que o pode apanhar se agir com prudência.”

“Como sabe que ele vem muitas vezes por esse caminho?”

“Conhece a altura da janela acima da pequena estrada. Para lá chegar, ele usa uma caleira, cujos anéis de ferro estão dobrados, e também as marcas de um gancho que ele traz consigo e usa para se içar até à janela são claramente visíveis no trabalho de ferro da pequena varanda lá fora. As marcas são obviamente de datas diferentes.”

“Mas essa janela está fechada.”

“Alguém a abre para ele.”

“Quem, se faz favor?”

“Não tenho qualquer desejo de saber.”

“Eh, sim. É necessariamente a Natacha. Eu tinha a certeza de que a Villa des Iles tinha a sua víbora. Digo-lhe que ela não se atreve a deixar o seu ninho porque sabe que está vigiada. Nem um dos seus movimentos lá fora nos escapa! Ela sabe disso. Foi avisada. A última vez que se aventurou lá fora sozinha foi para ir aos bairros antigos de Derewnia. O que tem ela que fazer num bairro tão podre? Pergunto-lhe isso. E voltou atrás sem ver ninguém, sem bater a uma única porta, porque viu que estava a ser seguida. Ela não consegue vê-los lá fora, portanto tem de os ver lá dentro.”

“Eles são apenas um, e sempre o mesmo.”

“Tem a certeza?”

“Um exame das marcas na parede e no tubo não deixa qualquer dúvida sobre isso, e é sempre o mesmo gancho que é usado para a janela.”

“A víbora!”

“Monsieur Koupriane, a Mademoiselle Natacha parece preocupá-lo excessivamente. Não vim aqui para falar sobre a Mademoiselle Natacha. Vim apontar-lhe a rota usada pelo homem que vem para cometer o homicídio.”

“Eh, sim, é ela que abre o caminho.”

“Não posso negar isso.”

“O pequeno demónio! Porque a leva ela para o quarto dela à noite? Acha que talvez exista algum caso amoroso…?”

“Tenho a certeza do oposto.”

“Eu também. Natacha não é uma libertina. Natacha não tem coração. Ela só tem um cérebro. E não demora muito para um cérebro tocado pelo Niilismo chegar a um ponto em que não hesita perante nada.”

Koupriane refletiu um minuto, enquanto Rouletabille o observava em silêncio.

“Teremos de lidar apenas com o Niilismo?” retomou Koupriane. “Tudo o que me diz inclina-me cada vez mais para a minha ideia: um assunto de família, puramente na família. Sabe, não sabe, que com a morte do general a Natacha será imensamente rica?”

“Sim, sei disso”, respondeu Rouletabille, com uma voz que soou singular ao ouvido do Chefe da Polícia e que o fez levantar a cabeça.

“O que sabe?”

“Eu? Nada”, respondeu o repórter, desta vez num tom mais firme. “Devia, contudo, dizer-lhe isto: estou certo de que estamos a lidar com o Niilismo…”

“O que o faz acreditar nisso?”

“Isto.”

E Rouletabille entregou a Koupriane a mensagem que tinha recebido nessa mesma manhã.

“Oh, oh”, gritou Koupriane. “Está a ser vigiado! Cuidado.”

“Não tenho nada a temer; já não me preocupo com mais nada. Sim, temos um assunto de revolucionários, mas não do tipo habitual. A forma como eles estão a tratar disto não é como um dos seus jovens homens que o Comité Central arma com uma bomba e que é sacrificado de antemão.”

“Onde estão os rastos que traçou?”

“Diretamente até à pequena Villa Krestowsky.”

Koupriane saltou da cadeira.

“Ocupada pelo Boris. Parbleu! Agora temos tudo. Vejo tudo agora. O Boris, outro cérebro perturbado! E ele está noivo. Se ele desempenha o papel dos Revolucionários, o caso funcionaria muito bem para ele.”

“Essa villa”, disse Rouletabille calmamente, “também é ocupada por Michael Korosakoff.”

“Ele é o soldado mais leal, o mais fiável do Tsar.”

“Nunca se tem a certeza de nada, meu caro Monsieur Koupriane.”

“Oh, eu tenho a certeza de um homem como esse.”

“Nenhum homem tem a certeza de qualquer homem, meu caro Monsieur Koupriane.”

“Eu tenho, em todo o caso, para aqueles que emprego.”

“Está enganado.”

“O que diz?”

“Algo que lhe pode servir na empresa que vai empreender, porque confio que possa apanhar o assassino mesmo no seu ninho. Para o fazer, não lhe esconderei que penso que os seus agentes terão de ser enormemente inteligentes. Terão de vigiar a datcha des Iles à noite, sem que ninguém possa possivelmente suspeitar. Nada de casacos castanhos com falsos acabamentos de astracã, eh? Mas Apaches, Apaches no trilho de guerra, que se misturam com o solo, com as árvores, com as pedras na estrada. Mas entre esses Apaches, não envie aquele agente do seu Serviço Secreto que vigiou a janela enquanto o assassino subia para ela.”

“O quê?”

“Ora, estas escaladas, das quais pode ler as provas na parede e nas ferragens da varanda, ocorreram enquanto os seus agentes, dia e noite, vigiavam a vivenda. Reparou, monsieur, que era sempre o mesmo agente que assumia o posto à noite, atrás da vivenda, debaixo da janela? O livro do General Trebassof, no qual ele mantinha um registo da disposição exata de cada um dos seus homens durante o período de cerco, era bastante instrutivo nesse aspeto. Os outros postos mudavam por turnos, mas o mesmo agente, quando estava de guarda, exigia sempre aquele mesmo posto, o que não era disputado por ninguém, uma vez que não tem graça nenhuma passar as horas da noite atrás de um muro, num campo vazio. Os outros preferiam muito mais passar o tempo a vigiar na vivenda ou em frente à portaria, onde a vodka e o vinho da Crimeia, o kwass e o pivo, o kirsch e o tchi, nunca faltavam. O nome desse agente é Touman.”

“Touman! Impossível! Ele é um dos melhores agentes de Kiew. Foi recomendado por Gounsovski.”

Rouletabille soltou uma risadinha.

“Sim, sim, sim”, resmungou o Chefe da Polícia. “Alguém se ri sempre quando o nome dele é mencionado.”

Koupriane tinha ficado vermelho. Levantou-se, abriu a porta, deu uma longa instrução em russo e regressou à sua cadeira.

“Agora”, disse ele, “continue e conte-me todos os detalhes do veneno e das uvas que o marechal da corte trouxe. Estou a ouvir.”

Rouletabille contou-lhe muito brevemente e sem tirar quaisquer deduções tudo o que já sabemos. Terminou o relato no momento em que um homem vestido com um casaco castanho de falso astracã era introduzido. Era o mesmo homem que Rouletabille encontrara no salão do General Trebassof e que falava francês. Dois gendarmes estavam atrás dele. A porta tinha sido fechada. Koupriane virou-se para o homem do casaco.

“Touman”, disse ele, “quero falar consigo. É um traidor e tenho provas. Pode confessar-me, e eu dar-lhe-ei mil rublos e pode ir enforcar-se noutro sítio.”

Os olhos do homem contraíram-se, mas recuperou a compostura rapidamente. Respondeu em russo.

“Fale francês. Ordeno-o”, comandou Koupriane.

“Respondo, Vossa Excelência”, disse Touman com firmeza, “que não sei o que Vossa Excelência quer dizer.”

“Quero dizer que ajudou um homem a entrar na vivenda Trebassof à noite, quando estava de guarda debaixo da janela da pequena sala de estar. Vê que não vale a pena enganar-nos mais. Jogo consigo com franqueza: jogo limpo, dinheiro certo. O nome desse homem, e terá mil rublos.”

“Estou pronto a jurar sobre o ícone de...”

“Não se perjure.”

“Sempre servi lealmente...”

“O nome desse homem.”

“Ainda não sei o que Vossa Excelência quer dizer.”

“Oh, compreende-me bem”, respondeu Koupriane, que visivelmente continha uma raiva que ameaçava explodir a qualquer momento. “Um homem entrou na casa enquanto você vigiava...”

“Nunca vi nada. Afinal, é possível. Houve noites muito escuras. Eu andava de um lado para o outro.”

“Você não é parvo. O nome desse homem.”

“Garanto-lhe, Excelência...”

“Despi-o.”

“O que vai fazer?” gritou Rouletabille.

Mas os dois guardas já se tinham atirado a Touman e tinham-lhe tirado o casaco e a camisa. O homem estava nu da cintura para cima.

“O que vai fazer? O que vai fazer?”

“Deixe-os em paz”, disse Koupriane, empurrando rudemente Rouletabille para trás.

Agarrando um chicote que pendia da cintura dos guardas, desferiu em Touman um golpe nos ombros que fez sair sangue. Touman, louco com o ultraje e a dor, gritou: “Sim, é verdade! Orgulho-me disso!”

Koupriane não conteve a sua fúria. Cobriu o infeliz de pancada, tendo atirado Rouletabille para o fundo da sala quando este tentou intervir. E enquanto prosseguia com o castigo, o Chefe da Polícia atirava ao agente que o tinha traído um acompanhamento de ameaças terríveis, prometendo-lhe que, antes de ser enforcado, apodreceria na masmorra mais profunda de Pedro e Paulo, nos fossos lodosos sob o Neva. Touman, entre os dois guardas que o seguravam e que por vezes recebiam golpes por ricochete que não lhes eram destinados, nunca soltou uma queixa. Fora as invectivas de Koupriane, ouvia-se apenas o sibilar das cordas e os gritos de Rouletabille, que continuava a protestar que aquilo era abominável e chamava ao Chefe da Polícia um selvagem. Finalmente, o selvagem parou. Borrifos de sangue tinham salpicado tudo à volta.

“Monsieur”, disse Rouletabille, que se apoiava contra a parede. “Vou queixar-me ao Tsar.”

“Tem razão”, respondeu Koupriane, “mas sinto-me aliviado agora. Não imagina o mal que este homem nos pode ter feito nas semanas em que esteve aqui.”

Touman, sobre cujos ombros tinham atirado o seu casaco e que jazia agora sobre uma cadeira, encontrou forças para olhar para cima e dizer:

“É verdade. Não me pode fazer tanto mal como o que eu lhe fiz, quer acredite ou não. Todo o mal que pode ser-me feito por si e pelos seus já está consumado. O meu nome não é Touman, mas Matiev. Ouça. Tive um filho que era a luz dos meus olhos. Nem o meu filho nem eu tínhamos alguma vez nos preocupado com política. Eu estava empregado em Moscovo. O meu filho era estudante. Durante a Semana Vermelha, saímos, o meu filho e eu, para ver um pouco do que se passava no bairro de Presnia. Disseram que todos tinham sido mortos por lá! Passámos diante da porta de Presnia. Soldados gritaram-nos para parar porque queriam revistar-nos. Abrimos os nossos casacos. Os soldados viram o colete de estudante do meu filho e soltaram um grito. Desabotoaram o colete, tiraram um caderno do bolso dele e encontraram nele uma canção de operário que tinha sido publicada no Signal. Os soldados não sabiam ler. Acreditaram que o papel era uma proclamação e prenderam o meu filho. Exigi ser preso com ele. Empurraram-me. Corri para a casa do governador. Trebassof mandou expulsar-me da sua porta com coronhadas das espingardas dos seus cossacos. E, como persisti, mantiveram-me fechado toda aquela noite e na manhã do dia seguinte. Ao meio-dia fui libertado. Exigi o meu filho e responderam que não sabiam do que eu estava a falar. Mas um soldado que reconheci como tendo prendido o meu filho na véspera apontou para uma carrinha que passava, coberta com uma lona e rodeada por cossacos. ‘O seu filho está aí’, disse ele; ‘estão a levá-lo para as sepulturas’. Louco de desespero, corri atrás da carrinha. Foi para as imediações do cemitério de Golountrine. Ali vi, na neve branca, uma sepultura enorme, larga, profunda. Vê-la-ei até ao meu último minuto. Duas carrinhas tinham já parado perto do buraco. Cada carrinha continha treze cadáveres. As carrinhas foram despejadas na vala e os soldados começaram a arrumar os corpos em filas de seis. Procurei pelo meu filho. Finalmente reconheci-o num corpo que pendia metade sobre a borda da vala. Horrores de sofrimento estavam gravados na expressão do seu rosto. Atirei-me ao lado dele. Disse que era o seu pai. Deixaram-me abraçá-lo uma última vez e contar as suas feridas. Ele tinha catorze. Alguém tinha roubado a corrente de ouro que pendia do seu pescoço e continha o retrato da sua mãe, que morrera no ano anterior. Sussurrei-lhe ao ouvido, jurei vingá-lo. Quarenta e oito horas depois, tinha-me colocado à disposição do Comité Revolucionário. Não tinha passado uma semana antes de Touman, a quem, ao que parece, me assemelho e que era um dos agentes do Serviço Secreto em Kiew, ter sido assassinado no comboio que o levava para São Petersburgo. O assassinato foi mantido em segredo. Recebi todos os seus papéis e ocupei o seu lugar junto de si. Estava condenado de antemão e não pedia nada melhor, desde que pudesse durar até depois da execução de Trebassof. Ah, como desejei matá-lo com as minhas próprias mãos! Mas outro já tinha sido designado para a tarefa e o meu papel era ajudá-lo. E supõe que lhe vou dizer o nome desse outro? Nunca! E se descobrir esse outro, como me descobriu a mim, virá outro, e outro, e outro, até que Trebassof pague pelos seus crimes. É tudo o que tenho a dizer-lhe, Koupriane. Quanto a si, meu rapazinho”, acrescentou ele, virando-se para Rouletabille, “não daria muito pelos seus ossos. Nenhum de vocês durará muito tempo. Esse é o meu consolo.”

Koupriane não tinha interrompido o homem. Olhou para ele em silêncio, tristemente.

“Sabe, meu pobre homem, vai ser enforcado agora?”, disse ele.

“Não”, resmungou Rouletabille. “Monsieur Koupriane, aposto a minha bolsa que ele não será enforcado.”

“E porque não?”, exigiu o Chefe da Polícia, enquanto, a um sinal dele, levavam o falso Touman.

“Porque fui eu que o denunciei.”

“Que razão! E o que quer que eu faça?”

“Guarde-o para mim; apenas para mim, entende?”

“Em troca de quê?”

“Em troca da vida do General Trebassof, se devo pôr a questão dessa forma.”

“Eh? A vida do General Trebassof! Fala como se ela lhe pertencesse, como se pudesse dispor dela.”

Rouletabille pousou a mão no braço de Koupriane.

“Talvez seja assim”, disse ele.

“Quer que lhe diga uma coisa, Monsieur Rouletabille? É que a vida do General Trebassof, depois do que acaba de escapar dos lábios deste Touman, que não é Touman, não vale mais do que a sua se permanecer aqui. Uma vez que está disposto a não fazer mais nada neste caso, apanhe o comboio, monsieur, apanhe o comboio e vá-se embora.”

Rouletabille caminhou de um lado para o outro, muito agitado; depois, de repente, parou bruscamente.

“Impossível”, disse ele. “É impossível. Não posso; ainda não sou capaz de ir.”

“Porquê?”

“Meu Deus, Monsieur Koupriane, porque ainda tenho de entrevistar o Presidente da Duma e completar o meu pequeno inquérito sobre a política dos cadetes.”

“Ah, a sério!”

Koupriane olhou para ele com um sorriso azedo.

“O que vai fazer com aquele homem?”, exigiu Rouletabille.

“Mandá-lo tratar primeiro.”

“E depois?”

“Depois levá-lo perante os juízes.”

“Isto é, para a forca?”

“Certamente.”

“Monsieur Koupriane, ofereço-lho de novo. Vida por vida. Dê-me a vida daquele pobre diabo e prometo-lhe a do General Trebassof.”

“Explique-se.”

“De modo algum. Promete-me que manterá silêncio sobre o caso daquele homem e que não lhe tocará num fio de cabelo?”

Koupriane olhou para Rouletabille como tinha olhado para ele durante a altercação que tiveram na orla do Golfo. Decidiu da mesma forma desta vez.

“Muito bem”, disse ele. “Tem a minha palavra. O pobre diabo!”

“É um homem corajoso, Monsieur Koupriane, mas um pouco rápido com o chicote...”

“O que esperava? O trabalho de um homem ensina isso.”

“Bom dia. Não, não se dê ao trabalho de me acompanhar. Já estou suficientemente comprometido”, disse Rouletabille, rindo.

“Au revoir e boa sorte! Vá trabalhar entrevistando o Presidente da Duma”, acrescentou Koupriane, conhecedor, com uma grande gargalhada.

Mas Rouletabille já tinha ido embora.

“Aquele miúdo”, disse o Chefe da Polícia em voz alta para si mesmo, “não me disse nada do que sabe.”

IX. ANNOUCHKA

“E agora é entre nós dois, Natacha”, murmurou Rouletabille assim que esteve lá fora. Chamou a primeira carruagem que passou e deu o endereço da datcha des Iles. Quando entrou, segurou a cabeça entre as mãos; o rosto ardia-lhe, os maxilares estavam tensos. Mas, por um esforço prodigioso da sua vontade, retomou quase instantaneamente a sua calma, o seu autocontrolo. Enquanto regressava através do Neva, através da ponte onde se sentira tão eufórico pouco antes, e via novamente as ilhas, suspirou profundamente. “Pensei que tinha acabado com tudo, no que me dizia respeito, e agora não sei onde isto vai parar.” Os seus olhos escureceram por um momento com pensamentos sombrios e a visão da Dama de Preto surgiu diante dele; depois abanou a cabeça, encheu o cachimbo, acendeu-o, secou uma lágrima que fora causada sem dúvida por um pouco de fumo no olho, e deixou de sentimentalismos. Um quarto de hora depois, deu uma palmada de verdadeiro fidalgo russo nas costas do cocheiro como indicação de que tinham chegado à vivenda Trebassof. Um quadro encantador estava diante dele. Estavam todos a almoçar alegremente no jardim, à volta da mesa no coreto. Ficou surpreendido, contudo, por não ver Natacha com eles. Boris Mourazoff e Michael Korsakoff estavam lá. Rouletabille não queria ser visto. Fez um sinal a Ermolai, que passava pelo jardim e que se apressou a encontrá-lo no portão.

“A Barinia”, disse o repórter, em voz baixa e com o dedo nos lábios para avisar o fiel criado a ter cautela.

Em dois minutos Matrena Petrovna juntou-se a Rouletabille na portaria.

“Bem, onde está Natacha?”, exigiu ele apressadamente enquanto ela lhe beijava as mãos como se tivesse feito dele um ídolo.

“Ela foi-se embora. Sim, saiu. Oh, eu não a retive. Não tentei impedi-la. A expressão dela assustou-me, pode compreender, meu anjinho. Meu Deus, está impaciente! Sobre o que é? Como estamos? O que decidiu? Sou sua escrava. Ordene-me. Ordene-me. As chaves da vivenda?”

“Sim, dê-me uma chave da varanda; deve ter várias. Tenho de conseguir entrar em casa esta noite se for necessário.”

Ela tirou uma chave do vestido, deu-a ao jovem e disse algumas palavras em russo a Ermolai, para reforçar que ele devia obedecer ao pequeno domovoi-doukh em tudo, dia ou noite.

“Agora diga-me para onde foi Natacha.”

“Os pais de Boris vieram ver-nos há pouco tempo, para perguntar pelo general. Levaram Natacha com eles, como muitas vezes têm feito. Natacha foi com eles de muito boa vontade. Pequeno domovoi, escute-me, escute Matrena Petrovna — qualquer um diria que ela estava à espera disso!”

“Então ela foi almoçar a casa deles?”

“Sem dúvida, a menos que tenham ido a um café. Não sei. O pai de Boris gosta de ter a família a almoçar no Barque quando está bom tempo. Acalme-se, pequeno domovoi. O que lhe aflige? Más notícias, eh? Alguma má notícia?”

“Não, não; está tudo bem. Depressa, o endereço da família de Boris.”

“A casa na esquina da Place St. Isaac e da rue de la Poste.”

“Bom. Obrigado. Adieu.”

Partiu para a Place St. Isaac e apanhou um intérprete no Grand Morskaia Hotel pelo caminho. Podia ser útil tê-lo. Na Place St. Isaac, soube que os Mourazoffs e Natacha Trebassof tinham ido de comboio almoçar a Bergalowe, uma das estações próximas na Finlândia.

“Isso é tudo”, disse ele, e acrescentou para si próprio: “E talvez isso não seja verdade.”

Pagou ao cocheiro e ao intérprete, e almoçou na Brasserie de Vienne, ali perto. Saiu de lá meia hora depois, muito mais calmo. Dirigiu-se ao Grand Morskaia Hotel, entrou e perguntou ao schwitzar:

“Pode dar-me o endereço da Mademoiselle Annouchka?”

“A cantora do Krestowsky?”

“É a essa que me refiro.”

“Ela almoçou aqui. Acabou de sair com o príncipe.”

Sem qualquer curiosidade sobre qual príncipe, Rouletabille praguejou a sua sorte e pediu novamente o endereço dela.

“Ora, ela vive num apartamento mesmo ali em frente.”

Rouletabille, sentindo-se melhor, atravessou a rua, seguido pelo intérprete que tinha contratado. Do outro lado, soube no patamar do primeiro andar que Mademoiselle Annouchka estava fora durante o dia. Desceu, ainda seguido pelo seu intérprete, e recordando-se de como alguém lhe dissera que na Rússia era sempre rentável ser generoso, deu cinco rublos ao intérprete e pediu-lhe algumas informações sobre a vida de Mademoiselle Annouchka em São Petersburgo. O intérprete sussurrou:

“Ela chegou há uma semana, mas não passou uma única noite no seu apartamento ali em frente.”

Apontou para a casa que tinham acabado de deixar e acrescentou:

“Apenas o endereço dela para a polícia.”

“Sim, sim”, disse Rouletabille, “compreendo. Ela canta esta noite, não canta?”

“Monsieur, será uma estreia maravilhosa.”

“Sim, sim, eu sei. Obrigado.”

Todas estas frustrações nas coisas que tinha empreendido naquele dia, em vez de o desencorajarem, mergulharam-no num pensamento profundo. Regressou, com as mãos nos bolsos, assobiando baixinho, à Place St. Isaac, caminhou à volta da igreja, mantendo um olho na casa da esquina, investigou o monumento, entrou, examinou todos os seus detalhes, saiu maravilhado e, finalmente, foi mais uma vez à residência dos Mourazoffs, foi informado de que ainda não tinham regressado da cidade da Finlândia, depois foi e fechou-se no seu quarto no hotel, onde fumou uma dúzia de cachimbos de tabaco. Saiu da sua nuvem de fumo à hora do jantar.

Às dez daquela noite, saiu da sua carruagem diante do Krestowsky. O estabelecimento de Krestowsky, que se ergue entre as ilhas tal como o Aquarium faz, não é um teatro, nem um music-hall, nem um café-concerto, nem um restaurante, nem um jardim público; é tudo isto e algumas outras coisas mais. Teatro de verão, teatro de inverno, teatro ao ar livre, sala de espetáculos, montanha cénica, terreno de exercício, diversões de toda a espécie, passeios nos jardins, cafés, restaurantes, salas de jantar privadas, tudo está combinado aqui o que pode divertir, encantar, conduzir às orgias mais selvagens, ou proporcionar àqueles que nunca pensam em dormir até perto das três ou quatro da manhã os meios para aguardar o amanhecer com paciência. As companhias mais celebradas do velho e do novo mundo atuam ali no meio de um entusiasmo que é constantemente mantido pela previsão dos gerentes: bailarinas russas e estrangeiras, e sobretudo as cantoras francesas, as bonecas dos cafés-concertos, desde que sejam jovens, brilhantes e elegantemente vestidas, podem encontrar ali a sua fortuna. Se não houver tal sorte, têm a certeza pelo menos de encontrar todas as noites algum velho beau, e muitas vezes algum oficial, que paga de bom grado vinte e cinco rublos pelo prazer exclusivo de ter uma demoiselle nascida nas margens do Sena como sua companheira à mesa do jantar. Após a sua vez de cantar, estas mulheres exibem os seus encantos e os seus sorrisos ávidos nos passeios do jardim ou entre as mesas onde se sentam os bebedores de champanhe. As estrelas principais, naturalmente, não são conduzidas a esta perambulação cansativa, mas podem ir embora para o seu descanso se assim o desejarem. Contudo, a gerência aprecia se elas aceitarem o convite de algum dignitário do exército, da administração ou das finanças, que procura a honra de ouvir da cantora, numa sala privada e com uma companhia de amigos não dispostos à melancolia, as canções boémias do Vieux Derevnia. Elas cantam, reclinam-se, falam de Paris e, sobretudo, bebem. Se por vezes a pequena festa termina de forma um pouco brusca, é o champanhe amigável e afetuoso que é o culpado, mas habitualmente as orgias permanecem bastante inocentes, de um caráter que certamente poderia incomodar as sociedades de temperança, mas não precisaria de fazer M. le Sénateur Berenger sentir-se envolvido.

Uma guerra cujos vapores de pólvora ainda tresandavam, uma revolução cujos últimos rosnados derrotados não tinham morrido por completo à época destes acontecimentos, não tinham, de modo algum, diminuído as alegrias noturnas de Kretowsky. Muitos dos jovens que exibiam os seus uniformes naquela noite e gritavam o seu “Nichevo” ao longo das alamedas brilhantemente iluminadas dos jardins públicos, ou enchiam as mesas ao ar livre, ou bebiam vodka nos buffets, ou admiravam as figuras das soubrettes errantes, tinham chegado ali na véspera da sua partida para a guerra e tinham regressado com o mesmo sorriso infantil e encantado, o mesmo ideal de alegria fútil, e beijavam os seus camaradas de passagem tão alegremente como sempre. Alguns deles tinham agora uma manga a balançar, vazia, ou caminhavam com uma muleta, ou até mesmo com uma perna de pau, mas era, apesar de tudo, “Nichevo!”

A multidão, naquela noite, estava mais densa do que o habitual, porque havia a oportunidade de ouvir Annouchka novamente pela primeira vez desde os dias sombrios de Moscovo. Os estudantes estavam prontos para lhe dar uma ovação, e ninguém se opunha, porque, afinal de contas, se ela cantava agora era porque a polícia finalmente o permitia. Se o governo do Czar lhe tinha concedido a vida, não era para a obrigar a morrer de fome. Cada um ganhava a vida como podia. Annouchka só sabia cantar e dançar, e, portanto, tinha de cantar e dançar!

Quando Rouletabille entrou nos Jardins Krestowsky, Annouchka tinha começado o seu número, que terminava com uma tremenda “Roussalka”. Rodeada por um coro de bailarinos e bailarinas em trajes nacionais e com botas vermelhas, batendo pandeiretas com os dedos, para depois, subitamente, adotar uma pose rígida e deixar que a voz da jovem, que era de um registo bastante comum, se soltasse, Annouchka tinha centrado a atenção da imensa audiência sobre si mesma. Todas as outras partes do estabelecimento estavam desertas, as mesas tinham sido removidas e uma multidão ofegante pressionava-se em torno do teatro ao ar livre. Rouletabille pôs-se de pé sobre a sua cadeira no momento em que tumultuosos “Bravos” soavam de um grupo de estudantes. Annouchka fez uma vénia na direção deles, parecendo ignorar o resto do público, que ainda não se tinha atrevido a manifestar-se. Ela cantou as velhas canções camponesas adaptadas ao gosto atual e intercalou-as com danças. Tiveram um sucesso enorme, porque ela entregava-lhes toda a sua alma e cantava com a sua voz ora acariciante, ora ameaçadora, e ora magnificamente desesperada, conferindo muito significado a palavras que, no papel, não tinham despertado as suspeitas do censor. O gosto da época era, obviamente, ainda um gosto pela revolução, que mantinha a sua influência nas margens do Neva. O que ela fazia era, certamente, muito ousado, e aparentemente ela percebia quão audaciosa era, porque, com grande destreza, trazia imediatamente após alguma frase perigosa um dístico patriótico que todos estavam ansiosos por aplaudir. Ela conseguiu, por tais meios, apelar a todos os grupos divergentes do seu público e garantiu para si um triunfo completo. Os estudantes, os revolucionários, os radicais e os cadetes aclamaram a cantora, glorificando não apenas a sua arte, mas também, e acima de tudo, a irmã do engenheiro Volkousky, que tinha sido condenado a perecer com a sua irmã pelas balas do regimento Semenovsky. Os amigos da Corte, por seu lado, não podiam esquecer que tinha sido ela quem, em frente ao Kremlin, tinha afastado o braço de Constantin Kochkarof, ordenado pelo Comité Revolucionário Central a assassinar o Grão-Duque Pedro Alexandrovitch enquanto este seguia para a casa do governador no seu trenó. A bomba explodiu a três metros de distância, matando o próprio Constantin Kochkarof. Pode ser que, antes da morte chegar, ele tivesse tido tempo de ouvir Annouchka gritar-lhe: “Miserável! Disseste-te para matar o príncipe, não para assassinar os seus filhos.” Como aconteceu, Pedro Alexandrovitch trazia nos joelhos as duas pequenas princesas, de sete e oito anos. A Corte tinha desejado recompensá-la por esse ato heroico. Annouchka tinha cuspido no enviado do Chefe de Polícia que a procurou para lhe falar de dinheiro. No Hermitage em Moscovo, onde ela cantava então, alguns dos seus admiradores tinham-na alertado para possíveis represálias por parte dos revolucionários. Mas os revolucionários deram-lhe garantias imediatas de que ela não tinha nada a temer. Eles aprovaram o seu ato e fizeram-lhe saber que agora contavam com ela para matar o Grão-Duque numa ocasião em que estivesse sozinho; o que tinha feito Annouchka rir. Ela era uma enfant terrible, cujos amigos ninguém conhecia, que passava por muito sensata e cujas linhas de intriga eram inescrutáveis. Ela divertia-se a fazer os seus anfitriões nas salas de jantar privadas tremerem durante a refeição. Um dia, ela tinha dito bruscamente a um dos mais poderosos tchinovnicks de Moscovo: “Tu, meu velho amigo, és presidente da Centúria Negra. O teu destino está traçado. Ontem foste condenado à morte pelos delegados do Comité Central em Presnia. Reza as tuas preces.” O homem estendeu a mão para o champanhe. Nunca terminou o copo. Os dvornicks carregaram-no para fora, atingido por apoplexia. Desde o tempo em que ela salvou as pequenas grã-duquesas, a polícia tinha ordens para a deixar agir e falar como bem entendesse. Ela tinha estado envolvida nas mais profundas conspirações contra o governo. Aqueles que davam o mais leve apoio a tais conspirações e não eram da polícia simplesmente desapareciam. Os seus amigos nem sequer se atreviam a pedir notícias deles. A única coisa que não estava em dúvida sobre eles era que estavam em trabalhos forçados em algum lugar nas minas dos Montes Urais. No momento da revolução, Annouchka tinha um irmão que era engenheiro na linha Kasan-Moscovo. Este Volkousky era um dos líderes do Comité de Greve. As autoridades tinham-no debaixo de olho. A revolução começou. Ele, com a ajuda da sua irmã, realizou um daqueles atos formidáveis que levarão a sua memória como heróis à mais longínqua posteridade. O seu trabalho cumprido, foram capturados pelos soldados de Trebassof. Ambos foram condenados à morte. Volkousky foi executado primeiro, e a irmã estava a chegar a sua vez quando um oficial do governo chegou a cavalo para parar o fuzilamento. O Czar, informado do seu destino pretendido, tinha enviado um perdão por telégrafo. Depois disso, ela desapareceu. Supunha-se que tivesse ido numa digressão pela Europa, como era o seu hábito, pois falava todas as línguas, como uma verdadeira boémia. Agora, ela reaparecera em toda a sua gloriosa alegria em Krestowsky. Era certo, contudo, que não tinha esquecido o seu irmão. As mexeriqueiras diziam que, se o governo e a polícia se mostravam tão pacientes, era porque encontravam nisso o seu interesse. A vida aberta e aparente que Annouchka levava era menos problemática para eles do que as suas atividades ocultas seriam. A polícia menor que rodeava o Chefe do Serviço Secreto de São Petersburgo, o famoso Gounsovski, tinha sorrisos significativos quando o assunto era discutido. Entre eles, Annouchka tinha a ignóbil alcunha de “bufa”.

Rouletabille devia estar bem ciente de todos estes pormenores acerca de Annouchka, pois não demonstrou qualquer espanto com o grande interesse e a forte emoção que ela despertava. Do canto onde estava, apenas conseguia ver um pouco do palco, e estava na ponta dos pés para ver a cantora quando sentiu o seu casaco puxado. Virou-se. Era o alegre advogado, bem conhecido pelos seus feitos gastronómicos, Athanase Georgevitch, juntamente com o alegre conselheiro imperial, Ivan Petrovitch, que lhe fez sinal para descer.

“Venha connosco; temos um camarote.”

Rouletabille não precisou de ser instado e logo estava instalado na frente de um camarote de onde podia ver o palco e o público. Nesse momento, o pano caiu sobre a primeira parte da atuação de Annouchka. Os amigos foram em breve reunidos por Thaddeus Tchitchnikoff, o grande madeireiro, que vinha dos bastidores.

“Estive a ver a bela Onoto”, anunciou o lituano com uma grande gargalhada de satisfação. “Digam-me as novidades. Todas as raparigas estão amuadas com o sucesso da Annouchka.”

“Quem é que o arrastou para o camarim da Onoto, então?” perguntou Athanase.

“Oh, o próprio Gounsovski, meu caro. Ele é muito amador, sabe.”

“O quê! Anda metido com o Gounsovski?”

“Pela minha palavra, digo-vos, caros amigos, ele não é uma má companhia. Prestou-me um pequeno serviço em Baku no ano passado. Uma boa companhia nestes tempos de problemas públicos.”

“Está no negócio do petróleo agora, está?”

“Oh, sim, um pouco de tudo para ganhar a vida. Tenho um pequeno poço pelos lados de Baku, nada de grande; e uma casinha, uma muito pequena para o meu pequeno negócio.”

“Que monopolista é o Thaddeus”, declarou Athanase Georgevitch, dando-lhe uma bofetada formidável na coxa com a sua enorme mão. “O Gounsovski veio ele próprio vigiar a estreia da Annouchka, eh? Só que ele vai ao camarim da Onoto, o maroto.”

“Oh, ele não se preocupa. Sabem com quem ele vai jantar? Com a Annouchka, meus caros, e nós fomos convidados.”

“Como assim?” inquiriu o jovial conselheiro.

“Parece que o Gounsovski influenciou o ministro a permitir a atuação da Annouchka, declarando que seria responsável por tudo. Ele exigiu da Annouchka apenas que jantasse com ele na noite da sua estreia.”

“E a Annouchka consentiu?”

“Essa foi a condição, ao que parece. De resto, dizem que a Annouchka e o Gounsovski não se dão nada mal. O Gounsovski fez à Annouchka muitos bons favores. Dizem que ele está apaixonado por ela.”

“Ele tem o ar de um vendedor de guarda-chuvas”, bufou Athanase Georgevitch.

“Já o viu de perto?” inquiriu Ivan.

“Já jantei em casa dele, embora não seja nada de que me orgulhar, pela minha palavra.”

“Foi o que ele disse”, replicou Thaddeus. “Quando ele soube que estávamos aqui juntos, disse-me: ‘Traga-o, ele é um tipo encantador que maneja bem o garfo; e traga esse caro Ivan Petrovitch, e todos os seus amigos.’”

“Oh, eu só jantei em casa dele”, resmungou Athanase, “porque havia um favor que ele me ia fazer.”

“Ele faz serviços a toda a gente, esse homem”, observou Ivan Petrovitch.

“Claro, claro; ele deve fazê-lo”, retorquiu Athanase. “Para que serve um chefe de Serviço Secreto senão para fazer coisas por toda a gente? Por toda a gente, meus caros amigos, e um pouco para si próprio, além disso. Um chefe de Serviço Secreto tem de estar bem com toda a gente, com toda a gente e o seu pai, como diz La Fontaine (se conhece esse autor), se quer manter o seu lugar. Sabe o que quero dizer.”

Athanase riu alto, contente com a oportunidade de mostrar quão francês conseguia ser nas suas alusões, e olhou para Rouletabille para ver se ele tinha conseguido captar o tom da conversa; mas Rouletabille estava demasiado ocupado a observar um perfil envolto numa mantilha de renda preta, à moda espanhola, para retribuir o desempenho de Athanase com um sorriso cúmplice.

“Você tem, certamente, noções ingénuas. Pensa que um chefe de Polícia Secreta deve ser um ogre”, respondeu o advogado enquanto acenava aqui e ali aos seus amigos.

“Ora, certamente que não. Ele precisa de ser uma ovelha num lugar como aquele, uma ovelha completa. Gounsovski é macio como uma ovelha. Na vez em que jantei com ele, tinha carneiro com gordura. Ele é exatamente assim. Tenho a certeza de que ele é constituído principalmente por camadas de gordura. Quando se aperta a mão, sente-se como se tivéssemos agarrado um pedaço de banha. Palavra de honra! E quando ele come, mexe o maxilar gordurentamente. A cabeça dele é assim também; calva, sabe, com um crânio como banha fresca. Fala suavemente e olha para si como uma criança à espera de uma refeição suculenta dada pela mãe.”

“Mas--porquê--é a Natacha!” murmuraram os lábios do jovem.

“Certamente que é a Natacha, a própria Natacha”, exclamou Ivan Petrovitch, que tinha usado os seus óculos para melhor ver para quem o jovem jornalista francês estava a olhar. “Ah, a querida criança! Ela queria ver a Annouchka há muito tempo.”

“O quê, Natacha! Pois é. Pois é. Natacha! Natacha!” disseram os outros. “E com os pais de Boris Mourazoff.”

“Mas o Boris não está lá”, riu-se Thaddeus Tchitchnikoff.

“Oh, não deve estar longe. Se ele estivesse lá, veríamos também o Michael Korsakoff. Eles andam sempre colados um ao outro.”

“Como é que ela conseguiu deixar o general? Ela dizia que não suportava estar longe dele.”

“Exceto para ver a Annouchka”, respondeu Ivan. “Ela queria vê-la, e falou tanto sobre isso quando eu lá estive que até Feodor Feodorovitch ficou um pouco escandalizado com ela e Matrena Petrovna repreendeu-a de forma bastante rude. Mas o que uma rapariga deseja, os deuses trazem. É assim mesmo.”

“É verdade, eu sei”, acrescentou Athanase. “O Ivan Petrovitch tem razão. A Natacha não se tem conseguido conter desde que leu que a Annouchka ia fazer a sua estreia em Krestowsky. Ela disse que não ia morrer sem ter visto a grande artista.”

“O seu pai tinha quase conseguido afastá-la daquele meio”, afirmou Ivan, “e era como deveria ser. Ela deve ter arranjado este caso com o Boris e os seus pais.”

“Sim, o Feodor certamente não está ciente de que a ideia da sua filha era aplaudir a heroína da estação de Kasan. Ela é certamente feita de fibra dura, pela minha palavra”, disse Athanase.

“Natacha, deve lembrar-se, é estudante”, disse Thaddeus, abanando a cabeça; “uma verdadeira estudante. Elas têm infortúnios como esse agora em tantas famílias. Lembro-me, a propósito do que o Ivan disse agora mesmo, de como hoje ela pediu ao Michael Korsakoff, à minha frente, para a deixar saber onde a Annouchka cantaria. Mais ainda, ela disse que desejava falar com aquela artista, se fosse possível. O Michael franziu o sobrolho a essa ideia, mesmo à minha frente. Mas o Michael não lhe podia recusar, mais do que aos outros. Ele consegue chegar à Annouchka mais facilmente do que qualquer outra pessoa. Lembre-se de que foi ele quem cavalgou arduamente e chegou a tempo com o perdão para aquela bela bruxa; ela não deve esquecer-se dele, se prezava a sua vida.”

“Quem conhece o Michael Nikolaievitch sabe que ele cumpriu o seu dever prontamente”, anunciou Athanase Georgevitch secamente. “Mas ele não teria dado um passo adiante para salvar a Annouchka. Mesmo agora, ele não comprometerá a sua carreira sendo visto em casa de uma mulher que nunca está longe dos olhos dos agentes de Gounsovski e que não tem a alcunha de ‘bufa’ por nada.”

“Então, por que vamos jantar esta noite com a Annouchka?” perguntou Ivan.

“Isso não é a mesma coisa. Fomos convidados pelo próprio Gounsovski. Não se esqueçam disso, se histórias a esse respeito circularem um dia, meus amigos”, disse Thaddeus.

“De resto, Thaddeus, aceito o convite do honroso chefe do nosso admirável Serviço Secreto porque não desejo desfeiteá-lo. Já jantei em casa dele. Ao sentar-me defronte dele numa mesa pública aqui, sinto que retribuo essa cortesia. O que dizem a isso?”

“Já que jantou com ele, diga-nos que espécie de homem ele é, para além das suas qualidades gordurentas”, disse o curioso conselheiro. “Dizem-se tantas coisas sobre ele. Ele parece ser, certamente, um homem com quem é melhor estar bem do que estar mal, por isso aceito o seu convite. Como poderia recusá-lo, de qualquer modo?”

“Quando ele me ofereceu hospitalidade pela primeira vez”, explicou o advogado, “eu nem o conhecia. Nunca tinha estado perto dele. Um dia, um agente da polícia veio e convidou-me para jantar por ordem — ou, pelo menos, entendi que não era prudente recusar o convite, como disse, Ivan Petrovitch. Quando fui a casa dele, pensei que estava a entrar numa fortaleza, e lá dentro pensei que devia ser uma loja de guarda-chuvas. Havia guarda-chuvas por todo o lado, e galochas. É verdade, era um dia de chuva torrencial. Fiquei impressionado por não haver guarda com um revólver grande na antecâmara. Ele tinha lá um pequeno e tímido schwitzar, que levou o meu guarda-chuva, murmurando ‘barine’ e curvando-se vezes sem conta. Ele conduziu-me através de salas muito comuns, sem qualquer guarda, até uma sala de estar média de um tipo vulgar. Jantámos com a Madame Gounsovski, que parecia gordurenta como o seu marido, e três ou quatro homens que eu nunca tinha visto em parte alguma. Um criado serviu-nos. Palavra de honra!

“À sobremesa, Gounsovski levou-me à parte e disse-me que eu não era prudente em ‘argumentar daquela maneira’. Perguntei-lhe o que queria dizer com isso. Ele pegou nas minhas mãos entre as suas mãos gordas e repetiu: ‘Não, não, não é prudente argumentar assim.’ Não consegui tirar mais nada dele. De resto, entendi-o e, sabe, desde aquele dia cortei certas passagens laterais desnecessárias nas minhas alegações jurídicas gerais que me tinham dado uma reputação de opiniões demasiado livres nos jornais. Nada disso na minha idade! Ah, o grande Gounsovski! Durante o café, perguntei-lhe se não achava que o país atravessava tempos bastante tensos. Ele respondeu que aguardava com impaciência pelo mês de maio, quando poderia ir descansar para uma pequena propriedade com um jardim pequeno que tinha comprado em Asnieres, perto de Paris. Quando ele falou da sua casa no campo, a Madame Gounsovski soltou um suspiro de desejo por essas alegrias simples do campo. O mês de maio trouxe lágrimas aos seus olhos. Marido e mulher olharam um para o outro com verdadeira ternura. Eles não tinham o ar de pensar por um segundo: amanhã ou depois, antes que a nossa felicidade no campo chegue, podemos encontrar-nos despojados de tudo. Não! Eles tinham a certeza das suas felizes férias e nada parecia capaz de os inquietar sob a sua gordura. Gounsovski fez tantos favores a toda a gente que ninguém lhe deseja realmente mal, pobre homem. Além disso, repararam, meus caros velhos amigos, que ninguém tenta nunca fazer mal aos chefes de Polícia Secreta? Vai-se atrás de chefes de polícia, prefeitos de polícia, ministros, grão-duques, e até mais alto, mas os chefes de Polícia Secreta nunca, nunca são atacados. Eles podem passear tranquilamente nas ruas ou nos jardins de Krestowsky ou respirar o ar puro do país da Finlândia ou até do campo em torno de Paris. Eles fizeram tantos pequenos favores a este e àquele, aqui e ali, que ninguém deseja fazer-lhes o menor dano. Cada pessoa pensa sempre, também, que os outros foram menos bem servidos do que ele próprio. Esse é o segredo da coisa, meus amigos, esse é o segredo. O que dizem?”

Os outros disseram: “Ah, ah, o bom Gounsovski. Ele sabe. Ele sabe. Certamente, aceite o seu jantar. Com a Annouchka será divertido.”

“Messieurs”, perguntou Rouletabille, que continuava a fazer descobertas na assistência, “conhecem aquele oficial que está sentado no fim de uma fila lá em baixo, nos lugares da orquestra? Vejam, ele está a levantar-se.”

“Ele? Ora, esse é o Príncipe Galitch, que foi um dos lordes mais ricos do Norte. Agora está praticamente arruinado.”

“Obrigado, senhores; certamente que é ele. Conheço-o”, disse Rouletabille, sentando-se e dominando a sua emoção.

“Dizem que ele é um grande admirador da Annouchka”, arriscou Thaddeus. Depois, afastou-se do camarote.

“O príncipe foi arruinado por mulheres”, disse Athanase Georgevitch, que pretendia conhecer toda a crónica das galanterias no império.

“Ele também esteve em bons termos com o Gounsovski”, continuou Thaddeus.

“Ele passa na corte, contudo, por alguém pouco fiável. Fez uma vez uma longa visita a Tolstoi.”

“Bah! O Gounsovski deve ter prestado algum serviço assinalável a esse príncipe imprudente”, concluiu Athanase. “Mas, quanto a si, Thaddeus, não disse o que fez com o Gounsovski em Baku.”

(Rouletabille não perdeu uma palavra do que estava a ser dito à sua volta, embora nunca tenha perdido de vista o perfil escondido na mantilha preta nem o Príncipe Galitch, o seu inimigo pessoal*, que reaparecia, parecia-lhe, num momento muito crítico.)

* conforme contado em “A Senhora de Negro”.

— Eu regressava de Balakani numa drojki — disse Thaddeus Tchitchnikoff — e aproximava-me de Baku, depois de ter visto os destroços dos meus poços de petróleo que tinham sido incendiados pelos tártaros, quando encontrei Gounsovski na estrada, que, com dois dos seus amigos, se encontrava em má situação com uma das rodas da carruagem partida. Parei. Ele explicou-me que tinha um cocheiro tártaro e que esse cocheiro, tendo visto um arménio na estrada à sua frente, não encontrou nada melhor para fazer do que investir a toda a velocidade contra a equipagem do arménio. Ele tinha-se inclinado e tirado as rédeas ao homem, mas uma roda da carruagem partiu-se. (Rouletabille estremeceu, porque apanhou um relance de comunicação entre o Príncipe Galitch e Natacha, que estava inclinada sobre a borda do seu camarote.) — Então, ofereci-me para levar Gounsovski e os seus amigos na minha carruagem, e fomos todos juntos para Baku, depois de Gounsovski, que deseja sempre fazer um serviço, como diz Athanase Georgevitch, ter avisado o seu cocheiro tártaro para não acabar com o arménio. (O Príncipe Galitch, no momento em que a orquestra começou a música introdutória para o novo número de Annouchka, aproveitou o facto de todos os olhares estarem voltados para o pano que subia para passar perto do lugar de Natacha. Desta vez não olhou para Natacha, mas Rouletabille teve a certeza de que os seus lábios se moveram ao passar por ela.)

Thaddeus continuou: — É necessário explicar que, em Baku, a minha pequena casa é uma das primeiras antes de se chegar ao cais. Eu tinha lá alguns empregados arménios. Quando cheguei, o que supõem que vi? Uma fila de soldados com canhões, sim, com um canhão, palavra de honra, virado contra a minha casa e um oficial a dizer calmamente: “ali está ela. Fogo!” (Rouletabille fez ainda outra descoberta — duas, três descobertas. Ali perto, de pé, atrás do lugar de Natacha, estava uma figura não desconhecida do jovem repórter, e ali, numa das cadeiras da orquestra, estavam outros dois homens cujos rostos vira nessa mesma manhã nas casernas de Koupriane. Era aqui que uma memória para rostos lhe era útil. Viu que não era a única pessoa a vigiar de perto Natacha.) — Quando ouvi o que o oficial disse — continuou Thaddeus — quase caí da drojki. Corri para o comissário de polícia. Ele explicou-me o assunto prontamente e eu entendi rapidamente. Durante a minha ausência, um dos meus empregados arménios tinha disparado contra um tártaro que passava. Aliás, tinha-o matado. O governador foi informado e tinha ordenado que a casa fosse bombardeada, para servir de exemplo, como tinha sido feito com várias outras. Encontrei Gounsovski e contei-lhe o problema em duas palavras. Ele disse que não era necessário ele interferir no assunto, que eu só tinha de falar com o oficial. “Dê-lhe uma boa gorjeta, cem rublos, e ele deixará a sua casa.” Voltei ao oficial e levei-o à parte; ele disse que queria fazer tudo o que pudesse por mim, mas que a ordem era positiva para bombardear a casa. Reportei a sua resposta a Gounsovski, que me disse: “Diga-lhe então para virar a boca do canhão para o outro lado e bombardear o edifício do químico do outro lado, depois ele pode sempre dizer que se enganou sobre qual era a casa visada.” Fiz isso, e ele mandou virar o canhão. Bombardearam o lugar do químico e eu safei-me de tudo por cem rublos. Gounsovski, o bom rapaz, pode ser um grande monte de banha e parecer um vendedor de guarda-chuvas, mas sempre lhe fui grato do fundo do meu coração, pode compreender, Athanase Georgevitch.

— Que reputação tem o Príncipe Galitch na corte? — inquiriu Rouletabille de repente.

— Oh, oh! — riram os outros. — Desde que foi tão abertamente visitar Tolstoi, já não vai à corte.

— E... as suas opiniões? Quais são as suas opiniões?

— Oh, as opiniões de toda a gente são tão misturadas hoje em dia, ninguém sabe.

Ivan Petrovitch disse: — Ele passa entre algumas pessoas como muito avançado e muito comprometido.

— Contudo, não o incomodam? — inquiriu Rouletabille.

— Pfff, pfff — respondeu o alegre Conselheiro do Império —, é antes ele que tenta misturar-se com eles.

Thaddeus inclinou-se e disse: — Dizem que não pode ser atingido por causa do poder que tem sobre uma certa grande personagem na corte, e seria um escândalo — um grande escândalo.

— Cala-te, Thaddeus — interrompeu Athanase Georgevitch, bruscamente. — É fácil ver que vens há pouco tempo das províncias para falares tão imprudentemente, mas se continuares assim, eu vou-me embora.

— Athanase Georgevitch tem razão; segura a língua, Thaddeus — aconselhou Ivan Petrovitch.

Os interlocutores calaram-se todos, pois o pano estava a subir. No público, faziam-se alusões misteriosas a este segundo número de Annouchka, mas ninguém parecia capaz de dizer o que iria ser, e era, na verdade, muito simples. Após o turbilhão de danças e coros e todo o esplendor com que tinha sido acompanhada da primeira vez, Annouchka apareceu como uma pobre camponesa russa numa cena representando as estepes áridas, e muito simplesmente ajoelhou-se e recitou as suas orações da noite. Annouchka era singularmente bela. O seu nariz aquilino com narinas sensíveis, o contorno bem definido das suas sobrancelhas, o seu olhar que agora era quase terno, agora ameaçador, sempre invulgar, as suas faces pálidas e arredondadas e toda a expressão do seu rosto mostravam claramente a força de novas ideias, espontaneidade, profunda resolução e, acima de tudo, paixão. A oração era apaixonada. Ela tinha uma voz de contralto admirável que afetou o público estranhamente desde as suas primeiras notas. Ela pedia a Deus o pão de cada dia para todos na imensa terra russa, o pão de cada dia para a carne e para o espírito, e ela despertou as lágrimas de todos os que lá estavam, a qualquer partido que pertencessem. E quando, enquanto a sua última nota percorria a estepe desolada e ela se levantou e caminhou em direção à cabana miserável, bravos frenéticos de um público delirante disseram-lhe as prodigiosas emoções que ela tinha despertado. O pequeno Rouletabille, que, não compreendendo as palavras, captou contudo o espírito daquela oração, chorou. Todos choraram. Ivan Petrovitch, Athanase Georgevitch, Thaddeus Tchitchnikoff estavam de pé, batendo com os pés e aplaudindo com as mãos como rapazes entusiasmados. Os estudantes, que podiam ser facilmente distinguidos pelo rebordo verde uniforme que usavam nos seus casacos, soltaram gritos insensatos. E de repente elevaram-se os primeiros acordes do hino nacional. Houve hesitação ao princípio, um vacilar. Mas não por muito tempo. Aqueles que tinham receado alguma contra-demonstração perceberam que nenhuma objeção poderia ser levantada a uma oração pelo Tsar. Todas as cabeças se descobriram e o *Bodje Taara Krari* subiu, unanimemente, em direção às estrelas.

Através das suas lágrimas, o jovem repórter nunca deixou de vigiar de perto Natacha. Ela tinha-se levantado a meio e, caindo para trás, encostou-se à borda do camarote. Ela chamou, uma e outra vez, um nome que Rouletabille não pôde ouvir no alvoroço, mas que sentiu ter a certeza de ser “Annouchka! Annouchka!” “A rapariga imprudente”, murmurou Rouletabille e, aproveitando o entusiasmo geral, saiu do camarote sem ser notado. Abriu caminho através da multidão em direção a Natacha, a quem tinha procurado inutilmente desde a manhã. O público, após clamar em vão por uma repetição da oração por Annouchka, começou a dispersar-se, e o repórter foi arrastado com eles durante alguns momentos. Quando chegou à zona dos camarotes, viu que Natacha e a família com quem estivera tinham ido embora. Olhou para todos os lados sem ver o objeto da sua busca e, como um louco, começou a correr pelos corredores, quando uma ideia súbita lhe gelou o sangue. Perguntou onde era a saída para os artistas e, assim que lhe foi apontada, correu para lá. Não se enganou. Na primeira linha da multidão que esperava ver Annouchka sair, reconheceu Natacha, com a cabeça envolta no manto preto para que ninguém pudesse ver o seu rosto. Além disso, este canto do jardim estava na penumbra. A polícia barrava o caminho; ele não podia aproximar-se tanto de Natacha como desejava. Pôs-se a deslizar como uma serpente através da multidão. Não estava separado de Natacha por mais de quatro ou cinco pessoas quando começou um grande empurrão. Annouchka estava a sair. Ergueram-se gritos: “Annouchka! Annouchka!” Rouletabille atirou-se de joelhos e, de gatas, conseguiu enfiar a cabeça no caminho mantido pela polícia para a passagem de Annouchka. Ali, envolto num grande manto vermelho, o chapéu debaixo do braço, estava um homem que Rouletabille reconheceu imediatamente. Era o Príncipe Galitch. Estavam a apressar-se para escapar à pressão iminente da multidão. Mas Annouchka, ao passar perto de Natacha, parou apenas um segundo — um movimento que não escapou a Rouletabille — e, voltando-se para ela, disse apenas uma palavra: “Caracho”. Depois passou. Rouletabille levantou-se e forçou o seu caminho de volta, tendo perdido Natacha mais uma vez. Procurou-a. Correu para a entrada das carruagens e chegou a tempo de a ver sentada numa carruagem com a família Mourazoff. A carruagem partiu imediatamente na direção da datcha des Iles. O jovem permaneceu ali de pé, a pensar. Fez um gesto como se estivesse agora pronto para deixar a sorte seguir o seu curso. “No fim de contas”, disse ele, “talvez seja melhor assim”, e depois, para si próprio: “Agora, para a ceia, meu rapaz.”

Voltou para trás e logo estava instalado sob a luz ofuscante do restaurante. Oficiais de pé, copo na mão, saudavam de mesa em mesa e faziam mil cumprimentos com uma graça que era quase feminina.

Ouviu o seu nome ser chamado alegremente e reconheceu a voz de Ivan Petrovitch. Os três companheiros de folia estavam sentados perante uma garrafa de champanhe a descansar no seu banho de gelo e estavam a ser servidos com pequenos pastéis enquanto esperavam pela hora da ceia, que estava agora próxima.

Rouletabille cedeu ao convite deles com bastante facilidade e acompanhou-os quando o chefe de mesa informou Thaddeus de que os senhores eram esperados num quarto privado. Foram para o primeiro andar e foram conduzidos a um grande apartamento cuja varanda dava para o salão do teatro de inverno, agora vazio. Mas o apartamento já estava ocupado. Diante de uma mesa coberta com um serviço brilhante, Gounsovski fazia as honras.

Recebeu-os como um criado, com a cabeça baixa, um sorriso obsequioso e as costas curvadas, inclinando-se várias vezes à medida que cada um dos convidados lhe era apresentado. Athanase tinha-o descrito com bastante precisão, um boneco de banha. Sob a vasta testa curvada, mal se podiam ver os seus olhos, por trás dos óculos azuis que pareciam estar sempre prontos a cair à medida que ele inclinava demasiado a sua cabeça gorda com o seu olhar tímido e, contudo, todo-poderoso. Quando falava com a sua voz de falsete, o seu queixo caía numa dobra sobre o colarinho e ele tinha um gesto constante com o polegar e o indicador da mão direita para impedir que os óculos escorregassem pelo seu nariz curto e grosso.

Atrás dele estava a silhueta fina e altiva do Príncipe Galitch. Tinha sido convidado por Annouchka, pois ela tinha consentido em arriscar esta ceia apenas na companhia de três ou quatro dos seus amigos, oficiais que não podiam ficar mais comprometidos com este assunto, uma vez que já estavam sob o olhar da Okrana (polícia secreta), apesar do seu alto nascimento. Gounsovski viu-os chegar com uma risada sinistra e prodigalizou-lhes as suas marcas de devoção.

Ele amava Annouchka. Teria bastado surpreender apenas uma vez o olhar ciumento que ele enviava por baixo dos seus grandes óculos azuis quando contemplava a cantora para compreender os sentimentos que o moviam na presença da bela filha da Terra Negra.

Annouchka estava sentada, ou melhor, ela descansava, ao estilo oriental, no sofá que corria ao longo da parede atrás da mesa. Ela não prestava atenção a ninguém. A sua atitude era impenetrável, até hostil. Ela deixava indiferentemente o seu maravilhoso cabelo preto, que caía em duas tranças sobre o ombro, ser acariciado pelas mãos perfumadas da bela Onoto, que a tinha ouvido esta noite pela primeira vez e se tinha atirado com entusiasmo para os seus braços após o último número. Onoto também era artista, e o despeito que sentiu ao princípio pelo sucesso de Annouchka não podia durar após a emoção despertada pela oração da noite diante da cabana. “Vem para a ceia”, tinha-lhe dito Annouchka.

“Com quem?” inquiriu a artista espanhola.

“Com Gounsovski.”

“Nunca.”

“Vem. Ajudar-me-ás a pagar a minha dívida e talvez ele te seja útil a ti também. Ele é útil a toda a gente.”

Decididamente, Onoto não compreendia este país, onde os piores inimigos ceavam juntos.

Rouletabille tinha sido logo monopolizado pelo Príncipe Galitch, que o levou a um canto e disse:

— O que estás aqui a fazer?

— Incomodo-te? — perguntou o rapaz.

O outro assumiu o sorriso divertido do grande senhor.

— Enquanto ainda há tempo — disse ele —, acredita em mim, devias partir, deixar este país. Não tiveste avisos suficientes?

— Sim — respondeu o repórter. — E podes dispensar qualquer aviso adicional a partir deste momento.

Ele virou-lhe as costas.

— Ora, é o pequeno francês da villa Trebassof — começou a voz de falsete de Gounsovski enquanto empurrava um lugar para o jovem e lhe pedia para se sentar entre ele e Athanase Georgevitch, que já estava ocupado com as entradas.

— Como está, monsieur? — disse a bela e grave voz de Annouchka.

Rouletabille saudou.

— Vejo que estou num país de conhecidos — disse ele, sem parecer perturbado.

Dirigiu um cumprimento vivo a Annouchka, que lhe mandou um beijo.

— Rouletabille! — gritou a bela Onoto. — Mas então, ele é o pequeno que resolveu o mistério do Quarto Amarelo.

— O próprio.

— O que estás aqui a fazer?

— Veio para salvar a vida ao General Trebassof — riu Gounsovski. — É certamente um jovem corajoso.

— A polícia sabe tudo — disse Rouletabille friamente. E pediu champanhe, que nunca bebia.

O champanhe começou o seu trabalho. Enquanto Thaddeus e os oficiais contavam histórias de Baku uns aos outros ou faziam cumprimentos às mulheres, Gounsovski, que tinha terminado com as troças, inclinou-se para Rouletabille e deu ao jovem conselhos paternais com grande unção.

— Empreendeste, jovem, uma tarefa nobre e tanto mais difícil porque o General Trebassof está condenado não só pelos seus inimigos, mas ainda mais pela ignorância de Koupriane. Compreende-me bem: Koupriane é meu amigo e um homem que estimo muito. Ele é bom, bravo como um guerreiro, mas eu não daria um copeque pela sua polícia. Ele tem-se metido nos nossos assuntos ultimamente criando a sua própria polícia secreta, mas não desejo interferir com isso. Diverte-nos. É o novo estilo, de qualquer forma; toda a gente quer a sua polícia secreta hoje em dia. E tu, jovem, o que, afinal, estás aqui a fazer? Reportagem? Não. Trabalho policial? Esse é o nosso negócio e o teu negócio. Desejo-te boa sorte, mas não a espero. Lembra-te de que se precisares de alguma ajuda, dar-t-ei de boa vontade. Gosto de ser útil. E não desejo que nenhum mal te aconteça.

— É muito amável, monsieur — foi tudo o que Rouletabille respondeu, e pediu champanhe novamente.

Por várias vezes Gounsovski dirigiu comentários a Annouchka, que se preocupava com a sua refeição e tinha poucas respostas para ele.

— Sabes quem te aplaudiu mais esta noite?

— Não — disse Annouchka indiferentemente.

— A filha do General Trebassof.

— Sim, é verdade, palavra de honra — gritou Ivan Petrovitch.

— Sim, sim, Natacha estava lá — juntaram-se os outros amigos da datcha des Iles.

— Por mim, vi-a chorar — disse Rouletabille, olhando fixamente para Annouchka.

Mas Annouchka respondeu num tom gelado:

— Não a conheço.

— Ela é infeliz por ter um pai... — começou o Príncipe Galitch.

— Príncipe, nada de política, ou deixe-me retirar-me — cacarejou Gounsovski. — À sua saúde, querida Annouchka.

— À sua saúde, Gounsovski. Mas não tem de se preocupar com isso.

— Porquê? — exigiu Thaddeus Tchitchnikoff de forma equívoca.

— Porque ele é demasiado útil ao governo — gritou Ivan Petrovitch.

— Não — respondeu Annouchka; — aos revolucionários.

Todos rebentaram a rir. Gounsovski ajustou os seus óculos escorregadios pelo seu habitual movimento rápido e riu-se suavemente, insinuantemente, como banha a ferver no tacho:

— Assim dizem. E é essa a minha força.

— O seu sistema é excelente — disse o príncipe. — Como ele está bem com toda a gente, toda a gente está bem com a polícia, sem o saber.

— Dizem... ah, ah... dizem... — (Athanase estava a engasgar-se com um pedacinho de torrada que tinha ensopado na sua sopa) — dizem que ele expulsou todos os hooligans e até todos os pedintes da igreja de Kasan.

A partir daí, começaram a contar histórias de hooligans, ladrões de rua que, desde os recentes distúrbios políticos, infestavam São Petersburgo e dos quais ninguém se conseguia livrar sem pagar por isso.

Athanase Georgevitch disse:

— Há hooligans que deveriam ter existido, mesmo que nunca tenham existido. Um deles parou uma rapariga antes da estação de Varsóvia. A rapariga, assustada, estendeu-lhe imediatamente a bolsa, com dois rublos e cinquenta copeques lá dentro. O hooligan levou tudo. “Meu Deus”, gritou ela, “não tenho nada agora para apanhar o meu comboio.” “Quanto custa?” perguntou o hooligan. “Sessenta copeques.” “Sessenta copeques! Porque não disseste logo?” E o bandido, agarrado aos dois rublos, devolveu a moeda de cinquenta copeques à criança a tremer e acrescentou uma moeda de dez copeques do seu próprio bolso.

— Algo tão engraçado aconteceu-me há dois invernos, em Moscovo — disse a bela Onoto. — Tinha acabado de sair da porta quando fui parada por um hooligan. “Dá-me vinte copeques”, disse o hooligan. Estava tão assustada que não conseguia abrir a minha bolsa. “Mais rápido”, disse ele. Finalmente, dei-lhe vinte copeques. “Agora”, disse ele então, “beija-me a mão.” E tive de a beijar, porque ele segurava a sua faca na outra.

— Oh, eles são rápidos com as suas facas — disse Thaddeus. — Quando saía de Gastinidvor, uma vez, fui parado por um hooligan que me enfiou uma enorme faca de trinchar debaixo do nariz. “Podes tê-la por um rublo e meio”, disse ele. Podes acreditar que a comprei sem qualquer regateio. E foi uma pechincha muito boa. Valia pelo menos três rublos. À sua saúde, bela Onoto.

— Eu levo sempre o meu revólver quando saio — disse Athanase. — É mais prudente. Digo isto perante a polícia. Mas prefiro ser preso pela polícia a ser esfaqueado pelos hooligans.

— Já não há sítios para comprar revólveres — declarou Ivan Petrovitch. — Todos esses locais estão fechados.

Gounsovski ajeitou os óculos, esfregou as suas mãos gordas e disse:

— Ainda há alguns na oficina do meu serralheiro. A prova é que hoje, na pequena Kaniouche, o meu serralheiro, cujo nome é Smith, entrou em casa do merceeiro da esquina e quis vender-lhe um revólver. Era um Browning. “Uma arma da maior fiabilidade”, disse-lhe ele, “que nunca falha o disparo e que funciona muito facilmente.” Tendo pronunciado estas palavras, o serralheiro experimentou o seu revólver e alojou uma bala no pulmão do merceeiro. O merceeiro está morto, mas antes de morrer comprou o revólver. “Tens razão”, disse ele ao serralheiro; “é uma arma terrível.” E depois morreu.

Os outros riram com vontade. Achavam aquilo muito divertido. Decididamente, este grande Gounsovski tinha sempre uma história engraçada. Quem não gostaria de ser seu amigo? Annouchka dignara-se a sorrir. Gounsovski, em reconhecimento, estendeu-lhe a mão como um mendicante. A jovem tocou-lhe com a ponta dos dedos, como se estivesse a colocar uma moeda de vinte copeques na mão de um arruaceiro, e afastou-se com nojo. Então, as portas abriram-se para os boémios. A sua trupe morena não tardou a encher a sala. Todas as noites, homens e mulheres, nos seus trajes nativos, vinham da velha Derevnia, onde viviam todos juntos numa espécie de antiga comunidade patriarcal, com costumes que não tinham mudado durante séculos; espalhavam-se pelos lugares de prazer, pelos restaurantes da moda, onde angariavam grandes somas, pois era um luxo mundano tê-los a cantar ao fim das ceias, e todos os cobriam de dinheiro para não ficarem atrás dos outros. Acompanhavam-se com guzlas, com castanholas, com pandeiretas, e cantavam os velhos ares, lamentosos e languidos, ou excitáveis e ofegantes como o voo dos primeiros nómadas nos primórdios do mundo.

Quando entraram, os presentes abriram-lhes alas, e Rouletabille, que há alguns momentos dava sinais de fadiga e de uma vertigem bastante natural num jovem que não está habituado a beber os melhores champanhes, aproveitou o desvio para conseguir um canto do sofá não longe do Príncipe Galitch, que ocupava o lugar à direita de Annouchka.

— Olhem, o Rouletabille está a dormir — observou a bela Onoto.

— Pobre rapaz! — disse Annouchka.

E, voltando-se para Gounsovski:

— Não o vais tirar do nosso caminho em breve? Ouvi alguns dos nossos irmãos, no outro dia, a falar de uma maneira que causaria dor àqueles que se preocupam com a sua saúde.

— Oh, isso — disse Gounsovski, abanando a cabeça —, é um assunto com o qual não tenho nada a ver. Dirija-se a Koupriane. À sua saúde, bela Annouchka.

Mas os boémios dedilharam alguns acordes iniciais para as suas canções, e os cantores captaram a atenção de todos, exceto a do Príncipe Galitch e de Annouchka que, meio voltados um para o outro, trocaram algumas palavras à margem de todo aquele alarido musical. Quanto a Rouletabille, certamente devia estar a dormir profundamente para não ter sido acordado por todo aquele ruído, por mais melodioso que fosse. É verdade que ele tinha — aparentemente — bebido bastante e, como todos sabem, na Rússia a bebida derruba aqueles que não a aguentam. Quando os boémios cantaram três vezes, Gounsovski fez um sinal de que podiam ir encantar outros ouvidos e deslizou para as mãos do chefe do bando uma nota de vinte e cinco rublos. Mas Onoto quis dar o seu óbolo, e começou uma coleta regular. Cada um atirava rublos para o prato estendido por uma pequena boémia morena, de cabelos negros como corvo, descuidadamente penteados, caindo sobre a testa, os olhos e o rosto, de uma forma tão caricata que dir-se-ia que a pequena criatura era um salgueiro-chorão banhado em tinta. O prato chegou ao Príncipe Galitch, que procurou inutilmente nos bolsos.

— Bah! — disse ele, com um ar senhorial — não tenho dinheiro. Mas aqui está a minha carteira; dar-vo-la-ei como lembrança de mim, Katharina.

Thaddeus e Athanase exclamaram perante a generosidade do príncipe, mas Annouchka disse:

— O príncipe faz o que deve, pois os meus amigos nunca poderão retribuir suficientemente a hospitalidade que aquela pequena me deu na sua cabana imunda quando eu estava escondida, enquanto o seu famoso departamento decidia o que fazer comigo, meu caro Gounsovski.

— Eh — respondeu Gounsovski —, informo-a de que tudo o que tinha a fazer era alugar um belo apartamento na cidade.

Annouchka cuspiu no chão como um carroceiro, e Gounsovski, de amarelo, tornou-se verde.

— Mas por que te escondeste dessa maneira, Annouchka? — perguntou Onoto enquanto acariciava as belas tranças da cantora.

— Sabes que tinha sido condenada à morte e, depois, perdoada. Tinha conseguido deixar Moscovo e não tinha qualquer desejo de ser recapturada aqui e enviada para provar as alegrias da Sibéria.

— Mas por que foste condenada à morte?

— Ora, ela não sabe de nada! — exclamaram os outros.

— Meu Deus, acabei de chegar de Londres e de Paris — como hei de saber alguma coisa! Mas ter sido condenada à morte! Isso deve ter sido divertido.

— Muito divertido — disse Annouchka glacialmente. — E se tens um irmão a quem amas, Onoto, pensa no quanto mais divertido deve ser vê-lo ser fuzilado diante de ti.

— Oh, minha querida, perdoa-me!

— Para que possas saber e não causar qualquer dor à tua Annouchka no futuro, dir-lhe-ei, madame, o que aconteceu à nossa querida amiga — disse o Príncipe Galitch.

— Faríamos melhor em afastar tais memórias terríveis — aventurou-se Gounsovski, levantando as pestanas por trás dos óculos, mas baixou a cabeça quando Annouchka lhe enviou um olhar flamejante.

— Fala, Galitch.

O Príncipe fez o que ela pediu.

— Annouchka tinha um irmão, Vlassof, engenheiro da linha de Kasan, a quem o Comité de Greve ordenara que retirasse um comboio como o único meio de fuga para os líderes das tropas revolucionárias quando os soldados de Trebassof, ajudados pelo regimento Semenowsky, se tornaram mestres da cidade. A última resistência deu-se na estação. Era necessário partir. Todos os caminhos estavam guardados pelos militares. Havia soldados por toda a parte! Vlassof disse aos seus camaradas: "Eu salvar-vos-ei"; e os seus camaradas viram-no montar na locomotiva com uma mulher. Essa mulher era... bem, aí está ela sentada. O fogueiro de Vlassof tinha sido morto na véspera, numa barricada; foi Annouchka quem tomou o seu lugar. Desenvencilharam-se e o comboio partiu como um disparo. Naquela linha curva, descoberta de imediato, fácil de atacar, sob uma chuva de balas, Vlassof desenvolveu uma velocidade de noventa verstas por hora. Levou o manómetro até ao ponto de explosão. A senhora ali presente continuou a carregar carvão na fornalha. O perigo passou a ser menos dos militares e mais de uma explosão a qualquer momento. No meio das balas, Vlassof manteve a sua calma habitual. Acelerou não apenas com a fornalha aberta, mas com a tiragem forçada. Foi um milagre que a máquina não se tenha esmagado contra a curva do aterro. Mas passaram. Nem um homem foi ferido. Apenas uma mulher foi ferida. Levou uma bala no peito.

— Aqui! — gritou Annouchka.

Com um gesto magnífico, abriu o seu peito branco e ofegante e pousou o dedo sobre uma cicatriz que Gounsovski, cuja gordura começava a derreter em gotas pesadas de suor pelas têmporas, não ousou olhar.

— Quinze dias depois — continuou o príncipe —, Vlassof entrou numa estalagem em Lubetszy. Não sabia que estava cheia de soldados. O seu rosto nunca se alterou. Revistaram-no. Encontraram-lhe um revólver e papéis. Sabiam com quem tinham de lidar. Era uma boa presa. Vlassof foi levado para Moscovo e condenado a ser fuzilado. A sua irmã, ferida como estava, soube da sua detenção e juntou-se a ele. "Não quero", disse-lhe ela, "deixar-te morrer sozinho." Ela também foi condenada. Antes da execução, os soldados ofereceram-se para lhes vendar os olhos, mas ambos recusaram, dizendo que preferiam enfrentar a morte cara a cara. As ordens eram para fuzilar todos os outros revolucionários condenados primeiro, depois Vlassof, depois a sua irmã. Foi em vão que Vlassof pediu para morrer por último. Os seus camaradas de execução caíram de joelhos, a sangrar das suas feridas mortais. Vlassof abraçou a irmã e caminhou para o local da morte. Lá, dirigiu-se aos soldados: "Agora tendes de cumprir o vosso dever de acordo com o juramento que fizestes. Cumpri-o honestamente como eu cumpri o meu. Capitão, dê a ordem." A salva soou. Vlassof permaneceu erecto, com os braços cruzados sobre o peito, são e salvo. Nenhuma bala o tinha atingido. Os soldados não queriam disparar contra ele. Ele teve de os instar novamente a cumprir o seu dever e a obedecer ao seu chefe. Então dispararam de novo, e ele caiu. Olhou para a irmã com os olhos cheios de sofrimento horrível. Vendo que ele ainda vivia, e desejando parecer caridoso, o capitão, perante as súplicas de Annouchka, aproximou-se e abreviou-lhe os sofrimentos disparando um revólver contra o seu ouvido. Agora era a vez de Annouchka. Ela ajoelhou-se junto ao corpo do irmão, beijou os seus lábios ensanguentados, levantou-se e disse: "Estou pronta." Quando as espingardas foram levantadas, um oficial veio a correr, trazendo o perdão do Tsar. Ela não o quis, e ela, a quem não tinham atado quando ia morrer, teve de ser contida quando soube que ia viver.

O Príncipe Galitch, no meio do silêncio angustiante de todos os presentes, começou a acrescentar algumas palavras de comentário ao seu relato sinistro, mas Annouchka interrompeu:

— A história acabou — disse ela. — Nem uma palavra, Príncipe. Se te pedi que a contasses em todo o seu horror, se desejei que nos trouxesses de volta o momento atroz da morte do meu irmão, é para que o monsieur — os seus dedos apontaram para Gounsovski — saiba bem, de uma vez por todas, que se me submeti durante algumas horas a esta companhia promíscua que me foi imposta, agora que paguei a dívida aceitando esta ceia abominável, não tenho mais nada a ver com este fornecedor de prisões e de cordas de carrasco que aqui está.

— Ela está louca — murmurou ele. — Ela está louca. O que lhe aconteceu? O que se passou? Ainda hoje ela estava tão, tão amável.

E gaguejou, desoladamente, com um riso embaraçado:

— Ah, as mulheres, as mulheres! Mas que lhe fiz eu?

— O que me fizeste, miserável? Onde estão Belachof, Bartowsky e Strassof? E Pierre Slutch? Todos os camaradas que juraram comigo vingar o meu irmão? Onde estão eles? Em que forca os fizeste enforcar? Em que mina os enterraste? E ainda continuas a tua tarefa servil. E os meus amigos, os meus outros amigos, os pobres camaradas da minha vida artística, os jovens inofensivos que não cometeram outro crime senão o de me vir ver demasiadas vezes quando eu era alegre, e que acreditavam poder falar livremente no meu camarim — onde estão eles? Por que me deixaram, um a um? Por que desapareceram? Foste tu, miserável, que os vigiaste, que os espiaste, fazendo de mim, não tenho dúvidas, a tua horrível cúmplice, misturando-me no teu trabalho sujo, seu cão! Sabias como me chamam. Sabias disso há muito tempo, e bem podes rir-te disso. Mas eu, eu nunca soube até esta noite; nunca soube até esta noite tudo o que te devo. "Delator! Delator!" Eu! Horror! Ah, seu cão, seu cão! A tua mãe, quando vieste ao mundo, a tua mãe... — aqui, atirou-lhe o insulto mais ofensivo que um russo pode oferecer a um homem daquela raça.

Ela tremia e soluçava de raiva, cuspia de fúria e pôs-se de pé, pronta a partir, envolta no seu manto como uma grande bandeira vermelha. Ela era a estátua do ódio e da vingança. Ela era horrível e terrível. Ela era bela. Ao insulto supremo final, Gounsovski sobressaltou-se e pôs-se de pé como se tivesse recebido uma bofetada real no rosto. Não olhou para Annouchka, mas fixou os olhos no Príncipe Galitch. O seu dedo apontou-o:

— Ali está o homem — sibilou ele — que lhe contou todas essas coisas bonitas.

— Sim, sou eu — disse o Príncipe, tranquilamente.

— Caracho! — ladrou Gounsovski, recuperando instantaneamente a sua frieza.

— Ah, sim, mas não lhe tocarás — clamou a impetuosa rapariga da Terra Negra; — não és forte o suficiente para isso.

— Sei que o monsieur tem muitos amigos na corte — concordou o chefe da Polícia Secreta com uma calma sinistra. — Não desejo mal ao monsieur. Fala, madame, da forma como alguns dos seus amigos tiveram de ser sacrificados. Espero que um dia esteja melhor informada e que compreenda que salvei todos os que pude.

— Vamos embora — murmurou Annouchka. — Hei de cuspir-lhe na cara.

— Sim, todos os que pude — respondeu o outro, com o seu gesto habitual de se agarrar aos óculos. — E continuarei a fazê-lo. Prometo-lhe não dizer nada mais desagradável ao príncipe do que o que diz respeito à sua pequena amiga, a boémia Katharina, que ele tratou tão generosamente agora mesmo, sem dúvida porque Boris Mourazoff lhe paga muito pouco pelas diligências que ela faz todas as manhãs na vivenda de Krestowsky Ostrow.

A estas palavras, o Príncipe e Annouchka mudaram ambos de semblante. A sua raiva aumentou. Annouchka virou a cabeça como para arranjar as dobras da sua capa. Galitch contentou-se em encolher os ombros impacientemente e murmurar:

— Ainda mais alguma abominação que estás a engendrar, monsieur, e à qual não sabemos como responder.

Após o que, fez uma vénia aos convidados da ceia, deu o braço a Annouchka e fê-la avançar diante de si. Gounsovski fez uma vénia, quase dobrado em dois. Quando se levantou, viu diante de si as três figuras pasmadas e horrorizadas de Thaddeus Tchitchnikoff, Ivan Petrovitch e Athanase Georgevitch.

— Messieurs — disse-lhes ele, com uma voz incolor que parecia não lhe pertencer —, chegou a hora de nos separarmos. Não preciso de dizer que ceámos como amigos e que, se assim o quiserem, podemos esquecer tudo o que foi dito aqui.

Os outros três, assustados, protestaram imediatamente a sua discrição.

Ele acrescentou, rudemente desta vez: "Serviço do Tsar", e os três balbuciaram: "Deus salve o Tsar!" Após o que, acompanhou-os até à porta. Quando a porta se fechou depois deles, disse: "Minha pequena Annouchka, não deves fazer contas sem mim." Apressou-se em direção ao sofá, onde Rouletabille estava deitado, esquecido, e deu-lhe uma palmada no ombro.

— Vamos, levanta-te. Não faças como se estivesses a dormir. Nem um instante a perder. Vão levar a cabo o caso Trebassof esta noite.

Rouletabille já estava de pé.

— Oh, monsieur — disse ele —, eu não queria que me dissesse isso. Obrigado, de qualquer modo, e boa noite.

Saiu.

Gounsovski tocou a campainha. Um criado apareceu.

— Diga-lhes que podem agora abrir todas as salas deste corredor; não os vou deter mais tempo. — Assim se tinha mantido Gounsovski protegido.

Deixado sozinho, o chefe da Polícia Secreta limpou a testa e bebeu um grande copo de água gelada que esvaziou de um gole. Depois, disse:

— Koupriane terá trabalho que chegue esta noite; desejo-lhe boa sorte. Quanto a eles, aconteça o que acontecer, lavo as minhas mãos deles.

E esfregou as mãos.

X. UM DRAMA NA NOITE

À porta do Krestowsky, Rouletabille, que estava com pressa por um transporte, saltou para uma carruagem aberta onde a bela Onoto já estava sentada. A dançarina apanhou-o pelos joelhos.

— Para Eliaguine, o mais rápido que puder — gritou o repórter por toda a explicação.

— Scan! Scan! (Depressa, depressa) — repetia Onoto.

Ela estava acompanhada por uma espécie de pessoa vaga a quem nenhum dos dois prestou a menor atenção.

— Que ceia! Finalmente acordaste, não foi? — pilheriou a atriz. Mas Rouletabille, de pé atrás do cocheiro enorme, incitava os cavalos e dirigia a rota da carruagem. Avançaram pela noite a um ritmo vertiginoso. Na esquina de uma ponte, ordenou que os cavalos parassem, agradeceu às suas companheiras e desapareceu.

— Que país! Que país! Caramba! — disse a artista espanhola.

A carruagem esperou alguns minutos, depois voltou para a cidade.

Rouletabille desceu o aterro e, lentamente, tomando infinitas precauções para não revelar a sua presença fazendo o menor ruído, dirigiu-se para onde o rio é mais largo. Visto através da escuridão da noite, a massa mais negra da vivenda Trebassof erguia-se como um enorme borrão; ele parou. Depois deslizou como uma serpente pelos juncos, a erva, as fetas. Estava nas traseiras da vivenda, perto do rio, não longe do pequeno caminho onde tinha descoberto a passagem do assassino, graças às teias de aranha partidas. Nesse momento, a lua nasceu e as bétulas, que pouco antes eram como grandes cajados negros, tornaram-se velas brancas que pareciam iluminar aquela solidão sinistra.

O repórter quis aproveitar de imediato a súbita luminosidade para saber se os seus movimentos tinham sido notados e se as aproximações à vivenda daquele lado estavam guardadas. Apanhou uma pequena pedra e atirou-a a alguma distância de si ao longo do caminho. Ao ruído inesperado, três ou quatro cabeças sombrias esboçaram-se subitamente na luz branca da lua, mas desapareceram de imediato, perdidas novamente nos tufos escuros da erva.

Tinha obtido a sua informação.

O ouvido aguçado do repórter captou um deslizar na sua direção, um ligeiro farfalhar de ramos; depois, de repente, uma sombra cresceu a seu lado e ele sentiu o frio do cano de um revólver na sua têmpora. Disse "Koupriane" e, de imediato, uma mão agarrou a sua e apertou-a.

A noite tinha voltado a ficar negra. Ele murmurou: "Como é que o senhor está aqui pessoalmente?"

O Prefeito de Polícia sussurrou ao seu ouvido:

— Fui informado de que algo acontecerá esta noite. Natacha foi ao Krestowsky e trocou algumas palavras com Annouchka lá. O Príncipe Galitch está envolvido, e é um assunto de Estado.

— Natacha regressou? — inquiriu Rouletabille.

— Sim, há muito tempo. Ela deveria estar na cama. Em qualquer caso, ela está a fingir que está deitada. A luz do seu quarto, na janela sobre o jardim, foi apagada.

— Avisou Matrena Petrovna?

— Sim, deixei-lhe saber que ela deve manter-se muito vigilante esta noite.

— Isso é um erro. Eu não lhe deveria ter dito nada. Ela tomará tais precauções extras que os outros serão avisados instantaneamente.

— Disse-lhe que ela não deve ir ao rés-do-chão de todo esta noite, e que não deve deixar o quarto do general.

— Isso é perfeito, se ela lhe obedecer.

— Vê que aproveitei toda a sua informação. Segui as suas instruções. A estrada de Krestowsky está sob vigilância.

— Talvez demais. Como é que está a planear?

— Deixá-los-emos entrar. Não sei com quem tenho de lidar. Quero desferir um golpe certeiro. Hei de apanhá-lo em flagrante. Sem mais dúvidas depois disto, confie em mim.

— Adeus.

— Aonde vai?

— Para a cama. Paguei a minha dívida ao meu anfitrião. Tenho o direito a algum repouso agora. Boa sorte!

Mas Koupriane tinha-lhe agarrado a mão.

— Escute.

Com um pouco de atenção, detetaram uma leve batida na água. Se um barco se movia a esta hora para esta margem do Neva e desejava permanecer escondido, o momento certo tinha certamente sido escolhido. Uma grande nuvem negra cobriu a lua; o vento era leve. O barco teria tempo para chegar de uma margem à outra sem ser descoberto. Rouletabille não esperou mais. De quatro, correu como uma besta, rápida e silenciosamente, e ergueu-se por trás do muro da vivenda, onde fez uma curva, chegou ao portão, despertou os dvorniks e exigiu Ermolai, que lhe abriu o portão.

— A Barinia? — disse ele.

Ermolai apontou o dedo para o andar do quarto.

— Caracho!

Rouletabille já atravessara o jardim e içara-se pelos dedos até a janela do quarto de Natacha, onde escutou. Ouviu claramente Natacha andar pelo quarto escuro. Deixou-se cair levemente sobre os pés, subiu os degraus da varanda e abriu a porta, fechando-a depois tão suavemente que Ermolai, que o vigiava do lado de fora a menos de um metro, não ouviu o menor ranger das dobradiças. Dentro da vivenda, Rouletabille avançou na ponta dos pés. Encontrou a porta da sala de estar aberta. A porta da sala de visitas não fora fechada, ou então fora reaberta. Deu meia-volta, tateou na escuridão à procura de uma cadeira e sentou-se, com a mão sobre o revólver no bolso, à espera dos acontecimentos que não tardariam muito agora. Lá em cima, ouviu nitidamente, de tempos em tempos, os movimentos de Matrena Petrovna. E isso, evidentemente, daria uma sensação de segurança àqueles que precisavam do térreo livre naquela noite. Rouletabille imaginou que as portas dos cômodos do térreo tinham sido deixadas abertas para que fosse mais fácil para aqueles que estariam embaixo ouvir o que acontecia no andar de cima. E talvez não estivesse enganado.

De repente, surgiu uma barra vertical de luz pálida vinda da sala de visitas que dava para o Neva. Ele deduziu duas coisas: primeiro, que a janela já estava ligeiramente aberta; depois, que a lua saíra das nuvens novamente. A barra de luz morreu quase instantaneamente, mas os olhos de Rouletabille, agora acostumados à obscuridade, ainda distinguiam a linha aberta da janela. Ali, a sombra era menos profunda. De repente, sentiu o sangue pulsar nas têmporas, pois a linha da janela aberta aumentou, cresceu, e a sombra de um homem ergueu-se gradualmente na varanda. Rouletabille sacou seu revólver.

O homem ficou de pé imediatamente atrás de uma das persianas e deu um leve golpe no vidro. Colocado como estava agora, não podia mais ser visto. Sua sombra misturava-se à sombra da persiana. Ao ruído no vidro, a porta de Natacha abrira-se cautelosamente, e ela entrou na sala de visitas. Na ponta dos pés, ela foi rapidamente até a janela e abriu-a. O homem entrou. A pequena luz que a essa altura começava a surgir era suficiente para mostrar a Rouletabille que Natacha ainda usava a toilette com que a vira naquela mesma noite em Krestowsky. Quanto ao homem, ele tentou em vão identificá-lo; era apenas uma massa escura envolta em um manto. Ele inclinou-se e beijou a mão de Natacha. Ela disse apenas uma palavra: “Skoro!” (Rapidamente).

Mas ela mal acabara de dizê-la quando, sob um ataque vigoroso, as persianas e as duas metades da janela foram escancaradas, e sombras silenciosas saltaram rapidamente para a varanda e pularam para dentro da vivenda. Natacha soltou um grito agudo no qual Rouletabille acreditou ainda ouvir mais desespero do que terror, e as sombras atiraram-se sobre o homem; mas ele, ao primeiro sinal de alarme, lançara-se sobre o tapete e escapara delas por entre as suas pernas. Ele alcançou a varanda e saltou dela quando os outros se voltaram para ele. Pelo menos, foi assim que Rouletabille acreditou ver a misteriosa luta desenrolar-se na meia-luz, em meio ao mais impressionante silêncio, após aquele grito assustado de Natacha. Todo o caso durara apenas alguns segundos, e o homem ainda estava debruçado sobre a varanda, quando do fundo do saguão surgiu uma nova pessoa. Era Matrena Petrovna.

Alertada por Koupriane de que algo aconteceria naquela noite, e prevendo que aconteceria no térreo, onde a proibiam de estar, ela não encontrara nada melhor a fazer do que levar sua fiel criada secretamente para o andar dos quartos, com ordens para andar por lá a noite toda, para fazer todos pensarem que ela mesma estava perto do general, enquanto ela permanecia embaixo, escondida na sala de jantar.

Matrena Petrovna atirou-se agora para a varanda, gritando em russo: “Atirem! Atirem!” Exatamente naquele momento, o homem hesitava entre arriscar o salto e talvez quebrar o pescoço, ou descer menos rapidamente pelo cano da calha. Um policial disparou e errou, e o homem, após disparar de volta e ferir o policial, desapareceu. Ainda estava longe o amanhecer para que pudessem ver claramente o que acontecia embaixo, onde apenas o latido dos Brownings era ouvido. E não poderia haver nada mais sinistro do que os tiros de revólver sem gritos nas brumas da manhã. O homem, antes de desaparecer, tivera apenas tempo, com um chute rápido, de derrubar uma das duas escadas que haviam sido usadas pela polícia para subir; pela outra, toda a polícia em bando, até mesmo o ferido, foi deslizando, caindo, levantando-se, correndo atrás da sombra que ainda fugia, disparando o Browning incessantemente; outras sombras erguiam-se da margem do rio, pairando na névoa. De repente, a voz de Koupriane foi ouvida gritando ordens, convocando seus agentes a capturar a presa viva ou morta. Da varanda, Matrena Petrovna gritava também, como uma selvagem, e Rouletabille tentou em vão mantê-la quieta. Ela estava delirante com o pensamento de que "O Outro" poderia escapar ainda. Ela disparou um revólver, ela também, contra o grupo, sem saber a quem poderia ferir. Rouletabille agarrou seu braço e, enquanto ela se voltava para ele com raiva, ela observou Natacha que, debruçada até quase cair da varanda, com os lábios trêmulos de um falar delirante, seguia tão bem quanto podia o progresso da luta, tentando entender o que acontecia embaixo, sob as árvores, perto do Neva, onde o tumulto já se estendia. Matrena Petrovna puxou-a de volta pelos braços. Então ela a pegou pelo pescoço e a jogou na sala de estar, em um monte. Quando quase estrangulou a enteada, Matrena Petrovna viu que o general estava ali. Ele aparecia nos pálidos lampejos do amanhecer como um espectro. Por que milagre Feodor Feodorovitch conseguira descer as escadas e chegar ali? Como isso fora possível? Ela o viu tremer de raiva ou de desgraça sob as dobras da capa de soldado que flutuava ao redor dele. Ele perguntou com voz rouca: “O que é isso?”

Matrena Petrovna atirou-se aos seus pés, fez o sinal da cruz ortodoxa, como se quisesse convocar Deus como testemunha, e então, apontando para Natacha, denunciou sua filha ao marido como a teria apontado a um juiz.

“Aquela que, Feodor Feodorovitch, desejou mais de uma vez assassiná-lo, e que esta noite abriu a datcha para o seu assassino, é a sua filha.”

O general sustentou-se com as duas mãos contra a parede e, olhando para Matrena e Natacha, que agora estavam ambas no chão diante dele como suplicantes, disse a Matrena:

“É você quem me assassina.”

“Eu! Pelo Deus vivo!” balbuciou Matrena Petrovna desesperadamente. “Se eu pudesse ter evitado isso, Jesus teria sido bom! Mas não direi mais nada para crucificá-lo. Feodor Feodorovitch, interrogue sua filha e, se o que eu disse não for verdade, mate-me, mate-me como uma besta mentirosa e má. Direi obrigado, obrigado, e morrerei mais feliz do que se o que eu disse fosse verdade. Ah, desejo estar morta! Mate-me!”

Feodor Feodorovitch empurrou-a com sua bengala como se empurraria um verme em seu caminho. Sem dizer mais nada, ela se levantou dos joelhos e olhou com seus olhos encovados, com seu rosto enlouquecido, para Rouletabille, que agarrava seu braço. Se ela tivesse suas mãos ainda livres, não hesitaria um segundo em fazer justiça contra si mesma sob este destino amargo de alienar Feodor. E parecia assustador para Rouletabille que ele devesse estar presente a um daqueles horríveis dramas familiares cujo desfecho, nos tempos selvagens de Pedro, o Grande, teria enviado o general ao carrasco, fosse como pai ou como marido.

O general não se dignou nem mesmo a considerar por muito tempo o delírio de Matrena. Ele disse à filha, que tremia de soluços no chão: “Levante-se, Natacha Feodorovna.” E a filha de Feodor entendeu que seu pai jamais acreditaria em sua culpa. Ela se ergueu em direção a ele e beijou suas mãos como uma escrava feliz.

Neste momento, golpes repetidos sacudiram a porta da varanda. Matrena, o cão de guarda, ansiosa por morrer após a reprovação de Feodor, mas ainda em seu posto, correu em direção ao que acreditava ser um novo perigo. Mas ela reconheceu a voz de Koupriane, que a chamava para abrir. Ela mesma deixou-o entrar.

“O que é?” ela implorou.

“Bem, ele está morto.”

Um grito respondeu-lhe. Natacha ouvira.

“Mas quem — quem — quem?” questionou Matrena sem fôlego.

Koupriane aproximou-se de Feodor e agarrou suas mãos.

“General,” disse ele, “havia um homem que jurara sua ruína e que era usado como instrumento por seus inimigos. Nós acabamos de matar esse homem.”

“Eu o conheço?” perguntou Feodor.

“Ele é um de seus amigos, você o tratou como um filho.”

“O nome dele?”

“Pergunte à sua filha, General.”

Feodor voltou-se para Natacha, que queimava Koupriane com seu olhar, tentando saber o que era essa notícia que ele trazia — a verdade ou um estratagema.

“Você conhece o homem que desejava me matar, Natacha?”

“Não,” ela respondeu ao pai, em tons de perfeita fúria. “Não, eu não conheço nenhum homem assim.”

“Mademoiselle,” disse Koupriane, com uma voz firme e terrivelmente hostil, “você mesma, com suas próprias mãos, abriu aquela janela esta noite; e você a abriu para ele muitas outras vezes além desta. Enquanto todos os outros aqui cumprem o seu dever e vigiam para que nenhuma pessoa possa entrar à noite na casa onde dorme o General Trebassof, governador de Moscou, condenado à morte pelo Comitê Revolucionário Central agora reunido em Presnia, é isso que você faz; é você quem introduz o inimigo neste lugar.”

“Responda, Natacha; diga-me, sim ou não, se você deixou alguém entrar nesta casa à noite.”

“Pai, é verdade.”

Feodor rugiu como um leão:

“O nome dele!”

“O senhor lhe dirá você mesmo,” disse Natacha, com a voz embargada pelo terror, e ela apontou para Koupriane. “Por que ele não lhe diz você mesmo o nome daquela pessoa? Ele deve saber, se o homem está morto.”

“E se o homem não estiver morto,” respondeu Feodor, que visivelmente se controlava, “se esse homem, a quem você ajudou a entrar em minha casa esta noite, conseguiu escapar, como você parece esperar, você nos dirá o nome dele?”

“Eu não poderia dizê-lo, Pai.”

“E se eu lhe suplicasse para fazê-lo?”

Natacha balançou a cabeça desesperadamente.

“E se eu lhe ordenasse?”

“Você pode me matar, Pai, mas eu não pronunciarei esse nome.”

“Miserável!”

Ele ergueu sua bengala em direção a ela. Assim, Ivan, o Terrível, matara seu filho com um golpe de sua lança de javali.

Mas Natacha, em vez de curvar a cabeça sob o golpe que a ameaçava, voltou-se para Koupriane e atirou-lhe em tons de triunfo:

“Ele não está morto. Se vocês tivessem conseguido capturá-lo, morto ou vivo, já teriam o nome dele.”

Koupriane deu dois passos em sua direção, colocou a mão sobre seu ombro e disse:

“Michael Nikolaievitch.”

“Michael Korsakoff!” gritou o general.

Matrena Petrovna, como se revoltada por essa sugestão, ficou ereta para repetir:

“Michael Korsakoff!”

O general não podia acreditar nos próprios ouvidos e estava prestes a protestar quando notou que sua filha se virara e tentava fugir para seu quarto. Ele a deteve com um gesto terrível.

“Natacha, você vai nos dizer o que Michael Korsakoff veio fazer aqui esta noite.”

“Feodor Feodorovitch, ele veio envenená-lo.”

Foi Matrena quem falou agora e a quem nada poderia manter calada, pois ela via na tentativa de fuga de Natacha a confissão mais sinistra. Como uma fúria vingadora, ela contou com gritos e gestos terríveis o que havia experimentado, como se mais uma vez estivesse estendida diante dela a mão armada com o veneno, a mão misteriosa sobre o travesseiro de seu pobre inválido, seu caro e rigoroso tirano; ela contou sobre a noite anterior e todos os seus terrores, e de seus lábios, por sua fala volúvel e estacada, aquele relato ominoso teve uma ênfase grotesca. Finalmente, ela contou tudo o que havia feito, ela e o pequeno francês, para não trair suas suspeitas a O Outro, para capturar finalmente em sua própria armadilha todos aqueles que por tantos dias e noites tramavam a morte de Feodor Feodorovitch. Ao terminar, ela apontou Rouletabille para Feodor e gritou: “Aí está aquele que o salvou.”

Natacha, enquanto ouvia esse relato trágico, conteve-se várias vezes para não interromper, e Rouletabille, que a observava de perto, viu que ela precisava usar esforços quase sobre-humanos para conseguir isso. Todo o horror do que parecia ser para ela, assim como para Feodor, uma revelação do crime de Michael, não a abateu, mas pareceu, ao contrário, restaurar-lhe com força total toda a vida que alguns segundos antes fugira dela. Matrena mal terminara seu grito, “Aí está aquele que o salvou,” quando Natacha gritou por sua vez, enfrentando o repórter com um olhar cheio do mais terrível ódio: “Aí está aquele que foi a causa da morte de um homem inocente!” Ela voltou-se para o pai. “Ah, papai, deixe-me, deixe-me dizer que Michael Nikolaievitch, que veio aqui esta noite, admito, e a quem, é verdade, deixei entrar na casa, que Michael Nikolaievitch não veio aqui ontem, e que o homem que tentou envenená-lo é certamente outra pessoa.”

A essas palavras, Rouletabille empalideceu, mas não se deixou perder o autocontrole. Ele respondeu simplesmente:

“Não, mademoiselle, era o mesmo homem.”

E Koupriane sentiu-se compelido a acrescentar:

“De qualquer forma, encontramos a prova das relações de Michael Nikolaievitch com os revolucionários.”

“Onde vocês encontraram isso?” questionou a jovem, voltando para o Chefe de Polícia um rosto arrebatado de angústia.

“Em Krestowsky, mademoiselle.”

Ela o olhou por um longo tempo como se quisesse penetrar no fundo de seus pensamentos.

“Que provas?” ela implorou.

“Uma correspondência que colocamos sob selo.”

“Era endereçada a ele? Que tipo de correspondência?”

“Se lhe interessa, nós a abriremos diante de você.”

“Meu Deus! Meu Deus!” ela ofegou. “Onde vocês encontraram essa correspondência? Onde? Diga-me onde!”

“Eu lhe direi. Na vivenda, no quarto dele. Arrombamos a fechadura de sua escrivaninha.”

Ela pareceu respirar novamente, mas seu pai a pegou brutalmente pelo braço.

“Venha, Natacha, você vai nos dizer o que aquele homem estava fazendo aqui esta noite.”

“No quarto dela!” gritou Matrena Petrovna.

Natacha voltou-se para Matrena:

“O que você acredita, então? Diga-me agora.”

“E eu, no que devo acreditar?” murmurou Feodor. “Você ainda não me disse. Você não sabia que aquele homem tinha relações com meus inimigos. Você é inocente disso, talvez. Quero pensar assim. Eu desejo, em nome do Céu, eu desejo. Mas por que você o recebeu? Por que? Por que você o trouxe aqui, como um ladrão ou como um...”

“Oh, papai, você sabe que eu amo Boris, que o amo com todo o meu coração e que nunca pertenceria a ninguém além dele.”

“Então, então, então... fale!”

A jovem chegara ao auge.

“Ah, Pai, Pai, não me interrogue! Você, você acima de tudo, não me interrogue agora. Eu não posso dizer nada! Não há nada que eu possa lhe dizer. Exceto que tenho certeza — certeza, você entende — de que Michael Nikolaievitch não veio aqui ontem à noite.”

“Ele veio,” insistiu Rouletabille com uma voz ligeiramente perturbada.

“Ele veio aqui com veneno. Ele veio aqui para envenenar seu pai, Natacha,” gemia Matrena Petrovna, que entrelaçava as mãos em gestos de tragédia sincera e ingênua.

“E eu,” respondeu a filha de Feodor ardentemente, com um acento de convicção que fez todos ali vibrarem, e particularmente Rouletabille, “e eu, eu lhe digo que não foi ele, que não foi ele, que não poderia ser ele. Juro-lhe que foi outro, outro.”

“Mas então, esse outro, você o deixou entrar também?” disse Koupriane.

“Ah, sim, sim. Fui eu. Fui eu. Fui eu quem deixou a janela e as persianas abertas. Sim, fui eu quem fez isso. Mas eu não esperava o outro, o outro que veio assassinar. Quanto a Michael Nikolaievitch, eu lhe juro, meu pai, por tudo o que há de mais sagrado no céu e na terra, que ele não poderia ter cometido o crime que você diz. E agora... mate-me, pois não há mais nada que eu possa dizer.”

“O veneno,” respondeu Koupriane friamente, “o veneno que ele derramou na poção do general foi aquele arseniato de sódio que estava nas uvas que o Marechal da Corte trouxe aqui. Essas uvas foram deixadas pelo Marechal, que advertiu Michael Nikolaievitch e Boris Alexandrovitch para lavá-las. As uvas desapareceram. Se Michael é inocente, você acusa Boris?”

Natacha, que parecia ter perdido subitamente todo o poder de se defender, gemia, implorava, protestava, parecia estar morrendo.

“Não, não. Não acuse Boris. Ele não tem nada a ver com isso. Não acuse Michael. Não acuse ninguém enquanto você não souber. Mas esses dois são inocentes. Acredite em mim. Acredite em mim. Ah, como direi isso, como o persuadirei! Não sou capaz de dizer-lhe nada. E vocês mataram Michael. Ah, o que vocês fizeram, o que vocês fizeram!”

“Nós suprimimos um homem,” disse a voz gelada de Koupriane, “que era apenas o agente para as ações vis do Niilismo.”

Ela conseguiu recuperar uma nova energia que, em suas profundezas de desespero, teriam suposto impossível. Ela agitou os punhos para Koupriane:

“Não é verdade, não é verdade. Essas são calúnias, infâmias! As invenções da polícia! Papéis forjados para incriminá-lo. Não há nada de tudo o que você disse que encontrou na casa dele. Não é possível. Não é verdade.”

“Onde estão esses papéis?” exigiu a voz curta de Feodor. “Traga-os aqui imediatamente, Koupriane; eu desejo vê-los.”

Koupriane ficou ligeiramente perturbado, e isso não escapou a Natacha, que gritou:

“Sim, sim, que ele nos dê, que ele os traga se os tiver. Mas ele não tem,” ela clamou com uma alegria selvagem. “Ele não tem nada. Você pode ver, papai, que ele não tem nada. Ele já os teria trazido. Ele não tem nada. Eu lhe digo que ele não tem nada. Ah, ele não tem nada! Ele não tem nada!”

E ela jogou-se no chão, chorando, soluçando, “Ele não tem nada, ele não tem nada!” Ela parecia chorar de alegria.

“É verdade?” perguntou Feodor Feodorovitch, com sua maneira mais sombria. “É verdade, Koupriane, que você não tem nada?”

“É verdade, General, que não encontramos nada. Tudo já havia sido levado.”

Mas Natacha soltou uma verdadeira torrente de júbilo:

“Ele não encontrou nada! No entanto, ele o acusa de estar aliado aos revolucionários. Por quê? Por quê? Porque eu o deixei entrar? Mas eu, sou eu uma revolucionária? Diga-me. Jurei matar papai? Eu? Eu? Ah, ele não sabe o que dizer. Você vê por si mesmo, papai, ele está em silêncio. Ele mentiu. Ele mentiu.”

“Por que você fez essa declaração falsa, Koupriane?”

“Oh, nós suspeitávamos de Michael há algum tempo e, verdadeiramente, depois do que acabou de acontecer, não podemos ter qualquer dúvida.”

“Sim, mas você declarou que tinha papéis, e não tem. Esse é um procedimento abominável, Koupriane,” respondeu Feodor severamente. “Ouvi você condenar tais expedientes muitas vezes.”

“General! Nós temos certeza, você ouve, nós temos certeza absoluta de que o homem que tentou envenená-lo ontem e o homem de hoje que está morto são um só e o mesmo.”

“E que razão você tem para ter tanta certeza? É necessário dizê-lo,” insistiu o general, que tremia de angústia e impaciência.

“Sim, deixe-o dizer agora.”

“Pergunte ao monsieur,” disse Koupriane.

Todos se voltaram para Rouletabille.

O repórter respondeu, afetando uma frieza que talvez não sentisse inteiramente:

“Estou em condições de afirmar-lhe, como já o fiz perante o Senhor Prefeito de Polícia, que uma, e apenas uma pessoa, deixou os vestígios de suas várias escaladas na parede e na varanda.”

— Idiota! — interrompeu Natacha, com um desdém apaixonado pelo jovem. — E isso satisfaz você?

O general agarrou rudemente o pulso do repórter:

— Escute-me, monsieur. Um homem veio aqui esta noite. Isso só me diz respeito. Ninguém tem o direito de se espantar, exceto eu. Faço disso o meu próprio caso, um caso entre minha filha e eu. Mas você, você acabou de nos dizer que tem certeza de que esse homem é um assassino. Então, veja bem, isso exige algo mais. São necessárias provas, e eu quero as provas imediatamente. Você fala de vestígios; muito bem, iremos examinar esses vestígios juntos. E desejo, para o seu próprio bem, monsieur, que eu fique tão convencido por eles quanto você está.

Rouletabille soltou calmamente o pulso e respondeu com perfeita serenidade:

— Agora, monsieur, não estou mais em condições de provar nada ao senhor.

— Por quê?

— Porque as escadas dos agentes de polícia apagaram todas as minhas provas, monsieur.

— Então, agora, só nos resta a sua palavra, a sua crença em si mesmo. E se você estiver enganado?

— Ele nunca admitiria, papai — gritou Natacha. — Ah, é ele quem merece o destino que Michael Nikolaievitch encontrou agora mesmo. Não é verdade? Você não sabe disso? E esse será o seu eterno remorso! Não há algo que sempre o impede de admitir que está enganado? Você fez com que matassem um homem inocente. Agora, você sabe muito bem, sabe muito bem que eu não teria admitido Michael Nikolaievitch aqui se tivesse acreditado que ele era capaz de querer envenenar meu pai.

— Mademoiselle — respondeu Rouletabille, sem baixar os olhos sob o olhar trovejante de Natacha —, tenho certeza disso.

Ele disse isso em um tom tal que Natacha continuou a olhá-lo com uma angústia incompreensível nos olhos. Ah, o desconcertante daqueles dois olhares, a cena muda entre aqueles dois jovens, um dos quais desejava fazer-se compreender e o outro temia, acima de todas as coisas, ser plenamente compreendido. Natacha murmurou:

— Como ele me olha! Veja, ele é o demônio; sim, sim, o pequeno domovoi, o pequeno domovoi. Mas cuidado, desgraçado; você não sabe o que fez.

Ela virou-se bruscamente para Koupriane:

— Onde está o corpo de Michael Nikolaievitch? — disse ela. — Desejo vê-lo. Preciso vê-lo.

Feodor Feodorovitch caíra sobre uma cadeira, como se estivesse dormindo. Matrena Petrovna não ousava aproximar-se dele. O gigante parecia ferido de morte, desencorajado para sempre. O que nem bombas, nem balas, nem veneno haviam conseguido fazer, a simples ideia da cooperação de sua filha na obra de horror tramada ao seu redor — ou melhor, a impossibilidade que ele enfrentava de compreender a atitude de Natacha, sua conduta misteriosa, o caos de suas explicações, seus gritos insensatos, suas protestações de inocência, suas acusações, suas ameaças, suas preces e toda a sua desordem, o fato admitido de sua parte naquela trágica aventura noturna onde Michael Nikolaievitch encontrou a morte —, havia derrubado Feodor Feodorovitch como se fosse palha. Por um instante, ele buscou refúgio em alguma vaga esperança de que Koupriane estivesse menos seguro do que fingia estar da culpa do ajudante. Mas isso, afinal, era apenas um detalhe sem importância a seus olhos. O que importava era o significado do ato de Natacha, e a infeliz moça parecia não se preocupar com o que ele pensaria a respeito. Ela estava lá para lutar contra Koupriane, Rouletabille e Matrena Petrovna, defendendo seu Michael Nikolaievitch, enquanto ele, o pai, após ter falhado em intimidá-la agora mesmo, estava ali num canto, sofrendo agonicamente.

Koupriane caminhou até ele e disse:

— Escute-me com atenção, Feodor Feodorovitch. Aquele que lhe fala é o Chefe de Polícia pela vontade do Czar, e seu amigo pela graça de Deus. Se você não exigir diante de nós, que estamos a par de tudo o que aconteceu e sabemos como guardar qualquer segredo necessário, se você não exigir de sua filha a razão de sua conduta com Michael Nikolaievitch, e se ela não lhe disser com toda a sinceridade, não há mais nada para eu fazer aqui. Meus homens já receberam ordens de se retirar desta casa por serem indignos de guardar o mais leal súdito de Sua Majestade; não protestei, mas agora peço-lhe, por minha vez, que me prove que o inimigo mais perigoso que você teve em sua casa não é a sua própria filha.

Essas palavras, que resumiam a horrível situação, vieram como um alívio para Feodor. Sim, eles precisavam saber. Koupriane tinha razão. Ela precisava falar. Ele ordenou à filha que contasse tudo, tudo.

Natacha fixou Koupriane novamente com seu olhar de ódio mortal, desviou-se dele e repetiu em voz firme:

— Não tenho nada a dizer.

— Aí está a cúmplice dos seus assassinos — rosnou então Koupriane, com o braço estendido.

Natacha soltou um grito como o de um animal ferido e caiu aos pés de seu pai. Ela os reuniu entre seus braços suplicantes. Apertou-os contra o peito. Soluçou do fundo do coração. E ele, sem compreender, deixou-a ali, distante, hostil, sombrio. Então ela gemeu, distraidamente, e chorou amargamente, e a atmosfera dramática na qual ela subitamente envolveu Feodor fez com que tudo soasse como aqueles gritos de um tempo antigo, quando o pai todo-poderoso e punidor aparecia nos aposentos das mulheres para castigar as culpadas.

— Meu pai! Querido pai! Olhe para mim! Olhe para mim! Tenha piedade de mim e não me peça para falar quando devo permanecer em silêncio para sempre. E acredite em mim! Não acredite nesses homens! Não acredite em Matrena Petrovna. E eu não sou a sua filha? A sua própria filha! A sua Natacha Feodorovna! Não posso tornar as coisas claras para você. Não, não, pela Santa Virgem Mãe de Jesus, eu não posso explicar. Pelos santos ícones, é porque não devo. Pela minha mãe, a quem não conheci e cujo lugar você tomou, oh, meu pai, não me peça mais nada! Não me peça mais nada! Mas tome-me em seus braços como fazia quando eu era pequena; abrace-me, querido pai; ame-me. Nunca tive tanta necessidade de ser amada. Ame-me! Estou miserável. Infeliz de mim, que nem sequer posso me matar diante dos seus olhos para provar minha inocência e meu amor. Papai, papai! Para que servirão seus braços nos dias que lhe restam de vida, se você não quiser mais me apertar contra o seu coração? Papai! Papai!

Ela pousou a cabeça nos joelhos de Feodor. Seu cabelo havia se soltado e caía ao seu redor numa magnífica e desordenada massa negra.

— Olhe nos meus olhos! Olhe nos meus olhos! Veja como eles o amam, Batouchka! Batouchka! Meu querido Batouchka!

Então Feodor chorou. Suas grandes lágrimas caíram sobre as lágrimas de Natacha. Ele levantou a cabeça dela e pediu simplesmente, com uma voz quebrada:

— Você não pode me dizer nada agora? Mas quando você me dirá?

Natacha levantou os olhos para os dele, depois seu olhar passou por ele em direção ao céu, e de seus lábios saiu apenas uma palavra, num soluço:

— Nunca.

Matrena Petrovna, Koupriane e o repórter estremeceram diante da coisa alta e terrível que aconteceu então. Feodor tomou o rosto da filha entre as mãos. Olhou demoradamente para aqueles olhos erguidos para o céu, para a boca que acabara de pronunciar a palavra "Nunca"; então, lentamente, seus lábios rudes foram aos lábios torturados e trêmulos da moça. Ele a segurou junto de si. Ela levantou a cabeça de forma selvagem, triunfante, e gritou, com o braço estendido para Matrena Petrovna:

— Ele acredita em mim! Ele acredita em mim! E você também teria acreditado, se fosse minha verdadeira mãe.

A cabeça dela tombou para trás e ela caiu inconsciente no chão. Feodor caiu de joelhos, cuidando dela, lamentando-a, gesticulando para que os outros saíssem do quarto.

— Vão embora! Todos vocês, vão! Todos! Você também, Matrena Petrovna. Vão embora!

Eles desapareceram, aterrorizados pelo seu gesto selvagem.

Na pequena datcha do outro lado do rio, em Krestowsky, havia um corpo. Agentes do Serviço Secreto guardavam-no enquanto esperavam por seu chefe. Michael Nikolaievitch tinha vindo para lá morrer, e a polícia o alcançara exatamente no seu último suspiro. Eles estavam atrás dele quando, com o estertor da morte na garganta, ele se arrastou para seu aposento e caiu num monte. Katharina, a boêmia, estava lá. Ela inclinou sua cabeça esperta e intrigada sobre a agonia da morte dele. A polícia fervilhava por toda parte, revirando, forçando fechaduras, puxando gavetas das escrivaninhas e mesas, esvaziando os armários. Sua busca incluiu tudo, até mesmo rasgar os colchões, e não respeitou os aposentos de Boris Mourazoff, que estava ausente naquela noite. Revistaram minuciosamente, mas não encontraram absolutamente nada do que procuravam nos aposentos de Michael. Mas acumularam uma multidão de publicações que pertenciam a Boris: livros ocidentais, ensaios sobre economia política, uma história da Revolução Francesa e versos pelos quais um homem deveria ser enforcado. Colocaram tudo sob selo. Durante a busca, Michael morreu nos braços de Katharina. Ela o segurou junto de si, após abrir suas roupas sobre o peito, sem dúvida para tornar seus últimos suspiros mais fáceis. O infeliz oficial havia recebido uma bala na nuca logo após ter mergulhado no Neva, na parte de trás da datcha dos Trebassof, e começado a nadar para o outro lado. Foi um milagre que ele tenha conseguido continuar. Sem dúvida, esperava morrer em paz se ao menos pudesse chegar à sua própria casa. Aparentemente, acreditava que conseguiria isso assim que rompesse o cerco de seus cães de caça humanos. Ele não sabia que tinha sido reconhecido e que seu local de retiro, portanto, era conhecido.

Agora a polícia havia saído do porão ao sótão. Koupriane veio da villa dos Trebassof e juntou-se a eles; Rouletabille o seguia. O repórter não suportava a visão daquele corpo, que ainda tinha um calor persistente, dos grandes olhos abertos que pareciam encará-lo, reprovando-o por aquela morte violenta. Ele se desviou com desgosto, e talvez um pouco de medo. Koupriane percebeu o movimento.

— Arrependimentos? — indagou ele.

— Sim — disse Rouletabille. — Uma morte deve ser sempre lamentada. Apesar disso, ele era um criminoso. Mas sinto sinceramente que ele tenha morrido antes de ter sido forçado a confessar, embora tenhamos certeza disso.

— Sendo pago pelos niilistas, você quer dizer? Essa ainda é a sua opinião? — perguntou Koupriane.

— Sim.

— Você sabe que nada foi encontrado aqui em seus aposentos. Os únicos papéis comprometedores que foram encontrados pertencem a Boris Mourazoff.

— Por que você diz isso?

— Ah... nada.

Koupriane interrogou seus homens mais a fundo. Eles responderam categoricamente. Não, nada foi encontrado que incriminasse diretamente alguém; e subitamente Rouletabille notou que a conversa da polícia e de seu chefe havia se tornado mais animada. Koupriane tinha ficado irritado e os recriminava violentamente. Eles se desculpavam com gestos vívidos e fala rápida.

Koupriane começou a sair. Rouletabille o seguiu. O que havia acontecido?

Ao aproximar-se por trás de Koupriane, ele fez a pergunta. Com poucas palavras cortantes, ainda apressando-se, Koupriane disse ao repórter que acabara de saber que a polícia havia deixado a pequena boêmia Katharina sozinha por um momento com o oficial agonizante. Katharina trabalhava como governanta para Michael e Boris. Ela conhecia os segredos de ambos. A primeira coisa que qualquer novato deveria saber era manter um olho constante nela, e agora ninguém sabia onde ela estava. Ela deveria ser procurada e encontrada imediatamente, pois ela havia aberto a camisa de Michael, e ali provavelmente residia a razão pela qual nenhum papel foi encontrado sobre o cadáver quando a polícia o revistou. A ausência de papéis, de uma carteira, não era natural.

A perseguição começou no amanhecer rosado das ilhas. Tons cor de sangue já estavam no horizonte. Alguns dos policiais gritavam que tinham a trilha. Corriam sob as árvores, porque era quase certo que ela tivesse tomado o caminho estreito que leva à ponte que une Krestowsky a Kameny-Ostrow. Algumas indicações descobertas pela polícia que fervilhava à direita e à esquerda do caminho confirmavam essa hipótese. E nenhuma carruagem à vista! Todos continuaram a correr, Koupriane entre os primeiros. Rouletabille manteve-se em seus calcanhares, mas não o ultrapassou. De repente, houve gritos e chamados entre os policiais. Um apontou algo lá embaixo, deslizando sobre a descida inclinada. Era a pequena Katharina. Ela voava como o vento, mas num curso distraído. Ela havia chegado a Kameny-Ostrow, na margem oeste.

— Oh, por uma carruagem, um cavalo! — clamava Koupriane, que havia deixado seu transporte em Eliaguine. — A prova está lá. É a prova final de tudo o que está escapando de nós!

O amanhecer estava avançado o suficiente agora para mostrar o solo claramente. Katharina era facilmente discernível ao chegar à ponte de Eliaguine. Lá estava ela em Eliaguine-Ostrow. O que ela estava fazendo lá? Estava indo para a villa dos Trebassof? O que ela teria a dizer a eles? Não, ela desviou-se para a direita. A polícia corria atrás dela. Ela ainda estava muito à frente e parecia incansável. Então, ela desapareceu entre as árvores, no matagal, mantendo-se sempre à direita. Koupriane soltou um grito de alegria. Indo por aquele caminho, ela deveria ser capturada. Ele deu algumas ordens ofegantes para que a ilha fosse bloqueada. Ela não poderia escapar agora! Ela não poderia escapar! Mas onde ela estava indo? Koupriane conhecia aquela ilha melhor do que ninguém. Ele tomou um atalho para chegar ao outro lado, para o qual Katharina parecia estar indo, e de repente ele quase tropeçou na moça, que soltou um guincho de surpresa e saiu correndo, parecendo apenas braços e pernas.

— Pare, ou eu atiro! — gritou Koupriane, e sacou seu revólver. Mas uma mão arrancou-o dele.

— Não isso! — disse Rouletabille, enquanto jogava o revólver longe deles. Koupriane xingou-o e retomou a perseguição. Sua fúria multiplicou sua força, sua agilidade; ele quase alcançou Katharina, que estava quase sem fôlego, mas Rouletabille atirou-se nos braços do Chefe e eles rolaram juntos sobre a grama. Quando Koupriane se levantou, foi para ver Katharina subindo com pressa louca as escadas que levavam ao Barque, o restaurante flutuante do Strielka. Amaldiçoando Rouletabille, mas acreditando que sua presa estava facilmente capturada agora, o Chefe, por sua vez, correu para o Barque, no qual Katharina havia desaparecido. Ele chegou ao pé da escada. No degrau superior, prestes a descer do local festivo, a forma do Príncipe Galitch apareceu. Koupriane recebeu a visão como um golpe que o parou bruscamente em sua ascensão. Galitch tinha um ar exultante que Koupriane não confundiu. Evidentemente, ele chegara tarde demais. Ele sentiu a certeza disso num profundo desencorajamento. E esse aparecimento do príncipe no Barque explicava de forma convincente o suficiente a razão da fuga de Katharina para lá.

Se a boêmia havia surrupiado os papéis ou a carteira do morto, era o príncipe agora quem os tinha no bolso.

Koupriane, ao ver o príncipe prestes a passar por ele, tremeu. O príncipe o saudou e ironicamente divertiu-se em perguntar:

— Ora, ora, como vai, meu caro Monsieur Koupriane. Sua Excelência levantou-se muito cedo esta manhã, parece-me. Ou então sou eu que estou indo dormir tarde demais.

— Príncipe — disse Koupriane —, meus homens estão em perseguição a uma pequena boêmia chamada Katharina, bem conhecida nos restaurantes onde canta. Nós a vimos entrar no Barque. O senhor a encontrou por acaso?

— Santo Deus, Monsieur Koupriane, não sou o porteiro do Barque, e não notei absolutamente nada, nem ninguém. Além disso, estou naturalmente um pouco sonolento. Perdoe-me.

— Príncipe, não é possível que o senhor não tenha visto Katharina.

— Oh, Monsieur o Prefeito de Polícia, se eu a tivesse visto, não lhe contaria, já que o senhor a está perseguindo. Toma-me por um dos seus cães de caça? Dizem que o senhor os tem em todas as classes, mas insisto que ainda não me alistei. O senhor cometeu um erro, Monsieur Koupriane.

O príncipe saudou novamente. Mas Koupriane ainda bloqueava seu caminho.

— Príncipe, considere que este assunto é muito sério. Michael Nikolaievitch, ajudante do General Trebassof, está morto, e esta pequena roubou seus papéis do corpo dele. Todas as pessoas que falaram com Katharina estarão sob suspeita. Este é um caso de Estado, monsieur, que pode ir muito longe. O senhor pode jurar-me que não viu, que não falou com Katharina?

O príncipe olhou para Koupriane de forma tão insolente que o Prefeito empalideceu de raiva. Ah, se ele pudesse... se ele ao menos ousasse! Mas homens como aquele estavam além dele. Galitch passou por ele sem uma palavra de resposta e ordenou ao schwitzar que chamasse uma carruagem.

— Muito bem — disse Koupriane —, farei meu relatório ao Czar.

Galitch virou-se. Ele estava tão pálido quanto Koupriane.

— Nesse caso, monsieur — disse ele —, não se esqueça de acrescentar que sou o mais humilde servo de Sua Majestade.

A carruagem parou. O príncipe entrou. Koupriane viu-o partir, enfurecido no coração e com os punhos cerrados. Nesse momento, seus homens chegaram.

— Vão. Revistem — disse ele rudemente, apontando para o interior do Barque.

Eles se espalharam pelo estabelecimento, entrando em todos os cômodos. Gritos de irritação e de protesto surgiram. Aqueles que ainda permaneciam após os últimos dos últimos jantares não ficaram satisfeitos com essa invasão da polícia. Todos tiveram que se levantar enquanto a polícia olhava debaixo das mesas, dos bancos, das longas toalhas de mesa. Eles foram às despensas e desceram ao porão. Nenhum sinal de Katharina. De repente, Koupriane, que se encostava em uma rede e olhava vagamente para o horizonte, esperando pelo resultado da busca, teve um sobressalto. Lá longe, do outro lado do rio, entre um pequeno bosque e a Staria Derevnia, um barco leve encostou na margem, e um pequeno ponto preto saltou dele como uma pulga. Koupriane reconheceu o pequeno ponto preto como Katharina. Ela estava salva. Agora ele não podia alcançá-la. Seria inútil revistar o labirinto do bairro boêmio, onde seu povo vivia em pleno controle, com costumes e privilégios que nunca haviam sido infringidos. Toda a população boêmia da capital teria se levantado contra ele. Foi o Príncipe Galitch quem o fez falhar. Um de seus homens veio até ele:

— Sem sorte — disse ele. — Não encontramos Katharina, mas ela esteve aqui, no entanto. Ela encontrou o Príncipe Galitch por apenas um minuto, deu-lhe algo, depois seguiu para o outro lado em uma canoa.

— Muito bem — e o Prefeito encolheu os ombros. — Eu tinha certeza disso.

Ele sentia-se cada vez mais exasperado. Ele desceu ao longo da margem do rio e a primeira pessoa que viu foi Rouletabille, que o esperava sem qualquer impaciência, sentado filosoficamente em um banco.

— Eu estava procurando por você — gritou o Prefeito. — Falhamos. Por sua culpa! Se você não tivesse se jogado nos meus braços...

— Fiz isso de propósito — declarou o repórter.

— O quê! O que é isso que você diz? Você fez isso de propósito?

Koupriane engasgou de raiva.

— Sua Excelência — disse Rouletabille, pegando-o pelo braço —, acalme-se. Eles estão nos observando. Venha comigo e tome uma xícara de chá no Cubat's. Calma agora, como se estivéssemos apenas dando um passeio.

— Você vai me explicar?

— Não, não, Sua Excelência. Lembre-se de que prometi a vida do General Trebassof em troca da de sua prisioneira. Muito bem; ao me jogar nos seus braços e impedi-lo de alcançar Katharina, salvei a vida do general. É muito simples.

— Você está rindo de mim? Acha que pode zombar de mim?

Mas o prefeito viu rapidamente que Rouletabille não estava brincando e não tinha zombaria em seu modo de agir.

— Monsieur — insistiu ele —, já que você fala seriamente, certamente desejo compreender...

— É inútil — disse Rouletabille. — É muito necessário que o senhor não compreenda.

— Mas, pelo menos...

— Não, não, não posso lhe dizer nada.

— Quando, então, você me dirá algo para explicar sua conduta inacreditável?

Rouletabille parou em seus passos e declarou solenemente:

— Monsieur Koupriane, recorde o que Natacha Feodorovna, ao levantar seus lindos olhos para o céu, respondeu ao seu pai, quando ele, também, desejou compreender: "Nunca".

Às dez horas daquela manhã, Rouletabille foi à villa Trebassof, que contava novamente com sua guarda de agentes secretos, uma guarda dupla, pois Koupriane tinha certeza de que os niilistas não tardariam a vingar a morte de Michael. Rouletabille foi recebido por Ermolai, que não lhe permitiu entrar. O fiel criado pronunciou alguma explicação em russo, a qual o jovem não compreendeu, ou, melhor dizendo, Rouletabille compreendeu perfeitamente, pelo modo como ele agia, que a porta da villa estava a partir dali fechada para ele. Em vão insistiu para ver o general, Matrena Petrovna e Mademoiselle Natacha. Ermolai não fez resposta alguma além de "Niet, niet, niet". O repórter afastou-se sem ter visto ninguém e caminhou profundamente deprimido. Foi a pé até a cidade, uma longa caminhada durante a qual seu cérebro fervilhava com os presságios mais sombrios. Ao passar pelo Departamento de Polícia, resolveu ver Koupriane novamente. Entrou, deu seu nome e foi conduzido imediatamente ao Chefe de Polícia, a quem encontrou curvado sobre um longo relatório que lia com visível agitação.

“Gounsovski enviou-me isto”, disse ele com uma voz áspera, apontando para o relatório. “Gounsovski, ‘para me fazer um favor’, deseja que eu saiba que ele está plenamente ciente de tudo o que aconteceu na datcha Trebassof na noite passada. Ele me avisa que os revolucionários decidiram acabar com o general imediatamente, e que dois deles receberam a missão de entrar na datcha de qualquer maneira possível. Eles terão bombas em seus corpos e farão explodir as bombas e a si mesmos assim que estiverem ao lado do general. Quem são as duas vítimas designadas para esta terrível vingança, e quem aceitou alegremente tal morte tanto para si quanto para o general? É isso que não sabemos. É isso que talvez soubéssemos se você não tivesse me impedido de apreender os papéis que o Príncipe Galitch possui agora”, terminou Koupriane, voltando-se hostilmente para Rouletabille.

Rouletabille tinha ficado pálido.

“Não lamente o que aconteceu com os papéis”, disse ele. “Sou eu quem lhe diz para não lamentar. Mas o que você diz não me surpreende. Eles devem acreditar que Natacha os traiu.”

“Ah, então você admite finalmente que ela realmente é cúmplice deles?”

“Eu não disse isso e não admito. Mas sei o que quero dizer, e você, você não pode. Apenas saiba disto: neste momento, sou a única pessoa capaz de salvá-lo nesta situação horrível. Para fazer isso, preciso ver Natacha imediatamente. Faça-a entender isso, enquanto aguardo em meu hotel por notícias. Não sairei de lá.”

Rouletabille saudou Koupriane e saiu.

Dois dias se passaram, durante os quais Rouletabille não recebeu nenhuma notícia de Natacha ou de Koupriane, e tentou em vão vê-los. Fez uma viagem de algumas horas à Finlândia, indo até Pergalovo, uma cidade isolada que se dizia ser frequentada pelos revolucionários, depois retornou, muito perturbado, ao seu hotel, após ter escrito uma última carta a Natacha implorando uma entrevista. Os minutos passavam muito lentamente para ele no vestíbulo do hotel, onde parecia ter estabelecido uma residência definitiva.

Instalado em um banco, parecia ter se tornado parte da equipe do hotel, e mais de um viajante o tomou por um intérprete. Outros pensavam que ele era um agente da Polícia Secreta nomeado para estudar os rostos daqueles que chegavam e partiam. O que ele estava esperando, então? Seria por Annouchka, para retornar para um almoço ou jantar naquele lugar que ela às vezes frequentava? E ele vigiava ao mesmo tempo os apartamentos de Annouchka logo em frente? Se fosse assim, ele só poderia lamentar sua sorte, pois Annouchka não apareceu nem em seus apartamentos, nem no hotel, nem no estabelecimento Krestowsky, que fora obrigado a suspender sua apresentação. Rouletabille naturalmente pensou, em relação a este último ponto, que alguma vingança de Gounsovski estava por trás disso, já que o chefe do Serviço Secreto dificilmente poderia esquecer o modo como havia sido tratado. O repórter já podia ver a pobre cantora, apesar de todas as suas salvaguardas e do favor da família Imperial, a caminho das estepes siberianas ou dos calabouços de Schlusselbourg.

“Meu Deus, que país!” murmurou ele.

Mas seus pensamentos logo abandonaram Annouchka e retornaram ao objeto de sua principal preocupação. Ele esperava apenas por uma coisa, e o mais rápido possível: ter uma entrevista privada com Natacha. Escrevera-lhe dez cartas em dois dias, mas todas permaneceram sem resposta. Era uma resposta que ele aguardava tão pacientemente no vestíbulo do hotel; tão pacientemente, mas tão nervosamente, tão febrilmente.

Quando o carteiro entrava, o coração do pobre Rouletabille batia rapidamente. Daquela resposta que ele aguardava dependia a parte formidável que ele pretendia desempenhar antes de deixar a Rússia. Ele não tinha realizado nada até agora, a menos que pudesse desempenhar seu papel neste desenvolvimento posterior.

Mas a carta não vinha. O carteiro ia embora, e o schwitzar, após examinar toda a correspondência, fazia-lhe um sinal negativo. Ah, os criados que entravam, e os mensageiros, como ele os observava! Mas eles nunca vinham para ele. Finalmente, às seis horas da noite do segundo dia, um homem de fraque, com uma gola de astracã falsa, entrou e entregou ao concierge uma carta para Joseph Rouletabille. O repórter saltou. Antes que o homem estivesse fora da porta, ele tinha aberto a carta e lido. A carta não era de Natacha. Era de Gounsovski. Eis o que dizia:

“Meu caro Monsieur Joseph Rouletabille, se não for inconveniente, gostaria que viesse jantar comigo hoje. Esperarei por você dentro de duas horas. Madame Gounsovski ficará satisfeita em conhecê-lo. Acredite-me, seu devotado Gounsovski.”

Rouletabille ponderou e decidiu:

“Eu irei. Ele deve ter vento do que está sendo tramado e, quanto a mim, não sei para onde Annouchka foi. Tenho mais a aprender com ele do que ele comigo. Além disso, como disse Athanase Georgevitch, pode-se lamentar não aceitar o agradável convite do Chefe da Okrana.”

Das seis às sete ele ainda aguardou em vão pela resposta de Natacha. Às sete horas, decidiu vestir-se para o jantar. Assim que se levantou, um mensageiro chegou. Havia ainda outra carta para Joseph Rouletabille. Desta vez era de Natacha, que lhe escreveu:

“O General Trebassof e minha madrasta ficarão muito felizes em recebê-lo para o jantar hoje. Quanto a mim, monsieur, você me perdoará pela ordem que fechou para você, por vários dias, uma moradia onde prestou serviços que não esquecerei por toda a minha vida.”

A carta terminava com uma fórmula educada e vaga. Com a carta na mão, o repórter ficou pensativo. Parecia estar perguntando a si mesmo: “É peixe ou é carne?” Era uma carta de agradecimento ou de ameaça? Era isso que ele não conseguia decidir. Bem, logo saberia, pois decidira aceitar aquele convite. Qualquer coisa que colocasse ele e Natacha em comunicação naquele momento era uma coisa de importância capital para ele. Meia hora depois, deu o endereço da villa a um isvotchick, e logo desceu diante do portão onde Ermolai parecia estar esperando por ele.

Rouletabille estava tão ocupado pelo pensamento da conversa que teria com Natacha que tinha esquecido completamente o excelente Monsieur Gounsovski e seu convite.

O repórter encontrou os agentes de Koupriane fazendo uma corrente estreitamente ligada ao redor do terreno e cada um vigiando o outro. Matrena não quisera nenhum agente dentro de casa. Ele mostrou o passe de Koupriane e entrou.

Ermolai conduziu Rouletabille para dentro com o rosto brilhante. Parecia feliz por tê-lo ali novamente. Curvou-se profundamente diante dele e proferiu muitos cumprimentos, dos quais o repórter não compreendeu uma palavra. Rouletabille seguiu adiante, entrou no jardim e viu Matrena Petrovna caminhando ali com sua enteada. Pareciam estar nos melhores termos uma com a outra. O terreno tinha um ar de tranquilidade e os residentes pareciam ter esquecido totalmente a tragédia sombria da outra noite. Matrena e Natacha aproximaram-se sorridentes do jovem, que perguntou pelo general. Ambas se voltaram e apontaram Feodor Feodorovitch, que o saudava do alto do quiosque, onde parecia que a mesa havia sido posta. Eles iriam jantar ao ar livre nesta noite agradável.

“Tudo vai muito bem, muito bem mesmo, querido pequeno domovoi”, disse Matrena. “Como é bom vê-lo e agradecê-lo. Se soubesse o quanto sofri em sua ausência, eu, que sei quão injusta minha filha foi com você. Mas a querida Natacha sabe agora o que lhe deve. Ela não duvida mais da sua palavra, nem da sua inteligência clara, pequeno anjo. Michael Nikolaievitch era um monstro e foi punido como merecia. Você sabe que a polícia tem provas agora de que ele era um dos agentes mais perigosos do Comitê Revolucionário Central. E ele, um oficial! Em quem podemos confiar agora!”

“E o Monsieur Boris Mourazoff, a senhora o viu desde então?” indagou Rouletabille.

“Boris veio nos ver hoje, para se despedir, mas não o recebemos, sob as ordens da polícia. Natacha escreveu para informá-lo das ordens de Koupriane. Recebemos cartas dele; ele está deixando São Petersburgo.”

“Para quê?”

“Bem, após a cena sangrenta e terrível em sua pequena casa, quando soube como Michael Nikolaievitch encontrou sua morte, e após ele próprio ter passado por um rigoroso interrogatório da polícia, e quando soube que a polícia tinha revistado sua biblioteca e examinado seus papéis, ele pediu demissão e resolveu viver a partir de agora no campo, sem ver ninguém, como o filósofo e poeta que é. Quanto a mim, penso que ele está fazendo absolutamente o certo. Quando um jovem é um poeta, é inútil viver como um soldado. Alguém disse isso, não me lembro do nome agora, e quando se tem ideias que podem perturbar outras pessoas, certamente deveriam viver na solidão.”

Rouletabille olhou para Natacha, que estava tão pálida quanto seu vestido branco, e que não acrescentou nenhuma palavra ao desabafo de sua mãe. Eles se aproximaram do quiosque. Rouletabille saudou o general, que o chamou para subir e, quando o jovem estendeu a mão, ele o puxou abruptamente para mais perto e o abraçou. Para mostrar a Rouletabille o quão ativo ele estava se tornando novamente, Feodor Feodorovitch caminhou de um lado para o outro no quiosque apenas com a ajuda de uma bengala. Ele ia e vinha com uma espécie de alegria selvagem e furiosa.

“Eles ainda não me pegaram, os cães. Eles ainda não me pegaram! E um (ele pensava em Michael) que me via todos os dias estava aqui apenas para isso. Muito bem. Pergunto-lhe onde ele está agora. E, no entanto, aqui estou eu! Um ataque! Eu estou sempre aqui! Mas com um bom olho; e começo a ter uma boa perna. Nós veremos. Ora, lembro-me de como, quando estava em Tiflis, houve uma insurreição no Cáucaso. Nós lutamos. Várias vezes pude sentir o zunido das balas passando pelo meu cabelo. Meus camaradas caíam ao meu redor como moscas. Mas nada aconteceu comigo, nada mesmo. E aqui agora! Eles não vão me pegar, eles não vão me pegar. Você sabe como eles planejam agora vir até mim, como bombas vivas. Sim, eles decidiram isso. Não posso mais apertar a mão de um amigo sem o medo de vê-lo explodir. O que você acha disso? Mas eles não vão me pegar. Venha, beba à minha saúde. Um pequeno copo de vodca para abrir o apetite. Você vê, jovem, vamos ter zakouskis aqui. Que panorama maravilhoso! Você pode ver tudo daqui. Se o inimigo vier”, acrescentou ele com uma risada alta e singular, “não podemos deixar de detectá-lo.”

Certamente o quiosque erguia-se bem alto acima do jardim e estava completamente isolado, sem nenhum muro próximo. Eles tinham uma visão clara. Nenhum galho de árvore pendia sobre o teto e nenhuma árvore escondia a vista. A mesa rústica de madeira bruta estava coberta com uma toalha curta e estava posta com zakouskis. Era uma refeição sob o céu aberto, um assento e um copo no azul claro. A noite não poderia ter sido mais suave e clara. E, como o general sentia-se tão alegre, o banquete prometia ser dos mais agradáveis, se Rouletabille não tivesse notado que Matrena Petrovna e Natacha estavam inquietas e abatidas. O repórter viu logo, também, que toda a jovialidade do general era um pouco excessiva. Qualquer um diria que Feodor Feodorovitch falava para se distrair, para se impedir de pensar. Havia desculpa suficiente para ele após o drama ultrajante da outra noite. Rouletabille notou, ainda, que o general nunca olhava para a filha, mesmo quando falava com ela. Havia um mistério demasiado formidável entre eles para que a tensão não aumentasse dia após dia. Rouletabille involuntariamente balançou a cabeça, entristecido por tudo o que via. Seu movimento foi surpreendido por Matrena Petrovna, que apertou sua mão em silêncio.

“Bem, agora”, disse o general, “bem, agora, meus filhos, onde está a vodca?”

Entre todas as garrafas que adornavam a mesa, o general procurou em vão por seu frasco de vodca. Como, afinal, poderia jantar se não se preparasse para esse ato importante pela rápida absorção de dois ou três pequenos copos de vinho branco, entre dois ou três sanduíches de caviar!

“Ermolai deve ter deixado no armário de vinhos”, disse Matrena.

O armário de vinhos ficava na sala de jantar. Ela levantou-se para ir até lá, mas Natacha apressou-se à frente dela pela pequena escadaria, gritando: “Fique aí, mamãe. Eu vou.”

“Não se incomode também. Eu sei onde está”, gritou Rouletabille, e apressou-se atrás de Natacha.

Ela não parou. Os dois jovens chegaram à sala de jantar ao mesmo tempo. Estavam ali sozinhos, como Rouletabille previra. Ele deteve Natacha e colocou-se à frente dela.

“Por que, mademoiselle, não me respondeu antes?”

“Porque não desejo ter qualquer conversa com você.”

“Se fosse assim, você não teria vindo aqui, onde tinha certeza de que eu seguiria.”

Ela hesitou, com uma emoção que teria sido incompreensível para todos os outros, talvez, mas não para Rouletabille.

“Bem, sim, eu queria lhe dizer isto: Não me escreva mais. Não fale comigo. Não me veja. Vá embora daqui, monsieur; vá embora. Eles tirarão sua vida. E se descobriu alguma coisa, esqueça. Ah, pela cabeça de sua mãe, esqueça, ou você está perdido. É isso que eu queria lhe dizer. E agora, você vá.”

Ela agarrou a mão dele em um movimento rápido e compreensivo que pareceu instantaneamente lamentar.

“Você vá embora”, repetiu ela.

Rouletabille ainda mantinha seu lugar diante dela. Ela se virou; não queria ouvir mais nada.

“Mademoiselle”, disse ele, “você é vigiada mais de perto do que nunca. Quem ocupará o lugar de Michael Nikolaievitch?”

“Louco, cale-se! Silêncio!”

“Estou aqui.”

Ele disse isso com tamanha bravura simples que lágrimas brotaram nos olhos dela.

“Querido homem! Pobre homem! Querido homem corajoso!” Ela não sabia o que dizer. Sua emoção impedia toda a expressão. Mas era necessário que ela permitisse que ele entendesse que não havia nada que pudesse fazer para ajudá-la em suas tristes dificuldades.

“Não. Se soubessem o que você acabou de dizer, o que você propôs agora, você estaria morto amanhã. Não os deixe suspeitar. E, acima de tudo, não tente me ver em lugar nenhum. Volte para o papai imediatamente. Estamos aqui há muito tempo. E se eles descobrirem? — e eles descobrem tudo! Eles estão em toda parte, e têm ouvidos em toda parte.”

“Mademoiselle, apenas uma palavra mais, uma única palavra. Você duvida agora que Michael tentou envenenar seu pai?”

“Ah, eu desejo acreditar nisso. Eu desejo. Eu desejo acreditar nisso pelo seu bem, meu pobre rapaz.”

Rouletabille desejava algo além de “eu desejo acreditar nisso pelo seu bem, meu pobre rapaz”. Ele estava longe de estar satisfeito. Ela o viu ficar pálido. Ela tentou tranquilizá-lo enquanto suas mãos trêmulas erguiam a tampa do armário de vinhos.

“O que me faz pensar que você está certo é que eu mesma decidi que apenas uma e a mesma pessoa, como você disse, subiu à janela da pequena varanda. Sim, ninguém pode duvidar disso, e você raciocinou bem.”

Mas ele ainda persistia.

“E ainda assim, apesar disso, você não está inteiramente certa, já que diz: ‘Eu desejo acreditar nisso, meu pobre rapaz’.”

“Monsieur Rouletabille, alguém poderia ter tentado envenenar meu pai, e não ter vindo pelo caminho da janela.”

“Não, isso é impossível.”

“Nada é impossível para eles.”

E ela virou a cabeça novamente.

“Ora, ora”, disse ela, com sua voz completamente mudada e bastante indiferente, como se desejasse ser apenas ‘a filha da casa’ em conversa com o jovem, “a vodca não está no armário de vinhos, afinal. O que Ermolai fez com ela, então?”

Ela correu para o buffet e encontrou o frasco.

“Oh, aqui está. Papai não ficará sem ela, afinal.”

Rouletabille já estava de volta ao jardim.

“Se essa é a única dúvida que ela tem”, disse ele para si mesmo, “posso tranquilizá-la. Ninguém poderia vir, exceto pela janela. E apenas um veio por aquele caminho.”

A jovem tinha se juntado a ele, trazendo o frasco. Eles atravessaram o jardim juntos até o general, que matava o tempo enquanto esperava por sua vodca, explicando a Matrena Petrovna a natureza da “constituição”. Ele tinha derrubado uma caixa de fósforos sobre a mesa e os organizava cuidadosamente.

“Aqui”, gritou ele para Natacha e Rouletabille. “Venham aqui e eu explicarei a vocês também o que essa Constituição significa.”

Os jovens inclinaram-se sobre sua demonstração curiosamente e todos os olhos no quiosque estavam atentos aos fósforos.

“Vocês veem esse fósforo”, disse Feodor Feodorovitch. “É o Imperador. E este outro fósforo é a Imperatriz; este aqui é o Tsarevitch; e aquele é o Grão-duque Alexander; e estes são os outros grão-duques. Agora, aqui estão os ministros e ali os principais governadores, e então os generais; estes aqui são os bispos.”

A caixa inteira de fósforos foi usada, e cada fósforo estava em seu lugar, como é o costume em um império onde a etiqueta adequada prevalece no governo e na ordem social.

“Bem”, continuou o general, “vocês querem saber, Matrena Petrovna, o que é uma constituição? Ali! Isso é a Constituição.”

O general, com um movimento da mão, misturou todos os fósforos. Rouletabille riu, mas a boa Matrena disse:

“Eu não compreendo, Feodor.”

“Encontre o Imperador agora.”

Então Matrena compreendeu. Ela riu cordialmente, riu violentamente, e Natacha riu também. Encantado com seu sucesso, Feodor Feodorovitch pegou um dos pequenos copos que Natacha tinha enchido com a vodca que trouxera.

“Escutem, meus filhos”, disse ele. “Vamos começar os zakouskis. Koupriane já deveria estar aqui.”

Dizendo isso, segurando ainda o pequeno copo na mão, ele tateou no bolso com a outra à procura de seu relógio, e tirou um magnífico relógio grande cujo tique-taque era facilmente ouvido.

“Ah, o relógio voltou do conserto”, comentou Rouletabille sorridente para Matrena Petrovna. “Parece um relógio esplêndido.”

“Tem mecanismos muito finos”, disse o general. “Foi-me legado pelo meu avô. Marca os segundos, as fases da lua, e soa as horas e meias-horas.”

Rouletabille inclinou-se sobre o relógio, admirando-o.

“O senhor espera o M. Koupriane para o jantar?” indagou o jovem, ainda examinando o relógio.

“Sim, mas como ele está tão atrasado, não vamos mais esperar. À saúde de vocês, meus filhos”, disse o general enquanto Rouletabille lhe devolvia o relógio e ele o colocava no bolso.

“À sua saúde, Feodor Feodorovitch”, respondeu Matrena Petrovna, com sua ternura habitual.

Rouletabille e Natacha apenas tocaram com os lábios na vodka, mas Feodor Feodorovitch e Matrena beberam a deles à moda russa, de cabeça para trás e de um só gole, esvaziando-a até ao fundo e atirando o conteúdo para o fundo da garganta. Mal tinham completado este gesto, o general soltou um juramento e tentou expulsar o que tinha bebido tão cordialmente. Matrena Petrovna cuspiu violentamente também, olhando com horror para o seu marido.

“O que é isto? O que é que alguém pôs na vodka?”, gritou Feodor.

“O que é que alguém pôs na vodka?”, repetiu Matrena Petrovna com uma voz grossa, os olhos quase a saltarem-lhe das órbitas.

Os dois jovens atiraram-se sobre os infelizes. O rosto de Feodor tinha uma expressão de sofrimento atroz.

“Estamos envenenados”, gritou o general, no meio dos seus engasgos. “Estou a arder por dentro.”

Quase louca, Natacha tomou a cabeça do pai nas suas mãos. Gritou-lhe:

“Vomita, papá; vomita!”

“Temos de encontrar um emético”, gritou Rouletabille, segurando o general, que quase tinha escorregado dos seus braços.

Matrena Petrovna, cujos ruídos de engasgo eram violentos, apressou-se a descer os degraus do quiosque, atravessou o jardim como se o fogo a perseguisse e saltou para a varanda. Durante este tempo, o general conseguiu aliviar-se, graças a Rouletabille, que lhe tinha enfiado uma colher até à raiz da língua. Natacha não podia fazer mais do que gritar: “Meu Deus, meu Deus, meu Deus!”. Feodor segurava o estômago, ainda a gritar: “Estou a arder, estou a arder!”. A cena era terrivelmente trágica e engraçada ao mesmo tempo. Para aumentar o tom burlesco, o relógio do general no seu bolso deu oito horas. Feodor Feodorovitch levantou-se num esforço supremo final. “Oh, é horrível!”. Matrena Petrovna mostrava um rosto vermelho, quase violeta, quando voltou; distorcia-o, engasgava-se, a sua boca contraía-se, mas trazia algo, um pequeno pacote que abanava, e do qual, tremendo de medo, sacudiu um pó para os dois primeiros copos vazios, que estavam do seu lado da mesa e que eram os que ela e o general tinham esvaziado. Ainda teve força para os encher com água, enquanto Rouletabille estava quase vencido pelo general, que ainda tinha nos braços, e Natacha não se preocupava com nada a não ser com o seu pai, inclinando-se sobre ele como se quisesse seguir o progresso do terrível veneno, ler nos seus olhos se seria vida ou morte. “Ipeca”, gritou Matrena Petrovna, e fê-lo beber ao general. Ela não bebeu até depois dele. A mulher heroica deve ter exercido uma força sobre-humana para ir ela própria buscar o antídoto salvador à sua caixa de medicamentos, mesmo enquanto a agonia invadia as suas entranhas.

Alguns minutos depois, ambos podiam considerar-se salvos. Os criados, com Ermolai à frente, estavam reunidos em volta. A maioria deles estivera na portaria e não tinham, ao que parecia, ouvido o início do caso, os gritos de Natacha e Rouletabille. Koupriane chegou nesse momento. Foi ele que trabalhou com Natacha para deitar os dois na cama. Depois, ordenou a um dos seus agentes que fosse buscar os médicos mais próximos que conseguissem encontrar.

Feito isto, o Prefeito de Polícia dirigiu-se ao quiosque onde tinha deixado Rouletabille. Mas Rouletabille não foi encontrado, e a garrafa de vodka e os copos dos quais tinham bebido também tinham desaparecido. Ermolai estava por perto, e ele perguntou ao criado pelo jovem francês. Ermolai respondeu que ele tinha acabado de sair, levando a garrafa e os copos. Koupriane praguejou. Sacudiu Ermolai e até começou a dar-lhe um soco com o punho por permitir que tal coisa acontecesse diante dos seus olhos sem fazer um protesto.

Ermolai, que tinha a sua própria altivez, esquivou-se ao punho de Koupriane e respondeu que tinha querido impedir o jovem francês, mas o repórter tinha-lhe mostrado um documento policial no qual o próprio Koupriane tinha declarado de antemão que o jovem francês devia fazer tudo o que lhe apetecesse.

XII. PERE ALEXIS

Koupriane saltou para a sua carruagem e apressou-se em direção a São Petersburgo. No caminho, falou com três agentes que só ele sabia estarem destacados nas redondezas de Eliaguine. Disseram-lhe a rota que Rouletabille tinha tomado. O repórter tinha certamente regressado à cidade. Apressou-se em direção à Ponte Troitski. Lá, na esquina da Naberjnaia, Koupriane viu o repórter num veículo alugado. Rouletabille estava a bater nas costas do seu cocheiro, à moda russa, para o fazer andar mais depressa, e gritava com todas as suas forças uma das poucas palavras que tinha tido tempo de aprender: “Naleva, naleva” (para a esquerda). O condutor foi forçado a entender finalmente, pois não havia outra forma de virar a não ser para a esquerda. Se tivesse virado à direita (naprava), ter-se-ia metido no rio. O veículo chocalhou sobre as pedras pontiagudas de um bairro que conduzia a uma pequena rua, Aptiekarski-Pereoulok, na esquina do canal Katharine. Esta “travessa dos farmacêuticos”, de facto, não continha farmacêuticos, mas havia um sinal curioso de um herbário, onde Rouletabille fez o condutor parar. À medida que a carruagem rolava sob o arco, Rouletabille reconheceu Koupriane. Não esperou, mas gritou-lhe: “Ah, aqui está. Tudo bem; siga-me”. Ainda tinha a garrafa e os copos nas mãos. Koupriane não pôde deixar de notar o quão estranho ele parecia. Passou por um pátio com ele, e entrou numa loja sórdida.

“O quê”, disse Koupriane, “conhece o Pere Alexis?”

Estavam no meio de uma curiosa desordem. Cachos de ervas secas pendiam do teto, e por entre eles havia montes de botas velhas, peles enrugadas, panelas batidas, ferro-velho, peles de carneiro, touloupes inúteis, e no chão roupas velhas bolorentas, peles roídas pelas traças e casacos de pele de carneiro que nem um moujik dos pântanos se teria dignado a usar. Aqui e ali havia dentes velhos, adornos esfarrapados, chapéus em ruínas e frascos de ervas estranhas dispostos sobre algumas prateleiras bambas. Entre o conjunto de balanças no balcão e uma pilha de pequenos blocos de madeira usados para calcular as contas deste negócio singular, havia ícones sem douração, cruzes de prata oxidada e imagens bizantinas representando cenas do Antigo e do Novo Testamento. Frascos de álcool com o que pareciam ser esqueletos de sapos a nadar neles preenchiam o espaço que restava. Num canto desta sala grande e sombria, sob a abóbada de pedra coberta de musgo, encontrava-se um pequeno altar e a luz ardia num candeeiro de óleo suspenso diante das imagens sagradas. Um homem estava a rezar diante do altar. Vestia o traje da velha Rússia, o caftan de pano verde, abotoado no ombro e preso na cintura por um cinto estreito. Tinha uma barba cerrada e o cabelo caía-lhe pelos ombros. Quando terminou a sua oração, levantou-se, percebeu a presença de Rouletabille e veio tomar-lhe a mão. Falou francês para o repórter:

“Bem, aqui está você de novo, rapaz. Traz veneno outra vez hoje? Isto acabará por ser descoberto, e a polícia...”

Nesse momento, discerniu a forma de Koupriane na sombra, aproximou-se para distinguir quem era, e caiu de joelhos ao ver quem era. Rouletabille tentou levantá-lo, mas ele insistiu em prostrar-se. Tinha a certeza de que o Prefeito de Polícia tinha vindo à sua casa para o enforcar. Finalmente, foi tranquilizado pelas afirmações positivas de Rouletabille e pela risada robusta do grande chefe. O Prefeito queria saber como o jovem conhecia o “alquimista” da polícia. Rouletabille contou-lho em poucas palavras.

Maitre Alexis, na sua juventude, foi para França a pé, para estudar farmácia, devido ao seu entusiasmo pela química. Mas permaneceu sempre campónio, muito um camponês russo, um urso semi-oriental, e não obteve o seu diploma. Tirou alguns certificados, mas os exames foram demasiado para ele. Durante cinquenta anos, viveu miseravelmente como ajudante de farmacêutico nas traseiras de uma loja de má reputação no bairro de Notre Dame. O proprietário do local esteve implicado no famoso caso dos lingotes de ouro, que iniciou a reputação de Rouletabille, e foi preso juntamente com o seu ajudante, Alexis. Foi Rouletabille quem provou, claro como o dia, que o pobre Alexis era inocente, e que nunca tinha tido conhecimento das más práticas do seu mestre, estando absorto nas profundezas do seu laboratório a tentar desenvolver uma alquimia ingénua que o fascinava, embora o mundo da química a tivesse ultrapassado há séculos. No julgamento, Alexis foi absolvido, mas encontrou-se na rua. Derramou as lágrimas que restavam no seu corpo sobre o pescoço do repórter, assegurando-lhe o paraíso se o levasse de volta ao seu próprio país, porque desejava apenas uma coisa mais da vida, que pudesse ver a sua terra natal antes de morrer. Rouletabille adiantou os meios necessários e enviou-o para São Petersburgo. Lá, foi apanhado ao fim de dois dias pela polícia, num pequeno jogo de azar, e atirado para a prisão, onde teve prontamente oportunidade de mostrar os seus talentos. Curou alguns dos seus companheiros de miséria, e até alguns dos guardas. Um guarda que tinha uma perna ferida, cuja cura tinha desesperado, foi curado por Alexis. Depois, descobriu-se que não havia acusação real contra ele. Libertaram-no e, além disso, interessaram-se por ele. Encontraram-lhe um emprego escasso no Stchoukine-dvor, um imenso bazar popular. Acumulou alguns rublos e instalou-se por sua conta nas traseiras de um pátio no Aptiekarski-Pereoulok, onde foi acumulando gradualmente uma pilha de velharias que ninguém queria nem mesmo no Stchoukine-dvor. Mas estava feliz, porque atrás da sua loja tinha instalado um pequeno laboratório onde continuava para seu prazer as suas experiências em alquimia e o seu estudo de plantas. Ainda pretendia escrever um livro de que já tinha falado em França a Rouletabille, para provar a verdade do “Tratamento Empírico de Ervas Medicinais, a Ciência da Alquimia e as Antigas Experiências de Feitiçaria”. Entretanto, continuava a curar quem quer que o procurasse, e a polícia em particular. Os guardas da polícia protegiam-no e utilizavam-no. Ele tinha emplastros esplêndidos para eles depois de “o escândalo”, como chamavam aos motins de outubro. Por isso, quando os médicos do bairro tentaram processá-lo por exercício ilegal da profissão, uma delegação de guardas policiais foi ter com Koupriane, que assumiu a responsabilidade e suspendeu os processos contra ele. Consideravam-no sob a proteção dos santos, e Alexis cedo começou a ser considerado ele próprio como uma espécie de homem santo. Nunca deixou, em cada Natal e Páscoa, de enviar as suas imagens mais belas a Rouletabille, desejando-lhe toda a prosperidade e dizendo que se alguma vez viesse a São Petersburgo, ficaria feliz por recebê-lo em Aptiekarski-Pereoulok, onde estava estabelecido em trabalho honesto. Pere Alexis, como todos os verdadeiros santos, era um homem modesto.

Quando Alexis se recuperou um pouco da sua emoção, Rouletabille disse-lhe:

“Pere Alexis, trago-lhe veneno de novo, mas não tem nada a temer, pois Sua Excelência o Chefe de Polícia está comigo. Aqui está o que queremos que faça. Tem de nos dizer que veneno contêm estes quatro copos, e que veneno ainda está nesta garrafa e nesta pequena ampola.”

“O que é essa pequena ampola?”, perguntou Koupriane, ao ver Rouletabille tirar um pequeno frasco rolhado do bolso.

O repórter respondeu: “Coloquei neste frasco a vodka que foi vertida no copo da Natacha e no meu e que apenas tocámos.”

“Alguém tentou envenená-los!”, exclamou Pere Alexis.

“Não, não a mim”, respondeu Rouletabille, de forma aborrecida. “Não pense nisso. Simplesmente faça o que lhe digo. Depois, analise estes dois guardanapos, também.”

E tirou do seu casaco dois guardanapos sujos.

“Bem”, disse Koupriane, “pensou em tudo.”

“São os guardanapos que o general e a sua esposa usaram.”

“Sim, sim, compreendo isso”, disse o Chefe de Polícia.

“E o senhor, Alexis, compreende?”, perguntou o repórter. “Quando podemos ter o resultado da sua análise?”

“Dentro de uma hora, o mais tardar.”

“Muito bem”, disse Koupriane. “Agora não preciso de lhe dizer para manter a língua quieta. Vou deixar um dos meus homens aqui. Escrever-nos-á uma nota que selará, e ele trazê-la-á ao quartel-general. Tem a certeza de que compreende? Dentro de uma hora?”

“Dentro de uma hora, Excelência.”

Saíram, e Alexis seguiu-os, curvando-se até ao chão. Koupriane fez Rouletabille entrar na sua carruagem. O jovem fez o que lhe foi dito. Dir-se-ia que não sabia onde estava ou o que fazia. Não respondeu às perguntas do chefe.

“Este Pere Alexis”, retomou Koupriane, “é uma personagem, realmente uma figura. E um pouco esquematizador, diria eu. Viu como o Padre João de Cronstadt teve sucesso, e diz para consigo: ‘Já que os marinheiros tiveram o seu Padre João de Cronstadt, porque é que a guarda policial não pode ter o seu Padre Alexis de Aptiekarski-Pereoulok?’”

Mas Rouletabille não respondeu de todo, e Koupriane acabou por perguntar o que se passava com ele.

“O que se passa”, respondeu Rouletabille, incapaz de esconder por mais tempo a sua angústia, “é que o veneno continua.”

“Isso espanta-o?”, retorquiu Koupriane. “A mim não.”

Rouletabille olhou para ele e abanou a cabeça. Os seus lábios tremeram quando disse: “Sei o que pensa. É abominável. Mas a coisa que fiz certamente é mais abominável ainda.”

“O que fez então, Monsieur Rouletabille?”

“Talvez tenha causado a morte de um homem inocente.”

“Desde que não tenha a certeza disso, seria melhor não se preocupar com isso, meu caro amigo.”

“É o suficiente que a dúvida tenha surgido”, disse o repórter, “quase para me matar”; e soltou um suspiro tão sombrio que o excelente Monsieur Koupriane sentiu pena do rapaz. Deu-lhe uma palmada no joelho.

“Vamos, vamos, jovem, já deveria saber uma coisa a esta altura — ‘não se fazem omeletes sem partir ovos’, como dizem, creio eu, em Paris.”

Rouletabille afastou-se dele com horror no coração. Se houvesse outro, alguém além de Michael! Se tivesse sido outra mão que não a dele que apareceu a Matrena e a ele na noite misteriosa! Se Michael Nikolaievitch tivesse sido inocente! Bem, ele matar-se-ia, isso era tudo. E aquelas palavras horríveis que tinha trocado com Natacha ergueram-se na sua memória, cantando nos seus ouvidos como se o fossem ensurdecer.

“Duvida ainda”, tinha-lhe ele perguntado, “que Michael tentou envenenar o seu pai?”

E Natacha tinha respondido: “Quero acreditar nisso! Quero acreditar nisso, por ti, meu pobre rapaz.” E depois recordou as suas outras palavras, ainda mais assustadoras agora! “Não poderia alguém ter tentado envenenar o meu pai e não ter vindo pela janela?”. Ele tinha enfrentado tal hipótese com segurança na altura — mas agora, agora que o veneno continuava, continuava dentro da casa, onde ele acreditava estar tão plenamente a par de todas as pessoas e coisas — continuava agora que Michael Nikolaievitch estava morto — ah, de onde vinha, este veneno? — e o que era? Pere Alexis apressaria a sua análise se tivesse alguma consideração pelo pobre Rouletabille.

Para Rouletabille duvidar, e num caso onde já havia um homem morto por sua intervenção, era um tormento pior do que a morte.

Quando chegaram ao quartel-general da polícia, Rouletabille saltou da carruagem de Koupriane e, sem dizer uma palavra, chamou um isvotchick vazio que passava. Fez-se levar de volta a Pere Alexis. A sua dúvida dominava a sua vontade; não suportava esperar longe. Sob o arco de Aptiekarski-Pereoulok, viu mais uma vez o homem que Koupriane tinha colocado lá com a ordem de lhe trazer a mensagem de Alexis. O homem olhou para ele com espanto. Rouletabille atravessou o pátio e entrou na sala velha e suja mais uma vez. Pere Alexis não estava lá, naturalmente, ocupado como estava no seu laboratório. Mas uma pessoa que ele não reconheceu à primeira vista atraiu a atenção do repórter. Na meia-luz da loja, uma sombra melancólica debruçava-se sobre os ícones no balcão. Foi apenas quando se endireitou, com um suspiro profundo, e uma luz fraca, desviada e amarela por passar através de vidros de janela que não conheciam o toque de uma limpeza desde que lá tinham sido colocados, caiu debilmente sobre o rosto, que Rouletabille constatou que estava face a face com Boris Mourazoff. Era de facto ele, o outrora brilhante oficial cuja elegância e charme o repórter tinha admirado ao vê-lo aos pés da bela Natacha na datcha em Eliaguine. Agora, já não fardado, tinha lançado sobre os seus ombros curvados um casaco miserável, cujas mangas balançavam sem vida pelos seus lados, em conformidade com o seu estado de espírito de languidez desesperada; um chapéu de feltro com a aba virada para baixo escondia um pouco a miséria no seu rosto nestes poucos dias, nestas não-muitas horas, como ele estava mudado! Mas, mesmo como estava, ele ainda preocupava Rouletabille. O que estava ele a fazer ali? Não iria embora, talvez? Tinha pegado num ícone do balcão e levado para a janela para examinar a sua prata oxidada, dando tanta atenção a isso que o repórter esperou que pudesse chegar à porta do laboratório sem ser notado. Já tinha a mão na maçaneta dessa porta, que ficava atrás do balcão, quando ouviu o seu nome ser chamado.

“É o senhor, Monsieur Rouletabille”, disse a voz baixa e triste de Boris. “O que o trouxe aqui, então?”

“Ora, ora, Monsieur Boris Mourazoff, a menos que me engane? Certamente não esperava encontrá-lo aqui no local de Pere Alexis.”

“Por que não, Monsieur Rouletabille? Pode-se encontrar qualquer coisa aqui no stock de Pere Alexis. Veja; aqui estão dois ícones antigos em madeira, esculpidos, que vieram diretamente de Athos, e não podem ser igualados, garanto-lhe, nem no Gastini-Dvor nem mesmo no Stchoukine-Dvor.”

“Sim, sim, isso é possível”, disse Rouletabille, impaciente. “É um amador dessas coisas?”, acrescentou, para dizer qualquer coisa.

“Oh, como qualquer outra pessoa. Mas eu ia dizer-lhe, Monsieur Rouletabille, que me demiti da minha comissão. Resolvi retirar-me do mundo; vou fazer uma longa viagem.” (Rouletabille pensou: ‘Por que não ter ido imediatamente?’) “E antes de ir, vim aqui para me abastecer de algumas pequenas prendas para enviar àqueles dos meus amigos por quem tenho particular carinho, embora agora, meu caro Monsieur Rouletabille, eu não tenha carinho por nada.”

“Parece bastante desolado, monsieur.”

Boris suspirou como uma criança.

“Como poderia ser de outra forma?”, disse ele. “Amei e acreditei ser amado. Mas provou ser — nada, infelizmente!”

“Por vezes, a gente só imagina coisas”, disse Rouletabille, mantendo a mão na porta.

“Oh, sim”, disse o outro, tornando-se cada vez mais melancólico. “Assim, um homem sofre. Ele é o seu próprio carrasco; ele próprio faz a roda na qual, como o seu próprio carrasco, se prende.”

“Não é necessário, monsieur; não é necessário”, aconselhou o repórter.

“Ouça”, implorou Boris com uma voz que mostrava que as lágrimas não estavam longe. “O senhor ainda é uma criança, mas ainda assim consegue ver as coisas. Acredita que Natacha me ama?”

“Tenho a certeza disso, Monsieur Boris; tenho a certeza disso.”

“Eu também tenho a certeza. Mas não sei o que pensar agora. Ela deixou-me partir, sem tentar reter-me, sem uma palavra de esperança.”

“E para onde vai assim?”

“Vou regressar à região de Orel, onde a vi pela primeira vez.”

“Isso é bom, muito bom, Monsieur Boris. Pelo menos lá tem a certeza de a ver novamente. Ela vai lá todos os anos com os seus pais durante algumas semanas. É um detalhe que o senhor não descurou, sem dúvida.”

“Certamente que não. Dir-lhe-ei que essa perspetiva decidiu o meu local de retiro.”

“Veja!”

“Deus não me dá nada, mas abre os seus tesouros, e cada um toma o que pode.”

“Sim, sim; e a Mademoiselle Natacha, sabe ela que é para Orel que decidiu retirar-se?”

“Não tenho qualquer razão para lho ocultar, Monsieur Rouletabille.”

“Até aqui tudo bem. Não precisa de se sentir tão desolado, meu caro Monsieur Boris. Nem tudo está perdido. Direi mesmo que vejo um futuro para si cheio de esperança.”

“Ah, se o senhor for capaz de dizer isso com verdade, sou deveras feliz por tê-lo conhecido. Nunca esquecerei esta corda que me atirou quando todas as águas pareciam fechar-se sobre a minha cabeça. ‘O que aconselha, então?’”

«Aconselho-o a ir para Orel, monsieur, e o mais rapidamente possível.»

«Muito bem. O senhor deve ter razões para dizer isso. Obedeço-lhe, monsieur, e vou-me embora.»

Enquanto Boris se dirigia para o arco da entrada, Rouletabille deslizou para o interior do laboratório. O velho Alexis estava curvado sobre os seus alambiques. Uma lâmpada miserável mal iluminava o seu trabalho obscuro. Virou-se ao ruído feito pelo repórter.

«Ah! És tu, rapaz!»

«Então?»

«Oh, nada tão depressa. Ainda assim, já analisei os dois guardanapos, sabes?»

«Sim? As manchas? Diga-me, pelo amor de Deus!»

«Bem, meu rapaz, trata-se novamente de arseniato de soda.»

Rouletabille, atingido no coração, soltou um grito baixo e tudo pareceu dançar à sua volta. O Père Alexis, no meio de todos os estranhos instrumentos de laboratório, parecia o próprio Satanás, e ele repeliu os braços bondosos estendidos para o suster; na penumbra, onde dançavam aqui e ali as pequenas chamas azuis dos cadinhos, vivas como línguas trémulas, julgou ver o fantasma de Michael Nikolaievitch vir gritar: «O arseniato de soda continua, e eu estou morto.» Caiu contra a porta, que se abriu, e rebolou até ao balcão, batendo com a cara nele. O choque, que bem poderia ter sido fatal, tirou-o do seu intenso pesadelo e fê-lo instantaneamente voltar a si. Ergueu-se, saltou por cima do monte de botas e cacarecos, e lançou-se para o pátio. Lá, Boris agarrou-o pelo casaco. Rouletabille virou-se, furioso:

«O que quer? Ainda não partiu para Orel?»

«Monsieur, vou partir, mas ficaria muito grato se o senhor levasse estas coisas pessoalmente a... a Natacha.» Mostrou-lhe, ainda com um ar desesperado, os dois ícones do Monte Athos, e Rouletabille tirou-lhos, enfiou-os no bolso e apressou-se, gritando: «Compreendo.»

Lá fora, Rouletabille tentou recompor-se, recuperar um pouco a calma. Seria possível que tivesse cometido um erro mortal? Ai, ai, como podia duvidar disso agora! O arseniato de soda continuava. Fez um esforço sobre-humano para afastar o horror daquilo, mesmo que momentaneamente — a morte do inocente Michael Nikolaievitch — e para não pensar em nada exceto nas consequências imediatas, que deveriam ser cuidadosamente ponderadas se quisesse evitar alguma nova catástrofe. Ah, o assassino não estava desencorajado. E dessa vez, que trabalho ele tinha tentado! Que hecatombe se tivesse tido êxito! O general, Matrena Petrovna, Natacha e o próprio Rouletabille (que quase lamentava, no que lhe dizia respeito, que não tivesse tido êxito) — e Koupriane! Koupriane, que deveria ter estado lá para o almoço. Que presa para os niilistas! Era isso, era isso. Rouletabille compreendia agora porque não tinham hesitado em envenenar toda a gente de uma só vez: Koupriane estava entre eles.

Michael Nikolaievitch teria sido vingado!

A tentativa falhara desta vez, mas o que não poderiam eles esperar agora! A partir do momento em que acreditou que Michael Nikolaievitch já não era culpado, como imaginara, Rouletabille caiu num abismo sem fundo.

Para onde deveria ir? Após alguns momentos, deu a volta à Rotunda, que serve de mercado para este bairro e é o mais belo ornamento de Aptiekarski-Pereoulok. Deu a volta sem se aperceber, sem parar para nada, sem ver ou compreender nada. Como um cavalo asmático faz o seu caminho na roda de moinho, assim ele caminhava com o pensamento de que também ele estava perdido numa roda de moinho que não o levava a lado nenhum. Rouletabille já não era Rouletabille.

XIII. AS BOMBAS VIVAS

Ao acaso — porque agora só podia agir ao acaso — regressou à datcha. Reinava lá uma grande desordem. A guarda fora duplicada. Os amigos do general, convocados por Trebassof, rodeavam as duas vítimas envenenadas e enchiam a casa com a sua devoção atarefada e as suas protestações de afeição. Contudo, um médico insignificante do bairro comum de Vasili-Ostrow, trazido pela polícia, tranquilizou toda a gente. A polícia não encontrara o médico da casa do general, mas prometera a chegada imediata de dois especialistas, que tinham encontrado em seu lugar. Entretanto, tinham apanhado pelo caminho este pequeno médico, que era alegre e falador como um pega. Ele tinha muito que fazer a tratar de Matrena Petrovna, que estivera tão doente que o seu marido, Feodor Feodorovitch, ainda tremia, «pela primeira vez na vida», como dizia o excelente Ivan Petrovitch.

O repórter ficou espantado por não encontrar Natacha nem no apartamento de Matrena nem no de Feodor. Perguntou a Matrena onde estava a sua enteada. Matrena virou um rosto assustado na sua direção. Quando ficaram sozinhos, ela disse:

«Não sabemos onde ela está. Quase assim que o senhor partiu, ela desapareceu, e ninguém a viu desde então. O general perguntou por ela várias vezes. Tive de lhe dizer que Koupriane a levou consigo para saber dela os detalhes do que aconteceu.»

«Ela não está com Koupriane», disse Rouletabille.

«Onde está ela? Este desaparecimento é mais do que estranho no momento em que estávamos a morrer, quando o seu pai — Ó Deus! Deixe-me, meu filho; estou a sufocar; estou a sufocar.»

Rouletabille chamou o médico temporário e retirou-se da câmara. Vinha com a ideia de inspecionar a casa quarto por quarto, canto por canto, para se certificar se existia ou não alguma possibilidade de entrada que ele não tivesse notado antes, uma entrada que os aspirantes a envenenadores continuavam a usar. Mas agora um novo facto confrontava-o e obscurecia tudo: o desaparecimento de Natacha. Como ele lamentava o seu desconhecimento da língua russa — e nenhum dos homens de Koupriane sabia francês. Talvez pudesse tirar alguma coisa de Ermolai.

Ermolai disse que vira Natacha apenas fora do portão por um momento, a olhar para cima e para baixo na estrada. Depois, fora chamado pelo general e, por isso, não sabia de mais nada.

Era tudo o que o repórter podia recolher dos gestos, mais do que das palavras, do velho criado.

Uma dificuldade adicional agora era que o crepúsculo se aproximava, e era impossível para o repórter discernir as pegadas de Natacha. Seria verdade que a jovem fugira num momento daqueles, imediatamente após o envenenamento, antes de saber se o pai e a mãe estavam completamente fora de perigo? Se Natacha fosse inocente, como Rouletabille ainda queria acreditar, tal atitude era simplesmente incompreensível. E a rapariga não podia deixar de saber que aumentaria as suspeitas de Koupriane. O repórter tinha uma razão vital para a ver imediatamente, uma razão vital para todos os interessados, acima de tudo neste momento em que os niilistas culminavam os seus planos, uma razão vital para ela e para ele, igualmente ameaçados de morte, para falar com ela e para renovar as propostas que ele fizera alguns minutos antes do envenenamento e sobre as quais ela não quisera ouvi-lo falar, por uma piedade temerosa por ele ou por desafio a ele. Onde estava Natacha? Pensou que talvez ela estivesse a tentar juntar-se a Annouchka, e havia razões para isso, tanto se ela fosse inocente como se fosse culpada. Mas onde estava Annouchka? Quem poderia dizer! Gounsovski, talvez. Rouletabille saltou para um isvo, que voltava vazio da Ponta, e deu o endereço de Gounsovski. Dignou-se então lembrar-se de que tinha sido convidado nesse mesmo dia para jantar com os Gounsovskis. Já não estariam à espera dele. Censurou-se a si mesmo.

Receberam-no, mas já tinham terminado o jantar há muito tempo.

Monsieur e Madame Gounsovski jogavam uma partida de damas debaixo do candeeiro. Rouletabille, ao entrar na sala de estar, reconheceu a careca brilhante e gorducha do homem terrível. Gounsovski veio até ele, curvando-se, obsequioso, com as mãos gordas estendidas. Foi apresentado a Madame Gounsovski, que estava coberta de joias sobre o seu vestido de seda preta. Ela tinha uma pele baça e olhos magníficos. Ela também foi tentativamente efusiva. «Esperámos por si, monsieur», disse ela, sorrindo timidamente, com o charme cauteloso de uma mulher um pouco avançada na idade que ainda confia em graças infantis. Quando o jovem faltoso ofereceu as suas desculpas: «Oh, sabemos que está muito ocupado, Monsieur Rouletabille. O meu marido disse-me isso há apenas um momento. Mas ele sabia que o senhor viria finalmente. No fim, aceita-se sempre o convite do meu marido.» Disse isto com um sorriso gordo de importância.

Rouletabille sentiu frio com esta última frase. Sentiu medo real na presença destas duas figuras, tão atrozmente banais, na sua horrível e decente pequena sala de estar.

Madame continuou:

«Mas o senhor já teve um jantar um pouco mau, devido àquele caso terrível na casa do General Trebassof. Venha para a sala de jantar.» «Ah, então alguém lhe contou?», disse Rouletabille. «Não, não, obrigado; não preciso de mais nada. Sabe o que aconteceu?»

«Se tivesse vindo jantar, talvez não tivesse acontecido nada de todo, sabe», disse Gounsovski tranquilamente, sentando-se de novo nas almofadas e considerando a sua partida de damas através dos seus óculos. «De qualquer modo, parabéns a Koupriane por estar longe dali devido ao seu medo.»

Para Gounsovski, só havia Koupriane! A vida ou a morte de Trebassof não ocupavam a sua mente. Apenas os atos e movimentos do Prefeito da Polícia tinham poder para o comover. Ordenou a uma criada, que deslizou para o apartamento sem fazer mais ruído do que uma sombra, que trouxesse um pequeno aparador carregado de zakouskis e garrafas de champanhe para perto da mesa de jogo, e moveu uma das suas peças, dizendo: «Permite-me? Esta jogada é minha. Não quero perdê-la.»

Rouletabille aventurou-se a colocar a mão sobre o punho oleoso e peludo que se estendia de um punho de camisa duvidoso.

«O que é isto que me diz? Como pôde ter previsto?»

«Foi fácil prever tudo», respondeu Gounsovski, oferecendo charutos, «prever tudo desde o momento em que o lugar de Matiew foi ocupado por Priemkof.»

«Bem?», questionou Rouletabille, recordando com alguma inquietação a visão do açoite na capela da guarda.

«Bem, este Priemkof, entre nós», (e inclinou-se perto do ouvido do repórter) «não é melhor como guarda policial para Koupriane do que o próprio Matiew. Muito perigoso. Por isso, quando soube que ele ocupou o lugar de Matiew na datcha des Iles, pensei que seria certo acontecer algum acontecimento infeliz. Mas não era assunto meu, pois não? Koupriane teria sido capaz de me dizer: "Cuide da sua própria vida." Eu tinha ido longe o suficiente ao avisá-lo das "bombas vivas". Tinham sido denunciadas a nós pela mesma agência que nos permitiu prender as duas bombas vivas (mulheres, se faz favor!) que iam para o tribunal militar em Cronstadt após a rebelião na frota. Que ele se lembre disso. Isso deveria fazê-lo refletir. Eu sou um homem corajoso. Sei que ele fala mal de mim; mas não lhe quero mal nenhum. Os interesses do Império acima de tudo entre nós! Eu não lhe falaria como falo se não soubesse que o Tsar o honra com o seu favor. Então convidei-o para jantar. Enquanto se janta, fala-se. Mas o senhor não veio. E, enquanto jantava lá em baixo e enquanto Priemkof estava de guarda na datcha, aconteceu aquele caso aborrecido de que Madame Gounsovski falou.»

Rouletabille não se sentara, apesar das insistências de Madame Gounsovski. Tirou a caixa de charutos bruscamente da mão do Chefe do Serviço Secreto, que continuava a oferecê-los, pois este detalhe de hospitalidade apenas irritava o seu humor, que já estava suficientemente sombrio há horas e agora era aprofundado pelo que o outro acabara de dizer. Compreendeu apenas uma coisa: que um homem chamado Priemkof, de quem nunca ouvira falar, tão determinado como Matiew a destruir o general, fora encarregado por Koupriane da guarda da datcha des Iles. Era necessário avisar Koupriane instantaneamente.

«Como é que o senhor ainda não o fez, Monsieur Gounsovski? Por que esperar para falar sobre isso comigo? É inimaginável.»

«Perdão, perdão», disse Gounsovski, sorrindo suavemente por trás dos seus óculos; «não é a mesma coisa.»

«Não, não, não é a mesma coisa», secundou a senhora com a seda preta, joias brilhantes e queixo flácido. «Falamos aqui a um amigo no decorrer de uma conversa de jantar, a um amigo que não é da polícia. Nunca denunciamos ninguém.»

«Temos de lhe dizer. Mas sente-se agora», insistiu Gounsovski, acendendo o seu charuto. «Seja razoável. Acabaram de tentar envenená-lo, por isso vão levar tempo para respirar antes de tentarem outra coisa. Depois, também, este veneno faz-me pensar que podem ter desistido da ideia das bombas vivas. Depois, afinal de contas, o que tem de ser, será.»

«Sim, sim», aprovou a senhora ampla. «A polícia nunca foi capaz de impedir o que estava destinado a acontecer. Mas, falando deste Priemkof, fica entre nós, eh? Entre apenas nós?»

«Sim, temos de lhe dizer agora», inseriu Gounsovski suavemente, «que será muito melhor não deixar Koupriane saber que obteve a informação por mim. Porque então, compreende, ele não acreditaria em si; ou, melhor, ele não acreditaria em mim. É por isso que tomamos estas precauções de jantar e fumar um charuto. Falamos de uma coisa e de outra e faz o que quiser com o que dizemos. Mas, para que sejam úteis, é absolutamente necessário, repito, silenciar a sua fonte.» (Ao dizer isso, Gounsovski lançou a Rouletabille um olhar penetrante através dos seus óculos, a primeira vez que Rouletabille vira tal brilho nos seus olhos. Nunca o teria suspeitado capaz de tal fogo.) «Priemkof», continuou Gounsovski em voz baixa, usando o lenço vigorosamente, «estava empregado aqui em minha casa e separámo-nos em maus termos, por culpa dele, é necessário dizer. Depois ele ganhou a confiança de Koupriane dizendo o pior que podia de nós, meu querido pequeno monsieur.»

«Mas o que poderia ele dizer? — histórias de criados! meu querido pequeno monsieur», repetiu a senhora gorda, e revirou os seus grandes e magníficos olhos negros furiosamente. «Histórias que foram tratadas como mereciam na Corte, certamente. Madame Daquin, a mulher do cozinheiro-chefe de Sua Majestade, que o senhor certamente conhece, e o sobrinho da segunda Dama de Companhia da Imperatriz, que está muito bem com a sua tia, disseram-no-lo; histórias de criados que poderiam ter-nos arruinado mas que não produziram qualquer efeito em Sua Majestade, por quem daríamos as nossas vidas, Cristo sabe. Bem, compreende agora que, se o senhor fosse dizer a Koupriane: "Gaspadine Gounsovski falou-me mal de Priemkof", ele não se importaria de ouvir uma palavra mais. Ainda assim, Priemkof está no esquema das bombas vivas, isso é tudo o que lhe posso dizer; pelo menos, estava antes do caso do envenenamento. Esse envenenamento é certamente muito espantoso, entre nós. Não parece ter vindo de fora, enquanto que as bombas vivas terão de vir de fora. E Priemkof está metido nisso.»

«Sim, sim», aprovou Madame Gounsovski novamente, «ele está comprometido com isso. Também houve histórias sobre ele. Outras pessoas além dele podem contar histórias; não é difícil de fazer. Ele tem de mostrar serviço agora se quer manter-se no grupo de Annouchka.»

«Koupriane, o nosso querido Koupriane», interrompeu Gounsovski, ligeiramente perturbado por ouvir a sua mulher pronunciar o nome de Annouchka, «Koupriane deveria ser capaz de compreender que desta vez Priemkof tem de levar as coisas a bom termo, ou está definitivamente arruinado.»

«Priemkof sabe-o muito bem», respondeu Madame enquanto enchia de novo os copos, «mas Koupriane não o sabe; é tudo o que lhe podemos dizer. É suficiente? Todo o resto é mera bisbilhotice.»

Era certamente suficiente para Rouletabille; já estava farto! Esta bisbilhotice ociosa e estas bombas vivas! Estes objetos de latão, estes contadores de histórias sussurrantes no seu cenário burguês e provinciano; estas combinações político-policiais cujo lado grotesco estava sempre por cima; enquanto o lado terrível, o aspeto siberiano, prisões, buracos negros, enforcamentos, desaparecimentos, exílios e mortes e martírios permaneciam tão zelosamente escondidos que ninguém falava deles! Todo aquele peso de horror, entre um bom charuto e «um copinho de anisete, monsieur, se não quiser champanhe». Ainda assim, teve de beber antes de partir, tocar os copos num brinde, prometer voltar, sempre que quisesse — a casa estava aberta para ele. Rouletabille sabia que estava aberta para qualquer pessoa — qualquer pessoa que tivesse uma história para contar, algo que enviasse outra pessoa para a prisão ou para a morte e o esquecimento. Nenhum guarda na entrada para verificar um visitante — os homens entravam na casa de Gounsovski como na casa de um amigo, e ele estava sempre pronto para lhe prestar um serviço, certamente!

Acompanhou o repórter até às escadas. Rouletabille estava prestes a arriscar falar de Annouchka com ele, para abordar o assunto de Natacha, quando Gounsovski disse subitamente, com um sorriso singular:

«A propósito, ainda acredita em Natacha Trebassof?»

«Acreditarei nela até à minha morte», retorquiu Rouletabille; «mas admito-lhe que, neste momento, não sei para onde ela foi.»

«Vigie a Baía de Lachtka, e venha dizer-me amanhã se ainda acreditará nela», respondeu Gounsovski, confidencialmente, com uma espécie de riso horrível que fez o repórter apressar-se a descer as escadas.

E agora aqui estava Priemkof para vigiar! Priemkof depois de Matiew! Parecia ao jovem que tinha de lutar não só contra todos os revolucionários, mas também contra toda a polícia russa — e o próprio Gounsovski, e Koupriane! Toda a gente, toda a gente! Mas o mais urgente era Priemkof e as suas bombas vivas. Que aventura estranha e quase incompreensível e avassaladora era esta entre o niilismo e a polícia russa. Koupriane e Gounsovski empregavam ambos um homem que sabiam ser um revolucionário e amigo de revolucionários. O niilismo, por seu lado, considerava este homem da força policial como um dos seus próprios agentes. Por sua vez, este homem, para manter o seu perigoso equilíbrio, tinha de fazer trabalho tanto para a polícia como para os revolucionários, e aceitar tudo o que qualquer um lhe desse para fazer conforme surgisse, porque era necessário que lhes desse garantias da sua fidelidade. Apenas imbecis, como Gapone, deixavam-se enforcar ou acabavam por ser executados, como Azef, devido aos seus deslizes desajeitados. Mas um Priemkof, jogando em ambos os ramos da polícia, tinha boas hipóteses de viver muito tempo, e um Gounsovski morreria tranquilamente na sua cama com todos os confortos da religião.

Contudo, os jovens corações quentes de sinceridade, revestidos de dinamite, são misteriosamente movidos na escuridão atroz da Santa Rússia, e eles não sabem para onde serão enviados, e para eles é tudo o mesmo, porque tudo o que pedem é morrer num louco delírio espiritual de ódio e amor — bombas vivas!*

* No julgamento após a revolta em Cronstadt, duas jovens mulheres foram acusadas de usar bombas como seios falsos.

Na esquina de Aptiekarski-Pereoulok, Rouletabille cruzou-se com Koupriane, que partia para casa do Père Alexis e, vendo o repórter, parou a sua carruagem e gritou que ia imediatamente para a datcha.

«Viu o Père Alexis?»

«Sim», disse Koupriane. «E desta vez apanhei-o. O que lhe disse, o que previ, aconteceu. Mas tem alguma notícia das vítimas? A propósito, aconteceu uma coisa um tanto curiosa. Encontrei Kister na Nevsky agora mesmo.»

«O médico?»

«Sim, um dos médicos de Trebassof a quem enviei um inspetor a casa para o trazer à datcha, bem como o seu associado habitual, o Doutor Litchkof. Bem, nem Litchkof nem ele tinham sido chamados. Não sabiam que tinha acontecido alguma coisa na datcha. Não tinham visto o meu inspetor. Espero que ele tenha encontrado outro médico pelo caminho e, dada a urgência, o tenha levado para a datcha.»

«Foi isso que aconteceu», respondeu Rouletabille, que ficara muito pálido. «Ainda assim, é estranho que estes senhores não tenham sido notificados, porque na datcha disseram aos Trebassof que os médicos habituais do general não estavam em casa e, por isso, a polícia tinha chamado outros dois que chegariam de imediato.»

Koupriane saltou na carruagem.

«Mas Kister e Litchkof não tinham saído das suas casas. Kister, que acabara de encontrar Litchkof, disse-o. O que significa isto?»

«Pode dizer-me», perguntou Rouletabille, preparado agora para o trovão que a sua pergunta convidava, «o nome do inspetor a quem ordenou que os trouxesse?»

«Priemkof, um homem que tem a minha total confiança.»

A carruagem de Koupriane precipitou-se em direção às Ilhas. A noite tardia chegara. Sozinhos na rota deserta, os cavalos pareciam dirigir-se para as estrelas; a carruagem atrás parecia não ser um peso para eles. O cocheiro inclinava-se sobre eles, com os braços estendidos, como se quisesse saltar para o éter. Ah, a bela noite, a adorável e pacífica noite junto ao Neva, manchada pelo galope desenfreado destes cavalos enlouquecidos!

«Priemkof! Priemkof! Um dos homens de Gounsovski! Eu deveria ter suspeitado dele», vociferou Koupriane após as explicações de Rouletabille. «Mas agora, chegaremos a tempo?»

Eles levantaram-se na carruagem, instigando o cocheiro, excitando os cavalos: «Scan! Scan! Mais depressa, douriak!» Poderiam eles chegar antes das «bombas vivas»? Poderiam ouvi-las antes que chegassem? Ah, ali estava Eliaguine!

Eles correram de uma margem para a outra como se não houvesse pontes no seu curso insensato. E os seus ouvidos estavam atentos à explosão, à abominação que estava por vir, preparando-se astuciosamente na noite tão hipocritamente suave sob o olhar frio das estrelas. De repente, «Pára, pára!», gritou Rouletabille ao cocheiro.

«Estás louco!», gritou Koupriane.

«Estamos loucos se chegarmos como loucos. Isso tornaria a catástrofe certa. Ainda há uma oportunidade. Se não a quisermos perder, então devemos chegar suave e calmamente, como amigos que sabem que o general está fora de perigo.»

«A nossa única hipótese é chegar antes dos falsos médicos. Ou eles não estão lá, ou tudo já terminou. Priemkof deve ter sido surpreendido pelo caso do envenenamento, mas aproveitou a oportunidade; felizmente, não conseguiu encontrar os seus cúmplices imediatamente.»

«Aqui está a datcha, de qualquer forma. Em nome do céu, diga ao seu cocheiro para parar os cavalos aqui. Se os ‘médicos’ já estiverem lá, seremos nós quem terá matado o general.»

«Tens razão.»

Koupriane moderou a sua excitação e a do seu cocheiro e cavalos, e a carruagem parou sem ruído, não longe da datcha. Ermolai veio na direção deles.

«Priemkof?», balbuciou Koupriane.

«Ele já partiu novamente, Excelência.»

«Como — partiu novamente?»

«Sim, mas trouxe os médicos.»

Koupriane apertou o pulso de Rouletabille. Os médicos estavam lá!

«A Madame Trebassof está melhor», continuou Ermolai, que não compreendia nada da emoção deles. «O general vai ao encontro deles para levá-los à sua esposa pessoalmente.»

«Onde estão eles?»

«Estão a esperar na sala de estar.»

«Oh, Excelência, mantenha a calma, mantenha a calma, e nem tudo está perdido», implorou o repórter.

Rouletabille e Koupriane entraram cuidadosamente no jardim. Ermolai seguiu-os.

«Lá?», inquiriu Koupriane.

«Lá», respondeu Ermolai.

Do canto onde estavam, e olhando através da varanda, podiam ver os «médicos» enquanto esperavam.

Estavam sentados em cadeiras, lado a lado, num canto da sala de estar de onde podiam ver tudo na sala e uma parte do jardim, para o qual estavam virados, e podiam ouvir tudo. Uma janela do primeiro andar estava aberta acima das suas cabeças, de modo que podiam ouvir qualquer ruído vindo de lá. Não podiam ser surpreendidos por nenhum lado, e mantinham todas as portas à vista. Falavam suave e tranquilamente, olhando em frente. Pareciam jovens. Um tinha um rosto agradável, pálido mas sorridente, com cabelos bastante longos e encaracolados; o outro era mais angular, com porte altivo e rosto grave, nariz adunco e óculos. Ambos vestiam longos casacos pretos abotoados sobre os seus peitos calmos.

Koupriane e o repórter, seguidos por Ermolai, avançaram com a maior precaução através do relvado. Protegidos pelos degraus de madeira que conduziam à varanda e pela balaustrada coberta de vinha, aproximaram-se o suficiente para ouvi-los. Koupriane deu ouvidos atentos às palavras destes dois jovens, que poderiam ter sido tão ricos nos muitos anos de vida que naturalmente lhes pertenciam, e que estavam prestes a morrer uma morte tão horrível enquanto destruíam tudo à sua volta. Falavam sobre que horas eram, sobre a suavidade da noite e a beleza do céu; falavam das sombras sob as bétulas, do golfo a brilhar na luz dourada do final da tarde, da frescura do rio e da doçura da primavera no Norte. Era sobre isso que falavam. Koupriane murmurou: «Os assassinos!»

Agora era necessário decidir sobre uma ação, e essa necessidade era horrível. Um movimento falso, um jeito desastrado, e os «médicos» seriam avisados, e tudo estaria perdido. Eles deviam ter as bombas debaixo dos casacos; havia certamente pelo menos duas «bombas vivas». Os seus peitos, enquanto respiravam, deviam subir e descer e os seus corações bater contra uma explosão iminente.

Acima, no andar dos quartos, ouviram a rápida organização do quarto, passos no soalho e uma confusão de vozes; sombras passaram através da janela. Koupriane interrogou rapidamente Ermolai e soube que todos os amigos do general estavam lá. Os dois médicos tinham chegado apenas alguns minutos antes do Prefeito de Polícia e do repórter. O pequeno médico de Vassili-Ostrow já tinha ido embora, dizendo que não havia mais nada para ele fazer quando dois especialistas tão celebrados tinham chegado. No entanto, apesar da sua celebridade, ninguém tinha ouvido falar dos nomes que eles deram. Koupriane acreditava que o pequeno médico era um cúmplice. A coisa mais necessária era avisar aqueles na sala acima. Havia o perigo imediato de alguém descer para encontrar os médicos e levá-los ao general, ou de o general descer ele próprio para encontrá-los. Evidentemente, era isso que eles estavam à espera. Queriam morrer nos seus braços, para garantir que desta vez ele não lhes escapasse! Koupriane ordenou a Ermolai que fosse à varanda e falasse de uma forma banal com eles no limiar da porta da sala de estar, dizendo que iria subir e ver se poderia agora acompanhá-los ao quarto da Madame Trebassof. Uma vez no quarto acima, ele poderia avisar os outros para não fazerem nada além de esperar por Koupriane; então Ermolai deveria descer e dizer aos homens: «Dentro de um momento, se faz favor.»

Ermolai rastejou de volta até à portaria, e depois veio muito normalmente pelo caminho, deixando o cascalho ranger sob os seus passos rústicos. Ele era um homem inteligente e compreendeu com extraordinária frieza a importância do plano de campanha. Fácil e naturalmente subiu os degraus da varanda, fez uma pausa no limiar da sala de estar, fez a observação que lhe tinham dito para fazer e subiu. Koupriane e Rouletabille observavam agora as janelas do quarto. As sombras fugazes lá dentro tornaram-se subitamente imóveis. Todo o movimento cessou; já não se ouviam passos, nada. E aquele silêncio súbito fez os dois «médicos» levantar os rostos em direção ao teto. Depois, trocaram um olhar alerta. Esta mudança na maneira das coisas lá em cima era perigosa. Koupriane murmurou: «Os idiotas!» Foi um golpe tão grande para os de cima saberem que caminhavam sobre uma mina pronta a explodir que isso evidentemente paralisou os seus membros. Felizmente, Ermolai desceu quase imediatamente e disse aos «médicos» da sua melhor forma doméstica:

«Só um segundo, messieurs, se faz favor.»

Ele fê-lo ainda com total naturalidade. E regressou à portaria antes de se juntar a Koupriane e Rouletabille pelo relvado. Rouletabille, totalmente frio, completamente dono de si, tão calmo agora como Koupriane estava nervoso, disse ao Prefeito de Polícia:

«Temos de agir agora, e rapidamente. Eles estão a começar a suspeitar. Tem um plano?»

«Aqui está tudo o que consigo ver», disse Koupriane. «Faça com que o general desça pela estreita escada de serviço, e saia da casa pela janela da sala de estar de Natacha, com a ajuda de um lençol torcido. Matrena Petrovna virá falar com eles durante este tempo; isso mantê-los-á pacientes até que o general esteja fora de perigo. Assim que Matrena se retirar para o jardim, chamarei os meus homens, que dispararão sobre eles à distância.»

«E a casa em si? E os amigos do general?»

«Que tentem fugir, também, pela escada de serviço e saltem da janela atrás do general. Temos de tentar algo. Diga que os tenho sob a mira do meu revólver.»

«O seu plano não funcionará», disse Rouletabille, «a menos que a porta da sala de estar de Natacha que abre para a sala de estar esteja fechada.»

«Está. Consigo ver daqui.»

«E a menos que a porta da pequena passagem antes dessa escada que abre para a sala de estar esteja fechada também, e o senhor não a consegue ver daqui.»

«Essa porta está aberta», disse Ermolai.

Koupriane praguejou. Mas recuperou-se prontamente.

«A Madame Trebassof fechará a porta quando falar com eles.»

«É impraticável», disse o repórter. «Isso despertará as suspeitas deles mais do que nunca. Deixe comigo; tenho um plano.»

«O quê?»

«Tenho tempo para o executar, mas não para lho contar. Eles já esperaram demasiado tempo. Vou ter de subir, no entanto. Ermolai terá de ir comigo, como um amigo da família.»

«Eu também irei.»

«Isso revelaria tudo, se eles o vissem, o Prefeito de Polícia.»

«Ora, não. Se eles me virem — e eles sabem que eu deveria estar lá —, assim que eu me mostrar a eles, concluirão que eu não sei nada sobre o assunto.»

«O senhor está enganado.»

«É o meu dever. Devo estar perto do general para defendê-lo até ao fim.»

Rouletabille encolheu os ombros perante este heroísmo perigoso, mas não parou para discutir. Ele sabia que o seu plano tinha de ter sucesso imediatamente, ou em cinco minutos, o mais tardar, só haveria ruínas, mortos e moribundos na datcha des Iles.

Ainda assim, ele permanecia surpreendentemente calmo. Em princípio, tinha admitido que iria morrer. A única esperança de serem salvos que lhes restava residia inteiramente no facto de manterem a calma perfeita e na paciência das bombas vivas. Teriam eles ainda três minutos de paciência?

Ermolai foi à frente de Koupriane e Rouletabille. No momento em que chegaram ao fundo dos degraus da varanda, o criado disse em voz alta, repetindo a sua lição:

«Oh, o general está à sua espera, Excelência. Ele disse-me para o levar até ele imediatamente. Ele está perfeitamente bem, e a Madame Trebassof também.»

Quando estavam na varanda, ele acrescentou:

«Ela deve ver também, imediatamente, estes senhores, que poderão dizer-lhe que já não há perigo.»

E todos os três passaram enquanto Koupriane e Rouletabille saudavam vagamente os dois conspiradores na sala de estar. Foi um momento decisivo. Reconhecendo Koupriane, os dois niilistas poderiam muito bem acreditar-se descobertos, como o repórter dissera, e precipitar a catástrofe. No entanto, Ermolai, Koupriane e Rouletabille subiram as escadas para o quarto como autómatos, não se atrevendo a olhar para trás, e esperando o fim a cada instante. Mas nenhum se moveu. Ermolai desceu novamente, por ordem de Rouletabille, normalmente, naturalmente, tranquilamente. Entraram no quarto de Matrena Petrovna. Estavam todos lá. Era um ajuntamento de fantasmas.

Eis o que tinha acontecido lá em cima. Que os «médicos» permanecessem lá em baixo, que não tivessem sido recebidos instantaneamente; em suma, que a catástrofe tivesse sido adiada até agora, devia-se a Matrena Petrovna, cujo amor vigilante, como um cão de guarda, estava sempre pronto a farejar o perigo. Estes dois «médicos» cujos nomes ela não conhecia, que chegaram tão tarde, e a partida precipitada do pequeno médico de Vassili-Ostrow despertaram a sua vigilância. Antes de permitir que subissem ao general, ela decidiu dar uma vista de olhos neles ela própria lá em baixo. Levantou-se da cama para isso; e agora o seu pressentimento justificava-se. Quando viu Ermolai, sóbrio e misterioso, entrar com a mensagem de Koupriane, ela soube instintivamente, antes que ele falasse, que havia bombas na casa. Quando Ermolai falou, foi um golpe para todos. No início, ela, Matrena Petrovna, tinha sido uma figura assustada e tola no grande roupão florido que pertencia a Feodor, que ela tinha enrolado à sua volta com pressa. Quando Ermolai saiu, o general, que sabia que ela apenas tremia por ele, tentou tranquilizá-la e, no meio do silêncio assustado de todos, disse algumas palavras recordando o fracasso de todas as tentativas anteriores. Mas ela abanou a cabeça e tremeu, tremendo de medo por ele, em agonia com o pensamento de que não podia fazer nada lá em cima, acima daquelas bombas vivas, a não ser esperar que explodissem. Quanto aos amigos, os seus membros já estavam arruinados, absolutamente arruinados, na verdade. Por um momento, foram completamente incapazes de se mover. O alegre Conselheiro do Império, Ivan Petrovitch, já não tinha uma história viva para contar, e a perspetiva abominável desta «horrível confusão» ali mesmo tornava-o muito menos alegre do que nos seus melhores momentos no Cubat. E o pobre Thaddeus Tchitchnikoff estava mais branco do que a neve que cobre os campos da velha Lituânia quando a caça de inverno começa. Athanase Georgevitch, ele próprio, não estava brilhante, e o seu rosto sanguíneo tinha mudado completamente, como se tivesse dificuldade em digerir a sua última obra-prima com faca e garfo. Mas, em justiça para eles, esse foi o primeiro efeito instantâneo. Ninguém podia saber assim, de repente, que estava prestes a morrer num massacre indiscriminado sem que o coração parasse por um pouco. As palavras de Ermolai tinham transformado estes amáveis ociosos em estátuas de cera, mas, pouco a pouco, os seus corações começaram a bater de novo e cada um sugeria alguma maneira de evitar o desastre — todos eles suficientemente incoerentes —, enquanto Matrena Petrovna invocava a Virgem e, ao mesmo tempo, ajudava Feodor Feodorovitch a ajustar a sua espada e a apertar o cinto; pois o general desejava morrer de uniforme.

Athanase Georgevitch, com os olhos saltando da cabeça e o corpo curvado como se temesse que os niilistas logo abaixo pudessem perceber a sua forma alta — através do chão, sem dúvida —, propôs que se atirassem pela janela, mesmo à custa de pernas partidas. O entristecido Conselheiro do Império declarou esse projeto simplesmente idiota, pois ao caírem estariam absolutamente à disposição dos niilistas, que seriam atraídos pelo barulho e fariam um punhado de pó deles com um único gesto através da janela. Thaddeus Tchitchnikoff, que não conseguia pensar em nada, culpou Koupriane e o resto da polícia por não terem idealizado algo. Porque não se tinham já livrado destes niilistas? Depois do silêncio assustado que tinham mantido no início, agora falavam todos ao mesmo tempo, em voz baixa, rouca e rápida, com respiração encurtada, fazendo movimentos selvagens com os braços e a cabeça, e caminhavam aqui e ali na câmara completamente sem motivo, mas muito suavemente em bicos de pés, indo às janelas, regressando, escutando nas portas, espreitando pelas fechaduras, trocando sugestões absurdas, cheias das mais selvagens imaginações. «Se nós... se... se», — todos falando e todos fazendo sinais para os outros estarem quietos. «Mais baixo! Se eles nos ouvirem, estamos perdidos.» E Koupriane, que não vinha, e a sua polícia, que eles próprios tinham trazido dois assassinos para dentro da casa, e não eram capazes agora de os fazer partir sem ter toda a gente a saltar! Estavam certamente perdidos. Não restava nada senão rezar. Voltaram-se para o general e Matrena Petrovna, que estavam envolvidos num abraço apertado. Feodor tinha tomado a pobre cabeça desgrenhada da boa Matrena entre as suas mãos e pressionou-a contra os seus ombros enquanto a abraçava. Ele disse: «Descansa tranquilamente contra o meu coração, Matrena Petrovna. Nada nos pode acontecer exceto o que Deus quiser.»

Àquela visão e àquela observação, os outros sentiram vergonha da sua confusão. A harmonia daquele casal abraçado na presença da morte restaurou-os a si próprios, à sua coragem e ao seu «Nitchevo». Athanase Georgevitch, Ivan Petrovitch e Thaddeus Tchitchnikoff repetiram após Matrena Petrovna: «Como Deus quiser.» E depois disseram: «Nitchevo! Nitchevo!* Todos morreremos contigo, Feodor Feodorovitch.» E todos se beijaram e apertaram uns aos outros nos braços, os olhos embaciados de amor uns pelos outros, como no fim de um grande banquete quando tinham comido e bebido fortemente em honra uns dos outros.

* «Que importa!»

«Ouçam. Alguém está a subir as escadas», sussurrou Matrena, com o seu ouvido apurado, e soltou-se da contenção do seu marido.

Sem fôlego, todos correram para a porta que dava para o patamar, mas com passos tão leves «como se caminhassem sobre ovos». Todos os quatro estavam debruçados ali, perto da porta, mal se atrevendo a respirar. Ouviram dois homens nas escadas. Seriam Koupriane e Rouletabille, ou seriam os outros? Tinham revólveres nas mãos e recuaram um pouco quando os passos soaram perto da porta. Atrás deles, Trebassof estava sentado tranquilamente na sua cadeira. A porta abriu-se e Koupriane e Rouletabille perceberam estas figuras mortais, imóveis e mudas. Ninguém se atreveu a falar ou a fazer um movimento até que a porta fosse fechada. Mas então:

«Bem? Bem? Salvem-nos! Onde estão eles? Ah, meu querido pequeno domovoi-doukh, salve o general, pelo amor da Virgem!»

«Tsst! tsst! Silêncio.»

Rouletabille, muito pálido, mas calmo, falou:

«O plano é simples. Eles estão entre as duas escadarias, a vigiar uma e outra. Vou encontrar-me com eles e fazê-los subir por uma enquanto o senhor desce pela outra.»

«Caracho! Isso é bastante simples. Porque não pensámos nisso mais cedo? Porque toda a gente perdeu a cabeça, exceto o querido pequeno domovoi-doukh!»

Mas aqui aconteceu algo com que Rouletabille não contava. O general levantou-se e disse: «Esqueceu-se de uma coisa, meu jovem amigo; é que o General Trebassof não descerá pela escada de serviço.»

Os seus amigos olharam para ele estupefactos, e perguntaram se ele tinha enlouquecido.

«O que é isto que diz, Feodor?», implorou Matrena.

«Digo», insistiu o general, «que já me cansei desta comédia, e que, uma vez que o Monsieur Koupriane não foi capaz de prender estes homens, e uma vez que, do seu lado, eles não parecem decidir-se a cumprir o seu dever, eu próprio irei e expulsá-los-ei da minha casa.»

Ele deu alguns passos, mas não tinha a sua bengala e subitamente cambaleou. Matrena Petrovna saltou para ele e levantou-o nos seus braços como se ele fosse uma pena.

«Não pela escada de serviço, não pela escada de serviço», rosnou o obstinado general.

«O senhor irá», respondeu-lhe Matrena, «pelo caminho que eu o levar.»

E levou-o de volta para o apartamento enquanto dizia rapidamente a Rouletabille:

«Vai, pequeno domovoi! E que Deus nos proteja!»

Rouletabille desapareceu imediatamente pela porta da escadaria principal, e o grupo, acompanhado por Koupriane, passou pelo quarto de vestir e pelo quarto do general, Matrena Petrovna à frente com a sua preciosa carga. Ivan Petrovitch já tinha a mão no famoso ferrolho que trancava a porta da escada de serviço quando todos se viraram ao som de um passo rápido atrás deles. Rouletabille tinha regressado.

«Eles já não estão na sala de estar.»

«Não estão na sala de estar! Onde estão eles, então?»

Rouletabille apontou para a porta que estavam prestes a abrir.

«Talvez atrás daquela porta. Tenham cuidado!»

Todos recuaram.

«Mas Ermolai deveria saber onde eles estão», exclamou Koupriane. «Talvez tenham ido embora, ao descobrirem que foram descobertos.»

«Assassinaram Ermolai.»

«Assassinaram Ermolai!»

«Vi o seu corpo deitado no meio da sala de estar quando me inclinei sobre o topo do corrimão. Mas eles não estavam na sala, e eu tive medo que o senhor se cruzasse com eles, pois podem muito bem estar escondidos na escada de serviço.»

«Então abra a janela, Koupriane, e chame os seus homens para nos libertar.»

«Estou perfeitamente disposto», respondeu Koupriane friamente, «mas é o sinal para a nossa morte.»

«Bem, porque esperam eles tanto para nos fazer morrer?», resmungou Feodor Feodorovitch. «Eu acho-os muito lentos nisso, por mim. O que está a fazer, Ivan Petrovitch?»

A figura espectral de Ivan Petrovitch, curvada junto à porta da escadaria, parecia estar a ouvir coisas que os outros não podiam captar, mas que os assustaram tanto que fugiram do quarto do general em desordem. Ivan Petrovitch estava perto deles, os olhos quase saltando da cabeça, a boca balbuciando:

«Eles estão lá! Eles estão lá!»

Athanase Georgevitch abriu uma janela violentamente e disse:

«Vou saltar.»

Mas Thaddeus Tchitchnikoff parou-o com uma palavra: «Quanto a mim, não deixarei Feodor Feodorovitch.»

Athanase e Ivan sentiram-se envergonhados e, a tremer, mas corajosos, reuniram-se em torno do general e disseram: «Morreremos juntos, morreremos juntos. Vivemos com Feodor Feodorovitch, e morreremos com ele.»

«O que estão eles à espera? O que estão eles à espera?», resmungou o general.

Os dentes de Matrena Petrovna batiam. «Eles esperam que nós desçamos», disse Koupriane.

«Muito bem, façamo-lo. Isto tem de acabar», disse Feodor.

«Sim, sim», disseram todos, pois a situação tornava-se intolerável; «chega disto. Desçam. Desçam. Deus, a Virgem e os Santos Pedro e Paulo protejam-nos. Vamos.»

Todo o grupo, portanto, dirigiu-se para a escadaria principal, com os movimentos de homens bêbados, agitando os braços de forma fantástica, com as bocas a falarem todas ao mesmo tempo, dizendo coisas que ninguém além deles compreendia. Rouletabille já os precedera apressadamente, estava no fundo da escadaria, teve tempo de lançar um olhar para a sala de estar, passou por cima do enorme cadáver de Ermolai, entrou na sala de estar de Natacha e no seu quarto, encontrou todos estes locais desertos e saltou de volta para a varanda no momento em que os outros começavam a descer os degraus à volta de Feodor Feodorovitch. Os olhos do repórter perscrutaram todos os cantos escuros e não tinham percebido nada de suspeito quando, na varanda, deslocou uma cadeira. Uma sombra desprendeu-se dela e deslizou para baixo da escadaria. Rouletabille gritou para o grupo nas escadas.

«Eles estão debaixo da escadaria!»

Então, Rouletabille confrontou-se com uma visão que nunca poderia esquecer em toda a sua vida.

A este grito, todos pararam, após um movimento instintivo de recuo. Feodor Feodorovitch, que ainda estava nos braços de Matrena Petrovna, gritou:

«Vive le Tsar!»

E então, aqueles que o repórter esperava ver fugir, perturbados, para um lado e para o outro, ou atirar-se loucamente da altura dos degraus, abandonando Feodor e Matrena, reuniram-se antes, por um movimento espontâneo, à volta do general, como uma guarda de honra, em batalha, à volta da bandeira. Koupriane marchou à frente. E insistiram também em descer os terríveis degraus lentamente, e cantaram o Bodje tsara Krani, o hino nacional!

Com um estrondo avassalador, que chocou a terra e o céu e os ouvidos de Rouletabille, a casa inteira pareceu ser levantada no ar; a escadaria ergueu-se em meio ao fogo e ao fumo, e o grupo que cantava o Bodje tsara Krani desapareceu numa horrível apoteose.

XIV. OS PÂNTANOS

Constataram no dia seguinte que tinham ocorrido duas explosões, quase simultâneas, uma debaixo de cada escadaria. Os dois niilistas, quando se sentiram descobertos e vigiados por Ermolai, atiraram-se silenciosamente sobre ele quando este lhes virou as costas ao passar, e estrangularam-no com um pedaço de cordel. Depois separaram-se, cada um para vigiar uma das escadarias, raciocinando que Koupriane e o General Trebassof teriam de decidir descer.

A datcha des Iles não era agora mais do que uma ruína fumegante. Mas, pelo facto de as bombas vivas terem explodido separadamente, o efeito destrutivo foi difuso e, embora houvesse numerosos feridos, como no caso do ataque à datcha de Stolypine, pelo menos ninguém morreu instantaneamente; isto é, à exceção dos dois niilistas, dos quais não se pôde encontrar qualquer vestígio, exceto alguns trapos.

Rouletabille tinha sido arremessado para o jardim e sentiu-se muito contente por escapar assim, um pouco abalado, mas sem um arranhão. O grupo composto por Feodor e os seus amigos foi estranhamente protegido pela leveza da construção da datcha. A escadaria de ferro, que, por assim dizer, quase pendia dos dois andares, estando mal fixada no topo e na base, elevou-se sob eles e depois atirou-os para fora quando se partiu em mil pedaços, mas apenas depois de, pela sua própria cedência, os ter protegido da força inicial da bomba. Levantaram-se das ruínas sem ferimentos mortais. Koupriane tinha uma mão gravemente queimada, Athanase Georgevitch tinha o nariz e as faces seriamente feridos, Ivan Petrovitch perdeu uma orelha; o mais gravemente ferido era Thaddeus Tchitchnikoff, que tinha ambas as pernas partidas. Extraordinariamente, a primeira pessoa que apareceu, erguendo-se do meio dos destroços, foi Matrena Petrovna, ainda segurando Feodor nos braços. Tinha escapado com algumas queimaduras e o general, salvo novamente pela sorte do soldado que a Morte não quer, estava absolutamente ileso. Feodor deu gritos de alegria. Esforçaram-se por acalmá-lo, porque, afinal, à sua volta, alguns pobres desgraçados tinham ficado gravemente feridos, assim como o pobre Ermolai, que jazia ali morto. Os criados na cave tinham sido mais gravemente feridos e queimados porque a força principal da explosão tinha ido para baixo; o que provavelmente salvou as personagens lá de cima.

Rouletabille tinha sido levado com as outras vítimas para uma datcha vizinha; mas assim que se libertou daquele terrível pesadelo, escapou do local. Ele lamentava realmente não estar morto. Estas sucessivas ondas de acontecimentos tinham-no submerso; e culpava-se a si próprio por todo aquele desastre. Com a maior ansiedade, tinha perguntado sobre a condição de cada uma das "suas vítimas". Feodor não tinha sido ferido, mas agora estava quase delirante, perguntando a cada minuto que passava por Natacha, que não reaparecera. Essa infeliz rapariga, Rouletabille sempre acreditara que era inocente. Seria ela culpada? «Ah, se ela tivesse querido! Se tivesse tido confiança», gritou ele, levantando mãos angustiadas para o céu, «nada disto teria acontecido. Ninguém teria atacado e ninguém atacaria nunca mais a vida de Trebassof. Pois eu não estava errado ao afirmar perante Koupriane que a vida do general estava na minha mão, e eu tinha o direito de lhe dizer: "Vida por vida! Dê-me a de Matiew e eu dar-lhe-ei a do general." E agora houve mais uma tentativa infrutífera de matar Feodor Feodorovitch e a culpa é de Natacha — isso eu juro, porque ela não me quis ouvir. E estará Natacha implicada nisto? Oh, meu Deus», perguntou Rouletabille, fazendo esta vã pergunta à Divindade, pois não esperava mais ajuda para a responder na terra.

Natacha! Inocente ou culpada, onde estava ela? O que estaria a fazer? Saber isso! Saber se se estava certo ou errado — e se se estivesse errado, desaparecer, morrer!

Assim murmurava o infeliz Rouletabille enquanto caminhava ao longo da margem do Neva, não longe das ruínas da pobre datcha, onde os alegres amigos de Feodor Feodorovitch não teriam mais bons jantares, nunca; assim monologava ele, com a cabeça a arder.

E, de repente, recuperou o rasto da jovem, aquele rasto perdido mais cedo, um rasto deixado no seu momento de fuga, após o envenenamento e antes da explosão. E não teria ele nisso uma terrível coincidência? Porque o veneno poderia muito bem ter sido apenas uma preparação para o ataque final, o pretexto para a trágica chegada dos dois falsos médicos. Natacha, Natacha, o mistério vivo rodeado já por tantos mortos!

Não longe das ruínas da datcha, Rouletabille logo se certificou de que um grupo de pessoas estivera ali na noite anterior, vindo dos bosques próximos e regressando a eles. Conseguiu ter a certeza disto porque os limites da datcha tinham sido guardados por tropas e polícia assim que a explosão ocorreu, sob ordens para manter afastada a multidão que acorria a Eliaguine. Olhou atentamente para a erva, as fetos, os ramos partidos e pisados. Certamente ocorrera ali uma luta. Podia distinguir claramente na terra macia de uma clareira estreita as marcas das duas pequenas botas de Natacha entre todas as pegadas grandes.

Continuou a sua busca com o coração cada vez mais pesado, tinha o pressentimento de que estava prestes a descobrir um novo infortúnio. As pegadas passavam firmemente por baixo dos ramos ao longo do lado do Neva. De um arbusto apanhou um retalho de pano branco, e pareceu-lhe que uma verdadeira batalha tivera lugar ali. Ramos partidos espalhavam-se pela erva. Prosseguiu. Muito perto da margem, viu, pelo exame do solo, onde já não havia rasto de saltos minúsculos e pequenas solas, que a mulher que ali fora encontrada fora transportada, e transportada, para um barco, cujo local de fixação à margem era ainda visível.

«Levaram Natacha», gritou ele num surto de angústia. «Estúpido que sou, a culpa também é minha — toda minha — toda minha! Queriam vingar a morte de Michael Nikolaievitch, pela qual consideram Natacha responsável, e raptaram-na.»

Os seus olhos procuraram no grande braço do rio um barco. O rio estava deserto. Nem uma vela, nada visível nas águas mortas! «O que farei? O que farei? Tenho de a salvar.»

Recomeçou o seu curso ao longo do rio. Quem lhe poderia dar alguma informação útil? Aproximou-se de um pequeno abrigo ocupado por um guarda. O guarda estava a falar com um oficial. Talvez tivesse notado algo durante a sua vigília naquela noite ao longo do rio. Aquele braço do rio estava quase sempre deserto após o dia terminar. Um barco que circulasse entre aquelas margens ao crepúsculo certamente chamaria a atenção. Rouletabille mostrou ao guarda o papel que Koupriane lhe dera no início, e com o oficial (que se revelou ser um oficial de polícia) como intérprete, fez as suas perguntas. Na verdade, o guarda tinha ficado suficientemente intrigado com o ir e vir de um barco ligeiro que, após desaparecer por um instante, na curva do rio, tinha subitamente remado velozmente para fora e abordado um iate à vela que apareceu na abertura do golfo. Era uma daquelas pequenas, mas rápidas e elegantes embarcações à vela, como as que se veem nas regatas de Lachtka.

Lachtka! «A Baía de Lachtka!»

A palavra foi um raio de luz para o repórter, que recordava agora o conselho que Gounsovski lhe dera. «Observe a Baía de Lachtka, e diga-me então se ainda acredita que Natacha é inocente!» Gounsovski devia saber, quando disse isto, que Natacha tinha embarcado em companhia dos niilistas, mas evidentemente ignorava que ela tinha ido com eles sob coação, como sua prisioneira.

Seria tarde demais para salvar Natacha? Em qualquer caso, antes de morrer, tentaria de todas as formas possíveis, para pelo menos a ter poupado o máximo que pudesse do desastre pelo qual se sentia responsável. Correu para o Barque, perto da Ponta.

A sua voz era firme quando chamou a canoa do restaurante flutuante onde, graças a ele, Koupriane tinha sido contrariado na sua impotente raiva. Fez-se levar até pouco abaixo de Staria-Derevnia e saltou no local onde vira a pequena Katharina desaparecer uns dias antes. Aterrara na lama e trepou de gatas pela encosta de um caminho que seguia a margem. Esta margem conduzia à Baía de Lachtka, não longe da fronteira da Finlândia.

À esquerda de Rouletabille ficava o mar, o imenso golfo com ondas leves; à sua direita estava a extensão decadente do pântano. Água estagnada que se estendia até ao horizonte, erva grossa e juncos, um emaranhado extraordinário de plantas aquáticas, pequenos lagos cuja escuma esverdeada não se mexia sob a brisa forte, água que era pesada e suja. Ao longo desta estreita faixa de terra empurrada assim entre o pântano, o céu e o mar, apressou-se, com muitos tropeções, com os olhos fixos no golfo deserto. De repente, virou a cabeça perante um ruído singular. A princípio não viu nada, mas ouviu à distância um clamor vago enquanto uma espécie de vapor começava a subir do pântano. E então notou, mais perto de si, as ervas altas do pântano a ondularem. Finalmente viu um rebanho incontável a subir do leito dos pântanos. Bestas, grupos de bestas, cujos chifres se viam como baionetas, empurravam-se mutuamente tentando manter-se em terra firme. Muitas delas nadavam e nas costas de algumas estavam homens nus, completamente nus, com cabelos que caíam até aos ombros e esvoaçavam atrás deles como crinas. Gritavam gritos de guerra e agitavam os seus bastões. Rouletabille parou bruscamente perante esta invasão pré-histórica. Nunca teria imaginado que a poucos quilómetros do Nevsky Prospect pudesse encontrar-se no meio de tal espetáculo. Estes selvagens não tinham sequer uma tanga. De onde vinham com o seu rebanho? De que lugar remoto do mundo ou da história antiga e passada teriam emergido? O que era esta nova invasão? Que matadouro prodigioso esperava estes rebanhos rebeldes? Faziam um ruído como um trovão no pântano. Ali estavam mil ancas desalinhadas a ondular no pântano como o oceano quando uma tempestade se aproxima. Os homens completamente nus saltavam ao longo do percurso, agitando os seus bastões, gritando guturalmente de uma forma que as bestas pareciam compreender. Abriram caminho para fora do pântano e voltaram-se para a cidade, deixando para trás, para envolver a visão deles por um momento e depois desvanecer-se, uma névoa pestilencial que pairava como uma aura à volta dos homens nus e de cabelos compridos. Era terrível e magnífico. Para não ser empurrado para a água, Rouletabille trepara para uma pequena rocha que ficava ao lado da rota, e esperara ali como que petrificado. Quando os bárbaros finalmente passaram, ele desceu de novo, mas a rota tornara-se num lodaçal de imundície pisada.

Felizmente, ouviu o ruído de um transporte primitivo atrás dele. Era uma telega. Curiosamente primitiva, a telega tem quatro rodas, com duas tábuas atiradas grosseiramente sobre os eixos. Rouletabille deu ao homem que nela estava sentado três rublos, e saltou para as tábuas ao lado dele, e os dois pequenos cavalos finlandeses, cujas crinas pendiam até à lama, iam como o vento. Tais transportes grosseiros são necessários em tais estradas grosseiras, mas é necessária uma constituição forte para fazer uma viagem neles. Ainda assim, o repórter não sentiu nenhum dos solavancos, estava tão atento ao mar e à costa da Baía de Lachtka. O veículo chegou finalmente a uma ponte de madeira, através de um riacho turvo. Como o dia começava a desvanecer-se sem cor, Rouletabille saltou para a margem e a sua equipagem rústica atravessou para o lado de Sestroriesk. Era um canto de terra preto e sombrio como os seus pensamentos que ele examinava agora. «Observe a Baía de Lachtka!» O repórter sabia que esta planície desolada, este pântano impenetrável, este mar que oferecia ao fugitivo refúgio em inúmeros vaus, tinham sido sempre um retiro útil para aventureiros niilistas. Centenas de lendas circulavam em São Petersburgo sobre os mistérios dos pântanos de Lachtka. E isso dava-lhe a sua última esperança. Talvez conseguisse encontrar alguns revolucionários a quem pudesse explicar sobre Natacha, o mais prudentemente possível; talvez até visse a própria Natacha. Gounsovski não poderia ter dito palavras vãs para ele.

Entre o pântano de Lachtkrinsky e a praia percebeu, na orla das florestas que correm até Sestroriesk, uma pequena casa de madeira cujas paredes estavam pintadas de um castanho-avermelhado, e o seu telhado de verde. Não era a isba russa, mas a touba finlandesa. Contudo, um sinal russo anunciava-a como sendo um restaurante. O jovem teve de dar apenas alguns passos para entrar. Era o único cliente ali. Um velho, com óculos e uma longa barba cinzenta, evidentemente o proprietário do estabelecimento, estava atrás do balcão, presidindo aos zakouskis. Rouletabille escolheu algumas sanduíches pequenas que colocou num prato. Tomou uma garrafa de pivo e fez o homem compreender que mais tarde, se fosse possível, gostaria de um bom jantar quente. O outro fez um sinal de que compreendia e mostrou-lhe uma sala adjacente que era usada para os clientes que jantavam. Rouletabille estava bastante pronto para morrer perante os seus fracassos, mas não queria perecer de fome.

Uma mesa estava colocada ao lado de uma janela com vista para o mar e para a entrada da baía. Não poderia ter sido melhor e, com o olho agora no horizonte, agora no estuário próximo, começou a comer com sombria avidez. Estava inclinado a sentir pena de si próprio, a entregar-se à autocomiseração. «Ainda assim, dois e dois fazem sempre quatro», disse para si próprio; «mas nos meus cálculos talvez me tenha esquecido do radical. Ah, houve um tempo em que eu não teria ignorado nada. E mesmo agora não ignorei nada, se Natacha for inocente!» Tendo literalmente varrido o prato, bateu na mesa com um grande murro e disse: «Ela é!»

Nesse momento a porta abriu-se. Rouletabille supôs que o proprietário do lugar estava a entrar.

Era Koupriane.

Levantou-se, sobressaltado. Não podia imaginar por que mistério o Prefeito de Polícia tinha feito o seu caminho até ali, mas alegrou-se do fundo do coração, pois se ele estava a tentar resgatar Natacha das mãos dos revolucionários, Koupriane seria um aliado valioso. Bateu no ombro do Prefeito.

«Ora, ora!» disse ele, quase alegremente. «Certamente que não o esperava aqui. Como está o seu ferimento?»

«Nitchevo! Não vale a pena falar, não é nada.»

«E o general e —! Ah, essa noite terrível! E aqueles dois infelizes que —?»

«Nitchevo! Nitchevo!»

«E o pobre Ermolai!»

«Nitchevo! Nitchevo! Não é nada.»

Rouletabille examinou-o. O Prefeito de Polícia tinha um braço ao peito, mas estava brilhante e reluzente como uma moeda nova de dez rublos, enquanto ele, pobre Rouletabille, estava tão abominavelmente sujo e deprimido. De onde vinha ele? Koupriane compreendeu o seu olhar e sorriu.

«Bem, acabo de vir do comboio da Finlândia; é o melhor caminho.»

«Mas o que pode ter vindo fazer aqui, Excelência?»

«O mesmo que você.»

«Bah!» exclamou Rouletabille, «quer dizer que veio aqui para salvar Natacha?»

«Como — salvá-la! Venho para a capturar.»

«Para a capturar?»

«Monsieur Rouletabille, tenho uma masmorra muito pequena e fina na fortaleza de São Pedro e São Paulo que está pronta para ela.»

«Vai atirar Natacha para uma masmorra!»

«Ordem do Imperador, Monsieur Rouletabille. E se me vê aqui pessoalmente é simplesmente porque Sua Majestade exige que a coisa seja feita o mais respeitosa e discretamente possível.»

«Natacha na prisão!» gritou o repórter, que viu com horror todos os obstáculos a erguerem-se diante de si ao mesmo tempo. «Por que razões, rogo-lhe?»

«A razão é bastante simples. Natacha Feodorovna é a última palavra em maldade e não merece a piedade de ninguém. Ela é a cúmplice dos revolucionários e a instigadora de todos os crimes contra o seu pai.»

«Tenho a certeza de que está enganado, Excelência. Mas como foi guiado até ela?»

«Simplesmente por si.»

«Por mim?»

«Sim, perdemos todo o rasto de Natacha. Mas, como tinha desaparecido também, decidi que só poderia estar ocupado a procurá-la, e que ao encontrá-lo poderia ter a hipótese de lhe deitar as mãos.»

«Mas não vi nenhum dos seus homens?»

«Ora, um deles trouxe-o até aqui.»

«Eu?»

«Sim, você. Não subiu para uma telega?»

«Ah, o cocheiro.»

«Exatamente. Tinha arranjado para ele se encontrar comigo na estação de Sestroriesk. Ele apontou o local onde você saiu, e aqui estou eu.»

O repórter baixou a cabeça, vermelho de desgosto. Definitivamente, a ideia sinistra de que ele era responsável pela morte de um homem inocente e por todos os males que se seguiram tinha paralisado os seus talentos de detetive. Reconhecia-o agora. De que servia lutar! Se alguém lhe tivesse dito que seria jogado assim por alguém, ele, Rouletabille! ter-se-ia rido bem — então. Mas agora, bem, não era capaz de mais nada. Era o seu próprio inimigo mais cruel. Não só Natacha estava nas mãos dos revolucionários por sua culpa, pelo seu erro abominável, mas pior ainda, no próprio momento em que desejava salvá-la, ele, tolamente, ingenuamente, tinha conduzido a polícia ao local onde deveriam ter sido mantidos afastados. Foi o fundo da sua humilhação; Koupriane realmente teve pena do repórter.

«Vamos, não se culpe demasiado», disse ele. «Teríamos encontrado Natacha sem si; Gounsovski notificou-nos de que ela ia embarcar na Baía de Lachtka esta noite com Priemkof.»

«Natacha com Priemkof!» exclamou Rouletabille. «Natacha com o homem que introduziu as duas bombas vivas na casa do seu pai! Se ela está com ele, Excelência, é porque ela é sua prisioneira, e isso só por si será suficiente para provar a sua inocência. Agradeço ao Céu que o enviou aqui.»

Koupriane engoliu um copo de vodka, serviu outro a seguir, e finalmente dignou-se a traduzir o seu pensamento:

«Natacha é a amiga destes homens preciosos e vê-los-emos desembarcar de mãos dadas.»

«Os seus homens, então, não estudaram os vestígios da luta que “estes homens preciosos” tiveram nas margens do Neva antes de levarem a Natacha?»

«Oh, eles não foram enganados. Na verdade, a luta foi demasiado visível para não ter sido feita apenas por aparências. Que criança que você é! Não consegue ver que a presença de Natacha na datcha tinha-se tornado demasiado perigosa para aquela jovem encantadora depois do fracasso do envenenamento do seu pai e da sua madrasta, e no momento em que os seus camaradas se preparavam para enviar ao General Trebassof uma pequena e agradável oferta de dinamite? Ela arranjou maneira de escapar e, ainda assim, parecer ter sido raptada. É demasiado simples.»

Rouletabille levantou a cabeça.

«Há algo ainda mais simples de imaginar do que a culpabilidade de Natacha. É que Priemkof planeou despejar o veneno no frasco de vodka, dizendo a si mesmo que, se o veneno não surtisse efeito, pelo menos criaria a ocasião para introduzir a sua dinamite na casa, nos bolsos dos “médicos” que eles iriam buscar.»

Koupriane agarrou o pulso de Rouletabille e lançou-lhe algumas palavras terríveis, olhando para o fundo dos seus olhos:

«Não foi Priemkof quem despejou o veneno, porque não havia veneno no frasco.»

Rouletabille, ao ouvir esta declaração extraordinária, levantou-se, mais sobressaltado do que jamais estivera no decorrer desta campanha surpreendente.

Se não havia veneno no frasco, o veneno devia ter sido despejado diretamente nos copos por uma pessoa que estivesse no quiosque! Ora, havia apenas quatro pessoas no quiosque: os dois que foram envenenados, Natacha e ele próprio, Rouletabille. E aquele quiosque era tão perfeitamente isolado que era impossível para outras pessoas, que não as quatro que lá estavam, despejar veneno sobre a mesa.

«Mas isso não é possível!», gritou ele.

«É tão possível que é um facto. O Padre Alexis declarou que não há veneno no frasco, e devo dizer-lhe que uma análise que mandei fazer depois dele confirma-o. Também não havia veneno no pequeno frasco que levou ao Padre Alexis e no qual o próprio despejou o conteúdo do copo de Natacha e do seu; nenhum vestígio de veneno, exceto em dois dos quatro copos, arseniato de sódio foi encontrado apenas nos guardanapos sujos de Trebassof e da sua mulher e nos dois copos dos quais beberam.»

«Oh, isso é horrível», murmurou o repórter estupefacto; «isso é horrível, pois então o envenenador tem de ser a Natacha ou eu.»

«Tenho toda a confiança em si», declarou Koupriane com uma grande gargalhada de satisfação, dando-lhe uma palmada no ombro. «E prendo a Natacha, e você, que ama a lógica, deve estar satisfeito agora.»

Rouletabille não tinha mais nada a dizer. Sentou-se de novo e deixou a cabeça cair entre as mãos, como alguém a quem o sono se apoderou.

«Ah, as nossas jovens; você não as conhece. São terríveis, terríveis!», disse Koupriane, acendendo um grande charuto. «Muito mais terríveis do que os rapazes. Nas boas famílias, os rapazes ainda se divertem; mas as raparigas — elas leem! Sobe-lhes à cabeça. Estão prontas para tudo; não conhecem pai nem mãe. Ah, você é uma criança, não consegue compreender. Dois olhos lindos, um ar melancólico, uma voz suave e baixa, e você está capturado — acredita ter à sua frente apenas uma menina inofensiva e boa. Bem, Rouletabille, aqui está o que lhe direi para a sua instrução. Houve o tempo do atentado a Tchipoff; os revolucionários que foram designados para matar Tchipoff estavam disfarçados de cocheiros e lacaios. Tudo tinha sido cuidadosamente preparado e pareceria que ninguém poderia ter descoberto as bombas no local onde tinham sido escondidas. Bem, sabe onde essas bombas foram encontradas? Nos quartos da filha do governador, de Wladmir! Exatamente, meu pequeno amigo, exatamente lá! Nos quartos da filha do governador, a Mademoiselle Alexeieiv. Ah, estas jovens! Além disso, foi esta mesma Mademoiselle Alexeieiv que, tão gentilmente, perfurou o cérebro de um honesto comerciante suíço que teve o azar de se parecer com um dos nossos ministros. Se tivéssemos enforcado aquela jovem encantadora mais cedo, meu caro Monsieur Rouletabille, essa última catástrofe poderia ter sido evitada. Uma boa corda à volta do pescoço de todas estas pequenas fêmeas — é o único caminho, o único caminho!»

Um homem entrou. Rouletabille reconheceu o condutor da telega. Houve algumas palavras rápidas entre o Chefe e o agente. O homem fechou as persianas da sala, mas através das frestas seria possível ver o que acontecia lá fora. Depois, o agente saiu; Koupriane, ao empurrar a mesa que ficava perto da janela, disse ao repórter:

«É melhor vir à janela; o meu homem acabou de me dizer que o barco está a aproximar-se. Pode observar um espetáculo interessante. Temos a certeza de que a Natacha ainda está a bordo. O iate, depois da explosão na datcha, recolheu dois homens que se afastaram para ele numa canoa, e desde então tem navegado de um lado para o outro no golfo. Tomámos as nossas precauções na Finlândia da mesma forma que aqui, e é aqui que eles vão tentar desembarcar. Fique de olho neles.»

Koupriane estava no seu posto de observação. A noite caía lentamente. O céu tornava-se cinzento-escuro, um tom que se misturava com o mar cor de ardósia. Para aqueles na margem, o som dos homens prestes a morrer vinha suavemente através da água. Havia uma vela longe. Entre a praia e a touba onde Koupriane observava, havia uma crista, uma janela, que, no entanto, não escondia a margem ou a baía do prefeito de polícia, porque à altura em que ele estava, o seu olhar passava num ângulo acima dela. Mas, a partir do mar, esta crista escondia completamente qualquer pessoa que estivesse de emboscada atrás dela. O repórter observou cinquenta mujiques deitados de barriga para baixo, rastejando pela crista, atrás de dois dos seus, cujas cabeças apenas ultrapassavam a crista. Na linha de visão tomada por essas duas cabeças estava a vela branca, que parecia agora muito maior. O iate estava inclinado na água e deslizava com verdadeira elegância, seguindo em frente. De repente, exatamente quando supunham que ele viria diretamente para a margem, as velas caíram e uma canoa foi lançada pelo costado. Quatro homens entraram nela; depois, uma mulher saltou levemente por uma pequena escada para dentro da canoa. Era Natacha. Koupriane não teve dificuldade em reconhecê-la através da escuridão crescente.

«Ah, meu caro Monsieur Rouletabille», disse ele, «veja a sua prisioneira dos Niilistas. Repare como ela está amarrada. As suas ataduras certamente estão a causar-lhe grande dor. Estes revolucionários são certamente brutos!»

A verdade é que Natacha tinha ido com bastante prontidão para o leme e, enquanto os outros remavam, ela dirigiu o barco ligeiro para o lugar na praia que lhe tinha sido indicado. Em breve, a proa da canoa tocou a areia. Não parecia haver uma alma por perto, e essa foi a conclusão a que os homens na canoa, que se levantaram a olhar em volta, pareceram chegar. Saltaram para fora, e depois foi a vez de Natacha. Ela aceitou a mão que lhe foi estendida, falando agradavelmente com os homens o tempo todo. Virou-se até para apertar a mão de um deles. O grupo subiu pela praia. Durante todo este tempo, os observadores na pequena casa de comida podiam ver os falsos mujiques, que se tinham contorcido de barriga para baixo até à própria extremidade da crista, mantendo-se prontos para saltar.

Atrás da sua persiana, Koupriane não conseguiu conter uma exclamação de triunfo; identificou gradualmente algumas das figuras do grupo e murmurou:

«Eh! eh! Ali está o próprio Priemkof e os outros. Gounsovski tem razão e está certamente bem informado; o seu sistema é decididamente bom. Que rede cheia!»

Ele mal respirava enquanto observava o resultado. Podia distinguir noutro lugar, ao lado da baía, estendidos no chão, escondidos pela mínima elevação do solo, outros falsos mujiques. O bosque de Sestroriesk era vigiado da mesma forma. O grupo de revolucionários que passeava atrás de Natacha parou para conferenciar. Em três — talvez dois — minutos, estariam cercados — cortados, apanhados na armadilha. De repente, um tiro soou na noite, e o grupo, com uma rapidez sobressaltada, voltou atrás e dirigiu-se silenciosamente para o mar, enquanto de todas as direções surgiam os agentes escondidos e se lançavam na perseguição, empurrando-se uns aos outros e gritando atrás dos fugitivos. Mas os gritos tornaram-se gritos de raiva, pois o grupo de revolucionários alcançou a praia. Viram Natacha, que era amparada pelo próprio Priemkof, rejeitar a ajuda do Niilista, que não queria abandoná-la, para que ele se pudesse salvar. Ela fê-lo ir e, vendo que ia ser capturada, parou bruscamente e esperou o inimigo estoicamente, de braços cruzados. Entretanto, os seus três companheiros conseguiram atirar-se para a canoa e remaram com força enquanto os homens de Koupriane, dentro de água até ao peito, disparavam os seus revólveres contra os fugitivos. Os homens na canoa, temendo ferir Natacha, não responderam ao fogo. O iate tinha as velas içadas quando eles chegaram ao seu lado e fugiu como um pássaro em direção aos misteriosos baixios da Finlândia, içando audaciosamente a bandeira negra da Revolução.

Entretanto, os agentes de Koupriane, a tremer perante a sua raiva, reuniram-se na casa de comida. O Prefeito de Polícia descarregou a sua fúria sobre eles e tratou-os como os mais infames dos animais. A captura de Natacha era pouco consolo. Ele tinha planeado a captura de todos, e a estupidez dos seus homens tirou-lhe todo o autocontrolo. Se tivesse um chicote à mão, teria encontrado um consolo imediato para as suas esperanças minadas. Natacha, de pé num canto, com o rosto singularmente calmo, observava esta cena extraordinária que parecia um jardim zoológico em que o próprio domador se tinha tornado uma fera. De outro canto, Rouletabille mantinha os olhos fixos em Natacha, que o ignorava. Ah, aquela rapariga, esfinge para todos eles! Até para ele, que pensava há pouco que podia ler nas suas feições, nos seus olhos, coisas invisíveis para outros homens vulgares! O rosto impassível daquela rapariga cujo pai tinham tentado assassinar apenas algumas horas antes e que acabara de apertar a mão de Priemkof, o assassino! Uma vez, ela virou ligeiramente a cabeça na direção de Rouletabille. O repórter olhou então para ela com crescente avidez, com os olhos a arder, como se quisesse dizer: «Certamente, Natacha, não és cúmplice dos assassinos do teu pai; certamente não foste tu quem despejou o veneno!»

Mas o olhar de Natacha passou friamente pelo repórter. Ah, aquela máscara misteriosa e fria, a boca com o seu sorriso amargo e impudente, um sorriso atroz que parecia dizer ao repórter: «Se não fui eu quem despejou o veneno, então foste tu!»

Era o rosto bastante comum às raparigas de quem Koupriane tinha falado há pouco, «as jovens que leem» e, terminada a sua leitura, preparam-se para realizar alguma coisa terrível, alguma coisa por causa da qual, de tempos a tempos, colocam cordas rígidas à volta do pescoço destas jovens.

Finalmente, o frenesim de Koupriane esgotou-se e ele fez um sinal. Os homens saíram em silêncio lúgubre. Dois deles permaneceram para guardar Natacha. Do lado de fora vinham os sons de uma carruagem de Sestroriesk pronta para levar a rapariga para as masmorras de São Pedro e São Paulo. Um gesto final do Prefeito de Polícia e as mãos ásperas dos dois guardas agarraram os pulsos frágeis da prisioneira. Empurraram-na, atiraram-na para o exterior, prendendo-a contra a porta, descarregando assim a sua raiva pelas críticas do seu chefe. Poucos segundos depois, a carruagem partiu, para não parar até chegar à fortaleza com os túmulos que vertem água sob o leito do rio, onde jovens raparigas prestes a morrer são confinadas — que leram demasiado, sem compreender inteiramente, como diz o Monsieur Kropotkine.

Koupriane preparou-se para sair, por sua vez. Rouletabille deteve-o.

«Excelência, desejo que me diga por que mostrou tal raiva pelos seus homens agora mesmo.»

«São bestas brutas», gritou o Chefe de Polícia, bastante fora de si novamente. «Fizeram-me perder a maior captura da minha vida. Atiraram-se ao grupo dois minutos demasiado cedo. Alguns deles dispararam uma arma que tomaram pelo sinal e que serviu para avisar os Niilistas. Mas deixá-los-ei a todos apodrecer na prisão até saber qual deles disparou aquele tiro.»

«Não precisa de procurar muito para isso», disse Rouletabille. «Fui eu.»

«Você! Então você deve ter saído da touba?»

«Sim, para os avisar. Mas, ainda assim, cheguei um pouco tarde, uma vez que capturou a Natacha.»

Os olhos de Koupriane brilharam.

«Você é o cúmplice deles em tudo isto», atirou ele ao repórter, «e vou ao Czar pedir permissão para o prender.»

«Apresse-se, então, Excelência», respondeu o repórter friamente, «porque os Niilistas, que também pensam ter algumas contas a ajustar comigo, podem chegar a mim antes de si.»

E fez a saudação.

XV. «ESTIVE À SUA ESPERA»

No hotel, um bilhete de Gounsovski: «Não se esqueça desta vez de vir amanhã almoçar comigo. Saudações calorosas de Madame Gounsovski.» Depois, uma noite horrível, sem dormir, abalada por ecos de explosões e o clamor dos feridos; e a sombra solene do Padre Alexis, estendendo a Rouletabille um frasco de veneno e dizendo: «Ou a Natacha ou você!» Depois, surgindo entre as sombras a forma ensanguentada de Michael Nikolaievitch, o Inocente!

De manhã, um bilhete do Marechal da Corte.

O Monsieur le Marechal não tinha, evidentemente, notícias particularmente boas, pois em termos absolutamente sem entusiasmo convidou o jovem para almoçar nesse mesmo dia, um pouco cedo, ao meio-dia, pois desejava vê-lo mais uma vez antes de partir para França. «Já percebi», disse Rouletabille para si mesmo; «o Monsieur le Marechal pronuncia a minha expulsão do país» — e esqueceu mais uma vez o almoço de Gounsovski. O local de encontro nomeado era o grande restaurante chamado O Urso. Rouletabille entrou nele pontualmente ao meio-dia. Perguntou ao schwitzar se o Grande Marechal da Corte tinha chegado e disseram-lhe que ninguém o tinha visto ainda. Conduziram-no ao enorme salão principal, onde, no entanto, havia apenas uma pessoa. Este homem, de pé perante a mesa coberta com zakouskis, empanturrava-se. Ao som dos passos de Rouletabille no chão, este único cliente faminto virou-se e levantou as mãos ao céu ao reconhecer o repórter. Este último teria dado todos os rublos que tinha no bolso para evitar o reconhecimento. Mas já estava frente a frente com o advogado tão célebre pelas suas proezas à mesa, o amável Athanase Georgevitch, com a cabeça envolta em ligaduras e curativos, no meio dos quais se podiam distinguir claramente apenas os olhos e, acima de tudo, a boca.

«Como vai isso, pequeno amigo?»

«Como está?»

«Oh, eu! Não tenho nada. Daqui a uma semana teremos esquecido tudo.»

«Que caso terrível», disse o repórter, «acreditei certamente que éramos todos homens mortos.»

«Não, não. Não foi nada. Nitchevo!»

«E o pobre Thaddeus Tchitchnikoff com as suas duas pobres pernas partidas!»

«Eh! Nitchevo! Ele tem muitas talas boas e sólidas que lhe farão duas boas pernas novamente. Nitchevo! Não pense mais nisso! Não é nada. Veio aqui para jantar? Uma casa muito célebre esta. Caracho!» Ocupou-se a fazer as honras. Dir-se-ia que o restaurante lhe pertencia. Gabava-se da sua arquitetura e da cozinha «a la Francaise».

«Sabe», perguntou confiante, «uma sala de restaurante mais bonita em qualquer parte do mundo?»

De facto, parecia a Rouletabille, ao olhar para o alto arco de vidro, que estava numa estação de caminhos de ferro decorada para algum viajante ilustre, pois havia flores e plantas por toda a parte. Mas o visitante que o salão aguardava era o devorador russo, o ogre que nunca deixava de vir comer ao O Urso. Apontando para as filas de mesas a brilhar com as suas toalhas brancas e prata brilhante, Athanase Georgevitch, de boca cheia, disse:

«Ah, meu caro pequeno monsieur francês, deveria vê-lo à hora da ceia, com as mulheres, e as joias, e a música. Não há nada em França que lhe possa dar uma ideia disso, nada! A alegria — o champanhe — e as joias, monsieur, que valem milhões e milhões de rublos! As nossas mulheres usam-nas todas — tudo o que têm. Estão adornadas como santuários sagrados! Todas as joias de família — desde o fundo dos cofres! É magnífico, completamente russo — moscovita! O que estou a dizer? É asiático. Monsieur, à noite, numa festa, somos asiáticos. Deixe-me dizer-lhe algo em segredo. Repara que este enorme salão de jantar está rodeado por essas varandas envidraçadas. Cada uma dessas janelas pertence a uma sala privada separada. Bem, vê aquela janela ali? — sim, ali — aquela é a sala de um grão-duque — sim, é a esse a quem me refiro — um grão-duque muito alegre. Sabe, uma noite em que havia uma grande multidão aqui — famílias, monsieur, festas de família, famílias de linhagem nobre — a janela dessa varanda em particular foi aberta, e uma mulher completamente nua, tão nua como a minha mão, monsieur, foi atirada para o salão de jantar e correu por ele a toda a velocidade. Foi uma aposta, monsieur, uma aposta do alegre grão-duque, e a demoiselle ganhou-a. Mas que escândalo! Ah, não fale nisso; seria muito má forma. Mas... suficientemente asiático, eh? Verdadeiramente asiático. E... algo muito mais lamentável... vê aquela mesa? Aconteceu na véspera de Ano Novo russo, na ceia. Toda a beleza, toda a capital, estava aqui. Exatamente à meia-noite, a orquestra começou o Bodje tsara krani* para inaugurar o alegre Ano Novo russo, e todos se levantaram, segundo o costume, e ouviram em silêncio, como súbditos leais devem fazer. Bem, naquela mesa, acompanhando a sua família, estava um jovem estudante, um bom rapaz, muito correto, e de uniforme. Este infeliz jovem estudante, que se tinha levantado como todos os outros para ouvir o Bodje tsara krani, inadvertidamente colocou o joelho numa cadeira. Verdadeiramente, essa não é uma atitude correta, monsieur, mas realmente não era razão para o matar, pois não? Certamente que não. Bem, um bruto de uniforme, um oficial impecavelmente vestido, tirou um revólver do bolso e disparou contra o estudante à queima-roupa. Pode imaginar o escândalo, pois o estudante estava morto! Havia jornalistas de Paris lá, além disso, que nunca tinham estado lá antes, percebe! O Monsieur Gaston Leroux estava exatamente nessa mesa. Que escândalo! Tiveram uma batalha campal. Partiram garrafas de cristal na cabeça do assassino — pois ele não era nem mais nem menos que um assassino, um bebedor de sangue — um asiático. Levaram o assassino, que sangrava por toda a parte, e levaram-no para cuidar dele. Quanto ao morto, ficou estendido ali sob uma toalha de mesa, à espera da polícia — e aqueles nas mesas continuaram a beber. Isso não é asiático o suficiente para si? Aqui, uma mulher nua; ali, um cadáver! E as joias — e o champanhe! O que me diz a isso?»

* O hino nacional russo.

«Sua Excelência o Grande Marechal da Corte está à sua espera, Monsieur.»

Rouletabille apertou a mão de Athanase Georgevitch, que regressou aos seus zakouskis, e seguiu o intérprete até à porta de uma das salas privadas. O alto dignitário estava lá. Com um charme na sua polidez, do qual o russo de linhagem nobre possui o segredo sobre quase todos os outros no mundo, o Marechal deu a entender a Rouletabille que ele tinha incorrido no desagrado imperial.

«Foi denunciado por Koupriane, que o responsabiliza pelos falhanços que sofreu neste caso.»

«O Monsieur Koupriane tem razão», respondeu Rouletabille, «e Sua Majestade deve acreditar nele, uma vez que é a verdade. Mas não tema nada de mim, Monsieur le Grand Marechal, pois não incomodarei mais o Monsieur Koupriane, nem ninguém. Desaparecerei.»

«Creio que Koupriane já foi instruído a visar o seu passaporte.»

«Ele é muito bom, e faz muito mal a si mesmo.»

«Tudo isso é um pouco culpa sua, Monsieur Rouletabille. Acreditávamos poder considerá-lo como um amigo, e você nunca falhou, ao que parece, em cada ocasião, a dar a sua ajuda aos nossos inimigos.»

«Quem diz isso?»

«Koupriane. Oh, é necessário ser um conosco. E você não é um conosco. E se você não está por nós, está contra nós. Penso que compreende isso. É assim que tem de ser. Os terroristas voltaram aos métodos dos niilistas, que tiveram sucesso total demais contra Alexandre II. Quando lhe digo que eles conseguiram colocar as suas mensagens até mesmo no palácio imperial...»

«Sim, sim», disse Rouletabille, vagamente, como se já estivesse muito distante das contingências deste mundo. «Sei que o Czar Alexandre II encontrava por vezes sob o seu guardanapo uma carta a anunciar a sua condenação à morte.»

«Monsieur, no castelo, ontem de manhã, aconteceu algo que é talvez mais alarmante do que a carta encontrada por Alexandre II sob o seu guardanapo.»

«O que poderá ser? Descobriram bombas?»

«Não. É um acontecimento bizarro e quase inacreditável. Os edredões, todos os edredões pertencentes à família imperial desapareceram ontem de manhã.» *

* Historicamente autêntico.

«Certamente que não!»

«É exatamente como digo. E foi impossível saber o que lhes tinha acontecido — até ontem à noite, quando foram encontrados novamente nos seus devidos lugares nos aposentos. Esse é o novo mistério!»

«Certamente. Mas como é que foram retirados?»

«Saberemos algum dia? Tudo o que encontrámos foram duas penas, esta manhã, no boudoir da Imperatriz, o que nos leva a pensar que os edredões foram retirados por ali. Estou a levar as duas penas a Koupriane.»

«Deixe-me vê-las», pediu o repórter.

Rouletabille examinou-as e devolveu-as.

«E o que pensa que significa todo este caso?»

«Inclinamo-nos a considerá-lo como uma ameaça dos revolucionários. Se eles conseguem levar os edredões, seria igualmente fácil para eles levar...»

«A família Imperial? Não, não creio que seja isso.»

«O que quer dizer, então?»

«Eu? Nada mais. Não só não penso mais, como não o desejo. Diga-me, Monsieur le Grand Marechal, é inútil, suponho, tentar ver Sua Majestade antes de eu partir?»

«De que serviria, monsieur? Já sabemos tudo. Esta Natacha que defendeu contra Koupriane provou ser a culpada. O último caso não deixa margem para dúvidas razoáveis. E ela está sob vigilância a partir de agora. Sua Majestade deseja nunca mais ouvir falar de Natacha sob qualquer pretexto.»

«E o que vão fazer com essa jovem?»

«O Czar decidiu que não haverá qualquer julgamento e que a filha do General Trebassof será enviada, por ordem administrativa, para a Sibéria. O Czar, monsieur, é muito bom, pois poderia tê-la mandado enforcar. Ela merecia.»

«Sim, sim, o Czar é muito bom.»

«O senhor está muito absorto, Monsieur Rouletabille, e não está a comer.»

«Não tenho apetite, Monsieur le Marechal. Diga-me, o Imperador deve estar um tanto aborrecido em Tsarskoie-Coelo?»

«Oh, ele tem muito trabalho. Levanta-se às sete horas e toma um almoço inglês ligeiro — chá e torrada. Às oito horas começa e trabalha até às dez. Das dez às onze ele passeia.»

«No pátio da prisão?», perguntou Rouletabille inocentemente.

«O que é que diz? Ah, é um enfant terrible! Certamente fazemos bem em mandá-lo embora. Até às onze, ele passeia num caminho do parque. Das onze à uma, ele dá audiências; almoço à uma; depois passa o tempo até às duas e meia com a família.»

«O que come ele?»

«Sopa. Sua Majestade tem um gosto maravilhoso por sopa. Toma-a em todas as refeições. Depois do almoço, ele fuma, mas nunca um charuto — sempre cigarros, presentes do Sultão; e ele apenas bebe um licor, Maraschino. Às duas e meia sai novamente para apanhar um pouco de ar — sempre no seu parque; depois coloca-se a trabalhar até às oito horas. É um trabalho simplesmente terrível, com montes de papéis inúteis e inúmeras assinaturas. Nenhum secretário pode poupar-lhe esse dever burocrático ingrato. Ele tem de assinar, assinar, assinar, e ler, ler, ler os relatórios. E é um trabalho sem princípio nem fim; assim que alguns relatórios partem, chegam outros. Às oito horas, jantar, e depois mais assinaturas, trabalhando até às onze horas. Às onze horas ele vai para a cama.»

«E dorme ao passo rítmico dos guardas em patrulha», acrescentou Rouletabille, bruscamente.

«Ó jovem, jovem!»

«Perdoe-me, Monsieur le Grand Marechal», disse o repórter, levantando-se; «sou, de facto, um espírito perturbador e sei que não tenho mais nada a fazer neste país. Não me voltará a ver, Monsieur le Grand Marechal; mas, antes de partir, devo dizer-lhe o quanto fui tocado pela hospitalidade da vossa grande nação. Essa hospitalidade é por vezes um pouco perigosa, mas é sempre magnífica. Nenhuma outra nação no mundo sabe receber um homem como os russos, Vossa Excelência. Falo como sinto; e isso não é afetado pela minha maneira de o deixar, pois sabem também como pôr um homem à porta. Adeus, então; sem qualquer rancor. A minha mais respeitosa homenagem a Sua Majestade. Ah, apenas mais uma palavra! Recordar-se-á de que Natacha Feodorovna estava noiva do pobre Boris Mourazoff, ainda outro jovem que desapareceu e que, antes de desaparecer, me encarregou de entregar à filha do General Trebassof este último presente — estes dois pequenos ícones. Confio-lhe esta missão, Monsieur le Grand Marechal. Seu criado, Excelência.»

Rouletabille desceu novamente a grande Kaniouche. «Agora», disse para consigo, «é a minha vez de comprar presentes de despedida.» E dirigiu-se lentamente pela Place des Grandes-Ecuries e pela ponte do canal Katharine. Entrou em Aptiekarski-Pereoulok e empurrou a porta do Père Alexis, sob o arco, no fundo do pátio obscuro.

«Saúde e prosperidade, Alexis Hutch!»

«Ah, você outra vez, homenzinho! Bem? Koupriane deixou-o saber o resultado das minhas análises?»

«Sim, sim. Diga-me, Alexis Hutch, tem a certeza de que não se enganou? Não pensa que poderia estar enganado? Pense cuidadosamente antes de responder. É uma questão de vida ou morte.»

«Para quem?»

«Para mim.»

«Para você, meu bom amiguinho! Você quer fazer o seu velho Père Alexis rir — ou chorar!»

«Responda-me.»

«Não, eu não poderia estar enganado. A coisa é tão certa como o facto de estarmos aqui — arseniato de sódio nas manchas dos dois guardanapos e vestígios de arseniato de sódio em dois dos quatro copos; nenhum na garrafa, nenhum na pequena garrafa, nenhum nos dois copos. Digo-o diante de si e diante de Deus.»

«Portanto, é realmente verdade. Obrigado, Alexis Hutch. Koupriane não tentou enganar-me. Não houve nada desse tipo. Bem, sabe, Alexis Hutch, quem serviu o veneno? Ou foi ela ou fui eu. E como não fui eu, foi ela. E já que foi ela, bem, vou morrer!»

«Você ama-a, então?», indagou Père Alexis.

«Não», respondeu Rouletabille, com um sorriso de escárnio próprio. «Não, não a amo. Mas se foi ela quem serviu o veneno, então não foi Michael Nikolaievitch, e sou eu quem fez com que Michael Nikolaievitch fosse morto. Pode ver agora que, portanto, devo morrer. Mostre-me as suas melhores imagens.»

«Ah, meu pequenino, se permitir que o seu velho Alexis lhe faça uma oferta, oferecer-lhe-ia estes dois pobres ícones que são certamente do convento de Troitza no seu melhor período. Veja como são belos, e antigos. Alguma vez viu uma Mãe de Deus tão bela? E este São Lucas, acreditaria que a mão foi reparada, eh? Duas pequenas obras-primas, amiguinho! Se os velhos mestres de Salónica voltassem ao mundo, ficariam satisfeitos com os seus discípulos em Troitza. Mas não se deve matar na sua idade!»

«Vamos, bat ouchka (paizinho), aceito o seu presente e, se encontrar os velhos mestres de Salónica na estrada que vou percorrer, não deixarei de lhes dizer que não há ninguém aqui abaixo que os aprecie como um certo père de Aptiekarski-Pereoulok, Alexis Hutch.»

Dizendo isto, Rouletabille embrulhou os dois pequenos ícones e colocou-os no bolso. O São Lucas certamente agradaria ao seu amigo Sainclair. Quanto à Mãe de Deus, esse seria o seu presente de despedida para a Dame en noir.

«Ah, você está triste, meu filho; e a sua voz, como soa agora, magoa-me.»

Rouletabille virou a cabeça ao som de dois mujiques que entraram, carregando um cesto comprido.

«O que querem?», perguntou Père Alexis em russo, «e o que é que trazem aí? Tencionam encher esse enorme cesto com a minha mercadoria? Nesse caso, são muito bem-vindos e sou o seu humilde criado.»

Mas os dois riram-se.

«Sim, sim, viemos livrar a sua loja de uma mercadoria miserável que a entulha.»

«O que é que está a dizer?», perguntou o velho, ansioso, aproximando-se de Rouletabille. «Amiguinho, vigie estes homens; não reconheço as suas caras e não consigo compreender por que vieram aqui.»

Rouletabille olhou para os recém-chegados, que se aproximaram do balcão, depois de pousarem o seu cesto comprido junto à porta. Havia neles uma forma sarcástica e maliciosa de zombaria que o atingiu desde o primeiro momento. Mas, enquanto continuavam com a sua tagarelice com Père Alexis, ele encheu o seu cachimbo e começou a acendê-lo. Nesse momento, a porta foi aberta novamente e entraram três homens, vestidos de forma simples, como respeitáveis pequenos comerciantes. Eles também agiam de forma curiosa e olhavam para toda a loja. Père Alexis ficou cada vez mais alarmado e os outros puxavam rudemente a sua barba.

«Creio que estes homens vieram para me roubar», gritou ele em francês. «O que diz, meu filho? Devo chamar a polícia?»

«Espere», respondeu Rouletabille impassivelmente. «Eles estão todos armados; têm revólveres nos bolsos.»

Os dentes de Père Alexis começaram a bater. Ao tentar aproximar-se da porta, foi empurrado rudemente e entrou uma personagem final, aparentemente um cavalheiro, vestido como tal, exceto pelo facto de usar um boné de couro com pala.

«Ah», disse ele de imediato em francês, «ora, é o jovem jornalista francês do Hotel Grand-Morskaia. Saudações e a sua saúde! Vejo com prazer que você também aprecia os conselhos do nosso caro Père Alexis.»

«Não o escute, amiguinho; não o conheço», gritou Alexis Hutch.

Mas o cavalheiro do Neva continuou:

«Ele é um homem próximo dos primeiros princípios da ciência e, portanto, não longe do divino; é um homem santo, que é bom consultar em momentos em que o futuro parece difícil. Ele sabe ler como ninguém — exceção feita ao Padre João de Cronstadt, para ser estritamente preciso — nas folhas de pele de boi onde os anjos negros traçaram sinais misteriosos do destino.»

Aqui, o cavalheiro pegou num par de botas velhas, que atirou para o balcão no meio dos ícones.

«Père Alexis, talvez estas não sejam pele de boi, mas são pele de vaca suficientemente boa. Não quer ler nesta pele de vaca o futuro deste jovem?»

Mas aqui Rouletabille avançou para o cavalheiro e soprou uma enorme nuvem de fumo diretamente na sua cara.

«É inútil, monsieur», disse Rouletabille, «perder o seu tempo e o seu fôlego. Estive à sua espera.»

XVI. PERANTE O TRIBUNAL REVOLUCIONÁRIO

Apenas, Rouletabille recusou-se a ser metido no cesto. Não os deixou desarmá-lo até que prometessem chamar uma carruagem. O veículo entrou no pátio e, enquanto Père Alexis era retido na sua loja sob a mira de um revólver, Rouletabille entrou calmamente, a fumar o seu cachimbo. O homem que parecia ser o chefe do bando (o cavalheiro do Neva) entrou também e sentou-se ao seu lado. As janelas da carruagem estavam fechadas, impedindo toda a comunicação com o exterior, e apenas uma pequena lanterna iluminava o interior. Partiram. A carruagem era conduzida por dois homens de casacos castanhos debruados com falso astrakhan. Os dvornicks saudaram, acreditando tratar-se de um assunto de polícia. O porteiro fez o sinal da cruz.

A viagem durou várias horas sem outros incidentes além dos causados pelos tremendos solavancos, que atiraram os dois passageiros lá dentro um contra o outro. Isso poderia ter aberto uma oportunidade para conversa; e o «cavalheiro do Neva» tentou-o; mas em vão. Rouletabille não respondia. A certa altura, de facto, o cavalheiro, que começava a aborrecer-se, tornou-se tão insistente que o repórter finalmente disse no tom seco que sempre usava quando estava irritado:

«Peço-lhe, monsieur, que me deixe fumar o meu cachimbo em paz.»

Ao que o cavalheiro ocupou-se prudentemente em baixar uma das janelas, pois estava a ficar sufocante.

Finalmente, após muitos solavancos, houve uma paragem enquanto os cavalos eram mudados e o cavalheiro pediu a Rouletabille que se deixasse vendar. «Chegou o momento; vão enforcar-me sem qualquer forma de julgamento», pensou o repórter, e quando, cego com a venda, se sentiu levantado pelas axilas, houve uma revolta de todo o seu ser, esse ser que, agora que estava prestes a morrer, não queria deixar de existir. Rouletabille teria acreditado ser mais forte, mais corajoso, mais estoico pelo menos. Mas o instinto cego varreu tudo isto, esse instinto de conservação que não tinha qualquer preocupação com as pequenas bravatas do repórter, nenhuma preocupação com a bela maneira heroica, com a pose determinada de morrer bem, porque o instinto de conservação, que é, como o seu nome rígido indica, essencialmente materialista, exige apenas, só pensa, em viver. E foi esse instinto que fez com que o último cachimbo de Rouletabille se apagasse sem ser tragado.

O jovem estava furioso consigo mesmo, e empalideceu com o medo de não conseguir dominar essa emoção, agarrou-se ferozmente a si próprio e os seus membros, que tinham ficado rígidos com o contacto de ser agarrado por mãos ásperas, relaxaram, e ele deixou-se conduzir. Verdadeiramente, ele estava enojado com a sua fraqueza e lassidão. Ele tinha visto homens morrer que sabiam que iam morrer. A sua tarefa como repórter levou-o mais de uma vez ao pé da guilhotina. E os miseráveis que tinha visto lá tinham morrido bravamente. Extraordinariamente, os mais criminosos tinham, habitualmente, enfrentado a morte mais bravamente. Claro, tinham tido tempo para se preparar, pensando muito tempo antes nesse momento supremo. Mas enfrentavam a morte, chegavam a ela quase negligentemente, encontravam forças até para dizer coisas banais ou provocadoras aos que os rodeavam. Ele recordou-se acima de tudo de um rapaz de dezoito anos que tinha assassinado cobardemente uma velha e duas crianças numa quinta no campo, e tinha caminhado para a sua morte sem um tremor, falando de forma tranquilizadora ao padre e ao oficial de polícia, que caminhavam quase doentes de horror de cada lado dele. Poderia ele, então, não ser tão corajoso como aquele rapaz?

Fizeram-no subir alguns degraus e ele sentiu que tinha entrado na atmosfera abafada de uma sala fechada. Então, alguém retirou-lhe a venda. Ele estava numa sala de aspeto sinistro e no meio de uma companhia bastante numerosa.

Dentro destas paredes nuas e negligenciadas, havia cerca de trinta jovens, alguns deles aparentemente tão jovens como Rouletabille, com olhos azuis cândidos e tez pálida. Os outros, homens mais velhos, eram do tipo físico dos Cristos, não os Cristos animados dos pintores ocidentais, mas aqueles que se veem nos painéis da escola bizantina ou fixados nos ícones, esculturas de prata ou ouro. Os seus cabelos compridos, profundamente divididos ao meio, caíam sobre os ombros em massas douradas de pontas encaracoladas. Alguns encostavam-se à parede, eretos e imóveis. Outros estavam sentados no chão, com as pernas cruzadas. A maioria estava com casacos de inverno, comprados nos bazares. Mas havia também homens do campo, com as suas peles de animais, os seus sayons, as suas touloupes. Um deles tinha as pernas atadas com cordas e estava calçado com ramos de salgueiro entrelaçados. O contraste proporcionado por vários destes vultos graves e atentos mostrava que representantes de todo o partido revolucionário estavam presentes. No fundo da sala, atrás de uma mesa, estavam sentados três jovens, e o mais velho deles não teria mais de vinte e cinco anos e tinha a beleza benigna de Jesus nos dias de festa, sob o pálio de palmas consagradas.

No centro da sala, uma pequena mesa estava pousada, completamente nua e sem qualquer propósito aparente.

À direita havia outra mesa com papel, canetas e tinteiros. Foi ali que Rouletabille foi conduzido e convidado a sentar-se. Então, viu que outro homem estava ao seu lado, que tinha de se manter de pé. O seu rosto estava pálido e desesperado, muito abatido. Os seus olhos queimavam sombriamente, apesar do pânico que deformava os seus traços, Rouletabille reconheceu um dos amigos não apresentados que Gounsovski tinha levado consigo para o jantar em Krestowsky. Evidentemente, desde então, o infortúnio sempre ameaçador tinha caído sobre ele. Estavam a proceder ao seu julgamento. Aquele que parecia presidir a estas estranhas sessões pronunciou um nome:

«Annouchka!»

Uma porta abriu-se e Annouchka apareceu.

Rouletabille quase não a reconheceu, estava tão estranhamente vestida, como os pobres russos, com a sua camisola de flanela vermelha e o lenço que, atado sob o queixo, cobria todo o seu belo cabelo.

Ela testemunhou imediatamente em russo contra o homem, que protestou até que o obrigaram a ficar em silêncio. Ela tirou do bolso papéis que foram lidos em voz alta e que pareciam esmagar o acusado. Ele caiu de volta no seu assento. Estremeceu. Escondeu a cabeça nas mãos, e Rouletabille viu as mãos tremerem. O homem manteve essa posição enquanto as outras testemunhas eram ouvidas, o seu testemunho despertando murmúrios de indignação que foram rapidamente reprimidos. Annouchka tinha ido ocupar o seu lugar com os outros contra a parede, nas sombras que cada vez mais invadiam a sala, neste final de um dia lúgubre. Duas janelas que chegavam ao chão deixavam uma luz pálida arrastar-se com dificuldade pelos seus vidros sujos, criando um crepúsculo vago na sala. Em breve, nada se via das figuras imóveis contra a parede, tal como os rostos se desvanecem nos frescos dos quais os séculos apagaram as cores nas profundezas dos conventos ortodoxos.

Agora, alguém das profundezas da sombra e do silêncio aterrador leu algo; o veredito, sem dúvida.

A voz cessou.

Então, algumas das figuras destacaram-se da parede e avançaram.

O homem que se agachava perto de Rouletabille levantou-se num salto selvagem e gritou rapidamente, palavras selvagens, palavras suplicantes, palavras ameaçadoras.

E então — nada mais do que suspiros estrangulados. As figuras que se tinham movido da parede tinham-lhe agarrado a garganta.

O repórter disse: «É cobarde.»

A voz de Annouchka, baixa, das profundezas da sombra, respondeu: «É justo.»

Mas Rouletabille estava satisfeito por ter dito aquilo, pois tinha provado a si mesmo que ainda podia falar. A sua emoção tinha sido tal, desde que o tinham empurrado para o centro desta sinistra e expedita assembleia de justiça revolucionária, que ele não pensava em nada além do terror de não ser capaz de lhes falar, de lhes dizer algo, fosse o que fosse, que lhes provasse que não tinha medo. Bem, isso tinha passado. Ele não tinha deixado de dizer: «Isso é cobarde.»

E cruzou os braços. Mas teve logo de virar a cabeça para não ver o uso que davam à mesa que estava no centro da sala, onde parecia não servir para nada.

Tinham levantado o homem, ainda a lutar, para cima da pequena mesa. Colocaram uma corda à volta do seu pescoço. Então, um dos «juízes», um dos jovens loiros, que não parecia mais velho que Rouletabille, subiu para a mesa e passou a outra extremidade da corda através de uma grande argola que se projetava de uma viga do teto. Durante este tempo, o homem lutou inutilmente, e o seu estertor de morte subiu finalmente através do ruído contínuo da sua resistência e da sua superação. Mas o seu último suspiro veio com um abanão tão violento do corpo que todo o aparato de morte, corda e argola, separou-se do teto e caiu ao chão com o morto.

Rouletabille soltou um grito de horror. “Sois assassinos!” exclamou. Mas estaria o homem certamente morto? Era disso que as figuras pálidas de cabelos amarelos se certificavam. Estava. Então, trouxeram dois sacos e o morto foi introduzido num deles.

Rouletabille disse-lhes:

“Sois mais corajosos quando matais com uma explosão, sabem?”

Arrependeu-se amargamente de não ter morrido na noite anterior na explosão. Não se sentia muito corajoso. Falava-lhes com bastante valentia, mas tremia à medida que a sua hora se aproximava. Aquela morte horrorizava-o. Tentou não olhar para o outro saco. Tirou os dois ícones, de São Lucas e da Virgem, do bolso e rezou-lhes. Pensou na Dama de Negro e chorou.

Uma voz nas sombras disse:

“Ele está a chorar, o pobre coitadinho.”

Era a voz de Annouchka.

Rouletabille enxugou as lágrimas e disse:

“Messieurs, um de vós deve ter mãe.”

Mas todas as vozes gritaram:

“Não, não, já não temos mães!”

“Mataram-nas”, gritaram alguns. “Enviaram-nas para a Sibéria”, gritaram outros.

“Bem, eu ainda tenho mãe”, disse o pobre rapaz. “Não terei a oportunidade de a abraçar. É uma mãe que perdi no dia do meu nascimento e que reencontrei, mas — suponho que deva ser dito — no dia da minha morte. Não a tornarei a ver. Tenho um amigo; também não o tornarei a ver. Tenho aqui dois pequenos ícones para eles, e vou escrever uma carta a cada um, se mo permitirem. Jurem-me que farão com que cheguem às suas mãos.”

“Juro”, disse, em francês, a voz de Annouchka.

“Obrigado, madame, é gentil. E agora, messieurs, é tudo o que vos peço. Sei que estou aqui para responder a acusações muito graves. Permitam-me dizer-vos de imediato que admito que todas são bem fundamentadas. Consequentemente, não há necessidade de discussão entre nós. Mereci a morte e aceito-a. Por isso, permitam-me que não me preocupe com o que acontecerá aqui. Peço-vos apenas, como último favor, que não apressem demasiado os vossos preparativos, para que eu possa terminar as minhas cartas.”

Ao que, satisfeito consigo mesmo desta vez, sentou-se novamente e começou a escrever rapidamente. Deixaram-no em paz, como desejava. Não levantou a cabeça uma única vez, nem mesmo no momento em que um murmúrio mais alto do que o habitual mostrava que os presentes encaravam os crimes de Rouletabille com especial detestação. Teve a felicidade de ter terminado inteiramente a sua correspondência quando lhe pediram que se levantasse para ouvir a sentença proferida contra ele. A comunhão suprema que acabara de ter com o seu amigo Sainclair e com a querida Dama de Negro devolveu-lhe todo o seu espírito. Ouviu respeitosamente a sentença que o condenava à morte, embora estivesse ocupado a passar a língua pela margem gomada do seu envelope.

Estes eram os pontos pelos quais ele ia ser enforcado:

1. Porque tinha vindo para a Rússia e se tinha misturado em assuntos que não diziam respeito à sua nacionalidade, e tinha feito isto apesar do aviso para permanecer em França.

2. Porque não tinha cumprido as promessas de neutralidade que fez livremente a um representante do Comité Revolucionário Central.

3. Por tentar penetrar no mistério da datcha de Trebassof.

4. Por ter feito com que o camarada Matiew fosse açoitado e preso por Koupriane.

5. Por ter denunciado a Koupriane a identidade dos dois “médicos” que tinham sido designados para matar o General Trebassof.

6. Por ter causado a detenção de Natacha Feodorovna.

Era uma lista mais longa do que o necessário para a sua condenação. Rouletabille beijou os seus ícones e entregou-os a Annouchka juntamente com as cartas. Depois declarou, com os lábios a tremer ligeiramente e um suor frio na testa, que estava pronto para se submeter ao seu destino.

XVII. A ÚLTIMA GRAVATA

O cavalheiro do Neva disse-lhe: “Se não tem mais nada a dizer, iremos para o pátio.”

Rouletabille compreendeu finalmente que enforcá-lo na sala onde a sentença tinha sido proferida tornara-se impossível devido à violência do prisioneiro recém-executado. Não só a corda e a argola tinham sido arrancadas, como parte da viga se tinha estilhaçado.

“Não há mais nada”, respondeu Rouletabille.

Estava enganado. Algo lhe ocorreu, uma ideia surgiu tão subitamente que ele ficou branco como a sua camisa e teve de se apoiar no braço do cavalheiro do Neva para o acompanhar.

A porta estava aberta. Todos os homens que tinham votado a sua morte saíram em silêncio sombrio. O cavalheiro do Neva, que parecia encarregado dos últimos serviços para o prisioneiro, empurrou-o suavemente para o pátio.

Era vasto e rodeado por uma alta parede de madeira; alguns edifícios pequenos, com portas fechadas, erguiam-se à direita e à esquerda. Uma chaminé alta, parcialmente demolida, erguia-se num canto. Rouletabille decidiu que todo o local era parte de algum antigo moinho abandonado. Acima da sua cabeça, o céu estava pálido como um sudário. Um ruído trovejante, intermitente e rítmico informou-o de que não podia estar longe do mar.

Teve tempo de sobra para notar todas estas coisas, pois tinham interrompido a marcha para a execução por um momento e tinham-no feito sentar-se no pátio aberto sobre uma caixa velha. A poucos passos dele, sob o alpendre onde certamente seria enforcado, um homem subiu para um banco (o banco que serviria a Rouletabille alguns momentos depois) com o braço levantado e cravou, com algumas pancadas de um maço, uma grande argola numa viga acima da sua cabeça.

Os olhos do repórter, que não tinham perdido o hábito de observar tudo, pousaram novamente num saco de lona grosseira que jazia no chão. O jovem sentiu um ligeiro tremor, pois viu rapidamente que o saco envolvia uma forma humana. Virou o rosto, mas apenas para se deparar com outro saco vazio que se destinava a ele. Então, fechou os olhos. O som de música vinha de algum lugar lá fora, notas de balalaica. Disse para consigo: “Bem, certamente estamos na Finlândia”; pois sabia que, se a guzla é russa, a balalaica é certamente finlandesa. É uma espécie de acordeão que os camponeses tocam lamentavelmente nas portas das suas toubas. Tinha-os visto e ouvido na tarde em que foi a Pergalovo, e também um pouco mais longe, na linha de Viborg. Imaginou a estrutura arruinada onde agora se encontrava encerrado com o tribunal revolucionário, tal como deveria aparecer por fora aos transeuntes; nada sinistro, como muitos outros perto dele, abrigando sob o seu telhado decadente algumas casas de humildes trabalhadores, que descansavam agora enquanto tocavam balalaica à porta, com o trabalho do dia terminado.

E, subitamente, da paz inefável da sua última noite, enquanto a balalaica se lamentava e o homem acima testava a solidez da sua argola, uma voz lá fora, a voz grave e profunda de Annouchka, cantou para o pequeno francês:

“Para quem tecemos agora a coroa De lilás, rosa e tomilho? Quando a minha mão cai vagarosa Quem trará então a tua coroa De lilás, rosa e tomilho?

Oh, que alguém entre vós ouvisse, E viesse, e a minha mão solitária Apertasse, e a lágrima amiga vertesse — Pois sozinha no fim permaneço.

Quem trará agora a coroa De lilás, rosa e tomilho?”

Rouletabille ouviu a voz extinguir-se com o último soluço da balalaica. “É demasiado triste”, disse, levantando-se. “Vamos”, e vacilou um pouco.

Vieram revistá-lo. Tudo estava pronto lá em cima. Empurraram-no suavemente para o alpendre. Quando estava sob a argola, perto do banco, fizeram-no virar-se e leram-lhe algo em russo, sem dúvida menos para ele do que para aqueles ali que não entendiam francês. Rouletabille teve dificuldade em manter-se ereto.

O cavalheiro do Neva disse-lhe ainda:

“Monsieur, lemos-lhe agora a fórmula final. Pede-lhe que diga se, antes de morrer, tem algo que deseje acrescentar ao que sabemos sobre a sentença que foi proferida contra si.”

Rouletabille pensou que a sua saliva, que naquele momento tinha a maior dificuldade em engolir, não lhe permitiria pronunciar uma palavra. Mas o desdém por tal fraqueza, quando se lembrou da frieza de tantos ilustres condenados nos seus últimos momentos, trouxe-lhe a última força necessária para manter a sua reputação.

“Ora”, disse ele, “esta sentença não está mal redigida. Apenas a culpo por ser demasiado curta. Por que não houve menção ao crime que cometi ao arquitetar a morte trágica do pobre Michael Korsakoff?”

“Michael Korsakoff era um miserável”, pronunciou a voz vingativa do jovem que tinha presidido ao julgamento e que, naquele momento supremo, se encontrava face a face com Rouletabille. “A polícia de Koupriane, ao matar esse homem, livrou-nos de um traidor.”

Rouletabille soltou um grito, um grito de alegria, e embora tivesse alguma razão para acreditar que, no ponto em que chegara na sua carreira demasiado curta, apenas a desgraça lhe poderia acontecer, eis que a Providência, na sua infinita graça, enviou-lhe antes de morrer esta consolação inefável: a certeza de que não se tinha enganado.

“Perdão, perdão”, murmurou, num excesso de alegria que o sufocava quase tanto quanto a miserável corda que se preparavam para lhe pôr atrás dele. “Perdão. Mais um segundo, um pequeno segundo. Então, messieurs, então, estamos de acordo nisso, não estamos? Este Michael, Michael Nikolaievitch, era o último dos traidores.”

“O primeiro”, disse a voz pesada.

“É a mesma coisa, meu caro monsieur. Um traidor, um miserável traidor”, continuou Rouletabille.

“Um envenenador”, respondeu a voz.

“Um envenenador vulgar! Não é assim? Mas, diga-me como — um envenenador vulgar que, sob a capa do niilismo, trabalhava para os seus próprios fins mesquinhos, trabalhava para si mesmo e traía-vos a todos!”

Agora a voz de Rouletabille elevava-se como uma fanfarra. Alguém disse:

“Ele não nos enganou por muito tempo; os nossos próprios inimigos encarregaram-se do seu castigo.”

“Fui eu”, gritou Rouletabille, radiante novamente. “Fui eu que terminei essa carreira. Digo-vos que foi bem gerido. Fui eu que vos livrei dele. Ah, eu sabia bem, messieurs, no fundo do meu coração eu sabia que não podia estar enganado. Dois e dois são quatro sempre, não são? E Rouletabille é sempre Rouletabille. Messieurs, está tudo bem, afinal.”

Mas era provável que estivesse também tudo errado, pois o cavalheiro do Neva aproximou-se dele, chapéu na mão, e disse:

“Monsieur, sabe agora porque é que as testemunhas no seu julgamento não levantaram um facto contra si que, pelo contrário, estava inteiramente a seu favor. Agora resta-nos apenas executar a sentença que é inteiramente justificada por outros motivos.”

“Ah, mas — espere um pouco. Que diabo! Agora que tenho a certeza de que não me enganei e de que fui eu mesmo, Rouletabille, durante todo o tempo, agarro-me um pouco à vida — oh, muito!”

Um murmúrio hostil mostrou ao condenado que a paciência dos seus juízes estava a chegar ao limite.

“Monsieur”, interveio o presidente, “sabemos que não pertence à religião ortodoxa; não obstante, traremos um padre se o desejar.”

“Sim, sim, é isso, vá buscar o padre”, gritou Rouletabille.

E disse para consigo: “É tanto tempo ganho.”

Um dos revolucionários dirigiu-se a uma pequena cabana que tinha sido transformada em capela, enquanto os outros olhavam para o repórter com muito menos simpatia do que tinham demonstrado. Se a sua bravata os tinha impressionado agradavelmente na sala de julgamento, começavam a ficar um pouco enojados com os seus gritos, as suas protestações e todas as manobras com as quais ele tentava aparentemente afastar a hora da sua morte.

Mas de repente Rouletabille saltou para o banco fatal. Acreditaram que ele tinha decidido finalmente acabar com a comédia e morrer com dignidade; mas ele tinha subido ali apenas para lhes fazer um discurso.

“Messieurs, entendam-me agora. Se é verdade que não me estão a eliminar para vingar Michael Nikolaievitch, então por que me enforcam? Por que me infligem este castigo odioso? Porque me acusam de causar a prisão de Natacha Feodorovna? Verdadeiramente, fui desajeitado. Disso, e apenas disso, acuso-me.”

“Foi você, com o seu revólver, que deu o sinal aos agentes de Koupriane! Fez o trabalho sujo para a polícia.”

Rouletabille tentou inutilmente protestar, explicar, dizer que o seu tiro de revólver, pelo contrário, tinha salvo os revolucionários. Mas ninguém se deu ao trabalho de ouvir e ninguém acreditou nele.

“Aqui está o padre, monsieur”, disse o cavalheiro do Neva.

“Um segundo! Estas são as minhas últimas palavras, e juro-vos que depois disto passarei a corda pelo meu pescoço eu mesmo! Mas ouçam-me! Ouçam-me com atenção! Natacha Feodorovna era a recruta mais preciosa que tinham, não era?”

“Um verdadeiro tesouro”, declarou o presidente, a voz cada vez mais impaciente.

“Foi um golpe terrível, então”, continuou o repórter, “um golpe terrível para vós, esta detenção?”

“Terrível”, ejaculam alguns deles.

“Não me interrompam! Muito bem, então, vou dizer-vos isto: ‘Se eu afastar este golpe — se, depois de ter sido a causa involuntária da detenção de Natacha, eu fizer com que a filha do General Trebassof seja posta em liberdade, e isso dentro de vinte e quatro horas — que dizem? Ainda me enforcariam?’”

O presidente, aquele que tinha a fisionomia de Cristo, disse:

“Messieurs, Natacha Feodorovna caiu vítima de terríveis maquinações cujo mistério até agora não fomos capazes de penetrar. Ela é acusada de tentar envenenar o seu pai e a sua madrasta, e sob tais condições que parece impossível à razão humana demonstrar o contrário. A própria Natacha Feodorovna, esmagada pelo acontecimento trágico, não foi capaz de responder aos seus acusadores, e o seu silêncio foi tomado como uma confissão de culpa. Messieurs, Natacha Feodorovna partirá para a Sibéria amanhã. Nada podemos fazer por ela. Natacha Feodorovna está perdida para nós.”

Então, com um gesto para aqueles que rodeavam Rouletabille:

“Façam o vosso dever, messieurs.”

“Perdão, perdão. Mas se eu provar a inocência de Natacha? Espere, messieurs. Só eu posso provar essa inocência! Perdem Natacha se me matarem!”

“Se tivesse sido capaz de provar essa inocência, monsieur, a coisa já estaria feita. Não teria esperado.”

“Perdão, perdão. Só neste momento é que me tornei capaz de o fazer.”

“Como é isso?”

“É porque estava doente, veja — muito gravemente doente. Esse caso de Michael Nikolaievitch e o veneno que continuava a atuar mesmo depois de ele estar morto simplesmente roubaram-me todas as minhas forças. Agora que tenho a certeza de que não fui o meio de matar um homem inocente — sou Rouletabille novamente! Não é possível que eu não encontre o caminho, que eu não veja através deste mistério.”

A voz terrível da figura de Cristo disse monotonamente:

“Façam o vosso dever, messieurs.”

“Perdão, perdão. Isto é de grande importância para vós — e a prova é que ainda não me enforcaram. Não foram tão procrastinadores com o meu predecessor, foram? Ouviram-me porque tiveram esperança! Muito bem, deixem-me pensar, deixem-me considerar. Oh, o diabo! Eu estava lá pessoalmente no almoço fatal, e sei melhor do que ninguém tudo o que aconteceu lá. Cinco minutos! Exijo cinco minutos vossos; não é muito. Cinco pequenos minutos!”

Estas últimas palavras do condenado pareceram influenciar singularmente os revolucionários. Olharam uns para os outros em silêncio.

Então o presidente tirou o seu relógio e disse:

“Cinco minutos. Concedemo-los a si.”

“Ponha o seu relógio aqui. Aqui neste prego. São sete menos cinco, não é? Dar-me-á até à hora?”

“Sim, até à hora. O próprio relógio soará quando a hora tiver chegado.”

“Ah, toca! Como o relógio do general, então. Muito bem, aqui estamos.”

Então houve o espetáculo curioso de Rouletabille de pé no banco do carrasco, a corda fatal pendurada acima da sua cabeça, as pernas cruzadas, o cotovelo sobre os joelhos naquela atitude eterna que a Arte sempre deu ao pensamento humano, os punhos sob o queixo, os olhos fixos — à sua volta, todos aqueles jovens atentos ao seu silêncio, sem mover um músculo, transformados em estátuas eles mesmos para não perturbarem a estátua que pensava e pensava.

XVIII. UMA EXPERIÊNCIA SINGULAR

Os cinco minutos passaram e o relógio começou a dar as sete badaladas da hora. Soariam elas a morte de Rouletabille? Talvez não! Pois ao primeiro tilintar prateado viram Rouletabille sacudir-se e levantar a cabeça, com o rosto iluminado e os olhos a brilhar. Viram-no levantar-se, abrir os braços e gritar:

“Encontrei!”

Tanta alegria brilhava na sua fisionomia que parecia haver uma auréola à sua volta, e nenhum dos que ali estavam duvidou que ele tivesse a solução do problema impossível.

“Encontrei! Encontrei!”

Agruparam-se à volta dele. Ele afastou-os como num sonho desperto.

“Deem-me espaço. Encontrei, se a minha experiência resultar. Um, dois, três, quatro, cinco...”

O que estava ele a fazer? Ele contava os seus passos agora, em passadas largas, como nos preliminares de um duelo. E os outros, todos eles, seguiam-no em silêncio, intrigados, mas sem protestar, como se eles também estivessem presos no mesmo estranho devaneio. Contando firmemente os seus passos, atravessou assim o pátio, que era vasto. “Quarenta, quarenta e um, quarenta e dois”, gritou ele entusiasmado. “Isto é certamente estranho, e muito promissor.”

Os outros, embora não compreendessem, abstiveram-se de o questionar, pois viram que não havia nada a fazer a não ser deixá-lo seguir em frente sem interrupção, tal como se tem o cuidado de não acordar um sonâmbulo abruptamente. Não tinham desconfiança das suas motivações, pois a ideia era simplesmente insustentável de que Rouletabille fosse parvo o suficiente para esperar salvar-se deles com um subterfúgio imbecil. Não, cederam à impressão que a sua fisionomia inspirada lhes dava, e vários ficaram tão afetados que inconscientemente repetiram os seus gestos. Assim, Rouletabille chegou ao limite do pátio onde a sentença tinha sido proferida contra ele. Ali teve de subir um lanço de escadas bambo, cujos degraus contou. Chegou a um corredor, mas afastando-se do lado onde a porta se abria para o exterior, virou-se para uma escada que conduzia ao andar superior, e continuou a contar os degraus enquanto os subia. Alguns da companhia seguiam-no, outros apressavam-se à sua frente. Mas ele não parecia estar consciente nem de uns nem de outros, enquanto caminhava vivendo apenas nos seus pensamentos. Chegou ao patamar, hesitou, empurrou uma porta e encontrou-se numa sala mobiliada com uma mesa, duas cadeiras, um colchão e um enorme armário. Foi até ao armário, girou a chave e abriu-o. O armário estava vazio. Fechou-o novamente e pôs a chave no bolso. Depois saiu novamente para o patamar. Lá pediu a chave da porta da câmara que acabara de deixar. Deram-lha e ele trancou essa porta e pôs essa chave também no bolso. Agora regressou ao pátio. Pediu uma cadeira. Foi-lhe trazida. Imediatamente pôs a cabeça entre as mãos, a pensar profundamente, pegou na cadeira e levou-a para um pouco atrás do alpendre. Os niilistas observavam tudo o que ele fazia e não sorriam, porque os homens não sorriem quando a morte aguarda no fim das coisas, por mais estúpidas que sejam.

Finalmente, Rouletabille falou:

“Messieurs”, disse ele, com a voz baixa e trémula, porque sabia que chegara ao minuto decisivo, após o qual só poderia haver um destino irrevogável. “Messieurs, para continuar a minha experiência, sou obrigado a realizar movimentos que vos poderão sugerir a ideia de uma tentativa de fuga ou evasão. Espero que não me julguem tolo ao ponto de ter tal pensamento.”

“Oh, monsieur”, disse o chefe, “está livre de realizar todas as manobras que desejar. Ninguém nos escapa. Lá fora, tê-lo-íamos ao alcance da mão tão bem como aqui. E, além disso, é inteiramente impossível escapar daqui.”

“Muito bem. Então, está entendido. Nesse caso, peço-vos agora que permaneçam onde estão e que não se mexam, faça eu o que fizer, se não quiserem incomodar-me. Apenas vos peço que enviem agora alguém ao andar de cima, para onde vou novamente, e que observe o que acontece a partir de lá, mas sem interferir. E não me digam uma palavra durante a experiência.”

Dois dos revolucionários foram para o andar superior e abriram uma janela para acompanhar o que se passava no pátio. Todos mostravam agora um interesse intenso nos atos e gestos de Rouletabille.

O repórter colocou-se no alpendre, entre o seu banco de morte e a sua corda de enforcamento.

“Pronto”, disse ele; “vou começar”.

E, de repente, saltou como um homem selvagem, atravessou o pátio em linha reta como um relâmpago, desapareceu no touba, subiu a escada aos saltos, tateou o bolso e tirou as chaves, abriu a porta da câmara que tinha trancado, fechou-a e trancou-a de novo, deu meia-volta, desceu com a mesma pressa, chegou ao pátio e, desta vez, desviou-se para a cadeira, contornou-a, sempre a correr, e regressou à mesma velocidade ao alpendre. Mal lá chegou, soltou um grito de triunfo ao olhar para o relógio que pendia de um poste. “Ganhei”, disse ele, e atirou-se com um frémito de felicidade sobre o cadafalso fatal. Cercaram-no e ele leu a mais viva curiosidade em todos os rostos. Ofegante ainda da sua corrida louca, pediu duas palavras a sós com o chefe do comité secreto.

O homem que proferira a sentença e que tinha o porte de Jesus adiantou-se, e houve uma breve troca de palavras entre os dois jovens. Os outros recuaram e esperaram à distância, num silêncio impressionante, pelo desfecho deste colóquio misterioso, que certamente decidiria o destino de Rouletabille.

“Messieurs”, disse o chefe, “o jovem francês terá permissão para partir. Damo-lhe vinte e quatro horas para libertar Natacha Feodorovna. Dentro de vinte e quatro horas, se não tiver tido sucesso, regressará aqui para se entregar.”

Um murmúrio feliz saudou estas palavras. A partir do momento em que o seu chefe falou assim, sentiram-se seguros quanto ao destino de Natacha.

O chefe acrescentou:

“Como a libertação de Natacha Feodorovna será seguida, diz o jovem francês, pela do nosso companheiro Matiew, decidimos que, se estas duas condições forem cumpridas, o Sr. Joseph Rouletabille tem permissão para regressar em total segurança a França, a qual nunca deveria ter deixado.”

Dois ou três do grupo disseram apenas: “Aquele miúdo está a brincar connosco; não é possível.”

Mas o chefe declarou:

“Deixem o miúdo tentar. Ele realiza milagres.”

XIX. O TSAR

“Escapei por uma sorte notável”, gritou Rouletabille, ao encontrar-se, a meio da noite, na esquina dos canais Katharine e Aptiekarski Pereoulok, enquanto a carruagem misteriosa que o trouxera até ali regressava rapidamente em direção à Grande Ecurie. “Que país! Que país!”

Correu um pouco até à Grand Morskaia, que ficava perto, entrou no hotel como uma bomba, arrastou o intérprete da cama, exigiu que a sua conta fosse feita e que lhe dissessem a hora do próximo comboio para Tsarskoie-Coelo. O intérprete disse-lhe que não podia ter a conta a tal hora, que não podia sair da cidade sem o seu passaporte e que não havia comboio para Tsarskoie-Coelo, e Rouletabille fez um alarido que acordou todo o hotel. Os hóspedes, temendo sempre um escândalo, mantiveram-se nos seus quartos. Mas o senhor diretor desceu, a tremer. Quando percebeu do que se tratava, inclinou-se para ser perentório, mas Rouletabille, que tinha visto a peça “Michael Strogoff”, gritou: “Serviço do Tsar!”, o que o tornou submisso como uma ovelha. Fez a conta do jovem e entregou-lhe o passaporte, que tinha sido devolvido pela polícia durante a tarde. Rouletabille escreveu rapidamente uma mensagem para o endereço de Koupriane, que o mensageiro foi instruído a entregar sem um momento de atraso, sob pena de morte! O gerente prometeu humildemente e o repórter não explicou que, por “pena de morte”, se referia à sua própria. Então, tendo constatado que, de facto, o último comboio tinha partido para Tsarskoie-Coelo, pediu uma carruagem e apressou-se a ir para o seu quarto fazer as malas.

E ele, habitualmente tão detalhista, tão minucioso nos seus assuntos, atirou as coisas de qualquer maneira, roupa de cama, vestuário, com pontapés e empurrões. Foi um alívio depois das emoções por que passara. “Que país!”, não parava de exclamar. “Que país!”

Depois, a carruagem estava pronta, com dois cavalinhos finlandeses, cujo andamento ele conhecia bem, um cocheiro de aspeto maligno, que, contudo, o levaria lá; o baú; rublos para os criados. “Spacibo, barine. Spacibo.” (Obrigado, senhor. Obrigado.)

O intérprete perguntou que endereço deveria dar ao cocheiro.

“A casa do Tsar.”

O intérprete hesitou, acreditando tratar-se de uma pilhéria inconveniente, depois acenou vagamente ao cocheiro, e os cavalos partiram.

“Que trote curioso! Não fazemos ideia disso em França”, pensou Rouletabille. “França! França! Paris! Será possível que em breve estarei de volta! E aquela querida Dama de Preto! Ah, na primeira oportunidade devo enviar-lhe um despacho sobre o meu regresso — antes que ela receba aqueles ícones e as cartas a anunciar a minha morte. Scan! Scan! Scan! (Depressa!)”

O isvotchick fustigou os seus cavalos, passando apressadamente pelos dvornicks que vigiavam nas esquinas das casas durante a noite de São Petersburgo. “Dirigi! dirigi! dirigi! (Cuidado!)”

O campo, sombrio na noite sombria. O vasto campo aberto. Que desolação monótona! Rapidamente, através dos vastos espaços silenciosos, a pequena carruagem deslizava pela rota solitária para os braços negros dos pinheiros.

Rouletabille, agarrando-se ao assento, olhava à sua volta.

“Deus! Isto é tão triste como um desfile fúnebre.”

Pequenas cabanas geladas, não maiores do que túmulos, indicavam ocasionalmente a estrada, mas não havia sinal de vida naquele país, exceto o ruído da viagem e as duas bestas com o pelo a fumegar.

Crac! Uma das varas partida. “Que país!” Ao ouvir Rouletabille, dir-se-ia que só na Rússia é que a vara de uma carruagem se pode partir.

A reparação foi difícil e grosseira, com pedaços de corda. E, a partir daí, a viagem foi lenta e cautelosa, depois da velocidade frenética. Em vão Rouletabille raciocinava consigo mesmo. “Chegarás, de qualquer modo, antes da manhã. Não podes acordar o Imperador a meio da noite.” A sua impaciência não conhecia razão. “Que país! Que país!”

Após outras pequenas aventuras (foram parar a uma ravina e tiveram uma dificuldade tremenda em resgatar o baú), chegaram a Tsarskoie-Coelo às sete menos um quarto.

Mesmo aqui, o campo não era agradável. Rouletabille recordou o despertar brilhante do campo francês. Aqui, parecia haver algo mais morto do que a morte: era esta pequena cidade com as suas ruas onde ninguém passava, nem uma alma, nem um fantasma, com as suas casas tão impenetráveis, as janelas até de vidro fosco e ainda por cima ofuscadas pela geada matinal, bloqueando a luz mais completamente do que pálpebras fechadas. Por detrás delas, imaginava um mundo desconhecido, um mundo que nem falava, nem chorava, nem ria, um mundo no qual não ressoava nenhum acorde vivo. “Que país! Onde fica o castelo? Não sei; só estive aqui uma vez, na carruagem do marechal. Não sei o caminho. Não o grande palácio! O idiota do cocheiro trouxe-me a este grande palácio para o ver, não tenho dúvida. Será que Rouletabille tem ar de turista? Dourak! A casa do Tsar, digo-te eu. A residência do Tsar. O lugar onde vive o Pequeno Pai. Chez Batouchka!”

O cocheiro fustigou os seus póneis. Passou por todas as ruas. “Stoi! (Pára!)”, gritou Rouletabille. Um portão, um soldado, mosquete ao ombro, baioneta em riste; outro portão, outro soldado, outra baioneta; um parque com muros à volta, e à volta dos muros mais soldados.

“Sem erro; aqui é o lugar”, pensou Rouletabille. Havia apenas um prisioneiro por quem se daria tanto trabalho. Avançou em direção ao portão. Ah! Cruzaram baionetas debaixo do seu nariz. Alto! Sem brincadeiras, Joseph Rouletabille, do “L’Epoque”. Um subalterno saiu de uma casa de guarda e avançou na sua direção. A explicação, evidentemente, ia ser difícil. O jovem viu que, se exigisse ver o Tsar, pensariam que estava louco e isso complicaria ainda mais as coisas. Pediu pelo Grande-Marechal da Corte. Responderam-lhe que poderia obter o endereço do Marechal em Tsarskoie. Mas o subalterno virou a cabeça. Viu alguém a aproximar-se. Era o próprio Grande-Marechal. Algum serviço excecional chamava-o, sem dúvida, muito cedo à Corte.

“Ora, o que faz aqui? Ainda não partiu, então, Monsieur Rouletabille?”

“Polidez acima de tudo, Monsieur le Grand-Marechal! Não queria partir sem dizer ‘Au revoir’ ao Imperador. Seja tão amável, já que vai ter com ele e ele já se levantou (o senhor mesmo disse-me que ele se levanta às sete), seja tão amável ao dizer-lhe que desejo apresentar os meus respeitos antes de partir.”

“O seu plano, sem dúvida, é falar-lhe mais uma vez acerca de Natacha Feodorovna?”

“De modo algum. Diga-lhe, Excelência, que vim explicar o mistério das penas de edredão.”

“Ah, ah, as penas de edredão! O senhor sabe algo?”

“Sei tudo.”

O Grande-Marechal viu que o jovem não fingia. Pediu-lhe que esperasse alguns minutos e desapareceu no parque.

Um quarto de hora depois, Joseph Rouletabille, do jornal “L’Epoque”, era admitido no gabinete que conhecia bem desde a primeira entrevista que tivera ali com Sua Majestade. O simples gabinete de trabalho de uma casa de campo: alguns quadros nas paredes, retratos da Tzarina e dos filhos imperiais sobre a mesa; cigarros orientais nas minúsculas chávenas de ouro. Rouletabille estava longe de sentir qualquer segurança, pois o Grande-Marechal dissera-lhe:

“Seja cauteloso. O Imperador está num humor terrível por sua causa.”

Uma porta abriu-se e fechou-se. O Tsar fez um sinal ao Marechal, que desapareceu. Rouletabille inclinou-se profundamente, depois observou o Imperador atentamente.

Muito aparentemente, Sua Majestade estava descontente. O rosto do Tsar, habitualmente tão calmo, tão agradável e sorridente, estava severo, e os seus olhos tinham um brilho de raiva. Sentou-se e acendeu um cigarro.

“Monsieur”, começou ele, “não estou de todo arrependido de o ver antes da sua partida para lhe dizer eu próprio que não estou nada satisfeito consigo. Se o senhor fosse um dos meus súbditos, tê-lo-ia já enviado para a estrada dos Montes Urais.”

“Afasto-me para mais longe, Sire.”

“Monsieur, peço-lhe que não me interrompa e que não fale a menos que eu lhe faça uma pergunta.”

“Oh, perdão, Sire, perdão.”

“Não me deixo enganar pelo pretexto que ofereceu ao Monsieur le Grand-Marechal para penetrar aqui.”

“Não é um pretexto, Sire.”

“Outra vez!”

“Oh, perdão, Sire, perdão.”

“Digo-lhe que, chamados aqui para me ajudar contra os meus inimigos, eles próprios não encontraram um apoio mais forte ou mais criminoso do que no senhor.”

“De que sou acusado, Sire?”

“Koupriane...”

“Ah! Ah! ... Perdão!”

“O meu Chefe de Polícia queixa-se, justamente, de que o senhor atravessou todos os seus desígnios e de que se encarregou de os arruinar. Primeiro, removeu os seus agentes, que o incomodavam, parece; depois, no momento em que ele tinha em mão a prova da aliança abominável de Natacha Feodorovna com os Niilistas que tentam o assassinato do seu pai, a sua intervenção permitiu que essa prova lhe escapasse. E o senhor gabou-se do feito, monsieur, de modo que só podemos considerá-lo responsável pelas tentativas que se seguiram.”

“Sem o senhor, Natacha não teria tentado envenenar o seu pai. Sem o senhor, não teriam enviado buscar médicos que pudessem explodir a datcha des Iles. Finalmente, ainda ontem, quando este meu fiel servidor tinha montado uma armadilha da qual eles não poderiam ter escapado, o senhor teve a audácia, o senhor, de os avisar disso. Eles devem-lhe a sua fuga. Monsieur, essas são tentativas contra a segurança do Estado que merecem o mais pesado castigo. Ora, o senhor saiu um dia daqui prometendo-me salvar o General Trebassof de todos os assassinos conspiradores que rondavam à sua volta. E depois faz o jogo dos assassinos! A sua conduta é tão miserável quanto a de Natacha Feodorovna é monstruosa!”

O Imperador calou-se e olhou para Rouletabille, que não tinha baixado os olhos.

“O que tem a dizer em sua defesa? Fale... agora.”

“Apenas posso dizer a Vossa Majestade que venho despedir-me de si porque a minha tarefa aqui terminou. Prometi-lhe a vida do General Trebassof, e trago-lha. Ele já não corre perigo! Digo mais a Vossa Majestade que não existe em parte alguma do mundo uma filha mais dedicada ao seu pai, mesmo até à morte, uma filha mais sublime do que Natacha Feodorovna, nem mais inocente.”

“Tenha cuidado, monsieur. Informo-o de que estudei este caso pessoalmente e muito de perto. O senhor tem as provas destas afirmações que avança?”

“Sim, Sire.”

“E eu, eu tenho as provas de que Natacha Feodorovna é uma renegada.”

A esta contradição, proferida com voz firme, o Imperador agitou-se, um rubor de raiva e de majestade ultrajada no seu rosto. Mas, após este primeiro movimento, conseguiu controlar-se, abriu uma gaveta bruscamente, tirou alguns papéis e atirou-os sobre a mesa.

“Ei-los.”

Rouletabille estendeu a mão para os papéis.

“O senhor não lê russo, monsieur. Traduzirei o seu teor para si. Saiba, então, que houve uma troca misteriosa de cartas entre Natacha Feodorovna e o Comité Revolucionário Central, e que essas cartas mostram que a filha do General Trebassof está em perfeita sintonia com os assassinos do seu pai para a execução do seu abominável projeto.”

“A morte do general?”

“Exatamente.”

“Declaro a Vossa Majestade que isso não é possível.”

“Homem obstinado! Vou ler...”

“Inútil, Sire. É impossível. Pode haver nelas a questão de um projeto, mas ficarei muito surpreendido se estes conspiradores tiverem sido suficientemente imprudentes para escrever nessas cartas que contam com Natacha para envenenar o seu pai.”

“Isso, de facto, não está escrito, e o senhor próprio é responsável por isso não lá estar. Não deixa de se seguir que Natacha Feodorovna tinha um entendimento com os Niilistas.”

“Isso é correto, Sire.”

“Ah, o senhor confessa isso?”

“Não confesso; simplesmente afirmo que Natacha tinha um entendimento com os Niilistas.”

“Que conspiraram os seus abomináveis ataques contra o ex-Governador de Moscovo.”

“Sire, uma vez que Natacha tinha um entendimento com os Niilistas, não foi para matar o seu pai, mas para o salvar. E o projeto de que detém aqui as provas, mas de cujo caráter desconhece, é pôr fim, instantaneamente, aos ataques de que fala.”

“O senhor diz isso.”

“Digo a verdade, Sire.”

“Onde estão as provas? Mostre-me os seus papéis.”

“Não tenho nenhum. Tenho apenas a minha palavra.”

“Isso não é suficiente.”

“Será suficiente, assim que me tiver ouvido.”

“Escuto.”

“Sire, antes de lhe revelar um segredo do qual depende a vida do General Trebassof, deve permitir-me algumas perguntas. Vossa Majestade tem a vida do general muito em conta?”

“O que é que isso tem a ver com o assunto?”

“Perdão. Desejo que Vossa Majestade me garanta esse ponto.”

“O general protegeu o meu trono. Salvou o Império de um dos maiores perigos que ele alguma vez enfrentou. Se o servidor que fez tal serviço devesse ser recompensado com a morte, com o castigo que os inimigos do meu povo preparam para ele nas trevas, eu nunca me perdoaria. Já houve mártires a mais!”

“Respondeu-me, Sire, de tal forma que me faz compreender que não há sacrifício — mesmo até ao sacrifício do seu amour-propre, o maior que um governante pode sofrer — não há sacrifício demasiado caro para resgatar da morte um destes mártires.”

“Ah, ah! Estes senhores impõem-me condições! Dinheiro. Dinheiro. Precisam de dinheiro. E quanto avaliam eles a cabeça do general?”

“Sire, isso não toca Vossa Majestade, e eu nunca virei oferecer-lhe tal negócio. Esse assunto diz respeito apenas a Natacha Feodorovna, que ofereceu a sua fortuna!”

“A sua fortuna! Mas ela não tem nada.”

“Ela terá uma com a morte do general. Agora, ela compromete-se a dar tudo ao Comité Revolucionário no dia em que o general morrer — se ele morrer de morte natural!”

O Imperador levantou-se, muito agitado.

“Ao Partido Revolucionário! O que me está a dizer! A fortuna do general! Eh, mas estas são grandes riquezas.”

“Sire, contei-lhe o segredo. Só o senhor deve conhecê-lo e guardá-lo para sempre, e tenho a sua palavra sagrada de que, quando chegar a hora, deixará o prémio ir para onde está prometido. Se o general alguma vez soubesse de tal coisa, de tal tratado, ele facilmente arranjaria que nada restasse, e denunciaria a filha que o salvou, e então seria prontamente a presa dos seus inimigos e dos seus, de quem deseja salvá-lo. Não contei o segredo ao Imperador, mas ao representante de Deus na terra russa. Confessei-o ao sacerdote, que está obrigado a esquecer as palavras proferidas apenas perante Deus. Permita a Natacha Feodorovna o seu próprio caminho, Sire! E o seu pai, o seu servidor, cuja vida lhe é tão cara, está salvo. Com a morte natural do general, a sua fortuna irá para a sua filha, que dispôs dela.”

Rouletabille parou um momento para avaliar o efeito produzido. Não era bom. O rosto do seu augusto ouvinte estava cada vez mais franzido.

O silêncio continuou e, agora, o repórter não se atrevia a quebrá-lo. Esperou.

Finalmente, o Imperador levantou-se e andou de um lado para o outro na sala, imerso em pensamentos. Por um momento, parou à janela e acenou paternalmente ao pequeno Tsarevitch, que brincava no parque com as grão-duquesas.

Depois, voltou para Rouletabille e puxou-lhe a orelha.

“Mas, diga-me, como aprendeu o senhor tudo isto? E quem então envenenou o general e a sua mulher, no quiosque, se não foi Natacha?”

“Natacha é uma santa. Não é nada, Sire, que ela tenha sido criada no luxo e se dedique à miséria; mas é sublime que ela guarde no seu coração o segredo do seu sacrifício de todos e, apesar de tudo, porque o segredo é necessário e foi-lhe exigido. Vê-la a guardá-lo perante o pai, que foi levado a acreditar na desonra da sua filha, e ainda assim a silenciar quando uma palavra teria provado a sua inocência; guardá-lo face a face com o seu noivo, a quem ama, e a quem repulsa porque o casamento é proibido à rapariga que se supõe rica e que será pobre; guardá-lo, acima de tudo — e guardá-lo ainda — nas profundezas da masmorra, e pronta para tomar o caminho da Sibéria sob a acusação de assassinato, porque essa ignomínia é necessária para a segurança do seu pai. Isso, Sire — oh, Sire, consegue ver!”

“Mas o senhor, como pôde penetrar neste segredo guardado?”

“Observando os seus olhos. Observando, quando ela se julgava só, o olhar de terror e os lampejos de amor. E, acima de tudo, olhando para ela quando olhava para o pai. Ah, Sire, houve momentos em que, no seu rosto místico, se podia ler a alegria selvagem e a devoção da mártir. Depois, ouvindo e juntando fragmentos de frases inconsistentes com a ideia de traição, mas que adquiriam significado imediato se se pensasse no oposto, no sacrifício. Ah, é isso, Sire! Considere sempre o motivo alternativo. Aquilo que eu próprio pude finalmente ver, os outros, que tinham uma opinião formada sobre Natacha, não podiam ver. E porque tinham eles a sua opinião formada? Simplesmente porque a ideia de um compromisso com os Niilistas suscitava imediatamente a ideia de cumplicidade! Para tais pessoas, é sempre a mesma coisa — nunca conseguem ver senão um lado da situação. Mas, contudo, a situação tinha dois lados, como todas as situações têm. A questão era simples. O compromisso era certo. Mas por que razão se teria Natacha comprometido com os Niilistas? Teria sido necessariamente para perder o pai? Não poderia ter sido, pelo contrário, para o salvar? Quando se tem um encontro com um inimigo, não é necessariamente para entrar no seu jogo; por vezes, é para o desarmar com uma oferta. Entre estas duas hipóteses, que só eu me dei ao trabalho de examinar, não hesitei muito, porque cada atitude de Natacha proclamava a sua inocência: e os seus olhos, Sire, nos quais se lia pureza e amor, prevaleceram sempre para mim contra todas as aparências passageiras de desgraça e crime.

“Vi que Natacha negociava com eles. Mas o que tinha ela para pôr na balança contra a vida do seu pai? Nada — exceto a fortuna que teria um dia.

“Algumas palavras que ela disse sobre a impossibilidade de um casamento imediato, sobre a pobreza que poderia bater a qualquer momento à porta de qualquer mansão, observações que pude ouvir entre Natacha e Boris Mourazoff, e que para ele não significavam nada, colocaram-me definitivamente no caminho certo. E não demorei a verificar que as negociações neste caso formidável estavam a ocorrer na própria casa de Trebassof! Perseguida no exterior pela espionagem incessante de Koupriane, que procurava surpreendê-la na companhia dos Niilistas, vigiada de perto, também, pela supervisão ciumenta de Boris, que tinha ciúmes de Michael Nikolaievitch, ela tinha de aproveitar as únicas oportunidades possíveis para tais negociações, à noite, na sua própria casa, o único lugar onde, pela própria audácia do ato, ela era capaz de desempenhar o seu papel com alguma segurança.

“Michael Nikolaievitch conhecia Annouchka. Ali estava certamente o ponto de partida para as negociações que aquele oficial criminoso, traidor de todos os lados, trabalhava à vontade para a realização do seu próprio projeto infame. Não creio que Michael tenha alguma vez confiado a Natacha que ele era, desde o início, o instrumento dos revolucionários. Natacha, que procurava entrar em contacto com o partido revolucionário, teve de lhe confiar uma correspondência para Annouchka, após o que ele assumiu a direção do assunto, enganando os Niilistas, que, na sua miséria absoluta após a revolta, tinham sido seduzidos pela proposta da filha do General Trebassof, e enganando Natacha, a quem fingia amar e por quem se julgava amado. Neste ponto do assunto, Natacha compreendeu que era necessário apaziguar Michael Nikolaievitch, o seu intermediário indispensável, e conseguiu fazê-lo tão bem que Boris Mourazoff sentiu o mais negro ciúme. Pelo seu lado, Michael chegou a acreditar que Natacha não teria outro marido senão ele, mas não tencionava casar-se com uma rapariga sem um tostão! E, fatalmente, seguiu-se que Natacha, naquela intriga infernal, negociou a vida do seu pai através da agência de um homem que, traiçoeiramente, procurava atingir o próprio general, porque a morte imediata do seu pai, antes da conclusão da negociação, enriqueceria Natacha, que dera a Michael tanto para esperar. Essa tragédia assustadora, Sire, na qual vivemos as nossas horas mais dolorosas, pareceu-me, confiante na inocência de Natacha, tão absolutamente simples como para os outros parecia complicada. Natacha acreditava ter em Michael Nikolaievitch um homem que trabalhava para ela, mas ele trabalhava apenas para si próprio. O dia em que disso me convenci, Sire, pelo meu exame do acesso à varanda, tive a intenção de avisar Natacha, de ir ter com ela e dizer: ‘Livre-se desse homem. Ele vai traí-la. Se precisa de um agente, estou ao seu dispor.’ Mas nesse dia, em Krestowsky, o destino impediu-me de reencontrar Natacha; e devo atribuí-lo ao destino, que não queria permitir a perda daquele homem. Michael Nikolaievitch, que era um traidor, estava demasiado metido na ‘combinação’ e, se tivesse sido rejeitado, teria arruinado tudo. Fiz com que desaparecesse! O grande infortúnio então foi que Natacha, considerando-me responsável pela morte de um homem que ela julgava inocente, nunca mais quis ver-me e, quando me viu, recusou qualquer conversa comigo porque eu propus ocupar o lugar de Michael junto dos revolucionários. Ela não queria ter nada que ver comigo para proteger o seu segredo. Entretanto, os Niilistas acreditaram ser traídos por Natacha quando souberam da morte de Michael, e encarregaram-se de o vingar. Capturaram Natacha e levaram-na à força. A infeliz rapariga soube então, nessa mesma noite, do ataque que destruiu a datcha e que, felizmente, ainda poupou o seu pai. Desta vez, ela chegou a um entendimento definitivo com o partido revolucionário. O seu negócio estava feito. Ofereço-lhe como prova disso apenas a sua atitude quando foi presa e, mesmo nesse momento, o seu silêncio sublime.”

Enquanto Rouletabille insistia no seu ponto de vista, o Imperador deixou-o falar e falar, e agora os seus olhos estavam baços.

“É possível que Natacha não tenha sido a cúmplice, em tudo, de Michael Nikolaievitch?” perguntou ele. “Foi ela quem lhe abriu a casa do pai naquela noite. Se ela não fosse sua cúmplice, teria desconfiado dele, tê-lo-ia vigiado.”

“Sire, Michael Nikolaievitch era um homem muito inteligente. Sabia muito bem como manipular Natacha, e Annouchka, em quem ela depositava toda a esperança. Era de Annouchka que ela desejava obter a vida do seu pai. Era a palavra, a assinatura de Annouchka que ela exigia antes de dar a sua própria. Na noite em que Michael Nikolaievitch morreu, ele estava encarregado de lhe trazer essa assinatura. Sei-o, pessoalmente, porque, fingindo embriaguez, pude ouvir o suficiente de uma conversa entre Annouchka e um homem cujo nome devo ocultar. Sim, naquela última noite, Michael Nikolaievitch, quando entrou na datcha, tinha a assinatura no bolso, mas também carregava a arma ou o veneno com o qual já tinha tentado e estava determinado a atingir o pai daquela que ele acreditava que seria, certamente, a sua esposa.”

“Fala agora de um papel, muito precioso, que lamento não possuir, monsieur,” disse o Tsar friamente, “porque só esse papel me teria provado a inocência da sua protegida.”

“Se não o tem, Sire, sabe bem que é porque eu desejei que o tivesse. O cadáver tinha sido revistado por Katharina, a pequena boémia, e eu, Sire, impedi Koupriane de encontrar essa assinatura na posse de Katharina. Ao salvar o segredo, salvei a vida do General Trebassof, que teria preferido morrer a aceitar tal arranjo.”

O Tsar interrompeu Rouletabille na sua explosão entusiasta.

“Tudo isso seria muito belo e talvez admirável,” disse ele, cada vez mais friamente, porque se tinha recomposto inteiramente, “se Natacha não tivesse, ela própria, com a sua própria mão, envenenado o pai e a madrasta! — sempre com arseniato de sódio.”

“Oh, parte disso tinha sido deixado na casa,” respondeu Rouletabille. “Não me tinham dado tudo para a análise após a primeira tentativa. Mas Natacha é inocente disso, Sire. Juro-lho. Tão certo como o facto de ter certamente escapado ao enforcamento.”

“Como, enforcado?”

“Oh, já não importa muito agora, Vossa Majestade.”

E Rouletabille contou a sua aventura sinistra, até ao momento da sua morte, ou, melhor, até ao momento em que acreditou que ia morrer.

O Imperador ouviu o jovem repórter com estupefação completa. Murmurou: “Pobre rapaz!” depois, subitamente:

“Mas como conseguiu escapar-lhes?”

“Sire, deram-me vinte e quatro horas para que o senhor ponha Natacha em liberdade, isto é, que lhe restitua os seus direitos, todos os seus direitos, e que ela continue a ser a reconhecida herdeira de Trebassof. Compreende-me, Sire?”

“Compreendê-lo-ei, talvez, quando me explicar como Natacha não envenenou o pai e a madrasta.”

“Há coisas tão simples, Sire, que só se consegue pensar nelas com uma corda ao pescoço. Mas raciocinemos. Temos aqui quatro pessoas, duas das quais foram envenenadas e as outras duas com elas não foram. Ora, é certo que, das quatro pessoas, o general não quis envenenar-se, que a sua esposa não quis envenenar o general e que, quanto a mim, não quis envenenar ninguém. Isso, se temos absoluta certeza, deixa como envenenadora apenas Natacha. Isso é tão certo, tão inevitável, que só há um caso, um único, em que, nestas condições, Natacha não seria considerada a envenenadora.”

“Confesso que, logicamente, não vejo,” disse o Tsar, “nada além disso senão um emaranhado cada vez maior. O que é?”

“Logicamente, o único caso seria aquele em que ninguém tivesse sido envenenado, isto é, onde ninguém tivesse tomado qualquer veneno.”

“Mas a presença do veneno foi estabelecida!” gritou o Imperador.

“Ainda assim, a presença do veneno prova apenas a sua presença, não o crime. Tanto o veneno como a ipeca foram encontrados nas expulsões do estômago. Do que se concluiu um crime. Que estado de coisas seria necessário para que não houvesse crime? Simplesmente que o veneno tivesse aparecido nas expulsões após a ipeca. Então não teria havido envenenamento, mas todos acreditariam que houve. E, para isso, alguém teria deitado o veneno nas expulsões.”

O Tsar nunca desviou os olhos dos de Rouletabille.

“Isso é extraordinário,” disse ele. “Mas é claro que é possível. Em qualquer caso, continua a ser apenas uma hipótese.”

“E enquanto pudesse ser uma hipótese em que ninguém pensava, poderia ser apenas isso, Sire. Mas se estou aqui, é porque tenho a prova de que essa hipótese corresponde à realidade. Essa prova necessária da inocência de Natacha, Vossa Majestade, encontrei-a com a corda ao pescoço. Ah, digo-lhe que foi a tempo! O que nos impediu até agora, não digo de realizar, mas sequer de pensar nessa hipótese? Simplesmente que pensávamos que a doença do general tinha começado antes da absorção da ipeca, uma vez que Matrena Petrovna tinha sido obrigada a ir buscá-la ao seu armário de medicamentos depois de a doença ter começado, para contrariar o veneno do qual ela também parecia ser vítima.

“Mas, se eu obtiver a prova de que Matrena Petrovna tinha a ipeca à mão antes da doença, a minha hipótese de simulação de envenenamento ganha uma força irresistível. Porque, se não era para a usar antes, por que razão a tinha ela consigo antes? E se não era porque queria esconder o facto de que a tinha usado antes, por que queria fingir que a foi buscar depois?

“Então, para mostrar a inocência de Natacha, eis o que deve ser provado: que Matrena Petrovna tinha a ipeca consigo, mesmo quando foi fingir que a ia buscar.”

“Jovem Rouletabille, mal respiro,” disse o Tsar.

“Respire, Sire. A prova está aqui. Matrena Petrovna tinha necessariamente a ipeca consigo, porque depois da doença não teve tempo para ir buscá-la. Compreende, Sire? Entre o momento em que ela fugiu do quiosque e o momento em que lá regressou, ela não teve o tempo real para ir ao seu armário de medicamentos buscar a ipeca.”

“Como conseguiu calcular o tempo?” perguntou o Imperador.

“Sire, o bom Deus dirigiu-me, Ele que me fez admirar o relógio de Feodor Feodorovitch exatamente quando fomos ler, e ler no mostrador desse relógio dois minutos para a hora, e o bom Deus dirigiu-me ainda, Ele que, após a cena do veneno, no momento em que Matrena regressou trazendo a ipeca publicamente, fez soar a hora vinda desse relógio no bolso do general.

“Dois minutos. Era impossível para Matrena ter percorrido aquela distância em dois minutos. Ela só poderia ter entrado na datcha deserta e saído dela instantaneamente. Ela não se tinha dado ao trabalho de subir ao andar de cima, onde, nos disse e repetiu quando regressou, a ipeca estava no armário de medicamentos. Ela mentiu! E se ela mentiu, tudo se explica.

“Foi o bater de um relógio, Sire, com um mecanismo de repetição e um som como o do general, ali nos aposentos dos revolucionários, que despertou a minha memória e me indicou num segundo este argumento do tempo.

“Desci do meu cadafalso, Vossa Majestade, para experimentar esse limite de tempo. Oh, nada e ninguém poderia ter-me impedido de fazer essa experiência antes de morrer, para provar a mim próprio que Rouletabille tinha tido razão o tempo todo. Tinha estudado os terrenos em redor da datcha o suficiente para ser perfeitamente exato quanto às distâncias. Encontrei no pátio onde ia ser enforcado o mesmo número de passos que havia do quiosque aos degraus da varanda e, como a escadaria dos revolucionários tinha menos degraus, alonguei o meu percurso por alguns passos, andando à volta de uma cadeira. Finalmente, tratei da abertura e do fecho das portas que Matrena teria de fazer. Tinha olhado para um relógio quando comecei. Quando regressei, Sire, e olhei para o relógio de novo, tinha levado três minutos a percorrer a distância — e não é para me gabar, mas sou um pouco mais lesto do que a excelente Matrena.

“Matrena tinha mentido. Matrena tinha simulado o envenenamento do general. Matrena tinha deitado friamente ipeca no copo do general enquanto ilustrávamos com fósforos uma teoria bastante curiosa sobre a natureza da constituição do império.”

“Mas isto é abominável!” gritou o Imperador, desta vez definitivamente convencido pelo argumento intrincado de Rouletabille. “E que fim poderia servir esta imitação?”

“O fim de impedir o verdadeiro crime! O fim que ela acreditava ter atingido, Sire, ter Natacha afastada para sempre — Natacha, de quem ela acreditava capaz de qualquer crime.”

“Oh, é monstruoso! Feodor Feodorovitch disse-me frequentemente que Matrena amava Natacha sinceramente.”

“Ela amava-a sinceramente até ao dia em que a acreditou culpada. Matrena Petrovna tinha a certeza da cumplicidade de Natacha na tentativa de Michael Nikolaievitch de envenenar o general. Partilhei o seu estupor, o seu desespero, quando Feodor Feodorovitch tomou a filha nos braços após aquela noite trágica e a abraçou. Parecia absolvê-la. Foi então que Matrena resolveu, dentro de si própria, salvar o general apesar dele próprio, mas permaneço persuadido de que, se ela ousou tal plano contra Natacha, seria apenas por causa do que acreditava ser uma prova definitiva da infâmia da sua enteada. Estes papéis, Sire, que me mostrou e que mostram, se não mais, um entendimento entre Natacha e os revolucionários, só poderiam estar na posse de Michael ou de Natacha. Nada foi encontrado nos aposentos de Michael. Diga-me, então, que Matrena os encontrou no apartamento de Natacha. Então, ela não hesitou!”

“Se alguém lhe delineasse o seu crime, acredita que ela o confessaria?” perguntou o Imperador.

“Estou tão seguro disso que a mandei trazer aqui. A esta hora, Koupriane já deve estar aqui no castelo com Matrena Petrovna.”

“O senhor pensa em tudo, monsieur.”

O Tsar moveu-se para tocar uma campainha. Rouletabille ergueu a mão.

“Ainda não, Sire. Peço que me permita não estar presente na confusão daquela mulher corajosa, heroica e boa, que me amou muito. Mas antes de ir, Sire — promete-me?”

O Imperador acreditou não ter ouvido corretamente ou não captar o significado. Repetiu o que Rouletabille tinha dito. O jovem repórter repetiu mais uma vez:

“Promete? Não, Sire, não estou louco. Ouso pedir-lhe isso. Confiei a minha honra a Vossa Majestade. Contei-lhe o segredo de Natacha. Bem, agora, antes da confissão de Matrena, ouso pedir-lhe: Prometa-me esquecer esse segredo. Não bastará apenas devolver Natacha ao seu pai. É necessário deixar-lhe o caminho aberto — se realmente deseja salvar o General Trebassof. O que decide, Sire?”

“É a primeira vez que alguém me questiona, monsieur.”

“Ah, bem, será a última. Mas suplico humildemente a Vossa Majestade que responda.”

“Isso seriam muitos milhões dados à Revolução.”

“Oh, Sire, ainda não estão dados. O general tem sessenta e cinco anos, mas tem muitos anos pela frente, se o desejar. Quando ele morrer — uma morte natural, se o desejar —, os seus inimigos terão desarmado.”

“Os meus inimigos!” murmurou o Tsar em voz baixa. “Não, não; os meus inimigos nunca desarmarão. Quem, então, será capaz de os desarmar?” acrescentou ele, melancolicamente, abanando a cabeça.

“O progresso, Sire! Se o desejar.”

O Tsar corou e olhou para o jovem audacioso, que encontrou o olhar de Sua Majestade francamente.

“É gentil da sua parte dizer isso, meu jovem amigo. Mas fala como uma criança.”

“Como uma criança de França para o Pai do povo russo.”

Foi dito numa voz tão solene e, ao mesmo tempo, tão ingenuamente comovente, que o Tsar estremeceu. Observou novamente durante algum tempo, em silêncio, este rapaz que, desta vez, desviou os seus olhos lacrimejantes.

“Progresso e piedade, Sire.”

“Bem,” disse o Imperador, “está prometido.”

Rouletabille não conseguiu conter um movimento alegre que dificilmente condizia com a ocasião.

“Pode tocar agora, Sire.”

E o Tsar tocou.

O repórter passou para um pequeno salão, onde encontrou o Marechal, Koupriane e Matrena Petrovna, que estava “num estado”.

Lançou um olhar suspeito a Rouletabille, que não era tratado esta manhã como o querido pequeno domovoi-doukh. Deixou-se conduzir, já a tremer, perante o Imperador.

“O que aconteceu?” perguntou Koupriane, agitado.

“Aconteceu, meu caro Monsieur Koupriane, que tenho o perdão do Imperador por todos os crimes de que me acusou e que desejo apertar-lhe a mão antes de partir, sem qualquer rancor. Monsieur Koupriane, o Imperador dir-lhe-á ele próprio que o General Trebassof está salvo e que a sua vida nunca mais estará em perigo. Sabe o que se segue? Segue-se que deve libertar imediatamente Matiew, a quem tomei, se bem se recorda, sob a minha proteção. Diga-lhe que ele vai tentar a sorte em França. Encontrar-lhe-ei um lugar com a condição de que esqueça certas chicotadas.”

“Tal promessa! Tal atitude em relação a mim!” gritou Koupriane. “Mas esperarei que o Imperador me diga todas estas coisas belas. E a sua Natacha, o que faz com ela?”

“Libertamo-la também, monsieur. Natacha nunca foi o monstro que o senhor pensa.”

“Como pode dizer isso? Alguém pelo menos é culpado.”

“Há dois culpados. O primeiro, Monsieur le Marechal.”

“O quê!” gritou o Marechal.

“Monsieur le Marechal, que teve a imprudência de trazer uvas tão perigosas à datcha des Iles, e — e —”

“E o outro?” perguntou Koupriane, cada vez mais ansioso.

“Ouça lá dentro,” disse Rouletabille, apontando para o gabinete do Imperador.

O som de lágrimas e soluços chegou até eles. A dor e o remorso de Matrena Petrovna atravessaram as paredes do gabinete. Koupriane ficou completamente desconcertado.

Subitamente, o Imperador apareceu. Estava num estado de exaltação tal como nunca fora conhecido nele. Koupriane, consternado, recuou.

— Monsieur — disse-lhe o Tsar —, exijo que Natacha Feodorovna esteja aqui dentro das próximas duas horas e que seja conduzida com as honras devidas à sua posição. Natacha é inocente e devemos fazer-lhe reparação.

Então, virando-se para Rouletabille:

— Fiquei a saber o que ela sabe e o que ela vos deve — o que vos devemos, meu jovem amigo.

O Tsar disse "meu jovem amigo". Rouletabille, neste último momento antes da sua partida, falou russo?

— Então ela não sabe nada, Sire. É melhor, Sire, porque Vossa Majestade e eu, devemos esquecer desde hoje que sabemos o que quer que seja.

— Tens razão — disse o Tsar, pensativo. — Mas, meu amigo, que posso eu fazer por ti?

— Sire, um favor. Não me deixe perder o comboio das 10:55.

E atirou-se de joelhos.

— Permanece de joelhos, meu amigo. Estás pronto, assim. Monsieur le Maréchal preparará de imediato um alvará, que eu assinarei logo. Entretanto, Monsieur le Maréchal, encontre-me, no meu próprio gabinete, um dos meus colares de Santa Ana.

E foi assim que Joseph Rouletabille, do “L’Epoque”, foi nomeado oficial da Ordem de Santa Ana da Rússia pelo próprio Imperador, que lhe deu o abraço.

“Eles combinam todo o curso do tempo neste país”, pensou Rouletabille, pressionando a mão contra os olhos para conter as lágrimas.

Para o comboio das 10:55, todos se tinham aglomerado na estação de Tsarskoie-Coelo. Entre os que tinham vindo de São Petersburgo para apertar a mão do jovem repórter quando souberam da sua partida iminente estavam Ivan Petrovitch, o alegre Conselheiro do Imperador, e Athanase Georgevitch, o animado advogado tão bem conhecido pelos seus famosos feitos com faca e garfo. Tinham vindo naturalmente com todas as suas ligaduras e pensos, o que os fazia parecer ruínas gloriosas. Traziam as saudações de Feodor Feodorovitch, que ainda tinha um pouco de febre, e de Thaddeus Tchitchnikoff, o lituano, que tinha ambas as pernas partidas.

Mesmo depois de estar no seu compartimento, Rouletabille teve de beber o seu último copo de champanhe. Quando nada restava na garrafa e todos o tinham abraçado e reabraçado, como o comboio ainda não partia, Athanase Georgevitch abriu uma segunda garrafa “final”. Foi então que Monsieur le Grand Maréchal chegou, sem fôlego. Convidaram-no a beber e ele aceitou. Mas precisava de falar com Rouletabille em privado e, após pedir desculpas, levou o repórter para o corredor.

— É o próprio Imperador quem me envia — disse o alto dignatário, com emoção. — Enviou-me por causa das edredões. Esqueceu-se de explicar os edredões a Sua Majestade.

— Niet! — respondeu Rouletabille, rindo. — Isso não é nada. Nitchevo! Os edredões de Sua Majestade são do melhor penugem, como demonstra uma das penas que me mostrou. Bem, abra-os agora. São uma imitação barata, como prova a segunda pena. O regresso dos falsos edredões, antes da noite, prova então que esperavam que a substituição passasse despercebida. É tudo. Caracho! Colapso da farsa. À sua saúde! Vive le Tsar!

— Caracho! Caracho!

A locomotiva resfolegava quando um casal foi visto a correr, um homem e uma mulher. Eram Monsieur e Madame Gounsovski.

Gounsovski ficou no estribo.

— Madame Gounsovski fez questão de vir apertar-lhe a mão. É muito simpático.

— Os meus cumprimentos, madame.

— Diga-me, jovem, fez mal em faltar ao jantar em minha casa ontem.

— Teria certamente escapado a uma pequena e desagradável viagem à Finlândia. Não me arrependo, monsieur.

O comboio tremeu e moveu-se. Gritaram: “Vive la France! Vive la Russie!”. Athanase Georgevitch chorou. Matrena Petrovna, numa janela da estação, para onde se tinha retirado timidamente, acenou com um lenço ao pequeno domovoi-doukh, que a tinha feito ver tudo sob a luz correta e que ela não ousava abraçar após o terrível caso do falso veneno e da ira do Tsar.

O repórter atirou-lhe um beijo respeitoso.

Como disse a Gounsovski, não havia nada de que se arrepender.

Ainda assim, à medida que o comboio seguia em direção à fronteira, Rouletabille atirou-se para trás, sobre as almofadas, e disse:

— Uf!

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