OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER
PREFÁCIO
Colecionei cuidadosamente tudo o que pude saber sobre a história do pobre Werther, e aqui a apresento a ti, sabendo que me agradecerás por isso. Ao seu espírito e caráter não podes negar a tua admiração e o teu amor: ao seu destino não negarás as tuas lágrimas.
E tu, alma bondosa, que sofres a mesma aflição que ele outrora suportou, extrai conforto dos seus sofrimentos; e deixa que este pequeno livro seja o teu amigo, se, por obra da sorte ou por tua própria culpa, não puderes encontrar um companheiro mais querido.
LIVRO I
4 DE MAIO.
Quão feliz estou por ter partido! Meu caro amigo, que coisa é o coração humano! Deixar-te, de quem eu era inseparável, a quem amo tão profundamente, e, ainda assim, sentir-me feliz! Sei que me perdoarás. Não foram outros laços especialmente destinados pelo destino a atormentar uma cabeça como a minha? Pobre Leonora! E, contudo, eu não tive culpa. Foi minha culpa que, enquanto os encantos singulares da sua irmã me proporcionavam um entretenimento agradável, uma paixão por mim tenha sido gerada no seu coração frágil? E, ainda assim, serei eu totalmente inocente? Não encorajei eu as suas emoções? Não me senti encantado com aquelas expressões verdadeiramente genuínas da natureza, que, embora pouco alegres na realidade, tantas vezes nos divertiram? Não me — mas, oh! que é o homem, para que se atreva a acusar-se desta maneira? Meu caro amigo, prometo-te que irei melhorar; não continuarei mais, como sempre foi meu hábito, a ruminar sobre cada pequena contrariedade que a sorte possa dispensar; desfrutarei o presente, e o passado será para mim o passado. Sem dúvida tens razão, meu melhor amigo, haveria muito menos sofrimento entre a humanidade se os homens — e Deus sabe por que são assim feitos — não empregassem as suas imaginações tão assiduamente em recordar a memória de penas passadas, em vez de suportarem o seu lote presente com equanimidade. Sê gentil o suficiente para informar a minha mãe de que cuidarei dos seus negócios da melhor maneira que puder, e que lhe darei as informações mais recentes sobre eles. Vi a minha tia e descobri que ela está muito longe de ser a pessoa desagradável que os nossos amigos alegam que ela é. Ela é uma mulher viva, alegre, com o melhor dos corações. Expliquei-lhe as injustiças da minha mãe no que diz respeito à parte da sua herança que lhe foi retida. Ela contou-me os motivos e as razões da sua própria conduta, e as condições sob as quais está disposta a ceder tudo, e a fazer mais do que pedimos. Em suma, não posso escrever mais sobre este assunto no momento; apenas garante à minha mãe que tudo correrá bem. E observei novamente, meu caro amigo, neste assunto trivial, que os mal-entendidos e a negligência causam mais danos no mundo do que a própria malícia e a perversidade. De qualquer modo, estas duas últimas ocorrem com menos frequência.
Em outros aspectos, estou muito bem aqui. A solidão neste paraíso terrestre é um bálsamo genial para a minha mente, e a jovem primavera alegra, com as suas promessas generosas, o meu coração tantas vezes hesitante. Cada árvore, cada arbusto, está repleto de flores; e desejar-se-ia estar transformado numa borboleta, para flutuar neste oceano de perfume e encontrar nele toda a sua existência.
A cidade em si é desagradável; mas, depois, por toda a parte, encontra-se uma beleza indescritível da natureza. Isto levou o falecido Conde M a projetar um jardim numa das colinas inclinadas que aqui se cruzam com a mais encantadora variedade e formam os vales mais adoráveis. O jardim é simples; e é fácil perceber, logo à entrada, que o plano não foi concebido por um jardineiro científico, mas por um homem que desejava entregar-se aqui ao desfrute do seu próprio coração sensível. Muitas lágrimas já derramei à memória do seu falecido mestre num pavilhão que agora está reduzido a ruínas, mas que era o seu lugar favorito, e agora é o meu. Em breve serei senhor do lugar. O jardineiro afeiçoou-se a mim nos últimos dias, e ele nada perderá com isso.
10 DE MAIO.
Uma serenidade maravilhosa apoderou-se de toda a minha alma, como estas doces manhãs de primavera que desfruto com todo o meu coração. Estou só, e sinto o encanto da existência neste local, que foi criado para a felicidade de almas como a minha. Estou tão feliz, meu caro amigo, tão absorto na sensação requintada da mera existência tranquila, que descuido os meus talentos. Seria incapaz de desenhar um único traço no momento presente; e, contudo, sinto que nunca fui um artista maior do que agora. Quando, enquanto o adorável vale fervilha de vapor ao meu redor, e o sol do meio-dia atinge a superfície superior da folhagem impenetrável das minhas árvores, e apenas alguns raios perdidos se esgueiram para o santuário interior, lanço-me entre a erva alta junto ao riacho que murmura; e, enquanto me deito perto da terra, mil plantas desconhecidas são notadas por mim: quando ouço o zumbido do pequeno mundo entre os talos, e me torno familiar com as incontáveis formas indescritíveis dos insetos e moscas, então sinto a presença do Todo-Poderoso, que nos formou à sua própria imagem, e o sopro daquele amor universal que nos carrega e sustenta, enquanto flutua ao nosso redor numa eternidade de felicidade; e então, meu amigo, quando a escuridão se estende sobre os meus olhos, e o céu e a terra parecem habitar na minha alma e absorver o seu poder, como a forma de uma amante amada, então penso frequentemente com saudade: Oh, pudesse eu descrever estas conceções, pudesse imprimir no papel tudo o que vive tão cheio e quente dentro de mim, para que pudesse ser o espelho da minha alma, como a minha alma é o espelho do Deus infinito! Ó meu amigo — mas é demasiado para as minhas forças — sucumbo sob o peso do esplendor destas visões!
12 DE MAIO.
Não sei se espíritos enganadores assombram este local, ou se é a imaginação quente e celestial do meu próprio coração que faz com que tudo ao meu redor pareça um paraíso. Em frente à casa há uma fonte — uma fonte à qual estou ligado por um encanto como Melusina e as suas irmãs. Descendo uma suave encosta, chega-se a um arco, onde, uns vinte passos mais abaixo, água do mais puro cristal jorra da rocha de mármore. A parede estreita que a fecha por cima, as árvores altas que circundam o local e a frescura do próprio lugar — tudo transmite uma impressão agradável, mas sublime. Não passa um dia em que eu não passe uma hora lá. As jovens donzelas vêm da cidade buscar água — emprego inocente e necessário, e antigamente a ocupação das filhas dos reis. Enquanto descanso lá, a ideia da velha vida patriarcal desperta ao meu redor. Vejo-as, os nossos velhos antepassados, como formavam as suas amizades e contraíam alianças ao lado da fonte; e sinto como as fontes e os riachos eram guardados por espíritos benéficos. Aquele que é estranho a estas sensações nunca desfrutou realmente de um repouso fresco ao lado de uma fonte após a fadiga de um dia cansativo de verão.
13 DE MAIO.
Perguntas se deves enviar-me livros. Meu caro amigo, suplico-te, pelo amor de Deus, livra-me de tal jugo! Não preciso de ser mais guiado, agitado, aquecido. O meu coração fermenta suficientemente por si mesmo. Preciso de melodias para me embalar, e encontro-as com perfeição no meu Homero. Frequentemente esforço-me por aliviar a febre ardente do meu sangue; e tu nunca presenciaste nada tão instável, tão incerto, como o meu coração. Mas preciso confessar-te isto, meu caro amigo, que tantas vezes suportaste a angústia de testemunhar as minhas mudanças repentinas da tristeza para a alegria imoderada, e da doce melancolia para paixões violentas? Trato o meu pobre coração como a uma criança doente, e satisfaço cada um dos seus caprichos. Não voltes a mencionar isto: há pessoas que me censurariam por isso.
15 DE MAIO.
As pessoas comuns do lugar já me conhecem e amam-me, particularmente as crianças. Quando, no início, me associei a elas e perguntei em tom amigável sobre as suas várias pequenas coisas, alguns imaginaram que eu queria ridicularizá-los e afastaram-se de mim com extremo mau humor. Não permiti que essa circunstância me entristecesse: apenas senti, de forma mais aguda, o que já tinha observado anteriormente. Pessoas que podem reivindicar um certo estatuto mantêm-se friamente afastadas das pessoas comuns, como se temessem perder a sua importância pelo contacto; enquanto ociosos petulantes, e aqueles que são propensos a más brincadeiras, fingem descer ao seu nível, apenas para fazer com que as pobres pessoas sintam a sua impertinência de forma mais aguda.
Sei muito bem que não somos todos iguais, nem podemos sê-lo; mas é minha opinião que aquele que evita as pessoas comuns, para não perder o seu respeito, é tão culpado quanto um covarde que se esconde do seu inimigo porque teme a derrota.
No outro dia fui à fonte e encontrei uma jovem criada, que tinha colocado o seu cântaro no degrau mais baixo e olhava ao redor para ver se uma das suas companheiras se aproximava para o colocar na sua cabeça. Corri para baixo e olhei para ela. "Ajudo-te, linda rapariga?", disse eu. Ela corou profundamente. "Oh, senhor!", exclamou ela. "Sem cerimónias!", respondi. Ela ajustou o seu toucado e ajudei-a. Ela agradeceu-me e subiu os degraus.
17 DE MAIO.
Fiz todo o tipo de conhecidos, mas ainda não encontrei companhia. Não sei que atração possuo para as pessoas, tantas gostam de mim e apegam-se a mim; e depois sinto-me triste quando o caminho que seguimos juntos vai apenas uma curta distância. Se perguntares como são as pessoas aqui, devo responder: "As mesmas de toda a parte." A raça humana não passa de um assunto monótono. A maioria delas trabalha a maior parte do seu tempo para a mera subsistência; e a escassa porção de liberdade que lhes resta preocupa-as tanto que usam todos os esforços para se livrarem dela. Oh, o destino do homem!
Mas são um tipo de gente muito boa. Se, ocasionalmente, me esqueço de mim mesmo e participo nos prazeres inocentes que ainda não estão proibidos ao campesinato, e me divirto, por exemplo, com genuína liberdade e sinceridade, em redor de uma mesa bem posta, ou organizo uma excursão ou uma dança oportunamente, e assim por diante, tudo isto produz um bom efeito na minha disposição; apenas tenho de esquecer que jazem adormecidas dentro de mim tantas outras qualidades que apodrecem inutilmente, e que sou obrigado a manter cuidadosamente escondidas. Ah! este pensamento afeta terrivelmente o meu espírito. E, contudo, ser mal compreendido é o destino dos da nossa espécie.
Ai, que o amigo da minha juventude se foi! Ai, que a conheci! Poderia dizer a mim mesmo: "Tu és um sonhador por procurares o que não se encontra aqui embaixo." Mas ela foi minha. Possuí aquele coração, aquela alma nobre, em cuja presença eu parecia ser mais do que realmente era, porque era tudo o que podia ser. Bons céus! será que um único poder da minha alma permaneceu sem exercício? Na sua presença, não pude eu exibir, na sua total extensão, aquele sentimento misterioso com que o meu coração abraça a natureza? Não era o nosso convívio um tecido perpétuo das emoções mais finas, da sagacidade mais aguda, cujas variedades, mesmo na sua própria excentricidade, traziam o selo do génio? Ai! os poucos anos em que ela era mais velha levaram-na ao túmulo antes de mim. Nunca poderei esquecer a sua mente firme ou a sua paciência celestial.
Há poucos dias encontrei um certo jovem V—, um rapaz franco e aberto, com um semblante muito agradável. Ele acaba de sair da universidade, não se julga demasiado sábio, mas acredita que sabe mais do que outras pessoas. Trabalhou muito, como posso perceber por muitas circunstâncias, e, em suma, possui um grande estoque de informações. Quando ouviu que eu desenho muito, e que sei grego (duas coisas maravilhosas para esta parte do país), veio ver-me e exibiu todo o seu estoque de conhecimentos, de Batteaux a Wood, de De Piles a Winkelmann: garantiu-me que tinha lido a primeira parte da teoria de Sultzer, e que também possuía um manuscrito da obra de Heyne sobre o estudo da antiguidade. Deixei passar tudo.
Tornei-me conhecido, também, de uma pessoa muito digna, o juiz do distrito, um homem franco e de coração aberto. Dizem-me que é uma coisa muito deliciosa vê-lo no meio dos seus filhos, dos quais tem nove. A sua filha mais velha, especialmente, é muito elogiada. Ele convidou-me para ir visitá-lo, e pretendo fazê-lo na primeira oportunidade. Ele vive num dos pavilhões de caça reais, que pode ser alcançado a partir daqui em uma hora e meia a pé, e o qual obteve permissão para habitar após a perda da sua esposa, pois é tão doloroso para ele residir na cidade e na corte.
Também se cruzaram no meu caminho alguns outros originais de um tipo questionável, que são em todos os aspetos indesejáveis e muito intoleráveis na sua demonstração de amizade. Adeus. Esta carta agradar-te-á: é bastante histórica.
22 DE MAIO.
Que a vida do homem não passa de um sonho, muitos homens supuseram anteriormente; e eu, também, sou perseguido por toda a parte por este sentimento. Quando considero os limites estreitos dentro dos quais as nossas faculdades ativas e inquiridoras estão confinadas; quando vejo como todas as nossas energias são desperdiçadas em providenciar meras necessidades, que por sua vez não têm outro fim senão prolongar uma existência miserável; e então que toda a nossa satisfação sobre certos assuntos de investigação termina em nada melhor do que uma resignação passiva, enquanto nos divertimos pintando as paredes da nossa prisão com figuras brilhantes e paisagens resplandecentes — quando considero tudo isto, Wilhelm, calo-me. Examino o meu próprio ser e encontro lá um mundo, mas um mundo mais de imaginação e desejos difusos, do que de nitidez e poder vivo. Então tudo nada diante dos meus sentidos, e sorrio e sonho enquanto sigo o meu caminho através do mundo.
Todos os professores e doutores eruditos concordam que as crianças não compreendem a causa dos seus desejos; mas que os adultos vagueiem por esta terra como crianças, sem saber de onde vêm, ou para onde vão, influenciados tão pouco por motivos fixos, mas guiados como eles por bolachas, doces e a vara — isto é o que ninguém quer reconhecer; e, contudo, penso que é palpável.
Sei o que dirás em resposta; pois estou pronto a admitir que os mais felizes são aqueles que, como as crianças, se divertem com os seus brinquedos, vestem e despem as suas bonecas, e observam atentamente o armário onde a mamã trancou as suas guloseimas, e, quando finalmente obtêm um bocado delicioso, comem-no avidamente e exclamam: "Mais!" Estes são certamente seres felizes; mas outros também são objetos de inveja, que dignificam as suas ocupações mesquinhas, e por vezes até as suas paixões, com títulos pomposos, representando-as à humanidade como realizações gigantescas feitas para o seu bem-estar e glória. Mas o homem que humildemente reconhece a vaidade de tudo isto, que observa com que prazer o cidadão próspero converte o seu pequeno jardim num paraíso, e quão pacientemente até o homem pobre segue o seu caminho cansativo sob o seu fardo, e como todos desejam igualmente contemplar a luz do sol um pouco mais — sim, tal homem está em paz, e cria o seu próprio mundo dentro de si mesmo; e ele também é feliz, porque é um homem. E então, por muito limitado que seja o seu campo, ele ainda preserva no seu peito o doce sentimento de liberdade, e sabe que pode deixar a sua prisão sempre que quiser.
26 DE MAIO.
Conheces de longa data os meus modos de me instalar em qualquer lugar, de selecionar uma pequena casa num local acolhedor e de me acomodar nela com todos os inconvenientes. Aqui, também, descobri um lugar tão confortável e aconchegante, que possui encantos peculiares para mim.
A cerca de uma légua da cidade há um lugar chamado Walheim. (O leitor não precisa de se dar ao trabalho de procurar o lugar assim designado. Achámos necessário alterar os nomes dados no original.) Está maravilhosamente situado na encosta de uma colina; e, seguindo um dos caminhos que saem da aldeia, pode-se ter uma vista de todo o vale. Uma boa velha vive lá, que mantém uma pequena estalagem. Ela vende vinho, cerveja e café, e é alegre e agradável apesar da sua idade. O principal encanto deste local consiste em duas tílias, espalhando os seus ramos enormes sobre o pequeno verde em frente à igreja, que é inteiramente rodeada por casas de camponeses, celeiros e propriedades. Raramente vi um lugar tão retirado e pacífico; e, muitas vezes, peço que tragam a minha mesa e a minha cadeira da pequena estalagem, bebo o meu café lá e leio o meu Homero. O acaso levou-me ao local numa bela tarde, e encontrei-o perfeitamente deserto. Todos estavam nos campos, exceto um pequeno rapaz de cerca de quatro anos, que estava sentado no chão e segurava entre os joelhos uma criança de cerca de seis meses: apertava-a contra o seu peito com ambos os braços, que formavam assim uma espécie de poltrona; e, apesar da vivacidade que brilhava nos seus olhos negros, ela permanecia perfeitamente imóvel. A visão encantou-me. Sentei-me num arado em frente e esbocei com grande deleite este pequeno quadro de ternura fraternal. Adicionei a sebe vizinha, a porta do celeiro e algumas rodas de carro quebradas, tal como estavam dispostas; e descobri, em cerca de uma hora, que tinha feito um desenho muito correto e interessante, sem colocar a mínima coisa minha. Isto confirmou-me a minha resolução de aderir, no futuro, inteiramente à natureza. Ela, por si só, é inesgotável e capaz de formar os maiores mestres. Muito se pode alegar a favor das regras, assim como muito se pode igualmente adiantar a favor das leis da sociedade: um artista formado nelas nunca produzirá nada absolutamente mau ou repugnante; tal como um homem que observa as leis e obedece ao decoro nunca poderá ser um vizinho absolutamente intolerável, nem um vilão declarado: mas, ainda assim, digas o que disseres sobre as regras, elas destroem o sentimento genuíno da natureza, bem como a sua verdadeira expressão. Não me digas "que isto é demasiado duro, que elas apenas restringem e podam os ramos supérfluos, etc." Meu bom amigo, ilustrarei isto por uma analogia. Estas coisas assemelham-se ao amor. Um jovem de coração quente torna-se fortemente afeiçoado a uma donzela: ele passa cada hora do dia na sua companhia, esgota a sua saúde e esbanja a sua fortuna, para proporcionar prova contínua de que lhe é inteiramente devotado. Depois vem um homem do mundo, um homem de posição e respeitabilidade, e dirige-se a ele assim: "Meu bom jovem amigo, o amor é natural; mas deves amar dentro de limites. Divide o teu tempo: dedica uma porção aos negócios e dá as horas de recreação à tua amante. Calcula a tua fortuna; e do supérfluo podes fazer-lhe um presente, apenas não demasiado frequentemente — no seu aniversário e em ocasiões semelhantes." Seguindo este conselho, ele pode tornar-se um membro útil da sociedade, e eu aconselharia qualquer príncipe a dar-lhe um cargo; mas está tudo acabado com o seu amor, e com o seu génio se ele for um artista. Ó meu amigo! por que é que a torrente do génio tão raramente irrompe, tão raramente rola num fluxo pleno, sobrecarregando a tua alma assombrada? Porque, de ambos os lados deste fluxo, pessoas frias e respeitáveis estabeleceram as suas moradas, e, na verdade, os seus pavilhões de verão e canteiros de tulipas sofreriam com a torrente; por isso, cavam valas e levantam diques atempadamente, a fim de evitar o perigo iminente.
27 DE MAIO.
Descobri que me perdi em arrebatamentos, declamações e símiles, e esqueci-me, por conseguinte, de vos dizer o que aconteceu às crianças. Absorto nas minhas contemplações artísticas, que descrevi brevemente na minha carta de ontem, continuei sentado no arado durante duas horas. Perto da noite, uma jovem, com um cesto no braço, veio a correr na direção das crianças, que não se tinham movido durante todo aquele tempo. Exclamou de longe: "És um bom rapaz, Philip!" Saudou-me: retribuí, levantei-me e aproximei-me dela. Perguntei se era a mãe daquelas lindas crianças. "Sim", disse ela; e, dando ao mais velho um pedaço de pão, tomou o mais pequeno nos braços e beijou-o com a ternura de uma mãe. "Deixei o meu filho ao cuidado do Philip", disse ela, "enquanto ia à cidade com o meu filho mais velho comprar pão de trigo, açúcar e um pote de barro." Vi os vários artigos no cesto, do qual a tampa tinha caído. "Vou fazer um caldo hoje à noite para o meu pequeno Hans (que era o nome do mais novo): aquele selvagem, o mais velho, partiu-me o pote ontem, enquanto lutava com o Philip pelo que restava do conteúdo." Perguntei pelo mais velho; e ela mal teve tempo de me dizer que ele estava a levar um par de gansos da pradaria para casa, quando ele surgiu a correr e entregou ao Philip um ramo de vime. Falei um pouco mais com a mulher e descobri que ela era filha do professor da escola e que o seu marido tinha ido numa viagem à Suíça buscar algum dinheiro que um parente lhe tinha deixado. "Queriam enganá-lo", disse ela, "e não queriam responder às suas cartas; por isso, ele próprio foi lá. Espero que não tenha tido nenhum acidente, pois não tive notícias dele desde a sua partida." Deixei a mulher com pesar, dando a cada uma das crianças um kreutzer, com um extra para o mais novo, para comprar pão de trigo para o seu caldo quando ela fosse à cidade na próxima vez; e assim nos despedimos. Garanto-vos, meu caro amigo, que, quando os meus pensamentos estão em alvoroço, a visão de uma criatura como esta tranquiliza a minha mente perturbada. Ela move-se num feliz desleixo dentro do círculo restrito da sua existência; satisfaz as suas necessidades de dia para dia; e, quando vê as folhas cair, não lhes surge na mente outra ideia senão a de que o inverno se aproxima. Desde esse momento, tenho ido lá frequentemente. As crianças tornaram-se bastante familiares comigo; e cada uma recebe um torrão de açúcar quando bebo o meu café, e partilham o meu leite e pão com manteiga à noite. Recebem sempre o seu kreutzer aos domingos, pois a boa mulher tem ordens para lhos dar quando não vou lá depois do serviço religioso da tarde. Sentem-se perfeitamente à vontade comigo, contam-me tudo; e divirto-me particularmente a observar os seus temperamentos e a simplicidade do seu comportamento quando algumas das outras crianças da aldeia se juntam a elas.
Deu-me muito trabalho satisfazer a ansiedade da mãe, para que (como ela diz) "eles não incomodem o senhor".
30 DE MAIO.
O que disse recentemente sobre a pintura é igualmente verdadeiro no que diz respeito à poesia. É apenas necessário que saibamos o que é realmente excelente e que nos atrevamos a dar-lhe expressão; e isso é dizer muito em poucas palavras. Hoje tive uma cena que, se fosse literalmente relatada, tornaria o mais belo idílio do mundo. Mas por que hei de falar de poesia, de cenas e de idílios? Poderemos nunca tirar prazer da natureza sem recorrer à arte?
Se esperais algo grandioso ou magnífico desta introdução, ficareis tristemente desiludidos. Refere-se meramente a um camponês, que despertou em mim o maior interesse. Como de costume, contarei mal a minha história; e vós, como de costume, achar-me-eis extravagante. É Walheim mais uma vez — sempre Walheim — que produz estes fenómenos maravilhosos.
Um grupo tinha-se reunido fora da casa, debaixo das tílias, para beber café. A companhia não me agradou propriamente; e, sob um pretexto ou outro, fiquei para trás.
Um camponês veio de uma casa adjacente e pôs-se a trabalhar, arranjando uma parte do mesmo arado que eu tinha esboçado recentemente. A sua aparência agradou-me; e falei com ele, perguntei-lhe sobre as suas circunstâncias, fiz amizade com ele e, como é meu hábito com pessoas dessa classe, fui logo admitido na sua confiança. Disse que estava ao serviço de uma jovem viúva, que tinha em grande conta. Falou tanto da sua patroa e elogiou-a de forma tão extravagante que logo pude perceber que estava perdidamente apaixonado por ela. "Ela já não é jovem", disse ele: "e foi tão mal tratada pelo seu antigo marido que não tenciona casar-se de novo." Pelo seu relato, era tão evidente que encantos incomparáveis ela possuía para ele, e como ansiava ardentemente que ela o escolhesse para apagar a recordação da má conduta do seu primeiro marido, que eu teria de repetir as suas próprias palavras para descrever a profundidade do apego, da verdade e da devoção daquele pobre homem. Seria, de facto, necessário o dom de um grande poeta para transmitir a expressão dos seus traços, a harmonia da sua voz e o fogo celestial dos seus olhos. Palavras nenhumas podem retratar a ternura de cada um dos seus movimentos e de cada traço: nenhum esforço meu poderia fazer justiça à cena. O seu receio de que eu pudesse interpretar mal a sua posição em relação à sua patroa, ou questionar a retidão da sua conduta, tocou-me particularmente. A forma encantadora com que descreveu a sua figura e pessoa, que, sem possuir as graças da juventude, o conquistou e o prendeu a ela, é inexprimível e deve ser deixada à imaginação. Nunca na minha vida presenciei, imaginei ou concebi a possibilidade de tal devoção intensa, de tão ardentes afeições, unidas a tanta pureza. Não me censureis se disser que a recordação desta inocência e verdade está profundamente gravada na minha própria alma; que este quadro de fidelidade e ternura me persegue por toda a parte; e que o meu próprio coração, como se acendido pela chama, brilha e arde dentro de mim.
Pretendo agora tentar vê-la assim que puder: ou talvez, pensando melhor, seria melhor não o fazer; é melhor que a contemple através dos olhos do seu amante. Aos meus olhos, talvez, ela não aparecesse como agora está perante mim; e por que hei de destruir um quadro tão doce?
16 DE JUNHO.
"Por que é que não vos escrevo?" Vós reivindicais a erudição e fazeis tal pergunta. Teríeis de ter adivinhado que estou bem — isto é, numa palavra, fiz um conhecimento que conquistou o meu coração: eu tenho... não sei.
Dar-vos um relato regular da maneira como conheci a mais amável das mulheres seria uma tarefa difícil. Sou um mortal feliz e contente, mas um péssimo historiador.
Um anjo! Disparate! Toda a gente descreve assim a sua amada; e, contudo, acho impossível dizer-vos o quão perfeita ela é, ou por que é tão perfeita: basta dizer que ela cativou todos os meus sentidos.
Tanta simplicidade com tanta compreensão — tão doce e, contudo, tão resoluta — uma mente tão plácida e uma vida tão ativa.
Mas tudo isto é uma treta feia, que não exprime um único caráter nem traço. Noutra altura — mas não, não noutra altura, agora, neste preciso instante, vou contar-vos tudo sobre isso. Agora ou nunca. Bem, entre nós, desde que comecei a minha carta, estive três vezes prestes a atirar a caneta, mandar preparar o meu cavalo e sair a cavalgar. E, contudo, jurei esta manhã que não cavalgaria hoje, e ainda assim, a cada momento, corro à janela para ver a altura que o sol vai.
Não me consegui conter — tenho de ir ter com ela. Acabei de regressar, Wilhelm; e enquanto ceno, escrever-vos-ei. Que deleite foi para a minha alma vê-la no meio dos seus queridos e belos filhos — oito irmãos e irmãs!
Mas, se continuar assim, não ficareis mais esclarecidos no fim da minha carta do que estáveis no início. Atentai, então, e obrigar-me-ei a dar-vos os detalhes.
Mencionei-vos no outro dia que tinha conhecido S—, o juiz distrital, e que ele me tinha convidado a ir visitá-lo na sua reforma, ou melhor, no seu pequeno reino. Mas negligenciei a ida e talvez nunca lá tivesse ido se o acaso não me tivesse revelado o tesouro que jazia escondido naquele lugar remoto. Alguns dos nossos jovens propuseram dar um baile no campo, ao qual aceitei comparecer. Ofereci a minha mão para a noite a uma rapariga bonita e agradável, mas bastante banal, das redondezas; e ficou acordado que eu alugaria uma carruagem e passaria por Charlotte, com a minha companheira e a sua tia, para as levar ao baile. A minha companheira informou-me, enquanto conduzíamos pelo parque até ao pavilhão de caça, que eu conheceria uma jovem muito encantadora. "Tende cuidado", acrescentou a tia, "para não perderdes o coração." "Porquê?", disse eu. "Porque ela já está comprometida com um homem muito digno", respondeu ela, "que foi tratar dos seus assuntos após a morte do pai e herdará uma herança bastante considerável." Esta informação não despertou qualquer interesse em mim. Quando chegámos ao portão, o sol punha-se por detrás do topo das montanhas. A atmosfera estava pesada; e as senhoras expressaram os seus receios de uma tempestade iminente, pois massas de nuvens negras e baixas acumulavam-se no horizonte. Aliviei as suas ansiedades fingindo que percebia de meteorologia, embora eu próprio tivesse alguns receios de que o nosso prazer fosse interrompido.
Desci; e uma criada veio à porta e pediu-nos que esperássemos um momento pela sua patroa. Atravessei o pátio até uma casa bem construída e, subindo o lanço de escadas à frente, abri a porta e vi diante de mim o espetáculo mais encantador que alguma vez presenciei. Seis crianças, dos onze aos dois anos, corriam pelo corredor e rodeavam uma senhora de estatura média, com uma figura adorável, vestida com um robe branco simples, debruado com fitas cor-de-rosa. Ela segurava um pão de centeio na mão e cortava fatias para os mais pequenos à volta, em proporção à sua idade e apetite. Desempenhava a sua tarefa de uma forma graciosa e carinhosa; cada pretendente aguardava a sua vez com as mãos estendidas e gritando ruidosamente os seus agradecimentos. Algumas delas fugiam logo para desfrutar da sua refeição noturna; enquanto outras, de índole mais suave, retiravam-se para o pátio para ver os estranhos e observar a carruagem em que a sua Charlotte ia partir. "Por favor, perdoem-me por vos dar o trabalho de virem buscar-me e por fazer as senhoras esperar: mas vestir-me e tratar de alguns deveres domésticos antes de sair fez-me esquecer o jantar dos meus filhos; e eles não gostam de o tomar de mais ninguém senão de mim." Proferi um elogio indiferente: mas toda a minha alma estava absorvida pelo seu porte, pela sua voz, pela sua maneira; e mal me tinha recuperado quando ela correu para o seu quarto para buscar as suas luvas e leque. Os mais novos lançavam-me olhares inquisidores de longe; enquanto eu me aproximava do mais novo, uma criaturinha deliciosa. Ele recuou; e Charlotte, entrando no mesmo momento, disse: "Louis, dá um aperto de mão ao teu primo." O pequeno obedeceu de bom grado; e não resisti a dar-lhe um beijo carinhoso, apesar da sua cara um pouco suja. "Prima", disse eu a Charlotte, enquanto a ajudava a descer, "achais que mereço a felicidade de ser vosso parente?" Ela respondeu, com um sorriso pronto: "Oh! Tenho tantos primos que lamentaria se vós fôsseis o mais indigno deles." Ao despedir-se, pediu à sua irmã mais nova, Sophy, uma rapariga de cerca de onze anos, que tivesse muito cuidado com as crianças e que desse um beijo de despedida ao papá por ela quando ele chegasse a casa do seu passeio a cavalo. Pediu aos mais pequenos que obedecessem à sua irmã Sophy como obedeceriam a ela própria, ao que alguns prometeram fazê-lo; mas uma menina de cabelos loiros, de cerca de seis anos, pareceu descontente e disse: "Mas a Sophy não és tu, Charlotte; e gostamos mais de ti." Os dois rapazes mais velhos tinham subido para a carruagem; e, a meu pedido, ela permitiu que nos acompanhassem um pouco pela floresta, com a promessa de que se sentariam muito quietos e se segurariam bem.
Mal estávamos sentados, e as senhoras mal tinham trocado cumprimentos, fazendo as observações habituais sobre o traje uma da outra e sobre a companhia que esperavam encontrar, quando Charlotte mandou parar a carruagem e fez os seus irmãos descerem. Insistiram em beijar-lhe as mãos mais uma vez; o que o mais velho fez com toda a ternura de um jovem de quinze anos, mas o outro de uma forma mais leve e descuidada. Ela pediu-lhes novamente que dessem um beijo da sua parte às crianças, e partimos.
A tia perguntou a Charlotte se tinha terminado o livro que lhe tinha enviado ultimamente. "Não", disse Charlotte; "não gostei: pode levá-lo de volta. E o anterior não era muito melhor." Fiquei surpreendido, ao perguntar o título, por saber que era ____. (Sentimo-nos na obrigação de suprimir a passagem na carta, para evitar que alguém se sinta ofendido; embora nenhum autor precise de prestar muita atenção à opinião de uma simples rapariga, ou à de um jovem inconstante.)
Encontrei perspicácia e caráter em tudo o que ela dizia: cada expressão parecia iluminar os seus traços com novos encantos — com novos raios de génio — que se revelavam gradualmente, à medida que se sentia compreendida.
"Quando eu era mais nova", observou ela, "não gostava de nada tanto como de romances. Nada podia igualar o meu deleite quando, num feriado qualquer, me podia sentar tranquilamente num canto e entrar com todo o meu coração e alma nas alegrias ou tristezas de uma Leonora fictícia. Não nego que ainda possuem alguns encantos para mim. Mas leio tão raramente que prefiro livros adaptados exatamente ao meu gosto. E gosto mais dos autores cujas cenas descrevem a minha própria situação na vida — e os amigos que me rodeiam, cujas histórias me tocam com interesse, por se assemelharem à minha própria existência caseira — que, sem ser absolutamente o paraíso, é, no geral, uma fonte de felicidade indescritível."
Tentei esconder a emoção que estas palavras provocaram, mas foi de pouca utilidade; pois, quando ela expressou tão verdadeiramente a sua opinião sobre "O Vigário de Wakefield" e sobre outras obras, cujos nomes omito (Embora os nomes sejam omitidos, os autores mencionados merecem a aprovação de Charlotte e senti-la-ão nos seus corações quando lerem esta passagem. Não diz respeito a mais ninguém.), não me consegui conter mais, mas dei livre expressão ao que pensava disso: e só quando Charlotte se dirigiu às outras duas senhoras é que me lembrei da presença delas e as observei sentadas, mudas de espanto. A tia olhou para mim várias vezes com um ar de galhofa, que, contudo, não me importou minimamente.
Falámos dos prazeres da dança. "Se é um defeito amá-la", disse Charlotte, "estou pronta a confessar que a prezo acima de todos os outros divertimentos. Se algo me perturba, vou ao piano, toco uma ária com que dancei, e tudo volta ao normal imediatamente."
Vós, que me conheceis, podeis imaginar quão fixamente olhei para os seus olhos escuros e profundos durante estas observações, como a minha própria alma se banqueteou nos seus lábios quentes e faces frescas e resplandecentes, como me perdi completamente no significado delicioso das suas palavras, tanto que mal ouvi as expressões reais. Em suma, desci da carruagem como uma pessoa num sonho e estava tão perdido para o mundo ténue que me rodeava, que mal ouvi a música que ressoava do salão de baile iluminado.
Os dois Srs. Andran e um certo N. N. (não me posso preocupar com os nomes), que eram os pares da tia e de Charlotte, receberam-nos à porta da carruagem e tomaram posse das suas senhoras, enquanto eu segui com a minha.
Começámos com um minueto. Convidei uma senhora após outra, e precisamente as que eram mais desagradáveis não se conseguiam decidir a parar. Charlotte e o seu par começaram uma dança de campo inglesa, e deveis imaginar o meu deleite quando chegou a vez deles dançarem a figura connosco. Deveríeis ver a Charlotte dançar. Ela dança com todo o seu coração e alma: a sua figura é toda harmonia, elegância e graça, como se ela não tivesse consciência de mais nada e não tivesse outro pensamento ou sentimento; e, sem dúvida, por um momento, qualquer outra sensação está extinta.
Ela estava comprometida para a segunda dança de campo, mas prometeu-me a terceira e garantiu-me, com a mais agradável liberdade, que gostava muito de valsas. "É o costume aqui", disse ela, "que os pares anteriores valssem juntos; mas o meu par é um valsista indiferente e sentir-se-á encantado se eu o poupar ao trabalho. O vosso par não tem permissão para valsar e, de facto, é igualmente incapaz: mas observei durante a dança de campo que valsais bem; por isso, se quiserdes valsar comigo, rogo-vos que o proponhais ao meu par, e eu propô-lo-ei à vossa." Acordámos, e ficou combinado que os nossos pares se entretivessem mutuamente.
Partimos e, a princípio, deliciámo-nos com os habituais movimentos graciosos dos braços. Com que graça, com que facilidade ela se movia! Quando a valsa começou e os dançarinos giraram uns à volta dos outros no labirinto vertiginoso, houve alguma confusão, devido à incapacidade de alguns dos dançarinos. Permanecemos sensatamente imóveis, deixando os outros cansarem-se; e, quando os dançarinos desajeitados se retiraram, juntámo-nos e mantivemo-nos firmes com outro casal — Andran e o seu par. Nunca dancei tão levemente. Senti-me mais do que mortal, segurando esta mais adorável das criaturas nos meus braços, voando com ela tão rapidamente como o vento, até perder de vista qualquer outro objeto; e ó Wilhelm, jurei naquele momento que uma donzela a quem eu amasse, ou por quem sentisse o menor apego, nunca, nunca deveria valsar com mais ninguém senão comigo, mesmo que isso me custasse a perdição! — vós compreendereis isto.
Demos algumas voltas na sala para recuperar o fôlego. Charlotte sentou-se e sentiu-se refrescada ao provar algumas laranjas que eu tinha assegurado — as únicas que tinham sobrado; mas a cada fatia que, por cortesia, ela oferecia aos seus vizinhos, sentia como se um punhal me atravessasse o coração.
Éramos o segundo casal na terceira dança de campo. Enquanto descíamos (e o Céu sabe com que êxtase contemplei os seus braços e olhos, a brilhar com o mais doce sentimento de puro e genuíno prazer), passámos por uma senhora que eu tinha notado pela sua expressão encantadora de semblante; embora já não fosse jovem. Ela olhou para Charlotte com um sorriso, depois, levantando o dedo numa atitude ameaçadora, repetiu duas vezes num tom de voz muito significativo o nome de "Albert".
"Quem é Albert", disse eu a Charlotte, "se não for indiscrição perguntar?" Ela estava prestes a responder, quando fomos obrigados a separar-nos para executar uma figura da dança; e, ao cruzarmos de novo um à frente do outro, percebi que ela parecia algo pensativa. "Por que razão o hei de esconder de si?", disse ela, ao dar-me a mão para o passeio. "Albert é um homem digno, com quem estou noiva." Ora, não havia nada de novo nisto para mim (pois as raparigas tinham-mo contado pelo caminho); mas era novo na medida em que eu não tinha pensado nisso em relação a ela, a quem, em tão pouco tempo, tinha aprendido a estimar tanto. Basta dizer que fiquei confuso, perdi o passo na figura e causei uma confusão geral; de modo que foi necessária toda a presença de espírito de Charlotte para me pôr no caminho certo, puxando-me e empurrando-me para o meu lugar devido.
A dança ainda não tinha terminado quando o relâmpago, que já se via há algum tempo no horizonte e que eu tinha afirmado provir inteiramente do calor, tornou-se mais violento; e o trovão ouviu-se por cima da música. Quando qualquer aflição ou terror nos surpreende a meio dos nossos divertimentos, causa naturalmente uma impressão mais profunda do que noutras ocasiões, quer porque o contraste nos torna mais sensíveis, ou talvez porque os nossos sentidos estão então mais abertos a impressões, e o choque é, consequentemente, mais forte. A esta causa devo atribuir o susto e os gritos das senhoras. Uma sentou-se sagazmente num canto, de costas para a janela, e tapou os ouvidos com os dedos; uma segunda ajoelhou-se diante dela e escondeu o rosto no seu colo; uma terceira atirou-se entre elas e abraçou a irmã com mil lágrimas; algumas insistiam em ir para casa; outras, inconscientes das suas ações, não tinham presença de espírito suficiente para reprimir a impertinência dos seus jovens parceiros, que procuravam dirigir a si próprios os suspiros que os lábios das nossas agitadas beldades destinavam ao céu. Alguns dos cavalheiros tinham descido para fumar um charuto tranquilamente, e o resto da companhia aceitou de bom grado uma sugestão feliz da anfitriã para se retirar para outra sala, equipada com persianas e cortinas. Mal chegámos lá, Charlotte dispôs as cadeiras em círculo; e, quando a companhia se sentou em conformidade com o seu pedido, ela propôs imediatamente um jogo de roda.
Notei que alguns dos presentes preparavam a boca e aprumavam-se perante a perspetiva de algum penhor agradável. "Vamos jogar a contar", disse Charlotte. "Agora, prestem atenção: vou percorrer o círculo da direita para a esquerda; e cada pessoa deve contar, uma após a outra, o número que lhe cabe, e deve contar depressa; quem parar ou se enganar deve levar uma bofetada, e assim sucessivamente, até contarmos mil." Era encantador ver a diversão. Ela percorreu o círculo com o braço levantado. "Um", disse o primeiro; "dois", o segundo; "três", o terceiro; e assim por diante, até que Charlotte ia cada vez mais depressa. Alguém se enganava, imediatamente uma bofetada; e, entre as gargalhadas que se seguiam, vinha outra bofetada; e assim por diante, cada vez mais depressa. Eu próprio levei duas. Imaginei que eram mais fortes do que as outras e senti-me muito satisfeito. Uma gargalhada geral e a confusão puseram fim ao jogo muito antes de termos contado até mil. O grupo dispersou-se em pequenos círculos separados: a tempestade tinha cessado e eu segui Charlotte para o salão de baile. Pelo caminho, ela disse: "O jogo afastou o medo que tinham da tempestade." Não pude responder. "Eu própria", continuou ela, "estava tão assustada como qualquer um deles; mas, fingindo coragem para manter o espírito dos outros, esqueci os meus receios." Fomos até à janela. Ainda trovejava ao longe: uma chuva suave caía sobre o campo e enchia o ar à nossa volta com odores deliciosos. Charlotte inclinou-se sobre o braço; os seus olhos vaguearam pela paisagem; levantou-os para o céu e depois voltou-os para mim; estavam húmidos de lágrimas; ela pousou a mão sobre a minha e disse: "Klopstock!" De imediato, lembrei-me da magnífica ode que estava nos seus pensamentos: senti-me oprimido pelo peso das minhas sensações e sucumbi perante elas. Era mais do que eu podia suportar. Inclinei-me sobre a sua mão, beijei-a num fluxo de lágrimas deliciosas e voltei a olhar para os seus olhos. Divino Klopstock! Por que não viste tu a tua apoteose naqueles olhos? E o teu nome, tantas vezes profanado, oxalá eu nunca o tivesse ouvido repetir!
19 DE JUNHO.
Já não me lembro onde parei na minha narrativa: só sei que eram duas da manhã quando fui para a cama; e se estivesses comigo, para que eu pudesse falar em vez de te escrever, teria, com toda a probabilidade, mantido acordado até ao amanhecer.
Creio que ainda não relatei o que aconteceu quando vínhamos a cavalo do baile, nem tenho tempo para to contar agora. Foi um nascer do sol magnífico: toda a paisagem estava refrescada e a chuva caía gota a gota das árvores na floresta. Os nossos companheiros estavam a dormir. Charlotte perguntou-me se eu não queria dormir também e pediu-me para não fazer cerimónias por causa dela. Olhando fixamente para ela, respondi: "Enquanto eu vir esses olhos abertos, não há perigo de eu adormecer." Continuámos ambos acordados até chegarmos à sua porta. A criada abriu-a suavemente e assegurou-lhe, em resposta às suas perguntas, que o pai e as crianças estavam bem e ainda a dormir. Deixei-a a pedir permissão para a visitar no decorrer do dia. Ela consentiu, e eu fui, e, desde esse momento, o sol, a lua e as estrelas podem seguir o seu curso: não sei se é dia ou noite; o mundo inteiro não é nada para mim.
21 DE JUNHO.
Os meus dias são tão felizes como aqueles reservados por Deus para os seus eleitos; e, qualquer que seja o meu destino daqui para a frente, nunca poderei dizer que não provei a alegria — a alegria mais pura da vida. Conheces Walheim. Estou agora completamente instalado lá. Naquele lugar, estou a apenas meia légua de Charlotte; e lá divirto-me e saboreio todo o prazer que pode caber ao lote de um homem.
Pouco imaginava, quando escolhi Walheim para as minhas excursões a pé, que todo o céu estava tão perto dele. Quantas vezes, nas minhas deambulações pela encosta ou pelos prados do outro lado do rio, contemplei este pavilhão de caça, que agora encerra em si toda a alegria do meu coração!
Refleti muitas vezes, meu caro Wilhelm, sobre a ânsia que os homens sentem de vaguear e fazer novas descobertas, e sobre esse impulso secreto que depois os inclina a regressar ao seu círculo estreito, a conformarem-se com as leis do costume e a não se embaraçarem mais com o que se passa à sua volta.
É tão estranho como, quando cheguei aqui pela primeira vez e contemplei aquele vale adorável da encosta, me senti encantado com toda a cena que me rodeava. O pequeno bosque em frente — quão delicioso é sentar-se sob a sua sombra! Quão bela é a vista daquele rochedo! Depois, aquela encantadora cadeia de colinas e os vales requintados aos seus pés! Se eu pudesse vaguear e perder-me entre eles! Fui e voltei sem encontrar o que desejava. A distância, meu amigo, é como o futuro. Uma vastidão ténue estende-se perante as nossas almas: as perceções da nossa mente são tão obscuras como as da nossa visão; e desejamos ardentemente entregar todo o nosso ser, para que seja preenchido com a felicidade completa e perfeita de uma emoção gloriosa. Mas, ai de mim! Quando atingimos o nosso objetivo, quando o lá distante se torna o aqui presente, tudo muda: somos tão pobres e limitados como sempre, e as nossas almas continuam a definhar por uma felicidade inalcançável.
Assim suspira o viajante inquieto pelo seu solo natal e encontra na sua própria cabana, nos braços da sua mulher, no afeto dos seus filhos e no trabalho necessário para o seu sustento, a felicidade que procurara em vão por todo o mundo.
Quando, de manhã, ao nascer do sol, vou até Walheim e colho com as minhas próprias mãos, na horta, as ervilhas que servirão para o meu jantar, quando me sento a descascá-las e leio o meu Homero nos intervalos, e depois, escolhendo um tacho da cozinha, vou buscar a minha própria manteiga, ponho a comida ao lume, tapo-a e sento-me a mexer, conforme a ocasião exige, imagino os ilustres pretendentes de Penélope, a matar, a preparar e a cozinhar os seus próprios bois e porcos. Nada me enche com um sentido de felicidade mais puro e genuíno do que esses traços da vida patriarcal que, graças a Deus!, posso imitar sem afetação. Feliz é, de facto, para mim, que o meu coração seja capaz de sentir o mesmo prazer simples e inocente que o camponês cuja mesa está coberta com comida cultivada por si mesmo, e que não só desfruta da sua refeição, mas recorda com deleite os dias felizes e as manhãs ensolaradas em que a plantou, as noites suaves em que a regou e o prazer que sentiu ao ver o seu crescimento diário.
29 DE JUNHO.
Anteontem, o médico da cidade veio fazer uma visita ao juiz. Encontrou-me no chão a brincar com os filhos de Charlotte. Alguns deles trepavam por cima de mim e outros brincavam comigo; e, enquanto eu os apanhava e fazia cócegas, eles faziam um grande barulho. O médico é uma personagem formal: ajusta as pregas dos seus folhos e ajeita continuamente a sua gola enquanto fala connosco; e achou que a minha conduta estava abaixo da dignidade de um homem sensato. Percebi isso pela sua expressão. Mas não me deixei perturbar. Deixei-o continuar a sua conversa sábia, enquanto reconstruía as casas de cartas das crianças, tão depressa quanto eles as derrubavam. Depois, ele andou pela cidade a queixar-se de que os filhos do juiz já estavam suficientemente estragados, mas que agora Werther os estava a arruinar completamente.
Sim, meu caro Wilhelm, nada neste mundo afeta tanto o meu coração como as crianças. Quando observo as suas ações; quando noto naquelas pequenas criaturas as sementes de todas as virtudes e qualidades que um dia acharão tão indispensáveis; quando contemplo nos obstinados toda a futura firmeza e constância de um caráter nobre; nos caprichosos, aquela leviandade e alegria de temperamento que os levará levemente sobre os perigos e problemas da vida, toda a sua natureza simples e impoluta — então lembro-me das palavras douradas do Grande Mestre da humanidade: "A não ser que vos torneis como um deles!" E agora, meu amigo, estas crianças, que são as nossas iguais, que deveríamos considerar como os nossos modelos, tratamo-las como se fossem nossos súbditos. Não lhes é permitida vontade própria. E teremos nós, então, alguma? De onde vem o nosso direito exclusivo? Será porque somos mais velhos e temos mais experiência? Grande Deus! Do alto do teu céu contemplas grandes crianças e pequenas crianças, e mais nenhumas; e o teu Filho declarou há muito quem te causa maior prazer. Mas eles acreditam nele e não o ouvem — isso também é uma velha história; e educam os seus filhos à sua própria imagem, etc.
Adeus, Wilhelm: não me vou desorientar mais com este assunto.
1 DE JULHO.
O consolo que Charlotte pode trazer a um inválido, eu experimento-o do meu próprio coração, que sofre mais com a sua ausência do que muitas pobres criaturas a definhar numa cama de doença. Ela foi passar uns dias à cidade com uma mulher muito digna, que foi desenganada pelos médicos e deseja ter Charlotte perto de si nos seus últimos momentos. Acompanhei-a na semana passada numa visita ao vigário de S—, uma pequena aldeia nas montanhas, a cerca de uma légua daqui. Chegámos por volta das quatro horas: Charlotte tinha levado a sua irmã mais nova consigo. Quando entrámos no pátio da reitoria, encontrámos o bom e velho homem sentado num banco à porta, sob a sombra de duas grandes nogueiras. À vista de Charlotte, pareceu ganhar nova vida, levantou-se, esqueceu a bengala e aventurou-se a caminhar na direção dela. Ela correu para ele e fê-lo sentar-se de novo; depois, sentando-se ao seu lado, deu-lhe uma série de mensagens do pai e pegou na sua filha mais nova, uma coisinha suja e feia, a alegria da sua velhice, e beijou-a. Oxalá pudesses ter testemunhado a sua atenção para com este velho — como ela levantava a voz por causa da sua surdez; como lhe falava de jovens saudáveis que tinham sido levados quando menos se esperava; elogiava as virtudes de Carlsbad e elogiava a sua determinação em passar lá o verão seguinte; e assegurava-lhe que ele parecia melhor e mais forte do que quando o viu pela última vez. Eu, entretanto, prestei atenção à sua boa senhora. O velho parecia muito animado; e, como não podia deixar de admirar a beleza das nogueiras, que formavam uma sombra tão agradável sobre as nossas cabeças, ele começou, embora com alguma dificuldade, a contar-nos a sua história. "Quanto à mais velha", disse ele, "não sabemos quem a plantou — alguns dizem que foi um clérigo, outros dizem que foi outro: mas a mais nova, ali atrás de nós, tem exatamente a idade da minha mulher, cinquenta anos feitos em outubro próximo; o pai dela plantou-a de manhã e, à noite, ela veio ao mundo. O pai da minha mulher foi o meu predecessor aqui, e não vos sei dizer o quanto ele gostava daquela árvore; e é-me tão querida quanto a ele. Sob a sombra dessa mesma árvore, num tronco de madeira, a minha mulher estava sentada a tricotar, quando eu, um pobre estudante, entrei neste pátio pela primeira vez, há apenas vinte e sete anos." Charlotte perguntou pela filha. Ele disse que ela tinha ido com o Sr. Schmidt aos prados e estava com os trabalhadores que faziam o feno. O velho retomou então a sua história e contou-nos como o seu predecessor tinha simpatizado com ele, assim como a sua filha; e como ele se tinha tornado primeiro o seu cura e, posteriormente, o seu sucessor. Mal tinha terminado a sua história quando a filha regressou pelo jardim, acompanhada pelo mencionado Sr. Schmidt. Ela deu as boas-vindas a Charlotte com carinho e confesso que fiquei muito impressionado com a sua aparência. Era uma morena de aspeto vivo e bem-humorado, perfeitamente capaz de divertir alguém durante algum tempo no campo. O seu namorado (pois o Sr. Schmidt parecia sê-lo evidentemente) era uma pessoa educada e reservada, e não quis participar na nossa conversa, apesar de todos os esforços de Charlotte para o incitar. Fiquei muito irritado ao observar, pelo seu semblante, que o seu silêncio não provinha de falta de talento, mas de capricho e mau humor. Isto tornou-se muito evidente mais tarde, quando partimos para um passeio, e Frederica se juntou a Charlotte, com quem eu falava; o rosto do digno cavalheiro, que era naturalmente algo sombrio, tornou-se tão escuro e zangado que Charlotte foi obrigada a tocar-me no braço e a lembrar-me de que eu estava a falar demasiado com Frederica. Nada me angustia mais do que ver homens a atormentarem-se uns aos outros; particularmente quando, no auge da sua idade, na própria estação do prazer, desperdiçam os seus poucos e curtos dias de sol em brigas e disputas, e só percebem o seu erro quando é demasiado tarde para o reparar. Este pensamento permaneceu na minha mente; e, à noite, quando regressámos à casa do vigário e estávamos sentados à volta da mesa com o nosso pão e leite, a conversa girou em torno das alegrias e tristezas do mundo, não pude resistir à tentação de invectivar amargamente contra o mau humor. "Tendemos", disse eu, "a queixar-nos — mas com muito pouca razão — de que os nossos dias felizes são poucos e os nossos dias maus são muitos. Se os nossos corações estivessem sempre dispostos a receber os benefícios que o Céu nos envia, ganharíamos força para suportar o mal quando ele chega." "Mas", observou a mulher do vigário, "nem sempre podemos comandar o nosso temperamento, muito depende da constituição: quando o corpo sofre, a mente não está à vontade." "Reconheço isso", continuei; "mas devemos considerar tal disposição à luz de uma doença e investigar se não existe um remédio para ela."
"Gostaria de ouvir um", disse Charlotte: "pelo menos, penso que muito depende de nós próprios; sei que é assim comigo. Quando algo me irrita e perturba o meu temperamento, apresso-me a ir para o jardim, trauteio um par de danças rústicas e tudo fica bem comigo imediatamente." "Era isso que eu queria dizer", respondi; "o mau humor assemelha-se à indolência: é-nos natural; mas se tivermos coragem de nos esforçarmos, descobrimos que o nosso trabalho corre fresco das nossas mãos e experimentamos na atividade, da qual nos encolhíamos, um prazer real." Frederica ouvia muito atentamente; e o jovem objetou que não éramos donos de nós mesmos, e ainda menos dos nossos sentimentos. "A questão trata-se de um sentimento desagradável", acrescentei, "do qual todos escapariam voluntariamente, mas ninguém conhece o seu próprio poder sem experimentar. Os inválidos gostam de consultar médicos e submetem-se ao regime mais escrupuloso, aos medicamentos mais nauseabundos, a fim de recuperar a saúde." Observei que o bom velho inclinou a cabeça e esforçou-se por ouvir o nosso discurso; por isso, levantei a voz e dirigi-me diretamente a ele. "Pregamos contra uma grande quantidade de crimes", observei, "mas nunca me lembro de um sermão proferido contra o mau humor." "Isso pode servir muito bem para os vossos clérigos da cidade", disse ele: "as pessoas do campo nunca estão de mau humor; embora, de facto, pudesse ser útil, ocasionalmente, para a minha mulher, por exemplo, e para o juiz." Rimo-nos todos, tal como ele fez também muito cordialmente, até cair num ataque de tosse, que interrompeu a nossa conversa por algum tempo. O Sr. Schmidt retomou o assunto. "Chama ao mau humor um crime", observou ele, "mas penso que usa um termo demasiado forte." "De modo algum", respondi, "se merece o nome o que é tão pernicioso para nós próprios e para os nossos vizinhos. Não basta que nos falte o poder de nos fazermos felizes uns aos outros, teremos de nos privar do prazer que todos podemos fazer por nós mesmos? Mostre-me o homem que tem a coragem de esconder o seu mau humor, que carrega todo o fardo sozinho, sem perturbar a paz daqueles que o rodeiam. Não: o mau humor nasce de uma consciência interior do nosso próprio mérito, de um descontentamento que acompanha sempre essa inveja que a vaidade tola gera. Vemos pessoas felizes, a quem não fizemos felizes, e não suportamos a visão." Charlotte olhou para mim com um sorriso; ela observou a emoção com que falei: e uma lágrima nos olhos de Frederica estimulou-me a prosseguir. "Ai daqueles", disse eu, "que usam o seu poder sobre um coração humano para destruir os prazeres simples de que ele naturalmente desfrutaria! Todos os favores, todas as atenções do mundo não podem compensar a perda dessa felicidade que uma tirania cruel destruiu." O meu coração estava cheio enquanto falava. Uma recordação de muitas coisas que tinham acontecido pressionava a minha mente e enchia-me os olhos de lágrimas. "Deveríamos repetir diariamente para nós mesmos", exclamei, "que não deveríamos interferir com os nossos amigos, a menos que seja para os deixar na posse das suas próprias alegrias e aumentar a sua felicidade partilhando-a com eles! Mas quando as suas almas estão atormentadas por uma paixão violenta, ou os seus corações dilacerados pela dor, está no vosso poder oferecer-lhes o menor consolo?
"E quando a última doença fatal se apodera do ser cujo túmulo prematuro preparaste, quando ela jaz lânguida e exausta diante de ti, os seus olhos baços levantados para o céu e a humidade da morte na sua fronte pálida, ali estás tu ao pé da sua cama como um criminoso condenado, com o sentimento amargo de que toda a tua fortuna não a poderia salvar; e o pensamento agonizante consome-te, de que todos os teus esforços são impotentes para transmitir um momento de força à alma que parte, ou animá-la com um consolo transitório."
Ao ouvir estas palavras, a recordação de uma cena semelhante a que assistira outrora abateu-se com força total sobre o meu coração. Enterrei o rosto no meu lenço, apressei-me a sair da sala e só voltei a mim com a voz de Charlotte, que me lembrou de que era hora de regressar a casa. Com que ternura ela me repreendeu no caminho pelo interesse demasiado ávido que eu punha em tudo! Declarou que isso me faria mal e que eu deveria poupar-me. Sim, meu anjo! Fá-lo-ei por ti.
6 DE JULHO.
Ela ainda está com a sua amiga moribunda e continua a ser a mesma criatura brilhante e bela cuja presença suaviza a dor e espalha felicidade por onde quer que se volte. Ontem saiu com as suas irmãs mais novas: eu sabia-o e fui ao encontro delas; e caminhámos juntos. Em cerca de uma hora e meia, regressámos à cidade. Parámos na fonte de que tanto gosto e que agora me é mil vezes mais querida do que nunca. Charlotte sentou-se no muro baixo e nós reunímo-nos à sua volta. Olhei em redor e recordei o tempo em que o meu coração estava desocupado e livre. "Querida fonte!", disse eu, "desde aquele tempo, não voltei a desfrutar do repouso fresco junto do teu ribeiro: passei por ti com passos descuidados e mal te lancei um olhar." Olhei para baixo e observei Jane, a irmã mais nova de Charlotte, a subir os degraus com um copo de água. Voltei-me para Charlotte e senti a sua influência sobre mim. Nesse momento, Jane aproximou-se com o copo. A sua irmã, Marianne, quis tirá-lo-lhe. "Não!", gritou a criança, com a expressão mais doce no rosto, "a Charlotte deve beber primeiro."
O afeto e a simplicidade com que isto foi dito encantaram-me de tal maneira, que procurei expressar os meus sentimentos pegando na criança e beijando-a de todo o coração. Ela ficou assustada e começou a chorar. "Não devias fazer isso", disse Charlotte: senti-me perplexo. "Vem, Jane", continuou ela, pegando-lhe na mão e levando-a de novo para baixo dos degraus, "não tem importância: lava-te depressa com a água fresca." Fiquei parado a observá-las; e quando vi a pequena querida a esfregar as faces com as mãos molhadas, na plena convicção de que todas as impurezas contraídas da minha barba feia seriam lavadas pela água milagrosa, e como, embora Charlotte dissesse que bastava, ela continuava a lavar-se com todas as suas forças, como se pensasse que o excesso fosse melhor do que a falta, garanto-te, Wilhelm, que nunca assisti a um batismo com maior reverência; e, quando Charlotte subiu do poço, ter-me-ia prostrado como perante o profeta de uma nação oriental.
À noite, não resisti a contar a história a uma pessoa que, pensei eu, possuía algum sentimento natural, por ser um homem de entendimento. Mas que erro cometi. Ele sustentou que era muito errado da parte de Charlotte, que não devemos enganar as crianças, que tais coisas causavam inúmeros erros e superstições, dos quais éramos obrigados a proteger os jovens. Ocorreu-me então que esse mesmo homem tinha sido batizado apenas uma semana antes; por isso, não disse mais nada, mas mantive a justiça das minhas próprias convicções. Deveríamos lidar com as crianças como Deus lida connosco; somos mais felizes sob a influência de ilusões inocentes.
8 DE JULHO.
Que criança é o homem para ser tão solícito com um olhar! Que criança é o homem! Tínhamos estado em Walheim: as senhoras foram de carruagem; mas, durante o nosso passeio, julguei ver nos olhos escuros de Charlotte — sou um tolo — mas perdoa-me! deverias vê-los, aqueles olhos. — Contudo, para ser breve (pois os meus próprios olhos estão pesados de sono), deves saber que, quando as senhoras voltaram a entrar na sua carruagem, o jovem W. Seldstadt, Andran e eu estávamos de pé junto à porta. São um grupo de rapazes alegres e estavam todos a rir e a brincar uns com os outros. Observei os olhos de Charlotte. Vagueavam de um para o outro; mas não pousaram em mim, em mim, que ali estava imóvel e que não via nada senão ela! O meu coração disse-lhe mil vezes adeus, mas ela não reparou em mim. A carruagem partiu; e os meus olhos encheram-se de lágrimas. Segui-a com o olhar: subitamente, vi o chapéu de Charlotte debruçado na janela e ela virou-se para trás, seria para mim? Meu caro amigo, não sei; e nesta incerteza encontro consolo. Talvez ela se tenha virado para olhar para mim. Talvez! Boa noite — que criança que eu sou!
10 DE JULHO.
Deverias ver como pareço tolo em sociedade quando o seu nome é mencionado, particularmente quando me perguntam claramente de que modo gosto dela. De que modo gosto dela! Detesto a expressão. Que espécie de criatura deve ser aquele que apenas gostava de Charlotte, cujo coração e sentidos não estivessem inteiramente absorvidos por ela. Gostar dela! Alguém me perguntou ultimamente de que modo eu gostava de Ossian.
11 DE JULHO.
Madame M— está muito doente. Rezo pela sua recuperação, porque Charlotte partilha os meus sofrimentos. Vejo-a ocasionalmente em casa do meu amigo e hoje contou-me o caso mais estranho. O velho M— é um tipo cobiçoso e avarento, que há muito atormenta e aborrece tristemente a pobre senhora; mas ela tem suportado as suas aflições pacientemente. Há poucos dias, quando o médico nos informou de que a sua recuperação não tinha esperança, ela mandou chamar o marido (Charlotte estava presente) e dirigiu-se a ele deste modo: "Tenho algo a confessar, que, após a minha morte, pode causar problemas e confusão. Até agora, conduzi a sua casa o mais frugal e economicamente possível, mas deve perdoar-me por o ter defraudado durante trinta anos. No início da nossa vida de casados, permitiu uma pequena quantia para as necessidades da cozinha e as outras despesas domésticas. Quando o nosso estabelecimento aumentou e a nossa fortuna cresceu, não o consegui persuadir a aumentar a mesada semanal em proporção: em suma, sabe que, quando as nossas necessidades eram maiores, exigia que eu suprisse tudo com sete florins por semana. Aceitei o dinheiro sem observar, mas compensei a deficiência semanal com o dinheiro do cofre; pois ninguém suspeitaria que a sua esposa roubasse o banco doméstico. Mas não desperdicei nada e ter-me-ia contentado em encontrar o meu Juiz eterno sem esta confissão, se aquela, sobre quem a gestão do seu estabelecimento recairá após a minha morte, estivesse livre de embaraços quando insistisse que a mesada feita a mim, a sua antiga esposa, era suficiente."
Falei com Charlotte da forma inconcebível como os homens se deixam cegar; como alguém poderia evitar suspeitar de algum engano, quando apenas sete florins eram permitidos para custear despesas duas vezes maiores. Mas eu próprio conheci pessoas que acreditavam, sem qualquer espanto visível, que a sua casa possuía a talha de azeite inesgotável do profeta.
13 DE JULHO.
Não, não estou enganado. Nos seus olhos escuros leio um interesse genuíno em mim e na minha sorte. Sim, sinto-o; e posso acreditar no meu próprio coração que me diz — atrever-me-ei a dizê-lo? — atrever-me-ei a pronunciar as palavras divinas? — que ela me ama!
Que ela me ama! Como a ideia me exalta aos meus próprios olhos! E, como podes compreender os meus sentimentos, posso dizer-te como me honro a mim mesmo desde que ela me ama!
Será isto presunção ou será uma consciência da verdade? Não conheço um homem capaz de me substituir no coração de Charlotte; e, contudo, quando ela fala do seu noivo com tanto calor e afeto, sinto-me como o soldado a quem foram retiradas as honras e títulos e privado da sua espada.
16 DE JULHO.
Como o meu coração bate quando, por acaso, toco no seu dedo ou os meus pés encontram os dela debaixo da mesa! Recuo como se fosse de uma fornalha; mas uma força secreta impele-me de novo para a frente e os meus sentidos ficam desordenados. O seu coração inocente e inconsciente nunca sabe que agonia estas pequenas familiaridades me infligem. Por vezes, quando estamos a falar, ela pousa a mão na minha e, no ardor da conversa, aproxima-se de mim, e o seu hálito balsâmico chega aos meus lábios — quando sinto como se um raio me tivesse atingido e que poderia afundar-me na terra. E, contudo, Wilhelm, com toda esta confiança celestial — se me conheço e se alguma vez me atrevesse — tu compreendes-me. Não, não! O meu coração não é tão corrupto, é fraco, fraco o suficiente, mas não será isso um grau de corrupção?
Ela é para mim um ser sagrado. Toda a paixão está em silêncio na sua presença: não consigo expressar as minhas sensações quando estou perto dela. Sinto como se a minha alma batesse em cada nervo do meu corpo. Há uma melodia que ela toca ao piano com habilidade angelical — tão simples é ela e, contudo, tão espiritual! É a sua ária favorita; e, quando ela toca a primeira nota, toda a dor, cuidado e tristeza desaparecem de mim num momento.
Acredito em cada palavra que é dita sobre a magia da música antiga. Como a sua canção simples me encanta! Por vezes, quando estou pronto para cometer suicídio, ela canta essa ária; e instantaneamente a melancolia e a loucura que pairavam sobre mim dispersam-se e volto a respirar livremente.
18 DE JULHO.
Wilhelm, o que é o mundo para os nossos corações sem amor? O que é uma lanterna mágica sem luz? Só tens de acender a chama no interior e as figuras mais brilhantes brilham na parede branca; e, se o amor apenas nos mostrar sombras fugazes, ainda assim somos felizes quando, como simples crianças, as contemplamos e ficamos transportados com os esplêndidos fantasmas. Não consegui ver Charlotte hoje. Fui impedido por companhia da qual não me pude desenvencilhar. O que fazer? Enviei o meu criado a sua casa, para que pudesse pelo menos ver hoje alguém que tivesse estado perto dela. Oh, a impaciência com que esperei pelo seu regresso! A alegria com que o recebi! Tê-lo-ia certamente agarrado nos meus braços e beijado, se não tivesse tido vergonha.
Diz-se que a pedra de Bolonha, quando colocada ao sol, atrai os raios e, por algum tempo, parece luminosa no escuro. Assim foi comigo e com este criado. A ideia de que os olhos de Charlotte tinham pousado no seu semblante, na sua face, no seu próprio vestuário, tornou-os a todos inestimáveis para mim, de tal modo que, naquele momento, não me teria separado dele por mil coroas. A sua presença deixou-me tão feliz! Tem cuidado em rir-me, Wilhelm. Poderá ser uma ilusão aquilo que nos torna felizes?
19 DE JULHO.
"Vou vê-la hoje!" Exclamo com deleite, quando me levanto de manhã e olho com alegria de coração para o sol brilhante e belo. "Vou vê-la hoje!" E então não tenho mais nenhum desejo a formular: tudo, tudo está incluído nesse único pensamento.
20 DE JULHO.
Não posso concordar com a tua proposta de que eu deva acompanhar o embaixador a ———. Não gosto da subordinação; e todos sabemos que ele é uma pessoa rude e desagradável com quem se relacionar. Dizes que a minha mãe deseja que eu esteja empregado. Não pude evitar rir-me disso. Não estarei suficientemente empregado? E não é, na realidade, a mesma coisa, quer eu descasque ervilhas ou conte lentilhas? O mundo corre de uma loucura para outra; e o homem que, apenas por respeito à opinião dos outros, e sem qualquer desejo ou necessidade própria, labuta atrás de ouro, honra ou qualquer outro fantasma, não é melhor do que um tolo.
24 DE JULHO.
Insistes tanto para que eu não negligencie o meu desenho, que seria tão bom eu não dizer nada como confessar o quão pouco tenho feito ultimamente.
Nunca me senti mais feliz, nunca compreendi melhor a natureza, até à mais ínfima haste ou menor lâmina de erva; e, contudo, sou incapaz de me expressar: as minhas capacidades de execução são tão fracas, tudo parece nadar e flutuar diante de mim, de modo que não consigo fazer um contorno claro e ousado. Mas imagino que teria mais sucesso se tivesse algum barro ou cera para modelar. Tentarei, se este estado de espírito continuar por muito mais tempo, e dedicar-me-ei à modelagem, mesmo que apenas amasse massa.
Comecei o retrato de Charlotte três vezes e outras tantas desonrei-me. Isto é tanto mais irritante quanto, antigamente, eu era muito feliz a tirar retratos. Desde então, esbocei o seu perfil e devo contentar-me com isso.
25 DE JULHO.
Sim, querida Charlotte! Vou ordenar e organizar tudo. Apenas me dá mais comissões, quanto mais, melhor. Uma coisa, contudo, devo pedir: não uses mais areia de escrita nas notas queridas que me envias. Hoje levei a tua carta apressadamente aos lábios e isso arrepiou-me os dentes.
26 DE JULHO.
Muitas vezes decidi não a ver tão frequentemente. Mas quem poderia manter tal resolução? Todos os dias estou exposto à tentação e prometo fielmente que amanhã ficarei realmente em casa: mas, quando o amanhã chega, encontro alguma razão irresistível para a ver; e, antes que possa explicá-lo, estou com ela de novo. Ou ela disse na noite anterior "Não te esqueças de vir amanhã" — e quem poderia ficar em casa então? — ou ela me dá alguma comissão e acho essencial levar-lhe a resposta em pessoa; ou o dia está bom e vou a pé até Walheim; e, quando lá estou, é apenas mais meia légua até ela. Estou dentro da atmosfera encantada e, em breve, dou por mim ao seu lado. A minha avó costumava contar-nos uma história sobre uma montanha de íman. Quando quaisquer navios se aproximavam dela, eram instantaneamente privados das suas ferragens: os pregos voavam para a montanha e a infeliz tripulação perecia entre as tábuas desencontradas.
30 DE JULHO.
Albert chegou e eu devo partir. Fosse ele o melhor e mais nobre dos homens, e eu, em todos os aspetos, o seu inferior, não poderia suportar vê-lo na posse de um ser tão perfeito. Posse! — basta, Wilhelm: o seu noivo está aqui — um rapaz bom e digno, de quem não se pode deixar de gostar. Felizmente, não estive presente no seu encontro. Teria partido o meu coração! E ele é tão atencioso: não deu um único beijo a Charlotte na minha presença. Que o Céu o recompense por isso! Devo amá-lo pelo respeito com que a trata. Ele demonstra consideração por mim, mas, por isso, suspeito que estou mais em dívida para com Charlotte do que para com a sua própria estima por mim. As mulheres têm um tato delicado em tais assuntos, e deve ser assim. Nem sempre conseguem manter dois rivais em bons termos um com o outro; mas, quando o conseguem, são as únicas que ganham.
Não posso deixar de estimar Albert. A frieza do seu temperamento contrasta fortemente com a impetuosidade do meu, que não consigo ocultar. Ele tem muito sentimento e é plenamente sensível ao tesouro que possui em Charlotte. Está livre de mau humor, que sabes ser o defeito que mais detesto.
Ele considera-me um homem de juízo; e o meu apego a Charlotte, e o interesse que tomo em tudo o que lhe diz respeito, aumentam o seu triunfo e o seu amor. Não perguntarei se ele não a poderá, por vezes, importunar com alguns pequenos ciúmes; pois sei que, se eu estivesse no seu lugar, não estaria inteiramente livre de tais sensações.
Mas, seja como for, o meu prazer com Charlotte acabou. Chama-lhe loucura ou paixão, que importa um nome? A coisa fala por si. Antes de Albert chegar, eu sabia tudo o que sei agora. Sabia que não podia ter pretensões a ela, nem as ofereci, isto é, na medida em que era possível, na presença de tanta beleza, não suspirar pela sua fruição. E agora, vê-me como um tipo tolo, a olhar com espanto quando outro chega e me priva do meu amor.
Mordo os lábios e sinto um desprezo infinito por aqueles que me dizem para me resignar, porque não há remédio. Deixai-me escapar do jugo de tais subterfúgios tolos! Vagueio pelos bosques; e quando regresso a Charlotte e encontro Albert sentado ao seu lado no pavilhão de jardim, sou incapaz de o suportar, comporto-me como um tolo e cometo mil extravagâncias. "Pelo amor de Deus", disse Charlotte hoje, "não tenhamos mais cenas como as da noite passada! Assustas-me quando és tão violento." Entre nós, estou sempre fora agora quando ele a visita: e sinto-me encantado quando a encontro sozinha.
8 DE AGOSTO.
Acredita em mim, querido Wilhelm, não me referi a ti quando falei tão severamente daqueles que aconselham a resignação ao destino inevitável. Não pensei que fosse possível tu alimentares tal sentimento. Mas, de facto, tens razão. Apenas sugiro uma objeção. Neste mundo, raramente se é reduzido a fazer uma escolha entre duas alternativas. Há tantas variedades de conduta e opinião como voltas de feições entre um nariz aquilino e um chato.
Permitir-me-ás, portanto, que conceda todo o teu argumento e, ainda assim, encontre meios de escapar ao teu dilema.
A tua posição é esta, ouço-te dizer: "Ou tens esperanças de obter Charlotte, ou não tens nenhuma. Bem, no primeiro caso, segue o teu rumo e pressiona até à realização dos teus desejos. No segundo, sê homem e sacode uma paixão miserável, que te irá enervar e destruir." Meu caro amigo, isto é bem e facilmente dito.
Mas exigirias que um ser miserável, cuja vida se consome lentamente sob uma doença persistente, se despachasse de uma vez com um golpe de adaga? A própria desordem que consome as suas forças não o priva da coragem para efetuar o seu livramento?
Podes responder-me, se quiseres, com uma analogia semelhante: "Quem não preferiria a amputação de um braço a arriscar a vida pela dúvida e pela procrastinação!" Mas não sei se tenho razão, e deixemos estas comparações.
Basta! Há momentos, Wilhelm, em que poderia levantar-me e sacudir tudo isto e em que, se apenas soubesse para onde ir, poderia fugir deste lugar.
NA MESMA NOITE.
O meu diário, que negligenciei durante algum tempo, veio-me às mãos hoje; e estou espantado ao ver quão deliberadamente me envolvi passo a passo. Ter visto a minha posição tão claramente e, contudo, ter agido tão como uma criança! Ainda agora vejo o resultado claramente e, contudo, não tenho qualquer pensamento de agir com maior prudência.
10 DE AGOSTO.
Se eu não fosse um tolo, poderia passar a vida mais feliz e deliciosa aqui. Tantas circunstâncias agradáveis, e de um tipo que assegura a felicidade de um homem digno, raramente estão reunidas. Ai de mim! Sinto-o demasiado sensivelmente — só o coração faz a nossa felicidade! Ser admitido nesta família tão encantadora, ser amado pelo pai como um filho, pelas crianças como um pai, e por Charlotte! depois o nobre Albert, que nunca perturba a minha felicidade com qualquer aparência de mau humor, recebendo-me com o afeto mais sincero e amando-me, a seguir a Charlotte, mais do que a todo o mundo! Wilhelm, ficarias encantado por nos ouvir nos nossos passeios e conversas sobre Charlotte. Nada no mundo pode ser mais absurdo do que a nossa ligação e, contudo, o pensamento dela move-me frequentemente às lágrimas.
Ele fala-me por vezes da sua excelente mãe; de como, no seu leito de morte, ela lhe confiara a casa e os filhos, e lhe entregara a própria Charlotte aos cuidados dele; de como, desde esse tempo, um novo espírito tomara posse dela; de como, no zelo e na ansiedade pelo bem-estar deles, se tornou uma verdadeira mãe para eles; de como cada momento do seu tempo era dedicado a alguma obra de amor em favor deles — e, contudo, a sua alegria e o seu bom humor nunca a abandonaram. Caminho ao seu lado, colho flores pelo caminho, arranjo-as cuidadosamente num ramalhete, depois atiro-as para o primeiro riacho por onde passo e observo-as enquanto flutuam suavemente para longe. Esqueço-me se lhe disse que Albert deve permanecer aqui. Recebeu uma nomeação do governo, com um salário muito bom; e compreendo que goza de grande favor na corte. Tenho conhecido poucas pessoas tão pontuais e metódicas nos negócios.
12 DE AGOSTO.
Certamente, Albert é o melhor rapaz do mundo. Tive uma cena estranha com ele ontem. Fui despedir-me dele; pois meti na cabeça passar alguns dias nestas montanhas, de onde agora lhe escrevo. Enquanto caminhava de um lado para o outro no seu quarto, os meus olhos pousaram nas suas pistolas. "Empresta-me essas pistolas", disse eu, "para a minha viagem". "Com certeza", respondeu ele, "se te deres ao trabalho de as carregar; pois apenas estão ali penduradas por formalidade". Despendurei uma delas; e ele continuou: "Desde que estive quase a sofrer pela minha extrema cautela, não quero ter nada que ver com tais coisas". Fiquei curioso por ouvir a história. "Estava eu hospedado", disse ele, "há uns três meses, na casa de um amigo, no campo. Tinha comigo um par de pistolas, descarregadas; e dormia sem qualquer ansiedade. Numa tarde chuvosa, estava sentado sozinho, sem fazer nada, quando me ocorreu — não sei como — que a casa poderia ser atacada, que poderíamos precisar das pistolas, que poderíamos, em suma, sabes como continuamos a fantasiar quando não temos nada melhor para fazer. Entreguei as pistolas ao criado, para limpar e carregar. Ele estava a brincar com a criada, a tentar assustá-la, quando a pistola disparou — Deus sabe como! — a vareta estava dentro do cano; e atravessou-lhe a mão direita e estilhaçou o polegar. Tive de suportar todo o lamento e pagar a conta do cirurgião; por isso, desde esse tempo, mantenho todas as minhas armas descarregadas. Mas, meu caro amigo, de que serve a prudência? Nunca podemos estar de prevenção contra todos os perigos possíveis. Contudo" — agora, deves saber que posso tolerar todos os homens até chegarem ao "contudo"; — pois é evidente por si só que toda a regra universal deve ter as suas exceções. Mas ele é tão excessivamente preciso que, se apenas imagina ter dito uma palavra demasiado precipitada, ou demasiado geral, ou apenas meio verdadeira, nunca cessa de qualificar, de modificar e de atenuar, até que, por fim, parece não ter dito absolutamente nada. Nesta ocasião, Albert estava profundamente imerso no seu assunto: parei de o ouvir e perdi-me em devaneios. Com um movimento súbito, apontei a boca da pistola à minha testa, acima do olho direito. "O que queres dizer?", gritou Albert, desviando a pistola. "Não está carregada", disse eu. "E mesmo que não estivesse", respondeu ele com impaciência, "o que pretendes dizer? Não consigo compreender como um homem pode ser tão louco ao ponto de se matar, e a mera ideia disso choca-me".
"Mas por que deveria alguém", disse eu, "ao falar de uma ação, aventurar-se a pronunciá-la louca ou sábia, ou boa ou má? Qual é o sentido de tudo isto? Estudaste cuidadosamente os motivos secretos das nossas ações? Compreendes — podes explicar as causas que as originam e as tornam inevitáveis? Se podes, serás menos precipitado na tua decisão".
"Mas hás de admitir", disse Albert, "que algumas ações são criminosas, venham elas de quaisquer motivos que venham". Concedi-o e encolhi os ombros.
"Mas, ainda assim, meu caro amigo", continuei, "há algumas exceções aqui também. O roubo é um crime; mas o homem que o comete por extrema pobreza, sem outro objetivo senão salvar a sua família de perecer, será ele um objeto de piedade ou de punição? Quem atirará a primeira pedra a um marido que, no calor de um justo ressentimento, sacrifica a sua esposa infiel e o seu pérfido sedutor? Ou à jovem donzela que, na sua hora de fraqueza e arrebatamento, se esquece de si mesma nos impetuosos prazeres do amor? Até as nossas leis, frias e cruéis como são, transigem em tais casos e retêm a sua punição".
"Isso é uma coisa completamente diferente", disse Albert; "porque um homem sob a influência de uma paixão violenta perde todo o poder de reflexão e é considerado embriagado ou insano".
"Oh! vós, pessoas de juízo são", respondi, sorrindo, "estais sempre prontas a exclamar 'Extravagância, loucura e embriaguez!' Vós, homens morais, sois tão calmos e tão contidos! Abomináveis o homem bêbado e detestais o extravagante; passais ao largo, como o levita, e agradeceis a Deus, como o fariseu, que não sois como um deles. Já estive mais de uma vez embriagado, as minhas paixões sempre roçaram a extravagância: não tenho vergonha de o confessar; pois aprendi, pela minha própria experiência, que todos os homens extraordinários, que realizaram ações grandes e espantosas, foram sempre difamados pelo mundo como bêbados ou insanos. E na vida privada, também, não é intolerável que ninguém possa empreender a execução de um ato nobre ou generoso, sem dar azo à exclamação de que o autor está embriagado ou louco? Vergonha sobre vós, ó sábios!"
"Esse é outro dos teus humores extravagantes", disse Albert: "exageras sempre um caso, e nesta matéria estás indubitavelmente errado; pois estávamos a falar de suicídio, que comparas com grandes ações, quando é impossível considerá-lo como algo mais do que uma fraqueza. É muito mais fácil morrer do que suportar uma vida de miséria com fortaleza".
Estava prestes a interromper a conversa, pois nada me tira tanto a paciência como a proferição de um lugar-comum miserável quando falo do mais profundo do meu coração. Contudo, compus-me, pois já tinha ouvido a mesma observação com suficiente vexação; e respondi-lhe, portanto, com um pouco de calor: "Chamas a isto uma fraqueza — tem cuidado para não te deixares desencaminhar pelas aparências. Quando uma nação, que há muito geme sob o jugo intolerável de um tirano, se levanta finalmente e quebra as suas correntes, chamas a isso fraqueza? O homem que, para resgatar a sua casa das chamas, sente a sua força física redobrada, de tal modo que levanta pesos com facilidade, que, na ausência de excitação, dificilmente poderia mover; aquele que, sob a fúria de um insulto, ataca e põe em fuga uma dezena dos seus inimigos, devem tais pessoas ser chamadas de fracas? Meu caro amigo, se a resistência é força, como pode o mais alto grau de resistência ser uma fraqueza?"
Albert olhou fixamente para mim e disse: "Peço-te que me perdoes, mas não vejo que os exemplos que apresentaste tenham qualquer relação com a questão". "Muito provavelmente", respondi; "pois já me disseram muitas vezes que o meu estilo de ilustração roça um pouco o absurdo. Mas vejamos se não podemos colocar a questão sob outro ponto de vista, ao indagar qual pode ser o estado de espírito de um homem que resolve libertar-se do peso da vida — um peso muitas vezes tão agradável de suportar — pois não podemos raciocinar de outra forma sobre o assunto.
"A natureza humana", continuei, "tem os seus limites. É capaz de suportar um certo grau de alegria, tristeza e dor, mas é aniquilada assim que esta medida é excedida. A questão, portanto, não é se um homem é forte ou fraco, mas se é capaz de suportar a medida dos seus sofrimentos. O sofrimento pode ser moral ou físico; e, na minha opinião, é tão absurdo chamar cobarde a um homem que se destrói a si mesmo como chamar cobarde a um homem que morre de uma febre maligna".
"Paradoxo, tudo paradoxo!", exclamou Albert. "Não tão paradoxal como imaginas", respondi. "Admites que designamos uma doença como mortal quando a natureza é tão severamente atacada, e a sua força tão esgotada, que não pode possivelmente recuperar a sua condição anterior sob qualquer mudança que possa ocorrer.
"Agora, meu caro amigo, aplica isto à mente; observa um homem na sua condição natural e isolada; considera como as ideias funcionam e como as impressões se fixam nele, até que, finalmente, uma paixão violenta o domina, destruindo todos os seus poderes de reflexão calma e arruinando-o completamente.
"É em vão que um homem de mente sã e temperamento frio compreende a condição de um ser tão miserável, em vão que o aconselha. Ele não pode comunicar a sua própria sabedoria a ele, mais do que um homem saudável pode instilar a sua força no inválido, ao lado de cuja cama se senta".
Albert achou isto demasiado geral. Lembrei-lhe uma rapariga que se tinha afogado pouco tempo antes, e contei-lhe a sua história.
Era uma boa criatura, que tinha crescido na esfera estreita da indústria doméstica e do trabalho semanalmente designado; alguém que não conhecia outro prazer além de um passeio aos domingos, vestida com os seus melhores trajes, acompanhada pelos seus amigos, ou talvez juntando-se à dança de vez em quando nalgum festival, e passando as suas horas vagas a conversar com um vizinho, discutindo os escândalos ou as zangas da aldeia, ninharias suficientes para ocupar o seu coração. Finalmente, o calor da sua natureza é influenciado por certos desejos novos e desconhecidos. Inflamada pelas lisonjas dos homens, os seus prazeres anteriores tornam-se, gradualmente, insípidos, até que, finalmente, encontra um jovem por quem é atraída por um sentimento indescritível; nele, ela deposita agora todas as suas esperanças; esquece o mundo à sua volta; não vê, não ouve, não deseja nada senão ele, e apenas ele. Ele sozinho ocupa todos os seus pensamentos. Incorrompida pela vã indulgência de uma vaidade enervante, o seu afeto movendo-se firmemente em direção ao seu objeto, ela espera tornar-se dele e realizar, numa união eterna com ele, toda aquela felicidade que procurava, toda aquela bem-aventurança por que ansiava. As suas promessas repetidas confirmam as suas esperanças: abraços e carícias, que aumentam o ardor dos seus desejos, dominam a sua alma. Ela flutua numa vaga e ilusória antecipação da sua felicidade; e os seus sentimentos tornam-se excitados até à sua tensão máxima. Ela estende os braços, finalmente, para abraçar o objeto de todos os seus desejos, e o seu amado abandona-a. Atordoada e desorientada, ela encontra-se à beira de um precipício. Tudo é escuridão à sua volta. Sem perspetiva, sem esperança, sem consolação — abandonada por aquele em quem a sua existência estava centrada! Ela não vê nada do vasto mundo diante de si, não pensa em nada dos muitos indivíduos que poderiam suprir o vazio no seu coração; sente-se desamparada, abandonada pelo mundo; e, cega e impelida pela agonia que lhe retorce a alma, mergulha nas profundezas, para terminar os seus sofrimentos no amplo abraço da morte. Vês aqui, Albert, a história de milhares; e diz-me, não é este um caso de enfermidade física? A natureza não tem forma de escapar do labirinto: as suas forças estão esgotadas: ela não pode lutar mais, e a pobre alma tem de morrer.
"Vergonha sobre aquele que pode olhar calmamente e exclamar: 'A rapariga tola! deveria ter esperado; deveria ter permitido que o tempo dissipasse a impressão; o seu desespero teria sido suavizado, e teria encontrado outro amante para a consolar'. Poder-se-ia dizer o mesmo: 'O tolo, morrer de uma febre! por que não esperou até que a sua força fosse restaurada, até que o seu sangue ficasse calmo? tudo teria corrido bem, e ele estaria vivo agora'".
Albert, que não conseguia ver a justiça da comparação, apresentou algumas objeções adicionais e, entre outras, insistiu no facto de eu ter tomado o caso de uma mera rapariga ignorante. Mas como é que qualquer homem de bom senso, de visões mais alargadas e experiência, poderia ser desculpado, ele era incapaz de compreender. "Meu amigo!", exclamei, "o homem não é mais do que homem; e, qualquer que seja a extensão das suas faculdades de raciocínio, elas são de pouca utilidade quando a paixão ruge no interior, e ele se sente confinado pelos limites estreitos da natureza. Seria melhor, então — mas falaremos disto noutra altura", disse eu, e peguei no meu chapéu. Ai! o meu coração estava cheio; e separámo-nos sem convicção de ambas as partes. Quão raramente, neste mundo, os homens se compreendem!
15 DE AGOSTO.
Não pode haver dúvida de que, neste mundo, nada é tão indispensável como o amor. Observo que Charlotte não poderia perder-me sem uma dor, e as próprias crianças têm apenas um desejo; isto é, que eu as visite novamente amanhã. Fui esta tarde afinar o piano de Charlotte. Mas não pude fazê-lo, pois os pequenos insistiram que eu lhes contasse uma história; e a própria Charlotte instou-me a satisfazê-los. Servi-os ao chá, e eles estão agora tão plenamente contentes comigo como com Charlotte; e contei-lhes a minha melhor história da princesa que era servida por anões. Melhorei-me com este exercício e estou bastante surpreendido com a impressão que as minhas histórias criam. Se invento, por vezes, um incidente que esqueço na narração seguinte, eles lembram-me imediatamente que a história era diferente antes; de modo que agora me esforço por relatar com exatidão a mesma anedota no mesmo tom monótono, que nunca muda. Descubro, com isto, quanto um autor prejudica as suas obras ao alterá-las, mesmo que sejam melhoradas do ponto de vista poético. A primeira impressão é prontamente recebida. Somos constituídos de tal forma que acreditamos nas coisas mais incríveis; e, uma vez gravadas na memória, ai daquele que tentasse apagá-las.
18 DE AGOSTO.
Deve ser sempre assim — que a fonte da nossa felicidade deve ser também a nascente da nossa miséria? O sentimento pleno e ardente que animava o meu coração com o amor da natureza, inundando-me com uma torrente de deleite, e que trazia todo o paraíso diante de mim, tornou-se agora um tormento insuportável, um demónio que perpetuamente me persegue e me atormenta. Quando, em tempos idos, contemplava destas rochas aquelas montanhas do outro lado do rio, e o vale verde e florido diante de mim, e via toda a natureza a brotar e a florescer à volta; as colinas vestidas, do sopé ao cume, com árvores altas e espessas; os vales em todas as suas curvas variadas, sombreados pelas matas mais adoráveis; e o rio suave deslizando entre os juncos que sussurram, espelhando as belas nuvens que a suave brisa da tarde soprava pelo céu — quando ouvia os bosques à minha volta melodiosos com a música das aves, e via os milhões de enxames de insetos a dançar nos últimos raios dourados do sol, cujos raios poentes despertavam os besouros zumbidores dos seus leitos de erva, enquanto o tumulto contido à volta dirigia a minha atenção para o chão, e lá observava a rocha árida compelida a produzir alimento para o musgo seco, enquanto a urze florescia nas areias estéreis abaixo de mim, tudo isto me mostrava o calor interior que anima toda a natureza, e enchia e brilhava dentro do meu coração. Sentia-me exaltado por esta plenitude transbordante à perceção da Divindade, e as formas gloriosas de um universo infinito tornavam-se visíveis à minha alma! Montanhas estupendas rodeavam-me, abismos bocejavam aos meus pés, e cataratas caíam vertiginosamente diante de mim; rios impetuosos rolavam pela planície, e rochas e montanhas ressoavam de longe. Nas profundezas da terra, via inumeráveis poderes em movimento e multiplicando-se até ao infinito; enquanto, à superfície e sob os céus, fervilhavam dez mil variedades de criaturas vivas. Tudo à volta está vivo com um número infinito de formas; enquanto a humanidade foge para a segurança das suas pequenas casas, do abrigo das quais governa, na sua imaginação, o universo vastamente estendido. Pobre tolo! na cuja estimação mesquinha todas as coisas são pequenas. Das montanhas inacessíveis, através do deserto que nenhum pé mortal trilhou, até aos confins do oceano desconhecido, respira o espírito do eterno Criador; e cada átomo a que ele deu existência encontra favor aos seus olhos. Ah, quão frequentemente, naquela altura, o voo de um pássaro, pairando sobre a minha cabeça, me inspirou o desejo de ser transportado para as margens das águas imensuráveis, lá para beber os prazeres da vida da taça espumante do Infinito, e para partilhar, se fosse apenas por um momento, com os poderes confinados da minha alma, a beatitude daquele Criador que realiza todas as coisas em si mesmo, e através de si mesmo!
Meu caro amigo, a mera recordação daquelas horas ainda me consola. Mesmo este esforço para recordar essas sensações inefáveis, e dar-lhes expressão, exalta a minha alma acima de si mesma, e faz-me sentir duplamente a intensidade da minha angústia presente.
É como se uma cortina tivesse sido retirada diante dos meus olhos e, em vez de perspetivas de vida eterna, o abismo de uma sepultura sempre aberta bocejasse diante de mim. Podemos dizer de alguma coisa que existe quando tudo passa, quando o tempo, com a velocidade de uma tempestade, carrega todas as coisas — e a nossa existência transitória, arrastada pela torrente, é ou engolida pelas ondas ou despedaçada contra as rochas? Não há um momento que não se alimente de ti — e de tudo à tua volta, não há um momento em que tu próprio não te tornes um destruidor. O passeio mais inocente priva da vida milhares de pobres insetos: um passo destrói a estrutura da laboriosa formiga e converte um pequeno mundo em caos. Não: não são as grandes e raras calamidades do mundo, as inundações que levam aldeias inteiras, os terramotos que engolem as nossas cidades, que me afetam. O meu coração é consumido pelo pensamento desse poder destrutivo que jaz oculto em cada parte da natureza universal. A natureza não formou nada que não se consuma a si mesmo e a cada objeto próximo: de modo que, rodeado pela terra e pelo ar, e por todos os poderes ativos, vago pelo meu caminho com o coração dorido; e o universo é para mim um monstro temível, devorando para sempre a sua própria descendência.
21 DE AGOSTO.
Em vão estendo os meus braços para ela quando acordo de manhã do meu sono cansado. Em vão procuro-a à noite na minha cama, quando algum sonho inocente me enganou felizmente e a colocou perto de mim nos campos, quando lhe segurei a mão e a cobri com inúmeros beijos. E quando a procuro na meia confusão do sono, com a feliz sensação de que ela está perto, lágrimas correm do meu coração oprimido; e, despojado de todo o conforto, choro sobre os meus futuros infortúnios.
22 DE AGOSTO.
Que desgraça, Wilhelm! Os meus espíritos ativos degeneraram em indolência contente. Não posso estar ocioso e, contudo, sou incapaz de trabalhar. Não consigo pensar: já não tenho qualquer sentimento pelas belezas da natureza, e os livros são-me desagradáveis. Uma vez que nos entregamos, estamos totalmente perdidos. Muitas e muitas vezes desejo ser um trabalhador comum; para que, ao acordar de manhã, pudesse ter apenas uma perspetiva, uma ocupação, uma esperança, para o dia que nasceu. Muitas vezes invejo Albert quando o vejo enterrado num monte de papéis e pergaminhos, e imagino que seria feliz se estivesse no seu lugar. Muitas vezes, tomado por este sentimento, estive prestes a escrever-te e ao ministro, para a nomeação na embaixada, que tu pensas que eu poderia obter. Acredito que a poderia conseguir. O ministro há muito que demonstra consideração por mim e frequentemente me instou a procurar emprego. É o negócio de uma hora apenas. De vez em quando, a fábula do cavalo ocorre-me. Cansado da liberdade, deixou-se selar e enfrear, e foi cavalgado até à morte pelos seus esforços. Não sei o que decidir. Pois não será esta ansiedade de mudança a consequência daquele espírito inquieto que me perseguiria igualmente em todas as situações da vida?
28 DE AGOSTO.
Se os meus males admitissem algum remédio, certamente seriam curados aqui. Este é o meu aniversário, e logo pela manhã recebi um pacote de Albert. Ao abri-lo, encontrei uma das fitas cor-de-rosa que Charlotte usava no seu vestido na primeira vez que a vi, e que eu por várias vezes lhe pedira que me desse. Com ela, vinham dois volumes em duodécimo do "Homero" de Wetstein, um livro que eu muitas vezes desejara, para me poupar o incómodo de carregar a grande edição Ernestine comigo nos meus passeios. Vês como antecipam os meus desejos, quão bem compreendem todas essas pequenas atenções da amizade, tão superiores aos presentes dispendiosos dos grandes, que são humilhantes. Beijei a fita mil vezes e, em cada sopro, inalei a recordação daqueles dias felizes e irrevogáveis que me enchiam da mais profunda alegria. Tal é, Wilhelm, o nosso destino. Não murmuro contra ele: as flores da vida não passam de visões. Quantas desaparecem e não deixam rasto atrás de si — quão poucas dão qualquer fruto — e o fruto em si, quão raramente amadurece! E, contudo, há flores que cheguem! E não será estranho, meu amigo, que deixemos o pouco que realmente amadurece apodrecer, definhar e perecer sem ser desfrutado? Adeus! Este é um verão glorioso. Subo frequentemente às árvores no pomar de Charlotte e sacudo as peras que pendem dos ramos mais altos. Ela permanece em baixo e apanha-as à medida que caem.
30 DE AGOSTO.
Ser infeliz que sou! Por que me engano assim a mim mesmo? O que há de resultar de toda esta paixão desenfreada, sem rumo e sem fim? Não consigo rezar senão a ela. A minha imaginação não vê nada além dela: todos os objetos circundantes não têm qualquer valor, exceto na medida em que se relacionam com ela. Neste estado de sonho, desfruto de muitas horas felizes, até que, finalmente, me sinto compelido a arrancar-me de junto dela. Ah, Wilhelm, a que não me obriga muitas vezes o meu coração! Quando passei várias horas na sua companhia, até me sentir completamente absorvido pela sua figura, a sua graça, a expressão divina dos seus pensamentos, a minha mente torna-se gradualmente excitada ao mais alto excesso, a minha visão turva-se, a minha audição confunde-se, a minha respiração oprime-se como que pela mão de um assassino, e o meu coração palpitante procura obter alívio para os meus sentidos doridos. Por vezes, não tenho consciência de se existo realmente. Se, em tais momentos, não encontro simpatia, e Charlotte não me permite desfrutar da melancólica consolação de banhar a sua mão com as minhas lágrimas, sinto-me compelido a arrancar-me de junto dela, e então ou vagueio pelo campo, ou subo algum penhasco íngreme, ou forço um caminho através do matagal intransitável, onde sou lacerado e rasgado por espinhos e silvas; e aí encontro alívio. Por vezes, deito-me estendido no chão, vencido pelo cansaço e a morrer de sede; por vezes, tarde da noite, quando a lua brilha acima de mim, reclino-me contra uma árvore antiga em alguma floresta isolada, para descansar os meus membros cansados, e, exausto e gasto, durmo até ao romper do dia. Ó Wilhelm! a cela do eremita, o seu cilício e o seu cinto de espinhos seriam luxo e prazer comparados com o que sofro. Adeus! Não vejo fim para esta miséria, exceto a sepultura.
3 DE SETEMBRO.
Tenho de partir. Obrigado, Wilhelm, por teres determinado o meu propósito vacilante. Há uma quinzena inteira que penso em deixá-la. Tenho de partir. Ela regressou à cidade e está em casa de uma amiga. E depois, Albert — sim, tenho de ir.
10 DE SETEMBRO.
Oh, que noite, Wilhelm! De agora em diante, posso suportar qualquer coisa. Nunca mais a verei. Oh, por que não posso cair nos teus braços e, com torrentes de lágrimas e arrebatamentos, dar expressão a todas as paixões que distraem o meu coração! Aqui estou eu, a ofegar e a lutar para me compor. Aguardo o dia, e ao nascer do sol os cavalos estarão à porta.
E ela dorme calmamente, sem suspeitar que me viu pela última vez. Estou livre. Tive a coragem, numa entrevista de duas horas de duração, de não trair a minha intenção. E oh, Wilhelm, que conversa foi aquela!
Albert prometera ir ter com Charlotte ao jardim imediatamente após a ceia. Eu estava no terraço, sob os altos castanheiros, e observava o pôr do sol. Vi-o afundar-se pela última vez sob este vale encantador e este riacho silencioso. Muitas vezes visitara o mesmo local com Charlotte e testemunhara aquela visão gloriosa; e agora — caminhava de um lado para o outro na própria alameda que me era tão cara. Uma simpatia secreta frequentemente atraía-me ali antes de conhecer Charlotte; e ficávamos encantados quando, no início do nosso conhecimento, descobrimos que ambos amávamos o mesmo lugar, que é, de facto, tão romântico quanto qualquer outro que já tenha cativado a fantasia de um artista.
Debaixo dos castanheiros, há uma vista extensa. Mas recordo-me de que mencionei tudo isto numa carta anterior, e de ter descrito a massa alta de faias no final, e como a alameda se torna cada vez mais escura à medida que serpenteia por entre elas, até terminar numa reentrância sombria, que possui todo o encanto de uma solidão misteriosa. Ainda me lembro da estranha sensação de melancolia que me invadiu na primeira vez que entrei naquele retiro escuro, ao meio-dia luminoso. Senti algum pressentimento secreto de que seria, um dia, o cenário de alguma felicidade ou desgraça para mim.
Passara meia hora a lutar entre os pensamentos contraditórios de partir e regressar, quando os ouvi subir o terraço. Corri ao encontro deles. Tremi ao tomar-lhe a mão e beijá-la. Quando chegámos ao topo do terraço, a lua ergueu-se por trás da colina arborizada. Conversámos sobre muitos assuntos e, sem o percebermos, aproximámo-nos da reentrância sombria. Charlotte entrou e sentou-se. Albert sentou-se ao lado dela. Fiz o mesmo, mas a minha agitação não me permitiu permanecer sentado por muito tempo. Levantei-me, fiquei em frente dela, depois andei de um lado para o outro e voltei a sentar-me. Estava inquieto e miserável. Charlotte chamou a nossa atenção para o belo efeito do luar, que lançava um tom prateado sobre o terraço à nossa frente, para lá das faias. Era uma visão gloriosa, tornada ainda mais marcante pela escuridão que envolvia o local onde nos encontrávamos. Permanecemos em silêncio por algum tempo, quando Charlotte observou: "Sempre que caminho ao luar, isso traz à minha memória todos os meus amigos queridos e falecidos, e fico cheia de pensamentos sobre a morte e o futuro. Viveremos novamente, Werther!", continuou ela, com uma voz firme, mas sentida; "mas reconhecer-nos-emos uns aos outros — o que pensas? o que dizes?"
"Charlotte", disse eu, enquanto tomava a sua mão na minha, e os meus olhos se enchiam de lágrimas, "ver-nos-emos novamente — aqui e na eternidade encontrar-nos-emos de novo". Não consegui dizer mais nada. Por que, Wilhelm, haveria ela de me fazer esta pergunta, precisamente no momento em que o medo da nossa cruel separação enchia o meu coração?
"E oh! saberão aqueles que partiram como estamos aqui? saberão quando estamos bem e felizes? saberão quando recordamos as suas memórias com o mais profundo amor? Na hora silenciosa da noite, a sombra da minha mãe paira à minha volta; quando sentada no meio dos meus filhos, vejo-os reunidos perto de mim, como eles costumavam reunir-se perto dela; e então levanto os meus olhos ansiosos ao céu e desejo que ela pudesse olhar por nós e testemunhar como cumpro a promessa que lhe fiz nos seus últimos momentos, de ser mãe para os seus filhos. Com que emoção exclamo então: 'Perdão, querida das mães, perdoa-me se não substituo adequadamente o teu lugar! Ai de mim! Faço o que posso. Estão vestidos e alimentados; e, ainda melhor, são amados e educados. Se pudesses ver, doce santa! a paz e a harmonia que habitam entre nós, glorificarias a Deus com os sentimentos mais calorosos de gratidão, a quem, na tua última hora, dirigiste preces tão fervorosas pela nossa felicidade'". Assim se exprimiu ela; mas oh, Wilhelm, quem pode fazer justiça à sua linguagem? como podem palavras frias e desapaixonadas transmitir as expressões celestiais do espírito? Albert interrompeu-a gentilmente. "Isto afeta-te demasiado, minha querida Charlotte. Sei que a tua alma habita em tais recordações com intenso prazer; mas imploro-te..." "Oh, Albert!", continuou ela, "tenho a certeza de que não te esqueces das noites em que nós os três costumávamos sentar-nos à pequena mesa redonda, quando o papá estava ausente e os pequenos se tinham retirado. Tu tinhas muitas vezes um bom livro contigo, mas raramente o lias; a conversa daquele ser nobre era preferível a tudo — aquela mulher bela, brilhante, gentil e, contudo, sempre trabalhadora. Deus sabe apenas como supliquei com lágrimas, no meu leito noturno, que pudesse ser como ela."
Lancei-me aos seus pés e, tomando-lhe a mão, reguei-a com mil lágrimas. "Charlotte!", exclamei, "a bênção de Deus e o espírito da tua mãe estão sobre ti." "Oh! quem me dera que a tivesses conhecido", disse ela, com um aperto caloroso na mão. "Ela era digna de ser conhecida por ti." Pensei que fosse desmaiar: nunca recebera elogios tão lisonjeiros. Ela continuou: "E, contudo, estava condenada a morrer no auge da sua juventude, quando o seu filho mais novo tinha apenas seis meses de idade. A sua doença foi breve, mas ela manteve-se calma e resignada; e era apenas pelos seus filhos, especialmente o mais novo, que se sentia infeliz. Quando o seu fim se aproximou, pediu-me que os trouxesse até ela. Obedeci. Os mais novos nada sabiam da perda que se aproximava, enquanto os mais velhos estavam completamente vencidos pela dor. Estavam de pé à volta da cama; e ela ergueu as suas mãos débeis para o céu e rezou por eles; depois, beijando-os um a um, despediu-os e disse-me: 'Sê uma mãe para eles'. Dei-lhe a minha mão. 'Prometes muito, minha filha', disse ela: 'o afeto de mãe e o cuidado de mãe! Muitas vezes testemunhei, pelas tuas lágrimas de gratidão, que sabes o que é a ternura de uma mãe: mostra-a aos teus irmãos e irmãs, e sê obediente e fiel ao teu pai como esposa; tu serás o seu conforto'. Ela perguntou por ele. Ele tinha-se retirado para ocultar a sua angústia intolerável — estava com o coração partido. 'Albert, tu estavas no quarto.' Ela ouviu alguém a mover-se: perguntou quem era e pediu-te que te aproximasses. Observou-nos a ambos com um olhar de serenidade e satisfação, expressivo da sua convicção de que seríamos felizes — felizes um com o outro." Albert caiu sobre o seu pescoço, beijou-a e exclamou: "Somos assim, e assim seremos!" Até Albert, geralmente tão tranquilo, tinha perdido completamente a sua compostura; e eu estava excitado para lá de qualquer expressão.
"E um tal ser", continuou ela, "havia de nos deixar, Werther! Grande Deus, temos de nos separar de tudo o que nos é querido neste mundo? Ninguém sentiu isto mais agudamente do que as crianças: choraram e lamentaram-se durante muito tempo, queixando-se de que os homens tinham levado a sua querida mamã."
Charlotte levantou-se. Isso despertou-me; mas continuei sentado e segurei a sua mão. "Vamos", disse ela: "está a ficar tarde". Ela tentou retirar a mão: continuei a segurá-la. "Ver-nos-emos novamente", exclamei: "reconhecer-nos-emos sob qualquer mudança possível! Vou partir", continuei, "vou de boa vontade; mas, se eu disser para sempre, talvez não possa manter a minha palavra. Adeus, Charlotte; adeus, Albert. Encontrar-nos-emos de novo". "Sim: amanhã, creio eu", respondeu ela com um sorriso. Amanhã! Como senti aquela palavra! Ah! ela mal pensava, quando retirou a mão da minha. Caminharam pela alameda. Fiquei a vê-los desaparecer ao luar. Lancei-me ao chão e chorei: depois saltei e corri para o terraço, e vi, sob a sombra das tílias, o seu vestido branco desaparecer perto do portão do jardim. Estendi os meus braços, e ela desapareceu.
LIVRO II.
20 DE OUTUBRO.
Chegámos aqui ontem. O embaixador está indisposto e não sairá durante alguns dias. Se ele fosse menos rabugento e carrancudo, tudo estaria bem. Vejo, bem claramente, que o Céu me destinou a provas severas; mas coragem! um coração leve pode suportar qualquer coisa. Um coração leve! Sorrio ao encontrar tal palavra a sair da minha pena. Um pouco mais de leveza tornar-me-ia o ser mais feliz sob o sol. Mas devo desesperar dos meus talentos e faculdades, enquanto outros de capacidades muito inferiores desfilam diante de mim com a maior autossatisfação? Graciosa Providência, a quem devo todos os meus poderes, por que não retiveste algumas dessas bênçãos que possuo e substituíste, no seu lugar, um sentimento de autoconfiança e contentamento?
Mas paciência! tudo ficará bem; pois asseguro-te, meu caro amigo, que tinhas razão: desde que fui obrigado a conviver continuamente com outras pessoas, e a observar o que fazem e como se ocupam, tornei-me muito mais satisfeito comigo mesmo. Pois somos de tal forma constituídos pela natureza, que estamos sempre propensos a comparar-nos com os outros; e a nossa felicidade ou miséria depende muito dos objetos e pessoas que nos rodeiam. Por esta razão, nada é mais perigoso do que a solidão: lá, a nossa imaginação, sempre disposta a elevar-se, tomando um novo voo nas asas da fantasia, retrata-nos uma cadeia de seres dos quais parecemos ser os mais inferiores. Todas as coisas parecem maiores do que realmente são, e todas parecem superiores a nós. Esta operação da mente é bastante natural: sentimos tão continuamente as nossas próprias imperfeições e imaginamos perceber nos outros as qualidades que não possuímos, atribuindo-lhes também tudo o que nós próprios desfrutamos, que, por este processo, formamos a ideia de um homem perfeito e feliz — um homem, contudo, que só existe na nossa própria imaginação.
Mas quando, apesar da fraqueza e das desilusões, começamos a trabalhar a sério e perseveramos com firmeza, descobrimos muitas vezes que, embora obrigados a virar continuamente, fazemos mais caminho do que outros que têm a assistência do vento e da maré; e, na verdade, não pode haver maior satisfação do que manter o passo com os outros ou ultrapassá-los na corrida.
26 DE NOVEMBRO.
Começo a achar a minha situação aqui mais tolerável, considerando todas as circunstâncias. Encontro uma grande vantagem em estar muito ocupado; e o número de pessoas que encontro, e as suas diferentes ocupações, criam um entretenimento variado para mim. Formei o conhecimento do Conde C— e estimo-o cada vez mais a cada dia. É um homem de forte entendimento e grande discernimento; mas, embora veja mais longe do que as outras pessoas, não é por isso frio no seu modo de ser, mas capaz de inspirar e retribuir a mais calorosa afeição. Ele pareceu interessar-se por mim numa ocasião em que tive de tratar de alguns assuntos com ele. Percebeu, à primeira palavra, que nos compreendíamos e que ele podia conversar comigo num tom diferente do que usava com os outros. Não posso estimar suficientemente a sua franqueza e a sua bondade aberta para comigo. É o maior e mais genuíno dos prazeres observar uma grande mente em simpatia com a nossa.
24 DE DEZEMBRO.
Como previ, o embaixador causa-me um incómodo infinito. É o palerma mais pontilhado debaixo do céu. Faz tudo passo a passo, com a minúcia insignificante de uma velha; e é um homem que é impossível agradar, porque ele nunca está satisfeito consigo mesmo. Gosto de tratar dos assuntos de forma regular e alegre e, quando terminados, deixá-los. Mas ele devolve-me constantemente os meus papéis, dizendo: "Estão bem", mas recomendando-me que os reveja, pois "sempre se pode melhorar usando uma palavra melhor ou uma partícula mais apropriada". Perco então toda a paciência e desejo estar com o diabo. Nem uma conjunção, nem um advérbio devem ser omitidos: ele tem uma antipatia mortal por todas aquelas transposições de que tanto gosto; e, se a música dos nossos períodos não está afinada com a chave oficial estabelecida, ele não consegue compreender o nosso significado. É deplorável estar ligado a um tal indivíduo.
O meu conhecimento do Conde C— é a única compensação para um tal mal. Ele disse-me francamente, no outro dia, que estava muito descontente com as dificuldades e atrasos do embaixador; que pessoas como ele são obstáculos, tanto para si próprias como para os outros. "Mas", acrescentou, "é preciso submeter-se, como um viajante que tem de subir uma montanha: se a montanha lá não estivesse, a estrada seria mais curta e mais agradável; mas lá está ela, e ele tem de a ultrapassar."
O velho percebe a parcialidade do conde por mim: isto irrita-o e ele aproveita todas as oportunidades para depreciar o conde na minha presença. Eu defendo-o, naturalmente, e isso só torna as coisas piores. Ontem ele deixou-me indignado, pois também aludiu a mim. "O conde", disse ele, "é um homem do mundo e um bom homem de negócios: o seu estilo é bom e ele escreve com facilidade; mas, como outros génios, não tem erudição sólida." Olhou para mim com uma expressão que parecia perguntar se eu sentia o golpe. Mas não produziu o efeito desejado: desprezo um homem que pode pensar e agir de tal maneira. Contudo, mantive a minha posição e respondi com não pouca veemência. O conde, disse eu, era um homem digno de respeito, tanto pelo seu caráter como pelos seus conhecimentos. Nunca conhecera uma pessoa cuja mente estivesse armazenada com conhecimentos mais úteis e extensos — que tivesse, de facto, dominado uma variedade infinita de assuntos e que, contudo, conservasse toda a sua atividade para os detalhes dos assuntos ordinários. Isto estava completamente para lá da sua compreensão; e despedi-me, para que a minha raiva não fosse demasiado excitada por alguma nova absurdidade dele.
E tu és o culpado por tudo isto, tu que me persuadiste a curvar o pescoço sob este jugo, pregando-me uma vida de atividade. Se o homem que planta vegetais e leva o seu milho à cidade nos dias de mercado não está mais utilmente empregado do que eu, então deixai-me trabalhar mais dez anos nas galés às quais estou agora acorrentado.
Oh, a miséria brilhante, o cansaço, que se está condenado a testemunhar entre as pessoas tolas que encontramos na sociedade aqui! A ambição de categoria! Como eles observam, como eles trabalham, para ganhar precedência! Que paixões pobres e desprezíveis são exibidas na sua total nudez! Temos uma mulher aqui, por exemplo, que nunca deixa de entreter a companhia com relatos da sua família e das suas propriedades. Qualquer estranho considerá-la-ia um ser tolo, cuja cabeça estava voltada pelas suas pretensões de categoria e riqueza; mas ela é, na realidade, ainda mais ridícula, a filha de um mero escrivão de magistrado desta vizinhança. Não consigo compreender como os seres humanos se podem rebaixar tanto.
Todos os dias observo cada vez mais a loucura de julgar os outros por nós mesmos; e tenho tantos problemas comigo mesmo, e o meu próprio coração está em tal agitação constante, que me dou por satisfeito em deixar que os outros sigam o seu próprio caminho, se apenas me permitirem o mesmo privilégio.
O que mais me provoca é a extensão infeliz em que as distinções de categoria são levadas. Sei perfeitamente quão necessárias são as desigualdades de condição, e sou sensível às vantagens que eu próprio daí retiro; mas não gostaria que estas instituições se tornassem uma barreira à pequena oportunidade de felicidade que possa desfrutar nesta terra.
Fiz recentemente o conhecimento de uma Srta. B—, uma rapariga muito agradável, que preservou os seus modos naturais no meio de uma vida artificial. A nossa primeira conversa agradou-nos a ambos igualmente; e, ao despedir-me, solicitei permissão para visitá-la. Ela consentiu de uma maneira tão gentil que aguardei com impaciência a chegada do momento feliz. Ela não é natural deste lugar, mas reside aqui com a sua tia. O semblante da senhora idosa não é cativante. Prestei-lhe muita atenção, dirigindo a maior parte da minha conversa a ela; e, em menos de meia hora, descobri o que a sua sobrinha me reconheceu posteriormente: que a sua tia idosa, tendo apenas uma pequena fortuna e uma quota ainda menor de entendimento, não encontra satisfação senão no pedigree dos seus antepassados, nenhuma proteção a não ser no seu nascimento nobre, e nenhum prazer senão em olhar do seu castelo por cima das cabeças dos humildes cidadãos. Ela era, sem dúvida, bonita na sua juventude e, nos seus primeiros anos, provavelmente desperdiçou o seu tempo tornando muitos jovens pobres o brinquedo dos seus caprichos: nos seus anos mais maduros, submeteu-se ao jugo de um oficial veterano que, em troca da sua pessoa e da sua pequena independência, passou com ela o que poderíamos designar a sua idade de latão. Ele morreu; e ela é agora uma viúva, e abandonada. Passa a sua idade de ferro sozinha, e não seria abordada, não fosse a amabilidade da sua sobrinha.
8 DE JANEIRO DE 1772.
Que seres são os homens, cujos pensamentos inteiros estão ocupados com a forma e a cerimónia, que durante anos a fio dedicam os seus esforços mentais e físicos à tarefa de se adiantarem apenas um passo e se esforçam por ocupar um lugar mais elevado à mesa. Não que a tais pessoas faltasse, de outro modo, ocupação: pelo contrário, dão a si mesmas muito trabalho negligenciando assuntos importantes por tais futilidades. Na semana passada surgiu uma questão de precedência num passeio de trenó, e toda a nossa diversão foi estragada.
As criaturas tolas não conseguem ver que não é o lugar que constitui a verdadeira grandeza, uma vez que o homem que ocupa o primeiro lugar raramente desempenha o papel principal. Quantos reis são governados pelos seus ministros — quantos ministros pelos seus secretários? Quem, em tais casos, é realmente o chefe? Aquele, como me parece, que consegue ver através dos outros e possui força ou habilidade suficiente para tornar o poder ou as paixões deles subordinados à execução dos seus próprios desígnios.
20 DE JANEIRO.
Devo escrever-lhe deste lugar, minha querida Charlotte, de um pequeno quarto numa estalagem rural, onde me abriguei de uma tempestade severa. Durante toda a minha residência naquele lugar miserável D—, onde vivi entre estranhos — estranhos, na verdade, a este coração —, nunca em momento algum senti a menor inclinação para corresponder consigo; mas nesta cabana, neste retiro, nesta solidão, com a neve e o granizo a baterem contra o vidro da minha janela, é o meu primeiro pensamento. No instante em que entrei, a sua figura surgiu diante de mim, e a lembrança! Ó minha Charlotte, a sagrada, terna lembrança! Gracioso Céu! Restitui-me o momento feliz do nosso primeiro conhecimento.
Se pudesse ver-me, minha querida Charlotte, no turbilhão da dissipação — como os meus sentidos se secam, mas o meu coração nunca está cheio. Não desfruto de um único momento de felicidade: tudo é vão — nada me toca. Estou, por assim dizer, diante do teatro de marionetas: vejo as pequenas marionetas moverem-se e pergunto se não é uma ilusão de ótica. Divirto-me com estas marionetas, ou, melhor dizendo, sou eu próprio uma delas: mas, quando por vezes agarro a mão do meu próximo, sinto que não é natural; e retiro a minha com um estremecimento. À noite digo que desfrutarei do nascer do sol da manhã seguinte, e contudo permaneço na cama: de dia prometo passear ao luar; e, no entanto, permaneço em casa. Não sei por que me levanto, nem por que vou dormir.
O fermento que animava a minha existência desapareceu: o encanto que me animava na escuridão da noite e me despertava dos meus sonos matinais, fugiu para sempre.
Encontrei apenas um ser aqui que me interessa, uma Srta. B—. Ela assemelha-se a si, minha querida Charlotte, se é que alguém pode possivelmente assemelhar-se a si. "Ah!", dirá você, "ele aprendeu a fazer belos elogios." E isto é parcialmente verdade. Tenho sido muito agradável ultimamente, pois não estava no meu poder ser de outra forma. Tenho, aliás, muito espírito: e as senhoras dizem que ninguém entende melhor a adulação, ou falsidades acrescentará você; uma vez que a primeira qualidade acompanha invariavelmente a segunda. Mas devo falar-lhe da Srta. B—. Ela tem uma abundância de alma, que reluz dos seus profundos olhos azuis. O seu estatuto é um tormento para ela, e não satisfaz nenhum desejo do seu coração. Ela retirar-se-ia voluntariamente deste turbilhão de moda, e frequentemente imaginamos uma vida de felicidade imperturbável em cenas distantes de retiro rural: e então falamos de si, minha querida Charlotte; pois ela conhece-a e presta homenagem aos seus méritos; mas a sua homenagem não é exigida, é voluntária, ela ama-a e deleita-se em ouvi-la ser o assunto de conversa.
Oh, se eu estivesse sentado aos seus pés no seu pequeno quarto favorito, com as crianças queridas a brincar à nossa volta! Se se tornassem incómodas para si, contar-lhes-ia alguma história de goblin apavorante; e elas reunir-se-iam à minha volta com atenção silenciosa. O sol está a pôr-se em glória; os seus últimos raios brilham sobre a neve, que cobre a face do campo: a tempestade acabou, e devo regressar ao meu calabouço. Adeus! — Está Albert consigo? E o que é ele para si? Deus perdoe a pergunta.
8 DE FEVEREIRO.
Há uma semana que temos o tempo mais miserável: mas isto para mim é uma bênção; pois, durante a minha residência aqui, não brilhou um único dia bom dos céus que não tenha sido perdido para mim pela intrusão de alguém. Durante a severidade da chuva, granizo, geada e tempestade, felicito-me por não poder ser pior dentro de portas do que fora, nem pior fora do que é dentro de portas; e assim reconcilio-me. Quando o sol nasce brilhante de manhã e promete um dia glorioso, nunca omito exclamar: "Lá está, agora, eles têm outra bênção do Céu, que de certeza hão de destruir: estragam tudo — saúde, fama, felicidade, diversão; e fazem-no geralmente por tolice, ignorância ou imbecilidade, e sempre, segundo o que eles próprios dizem, com as melhores intenções!" Muitas vezes poderia suplicar-lhes, de joelhos, que fossem menos decididos quanto à sua própria destruição.
17 DE FEVEREIRO.
Temo que o meu embaixador e eu não continuaremos juntos por muito mais tempo. Ele está realmente a tornar-se insuportável. Ele conduz os seus negócios de uma maneira tão ridícula, que sou muitas vezes forçado a contradizê-lo e a fazer as coisas à minha maneira; e então, claro, ele acha que são muito mal feitas. Queixou-se de mim recentemente por causa disto na corte; e o ministro deu-me uma reprimenda — uma suave, é verdade, mas ainda assim uma reprimenda. Em consequência disto, eu estava prestes a apresentar a minha demissão, quando recebi uma carta à qual me submeti com grande respeito, devido ao alto, nobre e generoso espírito que a ditou. Ele esforçou-se por acalmar a minha sensibilidade excessiva, prestou homenagem às minhas ideias extremas de dever, de bom exemplo e de perseverança nos negócios, como o fruto do meu ardor juvenil, um impulso que ele não procurou destruir, mas apenas moderar, para que pudesse ter o jogo adequado e ser produtivo de bem. Portanto, agora estou em repouso por mais uma semana, e já não estou em conflito comigo mesmo. O contentamento e a paz de espírito são coisas valiosas: gostaria, meu caro amigo, que estas pedras preciosas fossem menos transitórias.
20 DE FEVEREIRO.
Deus vos abençoe, meus queridos amigos, e que Ele vos conceda aquela felicidade que Ele me nega!
Agradeço-te, Albert, por me teres enganado. Aguardava a notícia de que o dia do vosso casamento estava marcado; e pretendia, nesse dia, com solenidade, retirar o perfil de Charlotte da parede e enterrá-lo com alguns outros papéis que possuo. Estais agora unidos, e a imagem dela permanece aqui. Bem, que permaneça! Por que não haveria de permanecer? Sei que ainda sou um dos vossos, que ainda ocupo um lugar intacto no coração de Charlotte, que ocupo o segundo lugar nele; e pretendo mantê-lo. Oh, eu tornar-me-ia louco se ela pudesse esquecer! Albert, esse pensamento é o inferno! Adeus, Albert, adeus, anjo do céu, adeus, Charlotte!
15 DE MARÇO.
Acabei de ter uma triste aventura, que me levará para longe daqui. Perco toda a paciência! — Morte! — Não tem remédio; e tu és o único culpado, pois insististe e impeliste-me a ocupar um cargo para o qual eu não era de modo algum adequado. Tenho agora razão para estar satisfeito, e tu também! Mas, para que não possas atribuir novamente esta fatalidade ao meu temperamento impetuoso, envio-te, meu caro senhor, uma narração simples e singela do caso, tal como um mero cronista de factos a descreveria.
O Conde de O— gosta de mim e distingue-me. É bem sabido, e mencionei-te isto uma centena de vezes. Ontem jantei com ele. É o dia em que a nobreza costuma reunir-se em sua casa à noite. Nunca pensei uma única vez na assembleia, nem que nós, subalternos, não pertencíamos a tal sociedade. Bem, jantei com o conde; e, após o jantar, fomos para o grande salão. Caminhámos de um lado para o outro; e conversei com ele, e com o Coronel B—, que se juntou a nós; e desta maneira a hora da assembleia aproximou-se. Deus sabe, eu não estava a pensar em nada, quando quem entra senão a honorável Lady —, acompanhada pelo seu nobre marido e pela sua filha tola e intrigante, com a sua cintura pequena e pescoço plano; e, com olhares de desdém e um ar altivo, passaram por mim. Como detesto cordialmente toda a raça, decidi ir-me embora; e apenas esperei até que o conde se tivesse libertado da sua conversa impertinente para me despedir, quando a agradável Srta. B— entrou. Como nunca a encontro sem sentir um prazer sincero, fiquei e falei com ela, debruçado sobre o encosto da sua cadeira, e não percebi, senão algum tempo depois, que ela parecia um pouco confusa e deixou de me responder com a sua habitual facilidade de modos. Fiquei impressionado. "Céus!", disse para mim mesmo, "poderá ela, também, ser como os outros?" Senti-me aborrecido e estava prestes a retirar-me; mas permaneci, apesar disso, criando desculpas para a sua conduta, imaginando que ela não o fizera por mal, e ainda esperando receber algum reconhecimento amigável. O resto da companhia chegou agora. Lá estava o Barão F—, com um fato completo que datava da coroação de Francisco I.; o Chanceler N—, com a sua esposa surda; o I—, vestido de forma desleixada, cujo casaco fora de moda dava provas de consertos modernos: isto coroou tudo. Conversei com alguns dos meus conhecidos, mas responderam-me de forma lacónica. Estava ocupado a observar a Srta. B—, e não notei que as mulheres estavam a sussurrar no fim da sala, que o murmúrio se estendeu gradualmente aos homens, que a Madame S— se dirigiu ao conde com muito calor (isto foi-me tudo relatado posteriormente pela Srta. B—); até que, finalmente, o conde se aproximou de mim e levou-me à janela. "Conheces os nossos costumes ridículos", disse ele. "Percebo que a companhia está algo desagradada por estares aqui. Não gostaria, por nada —" "Peço perdão a Vossa Excelência!", exclamei. "Deveria ter pensado nisto antes, mas sei que perdoará esta pequena falta de atenção. Eu ia", acrescentei, "há algum tempo, mas o meu génio maligno deteve-me." E sorri e fiz uma vénia, para me despedir. Ele apertou-me a mão, de uma forma que expressava tudo. Apressei-me imediatamente a sair da ilustre assembleia, saltei para uma carruagem e conduzi até M—. Contemplei o sol poente do cimo da colina e li aquela bela passagem de Homero, onde Ulisses é recebido pelos hospitaleiros pastores. Isto foi, na verdade, encantador.
Regressei a casa para cear à noite. Poucas pessoas estavam reunidas na sala. Tinham virado um canto da toalha de mesa e jogavam dados. O bondoso A— entrou. Pousou o chapéu quando me viu, aproximou-se de mim e disse em tom baixo: "Tiveste uma aventura desagradável." "Eu!", exclamei. "O conde obrigou-te a retirar da assembleia!" "Diabo leve a assembleia!", disse eu. "Fiquei muito contente por ir embora." "Estou encantado", acrescentou, "que leves isto tão levemente. Lamento apenas que já se fale tanto disso." A circunstância começou então a magoar-me. Imaginei que todos os que se sentavam, e até olhavam para mim, estavam a pensar neste incidente; e o meu coração tornou-se amargo.
E agora eu poderia cravar um punhal no meu peito, quando ouço que sou compadecido por toda a parte, e observo o triunfo dos meus inimigos, que dizem que este é sempre o caso com pessoas vaidosas, cujas cabeças estão viradas com presunção, que fingem desprezar formas e tais pequenas e ociosas parvoíces.
Diz o que quiseres sobre a fortaleza, mas mostra-me o homem que consegue suportar pacientemente o riso dos tolos, quando eles obtiveram uma vantagem sobre ele. É apenas quando a sua parvoíce é desprovida de fundamento que se pode sofrer sem queixa.
16 DE MARÇO.
Tudo conspira contra mim. Encontrei a Srta. B— a caminhar hoje. Não pude deixar de me juntar a ela; e, quando estávamos a uma pequena distância dos seus companheiros, expressei o meu sentimento pela sua mudança de atitude para comigo. "Ó Werther!", disse ela, num tom de emoção, "tu, que conheces o meu coração, como pudeste interpretar tão mal a minha angústia? O que não sofri por ti, desde o momento em que entraste na sala! Previ tudo, cem vezes estive prestes a mencionar-to. Sabia que os S——s e os T——s, com os seus maridos, sairiam da sala em vez de permanecerem na tua companhia. Sabia que o conde não romperia com eles: e agora fala-se tanto disso." "Como!", exclamei, e esforcei-me por esconder a minha emoção; pois tudo o que Adelin me mencionara ontem ocorreu-me dolorosamente naquele momento. "Oh, quanto já me custou!", disse esta rapariga amável, enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas. Mal conseguia conter-me, e estava pronto para me lançar aos seus pés. "Explica-te!", gritei. As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Tornei-me completamente frenético. Ela enxugou-as, sem tentar escondê-las. "Conheces a minha tia", continuou ela; "ela estava presente: e sob que luz considera ela o caso! Ontem à noite, e esta manhã, Werther, fui obrigada a ouvir uma lição sobre o meu conhecimento contigo. Fui obrigada a ouvir-te condenado e depreciado; e não pude — não me atrevi — a dizer muito em tua defesa."
Cada palavra que ela proferia era um punhal no meu coração. Ela não sentia que misericórdia teria sido esconder-me tudo. Ela contou-me, além disso, todas as impertinências que seriam ainda mais divulgadas, e como os maliciosos triunfariam; como se regozijariam com o castigo do meu orgulho, com a minha humilhação por aquela falta de estima pelos outros com a qual tinha sido frequentemente censurado. Ouvir tudo isto, Wilhelm, proferido por ela numa voz da mais sincera simpatia, despertou todas as minhas paixões; e ainda estou num estado de extrema agitação. Gostaria de encontrar um homem que zombasse de mim sobre este acontecimento. Sacrificá-lo-ia ao meu ressentimento. A visão do seu sangue poderia, possivelmente, ser um alívio para a minha fúria. Cem vezes agarrei um punhal, para dar alívio a este coração oprimido. Os naturalistas falam de uma raça nobre de cavalos que abre instintivamente uma veia com os dentes, quando aquecidos e exaustos por uma longa corrida, para respirar mais livremente. Sinto-me frequentemente tentado a abrir uma veia, para obter para mim a liberdade eterna.
24 DE MARÇO.
Apresentei a minha demissão à corte. Espero que seja aceite, e perdoar-me-ás por não te ter consultado previamente. É necessário que eu deixe este lugar. Sei tudo o que tu dirás para me convencer a ficar, e por isso peço-te que amenizes esta notícia para a minha mãe. Sou incapaz de fazer algo por mim mesmo: como, então, seria competente para ajudar os outros? Ela ficará aflita por eu ter interrompido aquela carreira que me teria feito primeiro conselheiro privado, e depois ministro, e que eu olhasse para trás, em vez de avançar. Argumenta como quiseres, combina todas as razões que me deveriam ter levado a ficar, eu vou-me embora: isso é suficiente. Mas, para que não sejas ignorante do meu destino, posso mencionar que o Príncipe de —— está aqui. Ele está muito satisfeito com a minha companhia; e, tendo ouvido falar da minha intenção de me demitir, convidou-me para a sua casa de campo, para passar os meses de primavera com ele. Serei deixado completamente como meu próprio senhor; e, como concordamos em todos os assuntos exceto um, tentarei a minha sorte e acompanhá-lo-ei.
19 DE ABRIL.
Obrigado por ambas as tuas cartas. Adiei a minha resposta e retive esta carta, até obter uma resposta da corte. Temia que a minha mãe pudesse recorrer ao ministro para derrotar o meu propósito. Mas o meu pedido foi concedido, a minha demissão foi aceite. Não relatarei com que relutância foi concedida, nem contarei o que o ministro escreveu: tu apenas renovarias as tuas lamentações. O príncipe herdeiro enviou-me um presente de vinte e cinco ducados; e, na verdade, tal bondade comoveu-me até às lágrimas. Por esta razão, não exigirei da minha mãe o dinheiro que solicitei ultimamente.
5 DE MAIO.
Deixo este lugar amanhã; e, como a minha terra natal fica apenas a seis milhas da estrada principal, pretendo visitá-la mais uma vez e recordar os sonhos felizes da minha infância. Entrarei pelo mesmo portão pelo qual vim com a minha mãe, quando, após a morte do meu pai, ela deixou aquele refúgio delicioso para se encarcerar na tua melancólica cidade. Adeus, meu caro amigo: ouvirás falar da minha futura carreira.
9 DE MAIO.
Fiz a minha visita à minha terra natal com toda a devoção de um peregrino, e experimentei muitas emoções inesperadas. Perto do grande olmo, que fica a um quarto de légua da aldeia, saí da carruagem e mandei-a seguir em frente, para que, sozinho e a pé, pudesse desfrutar vívida e cordialmente de todo o prazer das minhas recordações. Fiquei ali, sob aquele mesmo olmo que era antigamente o termo e o objeto dos meus passeios. Como as coisas mudaram desde então! Então, na ignorância feliz, suspirava por um mundo que não conhecia, onde esperava encontrar todo o prazer e desfrute que o meu coração pudesse desejar; e agora, no meu regresso desse vasto mundo, ó meu amigo, quantas esperanças desapontadas e planos fracassados trouxe eu de volta!
Ao contemplar as montanhas que se estendiam diante de mim, pensei em quantas vezes tinham sido elas o objeto dos meus mais caros desejos. Ali costumava eu sentar-me por horas a fio, com os olhos fixos nelas, ansiando ardentemente vaguear sob a sombra daqueles bosques, perder-me naqueles vales que formam um objeto tão deleitável à distância. Com que relutância deixei este lugar encantador, quando a minha hora de recreio findou e a minha licença expirou! Aproximei-me da aldeia: todos os antigos jardins e casas de verão, bem conhecidos, foram reconhecidos novamente; desgostaram-me os novos e todas as outras alterações que tinham ocorrido. Entrei na aldeia e todos os meus sentimentos de outrora regressaram. Não posso, meu caro amigo, entrar em detalhes, por mais encantadoras que fossem as minhas sensações: seriam entediantes na narração. Eu pretendia hospedar-me na praça do mercado, perto da nossa antiga casa. Assim que entrei, percebi que a sala de aula, onde a nossa infância fora instruída por aquela boa velha, estava convertida numa loja. Recordei a mágoa, o peso, as lágrimas e a opressão de coração que experimentei naquele confinamento. Cada passo produzia alguma impressão particular. Um peregrino na Terra Santa não encontra tantos pontos prenhes de ternas recordações, e a sua alma dificilmente é movida com maior devoção. Um incidente servirá de ilustração. Segui o curso de um riacho até uma quinta, outrora um passeio deleitável para mim, e parei no local onde, quando rapazes, nos costumávamos divertir a fazer lançamentos de pedras sobre a água. Recordava tão bem como costumava, antigamente, observar o curso desse mesmo riacho, seguindo-o com avidez inquisitiva, formando ideias românticas sobre os países pelos quais haveria de passar; mas a minha imaginação logo se esgotava: enquanto a água continuava a fluir cada vez mais longe, até que o meu espírito ficava aturdido pela contemplação de uma distância invisível. Exatamente assim, meu caro amigo, tão felizes e tão confinados, eram os pensamentos dos nossos bons antepassados. Os seus sentimentos e a sua poesia eram frescos como a infância. E, quando Ulisses fala do mar imensurável e da terra sem limites, os seus epítetos são verdadeiros, naturais, profundamente sentidos e misteriosos. De que importância é que eu tenha aprendido, com qualquer escolar, que o mundo é redondo? O homem precisa de pouca terra para o desfrute, e de ainda menos para o seu repouso final.
Estou atualmente com o príncipe na sua casa de caça. É um homem com quem se pode viver feliz. É honesto e simples. Existem, contudo, algumas personagens estranhas à sua volta, que não consigo compreender de todo. Não parecem viciosas e, no entanto, não ostentam a aparência de homens inteiramente honestos. Por vezes, estou inclinado a acreditar na sua honestidade, e contudo não me consigo persuadir a confiar nelas. Entristece-me ouvir o príncipe falar ocasionalmente de coisas sobre as quais apenas leu ou ouviu dizer, e sempre com o mesmo prisma sob o qual foram representadas por outros.
Ele valoriza o meu entendimento e os meus talentos mais do que o meu coração, mas orgulho-me apenas deste último. É a fonte única de tudo o que constitui a nossa força, felicidade e miséria. Todo o conhecimento que possuo, qualquer outra pessoa pode adquiri-lo, mas o meu coração é exclusivamente meu.
25 DE MAIO.
Tive na cabeça um plano do qual não pretendia falar-lhe até que estivesse cumprido: agora que fracassou, posso muito bem mencioná-lo. Desejava ingressar no exército e há muito que ansiava por dar esse passo. Esta, na verdade, foi a principal razão para a minha vinda para aqui com o príncipe, dado que ele é um general ao serviço. Comuniquei-lhe o meu intento durante um dos nossos passeios conjuntos. Ele desaprovou-o, e teria sido pura loucura não escutar as suas razões.
11 DE JUNHO.
Diga o que quiser, não posso permanecer aqui por mais tempo. Por que haveria de ficar? O tempo arrasta-se penosamente para mim. O príncipe é tão gracioso comigo quanto alguém poderia ser, e contudo não estou à vontade. Não há, na verdade, nada em comum entre nós. Ele é um homem de entendimento, mas inteiramente do tipo comum. A sua conversa não me proporciona mais divertimento do que o que eu extrairia da leitura de um livro bem escrito. Ficarei aqui por mais uma semana e, depois, recomeçarei as minhas viagens. Os meus desenhos são as melhores coisas que fiz desde que cheguei aqui. O príncipe tem gosto pelas artes e melhoraria se o seu espírito não estivesse acorrentado por regras frias e meras ideias técnicas. Frequentemente perco a paciência quando, com uma imaginação vibrante, estou a dar expressão à arte e à natureza, ele interfere com sugestões eruditas e usa, ao acaso, a fraseologia técnica dos artistas.
16 DE JULHO.
Mais uma vez sou um errante, um peregrino, através do mundo. Mas o que és tu senão isso!
18 DE JULHO.
Para onde vou? Dir-lhe-ei em confiança. Sou obrigado a continuar por mais uma quinzena aqui, e depois penso que seria melhor para mim visitar as minas em—. Mas estou apenas a iludir-me. O facto é que desejo estar perto de Charlotte novamente, é tudo. Sorrio perante as sugestões do meu coração e obedeço aos seus ditames.
29 DE JULHO.
Não, não! ainda está tudo bem, tudo bem! Ela, a esposa dele! Ó Deus, que me destes o ser, se tivesses destinado esta felicidade para mim, toda a minha vida teria sido uma contínua ação de graças! Mas não murmurarei — perdoai estas lágrimas, perdoai estes desejos infrutíferos. Ela... a minha esposa! Oh, o simples pensamento de envolver nos meus braços aquela criatura mais querida do Céu! Caro Wilhelm, todo o meu ser sente-se convulso quando vejo Albert colocar os seus braços em torno da sua cintura esguia!
E hei de confessá-lo? Por que não o deveria fazer, Wilhelm? Ela teria sido mais feliz comigo do que com ele. Albert não é o homem para satisfazer os desejos de tal coração. Falta-lhe uma certa sensibilidade; falta-lhe... enfim, os seus corações não batem em uníssono. Quantas vezes, meu caro amigo, ao ler uma passagem de algum livro interessante, quando o meu coração e o de Charlotte pareciam encontrar-se, e em cem outras instâncias em que os nossos sentimentos eram desvelados pela história de alguma personagem fictícia, senti que fomos feitos um para o outro! Mas, caro Wilhelm, ele ama-a com toda a sua alma; e o que não merece tal amor?
Fui interrompido por uma visita insuportável. Sequei as minhas lágrimas e recompus os meus pensamentos. Adeus, meu melhor amigo!
4 DE AGOSTO.
Não sou o único infortunado. Todos os homens são desapontados nas suas esperanças e enganados nas suas expectativas. Fiz uma visita à minha boa velha sob as tílias. O rapaz mais velho correu ao meu encontro: a sua exclamação de alegria trouxe a mãe, mas ela tinha um aspeto muito melancólico. A sua primeira palavra foi: "Ai! caro senhor, o meu pequeno John morreu." Era o mais novo dos seus filhos. Fiquei em silêncio. "E o meu marido regressou da Suíça sem dinheiro; e, se algumas pessoas bondosas não o tivessem ajudado, ele teria tido de mendigar o seu caminho de volta. Apanhou febre na viagem." Nada pude responder, mas dei uma pequena oferta à criança. Ela convidou-me para comer fruta: acedi e deixei o lugar com o coração pesaroso.
21 DE AGOSTO.
As minhas sensações estão em constante mudança. Por vezes abre-se diante de mim uma perspetiva feliz; mas, ai!, é apenas por um momento; e então, quando estou perdido em devaneios, não posso deixar de dizer a mim mesmo: "Se Albert morresse?... Sim, ela tornar-se-ia... e eu seria..." e assim persigo uma quimera, até que ela me conduz ao bordo de um precipício diante do qual estremeço.
Quando passo pelo mesmo portão e caminho pela mesma estrada que me conduziu pela primeira vez a Charlotte, o meu coração afunda-se perante a mudança que ocorreu desde então. Tudo, tudo está alterado! Nenhum sentimento, nenhuma pulsação do meu coração é a mesma. As minhas sensações são tais como as que ocorreriam a um príncipe falecido cujo espírito regressasse para visitar o palácio soberbo que construiu em tempos felizes, adornado com custosa magnificência, e deixado a um filho amado, mas cuja glória ele encontrasse desvanecida, e os seus salões desertos e em ruínas.
3 DE SETEMBRO.
Por vezes não consigo compreender como ela pode amar outro, como ousa amar outro, quando eu não amo nada neste mundo tão completamente, tão devotamente, como a amo, quando só a conheço a ela e não tenho outra posse.
4 DE SETEMBRO.
É mesmo assim! À medida que a natureza veste as suas cores de outono, torna-se outono comigo e ao meu redor. As minhas folhas estão secas e amarelas, e as árvores vizinhas estão despidas da sua folhagem. Lembra-se de eu lhe escrever sobre um rapaz camponês pouco depois da minha chegada aqui? Acabo de fazer perguntas sobre ele em Walheim. Dizem que foi despedido do seu serviço e que é agora evitado por todos. Encontrei-o ontem na estrada, a caminho de uma aldeia vizinha. Falei-lhe e ele contou-me a sua história. Interessou-me imensamente, como facilmente compreenderá quando a repetir para si. Mas por que haveria de incomodá-lo? Por que não reservaria toda a minha mágoa para mim mesmo? Por que continuaria a dar-lhe ensejo de me ter pena e de me censurar? Mas não importa: isto também faz parte do meu destino.
A princípio, o rapaz camponês respondeu às minhas perguntas com uma espécie de melancolia contida, que me pareceu a marca de um temperamento tímido; mas, à medida que nos fomos compreendendo, falou com menos reserva, confessou abertamente as suas faltas e lamentou a sua desventura. Oxalá, meu caro amigo, eu pudesse dar a devida expressão à sua linguagem. Contou-me, com uma espécie de recordação prazerosa, que, após a minha partida, a sua paixão pela patroa aumentou diariamente, até que, por fim, já não sabia o que fazia, nem o que dizia, nem o que seria de si. Não conseguia comer, nem beber, nem dormir; sentia uma sensação de sufoco; desobedecia a todas as ordens e esquecia todos os comandos involuntariamente; parecia como se fosse perseguido por um espírito maligno, até que, um dia, sabendo que a sua patroa tinha ido para um aposento superior, seguiu-a, ou, melhor dizendo, sentiu-se atraído por ela. Como ela se mostrou surda às suas súplicas, recorreu à violência. Ele não sabe o que aconteceu; mas chamou Deus por testemunha de que as suas intenções para com ela eram honradas, e que nada desejava mais sinceramente do que eles se casassem e passassem as suas vidas juntos. Quando chegou a este ponto, começou a hesitar, como se houvesse algo que não tivesse coragem de proferir, até que, por fim, admitiu, com alguma confusão, certas pequenas confidências que ela encorajara e liberdades que ela permitira. Interrompeu-se duas ou três vezes na sua narração e assegurou-me, com a maior seriedade, que não tinha qualquer desejo de a tornar "má", como ele dizia, pois ainda a amava tão sinceramente como sempre; que o relato nunca antes tinha escapado aos seus lábios, e que só agora fora dito para me convencer de que ele não estava inteiramente perdido e abandonado. E aqui, meu caro amigo, devo começar a velha canção que sabe que profiro eternamente. Se eu pudesse apenas representar o homem como ele estava, e como está agora diante de mim, se eu pudesse apenas dar as suas verdadeiras expressões, sentir-se-ia compelido a compadecer-se do seu fado. Mas basta: você, que conhece a minha desventura e o meu temperamento, pode facilmente compreender a atração que me arrasta para todo o ser infortunado, mas particularmente para aquele cuja história acabei de relatar.
Ao reler esta carta uma segunda vez, constato que omiti a conclusão da minha história; mas é facilmente suprida. Ela tornou-se reservada para com ele, por instigação do seu irmão, que há muito o odiava e desejava a sua expulsão da casa, temendo que um segundo casamento da irmã pudesse privar os seus filhos da avultada fortuna que esperavam dela, já que ela é estéril. Ele foi finalmente despedido; e todo o caso causou tanto escândalo que a patroa não ousou aceitá-lo de volta, mesmo que o desejasse. Desde então, contratou outro criado, com quem, dizem, o irmão está igualmente descontente, e com quem ela provavelmente se casará; mas o meu informante assegura-me que ele próprio está determinado a não sobreviver a tal catástrofe.
Esta história não é exagerada nem embelezada: na verdade, enfraqueci-a e prejudiquei-a na narração, pela necessidade de usar as expressões mais refinadas da sociedade.
Este amor, pois, esta constância, esta paixão, não são ficção poética. É real e habita na sua maior pureza entre aquela classe de seres humanos a quem chamamos rudes, incultos. Nós somos os cultos, não os pervertidos. Mas leia esta história com atenção, imploro-lhe. Estou tranquilo hoje, pois estive ocupado com esta narração: pode ver pela minha escrita que não estou tão agitado como de costume. Leio e releio este conto, Wilhelm: é a história do seu amigo! A minha fortuna foi e será semelhante; e não sou nem metade tão corajoso nem metade tão determinado como o pobre desgraçado com quem hesito comparar-me.
5 DE SETEMBRO.
Charlotte tinha escrito uma carta ao marido no campo, onde ele fora retido por negócios. Começava assim: "Meu amor mais querido, regressa o mais depressa possível: espero-te com mil raptos." Um amigo que chegou trouxe a notícia de que, por certas razões, ele não poderia regressar imediatamente. A carta de Charlotte não foi enviada e, na mesma noite, caiu nas minhas mãos. Li-a e sorri. Ela perguntou a razão. "Que tesouro celestial é a imaginação!", exclamei; "imaginei por um momento que isto fora escrito para mim." Ela fez uma pausa e pareceu desagradada. Fiquei em silêncio.
6 DE SETEMBRO.
Custou-me muito separar-me do casaco azul que usei na primeira vez em que dancei com Charlotte. Mas não podia, de modo algum, usá-lo por mais tempo. Mas encomendei um novo, exatamente semelhante, até no colarinho e nas mangas, bem como um novo colete e calças.
Mas não produz o mesmo efeito em mim. Não sei como é, mas espero que com o tempo venha a gostar dele.
12 DE SETEMBRO.
Ela esteve ausente por alguns dias. Foi ao encontro de Albert. Hoje visitei-a: ela levantou-se para me receber e eu beijei a sua mão com a maior ternura.
Um canário, no momento, voou de um espelho e pousou no seu ombro. "Aqui está um novo amigo", observou ela, enquanto o fazia pousar na sua mão: "é um presente para as crianças. Que querido ele é! Olha para ele! Quando o alimento, ele bate as asas e bica tão graciosamente. Ele beija-me, também, olha só!"
Ela segurou o pássaro junto à boca; e ele pressionou os seus lábios doces com tanto fervor que parecia sentir o excesso de felicidade que desfrutava.
"Ele há de beijar-te também", acrescentou ela; e então segurou o pássaro na minha direção. O seu pequeno bico moveu-se da boca dela para a minha, e a deleitável sensação pareceu como o precursor da mais doce felicidade.
"Um beijo", observei, "não parece satisfazê-lo: ele deseja comida e parece desapontado com estas carícias insatisfatórias."
"Mas ele come da minha boca", continuou ela, e estendeu os lábios para ele contendo sementes; e ela sorriu com todo o encanto de um ser que permitiu uma participação inocente do seu amor.
Desviei o rosto. Ela não deveria agir assim. Não deveria excitar a minha imaginação com tais demonstrações de inocência e felicidade celestiais, nem despertar o meu coração dos seus sonhos, nos quais ele divaga sobre a vacuidade da vida! E por que não? Porque ela sabe o quanto a amo.
15 DE SETEMBRO.
Torna-me desgraçado, Wilhelm, pensar que possa haver homens incapazes de apreciar as poucas coisas que possuem um valor real na vida. Lembra-se das nogueiras em S—, sob as quais costumava sentar-me com Charlotte, durante as minhas visitas ao digno velho vigário? Aquelas árvores gloriosas, cuja simples visão tantas vezes encheu o meu coração de alegria, como adornavam e refrescavam o pátio da reitoria, com os seus ramos amplamente estendidos! E quão agradável era a nossa recordação do bom velho pastor, por cujas mãos foram plantadas há tantos anos! O mestre-escola mencionou frequentemente o seu nome. Tinha-o do seu avô. Deve ter sido um homem excelente; e, sob a sombra daquelas velhas árvores, a sua memória era sempre venerada por mim. O mestre-escola informou-nos ontem, com lágrimas nos olhos, que aquelas árvores tinham sido derrubadas. Sim, cortadas rente ao solo! Eu poderia, na minha ira, ter matado o monstro que deu o primeiro golpe. E tenho de suportar isto! — eu, que, se tivesse duas árvores destas no meu próprio pátio, e uma morresse de velhice, teria chorado com verdadeira aflição. Mas resta algum conforto, tal coisa é o sentimento: toda a aldeia murmura perante a desgraça; e espero que a esposa do vigário logo perceba, pela cessação das ofertas dos aldeões, o quanto feriu os sentimentos da vizinhança. Foi ela quem o fez, a esposa do atual titular (o nosso bom velho morreu), uma criatura alta e doentia que está tão certa em desprezar o mundo quanto o mundo a despreza totalmente. O ser tolo pretende ser erudito, finge examinar os livros canónicos, presta o seu auxílio à reforma da cristandade, moral e crítica, à moda nova, e encolhe os ombros à menção do entusiasmo de Lavater. A sua saúde está destruída, motivo pelo qual está impedida de ter qualquer desfrute aqui na terra. Só tal criatura poderia ter cortado as minhas nogueiras! Nunca poderei perdoá-lo. Ouça as suas razões. As folhas que caíam tornavam o pátio húmido e sujo; os ramos obstruíam a luz; os rapazes atiravam pedras às nozes quando estavam maduras, e o ruído afetava os seus nervos; e perturbava as suas profundas meditações, quando ela pesava as dificuldades de Kennicot, Semler e Michaelis. Descobrindo que toda a paróquia, particularmente os mais velhos, estava descontente, perguntei: "por que o permitiram?" "Ah, senhor!", responderam eles, "quando o administrador ordena, o que podemos nós, pobres camponeses, fazer?" Mas uma coisa aconteceu bem. O administrador e o vigário (que, por uma vez, pensou colher alguma vantagem dos caprichos da sua mulher) pretendiam dividir as árvores entre si. A repartição de finanças, sendo informada disso, reviveu uma antiga reivindicação sobre o terreno onde as árvores tinham estado, e vendeu-as ao licitante mais alto. Ali permanecem elas ainda no chão. Se eu fosse o soberano, saberia como lidar com todos eles, vigário, administrador e repartição de finanças. Soberano, disse eu? Eu, nesse caso, pouco me importaria com as árvores que crescessem no país.
10 DE OUTUBRO.
Apenas contemplar os seus olhos escuros é para mim uma fonte de felicidade! E o que me entristece é que Albert não parece tão feliz como ele... esperava estar... como eu teria estado... se... Não sou amigo destas pausas, mas aqui não posso expressá-lo de outra forma; e provavelmente sou explícito o suficiente.
12 DE OUTUBRO.
Ossian suplantou Homero no meu coração. A que mundo me transporta o ilustre bardo! Vaguear por desertos sem caminhos, cercado por redemoinhos impetuosos, onde, à luz débil da lua, vemos os espíritos dos nossos ancestrais; ouvir do cimo das montanhas, em meio ao rugido das torrentes, os seus sons queixosos emanando de cavernas profundas, e as lamentações dolorosas de uma donzela que suspira e expira sobre o túmulo coberto de musgo do guerreiro por quem era adorada. Encontro esse bardo de cabelos prateados; ele vagueia pelo vale; procura as pegadas dos seus pais e, infelizmente! encontra apenas os seus túmulos. Então, contemplando a lua pálida, enquanto ela se afunda sob as ondas do mar revolto, a memória de dias idos assalta a mente do herói, dias em que o perigo iminente revigorava o valente, e a lua brilhava sobre a sua barca carregada de despojos, regressando em triunfo. Quando leio no seu semblante uma profunda tristeza, quando vejo a sua glória moribunda afundar-se exausta na sepultura, enquanto ele inala um novo e emocionante prazer da sua união iminente com a sua amada, e lança um olhar sobre a terra fria e a relva alta que tão cedo o há de cobrir, e então exclama: "O viajante virá — virá aquele que viu a minha beleza, e perguntará: 'Onde está o bardo, onde está o ilustre filho de Fingal?' Ele caminhará sobre o meu túmulo e procurar-me-á em vão!" Então, ó meu amigo, eu poderia instantaneamente, como um verdadeiro e nobre cavaleiro, desembainhar a minha espada e libertar o meu príncipe do longo e doloroso langor de uma morte em vida, e dispensar a minha própria alma para seguir o semideus que a minha mão libertara!
19 DE OUTUBRO.
Infelizmente! O vazio, o vazio temeroso que sinto no meu peito! Por vezes penso que, se pudesse apenas uma vez, apenas uma vez, apertá-la contra o meu coração, este vazio terrível seria preenchido.
26 DE OUTUBRO.
Sim, sinto-me certo, Wilhelm, e cada dia fico mais certo, de que a existência de qualquer ser que seja é de pouquíssima importância. Uma amiga de Charlotte veio visitá-la agora mesmo. Retirei-me para um aposento vizinho e peguei num livro; mas, descobrindo que não conseguia ler, sentei-me para escrever. Ouvi-as conversar em voz baixa: falavam de assuntos indiferentes e contavam as novidades da cidade. Uma ia casar-se; outra estava doente, muito doente, tinha uma tosse seca, o rosto emagrecia diariamente e tinha ataques ocasionais. "N— também está muito mal", disse Charlotte. "Os seus membros já começam a inchar", respondeu a outra; e a minha imaginação viva transportou-me de imediato para os leitos dos enfermos. Ali vejo-os a lutar contra a morte, com todas as agonias da dor e do horror; e estas mulheres, Wilhelm, falam de tudo isto com tanta indiferença como se falassem da morte de um estranho. E quando olho em volta do aposento onde agora estou — quando vejo o vestuário de Charlotte diante de mim, e os escritos de Albert, e todos aqueles artigos de mobiliário que me são tão familiares, até ao tinteiro que estou a usar — quando penso no que sou para esta família — tudo. Os meus amigos estimam-me; contribuo muitas vezes para a sua felicidade, e o meu coração parece como se não pudesse bater sem eles; e contudo — se eu morresse, se fosse convocado do meio deste círculo, sentiriam eles — ou por quanto tempo sentiriam o vazio que a minha perda causaria na sua existência? Por quanto tempo! Sim, tal é a fragilidade do homem, que mesmo ali, onde ele tem a maior consciência do seu próprio ser, onde ele causa a impressão mais forte e profunda, mesmo na memória, no coração da sua amada, mesmo ali ele deve perecer — desaparecer — e isso rapidamente.
27 DE OUTUBRO.
Eu poderia rasgar o meu peito de vexame ao pensar quão pouco somos capazes de influenciar os sentimentos uns dos outros. Ninguém pode comunicar-me essas sensações de amor, alegria, arrebatamento e deleite que não possuo naturalmente; e, embora o meu coração possa arder com a afeição mais viva, não posso fazer a felicidade daquele em quem a mesma chama não é inerente.
27 DE OUTUBRO: À noite.
Possuo tanto, mas o meu amor por ela absorve tudo. Possuo tanto, mas sem ela nada tenho.
30 DE OUTUBRO.
Cem vezes estive a ponto de a abraçar. Céus! Que tormento é ver tanta beleza a passar e a repassar diante de nós, e contudo não ousar agarrá-la! E agarrar é o mais natural dos instintos humanos. Não tocam as crianças em tudo o que veem? E eu!
3 DE NOVEMBRO.
Testemunha seja o céu, quantas vezes me deito na minha cama com o desejo, e até a esperança, de que nunca mais acorde. E de manhã, quando abro os olhos, contemplo o sol mais uma vez, e sou um desgraçado. Se eu fosse caprichoso, poderia culpar o tempo, ou um conhecido, ou algum desapontamento pessoal, pelo meu espírito descontente; e então este peso insuportável de problemas não repousaria inteiramente sobre mim. Mas, infelizmente! Sinto-o demasiado tristemente. Sou eu o único causador do meu próprio sofrimento, não sou? Verdadeiramente, o meu próprio peito contém a fonte de toda a minha tristeza, como anteriormente continha a fonte de todo o meu prazer. Não sou eu o mesmo ser que outrora gozava de um excesso de felicidade, que, a cada passo, via o paraíso abrir-se diante de si, e cujo coração estava sempre expandido para o mundo inteiro? E este coração está agora morto, nenhum sentimento o pode reviver; os meus olhos estão secos; e os meus sentidos, já não refrescados pela influência de lágrimas suaves, definham e consomem o meu cérebro. Sofro muito, pois perdi o único encanto da vida: aquele poder ativo e sagrado que criava mundos à minha volta — já não existe. Quando olho da minha janela para as colinas distantes, e contemplo o sol da manhã a romper através das névoas, e a iluminar o campo em redor, que ainda permanece envolto em silêncio, enquanto o rio suave serpenteia gentilmente pelos salgueiros, que perderam as suas folhas; quando a natureza gloriosa exibe todas as suas belezas diante de mim, e as suas perspectivas maravilhosas são ineficazes para extrair uma lágrima de alegria do meu coração definhado, sinto que, nesse momento, permaneço como um réprobo perante o céu, endurecido, insensível e imóvel. Muitas vezes dobro então o meu joelho perante a terra e imploro a Deus pela bênção das lágrimas, como o trabalhador desalentado em algum clima abrasador reza pelos orvalhos do céu para humedecer o seu milho crestado.
Mas sinto que Deus não concede sol ou chuva às nossas importunas súplicas. E oh, esses dias idos, cuja memória agora me atormenta! Por que foram eles tão afortunados? Porque então esperava com paciência pelas bênçãos do Eterno, e recebia os seus dons com os sentimentos gratos de um coração agradecido.
8 DE NOVEMBRO.
Charlotte repreendeu-me pelos meus excessos, com tanta ternura e bondade! Tenho ultimamente o hábito de beber mais vinho do que anteriormente. "Não o faças", disse ela. "Pensa em Charlotte!" "Pensar em ti!" respondi eu; "precisas de me pedir que o faça? Pensar em ti — eu não penso em ti: tu estás sempre diante da minha alma! Esta mesma manhã sentei-me no local onde, há poucos dias, desceste da carruagem, e —" Ela mudou imediatamente de assunto para me impedir de o levar mais longe. Meu caro amigo, as minhas energias estão todas prostradas: ela pode fazer de mim o que quiser.
15 DE NOVEMBRO.
Agradeço-te, Wilhelm, pela tua cordial simpatia, pelo teu excelente conselho; e imploro-te que fiques tranquilo. Deixa-me com os meus sofrimentos. Apesar da minha desgraça, ainda tenho força suficiente para a resistência. Reverencio a religião — tu sabes que sim. Sinto que ela pode transmitir força aos débeis e conforto aos aflitos, mas afetará ela todos os homens igualmente? Considera este vasto universo: verás milhares para quem ele nunca existiu, milhares para quem nunca existirá, quer lhes seja pregado ou não; e deve, então, necessariamente existir para mim? Não diz o próprio Filho de Deus que são seus aqueles que o Pai lhe deu? Fui eu dado a ele? E se o Pai me quiser reter para si, como o meu coração sugere por vezes? Rogo-te que não interpretes mal isto. Não extraias escárnio das minhas palavras inofensivas. Derramo toda a minha alma diante de ti. O silêncio seria, de outra forma, preferível para mim, mas não preciso de me encolher perante um assunto sobre o qual poucos sabem mais do que eu próprio. Qual é o destino do homem, senão encher a medida dos seus sofrimentos e beber o seu cálice de amargura destinado? E se esse mesmo cálice se provou amargo para o Deus do céu, sob uma forma humana, por que deveria eu afetar um orgulho tolo e chamá-lo de doce? Por que deveria envergonhar-me de estremecer naquele momento temeroso, quando todo o meu ser tremerá entre a existência e a aniquilação, quando uma lembrança do passado, como um relâmpago, iluminará o abismo escuro do porvir, quando tudo se dissolver à minha volta e o mundo inteiro desaparecer? Não é esta a voz de uma criatura oprimida além de todo o recurso, autossuficiente, prestes a mergulhar numa destruição inevitável, e a gemer profundamente pela sua força inadequada: "Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?" E deveria eu sentir vergonha de proferir a mesma expressão? Não deveria eu estremecer perante uma perspectiva que teve os seus medos, mesmo para aquele que dobra os céus como uma veste?
21 DE NOVEMBRO.
Ela não sente, ela não sabe, que está a preparar um veneno que nos destruirá a ambos; e eu bebo profundamente a poção que se revelará a minha destruição. Que significam aqueles olhares de bondade com que ela frequentemente — frequentemente? Não, não frequentemente, mas por vezes, me contempla, aquela complacência com que ouve os sentimentos involuntários que frequentemente me escapam, e a terna piedade pelos meus sofrimentos que aparece no seu rosto?
Ontem, quando me despedi, ela agarrou-me pela mão e disse: "Adeus, querido Werther." Querido Werther! Foi a primeira vez que ela me chamou querido: o som afundou-se profundamente no meu coração. Repeti-o cem vezes; e ontem à noite, ao ir para a cama e falar comigo mesmo de várias coisas, disse subitamente: "Boa noite, querido Werther!" e então não pude deixar de rir de mim mesmo.
22 DE NOVEMBRO.
Não posso rezar: "Deixa-a para mim!" e, contudo, ela parece pertencer-me frequentemente. Não posso rezar: "Dá-ma!" pois ela é de outro. Desta forma, afeto alegria sobre os meus problemas; e, se tivesse tempo, poderia compor uma litania inteira de antíteses.
24 DE NOVEMBRO.
Ela está consciente dos meus sofrimentos. Esta manhã o seu olhar perfurou a minha própria alma. Encontrei-a sozinha, e ela estava silenciosa: observou-me fixamente. Já não via no seu rosto os encantos da beleza ou o fogo do génio: tinham desaparecido. Mas fui afetado por uma expressão muito mais tocante, um olhar da mais profunda simpatia e da mais suave piedade. Por que tive medo de me lançar aos seus pés? Por que não ousei tomá-la nos meus braços e responder-lhe com mil beijos? Ela recorreu ao piano para alívio e, com uma voz baixa e doce, acompanhou a música com sons deliciosos. Os seus lábios nunca pareceram tão adoráveis: pareciam apenas abrir-se para que pudessem imbibir os sons doces que emanavam do instrumento e devolver a vibração celestial da sua boca adorável. Oh! Quem pode expressar as minhas sensações? Fiquei completamente vencido e, inclinando-me, pronunciei este voto: "Lábios belos, que os anjos guardam, nunca procurarei profanar a vossa pureza com um beijo." E contudo, meu amigo, oh, eu desejo — mas o meu coração está obscurecido pela dúvida e pela indecisão — se eu pudesse apenas provar a felicidade, e depois morrer para expiar o pecado! Que pecado?
26 DE NOVEMBRO.
Muitas vezes digo a mim mesmo: "Tu és o único desgraçado: todos os outros mortais são felizes, ninguém está tão aflito como tu!" Então leio uma passagem num poeta antigo, e parece que compreendo o meu próprio coração. Tenho tanto para suportar! Terão os homens antes de mim sido alguma vez tão desgraçados?
30 DE NOVEMBRO.
Nunca mais serei eu mesmo! Onde quer que vá, ocorre alguma fatalidade para me distrair. Mesmo hoje, infelizmente — pelo nosso destino! infelizmente pela natureza humana!
Perto da hora do jantar, fui caminhar pela margem do rio, pois não tinha apetite. Tudo em redor parecia sombrio: um vento leste frio e húmido soprava das montanhas, e nuvens pesadas e negras espalhavam-se pela planície. Observei ao longe um homem com um casaco esfarrapado: ele vagueava entre as rochas e parecia estar à procura de plantas. Quando me aproximei, ele voltou-se com o ruído; e vi que ele tinha um semblante interessante no qual uma melancolia fixa, fortemente marcada pela benevolência, formava o traço principal. O seu longo cabelo preto estava dividido e caía sobre os seus ombros. Como o seu traje denotava uma pessoa das camadas inferiores, pensei que ele não levaria a mal se eu perguntasse sobre o seu negócio; e, portanto, perguntei o que ele procurava. Ele respondeu, com um suspiro profundo, que estava à procura de flores e não conseguia encontrar nenhuma. "Mas não é a estação", observei, com um sorriso. "Oh, há tantas flores!" respondeu ele, enquanto se aproximava de mim. "No meu jardim há rosas e madressilvas de dois tipos: um tipo foi-me dado pelo meu pai! Elas crescem tão abundantemente como ervas daninhas; procuro-as há dois dias e não as consigo encontrar. Há flores ali fora, amarelas, azuis e vermelhas; e aquela centáurea tem uma flor muito bonita: mas não consigo encontrar nenhuma delas." Observei a sua peculiaridade e, portanto, perguntei-lhe, com um ar de indiferença, o que pretendia fazer com as suas flores. Um sorriso estranho espalhou-se pelo seu rosto. Levando o dedo à boca, expressou a esperança de que eu não o traísse; e informou-me então que prometera colher um ramalhete para a sua amada. "Isso é correto", disse eu. "Oh!" respondeu ele, "ela possui muitas outras coisas também: ela é muito rica." "E contudo", continuei, "ela gosta dos teus ramalhetes." "Oh, ela tem joias e coroas!" exclamou ele. Perguntei quem ela era. "Se os Estados Gerais me pagassem", acrescentou, "eu seria um homem completamente diferente. Infelizmente! Houve um tempo em que eu era tão feliz; mas isso passou, e agora estou —" Ele elevou os seus olhos lacrimejantes ao céu. "E foste feliz outrora?" observei. "Ah, quem me dera ainda o ser!" foi a sua resposta. "Eu era então tão alegre e contente como um homem pode ser." Uma velha, que vinha na nossa direção, chamou então: "Henry, Henry! Onde estás? Procuramo-te em toda a parte: vem jantar." "É ele o teu filho?" perguntei, enquanto caminhava em direção a ela. "Sim", disse ela: "ele é o meu pobre e infeliz filho. O Senhor enviou-me uma pesada aflição." Perguntei se ele estava há muito tempo neste estado. Ela respondeu: "Ele está tão calmo como agora há cerca de seis meses. Agradeço ao Céu que ele tenha recuperado até este ponto: ele esteve durante um ano inteiro completamente delirante e acorrentado num hospício. Agora não magoa ninguém, mas não fala de outra coisa senão de reis e rainhas. Ele costumava ser um jovem muito bom e tranquilo, e ajudava-me a sustentar-me; escrevia com uma letra muito bonita; mas, de repente, tornou-se melancólico, foi acometido por uma febre violenta, ficou perturbado e agora está como vês. Se eu lhe contasse, senhor —" Interrompi-a perguntando que período era aquele em que ele se gabava de ter sido tão feliz. "Pobre rapaz!" exclamou ela, com um sorriso de compaixão, "ele refere-se ao tempo em que estava completamente perturbado, um tempo que ele nunca cessa de lamentar, quando estava no hospício e inconsciente de tudo." Fiquei atónito: coloquei uma moeda na mão dela e apressei-me a partir.
"Tu foste feliz!" exclamei, enquanto regressava rapidamente para a cidade, "'tão alegre e contente como um homem pode ser!'" Deus do céu! E é este o destino do homem? É ele apenas feliz antes de adquirir a sua razão, ou depois de a perder? Ser infeliz! E contudo invejo o teu destino: invejo o delírio do qual és vítima. Vais com alegria colher flores para a tua princesa — no inverno — e ficas triste quando não consegues encontrar nenhuma, e não consegues compreender por que não crescem. Mas eu vagueio sem alegria, sem esperança, sem desígnio; e regresso como vim. Tu imaginas que homem serias se os Estados Gerais te pagassem. Mortal feliz, que podes atribuir a tua desgraça a uma causa terrena! Tu não sabes, tu não sentes, que no teu próprio coração perturbado e cérebro desordenado habita a fonte dessa infelicidade que todos os potentados da terra não podem aliviar.
Que morra sem consolo aquele que pode escarnecer do inválido por empreender uma viagem a fontes distantes e saudáveis, onde frequentemente encontra apenas uma doença mais grave e uma morte mais dolorosa, ou que pode exultar sobre a mente desesperada de um pecador que, para obter a paz de consciência e um alívio da miséria, faz uma peregrinação ao Santo Sepulcro. Cada passo laborioso que fere os seus pés sangrantes em caminhos ásperos e inexplorados derrama uma gota de bálsamo na sua alma perturbada, e a viagem de muitos dias cansativos traz um alívio noturno ao seu coração angustiado. Ousareis chamar a isto entusiasmo, vós multidão de declamadores pomposos? Entusiasmo! Ó Deus! Tu vês as minhas lágrimas. Tu atribuíste-nos a nossa porção de miséria: devemos também ter irmãos para nos perseguir, para nos privar do nosso consolo, da nossa confiança em ti e no teu amor e misericórdia? Pois a nossa confiança na virtude da raiz curativa, ou na força da videira, o que é ela senão uma crença em ti, de quem tudo o que nos rodeia deriva os seus poderes curativos e restauradores? Pai, a quem não conheço — que outrora costumavas encher a minha alma, mas que agora escondes a tua face de mim — chama-me de volta para ti; não sejas mais silencioso; o teu silêncio não atrasará uma alma que tem sede de ti. Que homem, que pai, poderia ficar zangado com um filho por regressar a ele subitamente, por cair nos seus braços e exclamar: "Estou aqui outra vez, meu pai! Perdoa-me se antecipei a minha viagem e regressei antes do tempo marcado! O mundo é em toda a parte o mesmo — uma cena de trabalho e dor, de prazer e recompensa; mas de que serve tudo isso? Sou feliz apenas onde tu estás, e na tua presença estou contente por sofrer ou desfrutar." E tu, Pai celestial, banirias tal filho da tua presença?
1 DE DEZEMBRO.
Wilhelm, o homem sobre quem te escrevi — aquele homem tão invejável nas suas desgraças — foi secretário do pai de Charlotte; e uma paixão infeliz por ela que ele alimentou, escondeu e finalmente descobriu, causou a sua demissão da situação. Isso fê-lo enlouquecer. Pensa, enquanto lês esta narrativa simples, que impressão a circunstância me causou! Mas foi-me contada por Albert com tanta calma como provavelmente tu a lerás.
4 DE DEZEMBRO.
Imploro a tua atenção. Tudo acabou para mim. Já não suporto este estado. Hoje estive sentado ao lado de Charlotte. Ela tocava no piano uma sucessão de melodias encantadoras, com uma expressão tão intensa! A sua irmãzinha estava a vestir a boneca no meu colo. As lágrimas vieram-me aos olhos. Inclinei-me e olhei atentamente para a sua aliança de casamento: as minhas lágrimas caíram — imediatamente ela começou a tocar aquela ária favorita, aquela ária divina que tantas vezes me encantou. Senti conforto com a recordação do passado, daqueles dias idos em que essa ária me era familiar; e depois recordei todas as mágoas e desilusões que suportei desde então. Caminhei a passos largos pela sala, o meu coração ficou convulso com emoções dolorosas. Por fim, aproximei-me dela e exclamei com avidez: "Pelo amor de Deus, não toques mais essa ária!" Ela parou e olhou fixamente para mim. Disse então, com um sorriso que se aprofundou no meu coração: "Werther, estás doente: o teu alimento preferido é-te desagradável. Mas vai, eu te suplico, e tenta compor-te." Arranquei-me dali. Deus, tu vês os meus tormentos, e hás de pôr-lhes fim!
6 DE DEZEMBRO.
Como a sua imagem me persegue! Acordado ou a dormir, ela preenche toda a minha alma! Assim que fecho os olhos, aqui, no meu cérebro, onde todos os nervos da visão estão concentrados, os seus olhos escuros estão impressos. Aqui — não sei como descrevê-lo; mas, se fecho os olhos, os dela estão imediatamente diante de mim: escuros como um abismo, abrem-se sobre mim e absorvem os meus sentidos.
E o que é o homem — esse semideus tão gabado? Não falham as suas forças quando mais necessita de as usar? E quer ele voe na alegria, quer afunde na tristeza, não é o seu percurso, em ambos os casos, inevitavelmente interrompido? E, enquanto sonha apaixonadamente que está a agarrar o infinito, não se sente compelido a regressar a uma consciência da sua existência fria e monótona?
O EDITOR AO LEITOR.
É motivo de extremo pesar que nos falte evidência original dos últimos dias notáveis do nosso amigo; e somos, portanto, obrigados a interromper o curso da sua correspondência e a suprir a deficiência com uma narração conexa.
Senti que era meu dever recolher informações precisas da boca de pessoas bem familiarizadas com a sua história. A história é simples; e todos os relatos concordam, exceto em alguns pormenores sem importância. É verdade que, no que respeita ao caráter das pessoas mencionadas, as opiniões e juízos variam.
Temos, pois, apenas de relatar conscienciosamente os factos que o nosso labor diligente nos permitiu recolher, dar as cartas do falecido e prestar atenção particular ao mais ínfimo fragmento da sua pena, especialmente porque é tão difícil descobrir os motivos reais e corretos de homens que não são da ordem comum.
A mágoa e o descontentamento tinham criado raízes profundas na alma de Werther e, gradualmente, comunicaram o seu caráter a todo o seu ser. A harmonia da sua mente ficou completamente perturbada; uma excitação perpétua e uma irritação mental, que enfraqueceram as suas forças naturais, produziram os efeitos mais tristes sobre ele e tornaram-no, por fim, vítima de um esgotamento contra o qual lutou com esforços ainda mais dolorosos do que aqueles que demonstrara ao contender com as suas outras desgraças. A sua ansiedade mental enfraqueceu as suas várias boas qualidades; e ele foi logo convertido num companheiro sombrio, sempre infeliz e injusto nas suas ideias, quanto mais miserável se tornava. Esta era, pelo menos, a opinião dos amigos de Albert. Afirmam, além disso, que o caráter do próprio Albert não sofrera qualquer mudança entretanto: ele era ainda o mesmo ser a quem Werther amara, honrara e respeitara desde o princípio. O seu amor por Charlotte era ilimitado: ele orgulhava-se dela e desejava que ela fosse reconhecida por todos como o mais nobre dos seres criados. Seria ele, contudo, de censurar por desejar afastar dela toda a aparência de suspeita? ou pela sua relutância em partilhar o seu rico prémio com outro, ainda que por um momento, e da maneira mais inocente? Afirma-se que Albert se retirava frequentemente do apartamento da sua esposa durante as visitas de Werther; mas isto não provinha de ódio ou aversão pelo seu amigo, mas apenas de um sentimento de que a sua presença era opressiva para Werther.
O pai de Charlotte, que estava confinado à casa por indisposição, costumava enviar a sua carruagem para ela, a fim de que pudesse fazer excursões nas redondezas. Um dia, o tempo estivera invulgarmente severo e todo o campo estava coberto de neve.
Werther foi buscar Charlotte na manhã seguinte, a fim de que, se Albert estivesse ausente, a pudesse conduzir a casa.
O tempo belo produziu pouco efeito no seu espírito perturbado. Um peso pesado jazia sobre a sua alma, uma profunda melancolia tinha tomado posse dele, e a sua mente não conhecia mudança senão de um pensamento doloroso para outro.
Como ele agora nunca gozava de paz interna, a condição dos seus semelhantes era para ele uma fonte perpétua de problemas e angústia. Ele acreditava ter perturbado a felicidade de Albert e da sua esposa; e, enquanto se censurava fortemente por isso, começou a alimentar uma aversão secreta por Albert.
Os seus pensamentos eram ocasionalmente dirigidos para este ponto. "Sim", repetia ele para si mesmo, com uma insatisfação mal disfarçada, "sim, esta é, afinal, a extensão daquele amor confiante, caro, terno e compreensivo, daquela calma e eterna fidelidade! O que contemplo senão saciedade e indiferença? Não o atrai cada compromisso frívolo mais do que a sua encantadora e adorável esposa? Saberá ele valorizar a sua felicidade? Pode ele dar-lhe o valor que ela merece? Ele possui-a, é verdade, sei disso, como sei muito mais, e habituei-me ao pensamento de que ele me levará à loucura, ou, talvez, me assassinará. Estará a sua amizade para comigo intacta? Não verá ele o meu apego a Charlotte como uma infração aos seus direitos e considerará a minha atenção por ela como uma censura silenciosa a si mesmo? Sei, e sinto mesmo, que ele não gosta de mim, que deseja a minha ausência, que a minha presença lhe é odiosa."
Ele pausava frequentemente quando a caminho de visitar Charlotte, parava, como se estivesse em dúvida, e parecia desejoso de regressar, mas prosseguia, contudo; e, ocupado com tais pensamentos e monólogos como os que descrevemos, chegava finalmente ao pavilhão de caça, com uma espécie de consentimento involuntário.
Certa ocasião, entrou na casa; e, ao perguntar por Charlotte, observou que os habitantes estavam num estado de confusão invulgar. O filho mais velho informou-o de que ocorrera um terrível infortúnio em Walheim — que um camponês fora assassinado! Mas isto causou-lhe pouca impressão. Ao entrar no apartamento, encontrou Charlotte ocupada a argumentar com o seu pai, que, apesar da sua enfermidade, insistia em ir ao local do crime, a fim de instaurar um inquérito. O criminoso era desconhecido; a vítima fora encontrada morta à sua própria porta naquela manhã. Suspeitas foram suscitadas: o homem assassinado estivera ao serviço de uma viúva, e a pessoa que ocupara anteriormente o lugar fora despedida do seu emprego.
Assim que Werther ouviu isto, exclamou com grande excitação: "É possível! Tenho de ir ao local — não posso adiar um momento!" Apressou-se para Walheim. Cada incidente regressou vividamente à sua memória; e ele não alimentou a menor dúvida de que aquele homem era o assassino com quem falara tantas vezes e por quem sentia tanto respeito. O seu caminho levou-o a passar pelos conhecidos tílias, até à casa para onde o corpo fora levado; e os seus sentimentos foram fortemente agitados ao ver o local carinhosamente recordado. Aquele limiar onde os filhos dos vizinhos tinham brincado tantas vezes juntos estava manchado de sangue; o amor e o apego, os sentimentos mais nobres da natureza humana, tinham sido convertidos em violência e homicídio. As árvores enormes estavam ali sem folhas e cobertas de geada; as belas sebes que rodeavam a antiga parede do cemitério estavam murchas; e as lápides, meio cobertas de neve, eram visíveis através das aberturas.
Ao aproximar-se da estalagem, em frente da qual toda a aldeia estava reunida, gritos foram subitamente ouvidos. Uma tropa de camponeses armados foi vista a aproximar-se, e todos exclamaram que o criminoso fora capturado. Werther olhou e não tardou em ter dúvidas. O prisioneiro não era outro senão o criado que fora anteriormente tão apegado à viúva, e a quem encontrara a rondar, com aquela raiva reprimida e desespero mal disfarçado que descrevemos antes.
"O que fizeste, homem infeliz?" perguntou Werther, enquanto avançava para o prisioneiro. Este voltou os seus olhos para ele em silêncio e respondeu então com perfeita calma: "Ninguém se casará agora com ela, e ela não se casará com ninguém." O prisioneiro foi levado para a estalagem e Werther deixou o local. A mente de Werther estava terrivelmente agitada por este acontecimento chocante. Deixou, contudo, de ser oprimido pelo seu sentimento habitual de melancolia, aspereza e indiferença a tudo o que passava à sua volta. Alimentou um forte grau de piedade pelo prisioneiro e foi tomado por uma ansiedade indescritível de o salvar do seu destino iminente. Considerava-o tão infeliz, julgava o seu crime tão desculpável e pensava que a sua própria condição era tão semelhante, que se sentia convencido de que poderia fazer todos os outros verem o assunto à luz em que ele próprio o via. Ficou então ansioso por empreender a sua defesa e começou a compor um discurso eloquente para a ocasião; e, no caminho para o pavilhão de caça, não pôde evitar de dizer em voz alta a declaração que resolveu fazer ao juiz.
À sua chegada, encontrou Albert antes dele: e ficou um pouco perplexo com este encontro; mas logo se recompôs e expressou a sua opinião com muito calor ao juiz. Este abanou a cabeça com dúvida; e, embora Werther insistisse no seu caso com o máximo zelo, sentimento e determinação na defesa do seu cliente, ainda assim, como podemos facilmente supor, o juiz não foi muito influenciado pelo seu apelo. Pelo contrário, interrompeu-o no seu discurso, argumentou seriamente com ele e até lhe deu uma reprimenda por se tornar o advogado de um assassino. Demonstrou que, de acordo com esse precedente, toda a lei poderia ser violada e a segurança pública totalmente destruída. Acrescentou, além disso, que, nesse caso, ele próprio nada poderia fazer, sem incorrer na maior responsabilidade; que tudo tinha de seguir o curso habitual e seguir o canal comum.
Werther, contudo, não abandonou a sua empresa e até suplicou ao juiz que consentisse na fuga do prisioneiro. Mas esta proposta foi peremptoriamente rejeitada. Albert, que participara um pouco na discussão, coincidiu na opinião com o juiz. Com isto, Werther enfureceu-se e despediu-se com grande ira, depois de o juiz lhe ter assegurado mais do que uma vez que o prisioneiro não podia ser salvo.
O excesso da sua mágoa perante esta garantia pode ser inferido de uma nota que encontrámos entre os seus papéis e que foi, sem dúvida, escrita nesta mesma ocasião.
"Não podes ser salvo, homem infeliz! Vejo claramente que não podemos ser salvos!"
Werther estava altamente irritado com as observações que Albert tinha feito ao juiz neste assunto do prisioneiro. Pensou que podia detetar aí um pouco de amargura para consigo pessoalmente; e embora, após reflexão, não pudesse escapar ao seu bom senso que o ponto de vista deles estava correto, sentiu a maior relutância possível em fazer tal admissão.
Um memorando de Werther sobre este ponto, expressivo dos seus sentimentos gerais para com Albert, foi encontrado entre os seus papéis.
"Para que serve eu repetir continuamente que ele é um homem bom e estimável? Ele é um tormento interior para mim e sou incapaz de ser justo para com ele."
Numa bela noite de inverno, quando o tempo parecia inclinado a descongelar, Charlotte e Albert voltavam para casa juntos. A primeira olhava de tempos a tempos à sua volta, como se sentisse falta da companhia de Werther. Albert começou a falar dele e censurou-o pelos seus preconceitos. Aludiu ao seu infeliz apego e desejou que fosse possível interromper o seu conhecimento. "Desejo-o por nossa causa", acrescentou ele; "e peço que o obrigue a alterar o seu comportamento para consigo e a visitá-la com menos frequência. O mundo é censor e sei que aqui e ali se fala de nós." Charlotte não respondeu e Albert pareceu sentir o seu silêncio. Pelo menos, a partir desse momento, nunca mais falou de Werther; e, quando ela introduzia o assunto, ele deixava a conversa morrer, ou então direcionava o discurso para outro canal.
A vã tentativa que Werther fizera para salvar o infeliz assassino foi o último brilho fraco de uma chama prestes a extinguir-se. Caiu quase imediatamente depois num estado de tristeza e inatividade, até que foi, por fim, levado à distração perfeita ao saber que seria convocado como testemunha contra o prisioneiro, que afirmava a sua completa inocência.
A sua mente ficou agora oprimida pela recordação de cada infortúnio da sua vida passada. A mortificação que sofrera junto do embaixador e os seus problemas subsequentes foram revividos na sua memória. Ficou totalmente inativo. Desprovido de energia, foi cortado de toda a busca e ocupação que compõem os negócios da vida comum; e tornou-se vítima da sua própria suscetibilidade e da sua paixão inquieta pela mais amável e adorada das mulheres, cuja paz ele destruiu. Nesta monotonia invariável da existência, os seus dias consumiram-se; e as suas forças exauriram-se sem objetivo ou desígnio, até que o levaram a um fim triste.
Algumas cartas que deixou, e que aqui anexamos, oferecem as melhores provas da sua ansiedade de espírito e da profundidade da sua paixão, bem como das suas dúvidas e lutas, e do seu cansaço da vida.
12 DE DEZEMBRO.
Querido Wilhelm, estou reduzido à condição daqueles miseráveis desgraçados que acreditam ser perseguidos por um espírito maligno. Por vezes, sinto-me oprimido, não por apreensão ou medo, mas por uma sensação interna inexprimível, que pesa sobre o meu coração e impede a minha respiração! Então, vago pela noite, mesmo nesta estação tempestuosa, e sinto prazer em observar as cenas terríveis à minha volta.
Ontem à noite, saí. Um degelo rápido tinha começado subitamente: fui informado de que o rio subira, que os riachos tinham todos transbordado das suas margens e que todo o vale de Walheim estava debaixo de água! Ao bater das doze horas, apressei-me a sair. Contemplei um espetáculo terrível. As torrentes espumantes rolavam das montanhas sob o luar — campos e prados, árvores e sebes, estavam confundidos uns com os outros; e todo o vale estava convertido num lago profundo, que era agitado pelo vento rugidor! E quando a lua brilhou, e tingiu as nuvens negras com prata, e a impetuosa torrente aos meus pés espumou e ressoou com uma impetuosidade terrível e grandiosa, fui vencido por uma sensação misturada de apreensão e deleite. Com os braços estendidos, olhei para o abismo boquiaberto e gritei: "Mergulha!" Por um momento, os meus sentidos abandonaram-me, no intenso prazer de acabar com as minhas mágoas e os meus sofrimentos através de um mergulho naquele abismo! E então senti como se estivesse enraizado à terra e incapaz de procurar um fim para as minhas desgraças! Mas a minha hora ainda não chegou: sinto que não chegou. Ó Wilhelm, quão voluntariamente poderia eu abandonar a minha existência para cavalgar o turbilhão, ou para abraçar a torrente! E então não poderia o arrebatamento ser, porventura, a porção desta alma libertada?
Voltei os meus olhos tristes para um local favorito, onde costumava sentar-me com Charlotte sob um salgueiro após uma caminhada fatigante. Ai de mim! estava coberto de água, e com dificuldade encontrei até o prado. E os campos em torno do pavilhão de caça, pensei. Terá o nosso querido caramanchão sido destruído por esta tempestade impiedosa? E um raio de felicidade passada iluminou-me, como a mente de um cativo é iluminada por sonhos de rebanhos e manadas e alegrias passadas do lar! Mas estou livre de culpa. Tenho coragem para morrer! Talvez a tenha — mas ainda estou sentado aqui, como um miserável pedinte, que recolhe gravetos e pede o seu pão de porta em porta, para que possa prolongar por alguns dias uma existência miserável que não está disposto a renunciar.
15 DE DEZEMBRO.
O que se passa comigo, querido Wilhelm? Tenho medo de mim mesmo! Não é o meu amor por ela da natureza mais pura, mais santa e mais fraternal? Terá a minha alma sido alguma vez manchada por um único desejo sensual? Mas não farei protestos. E agora, ó visões noturnas, quão verdadeiramente aqueles mortais vos compreenderam, que atribuem os vossos vários efeitos contraditórios a algum poder invencível! Esta noite, tremo ao confessar — segurei-a nos meus braços, presa num abraço próximo: pressionei-a contra o meu peito e cobri com inúmeros beijos aqueles lábios queridos que murmuravam em resposta suaves protestos de amor. A minha visão tornou-se confusa pela embriaguez deliciosa dos seus olhos. Céus! será pecaminoso deliciar-me novamente com tal felicidade, recordar mais uma vez aqueles momentos arrebatadores com intenso prazer? Charlotte! Charlotte! estou perdido! Os meus sentidos estão atordoados, a minha recordação está confusa, os meus olhos estão banhados em lágrimas — estou doente; e, contudo, estou bem — não desejo nada — não tenho desejos — seria melhor que tivesse partido.
Sob as circunstâncias narradas acima, uma determinação de abandonar este mundo tinha agora tomado posse fixa da alma de Werther. Desde o regresso de Charlotte, este pensamento tinha sido o objetivo final de todas as suas esperanças e desejos; mas ele tinha resolvido que tal passo não deveria ser dado com precipitação, mas com calma e tranquilidade, e com a mais perfeita deliberação.
As suas mágoas e lutas internas podem ser compreendidas a partir do seguinte fragmento, que foi encontrado, sem qualquer data, entre os seus papéis, e parece ter formado o início de uma carta para Wilhelm.
"A sua presença, o seu destino, a sua simpatia por mim, têm ainda poder para extrair lágrimas do meu cérebro seco.
"Levanta-se a cortina e passa-se para o outro lado — isso é tudo! E por que todas estas dúvidas e atrasos? Porque não sabemos o que está atrás — porque não há regresso — e porque a nossa mente infere que tudo é escuridão e confusão, onde não temos nada senão incerteza."
A sua aparência tornou-se, por fim, completamente alterada pelo efeito dos seus pensamentos melancólicos; e a sua resolução estava agora final e irrevogavelmente tomada, da qual a seguinte carta ambígua, que endereçou ao seu amigo, pode parecer oferecer alguma prova.
20 DE DEZEMBRO.
Sou grato ao teu amor, Wilhelm, por teres repetido o teu conselho tão oportunamente. Sim, tens razão: é indubitavelmente melhor que eu parta. Mas não aprovo inteiramente o teu plano de regressar imediatamente para a tua vizinhança; pelo menos, gostaria de fazer uma pequena excursão no caminho, particularmente porque podemos agora esperar uma geada contínua e, consequentemente, boas estradas. Estou muito satisfeito com a tua intenção de vires buscar-me; apenas adia a tua viagem por quinze dias e espera por outra carta minha. Não se deve colher nada antes de estar maduro, e quinze dias mais cedo ou mais tarde fazem uma grande diferença. Suplica à minha mãe que reze pelo seu filho e diz-lhe que lhe peço perdão por toda a infelicidade que lhe causei. Tem sido sempre o meu destino causar dor àqueles cuja felicidade eu deveria ter promovido. Adeus, meu caríssimo amigo. Que todas as bênçãos do Céu te acompanhem! Adeus.
Achamos difícil expressar as emoções com que a alma de Charlotte estava agitada durante todo este tempo, quer em relação ao seu marido, quer ao seu infeliz amigo; embora sejamos capazes, pelo nosso conhecimento do seu caráter, de compreender a sua natureza.
É certo que ela tinha formado a determinação de, por todos os meios ao seu alcance, manter Werther à distância; e, se hesitou na sua decisão, foi por um sentimento sincero de piedade amigável, sabendo quanto lhe custaria, na verdade, que ele acharia quase impossível cumprir os seus desejos. Mas várias causas levaram-na agora a ser firme. O seu marido preservou um silêncio estrito sobre todo o assunto; e ela nunca fez disso um assunto de conversa, sentindo-se obrigada a provar-lhe pela sua conduta que os seus sentimentos concordavam com os dele.
No mesmo dia, que era o domingo antes do Natal, após Werther ter escrito a carta mencionada ao seu amigo, ele foi à noite à casa de Charlotte e encontrou-a sozinha. Ela estava ocupada a preparar algumas pequenas dádivas para os seus irmãos e irmãs, que lhes seriam distribuídas no dia de Natal. Ele começou a falar do deleite das crianças e daquela idade em que a aparição súbita da árvore de Natal, decorada com frutos e doces e iluminada com velas de cera, causa tais transportes de alegria. "Também terás um presente, se te portares bem", disse Charlotte, escondendo o seu embaraço sob um doce sorriso. "E o que chamas portar-te bem? O que devo fazer, o que posso fazer, minha querida Charlotte?", disse ele. "Quinta-feira à noite", respondeu ela, "é a véspera de Natal. As crianças estarão todas aqui, e o meu pai também: há um presente para cada um; vem tu também, mas não venhas antes dessa altura." Werther sobressaltou-se. "Desejo que não venhas: tem de ser assim", continuou ela. "Peço-to como um favor, para a minha própria paz e tranquilidade. Não podemos continuar desta maneira por mais tempo." Ele desviou o rosto, caminhou apressadamente de um lado para o outro da sala, murmurando confusamente: "Não podemos continuar desta maneira por mais tempo!" Charlotte, vendo a violenta agitação em que estas palavras o tinham lançado, tentou desviar os seus pensamentos com diferentes perguntas, mas em vão. "Não, Charlotte!", exclamou ele; "nunca mais te hei de ver!" "E por que razão?", respondeu ela. "Podemos — temos de nos ver de novo; que seja apenas com mais discrição. Oh! por que foste tu nascida com essa excessiva, essa incontrolável paixão por tudo o que te é caro?" Então, tomando-lhe a mão, disse: "Suplico-te que sejas mais calmo: os teus talentos, o teu entendimento, o teu génio, fornecer-te-ão mil recursos. Sê um homem e vence um apego infeliz por uma criatura que nada mais pode fazer senão ter pena de ti." Ele mordeu os lábios e olhou para ela com um semblante sombrio. Ela continuou a segurar-lhe a mão. "Concede-me apenas um momento de paciência, Werther", disse ela. "Não vês que te estás a enganar a ti próprio, que estás a procurar a tua própria destruição? Por que tens de amar-me, apenas a mim, que pertenço a outro? Receio, receio muito, que seja apenas a impossibilidade de me possuir que torna tão forte o teu desejo por mim." Ele retirou a mão, enquanto a observava com um olhar selvagem e colérico. "Está bem!", exclamou ele, "está muito bem! Não foi Albert quem te forneceu esta reflexão? É um comentário profundo, muito profundo." "Uma reflexão que qualquer um poderia facilmente fazer", respondeu ela; "e não haverá uma mulher em todo o mundo que seja livre e tenha o poder de te fazer feliz? Vence-te a ti mesmo: procura um ser assim e acredita em mim quando digo que certamente a encontrarás. Há muito que sinto pena de ti e de todos nós: tens-te confinado demasiado tempo dentro dos limites de um círculo demasiado estreito. Vence-te a ti mesmo; faz um esforço: uma curta viagem ser-te-á proveitosa. Procura e encontra um objeto digno do teu amor; depois regressa aqui e deixemos desfrutar juntos de toda a felicidade da mais perfeita amizade."
"Este discurso", replicou Werther com um sorriso frio, "este discurso deveria ser impresso, para benefício de todos os professores. Minha querida Charlotte, concede-me apenas um pouco mais de tempo e tudo ficará bem." "Mas, de qualquer forma, Werther", acrescentou ela, "não voltes antes do Natal." Ele estava prestes a responder, quando Albert entrou. Saudaram-se friamente e, com mútuo embaraço, caminharam de um lado para o outro da sala. Werther fez algumas observações comuns; Albert fez o mesmo e a sua conversa depressa cessou. Albert perguntou à sua esposa sobre alguns assuntos domésticos; e, descobrindo que as suas incumbências não tinham sido executadas, usou algumas expressões que, aos ouvidos de Werther, soaram a extrema dureza. Ele desejava partir, mas não tinha forças para se mover; e, nesta situação, permaneceu até às oito horas, com o seu mal-estar e descontentamento a aumentar continuamente. Finalmente, a mesa foi posta para o jantar e ele pegou no seu chapéu e bengala. Albert convidou-o a ficar; mas Werther, imaginando que ele estava apenas a fazer um cumprimento formal, agradeceu-lhe friamente e saiu de casa.
Werther regressou a casa, tirou a vela ao seu criado e retirou-se sozinho para o seu quarto. Falou durante algum tempo com grande seriedade consigo próprio, chorou alto, caminhou num estado de grande agitação pelo seu aposento; até que, finalmente, sem se despir, atirou-se para a cama, onde foi encontrado pelo seu criado às onze horas, quando este se aventurou a entrar no quarto e a tirar-lhe as botas. Werther não o impediu, mas proibiu-o de entrar de manhã até que ele tocasse a campainha.
Na segunda-feira de manhã, 21 de dezembro, escreveu a Charlotte a seguinte carta, que foi encontrada, selada, na sua secretária após a sua morte e que lhe foi entregue. Inseri-la-ei em fragmentos; pois parece, por várias circunstâncias, ter sido escrita dessa maneira.
"Está tudo acabado, Charlotte: estou decidido a morrer! Faço esta declaração deliberada e friamente, sem qualquer paixão romântica, nesta manhã do dia em que te verei pela última vez. No momento em que leres estas linhas, ó melhor das mulheres, a sepultura fria conterá os restos inanimados daquele ser inquieto e infeliz que, nos últimos momentos da sua existência, não conheceu prazer tão grande como o de conversar contigo! Passei uma noite terrível ou, melhor dizendo, uma noite propícia; pois deu-me resolução, fixou o meu propósito. Estou decidido a morrer. Quando ontem me arranquei de ti, os meus sentidos estavam em tumulto e desordem; o meu coração estava oprimido, a esperança e o prazer tinham fugido de mim para sempre e um frio petrificante apoderara-se do meu ser desgraçado. Mal consegui chegar ao meu quarto. Atirei-me de joelhos; e o Céu, pela última vez, concedeu-me o consolo de verter lágrimas. Mil ideias, mil planos, surgiram dentro da minha alma; até que, finalmente, um último, fixo e final pensamento tomou conta do meu coração. Era o de morrer. Deitei-me para descansar; e, de manhã, na hora tranquila do despertar, a mesma determinação estava comigo. Morrer! Não é desespero: é a convicção de que enchi a medida dos meus sofrimentos, de que atingi o meu termo marcado e de que me devo sacrificar por ti. Sim, Charlotte, por que não hei de confessá-lo? Um de nós três tem de morrer: será Werther. Ó amada Charlotte! este coração, excitado pela raiva e pela fúria, concebeu muitas vezes a ideia horrível de assassinar o teu marido — tu — eu mesmo! A sorte está lançada, finalmente. E nas noites brilhantes e tranquilas do verão, quando caminhares por vezes em direção às montanhas, deixa que os teus pensamentos se voltem então para mim: recorda-te de quantas vezes me observaste a vir ao teu encontro desde o vale; depois, pousa os teus olhos sobre o cemitério que contém a minha sepultura e, à luz do sol poente, observa como a brisa da tarde agita a relva alta que cresce sobre o meu túmulo. Eu estava calmo quando comecei esta carta, mas a recordação destas cenas faz-me chorar como uma criança."
Por volta das dez da manhã, Werther chamou o seu criado e, enquanto se vestia, disse-lhe que dentro de poucos dias pretendia partir para uma viagem e ordenou-lhe, portanto, que arrumasse as suas roupas e as preparasse para a bagagem, cobrasse todas as suas contas, fosse buscar os livros que tinha emprestado e desse dois meses de pagamento aos pobres dependentes que estavam habituados a receber dele uma mesada semanal.
Tomou o pequeno-almoço no seu quarto, depois montou o seu cavalo e foi visitar o administrador, que, contudo, não estava em casa. Caminhou pensativo no jardim e parecia ansioso por renovar todas as ideias que lhe eram mais dolorosas.
As crianças não o deixaram ficar sozinho por muito tempo. Seguiram-no, saltando e dançando à sua frente, e disseram-lhe que depois de amanhã e de amanhã e de mais um dia, receberiam o seu presente de Natal de Charlotte; e contaram então todas as maravilhas de que tinham formado ideias nas suas imaginações infantis. "Amanhã e amanhã", disse ele, "e mais um dia!" E beijou-as ternamente. Ele ia partir, mas o rapaz mais novo deteve-o, para sussurrar algo ao seu ouvido. Contou-lhe que os seus irmãos mais velhos tinham escrito esplêndidos votos de Ano Novo — tão grandes! Um para o papá, outro para o Albert e a Charlotte, e um para o Werther; e seriam apresentados logo pela manhã, no dia de Ano Novo. Isto comoveu-o profundamente. Deu a cada uma das crianças um presente, montou o seu cavalo, deixou os seus cumprimentos para o papá e a mamã e, com lágrimas nos olhos, afastou-se do lugar.
Regressou a casa por volta das cinco horas, ordenou ao seu criado que mantivesse o lume aceso, pediu-lhe que arrumasse os seus livros e roupa de cama no fundo do baú e que colocasse os seus casacos por cima. Parece ter feito então o seguinte acrescento à carta endereçada a Charlotte:
"Tu não me esperas. Pensas que te obedecerei e que não te visitarei novamente até à véspera de Natal. Ó Charlotte, hoje ou nunca! Na véspera de Natal terás este papel na tua mão; tremerás e humedecê-lo-ás com as tuas lágrimas. Eu vou — eu tenho de! Oh, como me sinto feliz por estar determinado!"
Entretanto, Charlotte encontrava-se num estado de espírito lamentável. Após a sua última conversa com Werther, percebeu quão doloroso lhe seria recusar as suas visitas e sabia quão severamente ele sofreria com a sua separação.
Ela tinha mencionado casualmente, numa conversa com Albert, que Werther não regressaria antes da véspera de Natal; e pouco depois Albert partiu a cavalo para ver uma pessoa da vizinhança, com quem tinha de tratar de alguns negócios que o deteriam toda a noite.
Charlotte estava sentada sozinha. Nenhum dos seus familiares estava por perto e ela entregou-se às reflexões que silenciosamente tomaram conta da sua mente. Estava para sempre unida a um marido cujo amor e fidelidade ela tinha comprovado, a quem estava devotada de todo o coração e que parecia ser uma dádiva especial do Céu para garantir a sua felicidade. Por outro lado, Werther tinha-se tornado caro para ela. Existia uma cordial unanimidade de sentimentos entre eles desde a primeira hora do seu conhecimento, e a sua longa associação e repetidos encontros tinham feito uma impressão indelével no seu coração. Ela estava habituada a comunicar-lhe cada pensamento e sentimento que a interessava, e a sua ausência ameaçava abrir um vazio na sua existência que poderia ser impossível preencher. Como desejava, de todo o coração, poder transformá-lo no seu irmão — que pudesse induzi-lo a casar com uma das suas próprias amigas, ou que pudesse restabelecer a sua intimidade com Albert.
Passou em revista todas as suas amigas íntimas na sua mente, mas encontrou algo de objetável em cada uma e não conseguiu decidir-se por nenhuma a quem consentisse entregá-lo.
Entre todas estas considerações, sentiu profunda mas confusamente que o seu próprio desejo real, porém não expresso, era retê-lo para si mesma, e o seu puro e amável coração sentiu com este pensamento uma sensação de opressão que parecia proibir uma perspetiva de felicidade. Ela estava desgraçada: uma nuvem escura obscurecia a sua visão mental.
Eram agora seis horas e meia e ela ouviu o passo de Werther nas escadas. Reconheceu imediatamente a sua voz, ao perguntar se ela estava em casa. O seu coração bateu audivelmente — poderíamos quase dizer pela primeira vez — à chegada dele. Era demasiado tarde para se negar; e, quando ele entrou, ela exclamou, com uma espécie de confusão mal disfarçada: "Não cumpriste a tua palavra!" "Não prometi nada", respondeu ele. "Mas devias ter cumprido, pelo menos por minha causa", continuou ela. "Suplico-te, por ambos os nossos bens."
Ela mal sabia o que dizia ou fazia; e mandou chamar alguns amigos, que, pela sua presença, pudessem evitar que ela ficasse sozinha com Werther. Ele pousou alguns livros que tinha trazido consigo, depois fez perguntas sobre outros, até que ela começou a ter esperança de que os seus amigos pudessem chegar em breve, alimentando ao mesmo tempo o desejo de que eles ficassem longe.
Num momento, sentiu-se ansiosa por que o criado permanecesse na sala contígua, depois mudou de ideias. Werther, entretanto, caminhava impacientemente de um lado para o outro. Ela foi até ao piano e determinou não se retirar. Reuniu então os seus pensamentos e sentou-se silenciosamente ao lado de Werther, que tinha tomado o seu lugar habitual no sofá.
"Não trouxeste nada para ler?", perguntou ela. Ele não tinha nada. "Ali na minha gaveta", continuou ela, "encontrarás a tua própria tradução de alguns dos cantos de Ossian. Ainda não os li, pois ainda tive esperança de te ouvir recitá-los; mas, desde há algum tempo, não tenho conseguido realizar esse desejo." Ele sorriu e foi buscar o manuscrito, que pegou com um estremecimento. Sentou-se; e, com os olhos cheios de lágrimas, começou a ler.
"Estrela da noite descendente! Bela é a tua luz no oeste! Levantas a tua cabeça não cortada da tua nuvem; os teus passos são majestosos no teu monte. Que contemplas tu na planície? Os ventos tempestuosos estão calmos. O murmúrio da torrente vem de longe. Ondas rugidoras trepam o rochedo distante. As moscas da tarde estão nas suas asas débeis: o zumbido do seu curso está no campo. Que contemplas tu, bela luz? Mas tu sorris e partes. As ondas vêm com alegria ao teu redor: banham o teu adorável cabelo. Adeus, tu, raio silencioso! Que a luz da alma de Ossian surja!
"E ela surge na sua força! Contemplo os meus amigos partidos. A sua reunião é em Lora, como nos dias de outros anos. Fingal vem como uma coluna aquosa de névoa! Os seus heróis estão ao redor: e vê os bardos da canção, Ullin de cabelos grisalhos! O majestoso Ryno! Alpin de voz melodiosa: a suave queixa de Minona! Como estais mudados, meus amigos, desde os dias do banquete de Selma! quando contendíamos, como brisas da primavera enquanto voam ao longo do monte e vergam, por turnos, a relva fracamente assobiante.
"Minona surgiu na sua beleza, com olhar baixo e olho lacrimoso. O seu cabelo voava lentamente com a rajada que corria infrequente do monte. As almas dos heróis estavam tristes quando ela elevou a voz melodiosa. Muitas vezes tinham visto a sepultura de Salgar, a habitação escura de Colma de peito branco. Colma deixada sozinha no monte com toda a sua voz de canção! Salgar prometeu vir! mas a noite desceu ao redor. Ouve a voz de Colma, quando ela se sentava sozinha no monte!
"Colma. É noite: estou sozinha, desamparada no monte das tempestades. O vento ouve-se na montanha. A torrente uiva pelo rochedo abaixo. Nenhuma cabana me recebe da chuva: desamparada no monte dos ventos!
"Ergue-te, lua! de trás das tuas nuvens. Estrelas da noite, surgi! Guiai-me, alguma luz, para o lugar onde o meu amor descansa da caça sozinho! O seu arco perto dele desarmado, os seus cães ofegantes ao seu redor! Mas aqui devo sentar-me sozinha junto ao rochedo do riacho musgoso. O riacho e o vento rugem alto. Não ouço a voz do meu amor! Por que se atrasa o meu Salgar; por que se atrasa o chefe do monte na sua promessa? Aqui está o rochedo e aqui está a árvore! aqui está o riacho rugidor! Tu prometeste estar aqui com a noite. Ah! para onde foi o meu Salgar? Contigo eu fugiria do meu pai, contigo do meu irmão de orgulho. A nossa raça tem sido há muito inimiga: nós não somos inimigos, ó Salgar!
"Cessa um pouco, ó vento! riacho, sê tu silencioso um pouco! deixa que a minha voz seja ouvida ao redor! deixa que o meu errante me ouça! Salgar! é Colma quem chama. Aqui está a árvore e o rochedo. Salgar, meu amor, eu estou aqui! Por que te atrasas na tua vinda? Eis! a lua calma surge. A cheia é brilhante no vale. Os rochedos são cinzentos na encosta. Eu não o vejo na crista. Os seus cães não vêm à sua frente com notícias da sua aproximação. Aqui devo sentar-me sozinha!
"Quem jaz na charneca ao meu lado? São eles o meu amor e o meu irmão? Falai-me, ó meus amigos! A Colma não dão resposta. Falai-me: estou sozinha! A minha alma está atormentada com medos. Ah, eles estão mortos! As suas espadas estão vermelhas do combate. Ó meu irmão! meu irmão! por que mataste o meu Salgar! Por que, ó Salgar, mataste o meu irmão! Caros éreis ambos para mim! que direi em vosso louvor? Tu eras belo no monte entre milhares! ele era terrível no combate! Falai-me! ouvi a minha voz! ouvi-me, filhos do meu amor! Eles estão silenciosos! silenciosos para sempre! Frios, frios, estão os seus peitos de barro! Oh, do rochedo no monte, do topo da encosta ventosa, falai, vós fantasmas dos mortos! Falai, não terei medo! Para onde fostes descansar? Em que caverna do monte encontrarei os partidos? Nenhuma voz fraca está no vendaval: nenhuma resposta meio afogada na tempestade!
"Sento-me na minha dor: espero pela manhã nas minhas lágrimas! Erguei o túmulo, vós amigos dos mortos. Não o fecheis até que Colma chegue. A minha vida voa como um sonho. Por que deveria ficar para trás? Aqui descansarei com os meus amigos, junto ao riacho do rochedo ressonante. Quando a noite cair no monte, quando os ventos altos surgirem, o meu fantasma estará na rajada e lamentará a morte dos meus amigos. O caçador ouvirá da sua cabana; ele temerá, mas amará a minha voz! Pois doce será a minha voz pelos meus amigos: agradáveis eram os seus amigos para Colma.
"Tal foi a tua canção, Minona, filha suavemente corada de Torman. As nossas lágrimas desceram por Colma e as nossas almas estavam tristes! Ullin veio com a sua harpa; ele deu a canção de Alpin. A voz de Alpin era agradável, a alma de Ryno era um raio de fogo! Mas eles tinham descansado na casa estreita: a sua voz tinha cessado em Selma! Ullin tinha regressado um dia da caça antes de os heróis caírem. Ele ouviu a sua disputa no monte: a sua canção era suave, mas triste! Lamentavam a queda de Morar, o primeiro dos homens mortais! A sua alma era como a alma de Fingal: a sua espada como a espada de Oscar. Mas ele caiu e o seu pai lamentou: os olhos da sua irmã estavam cheios de lágrimas. Os olhos de Minona estavam cheios de lágrimas, a irmã de Morar transportado por carruagem. Ela retirou-se da canção de Ullin, como a lua no oeste, quando ela prevê o aguaceiro e esconde a sua bela cabeça numa nuvem. Toquei a harpa com Ullin: a canção da manhã surgiu!
"Ryno. O vento e a chuva passaram, calma é a tarde do dia. As nuvens estão divididas no céu. Sobre os montes verdes voa o sol inconstante. Vermelho através do vale pedregoso desce o riacho do monte. Doces são os teus murmúrios, ó riacho! mas mais doce é a voz que ouço. É a voz de Alpin, o filho da canção, lamentando pelos mortos! Curvada está a sua cabeça de idade: vermelho o seu olho lacrimoso. Alpin, tu, filho da canção, por que sozinho no monte silencioso? por que te queixas, como uma rajada no bosque, como uma onda na margem solitária?
"Alpin. As minhas lágrimas, ó Ryno! são pelos mortos, a minha voz por aqueles que partiram. Alto tu és no monte; belo entre os filhos do vale. Mas tu cairás como Morar: o pranteador sentar-se-á no teu túmulo. Os montes não te conhecerão mais: o teu arco jazerá no teu salão desarmado!"
"Tu eras veloz, ó Morar! como um corço no deserto: terrível como um meteoro de fogo. A tua ira era como a tempestade. A tua espada em batalha como o relâmpago no campo. A tua voz era como um regato após a chuva, como o trovão em colinas distantes. Muitos tombaram pelo teu braço: foram consumidos nas chamas da tua ira. Mas quando regressavas da guerra, quão serena era a tua fronte. O teu rosto era como o sol após a chuva: como a lua no silêncio da noite: calmo como o seio do lago quando o vento forte se acalma.
"Estreita é agora a tua morada! sombrio o lugar da tua habitação! Com três passos circundo a tua sepultura, ó tu que eras tão grande outrora! Quatro pedras, com as suas cabeças de musgo, são o único memorial de ti. Uma árvore quase sem folha, erva alta que assobia ao vento, marcam ao olhar do caçador o túmulo do poderoso Morar. Morar! estás deveras abatido. Não tens mãe que te lamente, nem donzela com as suas lágrimas de amor. Morta está aquela que te deu à luz. Caída está a filha de Morglan.
"Quem é este sobre o seu cajado? Quem é este cuja cabeça é branca pela idade, cujos olhos estão vermelhos de lágrimas, que treme a cada passo? É o teu pai, ó Morar! o pai de nenhum filho senão de ti. Ele ouviu da tua fama na guerra, ouviu dos inimigos dispersos. Ouviu do renome de Morar, por que não ouviu da sua ferida? Chora, tu pai de Morar! Chora, mas o teu filho não te ouve. Profundo é o sono dos mortos, baixa a sua almofada de pó. Nunca mais ouvirá ele a tua voz, nunca mais acordará ao teu chamado. Quando será manhã na sepultura, para ordenar ao adormecido que desperte? Adeus, tu o mais bravo dos homens! tu conquistador no campo! mas o campo não te verá mais, nem o bosque escuro será iluminado pelo esplendor do teu aço. Não deixaste filho. A canção preservará o teu nome. Tempos futuros ouvirão de ti, ouvirão do caído Morar!
"O pesar de todos surgiu, mas sobretudo o suspiro lancinante de Armin. Ele recorda a morte do seu filho, que tombou nos dias da sua juventude. Carmor estava perto do herói, o chefe da ecoante Galmal. Por que irrompeu o suspiro de Armin? disse ele. Há uma causa para o luto? A canção vem com a sua música para derreter e agradar a alma. É como uma névoa suave que, erguendo-se de um lago, se derrama sobre o vale silencioso; as flores verdes enchem-se de orvalho, mas o sol regressa na sua força, e a névoa desaparece. Por que estás triste, ó Armin, chefe da Gorma cercada pelo mar?
"Triste estou! nem pequena é a minha causa de mágoa! Carmor, tu não perdeste nenhum filho; não perdeste nenhuma filha de beleza. Colgar o valente vive, e Annira, a mais bela donzela. Os ramos da tua casa ascendem, ó Carmor! mas Armin é o último da sua estirpe. Sombrio é o teu leito, ó Daura! profundo o teu sono no túmulo! Quando despertarás com as tuas canções? com toda a tua voz de música?
"Erguei-vos, ventos do outono, erguei-vos: soprai ao longo da charneca. Regatos das montanhas, rugi; rugi, tempestades nos arvoredos dos meus carvalhos! Caminhai através de nuvens fragmentadas, ó lua! mostrai o vosso rosto pálido em intervalos; trazei à minha mente a noite em que todos os meus filhos caíram, quando Arindal o poderoso caiu — quando Daura a adorável falhou. Daura, minha filha, tu eras bela, bela como a lua sobre Fura, branca como a neve impelida, doce como a aragem respirável. Arindal, o teu arco era forte, a tua lança era veloz no campo, o teu olhar era como a névoa na vaga, o teu escudo uma nuvem vermelha numa tempestade! Armar, renomado na guerra, veio e buscou o amor de Daura. Não foi por muito tempo recusado: bela era a esperança dos seus amigos.
"Erath, filho de Odgal, definhou: o seu irmão fora morto por Armar. Ele veio disfarçado como um filho do mar: belo era o seu penhasco sobre a vaga, brancas as suas madeixas da idade, calma a sua fronte séria. A mais bela das mulheres, disse ele, adorável filha de Armin! uma rocha não distante no mar traz uma árvore na sua face; vermelho brilha o fruto ao longe. Ali Armar espera por Daura. Venho para levar o seu amor! ela foi, chamou por Armar. Nada respondeu, senão o filho da rocha. Armar, meu amor, meu amor! por que me atormentas com medo? Ouve, filho de Arnart, ouve! é Daura que te chama. Erath, o traidor, fugiu a rir para a terra. Ela ergueu a sua voz — chamou pelo seu irmão e pelo seu pai. Arindal! Armin! ninguém para vos socorrer, Daura.
"A sua voz veio sobre o mar. Arindal, meu filho, desceu da colina, áspero nos despojos da caça. As suas flechas chocalhavam ao seu lado; o seu arco estava na sua mão, cinco cães cinzentos-escuros seguiam os seus passos. Ele viu o feroz Erath na margem; agarrou-o e amarrou-o a um carvalho. Espessas giram as correias da pele em torno dos seus membros; ele carrega os ventos com os seus gemidos. Arindal sobe o abismo no seu barco para trazer Daura a terra. Armar veio na sua ira, e deixou voar a seta de penas cinzentas. Ela cantou, afundou-se no teu coração, ó Arindal, meu filho! por Erath o traidor tu morres. O remo é parado de uma vez: ele ofegou sobre a rocha, e expirou. Qual é o teu pesar, ó Daura, quando em torno dos teus pés é derramado o sangue do teu irmão. O barco está quebrado em dois. Armar mergulha no mar para resgatar a sua Daura, ou morrer. Súbita, uma rajada de uma colina veio sobre as vagas; ele afundou-se, e não se ergueu mais.
"Sozinha, na rocha batida pelo mar, a minha filha foi ouvida a queixar-se; frequentes e altos eram os seus gritos. O que poderia o seu pai fazer? Toda a noite estive na margem: vi-a pelo feixe ténue da lua. Toda a noite ouvi os seus gritos. Alto era o vento; a chuva batia forte na colina. Antes de a manhã aparecer, a sua voz era fraca; morreu como a brisa da tarde entre a erva das rochas. Exausta com o pesar, ela expirou, e deixou-te, Armin, sozinho. Perdida está a minha força na guerra, caído o meu orgulho entre as mulheres. Quando as tempestades no alto se erguem, quando o norte eleva a vaga no alto, sento-me junto à costa ressoante, e olho para a rocha fatal.
"Muitas vezes, sob a lua poente, vejo os fantasmas dos meus filhos; meio invisíveis caminham em lúgubre conferência juntos."
Uma torrente de lágrimas que corria dos olhos de Charlotte e dava alívio ao seu coração prestes a rebentar, interrompeu a recitação de Werther. Ele atirou o livro, agarrou-lhe a mão e chorou amargamente. Charlotte debruçou-se sobre a sua mão e enterrou o rosto no seu lenço: a agitação de ambos era excessiva. Sentiam que o seu próprio destino estava retratado nas desgraças dos heróis de Ossian, sentiam isto juntos, e as suas lágrimas redobraram. Werther apoiou a testa no braço de Charlotte: ela tremia, desejava ter partido; mas a dor e a simpatia jaziam como um peso de chumbo sobre a sua alma. Recuperou-se brevemente e implorou a Werther, entre soluços interrompidos, que a deixasse, implorou-lhe com a maior seriedade que cumprisse o seu pedido. Ele tremia; o seu coração estava prestes a rebentar: então, pegando no livro novamente, recomeçou a ler, com uma voz interrompida por soluços.
"Por que me despertas, ó primavera? A tua voz corteja-me, exclamando: Eu refresco-te com orvalhos celestiais; mas o tempo da minha decadência está a aproximar-se, a tempestade está próxima que murchará as minhas folhas. Amanhã o viajante virá, ele virá, que me contemplou em beleza: o seu olho buscar-me-á no campo em redor, mas não me encontrará."
Toda a força destas palavras caiu sobre o infeliz Werther. Cheio de desespero, atirou-se aos pés de Charlotte, agarrou-lhe as mãos e pressionou-as contra os seus olhos e contra a sua testa. Uma apreensão do seu projeto fatal atingiu-a agora pela primeira vez. Os seus sentidos estavam perturbados: ela segurou-lhe as mãos, pressionou-as contra o seu peito; e, inclinando-se para ele com emoções da mais terna piedade, a sua face quente tocou na dele. Perderam de vista tudo. O mundo desapareceu dos seus olhos. Ele abraçou-a nos seus braços, apertou-a contra o seu peito e cobriu os seus lábios trémulos com beijos apaixonados. "Werther!" gritou ela com uma voz ténue, voltando-se; "Werther!" e, com uma mão débil, empurrou-o para longe. Por fim, com a voz firme da virtude, exclamou: "Werther!" Ele não resistiu, mas, arrancando-se dos seus braços, caiu de joelhos diante dela. Charlotte ergueu-se e, com dor desordenada, em tons misturados de amor e ressentimento, exclamou: "É a última vez, Werther! Nunca mais me verás!" Então, lançando um último olhar terno sobre o seu infeliz amante, correu para a sala adjacente e trancou a porta. Werther estendeu os braços, mas não se atreveu a detê-la. Permaneceu no chão, com a cabeça apoiada no sofá, durante meia hora, até ouvir um ruído que o trouxe aos sentidos. O criado entrou. Ele então caminhou de um lado para o outro da sala; e, quando ficou novamente sozinho, foi à porta de Charlotte e, em voz baixa, disse: "Charlotte, Charlotte! apenas mais uma palavra, um último adeus!" Ela não deu resposta. Ele parou, escutou e implorou; mas tudo estava silencioso. Por fim, arrancou-se do lugar, gritando: "Adeus, Charlotte, adeus para sempre!"
Werther correu para o portão da cidade. Os guardas, que o conheciam, deixaram-no passar em silêncio. A noite estava escura e tempestuosa — chovia e nevava. Chegou à sua própria porta por volta das onze horas. O seu criado, embora o visse entrar na casa sem o chapéu, não se atreveu a dizer nada; e, ao despir o seu amo, descobriu que as suas roupas estavam molhadas. O seu chapéu foi encontrado mais tarde na ponta de uma rocha sobranceira ao vale; e é inconcebível como ele pôde ter subido ao cume numa noite tão escura e tempestuosa sem perder a vida.
Retirou-se para a cama e dormiu até tarde. Na manhã seguinte, o seu criado, ao ser chamado para trazer o café, encontrou-o a escrever. Ele estava a acrescentar, para Charlotte, o que aqui anexamos.
"Pela última, última vez abro estes olhos. Ai! eles não contemplarão mais o sol. Está coberto por uma nuvem espessa e impenetrável. Sim, Natureza! veste-te de luto: o teu filho, o teu amigo, o teu amante, aproxima-se do seu fim! Este pensamento, Charlotte, é sem paralelo; e ainda assim parece um sonho misterioso quando repito — este é o meu último dia! O último! Charlotte, nenhuma palavra pode expressar adequadamente este pensamento. O último! Hoje ergo-me em toda a minha força, amanhã, frio e rígido, jazerei estendido sobre o chão. Morrer! o que é a morte? Apenas sonhamos no nosso discurso sobre ela. Vi muitos seres humanos morrerem; mas, tão restringida é a nossa frágil natureza, não temos conceção clara do início ou do fim da nossa existência. Neste momento sou meu — ou melhor, sou teu, teu, minha adorada! e no próximo estamos separados, divididos — talvez para sempre! Não, Charlotte, não! Como posso eu, como podes tu, ser aniquilado? Nós existimos. O que é a aniquilação? Uma mera palavra, um som sem significado que não fixa nenhuma impressão na mente. Morto, Charlotte! deitado na terra fria, na sepultura escura e estreita! Tive um amigo outrora que era tudo para mim na juventude. Ela morreu. Segui o seu coche fúnebre; estive junto à sua sepultura quando o caixão foi descido; e quando ouvi o ranger das cordas enquanto eram soltas e puxadas para cima, quando a primeira pazada de terra foi atirada, e o caixão devolveu um som oco, que se tornou cada vez mais ténue até que tudo ficou completamente coberto, atirei-me ao chão; o meu coração estava ferido, aflito, despedaçado, rasgado — mas eu não sabia o que tinha acontecido, nem o que me havia de acontecer. Morte! a sepultura! Não entendo as palavras. — Perdoa, oh, perdoa-me! Ontem — ah, que esse dia devesse ter sido o último da minha vida! Tu, anjo! pela primeira vez na minha existência, senti o arrebatamento brilhar dentro da minha alma mais profunda. Ela ama, ela ama-me! Ainda queima nos meus lábios o fogo sagrado que receberam dos teus. Novas torrentes de deleite sobrecarregam a minha alma. Perdoa-me, oh, perdoa!
"Eu sabia que te era caro; vi-o no teu primeiro olhar fascinante, soube-o pela primeira pressão da tua mão; mas quando estava ausente de ti, quando via Albert ao teu lado, as minhas dúvidas e medos regressavam.
"Lembrar-te-ias das flores que me enviaste, quando, naquela assembleia apinhada, não podias nem falar nem estender-me a mão? Metade da noite estive de joelhos perante essas flores, e considerava-as como os penhores do teu amor; mas essas impressões tornaram-se mais ténues, e foram por fim apagadas.
"Tudo passa; mas uma eternidade inteira não poderia extinguir a chama viva que foi ontem acendida pelos teus lábios, e que agora queima dentro de mim. Ela ama-me! Estes braços rodearam a sua cintura, estes lábios tremeram sobre os dela. Ela é minha! Sim, Charlotte, és minha para sempre!
"E o que querem eles dizer ao afirmar que Albert é o teu marido? Ele pode sê-lo para este mundo; e neste mundo é um pecado amar-te, desejar arrancar-te do seu abraço. Sim, é um crime; e eu sofro o castigo, mas desfrutei do deleite pleno do meu pecado. Inalei um bálsamo que reanimou a minha alma. Desta hora em diante és minha; sim, Charlotte, és minha! Eu vou à tua frente. Vou para o meu Pai e para o teu Pai. Derramarei as minhas mágoas diante dele, e ele dar-me-á conforto até que tu chegues. Então voarei ao teu encontro. Reivindicar-te-ei, e permanecerei no teu abraço eterno, na presença do Todo-Poderoso.
"Não sonho, não deliro. Aproximando-me da sepultura, as minhas perceções tornam-se mais claras. Existiremos; ver-nos-emos novamente; contemplaremos a tua mãe; eu contemplá-la-ei, e expor-lhe-ei o meu coração mais profundo. A tua mãe — a tua imagem!"
Por volta das onze horas, Werther perguntou ao seu criado se Albert tinha regressado. Ele respondeu: "Sim"; pois vira-o passar a cavalo: ao que Werther lhe enviou o seguinte bilhete, não selado:
"Seja tão bom de me emprestar as suas pistolas para uma viagem. Adeus."
Charlotte dormira pouco durante a noite passada. Todas as suas apreensões realizaram-se de uma forma que ela não podia prever nem evitar. O seu sangue fervia nas veias, e mil sensações dolorosas rasgavam o seu coração puro. Seria o ardor dos abraços apaixonados de Werther que ela sentia dentro do seu peito? Seria a raiva pela sua audácia? Seria a triste comparação da sua condição presente com os dias anteriores de inocência, tranquilidade e autoconfiança? Como poderia ela aproximar-se do seu marido e confessar uma cena que ela não tinha razão para ocultar, e que ela sentia, contudo, não estar disposta a confessar? Tinham preservado durante tanto tempo um silêncio um para o outro e seria ela a primeira a quebrá-lo com tão inesperada descoberta? Temia que a mera descrição da visita de Werther o perturbasse, e o seu sofrimento seria aumentado pela sua perfeita candura. Desejava que ele a pudesse ver sob a sua verdadeira luz, e julgá-la sem preconceito; mas estaria ela ansiosa para que ele lesse a sua alma mais profunda? Por outro lado, poderia ela enganar um ser a quem todos os seus pensamentos tinham estado sempre expostos tão claramente como o cristal, e de quem nenhum sentimento tinha sido sempre ocultado? Estas reflexões tornavam-na ansiosa e pensativa. A sua mente ainda permanecia em Werther, que estava agora perdido para ela, mas a quem ela não conseguia resignar-se, e para quem ela sabia que nada restava senão o desespero se ela se perdesse para ele para sempre.
Uma recordação daquele misterioso afastamento que ultimamente existira entre ela e Albert, e que ela nunca pôde compreender completamente, era agora incomensuravelmente dolorosa para ela. Mesmo os prudentes e os bons hesitaram já antes em explicar as suas diferenças mútuas, e habitaram em silêncio sobre as suas queixas imaginárias, até que as circunstâncias se tornaram tão emaranhadas que, naquela conjuntura crítica, quando uma explicação calma teria salvo todas as partes, um entendimento era impossível. E assim, se a confiança doméstica tivesse sido estabelecida mais cedo entre eles, se o amor e a tolerância gentil tivessem animado e expandido mutuamente os seus corações, talvez ainda não tivesse sido tarde demais para salvar o nosso amigo.
Mas não devemos esquecer uma circunstância notável. Podemos observar pelo caráter da correspondência de Werther que ele nunca fingira ocultar o seu desejo ansioso de deixar este mundo. Tinha discutido o assunto frequentemente com Albert; e, entre este e Charlotte, não tinha formado infrequentemente um tópico de conversação. Albert era tão oposto à própria ideia de tal ação que, com um grau de irritação incomum nele, dera mais de uma vez a entender a Werther que duvidava da seriedade das suas ameaças, e não só as transformou em ridículo, como fez com que Charlotte partilhasse os seus sentimentos de incredulidade. O seu coração estava assim tranquilizado quando se sentia disposta a ver o assunto melancólico de um ponto de vista sério, embora nunca tivesse comunicado ao seu marido as apreensões que por vezes experimentava.
Albert, ao seu regresso, foi recebido por Charlotte com um embaraço mal disfarçado. Ele próprio estava de mau humor; o seu trabalho estava inacabado; e tinha acabado de descobrir que o funcionário vizinho com quem tinha de lidar era uma pessoa obstinada e de mente estreita. Muitas coisas tinham ocorrido para o irritar.
Perguntou se tinha acontecido algo durante a sua ausência, e Charlotte respondeu apressadamente que Werther estivera lá na noite anterior. Perguntou então pelas suas cartas, e foi-lhe respondido que vários pacotes tinham sido deixados no seu escritório. Retirou-se então, deixando Charlotte sozinha.
A presença do ser que ela amava e honrava produziu uma nova impressão no seu coração. A recordação da sua generosidade, bondade e afeição tinha acalmado a sua agitação: um impulso secreto incitou-a a segui-lo; ela pegou no seu trabalho e foi ao escritório dele, como era costume seu. Ele estava ocupado a abrir e ler as suas cartas. Parecia que o conteúdo de algumas era desagradável. Ela fez algumas perguntas: ele deu respostas curtas, e sentou-se para escrever.
Várias horas passaram desta maneira, e os sentimentos de Charlotte tornaram-se cada vez mais melancólicos. Ela sentia a extrema dificuldade de explicar ao seu marido, sob quaisquer circunstâncias, o peso que jazia sobre o seu coração; e a sua depressão tornava-se cada momento maior, na proporção em que ela se esforçava por esconder a sua dor, e por ocultar as suas lágrimas.
A chegada do criado de Werther causou-lhe o maior embaraço. Ele deu a Albert um bilhete, que este entregou friamente à sua esposa, dizendo, ao mesmo tempo: "Dá-lhe as pistolas. Desejo-lhe uma viagem agradável", acrescentou ele, voltando-se para o criado. Estas palavras caíram sobre Charlotte como um golpe de trovão: ela ergueu-se do seu assento quase desmaiada, e inconsciente do que fazia. Caminhou mecanicamente em direção à parede, tirou as pistolas com uma mão trémula, limpou lentamente o pó delas, e teria demorado mais tempo, não fosse Albert apressar os seus movimentos com um olhar impaciente. Ela entregou então as armas fatais ao criado, sem ser capaz de proferir uma palavra. Assim que ele partiu, ela dobrou o seu trabalho, e retirou-se de imediato para o seu quarto, o coração vencido pelos mais temerosos presságios. Ela antecipava alguma terrível calamidade. Estava num momento prestes a ir ter com o seu marido, atirar-se aos seus pés, e inteirá-lo de tudo o que tinha acontecido na noite anterior, para que pudesse reconhecer a sua culpa, e explicar as suas apreensões; então viu que tal passo seria inútil, pois certamente seria incapaz de induzir Albert a visitar Werther. O jantar foi servido; e um amigo gentil, a quem ela tinha persuadido a ficar, ajudou a sustentar a conversação, que foi levada a cabo por uma espécie de compulsão, até que os eventos da manhã fossem esquecidos.
Quando o criado trouxe as pistolas a Werther, este recebeu-as com transportes de alegria ao ouvir que Charlotte lhas dera com as suas próprias mãos. Comeu um pouco de pão, bebeu um pouco de vinho, mandou o criado almoçar e depois sentou-se para escrever o seguinte:
"Elas estiveram nas tuas mãos, tu limpaste-lhes o pó. Beijo-as mil vezes — tu tocaste-lhes. Sim, o Céu favorece o meu desígnio, e tu, Charlotte, forneces-me os instrumentos fatais. Era meu desejo receber a morte das tuas mãos, e o meu desejo foi gratificado. Informei-me junto do meu criado. Tu tremeste quando lhas entregaste, mas não me disseste adeus. Miserável, miserável que sou — nem uma despedida! Como pudeste fechar o teu coração contra mim nessa hora que te torna minha para sempre? Charlotte, séculos não podem apagar a impressão — sinto que não podes odiar o homem que te ama tão apaixonadamente!"
Depois do almoço, chamou o criado, pediu-lhe que terminasse de fazer as malas, destruiu muitos papéis e depois saiu para pagar algumas dívidas insignificantes. Regressou logo a casa, depois saiu de novo, apesar da chuva, caminhou durante algum tempo no jardim do conde e, mais tarde, seguiu para mais longe, no campo. Ao cair da tarde, regressou mais uma vez e retomou a sua escrita.
"Wilhelm, contemplei pela última vez as montanhas, as florestas e o céu. Adeus! E tu, minha querida mãe, perdoa-me! Consola-a, Wilhelm. Que Deus te abençoe! Resolvi todos os meus assuntos! Adeus! Encontrar-nos-emos de novo, e seremos mais felizes do que nunca."
"Recompensei-te mal, Albert; mas tu perdoar-me-ás. Perturbei a paz do teu lar. Semeei a desconfiança entre vós. Adeus! Porei fim a toda esta miséria. E oh, que a minha morte possa tornar-te feliz! Albert, Albert! Faz esse anjo feliz, e que a bênção do Céu esteja sobre ti!"
Passou o resto da noite a organizar os seus papéis: rasgou e queimou muitos; outros selou-os e endereçou-os a Wilhelm. Continham alguns pensamentos e máximas avulsas, alguns dos quais li. Às dez horas, ordenou que lhe avivassem o lume e que lhe trouxessem uma garrafa de vinho. Dispensou então o criado, cujo quarto, tal como os aposentos do resto da família, situava-se noutra parte da casa. O criado deitou-se sem se despir, para que pudesse estar pronto mais cedo para a sua viagem pela manhã, tendo o seu senhor informado que os cavalos de posta estariam à porta antes das seis horas.
"Passam das onze horas! Tudo está silencioso à minha volta, e a minha alma está calma. Agradeço-te, ó Deus, por me concederes força e coragem nestes últimos momentos! Aproximo-me da janela, meu querido amigo; e através das nuvens, que são neste momento levadas rapidamente pelos ventos impetuosos, contemplo as estrelas que iluminam os céus eternos. Não, vós não caireis, corpos celestiais: a mão do Todo-Poderoso sustenta-vos, a vós e a mim! Olhei pela última vez para a constelação da Ursa Maior: é a minha estrela favorita; pois quando me despedia de ti à noite, Charlotte, e afastava os meus passos da tua porta, ela brilhava sempre para mim. Com que arrebatamento a contemplei por vezes! Quantas vezes a implorei com as mãos erguidas que testemunhasse a minha felicidade! e ainda agora — Mas que objeto existe, Charlotte, que não convoque a tua imagem perante mim? Não me rodeias tu por todos os lados? e não guardei eu, como uma criança, cada ninharia que consagraste com o teu toque?
"O teu perfil, que me era tão caro, devolvo-to; e peço-te que o preserves. Milhares de beijos imprimi nele, e mil vezes ele alegrou o meu coração ao partir e ao regressar a casa.
"Implorei ao teu pai que protegesse os meus restos mortais. No canto do cemitério, voltado para os campos, há dois tílios — é lá que desejo jazere. O teu pai pode, e sem dúvida fará, este pouco pelo seu amigo. Implora-lho. Mas talvez os cristãos piedosos não queiram que os seus corpos sejam enterrados perto do cadáver de um pobre e infeliz miserável como eu. Então, deixa-me ser sepultado nalgum vale remoto, ou perto da estrada real, onde o sacerdote e o levita possam benzer-se ao passar pela minha tumba, enquanto o samaritano derramará uma lágrima pelo meu destino.
"Vê, Charlotte, não estremeço ao tomar a taça fria e fatal, da qual beberei o trago da morte. A tua mão apresenta-ma, e eu não tremo. Tudo, tudo está agora concluído: os desejos e as esperanças da minha existência estão cumpridos. Com mão fria e inabalável bato aos portais de bronze da Morte. Oh, se eu tivesse desfrutado da bem-aventurança de morrer por ti! quão alegremente me teria sacrificado por ti, Charlotte! E se eu pudesse restaurar a paz e a alegria ao teu seio, com que resolução, com que alegria, não enfrentaria eu o meu destino! Mas é o lote de apenas uns poucos escolhidos derramar o seu sangue pelos seus amigos e, com a sua morte, aumentar, mil vezes, a felicidade daqueles por quem são amados.
"Desejo, Charlotte, ser enterrado com as roupas que visto agora: foram tornadas sagradas pelo teu toque. Pedi este favor ao teu pai. O meu espírito paira sobre o meu sepulcro. Não quero que os meus bolsos sejam revistados. O laço de fita cor-de-rosa que usavas no teu peito a primeira vez que te vi, rodeada pelas crianças — Oh, beija-as mil vezes por mim, e diz-lhes o destino do seu infeliz amigo! Julgo vê-las a brincar à minha volta. As queridas crianças! Com que calor me afeiçoei a vós, Charlotte! Desde a primeira hora em que te vi, quão impossível achei ser deixar-te. Esta fita deve ser enterrada comigo: foi um presente teu no meu aniversário. Quão confuso tudo isto parece! Pouco pensava eu então que percorreria este caminho. Mas paz! Peço-te, paz!
"Estão carregadas — o relógio bate as doze. Digo amém. Charlotte, Charlotte! adeus, adeus!"
Um vizinho viu o clarão e ouviu o disparo da pistola; mas, como tudo permaneceu silencioso, não pensou mais nisso.
Pela manhã, às seis horas, o criado entrou no quarto de Werther com uma vela. Encontrou o seu senhor estendido no chão, a banhar-se no seu próprio sangue, e as pistolas ao seu lado. Chamou, tomou-o nos braços, mas não recebeu resposta. A vida ainda não se extinguira totalmente. O criado correu a chamar um cirurgião e depois foi buscar Albert. Charlotte ouviu o toque da campainha: um frio estremecimento apoderou-se dela. Acordou o marido, e ambos levantaram-se. O criado, banhado em lágrimas, balbuciou as terríveis notícias. Charlotte caiu inconsciente aos pés de Albert.
Quando o cirurgião chegou ao infeliz Werther, ele ainda jazia no chão; e o seu pulso batia, mas os seus membros estavam frios. A bala, entrando na testa, acima do olho direito, penetrara no crânio. Uma veia foi aberta no seu braço direito: o sangue veio, e ele continuava a respirar.
Do sangue que escorria da cadeira, podia inferir-se que ele cometera o ato precipitado sentado à sua secretária, e que depois caíra ao chão. Foi encontrado deitado de costas, perto da janela. Estava em traje de gala.
A casa, a vizinhança e toda a cidade entraram imediatamente em comoção. Albert chegou. Tinham deitado Werther na cama: a sua cabeça estava enfaixada, e a palidez da morte estava no seu rosto. Os seus membros estavam imóveis; mas ele ainda respirava, ora com força, ora mais fracamente — a sua morte era esperada a cada momento.
Ele bebera apenas um copo do vinho. "Emilia Galotti" estava aberta sobre a sua secretária.
Nada direi sobre a angústia de Albert, ou sobre a dor de Charlotte.
O velho administrador apressou-se a ir à casa imediatamente após ouvir as notícias: abraçou o seu amigo moribundo entre um dilúvio de lágrimas. Os seus filhos mais velhos seguiram-no logo a pé. Numa dor silenciosa, atiraram-se de joelhos à beira do leito e beijaram-lhe as mãos e o rosto. O mais velho, que era o seu favorito, debruçou-se sobre ele até que expirou; e mesmo então teve de ser removido à força. Às doze horas, Werther deu o seu último suspiro. A presença do administrador, e as precauções que ele adotara, evitaram uma perturbação; e nessa noite, à hora das onze, fez com que o corpo fosse enterrado no lugar que Werther escolhera para si.
O administrador e os seus filhos seguiram o cadáver até à sepultura. Albert não pôde acompanhá-los. A vida de Charlotte era dada como perdida. O corpo foi transportado por trabalhadores. Nenhum sacerdote esteve presente.