A SABEDORIA DO PADRE BROWN
De G. K. Chesterton
A
LUCIAN OLDERSHAW
ÍNDICE
1. A Ausência do Sr. Glass 2. O Paraíso dos Ladrões 3. O Duelo do Dr. Hirsch 4. O Homem no Corredor 5. O Erro da Máquina 6. A Cabeça de César 7. A Peruca Roxa 8. A Perecimento dos Pendragons 9. O Deus dos Gongos 10. A Salada do Coronel Cray 11. O Estranho Crime de John Boulnois 12. O Conto de Fadas do Padre Brown
UM -- A Ausência do Sr. Glass
OS consultórios do Dr. Orion Hood, o eminente criminologista e especialista em certos distúrbios morais, estendiam-se ao longo da orla marítima em Scarborough, numa série de janelas francesas muito grandes e bem iluminadas, que mostravam o Mar do Norte como uma interminável parede externa de mármore azul-esverdeado. Em tal lugar, o mar tinha algo da monotonia de um rodapé azul-esverdeado: pois as próprias salas eram regidas por toda a parte por uma terrível arrumação, não muito diferente da terrível arrumação do mar. Não se deve supor que os aposentos do Dr. Hood excluíssem o luxo, ou até mesmo a poesia. Estas coisas estavam lá, no seu devido lugar; mas sentia-se que nunca lhes era permitido sair do seu lugar. O luxo estava lá: sobre uma mesa especial encontravam-se oito ou dez caixas dos melhores charutos; mas eram dispostas segundo um plano de modo que os mais fortes estivessem sempre mais perto da parede e os mais suaves, mais perto da janela. Um tantalus contendo três tipos de bebida espirituosa, todos de uma excelência de licor, permanecia sempre nesta mesa de luxo; mas os fantasiosos afirmaram que o uísque, o conhaque e o rum pareciam estar sempre ao mesmo nível. A poesia estava lá: o canto esquerdo da sala estava alinhado com uma coleção de clássicos ingleses tão completa quanto a que a mão direita podia exibir de fisiologistas ingleses e estrangeiros. Mas se alguém tirasse um volume de Chaucer ou Shelley daquela fileira, a sua ausência irritava a mente como uma falha nos dentes da frente de um homem. Não se podia dizer que os livros nunca eram lidos; provavelmente eram, mas havia uma sensação de que estavam acorrentados aos seus lugares, como as Bíblias nas antigas igrejas. O Dr. Hood tratava a sua estante privada como se fosse uma biblioteca pública. E se esta intangibilidade científica rigorosa banhava até as prateleiras carregadas de letras e baladas e as mesas carregadas de bebida e tabaco, escusado será dizer que ainda mais dessa santidade pagã protegia as outras prateleiras que continham a biblioteca do especialista, e as outras mesas que sustentavam os instrumentos frágeis e até mesmo feéricos da química ou da mecânica.
O Dr. Hood percorria a extensão da sua fila de aposentos, delimitada — como dizem os livros de geografia das crianças — a leste pelo Mar do Norte e a oeste pelas fileiras cerradas da sua biblioteca de sociologia e criminologia. Estava vestido com veludo de artista, mas sem nenhuma da negligência de um artista; o seu cabelo estava fortemente salpicado de cinzento, mas crescia espesso e saudável; o seu rosto era magro, mas sanguíneo e expectante. Tudo sobre ele e o seu quarto indicava algo ao mesmo tempo rígido e inquieto, como aquele grande mar do norte junto ao qual (por puros princípios de higiene) ele tinha construído a sua casa.
O Destino, estando de bom humor, empurrou a porta e introduziu naqueles longos e rigorosos aposentos ladeados pelo mar alguém que era talvez o oposto mais surpreendente deles e do seu mestre. Em resposta a uma convocação seca mas civilizada, a porta abriu-se para dentro e entrou, arrastando-se, uma pequena figura disforme, que parecia achar o seu próprio chapéu e guarda-chuva tão incontroláveis como uma massa de bagagem. O guarda-chuva era um volume preto e prosaico, há muito além de qualquer reparo; o chapéu era um chapéu preto de abas largas, clerical mas não comum na Inglaterra; o homem era a própria encarnação de tudo o que é simples e impotente.
O doutor contemplou o recém-chegado com um espanto contido, não diferente do que teria mostrado se alguma besta marinha enorme, mas obviamente inofensiva, tivesse rastejado para o seu quarto. O recém-chegado contemplou o doutor com aquela genialidade radiante mas ofegante que caracteriza uma faxineira corpulenta que acabou de conseguir enfiar-se num autocarro. É uma rica confusão de autogratulação social e desordem corporal. O seu chapéu caiu no tapete, o seu pesado guarda-chuva escorregou entre os joelhos com um baque; ele tentou alcançar um e mergulhou para o outro, mas com um sorriso inalterado no rosto redondo, falou simultaneamente o seguinte:
— O meu nome é Brown. Por favor, desculpe-me. Vim por causa daquele assunto dos MacNab. Ouvi dizer que o senhor ajuda frequentemente as pessoas a sair de tais apuros. Por favor, desculpe-me se estou errado.
A esta altura, ele tinha recuperado o chapéu de forma desajeitada e fez uma pequena vénia estranha e oscilante sobre ele, como se estivesse a pôr tudo no lugar certo.
— Dificilmente o compreendo — respondeu o cientista, com uma fria intensidade de modos. — Receio que tenha se enganado de consultório. Sou o Dr. Hood e o meu trabalho é quase inteiramente literário e educacional. É verdade que por vezes fui consultado pela polícia em casos de peculiar dificuldade e importância, mas...
— Oh, isto é da maior importância — interrompeu o homenzinho chamado Brown. — Ora, a mãe dela não os deixa noivar. — E inclinou-se para trás na sua cadeira numa radiante racionalidade.
As sobrancelhas do Dr. Hood franziram-se sombriamente, mas os olhos sob elas brilhavam com algo que poderia ser raiva ou poderia ser divertimento. — E ainda assim — disse ele — não compreendo bem.
— Sabe, eles querem casar-se — disse o homem do chapéu clerical. — Maggie MacNab e o jovem Todhunter querem casar-se. Ora, o que pode ser mais importante do que isso?
Os triunfos científicos do grande Orion Hood tinham-no privado de muitas coisas — alguns diziam da sua saúde, outros do seu Deus; mas não o tinham despojado inteiramente do seu sentido do absurdo. Ao último apelo do ingénuo sacerdote, uma risadinha escapou-lhe de dentro, e ele atirou-se para uma poltrona numa atitude irónica de médico consultor.
— Sr. Brown — disse ele gravemente —, faz quase catorze anos e meio que não me pedem pessoalmente para testar um problema pessoal: na altura foi o caso de uma tentativa de envenenar o Presidente francês num banquete do Lord Mayor. Agora, compreendo, é uma questão de saber se alguma amiga sua chamada Maggie é uma noiva adequada para algum amigo dela chamado Todhunter. Bem, Sr. Brown, sou um desportista. Aceito o desafio. Darei à família MacNab o meu melhor conselho, tão bom quanto o que dei à República Francesa e ao Rei de Inglaterra — não, melhor: catorze anos melhor. Não tenho mais nada para fazer esta tarde. Conte-me a sua história.
O pequeno clérigo chamado Brown agradeceu-lhe com inquestionável calor, mas ainda com um estranho tipo de simplicidade. Era mais como se estivesse a agradecer a um estranho numa sala de fumadores por algum incómodo ao passar os fósforos, do que como se estivesse (como estava) praticamente a agradecer ao Curador dos Jardins de Kew por ir com ele a um campo para encontrar um trevo de quatro folhas. Com quase nenhum ponto e vírgula após os seus calorosos agradecimentos, o homenzinho começou a sua narrativa:
— Disse-lhe que o meu nome era Brown; bem, é esse o facto, e sou o padre da pequena Igreja Católica que suponho que tenha visto para além daquelas ruas esguias, onde a cidade termina em direção ao norte. Na última e mais esguia dessas ruas que corre ao longo do mar como um paredão, há um membro muito honesto mas de temperamento bastante forte do meu rebanho, uma viúva chamada MacNab. Ela tem uma filha e aluga quartos, e entre ela e a filha, e entre ela e os inquilinos... bem, suponho que haja muito a dizer de ambos os lados. Atualmente, ela tem apenas um inquilino, o jovem chamado Todhunter; mas ele deu mais trabalho do que todos os outros, pois quer casar-se com a jovem da casa.
— E a jovem da casa — perguntou o Dr. Hood, com um divertimento enorme e silencioso —, o que é que ela quer?
— Ora, ela quer casar-se com ele — exclamou o Padre Brown, sentando-se com entusiasmo. — Essa é precisamente a terrível complicação.
— É, de facto, um enigma hediondo — disse o Dr. Hood.
— Este jovem James Todhunter — continuou o clérigo — é um homem muito decente, tanto quanto sei; mas, na verdade, ninguém sabe muito. É um rapazinho brilhante e acastanhado, ágil como um macaco, de rosto barbeado como um ator e prestável como um cortesão nato. Parece ter o bolso cheio de dinheiro, mas ninguém sabe qual é a sua profissão. A Sra. MacNab, portanto (sendo de índole pessimista), tem a certeza de que é algo terrível, e provavelmente relacionado com dinamite. A dinamite deve ser de um tipo tímido e silencioso, pois o pobre rapaz apenas se fecha durante várias horas do dia e estuda alguma coisa atrás de uma porta trancada. Ele declara que a sua privacidade é temporária e justificada, e promete explicar antes do casamento. Isso é tudo o que alguém sabe com certeza, mas a Sra. MacNab dir-lhe-á muito mais do que aquilo de que ela própria tem certeza. Sabe como os contos crescem como erva num tal pedaço de ignorância. Há histórias de duas vozes ouvidas a falar no quarto; embora, quando a porta é aberta, Todhunter seja sempre encontrado sozinho. Há histórias de um misterioso homem alto de cartola, que uma vez saiu das névoas do mar e aparentemente do próprio mar, caminhando suavemente pelos campos arenosos e através do pequeno jardim das traseiras ao crepúsculo, até ser ouvido a falar com o inquilino à sua janela aberta. O colóquio pareceu terminar numa discussão. Todhunter fechou a sua janela com violência, e o homem de cartola dissolveu-se novamente no nevoeiro do mar. Esta história é contada pela família com a maior das mistificações; mas penso realmente que a Sra. MacNab prefere a sua própria história original: que o Outro Homem (ou o que quer que seja) rasteja todas as noites para fora da grande caixa no canto, que é mantida trancada durante todo o dia. Vê, portanto, como esta porta selada de Todhunter é tratada como a porta de todas as fantasias e monstruosidades das "Mil e Uma Noites". E, no entanto, lá está o rapazinho na sua respeitável jaqueta preta, tão pontual e inocente como um relógio de sala. Ele paga o seu aluguer a tempo e horas; é praticamente um abstémio; é incansavelmente gentil com as crianças mais novas, e consegue mantê-las entretidas durante um dia inteiro; e, por último e mais urgente de tudo, tornou-se igualmente popular com a filha mais velha, que está pronta para ir à igreja com ele amanhã.
Um homem calorosamente preocupado com quaisquer teorias abrangentes tem sempre gosto em aplicá-las a qualquer trivialidade. O grande especialista, tendo condescendido com a simplicidade do padre, condescendeu de forma expansiva. Acomodou-se com conforto na sua poltrona e começou a falar no tom de um conferencista um tanto distraído:
— Mesmo num caso minuto, é melhor olhar primeiro para as principais tendências da Natureza. Uma flor em particular pode não estar morta no início do inverno, mas as flores estão a morrer; um seixo em particular pode nunca ser molhado pela maré, mas a maré está a subir. Para o olhar científico, toda a história humana é uma série de movimentos coletivos, destruições ou migrações, como o massacre das moscas no inverno ou o regresso dos pássaros na primavera. Ora, o facto fundamental em toda a história é a Raça. A Raça produz a religião; a Raça produz guerras legais e éticas. Não há caso mais forte do que aquele do povo selvagem, alheio ao mundo e perecível a que comumente chamamos de Celtas, dos quais os seus amigos, os MacNab, são espécimes. Pequenos, morenos e deste sangue sonhador e errante, aceitam facilmente a explicação supersticiosa de quaisquer incidentes, tal como ainda aceitam (perdoe-me por dizer) aquela explicação supersticiosa de todos os incidentes que o senhor e a sua Igreja representam. Não é notável que tais pessoas, com o mar a gemer atrás delas e a Igreja (perdoe-me novamente) a zumbir à sua frente, devam atribuir características fantásticas ao que são provavelmente eventos simples. O senhor, com as suas pequenas responsabilidades paroquiais, vê apenas esta Sra. MacNab em particular, aterrorizada com esta história particular de duas vozes e um homem alto vindo do mar. Mas o homem com a imaginação científica vê, por assim dizer, todos os clãs de MacNab espalhados por todo o mundo, na sua média final tão uniformes como uma tribo de pássaros. Ele vê milhares de Sra. MacNabs, em milhares de casas, a deixar cair a sua pequena gota de morbidez nas chávenas de chá dos seus amigos; ele vê...
Antes que o cientista pudesse concluir a sua frase, outra e mais impaciente convocação soou do lado de fora; alguém com saias farfalhantes foi conduzido apressadamente pelo corredor, e a porta abriu-se para uma jovem, decentemente vestida mas desarrumada e vermelha de pressa. Ela tinha cabelos loiros soprados pelo mar, e teria sido inteiramente bela se as suas maçãs do rosto não fossem, à maneira escocesa, um pouco salientes, tanto em relevo como em cor. O seu pedido de desculpas foi quase tão abrupto como um comando.
— Lamento interrompê-lo, senhor — disse ela —, mas tive de seguir o Padre Brown imediatamente; é nada menos do que uma questão de vida ou morte.
O Padre Brown começou a levantar-se com alguma desordem. — Ora, o que aconteceu, Maggie? — disse ele.
— O James foi assassinado, pelo que pude perceber — respondeu a rapariga, ainda respirando com dificuldade devido à corrida. — Aquele homem Glass esteve com ele novamente; ouvi-os a falar através da porta muito claramente. Duas vozes distintas: pois o James fala baixo, com um sotaque, e a outra voz era alta e trémula.
— Aquele homem Glass? — repetiu o padre com alguma perplexidade.
— Eu sei que o nome dele é Glass — respondeu a rapariga, com grande impaciência. — Ouvi através da porta. Eles estavam a discutir — sobre dinheiro, penso eu — pois ouvi o James dizer repetidamente: "Isso está correto, Sr. Glass", ou "Não, Sr. Glass", e depois: "Dois ou três, Sr. Glass". Mas estamos a falar demasiado; o senhor deve vir imediatamente, e talvez ainda haja tempo.
— Mas tempo para quê? — perguntou o Dr. Hood, que estudava a jovem com um interesse marcado. — O que há sobre o Sr. Glass e os seus problemas de dinheiro que deva impelir tal urgência?
— Tentei derrubar a porta e não consegui — respondeu a rapariga bruscamente. — Depois corri para o quintal e consegui subir ao parapeito da janela que dá para o quarto. Estava tudo escuro e parecia estar vazio, mas juro que vi o James deitado, encolhido num canto, como se estivesse drogado ou estrangulado.
— Isto é muito sério — disse o Padre Brown, recolhendo o seu chapéu errante e o seu guarda-chuva e levantando-se; — na verdade, eu estava precisamente a apresentar o seu caso a este cavalheiro, e a visão dele...
— Foi grandemente alterada — disse o cientista gravemente. — Não creio que esta jovem seja tão celta como eu tinha suposto. Como não tenho mais nada para fazer, vou colocar o meu chapéu e passear até à cidade convosco.
Em poucos minutos, os três aproximavam-se da extremidade sombria da rua dos MacNab: a rapariga com o passo firme e ofegante da montanhesa, o criminologista com uma graça indolente (que não deixava de ter uma certa rapidez de leopardo), e o padre a um trote enérgico inteiramente desprovido de distinção. O aspeto desta extremidade da cidade não estava inteiramente sem justificação para as dicas do doutor sobre estados de espírito e ambientes desolados. As casas espalhadas ficavam cada vez mais distantes numa fila partida ao longo da costa; a tarde terminava com um crepúsculo prematuro e parcialmente lúgubre; o mar era de um roxo cor de tinta e murmurava ameaçadoramente. No jardim das traseiras da casa dos MacNab, que corria em direção à areia, duas árvores negras e estéreis erguiam-se como mãos de demónio levantadas de espanto, e quando a Sra. MacNab correu pela rua ao encontro deles com as mãos magras da mesma forma espalmadas, e o seu rosto feroz na sombra, ela própria era um pouco como um demónio. O doutor e o padre deram pouca resposta às suas shrill reiterações da história da filha, com mais detalhes perturbadores da sua própria autoria, aos votos divididos de vingança contra o Sr. Glass por assassinar, e contra o Sr. Todhunter por ter sido assassinado, ou contra este último por ter ousado querer casar-se com a sua filha, e por não ter vivido para o fazer. Passaram pelo corredor estreito na frente da casa até chegarem à porta do inquilino nas traseiras, e ali o Dr. Hood, com o truque de um velho detetive, pôs o seu ombro bruscamente contra o painel e arrombou a porta.
Abriu-se para uma cena de catástrofe silenciosa. Ninguém que a visse, mesmo por um instante, poderia duvidar de que o quarto tinha sido o teatro de algum confronto emocionante entre duas, ou talvez mais, pessoas. Cartas de jogar estavam espalhadas pela mesa ou tremulavam pelo chão como se um jogo tivesse sido interrompido. Dois copos de vinho estavam prontos para vinho numa mesa lateral, mas um terceiro jazia esmagado numa estrela de cristal sobre o tapete. A poucos metros dele estava o que parecia ser uma faca longa ou uma espada curta, reta, mas com um punho ornamental e ilustrado, a sua lâmina baça captando apenas um brilho cinzento da janela lúgubre atrás, que mostrava as árvores negras contra o nível de chumbo do mar. Em direção ao canto oposto da sala estava enrolada uma cartola de seda de cavalheiro, como se tivesse acabado de ser arrancada da sua cabeça; tanto assim, na verdade, que quase se olhava para ver se ainda estava a rolar. E no canto atrás dela, atirado como um saco de batatas, mas amarrado como um baú de viagem, jazia o Sr. James Todhunter, com um lenço sobre a boca e seis ou sete cordas atadas à volta dos seus cotovelos e tornozelos. Os seus olhos castanhos estavam vivos e moviam-se com atenção.
O Dr. Orion Hood fez uma pausa por um instante no tapete da porta e absorveu toda a cena de violência sem voz. Depois, atravessou rapidamente o tapete, pegou na cartola alta de seda e colocou-a gravemente na cabeça do ainda amarrado Todhunter. Era tão grande para ele que quase escorregou para os seus ombros.
— O chapéu do Sr. Glass — disse o doutor, regressando com ele e espreitando para o interior com uma lente de bolso. — Como explicar a ausência do Sr. Glass e a presença do chapéu do Sr. Glass? Pois o Sr. Glass não é um homem descuidado com as suas roupas. Esse chapéu é de uma forma elegante e sistematicamente escovado e polido, embora não muito novo. Um velho dândi, eu diria.
— Mas, meu Deus! — chamou a Srta. MacNab —, não vai desamarrar o homem primeiro?
— Digo "velho" com intenção, embora não com certeza — continuou o expositor; — a minha razão para isso pode parecer um pouco rebuscada. O cabelo dos seres humanos cai em graus muito variáveis, mas quase sempre cai ligeiramente, e com a lente eu deveria ver os pequenos cabelos num chapéu usado recentemente. Não tem nenhum, o que me leva a adivinhar que o Sr. Glass é careca. Ora, quando isto é tomado com a voz aguda e rabugenta que a Srta. MacNab descreveu tão vividamente (paciência, minha cara senhora, paciência), quando tomamos a cabeça sem cabelo juntamente com o tom comum na raiva senil, eu diria que podemos deduzir algum avanço na idade. No entanto, ele era provavelmente vigoroso, e era quase certamente alto. Poderia basear-me em certo grau na história da sua aparição anterior na janela, como um homem alto de cartola, mas creio que tenho uma indicação mais exata. Este copo de vinho foi esmagado por toda a parte, mas um dos seus fragmentos jaz na prateleira alta ao lado da lareira. Nenhum fragmento desse tipo poderia ter caído ali se o vaso tivesse sido esmagado na mão de um homem comparativamente baixo como o Sr. Todhunter.
— A propósito — disse o Padre Brown —, não seria melhor desamarrar o Sr. Todhunter?
«A nossa lição sobre os recipientes de bebida não termina aqui», prosseguiu o especialista. «Posso dizer desde já que é possível que o homem Glass fosse calvo ou nervoso devido à dissipação, e não à idade. O Sr. Todhunter, como foi observado, é um cavalheiro sossegado e poupado, essencialmente abstémio. Estas cartas e taças de vinho não fazem parte dos seus hábitos normais; foram produzidas para um companheiro em particular. Mas, como acontece, podemos ir mais longe. O Sr. Todhunter pode ou não possuir este serviço de vinho, mas não há sinais de que possua qualquer vinho. O que deveriam, então, conter estes recipientes? Sugeriria imediatamente algum brandy ou uísque, talvez de uma espécie luxuosa, vindo de uma garrafa no bolso do Sr. Glass. Temos, assim, algo como um retrato do homem, ou pelo menos do tipo: alto, idoso, elegante, mas um tanto gasto, certamente apreciador de jogo e bebidas fortes, talvez até demasiado apreciador. O Sr. Glass é um cavalheiro não desconhecido nas margens da sociedade.»
«Olhe aqui», gritou a jovem, «se não me deixar passar para o desamarrar, vou correr lá para fora e gritar pela polícia.»
«Não lhe aconselharia, Srta. MacNab», disse o Dr. Hood gravemente, «a ter pressa em chamar a polícia. Padre Brown, peço-lhe seriamente que acalme o seu rebanho, por eles, não por mim. Bem, vimos algo da figura e da qualidade do Sr. Glass; quais são os principais factos conhecidos sobre o Sr. Todhunter? São substancialmente três: que é económico, que é mais ou menos rico e que tem um segredo. Ora, é certamente óbvio que estas são as três principais marcas do tipo de homem que é chantageado. E é certamente igualmente óbvio que o traje desbotado, os hábitos devassos e a irritação estridente do Sr. Glass são as marcas inconfundíveis do tipo de homem que o chantageia. Temos as duas figuras típicas de uma tragédia de dinheiro para silêncio: por um lado, o homem respeitável com um mistério; por outro, o abutre do West-end com faro para um mistério. Estes dois homens encontraram-se aqui hoje e desentenderam-se, usando golpes e uma arma nua.»
«Vai tirar essas cordas?» perguntou a rapariga obstinadamente.
O Dr. Hood recolocou o chapéu de seda cuidadosamente na mesa de apoio e dirigiu-se ao cativo. Estudou-o atentamente, chegando mesmo a movê-lo um pouco e a virá-lo a meio pelos ombros, mas respondeu apenas:
«Não; creio que estas cordas servirão muito bem até que os seus amigos da polícia tragam as algemas.»
O Padre Brown, que olhava apaticamente para o tapete, levantou a sua cara redonda e disse: «O que quer dizer?»
O homem da ciência tinha apanhado a peculiar adaga do tapete e examinava-a atentamente enquanto respondia:
«Porque encontram o Sr. Todhunter amarrado», disse ele, «todos saltam para a conclusão de que o Sr. Glass o amarrou; e depois, suponho, escapou. Há quatro objeções a isto: Primeiro, porque haveria um cavalheiro tão elegante como o nosso amigo Glass de deixar o seu chapéu para trás, se partisse por vontade própria? Segundo», continuou, movendo-se em direção à janela, «esta é a única saída, e está trancada por dentro. Terceiro, esta lâmina aqui tem um pequeno toque de sangue na ponta, mas não há ferimento no Sr. Todhunter. O Sr. Glass levou esse ferimento consigo, vivo ou morto. Acrescente-se a tudo isto a probabilidade primária. É muito mais provável que a pessoa chantageada tentasse matar o seu peso morto, do que o chantagista tentasse matar a galinha dos ovos de ouro. Aí, penso eu, temos uma história bastante completa.»
«Mas as cordas?» perguntou o padre, cujos olhos tinham permanecido abertos com uma admiração um tanto vaga.
«Ah, as cordas», disse o especialista com uma entonação singular. «A Srta. MacNab queria muito saber por que não libertei o Sr. Todhunter das suas cordas. Bem, vou dizer-lhe. Não o fiz porque o Sr. Todhunter pode libertar-se delas a qualquer minuto que escolha.»
«O quê?» gritou a assistência em tons de espanto bastante diferentes.
«Observei todos os nós no Sr. Todhunter», reiterou Hood calmamente. «Por acaso sei algo sobre nós; são quase um ramo da ciência criminal. Cada um daqueles nós foi feito por ele mesmo e ele próprio poderia desatá-los; nenhum deles teria sido feito por um inimigo que tentasse realmente prendê-lo. Todo este assunto das cordas é uma farsa inteligente, para nos fazer pensar que ele é a vítima da luta em vez do miserável Glass, cujo cadáver pode estar escondido no jardim ou entalado na chaminé.»
Houve um silêncio algo deprimido; a sala estava a escurecer, os ramos dos jardins, castigados pelo mar, pareciam mais magros e negros do que nunca, contudo pareciam ter-se aproximado da janela. Quase se poderia imaginar que eram monstros marinhos como krakens ou chocos, pólipos contorcidos que tinham subido do mar para ver o fim desta tragédia, tal como ele, o vilão e vítima dela, o terrível homem da cartola, tinha outrora subido do mar. Pois todo o ar estava denso com a morbidez da chantagem, que é a mais mórbida das coisas humanas, porque é um crime que oculta um crime; um emplastro negro sobre uma ferida mais negra.
O rosto do pequeno padre católico, que era habitualmente complacente e até cómico, tinha-se tornado subitamente vincado com um cenho curioso. Não era a curiosidade em branco da sua primeira inocência. Era antes aquela curiosidade criativa que surge quando um homem tem o início de uma ideia. «Diga de novo, por favor», disse ele de uma forma simples e perturbada; «quer dizer que Todhunter se pode amarrar sozinho e desamarrar sozinho?»
«É isso que quero dizer», disse o doutor.
«Jerusalém!» exclamou Brown subitamente, «pergunto-me se poderia ser isso!»
Ele correu pelo quarto quase como um coelho e espreitou com um impulso totalmente novo para o rosto parcialmente coberto do cativo. Depois voltou o seu próprio rosto algo fátuo para a companhia. «Sim, é isso!» gritou com certa excitação. «Não conseguem vê-lo na cara do homem? Ora, olhem para os olhos dele!»
Tanto o Professor como a rapariga seguiram a direção do seu olhar. E embora o largo lenço preto mascarasse completamente a metade inferior do rosto de Todhunter, eles tornaram-se conscientes de algo de lutador e intenso na parte superior.
«Os olhos dele parecem estranhos», gritou a jovem, fortemente comovida. «Seus brutos; acredito que lhe está a doer!»
«Não creio que seja isso», disse o Dr. Hood; «os olhos têm certamente uma expressão singular. Mas eu interpretaria essas rugas transversais como expressando antes uma ligeira anormalidade psicológica...»
«Oh, balelas!» gritou o Padre Brown: «não vê que ele está a rir?»
«A rir!» repetiu o doutor, com um sobressalto; «mas por que raio é que ele se haveria de estar a rir?»
«Bem», respondeu o Reverendo Brown em tom de desculpa, «para não ser demasiado subtil, creio que ele se está a rir de si. E, na verdade, sinto-me um pouco inclinado a rir de mim mesmo, agora que sei o que se passa.»
«Agora que sabe o quê?» perguntou Hood, com alguma exasperação.
«Agora que sei», respondeu o padre, «a profissão do Sr. Todhunter.»
Ele arrastou-se pelo quarto, olhando para um objeto após outro com o que parecia ser um olhar vago, e depois irrompendo invariavelmente numa risada igualmente vaga, um processo altamente irritante para aqueles que tinham de o observar. Riu-se muito sobre o chapéu, ainda mais estrondosamente sobre o vidro partido, mas o sangue na ponta da espada enviou-o para convulsões mortais de diversão. Depois voltou-se para o especialista, que fumegava.
«Dr. Hood», gritou ele entusiasticamente, «o senhor é um grande poeta! Chamou um ser não criado do vazio. Quanto mais divino é isso do que se tivesse apenas farejado os meros factos! Na verdade, os meros factos são bastante vulgares e cómicos em comparação.»
«Não faço ideia do que está a falar», disse o Dr. Hood de forma algo arrogante; «os meus factos são todos inevitáveis, embora necessariamente incompletos. Pode conceder-se lugar à intuição, talvez (ou poesia, se preferir o termo), mas apenas porque os detalhes correspondentes não podem, por enquanto, ser averiguados. Na ausência do Sr. Glass...»
«É isso, é isso», disse o pequeno padre, acenando bastante ansioso, «essa é a primeira ideia a ficar fixa; a ausência do Sr. Glass. Ele é tão extremamente ausente. Suponho», acrescentou reflexivamente, «que nunca houve ninguém tão ausente como o Sr. Glass.»
«Quer dizer que ele está ausente da cidade?» exigiu o doutor.
«Quero dizer que ele está ausente de toda a parte», respondeu o Padre Brown; «ele está ausente da Natureza das Coisas, por assim dizer.»
«Quer dizer seriamente», disse o especialista com um sorriso, «que não existe tal pessoa?»
O padre fez um sinal de assentimento. «É uma pena», disse ele.
Orion Hood desatou numa risada desdenhosa. «Bem», disse ele, «antes de passarmos às cento e uma outras provas, tomemos a primeira prova que encontrámos; o primeiro facto em que tropeçámos quando entrámos nesta sala. Se não existe nenhum Sr. Glass, de quem é este chapéu?»
«É do Sr. Todhunter», respondeu o Padre Brown.
«Mas não lhe serve», gritou Hood impacientemente. «Ele não o poderia usar de maneira nenhuma!»
O Padre Brown abanou a cabeça com uma suavidade inefável. «Nunca disse que ele o poderia usar», respondeu. «Disse que era o chapéu dele. Ou, se insiste numa nuance, um chapéu que é dele.»
«E qual é a nuance?» perguntou o criminologista com um leve esgar.
«Meu caro senhor», gritou o pequeno homem amável, com o seu primeiro movimento próximo da impaciência, «se caminhar pela rua até à chapelaria mais próxima, verá que existe, na linguagem comum, uma diferença entre o chapéu de um homem e os chapéus que são dele.»
«Mas um chapeleiro», protestou Hood, «pode obter dinheiro do seu stock de chapéus novos. O que poderia Todhunter obter deste único chapéu velho?»
«Coelhos», respondeu o Padre Brown prontamente.
«O quê?» gritou o Dr. Hood.
«Coelhos, fitas, doces, peixinhos dourados, rolos de papel colorido», disse o reverendo cavalheiro com rapidez. «Não viu tudo quando descobriu as cordas falsas? É exatamente o mesmo com a espada. O Sr. Todhunter não tem um arranhão, como diz; mas tem um arranhão dentro dele, se me segue.»
«Quer dizer dentro das roupas do Sr. Todhunter?» inquiriu a Sra. MacNab severamente.
«Não me refiro ao interior das roupas do Sr. Todhunter», disse o Padre Brown. «Refiro-me ao interior do Sr. Todhunter.»
«Bem, o que, em nome de Bedlam, quer dizer?»
«O Sr. Todhunter», explicou o Padre Brown placidamente, «está a aprender a ser um prestidigitador profissional, bem como malabarista, ventríloquo e especialista no truque das cordas. O ilusionismo explica o chapéu. Está sem vestígios de cabelo, não porque seja usado pelo Sr. Glass, prematuramente calvo, mas porque nunca foi usado por ninguém. O malabarismo explica os três copos, que Todhunter estava a aprender a lançar e a apanhar em rotação. Mas, estando apenas na fase de prática, partiu um copo contra o teto. E o malabarismo também explica a espada, que era orgulho e dever profissional do Sr. Todhunter engolir. Mas, novamente, estando na fase de prática, ele roçou muito ligeiramente o interior da garganta com a arma. Daí ter um ferimento dentro dele, que tenho a certeza (pela expressão no seu rosto) não é grave. Ele também estava a praticar o truque da libertação das cordas, como os Irmãos Davenport, e estava prestes a libertar-se quando todos irrompemos na sala. As cartas, claro, são para truques de cartas, e estão espalhadas pelo chão porque ele tinha acabado de praticar um daqueles truques de as enviar a voar pelo ar. Ele apenas manteve o seu segredo comercial, porque tinha de manter os seus truques em segredo, como qualquer outro ilusionista. Mas o simples facto de um ocioso de cartola ter espreitado uma vez pela janela das traseiras, e ter sido enxotado por ele com grande indignação, foi suficiente para nos colocar a todos num caminho errado de romance, e fazer-nos imaginar toda a sua vida ensombrada pelo espectro de cartola do Sr. Glass.»
«Mas e as duas vozes?» perguntou Maggie, a olhar fixamente.
«Nunca ouviu um ventríloquo?» perguntou o Padre Brown. «Não sabe que eles falam primeiro com a sua voz natural, e depois respondem a si próprios exatamente com aquela voz estridente, aguda e antinatural que ouviu?»
Houve um longo silêncio, e o Dr. Hood contemplou o pequeno homem que tinha falado com um sorriso sombrio e atento. «O senhor é certamente uma pessoa muito engenhosa», disse ele; «não poderia ter sido feito melhor num livro. Mas há apenas uma parte do Sr. Glass que não conseguiu explicar, e é o seu nome. A Srta. MacNab ouviu distintamente que ele foi tratado assim pelo Sr. Todhunter.»
O Rev. Sr. Brown soltou uma risadinha algo infantil. «Bem, isso», disse ele, «essa é a parte mais parva de toda a história parva. Quando o nosso amigo malabarista aqui lançou os três copos por vez, contou-os em voz alta enquanto os apanhava, e também comentou em voz alta quando falhou em apanhá-los. O que ele disse na verdade foi: 'Um, dois e três... falhei um copo, um, dois... falhei um copo.' E assim por diante.»
Houve um segundo de silêncio na sala, e depois todos, de comum acordo, desataram a rir. Enquanto o faziam, a figura no canto desenrolou complacente todas as cordas e deixou-as cair com um floreio. Depois, avançando para o meio da sala com uma vénia, tirou do bolso um grande cartaz impresso a azul e vermelho, que anunciava que ZALADIN, o Maior Ilusionista, Contorcionista, Ventríloquo e Canguru Humano do Mundo estaria pronto com uma série inteiramente nova de Truques no Empire Pavilion, Scarborough, na próxima segunda-feira, às oito horas em ponto.
DOIS. -- O Paraíso dos Ladrões
O grande Muscari, o mais original dos jovens poetas toscanos, entrou rapidamente no seu restaurante favorito, que dava para o Mediterrâneo, era coberto por um toldo e cercado por pequenas árvores de limão e laranja. Empregados de aventais brancos já estavam a dispor nas mesas brancas as insígnias de um almoço elegante e precoce; e isto parecia aumentar uma satisfação que já tocava o auge da arrogância. Muscari tinha um nariz de águia como Dante; o seu cabelo e lenço de pescoço eram escuros e esvoaçantes; carregava uma capa preta, e quase poderia ter carregado uma máscara preta, tanto trazia consigo uma espécie de melodrama veneziano. Agia como se um trovador tivesse ainda um cargo social definido, como um bispo. Ia tão longe quanto o seu século permitia em caminhar pelo mundo literalmente como Don Juan, com rapieira e guitarra.
Pois nunca viajava sem uma mala de espadas, com as quais tinha travado muitos duelos brilhantes, ou sem uma mala correspondente para o seu bandolim, com o qual tinha, de facto, dado serenatas à Srta. Ethel Harrogate, a filha altamente convencional de um banqueiro de Yorkshire em férias. Contudo, ele não era nem um charlatão nem uma criança; mas um latino apaixonado e lógico que gostava de uma certa coisa e era essa mesma coisa. A sua poesia era tão direta como a prosa de qualquer outra pessoa. Desejava fama ou vinho ou a beleza das mulheres com uma franqueza tórrida inconcebível entre os ideais nublados ou compromissos nublados do norte; para raças mais vagas, a sua intensidade cheirava a perigo ou até a crime. Como o fogo ou o mar, era demasiado simples para ser de confiança.
O banqueiro e a sua bela filha inglesa estavam hospedados no hotel anexo ao restaurante de Muscari; era por isso que era o seu restaurante favorito. Um olhar relâmpago à volta da sala disse-lhe imediatamente, contudo, que o grupo inglês não tinha descido. O restaurante estava brilhante, mas ainda comparativamente vazio. Dois padres conversavam numa mesa num canto, mas Muscari (um fervoroso católico) não lhes deu mais atenção do que a um par de corvos. Mas, de um lugar ainda mais distante, parcialmente escondido atrás de uma árvore anã dourada com laranjas, levantou-se e avançou para o poeta uma pessoa cujo traje era o mais agressivamente oposto ao seu.
Esta figura estava vestida com tweeds de um xadrez malhado, com uma gravata rosa, um colarinho afiado e botas amarelas protuberantes. Conseguia, na verdadeira tradição de 'Arry em Margate, parecer ao mesmo tempo surpreendente e comum. Mas, à medida que a aparição londrina se aproximava, Muscari ficou estupefacto ao observar que a cabeça era distintamente diferente do corpo. Era uma cabeça italiana: felpuda, morena e muito vivaz, que surgia abruptamente do colarinho alto como cartão e da cómica gravata rosa. De facto, era uma cabeça que ele conhecia. Reconheceu-a, acima de toda a terrível construção do traje de férias inglês, como o rosto de um velho mas esquecido amigo chamado Ezza. Este jovem tinha sido um prodígio na faculdade, e a fama europeia foi-lhe prometida quando mal tinha quinze anos; mas quando apareceu no mundo falhou, primeiro publicamente como dramaturgo e demagogo, e depois privadamente durante anos a fio como ator, viajante, agente comercial ou jornalista. Muscari conhecera-o pela última vez atrás das luzes da ribalta; ele estava demasiado bem sintonizado com as excitações dessa profissão, e acreditava-se que alguma calamidade moral o tinha engolido.
«Ezza!» gritou o poeta, levantando-se e apertando a mão num espanto agradável. «Bem, vi-te em muitos trajes no camarim; mas nunca esperei ver-te vestido como um inglês.»
«Este», respondeu Ezza gravemente, «não é o traje de um inglês, mas do italiano do futuro.»
«Nesse caso», observou Muscari, «confesso que prefiro o italiano do passado.»
«Esse é o teu velho erro, Muscari», disse o homem de tweed, abanando a cabeça; «e o erro da Itália. No século dezasseis, nós, toscanos, fizemos a manhã: tínhamos o aço mais novo, a escultura mais nova, a química mais nova. Por que não deveríamos ter agora as fábricas mais novas, os motores mais novos, as finanças mais novas... as roupas mais novas?»
«Porque não valem a pena», respondeu Muscari. «Não podes tornar os italianos realmente progressistas; são demasiado inteligentes. Homens que veem o atalho para uma vida boa nunca seguirão as novas estradas elaboradas.»
«Bem, para mim Marconi, ou D’Annunzio, são a estrela da Itália», disse o outro. «É por isso que me tornei um Futurista... e um guia.»
«Um guia!» gritou Muscari, rindo. «É esse o último da tua lista de profissões? E quem estás a conduzir?»
«Oh, um homem chamado Harrogate, e a sua família, creio.»
«Não o banqueiro deste hotel?» inquiriu o poeta, com alguma avidez.
«É esse mesmo», respondeu o guia.
«Paga bem?» perguntou o trovador inocentemente.
«Pagar-me-á», disse Ezza, com um sorriso muito enigmático. «Mas sou um tipo de guia bastante curioso.» Depois, como se mudasse de assunto, disse bruscamente: «Ele tem uma filha... e um filho.»
«A filha é divina», afirmou Muscari, «o pai e o filho são, suponho, humanos. Mas, concedendo as suas qualidades inofensivas, não te parece aquele banqueiro um exemplo esplêndido do meu argumento? Harrogate tem milhões nos seus cofres, e eu tenho... o buraco no meu bolso. Mas não te atreves a dizer... não podes dizer... que ele é mais esperto do que eu, ou mais ousado do que eu, ou até mais enérgico. Ele não é esperto, tem olhos como botões azuis; não é enérgico, move-se de cadeira para cadeira como um paralítico. É um velho estúpido, consciencioso e bondoso; mas tem dinheiro simplesmente porque coleciona dinheiro, como um rapaz coleciona selos. Tu és demasiado forte mentalmente para os negócios, Ezza. Não vais ter sucesso. Para ser suficientemente esperto para obter todo aquele dinheiro, é preciso ser suficientemente estúpido para o querer.»
«Sou suficientemente estúpido para isso», disse Ezza sombriamente. «Mas sugeriria uma suspensão da tua crítica ao banqueiro, pois lá vem ele.»
O Sr. Harrogate, o grande financista, entrou de facto na sala, mas ninguém olhou para ele. Era um homem idoso e maciço, com um olho azul fervido e bigodes cinzentos-areia desbotados; não fosse a sua curvatura acentuada, poderia ter sido um coronel. Trazia várias cartas por abrir na mão. O seu filho Frank era um rapaz realmente distinto, de cabelos encaracolados, bronzeado e vigoroso; mas ninguém olhou para ele também. Todos os olhares, como de costume, estavam fixos, pelo menos por aquele momento, em Ethel Harrogate, cuja cabeça dourada de grega e cor de alvorada pareciam postas propositadamente acima daquele mar de safira, como as de uma deusa. O poeta Muscari respirou fundo como se estivesse a beber algo, como de facto estava. Estava a beber o Clássico; que os seus pais criaram. Ezza estudou-a com um olhar igualmente intenso e muito mais desconcertante.
A Srta. Harrogate estava especialmente radiante e pronta para a conversa naquela ocasião; e a sua família tinha caído no hábito continental mais fácil, permitindo que o estranho Muscari e até o correio Ezza partilhassem a sua mesa e a sua conversa. Em Ethel Harrogate, a convencionalidade coroava-se com uma perfeição e esplendor próprios. Orgulhosa da prosperidade do pai, afeiçoada aos prazeres mundanos, uma filha afetuosa mas uma coquete inveterada, ela era todas estas coisas com uma espécie de bondade dourada que tornava o seu próprio orgulho agradável e a sua respeitabilidade mundana algo fresco e cordial.
Estavam num turbilhão de entusiasmo sobre um alegado perigo no caminho da montanha que pretendiam tentar naquela semana. O perigo não vinha da rocha e da avalanche, mas de algo ainda mais romântico. Ethel tinha sido seriamente assegurada de que bandoleiros, os verdadeiros degoladores da lenda moderna, ainda assombravam aquela crista e detinham aquele passo dos Apeninos.
«Dizem», exclamou ela, com o deleite terrível de uma colegial, «que todo aquele país não é governado pelo Rei de Itália, mas pelo Rei dos Ladrões. Quem é o Rei dos Ladrões?»
«Um grande homem», respondeu Muscari, «digno de figurar a par do vosso próprio Robin Hood, signorina. Montano, o Rei dos Ladrões, foi ouvido falar pela primeira vez nas montanhas há uns dez anos, quando as pessoas diziam que os bandoleiros estavam extintos. Mas a sua autoridade selvagem espalhou-se com a rapidez de uma revolução silenciosa. Os homens encontravam os seus proclames ferozes pregados em todas as aldeias da montanha; as suas sentinelas, arma na mão, em todas as ravinas da serra. Seis vezes o Governo italiano tentou desalojá-lo, e foi derrotado em seis batalhas campais como se fosse por Napoleão.»
«Ora, esse tipo de coisa», observou o banqueiro com peso, «nunca seria permitido em Inglaterra; talvez, afinal, seja melhor escolhermos outra rota. Mas o correio achou perfeitamente seguro.»
«É perfeitamente seguro», disse o correio com desprezo. «Já passei por lá vinte vezes. Pode ter havido algum velho presidiário chamado Rei no tempo das nossas avós; mas ele pertence à história, se não à fábula. O banditismo está totalmente erradicado.»
«Nunca pode ser totalmente erradicado», respondeu Muscari; «porque a revolta armada é uma recreação natural aos sulistas. Os nossos camponeses são como as suas montanhas, ricos em graça e alegria verde, mas com os fogos por baixo. Há um ponto de desespero humano onde os pobres do norte recorrem à bebida — e os nossos próprios pobres recorrem aos punhais.»
«Um poeta é privilegiado», respondeu Ezza, com um esgar. «Se o Signor Muscari fosse inglês, ainda estaria à procura de salteadores de estrada em Wandsworth. Acredite em mim, não há mais perigo de ser capturado em Itália do que de ser escalpelado em Boston.»
«Então, propõe-se a tentá-lo?» perguntou o Sr. Harrogate, franzindo o sobrolho.
«Oh, parece algo terrível», exclamou a rapariga, voltando os seus olhos gloriosos para Muscari. «Acha realmente que o passo é perigoso?»
Muscari atirou para trás a sua juba negra. «Sei que é perigoso», disse ele. «Vou atravessá-lo amanhã.»
O jovem Harrogate foi deixado para trás por um momento, esvaziando um copo de vinho branco e acendendo um cigarro, enquanto a beldade se retirava com o banqueiro, o correio e o poeta, distribuindo gargalhadas de sátira prateada. Quase no mesmo instante, os dois padres no canto levantaram-se; o mais alto, um italiano de cabelos brancos, despedindo-se. O padre mais baixo virou-se e caminhou em direção ao filho do banqueiro, e este último ficou espantado ao perceber que, embora fosse um padre romano, o homem era um inglês. Lembrou-se vagamente de o ter conhecido nas reuniões sociais de alguns dos seus amigos católicos. Mas o homem falou antes que as suas memórias se pudessem recompor.
«Sr. Frank Harrogate, creio eu», disse ele. «Tive uma apresentação, mas não pretendo abusar dela. A coisa estranha que tenho a dizer virá muito melhor de um estranho. Sr. Harrogate, digo uma palavra e vou-me: cuide da sua irmã na sua grande dor.»
Mesmo para a indiferença verdadeiramente fraternal de Frank, o brilho e o escárnio da sua irmã ainda pareciam faiscar e soar; ele ainda conseguia ouvir o riso dela vindo do jardim do hotel, e olhou para o seu conselheiro sombrio perplexo.
«Refere-se aos bandoleiros?» perguntou ele; e depois, lembrando-se de um medo vago seu, «ou pode estar a pensar no Muscari?»
«Nunca se pensa na verdadeira dor», disse o estranho padre. «Só se pode ser gentil quando ela chega.»
E ele saiu prontamente da sala, deixando o outro quase com a boca aberta.
Um ou dois dias depois, uma carruagem contendo a comitiva rastejava e cambaleava pelos contrafortes da imponente cadeia montanhosa. Entre a negação alegre de Ezza sobre o perigo e o desafio ruidoso de Muscari, a família financeira manteve-se firme no seu propósito original; e Muscari fez com que a sua viagem pela montanha coincidisse com a deles. Um aspeto mais surpreendente foi o aparecimento na estação da cidade costeira do pequeno padre do restaurante; ele alegou apenas que negócios o levavam também a atravessar as montanhas do centro. Mas o jovem Harrogate não pôde deixar de associar a sua presença aos medos e avisos místicos de ontem.
A carruagem era uma espécie de vagoneta cómoda, inventada pelo talento modernista do correio, que dominava a expedição com a sua atividade científica e espírito vivaz. A teoria do perigo dos ladrões foi banida do pensamento e da fala; embora admitida até certo ponto num ato formal, na medida em que alguma proteção ligeira foi empregue. O correio e o jovem banqueiro carregavam revólveres carregados, e Muscari (com muita gratificação juvenil) cingiu uma espécie de catana sob o seu manto negro.
Tinha plantado a sua pessoa num salto rápido ao lado da adorável inglesa; do outro lado dela sentava-se o padre, cujo nome era Brown e que era felizmente um indivíduo silencioso; o correio e o pai e o filho estavam no banco atrás. Muscari estava num espírito elevado, acreditando seriamente no perigo, e a sua conversa com Ethel poderia muito bem tê-la levado a pensar que ele era um maníaco. Mas havia algo na ascensão louca e magnífica, entre penhascos como picos carregados de florestas como pomares, que arrastava o espírito dela para cima, sozinho com o dele, para céus púrpuras absurdos com sóis giratórios. A estrada branca subia como um gato branco; atravessava abismos sem sol como uma corda bamba; era lançada em redor de promontórios distantes como um laço.
E, no entanto, por mais alto que fossem, o deserto ainda florescia como a rosa. Os campos eram polidos ao sol e ao vento com a cor do guarda-rios, do papagaio e do beija-flor, os matizes de cem flores que floresciam. Não há prados e bosques mais adoráveis do que os ingleses, nem cristas ou abismos mais nobres do que os de Snowdon e Glencoe. Mas Ethel Harrogate nunca tinha visto os parques do sul inclinados sobre os picos fendidos do norte; o desfiladeiro de Glencoe carregado com os frutos de Kent. Não havia ali nada daquele frio e desolação que na Grã-Bretanha se associa a paisagens altas e selvagens. Era mais como um palácio de mosaicos, fendido por terramotos; ou como um jardim de tulipas holandês explodido para as estrelas com dinamite.
«É como os Jardins de Kew em Beachy Head», disse Ethel.
«É o nosso segredo», respondeu ele, «o segredo do vulcão; que é também o segredo da revolução — que uma coisa pode ser violenta e, ainda assim, frutífera.»
«Você é bastante violento», e ela sorriu para ele.
«E, no entanto, bastante infrutífero», admitiu ele; «se eu morrer esta noite, morro solteiro e tolo.»
«Não é culpa minha que tenha vindo», disse ela após um silêncio difícil.
«Nunca é culpa sua», respondeu Muscari; «não foi culpa sua que Troia caísse.»
Enquanto falavam, entraram sob penhascos avassaladores que se espalhavam quase como asas sobre um canto de perigo peculiar. Abalados pela sombra grande na saliência estreita, os cavalos moveram-se com dúvida. O cocheiro saltou para a terra para lhes segurar as rédeas, e eles tornaram-se ingovernáveis. Um cavalo empinou-se até à sua altura total — a altura titânica e aterrorizante de um cavalo quando se torna bípede. Foi o suficiente para alterar o equilíbrio; a carruagem inteira inclinou-se como um navio e despenhou-se através da orla de arbustos sobre o precipício. Muscari lançou um braço em redor de Ethel, que se agarrou a ele, e gritou em voz alta. Era por momentos assim que ele vivia.
No momento em que as magníficas paredes da montanha giraram sobre a cabeça do poeta como um moinho de vento púrpura, aconteceu uma coisa que foi superficialmente ainda mais surpreendente. O banqueiro idoso e letárgico ergueu-se na carruagem e saltou sobre o precipício antes que o veículo inclinado o pudesse levar lá. No primeiro relance, pareceu tão louco quanto um suicídio; mas, no segundo, foi tão sensato quanto um investimento seguro. O homem de Yorkshire tinha evidentemente mais prontidão, bem como mais sagacidade, do que Muscari lhe tinha creditado; pois aterrou numa reentrância de terra que poderia ter sido especialmente acolchoada com relva e trevo para o receber. De facto, toda a comitiva teve a mesma sorte, embora menos digna na sua forma de ejeção. Imediatamente sob esta curva abrupta da estrada havia um vale relvado e florido como um prado afundado; uma espécie de bolso de veludo verde nas longas vestes verdes e arrastadas das colinas. Para ali foram todos inclinados ou tombados com pouco dano, exceto que a sua bagagem mais pequena e até o conteúdo dos seus bolsos ficaram espalhados pela relva ao seu redor. A carruagem destruída ainda pendia lá em cima, emaranhada na sebe resistente, e os cavalos mergulhavam penosamente encosta abaixo. O primeiro a sentar-se foi o pequeno padre, que coçou a cabeça com uma cara de espanto tolo. Frank Harrogate ouviu-o dizer para si mesmo: «Ora, porque carga de água teremos caído exatamente aqui?»
Ele pestanejou perante a confusão à sua volta e recuperou o seu próprio guarda-chuva muito desajeitado. Além dele jazia o largo chapéu de aba larga caído da cabeça de Muscari, e ao lado um envelope de negócios selado que, após um relance sobre o endereço, devolveu ao Harrogate mais velho. Do outro lado dele, a relva escondia parcialmente a sombrinha da Srta. Ethel, e logo além dela jazia um curioso frasquinho de vidro com quase duas polegadas de comprimento. O padre apanhou-o; de uma maneira rápida e discreta, destapou-o e cheirou-o, e o seu rosto pesado tornou-se da cor de barro.
«O Céu nos acuda!» murmurou ele; «não pode ser dela! Já terá a sua dor chegado?» Enfiou-o no seu próprio bolso do colete. «Creio que me justifico», disse ele, «até saber um pouco mais.»
Ele olhou penosamente para a rapariga, que naquele momento estava a ser erguida das flores por Muscari, que dizia: «Caímos no céu; é um sinal. Os mortais sobem e caem; mas só os deuses e as deusas podem cair para cima.»
E, de facto, ela ergueu-se do mar de cores tão bela e feliz visão que o padre sentiu a sua suspeita abalada e deslocada. «Afinal», pensou ele, «talvez o veneno não seja dela; talvez seja um dos truques melodramáticos de Muscari.»
Muscari colocou a dama levemente de pé, fez-lhe uma vénia absurdamente teatral e, desembainhando a sua catana, golpeou com força as rédeas tensas dos cavalos, de modo que eles lutaram para se porem de pé e ficaram na relva a tremer. Quando ele o fez, ocorreu uma coisa notável. Um homem muito silencioso, muito mal vestido e extremamente bronzeado, saiu dos arbustos e agarrou a cabeça dos cavalos. Tinha uma faca de forma estranha, muito larga e torta, presa ao cinto; não havia mais nada de notável nele, exceto o seu aparecimento súbito e silencioso. O poeta perguntou-lhe quem era, e ele não respondeu.
Olhando ao seu redor para o grupo confuso e sobressaltado no vale, Muscari percebeu então que outro homem bronzeado e esfarrapado, com uma arma curta debaixo do braço, os observava da saliência logo abaixo, apoiando os cotovelos na orla da relva. Depois olhou para a estrada de onde tinham caído e viu, olhando para eles, os canos de quatro outras carabinas e quatro outros rostos castanhos com olhos brilhantes mas completamente imóveis.
«Os bandoleiros!» gritou Muscari, com uma espécie de alegria monstruosa. «Isto era uma armadilha. Ezza, se me quiser fazer o favor de disparar primeiro sobre o cocheiro, ainda podemos abrir caminho. São apenas seis.»
«O cocheiro», disse Ezza, que estava de pé, severamente, com as mãos nos bolsos, «é um empregado do Sr. Harrogate.»
«Então dispare ainda mais sobre ele», gritou o poeta impacientemente; «ele foi subornado para virar o seu patrão. Depois coloque a dama no meio, e nós romperemos a linha lá em cima — com um ímpeto.»
E, caminhando na relva selvagem e nas flores, avançou destemidamente sobre as quatro carabinas; mas, descobrindo que ninguém o seguia, exceto o jovem Harrogate, virou-se, brandindo a sua catana para acenar aos outros. Viu o correio ainda de pé, ligeiramente de pernas abertas no centro do anel relvado, com as mãos nos bolsos; e o seu rosto italiano magro e irónico parecia tornar-se cada vez mais longo à luz da tarde.
«Tu pensaste, Muscari, que eu era o fracasso entre os nossos colegas de escola», disse ele, «e pensaste que tu eras o sucesso. Mas eu tive mais sucesso do que tu e ocupo um lugar maior na história. Eu tenho atuado epopeias enquanto tu as tens escrito.»
«Vem, eu digo-te!» trovejou Muscari lá de cima. «Vais ficar aí a dizer disparates sobre ti próprio com uma mulher para salvar e três homens fortes para te ajudar? Como te chamas?»
«Chamo-me Montano», gritou o estranho correio com uma voz igualmente alta e cheia. «Sou o Rei dos Ladrões, e dou-vos as boas-vindas a todos ao meu palácio de verão.»
E, mesmo enquanto falava, cinco outros homens silenciosos com armas prontas saíram dos arbustos e olharam para ele à espera das suas ordens. Um deles segurava um grande papel na mão.
«Este ninho bonito onde estamos todos a fazer um piquenique», continuou o correio-bandoleiro, com o mesmo sorriso fácil mas sinistro, «é, juntamente com algumas cavernas por baixo, conhecido pelo nome de Paraíso dos Ladrões. É a minha principal fortaleza nestas colinas; pois (como sem dúvida repararam) o covil é invisível tanto da estrada acima como do vale abaixo. É algo melhor do que inexpugnável; é impercetível. Aqui vivo maioritariamente, e aqui certamente morrerei, se os gendarmes alguma vez me rastrearem. Não sou o tipo de criminoso que ‘reserva a sua defesa’, mas o tipo melhor que reserva a sua última bala.»
Todos olhavam para ele estupefactos e imóveis, exceto o Padre Brown, que soltou um enorme suspiro de alívio e mexeu no pequeno frasco no seu bolso. «Graças a Deus!» murmurou ele; «isso é muito mais provável. O veneno pertence a este chefe de ladrões, claro. Ele carrega-o para nunca ser capturado, como Catão.»
O Rei dos Ladrões, no entanto, continuava o seu discurso com o mesmo tipo de educação perigosa. «Resta-me apenas», disse ele, «explicar aos meus convidados as condições sociais sob as quais tenho o prazer de os entreter. Não preciso de expor o estranho ritual antigo do resgate, que me é incumbente manter; e mesmo isto só se aplica a uma parte da comitiva. O Reverendo Padre Brown e o célebre Signor Muscari, libertá-los-ei amanhã ao amanhecer e escoltá-los-ei até aos meus postos avançados. Poetas e padres, se me perdoam a simplicidade de linguagem, nunca têm dinheiro. E assim (visto que é impossível tirar qualquer coisa deles), aproveitemos a oportunidade para mostrar a nossa admiração pela literatura clássica e a nossa reverência pela Santa Igreja.»
Ele pausou com um sorriso desagradável; e o Padre Brown pestanejou repetidamente para ele, e parecia subitamente estar a ouvir com grande atenção. O capitão bandoleiro tirou o grande papel do bandoleiro assistente e, lançando-lhe um olhar, continuou: «As minhas outras intenções estão claramente expostas neste documento público, que entregarei daqui a pouco; e que, depois disso, será afixado numa árvore em cada aldeia do vale, e em cada cruzamento nas colinas. Não vos vou cansar com o verbalismo, já que poderão conferi-lo; a substância do meu proclame é esta: anuncio primeiro que capturei o milionário inglês, o colosso das finanças, Sr. Samuel Harrogate. Anuncio a seguir que encontrei na sua pessoa notas e títulos no valor de duas mil libras, que ele me entregou. Ora, uma vez que seria realmente imoral anunciar tal coisa a um público crédulo se não tivesse ocorrido, sugiro que ocorra sem mais demora. Sugiro que o Sr. Harrogate sénior me dê agora as duas mil libras que tem no bolso.»
O banqueiro olhou para ele sob sobrancelhas cerradas, de rosto vermelho e carrancudo, mas aparentemente intimidado. Aquele salto da carruagem em falha parecia ter esgotado a sua última virilidade. Ele tinha recuado com um estilo abatido quando o seu filho e Muscari fizeram um movimento ousado para romper a armadilha dos bandoleiros. E agora a sua mão vermelha e trémula foi relutantemente ao bolso do peito e passou um maço de papéis e envelopes ao bandoleiro.
«Excelente!» gritou aquele fora da lei alegremente; «até agora estamos todos confortáveis. Retomo os pontos do meu proclame, tão cedo publicado a toda a Itália. O terceiro item é o do resgate. Peço aos amigos da família Harrogate um resgate de três mil libras, o que tenho a certeza ser quase um insulto a essa família na sua estimativa moderada da sua importância. Quem não pagaria o triplo desta soma por mais um dia de associação com tal círculo doméstico? Não vos esconderei que o documento termina com certas frases legais sobre as coisas desagradáveis que podem acontecer se o dinheiro não for pago; mas, entretanto, senhoras e senhores, deixem-me assegurar-vos que estou confortavelmente instalado aqui em alojamento, vinho e charutos, e dou-vos por agora as boas-vindas ao estilo desportivo aos luxos do Paraíso dos Ladrões.»
Durante todo o tempo em que ele falava, os homens de aspeto duvidoso com carabinas e chapéus de aba caída sujos tinham-se reunido silenciosamente em números tão preponderantes que até Muscari foi obrigado a reconhecer que a sua investida com a espada era inútil. Olhou ao seu redor; mas a rapariga já tinha ido acalmar e confortar o pai, pois o seu afeto natural pela pessoa dele era tão forte ou mais forte do que o seu orgulho algo esnobe no sucesso dele. Muscari, com a ilogicidade de um amante, admirava esta devoção filial, e ainda assim sentia-se irritado por ela. Ele bateu com a sua espada de volta na bainha e foi atirar-se, algo amuado, a uma das margens relvadas. O padre sentou-se a uma ou duas jardas, e Muscari virou o seu nariz aquilino para ele numa irritação instantânea.
«Bem», disse o poeta azedamente, «as pessoas ainda acham que sou demasiado romântico? Será que, pergunto-me, ainda restam bandoleiros nas montanhas?»
«Poderá haver», disse o Padre Brown agnosticamente.
«O que quer dizer?» perguntou o outro bruscamente.
«Quero dizer que estou perplexo», respondeu o padre. «Estou perplexo quanto a Ezza ou Montano, ou qualquer que seja o seu nome. Ele parece-me muito mais inexplicável como bandoleiro do que como correio.»
«Mas de que forma?» insistiu o seu companheiro. «Santa Maria! Eu teria pensado que o bandoleiro era suficientemente claro.»
«Encontro três dificuldades curiosas», disse o padre com voz calma. «Gostaria de ter a sua opinião sobre elas. Antes de mais, devo dizer-lhe que estava a almoçar naquele restaurante à beira-mar. Quando quatro de vós saíram da sala, o senhor e a menina Harrogate iam à frente, a falar e a rir; o banqueiro e o correio vinham atrás, falando pouco e em voz baixa. Mas não pude deixar de ouvir Ezza dizer estas palavras: "Bem, deixa-a divertir-se um pouco; sabes que o golpe a pode destruir a qualquer momento." O senhor Harrogate não respondeu nada; por isso, as palavras deviam ter algum significado. No impulso do momento, avisei o irmão dela de que ela poderia estar em perigo; não disse nada sobre a natureza do mesmo, pois não a conhecia. Mas se isso significava esta captura nas colinas, a coisa não faz sentido. Porque haveria o correio-bandoleiro de avisar o seu patrono, mesmo que fosse por uma dica, quando o seu único objetivo era atraí-lo para a ratoeira das montanhas? Não podia significar isso. Mas se não, que desastre é este, conhecido tanto pelo correio como pelo banqueiro, que paira sobre a cabeça da menina Harrogate?»
«Desastre para a menina Harrogate!» exclamou o poeta, sentando-se com alguma ferocidade. «Explique-se; continue.»
«Todos os meus enigmas, contudo, giram em torno do nosso chefe dos bandidos», retomou o padre, pensativo. «E aqui está o segundo deles. Porque é que ele colocou de forma tão proeminente na sua exigência de resgate o facto de ter tirado duas mil libras à sua vítima no local? Não tinha a mínima tendência para suscitar o resgate. Muito pelo contrário, de facto. Os amigos de Harrogate teriam muito mais probabilidades de temer pelo seu destino se pensassem que os ladrões eram pobres e desesperados. No entanto, a espoliação no local foi enfatizada e até colocada em primeiro lugar na exigência. Porque haveria Ezza Montano de querer tão especialmente dizer a toda a Europa que tinha roubado a carteira antes de cobrar o chantagem?»
«Não consigo imaginar», disse Muscari, penteando o seu cabelo preto por uma vez com um gesto natural. «Pode pensar que me esclarece, mas está a levar-me para mais fundo na escuridão. Qual poderá ser a terceira objeção ao Rei dos Ladrões?» «A terceira objeção», disse o Padre Brown, ainda em meditação, «é este banco em que estamos sentados. Porque é que o nosso correio-bandoleiro chama a isto a sua fortaleza principal e o Paraíso dos Ladrões? É certamente um lugar macio onde cair e um lugar doce de se contemplar. É também verdade, como ele diz, que é invisível do vale e do pico, e é, portanto, um esconderijo. Mas não é uma fortaleza. Nunca poderia ser uma fortaleza. Penso que seria a pior fortaleza do mundo. Pois é, na verdade, dominada a partir de cima pela estrada principal comum através das montanhas — o próprio lugar por onde a polícia mais provavelmente passaria. Ora, cinco espingardas velhas e curtas mantiveram-nos indefesos aqui há cerca de meia hora. O quarto de uma companhia de qualquer tipo de soldados ter-nos-ia atirado pelo precipício abaixo. Seja qual for o significado deste estranho recanto de erva e flores, não é uma posição entrincheirada. É outra coisa; tem qualquer outro tipo estranho de importância; algum valor que não compreendo. É mais como um teatro acidental ou um camarim natural; é como o cenário para alguma comédia romântica; é como...»
À medida que as palavras do pequeno padre se alongavam e se perdiam numa sinceridade aborrecida e sonhadora, Muscari, cujos sentidos animais estavam alertas e impacientes, ouviu um novo ruído nas montanhas. Mesmo para ele, o som era ainda muito pequeno e ténue; mas poderia ter jurado que a brisa da tarde trazia consigo algo como a pulsação de cascos de cavalos e um alarido distante.
No mesmo momento, e muito antes de a vibração ter tocado os ouvidos ingleses menos experientes, Montano, o bandoleiro, correu para o banco acima deles e parou na sebe partida, equilibrando-se contra uma árvore e espreitando para a estrada. Ele era uma figura estranha enquanto ali estava, pois tinha assumido um chapéu fantástico de abas, um talabarte a oscilar e um sabre na sua qualidade de rei dos bandidos, mas o tweed brilhante e prosaico do correio mostrava-se em remendos por todo o lado.
No momento seguinte, ele virou a sua face azeitonada e sarcástica e fez um movimento com a mão. Os bandoleiros dispersaram-se ao sinal, não em confusão, mas no que era evidentemente uma espécie de disciplina de guerrilha. Em vez de ocuparem a estrada ao longo da crista, espalharam-se ao longo do lado dela atrás das árvores e da sebe, como se vigiassem um inimigo sem serem vistos. O ruído mais além tornou-se mais forte, começando a fazer tremer a estrada da montanha, e uma voz podia ser claramente ouvida a dar ordens. Os bandoleiros oscilaram e amontoaram-se, praguejando e sussurrando, e o ar da tarde estava cheio de pequenos ruídos metálicos enquanto engatilhavam as suas pistolas, ou soltavam as suas facas, ou arrastavam as suas bainhas sobre as pedras. Então, os ruídos de ambos os lados pareceram encontrar-se na estrada acima; ramos partiram-se, cavalos relincharam, homens gritaram.
«Um resgate!» gritou Muscari, saltando para os pés e acenando com o seu chapéu; «os gendarmes estão sobre eles! Agora pela liberdade e um golpe por ela! Agora para sermos rebeldes contra os ladrões! Vamos, não deixemos tudo para a polícia; isso é tão terrivelmente moderno. Ataquem a retaguarda destes rufiões. Os gendarmes estão a salvar-nos; vamos, amigos, salvemos nós os gendarmes!»
E atirando o seu chapéu por cima das árvores, sacou o seu sabre mais uma vez e começou a escalar a encosta até à estrada. Frank Harrogate saltou e correu para o ajudar, revólver na mão, mas ficou estupefacto ao ouvir-se imperativamente chamado pela voz rouca do seu pai, que parecia estar em grande agitação.
«Não permito», disse o banqueiro com uma voz sufocada; «ordeno-te que não interfiras.»
«Mas, pai», disse Frank muito calorosamente, «um cavalheiro italiano liderou o caminho. Não quererias que se dissesse que os ingleses ficaram para trás.»
«É inútil», disse o homem mais velho, que tremia violentamente, «é inútil. Temos de nos submeter ao nosso destino.»
O Padre Brown olhou para o banqueiro; depois levou a mão instintivamente como se fosse ao coração, mas na verdade à pequena garrafa de veneno; e uma grande luz surgiu no seu rosto como a luz da revelação da morte.
Muscari, entretanto, sem esperar por apoio, tinha atingido o topo do banco até à estrada e atingiu o rei dos bandidos pesadamente no ombro, fazendo-o cambalear e virar-se. Montano também tinha o seu sabre desembainhado, e Muscari, sem mais palavras, enviou um golpe à sua cabeça que ele foi obrigado a aparar. Mas mesmo enquanto as duas lâminas curtas se cruzavam e chocavam, o Rei dos Ladrões baixou deliberadamente a ponta e riu-se.
«Para que serve isso, velho?» disse ele numa gíria italiana viva; «esta farsa maldita terminará em breve.»
«O que queres dizer, trapaceiro?» ofegou o poeta sedento de sangue. «É a tua coragem uma farsa tanto quanto a tua honestidade?»
«Tudo em mim é uma farsa», respondeu o ex-correio com total bom humor. «Sou um ator; e se alguma vez tive um caráter privado, esqueci-o. Não sou mais um bandido genuíno do que um correio genuíno. Sou apenas um conjunto de máscaras, e não se pode travar um duelo com isso.» E riu-se com prazer juvenil e caiu na sua antiga atitude de pernas abertas, de costas para a escaramuça na estrada.
A escuridão aprofundava-se sob as paredes da montanha, e não era fácil discernir muito do progresso da luta, exceto que homens altos empurravam os focinhos dos seus cavalos através de uma multidão agarrada de bandoleiros, que pareciam mais inclinados a assediar e empurrar os invasores do que a matá-los. Era mais como uma multidão citadina a impedir a passagem da polícia do que qualquer coisa que o poeta tivesse imaginado como a última resistência de homens de sangue condenados e fora da lei. Justo quando ele revirava os olhos em perplexidade, sentiu um toque no cotovelo e encontrou o estranho pequeno padre parado ali como um pequeno Noé com um grande chapéu, e solicitando o favor de uma ou duas palavras.
«Signor Muscari», disse o clérigo, «nesta estranha crise, as personalidades podem ser perdoadas. Posso dizer-lhe, sem ofensa, de uma forma pela qual fará mais bem do que ajudando os gendarmes, que estão obrigados a romper de qualquer maneira. Permitir-me-á a intimidade impertinente, mas preocupa-se com aquela rapariga? Preocupa-se o suficiente para casar com ela e ser-lhe um bom marido, quero dizer?»
«Sim», disse o poeta de forma bastante simples.
«Ela preocupa-se consigo?»
«Penso que sim», foi a resposta igualmente grave.
«Então vá lá e ofereça-se», disse o padre: «ofereça-lhe tudo o que puder; ofereça-lhe o céu e a terra, se os tiver. O tempo é curto.»
«Porquê?» perguntou o estupefacto homem de letras.
«Porque», disse o Padre Brown, «o seu Destino está a subir a estrada.»
«Não vem nada pela estrada», argumentou Muscari, «exceto o resgate.»
«Bem, vá lá», disse o seu conselheiro, «e esteja pronto para a salvar do resgate.»
Quase enquanto ele falava, as sebes foram partidas ao longo de toda a crista por uma corrida dos bandoleiros em fuga. Mergulharam nos arbustos e na erva espessa como homens derrotados perseguidos; e os grandes chapéus bicórnios da gendarmaria montada foram vistos a passar acima da sebe partida. Outra ordem foi dada; houve um ruído de desmontar, e um oficial alto com chapéu bicórnio, um imperial cinzento e um papel na mão apareceu na brecha que era a porta do Paraíso dos Ladrões. Houve um silêncio momentâneo, quebrado de uma forma extraordinária pelo banqueiro, que gritou com uma voz rouca e estrangulada: «Roubado! Fui roubado!»
«Ora, isso foi há horas», gritou o seu filho com espanto: «quando lhe roubaram as duas mil libras.»
«Não duas mil libras», disse o financeiro, com uma compostura abrupta e terrível, «apenas uma pequena garrafa.»
O polícia com o imperial cinzento caminhava através do vale verde. Encontrando o Rei dos Ladrões no seu caminho, deu-lhe uma palmada no ombro com algo entre uma carícia e um murro e deu-lhe um empurrão que o fez cambalear para longe. «Tu também te vais meter em sarilhos», disse ele, «se fizeres estas partidas.»
Novamente para o olho artístico de Muscari, parecia dificilmente a captura de um grande fora da lei encurralado. Continuando, o polícia parou perante o grupo Harrogate e disse: «Samuel Harrogate, prendo-o em nome da lei pelo desvio dos fundos do Hull and Huddersfield Bank.»
O grande banqueiro assentiu com um ar estranho de concordância comercial, pareceu refletir por um momento e, antes que pudessem intervir, deu meia volta e um passo que o levou à borda da parede exterior da montanha. Depois, atirando as mãos ao ar, saltou exatamente como saltou da carruagem. Mas desta vez não caiu num pequeno prado logo abaixo; caiu a mil pés de profundidade, para se tornar um destroço de ossos no vale.
A raiva do polícia italiano, que ele expressou de forma volúvel ao Padre Brown, estava largamente misturada com admiração. «Era próprio dele escapar-nos finalmente», disse ele. «Ele era um grande bandoleiro, se quiser. Este seu último truque acredito ser absolutamente sem precedentes. Fugiu com o dinheiro da empresa para Itália e conseguiu, na verdade, ser capturado por bandidos de brincadeira a soldo seu, de modo a explicar tanto o desaparecimento do dinheiro como o seu próprio desaparecimento. Aquela exigência de resgate foi levada seriamente pela maioria da polícia. Mas durante anos ele tem feito coisas tão boas quanto essa, tão boas quanto essa. Ele será uma perda séria para a sua família.»
Muscari afastava a infeliz filha, que se agarrava a ele, como o fez durante muitos anos depois. Mas mesmo naquele trágico destroço, ele não pôde deixar de ter um sorriso e uma mão de amizade meio trocista para o indefensável Ezza Montano. «E para onde vai a seguir?» perguntou-lhe ele por cima do ombro.
«Birmingham», respondeu o ator, soprando um cigarro. «Não lhe disse que era um Futurista? Acredito realmente nessas coisas se acreditar em algo. Mudança, agitação e coisas novas todas as manhãs. Vou para Manchester, Liverpool, Leeds, Hull, Huddersfield, Glasgow, Chicago — em suma, para a sociedade esclarecida, enérgica e civilizada!»
«Em suma», disse Muscari, «para o verdadeiro Paraíso dos Ladrões.»
TRÊS — O Duelo do Dr. Hirsch
O M. Maurice Brun e o M. Armand Armagnac atravessavam os Champs Elysées banhados pelo sol com uma espécie de respeitabilidade vivaz. Eram ambos baixos, enérgicos e ousados. Tinham ambos barbas pretas que não pareciam pertencer aos seus rostos, à estranha moda francesa que faz o cabelo real parecer artificial. O M. Brun tinha uma cunha escura de barba aparentemente fixada sob o lábio inferior. O M. Armagnac, a título de mudança, tinha duas barbas; uma saindo de cada canto do seu queixo enfático. Eram ambos jovens. Eram ambos ateus, com uma fixidez de visão deprimente, mas grande mobilidade de exposição. Eram ambos alunos do grande Dr. Hirsch, cientista, publicitário e moralista.
O M. Brun tornou-se proeminente pela sua proposta de que a expressão comum «Adieu» fosse obliterada de todos os clássicos franceses, e uma pequena multa imposta pelo seu uso na vida privada. «Então», disse ele, «o próprio nome do seu Deus imaginado terá ecoado pela última vez no ouvido do homem.» O M. Armagnac especializou-se mais na resistência ao militarismo e desejava que o refrão da Marselhesa fosse alterado de «Aux armes, citoyens» para «Aux grèves, citoyens». Mas o seu antimilitarismo era de um tipo peculiar e gálico. Um eminente e muito rico Quaker inglês, que tinha vindo vê-lo para arranjar o desarmamento de todo o planeta, ficou algo perturbado com a proposta de Armagnac de que (a título de início) os soldados disparassem sobre os seus oficiais.
E, de facto, foi a este respeito que os dois homens diferiram mais do seu líder e pai na filosofia. O Dr. Hirsch, embora nascido em França e coberto com os mais triunfantes favores da educação francesa, era temperamentalmente de outro tipo — suave, sonhador, humano; e, apesar do seu sistema cético, não desprovido de transcendentalismo. Era, em suma, mais parecido com um alemão do que com um francês; e, por muito que o admirassem, algo na subconsciência destes gauleses irritava-se com o facto de ele defender a paz de uma forma tão pacífica. Para o seu partido em toda a Europa, contudo, Paul Hirsch era um santo da ciência. As suas grandes e ousadas teorias cósmicas anunciavam a sua vida austera e a sua moralidade inocente, se bem que algo fria; ele detinha algo da posição de Darwin duplicada com a posição de Tolstói. Mas ele não era nem anarquista nem antipatriota; as suas opiniões sobre o desarmamento eram moderadas e evolucionárias — o Governo Republicano depositava considerável confiança nele quanto a várias melhorias químicas. Ele tinha até descoberto recentemente um explosivo silencioso, cujo segredo o Governo guardava cuidadosamente.
A sua casa ficava numa rua elegante perto dos Eliseus — uma rua que naquele verão forte parecia quase tão cheia de folhagem como o próprio parque; uma fila de castanheiros quebrava o sol, interrompida apenas num lugar onde um grande café se estendia para a rua. Quase em frente a este estavam as persianas brancas e verdes da casa do grande cientista, uma varanda de ferro, também pintada de verde, estendendo-se ao longo da frente das janelas do primeiro andar. Sob esta estava a entrada para uma espécie de pátio, alegre com arbustos e azulejos, para onde os dois franceses passaram em conversa animada.
A porta foi-lhes aberta pelo velho criado do doutor, Simon, que poderia muito bem ter passado por um doutor ele próprio, possuindo um fato preto rigoroso, óculos, cabelo grisalho e uma maneira confidencial. Na verdade, ele era um homem de ciência muito mais apresentável do que o seu mestre, o Dr. Hirsch, que era um sujeito como um rabanete bifurcado, com apenas bolbo de cabeça suficiente para tornar o seu corpo insignificante. Com toda a gravidade de um grande médico a tratar de uma receita, Simon entregou uma carta ao M. Armagnac. Esse cavalheiro rasgou-a com uma impaciência racial e leu rapidamente o seguinte:
Não posso descer para falar convosco. Há um homem nesta casa que me recuso a encontrar. É um oficial chauvinista, Dubosc. Ele está sentado nas escadas. Tem pontapeado a mobília em todas as outras divisões; tranquei-me no meu escritório, em frente àquele café. Se me amam, vão para o café e esperem numa das mesas lá fora. Tentarei enviá-lo para vós. Quero que lhe respondam e que tratem dele. Não posso encontrá-lo eu próprio. Não posso: não o farei.
Vai haver outro caso Dreyfus.
P. HIRSCH
O M. Armagnac olhou para o M. Brun. O M. Brun pediu a carta emprestada, leu-a e olhou para o M. Armagnac. Depois, ambos se dirigiram vivamente a uma das pequenas mesas sob os castanheiros em frente, onde obtiveram dois copos altos de horrível absinto verde, que podiam beber aparentemente com qualquer tempo e a qualquer hora. Caso contrário, o café parecia vazio, exceto por um soldado a beber café numa mesa e, noutra, um homem grande a beber um xarope pequeno e um padre a não beber nada.
Maurice Brun limpou a garganta e disse: «Claro que devemos ajudar o mestre de todas as formas, mas...»
Houve um silêncio abrupto, e Armagnac disse: «Ele pode ter razões excelentes para não encontrar o homem ele próprio, mas...»
Antes que qualquer um pudesse completar uma frase, era evidente que o invasor tinha sido expulso da casa em frente. Os arbustos sob o arco oscilaram e romperam-se, à medida que aquele hóspede indesejado foi disparado de dentro deles como uma bala de canhão.
Ele era uma figura robusta num pequeno e inclinado chapéu de feltro tirolês, uma figura que tinha, de facto, algo de geralmente tirolês. Os ombros do homem eram grandes e largos, mas as suas pernas eram elegantes e ativas em calções e meias de malha. O seu rosto era castanho como uma noz; tinha olhos castanhos muito brilhantes e inquietos; o seu cabelo escuro estava penteado para trás rigidamente à frente e cortado rente atrás, delineando um crânio quadrado e poderoso; e tinha um enorme bigode preto como os chifres de um bisão. Uma cabeça tão substancial é geralmente baseada num pescoço de touro; mas este estava escondido por um grande lenço colorido, enrolado até às orelhas do homem e caindo à frente dentro do seu casaco como uma espécie de colete de fantasia. Era um lenço de cores fortes e mortas, vermelho escuro e ouro velho e púrpura, provavelmente de fabrico oriental. No geral, o homem tinha algo de um tom bárbaro sobre si; mais parecido com um escudeiro húngaro do que com um oficial francês comum. O seu francês, contudo, era obviamente o de um nativo; e o seu patriotismo francês era tão impulsivo que era ligeiramente absurdo. O seu primeiro ato quando irrompeu do arco foi chamar com voz clara pela rua: «Há aqui algum francês?», como se estivesse a chamar por cristãos em Meca.
Armagnac e Brun levantaram-se instantaneamente; mas era tarde demais. Homens já corriam das esquinas da rua; havia uma pequena, mas sempre a aumentar, multidão. Com o pronto instinto francês para a política da rua, o homem do bigode preto já tinha corrido para um canto do café, saltado para cima de uma das mesas e, segurando-se num ramo de castanheiro para se equilibrar, gritou como Camille Desmoulins gritou outrora quando espalhou as folhas de carvalho entre a populaça.
“Franceses!” ele disparou; “eu não consigo falar! Deus me ajude, é por isso que estou a falar! Os sujeitos nos seus parlamentos imundos que aprendem a falar também aprendem a calar-se — calar-se como aquele espião que se encolhe na casa em frente! Calar-se como ele fica quando eu bato à porta do seu quarto! Calar-se como ele está agora, embora ouça a minha voz do outro lado desta rua e trema onde está sentado! Oh, eles conseguem calar-se com eloquência — os políticos! Mas chegou o momento em que nós, que não conseguimos falar, temos de falar. Estais a ser traídos pelos prussianos. Traídos neste momento. Traídos por esse homem. Eu sou Jules Dubosc, Coronel de Artilharia, Belfort. Apanhámos um espião alemão nos Vosges ontem, e um papel foi encontrado com ele — um papel que seguro na minha mão. Oh, tentaram abafar o assunto; mas levei-o diretamente ao homem que o escreveu — o homem naquela casa! Está na letra dele. Está assinado com as suas iniciais. É uma instrução para encontrar o segredo deste novo Pólvora Silenciosa. Hirsch inventou-o; Hirsch escreveu esta nota sobre ele. Esta nota está em alemão e foi encontrada no bolso de um alemão. ‘Diz ao homem que a fórmula para a pólvora está num envelope cinzento na primeira gaveta à esquerda da secretária do Secretário, no Ministério da Guerra, em tinta vermelha. Ele deve ter cuidado. P.H.’”
Ele debitou frases curtas como uma metralhadora, mas era claramente o tipo de homem que ou está louco ou tem razão. A massa da multidão era Nacionalista, e já num alvoroço ameaçador; e uma minoria de Intelectuais igualmente zangados, liderados por Armagnac e Brun, apenas tornou a maioria mais militante.
“Se isto é um segredo militar”, gritou Brun, “por que é que berra sobre ele na rua?”
“Eu dir-lhe-ei por que o faço!” rugiu Dubosc sobre a multidão em bramido. “Fui ter com este homem de forma direta e civilizada. Se ele tivesse qualquer explicação, poderia ter sido dada em total confiança. Ele recusa-se a explicar. Remete-me para dois estranhos num café como se fossem dois lacaios. Ele expulsou-me da casa, mas eu vou voltar para dentro dela, com o povo de Paris atrás de mim!”
Um grito pareceu abalar a própria fachada das mansões e duas pedras voaram, uma quebrando uma janela acima da varanda. O Coronel indignado mergulhou mais uma vez sob a arcada e foi ouvido a gritar e a troar lá dentro. A cada instante o mar humano tornava-se cada vez mais largo; avançava contra as grades e os degraus da casa do traidor; já era certo que o local seria invadido como a Bastilha, quando a janela francesa partida se abriu e o Dr. Hirsch saiu para a varanda. Por um instante a fúria transformou-se a meio em riso; pois ele era uma figura absurda em tal cena. O seu pescoço longo e nu e os ombros caídos tinham a forma de uma garrafa de champanhe, mas essa era a única coisa festiva nele. O seu casaco pendia nele como num cabide; usava o seu cabelo cor de cenoura comprido e ralo; as suas faces e queixo estavam totalmente contornados por uma daquelas barbas irritantes que começam longe da boca. Estava muito pálido e usava óculos azuis.
Lívido como estava, falou com uma espécie de decisão formal, de modo que a turba se calou a meio da sua terceira frase.
“...apenas duas coisas a dizer-vos agora. A primeira é aos meus inimigos, a segunda aos meus amigos. Aos meus inimigos digo: É verdade que não me encontrarei com o Sr. Dubosc, embora ele esteja a atacar fora desta mesma sala. É verdade que pedi a outros dois homens que o confrontassem por mim. E dir-vos-ei porquê! Porque não quero e não devo vê-lo — porque seria contra todas as regras de dignidade e honra vê-lo. Antes de ser triunfantemente ilibado perante um tribunal, há outra arbitragem que este cavalheiro me deve como cavalheiro, e ao remetê-lo para os meus padrinhos estou estritamente...”
Armagnac e Brun agitavam os seus chapéus violentamente, e até os inimigos do Doutor rugiram aplausos perante este desafio inesperado. Mais uma vez algumas frases foram inaudíveis, mas puderam ouvi-lo dizer: “Aos meus amigos — eu próprio preferiria sempre armas puramente intelectuais, e a estas uma humanidade evoluída certamente limitar-se-á. Mas a nossa verdade mais preciosa é a força fundamental da matéria e da hereditariedade. Os meus livros são bem-sucedidos; as minhas teorias são irrefutadas; mas sofro na política de um preconceito quase físico nos franceses. Não consigo falar como Clemenceau e Deroulede, pois as suas palavras são como ecos das suas pistolas. Os franceses pedem um duelista como os ingleses pedem um desportista. Bem, dou as minhas provas: pagarei este suborno bárbaro e depois voltarei à razão pelo resto da minha vida.”
Dois homens foram instantaneamente encontrados na própria multidão para oferecer os seus serviços ao Coronel Dubosc, que saiu pouco depois, satisfeito. Um era o soldado comum com o café, que disse simplesmente: “Agirei pelo senhor. Sou o Duc de Valognes.” O outro era o homem grande, a quem o seu amigo, o padre, tentou primeiro dissuadir; e depois afastou-se sozinho.
Ao início da noite, um jantar leve foi servido nas traseiras do Café Charlemagne. Embora sem cobertura de vidro ou reboco dourado, os convidados estavam quase todos sob um teto delicado e irregular de folhas; pois as árvores ornamentais estavam tão densas à volta e entre as mesas que davam algo da penumbra e do deslumbramento de um pequeno pomar. Numa das mesas centrais, um padre muito atarracado sentava-se em total solidão e dedicava-se a uma pilha de peixinhos-fritos com o mais grave tipo de prazer. Sendo a sua vida diária muito simples, ele tinha um gosto peculiar por luxos repentinos e isolados; era um epicurista abstémio. Não levantou os olhos do seu prato, à volta do qual pimenta vermelha, limões, pão escuro e manteiga, etc., estavam rigidamente alinhados, até que uma sombra alta caiu sobre a mesa e o seu amigo Flambeau sentou-se em frente. Flambeau estava sombrio.
“Receio ter de abandonar este assunto”, disse ele pesadamente. “Estou totalmente do lado dos soldados franceses como Dubosc, e estou totalmente contra os ateus franceses como Hirsch; mas parece-me que, neste caso, cometemos um erro. O Duque e eu achámos que era bom investigar a acusação, e devo dizer que estou contente por o termos feito.”
“O papel é uma falsificação, então?” perguntou o padre.
“É exatamente isso que é estranho”, respondeu Flambeau. “É exatamente como a letra de Hirsch, e ninguém consegue apontar qualquer erro nele. Mas não foi escrito por Hirsch. Se ele é um patriota francês, não o escreveu, porque dá informações à Alemanha. E se ele é um espião alemão, não o escreveu, bem... porque não dá informações à Alemanha.”
“Quer dizer que a informação está errada?” perguntou o Padre Brown.
“Errada”, respondeu o outro, “e errada exatamente onde o Dr. Hirsch teria estado correto — sobre o esconderijo da sua própria fórmula secreta no seu próprio departamento oficial. Por favor de Hirsch e das autoridades, o Duque e eu fomos realmente autorizados a inspecionar a gaveta secreta no Ministério da Guerra onde a fórmula Hirsch é guardada. Somos as únicas pessoas que a conheceram, exceto o próprio inventor e o Ministro da Guerra; mas o Ministro permitiu-o para salvar Hirsch de lutar. Depois disso, realmente não podemos apoiar Dubosc se a sua revelação é uma ilusão.”
“E é?” perguntou o Padre Brown.
“É”, disse o seu amigo sombriamente. “É uma falsificação grosseira de alguém que não sabia nada do esconderijo real. Diz que o papel está no armário à direita da secretária do Secretário. Na verdade, o armário com a gaveta secreta fica um pouco à esquerda da secretária. Diz que o envelope cinzento contém um longo documento escrito em tinta vermelha. Não está escrito em tinta vermelha, mas em tinta preta comum. É manifestamente absurdo dizer que Hirsch possa ter cometido um erro sobre um papel que ninguém conhecia senão ele; ou que possa ter tentado ajudar um ladrão estrangeiro dizendo-lhe para remexer na gaveta errada. Acho que devemos desistir e pedir desculpa ao velho Cenoura.”
O Padre Brown parecia meditar; ele levantou um pequeno peixinho-frito no seu garfo. “Tem a certeza de que o envelope cinzento estava no armário da esquerda?” perguntou ele.
“Positivo”, respondeu Flambeau. “O envelope cinzento — era um envelope branco, na verdade — estava...”
O Padre Brown pousou o pequeno peixe de prata e o garfo e olhou fixamente para o seu companheiro. “O quê?” perguntou ele, com uma voz alterada.
“Bem, o quê?” repetiu Flambeau, comendo calorosamente.
“Não era cinzento”, disse o padre. “Flambeau, você assusta-me.”
“Do que é que você se assusta?”
“Assusto-me com um envelope branco”, disse o outro seriamente. “Se tivesse sido apenas cinzento! Raios, bem poderia ter sido cinzento. Mas se era branco, todo o negócio é negro. O Doutor andou metido nalgum enxofre antigo, afinal.”
“Mas eu digo-lhe que ele não poderia ter escrito tal nota!” gritou Flambeau. “A nota está totalmente errada quanto aos factos. E inocente ou culpado, o Dr. Hirsch sabia tudo sobre os factos.”
“O homem que escreveu aquela nota sabia tudo sobre os factos”, disse o seu companheiro clerical sobriamente. “Ele nunca poderia tê-los errado tanto sem saber deles. É preciso saber muito para se estar errado sobre todos os assuntos — como o diabo.”
“Quer dizer...?”
“Quero dizer que um homem a mentir ao acaso teria dito alguma da verdade”, disse o seu amigo firmemente. “Suponha que alguém o enviasse para encontrar uma casa com uma porta verde e uma persiana azul, com um jardim à frente mas sem jardim atrás, com um cão mas sem gato, e onde bebessem café mas não chá. Você diria, se não encontrasse tal casa, que era tudo inventado. Mas eu digo que não. Eu digo que se encontrasse uma casa onde a porta fosse azul e a persiana verde, onde houvesse um jardim atrás e nenhum jardim à frente, onde os gatos fossem comuns e os cães fossem imediatamente abatidos, onde o chá fosse bebido às garrafas e o café proibido — então você saberia que tinha encontrado a casa. O homem deve ter conhecido aquela casa em particular para ser tão precisamente impreciso.”
“Mas o que poderia significar?” perguntou o comensal em frente.
“Não consigo conceber”, disse Brown; “não entendo este caso Hirsch de todo. Enquanto era apenas a gaveta esquerda em vez da direita, e tinta vermelha em vez de preta, pensei que deviam ser os erros casuais de um falsificador, como você diz. Mas três é um número místico; termina as coisas. Termina isto. Que a direção sobre a gaveta, a cor da tinta, a cor do envelope, nenhuma delas pudesse estar certa por acidente, isso não pode ser coincidência. Não foi.”
“O que foi, então? Traição?” perguntou Flambeau, retomando o seu jantar.
“Também não sei isso”, respondeu Brown, com uma face de perplexidade absoluta. “A única coisa em que consigo pensar... Bem, nunca entendi aquele caso Dreyfus. Consigo sempre compreender a prova moral mais facilmente do que os outros tipos. Guio-me pelos olhos e voz de um homem, sabe, e se a sua família parece feliz, e pelos assuntos que ele escolhe — e evita. Bem, fiquei intrigado no caso Dreyfus. Não pelas coisas horríveis imputadas de ambos os lados; sei (embora não seja moderno dizê-lo) que a natureza humana nos lugares mais altos ainda é capaz de ser Cenci ou Bórgia. Não..., o que me intrigou foi a sinceridade de ambas as partes. Não me refiro aos partidos políticos; os soldados rasos são sempre grosseiramente honestos, e muitas vezes enganados. Refiro-me às pessoas da peça. Refiro-me aos conspiradores, se eles eram conspiradores. Refiro-me ao traidor, se ele era um traidor. Refiro-me aos homens que devem ter conhecido a verdade. Ora, Dreyfus agia como um homem que sabia que era um homem injustiçado. E, no entanto, os estadistas e soldados franceses agiam como se soubessem que ele não era um homem injustiçado, mas simplesmente um homem errado. Não quero dizer que se comportaram bem; quero dizer que se comportaram como se tivessem a certeza. Não consigo descrever estas coisas; sei o que quero dizer.”
“Quem me dera saber”, disse o seu amigo. “E o que é que isso tem a ver com o velho Hirsch?”
“Suponha que uma pessoa numa posição de confiança”, continuou o padre, “começasse a dar informações ao inimigo porque eram informações falsas. Suponha que ele até pensasse que estava a salvar o seu país ao enganar o estrangeiro. Suponha que isto o levou a círculos de espionagem, e pequenos empréstimos lhe foram feitos, e pequenos laços foram atados a ele. Suponha que ele manteve a sua posição contraditória de uma forma confusa, nunca dizendo a verdade aos espiões estrangeiros, mas deixando que fosse cada vez mais adivinhada. A parte melhor dele (o que restava dela) diria ainda: ‘Eu não ajudei o inimigo; eu disse que era a gaveta da esquerda.’ A parte mais mesquinha dele já estaria a dizer: ‘Mas eles podem ter o bom senso de ver que isso significa a da direita.’ Acho que é psicologicamente possível — numa era esclarecida, sabe.”
“Pode ser psicologicamente possível”, respondeu Flambeau, “e certamente explicaria Dreyfus ter a certeza de que foi injustiçado e os seus juízes estarem certos de que ele era culpado. Mas não resulta historicamente, porque o documento de Dreyfus (se era o seu documento) estava literalmente correto.”
“Eu não estava a pensar em Dreyfus”, disse o Padre Brown.
O silêncio tinha caído à volta deles com o esvaziar das mesas; já era tarde, embora a luz do sol ainda se agarrasse a tudo, como se acidentalmente emaranhada nas árvores. Na quietude, Flambeau mudou bruscamente de lugar — fazendo um ruído isolado e ecoante — e lançou o cotovelo sobre o ângulo da mesa. “Bem”, disse ele, bastante asperamente, “se Hirsch não é melhor do que um tímido traficante de traições...”
“Não deve ser muito duro com eles”, disse o Padre Brown gentilmente. “Não é inteiramente culpa deles; mas eles não têm instintos. Refiro-me àquelas coisas que fazem uma mulher recusar dançar com um homem ou um homem tocar num investimento. Ensinaram-lhes que é tudo uma questão de grau.”
“De qualquer forma”, gritou Flambeau impacientemente, “ele não chega aos calcanhares do meu principal; e eu vou levar isto até ao fim. O velho Dubosc pode ser um pouco louco, mas é uma espécie de patriota, afinal.”
O Padre Brown continuou a consumir peixinhos-fritos.
Algo na maneira estoica como o fazia causou que os olhos negros e ferozes de Flambeau vagueassem sobre o seu companheiro novamente. “O que se passa consigo?” perguntou Flambeau. “Dubosc está bem nesse aspeto. Você não duvida dele?”
“Meu amigo”, disse o pequeno padre, pousando a faca e o garfo num tipo de desespero frio, “eu duvido de tudo. Tudo, quero dizer, o que aconteceu hoje. Duvido de toda a história, embora tenha sido representada diante da minha cara. Duvido de cada visão que os meus olhos viram desde a manhã. Há algo neste negócio bastante diferente do mistério policial comum onde um homem está mais ou menos a mentir e o outro homem está mais ou menos a dizer a verdade. Aqui ambos os homens... Bem! Eu disse-lhe a única teoria em que consigo pensar que poderia satisfazer alguém. Não me satisfaz a mim.”
“Nem a mim também”, respondeu Flambeau franzindo o sobrolho, enquanto o outro continuava a comer peixe com um ar de resignação total. “Se tudo o que você pode sugerir é essa noção de uma mensagem transmitida por contrários, eu chamo-lhe invulgarmente inteligente, mas... bem, como lhe chamaria?”
“Eu chamar-lhe-ia superficial”, disse o padre prontamente. “Chamar-lhe-ia invulgarmente superficial. Mas é isso que é estranho em todo o negócio. A mentira é como a de um rapaz de escola. Só há três versões, a de Dubosc, a de Hirsch e essa fantasia minha. Ou essa nota foi escrita por um oficial francês para arruinar um funcionário francês; ou foi escrita pelo funcionário francês para ajudar oficiais alemães; ou foi escrita pelo funcionário francês para enganar oficiais alemães. Muito bem. Você esperaria que um papel secreto a passar entre tais pessoas, funcionários ou oficiais, parecesse bastante diferente disso. Você esperaria, provavelmente uma cifra, certamente abreviaturas; mais certamente termos científicos e estritamente profissionais. Mas esta coisa é elaboradamente simples, como um folhetim de um tostão: ‘Na gruta púrpura encontrará o cofre dourado.’ Parece que... como se fosse para ser visto através de imediato.”
Quase antes de poderem compreender, uma figura baixa em uniforme francês tinha caminhado até à mesa deles como o vento e sentado com uma espécie de baque.
“Tenho notícias extraordinárias”, disse o Duc de Valognes. “Acabo de vir deste nosso Coronel. Ele está a fazer as malas para deixar o país, e pede-nos para apresentarmos as suas desculpas *sur le terrain*.”
“O quê?” gritou Flambeau, com uma incredulidade bastante terrível — “pedir desculpa?”
“Sim”, disse o Duque asperamente; “ali mesmo — perante todos — quando as espadas forem desembainhadas. E você e eu temos de o fazer enquanto ele deixa o país.”
“Mas o que pode isto significar?” gritou Flambeau. “Ele não pode ter medo daquele pequeno Hirsch! Diabo!” gritou ele, numa espécie de raiva racional; “ninguém poderia ter medo de Hirsch!”
“Eu acredito que é algum complô!” disparou Valognes — “algum complô dos judeus e maçons. Destina-se a criar glória para Hirsch...”
A face do Padre Brown era comum, mas curiosamente contente; podia brilhar com ignorância tanto como com conhecimento. Mas havia sempre um clarão quando a máscara tola caía, e a máscara sábia se ajustava no seu lugar; e Flambeau, que conhecia o seu amigo, sabia que o seu amigo tinha subitamente compreendido. Brown não disse nada, mas terminou o seu prato de peixe.
“Onde viu pela última vez o nosso precioso Coronel?” perguntou Flambeau, irritado.
“Ele está ali ao pé do Hotel Saint Louis junto ao Eliseu, para onde o levámos. Ele está a fazer as malas, digo-lhe.”
“Ele ainda lá estará, pensa você?” perguntou Flambeau, franzindo o sobrolho para a mesa.
“Não creio que ele possa fugir ainda”, respondeu o Duque; “ele está a fazer as malas para uma longa viagem...”
“Não”, disse o Padre Brown, muito simplesmente, mas levantando-se de repente, “para uma viagem muito curta. Para uma das mais curtas, de facto. Mas talvez ainda cheguemos a tempo de o apanhar se formos para lá num táxi a motor.”
Nada mais se pôde obter dele até que o táxi contornou a esquina do Hotel Saint Louis, onde saíram, e ele guiou o grupo por uma ruela lateral já em sombra profunda com o crepúsculo crescente. Uma vez, quando o Duque perguntou impacientemente se Hirsch era culpado de traição ou não, ele respondeu de forma algo distraída: “Não; apenas de ambição — como César.” Depois acrescentou de forma algo inconsequente: “Ele vive uma vida muito solitária; ele teve de fazer tudo por si mesmo.”
“Bem, se ele é ambicioso, deve estar satisfeito agora”, disse Flambeau um tanto amargamente. “Toda a Paris o aplaudirá agora que o nosso maldito Coronel bateu em retirada.”
“Não fale tão alto”, disse o Padre Brown, baixando a voz, “o seu maldito Coronel está logo à frente.”
Os outros dois sobressaltaram-se e recuaram mais para a sombra da parede, pois a figura robusta do seu principal em fuga podia de facto ser vista a arrastar-se na penumbra à frente, uma mala em cada mão. Ele parecia muito o mesmo de quando o viram pela primeira vez, exceto que tinha trocado os seus pitorescos calções de alpinismo por um par de calças convencionais. Era claro que ele já estava a fugir do hotel.
A ruela por onde o seguiram era uma daquelas que parecem estar nas traseiras das coisas, e parecem o lado errado do cenário de um teatro. Uma parede contínua e sem cor corria por um lado dela, interrompida em intervalos por portas de tons baços e sujas, todas bem fechadas e sem características, exceto pelos rabiscos a giz de algum *gamin* de passagem. Os topos das árvores, principalmente perenes bastante deprimentes, apareciam em intervalos sobre o topo da parede, e para além deles, no crepúsculo cinzento e púrpura, podia ver-se a parte de trás de algum longo terraço de altas casas parisienses, realmente comparativamente próximas, mas de alguma forma parecendo tão inacessíveis como uma cordilheira de montanhas de mármore. Do outro lado da ruela corriam as altas grades douradas de um parque sombrio.
Flambeau estava a olhar à sua volta de uma forma bastante estranha. “Sabe”, disse ele, “há algo neste lugar que...”
“Olá!” chamou o Duque bruscamente; “aquele sujeito desapareceu. Evaporou-se, como uma maldita fada!”
“Ele tem uma chave”, explicou o seu amigo clerical. “Ele apenas entrou por uma destas portas de jardim”, e, enquanto falava, ouviram uma das maçadas portas de madeira fechar-se novamente com um clique à frente deles.
Flambeau marchou até à porta assim fechada quase na sua cara e ficou ali por um momento, mordendo o seu bigode negro numa fúria de curiosidade. Depois, ergueu os seus longos braços, içou-se para o alto como um macaco e ficou de pé no topo do muro, a sua figura enorme escura contra o céu púrpura, como as copas das árvores sombrias.
O Duque olhou para o padre. “A fuga de Dubosc é mais elaborada do que pensávamos”, disse ele; “mas suponho que ele esteja a fugir de França.”
“Ele está a fugir de toda a parte”, respondeu o Padre Brown.
Os olhos de Valognes brilharam, mas a sua voz baixou. “Refere-se ao suicídio?”, perguntou ele.
“Não encontrará o seu corpo”, replicou o outro.
Um tipo de grito veio de Flambeau, no muro acima. “Meu Deus”, exclamou ele em francês, “já sei que lugar é este! Ora, é a parte de trás da rua onde o velho Hirsch vive. Pensei que conseguiria reconhecer as traseiras de uma casa tão bem como as costas de um homem.”
“E o Dubosc entrou ali!”, gritou o Duque, batendo na coxa. “Ora, eles vão encontrar-se afinal!” E com uma repentina vivacidade gaulesa, saltou para o muro ao lado de Flambeau e sentou-se ali, a abanar positivamente as pernas de excitação. Apenas o padre permaneceu em baixo, encostado ao muro, de costas para todo o teatro de eventos, e olhando melancolicamente para as grades do parque e para as árvores cintilantes no crepúsculo.
O Duque, contudo, por mais estimulado que estivesse, tinha os instintos de um aristocrata e desejava mais observar a casa do que espioná-la; mas Flambeau, que tinha os instintos de um ladrão (e de um detetive), já se tinha balançado do muro para a bifurcação de uma árvore tortuosa, de onde podia rastejar até muito perto da única janela iluminada nas traseiras da alta casa escura. Uma persiana vermelha tinha sido baixada sobre a luz, mas de forma torta, de modo que se abria de um dos lados, e, arriscando o pescoço ao longo de um ramo que parecia tão traiçoeiro como um graveto, Flambeau conseguia ver o Coronel Dubosc a andar de um lado para o outro num quarto luxuoso e brilhantemente iluminado. Mas, por mais perto que Flambeau estivesse da casa, ele ouviu as palavras dos seus colegas junto ao muro e repetiu-as em voz baixa.
“Sim, eles vão encontrar-se afinal!”
“Eles nunca se encontrarão”, disse o Padre Brown. “Hirsch tinha razão quando disse que, num caso como este, os protagonistas não devem encontrar-se. Já leu um estranho conto psicológico de Henry James, sobre duas pessoas que se desencontravam tão perpetuamente por acidente que começaram a sentir-se bastante assustadas uma com a outra, e a pensar que era o destino? Isto é algo do género, mas mais curioso.”
“Há pessoas em Paris que os curarão de tais fantasias mórbidas”, disse Valognes de forma vingativa. “Eles terão de se encontrar, quer queiram quer não, se os capturarmos e os obrigarmos a lutar.”
“Eles não se encontrarão no Dia do Juízo Final”, disse o padre. “Se Deus Todo-Poderoso segurasse o bastão das arenas, se São Miguel tocasse a trombeta para o cruzamento de espadas — ainda assim, se um deles estivesse pronto, o outro não viria.”
“Oh, o que significa todo este misticismo?”, gritou o Duc de Valognes, impaciente; “porque raio não haveriam eles de se encontrar como as outras pessoas?”
“Eles são o oposto um do outro”, disse o Padre Brown, com um estranho tipo de sorriso. “Eles contradizem-se. Anulam-se, por assim dizer.”
Ele continuou a olhar para as árvores que escureciam em frente, mas Valognes virou a cabeça bruscamente perante uma exclamação reprimida de Flambeau. Aquele investigador, espreitando para o quarto iluminado, tinha acabado de ver o Coronel, após um ou dois passos, proceder a tirar o casaco. O primeiro pensamento de Flambeau foi que aquilo parecia realmente uma luta; mas logo abandonou o pensamento por outro. A solidez e a forma quadrada do peito e dos ombros de Dubosc eram apenas um poderoso enchimento e saíram com o casaco. Na sua camisa e calças, ele era um cavalheiro comparativamente esguio, que atravessou o quarto até à casa de banho com um propósito não mais pugnaz do que o de se lavar. Debruçou-se sobre um lavatório, secou as mãos e o rosto a pingar com uma toalha e voltou-se novamente para que a luz forte incidisse no seu rosto. A sua tez castanha tinha desaparecido, o seu grande bigode negro tinha desaparecido; ele estava barbeado e muito pálido. Nada restava do Coronel, exceto os seus olhos castanhos brilhantes, como os de um falcão. Sob o muro, o Padre Brown continuava a meditar pesadamente, como se fosse para si mesmo.
“É tudo exatamente como eu dizia ao Flambeau. Estes opostos não servem. Não funcionam. Não lutam. Se é branco em vez de preto, e sólido em vez de líquido, e assim por diante ao longo de toda a linha — então há algo de errado, Monsieur, há algo de errado. Um destes homens é louro e o outro moreno, um robusto e o outro esguio, um forte e o outro fraco. Um tem bigode e não tem barba, por isso não se pode ver a sua boca; o outro tem barba e não tem bigode, por isso não se pode ver o seu queixo. Um tem o cabelo cortado rente ao crânio, mas um lenço para esconder o pescoço; o outro tem golas de camisa baixas, mas cabelo comprido para esconder o seu crânio. É tudo demasiado limpo e correto, Monsieur, e há algo de errado. Coisas feitas tão opostas são coisas que não podem brigar. Onde uma sobressai, a outra afunda-se. Como um rosto e uma máscara, como uma fechadura e uma chave...”
Flambeau espreitava para dentro da casa com um semblante tão branco como um lençol. O ocupante do quarto estava de pé, de costas para ele, mas em frente a um espelho, e já tinha ajustado em volta do seu rosto uma espécie de estrutura de cabelo ruivo e áspero, pendurado de forma desordenada da cabeça e agarrando-se em volta das mandíbulas e do queixo, enquanto deixava a boca zombeteira descoberta. Visto assim no vidro, o rosto branco parecia o rosto de Judas a rir horrivelmente e rodeado por chamas saltitantes do inferno. Por um espasmo, Flambeau viu os olhos ferozes, castanho-avermelhados, a dançar, depois foram cobertos por um par de óculos azuis. Calçando um casaco preto largo, a figura desapareceu em direção à parte da frente da casa. Poucos momentos depois, um rugido de aplausos populares vindo da rua anunciou que o Dr. Hirsch tinha aparecido mais uma vez na varanda.
QUATRO — O Homem na Passagem
DOIS homens apareceram simultaneamente nas duas extremidades de uma espécie de passagem que corria ao longo do lado do Apollo Theatre, em Adelphi. A luz do dia da tarde nas ruas era vasta e luminosa, opalescente e vazia. A passagem era comparativamente longa e escura, pelo que cada homem podia ver o outro como uma mera silhueta negra na extremidade oposta. No entanto, cada homem conhecia o outro, mesmo naquele contorno a tinta; pois eram ambos homens de aparência marcante e odiavam-se mutuamente.
A passagem coberta abria-se numa das extremidades para uma das ruas íngremes de Adelphi e, na outra, para um terraço com vista para o rio cor de pôr do sol. Um lado da passagem era uma parede cega, pois o edifício que ela suportava era um antigo restaurante de teatro sem sucesso, agora fechado. O outro lado da passagem continha duas portas, uma em cada extremidade. Nenhuma delas era o que se chamava vulgarmente de porta de palco; eram uma espécie de portas de palco especiais e privadas, usadas por artistas muito especiais e, neste caso, pelo ator principal e pela atriz na representação shakespeariana do dia. Pessoas dessa importância gostam frequentemente de ter tais entradas e saídas privadas, para encontrar amigos ou evitá-los.
Os dois homens em questão eram certamente dois desses amigos, homens que evidentemente conheciam as portas e contavam com a sua abertura, pois cada um aproximou-se da porta na extremidade superior com igual calma e confiança. Não, contudo, com igual rapidez; mas o homem que caminhava depressa era o homem da outra extremidade do túnel, de modo que ambos chegaram à porta secreta do palco quase no mesmo instante. Saudaram-se com civilidade e esperaram um momento antes de um deles, o caminhante mais apressado e que parecia ter menos paciência, bater à porta.
Nisto e em tudo o resto, cada homem era oposto e nenhum podia ser considerado inferior. Como pessoas privadas, ambos eram bonitos, capazes e populares. Como figuras públicas, ambos estavam no primeiro escalão. Mas tudo neles, desde a sua glória à sua boa aparência, era de um tipo diverso e incomparável. Sir Wilson Seymour era o tipo de homem cuja importância é conhecida por todos os que sabem. Quanto mais se convivia com o círculo mais íntimo em qualquer política ou profissão, mais frequentemente se encontrava Sir Wilson Seymour. Ele era o único homem inteligente em vinte comités pouco inteligentes — sobre todo o tipo de assuntos, desde a reforma da Royal Academy até ao projeto de bimetalismo para a Grã-Bretanha. Nas Artes, especialmente, era omnipotente. Era tão único que ninguém conseguia decidir bem se era um grande aristocrata que se tinha dedicado à Arte, ou um grande artista que os aristocratas tinham adotado. Mas não se podia estar com ele cinco minutos sem perceber que, na verdade, se tinha sido governado por ele durante toda a vida.
A sua aparência era “distinta” exatamente no mesmo sentido; era ao mesmo tempo convencional e única. A moda não teria encontrado falha na sua cartola de seda, contudo, era diferente da cartola de qualquer outra pessoa — um pouco mais alta, talvez, e acrescentando algo à sua altura natural. A sua figura alta e esguia tinha uma ligeira curvatura, mas parecia o oposto de fraca. O seu cabelo era cinzento-prateado, mas ele não parecia velho; era usado mais comprido do que o comum, contudo ele não parecia efeminado; era encaracolado, mas não parecia encaracolado. A sua barba cuidadosamente pontiaguda fazia-o parecer mais viril e militante do que outra coisa, como acontece naqueles antigos almirantes de Velázquez, com cujos retratos escuros a sua casa estava decorada. As suas luvas cinzentas eram de um tom mais azulado, a sua bengala de punho de prata um tom mais comprida do que dezenas de tais luvas e bengalas que esvoaçavam e se ostentavam pelos teatros e restaurantes.
O outro homem não era tão alto, contudo ninguém o teria considerado baixo, mas apenas forte e bonito. O seu cabelo também era encaracolado, mas louro e cortado rente a uma cabeça forte e maciça — o tipo de cabeça com que se parte uma porta, como Chaucer disse do Moleiro. O seu bigode militar e o porte dos seus ombros mostravam-no como um soldado, mas ele possuía um par daqueles peculiares olhos azuis, francos e penetrantes, que são mais comuns nos marinheiros. O seu rosto era algo quadrado, o seu queixo era quadrado, os seus ombros eram quadrados, até o seu casaco era quadrado. De facto, na escola selvagem de caricatura então vigente, o Sr. Max Beerbohm representara-o como uma proposição no quarto livro de Euclides.
Pois ele também era uma figura pública, embora com um tipo de sucesso bastante diferente. Não era preciso estar na melhor sociedade para ter ouvido falar do Capitão Cutler, do cerco de Hong Kong e da grande marcha através da China. Não se podia escapar de ouvir falar dele onde quer que se estivesse; o seu retrato estava em cada segundo postal; os seus mapas e batalhas em cada segundo jornal ilustrado; canções em sua honra em cada segundo número de music-hall ou em cada segundo realejo. A sua fama, embora provavelmente mais temporária, era dez vezes mais vasta, popular e espontânea do que a do outro homem. Em milhares de lares ingleses, ele aparecia enorme acima da Inglaterra, como Nelson. Contudo, ele tinha infinitamente menos poder na Inglaterra do que Sir Wilson Seymour.
A porta foi-lhes aberta por um criado idoso ou “camareiro”, cujo rosto e figura decadentes e o casaco e calças pretos e gastos contrastavam estranhamente com o interior cintilante do camarim da grande atriz. Estava equipado e cheio de espelhos em todos os ângulos de refração, de tal modo que pareciam as cem facetas de um enorme diamante — se alguém conseguisse entrar dentro de um diamante. As outras características de luxo, algumas flores, algumas almofadas coloridas, alguns pedaços de trajes de palco, eram multiplicados por todos os espelhos na loucura das Mil e Uma Noites, e dançavam e mudavam de lugar perpetuamente à medida que o assistente que arrastava os pés movia um espelho para fora ou o empurrava de volta contra a parede.
Ambos falaram com o camareiro sombrio pelo nome, chamando-lhe Parkinson, e perguntando pela senhora, Miss Aurora Rome. Parkinson disse que ela estava na outra sala, mas que iria avisá-la. Uma sombra cruzou o rosto de ambos os visitantes; pois a outra sala era o quarto privado do grande ator com quem Miss Aurora estava a representar, e ela era do tipo que não inflama a admiração sem inflamar o ciúme. Em cerca de meio minuto, porém, a porta interior abriu-se e ela entrou como sempre fazia, mesmo na vida privada, de modo que o próprio silêncio parecia ser um rugido de aplausos, e muito bem merecido. Ela estava vestida com um traje algo estranho de cetins verde-pavão e azul-pavão, que brilhavam como metais azuis e verdes, tais como os que encantam crianças e estetas, e o seu cabelo castanho, pesado e quente, emoldurava um daqueles rostos mágicos que são perigosos para todos os homens, mas especialmente para rapazes e para homens que começam a ficar grisalhos. Em conjunto com o seu colega masculino, o grande ator americano Isidore Bruno, ela estava a produzir uma interpretação particularmente poética e fantástica de Sonho de uma Noite de Verão: na qual o destaque artístico era dado a Oberon e Titânia, ou, por outras palavras, a Bruno e a ela própria. Inserido num cenário sonhador e requintado, e movendo-se em danças místicas, o traje verde, como asas de escaravelho polidas, expressava toda a individualidade ilusória de uma rainha élfica. Mas, quando confrontado pessoalmente no que ainda era plena luz do dia, um homem olhava apenas para o rosto da mulher.
Ela cumprimentou ambos os homens com o sorriso radiante e desconcertante que mantinha tantos homens à mesma distância perigosa dela. Aceitou algumas flores de Cutler, que eram tão tropicais e caras como as suas vitórias; e outro tipo de presente de Sir Wilson Seymour, oferecido mais tarde e com mais indiferença por esse cavalheiro. Pois ia contra a sua educação demonstrar avidez, e contra a sua convencional não-convencionalidade dar algo tão óbvio como flores. Ele tinha apanhado uma ninharia, disse ele, que era uma curiosidade, tratava-se de um antigo punhal grego da Época Micénica, e que bem poderia ter sido usado nos tempos de Teseu e Hipólita. Era feito de latão, como todas as armas heroicas, mas, estranhamente, afiado o suficiente para picar alguém ainda. Tinha sido atraído por ele devido à sua forma de folha; era tão perfeito como um vaso grego. Se fosse de algum interesse para Miss Rome ou se pudesse encaixar em qualquer parte da peça, esperava que ela...
A porta interior abriu-se de rompante e apareceu uma figura grande, que era um contraste ainda maior para o explicativo Seymour do que o Capitão Cutler. Com quase dois metros de altura e com músculos e compleição mais do que teatrais, Isidore Bruno, na pele de leopardo e nas vestes douradas-acastanhadas de Oberon, parecia um deus bárbaro. Ele apoiava-se numa espécie de lança de caça, que através de um teatro parecia uma vara fina e prateada, mas que na sala pequena e comparativamente cheia parecia tão óbvia como um pau de caminhar — e tão ameaçadora. Os seus olhos negros vívidos giravam vulcanicamente, o seu rosto bronzeado, por mais bonito que fosse, mostrava naquele momento uma combinação de maçãs do rosto salientes com dentes brancos cerrados, que recordava certas conjeturas americanas sobre a sua origem nas plantações do Sul.
“Aurora”, começou ele, com aquela voz profunda como um tambor de paixão que tinha comovido tantas audiências, “queres...”
Ele parou indeciso porque uma sexta figura tinha surgido subitamente logo dentro da entrada — uma figura tão incongruente na cena que era quase cómica. Era um homem muito baixo, no uniforme preto do clero secular romano, e que parecia (especialmente na presença de Bruno e Aurora) bastante como o Noé de madeira de uma arca. Ele não parecia, contudo, consciente de qualquer contraste, mas disse com uma civilidade monótona: “Creio que Miss Rome mandou chamar-me.”
Um observador perspicaz poderia ter notado que a temperatura emocional subiu com uma interrupção tão desprovida de emoção. O distanciamento de um celibatário profissional parecia revelar aos outros que estavam em redor da mulher como um anel de rivais amorosos; tal como um estranho que entra com geada no casaco revela que uma sala está como uma fornalha. A presença do único homem que não se importava com ela aumentou a sensação de Miss Rome de que todos os outros estavam apaixonados por ela, e cada um de uma forma algo perigosa: o ator com todo o apetite de um selvagem e de uma criança mimada; o soldado com todo o egoísmo simples de um homem de vontade em vez de mente; Sir Wilson com aquela concentração diária que se endurece à medida que os velhos hedonistas se dedicam a um passatempo; aliás, até o abjeto Parkinson, que a conhecia antes dos seus triunfos, e que a seguia pela sala com os olhos ou com os pés, com o fascínio mudo de um cão.
Uma pessoa perspicaz poderia também ter notado uma coisa ainda mais estranha. O homem como um Noé de madeira preto (que não estava totalmente desprovido de perspicácia) notou-o com uma diversão considerável, mas contida. Era evidente que a grande Aurora, embora de modo algum indiferente à admiração do sexo oposto, queria neste momento livrar-se de todos os homens que a admiravam e ficar a sós com o homem que não a admirava — não a admirava nesse sentido, pelo menos; pois o pequeno padre admirava e até desfrutava da firme diplomacia feminina com que ela se dedicava à sua tarefa. Talvez houvesse apenas uma coisa em que Aurora Rome fosse inteligente, e isso era uma metade da humanidade — a outra metade. O pequeno padre observava, como uma campanha napoleónica, a precisão rápida da sua estratégia para expulsar todos sem banir ninguém. Bruno, o grande ator, era tão infantil que era fácil mandá-lo embora com birras brutais, batendo com a porta. Cutler, o oficial britânico, era paquidérmico a ideias, mas meticuloso quanto ao comportamento. Ele ignoraria todas as indiretas, mas morreria antes de ignorar uma comissão direta de uma dama. Quanto ao velho Seymour, tinha de ser tratado de forma diferente; tinha de ser deixado para o fim. A única forma de o mover era apelar a ele em confiança como um velho amigo, deixá-lo entrar no segredo da limpeza. O padre admirava verdadeiramente Miss Rome enquanto ela alcançava todos estes três objetivos numa única ação selecionada.
Ela atravessou até ao Capitão Cutler e disse da sua maneira mais doce: “Valorizarei todas estas flores, porque devem ser as tuas flores favoritas. Mas não estarão completas, sabes, sem a minha flor favorita. Vai àquela loja ali ao virar da esquina e traz-me uns lírios-do-vale, e então ficará tudo adorável.”
O primeiro objetivo da sua diplomacia, a saída do enfurecido Bruno, foi alcançado de imediato. Ele já tinha entregue a sua lança com um estilo senhorial, como um cetro, ao piedoso Parkinson, e estava prestes a assumir um dos assentos almofadados como um trono. Mas, perante este apelo aberto ao seu rival, brilhou nas suas íris de opala toda a insolência sensível do escravo; ele fechou os seus enormes punhos castanhos por um instante e, depois, abrindo a porta de rompante, desapareceu para os seus próprios aposentos mais à frente. Mas, entretanto, a experiência de Miss Rome em mobilizar o Exército Britânico não tinha sido bem-sucedida tão simplesmente como parecia provável. Cutler tinha, de facto, levantado-se rígida e subitamente, e caminhado em direção à porta, sem chapéu, como se fosse por um comando. Mas talvez houvesse algo de ostensivamente elegante na figura lânguida de Seymour, encostada a um dos espelhos, que o fez parar subitamente à entrada, virando a cabeça de um lado para o outro como um buldogue confuso.
“Tenho de mostrar a este homem estúpido para onde ir”, disse Aurora num sussurro para Seymour, e correu para o limiar para apressar o convidado que partia.
Seymour parecia estar a escutar, elegante e inconsciente como era a sua postura, e pareceu aliviado quando ouviu a senhora gritar algumas últimas instruções ao Capitão, para depois se virar bruscamente e correr a rir pelo corredor em direção à outra extremidade, a extremidade no terraço sobre o Tamisa. Contudo, um ou dois segundos depois, o sobrolho de Seymour escureceu novamente. Um homem na sua posição tem tantos rivais, e ele lembrou-se de que, na outra extremidade do corredor, se encontrava a entrada correspondente para o quarto privado de Bruno. Não perdeu a dignidade; disse algumas palavras civis ao Padre Brown sobre o renascimento da arquitetura bizantina na Catedral de Westminster e, depois, de forma bastante natural, passeou-se ele próprio até à extremidade superior do corredor. O Padre Brown e Parkinson ficaram sozinhos, e nenhum deles era homem com gosto por conversas supérfluas. O camareiro percorreu o quarto, puxando espelhos para fora e empurrando-os de novo para dentro, o seu casaco e calças escuras e gastos parecendo ainda mais lúgubres uma vez que ele ainda segurava a festiva lança de fada do Rei Oberon. Cada vez que ele puxava a moldura de um novo espelho, uma nova figura negra do Padre Brown aparecia; a absurda câmara de vidro estava cheia de Padres Brown, de cabeça para baixo no ar como anjos, dando cambalhotas como acrobatas, virando as costas a toda a gente como pessoas muito mal-educadas.
O Padre Brown parecia completamente inconsciente desta nuvem de testemunhas, mas seguiu Parkinson com um olhar ociosamente atento até ele se levar a si próprio e à sua lança absurda para o quarto mais distante de Bruno. Depois, entregou-se a meditações abstratas que sempre o divertiam — calculando os ângulos dos espelhos, os ângulos de cada refração, o ângulo em que cada um deveria encaixar na parede... quando ouviu um grito forte, mas estrangulado.
Ele saltou para os pés e ficou rigidamente a ouvir. No mesmo instante, Sir Wilson Seymour irrompeu de volta ao quarto, branco como marfim. “Quem é aquele homem no corredor?” gritou ele. “Onde está o meu punhal?”
Antes que o Padre Brown pudesse virar-se nas suas botas pesadas, Seymour estava a mergulhar pelo quarto à procura da arma. E antes que pudesse possivelmente encontrar essa arma ou qualquer outra, um caminhar apressado de pés irrompeu no pavimento lá fora, e o rosto quadrado de Cutler foi enfiado na mesma porta. Ele ainda segurava grotescamente um ramo de lírios-do-vale. “O que é isto?” gritou ele. “O que é aquela criatura no corredor? Isto é alguma das vossas partidas?”
“As minhas partidas!” sibilou o seu rival pálido, e deu um passo em direção a ele.
No instante em que tudo isto aconteceu, o Padre Brown saiu para o topo do corredor, olhou para baixo e caminhou prontamente em direção ao que via.
A isto, os outros dois homens abandonaram a sua discussão e dispararam atrás dele, com Cutler a gritar: “O que está a fazer? Quem é você?”
“O meu nome é Brown,” disse o padre tristemente, enquanto se inclinava sobre algo e se endireitava novamente. “A menina Rome mandou chamar-me, e vim o mais depressa que pude. Cheguei demasiado tarde.”
Os três homens olharam para baixo, e num deles, pelo menos, a vida extinguiu-se naquela luz tardia da tarde. Ela percorria o corredor como um caminho de ouro, e no meio dele Aurora Rome jazia lustrosa nas suas vestes de verde e ouro, com o rosto morto virado para cima. O seu vestido estava rasgado como se por uma luta, deixando o ombro direito a descoberto, mas a ferida da qual o sangue jorrava era do outro lado. O punhal de latão jazia plano e brilhante a cerca de um metro de distância.
Houve uma quietude vazia durante um tempo mensurável, de modo que podiam ouvir ao longe o riso de uma vendedora de flores fora de Charing Cross, e alguém a assobiar furiosamente por um táxi numa das ruas fora do Strand. Então, o Capitão, com um movimento tão súbito que poderia ter sido paixão ou representação, agarrou Sir Wilson Seymour pela garganta.
Seymour olhou para ele fixamente sem luta ou medo. “Não precisa de me matar,” disse ele numa voz bastante fria; “eu fá-lo-ei por minha própria conta.”
A mão do Capitão hesitou e caiu; e o outro acrescentou com a mesma fria candura: “Se descobrir que não tenho coragem para o fazer com aquele punhal, posso fazê-lo num mês com a bebida.”
“A bebida não é suficientemente boa para mim,” respondeu Cutler, “mas eu terei sangue por isto antes de morrer. Não o seu — mas penso que sei de quem.”
E antes que os outros pudessem apreciar a sua intenção, ele arrebatou o punhal, saltou para a outra porta na extremidade inferior do corredor, arrombou-a, ferrolho e tudo, e confrontou Bruno no seu camarim. Ao fazê-lo, o velho Parkinson cambaleou no seu jeito vacilante para fora da porta e vislumbrou o cadáver deitado no corredor. Moveu-se trémulo em direção a ele; olhou para ele debilmente com um rosto contraído; depois moveu-se trémulo de volta para o camarim, e sentou-se subitamente numa das cadeiras ricamente almofadadas. O Padre Brown correu instantaneamente até ele, não prestando atenção a Cutler e ao colossal ator, embora o quarto já ressoasse com os seus golpes e eles começassem a lutar pelo punhal. Seymour, que conservava algum sentido prático, assobiava pela polícia na extremidade do corredor.
Quando a polícia chegou, foi para arrancar os dois homens de um agarrar quase simiesco; e, após algumas averiguações formais, para prender Isidore Bruno sob uma acusação de homicídio, trazida contra ele pelo seu furioso oponente. A ideia de que o grande herói nacional da hora tinha prendido um criminoso com as suas próprias mãos teve, sem dúvida, o seu peso junto da polícia, que não está desprovida de elementos do jornalista. Trataram Cutler com uma certa atenção solene, e apontaram que ele tinha um ligeiro golpe na mão. Mesmo quando Cutler o empurrou para trás através da cadeira inclinada e da mesa, Bruno tinha torcido o punhal para fora do seu alcance e incapacitou-o logo abaixo do pulso. O ferimento era realmente ligeiro, mas até ser removido do quarto, o prisioneiro meio selvagem encarou o sangue a correr com um sorriso constante.
“Parece um tipo canibal, não parece?” disse o agente confidencialmente a Cutler.
Cutler não respondeu, mas disse bruscamente um momento depois: “Temos de tratar da... da morte...” e a sua voz escapou à articulação.
“As duas mortes,” veio a voz do padre do lado mais distante do quarto. “Este pobre homem já tinha partido quando cheguei até ele.” E ficou a olhar para o velho Parkinson, que se sentava num amontoado negro na cadeira suntuosa. Ele também tinha prestado a sua homenagem, não sem eloquência, à mulher que tinha morrido.
O silêncio foi primeiramente quebrado por Cutler, que parecia não estar intocado por uma rude ternura. “Gostava de ser ele,” disse ele roucamente. “Lembro-me de que ele costumava observá-la onde quer que ela caminhasse mais do que... qualquer pessoa. Ela era o ar dele, e ele secou. Ele está simplesmente morto.”
“Estamos todos mortos,” disse Seymour com uma voz estranha, olhando pela estrada.
Despediram-se do Padre Brown na esquina da estrada, com alguns pedidos de desculpas aleatórios por qualquer rudeza que pudessem ter mostrado. Os rostos de ambos eram trágicos, mas também crípticos.
A mente do pequeno padre era sempre uma toca de coelhos de pensamentos selvagens que saltavam demasiado depressa para que ele os pudesse apanhar. Como a cauda branca de um coelho, ele teve o pensamento fugaz de que estava certo da sua dor, mas não tão certo da sua inocência.
“É melhor irmos todos,” disse Seymour pesadamente; “fizemos tudo o que podemos para ajudar.”
“Compreenderão os meus motivos,” perguntou o Padre Brown calmamente, “se eu disser que fizeram tudo o que podem para ferir?”
Ambos sobressaltaram-se como se fossem culpados, e Cutler disse bruscamente: “Ferir quem?”
“Ferirem-se a vocês próprios,” respondeu o padre. “Eu não acrescentaria aos vossos problemas se não fosse justiça comum avisar-vos. Fizeram quase tudo o que podiam fazer para se enforcarem, se este ator for absolvido. Eles certificar-se-ão de me intimar; serei obrigado a dizer que, depois de o grito ter sido ouvido, cada um de vós correu para o quarto num estado selvagem e começou a discutir sobre um punhal. No que diz respeito às minhas palavras sob juramento, qualquer um de vós poderia tê-lo feito. Feriram-se a vós próprios com isso; e depois o Capitão Cutler deve ter-se ferido a si próprio com o punhal.”
“Ferir-me a mim próprio!” exclamou o Capitão, com desprezo. “Um arranhãozinho parvo.”
“Que deitou sangue,” respondeu o padre, acenando. “Sabemos que há sangue no latão agora. E por isso nunca saberemos se já havia sangue nele antes.”
Houve um silêncio; e então Seymour disse, com uma ênfase bastante alheia ao seu acento quotidiano: “Mas eu vi um homem no corredor.”
“Eu sei que viu,” respondeu o clérigo Brown com uma face de madeira, “assim como o Capitão Cutler. É isso que parece tão improvável.”
Antes que qualquer um pudesse fazer sentido suficiente disso para sequer responder, o Padre Brown tinha-se desculpado educadamente e tinha ido a bater com o seu guarda-chuva velho e atarracado pela estrada acima.
Como os jornais modernos são conduzidos, as notícias mais honestas e mais importantes são as notícias policiais. Se for verdade que no século XX se dá mais espaço ao homicídio do que à política, é pela excelente razão de que o homicídio é um assunto mais sério. Mas mesmo isto dificilmente explicaria a enorme omnipresença e o detalhe amplamente distribuído do “Caso Bruno”, ou o “Mistério do Corredor”, na imprensa de Londres e das províncias. Tão vasto era o entusiasmo que, durante algumas semanas, a imprensa disse realmente a verdade; e os relatos do exame e contra-exame, se intermináveis, mesmo se intoleráveis, são pelo menos fiáveis. A verdadeira razão, claro, era a coincidência das pessoas. A vítima era uma atriz popular; o acusado era um ator popular; e o acusado tinha sido apanhado em flagrante, por assim dizer, pelo soldado mais popular da estação patriótica. Nessas circunstâncias extraordinárias, a imprensa ficou paralisada em probidade e precisão; e o resto deste negócio um tanto singular pode praticamente ser registado a partir dos relatórios do julgamento de Bruno.
O julgamento foi presidido pelo Juiz Monkhouse, um daqueles que são ridicularizados como juízes humorísticos, mas que são geralmente muito mais sérios do que os juízes sérios, pois a sua leviandade vem de uma impaciência viva pela solenidade profissional; enquanto o juiz sério está realmente cheio de frivolidade, porque está cheio de vaidade. Sendo todos os principais atores de importância mundana, os advogados estavam bem equilibrados; o procurador da Coroa era Sir Walter Cowdray, um advogado pesado, mas de peso, do tipo que sabe como parecer inglês e de confiança, e como ser retórico com relutância. O prisioneiro foi defendido pelo Sr. Patrick Butler, K.C., que era confundido com um mero *flâneur* por aqueles que compreendiam mal o caráter irlandês — e por aqueles que não tinham sido examinados por ele. A prova médica não envolveu contradições, o médico, que Seymour tinha convocado no local, concordando com o eminente cirurgião que tinha examinado o corpo mais tarde. Aurora Rome tinha sido esfaqueada com algum instrumento afiado como uma faca ou um punhal; algum instrumento, pelo menos, cuja lâmina era curta. A ferida era logo acima do coração, e ela tinha morrido instantaneamente. Quando o médico a viu pela primeira vez, dificilmente ela poderia estar morta há vinte minutos. Portanto, quando o Padre Brown a encontrou, dificilmente ela poderia estar morta há três.
Seguiu-se alguma prova oficial de detetives, preocupada principalmente com a presença ou ausência de qualquer prova de uma luta; a única sugestão disto era o rasgão do vestido no ombro, e isto não parecia encaixar particularmente bem com a direção e finalidade do golpe. Quando estes detalhes foram fornecidos, embora não explicados, a primeira das testemunhas importantes foi chamada.
Sir Wilson Seymour deu testemunho como fazia tudo o resto que fazia — não apenas bem, mas perfeitamente. Embora ele próprio muito mais um homem público do que o juiz, transmitiu exatamente o tom fino de auto-anulação perante a justiça do Rei; e embora todos olhassem para ele como fariam para o Primeiro-Ministro ou o Arcebispo de Canterbury, não poderiam ter dito nada da sua parte nisto senão que era a de um cavalheiro privado, com ênfase no substantivo. Ele foi também refrescantemente lúcido, como era nos comités. Tinha estado a visitar a Srta. Rome no teatro; tinha encontrado o Capitão Cutler lá; tinham sido acompanhados por um curto período pelo acusado, que tinha então regressado ao seu próprio camarim; tinham sido então acompanhados por um padre católico romano, que perguntou pela falecida senhora e disse que o seu nome era Brown. A Srta. Rome tinha então ido apenas fora do teatro para a entrada do corredor, a fim de apontar ao Capitão Cutler uma florista na qual ele deveria comprar-lhe mais flores; e a testemunha tinha permanecido no quarto, trocando algumas palavras com o padre. Ele tinha então ouvido distintamente a falecida, tendo enviado o Capitão na sua missão, virar-se a rir e correr pelo corredor em direção à sua outra extremidade, onde se encontrava o camarim do prisioneiro. Por curiosidade ociosa quanto ao movimento rápido dos seus amigos, ele tinha passeado até ao topo do corredor ele próprio e olhado para baixo em direção à porta do prisioneiro. Viu algo no corredor? Sim; viu algo no corredor.
Sir Walter Cowdray permitiu um intervalo impressionante, durante o qual a testemunha olhou para baixo e, apesar da sua compostura habitual, parecia ter mais do que a sua palidez habitual. Então o advogado disse numa voz mais baixa, que parecia ao mesmo tempo simpática e arrepiante: “Viu-o distintamente?”
Sir Wilson Seymour, por mais comovido que estivesse, tinha o seu excelente cérebro em pleno funcionamento. “Muito distintamente no que diz respeito ao seu contorno, mas bastante indistintamente, aliás de todo, no que diz respeito aos detalhes dentro do contorno. O corredor é de tal comprimento que qualquer pessoa no meio dele parece bastante negra contra a luz na outra extremidade.” A testemunha baixou os olhos fixos mais uma vez e acrescentou: “Eu tinha notado o facto antes, quando o Capitão Cutler entrou nele pela primeira vez.” Houve outro silêncio, e o juiz inclinou-se para a frente e tomou uma nota.
“Bem,” disse Sir Walter pacientemente, “como era o contorno? Era, por exemplo, como a figura da mulher assassinada?”
“Nem um pouco,” respondeu Seymour calmamente.
“Com que aspeto lhe pareceu?”
“Pareceu-me,” respondeu a testemunha, “como um homem alto.”
Todos no tribunal mantiveram os olhos cravados na sua caneta, ou no cabo do seu guarda-chuva, ou no seu livro, ou nas suas botas ou qualquer coisa para a qual estivessem a olhar. Pareciam estar a afastar os olhos do prisioneiro com força bruta; mas sentiam a sua figura no banco dos réus, e sentiam-na como gigantesca. Alto como Bruno era à vista, ele parecia inchar mais alto e mais alto quando os olhos tinham sido arrancados dele.
Cowdray estava a retomar o seu lugar com o seu rosto solene, alisando as suas vestes de seda preta, e suíças de seda branca. Sir Wilson estava a deixar a caixa das testemunhas, após alguns pormenores finais aos quais havia muitas outras testemunhas, quando o advogado de defesa saltou e deteve-o.
“Apenas o deterei por um momento,” disse o Sr. Butler, que era uma pessoa de aspeto rústico com sobrancelhas ruivas e uma expressão de sono parcial. “Dirá a Sua Excelência como sabia que era um homem?”
Um sorriso ténue e refinado pareceu passar pelas feições de Seymour. “Receio que seja o teste vulgar das calças,” disse ele. “Quando vi a luz do dia entre as pernas longas, tive a certeza de que era um homem, afinal.”
Os olhos sonolentos de Butler abriram-se tão subitamente como uma explosão silenciosa. “Afinal!” repetiu ele lentamente. “Então pensou ao princípio que era uma mulher?”
Seymour pareceu perturbado pela primeira vez. “Dificilmente é uma questão de facto,” disse ele, “mas se a Sua Excelência gostaria que eu respondesse pela minha impressão, claro que o farei. Havia algo sobre a coisa que não era exatamente uma mulher e, contudo, não era bem um homem; de alguma forma as curvas eram diferentes. E tinha algo que parecia cabelo comprido.”
“Obrigado,” disse o Sr. Butler, K.C., e sentou-se subitamente, como se tivesse obtido o que queria.
O Capitão Cutler foi uma testemunha muito menos plausível e composta do que Sir Wilson, mas o seu relato dos incidentes de abertura foi solidamente o mesmo. Descreveu o regresso de Bruno ao seu camarim, o envio de si próprio para comprar um ramo de lírios-do-vale, o seu regresso à extremidade superior do corredor, a coisa que viu no corredor, a sua suspeita sobre Seymour, e a sua luta com Bruno. Mas ele podia dar pouca assistência artística sobre a figura negra que ele e Seymour tinham visto. Perguntado sobre o seu contorno, disse que não era crítico de arte — com um escárnio um tanto demasiado óbvio para Seymour. Perguntado se era um homem ou uma mulher, disse que parecia mais uma besta — com um rosnar demasiado óbvio para o prisioneiro. Mas o homem estava claramente abalado com a tristeza e a raiva sincera, e Cowdray rapidamente desculpou-o de confirmar factos que já eram bastante claros.
O advogado de defesa também foi breve no seu contra-exame; embora (como era o seu costume) mesmo sendo breve, parecesse levar muito tempo com isso. “Usou uma expressão bastante notável,” disse ele, olhando para Cutler sonolentamente. “O que quer dizer com dizer que parecia mais uma besta do que um homem ou uma mulher?”
Cutler parecia seriamente agitado. “Talvez não devesse ter dito isso,” disse ele; “mas quando o bruto tem ombros enormes e curvados como um chimpanzé, e cerdas a sair da sua cabeça como um porco —”
O Sr. Butler cortou a sua curiosa impaciência a meio. “Não importa se o seu cabelo era como o de um porco,” disse ele, “era como o de uma mulher?”
“De uma mulher!” gritou o soldado. “Grande Scott, não!”
“A última testemunha disse que era,” comentou o advogado, com inescrupulosa rapidez. “E a figura tinha alguma daquelas curvas serpentinas e semi-femininas às quais foi feita eloquente alusão? Não? Sem curvas femininas? A figura, se bem entendo, era mais pesada e quadrada do que outra coisa?”
“Ele pode ter estado a inclinar-se para a frente,” disse Cutler, com uma voz rouca e bastante fraca.
“Ou então, pode não ter estado,” disse o Sr. Butler, e sentou-se subitamente pela segunda vez.
A terceira testemunha chamada por Sir Walter Cowdray foi o pequeno clérigo católico, tão pequeno, comparado com os outros, que a sua cabeça parecia dificilmente chegar acima da caixa, de modo que era como interrogar uma criança. Mas, infelizmente, Sir Walter tinha de alguma forma posto na cabeça (principalmente por algumas ramificações da religião da sua família) que o Padre Brown estava do lado do prisioneiro, porque o prisioneiro era perverso e estrangeiro e até parcialmente negro. Portanto, ele interrompeu o Padre Brown bruscamente sempre que aquele orgulhoso pontífice tentava explicar qualquer coisa; e disse-lhe para responder sim ou não, e dizer os factos simples sem qualquer jesuitismo. Quando o Padre Brown começou, na sua simplicidade, a dizer quem ele pensava que era o homem no corredor, o advogado disse-lhe que não queria as suas teorias.
“Uma forma negra foi vista no corredor. E o senhor diz que viu a forma negra. Bem, que forma era?”
O Padre Brown piscou os olhos como sob repreensão; mas ele sabia há muito a natureza literal da obediência. “A forma,” disse ele, “era curta e grossa, mas tinha duas projeções pretas afiadas curvadas para cima em cada lado da cabeça ou topo, bastante como chifres, e —”
“Oh! o diabo com chifres, sem dúvida,” exclamou Cowdray, sentando-se em triunfante jocosidade. “Era o diabo que veio comer protestantes.”
“Não,” disse o padre desapaixonadamente; “eu sei quem era.”
Aqueles no tribunal tinham sido levados a um sentido irracional, mas real, de alguma monstruosidade. Tinham esquecido a figura no banco dos réus e pensavam apenas na figura no corredor. E a figura no corredor, descrita por três homens capazes e respeitáveis que a tinham visto todos, era um pesadelo mutável: um chamou-lhe mulher, e o outro besta, e o outro diabo...
O juiz olhava para o Padre Brown com olhos nivelados e penetrantes. “O senhor é uma testemunha deveras extraordinária”, disse ele; “mas há algo em si que me leva a pensar que está a tentar dizer a verdade. Pois bem, quem era o homem que viu no corredor?”
“Era eu próprio”, disse o Padre Brown.
Butler, K.C., levantou-se num silêncio extraordinário e disse, bastante calmamente: “Vossa Excelência permitir-me-á o contraditório?” E então, sem parar, disparou contra Brown a pergunta aparentemente desconexa: “Ouviu falar deste punhal; sabe que os peritos dizem que o crime foi cometido com uma lâmina curta?”
“Uma lâmina curta”, assentiu Brown, acenando solenemente como uma coruja, “mas um cabo muito comprido.”
Antes que o público pudesse afastar totalmente a ideia de que o padre tinha realmente visto a si mesmo a cometer um homicídio com um punhal curto de cabo comprido (o que parecia, de algum modo, torná-lo mais horrível), ele apressou-se a explicar.
“Quero dizer que punhais não são as únicas coisas com lâminas curtas. Lanças têm lâminas curtas. E as lanças prendem-se na extremidade do aço tal como os punhais, se forem daquele tipo de lança de fantasia que usavam nos teatros; como a lança com que o pobre do velho Parkinson matou a mulher, precisamente quando ela tinha mandado chamar-me para resolver os seus problemas familiares — e cheguei tarde demais, que Deus me perdoe! Mas ele morreu arrependido — ele morreu simplesmente de estar arrependido. Não suportava o que tinha feito.”
A impressão geral no tribunal era que o pequeno padre, que falava atropeladamente, tinha literalmente enlouquecido no banco das testemunhas. Mas o juiz continuava a olhar para ele com olhos brilhantes e fixos de interesse; e o advogado de defesa continuou as suas perguntas sem se perturbar.
“Se Parkinson o fez com essa lança de pantomima”, disse Butler, “ele deve ter golpeado a quatro metros de distância. Como explica os sinais de luta, como o vestido arrancado do ombro?” Ele tinha caído no erro de tratar a sua mera testemunha como um perito; mas ninguém o notou agora.
“O vestido da pobre senhora estava rasgado”, disse a testemunha, “porque ficou preso num painel que deslizou para trás dela. Ela lutou para se libertar e, ao fazê-lo, Parkinson saiu do quarto do prisioneiro e investiu com a lança.”
“Um painel?” repetiu o advogado com uma voz curiosa.
“Era um espelho do outro lado”, explicou o Padre Brown. “Quando estive no quarto de vestir, reparei que alguns deles podiam provavelmente ser deslizados para o corredor.”
Houve outro silêncio vasto e antinatural, e desta vez foi o juiz quem falou. “Portanto, o senhor quer realmente dizer que, quando olhou para aquele corredor, o homem que viu era o senhor próprio — num espelho?”
“Sim, meritíssimo; era isso que eu estava a tentar dizer”, disse Brown, “mas pediram-me a forma; e os nossos chapéus têm cantos tal como chifres, e por isso eu...”
O juiz inclinou-se para a frente, os seus olhos idosos ainda mais brilhantes, e disse num tom especialmente distinto: “O senhor quer realmente dizer que, quando Sir Wilson Seymour viu aquele selvagem não-sei-quê com curvas e cabelo de mulher e calças de homem, o que ele viu foi Sir Wilson Seymour?”
“Sim, meritíssimo”, disse o Padre Brown.
“E quer dizer que, quando o Capitão Cutler viu aquele chimpanzé com ombros curvados e cerdas de porco, ele viu simplesmente a si mesmo?”
“Sim, meritíssimo.”
O juiz recostou-se na sua cadeira com uma exuberância na qual era difícil separar o cinismo da admiração. “E pode dizer-nos por que razão”, perguntou ele, “o senhor deveria reconhecer a sua própria figura num espelho, quando dois homens tão distintos não o fazem?”
O Padre Brown pestanejou ainda mais penosamente do que antes; depois gaguejou: “Na verdade, meritíssimo, não sei, a menos que seja porque não olho para ele tão frequentemente.”
CINCO — O Erro da Máquina
FLAMBEAU e o seu amigo padre estavam sentados nos Temple Gardens perto do pôr do sol; e a sua vizinhança ou alguma influência acidental do género tinha voltado a sua conversa para questões de processo legal. Do problema da licença no contraditório, a sua conversa desviou-se para a tortura romana e medieval, para o magistrado instrutor em França e o Terceiro Grau na América.
“Tenho estado a ler”, disse Flambeau, “sobre este novo método psicométrico de que tanto falam, especialmente na América. Sabe ao que me refiro; colocam um pulsómetro no pulso de um homem e julgam pelo modo como o seu coração bate à pronúncia de certas palavras. O que pensa disso?”
“Penso que é muito interessante”, respondeu o Padre Brown; “lembra-me aquela ideia interessante da Idade das Trevas de que o sangue fluiria de um cadáver se o assassino lhe tocasse.”
“O senhor quer realmente dizer”, questionou o seu amigo, “que pensa que os dois métodos são igualmente valiosos?”
“Penso que são igualmente sem valor”, respondeu Brown. “O sangue flui, rápido ou lento, em mortos ou vivos, por tantos milhões de razões mais do que alguma vez poderemos saber. O sangue terá de fluir de forma muito engraçada; o sangue terá de fluir montanha acima pelo Matterhorn, antes que eu o aceite como um sinal de que devo derramá-lo.”
“O método”, observou o outro, “foi garantido por alguns dos maiores homens de ciência americanos.”
“Que sentimentalistas os homens de ciência são!” exclamou o Padre Brown, “e quão mais sentimentalistas devem ser os homens de ciência americanos! Quem, a não ser um ianque, pensaria em provar algo a partir de batimentos cardíacos? Ora, eles devem ser tão sentimentais como um homem que pensa que uma mulher está apaixonada por ele se ela corar. Isso é um teste baseado na circulação do sangue, descoberto pelo imortal Harvey; e um teste bastante podre, também.”
“Mas certamente”, insistiu Flambeau, “poderia apontar bastante diretamente para algo ou outro.”
“Há uma desvantagem num pau que aponta diretamente”, respondeu o outro. “Qual é? Ora, a outra extremidade do pau aponta sempre para o lado oposto. Depende se se segura o pau pela extremidade certa. Vi a coisa ser feita uma vez e nunca mais acreditei nela.” E prosseguiu contando a história da sua desilusão.
Aconteceu há quase vinte anos, quando ele era capelão dos seus correligionários numa prisão em Chicago — onde a população irlandesa demonstrava uma capacidade tanto para o crime como para a penitência que o mantinha toleravelmente ocupado. O segundo no comando sob o Governador era um ex-detetive chamado Greywood Usher, um filósofo ianque cadavérico e de fala cuidadosa, alternando ocasionalmente uma fisionomia muito rígida com uma estranha careta apologética. Ele gostava do Padre Brown de uma forma ligeiramente paternalista; e o Padre Brown gostava dele, embora detestasse cordialmente as suas teorias. As suas teorias eram extremamente complicadas e eram mantidas com extrema simplicidade.
Uma noite, ele tinha mandado chamar o padre, que, segundo o seu costume, tomou um lugar em silêncio numa mesa empilhada e atulhada de papéis, e esperou. O funcionário selecionou dos papéis um recorte de jornal, que entregou ao clérigo, que o leu gravemente. Parecia ser um extrato de um dos jornais cor-de-rosa da Sociedade americana, e dizia o seguinte:
“O viúvo mais brilhante da sociedade está mais uma vez na jogada do Jantar de Aberrações. Todos os nossos cidadãos exclusivos recordarão o Jantar do Desfile de Carrinhos de Bebé, no qual Last-Trick Todd, na sua mansão palaciana em Pilgrim’s Pond, fez com que muitas das nossas debutantes proeminentes parecessem ainda mais jovens do que os seus anos. Igualmente elegante e mais variado e de espírito aberto na perspetiva social foi o espetáculo de Last-Trick do ano anterior, o popular Almoço de Esmagamento de Canibais, no qual os doces distribuídos foram sarcasticamente moldados nas formas de braços e pernas humanas, e durante o qual mais do que um dos nossos mais alegres ginastas mentais foi ouvido a oferecer-se para comer a sua parceira. O gracejo que inspirará esta noite está ainda no intelecto bastante reticente do Sr. Todd, ou trancado nos seios adornados de joias dos líderes mais alegres da nossa cidade; mas fala-se de uma bela paródia dos modos e costumes simples no outro extremo da escala da Sociedade. Isto seria ainda mais revelador, uma vez que o hospitaleiro Todd está a receber Lord Falconroy, o famoso viajante, um aristocrata de sangue puro vindo fresco dos carvalhais de Inglaterra. As viagens de Lord Falconroy começaram antes de o seu antigo título feudal ser ressuscitado, ele esteve na República na sua juventude, e a moda murmura uma razão astuta para o seu regresso. A Srta. Etta Todd é uma das nossas nova-iorquinas de alma profunda, e recebe um rendimento de quase mil e duzentos milhões de dólares.”
“Bem”, perguntou Usher, “isso interessa-lhe?”
“Ora, as palavras faltam-me um pouco”, respondeu o Padre Brown. “Não consigo pensar neste momento em nada neste mundo que me interessasse menos. E, a menos que a justa ira da República vá finalmente eletrocutar jornalistas por escreverem assim, não vejo bem porque deveria interessar-lhe também.”
“Ah!” disse o Sr. Usher secamente, entregando outro pedaço de jornal. “Bem, isso interessa-lhe?”
O parágrafo tinha o título “Selvagem Homicídio de um Guarda. Condenado Foge”, e dizia: “Pouco antes do amanhecer desta manhã, um grito de socorro foi ouvido na Colónia Penal de Sequah neste Estado. As autoridades, correndo na direção do grito, encontraram o cadáver do guarda que patrulha o topo do muro norte da prisão, a saída mais íngreme e difícil, para a qual um homem sempre foi considerado suficiente. O infeliz oficial tinha, contudo, sido atirado do muro alto, o seu cérebro esmagado como que com um taco, e a sua arma tinha desaparecido. Investigações posteriores mostraram que uma das celas estava vazia; tinha sido ocupada por um rufia bastante taciturno que deu o nome de Oscar Rian. Ele estava apenas temporariamente detido por um assalto comparativamente trivial; mas ele dava a todos a impressão de um homem com um passado negro e um futuro perigoso. Finalmente, quando a luz do dia revelou totalmente a cena do crime, descobriu-se que ele tinha escrito na parede acima do corpo uma frase fragmentária, aparentemente com um dedo mergulhado em sangue: ‘Isto foi em legítima defesa e ele tinha a arma. Não quis mal a ele nem a nenhum homem, exceto um. Estou a guardar a bala para Pilgrim’s Pond — O.R.’ Um homem deve ter usado a mais diabólica traição ou a mais selvagem e espantosa audácia física para ter assaltado tal muro apesar de um homem armado.”
“Bem, o estilo literário está algo melhorado”, admitiu o padre alegremente, “mas ainda não vejo o que posso fazer por si. Eu faria uma figura pobre, com as minhas pernas curtas, a correr por este Estado atrás de um assassino atlético desse tipo. Duvido que alguém o pudesse encontrar. A colónia penal de Sequah fica a trinta milhas daqui; o campo entretanto é selvagem e emaranhado o suficiente, e o campo além, para onde ele terá certamente o sentido de ir, é uma perfeita terra de ninguém que desce até às pradarias. Ele pode estar em qualquer buraco ou em cima de qualquer árvore.”
“Ele não está em nenhum buraco”, disse o governador; “ele não está em cima de nenhuma árvore.”
“Ora, como sabe?” perguntou o Padre Brown, piscando os olhos.
“Gostaria de falar com ele?” perguntou Usher.
O Padre Brown abriu bem os seus olhos inocentes. “Ele está aqui?” exclamou. “Ora, como é que os seus homens puseram as mãos nele?”
“Eu próprio pus as mãos nele”, arrastou o americano, levantando-se e esticando preguiçosamente as suas pernas compridas diante da lareira. “Pus as mãos nele com a extremidade curva de uma bengala. Não pareça tão surpreendido. Pus mesmo. Sabe que às vezes dou um passeio pelas estradas rurais fora deste lugar lúgubre; bem, eu estava a caminhar cedo esta noite por uma estrada íngreme com sebes escuras e campos lavrados de aspeto cinzento em ambos os lados; e uma lua nova estava no céu e prateava a estrada. À luz dela, vi um homem a correr através do campo em direção à estrada; a correr com o corpo curvado e num bom trote de milha de corrida. Parecia estar muito exausto; mas quando chegou à sebe preta e espessa, atravessou-a como se fosse feita de teias de aranha; — ou melhor (pois ouvi os ramos fortes a quebrar-se e a estalar como baionetas) como se ele próprio fosse feito de pedra. No instante em que apareceu contra a lua, atravessando a estrada, atirei a minha bengala com gancho às suas pernas, fazendo-o tropeçar e derrubando-o. Depois apitei longa e fortemente, e os nossos rapazes vieram a correr para o prender.”
“Teria sido bastante embaraçoso”, observou Brown, “se tivesse descoberto que ele era um atleta popular a praticar uma corrida de uma milha.”
“Não era”, disse Usher severamente. “Descobrimos logo quem ele era; mas eu já o tinha adivinhado com o primeiro vislumbre da lua sobre ele.”
“Pensou que era o condenado fugitivo”, observou o padre simplesmente, “porque tinha lido no recorte de jornal daquela manhã que um condenado tinha fugido.”
“Tive fundamentos um pouco melhores”, respondeu o governador friamente. “Deixo de lado o primeiro por ser demasiado simples para ser enfatizado — quero dizer que atletas da moda não correm através de campos lavrados nem arranham os olhos em sebes de silvas. Nem correm todos dobrados como um cão agachado. Havia detalhes mais decisivos para um olho razoavelmente bem treinado. O homem estava vestido com roupas grosseiras e esfarrapadas, mas eram algo mais do que meramente grosseiras e esfarrapadas. Eram tão mal ajustadas que eram bastante grotescas; mesmo tal como apareceu em contorno preto contra o nascer da lua, a gola do casaco em que a sua cabeça estava enterrada fazia-o parecer um corcunda, e as mangas longas e largas pareciam como se ele não tivesse mãos. Ocorreu-me de imediato que ele tinha conseguido de alguma forma trocar as suas roupas de condenado por roupas de algum cúmplice que não lhe serviam. Em segundo lugar, havia um vento bastante forte contra o qual ele corria; de modo que eu deveria ter visto o aspeto estriado do cabelo ao vento, se o cabelo não estivesse muito curto. Depois lembrei-me de que para além desses campos lavrados que ele estava a atravessar ficava Pilgrim’s Pond, para onde (lembrar-se-á) o condenado estava a guardar a sua bala; e enviei a minha bengala a voar.”
“Uma peça brilhante de dedução rápida”, disse o Padre Brown; “mas ele tinha uma arma?”
Como Usher parou abruptamente na sua caminhada, o padre acrescentou de forma apologética: “Disseram-me que uma bala não é metade tão útil sem ela.”
“Ele não tinha arma”, disse o outro gravemente; “mas isso deveu-se sem dúvida a algum azar natural ou mudança de planos. Provavelmente a mesma política que o fez mudar de roupa fê-lo largar a arma; ele começou a arrepender-se do casaco que tinha deixado para trás no sangue da sua vítima.”
“Bem, isso é bastante possível”, respondeu o padre.
“E dificilmente vale a pena especular sobre isso”, disse Usher, virando-se para outros papéis, “pois sabemos que é o homem a esta altura.”
O seu amigo clérigo perguntou fracamente: “Mas como?” E Greywood Usher atirou os jornais e pegou de novo nos dois recortes de imprensa.
“Bem, já que é tão obstinado”, disse ele, “comecemos pelo princípio. Notará que estes dois recortes só têm uma coisa em comum, que é a menção a Pilgrim’s Pond, a propriedade, como sabe, do milionário Ireton Todd. Também sabe que ele é uma personagem notável; um daqueles que subiu em degraus —”
“Dos nossos eus mortos para coisas mais elevadas”, assentiu o seu companheiro. “Sim; eu sei disso. Petróleo, penso eu.”
“Seja como for”, disse Usher, “Last-Trick Todd conta muito neste caso estranho.”
Ele esticou-se mais uma vez diante da lareira e continuou a falar no seu estilo expansivo e radiantemente explicativo.
“Para começar, à primeira vista, não há mistério algum aqui. Não é misterioso, nem é sequer estranho, que um presidiário leve a sua arma para Pilgrim’s Pond. As nossas gentes não são como os ingleses, que perdoam a um homem por ser rico se ele deitar dinheiro fora em hospitais ou cavalos. Last-Trick Todd tornou-se grande pelas suas próprias capacidades consideráveis; e não há dúvida de que muitos daqueles sobre os quais ele mostrou as suas capacidades gostariam de mostrar as deles sobre ele com uma caçadeira. Todd poderia facilmente ser abatido por qualquer homem de quem nunca tinha ouvido falar; algum trabalhador que ele tinha despedido, ou algum empregado num negócio que ele tinha feito falir. Last-Trick é um homem de dotes mentais e um alto caráter público; mas neste país as relações entre empregadores e empregados são consideravelmente tensas.
“É assim que a coisa toda parece supondo que este Rian se dirigiu a Pilgrim’s Pond para matar Todd. Assim me parecia a mim, até que outra pequena descoberta acordou o que tenho de detetive em mim. Quando tive o meu prisioneiro em segurança, apanhei a minha bengala de novo e passei pelas duas ou três curvas da estrada rural que me levaram a uma das entradas laterais dos terrenos de Todd, a mais próxima da poça ou lago que dá o nome ao lugar. Foi há cerca de duas horas, por volta das sete a esta altura; o luar estava mais luminoso, e eu podia ver as longas listas brancas de luz deitadas sobre o misterioso charco com as suas margens cinzentas, gordurentas e semilíquidas em que dizem que os nossos antepassados costumavam fazer as bruxas andar até se afundarem. Tinha-me esquecido do conto exato; mas sabe a que lugar me refiro; fica a norte da casa de Todd em direção ao ermo, e tem duas árvores enrugadas e estranhas, tão lúgubres que parecem mais enormes fungos do que folhagem decente. Enquanto estava ali a espreitar para esta poça enevoada, imaginei ver a figura ténue de um homem a mover-se da casa em direção a ela, mas estava tudo demasiado escuro e distante para se ter a certeza do facto, e ainda menos dos detalhes. Além disso, a minha atenção foi muito bruscamente detida por algo muito mais próximo. Agachei-me atrás da cerca que corria a não mais de duzentos metros de uma ala da grande mansão, e que estava felizmente rachada em alguns lugares, como se fosse especialmente para a aplicação de um olho cauteloso. Uma porta tinha-se aberto na massa escura da ala esquerda, e uma figura apareceu preta contra o interior iluminado — uma figura abafada inclinada para a frente, evidentemente espreitando para a noite. Fechou a porta atrás de si, e vi que levava uma lanterna, que lançava uma mancha de luz imperfeita sobre o vestido e a figura de quem a usava. Parecia ser a figura de uma mulher, envolta numa capa esfarrapada e evidentemente disfarçada para evitar ser notada; havia algo de muito estranho tanto nos trapos como na furtividade numa pessoa que saía daquelas salas forradas a ouro. Ela seguiu cautelosamente o caminho curvo do jardim que a trouxe a menos de cem jardas de mim — então ela levantou-se por um instante no terraço de relva que olha para o lago viscoso, e segurando a sua lanterna flamejante acima da cabeça, ela deliberadamente balançou-a três vezes de um lado para o outro como para um sinal. Enquanto a balançava pela segunda vez, um clarão da sua luz caiu por um momento sobre o seu próprio rosto, um rosto que eu conhecia. Ela estava anormalmente pálida, e a sua cabeça estava embrulhada no seu xale plebeu emprestado; mas tenho a certeza de que era Etta Todd, a filha do milionário.
“Ela refez os seus passos com igual segredo e a porta fechou-se atrás dela novamente. Eu estava prestes a saltar a cerca e segui-la, quando percebi que a febre de detetive que me tinha atraído para a aventura era bastante indigna; e que, numa capacidade mais autoritária, eu já tinha todas as cartas na minha mão. Estava apenas a virar-me quando um novo ruído rompeu a noite. Uma janela foi aberta num dos andares superiores, mas apenas na esquina da casa, de modo que eu não a podia ver; e uma voz de terrível clareza foi ouvida a gritar através do jardim escuro para saber onde estava Lord Falconroy, pois ele estava desaparecido de todas as salas da casa. Não havia como confundir aquela voz. Já a ouvi em muitas tribunas políticas ou reuniões de diretores; era o próprio Ireton Todd. Alguns dos outros pareciam ter ido para as janelas de baixo ou para os degraus, e estavam a chamar por ele dizendo que Falconroy tinha ido dar um passeio até Pilgrim’s Pond uma hora antes, e que não podia ser localizado desde então. Então Todd gritou ‘Terrível Homicídio!’ e fechou a janela violentamente; e eu podia ouvi-lo a descer as escadas lá dentro. Retomando o meu anterior e mais sensato propósito, saí do caminho da busca geral que se devia seguir; e regressei aqui não mais tarde das oito horas.”
“Peço-lhe agora que se recorde daquele pequeno parágrafo da Sociedade que lhe pareceu tão dolorosamente desprovido de interesse. Se o condenado não estava a guardar o tiro para Todd, como evidentemente não estava, é muito provável que o estivesse a guardar para Lord Falconroy; e parece que ele entregou a mercadoria. Não há lugar mais prático para alvejar um homem do que nos curiosos arredores geológicos daquele lago, onde um corpo atirado lá para dentro afundar-se-ia através de um lodo espesso a uma profundidade praticamente desconhecida. Suponhamos, então, que o nosso amigo de cabelo rapado veio para matar Falconroy e não Todd. Mas, como salientei, há muitas razões pelas quais pessoas na América poderiam querer matar Todd. Não há razão para que alguém na América queira matar um lorde inglês recém-chegado, exceto pela única razão mencionada no jornal cor-de-rosa: a de que o lorde está a cortejar a filha do milionário. O nosso amigo de cabelo rapado, apesar das suas roupas mal ajustadas, deve ser um amante ambicioso.
“Sei que a ideia lhe parecerá chocante e até cómica; mas isso é porque é inglês. Soa-lhe como dizer que a filha do Arcebispo da Cantuária se casará em St. George’s, Hanover Square, com um varredor de rua em liberdade condicional. Não faz justiça ao poder de ascensão e ambição dos nossos cidadãos mais notáveis. Vê um homem de meia-idade, de boa aparência, em trajes de noite e com um ar de autoridade, sabe que ele é um pilar do Estado e imagina que ele teve um pai. Está enganado. Não se apercebe de que, há relativamente poucos anos, ele pode ter estado num cortiço ou (muito provavelmente) numa cadeia. Não tem em conta a nossa vivacidade e elevação nacional. Muitos dos nossos cidadãos mais influentes não só subiram recentemente, como subiram relativamente tarde na vida. A filha de Todd tinha já dezoito anos quando o pai fez a sua fortuna; por isso, não há realmente nada de impossível em ela ter um pretendente das classes baixas; ou mesmo em ela se manter ligada a ele, como penso que deve estar a fazer, a julgar pelo assunto da lanterna. Se assim for, a mão que segurava a lanterna pode não estar desligada da mão que segurava a arma. Este caso, senhor, fará barulho.”
“Bem”, disse o padre pacientemente, “e o que fez a seguir?”
“Calculo que ficará chocado”, respondeu Greywood Usher, “pois sei que não é adepto do progresso da ciência nestas matérias. Tenho muita discrição aqui e, talvez, aceite um pouco mais do que me é dada; e achei que era uma excelente oportunidade para testar aquela Máquina Psicométrica de que lhe falei. Ora, na minha opinião, essa máquina não pode mentir.”
“Nenhuma máquina pode mentir”, disse o Padre Brown; “nem pode dizer a verdade.”
“Disse neste caso, como lhe vou mostrar”, continuou Usher positivamente. “Sentei o homem das roupas mal ajustadas numa cadeira confortável e escrevi simplesmente palavras num quadro-negro; e a máquina registou simplesmente as variações do seu pulso; e eu observei simplesmente o seu comportamento. O truque é introduzir uma palavra relacionada com o suposto crime numa lista de palavras relacionadas com algo completamente diferente, mas uma lista em que ela ocorre naturalmente. Assim, escrevi ‘garça’, ‘águia’ e ‘coruja’, e quando escrevi ‘falcão’ ele ficou tremendamente agitado; e quando comecei a fazer um ‘r’ no fim da palavra, aquela máquina simplesmente deu um salto. Quem mais nesta república tem alguma razão para sobressaltar-se com o nome de um inglês recém-chegado como Falconroy, exceto o homem que o alvejou? Não é isso uma prova melhor do que um monte de tagarelice de testemunhas — se a prova de uma máquina fiável?”
“Esquece-se sempre”, observou o seu companheiro, “de que a máquina fiável tem sempre de ser manuseada por uma máquina pouco fiável.”
“Ora, o que quer dizer?”, perguntou o detetive.
“Refiro-me ao Homem”, disse o Padre Brown, “a máquina mais pouco fiável que conheço. Não quero ser rude; e não creio que considere ‘Homem’ como uma descrição ofensiva ou imprecisa de si próprio. Diz que observou o comportamento dele; mas como sabe que o observou corretamente? Diz que as palavras têm de surgir de forma natural; mas como sabe que o fez naturalmente? Como sabe, se formos por aí, que ele não observou o seu comportamento? Quem provará que não estava tremendamente agitado? Não havia máquina ligada ao seu pulso.”
“Digo-lhe”, gritou o americano com a maior das excitações, “que estava tão calmo como um pepino.”
“Os criminosos também podem estar tão calmos como pepinos”, disse Brown com um sorriso. “E quase tão calmos como você.”
“Bem, este não estava”, disse Usher, atirando com os papéis. “Oh, você cansa-me!”
“Lamento”, disse o outro. “Limito-me a apontar o que me parece uma possibilidade razoável. Se podia dizer pelo comportamento dele quando a palavra que o podia enforcar surgia, porque não haveria ele de dizer pelo seu comportamento que a palavra que o podia enforcar estava a chegar? Eu próprio pediria mais do que palavras antes de enforcar alguém.”
Usher bateu na mesa e levantou-se num tipo de triunfo zangado.
“E isso”, exclamou ele, “é exatamente o que lhe vou dar. Tentei a máquina primeiro apenas para testar a coisa de outras maneiras depois, e a máquina, senhor, tem razão.”
Fez uma pausa por um momento e retomou com menos entusiasmo. “Quero insistir, se chegarmos a esse ponto, que até agora tive muito pouco em que me basear, exceto na experiência científica. Não havia realmente nada contra o homem. As suas roupas estavam mal ajustadas, como disse, mas eram, na verdade, melhores do que as da classe submersa a que ele evidentemente pertencia. Além disso, sob todas as manchas de ter atravessado campos arados ou de ter rebentado através de sebes poeirentas, o homem estava relativamente limpo. Isto poderia significar, claro, que ele tinha acabado de fugir da prisão; mas lembrou-me mais a decência desesperada dos pobres relativamente respeitáveis. O seu comportamento era, sou obrigado a confessar, totalmente de acordo com o deles. Ele era silencioso e digno como eles são; parecia ter uma mágoa grande, mas oculta, como eles têm. Professou total ignorância do crime e de toda a questão; e não mostrou nada a não ser uma impaciência taciturna por algo sensato que pudesse vir para o tirar do seu apuro sem sentido. Perguntou-me mais do que uma vez se podia telefonar a um advogado que o tinha ajudado há muito tempo numa disputa comercial e, em todos os sentidos, agiu como seria de esperar que um homem inocente agisse. Não havia nada contra ele no mundo, exceto aquele pequeno dedo no mostrador que apontava para a alteração do seu pulso.”
“Então, senhor, a máquina estava a ser testada; e a máquina tinha razão. Quando saí com ele da sala privada para o vestíbulo, onde todo o tipo de outras pessoas aguardava exame, penso que ele já tinha mais ou menos decidido esclarecer as coisas com algo semelhante a uma confissão. Virou-se para mim e começou a dizer em voz baixa: ‘Oh, não aguento mais isto. Se tem de saber tudo sobre mim...’”
“No mesmo instante, uma das pobres mulheres sentadas no longo banco levantou-se, gritando alto e apontando para ele com o dedo. Nunca na minha vida ouvi nada mais demoniacamente distinto. O seu dedo magro parecia escolhê-lo como se fosse uma zarabatana. Embora a palavra fosse apenas um uivo, cada sílaba era tão clara como uma batida separada no relógio.”
“‘Drugger Davis!’ gritou ela. ‘Eles apanharam o Drugger Davis!’”
“Entre as mulheres miseráveis, na sua maioria ladras e prostitutas, vinte rostos viraram-se, boquiabertos de alegria e ódio. Se nunca tivesse ouvido as palavras, teria sabido pelo próprio choque nas suas feições que o chamado Oscar Rian tinha ouvido o seu verdadeiro nome. Mas não sou tão ignorante, poderá surpreender-se ao ouvir. Drugger Davis foi um dos criminosos mais terríveis e depravados que alguma vez confundiu a nossa polícia. É certo que ele cometera homicídio mais do que uma vez muito antes do seu último feito com o carcereiro. Mas nunca foi totalmente apanhado por isso, curiosamente, porque o fazia da mesma maneira que aqueles crimes mais leves — ou mais vis — pelos quais era apanhado com bastante frequência. Ele era um bruto de aparência elegante e bem-educado, como ainda é, em certa medida; e costumava andar quase sempre com empregadas de bar ou de loja e tirar-lhes o dinheiro. Muitas vezes, porém, ia muito mais longe; e elas eram encontradas drogadas com cigarros ou chocolates e todos os seus bens em falta. Depois veio um caso em que a rapariga foi encontrada morta; mas a deliberação não pôde ser totalmente provada e, o que era ainda mais prático, o criminoso não pôde ser encontrado. Ouvi um rumor de ele ter reaparecido algures com o caráter oposto desta vez, emprestando dinheiro em vez de o pedir emprestado; mas ainda assim a viúvas pobres que pudesse fascinar pessoalmente, mas ainda assim com o mesmo mau resultado para elas. Bem, aí tem o seu homem inocente e aí tem o seu registo inocente. Mesmo desde então, quatro criminosos e três carcereiros identificaram-no e confirmaram a história. Agora, o que tem a dizer à minha pobre pequena máquina depois disso? A máquina não deu cabo dele? Ou prefere dizer que a mulher e eu demos cabo dele?”
“Quanto ao que deu cabo dele”, respondeu o Padre Brown, levantando-se e sacudindo-se de uma forma desleixada, “salvou-o da cadeira elétrica. Não creio que possam matar Drugger Davis com essa velha história vaga do veneno; e quanto ao condenado que matou o carcereiro, suponho que é óbvio que não o apanharam. O Sr. Davis é inocente desse crime, pelo menos.”
“O que quer dizer?”, exigiu o outro. “Porque haveria ele de ser inocente desse crime?”
“Ora, valha-nos Deus!”, exclamou o pequeno homem num dos seus raros momentos de animação, “ora, porque ele é culpado dos outros crimes! Não sei de que são feitas as pessoas como você. Parecem pensar que todos os pecados são mantidos juntos num saco. Fala como se um avarento à segunda-feira fosse sempre um perdulário à terça-feira. Diz-me que este homem que aqui tem passou semanas e meses a convencer mulheres necessitadas a entregar-lhe pequenas quantias de dinheiro; que usou uma droga na melhor das hipóteses, e um veneno na pior; que apareceu depois como o tipo mais baixo de agiota e enganou a maior parte das pessoas pobres no mesmo estilo paciente e pacífico. Admita-se — admitamos, para fins de argumentação, que ele fez tudo isto. Se assim é, dir-lhe-ei o que ele não fez. Ele não assaltou um muro com espigões contra um homem com uma arma carregada. Ele não escreveu na parede com a sua própria mão a dizer que o tinha feito. Ele não parou para declarar que a sua justificação era a legítima defesa. Ele não explicou que não tinha qualquer zanga com o pobre carcereiro. Ele não nomeou a casa do homem rico para onde se dirigia com a arma. Ele não escreveu as suas próprias iniciais no sangue de um homem. Santos vivos! Não consegue ver que o caráter é todo diferente, no bem e no mal? Ora, você não parece ser nada como eu. Dir-se-ia que nunca teve vícios seus.”
O americano espantado já tinha aberto os lábios em protesto quando a porta da sua sala privada e oficial foi batida e sacudida de uma forma pouco cerimoniosa à qual ele estava totalmente desacostumado.
A porta abriu-se de rompante. No momento anterior, Greywood Usher tinha chegado à conclusão de que o Padre Brown poderia possivelmente estar louco. No momento seguinte, começou a pensar que ele próprio estava louco. Irrompeu e caiu na sua sala privada um homem em trapos imundos, com um chapéu de feltro gorduroso ainda torto na cabeça e uma pala verde gasta empurrada para cima de um dos seus olhos, cujos dois brilhavam como os de um tigre. O resto do seu rosto era quase impossível de descobrir, estando mascarado por uma barba e bigodes emaranhados através dos quais o nariz mal podia sobressair, e ainda enterrado num lenço ou cachecol vermelho sórdido. O Sr. Usher gabava-se de ter visto a maioria dos espécimes mais rudes do Estado, mas achou que nunca tinha visto tal babuíno vestido de espantalho como este. Mas, acima de tudo, nunca em toda a sua existência científica e plácida tinha ouvido um homem como aquele falar-lhe primeiro.
“Olhe aqui, velho Usher”, gritou o ser do lenço vermelho, “estou a ficar cansado. Não tente nenhum dos seus jogos de esconde-esconde comigo; não me deixo enganar. Solte os meus convidados e eu desisto da engrenagem sofisticada. Mantenha-o aqui por um breve instante e sentir-se-á muito mal. Acho que não sou um homem sem influência.”
O eminente Usher observava o monstro aos berros com um espanto que tinha secado todos os outros sentimentos. O mero choque para os seus olhos tinha tornado os seus ouvidos quase inúteis. Finalmente, tocou uma campainha com uma mão violenta. Enquanto a campainha ainda soava forte e a tocar, a voz do Padre Brown soou suave mas distinta.
“Tenho uma sugestão a fazer”, disse ele, “mas parece um pouco confusa. Não conheço este cavalheiro — mas — mas penso que o conheço. Ora, você conhece-o — conhece-o muito bem — mas não o conhece — naturalmente. Soa paradoxal, eu sei.”
“Calculo que o Cosmos esteja rachado”, disse Usher, e caiu estatelado na sua cadeira de escritório redonda.
“Ora, veja aqui”, vociferou o estranho, batendo na mesa, mas falando com uma voz que era tanto mais misteriosa quanto era comparativamente suave e racional, embora ainda retumbante. “Não o deixarei entrar. Eu quero...”
“Quem raio é você?”, gritou Usher, sentando-se subitamente em linha reta.
“Penso que o nome do cavalheiro é Todd”, disse o padre.
Depois, pegou no recorte cor-de-rosa do jornal.
“Receio que não leia os jornais da Sociedade devidamente”, disse ele, e começou a ler com uma voz monótona: “‘Ou trancados nos peitos cravejados de joias dos líderes mais alegres da nossa cidade; mas fala-se de uma bonita paródia dos costumes e hábitos do outro extremo da escala da Sociedade’. Houve um grande Jantar de Favela em Pilgrim’s Pond esta noite; e um homem, um dos convidados, desapareceu. O Sr. Ireton Todd é um bom anfitrião e seguiu-o até aqui, sem sequer esperar para tirar o seu traje de fantasia.”
“Que homem quer dizer?”
“Refiro-me ao homem com roupas comicamente mal ajustadas que viu a correr pelo campo arado. Não seria melhor ir investigar? Ele estará bastante impaciente por regressar ao seu champanhe, de onde fugiu com tanta pressa, quando o condenado com a arma apareceu no horizonte.”
“Diz seriamente...” começou o funcionário.
“Ora, veja aqui, Sr. Usher”, disse o Padre Brown calmamente, “você disse que a máquina não podia cometer um erro; e, num certo sentido, não cometeu. Mas a outra máquina cometeu; a máquina que a manuseou. Você assumiu que o homem em trapos se sobressaltou com o nome de Lord Falconroy porque ele era o assassino de Lord Falconroy. Ele sobressaltou-se com o nome de Lord Falconroy porque ele é Lord Falconroy.”
“Então porque diabo não o disse?”, exigiu o Usher, de olhos arregalados.
“Ele sentiu que a sua situação e pânico recente não eram muito patrícios”, respondeu o padre, “por isso tentou guardar o nome no início. Mas estava prestes a dizê-lo, quando” — e o Padre Brown olhou para as suas botas — “quando uma mulher encontrou outro nome para ele.”
“Mas não pode ser tão louco ao ponto de dizer”, disse Greywood Usher, muito pálido, “que Lord Falconroy era Drugger Davis.”
O padre olhou para ele muito seriamente, mas com um rosto desconcertante e indecifrável.
“Não estou a dizer nada sobre isso”, disse ele. “Deixo tudo o resto para si. O seu jornal cor-de-rosa diz que o título foi recentemente reavivado para ele; mas esses jornais são muito pouco fiáveis. Diz que ele esteve nos Estados Unidos na juventude; mas toda a história parece muito estranha. Davis e Falconroy são ambos covardes bastante consideráveis, mas também o são muitos outros homens. Eu não enforcaria um cão com base na minha própria opinião sobre isto. Mas penso”, continuou suave e reflexivamente, “penso que vocês, americanos, são demasiado modestos. Penso que idealizam a aristocracia inglesa — mesmo ao assumir que é tão aristocrática. Vê um inglês de boa aparência em trajes de noite; sabe que ele está na Câmara dos Lordes; e imagina que ele teve um pai. Não tem em conta a nossa vivacidade e elevação nacional. Muitos dos nossos nobres mais influentes não só subiram recentemente, como...”
“Oh, pare com isso!”, gritou Greywood Usher, torcendo uma mão magra em impaciência contra um tom de ironia no rosto do outro.
“Não fique a falar com este lunático!”, gritou Todd brutalmente. “Leve-me ao meu amigo.”
Na manhã seguinte, o Padre Brown apareceu com a mesma expressão recatada, carregando mais um pedaço de jornal cor-de-rosa.
“Receio que negligencie bastante a imprensa da moda”, disse ele, “mas este recorte pode interessar-lhe.”
Usher leu os títulos: “Foliões Perdidos da Última Jogada: Incidente Alegre perto de Pilgrim’s Pond.” O parágrafo continuava: “Uma ocorrência risível teve lugar fora da Garagem de Automóveis de Wilkinson ontem à noite. Um polícia em serviço teve a sua atenção chamada por arruaceiros para um homem com traje de prisão que entrava com considerável frieza no lugar do condutor de um Panhard de classe bastante elevada; era acompanhado por uma rapariga enrolada num xaile esfarrapado. Com a interferência da polícia, a jovem mulher afastou o xaile e todos reconheceram a filha do milionário Todd, que tinha acabado de vir do Jantar de Entidades da Favela no Pond, onde todos os convidados mais selecionados estavam em desleixo semelhante. Ela e o cavalheiro que tinha vestido o uniforme da prisão iam dar o habitual passeio de prazer.”
Sob o recorte cor-de-rosa, o Sr. Usher encontrou uma tira de um jornal mais recente, com o título: “Fuga Espantosa da Filha de Milionário com Condenado. Ela tinha Organizado Jantar de Entidades. Agora a salvo em...”
O Sr. Greywood Usher levantou os olhos, mas o Padre Brown tinha ido embora.
SEIS — A Cabeça de César
Existe algures em Brompton ou Kensington uma avenida interminável de casas altas, ricas, mas em grande parte vazias, que parece um terraço de túmulos. Os próprios degraus que levam às portas escuras da frente parecem tão íngremes como o lado das pirâmides; hesitar-se-ia em bater à porta, com medo de que fosse aberta por uma múmia. Mas uma característica ainda mais deprimente na fachada cinzenta é o seu comprimento telescópico e continuidade imutável. O peregrino que caminha por ela começa a pensar que nunca encontrará uma interrupção ou uma esquina; mas há uma exceção — muito pequena, mas saudada pelo peregrino quase com um grito. Há uma espécie de estrebaria entre duas das mansões altas, uma mera fenda como a fresta de uma porta em comparação com a rua, mas apenas grande o suficiente para permitir que uma taberna ou casa de comida pigmeia, ainda permitida pelos ricos aos seus cavalariços, permaneça no ângulo. Há algo de alegre na sua própria sujidade, e algo de livre e élfico na sua própria insignificância. Aos pés daqueles gigantes de pedra cinzenta, parece uma casa iluminada de anões.
Qualquer pessoa que passasse pelo local durante uma certa noite de outono, ela própria quase feérica, poderia ter visto uma mão puxar a meia-cortina vermelha que (juntamente com algumas letras brancas grandes) escondia metade do interior da rua, e um rosto espreitar para fora, não muito diferente do de um duende bastante inocente. Era, de facto, o rosto de alguém com o inofensivo nome humano de Brown, outrora padre de Cobhole em Essex, e agora a trabalhar em Londres. O seu amigo, Flambeau, um investigador semioficial, estava sentado à sua frente, a fazer as suas últimas anotações sobre um caso que tinha resolvido nas redondezas. Estavam sentados a uma pequena mesa, perto da janela, quando o padre puxou a cortina para trás e olhou para fora. Esperou até que um estranho na rua passasse pela janela, para deixar a cortina cair novamente no seu lugar. Depois, os seus olhos redondos rolaram para as grandes letras brancas na janela acima da sua cabeça e, em seguida, desviaram-se para a mesa ao lado, na qual estavam sentados apenas um trabalhador braçal com cerveja e queijo, e uma jovem rapariga de cabelos ruivos com um copo de leite. Então (vendo o seu amigo guardar o caderno de apontamentos), disse suavemente:
— Se tiver dez minutos, gostaria que seguisse aquele homem com o nariz falso.
Flambeau ergueu os olhos com surpresa; mas a rapariga de cabelos ruivos também levantou os seus, e com algo que era mais forte do que o espanto. Estava vestida de forma simples, quase desleixada, com um tecido de estopa castanho-claro; mas era uma dama e, num segundo olhar, até uma dama desnecessariamente altiva.
— O homem com o nariz falso! — repetiu Flambeau. — Quem é ele?
— Não faço a mínima ideia — respondeu o Padre Brown. — Quero que descubra; peço-o como um favor. Ele desceu por ali — e apontou o polegar por cima do ombro num dos seus gestos indistintos — e não pode ter passado por três candeeiros ainda. Só quero saber a direção.
Flambeau fitou o amigo durante algum tempo, com uma expressão entre a perplexidade e a diversão; e depois, levantando-se da mesa, espremeu a sua forma gigantesca pela pequena porta da taverna anã e dissolveu-se no crepúsculo.
O Padre Brown tirou um pequeno livro do bolso e começou a ler com atenção; não demonstrou consciência do facto de a senhora ruiva ter deixado a sua própria mesa e se ter sentado à frente dele. Por fim, ela inclinou-se e disse com uma voz baixa e forte:
— Por que diz isso? Como sabe que é falso?
Ele levantou as pálpebras, bastante pesadas, que pestanejaram com um embaraço considerável. Depois, o seu olhar dúbio vagueou novamente para as letras brancas na fachada de vidro da taberna. Os olhos da jovem seguiram os dele e repousaram ali também, mas em pura perplexidade.
— Não — disse o Padre Brown, respondendo aos pensamentos dela. — Não diz "Sela", como a coisa nos Salmos; eu próprio li assim quando estava a divagar agora mesmo; diz "Ales".
— Bem? — inquiriu a jovem, a fitá-lo. — Que importa o que diz?
O seu olhar ruminante percorreu a manga de lona clara da rapariga, à volta do pulso da qual corria um fio muito ténue de padrão artístico, apenas o suficiente para a distinguir do vestido de trabalho de uma mulher comum e torná-lo mais semelhante ao vestido de trabalho de uma estudante de artes. Pareceu encontrar muita matéria para reflexão nisto; mas a sua resposta foi muito lenta e hesitante.
— Sabe, minha senhora — disse ele —, vista de fora, a taberna parece... bem, é um lugar perfeitamente decente... mas senhoras como a senhora não... não costumam pensar assim. Nunca entram nesses lugares por escolha, exceto...
— Exceto? — repetiu ela.
— Exceto umas poucas infelizes que não entram para beber leite.
— É uma pessoa muito singular — disse a jovem. — Qual é o seu objetivo com tudo isto?
— Não a incomodar com isso — respondeu ele, muito gentilmente. — Apenas armar-me com conhecimento suficiente para a ajudar, se algum dia me pedir ajuda livremente.
— Mas por que haveria eu de precisar de ajuda?
Ele continuou o seu monólogo sonhador.
— A senhora não poderia ter entrado para ver protegidas, amigos humildes, esse tipo de coisas, ou teria passado para a sala interior... e não poderia ter entrado por estar doente, ou teria falado com a mulher do estabelecimento, que é obviamente respeitável... além disso, a senhora não parece doente desse modo, apenas infeliz... Esta rua é a única viela longa e original que não tem curvas; e as casas em ambos os lados estão fechadas... Só pude supor que a senhora viu alguém a aproximar-se que não queria encontrar; e achou que a taberna era o único refúgio neste deserto de pedra... Não creio ter excedido a licença de um estranho ao olhar para o único homem que passou imediatamente a seguir... E como achei que ele parecia o tipo errado... e a senhora parecia o tipo certo... mantive-me pronto a ajudar se ele a aborrecesse; é só isso. Quanto ao meu amigo, ele voltará em breve; e certamente não conseguirá descobrir nada percorrendo uma estrada como esta... Eu não achava que ele pudesse.
— Então por que o enviou lá para fora? — exclamou ela, inclinando-se para a frente com uma curiosidade ainda mais viva. Ela tinha o rosto orgulhoso e impetuoso que acompanha os tons avermelhados, e um nariz romano, como o de Maria Antonieta.
Ele olhou para ela fixamente pela primeira vez e disse:
— Porque esperava que a senhora falasse comigo.
Ela olhou-o de volta durante algum tempo com o rosto corado, onde pairava uma sombra vermelha de raiva; então, apesar das suas ansiedades, o humor irrompeu nos seus olhos e nos cantos da boca, e ela respondeu quase severamente:
— Bem, se está tão interessado na minha conversa, talvez responda à minha pergunta. — Após uma pausa, acrescentou: — Tive a honra de lhe perguntar por que achou que o nariz do homem era falso.
— A cera mancha sempre um pouco assim com este tempo — respondeu o Padre Brown com total simplicidade.
— Mas é um nariz tão torto — protestou a rapariga ruiva.
O padre sorriu por sua vez.
— Não digo que seja o tipo de nariz que alguém usaria por mera vaidade — admitiu ele. — Este homem, creio eu, usa-o porque o seu nariz verdadeiro é muito mais bonito.
— Mas porquê? — insistiu ela.
— Qual é a rima infantil? — observou Brown distraidamente. — Havia um homem torto e ele percorreu uma milha torta... Esse homem, creio, percorreu uma estrada muito torta... seguindo o seu nariz.
— Ora, o que é que ele fez? — exigiu ela, um tanto trémula.
— Não quero forçar a sua confiança nem por um fio — disse o Padre Brown, muito calmamente. — Mas acho que a senhora me poderia dizer mais sobre isso do que eu posso dizer-lhe.
A rapariga saltou para os pés e ficou muito quieta, mas com as mãos cerradas, como alguém prestes a afastar-se a grandes passos; depois, as suas mãos relaxaram lentamente e ela sentou-se novamente.
— É mais um mistério do que todos os outros — disse ela desesperadamente —, mas sinto que pode haver um coração no seu mistério.
— O que todos mais tememos — disse o padre em voz baixa — é um labirinto sem centro. É por isso que o ateísmo é apenas um pesadelo.
— Contar-lhe-ei tudo — disse a rapariga ruiva teimosamente —, exceto a razão pela qual lhe estou a contar; isso nem eu sei.
Ela mexeu na toalha de mesa remendada e continuou:
— O senhor parece saber o que não é esnobismo, assim como o que é; e quando digo que a nossa é uma boa e velha família, entenderá que é uma parte necessária da história; de facto, o meu maior perigo são as noções rígidas do meu irmão, *noblesse oblige* e tudo o resto. Bem, o meu nome é Christabel Carstairs; e o meu pai era aquele Coronel Carstairs de quem provavelmente já ouviu falar, que fez a famosa Coleção Carstairs de moedas romanas. Nunca conseguiria descrever-lhe o meu pai; o mais próximo que posso dizer é que ele próprio era muito parecido com uma moeda romana. Era tão bonito, tão genuíno, tão valioso, tão metálico e tão antiquado. Ele orgulhava-se mais da sua Coleção do que do seu brasão — ninguém poderia dizer mais do que isso. O seu carácter extraordinário manifestou-se sobretudo no seu testamento. Ele tinha dois filhos e uma filha. Desentendeu-se com um dos filhos, o meu irmão Giles, e mandou-o para a Austrália com uma pequena mesada. Depois, fez um testamento deixando a Coleção Carstairs, também com uma mesada ainda menor, ao meu irmão Arthur. Ele tencionava que fosse uma recompensa, como a maior honra que podia oferecer, em reconhecimento da lealdade e retidão de Arthur e das distinções que ele já tinha alcançado em matemática e economia em Cambridge. Deixou-me praticamente toda a sua fortuna, que era bastante grande; e tenho a certeza de que o fez com desprezo.
— Arthur, pode dizer-se, poderia ter motivos para se queixar disto; mas Arthur é o meu pai em pessoa. Embora tivesse tido algumas divergências com o meu pai na juventude, assim que tomou conta da Coleção, tornou-se como um sacerdote pagão dedicado a um templo. Misturava estas moedas romanas com a honra da família Carstairs da mesma forma rígida e idólatra que o seu pai antes dele. Agia como se o dinheiro romano tivesse de ser guardado por todas as virtudes romanas. Não tinha prazeres; não gastava nada consigo mesmo; vivia para a Coleção. Muitas vezes, não se dava ao trabalho de se vestir para as suas refeições simples; mas andava por ali, entre os embrulhos de papel pardo atados com corda (que ninguém mais podia tocar), com um velho robe castanho. Com o seu cordão e borlas e o seu rosto pálido, magro e refinado, fazia com que parecesse um velho monge asceta. De vez em quando, no entanto, aparecia vestido como um cavalheiro decididamente elegante; mas isso era apenas quando ia às vendas ou lojas de Londres para fazer uma adição à Coleção Carstairs.
— Ora, se já conheceu jovens, não ficará chocado se eu disser que entrei num estado de espírito bastante baixo com tudo isto; o estado de espírito em que se começa a dizer que os antigos Romanos estavam muito bem à sua maneira. Não sou como o meu irmão Arthur; não consigo evitar gostar de desfrutar. Recebi muito romance e disparates de onde recebi os meus cabelos ruivos, do outro lado da família. O pobre Giles era igual; e acho que a atmosfera das moedas pode contar como desculpa para ele; embora ele tenha realmente feito algo de errado e quase tenha ido para a prisão. Mas ele não se comportou pior do que eu; como ouvirá.
— Chego agora à parte tola da história. Acho que um homem tão inteligente como o senhor pode adivinhar o tipo de coisa que começaria a aliviar a monotonia para uma rapariga indisciplinada de dezassete anos colocada nessa posição. Mas estou tão perturbada com coisas mais terríveis que mal consigo ler o meu próprio sentimento; e não sei se o desprezo agora como um flirt ou se o suporto como um coração partido. Vivíamos então numa pequena estância balnear no Sul do País de Gales, e um capitão do mar reformado que vivia a poucas portas de distância tinha um filho uns cinco anos mais velho do que eu, que tinha sido amigo de Giles antes de ele ir para as Colónias. O nome dele não afeta a minha história; mas digo-lhe que era Philip Hawker, porque lhe estou a contar tudo. Costumávamos ir apanhar camarões juntos e dizíamos, e pensávamos, que estávamos apaixonados um pelo outro; pelo menos ele certamente dizia que estava, e eu certamente pensava que estava. Se lhe digo que ele tinha cabelos encaracolados cor de bronze e um rosto tipo falcão, também bronzeado pelo mar, não é por causa dele, garanto-lhe, mas pela história; pois foi a causa de uma coincidência muito curiosa.
— Numa tarde de verão, quando tinha prometido ir apanhar camarões ao longo das areias com Philip, estava à espera um tanto impacientemente na sala de estar da frente, vendo Arthur manusear alguns pacotes de moedas que tinha acabado de comprar e deslocá-los lentamente, um ou dois de cada vez, para o seu estudo e museu escuro que ficava nas traseiras da casa. Assim que ouvi a porta pesada fechar-se finalmente atrás dele, lancei-me à minha rede de camarões e à minha boina e estava prestes a sair, quando vi que o meu irmão tinha deixado para trás uma moeda que brilhava no longo banco junto à janela. Era uma moeda de bronze, e a cor, combinada com a curva exata do nariz romano e algo na própria elevação do pescoço longo e tenso, tornava a cabeça de César nela quase o retrato preciso de Philip Hawker. Então, de repente, lembrei-me de Giles contar a Philip sobre uma moeda que era parecida com ele, e de Philip desejar tê-la. Talvez possa imaginar os pensamentos selvagens e tolos com que a minha cabeça girava; senti-me como se tivesse recebido um presente das fadas. Parecia-me que, se eu pudesse fugir com isto e dar a Philip como uma espécie de aliança de casamento selvagem, seria um laço entre nós para sempre; senti mil coisas dessas ao mesmo tempo. Depois, abriu-se sob mim, como um abismo, a enorme e terrível noção do que estava a fazer; acima de tudo, o pensamento insuportável, que era como tocar em ferro quente, do que Arthur pensaria disso. Uma Carstairs ladra; e ladra do tesouro dos Carstairs! Acredito que o meu irmão me veria ser queimada como uma bruxa por tal coisa. Mas então, o próprio pensamento de tamanha crueldade fanática aumentou o meu antigo ódio pela sua velha e monótona obsessão antiquária e o meu desejo pela juventude e liberdade que me chamavam do mar. Lá fora estava um sol forte com vento; e uma cabeça amarela de giesta no jardim batia contra o vidro da janela. Pensei naquele ouro vivo e crescente a chamar-me de todas as charnecas do mundo — e depois naquele ouro, bronze e latão mortos e baços do meu irmão, a tornarem-se cada vez mais poeirentos à medida que a vida passava. A Natureza e a Coleção Carstairs tinham entrado em confronto, finalmente.
— A Natureza é mais velha do que a Coleção Carstairs. Enquanto corria pelas ruas em direção ao mar, com a moeda apertada no meu punho, senti todo o Império Romano às minhas costas, assim como o pedigree dos Carstairs. Não era apenas o velho leão de prata que rugia no meu ouvido, mas todas as águias dos Césares pareciam bater as asas e gritar em perseguição de mim. E, no entanto, o meu coração subia cada vez mais alto como o papagaio de papel de uma criança, até passar pelas dunas de areia solta e seca e chegar às areias planas e molhadas, onde Philip já estava com a água pelos tornozelos, no mar raso e brilhante, a cem metros da costa. Havia um grande pôr do sol vermelho; e a longa extensão de água baixa, mal subindo acima do tornozelo durante oitocentos metros, era como um lago de chama de rubi. Só quando arranquei os sapatos e as meias e caminhei até onde ele estava, que era bem longe da terra seca, é que me virei e olhei em redor. Estávamos completamente sozinhos num círculo de água do mar e areia molhada, e dei-lhe a cabeça de César.
— No mesmo instante, tive um sobressalto de imaginação: que um homem longe, nas dunas, me observava atentamente. Devo ter sentido imediatamente a seguir que era apenas um salto de nervos irracionais; pois o homem era apenas um ponto escuro ao longe, e mal podia ver que estava parado e a observar, com a cabeça ligeiramente de lado. Não havia qualquer prova lógica terrena de que ele estivesse a olhar para mim; poderia estar a olhar para um navio, ou para o pôr do sol, ou para as gaivotas, ou para qualquer uma das pessoas que ainda vagueavam aqui e ali na margem entre nós. No entanto, qualquer que fosse a origem do meu sobressalto, foi profético; pois, enquanto olhava, ele começou a caminhar vivamente em linha reta na nossa direção através das largas areias molhadas. À medida que se aproximava, vi que era moreno e barbudo, e que os seus olhos estavam marcados por óculos escuros. Estava vestido de forma pobre mas respeitável de preto, desde a velha cartola preta na cabeça até às botas pretas sólidas nos pés. Apesar disso, caminhou diretamente para o mar sem um lampejo de hesitação, e veio na minha direção com a firmeza de uma bala em movimento.
— Não lhe sei dizer a sensação de monstruosidade e milagre que tive quando ele, silenciosamente, rompeu a barreira entre a terra e a água. Era como se tivesse caminhado diretamente de um penhasco e continuasse a marchar firmemente no ar. Era como se uma casa tivesse voado para o céu ou a cabeça de um homem tivesse caído. Ele estava apenas a molhar as botas; mas parecia um demónio a ignorar uma lei da Natureza. Se ele tivesse hesitado um instante na beira da água, não teria sido nada. Tal como foi, parecia olhar tanto para mim, apenas para mim, que não notava o oceano. Philip estava a alguns metros de distância de costas para mim, debruçado sobre a sua rede. O estranho aproximou-se até ficar a dois metros de mim, com a água a chegar a metade das suas pernas. Então ele disse, com uma articulação claramente modulada e um tanto afetada: "Incomodá-la-ia contribuir noutro lugar com uma moeda com uma inscrição algo diferente?"
— Com uma exceção, não havia nada definivelmente anormal nele. Os seus óculos coloridos não eram realmente opacos, mas de um tipo azul bastante comum, nem os olhos atrás deles eram esquivos, mas olhavam-me fixamente. A sua barba escura não era realmente longa ou selvagem, mas ele parecia bastante peludo, porque a barba começava muito em cima no rosto, logo abaixo das maçãs do rosto. A sua tez não era nem pálida nem lívida, mas, pelo contrário, bastante clara e juvenil; no entanto, isso dava-lhe um aspeto de cera rosada que de alguma forma (não sei porquê) aumentava bastante o horror. A única estranheza que se podia fixar era que o seu nariz, que de resto era de boa forma, estava apenas ligeiramente virado de lado na ponta; como se, quando estava mole, tivesse sido batido de um lado com um martelo de brinquedo. A coisa mal era uma deformidade; contudo, não lhe sei dizer que pesadelo vivo foi para mim. Enquanto ali estava na água manchada pelo pôr do sol, afetou-me como um monstro marinho infernal que acabara de emergir rugindo de um mar como sangue. Não sei por que um toque no nariz deveria afetar tanto a minha imaginação. Penso que parecia como se ele pudesse mover o nariz como um dedo. E como se ele tivesse acabado de o mover naquele momento.
— "Qualquer pequena assistência" — continuou ele com o mesmo sotaque estranho e pedante —, "que possa obviar à necessidade de eu comunicar com a família."
— Então percebi que estava a ser chantageada pelo roubo da peça de bronze; e todos os meus medos e dúvidas meramente supersticiosos foram engolidos por uma questão prática e avassaladora. Como poderia ele ter descoberto? Eu tinha roubado a coisa subitamente e por impulso; estava certamente sozinha; pois assegurava-me sempre de não ser observada quando saía às escondidas para ver Philip desta forma. Não tinha, aparentemente, sido seguida na rua; e se tivesse, não podiam "raio-Xar" a moeda na minha mão fechada. O homem parado nas dunas não poderia ter visto o que dei a Philip mais do que disparar num olho de uma mosca, como o homem do conto de fadas.
— "Philip" — gritei, impotente —, "pergunta a este homem o que ele quer."
— Quando Philip levantou finalmente a cabeça de remendar a sua rede, parecia bastante vermelho, como se estivesse amuado ou envergonhado; mas pode ter sido apenas o esforço de se curvar e a luz vermelha do entardecer; posso ter tido apenas mais uma das fantasias mórbidas que pareciam dançar à minha volta. Ele limitou-se a dizer rudemente ao homem: "Desaparece daqui." E, fazendo-me sinal para o seguir, partiu a caminhar para a costa sem prestar mais atenção a ele. Subiu para um molhe de pedra que se estendia a partir das raízes das dunas e assim seguiu para casa, talvez pensando que o nosso *incubus* acharia menos fácil caminhar sobre pedras tão ásperas, verdes e escorregadias com algas, do que nós, que éramos jovens e estávamos habituados. Mas o meu perseguidor caminhava com tanta delicadeza como falava; e ainda me seguiu, escolhendo o seu caminho e escolhendo as suas frases. Ouvi a sua voz delicada e detestável a apelar-me por cima do ombro, até que finalmente, quando chegámos ao cimo das dunas, a paciência de Philip (que não era de modo algum tão notável na maioria das ocasiões) pareceu quebrar-se. Ele virou-se subitamente, dizendo: "Volta para trás. Não posso falar contigo agora." E enquanto o homem pairava e abria a boca, Philip deu-lhe uma bofetada que o mandou voar do topo da duna mais alta até ao fundo. Vi-o a rastejar lá em baixo, coberto de areia.
— Este golpe confortou-me de alguma forma, embora pudesse muito bem aumentar o meu perigo; mas Philip não mostrou nenhuma da sua euforia habitual com a sua própria proeza. Embora tão afetuoso como sempre, parecia ainda abatido; e antes que eu lhe pudesse perguntar algo completamente, despediu-se de mim no seu próprio portão, com duas observações que me pareceram estranhas. Ele disse que, tudo bem ponderado, eu deveria devolver a moeda à Coleção; mas que ele próprio a guardaria "por enquanto". E depois acrescentou, muito subitamente e sem nexo: "Sabes que o Giles voltou da Austrália?"
A porta da taverna abriu-se e a sombra gigantesca do investigador Flambeau caiu sobre a mesa. O Padre Brown apresentou-o à senhora com o seu próprio estilo de fala leve e persuasivo, mencionando o seu conhecimento e simpatia em tais casos; e, quase sem se aperceber, a rapariga estava logo a reiterar a sua história a dois ouvintes. Mas Flambeau, ao curvar-se e sentar-se, entregou ao padre um pequeno pedaço de papel. Brown aceitou-o com alguma surpresa e leu nele: "Táxi para Wagga Wagga, 379, Mafeking Avenue, Putney." A rapariga continuava a sua história.
"Subi a rua íngreme até à minha própria casa com a cabeça a andar à roda; ainda não tinha começado a clarear quando cheguei ao degrau da porta, onde encontrei uma lata de leite — e o homem com o nariz torto. A lata de leite indicava-me que os criados tinham saído todos; pois, naturalmente, Arthur, a remexer nas suas coisas no seu roupão castanho e em profunda meditação, não ouviria nem atenderia uma campainha. Assim, não havia ninguém para me ajudar na casa, exceto o meu irmão, cuja ajuda seria a minha ruína. Em desespero, enfiei dois xelins na mão daquela coisa horrível e disse-lhe para voltar dentro de alguns dias, quando eu tivesse pensado bem no assunto. Ele afastou-se amuado, mas mais submisso do que eu esperava — talvez tivesse ficado abalado com a queda — e observei a estrela de areia salpicada nas suas costas a afastar-se pela estrada com um prazer vingativo e horrível. Ele virou numa esquina a umas seis casas de distância."
"Depois entrei, preparei um chá e tentei pensar no assunto. Sentei-me à janela da sala de estar, olhando para o jardim, que ainda brilhava com a última luz plena da tarde. Mas eu estava demasiado distraída e sonhadora para olhar para os relvados, os vasos de flores e os canteiros com qualquer concentração. Por isso, senti o choque ainda mais agudamente, por tê-lo visto tão lentamente."
"O homem, ou monstro, que eu tinha mandado embora estava parado, imóvel, no meio do jardim. Oh, todos nós já lemos muito sobre fantasmas de rosto pálido na escuridão; mas isto era mais terrível do que qualquer coisa desse género poderia alguma vez ser. Porque, embora ele projetasse uma longa sombra vespertina, ainda permanecia sob a luz quente do sol. E porque o seu rosto não era pálido, mas tinha aquele brilho ceroso que pertence a um manequim de barbeiro. Ele permanecia imóvel, com o rosto voltado para mim; e não sei explicar o quão horrível ele parecia entre as túlipas e todas aquelas flores altas, vistosas, que quase pareciam de estufa. Parecia que tínhamos colocado uma figura de cera em vez de uma estátua no centro do nosso jardim."
"Contudo, quase no instante em que ele me viu mover-me na janela, ele virou-se e correu para fora do jardim pelo portão das traseiras, que estava aberto e pelo qual ele indubitavelmente tinha entrado. Esta timidez renovada da parte dele era tão diferente da insolência com que ele tinha caminhado mar dentro, que me senti vagamente confortada. Imaginei, talvez, que ele temia enfrentar Arthur mais do que eu sabia. De qualquer modo, acalmei-me finalmente e jantei tranquilamente sozinha (pois era contra as regras incomodar Arthur quando ele estava a reorganizar o museu) e, os meus pensamentos, um pouco libertos, voaram para Philip e perderam-se, suponho eu. Seja como for, eu olhava fixamente, mas de uma forma até bastante agradável, para outra janela, sem cortinas, mas a essa altura negra como ardósia com a queda da noite final. Pareceu-me que algo semelhante a um caracol estava do lado de fora do vidro da janela. Mas quando olhei com mais atenção, parecia mais o polegar de um homem pressionado contra o vidro; tinha aquele aspeto curvado que um polegar tem. Com o meu medo e coragem reavivados ao mesmo tempo, lancei-me contra a janela e depois recuei com um grito estrangulado que qualquer homem, exceto Arthur, teria ouvido."
"Pois não era um polegar, tanto quanto não era um caracol. Era a ponta de um nariz torto, esmagado contra o vidro; parecia branco com a pressão; e o rosto fixo e os olhos por detrás dele eram, a princípio, invisíveis e depois cinzentos como um fantasma. Fechei as portadas de qualquer maneira, corri para o meu quarto e tranquei-me lá dentro. Mas, mesmo enquanto passava, poderia jurar que vi uma segunda janela negra com algo nela que era como um caracol."
"Talvez fosse melhor recorrer a Arthur, afinal. Se a coisa andava a rastejar por toda a casa como um gato, poderia ter propósitos piores até do que a chantagem. O meu irmão podia expulsar-me e amaldiçoar-me para sempre, mas era um cavalheiro e defender-me-ia no momento. Depois de dez minutos de um pensamento curioso, desci, bati à porta e entrei: para ver a última e pior visão."
"A cadeira do meu irmão estava vazia e ele, obviamente, tinha saído. Mas o homem com o nariz torto estava sentado à espera do seu regresso, com o chapéu ainda insolentemente na cabeça e, na verdade, a ler um dos livros do meu irmão sob o candeeiro do meu irmão. O seu rosto estava composto e ocupado, mas a ponta do nariz ainda tinha o ar de ser a parte mais móvel do seu rosto, como se tivesse acabado de virar da esquerda para a direita como a tromba de um elefante. Eu tinha-o considerado suficientemente venenoso enquanto ele me perseguia e vigiava; mas acho que a sua inconsciência da minha presença era ainda mais aterradora."
"Acho que gritei alto e por muito tempo; mas isso não interessa. O que fiz a seguir, isso sim, interessa: dei-lhe todo o dinheiro que tinha, incluindo uma boa quantia em papel que, embora fosse minha, atrevo-me a dizer que não tinha direito de tocar. Ele foi-se embora, finalmente, com odiosos e táticos arrependimentos, todos em palavras longas; e eu sentei-me, sentindo-me arruinada em todos os sentidos. E, no entanto, fui salva nessa mesma noite por um puro acidente. Arthur tinha partido subitamente para Londres, como tantas vezes fazia, para pechinchas; e regressou, tarde, mas radiante, tendo quase garantido um tesouro que era um esplendor acrescido até para a Coleção da família. Ele estava tão resplandecente que quase ganhei coragem para confessar a subtração da gema menor..., mas ele sobrepôs-se a todos os outros tópicos com os seus projetos avassaladores. Como a pechincha ainda podia falhar a qualquer momento, ele insistiu que eu fizesse as malas imediatamente e fosse com ele para uns aposentos que ele já tinha alugado em Fulham, para ficar perto da loja de curiosidades em questão. Assim, apesar de mim mesma, fugi do meu inimigo quase na calada da noite — mas de Philip também... O meu irmão estava frequentemente no Museu de South Kensington e, para criar algum tipo de vida secundária para mim, paguei algumas aulas nas Escolas de Arte. Estava a regressar delas esta noite, quando vi a abominação da desolação a caminhar viva pela longa rua reta e o resto é como este cavalheiro disse."
"Só tenho uma coisa a dizer. Não mereço ser ajudada; e não questiono nem me queixo do meu castigo; é justo, devia ter acontecido. Mas ainda questiono, com os cérebros a rebentar, como é que pode ter acontecido. Serei punida por um milagre? Ou como pode alguém, exceto Philip e eu, saber que eu lhe dei uma moeda minúscula no meio do mar?"
"É um problema extraordinário", admitiu Flambeau.
"Não tão extraordinário como a resposta", observou o Padre Brown, de forma um pouco sombria. "Menina Carstairs, estará em casa se formos ao seu local em Fulham daqui a uma hora e meia?"
A rapariga olhou para ele, depois levantou-se e pôs as luvas. "Sim", disse ela, "estarei lá"; e quase instantaneamente saiu do lugar.
Naquela noite, o detetive e o padre ainda falavam do assunto enquanto se aproximavam da casa em Fulham, um prédio estranhamente mesquinho, mesmo para uma residência temporária da família Carstairs.
"Claro que os superficiais, ao refletirem", disse Flambeau, "pensariam primeiro neste irmão australiano que já teve problemas antes, que regressou tão subitamente e que é exatamente o tipo de homem para ter cúmplices de baixo nível. Mas não vejo como ele possa entrar na história por qualquer processo de pensamento, a menos que..."
"Bem?", perguntou o seu companheiro pacientemente.
Flambeau baixou a voz. "A menos que o amante da rapariga também entre, e esse seria o vilão mais negro. O tipo australiano sabia que Hawker queria a moeda. Mas não vejo como, por tudo o que é mais sagrado, ele poderia saber que Hawker a tinha obtido, a menos que Hawker desse um sinal a ele ou ao seu representante através da costa."
"Isso é verdade", assentiu o padre, com respeito.
"Já notou outra coisa?", continuou Flambeau, entusiasmado, "este Hawker ouve a sua amada ser insultada, mas não ataca até chegar às dunas de areia macia, onde pode ser o vencedor numa mera luta fingida. Se ele tivesse atacado entre rochas e mar, poderia ter ferido o seu aliado."
"Isso é verdade novamente", disse o Padre Brown, acenando.
"E agora, vamos desde o início. O caso resume-se a poucas pessoas, mas pelo menos três. É preciso uma pessoa para o suicídio; duas pessoas para o homicídio; mas pelo menos três pessoas para a chantagem."
"Porquê?", perguntou o padre suavemente.
"Bem, obviamente", exclamou o seu amigo, "tem de haver um para ser exposto; um para ameaçar a exposição; e pelo menos um a quem a exposição horrorizaria."
Após uma longa pausa pensativa, o padre disse: "Esquece um passo lógico. Três pessoas são necessárias como ideias. Apenas duas são necessárias como agentes."
"O que quer dizer?", perguntou o outro.
"Porque não poderia um chantagista", perguntou Brown, em voz baixa, "ameaçar a sua vítima com ele próprio? Suponha que uma esposa se tornava uma abstémia rígida para assustar o marido e impedi-lo de esconder as suas idas aos bares, e depois escrevia-lhe cartas de chantagem com outra letra, ameaçando contar à esposa! Porque não funcionaria? Suponha que um pai proibia um filho de jogar e depois, seguindo-o disfarçado, ameaçava o rapaz com a sua própria severidade paternal fingida! Suponha... mas, aqui estamos nós, meu amigo."
"Meu Deus!", exclamou Flambeau; "não quer dizer..."
Uma figura ativa desceu os degraus da casa e mostrou, sob a luz dourada do candeeiro, a inconfundível cabeça que se assemelhava à moeda romana. "Menina Carstairs", disse Hawker sem cerimónias, "não quis entrar até vocês chegarem."
"Bem", observou Brown confiantemente, "não acha que é a melhor coisa que ela pode fazer: ficar cá fora — com o senhor a cuidar dela? Sabe, acho que o senhor mesmo já adivinhou tudo."
"Sim", disse o jovem, em tom baixo, "adivinhei nas areias e agora sei; foi por isso que o deixei cair suavemente."
Pegando numa chave que a rapariga lhe deu e na moeda de Hawker, Flambeau deixou-se entrar a si e ao seu amigo na casa vazia e passou para a sala de estar exterior. Estava vazia de todos os ocupantes, exceto um. O homem que o Padre Brown vira passar pela taverna estava parado contra a parede como se estivesse encurralado; inalterado, exceto pelo facto de ter tirado o casaco preto e estar a usar um roupão castanho.
"Viemos", disse o Padre Brown educadamente, "devolver esta moeda ao seu dono." E entregou-a ao homem do nariz.
Os olhos de Flambeau reviraram-se. "Este homem é um colecionador de moedas?", perguntou ele.
"Este homem é o Sr. Arthur Carstairs", disse o padre positivamente, "e ele é um colecionador de moedas de um tipo um tanto singular."
O homem mudou de cor tão horrivelmente que o nariz torto sobressaía no seu rosto como uma coisa separada e cómica. Falou, no entanto, com uma espécie de dignidade desesperada. "Verão, então", disse ele, "que não perdi todas as qualidades da família." E virou-se subitamente e caminhou a passos largos para um quarto interior, batendo a porta.
"Impeçam-no!", gritou o Padre Brown, saltando e quase caindo sobre uma cadeira; e, após um ou dois puxões, Flambeau conseguiu abrir a porta. Mas era tarde demais. Num silêncio mortal, Flambeau atravessou a sala e telefonou para o médico e para a polícia.
Um frasco de remédio vazio estava no chão. Sobre a mesa, o corpo do homem de roupão castanho jazia entre os seus embrulhos de papel pardo, abertos e escancarados; dos quais saíam e rolavam, não moedas romanas, mas moedas inglesas muito modernas.
O padre segurou a cabeça de bronze de César. "Isto", disse ele, "era tudo o que restava da Coleção Carstairs."
Após um silêncio, ele continuou, com mais do que a habitual gentileza: "Foi um testamento cruel que o seu pai perverso fez, e vê-se que ele ressentiu-se um pouco. Ele odiava o dinheiro romano que tinha e tornou-se mais afeiçoado ao dinheiro real que lhe era negado. Ele não só vendeu a Coleção pedaço a pedaço, como caiu, pouco a pouco, nas formas mais vis de ganhar dinheiro — até à chantagem da sua própria família sob disfarce. Ele chantageou o irmão que veio da Austrália pelo seu pequeno crime esquecido (é por isso que ele apanhou o táxi para Wagga Wagga em Putney), ele chantageou a irmã pelo roubo que só ele poderia ter notado. E isso, aliás, é o motivo pelo qual ela teve aquele palpite sobrenatural quando ele estava longe, nas dunas de areia. A mera figura e o andar, por mais distantes que sejam, são mais propensos a lembrar-nos de alguém do que um rosto bem maquilhado, mesmo de perto."
Houve outro silêncio. "Bem", rosnou o detetive, "e assim este grande numismata e colecionador de moedas não passava de um avarento vulgar."
"Haverá assim tanta diferença?", perguntou o Padre Brown, no mesmo tom estranho e indulgente. "O que há de errado num avarento que não seja, muitas vezes, igualmente errado num colecionador? O que há de errado, exceto... não farás para ti nenhuma imagem de escultura; não te curvarás diante delas nem as servirás, pois eu... mas temos de ir ver como estão os pobres jovens."
"Acho", disse Flambeau, "que apesar de tudo, eles provavelmente estão a passar-se muito bem."
SETE -- A Peruca Roxa
O SR. EDWARD NUTT, o diligente editor do Daily Reformer, estava sentado à sua secretária, abrindo cartas e marcando provas ao ritmo alegre de uma máquina de escrever, operada por uma jovem vigorosa.
Era um homem um pouco corpulento, loiro, de mangas de camisa; os seus movimentos eram decididos, a sua boca firme e os seus tons finais; mas os seus olhos azuis redondos, um tanto infantis, tinham um olhar perplexo e até nostálgico que contradizia tudo isso. Nem era, de facto, a expressão totalmente enganadora. Poderia dizer-se dele, como de muitos jornalistas com autoridade, que a sua emoção mais familiar era a de um medo contínuo; medo de processos por difamação, medo de perda de publicidade, medo de erros tipográficos, medo do despedimento.
A sua vida era uma série de compromissos distraídos entre o proprietário do jornal (e dele próprio), que era um fabricante de sabão senil com três erros inabaláveis na mente, e a equipa muito capaz que ele tinha reunido para gerir o jornal; alguns dos quais eram homens brilhantes e experientes e (o que era ainda pior) entusiastas sinceros da política do jornal.
Uma carta de um deles jazia imediatamente à sua frente e, por mais rápido e decidido que fosse, ele parecia quase hesitar antes de a abrir. Pegou antes numa tira de prova, percorreu-a com um olho azul e um lápis azul, alterou a palavra "adultério" para a palavra "impropriedade", e a palavra "judeu" para a palavra "alienígena", tocou uma campainha e enviou-a para cima.
Depois, com um olhar mais pensativo, abriu a carta do seu colaborador mais distinto, que trazia um carimbo de Devonshire, e leu o seguinte:
CARO NUTT, — Como vejo que está a trabalhar em Espetros e Duques ao mesmo tempo, que tal um artigo sobre aquele negócio estranho dos Eyres de Exmoor; ou como as velhas chamam por aqui, a Orelha do Diabo de Eyre? O chefe da família, sabe, é o Duque de Exmoor; ele é um dos poucos velhos aristocratas conservadores realmente rígidos que restam, um sólido velho tirano encarquilhado sobre o qual é bem da nossa linha causar problemas. E acho que estou no rasto de uma história que vai causar problemas.
Claro que não acredito na velha lenda sobre Jaime I; e quanto a si, não acredita em nada, nem sequer no jornalismo. A lenda, provavelmente lembrar-se-á, era sobre o negócio mais negro da história inglesa — o envenenamento de Overbury por aquela gata de bruxa Frances Howard, e o terror bastante misterioso que forçou o Rei a perdoar os assassinos. Havia muita suposta bruxaria misturada com isso; e diz a história que um criado, a ouvir pelo buraco da fechadura, ouviu a verdade numa conversa entre o Rei e Carr; e a orelha física com que ouviu cresceu, grande e monstruosa como por magia, tão terrível era o segredo. E embora tivesse de ser carregado de terras e ouro e tornado ancestral de duques, a orelha em forma de elfo ainda é recorrente na família. Bem, não acredita em magia negra; e mesmo que acreditasse, não a poderia usar para a imprensa. Se um milagre acontecesse no seu escritório, teria de o abafar, agora que tantos bispos são agnósticos. Mas não é esse o ponto. O ponto é que existe realmente algo de estranho sobre Exmoor e a sua família; algo bastante natural, atrevo-me a dizer, mas bastante anormal. E a Orelha está lá metida de alguma forma, imagino; seja um símbolo ou uma ilusão ou doença ou algo do género. Outra tradição diz que os Cavaliers logo após Jaime I começaram a usar o cabelo comprido apenas para cobrir a orelha do primeiro Lorde Exmoor. Isto também é, sem dúvida, fantasioso.
A razão pela qual lho aponto é esta: parece-me que cometemos um erro ao atacar a aristocracia inteiramente pelo seu champanhe e diamantes. A maioria dos homens até admira os fidalgos por terem uma vida boa, mas acho que nos rendemos demasiado quando admitimos que a aristocracia fez até os aristocratas felizes. Sugiro uma série de artigos apontando o quão monótona, o quão inumana, o quão absolutamente diabólica, é o próprio cheiro e atmosfera de algumas destas grandes casas. Há muitos exemplos; mas não poderia começar com um melhor do que a Orelha dos Eyres. Até ao final da semana penso que poderei conseguir-lhe a verdade sobre isso. — Seu de sempre, FRANCIS FINN.
O Sr. Nutt refletiu um momento, olhando fixamente para a sua bota esquerda; depois gritou com uma voz forte, alta e inteiramente sem vida, na qual todas as sílabas soavam iguais: "Menina Barlow, escreva uma carta ao Sr. Finn, por favor."
CARO FINN, — Penso que serviria; o texto deve chegar-nos na segunda distribuição de sábado. — Seu, E. NUTT.
Esta epístola elaborada ele articulou como se fosse tudo uma só palavra; e a menina Barlow bateu-a na máquina como se fosse tudo uma só palavra. Depois pegou noutra tira de prova e num lápis azul, e alterou a palavra "sobrenatural" para a palavra "maravilhoso", e a expressão "abater" para a expressão "reprimir".
Em tais atividades felizes e saudáveis se entretinha o Sr. Nutt, até que o sábado seguinte o encontrou na mesma secretária, ditando à mesma dactilógrafa, e usando o mesmo lápis azul na primeira parte das revelações do Sr. Finn. A abertura era uma sólida peça de invectiva cortante sobre os segredos malignos dos príncipes, e o desespero nos lugares altos da terra. Embora escrita violentamente, estava num inglês excelente; mas o editor, como de costume, tinha dado a outra pessoa a tarefa de a dividir em subtítulos, que eram de um género mais picante, como "Condessa e Venenos", e "A Orelha Misteriosa", "Os Eyres no seu Ninho", e assim por diante através de cem variações felizes. Seguiu-se então a lenda da Orelha, ampliada a partir da primeira carta de Finn, e depois a substância das suas descobertas posteriores, como se segue:
Sei que é a prática dos jornalistas colocar o fim da história no princípio e chamar-lhe título. Sei que o jornalismo consiste em grande parte em dizer "Lorde Jones Morto" a pessoas que nunca souberam que Lorde Jones estava vivo. O seu presente correspondente pensa que isto, como muitos outros costumes jornalísticos, é mau jornalismo; e que o Daily Reformer tem de dar um melhor exemplo em tais coisas. Ele propõe-se contar a sua história tal como ocorreu, passo a passo. Usará os nomes reais das partes, que na maioria dos casos estão prontas a confirmar o seu testemunho. Quanto aos títulos, as proclamações sensacionalistas — virão no fim.
Caminhava por um caminho público que serpenteia através de um pomar privado de Devonshire e que parece apontar na direção da cidra de Devonshire, quando me deparei subitamente com o exato local que o caminho sugeria. Era uma estalagem longa e baixa, composta na verdade por uma casa de campo e dois celeiros; tudo coberto por aquele colmo que parece cabelo castanho e cinzento crescido antes da própria história. Mas, à porta, havia uma placa que a designava como Blue Dragon; e sob a placa encontrava-se uma daquelas longas mesas rústicas que costumavam estar no exterior da maioria das estalagens inglesas livres, antes de os abstémios e os cervejeiros, em conjunto, terem destruído a liberdade. E, a esta mesa, estavam sentados três cavalheiros que poderiam ter vivido há cem anos.
Agora que os conheço melhor, não há dificuldade em separar as impressões; mas, naquele momento, pareciam três fantasmas muito sólidos. A figura dominante, tanto por ser maior em todas as três dimensões quanto por estar sentada centralmente ao longo da mesa, de frente para mim, era um homem alto e gordo, vestido inteiramente de preto, com um rosto rubicundo, quase apoplético, mas uma testa bastante calva e algo perturbada. Olhando para ele novamente, com mais rigor, não saberia dizer exatamente o que me dava a sensação de antiguidade, exceto o corte antigo da sua gravata clerical branca e as rugas vincadas através da sua testa.
Era ainda menos fácil fixar a impressão no caso do homem na extremidade direita da mesa, que, para dizer a verdade, era uma pessoa tão comum quanto se poderia ver em qualquer lugar, com uma cabeça redonda de cabelos castanhos e um nariz curto e arrebitado, mas também vestido com o preto clerical, de um corte mais estrito. Foi apenas quando vi o seu chapéu largo e curvo pousado na mesa ao seu lado que compreendi porque o associava a algo antigo. Ele era um padre católico romano.
Talvez o terceiro homem, na outra extremidade da mesa, tivesse realmente mais a ver com isso do que os outros, embora fosse fisicamente mais franzino e menos considerado no seu traje. Os seus membros esguios estavam vestidos, poderia até dizer apertados, em mangas e calças cinzentas muito justas; ele tinha um rosto longo, pálido e aquilino, que parecia de alguma forma ainda mais saturnino porque as suas mandíbulas de lanterna estavam aprisionadas no colarinho e no lenço de pescoço mais ao estilo do antigo colarinho rígido; e o seu cabelo (que deveria ser castanho escuro) era de uma estranha cor ruiva baça que, em conjunto com o seu rosto amarelo, parecia mais arroxeado do que vermelho. A cor discreta, mas incomum, era tanto mais notável porque o seu cabelo era quase artificialmente saudável e encaracolado, e ele usava-o farto. Mas, após toda a análise, inclino-me a pensar que o que me deu a minha primeira impressão antiquada foi simplesmente um conjunto de copos de vinho altos e antigos, um ou dois limões e dois cachimbos de igreja. E também, talvez, a missão de outros tempos em que eu tinha vindo.
Sendo um repórter calejado, e tratando-se aparentemente de uma estalagem pública, não precisei de reunir muita da minha insolência para me sentar à longa mesa e pedir um pouco de cidra. O homem grande de preto parecia muito erudito, especialmente sobre antiguidades locais; o homem pequeno de preto, embora falasse muito menos, surpreendeu-me com uma cultura ainda mais vasta. Assim, damo-nos muito bem; mas o terceiro homem, o velho cavalheiro de calças justas, parecia bastante distante e altivo, até que deslizei para o assunto do Duque de Exmoor e da sua ascendência.
Pensei que o assunto parecia embaraçar um pouco os outros dois; mas quebrou o feitiço do silêncio do terceiro homem com o maior sucesso. Falando com contenção e com o sotaque de um cavalheiro altamente educado, e soprando a intervalos o seu longo cachimbo de igreja, procedeu a contar-me algumas das histórias mais horríveis que já ouvi na minha vida: como um dos Eyres em eras passadas tinha enforcado o seu próprio pai; e outro tinha mandado açoitar a sua esposa à retaguarda da carroça por toda a aldeia; e outro tinha ateado fogo a uma igreja cheia de crianças, e assim por diante.
Alguns dos contos, de facto, não são próprios para a imprensa pública, como a história das Freiras Escarlates, a abominável história do Cão Malhado, ou a coisa que foi feita na pedreira. E todo este rolo vermelho de impiedades saía dos seus lábios finos e gentis mais cerimoniosamente do que de outra forma, enquanto ele se sentava a bebericar o vinho do seu copo alto e fino.
Pude ver que o homem grande à minha frente estava a tentar, se é que alguma coisa, impedi-lo; mas ele evidentemente nutria um respeito considerável pelo velho cavalheiro e não podia arriscar fazê-lo de forma abrupta. E o pequeno padre na outra extremidade da mesa, embora livre de qualquer sinal de embaraço, olhava fixamente para a mesa e parecia ouvir o relato com grande dor, como bem poderia.
— Não parece — disse eu ao narrador — ser muito afeiçoado à linhagem de Exmoor.
Ele olhou para mim por um momento, os seus lábios ainda cerimoniosos, mas a empalidecer e a apertar; então, deliberadamente, quebrou o seu longo cachimbo e o copo na mesa e levantou-se, a própria imagem de um perfeito cavalheiro com o temperamento enquadrado de um demónio.
— Estes cavalheiros — disse ele — dir-lhe-ão se tenho motivos para gostar dela. A maldição dos Eyres de outrora tem pesado muito sobre este país, e muitos sofreram com ela. Eles sabem que não há ninguém que tenha sofrido tanto com ela como eu. — E, com isso, esmagou um pedaço do vidro caído sob o seu calcanhar e afastou-se pelo crepúsculo verde das macieiras cintilantes.
— Esse é um velho cavalheiro extraordinário — disse eu aos outros dois; — por acaso sabem o que a família Exmoor lhe fez? Quem é ele?
O homem grande de preto olhava para mim com o ar selvagem de um touro derrotado; a princípio, não pareceu compreender. Então, disse finalmente: — Não sabe quem ele é?
Reafirmei a minha ignorância, e houve outro silêncio; então o pequeno padre disse, ainda a olhar para a mesa: — Esse é o Duque de Exmoor.
Então, antes que eu pudesse reunir os meus sentidos dispersos, acrescentou com a mesma calma, mas com um ar de regularizar as coisas: — O meu amigo aqui é o Doutor Mull, o bibliotecário do Duque. O meu nome é Brown.
— Mas — gaguejei eu — se aquele é o Duque, porque é que ele amaldiçoa todos os velhos duques daquela maneira?
— Ele parece realmente acreditar — respondeu o padre chamado Brown — que eles deixaram uma maldição sobre ele. — Então acrescentou, com alguma irrelevância: — É por isso que ele usa uma peruca.
Passaram-se alguns momentos antes que o seu significado me ocorresse. — Não se refere àquela fábula sobre a orelha fantástica? — perguntei. — Já ouvi falar dela, é claro, mas certamente deve ser uma história supersticiosa tecida a partir de algo muito mais simples. Por vezes pensei que fosse uma versão selvagem de uma daquelas histórias de mutilação. Costumavam cortar as orelhas dos criminosos no século XVI.
— Dificilmente penso que fosse isso — respondeu o pequeno homem pensativamente —, mas não está fora da ciência comum ou da lei natural que uma família tenha alguma deformidade que reaparece frequentemente, como uma orelha maior que a outra.
O grande bibliotecário tinha enterrado a sua grande testa calva nas suas grandes mãos vermelhas, como um homem a tentar pensar no seu dever. — Não — gemeu ele. — Afinal, comete uma injustiça contra o homem. Entenda, não tenho motivos para o defender, ou mesmo para manter a fé nele. Ele tem sido um tirano para mim como para todos os outros. Não imagine, porque o vê sentado aqui, que ele não é um grande senhor no pior sentido da palavra. Ele levaria um homem a uma milha de distância para tocar uma campainha a um metro de distância, se isso convocasse outro homem a três milhas de distância para buscar uma caixa de fósforos a três metros de distância. Ele precisa de um criado para carregar a sua bengala; um criado pessoal para segurar os seus óculos de ópera...
— Mas não um criado para escovar as suas roupas — interrompeu o padre, com uma secura curiosa —, pois o criado também quereria escovar a sua peruca.
O bibliotecário virou-se para ele e pareceu esquecer a minha presença; estava fortemente comovido e, creio, um pouco aquecido pelo vinho. — Não sei como sabe disso, Padre Brown — disse ele —, mas tem razão. Ele deixa o mundo inteiro fazer tudo por ele, exceto vesti-lo. E isso ele insiste em fazer numa solidão literal como um deserto. Qualquer pessoa é expulsa da casa sem uma recomendação se for apenas encontrada perto da porta do seu quarto de vestir.
— Parece uma pessoa velha e agradável — comentei.
— Não — respondeu o Dr. Mull, muito simplesmente; — e, no entanto, é exatamente isso que quero dizer ao afirmar que é injusto com ele, afinal. Cavalheiros, o Duque sente realmente a amargura sobre a maldição que proferiu agora mesmo. Ele esconde, com vergonha e terror sinceros, sob aquela peruca roxa algo que ele pensa que destruiria os filhos do homem se vissem. Sei que é assim; e sei que não é um mero desfiguramento natural, como uma mutilação criminosa ou uma desproporção hereditária nas feições. Sei que é pior do que isso; porque um homem me disse, que esteve presente numa cena que ninguém poderia inventar, onde um homem mais forte do que qualquer um de nós tentou desafiar o segredo e foi afugentado por ele.
Abri a boca para falar, mas Mull continuou, alheio a mim, falando da caverna das suas mãos. — Não me importo de lhe contar, Padre, porque é realmente mais defender o pobre Duque do que entregá-lo. Nunca ouviu falar da altura em que ele quase perdeu todas as propriedades?
O padre abalou a cabeça; e o bibliotecário procedeu a contar o conto como o ouvira do seu predecessor no mesmo cargo, que tinha sido o seu patrono e instrutor, e em quem parecia confiar implicitamente. Até certo ponto, era um conto comum o suficiente do declínio das fortunas de uma grande família: o conto de um advogado de família. O seu advogado, no entanto, teve o bom senso de roubar honestamente, se a expressão se explica a si mesma. Em vez de usar os fundos que detinha em confiança, aproveitou-se do descuido do Duque para colocar a família num buraco financeiro, no qual poderia ser necessário que o Duque o deixasse detê-los na realidade.
O nome do advogado era Isaac Green, mas o Duque chamava-lhe sempre Elisha; presumivelmente em referência ao facto de ele ser completamente calvo, embora certamente não tivesse mais de trinta anos. Ele tinha subido muito rapidamente, mas a partir de começos muito sujos; sendo primeiro um "informador", e depois um agiota: mas como solicitador dos Eyres, ele teve o bom senso, como digo, de se manter tecnicamente correto até estar pronto para desferir o golpe final. O golpe caiu ao jantar; e o velho bibliotecário disse que nunca esqueceria o aspeto exato dos abajures e dos decantadores, enquanto o pequeno advogado, com um sorriso estável, propunha ao grande proprietário que dividissem as propriedades entre eles. O desfecho certamente não podia ser ignorado; pois o Duque, em silêncio mortal, esmagou um decantador na cabeça calva do homem tão subitamente quanto eu o tinha visto esmagar o copo naquele dia no pomar. Deixou uma cicatriz triangular vermelha no couro cabeludo, e os olhos do advogado alteraram-se, mas não o seu sorriso.
Ele levantou-se cambaleante e contra-atacou como tais homens atacam. — Estou contente com isso — disse ele —, pois agora posso tomar toda a propriedade. A lei dar-me-á.
Exmoor, ao que parece, estava branco como cinzas, mas os seus olhos ainda brilhavam. — A lei dar-to-á — disse ele —; mas tu não a tomarás... Porquê não? Porquê? Porque significaria o fim do mundo para mim, e se a tomares, tirarei a minha peruca... Porquê, sua ave depenada e miserável, qualquer um pode ver a tua cabeça nua. Mas nenhum homem verá a minha e viverá.
Bem, pode dizer o que quiser e fazer com que signifique o que quiser. Mas Mull jura que é o facto solene que o advogado, após sacudir os seus punhos cerrados no ar por um instante, simplesmente correu da sala e nunca mais reapareceu na região; e desde então Exmoor tem sido mais temido por um feiticeiro do que até mesmo por um proprietário e um magistrado.
Agora, o Dr. Mull contou a sua história com gestos teatrais bastante selvagens, e com uma paixão que penso ser pelo menos partidária. Estava bem consciente da possibilidade de tudo não passar da extravagância de um velho fanfarrão e tagarela. Mas antes de terminar esta metade das minhas descobertas, penso que é devido ao Dr. Mull registar que as minhas duas primeiras investigações confirmaram a sua história. Soube de um velho boticário na aldeia que houve um homem calvo em traje de noite, dando o nome de Green, que foi ter com ele uma noite para ter um corte triangular na sua testa ligado. E soube pelos registos legais e jornais antigos que houve um processo judicial ameaçado, e pelo menos iniciado, por um tal Green contra o Duque de Exmoor.
“Eu conheço o Deus Desconhecido”, disse o pequeno padre, com uma grandeza de certeza inconsciente que se erguia como uma torre de granito. “Eu conheço o seu nome; é Satanás. O verdadeiro Deus fez-se carne e habitou entre nós. E digo-lhe, onde quer que encontre homens governados meramente pelo mistério, é o mistério da iniquidade. Se o diabo lhe diz que algo é demasiado assustador para ser visto, olhe para isso. Se ele diz que algo é demasiado terrível para ser ouvido, ouça-o. Se pensa que alguma verdade é insuportável, suporte-a. Suplico a Vossa Graça que acabe com este pesadelo agora e aqui, nesta mesa.”
“Se eu o fizesse”, disse o Duque com voz baixa, “você e tudo em que acredita, e tudo pelo que unicamente vive, seriam os primeiros a murchar e a perecer. Teria um instante para conhecer o grande Nada antes de morrer.”
“A Cruz de Cristo esteja entre mim e o mal”, disse o Padre Brown. “Tire a sua peruca.”
Eu estava debruçado sobre a mesa com uma excitação incontrolável; ao ouvir este duelo extraordinário, meia ideia tinha-me surgido na cabeça. “Vossa Graça”, gritei, “aceito o seu desafio. Tire essa peruca ou eu arrancá-la-ei.”
Suponho que posso ser processado por agressão, mas estou muito contente por o ter feito. Quando ele disse, com a mesma voz de pedra, “Recuso-me”, simplesmente saltei para cima dele. Durante três longos instantes ele esforçou-se contra mim como se tivesse todo o inferno a ajudá-lo; mas forcei a sua cabeça até que o gorro cabeludo caiu dela. Admito que, enquanto lutava, fechei os olhos quando ela caiu.
Fui despertado por um grito de Mull, que também estava, a essa altura, ao lado do Duque. A sua cabeça e a minha estavam ambas inclinadas sobre a cabeça careca do Duque sem peruca. Então o silêncio foi quebrado pelo bibliotecário, exclamando: “O que poderá isto significar? Ora, o homem não tinha nada a esconder. As suas orelhas são exatamente como as de qualquer outra pessoa.”
“Sim”, disse o Padre Brown, “é isso que ele tinha a esconder.”
O padre caminhou diretamente até ele, mas, estranhamente, nem sequer olhou para as suas orelhas. Ele fixou o olhar, com uma seriedade quase cómica, na sua testa careca, e apontou para uma cicatriz triangular, há muito sarada, mas ainda discernível. “O Sr. Green, creio eu”, disse ele educadamente, “e ele conseguiu a propriedade toda, afinal.”
E agora deixem-me dizer aos leitores do Daily Reformer o que considero a coisa mais notável em todo o caso. Esta cena de transformação, que vos parecerá tão selvagem e pomposa como um conto de fadas persa, tem sido (exceto pela minha agressão técnica) estritamente legal e constitucional desde o seu início. Este homem com a cicatriz estranha e as orelhas comuns não é um impostor. Embora (num certo sentido) use a peruca de outro homem e reivindique a orelha de outro homem, ele não roubou a coroa de outro homem. Ele é realmente o único e verdadeiro Duque de Exmoor. O que aconteceu foi isto. O velho Duque tinha realmente uma ligeira malformação na orelha, que era de facto mais ou menos hereditária. Ele era realmente obcecado por isso; e é muito provável que a tenha invocado como uma espécie de maldição na cena violenta (que indubitavelmente aconteceu) em que atingiu Green com a garrafa de cristal. Mas o confronto terminou de forma muito diferente. Green pressionou a sua reivindicação e obteve as propriedades; o nobre desapossado deu um tiro em si próprio e morreu sem descendência. Após um intervalo decente, o belo Governo Inglês reviveu o “extinto” pariato de Exmoor e concedeu-o, como é habitual, à pessoa mais importante, a pessoa que tinha obtido a propriedade.
Este homem usou as velhas fábulas feudais — que, no seu espírito esnobe, ele invejava e admirava verdadeiramente. De modo que milhares de pobres ingleses tremeram perante um chefe misterioso com um destino antigo e um diadema de estrelas malignas — quando, na verdade, estavam a tremer perante um rufia que era um advogadozinho de quinta categoria e um prestamista há menos de doze anos. Acho isto muito típico do verdadeiro caso contra a nossa aristocracia tal como ela é, e como será até que Deus nos envie homens mais corajosos.
O Sr. Nutt pousou o manuscrito e chamou com uma brusquidão incomum: “Srta. Barlow, por favor, tire uma carta para o Sr. Finn.”
CARO FINN, — Você deve estar louco; não podemos tocar nisto. Eu queria vampiros, os maus velhos tempos e a aristocracia de mãos dadas com a superstição. Eles gostam disso, mas você deve saber que os Exmoors nunca perdoariam isto. E o que diria então o nosso pessoal, gostaria de saber! Ora, o Sir Simon é um dos maiores amigos de Exmoor; e isto arruinaria aquele primo dos Eyres que se está a candidatar por nós em Bradford. Além disso, o velho Sabão já ficou bastante doente por não ter conseguido o seu pariato no ano passado; ele despedir-me-ia por telegrama se eu o perdesse com uma loucura destas. E quanto ao Duffey? Ele está a escrever-nos uns artigos estrondosos sobre “O Calcanhar do Normando”. E como pode ele escrever sobre Normandos se o homem é apenas um solicitador? Seja razoável. — Seu, E. NUTT.
Enquanto a Srta. Barlow batia à máquina alegremente, ele amarrotou a cópia e atirou-a para o cesto dos papéis; mas não antes de ter, automaticamente e por força do hábito, alterado a palavra “Deus” para a palavra “circunstâncias”.
OITO — O Perecimento dos Pendragons
O PADRE BROWN não estava com disposição para aventuras. Ele tinha adoecido recentemente devido ao excesso de trabalho, e quando começou a recuperar, o seu amigo Flambeau levou-o num cruzeiro num pequeno iate com Sir Cecil Fanshaw, um jovem fidalgo da Cornualha e entusiasta da paisagem costeira da Cornualha. Mas Brown ainda estava algo fraco; ele não era um marinheiro muito feliz; e embora nunca fosse do tipo que se queixa ou desmorona, o seu ânimo não subia acima da paciência e da civilidade. Quando os outros dois homens elogiavam o pôr do sol violeta irregular ou as escarpas vulcânicas irregulares, ele concordava com eles. Quando Flambeau apontou uma rocha com a forma de um dragão, ele olhou para ela e achou-a muito parecida com um dragão. Quando Fanshaw indicou, mais entusiasmado, uma rocha que se parecia com Merlin, ele olhou para ela e sinalizou o seu assentimento. Quando Flambeau perguntou se esta porta rochosa do rio sinuoso não seria a porta do País das Fadas, ele disse “Sim”. Ele ouvia as coisas mais importantes e as mais triviais com a mesma absorção insípida. Ouviu dizer que a costa era a morte para todos, exceto para marinheiros cuidadosos; também ouviu dizer que o gato do navio estava a dormir. Ouviu dizer que Fanshaw não conseguia encontrar a sua piteira em lugar nenhum; também ouviu o piloto proferir o oráculo: “Dois olhos brilhantes, ela está bem; um olho pisca, para o fundo ela desce”. Ouviu Flambeau dizer a Fanshaw que, sem dúvida, isto significava que o piloto devia manter ambos os olhos abertos e estar atento. E ouviu Fanshaw dizer a Flambeau que, curiosamente, não significava isso: significava que, enquanto vissem duas das luzes da costa, uma perto e a outra distante, exatamente lado a lado, estavam no canal correto do rio; mas que, se uma luz estivesse escondida atrás da outra, estariam a ir contra as rochas. Ouviu Fanshaw acrescentar que a sua terra estava cheia de tais fábulas e expressões idiomáticas pitorescas; era o próprio lar do romance; ele até rivalizou esta parte da Cornualha com Devonshire, como pretendente aos louros da navegação elisabetana. Segundo ele, tinha havido capitães entre estas enseadas e ilhéus em comparação com os quais Drake era praticamente um homem de terra. Ouviu Flambeau rir-se e perguntar se, talvez, o título aventureiro de “Westward Ho!” significava apenas que todos os homens de Devonshire desejavam viver na Cornualha. Ouviu Fanshaw dizer que não havia necessidade de ser parvo; que não só os capitães da Cornualha tinham sido heróis, como ainda o eram: que perto daquele mesmo local havia um velho almirante, agora reformado, que estava marcado por viagens emocionantes cheias de aventuras; e que tinha na sua juventude encontrado o último grupo de oito Ilhas do Pacífico que foi adicionado ao mapa do mundo. Este Cecil Fanshaw era, em pessoa, do tipo que habitualmente incita a tais entusiasmos crus mas agradáveis; um homem muito jovem, de cabelo claro, tez rosada, com um perfil ansioso; com um bravado juvenil de espírito, mas uma delicadeza de tom e tipo quase feminina. Os ombros largos, as sobrancelhas negras e o balanço de mosqueteiro negro de Flambeau eram um grande contraste.
Todas estas trivialidades Brown ouviu e viu; mas ouviu-as como um homem cansado ouve uma melodia nas rodas do comboio, ou viu-as como um homem doente vê o padrão do seu papel de parede. Ninguém pode calcular as mudanças de humor na convalescença: mas a depressão do Padre Brown devia ter muito a ver com a sua simples falta de familiaridade com o mar. Pois, à medida que a foz do rio se estreitava como o gargalo de uma garrafa, e a água se tornava mais calma e o ar mais quente e terreno, ele parecia acordar e reparar nas coisas como um bebé. Tinham chegado àquela fase logo após o pôr do sol, em que o ar e a água parecem ambos brilhantes, mas a terra e tudo o que nela cresce parece quase negro por comparação. Sobre esta noite em particular, no entanto, havia algo de excecional. Era uma daquelas atmosferas raras em que uma lâmina de vidro fumado parece ter sido deslizada de entre nós e a Natureza; de modo que até as cores escuras, naquele dia, pareciam mais magníficas do que as cores brilhantes em dias mais nublados. A terra pisada das margens do rio e a mancha turfosa nas poças não pareciam baças, mas de um âmbar brilhante, e os bosques escuros agitados pela brisa não pareciam, como habitualmente, azul-esbatido pela mera profundidade da distância, mas antes massas revolvidas pelo vento de alguma flor violeta vívida. Esta clareza e intensidade mágicas nas cores foram ainda mais forçadas sobre os sentidos lentamente reanimados de Brown por algo romântico e até secreto na própria forma da paisagem.
O rio ainda era largo e profundo o suficiente para um barco de recreio tão pequeno como o deles; mas as curvas da paisagem sugeriam que ele se estava a fechar de ambos os lados; os bosques pareciam estar a fazer tentativas quebradas e fugazes de construção de pontes — como se o barco estivesse a passar do romance de um vale para o romance de um recanto e, então, para o romance supremo de um túnel. Para além deste simples aspeto das coisas, havia pouco com que a imaginação renovada de Brown se pudesse alimentar; ele não viu seres humanos, exceto alguns ciganos que seguiam pela margem do rio, com feixes de lenha e vimes cortados na floresta; e uma visão já não anticonvencional, mas em partes tão remotas ainda pouco comum: uma senhora de cabelo escuro, sem chapéu, a remar a sua própria canoa. Se o Padre Brown alguma vez atribuiu importância a qualquer uma delas, certamente esqueceu-as na curva seguinte do rio, que trouxe à vista um objeto singular.
A água parecia alargar-se e dividir-se, sendo fendida pela cunha escura de um ilhéu arborizado com a forma de um peixe. Com a velocidade a que iam, o ilhéu parecia nadar em direção a eles como um navio; um navio com uma proa muito alta — ou, para ser mais rigoroso, uma chaminé muito alta. Pois, no ponto extremo mais próximo deles, erguia-se um edifício de aspeto estranho, diferente de tudo o que eles conseguiam recordar ou conectar com qualquer propósito. Não era especialmente alto, mas era demasiado alto para a sua largura para ser chamado de outra coisa senão uma torre. No entanto, parecia ser construído inteiramente de madeira, e isso de uma forma muito desigual e excêntrica. Algumas das tábuas e vigas eram de carvalho bom e curado; algumas de madeira cortada em bruto e recente; outras ainda de madeira de pinho branca, e muito mais do mesmo tipo de madeira pintada de preto com alcatrão. Estas vigas pretas estavam colocadas tortas ou em cruz em todos os tipos de ângulos, dando ao conjunto um aspeto muito remendado e intrigante. Havia uma ou duas janelas, que pareciam ser coloridas e emolduradas em chumbo num estilo antiquado, mas mais elaborado. Os viajantes olharam para ele com aquele sentimento paradoxal que temos quando algo nos recorda outra coisa, e no entanto temos a certeza de que é algo muito diferente.
O Padre Brown, mesmo quando estava mistificado, era inteligente ao analisar a sua própria mistificação. E encontrou-se a refletir que a estranheza parecia consistir numa forma particular cortada num material incongruente; como se alguém visse uma cartola feita de estanho, ou um casaco de fraque cortado em tecido de tartan. Ele tinha a certeza de que já tinha visto madeiras de tons diferentes dispostas daquela maneira em algum lugar, mas nunca em tais proporções arquitetónicas. No momento seguinte, um vislumbre através das árvores escuras disse-lhe tudo o que queria saber e ele riu-se. Através de uma abertura na folhagem, apareceu por um momento uma daquelas antigas casas de madeira, revestidas com vigas pretas, que ainda se encontram aqui e ali em Inglaterra, mas que a maioria de nós vê imitada em algum espetáculo chamado “Velha Londres” ou “Inglaterra de Shakespeare”. Ela esteve à vista apenas o tempo suficiente para o padre ver que, por mais antiquada que fosse, era uma casa de campo confortável e bem cuidada, com canteiros de flores à frente. Não tinha nada do aspeto malhado e louco da torre que parecia feita dos seus restos.
“O que é isto, afinal?”, disse Flambeau, que ainda estava a olhar para a torre.
Os olhos de Fanshaw brilhavam e ele falou triunfante. “Aha! não viu um lugar exatamente como este antes, imagino; é por isso que o trouxe aqui, meu amigo. Agora verá se exagero sobre os marinheiros da Cornualha. Este lugar pertence ao velho Pendragon, a quem chamamos o Almirante; embora ele se tenha reformado antes de obter a patente. O espírito de Raleigh e Hawkins é uma memória para o povo de Devon; é um facto moderno para os Pendragons. Se a Rainha Isabel se levantasse da sepultura e subisse este rio numa barcaça dourada, seria recebida pelo Almirante numa casa exatamente tal como ela estava habituada, em cada canto e janela, em cada painel na parede ou prato na mesa. E ela encontraria um Capitão inglês ainda a falar ferozmente de terras frescas a serem encontradas em pequenos navios, tanto como se tivesse jantado com Drake.”
“Ela encontraria uma coisa estranha no jardim”, disse o Padre Brown, “que não agradaria ao seu olhar renascentista. Essa arquitetura doméstica elisabetana é encantadora à sua maneira; mas é contra a própria natureza dela rebentar em torreões.”
“E ainda assim”, respondeu Fanshaw, “essa é a parte mais romântica e elisabetana do assunto. Foi construída pelos Pendragons nos próprios dias das guerras espanholas; e embora tenha precisado de ser remendada e até reconstruída por outra razão, foi sempre reconstruída à maneira antiga. A história diz que a senhora de Sir Peter Pendragon a construiu neste lugar e a esta altura, porque do topo se pode ver exatamente o canto onde as embarcações viram para a foz do rio; e ela desejava ser a primeira a ver o navio do seu marido, enquanto ele navegava de volta do Mar das Caraíbas.”
“Por que outra razão”, perguntou o Padre Brown, “quer dizer que ela foi reconstruída?”
“Oh, há uma história estranha sobre isso também”, disse o jovem fidalgo com gosto. “Está realmente numa terra de histórias estranhas. O Rei Artur esteve aqui, e Merlin e as fadas antes dele. A história diz que Sir Peter Pendragon, que (receio) tinha alguns dos defeitos dos piratas, bem como as virtudes do marinheiro, trazia para casa três cavalheiros espanhóis em cativeiro honroso, pretendendo escoltá-los até à corte de Isabel. Mas ele era um homem de temperamento flamejante e tigre, e ao entrar em discussões acesas com um deles, agarrou-o pela garganta e atirou-o, por acidente ou desígnio, ao mar. Um segundo espanhol, que era irmão do primeiro, desembainhou instantaneamente a sua espada e voou sobre Pendragon, e após um combate curto mas furioso, em que ambos sofreram três feridas em outros tantos minutos, Pendragon cravou a sua lâmina no corpo do outro e o segundo espanhol foi eliminado. Por coincidência, o navio já tinha virado para a foz do rio e estava perto de águas comparativamente rasas. O terceiro espanhol saltou para fora do navio, nadou para a costa e estava logo perto o suficiente dela para ficar de pé com a água pela cintura. E virando-se novamente para enfrentar o navio, e segurando ambos os braços para o Céu — como um profeta invocando pragas sobre uma cidade perversa — ele gritou para Pendragon com uma voz penetrante e terrível, que ele, pelo menos, ainda estava vivo, que continuaria a viver, que viveria para sempre; e que, geração após geração, a casa de Pendragon nunca o veria a ele ou aos seus, mas saberia por sinais muito certos que ele e a sua vingança estavam vivos. Com isto, ele mergulhou sob a onda, e ou se afogou ou nadou tanto tempo debaixo de água que nenhum fio do seu cabelo foi visto depois.”
“Lá está aquela rapariga na canoa outra vez”, disse Flambeau irrelevamente, pois mulheres jovens e bonitas desviá-lo-iam de qualquer tópico. “Ela parece incomodada com a torre estranha, tal como nós estávamos.”
De facto, a jovem de cabelos negros estava a deixar a sua canoa flutuar lenta e silenciosamente pelo estranho ilhéu; e estava a olhar atentamente para a estranha torre, com um forte brilho de curiosidade no seu rosto oval e cor de azeitona.
“Não se importe com raparigas”, disse Fanshaw impacientemente, “há muitas delas no mundo, mas não muitas coisas como a Torre Pendragon. Como pode facilmente supor, muitas superstições e escândalos seguiram-se no rasto da maldição do espanhol; e sem dúvida, como você diria, qualquer acidente que acontecesse a esta família da Cornualha seria ligado a ela pela credulidade rural. Mas é perfeitamente verdade que esta torre foi queimada duas ou três vezes; e a família não pode ser chamada de sortuda, pois mais de dois, creio eu, dos parentes próximos do Almirante pereceram em naufrágios; e pelo menos um, pelo que sei, praticamente no mesmo local onde Sir Peter atirou o espanhol ao mar.”
“Que pena!”, exclamou Flambeau. “Ela está a ir embora.”
“Quando é que o seu amigo o Almirante lhe contou esta história de família?”, perguntou o Padre Brown, enquanto a rapariga na canoa remava para longe, sem mostrar a menor intenção de estender o seu interesse da torre para o iate, que Fanshaw já tinha feito encostar ao lado da ilha.
“Há muitos anos”, respondeu Fanshaw; “ele já não vai ao mar há algum tempo, embora seja tão entusiasta como sempre. Creio que há um pacto familiar ou algo do género. Bem, aqui está o cais de desembarque; vamos ashore e ver o velho.”
Seguiram-no para a ilha, logo abaixo da torre, e o Padre Brown, fosse pelo simples toque em terra seca, ou pelo interesse de algo na outra margem do rio (para o qual ele olhou muito fixamente durante alguns segundos), parecia singularmente melhorado na vivacidade. Entraram numa avenida arborizada entre duas cercas de madeira fina e acinzentada, como as que frequentemente cercam parques ou jardins, e sobre o topo das quais as árvores escuras se agitavam de um lado para o outro como plumas pretas e violetas sobre o carro fúnebre de um gigante. A torre, à medida que a deixavam para trás, parecia ainda mais pitoresca, porque tais entradas são habitualmente flanqueadas por duas torres; e esta parecia assimétrica. Fora isto, a avenida tinha o aspeto habitual da entrada para os terrenos de um cavalheiro; e, sendo tão curva que a casa estava agora fora de vista, de alguma forma parecia um parque muito maior do que qualquer plantação numa tal ilha poderia realmente ser. O Padre Brown estava, talvez, um pouco fantasioso no seu cansaço, mas quase pensou que o lugar inteiro devia estar a crescer, como as coisas fazem num pesadelo. De qualquer forma, uma monotonia mística era o único caráter da sua marcha, até que Fanshaw parou subitamente e apontou para algo que sobressaía através da cerca cinzenta — algo que parecia, à primeira vista, um pouco como o chifre aprisionado de alguma besta. Uma observação mais próxima mostrou que era uma lâmina de metal ligeiramente curva que brilhava fracamente na luz que se desvanecia.
Flambeau, que como todos os franceses tinha sido soldado, inclinou-se sobre ela e disse com uma voz sobressaltada: “Ora, é um sabre! Creio que conheço o tipo, pesado e curvo, mas mais curto que o da cavalaria; costumavam tê-los na artilharia e na...”
Enquanto ele falava, a lâmina desprendeu-se da fenda que fizera e desceu novamente com um golpe mais pesado, fendendo a cerca fissípara até à base com um ruído de rasgão. Depois, foi puxada de novo, brilhou acima da cerca alguns metros mais adiante e, de novo, fendeu-a até metade com o primeiro golpe; e, depois de oscilar um pouco para se libertar (acompanhada de pragas na escuridão), fendeu-a até ao chão com um segundo. Então, um pontapé de energia diabólica fez com que todo o quadrado de madeira fina solta voasse para o caminho, e uma grande abertura de matagal escuro escancarou-se na vedação.
Fanshaw espreitou para a abertura escura e soltou uma exclamação de espanto. "Meu caro Almirante!", exclamou ele, "o senhor... er... costuma abrir uma porta da frente nova sempre que quer ir dar um passeio?"
A voz na penumbra voltou a praguejar e depois desatou a rir alegremente. "Não", disse ela; "tenho mesmo de cortar esta cerca de alguma maneira; está a estragar todas as plantas e ninguém mais aqui o consegue fazer. Mas vou apenas esculpir mais um bocado na porta da frente e depois sairei para vos dar as boas-vindas."
E, de facto, ergueu a sua arma mais uma vez e, golpeando duas vezes, derrubou outra tira semelhante da cerca, tornando a abertura com cerca de catorze pés de largura no total. Depois, através deste portal florestal mais largo, saiu para a luz da tarde, com uma lasca de madeira cinzenta colada à lâmina da sua espada.
Ele cumpria momentaneamente toda a fábula de Fanshaw de um velho almirante pirata; embora os detalhes parecessem depois decompor-se em acidentes. Por exemplo, usava um chapéu de abas largas como proteção contra o sol; mas a aba da frente estava virada para cima, em direção ao céu, e os dois cantos puxados para baixo, abaixo das orelhas, de modo a que se erguia sobre a testa num crescente, como o antigo chapéu de três bicos usado por Nelson. Usava um casaco azul-escuro comum, sem nada de especial nos botões, mas a combinação com calças de linho branco dava-lhe, de alguma forma, um aspeto marinheiro. Era alto e desengonçado, e andava com uma espécie de pavoneio, que não era o balanço de um marinheiro, e ainda assim, de alguma forma, sugeria-o; e segurava na mão um sabre curto que parecia um cutelo da marinha, mas cerca de duas vezes maior. Sob a ponte do chapéu, o seu rosto de águia parecia ansioso, tanto mais por não estar apenas barbeado, mas sem sobrancelhas. Parecia quase como se todo o pelo tivesse caído do seu rosto por o ter enfiado através de uma multidão de elementos. Os seus olhos eram proeminentes e penetrantes. A sua cor era curiosamente atraente, embora parcialmente tropical; lembrava vagamente uma laranja sanguínea. Ou seja, embora fosse avermelhada e sanguínea, havia nela um amarelo que de forma alguma era doentio, mas que parecia antes brilhar como as maçãs de ouro das Hespérides — o Padre Brown pensou que nunca tinha visto uma figura tão expressiva de todos os romances sobre os países do Sol.
Quando Fanshaw apresentou os seus dois amigos ao anfitrião, caiu novamente num tom de troça para com este último sobre o seu destroço da cerca e a sua aparente fúria de profanidade. O Almirante desdenhou-o ao princípio como um trabalho de jardinagem necessário, mas irritante; mas, a certa altura, o toque de energia real regressou à sua risada, e ele exclamou com uma mistura de impaciência e bom humor:
"Bem, talvez eu seja um pouco raivoso e sinta uma espécie de prazer em esmagar qualquer coisa. O senhor também sentiria se o seu único prazer fosse navegar à procura de novas Ilhas Canibais e tivesse de ficar preso neste pequeno jardim de pedras lamacento, num tipo de lago rústico. Quando me lembro de como cortei uma milha e meia de selva verde e venenosa com um velho cutelo metade tão afiado como este; e depois me lembro de que tenho de parar aqui e cortar esta madeira de fósforo, por causa de algum maldito acordo antigo rabiscado numa Bíblia de família, bem, eu..."
Ele balançou o aço pesado novamente; e desta vez separou a parede de madeira de cima a baixo com um só golpe.
"Sinto-me assim", disse ele rindo, mas atirando furiosamente a espada alguns metros pelo caminho, "e agora vamos até à casa; têm de jantar."
O semicírculo de relvado em frente à casa era variado por três canteiros circulares, um de tulipas vermelhas, um segundo de tulipas amarelas e o terceiro de umas flores brancas, com aspeto de cera, que os visitantes não conheciam e presumiam ser exóticas. Um jardineiro pesado, peludo e com aspeto bastante carrancudo estava a pendurar uma bobina pesada de mangueira de jardim. Os cantos do pôr do sol expirante que pareciam agarrar-se aos cantos da casa davam vislumbres aqui e ali das cores de canteiros de flores mais remotos; e num espaço sem árvores de um lado da casa, abrindo para o rio, erguia-se um alto tripé de latão sobre o qual estava inclinado um grande telescópio de latão. Logo fora dos degraus do alpendre havia uma pequena mesa de jardim pintada de verde, como se alguém tivesse acabado de tomar chá ali. A entrada era ladeada por dois daqueles blocos de pedra com aspetos mal definidos e buracos para olhos que se diz serem ídolos dos Mares do Sul; e na trave de carvalho castanho através da porta estavam algumas esculturas confusas que pareciam quase tão bárbaras.
Ao entrarem, o pequeno clérigo saltou subitamente para cima da mesa e, de pé sobre ela, espreitou sem afetacão através dos seus óculos para as molduras no carvalho. O Almirante Pendragon parecia muito espantado, embora não particularmente incomodado; enquanto Fanshaw estava tão divertido com o que parecia um pigmeu a atuar no seu pequeno estrado, que não conseguia controlar o riso. Mas o Padre Brown não era propenso a reparar nem no riso nem no espanto.
Ele estava a contemplar três símbolos esculpidos, que, embora muito gastos e obscuros, pareciam ainda transmitir-lhe algum sentido. O primeiro parecia ser o contorno de alguma torre ou outro edifício, coroado com o que parecia fitas de pontas encaracoladas. O segundo era mais claro: uma antiga galera elisabetana com ondas decorativas por baixo, mas interrompida no meio por uma curiosa rocha irregular, que era ou uma falha na madeira ou alguma representação convencional da água a entrar. O terceiro representava a metade superior de uma figura humana, terminando numa linha recortada como as ondas; o rosto estava gasto e sem traços, e ambos os braços estavam mantidos muito rigidamente no ar.
"Bem", murmurou o Padre Brown, piscando os olhos, "aqui está a lenda do espanhol suficientemente clara. Ei-lo a levantar os braços e a praguejar no mar; e aqui estão as duas maldições: o navio naufragado e o incêndio da Torre de Pendragon."
Pendragon abanou a cabeça com uma espécie de divertimento venerável. "E quantas outras coisas não poderá ser?", disse ele. "Não sabe que esse tipo de meio-homem, como um meio-leão ou meio-veado, é bastante comum na heráldica? Não poderia aquela linha através do navio ser uma daquelas linhas parti-per-pale, dentada, penso eu que chamam? E embora a terceira coisa não seja tão heráldica, seria mais heráldico supor que é uma torre coroada com louro do que com fogo; e é exatamente o que parece."
"Mas parece bastante estranho", disse Flambeau, "que confirme exatamente a lenda antiga."
"Ah", respondeu o viajante cético, "mas não sabe quanto da lenda antiga pode ter sido inventado a partir das velhas figuras. Além disso, não é a única lenda antiga. Fanshaw, aqui, que gosta dessas coisas, dir-lhe-á que há outras versões da história, e muito mais horríveis. Uma história atribui ao meu infeliz antepassado ter mandado cortar o espanhol em dois; e isso também se encaixa na bonita imagem. Outra atribui, por favor, à nossa família a posse de uma torre cheia de cobras e explica essas pequenas coisas sinuosas dessa maneira. E uma terceira teoria supõe que a linha torta no navio é um raio convencionalizado; mas isso sozinho, se seriamente examinado, mostraria quão pouco estas coincidências infelizes realmente significam."
"Por que, como quer dizer?", perguntou Fanshaw.
"Acontece", respondeu o seu anfitrião friamente, "que não houve trovão nem relâmpago de todo nos dois ou três naufrágios que conheço na nossa família."
"Oh!", disse o Padre Brown, e saltou da pequena mesa.
Houve outro silêncio no qual ouviram o murmúrio contínuo do rio; depois Fanshaw disse, num tom duvidoso e talvez desapontado: "Então não acha que há alguma verdade nas histórias da torre em chamas?"
"Há as histórias, claro", disse o Almirante, encolhendo os ombros; "e algumas delas, não nego, com provas tão decentes quanto alguma vez se obtém para tais coisas. Alguém viu um incêndio aqui por perto, não sabe, enquanto caminhava para casa através de um bosque; alguém a guardar ovelhas nas terras altas do interior pensou ver uma chama a pairar sobre a Torre de Pendragon. Bem, uma mancha húmida de lama como esta maldita ilha parece o último lugar onde se pensaria em fogos."
"O que é aquele fogo ali?", perguntou o Padre Brown com uma gentileza súbita, apontando para os bosques na margem esquerda do rio. Ficaram todos um pouco desequilibrados, e o mais fantasioso Fanshaw teve até alguma dificuldade em recuperar o seu, ao verem um longo e fino rasto de fumo azul a ascender silenciosamente para o fim da luz da tarde.
Então Pendragon desatou a rir com desprezo novamente. "Ciganos!", disse ele; "têm andado acampados por aqui há cerca de uma semana. Cavalheiros, querem o vosso jantar", e virou-se como se fosse entrar na casa.
Mas a superstição antiquária em Fanshaw ainda tremia, e ele disse apressadamente: "Mas, Almirante, que ruído sibilante é aquele muito perto da ilha? É muito parecido com fogo."
"É mais parecido com o que é", disse o Almirante, rindo enquanto liderava o caminho; "é apenas alguma canoa a passar."
Quase enquanto falava, o mordomo, um homem magro de negro, com cabelo muito preto e um rosto muito longo e amarelo, apareceu à porta e disse-lhe que o jantar estava servido.
A sala de jantar era tão náutica como a cabine de um navio; mas a sua nota era mais a do capitão moderno do que a do elisabetano. Havia, de facto, três cutelos antigos num troféu sobre a lareira, e um mapa castanho do século XVI com Tritões e pequenos navios espalhados por um mar encaracolado. Mas essas coisas eram menos proeminentes nos painéis brancos do que algumas caixas de aves sul-americanas de cores pitorescas, muito cientificamente empalhadas, conchas fantásticas do Pacífico e vários instrumentos tão rudimentares e estranhos na forma que os selvagens poderiam tê-los usado tanto para matar os seus inimigos como para os cozinhar. Mas a cor estranha culminava no facto de que, além do mordomo, os únicos criados do Almirante eram dois negros, algo pitorescamente vestidos com uniformes apertados de amarelo. O truque instintivo do padre de analisar as suas próprias impressões dizia-lhe que a cor e as pequenas abas dos casacos destes bípedes tinham sugerido a palavra "Canário", e assim, por um mero trocadilho, ligava-os a viagens para o sul. Perto do fim do jantar, levaram as suas roupas amarelas e rostos pretos para fora da sala, deixando apenas as roupas pretas e o rosto amarelo do mordomo.
"Lamento um pouco que encare isto tão levemente", disse Fanshaw ao anfitrião; "pois a verdade é que trouxe estes meus amigos com a ideia de eles o ajudarem, pois sabem muito sobre estas coisas. Não acredita mesmo nada na história da família?"
"Não acredito em nada", respondeu Pendragon muito vivamente, com um olho brilhante inclinado para um pássaro tropical vermelho. "Sou um homem de ciência."
Para surpresa de Flambeau, o seu amigo clerical, que parecia ter acordado completamente, pegou na digressão e falou de história natural com o seu anfitrião com um fluxo de palavras e muita informação inesperada, até que a sobremesa e os decantadores foram postos e o último dos criados desapareceu. Então disse, sem alterar o tom.
"Por favor, não me considere impertinente, Almirante Pendragon. Não pergunto por curiosidade, mas realmente para minha orientação e sua conveniência. Fiz um mau palpite se adivinhar que não quer que estas coisas antigas sejam faladas à frente do seu mordomo?"
O Almirante levantou os arcos sem pelos sobre os seus olhos e exclamou: "Bem, não sei onde obteve isso, mas a verdade é que não suporto o tipo, embora não tenha desculpa para despedir um criado da família. Fanshaw, com os seus contos de fadas, diria que o meu sangue se moveu contra homens com aquele cabelo preto, com aspeto espanhol."
Flambeau bateu na mesa com o seu punho pesado. "Por Júpiter!", gritou ele; "e também aquela rapariga!"
"Espero que tudo termine esta noite", continuou o Almirante, "quando o meu sobrinho voltar são e salvo do seu navio. Pareceu surpreendido. Não compreenderá, suponho, a menos que lhe conte a história. Sabe, o meu pai tinha dois filhos; eu permaneci solteiro, mas o meu irmão mais velho casou-se e teve um filho que se tornou marinheiro como todos nós, e herdará a propriedade. Bem, o meu pai era um homem estranho; ele combinava de alguma forma a superstição de Fanshaw com muito do meu ceticismo — estavam sempre a lutar nele; e depois das minhas primeiras viagens, ele desenvolveu uma noção que pensou que de alguma forma resolveria finalmente se a maldição era verdade ou lixo. Se todos os Pendragons navegassem de qualquer maneira, pensou que haveria demasiada hipótese de catástrofes naturais para provar alguma coisa. Mas se fôssemos para o mar um de cada vez, em estrita ordem de sucessão à propriedade, pensou que poderia mostrar se algum destino conectado seguia a família como família. Era uma noção estúpida, penso eu, e discuti com o meu pai bastante seriamente; pois eu era um homem ambicioso e fui deixado para o último, vindo, por sucessão, depois do meu próprio sobrinho."
"E o seu pai e irmão", disse o padre, muito gentilmente, "morreram no mar, receio."
"Sim", gemeu o Almirante; "por um daqueles acidentes brutais sobre os quais são construídas todas as mitologias mentirosas da humanidade, ambos naufragaram. O meu pai, vindo ao longo desta costa vindo do Atlântico, foi arrastado para estas rochas da Cornualha. O navio do meu irmão foi afundado, ninguém sabe onde, na viagem de volta da Tasmânia. O seu corpo nunca foi encontrado. Digo-lhe que foi por um contratempo perfeitamente natural; muitos outros além dos Pendragons morreram afogados; e ambos os desastres são discutidos de uma forma normal pelos navegadores. Mas, claro, isso ateou fogo a esta floresta de superstição; e os homens viram a torre em chamas por toda a parte. É por isso que digo que tudo ficará bem quando Walter regressar. A rapariga com quem está noivo vinha hoje; mas eu tinha tanto medo de que algum atraso acidental a assustasse que lhe enviei um telegrama para não vir até ter notícias minhas. Mas é praticamente certo que ele esteja aqui algures esta noite, e então tudo terminará em fumo — fumo de tabaco. Vamos quebrar essa velha mentira quando abrirmos uma garrafa deste vinho."
"Muito bom vinho", disse o Padre Brown, levantando gravemente o seu copo, "mas, como vê, um muito mau bebedor de vinho. Peço-lhe sinceramente perdão": pois ele tinha entornado uma pequena mancha de vinho na toalha de mesa. Bebeu e pousou o copo com um rosto composto; mas a sua mão tinha tremido no momento exato em que se tornou consciente de um rosto a olhar através da janela do jardim logo atrás do Almirante — o rosto de uma mulher, morena, com cabelo e olhos meridionais, e jovem, mas como uma máscara de tragédia.
Após uma pausa, o padre falou novamente com o seu modo suave. "Almirante", disse ele, "faria-me um favor? Deixe-me, e aos meus amigos se quiserem, ficar nessa sua torre apenas por esta noite? Sabe que no meu negócio o senhor é um exorcista quase antes de qualquer outra coisa?"
Pendragon levantou-se de um salto e caminhou rapidamente de um lado para o outro através da janela, de onde o rosto tinha desaparecido instantaneamente. "Digo-lhe que não há nada nisso", gritou ele, com violência retumbante. "Há uma coisa que sei sobre este assunto. Podem chamar-me ateu. Sou ateu." Aqui ele virou-se e fixou o Padre Brown com um rosto de concentração assustadora. "Este assunto é perfeitamente natural. Não há maldição nenhuma nele."
O Padre Brown sorriu. "Nesse caso", disse ele, "não pode haver qualquer objeção a que eu durma na sua encantadora casa de verão."
"A ideia é totalmente ridícula", respondeu o Almirante, batendo um tamborilar nas costas da sua cadeira.
"Por favor, perdoe-me por tudo", disse Brown no seu tom mais compreensivo, "incluindo entornar o vinho. Mas parece-me que não está tão à vontade com a torre em chamas como tenta estar."
O Almirante Pendragon sentou-se novamente tão abruptamente como se tinha levantado; mas sentou-se muito quieto, e quando falou novamente foi com uma voz mais baixa. "Faz isso por sua conta e risco", disse ele; "mas não seria um ateu para manter a sanidade no meio de toda esta diabrura?"
Cerca de três horas depois, Fanshaw, Flambeau e o padre ainda estavam a vaguear pelo jardim no escuro; e começou a amanhecer para os outros dois que o Padre Brown não tinha intenção de ir para a cama, nem na torre nem na casa.
"Penso que o relvado precisa de ser limpo", disse ele sonhadoramente. "Se eu pudesse encontrar uma enxada ou algo assim, faria isso eu mesmo."
Seguiram-no, rindo e meio a protestar; mas ele respondeu com a máxima solenidade, explicando-lhes, num sermãozinho enlouquecedor, que se pode sempre encontrar alguma pequena ocupação que seja útil aos outros. Ele não encontrou uma enxada; mas encontrou uma vassoura velha feita de galhos, com a qual começou energeticamente a varrer as folhas caídas da relva.
"Sempre alguma pequena coisa a ser feita", disse ele com uma alegria idiota; "como diz George Herbert: 'Quem varre o jardim de um Almirante na Cornualha, como pelas Tuas leis, faz isso e a ação bela'. E agora", acrescentou ele, atirando subitamente a vassoura para longe, "vamos regar as flores."
Com as mesmas emoções misturadas, observaram-no desenrolar alguns comprimentos consideráveis da mangueira grande de jardim, dizendo com um ar de discernimento nostálgico: "As tulipas vermelhas antes das amarelas, penso eu. Parecem um pouco secas, não acham?"
Ele abriu a pequena torneira no instrumento, e a água disparou para fora, reta e sólida como uma longa vara de aço.
"Cuidado, Sansão", gritou Flambeau; "ora, cortou a cabeça da tulipa."
O Padre Brown ficou a contemplar pesarosamente a planta decapitada.
"A minha parece ser um tipo de rega de matar ou curar", admitiu ele, coçando a cabeça. "Suponho que é uma pena não ter encontrado a enxada. Deviam ter-me visto com a enxada! Falando em ferramentas, tem aquele bastão-espada, Flambeau, que transporta sempre? Isso está certo; e o Sir Cecil poderia ter aquela espada que o Almirante atirou fora junto à cerca. Como tudo parece cinzento!"
"A névoa está a subir do rio", disse o estupefacto Flambeau.
Quase enquanto falava, a enorme figura do jardineiro peludo apareceu numa crista mais alta do relvado trincheirado e em socalcos, chamando-os com um ancinho brandido e uma voz horrivelmente a bramir. "Pouse essa mangueira", gritou ele; "pouse essa mangueira e vá para o seu..."
"Sou terrivelmente desajeitado", respondeu o reverendo cavalheiro fracamente; "sabe, entornei um pouco de vinho ao jantar." Ele fez um meio-giro hesitante de desculpa em direção ao jardineiro, com a mangueira ainda a jorrar na sua mão. O jardineiro apanhou o choque frio da água em cheio na cara como o choque de uma bala de canhão; cambaleou, escorregou e foi estatelar-se com as botas no ar.
"Que coisa tão terrível!", disse o Padre Brown, olhando à volta com uma espécie de espanto. "Ora, atingi um homem!"
Ele ficou com a cabeça para a frente por um momento como se estivesse a olhar ou a ouvir; e depois partiu a trote em direção à torre, ainda arrastando a mangueira atrás de si. A torre estava bastante perto, mas o seu contorno era curiosamente baço.
"A sua névoa do rio", disse ele, "tem um cheiro a rum."
"Pelo Senhor que tem", gritou Fanshaw, que estava muito pálido. "Mas não pode querer dizer..."
"Quero dizer", disse o Padre Brown, "que uma das predições científicas do Almirante se vai tornar realidade esta noite. Esta história vai acabar em fumo."
Enquanto falava, uma luz rosa-avermelhada mais bela parecia rebentar em flor como uma rosa gigantesca; mas acompanhada de um ruído estaladiço e de matraquear que era como o riso dos demónios.
“Meu Deus! O que é isto?”, gritou Sir Cecil Fanshaw.
“O sinal da torre em chamas”, disse o Padre Brown, e lançou a água impetuosa da sua mangueira para o coração da mancha vermelha.
“Sorte a nossa não termos ido para a cama!”, exclamou Fanshaw. “Suponho que não se possa espalhar para a casa.”
“Talvez se recorde”, disse o padre calmamente, “que a vedação de madeira que a poderia ter transportado foi cortada.”
Flambeau voltou olhos eletrizados para o seu amigo, mas Fanshaw apenas disse, de forma algo ausente: “Bem, de qualquer modo, ninguém pode ser morto.”
“Este é um tipo de torre bastante curioso”, observou o Padre Brown, “quando se dedica a matar pessoas, mata sempre pessoas que estão noutro lugar.”
No mesmo instante, a monstruosa figura do jardineiro com a barba a escorrer estava novamente na crista verde contra o céu, acenando a outros para que viessem; mas agora acenando não com um ancinho, mas com um cutelo. Atrás dele vinham os dois negros, também com os velhos cutelos curvos do troféu. Mas, no brilho vermelho-sangue, com as suas caras pretas e figuras amarelas, pareciam demónios carregando instrumentos de tortura. No jardim sombrio atrás deles, ouviu-se uma voz distante a dar direções breves. Quando o padre ouviu a voz, uma mudança terrível passou-se na sua fisionomia.
Mas ele permaneceu composto; e nunca tirou os olhos da mancha de chama que tinha começado por se espalhar, mas que agora parecia encolher um pouco enquanto sibilava sob a tocha da longa lança de prata de água. Manteve o dedo ao longo do bocal do tubo para garantir a pontaria, e não prestou atenção a mais nada, sabendo apenas pelo ruído e por aquele canto de olho semiconsciente, os incidentes excitantes que começavam a amontoar-se à volta do jardim da ilha. Deu duas direções breves aos seus amigos. Uma foi: “Derrubem estes tipos de alguma maneira e atem-nos, quem quer que sejam; há corda junto daqueles feixes. Eles querem levar a minha mangueira bonita.” A outra foi: “Assim que tiverem oportunidade, chamem aquela rapariga da canoa; ela está na margem com os ciganos. Perguntem-lhe se eles poderiam passar alguns baldes e enchê-los no rio.” Depois fechou a boca e continuou a regar a nova flor vermelha tão impiedosamente como tinha regado a tulipa vermelha.
Nunca virou a cabeça para olhar para a estranha luta que se seguiu entre os inimigos e os amigos do fogo misterioso. Quase sentiu a ilha abanar quando Flambeau colidiu com o enorme jardineiro; imaginou apenas como ela giraria à volta deles enquanto lutavam. Ouviu a queda estrondosa; e o suspiro de triunfo do seu amigo enquanto se lançava para o primeiro negro; e os gritos de ambos os negros enquanto Flambeau e Fanshaw os amarravam. A força enorme de Flambeau mais do que reequilibrou as probabilidades na luta, especialmente porque o quarto homem ainda pairava perto da casa, apenas uma sombra e uma voz. Ouviu também a água ser cortada pelos remos de uma canoa; a voz da rapariga a dar ordens, as vozes dos ciganos a responder e a aproximarem-se, o ruído de baldes vazios mergulhados num rio cheio; e, finalmente, o som de muitos pés à volta do fogo. Mas tudo isto foi menos para ele do que o facto de que a fenda vermelha, que tinha ultimamente aumentado mais uma vez, tinha diminuído ligeiramente mais uma vez.
Depois veio um grito que quase o fez virar a cabeça. Flambeau e Fanshaw, agora reforçados por alguns dos ciganos, tinham corrido atrás do homem misterioso junto da casa; e ele ouviu do outro lado do jardim o grito de horror e espanto do francês. Foi ecoado por um uivo que não podia ser chamado humano, à medida que o ser se soltou do seu aperto e correu ao longo do jardim. Três vezes, pelo menos, correu à volta de toda a ilha, de uma forma que era tão horrível como a perseguição de um lunático, tanto nos gritos do perseguido como nas cordas carregadas pelos perseguidores; mas era ainda mais horrível, porque sugeria de alguma forma um dos jogos de perseguição de crianças num jardim. Então, ao ver que o cercavam por todos os lados, a figura saltou para uma das margens mais altas do rio e desapareceu com um mergulho no rio escuro e impetuoso.
“Receio que não possa fazer mais nada”, disse Brown com uma voz fria de dor. “Ele já foi levado para as rochas, onde enviou tantos outros. Ele conhecia o uso de uma lenda familiar.”
“Oh, não fales por parábolas”, gritou Flambeau impacientemente. “Não podes dizer simplesmente em palavras de uma sílaba?”
“Sim”, respondeu Brown, com o olho na mangueira. “‘Olhos brilhantes, ela está bem; um olho pisca, ela afunda-se.’”
O fogo sibilava e gritava cada vez mais, como uma coisa estrangulada, à medida que se tornava mais estreito sob o dilúvio do tubo e dos baldes, mas o Padre Brown continuou com o olho nele enquanto continuava a falar:
“Pensei em pedir a esta jovem, se já fosse de manhã, que olhasse através daquele telescópio para a foz do rio e para o rio. Ela poderia ter visto algo que lhe interessasse: o sinal do navio, ou o Sr. Walter Pendragon a voltar para casa, e talvez até o sinal do meio-homem, pois embora ele esteja certamente a salvo agora, ele pode muito bem ter caminhado até à margem. Ele esteve por um triz de outro naufrágio; e nunca teria escapado se a senhora não tivesse tido o bom senso de suspeitar do telegrama do velho Almirante e de vir vigiá-lo. Não falemos do velho Almirante. Não falemos de nada. Basta dizer que sempre que esta torre, com o seu pez e madeira resinosa, realmente se incendiava, a faísca no horizonte parecia sempre a luz gémea do farol da costa.”
“E isso”, disse Flambeau, “é como o pai e o irmão morreram. O tio malvado das lendas quase ficou com a sua propriedade, afinal.”
O Padre Brown não respondeu; de facto, não voltou a falar, a não ser por gentilezas, até estarem todos a salvo à volta de uma caixa de charutos na cabine do iate. Viu que o fogo frustrado estava extinto; e depois recusou-se a demorar, embora tenha ouvido o jovem Pendragon, escoltado por uma multidão entusiasta, subir a pisotear a margem do rio; e poderia (se tivesse sido movido por curiosidades românticas) ter recebido os agradecimentos combinados do homem do navio e da rapariga da canoa. Mas a sua fadiga tinha caído sobre ele mais uma vez, e ele só sobressaltou uma vez, quando Flambeau lhe disse bruscamente que ele tinha deixado cair cinza de charuto nas suas calças.
“Isso não é cinza de charuto”, disse ele um tanto cansado. “Isso é do fogo, mas não pensas assim porque estão todos a fumar charutos. Foi exatamente assim que tive a minha primeira leve suspeita sobre a carta náutica.”
“Queres dizer a carta de Pendragon das suas Ilhas do Pacífico?”, perguntou Fanshaw.
“Pensaste que era uma carta das Ilhas do Pacífico”, respondeu Brown. “Põe uma pena com um fóssil e um pedaço de coral e toda a gente pensará que é um espécime. Põe a mesma pena com uma fita e uma flor artificial e toda a gente pensará que é para o chapéu de uma senhora. Põe a mesma pena com um tinteiro, um livro e uma pilha de papel de escrita, e a maioria dos homens jurará que viu uma pena de escrever. Assim, viste aquele mapa entre pássaros tropicais e conchas e pensaste que era um mapa das Ilhas do Pacífico. Era o mapa deste rio.”
“Mas como é que sabes?”, perguntou Fanshaw.
“Vi a rocha que pensaste que era como um dragão, e a que era como Merlin, e...”
“Pareces ter reparado em muitas coisas quando entrámos”, gritou Fanshaw. “Pensámos que estavas bastante alheado.”
“Estava enjoado”, disse o Padre Brown simplesmente. “Senti-me simplesmente horrível. Mas sentir-se horrível não tem nada a ver com não ver as coisas.” E fechou os olhos.
“Achaste que a maioria dos homens teria visto isso?”, perguntou Flambeau. Não recebeu resposta: o Padre Brown estava a dormir.
NOVE -- O Deus dos Gongos
ERA uma daquelas tardes frias e vazias do início do inverno, quando a luz do dia é mais prateada do que dourada e mais de estanho do que de prata. Se era desolador em cem escritórios sombrios e salas de estar bocejantes, era ainda mais desolador ao longo das margens da costa plana de Essex, onde a monotonia era ainda mais inumana por ser quebrada a intervalos muito longos por um poste de iluminação que parecia menos civilizado do que uma árvore, ou uma árvore que parecia mais feia do que um poste de iluminação. Uma leve queda de neve tinha-se meio derretido em algumas tiras, também parecendo mais de chumbo do que de prata, quando tinha sido fixada novamente pelo selo da geada; não tinha caído neve fresca, mas uma fita da neve antiga corria ao longo da própria margem da costa, de modo a ficar paralela à fita pálida da espuma.
A linha do mar parecia congelada na própria vivacidade do seu azul-violeta, como a veia de um dedo congelado. Por quilómetros e quilómetros, para a frente e para trás, não havia uma alma viva, exceto dois pedestais, caminhando a um passo acelerado, embora um tivesse pernas muito mais longas e desse passadas muito mais longas do que o outro.
Não parecia um lugar ou um momento muito apropriado para umas férias, mas o Padre Brown tinha poucas férias, e tinha de aproveitá-las quando podia, e preferia sempre, se possível, aproveitá-las na companhia do seu velho amigo Flambeau, ex-criminoso e ex-detetive. O padre tinha tido a fantasia de visitar a sua antiga paróquia em Cobhole, e ia para nordeste ao longo da costa.
Depois de caminhar mais um ou dois quilómetros, descobriram que a costa começava a ser formalmente empredada, de modo a formar algo como um passeio; os postes de iluminação feios tornaram-se menos escassos e mais ornamentais, embora igualmente feios. Meio quilómetro mais à frente, o Padre Brown ficou intrigado primeiro por pequenos labirintos de vasos de flores sem flores, cobertos com as plantas baixas, planas e de cores discretas que parecem menos um jardim do que um pavimento em mosaico, entre caminhos sinuosos e fracos, cravejados de bancos com encostos encaracolados. Aspirou levemente a atmosfera de um certo tipo de cidade à beira-mar de que não gostava especialmente, e, olhando em frente ao longo do passeio à beira-mar, viu algo que colocou o assunto fora de dúvida. Na distância cinzenta, o grande coreto de uma estância balnear erguia-se como um cogumelo gigante com seis pernas.
“Suponho”, disse o Padre Brown, levantando o colarinho do seu casaco e apertando um cachecol de lã mais perto do pescoço, “que nos aproximamos de um local de lazer.”
“Receio”, respondeu Flambeau, “um local de lazer ao qual poucas pessoas agora têm o prazer de recorrer. Tentam reanimar estes locais no inverno, mas nunca resulta, exceto com Brighton e os antigos. Isto deve ser Seawood, penso eu — a experiência de Lord Pooley; ele teve os Cantores Sicilianos cá no Natal, e fala-se em realizar aqui uma das grandes lutas de boxe. Mas vão ter de atirar o lugar podre ao mar; é tão desolador como uma carruagem de comboio perdida.”
Tinham passado por baixo do grande coreto, e o padre olhava para ele com uma curiosidade que tinha algo de bastante estranho, com a cabeça um pouco de lado, como a de um pássaro. Era o tipo de construção convencional e bastante vistosa para o seu propósito: uma cúpula ou dossel achatado, dourado aqui e ali, e levantado sobre seis pilares esguios de madeira pintada, sendo o todo elevado cerca de cinco pés acima do passeio numa plataforma redonda de madeira como um tambor. Mas havia algo de fantástico na neve combinado com algo de artificial no ouro que assombrava Flambeau, assim como o seu amigo, com alguma associação que ele não conseguia captar, mas que ele sabia ser ao mesmo tempo artística e alienígena.
“Já percebi”, disse ele finalmente. “É japonês. É como aquelas gravuras japonesas fantasiosas, onde a neve na montanha parece açúcar, e o dourado nos pagodes parece dourado em pão de mel. Parece exatamente um pequeno templo pagão.”
“Sim”, disse o Padre Brown. “Vamos dar uma olhada no deus.” E com uma agilidade que dificilmente se esperaria dele, saltou para a plataforma elevada.
“Oh, muito bem”, disse Flambeau, rindo; e no instante seguinte a sua própria figura imponente era visível nessa elevação peculiar.
Por muito pequena que fosse a diferença de altura, dava naqueles desertos planos uma sensação de ver ainda mais longe através da terra e do mar. Para o interior, os pequenos jardins invernais desvaneciam-se num bosque cinzento confuso; para além disso, à distância, estavam longos celeiros baixos de uma quinta solitária, e para além disso nada a não ser as longas planícies de East Anglia. Para o lado do mar, não havia velas ou sinais de vida, exceto algumas gaivotas: e até elas pareciam os últimos flocos de neve, e pareciam flutuar em vez de voar.
Flambeau virou-se bruscamente com uma exclamação atrás de si. Parecia vir de mais baixo do que se esperaria, e ser dirigida aos seus calcanhares em vez de à sua cabeça. Estendeu instantaneamente a mão, mas dificilmente conseguiu evitar rir do que viu. Por qualquer razão, a plataforma tinha cedido debaixo do Padre Brown, e o infeliz homenzinho tinha caído pelo buraco até ao nível do passeio. Ele era apenas alto o suficiente, ou baixo o suficiente, para que apenas a sua cabeça ficasse de fora do buraco na madeira partida, parecendo a cabeça de São João Batista num prato. O rosto tinha uma expressão desconcertada, tal como, talvez, a de São João Batista.
Num momento, começou a rir um pouco. “Esta madeira deve estar podre”, disse Flambeau. “Embora pareça estranho que me suporte a mim, e tu caíste pelo lugar fraco. Deixa-me ajudar-te a sair.”
Mas o pequeno padre olhava bastante curiosamente para os cantos e extremidades da madeira que se alegava estar podre, e havia uma espécie de preocupação na sua testa.
“Vem daí”, gritou Flambeau impacientemente, ainda com a sua grande mão castanha estendida. “Não queres sair?”
O padre segurava uma lasca da madeira partida entre o dedo e o polegar, e não respondeu imediatamente. Finalmente disse pensativo: “Querer sair? Por que não. Penso que quero antes entrar.” E mergulhou na escuridão debaixo do chão de madeira tão abruptamente que derrubou o seu grande chapéu clerical curvo e deixou-o deitado nas tábuas acima, sem nenhuma cabeça clerical dentro dele.
Flambeau olhou mais uma vez para o interior e para o mar, e mais uma vez não conseguiu ver nada a não ser mares tão invernais como a neve, e neves tão planas como o mar.
Ouviu-se um ruído apressado atrás dele, e o pequeno padre saiu a rastejar do buraco mais depressa do que tinha caído dentro dele. O seu rosto já não estava desconcertado, mas antes resoluto, e, talvez apenas através dos reflexos da neve, um pouco mais pálido do que o habitual.
“Bem?”, perguntou o seu amigo alto. “Encontraste o deus do templo?”
“Não”, respondeu o Padre Brown. “Encontrei o que era por vezes mais importante. O Sacrifício.”
“Que raio queres tu dizer?”, gritou Flambeau, bastante alarmado.
O Padre Brown não respondeu. Ele estava a olhar, com um nó na testa, para a paisagem; e de repente apontou para ela. “Que casa é aquela ali?”, perguntou ele.
Seguindo o seu dedo, Flambeau viu pela primeira vez os cantos de um edifício mais próximo do que a quinta, mas escondido na maior parte por uma franja de árvores. Não era um edifício grande, e situava-se bem afastado da costa, mas um brilho de ornamento nele sugeria que fazia parte do mesmo esquema de decoração da estância balnear como o coreto, os pequenos jardins e os bancos de ferro de encostos encaracolados.
O Padre Brown saltou do coreto, seguido pelo seu amigo; e enquanto caminhavam na direção indicada, as árvores afastaram-se para a direita e para a esquerda, e viram um pequeno hotel, bastante vistoso, como é comum em estâncias balneares — o hotel do Salão de Bar em vez do Bar de Conversa. Quase toda a fachada era de gesso dourado e vidro figurado, e entre aquela paisagem marítima cinzenta e as árvores cinzentas, semelhantes a bruxas, a sua qualidade de quinquilharia tinha algo de espectral na sua melancolia. Ambos sentiram vagamente que, se alguma comida ou bebida fosse oferecida em tal estalagem, seria o presunto de cartão e a caneca vazia da pantomima.
Nisto, porém, não foram totalmente confirmados. À medida que se aproximavam cada vez mais do lugar, viram em frente ao buffet, que estava aparentemente fechado, um dos bancos de jardim de ferro com encostos encaracolados que adornavam os jardins, mas muito mais longo, percorrendo quase todo o comprimento da fachada. Presumivelmente, estava colocado para que os visitantes pudessem sentar-se ali e olhar para o mar, mas dificilmente se esperava encontrar alguém a fazê-lo com aquele tempo.
No entanto, mesmo em frente à extremidade do banco de ferro, havia uma pequena mesa redonda de restaurante, e nela estava uma pequena garrafa de Chablis e um prato de amêndoas e passas. Atrás da mesa e no banco estava sentado um jovem de cabelo escuro, sem chapéu, e a olhar para o mar num estado de imobilidade quase espantosa.
Mas embora pudesse ter sido uma figura de cera quando estavam a quatro metros dele, saltou como um boneco de mola quando chegaram a três, e disse de uma forma deferente, embora não indigna: “Querem entrar, cavalheiros? Não tenho pessoal neste momento, mas posso servir-vos algo simples eu próprio.”
“Muito obrigado”, disse Flambeau. “Então, é o proprietário?”
“Sim”, disse o homem de cabelo escuro, voltando um pouco para a sua maneira imóvel. “Os meus empregados de mesa são todos italianos, sabem, e achei que era justo que vissem o seu compatriota vencer o negro, se ele realmente conseguir fazê-lo. Sabem que a grande luta entre Malvoli e Nigger Ned vai finalmente acontecer?”
“Receio que não possamos esperar para incomodar seriamente a sua hospitalidade”, disse o Padre Brown. “Mas o meu amigo ficaria contente com um copo de xerez, tenho a certeza, para afastar o frio e desejar sucesso ao campeão latino.”
Flambeau não entendeu o xerez, mas não se opôs de modo algum. Só pôde dizer amavelmente: “Oh, muito obrigado.”
“Xerez, senhor — certamente”, disse o seu anfitrião, voltando-se para a sua estalagem. “Desculpem-me se vos detenho alguns minutos. Como vos disse, não tenho pessoal...” E dirigiu-se para as janelas pretas da sua estalagem fechada e sem luz.
“Oh, não interessa realmente”, começou Flambeau, mas o homem virou-se para o tranquilizar.
“Tenho as chaves”, disse ele. “Poderia encontrar o caminho no escuro.”
“Não quis dizer...”, começou o Padre Brown.
Foi interrompido por uma voz humana de brado que veio das entranhas do hotel desabitado. Trovejou um nome estrangeiro em voz alta, mas inaudível, e o proprietário do hotel moveu-se mais bruscamente em direção a ela do que tinha feito pelo xerez de Flambeau. Como evidência instantânea provou, o proprietário tinha dito, então e depois, nada mais do que a verdade literal. Mas tanto Flambeau como o Padre Brown confessaram muitas vezes que, em todas as suas (muitas vezes ultrajantes) aventuras, nada tinha gelado tanto o seu sangue como aquela voz de um ogre, soando de repente a partir de uma estalagem silenciosa e vazia.
“O meu cozinheiro!”, gritou o proprietário apressadamente. “Tinha-me esquecido do meu cozinheiro. Ele estará prestes a começar. Xerez, senhor?”
E, com certeza, apareceu à porta uma grande massa branca com um chapéu branco e um avental branco, como convém a um cozinheiro, mas com a ênfase desnecessária de um rosto preto. Flambeau tinha ouvido muitas vezes que os negros faziam bons cozinheiros. Mas, de alguma forma, algo no contraste de cor e casta aumentou a sua surpresa por o proprietário do hotel responder ao chamamento do cozinheiro, e não o cozinheiro ao chamamento do proprietário. Mas refletiu que os cozinheiros-chefes são proverbialmente arrogantes; e, além disso, o anfitrião tinha voltado com o xerez, e isso era o mais importante.
“Admira-me um pouco”, disse o Padre Brown, “que haja tão poucas pessoas na praia, quando esta grande luta está a acontecer afinal. Só encontrámos um homem em quilómetros.”
O proprietário do hotel encolheu os ombros. “Eles vêm da outra ponta da cidade, veem — da estação, a três milhas daqui. Estão apenas interessados no desporto, e só ficarão nos hotéis durante a noite. Afinal, não é tempo para estar ao sol na costa.”
“Ou no banco”, disse Flambeau, e apontou para a pequena mesa.
“Tenho de estar atento”, disse o homem de rosto imóvel. Era um sujeito calado, de bons traços, algo amarelado; as suas roupas escuras não tinham nada de distintivo, exceto que a sua gravata preta era usada um pouco alta, como um colarinho, e presa por um alfinete de ouro com uma cabeça grotesca. Tampouco havia nada de notável no rosto, exceto algo que provavelmente não passava de um tique nervoso — o hábito de abrir um olho mais estreitamente do que o outro, dando a impressão de que o outro era maior ou, talvez, artificial.
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo anfitrião, que disse calmamente: “Onde é que encontrou o tal homem na sua caminhada?”
“Curiosamente”, respondeu o padre, “perto daqui — mesmo junto àquele coreto.”
Flambeau, que se sentara no longo banco de ferro para terminar o seu xerez, pousou-o e levantou-se, olhando para o amigo com espanto. Abriu a boca para falar e depois fechou-a de novo.
“Curioso”, disse o homem de cabelos escuros, pensativo. “Como era ele?”
“Estava bastante escuro quando o vi”, começou o Padre Brown, “mas ele era…”
Como foi dito, pode provar-se que o dono do hotel disse a pura verdade. A sua frase de que o cozinheiro estava prestes a começar foi cumprida à letra, pois o cozinheiro saiu, puxando as luvas, mesmo enquanto falavam.
Mas ele era uma figura muito diferente da massa confusa de branco e preto que aparecera por um instante na porta. Estava abotoado e fivelado até aos olhos saltados da maneira mais brilhante. Um chapéu preto alto estava inclinado sobre a sua larga cabeça negra — um chapéu do tipo que o espírito francês comparou a oito espelhos. Mas, de alguma forma, o homem negro era como o chapéu preto. Ele também era negro e, contudo, a sua pele lustrosa refletia a luz em oito ângulos ou mais. É desnecessário dizer que usava polainas brancas e uma lapela branca dentro do colete. A flor vermelha erguia-se na sua casa de botão de forma agressiva, como se tivesse crescido ali subitamente. E na maneira como carregava a bengala numa mão e o charuto na outra, havia uma certa atitude — uma atitude que devemos lembrar sempre que falamos de preconceitos raciais: algo inocente e insolente — o *cake walk*.
“Às vezes”, disse Flambeau, observando-o, “não me admira que os linchem.”
“Nunca me admira”, disse o Padre Brown, “qualquer obra do inferno. Mas, como eu dizia”, retomou ele, enquanto o negro, ainda puxando ostensivamente as suas luvas amarelas, se dirigia vivamente para a estância balnear, uma figura estranha de *music-hall* contra aquele cenário cinzento e gelado — “como eu dizia, não conseguiria descrever o homem com muita minúcia, mas ele tinha um certo floreio e suíças e bigodes antiquados, escuros ou pintados, como nos retratos de financistas estrangeiros; à volta do pescoço trazia enrolado um longo cachecol púrpura que fustigava o vento enquanto ele caminhava. Estava fixado na garganta mais ou menos da maneira que as amas prendem os agasalhos das crianças com um alfinete de ama. Só que este”, acrescentou o padre, olhando placidamente para o mar, “não era um alfinete de ama.”
O homem sentado no longo banco de ferro também olhava placidamente para o mar. Agora estava de novo em repouso. Flambeau sentiu-se bastante certo de que um dos seus olhos era naturalmente maior do que o outro. Ambos estavam agora bem abertos, e ele quase podia imaginar que o olho esquerdo crescia à medida que olhava.
“Era um alfinete de ouro muito longo e tinha a cabeça esculpida de um macaco ou algo do género”, continuou o clérigo; “e estava fixado de uma maneira bastante estranha — ele usava *pince-nez* e um largo…”
O homem imóvel continuou a olhar para o mar, e os olhos na sua cabeça poderiam ter pertencido a dois homens diferentes. Então, fez um movimento de uma rapidez cegante.
O Padre Brown estava de costas para ele e, naquele clarão, poderia ter caído morto de cara no chão. Flambeau não tinha arma, mas as suas mãos grandes e castanhas repousavam na extremidade do longo banco de ferro. Os seus ombros alteraram abruptamente a forma e ele ergueu a coisa enorme bem acima da cabeça, como o machado de um carrasco prestes a cair. A própria altura do objeto, ao segurá-lo na vertical, parecia uma longa escada de ferro pela qual ele convidava os homens a subir em direção às estrelas. Mas a longa sombra, na luz horizontal do entardecer, parecia um gigante brandindo a Torre Eiffel. Foi o choque dessa sombra, antes do choque do estrondo de ferro, que fez o estranho recuar e desviar-se, e depois correr para a sua estalagem, deixando o punhal chato e brilhante que deixara cair exatamente onde caíra.
“Temos de sair daqui imediatamente”, gritou Flambeau, atirando o enorme banco com indiferença furiosa para a praia. Agarreou o pequeno padre pelo cotovelo e levou-o a correr por uma perspetiva cinzenta de jardim das traseiras estéril, no fim do qual havia uma porta de jardim fechada. Flambeau inclinou-se sobre ela um instante num silêncio violento e depois disse: “A porta está trancada.”
Enquanto falava, uma pena preta de um dos abetos ornamentais caiu, roçando a aba do seu chapéu. Isso assustou-o mais do que a pequena e distante detonação que ocorrera pouco antes. Depois veio outra detonação distante, e a porta que ele tentava abrir estremeceu sob a bala enterrada nela. Os ombros de Flambeau voltaram a alargar-se e alteraram-se subitamente. Três dobradiças e uma fechadura rebentaram no mesmo instante, e ele saiu para o caminho vazio das traseiras, levando a grande porta do jardim consigo, tal como Sansão levou as portas de Gaza.
Depois, atirou a porta do jardim sobre o muro, exatamente quando um terceiro tiro levantou um jato de neve e poeira atrás do seu calcanhar. Sem cerimónias, agarrou o pequeno padre, pô-lo a cavalo nos seus ombros e correu em direção a Seawood tão depressa quanto as suas pernas compridas o permitiam. Só quase três quilómetros mais à frente é que ele pousou o seu pequeno companheiro. Dificilmente tinha sido uma fuga digna, apesar do modelo clássico de Anquises, mas o rosto do Padre Brown exibia apenas um largo sorriso.
“Bem”, disse Flambeau, após um silêncio impaciente, enquanto retomavam a sua caminhada mais convencional pelas ruas na orla da cidade, onde não havia razões para temer qualquer ultraje, “não sei o que isto significa, mas presumo que posso confiar nos meus próprios olhos que nunca encontrou o homem que descreveu com tanta precisão.”
“Encontrei-o, de certa forma”, disse Brown, mordendo o dedo um pouco nervosamente — “encontrei mesmo. E estava demasiado escuro para o ver devidamente, porque foi debaixo daquela coisa do coreto. Mas temo que afinal não o descrevi com tanta precisão, pois o seu *pince-nez* partiu-se debaixo dele e o longo alfinete de ouro não estava espetado no seu cachecol púrpura, mas sim no seu coração.”
“E suponho”, disse o outro com uma voz mais baixa, “que aquele tipo do olho de vidro teve algo a ver com isso.”
“Eu esperava que ele tivesse apenas um pouco”, respondeu Brown com uma voz algo perturbada, “e posso ter-me enganado no que fiz. Agi por impulso. Mas temo que este negócio tenha raízes profundas e sombrias.”
Caminharam por algumas ruas em silêncio. As lâmpadas amarelas começavam a ser acesas no frio crepúsculo azul, e estavam evidentemente a aproximar-se das partes mais centrais da cidade. Cartazes muito coloridos anunciando o combate de boxe entre Nigger Ned e Malvoli estavam espalhados pelas paredes.
“Bem”, disse Flambeau, “nunca assassinei ninguém, nem nos meus dias de criminoso, mas quase consigo simpatizar com quem o faz num lugar tão lúgubre. De todos os caixotes de lixo da Natureza abandonados por Deus, acho que os mais desoladores são lugares como aquele coreto, que foram feitos para serem festivos e estão abandonados. Posso imaginar um homem mórbido sentindo que tem de matar o seu rival na solidão e ironia de tal cenário. Lembro-me de uma vez fazer uma caminhada nas vossas gloriosas colinas de Surrey, sem pensar em nada a não ser em tojos e cotovias, quando saí para um vasto círculo de terra, e sobre mim ergueu-se uma vasta estrutura silenciosa, fileira sobre fileira de assentos, tão enorme como um anfiteatro romano e tão vazia como um suporte de cartas novo. Um pássaro navegava no céu sobre ela. Era o *Grand Stand* em Epsom. E senti que ninguém voltaria a ser feliz ali.”
“É curioso mencionar Epsom”, disse o padre. “Lembra-se do que foi chamado o Mistério de Sutton, porque dois homens suspeitos — vendedores de gelados, creio eu — viviam em Sutton? Foram eventualmente libertados. Um homem foi encontrado estrangulado, dizia-se, nas *Downs* à volta daquela parte. Na verdade, sei (por um polícia irlandês que é meu amigo) que ele foi encontrado perto do *Grand Stand* de Epsom — aliás, apenas escondido por uma das portas inferiores que tinha sido empurrada para trás.”
“Isso é estranho”, assentiu Flambeau. “Mas confirma a minha opinião de que tais lugares de diversão parecem terrivelmente solitários fora de época, ou o homem não teria sido assassinado lá.”
“Não tenho tanta certeza de que ele…” começou Brown, e parou.
“Não tem tanta certeza de que ele tenha sido assassinado?” questionou o seu companheiro.
“Não tenho tanta certeza de que tenha sido assassinado fora da época”, respondeu o pequeno padre, com simplicidade. “Não acha que há algo de bastante traiçoeiro nesta solidão, Flambeau? Sente-se certo de que um assassino sensato quereria sempre que o local fosse solitário? É muito, muito raro um homem estar completamente sozinho. E, fora isso, quanto mais sozinho ele está, mais certo é de ser visto. Não; acho que deve haver outro… Ora, aqui estamos no Pavilhão ou Palácio, ou seja lá o que lhe chamem.”
Tinham chegado a uma pequena praça, brilhantemente iluminada, cujo edifício principal estava alegre com dourados, vistoso com cartazes e ladeado por duas fotografias gigantes de Malvoli e Nigger Ned.
“Olá!” gritou Flambeau com grande surpresa, enquanto o seu amigo clérigo subia diretamente os degraus largos. “Não sabia que o pugilismo era o seu mais recente *hobby*. Vai ver o combate?”
“Não creio que vá haver qualquer combate”, respondeu o Padre Brown.
Passaram rapidamente por antecâmaras e salas interiores; passaram pelo salão de combate em si, elevado, cordado e almofadado com inúmeros assentos e camarotes, e ainda assim o clérigo não olhou em volta nem parou até chegar a um funcionário numa secretária fora de uma porta marcada como “Comité”. Aí parou e pediu para ver Lord Pooley.
O assistente observou que o seu senhor estava muito ocupado, uma vez que o combate ia começar em breve, mas o Padre Brown tinha uma paciência de bom caráter para a reiteração para a qual a mente oficial geralmente não está preparada. Em poucos momentos, o algo desconcertado Flambeau encontrou-se na presença de um homem que ainda gritava instruções para outro homem que saía da sala. “Cuidado, sabe, com as cordas depois do quarto… Bem, e o que deseja, suponho!”
Lord Pooley era um cavalheiro e, como a maioria dos poucos que restam da nossa raça, estava preocupado — especialmente com dinheiro. Era metade grisalho e metade loiro, e tinha olhos febris e um nariz alto e arrebitado, como que queimado pelo gelo.
“Apenas uma palavra”, disse o Padre Brown. “Vim para evitar que um homem seja morto.”
Lord Pooley saltou da sua cadeira como se uma mola o tivesse arremessado. “Maldito seja se eu suportar mais disto!” gritou ele. “Você e os seus comités e padres e petições! Não havia padres nos velhos tempos, quando lutavam sem luvas? Agora estão a lutar com as luvas regulamentares e não há a mínima possibilidade de qualquer um dos pugilistas ser morto.”
“Não me referia a nenhum dos pugilistas”, disse o pequeno padre.
“Bem, bem, bem!” disse o nobre, com um toque de humor gélido. “Quem é que vai ser morto? O árbitro?”
“Não sei quem vai ser morto”, respondeu o Padre Brown, com um olhar reflexivo. “Se soubesse, não teria de estragar o seu prazer. Poderia simplesmente levá-lo a escapar. Nunca consegui ver nada de errado nos combates de prémio. Tal como está, tenho de lhe pedir que anuncie que o combate está cancelado por agora.”
“Mais alguma coisa?” troçou o cavalheiro de olhos febris. “E o que diz às duas mil pessoas que vieram vê-lo?”
“Digo que restarão mil novecentas e noventa e nove vivas quando o virem”, disse o Padre Brown.
Lord Pooley olhou para Flambeau. “O seu amigo é louco?” perguntou.
“Longe disso”, foi a resposta.
“E olhe cá”, retomou Pooley com o seu jeito inquieto, “é pior do que isso. Todo um grupo de italianos apareceu para apoiar Malvoli — sujeitos morenos e selvagens de algum país, de qualquer maneira. Sabe como são estas raças mediterrânicas. Se eu enviar uma mensagem a dizer que está cancelado, teremos Malvoli a invadir isto aqui à frente de todo um clã corso.”
“Meu senhor, é uma questão de vida ou morte”, disse o padre. “Toque a sua campainha. Dê a sua mensagem. E veja se é Malvoli quem responde.”
O nobre tocou a campainha sobre a mesa com um ar estranho de nova curiosidade. Disse ao funcionário que apareceu quase instantaneamente na porta: “Tenho um anúncio sério a fazer ao público em breve. Entretanto, teria a bondade de dizer aos dois campeões que o combate terá de ser adiado.”
O funcionário olhou fixamente durante alguns segundos como se estivesse perante um demónio e desapareceu.
“Que autoridade tem para o que diz?” perguntou Lord Pooley abruptamente. “A quem consultou?”
“Consultei um coreto”, disse o Padre Brown, coçando a cabeça. “Mas não, estou enganado; consultei também um livro. Peguei nele num livreiro em Londres — muito barato, por sinal.”
Tinha tirado do bolso um pequeno e robusto volume encadernado em pele, e Flambeau, olhando por cima do seu ombro, pôde ver que era um livro de viagens antigas e tinha uma página dobrada para referência.
“‘A única forma sob a qual o Voodoo…’” começou o Padre Brown, lendo em voz alta.
“Sob a qual o quê?” perguntou o seu senhor.
“‘Sob a qual o Voodoo’”, repetiu o leitor, quase com prazer, “‘é amplamente organizado fora da própria Jamaica é na forma conhecida como o Macaco, ou o Deus dos Gongos, que é poderoso em muitas partes dos dois continentes americanos, especialmente entre mestiços, muitos dos quais parecem exatamente homens brancos. Difere da maioria das outras formas de adoração ao diabo e sacrifício humano pelo facto de o sangue não ser derramado formalmente no altar, mas por uma espécie de assassinato no meio da multidão. Os gongos batem com um ruído ensurdecedor quando as portas do santuário se abrem e o deus-macaco é revelado; quase toda a congregação fita olhos extasiados nele. Mas depois…’”
A porta da sala foi aberta de par em par e o negro elegante ficou emoldurado nela, os seus olhos revirados, a sua cartola ainda insolentemente inclinada na cabeça. “Huh!” gritou ele, mostrando os seus dentes símios. “O que é isto? Huh! Huh! Roubam o prémio de um cavalheiro de cor — prémio já dele — pensam que acabaram de salvar aquele lixo de italiano branco…”
“O assunto está apenas adiado”, disse o nobre calmamente. “Estarei consigo para explicar daqui a um ou dois minutos.”
“Quem é você para…” gritou Nigger Ned, começando a enfurecer-se.
“O meu nome é Pooley”, respondeu o outro, com uma frieza louvável. “Sou o secretário de organização e aconselho-o agora a sair da sala.”
“Quem é este sujeito?” perguntou o campeão negro, apontando para o padre com desdém.
“O meu nome é Brown”, foi a resposta. “E aconselho-o agora a sair do país.”
O pugilista ficou a olhar fixamente durante alguns segundos e depois, para surpresa de Flambeau e dos outros, saiu a passo largo, batendo a porta com um estrondo atrás de si.
“Bem”, perguntou o Padre Brown, esfregando o seu cabelo poeirento. “O que acha de Leonardo da Vinci? Uma bela cabeça italiana.”
“Olhe cá”, disse Lord Pooley, “assumi uma responsabilidade considerável, pela sua simples palavra. Acho que devia dizer-me mais sobre isto.”
“Tem toda a razão, meu senhor”, respondeu Brown. “E não demorará muito a contar.” Colocou o pequeno livro de pele no bolso do seu sobretudo. “Acho que sabemos tudo o que isto nos pode dizer, mas poderá olhar para ele para ver se tenho razão. Aquele negro que acabou de sair com arrogância é um dos homens mais perigosos da terra, pois tem o cérebro de um europeu, com os instintos de um canibal. Ele transformou o que era uma carnificina limpa e de senso comum entre os seus companheiros bárbaros numa sociedade secreta de assassinos muito moderna e científica. Ele não sabe que eu sei, nem, já agora, que não o posso provar.”
Houve silêncio, e o pequeno homem continuou.
“Mas se eu quiser assassinar alguém, será mesmo o melhor plano certificar-me de que estou sozinho com ele?”
Os olhos de Lord Pooley recuperaram o seu brilho gélido enquanto olhava para o pequeno clérigo. Limitou-se a dizer: “Se quer assassinar alguém, aconselharia isso.”
O Padre Brown abanou a cabeça, como um assassino de experiência muito mais madura. “Foi o que o Flambeau disse”, respondeu ele, com um suspiro. “Mas considere. Quanto mais um homem se sente solitário, menos pode ter a certeza de que está sozinho. Deve significar espaços vazios à volta dele, e são precisamente esses que o tornam óbvio. Nunca viu um lavrador das alturas, ou um pastor dos vales? Nunca caminhou ao longo de uma falésia e viu um homem a caminhar pelas areias? Não sabia quando ele matava um caranguejo, e não saberia se tivesse sido um credor? Não! Não! Não! Para um assassino inteligente, como você ou eu poderíamos ser, é um plano impossível certificar-se de que ninguém está a olhar para si.”
“Mas que outro plano existe?”
“Só existe um”, disse o padre. “Certificar-se de que toda a gente está a olhar para outra coisa. Um homem é estrangulado perto do grande bancada em Epsom. Qualquer um poderia ter visto isso ser feito enquanto a bancada estava vazia — qualquer vagabundo sob as sebes ou automobilista entre as colinas. Mas ninguém o teria visto quando a bancada estava cheia e todo o recinto rugia, quando o favorito estava a chegar em primeiro — ou não. O torcer de um lenço de pescoço, o empurrar de um corpo atrás de uma porta, poderiam ser feitos num instante — desde que fosse esse instante. Foi o mesmo, claro”, continuou ele, voltando-se para Flambeau, “com aquele pobre homem sob o coreto. Ele foi deixado cair pelo buraco (não era um buraco acidental) precisamente num momento muito dramático do entretenimento, quando o arco de algum grande violinista ou a voz de algum grande cantor abria ou chegava ao seu clímax. E aqui, claro, quando o golpe de nocaute veio — não seria o único. Esse é o pequeno truque que Nigger Ned adotou do seu velho Deus dos Gongos.”
“A propósito, Malvoli…” começou Pooley.
“Malvoli”, disse o padre, “não tem nada a ver com isso. Atrevo-me a dizer que ele tem alguns italianos consigo, mas os nossos amáveis amigos não são italianos. São *octoroons* e mestiços africanos de vários tons, mas temo que nós, ingleses, achemos que todos os estrangeiros são muito parecidos desde que sejam escuros e sujos. Além disso”, acrescentou ele, com um sorriso, “temo que os ingleses se recusem a traçar qualquer distinção fina entre o carácter moral.”
“A sua cabeça, tal como a de todos os outros”, continuou o padre, “estava voltada para a parede, ou para o abismo, ou para o que quer que fosse que aquela monstruosidade enfrentasse. Eu tinha dado um passo em frente, quando uma luz, que parecia vir da própria mão da estátua, caiu sobre o chão de pedra. E vi o que me fez gelar o sangue: uma pequena sombra, a sombra de um homem, que se movia ao longo da parede. Não era a minha. A minha estava atrás de mim. Era a sombra de um homem que se esgueirava à volta da base do ídolo, movendo-se com uma agilidade horrível, como a de um macaco. Pensei que era um sacerdote ou um guardião; e, num momento de pânico absoluto, saquei da minha pistola e disparei. O homem não caiu; ele apenas soltou um espirro. Um espirro seco, curto e peculiar, que ecoou por todo aquele salão de pedra como uma gargalhada demente. Disparei de novo, e ele espirrou de novo. Disparei todas as balas que tinha, e ele continuou a espirrar, cada vez mais perto, até que me senti como se estivesse a disparar contra um fantasma. Consegui encontrar a porta, atirei-me por ela, e não parei até chegar ao hotel de Putnam. Desde esse dia, sinto que ele me persegue. Em cada porta que abro, em cada rua por onde passo, ouço o mesmo espirro. É a assinatura dele. É a marca do medo que ele quer incutir em mim.”
O coronel Cray estava a tremer enquanto falava, e as suas mãos, ainda sujas da terra onde tinha procurado vestígios, apertavam o revólver com tanta força que os nós dos dedos pareciam brancos como marfim. Padre Brown observava-o com uma compaixão profunda, mas sem qualquer sombra de dúvida.
“É uma história estranha, Coronel”, disse o padre, baixando a voz. “Mas a questão não é o que o homem faz, mas quem ele é. E, acima de tudo, o que ele quer.”
“Ele quer a minha vida”, respondeu Cray, com um brilho febril nos olhos. “Ele quer que eu viva com o terror, dia após dia, até que eu próprio perca a razão, como o Putnam receia que eu tenha perdido.”
“Talvez”, disse Brown, quase para si mesmo. “Ou talvez ele apenas queira que você se torne o que ele é.”
Antes que Cray pudesse responder, a voz da senhora Watson soou da porta da casa, chamando-os para o que restava do pequeno-almoço, ou para o início da preparação do banquete. O Major Putnam apareceu à porta, sorridente e jovial, ignorando completamente a tensão que pairava no jardim.
“Vamos, vamos!” exclamou o Major. “O Marco preparou uma salada que, segundo ele, é a única coisa que um homem precisa para começar bem o domingo. Cray, guarda essa engenhoca e vem comer. Um homem não pode enfrentar fantasmas de estômago vazio.”
Cray olhou para o padre, como se esperasse uma palavra de conselho ou uma recusa. Padre Brown apenas assentiu, e os três homens entraram na casa. A sala de jantar, apesar da ausência da prataria, parecia pronta para uma celebração quase solene. Havia garrafas de vinho sobre a mesa, e o aroma de ervas exóticas e especiarias preenchia o ar, um contraste bizarro com o medo que ainda parecia pairar nas sombras daquelas paredes.
“Uma salada”, murmurou o Major, enquanto servia o vinho, “é uma arte. O Marco aprendeu-a no Oriente, mas adaptou-a ao paladar ocidental. É um segredo, padre. Ele não permite que ninguém veja a mistura antes de ser servida.”
Padre Brown observou o cozinheiro, que entrava na sala com uma grande saladeira de cristal. O homem movia-se com uma elegância silenciosa, quase felina. O padre notou, com um interesse renovado, a forma como o cozinheiro segurava o recipiente: com uma precisão cirúrgica, como se carregasse algo de valor inestimável.
“Parece excelente”, disse o padre, olhando para o prato. “Embora eu confesse que, nesta manhã, o meu apetite é mais curioso do que faminto.”
O cozinheiro, sem olhar diretamente para ele, fez uma vénia mínima. “É uma receita antiga, senhor. Requer paciência. E, por vezes, um toque especial de discrição.”
Padre Brown sorriu. “Discrição é uma virtude que todos devemos cultivar, especialmente nestes tempos de desordem. Não é verdade, Coronel?”
Cray não respondeu. Estava a olhar fixamente para a salada, com uma expressão que oscilava entre a fome e a repulsa. O Major, alheio a tudo, servia-se generosamente, ignorando o facto de que os seus talheres de prata tinham desaparecido.
“Quem precisa de prata para comer uma salada?” riu-se o Major. “Os dedos foram feitos antes dos garfos.”
Enquanto o Major se servia, padre Brown inclinou-se ligeiramente para o lado e, com um movimento quase impercetível, deixou cair o seu guardanapo. Ao baixar-se para o apanhar, o seu olhar fixou-se não no chão, mas nas mãos do cozinheiro, que permaneciam imóveis ao lado da mesa. O padre notou, então, algo que o fez estremecer: uma pequena mancha de fuligem na ponta do polegar do homem. Não era terra, nem pó. Era fuligem, a mesma que ele tinha visto no seu próprio cabelo após a sua visita à lixeira.
“Diga-me, Marco”, disse o padre, levantando-se calmamente, “a sua receita leva algum ingrediente que, quando misturado, faz um som semelhante ao de um espirro?”
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O cozinheiro levantou os olhos, e o seu rosto, antes inexpressivo, revelou um brilho de inteligência fria e calculista. O Major Putnam parou com o garfo a meio caminho da boca, olhando de um para o outro com espanto.
“O quê?” exclamou o Major. “Que raio de pergunta é essa?”
O cozinheiro, com uma calma aterradora, respondeu: “Os ingredientes, senhor, são segredos. Mas o som... o som depende de quem os prova.”
“Quase não era meio humano, supus; a julgar pela cabeça pequena e achatada, e ainda mais por algo como uma cauda ou membro extra virado para trás e apontando, como um dedo grande e repugnante, para algum símbolo gravado no centro do vasto dorso de pedra. Começara eu, na luz bruxuleante, a tentar decifrar o hieróglifo, não sem horror, quando uma coisa mais horrível aconteceu. Uma porta abriu-se silenciosamente na parede do templo atrás de mim e um homem saiu, com um rosto moreno e um casaco preto. Tinha um sorriso esculpido no rosto, de carne de cobre e dentes de marfim; mas penso que a coisa mais odiosa nele era o facto de usar trajes europeus. Eu estava preparado, creio, para sacerdotes envoltos em mortalhas ou faquires nus. Mas aquilo parecia dizer que a perversidade se estendia por toda a terra. Como, de facto, descobri que se estendia.
“‘Se tivesse visto apenas os Pés do Macaco’, disse ele, sorrindo fixamente e sem outro preâmbulo, ‘teríamos sido muito gentis — você apenas seria torturado e morreria. Se tivesse visto a Cara do Macaco, ainda assim seríamos muito moderados, muito tolerantes — você apenas seria torturado e viveria. Mas como viu a Cauda do Macaco, temos de pronunciar a pior sentença, que é — Vá em Liberdade.’
“Quando ele disse as palavras, ouvi o elaborado trinco de ferro com que eu lutara desbloquear-se automaticamente: e então, lá ao fundo das passagens escuras por onde passara, ouvi a pesada porta da rua mover os seus próprios ferrolhos para trás.
“‘É vão pedir misericórdia; deve ir em liberdade’, disse o homem sorridente. ‘Daqui em diante um cabelo matá-lo-á como uma espada, e um sopro mordê-lo-á como uma víbora; armas virão contra si do nada; e morrerá muitas vezes.’ E com isso ele foi engolido uma vez mais pela parede atrás de si; e eu saí para a rua.”
Cray fez uma pausa; e o Padre Brown sentou-se sem afetação no relvado e começou a apanhar margaridas.
Então o soldado continuou: “Putnam, claro, com o seu alegre senso comum, desdenhou todos os meus medos; e dessa altura datam as suas dúvidas quanto ao meu equilíbrio mental. Bem, dir-lhe-ei simplesmente, nas palavras mais breves, as três coisas que aconteceram desde então; e você julgará qual de nós tem razão.
“A primeira aconteceu numa aldeia indiana à beira da selva, mas a centenas de quilómetros do templo, ou da cidade, ou do tipo de tribos e costumes onde a maldição fora lançada sobre mim. Acordei na escuridão profunda da meia-noite, e estava deitado a não pensar em nada em particular, quando senti uma leve coisa a fazer cócegas, como um fio ou um cabelo, arrastando-se pela minha garganta. Recuei para me desviar, e não pude deixar de pensar nas palavras no templo. Mas quando me levantei e procurei luzes e um espelho, a linha no meu pescoço era uma linha de sangue.
“A segunda aconteceu numa hospedaria em Port Said, mais tarde, na nossa viagem de regresso a casa. Era um amontoado de taberna e loja de curiosidades; e embora não houvesse nada ali que remotamente sugerisse o culto do Macaco, é, claro, possível que algumas das suas imagens ou talismãs estivessem num tal lugar. A sua maldição estava lá, de qualquer modo. Acordei novamente no escuro com uma sensação que não poderia ser posta em palavras mais frias ou mais literais do que a de que um sopro mordia como uma víbora. A existência era uma agonia de extinção; bati com a cabeça nas paredes até bater contra uma janela; e caí, em vez de saltar, no jardim lá em baixo. Putnam, pobre homem, que chamara à outra coisa um arranhão casual, foi obrigado a levar a sério o facto de me encontrar meio insensível na relva ao amanhecer. Mas temo que tenha sido o meu estado mental que ele levou a sério; e não a minha história.
“A terceira aconteceu em Malta. Estávamos numa fortaleza lá; e aconteceu que os nossos quartos davam para o mar aberto, que quase chegava aos peitoris das nossas janelas, exceto por uma parede exterior branca e plana, tão nua quanto o mar. Acordei novamente; mas não estava escuro. Havia uma lua cheia, enquanto caminhava para a janela; eu teria podido ver um pássaro na muralha nua, ou uma vela no horizonte. O que vi foi uma espécie de pau ou ramo a circular, autossustentado, no céu vazio. Voou diretamente para a minha janela e espatifou o candeeiro ao lado da almofada que eu acabara de deixar. Era um daqueles porretes de guerra de forma estranha que algumas tribos orientais usam. Mas não tinha vindo de nenhuma mão humana.”
O Padre Brown atirou fora uma corrente de margaridas que estava a fazer e levantou-se com um olhar melancólico. “O Major Putnam”, perguntou ele, “tem curiosidades orientais, ídolos, armas e coisas do género, das quais se poderia obter uma pista?”
“Muitas dessas, embora de pouca utilidade, receio”, respondeu Cray; “mas, por favor, venha ao seu escritório.”
Ao entrarem, cruzaram-se com a Srta. Watson a abotoar as luvas para a igreja e ouviram a voz de Putnam no andar de baixo a continuar a dar uma aula de culinária à cozinheira. No escritório e antro de curiosidades do Major, depararam subitamente com um terceiro interveniente, de cartola e vestido para a rua, que estava a analisar um livro aberto sobre a mesa de fumar — um livro que ele deixou cair com um ar algo culpado e voltou-se.
Cray apresentou-o civilizadamente o suficiente, como Dr. Oman, mas mostrou tal desaprovação no próprio rosto que Brown adivinhou que os dois homens, quer Audrey o soubesse ou não, eram rivais. Nem o sacerdote era totalmente insensível a esse preconceito. O Dr. Oman era de facto um cavalheiro muito bem vestido; de bons traços, embora quase escuro o suficiente para um asiático. Mas o Padre Brown teve de dizer a si mesmo, com severidade, que se deve ser caridoso mesmo com aqueles que enceram as barbas pontiagudas, que têm mãos pequenas e enluvadas, e que falam com vozes perfeitamente moduladas.
Cray parecia encontrar algo especialmente irritante no pequeno livro de orações na mão enluvada de escuro de Oman. “Não sabia que isso era da sua especialidade”, disse ele de forma algo rude.
Oman riu-se suavemente, mas sem se ofender. “Este é mais, eu sei”, disse ele, pousando a mão sobre o livro grande que deixara cair, “um dicionário de drogas e coisas do género. Mas é demasiado grande para levar à igreja.” Depois fechou o livro maior, e houve novamente o mais ténue toque de pressa e embaraço.
“Suponho”, disse o sacerdote, que parecia ansioso por mudar de assunto, “que todas estas lanças e coisas são da Índia?”
“De todo o lado”, respondeu o médico. “Putnam é um velho soldado, e esteve no México e na Austrália, e nas Ilhas dos Canibais, que eu saiba.”
“Espero que não tenha sido nas Ilhas dos Canibais”, disse Brown, “que ele aprendeu a arte da culinária.” E passou os olhos pelas panelas de guisado ou outros utensílios estranhos na parede.
Nesse momento, o alegre tema da sua conversa enfiou a sua cara risonha e avermelhada na sala. “Venha, Cray”, gritou ele. “O seu almoço está a chegar. E os sinos estão a tocar para aqueles que querem ir à igreja.”
Cray subiu para se trocar; o Dr. Oman e a Srta. Watson dirigiram-se solenemente rua abaixo, com uma fila de outros fiéis; mas o Padre Brown notou que o médico olhou para trás duas vezes e examinou a casa; e até voltou ao canto da rua para olhar novamente para ela.
O sacerdote parecia confuso. “Ele não pode ter estado no caixote do lixo”, murmurou ele. “Não com aquelas roupas. Ou terá estado lá mais cedo hoje?”
O Padre Brown, ao tocar nas outras pessoas, era tão sensível como um barómetro; mas hoje parecia tão sensível como um rinoceronte. Por nenhuma lei social, rígida ou implícita, se poderia supor que ele ficasse por perto durante o almoço dos amigos anglo-indianos; mas ele ficou, cobrindo a sua posição com torrentes de conversa divertida, mas completamente desnecessária. Ele era tanto mais desconcertante quanto não parecia querer almoçar. À medida que um após outro dos mais requintadamente equilibrados *kedgerees* de caril, acompanhados pelas suas colheitas apropriadas, eram colocados perante os outros dois, ele apenas repetia que era um dos seus dias de jejum, e mastigava um pedaço de pão e bebia um gole e depois deixava intocado um copo de água fria. A sua conversa, contudo, era exuberante.
“Sabe o que vou fazer por si”, gritou ele, “vou preparar-lhe uma salada! Não a posso comer, mas vou prepará-la como um anjo! Tem aí um alface.”
“Infelizmente é a única coisa que temos”, respondeu o bem-humorado Major. “Deve lembrar-se de que a mostarda, o vinagre, o azeite e por aí fora desapareceram com o galheteiro e o ladrão.”
“Eu sei”, respondeu Brown, de forma algo vaga. “É o que sempre receei que acontecesse. É por isso que ando sempre com um galheteiro atrás. Gosto tanto de saladas.”
E, para espanto dos dois homens, tirou um pimenteiro do bolso do seu colete e colocou-o na mesa.
“Pergunto-me por que razão o ladrão queria mostarda também”, continuou ele, tirando uma mostardeira de outro bolso. “Uma cataplasma de mostarda, suponho. E vinagre” — e produzindo esse condimento — “não ouvi falar de algo sobre vinagre e papel pardo? Quanto ao azeite, que creio ter posto no meu esquerdo...”
A sua loquacidade foi instantaneamente interrompida; pois, levantando os olhos, viu o que ninguém mais viu — a figura negra do Dr. Oman de pé no relvado banhado pelo sol e a olhar fixamente para dentro da sala. Antes que ele se pudesse recompor, Cray interrompeu.
“É uma figura espantosa”, disse ele, a olhar fixamente. “Virei ouvir os seus sermões, se forem tão divertidos como as suas maneiras.” A sua voz mudou um pouco, e ele recostou-se na cadeira.
“Oh, há sermões num galheteiro também”, disse o Padre Brown, muito gravemente. “Ouviu falar de fé como um grão de mostarda; ou de caridade que unge com azeite? E quanto ao vinagre, pode algum soldado esquecer aquele soldado solitário que, quando o sol se escureceu...”
O Coronel Cray inclinou-se um pouco para a frente e agarrou a toalha de mesa.
O Padre Brown, que estava a preparar a salada, despejou duas colheradas de mostarda no copo de água ao seu lado; levantou-se e disse com uma voz nova, alta e repentina: “Beba isso!”
No mesmo momento, o médico imóvel no jardim veio a correr e, arrombando uma janela, gritou: “Sou preciso? Ele foi envenenado?”
“Quase”, disse Brown, com a sombra de um sorriso; pois o emético tinha feito efeito muito repentinamente. E Cray estava deitado numa cadeira de lona, arquejando como se fosse pela vida, mas vivo.
O Major Putnam tinha-se levantado de um salto, o seu rosto roxo manchado. “Um crime!” gritou ele roucamente. “Vou chamar a polícia!”
O padre podia ouvi-lo a tirar o chapéu de folha de palmeira do cabide e a sair a correr pela porta da frente; ouviu o portão do jardim bater. Mas ele apenas ficou a olhar para Cray; e após um silêncio disse calmamente:
“Não falarei muito consigo; mas dir-lhe-ei o que quer saber. Não há maldição sobre si. O Templo do Macaco foi uma coincidência ou parte do truque; o truque foi o truque de um homem branco. Há apenas uma arma que trará sangue com aquele toque leve e plumoso: uma navalha segura por um homem branco. Há uma maneira de tornar uma sala comum cheia de veneno invisível e avassalador: abrir o gás — o crime de um homem branco. E há apenas um tipo de porrete que pode ser atirado de uma janela, virar no ar e voltar para a janela ao lado: o bumerangue australiano. Verá alguns deles no escritório do Major.”
Com isso, saiu e falou por um momento com o médico. No momento seguinte, Audrey Watson entrou a correr na casa e caiu de joelhos ao lado da cadeira de Cray. Ele não podia ouvir o que diziam um ao outro; mas os seus rostos moviam-se com espanto, não infelicidade. O médico e o sacerdote caminharam lentamente para o portão do jardim.
“Suponho que o Major também estava apaixonado por ela”, disse ele com um suspiro; e quando o outro assentiu, observou: “Foi muito generoso, doutor. Fez uma coisa louvável. Mas o que o fez suspeitar?”
“Uma coisa muito pequena”, disse Oman; “mas deixou-me inquieto na igreja até que voltei para ver se estava tudo bem. Aquele livro na mesa dele era uma obra sobre venenos; e estava aberto na página onde afirmava que um certo veneno indiano, embora mortal e difícil de detetar, era particularmente fácil de reverter pelo uso dos eméticos mais comuns. Suponho que ele tenha lido isso no último momento...”
“E lembrou-se de que havia eméticos no galheteiro”, disse o Padre Brown. “Exatamente. Ele atirou o galheteiro para o caixote do lixo — onde o encontrei, juntamente com outra prata — por causa de uma cortina de fumo para o roubo. Mas se olhar para aquele pimenteiro que pus na mesa, verá um pequeno buraco. Foi onde a bala de Cray atingiu, sacudindo a pimenta e fazendo o criminoso espirrar.”
Houve um silêncio. Depois o Dr. Oman disse severamente: “O Major demora muito a procurar a polícia.”
“Ou a polícia a procurar o Major?” disse o sacerdote. “Bem, adeus.”
ONZE — O Estranho Crime de John Boulnois
O SR. CALHOUN KIDD era um cavalheiro muito jovem com um rosto muito velho, um rosto seco pela sua própria avidez, emoldurado em cabelo preto-azulado e uma gravata de laço preta. Era o emissário em Inglaterra do colossal diário americano chamado *Western Sun* — também humoristicamente descrito como o “Ocaso Nascente”. Isto era uma alusão a uma grande declaração jornalística (atribuída ao próprio Sr. Kidd) de que “ele achava que o sol ainda iria nascer no oeste, se os cidadãos americanos se esforçassem um pouco mais.” Aqueles, no entanto, que ridicularizam o jornalismo americano a partir da perspetiva de tradições um pouco mais suaves, esquecem um certo paradoxo que parcialmente o redime. Pois, embora o jornalismo dos Estados permita uma vulgaridade pantomímica muito além de qualquer coisa inglesa, também mostra uma verdadeira excitação sobre os problemas mentais mais sérios, dos quais os jornais ingleses são inocentes, ou melhor, incapazes. O *Sun* estava cheio das matérias mais solenes tratadas da forma mais farsesca. William James figurava lá tanto quanto “Weary Willie”, e pragmatistas alternavam com pugilistas na longa procissão dos seus retratos.
Assim, quando um homem de Oxford muito discreto chamado John Boulnois escreveu numa revista muito ilegível chamada *Natural Philosophy Quarterly* uma série de artigos sobre alegados pontos fracos na evolução darwiniana, isso não agitou nenhum canto dos jornais ingleses; embora a teoria de Boulnois (que era a de um universo comparativamente estacionário visitado ocasionalmente por convulsões de mudança) tivesse alguma popularidade um tanto excêntrica em Oxford, e chegasse a ser chamada de “Catastrofismo”. Mas muitos jornais americanos aproveitaram o desafio como um grande acontecimento; e o *Sun* projetou a sombra do Sr. Boulnois de forma bastante gigantesca pelas suas páginas. Pelo paradoxo já notado, artigos de valiosa inteligência e entusiasmo eram apresentados com manchetes aparentemente escritas por um maníaco analfabeto, manchetes como “Darwin Masca Terra; Crítico Boulnois diz que Ele Salta os Choques” — ou “Mantenha-se Catastrófico, diz o Pensador Boulnois.” E o Sr. Calhoun Kidd, do *Western Sun*, foi incumbido de levar a sua gravata de laço e o seu semblante lúgubre até à pequena casa fora de Oxford onde o Pensador Boulnois vivia em feliz ignorância de tal título.
Aquele filósofo fadado consentira, de uma forma algo atordoada, em receber o entrevistador, e tinha marcado a hora das nove daquela noite. O último de um pôr do sol de verão pairava sobre Cumnor e as colinas baixas e arborizadas; o romântico ianque estava tanto incerto do seu caminho como inquisitivo sobre os seus arredores; e vendo a porta de uma estalagem genuinamente feudal e antiga, *The Champion Arms*, aberta, entrou para fazer perguntas.
Na sala do bar tocou a campainha, e teve de esperar algum tempo por uma resposta. A única outra pessoa presente era um homem magro com cabelo ruivo cerrado e roupas largas, com aspeto de quem anda a cavalo, que estava a beber uísque de muito má qualidade, mas a fumar um charuto muito bom. O uísque, claro, era a marca de escolha do *The Champion Arms*; o charuto ele provavelmente trouxera consigo de Londres. Nada podia ser mais diferente da sua negligência cínica do que a secura elegante do jovem americano; mas algo no seu lápis e bloco de notas aberto, e talvez na expressão do seu olhar azul alerta, fez com que Kidd adivinhasse, corretamente, que ele era um colega jornalista.
“Poderia fazer-me o favor”, perguntou Kidd, com a cortesia da sua nação, “de me indicar a Casa Cinzenta, onde o Sr. Boulnois vive, como creio?”
“É a poucos metros estrada abaixo”, disse o homem ruivo, tirando o charuto; “eu próprio passarei por lá num minuto, mas vou para Pendragon Park tentar ver a diversão.”
“O que é Pendragon Park?” perguntou Calhoun Kidd.
“A casa de Sir Claude Champion — não veio também por causa disso?” perguntou o outro jornalista, olhando para cima. “É jornalista, não é?”
“Vim ver o Sr. Boulnois”, disse Kidd.
“Vim ver a Sra. Boulnois”, respondeu o outro. “Mas não a apanharei em casa.” E riu-se de uma forma bastante desagradável.
“Está interessado em Catastrofismo?” perguntou o ianque maravilhado.
“Estou interessado em catástrofes; e vão acontecer algumas”, respondeu o seu companheiro sombriamente. “O meu é um ofício imundo, e nunca pretendo que não seja.”
Com isso ele cuspiu no chão; contudo, de alguma forma, no próprio ato e instante, podia-se perceber que o homem fora criado como um cavalheiro.
O jornalista americano considerou-o com mais atenção. O seu rosto era pálido e dissoluto, com a promessa de paixões formidáveis ainda por libertar; mas era um rosto inteligente e sensível; as suas roupas eram grosseiras e descuidadas, mas ele tinha um bom anel de sinete num dos seus longos dedos finos. O seu nome, que surgiu no decorrer da conversa, era James Dalroy; ele era filho de um proprietário de terras irlandês falido, e ligado a um jornal cor-de-rosa que ele desprezava profundamente, chamado *Smart Society*, na qualidade de repórter e de algo dolorosamente parecido com um espião.
O *Smart Society*, lamento dizer, não sentia nenhum desse interesse por Boulnois sobre Darwin que era tal crédito à cabeça e aos corações do *Western Sun*. Dalroy tinha vindo, ao que parecia, farejar o cheiro de um escândalo que poderia muito bem acabar no Tribunal de Divórcio, mas que presentemente pairava entre a Casa Cinzenta e Pendragon Park.
Sir Claude Champion era conhecido pelos leitores do *Western Sun* tão bem quanto o Sr. Boulnois. Assim como o Papa e o Vencedor do Derby; mas a ideia do seu conhecimento íntimo teria parecido a Kidd igualmente incongruente. Ele tinha ouvido falar de (e escrito sobre, aliás, falsamente fingido conhecer) Sir Claude Champion, como “um dos mais brilhantes e mais ricos dos Dez Superiores de Inglaterra”; como o grande desportista que corria iates à volta do mundo; como o grande viajante que escrevia livros sobre os Himalaias, como o político que varria círculos eleitorais com um tipo surpreendente de Democracia Tory, e como o grande amador de arte, música, literatura, e, acima de tudo, representação. Sir Claude era realmente bastante magnífico aos olhos de outros que não americanos. Havia algo de um Príncipe do Renascimento na sua cultura omnívora e publicidade inquieta — ele não era apenas um grande amador, mas um fervoroso. Não havia nele nenhuma daquela frivolidade antiquária que transmitimos com a palavra “dilettante”.
Aquele perfil de falcão sem falhas com olho italiano negro-púrpura, que tinha sido fotografado tantas vezes tanto para o *Smart Society* como para o *Western Sun*, dava a toda a gente a impressão de um homem consumido pela ambição como por um fogo, ou até uma doença. Mas embora Kidd soubesse muito sobre Sir Claude — muito mais, de facto, do que havia para saber — nunca lhe teria passado pelos sonhos mais loucos ligar um aristocrata tão vistoso ao recém-descoberto fundador do Catastrofismo, ou adivinhar que Sir Claude Champion e John Boulnois podiam ser amigos íntimos. Tal, de acordo com o relato de Dalroy, era contudo o facto. Os dois tinham caçado em pares na escola e na universidade, e, embora os seus destinos sociais tivessem sido muito diferentes (pois Champion era um grande proprietário de terras e quase um milionário, enquanto Boulnois era um pobre académico e, até há pouco tempo, um desconhecido), mantinham-se ainda em contacto muito próximo um com o outro. De facto, a casa de campo de Boulnois ficava logo à saída dos portões de Pendragon Park.
Contudo, a questão de saber se os dois homens poderiam continuar amigos por muito mais tempo estava a tornar-se um assunto sombrio e feio. Um ou dois anos antes, Boulnois casara-se com uma atriz bela e não sem sucesso, a quem se dedicava no seu próprio estilo tímido e pesado; e a proximidade da casa à de Champion dera àquela celebridade volúvel oportunidades de se comportar de uma forma que não podia deixar de causar uma agitação dolorosa e bastante vil. Sir Claude levara a arte da publicidade à perfeição; e parecia tirar um prazer louco em ser igualmente ostensivo numa intriga que não lhe podia trazer qualquer honra. Criados de Pendragon deixavam perpetuamente ramos de flores para a Sra. Boulnois; carruagens e automóveis paravam perpetuamente na casa de campo para a Sra. Boulnois; bailes e máscaras enchiam perpetuamente os terrenos nos quais o baronete desfilava com a Sra. Boulnois, como a Rainha do Amor e da Beleza num torneio. Essa mesma noite, marcada pelo Sr. Kidd para a exposição do Catastrofismo, fora marcada por Sir Claude Champion para uma representação ao ar livre de Romeu e Julieta, na qual ele iria interpretar Romeu para uma Julieta que não era necessário nomear.
“Não creio que isto possa continuar sem que haja um desastre”, disse o jovem de cabelo ruivo, levantando-se e sacudindo-se. “O velho Boulnois pode ser alinhado — ou pode ser correto. Mas se ele é correto, é denso — o que se poderia chamar cúbico. Mas não acredito que seja possível.”
“Ele é um homem de grandes poderes intelectuais”, disse Calhoun Kidd com uma voz profunda.
“Sim”, respondeu Dalroy; “mas mesmo um homem de grandes poderes intelectuais não pode ser um tolo tão desgraçado a esse ponto. Tem de ir já? Eu seguirei dentro de um minuto ou dois.”
Mas Calhoun Kidd, tendo terminado o seu leite com soda, dirigiu-se apressadamente pela estrada em direção à Casa Cinzenta, deixando o seu cínico informador com o seu uísque e tabaco. O resto da luz do dia tinha desaparecido; os céus eram de um cinzento-esverdeado escuro, como ardósia, salpicados aqui e ali por uma estrela, mas mais claros no lado esquerdo do céu, com a promessa de uma lua nascente.
A Casa Cinzenta, que se encontrava entrincheirada, por assim dizer, num quadrado de sebes de espinhos rígidas e altas, ficava tão perto dos pinheiros e paliçadas do Parque que Kidd, a princípio, a confundiu com a Portaria do Parque. Encontrando o nome no portão estreito de madeira, contudo, e vendo pelo seu relógio que a hora do encontro do “Pensador” tinha acabado de bater, entrou e bateu à porta da frente. Dentro da sebe do jardim, pôde ver que a casa, embora bastante despretensiosa, era maior e mais luxuosa do que parecia à primeira vista, e era um tipo de lugar completamente diferente de uma portaria. Uma casota de cão e uma colmeia ficavam no exterior, como símbolos da velha vida campestre inglesa; a lua estava a nascer por detrás de uma plantação de pereiras prósperas, o cão que saiu da casota tinha um aspeto reverendo e relutante em ladrar; e o criado, um homem plaino e idoso que abriu a porta, foi breve mas digno.
“O Sr. Boulnois pediu-me para lhe apresentar as suas desculpas, senhor”, disse ele, “mas foi obrigado a sair subitamente.”
“Mas veja lá, eu tinha um encontro”, disse o entrevistador, com a voz a subir. “Sabe para onde ele foi?”
“Para Pendragon Park, senhor”, disse o criado, bastante sombriamente, e começou a fechar a porta.
Kidd sobressaltou-se um pouco.
“Ele foi com a Sra... com o resto do grupo?”, perguntou ele, bastante vagamente.
“Não, senhor”, disse o homem secamente; “ele ficou para trás e depois saiu sozinho.” E fechou a porta, brutalmente, mas com um ar de dever não cumprido.
O americano, aquela curiosa mistura de insolência e sensibilidade, ficou aborrecido. Sentiu um forte desejo de apressar todos um pouco e ensinar-lhes hábitos de negócio; o cão velho e grisalho, o mordomo velho de cara pesada e peitilho pré-histórico, a velha lua sonolenta e, acima de tudo, o velho filósofo distraído que não conseguia cumprir um compromisso.
“Se é assim que ele se porta, merece perder a devoção mais pura da sua esposa”, disse o Sr. Calhoun Kidd. “Mas talvez ele tenha ido lá para arranjar uma confusão. Nesse caso, calculo que um homem do Western Sun estará no local.”
E, dobrando a esquina junto aos portões abertos da portaria, partiu, caminhando pesadamente pela longa avenida de pinheiros negros que apontava em perspetiva abrupta para os jardins interiores de Pendragon Park. As árvores eram tão negras e ordenadas como plumas num coche fúnebre; ainda havia algumas estrelas. Ele era um homem com mais associações literárias do que naturais diretas; a palavra “Ravenswood” surgia-lhe repetidamente na cabeça. Era em parte a cor de corvo dos pinhais; mas em parte também uma atmosfera indescritível quase descrita na grande tragédia de Scott; o cheiro de algo que morreu no século XVIII; o cheiro de jardins húmidos e urnas partidas, de injustiças que nunca serão reparadas; de algo que não é menos incuravelmente triste porque é estranhamente irreal.
Mais do que uma vez, enquanto subia aquela estranha estrada negra de artifício trágico, parou, sobressaltado, pensando ter ouvido passos à sua frente. Não conseguia ver nada à frente a não ser as duas paredes sombrias de pinheiros e a cunha de céu estrelado acima delas. A princípio, pensou que devia ter imaginado ou ter sido ludibriado por um mero eco dos seus próprios passos. Mas, à medida que avançava, sentia-se cada vez mais inclinado a concluir, com o que restava da sua razão, que existiam realmente outros pés na estrada. Pensou vagamente em fantasmas; e surpreendeu-se com a rapidez com que conseguia ver a imagem de um fantasma apropriado e local, um com uma cara tão branca como a de Pierrot, mas manchada de preto. O ápice do triângulo de céu azul-escuro estava a tornar-se mais brilhante e azul, mas ele ainda não se tinha apercebido de que isso se devia ao facto de estar a aproximar-se das luzes da grande casa e do jardim. Apenas sentiu que a atmosfera estava a tornar-se mais intensa; havia na tristeza mais violência e segredo — mais... hesitou pela palavra, e depois disse-a com um solavanco de riso — Catastrofismo.
Mais pinheiros, mais caminho deslizaram por ele, e então ele ficou petrificado como por um sopro de magia. É em vão dizer que ele sentiu como se tivesse entrado num sonho; mas desta vez sentiu-se completamente certo de que tinha entrado num livro. Pois nós, seres humanos, estamos habituados a coisas inapropriadas; estamos acostumados ao barulho do incongruente; é uma melodia com a qual podemos adormecer. Se uma coisa apropriada acontece, ela acorda-nos como a pontada de um acorde perfeito. Algo aconteceu tal como teria acontecido num tal lugar num conto esquecido.
Sobre o pinhal negro veio voar e brilhar ao luar uma espada nua — um florete tão fino e cintilante como o que pode ter travado muitos duelos injustos naquele antigo parque. Caiu no caminho muito à frente dele e lá ficou, a brilhar como uma agulha grande. Ele correu como uma lebre e inclinou-se para olhar. Visto de perto, tinha um aspeto um tanto vistoso: as grandes joias vermelhas no punho e na guarda eram um pouco duvidosas. Mas havia outras gotas vermelhas na lâmina que não eram duvidosas.
Olhou em volta, desvairado, na direção de onde viera o projétil deslumbrante, e viu que, naquele ponto, a fachada de ébano de abetos e pinheiros era interrompida por uma estrada mais pequena em ângulo reto; a qual, quando a dobrou, o colocou com vista total para a longa casa iluminada, com um lago e fontes à frente. No entanto, não olhou para isso, tendo algo mais interessante para contemplar.
Acima dele, no ângulo do banco verde íngreme do jardim em socalcos, estava uma daquelas pequenas surpresas pitorescas comuns na antiga jardinagem paisagística; uma espécie de pequena colina redonda ou cúpula de erva, como uma toupeira gigante, cercada e coroada com três vedações concêntricas de rosas, e tendo um relógio de sol no ponto mais alto, ao centro. Kidd podia ver o ponteiro do relógio erguer-se escuro contra o céu como a barbatana dorsal de um tubarão e o luar vão a agarrar-se àquele relógio ocioso. Mas viu outra coisa a agarrar-se a ele também, por um momento selvagem — a figura de um homem.
Embora a tenha visto lá apenas por um momento, embora fosse extravagante e incrível no traje, estando vestido do pescoço aos calcanhares em carmesim justo, com brilhos de ouro, ele sabia, num relâmpago de luar, quem era. Aquela cara branca atirada para o céu, bem barbeada e tão artificialmente jovem, como Byron com um nariz romano, aqueles caracóis pretos já grisalhos — ele tinha visto os milhares de retratos públicos de Sir Claude Champion. A figura vermelha selvagem oscilou um instante contra o relógio de sol; no momento seguinte, tinha rebolado pelo banco íngreme abaixo e jazia aos pés do americano, movendo fracamente um braço. Um ornamento de ouro vistoso e artificial no braço lembrou subitamente a Kidd Romeu e Julieta; é claro que o fato carmesim justo era parte da peça. Mas havia uma longa mancha vermelha descendo o banco de onde o homem tinha rebolado — isso não era parte da peça. Ele tinha sido atravessado pelo corpo.
O Sr. Calhoun Kidd gritou e tornou a gritar. Mais uma vez, pareceu-lhe ouvir passos fantasmagóricos, e sobressaltou-se ao encontrar outra figura já perto de si. Conhecia a figura, e ainda assim ela aterrorizava-o. O jovem dissipado que se chamava Dalroy tinha uma maneira horrivelmente silenciosa de estar; se Boulnois falhasse em cumprir os compromissos que tinham sido marcados, Dalroy tinha um ar sinistro de cumprir os que não tinham sido. O luar descoloria tudo; contra o cabelo ruivo de Dalroy, a sua cara pálida parecia não tanto branca como verde-pálida.
Todo este impressionismo mórbido deve ser a desculpa de Kidd por ter gritado, brutalmente e sem qualquer razão: “Foste tu que fizeste isto, seu diabo?”
James Dalroy sorriu o seu sorriso desagradável; mas antes que pudesse falar, a figura caída fez outro movimento com o braço, acenando vagamente para o lugar onde a espada caíra; depois veio um gemido, e depois conseguiu falar.
“Boulnois.... Boulnois, digo eu.... Boulnois fez isto... ciumento de mim... ele estava ciumento, ele estava, ele estava...”
Kidd baixou a cabeça para ouvir mais, e conseguiu captar as palavras:
“Boulnois... com a minha própria espada... ele atirou-a...”
Novamente a mão moribunda acenou para a espada, e depois caiu rígida com um baque. Em Kidd subiu das profundezas todo aquele humor acre que é o estranho sal da seriedade da sua raça.
“Veja lá”, disse ele bruscamente e com autoridade, “tem de ir buscar um médico. Este homem está morto.”
“E um padre também, suponho”, disse Dalroy de uma maneira indecifrável. “Todos estes Champions são papistas.”
O americano ajoelhou-se junto ao corpo, sentiu o coração, levantou a cabeça e usou alguns esforços finais de restauração; mas antes que o outro jornalista reaparecesse, seguido por um médico e um padre, ele já estava preparado para afirmar que chegavam tarde demais.
“Chegou tarde demais também?”, perguntou o médico, um homem sólido e de aspeto próspero, com bigode e suíças convencionais, mas um olho vivo, que percorria Kidd com dúvida.
“Num certo sentido”, arrastou o representante do Sun. “Cheguei tarde demais para salvar o homem, mas calculo que cheguei a tempo de ouvir algo de importância. Ouvi o homem morto denunciar o seu assassino.”
“E quem foi o assassino?”, perguntou o médico, franzindo as sobrancelhas.
“Boulnois”, disse Calhoun Kidd, e assobiou suavemente.
O médico olhou para ele sombriamente com a testa a avermelhar, mas não contradisse. Então o padre, uma figura mais baixa no fundo, disse suavemente: “Entendi que o Sr. Boulnois não viria a Pendragon Park esta noite.”
“Mais uma vez”, disse o ianque severamente, “posso estar em posição de dar ao velho país um facto ou dois. Sim, senhor, John Boulnois ia ficar em casa toda esta noite; marcou um encontro muito bom com ele próprio e comigo. Mas John Boulnois mudou de ideias; John Boulnois deixou a sua casa abruptamente e completamente sozinho, e veio a este maldito Parque há uma hora ou mais. O seu mordomo disse-mo. Penso que temos o que a polícia sabe-tudo chama uma pista — já os mandou chamar?”
“Sim”, disse o médico, “mas ainda não alarmámos mais ninguém.”
“A Sra. Boulnois sabe?”, perguntou James Dalroy, e novamente Kidd sentiu um desejo irracional de bater na sua boca encaracolada.
“Não lho disse”, disse o médico rispidamente, “mas aqui vem a polícia.”
O pequeno padre tinha saído para a avenida principal, e agora regressava com a espada caída, que parecia ridiculamente grande e teatral quando presa à sua figura atarracada, ao mesmo tempo clerical e comum. “Mesmo antes de a polícia chegar”, disse ele pedindo desculpa, “alguém tem uma luz?”
O jornalista ianque tirou uma lanterna elétrica do bolso, e o padre segurou-a perto da parte central da lâmina, que examinou com cuidado pestanejante. Depois, sem olhar para a ponta ou para o punho, entregou a arma longa ao médico.
“Temo que não seja útil aqui”, disse ele, com um breve suspiro. “Vou dar as boas-noites aos senhores.” E caminhou pela avenida escura em direção à casa, com as mãos cruzadas atrás das costas e a cabeça grande inclinada em cogitação.
O resto do grupo apressou-se mais em direção aos portões da portaria, onde um inspetor e dois agentes podiam já ser vistos em consulta com o guarda da portaria. Mas o pequeno padre apenas caminhava cada vez mais devagar no claustro escuro de pinheiros, e por fim parou morto, nos degraus da casa. Era a sua forma silenciosa de reconhecer uma aproximação igualmente silenciosa; pois vinha em sua direção uma presença que poderia ter satisfeito até os pedidos de Calhoun Kidd por um fantasma adorável e aristocrático. Era uma jovem mulher em cetins prateados de um desenho do Renascimento; tinha cabelo dourado em duas longas cordas brilhantes, e uma cara tão surpreendentemente pálida entre elas que poderia ter sido criselefantina — feita, isto é, como algumas estátuas gregas antigas, de marfim e ouro. Mas os seus olhos eram muito brilhantes, e a sua voz, embora baixa, era confiante.
“Padre Brown?”, disse ela.
“Sra. Boulnois?”, respondeu ele gravemente. Depois olhou para ela e disse imediatamente: “Vejo que sabe sobre Sir Claude.”
“Como sabe que eu sei?”, perguntou ela firmemente.
Ele não respondeu à pergunta, mas fez outra: “Viu o seu marido?”
“O meu marido está em casa”, disse ela. “Ele não tem nada a ver com isto.”
Novamente ele não respondeu; e a mulher aproximou-se dele, com uma expressão curiosamente intensa no rosto.
“Quer que lhe diga algo mais?”, disse ela, com um sorriso bastante medroso. “Não creio que tenha sido ele, e o senhor também não.” O Padre Brown retribuiu o seu olhar com um olhar longo e grave, e depois acenou, ainda mais gravemente.
“Padre Brown”, disse a senhora, “vou dizer-lhe tudo o que sei, mas quero que me faça um favor primeiro. Pode dizer-me porque é que não saltou para a conclusão da culpa do pobre John, como todos os outros fizeram? Não se importe com o que diz: eu... eu sei sobre as coscuvilhices e as aparências que estão contra mim.”
O Padre Brown pareceu honestamente embaraçado, e passou a mão pela testa. “Duas coisas muito pequenas”, disse ele. “Pelo menos, uma é muito trivial e a outra muito vaga. Mas, tais como são, não encaixam com o Sr. Boulnois ser o assassino.”
Virou a sua cara redonda e vazia para as estrelas e continuou distraído: “Para tomar a ideia vaga primeiro. Atribuo muita importância a ideias vagas. Todas essas coisas que ‘não são prova’ são o que me convence. Penso que uma impossibilidade moral é a maior de todas as impossibilidades. Conheço o seu marido apenas ligeiramente, mas penso que este crime dele, como geralmente concebido, é algo muito semelhante a uma impossibilidade moral. Por favor, não pense que quero dizer que Boulnois não pudesse ser tão perverso. Qualquer pessoa pode ser perversa — tão perversa quanto queira. Podemos dirigir as nossas vontades morais; mas geralmente não podemos mudar os nossos gostos instintivos e formas de fazer as coisas. Boulnois poderia cometer um homicídio, mas não este homicídio. Ele não arrancaria a espada de Romeu da sua romântica bainha; ou mataria o seu inimigo no relógio de sol como num tipo de altar; ou deixaria o seu corpo entre as rosas, ou atiraria a espada para longe entre os pinheiros. Se Boulnois matasse alguém, fá-lo-ia silenciosamente e pesadamente, como faria qualquer outra coisa duvidosa — tomar um décimo copo de vinho do Porto, ou ler um poeta grego libertino. Não, o cenário romântico não é como Boulnois. É mais como Champion.”
“Ah!”, disse ela, e olhou para ele com olhos como diamantes.
“E a coisa trivial foi esta”, disse Brown. “Havia impressões digitais naquela espada; impressões digitais podem ser detetadas bastante tempo depois de serem feitas se estiverem numa superfície polida como vidro ou aço. Estas estavam numa superfície polida. Estavam a meio da lâmina da espada. De quem eram as impressões, não tenho a mínima ideia; mas porque haveria alguém de segurar uma espada a meio? Era uma espada longa, mas o comprimento é uma vantagem ao investir contra um inimigo. Pelo menos, contra a maioria dos inimigos. Contra todos os inimigos, exceto um.”
“Exceto um”, repetiu ela.
“Só há um inimigo”, disse o Padre Brown, “que é mais fácil matar com uma adaga do que com uma espada.”
“Eu sei”, disse a mulher. “A si próprio.”
Houve um longo silêncio, e depois o padre disse silenciosa mas abruptamente: “Estou certo, então? Sir Claude matou-se?”
“Sim”, disse ela, com uma cara como mármore. “Vi-o fazê-lo.”
“Ele morreu”, disse o Padre Brown, “por amor a si?”
Uma expressão extraordinária passou pelo seu rosto, muito diferente de pena, modéstia, remorso, ou qualquer coisa que o seu companheiro esperasse: a sua voz tornou-se subitamente forte e cheia. “Não acredito”, disse ela, “que ele alguma vez tenha gostado de mim um chavo. Ele odiava o meu marido.”
“Porquê?”, perguntou o outro, e virou a sua cara redonda do céu para a senhora.
“Ele odiava o meu marido porque... é tão estranho que mal sei como dizer... porque...”
“Sim?”, disse Brown pacientemente.
“Porque o meu marido não o queria odiar.”
O Padre Brown apenas acenou, e parecia ainda estar a ouvir; ele diferenciava-se da maioria dos detetives na realidade e na ficção num pequeno ponto — ele nunca fingia não compreender quando compreendia perfeitamente bem.
A Sra. Boulnois aproximou-se mais uma vez com o mesmo brilho contido de certeza. “O meu marido”, disse ela, “é um grande homem. Sir Claude Champion não era um grande homem: era um homem célebre e bem-sucedido. O meu marido nunca foi célebre ou bem-sucedido; e é a verdade solene que ele nunca sonhou em sê-lo. Ele não espera mais ser famoso por pensar do que por fumar charutos. Em todo esse lado, ele tem uma espécie de estupidez esplêndida. Ele nunca cresceu. Ele ainda gostava de Champion exatamente como gostava dele na escola; admirava-o como admiraria um truque de magia feito à mesa do jantar. Mas não se conseguia que ele concebesse a noção de invejar Champion. E Champion queria ser invejado. Ele enlouqueceu e matou-se por causa disso.”
“Sim”, disse o Padre Brown; “penso que começo a compreender.”
“Oh, não vê?”, exclamou ela; “o quadro inteiro é feito para isso — o lugar está planeado para isso. Champion pôs John numa casinha à sua própria porta, como um dependente — para o fazer sentir um fracassado. Ele nunca o sentiu. Ele não pensa mais sobre essas coisas do que... do que um leão distraído. Champion irrompia pelas horas mais desleixadas ou refeições mais simples de John com algum presente ou anúncio ou expedição deslumbrante que tornava aquilo como a visita de Haroun Alraschid, e John aceitava ou recusava amavelmente com um olho fora, por assim dizer, como um rapaz de escola preguiçoso concordando ou discordando de outro. Depois de cinco anos disto, John não tinha movido uma palha; e Sir Claude Champion era um monomaníaco.”
“E Hamã começou a contar-lhes”, disse o Padre Brown, “todas as coisas em que o rei o tinha honrado; e disse: ‘Todas estas coisas não me aproveitam de nada enquanto vir Mardoqueu, o judeu, sentado à porta.’”
“A crise chegou”, continuou a Sra. Boulnois, “quando persuadi John a deixar-me tomar nota de algumas das suas especulações e enviá-las para uma revista. Começaram a atrair atenção, especialmente na América, e um jornal quis entrevistá-lo. Quando Champion (que era entrevistado quase todos os dias) soube desta pequena e tardia migalha de sucesso que caía sobre o seu rival inconsciente, o último elo que segurava o seu ódio diabólico rompeu-se. Então, começou a lançar aquele cerco insano ao meu próprio amor e honra, que tem sido o assunto de todo o condado. O senhor perguntar-me-á por que permiti tais atenções atrozes. Respondo que não as poderia ter recusado sem explicar ao meu marido, e há coisas que a alma não pode fazer, tal como o corpo não pode voar. Ninguém poderia ter explicado ao meu marido. Ninguém o poderia fazer agora. Se lhe dissesse com todas as letras: ‘Champion está a roubar-lhe a mulher’, ele acharia a piada um pouco vulgar: que aquilo pudesse ser algo mais do que uma piada — essa noção não encontraria nenhuma fenda no seu grande crânio para entrar. Bem, John devia vir ver-nos representar esta noite, mas, mesmo quando estávamos a sair, ele disse que não viria; tinha um livro interessante e um charuto. Contei isto a Sir Claude, e foi o seu golpe fatal. O monomaníaco viu subitamente o desespero. Esfaqueou-se, gritando como um demónio que Boulnois o estava a matar; jaz ali no jardim, morto pelo seu próprio ciúme para provocar ciúmes, e John está sentado na sala de jantar a ler um livro.”
Houve outro silêncio, e então o pequeno padre disse: “Há apenas um ponto fraco, Sra. Boulnois, em todo o seu relato muito vívido. O seu marido não está sentado na sala de jantar a ler um livro. Aquele repórter americano disse-me que tinha ido à sua casa, e o seu mordomo disse-lhe que o Sr. Boulnois tinha ido para Pendragon Park, afinal.”
Os seus olhos brilhantes abriram-se num brilho quase elétrico; e, contudo, parecia mais perplexidade do que confusão ou medo. “Ora, o que quer dizer com isso?”, exclamou ela. “Todos os criados estavam fora de casa, a ver a peça de teatro. E nós não temos mordomo, graças a Deus!”
O Padre Brown sobressaltou-se e girou meio corpo como um peão absurdo. “O quê, quê?”, gritou, parecendo galvanizado numa vida súbita. “Veja lá — digo eu — será que consigo fazer com que o seu marido me ouça se for à casa?”
“Oh, os criados já devem ter voltado”, disse ela, admirada.
“Certo, certo!”, replicou o clérigo energicamente, e pôs-se a correr pelo caminho em direção aos portões do Parque. Voltou-se uma vez para dizer: “É melhor apanhar aquele ianque, ou ‘O Crime de John Boulnois’ estará em toda a República em letras garrafais.”
“O senhor não compreende”, disse a Sra. Boulnois. “Ele não se importaria. Não creio que ele imagine que a América seja realmente um lugar.”
Quando o Padre Brown chegou à casa com a colmeia e o cão sonolento, uma criada pequena e asseada conduziu-o à sala de jantar, onde Boulnois estava sentado a ler junto de um candeeiro com abajur, exatamente como a sua mulher o descrevera. Um decanter de vinho do Porto e um copo estavam ao seu alcance; e, no momento em que o padre entrou, notou a cinza longa e intacta no seu charuto.
“Ele está aqui há pelo menos meia hora”, pensou o Padre Brown. De facto, ele tinha o ar de estar sentado onde estivera quando o jantar fora levantado.
“Não se levante, Sr. Boulnois”, disse o padre da sua forma agradável e prosaica. “Não o interromperei um momento. Receio estar a interromper alguns dos seus estudos científicos.”
“Não”, disse Boulnois; “estava a ler ‘O Polegar Sangrento’.” Disse-o sem franzir a testa nem sorrir, e o seu visitante estava consciente de uma certa indiferença profunda e viril no homem, a que a sua mulher chamava grandeza. Pôs de lado um “policial” amarelo sangrento sem sequer sentir a sua incongruência o suficiente para a comentar de forma humorística. John Boulnois era um homem grande e de movimentos lentos, com uma cabeça maciça, parcialmente grisalha e parcialmente calva, e traços rombos e vigorosos. Estava em traje de noite gasto e muito antiquado, com uma abertura triangular estreita na frente da camisa: vestira-o naquela noite com o propósito original de ir ver a sua mulher representar Julieta.
“Não o demorarei muito tempo de ‘O Polegar Sangrento’ ou de quaisquer outros assuntos catastróficos”, disse o Padre Brown, sorrindo. “Só vim perguntar-lhe sobre o crime que cometeu esta noite.”
Boulnois olhou-o fixamente, mas uma barra vermelha começou a aparecer na sua testa larga; e parecia alguém que descobre o embaraço pela primeira vez.
“Sei que foi um crime estranho”, assentiu Brown em voz baixa. “Mais estranho que um homicídio, talvez — para si. Os pequenos pecados são por vezes mais difíceis de confessar do que os grandes — mas é por isso que é tão importante confessá-los. O seu crime é cometido por todas as anfitriãs da moda seis vezes por semana: e, contudo, o senhor acha que ele se cola à língua como uma atrocidade sem nome.”
“Faz-nos sentir”, disse o filósofo lentamente, “um tolo de todo o tamanho.”
“Eu sei”, assentiu o outro, “mas muitas vezes temos de escolher entre sentirmo-nos um tolo e sê-lo.”
“Não consigo analisar-me bem”, continuou Boulnois; “mas sentado naquela cadeira com aquela história, eu estava tão feliz como um rapaz da escola num feriado. Era segurança, eternidade — não consigo explicar... os charutos estavam ao alcance... os fósforos estavam ao alcance... o Polegar tinha mais quatro aparições para... não era apenas uma paz, mas uma plenitude. Então, aquela campainha tocou, e pensei por um longo e mortal minuto que não conseguia sair daquela cadeira — literal, física, muscularmente não conseguia. Depois fiz isso como um homem que levanta o mundo, porque sabia que todos os criados estavam fora. Abri a porta da frente, e estava lá um homenzinho com a boca aberta para falar e o seu caderno aberto para escrever. Lembrei-me do entrevistador ianque que tinha esquecido. O cabelo dele estava repartido ao meio, e digo-lhe que o homicídio...”
“Compreendo”, disse o Padre Brown. “Já o vi.”
“Não cometi homicídio”, continuou o Catastrofista suavemente, “mas apenas perjúrio. Disse que tinha ido a Pendragon Park e fechei-lhe a porta na cara. Esse é o meu crime, Padre Brown, e não sei que penitência o senhor me infligiria por ele.”
“Não infligirei penitência nenhuma”, disse o cavalheiro clerical, recolhendo o seu chapéu pesado e o guarda-chuva com um ar de alguma diversão; “muito pelo contrário. Vim aqui especialmente para o livrar da pequena penitência que, de outra forma, se teria seguido à sua pequena ofensa.”
“E qual”, perguntou Boulnois, sorrindo, “é a pequena penitência da qual fui tão afortunadamente livrado?”
“Ser enforcado”, disse o Padre Brown.
DOZE — O Conto de Fadas do Padre Brown
A pitoresca cidade e estado de Heiligwaldenstein era um daqueles reinos de brinquedo dos quais certas partes do Império Alemão ainda consistem. Tinha caído sob a hegemonia prussiana muito tarde na história — dificilmente cinquenta anos antes do belo dia de verão em que Flambeau e o Padre Brown se encontraram sentados nos seus jardins a beber a sua cerveja. Tinha havido não pouco de guerra e justiça selvagem ali dentro da memória viva, como logo será mostrado. Mas, ao olhar simplesmente para ela, não se podia descartar aquela impressão de infantilidade que é o lado mais encantador da Alemanha — aquelas pequenas monarquias de pantomima e paternalistas nas quais um rei parece tão doméstico quanto um cozinheiro. Os soldados alemães junto das inumeráveis guaritas pareciam estranhamente brinquedos alemães, e as ameias bem talhadas do castelo, douradas pelo sol, pareciam ainda mais gengibre dourado. Pois estava um tempo brilhante. O céu era de um azul tão prussiano quanto Potsdam poderia exigir, mas era ainda mais semelhante àquele uso generoso e brilhante da cor que uma criança extrai de uma caixa de tintas de um xelim. Até as árvores de nervuras cinzentas pareciam jovens, pois os rebentos pontiagudos nelas eram ainda cor-de-rosa, e, num padrão contra o azul forte, pareciam inumeráveis figuras infantis.
Apesar da sua aparência prosaica e do seu modo de vida geralmente prático, o Padre Brown não deixava de ter um certo traço de romance na sua composição, embora geralmente guardasse os seus devaneios para si mesmo, como muitas crianças fazem. Entre as cores vivas e alegres de um dia assim, e na moldura heráldica de tal cidade, ele sentia-se de facto como se tivesse entrado num conto de fadas. Ele sentia um prazer infantil, como um irmão mais novo poderia sentir, na formidável bengala-espada que Flambeau sempre balançava enquanto caminhava, e que agora estava em pé junto à sua caneca alta de Munique. Mais, na sua irresponsabilidade sonolenta, encontrou-se até a observar a cabeça nodosa e desajeitada do seu próprio guarda-chuva gasto, com algumas recordações vagas da clava do ogro num livro de brinquedos colorido. Mas ele nunca compôs nada sob a forma de ficção, a menos que seja o conto que se segue:
“Pergunto-me”, disse ele, “se teríamos aventuras reais num lugar como este, se nos colocássemos no caminho? É um cenário de fundo esplêndido para elas, mas tenho sempre a sensação de que lutariam connosco com sabres de cartão mais do que com espadas reais e horríveis.”
“O senhor está enganado”, disse o seu amigo. “Neste lugar, eles não só lutam com espadas, como matam sem espadas. E há algo pior do que isso.”
“Ora, o que quer dizer?”, perguntou o Padre Brown.
“Bem”, respondeu o outro, “eu diria que este foi o único lugar na Europa onde um homem foi alguma vez morto sem armas de fogo.”
“Refere-se a um arco e flecha?”, perguntou Brown com alguma estranheza.
“Refiro-me a uma bala no cérebro”, respondeu Flambeau. “Não conhece a história do falecido Príncipe deste lugar? Foi um dos grandes mistérios policiais há cerca de vinte anos. Lembra-se, naturalmente, de que este lugar foi anexado à força na época dos primeiros esquemas de consolidação de Bismarck — à força, isto é, mas de forma alguma facilmente. O império (ou o que queria ser um) enviou o Príncipe Otto de Grossenmark para governar o lugar nos interesses Imperiais. Vimos o seu retrato na galeria ali — um cavalheiro idoso e elegante, se tivesse algum cabelo ou sobrancelhas, e se não estivesse todo enrugado como um abutre; mas ele tinha coisas que o atormentavam, como explicarei num minuto. Era um soldado de habilidade e sucesso distintos, mas não teve um trabalho de todo fácil com este pequeno lugar. Foi derrotado em várias batalhas pelos célebres irmãos Arnhold — os três patriotas guerrilheiros a quem Swinburne escreveu um poema, lembra-se:
Lobos com a pele de arminho, Corvos coroados e reis — Estas coisas são muitas como a praga, Contudo, Três permanecerão estas coisas.
Ou algo desse género. De facto, não é de modo algum certo que a ocupação tivesse alguma vez sido bem-sucedida se um dos três irmãos, Paul, não tivesse, de forma desprezível, mas muito decisiva, recusado continuar a permanecer estas coisas e, ao entregar todos os segredos da insurreição, assegurado a sua queda e a sua própria promoção final ao posto de camareiro do Príncipe Otto. Depois disto, Ludwig, o único herói genuíno entre os heróis do Sr. Swinburne, foi morto, espada na mão, na captura da cidade; e o terceiro, Heinrich, que, embora não fosse um traidor, tinha sido sempre dócil e até tímido em comparação com os seus irmãos ativos, retirou-se para algo semelhante a um eremitério, converteu-se a um quietismo cristão que era quase quacre, e nunca se misturou com os homens exceto para dar quase tudo o que tinha aos pobres. Dizem-me que, não há muito tempo, ele ainda podia ser visto pelas redondezas ocasionalmente, um homem de capa preta, quase cego, com cabelos brancos muito selvagens, mas um rosto de uma suavidade espantosa.”
“Eu sei”, disse o Padre Brown. “Vi-o uma vez.”
O seu amigo olhou-o com alguma surpresa. “Não sabia que o senhor já tinha estado aqui”, disse ele. “Talvez saiba tanto sobre isto quanto eu. Seja como for, essa é a história dos Arnholds, e ele foi o último sobrevivente deles. Sim, e de todos os homens que desempenharam papéis nesse drama.”
“Quer dizer que o Príncipe, também, morreu muito antes?”
“Morreu”, repetiu Flambeau, “e isso é cerca de tudo o que podemos dizer. Deve compreender que, para o fim da sua vida, ele começou a ter aqueles truques nervosos não incomuns nos tiranos. Multiplicou a guarda diária e noturna comum em torno do seu castelo até que parecia haver mais guaritas do que casas na cidade, e personagens duvidosas eram mortas sem misericórdia. Vivia quase inteiramente num pequeno quarto que ficava no centro do enorme labirinto de todos os outros quartos, e até neste ele ergueu outro tipo de cabine central ou armário, forrado com aço, como um cofre ou um navio de guerra. Alguns dizem que sob o chão deste, ainda, havia um buraco secreto na terra, não maior do que o suficiente para o conter, de modo que, na sua ansiedade de evitar a sepultura, ele estava disposto a ir para um lugar muito semelhante a ela. Mas ele foi ainda mais longe. A população tinha sido suposta estar desarmada desde a supressão da revolta, mas Otto insistiu agora, como governos muito raramente insistem, num desarmamento absoluto e literal. Foi levado a cabo, com extraordinária exaustão e severidade, por funcionários muito bem organizados sobre uma área pequena e familiar, e, tanto quanto a força e a ciência humanas podem estar absolutamente certas de qualquer coisa, o Príncipe Otto estava absolutamente certo de que ninguém poderia introduzir sequer uma pistola de brinquedo em Heiligwaldenstein.”
“A ciência humana nunca pode estar completamente certa de coisas como essa”, disse o Padre Brown, continuando a olhar para o rebento vermelho dos ramos acima da sua cabeça, “se não por outra razão senão pela dificuldade da definição e conotação. O que é uma arma? Pessoas já foram assassinadas com os mais suaves confortos domésticos; certamente com chaleiras, provavelmente com capas de bule. Por outro lado, se mostrasse a um Britânico Antigo um revólver, duvido que soubesse que era uma arma — até que fosse disparado contra ele, claro. Talvez alguém tenha introduzido uma arma de fogo tão nova que nem sequer parecia uma arma de fogo. Talvez parecesse um dedal ou algo assim. A bala era de alguma forma peculiar?”
“Não que eu alguma vez tenha ouvido dizer”, respondeu Flambeau; “mas a minha informação é fragmentária, e só vem do meu velho amigo Grimm. Ele era um detetive muito capaz ao serviço alemão, e tentou prender-me; eu prendi-o a ele em vez disso, e tivemos muitas conversas interessantes. Ele estava encarregado aqui da investigação sobre o Príncipe Otto, mas esqueci-me de lhe perguntar qualquer coisa sobre a bala. Segundo Grimm, o que aconteceu foi isto.” Ele pausou um momento para beber a maior parte da sua lager escura de um trago, e depois retomou:
“Na noite em questão, ao que parece, esperava-se que o Príncipe aparecesse num dos quartos exteriores, porque tinha de receber certos visitantes que ele realmente desejava conhecer. Eram peritos geológicos enviados para investigar a velha questão do alegado fornecimento de ouro das rochas aqui à volta, sobre as quais (como se dizia) a pequena cidade-estado tinha há tanto tempo mantido o seu crédito e sido capaz de negociar com os seus vizinhos mesmo sob o bombardeamento incessante de exércitos maiores. Até então, nunca tinha sido encontrado pela investigação mais exigente que pudesse...”
“Que pudesse estar completamente certa de descobrir uma pistola de brinquedo”, disse o Padre Brown com um sorriso. “Mas que dizer do irmão que traiu? Não tinha nada a dizer ao Príncipe?”
“Ele sempre assegurou que não sabia”, respondeu Flambeau; “que este era o único segredo que os seus irmãos não lhe tinham contado. É justo dizer que recebeu algum apoio de palavras fragmentárias — ditas pelo grande Ludwig na hora da morte, quando olhou para Heinrich mas apontou para Paul, e disse: ‘Tu não lhe disseste...’ e pouco depois ficou incapaz de falar. Seja como for, a delegação de geólogos e mineralogistas distintos de Paris e Berlim estava lá com o traje mais magnífico e apropriado, pois não há homens que gostem tanto de usar as suas condecorações como os homens de ciência — como qualquer pessoa sabe, quem já tenha ido a uma soirée da Royal Society. Foi uma reunião brilhante, mas muito tarde, e gradualmente o Camareiro — o senhor viu o retrato dele também: um homem com sobrancelhas pretas, olhos sérios e um tipo de sorriso sem sentido por baixo — o Camareiro, digo eu, descobriu que estava lá tudo, menos o próprio Príncipe. Procurou em todos os salões exteriores; depois, lembrando-se dos ataques de medo louco do homem, apressou-se para a câmara mais íntima. Essa também estava vazia, mas a torre de aço ou cabine erguida no meio dela levou algum tempo a abrir. Quando abriu, também estava vazia. Foi ver o buraco no chão, que parecia mais profundo e, de alguma forma, ainda mais semelhante a uma sepultura — esse é o relato dele, claro. E, mesmo quando o fez, ouviu uma explosão de gritos e tumulto nos longos quartos e corredores lá fora.
“Primeiro foi um ruído distante e uma agitação de algo impensável no horizonte da multidão, mesmo para além do castelo. Depois foi um clamor sem palavras surpreendentemente próximo, e suficientemente alto para ser distinto se cada palavra não tivesse matado a outra. Depois vieram palavras de uma clareza terrível, aproximando-se, e depois um homem, correndo para o quarto e contando a notícia tão brevemente quanto tais notícias são contadas.
“Otto, Príncipe de Heiligwaldenstein e Grossenmark, estava deitado nos orvalhos do crepúsculo escurecido nos bosques para além do castelo, com os braços estendidos e o rosto voltado para a lua. O sangue ainda pulsava da sua têmpora e mandíbula estilhaçadas, mas era a única parte dele que se movia como uma coisa viva. Estava vestido com o seu uniforme completo branco e amarelo, como se fosse receber os seus convidados lá dentro, exceto que a faixa ou lenço tinha sido desatado e estava um tanto amarrotado ao seu lado. Antes que pudesse ser levantado, estava morto. Mas, morto ou vivo, ele era um enigma — ele que sempre se tinha escondido na câmara mais íntima lá fora, nos bosques húmidos, desarmado e sozinho.”
“Quem encontrou o corpo dele?”, perguntou o Padre Brown.
“Alguma rapariga ligada à Corte chamada Hedwig von qualquer coisa”, respondeu o seu amigo, “que tinha estado no bosque a colher flores silvestres.”
“Ela tinha colhido alguma?”, perguntou o padre, olhando de forma algo vaga para o véu dos ramos acima dele.
“Sim”, respondeu Flambeau. “Lembro-me particularmente de que o Camareiro, ou o velho Grimm ou alguém, disse como era horrível, quando chegaram ao chamado dela, ver uma rapariga a segurar flores da primavera e a inclinar-se sobre aquele... aquele colapso sangrento. Contudo, o ponto principal é que, antes que a ajuda chegasse, ele estava morto, e a notícia, naturalmente, teve de ser levada de volta para o castelo. A consternação que criou foi algo além mesmo do que seria natural numa Corte perante a queda de um potentado. Os visitantes estrangeiros, especialmente os peritos mineiros, estavam na dúvida e excitação mais selvagens, assim como muitos funcionários prussianos importantes, e logo começou a ficar claro que o esquema para encontrar o tesouro pesava muito mais no negócio do que as pessoas tinham suposto. Peritos e funcionários tinham sido prometidos grandes prémios ou vantagens internacionais, e alguns diziam até que os apartamentos secretos do Príncipe e a sua forte proteção militar se deviam menos ao medo da população do que à prossecução de alguma investigação privada de...”
“As flores tinham caules longos?”, perguntou o Padre Brown.
Flambeau olhou para ele. “Que pessoa estranha o senhor é!”, disse ele. “É exatamente o que o velho Grimm disse. Ele disse que a parte mais feia disso, pensava ele — mais feia que o sangue e a bala — era que as flores eram bastante curtas, arrancadas rente à cabeça.”
“Naturalmente”, disse o padre, “quando uma rapariga crescida está realmente a colher flores, ela colhe-as com bastante caule. Se ela apenas arrancasse as cabeças, como uma criança faz, parece que...” E hesitou.
“Bem?”, inquiriu o outro.
“Bem, parece um pouco como se ela as tivesse arrancado nervosamente, para arranjar uma desculpa para estar lá depois... bem, depois de ela já lá estar.”
“Eu sei aonde quer chegar”, disse Flambeau com um tom bastante sombrio. “Mas essa e todas as outras suspeitas caem por terra num ponto: a falta de uma arma. Ele poderia ter sido morto, como diz, com muitas outras coisas — até mesmo com a sua própria faixa militar; mas não temos de explicar como ele foi morto, mas sim como ele foi baleado. E o fato é que não conseguimos. Fizeram uma busca impiedosa na moça; pois, para dizer a verdade, ela era um pouco suspeita, embora fosse sobrinha e protegida do velho Chamberlain malvado, Paul Arnhold. Mas ela era muito romântica e suspeitava-se que simpatizasse com o antigo entusiasmo revolucionário da sua família. Ainda assim, por mais romântico que se seja, não se pode imaginar uma bala grande no maxilar ou no cérebro de um homem sem usar uma arma ou pistola. E não havia pistola, embora houvesse dois tiros de pistola. Deixo isso consigo, meu amigo.”
“Como sabe que houve dois tiros?”, perguntou o pequeno padre.
“Havia apenas um na cabeça dele”, disse o seu companheiro, “mas havia outro orifício de bala na faixa.”
A testa lisa do Padre Brown contraiu-se subitamente. “A outra bala foi encontrada?”, perguntou ele.
Flambeau sobressaltou-se um pouco. “Não creio que me lembre”, disse ele.
“Espere! Espere! Espere!”, gritou Brown, franzindo a testa cada vez mais, com uma concentração de curiosidade bastante invulgar. “Não me leve a mal. Deixe-me pensar nisto por um momento.”
“Está bem”, disse Flambeau, rindo, e terminou a sua cerveja. Uma brisa leve agitava as árvores em botão e soprava para o céu pequenas nuvens brancas e rosadas que pareciam tornar o céu mais azul e toda a cena colorida mais pitoresca. Poderiam ter sido querubins a voar para casa, para as janelas de uma espécie de berçário celestial. A torre mais antiga do castelo, a Torre do Dragão, erguia-se tão grotesca quanto a caneca de cerveja, mas tão acolhedora. Apenas para lá da torre vislumbrava-se o bosque onde o homem jazia morto.
“O que aconteceu a esta Hedwig eventualmente?”, perguntou finalmente o padre.
“Ela é casada com o General Schwartz”, disse Flambeau. “Sem dúvida já ouviu falar da sua carreira, que foi bastante romântica. Ele notabilizou-se mesmo antes dos seus feitos em Sadowa e Gravelotte; de facto, subiu a pulso, o que é muito invulgar até nos mais pequenos dos alemães...”
O Padre Brown sentou-se subitamente.
“Subiu a pulso!”, exclamou ele, e fez uma careta como se fosse assobiar. “Ora, ora, que história estranha! Que maneira estranha de matar um homem; mas suponho que era a única possível. Mas pensar num ódio tão paciente...”
“O que quer dizer?”, exigiu o outro. “De que forma mataram o homem?”
“Mataram-no com a faixa”, disse Brown cuidadosamente; e então, quando Flambeau protestou: “Sim, sim, eu sei sobre a bala. Talvez devesse dizer que ele morreu de ter uma faixa. Sei que não soa como ter uma doença.”
“Suponho”, disse Flambeau, “que tem alguma ideia na cabeça, mas não será fácil tirar a bala da dele. Como expliquei antes, ele poderia facilmente ter sido estrangulado. Mas ele foi baleado. Por quem? Com quê?”
“Ele foi baleado por suas próprias ordens”, disse o padre.
“Quer dizer que ele cometeu suicídio?”
“Não disse por seu próprio desejo”, respondeu o Padre Brown. “Disse por suas próprias ordens.”
“Bem, de qualquer modo, qual é a sua teoria?”
O Padre Brown riu-se. “Estou apenas de férias”, disse ele. “Não tenho teorias. Apenas este lugar me faz lembrar contos de fadas e, se quiser, conto-lhe uma história.”
As pequenas nuvens cor-de-rosa, que pareciam guloseimas, tinham flutuado até coroar as torres do castelo de gengibre dourado, e os dedos de bebé rosados das árvores em botão pareciam espalhar-se e esticar-se para as alcançar; o céu azul começou a assumir um violeta brilhante de fim de tarde, quando o Padre Brown voltou a falar subitamente:
“Foi numa noite sombria, com a chuva ainda a pingar das árvores e o orvalho já a acumular-se, que o Príncipe Otto de Grossenmark saiu apressadamente de uma porta lateral do castelo e caminhou rapidamente para o bosque. Um dos inúmeros sentinelas saudou-o, mas ele não reparou. Ele próprio não tinha qualquer desejo de ser especialmente notado. Sentiu-se satisfeito quando as grandes árvores, cinzentas e já gordurosas pela chuva, o engoliram como um pântano. Tinha escolhido deliberadamente o lado menos frequentado do seu palácio, mas mesmo esse era mais frequentado do que ele gostaria. Mas não havia qualquer possibilidade de uma perseguição oficiosa ou diplomática, pois a sua saída tinha sido um impulso repentino. Todos os diplomatas em traje de gala que ele deixou para trás não tinham importância. Ele tinha percebido subitamente que podia prescindir deles.
“A sua grande paixão não era o medo muito mais nobre da morte, mas o estranho desejo de ouro. Por causa desta lenda do ouro, ele tinha deixado Grossenmark e invadido Heiligwaldenstein. Por isto e apenas por isto, ele tinha comprado o traidor e massacrado o herói, por isto ele tinha interrogado e contra-interrogado longamente o falso Chamberlain, até chegar à conclusão de que, quanto à sua ignorância, o renegado dizia realmente a verdade. Por isto, ele tinha, um pouco relutantemente, pago e prometido dinheiro na esperança de ganhar a quantia maior; e por isto ele tinha saído do seu palácio como um ladrão à chuva, pois tinha pensado noutra maneira de obter o desejo dos seus olhos, e de o obter barato.
“Lá no topo de um caminho de montanha sinuoso para o qual ele se dirigia, entre as rochas em forma de pilares ao longo da crista que paira sobre a cidade, ficava a ermida, pouco mais do que uma caverna cercada de espinhos, onde o terceiro dos grandes irmãos se tinha escondido do mundo há muito tempo. Ele, pensou o Príncipe Otto, não poderia ter qualquer razão real para se recusar a entregar o ouro. Ele conhecia o seu lugar há anos e não fez qualquer esforço para o encontrar, mesmo antes de o seu novo credo ascético o ter cortado dos bens ou dos prazeres. É verdade que ele tinha sido um inimigo, mas agora professava o dever de não ter inimigos. Alguma concessão à sua causa, algum apelo aos seus princípios, provavelmente obteriam dele o simples segredo do dinheiro. Otto não era um cobarde, apesar da sua rede de precauções militares e, em qualquer caso, a sua avareza era mais forte do que os seus medos. Nem havia grande motivo para medo. Como tinha a certeza de que não havia armas privadas em todo o principado, tinha cem vezes mais a certeza de que não havia nenhuma na pequena ermida do Quaker na colina, onde ele vivia de ervas, com dois velhos criados rústicos e sem qualquer outra voz humana durante anos a fio. O Príncipe Otto olhou para baixo com um sorriso um tanto sombrio para os labirintos quadrados e brilhantes da cidade iluminada por candeeiros lá em baixo. Pois, até onde a vista alcançava, estendiam-se as espingardas dos seus amigos, e nem uma pitada de pólvora para os seus inimigos. Espingardas alinhadas tão perto daquele caminho de montanha que um grito seu faria os soldados correrem colina acima, sem mencionar o fato de que o bosque e a crista eram patrulhados em intervalos regulares; espingardas tão longe, nos bosques sombrios, reduzidas pela distância, para lá do rio, que um inimigo não poderia esgueirar-se para a cidade por nenhum desvio. E à volta do palácio, espingardas na porta oeste e na porta leste, na porta norte e na sul, e ao longo de todas as quatro fachadas que as ligavam. Ele estava a salvo.
“Tudo ficou ainda mais claro quando ele alcançou o cume da crista e descobriu quão despido era o ninho do seu antigo inimigo. Encontrou-se numa pequena plataforma de rocha, quebrada abruptamente pelos três cantos de precipício. Atrás estava a caverna negra, mascarada por espinhos verdes, tão baixa que era difícil acreditar que um homem pudesse entrar nela. À frente estava a queda das falésias e a vasta, mas nebulosa, visão do vale. Na pequena plataforma rochosa erguia-se um antigo suporte de leitura ou estante de bronze, a gemer sob uma grande Bíblia alemã. O bronze ou cobre tinha ficado verde com os ares corrosivos daquele lugar elevado, e Otto teve instantaneamente o pensamento: ‘Mesmo que tivessem armas, devem estar enferrujadas agora’. O luar já tinha criado um amanhecer mortal por detrás das cristas e penedos, e a chuva tinha cessado.
“Atrás da estante, e olhando através do vale, estava um homem muito velho com uma túnica preta que caía tão direita quanto as falésias à sua volta, mas cujo cabelo branco e voz fraca pareciam oscilar ao vento. Ele estava evidentemente a ler alguma lição diária como parte dos seus exercícios religiosos. ‘Eles confiam nos seus cavalos...’
“‘Senhor’, disse o Príncipe de Heiligwaldenstein, com uma cortesia bastante invulgar, ‘gostaria apenas de uma palavra consigo.’
“‘...e nos seus carros’, continuou o velho fracamente, ‘mas nós confiaremos no nome do Senhor dos Exércitos....’ As suas últimas palavras foram inaudíveis, mas ele fechou o livro reverentemente e, estando quase cego, fez um movimento de apalpadela e agarrou a estante de leitura. Instantaneamente, os seus dois criados saíram da caverna de sobrancelhas baixas e apoiaram-no. Vestiam túnicas pretas baças como a dele, mas não tinham a prata gelada no cabelo, nem o requinte gelado das feições. Eram camponeses, croatas ou magiares, com rostos largos e obtusos e olhos pestanejantes. Pela primeira vez algo perturbou o Príncipe, mas a sua coragem e sentido diplomático mantiveram-se firmes.
“‘Temo que não nos tenhamos encontrado’, disse ele, ‘desde aquele terrível canhoneio em que o seu pobre irmão morreu.’
“‘Todos os meus irmãos morreram’, disse o velho, ainda olhando através do vale. Então, virando por um instante para Otto as suas feições abatidas e delicadas, e o cabelo invernal que parecia escorrer sobre as suas sobrancelhas como pingentes de gelo, acrescentou: ‘Veja, eu também estou morto.’
“‘Espero que compreenda’, disse o Príncipe, controlando-se quase ao ponto da conciliação, ‘que não venho aqui para o assombrar, como um mero fantasma dessas grandes querelas. Não falaremos sobre quem estava certo ou errado nisso, mas pelo menos houve um ponto em que nunca estivemos errados, porque o senhor esteve sempre certo. Seja o que for que se diga sobre a política da sua família, ninguém imagina por um momento que tenha sido movido pelo mero ouro; provou ser superior à suspeita de que...’
“O velho na túnica preta tinha continuado até então a fitá-lo com olhos azuis aquosos e uma espécie de sabedoria fraca no rosto. Mas quando a palavra ‘ouro’ foi dita, ele estendeu a mão como se para deter algo e virou o rosto para as montanhas.
“‘Ele falou de ouro’, disse ele. ‘Ele falou de coisas que não são lícitas. Que pare de falar.’
“Otto tinha o vício do seu tipo e tradição prussiana, que é considerar o sucesso não como um incidente, mas como uma qualidade. Ele concebia-se a si próprio e aos seus semelhantes como conquistadores perpétuos de povos que eram perpetuamente conquistados. Consequentemente, estava pouco familiarizado com a emoção da surpresa e mal preparado para o movimento seguinte, que o sobressaltou e endureceu. Ele tinha aberto a boca para responder ao eremita, quando a boca foi tapada e a voz estrangulada por um mordaça forte e macia subitamente torcida à volta da sua cabeça como um torniquete. Demorou quarenta segundos completos até que ele percebesse que os dois criados húngaros tinham feito aquilo, e que o tinham feito com a sua própria faixa militar.
“O velho voltou fracamente para a sua grande Bíblia apoiada em bronze, folheou as páginas, com uma paciência que tinha algo de horrível, até chegar à Epístola de São Tiago, e então começou a ler: ‘A língua é um pequeno membro, mas...’
“Algo na própria voz fez o Príncipe virar-se subitamente e mergulhar pelo caminho da montanha que tinha subido. Ele estava a meio caminho dos jardins do palácio antes mesmo de tentar arrancar a faixa estranguladora do seu pescoço e maxilares. Tentou de novo e de novo, e era impossível; os homens que tinham dado aquele nó na mordaça sabiam a diferença entre o que um homem pode fazer com as mãos à frente e o que pode fazer com as mãos atrás da cabeça. As suas pernas estavam livres para saltar como um antílope nas montanhas, os seus braços estavam livres para usar qualquer gesto ou acenar qualquer sinal, mas ele não conseguia falar. Um demónio mudo estava nele.
“Ele tinha chegado perto dos bosques que rodeavam o castelo antes de ter percebido completamente o que o seu estado sem palavras significava e pretendia significar. Mais uma vez, olhou para baixo, sombriamente, para os labirintos quadrados e brilhantes da cidade iluminada por candeeiros lá em baixo, e não sorriu mais. Sentiu-se a repetir as frases do seu estado de espírito anterior com uma ironia assassina. Até onde a vista alcançava, corriam as espingardas dos seus amigos, cada um dos quais o mataria a tiro se ele não pudesse responder ao desafio. As espingardas estavam tão perto que o bosque e a crista podiam ser patrulhados em intervalos regulares; portanto, era inútil esconder-se no bosque até de manhã. As espingardas estavam alinhadas tão longe que um inimigo não podia esgueirar-se para a cidade por nenhum desvio; portanto, era vão regressar à cidade por qualquer caminho remoto. Um grito seu faria os seus soldados correrem colina acima. Mas dele não viria qualquer grito.
“A lua tinha subido num prateado fortalecedor, e o céu mostrava-se em listas de azul noturno brilhante entre as listas pretas dos pinheiros à volta do castelo. Flores de um tipo largo e emplumado — pois ele nunca tinha reparado em tais coisas antes — eram ao mesmo tempo luminosas e descoloridas pelo luar, e pareciam indescritivelmente fantásticas à medida que se agrupavam, como se rastejassem à volta das raízes das árvores. Talvez a sua razão tivesse sido subitamente desalojada pelo cativeiro antinatural que trazia consigo, mas naquele bosque ele sentiu algo profundamente alemão — o conto de fadas. Ele sabia com metade da sua mente que se estava a aproximar do castelo de um ogre — ele tinha-se esquecido de que ele era o ogre. Lembrou-se de perguntar à sua mãe se os ursos viviam no antigo parque de casa. Baixou-se para apanhar uma flor, como se fosse um amuleto contra o encantamento. O caule era mais forte do que ele esperava e partiu-se com um estalido leve. Tentando cuidadosamente colocá-la na sua faixa, ouviu o grito: ‘Quem vive?’. Então lembrou-se de que a faixa não estava no seu lugar habitual.
“Tentou gritar e ficou em silêncio. O segundo desafio veio; e então um tiro que guinchou ao vir e depois foi silenciado subitamente pelo impacto. Otto de Grossenmark jazia muito pacificamente entre as árvores de fadas, e não faria mais mal nem com ouro nem com aço; apenas o lápis de prata da lua escolheria e traçaria aqui e ali o ornamento intrincado do seu uniforme, ou as velhas rugas na sua testa. Que Deus tenha misericórdia da sua alma.
“O sentinela que tinha disparado, de acordo com as ordens estritas da guarnição, correu naturalmente para a frente para encontrar algum vestígio da sua presa. Era um soldado chamado Schwartz, desde então não desconhecido na sua profissão, e o que ele encontrou foi um homem calvo de uniforme, mas com o rosto tão ligado por uma espécie de máscara feita da sua própria faixa militar que nada mais se podia ver a não ser olhos abertos e mortos, brilhando estaticamente ao luar. A bala tinha atravessado a mordaça até ao maxilar; é por isso que havia um orifício de bala na faixa, mas apenas um tiro. Naturalmente, embora não corretamente, o jovem Schwartz arrancou a misteriosa máscara de seda e atirou-a para a relva; e então viu quem tinha matado.
“Não podemos ter a certeza da fase seguinte. Mas inclino-me a acreditar que havia um conto de fadas, afinal, naquele pequeno bosque, por mais horrível que fosse a sua ocasião. Se a jovem chamada Hedwig tinha algum conhecimento prévio do soldado que salvou e com quem acabou por casar, ou se ela se deparou acidentalmente com o acidente e a sua intimidade começou naquela noite, provavelmente nunca saberemos. Mas podemos saber, penso eu, que esta Hedwig era uma heroína e merecia casar com um homem que se tornou uma espécie de herói. Ela fez a coisa corajosa e sensata. Persuadiu o sentinela a voltar ao seu posto, onde não havia nada que o ligasse ao desastre; ele era apenas um dos mais leais e ordeiros de cinquenta sentinelas daquele tipo ao alcance. Ela permaneceu junto ao corpo e deu o alarme; e também não havia nada que a ligasse ao desastre, uma vez que ela não tinha, e não poderia ter, quaisquer armas de fogo.”
“Bem”, disse o Padre Brown levantando-se alegremente, “espero que sejam felizes.”
“Para onde vai?”, perguntou o seu amigo.
“Vou dar outra vista de olhos àquele retrato do Chamberlain, o Arnhold que traiu os seus irmãos”, respondeu o padre. “Pergunto-me que parte... pergunto-me se um homem é menos traidor quando é traidor duas vezes?”
E ele ruminou durante muito tempo perante o retrato de um homem de cabelos brancos com sobrancelhas pretas e um sorriso rosado, pintado, que parecia contradizer o aviso negro nos seus olhos.