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The Works of Edgar Allan Poe

by Edgar Allan Poe · in Portuguese

As Obras de Edgar Allan Poe

por Edgar Allan Poe

Edição Raven

VOLUME II.

Conteúdo

A CARTA ROUBADA O MILÉSIMO SEGUNDO CONTO DE SCHEHERAZADE UMA DESCIDA AO MAELSTRÖM. VON KEMPELEN E A SUA DESCOBERTA REVELAÇÃO MESMÉRICA OS FACTOS NO CASO DO SR. VALDEMAR O GATO PRETO. A QUEDA DA CASA DE USHER SILÊNCIO — UMA FÁBULA O BAILE DA MORTE VERMELHA. O BARRIL DE AMONTILLADO. O DEMÓNIO DA PERVERSIDADE A ILHA DA FADA A ATRIBUIÇÃO O POÇO E O PÊNDULO O ENTERRO PREMATURO O DOMÍNIO DE ARNHEIM A CABANA DE LANDOR WILLIAM WILSON O CORAÇÃO REVELADOR. BERENICE ELEONORA NOTAS AO SEGUNDO VOLUME

[Nota do Redator — Algumas notas finais são de Poe e outras foram acrescentadas por Griswold. Neste volume, as notas encontram-se no final.]

A CARTA ROUBADA

Nil sapientiæ odiosius acumine nimio. — Sêneca.

Em Paris, logo após o anoitecer de uma tarde tempestuosa no outono de 18—, eu desfrutava do duplo luxo da meditação e de uma espuma-do-mar, na companhia do meu amigo C. Auguste Dupin, na sua pequena biblioteca nas traseiras, ou gabinete de leitura, au troisième, n.º 33, Rue Dunôt, Faubourg St. Germain. Durante pelo menos uma hora, mantivemos um silêncio profundo; enquanto cada um, para qualquer observador casual, poderia ter parecido intensa e exclusivamente ocupado com os remoinhos de fumo que oprimiam a atmosfera da câmara. Quanto a mim, porém, estava mentalmente a discutir certos tópicos que tinham constituído matéria de conversa entre nós num período anterior da noite; refiro-me ao caso da Rue Morgue e ao mistério que envolvia o homicídio de Marie Rogêt. Considerei-o, portanto, como uma espécie de coincidência quando a porta do nosso apartamento se abriu e deu entrada ao nosso velho conhecido, Monsieur G——, o Prefeito da polícia parisiense.

Demos-lhe as boas-vindas calorosas; pois havia quase tanto de divertido quanto de desprezível no homem, e não o víamos há vários anos. Estávamos sentados no escuro, e Dupin levantou-se agora com o propósito de acender um candeeiro, mas sentou-se novamente, sem o fazer, após G. dizer que nos tinha vindo consultar, ou melhor, pedir a opinião do meu amigo, sobre um assunto oficial que tinha causado uma grande dose de problemas.

“Se é algum ponto que requeira reflexão”, observou Dupin, enquanto se abstinha de acender a torcida, “examiná-lo-emos melhor no escuro.”

“Essa é outra das suas noções estranhas”, disse o Prefeito, que tinha o hábito de chamar a tudo “estranho” que estivesse além da sua compreensão, e vivia, assim, no meio de uma legião absoluta de “estranhezas”.

“Muito verdadeiro”, disse Dupin, enquanto fornecia ao seu visitante um cachimbo e puxava para ele uma cadeira confortável.

“E qual é a dificuldade agora?”, perguntei eu. “Nada mais do género de um assassínio, espero?”

“Oh, não; nada dessa natureza. O facto é que o assunto é muito simples, de facto, e não tenho dúvidas de que o podemos resolver suficientemente bem nós próprios; mas pensei que o Dupin gostaria de ouvir os detalhes, porque é excessivamente estranho.”

“Simples e estranho”, disse Dupin.

“Ora, sim; e também não é exatamente isso. O facto é que todos nós temos andado muito intrigados porque o caso é tão simples e, contudo, derrota-nos completamente.”

“Talvez seja a própria simplicidade da coisa que o faz errar”, disse o meu amigo.

“Que disparate que você diz!”, respondeu o Prefeito, rindo-se à gargalhada.

“Talvez o mistério seja um pouco demasiado evidente”, disse Dupin.

“Oh, bons céus! quem já ouviu tal ideia?”

“Um pouco demasiado óbvio.”

“Ha! ha! ha—ha! ha! ha!—ho! ho! ho!”, rugiu o nosso visitante, profundamente divertido, “oh, Dupin, você ainda me há de matar!”

“E qual é, afinal, o assunto em mãos?”, perguntei eu.

“Ora, eu conto-lhe”, respondeu o Prefeito, enquanto dava uma baforada longa, constante e contemplativa, e se acomodava na sua cadeira. “Contar-lhe-ei em poucas palavras; mas, antes de começar, deixe-me avisá-lo de que este é um assunto que exige o maior sigilo e que, muito provavelmente, eu perderia o cargo que agora ocupo, se se soubesse que confiei este assunto a alguém.”

“Prossiga”, disse eu.

“Ou não”, disse Dupin.

“Bem, então; recebi informações pessoais, de um nível muito elevado, de que um certo documento da maior importância foi roubado dos aposentos reais. O indivíduo que o roubou é conhecido; disto não há dúvida; ele foi visto a tirá-lo. Sabe-se, também, que ainda permanece na sua posse.”

“Como é que se sabe isto?”, perguntou Dupin.

“Infere-se claramente”, respondeu o Prefeito, “pela natureza do documento e pelo não aparecimento de certos resultados que surgiriam imediatamente se ele saísse da posse do ladrão; isto é, se ele o utilizasse como, no fim de contas, deve planear utilizá-lo.”

“Seja um pouco mais explícito”, disse eu.

“Bem, posso aventurar-me a dizer que o documento confere ao seu detentor um certo poder num certo círculo onde tal poder é imensamente valioso.” O Prefeito era afeiçoado ao jargão da diplomacia.

“Ainda não compreendo bem”, disse Dupin.

“Não? Bem; a revelação do documento a uma terceira pessoa, que não será nomeada, poria em causa a honra de uma personagem de elevadíssima posição; e este facto confere ao detentor do documento um ascendente sobre a ilustre personagem cuja honra e paz estão tão ameaçadas.”

“Mas este ascendente”, interpus eu, “dependeria do conhecimento que o ladrão tem do conhecimento que a vítima tem do ladrão. Quem se atreveria...”

“O ladrão”, disse G., “é o Ministro D——, que se atreve a tudo, tanto ao que é impróprio como ao que é próprio de um homem. O método do roubo não foi menos engenhoso do que audacioso. O documento em questão — uma carta, para ser franco — tinha sido recebido pela personagem roubada enquanto estava sozinha no boudoir real. Durante a sua leitura, foi subitamente interrompida pela entrada da outra personagem exaltada de quem, especialmente, era seu desejo escondê-lo. Após uma tentativa apressada e vã de o empurrar para uma gaveta, viu-se forçada a colocá-lo, aberto como estava, sobre uma mesa. O endereço, contudo, estava virado para cima e, assim, o conteúdo não exposto, a carta escapou à atenção. Nesta conjuntura entra o Ministro D——. O seu olho de lince percebe imediatamente o papel, reconhece a caligrafia do endereço, observa a confusão da personagem endereçada e descobre o seu segredo. Após algumas transações comerciais, despachadas à sua maneira habitual, ele produz uma carta um pouco semelhante à que está em questão, abre-a, finge lê-la e depois coloca-a em estreita justaposição com a outra. Conversa de novo, durante uns quinze minutos, sobre assuntos públicos. Finalmente, ao despedir-se, leva também da mesa a carta à qual não tinha direito. A sua legítima proprietária viu, mas, claro, não se atreveu a chamar a atenção para o ato, na presença da terceira personagem que estava ao seu lado. O ministro escafedeu-se; deixando a sua própria carta — uma sem importância — sobre a mesa.”

“Aqui, então”, disse-me Dupin, “tem precisamente o que exige para tornar o ascendente completo — o conhecimento que o ladrão tem do conhecimento que a vítima tem do ladrão.”

“Sim”, respondeu o Prefeito; “e o poder assim obtido tem sido exercido, há alguns meses, para fins políticos, numa extensão muito perigosa. A personagem roubada está cada vez mais convencida, a cada dia, da necessidade de recuperar a sua carta. Mas isto, naturalmente, não pode ser feito abertamente. Em suma, levada ao desespero, entregou-me o assunto.”

“De quem”, disse Dupin, no meio de um turbilhão perfeito de fumo, “nenhum agente mais sagaz poderia, suponho, ser desejado ou até mesmo imaginado.”

“Você lisonjeia-me”, respondeu o Prefeito; “mas é possível que alguma opinião desse tipo tenha sido mantida.”

“É claro”, disse eu, “como observa, que a carta ainda está na posse do ministro; uma vez que é esta posse, e não qualquer emprego da carta, que confere o poder. Com o emprego, o poder desaparece.”

“Verdade”, disse G.; “e foi sobre esta convicção que procedi. O meu primeiro cuidado foi fazer uma busca minuciosa ao hotel do ministro; e aqui o meu principal embaraço residia na necessidade de revistar sem o seu conhecimento. Acima de tudo, fui avisado do perigo que resultaria de lhe dar motivos para suspeitar do nosso desígnio.”

“Mas”, disse eu, “você é perfeitamente au fait nestas investigações. A polícia parisiense já fez isto muitas vezes antes.”

“Oh, sim; e por esta razão não perdi a esperança. Os hábitos do ministro deram-me, também, uma grande vantagem. Ele está frequentemente ausente de casa durante toda a noite. Os seus criados não são, de forma alguma, numerosos. Dormem longe dos aposentos do seu mestre e, sendo principalmente napolitanos, são facilmente embriagados. Tenho chaves, como sabe, com as quais posso abrir qualquer câmara ou armário em Paris. Durante três meses, não passou uma noite em que não estivesse ocupado, pessoalmente, a vasculhar o Hotel D——. A minha honra está em jogo e, para mencionar um grande segredo, a recompensa é enorme. Por isso, não abandonei a busca até ficar plenamente convencido de que o ladrão é um homem mais astuto do que eu. Imagino que investiguei todos os recantos e esquinas das instalações em que é possível que o papel esteja escondido.”

“Mas não será possível”, sugeri, “que, embora a carta possa estar na posse do ministro, como inquestionavelmente está, ele a possa ter escondido noutro lugar que não nas suas próprias instalações?”

“Isto é apenas possível”, disse Dupin. “A atual condição peculiar dos assuntos na corte, e especialmente daquelas intrigas em que se sabe que D—— está envolvido, tornariam a disponibilidade imediata do documento — a sua suscetibilidade de ser produzido num momento de aviso — um ponto de importância quase igual à sua posse.”

“A sua suscetibilidade de ser produzido?”, disse eu.

“Isto é, de ser destruído”, disse Dupin.

“Verdade”, observei; “o papel está, então, claramente nas instalações. Quanto a estar na pessoa do ministro, podemos considerar isso fora de questão.”

“Inteiramente”, disse o Prefeito. “Ele foi emboscado duas vezes, como que por salteadores, e a sua pessoa revistada rigorosamente sob a minha própria inspeção.”

“Poderia ter-se poupado a este trabalho”, disse Dupin. “D——, suponho, não é de todo um tolo e, se não, deve ter previsto estas emboscadas, como uma questão de rotina.”

“Não é de todo um tolo”, disse G., “mas, então, ele é um poeta, o que considero estar apenas a um passo de um tolo.”

“Verdade”, disse Dupin, após uma longa e pensativa baforada da sua espuma-do-mar, “embora eu próprio tenha sido culpado de certos doggrel.”

“Suponha que detalha”, disse eu, “os pormenores da sua busca.”

“Ora, o facto é que levámos o nosso tempo e revistámos em toda a parte. Tenho longa experiência nestes assuntos. Tomei o edifício inteiro, quarto por quarto; dedicando as noites de uma semana inteira a cada um. Examinámos, primeiro, o mobiliário de cada apartamento. Abrimos todas as gavetas possíveis; e presumo que saiba que, para um agente da polícia devidamente treinado, uma coisa como uma gaveta secreta é impossível. Qualquer homem é um idiota que permite que uma gaveta ‘secreta’ lhe escape numa busca deste género. A coisa é tão clara. Existe uma certa quantidade de volume — de espaço — a ser contabilizado em cada armário. Depois, temos regras precisas. A quinquagésima parte de uma linha não nos poderia escapar. Depois dos armários, passámos às cadeiras. As almofadas sondámo-las com as agulhas finas e compridas que me viu empregar. Das mesas, retirámos os tampos.”

“Por que razão?”

“Às vezes, o tampo de uma mesa, ou outra peça de mobiliário arranjada de forma semelhante, é removido pela pessoa que deseja esconder um artigo; depois, a perna é escavada, o artigo depositado dentro da cavidade e o tampo reposto. Os fundos e os topos dos postes de cama são empregues da mesma maneira.”

“Mas a cavidade não poderia ser detetada por som?” perguntei eu.

“De modo algum, se, quando o artigo é depositado, for colocada uma camada suficiente de algodão à sua volta. Além disso, no nosso caso, fomos obrigados a proceder sem ruído.”

“Mas não poderia ter removido — não poderia ter desmontado todos os artigos de mobiliário nos quais teria sido possível fazer um depósito da maneira que menciona. Uma carta pode ser comprimida num fino rolo espiral, não diferindo muito em forma ou volume de uma agulha de tricotar grande, e, nesta forma, poderia ser inserida na travessa de uma cadeira, por exemplo. Não desmontou todas as cadeiras?”

“Certamente que não; mas fiz melhor — examinámos as travessas de todas as cadeiras no hotel e, de facto, as juntas de todos os tipos de mobiliário, com a ajuda de um microscópio muito potente. Se houvesse quaisquer vestígios de perturbação recente, não teríamos deixado de o detetar instantaneamente. Um único grão de pó de verruma, por exemplo, teria sido tão óbvio como uma maçã. Qualquer desordem na colagem — qualquer abertura invulgar nas juntas — teria sido suficiente para garantir a deteção.”

“Presumo que olhou para os espelhos, entre as tábuas e as placas, e sondou as camas e a roupa de cama, bem como as cortinas e tapetes.”

“Isso, claro; e quando tínhamos completado absolutamente cada partícula do mobiliário desta forma, então examinámos a própria casa. Dividimos toda a sua superfície em compartimentos, que numerámos, para que nenhum pudesse ser esquecido; depois escrutinámos cada centímetro quadrado em todas as instalações, incluindo as duas casas imediatamente adjacentes, com o microscópio, como antes.”

“As duas casas adjacentes!”, exclamei; “deve ter tido um grande trabalho.”

“Tivemos; mas a recompensa oferecida é prodigiosa!”

“Inclui os terrenos à volta das casas?”

“Todos os terrenos são pavimentados com tijolo. Deram-nos comparativamente pouco trabalho. Examinámos o musgo entre os tijolos e encontramo-lo imperturbado.”

“Procurou entre os papéis de D——, naturalmente, e nos livros da biblioteca?”

“Certamente; abrimos todos os pacotes e volumes; não só abrimos todos os livros, como folheámos cada página de cada volume, não nos contentando apenas com uma sacudidela, à maneira de alguns dos nossos oficiais de polícia. Também medimos a espessura de todas as capas dos livros, com a medição mais precisa, e aplicámos a cada um o escrutínio mais zeloso do microscópio. Se alguma das encadernações tivesse sido recentemente mexida, seria totalmente impossível que o facto tivesse escapado à observação. Alguns cinco ou seis volumes, acabados de sair das mãos do encadernador, sondámo-los cuidadosamente, longitudinalmente, com as agulhas.”

“Explorou os soalhos debaixo dos tapetes?”

“Sem dúvida. Retirámos todos os tapetes e examinámos as tábuas com o microscópio.”

“E o papel das paredes?”

“Sim.”

“Procurou nas caves?”

“Procurámos.”

“Então”, disse eu, “você tem feito um erro de cálculo e a carta não está nas instalações, como supõe.”

“Receio que tenha razão quanto a isso”, disse o Prefeito. “E agora, Dupin, o que me aconselharia a fazer?”

“Fazer uma nova busca minuciosa às instalações.”

“Isso é absolutamente desnecessário”, respondeu G——. “Não estou mais certo de que respiro do que estou de que a carta não está no Hotel.”

“Não tenho melhor conselho a dar-lhe”, disse Dupin. “Você tem, naturalmente, uma descrição precisa da carta?”

“Oh, sim!” — E aqui o Prefeito, produzindo um bloco de notas, procedeu a ler em voz alta um relato minucioso do aspeto interno, e especialmente do aspeto externo, do documento desaparecido. Pouco depois de terminar a leitura desta descrição, partiu, mais completamente deprimido de espírito do que alguma vez tinha conhecido o bom cavalheiro.

Cerca de um mês depois, fez-nos outra visita e encontrou-nos ocupados quase como antes. Pegou num cachimbo e numa cadeira e entrou numa conversa comum. Finalmente, disse: —

“Bem, mas G——, que tal a carta roubada? Presumo que finalmente se decidiu que não existe tal coisa como superar o Ministro?”

“Que o diabo o leve, digo eu — sim; fiz a reexame, contudo, como o Dupin sugeriu — mas foi tudo trabalho perdido, como eu sabia que seria.”

“Quanto foi a recompensa oferecida, disse você?”, perguntou Dupin.

“Ora, uma quantia muito grande — uma recompensa muito generosa — não gosto de dizer quanto, precisamente; mas direi uma coisa, que não me importaria de dar o meu cheque individual de cinquenta mil francos a qualquer um que pudesse obter-me essa carta. O facto é que se está a tornar de cada vez mais importância, a cada dia; e a recompensa foi recentemente duplicada. Se fosse triplicada, contudo, eu não poderia fazer mais do que fiz.”

“Ora, sim”, disse Dupin, arrastadamente, entre as baforadas da sua espuma-do-mar, “eu realmente — penso, G——, que você não se esforçou — ao máximo neste assunto. Você poderia — fazer um pouco mais, penso, eh?”

“Como? — de que maneira?”

“Ora — puf, puf — você poderia — puf, puf — empregar aconselhamento no assunto, eh? — puf, puf, puf. Lembra-se da história que contam de Abernethy?”

“Não; que se lixe o Abernethy!”

“Com certeza! que se lixe e seja bem-vindo. Mas, era uma vez, um certo avarento rico que concebeu o desígnio de se aproveitar deste Abernethy para uma opinião médica. Iniciando, para este fim, uma conversa comum numa companhia privada, insinuou o seu caso ao médico, como sendo o de um indivíduo imaginário.

“‘Suporemos’, disse o avarento, ‘que os seus sintomas são tais e tais; agora, doutor, o que o teria aconselhado a tomar?’

“‘Tomar!’, disse Abernethy, ‘ora, tomar conselho, certamente.’”

“Mas”, disse o Prefeito, um pouco descompuesto, “estou perfeitamente disposto a tomar conselho e a pagar por ele. Daria realmente cinquenta mil francos a qualquer um que me ajudasse no assunto.”

“Nesse caso”, respondeu Dupin, abrindo uma gaveta e produzindo um talão de cheques, “pode muito bem passar-me um cheque pelo montante mencionado. Quando o tiver assinado, entregar-lhe-ei a carta.”

Fiquei estupefacto. O Prefeito parecia absolutamente fulminado. Durante alguns minutos, permaneceu mudo e imóvel, olhando incrédulo para o meu amigo com a boca aberta e olhos que pareciam querer sair das órbitas; depois, aparentemente recuperando-se em alguma medida, pegou numa caneta e, após várias pausas e olhares vácuos, finalmente preencheu e assinou um cheque de cinquenta mil francos e entregou-o através da mesa a Dupin. Este examinou-o cuidadosamente e depositou-o na sua carteira; depois, destrancando um escritoire, tirou de lá uma carta e entregou-a ao Prefeito. Este funcionário agarrou-a numa agonia perfeita de alegria, abriu-a com uma mão trémula, lançou um olhar rápido ao seu conteúdo e, depois, lutando e debatendo-se até à porta, apressou-se finalmente sem cerimónia para fora da sala e da casa, sem ter proferido uma sílaba desde que Dupin lhe pedira para preencher o cheque.

Quando ele se foi embora, o meu amigo entrou em algumas explicações.

“A polícia parisiense”, disse ele, “é extremamente capaz à sua maneira. São perseverantes, engenhosos, astutos e completamente versados no conhecimento que os seus deveres parecem exigir principalmente. Assim, quando G—— nos detalhou o seu modo de revistar as instalações no Hotel D——, senti total confiança de que ele tinha feito uma investigação satisfatória — até onde os seus trabalhos se estenderam.”

“Até onde os seus trabalhos se estenderam?”, disse eu.

“Sim”, disse Dupin. “As medidas adotadas não foram apenas as melhores do seu género, mas levadas à perfeição absoluta. Se a carta tivesse sido depositada dentro do alcance da sua busca, estes sujeitos tê-la-iam, sem dúvida, encontrado.”

Eu limitei-me a rir — mas ele parecia bastante sério em tudo o que dizia.

“As medidas, então”, continuou ele, “eram boas no seu género e bem executadas; o seu defeito residia em serem inaplicáveis ao caso e ao homem. Um certo conjunto de recursos altamente engenhosos constitui, para o Prefeito, uma espécie de leito de Procusto, ao qual ele adapta forçosamente os seus desígnios. Mas ele erra perpetuamente por ser demasiado profundo ou demasiado superficial para a matéria em questão; e muitos alunos do ensino básico são melhores raciocinadores do que ele. Conheci um, com cerca de oito anos, cujo sucesso em adivinhar no jogo do ‘par ou ímpar’ atraía a admiração universal. Este jogo é simples e joga-se com berlindes. Um jogador segura na mão um número destes brinquedos e pergunta a outro se esse número é par ou ímpar. Se a suposição estiver correta, o adivinho ganha um; se estiver errada, perde um. O rapaz a quem me refiro ganhou todos os berlindes da escola. Naturalmente, ele tinha algum princípio de adivinhação; e este resumia-se à mera observação e avaliação da astúcia dos seus oponentes. Por exemplo, um autêntico simplório é o seu oponente e, erguendo a mão fechada, pergunta: ‘é par ou ímpar?’. O nosso aluno responde: ‘ímpar’, e perde; mas na segunda tentativa ele ganha, pois diz então para si mesmo: ‘o simplório tinha-os par na primeira tentativa, e o seu grau de astúcia é apenas suficiente para o fazer tê-los ímpares na segunda; irei, portanto, adivinhar ímpar’; — ele adivinha ímpar e ganha. Agora, com um simplório um grau acima do primeiro, ele teria raciocinado assim: ‘Este tipo descobre que, na primeira instância, eu adivinhei ímpar e, na segunda, ele propor-se-á, por impulso inicial, uma variação simples de par para ímpar, tal como o primeiro simplório; mas depois um segundo pensamento sugerir-lhe-á que esta é uma variação demasiado simples, e finalmente ele decidirá colocá-los pares como antes. Irei, portanto, adivinhar par’; — ele adivinha par e ganha. Ora, este modo de raciocínio no aluno, a quem os seus pares chamavam ‘sortudo’, — o que é, na sua última análise?”

“É meramente”, disse eu, “uma identificação do intelecto do raciocinador com o do seu oponente.”

“É”, disse Dupin; “e, ao perguntar ao rapaz por que meios efetuava a identificação total em que consistia o seu sucesso, recebi a seguinte resposta: ‘Quando quero descobrir quão sábio, ou quão estúpido, ou quão bom, ou quão perverso é alguém, ou quais são os seus pensamentos no momento, moldo a expressão do meu rosto, o mais precisamente possível, de acordo com a expressão do dele, e depois espero para ver que pensamentos ou sentimentos surgem na minha mente ou coração, como se para corresponder ou condizer com a expressão’. Esta resposta do aluno está na base de toda a profundidade espúria que tem sido atribuída a Rochefoucault, a La Bougive, a Machiavelli e a Campanella.”

“E a identificação”, disse eu, “do intelecto do raciocinador com o do seu oponente, depende, se bem o compreendo, da precisão com que o intelecto do oponente é avaliado.”

“Para o seu valor prático, depende disto”, respondeu Dupin; “e o Prefeito e a sua coorte falham tão frequentemente, primeiro, por falta desta identificação e, segundo, por má avaliação, ou melhor, por não-avaliação, do intelecto com que estão envolvidos. Consideram apenas as suas próprias ideias de engenhosidade; e, ao procurar algo escondido, atentam apenas nos modos como eles próprios o teriam escondido. Têm razão nisto — que a sua própria engenhosidade é um representante fiel da da massa; mas quando a astúcia do criminoso individual é de caráter diverso da deles, o criminoso engana-os, naturalmente. Isto acontece sempre que ela está acima da deles, e muito frequentemente quando está abaixo. Não têm qualquer variação de princípio nas suas investigações; no melhor dos casos, quando pressionados por alguma emergência invulgar — por alguma recompensa extraordinária — estendem ou exageram os seus velhos modos de prática, sem tocar nos seus princípios. O que, por exemplo, neste caso de D——, foi feito para variar o princípio de ação? O que é todo este furar, e sondar, e escutar, e escrutinar com o microscópio e dividir a superfície do edifício em polegadas quadradas registadas — o que é tudo isto senão um exagero da aplicação do único princípio ou conjunto de princípios de busca, que se baseiam no único conjunto de noções acerca da engenhosidade humana, a que o Prefeito, na longa rotina do seu dever, se habituou? Não vê que ele tomou por certo que todos os homens procedem a esconder uma carta — não exatamente num buraco de verruma feito numa perna de cadeira — mas, pelo menos, em algum buraco ou canto escondido sugerido pelo mesmo teor de pensamento que levaria um homem a secretar uma carta num buraco de verruma feito numa perna de cadeira? E não vê também que tais recantos recherchés para ocultação são adaptados apenas para ocasiões ordinárias e seriam adotados apenas por intelectos ordinários; pois, em todos os casos de ocultação, uma disposição do artigo escondido — uma disposição feita desta maneira recherché — é, logo na primeira instância, presumível e presumida; e assim a sua descoberta não depende de todo da perspicácia, mas inteiramente do mero cuidado, paciência e determinação dos buscadores; e quando o caso é de importância — ou, o que dá no mesmo aos olhos políticos, quando a recompensa é de monta — as qualidades em questão nunca falharam. Compreenderá agora o que eu quis dizer ao sugerir que, se a carta roubada tivesse sido escondida em qualquer lugar dentro dos limites da investigação do Prefeito — por outras palavras, se o princípio da sua ocultação tivesse sido compreendido dentro dos princípios do Prefeito — a sua descoberta teria sido uma questão totalmente fora de dúvida. Este funcionário, contudo, tem sido completamente mistificado; e a causa remota da sua derrota reside na suposição de que o Ministro é um tolo, porque adquiriu renome como poeta. Todos os tolos são poetas; isto o Prefeito sente; e ele é meramente culpado de uma non distributio medii ao inferir daí que todos os poetas são tolos.”

“Mas será este realmente o poeta?”, perguntei. “Há dois irmãos, sei; e ambos alcançaram reputação nas letras. O Ministro, creio, escreveu eruditamente sobre o Cálculo Diferencial. Ele é um matemático, e não um poeta.”

“Está enganado; conheço-o bem; ele é ambos. Como poeta e matemático, raciocinaria bem; como mero matemático, não poderia ter raciocinado de todo, e assim teria estado à mercê do Prefeito.”

“Surpreende-me”, disse eu, “com estas opiniões, que têm sido contraditas pela voz do mundo. Não pretende menosprezar a ideia bem digerida de séculos. O raciocínio matemático tem sido há muito considerado como a razão par excellence.”

“‘Il y a à parièr’”, respondeu Dupin, citando Chamfort, “‘que toute idée publique, toute convention reçue est une sottise, car elle a convenue au plus grand nombre’. Os matemáticos, concedo-lhe, fizeram o seu melhor para promulgar o erro popular a que alude, e que não deixa de ser um erro pela sua promulgação como verdade. Com uma arte digna de uma causa melhor, por exemplo, insinuaram o termo ‘análise’ na aplicação à álgebra. Os franceses são os originadores desta deceção particular; mas se um termo tem alguma importância — se as palavras derivam algum valor da aplicabilidade — então ‘análise’ transmite ‘álgebra’ tanto quanto, em latim, ‘ambitus’ implica ‘ambição’, ‘religio’ ‘religião’, ou ‘homines honesti’ um conjunto de homens honrados.”

“Tem uma discussão em mãos, vejo”, disse eu, “com alguns dos algebristas de Paris; mas prossiga.”

“Disputo a disponibilidade, e portanto o valor, daquela razão que é cultivada em qualquer forma especial que não a abstratamente lógica. Disputo, em particular, a razão deduzida pelo estudo matemático. As matemáticas são a ciência da forma e da quantidade; o raciocínio matemático é meramente a lógica aplicada à observação sobre forma e quantidade. O grande erro reside em supor que mesmo as verdades do que se chama álgebra pura são verdades abstratas ou gerais. E este erro é tão gritante que fico confuso com a universalidade com que tem sido recebido. Os axiomas matemáticos não são axiomas de verdade geral. O que é verdade quanto à relação — quanto à forma e quantidade — é muitas vezes grosseiramente falso quanto à moral, por exemplo. Nesta última ciência é muito usualmente falso que as partes agregadas sejam iguais ao todo. Na química também o axioma falha. Na consideração do motivo falha; pois dois motivos, cada um de um valor dado, não têm, necessariamente, um valor quando unidos, igual à soma dos seus valores separadamente. Existem numerosas outras verdades matemáticas que são apenas verdades dentro dos limites da relação. Mas o matemático argumenta, a partir das suas verdades finitas, por hábito, como se fossem de uma aplicabilidade absolutamente geral — como o mundo de facto imagina que sejam. Bryant, na sua muito erudita ‘Mitologia’, menciona uma fonte análoga de erro, quando diz que ‘embora as fábulas pagãs não sejam acreditadas, contudo esquecemo-nos continuamente e fazemos inferências a partir delas como realidades existentes’. Com os algebristas, contudo, que são eles próprios pagãos, as ‘fábulas pagãs’ são acreditadas, e as inferências são feitas, não tanto por lapso de memória, como por um transtorno inexplicável do cérebro. Em suma, nunca encontrei o mero matemático em quem se pudesse confiar fora das raízes iguais, ou alguém que não mantivesse clandestinamente como ponto de fé que x2+px é absoluta e incondicionalmente igual a q. Diga a um destes cavalheiros, a título de experiência, se lhe apraz, que acredita que podem ocorrer ocasiões onde x2+px não é totalmente igual a q, e, tendo-o feito compreender o que quer dizer, saia do seu alcance tão rapidamente quanto conveniente, pois, sem dúvida, ele tentará derrubá-lo.

“Quero dizer”, continuou Dupin, enquanto eu me ria apenas das suas últimas observações, “que se o Ministro não tivesse sido mais do que um matemático, o Prefeito não teria tido a necessidade de me dar este xeque. Conheço-o, contudo, como matemático e poeta, e as minhas medidas foram adaptadas à sua capacidade, com referência às circunstâncias pelas quais estava rodeado. Conhecia-o também como cortesão, e como um audaz intriguante. Tal homem, considerei, não poderia deixar de estar ciente dos modos de ação policiais ordinários. Ele não poderia ter deixado de antecipar — e os eventos provaram que ele não deixou de antecipar — as emboscadas a que estava sujeito. Ele deve ter previsto, refleti, as investigações secretas das suas instalações. As suas frequentes ausências de casa à noite, que foram aclamadas pelo Prefeito como auxílios certos ao seu sucesso, considerei apenas como ruses, para dar oportunidade para uma busca exaustiva à polícia, e assim mais cedo impressioná-los com a convicção a que G——, de facto, finalmente chegou — a convicção de que a carta não estava nas instalações. Senti, também, que todo o curso de pensamento, que me dei ao trabalho de detalhar para si agora mesmo, acerca do princípio invariável da ação policial em buscas por artigos escondidos — senti que todo este curso de pensamento passaria necessariamente pela mente do Ministro. Levá-lo-ia imperativamente a desprezar todos os recantos ordinários de ocultação. Ele não poderia, refleti, ser tão fraco ao ponto de não ver que o mais intrincado e remoto recanto do seu hotel estaria tão aberto como os seus armários mais comuns aos olhos, às sondas, às verrumas e aos microscópios do Prefeito. Vi, finalmente, que ele seria levado, naturalmente, à simplicidade, se não deliberadamente induzido a ela como uma questão de escolha. Lembrar-se-á, talvez, de quão desesperadamente o Prefeito se riu quando sugeri, na nossa primeira entrevista, que era apenas possível que este mistério o perturbasse tanto por causa de ser tão muito evidente.”

“Sim”, disse eu, “lembro-me bem da sua hilaridade. Pensei realmente que ele cairia em convulsões.”

“O mundo material”, continuou Dupin, “abunda em analogias muito estritas para o imaterial; e assim alguma cor de verdade foi dada ao dogma retórico, de que a metáfora, ou símile, pode ser feita para fortalecer um argumento, bem como para embelezar uma descrição. O princípio da vis inertiæ, por exemplo, parece ser idêntico na física e na metafísica. Não é mais verdade na primeira, que um corpo grande é com mais dificuldade posto em movimento do que um menor, e que o seu momento subsequente é comensurável com esta dificuldade, do que é, na última, que intelectos de capacidade mais vasta, embora mais vigorosos, mais constantes e mais cheios de eventos nos seus movimentos do que os de grau inferior, são contudo menos prontamente movidos, e mais embaraçados e cheios de hesitação nos primeiros passos do seu progresso. Novamente: já notou quais dos sinais de rua, sobre as portas das lojas, são os mais atrativos de atenção?”

“Nunca dei uma segunda olhadela à questão”, disse eu.

“Existe um jogo de puzzles”, retomou ele, “que se joga sobre um mapa. Uma das partes jogadoras requer que a outra encontre uma palavra dada — o nome de uma cidade, rio, estado ou império — qualquer palavra, em suma, sobre a superfície heterogénea e perplexa da carta. Um novato no jogo geralmente procura embaraçar os seus oponentes dando-lhes os nomes mais minuciosamente letrados; mas o adepto seleciona palavras que se estendem, em caracteres grandes, de uma extremidade da carta à outra. Estes, como os sinais e cartazes excessivamente grandes da rua, escapam à observação à força de serem excessivamente óbvios; e aqui a negligência física é precisamente análoga com a inaptidão moral pela qual o intelecto sofre ao deixar passar despercebidas aquelas considerações que são demasiado obstrusivas e demasiado palpavelmente evidentes. Mas este é um ponto, parece, um pouco acima ou abaixo do entendimento do Prefeito. Ele nunca pensou que fosse provável, ou possível, que o Ministro tivesse depositado a carta imediatamente debaixo do nariz de todo o mundo, como forma de melhor impedir qualquer parte desse mundo de a perceber.

“Mas quanto mais refletia sobre a engenhosidade audaz, impetuosa e discriminadora de D——; sobre o facto de que o documento deve ter estado sempre à mão, se ele pretendesse usá-lo para bom propósito; e sobre a evidência decisiva, obtida pelo Prefeito, de que não estava escondido dentro dos limites da busca ordinária daquele dignitário — mais satisfeito fiquei de que, para esconder esta carta, o Ministro tinha recorrido ao expediente abrangente e sagaz de não tentar escondê-la de todo.

“Cheio destas ideias, preparei-me com um par de óculos verdes, e chamei uma bela manhã, por mero acaso, ao hotel Ministerial. Encontrei D—— em casa, bocejando, descansando e perdendo tempo, como de costume, e fingindo estar no último extremo de ennui. Ele é, talvez, o ser humano mais realmente energético atualmente vivo — mas isso é apenas quando ninguém o vê.

“Para estar ao seu nível, queixei-me dos meus olhos fracos, e lamentei a necessidade dos óculos, sob cuja cobertura examinei cautelosa e exaustivamente todo o apartamento, enquanto parecia atento apenas à conversa do meu anfitrião.

“Prestei atenção especial a uma grande mesa de escrita perto da qual ele se sentava, e sobre a qual jaziam, confusamente, algumas cartas miscelâneas e outros papéis, com um ou dois instrumentos musicais e alguns livros. Aqui, contudo, após um longo e muito deliberado escrutínio, não vi nada que excitasse suspeita particular.

“A certa altura os meus olhos, ao percorrerem o circuito da sala, caíram sobre um suporte de cartões de filigrana de cartão, que pendia oscilante por uma fita azul suja, de um pequeno botão de latão logo abaixo do meio da lareira. Neste suporte, que tinha três ou quatro compartimentos, estavam cinco ou seis cartões de visita e uma carta solitária. Esta última estava muito suja e amarrotada. Estava rasgada quase em dois, pelo meio — como se um desígnio, na primeira instância, de a rasgar inteiramente como sem valor, tivesse sido alterado, ou detido, na segunda. Tinha um grande selo preto, ostentando o cifra D—— muito conspicuamente, e era endereçada, numa letra feminina diminuta, a D——, o próprio ministro. Estava enfiada descuidadamente, e até, como parecia, desprezivelmente, numa das divisões mais altas do suporte.

“Não tinha eu olhado para esta carta, do que concluí ser aquela que eu procurava. Certamente, era, em toda a aparência, radicalmente diferente daquela de que o Prefeito nos tinha lido uma descrição tão minuciosa. Aqui o selo era grande e preto, com a cifra D——; lá era pequeno e vermelho, com os brasões ducais da família S——. Aqui, o endereçamento, ao Ministro, diminuto e feminino; lá a inscrição, a certa personagem real, era marcadamente audaz e decidida; o tamanho apenas formava um ponto de correspondência. Mas, então, a radicalidade destas diferenças, que era excessiva; a sujidade; a condição suja e rasgada do papel, tão inconsistente com os verdadeiros hábitos metódicos de D——, e tão sugestiva de um desígnio de iludir o observador com uma ideia da falta de valor do documento — estas coisas, juntamente com a situação hiper-obstrusiva deste documento, plenamente à vista de qualquer visitante, e assim exatamente de acordo com as conclusões a que eu tinha previamente chegado; estas coisas, digo eu, eram fortemente corroborativas de suspeita, em alguém que vinha com a intenção de suspeitar.

“Prolonguei a minha visita o mais possível, e, enquanto mantinha uma discussão muito animada com o Ministro sobre um tópico que eu sabia bem nunca ter falhado em interessá-lo e excitá-lo, mantive a minha atenção realmente cravada na carta. Nesta examinação, memorizei a sua aparência externa e arranjo no suporte; e também caí, a certa altura, numa descoberta que pôs de parte qualquer dúvida trivial que pudesse ter entretido. Ao escrutinar as bordas do papel, observei que estavam mais gastas do que parecia necessário. Apresentavam a aparência quebrada que é manifestada quando um papel rígido, tendo sido uma vez dobrado e pressionado com um dobrador, é redobrado numa direção invertida, nos mesmos vincos ou bordas que tinham formado a dobra original. Esta descoberta foi suficiente. Estava claro para mim que a carta tinha sido virada, como uma luva, do avesso, reendereçada e reselada. Dei ao Ministro os bons dias, e parti de imediato, deixando uma caixa de rapé de ouro sobre a mesa.

“Na manhã seguinte chamei pela caixa de rapé, quando retomámos, bastante avidamente, a conversa do dia precedente. Enquanto assim envolvidos, contudo, um estrondo alto, como se de uma pistola, foi ouvido imediatamente abaixo das janelas do hotel, e foi sucedido por uma série de gritos medonhos, e as vozes de uma multidão aterrorizada. D—— correu para uma janela, abriu-a e olhou para fora. Entretanto, dirigi-me ao suporte de cartões, peguei na carta, coloquei-a no meu bolso, e substituí-a por um fac-símile, (no que diz respeito a externos,) que tinha cuidadosamente preparado nas minhas acomodações — imitando a cifra D——, muito prontamente, por meio de um selo formado de pão.

“O distúrbio na rua tinha sido causado pelo comportamento frenético de um homem com um mosquete. Ele tinha disparado contra uma multidão de mulheres e crianças. Provou-se, contudo, ter sido sem bala, e o tipo foi deixado ir à sua vida como um lunático ou um bêbado. Quando ele se foi, D—— veio da janela, para onde eu o tinha seguido imediatamente após garantir o objetivo em vista. Pouco depois despedi-me. O fingido lunático era um homem pago por mim.”

“Mas que propósito teve”, perguntei, “ao substituir a carta por um fac-símile? Não teria sido melhor, na primeira visita, tê-la tomado abertamente, e partido?”

“D——”, replicou Dupin, “é um homem desesperado e um homem de nervos. O seu hotel, também, não carece de criados devotados aos seus interesses. Se eu tivesse tentado a tentativa louca que sugere, talvez nunca tivesse saído vivo da presença ministerial. O bom povo de Paris poderia nunca mais ter ouvido falar de mim. Mas eu tinha um objetivo além destas considerações. Conhece as minhas inclinações políticas. Neste assunto, ajo como partidário da senhora em questão. Durante dezoito meses, o Ministro manteve-a em seu poder. Ela tem-no agora no dela — uma vez que, ignorando que a carta não está na sua posse, prosseguirá com as suas extorsões como se estivesse. Assim, ele irá inevitavelmente comprometer-se, de imediato, para a sua própria destruição política. A sua queda, também, não será mais precipitada do que embaraçosa. É muito bonito falar sobre o facilis descensus Averni; mas, em todo o tipo de escalada, como Catalani disse sobre o canto, é muito mais fácil subir do que descer. No presente caso, não tenho simpatia — pelo menos, não tenho pena — por aquele que desce. Ele é esse monstrum horrendum, um homem de génio sem princípios. Confesso, contudo, que gostaria muito de conhecer o caráter preciso dos seus pensamentos quando, sendo desafiado por ela a quem o Prefeito chama ‘uma certa personagem’, ele se vê reduzido a abrir a carta que lhe deixei no porta-cartões.”

“Como? Pôs lá alguma coisa em particular?”

“Bem — não parecia inteiramente correto deixar o interior em branco — isso teria sido insultuoso. D——, uma vez em Viena, fez-me uma má jogada, a qual lhe disse, de muito bom humor, que eu haveria de recordar. Portanto, como sabia que ele sentiria alguma curiosidade em relação à identidade da pessoa que o tinha superado, achei que seria uma pena não lhe dar uma pista. Ele está bem familiarizado com o meu manuscrito, e eu apenas copiei para o meio da folha em branco as palavras —

“‘— — Un dessein si funeste, S’il n’est digne d’Atrée, est digne de Thyeste.’

Elas podem ser encontradas no ‘Atrée’ de Crébillon.”

O MILÉSIMO SEGUNDO CONTO DE SCHEHERAZADE

A verdade é mais estranha que a ficção. — Ditado popular

Tendo tido ocasião, ultimamente, no decurso de algumas investigações orientais, de consultar o Tellmenow Isitsöornot, uma obra que (como o Zohar de Simeon Jochaides) é quase totalmente desconhecida, mesmo na Europa; e que nunca foi citada, que eu saiba, por qualquer americano — se excetuarmos, talvez, o autor das “Curiosidades da Literatura Americana”; — tendo tido ocasião, digo, de folhear algumas páginas da primeira obra mencionada, por demais notável, não fiquei pouco espantado ao descobrir que o mundo literário tem estado, até agora, estranhamente em erro a respeito do destino da filha do vizir, Scheherazade, tal como esse destino é retratado nas “Mil e Uma Noites”; e que o desfecho ali apresentado, se não inteiramente impreciso, no que toca ao que é dito, é pelo menos culpável por não ter ido muito mais longe.

Para informação completa sobre este tópico interessante, devo remeter o leitor inquisitivo ao próprio “Isitsöornot”; mas, entretanto, ser-me-á perdoado se apresentar um resumo do que ali descobri.

Lembrar-se-ão de que, na versão habitual dos contos, um certo monarca, tendo bons motivos para ter ciúmes da sua rainha, não só a manda executar, como faz um voto, pela sua barba e pelo profeta, de esposar cada noite a donzela mais bela dos seus domínios, e na manhã seguinte entregá-la ao carrasco.

Tendo cumprido este voto durante muitos anos ao pé da letra, e com uma pontualidade e método religiosos que lhe conferiram grande crédito como um homem de sentimentos devotos e excelente senso, foi interrompido uma tarde (sem dúvida nas suas orações) por uma visita do seu grão-vizir, à cuja filha, ao que parece, ocorrera uma ideia.

O seu nome era Scheherazade, e a sua ideia era que ou redimiria a terra do imposto despovoante sobre a sua beleza, ou pereceria, ao estilo aprovado de todas as heroínas, na tentativa.

Consequentemente, e embora não verifiquemos que seja ano bissexto (o que torna o sacrifício mais meritório), ela delega ao seu pai, o grão-vizir, a oferta da sua mão ao rei. Esta mão o rei aceita avidamente — (ele pretendia tê-la tomado de qualquer modo, e tinha adiado o assunto de dia para dia, apenas por medo do vizir), — mas, ao aceitá-la agora, ele dá a entender muito distintamente a todas as partes que, grão-vizir ou não grão-vizir, ele não tem a menor intenção de abdicar de um iota do seu voto ou dos seus privilégios. Quando, portanto, a bela Scheherazade insistiu em casar com o rei, e casou efetivamente com ele, apesar do excelente conselho do seu pai para não fazer nada do género — quando ela quis e casou com ele, digo eu, querendo ele ou não, foi com os seus belos olhos negros tão abertos quanto a natureza do caso permitiria.

Parece, contudo, que esta donzela política (que lera Maquiavel, sem dúvida), tinha um pequeno plano muito engenhoso na sua mente. Na noite do casamento, ela arranjou, sob não sei que pretexto especioso, que a sua irmã ocupasse um leito suficientemente próximo do do par real para permitir uma conversa fácil de cama para cama; e, um pouco antes do cantar do galo, ela tratou de acordar o bom monarca, seu marido (que não lhe votava menos má vontade por pretender torcer-lhe o pescoço no dia seguinte), — ela conseguiu acordá-lo, digo eu (embora, devido a uma consciência capital e a uma digestão fácil, ele dormisse bem), pelo profundo interesse de uma história (sobre um rato e um gato preto, penso eu) que ela estava a narrar (tudo num tom baixo, naturalmente) à sua irmã. Quando o dia raiou, aconteceu que esta história não estava de todo terminada, e que Scheherazade, pela natureza das coisas, não podia terminá-la ali, uma vez que era a hora de se levantar e ser estrangulada — uma coisa muito pouco mais agradável do que o enforcamento, apenas um pouco mais requintada!

A curiosidade do rei, contudo, prevalecendo, lamento dizer, até sobre os seus sólidos princípios religiosos, induziu-o, por esta vez, a adiar o cumprimento do seu voto até à manhã seguinte, com o propósito e a esperança de ouvir naquela noite como se desenrolou, no fim, a história do gato preto (um gato preto, penso que era) e do rato.

Chegada a noite, contudo, a dama Scheherazade não só deu o golpe final no gato preto e no rato (o rato era azul), mas, antes mesmo de saber bem o que estava a fazer, viu-se embrenhada nas complexidades de uma narração, com referência (se não estou inteiramente enganado) a um cavalo cor-de-rosa (com asas verdes) que se movia, de modo violento, por corda, e que era dado à corda com uma chave de anil. Com esta história, o rei ficou ainda mais profundamente interessado do que com a outra — e, como o dia raiou antes da sua conclusão (apesar de todos os esforços da rainha para terminar a tempo da estrangulação), não houve novamente outro recurso senão adiar essa cerimónia como antes, por vinte e quatro horas. Na noite seguinte aconteceu um acidente semelhante com um resultado semelhante; e depois na seguinte — e depois novamente na seguinte; de modo que, no fim, o bom monarca, tendo sido inevitavelmente privado de toda a oportunidade de cumprir o seu voto durante um período de não menos de mil e uma noites, ou esquece-o completamente pelo fim deste tempo, ou obtém a absolvição de forma regular, ou (o que é mais provável) quebra-o de vez, assim como a cabeça do seu confessor. Seja como for, Scheherazade, que, sendo descendente direta de Eva, herdou, talvez, a totalidade dos sete cestos de conversa que a última dama, todos sabemos, recolheu debaixo das árvores no jardim do Éden; Scheherazade, digo eu, triunfou finalmente, e a tarifa sobre a beleza foi revogada.

Ora, esta conclusão (que é a do conto tal como o temos registado) é, sem dúvida, excessivamente própria e agradável — mas ai! como muitas coisas agradáveis, é mais agradável do que verdadeira, e estou totalmente em dívida para com o “Isitsöornot” pelos meios de corrigir o erro. “Le mieux”, diz um provérbio francês, “est l’ennemi du bien”, e, ao mencionar que Scheherazade herdara os sete cestos de conversa, deveria ter acrescentado que ela os aplicou a juros compostos até que ascenderam a setenta e sete.

“Minha querida irmã”, disse ela, na milésima segunda noite (cito a linguagem do “Isitsöornot” neste ponto, verbatim), “minha querida irmã”, disse ela, “agora que toda esta pequena dificuldade sobre a corda de arco passou, e que este imposto odioso foi tão felizmente revogado, sinto que fui culpada de grande indiscrição ao esconder de ti e do rei (que lamento dizer, ressona — uma coisa que nenhum cavalheiro faria) a conclusão completa de Sinbad, o marinheiro. Esta pessoa passou por inúmeras outras e mais interessantes aventuras do que aquelas que relatei; mas a verdade é que me senti sonolenta na noite particular da sua narração, e por isso fui seduzida a encurtá-las — uma grave má conduta, pela qual apenas confio que Alá me perdoe. Mas ainda não é demasiado tarde para remediar a minha grande negligência — e assim que eu der ao rei um beliscão ou dois a fim de o acordar o suficiente para que ele possa parar de fazer esse ruído horrível, irei imediatamente entreter-te (e a ele, se ele quiser) com a continuação desta história muito notável.”

Nisto, a irmã de Scheherazade, tal como recebi do “Isitsöornot”, não expressou qualquer intensidade muito particular de gratificação; mas o rei, tendo sido suficientemente beliscado, finalmente cessou de ressonar, e por fim disse: “Hum!” e depois “Hoo!”, quando a rainha, entendendo estas palavras (que são sem dúvida árabe) como significando que ele estava todo atenção, e que faria o seu melhor para não ressonar mais — a rainha, digo eu, tendo arranjado estes assuntos a seu contento, reentrou assim, de imediato, na história de Sinbad, o marinheiro:

“‘Por fim, na minha velhice’, [estas são as palavras do próprio Sinbad, conforme relatadas por Scheherazade] — ‘por fim, na minha velhice, e após desfrutar de muitos anos de tranquilidade em casa, tornei-me novamente possuído pelo desejo de visitar países estrangeiros; e um dia, sem informar nenhum dos meus familiares do meu desígnio, empacotei alguns fardos de mercadorias que eram mais preciosas e menos volumosas, e, contratando um carregador para as transportar, fui com ele até à beira-mar, para aguardar a chegada de qualquer navio ao acaso que me pudesse transportar para fora do reino para alguma região que eu ainda não tivesse explorado.

“‘Tendo depositado as bagagens nas areias, sentámo-nos debaixo de algumas árvores, e olhámos para o oceano na esperança de avistar um navio, mas durante várias horas não vimos nenhum. Por fim, imaginei que podia ouvir um som singular de zumbido ou murmúrio; e o carregador, após ouvir por algum tempo, declarou que ele também o conseguia distinguir. Presentemente tornou-se mais alto, e depois ainda mais alto, de modo que não podíamos ter dúvidas de que o objeto que o causava se estava a aproximar de nós. Por fim, no rebordo do horizonte, descobrimos uma mancha negra, que aumentou rapidamente de tamanho até a identificarmos como um vasto monstro, nadando com grande parte do seu corpo acima da superfície do mar. Veio na nossa direção com uma rapidez inconcebível, levantando enormes ondas de espuma em torno do seu peito, e iluminando toda aquela parte do mar pela qual passava, com uma longa linha de fogo que se estendia para longe na distância.

“‘À medida que a coisa se aproximava, vimo-la muito distintamente. O seu comprimento era igual ao de três das mais altas árvores que crescem, e era tão largo como o grande salão de audiências no seu palácio, ó mais sublime e munificente dos Califas. O seu corpo, que era diferente do dos peixes comuns, era sólido como uma rocha, e de uma negrura de azeviche em toda aquela parte que flutuava acima da água, com a exceção de um estreito traço vermelho-sangue que o circundava completamente. O ventre, que flutuava sob a superfície, e do qual apenas podíamos obter um vislumbre aqui e ali à medida que o monstro subia e descia com as vagas, estava inteiramente coberto com escamas metálicas, de uma cor semelhante à da lua em tempo de bruma. O dorso era plano e quase branco, e dele estendiam-se para cima mais de seis espinhos, com cerca de metade do comprimento de todo o corpo.

“‘Esta criatura horrível não tinha boca que pudéssemos perceber; mas, como se para compensar esta deficiência, estava provida de pelo menos quatro vintenas de olhos, que se projetavam das suas órbitas como os da libélula verde, e estavam dispostos em redor de todo o corpo em duas fileiras, uma acima da outra, e paralelas ao traço vermelho-sangue, que parecia servir o propósito de uma sobrancelha. Dois ou três destes olhos terríveis eram muito maiores do que os outros, e tinham a aparência de ouro sólido.

“‘Embora esta besta se aproximasse de nós, como disse antes, com a maior rapidez, deve ter sido movida totalmente por necromancia — pois não tinha barbatanas como um peixe, nem pés palmados como um pato, nem asas como a concha que é soprada ao longo da maneira de um navio; nem se retorcia para a frente como fazem as enguias. A sua cabeça e a sua cauda tinham exatamente a mesma forma, apenas, não muito longe desta última, havia dois pequenos orifícios que serviam de narinas, e através dos quais o monstro soprava o seu hálito espesso com uma violência prodigiosa, e com um ruído estridente e desagradável.

“‘O nosso terror ao contemplar esta coisa hedionda foi muito grande, mas foi ainda superado pelo nosso espanto, quando, ao obter um olhar mais próximo, percebemos sobre o dorso da criatura um vasto número de animais com o tamanho e a forma de homens, e assemelhando-se-lhes inteiramente, exceto que não vestiam roupas (como os homens fazem), sendo fornecidos (pela natureza, sem dúvida) com uma cobertura feia e desconfortável, muito semelhante a pano, mas tão apertada à pele, que tornava os pobres desgraçados comicamente desajeitados, e aparentemente causava-lhes dor severa. Nas próprias pontas das suas cabeças estavam certas caixas de aspeto quadrado, que, à primeira vista, pensei que pudessem ter sido pretendidas para servir como turbantes, mas cedo descobri que eram excessivamente pesadas e sólidas, e concluí, portanto, que eram engenhos concebidos, pelo seu grande peso, para manter as cabeças dos animais estáveis e seguras sobre os seus ombros. Em volta dos pescoços das criaturas estavam presos colares pretos (insígnias de servidão, sem dúvida), tais como mantemos nos nossos cães, apenas muito mais largos e infinitamente mais rígidos, de modo que era inteiramente impossível para estas pobres vítimas moverem as suas cabeças em qualquer direção sem moverem o corpo ao mesmo tempo; e assim estavam condenadas à contemplação perpétua dos seus narizes — uma visão chata e arrebitada num grau maravilhoso, se não positivamente terrível.’

“‘Quando o monstro quase tinha chegado à margem onde estávamos, empurrou subitamente um dos seus olhos para uma grande extensão, e emitiu dele um terrível lampejo de fogo, acompanhado por uma densa nuvem de fumo, e um ruído que não posso comparar a nada senão ao trovão. À medida que o fumo se dissipava, vimos um dos estranhos homens-animais perto da cabeça da grande besta com uma trombeta na mão, através da qual (colocando-a na boca) nos dirigiu presentemente acentos altos, ásperos e desagradáveis, que, talvez, tivéssemos confundido com linguagem, se não tivessem vindo totalmente através do nariz.

“‘Sendo assim evidentemente falado, fiquei sem saber como responder, pois não conseguia de forma alguma entender o que era dito; e nesta dificuldade voltei-me para o carregador, que estava quase a desmaiar de susto, e exigi-lhe a sua opinião sobre que espécie de monstro era, o que queria, e que tipo de criaturas eram aquelas que tanto enxameavam sobre o seu dorso. A isto o carregador respondeu, tão bem quanto pôde por causa do tremor, que já tinha ouvido falar uma vez antes desta besta marinha; que era um demónio cruel, com entranhas de enxofre e sangue de fogo, criado por génios malignos como o meio de infligir miséria à humanidade; que as coisas sobre o seu dorso eram vermes, tais como os que infestam por vezes cães e gatos, apenas um pouco maiores e mais selvagens; e que estes vermes tinham os seus usos, por muito malignos que fossem — pois, através da tortura que causavam à besta pelas suas mordidelas e picadas, ela era estimulada àquele grau de ira que era necessário para a fazer rugir e cometer o mal, e assim cumprir os desígnios vingativos e maliciosos dos génios perversos.’

“‘Este relato determinou-me a fugir, e, sem sequer olhar uma vez para trás, corri a toda a velocidade para as colinas, enquanto o carregador corria igualmente depressa, embora quase numa direção oposta, de modo que, por estes meios, ele finalmente escapou com os meus fardos, dos quais não tenho dúvidas de que tomou excelente conta — embora este seja um ponto que não posso determinar, pois não me recordo de alguma vez o ter visto novamente.

“‘Quanto a mim, fui tão ardentemente perseguido por um enxame dos homens-vermes (que tinham vindo à costa em barcos) que muito cedo fui alcançado, amarrado de pés e mãos, e transportado para a besta, que imediatamente nadou de novo para o meio do mar.

“‘Arrependi-me agora amargamente da minha loucura em deixar um lar confortável para arriscar a minha vida em aventuras como esta; mas sendo o arrependimento inútil, tirei o melhor proveito da minha condição, e esforcei-me por assegurar a boa vontade do homem-animal que possuía a trombeta, e que parecia exercer autoridade sobre os seus semelhantes. Tive tanto sucesso neste esforço que, em poucos dias, a criatura presenteou-me com vários sinais do seu favor, e no fim chegou mesmo ao trabalho de me ensinar os rudimentos do que era suficientemente vaidosa para denominar a sua linguagem; de modo que, por fim, fui capaz de conversar com ela prontamente, e vim a fazê-la compreender o desejo ardente que eu tinha de ver o mundo.

“‘Washish squashish squeak, Sinbad, hey-diddle diddle, grunt unt grumble, hiss, fiss, whiss’, disse-me ele, um dia depois do jantar — mas peço mil perdões, tinha-me esquecido de que a sua majestade não está familiarizada com o dialeto dos Cock-neighs (assim os homens-animais eram chamados; presumo que porque a sua linguagem formava o elo de ligação entre a do cavalo e a do galo). Com a sua permissão, irei traduzir. ‘Washish squashish’, e por aí fora: — isto é, ‘Estou feliz por descobrir, meu caro Sinbad, que és realmente um excelente companheiro; estamos agora prestes a fazer uma coisa que é chamada circunavegar o globo; e uma vez que estás tão desejoso de ver o mundo, vou fazer um esforço e dar-te uma passagem livre sobre o dorso da besta.’”

Quando a Dama Scheherazade tinha procedido até aqui, relata o “Isitsöornot”, o rei virou-se do seu lado esquerdo para o direito, e disse:

“É, de facto, muito surpreendente, minha querida rainha, que tenhas omitido, até agora, estas últimas aventuras de Sinbad. Sabes, acho-as excessivamente divertidas e estranhas?”

Tendo o rei expressado desta forma, diz-nos, a bela Scheherazade retomou a sua história nas seguintes palavras:

“Sinbad continuou desta maneira com a sua narrativa — ‘Agradeci ao homem-animal pela sua bondade, e cedo me senti muito em casa na besta, que nadava a uma velocidade prodigiosa através do oceano; embora a superfície deste último seja, naquela parte do mundo, de modo algum plana, mas redonda como uma romã, de modo que íamos — por assim dizer — ou subindo ou descendo o tempo todo.’”

“Isso, penso eu, foi muito singular”, interrompeu o rei.

“Contudo, é bastante verdadeiro”, respondeu Scheherazade.

“Tenho as minhas dúvidas”, replicou o rei; “mas, por favor, seja tão gentil e continue com a história.”

“Eu serei”, disse a rainha. “‘A besta’, continuou Sinbad ao califa, ‘nadava, como relatei, subindo e descendo colinas até que, por fim, chegamos a uma ilha, com muitas centenas de milhas de circunferência, mas que, não obstante, fora construída no meio do mar por uma colônia de pequenas coisas semelhantes a lagartas.’” (*1)

“Hum!”, disse o rei.

“‘Deixando esta ilha’, disse Sinbad — (pois Scheherazade, deve-se entender, não deu atenção à exclamação deselegante de seu marido) — ‘deixando esta ilha, chegamos a outra onde as florestas eram de pedra sólida, e tão duras que despedaçavam os machados de melhor têmpera com que tentávamos cortá-las.’” (*2)

“Hum!”, disse o rei, novamente; mas Scheherazade, sem lhe dar atenção, continuou na linguagem de Sinbad.

“‘Passando além desta última ilha, alcançamos um país onde havia uma caverna que se estendia à distância de trinta ou quarenta milhas dentro das entranhas da terra, e que continha um número maior de palácios muito mais espaçosos e magníficos do que os que se encontram em toda Damasco e Bagdá. Dos tetos desses palácios pendiam miríades de gemas, como diamantes, porém maiores que homens; e, por entre as ruas de torres, pirâmides e templos, fluíam imensos rios tão negros quanto ébano, e repletos de peixes que não tinham olhos.’” (*3)

“Hum!”, disse o rei.

“‘Nós então nadamos para uma região do mar onde encontramos uma montanha elevada, por cujas encostas vertiam torrentes de metal derretido, algumas das quais tinham doze milhas de largura e sessenta milhas de comprimento (*4); enquanto de um abismo no cume emanava uma quantidade tão vasta de cinzas que o sol era inteiramente apagado dos céus, e tornava-se mais escuro que a meia-noite mais sombria; de modo que, mesmo estando a uma distância de cento e cinquenta milhas da montanha, era impossível ver o objeto mais branco, por mais perto que o segurássemos de nossos olhos.’” (*5)

“Hum!”, disse o rei.

“‘Após abandonar esta costa, a besta continuou sua viagem até que encontramos uma terra na qual a natureza das coisas parecia invertida — pois vimos ali um grande lago, no fundo do qual, a mais de cem pés abaixo da superfície da água, florescia, em plena folhagem, uma floresta de árvores altas e exuberantes.’” (*6)

“Hoo!”, disse o rei.

“‘Algumas centenas de milhas adiante nos levaram a um clima onde a atmosfera era tão densa que sustentava ferro ou aço, exatamente como a nossa sustenta penas.’” (*7)

“Tretas”, disse o rei.

“‘Prosseguindo ainda na mesma direção, chegamos logo à região mais magnífica de todo o mundo. Por ela serpenteava um rio glorioso por vários milhares de milhas. Este rio era de profundidade indescritível e de uma transparência mais rica que a do âmbar. Tinha de três a seis milhas de largura; e suas margens, que se erguiam de ambos os lados a mil e duzentos pés de altura perpendicular, eram coroadas com árvores sempre em flor e flores perenes de perfume doce, que faziam de todo o território um jardim deslumbrante; mas o nome desta terra exuberante era o Reino do Horror, e entrar nele era a morte inevitável.’” (*8)

“Humph!”, disse o rei.

“‘Deixamos este reino com grande pressa e, após alguns dias, chegamos a outro, onde ficamos espantados ao perceber miríades de animais monstruosos com chifres que lembravam foices sobre suas cabeças. Estas bestas hediondas cavam para si mesmas vastas cavernas no solo, em forma de funil, e revestem suas laterais com rochas, tão dispostas umas sobre as outras que caem instantaneamente quando pisadas por outros animais, precipitando-os assim para dentro das tocas do monstro, onde seu sangue é imediatamente sugado, e suas carcaças depois arremessadas desdenhosamente a uma distância imensa das “cavernas da morte”.’” (*9)

“Ora!”, disse o rei.

“‘Continuando nosso progresso, percebemos um distrito com vegetais que não cresciam sobre solo algum, mas no ar. (*10) Havia outros que brotavam da substância de outros vegetais; (*11) outros que derivavam sua substância dos corpos de animais vivos; (*12) e então, novamente, havia outros que brilhavam por completo com um fogo intenso; (*13) outros que se moviam de lugar para lugar conforme seu prazer, (*14) e, o que era ainda mais maravilhoso, descobrimos flores que viviam, respiravam e moviam seus membros à vontade e tinham, além disso, a detestável paixão da humanidade por escravizar outras criaturas, confinando-as em prisões horríveis e solitárias até o cumprimento de tarefas determinadas.’” (*15)

“Tolice!”, disse o rei.

“‘Abandonando esta terra, logo chegamos a outra na qual as abelhas e os pássaros são matemáticos de tal gênio e erudição que dão instruções diárias na ciência da geometria aos sábios do império. Tendo o rei do lugar oferecido uma recompensa pela solução de dois problemas muito difíceis, foram resolvidos no ato — um pelas abelhas, e o outro pelos pássaros; mas o rei mantendo suas soluções em segredo, foi somente após as mais profundas pesquisas e labor, e a redação de uma infinidade de grandes livros, durante uma longa série de anos, que os homens-matemáticos chegaram finalmente às idênticas soluções que haviam sido dadas no ato pelas abelhas e pelos pássaros.’” (*16)

“Oh, céus!”, disse o rei.

“‘Mal tínhamos perdido de vista este império quando nos encontramos próximos de outro, de cujas margens voou sobre nossas cabeças um bando de aves com uma milha de largura e duzentas e quarenta milhas de comprimento; de modo que, embora voassem uma milha a cada minuto, foram necessárias nada menos que quatro horas para que todo o bando passasse sobre nós — no qual havia vários milhões de milhões de aves.’” (*17)

“Oh, que horror!”, disse o rei.

“‘Não tínhamos acabado de nos livrar dessas aves, que nos causaram grande incômodo, quando fomos aterrorizados pelo aparecimento de uma ave de outro tipo, e infinitamente maior do que até mesmo os rocs que encontrei em minhas viagens anteriores; pois era maior que a maior das cúpulas de seu serralho, ó, mais Munificente dos Califas. Esta ave terrível não tinha cabeça que pudéssemos perceber, mas era formada inteiramente de barriga, que era de uma gordura e redondeza prodigiosas, de uma substância de aparência macia, lisa, brilhante e listrada com várias cores. Em suas garras, o monstro carregava para seu ninho nos céus uma casa da qual arrancara o telhado, e no interior da qual vimos distintamente seres humanos que, sem dúvida, estavam em um estado de desespero terrível pelo destino horrível que os aguardava. Gritamos com todas as nossas forças, na esperança de assustar o pássaro para que soltasse sua presa, mas ele apenas deu um bufo ou sopro, como se de raiva, e então deixou cair sobre nossas cabeças um saco pesado que se provou estar cheio de areia!’”

“Balela!”, disse o rei.

“‘Foi logo após esta aventura que encontramos um continente de imensa extensão e prodigiosa solidez, mas que, não obstante, era sustentado inteiramente sobre o dorso de uma vaca azul-celeste que tinha nada menos que quatrocentos chifres.’” (*18)

“Isso, agora, eu acredito”, disse o rei, “porque já li algo do tipo antes, em um livro.”

“‘Passamos imediatamente por baixo deste continente, (nadando entre as pernas da vaca), e, após algumas horas, nos encontramos em um país verdadeiramente maravilhoso, que, fui informado pelo homem-animal, era sua própria terra natal, habitada por coisas de sua própria espécie. Isso elevou o homem-animal muito em minha estima, e, de fato, comecei então a sentir vergonha da familiaridade desdenhosa com que o tratara; pois descobri que os homens-animais em geral eram uma nação dos mais poderosos magos, que viviam com vermes em seus cérebros, (*19) os quais, sem dúvida, serviam para estimulá-los, por suas contorções e movimentos dolorosos, aos mais milagrosos esforços de imaginação!’”

“Absurdo!”, disse o rei.

“‘Entre os magos, estavam domesticados vários animais de tipos muito singulares; por exemplo, havia um cavalo enorme cujos ossos eram de ferro e cujo sangue era água fervente. Em vez de milho, ele tinha pedras negras como alimento habitual; e, contudo, apesar de uma dieta tão dura, ele era tão forte e veloz que arrastava uma carga mais pesada que o maior templo desta cidade, a uma velocidade que superava a do voo da maioria das aves.’” (*20)

“Tretas!”, disse o rei.

“‘Vi, também, entre esse povo uma galinha sem penas, mas maior que um camelo; em vez de carne e osso, ela tinha ferro e tijolo; seu sangue, como o do cavalo, (de quem, de fato, ela era parente próxima), era água fervente; e, como ele, ela não comia nada além de madeira ou pedras negras. Esta galinha trazia ao mundo, muito frequentemente, cem pintos por dia; e, após o nascimento, eles residiam por várias semanas dentro do estômago de sua mãe.’” (*21)

“Papo-furado!”, disse o rei.

“‘Um desta nação de poderosos conjuradores criou um homem de latão, madeira e couro, e dotou-o de tal engenhosidade que ele teria derrotado no xadrez toda a raça da humanidade, com exceção do grande Califa, Haroun Alraschid. (*22) Outro desses magos construiu (do mesmo material) uma criatura que envergonhou até o gênio daquele que a fez; pois tão grandes eram seus poderes de raciocínio que, em um segundo, ela realizava cálculos de extensão tão vasta que teriam exigido o trabalho unido de cinquenta mil homens de carne e osso por um ano. (*23) Mas um conjurador ainda mais maravilhoso moldou para si mesmo uma coisa poderosa que não era nem homem nem besta, mas que tinha cérebros de chumbo, misturados com uma matéria negra como piche, e dedos que empregava com tamanha velocidade e destreza incríveis que não teria tido problemas em escrever vinte mil cópias do Alcorão em uma hora, e isso com tamanha precisão requintada que, em todas as cópias, não se encontraria uma que variasse de outra pela espessura do fio de cabelo mais fino. Esta coisa era de força prodigiosa, de modo que erguia ou derrubava os impérios mais poderosos com um sopro; mas seus poderes eram exercidos igualmente para o mal e para o bem.’”

“Ridículo!”, disse o rei.

“‘Entre essa nação de necromantes havia também um que tinha nas veias o sangue das salamandras; pois não fazia escrúpulo em sentar-se para fumar seu chibouk em um forno em brasa até que seu jantar estivesse completamente assado em seu chão. (*24) Outro tinha a faculdade de converter os metais comuns em ouro, sem sequer olhar para eles durante o processo. (*25) Outro tinha tal delicadeza de toque que fazia um fio tão fino a ponto de ser invisível. (*26) Outro tinha tal rapidez de percepção que contava todos os movimentos separados de um corpo elástico, enquanto ele saltava para trás e para frente à taxa de novecentos milhões de vezes por segundo.’” (*27)

“Absurdo!”, disse o rei.

“‘Outro desses magos, por meio de um fluido que ninguém jamais viu, podia fazer com que os cadáveres de seus amigos brandissem seus braços, dessem pontapés com as pernas, lutassem, ou até mesmo se levantassem e dançassem à sua vontade. (*28) Outro cultivara sua voz a tal ponto que poderia ter se feito ouvir de um extremo ao outro do mundo. (*29) Outro tinha um braço tão longo que poderia sentar-se em Damasco e escrever uma carta em Bagdá — ou, na verdade, a qualquer distância que fosse. (*30) Outro ordenava ao raio que descesse a ele vindo dos céus, e ele vinha ao seu chamado; e servia-lhe de brinquedo quando chegava. Outro pegava dois sons altos e, deles, fazia um silêncio. Outro construía uma escuridão profunda a partir de duas luzes brilhantes. (*31) Outro fazia gelo em uma fornalha em brasa. (*32) Outro ordenava ao sol que pintasse seu retrato, e o sol pintava. (*33) Outro pegava este luminar com a lua e os planetas e, tendo-os primeiro pesado com precisão escrupulosa, sondava suas profundezas e descobria a solidez da substância de que eram feitos. Mas toda a nação é, de fato, de uma habilidade necromântica tão surpreendente que nem mesmo seus infantes, nem seus cães e gatos mais comuns, têm qualquer dificuldade em ver objetos que não existem de forma alguma, ou que, por vinte milhões de anos antes do nascimento da própria nação, tinham sido apagados da face da criação.’” (*34)

“Preposterous!”, disse o rei.

“‘As esposas e filhas desses magos incomparavelmente grandes e sábios’”, continuou Scheherazade, sem ser de modo algum perturbada por essas frequentes e deselegantes interrupções por parte de seu marido, “‘as esposas e filhas desses eminentes conjuradores são tudo o que há de realizado e refinado; e seriam tudo o que há de interessante e belo, não fosse uma fatalidade infeliz que as assedia, e da qual nem mesmo os poderes milagrosos de seus maridos e pais foram, até agora, adequados para salvar. Algumas fatalidades vêm sob certas formas, e outras sob outras — mas esta de que falo veio sob a forma de uma excentricidade.’”

“De uma o quê?”, disse o rei.

“‘De uma excentricidade’”, disse Scheherazade. “‘Um dos gênios malignos, que estão perpetuamente à espreita para infligir o mal, colocou na cabeça dessas damas realizadas que a coisa que descrevemos como beleza pessoal consiste inteiramente na protuberância da região que não fica muito longe abaixo da parte inferior das costas. A perfeição da formosura, dizem elas, está na razão direta da extensão deste calombo. Tendo possuído por muito tempo esta ideia, e sendo travesseiros baratos naquele país, os dias já vão longe desde que foi possível distinguir uma mulher de um dromedário —’”

“Pare!”, disse o rei — “Eu não suporto isso, e não vou suportar. Você já me deu uma dor de cabeça terrível com suas mentiras. O dia, também, percebo, está começando a clarear. Há quanto tempo estamos casados? — minha consciência está ficando problemática novamente. E então aquele toque do dromedário — você me toma por um tolo? No geral, você pode muito bem se levantar e ser estrangulada.”

Estas palavras, como aprendo com o “Isitsöornot”, entristeceram e espantaram Scheherazade; mas, como sabia que o rei era um homem de integridade escrupulosa, e pouco propenso a faltar com sua palavra, ela se submeteu ao seu destino com bom grado. Ela obteve, contudo, grande consolo (durante o aperto da corda de arco) com a reflexão de que muito da história permanecia ainda por contar, e que a petulância de seu marido, um bruto, colhera para ele uma recompensa muito justa, ao privá-lo de muitas aventuras inconcebíveis.

UMA DESCIDA AO MAELSTRÖM.

Os caminhos de Deus na Natureza, como na Providência, não são os nossos caminhos; nem os modelos que criamos são de qualquer modo comensuráveis à vastidão, profundidade e inescrutabilidade de Suas obras, *que têm nelas uma profundidade maior que o poço de Demócrito*.

— Joseph Glanville.

Tínhamos agora chegado ao cume da crista mais elevada. Por alguns minutos, o velho pareceu exausto demais para falar.

“Não faz muito tempo”, disse ele finalmente, “e eu poderia tê-lo guiado nesta rota tão bem quanto o mais jovem de meus filhos; mas, há cerca de três anos, aconteceu-me um evento como nunca aconteceu a homem mortal — ou pelo menos como nenhum homem sobreviveu para contar — e as seis horas de terror mortal que então suportei arruinaram-me corpo e alma. Você me supõe um homem muito velho — mas não sou. Foi preciso menos de um único dia para mudar estes cabelos de um preto azeviche para o branco, para enfraquecer meus membros e para desarmar meus nervos, de modo que tremo ao menor esforço e me assusto com uma sombra. Sabe que mal posso olhar para além deste pequeno penhasco sem ficar tonto?”

O “pequeno penhasco”, sobre cuja borda ele se lançara tão descuidadamente para descansar que a parte mais pesada de seu corpo pendia sobre ele, enquanto ele era mantido de cair apenas pela posse de seu cotovelo em sua borda extrema e escorregadia — este “pequeno penhasco” erguia-se, um precipício íngreme e desobstruído de rocha negra e brilhante, a cerca de mil e quinhentos ou mil e seiscentos pés do mundo de rochedos abaixo de nós. Nada me teria tentado a chegar a meia dúzia de metros de sua borda. Na verdade, tão profundamente excitado eu estava pela posição perigosa de meu companheiro, que caí de comprido no chão, agarrei-me aos arbustos ao meu redor e não ousei nem olhar para cima em direção ao céu — enquanto lutava em vão para me livrar da ideia de que as próprias fundações da montanha estavam em perigo pela fúria dos ventos. Demorou muito até que eu pudesse raciocinar comigo mesmo para ter coragem suficiente para me sentar e olhar para a distância.

“Você precisa superar essas fantasias”, disse o guia, “pois eu o trouxe aqui para que pudesse ter a melhor visão possível do cenário daquele evento que mencionei — e para lhe contar toda a história com o local exatamente sob seu olhar.”

“Estamos agora”, continuou ele, naquela maneira particularizadora que o distinguia — “estamos agora perto da costa norueguesa — no sexagésimo oitavo grau de latitude — na grande província de Nordland — e no sombrio distrito de Lofoden. A montanha em cujo topo nos sentamos é Helseggen, a Nebulosa. Agora, erga-se um pouco mais — segure-se na grama se sentir tontura — assim — e olhe, para além da faixa de vapor abaixo de nós, em direção ao mar.”

Olhei tonto e contemplei uma vasta extensão de oceano, cujas águas vestiam um tom tão tintado que trouxe imediatamente à minha mente o relato do geógrafo núbio sobre o Mare Tenebrarum. Um panorama mais deploravelmente desolado nenhuma imaginação humana pode conceber. À direita e à esquerda, até onde a vista alcançava, estendiam-se, como muralhas do mundo, linhas de penhascos horrivelmente negros e salientes, cujo caráter de melancolia era ilustrado ainda mais forçosamente pela arrebentação que se erguia alto contra sua crista branca e fantasmagórica, uivando e gritando para sempre. Exatamente em frente ao promontório em cujo ápice estávamos colocados, e a uma distância de cinco ou seis milhas mar adentro, era visível uma pequena ilha de aparência desolada; ou, mais propriamente, sua posição era discernível através da natureza selvagem da vaga em que estava envolvida. Cerca de duas milhas mais perto da terra, erguia-se outra de tamanho menor, horrivelmente escarpada e estéril, e cercada em vários intervalos por um aglomerado de rochas escuras.

A aparência do oceano, no espaço entre a ilha mais distante e a costa, tinha algo de muito incomum. Embora, na época, soprasse um vendaval tão forte em direção à terra que um brigue na distância remota estava parado sob uma vela de trinquete de recife duplo, e constantemente mergulhava todo o seu casco fora de vista, ainda assim não havia ali nada parecido com uma ondulação regular, mas apenas um cruzamento de água curto, rápido e irritado em todas as direções — tanto contra o vento quanto de outra forma. De espuma havia pouca, exceto nas imediações das rochas.

“A ilha à distância”, retomou o velho, “é chamada pelos noruegueses de Vurrgh. A que fica no meio é Moskoe. Aquela, a uma milha ao norte, é Ambaaren. Ali estão Islesen, Hotholm, Keildhelm, Suarven e Buckholm. Mais longe — entre Moskoe e Vurrgh — estão Otterholm, Flimen, Sandflesen e Stockholm. Estes são os nomes verdadeiros dos lugares — mas por que se pensou ser necessário nomeá-los, é mais do que você ou eu podemos entender. Você ouve alguma coisa? Você vê alguma mudança na água?”

Estávamos agora havia cerca de dez minutos no topo de Helseggen, ao qual havíamos ascendido a partir do interior de Lofoden, de modo que não havíamos vislumbrado o mar até que ele irrompeu diante de nós a partir do cume. Enquanto o velho falava, tornei-me ciente de um som alto e gradualmente crescente, como o lamento de uma vasta manada de búfalos em uma pradaria americana; e, no mesmo momento, percebi que o que os marinheiros chamam de natureza agitada do oceano abaixo de nós estava mudando rapidamente para uma corrente que se dirigia para o leste. Mesmo enquanto eu observava, essa corrente adquiriu uma velocidade monstruosa. Cada momento acrescentava à sua rapidez — à sua impetuosidade precipitada. Em cinco minutos, todo o mar, até Vurrgh, foi açoitado em uma fúria ingovernável; mas foi entre Moskoe e a costa que o tumulto principal exercia seu domínio. Ali, o vasto leito das águas, marcado e sulcado em mil canais conflitantes, irrompeu subitamente em convulsão frenética — erguendo-se, fervendo, sibilando — girando em gigantescos e inumeráveis vórtices, e todos redemoinhando e mergulhando para o leste com uma rapidez que a água jamais assume em outro lugar, exceto em descidas abruptas.

Em poucos minutos mais, ocorreu na cena outra alteração radical. A superfície geral tornou-se um pouco mais suave, e os redemoinhos, um a um, desapareceram, enquanto prodigiosas estrias de espuma tornaram-se aparentes onde nenhuma fora vista antes. Essas estrias, finalmente, espalhando-se a uma grande distância e entrando em combinação, tomaram para si o movimento giratório dos vórtices que haviam diminuído, e pareceram formar o germe de outro mais vasto. Subitamente — muito subitamente — este assumiu uma existência distinta e definida, em um círculo de mais de uma milha de diâmetro. A borda do redemoinho era representada por um largo cinturão de espuma cintilante; mas nenhuma partícula disto deslizava para a boca do funil terrível, cujo interior, tanto quanto o olho podia sondar, era uma parede de água lisa, brilhante e preta como o azeviche, inclinada em relação ao horizonte a um ângulo de cerca de quarenta e cinco graus, girando vertiginosamente ao redor com um movimento oscilante e sufocante, e enviando aos ventos uma voz aterradora, meio grito, meio rugido, tal como nem a poderosa catarata do Niágara jamais eleva em sua agonia aos Céus.

A montanha tremia até sua base, e a rocha balançava. Lancei-me de bruços e agarrei-me à escassa vegetação em um excesso de agitação nervosa.

“Este”, disse eu finalmente ao velho, “este não pode ser nada além do grande redemoinho do Maelström.”

“Assim é chamado às vezes”, disse ele. “Nós, noruegueses, chamamo-lo de Moskoe-ström, por causa da ilha de Moskoe no meio do caminho.”

Os relatos comuns sobre este vórtice não me haviam de forma alguma preparado para o que vi. O de Jonas Ramus, que é talvez o mais circunstanciado de todos, não pode transmitir a mais tênue concepção da magnificência ou do horror da cena — ou do senso selvagem e desconcertante do novo que confunde o observador. Não tenho certeza de que ponto de vista o escritor em questão utilizou para observá-lo, nem em que época; mas não poderia ter sido do cume de Helseggen, nem durante uma tempestade. Há algumas passagens de sua descrição, no entanto, que podem ser citadas por seus detalhes, embora seu efeito seja extremamente fraco em transmitir uma impressão do espetáculo.

“Entre Lofoden e Moskoe”, diz ele, “a profundidade da água é entre trinta e seis e quarenta braças; mas do outro lado, em direção a Ver (Vurrgh), esta profundidade diminui de modo a não oferecer uma passagem conveniente para uma embarcação, sem o risco de partir-se nas rochas, o que acontece mesmo no tempo mais calmo. Quando é maré alta, o fluxo corre para dentro do país entre Lofoden e Moskoe com uma rapidez turbulenta; mas o rugido de seu refluxo impetuoso para o mar é dificilmente igualado pelas mais altas e terríveis cataratas; sendo o ruído ouvido a várias léguas de distância, e os vórtices ou fossos são de tal extensão e profundidade que, se um navio entra em sua atração, é inevitavelmente absorvido e levado para o fundo, e lá espancado contra as rochas; e quando a água relaxa, os fragmentos são arremessados novamente. Mas esses intervalos de tranquilidade ocorrem apenas na mudança do refluxo e do fluxo, e em tempo calmo, e duram apenas um quarto de hora, retornando gradualmente sua violência. Quando o fluxo é mais turbulento, e sua fúria aumentada por uma tempestade, é perigoso chegar a uma milha norueguesa de distância. Barcos, iates e navios foram arrastados por não se precaverem antes de estarem ao seu alcance. Acontece também, frequentemente, que baleias chegam muito perto do fluxo e são vencidas por sua violência; e então é impossível descrever seus uivos e bramidos em suas lutas infrutíferas para se soltarem. Um urso, uma vez, tentando nadar de Lofoden para Moskoe, foi pego pelo fluxo e levado, enquanto rugia terrivelmente, de modo a ser ouvido na costa. Grandes estoques de abetos e pinheiros, após serem absorvidos pela corrente, surgem novamente quebrados e dilacerados a tal ponto como se cerdas crescessem sobre eles. Isso mostra claramente que o fundo consiste em rochas escarpadas, entre as quais eles são girados de um lado para o outro. Este fluxo é regulado pelo fluxo e refluxo do mar — sendo constantemente maré alta e baixa a cada seis horas. No ano de 1645, logo pela manhã do domingo de Sexagésima, ele enfureceu-se com tal ruído e impetuosidade que as próprias pedras das casas na costa caíram ao chão.”

Com relação à profundidade da água, eu não via como isso poderia ter sido verificado nas imediações do vórtice. As “quarenta braças” devem referir-se apenas a partes do canal próximas à costa de Moskoe ou de Lofoden. A profundidade no centro do Moskoe-ström deve ser imensamente maior; e nenhuma prova melhor deste fato é necessária do que a que pode ser obtida mesmo pelo olhar enviesado para o abismo do redemoinho que se pode ter do penhasco mais alto de Helseggen. Olhando para baixo, desse pináculo, para o Flegetonte uivante abaixo, não pude deixar de sorrir com a simplicidade com que o honesto Jonas Ramus registra, como um assunto difícil de acreditar, as anedotas das baleias e dos ursos; pois me parecia, de fato, uma coisa evidente que o maior navio de linha existente, entrando na influência daquela atração mortal, poderia resistir a ela tão pouco quanto uma pena ao furacão, e deveria desaparecer por completo e de imediato.

As tentativas de explicar o fenômeno — algumas das quais, lembro-me, pareciam-me suficientemente plausíveis durante a leitura — agora assumiam um aspecto muito diferente e insatisfatório. A ideia geralmente aceita é que este, bem como três vórtices menores entre as ilhas Ferroe, “não têm outra causa senão a colisão de ondas subindo e descendo, no fluxo e refluxo, contra uma crista de rochas e bancos, que confina a água de modo que ela se precipita como uma catarata; e assim, quanto mais alto o fluxo sobe, mais profunda deve ser a queda, e o resultado natural de tudo é um redemoinho ou vórtice, cuja prodigiosa sucção é suficientemente conhecida por experimentos menores”. — Estas são as palavras da Encyclopædia Britannica. Kircher e outros imaginam que no centro do canal do Maelström existe um abismo que penetra o globo e emerge em alguma parte muito remota — o Golfo de Bótnia sendo nomeado de forma bastante decidida em um dos casos. Esta opinião, ociosa em si mesma, era aquela à qual, enquanto eu observava, minha imaginação mais prontamente assentiu; e, mencionando-a ao guia, fiquei um tanto surpreso ao ouvi-lo dizer que, embora fosse o ponto de vista quase universalmente sustentado sobre o assunto pelos noruegueses, não era, contudo, o seu próprio. Quanto à noção anterior, ele confessou sua incapacidade de compreendê-la; e aqui concordei com ele — pois, por mais conclusiva que seja no papel, ela se torna totalmente ininteligível, e até absurda, em meio ao trovão do abismo.

“Você teve uma boa olhada no redemoinho agora”, disse o velho, “e se você se arrastar ao redor deste penhasco, de modo a ficar em seu abrigo e abafar o rugido da água, contarei uma história que o convencerá de que devo saber algo sobre o Moskoe-ström.”

Coloquei-me como desejado, e ele prosseguiu.

“Eu e meus dois irmãos possuíamos uma vez uma chalupa com aparelhos de escuna de cerca de setenta toneladas de carga, com a qual costumávamos pescar entre as ilhas além de Moskoe, quase até Vurrgh. Em todos os redemoinhos violentos no mar há uma boa pesca, em oportunidades apropriadas, se alguém tiver apenas a coragem de tentar; mas entre todos os pescadores da costa de Lofoden, nós três éramos os únicos que fazíamos do ir às ilhas um negócio regular, como lhe digo. Os pesqueiros usuais ficam muito mais abaixo, para o sul. Lá, o peixe pode ser obtido a todas as horas, sem muito risco, e, portanto, esses lugares são preferidos. Os pontos escolhidos aqui entre as rochas, no entanto, não apenas produzem a melhor variedade, mas em abundância muito maior; de modo que muitas vezes obtínhamos em um único dia o que os mais tímidos da profissão não conseguiam juntar em uma semana. De fato, fazíamos disso uma questão de especulação desesperada — o risco de vida substituindo o trabalho, e a coragem servindo de capital.

“Mantínhamos a chalupa em uma enseada a cerca de cinco milhas acima da costa a partir daqui; e era nossa prática, em tempo bom, aproveitar os quinze minutos de maré morta para cruzar o canal principal do Moskoe-ström, muito acima da piscina, e então descer para ancorar em algum lugar perto de Otterholm, ou Sandflesen, onde os redemoinhos não são tão violentos quanto em outros lugares. Ali costumávamos permanecer até quase a hora da maré morta novamente, quando levantávamos âncora e seguíamos para casa. Nunca partíamos para esta expedição sem um vento lateral constante para ir e vir — um que sentíamos ter certeza de que não nos falharia antes de nosso retorno — e raramente fazíamos um cálculo errado sobre este ponto. Duas vezes, durante seis anos, fomos forçados a ficar a noite toda ancorados por causa de uma calmaria total, o que é uma coisa rara, de fato, por aqui; e uma vez tivemos que permanecer nos pesqueiros quase uma semana, morrendo de fome, devido a um vendaval que surgiu pouco depois de nossa chegada e tornou o canal muito turbulento para ser considerado. Nesta ocasião, teríamos sido levados para o mar apesar de tudo (pois os redemoinhos nos giravam violentamente, que, por fim, enroscamos nossa âncora e a arrastamos) se não fosse pelo fato de termos derivado para uma das inumeráveis correntes transversais — aqui hoje e longe amanhã — que nos levou para o abrigo de Flimen, onde, por sorte, ancoramos.

“Eu não poderia lhe dizer a vigésima parte das dificuldades que encontramos ‘nos pesqueiros’ — é um lugar ruim para se estar, mesmo em bom tempo — mas sempre dávamos um jeito de passar pelo Moskoe-ström sem acidente; embora, às vezes, meu coração estivesse na boca quando acontecia de estarmos um minuto ou mais atrasados ou adiantados em relação à maré morta. O vento às vezes não era tão forte quanto pensávamos ao partir, e então fazíamos um pouco menos de progresso do que gostaríamos, enquanto a corrente tornava a chalupa incontrolável. Meu irmão mais velho tinha um filho de dezoito anos, e eu tinha dois meninos robustos. Eles teriam sido de grande ajuda em tais momentos, usando os remos, bem como depois na pesca — mas, de alguma forma, embora corrêssemos o risco nós mesmos, não tínhamos coragem de deixar os jovens entrarem no perigo — pois, afinal de contas, era um perigo horrível, e essa é a verdade.

“Já se passaram quase três anos desde que aconteceu o que vou lhe contar. Foi no décimo dia de julho de 18—, um dia que as pessoas desta parte do mundo jamais esquecerão — pois foi um em que soprou o furacão mais terrível que já saiu dos céus. E, no entanto, durante toda a manhã, e de fato até o final da tarde, houve uma brisa suave e constante do sudoeste, enquanto o sol brilhava intensamente, de modo que o mais velho dos marinheiros entre nós não poderia ter previsto o que viria a seguir.

“Nós três — meus dois irmãos e eu — havíamos atravessado para as ilhas por volta das duas da tarde, e logo quase carregamos a chalupa com peixes finos, que, todos notamos, estavam mais abundantes naquele dia do que jamais havíamos conhecido. Eram exatamente sete horas, pelo meu relógio, quando levantamos âncora e partimos para casa, a fim de fazer o pior do Ström na maré morta, que sabíamos ser às oito.

“Partimos com um vento fresco em nosso quarto de boreste, e por algum tempo corremos a uma grande velocidade, sem nunca sonhar com perigo, pois, na verdade, não víamos a menor razão para temê-lo. De repente, fomos pegos por uma brisa vinda de cima de Helseggen. Isso era muito incomum — algo que nunca nos havia acontecido antes — e comecei a sentir um pouco de inquietação, sem saber exatamente o porquê. Colocamos o barco a favor do vento, mas não conseguimos avançar nada por causa dos redemoinhos, e eu estava prestes a propor retornar ao ancoradouro, quando, olhando para a popa, vimos todo o horizonte coberto por uma singular nuvem cor de cobre que subia com uma velocidade surpreendente.

“Enquanto isso, a brisa que nos havia impedido de avançar diminuiu, e ficamos em total calmaria, derivando em todas as direções. Esse estado de coisas, no entanto, não durou o suficiente para nos dar tempo de pensar sobre isso. Em menos de um minuto a tempestade estava sobre nós — em menos de dois o céu estava completamente encoberto — e, com isso e a espuma impulsionada pelo vento, tornou-se subitamente tão escuro que não podíamos ver uns aos outros na chalupa.

“Tal furacão como o que soprava então é tolice tentar descrever. O mais velho marinheiro da Noruega jamais experimentou algo parecido. Havíamos deixado nossas velas correrem antes que ele nos pegasse completamente; mas, à primeira rajada, ambos os nossos mastros foram pelos ares como se tivessem sido serrados — o mastro principal levando consigo meu irmão mais novo, que se amarrara a ele por segurança.

“Nosso barco era a coisa mais leve que já flutuou na água. Tinha um convés totalmente nivelado, com apenas uma pequena escotilha perto da proa, e essa escotilha sempre fora nosso costume fechar bem quando estávamos prestes a cruzar o Ström, como precaução contra os mares agitados. Se não fosse por essa circunstância, teríamos naufragado imediatamente — pois ficamos completamente submersos por alguns momentos. Como meu irmão mais velho escapou da destruição, não posso dizer, pois nunca tive a oportunidade de verificar. Quanto a mim, assim que deixei a vela de proa correr, lancei-me de bruços no convés, com meus pés contra a estreita amurada da proa, e com minhas mãos agarrando um parafuso com argola perto da base do mastro de proa. Foi puro instinto que me levou a fazer isso — o que foi, sem dúvida, a melhor coisa que eu poderia ter feito — pois eu estava muito perturbado para pensar.

“Por alguns momentos ficamos completamente inundados, como eu disse, e durante todo esse tempo prendi a respiração e me agarrei ao parafuso. Quando não pude mais aguentar, levantei-me sobre os joelhos, ainda segurando com as mãos, e assim mantive minha cabeça livre. Logo nosso pequeno barco deu um sacolejo, exatamente como um cachorro faz ao sair da água, e assim se livrou, em certa medida, dos mares. Eu estava agora tentando superar o estupor que havia tomado conta de mim, e coletar meus sentidos para ver o que deveria ser feito, quando senti alguém agarrar meu braço. Era meu irmão mais velho, e meu coração saltou de alegria, pois eu tinha certeza de que ele estava no mar — mas no momento seguinte toda essa alegria transformou-se em horror — pois ele colocou a boca perto do meu ouvido e gritou a palavra ‘Moskoe-ström!’

“Ninguém jamais saberá quais foram meus sentimentos naquele momento. Tremi da cabeça aos pés como se tivesse tido o mais violento ataque de febre. Eu sabia muito bem o que ele queria dizer com aquela única palavra — sabia o que ele desejava me fazer entender. Com o vento que agora nos impulsionava, estávamos destinados ao redemoinho do Ström, e nada poderia nos salvar!

“Você percebe que, ao cruzar o canal do Ström, sempre íamos muito acima do redemoinho, mesmo no tempo mais calmo, e então tínhamos que esperar e observar cuidadosamente a maré morta — mas agora estávamos dirigindo-nos diretamente para a própria piscina, e em um furacão como este! ‘Com certeza’, pensei, ‘chegaremos lá exatamente na maré morta — há alguma pequena esperança nisso’ — mas no momento seguinte amaldiçoei-me por ser um tolo tão grande a ponto de sonhar com esperança. Eu sabia muito bem que estávamos condenados, mesmo se fôssemos dez vezes um navio de noventa canhões.

“A essa altura, a primeira fúria da tempestade já havia se esgotado, ou talvez não a sentíssemos tanto, enquanto corríamos diante dela, mas, de qualquer forma, os mares, que a princípio haviam sido mantidos baixos pelo vento e permaneciam planos e espumosos, agora se tornaram montanhas absolutas. Uma mudança singular, também, havia ocorrido nos céus. Ao redor, em todas as direções, ainda estava escuro como breu, mas quase diretamente acima rompeu-se, de uma só vez, uma fenda circular de céu claro — tão claro quanto já vi — e de um azul brilhante e profundo — e através dela brilhou a lua cheia com um brilho que eu nunca antes a vi usar. Ela iluminou tudo ao nosso redor com a maior nitidez — mas, oh Deus, que cena era aquela para iluminar!

“Fiz agora uma ou duas tentativas de falar com meu irmão — mas, de alguma forma que eu não conseguia entender, o barulho havia aumentado tanto que eu não conseguia fazê-lo ouvir uma única palavra, embora eu gritasse no topo da minha voz em seu ouvido. Logo ele balançou a cabeça, parecendo pálido como a morte, e ergueu um de seus dedos, como se dissesse ‘escute!’

“A princípio, não consegui entender o que ele queria dizer — mas logo um pensamento hediondo me ocorreu. Arrastei meu relógio do bolso. Não estava funcionando. Olhei para o seu mostrador sob o luar e então desatei a chorar enquanto o arremessava para longe no oceano. _Ele havia parado às sete horas! Estávamos atrasados para a maré morta, e o redemoinho do Ström estava em fúria total!_

“Quando um barco é bem construído, devidamente equilibrado e não muito carregado, as ondas em um vendaval forte, quando ele está navegando com o vento, parecem sempre deslizar por baixo dele — o que parece muito estranho para um leigo — e isso é o que é chamado de cavalgar, em termos marítimos.

“Bem, até agora tínhamos cavalgado as ondas muito habilmente; mas logo um mar gigantesco aconteceu de nos pegar bem abaixo da popa, e nos levou com ele enquanto subia — para cima — para cima — como se fosse para o céu. Eu não teria acreditado que qualquer onda pudesse subir tão alto. E então descemos com um impulso, um deslize e um mergulho, que me fizeram sentir enjoado e tonto, como se estivesse caindo de algum topo de montanha elevado em um sonho. Mas enquanto estávamos lá em cima, lancei um olhar rápido ao redor — e esse único olhar foi suficiente. Vi nossa posição exata em um instante. O redemoinho do Moskoe-Ström estava a cerca de um quarto de milha diretamente à frente — mas não se parecia mais com o Moskoe-Ström do dia a dia do que o redemoinho como você o vê agora se parece com um canal de moinho. Se eu não soubesse onde estávamos e o que esperar, não teria reconhecido o lugar de forma alguma. Como estava, fechei involuntariamente os olhos de horror. As pálpebras cerraram-se como se estivessem em um espasmo.”

“Não podiam ter se passado mais de dois minutos depois disso até que sentimos, de repente, as ondas diminuírem e fomos envolvidos por espuma. O barco deu uma meia-volta brusca a bombordo e, em seguida, disparou na sua nova direção como um raio. No mesmo instante, o ruído estrondoso da água foi completamente abafado por uma espécie de guincho agudo — um som que se poderia imaginar ser produzido pelos tubos de descarga de muitos milhares de navios a vapor, soltando todo o seu vapor ao mesmo tempo. Estávamos agora na faixa de surfe que sempre rodeia o redemoinho; e pensei, é claro, que outro momento nos lançaria ao abismo, para o qual só conseguíamos olhar indistintamente devido à velocidade espantosa com que éramos levados. O barco não parecia afundar na água de forma alguma, mas deslizar como uma bolha de ar sobre a superfície da vaga. O seu lado de boreste estava voltado para o redemoinho, e a bombordo erguia-se o mundo oceânico que havíamos deixado. Ele erguia-se como uma enorme parede contorcida entre nós e o horizonte.

“Pode parecer estranho, mas agora, quando estávamos nas mandíbulas do abismo, senti-me mais composto do que quando apenas nos aproximávamos dele. Tendo decidido não ter mais esperanças, livrei-me de grande parte daquele terror que me desarmou no início. Suponho que foi o desespero que tensou os meus nervos.

“Pode parecer vanglória — mas o que lhe digo é a verdade — comecei a refletir sobre quão magnífica era a coisa de morrer de tal maneira, e quão tolo era da minha parte pensar numa consideração tão insignificante como a minha própria vida individual, face a uma manifestação tão maravilhosa do poder de Deus. Acredito que corei de vergonha quando esta ideia me passou pela cabeça. Passado algum tempo, fui possuído pela mais viva curiosidade sobre o próprio redemoinho. Senti positivamente um desejo de explorar as suas profundezas, mesmo com o sacrifício que estava prestes a fazer; e a minha principal mágoa era a de que nunca seria capaz de contar aos meus velhos companheiros em terra sobre os mistérios que veria. Estas, sem dúvida, eram fantasias singulares para ocupar a mente de um homem em tal extremo — e muitas vezes pensei, desde então, que as revoluções do barco em torno da poça poderiam ter-me deixado um pouco perturbado.

“Houve outra circunstância que contribuiu para restaurar a minha autocompostura; e esta foi a cessação do vento, que não nos podia alcançar na nossa situação atual — pois, como você mesmo viu, a faixa de surfe é consideravelmente mais baixa do que o leito geral do oceano, e este último erguia-se agora acima de nós, uma crista montanhosa, alta e negra. Se nunca esteve no mar durante uma tempestade forte, não pode ter ideia da confusão mental causada pelo vento e pelo borrifo juntos. Eles cegam, ensurdecem e estrangulam-no, e retiram-lhe todo o poder de ação ou reflexão. Mas estávamos agora, em grande medida, livres destes incómodos — tal como aos criminosos condenados à morte na prisão são permitidas pequenas indulgências, proibidas enquanto o seu destino ainda é incerto.

“Quantas vezes fizemos o circuito da faixa é impossível dizer. Corremos às voltas talvez durante uma hora, voando em vez de flutuar, entrando gradualmente cada vez mais no meio da vaga, e depois mais perto e mais perto da sua horrível borda interior. Durante todo este tempo, nunca soltei o anel de amarração. O meu irmão estava na popa, segurando-se a um pequeno barril de água vazio que tinha sido firmemente amarrado sob a amurada do painel de popa, e era a única coisa no convés que não tinha sido varrida para fora de borda quando a tempestade nos atingiu pela primeira vez. À medida que nos aproximávamos da borda do poço, ele soltou o que segurava e dirigiu-se para o anel, do qual, na agonia do seu terror, tentou forçar as minhas mãos, pois não era grande o suficiente para nos oferecer a ambos um aperto seguro. Nunca senti mágoa mais profunda do que quando o vi tentar este ato — embora soubesse que ele era um louco quando o fez — um maníaco delirante pelo puro medo. Não me importei, contudo, de contestar o ponto com ele. Sabia que não faria diferença se algum de nós se segurasse ou não; por isso, deixei-lhe o anel e fui para a popa, para o barril. Não houve grande dificuldade em fazê-lo; pois o barco voava à volta com bastante estabilidade, e numa quilha uniforme — apenas oscilando de um lado para o outro, com as imensas varreduras e agitações do redemoinho. Mal me tinha fixado na minha nova posição, quando demos um adernar violento para boreste e mergulhamos de cabeça no abismo. Murmurei uma prece apressada a Deus e pensei que tudo tinha acabado.

“À medida que sentia a varredura nauseante da descida, tinha instintivamente apertado o meu aperto no barril e fechado os olhos. Durante alguns segundos não me atrevi a abri-los — enquanto esperava a destruição imediata, e perguntava-me por que não estava já nas minhas lutas mortais com a água. Mas momento após momento decorreu. Eu ainda vivia. A sensação de queda tinha cessado; e o movimento da embarcação parecia muito como tinha sido antes, enquanto estávamos na faixa de espuma, com a exceção de que ela agora se inclinava mais. Ganhei coragem e olhei mais uma vez para a cena.

“Nunca esquecerei as sensações de espanto, horror e admiração com que olhei ao meu redor. O barco parecia estar suspenso, como por magia, a meio caminho, na superfície interior de um funil vasto em circunferência, prodigioso em profundidade, e cujos lados perfeitamente lisos poderiam ter sido confundidos com ébano, não fosse a rapidez desconcertante com que giravam, e pelo brilho horrendo que emitiam, à medida que os raios da lua cheia, daquela fenda circular entre as nuvens que já descrevi, fluíam numa inundação de glória dourada ao longo das paredes negras, e bem lá para baixo, nos recessos mais íntimos do abismo.

“No início, eu estava demasiado confuso para observar qualquer coisa com precisão. A explosão geral de grandiosidade terrível era tudo o que eu via. Quando me recuperei um pouco, no entanto, o meu olhar caiu instintivamente para baixo. Nesta direção, consegui obter uma visão desobstruída, devido à forma como o barco estava suspenso na superfície inclinada do poço. Ele estava exatamente sobre uma quilha uniforme — isto é, o seu convés jazia num plano paralelo ao da água — mas esta última inclinava-se num ângulo de mais de quarenta e cinco graus, de modo que parecia que estávamos deitados sobre os nossos costados. Não pude deixar de observar, no entanto, que tive pouco mais dificuldade em manter o meu aperto e posição nesta situação do que se estivéssemos num nível plano; e isto, suponho, deveu-se à velocidade a que girávamos.

“Os raios da lua pareciam perscrutar o próprio fundo do golfo profundo; mas ainda assim não conseguia distinguir nada claramente, devido a uma névoa espessa na qual tudo ali estava envolvido, e sobre a qual pairava um arco-íris magnífico, como aquela ponte estreita e vacilante que os muçulmanos dizem ser o único caminho entre o Tempo e a Eternidade. Esta névoa, ou borrifo, era sem dúvida causada pelo choque das grandes paredes do funil, à medida que se encontravam todas no fundo — mas o grito que subiu aos Céus a partir daquela névoa, não ouso tentar descrever.

“O nosso primeiro deslize para o abismo, a partir da faixa de espuma acima, tinha-nos levado a uma grande distância encosta abaixo; mas a nossa descida posterior não foi de modo algum proporcional. Às voltas e voltas varríamos — não com qualquer movimento uniforme — mas em balanços e solavancos vertiginosos, que nos enviavam por vezes apenas a algumas centenas de jardas — por vezes quase o circuito completo do redemoinho. O nosso progresso para baixo, a cada revolução, era lento, mas muito percetível.

“Olhando ao meu redor para o vasto deserto de ébano líquido sobre o qual éramos assim levados, percebi que o nosso barco não era o único objeto no abraço do redemoinho. Tanto acima como abaixo de nós eram visíveis fragmentos de embarcações, grandes massas de madeira de construção e troncos de árvores, com muitos artigos menores, tais como peças de mobiliário doméstico, caixas partidas, barris e aduelas. Já descrevi a curiosidade antinatural que tinha tomado o lugar dos meus terrores originais. Parecia crescer em mim à medida que me aproximava cada vez mais do meu terrível destino. Comecei agora a observar, com um interesse estranho, as numerosas coisas que flutuavam na nossa companhia. Devo ter estado delirante, pois procurei até diversão ao especular sobre as velocidades relativas das suas várias descidas em direção à espuma abaixo. ‘Esta árvore de abeto’, dei por mim a dizer a certa altura, ‘será certamente a próxima coisa que dará o mergulho terrível e desaparecerá’, — e depois fiquei desapontado ao descobrir que os destroços de um navio mercante holandês a ultrapassaram e afundaram-se antes. Por fim, depois de fazer várias suposições desta natureza, e ser enganado em todas — este facto — o facto do meu erro de cálculo invariável, levou-me a uma linha de reflexão que fez os meus membros tremerem novamente, e o meu coração bater pesadamente mais uma vez.

“Não foi um novo terror que me afetou assim, mas o despontar de uma esperança mais emocionante. Esta esperança surgiu em parte da memória, e em parte da observação presente. Recordei a grande variedade de matéria flutuante que espalhava a costa de Lofoden, tendo sido absorvida e depois expelida pelo Moskoe-ström. De longe, o maior número dos artigos estava estilhaçado da maneira mais extraordinária — tão desgastado e tornado áspero que parecia estar cheio de lascas — mas então recordei distintamente que havia alguns deles que não estavam desfigurados de todo. Agora, eu não conseguia explicar esta diferença exceto supondo que os fragmentos tornados ásperos eram os únicos que tinham sido completamente absorvidos — que os outros tinham entrado no redemoinho num período tão tardio da maré, ou, por alguma razão, tinham descido tão lentamente após a entrada, que não chegaram ao fundo antes que a viragem da cheia ocorresse, ou da vazante, conforme o caso. Concebi ser possível, em qualquer um dos casos, que pudessem assim ser levados de volta ao nível do oceano, sem sofrer o destino daqueles que tinham sido arrastados mais cedo, ou absorvidos mais rapidamente. Fiz, também, três observações importantes. A primeira foi que, como regra geral, quanto maiores eram os corpos, mais rápida era a sua descida — a segunda, que, entre duas massas de igual extensão, uma esférica e a outra de qualquer outra forma, a superioridade na velocidade de descida estava com a esfera — a terceira, que, entre duas massas de igual tamanho, uma cilíndrica e a outra de qualquer outra forma, o cilindro era absorvido mais lentamente. Desde a minha fuga, tive várias conversas sobre este assunto com um velho professor da escola do distrito; e foi dele que aprendi o uso das palavras ‘cilindro’ e ‘esfera’. Ele explicou-me — embora eu tenha esquecido a explicação — como o que observei era, de facto, a consequência natural das formas dos fragmentos flutuantes — e mostrou-me como acontecia que um cilindro, nadando num vórtice, oferecia mais resistência à sua sucção, e era arrastado com maior dificuldade do que um corpo de igual volume, de qualquer forma que fosse. (*1)

“Houve uma circunstância surpreendente que ajudou bastante a reforçar estas observações, e a deixar-me ansioso por tirar proveito delas, e foi que, a cada revolução, passávamos por algo como um barril, ou então pela verga ou o mastro de uma embarcação, enquanto muitas destas coisas, que tinham estado ao nosso nível quando abri os olhos pela primeira vez para as maravilhas do redemoinho, estavam agora muito acima de nós, e pareciam ter-se movido pouco da sua estação original.

“Já não hesitei sobre o que fazer. Resolvi amarrar-me firmemente ao barril de água ao qual me segurava agora, cortá-lo da amurada e lançar-me com ele à água. Chamei a atenção do meu irmão por sinais, apontei para os barris flutuantes que vinham perto de nós, e fiz tudo o que estava ao meu alcance para o fazer compreender o que estava prestes a fazer. Pensei finalmente que ele compreendeu o meu desígnio — mas, quer este fosse o caso ou não, ele abanou a cabeça desesperadamente e recusou-se a mover-se da sua posição junto ao anel de amarração. Era impossível alcançá-lo; a emergência não admitia atrasos; e por isso, com uma luta amarga, entreguei-o ao seu destino, prendi-me ao barril por meio das amarras que o prendiam à amurada, e precipitei-me com ele para o mar, sem mais um momento de hesitação.

“O resultado foi precisamente o que eu esperava que pudesse ser. Como sou eu mesmo que agora lhe conto esta história — como vê que eu escapei — e como você já está na posse do modo como esta fuga foi efetuada, e deve, portanto, antecipar tudo o que tenho mais a dizer — trarei a minha história rapidamente a uma conclusão. Pode ter passado uma hora, ou pouco mais, depois de eu abandonar o barco, quando, tendo descido a uma vasta distância abaixo de mim, ele fez três ou quatro giros violentos em rápida sucessão, e, levando o meu amado irmão consigo, mergulhou de cabeça, de uma vez e para sempre, no caos de espuma abaixo. O barril ao qual eu estava ligado afundou-se muito pouco mais do que metade da distância entre o fundo do golfo e o ponto em que saltei borda fora, antes que uma grande mudança ocorresse na natureza do redemoinho. A inclinação das paredes do vasto funil tornou-se a cada momento menos íngreme. As rotações do redemoinho tornaram-se, gradualmente, menos violentas. Aos poucos, a espuma e o arco-íris desapareceram, e o fundo do golfo pareceu lentamente elevar-se. O céu estava limpo, os ventos tinham diminuído, e a lua cheia punha-se radiantemente no oeste, quando me encontrei na superfície do oceano, com uma vista completa das margens de Lofoden, e acima do ponto onde o poço do Moskoe-ström tinha estado. Era a hora da paragem — mas o mar ainda se agitava em ondas montanhosas devido aos efeitos do furacão. Fui levado violentamente para o canal do Ström, e em poucos minutos fui apressado pela costa abaixo em direção aos ‘terrenos’ dos pescadores. Um barco apanhou-me — exausto de fadiga — e (agora que o perigo tinha passado) mudo devido à memória do seu horror. Aqueles que me puxaram a bordo eram os meus velhos colegas e companheiros diários — mas não me reconheceram mais do que teriam reconhecido um viajante da terra dos espíritos. O meu cabelo, que tinha sido preto como o corvo no dia anterior, estava tão branco como o vê agora. Dizem também que toda a expressão do meu rosto tinha mudado. Contei-lhes a minha história — eles não acreditaram nela. Agora conto-a a você — e dificilmente posso esperar que deposite mais fé nela do que fizeram os alegres pescadores de Lofoden.”

VON KEMPELEN E A SUA DESCOBERTA

Após o artigo muito minucioso e elaborado de Arago, para não falar do resumo no ‘Silliman’s Journal’, com a declaração detalhada recém-publicada pelo Tenente Maury, não se suporá, é claro, que ao oferecer algumas observações apressadas em relação à descoberta de Von Kempelen, eu tenha qualquer intenção de olhar para o assunto de um ponto de vista científico. O meu objetivo é simplesmente, em primeiro lugar, dizer algumas palavras sobre o próprio Von Kempelen (com quem, há alguns anos, tive a honra de uma ligeira relação pessoal), uma vez que tudo o que lhe diz respeito deve necessariamente, neste momento, ser de interesse; e, em segundo lugar, olhar de uma forma geral, e especulativa, para os resultados da descoberta.

Pode ser tão bom, no entanto, prefaciar as observações cursivas que tenho a oferecer, negando, muito decididamente, o que parece ser uma impressão geral (recolhida, como de costume num caso deste tipo, dos jornais), a saber: que esta descoberta, pasmosa como é inquestionavelmente, é imprevista.

Ao referir-me ao ‘Diário de Sir Humphrey Davy’ (Cottle e Munroe, Londres, pp. 150), ver-se-á nas pp. 53 e 82, que este ilustre químico não só tinha concebido a ideia em questão, como tinha na verdade feito progressos não desprezíveis, experimentalmente, na própria análise agora tão triunfantemente levada a um termo por Von Kempelen, que embora não faça a menor alusão a isso, é, sem dúvida (digo-o sem hesitação, e posso prová-lo, se necessário), devedor ao ‘Diário’ por pelo menos a primeira dica do seu próprio empreendimento.

O parágrafo do ‘Courier and Enquirer’, que agora anda de boca em boca na imprensa, e que pretende reivindicar a invenção para um Sr. Kissam, de Brunswick, Maine, parece-me, confesso, um pouco apócrifo, por várias razões; embora não haja nada de impossível ou muito improvável na declaração feita. Não preciso de entrar em detalhes. A minha opinião sobre o parágrafo baseia-se principalmente na sua forma. Não parece verdadeiro. Pessoas que estão a narrar factos são raramente tão particulares como o Sr. Kissam parece ser, quanto a dia, data e localização precisa. Além disso, se o Sr. Kissam de facto se deparou com a descoberta que diz ter feito, no período designado — há quase oito anos — como acontece que ele não tomou medidas, no momento, para colher os imensos benefícios que o mais simples camponês teria sabido que resultariam para ele individualmente, se não para o mundo em geral, da descoberta? Parece-me bastante incrível que qualquer homem de entendimento comum pudesse ter descoberto o que o Sr. Kissam diz que fez, e ainda assim ter agido subsequentemente de forma tão infantil — tão tola — como o Sr. Kissam admite que fez. A propósito, quem é o Sr. Kissam? E não será o parágrafo inteiro no ‘Courier and Enquirer’ uma fabricação inventada para ‘fazer falar’? Deve confessar-se que tem um ar espantosamente de mistificação lunar. Muito pouca confiança deve ser depositada nele, na minha humilde opinião; e se eu não estivesse bem ciente, por experiência, de quão facilmente os homens de ciência são mistificados, em pontos fora da sua gama habitual de investigação, ficaria profundamente espantado ao encontrar um químico tão eminente como o Professor Draper, discutindo as pretensões do Sr. Kissam (ou será o Sr. Quizzem?) à descoberta, num tom tão sério.

Mas para voltar ao “Diário” de Sir Humphrey Davy. Este panfleto não foi concebido para o olhar público, nem mesmo após o falecimento do autor, como qualquer pessoa minimamente versada em autoria pode constatar de imediato pela mais ligeira inspeção do estilo. À página 13, por exemplo, perto do meio, lemos, em referência às suas pesquisas sobre o protóxido de azoto: “Em menos de meio minuto a respiração sendo continuada, diminuiu gradualmente e foram sucedidas por análogo a pressão suave em todos os músculos.” Que a respiração não foi “diminuída” não é claro apenas pelo contexto subsequente, mas pelo uso do plural, “foram”. A frase, sem dúvida, pretendia ser assim: “Em menos de meio minuto, a respiração [sendo continuada, estes sentimentos] diminuiu gradualmente, e foram sucedidos por [uma sensação] análoga a pressão suave em todos os músculos.” Centenas de exemplos semelhantes mostram que o manuscrito, tão inconsideradamente publicado, era apenas um caderno de apontamentos grosseiro, destinado apenas ao olhar do próprio autor, mas uma inspeção do panfleto convencerá quase qualquer pessoa pensante da verdade da minha sugestão. O facto é que Sir Humphrey Davy era quase a última pessoa no mundo a comprometer-se em tópicos científicos. Não só tinha uma aversão mais do que comum ao charlatanismo, como tinha um medo mórbido de parecer empírico; de modo que, por mais plenamente convencido que estivesse de que estava no caminho certo na questão agora em causa, nunca teria falado antes de ter tudo pronto para a demonstração mais prática. Acredito piamente que os seus últimos momentos teriam sido tornados miseráveis, se ele pudesse suspeitar que os seus desejos em relação a queimar este “Diário” (cheio de especulações cruas) teriam sido ignorados; como, ao que parece, foram. Digo “os seus desejos”, pois que ele pretendia incluir este caderno entre os papéis diversos destinados “a ser queimados”, penso que não pode haver qualquer dúvida. Se escapou às chamas por boa ou má sorte, ainda está por ver. Que as passagens citadas acima, com as outras semelhantes a que me referi, deram a Von Kempelen a dica, não questiono minimamente; mas repito, ainda está por ver se esta descoberta momentosa em si (momentosa sob qualquer circunstância) será de serviço ou deserviço para a humanidade em geral. Que Von Kempelen e os seus amigos imediatos colherão uma rica colheita, seria loucura duvidar por um momento. Dificilmente serão tão fracos a ponto de não “realizarem”, a seu tempo, através de grandes compras de casas e terras, com outras propriedades de valor intrínseco.

No breve relato sobre Von Kempelen que apareceu no “Home Journal”, e que tem sido extensamente copiado desde então, parecem ter sido feitos vários erros de compreensão do original alemão pelo tradutor, que professa ter retirado a passagem de um número recente do “Schnellpost” de Presburg. “Viele” foi evidentemente mal concebido (como frequentemente acontece), e o que o tradutor traduz por “mágoas”, é provavelmente “lieden”, que, na sua versão verdadeira, “sofrimentos”, daria um matiz totalmente diferente a todo o relato; mas, claro, muito disto é apenas um palpite, da minha parte.

Von Kempelen, no entanto, não é de modo algum “um misantropo”, na aparência, pelo menos, qualquer que seja a realidade. O meu conhecimento dele foi totalmente casual; e dificilmente me sinto justificado em dizer que o conheço de todo; mas ter visto e conversado com um homem de tão prodigiosa notoriedade como a que ele alcançou, ou alcançará em poucos dias, não é pouca coisa, conforme os tempos correm.

“The Literary World” fala dele, confiantemente, como um nativo de Presburg (induzido em erro, talvez, pelo relato no “The Home Journal”), mas sinto-me satisfeito em poder afirmar positivamente, já que o sei pelos seus próprios lábios, que ele nasceu em Utica, no Estado de Nova Iorque, embora ambos os seus pais, creio eu, sejam descendentes de Presburg. A família está ligada, de alguma forma, a Mäelzel, de memória do jogador de xadrez autómato. Em pessoa, ele é baixo e robusto, com olhos grandes, gordos e azuis, cabelo e patilhas de cor de areia, uma boca larga mas agradável, dentes finos, e creio que um nariz romano. Existe algum defeito num dos seus pés. O seu trato é franco, e todo o seu modo de ser notável pela bonhomie. No geral, ele parece, fala e age o menos possível como “um misantropo” de qualquer homem que eu tenha visto. Fomos coabitantes por uma semana há cerca de seis anos, no Earl’s Hotel, em Providence, Rhode Island; e presumo que conversei com ele, em várias ocasiões, por cerca de três ou quatro horas ao todo. Os seus tópicos principais eram os do dia; e nada do que disse levou-me a suspeitar dos seus dotes científicos. Ele deixou o hotel antes de mim, com a intenção de ir para Nova Iorque, e de lá para Bremen; foi nesta última cidade que a sua grande descoberta foi primeiramente tornada pública; ou, melhor dizendo, foi lá que se suspeitou pela primeira vez que ele a tivesse feito. Isto é quase tudo o que pessoalmente sei do agora imortal Von Kempelen; mas pensei que até estes poucos detalhes teriam interesse para o público.

Não pode haver dúvida de que a maior parte dos rumores maravilhosos que circulam sobre este caso são puras invenções, merecedoras de tanto crédito quanto a história da lâmpada de Aladino; e ainda assim, num caso deste tipo, como no caso das descobertas na Califórnia, é claro que a verdade pode ser mais estranha que a ficção. A anedota seguinte, pelo menos, está tão bem autenticada, que podemos aceitá-la implicitamente.

Von Kempelen nunca tinha estado sequer toleravelmente bem de vida durante a sua residência em Bremen; e frequentemente, era bem sabido, ele tinha sido levado a expedientes extremos para angariar somas triviais. Quando a grande agitação ocorreu sobre a falsificação na casa de Gutsmuth & Co., a suspeita foi dirigida para Von Kempelen, devido a ele ter comprado uma propriedade considerável na Gasperitch Lane, e à sua recusa, quando questionado, em explicar como obteve o dinheiro da compra. Foi finalmente preso, mas como nada de decisivo apareceu contra ele, foi no fim posto em liberdade. A polícia, contudo, manteve uma vigilância rigorosa sobre os seus movimentos, e descobriu assim que ele saía de casa frequentemente, tomando sempre o mesmo caminho, e invariavelmente escapando aos seus vigias nas vizinhanças daquele labirinto de passagens estreitas e tortuosas conhecido pelo nome calão de “Dondergat”. Finalmente, à força de grande perseverança, seguiram-no até um sótão numa casa velha de sete andares, num beco chamado Flatzplatz — e, surgindo de repente, encontraram-no, como imaginavam, no meio das suas operações de contrafação. A sua agitação é descrita como tão excessiva que os oficiais não tiveram a menor dúvida da sua culpa. Depois de o algemarem, revistaram o seu quarto, ou melhor, quartos, pois parece que ele ocupava todo o sótão.

Abrindo para o sótão onde o apanharam, havia um armário, de dez por oito pés, equipado com algum aparelho químico, cujo objetivo ainda não foi determinado. Num canto do armário havia um forno muito pequeno, com um fogo brilhante nele, e sobre o fogo uma espécie de cadinho duplicado — dois cadinhos ligados por um tubo. Um destes cadinhos estava quase cheio de chumbo em estado de fusão, mas não chegando até à abertura do tubo, que era rente à borda. O outro cadinho tinha algum líquido, que, à medida que os oficiais entravam, parecia estar a dissipar-se furiosamente em vapor. Relatam que, ao ver-se apanhado, Kempelen agarrou os cadinhos com ambas as mãos (que estavam revestidas com luvas que depois se revelaram ser de amianto), e atirou o conteúdo ao chão de tijoleira. Foi então que o algemaram; e antes de procederem à rusga nas instalações, revistaram a sua pessoa, mas nada de invulgar foi encontrado, exceto um embrulho de papel, no bolso do casaco, contendo o que foi depois verificado ser uma mistura de antimónio e alguma substância desconhecida, em proporções quase, mas não exatamente, iguais. Todas as tentativas de analisar a substância desconhecida falharam, até agora, mas que será finalmente analisada, não é de duvidar.

Saindo do armário com o seu prisioneiro, os oficiais passaram por uma espécie de antecâmara, na qual nada de material foi encontrado, até ao quarto de dormir do químico. Vasculharam aqui algumas gavetas e caixas, mas descobriram apenas alguns papéis, sem importância, e alguma moeda boa, prata e ouro. Finalmente, olhando debaixo da cama, viram um grande baú de pelo comum, sem dobradiças, ferrolho ou fechadura, e com a tampa deitada descuidadamente sobre a porção inferior. Ao tentarem puxar este baú debaixo da cama, descobriram que, com a sua força unida (eram três, todos homens poderosos), “não o podiam mover uma polegada”. Muito espantado com isto, um deles rastejou debaixo da cama e, olhando para dentro do baú, disse:

“Não admira que não o pudéssemos mover — ora, está cheio até à borda de bocados velhos de latão!”

Colocando os pés, agora, contra a parede de modo a obter um bom apoio, e empurrando com toda a sua força, enquanto os seus companheiros puxavam com todas as suas, o baú, com muita dificuldade, foi deslizado debaixo da cama, e o seu conteúdo examinado. O suposto latão com que estava cheio era todo em peças pequenas e lisas, variando do tamanho de uma ervilha ao de um dólar; mas as peças eram irregulares na forma, embora mais ou menos achatadas, no todo, “muito como o chumbo parece quando atirado ao chão num estado fundido, e deixado lá a arrefecer”. Ora, nem um destes oficiais suspeitou por um momento que este metal fosse outra coisa senão latão. A ideia de ser ouro nunca lhes passou pela cabeça, claro; como poderia uma fantasia tão louca ter-lhes ocorrido? E o seu espanto pode ser bem concebido quando, no dia seguinte, se soube, por toda a Bremen, que o “lote de latão” que tinham transportado tão desprezivelmente para a esquadra da polícia, sem se darem ao trabalho de meter ao bolso a menor lasca, não era apenas ouro — ouro real — mas ouro muito mais fino do que qualquer um empregue na cunhagem — ouro, de facto, absolutamente puro, virgem, sem a menor liga apreciável.

Não preciso de rever os detalhes da confissão de Von Kempelen (no que dizia respeito) e libertação, pois estes são familiares ao público. Que ele realizou efetivamente, em espírito e efeito, se não à letra, a velha quimera da pedra filosofal, nenhuma pessoa sã tem liberdade para duvidar. As opiniões de Arago são, claro, merecedoras da maior consideração; mas ele não é de modo algum infalível; e o que ele diz sobre o bismuto, no seu relatório à Academia, deve ser tomado cum grano salis. A verdade simples é que, até este período, toda a análise falhou; e até que Von Kempelen escolha deixar-nos ter a chave para o seu próprio enigma publicado, é mais do que provável que o assunto permaneça, por anos, in statu quo. Tudo o que até agora se pode razoavelmente dizer que se sabe é que “Ouro puro pode ser feito à vontade, e muito facilmente a partir de chumbo em conexão com certas outras substâncias, em espécie e em proporções, desconhecidas”.

A especulação, claro, está ocupada quanto aos resultados imediatos e finais desta descoberta — uma descoberta que poucas pessoas pensantes hesitarão em referir a um interesse acrescido na questão do ouro em geral, pelos recentes desenvolvimentos na Califórnia; e esta reflexão leva-nos inevitavelmente a outra — a excessiva inoportunidade da análise de Von Kempelen. Se muitos foram impedidos de se aventurarem na Califórnia, pelo mero receio de que o ouro diminuísse tão materialmente de valor, devido à sua abundância nas minas de lá, ao ponto de tornar a especulação de ir tão longe em busca dele uma duvidosa — que impressão será forjada agora, nas mentes daqueles prestes a emigrar, e especialmente nas mentes daqueles atualmente na região mineral, pelo anúncio desta descoberta espantosa de Von Kempelen? Uma descoberta que declara, em tantas palavras, que para além do seu valor intrínseco para fins de fabrico (qualquer que seja esse valor), o ouro agora é, ou pelo menos em breve será (pois não se pode supor que Von Kempelen possa reter o seu segredo por muito tempo), de valor não maior que o chumbo, e de valor muito inferior ao da prata. É, de facto, extremamente difícil especular prospetivamente sobre as consequências da descoberta, mas uma coisa pode ser positivamente mantida — que o anúncio da descoberta há seis meses teria tido influência material no que diz respeito ao povoamento da Califórnia.

Na Europa, até agora, os resultados mais notáveis foram uma subida de duzentos por cento no preço do chumbo, e quase vinte e cinco por cento no da prata.

REVELAÇÃO MESMÉRICA

Qualquer dúvida que ainda possa envolver a rationale do mesmerismo, os seus factos surpreendentes são agora quase universalmente admitidos. Destes últimos, os que duvidam, são os vossos meros céticos de profissão — uma tribo pouco lucrativa e desacreditada. Não pode haver desperdício de tempo mais absoluto do que a tentativa de provar, nos dias de hoje, que o homem, pelo mero exercício da vontade, pode impressionar o seu semelhante de tal forma que o lance numa condição anormal, da qual os fenómenos se assemelham muito de perto aos da morte, ou pelo menos se assemelham a eles mais de perto do que aos fenómenos de qualquer outra condição normal dentro do nosso conhecimento; que, enquanto neste estado, a pessoa assim impressionada emprega apenas com esforço, e depois debilmente, os órgãos externos de sentido, contudo percebe, com perceção agudamente refinada, e através de canais supostamente desconhecidos, assuntos para além do alcance dos órgãos físicos; que, além disso, as suas faculdades intelectuais são maravilhosamente exaltadas e revigoradas; que as suas simpatias com a pessoa que assim o impressiona são profundas; e, finalmente, que a sua suscetibilidade à impressão aumenta com a sua frequência, enquanto, na mesma proporção, os fenómenos peculiares suscitados são mais extensos e mais pronunciados.

Digo que estes — que são as leis do mesmerismo nos seus traços gerais — seria supererroção demonstrar; nem infligirei aos meus leitores uma demonstração tão desnecessária, hoje. O meu propósito atualmente é, de facto, muito diferente. Sinto-me impelido, mesmo em face de um mundo de preconceito, a detalhar sem comentários a substância muito notável de um colóquio, ocorrido entre um sonâmbulo e eu próprio.

Eu tinha o hábito há muito de mesmerizar a pessoa em questão (Sr. Vankirk), e a habitual suscetibilidade aguda e exaltação da perceção mesmérica tinham surgido. Por muitos meses ele tinha estado a sofrer de tísica confirmada, cujos efeitos mais angustiantes tinham sido aliviados pelas minhas manipulações; e na noite de quarta-feira, quinze do corrente, fui chamado ao seu leito.

O inválido sofria de dor aguda na região do coração, e respirava com grande dificuldade, tendo todos os sintomas comuns de asma. Em espasmos como estes ele tinha habitualmente encontrado alívio com a aplicação de mostarda aos centros nervosos, mas esta noite tinha sido tentado em vão.

Ao entrar no seu quarto, ele saudou-me com um sorriso alegre, e embora evidentemente com muita dor corporal, parecia estar, mentalmente, bastante à vontade.

“Mandei chamá-lo esta noite”, disse ele, “não tanto para ministrar à minha doença corporal, como para me satisfazer acerca de certas impressões psíquicas que, ultimamente, me têm causado muita ansiedade e surpresa. Não preciso de lhe dizer quão cético tenho sido até agora sobre o tópico da imortalidade da alma. Não posso negar que sempre existiu, como se na própria alma que eu tenho negado, um vago meio-sentimento da sua própria existência. Mas este meio-sentimento em altura alguma chegou à convicção. Com ele a minha razão não teve nada a ver. Todas as tentativas de inquérito lógico resultaram, de facto, em deixar-me mais cético do que antes. Tinham-me aconselhado a estudar Cousin. Estudei-o nas suas próprias obras, bem como naquelas dos seus ecos europeus e americanos. O ‘Charles Elwood’ do Sr. Brownson, por exemplo, foi colocado nas minhas mãos. Li-o com atenção profunda. Ao longo de tudo achei-o lógico, mas as porções que não eram meramente lógicas eram infelizmente os argumentos iniciais do herói descrente do livro. Na sua conclusão parecia evidente para mim que o raciocinador não tinha sequer conseguido convencer-se a si próprio. O seu fim tinha claramente esquecido o seu começo, como o governo de Trinculo. Em suma, não demorei muito a perceber que se o homem deve ser intelectualmente convencido da sua própria imortalidade, nunca será assim convencido pelas meras abstrações que têm sido tão longamente a moda dos moralistas de Inglaterra, de França e da Alemanha. As abstrações podem divertir e exercitar, mas não criam qualquer apego à mente. Aqui na terra, pelo menos, a filosofia, estou persuadido, chamar-nos-á sempre em vão para olhar para qualidades como coisas. A vontade pode assentir — a alma — o intelecto, nunca.

“Repito, então, que apenas meio senti, e nunca intelectualmente acreditei. Mas ultimamente tem havido um certo aprofundamento do sentimento, até que chegou tão perto de se assemelhar à aquiescência da razão, que acho difícil distinguir entre os dois. Sou capaz, também, de traçar claramente este efeito à influência mesmérica. Não posso explicar melhor o meu significado do que pela hipótese de que a exaltação mesmérica me permite perceber uma linha de raciocínio que, na minha existência anormal, convence, mas que, em plena conformidade com os fenómenos mesméricos, não se estende, exceto através do seu efeito, à minha condição normal. No sonambulismo, o raciocínio e a sua conclusão — a causa e o seu efeito — estão presentes juntos. No meu estado natural, a causa desaparecendo, apenas o efeito, e talvez apenas parcialmente, permanece.

“Estas considerações levaram-me a pensar que alguns bons resultados poderiam advir de uma série de perguntas bem dirigidas formuladas a mim enquanto mesmerizado. Você observou muitas vezes a profunda autoconsciência demonstrada pelo sonâmbulo — o extenso conhecimento que exibe sobre todos os pontos relacionados com a própria condição mesmérica; e desta autoconsciência podem ser deduzidas dicas para a condução adequada de um catecismo.”

Consenti, claro, em fazer esta experiência. Alguns passes lançaram o Sr. Vankirk no sono mesmérico. A sua respiração tornou-se imediatamente mais fácil, e ele parecia não sofrer nenhum mal-estar físico. A seguinte conversa seguiu-se: — V. no diálogo representando o paciente, e P. eu próprio.

P. Está a dormir?

V. Sim — não; preferiria dormir mais profundamente.

P. [Após mais alguns passes.] Dorme agora?

V. Sim.

P. Como pensa que resultará a sua presente doença?

V. [Após uma longa hesitação e falando como se com esforço.] Devo morrer.

P. A ideia da morte aflige-o?

V. [Muito rapidamente.] Não — não!

P. Está satisfeito com a perspetiva?

V. Se estivesse acordado gostaria de morrer, mas agora não tem importância. A condição mesmérica é tão próxima da morte que me contenta.

P. Gostaria que se explicasse, Sr. Vankirk.

V. Estou disposto a fazê-lo, mas requer mais esforço do que sinto ser capaz de fazer. Não me questiona corretamente.

P. Que devo então perguntar?

V. Deve começar pelo princípio.

P. O princípio! Mas onde é o princípio?

V. Sabe que o princípio é DEUS. [_Isto foi dito num tom baixo, flutuante, e com todos os sinais da mais profunda veneração_.]

P. O que é, então, Deus?

V. [Hesitando por muitos minutos.] Não sei dizer.

P. Deus não é espírito?

V. Enquanto estava acordado sabia o que queria dizer com “espírito”, mas agora parece apenas uma palavra — tal, por exemplo, como verdade, beleza — uma qualidade, quero dizer.

P. Deus não é imaterial?

V. Não existe imaterialidade — é uma mera palavra. Aquilo que não é matéria, não é de todo — a menos que qualidades sejam coisas.

P. Deus é, então, material?

V. Não. [Esta resposta sobressaltou-me muito.]

P. O que é, então, ele?

V. [Após uma longa pausa, e murmurando.] Compreendo — mas é uma coisa difícil de explicar. [Outra longa pausa.] Ele não é espírito, pois existe. Nem é matéria, tal como a compreendeis. Mas existem gradações de matéria das quais o homem nada sabe; a mais grosseira impelindo a mais fina, a mais fina permeando a mais grosseira. A atmosfera, por exemplo, impele o princípio elétrico, enquanto o princípio elétrico permeia a atmosfera. Estas gradações de matéria aumentam em raridade ou finura, até chegarmos a uma matéria sem partículas — sem partículas — indivisível — uma; e aqui a lei da impulsão e permeação é modificada. A matéria última, ou sem partículas, não apenas permeia todas as coisas, mas impele todas as coisas; e assim é todas as coisas dentro de si mesma. Esta matéria é Deus. Aquilo que os homens tentam corporizar na palavra “pensamento” é esta matéria em movimento.

P. Os metafísicos sustentam que toda a ação é redutível a movimento e pensamento, e que este último é a origem daquela.

V. Sim; e vejo agora a confusão de ideias. Movimento é a ação da mente, não do pensamento. A matéria sem partículas, ou Deus, em quietude, é (tão aproximadamente quanto podemos concebê-lo) aquilo que os homens chamam de mente. E o poder de automovimento (equivalente em efeito à volição humana) é, na matéria sem partículas, o resultado da sua unidade e omniprevalência; como, não sei, e vejo agora claramente que nunca saberei. Mas a matéria sem partículas, posta em movimento por uma lei, ou qualidade, existente dentro de si mesma, é o pensamento.

P. Pode dar-me uma ideia mais precisa do que denomina matéria sem partículas?

V. As matérias das quais o homem tem conhecimento escapam aos sentidos em gradação. Temos, por exemplo, um metal, um pedaço de madeira, uma gota de água, a atmosfera, um gás, calórico, eletricidade, o éter luminífero. Ora, chamamos a todas estas coisas matéria, e englobamos toda a matéria numa definição geral; mas, apesar disto, não podem existir duas ideias mais essencialmente distintas do que aquela que atribuímos a um metal e aquela que atribuímos ao éter luminífero. Quando alcançamos este último, sentimos uma inclinação quase irresistível a classificá-lo como espírito, ou como niilidade. A única consideração que nos retém é a nossa conceção da sua constituição atómica; e aqui, mesmo, temos de procurar ajuda na nossa noção de um átomo, como algo possuidor, em infinita minúcia, de solidez, palpabilidade, peso. Destruí a ideia da constituição atómica e já não seríamos capazes de considerar o éter como uma entidade, ou pelo menos como matéria. Por falta de melhor palavra, poderíamos denominá-lo espírito. Dai, agora, um passo para além do éter luminífero — concebei uma matéria tão mais rara do que o éter quanto este éter é mais raro do que o metal, e chegamos de imediato (apesar de todos os dogmas escolares) a uma massa única — uma matéria sem partículas. Pois, embora possamos admitir uma pequenez infinita nos próprios átomos, a infinitude da pequenez nos espaços entre eles é um absurdo. Haverá um ponto — haverá um grau de raridade no qual, se os átomos forem suficientemente numerosos, os intervalos devem desaparecer, e a massa coalescer absolutamente. Mas sendo agora removida a consideração da constituição atómica, a natureza da massa desliza inevitavelmente para aquilo que concebemos como espírito. É claro, contudo, que é tão plenamente matéria como antes. A verdade é que é impossível conceber o espírito, uma vez que é impossível imaginar o que não é. Quando nos lisonjeamos por termos formado a sua conceção, meramente enganámos o nosso entendimento pela consideração de matéria infinitamente rarefeita.

P. Parece-me haver uma objeção intransponível à ideia de coalescência absoluta; — e essa é a resistência muito ligeira experimentada pelos corpos celestes nas suas revoluções através do espaço — uma resistência agora verificada, é verdade, existir em certo grau, mas que é, não obstante, tão ligeira que foi completamente negligenciada até pela sagacidade de Newton. Sabemos que a resistência dos corpos é, principalmente, proporcional à sua densidade. Coalescência absoluta é densidade absoluta. Onde não há intervalos, não pode haver cedência. Um éter, absolutamente denso, poria um fim infinitamente mais eficaz ao progresso de uma estrela do que o faria um éter de diamante ou de ferro.

V. A vossa objeção é respondida com uma facilidade que é quase na proporção da sua aparente irrefutabilidade. — Quanto ao progresso da estrela, não pode fazer diferença se a estrela passa através do éter ou o éter através dela. Não há erro astronómico mais inexplicável do que aquele que reconcilia o conhecido retardamento dos cometas com a ideia da sua passagem através de um éter: pois, por mais raro que se suponha este éter, ele poria fim a toda a revolução sideral num período muito mais breve do que aquele admitido pelos astrónomos que tentaram encobrir um ponto que acharam impossível de compreender. O retardamento realmente experienciado é, por outro lado, cerca daquilo que poderia ser esperado pela fricção do éter na passagem instantânea através do astro. No primeiro caso, a força retardadora é momentânea e completa em si mesma — no outro, é infinitamente acumulativa.

P. Mas em tudo isto — nesta identificação da mera matéria com Deus — não há nada de irreverência? [_Fui forçado a repetir esta pergunta antes que o sonâmbulo compreendesse plenamente o meu significado_.]

V. Podeis dizer por que a matéria deveria ser menos reverenciada do que a mente? Mas esqueceis que a matéria de que falo é, em todos os aspetos, a própria “mente” ou “espírito” das escolas, no que diz respeito às suas altas capacidades, e é, além disso, a “matéria” dessas mesmas escolas ao mesmo tempo. Deus, com todos os poderes atribuídos ao espírito, não é mais do que a perfeição da matéria.

P. Afirma, então, que a matéria sem partículas, em movimento, é pensamento?

V. Em geral, este movimento é o pensamento universal da mente universal. Este pensamento cria. Todas as coisas criadas não são senão os pensamentos de Deus.

P. Dizeis, “em geral”.

V. Sim. A mente universal é Deus. Para novas individualidades, a matéria é necessária.

P. Mas falais agora de “mente” e “matéria” como fazem os metafísicos.

V. Sim — para evitar confusão. Quando digo “mente”, refiro-me à matéria sem partículas ou última; por “matéria”, pretendo tudo o resto.

P. Dizíeis que “para novas individualidades a matéria é necessária”.

V. Sim; pois a mente, existindo não incorporada, é meramente Deus. Para criar seres individuais e pensantes, foi necessário encarnar porções da mente divina. Assim, o homem é individualizado. Despojado de investidura corporificada, ele seria Deus. Ora, o movimento particular das porções encarnadas da matéria sem partículas é o pensamento do homem; tal como o movimento do todo é o de Deus.

P. Dizeis que, despojado do corpo, o homem será Deus?

V. [Após muita hesitação.] Eu não poderia ter dito isto; é um absurdo.

P. [Referindo-me às minhas notas.] Dissestes que “despojado de investidura corporificada, o homem seria Deus”.

V. E isto é verdade. O homem assim despojado seria Deus — seria não individualizado. Mas ele nunca pode ser assim despojado — pelo menos nunca o será — senão teríamos de imaginar uma ação de Deus retornando sobre si mesma — uma ação sem propósito e fútil. O homem é uma criatura. As criaturas são pensamentos de Deus. É da natureza do pensamento ser irrevogável.

P. Não compreendo. Dizeis que o homem nunca se livrará do corpo?

V. Digo que ele nunca será sem corpo.

P. Explica.

V. Existem dois corpos — o rudimentar e o completo; correspondendo às duas condições do verme e da borboleta. Aquilo que chamamos “morte” é apenas a dolorosa metamorfose. A nossa encarnação presente é progressiva, preparatória, temporária. O nosso futuro é aperfeiçoado, último, imortal. A vida última é o desígnio pleno.

P. Mas da metamorfose do verme temos conhecimento palpável.

V. Nós, certamente — mas não o verme. A matéria da qual o nosso corpo rudimentar é composto está dentro do alcance dos órgãos desse corpo; ou, mais distintamente, os nossos órgãos rudimentares estão adaptados à matéria da qual é formado o corpo rudimentar; mas não àquela de que o último é composto. O corpo último escapa, assim, aos nossos sentidos rudimentares, e percebemos apenas a casca que cai, ao decompor-se, da forma interior; não essa própria forma interior; mas esta forma interior, bem como a casca, é apreciável por aqueles que já adquiriram a vida última.

P. Tendes dito frequentemente que o estado mesmérico se assemelha muito à morte. Como é isso?

V. Quando digo que se assemelha à morte, quero dizer que se assemelha à vida última; pois quando estou em transe os sentidos da minha vida rudimentar estão em suspenso, e percebo as coisas externas diretamente, sem órgãos, através de um meio que empregarei na vida última, não organizada.

P. Não organizada?

V. Sim; órgãos são artifícios pelos quais o indivíduo é trazido a uma relação sensível com classes e formas particulares de matéria, com exclusão de outras classes e formas. Os órgãos do homem estão adaptados à sua condição rudimentar, e apenas a essa; a sua condição última, sendo não organizada, é de compreensão ilimitada em todos os pontos, exceto um — a natureza da volição de Deus — isto é, o movimento da matéria sem partículas. Tereis uma ideia distinta do corpo último ao concebê-lo como cérebro inteiro. Não é isto; mas uma conceção desta natureza aproximar-vos-á da compreensão do que é. Um corpo luminoso transmite vibração ao éter luminífero. As vibrações geram outras semelhantes dentro da retina; estas, por sua vez, comunicam outras semelhantes ao nervo ótico. O nervo transmite outras semelhantes ao cérebro; o cérebro, também, outras semelhantes à matéria sem partículas que o permeia. O movimento desta última é o pensamento, do qual a perceção é a primeira ondulação. Este é o modo pelo qual a mente da vida rudimentar comunica com o mundo externo; e este mundo externo é, para a vida rudimentar, limitado, através da idiossincrasia dos seus órgãos. Mas na vida última, não organizada, o mundo externo alcança todo o corpo, (que é de uma substância tendo afinidade com o cérebro, como disse,) sem outra intervenção que não a de um éter infinitamente mais raro do que até o luminífero; e a este éter — em uníssono com ele — todo o corpo vibra, pondo em movimento a matéria sem partículas que o permeia. É à ausência de órgãos idiossincráticos, portanto, que devemos atribuir a perceção quase ilimitada da vida última. Para os seres rudimentares, os órgãos são as gaiolas necessárias para os confinar até que tenham penas.

P. Falais de “seres” rudimentares. Existem outros seres pensantes rudimentares além do homem?

V. A amálgama multitudinária de matéria rara em nebulosas, planetas, sóis e outros corpos que não são nem nebulosas, nem sóis, nem planetas, tem o propósito único de fornecer alimento para a idiossincrasia dos órgãos de uma infinidade de seres rudimentares. Não fosse a necessidade do rudimentar, antes da vida última, não teriam existido corpos como estes. Cada um destes é habitado por uma variedade distinta de criaturas pensantes orgânicas e rudimentares. Em todas, os órgãos variam com as características do lugar habitado. À morte, ou metamorfose, estas criaturas, desfrutando da vida última — imortalidade — e conhecedoras de todos os segredos exceto um, agem sobre todas as coisas e passam por toda a parte por mera volição: — habitando, não as estrelas, que para nós parecem as únicas palpabilidades, e para cuja acomodação cegamente julgamos ter sido criado o espaço — mas esse ESPAÇO em si mesmo — essa infinitude cuja vastidão verdadeiramente substantiva engole as sombras das estrelas — apagando-as como não-entidades da perceção dos anjos.

P. Dizeis que “não fosse a necessidade da vida rudimentar” não teriam existido estrelas. Mas porquê esta necessidade?

V. Na vida inorgânica, assim como na matéria inorgânica em geral, não há nada que impeça a ação de uma única lei simples — a Volição Divina. Com o intuito de produzir impedimento, a vida e a matéria orgânicas (complexas, substanciais e sobrecarregadas de leis) foram concebidas.

P. Mas, novamente — por que teria sido necessário produzir este impedimento?

V. O resultado da lei inviolada é a perfeição — o bem — a felicidade negativa. O resultado da lei violada é a imperfeição, o mal, a dor positiva. Através dos impedimentos proporcionados pelo número, complexidade e substancialidade das leis da vida e matéria orgânicas, a violação da lei é tornada, até certo ponto, praticável. Assim, a dor, que na vida inorgânica é impossível, é possível na orgânica.

P. Mas com que bom fim é a dor assim tornada possível?

V. Todas as coisas são boas ou más por comparação. Uma análise suficiente mostrará que o prazer, em todos os casos, é apenas o contraste da dor. O prazer positivo é uma mera ideia. Para sermos felizes em qualquer ponto, devemos ter sofrido no mesmo. Nunca sofrer teria sido nunca ter sido abençoado. Mas demonstrou-se que, na vida inorgânica, a dor não pode ser, assim, a necessidade para a orgânica. A dor da vida primitiva da Terra é a única base da bem-aventurança da vida última no Céu.

P. Ainda assim, há uma das vossas expressões que acho impossível compreender — “a vastidão verdadeiramente substantiva da infinitude”.

V. Isto, provavelmente, é porque não tendes uma conceção suficientemente genérica do termo “substância” em si. Não devemos considerá-lo como uma qualidade, mas como um sentimento: — é a perceção, em seres pensantes, da adaptação da matéria à sua organização. Existem muitas coisas na Terra que seriam niilidade para os habitantes de Vénus — muitas coisas visíveis e tangíveis em Vénus que não poderíamos ser levados a apreciar como existindo de todo. Mas para os seres inorgânicos — para os anjos — a totalidade da matéria sem partículas é substância — isto é, a totalidade daquilo que chamamos “espaço” é para eles a mais verdadeira substancialidade; — as estrelas, entretanto, através daquilo que consideramos a sua materialidade, escapando ao sentido angélico, precisamente na proporção em que a matéria sem partículas, através daquilo que consideramos a sua imaterialidade, ilude o orgânico.

À medida que o sonâmbulo pronunciava estas últimas palavras, num tom fraco, observei no seu semblante uma expressão singular, que me alarmou um pouco e me levou a despertá-lo de imediato. Mal o fiz, com um sorriso brilhante a irradiar todos os seus traços, ele caiu para trás sobre a sua almofada e expirou. Notei que, em menos de um minuto depois, o seu cadáver apresentava toda a rigidez severa da pedra. A sua testa estava com a frieza do gelo. Assim, ordinariamente, deveria ter aparecido apenas após longa pressão da mão de Azrael. Teria o sonâmbulo, de facto, durante a última parte do seu discurso, estado a dirigir-se a mim a partir da região das sombras?

OS FACTOS NO CASO DO SR. VALDEMAR

Claro que não pretendo considerar qualquer motivo de espanto que o caso extraordinário do Sr. Valdemar tenha suscitado discussão. Seria um milagre se não o tivesse feito — especialmente dadas as circunstâncias. Devido ao desejo de todas as partes interessadas de manter o assunto longe do público, pelo menos por enquanto, ou até termos tido maiores oportunidades para investigação — devido aos nossos esforços para o conseguir — uma versão deturpada ou exagerada chegou à sociedade e tornou-se a fonte de muitas representações desagradáveis; e, muito naturalmente, de uma grande dose de descrença.

Torna-se agora necessário que eu exponha os factos — na medida em que eu próprio os compreendo. São, sucintamente, estes:

A minha atenção, nos últimos três anos, tinha sido repetidamente atraída para o tema do Mesmerismo; e, há cerca de nove meses, ocorreu-me, subitamente, que na série de experiências feitas até então, tinha havido uma omissão muito notável e mais inexplicável: — nenhuma pessoa tinha sido ainda mesmerizada in articulo mortis. Restava saber, primeiro, se, nessa condição, existia no paciente qualquer suscetibilidade à influência magnética; segundo, se, existindo alguma, ela era diminuída ou aumentada pela condição; terceiro, até que ponto, ou por quanto tempo, as incursões da Morte poderiam ser detidas pelo processo. Havia outros pontos a verificar, mas estes excitavam mais a minha curiosidade — o último, em especial, pela natureza imensamente importante das suas consequências.

Ao procurar à minha volta algum sujeito por cujos meios eu pudesse testar estes pormenores, fui levado a pensar no meu amigo, o Sr. Ernest Valdemar, o conhecido compilador da “Bibliotheca Forensica”, e autor (sob o pseudónimo de Issachar Marx) das versões polacas de “Wallenstein” e “Gargantua”. O Sr. Valdemar, que residiu principalmente em Harlem, N.Y., desde o ano de 1839, é (ou era) particularmente notável pela extrema magreza da sua figura — os seus membros inferiores assemelhando-se muito aos de John Randolph; e, também, pela brancura das suas suíças, num contraste violento com a negrura do seu cabelo — este último, consequentemente, sendo muito geralmente confundido com uma peruca. O seu temperamento era marcadamente nervoso, e tornava-o um bom sujeito para a experiência mesmérica. Em duas ou três ocasiões, tinha-o feito dormir com pouca dificuldade, mas fiquei desapontado com outros resultados que a sua constituição peculiar me tinha naturalmente levado a antecipar. A sua vontade não esteve em nenhum período positiva, ou totalmente, sob o meu controlo, e no que diz respeito à clarividência, nada de fiável consegui realizar com ele. Atribuí sempre o meu fracasso nestes pontos ao estado desordenado da sua saúde. Durante alguns meses antes de o conhecer, os seus médicos tinham-no declarado em tísica confirmada. Era costume seu, de facto, falar calmamente da sua dissolução iminente, como de uma questão nem a ser evitada nem lamentada.

Quando as ideias a que aludi me ocorreram pela primeira vez, foi, claro, muito natural que pensasse no Sr. Valdemar. Conhecia demasiado bem a filosofia serena do homem para recear quaisquer escrúpulos da sua parte; e ele não tinha parentes na América que pudessem interferir. Falei-lhe francamente sobre o assunto; e, para minha surpresa, o seu interesse pareceu vividamente excitado. Digo para minha surpresa, pois, embora tivesse sempre cedido o seu corpo livremente às minhas experiências, nunca antes me tinha dado qualquer sinal de simpatia pelo que eu fazia. A sua doença era daquela natureza que permitiria um cálculo exato no que diz respeito à época da sua terminação na morte; e ficou finalmente acordado entre nós que ele me mandaria chamar cerca de vinte e quatro horas antes do período anunciado pelos seus médicos como sendo o do seu falecimento.

Faz agora pouco mais de sete meses que recebi, do próprio Sr. Valdemar, a nota abaixo:

MEU CARO P——,

Podes muito bem vir agora. D—— e F—— concordam que não resistirei para além da meia-noite de amanhã; e creio que acertaram na hora quase exatamente.

VALDEMAR

Recebi esta nota dentro de meia hora depois de ter sido escrita, e em mais quinze minutos estava no quarto do moribundo. Não o via há dez dias, e fiquei consternado pela alteração terrível que o breve intervalo tinha operado nele. O seu rosto tinha uma tonalidade de chumbo; os olhos estavam totalmente sem brilho; e a emaciação era tão extrema que a pele tinha sido rompida pelos ossos das faces. A sua expetoração era excessiva. O pulso era mal percetível. Ele conservava, contudo, de uma forma muito notável, tanto o seu poder mental como um certo grau de força física. Falava com clareza — tomou alguns medicamentos paliativos sem ajuda — e, quando entrei no quarto, estava ocupado a escrever notas a lápis num caderno. Estava escorado na cama por almofadas. Os doutores D—— e F—— estavam presentes.

Após apertar a mão de Valdemar, levei estes cavalheiros à parte e obtive deles um relato detalhado da condição do paciente. O pulmão esquerdo estava há dezoito meses num estado semi-ósseo ou cartilaginoso, e estava, claro, inteiramente inútil para todos os propósitos de vitalidade. O direito, na sua porção superior, estava também parcialmente, se não totalmente, ossificado, enquanto a região inferior era apenas uma massa de tubérculos purulentos, fundindo-se uns nos outros. Existiam várias perfurações extensas; e, num ponto, tinha ocorrido adesão permanente às costelas. Estas aparências no lobo direito eram de data comparativamente recente. A ossificação tinha progredido com uma rapidez muito invulgar; nenhum sinal dela tinha sido descoberto um mês antes, e a adesão tinha sido observada apenas durante os três dias anteriores. Independentemente da tísica, suspeitava-se que o paciente tivesse um aneurisma da aorta; mas sobre este ponto os sintomas ósseos tornavam impossível um diagnóstico exato. Era a opinião de ambos os médicos que o Sr. Valdemar morreria por volta da meia-noite do dia seguinte (domingo). Eram então sete horas da noite de sábado.

Ao deixar o leito do enfermo para conversar comigo, os Doutores D—— e F—— tinham-lhe dado um adeus definitivo. Não era sua intenção regressar; mas, a meu pedido, concordaram em visitar o paciente por volta das dez da noite seguinte.

Quando se foram, falei livremente com o Sr. Valdemar sobre o assunto da sua iminente dissolução, bem como, mais particularmente, sobre a experiência proposta. Ele continuou a professar-se bastante disposto e até ansioso por que fosse feita, e instou-me a iniciá-la de imediato. Um enfermeiro e uma enfermeira estavam presentes; mas não me senti totalmente à vontade para me envolver numa tarefa desta natureza com testemunhas que, em caso de acidente súbito, poderiam revelar-se não ser de confiança. Adiei, portanto, as operações até cerca das oito da noite seguinte, altura em que a chegada de um estudante de medicina com quem tinha alguma amizade (o Sr. Theodore L—l) me libertou de mais embaraços. Tinha sido o meu desígnio, originalmente, esperar pelos médicos; mas fui induzido a proceder, primeiro, pelas súplicas urgentes do Sr. Valdemar e, segundo, pela minha convicção de que não tinha um momento a perder, pois ele estava visivelmente a definhar rapidamente.

O Sr. L—l foi tão amável que acedeu ao meu desejo de que tomasse notas de tudo o que ocorresse, e é dos seus apontamentos que aquilo que agora tenho para relatar está, na maior parte, ou condensado ou copiado verbatim.

Faltavam cerca de cinco minutos para as oito quando, tomando a mão do paciente, lhe implorei que declarasse, tão distintamente quanto pudesse, ao Sr. L—l, se ele (o Sr. Valdemar) estava inteiramente disposto a que eu realizasse a experiência de o mesmerizar nas suas condições de então.

Ele respondeu debilmente, ainda que bastante audivelmente: "Sim, desejo sê-lo. Temo que o tenha mesmerizado" — acrescentando imediatamente depois: "Temo que tenha adiado demasiado."

Enquanto ele falava assim, iniciei os passes que já tinha considerado mais eficazes para o subjugar. Ele foi visivelmente influenciado com o primeiro movimento lateral da minha mão sobre a sua testa; mas, embora tenha exercido todos os meus poderes, nenhum efeito percetível adicional foi induzido até alguns minutos depois das dez horas, quando os Doutores D—— e F—— chegaram, conforme o combinado. Expliquei-lhes, em poucas palavras, o que pretendia, e como não opuseram qualquer objeção, dizendo que o paciente já estava na agonia da morte, procedi sem hesitação — trocando, contudo, os passes laterais por descendentes, e dirigindo o meu olhar inteiramente para o olho direito do sofredor.

Por esta altura, o seu pulso era impercetível e a sua respiração era estertorosa, e a intervalos de meio minuto.

Esta condição permaneceu quase inalterada durante um quarto de hora. Ao expirar este período, contudo, um suspiro natural, embora muito profundo, escapou do peito do moribundo, e a respiração estertorosa cessou — isto é, a sua estertorosidade deixou de ser aparente; os intervalos mantiveram-se inalterados. As extremidades do paciente estavam de uma frieza glacial.

Às onze horas menos cinco percebi sinais inequívocos da influência mesmérica. O revirar vítreo do olho foi substituído por aquela expressão de inquieto exame interior que nunca se vê exceto em casos de sonambulismo, e que é perfeitamente impossível de confundir. Com alguns passes laterais rápidos fiz as pálpebras estremecerem, como num sono incipiente, e com mais alguns fechei-as por completo. Não fiquei, contudo, satisfeito com isto, mas continuei as manipulações vigorosamente, e com o mais pleno exercício da vontade, até ter endurecido completamente os membros do adormecido, após os ter colocado numa posição aparentemente cómoda. As pernas estavam esticadas; os braços estavam quase assim, e repousavam na cama a uma distância moderada das ancas. A cabeça estava muito ligeiramente elevada.

Quando completei isto, era meia-noite em ponto, e pedi aos senhores presentes que examinassem a condição do Sr. Valdemar. Após algumas experiências, admitiram que ele se encontrava num estado de transe mesmérico invulgarmente perfeito. A curiosidade de ambos os médicos ficou grandemente excitada. O Dr. D—— resolveu de imediato permanecer com o paciente toda a noite, enquanto o Dr. F—— se despediu com a promessa de regressar ao romper do dia. O Sr. L—l e os enfermeiros permaneceram.

Deixámos o Sr. Valdemar inteiramente imperturbado até cerca das três da manhã, altura em que me aproximei dele e o encontrei precisamente na mesma condição de quando o Dr. F—— se foi embora — isto é, jazia na mesma posição; o pulso era impercetível; a respiração era suave (dificilmente percetível, a menos que através da aplicação de um espelho aos lábios); os olhos estavam fechados naturalmente; e os membros estavam tão rígidos e frios como mármore. Ainda assim, a aparência geral não era certamente a da morte.

À medida que me aproximei do Sr. Valdemar, fiz uma espécie de meio esforço para influenciar o seu braço direito a seguir o meu, enquanto passava este último suavemente de um lado para o outro sobre a sua pessoa. Em tais experiências com este paciente, nunca tinha tido sucesso perfeito antes, e certamente pouco pensava em ter sucesso agora; mas, para meu espanto, o seu braço seguiu muito prontamente, embora debilmente, cada direção que lhe atribuí com o meu. Decidi arriscar algumas palavras de conversa.

"Sr. Valdemar," disse eu, "está a dormir?" Ele não respondeu, mas percebi um tremor nos lábios, e fui assim induzido a repetir a pergunta, uma e outra vez. À sua terceira repetição, todo o seu corpo foi agitado por um leve arrepio; as pálpebras desenclausuraram-se o suficiente para exibir uma linha branca do globo ocular; os lábios moveram-se pesadamente, e de entre eles, num sussurro dificilmente audível, saíram as palavras:

"Sim;—a dormir agora. Não me acorde!—deixe-me morrer assim!"

Senti então os membros e encontrei-os tão rígidos como sempre. O braço direito, como antes, obedeceu à direção da minha mão. Interroguei o sonâmbulo novamente:

"Sente ainda dor no peito, Sr. Valdemar?"

A resposta foi agora imediata, mas ainda menos audível do que antes:

"Sem dor—estou a morrer."

Não achei aconselhável perturbá-lo mais naquele momento, e nada mais foi dito ou feito até à chegada do Dr. F——, que veio pouco antes do nascer do sol, e expressou um espanto ilimitado ao encontrar o paciente ainda vivo. Depois de sentir o pulso e aplicar um espelho aos lábios, pediu-me que falasse novamente com o sonâmbulo. Fi-lo, dizendo:

"Sr. Valdemar, ainda dorme?"

Como antes, passaram-se alguns minutos antes que uma resposta fosse dada; e durante o intervalo o moribundo parecia estar a recolher as suas energias para falar. À minha quarta repetição da pergunta, ele disse muito fracamente, quase inaudivelmente:

"Sim; ainda a dormir—a morrer."

Era agora a opinião, ou melhor, o desejo dos médicos, que o Sr. Valdemar fosse deixado imperturbado na sua condição aparentemente tranquila, até que a morte sobreviesse — e isto, concordou-se geralmente, deveria agora ocorrer dentro de poucos minutos. Decidi, contudo, falar-lhe mais uma vez, e apenas repeti a minha pergunta anterior.

Enquanto falava, uma mudança marcada surgiu sobre o semblante do sonâmbulo. Os olhos abriram-se lentamente, as pupilas desaparecendo para cima; a pele, em geral, assumiu um tom cadavérico, assemelhando-se não tanto a pergaminho como a papel branco; e as manchas circulares héticas que, até então, tinham estado fortemente definidas no centro de cada face, extinguiram-se de uma vez. Uso esta expressão porque a rapidez da sua partida lembrou-me nada mais do que o extinguir de uma vela por um sopro. O lábio superior, ao mesmo tempo, contorceu-se para longe dos dentes, que anteriormente cobria completamente; enquanto o maxilar inferior caiu com um solavanco audível, deixando a boca amplamente estendida, e revelando em plena vista a língua inchada e enegrecida. Presumo que nenhum membro do grupo então presente estivesse desabituado aos horrores do leito de morte; mas tão horrível além de qualquer conceção era a aparência do Sr. Valdemar neste momento, que houve um recuo geral da região da cama.

Sinto agora que cheguei a um ponto desta narrativa em que cada leitor será sobressaltado para a descrença positiva. É o meu dever, contudo, simplesmente prosseguir.

Já não havia o mais ténue sinal de vitalidade no Sr. Valdemar; e concluindo que ele estava morto, estávamos a entregá-lo aos cuidados dos enfermeiros, quando um forte movimento vibratório foi observável na língua. Isto continuou por talvez um minuto. Ao expirar este período, saiu dos maxilares distendidos e imóveis uma voz — tal que seria loucura da minha parte tentar descrever. Existem, de facto, dois ou três epítetos que poderiam ser considerados como aplicáveis a ela em parte; poderia dizer, por exemplo, que o som era áspero, e cortado e oco; mas o todo hediondo é indescritível, pela simples razão de que nenhuns sons semelhantes alguma vez ofenderam o ouvido da humanidade. Havia dois pormenores, contudo, que pensei então, e ainda penso, poderem ser justamente enunciados como característicos da entonação — como bem adaptados para transmitir alguma ideia da sua peculiaridade sobrenatural. Em primeiro lugar, a voz parecia chegar aos nossos ouvidos — pelo menos aos meus — de uma distância vasta, ou de alguma caverna profunda dentro da terra. Em segundo lugar, impressionou-me (temo, de facto, que será impossível fazer-me compreender) como as matérias gelatinosas ou glutinosas impressionam o sentido do tato.

Falei tanto de "som" como de "voz". Quero dizer que o som era um de silabação distinta — até maravilhosamente, arrepiantemente distinta. O Sr. Valdemar falou — obviamente em resposta à pergunta que eu lhe tinha proposto alguns minutos antes. Tinha-lhe perguntado, recordar-se-á, se ele ainda dormia. Ele disse agora:

"Sim;—não;—tenho estado a dormir—e agora—agora—estou morto."

Nenhuma pessoa presente sequer fingiu negar, ou tentou reprimir, o inefável horror trémulo que estas poucas palavras, assim proferidas, estavam tão bem calculadas para transmitir. O Sr. L—l (o estudante) desmaiou. Os enfermeiros deixaram imediatamente o quarto, e não puderam ser persuadidos a regressar. As minhas próprias impressões eu não pretenderia tornar inteligíveis ao leitor. Durante quase uma hora, ocupámo-nos, silenciosamente — sem a articulação de uma palavra — em esforços para reanimar o Sr. L—l. Quando ele recuperou os sentidos, dedicámo-nos novamente a uma investigação da condição do Sr. Valdemar.

Ela permaneceu em todos os aspetos como a descrevi pela última vez, com a exceção de que o espelho já não fornecia provas de respiração. Uma tentativa de extrair sangue do braço falhou. Devo mencionar, também, que este membro já não estava sujeito à minha vontade. Esforcei-me em vão para o fazer seguir a direção da minha mão. A única indicação real, de facto, da influência mesmérica, era agora encontrada no movimento vibratório da língua, sempre que eu dirigia uma pergunta ao Sr. Valdemar. Ele parecia estar a fazer um esforço para responder, mas já não tinha volição suficiente. A perguntas que lhe eram colocadas por qualquer outra pessoa que não eu, ele parecia absolutamente insensível — embora eu tentasse colocar cada membro da companhia em rapport mesmérico com ele. Acredito que relatei agora tudo o que é necessário para a compreensão do estado do sonâmbulo nesta época. Outros enfermeiros foram contratados; e às dez horas deixei a casa em companhia dos dois médicos e do Sr. L—l.

À tarde, todos voltámos para ver o paciente. A sua condição permanecia precisamente a mesma. Tivemos agora alguma discussão sobre a conveniência e viabilidade de o acordar; mas tivemos pouca dificuldade em concordar que nenhum bom propósito seria servido ao fazê-lo. Era evidente que, até ali, a morte (ou o que é habitualmente denominado morte) tinha sido detida pelo processo mesmérico. Parecia claro para todos nós que acordar o Sr. Valdemar seria meramente assegurar a sua instantânea, ou pelo menos a sua rápida, dissolução.

Deste período até ao final da semana passada — um intervalo de quase sete meses — continuámos a fazer visitas diárias à casa do Sr. Valdemar, acompanhados, de vez em quando, por amigos médicos e outros. Durante todo este tempo, o sonâmbulo permaneceu exatamente como o descrevi pela última vez. As atenções dos enfermeiros eram contínuas.

Foi na sexta-feira passada que resolvemos finalmente fazer a experiência de acordar, ou tentar acordar, ele; e é o (talvez) infeliz resultado desta última experiência que deu origem a tanta discussão em círculos privados — a tanto do que não posso deixar de pensar ser um sentimento popular injustificado.

Com o propósito de libertar o Sr. Valdemar do transe mesmérico, fiz uso dos passes habituais. Estes, durante algum tempo, foram infrutíferos. A primeira indicação de reanimação foi dada por uma descida parcial da íris. Observou-se, como especialmente notável, que esta descida da pupila era acompanhada pelo efluxo profuso de um icor amarelado (debaixo das pálpebras) de um odor pungente e altamente ofensivo.

Foi então sugerido que eu deveria tentar influenciar o braço do paciente, como até então. Fiz a tentativa e falhei. O Dr. F—— deu então a entender o desejo de que eu colocasse uma pergunta. Fi-lo, como se segue:

"Sr. Valdemar, pode explicar-nos quais são os seus sentimentos ou desejos agora?"

Houve um retorno instantâneo dos círculos héticos nas faces; a língua tremeu, ou melhor, rolou violentamente na boca (embora os maxilares e lábios permanecessem rígidos como antes), e finalmente a mesma voz hedionda que já descrevi, irrompeu:

"Pelo amor de Deus!—depressa!—depressa!—ponha-me a dormir—ou, depressa!—acorde-me!—depressa!—digo-lhe que estou morto!"

Fiquei completamente desarmado, e por um instante permaneci indeciso sobre o que fazer. A princípio, fiz um esforço para recompor o paciente; mas, falhando nisto devido à total abstenção da vontade, refiz os meus passos e tão fervorosamente lutei para o acordar. Nesta tentativa vi rapidamente que seria bem-sucedido — ou pelo menos rapidamente imaginei que o meu sucesso seria completo — e tenho a certeza de que todos na sala estavam preparados para ver o paciente acordar.

Para o que realmente ocorreu, contudo, é perfeitamente impossível que qualquer ser humano pudesse estar preparado.

À medida que fazia rapidamente os passes mesméricos, em meio a exclamações de "morto! morto!" saindo absolutamente da língua e não dos lábios do sofredor, todo o seu corpo de uma só vez — dentro do espaço de um único minuto, ou mesmo menos, encolheu — esfarelou-se — apodreceu absolutamente sob as minhas mãos. Sobre a cama, diante de toda aquela companhia, jazia uma massa quase líquida de podridão repugnante — detestável.

O GATO PRETO.

Para a narrativa mais selvagem, ainda que mais doméstica, que estou prestes a escrever, não espero nem solicito crença. Louco seria eu, de facto, para a esperar, num caso em que os meus próprios sentidos rejeitam a sua própria evidência. Contudo, louco não estou — e muito certamente não estou a sonhar. Mas amanhã morro, e hoje gostaria de aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar perante o mundo, de forma clara, sucinta e sem comentários, uma série de meros eventos domésticos. Nas suas consequências, estes eventos aterrorizaram-me — torturaram-me — destruíram-me. Contudo, não tentarei expô-los. Para mim, apresentaram pouco mais do que horror — para muitos parecerão menos terríveis do que barrocos. Doravante, talvez, algum intelecto possa ser encontrado que reduza o meu fantasma ao lugar-comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico e muito menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias que detalho com espanto, nada mais do que uma sucessão ordinária de causas e efeitos muito naturais.

Desde a minha infância fui notado pela docilidade e humanidade do meu temperamento. A minha ternura de coração era tão conspícua que me tornava o alvo das piadas dos meus companheiros. Eu era especialmente afeiçoado a animais, e fui mimado pelos meus pais com uma grande variedade de mascotes. Com estes passava a maior parte do meu tempo, e nunca era tão feliz como quando os alimentava e acariciava. Esta peculiaridade de caráter cresceu com o meu crescimento, e na minha idade adulta, derivei dela uma das minhas principais fontes de prazer. Para aqueles que nutriram um afeto por um cão fiel e sagaz, dificilmente precisarei de me dar ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da gratificação assim derivável. Existe algo no amor altruísta e autossacrificial de um bruto, que vai diretamente ao coração daquele que teve frequentes ocasiões de testar a amizade mesquinha e a fidelidade efémera do mero Homem.

Casei cedo, e fiquei feliz por encontrar na minha esposa um temperamento não incongruente com o meu. Observando a minha parcialidade por mascotes domésticos, ela não perdia oportunidade de adquirir as do tipo mais agradável. Tínhamos pássaros, peixinhos dourados, um cão excelente, coelhos, um pequeno macaco e um gato.

Este último era um animal notavelmente grande e belo, inteiramente preto, e sagaz a um grau espantoso. Ao falar da sua inteligência, a minha esposa, que no fundo não era pouco tingida de superstição, fazia frequentes alusões à antiga noção popular, que considerava todos os gatos pretos como bruxas disfarçadas. Não que ela fosse alguma vez séria sobre este ponto — e menciono o assunto de todo sem melhor razão do que a de que acontece, exatamente agora, ser recordado.

Pluto — este era o nome do gato — era a minha mascote e companheiro de brincadeiras favorito. Só eu o alimentava, e ele acompanhava-me onde quer que eu fosse pela casa. Era até com dificuldade que eu podia impedi-lo de me seguir pelas ruas.

A nossa amizade durou, desta maneira, por vários anos, durante os quais o meu temperamento e caráter gerais — através da instrumentalidade do Demónio da Intemperança — tinham (coro de confessá-lo) experimentado uma alteração radical para pior. Tornei-me, dia após dia, mais melancólico, mais irritável, mais descuidado com os sentimentos dos outros. Permiti-me usar linguagem intemperante com a minha esposa. A certa altura, cheguei mesmo a oferecer-lhe violência física. As minhas mascotes, claro, foram levadas a sentir a mudança no meu temperamento. Não só as negligenciei, como as maltratei. Por Pluto, contudo, ainda retinha consideração suficiente para me impedir de o maltratar, como não fazia escrúpulo em maltratar os coelhos, o macaco, ou mesmo o cão, quando por acidente, ou através de afeto, se cruzavam no meu caminho. Mas a minha doença cresceu em mim — pois que doença é como o Álcool! — e a certa altura até Pluto, que estava agora a ficar velho, e consequentemente algo rabugento — até Pluto começou a sentir os efeitos do meu mau temperamento.

Uma noite, regressando a casa, muito embriagado, de um dos meus refúgios pela cidade, imaginei que o gato evitava a minha presença. Agarrei-o; quando, no seu susto pela minha violência, ele infligiu um ligeiro ferimento na minha mão com os seus dentes. A fúria de um demónio possuiu-me instantaneamente. Já não me conhecia. A minha alma original parecia, de uma vez, tomar o seu voo do meu corpo e uma malevolência mais do que diabólica, nutrida pelo gin, vibrava em cada fibra do meu corpo. Tirei do bolso do meu colete um canivete, abri-o, agarrei a pobre besta pela garganta, e cortei deliberadamente um dos seus olhos da órbita! Coro, ardo, estremeço, enquanto escrevo a atrocidade maldita.

Quando a razão regressou com a manhã — quando tinha dormido o efeito dos fumos da orgia da noite — experimentei um sentimento metade de horror, metade de remorso, pelo crime do qual tinha sido culpado; mas era, na melhor das hipóteses, um sentimento fraco e equívoco, e a alma permanecia intocada. Mergulhei novamente no excesso, e afoguei rapidamente no vinho toda a memória do ato.

Entretanto, o gato recuperou-se lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é verdade, uma aparência medonha, mas ele já não parecia sofrer qualquer dor. Andava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia em extremo terror à minha aproximação. Restava-me ainda tanto do meu antigo coração que, a princípio, senti pesar por esta evidente aversão por parte de uma criatura que outrora tanto me amara. Mas este sentimento deu rapidamente lugar à irritação. E então surgiu, como se fosse para a minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE. Deste espírito a filosofia não faz caso. Contudo, não estou mais certo de que a minha alma vive, do que estou de que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano — uma das faculdades ou sentimentos primários indivisíveis, que dão direção ao caráter do Homem. Quem nunca, uma centena de vezes, se encontrou a cometer uma ação vil ou estúpida, por nenhuma outra razão senão a de saber que não a deveria cometer? Não temos uma inclinação perpétua, contra o nosso melhor juízo, a violar aquilo que é Lei, simplesmente porque compreendemos que o é? Este espírito de perversidade, digo eu, levou-me à minha queda final. Foi este desejo insondável da alma de se atormentar a si mesma — de violentar a sua própria natureza — de fazer o mal apenas pelo gosto do mal — que me incitou a continuar e, finalmente, a consumar a crueldade que infligira ao bruto inocente. Certa manhã, a sangue-frio, passei um laço em volta do seu pescoço e pendurei-o no ramo de uma árvore; — pendurei-o com as lágrimas a escorrerem pelos meus olhos e com o mais amargo remorso no coração; — pendurei-o porque sabia que ele me amara, e porque sentia que não me dera qualquer motivo de ofensa; — pendurei-o porque sabia que, ao fazê-lo, estava a cometer um pecado — um pecado mortal que colocaria a minha alma imortal em tal perigo que a deixaria — se tal coisa fosse possível — até mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus mais Misericordioso e mais Terrível.

Na noite do dia em que este ato cruel foi praticado, fui despertado do sono pelo grito de fogo. As cortinas da minha cama estavam em chamas. A casa inteira ardia. Foi com grande dificuldade que a minha mulher, um criado e eu próprio conseguimos escapar da conflagração. A destruição foi total. Toda a minha riqueza terrena foi consumida, e resignei-me, a partir de então, ao desespero.

Estou acima da fraqueza de tentar estabelecer uma sequência de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade. Mas estou a detalhar uma cadeia de factos — e não desejo deixar nem sequer um possível elo imperfeito. No dia seguinte ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com uma exceção, tinham caído. Esta exceção encontrava-se numa parede divisória, não muito espessa, que ficava a meio da casa e contra a qual repousava a cabeceira da minha cama. O reboco tinha ali, em grande parte, resistido à ação do fogo — um facto que atribuí a ter sido recentemente aplicado. À volta desta parede, uma multidão densa estava reunida, e muitas pessoas pareciam examinar uma parte específica com uma atenção muito minuciosa e ávida. As palavras “estranho!”, “singular!” e outras expressões semelhantes, despertaram a minha curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo na superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A impressão foi feita com uma precisão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em volta do pescoço do animal.

Quando contemplei pela primeira vez esta aparição — pois dificilmente a poderia considerar menos do que isso — o meu espanto e o meu terror foram extremos. Mas, a dada altura, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, tinha sido enforcado num jardim adjacente à casa. Com o alarme de incêndio, este jardim fora imediatamente invadido pela multidão — por alguém de entre a qual o animal deve ter sido cortado da árvore e atirado, através de uma janela aberta, para o meu quarto. Isto fora provavelmente feito com o intuito de me despertar do sono. A queda de outras paredes comprimira a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado; a cal do qual, com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha então completado o retrato tal como o vi.

Embora tenha assim explicado prontamente à minha razão, se não inteiramente à minha consciência, o facto surpreendente que acabei de descrever, não deixou de causar uma profunda impressão na minha imaginação. Durante meses, não me consegui livrar do fantasma do gato; e, durante este período, regressou ao meu espírito um meio-sentimento que parecia, mas não era, remorso. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e de procurar, entre os antros vis que agora frequentava habitualmente, outro animal de estimação da mesma espécie, e de aparência um tanto semelhante, com o qual pudesse ocupar o seu lugar.

Certa noite, enquanto estava sentado, meio estupefacto, num antro de mais do que infâmia, a minha atenção foi subitamente atraída para um objeto negro, repousando sobre a cabeça de uma das imensas pipas de gin, ou de rum, que constituíam o mobiliário principal do estabelecimento. Estive a olhar fixamente para o topo desta pipa durante alguns minutos, e o que agora me causava surpresa era o facto de não ter percebido o objeto ali mais cedo. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto — muito grande — tão grande como Plutão, e assemelhando-se-lhe de perto em todos os aspetos, exceto num. Plutão não tinha um pelo branco em nenhuma parte do seu corpo; mas este gato tinha uma grande, ainda que indefinida, mancha branca, cobrindo quase toda a região do peito. Ao tocá-lo, ele levantou-se imediatamente, ronronou alto, roçou-se na minha mão e pareceu encantado com a minha atenção. Esta, então, era a criatura que eu procurava. Ofereci-me imediatamente para a comprar ao proprietário; mas esta pessoa não reclamou qualquer direito sobre ela — não sabia nada a seu respeito — nunca a tinha visto antes.

Continuei as minhas carícias e, quando me preparei para ir para casa, o animal mostrou disposição para me acompanhar. Permiti que o fizesse; curvando-me ocasionalmente e afagando-o enquanto seguia o meu caminho. Quando chegou a casa, domesticou-se de imediato e tornou-se logo um grande favorito da minha mulher.

Quanto a mim, logo senti surgir dentro de mim uma aversão por ele. Isto era exatamente o oposto do que eu tinha previsto; mas — não sei como nem porquê — a sua evidente afeição por mim causava-me, antes, repugnância e incómodo. Lentamente, estes sentimentos de repugnância e incómodo transformaram-se na amargura do ódio. Evitava a criatura; um certo sentimento de vergonha, e a lembrança do meu antigo ato de crueldade, impediam-me de a maltratar fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati, nem a maltratei violentamente de qualquer outra forma; mas gradualmente — muito gradualmente — comecei a olhar para ela com um asco inominável, e a fugir silenciosamente da sua presença odiosa, como do hálito de uma peste.

O que, sem dúvida, aumentou o meu ódio pela besta foi a descoberta, na manhã seguinte àquela em que a trouxe para casa, de que, tal como Plutão, também ela tinha sido privada de um dos seus olhos. Esta circunstância, contudo, apenas a tornou mais querida da minha mulher, que, como já disse, possuía, em alto grau, aquela humanidade de sentimento que outrora fora o meu traço distintivo e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e puros.

Com a minha aversão por este gato, no entanto, a sua parcialidade por mim parecia aumentar. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil de o leitor compreender. Sempre que eu me sentava, ele agachava-se debaixo da minha cadeira, ou saltava para os meus joelhos, cobrindo-me com as suas carícias repugnantes. Se eu me levantasse para caminhar, ele metia-se entre os meus pés e quase me derrubava, ou, prendendo as suas longas e afiadas garras na minha roupa, trepava, desta forma, até ao meu peito. Nesses momentos, embora desejasse destruí-lo com um golpe, sentia-me contido de o fazer, em parte pela memória do meu crime anterior, mas principalmente — deixe-me confessá-lo de uma vez — por um pavor absoluto da besta.

Este pavor não era exatamente um pavor de mal físico — e, contudo, eu sentir-me-ia perdido se tivesse de o definir de outra forma. Tenho quase vergonha de confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso, tenho quase vergonha de confessar — que o terror e o horror que o animal me inspirava tinham sido aumentados por uma das mais simples quimeras que seria possível conceber. A minha mulher tinha chamado a minha atenção, mais do que uma vez, para o caráter da marca de pelo branco de que falei, e que constituía a única diferença visível entre a besta estranha e aquela que eu tinha destruído. O leitor lembrar-se-á de que esta marca, embora grande, tinha sido originalmente muito indefinida; mas, lentamente — graus quase impercetíveis, e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosos — tinha, a dada altura, assumido uma nitidez rigorosa de contorno. Era agora a representação de um objeto que me faz estremecer ao nomear — e por isto, acima de tudo, eu odiava, e temia, e ter-me-ia livrado do monstro se tivesse ousado — era agora, digo eu, a imagem de uma coisa medonha — de uma coisa horrível — da FORCA! — oh, lúgubre e terrível engenho de Horror e de Crime — de Agonia e de Morte!

E agora estava eu, deveras, miserável para além da miséria da mera Humanidade. E um animal bruto — cujo semelhante eu tinha desprezivelmente destruído — um animal bruto para infligir em mim — em mim, um homem, feito à imagem do Deus Altíssimo — tanto sofrimento insuportável! Ai! nem de dia nem de noite conheci mais a bênção do descanso! Durante o primeiro, a criatura não me deixava um momento sozinho, e no segundo, eu sobressaltava-me de hora a hora de sonhos de um medo inominável, para encontrar o hálito quente da coisa no meu rosto, e o seu enorme peso — um pesadelo encarnado que eu não tinha poder de sacudir — incumbente eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tormentos como estes, o fraco remanescente do bem em mim sucumbiu. Maus pensamentos tornaram-se os meus únicos íntimos — os mais sombrios e mais maus dos pensamentos. A melancolia do meu temperamento habitual aumentou para o ódio a todas as coisas e a toda a humanidade; enquanto, dos súbitos, frequentes e incontroláveis acessos de uma fúria à qual agora me abandonava cegamente, a minha mulher, que nunca se queixava, ai, era a mais habitual e a mais paciente das vítimas.

Um dia, ela acompanhou-me, em algum recado doméstico, até à cave do velho edifício que a nossa pobreza nos obrigava a habitar. O gato seguiu-me escada abaixo e, quase me derrubando de cabeça, exasperou-me até à loucura. Levantando um machado e esquecendo, na minha ira, o pavor infantil que até então detivera a minha mão, desferi um golpe no animal que, naturalmente, teria sido instantaneamente fatal se tivesse descido como eu desejava. Mas este golpe foi detido pela mão da minha mulher. Estimulado, pela interferência, a uma raiva mais do que demoníaca, retirei o meu braço do seu aperto e enterrei o machado no seu cérebro. Ela caiu morta no local, sem um gemido.

Este homicídio horrível consumado, preparei-me de imediato, e com inteira deliberação, para a tarefa de ocultar o cadáver. Sabia que não o poderia remover da casa, nem de dia nem de noite, sem o risco de ser observado pelos vizinhos. Muitos projetos entraram na minha mente. A dada altura, pensei em cortar o cadáver em fragmentos minúsculos e destruí-los pelo fogo. Noutra, resolvi cavar uma sepultura para ele no chão da cave. Voltei a deliberar sobre atirá-lo ao poço no quintal — sobre embalá-lo numa caixa, como se fosse mercadoria, com os arranjos habituais, e assim conseguir que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, encontrei o que considerei um expediente muito melhor do que qualquer um destes. Decidi emparedá-lo na cave — como os monges da Idade Média, segundo se diz, emparedavam as suas vítimas.

Para um propósito como este, a cave era bem adaptada. As suas paredes eram construídas de forma frouxa e tinham sido recentemente rebocadas com um reboco áspero, que a humidade da atmosfera impedira de endurecer. Além disso, numa das paredes havia uma saliência, causada por uma falsa chaminé, ou lareira, que tinha sido preenchida e tornada semelhante ao resto da cave. Não tive dúvidas de que poderia facilmente deslocar os tijolos neste ponto, inserir o cadáver e emparedar tudo como antes, de modo a que nenhum olho pudesse detetar nada de suspeito. E neste cálculo não fui enganado. Com a ajuda de um pé-de-cabra, desloquei facilmente os tijolos e, tendo cuidadosamente depositado o corpo contra a parede interior, apoiei-o nessa posição, enquanto, com pouco esforço, voltei a assentar toda a estrutura como originalmente estava. Tendo obtido argamassa, areia e cerdas, com toda a precaução possível, preparei um reboco que não podia ser distinguido do antigo e, com ele, cobri cuidadosamente a nova alvenaria. Quando terminei, senti-me satisfeito por tudo estar correto. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido perturbada. Os escombros no chão foram recolhidos com o máximo cuidado. Olhei à volta triunfantemente e disse para comigo: “Aqui, pelo menos, o meu trabalho não foi em vão.”

O meu passo seguinte foi procurar a besta que tinha sido a causa de tanta desgraça; pois, finalmente, tinha resolvido firmemente matá-la. Se tivesse conseguido encontrá-la, naquele momento, não haveria dúvida quanto ao seu destino; mas parecia que o animal astuto tinha ficado alarmado com a violência da minha ira anterior e se abstinha de se apresentar no meu atual estado de espírito. É impossível descrever, ou imaginar, a profunda, a bem-aventurada sensação de alívio que a ausência da criatura detestada causou no meu peito. Ela não apareceu durante a noite; e assim, por uma noite pelo menos, desde a sua introdução na casa, dormi profunda e tranquilamente; sim, dormi mesmo com o fardo do homicídio sobre a minha alma!

O segundo e o terceiro dia passaram-se, e ainda assim o meu atormentador não veio. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha fugido para sempre das instalações! Não o veria mais! A minha felicidade era suprema! A culpa do meu ato sombrio perturbava-me pouco. Algumas perguntas tinham sido feitas, mas tinham sido prontamente respondidas. Até uma busca tinha sido instituída — mas, naturalmente, nada foi descoberto. Considerava a minha felicidade futura assegurada.

No quarto dia após o assassínio, um grupo da polícia veio, muito inesperadamente, à casa e procedeu novamente a uma investigação rigorosa das instalações. Seguro, contudo, na inescrutabilidade do meu local de ocultação, não senti qualquer embaraço. Os agentes pediram-me que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram recanto ou canto inexplorado. A dada altura, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave. Não tremi um músculo. O meu coração batia calmamente como o de alguém que dorme na inocência. Percorri a cave de uma ponta à outra. Cruzei os braços sobre o peito e vagueei facilmente de um lado para o outro. A polícia ficou completamente satisfeita e preparou-se para partir. A alegria no meu coração era demasiado forte para ser contida. Queimava por dizer uma única palavra, a título de triunfo, e para tornar duplamente certa a sua convicção da minha inocência.

“Cavalheiros”, disse eu finalmente, enquanto o grupo subia os degraus, “tenho o prazer de ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo a todos saúde e um pouco mais de cortesia. A propósito, cavalheiros, esta — esta é uma casa muito bem construída.” (No desejo frenético de dizer algo facilmente, mal sabia o que dizia.) — “Posso dizer uma casa excelentemente bem construída. Estas paredes — vão-se embora, cavalheiros? — estas paredes são solidamente unidas;” e aqui, pelo mero frenesi da bravata, bati fortemente, com uma bengala que segurava na mão, naquela mesma parte da alvenaria atrás da qual se encontrava o cadáver da mulher do meu peito.

Mas que Deus me proteja e me livre das presas do Arquimigo! Assim que a reverberação das minhas pancadas se perdeu no silêncio, fui respondido por uma voz vinda de dentro do túmulo! — por um grito, a princípio abafado e entrecortado, como o soluçar de uma criança, e depois rapidamente crescendo para um longo, alto e contínuo lamento, completamente anómalo e inumano — um uivo — um grito lúgubre, metade de horror e metade de triunfo, tal como poderia ter surgido apenas do inferno, conjuntamente das gargantas dos condenados na sua agonia e dos demónios que exultam na danação.

Quanto aos meus próprios pensamentos, é loucura falar. Desmaiando, cambaleei contra a parede oposta. Por um instante, o grupo nas escadas permaneceu imóvel, devido ao extremo do terror e do espanto. No seguinte, uma dúzia de braços robustos trabalhavam na parede. Ela caiu por completo. O cadáver, já muito decomposto e coberto de sangue coagulado, estava de pé perante os olhos dos espetadores. Sobre a sua cabeça, com a boca vermelha aberta e um olho solitário de fogo, estava a besta hedionda cuja astúcia me seduzira para o homicídio, e cuja voz denunciante me entregara ao carrasco. Eu tinha emparedado o monstro dentro do túmulo!

A QUEDA DA CASA DE USHER

O seu coração é um alaúde suspenso; Logo que se toca, ele ressoa..

—De Béranger.

Durante todo um dia monótono, escuro e silencioso no outono do ano, quando as nuvens pairavam opressivamente baixas nos céus, eu tinha estado a passar sozinho, a cavalo, através de uma extensão de terra singularmente desolada; e finalmente encontrei-me, à medida que as sombras da tarde se aproximavam, à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como foi — mas, com o primeiro vislumbre do edifício, um sentido de lúgubre insuportável invadiu o meu espírito. Digo insuportável; pois o sentimento não era aliviado por qualquer daquele sentimento meio-prazeroso, porque poético, com que a mente recebe habitualmente até as imagens naturais mais severas do desolado ou terrível. Olhei para a cena diante de mim — para a simples casa, e para os simples traços da paisagem da propriedade — para as paredes lúgubres — para as janelas vazias como olhos — para uns poucos juncos sombrios — e para uns poucos troncos brancos de árvores apodrecidas — com uma depressão de alma total que não posso comparar a nenhuma sensação terrena mais propriamente do que ao sonho posterior do folião sob o efeito do ópio — a amarga queda na vida quotidiana — o horroroso cair do véu. Havia uma frieza, um afundamento, um adoecer do coração — uma desolação de pensamento não redimida que nenhum incentivo da imaginação poderia torturar para algo do sublime. O que era — parei para pensar — o que era que tanto me desanimava na contemplação da Casa de Usher? Era um mistério totalmente insolúvel; nem podia eu lutar com as fantasias sombrias que me assaltavam enquanto ponderava. Fui forçado a recorrer à conclusão insatisfatória de que, embora, sem dúvida, existam combinações de objetos naturais muito simples que têm o poder de nos afetar desta maneira, ainda assim a análise deste poder reside entre considerações para além da nossa profundidade. Era possível, refleti, que uma mera disposição diferente dos detalhes da cena, dos detalhes da imagem, fosse suficiente para modificar, ou talvez para aniquilar a sua capacidade de impressão dolorosa; e, agindo com base nesta ideia, refreei o meu cavalo até à margem precipitada de um lago negro e lívido que jazia com um brilho sereno junto à habitação, e olhei para baixo — mas com um estremecimento ainda mais arrepiante do que antes — para as imagens remodeladas e invertidas dos juncos cinzentos, e dos troncos de árvores fantasmagóricos, e das janelas vazias e semelhantes a olhos.

Não obstante, nesta mansão de lúgubre aspecto, propus-me então passar algumas semanas. O seu proprietário, Roderick Usher, fora um dos meus companheiros de infância; mas muitos anos haviam decorrido desde o nosso último encontro. Uma carta, contudo, chegara-me ultimamente a uma parte distante do país — uma carta dele — que, na sua natureza estranhamente importuna, não admitia outra resposta que não fosse pessoal. O manuscrito dava provas de agitação nervosa. O remetente falava de uma doença corporal aguda — de uma desordem mental que o oprimia — e de um desejo sincero de me ver, como o seu melhor, e na verdade o seu único amigo pessoal, com o intuito de tentar, pela alegria da minha companhia, algum alívio para a sua enfermidade. Foi a maneira como tudo isto, e muito mais, foi dito — foi o coração aparente que acompanhava o seu pedido — que não me deixou margem para hesitação; e obedeci, consequentemente, de imediato, àquilo que ainda considerava uma convocatória muito singular.

Embora, enquanto rapazes, tivéssemos sido companheiros íntimos, na realidade pouco sabia do meu amigo. A sua reserva fora sempre excessiva e habitual. Estava ciente, contudo, de que a sua família, muito antiga, era notada, desde tempos imemoriais, por uma sensibilidade de temperamento peculiar, manifestando-se, ao longo de eras, em muitas obras de arte exaltada, e manifestada, ultimamente, em repetidos actos de caridade munificente mas discreta, bem como numa devoção apaixonada pelas complexidades, talvez até mais do que pelas belezas ortodoxas e facilmente reconhecíveis, da ciência musical. Tinha aprendido, também, o facto notável de que o tronco da linhagem Usher, apesar de tão honrado pelo tempo, não tinha gerado, em período algum, qualquer ramo duradouro; por outras palavras, que a família inteira se encontrava na linha directa de descendência, e sempre, com variações muito insignificantes e temporárias, assim se encontrara. Foi esta deficiência, considerei, enquanto repassava em pensamento a perfeita consonância do carácter das instalações com o carácter acreditado das pessoas, e enquanto especulava sobre a possível influência que uma, no longo decurso dos séculos, poderia ter exercido sobre a outra — foi esta deficiência, talvez, de descendência colateral, e a consequente transmissão ininterrupta, de pai para filho, do património com o nome, que tinha, por fim, identificado os dois de tal modo que fundiu o título original da propriedade na designação pitoresca e equívoca de "Casa de Usher" — uma designação que parecia incluir, na mente dos camponeses que a usavam, tanto a família como a mansão da família.

Disse que o único efeito da minha experiência um tanto infantil — a de olhar para baixo, para dentro do lago — tinha sido o de aprofundar a primeira impressão singular. Não pode haver dúvida de que a consciência do rápido aumento da minha superstição — pois por que não hei-de chamá-la assim? — serviu principalmente para acelerar o próprio aumento. Tal, sei há muito, é a lei paradoxal de todos os sentimentos que têm o terror como base. E pode ter sido por esta razão apenas que, quando levantei de novo os meus olhos para a própria casa, a partir da sua imagem no lago, cresceu na minha mente uma estranha fantasia — uma fantasia tão ridícula, na verdade, que só a menciono para mostrar a força vívida das sensações que me oprimiam. Eu tinha trabalhado tanto a minha imaginação a ponto de acreditar realmente que em torno de toda a mansão e domínio pairava uma atmosfera peculiar a eles mesmos e à sua vizinhança imediata — uma atmosfera que não tinha afinidade com o ar do céu, mas que tinha exalado das árvores apodrecidas, e do muro cinzento, e do lago silencioso — um vapor pestilento e místico, baço, lento, debilmente discernível, e de tom chumbo.

Sacudindo do meu espírito o que deve ter sido um sonho, examinei mais atentamente o aspecto real do edifício. A sua característica principal parecia ser a de uma antiguidade excessiva. A descoloração dos tempos fora grande. Fungos minúsculos cobriam todo o exterior, pendendo numa fina rede emaranhada a partir dos beirais. Contudo, tudo isto estava separado de qualquer dilapidação extraordinária. Nenhuma porção da alvenaria tinha caído; e parecia haver uma estranha inconsistência entre a sua adaptação ainda perfeita das partes e a condição de desmoronamento das pedras individuais. Nisto havia muito que me lembrava da totalidade especiosa de madeiramento antigo que apodreceu durante longos anos em algum cofre negligenciado, sem qualquer perturbação pelo sopro do ar exterior. Para além desta indicação de decadência extensiva, contudo, o edifício dava poucos sinais de instabilidade. Talvez o olho de um observador perspicaz pudesse ter descoberto uma fissura mal perceptível, que, estendendo-se a partir do telhado do edifício na frente, abria caminho pelo muro numa direcção em ziguezague, até se perder nas águas sombrias do lago.

Notando estas coisas, atravessei a cavalo uma pequena calçada até à casa. Um criado à espera tomou o meu cavalo, e entrei no arco gótico do hall. Um criado, de passo furtivo, conduziu-me dali, em silêncio, através de muitas passagens escuras e intrincadas no meu progresso até ao estúdio do seu mestre. Muito do que encontrei pelo caminho contribuiu, não sei como, para aumentar os sentimentos vagos de que já falei. Enquanto os objectos à minha volta — enquanto as esculturas dos tectos, as tapeçarias sombrias das paredes, a negrura de ébano dos soalhos, e os troféus armoriais fantasmagóricos que chocalhavam enquanto eu caminhava, não eram mais do que coisas às quais, ou semelhantes às quais, eu estava habituado desde a minha infância — enquanto não hesitava em reconhecer quão familiar era tudo isto — ainda me maravilhei ao descobrir quão desconhecidas eram as fantasias que as imagens comuns estavam a despertar. Numa das escadarias, encontrei o médico da família. O seu semblante, pensei, ostentava uma expressão misturada de astúcia baixa e perplexidade. Abordou-me com trepidação e seguiu em frente. O criado abriu então uma porta e conduziu-me à presença do seu mestre.

O quarto em que me encontrei era muito grande e alto. As janelas eram longas, estreitas e pontiagudas, e a uma distância tão vasta do soalho de carvalho preto que eram totalmente inacessíveis a partir do interior. Fracos reflexos de luz encarnada abriam caminho através das vidraças treliçadas, e serviam para tornar suficientemente distintos os objectos mais proeminentes à volta; o olho, contudo, lutava em vão para alcançar os ângulos mais remotos da câmara, ou os recantos do tecto abobadado e ornamentado. Cortinas escuras pendiam das paredes. O mobiliário geral era profuso, desconfortável, antigo e esfarrapado. Muitos livros e instrumentos musicais jaziam espalhados, mas não conseguiam dar qualquer vitalidade à cena. Senti que respirava uma atmosfera de tristeza. Um ar de melancolia austera, profunda e irremediável pairava sobre e permeava tudo.

Aquando da minha entrada, Usher levantou-se de um sofá em que estivera deitado a todo o comprimento, e cumprimentou-me com um calor vivaz que tinha muito, pensei eu a princípio, de uma cordialidade exagerada — do esforço constrangido do homem do mundo entediado. Um olhar, contudo, para o seu semblante, convenceu-me da sua perfeita sinceridade. Sentámo-nos; e por alguns momentos, enquanto ele não falava, contemplei-o com um sentimento metade de piedade, metade de reverência. Certamente, nenhum homem tinha alterado tão terrivelmente antes, num período tão breve, como Roderick Usher! Era com dificuldade que me levava a admitir a identidade do ser pálido diante de mim com o companheiro da minha primeira infância. Contudo, o carácter do seu rosto fora sempre notável. Uma cadaverosidade de tez; um olho grande, líquido e luminoso acima de qualquer comparação; lábios algo finos e muito pálidos, mas de uma curva de beleza surpreendente; um nariz de um delicado modelo hebraico, mas com uma largura de narina invulgar em formações semelhantes; um queixo finamente moldado, falando, na sua falta de proeminência, de uma falta de energia moral; cabelo de uma suavidade e tenuidade mais do que teia; estes traços, com uma expansão desmedida acima das regiões da têmpora, compunham um semblante que não era facilmente esquecido. E agora, na mera exageração do carácter predominante destes traços, e da expressão que costumavam transmitir, residia tanta mudança que duvidei de quem falava. A palidez agora fantasmagórica da pele, e o lustre agora milagroso do olho, acima de todas as coisas, assustaram-me e até me infundiram reverência. O cabelo sedoso, também, tinha sido deixado crescer sem qualquer cuidado, e, na sua textura selvagem como teia de aranha, flutuava mais do que caía em torno do rosto, não conseguindo eu, mesmo com esforço, ligar a sua expressão arabesca a qualquer ideia de humanidade simples.

Na maneira do meu amigo, fui logo atingido por uma incoerência — uma inconsistência; e cedo descobri que isto provinha de uma série de lutas débeis e fúteis para superar uma trepidação habitual — uma excessiva agitação nervosa. Para algo desta natureza eu estava, de facto, preparado, não menos pela sua carta, do que pelas reminiscências de certos traços de rapaz, e por conclusões deduzidas da sua peculiar conformação física e temperamento. A sua acção era alternadamente vivaz e sombria. A sua voz variava rapidamente de uma indecisão tremulosa (quando os espíritos animais pareciam estar totalmente em suspenso) para aquela espécie de concisão energética — aquela enunciação abrupta, pesada, sem pressa e de som oco — aquela dicção gutural chumbada, auto-equilibrada e perfeitamente modulada, que pode ser observada no bêbado perdido, ou no comedor de ópio irremediável, durante os períodos da sua mais intensa excitação.

Foi assim que ele falou do objecto da minha visita, do seu desejo sincero de me ver, e do consolo que esperava que eu lhe proporcionasse. Entrou, com algum detalhe, no que concebia ser a natureza da sua enfermidade. Era, disse ele, um mal constitucional e de família, e um para o qual desesperava encontrar um remédio — uma mera afecção nervosa, acrescentou imediatamente, que sem dúvida passaria em breve. Manifestava-se numa multidão de sensações não naturais. Algumas destas, conforme as detalhava, interessavam-me e desconcertavam-me; embora, talvez, os termos e a maneira geral da narração tivessem o seu peso. Ele sofria muito de uma acuidade mórbida dos sentidos; o alimento mais insípido era o único suportável; ele podia usar apenas vestuário de certa textura; os odores de todas as flores eram opressivos; os seus olhos eram torturados até por uma luz ténue; e havia apenas sons peculiares, e estes de instrumentos de cordas, que não lhe inspiravam horror.

A uma espécie anómala de terror encontrei-o um escravo acorrentado. "Eu perecerei", disse ele, "devo perecer nesta loucura deplorável. Assim, assim, e não de outra forma, estarei perdido. Receio os eventos do futuro, não em si mesmos, mas nos seus resultados. Estremeço com o pensamento de qualquer, mesmo o mais trivial, incidente, que possa operar sobre esta intolerável agitação de alma. Não tenho, na verdade, qualquer horror ao perigo, excepto no seu efeito absoluto — no terror. Nesta condição desmoralizada — nesta condição lamentável — sinto que o período chegará mais cedo ou mais tarde em que terei de abandonar a vida e a razão ao mesmo tempo, em algum confronto com o fantasma sombrio, o MEDO."

Aprendi, além disso, em intervalos, e através de alusões fragmentadas e equívocas, outro traço singular da sua condição mental. Ele estava acorrentado por certas impressões supersticiosas em relação à habitação que ocupava, e de onde, durante muitos anos, nunca se aventurara a sair — em relação a uma influência cuja força supositícia era transmitida em termos demasiado obscuros para aqui serem reafirmados — uma influência que algumas peculiaridades na mera forma e substância da sua mansão familiar tinham, à força de longo sofrimento, disse ele, obtido sobre o seu espírito — um efeito que o físico das paredes cinzentas e torres, e do lago sombrio para o qual todos olhavam, tinha, finalmente, provocado sobre o moral da sua existência.

Ele admitiu, contudo, embora com hesitação, que muito da melancolia peculiar que assim o afligia podia ser traçada a uma origem mais natural e muito mais palpável — à doença severa e de longa duração — na verdade, à dissolução evidentemente próxima — de uma irmã tenazmente amada — a sua única companheira durante longos anos — a sua última e única parente na terra. "O seu falecimento", disse ele, com uma amargura que nunca poderei esquecer, "deixá-lo-ia (a ele, o desesperançado e o frágil) o último da antiga linhagem dos Usher." Enquanto falava, a senhora Madeline (pois assim era chamada) passou lentamente através de uma porção remota do apartamento, e, sem ter notado a minha presença, desapareceu. Contemplei-a com um assombro total, não desprovido de medo — e, contudo, achei impossível explicar tais sentimentos. Uma sensação de estupor oprimiu-me, enquanto os meus olhos seguiam os seus passos recuantes. Quando uma porta, por fim, se fechou atrás dela, o meu olhar procurou instintiva e ansiosamente o semblante do irmão — mas ele tinha enterrado o rosto nas mãos, e apenas pude perceber que uma palidez muito mais do que ordinária tinha coberto os dedos emaciados, através dos quais escorriam muitas lágrimas apaixonadas.

A doença da senhora Madeline tinha durante muito tempo desafiado a perícia dos seus médicos. Uma apatia estabelecida, um definhamento gradual da pessoa, e frequentes, embora passageiras, afecções de carácter parcialmente cataléptico, eram o diagnóstico invulgar. Até então, ela tinha resistido firmemente à pressão da sua enfermidade, e não se tinha entregado finalmente à cama; mas, no fecho da noite da minha chegada à casa, ela sucumbiu (como o seu irmão me disse à noite com uma agitação inexprimível) ao poder prostrador do destruidor; e soube que o vislumbre que tinha obtido da sua pessoa seria assim provavelmente o último que eu obteria — que a senhora, pelo menos enquanto viva, não seria vista por mim mais.

Nos dias seguintes, o seu nome não foi mencionado nem por Usher nem por mim; e durante este período estive ocupado em esforços sinceros para aliviar a melancolia do meu amigo. Pintámos e lemos juntos; ou ouvi, como se fosse num sonho, as improvisações selvagens da sua guitarra falante. E assim, à medida que uma intimidade mais próxima e ainda mais próxima me admitia mais desinibidamente nos recantos do seu espírito, mais amargamente percebia a futilidade de toda a tentativa de alegrar uma mente da qual a escuridão, como se fosse uma qualidade positiva inerente, se derramava sobre todos os objectos do universo moral e físico, numa radiação incessante de lúgubre melancolia.

Guardarei sempre comigo uma memória das muitas horas solenes que passei assim sozinho com o mestre da Casa de Usher. Contudo, falharia em qualquer tentativa de transmitir uma ideia do carácter exacto dos estudos, ou das ocupações, em que ele me envolveu, ou me guiou o caminho. Uma idealidade excitada e altamente desequilibrada lançava um brilho sulfúreo sobre tudo. Os seus longos lamentos improvisados ressoarão para sempre nos meus ouvidos. Entre outras coisas, guardo dolorosamente na mente uma certa perversão e amplificação singular do ar selvagem da última valsa de Von Weber. Das pinturas sobre as quais a sua imaginação elaborada meditava, e que cresciam, toque a toque, em vaguezas diante das quais eu estremecia de forma mais arrepiante, porque estremecia sem saber porquê — destas pinturas (vívidas como as suas imagens estão agora diante de mim) eu tentaria em vão extrair mais do que uma pequena porção que devesse estar dentro do alcance de meras palavras escritas. Pela total simplicidade, pela nudez dos seus desenhos, ele prendia e intimidava a atenção. Se algum mortal pintou uma ideia, esse mortal foi Roderick Usher. Para mim, pelo menos — nas circunstâncias que então me rodeavam — surgia das puras abstracções que o hipocondríaco conseguia lançar sobre a sua tela, uma intensidade de reverência intolerável, nenhuma sombra da qual senti eu alguma vez na contemplação dos devaneios certamente brilhantes, embora demasiado concretos, de Fuseli.

Uma das concepções fantasmagóricas do meu amigo, não participando tão rigidamente do espírito da abstracção, pode ser esboçada, embora debilmente, em palavras. Um pequeno quadro apresentava o interior de um cofre ou túnel imensamente longo e rectangular, com paredes baixas, lisas, brancas, e sem interrupção ou dispositivo. Certos pontos acessórios do desenho serviam bem para transmitir a ideia de que esta escavação jazia a uma profundidade excessiva abaixo da superfície da terra. Nenhuma saída era observada em qualquer porção da sua vasta extensão, e nenhuma tocha, ou outra fonte artificial de luz era discernível; contudo, uma torrente de raios intensos rolava por toda a parte, e banhava o todo num esplendor fantasmagórico e inapropriado.

Acabo de falar daquela condição mórbida do nervo auditivo que tornava toda a música intolerável ao sofredor, com a excepção de certos efeitos de instrumentos de cordas. Eram, talvez, os limites estreitos a que ele se limitava assim na guitarra, que davam origem, em grande medida, ao carácter fantástico das suas actuações. Mas a facilidade fervente dos seus improvisos não podia ser explicada dessa forma. Tinham de ter sido, e eram, nas notas, bem como nas palavras das suas fantasias selvagens (pois ele não infrequentemente acompanhava-se com improvisações verbais rimadas), o resultado daquela intensa concentração e colectividade mental a que aludi anteriormente como observável apenas em momentos particulares da mais alta excitação artificial. As palavras de uma destas rapsódias guardei facilmente. Fiquei, talvez, mais fortemente impressionado com ela, tal como ele a apresentou, porque, na corrente subjacente ou mística do seu significado, imaginei que percebia, e pela primeira vez, uma consciência plena por parte de Usher do vacilar da sua elevada razão no seu trono. Os versos, que eram intitulados "O Palácio Assombrado", eram quase, se não precisamente, assim:

I. No mais verde dos nossos vales, Habitado por bons anjos, Outrora um palácio justo e imponente — Radiante palácio — erguia a sua cabeça. No domínio do monarca Pensamento — Estava ele ali! Jamais serafim estendeu uma asa Sobre estrutura tão justa.

II. Bandeiras amarelas, gloriosas, douradas, No seu telhado flutuavam e fluíam; (Isto — tudo isto — era nos tempos De outrora, há muito) E cada brisa suave que namorava, Naquele doce dia, Ao longo das ameias emplumadas e pálidas, Um odor alado afastava-se.

III. Viajantes naquele vale feliz Através de duas janelas luminosas viam Espíritos movendo-se musicalmente À lei bem afinada de um alaúde, Em torno de um trono, onde sentado (Porfirogénito!) Em estado que à sua glória bem convinha, O governante do reino era visto.

IV. E tudo com pérola e rubi brilhando Era a bela porta do palácio, Através da qual vinha fluindo, fluindo, fluindo, E faiscando para sempre, Uma tropa de Ecos cujo doce dever Era apenas cantar, Em vozes de beleza surpreendente, A sagacidade e sabedoria do seu rei.

V. Mas coisas más, em vestes de tristeza, Assaltaram o alto estado do monarca; (Ah, choremos, pois nunca o amanhecer Sobre ele raiará, desolado!) E, em torno da sua casa, a glória Que corava e florescia Não passa de uma história tenuemente lembrada Do velho tempo sepultado.

VI. E viajantes agora naquele vale, Através das janelas iluminadas de vermelho, vêem Vastas formas que se movem fantasticamente A uma melodia discordante; Enquanto, como um rio rápido e fantasmagórico, Através da porta pálida, Uma multidão hedionda precipita-se para sempre, E ri — mas sorri não mais.

Lembro-me bem de que as sugestões advindas desta balada nos conduziram a uma linha de pensamento em que se tornou manifesto um parecer de Usher, o qual menciono não tanto por conta da sua novidade, (pois outros homens* pensaram assim,) mas por conta da pertinácia com que ele o sustentava. Esta opinião, na sua forma geral, era a da senciência de todas as coisas vegetais. Mas, na sua fantasia desordenada, a ideia assumira um caráter mais audaz e invadira, sob certas condições, o reino da inorganização. Faltam-me palavras para expressar a extensão total, ou o abandono fervoroso da sua convicção. A crença, contudo, estava ligada (como insinuei anteriormente) às pedras cinzentas da casa dos seus antepassados. As condições da senciência tinham sido ali, imaginava ele, cumpridas no método de colocação dessas pedras — na ordem do seu arranjo, bem como na dos muitos fungos que as cobriam, e das árvores apodrecidas que as rodeavam — acima de tudo, na longa e ininterrupta permanência desse arranjo, e na sua reduplicação nas águas imóveis do lago. A sua evidência — a evidência da senciência — podia ser vista, dizia ele, (e aqui estremeci enquanto ele falava,) na gradual porém certa condensação de uma atmosfera própria sobre as águas e as paredes. O resultado era discernível, acrescentava ele, naquela influência silenciosa, porém importuna e terrível, que durante séculos moldara os destinos da sua família, e que o fez o que eu via agora — o que ele era. Tais opiniões não carecem de comentário, e não farei nenhum.

* Watson, Dr. Percival, Spallanzani, e especialmente o Bispo de Landaff. — Ver “Chemical Essays”, vol. v.

Os nossos livros — os livros que, durante anos, tinham formado não pequena porção da existência mental do enfermo — estavam, como se poderia supor, em estrita conformidade com este caráter de fantasmagoria. Debruçamo-nos juntos sobre obras como o Ververt e Chartreuse de Gresset; o Belfagor de Maquiavel; o Céu e o Inferno de Swedenborg; a Viagem Subterrânea de Nicholas Klimm por Holberg; a Quiromancia de Robert Flud, de Jean D’Indaginé, e de De la Chambre; a Viagem à Distância Azul de Tieck; e a Cidade do Sol de Campanella. Um volume favorito era uma pequena edição em oitavo do Directorium Inquisitorium, pelo dominicano Eymeric de Gironne; e havia passagens em Pompônio Mela, sobre os antigos Sátiros e Egipãs africanos, sobre as quais Usher ficava a sonhar durante horas. O seu principal deleite, contudo, encontrava-se na leitura de um livro extremamente raro e curioso em quarto gótico — o manual de uma igreja esquecida — as Vigiliae Mortuorum secundum Chorum Ecclesiae Maguntinae.

Não pude deixar de pensar no ritual selvagem desta obra, e na sua provável influência sobre o hipocondríaco, quando, numa noite, tendo-me informado abruptamente de que a senhora Madeline não mais existia, ele declarou a sua intenção de preservar o seu cadáver por uma quinzena, (previamente ao seu enterro final,) num dos numerosos cofres dentro das paredes principais do edifício. A razão mundana, contudo, atribuída a este procedimento singular, era uma que não me senti à vontade para contestar. O irmão fora levado à sua resolução (assim me disse ele) por consideração ao caráter incomum da doença da falecida, a certas indagações intrusivas e ávidas por parte dos seus médicos, e à situação remota e exposta do cemitério da família. Não negarei que, ao recordar a fisionomia sinistra da pessoa que encontrei na escadaria, no dia da minha chegada à casa, não tive desejo algum de me opor ao que considerei, na melhor das hipóteses, apenas uma precaução inofensiva, e de modo algum não natural.

A pedido de Usher, ajudei-o pessoalmente nas providências para o sepultamento temporário. Tendo o corpo sido colocado no caixão, nós dois sozinhos levamo-lo para o seu descanso. O cofre onde o colocámos (e que estava há tanto tempo fechado que as nossas tochas, meio sufocadas na sua atmosfera opressiva, nos deram pouca oportunidade para investigação) era pequeno, húmido, e inteiramente sem meios de entrada de luz; situando-se, a grande profundidade, imediatamente sob aquela porção do edifício em que se encontrava o meu próprio aposento. Fora usado, aparentemente, em remotas épocas feudais, para os piores fins de um calabouço, e, em dias posteriores, como local de depósito de pólvora, ou alguma outra substância altamente combustível, visto que uma parte do seu piso, e todo o interior de um longo arco através do qual chegámos a ele, estavam cuidadosamente revestidos de cobre. A porta, de ferro maciço, fora, também, similarmente protegida. O seu peso imenso causou um som de ranger invulgarmente agudo, enquanto se movia sobre as suas dobradiças.

Tendo depositado o nosso fardo lúgubre sobre cavaletes dentro desta região de horror, afastámos parcialmente a tampa ainda não aparafusada do caixão, e olhámos para o rosto da inquilina. Uma semelhança impressionante entre o irmão e a irmã prendeu pela primeira vez a minha atenção; e Usher, adivinhando, talvez, os meus pensamentos, murmurou algumas poucas palavras das quais soube que a falecida e ele tinham sido gémeos, e que simpatias de uma natureza dificilmente inteligível sempre tinham existido entre eles. Os nossos olhares, contudo, não repousaram por muito tempo sobre a morta — pois não podíamos contemplá-la sem temor. A doença que tinha assim sepultado a senhora na maturidade da juventude, deixara, como é habitual em todas as enfermidades de caráter estritamente cataléptico, a zombaria de um leve rubor no peito e no rosto, e aquele sorriso suspeitosamente persistente nos lábios que é tão terrível na morte. Substituímos e aparafusámos a tampa, e, tendo fechado a porta de ferro, fizemo-nos, com esforço, para os aposentos não menos sombrios da porção superior da casa.

E agora, tendo decorrido alguns dias de amarga dor, uma mudança observável sobreveio às feições da perturbação mental do meu amigo. O seu modo de agir habitual desaparecera. As suas ocupações comuns eram negligenciadas ou esquecidas. Ele vagueava de câmara em câmara com passo apressado, desigual e sem objetivo. A palidez da sua fisionomia assumira, se possível, um tom mais cadavérico — mas a luminosidade do seu olho extinguira-se por completo. A outrora ocasional rouquidão do seu tom não era mais ouvida; e um tremor trémulo, como se de terror extremo, caracterizava habitualmente a sua fala. Havia momentos, na verdade, em que eu pensava que a sua mente incessantemente agitada trabalhava com algum segredo opressivo, para divulgar o qual ele lutava pela coragem necessária. Por vezes, novamente, eu era obrigado a resolver tudo como meros desvarios inexplicáveis da loucura, pois via-o a olhar para o vazio durante longas horas, numa atitude da mais profunda atenção, como se escutasse algum som imaginário. Não era de admirar que a sua condição me aterrorizasse — que me infetasse. Sentia rastejar sobre mim, por graus lentos porém certos, as influências selvagens das suas próprias superstições fantásticas porém impressionantes.

Foi, especialmente, ao retirar-me para a cama tarde na noite do sétimo ou oitavo dia após a colocação da senhora Madeline dentro do calabouço, que experimentei o poder total de tais sentimentos. O sono não se aproximou do meu leito — enquanto as horas minguavam e minguavam. Lutei para raciocinar contra o nervosismo que tinha domínio sobre mim. Esforcei-me por acreditar que muito, se não tudo do que sentia, era devido à influência desconcertante do mobiliário sombrio do quarto — das cortinas escuras e esfarrapadas, que, torturadas em movimento pelo sopro de uma tempestade crescente, oscilavam erraticamente pelas paredes, e sussurravam inquietas sobre as decorações da cama. Mas os meus esforços foram infrutíferos. Um tremor irreprimível invadiu gradualmente o meu corpo; e, finalmente, sentou-se sobre o meu próprio coração um íncubo de alarme totalmente sem causa. Sacudindo isto com um arquejo e um esforço, levantei-me sobre as almofadas, e, perscrutando atentamente a escuridão intensa da câmara, escutei — não sei porquê, exceto que um espírito instintivo me incitava — certos sons baixos e indefinidos que vinham, através das pausas da tempestade, a longos intervalos, não sabia de onde. Dominado por um sentimento intenso de horror, inexplicável porém insuportável, vesti as minhas roupas com pressa (pois sentia que não dormiria mais durante a noite), e esforcei-me por me despertar da condição deplorável em que tinha caído, caminhando rapidamente de um lado para o outro através do aposento.

Eu dera apenas alguns passos desta maneira, quando um passo leve numa escadaria adjacente prendeu a minha atenção. Reconheci-o imediatamente como sendo o de Usher. Num instante depois ele bateu, com um toque suave, à minha porta, e entrou, trazendo uma lâmpada. A sua fisionomia estava, como de costume, cadavericamente pálida — mas, além disso, havia uma espécie de hilaridade louca nos seus olhos — uma histeria evidentemente contida em todo o seu comportamento. O seu ar apavorou-me — mas qualquer coisa era preferível à solidão que eu tinha suportado por tanto tempo, e até acolhi a sua presença como um alívio.

“E não o viste?”, disse ele abruptamente, depois de ter olhado em volta por alguns momentos em silêncio — “não o viste então? — mas, espera! verás.” Assim falando, e tendo sombreado cuidadosamente a sua lâmpada, ele apressou-se para uma das janelas, e abriu-a livremente para a tempestade.

A fúria impetuosa da rajada que entrava quase nos levantou dos nossos pés. Era, na verdade, uma noite tempestuosa porém severamente bela, e uma noite estranhamente selvagem no seu terror e na sua beleza. Um turbilhão tinha aparentemente recolhido a sua força nas nossas proximidades; pois havia alterações frequentes e violentas na direção do vento; e a densidade excessiva das nuvens (que pairavam tão baixo a ponto de pressionar as torres da casa) não impedia a nossa perceção da velocidade vital com que voavam, cruzando-se de todos os pontos, sem desaparecerem na distância. Digo que nem mesmo a sua densidade excessiva impedia a nossa perceção disto — contudo não tínhamos vislumbre da lua ou das estrelas — nem havia qualquer lampejo de relâmpago. Mas as superfícies inferiores das enormes massas de vapor agitado, bem como todos os objetos terrestres imediatamente à nossa volta, brilhavam sob a luz não natural de uma exalação gasosa fracamente luminosa e distintamente visível que pairava sobre a mansão e a envolvia.

“Não deves — não hás de contemplar isto!”, disse eu, tremendo, a Usher, enquanto o conduzia, com uma violência suave, da janela para um assento. “Estas aparências, que te desconcertam, são meramente fenómenos elétricos não incomuns — ou pode ser que tenham a sua origem macabra no miasma fétido do lago. Fechemos esta janela; — o ar está frio e perigoso para a tua compleição. Aqui está um dos teus romances favoritos. Eu lerei, e tu ouvirás; — e assim passaremos esta noite terrível juntos.”

O volume antigo que eu tinha tomado era o “Tristão Louco” de Sir Launcelot Canning; mas eu chamara-lhe um favorito de Usher mais por piada triste do que a sério; pois, na verdade, há pouco na sua prolixidade grosseira e sem imaginação que pudesse ter tido interesse para a idealidade elevada e espiritual do meu amigo. Era, contudo, o único livro imediatamente à mão; e alimentei uma vaga esperança de que a excitação que agora agitava o hipocondríaco pudesse encontrar alívio (pois a história da desordem mental está cheia de anomalias semelhantes) até mesmo na extremidade da loucura que eu leria. Poderia eu ter julgado, na verdade, pelo ar selvagem e sobrecarregado de vivacidade com que ele escutava, ou aparentemente escutava, as palavras do conto, eu poderia muito bem ter-me congratulado pelo sucesso do meu desígnio.

Eu tinha chegado àquela porção bem conhecida da história onde Ethelred, o herói do Tristão, tendo procurado em vão por uma admissão pacífica na habitação do eremita, procede a forçar uma entrada. Aqui, lembrar-se-á, as palavras da narrativa correm assim:

“E Ethelred, que era por natureza de um coração valente, e que estava agora poderoso também, por conta da força do vinho que tinha bebido, não esperou mais para parlamentar com o eremita, que, na verdade, era de um feitio obstinado e maldoso, mas, sentindo a chuva sobre os seus ombros, e temendo o levantar da tempestade, ergueu a sua maça imediatamente, e, com golpes, fez rapidamente espaço nas tábuas da porta para a sua mão guarnecida de luva de ferro; e agora puxando com ela vigorosamente, ele de tal modo rachou, e rasgou, e despedaçou tudo, que o ruído da madeira seca e de som oco alarmou e reverberou por toda a floresta.”

No término desta frase estremeci, e por um momento, pausei; pois pareceu-me (embora eu concluísse imediatamente que a minha fantasia excitada me enganara) — pareceu-me que, de alguma porção muito remota da mansão, vinha, indistintamente, aos meus ouvidos, o que poderia ter sido, na sua exata semelhança de caráter, o eco (mas um abafado e surdo, certamente) do próprio som de rachar e rasgar que Sir Launcelot tinha tão particularmente descrito. Era, sem dúvida, a coincidência apenas que tinha prendido a minha atenção; pois, em meio ao matraquear das caixilhos das janelas, e os ruídos comuns misturados da tempestade sempre crescente, o som, em si mesmo, não tinha, certamente, nada que devesse ter-me interessado ou perturbado. Continuei a história:

“Mas o bom campeão Ethelred, entrando agora pela porta, ficou muito enfurecido e espantado por não perceber sinal do eremita maldoso; mas, em vez disso, um dragão de um porte escamoso e prodigioso, e de uma língua de fogo, que se sentava em guarda diante de um palácio de ouro, com um chão de prata; e sobre a parede pendia um escudo de latão brilhante com esta lenda escrita —

Quem aqui entra, um conquistador tem sido; Quem mata o dragão, o escudo terá vencido;

E Ethelred ergueu a sua maça, e atingiu a cabeça do dragão, que caiu diante dele, e exalou o seu hálito pestilento, com um grito tão horrível e áspero, e também tão penetrante, que Ethelred teve de tapar os ouvidos com as mãos contra o ruído terrível dele, do qual nunca antes se ouvira igual.”

Aqui novamente pausei abruptamente, e agora com um sentimento de espanto selvagem — pois não podia haver dúvida alguma de que, nesta instância, eu ouvia realmente (embora de que direção procedesse achasse impossível dizer) um som de grito ou ranger baixo e aparentemente distante, mas áspero, prolongado e muito incomum — a contrapartida exata do que a minha fantasia já tinha conjurado para o grito não natural do dragão conforme descrito pelo romancista.

Oprimido, como certamente estava, aquando da ocorrência desta segunda e mais extraordinária coincidência, por mil sensações conflitantes, nas quais o espanto e o terror extremo eram predominantes, mantive ainda presença de espírito suficiente para evitar excitar, por qualquer observação, o nervosismo sensível do meu companheiro. Eu não estava de modo algum certo de que ele tinha notado os sons em questão; embora, certamente, uma estranha alteração tivesse, durante os últimos minutos, ocorrido no seu comportamento. De uma posição em frente à minha, ele tinha trazido gradualmente a sua cadeira, de modo a sentar-se com o rosto para a porta da câmara; e assim eu podia apenas parcialmente perceber as suas feições, embora visse que os seus lábios tremiam como se estivesse a murmurar inaudivelmente. A sua cabeça tinha caído sobre o peito — contudo eu sabia que ele não estava a dormir, pela abertura larga e rígida do olho enquanto apanhava um vislumbre dele de perfil. O movimento do seu corpo, também, estava em desacordo com esta ideia — pois ele balançava de um lado para o outro com um balanço suave porém constante e uniforme. Tendo notado rapidamente tudo isto, retomei a narrativa de Sir Launcelot, que assim prosseguia:

“E agora, o campeão, tendo escapado da fúria terrível do dragão, lembrando-se do escudo de latão, e da quebra do encantamento que estava sobre ele, removeu a carcaça do seu caminho diante de si, e aproximou-se valorosamente sobre o pavimento de prata do castelo até onde o escudo estava na parede; o qual na verdade não tardou pela sua plena vinda, mas caiu aos seus pés sobre o chão de prata, com um som de tocar imenso, grande e terrível.”

Não tinham estas sílabas passado pelos meus lábios, quando — como se um escudo de latão tivesse de fato, no momento, caído pesadamente sobre um chão de prata — tornei-me ciente de uma reverberação distinta, oca, metálica e estrondosa, porém aparentemente abafada. Completamente desanimado, saltei para os meus pés; mas o movimento de balanço medido de Usher não foi perturbado. Corri para a cadeira em que ele se sentava. Os seus olhos estavam voltados fixamente diante dele, e por toda a sua fisionomia reinava uma rigidez pétrea. Mas, ao colocar a minha mão sobre o seu ombro, veio um forte tremor por toda a sua pessoa; um sorriso doentio tremulou sobre os seus lábios; e vi que ele falava num murmúrio baixo, apressado e balbuciante, como se estivesse inconsciente da minha presença. Inclinando-me atentamente sobre ele, bebi finalmente o significado horrível das suas palavras.

“Não o ouves? — sim, eu ouço-o, e tenho-o ouvido. Longo — longo — longo — muitos minutos, muitas horas, muitos dias, tenho-o ouvido — contudo não me atrevi — oh, tem pena de mim, miserável desgraçado que sou! — não me atrevi — não me atrevi a falar! Nós pusemo-la viva no túmulo! Não disse eu que os meus sentidos eram agudos? Eu agora digo-te que ouvi os seus primeiros movimentos débeis no caixão oco. Ouvi-os — muitos, muitos dias atrás — contudo não me atrevi — não me atrevi a falar! E agora — esta noite — Ethelred — ha! ha! — o quebrar da porta do eremita, e o grito de morte do dragão, e o estrondo do escudo! — dize, antes, o romper do seu caixão, e o ranger das dobradiças de ferro da sua prisão, e as suas lutas dentro do arco revestido de cobre do cofre! Oh para onde hei de fugir? Não estará ela aqui dentro de momentos? Não estará ela a apressar-se para me censurar pela minha pressa? Não ouvi eu o seu passo na escada? Não distingo eu aquele bater pesado e horrível do seu coração? Louco!” — aqui ele saltou furiosamente para os seus pés, e gritou as suas sílabas, como se no esforço ele estivesse a entregar a sua alma — “Louco! Digo-te que ela agora está diante da porta!”

Como se na energia sobre-humana da sua fala se tivesse encontrado a potência de um feitiço — os enormes painéis antigos para os quais o orador apontava, atiraram lentamente para trás, no instante, as suas mandíbulas pesadas e de ébano. Foi obra da rajada impetuosa — mas então, fora daquelas portas, estava de facto a figura elevada e envolta em mortalhas da senhora Madeline de Usher. Havia sangue sobre as suas vestes brancas, e a evidência de alguma luta amarga sobre cada porção do seu corpo emaciado. Por um momento ela permaneceu tremendo e oscilando de um lado para o outro no limiar — então, com um grito baixo e gemido, caiu pesadamente para dentro sobre a pessoa do seu irmão, e nas suas violentas e agora finais agonias de morte, levou-o para o chão um cadáver, e uma vítima dos terrores que ele tinha antecipado.

Daquele aposento, e daquela mansão, fugi horrorizado. A tempestade ainda estava lá fora em toda a sua ira enquanto me encontrava a atravessar a antiga calçada. De repente, disparou ao longo do caminho uma luz selvagem, e voltei-me para ver de onde poderia ter emanado um brilho tão incomum; pois a vasta casa e as suas sombras estavam sozinhas atrás de mim. A radiância era a da lua cheia, poente e vermelho-sangue, que agora brilhava vividamente através daquela fissura outrora mal discernível, da qual falei anteriormente como estendendo-se desde o telhado do edifício, numa direção em ziguezague, até à base. Enquanto eu olhava, esta fissura alargou-se rapidamente — veio um sopro feroz do turbilhão — o orbe inteiro do satélite irrompeu de uma só vez à minha visão — o meu cérebro cambaleou ao ver as paredes poderosas a separar-se — houve um longo som tumultuoso de gritos como a voz de mil águas — e o lago profundo e húmido aos meus pés fechou-se sombriamente e silenciosamente sobre os fragmentos da “Casa de Usher”.

SILÊNCIO — UMA FÁBULA

“Os pináculos da montanha adormecem; vales, penhascos e cavernas estão silenciosos.”

“Escuta-me”, disse o Demónio enquanto colocava a sua mão sobre a minha cabeça. “A região de que falo é uma região lúgubre na Líbia, junto às margens do rio Zaire. E não há paz ali, nem silêncio.”

“As águas do rio têm um tom de açafrão e doentio; e não correm para o mar, mas palpitam para sempre e sempre sob o olho vermelho do sol com um movimento tumultuoso e convulsivo. Por muitas milhas, de ambos os lados do leito lodoso do rio, estende-se um deserto pálido de lírios-de-água gigantescos. Eles suspiram uns para os outros nessa solidão, e estendem em direção ao céu os seus longos e fantasmagóricos pescoços, e balançam para lá e para cá as suas cabeças eternas. E há um murmúrio indistinto que emerge do meio deles como o correr de águas subterrâneas. E eles suspiram uns para os outros.

“Mas há um limite para o seu reino — o limite da floresta escura, horrível e elevada. Ali, como as ondas em redor das Hébridas, o matagal rasteiro é agitado continuamente. Mas não há vento em todo o céu. E as altas árvores primordiais balançam eternamente de um lado para o outro com um som estrondoso e poderoso. E dos seus cumes elevados, gota a gota, caem orvalhos eternos. E nas raízes, estranhas flores venenosas jazem a contorcer-se num sono perturbado. E acima, com um ruído farfalhante e alto, as nuvens cinzentas correm para oeste para sempre, até que rolam, como uma catarata, sobre a muralha ígnea do horizonte. Mas não há vento em todo o céu. E junto às margens do rio Zaire não há nem quietude nem silêncio.

“Era noite, e a chuva caía; e ao cair, era chuva, mas, tendo caído, era sangue. E eu estava no pântano entre os altos lírios, e a chuva caía sobre a minha cabeça — e os lírios suspiravam uns para os outros na solenidade da sua desolação.

“E, de repente, a lua surgiu através da névoa fina e fantasmagórica, e era de cor carmesim. E os meus olhos caíram sobre uma enorme rocha cinzenta que ficava à beira do rio, e era iluminada pela luz da lua. E a rocha era cinzenta, e fantasmagórica, e alta, — e a rocha era cinzenta. Na sua face havia caracteres gravados na pedra; e caminhei através do pântano de lírios-de-água, até chegar perto da margem, para que pudesse ler os caracteres na pedra. Mas não os consegui decifrar. E eu estava a voltar para o pântano, quando a lua brilhou com um vermelho mais intenso, e virei-me e olhei novamente para a rocha, e para os caracteres, e os caracteres eram DESOLAÇÃO.

“E olhei para cima, e havia um homem sobre o cume da rocha; e escondi-me entre os lírios-de-água para que pudesse descobrir as ações do homem. E o homem era alto e de porte imponente, e estava envolto dos ombros aos pés na toga da Roma antiga. E os contornos da sua figura eram indistintos — mas as suas feições eram as feições de uma divindade; pois o manto da noite, e da névoa, e da lua, e do orvalho, deixara descobertos os traços do seu rosto. E a sua testa era elevada pelo pensamento, e o seu olho selvagem de inquietação; e, nos poucos sulcos da sua face li as fábulas da tristeza, e do cansaço, e do desgosto pela humanidade, e um anseio pela solidão.

“E o homem sentou-se na rocha, e apoiou a cabeça na mão, e olhou para a desolação. Olhou para baixo, para o arbusto baixo e inquieto, e para cima, para as altas árvores primordiais, e mais acima, para o céu farfalhante, e para a lua carmesim. E eu jazia perto, sob o abrigo dos lírios, e observava as ações do homem. E o homem tremia na solidão; — mas a noite passava, e ele permanecia sentado na rocha.

“E o homem desviou a sua atenção do céu, e olhou para o lúgubre rio Zaire, e para as águas amarelas e fantasmagóricas, e para as legiões pálidas dos lírios-de-água. E o homem escutou os suspiros dos lírios-de-água, e o murmúrio que subia do meio deles. E eu jazia perto, dentro do meu esconderijo, e observava as ações do homem. E o homem tremia na solidão; — mas a noite passava e ele permanecia sentado na rocha.

“Então desci às reentrâncias do pântano, e vagueei longe por entre o deserto de lírios, e chamei pelos hipopótamos que habitavam entre os brejos nas reentrâncias do pântano. E os hipopótamos ouviram o meu chamado, e vieram, com o behemoth, até ao sopé da rocha, e rugiram alta e temerosamente sob a lua. E eu jazia perto, dentro do meu esconderijo, e observava as ações do homem. E o homem tremia na solidão; — mas a noite passava e ele permanecia sentado na rocha.

“Então amaldiçoei os elementos com a maldição do tumulto; e uma tempestade medonha reuniu-se no céu onde, antes, não houvera vento. E o céu tornou-se lívido com a violência da tempestade — e a chuva açoitou a cabeça do homem — e as cheias do rio desceram — e o rio foi atormentado até à espuma — e os lírios-de-água gritaram dentro dos seus leitos — e a floresta desmoronou-se perante o vento — e o trovão rolou — e o relâmpago caiu — e a rocha oscilou até aos seus alicerces. E eu jazia perto, dentro do meu esconderijo, e observava as ações do homem. E o homem tremia na solidão; — mas a noite passava e ele permanecia sentado na rocha.

“Então fiquei irritado e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, e os lírios, e o vento, e a floresta, e o céu, e o trovão, e os suspiros dos lírios-de-água. E eles tornaram-se amaldiçoados, e ficaram imóveis. E a lua cessou de oscilar no seu caminho para o céu — e o trovão morreu — e o relâmpago não brilhou — e as nuvens pairaram imóveis — e as águas desceram ao seu nível e permaneceram — e as árvores pararam de balançar — e os lírios-de-água não suspiraram mais — e o murmúrio não foi ouvido mais do meio deles, nem qualquer sombra de som através do vasto e ilimitável deserto. E olhei para os caracteres da rocha, e eles tinham mudado; e os caracteres eram SILÊNCIO.

“E os meus olhos caíram sobre o semblante do homem, e o seu semblante estava lívido de terror. E, apressadamente, ergueu a cabeça da mão, e pôs-se de pé sobre a rocha e escutou. Mas não havia voz em todo o vasto e ilimitável deserto, e os caracteres sobre a rocha eram SILÊNCIO. E o homem estremeceu, e desviou o rosto, e fugiu para longe, à pressa, de modo que não o contemplei mais.”

Existem belas histórias nos volumes dos Magos — nos volumes melancólicos e encadernados em ferro dos Magos. Neles, digo eu, há histórias gloriosas do Céu, e da Terra, e do mar poderoso — e dos Génios que governavam o mar, e a terra, e o céu elevado. Havia muita sabedoria também nos ditos que eram proferidos pelas Sibilas; e coisas sagradas, sagradas, foram ouvidas antigamente pelas folhas baças que tremiam em redor de Dodona — mas, por Alá que vive, essa fábula que o Demónio me contou enquanto se sentava ao meu lado na sombra do túmulo, considero ser a mais maravilhosa de todas! E quando o Demónio terminou a sua história, recuou para dentro da cavidade do túmulo e riu-se. E eu não pude rir com o Demónio, e ele amaldiçoou-me porque não pude rir. E o lince que habita para sempre no túmulo saiu de lá, e deitou-se aos pés do Demónio, e olhou-o fixamente na cara.

A MÁSCARA DA MORTE RUBRA.

A “Morte Rubra” devastara o país durante muito tempo. Nenhuma pestilência fora tão fatal, ou tão hedionda. O sangue era o seu Avatar e o seu selo — a vermelhidão e o horror do sangue. Havia dores agudas, e tonturas súbitas, e depois hemorragia profusa pelos poros, com dissolução. As manchas escarlates sobre o corpo, e especialmente sobre o rosto da vítima, eram o estigma da peste que a bania da ajuda e da simpatia dos seus semelhantes. E todo o ataque, progresso e terminação da doença, eram os incidentes de meia hora.

Mas o Príncipe Prospero era feliz, destemido e sagaz. Quando os seus domínios estavam metade despovoados, convocou à sua presença mil amigos sãos e de espírito alegre entre os cavaleiros e damas da sua corte, e com eles retirou-se para a profunda reclusão de uma das suas abadias fortificadas. Esta era uma estrutura extensa e magnífica, a criação do gosto excêntrico, porém augusto, do próprio príncipe. Uma muralha forte e elevada circundava-a. Esta muralha tinha portões de ferro. Os cortesãos, tendo entrado, trouxeram fornalhas e martelos maciços e soldaram os ferrolhos. Resolveram não deixar meios nem de entrada nem de saída aos impulsos súbitos de desespero ou de frenesim do interior. A abadia estava amplamente provida. Com tais precauções os cortesãos podiam desafiar o contágio. O mundo exterior podia cuidar de si mesmo. Entretanto, era loucura afligir-se, ou pensar. O príncipe tinha providenciado todos os meios de prazer. Havia bufões, havia improvisadores, havia bailarinos, havia músicos, havia Beleza, havia vinho. Tudo isto e a segurança estavam dentro. Fora estava a “Morte Rubra”.

Foi perto do final do quinto ou sexto mês da sua reclusão, e enquanto a pestilência grassava mais furiosamente no exterior, que o Príncipe Prospero entreteve os seus mil amigos num baile de máscaras da mais invulgar magnificência.

Era uma cena voluptuosa, aquela mascarada. Mas primeiro deixe-me falar dos salões onde se realizava. Eram sete — uma suíte imperial. Em muitos palácios, contudo, tais suítes formam uma vista longa e reta, enquanto as portas de abrir deslizam para trás quase até às paredes de cada lado, de modo que a visão de toda a extensão é dificilmente impedida. Aqui o caso era muito diferente; como se poderia esperar do amor do duque pelo bizarro. Os aposentos estavam tão irregularmente dispostos que a visão não abrangia muito mais do que um de cada vez. Havia uma curva acentuada a cada vinte ou trinta metros, e em cada curva um efeito novo. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma janela gótica alta e estreita dava para um corredor fechado que seguia as sinuosidades da suíte. Estas janelas eram de vidro colorido cuja tonalidade variava de acordo com a cor predominante das decorações da câmara em que se abria. A que ficava na extremidade oriental estava decorada, por exemplo, em azul — e vividamente azuis eram as suas janelas. A segunda câmara era púrpura nos seus ornamentos e tapeçarias, e aqui os vidros eram púrpuras. A terceira era totalmente verde, e assim eram as janelas. A quarta estava mobilada e iluminada com laranja — a quinta com branco — a sexta com violeta. O sétimo aposento estava densamente envolto em tapeçarias de veludo preto que pendiam por todo o teto e paredes, caindo em dobras pesadas sobre um tapete do mesmo material e cor. Mas apenas nesta câmara a cor das janelas não correspondia às decorações. Os vidros aqui eram escarlates — uma cor de sangue profundo. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia qualquer lâmpada ou candelabro, entre a profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados por todo o lado ou pendiam do teto. Não havia luz de qualquer tipo emanando de lâmpada ou vela dentro da suíte de câmaras. Mas nos corredores que seguiam a suíte, havia, oposto a cada janela, um tripé pesado, suportando um braseiro de fogo que projetava os seus raios através do vidro tingido e assim iluminava intensamente o quarto. E desta forma produziam-se uma multidão de aparências vistosas e fantásticas. Mas na câmara ocidental ou preta, o efeito da luz do fogo que fluía sobre os reposteiros escuros através dos vidros tingidos de sangue, era fantasmagórico ao extremo, e produzia um aspeto tão selvagem nos rostos daqueles que entravam, que havia poucos na companhia ousados o suficiente para sequer pôr os pés nas suas dependências.

Era neste aposento, também, que se erguia contra a parede ocidental um relógio gigantesco de ébano. O seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um clangor baço, pesado e monótono; e quando o ponteiro dos minutos completava o circuito do mostrador, e a hora ia ser batida, vinha dos pulmões de bronze do relógio um som que era claro e alto e profundo e extremamente musical, mas de uma nota e ênfase tão peculiares que, a cada passagem de uma hora, os músicos da orquestra eram forçados a fazer uma pausa, momentaneamente, na sua execução, para escutar o som; e assim os valsistas paravam forçosamente as suas evoluções; e havia uma breve perturbação de toda a companhia alegre; e, enquanto os sinos do relógio ainda soavam, observava-se que os mais levianos empalideciam, e os mais idosos e comedidos passavam as mãos sobre as testas como se estivessem em devaneio ou meditação confusa. Mas quando os ecos cessavam completamente, uma leve risada invadia imediatamente a assembleia; os músicos olhavam uns para os outros e sorriam como se da sua própria nervosismo e loucura, e faziam votos sussurrados, uns aos outros, de que a próxima badalada do relógio não lhes causaria emoção semelhante; e então, após a passagem de sessenta minutos (que abrangem três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), vinha ainda outra badalada do relógio, e então havia a mesma perturbação e tremor e meditação de antes.

Mas, apesar destas coisas, era uma folia alegre e magnífica. Os gostos do duque eram peculiares. Ele tinha um bom olho para cores e efeitos. Desprezava os decoros da simples moda. Os seus planos eram ousados e fogosos, e as suas conceções brilhavam com um fulgor bárbaro. Há alguns que o teriam considerado louco. Os seus seguidores sentiam que não era. Era necessário ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para ter a certeza de que não era.

Ele tinha dirigido, em grande parte, os adornos móveis das sete câmaras, por ocasião desta grande festa; e foi o seu próprio gosto orientador que deu caráter aos mascarados. Podem estar certos de que eram grotescos. Havia muito brilho e cintilação e vivacidade e fantasmagoria — muito do que tem sido visto desde então em “Hernani”. Havia figuras arabescas com membros e acessórios desajustados. Havia fantasias delirantes como as que o louco cria. Havia muito do belo, muito do lascivo, muito do bizarro, algo do terrível, e não pouco daquilo que poderia ter causado desgosto. Para lá e para cá, nas sete câmaras, vagueava, de facto, uma multidão de sonhos. E estes — os sonhos — contorciam-se aqui e ali, assumindo a tonalidade dos quartos, e fazendo com que a música selvagem da orquestra parecesse o eco dos seus passos. E, logo, soa o relógio de ébano que se ergue no salão de veludo. E então, por um momento, tudo fica imóvel, e tudo é silêncio, exceto a voz do relógio. Os sonhos congelam-se onde estão. Mas os ecos da badalada morrem — duraram apenas um instante — e uma risada leve, meio contida, flutua atrás deles enquanto partem. E agora a música sobe novamente, e os sonhos ganham vida, e contorcem-se para lá e para cá mais alegremente do que nunca, assumindo a cor das janelas multicores através das quais fluem os raios dos tripés. Mas para a câmara que fica mais a oeste das sete, já não há nenhum dos mascarados que se aventure; pois a noite está a passar; e flui uma luz mais avermelhada através dos vidros cor de sangue; e a escuridão dos reposteiros negros horroriza; e para aquele cujo pé pisa o tapete negro, vem do próximo relógio de ébano um toque abafado mais solenemente enfático do que qualquer outro que chegue aos ouvidos daqueles que se entregam às alegrias mais remotas dos outros aposentos.

Mas estes outros aposentos estavam densamente lotados, e neles batia febrilmente o coração da vida. E a folia continuava rodopiante, até que finalmente começou o soar da meia-noite no relógio. E então a música cessou, como contei; e as evoluções dos valsistas foram acalmadas; e houve uma cessação inquieta de todas as coisas como antes. Mas agora eram doze badaladas que deviam ser soadas pelo sino do relógio; e assim aconteceu, talvez, que mais pensamento se infiltrou, com mais tempo, nas meditações dos ponderados entre aqueles que festejavam. E assim, também, aconteceu, talvez, que antes de os últimos ecos da última badalada terem mergulhado completamente no silêncio, havia muitos indivíduos na multidão que tinham encontrado tempo para se tornarem conscientes da presença de uma figura mascarada que não tinha atraído a atenção de nenhum indivíduo antes. E o rumor desta nova presença tendo-se espalhado sussurrante em redor, surgiu finalmente de toda a companhia um zumbido, ou murmúrio, expressivo de desaprovação e surpresa — depois, finalmente, de terror, de horror, e de desgosto.

Numa assembleia de fantasmas como a que pintei, pode bem supor-se que nenhuma aparência comum teria causado tal sensação. Na verdade, a licença da mascarada da noite era quase ilimitada; mas a figura em questão tinha superado Herodes, e ido além dos limites mesmo do decoro indefinido do príncipe. Há cordas nos corações dos mais imprudentes que não podem ser tocadas sem emoção. Mesmo com os totalmente perdidos, para quem a vida e a morte são igualmente piadas, há assuntos sobre os quais nenhuma piada pode ser feita. A companhia inteira, de facto, parecia agora profundamente sentir que no traje e comportamento do estranho não existia nem espírito nem propriedade. A figura era alta e magra, e envolta da cabeça aos pés nas vestes da sepultura. A máscara que escondia o rosto foi feita de modo a assemelhar-se tão proximamente ao semblante de um cadáver enrijecido que o escrutínio mais próximo teria tido dificuldade em detetar a fraude. E ainda assim tudo isto poderia ter sido suportado, se não aprovado, pelos folgazões loucos em redor. Mas o mímico tinha ido tão longe ao ponto de assumir a aparência da Morte Rubra. A sua vestimenta estava salpicada de sangue — e a sua testa larga, com todos os traços do rosto, estava salpicada com o horror escarlate.

Quando os olhos do Príncipe Prospero caíram sobre esta imagem espectral (que com um movimento lento e solene, como se para sustentar mais plenamente o seu papel, caminhava para lá e para cá entre os valsistas) foi visto convulsionar-se, no primeiro momento com um forte estremecimento de terror ou de desagrado; mas, no momento seguinte, a sua testa avermelhou-se de raiva.

“Quem ousa?” perguntou ele roucamente aos cortesãos que estavam perto dele — “quem ousa insultar-nos com esta zombaria blasfema? Agarrai-o e desmascarai-o — para que possamos saber quem temos de enforcar ao nascer do sol, nas ameias!”

Foi na câmara oriental ou azul que estava o Príncipe Prospero enquanto proferia estas palavras. Elas ecoaram através das sete salas alta e claramente — pois o príncipe era um homem ousado e robusto, e a música tinha ficado silenciada ao aceno da sua mão.

Foi na sala azul que estava o príncipe, com um grupo de cortesãos pálidos ao seu lado. A princípio, enquanto ele falava, houve um ligeiro movimento impetuoso deste grupo na direção do intruso, que no momento também estava próximo e, agora, com passo deliberado e majestoso, aproximou-se mais do orador. Mas, devido a um certo temor inominável com que as loucas suposições do mascarado haviam inspirado todo o grupo, não se encontrou ninguém que estendesse a mão para agarrá-lo; de modo que, sem impedimento, ele passou a menos de um metro da pessoa do príncipe; e, enquanto a vasta assembleia, como se movida por um único impulso, recuava dos centros das salas para as paredes, ele seguiu seu caminho ininterruptamente, mas com o mesmo passo solene e medido que o distinguira desde o início, através da câmara azul para a púrpura — através da púrpura para a verde — através da verde para a laranja — através desta novamente para a branca — e até mesmo dali para a violeta, antes que qualquer movimento decidido tivesse sido feito para detê-lo. Foi então, no entanto, que o Príncipe Prospero, enlouquecendo de raiva e da vergonha de sua própria covardia momentânea, correu apressadamente através das seis câmaras, enquanto ninguém o seguia devido a um terror mortal que havia se apoderado de todos. Ele trazia erguido um punhal desembainhado e aproximara-se, em rápida impetuosidade, a uns três ou quatro pés da figura que recuava, quando esta, tendo alcançado a extremidade do apartamento de veludo, virou-se subitamente e enfrentou seu perseguidor. Houve um grito agudo — e o punhal caiu brilhando sobre o tapete de zibelina, sobre o qual, instantaneamente depois, caiu prostrado em morte o Príncipe Prospero. Então, convocando a coragem selvagem do desespero, uma multidão dos foliões atirou-se de uma vez para o apartamento negro e, agarrando o mascarado, cuja figura alta permanecia ereta e imóvel dentro da sombra do relógio de ébano, arquejou em horror inenarrável ao descobrir que as mortalhas e a máscara cadavérica que manuseavam com tanta rudeza violenta não continham nenhuma forma tangível.

E agora era reconhecida a presença da Morte Vermelha. Ele viera como um ladrão na noite. E um a um tombavam os foliões nos salões orvalhados de sangue de sua folia, e morriam cada qual na postura desesperada de sua queda. E a vida do relógio de ébano extinguiu-se com a do último dos alegres. E as chamas dos tripés expiraram. E a Escuridão e a Decadência e a Morte Vermelha detinham domínio ilimitado sobre tudo.

O BARRIL DE AMONTILLADO.

As mil injúrias de Fortunato eu suportara como melhor pude; mas quando ele se aventurou ao insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha alma, não suporeis, contudo, que dei voz a uma ameaça. Afinal, eu me vingaria; este era um ponto definitivamente resolvido — mas a própria definitividade com que fora decidido excluía a ideia de risco. Eu não deveria apenas punir, mas punir com impunidade. Um mal não é reparado quando a retribuição alcança o seu reparador. É igualmente não reparado quando o vingador falha em fazer-se sentir como tal àquele que cometeu o mal.

Deve ser entendido que nem por palavra nem por ato eu dera a Fortunato motivo para duvidar da minha boa vontade. Continuei, como era meu costume, a sorrir em seu rosto, e ele não percebeu que meu sorriso agora era pelo pensamento de sua imolação.

Ele tinha um ponto fraco — este Fortunato — embora em outros aspectos fosse um homem a ser respeitado e até temido. Ele se orgulhava de seu conhecimento especializado em vinhos. Poucos italianos têm o verdadeiro espírito virtuoso. Na maior parte, seu entusiasmo é adotado para se adequar ao tempo e à oportunidade — para praticar imposturas sobre os milionários britânicos e austríacos. Em pintura e gemologia, Fortunato, como seus compatriotas, era um charlatão — mas no que dizia respeito a vinhos antigos, ele era sincero. A este respeito, eu não diferia dele materialmente: eu mesmo era habilidoso nas safras italianas e comprava bastante sempre que podia.

Era por volta do anoitecer, uma noite durante a loucura suprema da estação de carnaval, que encontrei meu amigo. Ele me abordou com excessivo calor, pois estivera bebendo muito. O homem vestia traje de arlequim. Usava uma roupa justa de listras variadas e sua cabeça era encimada pelo gorro cônico com guizos. Fiquei tão satisfeito em vê-lo que pensei que nunca terminaria de apertar sua mão.

Eu lhe disse: “Meu caro Fortunato, que sorte encontrá-lo. Como você está com uma aparência notavelmente boa hoje! Mas recebi uma pipa do que passa por Amontillado, e tenho minhas dúvidas.”

“Como?” disse ele. “Amontillado? Uma pipa? Impossível! E no meio do carnaval!”

“Tenho minhas dúvidas”, respondi; “e fui tolo o suficiente para pagar o preço total do Amontillado sem consultar você sobre o assunto. Você não foi encontrado e eu estava com medo de perder o negócio.”

“Amontillado!”

“Tenho minhas dúvidas.”

“Amontillado!”

“E preciso satisfazê-las.”

“Amontillado!”

“Como você está ocupado, estou a caminho de Luchesi. Se alguém tem um julgamento crítico, é ele. Ele me dirá...”

“Luchesi não sabe distinguir Amontillado de Jerez.”

“E, no entanto, alguns tolos insistem que seu paladar é páreo para o seu.”

“Vamos, vamos lá.”

“Para onde?”

“Para os seus cofres.”

“Meu amigo, não; não abusarei da sua bondade. Percebo que você tem um compromisso. Luchesi...”

“Não tenho compromisso; — vamos.”

“Meu amigo, não. Não é o compromisso, mas o frio intenso com que percebo que você está afligido. Os cofres são insuportavelmente úmidos. Estão incrustados de salitre.”

“Vamos, apesar disso. O frio não é nada. Amontillado! Você foi enganado. E quanto a Luchesi, ele não sabe distinguir Jerez de Amontillado.”

Falando assim, Fortunato apossou-se do meu braço. Colocando uma máscara de seda preta e envolvendo um roquelaure firmemente ao redor do meu corpo, permiti que ele me apressasse para o meu palazzo.

Não havia criados em casa; eles tinham fugido para se divertir em honra à época. Eu lhes dissera que não voltaria até a manhã seguinte e lhes dera ordens explícitas para não se mexerem da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem sabia, para garantir seu desaparecimento imediato, todos eles, assim que eu virasse as costas.

Tirei de suas arandelas dois tocheiros e, entregando um a Fortunato, curvei-me para conduzi-lo através de vários conjuntos de salas até o arco que levava aos cofres. Desci uma longa e sinuosa escadaria, pedindo-lhe que fosse cauteloso enquanto me seguia. Chegamos finalmente ao pé da descida e ficamos juntos no chão úmido das catacumbas dos Montresors.

O passo do meu amigo era instável, e os guizos em seu gorro tilintavam enquanto ele caminhava.

“A pipa”, disse ele.

“Está mais adiante”, eu disse; “mas observe a teia branca que brilha nestas paredes de caverna.”

Ele se virou para mim e olhou em meus olhos com dois orbes baços que destilavam o reuma da embriaguez.

“Salitre?” perguntou ele, finalmente.

“Salitre”, respondi. “Há quanto tempo você tem essa tosse?”

“Ugh! ugh! ugh!—ugh! ugh! ugh!—ugh! ugh! ugh!—ugh! ugh! ugh!—ugh! ugh! ugh!”

Meu pobre amigo achou impossível responder por muitos minutos.

“Não é nada”, ele disse, finalmente.

“Vamos”, eu disse, com decisão, “voltaremos; sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz, como eu já fui um dia. Você é um homem de quem sentiriam falta. Para mim, não importa. Voltaremos; você ficará doente e eu não posso ser responsável. Além disso, tem o Luchesi...”

“Basta”, disse ele; “a tosse não é nada; não vai me matar. Não morrerei de uma tosse.”

“Verdade — verdade”, respondi; “e, de fato, eu não tinha a intenção de alarmá-lo desnecessariamente — mas você deveria usar toda a cautela apropriada. Um gole deste Medoc nos defenderá da umidade.”

Aqui, quebrei o gargalo de uma garrafa que tirei de uma longa fileira de suas companheiras que jaziam sobre o bolor.

“Beba”, eu disse, apresentando-lhe o vinho.

Ele o elevou aos lábios com um olhar oblíquo. Ele pausou e acenou para mim familiarmente, enquanto seus guizos tilintavam.

“Bebo”, disse ele, “aos enterrados que repousam ao nosso redor.”

“E eu à sua longa vida.”

Ele tomou novamente meu braço e prosseguimos.

“Estes cofres”, disse ele, “são extensos.”

“Os Montresors”, respondi, “eram uma família grande e numerosa.”

“Esqueci o seu brasão.”

“Um enorme pé humano de ouro, em um campo azul; o pé esmaga uma serpente rampante cujas presas estão cravadas no calcanhar.”

“E o lema?”

“Nemo me impune lacessit.”

“Bom!” disse ele.

O vinho cintilava em seus olhos e os guizos tilintavam. Minha própria fantasia se aqueceu com o Medoc. Tínhamos passado por paredes de ossos empilhados, com barris e pipas misturados, até os recessos mais íntimos das catacumbas. Pausou novamente e, desta vez, tomei a liberdade de agarrar Fortunato por um braço acima do cotovelo.

“O salitre!” eu disse: “veja, ele aumenta. Pendura-se como musgo nas abóbadas. Estamos abaixo do leito do rio. As gotas de umidade escorrem entre os ossos. Vamos, voltaremos antes que seja tarde demais. Sua tosse...”

“Não é nada”, disse ele; “vamos seguir. Mas primeiro, outro gole de Medoc.”

Quebrei e entreguei-lhe um frasco de De Grâve. Ele o esvaziou de um só fôlego. Seus olhos brilharam com uma luz feroz. Ele riu e jogou a garrafa para cima com um gesto que não entendi.

Olhei para ele com surpresa. Ele repetiu o movimento — um movimento grotesco.

“Você não compreende?” disse ele.

“Eu não”, respondi.

“Então você não é da irmandade.”

“Como?”

“Você não é dos maçons.”

“Sim, sim”, eu disse, “sim, sim.”

“Você? Impossível! Um maçom?”

“Um maçom”, respondi.

“Um sinal”, disse ele.

“É este”, respondi, tirando uma colher de pedreiro debaixo das dobras do meu roquelaure.

“Você brinca”, exclamou ele, recuando alguns passos. “Mas vamos prosseguir para o Amontillado.”

“Que assim seja”, eu disse, recolocando a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe novamente meu braço. Ele se apoiou pesadamente nele. Continuamos nossa rota em busca do Amontillado. Passamos por uma série de arcos baixos, descemos, passamos adiante e, descendo novamente, chegamos a uma cripta profunda, na qual a podridão do ar fazia com que nossos tocheiros mais brilhassem do que flamejassem.

Na extremidade mais remota da cripta apareceu outra menos espaçosa. Suas paredes tinham sido revestidas com restos humanos, empilhados até a abóbada acima, à moda das grandes catacumbas de Paris. Três lados desta cripta interna ainda estavam ornamentados desta maneira. Do quarto lado, os ossos tinham sido derrubados e jaziam promiscuamente sobre a terra, formando em um ponto um monte de certo tamanho. Dentro da parede assim exposta pelo deslocamento dos ossos, percebemos um recesso ainda mais interno, com cerca de quatro pés de profundidade, três de largura, e seis ou sete de altura. Parecia não ter sido construído para nenhum uso especial em si, mas formado meramente pelo intervalo entre dois dos suportes colossais do teto das catacumbas, e era apoiado por uma de suas paredes limitantes de granito sólido.

Foi em vão que Fortunato, levantando sua tocha baça, tentou perscrutar as profundezas do recesso. Sua terminação, a luz fraca não nos permitiu ver.

“Prossiga”, eu disse; “aqui dentro está o Amontillado. Quanto ao Luchesi...”

“Ele é um ignorante”, interrompeu meu amigo, enquanto avançava instavelmente, enquanto eu o seguia imediatamente em seus calcanhares. Em um instante, ele alcançou a extremidade do nicho e, descobrindo que seu progresso era impedido pela rocha, ficou estupidamente perplexo. Um momento depois, eu o tinha acorrentado ao granito. Em sua superfície havia dois grampos de ferro, distantes um do outro cerca de dois pés, horizontalmente. De um deles pendia uma corrente curta, do outro um cadeado. Jogando os elos ao redor de sua cintura, foi obra de poucos segundos prendê-la. Ele estava atônito demais para resistir. Retirando a chave, recuei do recesso.

“Passe a mão”, eu disse, “sobre a parede; você não pode deixar de sentir o salitre. De fato, é muito úmido. Mais uma vez, deixe-me implorar-lhe que volte. Não? Então devo positivamente deixá-lo. Mas primeiro devo prestar-lhe todas as pequenas atenções ao meu alcance.”

“O Amontillado!” exclamou meu amigo, ainda não recuperado de seu espanto.

“Verdade”, respondi; “o Amontillado.”

Enquanto dizia estas palavras, ocupei-me entre a pilha de ossos da qual falei anteriormente. Jogando-os de lado, logo descobri uma quantidade de pedra de construção e argamassa. Com esses materiais e com a ajuda da minha colher de pedreiro, comecei vigorosamente a murar a entrada do nicho.

Mal tinha assentado a primeira fileira da minha alvenaria quando descobri que a embriaguez de Fortunato tinha passado em grande parte. O primeiro indício que tive disso foi um grito de lamento baixo vindo das profundezas do recesso. Não era o grito de um homem bêbado. Seguiu-se então um silêncio longo e obstinado. Assentei a segunda fileira, e a terceira, e a quarta; e então ouvi as vibrações furiosas da corrente. O ruído durou por vários minutos, durante os quais, para que eu pudesse ouvi-lo com maior satisfação, interrompi meus trabalhos e sentei-me sobre os ossos. Quando finalmente o tinir diminuiu, retomei a colher de pedreiro e terminei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima fileira. A parede estava agora quase no nível do meu peito. Pausou novamente e, segurando os tocheiros sobre a alvenaria, joguei alguns raios fracos sobre a figura lá dentro.

Uma sucessão de gritos altos e estridentes, irrompendo subitamente da garganta da forma acorrentada, pareceu empurrar-me violentamente para trás. Por um breve momento hesitei — tremi. Desembainhando minha rapieira, comecei a tatear com ela ao redor do recesso; mas o pensamento de um instante me tranquilizou. Coloquei minha mão sobre a estrutura sólida das catacumbas e senti-me satisfeito. Reaproximei-me da parede. Respondi aos gritos daquele que clamava. Ecoei — ajudei — superei-os em volume e força. Fiz isso, e o clamoroso calou-se.

Era agora meia-noite, e minha tarefa estava chegando ao fim. Eu tinha completado a oitava, a nona e a décima fileira. Eu tinha terminado uma parte da última e da décima primeira; restava apenas uma única pedra a ser ajustada e rebocada. Lutei com seu peso; coloquei-a parcialmente em sua posição destinada. Mas agora veio de dentro do nicho uma risada baixa que arrepiou os pelos da minha cabeça. Foi sucedida por uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz disse —

“Ha! ha! ha! — he! he! — uma piada muito boa, de fato — um gracejo excelente. Teremos muitas boas risadas sobre isso no palazzo — he! he! he! — sobre o nosso vinho — he! he! he!”

“O Amontillado!” eu disse.

“He! he! he! — he! he! he! — sim, o Amontillado. Mas não está ficando tarde? Eles não estarão nos esperando no palazzo, a Lady Fortunato e os outros? Vamos embora.”

“Sim”, eu disse, “vamos embora.”

“Pelo amor de Deus, Montresor!”

“Sim”, eu disse, “pelo amor de Deus!”

Mas a estas palavras ouvi em vão por uma resposta. Fiquei impaciente. Chamei em voz alta —

“Fortunato!”

Nenhuma resposta. Chamei novamente —

“Fortunato!”

Ainda nenhuma resposta. Empurrei uma tocha através da abertura restante e deixei-a cair lá dentro. Veio de volta apenas um tilintar de guizos. Meu coração ficou doente — por causa da umidade das catacumbas. Apressei-me em dar fim ao meu trabalho. Forcei a última pedra para sua posição; reboquei-a. Contra a nova alvenaria, reergui o antigo baluarte de ossos. Por meio século, nenhum mortal os perturbou. *In pace requiescat!*

O DEMÔNIO DA PERVERSIDADE

Na consideração das faculdades e impulsos — dos *prima mobilia* da alma humana, os frenologistas falharam em abrir espaço para uma propensão que, embora obviamente existente como um sentimento radical, primitivo e irredutível, tem sido igualmente ignorada por todos os moralistas que os precederam. Na pura arrogância da razão, todos nós a ignoramos. Permitimos que sua existência escapasse aos nossos sentidos, unicamente por falta de crença — de fé; — seja fé na Revelação, ou fé na Cabala. A ideia dela nunca nos ocorreu, simplesmente por causa de sua desnecessidade. Não vimos necessidade do impulso — para a propensão. Não pudemos perceber sua necessidade. Não pudemos entender, isto é, não poderíamos ter entendido, se a noção deste *primum mobile* tivesse se intrometido; — não poderíamos ter entendido de que maneira poderia ser feita para promover os objetivos da humanidade, sejam temporais ou eternos. Não se pode negar que a frenologia e, em grande medida, todo o metafisicismo foram inventados *a priori*. O homem intelectual ou lógico, em vez do homem compreensivo ou observador, começou a imaginar desígnios — a ditar propósitos a Deus. Tendo assim sondado, para sua satisfação, as intenções de Jeová, a partir dessas intenções ele construiu seus inumeráveis sistemas da mente. No assunto da frenologia, por exemplo, determinamos primeiro, naturalmente o suficiente, que era o desígnio da Divindade que o homem comesse. Atribuímos então ao homem um órgão de alimentividade, e este órgão é o açoite com o qual a Divindade obriga o homem, queira ele ou não, a comer. Em segundo lugar, tendo decidido ser a vontade de Deus que o homem devesse continuar sua espécie, descobrimos um órgão de amatividade, imediatamente. E assim com a combatividade, com a idealidade, com a causalidade, com a construtividade, — assim, em suma, com cada órgão, quer representando uma propensão, um sentimento moral ou uma faculdade do puro intelecto. E nesses arranjos dos *Principia* da ação humana, os seguidores de Spurzheim, estando certos ou errados, em parte ou no todo, apenas seguiram, em princípio, os passos de seus predecessores; deduzindo e estabelecendo tudo a partir do destino preconcebido do homem, e sobre a base dos objetivos de seu Criador.

Teria sido mais sábio, teria sido mais seguro, classificar (se é que devemos classificar) com base no que o homem geralmente ou ocasionalmente fazia, e estava sempre ocasionalmente fazendo, em vez de com base no que tomamos como garantido que a Divindade pretendia que ele fizesse. Se não podemos compreender Deus em suas obras visíveis, como então em seus pensamentos inconcebíveis, que chamam as obras à existência? Se não podemos entendê-lo em suas criaturas objetivas, como então em seus estados e fases substantivas de criação?

Enquanto eu me entregava a essas meditações, a figura de uma das Fadas (pois não podia ser outra coisa) surgiu de repente na extremidade ocidental da ilha. Ela era, na verdade, a própria personificação do gênio da cena, o espírito da vitalidade terrestre. Ela caminhava sozinha, em um círculo, com um passo tão leve que não dobrava a grama, e, ao fazê-lo, ela também, de uma maneira peculiar, parecia girar em torno da ilha, como se ela mesma fosse o fulcro de sua existência. Durante algum tempo, ela não viu a minha presença; e, à medida que se movia, eu observava que seu movimento, que era sempre o mesmo, não era apenas um movimento em círculo, mas um movimento de contínua transição: ela parecia estar sempre mudando de forma. A cada passo que dava, ela se tornava, em sua própria pessoa, uma nova criatura. Ela era, sucessivamente, o ser que vive, o ser que sofre e o ser que morre.

À medida que ela se aproximava da extremidade oriental da ilha, onde a sombra era mais densa, sua forma se tornava mais sombria e seu passo mais lento; e, ao entrar nas trevas, ela parecia perder, por graus imperceptíveis, sua natureza etérea. Ela se tornava, em suma, o próprio objeto que a sombra representava. Quando ela chegou, finalmente, àquelas pequenas colinas que se assemelhavam a túmulos, seu passo tornou-se incerto e pesado; e, ao se inclinar sobre elas, ela parecia estar perdendo a própria vida, assimilando-se ao luto e ao mistério que a cercavam.

Uma, duas vezes, ela circulou a ilha com esse mesmo movimento melancólico; mas, na terceira vez, a sombra da extremidade oriental estendeu-se para além do seu limite habitual, e ela, ao ser envolvida por ela, pareceu desvanecer-se completamente. A luz do sol, que ainda brilhava intensamente na extremidade ocidental, não pôde mais encontrar sua forma; e, ao olhar para a água, vi que a pequena ilha, que antes parecia ser um refúgio de vida, estava agora completamente submersa na sombra da noite. A Fada havia se tornado parte da sombra; e a própria ilha, como se tivesse perdido seu espírito, parecia agora uma tumba flutuante sobre a corrente, enquanto o sol, por fim, desaparecia, deixando o mundo na penumbra do crepúsculo.

Compreendi, então, que a vida da Fada era o reflexo de nossa própria existência; que, como a música que só se completa na presença de quem a escuta, a beleza da natureza só se torna plena quando contemplada por uma alma capaz de sentir sua própria finitude. A ilha não era senão um espelho, e a Fada, o reflexo fugaz de um destino que, embora pareça eterno em sua essência, está condenado à transitoriedade. Levantei-me, então, e afastei-me daquele lugar, sentindo, pela primeira vez, que a solidão não é apenas a ausência de homens, mas a presença inegável de uma verdade que, na agitação do mundo, raramente ousamos encarar.

Enquanto assim meditava, com os olhos semicerrados, ao passo que o sol se precipitava rapidamente para o repouso e correntes revoltas giravam em torno da ilha, carregando em seu seio grandes e ofuscantes flocos brancos da casca do sicômoro — flocos que, em suas multiformes posições sobre a água, uma imaginação ágil poderia ter convertido em qualquer coisa que desejasse —, enquanto assim meditava, pareceu-me que a forma de uma daquelas mesmas Fadas sobre as quais eu ponderava abriu caminho lentamente para a escuridão, saindo da luz na extremidade ocidental da ilha. Ela estava ereta em uma canoa singularmente frágil e a impelia com o mero fantasma de um remo. Enquanto sob a influência dos raios solares remanescentes, sua atitude parecia indicativa de alegria, mas a tristeza a desfigurou à medida que passava para a sombra. Deslizou lentamente e, por fim, contornou o ilhéu e reentrou na região de luz. “A revolução que acaba de ser feita pela Fada”, continuei, pensativo, “é o ciclo do breve ano de sua vida. Ela flutuou através de seu inverno e através de seu verão. Ela está um ano mais próxima da Morte; pois não deixei de ver que, à medida que ela entrava na sombra, sua sombra desprendia-se dela e era engolida pela água escura, tornando sua negrura ainda mais negra.”

E novamente o barco apareceu e a Fada; mas sobre a atitude desta última havia mais de cuidado e incerteza e menos de alegria elástica. Ela flutuou novamente para fora da luz e para dentro da penumbra (que se aprofundava a cada momento) e novamente sua sombra desprendia-se dela para a água cor de ébano e tornava-se absorvida em sua negrura. E mais uma e outra vez ela fez o circuito da ilha (enquanto o sol corria para seus sonhos), e a cada saída para a luz havia mais tristeza em sua pessoa, ao passo que ela se tornava mais fraca, muito mais tênue e mais indistinta, e a cada passagem para a penumbra caía dela uma sombra mais escura, que era tragada por uma sombra ainda mais negra. Mas, ao fim, quando o sol havia partido por completo, a Fada, agora o mero fantasma de seu antigo eu, seguiu desconsolada com seu barco para a região do dilúvio de ébano — e se ela de lá saiu, não posso dizer, pois a escuridão caiu sobre todas as coisas e não contemplei mais sua figura mágica.

O ENCONTRO

Espera por mim lá! Não falharei. Em encontrar-te naquele vale profundo.

(_Exéquias pela morte de sua esposa, por Henry King, Bispo de Chichester._)

Homem malfadado e misterioso! — confundido no brilho de tua própria imaginação e caído nas chamas de tua própria juventude! Novamente, na fantasia, contemplo-te! Mais uma vez tua forma ergueu-se diante de mim! — não — oh! não como tu és — no frio vale e na sombra — mas como deverias ser — desperdiçando uma vida de meditação magnífica naquela cidade de visões difusas, a tua própria Veneza — que é um Elísio do mar amado pelas estrelas, e cujas largas janelas dos palácios palladianos olham para baixo com um significado profundo e amargo sobre os segredos de suas águas silenciosas. Sim! repito-o — como tu deverias ser. Existem, certamente, outros mundos além deste — outros pensamentos além dos pensamentos da multidão — outras especulações além das especulações do sofista. Quem, então, colocará a tua conduta em questão? Quem te culpará por tuas horas visionárias ou denunciará como um desperdício de vida aquelas ocupações que não eram senão o transbordamento de tuas energias eternas?

Foi em Veneza, sob o arco coberto ali chamado Ponte di Sospiri, que encontrei pela terceira ou quarta vez a pessoa de quem falo. É com uma lembrança confusa que recordo as circunstâncias desse encontro. Contudo, lembro-me — ah! como poderia esquecer? — da meia-noite profunda, da Ponte dos Suspiros, da beleza da mulher e do Gênio do Romance que caminhava de um lado para o outro no canal estreito.

Era uma noite de penumbra incomum. O grande relógio da Piazza soara a quinta hora da noite italiana. A praça do Campanile jazia silenciosa e deserta, e as luzes no antigo Palácio Ducal estavam morrendo rapidamente. Eu retornava para casa da Piazetta, pelo Grande Canal. Mas quando minha gôndola chegou em frente à boca do canal San Marco, uma voz feminina, vinda de seus recessos, irrompeu subitamente na noite, em um grito selvagem, histérico e longamente prolongado. Sobressaltado com o som, saltei sobre meus pés: enquanto o gondoleiro, deixando escapar seu único remo, perdeu-o na escuridão densa sem qualquer possibilidade de recuperação, e ficamos, consequentemente, entregues à orientação da corrente que aqui segue do canal maior para o menor. Como um enorme condor de penas cor de zibelina, derivávamos lentamente em direção à Ponte dos Suspiros, quando mil tochas flamejantes, das janelas e pelas escadarias do Palácio Ducal, transformaram, de uma só vez, aquela penumbra profunda em um dia lívido e sobrenatural.

Uma criança, escapando dos braços de sua própria mãe, caíra de uma janela superior da alta estrutura para o canal profundo e sombrio. As águas quietas haviam se fechado placidamente sobre sua vítima; e, embora minha própria gôndola fosse a única à vista, muitos nadadores vigorosos, já na correnteza, procuravam em vão, na superfície, o tesouro que deveria ser encontrado, ai de mim!, apenas dentro do abismo. Sobre as largas lajes de mármore negro na entrada do palácio, e alguns degraus acima da água, estava uma figura que ninguém que a viu então pode ter esquecido desde aquele momento. Era a Marchesa Aphrodite — a adoração de toda Veneza — a mais alegre das alegres — a mais adorável onde todas eram belas — mas, ainda assim, a jovem esposa do velho e intrigante Mentoni, e a mãe daquela bela criança, sua primeira e única, que agora, no fundo da água turva, pensava com amargura de coração em suas doces carícias e esgotava sua pequena vida em lutas para chamar por seu nome.

Ela estava sozinha. Seus pés pequenos, nus e prateados brilhavam no espelho negro de mármore abaixo dela. Seu cabelo, ainda não mais do que meio solto para a noite de sua ornamentação de salão, agrupava-se, em meio a uma chuva de diamantes, em torno de sua cabeça clássica, em cachos como os do jovem jacinto. Uma vestimenta branca como a neve e semelhante a gaze parecia ser quase a única cobertura de sua forma delicada; mas o ar de meados do verão e da meia-noite era quente, soturno e imóvel, e nenhum movimento na forma semelhante a uma estátua perturbou sequer as dobras daquele traje de puro vapor que pairava ao seu redor, como o pesado mármore paira ao redor da Níobe. Contudo — estranho dizer! — seus grandes olhos lustrosos não estavam voltados para baixo, para aquele túmulo onde jazia enterrada sua esperança mais brilhante — mas cravados em uma direção amplamente diferente! A prisão da Antiga República é, creio eu, o edifício mais majestoso de toda Veneza — mas como poderia aquela dama fitá-lo tão fixamente, quando abaixo dela jazia sufocando seu único filho? Aquele nicho escuro e sombrio, também, boceja bem em frente à janela de seu aposento — o que, então, poderia haver em suas sombras — em sua arquitetura — em suas solenes cornijas cobertas de hera — que a Marchesa di Mentoni não tivesse admirado mil vezes antes? Tolice! — Quem não se lembra de que, em um momento como este, o olho, como um espelho estilhaçado, multiplica as imagens de sua tristeza e vê, em incontáveis lugares distantes, a dor que está bem próxima?

Muitos degraus acima da Marchesa, e dentro do arco do portão de água, estava, em traje de gala, a figura semelhante a um Sátiro do próprio Mentoni. Ele estava ocasionalmente ocupado em dedilhar um violão e parecia *ennuyé* até a morte, enquanto, em intervalos, dava direções para a recuperação de seu filho. Estupefato e horrorizado, eu mesmo não tive forças para mover-me da posição ereta que assumira ao ouvir o grito pela primeira vez, e devo ter apresentado aos olhos do grupo agitado uma aparência espectral e sinistra, enquanto, com semblante pálido e membros rígidos, flutuava entre eles naquela gôndola fúnebre.

Todos os esforços revelaram-se vãos. Muitos dos mais enérgicos na busca estavam relaxando seus esforços e cedendo a uma dor sombria. Parecia haver pouca esperança para a criança; (quanto menos do que para a mãe!) mas agora, do interior daquele nicho escuro que já foi mencionado como formando uma parte da prisão da Antiga República e como voltado para a treliça da Marchesa, uma figura envolta em uma capa saiu para dentro do alcance da luz e, pausando um momento à beira da descida vertiginosa, mergulhou de cabeça no canal. Como, um instante depois, ele estava com a criança ainda viva e respirando em seu domínio, sobre as lajes de mármore ao lado da Marchesa, sua capa, pesada pela água que a encharcava, desfez-se e, caindo em dobras ao redor de seus pés, revelou aos espectadores maravilhados a figura graciosa de um homem muito jovem, com cujo nome a maior parte da Europa estava então ressoando.

Nenhuma palavra disse o libertador. Mas a Marchesa! Ela agora receberá seu filho — ela o pressionará contra seu coração — ela se agarrará à sua pequena forma e o sufocará com suas carícias. Ai de mim! os braços de outro tomaram-no do estranho — os braços de outro levaram-no embora e carregaram-no para longe, sem ser notado, para dentro do palácio! E a Marchesa! Seu lábio — seu belo lábio treme; lágrimas se acumulam em seus olhos — aqueles olhos que, como o acanto de Plínio, são “suaves e quase líquidos”. Sim! lágrimas se acumulam naqueles olhos — e vejam! a mulher inteira estremece em toda a alma, e a estátua ganhou vida! A palidez do semblante de mármore, o inchar do seio de mármore, a própria pureza dos pés de mármore, vemos subitamente tingidos por uma maré de carmesim incontrolável; e um leve estremecimento vibra ao redor de sua estrutura delicada, como um ar suave em Nápoles ao redor dos ricos lírios prateados na grama.

Por que deveria aquela dama corar! Para esta demanda não há resposta — exceto que, tendo deixado, na pressa ansiosa e no terror do coração de uma mãe, a privacidade de seu próprio boudoir, ela negligenciou envolver seus pés minúsculos em suas pantufas e esqueceu-se completamente de lançar sobre seus ombros venezianos aquela vestimenta que lhes é devida. Que outra razão possível poderia ter havido para ela corar assim? — pelo olhar daqueles olhos selvagens e suplicantes? — pelo tumulto incomum daquele seio palpitante? — pela pressão convulsiva daquela mão trêmula? — aquela mão que caiu, quando Mentoni virou-se para o palácio, acidentalmente, sobre a mão do estranho. Que razão poderia ter havido para o tom baixo — singularmente baixo — daquelas palavras sem sentido que a dama pronunciou apressadamente ao despedir-se dele? “Tu venceste”, disse ela, ou os murmúrios da água me enganaram; “tu venceste — uma hora após o nascer do sol — nós nos encontraremos — que assim seja!”

O tumulto havia diminuído, as luzes haviam se apagado dentro do palácio, e o estranho, que agora reconheci, estava sozinho sobre as lajes. Ele tremia com uma agitação inconcebível, e seu olho perscrutava ao redor em busca de uma gôndola. Não pude fazer menos do que oferecer-lhe o serviço da minha; e ele aceitou a cortesia. Tendo obtido um remo no portão de água, seguimos juntos para sua residência, enquanto ele recuperava rapidamente sua compostura e falava de nosso breve conhecimento anterior em termos de grande cordialidade aparente.

Existem alguns assuntos sobre os quais sinto prazer em ser minucioso. A pessoa do estranho — permitam-me chamá-lo por este título, que para todo o mundo ainda era um estranho — a pessoa do estranho é um desses assuntos. Em altura, ele poderia estar abaixo, em vez de acima, do tamanho médio: embora houvesse momentos de intensa paixão em que sua estrutura realmente se expandia e desmentia a afirmação. A simetria leve, quase esguia de sua figura, prometia mais daquela prontidão de atividade que ele demonstrou na Ponte dos Suspiros do que daquela força hercúlea que se sabe ter ele exercido sem esforço, em ocasiões de emergência mais perigosas. Com a boca e o queixo de uma divindade — olhos singulares, selvagens, cheios, líquidos, cujas sombras variavam do avelã puro ao azeviche intenso e brilhante — e uma profusão de cabelo preto e encaracolado, do qual uma testa de largura incomum brilhava em intervalos toda luz e marfim — seus eram traços como os quais não vi nenhum mais classicamente regular, exceto, talvez, os de mármore do Imperador Cômodo. Contudo, seu semblante era, não obstante, um daqueles que todos os homens viram em algum período de suas vidas e nunca mais viram depois. Não tinha nenhuma expressão peculiar, nenhuma expressão predominante e estabelecida para ser fixada na memória; um semblante visto e instantaneamente esquecido, mas esquecido com um desejo vago e incessante de trazê-lo de volta à mente. Não que o espírito de cada paixão rápida deixasse, em qualquer momento, de lançar sua própria imagem distinta no espelho daquele rosto — mas que o espelho, semelhante a um espelho, não retinha nenhum vestígio da paixão, quando a paixão havia partido.

Ao deixá-lo na noite de nossa aventura, ele solicitou-me, de uma forma que achei urgente, que o visitasse muito cedo na manhã seguinte. Pouco depois do nascer do sol, encontrei-me, consequentemente, em seu Palazzo, uma daquelas enormes estruturas de pompa sombria, porém fantástica, que se erguem acima das águas do Grande Canal nas proximidades do Rialto. Fui conduzido por uma ampla escadaria sinuosa de mosaicos até um apartamento cujo esplendor sem paralelo irrompeu através da porta que se abria com um brilho real, deixando-me cego e tonto de luxúria.

Eu sabia que meu conhecido era rico. A fama falara de seus bens em termos que eu até me arrisquei a chamar de termos de exagero ridículo. Mas, ao olhar ao meu redor, não consegui acreditar que a riqueza de qualquer súdito na Europa pudesse ter suprido a magnificência principesca que ardia e flamejava ao redor.

Embora, como digo, o sol tivesse nascido, o aposento ainda estava brilhantemente iluminado. Julgo por essa circunstância, assim como por um ar de exaustão no semblante de meu amigo, que ele não se retirara para a cama durante toda a noite anterior. Na arquitetura e nos adornos da câmara, o design evidente fora ofuscar e pasmar. Pouca atenção fora dada ao decoro do que é tecnicamente chamado de harmonia, ou às propriedades da nacionalidade. O olho vagava de objeto para objeto e não descansava em nenhum — nem nos grotescos dos pintores gregos, nem nas esculturas dos melhores dias italianos, nem nas enormes esculturas do Egito inculto. Cortinas ricas em todas as partes da sala tremiam com a vibração de uma música baixa e melancólica, cuja origem não podia ser descoberta. Os sentidos eram oprimidos por perfumes misturados e conflitantes, que emanavam de estranhos incensários convolutos, juntamente com numerosas línguas de fogo cor de esmeralda e violeta que flamejavam e tremeluziam. Os raios do sol recém-nascido despejavam-se sobre tudo, através de janelas, cada uma formada por um único painel de vidro tingido de carmesim. Deslizando de um lado para o outro, em mil reflexos, a partir de cortinas que rolavam de suas cornijas como cataratas de prata fundida, os feixes de glória natural misturavam-se, enfim, de forma intermitente com a luz artificial e jaziam em massas submissas sobre um tapete de rico tecido de ouro do Chile, de aspecto líquido.

“Ha! ha! ha! — ha! ha! ha!” — riu o proprietário, gesticulando para que eu me sentasse ao entrar no aposento, e jogando-se de costas em toda a extensão sobre um otomano. “Vejo”, disse ele, percebendo que não conseguia reconciliar-me imediatamente com a *bienséance* de uma recepção tão singular — “vejo que você está atônito com meu apartamento — com minhas estátuas — meus quadros — minha originalidade de concepção em arquitetura e estofamento! absolutamente embriagado, eh, com minha magnificência? Mas perdoe-me, meu caro senhor, (aqui seu tom de voz caiu para o próprio espírito de cordialidade,) perdoe-me pelo meu riso pouco caridoso. Você parecia tão completamente atônito. Além disso, algumas coisas são tão completamente ridículas que um homem deve rir ou morrer. Morrer rindo deve ser a mais gloriosa de todas as mortes gloriosas! Sir Thomas More — um homem muito fino era Sir Thomas More — Sir Thomas More morreu rindo, você se lembra. Também nas *Absurdities* de Ravisius Textor, há uma longa lista de personagens que tiveram o mesmo fim magnífico. Sabe, contudo”, continuou ele pensativo, “que em Esparta (que agora é Palæochori), em Esparta, digo, a oeste da cidadela, entre um caos de ruínas mal visíveis, há uma espécie de embasamento, no qual ainda são legíveis as letras ΛΑΞΜ. Elas são, sem dúvida, parte de ΓΕΛΑΞΜΑ. Ora, em Esparta havia mil templos e santuários para mil divindades diferentes. Como é estranhamente estranho que o altar do Riso tenha sobrevivido a todos os outros! Mas, no caso presente”, retomou ele, com uma alteração singular de voz e maneira, “não tenho o direito de ser alegre à sua custa. Você poderia muito bem ter ficado espantado. A Europa não pode produzir nada tão refinado quanto este, meu pequeno gabinete real. Meus outros apartamentos não são de forma alguma da mesma ordem — meros extremos de insipidez elegante. Isto é melhor do que a moda — não é? Contudo, isto só precisa ser visto para se tornar a moda — isto é, com aqueles que poderiam pagar por isso ao custo de todo o seu patrimônio. Guardei-me, contudo, contra tal profanação. Com uma exceção, você é o único ser humano além de mim e de meu criado que foi admitido dentro dos mistérios destes recintos imperiais, desde que foram enfeitados como você vê!”

Curvei-me em agradecimento — pois a sensação avassaladora de esplendor e perfume, e música, juntamente com a excentricidade inesperada de seu discurso e maneira, impediu-me de expressar, em palavras, minha apreciação pelo que eu poderia ter interpretado como um elogio.

“Aqui”, retomou ele, levantando-se e apoiando-se em meu braço enquanto caminhava pelo apartamento, “aqui estão pinturas dos gregos a Cimabue, e de Cimabue até a hora presente. Muitas são escolhidas, como você vê, com pouca deferência às opiniões de *Virtù*. São todas, contudo, tapeçaria adequada para uma câmara como esta. Aqui, também, estão algumas *chefs d’oeuvre* dos grandes desconhecidos; e aqui, desenhos inacabados de homens, celebrados em seu tempo, cujos nomes a perspicácia das academias deixou para o silêncio e para mim. O que pensa”, disse ele, virando-se bruscamente enquanto falava — “o que pensa desta *Madonna della Pieta*?”

“É do próprio Guido!” eu disse, com todo o entusiasmo de minha natureza, pois estivera contemplando atentamente sua beleza insuperável. “É do próprio Guido! — como pôde obtê-la? — ela é, sem dúvida, na pintura, o que a Vênus é na escultura.”

“Ha!” disse ele pensativamente, “a Vênus — a bela Vênus? — a Vênus de Médici? — ela da cabeça diminuta e do cabelo dourado? Parte do braço esquerdo (aqui sua voz caiu para ser ouvida com dificuldade) e todo o direito são restaurações; e na coqueteria daquele braço direito reside, creio eu, a quintessência de toda a afetação. Dê-me o Canova! O Apolo, também, é uma cópia — não pode haver dúvida disso — tolo cego que sou, que não pode contemplar a decantada inspiração do Apolo! Não posso deixar de — perdoe-me! — não posso deixar de preferir o Antínoo. Não foi Sócrates quem disse que o escultor encontrou sua estátua no bloco de mármore? Então Michelangelo não foi, de forma alguma, original em seu dístico —

‘Non ha l’ottimo artista alcun concetto Che un marmo solo in se non circunscriva.’”

Tem sido, ou deveria ser, observado que, na maneira do verdadeiro cavalheiro, estamos sempre cientes de uma diferença em relação ao comportamento do vulgar, sem sermos imediatamente capazes de determinar com precisão em que consiste tal diferença. Permitindo que a observação se aplicasse em toda a sua força ao comportamento exterior de meu conhecido, senti-a, naquela manhã memorável, ainda mais plenamente aplicável ao seu temperamento moral e caráter. Nem posso definir melhor aquela peculiaridade de espírito que parecia colocá-lo tão essencialmente à parte de todos os outros seres humanos, do que chamando-a de um hábito de pensamento intenso e contínuo, permeando até suas ações mais triviais — intrometendo-se em seus momentos de galanteio — e entrelaçando-se com seus próprios lampejos de alegria — como águas que se contorcem para fora dos olhos das máscaras sorridentes nas cornijas ao redor dos templos de Persépolis.

Não pude deixar, no entanto, de observar repetidamente, através do tom misto de leviandade e solenidade com que ele discorria rapidamente sobre assuntos de pouca importância, um certo ar de trepidação — um grau de unção nervosa nas ações e na fala — uma excitabilidade inquieta de modos que me parecia, em todos os momentos, inexplicável e, em algumas ocasiões, até mesmo me enchia de alarme. Frequentemente, também, ao fazer uma pausa no meio de uma frase cujo início ele aparentemente esquecera, parecia estar ouvindo com a mais profunda atenção, como se estivesse em expectativa momentânea de um visitante, ou como se escutasse sons que deveriam ter existência apenas em sua imaginação.

Foi durante um desses devaneios ou pausas de aparente abstração que, ao folhear uma página da bela tragédia do poeta e erudito Poliziano, “O Orfeo” (a primeira tragédia italiana nativa), que jazia perto de mim sobre um otomano, descobri uma passagem sublinhada a lápis. Era uma passagem perto do final do terceiro ato — uma passagem da mais estimulante excitação — uma passagem que, embora manchada de impureza, nenhum homem lerá sem um estremecimento de nova emoção — nenhuma mulher sem um suspiro. A página inteira estava borrada com lágrimas frescas; e, na folha oposta, estavam as seguintes linhas em inglês, escritas com uma letra tão diferente dos caracteres peculiares do meu conhecido que tive alguma dificuldade em reconhecê-la como sendo dele:—

Tu eras tudo para mim, amor, Por que minha alma suspirava — Uma ilha verde no mar, amor, Uma fonte e um santuário, Tudo coroado com frutos e flores de fada; E todas as flores eram minhas.

Ah, sonho brilhante demais para durar! Ah, Esperança estelar, que surgiste Apenas para seres obscurecida! Uma voz vinda do Futuro clama, “Adiante!” — mas sobre o Passado (Golfo sombrio!) minha alma paira, Muda — imóvel — atônita!

Pois ai! ai! comigo A luz da vida se findou. “Nunca mais — nunca mais — nunca mais”, (Tal linguagem mantém o mar solene Para as areias na costa,) Florescerá a árvore atingida pelo raio, Ou a águia ferida voará!

Agora todas as minhas horas são transes; E todos os meus sonhos noturnos Estão onde o olho escuro vislumbra, E onde o teu passo brilha, Em que danças etéreas, Por que riachos italianos.

Ai! daquele tempo maldito Levaram-te sobre a vaga, Do Amor para a idade titulada e o crime, E um travesseiro profano! — De mim, e do nosso clima enevoado, Onde chora o salgueiro prateado!

Que essas linhas estivessem escritas em inglês — um idioma com o qual eu não acreditava que seu autor estivesse familiarizado — proporcionou-me pouco motivo de surpresa. Eu estava bem ciente da extensão de seus conhecimentos, e do prazer singular que ele tinha em escondê-los da observação, para me espantar com qualquer descoberta semelhante; mas o local da data, devo confessar, causou-me não pouco espanto. Tinha sido originalmente escrito Londres, e depois cuidadosamente riscado — não, contudo, de forma tão eficaz a ponto de ocultar a palavra de um olho perspicaz. Digo, isso me causou não pouco espanto; pois lembro-me bem de que, em uma conversa anterior com um amigo, perguntei particularmente se ele havia encontrado em Londres, em qualquer época, a Marchesa di Mentoni, (que por alguns anos antes de seu casamento residira naquela cidade), quando sua resposta, se não me engano, deu-me a entender que ele nunca visitara a metrópole da Grã-Bretanha. Poderia mencionar aqui, também, que ouvi mais de uma vez (sem, é claro, dar crédito a um relato que envolvia tantas improbabilidades) que a pessoa de quem falo era, não apenas por nascimento, mas por educação, um inglês.

“Há uma pintura”, disse ele, sem perceber minha atenção à tragédia — “ainda há uma pintura que você não viu”. E, afastando uma cortina, revelou um retrato de corpo inteiro da Marchesa Aphrodite.

A arte humana não poderia ter feito mais na delineação de sua beleza sobre-humana. A mesma figura etérea que estava diante de mim na noite anterior nos degraus do Palácio Ducal, estava diante de mim mais uma vez. Mas, na expressão do semblante, que irradiava sorrisos por toda parte, ainda espreitava (anomalia incompreensível!) aquela mancha instável de melancolia que sempre será encontrada inseparável da perfeição do belo. Seu braço direito estava dobrado sobre o seio. Com a esquerda, apontava para baixo, para um vaso de feitio curioso. Um pé pequeno, de fada, o único visível, mal tocava a terra; e, dificilmente discernível na atmosfera brilhante que parecia cercar e consagrar sua formosura, flutuava um par das asas mais delicadamente imaginadas. Meu olhar caiu da pintura para a figura do meu amigo, e as palavras vigorosas de *Bussy D’Ambois*, de Chapman, vibraram instintivamente em meus lábios:

“Ele está lá Como uma estátua romana! Ele ficará Até que a Morte o tenha tornado mármore!”

“Venha”, disse ele, por fim, voltando-se para uma mesa de prata maciça e ricamente esmaltada, sobre a qual havia algumas taças fantasticamente manchadas, juntamente com dois grandes vasos etruscos, feitos no mesmo modelo extraordinário daquele em primeiro plano do retrato, e cheios do que suponho ser Johannisberger. “Venha”, disse ele, abruptamente, “vamos beber! É cedo — mas vamos beber. É de fato cedo”, continuou ele, pensativo, enquanto um querubim com um martelo de ouro pesado fazia o apartamento ressoar com a primeira hora após o nascer do sol: “É de fato cedo — mas o que importa? Vamos beber! Vamos derramar uma oferta a esse sol solene que estas luzes e incensários vistosos estão tão ansiosos por subjugar!” E, tendo-me feito brindar com ele em uma taça cheia, ele engoliu em rápida sucessão várias taças do vinho.

“Sonhar”, continuou ele, retomando o tom de sua conversa desconexa, enquanto segurava contra a luz rica de um incensário um dos vasos magníficos — “sonhar tem sido o negócio da minha vida. Por isso, construí para mim, como você vê, um caramanchão de sonhos. No coração de Veneza, poderia ter erguido um melhor? Você contempla ao seu redor, é verdade, uma mistura de adornos arquitetônicos. A castidade da Jônia é ofendida por dispositivos antediluvianos, e as esfinges do Egito estão estendidas sobre tapetes de ouro. Contudo, o efeito é incongruente apenas para os tímidos. As conveniências de lugar, e especialmente de tempo, são os monstros que aterrorizam a humanidade da contemplação do magnífico. Outrora, eu mesmo fui um decorista; mas essa sublimação da loucura tornou-se insípida para a minha alma. Tudo isso agora é mais adequado ao meu propósito. Como esses incensários arabescos, meu espírito está se contorcendo em fogo, e o delírio desta cena está me moldando para as visões mais selvagens daquela terra de sonhos reais para a qual agora estou partindo rapidamente.” Ele aqui fez uma pausa abrupta, curvou a cabeça sobre o peito e pareceu ouvir um som que eu não podia ouvir. Finalmente, erguendo seu corpo, olhou para cima e exclamou as linhas do Bispo de Chichester:

“Espera por mim lá! Não falharei Em encontrar-te naquele vale profundo.”

No instante seguinte, confessando o poder do vinho, ele se jogou de corpo inteiro sobre um otomano.

Um passo rápido foi então ouvido na escada, e uma batida forte na porta sucedeu rapidamente. Eu estava me apressando para antecipar uma segunda perturbação, quando um pajem da casa de Mentoni irrompeu no quarto e balbuciou, com uma voz sufocada pela emoção, as palavras incoerentes: “Minha senhora! — minha senhora! — Envenenada! — envenenada! Oh, bela — oh, bela Aphrodite!”

Atordoado, voei para o otomano e tentei despertar o adormecido para o sentido da notícia surpreendente. Mas seus membros estavam rígidos — seus lábios estavam lívidos — seus olhos, recentemente brilhantes, estavam fixos na morte. Cambaleei de volta para a mesa — minha mão caiu sobre uma taça rachada e enegrecida — e uma consciência da verdade total e terrível brilhou subitamente em minha alma.

O POÇO E O PÊNDULO

Impia tortorum longos hic turba furores Sanguinis innocui, non satiata, aluit. Sospite nunc patria, fracto nunc funeris antro, Mors ubi dira fuit vita salusque patent.

[*Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido no local da sede do Clube Jacobino em Paris*.]

Eu estava doente — doente até a morte com aquela longa agonia; e quando finalmente me desamarraram, e me foi permitido sentar, senti que meus sentidos estavam me deixando. A sentença — a terrível sentença de morte — foi a última de acentuação distinta que chegou aos meus ouvidos. Depois disso, o som das vozes inquisitoriais pareceu fundir-se em um zumbido onírico e indeterminado. Transmitia à minha alma a ideia de revolução — talvez por sua associação na fantasia com o ruído de uma roda de moinho. Isso apenas por um breve período, pois, logo, não ouvi mais nada. Contudo, por um tempo, vi — mas com que exagero terrível! Vi os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos — mais brancos do que a folha sobre a qual traço estas palavras — e finos até o grotesco; finos com a intensidade de sua expressão de firmeza — de resolução inabalável — de severo desprezo pela tortura humana. Vi que os decretos do que para mim era o Destino ainda estavam saindo daqueles lábios. Vi-os contorcerem-se com uma locução mortal. Vi-os formar as sílabas do meu nome; e estremeci porque nenhum som se seguiu. Vi também, por alguns momentos de horror delirante, o movimento suave e quase imperceptível das tapeçarias de zibelina que envolviam as paredes do apartamento. E então meu olhar caiu sobre as sete velas altas sobre a mesa. A princípio, tinham o aspecto da caridade e pareciam anjos brancos e esguios que me salvariam; mas então, de repente, uma náusea mortal tomou conta do meu espírito, e senti cada fibra do meu corpo vibrar como se tivesse tocado o fio de uma bateria galvânica, enquanto as formas angelicais tornavam-se espectros sem sentido, com cabeças de chama, e vi que delas não haveria ajuda. E então, esgueirou-se em minha fantasia, como uma nota musical rica, o pensamento de que descanso doce deve haver no túmulo. O pensamento veio suave e furtivamente, e pareceu levar muito tempo até atingir a plena compreensão; mas exatamente quando meu espírito finalmente chegou a sentir e entretê-lo adequadamente, as figuras dos juízes desapareceram, como que magicamente, diante de mim; as velas altas afundaram no nada; suas chamas apagaram-se completamente; a escuridão absoluta sobreveio; todas as sensações pareceram engolidas em uma descida apressada e louca como a da alma para o Hades. Então o silêncio, a quietude, a noite foram o universo.

Eu havia desmaiado; mas ainda assim não direi que toda a consciência foi perdida. O que restou dela não tentarei definir, ou mesmo descrever; mas nem tudo estava perdido. No sono mais profundo — não! No delírio — não! Em um desmaio — não! Na morte — não! mesmo no túmulo nem tudo está perdido. Caso contrário, não há imortalidade para o homem. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia de aranha de algum sonho. No entanto, um segundo depois (tão frágil pode ter sido essa teia), não nos lembramos de que sonhamos. No retorno à vida a partir do desmaio, há dois estágios; primeiro, o do sentido da existência mental ou espiritual; segundo, o do sentido da existência física. Parece provável que se, ao alcançar o segundo estágio, pudéssemos recordar as impressões do primeiro, encontraríamos essas impressões eloquentes em memórias do golfo além. E esse golfo é — o quê? Como, pelo menos, distinguiremos suas sombras das do túmulo? Mas se as impressões do que chamei de primeiro estágio não são, à vontade, recordadas, ainda assim, após um longo intervalo, não vêm elas sem serem convidadas, enquanto nos maravilhamos de onde vêm? Aquele que nunca desmaiou, não é ele quem encontra palácios estranhos e rostos selvagemente familiares em brasas que brilham; não é ele quem contempla flutuando no ar as visões tristes que muitos não podem ver; não é ele quem pondera sobre o perfume de alguma flor nova; não é ele cujo cérebro fica confuso com o significado de alguma cadência musical que nunca antes prendeu sua atenção.

Em meio a frequentes e pensativos esforços para lembrar; em meio a lutas fervorosas para reunir algum sinal do estado de aparente nada em que minha alma havia caído, houve momentos em que sonhei com o sucesso; houve períodos breves, muito breves, em que conjurei lembranças que a razão lúcida de uma época posterior me assegura que poderiam ter se referido apenas àquela condição de aparente inconsciência. Essas sombras da memória contam, indistintamente, de figuras altas que me ergueram e carregaram em silêncio para baixo — para baixo — sempre para baixo — até que uma tontura hedionda me oprimiu apenas com a ideia da interminabilidade da descida. Contam também de um horror vago em meu coração, por conta da imobilidade antinatural daquele coração. Então vem um sentido de súbita imobilidade em todas as coisas; como se aqueles que me carregaram (um cortejo fantasmagórico!) tivessem superado, em sua descida, os limites do ilimitado, e feito uma pausa da fadiga de seu labutar. Depois disso, lembro-me da planície e da umidade; e então tudo é loucura — a loucura de uma memória que se ocupa com coisas proibidas.

Muito subitamente, retornaram à minha alma o movimento e o som — o movimento tumultuado do coração e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Então uma pausa na qual tudo é vazio. Então novamente som, e movimento, e toque — uma sensação de formigamento percorrendo meu corpo. Então a mera consciência da existência, sem pensamento — uma condição que durou muito tempo. Então, muito subitamente, o pensamento, e o terror arrepiante, e o esforço fervoroso para compreender meu verdadeiro estado. Então um forte desejo de cair em insensibilidade. Então um reavivamento apressado da alma e um esforço bem-sucedido para me mover. E agora uma memória completa do julgamento, dos juízes, das tapeçarias de zibelina, da sentença, da doença, do desmaio. Então o esquecimento total de tudo o que se seguiu; de tudo o que um dia posterior e muito esforço fervoroso me permitiram recordar vagamente.

Até aqui, eu não havia aberto meus olhos. Senti que estava deitado de costas, desamarrado. Estendi a mão, e ela caiu pesadamente sobre algo úmido e duro. Ali a deixei por muitos minutos, enquanto me esforçava para imaginar onde e o que eu poderia ser. Ansiava, mas não ousava usar minha visão. Temia o primeiro olhar para os objetos ao meu redor. Não era que eu temesse olhar para coisas horríveis, mas que ficava apavorado de que não houvesse nada para ver. Finalmente, com um desespero selvagem no coração, fechei rapidamente meus olhos. Meus piores pensamentos, então, foram confirmados. A escuridão da noite eterna me envolvia. Lutei por ar. A intensidade da escuridão parecia me oprimir e sufocar. A atmosfera era intoleravelmente fechada. Ainda me deitei quieto e fiz esforço para exercitar minha razão. Trouxe à mente os procedimentos inquisitoriais e tentei, a partir daquele ponto, deduzir minha condição real. A sentença fora proferida; e parecia-me que um intervalo de tempo muito longo havia se passado desde então. No entanto, nem por um momento supus que estivesse realmente morto. Tal suposição, apesar do que lemos na ficção, é totalmente inconsistente com a existência real; — mas onde e em que estado eu estava? Os condenados à morte, eu sabia, pereciam geralmente nos autos-da-fé, e um deles fora realizado na própria noite do dia do meu julgamento. Teria sido enviado de volta para a minha masmorra, para aguardar o próximo sacrifício, que não ocorreria por muitos meses? Isso vi imediatamente que não poderia ser. Vítimas eram necessárias imediatamente. Além disso, minha masmorra, bem como todas as celas dos condenados em Toledo, tinha piso de pedra, e a luz não era totalmente excluída.

Uma ideia terrível agora subitamente enviou o sangue em torrentes ao meu coração e, por um breve período, caí mais uma vez em insensibilidade. Ao recuperar-me, levantei-me de um salto, tremendo convulsivamente em cada fibra. Lancei meus braços descontroladamente acima e ao meu redor em todas as direções. Não senti nada; ainda assim, temia dar um passo, para não ser impedido pelas paredes de um túmulo. O suor brotou de cada poro e ficou em gotas frias e grandes em minha testa. A agonia da incerteza tornou-se, por fim, intolerável, e movi-me cautelosamente para frente, com os braços estendidos e os olhos saltando das órbitas, na esperança de captar algum raio fraco de luz. Prosegui por muitos passos; mas ainda assim tudo era escuridão e vacuidade. Respirei mais livremente. Parecia evidente que o meu não era, pelo menos, o mais hediondo dos destinos.

E agora, enquanto continuava a caminhar cautelosamente, vieram à minha lembrança mil rumores vagos sobre os horrores de Toledo. Das masmorras de lá, coisas estranhas haviam sido narradas — fábulas que eu sempre considerara — mas ainda assim estranhas, e terríveis demais para repetir, exceto em um sussurro. Estaria eu condenado a perecer de inanição neste mundo subterrâneo de escuridão; ou que destino, talvez ainda mais terrível, me aguardava? Que o resultado seria a morte, e uma morte de amargura mais do que habitual, eu sabia bem demais o caráter dos meus juízes para duvidar. O modo e a hora eram tudo o que me ocupava ou distraía.

Minhas mãos estendidas encontraram, finalmente, alguma obstrução sólida. Era uma parede, aparentemente de alvenaria de pedra — muito lisa, viscosa e fria. Segui-a; caminhando com toda a desconfiança cuidadosa que certas narrativas antigas haviam me inspirado. Esse processo, contudo, não me deu meios de verificar as dimensões da minha masmorra; pois eu poderia contorná-la e retornar ao ponto de onde parti, sem estar ciente do fato; tão perfeitamente uniforme parecia a parede. Procurei, portanto, a faca que estivera em meu bolso quando fui conduzido à câmara inquisitorial; mas ela havia desaparecido; minhas roupas haviam sido trocadas por uma vestimenta de sarja grosseira. Eu pensara em forçar a lâmina em alguma fenda minúscula da alvenaria, de modo a identificar meu ponto de partida. A dificuldade, no entanto, era trivial; embora, na desordem da minha fantasia, parecesse a princípio insuperável. Rasguei uma parte da bainha da túnica e coloquei o fragmento no comprimento total, e em ângulos retos em relação à parede. Ao tatear o caminho ao redor da prisão, eu não poderia deixar de encontrar esse trapo ao completar o circuito. Assim, pelo menos, pensei: mas não havia contado com a extensão da masmorra, ou com minha própria fraqueza. O chão estava úmido e escorregadio. Cambaleei para frente por algum tempo, quando tropecei e caí. Minha fadiga excessiva levou-me a permanecer prostrado; e o sono logo me dominou enquanto eu estava deitado.

Ao acordar, e estendendo um braço, encontrei ao meu lado um pão e um jarro com água. Eu estava exausto demais para refletir sobre essa circunstância, mas comi e bebi com avidez. Pouco tempo depois, retomei meu tour ao redor da prisão e, com muito esforço, encontrei finalmente o fragmento de sarja. Até o período em que caí, eu havia contado cinquenta e dois passos, e ao retomar minha caminhada, havia contado quarenta e oito a mais — quando cheguei ao trapo. Eram, ao todo, cem passos; e, admitindo dois passos por jarda, presumi que a masmorra tivesse cinquenta jardas de circuito. Havia encontrado, contudo, muitos ângulos na parede, e assim não pude formar nenhum palpite sobre a forma do cofre, pois cofre eu não podia deixar de supor que fosse.

Eu tinha pouco objetivo — certamente nenhuma esperança — nessas pesquisas; mas uma curiosidade vaga levou-me a continuá-las. Deixando a parede, decidi cruzar a área do recinto. A princípio, prossegui com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente de material sólido, era traiçoeiro com viscosidade. Finalmente, contudo, tomei coragem e não hesitei em pisar firmemente; esforçando-me para cruzar em uma linha tão direta quanto possível. Eu havia avançado uns dez ou doze passos dessa maneira, quando o resto da bainha rasgada da minha túnica ficou emaranhado entre minhas pernas. Pisei nele e caí violentamente de bruços.

Na confusão que acompanhou minha queda, não compreendi imediatamente uma circunstância um tanto alarmante, a qual, contudo, poucos segundos depois, enquanto eu ainda jazia prostrado, prendeu minha atenção. Era isto: meu queixo repousava sobre o chão da prisão, mas meus lábios e a porção superior de minha cabeça, embora aparentemente em uma elevação menor que a do queixo, não tocavam em nada. Ao mesmo tempo, minha testa parecia banhada em um vapor úmido, e o cheiro peculiar de fungo apodrecido subiu às minhas narinas. Estendi o braço e estremeci ao constatar que eu havia caído exatamente na borda de um fosso circular, cuja extensão, naturalmente, eu não tinha meios de verificar naquele momento. Apalpando a alvenaria logo abaixo da margem, consegui desalojar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Por muitos segundos, escutei suas reverberações enquanto ele se chocava contra as paredes do precipício em sua descida; finalmente, houve um mergulho surdo na água, seguido por ecos sonoros. No mesmo instante, ouviu-se um som semelhante à abertura rápida, e ao fechamento tão rápido quanto, de uma porta acima, enquanto um tênue lampejo de luz brilhou subitamente através da penumbra, e tão subitamente desapareceu.

Vi claramente a perdição que havia sido preparada para mim, e parabenizei-me pelo acidente oportuno por meio do qual eu escapara. Mais um passo antes de minha queda, e o mundo não me teria visto mais. E a morte recém-evitada era daquele exato caráter que eu considerara fabuloso e frívolo nos contos a respeito da Inquisição. Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha da morte com suas agonias físicas mais terríveis, ou a morte com seus horrores morais mais hediondos. Eu fora reservado para este último. Pelo longo sofrimento, meus nervos haviam se desfeito, até que eu tremia ao som de minha própria voz, e me tornara, em todos os aspectos, um sujeito apto para o tipo de tortura que me aguardava.

Tremendo em cada membro, tateei meu caminho de volta para a parede — resolvendo perecer ali em vez de arriscar os terrores dos fossos, dos quais minha imaginação agora pintava muitos em várias posições ao redor do calabouço. Em outras condições de espírito, eu poderia ter tido coragem de encerrar meu sofrimento de uma vez por um mergulho em um desses abismos; mas agora eu era o mais covarde dos seres. Tampouco podia esquecer o que lera sobre esses fossos — que a extinção repentina da vida não fazia parte de seu plano mais horrível.

A agitação de espírito manteve-me acordado por muitas longas horas, mas, enfim, tornei a adormecer. Ao despertar, encontrei ao meu lado, como antes, um pão e um jarro de água. Uma sede ardente consumia-me, e esvaziei o recipiente em um só gole. Deve ter sido dopada — pois mal havia bebido, quando me tornei irresistivelmente sonolento. Um sono profundo caiu sobre mim — um sono como o da morte. Quanto tempo durou, é claro, não sei; mas quando, mais uma vez, fechei os olhos, os objetos ao meu redor estavam visíveis. Por um brilho selvagem e sulfuroso, cuja origem eu não conseguia a princípio determinar, pude ver a extensão e o aspecto da prisão.

Em seu tamanho, eu estivera grandemente enganado. O circuito total de suas paredes não excedia vinte e cinco jardas. Por alguns minutos, esse fato causou-me um mundo de problemas vãos; vãos, de fato! Pois o que poderia ser de menor importância, sob as terríveis circunstâncias que me cercavam, do que as meras dimensões de meu calabouço? Mas minha alma tomava um interesse selvagem por ninharias, e eu me ocupava em esforços para explicar o erro que cometera em minha medição. A verdade, enfim, iluminou-me. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o período em que caí; devia estar então a um ou dois passos do fragmento de sarja; de fato, eu quase completara o circuito da abóbada. Então dormi — e, ao despertar, devo ter retornado sobre meus passos — supondo, assim, que o circuito era quase o dobro do que realmente era. Minha confusão mental impediu-me de observar que comecei minha ronda com a parede à esquerda e a terminei com a parede à direita.

Eu fora enganado, também, a respeito da forma do recinto. Ao tatear meu caminho, encontrara muitos ângulos, e deduzira assim uma ideia de grande irregularidade; tão potente é o efeito da escuridão total sobre alguém que desperta da letargia ou do sono! Os ângulos eram simplesmente aqueles de algumas leves depressões, ou nichos, em intervalos ímpares. A forma geral da prisão era quadrada. O que eu tomara por alvenaria parecia agora ser ferro, ou algum outro metal, em placas enormes, cujas suturas ou juntas ocasionavam a depressão. A superfície inteira desse recinto metálico era rudemente pintada com todos os dispositivos hediondos e repulsivos aos quais a superstição tumular dos monges deu origem. As figuras de demônios em aspectos de ameaça, com formas de esqueleto e outras imagens mais realmente temíveis, cobriam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos dessas monstruosidades eram suficientemente distintos, mas que as cores pareciam desbotadas e borradas, como se pelos efeitos de uma atmosfera úmida. Notei agora o chão, também, que era de pedra. No centro bocejava o fosso circular de cujas mandíbulas eu escapara; mas era o único no calabouço.

Tudo isso vi indistintamente e com muito esforço — pois minha condição pessoal mudara grandemente durante o sono. Eu agora jazia de costas, e em toda a minha extensão, em uma espécie de estrutura baixa de madeira. A ela eu estava seguramente amarrado por uma longa correia semelhante a uma cilha. Ela passava em muitas convoluções sobre meus membros e corpo, deixando em liberdade apenas minha cabeça e meu braço esquerdo, na medida em que eu pudesse, à força de muito esforço, alimentar-me de um prato de barro que jazia ao meu lado no chão. Vi, para meu horror, que o jarro fora removido. Digo para meu horror — pois eu era consumido por uma sede intolerável. Essa sede parecia ser o objetivo de meus perseguidores estimular — pois a comida no prato era carne pungentemente temperada.

Olhando para cima, examinei o teto de minha prisão. Ficava a trinta ou quarenta pés acima, e construído muito como as paredes laterais. Em um de seus painéis, uma figura muito singular prendeu toda a minha atenção. Era a figura pintada do Tempo como ele é comumente representado, exceto que, em vez de uma foice, ele segurava o que, a um olhar casual, supus ser a imagem pintada de um enorme pêndulo, como os que vemos em relógios antigos. Havia algo, no entanto, na aparência dessa máquina que me fez observá-la com mais atenção. Enquanto eu olhava diretamente para cima (pois sua posição era imediatamente acima de mim), imaginei que a via em movimento. Um instante depois, a fantasia foi confirmada. Seu arco era breve e, naturalmente, lento. Observei-o por alguns minutos, um tanto com medo, mas mais com admiração. Cansado, enfim, de observar seu movimento monótono, voltei meus olhos para os outros objetos na cela.

Um leve ruído atraiu minha atenção e, olhando para o chão, vi vários ratos enormes atravessando-o. Eles haviam saído do poço, que ficava logo à vista à minha direita. Mesmo então, enquanto eu olhava, eles subiam em tropas, apressadamente, com olhos vorazes, atraídos pelo cheiro da carne. Para espantá-los, foi necessário muito esforço e atenção.

Pode ter passado meia hora, talvez até uma hora (pois eu só podia tomar nota imperfeita do tempo) antes que eu voltasse meus olhos para cima. O que vi então confundiu-me e me espantou. O arco do pêndulo aumentara de extensão em quase uma jarda. Como consequência natural, sua velocidade também era muito maior. Mas o que mais me perturbou foi a ideia de que ele descera perceptivelmente. Observei agora — com que horror, é desnecessário dizer — que sua extremidade inferior era formada por um crescente de aço brilhante, com cerca de um pé de comprimento de ponta a ponta; as pontas voltadas para cima, e a borda inferior evidentemente tão afiada quanto a de uma navalha. Como uma navalha também, parecia maciço e pesado, afinando da borda para uma estrutura sólida e larga acima. Ele estava preso a uma haste pesada de latão, e o todo sibilava enquanto balançava pelo ar.

Eu não podia mais duvidar da perdição preparada para mim pela engenhosidade monástica na tortura. Meu conhecimento do fosso tornara-se conhecido pelos agentes inquisitoriais — o fosso, cujos horrores haviam sido destinados a um recusante tão ousado quanto eu — o fosso, típico do inferno, e considerado pela fama como a Ultima Thule de todos os seus castigos. O mergulho nesse fosso eu evitara pelo mais puro dos acidentes; eu sabia que a surpresa, ou a armadilha para o tormento, formava uma parte importante de toda a grotescaria dessas mortes no calabouço. Tendo falhado em cair, não fazia parte do plano demoníaco atirar-me ao abismo; e assim (não havendo alternativa) uma destruição diferente e mais suave me aguardava. Mais suave! Eu quase sorri em minha agonia ao pensar em tal aplicação de tal termo.

De que serve falar das longas, longas horas de horror mais que mortal, durante as quais contei as vibrações apressadas do aço! Polegada a polegada — linha a linha — com uma descida apenas apreciável em intervalos que pareciam eras — para baixo e ainda para baixo ele vinha! Dias se passaram — pode ter sido que muitos dias se passaram — antes que ele passasse tão perto de mim a ponto de me ventilar com seu hálito acre. O odor do aço afiado forçava-se para dentro de minhas narinas. Eu rezava — eu cansava o céu com minha oração por sua descida mais rápida. Tornei-me freneticamente louco e lutei para forçar-me para cima contra o arco da cimitarra medonha. E então caí subitamente calmo, e jazia sorrindo para a morte brilhante, como uma criança para um brinquedo raro.

Houve outro intervalo de total insensibilidade; foi breve; pois, ao cair novamente em vida, não houvera descida perceptível no pêndulo. Mas poderia ter sido longo; pois eu sabia que havia demônios que tomavam nota do meu desmaio, e que poderiam ter detido a vibração conforme desejassem. Ao me recuperar, também, senti-me muito — oh! inexprimivelmente — doente e fraco, como se por longa inanição. Mesmo em meio às agonias daquele período, a natureza humana ansiava por comida. Com esforço doloroso, estendi meu braço esquerdo tanto quanto minhas amarras permitiam, e tomei posse do pequeno resto que fora poupado pelos ratos. Enquanto colocava uma porção dele em meus lábios, surgiu em minha mente um pensamento meio formado de alegria — de esperança. No entanto, que negócio eu tinha com a esperança? Era, como digo, um pensamento meio formado — o homem tem muitos desses, que nunca são completados. Eu sentia que era de alegria — de esperança; mas sentia também que ele morrera em sua formação. Em vão, lutei para aperfeiçoá-lo — para recuperá-lo. O longo sofrimento quase aniquilara todas as minhas faculdades mentais comuns. Eu era um imbecil — um idiota.

A vibração do pêndulo era em ângulos retos com minha extensão. Vi que o crescente fora projetado para cruzar a região do coração. Ele roçaria a sarja de minha túnica — ele retornaria e repetiria suas operações — novamente — e novamente. Apesar de seu arco terrivelmente amplo (cerca de trinta pés ou mais) e o vigor sibilante de sua descida, suficiente para separar essas próprias paredes de ferro, ainda assim o roçar de minha túnica seria tudo o que, por vários minutos, ele realizaria. E com esse pensamento, pausei. Não ousei ir além dessa reflexão. Detive-me nele com uma pertinácia de atenção — como se, assim detendo-me, pudesse deter ali a descida do aço. Forcei-me a ponderar sobre o som do crescente enquanto ele passasse pela vestimenta — sobre a sensação arrepiante peculiar que o atrito do pano produz nos nervos. Ponderei sobre toda essa frivolidade até que meus dentes estivessem cerrados.

Para baixo — firmemente para baixo ele rastejava. Tive um prazer frenético em contrastar sua velocidade descendente com a lateral. Para a direita — para a esquerda — longe e largamente — com o grito de um espírito condenado! para o meu coração com o passo furtivo do tigre! Alternadamente ri e uivei conforme a uma ou a outra ideia se tornava predominante.

Para baixo — certamente, implacavelmente para baixo! Ele vibrava a três polegadas do meu peito! Lutei violentamente, furiosamente, para libertar meu braço esquerdo. Este estava livre apenas do cotovelo à mão. Eu podia alcançar esta última, do prato ao meu lado, até a minha boca, com grande esforço, mas não além. Se pudesse ter quebrado as amarras acima do cotovelo, teria agarrado e tentado deter o pêndulo. Poderia muito bem ter tentado deter uma avalanche!

Para baixo — ainda incessantemente — ainda inevitavelmente para baixo! Eu arquejava e lutava a cada vibração. Eu me encolhia convulsivamente a cada arco. Meus olhos seguiam seus giros para fora ou para cima com a avidez do desespero mais sem sentido; eles fechavam-se espasmodicamente na descida, embora a morte tivesse sido um alívio, oh, quão indizível! Ainda assim, eu tremia em cada nervo ao pensar em quão leve afundamento da maquinaria precipitaria aquele machado afiado e brilhante sobre meu peito. Era a esperança que levava o nervo a tremer — o corpo a encolher. Era a esperança — a esperança que triunfa no cavalete — que sussurra ao condenado à morte mesmo nas masmorras da Inquisição.

Vi que cerca de dez ou doze vibrações trariam o aço em contato real com minha túnica, e com essa observação, subitamente, tomou conta do meu espírito toda a calma aguda e concentrada do desespero. Pela primeira vez durante muitas horas — ou talvez dias — eu pensei. Ocorreu-me agora que a faixa, ou cilha, que me envolvia, era única. Eu não estava amarrado por nenhum cordão separado. O primeiro golpe do crescente semelhante a uma navalha através de qualquer parte da faixa, a separaria de tal forma que ela poderia ser desenrolada de meu corpo por meio de minha mão esquerda. Mas quão temível, nesse caso, a proximidade do aço! O resultado do menor esforço, quão mortal! Era provável, além disso, que os lacaios do torturador não tivessem previsto e providenciado essa possibilidade? Era provável que a faixa cruzasse meu peito na trajetória do pêndulo? Temendo encontrar minha tênue, e, ao que parecia, minha última esperança frustrada, elevei minha cabeça o suficiente para obter uma visão distinta de meu peito. A cilha envolvia meus membros e corpo rente em todas as direções — exceto no caminho do crescente destruidor.

Mal havia deixado cair minha cabeça de volta à sua posição original, quando brilhou em minha mente o que não posso descrever melhor do que como a metade não formada daquela ideia de libertação à qual aludi anteriormente, e da qual apenas uma fração flutuava indeterminadamente pelo meu cérebro quando levei comida aos meus lábios ardentes. O pensamento completo estava agora presente — fraco, quase insano, quase definido — mas ainda inteiro. Procedi imediatamente, com a energia nervosa do desespero, a tentar sua execução.

Por muitas horas, a vizinhança imediata da estrutura baixa sobre a qual eu jazia estivera literalmente fervilhando de ratos. Eles eram selvagens, ousados, vorazes — seus olhos vermelhos brilhando sobre mim como se esperassem apenas por imobilidade de minha parte para fazer de mim sua presa. “A que alimento”, pensei, “estariam eles acostumados no poço?”

Eles haviam devorado, apesar de todos os meus esforços para impedi-los, tudo, exceto um pequeno resto do conteúdo do prato. Eu caíra em um habitual balanço, ou onda da mão sobre o prato; e, enfim, a uniformidade inconsciente do movimento privou-o de efeito. Em sua voracidade, os vermes frequentemente cravavam suas presas afiadas em meus dedos. Com as partículas da iguaria oleosa e condimentada que agora restavam, esfreguei completamente a faixa onde quer que pudesse alcançá-la; então, levantando minha mão do chão, fiquei imóvel sem fôlego.

A princípio, os animais vorazes ficaram assustados e aterrorizados com a mudança — com a cessação do movimento. Eles recuaram alarmados; muitos procuraram o poço. Mas isso foi apenas por um momento. Eu não havia contado em vão com sua voracidade. Observando que eu permanecia sem movimento, um ou dois dos mais ousados saltaram sobre a estrutura e cheiraram a cilha. Isso pareceu o sinal para um ataque geral. Do poço, eles se apressaram em novas tropas. Eles se agarraram à madeira — eles a invadiram e saltaram às centenas sobre o meu corpo. O movimento medido do pêndulo não os perturbou em nada. Evitando seus golpes, eles se ocuparam com a faixa ungida. Eles pressionavam — eles fervilhavam sobre mim em pilhas cada vez maiores. Eles se contorciam sobre minha garganta; seus lábios frios buscavam os meus; eu estava meio sufocado por sua pressão aglomerada; o nojo, para o qual o mundo não tem nome, inchou meu peito e gelou, com uma pesada umidade, meu coração. Ainda um minuto, e senti que a luta estaria terminada. Claramente percebi o afrouxamento da faixa. Eu sabia que em mais de um lugar ela devia estar já cortada. Com uma resolução mais que humana, fiquei imóvel.

Nem eu errara em meus cálculos — nem eu sofrera em vão. Senti, enfim, que estava livre. A cilha pendia em tiras do meu corpo. Mas o golpe do pêndulo já pressionava meu peito. Ele dividira a sarja da túnica. Ele cortara o linho por baixo. Duas vezes mais ele balançou, e uma sensação aguda de dor percorreu cada nervo. Mas o momento da fuga chegara. A um aceno de minha mão, meus libertadores apressaram-se tumultuosamente para longe. Com um movimento firme — cauteloso, lateral, encolhido e lento — deslizei do abraço da faixa e para além do alcance da cimitarra. Por um momento, pelo menos, eu estava livre.

Livre! — e nas garras da Inquisição! Eu mal havia saído de minha cama de madeira de horror para o chão de pedra da prisão, quando o movimento da máquina infernal cessou e eu a contemplei ser puxada para cima, por alguma força invisível, através do teto. Esta foi uma lição que levei desesperadamente a peito. Cada movimento meu era indubitavelmente vigiado. Livre! — eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia, para ser entregue a algo pior que a morte em alguma outra. Com esse pensamento, rolei meus olhos nervosamente ao redor das barreiras de ferro que me cercavam. Algo incomum — alguma mudança que, a princípio, não pude apreciar distintamente — era óbvio, ocorrera no apartamento. Por muitos minutos de uma abstração sonhadora e trêmula, ocupei-me em vãs e desconexas conjecturas. Durante este período, tomei conhecimento, pela primeira vez, da origem da luz sulfurosa que iluminava a cela. Ela provinha de uma fenda, com cerca de meia polegada de largura, estendendo-se inteiramente ao redor da prisão na base das paredes, que assim pareciam, e estavam, completamente separadas do chão. Tentei, mas é claro que em vão, olhar através da abertura.

Ao me levantar da tentativa, o mistério da alteração na câmara surgiu de uma vez em meu entendimento. Observei que, embora os contornos das figuras nas paredes fossem suficientemente distintos, as cores pareciam borradas e indefinidas. Essas cores agora haviam assumido, e estavam momentaneamente assumindo, um brilho surpreendente e intensíssimo, que dava às representações espectrais e demoníacas um aspecto que poderia ter arrepiado nervos ainda mais firmes que os meus. Olhos de demônio, de uma vivacidade selvagem e fantasmagórica, brilhavam sobre mim em mil direções, onde nenhum fora visível antes, e reluziam com o brilho lúgubre de um fogo que eu não conseguia forçar minha imaginação a considerar como irreal.

Irreal! — Mesmo enquanto eu respirava, vinha às minhas narinas o sopro do vapor de ferro aquecido! Um odor sufocante invadia a prisão! Um brilho mais profundo instalava-se a cada momento nos olhos que fulminavam minhas agonias! Um tom mais rico de carmesim difundia-se sobre os horrores pintados de sangue. Eu ofegava! Arfava em busca de ar! Não podia haver dúvida do desígnio dos meus atormentadores — oh! mais implacáveis! oh! mais demoníacos dos homens! Recuei do metal em brasa para o centro da cela. Em meio ao pensamento da destruição ígnea que pairava, a ideia da frescura do poço veio à minha alma como um bálsamo. Corri para a sua borda mortal. Lancei minha visão esforçada para baixo. O reflexo do teto incandescente iluminava seus recessos mais íntimos. Contudo, por um momento selvagem, meu espírito recusou-se a compreender o significado do que via. Por fim, forçou — abriu caminho à força em minha alma — queimou-se sobre minha razão trêmula. Oh! por uma voz para falar! — oh! horror! — oh! qualquer horror, menos este! Com um grito, corri da margem e enterrei o rosto nas mãos — chorando amargamente.

O calor aumentou rapidamente e, mais uma vez, olhei para cima, tremendo como em um acesso de febre. Houve uma segunda mudança na cela — e agora a mudança era obviamente na forma. Como antes, foi em vão que, a princípio, tentei avaliar ou entender o que estava ocorrendo. Mas não demorei a ficar em dúvida. A vingança inquisitorial fora apressada pela minha dupla fuga, e não haveria mais dilação com o Rei dos Terrores. O recinto era quadrado. Vi que dois de seus ângulos de ferro estavam agora agudos — dois, consequentemente, obtusos. A diferença temível aumentou rapidamente com um som baixo de estrondo ou gemido. Em um instante, o apartamento mudara sua forma para a de um losango. Mas a alteração não parou por aqui — eu nem esperava nem desejava que parasse. Eu poderia ter abraçado as paredes vermelhas contra o meu peito como uma veste de paz eterna. “Morte”, eu disse, “qualquer morte, menos a do poço!” Tolo! Poderia eu não ter sabido que era para o poço que o objetivo do ferro em brasa era me impelir? Poderia eu resistir ao seu brilho? Ou, mesmo que pudesse, poderia suportar sua pressão? E agora, cada vez mais plano crescia o losango, com uma rapidez que não me deixava tempo para contemplação. Seu centro, e, naturalmente, sua maior largura, ficava exatamente sobre o abismo boquiaberto. Recuei — mas as paredes que se fechavam me empurravam irresistivelmente para a frente. Por fim, para meu corpo chamuscado e contorcido, não havia mais um centímetro de apoio no chão firme da prisão. Não lutei mais, mas a agonia da minha alma encontrou vazão em um grito de desespero alto, longo e final. Senti que vacilava na beira — desviei meus olhos —

Houve um zumbido discordante de vozes humanas! Houve um estrondo alto como de muitas trombetas! Houve um ranger áspero como de mil trovões! As paredes ígneas recuaram! Um braço estendido agarrou o meu enquanto eu caía, desmaiando, no abismo. Era o do General Lasalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição estava nas mãos de seus inimigos.

O ENTERRAMENTO PREMATURO

Existem certos temas cujo interesse é absorvente, mas que são demasiado inteiramente horríveis para os propósitos da ficção legítima. Estes o mero romancista deve evitar, se não deseja ofender ou causar repugnância. Eles são tratados com propriedade apenas quando a severidade e a majestade da Verdade os santificam e sustentam. Nós estremeçemos, por exemplo, com a mais intensa “dor prazerosa” sobre os relatos da Passagem do Beresina, do Terremoto de Lisboa, da Peste de Londres, do Massacre de São Bartolomeu ou do sufocamento dos cento e vinte e três prisioneiros no Buraco Negro de Calcutá. Mas, nesses relatos, é o fato — é a realidade — é a história que entusiasma. Como invenções, nós os consideraríamos com simples abominação.

Mencionei alguns dos mais proeminentes e augustos infortúnios registrados; mas, nestes, é a extensão, não menos que o caráter da calamidade, que tão vividamente impressiona a fantasia. Não preciso lembrar ao leitor que, do longo e estranho catálogo das misérias humanas, eu poderia ter selecionado muitos casos individuais mais repletos de sofrimento essencial do que qualquer uma dessas vastas generalidades de desastre. A verdadeira miséria, de fato — o infortúnio derradeiro — é particular, não difusa. Que os extremos macabros da agonia sejam suportados pelo homem, o indivíduo, e nunca pelo homem, a massa — por isso, agradeçamos a um Deus misericordioso!

Ser enterrado vivo é, sem dúvida, o mais terrível desses extremos que já coube ao lote da mera mortalidade. Que isso tenha frequentemente, muito frequentemente, assim acontecido dificilmente será negado por aqueles que pensam. As fronteiras que dividem a Vida da Morte são, na melhor das hipóteses, sombrias e vagas. Quem dirá onde termina uma e onde começa a outra? Sabemos que existem doenças nas quais ocorrem cessações totais de todas as funções aparentes da vitalidade e, no entanto, nas quais essas cessações são apenas suspensões, propriamente ditas. São apenas pausas temporárias no mecanismo incompreensível. Um certo período decorre, e algum princípio misterioso e invisível coloca novamente em movimento as asas mágicas e as rodas do mago. O cordão de prata não foi para sempre solto, nem a taça de ouro irreparavelmente quebrada. Mas onde, entrementes, estava a alma?

À parte, contudo, da conclusão inevitável, *a priori*, de que tais causas devem produzir tais efeitos — de que a ocorrência bem conhecida de tais casos de animação suspensa deve naturalmente dar origem, de tempos em tempos, a enterros prematuros — à parte essa consideração, temos o testemunho direto da experiência médica e comum para provar que um vasto número de tais enterros realmente ocorreu. Eu poderia referir-me de imediato, se necessário, a uma centena de exemplos bem autenticados. Um de caráter muito notável, e cujas circunstâncias podem estar frescas na memória de alguns de meus leitores, ocorreu, não faz muito tempo, na cidade vizinha de Baltimore, onde ocasionou um excitamento doloroso, intenso e amplamente difundido. A esposa de um dos cidadãos mais respeitáveis — um advogado de eminência e membro do Congresso — foi acometida por uma doença súbita e inexplicável, que derrotou completamente a habilidade de seus médicos. Após muito sofrimento, ela morreu, ou supôs-se que morresse. Ninguém suspeitou, de fato, ou teve motivos para suspeitar, que ela não estivesse realmente morta. Ela apresentava todas as aparências comuns da morte. O rosto assumiu o contorno habitual contraído e afundado. Os lábios tinham a palidez de mármore habitual. Os olhos estavam sem brilho. Não havia calor. A pulsação cessara. Por três dias o corpo foi mantido sem ser enterrado, durante os quais adquiriu uma rigidez pétrea. O funeral, em suma, foi apressado, devido ao rápido avanço do que se supunha ser a decomposição.

A dama foi depositada em seu jazigo de família, que, pelos três anos subsequentes, não foi perturbado. Ao expirar este prazo, foi aberto para a recepção de um sarcófago; mas, ai! que choque terrível aguardava o marido, que, pessoalmente, abriu a porta! À medida que seus portais giravam para fora, algum objeto vestido de branco caiu fazendo barulho em seus braços. Era o esqueleto de sua esposa em sua mortalha ainda não desfeita.

Uma investigação cuidadosa tornou evidente que ela revivera dois dias após seu sepultamento; que suas lutas dentro do caixão fizeram com que ele caísse de uma saliência, ou prateleira, para o chão, onde se partiu de tal forma a permitir sua fuga. Uma lâmpada que fora deixada acidentalmente, cheia de óleo, dentro do túmulo, foi encontrada vazia; poderia ter-se exaurido, contudo, por evaporação. No último dos degraus que levavam à câmara de pavor havia um grande fragmento do caixão, com o qual, parecia, ela tentara chamar a atenção batendo na porta de ferro. Enquanto assim ocupada, ela provavelmente desmaiou, ou possivelmente morreu, pelo puro terror; e, ao cair, sua mortalha ficou emaranhada em algum trabalho de ferro que se projetava internamente. Assim ela permaneceu, e assim apodreceu, ereta.

No ano de 1810, um caso de inumação viva aconteceu na França, acompanhado de circunstâncias que justificam largamente a afirmação de que a verdade é, de fato, mais estranha que a ficção. A heroína da história era uma *Mademoiselle* Victorine Lafourcade, uma jovem de família ilustre, de riqueza e de grande beleza pessoal. Entre seus numerosos pretendentes estava Julien Bossuet, um pobre *littérateur*, ou jornalista de Paris. Seus talentos e amabilidade geral recomendaram-no à atenção da herdeira, por quem parece ter sido verdadeiramente amado; mas seu orgulho de nascimento decidiu-a, finalmente, a rejeitá-lo e a casar-se com um *Monsieur* Renelle, um banqueiro e diplomata de certa eminência. Após o casamento, contudo, este cavalheiro negligenciou e, talvez, ainda mais positivamente, a maltratou. Tendo passado com ele alguns anos miseráveis, ela morreu — pelo menos sua condição assemelhava-se tanto à morte que enganou a todos que a viram. Ela foi enterrada — não em um jazigo, mas em uma cova comum na aldeia de sua natividade. Cheio de desespero, e ainda inflamado pela memória de um apego profundo, o amante viaja da capital para a província remota em que a aldeia se situa, com o propósito romântico de desenterrar o cadáver e possuir suas madeixas luxuosas. Ele chega à cova. À meia-noite, ele desenterra o caixão, abre-o e está prestes a separar o cabelo, quando é detido pelo abrir dos olhos amados. De fato, a dama fora enterrada viva. A vitalidade não havia partido de todo, e ela foi despertada pelas carícias de seu amante da letargia que fora confundida com a morte. Ele a carregou freneticamente para seu alojamento na aldeia. Empregou certos restauradores poderosos sugeridos por não pouca erudição médica. Enfim, ela reviveu. Ela reconheceu seu salvador. Permaneceu com ele até que, por lentos graus, recuperou plenamente sua saúde original. Seu coração de mulher não era de adamante, e esta última lição de amor foi suficiente para suavizá-lo. Ela o entregou a Bossuet. Não retornou mais ao seu marido, mas, ocultando dele sua ressurreição, fugiu com seu amante para a América. Vinte anos depois, os dois retornaram à França, na persuasão de que o tempo havia alterado tão grandemente a aparência da dama que seus amigos seriam incapazes de reconhecê-la. Estavam enganados, contudo, pois, no primeiro encontro, *Monsieur* Renelle reconheceu e reivindicou sua esposa. Esta reivindicação ela resistiu, e um tribunal judicial sustentou-a em sua resistência, decidindo que as circunstâncias peculiares, com o longo lapso de anos, haviam extinguido, não apenas equitativamente, mas legalmente, a autoridade do marido.

O “Jornal Cirúrgico” de Leipzig, um periódico de alta autoridade e mérito, que algum livreiro americano faria bem em traduzir e republicar, registra em um número recente um evento muito angustiante do caráter em questão.

Um oficial de artilharia, um homem de estatura gigantesca e de saúde robusta, sendo derrubado de um cavalo incontrolável, recebeu uma contusão muito severa na cabeça, que o deixou insensível de imediato; o crânio foi levemente fraturado, mas nenhum perigo imediato foi previsto. A trepanação foi realizada com sucesso. Ele foi sangrado, e muitos outros meios comuns de alívio foram adotados. Gradualmente, contudo, ele caiu em um estado de estupor cada vez mais sem esperança e, finalmente, pensou-se que morrera.

O tempo estava quente, e ele foi enterrado com uma pressa indecente em um dos cemitérios públicos. Seu funeral ocorreu na quinta-feira. No domingo seguinte, os terrenos do cemitério estavam, como de costume, muito lotados de visitantes, e, por volta do meio-dia, um intenso excitamento foi criado pela declaração de um camponês de que, enquanto sentado sobre a cova do oficial, ele sentira distintamente uma comoção da terra, como se ocasionada por alguém lutando por baixo. A princípio, pouca atenção foi dada à asseveração do homem; mas seu terror evidente, e a obstinação teimosa com que persistia em sua história, tiveram, enfim, seu efeito natural sobre a multidão. Pás foram apressadamente obtidas, e a cova, que era vergonhosamente rasa, foi em poucos minutos tão aberta que a cabeça de seu ocupante apareceu. Ele estava, então, aparentemente morto; mas sentou-se quase ereto dentro de seu caixão, cuja tampa, em suas lutas furiosas, ele havia levantado parcialmente.

Foi imediatamente transportado para o hospital mais próximo e lá declarado ainda vivo, embora em uma condição asfíxica. Após algumas horas ele reviveu, reconheceu indivíduos de seu conhecimento e, em frases truncadas, falou de suas agonias na cova.

Do que ele relatou, ficou claro que ele deve ter estado consciente da vida por mais de uma hora, enquanto inumado, antes de cair em insensibilidade. A cova foi descuidada e frouxamente preenchida com um solo excessivamente poroso; e assim algum ar foi necessariamente admitido. Ele ouviu os passos da multidão acima e tentou fazer-se ouvir por sua vez. Foi o tumulto dentro dos terrenos do cemitério, disse ele, que pareceu despertá-lo de um sono profundo, mas, tão logo estava acordado, tornou-se plenamente consciente dos horrores terríveis de sua posição.

Este paciente, está registrado, estava passando bem e parecia estar a caminho de uma recuperação definitiva, mas caiu vítima das charlatanices da experimentação médica. A bateria galvânica foi aplicada, e ele subitamente expirou em um daqueles paroxismos extáticos que, ocasionalmente, ela superinduz.

A menção da bateria galvânica, contudo, traz à minha memória um caso bem conhecido e muito extraordinário a propósito, onde sua ação provou ser o meio de restaurar à animação um jovem advogado de Londres, que fora enterrado por dois dias. Isso ocorreu em 1831 e criou, na época, uma sensação muito profunda onde quer que se tornasse objeto de conversa.

O paciente, Sr. Edward Stapleton, morrera, aparentemente de febre tifoide, acompanhada de alguns sintomas anômalos que despertaram a curiosidade de seus atendentes médicos. Após seu aparente falecimento, seus amigos foram solicitados a sancionar uma autópsia, mas recusaram-se a permiti-la. Como frequentemente acontece, quando tais recusas são feitas, os praticantes resolveram desenterrar o corpo e dissecá-lo à vontade, em particular. Arranjos foram facilmente efetuados com alguns dos numerosos grupos de ladrões de corpos, com os quais Londres abunda; e, na terceira noite após o funeral, o suposto cadáver foi desenterrado de uma cova de oito pés de profundidade e depositado na câmara de abertura de um dos hospitais particulares.

Uma incisão de certa extensão fora, na verdade, feita no abdômen, quando a aparência fresca e não decomposta do sujeito sugeriu uma aplicação da bateria. Um experimento sucedeu outro, e os efeitos habituais sobrevieram, sem nada que os caracterizasse em qualquer aspecto, exceto, em uma ou duas ocasiões, um grau mais do que comum de vivacidade na ação convulsiva.

Ficou tarde. O dia estava prestes a amanhecer; e pensou-se ser conveniente, enfim, proceder imediatamente à dissecação. Um estudante, contudo, estava especialmente desejoso de testar uma teoria sua e insistiu em aplicar a bateria a um dos músculos peitorais. Um corte grosseiro foi feito, e um fio rapidamente trazido em contato, quando o paciente, com um movimento apressado, mas de todo não convulsivo, levantou-se da mesa, deu um passo para o meio do chão, olhou ao redor, inquieto, por alguns segundos e, então — falou. O que ele disse era ininteligível, mas palavras foram proferidas; a silabação era distinta. Tendo falado, ele caiu pesadamente no chão.

Por alguns momentos, todos ficaram paralisados de admiração — mas a urgência do caso logo lhes restaurou a presença de espírito. Viu-se que o Sr. Stapleton estava vivo, embora em um desmaio. Após a exibição de éter, ele reviveu e foi rapidamente restaurado à saúde e à sociedade de seus amigos — dos quais, contudo, todo conhecimento de sua ressuscitação foi ocultado, até que uma recaída não fosse mais de se temer. Seu espanto — seu espanto arrebatador — pode ser concebido.

A peculiaridade mais emocionante deste incidente, todavia, está envolvida no que o próprio Sr. S. afirma. Ele declara que em nenhum período esteve totalmente insensível — que, de forma surda e confusa, ele estava consciente de tudo o que lhe acontecia, desde o momento em que foi declarado morto por seus médicos até aquele em que caiu desmaiado no chão do hospital. “Estou vivo”, foram as palavras incompreendidas que, ao reconhecer a localidade da sala de dissecação, ele tentara, em sua extremidade, proferir.

Seria uma tarefa fácil multiplicar tais histórias como estas — mas abstenho-me — pois, de fato, não temos necessidade de tais para estabelecer o fato de que enterros prematuros ocorrem. Quando refletimos sobre quão raramente, pela natureza do caso, temos o poder de detectá-los, devemos admitir que eles podem ocorrer frequentemente sem o nosso conhecimento. Dificilmente, na verdade, um cemitério é invadido, para qualquer propósito, em qualquer extensão, que esqueletos não sejam encontrados em posições que sugerem as mais temíveis das suspeitas.

Temível, de fato, a suspeita — mas mais temível o destino! Pode ser afirmado, sem hesitação, que nenhum evento é tão terrivelmente bem adaptado para inspirar a supremacia do sofrimento corporal e mental quanto o enterro antes da morte. A opressão insuportável dos pulmões — os vapores sufocantes da terra úmida — o agarrar-se às vestes da morte — o abraço rígido da casa estreita — a escuridão da Noite absoluta — o silêncio como um mar que sobrepuja — a presença invisível, porém palpável, do Verme Conquistador — estas coisas, com os pensamentos do ar e da grama acima, com a memória de queridos amigos que voariam para nos salvar se ao menos informados de nosso destino, e com a consciência de que desse destino eles jamais poderão ser informados — de que nossa porção desesperadora é a dos mortos reais — estas considerações, digo eu, trazem ao coração, que ainda palpita, um grau de horror terrível e intolerável do qual a imaginação mais ousada deve recuar. Não conhecemos nada tão agonizante na Terra — não podemos sonhar com nada que seja metade tão hediondo nos reinos do Inferno mais profundo. E assim, todas as narrativas sobre este tópico têm um interesse profundo; um interesse, contudo, que, através do temor sagrado do tópico em si, muito apropriada e muito peculiarmente depende de nossa convicção da verdade do assunto narrado. O que tenho agora a contar é do meu próprio conhecimento real — de minha própria experiência positiva e pessoal.

Por vários anos estive sujeito a ataques do singular transtorno que os médicos concordaram em chamar de catalepsia, na falta de um título mais definitivo. Embora tanto as causas imediatas quanto as predisponentes, e até mesmo o diagnóstico real desta doença, sejam ainda misteriosos, seu caráter óbvio e aparente é suficientemente bem compreendido. Suas variações parecem ser principalmente de grau. Às vezes, o paciente jaz, por um dia apenas, ou mesmo por um período mais curto, em uma espécie de letargia exagerada. Ele é insensível e externamente imóvel; mas a pulsação do coração ainda é fracamente perceptível; alguns traços de calor permanecem; uma leve cor persiste dentro do centro da bochecha; e, ao aplicar um espelho aos lábios, podemos detectar uma ação torpe, desigual e vacilante dos pulmões. Então, novamente, a duração do transe é de semanas — até mesmo de meses; enquanto o exame mais minucioso, e os testes médicos mais rigorosos, falham em estabelecer qualquer distinção material entre o estado do sofredor e o que concebemos como morte absoluta. Muito usualmente, ele é salvo do enterro prematuro unicamente pelo conhecimento de seus amigos de que ele esteve anteriormente sujeito à catalepsia, pela suspeita consequente excitada e, acima de tudo, pela não aparição da decomposição. Os avanços da enfermidade são, felizmente, graduais. As primeiras manifestações, embora marcadas, são inequívocas. Os ataques tornam-se sucessivamente mais e mais distintos e duram, cada um, por um termo mais longo que o precedente. Nisso reside a principal segurança contra a inumação. O infeliz cujo primeiro ataque fosse do caráter extremo que é ocasionalmente visto, seria quase inevitavelmente consignado vivo ao túmulo.

O meu próprio caso não diferia em nenhum aspecto importante daqueles mencionados nos livros de medicina. Por vezes, sem qualquer causa aparente, eu afundava, pouco a pouco, numa condição de semissíncope, ou meio desmaio; e, nesta condição, sem dor, sem capacidade para me mover ou, falando com rigor, para pensar, mas com uma consciência letárgica e baça da vida e da presença daqueles que rodeavam a minha cama, eu permanecia até que a crise da doença me restaurava, subitamente, à sensação perfeita. Noutras ocasiões, era atingido de forma rápida e impetuosa. Ficava doente, entorpecido, frio, tonto, e assim caía prostrado de imediato. Depois, durante semanas, tudo era vazio, e negro, e silencioso, e o Nada tornava-se o universo. O aniquilamento total não poderia ser maior. Destes últimos ataques, porém, eu despertava com uma gradação lenta em proporção à subitaneidade do acesso. Tal como o dia amanhece para o mendigo sem amigos e sem abrigo que vagueia pelas ruas durante a longa e desolada noite de inverno — exatamente assim, tão lentamente — tão penosamente — tão alegremente, a luz da Alma regressava a mim.

Para além da tendência para o transe, no entanto, a minha saúde geral parecia ser boa; nem conseguia perceber que fosse de todo afetada pela única doença prevalecente — a menos que, na verdade, uma idiossincrasia no meu sono habitual possa ser considerada como induzida por ela. Ao acordar do sono, nunca conseguia obter, de imediato, a posse total dos meus sentidos, e permanecia sempre, durante muitos minutos, em grande confusão e perplexidade — as faculdades mentais em geral, mas a memória em especial, estando num estado de absoluta suspensão.

Em tudo o que suportei, não houve sofrimento físico, mas um infinito de angústia moral. A minha imaginação tornou-se tumular, eu falava "de vermes, de túmulos e de epitáfios". Eu perdia-me em devaneios sobre a morte, e a ideia de enterro prematuro mantinha posse contínua do meu cérebro. O pavoroso Perigo a que estava sujeito assombrava-me dia e noite. No primeiro, a tortura da meditação era excessiva — no segundo, suprema. Quando a sombria Escuridão se espalhava pela Terra, então, com cada horror de pensamento, eu tremia — tremia como as plumas trémulas sobre o carro fúnebre. Quando a Natureza não podia suportar mais a vigília, era com um esforço que eu consentia em dormir — pois estremeço ao refletir que, ao acordar, poderia encontrar-me inquilino de uma sepultura. E quando, finalmente, mergulhava no sono, era apenas para precipitar-me de imediato num mundo de fantasmas, sobre o qual, com uma asa vasta, negra e ensombradora, pairava, predominante, a única Ideia sepulcral.

Das inumeráveis imagens de melancolia que assim me oprimiam nos sonhos, seleciono para registo apenas uma visão solitária. Pareceu-me que estava imerso num transe cataléptico de duração e profundidade superiores às habituais. De repente, surgiu uma mão gelada sobre a minha testa, e uma voz impaciente e balbuciante sussurrou a palavra "Ergue-te!" dentro do meu ouvido.

Sentei-me ereto. A escuridão era total. Não conseguia ver a figura daquele que me tinha despertado. Não conseguia recordar nem o período em que tinha caído no transe, nem a localidade em que jazia. Enquanto permanecia imóvel, ocupado em esforços para recolher o pensamento, a mão fria agarrou-me ferozmente pelo pulso, sacudindo-o com petulância, enquanto a voz balbuciante dizia de novo:

"Ergue-te! Não te ordenei que te erguesses?"

"E quem", perguntei eu, "és tu?"

"Não tenho nome nas regiões que habito", respondeu a voz, lamentosamente; "eu fui mortal, mas sou um demónio. Fui implacável, mas sou piedoso. Tu sentes que eu estremeço. Os meus dentes batem enquanto falo, contudo não é com a frialdade da noite — da noite sem fim. Mas esta hediondez é insuportável. Como podes tu dormir tranquilamente? Não consigo descansar com o grito destas grandes agonias. Estas visões são mais do que posso suportar. Levanta-te! Vem comigo para a Noite exterior, e deixa-me desvendar-te as sepulturas. Não é este um espetáculo de aflição? — Contempla!"

Olhei; e a figura invisível, que ainda me agarrava pelo pulso, tinha feito com que fossem abertas as sepulturas de toda a humanidade; e de cada uma emanava o ténue brilho fosfórico da decomposição; de modo que eu podia ver os recessos mais íntimos, e ali observar os corpos envoltos em mortalhas nos seus tristes e solenes sonos com o verme. Mas, ai de mim! os verdadeiros adormecidos eram menos, por muitos milhões, do que aqueles que não dormiam de todo; e havia uma luta fraca; e havia uma inquietação triste e geral; e das profundezas dos inúmeros covis vinha um roçar melancólico das vestes dos sepultados. E daqueles que pareciam repousar tranquilamente, vi que um vasto número tinha mudado, em maior ou menor grau, a posição rígida e desconfortável em que tinham sido originalmente sepultados. E a voz disse-me novamente, enquanto eu contemplava:

"Não é — oh! não é um espetáculo piedoso?" Mas, antes que pudesse encontrar palavras para responder, a figura tinha deixado de agarrar o meu pulso, as luzes fosfóricas expiraram, e as sepulturas foram fechadas com uma violência súbita, enquanto de dentro delas surgiu um tumulto de gritos desesperados, dizendo de novo: "Não é — ó Deus, não é um espetáculo verdadeiramente piedoso?"

Fantasias como estas, apresentando-se à noite, estendiam a sua influência terrífica muito para além das minhas horas de vigília. Os meus nervos ficaram completamente descontrolados, e tornei-me presa de um horror perpétuo. Hesitava em montar a cavalo, ou em caminhar, ou em entregar-me a qualquer exercício que me levasse para longe de casa. De facto, já não me atrevia a confiar-me fora da presença imediata daqueles que estavam cientes da minha propensão para a catalepsia, com receio de que, caindo num dos meus acessos habituais, fosse enterrado antes que a minha verdadeira condição pudesse ser constatada. Duvidava do cuidado, da fidelidade dos meus amigos mais queridos. Temia que, num qualquer transe de duração mais longa que a habitual, pudessem ser persuadidos a considerar-me como irrecuperável. Cheguei mesmo ao ponto de recear que, como causava muitos problemas, eles pudessem ficar contentes por considerar qualquer ataque muito prolongado como desculpa suficiente para se livrarem de mim de vez. Foi em vão que tentaram tranquilizar-me com as promessas mais solenes. Exigi os juramentos mais sagrados, de que sob nenhuma circunstância me enterrariam até que a decomposição tivesse avançado tão materialmente a ponto de tornar impossível qualquer preservação posterior. E, mesmo assim, os meus terrores mortais não ouviam razão — não aceitavam qualquer consolação. Entrei numa série de precauções elaboradas. Entre outras coisas, mandei remodelar a abóbada da família de modo a permitir que fosse facilmente aberta por dentro. A mais leve pressão sobre uma longa alavanca que se estendia para dentro do túmulo faria o portal de ferro recuar. Havia também disposições para a livre admissão de ar e luz, e recipientes convenientes para comida e água, ao alcance imediato do caixão destinado à minha receção. Este caixão era acolchoado de forma quente e macia, e era provido de uma tampa, feita segundo o princípio da porta da abóbada, com o acréscimo de molas concebidas de tal forma que o mais ténue movimento do corpo seria suficiente para o libertar. Além de tudo isto, estava suspenso do teto da abóbada um grande sino, cuja corda, estava previsto, deveria passar através de um orifício no caixão, e assim ser presa a uma das mãos do cadáver. Mas, ai de mim? que vale a vigilância contra o Destino do homem? Nem mesmo estas precauções bem concebidas foram suficientes para salvar das agonias extremas da inumação viva um desgraçado condenado a estas agonias!

Chegou uma época — como muitas vezes antes tinha chegado — em que me encontrei a emergir da inconsciência total para o primeiro sentido débil e indefinido de existência. Lentamente — com uma gradação de tartaruga — aproximou-se o ténue amanhecer cinzento do dia psíquico. Um desconforto torpente. Uma resistência apática à dor surda. Sem cuidado — sem esperança — sem esforço. Então, após um longo intervalo, um zumbido nos ouvidos; depois, após um lapso ainda maior, uma sensação de formigueiro ou picadas nas extremidades; depois um período aparentemente eterno de quiescência prazerosa, durante o qual os sentimentos despertos lutam para se transformar em pensamento; depois um breve re-mergulho na não-existência; depois uma recuperação súbita. Finalmente, o leve estremecer de uma pálpebra, e imediatamente a seguir, um choque elétrico de um terror, mortal e indefinido, que envia o sangue em torrentes das têmporas para o coração. E agora o primeiro esforço positivo para pensar. E agora a primeira tentativa de recordar. E agora um sucesso parcial e evanescente. E agora a memória recuperou de tal forma o seu domínio que, em certa medida, estou consciente do meu estado. Sinto que não estou a acordar de um sono comum. Recordo que tenho estado sujeito à catalepsia. E agora, finalmente, como que pelo ímpeto de um oceano, o meu espírito trémulo é sobrecarregado pelo único Perigo sombrio — pela única ideia espectral e sempre prevalecente.

Durante alguns minutos depois de esta fantasia se apoderar de mim, permaneci sem movimento. E porquê? Não conseguia reunir coragem para me mover. Não me atrevia a fazer o esforço que me convenceria do meu destino — e contudo havia algo no meu coração que me sussurrava que era certo. Desespero — tal como nenhuma outra espécie de miséria alguma vez faz surgir — o desespero apenas instou-me, após longa hesitação, a levantar as pesadas pálpebras dos meus olhos. Levantei-as. Estava escuro — tudo escuro. Sabia que o acesso tinha terminado. Sabia que a crise da minha doença já tinha passado há muito. Sabia que tinha agora recuperado totalmente o uso das minhas faculdades visuais — e contudo estava escuro — tudo escuro — a intensa e total ausência de raios da Noite que perdura para todo o sempre.

Tentei gritar; e os meus lábios e a minha língua seca moveram-se convulsivamente na tentativa — mas nenhuma voz saiu dos pulmões cavernosos, que, oprimidos como se pelo peso de alguma montanha incumbente, arquejavam e palpitavam, juntamente com o coração, a cada respiração elaborada e lutadora.

O movimento dos maxilares, neste esforço para clamar, mostrou-me que estavam atados, como é habitual com os mortos. Senti, também, que jazia sobre alguma substância dura; e por algo semelhante os meus lados estavam, também, estreitamente comprimidos. Até ali, não me tinha aventurado a mover nenhum dos meus membros — mas agora lancei violentamente os meus braços para cima, que tinham estado estendidos, com os pulsos cruzados. Bateram numa substância de madeira sólida, que se estendia acima da minha pessoa a uma elevação de não mais do que quinze centímetros do meu rosto. Já não podia duvidar que repousava dentro de um caixão, finalmente.

E agora, no meio de todas as minhas infinitas misérias, veio docemente o querubim Esperança — pois pensei nas minhas precauções. Debati-me, e fiz esforços espasmódicos para forçar a abertura da tampa: ela não se movia. Tateei os meus pulsos à procura da corda do sino: não a consegui encontrar. E agora o Consolador fugiu para sempre, e um Desespero ainda mais severo reinou triunfante; pois não podia deixar de notar a ausência dos acolchoamentos que tinha tão cuidadosamente preparado — e então, também, veio subitamente às minhas narinas o odor forte e peculiar de terra húmida. A conclusão era irresistível. Eu não estava dentro da abóbada. Tinha caído num transe enquanto estava ausente de casa — enquanto estava entre estranhos — quando, ou como, não conseguia recordar — e foram eles que me enterraram como a um cão — pregado dentro de algum caixão comum — e empurrado profundamente, profundamente, e para sempre, para alguma sepultura vulgar e sem nome.

À medida que esta convicção terrível se forçava, assim, para dentro das câmaras mais íntimas da minha alma, lutei mais uma vez para clamar. E nesta segunda tentativa, tive sucesso. Um longo, selvagem e contínuo grito, ou uivo de agonia, ressoou através dos reinos da Noite subterrânea.

"Olá! olá, aí!" disse uma voz rouca, em resposta.

"Que raio se passa agora!" disse uma segunda.

"Sai daí!" disse uma terceira.

"O que queres dizer com esse uivo nesse estilo, como um lince?" disse uma quarta; e a seguir fui agarrado e sacudido sem cerimónia, durante vários minutos, por um grupo de indivíduos de aspeto muito rude. Não me despertaram do meu sono — pois eu estava totalmente acordado quando gritei — mas restauraram-me a posse plena da minha memória.

Esta aventura ocorreu perto de Richmond, na Virgínia. Acompanhado por um amigo, tinha prosseguido, numa expedição de caça, alguns quilómetros abaixo pelas margens do James River. A noite aproximou-se, e fomos apanhados por uma tempestade. A cabine de um pequeno escaler ancorado no rio, e carregado com terra de jardim, proporcionou-nos o único abrigo disponível. Tirámos o melhor partido disso, e passámos a noite a bordo. Dormi num dos únicos dois beliches da embarcação — e os beliches de um escaler de sessenta ou vinte toneladas dificilmente precisam de ser descritos. Aquele que ocupei não tinha roupa de cama de qualquer tipo. A sua largura máxima era de quarenta e cinco centímetros. A distância do seu fundo até ao convés acima era exatamente a mesma. Achei que era uma questão de extrema dificuldade espremer-me lá para dentro. No entanto, dormi profundamente, e toda a minha visão — pois não foi um sonho, nem um pesadelo — surgiu naturalmente das circunstâncias da minha posição — da minha propensão habitual de pensamento — e da dificuldade, a que aludi, de recolher os meus sentidos, e especialmente de recuperar a minha memória, por um longo tempo depois de acordar do sono. Os homens que me sacudiram eram a tripulação do escaler, e alguns trabalhadores contratados para o descarregar. Da própria carga vinha o cheiro a terra. A ligadura em volta dos maxilares era um lenço de seda com o qual tinha atado a minha cabeça, na falta da minha habitual touca de dormir.

As torturas suportadas, no entanto, foram indubitavelmente bem iguais, por algum tempo, às de uma sepultura real. Eram assustadoramente — eram inconcebivelmente hediondas; mas do Mal procedeu o Bem; pois o seu próprio excesso provocou no meu espírito uma inevitável reviravolta. A minha alma adquiriu tom — adquiriu temperamento. Saí para o exterior. Fiz exercício vigoroso. Respirei o ar livre do Céu. Pensei noutros assuntos que não a Morte. Descartei os meus livros de medicina. Queimei o "Buchan". Não li "Pensamentos Noturnos" — nem tolices sobre cemitérios — nem contos de papão — como este. Em suma, tornei-me um novo homem, e vivi a vida de um homem. Daquela noite memorável em diante, afastei para sempre as minhas apreensões tumulares, e com elas desapareceu a desordem cataléptica, da qual, talvez, elas tivessem sido menos a consequência do que a causa.

Há momentos em que, mesmo para o olhar sóbrio da Razão, o mundo da nossa triste Humanidade pode assumir a semelhança de um Inferno — mas a imaginação do homem não é nenhuma Carathis, para explorar com impunidade cada uma das suas cavernas. Ai de mim! a sombria legião de terrores sepulcrais não pode ser considerada inteiramente fantasiosa — mas, tal como os Demónios em cuja companhia Afrasiab fez a sua viagem pelo Oxus, eles devem dormir, ou devorar-nos-ão — devem ser deixados adormecer, ou pereceremos.

O DOMÍNIO DE ARNHEIM

O jardim como uma dama bela era cortado, Que jazia como se dormisse em deleite, E para os céus abertos os seus olhos fechava. Os campos azuis do Céu eram assemelhados Num largo círculo, adornado com as flores da luz. As flores de lis, e as redondas centelhas de orvalho Que pendiam sobre as suas folhas azuis mostravam-se Como estrelas cintilantes que brilham no azul da tarde. —Giles Fletcher.

Do berço à sepultura, um vendaval de prosperidade transportou o meu amigo Ellison. Nem uso a palavra prosperidade no seu mero sentido mundano. Refiro-me a ela como sinónimo de felicidade. A pessoa de quem falo parecia ter nascido com o propósito de prefigurar as doutrinas de Turgot, Price, Priestley e Condorcet — de exemplificar por instâncias individuais o que tem sido considerado a quimera dos perfeccionistas. Na breve existência de Ellison, imagino ter visto refutado o dogma de que na própria natureza do homem reside algum princípio oculto, o antagonista da felicidade. Um exame ansioso da sua carreira levou-me a compreender que, em geral, da violação de algumas leis simples da humanidade surge a desgraça da humanidade — que, enquanto espécie, possuímos os elementos ainda não trabalhados do contentamento — e que, mesmo agora, na presente escuridão e loucura de todo o pensamento sobre a grande questão da condição social, não é impossível que o homem, o indivíduo, sob certas condições invulgares e altamente fortuitas, possa ser feliz.

Com opiniões como estas, o meu jovem amigo estava também plenamente imbuído, e assim é digno de observação que o gozo ininterrupto que distinguiu a sua vida foi, em grande medida, o resultado de uma concertação prévia. É, de facto, evidente que com menos da filosofia instintiva que, de quando em quando, substitui tão bem a experiência, o Sr. Ellison ter-se-ia visto precipitado, pelo sucesso muito extraordinário da sua vida, no vórtice comum da infelicidade que se abre para aqueles com talentos preeminentes. Mas não é de modo algum o meu objetivo escrever um ensaio sobre a felicidade. As ideias do meu amigo podem ser resumidas em poucas palavras. Ele admitia apenas quatro princípios elementares, ou, mais estritamente, condições de felicidade. Aquela que ele considerava a principal era (estranho é dizer!) a simples e puramente física do exercício livre ao ar livre. "A saúde", dizia ele, "atingível por outros meios mal merece o nome." Ele citava os êxtases do caçador de raposas, e apontava para os lavradores da terra, o único povo que, como classe, pode ser justamente considerado mais feliz do que outros. A sua segunda condição era o amor de uma mulher. A sua terceira, e mais difícil de realizar, era o desprezo pela ambição. A sua quarta era um objeto de perseguição incessante; e ele sustentava que, sendo outras coisas iguais, a extensão da felicidade atingível era proporcional à espiritualidade deste objeto.

Ellison era notável na profusão contínua de bons presentes que a fortuna lhe prodigalizava. Em graça pessoal e beleza, excedia todos os homens. O seu intelecto era daquela ordem para a qual a aquisição de conhecimento é menos um trabalho do que uma intuição e uma necessidade. A sua família era uma das mais ilustres do império. A sua noiva era a mais adorável e devota das mulheres. As suas posses tinham sido sempre amplas; mas, ao atingir a maioridade, descobriu-se que uma daquelas estranhas aberrações do destino tinha sido jogada em seu favor, que assombram todo o mundo social no qual ocorrem, e raramente deixam de alterar radicalmente a constituição moral daqueles que são os seus objetos.

Parece que, cerca de cem anos antes da maioridade do Sr. Ellison, tinha morrido, numa província remota, um certo Sr. Seabright Ellison. Este cavalheiro tinha acumulado uma fortuna principesca e, não tendo ligações imediatas, concebeu o capricho de deixar a sua riqueza acumular-se durante um século após o seu falecimento. Dirigindo minuciosa e sagazmente os vários modos de investimento, legou o montante total ao parente de sangue mais próximo, que tivesse o nome de Ellison, que estivesse vivo ao fim dos cem anos. Muitas tentativas foram feitas para anular este singular legado; o seu caráter ex post facto tornou-as abortivas; mas a atenção de um governo ciumento foi despertada, e um ato legislativo foi finalmente obtido, proibindo todas as acumulações semelhantes. Este ato, contudo, não impediu o jovem Ellison de entrar na posse, no seu vigésimo primeiro aniversário, como herdeiro do seu antepassado Seabright, de uma fortuna de quatrocentos e cinquenta milhões de dólares.

Quando se soube que tal era a enorme riqueza herdada, houve, naturalmente, muitas especulações quanto ao modo da sua disposição. A magnitude e a disponibilidade imediata da soma desconcertaram todos os que refletiram sobre o assunto. O possuidor de qualquer quantia apreciável de dinheiro poderia ter sido imaginado a realizar qualquer uma de mil coisas. Com riquezas que meramente superavam as de qualquer cidadão, teria sido fácil supor que ele se entregasse ao excesso supremo das extravagâncias da moda do seu tempo — ou que se ocupasse com intrigas políticas — ou que ambicionasse o poder ministerial — ou que comprasse um aumento de nobreza — ou que colecionasse grandes museus de objetos de arte — ou que se fizesse patrono munificente das letras, da ciência, das artes — ou que dotasse, e concedesse o seu nome a, extensas instituições de caridade. Mas, dada a riqueza inconcebível na posse real do herdeiro, sentiu-se que estes objetivos, e todos os objetivos comuns, ofereciam um campo demasiado limitado. Recorreu-se aos números, e estes apenas serviram para confundir. Viu-se que, mesmo a três por cento, o rendimento anual da herança não montava a menos de treze milhões e quinhentos mil dólares; o que representava um milhão e cento e vinte e cinco mil por mês; ou trinta e seis mil novecentos e oitenta e seis por dia; ou mil quinhentos e quarenta e um por hora; ou vinte e seis dólares por cada minuto que voava. Assim, a via habitual da suposição foi completamente rompida. Os homens não sabiam o que imaginar. Houve alguns que até conceberam que o Sr. Ellison se desfaria de pelo menos metade da sua fortuna, como de uma opulência totalmente supérflua — enriquecendo grupos inteiros dos seus parentes por meio da divisão da sua superabundância. Ao mais próximo destes, ele, de fato, abandonou a riqueza muito invulgar que já era sua antes da herança.

Não me surpreendi, contudo, ao perceber que ele já há muito se decidira sobre um ponto que causara tanta discussão aos seus amigos. Nem me espantei muito com a natureza da sua decisão. No que diz respeito a caridades individuais, ele tinha satisfeito a sua consciência. Na possibilidade de qualquer melhoria, propriamente dita, ser efetuada pelo próprio homem na condição geral do homem, ele tinha (lamento confessá-lo) pouca fé. No geral, quer feliz ou infelizmente, ele era remetido, em grande medida, para si mesmo.

No sentido mais lato e nobre, ele era um poeta. Compreendia, além disso, o verdadeiro caráter, os objetivos augustos, a majestade e dignidade supremas do sentimento poético. A satisfação mais plena, se não a única satisfação própria deste sentimento, sentia-a instintivamente residir na criação de formas inéditas de beleza. Algumas peculiaridades, quer na sua educação inicial, quer na natureza do seu intelecto, tinham tingido com o que se denomina materialismo todas as suas especulações éticas; e foi esta inclinação, talvez, que o levou a acreditar que o campo mais vantajoso, pelo menos, se não o único legítimo, para o exercício poético, reside na criação de estados de espírito de beleza puramente física. Assim aconteceu que ele se tornou nem músico nem poeta — se usarmos este último termo na sua aceção quotidiana. Ou poderia ter sido que ele negligenciou tornar-se qualquer um deles, meramente em busca da sua ideia de que no desprezo pela ambição se encontra um dos princípios essenciais da felicidade na terra. Não será, de fato, possível que, embora uma ordem elevada de génio seja necessariamente ambiciosa, a mais elevada esteja acima daquilo que se denomina ambição? E não poderá acontecer, assim, que muitos, muito maiores do que Milton, tenham permanecido contentemente “mudos e sem glória”? Creio que o mundo nunca viu — e que, a menos que através de alguma série de acidentes que estimulem a ordem mais nobre de espírito a um esforço desagradável, o mundo nunca verá — essa extensão total de execução triunfante, nos domínios mais ricos da arte, da qual a natureza humana é absolutamente capaz.

Ellison não se tornou nem músico nem poeta; embora nenhum homem vivesse mais profundamente enamorado da música e da poesia. Sob outras circunstâncias que não aquelas que o investiam, não é impossível que ele se tivesse tornado pintor. A escultura, embora na sua natureza rigorosamente poética, era demasiado limitada na sua extensão e consequências para ter ocupado, em qualquer altura, muita da sua atenção. E mencionei agora todas as províncias em que a compreensão comum do sentimento poético o declarou capaz de se expandir. Mas Ellison sustentava que a mais rica, a mais verdadeira e mais natural, se não totalmente a mais extensa das províncias, tinha sido inexplicavelmente negligenciada. Nenhuma definição tinha falado do paisagista como do poeta; contudo, parecia ao meu amigo que a criação do jardim paisagístico oferecia à Musa própria a mais magnífica das oportunidades. Aqui, de fato, estava o campo mais belo para a exibição da imaginação na combinação infinita de formas de beleza inédita; sendo os elementos a entrar em combinação, por uma vasta superioridade, os mais gloriosos que a terra poderia oferecer. Na multiformidade e multicolor das flores e das árvores, ele reconheceu os esforços mais diretos e enérgicos da Natureza para a beleza física. E na direção ou concentração deste esforço — ou, mais propriamente, na sua adaptação aos olhos que o deviam contemplar na terra — ele percebeu que estaria a empregar os melhores meios — trabalhando para a maior vantagem — no cumprimento, não apenas do seu próprio destino como poeta, mas dos propósitos augustos para os quais a Divindade tinha implantado o sentimento poético no homem.

“A sua adaptação aos olhos que o deviam contemplar na terra.” Na sua explicação desta fraseologia, o Sr. Ellison fez muito no sentido de resolver o que sempre me pareceu um enigma: — refiro-me ao fato (que ninguém exceto os ignorantes contesta) de que não existe na natureza tal combinação de paisagem como a que o pintor de génio pode produzir. Não se encontram na realidade tais paraísos como os que brilharam na tela de Claude. Nas mais encantadoras das paisagens naturais, encontrar-se-á sempre um defeito ou um excesso — muitos excessos e defeitos. Embora as partes componentes possam desafiar, individualmente, a perícia mais elevada do artista, a disposição destas partes será sempre suscetível de melhoria. Em suma, nenhuma posição pode ser alcançada na vasta superfície da terra natural da qual um olho artístico, olhando fixamente, não encontre matéria de ofensa naquilo que se denomina a “composição” da paisagem. E, contudo, quão ininteligível é isto! Em todos os outros assuntos somos justamente instruídos a considerar a natureza como suprema. Com os seus detalhes, recuamos perante a competição. Quem ousará presumir imitar as cores da tulipa, ou melhorar as proporções do lírio-do-vale? A crítica que diz, da escultura ou da retratística, que aqui a natureza deve ser exaltada ou idealizada em vez de imitada, está em erro. Nenhuma combinação pictórica ou escultórica de pontos de vivacidade humana faz mais do que aproximar-se da beleza viva e pulsante. Apenas na paisagem o princípio do crítico é verdadeiro; e, tendo sentido a sua verdade aqui, não passa do espírito precipitado da generalização que o levou a proclamá-lo verdadeiro em todos os domínios da arte. Tendo, digo eu, sentido a sua verdade aqui; pois o sentimento não é uma afetação ou quimera. A matemática não oferece demonstrações mais absolutas do que os sentimentos da sua arte oferecem ao artista. Ele não apenas acredita, mas sabe positivamente, que tais e tais arranjos aparentemente arbitrários de matéria constituem, e só constituem, a verdadeira beleza. As suas razões, contudo, ainda não foram amadurecidas em expressão. Resta a uma análise mais profunda do que aquela que o mundo viu até agora investigar e expressar cabalmente. Contudo, ele é confirmado nas suas opiniões instintivas pela voz de todos os seus irmãos. Que uma “composição” seja defeituosa; que uma emenda seja feita na sua mera disposição de forma; que esta emenda seja submetida a cada artista no mundo; por cada um a sua necessidade será admitida. E ainda muito mais do que isto; como remédio para a composição defeituosa, cada membro isolado da fraternidade teria sugerido a idêntica emenda.

Repito que apenas nos arranjos paisagísticos é a natureza física suscetível de exaltação, e que, portanto, a sua suscetibilidade de melhoria neste ponto único era um mistério que eu tinha sido incapaz de resolver. Os meus próprios pensamentos sobre o assunto repousavam na ideia de que a intenção primitiva da natureza teria arranjado a superfície da terra de modo a ter preenchido em todos os pontos o sentido do homem de perfeição no belo, no sublime ou no pitoresco; mas que esta intenção primitiva tinha sido frustrada pelas conhecidas perturbações geológicas — perturbações de forma e cor — agrupamento, cuja correção ou alívio reside a alma da arte. A força desta ideia era muito enfraquecida, contudo, pela necessidade que ela envolvia de considerar as perturbações como anormais e não adaptadas a qualquer propósito. Foi Ellison quem sugeriu que elas eram prognósticas da morte. Ele explicou assim: — Admitamos que a imortalidade terrena do homem tenha sido a primeira intenção. Temos então o arranjo primitivo da superfície da terra adaptado ao seu estado venturoso, como não existente, mas projetado. As perturbações foram as preparações para a sua condição mortal posteriormente concebida.

“Agora”, disse o meu amigo, “o que consideramos como exaltação da paisagem pode sê-lo realmente, no que respeita apenas ao ponto de vista moral ou humano. Cada alteração do cenário natural pode possivelmente efetuar uma mácula no quadro, se pudermos supor este quadro visto em larga escala — em massa — de algum ponto distante da superfície da terra, embora não para além dos limites da sua atmosfera. É facilmente entendido que o que poderia melhorar um detalhe escrutinado de perto, pode ao mesmo tempo prejudicar um efeito geral ou observado mais à distância. Pode haver uma classe de seres, humanos outrora, mas agora invisíveis para a humanidade, para quem, de longe, a nossa desordem pode parecer ordem — o nosso não pitoresco, pitoresco; numa palavra, os anjos da terra, para cujo escrutínio, mais especialmente do que o nosso próprio, e para cuja apreciação da beleza, refinada pela morte, podem ter sido dispostos por Deus os vastos jardins paisagísticos dos hemisférios.”

No decurso da discussão, o meu amigo citou algumas passagens de um escritor sobre jardinagem paisagística que se supõe ter tratado bem o seu tema:

“Existem propriamente apenas dois estilos de jardinagem paisagística, o natural e o artificial. Um procura recordar a beleza original do país, adaptando os seus meios ao cenário envolvente, cultivando árvores em harmonia com as colinas ou a planície da terra vizinha; detetando e trazendo para a prática aquelas relações subtis de tamanho, proporção e cor que, escondidas do observador comum, são reveladas em toda a parte ao estudioso experiente da natureza. O resultado do estilo natural de jardinagem é visto mais na ausência de todos os defeitos e incongruências — na prevalência de uma harmonia e ordem saudáveis — do que na criação de quaisquer maravilhas ou milagres especiais. O estilo artificial tem tantas variedades quantos os diferentes gostos a satisfazer. Tem uma certa relação geral com os vários estilos de construção. Existem as avenidas imponentes e os retiros de Versalhes; os terraços italianos; e um estilo inglês antigo, variado e misto, que tem alguma relação com a arquitetura doméstica gótica ou elisabetana inglesa. O que quer que se possa dizer contra os abusos da jardinagem paisagística artificial, uma mistura de arte pura numa cena de jardim acrescenta-lhe uma grande beleza. Isto é parcialmente agradável ao olho, pela demonstração de ordem e desígnio, e parcialmente moral. Um terraço, com uma balaustrada antiga coberta de musgo, evoca imediatamente ao olho as formas belas que por ali passaram noutros tempos. A mais ligeira exibição de arte é uma prova de cuidado e interesse humano.”

“Pelo que já observei”, disse Ellison, “compreenderá que rejeito a ideia, aqui expressa, de recordar a beleza original do país. A beleza original nunca é tão grande como aquela que pode ser introduzida. Naturalmente, tudo depende da seleção de um local com capacidades. O que é dito sobre detetar e trazer para a prática relações subtis de tamanho, proporção e cor é uma daquelas meras vaguezas de linguagem que servem para velar a imprecisão de pensamento. A frase citada pode significar qualquer coisa, ou nada, e não orienta em grau algum. Que o verdadeiro resultado do estilo natural de jardinagem seja visto mais na ausência de todos os defeitos e incongruências do que na criação de quaisquer maravilhas ou milagres especiais, é uma proposição mais adequada à apreensão rastejante da manada do que aos sonhos fervorosos do homem de génio. O mérito negativo sugerido pertence àquela crítica claudicante que, nas letras, elevaria Addison à apoteose. Na verdade, enquanto aquela virtude que consiste na mera evitação do vício apela diretamente ao entendimento, e pode assim ser circunscrita em regras, a virtude mais elevada, que flameja na criação, pode ser apreendida apenas nos seus resultados. A regra aplica-se apenas aos méritos da negação — às excelências que se abstêm. Para além destas, a arte crítica pode apenas sugerir. Podemos ser instruídos a construir um “Cato”, mas dizem-nos em vão como conceber um Parténon ou um “Inferno”. A coisa feita, contudo; a maravilha realizada; e a capacidade de apreensão torna-se universal. Os sofistas da escola negativa que, por incapacidade de criar, escarneceram da criação, são agora encontrados como os mais ruidosos nos aplausos. O que, na sua condição de crisálida de princípio, afrontou a sua razão recatada, nunca deixa, na sua maturidade de realização, de extorquir admiração do seu instinto de beleza.

“As observações do autor sobre o estilo artificial”, continuou Ellison, “são menos censuráveis. Uma mistura de arte pura numa cena de jardim acrescenta-lhe uma grande beleza. Isto é justo; tal como também é a referência ao sentido de interesse humano. O princípio expresso é incontestável — mas pode haver algo para além dele. Pode haver um objeto em conformidade com o princípio — um objeto inalcançável pelos meios ordinariamente possuídos pelos indivíduos, mas que, se alcançado, conferiria ao jardim paisagístico um encanto que ultrapassaria em muito aquele que um sentido de interesse meramente humano poderia conferir. Um poeta, tendo recursos pecuniários muito invulgares, poderia, enquanto retém a ideia necessária de arte ou cultura, ou, como o nosso autor expressa, de interesse, imbuir os seus desenhos de tal modo com extensão e novidade de beleza, a ponto de transmitir o sentimento de interferência espiritual. Ver-se-á que, ao produzir tal resultado, ele assegura todas as vantagens do interesse ou desígnio, enquanto liberta o seu trabalho da dureza ou tecnicidade da arte mundana. Nas mais agrestes das naturezas selvagens — nas mais selvagens das cenas da natureza pura — é aparente a arte de um criador; contudo, esta arte é aparente apenas à reflexão; em aspeto algum tem a força óbvia de um sentimento. Agora, suponhamos que este sentido do desígnio do Todo-Poderoso seja um passo rebaixado — seja trazido para algo como harmonia ou consistência com o sentido da arte humana — para formar um intermédio entre os dois: — imaginemos, por exemplo, uma paisagem cuja vastidão e definitividade combinadas — cuja beleza, magnificência e estranheza unidas, transmitam a ideia de cuidado, ou cultura, ou superintendência, por parte de seres superiores, ainda que afins à humanidade — então o sentimento de interesse é preservado, enquanto a arte envolvida é feita assumir o ar de uma natureza intermédia ou secundária — uma natureza que não é Deus, nem uma emanação de Deus, mas que ainda assim é natureza no sentido da obra manual dos anjos que pairam entre o homem e Deus.”

Foi ao dedicar a sua enorme riqueza à corporização de uma visão como esta — no exercício livre ao ar livre garantido pela superintendência pessoal dos seus planos — no objeto incessante que estes planos proporcionavam — na elevada espiritualidade do objeto — no desprezo pela ambição que isto lhe permitia verdadeiramente sentir — nas fontes perenes com que gratificava, sem possibilidade de saciar, aquela única paixão mestra da sua alma, a sede de beleza, acima de tudo, foi na simpatia de uma mulher, não nada feminina, cuja beleza e amor envolviam a sua existência na atmosfera púrpura do Paraíso, que Ellison pensou encontrar, e encontrou, a isenção dos cuidados ordinários da humanidade, com uma quantidade muito maior de felicidade positiva do que alguma vez brilhou nos devaneios arrebatados de De Staël.

Desespero de transmitir ao leitor qualquer conceção distinta das maravilhas que o meu amigo de fato realizou. Desejo descrever, mas sinto-me desencorajado pela dificuldade da descrição, e hesito entre o detalhe e a generalidade. Talvez o melhor caminho seja unir os dois nos seus extremos.

O primeiro passo do Sr. Ellison dizia respeito, naturalmente, à escolha de uma localidade, e mal tinha ele começado a pensar neste ponto, quando a natureza luxuriante das Ilhas do Pacífico captou a sua atenção. De fato, ele tinha decidido fazer uma viagem aos Mares do Sul, quando uma noite de reflexão o levou a abandonar a ideia. “Se eu fosse misantropo”, disse ele, “tal localidade servir-me-ia. O rigor do seu isolamento e reclusão, e a dificuldade de entrada e saída, seriam nesse caso o encanto dos encantos; mas ainda não sou Timon. Desejo a compostura, mas não a depressão da solidão. Deve permanecer comigo um certo controlo sobre a extensão e duração do meu repouso. Haverá horas frequentes em que precisarei, também, da simpatia do poético naquilo que fiz. Deixai-me procurar, então, um local não longe de uma cidade populosa — cuja vizinhança, também, melhor me permitirá executar os meus planos.”

Em busca de um lugar adequado assim situado, Ellison viajou durante vários anos, e foi-me permitido acompanhá-lo. Mil locais pelos quais fiquei arrebatado ele rejeitou sem hesitação, por razões que me satisfizeram, no final, que ele tinha razão. Chegámos finalmente a um planalto elevado de maravilhosa fertilidade e beleza, proporcionando uma perspetiva panorâmica muito pouco menos extensa do que a do Etna, e, na opinião de Ellison, assim como na minha, superando a famosa vista daquela montanha em todos os verdadeiros elementos do pitoresco.

“Estou ciente”, disse o viajante, enquanto soltava um suspiro de profundo deleite depois de contemplar esta cena, extasiado, durante quase uma hora, “sei que aqui, nas minhas circunstâncias, nove décimos dos homens mais exigentes ficariam contentes. Este panorama é de fato glorioso, e eu regozijar-me-ia com ele, não fosse o excesso da sua glória. O gosto de todos os arquitetos que alguma vez conheci leva-os, por causa da ‘perspetiva’, a construir edifícios no topo das colinas. O erro é óbvio. A grandeza em qualquer dos seus modos, mas especialmente no da extensão, sobressalta, excita — e depois fatiga, deprime. Para a cena ocasional nada pode ser melhor — para a vista constante, nada pior. E, na vista constante, a fase mais censurável da grandeza é a da extensão; a pior fase da extensão, a da distância. Está em guerra com o sentimento e com o sentido de reclusão — o sentimento e sentido que procuramos satisfazer ao ‘retirar-nos para o campo’. Ao olhar do cume de uma montanha, não podemos deixar de nos sentir perdidos no mundo. Os desgostosos evitam as perspetivas distantes como uma peste.”

Não foi até ao final do quarto ano da nossa procura que encontrámos uma localidade com a qual Ellison se declarou satisfeito. É, naturalmente, desnecessário dizer onde ficava a localidade. A morte recente do meu amigo, ao levar a que o seu domínio fosse aberto a certas classes de visitantes, conferiu a Arnheim uma espécie de celebridade secreta e contida, se não solene, semelhante em espécie, embora infinitamente superior em grau, àquela que durante tanto tempo distinguiu Fonthill.

O acesso habitual a Arnheim fazia-se pelo rio. O visitante deixava a cidade de manhã cedo. Durante a manhã, passava por margens de uma beleza tranquila e doméstica, onde pastavam inumeráveis ovelhas, cujos velos brancos salpicavam o verde vívido de colinas ondulantes. Gradualmente, a ideia de cultivo cedia lugar à de mero cuidado pastoral. Isto fundia-se lentamente num sentido de retiro — e este, de novo, numa consciência de solidão. À medida que a tarde se aproximava, o canal tornava-se mais estreito; as margens, cada vez mais precipitosas; e estas últimas estavam cobertas por uma folhagem rica, mais profusa e mais sombria. A água ganhava transparência. O curso de água descrevia mil curvas, de modo que, em momento algum, a sua superfície cintilante podia ser vista por uma distância superior a um furlong. A cada instante, a embarcação parecia aprisionada num círculo encantado, possuindo paredes de folhagem insuperáveis e impenetráveis, um teto de cetim ultramarino e chão nenhum — a quilha equilibrando-se com admirável precisão sobre a de uma barca fantasma que, por qualquer acidente, se virara ao contrário e flutuava em constante companhia da sólida, com o propósito de a sustentar. O canal tornava-se agora um desfiladeiro — embora o termo seja um tanto inaplicável, e eu o empregue apenas porque a língua não possui palavra que melhor represente o traço mais marcante — não o mais distintivo — da cena. O caráter de desfiladeiro mantinha-se apenas na altura e no paralelismo das margens; perdia-se por completo nos seus outros atributos. As paredes da ravina (através da qual a água límpida ainda fluía tranquilamente) erguiam-se a uma elevação de cem e, ocasionalmente, de cento e cinquenta pés, e inclinavam-se tanto uma em direção à outra que, em grande medida, bloqueavam a luz do dia; enquanto o longo musgo, semelhante a plumas, que pendia densamente dos arbustos entrelaçados acima, dava a todo o abismo um ar de luto fúnebre. As sinuosidades tornavam-se mais frequentes e intrincadas, e pareciam muitas vezes como se voltassem sobre si mesmas, de modo que o viajante perdera há muito qualquer ideia de direção. Estava, além disso, arrebatado por uma sensação requintada do estranho. O pensamento da natureza ainda permanecia, mas o seu caráter parecia ter sofrido modificação; havia uma simetria fantasmagórica, uma uniformidade arrepiante, uma propriedade mágica nestas suas obras. Nem um ramo morto — nem uma folha seca — nem uma pedra solta — nem uma mancha de terra castanha eram visíveis em parte alguma. A água cristalina brotava contra o granito limpo, ou o musgo imaculado, com uma nitidez de contorno que deleitava enquanto confundia o olhar.

Tendo percorrido os labirintos deste canal durante algumas horas, com a penumbra a aprofundar-se a cada momento, uma curva brusca e inesperada da embarcação trouxe-a subitamente, como se caída do céu, para uma bacia circular de extensão muito considerável quando comparada com a largura do desfiladeiro. Tinha cerca de duzentos metros de diâmetro e estava cercada em todos os pontos, exceto um — aquele que ficava imediatamente em frente à embarcação ao entrar — por colinas de altura geral igual às paredes do abismo, embora de caráter inteiramente diferente. As suas encostas inclinavam-se desde a margem da água num ângulo de cerca de quarenta e cinco graus, e estavam cobertas da base ao cume — sem que um ponto percetível escapasse — por um manto das mais deslumbrantes flores; mal se via uma folha verde entre o mar de cor odorífera e flutuante. Esta bacia era de grande profundidade, mas a água era tão transparente que o fundo, que parecia consistir numa massa espessa de pequenas pedras redondas de alabastro, era visível por vislumbres — isto é, sempre que o olho se permitia não ver, lá no fundo do céu invertido, o florescimento duplicado das colinas. Nestas últimas não havia árvores, nem sequer arbustos de qualquer porte. As impressões causadas no observador eram de riqueza, calor, cor, quietude, uniformidade, suavidade, delicadeza, elegância, voluptuosidade e uma miraculosa extremidade de cultura que sugeria sonhos de uma nova raça de fadas, laboriosas, de bom gosto, magníficas e fastidiosas; mas, à medida que o olhar seguia a encosta de mil tonalidades, desde a sua junção nítida com a água até à sua vaga terminação entre as dobras da nuvem suspensa, tornava-se, de facto, difícil não imaginar uma catarata panorâmica de rubis, safiras, opalas e ónix dourado, rolando silenciosamente do céu.

O visitante, entrando subitamente nesta baía a partir da penumbra da ravina, é deleitado, mas atônito, pelo disco completo do sol poente, que supusera estar já muito abaixo do horizonte, mas que agora o confronta e forma a única terminação de uma vista, de outro modo ilimitada, através de outra fenda na colina, semelhante a um abismo.

Mas aqui o viajante deixa a embarcação que o transportou até tão longe e desce para uma canoa leve de marfim, decorada com motivos arabescos em escarlate vivo, tanto por dentro como por fora. A popa e a proa deste barco erguem-se bem acima da água, com pontas agudas, de modo que a forma geral é a de um crescente irregular. Jaz na superfície da baía com a graça orgulhosa de um cisne. No seu chão forrado de arminho repousa um único remo emplumado de pau-cetim; mas não se vê remador nem criado. Ao convidado é dito que tenha bom ânimo — que os destinos cuidarão dele. A embarcação maior desaparece e ele é deixado sozinho na canoa, que jaz aparentemente imóvel no meio do lago. Enquanto pondera que rumo seguir, contudo, torna-se consciente de um movimento suave na barca de fadas. Ela vira-se lentamente até que a sua proa aponte para o sol. Avança com uma velocidade suave, porém gradualmente acelerada, enquanto as ligeiras ondulações que cria parecem quebrar-se contra o lado de marfim numa melodia divinal — parecem oferecer a única explicação possível para a música suave, porém melancólica, cuja origem invisível o viajante confuso procura em vão à sua volta.

A canoa prossegue firmemente e a porta rochosa da vista é abordada, de modo que as suas profundezas podem ser vistas mais claramente. À direita ergue-se uma cadeia de colinas elevadas, rude e luxuriantemente arborizadas. Observa-se, contudo, que o traço de limpeza requintada onde a margem mergulha na água ainda prevalece. Não há um sinal dos detritos habituais do rio. À esquerda, o caráter da cena é mais suave e mais obviamente artificial. Aqui, a margem inclina-se para cima a partir do curso de água numa subida muito suave, formando um largo tapete de relva com uma textura que não se assemelha a nada mais do que veludo, e de um brilho de verde que poderia comparar-se com o tom da mais pura esmeralda. Este planalto varia em largura de dez a trezentos metros; estendendo-se desde a margem do rio até um muro, de cinquenta pés de altura, que se prolonga, numa infinidade de curvas, mas seguindo a direção geral do rio, até se perder na distância para o ocidente. Este muro é de rocha contínua e foi formado cortando perpendicularmente o outrora escarpado precipício da margem sul do rio, mas não se permitiu que restasse qualquer vestígio do trabalho. A pedra cinzelada tem a tonalidade das eras e está profusamente coberta e sobreposta por hera, madressilva-coral, eglantina e clematis. A uniformidade das linhas superior e inferior do muro é totalmente aliviada por árvores ocasionais de altura gigantesca, crescendo isoladas ou em pequenos grupos, tanto ao longo do planalto como no domínio atrás do muro, mas na sua estreita proximidade; de modo que ramos frequentes (especialmente da nogueira-preta) alcançam e mergulham as suas extremidades pendentes na água. Mais atrás, dentro do domínio, a visão é impedida por um ecrã impenetrável de folhagem.

Estas coisas são observadas durante a aproximação gradual da canoa ao que chamei de porta da vista. Ao aproximar-se desta, contudo, a sua aparência de abismo desaparece; descobre-se uma nova saída da baía para a esquerda — direção na qual o muro também se vê a varrer, seguindo ainda o curso geral do rio. Por esta nova abertura, o olho não consegue penetrar muito longe; pois o rio, acompanhado pelo muro, ainda se curva para a esquerda, até que ambos são engolidos pelas folhas.

O barco, não obstante, desliza magicamente para o canal sinuoso; e aqui a margem oposta ao muro revela-se semelhante à oposta ao muro na vista reta. Colinas elevadas, erguendo-se ocasionalmente em montanhas, e cobertas de vegetação em luxúria selvagem, fecham ainda a cena.

Flutuando suavemente, mas com uma velocidade ligeiramente aumentada, o viajante, após muitas curvas curtas, vê o seu progresso aparentemente barrado por um portão gigantesco, ou melhor, porta de ouro polido, minuciosamente esculpido e trabalhado, e refletindo os raios diretos do sol agora em rápido declínio com um fulgor que parece envolver toda a floresta circundante em chamas. Este portão está inserido no muro elevado; que aqui parece atravessar o rio em ângulos retos. Em poucos momentos, contudo, vê-se que o corpo principal da água ainda varre numa curva suave e extensa para a esquerda, seguindo o muro como antes, enquanto um curso de água de volume considerável, divergindo do principal, faz o seu caminho, com uma ligeira ondulação, por baixo da porta, ficando assim oculto à vista. A canoa cai no canal menor e aproxima-se do portão. As suas pesadas alas são lenta e musicalmente expandidas. O barco desliza entre elas e inicia uma rápida descida para um vasto anfiteatro inteiramente rodeado por montanhas púrpuras, cujas bases são lavadas por um rio cintilante ao longo de toda a extensão do seu circuito. Entretanto, todo o Paraíso de Arnheim explode perante a visão. Há um jorro de melodia fascinante; há uma sensação opressiva de odor estranho e doce; — há um entrelaçamento onírico para o olho de árvores orientais altas e esguias — arbustos frondosos — bandos de pássaros dourados e carmesins — lagos orlados de lírios — prados de violetas, tulipas, papoilas, jacintos e tuberosas — longas linhas entrelaçadas de riachos prateados — e, brotando confusamente de entre tudo, uma massa de arquitetura semi-gótica, semi-sarracena, sustentando-se por milagre a meio do ar, brilhando à luz vermelha do sol com uma centena de janelas salientes, minaretes e pináculos; e parecendo o trabalho manual fantasmagórico, em conjunto, dos Silfos, das Fadas, dos Génios e dos Gnomos.

A CASA DE LANDOR

Um Pendente a “O Domínio de Arnheim”

Durante uma viagem a pé no verão passado, através de um ou dois dos condados ribeirinhos de Nova Iorque, encontrei-me, à medida que o dia declinava, algo embaraçado quanto à estrada que seguia. A terra ondulava muito notavelmente; e o meu caminho, durante a última hora, tinha serpenteado de forma tão confusa, no seu esforço para se manter nos vales, que já não sabia em que direção ficava a doce aldeia de B——, onde decidira parar para a noite. O sol mal brilhara — falando rigorosamente — durante o dia, que, contudo, tinha sido desagradavelmente quente. Um nevoeiro esfumado, semelhante ao do verão de São Martinho, envolvia todas as coisas e, claro, acrescentava à minha incerteza. Não que me importasse muito com o assunto. Se não encontrasse a aldeia antes do pôr do sol, ou mesmo antes de escurecer, era mais do que possível que uma pequena quinta holandesa, ou algo do género, aparecesse em breve — embora, de facto, a vizinhança (talvez por ser mais pitoresca do que fértil) fosse muito escassamente habitada. Seja como for, com a minha mochila como almofada e o meu cão como sentinela, um vivac ao ar livre era exatamente a coisa que me teria divertido. Continuei a vaguear, portanto, bastante à vontade — Ponto encarregando-se da minha espingarda — até que, finalmente, logo quando começara a considerar se as numerosas pequenas clareiras que levavam aqui e ali pretendiam ser sequer caminhos, fui conduzido por uma delas para um caminho de carruagem inquestionável. Não podia haver engano. Os vestígios de rodas leves eram evidentes; e embora os arbustos altos e o subcrescimento descontrolado se encontrassem por cima, não havia qualquer obstrução abaixo, nem mesmo para a passagem de uma carroça de montanha da Virgínia — o veículo mais ambicioso, suponho, do seu género. A estrada, contudo, exceto por estar aberta através do bosque — se bosque não for um nome demasiado pesado para tal conjunto de árvores leves — e exceto nos detalhes dos vestígios evidentes de rodas — não guardava qualquer semelhança com nenhuma estrada que eu tivesse visto antes. Os vestígios de que falo eram apenas levemente percetíveis — tendo sido impressos na superfície firme, porém agradavelmente húmida — do que parecia mais veludo genovês verde do que qualquer outra coisa. Era relva, claramente — mas relva como raramente vemos fora de Inglaterra — tão curta, tão espessa, tão uniforme e de cor tão vívida. Nenhum impedimento jazia na rota das rodas — nem sequer uma lasca ou ramo morto. As pedras que outrora obstruíam o caminho tinham sido cuidadosamente colocadas — não atiradas — ao longo dos lados da vereda, de modo a definir os seus limites no fundo com uma espécie de definição meio precisa, meio negligente e totalmente pitoresca. Grupos de flores silvestres cresciam por toda parte, luxuriantemente, nos espaços intermédios.

O que pensar de tudo isto, claro, eu não sabia. Aqui havia arte, sem dúvida — isso não me surpreendia — todas as estradas, no sentido comum, são obras de arte; nem posso dizer que houvesse muito para admirar no mero excesso de arte manifestado; tudo o que parecia ter sido feito poderia ter sido feito aqui — com tais “capacidades” naturais (como dizem nos livros sobre Arquitetura Paisagista) — com muito pouco trabalho e despesa. Não; não foi a quantidade, mas o caráter da arte que me levou a sentar numa das pedras floridas e a contemplar esta avenida de contos de fadas durante meia hora ou mais, em admiração confusa. Uma coisa tornou-se cada vez mais evidente quanto mais eu olhava: um artista, e um com um olho mais escrupuloso para a forma, tinha supervisionado todos estes arranjos. O maior cuidado fora tomado para preservar um devido meio-termo entre o puro e gracioso, por um lado, e o pittoresco, no verdadeiro sentido do termo italiano, por outro. Havia poucas linhas retas e nenhuma longa linha ininterrupta. O mesmo efeito de curvatura ou de cor aparecia duas vezes, geralmente, mas não mais, em qualquer ponto de vista. Por toda parte havia variedade na uniformidade. Era uma peça de “composição”, na qual o gosto mais fastidiosamente crítico dificilmente poderia ter sugerido uma emenda.

Eu tinha virado à direita ao entrar nesta estrada e, agora, levantando-me, continuei na mesma direção. O caminho era tão serpentino que, em momento algum, podia traçar o seu curso por mais de dois ou três passos à frente. O seu caráter não sofreu qualquer mudança material.

Pouco depois, o murmúrio da água caiu suavemente sobre o meu ouvido — e, momentos depois, ao virar com a estrada um pouco mais abruptamente do que até então, tornei-me consciente de que um edifício de qualquer tipo jazia no sopé de uma suave declividade logo à minha frente. Não podia ver nada distintamente por causa do nevoeiro que ocupava todo o pequeno vale abaixo. Uma brisa suave, contudo, surgiu agora, à medida que o sol estava prestes a descer; e enquanto permanecia de pé na crista da encosta, o nevoeiro dissipou-se gradualmente em coroas e assim flutuou sobre a cena.

À medida que surgia plenamente à vista — assim gradualmente como o descrevo — peça por peça, aqui uma árvore, ali um vislumbre de água, e aqui de novo o cume de uma chaminé, eu dificilmente poderia evitar fantasiar que o todo era uma das ilusões engenhosas exibidas por vezes sob o nome de “quadros que se desvanecem”.

Pela altura, contudo, em que o nevoeiro tinha desaparecido completamente, o sol fizera o seu caminho para trás das colinas suaves, e daí, como que com um ligeiro chassez para o sul, surgira de novo plenamente à vista, brilhando com um lustre purpúreo através de uma fenda que entrava no vale pelo oeste. Subitamente, portanto — e como que pela mão da magia — todo este vale e tudo o que nele havia tornou-se brilhantemente visível.

O primeiro coup d’œil, à medida que o sol deslizava para a posição descrita, impressionou-me muito como fui impressionado, quando rapaz, pela cena final de algum espetáculo teatral ou melodrama bem arranjado. Nem sequer a monstruosidade da cor faltava; pois a luz do sol saía através da fenda, tingida de laranja e púrpura; enquanto o verde vívido da relva no vale era refletido mais ou menos sobre todos os objetos a partir da cortina de vapor que ainda pairava acima, como se relutante em tomar a sua partida total de uma cena tão encantadoramente bela.

O pequeno vale para o qual eu assim espiava por baixo do dossel de névoa não poderia ter mais de quatrocentos metros de comprimento; ao passo que, em largura, variava de cinquenta a cento e cinquenta ou talvez duzentos. Era mais estreito em sua extremidade norte, abrindo-se à medida que tendia para o sul, mas sem qualquer regularidade muito precisa. A porção mais larga ficava a menos de oitenta metros do extremo sul. As encostas que envolviam o vale não poderiam ser justamente chamadas de colinas, a menos que em sua face norte. Ali, uma saliência íngreme de granito erguia-se a uma altura de cerca de trinta metros; e, como mencionei, o vale neste ponto não tinha mais de quinze metros de largura; mas, à medida que o visitante avançava para o sul a partir do penhasco, encontrava à sua direita e à sua esquerda declives cada vez menos altos, menos íngremes e menos rochosos. Tudo, em suma, inclinava-se e suavizava-se para o sul; e ainda assim todo o vale era cingido por eminências, mais ou menos altas, exceto em dois pontos. De um destes já falei. Situava-se consideravelmente a noroeste, e era por onde o sol poente abria caminho, como descrevi anteriormente, para dentro do anfiteatro, através de uma fenda natural de corte limpo no aterro de granito; esta fissura poderia ter uns nove metros de largura em seu ponto mais largo, tanto quanto o olho podia seguir. Parecia conduzir para cima, para cima, como uma estrada natural, para os recessos de montanhas e florestas inexploradas. A outra abertura ficava diretamente no extremo sul do vale. Aqui, geralmente, as encostas não passavam de declives suaves, estendendo-se de leste a oeste por cerca de cento e cinquenta metros. No meio desta extensão havia uma depressão, nivelada com o solo comum do vale. Quanto à vegetação, bem como em relação a tudo o mais, a cena suavizava-se e inclinava-se para o sul. Ao norte — no precipício escarpado — a poucos passos da borda — surgiam os magníficos troncos de inúmeras nogueiras americanas, nogueiras-pretas e castanheiros, intercalados com ocasionais carvalhos; e os fortes ramos laterais lançados pelas nogueiras, especialmente, espalhavam-se longe sobre a borda do penhasco. Prosseguindo para o sul, o explorador via, a princípio, o mesmo tipo de árvores, mas cada vez menos altas e de caráter menos "Salvatoriano"; depois via o olmo mais gentil, sucedido pelo sassafrás e pela acácia — estes, por sua vez, pelo tília mais macio, pelo olaia, pela catalpa e pelo bordo — estes, ainda, por variedades ainda mais graciosas e modestas. Toda a face do declive sul era coberta apenas por arbustos selvagens — com exceção de um salgueiro-prateado ou choupo-branco ocasional. No fundo do próprio vale — (pois deve-se ter em mente que a vegetação até aqui mencionada crescia apenas nas falésias ou encostas) — podiam ser vistas três árvores isoladas. Uma era um olmo de bom porte e forma requintada: montava guarda sobre o portão sul do vale. Outra era uma nogueira, muito maior que o olmo e, no geral, uma árvore muito mais bela, embora ambas fossem extraordinariamente belas: parecia ter tomado conta da entrada noroeste, surgindo de um grupo de rochas nas mandíbulas da ravina e lançando seu corpo gracioso, em um ângulo de quase quarenta e cinco graus, longe para o sol do anfiteatro. Cerca de trinta metros a leste desta árvore ficava, contudo, o orgulho do vale, e, sem dúvida alguma, a árvore mais magnífica que já vi, a menos, talvez, entre os ciprestes do Itchiatuckanee. Era uma tulipeira de tronco triplo — a Liriodendron Tulipiferum — uma da ordem natural das magnólias. Seus três troncos separavam-se do principal a cerca de um metro do solo e, divergindo muito leve e gradualmente, não estavam a mais de um metro e vinte de distância um do outro no ponto onde o maior tronco lançava folhagem: isto era a uma elevação de cerca de vinte e cinco metros. A altura total da divisão principal era de trinta e seis metros. Nada pode superar em beleza a forma, ou o verde vívido e brilhante das folhas da tulipeira. No presente caso, elas tinham cerca de vinte centímetros de largura; mas sua glória era totalmente eclipsada pelo esplendor deslumbrante das flores profusas. Imagine, densamente congregado, um milhão das maiores e mais resplandecentes tulipas! Só assim o leitor pode ter alguma ideia da imagem que pretendo transmitir. E então a graça imponente dos troncos colunares, limpos e delicadamente granulados, o maior com um metro e vinte de diâmetro, a seis metros do chão. As inúmeras flores, misturando-se com as de outras árvores quase tão belas, embora infinitamente menos majestosas, enchiam o vale com perfumes mais que árabes.

O solo geral do anfiteatro era de uma relva do mesmo tipo que a que eu encontrara na estrada; se é que era possível, mais deliciosamente macia, espessa, aveludada e milagrosamente verde. Era difícil conceber como toda essa beleza fora alcançada.

Falei de duas aberturas para o vale. Daquela a noroeste saía um riacho, que vinha, murmurando suavemente e espumando ligeiramente, pela ravina abaixo, até chocar-se contra o grupo de rochas de onde surgia a nogueira isolada. Aqui, após circundar a árvore, passava um pouco ao norte de leste, deixando a tulipeira uns seis metros ao sul, e não fazendo nenhuma alteração decidida em seu curso até chegar perto da metade do caminho entre os limites leste e oeste do vale. Neste ponto, após uma série de curvas, desviava em ângulos retos e seguia uma direção geralmente sul, serpenteando à medida que avançava — até perder-se em um pequeno lago de figura irregular (embora aproximadamente oval), que jazia brilhando perto da extremidade inferior do vale. Este pequeno lago tinha, talvez, cem metros de diâmetro em sua parte mais larga. Nenhum cristal poderia ser mais límpido que suas águas. Seu fundo, que podia ser distintamente visto, consistia inteiramente de seixos brilhantemente brancos. Suas margens, da relva esmeralda já descrita, arredondavam-se, em vez de declinarem, para o céu límpido abaixo; e tão claro era este céu, tão perfeitamente, por vezes, refletia todos os objetos acima dele, que onde a margem verdadeira terminava e onde a imitadora começava, era um ponto de não pouca dificuldade de determinar. As trutas, e algumas outras variedades de peixes, com as quais esta lagoa parecia estar quase incomodamente apinhada, tinham toda a aparência de verdadeiros peixes-voadores. Era quase impossível acreditar que não estivessem absolutamente suspensos no ar. Uma leve canoa de bétula, que jazia placidamente sobre a água, era refletida em suas fibras mais minuciosas com uma fidelidade insuperável pelo espelho mais requintadamente polido. Uma pequena ilha, rindo de flores em plena floração e oferecendo pouco mais espaço do que o suficiente para uma pequena construção pitoresca, aparentemente um galinheiro — erguia-se do lago não muito longe de sua margem norte — à qual estava conectada por meio de uma ponte de aparência inconcebivelmente leve e, ainda assim, muito primitiva. Era formada por uma única prancha larga e espessa de madeira de tulipeira. Esta tinha doze metros de comprimento e atravessava o intervalo entre margem e margem com um arco leve, mas muito perceptível, evitando toda oscilação. Do extremo sul do lago saía uma continuação do riacho, que, após serpenteando por, talvez, trinta metros, finalmente passava pela "depressão" (já descrita) no meio do declive sul e, despencando por um precipício íngreme de trinta metros, fazia seu caminho sinuoso e despercebido até o Hudson.

O lago era profundo — em alguns pontos, nove metros — mas o riacho raramente excedia um metro, enquanto sua maior largura era de cerca de dois metros e meio. Seu fundo e margens eram como os da lagoa — se um defeito pudesse ser atribuído, em termos de pitoresco, era o de uma limpeza excessiva.

A extensão do relvado verde era aliviada, aqui e ali, por um arbusto vistoso ocasional, como a hortênsia, ou a comum bola-de-neve, ou a aromática seringa; ou, mais frequentemente, por um grupo de gerânios florescendo esplendidamente em grandes variedades. Estes últimos cresciam em vasos que eram cuidadosamente enterrados no solo, de modo a dar às plantas a aparência de serem indígenas. Além de tudo isso, o veludo do gramado era primorosamente salpicado de ovelhas — um rebanho considerável das quais vagava pelo vale, na companhia de três cervos domesticados e um vasto número de patos de plumagem brilhante. Um mastim muito grande parecia estar em vigilante guarda sobre esses animais, todos eles.

Ao longo das falésias leste e oeste — onde, em direção à porção superior do anfiteatro, os limites eram mais ou menos íngremes — crescia hera em grande profusão — de modo que apenas aqui e ali podia-se obter até mesmo um vislumbre da rocha nua. O precipício norte, da mesma forma, era quase inteiramente coberto por videiras de rara exuberância; algumas surgindo do solo na base da falésia, e outras de saliências em sua face.

A ligeira elevação que formava o limite inferior deste pequeno domínio era coroada por um muro de pedra limpo, de altura suficiente para impedir a fuga dos cervos. Nada do tipo cerca era observável em outro lugar; pois em nenhum outro lugar era necessário um cercado artificial: qualquer ovelha desgarrada, por exemplo, que tentasse sair do vale por meio da ravina, veria seu progresso interrompido, após alguns metros de avanço, pela saliência íngreme de rocha sobre a qual tombava a cascata que chamara minha atenção quando me aproximei pela primeira vez do domínio. Em suma, a única entrada ou saída era através de um portão que ocupava uma passagem rochosa na estrada, poucos passos abaixo do ponto onde parei para reconhecer a cena.

Descrevi o riacho como serpenteando de forma muito irregular por todo o seu curso. Suas duas direções gerais, como disse, eram primeiro de oeste para leste, e depois de norte para sul. Na curva, o riacho, varrendo para trás, fazia um laço quase circular, de modo a formar uma península que era quase uma ilha, e que incluía cerca de um décimo sexto de acre. Nesta península erguia-se uma casa de habitação — e quando digo que esta casa, como o terraço infernal visto por Vathek, “etait d’une architecture inconnue dans les annales de la terre”, quero dizer, meramente, que seu tout ensemble me atingiu com a sensação mais aguda de novidade e propriedade combinadas — em uma palavra, de poesia — (pois, do que nas palavras acabadas de empregar, dificilmente eu poderia dar, da poesia em abstrato, uma definição mais rigorosa) — e não quero dizer que meramente estranho era perceptível em qualquer aspecto.

Na verdade, nada poderia ser mais simples — mais totalmente despretensioso que esta casa de campo. Seu efeito maravilhoso residia inteiramente em seu arranjo artístico como um quadro. Eu poderia ter imaginado, enquanto a olhava, que algum pintor de paisagens eminente a tivesse construído com seu pincel.

O ponto de vista de onde vi o vale pela primeira vez não era totalmente, embora fosse quase, o melhor ponto de onde observar a casa. Portanto, descrevê-la-ei como a vi depois — de uma posição no muro de pedra no extremo sul do anfiteatro.

O edifício principal tinha cerca de sete metros de comprimento e cinco de largura — certamente não mais. Sua altura total, do solo ao ápice do telhado, não poderia ter excedido cinco metros e meio. À extremidade oeste desta estrutura estava anexada uma cerca de um terço menor em todas as suas proporções: a linha de sua frente recuando cerca de dois metros daquela da casa maior, e a linha de seu telhado, naturalmente, ficando consideravelmente rebaixada abaixo da do telhado adjacente. Em ângulos retos com estes edifícios, e a partir da parte de trás do principal — não exatamente no meio — estendia-se um terceiro compartimento, muito pequeno — sendo, em geral, um terço menor que a ala oeste. Os telhados dos dois maiores eram muito íngremes — descendo da cumeeira com uma longa curva côncava, e estendendo-se pelo menos um metro e vinte além das paredes na frente, de modo a formar os telhados de duas varandas. Estes últimos telhados, naturalmente, não precisavam de suporte; mas como tinham o ar de precisar, pilares leves e perfeitamente simples foram inseridos apenas nos cantos. O telhado da ala norte era apenas uma extensão de uma parte do telhado principal. Entre o edifício principal e a ala oeste erguia-se uma chaminé quadrada muito alta e bastante esguia de tijolos holandeses duros, alternadamente pretos e vermelhos: uma ligeira cornija de tijolos salientes no topo. Sobre as empenas, os telhados também se projetavam muito: no edifício principal cerca de um metro e vinte para o leste e sessenta centímetros para o oeste. A porta principal não ficava exatamente na divisão principal, estando um pouco para o leste — enquanto as duas janelas ficavam a oeste. Estas últimas não se estendiam até o chão, mas eram muito mais longas e estreitas do que o habitual — tinham venezianas simples como portas — as vidraças eram em forma de losango, mas bem grandes. A própria porta tinha sua metade superior de vidro, também em vidraças de losango — uma veneziana móvel a prendia à noite. A porta para a ala oeste ficava em sua empena, e era bastante simples — uma única janela dava para o sul. Não havia porta externa para a ala norte, e ela também tinha apenas uma janela para o leste.

A parede nua da empena leste era aliviada por escadas (com um balaústre) correndo diagonalmente através dela — a subida sendo do sul. Sob a cobertura do beiral amplamente projetado, esses degraus davam acesso a uma porta que levava ao sótão, ou melhor, ao vão — pois era iluminado apenas por uma única janela para o norte, e parecia ter sido planejado como um depósito.

As varandas do edifício principal e da ala oeste não tinham piso, como é habitual; mas nas portas e em cada janela, grandes lajes planas e irregulares de granito jaziam embutidas na relva deliciosa, proporcionando um apoio confortável em qualquer tempo. Excelentes caminhos do mesmo material — não perfeitamente adaptados, mas com o gramado aveludado preenchendo intervalos frequentes entre as pedras, levavam daqui e dali da casa, para uma fonte cristalina a cerca de quatro metros de distância, para a estrada, ou para uma ou duas dependências que ficavam ao norte, além do riacho, e eram totalmente escondidas por algumas acácias e catalpas.

Não mais que seis passos da porta principal da casa de campo ficava o tronco morto de uma pereira fantástica, tão vestida da cabeça aos pés com as lindas flores de bignonia que se exigia não pouco escrutínio para determinar que tipo de coisa doce poderia ser. De vários braços desta árvore pendiam gaiolas de diferentes tipos. Em uma, um grande cilindro de vime com um anel no topo, folgava um tordo; em outra, um oriol; em uma terceira, o insolente bobolink — enquanto três ou quatro prisões mais delicadas eram sonoramente vocais com canários.

Os pilares da varanda eram entrelaçados com jasmim e madressilva doce; enquanto do ângulo formado pela estrutura principal e sua ala oeste, na frente, surgia uma videira de exuberância sem igual. Desdenhando toda restrição, ela subira primeiro ao telhado inferior — depois ao mais alto; e ao longo da cumeeira deste último continuou a contorcer-se, lançando gavinhas para a direita e para a esquerda, até que finalmente alcançou a empena leste, e caiu arrastando-se sobre as escadas.

Toda a casa, com suas alas, foi construída com as telhas holandesas à moda antiga — largas, e com cantos não arredondados. É uma peculiaridade deste material dar às casas construídas com ele a aparência de serem mais largas na base do que no topo — à maneira da arquitetura egípcia; e no presente caso, este efeito extremamente pitoresco era auxiliado por numerosos vasos de flores deslumbrantes que quase envolviam a base dos edifícios.

As telhas eram pintadas de um cinza fosco; e a felicidade com que este tom neutro se fundia ao verde vívido das folhas da tulipeira que sombreavam parcialmente a casa de campo pode ser facilmente concebida por um artista.

Da posição perto do muro de pedra, conforme descrito, os edifícios eram vistos em grande vantagem — pois o ângulo sudeste era projetado para a frente — de modo que o olho captava de uma só vez todo o conjunto das duas frentes, com a pitoresca empena leste, e ao mesmo tempo obtinha um vislumbre suficiente da ala norte, com partes de um telhado bonito para a casa da fonte, e quase metade de uma ponte leve que atravessava o riacho nas proximidades imediatas dos edifícios principais.

Não permaneci muito tempo no topo da colina, embora o suficiente para fazer uma pesquisa completa da cena a meus pés. Ficou claro que eu havia me desviado da estrada para a aldeia, e tive assim uma boa desculpa de viajante para abrir o portão à minha frente e perguntar o caminho, de qualquer forma; então, sem mais delongas, prossegui.

A estrada, após passar pelo portão, parecia situar-se sobre uma saliência natural, inclinando-se gradualmente para baixo ao longo da face das falésias do nordeste. Levou-me ao pé do precipício norte e, de lá, sobre a ponte, contornando a empena leste até a porta da frente. Neste progresso, notei que não era possível obter qualquer visão das dependências.

Ao dobrar a esquina da empena, o mastim saltou em minha direção em silêncio severo, mas com o olho e todo o ar de um tigre. Estendi-lhe, contudo, a mão em sinal de amizade — e nunca conheci o cão que fosse imune a tal apelo à sua cortesia. Ele não apenas fechou a boca e abanou a cauda, como absolutamente me ofereceu a pata — estendendo depois suas civilidades a Ponto.

Como não se via nenhuma campainha, bati com minha bengala na porta, que estava entreaberta. Instantaneamente, uma figura avançou para o limiar — a de uma jovem de cerca de vinte e oito anos — esguia, ou melhor, delgada, e um pouco acima da altura média. À medida que se aproximava, com uma certa decisão modesta de passo, totalmente indescritível, disse a mim mesmo: “Certamente aqui encontrei a perfeição da graça natural, em contraposição à artificial.” A segunda impressão que ela me causou, mas de longe a mais vívida das duas, foi a de entusiasmo. Uma expressão tão intensa de romance, talvez devesse chamá-la assim, ou de desmundanidade, como a que brilhava de seus olhos profundos, nunca antes tinha penetrado tão fundo no meu coração de corações. Não sei como é, mas esta peculiar expressão do olho, enroscando-se ocasionalmente nos lábios, é o feitiço mais poderoso, se não absolutamente o único, que prende meu interesse na mulher. “Romance”, desde que meus leitores compreendam plenamente o que aqui pretendo implicar com a palavra — “romance” e “feminilidade” parecem-me termos conversíveis: e, afinal, o que o homem verdadeiramente ama na mulher é simplesmente sua feminilidade. Os olhos de Annie (ouvi alguém do interior chamá-la de “Annie, querida!”) eram “cinza espiritual”; seu cabelo, um castanho claro: isto é tudo o que tive tempo de observar dela.

Ao seu convite mais cortês, entrei — passando primeiro para um vestíbulo razoavelmente largo. Tendo vindo principalmente para observar, notei que à minha direita, ao entrar, havia uma janela, tal como aquelas na frente da casa; à esquerda, uma porta que levava para a sala principal; enquanto, à minha frente, uma porta aberta me permitia ver um pequeno aposento, exatamente do tamanho do vestíbulo, arranjado como um escritório, e tendo uma grande janela em arco voltada para o norte.

Passando para a sala de estar, encontrei-me com o Sr. Landor — pois este, descobri depois, era seu nome. Ele era civil, até cordial em sua maneira, mas, naquele momento, eu estava mais atento em observar os arranjos da habitação que tanto me interessara, do que a aparência pessoal do inquilino.

A ala norte, vi agora, era um quarto de dormir; sua porta abria-se para a sala de estar. A oeste desta porta havia uma única janela, voltada para o riacho. Na extremidade oeste da sala de estar, havia uma lareira e uma porta que levava para a ala oeste — provavelmente uma cozinha.

Nada poderia ser mais rigorosamente simples que a mobília da sala de estar. No assoalho havia um tapete de trama, de excelente textura — um fundo branco, salpicado de pequenas figuras circulares verdes. Nas janelas havia cortinas de musselina jaconet branca como a neve: eram razoavelmente fartas e pendiam de forma decidida, talvez um tanto formalmente, em pregas agudas e paralelas até o chão — exatamente até o chão. As paredes foram preparadas com um papel francês de grande delicadeza, um fundo prateado, com um tênue cordão verde percorrendo-o em ziguezague. Sua extensão era realçada meramente por três das primorosas litografias a trois crayons de Julien, fixadas à parede sem molduras. Um desses desenhos era uma cena de luxo oriental, ou melhor, voluptuosidade; outro era uma “peça de carnaval”, espirituosa além de qualquer comparação; o terceiro era uma cabeça feminina grega — um rosto tão divinamente belo, e ainda assim de uma expressão tão provocantemente indeterminada, que jamais antes havia prendido minha atenção.

A mobília mais substancial consistia em uma mesa redonda, algumas cadeiras (incluindo uma grande cadeira de balanço) e um sofá, ou melhor, um “divã”; seu material era bordo simples pintado de um branco cremoso, levemente listrado de verde; o assento de palha. As cadeiras e a mesa eram “combinadas”, mas as formas de todas haviam sido evidentemente projetadas pela mesma mente que planejou “os jardins”; é impossível conceber algo mais gracioso.

Sobre a mesa havia alguns livros; um grande frasco quadrado de cristal contendo algum perfume novo; uma lâmpada astral (não solar) de vidro fosco simples com uma cúpula italiana; e um grande vaso de flores resplandecentemente desabrochadas. Flores, de fato, de cores suntuosas e perfume delicado, formavam a única decoração do apartamento. A lareira estava quase cheia com um vaso de gerânios brilhantes. Sobre uma prateleira triangular em cada canto da sala havia também um vaso semelhante, variado apenas quanto ao seu adorável conteúdo. Um ou dois buquês menores adornavam a lareira, e violetas tardias aglomeravam-se junto às janelas abertas.

Não é o propósito desta obra fazer mais do que dar, em detalhes, um retrato da residência do Sr. Landor — como a encontrei. Como ele a tornou o que era — e por quê — com alguns pormenores sobre o próprio Sr. Landor — podem, possivelmente, formar o assunto de outro artigo.

WILLIAM WILSON

Que dizeis disto? que dizeis da CONSCIÊNCIA sombria, Esse espectro em meu caminho? — Pharronida, de Chamberlayne.

Permitam-me chamar-me, por enquanto, William Wilson. A página imaculada que agora jaz diante de mim não precisa ser manchada com meu nome real. Este já foi objeto demais do escárnio — do horror — da detestação da minha raça. Pelas regiões mais remotas do globo, não terão os ventos indignados alardeado sua infâmia sem paralelo? Oh, pária entre todos os párias, o mais abandonado! — à terra não estás tu para sempre morto? a suas honras, a suas flores, a suas aspirações douradas? — e uma nuvem, densa, lúgubre e ilimitada, não paira ela eternamente entre tuas esperanças e o céu?

Eu não gostaria, se pudesse, aqui ou hoje, corporificar um registro dos meus últimos anos de miséria indizível e crime imperdoável. Esta época — estes últimos anos — assumiu uma súbita elevação em torpeza, cuja origem é meu único propósito determinar agora. Os homens geralmente tornam-se vis por graus. De mim, num instante, toda virtude caiu corpóreamente como um manto. De uma maldade comparativamente trivial passei, com o passo de um gigante, para mais do que as enormidades de um Heliogábalo. Que acaso — que único evento trouxe esta coisa maligna a acontecer, tende paciência comigo enquanto relato. A morte se aproxima; e a sombra que a precede lançou uma influência suavizante sobre meu espírito. Anseio, ao passar pelo vale sombrio, pela simpatia — eu quase disse pela piedade — de meus semelhantes. Eu gostaria que acreditassem que fui, em certa medida, escravo de circunstâncias além do controle humano. Desejaria que buscassem para mim, nos detalhes que estou prestes a dar, algum pequeno oásis de fatalidade em meio a um deserto de erro. Eu gostaria que admitissem — o que não podem deixar de admitir — que, embora a tentação possa ter existido outrora tão grande, o homem nunca foi, pelo menos, tão tentado antes — certamente, nunca caiu assim. E será por isso que ele nunca sofreu assim? Não tenho eu vivido de fato em um sonho? E não estou agora morrendo vítima do horror e do mistério da mais selvagem de todas as visões sublunares?

Sou descendente de uma raça cujo temperamento imaginativo e facilmente excitável tornou-os notáveis em todos os tempos; e, na minha primeira infância, dei provas de ter herdado plenamente o caráter da família. À medida que avançava em anos, ele se desenvolveu mais fortemente; tornando-se, por muitas razões, causa de séria inquietação para meus amigos e de prejuízo positivo para mim mesmo. Tornei-me voluntarioso, viciado nos caprichos mais selvagens e presa das paixões mais ingovernáveis. De mente fraca e assolados por enfermidades constitucionais semelhantes às minhas, meus pais podiam fazer pouco para refrear as más inclinações que me distinguiam. Alguns esforços débeis e mal direcionados resultaram em completo fracasso por parte deles e, é claro, em triunfo total por parte minha. Daí em diante, minha voz foi uma lei doméstica; e, numa idade em que poucas crianças abandonaram as rédeas, fui deixado à orientação da minha própria vontade e tornei-me, em tudo menos no nome, o mestre das minhas próprias ações.

Minhas primeiras lembranças de uma vida escolar estão ligadas a uma casa grande e irregular, de estilo elisabetano, em uma vila de aspecto nebuloso na Inglaterra, onde havia um vasto número de árvores gigantescas e retorcidas, e onde todas as casas eram excessivamente antigas. Na verdade, era um lugar onírico e apaziguador para o espírito, aquela venerável cidade antiga. Neste momento, em imaginação, sinto a frescura revigorante de suas avenidas profundamente sombreadas, inalo a fragrância de seus milhares de arbustos e estremeço novamente com um deleite indefinível ao som da nota profunda e oca do sino da igreja, rompendo, a cada hora, com um rugido súbito e soturno, sobre a quietude da atmosfera sombria em que o campanário gótico trabalhado jazia embutido e adormecido.

Dá-me, talvez, tanto prazer quanto posso agora de qualquer maneira experimentar, deter-me em lembranças minuciosas da escola e de suas preocupações. Imerso em miséria como estou — miséria, ai de mim! apenas demasiado real — serei perdoado por buscar alívio, por mais leve e temporário que seja, na fraqueza de alguns detalhes errantes. Estes, além disso, totalmente triviais e até ridículos em si mesmos, assumem, para minha imaginação, importância adventícia, por estarem conectados a um período e a uma localidade onde reconheço as primeiras advertências ambíguas do destino que depois me obscureceu tão plenamente. Deixem-me então recordar.

A casa, eu disse, era antiga e irregular. Os terrenos eram extensos, e um muro de tijolos alto e sólido, coberto com uma camada de argamassa e vidro quebrado, cercava tudo. Esta muralha semelhante a uma prisão formava o limite do nosso domínio; além dela, víamos apenas três vezes por semana — uma vez a cada sábado à tarde, quando, acompanhados por dois bedéis, tínhamos permissão para fazer breves caminhadas em grupo através de alguns campos vizinhos — e duas vezes durante o domingo, quando éramos desfilados da mesma maneira formal para o serviço matinal e vespertino na única igreja da vila. Desta igreja, o diretor da nossa escola era pastor. Com que profundo espírito de admiração e perplexidade eu costumava observá-lo do nosso banco remoto na galeria, enquanto, com passo solene e lento, ele subia ao púlpito! Este homem reverendo, com semblante tão recatadamente benigno, com vestes tão lustrosas e tão clericalmente fluidas, com peruca tão minuciosamente empoada, tão rígida e tão vasta — poderia ser este aquele que, ultimamente, com semblante azedo e em trajes impregnados de rapé, administrava, com palmatória na mão, as leis draconianas da academia? Oh, paradoxo gigantesco, demasiado monstruoso para solução!

Em um ângulo do muro ponderoso franzia a testa um portão ainda mais ponderoso. Era rebitado e cravejado com parafusos de ferro, e encimado por pontas de ferro irregulares. Que impressões de profundo temor ele inspirava! Nunca era aberto a não ser para as três saídas e entradas periódicas já mencionadas; então, em cada rangido de suas poderosas dobradiças, encontrávamos uma plenitude de mistério — um mundo de matéria para observação solene, ou para meditação mais solene.

O extenso cercado era irregular na forma, possuindo muitos recessos espaçosos. Destes, três ou quatro dos maiores constituíam o pátio de recreio. Era nivelado e coberto com cascalho fino e duro. Lembro-me bem de que não havia árvores, nem bancos, nem nada semelhante dentro dele. É claro que ficava nos fundos da casa. Na frente havia um pequeno canteiro, plantado com buxo e outros arbustos, mas através desta divisão sagrada passávamos apenas em ocasiões realmente raras — como uma primeira chegada à escola ou partida final de lá, ou talvez, quando um pai ou amigo tendo vindo nos buscar, seguíamos alegremente para casa para as férias de Natal ou do meio do verão.

Mas a casa! — quão pitoresco era esse edifício antigo! — para mim, quão verdadeiramente um palácio de encantamento! Não havia realmente fim para suas sinuosidades — para suas subdivisões incompreensíveis. Era difícil, em qualquer momento dado, dizer com certeza em qual de seus dois andares se estava. De cada quarto para todos os outros, era certo encontrar três ou quatro degraus, quer em subida ou descida. Então, as ramificações laterais eram inumeráveis — inconcebíveis — e tão voltadas sobre si mesmas, que nossas ideias mais exatas a respeito de toda a mansão não eram muito diferentes daquelas com que ponderávamos sobre o infinito. Durante os cinco anos da minha residência aqui, nunca fui capaz de verificar com precisão em que localidade remota ficava o pequeno quarto de dormir destinado a mim e a outros dezoito ou vinte alunos.

A sala de aula era a maior da casa — eu não podia deixar de pensar, do mundo. Era muito longa, estreita e sombriamente baixa, com janelas góticas pontiagudas e um teto de carvalho. Em um ângulo remoto e que inspirava terror, havia um cercado quadrado de oito ou dez pés, compreendendo o santuário, “durante as horas”, do nosso diretor, o Reverendo Dr. Bransby. Era uma estrutura sólida, com porta maciça, antes de abrir a qual, na ausência do “Dominie”, todos nós teríamos perecido voluntariamente pela peine forte et dure. Em outros ângulos havia duas outras caixas semelhantes, muito menos reverenciadas, é verdade, mas ainda assim grandes objetos de temor. Uma delas era o púlpito do bedel de “clássicos”, a outra, do de “inglês e matemática”. Dispersos pela sala, cruzando e descruzando em infinita irregularidade, estavam inumeráveis bancos e carteiras, pretos, antigos e desgastados pelo tempo, empilhados desesperadamente com livros muito manuseados, e tão riscados com letras iniciais, nomes por extenso, figuras grotescas e outros esforços multiplicados da faca, que haviam perdido inteiramente o pouco que de forma original poderia ter sido sua porção em dias há muito passados. Um balde enorme com água ficava em uma extremidade da sala, e um relógio de dimensões estupendas na outra.

Cercado pelas paredes maciças desta venerável academia, passei, ainda que não em tédio ou desgosto, os anos do terceiro lustro da minha vida. O cérebro fervilhante da infância não requer nenhum mundo externo de incidentes para ocupá-lo ou diverti-lo; e a aparentemente lúgubre monotonia de uma escola estava repleta de uma excitação mais intensa do que a que minha juventude mais madura derivou do luxo, ou minha plena idade adulta do crime. Ainda assim, devo acreditar que meu primeiro desenvolvimento mental teve muito do incomum — até mesmo muito do outré. Sobre a humanidade em geral, os eventos da existência muito precoce raramente deixam na idade madura qualquer impressão definida. Tudo é sombra cinzenta — uma lembrança fraca e irregular — um regresso indistinto de prazeres débeis e dores fantasmagóricas. Comigo não é assim. Na infância, devo ter sentido com a energia de um homem o que agora encontro estampado na memória em linhas tão vívidas, tão profundas e tão duráveis quanto as legendas das medalhas cartaginesas.

Contudo, de fato — no fato da visão do mundo — quão pouco havia para lembrar! O despertar da manhã, o chamado noturno para a cama; as lições, as recitações; os meio-feriados periódicos e os passeios; o pátio de recreio, com suas brigas, seus passatempos, suas intrigas; — estes, por uma feitiçaria mental há muito esquecida, foram feitos para envolver um deserto de sensações, um mundo de incidentes ricos, um universo de emoções variadas, de excitação a mais apaixonada e estimulante. “Oh, le bon temps, que ce siècle de fer!”

Na verdade, o ardor, o entusiasmo e a imperiosidade da minha disposição logo me tornaram um caráter notável entre meus colegas de escola e, por gradações lentas, mas naturais, deram-me uma ascendência sobre todos os que não fossem muito mais velhos do que eu; — sobre todos, com uma única exceção. Esta exceção era encontrada na pessoa de um aluno que, embora sem parentesco, tinha o mesmo nome e sobrenome que eu; — uma circunstância, de fato, pouco notável; pois, apesar de uma linhagem nobre, o meu era um daqueles apelidos do dia a dia que parecem, por direito prescritivo, ter sido, desde tempos imemoriais, propriedade comum da plebe. Nesta narrativa, designei-me, portanto, como William Wilson — um título fictício não muito diferente do real. Meu homônimo, apenas, daqueles que na terminologia escolar constituíam “nosso grupo”, ousou competir comigo nos estudos da classe — nos esportes e brigas do pátio de recreio — recusar crença implícita em minhas afirmações e submissão à minha vontade — de fato, interferir na minha ditadura arbitrária em qualquer aspecto. Se existe na terra um despotismo supremo e incondicional, é o despotismo de uma mente superior na infância sobre os espíritos menos energéticos de seus companheiros.

A rebelião de Wilson foi para mim uma fonte do maior embaraço; tanto mais porque, apesar da bravata com que em público eu fazia questão de tratá-lo e às suas pretensões, eu secretamente sentia que o temia e não podia deixar de pensar que a igualdade que ele mantinha tão facilmente comigo era uma prova de sua verdadeira superioridade; já que não ser superado custava-me uma luta perpétua. No entanto, essa superioridade — até mesmo essa igualdade — não era, na verdade, reconhecida por ninguém além de mim; nossos associados, por alguma cegueira inexplicável, pareciam nem sequer suspeitar disso. De fato, sua competição, sua resistência e, especialmente, sua interferência impertinente e obstinada em meus propósitos, não eram mais pontuais do que privadas. Ele parecia destituído tanto da ambição que me impelia quanto da energia mental apaixonada que me capacitava a sobressair. Em sua rivalidade, poderia ter sido suposto movido unicamente por um desejo caprichoso de contrariar, espantar ou mortificar a mim mesmo; embora houvesse momentos em que eu não podia deixar de observar, com um sentimento feito de assombro, rebaixamento e ressentimento, que ele misturava às suas ofensas, seus insultos ou suas contradições, uma certa afeição de maneiras mais inapropriada e, certamente, muito indesejada. Eu só podia conceber que esse comportamento singular surgisse de uma presunção consumada, assumindo os ares vulgares de patronato e proteção.

Talvez tenha sido este último traço na conduta de Wilson, unido à nossa identidade de nome e ao mero acidente de termos entrado na escola no mesmo dia, que lançou a noção de que éramos irmãos, entre as classes superiores da academia. Estes não costumam indagar com muita rigidez sobre os assuntos dos mais jovens. Já disse, ou deveria ter dito, que Wilson não tinha, no menor grau, ligação com minha família. Mas, certamente, se tivéssemos sido irmãos, teríamos de ser gêmeos; pois, após sair da escola do Dr. Bransby, soube casualmente que meu homônimo nasceu em 19 de janeiro de 1813 — e esta é uma coincidência um tanto notável; pois o dia é precisamente o da minha própria natividade.

Pode parecer estranho que, apesar da ansiedade contínua que me causava a rivalidade de Wilson e seu espírito intolerável de contradição, eu não pudesse me levar a odiá-lo de todo. Tínhamos, é verdade, quase todos os dias uma briga na qual, cedendo-me publicamente a palma da vitória, ele, de alguma maneira, conseguia me fazer sentir que era ele quem a merecia; no entanto, um senso de orgulho da minha parte e uma verdadeira dignidade da parte dele mantinham-nos sempre no que se chama “termos de amizade”, enquanto havia muitos pontos de forte congenialidade em nossos temperamentos, operando para despertar em mim um sentimento que nossa posição sozinha, talvez, impedia de amadurecer em amizade. É difícil, de fato, definir ou mesmo descrever meus sentimentos reais em relação a ele. Formavam uma mistura heterogênea e variada; — alguma animosidade petulante, que ainda não era ódio, alguma estima, mais respeito, muito medo, com um mundo de curiosidade inquieta. Para o moralista, será desnecessário dizer, além disso, que Wilson e eu éramos os mais inseparáveis companheiros.

Foi sem dúvida o estado anômalo de coisas existente entre nós que transformou todos os meus ataques contra ele (e foram muitos, quer abertos ou dissimulados) no canal da zombaria ou da brincadeira prática (causando dor enquanto assumiam a aparência de mera diversão) em vez de uma hostilidade mais séria e determinada. Mas meus esforços a este respeito não foram de modo algum uniformemente bem-sucedidos, mesmo quando meus planos eram os mais espirituosamente arquitetados; pois meu homônimo tinha muito de si, no caráter, daquela austeridade despretensiosa e silenciosa que, enquanto desfruta da pungência de suas próprias piadas, não tem calcanhar de Aquiles em si mesma e recusa-se absolutamente a ser alvo de riso. Eu não podia encontrar, de fato, senão um ponto vulnerável, e esse, residindo em uma peculiaridade pessoal, decorrente talvez de doença constitucional, teria sido poupado por qualquer antagonista menos desesperado do que eu; — meu rival tinha uma fraqueza nos órgãos faríngeos ou guturais, que o impedia de elevar a voz em qualquer momento acima de um sussurro muito baixo. Deste defeito, não deixei de tirar a pouca vantagem que estava ao meu alcance.

As retaliações de Wilson na mesma moeda foram muitas; e havia uma forma de seu espírito prático que me perturbava além da medida. Como sua sagacidade descobriu primeiro que uma coisa tão pequena me incomodaria, é uma questão que nunca pude resolver; mas, tendo descoberto, ele habitualmente praticava o incômodo. Sempre senti aversão ao meu sobrenome pouco cortês e ao seu prenome muito comum, se não plebeu. As palavras eram veneno em meus ouvidos; e quando, no dia da minha chegada, um segundo William Wilson veio também à academia, senti raiva dele por carregar o nome, e duplamente enojado com o nome porque um estranho o carregava, que seria a causa de sua dupla repetição, que estaria constantemente em minha presença, e cujos assuntos, na rotina comum dos negócios da escola, deveriam inevitavelmente, por causa da detestável coincidência, ser muitas vezes confundidos com os meus.

O sentimento de vexame assim engendrado crescia mais forte com cada circunstância que tendia a mostrar semelhança, moral ou física, entre meu rival e eu. Eu não havia descoberto então o fato notável de que tínhamos a mesma idade; mas vi que tínhamos a mesma estatura, e percebi que éramos até singularmente parecidos no contorno geral da pessoa e no traçado dos traços. Sentia-me ferido, também, pelo rumor referente a um parentesco, que se tornara corrente nas classes superiores. Em suma, nada poderia me perturbar mais seriamente (embora eu ocultasse escrupulosamente tal perturbação) do que qualquer alusão a uma semelhança de mente, pessoa ou condição existente entre nós. Mas, na verdade, eu não tinha motivos para acreditar que (com exceção da questão do parentesco, e no caso do próprio Wilson) essa semelhança tivesse sido feita objeto de comentário, ou mesmo observada por nossos colegas de escola. Que ele a observasse em todas as suas facetas, e tão fixamente quanto eu, era aparente; mas que ele pudesse descobrir em tais circunstâncias um campo tão fértil de incômodo, só pode ser atribuído, como disse antes, à sua penetração mais do que comum.

Sua deixa, que era aperfeiçoar uma imitação de mim mesmo, residia tanto em palavras quanto em ações; e admiravelmente ele desempenhou seu papel. Meu traje era uma questão fácil de copiar; meu andar e maneiras gerais foram, sem dificuldade, apropriados; apesar de seu defeito constitucional, até minha voz não lhe escapou. Meus tons mais altos foram, é claro, não tentados, mas então o tom — era idêntico; e seu sussurro singular, tornou-se o próprio eco do meu.

Quão grandemente este retrato primoroso me atormentava (pois não poderia ser chamado justamente de caricatura), não me aventurarei agora a descrever. Eu tinha apenas um consolo — o fato de que a imitação, aparentemente, era notada apenas por mim, e que eu tinha de suportar apenas os sorrisos conhecedores e estranhamente sarcásticos do meu homônimo. Satisfeito por ter produzido em meu peito o efeito pretendido, ele parecia rir em segredo do ferrão que havia infligido, e era, de forma característica, indiferente aos aplausos públicos que o sucesso de seus esforços espirituosos poderia ter tão facilmente angariado. Que a escola, na verdade, não sentisse seu plano, percebesse sua realização e participasse de seu escárnio, foi, por muitos meses ansiosos, um enigma que não consegui resolver. Talvez a gradação de sua cópia a tornasse não tão facilmente perceptível; ou, mais possivelmente, eu devia minha segurança ao ar magistral do copista, que, desdenhando a letra (que, em uma pintura, é tudo o que os obtusos podem ver), dava apenas o espírito pleno de seu original para minha contemplação individual e vexame.

Já falei mais de uma vez sobre o ar repugnante de proteção que ele assumia em relação a mim, e de sua frequente interferência oficiosa em minha vontade. Esta interferência assumia muitas vezes o caráter desagradável de conselho; conselho não dado abertamente, mas insinuado ou sugerido. Eu o recebia com uma repugnância que ganhava força à medida que eu crescia em anos. Contudo, neste dia distante, permitam-me fazer-lhe a simples justiça de reconhecer que não me lembro de nenhuma ocasião em que as sugestões do meu rival estivessem do lado daqueles erros ou tolices tão usuais à sua idade imatura e aparente inexperiência; que seu senso moral, pelo menos, se não seus talentos gerais e sabedoria mundana, era muito mais aguçado do que o meu; e que eu poderia, hoje, ter sido um homem melhor, e assim mais feliz, se tivesse rejeitado menos frequentemente os conselhos incorporados naqueles sussurros significativos que, então, eu odiava cordialmente demais e desprezava amargamente demais.

Como estava, acabei por me tornar extremamente inquieto sob sua supervisão desagradável, e diariamente ressentia cada vez mais abertamente o que considerava sua arrogância intolerável. Disse que, nos primeiros anos de nossa conexão como colegas de escola, meus sentimentos em relação a ele poderiam ter sido facilmente amadurecidos em amizade; mas, nos últimos meses de minha residência na academia, embora a intrusão de sua maneira habitual tivesse, sem dúvida, em alguma medida, diminuído, meus sentimentos, em proporção quase semelhante, participavam muito de um ódio positivo. Em uma ocasião ele percebeu isso, creio eu, e depois evitou, ou fingiu evitar, a mim.

Foi por volta do mesmo período, se bem me lembro, que, em uma altercação de violência com ele, na qual ele foi mais do que habitualmente pego desprevenido, e falou e agiu com uma abertura de comportamento um tanto estranha à sua natureza, descobri, ou imaginei ter descoberto, em seu sotaque, seu ar e aparência geral, algo que primeiro me assustou, e depois me interessou profundamente, ao trazer à mente visões vagas da minha primeira infância — memórias selvagens, confusas e fervilhantes de um tempo em que a memória em si ainda não havia nascido. Não consigo descrever melhor a sensação que me oprimia do que dizendo que eu dificilmente conseguia me livrar da crença de ter conhecido o ser que estava diante de mim, em alguma época muito antiga — algum ponto do passado infinitamente remoto. O delírio, no entanto, desapareceu tão rapidamente quanto surgiu; e só o menciono para definir o dia da última conversa que mantive ali com meu singular homônimo.

A enorme casa antiga, com suas inúmeras subdivisões, tinha vários grandes aposentos comunicantes entre si, onde dormia a maior parte dos estudantes. Havia, contudo (como deve necessariamente acontecer em um edifício tão mal planejado), muitos pequenos cantos ou recantos, as sobras da estrutura; e estes a engenhosidade econômica do Dr. Bransby também havia equipado como dormitórios; embora, sendo os mais simples armários, fossem capazes de acomodar apenas um único indivíduo. Um desses pequenos apartamentos era ocupado por Wilson.

Certa noite, perto do final do meu quinto ano na escola, e imediatamente após a altercação recém-mencionada, encontrando todos envoltos em sono, levantei-me da cama e, lâmpada na mão, deslizei por um labirinto de passagens estreitas do meu próprio quarto para o do meu rival. Há muito eu planejava uma daquelas peças de espirituosidade prática mal-intencionadas às custas dele, nas quais até então eu fora tão uniformemente malsucedido. Era minha intenção, agora, colocar meu plano em operação, e decidi fazê-lo sentir toda a extensão da malícia com que eu estava imbuído. Tendo chegado ao seu armário, entrei sem ruído, deixando a lâmpada, com uma cúpula sobre ela, do lado de fora. Avancei um passo e ouvi o som de sua respiração tranquila. Assegurado de que ele estava dormindo, voltei, peguei a luz e com ela aproximei-me novamente da cama. Cortinas fechadas estavam ao redor dela, as quais, na execução do meu plano, lentamente e silenciosamente afastei, quando os raios brilhantes caíram vividamente sobre o adormecido, e meus olhos, ao mesmo tempo, sobre seu semblante. Olhei; — e um entorpecimento, uma frieza de sentimento invadiu instantaneamente meu corpo. Meu peito arfou, meus joelhos vacilaram, todo o meu espírito foi possuído por um horror sem objeto, mas intolerável. Ofegante, abaixei a lâmpada em maior proximidade ao rosto. Eram estes — eram estes os traços de William Wilson? Vi, de fato, que eram os dele, mas tremi como se estivesse com um ataque de febre ao imaginar que não eram. O que havia neles para me confundir desta maneira? Contemplei; — enquanto meu cérebro vacilava com uma multidão de pensamentos incoerentes. Não era assim que ele aparecia — certamente não assim — na vivacidade de suas horas de vigília. O mesmo nome! O mesmo contorno de pessoa! O mesmo dia de chegada à academia! E então sua imitação obstinada e sem sentido do meu andar, da minha voz, dos meus hábitos e da minha maneira! Estava, na verdade, dentro dos limites da possibilidade humana que o que eu via agora fosse o resultado, meramente, da prática habitual desta imitação sarcástica? Aterrorizado, e com um calafrio rastejante, apaguei a lâmpada, passei silenciosamente pelo aposento e deixei, de uma vez, os salões daquela antiga academia, para nunca mais entrar neles.

Após um lapso de alguns meses, passados em casa em mera ociosidade, encontrei-me como estudante em Eton. O breve intervalo fora suficiente para enfraquecer minha lembrança dos eventos na casa do Dr. Bransby, ou pelo menos para efetuar uma mudança material na natureza dos sentimentos com os quais eu os recordava. A verdade — a tragédia — do drama não existia mais. Eu agora podia encontrar espaço para duvidar da evidência dos meus sentidos; e raramente evocava o assunto, senão com espanto pela extensão da credulidade humana, e um sorriso pela força vívida da imaginação que eu possuía hereditariamente. Tampouco esta espécie de ceticismo corria o risco de ser diminuída pelo caráter da vida que eu levava em Eton. O vórtice de tolice impensada no qual me lancei tão imediata e imprudentemente, lavou tudo, exceto a espuma das minhas horas passadas, engoliu de uma vez toda impressão sólida ou séria, e deixou para a memória apenas as frivolidades mais leves de uma existência anterior.

Não desejo, porém, traçar o curso da minha miserável devassidão aqui — uma devassidão que desafiava as leis, enquanto iludia a vigilância da instituição. Três anos de tolice, passados sem proveito, haviam apenas me dado hábitos enraizados de vício, e adicionado, em um grau um tanto incomum, à minha estatura corporal, quando, após uma semana de dissipação sem alma, convidei um pequeno grupo dos estudantes mais dissolutos para uma bebedeira secreta em meus aposentos. Encontramo-nos a uma hora avançada da noite; pois nossas devassidões deveriam ser fielmente prolongadas até o amanhecer. O vinho fluía livremente, e não faltavam outras e talvez mais perigosas seduções; de modo que o amanhecer cinzento já aparecera fracamente no leste, enquanto nossa extravagância delirante estava em seu auge. Loucamente corado com cartas e embriaguez, eu estava prestes a insistir em um brinde de profanação mais do que habitual, quando minha atenção foi subitamente desviada pela abertura violenta, embora parcial, da porta do apartamento, e pela voz ansiosa de um criado do lado de fora. Ele disse que alguma pessoa, aparentemente com muita pressa, exigia falar comigo no saguão.

Selvagemente excitado pelo vinho, a interrupção inesperada me agradou mais do que me surpreendeu. Cambaleei para frente imediatamente, e alguns passos me levaram ao vestíbulo do edifício. Neste cômodo baixo e pequeno não havia lâmpada; e agora nenhuma luz era admitida, exceto a do amanhecer extremamente fraco que abria caminho através da janela semicircular. Ao colocar o pé sobre o limiar, percebi a figura de um jovem de altura semelhante à minha, e vestido com uma casaca de manhã de caxemira branca, cortada no estilo novo da que eu mesmo usava no momento. Isso a luz fraca me permitiu perceber; mas os traços de seu rosto não pude distinguir. Ao entrar, ele caminhou apressadamente até mim e, segurando-me pelo braço com um gesto de impaciência irritadiça, sussurrou as palavras “William Wilson!” em meu ouvido.

Fiquei perfeitamente sóbrio em um instante.

Havia algo na maneira do estranho, e no tremor do seu dedo levantado, enquanto ele o mantinha entre meus olhos e a luz, que me encheu de um espanto incondicional; mas não foi isso que tão violentamente me comoveu. Foi a gravidade da advertência solene naquele sussurro singular, baixo e sibilante; e, acima de tudo, foi o caráter, o tom, a nota daquelas poucas sílabas simples e familiares, porém sussurradas, que vieram com mil memórias fervilhantes de dias passados e atingiram minha alma com o choque de uma bateria galvânica. Antes que eu pudesse recuperar o uso dos meus sentidos, ele se fora.

Embora este evento não tenha deixado de causar um efeito vívido em minha imaginação desordenada, ele foi tão efêmero quanto vívido. Por algumas semanas, de fato, ocupei-me em investigações sérias, ou fiquei envolto em uma nuvem de especulação mórbida. Não pretendi disfarçar da minha percepção a identidade do indivíduo singular que assim persistentemente interferia em meus assuntos e me atormentava com seus conselhos insinuados. Mas quem e o que era este Wilson? — e de onde ele vinha? — e quais eram seus propósitos? Sobre nenhum desses pontos pude me satisfazer; apenas verificando, em relação a ele, que um acidente súbito em sua família causara sua remoção da academia do Dr. Bransby na tarde do dia em que eu mesmo fugira. Mas em um breve período parei de pensar no assunto; minha atenção estava toda absorvida por uma partida planejada para Oxford. Para lá logo fui; a vaidade incauta dos meus pais fornecendo-me um equipamento e um estabelecimento anual que me permitiriam entregar-me à vontade ao luxo já tão caro ao meu coração — competir em prodigalidade de gastos com os herdeiros mais arrogantes dos condados mais ricos da Grã-Bretanha.

Excitado por tais meios para o vício, meu temperamento constitucional irrompeu com ardor redobrado, e desprezei até as restrições comuns da decência na louca infatuacão das minhas festas. Mas seria absurdo fazer uma pausa no detalhamento da minha extravagância. Basta dizer que, entre perdulários, eu fui mais Herodes do que o próprio Herodes, e que, dando nome a uma multidão de tolices novas, adicionei um apêndice nada breve ao longo catálogo de vícios então usuais na universidade mais dissoluta da Europa.

Dificilmente poderia ser creditado, no entanto, que eu tivesse, mesmo aqui, caído tão completamente da condição de cavalheiro a ponto de procurar o conhecimento das artes mais vis do jogador profissional e, tendo me tornado um adepto em sua ciência desprezível, praticá-la habitualmente como um meio de aumentar minha já enorme renda às custas dos de mente fraca entre meus colegas universitários. Tal, no entanto, era o fato. E a própria enormidade desta ofensa contra todo sentimento viril e honroso provou, sem dúvida, a razão principal, se não a única, da impunidade com que foi cometida. Quem, de fato, entre meus associados mais abandonados, não teria preferido contestar a evidência mais clara de seus sentidos do que suspeitar de tais condutas o alegre, o franco, o generoso William Wilson — o plebeu mais nobre e liberal de Oxford — aquele cujas tolices (diziam seus parasitas) eram apenas as tolices da juventude e da fantasia desenfreada — cujos erros eram apenas caprichos inimitáveis — cujo vício mais sombrio era apenas uma extravagância descuidada e elegante?

Eu estava agora há dois anos ocupado com sucesso desta maneira, quando chegou à universidade um jovem nobre parvenu, Glendinning — rico, dizia o relato, como Herodes Ático — suas riquezas, também, tão facilmente adquiridas. Logo o achei de intelecto fraco e, claro, marquei-o como um sujeito adequado para minha habilidade. Frequentemente o envolvia no jogo e conseguia, com a arte habitual do jogador, deixá-lo ganhar somas consideráveis, para mais efetivamente enredá-lo em minhas armadilhas. Finalmente, estando meus esquemas maduros, encontrei-o (com a plena intenção de que este encontro fosse final e decisivo) nos aposentos de um colega (Sr. Preston), igualmente íntimo de ambos, mas que, para lhe fazer justiça, não nutria nem mesmo uma suspeita remota do meu plano. Para dar a isso uma coloração melhor, eu havia conseguido reunir um grupo de uns oito ou dez, e tive o cuidado solícito de que a introdução das cartas parecesse acidental e originasse da proposta do meu contemplado logro. Para ser breve sobre um tópico vil, nenhuma das baixas sutilezas foi omitida, tão costumeiras em ocasiões semelhantes que é um justo motivo de espanto como alguns ainda são encontrados tão idiotizados a ponto de cair em suas vítimas.

Tínhamos prolongado nossa sessão até bem tarde da noite, e eu finalmente havia efetuado a manobra de ter Glendinning como meu único adversário. O jogo, também, era o meu favorito, écarté! O restante da companhia, interessado na extensão do nosso jogo, abandonara suas próprias cartas e estava parado ao nosso redor como espectadores. O parvenu, que fora induzido pelos meus artifícios no início da noite a beber muito, agora embaralhava, distribuía ou jogava com um nervosismo selvagem de maneiras que sua embriaguez, eu pensava, poderia parcialmente, mas não totalmente, explicar. Em um período muito curto, ele se tornara meu devedor de uma grande quantia, quando, tendo tomado um longo gole de vinho do Porto, ele fez exatamente o que eu estava friamente antecipando — ele propôs dobrar nossas já extravagantes apostas. Com uma mostra bem fingida de relutância, e não até que minha recusa repetida o tivesse seduzido a algumas palavras irritadas que deram uma cor de mágoa à minha conformidade, finalmente concordei. O resultado, é claro, apenas provou o quanto a presa estava inteiramente em minhas redes: em menos de uma hora ele quadruplicara sua dívida. Por algum tempo seu semblante estivera perdendo o tom avermelhado emprestado pelo vinho; mas agora, para meu espanto, percebi que ele crescera para uma palidez verdadeiramente terrível. Digo para meu espanto. Glendinning fora representado às minhas investigações ansiosas como imensamente rico; e as somas que ele havia perdido até então, embora vastas em si mesmas, não poderiam, eu supunha, incomodá-lo muito seriamente, muito menos afetá-lo tão violentamente. Que ele estivesse vencido pelo vinho recém-ingerido foi a ideia que mais prontamente se apresentou; e, mais com o objetivo de preservar minha própria reputação aos olhos de meus associados do que por qualquer motivo menos interessado, eu estava prestes a insistir, peremptoriamente, na interrupção do jogo, quando algumas expressões ao meu lado vindas da companhia, e uma exclamação que mostrava desespero total por parte de Glendinning, deram-me a entender que eu havia efetuado sua ruína total sob circunstâncias que, tornando-o um objeto de pena para todos, deveriam tê-lo protegido dos maus ofícios até mesmo de um demônio.

Qual poderia ter sido minha conduta agora é difícil dizer. A condição lamentável do meu logro lançara um ar de melancolia embaraçada sobre todos; e, por alguns momentos, um silêncio profundo foi mantido, durante o qual não pude deixar de sentir minhas bochechas arderem com os muitos olhares ardentes de desprezo ou reprovação lançados sobre mim pelos menos abandonados do grupo. Admitirei até que um peso intolerável de ansiedade foi, por um breve instante, aliviado de meu peito pela interrupção súbita e extraordinária que se seguiu. As portas largas e pesadas de dobrar do apartamento foram todas de uma vez abertas, em toda a sua extensão, com uma impetuosidade vigorosa e impetuosa que extinguiu, como se por magia, todas as velas da sala. Sua luz, ao morrer, permitiu-nos apenas perceber que um estranho entrara, de altura semelhante à minha, e estreitamente envolto em uma capa. A escuridão, no entanto, era agora total; e só podíamos sentir que ele estava de pé em nosso meio. Antes que qualquer um de nós pudesse se recuperar do espanto extremo em que essa grosseria nos lançara, ouvimos a voz do intruso.

“Cavalheiros”, disse ele, em um sussurro baixo, distinto e inesquecível que vibrou até a própria medula dos meus ossos, “Cavalheiros, não peço desculpas por este comportamento, porque, ao agir assim, estou apenas cumprindo um dever. Vocês estão, sem dúvida, desinformados sobre o verdadeiro caráter da pessoa que esta noite ganhou uma grande quantia de dinheiro no écarté do Lorde Glendinning. Portanto, apresentarei a vocês um plano expedito e decisivo para obter esta informação tão necessária. Por favor, examinem, à vontade, os forros internos do punho da manga esquerda dele, e os vários pequenos pacotes que podem ser encontrados nos bolsos um tanto espaçosos de sua casaca de manhã bordada.”

Enquanto ele falava, tão profunda era a quietude que se poderia ter ouvido um alfinete cair no chão. Ao terminar, ele partiu imediatamente, e tão abruptamente quanto entrara. Posso — devo descrever minhas sensações? Devo dizer que senti todos os horrores dos condenados? Certamente, tive pouco tempo para reflexão. Muitas mãos me agarraram rudemente no local, e as luzes foram imediatamente recuperadas. Uma busca se seguiu. No forro da minha manga foram encontradas todas as cartas da corte essenciais no écarté, e, nos bolsos da minha casaca, vários maços, fac-símiles daqueles usados em nossas sessões, com a única exceção de que os meus eram da espécie chamada, tecnicamente, arrondees; as cartas altas sendo ligeiramente convexas nas extremidades, as cartas baixas ligeiramente convexas nos lados. Nesta disposição, o logro que corta, como é costumeiro, no comprimento do maço, invariavelmente descobrirá que corta para seu antagonista uma carta alta; enquanto o jogador, cortando na largura, cortará, com a mesma certeza, nada para sua vítima que possa contar nos registros do jogo.

Qualquer explosão de indignação após esta descoberta teria me afetado menos do que o desprezo silencioso, ou a compostura sarcástica, com que foi recebida.

“Sr. Wilson”, disse nosso anfitrião, curvando-se para remover debaixo de seus pés uma capa extremamente luxuosa de peles raras, “Sr. Wilson, esta é sua propriedade.” (O tempo estava frio; e, ao sair do meu próprio quarto, eu havia jogado uma capa sobre minha casaca, tirando-a ao chegar ao local do jogo.) “Presumo que seja supérfluo procurar aqui (observando as dobras da vestimenta com um sorriso amargo) por qualquer outra evidência de sua habilidade. De fato, já tivemos o suficiente. Espero que veja a necessidade de deixar Oxford — de qualquer forma, de deixar instantaneamente meus aposentos.”

Humilhado, abatido até o pó como então eu estava, é provável que eu tivesse respondido a essa linguagem insultuosa com violência pessoal imediata, não fosse minha atenção inteira ter sido detida naquele momento por um fato do caráter mais surpreendente. A capa que eu vestia era de uma espécie rara de pele; quão rara, quão extravagantemente custosa, não me aventurarei a dizer. Seu modelo, também, era de minha própria invenção fantástica; pois eu era meticuloso a um grau absurdo de vaidade, em questões desta natureza frívola. Quando, portanto, o Sr. Preston me entregou aquilo que ele havia apanhado no chão, perto das portas duplas do aposento, foi com um assombro quase chegando ao terror que percebi a minha própria já pendurada em meu braço (onde eu, sem dúvida, a colocara inadvertidamente), e que aquela que me fora apresentada não passava de sua cópia exata em cada, em até o mais ínfimo detalhe possível. O ser singular que tão desastrosamente me expusera, lembrei-me, estava envolto em uma capa; e nenhuma fora usada por qualquer dos membros de nosso grupo, com exceção de mim mesmo. Mantendo alguma presença de espírito, tomei aquela que Preston me ofereceu; coloquei-a, sem ser notado, sobre a minha; deixei o aposento com um cenho resoluto de desafio; e, na manhã seguinte, antes do romper do dia, iniciei uma jornada apressada de Oxford para o continente, em uma perfeita agonia de horror e de vergonha.

Fugi em vão. Meu destino maligno perseguiu-me como se em exultação, e provou, de fato, que o exercício de seu domínio misterioso havia apenas começado. Mal pusera os pés em Paris quando tive novas evidências do interesse detestável tomado por este Wilson em meus assuntos. Anos voaram, enquanto eu não experimentava alívio algum. Vilão! — em Roma, com quão inoportuna, porém com quão espectral uma interferência, meteu-se ele entre mim e minha ambição! Em Viena, também — em Berlim — e em Moscou! Onde, na verdade, eu não tive motivos amargos para amaldiçoá-lo em meu coração? De sua tirania inescrutável fugi, enfim, tomado pelo pânico, como de uma peste; e até os confins da terra fugi em vão.

E de novo, e de novo, em comunhão secreta com meu próprio espírito, eu formulava as perguntas: “Quem é ele? — de onde veio? — e quais são seus objetivos?” Mas nenhuma resposta era encontrada. E então eu examinava, com um exame minucioso, as formas, e os métodos, e os traços principais de sua supervisão impertinente. Mas mesmo aqui havia muito pouco sobre o que basear uma conjectura. Era notável, de fato, que, em nenhum dos múltiplos casos em que ele havia recentemente cruzado meu caminho, o fizera senão para frustrar aqueles planos, ou para perturbar aquelas ações que, se plenamente executadas, poderiam ter resultado em amargos prejuízos. Pobre justificativa esta, em verdade, para uma autoridade tão imperiosamente assumida! Pobre indenização por direitos naturais de autodeterminação tão pertinazmente, tão insultuosamente negados!

Eu também fora forçado a notar que meu tormentor, por um longo período de tempo (enquanto escrupulosamente e com destreza miraculosa mantinha seu capricho de uma identidade de vestimentas comigo), havia arranjado as coisas, na execução de sua variada interferência em minha vontade, de modo que eu não visse, em momento algum, as feições de seu rosto. Fosse Wilson o que fosse, isto, pelo menos, não passava da mais pura afetação, ou tolice. Poderia ele, por um instante, ter suposto que, em meu admoestador em Eton — no destruidor de minha honra em Oxford — naquele que frustrou minha ambição em Roma, minha vingança em Paris, meu amor apaixonado em Nápoles, ou o que ele falsamente denominou minha avareza no Egito — que neste, meu arqui-inimigo e gênio maligno, eu poderia deixar de reconhecer o William Wilson de meus dias de escola — o xará, o companheiro, o rival — o odiado e temido rival no Dr. Bransby’s? Impossível! — Mas apressemo-nos para a última cena memorável do drama.

Até aqui eu sucumbira supinamente a essa dominação imperiosa. O sentimento de profundo respeito com que habitualmente eu encarava o caráter elevado, a sabedoria majestosa, a aparente onipresença e onipotência de Wilson, somado a um sentimento de terror, com o qual certos outros traços em sua natureza e suposições me inspiravam, operara, até então, para me impressionar com uma ideia de minha própria fraqueza e desamparo absolutos, e para sugerir uma submissão implícita, embora amargamente relutante, à sua vontade arbitrária. Mas, nos últimos dias, eu me entregara inteiramente ao vinho; e sua influência enlouquecedora sobre meu temperamento hereditário tornava-me cada vez mais impaciente ao controle. Comecei a murmurar — a hesitar — a resistir. E foi apenas fantasia que me levou a acreditar que, com o aumento de minha própria firmeza, a de meu tormentor sofria uma diminuição proporcional? Seja como for, comecei agora a sentir a inspiração de uma esperança ardente e, enfim, alimentei em meus pensamentos secretos uma resolução severa e desesperada de que não me submeteria mais a ser escravizado.

Foi em Roma, durante o Carnaval de 18—, que compareci a um baile de máscaras no palácio do Duque napolitano Di Broglio. Eu havia me entregado mais livremente do que o habitual aos excessos da mesa de vinho; e agora a atmosfera sufocante dos salões lotados irritava-me além da resistência. A dificuldade, também, de abrir caminho através dos labirintos da companhia contribuiu não pouco para o desconcerto de meu temperamento; pois eu procurava ansiosamente (não digamos com que motivo indigno) a jovem, a alegre, a bela esposa do velho e apaixonado Di Broglio. Com uma confiança demasiado inescrupulosa, ela me comunicara anteriormente o segredo do traje em que estaria vestida e agora, tendo vislumbrado sua pessoa, eu corria para abrir caminho até sua presença. Neste momento, senti uma mão leve colocada sobre meu ombro e aquele sussurro sempre lembrado, baixo, maldito, em meu ouvido.

Em um frenesi absoluto de ira, voltei-me de imediato para aquele que assim me interrompera e agarrei-o violentamente pelo colarinho. Ele estava trajado, como eu esperava, com um traje inteiramente semelhante ao meu; vestindo uma capa espanhola de veludo azul, cingida na cintura por um cinto carmesim que sustentava um florete. Uma máscara de seda preta cobria inteiramente seu rosto.

“Canalha!”, disse eu, com uma voz rouca de raiva, enquanto cada sílaba que eu proferia parecia novo combustível para minha fúria, “canalha! impostor! vilão maldito! você não — você não me perseguirá até a morte! Siga-me, ou eu o esfaqueio onde você está!” — e abri caminho para fora do salão de baile para uma pequena antecâmara adjacente, arrastando-o sem resistência comigo enquanto eu ia.

Ao entrar, empurrei-o furiosamente para longe de mim. Ele cambaleou contra a parede, enquanto eu fechava a porta com um juramento e ordenava-lhe que desembainhasse. Ele hesitou apenas por um instante; então, com um leve suspiro, desembainhou em silêncio e pôs-se em defesa.

O combate foi breve, na verdade. Eu estava frenético com toda espécie de excitação selvagem e sentia em meu braço solitário a energia e o poder de uma multidão. Em poucos segundos, forcei-o pela pura força contra o apainelamento e, assim, tendo-o à mercê, mergulhei minha espada, com ferocidade brutal, repetidamente através de seu peito.

Naquele instante, alguém tentou a maçaneta da porta. Apressei-me para evitar uma intrusão e, então, retornei imediatamente ao meu antagonista agonizante. Mas que linguagem humana pode retratar adequadamente aquele assombro, aquele horror que me possuiu perante o espetáculo então apresentado à vista? O breve momento em que desviei meus olhos fora suficiente para produzir, aparentemente, uma mudança material nos arranjos na extremidade superior ou mais distante da sala. Um grande espelho — assim me pareceu a princípio em minha confusão — estava agora onde nenhum fora perceptível antes; e, à medida que me aproximava dele em extremo terror, minha própria imagem, mas com feições todas pálidas e manchadas de sangue, avançava para meu encontro com um passo fraco e vacilante.

Assim parecia, digo eu, mas não era. Era meu antagonista — era Wilson, que então estava diante de mim nas agonias de sua dissolução. Sua máscara e capa jaziam, onde ele as jogara, sobre o chão. Nem um fio em todo o seu traje — nem uma linha em todos os traços marcados e singulares de seu rosto que não fosse, até na identidade mais absoluta, a minha própria!

Era Wilson; mas ele não falava mais em sussurros, e eu poderia ter imaginado que eu mesmo estava falando enquanto ele dizia:

*“Tu venceste, e eu me rendo. Contudo, daqui em diante tu estás também morto — morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu existias — e, na minha morte, vê por esta imagem, que é a tua própria, quão completamente tu assassinaste a ti mesmo.”*

O CORAÇÃO DELATOR.

É verdade! — nervoso — muito, muito terrivelmente nervoso eu estive e estou; mas por que dirão vocês que estou louco? A doença aguçou meus sentidos — não os destruiu — não os entorpeceu. Acima de tudo, o sentido da audição era agudo. Eu ouvia todas as coisas no céu e na terra. Ouvia muitas coisas no inferno. Como, então, estou louco? Escutem! e observem quão sadiamente — quão calmamente posso lhes contar toda a história.

É impossível dizer como a ideia entrou pela primeira vez em meu cérebro; mas, uma vez concebida, ela me assombrou dia e noite. Objetivo não havia nenhum. Paixão não havia nenhuma. Eu amava o velho. Ele nunca me fizera mal. Ele nunca me insultara. Pelo seu ouro eu não tinha desejo. Penso que era seu olho! sim, era isto! Ele tinha o olho de um abutre — um olho azul pálido, com uma película sobre ele. Sempre que ele pousava sobre mim, meu sangue gelava; e assim, aos poucos — muito gradualmente — decidi tirar a vida do velho e, assim, livrar-me do olho para sempre.

Agora, este é o ponto. Vocês me imaginam louco. Loucos não sabem de nada. Mas vocês deveriam ter me visto. Deveriam ter visto quão sabiamente procedi — com que cautela — com que previdência — com que dissimulação trabalhei! Eu nunca fui mais gentil com o velho do que durante toda a semana antes de matá-lo. E toda noite, por volta da meia-noite, eu girava a tranca de sua porta e a abria — oh, tão gentilmente! E então, quando eu havia feito uma abertura suficiente para minha cabeça, eu colocava uma lanterna fechada, toda fechada, para que nenhuma luz brilhasse para fora, e então eu enfiava minha cabeça. Oh, vocês teriam rido ao ver quão astuciosamente eu a enfiava! Eu a movia lentamente — muito, muito lentamente, para que não perturbasse o sono do velho. Levou-me uma hora para colocar toda a minha cabeça dentro da abertura, de modo que eu pudesse vê-lo enquanto ele jazia em sua cama. Ha! — um louco teria sido tão sábio quanto isto? E então, quando minha cabeça estava bem dentro do quarto, eu desfazia a lanterna cautelosamente — oh, tão cautelosamente — cautelosamente (pois as dobradiças rangiam) — desfazia-a apenas o suficiente para que um único raio tênue caísse sobre o olho de abutre. E fiz isso por sete longas noites — todas as noites exatamente à meia-noite — mas encontrei o olho sempre fechado; e assim era impossível realizar o trabalho; pois não era o velho quem me aborrecia, mas seu Olho Maligno. E toda manhã, quando o dia rompia, eu entrava corajosamente no aposento e falava com coragem a ele, chamando-o pelo nome em um tom cordial e perguntando como ele passara a noite. Assim, vocês veem, ele teria de ser um velho muito profundo, de fato, para suspeitar que toda noite, exatamente às doze, eu o observava enquanto ele dormia.

Na oitava noite, fui mais cauteloso do que o habitual ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos de um relógio move-se mais rapidamente do que o meu. Nunca antes daquela noite eu havia sentido a extensão de meus próprios poderes — de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo a porta, pouco a pouco, e ele nem sequer sonhando com meus atos ou pensamentos secretos. Eu ria francamente com a ideia; e talvez ele me tenha ouvido; pois ele se moveu na cama repentinamente, como se assustado. Agora vocês podem pensar que eu recuei — mas não. Seu quarto estava escuro como breu, na escuridão espessa (pois as venezianas estavam bem fechadas, por medo de ladrões), e assim eu sabia que ele não poderia ver a abertura da porta, e continuei empurrando-a firmemente, firmemente.

Eu tinha minha cabeça dentro e estava prestes a abrir a lanterna, quando meu polegar escorregou no fecho de estanho, e o velho saltou na cama, gritando — “Quem está aí?”

Fiquei bem quieto e não disse nada. Por uma hora inteira não movi um músculo e, nesse meio tempo, não o ouvi deitar-se. Ele continuava sentado na cama, ouvindo; — exatamente como eu fizera, noite após noite, escutando os besouros-do-relógio na parede.

Logo ouvi um leve gemido, e soube que era o gemido de terror mortal. Não era um gemido de dor ou de pesar — oh, não! — era o som baixo e sufocado que surge do fundo da alma quando sobrecarregada de pavor. Eu conhecia bem o som. Muitas noites, exatamente à meia-noite, quando todo o mundo dormia, ele brotava do meu próprio peito, aprofundando, com seu eco terrível, os terrores que me distraíam. Digo que o conhecia bem. Eu sabia o que o velho sentia e compadecia-me dele, embora risse em meu coração. Eu sabia que ele estivera acordado desde o primeiro leve ruído, quando se virara na cama. Seus medos vinham crescendo desde então. Ele estivera tentando imaginar que não tinham causa, mas não conseguia. Ele estivera dizendo a si mesmo — “Não é nada além do vento na chaminé — é apenas um rato cruzando o assoalho”, ou “É apenas um grilo que deu um único cricrilar”. Sim, ele estivera tentando confortar-se com essas suposições: mas descobrira que tudo era em vão. Tudo em vão; porque a Morte, ao aproximar-se dele, caminhara com sua sombra negra à frente e envolvera a vítima. E foi a influência lúgubre da sombra não percebida que o fez sentir — embora ele nem visse nem ouvisse — sentir a presença de minha cabeça dentro do quarto.

Quando esperei por muito tempo, muito pacientemente, sem ouvi-lo deitar-se, decidi abrir uma pequena — uma muito, muito pequena fresta na lanterna. Então eu a abri — vocês não podem imaginar quão furtivamente, furtivamente — até que, enfim, um único raio tênue, como o fio da aranha, disparou para fora da fresta e caiu exatamente sobre o olho de abutre.

Estava aberto — escancarado, escancarado — e eu fiquei furioso enquanto olhava para ele. Eu o vi com perfeita nitidez — todo de um azul opaco, com um véu hediondo sobre ele que gelava a própria medula em meus ossos; mas eu não conseguia ver nada mais do rosto ou da pessoa do velho: pois eu direcionara o raio, como que por instinto, precisamente sobre o ponto maldito.

E não lhes disse que o que vocês confundem com loucura é apenas o aguçamento excessivo do sentido? — agora, digo eu, chegou aos meus ouvidos um som baixo, surdo e rápido, tal como um relógio faz quando envolto em algodão. Eu conhecia bem aquele som também. Era o bater do coração do velho. Isso aumentou minha fúria, assim como o bater de um tambor estimula o soldado à coragem.

Mas ainda assim eu me contive e fiquei quieto. Eu mal respirava. Mantive a lanterna imóvel. Tentei ver quão firmemente eu conseguia manter o raio sobre o olho. Nesse meio tempo, a tatuagem infernal do coração aumentava. Tornava-se mais rápida e mais rápida, e mais alta e mais alta a cada instante. O terror do velho devia ser extremo! Tornava-se mais alto, digo eu, mais alto a cada momento! — vocês me notam bem? Eu lhes disse que sou nervoso: então sou. E agora, na hora morta da noite, em meio ao silêncio terrível daquela casa velha, um ruído tão estranho quanto este excitava-me a um terror incontrolável. No entanto, por mais alguns minutos eu me contive e fiquei parado. Mas a batida tornava-se mais alta, mais alta! Pensei que o coração devia explodir. E agora uma nova ansiedade me tomou — o som seria ouvido por um vizinho! A hora do velho chegara! Com um grito alto, escancarei a lanterna e saltei para dentro do quarto. Ele gritou uma vez — uma vez apenas. Em um instante arrastei-o para o chão e puxei a cama pesada sobre ele. Sorri então alegremente, ao ver o feito tão longe de concluído. Mas, por muitos minutos, o coração continuou a bater com um som abafado. Isso, contudo, não me aborreceu; não seria ouvido através da parede. Por fim cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, ele estava morto, morto como uma pedra. Coloquei minha mão sobre o coração e a mantive ali por muitos minutos. Não havia pulsação. Ele estava morto como uma pedra. Seu olho não me incomodaria mais.

Se ainda vocês pensam que estou louco, não pensarão mais quando eu descrever as sábias precauções que tomei para a ocultação do corpo. A noite declinava, e eu trabalhava apressadamente, mas em silêncio. Antes de tudo, desmembrei o cadáver. Cortei a cabeça, os braços e as pernas.

Tomei então três tábuas do assoalho do quarto e depositei tudo entre as vigas. Substituí então as tábuas tão habilmente, tão astuciosamente, que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia ter detectado qualquer coisa errada. Não havia nada para lavar — nenhuma mancha de qualquer tipo — nenhuma marca de sangue de espécie alguma. Eu fora cauteloso demais para isso. Uma tina apanhara tudo — ha! ha!

Quando terminei estes trabalhos, eram quatro horas — ainda escuro como a meia-noite. À medida que o sino soava a hora, houve uma batida na porta da rua. Desci para abri-la com o coração leve — pois o que eu tinha agora a temer? Entraram três homens, que se apresentaram, com perfeita suavidade, como oficiais da polícia. Um grito fora ouvido por um vizinho durante a noite; suspeita de crime fora despertada; informações foram prestadas na delegacia de polícia, e eles (os oficiais) foram designados para revistar o local.

Eu sorri — pois o que eu tinha a temer? Dei as boas-vindas aos senhores. O grito, eu disse, fora meu em um sonho. O velho, mencionei, estava ausente no campo. Levei meus visitantes por toda a casa. Pedi-lhes que revistassem — revistassem bem. Levei-os, enfim, ao seu quarto. Mostrei-lhes seus tesouros, seguros, imperturbados. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto e pedi-lhes que ali descansassem de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na audácia selvagem de meu triunfo perfeito, coloquei meu próprio assento exatamente sobre o ponto abaixo do qual repousava o cadáver da vítima.

Os oficiais ficaram satisfeitos. Meu modo de agir os convencera. Eu estava singularmente à vontade. Eles se sentaram e, enquanto eu respondia alegremente, eles conversavam sobre coisas familiares. Mas, logo, senti-me empalidecer e desejei que fossem embora. Minha cabeça doía, e eu imaginava um zumbido em meus ouvidos: mas ainda assim eles sentavam e continuavam a conversar. O zumbido tornou-se mais distinto: — continuou e tornou-se mais distinto: eu falava mais livremente para me livrar da sensação: mas ele continuou e ganhou definição — até que, enfim, descobri que o ruído não estava dentro de meus ouvidos.

Sem dúvida, eu agora empalidecia muito; — mas falava com mais fluência, e com a voz elevada. Contudo, o som aumentava — e o que eu poderia fazer? Era um som baixo, surdo, rápido — muito semelhante ao som que um relógio faz quando envolto em algodão. Arfei por ar — e, ainda assim, os oficiais não o ouviram. Falei mais depressa — mais veementemente; mas o ruído aumentava constantemente. Levantei-me e discuti sobre ninharias, em um tom elevado e com gestos violentos; mas o ruído aumentava constantemente. Por que eles não iam embora? Percorri o chão de um lado para o outro com passos pesados, como se estivesse excitado a ponto de fúria pelas observações dos homens — mas o ruído aumentava constantemente. Oh, Deus! O que eu poderia fazer? Espumei — delirei — praguejei! Balancei a cadeira sobre a qual eu estivera sentado, e a arrastei sobre as tábuas, mas o ruído sobrepunha-se a tudo e continuamente aumentava. Tornava-se mais alto — mais alto — mais alto! E ainda os homens conversavam agradavelmente, e sorriam. Seria possível que não ouvissem? Deus Todo-Poderoso! — não, não! Eles ouviam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! — eles faziam uma zombaria do meu horror! — isso eu pensava, e isso penso. Mas qualquer coisa era melhor do que essa agonia! Qualquer coisa era mais tolerável do que esse escárnio! Não podia mais suportar aqueles sorrisos hipócritas! Senti que precisava gritar ou morrer! E agora — novamente! — escutem! Mais alto! Mais alto! Mais alto! Mais alto!

“Vilões!” gritei, “não finjam mais! Eu admito o crime! — arranquem as tábuas! — aqui, aqui! — É o bater do seu coração hediondo!”

BERENICE

Dicebant mihi sodales, si sepulchrum amicae visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas. — Ebn Zaiat.

A miséria é múltipla. A desgraça da terra é multiforme. Ultrapassando o vasto horizonte como o arco-íris, suas matizes são tão variadas quanto as matizes daquele arco — tão distintas também, e ainda assim tão intimamente mescladas. Ultrapassando o vasto horizonte como o arco-íris! Como é que da beleza derivei um tipo de desolação? — da aliança de paz, um símile de sofrimento? Mas assim como, na ética, o mal é uma consequência do bem, assim, de fato, da alegria nasce o pesar. Ou a memória de uma felicidade passada é a angústia de hoje, ou as agonias que existem têm sua origem nos êxtases que poderiam ter existido.

Meu nome de batismo é Egaeus; o de minha família não mencionarei. Contudo, não há torres na terra mais veneráveis do que meus sombrios, cinzentos e hereditários salões. Nossa linhagem tem sido chamada de uma raça de visionários; e em muitos aspectos notáveis — no caráter da mansão da família — nos afrescos do salão principal — nas tapeçarias dos dormitórios — no cinzelamento de alguns contrafortes na armaria — mas mais especialmente na galeria de pinturas antigas — no estilo da câmara da biblioteca — e, por fim, na natureza muito peculiar do conteúdo da biblioteca — há mais do que evidências suficientes para justificar tal crença.

As recordações dos meus primeiros anos estão ligadas a essa câmara, e aos seus volumes — dos quais nada mais direi. Aqui morreu minha mãe. Aqui nasci eu. Mas é pura ociosidade dizer que eu não vivera antes — que a alma não tem existência anterior. Você nega? — não discutamos a questão. Convencido eu mesmo, não busco convencer. Há, contudo, uma lembrança de formas aéreas — de olhos espirituais e expressivos — de sons, musicais porém tristes — uma lembrança que não será excluída; uma memória como uma sombra — vaga, variável, indefinida, instável; e como uma sombra, também, na impossibilidade de me livrar dela enquanto a luz do sol da minha razão existir.

Nessa câmara eu nasci. Assim, despertando da longa noite do que parecia, mas não era, não existência, de imediato para as próprias regiões da terra das fadas — para um palácio da imaginação — para os domínios selvagens do pensamento monástico e da erudição — não é singular que eu olhasse ao meu redor com um olho assustado e ardente — que eu desperdiçasse minha infância em livros, e dissipasse minha juventude em devaneios; mas é singular que, à medida que os anos passavam, e o meio-dia da masculinidade me encontrava ainda na mansão de meus pais — é maravilhoso que estagnação caiu sobre as fontes da minha vida — maravilhoso quão total foi a inversão que ocorreu no caráter do meu pensamento mais comum. As realidades do mundo afetavam-me como visões, e apenas como visões, enquanto as ideias selvagens da terra dos sonhos tornavam-se, por sua vez, não o material da minha existência cotidiana, mas, de fato, essa existência total e unicamente em si mesma.

Berenice e eu éramos primos, e crescemos juntos nos meus salões paternos. Contudo, crescemos de formas diferentes — eu, doente de saúde, e enterrado na melancolia — ela, ágil, graciosa e transbordando de energia; dela, o passeio pela encosta da colina — meus, os estudos do claustro; eu, vivendo dentro do meu próprio coração, e viciado, de corpo e alma, na meditação mais intensa e dolorosa — ela, vagando despreocupadamente pela vida, sem um pensamento sobre as sombras em seu caminho, ou o voo silencioso das horas de asas de corvo. Berenice! — chamo pelo seu nome — Berenice! — e das ruínas cinzentas da memória mil recordações tumultuosas sobressaltam-se ao som! Ah, vividamente sua imagem está diante de mim agora, como nos primeiros dias de sua alegria e despreocupação! Oh, beleza magnífica, porém fantástica! Oh, sílfide entre os arbustos de Arnheim! Oh, náiade entre suas fontes! E então — então tudo é mistério e terror, e uma história que não deveria ser contada. A doença — uma doença fatal, caiu como o simum sobre seu corpo; e, mesmo enquanto eu a contemplava, o espírito da mudança varreu-a, permeando sua mente, seus hábitos e seu caráter, e, de uma maneira a mais sutil e terrível, perturbando até mesmo a identidade da sua pessoa! Ai! o destruidor veio e foi! — e a vítima — onde está ela? Eu não a conhecia — ou não a conhecia mais como Berenice.

Entre o numeroso cortejo de enfermidades sobrepostas por aquela fatal e primária que efetuou uma revolução de tão horrível tipo no ser moral e físico da minha prima, pode ser mencionada, como a mais angustiante e obstinada em sua natureza, uma espécie de epilepsia não infrequentemente terminando no próprio transe — transe muito semelhante à dissolução positiva, e do qual sua maneira de recuperação era, na maioria dos casos, assustadoramente abrupta. Nesse meio tempo, minha própria doença — pois me disseram que não deveria chamá-la por outra denominação — minha própria doença, então, cresceu rapidamente sobre mim, e assumiu finalmente um caráter monomaníaco de uma forma nova e extraordinária — ganhando vigor a cada hora e a cada momento — e, por fim, obtendo sobre mim a mais incompreensível ascendência. Essa monomania, se devo assim chamá-la, consistia em uma irritabilidade mórbida daquelas propriedades da mente na ciência metafísica denominadas ativas. É mais do que provável que eu não seja compreendido; mas temo, na verdade, que não seja de modo algum possível transmitir à mente do leitor meramente geral uma ideia adequada daquela intensidade nervosa de interesse com a qual, no meu caso, os poderes da meditação (para não falar tecnicamente) ocupavam-se e enterravam-se na contemplação até mesmo dos objetos mais comuns do universo.

Meditar por longas horas incansáveis, com minha atenção cravada em algum dispositivo frívolo na margem, ou na tipografia de um livro; tornar-me absorto, durante a maior parte de um dia de verão, em uma sombra peculiar caindo obliquamente sobre a tapeçaria ou sobre o chão; perder-me, por uma noite inteira, observando a chama constante de uma lâmpada, ou as brasas de uma fogueira; sonhar acordado por dias inteiros sobre o perfume de uma flor; repetir, monotonamente, alguma palavra comum, até que o som, à força de repetição frequente, deixasse de transmitir qualquer ideia à mente; perder todo o sentido de movimento ou existência física, por meio de absoluta quietude corporal longa e obstinadamente perseverada: tais eram algumas das mais comuns e menos perniciosas divagações induzidas por uma condição das faculdades mentais, não, na verdade, de todo inigualável, mas certamente desafiando qualquer tipo de análise ou explicação.

Contudo, que eu não seja mal compreendido. A atenção indevida, fervorosa e mórbida assim excitada por objetos em sua própria natureza frívolos, não deve ser confundida em caráter com aquela propensão ruminante comum a toda a humanidade, e mais especialmente cultivada por pessoas de imaginação ardente. Não era sequer, como se poderia supor a princípio, uma condição extrema ou exagero de tal propensão, mas primária e essencialmente distinta e diferente. Na primeira instância, o sonhador, ou entusiasta, sendo interessado por um objeto geralmente não frívolo, imperceptivelmente perde de vista esse objeto em um deserto de deduções e sugestões que dele emanam, até que, ao final de um devaneio frequentemente repleto de luxo, ele encontra o incitamentum, ou causa primeira de suas meditações, inteiramente desaparecido e esquecido. No meu caso, o objeto primário era invariavelmente frívolo, embora assumindo, através do meio da minha visão doentia, uma importância refratada e irreal. Poucas deduções, se alguma, eram feitas; e essas poucas retornavam pertinazmente ao objeto original como um centro. As meditações nunca eram prazerosas; e, ao término do devaneio, a causa primeira, longe de estar fora de vista, havia atingido aquele interesse sobrenaturalmente exagerado que era o traço predominante da doença. Em uma palavra, os poderes da mente mais particularmente exercidos eram, comigo, como eu disse antes, os ativos, e são, com o sonhador, os especulativos.

Meus livros, nesta época, se não serviam de fato para irritar o distúrbio, participavam, perceber-se-á, grandemente, em sua natureza imaginativa e inconsequente, das qualidades características do próprio distúrbio. Lembro-me bem, entre outros, do tratado do nobre italiano, Coelius Secundus Curio, “De Amplitudine Beati Regni Dei”; a grande obra de Santo Agostinho, a “Cidade de Deus”; e “De Carne Christi” de Tertuliano, na qual a frase paradoxal “Mortuus est Dei filius; credible est quia ineptum est: et sepultus resurrexit; certum est quia impossibile est,” ocupou meu tempo indiviso, por muitas semanas de investigação laboriosa e infrutífera.

Assim aparecerá que, sacudida de seu equilíbrio apenas por coisas triviais, minha razão assemelhava-se àquele rochedo oceânico de que fala Ptolomeu Heféstion, o qual, resistindo constantemente aos ataques da violência humana, e à fúria mais feroz das águas e dos ventos, tremia apenas ao toque da flor chamada Asfódelo. E embora, para um pensador descuidado, pudesse parecer uma questão fora de dúvida que a alteração produzida por sua infeliz enfermidade, na condição moral de Berenice, me proporcionaria muitos objetos para o exercício daquela meditação intensa e anormal cuja natureza tive o trabalho de explicar, tal não era, de modo algum, o caso. Nos intervalos lúcidos da minha enfermidade, sua calamidade, de fato, causava-me dor, e, tomando profundamente a peito aquele naufrágio total de sua vida justa e gentil, não deixei de ponderar, frequente e amargamente, sobre os meios milagrosos pelos quais uma revolução tão estranha fora tão subitamente levada a cabo. Mas essas reflexões não participavam da idiossincrasia da minha doença, e eram tais que teriam ocorrido, sob circunstâncias semelhantes, à massa comum da humanidade. Fiel ao seu próprio caráter, meu distúrbio deleitava-se nas mudanças menos importantes, porém mais assustadoras, operadas na estrutura física de Berenice — na singular e mais apavorante distorção de sua identidade pessoal.

Durante os dias mais brilhantes de sua beleza inigualável, certamente eu nunca a amara. Na estranha anomalia da minha existência, os sentimentos, comigo, nunca tinham sido do coração, e minhas paixões sempre foram da mente. Através do cinza do início da manhã — entre as sombras treliçadas da floresta ao meio-dia — e no silêncio da minha biblioteca à noite — ela esvoaçava diante dos meus olhos, e eu a via — não como a Berenice viva e que respirava, mas como a Berenice de um sonho; não como um ser da terra, terreno, mas como a abstração de tal ser; não como uma coisa para admirar, mas para analisar; não como um objeto de amor, mas como o tema da especulação mais abstrusa, embora assistemática. E agora — agora eu estremecia em sua presença, e empalidecia à sua aproximação; contudo, lamentando amargamente sua condição caída e desolada, recordava-me de que ela me amara há muito tempo, e, em um momento infeliz, falei-lhe de casamento.

E, enfim, o período de nossas núpcias aproximava-se, quando, em uma tarde no inverno do ano — um daqueles dias inoportunamente quentes, calmos e enevoados que são a ama do belo Alcíone (*1), — eu estava sentado, (e sentado, como pensava, sozinho,) no aposento interno da biblioteca. Mas, erguendo os olhos, vi que Berenice estava diante de mim.

Teria sido minha própria imaginação excitada — ou a influência enevoada da atmosfera — ou o crepúsculo incerto da câmara — ou as cortinas cinzentas que caíam ao redor de sua figura — que causavam nela um contorno tão vacilante e indistinto? Eu não saberia dizer. Ela não pronunciou palavra; e eu — nem por todo o ouro do mundo poderia ter proferido uma sílaba. Um calafrio gelado percorreu meu corpo; uma sensação de ansiedade insuportável oprimiu-me; uma curiosidade consumidora invadiu minha alma; e recuando sobre a cadeira, permaneci por algum tempo sem fôlego e imóvel, com meus olhos cravados em sua pessoa. Ai! sua emaciação era excessiva, e nem um vestígio do ser anterior espreitava em qualquer linha do contorno. Meus olhares ardentes finalmente caíram sobre o rosto.

A testa era alta, e muito pálida, e singularmente plácida; e o cabelo, outrora cor de azeviche, caía parcialmente sobre ela, e sombreava as têmporas encovadas com inúmeros cachos, agora de um amarelo vívido, e chocando-se discordantemente, em seu caráter fantástico, com a melancolia reinante da fisionomia. Os olhos estavam sem vida, e sem brilho, e aparentemente sem pupila, e eu me encolhi involuntariamente diante de seu olhar vítreo para a contemplação dos lábios finos e encolhidos. Eles se abriram; e em um sorriso de significado peculiar, os dentes da Berenice mudada revelaram-se lentamente à minha visão. Quem dera que eu nunca os tivesse contemplado, ou que, tendo-o feito, eu tivesse morrido!

O fechar de uma porta perturbou-me, e, olhando para cima, descobri que minha prima havia partido da câmara. Mas da câmara desordenada do meu cérebro, não havia partido, ai!, e não seria expulso, o espectro branco e horrível dos dentes. Nem uma mancha em sua superfície — nem uma sombra em seu esmalte — nem um entalhe em suas bordas — mas o que aquele período do seu sorriso bastara para marcar em minha memória. Eu os via agora ainda mais inequivocamente do que os via então. Os dentes! — os dentes! — eles estavam aqui, e ali, e em toda parte, e visível e palpavelmente diante de mim; longos, estreitos e excessivamente brancos, com os lábios pálidos contorcendo-se ao redor deles, como no próprio momento de seu primeiro desenvolvimento terrível. Então veio a fúria total da minha monomania, e lutei em vão contra sua estranha e irresistível influência. Nos objetos multiplicados do mundo exterior, eu não tinha pensamentos senão para os dentes. Por estes eu ansiava com um desejo frenético. Todos os outros assuntos e todos os diferentes interesses tornaram-se absortos em sua única contemplação. Eles — eles sozinhos estavam presentes ao olho mental, e eles, em sua única individualidade, tornaram-se a essência da minha vida mental. Eu os mantinha sob todas as luzes. Eu os virava em todas as atitudes. Eu examinava suas características. Eu me detinha em suas peculiaridades. Eu ponderava sobre sua conformação. Eu meditava sobre a alteração em sua natureza. Eu estremecia ao atribuir-lhes, na imaginação, um poder sensível e senciente, e mesmo, quando não assistidos pelos lábios, uma capacidade de expressão moral. De Mademoiselle Salle, bem se disse: “Que tous ses pas étaient des sentiments”, e de Berenice, mais seriamente, eu acreditava que toutes ses dents étaient des idées. Des idées! — ah, aqui estava o pensamento idiota que me destruiu! Des idées! — ah, foi por isso que eu os cobicei tão loucamente! Eu sentia que sua posse poderia, sozinha, restituir-me a paz, ao devolver-me à razão.

E a noite fechou-se sobre mim assim — e então a escuridão veio, e permaneceu, e foi embora — e o dia novamente amanheceu — e as névoas de uma segunda noite estavam agora se reunindo — e ainda eu permanecia imóvel naquela sala solitária — e ainda eu permanecia enterrado em meditação — e ainda o fantasma dos dentes mantinha sua ascendência terrível, enquanto, com a mais vívida e hedionda nitidez, flutuava em meio às luzes e sombras mutáveis da câmara. Finalmente, rompeu meus sonhos um grito como de horror e consternação; e a isso, após uma pausa, sucedeu o som de vozes perturbadas, misturadas com muitos gemidos baixos de tristeza ou de dor. Levantei-me do meu assento, e, abrindo uma das portas da biblioteca, vi, parada na antecâmara, uma serva, toda em lágrimas, que me disse que Berenice não existia mais! Ela fora acometida por epilepsia no início da manhã, e agora, ao fechar da noite, a sepultura estava pronta para sua inquilina, e todos os preparativos para o sepultamento estavam concluídos.

Encontrei-me sentado na biblioteca, e novamente sentado ali, sozinho. Parecia que eu acabara de despertar de um sonho confuso e excitante. Eu sabia que era meia-noite, e estava bem consciente de que, desde o pôr do sol, Berenice fora sepultada. Mas daquele período lúgubre que se seguiu, eu não tinha uma compreensão positiva, pelo menos não definida. Contudo, sua memória estava repleta de horror — horror mais horrível por ser vago, e terror mais terrível pela ambiguidade. Era uma página terrível no registro da minha existência, escrita por toda parte com recordações sombrias, hediondas e ininteligíveis. Esforcei-me para decifrá-las, mas em vão; enquanto, de tempos em tempos, como o espírito de um som que partiu, o grito estridente e penetrante de uma voz feminina parecia soar em meus ouvidos. Eu cometera um crime — o que era? Fiz a pergunta a mim mesmo em voz alta, e os ecos sussurrantes da câmara responderam-me: — “O que era?”

Sobre a mesa ao meu lado ardia uma lâmpada, e perto dela jazia uma pequena caixa. Não era de caráter notável, e eu a vira frequentemente antes, pois era propriedade do médico da família; mas como veio parar ali, sobre minha mesa, e por que estremeci ao contemplá-la? Essas coisas não podiam ser explicadas de modo algum, e meus olhos finalmente caíram sobre as páginas abertas de um livro, e sobre uma frase sublinhada nele. As palavras eram as singulares, porém simples, do poeta Ebn Zaiat: — “Dicebant mihi sodales si sepulchrum amicae visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas.” Por que então, enquanto as lia, os cabelos da minha cabeça se eriçaram, e o sangue do meu corpo se coagulou em minhas veias?

Houve uma leve batida na porta da biblioteca — e, pálido como o inquilino de uma tumba, um criado entrou na ponta dos pés. Seus olhares eram selvagens de terror, e ele falou comigo em uma voz trêmula, rouca e muito baixa. O que ele disse? — ouvi algumas frases interrompidas. Ele falou de um grito selvagem perturbando o silêncio da noite — da reunião dos membros da casa — de uma busca na direção do som; e então seus tons tornaram-se arrepiantemente distintos enquanto ele me sussurrava sobre uma sepultura violada — sobre um corpo desfigurado envolto em sudário, mas ainda respirando — ainda palpitando — ainda vivo!

Ele apontou para vestimentas; — estavam enlameadas e coaguladas com sangue. Não falei, e ele pegou-me gentilmente pela mão: estava marcada com a impressão de unhas humanas. Ele dirigiu minha atenção para algum objeto contra a parede. Olhei para ele por alguns minutos: era uma pá. Com um grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que estava sobre ela. Mas não consegui forçá-la a abrir; e, em meu tremor, ela escorregou das minhas mãos, caiu pesadamente e estourou em pedaços; e dela, com um som metálico, rolaram alguns instrumentos de cirurgia dentária, misturados com trinta e duas pequenas substâncias brancas e com aparência de marfim que se espalharam por todo o chão.

Venho de uma estirpe notável pelo vigor da fantasia e pelo ardor da paixão. Homens chamaram-me de louco; mas a questão ainda não está decidida, se a loucura é ou não a mais elevada inteligência — se muito do que é glorioso — se tudo o que é profundo — não brota da doença do pensamento — de estados de espírito exaltados à custa do intelecto geral. Aqueles que sonham acordados têm consciência de muitas coisas que escapam àqueles que sonham apenas enquanto dormem. Em suas visões cinzentas, obtêm vislumbres da eternidade e estremecem, ao despertar, por descobrirem que estiveram à beira do grande segredo. Em fragmentos, aprendem algo da sabedoria que é do bem, e mais do mero conhecimento que é do mal. Penetram, contudo, sem leme ou bússola no vasto oceano da “luz inefável”, e novamente, como as aventuras do geógrafo núbio, “agressi sunt mare tenebrarum, quid in eo esset exploraturi.”

Diremos, então, que sou louco. Concedo, pelo menos, que existem duas condições distintas da minha existência mental — a condição de uma razão lúcida, que não pode ser contestada, e que pertence à memória de eventos que formaram a primeira época da minha vida — e uma condição de sombra e dúvida, pertencente ao presente, e à recordação do que constitui a segunda grande era do meu ser. Portanto, o que direi sobre o período anterior, acreditai; e ao que eu possa relatar sobre o tempo posterior, dai apenas o crédito que pareça merecido, ou duvidai de tudo, ou, se duvidar não puderdes, então sede o Édipo para seu enigma.

Aquela a quem amei na juventude, e de quem agora escrevo calma e distintamente estas lembranças, era a única filha da única irmã de minha mãe, há muito falecida. Eleonora era o nome de minha prima. Sempre vivemos juntos, sob um sol tropical, no Vale da Relva Multicor. Nenhum passo incauto jamais entrou naquele vale; pois ele jazia bem alto entre uma cadeia de colinas gigantescas que pairavam ameaçadoras ao seu redor, bloqueando a luz do sol de seus recônditos mais doces. Nenhum caminho era trilhado em suas proximidades; e, para alcançar nosso lar feliz, era necessário afastar, com força, a folhagem de muitos milhares de árvores da floresta, e esmagar até a morte as glórias de muitos milhões de flores perfumadas. Assim era que vivíamos todos sós, sem conhecer nada do mundo fora do vale — eu, e minha prima, e sua mãe.

Das regiões sombrias além das montanhas, na extremidade superior do nosso domínio cercado, rastejava um rio estreito e profundo, mais brilhante do que tudo, exceto os olhos de Eleonora; e, serpenteando furtivamente em cursos labirínticos, passava, por fim, através de um desfiladeiro sombrio, entre colinas ainda mais tênues do que aquelas de onde havia emanado. Chamávamo-lo de “Rio do Silêncio”; pois parecia haver uma influência apaziguadora em seu fluxo. Nenhum murmúrio surgia de seu leito, e tão suavemente ele vagueava, que as pedras peroladas sobre as quais amávamos contemplar, bem lá no fundo de seu seio, não se moviam de modo algum, mas jaziam em um contentamento imóvel, cada uma em seu próprio lugar antigo, brilhando gloriosamente para sempre.

A margem do rio, e dos muitos riachos deslumbrantes que deslizavam por caminhos tortuosos até seu canal, bem como os espaços que se estendiam das margens até as profundezas das correntes, até atingirem o leito de pedras no fundo — esses pontos, não menos do que toda a superfície do vale, desde o rio até as montanhas que o cingiam, eram todos acarpetados por uma relva verde e suave, espessa, curta, perfeitamente uniforme e com perfume de baunilha, mas tão salpicada por toda parte com o botão-de-ouro amarelo, a margarida branca, a violeta púrpura e o asfódelo vermelho-rubi, que sua beleza excessiva falava aos nossos corações em tons altos, do amor e da glória de Deus.

E, aqui e ali, em bosques sobre esta relva, como ermos de sonhos, surgiam árvores fantásticas, cujos troncos altos e esguios não se mantinham eretos, mas inclinavam-se graciosamente em direção à luz que espreitava ao meio-dia no centro do vale. Sua casca era salpicada com o esplendor alternado e vívido de ébano e prata, e era mais lisa do que tudo, exceto as faces de Eleonora; de modo que, não fosse pelo verde brilhante das enormes folhas que se espalhavam de seus cumes em linhas longas e trêmulas, brincando com os Zéfiros, poder-se-ia tê-las imaginado como serpentes gigantes da Síria prestando homenagem ao seu soberano, o Sol.

De mãos dadas por este vale, durante quinze anos, vaguei com Eleonora antes que o Amor entrasse em nossos corações. Foi uma noite, ao final do terceiro lustro de sua vida e do quarto da minha, que nos sentamos, presos no abraço um do outro, sob as árvores semelhantes a serpentes, e olhamos para dentro das águas do Rio do Silêncio para nossas imagens ali refletidas. Não pronunciamos palavras durante o resto daquele dia doce, e nossas palavras, mesmo no dia seguinte, foram trêmulas e poucas. Tínhamos atraído o Deus Eros daquela onda, e agora sentíamos que ele havia acendido em nós as almas ardentes de nossos ancestrais. As paixões que por séculos distinguiram nossa raça vieram acompanhadas das fantasias pelas quais também eram conhecidas, e juntas sopraram uma felicidade delirante sobre o Vale da Relva Multicor. Uma mudança caiu sobre todas as coisas. Flores estranhas e brilhantes, em forma de estrela, brotaram nas árvores onde flores nunca haviam sido vistas antes. Os matizes do tapete verde aprofundaram-se; e quando, uma a uma, as margaridas brancas murcharam, surgiram em seu lugar, dez a dez, o asfódelo vermelho-rubi. E a vida surgiu em nossos caminhos; pois o flamingo alto, até então invisível, com todos os pássaros alegres e brilhantes, exibia sua plumagem escarlate diante de nós. Os peixes dourados e prateados frequentavam o rio, de cujo seio emanava, pouco a pouco, um murmúrio que aumentava, por fim, em uma melodia calmante mais divina do que a da harpa de Éolo — mais doce do que tudo, exceto a voz de Eleonora. E agora, também, uma nuvem volumosa, que havíamos observado por muito tempo nas regiões de Héspero, flutuou de lá, toda magnífica em carmesim e ouro, e estabelecendo-se em paz acima de nós, desceu, dia após dia, mais e mais, até que suas bordas repousaram sobre o topo das montanhas, transformando toda a sua penumbra em magnificência, e nos confinando, como se para sempre, dentro de uma prisão mágica de grandeza e glória.

A formosura de Eleonora era a dos Serafins; mas ela era uma donzela ingênua e inocente como a breve vida que levara entre as flores. Nenhuma astúcia disfarçava o fervor de amor que animava seu coração, e ela examinava comigo seus recessos mais íntimos enquanto caminhávamos juntos no Vale da Relva Multicor, e discorríamos sobre as grandes mudanças que ali haviam ocorrido recentemente.

Por fim, tendo falado um dia, em lágrimas, sobre a última triste mudança que deve acometer a Humanidade, ela dali em diante habitou apenas este único tema doloroso, entrelaçando-o em toda a nossa conversa, como, nas canções do bardo de Schiraz, as mesmas imagens são encontradas ocorrendo, repetidas vezes, em cada variação impressionante de frase.

Ela vira que o dedo da Morte estava sobre seu seio — que, como a efêmera, ela fora feita perfeita em formosura apenas para morrer; mas os terrores da sepultura para ela residiam apenas em uma consideração que ela me revelou, uma noite ao crepúsculo, às margens do Rio do Silêncio. Ela se entristecia ao pensar que, tendo-a sepultado no Vale da Relva Multicor, eu abandonaria para sempre seus recônditos felizes, transferindo o amor que agora era tão apaixonadamente seu para alguma donzela do mundo exterior e cotidiano. E, então, ali mesmo, lancei-me apressadamente aos pés de Eleonora, e ofereci um voto, a ela mesma e ao Céu, de que nunca me ligaria em matrimônio a nenhuma filha da Terra — que de nenhuma maneira me tornaria renegado à sua querida memória, ou à memória do afeto devoto com que ela me abençoara. E chamei o Poderoso Governante do Universo para testemunhar a piedosa solenidade do meu voto. E a maldição que invoquei d’Ele e dela, um santo no Helísio caso eu me provasse traidor daquela promessa, envolvia uma penalidade cujo horror excessivamente grande não me permite registrar aqui. E os olhos brilhantes de Eleonora brilharam ainda mais com as minhas palavras; e ela suspirou como se um fardo mortal tivesse sido retirado de seu peito; e ela tremeu e chorou muito amargamente; mas ela aceitou o voto (pois o que era ela senão uma criança?) e isso tornou fácil para ela o leito de sua morte. E ela me disse, não muitos dias depois, morrendo tranquilamente, que, por causa do que eu havia feito pelo conforto de seu espírito, ela velaria por mim nesse espírito quando partisse, e, se fosse permitido, retornaria a mim visivelmente nas vigílias da noite; mas, se essa coisa estivesse, de fato, além do poder das almas no Paraíso, que ela, pelo menos, me daria indicações frequentes de sua presença, suspirando sobre mim nos ventos da tarde, ou enchendo o ar que eu respirava com perfume dos incensários dos anjos. E, com essas palavras em seus lábios, ela entregou sua vida inocente, pondo fim à primeira época da minha própria.

Até aqui falei fielmente. Mas, à medida que passo a barreira no caminho do Tempo, formada pela morte de minha amada, e prossigo com a segunda era da minha existência, sinto que uma sombra se acumula sobre meu cérebro, e desconfio da perfeita sanidade do registro. Mas deixem-me seguir. — Os anos arrastaram-se pesadamente, e ainda habitei dentro do Vale da Relva Multicor; mas uma segunda mudança ocorrera em todas as coisas. As flores em forma de estrela encolheram-se para dentro dos troncos das árvores, e não apareceram mais. Os matizes do tapete verde desbotaram; e, um a um, os asfódelos vermelho-rubi murcharam; e surgiram, em seu lugar, dez a dez, violetas escuras, semelhantes a olhos, que se contorciam inquietas e estavam sempre carregadas de orvalho. E a Vida partiu de nossos caminhos; pois o flamingo alto não exibia mais sua plumagem escarlate diante de nós, mas voava tristemente do vale para as colinas, com todos os pássaros alegres e brilhantes que haviam chegado em sua companhia. E os peixes dourados e prateados nadaram pelo desfiladeiro na extremidade inferior do nosso domínio e nunca mais adornaram o doce rio. E a melodia calmante que fora mais suave do que a harpa de vento de Éolo, e mais divina do que tudo, exceto a voz de Eleonora, morreu pouco a pouco, em murmúrios que diminuíam cada vez mais, até que o fluxo retornou, por fim, inteiramente, à solenidade de seu silêncio original. E então, finalmente, a nuvem volumosa ergueu-se e, abandonando o topo das montanhas à penumbra antiga, recuou para as regiões de Héspero, e levou consigo todas as suas múltiplas glórias douradas e magníficas do Vale da Relva Multicor.

Contudo, as promessas de Eleonora não foram esquecidas; pois ouvi os sons do balanço dos incensários dos anjos; e correntes de um perfume sagrado flutuavam sempre pelo vale; e em horas solitárias, quando meu coração batia pesadamente, os ventos que banhavam minha testa vinham até mim carregados de suspiros suaves; e murmúrios indistintos preenchiam frequentemente o ar noturno, e uma vez — oh, mas apenas uma vez! fui despertado de um sono, como o sono da morte, pela pressão de lábios espirituais sobre os meus.

Mas o vazio dentro do meu coração recusou-se, mesmo assim, a ser preenchido. Eu ansiava pelo amor que antes o preenchera até transbordar. Por fim, o vale me causava dor através de suas lembranças de Eleonora, e deixei-o para sempre pelas vaidades e pelos triunfos turbulentos do mundo.

Encontrei-me dentro de uma cidade estranha, onde todas as coisas poderiam ter servido para apagar da lembrança os doces sonhos que sonhei por tanto tempo no Vale da Relva Multicor. As pompas e grandezas de uma corte majestosa, e o clangor louco das armas, e a formosura radiante das mulheres, desnortearam e inebriaram meu cérebro. Mas, até então, minha alma provara ser fiel aos seus votos, e as indicações da presença de Eleonora ainda me eram dadas nas horas silenciosas da noite. De repente, essas manifestações cessaram, e o mundo tornou-se sombrio diante dos meus olhos, e fiquei horrorizado com os pensamentos ardentes que me possuíam, com as terríveis tentações que me assaltavam; pois veio de alguma terra distante, muito distante e desconhecida, para a corte alegre do rei a quem eu servia, uma donzela a cuja beleza todo o meu coração renegado rendeu-se de imediato — a cujo escabelo curvei-me sem luta, na mais ardente, na mais abjeta adoração de amor. Qual, na verdade, era minha paixão pela jovem do vale em comparação com o fervor, e o delírio, e o êxtase de adoração que elevava o espírito com o qual derramei toda a minha alma em lágrimas aos pés da etérea Ermengarde? — Oh, brilhante era a serafim Ermengarde! e nesse conhecimento não havia espaço para mais ninguém. Oh, divina era a anjo Ermengarde! e enquanto eu olhava para as profundezas de seus olhos memoriais, pensava apenas neles — e nela.

Casei-me — nem temi a maldição que invocara; e sua amargura não recaiu sobre mim. E uma vez — mas apenas mais uma vez, no silêncio da noite, vieram através de minha treliça os suspiros suaves que me haviam abandonado; e eles se modelaram em uma voz familiar e doce, dizendo:

“Dorme em paz! pois o Espírito do Amor reina e governa, e, ao tomar para o teu coração apaixonado aquela que é Ermengarde, estás absolvido, por razões que te serão dadas a conhecer no Céu, de teus votos a Eleonora.”

(*15) A corola desta flor (Aristolochia Clematitis), que é tubular, mas termina para cima em um limbo ligulado, é inflada em uma figura globular na base. A parte tubular é internamente guarnecida com pelos rígidos, apontando para baixo. A parte globular contém o pistilo, que consiste meramente em um germe e estigma, juntamente com os estames circundantes. Mas os estames, sendo mais curtos que o germe, não podem descarregar o pólen de modo a lançá-lo sobre o estigma, visto que a flor permanece sempre ereta até depois da impregnação. E, portanto, sem algum auxílio adicional e peculiar, o pólen deve necessariamente cair até o fundo da flor. Ora, o auxílio que a natureza forneceu neste caso é o da Tiputa Pennicornis, um pequeno inseto que, ao entrar no tubo da corola em busca de mel, desce até o fundo e remexe até ficar completamente coberto de pólen; mas, não sendo capaz de forçar sua saída novamente, devido à posição descendente dos pelos, que convergem para um ponto como os arames de uma ratoeira, e estando um tanto impaciente com seu confinamento, ele escova para trás e para frente, tentando cada canto, até que, após atravessar repetidamente o estigma, ele o cobre com pólen suficiente para sua impregnação, em consequência do que a flor logo começa a murchar, e os pelos a encolher-se para os lados do tubo, efetuando uma passagem fácil para a fuga do inseto.” — Rev. P. Keith - System of Physiological Botany.

(*16) As abelhas — desde que existem abelhas — vêm construindo suas células com tais lados, em tal número e com tais inclinações, como foi demonstrado (em um problema que envolve os princípios matemáticos mais profundos) serem exatamente os lados, no número exato e nos ângulos exatos que proporcionarão às criaturas o maior espaço compatível com a maior estabilidade de estrutura.

Durante a última parte do século passado, surgiu a questão entre os matemáticos: “determinar a melhor forma que pode ser dada às velas de um moinho de vento, de acordo com suas distâncias variáveis das pás giratórias e, da mesma forma, dos centros da revolução.” Este é um problema excessivamente complexo, pois é, em outras palavras, encontrar a melhor posição possível em uma infinidade de distâncias variadas e em uma infinidade de pontos no braço. Houve mil tentativas fúteis de responder à consulta por parte dos mais ilustres matemáticos e, quando finalmente uma solução inegável foi descoberta, os homens descobriram que as asas de um pássaro a haviam dado com precisão absoluta desde que o primeiro pássaro atravessou o ar.

(*17) Ele observou um bando de pombos passando entre Frankfort e o território indígena, com pelo menos uma milha de largura; levou quatro horas para passar, o que, à taxa de uma milha por minuto, dá um comprimento de 240 milhas; e, supondo três pombos para cada jarda quadrada, dá 2.230.272.000 pombos. — “Travels in Canada and the United States”, pelo Tenente F. Hall.

(*18) A terra é sustentada por uma vaca de cor azul, tendo quatrocentos chifres. — Sale’s Koran.

(*19) “Os Entozoa, ou vermes intestinais, têm sido repetidamente observados nos músculos e na substância cerebral dos homens.” — Veja Wyatt’s Physiology, p. 143.

(*20) Na Great Western Railway, entre Londres e Exeter, foi alcançada uma velocidade de 71 milhas por hora. Um trem pesando 90 toneladas foi levado de Paddington a Didcot (53 milhas) em 51 minutos.

(*21) O Eccalobeion.

(*22) O jogador de xadrez autômato de Mäelzel.

(*23) A máquina de calcular de Babbage.

(*24) Chabert e, depois dele, uma centena de outros.

(*25) O Eletrotipo.

(*26) Wollaston fez de platina, para o campo de visão em um telescópio, um fio com a espessura de uma dezoito milésima parte de uma polegada. Só podia ser visto por meio do microscópio.

(*27) Newton demonstrou que a retina, sob a influência do raio violeta do espectro, vibrava 900.000.000 de vezes por segundo.

(*28) Pilha voltaica.

(*29) O Aparelho de Impressão Eletrográfico.

(*30) O eletrotelégrafo transmite inteligência instantaneamente — pelo menos no que diz respeito a qualquer distância sobre a terra.

(*31) Experimentos comuns em Filosofia Natural. Se dois raios vermelhos de dois pontos luminosos forem admitidos em uma câmara escura de modo a cair sobre uma superfície branca, e diferirem em seu comprimento por 0,0000258 de uma polegada, sua intensidade é dobrada. Assim também se a diferença de comprimento for qualquer múltiplo de número inteiro dessa fração. Um múltiplo por 2 1/4, 3 1/4, etc., dá uma intensidade igual a apenas um raio; mas um múltiplo por 2 1/2, 3 1/2, etc., dá o resultado de escuridão total. Nos raios violeta, efeitos semelhantes surgem quando a diferença de comprimento é 0,000157 de uma polegada; e com todos os outros raios os resultados são os mesmos — a diferença variando com um aumento uniforme do violeta para o vermelho.

“Experimentos análogos em relação ao som produzem resultados análogos.”

(*32) Coloque um cadinho de platina sobre uma lamparina a álcool e mantenha-o em fogo vermelho; despeje um pouco de ácido sulfúrico, que, embora seja o mais volátil dos corpos a uma temperatura comum, será encontrado completamente fixo em um cadinho quente, e nem uma gota evapora — estando cercado por uma atmosfera própria, ele não toca, de fato, as laterais. Algumas gotas de água são então introduzidas, quando o ácido, entrando imediatamente em contato com as laterais aquecidas do cadinho, voa em vapor de ácido sulfuroso, e tão rápido é seu progresso que o calórico da água passa com ele, que cai como um bloco de gelo no fundo; aproveitando o momento antes que lhe seja permitido derreter novamente, pode ser retirado como um bloco de gelo de um vaso em brasa.

(*33) O Daguerreótipo.

(*34) Embora a luz viaje 167.000 milhas por segundo, a distância de 61 Cygni (a única estrela cuja distância é verificada) é tão inconcebivelmente grande que seus raios exigiriam mais de dez anos para chegar à Terra. Para estrelas além desta, 20 — ou mesmo 1000 anos — seriam uma estimativa moderada. Assim, se tivessem sido aniquiladas há 20 ou 1000 anos, ainda poderíamos vê-las hoje pela luz que partiu de suas superfícies há 20 ou 1000 anos. Que muitas que vemos diariamente estejam realmente extintas não é impossível — nem mesmo improvável.

Notas — Maelstrom

(*1) Veja Arquimedes, “De Incidentibus in Fluido.” — lib. 2.

Notas — Ilha da Fada

(*1) Moraux deriva aqui de moeurs, e seu significado é “da moda” ou, mais estritamente, “de maneiras”.

(*2) Falando das marés, Pompônio Mela, em seu tratado “De Situ Orbis”, diz “ou o mundo é um grande animal, ou”, etc.

(*3) Balzac — na essência — não me recordo das palavras.

(*4) Florem putares nare per liquidum aethera. — P. Commire.

Notas — Domínio de Arnheim

(*1) Um incidente, semelhante em linhas gerais ao aqui imaginado, ocorreu, não faz muito tempo, na Inglaterra. O nome do herdeiro afortunado era Thelluson. Vi pela primeira vez um relato deste assunto no “Tour” do Príncipe Puckler Muskau, que calcula a soma herdada em noventa milhões de libras, e observa justamente que “na contemplação de uma soma tão vasta, e dos serviços aos quais poderia ser aplicada, há algo até mesmo do sublime”. Para atender aos pontos de vista deste artigo, segui a declaração do Príncipe, embora grosseiramente exagerada. O germe, e de fato o início do presente artigo, foi publicado há muitos anos — antes da edição do primeiro número do admirável Juif Errant de Sue, que pode possivelmente ter sido sugerido a ele pelo relato de Muskau.

Notas — Berenice

(*1) Pois como Jove, durante a estação do inverno, dá duas vezes sete dias de calor, os homens chamaram este elemento e tempo temperado de a ama do belo Alcião — Simônides.

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