O Yeoman Adventurer
Por George Gough
A
A. D. Steel-Maitland, M.P.
Em Gratidão e Admiração
CONTEÚDO
I. O GRANDE LÚCIO
II. O SARGENTO DOS DRAGÕES
III. MISTRESS MARGARET WAYNFLETE
IV. NOSSA JORNADA COMEÇA
V. A ANTIGA CASA ALTA
VI. MEU SENHOR BROCTON
VII. OS RESULTADOS DE PERDER MEU VIRGÍLIO
VIII. O CHAPÉU DO ILUSIONISTA
IX. MINHA CARREIRA COMO SALTEADOR
X. SULTAN
XI. ONDE ESCORREGO
XII. O QUARTO DE HÓSPEDES DO "SOL NASCENTE"
XIII. AS VACAS DE FARAÓ
XIV. "A GUERRA TEM SEUS RISCOS"
XV. NOS PÂNTANOS
XVI. O BONITO PRÍNCIPE CHARLIE
XVII. MEU NOVO CHAPÉU
XVIII. O DUPLO SEIS
XIX. O QUE ADVEIO DA VAIDADE
XX. O CONSELHO EM DERBY
XXI. MASTER FREAKE SABE AFINAL
XXII. UM IRMÃO DA LÂMPADA
XXIII. DONALD
XXIV. MEU SENHOR BROCTON ACUMULA SUA DÍVIDA
XXV. ACERTO MINHAS CONTAS COM MEU SENHOR BROCTON
XXVI. O JEITO DE UMA DAMA COM UM HOMEM
EPÍLOGO: O PEQUENO LÚCIO
CAPÍTULO I
O GRANDE LÚCIO
Nossa Kate, Joe Braggs e eu, todos tivemos parte no início, e como grandes resultados surgiram no fim a partir dos pequenos eventos daquela manhã de dezembro, irei registrá-los em ordem.
Começou com minha recusa categórica em levar Kate à casa do vigário para ver os soldados marcharem. Eu amava o vigário, o homem velho, grave, doce e sem filhos que fora um segundo pai para mim desde o dia triste que tornara minha mãe viúva, e, não fosse pelos soldados, nada teria sido mais agradável do que passar a tarde com o velho e seus livros. Mas meu coração certamente teria se partido se eu tivesse ido. Um pintassilgo engaiolado é uma visão triste o suficiente em uma sala de estar, mas pendure a gaiola em uma árvore num jardim ensolarado, com pássaros livres chilreando e voando ao redor dela, e você transforma uma dor surda em agonia lancinante. O pequeno escritório do vigário, com as fileiras de livros que ele me fizera conhecer e amar com uma pequena medida de seu próprio saber e paixão, era o poleiro e o comedouro da minha gaiola, as coisas nele, depois de minha doce mãe e da atrevida Kate, que tornavam a vida possível, mas ainda parte da gaiola, e teria me enlouquecido saltar e chilrear ali à vista de homens livres com armas nas mãos e carreiras diante deles. Jack Dobson marcharia, a doçura da vida para Kate — mal sonhava ela que eu sabia disso — mas, para mim, o amargor da morte. Jack Dobson! Eu gostava de Jack, mas não cintilante em carmesim e ouro, com esporas e espada tinindo na estrada dura e congelada. Ri da ideia; Jack Dobson, a quem eu combatera inúmeras vezes na escola até que eu pudesse surrá-lo tão facilmente quanto podia olhar para ele; Jack Dobson, um rapaz alegre o suficiente, que lutava alegremente mesmo quando sabia que uma boa surra o esperava, mas cujo cérebro só servia para tropeçar através de *Arma virumque cano*, e então sussurrar: "Noll, você sabe disparar uma arma e atirar em um homem, mas como pode cantar 'eles'?". E porque seu pai, magro, sombrio e ganancioso, era um homem de muita substância exterior e burguês do antigo distrito, Jack era corneteiro no regimento de dragões recém-formado de meu Senhor Brocton, marchando naquele dia com outros soldados do Duque de Cumberland de Lichfield para Stafford. E para mim, o orgulho do velho Bloggs em latim e de todos os rapazes na luta, o feito de armas mais emocionante disponível era caçar coelhos. Então, consumindo-me internamente com pensamentos sobre meu destino cruel, recusei-me a ir à casa do vigário. Mamãe deveria ir. Para ela, seria um verdadeiro deleite, e Kate estaria melhor sob seus olhos quietos e perspicazes.
"Bem, então", disse Kate, "resmungue em casa com seu abominável Virgílio". Mamãe, que entendia como só as mães podem, não disse nada e preparou meus pratos favoritos para o jantar.
Terminada a refeição e "arrumada" a casa, o que raramente significava mais do que o incômodo de algumas poucas partículas de poeira, Kate em seus melhores enfeites e mamãe em seu vestido de ir à igreja partiram para a casa do vigário. Fiquei na varanda e as observei atravessar o pátio de paralelepípedos e seguir pela estrada até que sumiram de vista atrás da ponte.
Então, a parte de Kate nesses eventos introdutórios tornou-se manifesta. Procurei no alto, procurei embaixo, não havia sinal do meu caro e atarracado Virgílio, em pergaminho amarelado com bordas vermelhas. Encontrei o livro de receitas de Kate e teria atirado pela janela, mas meu olhar captou a inscrição curiosa na folha de rosto, em sua letra grande e cheia de ganchos:
"KATHERINE WHEATMAN, seu livro, Deus lhe dê graça para aprender a cozinhar.
Em Hanyards. Jul. 1739."
As palavras simples picaram-me como vespas furiosas. Nossa Kate de cabelos ruivos não era erudita, mas, de qualquer forma, sua leitura era mais útil em nosso pequeno mundo do que a minha; pois foi ali que ela aprendeu a arte das iguarias e receitas que Jack Dobson e eu tanto apreciávamos. E se eu não aprendesse logo a fazer algo bem, mesmo que fosse apenas como cultivar meus quinhentos acres com lucro, a culinária de Kate realmente exigiria a ajuda miraculosa sugerida em seu epigrama involuntário e, para mim, mordaz. Coloquei o livro de lado e desisti da caça ao meu Virgílio. Provavelmente seria inútil de qualquer maneira, já que Kate tinha uma astúcia toda sua e certamente o havia guardado muito além de qualquer busca minha. Contentou-me com uma represália justa, guardando uma fita perdida dela no bolso da minha calça, e sentei-me para fumar. Meu cachimbo não puxava, e eu o quebrei ao tentar consertá-lo.
O relógio alto de carvalho tiquetaqueava na sala, e Jane continuava a cantar enquanto batia manteiga na leiteria do outro lado do pátio. Sentei-me observando o fogo, onde não podia ver nada além de Jack Dobson em sua grandeza marcial, e eu o odiava por sua grandeza, e desprezava a mim mesmo por minha mesquinhez. Ainda assim, era insuportável, e foi um alívio ver Joe Braggs andando na ponta dos pés cuidadosamente pelo pátio em direção à leiteria. O canalha deveria estar consertando uma brecha na cerca de Ten-acres, e ali estava ele, forrageando por uma jarra de cerveja. Ele conseguia persuadir Jane tão facilmente quanto conseguia prender um coelho, mas eu iria esfolá-lo até ele perder os sentidos, aquele brutamontes.
O canto parou, e então a batedeira, e cinco minutos depois rastejei até a porta da cozinha, que estava entreaberta. Lá estava o senhor Joe, uma jarra de cerveja na mão, seu braço livre em volta do pescoço de Jane. Como esses dois achavam a vida em Hanyards suportável! Peguei um fragmento de sua conversa.
"Existem coisas como rainhas reais, Jin?"
"Claro", ela respondeu. "Há fotos delas em um dos livros do Mestre Noll. Coroas nas cabeças também."
"Tem uma delas na nossa casa, Jin, mas ela não tem coroa nenhuma. Mas, abençoada seja, moça, eu preferiria beijar você do que olhar para cinquenta rainhas."
Jane gritou quando assassinei um beijo incipiente derrubando a jarra de sua mão pelo chão da cozinha, mas ao chutá-lo para fora, tropecei em um balde de água, e cerca de meia dúzia de bons peixes dace caíram miseravelmente no chão molhado.
"Não faça assim, Mestre Noll", disse Joe. "Eu só vim até a casa para lhe trazer esses daceys."
"E que diabo eu quero com eles?" disse eu com raiva.
Joe me conhecia. Ele disse: "Tem um lúcio do tamanho de um poste de cerca naquele buraco entre os juncos ao longo do barranco alto."
Ele viu o movimento dos meus olhos e continuou: "Eu o vi esta manhã, e o ouvi. Ele fez um mergulho como um saco de batatas caindo da ponte. Então só peguei uns poucos daceys para você, pensando que você certamente iria atrás dele."
"Coloque-os em água fresca, Joe, e você, Jane, encha outra jarra para ele. Eu assumirei a culpa para Mistress Kate por ter quebrado a outra."
Peguei minha vara e equipamento, apanhei o balde de dace e parti pelos campos em direção ao rio. A margem mais próxima da casa, a cerca de trezentos metros dela, ficava de dois a seis pés acima da água, sendo mais baixa onde uma ponte de tijolos levava a estrada para a vila. A margem oposta era muito baixa e, no verão, era orlada por grandes massas de juncos e taboas, agora murchos quase a nada, mas ainda revelando a bolsa de água profunda onde o lúcio havia "mergulhado como um saco de batatas". Era em frente à parte mais alta de nossa margem — Hanyards era delimitada pelo rio nessa direção — e a ponte ficava a cerca de cem metros rio abaixo à minha esquerda. Em poucos minutos, um bom dace nadava no vão tão alegremente quanto o equipamento permitia.
Por uma hora ou mais, dei voltas curtas para cima e para baixo na margem, longe o suficiente da borda para manter minha cortiça à vista. Se o lúcio estava lá, ele não deu sinal, e finalmente minha avidez de esportista começou a diminuir, e meu olhar vagou pelos prados até a torre da igreja, sob cuja sombra a vida como eu jamais poderia conhecer seguia alegremente para o norte. Aqui eu estava e aqui eu permaneceria, como um repolho, até que a Morte me arrancasse pelas raízes.
O digno Mestre Walton diz que a pesca é a recreação do homem contemplativo, e, tendo tido nestes últimos anos muito o que ponderar, sei que ele está certo. Mas não é uma ocupação para um homem irritado, e enquanto eu marchava para cima e para baixo esqueci tudo sobre minha cortiça, até que, com uma risada curta que tinha a cauda de uma maldição, notei que um gancho real era uma arma tola com a qual abater um montanhês imaginário, e voltei à minha pesca.
E naquele exato momento aconteceu uma coisa como a qual eu nunca vira antes, e não vi desde então em outros dez anos de pesca. Minha vara foi puxada da margem e disparou rio abaixo tão rápido que tive que correr para alcançá-la. Havia trabalho ali, de fato, e naquele momento alegre eu não teria trocado de lugar com Jack Dobson. Sem rodeios, pulei no rio, entrei na água, recuperei a base da minha vara e fisguei.
"Do tamanho de um poste de cerca." Joe estava certo. Quando fisguei, o lúcio veio à superfície. A grande extensão de barriga amarela e o comprimento monstruoso do focinho vicioso fizeram meu coração saltar de alegria. Eu preferiria pegá-lo a comandar um regimento. Minha vara curvou-se como uma foice enquanto eu lutava com ele, dando linha e puxando, de novo, de novo e de novo. Uma dúzia de vezes vi as barras pretas em suas costas cintilantes enquanto ele vinha em minha direção, maldade em seus olhos avermelhados e perigo em seus dentes cruéis, mas o equipamento resistente aguentou. O suor escorria da minha testa embora eu estivesse com água gelada até a cintura. Polegada a polegada, lutei para chegar à margem, e então lutei novamente para chegar perto da ponte, onde poderia sair.
Provavelmente levei meia hora para levá-lo até lá, mas finalmente, dando-lhe de repente uma dúzia de metros de linha solta para ele avançar, consegui subir na margem e contê-lo antes que ele atravessasse para os tocos dos juncos. Mas aqui encontrei um desastre, pois ao subir, puxei o gancho da minha garatéia para fora do colarinho, onde o colocara por segurança, e ele caiu no riacho.
"Fique com o peixe", disse alguém atrás de mim, "e deixe o gancho comigo."
"Obrigado", disse eu brevemente, pois estava sem fôlego, e continuei a luta.
Uma mulher ajoelhou-se na margem, puxou o gancho com um chicote de montaria, mergulhou uma mão bem torneada e o recuperou. Então ela ficou atrás de mim, observando a luta. O lúcio, grande e forte como era, começou a cansar, e logo eu o fazia dar arrancadas curtas e rápidas na água rasa aos nossos pés.
Minha nova aliada permaneceu quieta na margem, segurando o gancho pronto para o momento certo. Ele veio: um movimento ágil, um bom puxão conjunto, e o grande lúcio curvou-se e saltou na margem.
"Mais de trinta libras se tiver uma onça!" gritei alegremente.
"Muito bem, pescador!" ela disse. "Foi uma visão esplêndida. Observei você o tempo todo. Quando você pulou no rio, pensei que fosse se afogar. Você andava de um lado para o outro de uma maneira muito desesperada e abatida."
A provocação deu-me coragem para olhar em seus olhos. Perguntei-me se eram pretos, mas decidi que não, já que seu cabelo era da cor do trigo quando amadurece para a foice e o sol de verão cai sobre ele ao entardecer. E eu, que tenho seis pés de altura, mal precisei baixar os olhos para olhar nos dela. Seu rosto era belo além de toda a minha imaginação. Eu conjurara visões de Dido cativada por Enéias, de Cleópatra dobrando Antônio ao seu capricho. Mas a arte consciente dos meus devaneios não produzira tal maravilha como a que via ali em carne e osso diante de mim. Senti-me como alguém que bebe profundamente de uma safra rica e rara, e se pergunta por que os deuses o abençoaram tanto. E, além disso, como as pequenas coisas empurram as grandes na mente, eu sabia que esta era a verdadeira rainha que deslumbrara Joe Braggs.
"Como você chama isso?" ela disse, olhando para o peixe.
"Um lúcio, madame."
"'O tirano das planícies aquáticas', como o chama o Sr. Pope. Você já ouviu falar do Sr. Pope, o poeta?" Ela falou como se 'Não' fosse a resposta inevitável.
"Estritamente falando, não, madame", disse eu gravemente, "mas li seus chamados poemas." Ela franziu a testa. "Horácio chama o lúcio", continuei, "*lupus*, o peixe-lobo, como se pode dizer, e um nome muito bom também. Sem dúvida madame ouviu falar de Horácio."
Minha tirada trouxe um brilho aos seus olhos e uma cor mais rica às suas bochechas. "Sim, ouvi falar dele", ela disse, com um traço de desgosto na voz. "E agora, ó Nimrod das planícies aquáticas, quão longe fica a ferraria da vila?"
"Pouco menos de uma milha, madame."
"E quanto tempo leva para ferrar um cavalo?"
"Quantas ferraduras, madame?"
Novamente o brilho em seus olhos, e desta vez vi um pouco de azul neles. "Uma, senhor", ela disse secamente.
"De dez a quinze minutos, madame."
"Ele demora muito", ela disse em voz baixa.
"O ferreiro provavelmente está muito ocupado hoje."
"Ocupado! Por que isso?"
"Os dragões podem ter-lhe dado muito trabalho", disse eu, apenas minha maneira de explicar o atraso. Mas as palavras a esfaquearam. Ela colocou a mão no meu braço e gritou ofegante: "Dragões! O que você quer dizer? Rápido!"
"O Duque de Cumberland está marchando para o norte de Lichfield contra o Stuart, e os dragões de Lord Brocton estão na vila."
"Brocton! Ó Deus! Brocton! Meu pai foi capturado! E por Brocton!" Ela falou alto em sua agitação, e vi que ela estava ferida no âmago. E eu me regozijei, tão estranho é o coração humano, que foi o nome de Lord Brocton que saiu com angústia de sua língua. Oh, por um golpe no homem cujo pai perseguiu o meu até uma sepultura prematura!
No ar frio e cortante, o som viaja longe pelos prados de Hanyards. As colinas que cercam o vale a oeste talvez ajam como uma tábua de ressonância. De qualquer forma, mais perguntas sobre seu problema foram interrompidas pelo ruído de cascos distantes. Estávamos agora a menos de doze passos da ponte. Uma cerca esparsa, em um barranco baixo, cruzava até a ponte por uma escada, cortando o campo da estrada. Corri para a escada e cautelosamente enfiei a cabeça perto do chão. Meia milha de estrada plana estendia-se à minha direita em direção à vila, e ao longo dela, agora a menos de seiscentos metros, um esquadrão de dragões galopava em nossa direção. A cerca era fina e sem folhas, e não havia cobertura suficiente para um coelho. Corri de volta. "Dragões", disse eu.
"Atrás de mim", ela respondeu despreocupadamente, e vi que o perigo para si mesma a deixava fria.
Chutei o grande lúcio para que ficasse imóvel, lancei-o ao pé do barranco sob a cerca, e a vara atrás dele, apressei-a até a escada, pulei na água, tomei-a em meus braços e carreguei-a para debaixo da ponte. Menos de um minuto depois que parei de caminhar, os dragões bateram cascos acima de nossas cabeças.
Não faz uma hora eu estava ansiando por vida e aventuras, e ali estava eu, com água até os lombos, com uma deusa em meus braços. Seu braço direito estava em volta do meu pescoço, e sua bochecha tão perto que senti seu hálito doce e quente abanando o meu. À medida que os sons morriam, virei-me e olhei para seu rosto, e tive minha recompensa. Seus olhos me disseram que ela agradecia e confiava em mim.
"Muito bem, pescador!" ela disse pela segunda vez.
"Você é mais pesada que o lúcio", respondi, puxando-a para o mais longe possível da água antes de caminhar de volta. Um minuto depois, coloquei-a na margem com o cabelo amarelo desgrenhado e o rosto vermelho como brasa. Examinei-a criticamente e gritei triunfante: "Nem um fio molhado!"
CAPÍTULO II
O SARGENTO DOS DRAGÕES
Joguei o lúcio sobre meu ombro e partimos para Hanyards. A madame não ofereceu explicações, e eu não fiz perguntas. Era óbvio para mim que os dragões tinham seguido para a pequena taberna da cerca, a uma boa milha de distância, onde a estrada da vila desembocava em um caminho sinuoso para Stafford. Ali, no "Bull and Mouth", a Mãe Braggs governava de dia e o Mestre Joe à noite, e ali, sem dúvida, a dama estrangeira havia esperado enquanto seu pai seguia com os cavalos para a ferraria mais próxima em Milford.
Havia tempo suficiente para chegar a Hanyards, mas ainda assim, por segurança, mantivemo-nos atrás das cercas tanto quanto possível. Ela caminhou à frente, e eu a segui atrás, com água saindo das minhas botas e calças a cada passo, e a cauda do lúcio batendo contra minhas pernas. Nunca eu tinha ido para casa pescar com tais prêmios. O que mais me agradou foi seu silêncio. Combinava com a confiança em seus olhos. Exceto por breves instruções quanto à direção, nenhuma palavra foi dita até chegarmos a Hanyards pelos fundos, e eu a conduzi para dentro de casa sem ser observado por ninguém.
"Há pouco tempo para conversar", comecei. "Os dragões certamente virão aqui, pois esta é a única casa entre a estalagem e a vila. Seu pai está, você teme, como prisioneiro, e de fato parece ser a única explicação para sua ausência. Não pergunto o porquê. Presumo que não sirva de nada você compartilhar seu destino."
"Livre, talvez eu possa ajudá-lo. Como prisioneira, eu deveria..." Ela parou, hesitante.
"Meu Senhor Brocton?" disse eu, interrogativamente. Pela segunda vez seu rosto queimou, e vi nele vergonha, angústia e medo. Meu senhor estava acumulando uma segunda conta comigo, e por humilhar essa orgulhosa beleza ele um dia pagaria o preço total.
Mas era hora de agir. Corri para a varanda e berrei: "Jane! Jane! Onde você está? Venha aqui rápido!"
Jane veio correndo da cozinha. Ela parou de repente com surpresa ao ver minha companheira, e nem conseguiu tagarelar sobre o lúcio.
"Agora, Jane, faça exatamente o que eu disser. Leve esta dama lá para cima e vista-a o mais parecido possível com você. É bom que vocês sejam da mesma altura. Embale as roupas dela cuidadosamente fora de vista. Vá, rápido!"
Elas desapareceram escada acima, e eu observei o portão do pátio com olhos ansiosos. Nenhum dragão apareceu e, em pouco tempo, a senhora e Jane estavam de volta à sala de estar. Jane havia feito bem o seu trabalho. A grande dama era agora uma fina criada do campo, sua elegância obscurecida por um vestido de tecido rústico que só servia onde tocava, seus pés em botas enormes e grosseiras, seu cabelo amarelo puxado para trás da testa e amarrado em uma das "toucas de vovó" de Jane, e, na verdade, totalmente escondido pela larga aba da mesma, que no caso de Jane servia ao propósito de "manter a corrente de ar fora do pescoço" quando ela estava trabalhando na leiteria. Para a minha parte no disfarce, esfreguei um pouco de ocre e terra seca, e a mistura deu um toque necessário de grosseria às suas mãos. No geral, ela estava irreconhecível, mesmo que, o que não era o caso, algum de seus perseguidores a tivesse visto anteriormente.
"Jane", eu disse, "o nome dela é Molly Brown. Ela serve aqui há dois anos. A mãe dela mora em Colwich. Vocês duas entenderam?"
"Molly Brown--dois anos--mãe em Colwich", disse a senhora com um sorriso, e Jane repetiu depois dela.
"Agora, Molly", disse eu, com um sorriso em resposta, "Jane vai ensiná-la a bater a manteiga. É um trabalho fácil. Você apenas gira uma manivela até que a manteiga apareça. Não se iluda achando que vai conseguir manteiga, mas eu a perdoo por isso. E, tendo aprendido com Jane como fingir que o faz, você não precisa bater manteiga de verdade até que os dragões entrem no pátio. Ouça Jane, e você, Jane, pelos próximos dez minutos, ensine a dama a falar ao modo de Staffordshire."
"Tá certo, Mestre Noll", disse Jane, que estava claramente explodindo com a importância de sua tarefa.
"Primeira lição, senhora", eu disse. "'Tá certo', não 'Está correto!'. Não era a maneira de falar do Sr. Pope, mas servirá melhor às suas circunstâncias. Vá para a leiteria e deixe os dragões comigo!"
"Tá certo, Mestre Noll", disse a senhora, e, não obstante as nossas ansiedades, ambos nos juntamos à risada de Jane.
Elas foram para a leiteria, e eu comecei meus próprios preparativos. Exibi o grande lúcio em plena vista sobre a mesa, antecipando as objeções domésticas de Kate ao colocá-lo sobre um casaco velho meu, para que ele não sujasse a mesa. Na sala de estar, ele parecia muito mais fino e comprido do que ao ar livre, e eu me regozijei com ele enquanto jazia ali. Eu ansiava por trocar de roupa, não tanto pelo conforto, mas para fazer um papel melhor aos olhos dela; mas não ousei correr o risco de não estar à mão quando os dragões chegassem. Tirei uma caneca de um quarto de cerveja, joguei a maior parte fora, peguei um copo de chifre, bebi um pouco, derramei um pouco nas minhas roupas, espalhei um pouco na mesa, avivei o fogo e sentei-me para esperar. Eram agora cerca de três e meia, o sol cor de palha estava pousado nos topos das colinas, e a escuridão logo chegaria rapidamente.
Por talvez um quarto de hora, fiquei sentado ali, revivendo os preciosos minutos sob a ponte, quando o tropel de cascos me despertou para as realidades da situação. Espiando cautelosamente pela borda da cortina, vi os dragões — eram seis — cavalgarem até o portão. Ordens ríspidas soaram, e três dos homens desmontaram, incluindo aquele que dera as ordens, e subiram o pátio. Um ficou no portão para cuidar dos cavalos, e os outros dois trotaram para explorar os campos próximos à fazenda.
Deslizei de volta para minha cadeira e deixei meu queixo cair sobre o peito, como se estivesse cochilando de embriaguez.
Alguém disse na porta da varanda: "Em nome do Rei!" Não prestei atenção, e eles se aglomeraram, tilintando e barulhentos, na varanda. Novamente comandos ríspidos foram dados; os dois homens pousaram suas armas com um clangor no chão de pedra da varanda e esperaram ali. O homem no comando avançou para a luz do fogo e disse secamente: "Em nome do Rei!"
Era inútil fingir por mais tempo. Levantei minha cabeça e pisquei embriagado para ele. Então enchi o chifre, cantei com voz pastosa e com gosto de cerveja: "Aqui está uma saúde a Sua Majestade", e disse: "Encha e beba, quem quer que você seja, e feche a porta. Está um frio dos diabos."
Ele tinha olhos pequenos, vermelhos e astutos, e eles olharam ferozmente para mim — ferozmente, mas não com suspeita, eu pensei. Ele afastou minha hospitalidade com um gesto e disse: "Você é Oliver Wheatman?"
"Oliver Wheatman de Hanyards, Esquire, ao serviço de Sua Majestade para comandar", respondi com grande gravidade, e enchi outro chifre de cerveja. Eu poderia fingir estar bêbado, mas não podia, infelizmente, fingir beber, e era uma cerveja forte. Ele fez um movimento para me parar — prova bem-vinda de que ele acreditava que eu estava realmente embriagado — e disse: "Mestre Wheatman, quanto menos bêbado você estiver, melhor responderá às minhas perguntas."
"Senhor", disse eu, esvaziando o chifre, "posso beber e conversar com qualquer homem vivo, e, bêbado ou sóbrio, só respondo às perguntas dos meus amigos. Então pegue um chifre na cristaleira — estou um pouco cansado — encha e me diga o que quer. Por acaso você é do regimento do meu Lorde Brocton?"
"Eu sou."
"Então você estará tão bêbado quanto eu antes de terminar com os Hanyards. Nossa cerveja sobe à cabeça muito maldizentemente rápido, deixe-me lhe dizer. Você diga ao meu querido e velho camarada, o honorável Mestre Jack Dobson, que peguei um lúcio metade tão grosso e mais da metade tão longo quanto ele mesmo. Aqui está ele. Busque um chifre, eu lhe digo, e beba por mim e pelos dois lúcios — Jack Dobson e esta beleza de lúcio aqui."
Ele não estava chegando mais perto do objetivo de sua visita e, talvez pensando que seria bom me agradar, ele buscou um chifre e provou nossa cerveja de Hanyards. Isso me deu a chance de examiná-lo.
Ele era um homem magro, ágil, de estatura média e meia-idade. Tal rosto eu nunca tinha visto. A primeira visão dele me fez prender a respiração como se tivesse tocado a lâmina de uma navalha. A metade da ponte do nariz havia sumido, ou ele nunca a tivera, e a metade inferior estava presa como um pedaço de massa entre a boca e as sobrancelhas. Seus olhos pequenos e miúdos estavam situados em órbitas grandes e rasas, dando-lhe uma aparência de coruja. Uma boca originalmente grande o suficiente, e de lábios grossos como os de um negro, fora estendida, ao que parecia, até sua orelha esquerda por um corte selvagem de espada que cicatrizara muito mal. Ele tinha um ar de inteligência mesquinha e atrevida, como alguém de baixa classe e sem criação que por muitos anos esteve acostumado a se curvar aos grandes e a dominar os menores que ele mesmo. Algum tipo de patente militar ele tinha, a julgar por sua jaqueta manchada e puída, mas outrora vistosa. Ele carregava um punhal de comprimento incomum, estendendo-se ao longo de seu lado esquerdo do calcanhar à axila, e um par de pistolas estava enfiado em seu cinto.
Ele pousou o chifre, estalou os lábios e começou:
"Mestre Wheatman, estou procurando por uma espiã jacobita — uma mulher. Levamos o pai dela no 'Barley Mow', e soube por um homem seu que a filha estava na taverna da mãe dele na estrada. Ela não está lá, e saiu para caminhar ao encontro do pai, ela disse. Ela certamente não fez isso, e passei para ver se ela está se escondendo aqui ou por aqui."
"Por Deus, vamos pegá-la se ela estiver", disse eu calorosamente. "Ela não passou por aquele portão na última meia hora, pois levo isso para beber aquele jarro até o fim, e comecei com ele cheio. Mas vou perguntar às criadas. A mãe e nossa Kate estão lá no vigário, boquiabertas com vocês rapazes. Aposto que vocês as viram."
"Não", disse ele duvidosamente.
Um dos homens saiu da varanda, saudou e, sendo convidado a falar, informou ao seu oficial que tinha visto Lorde Brocton e o Sr. Cornet Dobson conversando com duas senhoras.
"Devem ser elas", eu disse, e indo com passos incertos até a porta, gritei vigorosamente: "Jin, Moll, Jin, Moll, venham aqui! Elas estão na leiteria", acrescentei como explicação.
O momento crucial chegou. Jane e 'Moll' correram pelo pátio como coelhos, mas pararam na porta da varanda com surpresa bem simulada ao verem os dragões.
"Gom, pensei que tivesse posto fogo na casa", disse Jane agradecida, dirigindo-se à companhia em geral, e ela bravamente passou pelo meio deles e gritou para mim: "De novo nisso, quando sua mãe está fora; melhor você ir para a cama antes que ela chegue. Ela vai te embriagar."
A atuação de Jane era tão melhor que a minha que quase perdi o juízo por ser assim rudemente acusado diante de 'Moll', mas ela continuou implacavelmente, dirigindo-se ao dragão: "Não o perturbe pelo amor de Deus, Mestre Soldado. Ele é um cão do inferno quando toma um gole de cerveja."
"Não se preocupe, minha boa moça. Estou acostumado com o tipo dele. Deixe-o comigo e responda às minhas perguntas. A verdade ou a cadeia, minha moça."
"Você", fungou Jane, "ele te quebraria em dois como uma cenoura. A cama é o melhor lugar para ele. Ele está ensopado com suas brincadeiras tolas."
"Jane", disse eu, "não se importe comigo. Não estou nem seco o suficiente nem bêbado o suficiente para ir para a cama ainda. O Capitão aqui quer fazer algumas perguntas a você e a Moll. Pare de matraquear comigo como uma galinha para uma doninha e ouça-o."
Jane passou pela provação facilmente, apelando a 'Moll' para verificação a cada passo, e tão habilmente que esta última parecia estar tão sob exame quanto ela mesma. Além disso, Jane ficou bem na luz do fogo, mas de modo a manter 'Moll' ombreada atrás da chaminé em relativa penumbra. Elas tinham batido manteiga a tarde toda, a manteiga estava ali para ser vista, pilhas dela; ninguém tinha estado no pátio ou perto dele; o portão nunca tinha feito um clique sequer, e ninguém poderia abri-lo sem ser ouvido na leiteria. Ela sobrecarregou o dragão com suas demonstrações da impossibilidade de alguém subir o pátio sem que ela ou 'Moll' soubessem.
"Está tudo bem, Jane", disse eu, finalmente. "Mas ela poderia facilmente ter entrado na casa ou nos estábulos sem que você ou Moll a vissem. Vamos todos procurá-la. A menos que ela seja pequena o suficiente para entrar em um buraco de rato, logo a encontraremos."
O Sargento Radford — para dar-lhe seu nome e patente, que aprendi mais tarde com Jack Dobson — concordou com isso, e na minha alegria por saber que a provação tinha acabado, estive prestes a esquecer que estava bêbado até captar os olhos claros da senhora fixos em aviso em mim. Jane atuou como líder para os dois dragões na revista aos celeiros e estábulos, enquanto 'Moll', o sargento e eu vasculhamos a casa tão minuciosamente como se estivéssemos procurando uma guiné perdida. É claro que nossos esforços foram inúteis, lentos como éramos para não ultrapassar meus passos bêbados, e cuidadosos como éramos para satisfazer os olhos atentos do sargento, que estava evidentemente em nenhum trabalho novo no que lhe dizia respeito. 'Moll' também parecia ciumenta dos louros de Jane, e entrou profundamente no negócio. Ela e o sargento espiaram juntos debaixo das camas e dentro dos armários, e ela riu descaradamente de certas insinuações não muito obscuras dele sobre os grandes serviços que eu deveria prestar ao grupo de busca se mantivesse meus olhos na sala de estar. Ela até disse: "Mestre Noll, você não acha que a cerveja está ficando chata lá embaixo? Não vai valer a pena beber se você não for esperto."
O resultado foi que, em cerca de meia hora, uma assembleia totalmente satisfeita e bastante cansada encheu a sala de estar, pois os dois batedores cavalgaram até a varanda com a notícia de que eles também não tinham encontrado nenhum rastro da fugitiva. Com a permissão do sargento, enviei os cinco dragões para a cozinha com as duas criadas para tomar um jarro de cerveja cada um, enquanto ele ficava comigo na sala de estar para abrir uma garrafa de vinho.
Esperei, mas em vão, que ele me desse notícias do pai da estranha, mas ele era cauteloso demais para isso, e eu não ousei perguntar. Ele fez perguntas minuciosas sobre a disposição das terras por aqui, e eu apontei que havia um caminho de campo que levava claramente à vila do outro lado da ponte e saindo em um estilo obscuro nos fundos do "Barley Mow". A espiã poderia ter tomado esse caminho e ficado alarmada. Ela poderia então evitar a vila por outro caminho claro, e assim chegar à frente das tropas na estrada de Stafford.
"Mas por quê? Quem a ajudará lá, Mestre Wheatman?"
"Pergunte-me outra, Capitão", disse eu. "Mas uma mulher sábia saberia onde encontrar amigos, e Stafford está cheia de papistas, que os queimem!"
"Ah!"
"Há Bulbrook e Pippin Pat e Ducky Bellows; há o velho cara-de-saco, o vigário lá, tão bom quanto um papista, quase. Vocês mantenham seus olhos naquelas grandes casas no East Gate. Quanto a mim, olhem para aquela armadura de peito e costas e boa espada larga ali. Maldito seja se eu não as polir e for ter uma briga com elas contra esses rebeldes. No campo de Naseby eles estiveram, Capitão, muito antes do seu tempo e do meu, mas fizeram um bom trabalho contra esses mesmos Stuarts sangrentos. Abra a outra garrafa, seja um bom camarada. Estou seco de tanto falar e molhado de tanto pescar, e isso me fará bem."
Eu o pressionei para ficar e 'ter uma boa disputa', mas ele recusou, e depois de beber o suficiente para me deixar tonto por uma semana, ele saiu rápido e ordenou que seus homens montassem. Caminhei até o portão com ele. Ele me agradeceu pela ajuda e boa disposição, e disse que estava bem claro que a espiã não estava em lugar nenhum em ou perto de Hanyards. Renovei meus cumprimentos ao Cornet Dobson e até enviei meus respeitos ao seu senhorio. Eles cavalgaram, e foi com um coração agradecido que, lembrando-me da minha condição feliz a tempo, tropecei de volta pelo pátio até a sala de estar, onde a senhora e a radiante Jane me esperavam.
CAPÍTULO III
MISTRESS MARGARET WAYNFLETE
Jane tinha levado a dama de volta para a sala de estar e estava pairando ao redor dela, com pouca da graça de uma dama de companhia, certamente, mas com uma cordialidade e zelo que mais do que compensavam qualquer falta de estilo. Do salão de retiro da mamãe, busquei nosso principal deus doméstico, um pequeno e antigo cálice de prata, e, enchendo-o com vinho, ofereci-o à estranha com o que supus, sem dúvida erroneamente, ser uma reverência elegante. Ela bebeu um pouco, e então, por minha insistência, um pouco mais.
"Senhora", eu disse, "acho que você não precisa mais ser 'Molly Brown'. Aquele dragão tem certeza absoluta de que você não está aqui, e podemos seguramente tirar proveito da opinião dele. Quanto a você, Jane, você se saiu esplendidamente, e eu lhe agradeço de coração." Enchi novamente o cálice e entreguei-o a Jane, dizendo: "Beba, Jane, pela boa sorte da senhora."
A garota honesta corou de alegria com minhas palavras, e quanto a beber vinho do famoso cálice de prata de Hanyards — tal distinção, como ela concebia, era recompensa suficiente para qualquer coisa.
"Agradecimentos são um pagamento muito pobre pelo que você fez, senhor", disse a senhora, "e quaisquer palavras minhas os tornariam ainda mais pobres. Mas, senhor, eu lhe agradeço de coração. E você também, Jane, prestou-me um serviço esplêndido. Você é tão corajosa e inteligente quanto é bonita e graciosa."
"Senhora", disse eu, curvando-me profundamente, "você é gentil demais com meus serviços, que foram, de fato, realizados de forma bastante rude."
"Não é assim", ela respondeu, "mas com astúcia pronta e julgamento certo. Não consigo me imaginar em um aperto maior do que o da ponte, e seu dispositivo teve a simplicidade eficaz do gênio. Seu plano aqui foi, sem dúvida, comum, mas também exigiu cautela e boa atuação, e você e Jane forneceram ambos. Foi melhor do que me enfiar em algum buraco de padre mofado, embora eu espere que este edifício antigo tenha um."
Olhei para a parede como se esperasse que a espada do Capitão Smite-and-spare-not Wheatman chacoalhasse até o chão sob esta terrível insinuação.
"O único uso que nossa família encontrou para padres, senhora", eu disse, "foi, temo, caçá-los como vermes. Como um Wheatman de Hanyards, temo ser um degenerado."
"Você nem será isso por muito mais tempo se eu o impedir de vestir roupas secas. E, se Jane estiver disposta, eu me tornarei eu mesma. Eu adoraria seguir em frente."
Com um sorriso doce e uma graciosa reverência, ela seguiu a prestativa Jane escada acima.
Removi todos os vestígios do que havia acontecido e levei meu precioso lúcio para a despensa, onde o pendurei em segurança. Ele deve ser montado pelo Mestre Whatcot de Stafford como um troféu e lembrança em honra deste grande dia. Então corri para o meu quarto para cuidar da minha própria aparência, e de fato eu precisava, pois estava coberto de lama até os joelhos e encharcado até a cintura. Pela primeira vez na vida, senti-me até os ossos pela inadequação do meu guarda-roupa, e mesmo quando vesti meu melhor traje de domingo, minha aparência era sem dúvida vilanesca do ponto de vista londrino. Enfeitei-me tão finamente quanto meus recursos permitiam, mas era um yeoman simples e inculto que correu escada abaixo e esperou sua chegada. Fechei as cortinas, acendi as velas, chutei o fogo para que ardesse e o alimentei com toras frescas.
Seria impossível para mim escrever a confusão de pensamentos e ideias que preenchiam minha mente. Eu tinha sido mergulhado em um novo mundo, e me debatia nele de forma bastante desesperadora, posso lhe dizer. Os dias da cavalaria tinham voltado, e o acaso, mais poderoso até que o Rei Arthur, tinha me ordenado a servir uma doce dama em perigo. Mas eu não tinha treinamento, nenhum aprendizado preliminar de escudeiro, no qual pudesse aprender como as coisas eram feitas observando cavaleiros corajosos e realizados fazê-las. Eu tinha vivido entre as partes do discurso, não entre os fatos da vida. Eu podia acertar um pássaro em pleno voo, armar uma armadilha para um coelho, cavalgar como uma sela, pescar lúcio e truta, golpear como uma marreta, nadar como um peixe — e isso era tudo. Eu conhecia, também, cada curva e trilha e árvore por quilômetros ao redor; e isso poderia ser algo agora, e de fato, como se verá, acabou sendo minha realização mais preciosa. Algumas pessoas diziam que eu era orgulhoso como Lúcifer, outras que eu era manso como um rato, e uma vez ouvi nossa Kate dizer a Priscilla Dobson, a irmã azeda de Jack, que ambos estavam certos — o que me confundiu, pois nossa 'Cabeça de Cobre', como eu costumava chamá-la, era uma mulherzinha astuta. Ainda assim, tal como eu era, a senhora estranha deveria me ter, se quisesse, como seu escudeiro, até o último suspiro em meu corpo. Apenas deixe-me sair da minha horta, apenas me dê um trabalho de homem para fazer, e eu não pediria mais nada. Nem por amor nem por gosto eu ansiaria, mas apenas pelo trabalho e a alegria dele.
O portão do pátio fez clique, e um momento depois a mamãe e Kate entraram.
"Oh, Noll, foi grandioso!" explodiu Kate. "Eu gostaria que você estivesse lá. Havia centenas e centenas de soldados, cavalaria e infantaria, e canhões e carroças sem fim. Lorde Brocton estava lá, e Sir Ralph Sneyd, que é um amor, e um major com aparência desagradável com o rosto todo cheio de manchas. E eles nos viram, e se aglomeraram na casa do vigário para falar conosco."
"E o que dizer de Jack Dobson?"
"Oh, Oliver, por que você está com suas melhores roupas?"
"Porque me encharquei pegando um grande lúcio. Mas não se importe com minhas melhores roupas. Como Jack estava em seu uniforme?"
"Muito melhor que Lorde Brocton, ou qualquer outra pessoa lá, se você quer saber", ela disse, jogando as palavras para mim, com as bochechas quase da cor de seu cabelo.
"Ele consegue falar com sensatez ainda?"
"Ele falou como o cavalheiro modesto que é", disse minha mãe, "e parecia quase tão bonito quanto meu próprio filho. Ele enviou suas amorosas saudações a você, e teria vindo vê-lo de bom grado, mas seus deveres não o permitiram."
Naturalmente, minhas provocações sobre Jack eram puramente tolas e ciumentas; além disso, eu agora podia me dar ao luxo de ser sincero; então eu disse: "Se Jack não se portar melhor, além de parecer melhor, do que meu Lorde Brocton, eu lhe darei uma surra quando ele voltar. Mas ele vai. Ele é um sujeito raro, o Mestre Jack, e de longe a alma mais corajosa, menino ou homem, que já encontrei. E ele aprenderá o bom senso, do tipo que lhe convém, tão depressa quanto qualquer um quando chegar a hora."
"É claro que o rapaz aprenderá", disse minha mãe, tirando sua capa longa, e Kate, quando a mãe se virou para pendurá-la no gancho de costume, deu um rápido beijo em minha bochecha com os lábios e sussurrou: "Seu querido e velho Noll!"
Durante todo esse tempo, eu estivera ouvindo com os ouvidos atentos por passos na escada. Agora eu os ouvi e esperei ansiosamente. A porta se abriu, e Jane entrou, ereta e importante. Ela fez uma reverência à minha mãe, anunciou: "Senhorita Margaret Waynflete", e minha deusa entrou no recinto.
Ela caminhou diretamente até minha mãe — uma palavra pobre para descrever seu movimento doce e majestoso, *et vera incessu patuit dea*, como diria o mestre —, fez uma reverência profunda e nobre a ela e disse: "Senhorita Wheatman, sou uma estranha em perigo, e estaria em desgraça não fosse por seu filho, que me serviu e me salvou como apenas um cavalheiro valente e cortês poderia fazer."
Eu sempre amara minha mãe profundamente, mas amava-a orgulhosamente agora, pois a maior dama da terra não poderia ter feito melhor do que esta minha mãe doce e simples. Sem surpresa ou hesitação, ela tomou as mãos da Senhorita Waynflete nas suas e disse: "Querida senhora, qualquer um em perigo é bem-vindo aqui, e Oliver fez exatamente o que eu gostaria que ele fizesse. E esta é minha filha, Kate, que compartilhará de nossa ansiedade em ajudá-la."
E então eu senti orgulho de nossa Kate, Kate de cabelos ruivos e rosto branco como o leite, o olhar atrevido e a língua astuta, Kate com a cabeça de comerciante e o coração de ouro. Ela apertou a mão da senhora calorosamente e a conduziu até minha grande poltrona no canto da lareira, como se fosse um trono que lhe pertencia por direito.
Assim foi a Senhorita Waynflete acolhida em Hanyards.
Minha mãe e Kate ocuparam seus lugares habituais no banco aconchegante ao lado da lareira. Eu me sentei em um banquinho de três pernas em frente ao fogo, e Jane esvoaçava tão silenciosamente quanto um morcego, pondo a mesa para nossa refeição noturna.
Nunca o ambiente doméstico de Hanyards parecera tão belo. A luz do fogo dançava no lambril de carvalho negro que a idade e o polimento haviam tornado semelhante ao ébano, e a fileira de pratos de estanho na prateleira superior da cristaleira cintilava em sua obscuridade como uma fileira de luas. Nosso orgulho especial, um armário de especiarias de mogno maciço, com séculos de existência, brilhava em vermelho do outro lado da sala, e da parede próxima, a grande espada e o peitoral com os quais Smite-and-spare-not Wheatman, Capitão de Cavalaria, havia servido em Naseby, pareciam piscar cumprimentos a mim como alguém não indigno do meu nome. Não era um cenário inadequado, talvez, este antigo e nobre salão, para o belo quadro agora nele contido, para o qual eu olhava, tão frequentemente quanto ousava, com olhos furtivos de admiração.
Ela contou sua história com uma franqueza simples. O nome de seu pai era Christopher Waynflete, um soldado de profissão, que servira em muitas partes do Continente e alcançara a patente de Coronel no exército sueco. Nunca conhecera a mãe, pois ela morrera quando a Senhorita Margaret tinha apenas alguns meses de vida, e seu pai mantivera uma reticência inquebrável sobre o assunto. Há cerca de seis meses, o Coronel Waynflete retornara à Inglaterra para se estabelecer, desejando obter algum emprego militar, um plano que seu longo serviço e conhecimento profissional pareciam tornar viável. Em Londres, ele conheceu o Conde de Ridgeley, a quem, na verdade, ele portava uma carta de apresentação de um diplomata sueco em Paris. Por meio do Conde, ele conheceu Lorde Brocton, único filho e herdeiro do Conde. A esperança do Coronel de obter emprego no exército não se realizara, e isso, somado a certas outras razões que ela não especificou, o tornara amargo contra o Governo. Não tendo qualquer lealdade real ao Rei George, a quem nunca servira e que agora recusava seus serviços, ele facilmente aderiu aos planos de certos influentes jacobitas em Londres, com quem fizera amizade. Três dias antes, ele partira de Londres para se juntar ao Príncipe Charles. Por certas razões (novamente ela não deu detalhes), ela não queria se separar do pai, pelo menos não até que as circunstâncias tornassem necessário que se separassem, e então o plano era que ela fosse para Chester, cidade com a qual ela tendia a acreditar que seu pai tinha alguma antiga ligação, e ficasse lá com a esposa de certo dignitário da catedral, de inclinações jacobitas secretas, porém fortes. A conexão do Coronel Waynflete com a causa jacobita fora, naturalmente, mantida em segredo, mas ela tinha quase certeza de que Lorde Brocton a descobrira por meio de um certo espião e bajulador seu, um tal Major Tixall.
"Espinhas por todo o rosto dele?", interrompeu Kate.
"Sim", disse a Senhorita Waynflete, com um pequeno estremecimento.
"Ele estava na vila esta tarde com Lorde Brocton", retrucou Kate.
"Paz, querida", disse minha mãe, "nossa vez chegará. Fique tão quieta quanto Oliver."
"Oliver, querida mãe, não viu o Major Tixall, cujo rosto é suficiente para fazer uma coruja falar, muito menos uma pega como eu."
Sua orelha direita estava perto o suficiente de mim, já que o banquinho era grande e eu maior, então pincei a linda conchinha rosada e sussurrei nela: "Cale a boca, Kit, e pense em Jack", o que a silenciou efetivamente.
A Senhorita Waynflete tinha pouco mais a contar. Haviam viajado rapidamente, evitando Coventry e Lichfield, onde as forças reais se reuniram, mas desviando para o oeste a fim de chegar por estradas pouco frequentadas a Stafford, e assim seguir para a estrada principal do norte, pela qual se dizia agora que o Príncipe marchava. Logo após passar pelo "Bull and Mouth", seu cavalo perdera uma ferradura. Deixando-a descansar na taberna, o Coronel seguira com os cavalos para a ferraria mais próxima em Milford. Ele não tinha ideia do movimento das tropas para o norte vindo de Lichfield, e estava sob a impressão de que já se encontrava bem além da zona de perigo. Nós tínhamos ouvido do sargento sobre sua captura.
Kate, a pedido da mãe, retomou o relato a partir daí. A estrada que passa por Hanyards até a vila entra na estrada principal abruptamente, e moitas de olmos impedem que qualquer pessoa que viaje por ela veja o que está acontecendo na vila. A casa do vigário fica em frente à ferraria e à estalagem, e quando minha mãe e Kate chegaram lá, apenas alguns dragões estavam por perto. Elas viram o Coronel chegar cavalgando, conduzindo o cavalo de sua filha, e viram-no virar-se imediatamente e tentar voltar assim que avistou os dragões; mas um grupo maior, sob o comando do Major Tixall, trotou para dentro da vila no mesmo momento e, encurralado entre os dois grupos, o Coronel fora forçado a se render. Ele foi mantido detido até a chegada de meu Lorde Brocton, quase uma hora depois, e fora então enviado para Stafford sob forte escolta.
Esta foi a única informação nova que tinha qualquer importância. Há uma prisão em Stafford, e sem dúvida o Coronel já estaria alojado nela.
"Receio que minhas opiniões, ou pelo menos as opiniões de meu pai, façam de mim uma hóspede perigosa", disse a Senhorita Waynflete, "embora sua bondade tenha feito de mim uma hóspede bem-vinda."
"Senhora", disse eu friamente, "a única política que conheço é que meu Lorde Brocton está lutando contra o Stuart, e se ao lutar pelo Stuart eu puder desferir um golpe justo em meu Lorde Brocton, eu lutarei pelo Stuart."
"Oliver", disse minha mãe, "é errado — não direi nada sobre a sabedoria disso — escolher lados em tais assuntos com base em inimizade pessoal."
"Lorde Brocton é um animal", disse Kate secamente.
A Senhorita Waynflete tinha ficado com uma cor mais intensa à menção do nome de Brocton, mas, com as palavras de Kate, ela ficou escarlate, e por isso jurei que eu lhe daria um golpe na cabeça tão impiedosamente como se ele fosse um coelho, assim que tivesse a chance.
Ela se recuperou e continuou sua história, mas como ela dizia respeito apenas à minha participação nos acontecimentos do dia, é desnecessário repeti-la aqui. Ela a contou, porém, em termos tão gentis, que dei fim ao meu desconforto indo buscar o grande lúcio para minha mãe e Kate verem. Ao retornar, no entanto, não pude deixar de ouvir Kate dizer à Senhorita Waynflete: "Sem um 'com sua licença'?"
"Tão indiferente como se eu fosse um saco de farinha", foi a resposta fria. E eu tremia como uma folha de álamo!
"Suponho que ele quase a afogou?"
"Pelo contrário, não havia uma peça de roupa molhada em mim."
"Oliver", acrescentou minha mãe, "não tem muitas coisas para fazer que valham a pena, mas o que ele encontra para fazer, ele faz bem."
"Como pescar lúcio", disse eu, cambaleando sob meu peso. Ele foi admirado sem restrições, e era de fato digno de todo louvor.
"O jantar está pronto, mamãe", disse Jane; "e Joe diz que sabia que era do tamanho de um poste de cerca."
"E onde está Joe?"
"Na cozinha, Mestre Noll."
"Dê a ele um bom jantar, não muita cerveja, e que seja fraca, e diga-lhe para ficar lá. Eu vou precisar dele." Então, voltando-me para a Senhorita Waynflete, continuei: "Há um caminho, e apenas um, para Stafford que é perfeitamente seguro esta noite. Joe e eu a levaremos de barco. Agora, mãe, estou com mais fome do que o grande lúcio jamais esteve."
CAPÍTULO IV
NOSSOS COMEÇOS DE VIAGEM
Já mencionei que o rio era o limite de Hanyards no lado voltado para a vila. Cerca de cem jardas acima da bolsa de águas profundas onde o lúcio estivera, eu construíra uma pequena doca coberta, e aqui guardava uma embarcação, metade barco e metade chata, que eu usava para minha pesca e na qual minha mãe e Kate podiam deitar sobre almofadas enquanto eu as remava pelo rio nas noites quentes de verão. Era pesado e desajeitado, mas muito confortável e tão seguro quanto a arca.
Joe recebeu a informação de que deveria remar até Stafford tão alegremente quanto um convite para uma caneca de cerveja, e saiu assobiando para preparar o barco.
Tudo o que o cuidado pudesse sugerir foi feito para o conforto da Senhorita Waynflete. Jane levou para o barco duas enormes garrafas de cerveja de pedra, cheias de água fervente. Minha mãe insistiu que a senhora levasse sua capa grossa com capuz, moldada como um dominó da moda, cobrindo-a da cabeça aos tornozelos. Kate enfiou no meu bolso um frasco de meio litro de sua mistura especial de cordial de hortelã, a melhor companhia possível em uma noite como esta. Jane voltou e retornou novamente carregada de mantas e almofadas, e logo informou que o barco estava pronto.
Minha mãe e Kate, com Jane atrás delas, vieram até o portão do jardim para nos desejar adeus. Pouco foi dito, pois a Senhorita Waynflete estava comovida demais pela bondade delas para dizer muito, e eu estava ocupado demais. A senhora beijou a todas, uma por uma, e murmurou um adeus. Eu beijei minha mãe e Kate, e elas me desejaram uma boa viagem e um retorno seguro. Voltamos nossos rostos para o rio e partimos.
Eram quase oito horas. A noite estava escura como breu, o céu estrelado e sem lua. Congelava forte, o ar cortante feria nossos rostos, o menor galho estava grosso de geada e a grama estalava sob nossos pés a cada passo. Segui à frente como guia e, em cinco minutos, chegamos à doca, onde Joe, com o barco fora d'água, almofadado e arrumado para a viagem, batia vigorosamente as mãos em volta da cintura para mantê-las aquecidas. Ele segurou o barco contra a margem, eu entrei, ajudei a Senhorita Waynflete a entrar, acomodei-a com todo o conforto possível, sentei-me ao lado dela e peguei as cordas. Então Joe, subindo, empurrou o barco e a viagem começou.
Era contra a corrente, mas felizmente ela estava suave, embora houvesse uma quantidade razoável de água descendo. Não havia, ou melhor, não teria havido em uma noite comum, perigo de descoberta, uma vez que o rio ficava a meia milha da estrada principal em nosso ponto de partida, e corria ainda mais longe dela por quase duas milhas. Então veio o único ponto de perigo possível em uma noite como esta, com a estrada ocupada por tropas em marcha. Uma longa curva no rio levava-o tão perto da estrada que o pátio de uma estalagem de beira de estrada chegava até a água. Se passássemos por este ponto com segurança, todo o perigo estaria superado até chegarmos exatamente à parede arruinada da cidade. A lua não nasceria por duas horas, então havia tempo de sobra para nosso percurso de cerca de cinco milhas.
"Espero que esteja confortável, senhora?", eu disse.
"Confortável, quente e aconchegada", ela respondeu. "Não fosse pelos meus receios pelo meu pai, eu até estaria feliz, pois nunca antes foi meu destino — e vaguei por toda parte, por metade da Europa — experimentar tanta e tamanha bondade em um único dia por parte de estranhos perfeitos."
"Sou, de fato, feliz com minha mãe e minha irmã. Elas são pérolas de grande valor."
"Nenhuma melhor em todo Staffordsheer", disse Joe.
"Você me prestou um serviço maior do que imagina, e não devo deixar de fora a sua parte." Para esconder uma nota de melancolia em sua voz, ela acrescentou, travessa: "Devo, Joe?"
"Cê pode achar pior que o Wheatman dos 'Anyards", disse Joe, com precisão firme de elogio.
"Ele é realmente um cão do inferno, Joe, quando toma um gole de cerveja? Não tenho ideia clara do que seja um cão do inferno, mas claramente significa algo tão ruim, digamos, quanto um janízaro — o pior animal que já encontrei."
"Gole de cerveja nele", resmungou Joe com desdém. "Ele não sabe realmente o que é cerveja, minha senhora. É uma coisa grandiosa, a cerveja, se você apenas tomar o suficiente para lhe fazer bem, mas não há virtude em meia caneca dela. Já disse isso a ele muitas vezes. Mas é a verdade de Deus, minha senhora, ele não precisa de cerveja, não precisa o Mestre Noll, para fazê-lo bater como o coice de um cavalo. Eu só trouxe alguns peixes para ele em casa esta manhã, e..."
"Remo mais forte, Joe, e grite menos", eu disse, interrompendo-o. "Entre você e Jane, não restará um trapo de reputação para mim."
"Gole de cerveja nele", ele rosnou e cuspiu ruidosamente nas mãos. Joe via todos os homens como potenciais clientes do "Bull and Mouth" e os julgava de acordo.
"Agora sei o pior sobre você, Mestre Wheatman, e para lhe dar um tópico de conversa menos embaraçoso, talvez possa me dizer o que faremos quando chegarmos a Stafford."
"Vamos à casa da 'Marry-me-quick'."
Ela sobressaltou-se tão abruptamente que eu ri alto, e Joe resmungou como uma carroça sobrecarregada. Eu expliquei.
"Abordaremos a cidade pelo lado sul, onde a muralha desce até o rio. 'Marry-me-quick' não é, como parece supor, um processo desagradável, mas uma velha agradável que mora em uma casa que dá para o rio. Todo colegial na cidade a conhece por esse nome, que também é o nome de um tipo de bala de caramelo que ela faz, e com cuja venda ela ganha um sustento modesto. Não posso dizer-lhe como o nome se originou, mas aí está. Frequentei a escola de gramática na cidade e, no meu tempo, devo ter comprado e consumido algumas centenas de quilos de seu 'marry-me-quick'. Em sua pequena casa, você poderá descansar em segurança enquanto eu procuro Jack Dobson e descubro o que foi feito de seu pai."
"E se eu tivesse um xelim", disse o indomável Joe, "por cada pedaço de manteiga que levei para a velha Marry-me-quick, eu... eu..."
Ele parecia perdido nas palavras, então eu o ajudei, e ao mesmo tempo retribuí, dizendo: "Crie coragem suficiente para falar com Jane."
"Essa é boa, Mestre Noll."
"Jane é tão afeiçoada a dinheiro, Joe?", perguntou a Senhorita Waynflete, curiosa.
"Não", disse Joe. "Ela não é gananciosa, a Jin não é. Ela me disse esta noite, ela poderia ter tido uma montanha de dinheiro se quisesse, mas não quis aceitar. Disse que teria queimado seus dedos. 'Mais tola você', digo eu; 'teria esfriado logo com esse tempo como o de agora.' Mas a Jin é gente boa. Ela nunca quebrará o braço na porta da igreja, não a Jin."
Expliquei à Senhorita Waynflete que uma mulher que quebrava o braço na porta da igreja era uma donzela prendada que se tornava uma dona de casa desleixada após o casamento. "Não há medo de Jane fazer isso", ela respondeu; "ela é tão boa quanto as guinéus que não quis aceitar."
Por um momento, o silêncio caiu sobre nós. Toda a minha atenção era necessária para manter o barco longe das margens, pois o pequeno rio girava e se retorcia através dos prados como uma lebre caçada. Havia apenas a luz das estrelas para navegar, mas eu pescara cada jarda do rio e o conhecia tão bem que dei a Joe um canal livre para remar. Nenhum som perturbava o ronronar rítmico dos remos nos suportes e a leve batida da corrente contra a proa. Neste dia, Deus fora muito bom comigo. Era a vida como eu a queria; trabalho para o cérebro e para os músculos, e uma mulher para quem trabalhar, alguém que valia tudo o que havia em mim. O romance fizera corar a noite monótona da minha vida com uma aurora rosada, e meu coração se elevou dentro de mim. Se ele desaparecesse, pelo menos restaria a memória. Mas poderia não desaparecer. Eu não tinha ilusões quanto à dureza da minha tarefa. Eu estava enfrentando os poderes constituídos, contra meu Lorde Brocton, cuja habilidade de causar mal a esta donzela era aumentada mil vezes por sua autoridade militar. Eu via meu caminho para dentro de Stafford, e não via mais nada, nem mesmo minha saída de lá, e menos ainda minha saída de lá com o Coronel resgatado e restaurado à sua filha. A Senhorita Waynflete estivera tão decidida em sua escolha de seguir o pai que talvez tivesse algum plano em mente. Ela não disse nada se o tinha, e se tivesse, eu supunha que dependeria de seu poder feminino de influenciar Brocton. O futuro era tão negro quanto a perspectiva ao longo do rio, mas eu o enfrentava ansiosamente.
Ela quebrou o silêncio: "O último barco em que estive foi uma gôndola. Foi em uma noite perfeita de junho em Veneza, o céu uma safira polvilhada com diamantes, o ar quente e perfumado cheio de murmúrios e trechos de canções. E não havia perigo."
"Romance, talvez", disse eu.
"Não se pode ter um romance de mão única. Romance é uma atmosfera respirada por dois, não uma emoção sentida por um. Com certeza, ele era o amante mais terrivelmente sincero que uma mulher já teve. Ele chorava por um beijo com os dedos dedilhando o punho de seu estilete. Coração querido, esses italianos!"
"Eu gostaria de conhecer o tal conde", disse eu energicamente.
"Sim, ele era um conde, com uma árvore genealógica tão longa quanto o Rialto, e ele não tinha dois piastras de prata para esfregar um no outro. Ele era o homem mais bonito que já vi. Felizmente, deixamos Veneza antes que ele tivesse decidido que era hora de enfiar sua faca em mim."
"Você fala levianamente do seu perigo, senhora", disse eu friamente.
"Um italiano de sangue quente com um estilete na mão é uma criatura muito mais desejável, deixe-me dizer-lhe, do que um inglês de sangue frio com o diabo no coração. Aquele pequeno conde ardente, vaidoso e empobrecido, ao menos me fez o elogio de pensar por pelo menos quinze dias que eu era um pedaço do céu caído em seu caminho, enquanto para seu lorde inglês de fígado frio, eu não sou mais do que um prato apetitoso."
Ela não estava a falar de ânimo leve agora, mas com uma raiva fria e concentrada. Recordei as reticências da sua declaração em Hanyards e comecei a ver, tenuemente, alguns dos elos de ligação na sua história. O caráter de Lord Brocton era suficientemente conhecido para ser assunto de conversa comum nas nossas feiras. A minha própria masculinidade envergonhava-me na presença desta mulher majestosa, marcada por um canalha titulado como sua presa, e sentei-me imóvel, com os punhos cerrados sobre as cordas do leme, sem dizer nada, esperando que ela voltasse a falar.
"Vi hoje, Mestre Wheatman", disse ela, "um espetáculo que nunca tinha visto antes — uma bela donzela inglesa a crescer para a idade adulta na calma e na segurança de um lar rural inglês. Sentir-se-á tentado, eu sei, a invejar as minhas errâncias, as minhas experiências, a minha liberdade, mas, acredite, preferiria ser a sua doce Kate na quietude de Hanyards."
"Não é tão quieto quanto poderia ser quando o Jack está por perto", disse eu, procurando mudar o curso dos seus pensamentos. Então, tive de lhe contar tudo sobre o Jack, as nossas aventuras, lutas e amizades de rapaz, e porque mais cedo, naquele dia, tinha pensado mal do querido Jack, agora não conseguia dizer coisas suficientemente boas sobre ele.
Era altura de substituir o Joe nos remos. A princípio ele não concordou, pois, disse, tinha estado "a arrastar-se um pouco durante o dia com aqueles soldados" e queria fazer um dia de trabalho.
"Farás, antes de terminares, Joe, porque tens de levar o barco de volta. Por isso, bebe um gole de cerveja e trocaremos. E a senhora há de reconhecer as virtudes do cordial de hortelã da nossa Kate."
Joe recolheu os remos e estendeu a mão para a sua garrafa de cerveja. Tirei o frasco e disse com uma voz cantante: "Tome dois galões da melhor Hollands que o dinheiro pode comprar e adicione-lhes, primeiro, quatro libras de açúcar de Barbados de eleição e, em segundo lugar, dois alqueires de folhas de planta de hortelã recém-colhidas. Deixe em infusão durante toda uma lua, mexendo a mistura a cada quatro horas durante o dia e tantas vezes quantas acordar de noite. Coe através de um pedaço de linho, se tiver um; se não, faça o que a nossa Kate fez este ano: use a meia de seda de uma bela donzela. O resultado é uma bebida digna dos deuses e, na verdade, uma que pode até ser oferecida a deusas. Beba, minha senhora!"
Ela ria alegremente antes de eu ter terminado. "A meia da Kate parece ser o ingrediente mais inocente, Mestre Wheatman, mas tenho de provar a sua perícia na destilação."
Ela fê-lo e declarou-o excelente, mas forte. Eu também provei, confesso que de forma mais copiosa. De facto, era bom, mas para mim, sei que o encanto do cordial desta vez residia no pensamento dos lábios vermelhos e ricos que tinham tocado o frasco antes dos meus.
Joe e eu trocámos então de lugar, e mantive-me firme nos remos até chegarmos à curva que corria perto do "Why Not". Aqui, Joe retomou os remos e eu as cordas.
"Este é o único ponto de perigo", disse eu. "Ali estão as luzes da taberna. Numa noite comum, não haveria ninguém por perto, mesmo que importasse se houvesse, mas esta noite, quando importa, há milhares de soldados em marcha e existe algum risco de sermos observados."
Passados mais cinco minutos ou pouco mais, ouvimos trechos ténues de canções, explosões de aplausos, gritos e risos. O "Why Not" estava agora a cerca de cem jardas à nossa frente, à esquerda. À direita, a margem estava ladeada por salgueiros que, não tendo sido podados durante muitos anos, estendiam os seus ramos longos e finos sobre o rio. Conduzi o barco o mais que pude para debaixo deles. Joe remou com batidas curtas e suaves, e avançámos lentamente. Durante um minuto, as janelas iluminadas foram ocultadas pelas dependências e, logo que as avistei novamente, uma porta foi aberta de rompante e a mistura de ruídos transformou-se num rugido de risos zombeteiros. Uma jovem saiu a correr, descuidada e ruidosa como uma galinha perturbada, e um soldado robusto cambaleou atrás dela pelo pátio. A um sussurro, Joe recolheu os remos e eu levei o barco diretamente para a margem. Agarei-me no escuro a algo para me segurar e, por sorte, agarrei as raízes de um salgueiro. Na sua extremidade, Joe fez o mesmo. Mal nos atrevíamos a respirar enquanto observávamos o que acontecia na outra margem.
A luxúria, de sangue ou pior, e o medo dela, estavam ali. As janelas iluminadas e a porta aberta tornavam cada movimento do homem e da rapariga claramente visíveis. Ninguém os seguiu. Era um evento tão comum para a companhia, talvez, que não valia a pena deixar a alegria e a cerveja para ver o desfecho. Mas todos os elementos sérios do seu caso mudaram abruptamente e para o nosso perigo imediato. Na própria beira da água, a rapariga, conhecendo o terreno ao centímetro, virou-se habilmente. O homem, obviamente um estranho, continuou a correr e mergulhou de forma limpa e longe no rio, enquanto ela, rindo e triunfante, voltou para a casa. A sua história trouxe de imediato um grupo de homens, a gritar de alegria, para ver a diversão. Alguns deles tinham agarrado lanternas e velas acesas, e foram seguidos mais tarde por uma mulher mais velha, fresca e estridente, que carregava um enorme tição aceso arrancado da lareira.
Felizmente para nós, o rio era raso, pois um par de braçadas teria trazido o homem diretamente para cima de nós. O choque da água gelada sobressaltou-o. Ele chapinhou e engasgou-se até se pôr de pé, subiu a margem como um rato-de-água gigante e teria rastejado para a casa; mas a ralé caiu sobre ele antes de ele ter dado uma dúzia de passos, e atormentou-o até ele rugir como um touro ferido. A mulher com o tição gritou-lhe palavras vis que fizeram o meu rosto arder no escuro, e espancou-o na cabeça com o seu cacete em chamas. A cada golpe, uma chuva de faíscas voava, o que levava os seus companheiros folgazões a formarem um círculo à volta deles a uma distância segura. O homem teria de ter sido posto a arder se não tivesse sido encharcado no rio antes. Nenhum dos seus companheiros tentou ajudá-lo, tal como antes nenhum tentou impedi-lo. Era problema dele de qualquer forma, e eles desfrutavam do seu desconforto com todo o gosto de crianças. Por fim, a mulher sem fôlego e o homem acovardado chegaram a um entendimento, cujo resultado foi que, com um grito de "rodada de canecas", todos se amontoaram de volta à taberna, e ficámos mais uma vez sozinhos no rio.
"A provação pela água e pelo fogo", disse eu. "Afasta, Joe."
"Gom! Owd Bess deu-lhe uma lição", respondeu ele, e alavancou a proa do barco novamente para o meio da corrente.
Embora não houvesse necessidade real disso, a fuga manteve-nos a todos em silêncio. Persuadi a Mistress Waynflete a deitar-se, para evitar o vento cortante que varria o rio, e o Joe e eu, alternadamente, fizemos tal progresso que, em menos de uma hora, chegámos ao prado da cidade.
A maior cautela era agora necessária, uma vez que vimos que a ponte que levava à cidade estava apinhada de gente, muitos a carregar lanternas ou archotes. A muralha da cidade corria paralela ao rio, à nossa direita, com uma estreita orla de prado entre eles. Aqui, a muralha estava na maior parte reduzida a ruínas, e nas brechas erguiam-se pequenas casas, construídas em parte com as pedras que outrora tinham formado a muralha. Numa delas vivia a pequena e velha Marry-me-quick, Mistress Martha Tonks, para lhe dar o seu nome de batismo, e corremos para a margem ao nível da sua casa sem sermos observados da ponte, embora estivesse apenas a alguns comprimentos de barco de distância.
Saí cautelosamente e fui na ponta dos pés até à sua janela traseira. Lá estava a antiga donzela, ocupada com o fabrico do seu produto principal, sem dúvida em antecipação de uma maior procura nestes dias agitados, em que muito dinheiro extra circularia pela cidade e muitos cêntimos dele escorreriam para os bolsos dos jovens. Levantei o trinco e entrei. Ela guinchou de susto até ver quem era e, depois, transformou o seu som num gorgolejo de espanto.
"Está sozinha?", perguntei. Ela acenou com a cabeça. "Só um minuto então, e voltarei com uma visitante. Fique quieta!"
Voltei para o barco e, como era obrigado a mover-me furtivamente como um gato, não pude deixar de ouvir, ao aproximar-me, o Joe dizer enfaticamente: "Eu não irei". Amaldiçoei-o em silêncio, sem me dar ao trabalho de perguntar ao que ele se opunha, e ajudei a Mistress Waynflete a sair.
"Agora, Joe", sussurrei, "vai-te embora! A lua aparecerá dentro de alguns minutos e deves conseguir fazê-lo numa hora. Podes sentar-te na cozinha amanhã o dia todo para compensar isto."
"A Jin disse que ia ficar acordada à minha espera", disse ele, e fiquei contente por ele ter um motivo tão bom para se manter na sua árdua tarefa.
"Adeus, Joe", disse a Mistress Waynflete, apertando calorosamente a mão do bom homem. "Dê as minhas carinhosas lembranças às suas patroas e à Jane. Diga-lhes o quão grata estou."
"Adeus, minha senhora", disse ele simplesmente, "e que Deus a abençoe." Para que só eu pudesse ouvi-lo, acrescentou: "Tome bem conta dela, Mestre Noll. A Jin é terrivelmente apegada a ela e não olhará para mim se algo de mal lhe acontecer."
Apertei a sua mão calejada, dei-lhe a minha mensagem de despedida para casa e, depois, agachei-me e empurrei o barco para dentro da corrente, rio abaixo. À medida que levantava a mão dela e o barco deslizava para a escuridão, senti no meu coração que o último elo com a antiga vida tinha sido quebrado. Então, enquanto me punha de pé, uma mão foi colocada no meu braço, e formiguei em cada fibra com este doce elo com a nova vida.
CAPÍTULO V
A ANTIGA CASA ALTA
Eu tinha encontrado a Mistress Tonks na sua pequena sala das traseiras, onde ela fabricava marry-me-quick de dia e dormia de noite. A sua casa continha apenas mais uma divisão, servindo de loja e sala de estar, e voltada para um caminho estreito que virava abruptamente da rua principal no final da ponte para seguir a curva das muralhas. Quando voltei com a Mistress Waynflete, ela tinha fechado a janela da loja, apagado as velas e atiçado o lume até este brilhar.
Marry-me-quick era uma mulher pequena, antiga e enrugada, tão minúscula que mal escapava a ser anã, corcunda e inexprimivelmente feia. Em tempos não muito distantes, teria certamente sido queimada como bruxa, e muitos supunham que ela estava mancomunada com o maligno. Mas, na verdade, era uma criatura alegre, faladora e de coração caloroso, em quem eu podia confiar para nos servir nesta aflição.
"Mistress Tonks", disse eu, "quero que abrigue esta senhora durante a noite."
"Com certeza", chilreou a pequena mulher. "Felizmente, mantive os soldados afastados. Cada casa na cidade está cheia deles, e o Presidente da Câmara está desesperado por saber como os enfiar a todos. Acho que uma vintena deles veio aqui, aos um, aos dois e aos três; e quando eu me mantive firme perante eles e disse: 'Querem algum marry-me-quick?', foram-se embora como coelhos assustados. Uma grande e doce senhora como a senhora não pensaria nisso, claro, mas é uma bênção por vezes para uma mulher sozinha, quando ela é feia o suficiente para azedar as natas, e ainda por cima um pouco torta de corpo."
"Desejarei certamente algum marry-me-quick", disse a Mistress Waynflete, evitando habilmente a conclusão embaraçosa deste discurso, "pois o Mestre Wheatman descreveu-o em termos que me fazem crescer água na boca. E embora não queira alojar soldados, sei que será amiga da filha de um soldado."
"Eu seria amiga da própria diaba, peço perdão à vossa senhoria, se o Mestre Wheatman a trouxesse aqui. Sou uma mulher pequena, sozinha e feia, mas o Mestre Noll sempre me apoiou. Os rapazes, malditos sejam, estavam sempre a roubar os rebuçados e o pão de especiarias do Mestre Dobson, sendo ele presidente da câmara da cidade, embora ele tenha conseguido coisas muito mais grandiosas desde então, mas nunca roubaram qualquer marry-me-quick, não no tempo do Mestre Noll. Mas ele partiu agora, e eu não sou tão ágil como costumava ser. Jesus me ajude, como ele costumava lutar! Ele punha o meu coração na boca, vindo para aqui todo ensanguentado e sujo para se lavar antes de ir para casa. Mas tire as suas coisas e sinta-se em casa."
"Receio que vá ouvir um relato demasiado completo e verdadeiro sobre mim, senhora, enquanto eu estiver fora", disse eu. "Os soldados provavelmente virão, mas pode deixar a Mistress Tonks tratar deles. Ainda assim, por favor, tire o seu casaco e chapéu e use o dominó da minha mãe. É simples e rural, e deve puxar o capuz sobre a cabeça, pois, se o seu cabelo foi descrito e qualquer soldado que venha aqui tiver ouvido falar dele, terá de ser cego para não o notar."
"Sim, é uma coisa terrível", disse ela, com uma mansidão divertida.
"Tão terrível, senhora", disse eu seriamente, "que toda a Inglaterra não consegue igualá-lo. Portanto, deve escondê-lo, para que não choque algum pobre soldado que venha procurar alojamento e o encontre."
Ela tirou o chapéu, preparando-se para fazer o que eu pedi, e o maravilhoso cabelo amarelo, rolos sobre rolos dele, foi revelado. "Jesus me ajude", disse a pequena Marry-me-quick com uma voz abafada, "a parte de trás da cabeça dela parece uma lua de colheita. Se o mesmo Deus que fez a vossa senhoria me fez a mim, começaremos a vida no céu com uma discussão, é tudo o que tenho a dizer."
Sorri com a fantasia peculiar da pequena mulher, que perdia a sua irreverência para com Deus na sua reverência pela Sua obra. "Agora, mãe Tonks", disse eu, "deixo esta senhora a seu cargo por algum tempo enquanto vou à cidade ver o Mestre Dobson. Posso demorar algum tempo, e a senhora preparar-nos-á algum jantar. Qualquer coisa que tenha servirá."
"Qualquer coisa que eu tenha?", ecoou ela com desdém. "Tenho um daqueles coelhos que me mandou no último dia de feira por aquele paspalho do Joe Braggs, mas ele é um bom tolo, o Joe" — aqui a sua voz suavizou-se e a senhora sorriu em concordância — "e este gelo manteve-o tão fresco como uma noz. Se não estiverem demasiado famintos para esperar, far-vos-ei um guisado de coelho."
"Guisado de coelho? Esperarei por isso, e tenho a certeza de que a Mistress Waynflete também", disse eu.
"Entretanto viverei de marry-me-quick", respondeu ela, rindo.
"Deixo-a então em boas mãos e espero voltar com notícias alegres", disse eu, fazendo uma vénia profunda, e saí para tratar do meu recado.
Virei à esquerda e cinquenta passos levaram-me à rua principal. Um canhão e uma coluna de carroças troavam sobre a ponte, escoltados por um punhado de dragões e uma ralé de rapazes e raparigas barulhentos. Tarde e frio como estava, a rua principal estava apinhada como num dia de feira ao meio-dia. A maioria das lojas, especialmente as que lidavam com provisões, estavam abertas e cheias de clientes vociferantes, enquanto todas as tabernas eram um pandemónio. A rua estava bloqueada por habitantes da cidade e soldados; lanternas cintilavam e archotes flamejavam; juramentos e piadas, bravata e bufonaria preenchiam o ar.
Abri caminho até à praça do mercado. Aqui, cerca de uma dúzia de canhões estavam estacionados e pelo menos cem cavalos presos. Em cada canto, um fogo enorme crepitava e rugia. A câmara municipal era um clarão de luz e ouvi dos transeuntes que o presidente da câmara e o conselho estavam em sessão desde o meio-dia. O rumor atual era que o Stuart, com cinquenta mil montanheses, selvagens que estripavam mulheres por desporto e assavam crianças para comer, tinha saqueado Manchester e marchava agora para sul, com o inferno no coração e a desolação no seu rasto. Se uma centésima parte fosse verdade, o digno presidente da câmara tinha o seu trabalho facilitado, pois a cidade estava tão mal equipada que teria caído perante um bombardeamento de nabos.
Coloquei-me nos degraus da câmara municipal para observar a cena e organizar os meus pensamentos. E aqui tive a melhor sorte, pois quem deveria descer os degraus fazendo tinir as esporas senão Jack Dobson. Já não precisava de o invejar, tendo melhor trabalho em mãos do que o dele, mas mesmo que o estado de espírito do meio-dia tivesse prevalecido, teria desaparecido perante a sua saudação calorosa.
"Noll, por Deus, Noll", exclamou, apertando-me a mão alegremente. "Estou contente por te ver, rapazão; pensei que estavas a fazer birra na tua tenda como... como, sabes o nome dele, o tipo sobre quem o velho Bloggs estava sempre a contar histórias."
"Ifigénia", disse eu.
"Era esse o tipo?", disse ele alegremente. "E agora que te tenho, vem comigo até casa. Tenho mais para te contar do que aquilo que existe em toda a tua estúpida e velha Virgílio, e é vivo, homem, vivo, vivo. É por isso que me agrada. Vem, Noll. Lord Brocton está a jantar e a ficar com o pai, o Sneyd também, e muitos mais, e ouvirás todas as novidades. Brocton é uma besta, e estou contente por ser oficial, mesmo que seja apenas um corneteiro nos seus podres dragões. Haverá uma besta a menos no mundo, penso eu, antes de muito tempo."
"O que é que ele te fez para te chatear?"
"Diz-me, Noll", foi a sua resposta, "a Kate parecia tão doce esta tarde. Fiquei contente por ela ter vindo ver-me partir para as guerras. Só tive uns poucos momentos de conversa com ela. Brocton estava sempre a arranjar-me algo para fazer, que o leve o diabo, mas ela parecia tão doce."
"Tudo bem, se parecia. Não te preocupes com a nossa Kate."
"Não me preocupar com a tua Kate, seu bárbaro, seu antropocoisas-qualquer-coisa de um olho só! Oh, Noll, velho amigo" — havia um nó na sua voz enquanto me arrastava para a entrada ao lado da loja do velho Comfit — "ela é a tua Kate agora, mas se eu voltar, quero que ela seja a minha Kate. Não digas uma palavra a ela, Noll, a menos que eu nunca volte — a guerra tem os seus riscos, Noll, e vou assumi-los todos — mas se eu nunca voltar, Noll, diz apenas à Kate que eu a amava."
Um grupo de habitantes da cidade passou aos gritos pela entrada, e os seus archotes iluminaram o seu rosto fresco e juvenil, todo brilhante com o entusiasmo da guerra e do amor. Apertei a sua mão e olhámo-nos nos olhos.
"Estou contente por me dizeres, Noll."
"Estou contente por ouvir isso, Jack. Volta, por causa da Kate."
O bom rapaz borbulhava de alegria com o significado das minhas palavras, e continuámos o nosso caminho pela entrada, tencionando fazer um desvio onde pudéssemos conversar em silêncio, mas antes que tivéssemos saído do brilho dos archotes, ele parou-me, olhou-me de forma perscrutadora e disse: "Velho Noll, há mais na tua cabeça agora do que Virgílio." Isto confirmou a minha suspeita de que o Mestre Jack Dobson estava a aprender, à sua maneira, mais do que eu tinha aprendido na minha.
"Agricultura", disse eu. "Diz-me por que é que Brocton é uma besta."
"Ele pensa que todas as mulheres bonitas são uma borboleta para os seus dedos imundos esmagarem a beleza. Mas se ele enrolar a sua língua de besta à volta de um nome, ou ele ou eu precisaremos daquele tipo barqueiro. Qual é o nome dele?"
"Caronte", disse eu, esquecendo-me de o provocar.
"É esse, Caronte, tenho a certeza de que tens razão desta vez. Não tinha a certeza sobre o tipo rabugento e velho na tenda. Sempre pensei que Iphi-qualquer-coisa fosse aquele que teve a sua garganta... uma espécie de história de Abraão e Isaac sem qualquer carneiro e moita no fim — mas claro que tu terás razão."
"E que tipo de dragões és tu corneteiro?", perguntei.
"Dão-me os vagabundos, Noll. Há cerca de duzentos varredores de rua, que não valem o esforço, que querem ser amarrados aos cavalos, e mal sabem distinguir a coronha da baioneta, e há outros duzentos homens melhores, reunidos a caminho, ou nos campos em redor de Lichfield. Sneyd, um tipo formidável, e eu tirámos à sorte os postos, e quando chegar a batalha, ele comandará os caipiras e eu seguirei atrás, chutando a escória de Londres para a linha de fogo. Malditos sejam. Mas eu hei de chutá-los bem chutados. Depois há o Major Tixall — major, por Deus — um assassino sorrateiro, com uma cara da cor de fígado de porco. Por que motivo ele é major, só Brocton e o diabo sabem. A única coisa boa é que temos um sargento de instrução de primeira. Ele é o puxa-saco do Brocton, e por isso não gosto dele, mas ele conhece o seu ofício, tenho de lhe reconhecer isso."
"Homem de cabeça grande, com uma boca fendida até à orelha esquerda?", disse eu, aproveitando a oportunidade bem-vinda.
"Como raio sabes?", perguntou Jack, espantado.
"Ele veio revistar Hanyards esta tarde à procura de um espião jacobita, uma mulher. Mas não a encontrou. Ela escapou-lhe por entre os dedos de alguma forma. Pelo boquirroto, entendi que tinham apanhado o pai dela. O que fizeram com ele? Já é comida de corvos?"
"Não, por uma razão ou outra, que é um mistério para mim, Brocton mandou-o seguir com a vanguarda."
"Para aqui?"
"Não, mais adiante. As ordens deles são para avançar até Stone hoje, e Newcastle amanhã. Devem entrar em contacto com o inimigo lá. É claro que não é certo por onde virão, e se vierem por aqui, Noll, marca as minhas palavras, cometemos um erro. Devíamos ter esperado por eles em Milford. Poderíamos tê-los feito em pedaços do cimo das colinas, muito antes de nos conseguirem alcançar."
A nossa conversa levou-nos a um beco que continha uma entrada lateral para a bela e antiga casa de madeira do Mestre Dobson, o orgulho da cidade e conhecida lá como a "Ancient High House". Ficava na rua principal da cidade, que conduzia da ponte até à praça do mercado. Por um momento fiquei indeciso, uma vez que já tinha obtido a notícia que mais importava, mas só estava fora há pouco tempo, o guisado de coelho não estaria pronto, a Senhora Waynflete estava em segurança e confortável, e poderia preferir estar sozinha, era possível que eu pudesse saber algo mais — e, por estas razões, decidi que valeria a pena aceitar o convite de Jack. Segui-o, portanto, para a sala de estar. Aqui, apresentei as devidas cortesias à rechonchuda Senhora Dobson e à Senhora Priscilla Dobson, a irmã mais velha de Jack, um molho de formalidades de cintura de vespa, sempre a fazer vénias e a coquetear, segundo o modo de Londres, como ela imaginava ingenuamente. As minhas costas doíam-me de tanto responder a cortesias e vénias antes de termos bebido a nossa parte de uma chávena de chá, que a Senhora Dobson tinha preparado para se refrescar após os trabalhos da hospitalidade, mas, por fim, saí aos solavancos atrás de Jack, e subimos à imponente sala de teto em abóbada onde os grandes estavam reunidos.
Em forma de ferradura em torno de um enorme fogo de toros, com uma pequena mesa coberta de garrafas e copos entre cada par, cerca de uma dúzia de homens estavam sentados a beber o seu vinho. Lá estava, claro, o Mestre Dobson, com o seu corpo franzino todo trémulo de importância, sentado no centro da curva, de frente para o fogo, de onde podia observar todos os seus convidados de uma vez e instigá-los à orgia.
"O meu filho regressa, meu senhor", disse ele, "com notícias do honorável Presidente da Câmara, e trouxe consigo um digno proprietário rural, o Mestre Wheatman, que..."
"De Hanyards, Esquire", disse eu num sussurro irritado.
"Ah, sim", corrigiu ele, chegando a um compromisso, "Mestre Wheatman de Hanyards, um súbdito leal de Sua Majestosa Graça."
"O melhor amigo e o que bate com mais força em toda a Staffordshire", acrescentou Jack, calorosamente.
Entrei na ferradura e fiz uma vénia geral à companhia, e uma mais baixa em benefício do meu Lorde Brocton, que se sentava junto à lareira no lugar de honra e conforto. Alguns anos mais velho do que eu, mas ainda sem trinta, bonito como um deus esculpido por Fídias, mas com a bebida e a maldade já a marcá-lo como uma alma condenada, sentava-se ali, o ídolo daquela companhia adoradora de lordes. A única cadeira vazia era à sua esquerda. Era o lugar de Jack, ganho pelas guineus do seu pai, que tinha permanecido vago durante a sua ausência. O bom rapaz, registo-o com orgulho, apesar de um olhar proibitivo do seu pai, indicou-me que lá me sentasse, foi buscar um copo e serviu-me vinho. Enquanto eu avançava, o seu senhorio teve a gentileza de se dirigir a mim.
"Ah, Mestre Wheatman de Hanyards" — havia um escárnio na sua voz — "é bom ver-te do lado certo, ou, por Deus e Sua Majestosa Graça, ficaríamos com aqueles teus outros quinhentos acres." Ele virou um copo cheio de vinho e acrescentou: "Ou um solatium, Mestre Wheatman, um solatium."
Apanhei o olhar de Jack quando entrei no meio do grupo. Para meu espanto, brilhava de raiva. Será que ele não achava que eu me sabia defender? Na verdade, Jack estava a tornar-se misterioso, mas suponho que, como eu era irmão de Kate, ele estivesse a sentir-se incomumente interessado no meu bem-estar. Pela minha parte, estava bastante confortável e respondi calmamente: "Na verdade, meu senhor, escolhi o meu lado expressamente devido às bem conhecidas propensões da família de vossa senhoria."
Durante um minuto inteiro, nada se ouviu na sala além do estalar e sibilar do fogo. Não foi pelo que eu tinha dito, embora ninguém presente, e ele menos ainda, pudesse ser tolo o suficiente para não o entender, mas pelo efeito que teve sobre ele. Então, como agora, o sangue corria como água em ocasiões muito mais leves do que esta, e Brocton, com todos os seus defeitos, era um lutador pronto. Desta vez, no entanto, os seus dedos não procuraram o punho da espada, mas mexeram no copo vazio, e o seu rosto ficou branco como as cinzas aos seus pés. Por fim, recuperou-se um pouco.
"As propensões leais da minha família são bem conhecidas de todos os homens", disse ele.
"E a sua determinação em lucrar com elas", retorqui friamente, e sentei-me ao seu lado.
Diretamente à minha frente estava o reitor, um tipo estúpido, ignorante, de cara de saco, com queixo de porco e papada de boi. A natureza destinara-o a ser talhante, mas, sendo um bastardo de uma grande casa, um patrono perspicaz tinha-o desviado para o bispado. Com uma voz rouca de sentimento e vinho, ele disse: "Certamente é o papel de um rei gracioso recompensar um serviço tão fiel como o do nobre Conde de Ridgeley e do meu Lorde Brocton."
"Decididamente, reverendo", respondi prontamente, "e de outros também, e se, como parece provável, os montanheses tiverem deixado para trás um ou dois decanatos vagos, espero que os vossos serviços leais e vida pastoral sejam adequadamente recompensados com um."
Aqui Jack puxou outra cadeira e eu movi-me para abrir mais espaço, para que ele pudesse sentar-se ao lado de Brocton, a quem começou logo a detalhar, em sussurros ansiosos, o resultado da sua visita à câmara municipal. Os outros retomaram os fios da conversa, e isto deu-me a oportunidade de inspecionar a companhia.
Não podia haver dúvidas sobre o homem à minha esquerda. O seu rosto vicioso e cheio de borbulhas identificava-o como o Major Tixall, e o estremecimento da Senhora Margaret era facilmente explicado. Ele virou-me o ombro e falou com outro oficial, que, até ao momento, estava apenas na sua aprendizagem no mesmo jogo. Para lá dele estavam outros dois oficiais de um cunho totalmente diferente, e aquele que sorriu para mim com os olhos tomei por Sir Ralph Sneyd, um jovem barão de Staffordshire de grande reputação. Depois vinha o Mestre Dobson, a separar as ovelhas militares das cabras civis. Lá estava o mercador de tecidos com cara de sexta-feira, Mestre Allwood, uma companhia estranha aqui, já que ele era presbítero de uma congregação dissidente na cidade, e por isso bem separado do seu reverendo. A dissidência do digno mercador não se estendia, segundo diziam os rumores, à realização de negócios duros, e sem dúvida ele estava, por uma vez, a confraternizar com os grandes devido à sua bolsa cheia e não às suas longas orações. Outros habitantes da cidade, cujos nomes não sabia ou não consigo recordar, separavam o diácono do reitor.
O último homem na companhia, sentado em frente ao seu senhorio, era um estranho e, de longe, o homem que mais valia a pena observar na sala. Tinha-se afastado um pouco, seja pelo calor do fogo ou para evitar, tanto quanto possível, a conversa vinosa do reverendo. Exceto que ele certamente não era nem soldado nem clérigo, e provavelmente não era advogado, não consegui tirar nada dele. Tinha uma cabeça maciça e um rosto resoluto e inteligente. Não usava peruca e o seu cabelo era cinzento e cortado rente. Julguei que fosse um homem perto dos sessenta, mas parecia forte e vigoroso. Vestia-se com uma ostentação rica e contida, com casaco e calções cinzentos, com um colete cinzento mais claro, de botões de prata, e meias a condizer.
Havia apenas uma coisa para se falar em qualquer companhia em Stafford naquela noite. O que ia acontecer? Que verdade e substância havia nos rumores que enchiam todas as bocas? Na casa do Mestre Dobson, duas correntes de opinião corriam violentamente em direções opostas. Os soldados à minha esquerda estavam, claro, certos de que o Príncipe Stuart e a sua ralé das Terras Altas seriam repelidos. Os habitantes da cidade em frente estavam igualmente impressionados com o facto de que, até agora, ele não tinha sido repelido, mas tinha levado tudo à sua frente.
Sir Ralph sustentava firmemente que a rebelião não tinha esperança. "Não há como fugir disso, Sir Ralph", guinchava o Mestre Dobson, resumindo para os habitantes duvidosos; "entre os rebeldes e nós, esta noite, não há trinta milhas nem trezentos homens, e vocês têm, até agora, apenas cerca de dois mil homens em Stafford. Sou um homem tão leal como qualquer outro em Inglaterra, mas não há como fugir disso."
"Ninguém quer fugir disso, Mestre Dobson", respondeu Sir Ralph. "Qualquer corpo de homens com armas nas mãos e o jeito de as usar pode marchar muito mais longe do que os montanheses vieram, se nenhum outro corpo de homens armados estiver no seu caminho. A marcha do Príncipe Stuart terminará assim que ele for oposto, e nós estamos aqui para o opor."
O Mestre Dobson continuava sombrio. "Que tipo de homens vocês têm? Rapazes da milícia inexperientes, jovens recrutas e dragões recentemente formados compõem pelo menos metade da vossa força em Stafford."
"Concordo", disse Sir Ralph, "mas estamos rapidamente a pô-los em forma, e o Duque estará atrás de nós amanhã com os regulares."
"Meu bom Sir Ralph", interveio o mercador, "cinquenta mil montanheses selvagens cortarão Stafford tão facilmente como se fosse um queijo de Cheshire. Temo o pior."
"Meu digno senhor", disse o seu senhorio, e nos seus tons doces ouvi o tilintar das guineus do mercador, "não precisa de temer nada. Nem um pau nem uma pedra em Stafford serão perturbados. Somos pelo menos fortes o suficiente para fazer bons termos."
"E a Senhora Allwood", disse o reitor com um olhar malicioso, "será poupada ao desperdício dos seus encantos num montanhês esfarrapado."
A esposa do mercador tinha todos os encantos de uma maçã murcha, mas aqui abria-se espaço para a discórdia, e o nosso anfitrião trémulo evitou-a apelando ao estranho: "O que acha, Mestre Freake, da forma como as coisas estão a correr?"
"Não formei uma opinião sobre o que é provável acontecer aqui, bom Mestre Dobson", respondeu ele, "mas, de um modo geral, sentir-me-ia muito mais tranquilo se os cavalos do Duque não estivessem tão totalmente exaustos."
Havia uma nota distinta de condescendência no tom em que esta observação astuta e sensata foi proferida, nem isto era afetado, pensei, mas antes a maneira natural de um homem forte a falar com um fraco.
"Por Deus, tem razão nisso, senhor", gritou Jack. "Dezanove em cada vinte deles não poderiam ser chicoteados para fazer mais cinco milhas. Demorei mais de uma hora a trazê-los de Milford, menos de cinco milhas."
"Os montanheses marchariam em menos", respondeu Mestre Freake, "e isto não é uma campanha, mas uma corrida."
"Para onde?" Foi Brocton quem falou.
"Londres", foi a resposta pronta. "Esse é o coração de Inglaterra, meu senhor, e se o Príncipe Charles entrar no coração, não precisa de se preocupar com Wade a marcar passo nos calcanhares ou o Duque a estatelar-se no seu ventre."
"O seu discurso é ligeiro, Mestre Freake", disse o reitor com sentido ébrio e gravidade. "Espero que não saiba a esperanças traidoras."
Virei-me durante esta observação absurda para olhar para Brocton e ver que efeito este excelente resumo da situação tinha tido sobre ele. Para minha surpresa, apanhei-o a olhar tão significativamente para o Major de rosto cheio de borbulhas, que senti que algo ia acontecer, e eu tinha razão.
"Deus apodreça o homem", disse o Major pesadamente. "Ele diz que eu estou a estatelar-me no ventre de alguém?" Ele cambaleou para se pôr de pé, com a mão na espada, e fez menção de cruzar a sala para o estranho, gritando: "Maldito sejas, vou espetar qualquer coisa no teu ventre!"
Brocton, não para meu espanto, não fez qualquer tentativa de interferir. Jack não podia, porque eu estava no caminho. O seu pai começou a balbuciar desamparadamente. Estiquei o pé e derrubei o Major pesadamente no chão. Puxei-o pelo colarinho como se fosse um coelho e estrangulei-o até que o seu rosto estivesse quase preto. Depois, voltei a colocá-lo na sua cadeira, onde ficou encolhido e a arquejar.
"Senhor", disse-lhe eu, com muita polidez, "o senhor está cansado pelos esforços da noite. Mas gosto de um homem que defende o seu comandante e desejo ter a honra de beber à sua saúde." E brindei-lhe complacentemente, sorrindo enquanto olhava para os seus pequenos olhos de porco.
Isto terminou o problema, que o Mestre Freake tinha observado com diversão silenciosa. Pela minha parte, estava agora ansioso por ir embora, pois não estava a aprender nada. O acaso favoreceu-me, pois um criado entrou e sussurrou algo a Brocton que o fez sair da sala. Aproveitei a oportunidade para o seguir, recusando permitir que Jack me acompanhasse, e despedindo-me dele com votos de boa sorte. "Lembra-te da Kate", foram as suas últimas palavras, sussurradas ansiosamente enquanto soltava a minha mão e me abria a porta.
Várias salas abriam-se para o patamar, e notei que uma porta estava entreaberta. Ao passar pela fenda de luz, vi o sargento de dragões e parei para lá da porta para ouvir. Ouvi a voz de Brocton e apanhei as palavras: "Por Deus, vou mesmo tentar com ela. Leva o melhor cavalo disponível. Não há perigo, mas a velocidade é tudo." Ele baixou a voz para um sussurro e por um momento ou dois não apanhei nada. Depois, levantando a voz novamente, disse: "E agora, pelo teu prémio." Ouvi-o mover-se para sair e disparei à frente, silencioso como um morcego num celeiro, e um momento depois estava na rua barulhenta. Já nada me retinha, e alguns minutos depois levantei silenciosamente a tranca da casa de Marry-me-quick, entrei na sala e observei imediatamente que o olhar da Senhora Waynflete trazia notícias.
"Agora, mãezinha", disse eu à Senhora Tonks, "ceia é a palavra mais abençoada que conheço."
"E o guisado de coelho está quase pronto", disse ela, e foi para a sala de trás para o servir.
"O homem com a cara fendida esteve aqui", disse a Senhora Waynflete com compostura. "Veio à procura de alojamento, mas a Senhora Tonks assustou-o. De qualquer modo, ele saiu logo."
"Ele reconheceu-a como 'Moll' de Hanyards?"
"Tenho a certeza de que não. Virei as costas no momento em que ele entrou, e o meu capuz estava levantado. Além disso, não disse uma palavra. A Mãe Tonks disse que eu ia ficar aqui a passar a noite porque a casa do meu pai estava cheia de soldados. Ela não podia e não queria, disse ela, ter um soldado aqui, por todos os honoráveis presidentes da câmara de Inglaterra. Diverti-me imenso com a forma como ela o falou até à porta e para fora dela."
A pequena mulher entrou apressada para pôr a mesa da ceia. Ela fervilhava de euforia. "Faltam uns dez ou quinze minutos para o guisado de coelho. A senhora terá contado sobre o cara-feia, Mestre Oliver. Pus-me livre dele num instante. A cabeça dele era toda boca como um bacalhau. Já volto. Suponho que ambos estejam com fome."
Ela saiu apressada novamente, e nós voltámo-nos a sentar para a nossa conversa. Eu estava ansioso por ver se ela podia lançar alguma luz sobre a negociação de Brocton com o pai dela. A conduta dele era para mim totalmente inexplicável. Depois, também, havia o seu óbvio entendimento com o Major Tixall no que diz respeito ao seu ataque ao Mestre Freake. Quem era este estranho e por que tinha incorrido na inimizade de Brocton? Aqui havia uma série de enigmas à espera de solução. Mas antes que eu pudesse começar a conversa, fomos interrompidos novamente. A tranca estalou, a porta abriu-se e entrou o meu Lorde Brocton.
CAPÍTULO VI
MEU LORDE BROCTON
Eu era tão novo numa vida de ação como um patinho de uma hora é para a água, e esta reviravolta irónica de todos os meus planos deixou-me indefeso. O último homem que eu queria ver com a Senhora Waynflete estava ali, o seu chapéu emplumado varrendo o chão, o triunfo no seu rosto bonito e nos seus tons fáceis e languidos. De facto, mais surpreendente do que ele estar ali era a sua maneira e porte. Na casa do Mestre Dobson, uma observação natural minha tinha-lhe batido toda a esperteza. Aqui, a sua segurança era tal que me deixou perplexo e sem ação.
"O meu sargento, senhora", começou ele, "não é um mau juiz, já que viu as belezas reinantes de metade das capitais da Europa, disse-me para esperar um prémio, mas é o prémio. Mestre Wheatman, não é, dizem-me, tão bom juiz de gado como Turnip Townshend, mas é, deixe-me que lhe diga, um melhor de mulheres. Entendo que sabe. Tanto os acres como o solatium serão meus em qualquer caso. E, querida Margaret, embora não compreenda o que a vossa altivez faz aqui sozinha com o meu amigo agricultor, escuso de dizer que o vosso devoto servo vos saúda com toda a humildade."
Novamente o seu chapéu curvou-se em troça pelo ar. Colocou-o de volta na cabeça, sacou a sua espada, com giros rápidos do pulso fez a lâmina flexível sibilar pelo ar até cantar, depois apontou-ma como a língua de uma víbora e disse: "Fica sentado, Agricultor Wheatman, fica sentado. Move apenas a mão e espeto-te como uma cotovia num espeto. Assim, homenzinho, assim!"
O desprezo nas suas palavras agitou o fel no meu fígado, mas eu nem falei nem me mexi, e ele continuou, dirigindo-se a ela, mas com olhos frios e divertidos fixos em mim: "Vês, doce Margaret, como sangue de caipira significa humor de caipira. O teu cavaleiro de nabos congela à vista do aço."
Em parte, pelo menos, ele dizia a verdade. Raramente tinha visto uma espada nua, exceto a nossa relíquia gasta e inútil do corajoso Smite-and-spare-not, e nunca tinha estado assim perante a ponta de uma sacada a sério sobre mim. É fácil culpar-me, e no fundo da minha própria mente eu estava a culpar-me e a amaldiçoar-me, enquanto estava sentado ali indefeso. Eu estava tão afiado como a lâmina que ele portava para a ajudar, pois aqui estava a sua hora de maior necessidade, mas não vi que fosse capaz de grande serviço com um buraco no coração, e ele tinha-me à sua mercê sem dúvida, enquanto me tivesse sob o seu olhar. Não, por mais humilhante que fosse, não havia nada a fazer senão esperar pelo rumo dos acontecimentos. Algo poderia desviar a sua atenção. Um segundo era tudo o que eu queria, e sentei-me ali a rezar por isso e pronto para tal. Entretanto, a cena, a conversa e ela eram cheias de interesse.
"A vossa bravura," respondeu ela, com uma nota de espanto na voz. "Um homem que conhece os campos e a leitura de Virgílio, e que, contudo, é capaz de agir com a audácia de um cavaleiro errante e a ferocidade de um leão. É, na verdade, uma combinação singular."
"A necessidade, minha senhora, ensina-nos muitas coisas que o arado e a gramática não alcançam. Mas basta de mim. Estamos quase a sair." Sem mais demoras, comecei a subir o muro, servindo-me das marcas deixadas pelas gerações de rapazes. Era um feito simples para quem o fizera centenas de vezes, mas requeria uma mão firme para ajudar a minha companheira. Quando cheguei ao topo, estendi-lhe a mão e, com um esforço coordenado, ela içou-se, equilibrando-se graciosamente sobre a pedra gasta.
Do outro lado, a queda era abrupta, mas o terreno estava coberto de erva alta e húmida, o que amorteceria o salto. Pousei primeiro e depois, com cuidado, recebi-a nos meus braços. Mal tínhamos recuperado o equilíbrio quando um som vindo da direção da porta norte nos fez imobilizar: o estrépito de botas de ferro sobre o empedrado e o murmúrio de vozes autoritárias.
"Patrulha," sussurrei, encostando-a contra o muro. Ficámos ali, na sombra profunda, enquanto o grupo de soldados passava a escassos metros de distância. A luz de uma lanterna varreu a parede acima de nós, mas, por sorte, não baixaram a luz para o fosso onde nos escondíamos. O coração batia-me contra as costelas, mas a respiração de Mistress Waynflete, junto ao meu ombro, manteve-se estranhamente serena.
Quando o ruído se dissipou, voltámos a mover-nos. Conhecia cada atalho daquela parte da cidade, caminhos que contornavam as estalagens e evitavam as praças onde os Highlanders se reuniam. Avançámos em silêncio, como sombras, atravessando hortas cercadas e pulando valas de drenagem, até que o perfil das muralhas começou a rarear e a sentir o cheiro a campo aberto, o cheiro a terra e a orvalho que precedia a liberdade.
"Estamos perto," murmurei, consultando as estrelas entre as copas das árvores que já começavam a surgir à nossa frente. "Mais um pouco e estaremos para lá do alcance imediato destes homens." Ela não respondeu, mas senti o aperto firme da sua mão na minha manga, uma confiança que me valia mais do que qualquer louvor que me pudesse dirigir.
Saímos finalmente para um carreiro que serpenteava pelos campos de trigo, já colhidos, em direção à zona dos bosques. A lua, que pouco antes nos causara receio, revelava-se agora um guia benfazejo, iluminando o caminho por entre as sombras das sebes. Ali, longe do bulício da cidade sitiada, a nossa fuga parecia ganhar um novo fôlego, e o peso daquela noite, com o seu perigo e a sua violência, começava lentamente a dar lugar a uma esperança cautelosa.
"Realmente, Mestre Wheatman, não sente curiosidade? Aqui estamos nós num pátio estreito ao pé de um muro alto. Tenho a certeza absoluta de que, dentro de cinco minutos, serei içada para o outro lado. E tirou isso de Virgílio?"
"Diretamente de Virgílio, minha senhora. Stafford foi a nossa Troia, e este, o seu muro. Entrei e saí milhares de vezes."
Ela espreitou comicamente o pátio escuro e disse, alegre: "Não vejo nenhum cavalo de pau. Deveria haver um, eu sei. O Mestre Dryden diz isso, e ele percebe tudo de Virgílio."
"Poof," disse eu. "Se o velho Bloggs a ouvisse, ele sentiria um formigueiro de vontade de lhe dar uma sova valente."
"Ele não conseguiria, agora que recuperei o fôlego," riu-se ela.
"Fico contente com isso. Deixe-me explicar. Aqui há uma escada de entalhes no muro, alternados à esquerda e à direita. Apalpe-os." Ela fê-lo, e eu continuei: "Estão a cerca de três pés de distância de cada lado. Eu subirei primeiro e ajudá-la-ei nos últimos degraus. Receio que as suas saias a atrapalhem."
"Não muito, pois vou arregaçá-las." Ela fê-lo prontamente e prendeu as pontas à volta da cintura. Desfez-se também do dominó longo e pesado, e eu tirei-lho das mãos.
"Observe-me," disse eu, "e siga-me quando eu der o sinal. Vou primeiro espreitar ao redor."
Subi, mão sobre mão, com a facilidade de sempre. Agachei-me no topo do muro que, felizmente, estava à sombra da escola. Vi no céu o brilho refletido de um fogo na porta norte, outro piquete, supus, mas havia casas fora da porta, e estas estavam escuras e silenciosas. Não havia receio de sermos observados.
"Venha!" sussurrei.
Ela começou com audácia e subiu com uma rapidez animadora. Estendi o dominó para estar pronto, depois estiquei-me para a ajudar e, num instante, ela estava sentada no muro como se fosse uma sela.
"Esplêndido, para uma novata," disse eu.
"E uma novata de saias, das curtas."
Ela desceu primeiro do outro lado, e eu quase caí de cabeça ao ajudá-la a descer o máximo possível. Ela baixou as saias enquanto eu a seguia e, depois, ajudei-a a vestir o dominó, deleitando-me com a carícia sedosa do seu cabelo nas minhas mãos enquanto ajeitava o capuz, um gesto de solicitude agradável pelo qual recebi agradecimentos que não merecia, e partimos.
Novamente ela não perguntou o que iríamos fazer nem para onde nos dirigíamos. As janelas iluminadas de uma estalagem confortável poderiam estar à vista, pelo que lhe importava, ao que tudo indicava. Contudo, lá estava ela, quase à meia-noite, com um tempo amargamente frio, a aventurar-se por campo desconhecido e acidentado na companhia de um homem que conhecera apenas há algumas horas.
Segui à frente e refleti sobre isso. Durante dez minutos, escolhemos o caminho na sombra profunda ao longo do pé do muro, *per opaca locorum*, como diz o grande tecelão de palavras, e depois virei para fora, para o campo aberto e o luar límpido. Por vontade própria, ela colocou o braço no meu, e caminhámos com valentia.
"Estamos em terrenos baldios aqui," expliquei. "À nossa direita há uma zona que varia entre pântano, charco e poça, conforme as chuvas. Os habitantes da cidade chamam-lhe a Poça do Rei, seja qual for o seu estado. Logo à frente, pode ver a linha, é um pequeno riacho, o Ribeiro Pérola. Se ainda não estiver gelado, posso facilmente carregá-la para o outro lado, pois não tem mais de seis polegadas de profundidade. Os homens livres do Antigo Burgo — aquela pequena cidade ali tem dormitado há quase oitocentos anos — têm, por costume imemorial, o direito de pescar no Ribeiro Pérola com linha e anzol dobrado."
"Não devem apanhar muitos lúcios de trinta libras, suponho?"
"Ora, não. Mas foi aqui que aprendi a gostar de pescar, e passei dos peixinhos e esgana-gatos aos lúcios."
"E a donzelas errantes," interrompeu ela, com uma risada que me soou como a música de sinos de prata. Um minuto depois, na margem do riacho, disse, aborrecida: "E não está gelado." Mas eu já tinha notado esse facto com grande júbilo.
"Não mais de seis polegadas, diz você," murmurou ela, e fez menção de entrar.
"E se não fossem mais de seis grãos de cevada," disse eu, "não permitiria que se molhasse. Para que sirvo eu, rogo-lhe, minha senhora?"
Sem mais delongas, levantei-a novamente nos meus braços — a quarta vez naquele dia — e comecei. Amaldiçoei a estreiteza do Ribeiro Pérola. Quase poderia ter saltado por cima dele, mas, ao caminhar lentamente de viés pelo riacho, tive o seu rosto doce perto do meu sob o luar, e os meus braços à volta do seu corpo orgulhoso, durante um par de minutos. "Sangue camponês ou não," pensei, "isto é algo que o meu Lorde Brocton nunca fará."
Um quarto de hora depois, após ajudá-la a subir uma escarpa curta e íngreme, parámos e olhámos para a pequena cidade. Os seus telhados estavam banhados pelo luar, e a grande torre da igreja destacava-se em cinzento contra o céu azul-escuro. Manchas de brilho baço e avermelhado no céu marcavam os locais dos fogos de piquete, e chegavam até nós, como o balbucio de fantasmas ao vento, os ecos moribundos da agitação do dia. À nossa esquerda, pedaços de fita prateada marcavam as sinuosidades do rio, e aquela linha mais escura na escuridão distante eram as colinas da minha terra e infância. Aos seus pés ficavam Hanyards, e Kate e a minha mãe. Havia uma pequena névoa nos meus olhos, e os olhos nos quais me virei e olhei estavam cheios de lágrimas.
"E agora, Mistress Waynflete," disse eu, "vamos para a nossa estalagem."
"A nossa estalagem!" ecoou ela, e havia desalento na sua voz. "A nossa estalagem, e não tenho um tostão. Por segurança, deixei o meu chapéu, o meu casaco de montar e a minha bolsa debaixo da cama na casa da Marry-me-quick, e a luta e a pressa apagaram-nos completamente da minha memória."
"E eu estou exatamente no mesmo caso," disse eu, e ri-me abertamente. Eu tinha pouco uso para dinheiro em Hanyards, muito menos nos bolsos do meu melhor fato, e só quando ela me contou o seu dilema é que me apercebi do facto de que, no entusiasmo de partir de casa, me tinha esquecido de que o dinheiro poderia ser necessário. Embora me risse, observei-a atentamente. Agora ela desmoronar-se-ia. Nenhum coração de mulher aguentaria o choque.
"As minhas posses," disse ela, "são precisamente dois lenços, um dos sabonetes da Madame du Pont e a maior parte de uma peça do famoso *marry-me-quick*."
Eu tinha-me enganado. Ela não fez caso da nossa situação grave, mas falou com um humor grave que me cativou imenso.
"Um inventário bastante longo," respondi. "As minhas contribuições para o pecúlio comum são..." e remexi nos bolsos: "...item, um lenço; item, um canivete; item, um cachimbo e metade de uma carteira de tabaco; item, uma garrafa, dois terços cheia do inestimável cordial de hortelã da Mistress Kate Wheatman, o remédio soberano contra a fadiga, o frio, a preocupação e os humores; item, algo desconhecido que tem estado a bater contra a minha anca e é, pelo toque exterior, algo para nos regozijarmos, a saber, um dos pastéis da Kate."
Introduzi a mão para o apanhar e, depois, ri-me mais alto do que nunca, ao retirar o meu pequeno e rechonchudo Virgílio.
"Item," concluí, "as obras do divino mestre, P. Vergilius Maro, escondidas no meu bolso por aquela malandra e macaca, Kate Wheatman de Hanyards." E contei a história.
"Então, se a Kate não tivesse escondido o seu amado Virgílio, você não teria ido pescar?"
"Tenho a certeza de que não teria."
"A vida gira em torno de ninharias, Mestre Wheatman, e à brincadeira de irmã de uma rapariga bonita devo tudo o que aconteceu desde que o vi pela primeira vez na margem do rio."
"Devemo-lo, minha senhora," corrigi gentilmente, e virei-me para seguir caminho, pois vi que ela estava comovida e perturbada com o mal que pensava ter-me causado. Mal! Eu estava a desfrutar de cada respiração que dava e de cada passo que dava, e o meu coração era como um carvão vivo no meio do meu peito.
"Não tenha medo, Mistress Margaret," disse eu alegremente, fazendo um gesto com a mão. "Há a vasta Staffordshire diante de nós, uma terra boa e farta de carne, malte e dinheiro, e teremos a nossa quota parte."
"Mas terá de a roubar para mim."
"'*Convey* chamam-lhe os sábios'," citei.
"Isso é melhor," e ela sorriu-me sob o luar. "Virgílio coloca-o bem acima da minha parca inteligência, mas diga que também ama Shakespeare, e teremos uma das grandes coisas da vida em comum."
"Amo, minha senhora, mas tem de aprender a avaliar as coisas pelo seu verdadeiro valor. Fala francês?"
"Oh, sim."
"E italiano?"
"Sim."
"E toca cravo?"
"Sim."
"Então, minha senhora, sou um camponês semieducado comparado consigo, pois não sei nenhuma destas coisas. Mas, embora não saiba o nome francês ou italiano para o *marry-me-quick*, se o tirar do bolso, mostrar-lhe-ei o nome de Staffordshire para metade dele."
Caminhámos alegremente durante mais um quarto de hora, comendo o doce bocado. Depois disse: "Até um viajante e campanhista experiente como você ficará contente por saber que a nossa estalagem está perto."
"Muito contente, mas não vejo sinais dela."
"Bem, não," disse eu, "não é exatamente uma estalagem, mas apenas um celeiro simples. Mas dormirá macio, segura e quente, e mesmo que tivéssemos dinheiro e uma estalagem por perto, seria tolice ir lá. O seu caso é difícil, minha senhora, e gostaria de lhe poder oferecer melhores acomodações."
Sob o abrigo de um outeiro coberto de pinheiros, jazia uma antiga quinta. Estávamos a aproximar-nos pela frente, e os seus barracões e celeiros ficavam nas traseiras. Virámos, portanto, para o campo e fizemos um circuito, e logo parámos junto ao portão que levava ao pátio da quinta. Ninguém se mexeu, nem sequer um cão ladrou, enquanto eu abria suavemente o portão e me esgueirava, seguido pela Mistress Waynflete, até ao edifício mais próximo. Empurrei a porta, entrámos num celeiro e estávamos seguros para a noite. A lua brilhava através da porta aberta, e vi que o celeiro estava vazio, provavelmente porque as colheitas do ano, como eu sabia com pesar, tinham sido de facto fracas na nossa região. O facto de o celeiro estar vazio jogava a nosso favor, pois seria pouco provável que algum trabalhador agrícola se aproximasse dele caso estivesse a circular antes de nós na manhã seguinte.
Havia uma meda de feno à mão no pátio, e ao ir até ela, descobri que três ou quatro fardos tinham sido cortados, prontos a serem retirados para as manjedouras. Levei-os para o celeiro, um a um, e estava bem quente quando despejei o último no chão do celeiro. Voltando a sair, vasculhei noutro barracão e tive a sorte de encontrar uma pilha de sacos de cereal vazios. Espalhando-os em três ou quatro camadas no canto mais afastado do celeiro, cobri-os densamente com feno e, tendo reservado um saco de propósito, enchi-o frouxamente com feno para servir de almofada.
Durante todo este tempo de azáfama, Mistress Waynflete ficou na soleira da porta banhada pelo luar, silenciosa como um rato, e quando me aproximei calmamente para lhe dizer que estava tudo pronto, vi que as suas mãos estavam entrelaçadas à frente e os seus lábios moviam-se. Descobri a cabeça e esperei, pois ela tinha transformado este pobre celeiro num santuário de donzela.
Ela virou o rosto para mim. "Minha senhora," disse eu, muito calmamente, "a sua cama está pronta, e você está exausta e morta de sono. Por favor, venha!"
Ainda silenciosa, ela aproximou-se e examinou o meu trabalho rudimentar. Depois, encolheu-se sobre o feno, e eu cobri-a com mais feno até ela ficar bem aconchegada para aguentar outra Grande Geada.
"Boa noite, minha senhora, e que um sono doce a envolva," e eu afastava-me.
"Ho!" disse ela, "e onde pretende você dormir?"
"Vou aninhar-me debaixo da estrutura da meda."
"Senhor," e o seu tom era quase desagradável, "pela modéstia que me atribui, agradeço-lhe. Pela gratidão que se recusa a atribuir-me, detesto-o. Mas, por favor, dê-me crédito por um pouco de senso comum. Desejarei os seus serviços de manhã, e não quero encontrá-lo debaixo de uma meda, congelado até virar um fóssil."
"Não, minha senhora."
Ela saltou da cama, revirando o feno em todas as direções.
"Mestre Wheatman, não pretendo não o compreender e, de facto, agradeço-lhe, mas você vai colocar a sua cama aqui," batendo com o pé, "para que possamos conversar sem levantar a voz. Estou muito mais disposta a dormir no mesmo celeiro consigo do que na mesma cidade com o meu Lorde Brocton. Onde está a sua parte dos sacos?"
Fiz sem sacos, mas trouxe mais pedaços de feno, e ela ajudou-me a espalhar uma cama para mim perto da dela. Tapei-a mais uma vez e depois acomodei-me. Sentia-me miserável com receio de ressonar. Os camponeses ressonam tantas vezes. Joe Braggs, por exemplo, ressonava até a porta do celeiro chocalhar.
Lembrei-me do cordial, e cada um de nós deu um bom gole na garrafa. Senti durante dias o toque dos seus dedos suaves e macios nos meus quando ela a tomou.
"Isso certamente aquece," disse ela. "Sinto-me toda a arder por fora e por dentro."
"Então posso assumir que está confortável?"
"Se não fosse por duas coisas, diria que esta foi uma escapadela de rapaz e rapariga nossa, cada momento da qual foi pura diversão."
"Naturalmente está inquieta pelo seu pai, mas não creio que lhe vá acontecer algum mal imediato. Por que Brocton o enviaria para norte em vez de para sul é, confesso, um mistério, mas amanhã resolver-se-á. E o que a deixa inquieta além disso?"
"Você," respondeu ela, muito baixo e breve.
"Eu? E por favor, minha senhora, o que fiz eu para a deixar inquieta?"
"Encontrar-me." Ainda o mesmo tom.
"Não sou capaz de falar consigo à maneira mundana, nem creio que desejasse que tentasse imitar os meus superiores, por isso digo claramente que o nosso encontro não me deixou inquieto. Por que então você?"
"Se não me tivesse encontrado, estaria agora a dormir em Hanyards, um cavalheiro rural livre e feliz. Em vez disso, está aqui, um suspeito, um refugiado, um fora da lei, alguém manchado pela rebelião, a cadeia com certeza se for apanhado, e depois..."
Ela interrompeu-se bruscamente, e creio que ouvi um soluço baixo.
"E depois?"
"Talvez a forca."
"É verdade que o ofício de ladrão é um ofício amaldiçoado para a forca, mas o problema de amanhã é como o jantar de ontem, não vale a pena pensar nele. Estamos aqui, seguros e confortáveis. Que isso baste. E hoje, longe de fazer mal pelo qual deva sentir-se inquieta, você operou um milagre."
"Operou um milagre? O que quer dizer?"
"Encontrou um repolho e fez um homem. Boa noite, Mistress Waynflete."
"Boa noite, Mestre Wheatman."
Imitei a respiração regular de um homem cansado e a dormir. Em poucos minutos, tornou-se claro que ela estava realmente a dormir, e eu não fingi mais, mas estiquei-me confortavelmente no feno perfumado e logo dormi como uma pedra.
CAPÍTULO VIII
O CHAPÉU DO CONJURADOR
Acordei entre a escuridão e o romper do dia. Mistress Waynflete ainda dormia pacificamente e não havia ainda necessidade de a acordar. Dormira calçado, mas agora tirei os sapatos, levantei a tranca da porta e esgueirei-me para espreitar. Nem uma alma se mexia na quinta, e a única criatura viva à vista era um galo sonolento, que fugiu ruidosamente à minha aproximação. Entrei num estábulo, onde uma vaca bela e paciente me virou um olhar de censura, como se me repreendesse pela minha visita demasiado matinal. Cacarejei alegremente e dei-lhe uma palmada para a pôr de pé e, depois, não encontrando nenhum tipo de taça ou caneca, virei o meu chapéu do avesso e enchi-o com leite morno e espumoso. Com este despojo, apressei-me a regressar ao nosso abrigo.
Tive de deixar a porta aberta, e isso deu-me luz suficiente para olhar mais de perto para a minha companheira. Ela ainda dormia, o rosto calmamente contente, e assim tinha dormido durante a noite, pois a cobertura de feno subia e descia sem ser perturbada no seu peito. Era agora altura de a acordar e, não tendo mãos livres, ajoelhei-me para a empurrar com o cotovelo. Ao fazê-lo, o seu rosto mudou. Um olhar de preocupação surgiu, depois um de hesitação, depois um sorriso doce, perseguindo-se um ao outro como o brilho persegue a sombra pelos prados num dia de abril. Ela estava a sonhar, a sonhar agradavelmente, e foi para um mundo duro que a despertei.
Ao meu segundo toque, ela entreabriu os olhos e murmurou: "É muito largo." Depois, a minha saudação despertou-a totalmente, e ela corou de um vermelho maravilhoso e belo.
"Bom dia, Mistress Waynflete," disse eu. "Lamento incomodá-la e, por favor, não se mova muito bruscamente ou o pequeno-almoço vai ao chão."
"Bom dia, Mestre Oliver," respondeu ela. "Dormi bem. Sinto como se tivesse desfrutado imenso. Nós desfrutamos do sono, penso eu, por vezes."
"Ou dos sonhos que ele traz, minha senhora."
Ela olhou rapidamente para mim, como se temesse que eu tivesse o poder de ler pensamentos de sonhos, e disse alegremente: "E pequeno-almoço pronto! Isto é ainda melhor que a moda de Paris. O que é? Mais daquele cordial da querida Kate?"
Eu não sabia qual era a moda de Paris para o pequeno-almoço, e ela não me esclareceu. Seja como for, eu, o camponês, tinha melhorado a moda, e isso já era alguma coisa.
"Uma bebida muito melhor, minha senhora," disse eu, "mas tem de perdoar a moda de Staffordshire de a servir."
Ela sentou-se, pegou no chapéu e bebeu com vontade, o amanhecer ainda nos olhos e bochechas, e massas de cabelo amarelo caindo por baixo do capuz sobre o pescoço e o peito. Quando me devolveu o chapéu, não pude deixar de dizer: "Está encantadora após o seu descanso noturno, e professo que aquela gota de leite na ponta do seu nariz lhe fica admiravelmente." Com a aba do chapéu nos lábios, acrescentei com uma preocupação fingida: "Tenha cuidado, Mistress Waynflete, ou vai esfregar a ponta tanto quanto a gota."
"Suponho que pensou 'Como uma joia de ouro' e o resto disso," disse ela, esbugalhando os olhos comicamente para examinar o seu nariz.
"Realmente, não, minha senhora; não pensei em nada tão escandaloso, embora seja da Bíblia. Pensei em... em..."
"Sou toda ouvidos," disse ela, maliciosa.
"Sou um desajeitado a tecer elogios às senhoras," disse eu.
"Pelo contrário, tece-os admiravelmente. Veja!" Ela ergueu o meu chapéu encharcado e riu-se alegremente.
"Está arruinado para ocasiões especiais," disse eu, "mas servirá para os dias de mercado. E agora, minha senhora, está frio que basta para congelar os sapos, como diz o Joe Braggs, e para o toucador terá de se contentar primeiro com um arrepio e depois com um sacudir. Esperá-la-ei no portão do pátio e, por favor, feche a porta atrás de si. Quanto mais depressa, melhor."
Ela juntou-se a mim em dois ou três minutos. Fechei o portão cautelosamente atrás de mim e começámos a nossa jornada. Partimos da quinta sem sermos observados, mas olhei para trás a cada passo para ter mais certeza, até virarmos o topo do outeiro, e foi com grande alívio que vi as chaminés desaparecerem de vista.
Durante algum tempo caminhámos a passo vivo e em silêncio. Até então, tinha conduzido tudo com mão firme e com sucesso, mas o cinzento frio da manhã começou a infiltrar-se nos meus pensamentos enquanto olhava para a frente, para quilómetros e quilómetros de desolação e perigo. As casas eram poucas e distantes entre si; cada aldeia era uma fonte de perigo; as estradas principais estavam-nos vedadas pelo nosso medo das tropas. Além disso, o objetivo que tínhamos em vista era vago e mal definido, se não mesmo impossível de alcançar, pois, mesmo que chegássemos ao local exato onde o Coronel Waynflete estava prisioneiro, que poderíamos nós fazer para o ajudar? Estaríamos a salvo de necessidades e perigos imediatos se conseguíssemos alcançar o exército do Príncipe, mas onde este se encontrava, e para onde se dirigia, era algo que ignorávamos. Certo era que, entre nós e qualquer ajuda real, estendiam-se cerca de trinta milhas de campo frio e lúgubre, repleto de inimigos quilómetros adiante. E aqui estávamos nós, a pé, sem um cêntimo e com fome. Eu tinha ansiado pelo trabalho de um homem; este era o de um regimento.
Um olhar de soslaio para a minha companheira expulsou todo o nevoeiro e geada do meu coração. Algo nela fazia-me sentir um cobarde e um traidor só por nutrir tais pensamentos. Desde o início que ela não pedira ajuda minha. Eu a impus, ou as circunstâncias forçaram-me a ajudá-la ao ajudar-me a mim mesmo, tal como quando abri caminho à força a partir da cabana de Marry-me-quick. Quanto mais tempo passava com ela, melhor começava a compreender a loucura de Brocton. Era, certamente, a loucura do mero bruto que nele habitava, e um homem deveria escorraçar esse bruto para o seu canil, embora, por vezes, não consiga evitar ouvir o seu ganido. A sua beleza majestosa tinha-o deslumbrado como uma chama deslumbra uma traça, mas, nesta fase, pelo menos, não foi a sua beleza que me tornou seu escravo. Isso eu poderia ter resistido. Porque ela era tão bela, tão imponente, tão fascinante, não me apelava. O que quero dizer é que não me apaixonei por ela à primeira vista, simplesmente porque a própria estupidez de tal coisa impediu-me de o fazer. Os pirilampos não se apaixonam pelas estrelas, nem os cardos pelos sicómoros. Ela era algo para ser adorado, servido a qualquer custo, salvo a qualquer sacrifício, mas não amado. Não, isso era para algum sortudo da sua própria classe e estado, não para um simples escudeiro como eu. A sua camaradagem, a sua amabilidade, a sua doce igualação das nossas posições, eram, sentia eu, apenas os adornos simples e naturais da modéstia imperativa que era o seu traje espiritual.
À maneira masculina, no entanto, eu tinha um traço maligno, e daí, mais tarde, veio a loucura. Em qualquer companhia, eu tinha de ser o chefe. Tinha sido o primeiro da escola, não devido a qualquer inteligência especial, mas porque preferia rebentar a ser o segundo de alguém em qualquer coisa. Tinha lutado e lutado, a todo o custo, até que nenhum rapaz na escola ou na cidade ousava aproximar-se de mim. Por isso agora, uma vez que o meu Lorde Brocton — e muitos outros lordes, não duvidava — tinha falhado, eu tinha de intervir e dizer: "Vou agradar-lhe, quer ela goste ou não." E assim, homem simples do campo como eu era, tinha feito o meu trabalho sem relutância, mas não, temia eu, com demasiada modéstia, e como não conseguia falar à maneira da corte, tinha sido demasiado dominador, retribuindo humor com humor, e sem oferecer a outra face para o seu doce açoite. E, tal como outrora tinha vencido todos os rapazes em Stafford, agora nem Staffordshire nem todos os homens do Rei que lá estavam me fariam recuar. Ela passaria, e em segurança e conforto, para que, quando chegasse a hora de entregar o meu precioso encargo a alguém mais digno, ela pudesse dizer que o campónio tinha feito o trabalho de um homem e fê-lo como um cavalheiro. Portanto, quando a Senhora Waynflete olhou para mim das terras altas e sombrias com olhos sérios e questionadores, eu disse, tão calmamente como se estivéssemos a passear pelo jardim em Hanyards, com a Kate e a Jane atarefadas na cozinha atrás de nós: "Presunto e ovos para o pequeno-almoço!"
"Não vejo nenhum", disse ela, num tom de resposta, examinando os campos à nossa volta. "Não que isso importe. Não vi os degraus, mas eles lá estavam. O senhor faz-me lembrar, Mestre Wheatman, um turco que vi numa banca em Viena, que tirava coelhos e roseiras de um chapéu vazio. Staffordshire é o seu chapéu de prestidigitador. E eu gosto mesmo de presunto e ovos."
A minha segurança e a sua crença confortável nela tornaram-nos a ambos mais alegres, e caminhámos alegremente. Ela deu-me um relato divertido de Viena, onde passara alguns meses, e que era então o grande posto avançado da Cristandade contra o turco. Quando esta conversa nos trouxe ao campo de Hopton Heath, dei-lhe o melhor relato que pude da batalha ali travada durante o tempo da Guerra Civil, e da morte do Marquês de Northampton. E isto levou-me ao meu orgulho de ascendência, e contei-lhe sobre o Capitão Smite-and-spare-not Wheatman, uma torre de força para o Parlamento nestas partes, que lutou aqui e mais tarde no próprio campo de Naseby. Contei muitas histórias sobre ele que tinham sido transmitidas de uma geração para a outra, e como ele estava tão cativado pelo seu incomparável lorde-general que dera o nome de Oliver ao seu filho primogénito, e desde então existira sempre um Oliver Wheatman de Hanyards. Depois contei como um destes Olivers mais recentes, cujo nome não tem importância, tinha escrito versos e os tinha posto na boca do valente Smite-and-spare-not, montado no seu cavalo, rígido e forte, à frente dos seus homens no campo de Naseby, e observando com olhos cinzentos e severos os movimentos iniciais do combate. E, nada relutante, entoei-os vigorosamente através dos prados, até que as abibes gritaram e um cão distante começou a ladrar:
"Pequeno príncipe e rei, mitra e anel, Conde e barão e escudeiro, Oliver preocupa-os, persegue-os e agita-os, Com cerco, matança e fogo. Com o braço da Carne e a espada do Espírito, Impulso de pique e a Palavra, Ferindo e rezando, louvando e matando, Oliver luta pelo Senhor. Com a espada que Ele trouxe a obra está feita, Terminamos aqui hoje. Quando esses trapos e restos da Babilónia Forem soprados e batidos para longe.
Hurra pelos gemidos deles, em breve os ossos deles, Firmes! Os provocadores do inferno à solta, Apodrecem sob a relva. Passem a palavra: 'Deus É a nossa força?' Lá vai o Oliver. Ataquem!"
Quando terminei, ela aplaudiu tanto que o meu rosto ardeu até ficar desconfortável e caí na sua armadilha.
"Gostaria que os tivesse escrito, Mestre Wheatman."
"Bem, fui eu", disse eu mal-humorado, não gostando de ser privado de qualquer pequena glória aos seus olhos.
"O quê, o senhor?" As suas sobrancelhas arquearam-se e os lábios curvaram-se. "O senhor, oh, nunca. 'Ferindo e rezando'? 'O braço da Carne e a espada do Espírito'." Ela saboreou as palavras deliciosamente.
"Mas, sem dúvida, quando vir o meu Lorde Brocton novamente, incluirá a Palavra e a reza." Aqui a sua doce voz transformou-se num resfolegar delicado: "'Meu caro lorde, uma vez que da boca das crianças e dos que mamam procede a sabedoria, escutai, rogo-vos, a mim, Oliver Wheatman, para saber de Hanyards, e corrigi os vossos caminhos para que eu não lhe bata novamente no seu cocuruto, e muito mais forte do que antes. Arrependei-vos, meu lorde, pois a hora está próxima, e se não o fizerdes, dar-vos-ei tantas pancadas que ficareis como uma das compotas de amora da nossa Kate.' E aqui termina o bom discurso daquele santo assador de costelas, Mestre Hit-him-first-and-then-pray-for-him Wheatman de Hanyards."
Era simplesmente glorioso ser tão atormentado por esta bruxa de olhos azuis dançantes.
"Por este escandaloso desprezo pelas Musas", disse eu sobriamente, "punir-vos-ei fritando a vossa parte do presunto até ficar reduzida a cinzas."
Durante os meus dias de escola, tinha percorrido o campo até o conhecer como um livro aberto, e esse conhecimento minucioso era a nossa salvação agora. A necessidade imediata era comida, e comida obtida sem preço e sem sermos vistos por ninguém. Às sete horas de uma manhã rigorosa de inverno, em campo aberto, isto parecia exigir um milagre. Na verdade, era tão fácil como descascar ervilhas.
Desde que atravessáramos a charneca, tínhamos viajado mais perto de uma das estradas principais, a que saía pelo portão leste para a cidade, e agora tivemos o nosso primeiro vislumbre dela, estendendo-se como uma fita larga e castanha a meio da encosta de uma colina muito íngreme. Na metade superior, esta colina era bastante arborizada e a estrada cortava limpa através do bosque, mas entre nós e o bosque estendia-se o cume plano da colina, cortado por sebes em vários campos, e atravessado por um caminho de carroças rudimentar que passava por uma casa de campo espaçosa, de um só andar, de paredes cinzentas e telhado de colmo castanho, e seguia através do bosque até à estrada principal. A casa, com as suas dependências, formava uma pequena quinta, e aqui viviam Dick Doley e a sua esposa Sal, que faziam um pouco de agricultura, mas viviam principalmente do comércio ambulante. Hoje era dia de mercado em Stafford e, a menos que tivessem quebrado a rotina de meia vida, estariam agora a carregar a sua pequena carroça com produtos de mercado e logo partiriam para a cidade. Não tinham filhos nem criados, nem rapazes nem raparigas, e deixariam a casa vazia e à nossa disposição. A esta hora do dia, eu poderia, naturalmente, ter confiado em ambos, mas eram seres muito humanos, do tipo que alegraria o lado comercial do coração de Joe Braggs, e era melhor não lhes dar a oportunidade de tagarelar mais tarde no dia quando, por certeza moral, estariam ambos frescos do mercado. Além disso, era injusto impor-me à bondade de alguém. Eu tinha-me perguntado mais de uma vez o que teria acontecido à pobre pequena Marry-me-quick.
Rastejei pela sebe e espreitei para a estrada. Eu tinha razão. Dick e a sua esposa estavam ocupados a carregar. Por isso, esperámos atrás da sebe até que eles partissem, e de facto não nos mexemos até que os vi, a eles e à sua carroça, passarem pela estrada ao pé da colina.
O tempo não apagou a memória de um único detalhe da nossa estadia nesta bem-vinda casa de refúgio, mas contar o que era comovente e encantador para mim, receio, aborreceria os outros. Havia um presunto, dois na verdade, e fatias além disso, no suporte pendurado no teto, e havia ovos — três, para ser preciso — na despensa, aos quais, por igual sorte considerando a época do ano, adicionei mais dois através de uma incursão no galinheiro. Era tudo natural e suficientemente simples, mas a Senhora Waynflete aclamou a sua produção quase com tanta surpresa como se eu os tivesse realmente tirado do meu chapéu. Mas como fui buscar e trazer, cortei lenha e fui buscar água, varri o chão e pus a mesa, fritei presunto e cozi ovos, fazendo todas estas coisas com música no coração e uma canção barulhenta nos lábios — é tudo para mim e nada para o meu conto.
A Senhora Waynflete tinha desaparecido num dos três ou quatro quartos de que a casa consistia, para se apresentar, como ela dizia absurdamente. Quando a mesa estava posta e o presunto cozinhado, chamei-a com a notícia e corri para o abrigo para cuidar da minha aparência exterior. Eu precisava mesmo disso, estando, na verdade, pouco menos que imundo.
Talvez me tenha apressado inesperadamente. De qualquer modo, ao regressar, encontrei a Senhora Waynflete debruçada sobre algo na lareira. Endireitando-se apressadamente, e com uma bonita confusão à minha aproximação, ela gritou: "Oh, Mestre Oliver, o presunto estava a queimar, e o senhor ameaçou a minha parte dele, sabe!"
Não consegui responder. Até às ancas, o seu rico cabelo âmbar fluía como um véu de noiva, e do meio de uma riqueza de renda branca como a neve, a tremular na glória arredondada da feminilidade perfeita, o seu pescoço erguia-se suave e imponente como uma coluna de alabastro. As suas bochechas coraram com a vergonha virginal, mas os olhos azuis encontraram os meus sem qualquer sinal de medo virginal, e por isso agradecimentos, bem como reverência, encheram o meu coração enquanto me inclinava perante ela. À maneira virginal, ela puxou o seu véu dourado mais para junto do seu peito, e correu de volta para terminar a sua higiene, deixando-me atónito e envergonhado pela visão que tinha contemplado. Penso que foi a partir desse momento que a minha alegria no meu trabalho começou a misturar-se com o desespero do meu amor. Certamente, era um Oliver Wheatman castigado aquele que colocou uma cadeira para ela quando ela voltou para o pequeno-almoço, e a serviu das boas coisas que uma sorte benevolente tinha proporcionado.
É a minha crença que cada um de nós estava secretamente divertido com o zelo constante com que o outro atacava a refeição. Discutimos pelo ovo excedente, cada um insistindo que o outro o comesse, ela porque eu era forte e precisava dele, eu porque era forte e podia passar sem ele, e finalmente adotámos o compromisso habitual. Tínhamos passado mais de doze horas com apenas um bocado, e comíamos como aqueles que não sabem de onde virá a próxima refeição. Francamente, eu, pelo menos, dei a mim próprio uma margem razoável antes que a escassez voltasse, e a Senhora Waynflete afirmou que nunca na sua vida tinha comido tanto ou tão saborosamente.
Terminada a nossa refeição, enchi o fogo com lenha fresca, pedi e obtive permissão para fumar um cachimbo, e acomodei a minha doce senhora no canto da lareira. Então começámos a fazer um balanço da nossa posição.
"Não há nada de bom em ter pressa", disse eu. "Aqui estamos ambos aconchegados e seguros, e o seu descanso noturno foi curto. Vamos ver onde estamos."
Eu não acreditava realmente que qualquer quantidade de conversa ajudaria muito, mas o repouso far-lhe-ia bem, e eu tinha uma grande ideia a entrar e a sair da minha mente. A nossa primeira dificuldade, comida e descanso, tinha sido superada, e eu estava determinado a dominar a seguinte. Nenhuma discussão deu-nos qualquer chave para o grande mistério. Quando Brocton tinha capturado o Coronel Waynflete em Milford, a coisa óbvia a fazer com ele era enviá-lo como prisioneiro para o Duque em Lichfield. Embora o Coronel não transportasse papéis que tornassem o seu objetivo claro, Brocton sabia bem qual era o objetivo da sua viagem, e a suspensão do Habeas Corpus colocava o Coronel no seu poder. Ou, ele poderia tê-lo levado perante um juiz de paz, o seu amigo Mestre Dobson por escolha, e tê-lo enviado para a cadeia da cidade. O curso realmente tomado, o de enviá-lo à frente, sob guarda, na própria vanguarda do exército real, era para nós totalmente inexplicável. A sua luxúria louca pela Senhora Margaret explicava a separação de pai e filha. O pensamento ocorreu-me, embora eu tivesse tido muito cuidado em não insinuá-lo, de que ele pretendia desfazer-se do Coronel, e esperava encontrar ferramentas entre os seus dragões malandros e uma oportunidade quando estivesse em conflito real com os Highlanders. Hesitei, no entanto, em acreditar que Brocton fosse um vilão tal que cometesse um homicídio desnecessário. O plano que ele tinha adotado tinha, de qualquer forma, esta vantagem para nós, que, quando entrássemos em contacto com o prisioneiro, as nossas hipóteses de o ajudar seriam muito maiores do que se ele estivesse na cadeia em Stafford ou Lichfield.
Quaisquer que fossem os motivos do meu lorde, era claro que ele não estava a agir da maneira direta e franca que se esperava de alguém na sua posição. Havia outros sinais de desonestidade, ligeiros mas não sem peso. Eu podia compreender a sua alegria ao encontrar-me em Marry-me-quick's. Significava que eu era um rebelde, e como homem leal, que tinha feito despesas para provar a sua lealdade, ele poderia facilmente obter Hanyards como recompensa, e assim completar a propriedade familiar na nossa vizinhança. A sua referência a um "solatium" intrigou-me, mas não parecia nada de consequência. O que tinha eu senão Hanyards para o consolar? Um puzzle mais importante tinha sido o seu comportamento em casa do Mestre Dobson. Encontrar-me do lado real, como ele então supunha, e ouvir a minha razão para isso, tinha-o deixado completamente atordoado. Depois havia o olhar, um olhar de sinal, sem dúvida, que eu tinha surpreendido ao dar ao seu valentão, o Major Pimple-face, e que foi seguido pela tentativa deste último em envolver o estranho de Londres numa zaragata.
"É inútil, Mestre Wheatman, especular mais sobre o que o Lorde Brocton está a fazer", disse a minha senhora finalmente. "Ele tem os seus fins. Eu sou um deles. Outro é, sem dúvida, encher os bolsos, de uma maneira ou de outra. Era conversa comum na cidade que ele estava enterrado em dívidas."
Enquanto tínhamos falado e descansado, eu não tinha estado ocioso. A espaçosa cozinha de Dick Doley tinha duas janelas, uma com vista para o caminho de carroças, e outra para a encosta da colina. A colina era feita de tal forma e a casa colocada de tal maneira que, a partir desta segunda janela, podíamos ver a faixa de estrada no fundo da colina onde ela voltava a curvar para o plano. Eu tinha mantido um olhar atento sobre aquele bocado, mas ainda não tinha visto ninguém passar por lá em nenhuma direção.
Num canto da sala, Dick guardava uma antiga espingarda de caça, mais uma ferramenta de agricultura do que uma arma, uma vez que o seu único uso para ela era assustar pássaros. Era uma coisa pesada e desajeitada, com um cano de latão por onde eu poderia ter deixado cair um ovo de pato de tamanho considerável, e à volta do seu bocal de bordas grossas alguém tinha gravado grosseiramente: "Feliz é aquele que me escapa." Fui buscá-la ao canto, limpei-a e olei-a. Carreguei-a agora, pois o chifre de pólvora e o saco de chumbo pendiam perto dela na parede, colocando lá dentro um punhado do maior tipo de chumbo, chumbo de cisne como eu lhe chamaria. Durante esta tarefa, a Senhora Waynflete observou-me atentamente, mas não fez qualquer referência a isso.
"Agora", disse eu, "o nosso requisito principal é o metal, o pronto, o dinheiro, a pilhagem — chame-lhe o que quiser. Como me vê como um cavaleiro da estrada? O primeiro agricultor de cara de cobre com que me cruzar terá de parar e entregar. Aqui está um argumento a que ele não pode resistir."
Finalmente, o meu escrutínio da estrada foi recompensado. Um cavaleiro solitário surgiu à vista da direção da cidade.
"Senhora Waynflete", disse eu, pegando na espingarda, "está ali um viajante a vir de Stafford. Será bom se eu for e lhe fizer algumas perguntas."
Ela quase saltou para cima de mim, uma raiva vermelha a brilhar nos seus olhos, mas o rosto branco como leite. "Senhor", disse ela, "o senhor não se tornará ladrão por mim. Não o permitirei."
"Rogo-lhe, senhora", respondi ofendido, "explique a diferença moral entre roubar presunto e roubar guineus. Sou totalmente a favor da moralidade."
"Não posso, Mestre Wheatman, mas o senhor não deve, não vai." Ela agarrou-me pela manga. "Diga que não vai! Se for descoberto, significa..."
"Não serei descoberto. Pode ter a certeza disso. Pensa que não consigo depenar aquele melro sem ser apanhado? Não é mais roubo do que o facto de comermos o presunto e os ovos do Dick. Somos soldados em terra inimiga, e pilhamos por direito das regras conhecidas da guerra. Como concessão aos seus preconceitos a favor da moralidade de passo de marcha da paz, eu até lhe perguntarei se ele é por James ou por George, e pedirei emprestado ou comandarei os seus guineus de acordo com a sua resposta. Solte a minha manga, senhora!"
Soltei o aperto dos seus dedos e levei-a de volta para a sua cadeira. "A senhora sobrevaloriza o meu perigo, doce senhora, e subvaloriza a nossa necessidade. Sem dinheiro, poderíamos muito bem deitar-nos sob a sebe mais próxima e deixar que o Jack Frost resolva as coisas à sua maneira, e seria uma maneira fria e desagradável. O seu guineu é um bom lutador, e precisamos da sua ajuda. Tem de ser feito, e, nunca tema, eu levarei isto a cabo com sucesso."
Então deixei-a, mãos brancas a agarrar os braços da sua cadeira, e rosto branco virado para longe de mim.
CAPÍTULO IX
A MINHA CARREIRA COMO SALTEADOR DE ESTRADA
Deixei a casa pelo lado das traseiras e segui em diagonal pelos campos para alcançar o abrigo das árvores e do matagal que cobria a encosta até à estrada. Corri com esforço, de modo a expulsar a hesitação da minha mente, pois dei por mim a desejar, a meio caminho, que a Mistress Waynflete me tivesse suplicado desde o início, em vez de tentar afastar-me do meu plano. Afinal de contas, a profissão de salteador de estrada dificilmente era a minha vocação na vida. Por isso, corri com afinco, dizendo a mim mesmo que tinha de ser feito, e quanto mais cedo terminasse, melhor. Depois, ri-me. Com a minha velha e enferrujada arma de caça, estava tão mal equipado para a vida de salteador como estava para a agricultura com as minhas Geórgicas. "Parado e entrega tudo", disse eu para comigo, "ou dou-te o dobro do peso com chumbo de cisne". Se o cavaleiro desconhecido fosse um homem resoluto, armado com uma arma de gatilho sensível, eu estaria feito.
Chegado ao abrigo do bosque, comecei a abrir caminho pelo matagal denso em direção à estrada. Pequenos ramos caídos estalavam sob os meus pés descuidados e os sons ecoavam nos meus ouvidos como tiros de pistola. Um atrevido pisco-de-peito-ruivo pousou o seu olho despreocupado sobre mim do topo de uma macieira brava, e eu quase o invejei enquanto tropeçava ao passar. Seriam talvez uns oitenta metros de caminho, e a meio parei para ouvir. Sim, chegou aos meus ouvidos o lento trot-ot-ot de cascos na estrada dura. Continuei a avançar até que, através do emaranhado sem folhas, comecei a vislumbrar a estrada principal. O meu destino arrastava-me. Daqui a um mês, o meu cadáver mirrado poderia estar a baloiçar acorrentado no topo de Wes'on Bank, um exemplo para os malfeitores. O pensamento fez-me estremecer, e soltei uma oração truncada para que a minha pretendida vítima se revelasse um fazendeiro gordo e desarmado, uma presa tão fácil como um ganso sobrealimentado. Depois, amaldiçoei-me por ser um tolo. Ninguém pode hipotecar a piedade passada pelo pecado presente. Quem era eu para que me fosse permitido roubar com boas garantias?
Trot-ot-ot. Trot-ot-ot. Ele estava agora a uma distância fácil de tiro, e parei para verificar a minha velha e frágil arma. O mosquete de um dragão não teria precisado de tal cuidado constante. "A vida depende de ninharias", disse a Mistress Waynflete.
Ao levantar os olhos da escorva para seguir caminho novamente, algo na linha de visão fez-me sobressaltar. À minha esquerda, a menos de doze passos de mim, jazia no chão, numa zona limpa sob um espinheiro-alvar de bifurcação notável, o casaco e o chapéu emplumado de um homem.
Um leão a brincar com um cordeiro não me teria feito parar mais abruptamente. Aproximei-me deles silenciosamente. Eram peças de vestuário finas, mas algo desbotadas, elegantes e até afetadas e, tanto quanto podia distinguir qualquer peculiaridade, de aspeto militar, pertencendo evidentemente a uma pessoa de alguma qualidade. E não tinham sido ali atiradas à pressa, pois o casaco estava cuidadosamente dobrado e o chapéu disposto com cuidado em cima dele. Há quanto tempo estariam ali? Peguei no chapéu e ainda havia o brilho do suor recente na sua aba interior.
No entanto, não era altura para problemas ociosos, sendo um muito urgente o que tinha em mãos. Rastejei para a berma da estrada e, deitando-me de bruços no chão, empurrei a coronha da minha arma sobre a relva curta e espreitei cautelosamente para a minha direita, encosta abaixo. Estava a cerca de trinta ou quarenta metros de uma curva da estrada, e pretendia estar a muito menos, mas a minha descoberta e o meu pensamento confuso e semiconsciente sobre ela tinham-me desviado um pouco do meu rumo.
Trot-ot-ot. Ele estaria à vista em poucos segundos. Trot-ot-ot, mais claro do que nunca, e lá estava ele. No momento em que ficou totalmente visível, fiz uma descoberta surpreendente e vi uma visão surpreendente.
A descoberta foi que o cavaleiro solitário, guiando o seu poderoso cavalo cinzento com rédeas soltas e perdido em pensamentos, era o Master Freake.
A visão foi a investida de três homens dos seus esconderijos no matagal. Dois deles eram soldados, e dragões de Brocton, para cúmulo, uma amostra das escórias da cidade de que Jack se tinha queixado. Um agarrou nas rédeas, o outro apontou uma carabina à queima-roupa à cabeça do cavaleiro.
Eram claramente desertores ou salteadores, agindo conforme a sua natureza, e tinham encontrado um estranho parceiro durante a sua incursão. Ele vestia uma bata de camponês demasiado grande para ele, e ainda assim não o suficiente para esconder as suas botas de montar com esporas. Na cabeça, tinha uma touca suja de empregado de taberna, e o seu rosto estava completamente oculto por uma máscara de crepe grosseiramente cortada. Esta figura singular era, evidentemente, o líder do bando. Ameaçou o Master Freake com uma pistola de cano longo e brilhante e, em tons rudes e curtos, ordenou-lhe que desmontasse sob pena de morte imediata.
Aqui estava uma reviravolta estranha, sem dúvida. Aqui, mais uma vez, o destino tinha transtornado rudemente os meus planos, e não haveria bolsa gorda para mim neste imbróglio. Contudo, embora eu tivesse roubado o Master Freake de boa vontade, estando exaltado e sendo ele um hannoveriano declarado, não ia ver os rufiões de Brocton roubá-lo, muito menos matá-lo. A bolsa teria de esperar, e quando a tomasse — pois teria de a tomar — Deus, porventura, equilibraria uma coisa com a outra.
Tudo o que vi e pensei aconteceu numa mera fração de tempo, e mesmo antes de o Master Freake ter parado, eu rastejava como um furão de arbusto em arbusto para me aproximar. Então, exatamente quando ele, nos seus tons calmos e medidos, perguntava o que queriam, irrompi pelo bosque, gritando: "Avante, meus homens, aqui estão os vilões!" Com as palavras, disparei o meu punhado de chumbo de cisne diretamente contra o grupo e depois carreguei sobre eles aos berros, numa imitação juvenil de um cavaleiro de outrora: "Feliz é aquele que me escapa".
Os dois dragões fugiram instantaneamente com ganidos de dor e terror, e o cavalo, guinchando de susto, começou a empinar-se e a mergulhar loucamente pela estrada. O Máscara Negra virou-se para mim, a sua pistola disparou e a bala sibilou junto ao meu ouvido. Saltei sobre ele com a arma em punho e golpeei-o com força na cabeça, mas acertei-lhe no pescoço quando ele também se virava para fugir. Ele caiu, girando e estatelando-se na estrada, mesmo debaixo do cavalo que se debatia. Com um guincho que me gelou o sangue, a égua ergueu-se no ar, dando coices violentamente. Os seus cascos desceram com baques nauseantes sobre o crânio do homem que se contorcia, partindo-o como uma casca de ovo. O seu corpo contraiu-se uma ou duas vezes e depois ficou na quietude da morte.
Agarrei nas rédeas do cavalo e acalmei-a. Ela deixou que lhe acariciasse o pescoço e lhe esfregasse o focinho, e logo ficou quieta, com o pescoço salpicado de espuma e os flancos a fumegar de suor. O Master Freake, que não tinha dito uma palavra, desmontou, e eu levei a égua para o bosque e prendi as suas rédeas a um ramo. Depois, voltei para o homem que tinha salvo e encontrei-o a olhar calmamente para o homem que eu tinha matado. A máscara negra estava agora encharcada numa poça horrível de sangue e massa encefálica. Inclinei-me e, com dedos trémulos, afastei-a, revelando os traços do morto. Era o Major de rosto cheio de borbulhas.
Voltei-me para a minha pretendida vítima e encontrei-a a olhar para mim calma e impassivelmente.
"Master Wheatman de Hanyards, a menos que me engane", disse ele.
"Ao seu serviço, senhor", disse eu, um tanto azedamente. Se não fosse aquele patife morto aos nossos pés, poderia sem dúvida tê-lo depenado como a um gralha, e ali estava eu, ainda sem um cêntimo.
"Master Wheatman, não sou homem de muitas palavras, mas o que digo, mantenho. Sou o seu devedor muito grato por uma ação muito nobre e corajosa. Três contra um é uma vantagem enorme, mas o senhor venceu com o seu engenho, senhor, tanto quanto com a sua bravura. O seu grito foi um dispositivo excelente, pensado a tempo."
Ele estendeu a mão. Apertei-a calorosamente e depois desatei a rir, e continuei a rir até que as lágrimas me vieram aos olhos. E este foi o fim da minha carreira de salteador!
"Como o perigo passou, graças a si, Master Wheatman", disse ele, "gostaria até de partilhar a sua alegria — se puder."
"Senhor", respondi, "estou a rir-me porque o salvei dos ladrões."
"Mas por que se ri?"
"Porque há dez minutos atrás eu próprio pretendia roubá-lo."
O Master Freake olhou casualmente para cima e para baixo da colina e, depois, fixando os seus tranquilos olhos cinzentos em mim, disse de forma caprichosa: "Sou um homem de paz e estou desarmado; a estrada é, na verdade, muito solitária, e trago comigo somas consideráveis de dinheiro."
"Sim, estou bastante irritado. Este patife de cara cor de fogo estragou os meus planos magnificamente. Talvez não consiga uma oportunidade tão boa durante horas."
Agora era a vez de ele se rir. "Master Wheatman", disse ele, "o senhor não é o tipo de que são feitos os salteadores. Como precisa de dinheiro, precisa dele para algum bom propósito, e eu irei..."
Ele parou subitamente. Enquanto estávamos ali, ele estava virado para o bosque de onde os ladrões tinham irrompido, enquanto eu estava de costas para ele. Ao parar, o seu rosto forte e calmo mudou, e os seus olhos fixaram-se em algo no bosque. Admiração, espanto, deleite, reverência — não uma, mas todas estas emoções eram visíveis no seu rosto. Parecia alguém que vê um espírito abençoado. Virei-me. Era Margaret, inclinada, pálida, exausta e ofegante, contra o tronco de uma árvore, olhando e tremendo diante do objeto horrível na estrada.
Saltei até ela e toquei-lhe no braço. "Está tudo bem, Mistress Waynflete", disse eu. "Ainda não sou um candidato à forca."
"Mas..." Os seus olhos ainda estavam arregalados para a estrada, e ela tremia violentamente, por isso coloquei-me entre ela e a visão macabra e disse: "Coragem, cara senhora. O homem morto é o pior inimigo do seu pai, o Major Tixall, e foi aquela égua que o matou, não eu."
Entretanto, o Master Freake aproximou-se de nós e virei-me para o cumprimentar.
"Minha senhora", disse eu, "este é o meu amigo, Master Freake, a quem eu pretendia roubar." A ele acrescentei: "Esta é a Mistress Waynflete, a quem tenho a honra de servir."
Ele descobriu a cabeça e fez uma vénia. "E a quem espero também ter a honra de servir."
Olhei para ele com curiosidade. Todas as outras emoções tinham desaparecido do seu rosto, mas era claro que a beleza sem paralelo e agora tão desamparada dela o tinha cativado.
"Senhor", disse ela, recuperando-se com um grande esforço, "tenho o prazer de fazer o seu conhecimento. E agora" — dirigindo-se a mim — "já que me pregou um grande susto e me fez portar como uma leiteira em vez de uma filha de soldado, talvez me diga o que aconteceu e como ele" — ela olhou por cima do meu ombro — "vem parar ali caído. Ouvi tiros e gritos que me transformaram em pedra. O que aconteceu?"
"Master Wheatman", disse o nosso novo conhecido, tirando as palavras da minha boca, "dificilmente lhe poderá dar uma descrição razoavelmente correta. Permita-me ser o historiador da sua conduta distinta." Ele contou a história com excessiva bondade para comigo e, enquanto a contava, a cor voltou ao rosto dela e ela voltou a ser ela mesma. Enquanto ele a contava, notei pela primeira vez, ou melhor, pela primeira vez compreendi o seu significado, que ela tinha corrido atrás de mim sem o dominó, e que, naquele ar cortante, poderia facilmente apanhar uma constipação. Por isso, enquanto o Master Freake fazia uma bela oração sobre mim, muito mais aplicável a Aquiles ou ao Cavaleiro Bayard, escapei-me e fui buscar o chapéu e o casaco. Ele estava exatamente a concluir a sua história quando regressei e, sem o interromper, coloquei desajeitadamente o chapéu na cabeça dela e atirei-lhe o casaco sobre os ombros.
"Master Freake", disse ela, no seu tom de brincadeira mais doce, "o meu criado, como ele absurdamente se intitula, é um verdadeiro artista a ajudar as pessoas. Disse-lhe esta manhã que o seu condado natal era a sua cartola de mágico, quando ele de lá tirou presunto e ovos para a pobre e faminta de mim. Agora, observa que estou sem casaco e com frio, e eis que um chapéu está na minha cabeça e um casaco nos meus ombros. É maravilhoso e nada menos que isso. Não, evitá-lo-ei como a alguém aliado aos poderes das trevas se houver muito mais disto. Se for salva, recorda-se do Master Slender" — isto num aparte malicioso para mim — "serei salva por aqueles que têm o temor de Deus."
"Ingrata!" exclamei, meio zangado e, no entanto, totalmente encantado; "que prodígio ou feitiçaria há em apanhar um chapéu e um casaco que se encontraram debaixo de uma árvore?"
"Do Major Tixall", disse o Master Freake.
"Asno que sou, claro que são. Mantenha-se firme, Mistress Margaret, enquanto examino os bolsos. As probabilidades são de que encontremos algo útil para fazer xeque-mate ao meu Lord Brocton."
Nisto, enganei-me, pois não havia um único pedaço de escrita em nenhum deles. Consegui, contudo, pescar dois pequenos mas pesados pacotes, embrulhados em papel. Foram facilmente examinados, e cada um continha um rolo de dez guineus.
"O salário dos dois patifes", explicou o Master Freake.
"A sério, Mistress Margaret", disse eu, "há algo no que acabou de dizer. Tenho mesmo a sorte do próprio diabo. Saí à procura de guineus, preparado para roubar por eles, e aqui estão vinte destas belezas prontas para eu apanhar. Agora podemos seguir em frente com conforto."
Durante toda esta conversa, eu ia ponderando na minha mente que explicação, se alguma, deveríamos dar ao Master Freake sobre estarmos aqui. Se tivesse apenas de pensar em mim, tê-lo-ia confiado sem hesitação. Ele era o tipo de homem que inspira confiança, tendo o seu rosto grave, sereno e inteligente a força e a firmeza escritas em cada linha. Mas tinha a Mistress Waynflete a considerar, e se fosse feito algum apelo à sua assistência, ela teria de o fazer. Receio ter esperado que ela não o fizesse, uma vez que tinha ciúmes de qualquer interferência na minha responsabilidade temporária pelo seu bem-estar.
"Master Freake", disse eu, "alguma explicação terá, suponho, de ser dada sobre a morte daquele rufião. Os dois fugitivos dificilmente aparecerão como testemunhas, por isso, pelo bem da Mistress Waynflete, devo pedir-lhe, caso uma explicação se torne necessária, que oculte a minha parte no assunto."
"A forma da sua morte é, felizmente, bastante óbvia, e se não o fosse, qualquer explicação que eu escolha dar sobre ela passará sem ser questionada."
"Então será fácil para si, espero, esquecer-me ao dá-la. E agora, minha senhora, penso que devemos seguir caminho."
"Antes de partirem", disse o Master Freake, "deixem-me dizer novamente que, se puder ajudar, só têm de pedir. O senhor, Master Wheatman, porque o seu duplo serviço sinal é algo que me envergonharia para sempre não poder retribuir, e a senhora, porque" — ele fez uma pausa, e a curiosa expressão extasiada voltou ao seu rosto — "porque é muito bela e precisa de ajuda. A política do seu pai não criará dificuldades, no que a mim diz respeito."
"Conhece o meu pai?" perguntou ela, surpreendida.
"Conheço-o de nome. O meu Lord Brocton gabava-se ontem à noite da sua captura — e de outras coisas", concluiu ele, de forma vaga.
"Ele está a gabar-se esta manhã?" perguntei.
"Não o vi", disse ele, "mas a Mistress Dobson disse-me que achava que ele tinha ido ao ninho das gralhas e tinha caído do álamo."
"Encontrei-o novamente", disse eu, "e não gostei da sua conversa."
"Master Wheatman quer dizer", explicou a Mistress Waynflete, "que ele me salvou das garras do meu Lord Brocton com o risco iminente da sua própria vida." Ela estendeu as mãos e tocou nos buracos do meu casaco com os seus dedos brancos e delgados. "A espada do meu senhor fez isto", disse ela.
"Um centímetro à esquerda, meu amigo", disse o Master Freake, "e estaria tão morto como carneiro. O seu senhor, ao que parece, está ocupado a acumular uma grande conta com ambos. Bem, à minha maneira, farei com que o patife pague tão caro quanto o senhor pagou à sua. Se a senhora quiser aceitar a minha ajuda, farei tudo o que puder por si. Existem, felizmente, outros meios além de armas carnais para influenciar pessoas como Lord Brocton."
"À semelhança do Master Wheatman, senhor, é demasiado bom para uma pobre rapariga." Ela disse-o com gratidão e humildade, e de facto assim o sentia, mas nenhum homem poderia ouvir as suas palavras dóceis sem orgulho.
"Fico contente por me ter tornado salteador de estrada, apesar da senhora", disse eu à minha querida senhora.
"Nunca poderei agradecer-lhe o suficiente", foi a resposta simples. "Foi perverso da minha parte aceitar o sacrifício, mas, na boa providência de Deus, não foi feito em vão."
"Então entro na firma", disse o Master Freake sorridente, e quando ela, captando o significado da sua metáfora, sorriu brilhantemente de volta para ele e estendeu a mão, ele fez uma vénia formal, mas muito gentil, e beijou-a. Ela corou lindamente e depois, após um momento de hesitação, estendendo-a para mim, disse: "Mas não me devo esquecer do sócio original." Peguei no esplêndido prémio com a minha mão de agricultor, áspera e vermelha, e beijei-a reverentemente. O toque dos meus lábios na sua pele doce e suave fez-me tremer, e soube que a loucura se estava a apoderar de mim, mas cerrei os dentes e os nossos olhares encontraram-se novamente. O rubor tinha desaparecido, mas não o sorriso. Não era agora, contudo, o sorriso de uma donzela franca, mas de uma mulher impenetrável e dominante. Eu conhecia a diferença, pois o instinto é mais do que a experiência, e arrepiei-me ao tornar-me no campónio de novo e fiquei a matutar.
"Num sentido, pelo menos", disse o Master Freake, "sou o sócio sénior e, como tal, posso, sem presunção, falar primeiro. Devo seguir para Stone, mas penso que isso será o melhor para o nosso propósito. Como vejo a situação, duas coisas são necessárias: primeiro, que o senhor, Master Wheatman, coloque a Mistress Waynflete à frente de todas as tropas reais e, assim, fora de perigo, e segundo, que saibamos precisamente o que aconteceu ao Coronel Waynflete."
"Exatamente", concordei. "A ação de Lord Brocton ao enviar o Coronel para norte em vez de para sul, ou pelo menos de o deter na prisão em Stafford, é inexplicável. É verdade que o seu plano separa pai e filha, que é o que ele quer, mas qualquer um dos outros métodos teria servido igualmente bem para isso."
Claro que não disse nada sobre a outra ideia que me assombrava o pensamento, a ideia de que Brocton estava a tramar livrar-se do Coronel por completo. Na sua luxúria e raiva, ele poderia não hesitar perante isso, e qualquer tipo de encontro com o inimigo serviria o seu propósito. Os patifes sob o seu comando eram dignos do seu comandante, um facto do qual já tínhamos tido provas abundantes.
"Parece tortuoso, confesso", foi a sua resposta, "mas há isto a dizer a favor: o Duque está a seguir para norte juntamente com o grosso do seu exército e, ouvi dizer, pretende fazer de Stone o seu quartel-general."
"Isso parece absurdo", disse eu, "mas, claro, ele é quem sabe."
"Os movimentos do exército do Príncipe são incertos. O plano dos seus líderes nunca é dizer onde será a próxima paragem. Eles estarão hoje, sei, em Macclesfield ou perto, e soube que é possível que se desviem para o País de Gales, onde acreditam encontrar muitos recrutas. Quanto mais para norte o Duque puder ir em segurança, melhor posicionado estará para os deter se o fizerem, e a sua vanguarda está estacionada em Newcastle. A questão é: como chegar lá primeiro e sem ser apanhado?"
"Viajando pelas estradas secundárias", disse eu. "Passaremos por Eccleshall."
"Quanto tempo levarão a chegar lá?" perguntou ele.
"Cerca de três horas", disse eu, "se a Mistress Waynflete aguentar o ritmo."
"Muito bem", respondeu ele. "Juntar-me-ei a vós lá e farei os possíveis para conseguir cavalos para vós entretanto, e levá-los-ei comigo."
"Isso é esplêndido", disse eu, "mas prefiro que nos encontremos fora da aldeia. Não a mais de uma milha e meia depois dela, na estrada de Newcastle, há uma pequena estalagem de beira de estrada chamada 'Ring of Bells', no sopé de uma colina íngreme, com um grande charco rodeado de pinheiros, conhecido como Cop Mere, em frente. É um lugar isolado e servirá melhor. Por muito pequena que seja Eccleshall, contorná-la-ei e chegarei assim ao 'Ring of Bells'. Não há como errar se cavalgar através da aldeia pela estrada de Newcastle. Quem lá chegar primeiro aguardará o outro."
"Então, dentro de cerca de três horas, encontrar-nos-emos no 'Ring of Bells', e espero trazer boas notícias do Coronel. Acredite em mim, minha cara senhora, salvo alguma vilania por parte de Brocton, e não temos motivos para suspeitar disso, o seu pai ficará bem. O simples John Freake não carece de influência. Quanto ao rufião que jaz morto na estrada, não pense mais nele."
Dito isto, ele desatou o cavalo, levou-a para a estrada e montou. Fez uma vénia e sorriu, dizendo jovialmente: "Uma caminhada agradável até ao 'Ring of Bells'", e partiu a galope.
Coloquei-me entre a senhora e o homem morto. "Encontrámos um bom amigo ali, Mistress Waynflete. Agora, vamos deixar o chapéu e o casaco como os encontrámos, à exceção das guineus, e voltar à cabana para buscar o seu dominó."
Ela entregou-mos e partiu a passo vivo em direção à cabana. Dobrei o casaco, coloquei o chapéu sobre ele, olhei novamente para o horror imóvel e rígido na estrada, encharcado no seu próprio sangue, e segui-a silenciosamente.
CAPÍTULO X
SULTAN
A disposição do terreno era a seguinte: Para chegar ao "Ring of Bells", o Mestre Freake teria de cavalgar sobre a colina até à estrada principal em Weston, de lá cerca de seis milhas a noroeste até Stone, e depois mais seis ou sete milhas a sudoeste até à estalagem. A Mistress Waynflete e eu tínhamos uma caminhada árdua de cerca de nove milhas pela frente. Nas primeiras três milhas, o nosso caminho seguia para leste-nordeste e, depois, fletia quase diretamente para leste em direção à estalagem. A nossa dificuldade surgiria no ponto de viragem, pois aí teríamos de atravessar a estrada principal que vinha de Stafford, pela qual as tropas estariam a filtrar-se para norte para entrar em contacto com o Príncipe e os seus Highlanders. Se o Duque tivesse ouvido falar da suposta intenção dos Jacobitas de se desviarem para o País de Gales, imaginei que enviaria um grupo de reconhecimento através de Eccleshall para os procurar, e nós estaríamos, pela segunda vez na nossa jornada, em terreno perigoso nas vizinhanças daquela aldeia. O "Ring of Bells", contudo, ficava a norte da aldeia, fora da sua linha de marcha óbvia naquela direção, pelo que tínhamos uma boa hipótese de passar sem sermos incomodados até ao nosso destino, desde que atravessássemos a estrada principal para norte em segurança. Felizmente, no local onde pretendia atravessar, a estrada subia uma colina bastante íngreme, e podíamos, se necessário, deitar-nos e observar a via até ser seguro aventurarmo-nos.
Era um trabalho delicado na melhor das hipóteses, e qualquer quebra na nossa maré de sorte poderia arruinar-nos. Quão delicado era, foi-me vividamente recordado poucos minutos depois de nos termos posto a salvo na cabana. Eu tinha, naturalmente, trazido de volta a arma de caça e, após mais uma vez ajudar na tarefa feliz de vestir o dominó à Mistress Waynflete, sendo desastrado como de costume ao arranjar o capuz porque os meus dedos perdiam o controlo ao toque do seu cabelo, sentei-me para a recarregar, tencionando levá-la comigo. Tinha resolvido o assunto com o caseiro ausente, Doley, deixando uma das minhas guineus de forma visível sobre a mesa, e estava a terminar a tarefa quando a Mistress Waynflete, que se tinha dirigido à janela das traseiras e olhava para o cenário da minha recente proeza, chamou de repente: "Oliver! Venha cá!"
O meu coração saltou com aquele "Oliver". É certo que era a familiaridade de quem nasceu para mandar, de quem, na noite anterior, exigira friamente os meus serviços pela manhã e, como mulher, sabia que podia reinar sobre mim como bem entendesse, mas ainda assim, e isto era o principal, era familiar e amigável, e parecia elevar-me um pouco mais perto dela.
"O que se passa, senhora?" perguntei respeitosamente, e corri para junto dela, mas não tão depressa que não tivesse tido tempo de ver os olhos azuis fixos nos meus. Como resposta, ela virou-se e apontou colina abaixo, e lá vi o troço de estrada castanha coberto de carroças e soldados. Em cinco minutos, encontrariam o corpo do Major.
"Bom", disse eu indiferentemente, "poupam-me uma guineu", e voltei a guardar a moeda no bolso. Os soldados não interessavam, mas aquele olhar nos olhos dela, sim.
"Isso não é um tanto mesquinho?" Por qualquer razão, ela falou de forma bastante brusca. Os soldados claramente não lhe interessavam, mas algo mais, sim.
"Qual dos soldados nos pagou o pequeno-almoço, senhora? Mais valia deixarmos um bilhete a pedir-lhes que nos apanhassem no 'Ring of Bells'. E, senhora, pode confiar em mim para tornar o Dick Doley suficientemente contente um dia."
Ela sorriu, com o seu toque característico de contrariedade. Gostava mais dela assim, pois nunca parecia mais delicada. "Com um pouco de sorte, Mestre Wheatman", disse ela de forma caprichosa, "haverá certamente um tempo em que você estará enganado e eu certa. Então, senhor, prepare-se para o escárnio. Nunca tive tanta falta de sorte com um homem na minha vida. Mas há-de escorregar um dia!"
"Certamente, senhora", disse eu, e sorri, "e então submeter-me-ei ao seu regozijo. Agora, peço-lhe, vamos partir. Mal temos um minuto a perder."
Sem perder mais um segundo, iniciámos a nossa longa caminhada. Eram agora cerca de dez horas. O sol brilhava alegremente, com força suficiente para derreter a geada branca de cada ramo enegrecido que iluminava, e ainda estava tão frio que caminhar depressa era um prazer intenso.
"Oito milhas e mais um pouco, Mistress Waynflete. Espero que consiga aguentar o ritmo e a distância."
"Sou filha de um soldado, não de um vereador", respondeu ela secamente.
O vigário tinha razão. "Oliver", disse-me ele um dia, "qual é a diferença entre a Bíblia Hebraica e uma mulher?"
"Senhor", disse eu, boquiaberto de espanto, "não sei, mas, na verdade, parece considerável."
"É, Oliver", respondeu o doce e velho erudito. "O homem pode compreender a primeira em doze anos, se se esforçar, mas a segunda não a compreenderá numa vida inteira, por mais que se esforce."
Este fragmento da conversa do meu querido amigo voltou-me agora à mente enquanto caminhávamos em silêncio, lado a lado. Pelo canto do olho, podia ver o seu rosto doce, focado em pensamentos sérios, os seus lábios carnudos comprimidos, os seus olhos expressivos fixos resolutamente à frente. Não tendo de me preocupar em encontrar o caminho, e não havendo sinal de ninguém, inimigo ou neutro, a agitar-se pelo campo, deixei-a continuar a pensar e impus a mim mesmo a tarefa agradável, mas impossível, de justificar para comigo mesmo o seu estado de espírito. Passei em revista tudo o que tínhamos dito e feito juntos naquele dia e, finalmente, após talvez meia hora de silêncio ininterrupto, voltei ao que parecia a única explicação possível. Ela estava a pensar no pai. Mas porquê aquele indício de aspereza no seu rosto? Seria esta explicação correta?
O vigário tinha razão. Ela deslizou subitamente a mão pelo meu braço, olhando para mim com lábios risonhos e olhos cintilantes, e disse: "Não é esplêndido estar vivo num dia como este?"
"Sim, de facto é", respondi, "mas, pelo seu olhar e pelo seu longo silêncio, dificilmente teria julgado que estava a pensar nisso."
"Esteve a fazer o meu balanço, senhor!"
"Certamente, estive a interrogar-me por que razão estava tão silenciosa e parecia tão... grave."
"Seja honesto e não tema, Mestre Wheatman. Não ia dizer 'grave'."
"À custa de muitas chicotadas do velho Bloggs, aprendi a ser preciso no uso das palavras."
"Eu sei, por isso não ia dizer 'grave'."
"Permitir-me-á que escolha as minhas próprias palavras, senhora."
"Certamente, desde que escolha as corretas."
Ela retirou a mão e caminhámos um minuto ou dois sem outra palavra, ela franzindo a testa e eu a fervilhar. Depois, disse melancolicamente: "Por que achou que eu estava zangada?"
"Temi tê-la ofendido", disse eu apressada e inocentemente.
Ela riu longa e alegremente. "O velho Bloggs ensinou-lhe o disparate que vocês, homens, chamam de lógica, mas não lhe ensinou a lógica das mulheres, isso é evidente. Não vê o que o obriguei a fazer, Mestre Wheatman?"
"Ainda não, Mistress Waynflete."
"Puff, lerdo! Obriguei-o a admitir que ia dizer 'zangada', mas alterou-o, demasiado tarde, para 'grave'."
"Ultrapassa-me com o seu engenho ágil e prático", disse eu, sorrindo.
"E quando pensa que me ofendeu?"
"Respondi-lhe de forma um tanto rude quando me chamou à atenção por causa da guineu."
"Ah, então? De todo. Você deu-me uma patada, mas eu merecia-a ricamente."
Outro silêncio.
"Bem?" disse ela. "Continue! Eu digo que merecia ricamente. Continue!"
"Continuar onde?" perguntei irritado. "Não espera que eu diga que não merecia, pois não?"
"Não, não espero", disse ela, "mas foi um bom exercício tentar fazer com que o dissesse." Dito isto, ela deslizou a mão sob o meu braço novamente e seguimos caminho juntos.
A corrente dos seus pensamentos corria agora e brilhava na direção oposta. Fez-me, por um momento, seu confidente, levantando o véu sobre a sua vida passada e dando-me vislumbres e perspetivas das suas viagens e experiências. Brincava e troçava. Cantava pequenos fragmentos de canção numa língua estrangeira. "Tem a certeza de que não entende italiano?" exigiu ela, parando a meio de um compasso e interrogando-me com os olhos, agora azuis como safiras sob a luz brilhante do sol.
"Nem uma palavra", disse eu.
"Uma desvantagem grave", disse ela com leveza. "É a única língua na qual se pode amar." E recomeçou.
Agora ela cantava algo suave e triste, com uma melodia melancólica que se desvanecia num lamento baixo. Não era preciso italiano para ser compreendido, pois estava escrito na língua da experiência humana. O coração de uma mulher pulsava na melodia e partia-se no lamento.
Este doce intervalo de intimidade, beirando a amizade, foi interrompido pela nossa aproximação da estrada principal. Tínhamos estado a viajar, indiferentes a estradas e trilhos, através de uma zona rural, e a subida até ao topo de Yarlet Bank estendia-se agora diante de nós. Abri caminho, escondendo-me por trás da pobre cobertura que as sebes esguias proporcionavam e, a apenas cem passos do cimo, pedi-lhe que se agachasse, aguardando o meu sinal para avançar, enquanto eu rastejava de mãos e joelhos até à berma da estrada que, aqui, subia a crista da colina através de um corte profundo, ao longo de cujas margens corria uma sebe irregular.
Para meu alívio, a estrada que descia a colina, tanto para a direita como para a esquerda, estava completamente deserta. Acenei alegremente com o braço à Mistress Waynflete, que logo estava ao meu lado, olhando para a estrada. À direita, podíamos ver durante quase uma milha. À esquerda, a nossa visão era cortada por uma curva, e caminhei uns vinte passos naquela direção e trepei a uma árvore jovem e robusta. A nossa sorte era absoluta. Nem um soldado, nem uma alma viva, estava à vista.
"Poderíamos ter de nos esconder aqui durante horas, à espera de uma oportunidade para atravessar sem sermos vistos", disse eu, ao juntar-me a ela, "mas os nossos deuses lá de cima são vitoriosos, e nós partilhamos a sua vitória. Agora, rumo ao 'Ring of Bells'. Há um portão no fundo da colina. Vamos, Mistress Waynflete!"
Ela seguiu-me pela berma da sebe. Virei-me uma ou duas vezes para olhar para ela, fingindo cuidadosamente que era apenas para ver como ela se estava a sair. Da última vez que roubei outra memória da sua presença esplêndida, estávamos apenas a alguns passos do portão e, quando os meus olhos relutantes voltaram ao seu trabalho legítimo, deram de frente com um par de olhos de peixe inseridos num rosto tão inexpressivo e feio como uma bexiga de banha.
O rosto e os olhos pertenciam a um homem grande, esguio e astuto, empoleirado na barra superior do portão. Tinha um bloco de notas na mão no qual estivera a registar algumas anotações. Suspendeu a escrita para nos examinar, limpando os seus dentes amarelos e desagradáveis com a ponta do lápis, entretanto. O seu cavalo estava atado ao poste do lado do portão virado para Stone, onde ficava o degrau da sebe. Estava bem vestido e, tanto quanto pude ver, desarmado.
Era algo extremamente exasperante ter dado com ele, fosse ele quem fosse, e, na verdade, detestei o aspeto dele e tê-lo-ia derrubado de bom grado com um murro. É certo que os viajantes não eram raros naquela estrada, já que fazia parte da grande via de Londres para Chester, e a pequena cidade de passagem de Stone, a cerca de três milhas à frente, tinha uma famosa estalagem. Contudo, mantive, ou tentei manter, os meus sentimentos longe do meu rosto e da minha voz, e dirigi-me a ele jovialmente.
"Bom dia, amigo! Qual poderá ser o preço do gado gordo no mercado de Stafford hoje?"
"Mais caro do que as cabeças dos homens estarão nas portas da cidade após as próximas sessões judiciais", respondeu ele, acariciando o bloco de notas e sorrindo maldosamente.
"Nunca encontrará um escocês, morto ou vivo, que valha tanto como uma novilha de Staffordshire", disse eu, abrindo caminho para passar por ele até ao degrau, sobre o qual ajudei a Mistress Margaret a passar para a estrada.
"Nem todos serão escoceses, meu amigo", respondeu ele, continuando a acariciar o bloco de notas.
"Não?" disse eu, ansioso de coração por derrubá-lo do seu poleiro.
"Nem homens", acrescentou ele, olhando de soslaio para Margaret.
"Vamos, Sal", disse eu a ela, rindo, "antes que o bom cavalheiro a anote como uma Jacobita."
Assim o deixámos e, quando, cinquenta passos estrada abaixo, olhei para trás, ele estava a anotar novamente no seu bloco.
"Acho que ele sabe algo sobre nós", disse eu.
"Muito provavelmente", respondeu ela calmamente. "Já o vi uma vez antes em Londres, a falar com o Major Tixall. Quem poderia esquecer um rosto como aquele?"
"Ele é mais feio do que o dragão de boca grande."
"O dragão era, pelo menos, um soldado."
"E o pior dos soldados tem, sem dúvida, algum traço de graça nele."
"Exatamente", retorquiu ela. "A sua vocação torna-o necessário."
"E, raciocinando assim, diria, suponho, que o melhor dos agricultores estava aquém das esferas mais elevadas da virilidade."
"Não lhe disse, Mestre Oliver, que entre a lógica do homem e a lógica da mulher há um grande abismo fixado?"
"Mentes são mentes", disse eu.
"E corações são corações", respondeu ela, fechando-me novamente para os meus pensamentos.
Entrámos num caminho de carroças à nossa esquerda que conduzia na direção de Eccleshall. Ao virarmos, vi que o Cara-de-Bexiga tinha montado o seu cavalo e vinha na direção de Stone. Não havia dúvida de que seríamos perseguidos a partir daquela direção antes de muito tempo, e senti-me pesado de ansiedade ao ver quão pressionados estávamos. O encontro, contudo, não tinha perturbado a Mistress Waynflete. Pelo contrário, tornou-se mais alegre do que nunca, tão alegre que, como um tolo, fiquei bastante irritado, pois era claro que algo tinha aliviado a sua ansiedade, e eu sabia que não tinha sido nada do que eu fizera. Preocupei-me com isso e, finalmente, encontrei a explicação. Ela estava a regozijar-se com a ajuda do novo parceiro.
"O que acha do Mestre Freake?" disse eu, grosseiramente, interrompendo um trinado leve, talvez mais italiano.
"Achar de quê?" disse ela com leveza.
"Do Mestre Freake."
"Perdoe-me, Mestre Wheatman", respondeu ela, "mas não o apanhei tão depressa quanto deveria. Gosto do aspeto dele. Que bonito, colha-os para mim."
Parei para apanhar o ramo de bagas de um vermelhão brilhante que ela desejava, dizendo entretanto: "Pergunto-me o que será ele? Caldeireiro, alfaiate, soldado, marinheiro, ou o quê?"
Ela parecia muito mais preocupada com as suas bagas, que elogiou entusiasticamente e colocou cuidadosamente no seio do seu traje de montaria, antes de responder.
"É, sem dúvida, um cidadão grave e próspero de Londres. Já vi muitos assim, e ele parece irmão de juramento do respeitável Vereador Heathcoat. Além disso, fala como um mercador."
Parecia bastante certo que ela tinha acertado em cheio. A sua explicação encaixava na sua versão sobre as grandes somas que transportava e a sua estadia e controlo sobre o pai de Jack. É certo que Staffordshire parecia o lugar errado para um homem daqueles. Tanto ele como o seu dinheiro teriam estado muito mais seguros em Change Alley. Se a sua explicação era aguda e provável, a forma como a deu convenceu-me de que a minha explicação para a sua alegria estava errada. Certamente que não estava a pensar nele. Então, restava apenas uma coisa para o explicar. O que torna uma rapariga alegre como uma cotovia? Não cantava a nossa Kate durante toda a manhã quando Jack vinha à tarde?
Não era da minha conta e, tal como um homem por vezes faz com que a sua mão direita jogue contra a esquerda no xadrez, fiz agora o severo Oliver dar uma lição ao vacilante Wheatman, mas sem lhe fazer muito bem. Naturalmente, tudo isto fez de mim um mau companheiro de estrada e, durante muito tempo, a Mistress Waynflete suportou-me pacientemente. Depois, virou-se do seu tra-la-la para me despertar, declarando categoricamente que eu estava entediado com a sua companhia; e eu não tive defesa, por mais ridícula que fosse a acusação.
"Cantei todas as canções que conheço, e cantei-as da melhor forma, e você nunca me elogiou uma única vez. Terá de aprender, sabe, Mestre Oliver, a sorrir para uma senhora mesmo quando lhe apetece dar-lhe uma palmada. O que faz? Escreve apenas no seu rosto, tão claramente como isto" — e aqui o seu dedo delicado percorreu o seu rosto, terminando onde a lágrima de leite tinha tremido — "P-A-L-M-A-D-A." Eu ri às gargalhadas, ela fê-lo tão franca e alegremente. Que tesouro de estados de espírito ela era! Tinha atravessado a nossa sala de estar como uma rainha, enfrentara aquele demónio, Brocton, como uma deusa, e agora estava a brincar como uma colegial.
Por muito longo que fosse o caminho, parecia-me que estávamos a percorrer terreno demasiado depressa. A Mistress Waynflete não se cansava e fazia pleno jus ao espírito militar do seu pai. Contornámos os telhados de telha vermelha de Eccleshall e, finalmente, encontrámos abrigo nos pinheiros que rodeavam o grande charco. Do outro lado da água ficava a estrada, e no lado oposto da estrada em relação a nós estava o "Ring of Bells", recuado, com um pequeno relvado em frente, no centro do qual um poste enorme ostentava uma placa com o sinal rudemente pintado da estalagem.
Fui reconhecer o terreno à frente, saltando de árvore em árvore ao longo da orla do charco, para me manter fora da vista de qualquer pessoa que se movesse na estrada. Em frente à estalagem, rastejei ainda mais cautelosamente através do bosque até à orla da estrada. Não havia ninguém a mover-se dentro ou perto do lugarzinho decrépito, mas havia uma coisa inesperada à vista que me fez hesitar. Atado pelas rédeas a um suporte no poste do sinal estava o cavalo mais belo que alguma vez pusera os olhos, um garanhão esguio e nervoso, a mastigar o freio e a escavar nervosamente o solo duro como pedra.
Aqui estava a sombra de um novo problema, embora, na verdade, não houvesse motivo para surpresa, vendo que o campo, perto e longe, fervilhava com as atividades do inimigo. Um rato num celeiro poderia, com a mesma justiça, queixar-se de ser importunado por palhas como eu de me encontrar com dificuldades. O cavalo sem dono anunciava um cavaleiro lá dentro, e provavelmente alguém da cavalaria do Duque. Fiz sinal à Mistress Waynflete e, por gestos, indiquei que era necessária cautela extrema. Durante os momentos em que a aguardava, examinei a arma de caça para garantir que estava em condições. A cautela, contudo, ela atirou-a para o esquecimento, pois no momento em que pôs os olhos no cavalo, gritou alegremente "Sultan" e lançou-se, feliz e desabalada, a atravessar a estrada.
Detive-a severamente e, num breve sussurro, perguntei: "Quem é Sultan?"
"O cavalo do meu pai."
"Não temos certeza de que seu pai esteja na estalagem porque o cavalo dele está do lado de fora, e, com sua licença, madame, vamos nos certificar primeiro. Mantenha-se logo atrás daquela árvore espessa e aguarde meu retorno."
Ela olhou-me com calma, mas antes mesmo que pudesse deslizar para longe, veio da taverna uma pavorosa saraivada de juras e maldições. Era uma voz masculina, gritando em agoniada blasfêmia, e o agudo agudo de uma mulher flutuava sobre a corrente de virulência.
Agarrei o pulso da Mistress Waynflete e a firmei. "Não é seu pai, pelo visto?", disse eu em tom sereno, embora minha cabeça girasse um pouco sob a tensão. "Aqui", continuei, tirando um punhado do bolso, "estão algumas guinéus. Siga-me, solte o cavalo e, se eu gritar para você fugir, monte nele a partir daquele bebedouro e vá embora como um relâmpago. Essa é a estrada para Eccleshall, pela qual o Master Freake certamente virá."
Empurrei as guinéus para a mão dela, segurei minha arma, deslizei para fora dos pinheiros e atravessei a estrada, circulei o cavalo e inclinei-me para espreitar pela ombreira da porta aberta para o salão da taverna. Ao fazê-lo, o homem gritou: "Raios, estou em chamas!" e a mulher retrucou aos gritos: "Queime, seu demônio imundo, queime, e seja condenado!"
Isso foi o bastante, e irrompi diante de um espetáculo estranho, sério, prestes a tornar-se terrível e, contudo, quase risível. No meio da sala, uma mulher robusta, de cabelos eriçados e cotovelos avermelhados, estava de pé, com um forcado em suas mãos fortes e estendidas. O sargento dos dragões, de costas para um fogo crepitante, estava prensado contra a lareira pelo forcado, cujos dentes estavam fincados na verga de carvalho da chaminé, de modo que um anel de aço circundava sua garganta como a gola de um pelourinho, mantendo-o ali indefeso e assando. Quando o vi pela primeira vez, ele fazia uma tentativa frenética de arrancar os dentes, mas, achando impossível, desembainhou seu sabre e investiu contra a mulher. Ela, calmamente, esquivou-se para fora de alcance ao longo do cabo do forcado. Ele então golpeou ferozmente, mas sem muito efeito no cabo de madeira, e finalmente, em seu desespero e agonia, armou-se com o sabre e atirou-o contra ela como um dardo. A mulher, mais fria do que ele em ambos os sentidos do termo, esquivou-se facilmente. Como ela conseguira prendê-lo de maneira tão indefesa, eu não poderia imaginar. O motivo era óbvio. Uma menina pequena jazia contorcendo-se e soluçando no chão, em meio aos fragmentos de uma caneca quebrada e espalhando moedas de cobre e prata.
"Você o tem em segurança, mãe", disse eu, "e não adianta cozinhá-lo, já que não pode comê-lo."
"Vosmecê é outro ladrão fedorento, como este aqui?", ela exigiu. O epíteto era tão apropriado quanto vigoroso, pois o cheiro de tecido chamuscado me fez fungar. "Se for", ela continuou, "vou empurrá-lo para o fogo e me voltar contra vosmecê."
"De modo algum, mãe. Vim para ajudá-la, mas afaste-o um pouco do calor e depois decidiremos o que fazer com ele." Para ele, acrescentei: "Entendido, sargento, qualquer tentativa de lutar ou fugir, e seu pescoço será torcido como o de um galo." Então, largando minha arma, puxei os dentes e arrastei-o ao longo da verga até que estivesse fora de perigo. A mulher, cuja determinação feroz nunca vacilou, prendeu o forcado novamente e manteve-o aprisionado.
Fui até a porta e vi a Mistress Waynflete de pé junto à cabeça de Sultan, e a orgulhosa beleza arqueando o pescoço em sua alegria por encontrar sua dona perto dele. Fiz-lhe sinal.
"Um velho conhecido em apuros. Entre!", disse eu, e a introduzi à estranha cena. "O sargento, madame", continuei, "e ele foi arrancado como um tição do fogo." Ela observou a cena, julgou o que havia acontecido e então acolheu a criança, que parara de chorar por curiosidade, e cuidou da pequena tão docemente que a mulher de cotovelos vermelhos exclamou agradecimentos sinceros.
Em suma, a história, conforme coletada mais tarde da mãe e da criança, era que o sargento chegara a cavalo e pedira uma refeição. Depois de comer um pouco de pão, queijo e cerveja, aproveitara a ausência da taverneira para perguntar à criança onde a mãe guardava seu dinheiro e, não recebendo resposta, torcera o braço da pobre pequena até que, em seu terror e agonia, ela lhe contasse sobre o buraco secreto na chaminé, onde o dinheiro era guardado em uma caneca marrom grosseira. O grito da criança trouxera a mãe correndo de volta com o forcado, apanhado no caminho, e ela, pegando-o desprevenido com a caneca na mão, investira contra ele e, por sorte, prendera-o pelo pescoço, imobilizando-o contra a lareira como eu o encontrara. Deixá-lo ir, ela não ousava, pois estava sozinha, exceto pela criança, e, não fosse pela minha chegada, ele teria assado o suficiente até ficar indefeso. Como estava, as abas de seu casaco fumegavam, e ele escapara por pouco de ferimentos graves. Na verdade, embora ardendo de dor, ele estava tão pouco danificado que, após arrancar as partes queimadas, recompôs-se e tentou me enganar.
"Master Wheatman", começou ele, "eu o convoco em nome do Rei para me ajudar e assistir. A história desta mulher é toda uma mentira. A caneca estava no topo da chaminé para qualquer um ver, e eu só a peguei para examiná-la, impressionado com sua aparência."
"Também em nome do Rei, Master Sargento", foi minha resposta, "proponho entregá-lo ao juiz mais próximo como um patife e vagabundo."
"E você explicará por que está aqui com sua..." Eu o teria estrangulado se sua língua imunda tivesse proferido uma única palavra de insulto, e ele viu isso em meus olhos. Ele parou, e seu rosto mostrou que descobrira o segredo.
"O sargento reconhece você de novo, Molly", disse eu levemente.
"Enganado e vencido por um caipira maldito?", ele explodiu. "Dez mil demônios! Onde estavam meus olhos ontem?" Em sua raiva, ele começou a forçar sua gravata de aço.
"Virgílio para sempre! Na primeira cidade em que chegarmos, comprarei uma gramática latina", disse Margaret para mim, com uma baixa risada cristalina.
"Fique quieto, tolo", disse a taverneira ao sargento. "Você não valerá a corda se continuar com isso."
"Se você não me soltar, sua velha cadela", ele gritou, "farei com que seja enforcada! Solte-me, pelo seu pescoço! Essas pessoas são jacobitas!"
"Ora, eu não sei o que isso é, mas desejo que Stafford-sheer estivesse cheia deles. Não adianta se sufocar, não vou soltar."
Esse método de mantê-lo, no entanto, tornou a taverneira inútil, então tomei seu lugar e pedi que ela trouxesse a corda mais longa e resistente que tivesse. Ela me trouxe uma bela corda e, com ela, amarrei o sargento, prendendo-o firmemente em uma cadeira pesada e desajeitada, deixando-o tão indefeso quanto uma ave pronta para ser assada. Então, um pensamento me ocorreu e revistei seus bolsos. Sua própria imobilidade me deixou cauteloso na busca, mas encontrei apenas algumas contas antigas de forragem e outros papéis militares, e uma carta fortemente selada endereçada "A SUA ALTEZA REAL". Eu não era jacobita o suficiente para querer roubar um despacho endereçado ao Duque Real, e teria empurrado de volta o papel e os cacarecos, não fosse pelo bater de cascos lá fora. Provavelmente era Master Freake, e eu estava particularmente ansioso para que o sargento não o visse, então corri para fora com todos os papéis na mão para antecipá-lo.
Apressando-me para o lado de fora, vi Master Freake amarrando seu cavalo ao poste da placa, e a Mistress Waynflete já falando com ele ansiosamente. Quando cheguei, ele entregou suas notícias de forma breve e direta, e eram más notícias.
Ele ficara sabendo em Stone que o Coronel fora levado novamente adiante em direção a Newcastle, sob a custódia de uma tropa de dragões de Brocton, sob o comando do Capitão Rigby, "companheiro de mesa da última noite do falecido Major", explicou ele.
"Por que motivo?", perguntou a Mistress Waynflete.
Master Freake não disse nada, mas seus olhos estavam perturbados, e eu sabia que havia algo que ele gostaria de esconder.
"Por que motivo?", ela repetiu. "Não pôde saber de nenhuma razão?"
"Disseram-me", ele respondeu lentamente, "que o conhecimento e a assistência do Coronel Waynflete seriam inestimáveis para as tropas reais."
"Disseram que meu pai se tornou um traidor! É isso que quer dizer, senhor?" Um desprezo grande demais para a raiva cobriu seu rosto, velando sua doçura como uma nuvem ígnea.
"Essa é a tradução literal do que me foi dito, devo admitir." Aqui estava a natureza grave e profissional do homem, levantando claramente questões embaraçosas que precisavam ser respondidas.
"É uma mentira perversa!", ela explodiu. Ela virou o rosto orgulhosamente para olhar nos meus, e vi que seus olhos estavam cheios de lágrimas.
"Naturalmente, madame", disse eu.
"A honra do meu pai é minha, Master Wheatman, e sou sua devedora por outra esplêndida cortesia."
"Eu argumento da flor para a árvore. Lógica masculina e, portanto, necessariamente imperfeita, você diria, mas por uma vez eu me atenho a ela." Falei levemente e de forma nostálgica, para afastar a tristeza de sua mente, e ela voltou a ser ela mesma imediatamente.
Master Freake continuou sua história, que ia de mal a pior. Como eu esperava, Bladderface cavalgara até Stone, e o resultado de sua comunicação ao Capitão Rigby fora que ordens foram emitidas para nossa perseguição, e Master Freake deixara a cidade não muito antes do esquadrão de cavalaria enviado em nossa trilha. Ele, portanto, não conseguira obter cavalos para nós, mas em Eccleshall conseguira obter uma garupa para o uso de Margaret atrás dele.
Isso era realmente embaraçoso, pois embora Master Freake tivesse cavalgado com força, a perseguição não poderia estar muito atrás, e se, como era quase certo, os dragões aparecessem no "Ring of Bells", o sargento seria libertado e estaria atrás de nós como um touro louco. Havia, contudo, uma margem de tempo disponível, e, portanto, deixei esse problema de fora da minha mente e atentei apenas para o urgente: a posição do Coronel.
Para mim, havia apenas uma explicação possível. Essa constante transferência do Coronel, sempre sob o encargo daqueles dragões patifes, comandados agora por um homem cuja familiaridade com Tixall era um mau presságio, significava apenas uma coisa. Em breve, talvez dentro de uma ou duas horas, haveria luta, e sob a cobertura disso, uma facada nas costas ou uma bala na cabeça eliminariam o Coronel do caminho de Brocton para sempre.
"Leve estes papéis, Master Freake", disse eu. "Mistress Waynflete lhe dirá o que aconteceu aqui, e você pode devolvê-los ao seu dono, se desejar. Mas não, eu lhe imploro, sob nenhuma circunstância deixe o patife lá dentro vê-lo ou ouvi-lo."
Corri para dentro, peguei o sabre do sargento e tirei seu talabarte dele, sem me importar com suas ameaças vis. Deixei-o lá, engasgando com sua imundície, desamarrei Sultan, saltei para a sela e galopei até meus amigos.
"Agora, Mistress Margaret", disse eu, "descreva seu pai para que eu o reconheça quando o vir."
Ela esboçou seu retrato em traços amplos e claros, e fixei a descrição ponto por ponto em minha memória.
"Aquela é a estrada para Newcastle", disse eu, apontando ao longo da margem do lago, "e é bastante reta e boa. Siga-me até lá o mais rápido que puder e pergunte por mim no 'Rising Sun'. Terei notícias do Coronel, se não o próprio Coronel, quando nos encontrarmos novamente."
Curvei-me para Margaret, cravei meus calcanhares em Sultan e parti como um raio.
CAPÍTULO XI
NO QUAL EU ESCORREGO
Sultan era um cavalo para um homem, longo e regular em seu passo, perfeito em ação, rápido em obedecer, felino quando necessário. Eu poderia tê-lo montado desde o dia em que o ferreiro bebeu sua cerveja de potro, pois nos entendíamos exatamente, e eu estava tão confortável em suas costas quanto em minha cama em Hanyards. Na estrada aberta no fim do lago, ele se acomodou em um trote constante e saltitante, e eu fiquei livre para pensar nas coisas ao som do ritmo de seus cascos na estrada.
Eram apenas oito ou nove milhas até Newcastle, e como os dragões viajariam lenta e cautelosamente, havia uma chance de eu chegar primeiro. Além disso, era totalmente improvável que eu fosse interferido, já que os únicos dois inimigos que sabiam que eu estava ajudando Mistress Margaret estavam indefesos atrás de mim — Brocton em Stafford e o sargento no "Ring of Bells". Eu era desconhecido na cidade, não tendo estado lá desde meus tempos de escola, e mesmo assim apenas em raras ocasiões, já que uma visita à cidade significava uma caminhada de trinta milhas em um dia.
Fazer planos era fútil. Tudo dependeria do acaso, mas se o acaso me colocasse em contato com o Coronel, seria difícil se eu não o libertasse de uma maneira ou de outra. A coisa mais esplêndida seria se eu pudesse libertá-lo antes que Margaret me alcançasse no "Rising Sun". É verdade, eu tinha apenas uma hora ou mais de sobra, mas coisas estranhas aconteciam em uma hora da minha vida, e essa grande sorte poderia ser minha. Então viria minha rica e rara recompensa — a luz em seus profundos olhos azuis e os agradecimentos trêmulos em seus lábios vermelhos e maduros.
E então um pensamento me atingiu como um golpe entre os olhos, de modo que fiquei tonto por um momento, e o dia ficou cinzento e a perspectiva vazia. Encontrar o Coronel significava perder Margaret. Pai e filha reunidos, meu trabalho estaria feito; o dia do mercenário teria terminado. Necessidade de mim não haveria. A velha vida voltaria a me reclamar, justamente reclamar, pois não era eu, embora indigna e inutilmente, o único filho de minha doce mãe, e ela uma viúva. Eu podia vê-la no cômodo da casa em Hanyards, seus olhos calmos fixos com tristeza na minha cadeira vazia. Um homem deixará pai e mãe, sim, por uma causa específica, mas o único filho de uma mãe viúva por causa nenhuma. Cristo, disse a mim mesmo, não teria ressuscitado o jovem de Naim apenas para se casar.
Ainda assim, havia o trabalho, e eu rejeitei meus pensamentos sombrios e me voltei para pensar nele. E primeiro fiz um balanço dos meus meios de ataque. Havia pistolas carregadas nos coldres, belas armas longas com coronhas de nogueira polida incrustadas com filigrana de prata e as iniciais 'C.W.', do Coronel, sem dúvida. No pomo da sela pendia uma bolsa de couro de tamanho considerável, e descobri que continha um bom suprimento de cargas. Eu era um atirador preciso, e testei minha habilidade em um portão enquanto Sultan passava voando, estilhaçando a tranca na qual mirei com precisão, o cavalo bem treinado não prestando mais atenção ao tiro do que a uma piscadela para uma moça de mercado que passava. Até aqui, tudo bem. Depois, havia o sabre do sargento, e gritei com a alegria de um garoto de escola por ter, pela primeira vez na minha vida, uma espada ao meu lado. Sobre como usá-la, eu não sabia nada, a menos que muitas lutas de bastão com Jack pudessem ser algum tipo de aprendizado na esgrima. Pratiquei desembainhá-la e, então, imitando Brocton, fiz a lâmina de quarenta polegadas girar e zumbir no ar, o que me agradou muito. Eu me sentia um verdadeiro Cavalier agora, e disse a mim mesmo que os ossos do velho Smite-and-spare-not logo estariam rangendo em seu túmulo de inveja.
E assim entrei em Meece, perguntando-me se o gordo estalajadeiro do "Black Bull" reconheceria no cavaleiro esplendidamente montado o estudante empoeirado de dez anos atrás. Lá estava ele no alpendre, intoleravelmente mais gordo, falando com meu antigo confidente, Rupert Toms, o coveiro, agora pesadamente carregado de anos e enfermidades. Esporeei, não tendo tempo a perder nem com oração nem com provisões, já que cada momento era precioso, embora uma caneca de double October, temperada com especiarias e reforçada com conhaque, também teria sido preciosa, diga-se de passagem.
No final da aldeia, onde a curva da estrada entra no reto novamente para subir a longa colina, entrei por um momento em contato com meus assuntos. Um cavaleiro estava à vista, descendo a encosta, e vi que era um oficial, um homem de meia-idade, traços aguçados, com o rosto determinado de quem cavalga em negócios urgentes. No entanto, ele deteve seu cavalo quando perto de mim e gritou bruscamente: "Que notícias de Stafford?"
Uma palavra com ele poderia valer a pena, então eu também parei e respondi muito educadamente: "É dia de mercado."
"Maldito seja o mercado! Que notícias das tropas, senhor? O Lorde Brocton ainda está lá?"
"Creio que sim."
"Então maldito seja o Lorde Brocton! Por acaso você o viu?"
"Tive essa honra tarde da noite passada."
"Algum problema com ele?"
"Ele já tinha tido o suficiente", disse eu simplesmente.
"É o que acontece quando se empurra rebentos da sua nobreza viciada em garrafas para o serviço. Maldita seja sua nobreza! Há outro deles ali atrás, tão útil quanto um velho carneiro."
"Se eu o detiver por muito mais tempo", disse eu, com doçura exagerada, "você acabará me maldizendo."
"Nada mais provável. Eu maldigo tudo e todos que não me convêm. É por isso que sou capitão aos cinquenta em vez de coronel aos trinta. E daí?"
"Lorde Brocton está a nove milhas de distância, e eu não."
"Pensa que me importo? Maldito seja você também, e lutarei com você quando nos encontrarmos novamente. Com certeza! Quem me dera ter tempo agora. Bom dia, senhor!"
Ele cravou as esporas em seu cavalo e partiu. Um homem sério e colérico com seu coração no trabalho, pelo que gostei dele, mesmo com sua insistente maldição.
Coloquei Sultan na encosta e ele manteve-se bravamente até que eu o aliviasse onde a subida era mais íngreme. Meu encontro recente claramente significava que os assuntos estavam amadurecendo rapidamente mais ao norte, e poderia também significar perigo atrás de mim mais cedo do que eu esperava. O sangue dançava em minhas veias com a perspectiva das aventuras que me aguardavam. Ah, pela vida e pelo trabalho! Levaria muito tempo até que os olhos azuis me atravessassem de novo, como quando beijei sua mão entre as árvores à beira da estrada? Olhei para o sol gelado e julguei que se passara quase vinte e quatro horas desde que eu ficara no alpendre e vira mãe e Kate atravessarem as pedras até a estrada — vinte e quatro horas que tinham feito mais por mim do que os vinte e quatro anos que as precederam, pois tinham me dado a tarefa de um homem, os pensamentos de um homem, as agitações do ser de um homem, o início da agonia de um homem.
Estávamos no topo agora, com o campo aberto estendendo-se por milhas ao nosso redor. Mas o vale abaixo, através do qual a estrada principal corria a uma milha de distância para o leste, era espesso de árvores, e eu não conseguia ter nenhuma ideia de como as coisas estavam indo. Esforcei meus ouvidos para escutar, mas nenhum som de aviso pude ouvir. O campo estava silencioso e calmo como um mar congelado, e a guerra e seus terrores pareciam tão impossíveis que, por um momento, senti como se fosse apenas uma vida de sonho que eu estava vivendo e que deveria acordar logo e ouvir Joe Braggs entoando sua canção matinal em honra de Jane. Mas Sultan esticou sua cabeça bem torneada como se perguntasse por que eu estava vadiando no ar frio e desolado; então, com um tapa alegre em seu pescoço brilhante, soltei as rédeas e ele disparou, comigo espetando fantasmas de Broctons no sabre do sargento. Através das orlas da floresta ele me carregou, e então subi novamente até que, no topo de Clayton Bank, parei-o uma segunda vez para outra observação da situação.
A pequena cidade estava agora à vista, a uma milha de distância, estendendo-se pela encosta e pelo topo de um terreno elevado. Através dos prados à minha direita, e agora claramente visível a menos de meia milha, estava a estrada principal de Stone. Novamente fiquei desapontado. Uma carroça de carga longa e rústica, puxada por oito cavalos e conduzida por um homem em um pequeno pônei ativo, gemia em seu caminho para o sul; um cavaleiro solitário trotava para o norte — e isso era tudo o que eu podia ver.
O que teria acontecido ao Coronel? Os dragões estavam na cidade ou não? Cravei os calcanhares nos flancos de Sultan e o forcei a seguir em seu melhor passo, e em poucos minutos estava nos arredores da cidade.
A cidade consiste basicamente em duas ruas. A High Street é simplesmente a parte urbana da estrada principal que vem do sul e de Stone em direção a Congleton e ao norte — a rota pela qual o Príncipe Stuart estava marchando. Ela faz jus ao nome, pois estende-se ao longo da borda da encosta na qual a cidade se situa. Paralela a ela, na depressão, fica a Lower Street, e a estrada em que eu estava contorna o final desta rua e sobe suavemente para se juntar à estrada superior. Eu poderia, assim, entrar no coração da cidade através de seu bairro mais pobre, e logo as pedras arredondadas da Lower Street ressoaram sob os cascos de Sultan.
O movimento e o barulho de Stafford estavam completamente ausentes. Os habitantes da cidade, principalmente chapeleiros de profissão, exerciam seu ofício dentro de casa como se não houvesse inimigo algum em seus portões. De fato, como soube mais tarde, não houve alvoroço, mas sim muita diversão e bons negócios quando os Highlanders realmente apareceram. Quanto mais longe uma cidade estava deles, mais os temia, o que era, como todos sabem agora, mais verdadeiro do que tudo em relação a Londres. Ao virar na viela perto de St. Giles, os sinos da igreja bateram duas horas. Atrás da igreja, na esquina entre a viela e a High Street, ficava a "Rising Sun". Uma vez que Sultan estivesse seguro em seus estábulos, eu poderia começar a obter notícias do Coronel antes que Margaret e o Mestre Freake chegassem.
Foi um trabalho árduo nos últimos trinta jardas, e Sultan sacudiu-se todo quando alcançou o nível da High Street. Aqui havia multidões de pessoas e alguns sinais de problemas a caminho. Em particular, notei os anciãos da cidade em suas vestes negras de ofício e, o mais notável de todos, o carmesim e a pele do senhor prefeito. Julguei que eles estivessem vindo de uma reunião do conselho na prefeitura, que ficava no meio da larga High Street. Havia muito debate acalorado, agitar de dedos e golpes de punho na palma da mão, mas nenhuma aproximação ao tumulto e terror da noite anterior. O Prefeito ficou por um momento conversando à porta de uma mercearia e, em seguida, entrou rapidamente. Vi-o lutando para sair de sua veste enquanto desaparecia, e inferi que o burguês-chefe era um merceeiro na vida privada.
Tanto vi antes de virar Sultan para passar sob o arco que levava ao pátio da "Rising Sun". Desmontei e chamei um cavalariço. Como ninguém apareceu, eu estava prestes a levar Sultan mais para o fundo do pátio em direção aos estábulos quando houve uma correria de pés atrás de mim, como se toda a tribo de cavalariços da "Rising Sun" estivesse apressando-se em meu auxílio. Virei-me bruscamente para me ver olhando no cano de uma pistola, enquanto três ou quatro homens se lançaram sobre mim e me prenderam contra a parede.
"Maldito seja, ladrão de cavalos, por um triz eu não estouro seus miolos", disse o Coronel Waynflete. "Segurem firme, rapazes; e você, bom estalajadeiro, traga o Mestre Prefeito e o condestável, e façam-me este canalha ser preso. Se este fosse apenas o meu comando no Reno! Eu o açoitaria e depois o enforcaria na próxima meia hora. Meu belo Sultan! Como você está, meu precioso?"
Quando um jovem inexperiente deixa a agricultura para a cavalaria andante, deve esperar curvas bruscas e quedas difíceis, mas certamente o Destino e a Fortuna estavam exagerando agora. Era o Coronel sem dúvida, e Margaret o descrevera com perfeição. Os olhos de falcão, o nariz adunco, a pele curtida, a peruca de campanha alaranjada com os cabelos grisalhos aparecendo sob a borda, a figura alta, magra e ágil, tudo estava lá. E se eu tivesse alguma dúvida, Sultan teria resolvido a questão, pois seu prazer ao encontrar seu mestre era encantador de testemunhar.
De sangue quente, eu não me importaria com uma pistola, e de sangue frio eu poderia facilmente ter me soltado dos homens que me seguravam. Mas Margaret manteve meus membros ociosos e minha boca fechada. Não havia perigo real, aliás, a menos que Margaret e o Mestre Freake não aparecessem na "Rising Sun", e não havia razão para supor que eles falhariam. O Coronel não me deu chance de falar com ele em particular, e falar com ele publicamente poderia atrapalhar seus planos. Como ele tinha chegado aqui como um homem livre, que estranha reviravolta as coisas tinham tomado a seu favor, eu não podia imaginar. Margaret estaria aqui em uma hora e resolveria as coisas, então, por causa dela, seria melhor e mais fácil não dizer nada. Simplesmente decidi que o vilão à minha direita, cujas garras sujas e hálito de cerveja estavam me deixando enjoado, teria a pior das surras antes que o dia terminasse.
O estalajadeiro apressou-se atrás do Prefeito e, tendo a notícia se espalhado, o pátio ficou cheio de pessoas assistindo à diversão e fazendo de mim um objeto de zombaria. O Coronel viu Sultan ser levado para ser cuidado e alimentado e, então, sem sequer olhar para mim, entrou na estalagem e sentou-se para sua refeição interrompida. Eu podia vê-lo claramente através da janela e admirei imensamente sua frieza. As criadas se aglomeraram para dar uma espiada em mim. As que eram velhas e feias declararam de imediato que eu estava indiscutivelmente maduro para a forca, mas uma mais jovem, de olhos atrevidos e bochechas vermelho-cereja, soprou um beijo e gritou para o hálito de cerveja tratar-me com mais delicadeza. Ele se moveu um pouco ao virar-se para sorrir para ela, e eu enterrei meu joelho em seu estômago, dobrando-o ao meio no chão. Um rapaz mais robusto tomou seu lugar, mas seu hálito era doce e ganhei muito em conforto com a troca.
A situação tinha a graça salvadora do humor. Por vinte e quatro horas, eu estive sob tensão para salvar o Coronel Waynflete de seus inimigos. Para isso, deixei mãe e irmã, e lar e terras. Para isso, saí abertamente a favor da rebelião e da traição. A espada estivera em meu peito, e o vento de uma bala agitara o cabelo de minha cabeça. Eu poderia ter poupado meus esforços. Toda essa minha agitação era por causa do homem sentado ali, desfrutando alegremente de seu jantar. Todo o meu heroísmo terminara comigo sendo preso como um ladrão de cavalos.
Fechei os olhos. Imagem após imagem surgia diante de mim de Margaret em seus humores mutáveis e sua beleza imutável. Céus! Quão barato eu tinha comprado esta galeria de memórias preciosas!
Uma multidão de rapazes se aglomerando ruidosamente sob o arco anunciava a chegada dos dignitários. Primeiro veio o bedel da cidade, um sujeito pequeno e pomposo que usava um sobretudo marrom com rendas, vários tamanhos maior do que ele, e carregava um porrete de ofício grosso como seu próprio braço, encimado por uma coroa de latão do tamanho da cabeça de um bebê. Seu cargo permitia-lhe ser corajoso a baixo custo, então, à força de cravar sua arma nas costelas de todos, por serem, como ele dizia, muito densos de espírito, ele abriu caminho para o merceeiro-prefeito, que se metera novamente em sua veste escarlate. Sua senhoria era desajeitado, agitado e incerto, e ouvia como um coelho assustado o estalajadeiro, um homem de muita conversa, que explicava orgulhosamente o que deveria ser feito.
"É este, vossa senhoria", disse ele. "Um ladrão de cavalos sujo que precisa desesperadamente de uma enforcada. Pego no ato, vossa senhoria, montado entrando neste pátio meu, grande como um touro, sentado no próprio cavalo que ele roubara de sua senhoria aqui."
Sua senhoria era o Coronel, que deixara o jantar novamente sem pressa para resolver meu caso. Posso vê-lo agora enquanto estava no degrau da porta da estalagem, tirando cuidadosamente uma migalha ou duas de seu colete e medindo o homem que ele tinha que enganar, com olhos cinzentos, claros e divertidos.
"O Prefeito da cidade, suponho", disse ele suavemente.
"Sim, vossa honra", disse o bom homem, limpando furtivamente algo, provavelmente açúcar, de suas mãos no forro de sua veste.
"E seu bedel, vossa senhoria", acrescentou o estalajadeiro, e o subordinado dentro do sobretudo saudou o Coronel com um floreio de seu bastão.
"Sou o Coronel Waynflete", respondeu ele em tons nivelados e medidos, "viajando em negócios importantes de Sua Majestade, e meu cavalo foi roubado em uma estalagem, algumas milhas atrás, além de Stafford. Não fosse pela gentileza de Lord Brocton em me fornecer outro, os assuntos de Sua Graciosa Majestade teriam ficado gravemente desarranjados. Este sujeito veio montado em meu cavalo, Sultan, há alguns minutos e ordenei sua prisão. Ele está agora nas mãos de vossa senhoria. Deixo-o aí com confiança, apenas observando, sob a garantia de muitos anos de observação em tais assuntos, que ele precisará de uma corda forte."
Ele acenou para sua senhoria trêmula e marchou de volta, lenta e calmamente, para o seu jantar.
"Isso supera briga de galo", disse o estalajadeiro admirado. Ele se esticou, feliz e visível como um chapim em um pedaço de carne bovina, e a multidão, antecipando prazerosamente canecas de cerveja mais tarde, instou o Prefeito a agir.
"O que você tem a dizer em sua defesa?" disse o merceeiro-prefeito para mim, com uma ideia vaga e tardia, talvez, de que eu poderia estar interessado nos procedimentos.
"O casaco do bedel é grande demais para ele", disse eu.
"Sim, sim", respondeu ele apressadamente. "Samson Salt era um homem grande e só tinha o casaco há três anos quando morreu, e não podíamos pagar um novo para Timothy. Meu Deus, mas isto não é uma reunião do conselho, e o que o casaco do bedel tem a ver com roubo de cavalos?"
"Tanto quanto eu", respondi gravemente.
"Você já teve o suficiente, meu rapaz", disse o estalajadeiro, "para durar o resto de sua vida. O próximo cavalo que você montar terá nascido de uma bolota. Deixe Timothy colocá-lo no xadrez, Mestre Prefeito, e venha tomar uma dose da coisa real. Por Deus, estou tão seco que minha barriga vai achar que minha garganta foi cortada."
"Prenda este homem, Timothy Tomkins, e coloque-o na cadeia até que eu possa tomar as devidas providências para o seu julgamento."
Timothy virou as mangas de seu casaco e me prendeu colocando a mão em meu braço e agitando a coroa de latão em meu rosto.
"Não me machuque, Timothy", disse eu. "Eu irei como um cordeiro, e irei devagar para que você não tropece na cauda do seu casaco."
"Se disser mais uma palavra sobre o maldito casaco, abrirei sua cabeça", foi sua resposta irritada. Era evidentemente um tópico doloroso para ele e familiar para seus habitantes frugais, pois algum homem na multidão gritou: "Não é grande o suficiente para a patroa, não é, Timothy?" E enquanto os olhos do pequeno bedel irritadiço procuravam pelo brincalhão, outro acrescentou: "Pena, pois ela é um pouco de vida fácil." Com isso, houve uma gargalhada, então poupei o oficial frenético de mais problemas dizendo: "Vamos, Timothy. Vamos para a cadeia."
Sob as ordens do Prefeito, o estalajadeiro me despojou da adaga do sargento, e Timothy me levou para a cadeia, a ralé seguindo atrás, tão cheia de tagarelice quanto um ninho de pegas. A cadeia era um pequeno prédio de pedra, situado, como a prefeitura, no meio da rua. Chegando lá, Timothy me empurrou para um buraco sujo e mal iluminado abaixo do nível da rua, trancou a porta atrás de mim e me deixou com minhas reflexões.
A única mobília do antro era um banco rústico. Uma soneca me faria bem, então, após um bom gole do precioso cordial de Kate, encolhi-me no banco e, em poucos minutos, estava profundamente adormecido. E em meu sono, sonhei que duas estrelas azuis piscavam para mim através de uma nuvem dourada.
CAPÍTULO XII
O QUARTO DE HÓSPEDES DA "RISING SUN"
Um fiapo de nuvem, um longo rastro de ouro cintilante, desprendeu-se, varreu com o toque da seda mais macia minha bochecha e me despertou pela metade. Eu estava preguiçosamente e com sono lamentando que tais carícias só viessem em sonhos, quando fui trazido bruscamente de volta à vida plena por uma risada farta.
"Zombe à vontade!" disse eu complacentemente.
"Eu sabia que você escorregaria alguma hora. Zombar! É claro que vou zombar." E ela riu novamente. Eu deveria ter suportado isso facilmente, vindo dela, sob quaisquer circunstâncias, mas havia uma circunstância que tornava isso uma alegria pura. As mãos brancas estavam ocupadas com seu rebelde cabelo amarelo, e eu estava tão tolo que esperava, de certa forma, que elas estivessem aprisionando o fiapo de nuvem dourada que me despertara. Lamentei amargamente não ser tão ágil ao acordar quanto Jack. Ele dormiria como um pernil de carneiro em um segundo e, ao toque de uma pena, estaria tão desperto quanto uma doninha no seguinte. Eu demorava — era a porcaria do latim sobrecarregando meu cérebro, ele costumava dizer — ou eu poderia ter tido certeza.
A Senhora Margaret estava empoleirada na borda do meu banco. Ela não parecia ter pressa em se mover, e eu não podia levantar até que ela o fizesse, então fiquei imóvel, embalando minha cabeça em minhas mãos, e olhei contente para ela. Estava tão escuro agora que eu evidentemente estivera dormindo há algum tempo.
"Eu sabia que você escorregaria", ela repetiu com grande entusiasmo. "Todos os homens escorregam. E estou feliz que você tenha escorregado, pois isso provou que você é humano. Eu estava ficando bastante intimidada pela precisão terrível com que você fazia exatamente a coisa certa no momento exatamente certo. Isso me fazia sentir tão pequena e inferior, e nenhuma mulher gosta disso. Não é legal."
"Ou natural", disse eu.
"Vejo que você está inequivocamente acordado, senhor!" foi a resposta ácida. Ela se levantou e deu voltas curtas pela cela e continuou: "Mas por que escorregar para a cadeia, Mestre Wheatman? Por que você não contou ao meu pai quem você era e o que tinha feito por mim?"
"E assim provar imediatamente às autoridades da cidade que ele não era quem pretendia ser!"
"Oh!" ela disse, e parou abruptamente.
"Nossa ideia era, creio eu, libertar o Coronel, se pudéssemos."
"Sim." Ela não estava mais zombando, mas pensativa.
"Bem, senhora, encontrei-o livre, e a única vantagem que vejo em seu plano é que eu teria tido-o como companhia na cadeia. Enquanto agora, consertei meu sono noturno com uma soneca revigorante, e o Mestre Freake explicou as coisas tão lucidamente ao Prefeito que Timothy do longo casaco está batendo os calcanhares no topo da escada, imaginando quanto tempo mais você vai demorar. Vamos respirar mais uma vez o ar puro, como diria Virgílio? Este buraco é tão ruim quanto um canto de seu submundo."
"E eu ri de você por escorregar, Mestre Wheatman! Nunca mais terei coragem de olhar em seu rosto."
"Não acredite nisso, senhora", disse eu alegremente, liderando o caminho para os degraus. "Já ouvi Cabeça de Cobre dizer a mesma coisa dezenas de vezes."
"Quem é Cabeça de Cobre?"
A pergunta veio como o estalo de um chicote, e fiquei feliz por a frase familiar ter escapado sem querer e a distraído.
"Nossa Kate", expliquei.
"Ah, realmente, senhor! Nenhuma mulher nesta terra possui um cabelo mais bonito, e você a chama despreocupadamente de 'Cabeça de Cobre'. Sem dúvida, você selecionou algum nome expressivo para mim!"
"Eu não me atreveria!" protestei calorosamente.
"Por que não? Você faz isso por ela, descarada e licenciosamente."
"Sim, senhora, mas ela é minha irmã."
"Como isso me garante alguma coisa?"
"A irmã de um homem não é uma mulher", disse eu, e segui em frente e empurrei a porta. Lá, com certeza, estava Timothy, parecendo muito incerto e pesaroso. A complacência do homenzinho tinha me dado a maior surpresa da minha vida — a vigília silenciosa de Margaret sobre mim enquanto eu dormia, e eu dei a ele uma guinéu com muita alegria.
"O casaco é grande demais para você, Timothy, e não adianta negar. Falarei com sua senhoria sobre um novo do comprimento certo."
"Obrigado, senhor", disse ele, sorrindo estupidamente enquanto guardava a guinéu. "Eu preferiria um casaco novo do que uma patroa nova, e, por Deus, preciso de ambos."
Margaret juntou-se a mim e imediatamente seguimos para a "Rising Sun". O trabalho do dia tinha terminado, e a rua estava agora ficando cheia e barulhenta. Muitos olhares curiosos se voltaram para nós, mas ninguém ousou interferir com um homem de minha má reputação, sendo um ladrão de cavalos o último dos desesperados. Tínhamos apenas algumas jardas para percorrer, mas minha senhora me avisou em sussurros doces que a explicação do Mestre Freake era que Sultan tinha sido obtido inocentemente do verdadeiro ladrão, que eu era seu servo e, não sabendo do negócio de cavalos, tinha mantido silêncio lealmente para não causar problemas — uma versão feliz e razoavelmente verdadeira dos fatos reais.
"Depois de sua conversa particular com o Mestre Prefeito", acrescentou ela, "os joelhos daquele homem digno foram tão exercitados quanto as dobradiças da porta de uma taverna."
"O pobre covarde não passa de um merceeiro", disse eu, enquanto entrávamos sob o arco da "Rising Sun". O estalajadeiro nos viu pela janela da cozinha e correu para nos receber com a segurança de um cata-vento de latão.
"Algo como uma libertação da prisão, eh, vossa honra? Por Deus, se eu não roubaria cinquenta cavalos para ser tirado do xadrez por uma dama tão bela, pedindo perdão a vossa senhoria."
"Ela o tirará de lá", disse eu, azedamente, "quando você for preso por não roubar."
"As ordens de vossa honra são uma lei para sua serva", disse Margaret, recatada e friamente, dirigindo-se a ele, mas mirando diretamente em mim. Seu tiro me jogou para fora da água, e fiquei ali engasgando como um idiota nato. "Maldito seja, você nunca vai se livrar de seus modos de camponês?" disse eu comigo mesmo. Foi como se eu tivesse dito ao sargento, falando de Jane: "Ela servirá uma caneca de cerveja para você". Fiquei totalmente perplexo e me senti tão desconfortável quanto um lagostim fervendo, mas, felizmente, o tagarela veio em meu auxílio e afogou minha confusão em um dilúvio de palavras.
"E tudo o que ele disse, vossa senhoria, foi que o casaco de Timothy era grande demais para ele. Por Deus, superou briga de galo, superou. Por Deus, superou. Nunca vi um homem tão atordoado quanto o Prefeito, mas ele superou bem e foi para casa, bom homem, com uma fisgada nas costas e quase meio litro do meu melhor conhaque na barriga. Quando esses selvagens Highlanders chegarem, ele está preparado para fazer-lhes um grande discurso na ponte ali, e se isso não os assustar, nada assustará, e minhas adegas ficarão tão mal cheias de cerveja quanto o casaco de Timothy está de músculos. Estou preparando o melhor jantar na estrada de Chester para vossa honra, e isso fará com que você se sinta tão ousado quanto seis pence entre seis pence em moedas. Mas vamos lá, vossa senhoria. O Coronel está lá em cima. Siga-me!"
As palavras corriam dele como cerveja de um barril atingido. Ele continuou a tagarelar incessantemente no caminho para cima, e tagarelou tão corajosamente quanto sempre ao nos conduzir para a sala, onde o Coronel nos aguardava sozinho.
"Aqui está ele, vossa senhoria", disse ele ofegante. "Aqui está o cavalheiro que não roubou seu cavalo. Mas é melhor ficar de olho nele, conforme meu aviso. Ele ainda vai roubar algo seu antes de terminar."
O Coronel, que aquecia os pés diante de uma lareira crepitante, levantou-se enquanto eu seguia Margaret em sua direção. Ele fez-me uma reverência precisa e formal, a qual imitei ao modo de um camponês. "Este é o Mestre Oliver Wheatman de Hanyards, pai", disse Margaret, num tom tão baixo que o estalajadeiro, que ainda pairava com a mão na maçaneta da porta a quase doze passos atrás de nós, não poderia tê-la ouvido.
"Prazer em conhecê-lo, senhor", disse ele, repetindo a reverência.
"A honra é minha, senhor", respondi, repetindo a minha, enquanto me perguntava se algum dia aprenderia a curvar-me como um salgueiro em vez de como uma boneca articulada.
"Não, eu protesto, senhor." Isto foi dito com suavidade para mim; então, dando um passo rápido em direção ao estalajadeiro, ele trovejou: "Maldito sejas, homem, vai para o lado da porta que cabe ao dono da estalagem, ou eu a derrubarei sobre tuas orelhas preguiçosas. Pelos diabos! Já mandei fuzilar um estalajadeiro por menos na Renânia."
"Esses tais 'estrangeiros'..." começou o estalajadeiro, mas o Coronel soterrou-o com algo de que não pude entender nada, exceto que era uma tentativa bastante bem-sucedida de falar e espirrar ao mesmo tempo. Isso liquidou o estalajadeiro, que se retirou, derrotado com sua própria arma. O vencedor, esperando até que a porta estivesse fechada, caminhou na ponta dos pés até ela e escutou com atenção.
"Um traço bastante interessante sobre o papai", sussurrou Margaret com malícia nos olhos, "é que, quando ele está irritado, pragueja em francês, e quando está furioso, excomunga em alemão."
"Arredondando com elegância as realizações da filha", disse eu.
"E como, senhor?"
"Que zomba em inglês e ama em italiano."
Ela me apunhalou com o olhar e disse: "Seus serviços não lhe conferem privilégios, senhor."
"Eu sei disso, madame, mas minha condição de caipira confere."
Falei com leveza, mantendo a amargura do meu coração longe da voz, embora ela tivesse aflorado em meu discurso. Posso ter me enganado, iludido pela luz bruxuleante da lareira, mas a raiva pareceu derreter-se em seus olhos.
O retorno do Coronel pôs fim ao nosso duelo.
"A vida militar", disse ele, "são nove décimos de cautela e um décimo de diabrura. Aquele idiota tagarela tem orelhas compridas para combinar com sua língua comprida. E agora, senhor, deixe-me cumprimentá-lo como devo."
Ele agarrou minha mão, apertou-a calorosamente e continuou: "Os agradecimentos de um pai, Mestre Wheatman, por sua gentileza com minha Margaret. Daqui a pouco ela me contará a história toda, mas já sei que o senhor é um cavalheiro galante a quem terei a honra de transformar num bom soldado, e nem anjo, nem homem, nem diabo poderiam lhe dar uma recompensa mais justa."
O elogio e a promessa estavam muito além de qualquer mérito ou esperança que eu tivesse, mas disse com ousadia: "Não sou um cavalheiro, sou apenas um yeoman simples, de poucas terras, que tentou servir à sua filha..."
"Tentou?" ele bufou. "Tentou, de fato! Sou soldado, entre homem e menino, há quarenta e tantos anos, e, pelos diabos, nunca vi trabalho melhor." Ele passou os olhos por mim de cima a baixo e, virando-se para Margaret, continuou: "Pela barba do profeta, Madge, o Mestre Oliver Wheatman de Hanyards é uma vasta melhoria em relação ao Barão."
Margaret corou delicadamente e cobriu apressadamente a boca dele com os dedos.
"Se você se atrever, papai, não lhe darei um beijo de boa noite."
"Maldito seja", disse ele, soltando-se e sorrindo para mim com deleite. "Isto é um motim em regra. Por favor, note, Mestre Wheatman, o olhar de 'preparar para receber a cavalaria' nos olhos dela! A última vez que a perdi foi em Hanover, e ela se reencontrou comigo, se me permite dizer, em Dresden."
"Magdeburg, seu velho pai caluniador", disse Margaret, fazendo bico.
"É verdade", disse ele com sinceridade, cedendo ao ponto. "Escoltada por, ou escoltando, nunca soube bem qual, um gordo barão alemão de quase um metro e meio de altura, que me suplicou que a chicoteasse para forçá-la a casar com ele."
"O senhor atirou nele?" perguntei, com tanta energia que o bico de Margaret se transformou em um sorriso.
"Deus me livre, não", disse ele, fingindo bocejar. "Deixei-o para a Madge, pobre rapaz! Espero que o senhor tenha lhe dado toda a satisfação, Mestre Wheatman."
"Ele não deu", disse Margaret prontamente. "Ele passou tempo demais tentando me colocar no que ele considera meu devido lugar."
"Meu amigo", disse ele para mim com gravidade, "o senhor está prestes a ter uma vida de cão."
"O senhor está certo sobre a vida, pai, mas errado sobre o cão. Adeus até o jantar, seu detestável retalhador da reputação de sua filha!"
Dito isto, ela beijou-o em cada face, sorriu para mim e nos deixou.
"Gostaria de lavar de mim a sensação de prisão", disse eu ao Coronel.
"Certo", respondeu ele, olhando para o relógio. "Você tem apenas meia hora. Acho a Inglaterra irritantemente pacífica e cumpridora das leis depois do Continente, mas por uma vez fico feliz com isso. Eu ficaria terrivelmente vexado se o tivesse enforcado, e Madge também não teria gostado."
Ele tinha uma voz grave, como a de um juiz, e um olhar rápido e atrevido, como o de uma gralha. Exteriormente, ele era tão diferente de Margaret quanto o cabo de uma lança é diferente de um lírio, mas eu já via o espírito dela nele.
"Senhor", disse eu, "quando eu estiver fortalecido por um bom jantar, arriscar-me-ei a indicar minhas preferências sobre o assunto."
Ele tirou sua tabaqueira, bateu nela com cuidado, abriu-a e estendeu-a para mim.
"O senhor começou bem, rapaz. Ouvi dizer que é um grande estudioso, latim e tudo mais, na ponta da língua. Diabos, senhor, esses antigos compreendiam as coisas. Sabiam como honrar os deuses, pois faziam deles soldados e os punham a lutar nas nuvens. Isso sim é divindade! O senhor tem vinte e oito minutos."
Ri e deixei-o.
O quarto onde ocorreu minha apresentação ao Coronel ficava imediatamente acima do arco de entrada. Sua janela dava para uma sacada que, sustentada por vigas grossas de carvalho, ficava sobre a passagem da rua; sua porta ficava em um corredor que levava de uma ala da casa à outra, e no corredor havia três janelas de treliça com chumbo de vidro esverdeado, abundantemente salpicadas de bolhas e nós, voltadas para o longo pátio da estalagem. O quarto estava, portanto, admiravelmente situado para pessoas em nossa posição precária, tendo vigia para trás e para a frente, e uma rota de fuga para a direita e para a esquerda.
A moça de bochechas coradas que me atirara o beijo passava apressada pela porta quando a abri. Ela me disse que estava servindo a "milady" e prontamente me conduziu a um quarto, trazendo-me as coisas de que precisava para minha lavagem, entre elas uma navalha aceitável e uma toalha de linho áspero capaz de arrancar o couro de um cavalo.
"Dê-me agora o beijo que me atirou", disse eu, quando ela se virava para sair.
"Não, senhor", disse ela. "O senhor não está mais em apuros e não precisa dele."
"Moça", disse eu, "essa é uma resposta bem feminina, e aqui está algo para comprar uma fita que seja digna de você." E dei-lhe uma das guinéus do falecido Major.
"Obrigada, senhor", disse ela. "E, além disso, não há necessidade de o senhor beijar gente como eu."
"Você é uma moça docemente bonita", disse eu.
"O senhor não quer ficar por aí atrás de moedas quando há guinéus a serem colhidos", respondeu ela, com um movimento de cabeça. "Por Deus, às vezes desejo não ser tão bonita. Há alguns homens, abençoado seja o senhor, eu mesma conheço um, tão tolos que pensam que uma moça bonita não quer ser beijada. Mas, certamente, nunca houve nada como a milady em Newcastle no meu tempo. Terei uma fita no domingo o mais próximo possível da cor e do brilho do cabelo da milady que o dinheiro possa comprar, e Sal desejará nunca ter nascido. Eu a verei."
Com esta terrível ameaça, ela saiu rebolando do quarto, e eu ri e me perguntei quem e o que seria "Sim". Um sujeito decente e um bom comerciante, esperava eu, e desejei-lhe coragem e sorte.
Enquanto me arrumava, minha mente estava ocupada com o estranho emaranhado em que as coisas haviam se metido. O misterioso Mestre Freake, após transformar o Prefeito em seu instrumento dócil, aparentemente desaparecera. O Coronel não soltara uma palavra de explicação e parecia sentir-se tão seguro que perdia tempo na cidade como se nenhum inimigo estivesse por perto. Sobre o estado das coisas na própria cidade, eu nada sabia. A única coisa clara era que eu enfiara o pescoço diretamente na corda, e Brocton poderia, e iria, puxar com força na primeira oportunidade. O que importava tudo isso? O que importava qualquer evento ou resultado adverso? Eu ia ser soldado e, à moda da moça de bochechas coradas apaixonada, disse a mim mesmo: "Eu serei o seu Jack!" Eu estaria perto de Margaret e, assim regozijando-me, lembrei-me do infeliz romano: "Infelix, properas ultima nosse mala." E o que isso importava também? Esfreguei-me até ficar com a cor de um tomate, cantarolando enquanto isso canções antigas há muito expulsas da minha cabeça pelo lixo latino. Jack estava certo. É claro que era lixo. "Ao diabo com o latim", disse eu alegremente. "Nada conta além da vida e do amor."
Havia mais do que um toque de fanfarronice em mim enquanto voltava para o corredor que dava para o pátio. Chegando lá, abri cautelosamente a treliça mais próxima e olhei para fora. O pátio da estalagem estava escuro e silencioso, e eu estava prestes a fechar a janela quando ouvi o tropel de cascos no pavimento de pedra sob o arco. Um momento depois, um homem a pé surgiu à vista, seguido para o pátio por dois homens a cavalo, um deles encarregado de um cavalo de sela.
Imediatamente, tudo foi agitação. Cavalariços correram com lanternas, e o estalajadeiro veio à frente, com vela na mão e uma multidão de palavras na língua, para ordenar as coisas corretamente.
O homem a pé era o Mestre Freake, e estava claro que os cavaleiros eram homens dele, pois ouvi-o perguntar-lhes se estavam bem cientes de suas instruções, e ambos responderam respeitosamente que estavam. Pude ver que portavam espadas e que seus cavalos eram animais esplêndidos e poderosos, não muito inferiores ao próprio Sultão. Quem e o que era este homem — "simples John Freake", como ele mesmo se chamava —, que carregava grandes somas de dinheiro, dominava burgueses e prefeitos convencidos, que era servido por cavaleiros tão bem equipados, a quem o Mestre Dobson, um homem do parlamento, temia, e que o Lorde Brocton achara que valia a pena tentar eliminar?
Era um enigma que eu não conseguia decifrar, mas enquanto estava ali, olhando pela treliça entreaberta a cena abaixo, eu estava mais feliz do que jamais estivera em minha vida. "Pobre velho Jack", disse a mim mesmo, "suando e praguejando por causa de seus dragões maltrapilhos, e aqui estou eu, que o invejava ontem de manhã, no topo da escada da vida."
"Nós vamos perder se estivermos atrasados", disse a Srta. Margaret brincalhona ao meu ouvido. "Não porque o papai se preocupe se come ou não, mas porque ele é muito rigoroso com a dis-ci-pli-na mil-i-tar." Escrevo as palavras assim, como uma pobre imitação em papel do jeito afetado que ela podia dar à sua fala, o que sempre foi um de seus encantos. "Você teria se beneficiado", ela continuou, "de uma criação com o chicote de um sargento de tropa. Veja o que fez por mim!"
Assim, ela me desafiou a admirá-la, e de fato penso que a bruxa estava verdadeiramente determinada a lançar um feitiço sobre mim. Palavras nenhumas podem pintá-la como ela estava no corredor mal iluminado, a soma infinita da feminilidade, sem par em cada graça e dom; não mais a tensa e orgulhosa Margaret da reprimenda rápida e do sarcasmo devastador, mas a companheira alegre, confiante e grata de nossa escapada de menino e menina.
"Acho que a senhora tem razão", disse eu. "Bloggs, o bom e velho sujeito, chicoteou o significado de Virgílio para dentro de mim, mas gostaria que ele tivesse chicoteado um pouco do significado da vida junto. Sinto-me tão impotente quanto Saul se sentiria com a funda e as pedras de Davi."
"Você é como alguém lutando contra um Golias?"
"Sou", disse eu, incapaz agora de falar com leveza, e não ousando olhar para ela. Poderia haver empreitada mais desesperadora do que aquela que meu coração, contra todos os esforços do senso e da razão, começava a me impor? Pela treliça aberta, observei o cintilar das lanternas no pátio, onde os cavalos eram levados para as baias.
"O senhor me fará a gentileza de me escoltar até o jantar", disse Margaret.
Isso me trouxe de volta a mim mesmo com um solavanco. Fechei a treliça, ofereci-lhe meu braço e caminhamos em direção à sala de visitas onde o Coronel nos aguardava.
"Acho melhor você revisar seu conhecimento das Escrituras, Mestre Oliver", disse ela muito calmamente enquanto eu a conduzia para a sala.
"A que respeito, Srta. Margaret?"
"Você parece ter uma lembrança imperfeita da maneira como Golias encontrou a morte. É inútil dizer que estamos atrasados, papai, quando o jantar ainda não foi servido."
Ele explodiu em palavras que não entendi. "Está tudo bem, apenas francês", sussurrou Margaret maliciosamente. "Significa 'nome de um cão'. Eu mesma saberia xingar melhor."
"Isso mesmo", trovejou o Coronel. "Tão rápido quanto eu praguejo a vida militar em um ouvido dele, você a convence a sair pelo outro! Ficarei grato quando você estiver sob a asa da Madre Patterson em Chester."
A chegada da moça de bochechas coradas e uma das criadas de rosto severo com o jantar, seguidas pelo nosso estalajadeiro com o vinho, seguidas por sua vez pelo Mestre Freake, puseram fim à minha primeira lição de vida militar e à riqueza imprecatória das línguas continentais, e imediatamente o estalajadeiro transbordou em desculpas pelo atraso em servir o jantar.
"As coisas estão um pouco confusas na cidade, o senhor deve saber", disse ele, "e toda moça na 'Rising Sun' tem sido um diabo desenfreado o dia todo. Esta criatura de rosto vermelho aqui, quando foi chamada para pôr a mesa, estava fora para ver se aquele Sim de pernas finas na casa do Prefeito estava são e salvo. E além disso, milady e vossas senhorias, o famoso pudim de bife com rins da 'Rising Sun' deve ser fervido até borbulhar ou ele não presta. Se um estragasse, a notícia correria até Chester e Londres em pouco tempo, e o 'Red Lion' levaria todos os meus clientes. Sua Graça de Kingston hospedou-se no 'Red Lion' em toda a sua inocência até que sua senhoria, por causa de uma velha amizade e uma garrafa de conhaque, o atraiu para cá para um de meus pudins. Ele começou a um centímetro da mesa e comeu até tocar nela, como dizemos em Staffordsheer, e então mandou buscar sua bagagem, e tem dormido aqui desde então no grande quarto sobre vossas cabeças, e estou pensando em chamá-lo de Quarto do Duque e cobrar seis pence a mais por ele. Vale outros seis pence dormir na mesma cama que um duque dormiu. Se não vale, por Deus, eu gostaria de saber o que vale. Maldito se o senhor consegue saber olhando para ele."
O que, por conveniência, registrei aqui como um discurso contínuo dirigido a todos nós, foi na verdade uma série de observações dirigidas a quem quer que nos parecesse estar ouvindo no momento, e interrompidas por ordens, repreensões e ameaças dirigidas às mulheres. O final de suas observações me fez levantar a orelha, pois indicava que estávamos no centro da zona de perigo.
"Se eu fosse o senhor", interveio finalmente o Mestre Freake, "eu convenceria o Príncipe Charlie a dormir nele e então cobraria um xelim a mais. Um príncipe, e minha aversão aos modos dele não o torna menos príncipe, certamente vale o dobro de um duque."
"Que me ajude Deus", gritou o estalajadeiro encantado, batendo na coxa com grande alegria, "isso seria melhor que um assassinato. É maravilhoso como um assassinato ajuda uma casa. Veja a 'Quiet Woman' de Madeley. Houve um assassinato lá, e foi um assassinato de quinta categoria, nada mais do que um falsificador cortando a garganta de um fabricante de vassouras; pobre moça, ela morava lá em cima na Higherland, e aposto que valeu vinte e dois barris de cerveja para o velho Wat. Um assassinato é pura providência para um pub..."
"Maldito seja, saia daqui", vociferou o Coronel, "ou eu fornecerei o assassinato e você o cadáver."
A refeição, diga-se de passagem, era muito boa em todos os sentidos. Não sou homem de desprezar meu estômago, e não concordo com aqueles que o fazem. Há coisas melhores na vida do que pudins de bife com rins, mas minha experiência é que elas exigem muito esforço para serem encontradas. O Coronel não queria ouvir falar de nossos assuntos até que o jantar terminasse. "Suponho que vocês estejam todos ansiosos para saber o que tenho feito e o que vamos fazer", disse ele para mim. "Isso porque você é um jovem em tudo e um mero bebê de colo na vida militar. Quando você tiver um mês de campanha, saberá que as únicas coisas que realmente valem a pena se preocupar são o jantar e a cama."
Para minha grande satisfação, ele imediatamente caiu de cabeça em uma discussão com o Mestre Freake, algo sobre subsídios para barcos de arenque, se bem me lembro, e Margaret e eu fomos deixados um ao outro, e foi um deleite raro ouvir sua conversa animada e observar sua beleza radiante.
Por fim, com quase um suspiro de satisfação, e então com um brilho de malícia nos olhos, ela disse: "O pudim estava muito bom, mas prefiro presunto com ovos, desde que a pessoa certa os cozinhe."
"Eu concordaria", respondi, "com uma outra condição."
"A saber", disse ela, com uma taça de vinho a meio caminho dos lábios.
"Que a pessoa certa os salve de serem reduzidos a cinzas."
Ela bebeu seu vinho calmamente e então, inclinando-se para a frente até que o brilho de seu cabelo amarelo me fizesse estremecer, sussurrou calmamente: "Oliver, você é um bruto."
"Não, madame", disse eu, "apenas um caipira."
Ela olhou para mim novamente como olhara quando eu beijara sua mão sob os espinheiros.
"Olá, por aí", interrompeu o Coronel, dirigindo-se a mim, "quem estava certo sobre a vida de cão?"
"Eu estava, é claro", disse Margaret prontamente.
O estalajadeiro foi chamado, seu jantar elogiado à exaustão, a mesa limpa e uma xícara de chá pedida para Margaret. Lembrando-me da espada do sargento, que poderia ser útil, pedi ao estalajadeiro que a trouxesse, e ele o fez.
Quando ficamos novamente a sós, o Coronel pegou a espada e examinou-a com seus olhos habilidosos e mãos treinadas.
"Um tanto pesada", disse ele, "mas bem equilibrada e bem feita, e do aço mais puro. Você é espadachim, Mestre Wheatman?"
"Nunca tive uma na mão em minha vida até hoje", foi minha resposta.
"Cinge-o para as guerras, Margaret", disse ele. "Tantas das antigas regras e costumes da cavalaria quanto puderem ser observadas nestes dias mecânicos, serão, por nós pelo menos, observadas. Por lei estrita, você deveria ter passado uma noite em oração e jejum, mas seu leal serviço a Margaret é um bom equivalente. Trabalhar é orar, dizem os padres, e, meu rapaz, lembre-se sempre em sua vida militar que um homem com tal espírito pode oferecer uma poderosa oração entre o puxar do gatilho e o lampejo da escorva. Ajoelhe-se, Oliver, e aos olhos de Deus você será mais verdadeiramente sagrado cavaleiro do que qualquer saltitar e tagarelar do Jorge alemão poderia conseguir."
E assim, na sala de visitas da "Rising Sun", ajoelhei-me para minha doce senhora e, diante de Deus e na presença de Christopher Waynflete, Coronel de Cavalaria a serviço do Rei da Suécia, e John Freake, cidadão de Londres, Margaret, grave e serenamente bela, tocou meu ombro com a espada e então cingiu-a sobre mim.
"Senhores", disse ela, dirigindo-se ao pai e ao Mestre Freake, "o reconhecimento nunca foi dado a alguém mais digno." Então, curvando-se rapidamente como uma andorinha mergulha em seu voo sobre os prados, ela sussurrou enfaticamente em meus ouvidos: "Não sejas mais um caipira!"
CAPÍTULO XIII
AS VACAS DE FARAÓ
"E agora, aos negócios", disse o Mestre Freake.
"Ao prazer, senhor", disse o Coronel. "Os negócios terminaram."
Ele estava enchendo seu cachimbo sem pressa, um exemplo que Margaret, com um sorriso e um aceno, deu-me permissão para seguir.
"Conte-nos como você escapou", disse Margaret. "O Mestre Wheatman não pode começar cedo demais a aprender os truques do ofício. Desculpe, papai", curvando-se para beijar sua mão; "não precisa me olhar em alemão. Refiro-me aos rudimentos da profissão."
"Uma mulher que chama a vida militar de ofício deveria ser forçosamente casada com um padre", disse o Coronel apaixonadamente.
"Haverá uma quantidade razoável de padres para escolher em Chester", retrucou ela, rindo na cara dele.
"Chester? Por que Chester?" exigiu o Mestre Freake, subitamente tenso e vigilante.
"Não preciso nomear, mas a esposa de um certo dignitário ali, uma de nossas apoiadoras, encarregou-se de tomar conta dela enquanto este assunto estivesse em curso", explicou o Coronel.
O Mestre Freake, ao que me pareceu, ficou desapontado com a explicação e, sabendo que o que Margaret queria era que o boato da pretendida traição de seu pai fosse feito em pedaços pelo seu próprio relato, eu disse: "Só há um pastor na Inglaterra apto a olhar para a Srta. Margaret, e ele tem sessenta anos e é casado. Deixe-me aprender, rogo-lhe, senhor, a arte de escapar das mãos de um esquadrão de dragões em uma estrada cheia de soldados."
"Se você acha que vai ouvir um conto que o fará agarrar os braços de sua cadeira, terá uma triste decepção. Ontem e durante toda a noite, eles grudaram em mim como se Geordie tivesse oferecido trinta mil libras por mim, vivo ou morto, mas esta manhã a vigilância deles sobre mim afrouxou. Podem ter pretendido que eu escapasse. Fui colocado em um cavalo novo, quase o melhor que eles tinham; o dragão encarregado de mim estava três quartos bêbado quando começamos; nos misturamos em uma multidão de soldados de infantaria recuando para o sul, nos separamos do nosso corpo principal e, encontrando-me sozinho na estrada com um homem, e ele bêbado, simplesmente derrubei-o do cavalo e segui pelos campos."
"Cavalguei até conseguir avistar esta cidade, e a estrada principal que leva a ela, do topo de uma colina, e observei por uma hora ou mais para ver o que estava acontecendo. Sabia pelo meu ritmo que estava bem à frente da minha última escolta e, não vendo sinais deles, vim para esta estalagem e estava desfrutando de um bom jantar quando vi o Sultão e Oliver montado nele. O resto você sabe. Não é um grande conto. Madge já fez melhor muitas vezes."
"Você realmente acha que o Capitão pretendeu que você escapasse?" Foi Margaret quem fez a pergunta, olhando atentamente para mim enquanto falava.
Olhei dela para o Mestre Freake e de volta, querendo lembrá-la de que eu não precisava ser convencido, mas ela ainda mantinha os olhos nos meus, o queixo apoiado em suas longas mãos brancas, e eu fiquei grato pela sua insistência, pois podia olhá-la sem ofensa. Achei que a luz suave da lareira a deixava mais bonita do que nunca. O cabelo amarelo lustroso brilhava como ouro derretido, e os olhos azul-escuros tornavam-se um púrpura real.
"Se foi feito de propósito, foi feito com astúcia", continuou o Coronel, "pois a chance que me libertou surgiu de forma bastante natural. O cavalo que montei ontem foi solicitado da maneira habitual por um soldado a quem pertencia, e onde tantos homens estavam mais ou menos bêbados, a escolha do meu bêbado em particular foi certamente acidental. E, além disso, que motivo possível poderia haver em me deixar escapar? Brocton sabe que sou um soldado experiente de grande reputação — afirmo fatos puros — e sou ansiosamente esperado pelo Príncipe e pelo meu antigo companheiro de armas, Geordie Murray. Eles não poderiam ter planejado melhor se tivessem desejado, mas é absurdo dizer que desejaram. Deve haver um capitão destituído e um dragão meio esfolado em algum lugar ao sul de nós. Diabos, eu mereço pelo menos isso."
Ele se inclinou sobre a lareira para reacender seu cachimbo. O Mestre Freake sorriu e esfregou as mãos suavemente. Os olhos de Margaret brilharam em triunfo e desafiaram-me, ainda a mim, a compartilhá-lo. A lógica feminina estava completamente além da minha pobre inteligência. Eu estava ansioso por ação. Esses interlúdios gloriosos com Margaret não me davam chance. Era como me incendiar e pedir-me para não queimar.
Pensando no pobre diabo meio esfolado atrás de nós, lembrei-me do sargento e perguntei ao Mestre Freake: "Você entregou ao sargento seus papéis e a carta?"
"Não", foi a resposta pronta. "Os papéis tratavam de forma bastante franca de certas contas regimentais e, como o sargento está agora muito amargamente contra nós, podem ser úteis em minhas mãos. Eu tinha uma noção clara de que a carta dizia respeito ao título de certas terras sobre as quais o Lorde Brocton e eu estamos em desacordo e, ao abri-la, descobri para minha satisfação que eu estava certo. Com sua permissão, Oliver, eu a guardarei."
"Com certeza, faça isso", disse eu, ansioso por queimar novamente, e voltando-me para Margaret. Se este homem silencioso e capaz, um estranho tão distante e ainda assim um amigo tão claro, tivesse dito que a carta era sobre uma nova edição de Virgílio, eu teria acreditado nele e, temo, também teria ficado igualmente desinteressado. Latim que vá para o inferno!
"Algo para você no chapéu mágico de Oliver", disse Margaret sorrindo para o Mestre Freake. "Ele realmente precisa buscar algo para si mesmo em breve. Staffordshire é, de longe, o condado mais encantador em que já estive. Apenas um pequeno dia se passou, e nesse dia Staffordshire me deu amigos mais verdadeiros do que a Europa me deu em dez anos. Cruzarei suas fronteiras com pesar. Devemos aproveitar ao máximo enquanto estamos aqui e dormir aqui, papai?"
"A menos que sejamos expulsos", foi sua resposta, "e não creio que seremos, pois o inimigo já se retirou da cidade. Cumberland está, é claro, fazendo a coisa certa. Ele tinha poucos homens ao norte de Stafford, e menos ainda que valessem pólvora e chumbo. Onde o Príncipe está, não tenho ideia."
"Descansando o dia em Macclesfield", disse o Mestre Freake, "e seus planos não são certos, ou, pelo menos, não são conhecidos. O Duque de Kingston tem um pequeno corpo de cavalaria em Congleton e está vigiando seus movimentos."
"Diabos", interrompeu o Coronel, "eu não sabia que tínhamos inimigos ao norte de nós. Você tem certeza?"
"Certo. Um dos meus homens relatou os fatos para mim logo antes do jantar."
"É incômodo, ou melhor, será incômodo se alguém que me conhece aparecer. Aquele estalajadeiro canalha deve ter sabido onde Kingston estava, mas, em meio a toda a sua conversa, ele nunca me disse isso. Diabos, alguém o pegou. Ainda assim, você não pode pegar o touro pelos chifres até que o focinho dele esteja babando no seu colete, então passe o vinho, Oliver."
Ele encheu seu copo novamente e então, vagarosamente e com os olhos sonhadoramente fixos no fogo, carregou seu cachimbo com uma nova porção de tabaco e continuou a fumar.
"Você é um jacobita?" perguntou Margaret subitamente, olhando de forma inquisitiva para o Mestre Freake.
"Meu Deus, não, Srta. Margaret", foi a resposta franca. "Mas você não precisa franzir esses lábios doces, pois também não sou um hanoveriano."
"Então, o que você é?" ela perguntou novamente, com a mesma franqueza intransigente.
"Um Freakeiteiano", disse ele com um sorriso.
"Isso me confunde", foi seu breve comentário.
"Deixe-me explicar", disse ele simplesmente. "Um jacobita quer que Charles vença; um hanoveriano quer que George vença; um Freakeiteiano quer saber quem vai vencer."
A essa altura, Margaret não estava mais confusa do que eu. Ontem, quando fiquei na margem do rio observando minha boia, eu não dava a mínima se George ou Charles vencesse, e essa era uma posição compreensível; mas por que um homem deveria estar gastando dinheiro aos punhados e vivendo com dificuldade nas terras selvagens de Staffordshire apenas para saber quem iria vencer, estava além da minha pobre inteligência.
"Você não entende?" disse ele.
"Não", dissemos Margaret e eu juntos.
O Coronel não notou. Ele estava baforando seu cachimbo, baforadas longas e solenes, e olhando para o fogo em um devaneio profundo.
"Bem, Margaret e Oliver", disse o Mestre Freake, "este não é momento para dar-lhes lições sobre como o grande mundo gira, um mundo que não conhece nem se importa com entradas e saídas e disputas partidárias, mas que se ocupa com aluguéis e colheitas, com recebimentos e gastos, com dívidas e créditos, com casamentos e prosperidades. Mas, acreditem em mim, ao estar ansioso para saber quem vai vencer, estou tão clara e simplesmente cumprindo meu dever quanto o Coronel, que fará o seu melhor para ajudar seu Príncipe a vencer. Sou um, e agradeço a Deus, não o menor, daquela grande raça de homens que estão destinados a moldar uma Inglaterra mais poderosa do que a espada jamais poderia esculpir — o mercador de Londres, cujo aceno é sua palavra."
Ele falou com dignidade simples e sua palavra foi estabelecida. Eu confiei nele à primeira vista. "Seu aceno era sua palavra." Você via isso nos olhos claros e firmes do homem e sabia pelo formato de seu queixo firme e quadrado. Após um olhar de advertência ao Coronel silencioso, ele se inclinou para frente, e Margaret se curvou para encontrá-lo.
"Se Charles perder", murmurou ele, "muitas cabeças serão cortadas de seus ombros."
A cor deixou suas bochechas instantaneamente e lágrimas brotaram de seus olhos.
"Mas não a do Coronel", sussurrou ele.
Eu a observava com o olhar de um falcão. Um sorriso surgiu no rosto branco, os olhos tristes começaram a perder sua melancolia, e meu coração tolo começou a palpitar.
Ainda mais uma vez ele sussurrou: "E não a de Oliver."
Ela se inclinou ainda mais para frente e o beijou.
E foi exatamente nesse momento que a porta se abriu agilmente e Cherry-Cheeks colocou sua cabeça doce para dentro e, rápida e peremptoriamente, fez-me um sinal para sair.
Margaret riu.
No corredor escuro, Cherry-Cheeks agarrou minha mão, assustada, e balbuciou: "Oh, senhor, há a besta mais feia que o senhor já viu espionando sua senhoria. Tire suas botas, senhor, e rasteje atrás de mim!"
Eu as arranquei e começamos. Ela voou pelo corredor e subiu as escadas para o corredor correspondente acima. Aqui, do lado de fora do quarto do Duque, ela parou e sussurrou: "Ele vai pensar que sou aquela cadela da Sal. Esconda-se atrás de mim!"
Ela abriu a porta e entrou furtivamente no quarto comigo a reboque, segurando sua saia e agachando-se quase até o chão.
Ela era um tanto larga, como uma barca holandesa, e tudo o que eu conseguia ver era um brilho opaco em algum lugar à frente, na escuridão.
"Sss-h, maldito seja", disse a besta ferozmente. "Fique parado!"
Cherry-Cheeks tomou cuidado para não parar até perto da luz e, então, com uma sagacidade maravilhosa e pronta, colocou a mão direita no quadril e eu espreitei entre o braço e a cintura.
Deitado de bruços, em toda a sua extensão, estava o homem de Yarlet Bank. Havia um pequeno orifício no chão, na borda da lareira, e ele estava com a orelha direita encostada nele, o que foi uma sorte, pois manteve seu rosto virado para longe de mim. O caderno estava aberto no chão perto de uma vela de sebo que escorria em um castiçal de ferro, e o toco de lápis estava preso em seus dentes amarelos e sujos.
Joguei meu lenço no chão, peguei meu pequeno Virgílio gordo na mão esquerda e rastejei até ele. Quando cheguei perto dele, agarrei-o pela nuca, cravando meus dedos em sua garganta flácida, e ele ficou viscoso de medo como um verme grande e gordo. Lancei-me sobre ele com todo o meu peso e o prendi ao chão. Sua boca grande se abriu enquanto ele lutava por ar, e eu enfiei o Virgílio com força e profundamente nela, amarrando-o bem com meu lenço e amordaçando-o eficazmente.
Olhei para cima e descobri, para meu alívio, que Cherry-Cheeks, como uma garota sensata, havia saído furtivamente do quarto, e sua participação no caso nunca foi sequer suspeita.
Sacando minha espada curta, toquei a parte de trás do pescoço dele com a ponta. Ele recuou e se contorceu, grandes gotas de suor banharam seu rosto desagradável, e eu soube que o medo da morte e do inferno estava em sua medula.
"Faça exatamente o que eu disser", sussurrei, "ou ela atravessa. Entendido?"
Ele mal conseguia acenar com sua cabeça feia devido ao tremor de seu corpo, e eu tremia bastante enquanto me ajoelhava sobre ele. Fiz com que ele se levantasse e então agarrei a aba de seu casaco. Segurando-o por ela com o braço esticado, encostei minha ponta em seu pescoço novamente e disse: "Avante."
Eu o conduzi escada abaixo e pelo corredor. Havia um grande risco de ser encontrado por alguém, e foi o momento mais angustiante que tive desde o caso com o sargento na sala de estar em Hanyards. Estranhamente, enquanto eu o conduzia, o pensamento me veio dos dias passados em que Jack e eu brincávamos de cavalos exatamente assim em Hanyards, e quando meu prisioneiro vacilou um pouco na porta do quarto de hóspedes, eu rosnei para ele: "Vamos lá!" Foi um estranho truque da mente. Para mim, ele era apenas o cavalo de brincadeira Jack, demorando-se para olhar a Kate de dez anos alimentando suas galinhas.
Eu o coloquei dentro sem ser visto por fora e sem ser notado por dentro, pois o Coronel e o Mestre Freake estavam novamente em suas discussões de Estado, com unhas e dentes, e eles não se importaram mais com o clique da porta atrás deles do que com o estalo de uma faísca a seus pés. De fato, o Coronel disse "Psh!" com grande veemência, e o "Meu caro senhor!" do Mestre Freake tinha um toque de pimenta. Quanto a mim, gosto de um homem que, quando entra em algo, entra até o pescoço.
Margaret aumentou minha diversão, pois, enquanto eu cutucava meu prisioneiro para a luz do fogo e espiava por cima de seu ombro, sendo ele uns bons quinze centímetros mais baixo que eu, a senhora se inclinou para frente e ficou absorta no debate acalorado.
"Peço licença para informar, senhor", disse eu, tão indiferente quanto consegui falar, "a captura de um espião."
"Enforquem-no ao amanhecer", disse o Coronel, sem sequer olhar para ele. "Psh, homem, o comércio de arenque salgado não é mais um viveiro de marinheiros do que eu sou... Diabos, o que é isso, Oliver? Diabos, é Weir. Seu criado, Sr. Weir, e eu apreciarei imensamente vê-lo pendurado."
Dei um breve relato de onde e como o encontrei, não mencionando nossa amiga útil, mas apontando que ele tinha co-canalhas trabalhando para ele na estalagem.
"Outro bom trabalho, Oliver", disse o Coronel. "Gosto da maneira como você usa seu material disponível. Já vi muitas coisas serem usadas como mordaças, mas nunca um livro antes; ainda assim, ele serve muito bem. Mantém-no quieto como uma pedra e, ao mesmo tempo, deixa-o livre para lamber algumas migalhas de aprendizado."
Margaret ainda não tinha olhado para mim e, de fato, parecia determinada a manter seu rosto, com a cor realçada pelo calor e pelo brilho do fogo, virado para longe de mim. Agora, uma questão bastante importante tinha vindo à minha mente, então eu disse urgentemente: "Nome de um cão", e assim a forcei a olhar para mim. Ao que, apontei primeiro para o Sr. Freake, depois para o espião, e balancei a cabeça com sabedoria. Sua mente rápida percebeu imediatamente que eu estava com medo de que nosso amigo fosse comprometido se não fôssemos cuidadosos. Ela prontamente disse algo a seu pai em uma língua desconhecida, e pelo levantar de sua sobrancelha, soube que ele tinha entendido o ponto.
"Meu bom amigo", disse ele, "por favor, vá até sua senhoria o Prefeito e peça-lhe que venha e encarcere este espião canalha na cadeia da cidade. Diga, rogo-lhe, que lamento ter que perturbá-lo, mas os servos de Sua Majestade devem estar sempre à disposição dos assuntos de Sua Majestade."
Eu sorri atrás das costas do espião com essa maneira magistral de fazer o servo de George fazer o trabalho de James. O Mestre Freake saiu imediatamente e, caminhando com ele até a porta, sussurrei: "Dê-nos quinze minutos."
"Certo!" ele sussurrou de volta. "Olhe em seus coldres!"
Assim que ele se foi, o Coronel ordenou-me que guardasse a porta, e isso me deu a chance de calçar minhas botas novamente. O Coronel, cortando com sua espada um bom pedaço da corda do sino, fez um trabalho rápido e muito profissional ao amarrar o espião em um nó. Ele então abriu a janela e, enquanto Margaret ocupava meu lugar, ele e eu cuidadosamente empurramos Weir para a varanda, fechamos a janela e o deixamos seguro e silencioso.
"Esteja no alpendre em dez minutos, Margaret, pronta para partir. Oliver, deixe os cavalos prontos nesse tempo. Você monta o cavalo da tropa, e Freake providenciou uma égua para Margaret. Rapidez é o trabalho e agilidade é o movimento!"
Margaret e eu começamos juntos a cumprir nossas ordens. Uma vez no corredor, tivemos que seguir caminhos diferentes, e eu fiz uma reverência e ia seguir o meu sem uma palavra, quando ela colocou a mão no meu braço e me deteve.
"Sinto muito que você tenha perdido seu Virgílio", disse ela.
Eu me perguntava, como já tantas vezes havia me perguntado, sobre as cambalhotas de sentimento de que ela era capaz. Onde estava agora a Margaret da risada curta e desdenhosa? Não aqui, no crepúsculo entre a sala iluminada e o pátio escuro. Aqui estava uma Margaret sutil e misteriosa, metade arrependimento e metade capricho, com um pensamento em seus olhos e outro em seus lábios.
"Eu também, senhora. Gostaria que tivesse sido o livro de culinária da Kate."
Ela teria me dominado se eu tivesse ficado mais um segundo. Fiz uma reverência novamente e a deixei.
E este é, talvez, o melhor lugar para dizer que não perdi meu Virgílio, afinal. Aqui está ele sobre a mesa enquanto escrevo, ainda o mais querido de todos os meus livros. Em cada lado da restauração, uma curva irregular de marcas de dentes corta o pergaminho amarelado. A querida e corajosa Cherry-Cheeks enviou-o para casa pelas mãos de um mascate errante, escrevendo laboriosa e exatamente na embalagem a inscrição que ela encontrou na folha de rosto:
OLIVER WHEATMAN, Esquire, de Hanyards, Staffordshire, Aetatis anno 13
Expulsei os cavalariços e, à força de uma combinação criteriosa de xingamentos e subornos, deixei os cavalos prontos sob o arco a tempo. Margaret estava lá esperando, com nossa linda criada a flutuar ao redor dela. O Coronel estava lá dentro, acertando as contas com o anfitrião guerreiro de palavras. Ajudei Margaret a subir na sela e conduzi seu cavalo para a rua, virando sua cabeça para o norte. Em um momento, seu pai veio logo atrás dela, no Sultão. Voltei para sorrir e me despedir de Cherry-Cheeks e distribuir meus subornos, mas fui atrás deles antes que tivessem trotado um lance de pedra.
Eles estavam galopando em direção à ponte pela qual a rua principal da cidade cruza um pequeno riacho e torna-se novamente a estrada real para o noroeste. Era apenas um tiro de pistola do pórtico do "Rising Sun" até o outro lado da ponte, onde um grupo de moradores da cidade estava reunido em torno de um homem com uma lanterna. Nós tínhamos saído para uma cidade estranhamente silenciosa, mas antes que eu estivesse na metade do caminho para a ponte, e ainda não assentado na minha sela, gritos altos soaram atrás de mim. Olhando para trás, vi uma mulher debruçada, vela na mão, da janela do quarto do Duque. Ela balançava sua luz e gritava como uma louca. Não havia como confundir o que havia acontecido. Sal, a garota de cara azeda que queria que eu fosse enforcado, tinha descoberto o destino do espião. As pessoas corriam de todos os lugares para ver o que estava acontecendo. Quanto mais cedo estivéssemos longe dali, melhor, e eu acelerei para alcançar o Coronel e Margaret.
Eu estava perto deles na ponte, onde os fofoqueiros tinham se alinhado para vê-los passar. Timothy estava lá, grato por uma vez, pensei, de seu casaco comprido, enquanto o homem que segurava a lanterna era o homem a quem eu devia uma surra. Eu me perguntei o que ele estava fazendo ali com uma lanterna, pois era uma noite de luar brilhante e, como ele tentou correr para a cidade assim que viu quem estava passando, senti nos ossos que ele pretendia fazer travessuras e provavelmente estava mancomunado com o espião. Virei meu cavalo para cima dele antes que ele saísse da ponte e o derrubei de cabeça sobre Timothy, que deu o grito mais surpreendente que já ouvi, arrancou a lanterna dos dedos inertes do "Hálito de Cerveja" e, com ela, esmurrou-o com tanta fúria que o venceu até cair de joelhos.
Eu ri, pois o homem tinha recebido sua surra afinal, através de mim, se não por mim. Quanto aos outros habitantes da cidade, eles aproveitaram como se fosse uma peça.
"Gom!" disse um. "Ele pisou no dedão do Tim."
"Maldito se ele não se vira contra a patroa quando ela faz isso", disse outro.
O Coronel e Margaret estavam olhando para trás quando me aproximei.
"Algum problema?" perguntou ele.
"O espião foi descoberto, senhor", eu disse.
— Isso significa algum mal ao Mestre Freake? — inquiriu Margaret.
— De modo algum — respondeu o Coronel. — Ele tem o Prefeito na palma da mão. Você conhece esta região, Oliver?
— Não, senhor — foi minha resposta. — Apenas em linhas gerais. Esta é a estrada principal para Chester e, à nossa direita, estende-se uma região aberta que sobe em direção a charnecas acidentadas e colinas. Leek fica naquela direção, na estrada de Derby para Londres. Sobre a região à nossa esquerda, não sei nada.
— Então nos manteremos na estrada principal o máximo possível e pararemos na primeira estalagem depois que todos os pontos de perigo ficarem para trás. Sinto muito por fazê-la sair, Madge, mas era impossível parar assim que Weir nos descobriu, já que Kingston e seus homens poderiam ter aparecido a qualquer momento e, então, estaríamos perdidos. Tudo o que temos a fazer é chegar ao norte dele. Vindo do sul, não temos nada a temer agora. Os dragões de Brocton teriam aparecido horas atrás se houvesse qualquer intenção de tentar me recapturar. Freake tinha enviado um de seus homens estrada abaixo para nos dar tempo de fugir caso Brocton nos perseguisse. Foi por isso que me contentei em ficar na estalagem.
— Weir sabe quem o senhor é, suponho? — disse eu.
— Exatamente. Ele é um notório espião do Governo e está ocupado aqui a escavar os nossos planos locais. Há muitos do partido honesto por estas bandas, e especialmente ali a oeste, no País de Gales.
— Ainda estamos em Staffordshire, Mestre Wheatman? — perguntou Margaret.
— Oh, sim, por uma distância considerável à frente — respondi.
— O espírito de profecia está sobre mim, cavalheiros — disse ela alegremente. — Nossa sorte em Staffordshire ainda não se esgotou e, desta vez, é a vez do Mestre Wheatman.
— Bem, então o Mestre Wheatman cavalgará à frente e fará o reconhecimento. Uns trinta metros, Oliver. Mantenha seu cavalo bem sob controle e esteja atento a tudo. Maldita seja esta lua! Ela nos destaca como três corvos em um campo de neve, e esta estrada infernal é tão reta e plana quanto uma tábua. Cavalgue por qualquer sombra disponível!
Segui à frente e estabeleci um ritmo confortável para eles. O trabalho tinha recomeçado, o trabalho do desejo do meu coração, e por toda a estrada de Chester não havia espírito mais alegre do que o meu naquela noite. Eu estava montado em um alazão flamejante, não páreo para Sultan, mas ainda assim um cavalo bom e robusto. Ele sabia que eu era seu mestre e, por isso, tornei-o um amigo, afagando seu pescoço, cantarolando para ele e dando-lhe um pouco de açúcar da minha mão. O perigo em que estávamos era como vinho para meu coração. Inimigos à frente e inimigos atrás, e esta estrada nua, desolada e banhada pelo luar entre eles. De vez em quando, por lembrança e pela alegria disso, eu inclinava o ouvido para distinguir o trote da égua de Margaret dos passos mais pesados e longos de Sultan. Sim, lá estava ela, sem dúvida murmurando canções de amor italianas para o seu íntimo feliz e pensando em... Puxa! Isso era romance, e o romance de outra pessoa, e isso me entorpecia contra a minha vontade, enquanto aqui havia um trabalho de homem a fazer. Então, voltei a ele e vivi.
Examinei os coldres, de acordo com as ordens do Mestre Freake. Encontrei um par de pistolas que, mesmo sob o luar pálido, pareciam o que de fato eram: armas bonitas e precisas, o melhor trabalho do melhor armeiro de Londres. Eu era igual à maioria dos homens com a pistola e, geralmente, tinha, de fato, um par excelente em Hanyards, mas Jack as tinha levado consigo em suas incursões de dragão. Além das pistolas e de sua munição, encontrei uma bolsa de couro de tamanho considerável, e o tato dela em meus dedos mostrava que estava abarrotada de dinheiro. Quando a esvaziei no dia seguinte, encontrei quase sessenta libras, principalmente em guineus e meios-guineus, e um bilhete:
"Querido rapaz, esta cidade está muito carente de guineus e muitos deles são mais leves do que a lei permite, mas você terá mais conforme a ocasião surgir. — Seu amigo, J. F."
Voltei à estrada novamente com um coração mais alegre do que nunca, pois pensei, como "Golpeia-e-não-poupe" teria pensado antes de mim, que a própria obra de Deus estava aqui demonstrada, uma vez que os eventos aparentemente mais desfavoráveis da nossa jornada tinham sido transformados em meios de força e segurança. Se eu, como deveria ter feito, tivesse trazido dinheiro meu de Hanyards, nunca teria começado como salteador de estradas e, portanto, nunca teria conhecido o Mestre Freake em Wes'on Bank.
Percorremos três milhas ou mais desta maneira, e eu não tinha ouvido nada mais alarmante do que o pio de uma coruja vindo de um olmo coberto de hera. Alguma distância atrás, a estrada tinha subido ligeiramente por um espaço, depois caído de volta ao nível e agora corria, aberta e sem cercas, através do topo desolado de uma região elevada e estéril. Relinchei para o alazão e dei-lhe outro pouco de açúcar para confortá-lo. Um momento depois, soube pelo levantar das orelhas dele e pelo movimento rápido da cabeça que algo estava no ar, e agucei meus próprios ouvidos para ouvir, pois não havia nada de notável visível à frente ou ao redor.
Lá longe, à frente, veio o som fraco de cascos na estrada dura. Parei e, um momento depois, Margaret e o Coronel pararam ao meu lado.
— O que é? — perguntou este último.
— Cavalo vindo nesta direção, senhor — foi minha resposta. Os sons já estavam mais claros. Por um minuto inteiro, ele ouviu atentamente. — Um bom número deles, e mantendo um passo acelerado — disse ele. — Só pode ser a guarda avançada de Kingston recuando. Provavelmente a vanguarda dos Highlanders atacou seus alojamentos. Uma vez passado por eles, estaremos... Olá! Raios! O que é aquilo? Reforços! Droga. Oliver, estamos entre o martelo e a bigorna.
Ele virou a cabeça bruscamente, assim como Margaret e eu. De trás de nós, veio novamente o som inconfundível de um corpo de cavalaria. Estávamos completamente encurralados.
— Isso é terrivelmente irritante — disse o Coronel. Ele olhou casualmente ao redor, tão indiferente quanto teria olhado na sala de estar da "Rising Sun", e acrescentou: — Siga-me e cavalgue como se o diabo estivesse em seu encalço.
Ele se desviou para a região nua e plana, e nós atrás dele. Como cavalgamos! Ele estava indo em direção a um pequeno grupo de árvores, cerca de uma dúzia de pinheiros semeados pelo vento, fincados como um piquete solitário em território inimigo a um tiro de pedra da estrada. Chegamos lá juntos, pois não havia tempo para o passo de Sultan contar.
— Maldita lua! — disse ele, e desmontou. — Mas isto é melhor do que nada. Tire a sela de Margaret, Oliver.
Desci e ajudei Margaret a desmontar. Ela me agradeceu, brevemente e sorrindo, tão imperturbável quanto o pinheiro esguio sob o qual ela estava.
O Coronel e eu trocamos as selas e, em poucos segundos, Margaret estava sobre Sultan. Pedi-lhe em vão que pegasse o alazão e deixasse a égua comigo, pois ela estava ficando inquieta e o Coronel não era tão capaz quanto eu com um cavalo estranho. Insisti, no entanto, em tirar meu casaco e envolvê-lo na cabeça da égua e, estando assim coberta, ela não nos deu mais problemas. Por ordens do Coronel, Margaret, em Sultan, ocupou seu lugar entre nós, rumando para o campo aberto, enquanto ele e eu nos voltávamos para a estrada. Os ramos finos e esparsos dos pinheiros lançavam pouca sombra, e eu sabia que era quase impossível passarmos despercebidos.
— Agora, Madge — disse o Coronel — é inevitável que cheguemos a uma luta. Assim que a diversão começar, vá embora como o vento para este buraco de pântano à sua frente, e em cinco minutos estará fora de perigo. Faça um desvio de volta para a estrada, mantenha a lua atrás de você e siga para a estalagem mais próxima. Oliver e eu nos juntaremos a você lá, se assim Deus quiser. Se não, você está na estrada de Chester. Ainda tem seu dinheiro?
— Sim, papai.
— Você entende, Madge?
— Claramente.
— Então beije-me, querida.
Ela o beijou sem uma palavra e virou-se para se despedir de mim. Por um momento, fiquei todo trêmulo de emoção. Esta minha maravilhosa vida nova tinha, por vezes, de ser vivida nos arredores e subúrbios da morte. Felizmente, um pensamento me veio à cabeça, e puxei a bolsa de couro e a enfiei na mão dela.
— Não deixe isso debaixo da cama — disse eu e, sendo muito ousado, como se pode ser com a morte à porta, puxei a mão enluvada dela, com a bolsa dentro, em minha direção e a beijei. Ela não me disse nada, mas o brilho em seus olhos era como o luar na superfície dançante de uma fonte na montanha.
— Cuide de suas pistolas, Oliver — ordenou o Coronel breve e secamente. — Veja se sua espada desliza facilmente na bainha. Mais um minuto decidirá. Você e eu podemos facilmente dar a Madge toda a vantagem que Sultan exige.
— Facilmente, senhor — respondi com firmeza.
— Bom rapaz! — disse o Coronel.
E Margaret, inclinando-se até que seus lábios estivessem perto da minha bochecha enquanto eu me curvava para ver o que ela queria, disse, pela terceira vez: — Muito bem, pescador! — Ri levemente e fiquei contente, pois não estava esta mulher calma, corajosa e esplêndida pensando em como nós dois nos conhecemos?
Desde o primeiro levantar das orelhas do alazão até esta observação tão característica de Margaret, não devem ter se passado cinco minutos, e agora, embora devido à encosta descendente à nossa esquerda que mencionei, e sua encosta correspondente à direita, nenhum dos grupos estivesse ainda à vista, eles estavam tão próximos de nós que as diferenças entre eles se tornaram óbvias. A tropa do sul era pequena, não estava viajando além de um trote rápido e, no que dizia respeito aos homens, estava absolutamente silenciosa. O corpo vindo do norte era grande, forçava um galope quente, e muito barulho e gritos vinham dos soldados.
Era claro que estávamos enrascados. Os homens de Newcastle estavam, sem dúvida, vindo para o norte como reforço, mas era absurdo supor que não tivessem sido informados de nossos feitos e de nossa fuga para o norte. Eles não nos tinham alcançado, e devíamos estar na estrada em algum lugar. Os homens do norte não nos tinham encontrado. Nunca, desde que o mundo é mundo, foi tão fácil somar dois mais dois. Só havia um lugar para estarmos e era este. Uma curta conversa, um olhar em nossa direção, e uma força esmagadora avançaria contra o piquete de pinheiros.
A estrada nua jazia ali ao luar, meia milha dela claramente visível de cada lado. Os dois corpos apareceram à vista com poucos segundos de diferença, e o Coronel estalou os dedos e riu.
Vindo do norte, uma corrida selvagem de cavaleiros a esporas, chicotadas, gritos e maldições, cerca de cem deles. Sem ordem, sem disciplina, sem espírito militar — nada além de pressa louca e medo ainda mais louco.
A égua começou a empinar e o Coronel, saltando, quase a estrangulou com o casaco. O alazão ficou inquieto, mas não me deu problemas reais. Sultan não deu a menor atenção ao tumulto atrás dele e mastigava calmamente os tufos duros de grama a seus pés.
Olhei para a estrada novamente. O corpo do sul era pequeno, não mais que vinte homens, compacto, cavalgando agilmente, mas com ordem e precisão militar. O homem à frente deles, o oficial no comando, sem dúvida, apressou-se e começou a gritar para os nortistas que se aproximavam. Poderia ter dito palavras doces a uma avalanche, e os homens atrás dele começaram a vacilar, e a maioria parou. Era inútil. A torrente varreu-os e empurrou-os para trás, derrubando alguns deles, homens e cavalos juntos, mas incorporando a maioria deles em sua própria loucura. Em menos de cinco minutos, o último grupo de dragões tinha amaldiçoado e esporado a si mesmos para fora de vista, e a lua brilhante iluminava uma estrada mais uma vez nua e branca, exceto por algumas manchas pretas dispersas.
O Coronel descobriu a cabeça da égua e a acariciou. Tudo o que ele disse foi, mas de forma muito alegre: "Geordie, meu rapaz, vou expulsá-lo de St. James em quinze dias. Vou ensiná-lo a negligenciar os Coronéis do Rei da Suécia! Maldito seja, Oliver, isso me fez pensar nas vacas de Faraó — um grupo devorando o outro. Agora, minha querida Madge, seus lindos olhos estarão logo em sono profundo."
— Nunca vi nada tão engraçado na minha vida — disse Margaret. — Coloque seu casaco, Oliver, antes que pegue um resfriado.
De tudo isso, aprendi a aceitar, como eles, o bom e o ruim na vida militar, e a não me importar nem um centavo com qual fosse. Ainda assim, eu era tão jovem no jogo que, embora tivesse o cuidado de me exibir e não dizer nada, eu me perguntava por que o corpo do sul era tão pequeno.
E me pergunto, enquanto escrevo, se foi ou não o erro da minha vida apenas me perguntar na época.
CAPÍTULO XIV
"A GUERRA TEM SEUS RISCOS"
Dormi mal e em intervalos. Margaret estava no quarto abaixo de mim, "sonhando em italiano", pensei, em infeliz imitação de sua crítica delicada ao pai. Um problema estava em minha mente, e isso era sempre, para mim, um inimigo do sono. Eu pretendia ser o melhor dos soldados, e aquilo que me preocupava era um problema militar. Em suma, não pude deixar de me perguntar: "Os dragões do sul pretendiam ser um reforço para a cavalaria do norte?" E, de alguma forma, não consegui acreditar que fossem. Como o espírito de superioridade em mim dizia: "Era como enviar Jack para me reforçar. Quod est absurdum."
O Tempo, o Explicador, permite-me ser franco. Havia esse outro lado do meu problema, no qual eu não conseguia ter certeza de que a fuga do Coronel tinha ocorrido meramente por um acaso feliz. Ele não teve parte na sua organização, disso nunca duvidei, mas parecia uma armação. Estávamos na "Rising Sun" há seis horas ou mais. Stone, o quartel-general mais próximo das forças de Cumberland, ficava a apenas nove milhas ao sul, mas nenhuma tentativa tinha sido feita para seguir o fugitivo. Não, pensei novamente, isso está errado. Weir foi enviado em seu encalço e, de fato, o encontrou. Mas isso era tão inútil, parecia, quanto enviar vinte dragões, havendo centenas disponíveis, para reforçar mil cavalarianos robustos. Não havia proporção entre os fins propostos e os meios adotados.
Se o punhado de dragões não era um reforço, era uma perseguição nossa, e isso colocava outro problema. Por que a perseguição tinha diminuído durante toda a tarde e noite, para ser retomada apenas tarde da noite? Que fato novo, se é que houve algum, determinou isso? Não consegui pensar em nenhum, nem, refletindo melhor, era necessário um, já que tanto o Mestre Freake quanto Jack tinham testemunhado na noite anterior o estado de exaustão dos cavalos de Brocton. Consequentemente, seus dragões teriam sido enviados atrás do Coronel mais cedo, se estivessem aptos. Sua vinda, quando aptos, provava seu desejo de recapturá-lo. Portanto, ele não tinha permissão para escapar, e a conclusão do meu argumento atingiu sua premissa maior em cheio.
— Oliver, meu rapaz — disse a mim mesmo —, recite um pouco de Virgílio e vá dormir. Esses assuntos estão além de você.
Escolhi uma passagem e comecei a murmurá-la para mim mesmo. Foi um golpe de sorte, pois quando, em sussurros solenes, recitei as grandes linhas do sexto livro da Eneida que preveem o trabalho e a glória de Roma, pensei em meu Lorde Ridgeley, ladrão por processos astutos da lei da maior parte do meu patrimônio antigo, e seu filho canalha, meu Lorde Brocton, caçando luxuriosamente a mulher orgulhosa e graciosa abaixo, e disse grandiosamente a mim mesmo: "O destino de Roma é seu também, Oliver Wheatman de Hanyards, e esses escudeiros titulados são os orgulhosos que você derrotará."
A noção foi tão reconfortante que caí no sono novamente.
Pulei eventos desinteressantes, mas de modo algum sem importância. Estávamos passando a noite em um albergue de beira de estrada, chamado "Red Bull", situado no ponto onde uma estrada transversal cortava a estrada principal. Ainda estávamos em Staffordshire, um assunto ao qual Margaret tinha dado, rindo, a maior importância, embora um garoto, parado perto da placa rústica, pudesse ter atirado um seixo em Cheshire. O alojamento era dos mais estreitos, e eu fui acomodado nos sótãos, em um quarto onde eu tinha de andar curvado, sendo impossível andar ereto. Era o quarto da filha mais velha, e ela tinha sido retirada para dar lugar a mim, um fato que só descobri quando já não havia remédio. A moça tinha uma mãe boa e agradável, mas seu pai, o estalajadeiro, era um sujeito rabugento e de má índole, cujo único ponto bom era a língua contida.
Margaret estava no quarto abaixo e seu pai ao lado dela, ao longo de um corredor estreito. Do meu sótão, desci para este corredor por meio de uma escada que mal se distinguia de uma escada de mão. O corredor, logo após a porta do Coronel, tornava-se um pequeno patamar de onde três ou quatro degraus levavam a um patamar maior, do qual se podia subir para a outra metade correspondente da casa ou descer para o saguão de entrada, com o qual os vários quartos do andar térreo se conectavam.
Acordei novamente em um amanhecer sombrio e opaco. Cansado desses ataques de vigília, saí da cama — pois estava deitado totalmente vestido, até as botas — e rastejei suavemente até a janela. Eu montaria guarda por Margaret, como um verdadeiro cavaleiro deve fazer. Então, se minhas dúvidas obscuras fossem infundadas, eu teria, pelo menos, cumprido meu dever.
Tinha havido uma leve queda de neve, o suficiente para cobrir o chão e deixar tudo em relevo nítido. Minha janela era uma claraboia, seu parapeito ficava a cerca de quatro pés do beiral. Abri-a, tomando cuidado para não fazer barulho, empurrei a cabeça e os ombros e observei.
Mergulhei os dedos na neve e vi que havia quase uma polegada dela. O "Red Bull" recuava da estrada e, em cada lado da estalagem propriamente dita, dependências e estábulos projetavam-se para a beira da estrada. Puxada sob um alpendre à esquerda, havia uma enorme carroça carregada de sacos, provavelmente de cevada com destino a Leek, uma cidade famosa por sua cerveja.
Lá fora reinava o silêncio e a quietude, como os de um túmulo, e o frio era cortante, mas minha mente estava alegremente ocupada, tendo tantos momentos deliciosos para reviver. Se por algum azar eu nunca mais a visse e vivesse até os cem anos, eu nunca me cansaria de minhas memórias. Ela tinha tantas facetas quanto o diamante do Sr. Pitt, tantos tons quanto o grande órgão da Catedral de Lichfield. Conhecê-la tinha enriquecido minha vida e aberto minha mente. O que Propércio disse de sua Cynthia, repeti a mim mesmo sobre minha Margaret, Ingenium nobis ipsa puella est. "Minha" Margaret! Bem, não lhe fazia mal algum eu pensar isso e, afinal, as tagarelices astutas e tolas do meu eu interior podiam ser abafadas pela voz severa do bom senso.
Aqui, sob o estresse de uma força nova, meus pensamentos voaram pela tangente e disse a mim mesmo: "Bravo, Romeu! Você encontrará em mim uma Julieta rara."
Eu tinha, de fato, muito trabalho para não rir alto, pois minha situação era deliciosa, para não dizer delicada. Pois, de repente, silenciosamente como o bater das asas de um morcego, dois pés de escada tinham subido acima do beiral e, agora mesmo, um amante ardente apressava-se para o alto, sonhando com sussurros e beijos por vir. Eu não devia assustá-lo cedo demais ou muito, ou ele cairia, mas assim que estivesse bem na encosta, ele provaria a doçura de lábios de aço. Então, rastejei de volta, peguei uma pistola e posicionei-me à esquerda da janela.
Esperei até que seu corpo escurecesse o quarto e então lancei um olhar furtivo para ele. Não era nenhum amante da aldeia subindo ao romper da alva para cumprimentar sua amada. Era um dos dragões de Brocton, um dos cinco que estiveram em Hanyards.
Num piscar de olhos, disparei contra ele. Sem dizer palavra, escorregou pelas telhas, deixando uma massa de neve vermelho-sangue. Sua perna direita deslizou de viés entre dois degraus da escada e seu corpo, contido em sua queda, girou e ficou a balançar sobre o beiral.
No quarto havia um grande baú de carvalho para roupas. Arrastei-o para a luz, inclinei-o sobre uma das extremidades e enfiei-o na água-furtada da janela, na qual, por sorte, encaixou-se perfeitamente, bloqueando assim qualquer ataque ulterior a partir do telhado. Apanhando minhas armas, desci a escada aos tropeços, apenas para ouvir o pesado bater de pés no andar de cima. Postado junto à porta de Margaret, aguardei até que a cabeça e os ombros do primeiro homem surgissem à vista. Ele trazia uma lanterna, cujos raios amarelos iluminaram para mim o rosto feio do sargento dos dragões. Disparei-lhe a segunda pistola, reduzindo a lanterna a estilhaços. Ele caiu, não sabendo eu se fora atingido ou não. Na escuridão, ouvi a investida de um segundo homem, que avançou tão destemida e rapidamente que já estava bem dentro da passagem antes que eu o encontrasse com uma estocada feroz do meu florete. Senti um frisson com o zelo do velho Smite-and-spare-not quando, pela primeira vez, senti a ponta do meu florete no corpo de um homem e a empurrei até o fim com um grito. Ele também caiu, com um gorgolejo de sangue na garganta, e Margaret, saindo de seu quarto, tropeçou sobre seu corpo enquanto corria atrás de mim pelo corredor.
O Coronel estava no topo da escada antes de mim, mas, por ora, não havia trabalho para ele. O inimigo despencara ruidosamente escada abaixo até o saguão e estava recuperando o juízo após sua primeira derrota. Para meu pesar, os xingamentos roucos do sargento mostravam que ele não fora morto e, aparentemente, nem sequer atingido.
"Que Deus vos maldiga!" ele gritou. "Dez de vós repelidos como ovelhas por um jovem inexperiente. Acertarei as contas convosco por isso. Pensais que vos recolhi das latrinas e dos esgotos de Londres para suportar isto? Não há um entre vós com a coragem de um piolho. Hei de arrancar-vos a pele das costelas por isso, malditos, e a maior parte da carne de vossos corpos de alcoviteiros junto com ela!"
"Que espécie de coragem foi essa que vos trouxe a tombar tão depressa?" interveio a voz ranzinza do estalajadeiro. "Não podíeis ter descido mais rápido se vossa cabeça maldita tivesse sido feita em pedaços em vez da minha lanterna."
Alguns dos homens riram disso, ao que o sargento blasfemou o suficiente para fazer estremecer um demônio do inferno. Ele intimidou os dragões, mas o estalajadeiro apenas resmungou: "Uma lanterna de três xelins feita em pedaços! Pagai os três xelins!"
"Hei de apanhá-lo, mesmo que tenha de reduzir a casa a escombros!" vociferou o sargento.
"Pagai os três xelins!" repetiu o estalajadeiro.
Nenhuma palavra passara entre nós no topo da escada e, agora, ao som dos preparativos para um novo assalto, o Coronel tomou cada um de nós pelo braço e nos conduziu ao seu quarto.
"O topo da escada não pode ser mantido contra o fogo do patamar oposto", sussurrou ele.
Ao entrar, trancou a porta, e ajudei-o a colocar a cama na vertical atrás dela, amontoando toda a mobília restante contra a estrutura da cama para segurar o colchão e a roupa de cama contra a porta. Margaret, a um breve comando, enquanto isso, mantivera vigilância pela janela.
"Essa é uma boa defesa", disse ele satisfeito. "Que demônios são estes?"
"Os dragões de Brocton", disse eu. "Dei cabo de dois deles, um no telhado e outro na passagem."
"Bom rapaz! Dez deles seriam uma desvantagem grande em campo aberto; aqui, devemos levar vantagem sobre eles. Recarregai vossas pistolas! Maldito seja, está um pouco frio. Felizmente, há algum trabalho aquecido pela frente."
Ele caminhava de um lado para o outro no quarto, agitando os braços ao redor do corpo e parando de vez em quando para fazer alguma alteração trivial em nossa barricada improvisada às pressas. Margaret permanecia quieta na janela e, quando recarreguei minhas pistolas, juntei-me a ela lá.
A escada fora deslocada e agora jazia estendida na neve. Lá também jazia o corpo do dragão que eu alvejaram, encolhido em sua agonia mortal. Uma ninhada de corujas coaxava e agitava-se sob o alpendre e, ali também, encostados na roda traseira da carroça, estavam um carreteiro simplório e nosso estalajadeiro carrancudo. O primeiro fumava estoicamente, o outro segurava a lanterna avariada com o braço estendido e eu podia, por assim dizer, vê-lo resmungar para o idiota ao seu lado: "Quem é que vai pagar por esta?" Uma rapariga vinha até eles a partir da casa, contornando, com a cabeça virada, o dragão morto, trazendo-lhes da cozinha uma caneca de cerveja fumegante.
"Na Inglaterra", disse Margaret, "a neve acrescenta o charme da paz e da pureza à paisagem. Nunca há, creio eu, neve suficiente para transmitir a sensação de desolação e mortandade absoluta que causa na Rússia."
"É tão incerto conosco", foi minha resposta. "Conheci invernos inteiros sem um floco de neve, e já andei com água pela cintura em maio."
O Coronel interrompeu sua marcha e agitação e veio até a janela.
"Não te preocupes, Madge", disse ele. "Sairemos desta. Olá, não vi aquela carroça ontem à noite."
Ele pegou sua tabaqueira e, ouvindo o barulho do inimigo no corredor, caminhou com ela na mão em direção à porta. Bateu na caixa com a precisão habitual, mas eu, um passo atrás, tendo me demorado para um último olhar nos olhos de Margaret, ouvi-o murmurar: "Maldita carroça!"
"Ho, vós aí dentro, em nome do Rei", gritou o sargento.
"Ho, vós aí fora, em nome do diabo", imitou o Coronel.
"Quero falar com o Coronel Waynflete", gritou o sargento.
"Então, visto que o Coronel Waynflete não pode, no momento, dar-se ao prazer de cortar a garganta de um rufião como vós, podeis falar", foi a resposta.
"Vós e vossa filha podeis seguir vosso caminho ilesos se vos renderdes. É apenas Wheatman, o fazendeiro, agora convosco, que eu quero."
Ele podia ser ouvido por todo o quarto até a última sílaba, e Margaret deixou rapidamente seu lugar na janela e veio em nossa direção, mas o Coronel, num sussurro severo, ordenou-lhe que voltasse. "Como ousas deixar teu posto! Vigia aquela carroça!" Ela corou e retornou.
"Se o Mestre Freake estivesse aqui, Oliver, penso que ele observaria que hoje não há mercado para coronéis", disse seu pai para mim com um sorriso irônico. Ele deu um último toque na tampa de sua tabaqueira, abriu-a e estendeu-a para mim. No sentido que o termo tinha na Londres elegante, ele não era um homem bonito, mas, enquanto ali estava, esperando gravemente enquanto eu tomava meu pitada, possuía o charme irresistível da mais alta masculinidade.
"Concordais, Coronel?" berrou o sargento.
"Não concordo", gritou ele, e tomou seu rapé com grande gosto.
"Por Deus", e agora o sargento rugia como um touro ferido, "hei de apanhar-vos a todos em dez minutos." Então, como um pensamento tardio, acrescentou: "Ei, digo, tu, Wheatman, concordas?"
"Certamente", disse eu, "irei imediatamente." E eu teria ido, ali mesmo, não fosse o Coronel, que, enquanto eu colocava a mão na parte mais próxima da nossa barricada, prontamente disse: "Só tenho um método para desertores", e apontou uma pistola para a minha cabeça.
"Por causa de Margaret, senhor", implorei em tons baixos. "Deixe-me ir!" Ela voara como um pássaro em nossa direção e, portanto, ouviu-me.
"Eu esperava que tivesses uma opinião melhor a meu respeito, Mestre Wheatman", disse ela friamente, e voltou para sua vigia.
O sargento ouviu, ou pelo menos entendeu, o que fora dito no quarto. Ouvimo-lo dizer: "Sabeis o vosso trabalho. Cinquenta guinéus por Wheatman, vivo ou morto. Qualquer homem que toque na rapariga será açoitado até os ossos." Então ouvimo-lo afastar-se pelo corredor.
Os dragões do lado de fora não fizeram nenhuma tentativa contra a porta, e juntamo-nos a Margaret na janela. Mal chegáramos lá, meia dúzia de dragões saiu do pórtico e correu para a estrada. O Coronel escancarou a janela e esvaziou ambas as pistolas contra eles, mas eles zigzaguearam como lebres e os tiros pareceram ser em vão. Na estrada, pararam, formaram uma linha em ordem aberta e apontaram suas carabinas para a janela. Todos os três nos desviamos, o Coronel puxando Margaret consigo para a direita enquanto eu saltava para a esquerda.
"Mantém a calma, Oliver", disse ele muito bem-humorado. "Até que pensem na carroça, estamos seguros deste lado. Estas paredes quase aguentariam um canhão."
Com um estrondo, a primeira bala atravessou a janela e arrancou uma lasca enorme de um poste da cama. Houve seis tiros do lado de fora, e seis balas espalharam-se em uma pequena área oposta.
"Isso é um tiro muito bom", disse o Coronel. "Muito melhor do que eu esperava de material tão pobre."
Contei-lhe o que Jack dissera sobre a qualidade mista dos dragões de Brocton. Esses bons atiradores, expliquei, eram homens escolhidos das propriedades de Ridgeley, provavelmente guardas-caça e administradores.
"Muito provável", disse ele. "Estão acostumados a atirar, mas não a lutar. Coelhos estão mais na sua linha."
Não houve movimento na passagem, e eu me perguntava qual seria o trabalho que esses homens tinham em mãos. O fuzilamento na janela foi mantido incessantemente, geralmente em tiros isolados, às vezes em dois ou três. A barricada assumiu uma aparência esfarrapada. Ocupei minha mente com pensamentos sobre Margaret. Ela estava no canto, atrás de seu pai.
As balas agora haviam quase limpado a janela de vidro, cujos fragmentos cobriam o chão do quarto. Através do estalido e do ruído, ouvimos finalmente o barulho de uma carroça a mover-se. O Coronel e eu saltamos e espreitamos pela borda da janela. Estava sendo puxada por dois cavalos e foi deslocada até ficar exatamente oposta à janela e, para minha surpresa, a uns doze pés de distância. Os sacos formavam uma plataforma firme ao nível do parapeito da janela. Rente à janela, teria sido um meio admirável de ataque, mas por que o espaço entre elas?
Enquanto a carroça era colocada em posição, houve uma cessação do fogo. Vimos os seis dragões da estrada subindo na carroça, enquanto outros tantos juntavam-se a eles vindos da estalagem. O Coronel disse: "Agora é a nossa chance!" e disparou cuidadosamente. Um homem, que estava equilibrado na roda traseira, caiu na estrada e saltou para a parte de trás da carroça, segurando o pé direito na mão; outro, já montado, estatelou-se de comprido sobre os sacos.
"Esse é o caminho", disse ele, com grande satisfação, e afastou-se para recarregar. "Vê se consegues superar isso."
A esta altura, sob ordens do sargento, dois ou três dragões rastejavam sob a carroça para disparar de trás das rodas. Derrubei um homem que estava junto às cabeças dos cavalos e então, no momento certo e após uma segunda reflexão, assegurei-me da égua e atingi-a no pescoço. Ela guinchou, coiceou e mergulhou, e o outro cavalo, compartilhando seus medos, começaram a arrastar a carroça para longe. O sargento e dois ou três homens saltaram sobre eles e conseguiram acalmá-los, e então retiraram-nos dos arreios para evitar mais problemas desse tipo. O Coronel, entretanto, tendo recarregado, derrubou outro dragão com um tiro e rasgou um saco com outro. Era cevada.
Por talvez um minuto, a janela estivera tão segura quanto o canto dela, e Margaret observava silenciosamente a cena. Agora, com sete ou oito homens deitados sobre os sacos, com uma fileira robusta deles empilhada na frente como um baluarte, era hora de corrermos para a cobertura novamente. Desta vez, por vontade própria, ela veio para o meu lado e aninhou-se atrás de mim, no recanto entre a parede e o meu corpo.
Os homens no corredor ainda não davam sinal.
"Pelos céus, Oliver", disse o Coronel, "ainda não consigo ver o jogo deste diabo feio, mas, seja o que for, chegaste perto de estragá-lo. Maldito seja, foi uma boa ideia apimentar o cavalo. Que me leve o diabo! Onde estavam meus cinquenta anos de serviço militar que não consegui pensar nisso?"
"Suponho que venha do fato de eu ser..."
Os dedos mais doces e mais brancos do mundo fecharam a minha boca, e Margaret, pensando que eu estava prestes a cair em erro, sussurrou ao meu ouvido: "O cavalheiro de espírito mais pronto da Inglaterra."
Senti um arrepio com a alegria de seu toque e voltei-me para ela para que pudesse seguir para o combate que se aproximava com seu último traço de emoção gravado na minha memória. Um fluxo de chumbo derramou-se pela janela, mas o estalar das balas nas paredes do quarto não teve mais efeito sobre mim do que o tamborilar de granizos.
"Posso terminar minha frase, madame?"
"Não da maneira que pretendias, senhor."
"Não posso voltar atrás no ensino do velho Bloggs, madame."
Ela fez beicinho e franziu a testa, ambos ao mesmo tempo, e o Coronel berrou através do ruído do fuzilamento: "Sendo o quê?"
"Gostar de Virgílio", rugi eu de volta.
Margaret riu. Poderia um rouxinol rir, riria como Margaret riu então.
Antes que a música morresse, o sargento mostrou suas cartas, e a morte em sua forma mais sombria sorriu através da janela. Uma grande massa de palha úmida e fumegante, levantada por forcados, foi empurrada para a moldura da janela, preenchendo-a completamente, e densas nuvens de fumaça fétida rodopiaram para dentro do quarto, enquanto, através da palha, a chuva de balas continuava, esmagando e lascando as paredes e o teto, a porta e a barricada.
O Coronel cortou e espetou a palha com seu florete. Dizendo a Margaret para se encolher no chão, rastejei de barriga e busquei o atiçador da cama, que ficava em seu canto habitual na lareira. Tornou-se uma ferramenta muito mais útil para o trabalho, e eu lancei-o ao Coronel, que o agarrou e trabalhou-o como um mouro até que ele quase tivesse a cor da mesma, e, a julgar pela sua voz e comportamento, tinha ido quase além do seu alemão em sua raiva. Pedindo o lenço de Margaret, amarrei-o frouxamente em torno de sua boca, meu coração quase explodindo ao olhar para seu rosto calmo e paciente. Então, deitei-me e rastejei para fora do quarto e, após uma luta árdua, arranquei uma das hastes que sustentavam os anéis das cortinas da cama. Lembro-me de que, enquanto jazia ali, contorcendo-me e lutando, contei as balas, onze delas, enquanto espalhavam-se ao meu redor. No entanto, voltei ao lado de Margaret ileso, e cutuquei, empurrei e cortei para fazer um buraco perto de seu rosto entre a palha e a moldura da janela.
Nossos esforços foram praticamente inúteis. A palha era astuciosamente alimentada de baixo, e o manto de fumaça estava agora tão pesado e denso que a franja dele estava se assentando sobre a torre de cabelos amarelos de Margaret e, enquanto eu observava a velocidade com que caía, soube que o fim estava chegando. O Coronel trabalhara com a energia do desespero para derrubar o inimigo vil que nos matava por polegadas, e agora colapsou de repente e caiu como um tronco no chão. Margaret teria rastejado até ele, mas eu a mantive pela força contra a parede enquanto me contorcia para tirar meu casaco.
"Temos uma última chance, Margaret", disse eu. "Seu pai está apenas vencido pela fumaça – veja, não há sinal de ferimento nele – e sua queda é uma dádiva divina. Dê-me seu outro lenço e deite-se, rosto no chão e perto da janela, e escute minhas próximas instruções."
Ela o fez sem uma palavra. Envolvi meu casaco frouxamente em torno de sua cabeça e, antes que eu pudesse fechá-lo, a nuvem de fumaça estava se assentando sobre ela, mesmo enquanto ela jazia. Eu estava quase acabado, mas ela estava segura por alguns minutos. Deitado de corpo inteiro no chão, sob a janela, amarrei seu lenço na ponta da haste da cortina, empurrei-o através da palha e agitei-o com o máximo de vigor que pude.
A voz do sargento ressoou. O fogo cessou. As massas fétidas de palha foram removidas. Então o canalha avançou e olhou para mim com escárnio.
"Seus termos ainda valem?" gritei.
"Sim", disse ele.
"O Coronel Waynflete e sua filha terão permissão para seguir seu caminho, se eu me render?"
"Sim", disse ele.
"Então, em um minuto estarei convosco", disse eu. Entrando no quarto, primeiro puxei o Coronel para a janela, rasguei as roupas em volta de seu pescoço e coloquei sua cabeça no parapeito da janela, no bom ar doce. Então, rastejando até Margaret, desenrolei a jaqueta e disse brevemente: "Force um pouco do cordial de Kate garganta abaixo de seu pai. Adeus!"
Voltei para a janela, escalei para fora, pendurei-me pelo comprimento dos braços e caí no chão. Caminhando até o sargento, disse descuidadamente: "Sua vez desta vez, sargento. Hoje para ti, amanhã para mim – é mais elegante em latim, mas não entenderias – e todos os dragões de Brocton não salvarão seu pescoço feio."
"Onde diabos está seu casaco?" exigiu ele ferozmente.
Uma pergunta fria, de fato, depois de tentar me sufocar, mas nunca foi respondida. O ar estava de repente preenchido com o barulho mais estranho que eu já ouvira. Era como se todos os fantasmas do Hades tivessem subitamente assobiado em seu tom mais estridente e fantasmagórico. Isso foi seguido por uma salva de mosquetaria e, por sua vez, por gritos altos. Olhando ao redor, vi um enxame de figuras estranhas varrer o pátio, metade mulheres em seu traje, pois vestiam pequenas anáguas que mal chegavam aos joelhos, mas homens de luta incomparáveis em seu comportamento. Eles avançaram com o ritmo de cães de caça, a coragem de cervos e a força da maré.
Eram os Highlanders.
O sargento fugiu para dentro e através da estalagem e, com os homens do corredor, escapou completamente. Nenhum outro homem escapou. Metade dos dragões na carroça foram abatidos como corvos num galho. Os restantes, e aqueles no pátio ou ao redor, salvaram suas vidas e nada mais, exceto suas calças, e isso não pela conveniência, mas porque eram inúteis. Cada um deles, em menos de cinco minutos, parecia um galo depenado pela metade, e seus captores discutiam como gralhas sobre o espólio.
Lancei um olhar para a janela. Para meu alívio, o Coronel já estava sentado, bombeando o ar doce para seus pulmões poluídos, e Margaret sorriu alegremente e acenou para mim. Eu estava acenando vitoriosamente de volta para ela quando minha atenção foi forçosamente desviada por dois Highlanders, que me agarraram, determinados a me reduzir a um estado de natureza acrescido das minhas calças. Não havia tempo para explicar, nem teriam eles entendido minha explicação. Um deles, um filho de Anak pela altura e porte, já estava com as mãos em meus bolsos. Eu o atingi, como a experiência duramente ganha me ensinara, e ele caiu num monte. Seu companheiro ficou tomado de espanto ao ver um homem tão robusto ser posto fora de combate tão facilmente, e ficou boquiaberto sobre ele por um tempo. Recuperando-se, arrancou uma faca longa de sua meia e veio contra mim assassino, mas eu, entretanto, pescara uma guiné e agora a estendia para ele. Ele a tomou com a curiosidade ansiosa de uma criança, olhou para ela maravilhado, percebeu o que era e então correu saltando e folgando pelo pátio, segurando-a bem alto sobre a cabeça e gritando: "Ta ginny, ta ginny, ta bonny, gowd ginny!"
Fui salvo de mais problemas com a aproximação de um dos oficiais, ou, para falar com conhecimento posterior, chefes, desses guerreiros selvagens. Ele informou-me em inglês excelente que ouvira o tiroteio, vira minhas negociações na janela e minha rendição subsequente, e desejava saber o significado de tudo aquilo.
"O cavalheiro à janela", expliquei, "é o Coronel Waynflete, viajando para se juntar ao Príncipe Charles. A dama é sua filha, e eu sou seu criado, de nome Oliver Wheatman, de Hanyards. Estes homens do Rei, pertencentes ao regimento de dragões de Lorde Brocton, atacaram-nos; recusamo-nos a render-nos, e o sargento patife no comando defumou-nos para fora. Rogo-lhe, senhor, que aproxime a carroça da janela para que eu possa ajudá-los a descer, uma vez que a porta está fortemente barricada."
Foi feito imediatamente, e ele e eu corremos juntos para a janela.
"Seu cão jovem", disse o Coronel. "Rendeu-se afinal."
"Em estrita conformidade, senhor, com o uso militar, usei o meu critério como comandante do grupo."
"Raios!" Seus olhos cinzentos já tinham o riso antigo à espreita. "Comandante do grupo?"
"Restávamos apenas a Srta. Margaret e eu", disse eu.
"E o cordial de hortelã-pimenta", acrescentou Margaret.
Então, em pura alegria desenfreada, procuramos alívio troçando um do outro. Depois, apresentei o chefe, que ali estivera em silêncio e com graça, um belo homem, posicionado de forma natural e elegante, e mútuos cumprimentos e agradecimentos foram trocados entre nós. Contudo, naquele primeiro minuto, com Margaret e o Coronel empoleirados no parapeito, e o montanhês e eu em pé sobre os sacos de cevada, vi outra coisa acontecer, pois as grandes coisas da vida entram nela com a rapidez da luz e a inevitabilidade da morte. Um chefe subiu orgulhosamente na carroça; um servo humildemente ajudou Margaret a descer. Como era justo e cortês, e adequado à minha posição real, deixei que ele o fizesse e ajudei o Coronel, que ainda estava um tanto trêmulo. Depois de vê-lo em segurança, subi novamente e recuperei nossas armas e meu casaco. Lá embaixo mais uma vez, eu estava vestindo meu casaco quando Margaret, que falava com o montanhês, olhou para mim e disse calmamente: "Por favor, Mestre Wheatman, traga-me o dominó do meu quarto!"
Ela disse isso de forma simples e autoritária, e, é claro, disparei para cumprir sua ordem. Supus, enquanto ia, que fora a neve branca por toda parte que tornara o azul de seus olhos tão vívido.
Na estalagem encontrei o estalajadeiro, a lanterna ainda pendurada em seu dedo, apesar de sua grande aflição, e sua esposa agradável e plácida chorando amargamente. Das vinte guinéus originais do Major, agora restavam apenas quatro, e estas enfiei na mão dela enquanto passava, dizendo-lhe para se consolar.
Desde o momento em que atirei no dragão no telhado até correr escada acima pelo dominó, não se passaram mais do que vinte minutos. Saltei por cima do homem que caíra pela minha espada virgem. Ele estava caído entre a porta do quarto do Coronel e a de Margaret, em frente a uma das portas do outro lado do corredor. Correndo para o quarto de Margaret, recuperei o dominó.
Foi apenas um momento, mas nesse momento alguém abriu a porta no corredor contra a qual o homem jazia e, assim, trouxe-o para a luz, e não pude deixar de dar uma olhada nele.
Meu coração parou com o horror disso; todo o meu ser desmoronou com a agonia daquilo. Lembro-me de correr dali como se fosse dos portões do inferno. Lembro-me de cambalear nas escadas. Lembro-me de uma queda vertiginosa. Não me lembro de mais nada.
Era Jack.
CAPÍTULO XV
NAS TERRAS ALTAS
Eu estava na cama, não havia dúvida quanto a isso, e uma cama de tipo estranho também, pois movia-se leve e deliciosamente pelo ar cortante e aberto como o tapete mágico do conto oriental. Os postes da cama aos meus pés eram esculpidos de forma curiosa em imagens realistas de guerreiros, tão realistas, de fato, que quando aquele à direita virou sua cabeça peluda e falou com o da esquerda, não fiquei chocado e quase não me surpreendi. Era uma cama, no entanto, pois a mão macia e suave da minha mãe estava na minha bochecha e, sob o bálsamo de seu toque, voltei a dormir.
Quando meus olhos se abriram novamente, as névoas haviam se dissipado deles e eu não estava mais na terra das sombras. Os postes esculpidos eram montanheses; a cama era uma liteira suspensa entre quatro deles; o toque era dela. Alguém falou, os montanheses pararam e Margaret inclinou-se sobre mim. Seu rosto estava pálido, grave e ansioso.
"Você está melhor, Oliver?" sussurrou ela.
"Tão bem quanto se pode estar", respondi, empurrando meu novo problema para trás e falando com firmeza por causa da palidez de seu rosto.
"Tente dormir de novo. Você teve uma queda feia e há um corte feio em seu crânio."
"Na verdade, não farei tal coisa", foi minha resposta. "Não quero ser carregado como um grande bebê, e quero meu café da manhã. Estou vazio como um tambor."
"Você consegue ficar de pé?"
"Tenho certeza disso, e também de pular, saltar e, acima de tudo, comer e beber como qualquer homem vivo. Então, se você puder fazer esses homens-mulheres entenderem você, diga-lhes que estou muito grato, mas já tive o suficiente."
Os quatro guerreiros despenteados entenderam facilmente o que eu queria e, robustos e fortes como eram, saudaram o fim de seus trabalhos com largos sorrisos de satisfação. Eles me baixaram ao chão e, imediatamente, as mãos de Margaret estenderam-se para me ajudar a ficar de pé. Não fosse pela morte negra entre nós, teria sido uma vida nova, de fato, ver a cor e a luz do sol rastejando de volta ao seu rosto e ouvir seu "Graças a Deus!" sussurrado.
Minha cabeça zumbia e latejava, mas nada que valesse a pena mencionar. O corte era atrás e acima da minha orelha direita, então devo ter dado um salto mortal escada abaixo. Margaret, como soube mais tarde, lavara e enfaixara a ferida e, após minha recuperação da consciência, isso só me deu o feliz trabalho de persuadir Margaret de que não me causava transtorno algum.
Bati os pés e sacudi-me experimentalmente, dei alguns passos e saltei uma ou duas vezes, com Margaret observando-me tão curiosa e cuidadosamente quanto uma galinha observa seu primeiro pintinho.
"Cuidado, Oliver!" disse ela. "Sangrou horrivelmente, e você vai abrir o ferimento novamente."
"Acredito que eu precisava de uma sangria", disse eu.
"Se você precisar de outra", disse ela secamente, "espero que a faça da maneira habitual. Como aconteceu?"
Eu me preparara para a pergunta inevitável e, portanto, respondi com pesar: "Devo ter tropeçado no dominó".
"Se não fosse da sua mãe, eu nunca mais o usaria", disse ela, puxando a saia para a mão e sacudindo-a como se fosse uma criança travessa. "Pensei que você nunca acordaria. Por quase uma hora, eu diria, você parecia morto. Então você apenas abriu os olhos, mas fechou-os antes que eu ousasse falar, e permaneceu assim por pelo menos outra hora. Você me deu um susto tão grande, senhor, que, agora que está de pé novamente, estou começando a sentir que tenho uma queixa contra você."
"Sinto muito, madame", disse eu, muito sóbrio.
"Agora você está rindo de mim, senhor", foi a resposta rápida.
A palavra fez-me estremecer. "Rindo" — sobre o corpo de Jack! Margaret estava a caminho de voltar a ser minha patroa novamente, mas seu olhar mudou instantaneamente com seu humor quando ela me viu estremecer. De fato, sua mente passou pela minha como um falcão atrás de um pombo, mas esquivei-me do problema olhando casualmente ao redor para examinar nossa localização.
Seguíamos uma trilha descendo um declive em uma charneca aberta. Através do vale raso, e subindo a encosta à nossa frente, estava outro pequeno grupo de montanheses, que presumi ser nossa patrulha. O sol era uma mancha fraca no céu, e vi pela sua posição que nossa direção era leste. Um grito alegre atrás de mim fez-me girar, momento em que vi o Coronel em Sultan e o jovem Chefe no alazão dobrando a colina atrás de nós. Levou alguns minutos para eles trotarem até nós e, antes que nos alcançassem, mais quatro guerreiros selvagens, nossa retaguarda aparentemente, apareceram à vista. Um deles era meu filho de Anak, montado na égua de Margaret, parecendo mais gigantesco do que nunca.
"Bom dia, comandante!" foi a saudação do Coronel. "Raios! Mas estou feliz em vê-lo de pé novamente. Como está a cabeça?"
"Ainda zune um pouco", disse eu, "mas, para dizer a verdade, estou pensando mais no meu café da manhã do que na minha cabeça. Estou vazio como um tambor."
"É um bom prognóstico sentir fome depois de tal pancada na cabeça", disse o chefe, sorrindo, e pensei com uma pontada que visão bonita e saudável ele representava.
"Eu sou outro tambor", disse o Coronel, "mas que me leve o diabo, Oliver, se sei como seremos enchidos. Madge queria que partíssemos com você imediatamente, com razão, e não tínhamos nem uma mordida nem um gole antes de pegar a estrada."
"E para onde vocês estavam me levando?" gritei eu.
"Ao médico", explicou o Coronel. "Há um em uma aldeia escondida em algum lugar entre estas colinas, e temos um rapaz à frente para nos guiar. O Coronel Ker, que comanda os montanheses que nos resgataram, nos deu nosso amigo aqui, Capitão Maclachlan do exército do Príncipe, e um grande chefe entre seu próprio povo" — aqui o chefe e eu nos curvamos um ao outro — "e uma dúzia ou mais de seus homens valentes como escolta. Dois mantos foram tricotados em uma liteira, um pedaço de homem chamado Wheatman foi jogado dentro dela, e partimos sem café da manhã, como eu disse antes."
"Estou muito grato a você, Srta. Margaret", disse eu.
"Não seja tolo!" respondeu ela muito bruscamente. "Não é nenhum elogio dizer-me que agi com decência comum. E você não foi jogado dentro!"
"Não a estava elogiando, madame", retorqui, rápido como sempre em devolver na mesma moeda. "Estava agradecendo-lhe, e ouso, com respeito, agradecer-lhe novamente."
"Que se dane o velho Bloggs!" disse ela, de repente toda radiante.
"Bloggs? Quem é Bloggs?" perguntou o Coronel, claramente apreciando a diversão.
"Um mestre-escola patife", explicou ela, "que surrou Oliver até uma precisão de fala que acho muito cansativa. Mas não devo difamar o querido velho, pois roubei seu jantar."
"Desejo que ele o tivesse surrado até a precisão em uma escada", disse o Coronel. "Droga, estou com fome."
"Estou pensando que haverá uma poça de água lá no fundo", disse o chefe, "e a Srta. Waynflete fará, se quiser, sua primeira refeição ao estilo das Terras Altas."
Como recusei firmemente ser carregado mais um metro, os montanheses desmontaram minha liteira e retomaram seus mantos. No vale encontramos um riacho de água doce e límpida, e nosso banquete consistiu em um punhado de aveia, da qual cada membro do clã carregava um suprimento em uma sacola de linho, misturada em um chifre de água. Não era nossa noção de Staffordshire de café da manhã, mas era melhor do que nada.
"Water-brose é uma coisa boa o suficiente em um aperto", disse Maclachlan a Margaret, "boa o suficiente para levar um grande bobo como aquele Donald a Londres e voltar."
Donald, ao que parecia, gostava de um acréscimo, apesar do elogio de seu chefe, pois ele dava um longo gole de uma garrafa de couro. Isso, explicou ele, era usquebaugh, "a água da vida", e a pitada de poesia na descrição tentou o Coronel e eu a provar um gole. O Coronel provavelmente já tivera bebidas piores em seu tempo, mas mesmo ele não fez comentários. Eu quase preferiria ter levado um tiro de festim na boca.
Enquanto todos comíamos nosso brose, e Maclachlan cortejava Margaret, o Coronel me contou como aconteceu que os montanheses por acaso vieram ao nosso resgate bem a tempo. Meu próprio problema é colocar minha história de forma direta e simples, e não tenho intenção de tornar uma tarefa difícil ainda mais difícil ao tentar entrelaçar com os fios da minha própria história uma pobre crônica destes dias importantes. O Sr. Voluntário Ray viu muito mais dessas coisas do que eu jamais vi, e o leitor curioso pode recorrer ao seu gordo, pequeno e marrom volume para detalhes. Ele estava do outro lado, e é parcial demais para um historiador perfeito, mas o relato das coisas está lá, e razoavelmente bem feito também. Mas como o que aconteceu com Margaret, o Coronel e eu, aconteceu por causa da campanha dos exércitos rivais, devo resumir o que o Coronel me contou se quiser tornar minha história clara. O Coronel, para seu crédito, como penso, era tão entusiasmado com todos os assuntos militares que era um tanto prolixo em seu relato e, da mesma forma que nossa Kate doméstica, cabe a mim, por assim dizer, fazer um pote de geleia a partir de uma panela de frutas, o que é mais fácil de fazer com maçãs silvestres do que com palavras.
Segundo o Coronel, uma das máximas mestras da arte militar é: "Descubra o que o inimigo pensa que você vai fazer, e então não faça". Meu Lorde George Murray, o principal conselheiro do Príncipe em assuntos militares, agira de acordo com este plano e deixara o Duque de Cumberland para trás em grande estilo. Em Macclesfield, o viajante para Londres tinha a escolha de duas estradas principais, uma através de Leek e Derby, e a outra através de Congleton e Stafford. Deixando o Príncipe em Macclesfield com a maior parte de seus homens, Murray avançara com uma grande força até Congleton na estrada de Stafford, e a notícia de seu avanço fizera Cumberland retirar todos os seus postos avançados do norte para seu quartel-general em Stone. Foi o último grupo de cavalaria, expulso de Congleton, que observamos dos pinheiros na noite passada, correndo com medo e desordem de volta para o grosso de seu exército. Antes do amanhecer, Murray enviara uma força de montanheses sob o comando do Coronel Ker em direção a Newcastle, para manter a ilusão de que a estrada de Stafford era a que o Príncipe seguiria, e a vanguarda desta força, sob Maclachlan, nos salvara no "Red Bull". Murray estava marchando de Congleton através do campo para Leek, enquanto o Príncipe marchava para lá também vindo de Macclesfield. Murray chegaria lá primeiro, e não pretendia esperar pelo Príncipe, mas avançar o máximo possível em direção a Derby. Nós também estávamos indo para Leek, onde estaríamos seguros finalmente, e o fim da explicação do Coronel chegou, não porque ele tivesse dito tudo o que poderia ter dito, mas porque Donald estava gritando para os membros do clã em preparação para retomarmos a estrada.
Maclachlan aceitou com prontidão uma oferta que fiz de seguir à frente e juntar-me à nossa vanguarda. Ele ordenou a Donald que me acompanhasse, dando como motivo: "Pois ele conhece bem os ingleses quando o espírito de entendimento está nele, e você facilmente o conseguirá nele dando-lhe uma pancada na barriga, como você fez lá atrás na taverna."
O montanhês manteve a expressão de uma boneca de madeira durante toda esta explicação, mas, enquanto eu saltava vigorosamente atrás dele através do riacho, alcancei um sorriso em seu rosto que prometia muito para o meu entretenimento futuro.
"Ela se recuperou", disse ele. "Aquele foi um belo salto."
Antes que eu pudesse responder, Margaret estava sobre nós.
"A égua está muito agitada. Ela me acha um mero fardo depois de Donald. Você tem certeza de que está bem, Oliver?"
"Tão perto de estar bem, madame, que imploro que não se preocupe mais comigo", disse eu.
"Preocupar-se comigo ou preocupar-me?"
Doeu-me vê-la ficar tão fria de repente, mas respondi francamente: "Ambos. De fato, preocupa-me tê-la sem café da manhã nestes lugares selvagens por causa das minhas ações."
"Sim", disse ela, sorrindo para mim, "eu conheço bem a distinção entre water-brose e presunto com ovos."
"Ainda estamos em Staffordshire", disse eu alegremente, "e irei à frente ver o que posso fazer por você. Agora, Donald, seu melhor pé à frente!"
Ele e eu começamos à frente novamente, deixando-a esperando pelo resto do grupo, detido por alguma explicação do Coronel sobre os aspectos militares da disposição da terra.
"Há um monte de belas damas com o Príncipe, Deus o abençoe", disse Donald, "mas quando aquela megera chegar entre elas, ela será como um galo silvestre entre um bando de corvos. Ela vai derrotar todas elas."
Eu esperava que Donald nutrisse má vontade contra mim pelo meu golpe, mas nisso eu estava errado. Longe de guardar rancor, ele obviamente gostava de mim por isso. Ele tinha um punho, ou nief, como ele chamava, quase tão grande quanto uma perna de cordeiro, e quase a primeira coisa que ele fez quando estávamos sozinhos foi estendê-lo, enorme, sujo e peludo, e colocá-lo ao lado do meu. Ele coçou sua cabeça áspera em sua perplexidade.
"Em Gladsmuir", disse ele, "minha própria pessoa derrotou dez bobos ingleses com minha própria mão, sem ninguém para me ajudar, e agora um jovem rapaz derrotou-me completamente sem nada além do punho de uma criança."
"Não foi uma luta limpa, Donald", disse eu. "Nada além de um truque. Se você me acertasse de forma justa e quadrada, eu me quebraria em dois como uma cenoura. Diga-me como você capturou os dez homens!"
Foi uma história um tanto longa, de qualquer forma como ele contou, em um inglês pitoresco e incerto, misturado com rajadas de seu próprio gaélico à medida que se empolgava com o relato de sua proeza. Um deles era um oficial, e Donald terminou por vasculhar sua sacola de refeição em busca de um magnífico relógio de ouro, prêmio legítimo de seu ponto de vista, tirado do bolso do oficial.
"A coisa maldita estava viva quando a tirei de seu bolso", disse ele, "mas ela morreu logo depois. Você pode tê-la por um xelim."
Ele não tinha ideia, nem eu conseguia fazê-lo entender, o que era aquilo e qual o propósito que servia. Quando ele parou por falta de corda, em sua mente simples ele tinha 'morrido'. Ele empurrou-o para a minha mão tão indiferentemente como se fosse um nabo, e eu prometi pagar-lhe em Leek, pois meus bolsos estavam vazios novamente e Margaret tinha a bolsa.
"Minha própria pessoa preferiria um novo par de sapatos", disse ele. "E para que alguém quer uma coisa que morre para saber a hora? Há o sol e as estrelas, que nunca morrem."
Como caminhávamos rapidamente, alcançamos nosso grupo logo após resolver a questão do relógio. O rapaz lavrador que fora recrutado como guia disse-me que estávamos perto da estrada para Leek, e deixei que ele voltasse. Descemos para uma estrada acidentada seguindo nosso caminho, e a uma milha ou mais adiante, os telhados de uma aldeia apareceram, e paramos até que o grupo principal chegasse.
"O que é, Oliver?" perguntou o Coronel.
"Café da manhã, senhor", disse eu.
Entramos na aldeia em formação militar. À nossa frente caminhava Donald, de coração valente e mão poderosa, com dois tocadores de gaita de foles berrando atrás dele, e os homens do clã marchando bravamente, dois a dois atrás deles. Margaret veio em seguida, comigo na cabeça de sua égua, e o Coronel e Maclachlan traziam a retaguarda.
Nossa chegada criou tanta agitação quanto um terremoto. Os montanheses, em grupos de dois ou três, entraram nas casas e ordenaram a seus anfitriões relutantes que lhes preparassem uma refeição. Que era uma guerra na qual eu estava envolvido foi, pela primeira vez, trazido claramente para mim quando vi um montanhês temível, com claymore, adaga e mosquete carregado, postado em cada extremidade da aldeia. Um toque da natureza humana comum foi, no entanto, adicionado, quando as crianças, destemidas e felizes em sua ignorância, aproximaram-se dos sentinelas e olharam para eles tão ansiosamente como se fossem índios pintados de guerra em um espetáculo itinerante.
No princípio, nós, a pequena nobreza para abreviar, pretendíamos buscar acomodação na estalagem, por mais pobre e decadente que parecesse, e Donald foi enviado para lá com instruções. O Coronel e o chefe cavalgaram pela aldeia para observar como as coisas estavam indo, e isso nos deixou, a Margaret e a mim, a sós, espectadores de uma cena deliciosa. Pois, à medida que Donald se aproximava da porta da estalagem, a hospedeira, uma mulher de nariz afiado e temperamento de víbora, investiu contra ele com uma vassoura muito suja e o afugentou completamente. A bem da verdade, Donald, que tinha a natureza sã e doce de uma criança, possuía toda a indiferença natural das crianças à sujeira, mas mesmo ele, por mais paciente que fosse em tais assuntos, teve de parar para raspar a imundície de seus olhos. Isso me deu a chance de selar a paz, então me aproximei e expliquei que pagaríamos por tudo como viajantes comuns, bom dinheiro por boa comida.
— Oh, sim! — disse ela.
— Jonnock! — disse eu.
— Você é um sujeito de Stafford — afirmou ela.
— Sou — concordei — e cuidarei para que seja bem tratada.
Isso a convenceu, e Donald também se deu por satisfeito, pois suas necessidades imediatas foram atendidas por um grande copo de conhaque, e as mais remotas por um balde de água e uma toalha.
— Meu Deus! — disse a mulher vigorosa para mim — um banho não lhe fará mal. Tenho o maior pateta de marido — continuou ela — entre Mow Cop e Cocklow o' Leek. Saiu perambulando, com nosso jovem Ted nos ombros, para ver vocês rapazes marcharem para Leek. Há cerca de uma dúzia deles que se foram, tão animados como se estivessem indo para as festas de Stoke. Tolos, eles parecerão bem idiotas quando voltarem para casa hoje à noite.
Como aconteceu, a "Dun Cow" acabou ficando para Donald e os gaiteiros. Quando reencontrei Margaret, ela disse: — Por favor, ajude-me a descer, Oliver, e encontraremos o médico para que ele faça um curativo em sua cabeça. E, uma vez fora da vista de Donald, soltarei a risada que quase me mata de tanto segurar.
Ajudei-a a descer e disse: — Esqueça o médico! Aquela bela igreja antiga ali deve valer a pena uma visita.
— Você não vai esquecer, senhor — retrucou ela. Ela sinalizou para Donald cuidar de sua égua e, então, interceptou uma garota que passava, correndo de um sentinela para o outro, e a convenceu a nos mostrar a casa do médico.
Assim, partimos para lá, e enquanto caminhávamos ela disse: — Sério, Oliver, você é imprudente às vezes.
— Bobagem — disse eu. — É a minha cabeça.
Eu estava irritado, não com suas palavras, pois sabia que ela não as dizia a sério, mas com minha incapacidade de entender onde aquela mulher fascinante queria chegar.
— Imprudente — repetiu ela com firmeza. — Você se contentaria em ser apresentado ao Príncipe com uma grande faixa de linho sujo e manchado de sangue em volta da cabeça, sem se importar com o que isso refletiria sobre mim.
— Refletiria sobre você? — ecoei, perplexo.
— Sim. Nós não combinaríamos. Suponho que o velho Bloggs fosse solteiro?
— Era — disse eu, desistindo da disputa em desespero.
O médico morava em uma casa de tamanho razoável feita de pau a pique. Era um homenzinho elegante, com uma expressão inteligente, porém fraca, e estava agitado com a reviravolta que as coisas tinham tomado. Ele acabara de abrir a porta para nós e nos observava incerto, quando o Coronel e o Chefe, retornando a pé de sua inspeção, tendo deixado seus cavalos para serem alimentados sob o olhar atento de um montanhês, pararam ao nosso lado.
— O senhor é o médico? — perguntou Margaret prontamente, como se quisesse impedir qualquer recuo de minha parte. Se eu pudesse me alegrar com algo, teria ficado exultante com o zelo dela em fazer com que eu fosse atendido.
— Sim — disse ele, mas muito baixinho.
— Então, por favor, cuide do ferimento deste cavalheiro — disse ela.
— Ele é um rebelde? — perguntou ele, tão alto que parecia estar falando com alguém do outro lado da rua, e instintivamente me virei. Lá, com certeza, estava o pastor, um canalha de aparência pálida, inchada e vil, vindo ver o que estava acontecendo.
— É da cabeça dele que quero que o senhor cuide — retrucou Margaret —, não da política dele.
— Eu não medico rebeldes — disse ele, mais alto do que nunca.
— Homem — interveio Maclachlan, tirando uma pistola do cinto e enfatizando suas palavras ao bater suavemente o cano na palma da mão —, se em dez minutos essa cabeça não estiver tratada à perfeição, é o seu próprio pescoço que estará além de qualquer tratamento em toda a Inglaterra.
— É contra todas as leis — disse o médico.
— Eu sou a lei neste lugarejo hoje — disse Maclachlan simplesmente, ainda batendo com sua pistola. Ouvindo o pastor atrás, ele se virou e acrescentou secamente: — E o evangelho. Com isso, o rosto do pastor assumiu a aparência de massa mal feita e mal crescida, e ele se virou e fugiu com passos rastejantes e silenciosos, como um gato.
— Entrem — sussurrou o médico.
— O senhor é um homem sensato — disse Maclachlan, guardando a pistola no cinto.
Todos entramos no saguão, e o médico fechou a porta cuidadosamente.
— Aquele desgraçado com cara de pudim é um Whig — disse ele — e, claro, um magistrado. O proprietário de terras é um Whig e também é magistrado. E aqui estou eu, bem conceituado na profissão, e minha esposa vinda dos Parker Putwell, uma das raras e antigas famílias do condado — nada desses novos ricos e plantadores de nabos — e eu não sou magistrado porque sou um homem da Igreja e do Rei à moda antiga.
— Eles saíram de moda junto com as perucas loiras — disse eu.
— Vamos, meu macarrão despenteado! — disse ele. — Não há nada de errado com o interior da sua cabeça, pelo menos, embora o exterior pareça que você discutiu com o touro da paróquia.
— Esta é uma casa muito boa — disse Maclachlan lenta e maliciosamente.
— Um mero canil — disse o médico —, considerando que ela é uma Parker Putwell.
— E estou pensando — disse Maclachlan, muito pensativo — que haverá algumas boas vitualhas na despensa e, talvez, um bom punhado de garrafas de licor legítimo na adega.
— Oh, sim! — disse ele, pego de surpresa.
— Então acho que vamos tomar o café da manhã aqui e testar seus méritos. E se for bom, farei de você um magistrado, o que quer que isso seja, quando o Rei recuperar o que é seu. Um Maclachlan deu sua palavra.
O médico foi até uma porta interna e gritou: "Euphemia", e uma mulher descontente e magra atendeu ao seu chamado.
— Madame e senhores, minha esposa, Sra. Snooks, nascida Parker Putwell. A Sra. Snooks, assim como eu, curvar-se-á à sua vontade com prazer, nem vocês desgostarão de sua mesa, garanto. Agora, meu rapaz, vamos cuidar desse corte na sua cabeça.
Ele me levou para sua farmácia, desenrolou a bandagem e examinou meu ferimento.
— Ora, ora! — disse ele. — Uma bela pancada na cabeça. Como aconteceu?
Eu lhe contei.
— É sorte sua, meu rapaz — disse ele — que você tenha carne de bebê e crânio de carneiro, e que alguém teve o bom senso de lavar o corte assim que foi feito.
Ele começou a trabalhar e fez um bom serviço, com um chumaço de gaze e tiras de esparadrapo, e enquanto isso eu especulava por que, entre todos esses frascos, jarros e potes, nem a natureza nem a arte conseguiam armazenar um remédio magistral para o golpe que havia dilacerado meu coração.
— Isso é melhor do que duas jardas arrancadas da anágua de uma moça — disse ele por fim. — E uma anágua condenadamente fina também, seu patife sortudo.
Ele cantarolou um trecho de obscenidade que fez meu pé contrair dentro da bota. Pelas costas dele, guardei no bolso a relíquia inestimável, úmida e vermelha com meu sangue indigno, e segui-o de volta para a companhia.
Fizemos uma estadia um tanto longa e comemos bem à mesa dele. O médico era um bom sujeito, mas sua esposa, uma mulher ácida e dominadora, vivia à luz dos Parker Putwell, e ele, pobre diabo, à sombra que eles lançavam. Ele também jogava um jogo duplo, pois sempre que a empregada de cotovelos vermelhos entrava na sala, ele gritava sua discordância de nossa ilegalidade e bebia ao Rei com seu copo sobre a garrafa de água assim que ela saía. Certa vez, quando ela nos trouxe um prato raro de peixe e, com curiosidade de serva, ficou por ali para colher uma ou duas migalhas de fofoca, tivemos um momento de comédia, pois, em sua atuação, ele não aceitava nada até que Maclachlan, para manter a farsa, apontasse uma pistola para sua cabeça e o forçasse. Ao que a criada, de forma corajosa, atirou um pão caseiro em Maclachlan e acertou-o em cheio no peito. O médico, para seu crédito, levantou-se para protegê-la, mas ela enfrentou a situação. Ela afirmou que emprestaria ao tal sujeito uma anágua melhor do que a que ele estava usando. "Se ele tem que usar essas coisas", acrescentou ela, "poderia usá-las compridas o suficiente para parecer decente". O médico a expulsou às pressas, palpitante, mas triunfante.
Maclachlan saltou como um gato selvagem quando o projétil o atingiu. Felizmente, ele ficou confuso com o quique do pão na mesa e depois direto no colo de Margaret, ou o gatilho pronto teria sido puxado para valer. Então, Margaret rapidamente tirou o peso da raiva dele dizendo com uma doçura ameaçadora: — Sinto muito que a brincadeira tenha ido além do desejável, mas não permitirei que a garota seja culpada pelo que foi nela um ato corajoso, nem sofrerei qualquer aborrecimento aqui por causa disso. Por favor, sente-se.
Isso encerrou o assunto, e Maclachlan, com um sorriso irônico, sentou-se novamente para comer seu peixe.
— Foi uma coisa muito boa, afinal — explicou ele —, que não tenha sido na minha boca, pois foi uma pancada e tanto. Ainda estou meio com fome e, claro, café da manhã e brigas combinam mal.
Foi bem dito, e Margaret o recompensou com um sorriso e o envolveu em uma conversa alegre. O Coronel, que havia ficado em silêncio durante o problema, agora bombardeava o médico com perguntas sobre a região.
— É um lugar ruim para um Parker Putwell viver — respondeu ele. — Se existe um trecho mais desolador ou solitário na Inglaterra do que as charnecas de Leek, eu não gostaria de vê-lo. Viajo quilômetros a fio por ele para visitar meus doentes e, geralmente, em um dia de cavalgada, não vejo ninguém além de um pastor errante, um mascate apressado atravessando o campo com suas bugigangas e, de vez em quando, um tecelão vasculhando as casas isoladas em busca de fios.
Quando a refeição terminou, Maclachlan insistiu em pagar e deu um xelim para a atiradora de pão. Em teoria, descobri que os homens do clã pagavam pelo que consumiam, e Donald, sendo o intendente do grupo, estava muito ocupado cumprindo suas obrigações por toda a aldeia. A única causa de insatisfação, mas não pequena, era seu modo escocês de calcular, no qual uma caneca era quase meio galão, enquanto seu xelim era um centavo miserável. Sempre era necessário um giro de seu punhal e uma tempestade de gaélico para convencer um camponês de sua precisão, mas ele conseguiu por fim, e reorganizamos nossa ordem de marcha e partimos para Leek.
Desta vez, peguei o alazão e Maclachlan marchou ao lado de Margaret em sua égua, pois o Coronel queria me dar um relato, derivado do jovem Chefe, das marchas e vitórias do Príncipe. Sendo os montanheses caminhantes surpreendentes, e o Coronel cheio de analogias e digressões, a torre da igreja de Leek surgiu à vista antes mesmo de tirarmos o Príncipe de Edimburgo.
Uma pausa foi feita para discutir o que deveria ser feito. O Coronel desmontou e seguimos seu exemplo. Margaret, notei, corou levemente quando Maclachlan a ajudou a descer. Ela estivera tão fria e imperturbável quanto uma imagem de mármore quando estava em meus braços. Maclachlan queria marchar para dentro da cidade, e a dúvida no rosto do Coronel o irritou um pouco.
— A considerável cidade de Manchester — disse ele — foi entrada, e em parte tomada, por um sargento escocês e seu tambor. Com certeza, quase vinte Maclachlans podem tomar aquele pequeno lugarejo.
— Com certeza — retrucou o Coronel —, Margaret e um de seus gaiteiros seriam suficientes se tivéssemos apenas os habitantes da cidade a considerar. Não há jogo muito mais fácil do que entrar na toca de um leão quando o leão não está lá, mas é pura tolice jogar o jogo até ter certeza de que ele não está em casa.
— Leão! O que temos a ver com leões aqui? — perguntou Maclachlan.
— Como sou apenas um voluntário — respondeu o Coronel — e ainda não sou um homem de autoridade sob a comissão do Príncipe, como você é, devo pedir sua licença para explicar que nossa entrada em Leek é um problema militar. Admito que é um pequeno problema, já que não importaria uma pitada de rapé se marchássemos e cada um de nós fosse prontamente enforcado na praça do mercado. Mas assumi o compromisso de tornar Oliver um soldado e, droga, o que você quer fazer não é soldadesca, e ele só aprenderá a ser soldado dominando os pequenos problemas primeiro.
— Como contas na escola — disse eu, ao que Margaret riu alto.
— Droga, seu jovem patife — enfureceu-se o Coronel —, se eu tivesse minha comissão no bolso, eu o prenderia por insolência.
— Com todo o respeito, senhor — respondi —, peço permissão para dizer que entendo que, em um conselho de guerra, o oficial mais jovem dá sua opinião primeiro.
— Essa você levou, pai — disse Margaret alegremente.
— Droga, vou mandá-lo para Chester hoje à noite — retrucou ele. — Tão certo quanto dois e dois são quatro, você vai arruinar Oliver. Pare de rir feito um macaco, senhor, das artimanhas dessa moça e me escute.
— Estou pensando, senhor — disse Maclachlan — que, na minha atual posição de responsabilidade, eu valorizaria muito suas observações sobre o assunto em questão.
Este foi um comentário inteligente no que diz respeito ao Coronel, pois ele teria falado com uma víbora sobre a arte da guerra, mas Maclachlan não viu, e eu vi, a boca delicada que Margaret fez.
— Minhas observações são simplesmente estas — disse o Coronel: — Não sabemos onde está Murray, não sabemos onde está o Príncipe e não sabemos onde está o Duque de Devonshire. Qualquer um deles pode estar em Leek.
— E quem pode ser o Duque de Devonshire? — perguntou o chefe. — Nunca ouvi falar dele.
— Um dos favoritos de Geordie, que reuniu uma grande força de milícia em Derby e que, se tiver algum brio, pode ter nos antecipado marchando para Leek.
— É bastante embaraçoso — disse Maclachlan, completamente surpreso com a notícia.
— É sim — disse o Coronel —, e vendo que Oliver conhece as regras e procedimentos das cortes marciais, ele entregará seu julgamento primeiro.
— Senhor — disse eu, curvando-me profundamente —, eu, com respeito, sugeriria...
Não fui adiante, pois Donald, que estava a um metro do meu cotovelo, subitamente saltou no ar e soltou um grito assustador. Então ele correu de um lado para o outro, como um cão de caça atrás de um rastro perdido, tagarelando em gaélico. Os membros do clã levaram as mãos aos ouvidos e os ouvidos ao vento, ouvindo atentamente, momento em que Donald cessou sua agitação e tagarelice e gritou para nós: — As gaitas! O Príncipe! As gaitas! O Príncipe!
— Shh, seu velho tolo — disse o chefe. — Você é capaz de ensurdecer um trovão.
— Estou lhe dizendo, as gaitas! O Príncipe! — ele balbuciou, e então ficou em silêncio, e todos nós ouvimos.
Os montanheses deviam ter ouvidos como os cervos de suas próprias montanhas. Eu não conseguia ouvir nada além do suave sussurro da brisa enquanto varria a grama alta das charnecas, mas eles, Maclachlan tão loucamente quanto qualquer um deles, gritaram seu grito de guerra, e os gaiteiros encheram seus foles e sopraram até quase estourar. O semelhante chamava o semelhante através das terras selvagens.
Margaret brilhava de entusiasmo, e os olhos do Coronel cintilaram enquanto ele me passava a caixa para a pitada habitual — uma cortesia, descobri por experiência posterior, que ele concedia a poucos. De fato, em meu novo problema, a bondade e o afeto do Coronel estavam se tornando meu melhor apoio.
— O grande jogo começou, Oliver — disse ele.
— E jogaremos até o fim, senhor.
— Bom rapaz — disse ele.
— Donald, seu velho patife — disse Maclachlan —, coloque seus filhos em movimento. Os Maclachlans serão os últimos, onde deveriam ser os primeiros, na tomada de uma cidade, mas o Príncipe, Deus o abençoe, me achará um bálsamo em Gileade quando vir os reforços que trago.
Ele estava muito animado, e me interessou observar em outro o efeito tônico da presença de Margaret. Não tirei vantagem da minha capacidade como seu criado, mas saltei para a sela e sentei-me no alazão como uma imagem de madeira enquanto ele se movia para deixá-la montada novamente e pronta para a estrada. Ele estava, de fato, apto a servir uma rainha; o traje das Terras Altas destacava maravilhosamente bem as linhas limpas e fortes de seu corpo, e a única pena de águia em sua boina era o sinal certo para estar tremulando sobre ele. O espírito de superioridade estava rapidamente escorrendo de mim, e sentei-me ali, tirando o pó das abas do meu casaco de alfaiate do campo.
Os homens estavam alinhados na trilha acidentada da charneca, Donald à frente e os dois gaiteiros enchendo seus foles e dedilhando suas flautas atrás dele. Maclachlan pegou as rédeas de Margaret e começou a conduzir sua égua pela encosta do caminho, mas o Coronel o chamou e desviou sua atenção, e ela parou ao meu lado.
— Oliver — disse ela —, você deve me deixar seu casaco por meia hora quando estivermos estabelecidos na cidade, para que eu possa consertá-lo. Os buracos nele me fazem estremecer toda vez que os vejo.
— A senhora é muito gentil, madame — disse eu, ainda tirando o pó, para que ela não visse como minha mão tremia.
— Oliver!
Ela me obrigou a olhar para ela agora, ela falou de forma tão peremptória, e quando os olhos azuis encontraram os meus, eram tão claros e intensos que temi que ela pudesse ler meu segredo.
— Sorria!
Sorria! Eu deveria sorrir, não é? E quando nossa Kate recebesse as notícias em Hanyards, o sorriso morreria de seus olhos para sempre, pois Jack, o querido e magnífico Jack, era a trama que havia sido tecida na urdidura de seu ser.
— Eu não sorrio sob encomenda, madame — disse eu.
Ela fustigou a égua bruscamente e galopou até o plano, onde Maclachlan correu atrás dela com a velocidade de um cão.
CAPÍTULO XVI
O BELO PRÍNCIPE CHARLIE
Em nosso caminho para a cidade, aconteceu algo que me abalou muito, sendo eu, como era, nada mais que um pequeno agricultor que nunca tinha visto guerras. Em um ponto onde a estrada acidentada atravessava uma dobra nas charnecas, vimos, a oitocentos metros à nossa direita, um rebanho de gado sendo tangido e levado para os cantos mais remotos entre as colinas por um grupo de camponeses suados. Se isso tivesse acontecido em nossas terras, pensei sombriamente, Joe e eu estaríamos lá entre os outros, salvando nosso próprio rebanho dos saqueadores. Donald olhou para eles com saudade, mas nossa pressa não permitia demora e, além disso, como ele me disse mais tarde: "É uma cidade pobre, mas, afinal, melhor do que um monte de gado cheio de piolhos, pois consegui um bom par de sapatos por alguns trocados."
Leek estava tão cheia de montanheses quanto um ninho de vespas é cheio de larvas, e eles ainda estavam chegando. Donald e os homens do clã, indiferentes à multidão e ao burburinho, abriram caminho para nós até a praça do mercado, onde, por conselho do Coronel, foram dispensados para procurar alojamento. Então, tomei o comando e conduzi meus companheiros até o "Angel", onde a multidão era tão densa que poderiam estar distribuindo a cerveja de graça.
Conseguir estábulos e comida para os cavalos foi fácil o suficiente, pois poucos dos montanheses cavalgavam para o sul, embora fosse diferente ao voltar para o norte. Então, conduzindo meus companheiros para o pátio, entrei na estalagem e, por sorte, encontrei o estalajadeiro, quase fora de si ao tentar entender uma palavra de inglês entre vinte de gaélico.
— Olá, amigo! — disse eu.
— Meu Deus! — disse ele. — Staffordshire enfim.
— Ouvi muito sobre a cerveja de Leek — disse eu. — Sirva-me uma caneca dela!
Ele a trouxe em um instante, e seu rosto brilhava com orgulho honesto enquanto dizia, segurando-a entre meus olhos e a luz: — O que acha disso em termos de cor e espuma? Que se dane! Nada dessa água suja de Londres, mestre, mas uma honesta cerveja de Staffordshire. Droga, você pode realmente mastigar o malte nela.
"Aposto uma guiné que já bebi melhor", disse eu, com a caneca de cerveja nos lábios.
"Eu apostaria na minha própria cerveja", disse ele, "se o 'Angel' estivesse cheio de diabos, quanto mais de anáguas. E, entre amigos, sua senhoria, ganhando ou perdendo, não diga à minha patroa que já bebeu cerveja melhor que a nossa."
Bebi a cerveja dele e disse, judiciosamente: "Não, não bebi. Essa é a melhor cerveja que já tomei", e entreguei-lhe a guiné.
"Esta aqui é um pouco de gordura junto com a carne", disse ele, girando a guiné no ar e, à moda do campo, cuspindo nela para dar sorte. "Há algo que eu possa fazer pelo senhor? Um cavalheiro que sabe o que é uma boa cerveja quando a bebe não deve ser negligenciado por um bando de selvagens de pernas nuas que não têm tanto discernimento para a cerveja quanto uma porca tem para o farelo." Ele inclinou-se para mim e acrescentou num sussurro: "Estou dando a eles uma bebida em que eu não lavaria nem os boletos da minha égua, e eles estão engolindo como se fosse minha legítima de outubro."
"O tempo estava trovejante no verão", disse eu seriamente, ao que ele sorriu de forma inteligente.
"Sua senhoria entende do riscado", disse ele. "Há algo que eu possa fazer pelo senhor?"
"Traga a patroa", disse eu, "e conversaremos."
A anfitriã veio. Suas bochechas eram castanhas como a sua própria cerveja, e conversamos, dezenove por uma dúzia, por pelo menos dez minutos.
Ao final, arrebatei o melhor salão com vista para a praça para o uso de Margaret, e quartos para cada um de nós, pagando um substancial sinal de contrato, pois a Sra. Waynflete havia me devolvido a bolsa de ouro que o Sr. Freake me dera. Seria necessário, descobri, expulsar dois ou três joelhos-nus que os haviam marcado como seus, mas isso poderia ser facilmente feito, se, como era improvável que fosse o caso, estivessem sóbrios o suficiente à noite para rastejarem até a cama. Feitos esses arranjos, saí e busquei Margaret, que ficou muito grata pelo que eu fizera, e foi para o seu quarto, enquanto nós três homens nos posicionamos no calçamento de tijolos e observamos o movimento na praça.
Vimos dois ou três batalhões entrarem na praça vindos da estrada de Macclesfield, e o Coronel examinou-os atentamente e, como pensei, ansiosamente. Mesmo para o meu olhar destreinado, eram um grupo misto; a maior parte deles, sem dúvida, eram homens de luta robustos, ativos e bem armados, que marchavam em ordem aceitável, seis ou oito lado a lado; mas havia muitos homens mais velhos e meninos entre eles, e muitos estavam apenas indiferentemente armados.
"Quantos vocês contam ao todo?", perguntou o Coronel.
Maclachlan respondeu em francês. Não havia mais como confundir a gravidade no rosto do Coronel, e ele tomou rapé tão pensativamente que, pela primeira vez, esqueceu-se de mim.
"Desculpe-me, meu caro rapaz", disse ele, recuperando-se e estendendo a caixa em minha direção. "Espero que haja um tabaqueiro na cidade que venda autêntico Estrasburgo. Estou ficando sem, e o rappee e o Brasil são mera porcaria para o paladar cultivado." Então, olhando ao redor da praça, acrescentou alegremente: "Um verdadeiro espetáculo para os habitantes da cidade!"
Bem à nossa frente, parada na beira da sarjeta, estava uma pequena, antiga e distinta dama, que observava a cena com olhos rápidos e ávidos. Ela voltou seu rosto feroz e desdenhoso para o Coronel e disse: "Sim, senhor! O senhor está certo. É um espetáculo, apenas um espetáculo, para os habitantes da cidade. No entanto, lembro-me de que, trinta anos atrás, os pais desses covardes sem espírito eram tão ávidos pela causa quanto a águia por sua presa."
"Assim, madame", disse o Coronel muito gentilmente.
"Assim, de fato", ela respondeu. "Mas agora, em sua maldita busca por dinheiro, eles arrancaram cada instinto mais nobre e só pensam em seus comércios de sedas com as damas da Corte de Londres. Melhor um belo vestido vendido à ímpia Caroline do que um golpe firme desferido pelo James ungido de Deus."
Ela era, sem dúvida, uma dama de qualidade, mas caída na pobreza e agora, o pior de tudo para ela, em dias malignos e infiéis. Quando ela parou, sem fôlego devido à sua fala cortante, pois era muito idosa, um homem vil e rústico aproximou-se dela para conseguir uma posição melhor para observar a chegada de outro grupo de clãs. Num acesso feroz de raiva, ela o atingiu com a bengala de ébano na qual se apoiava e, quase sibilando as palavras para ele, disse: "Volte para seus botões e suas borlas, Thomas Ashley, e obtenha graça pensando em seu digno pai!"
O homem afastou-se sorrateiramente, e ela continuou, dirigindo-se ao Coronel: "No quinze, o pai dele era um de nós, e sofreu dignamente."
"Por quê, madame?", perguntei.
"Pela causa", ela respondeu.
"Por que serviço específico à causa, madame?", insisti.
"Ele era zeloso contra os cismáticos, senhor", disse ela corajosamente.
"Madame", foi a minha resposta, "se o zelo de qualquer um de nós, habitante da cidade ou do clã, tomar a mesma forma neste dia, certamente torcerei o pescoço dele. Podemos lutar por Charles sem queimar capelas."
"Golpeie-e-não-poupe assinaria essa doutrina", disse Margaret, abrindo caminho gentilmente entre o Coronel e eu, e enganchando uma mão no braço de cada um de nós. Colocando os lábios no meu ouvido, ela sussurrou alegremente: "Empurrão de pique e a Palavra", e então olhou de forma tão cativante para mim que a sombra negra se dissipou, e eu sorri de volta para ela.
E agora, o esticar de pescoços na curva onde a grande estrada se curvava para a praça anunciava algo fora do comum, que se revelou ser a chegada da guarda-pessoal do Príncipe. Eram rapazes esplêndidos, bem montados, vestidos de azul, com lapelas vermelhas e coletes escarlates pesados de ouro. Com eles estavam os principais chefes do exército, e ouvi Maclachlan recitando seus nomes e qualidades no ouvido do Coronel. A guarda, em número de cerca de seis dúzias, formou três lados de um quadrado e permaneceu em seus cavalos, enquanto um dos líderes proclamava James e tomava posse da cidade.
Os vivas dos clãs morreram, apenas para serem renovados mais alta e orgulhosamente quando outra coluna varreu a praça. Aqui, de fato, estavam homens aptos para a guerra e a batalha, seis lado a lado e cem fileiras de profundidade, com uma dúzia de gaiteiros tocando o mais forte que podiam, e um grande estandarte lançando ao vento seu orgulhoso Tandem triumphans. À frente deles caminhava um jovem alto, muito apessoado e correto, com um rosto franco, resoluto e inteligente. Ele estava vestido à moda das Terras Altas, com uma boina azul coroada com uma roseta branca, uma fita azul larga sobre o ombro direito e uma estrela no peito. As milhares de pessoas dos clãs explodiram em trovoadas de gritos em gaélico, os líderes que esperavam descobriram a cabeça e fizeram reverências, e eu soube que era o Príncipe.
Após uma breve consulta com seus conselheiros íntimos, Charles caminhou quase diretamente em nossa direção, dirigindo-se, ao que parecia, para a bela casa que vizinhava o "Angel".
Mesmo os habitantes da cidade, conforme ele se aproximava, levantaram seus chapéus e aplaudiram um pouco, pois ele era, à primeira vista, um homem para ser apreciado. Quando ouço contos tristes sobre ele agora, penso nele como o vi então, e como o conheci naqueles poucos dias estimulantes em que a esperança o impulsionava, e a estrela de seu destino ainda não havia subido ao seu zênite. Venho de uma estirpe que não dá valor a príncipes, e não levantaria agora um dedo para arrancar os Stuarts da cova que cavaram para si mesmos, mas é devido a ele, e, acima de tudo, devido aos chefes e clãs que o seguiram, lutaram e morreram por ele, dizer que o Bonnie Charlie que conheci era cada centímetro dele um homem e um príncipe até as pontas dos dedos.
Maclachlan saiu rapidamente e ajoelhou-se diante de Charles, que, com gentil impaciência, agarrou o nó de ombro de seu kilt, puxou-o para cima e bombardeou-o com uma multidão de perguntas. A alguma resposta dada pelo jovem chefe, Charles voltou os olhos para nós e, encontrando facilmente o Coronel, dirigiu-se a ele com mãos ansiosas e estendidas. Por sua vez, o Coronel afastou-se da multidão no calçamento e prestou continência. Ele era, pensei, a pessoa mais autoconfiante na praça e, de fato, estava tomando uma pitada de rapé assim que a formalidade terminou, enquanto Margaret ficava vermelha e branca alternadamente, e eu tremia nos joelhos como se esperasse que o Príncipe, à maneira do velho Bloggs, me chamasse para fora e me surrasse severamente.
A alegria do Príncipe ao ser unido ao Coronel Waynflete era transbordante.
"Meu Lorde Murray falou de você", ouvi-o dizer, "até que senti que você era o único homem na Inglaterra que importava, e agora aqui está você. Devo contar a Sheridan e a todos eles a boa notícia."
Ele se virou e chamou um grupo de homens perto dele, e vários deles se aproximaram e foram apresentados ao Coronel. Após mais apertos de mão e conversas, o ansioso Príncipe pegou o Coronel pelo braço e ia arrastá-lo para dentro da casa destinada ao seu alojamento, mas o Coronel por sua vez resistiu e conduziu-o até Margaret.
"Minha filha, senhor", disse ele, breve e orgulhosamente.
A boina caiu, e Charles curvou-se profundamente e a cumprimentou com uma cortesia muito marcada.
"Seu príncipe, madame", disse ele, "mas também seu humilde servo. Minha Corte é pequena, e a senhora é uma adição tão importante e bem-vinda a ela quanto o seu distinto pai é ao meu exército. Swounds, Coronel", virando-se para ele com um sorriso alegre, "vou dar uma pulga na orelha de seu lorde quando o vir em Derby. Ele nunca mencionou sua filha. Homem, poder-se-ia falar de estrelas e esquecer Vênus!"
"Há esta desculpa para ele, senhor", disse o Coronel, muito seriamente, "que na única ocasião em que meu Lorde Murray a viu, que foi em Turim em 1738, ela era um redemoinho de braços e pernas, tranças longas e anáguas curtas."
"Enquanto agora ela... mas reservarei minha opinião para o abrigo de um leque em um canto isolado na minha próxima pequena Corte." Então, muito abruptamente, fixando os olhos em mim, todo confuso, com meu boné manchado de leite na mão, "E quem temos aqui?"
Ao que, estranhamente, esquecendo toda a cortesia, Margaret, o Coronel e Maclachlan caíram uns sobre os outros, por assim dizer, ao dizer ao Príncipe quem eu era. Por alguns segundos houve uma balbúrdia de apresentações, o que me fez sentir quente e tolo.
"Um de cada vez", riu o Príncipe, "e, claro, a Sra. Waynflete primeiro."
"Sua Alteza Real", disse Margaret, "este é meu esplêndido amigo e galante camarada, Oliver Wheatman."
"Suficiente, e mais que suficiente, para um pobre Príncipe Aventureiro. Dê-me apenas as sobras de sua amizade e camaradagem, Mestre Wheatman, e serei grato a você. E agora, desculpe-nos, madame, tenho muito a dizer ao seu pai."
"Senhor", disse eu, "imploro um pequeno favor."
"Você começa bem", disse ele, e acrescentou, após uma pequena risada, "Com todo o meu coração."
"Aqui perto", disse eu, "há uma senhora idosa que enfrentou esta multidão rude e este tempo amargo para ver o Príncipe do desejo de seu coração. Ela é corajosa como um leão por você, mas modesta demais para fazer mais do que ficar de pé e rezar por você."
E então ele fez uma daquelas coisas principescas que faziam homens rudes desejarem ser cortados em pedaços por ele. Ele caminhou até ela e agarrou suas mãos trêmulas.
"Não, não se ajoelhe, cara dama", disse ele, colocando um braço ao redor dela para contê-la.
"Deus abençoe Sua Alteza Real e lhe dê a vitória", disse ela, com a voz quebrada. "Esta é a hora pela qual rezei diariamente durante estes trinta anos, e agradeço a Deus por nos dar um Príncipe tão digno de um trono terreno. O Senhor ainda terá misericórdia de Jacó."
"Agradeço a Deus", disse Charles, "por me dar uma amiga como você."
Seu xadrez verde estava preso no ombro por um belo broche, um cairngorm incrustado em uma borda de prata. Ele o tirou e prendeu no peito da mulher trêmula.
"Use isto de mim e por mim", disse ele, falando com grande sentimento. Lágrimas estavam nos olhos de Margaret, havia um grande nó na minha garganta, e o Coronel estava desperdiçando precioso Estrasburgo nos paralelepípedos da praça. Quando o Príncipe o prendeu lá, ele tirou sua boina, curvou-se graciosamente, beijou-a nos lábios e assim a deixou. Os espectadores agora aplaudiram de verdade, e a antiga dama caiu de joelhos em oração. Quando se levantou, puxou o manto ao redor de si, protegendo seu presente real em suas mãos murchas, e ia se esgueirando timidamente para longe.
"Madame", disse eu, "acho que a senhora está sozinha."
"Sim, senhor", sussurrou ela.
Ofereci-lhe meu braço, dizendo: "Permita-me escoltá-la até sua casa?"
Os olhos afiados varreram-me do cinto para cima e, então, sem uma palavra, ela colocou seu braço no meu. Olhei ao redor para cumprimentar Margaret antes de começar, mas ela havia desaparecido.
Logo chegamos à casa dela ou, melhor dizendo, chalé, que ficava em uma rua atrás do lado oeste da praça. Ela estava trêmula demais, ofuscada demais, aflita demais para falar no caminho, mas, na porta, quando com uma reverência eu pretendia deixá-la, ela me ordenou, de uma maneira aristocrática que cortava qualquer debate ou recusa, que entrasse com ela.
Claro para o olhar casual, era o lar de uma nobreza decadente. Aqui haveria uma alimentação refinada de um jantar de ervas, consolado por conversas sobre ontem orgulhosos. Você via isso nas poucas coisas que ainda mantinham seu apego ao passado: na parede, uma velha pintura negra de um cavaleiro com rufo e gibão acolchoado; uma caixa de pó e uma luva de falcoaria na lareira, e acima dela um brasão oval, com uma águia dourada nascente de uma faixa verde. E a esperança sempre renascia aqui, mas era a esperança centrada na Virgem-Mãe, posta em marfim sobre um genuflexório de madeira. Nem senti que havia me afastado dos meus ancoradouros familiares enquanto inclinava a cabeça quando ela se ajoelhava em oração.
"Madame", disse eu, quando, com um rosto feliz, ela se levantou, virou-se e me agradeceu, "está em seu poder me fazer um grande favor."
"Eu, então, certamente o farei."
"Peço-lhe que reze pela alma de John Dobson."
"Ele era seu amigo?", disse ela gentilmente.
"Meu amigo desde a infância, madame, e esta manhã eu o matei."
Houve silêncio por um tempo. Então ela disse: "Rezarei diariamente pela alma de seu amigo, e por você, para que Deus tenha misericórdia de você e lhe dê paz. Nós, mulheres, que só podemos rezar, receio não percebermos como, para nossos homens, os fatos da vida parecem causar estragos em nossos credos."
"A senhora tem razão, madame", disse eu sombriamente. "Para mim, hoje, não há Deus no céu."
"No entanto, o amanhã virá", ela respondeu confiantemente. "Ele veio para mim. Minha mente volta ao tempo em que o mal começou, que nosso glorioso Príncipe está agora erradicando. Em oitenta e oito, quando eu era uma donzela de uns vinte junhos, não nada feia como me lembro no meu espelho, embora não comparável à sua doce e esplêndida senhora, nós, então os antigos Hardys de Hardywick, demos tudo e perdemos tudo pela causa. Aquele brasão pendia em um nobre salão. Olhei para ele com orgulho e, graças a Deus, sem arrependimento, durante quase sessenta anos de solidão e pobreza, mas morrerei rica e acompanhada na posse disto."
Ela levantou o broche aos lábios e beijou-o, e então, pobre alma, caiu em um ataque de tosse que torturou sua estrutura fina. Uma serva aprazível correu em seu auxílio, e juntos sentamo-la perto do fogo e envolvemos um xale ao redor dela. Ela parecia alguém que dormia com olhos semicerrados e sonhava.
"Ela é frequentemente tomada assim", sussurrou sua mulher. "Tão animada quanto uma moça em um casamento por uma hora talvez, e então sonhadora e como morta por horas a fio. Ela tem setenta e seis anos em junho, mas não creio que viverá para ver isso, e, certamente, Deus a abençoe, ficarei feliz em ver seu coração partido em repouso."
Ela colocou um frasco de sais perto do nariz de sua patroa e banhou os lábios brancos com água de Luce.
"Eu a amo infinitamente", disse ela simplesmente.
Era hora de ir. Ajoelhei-me e beijei a mão clara, fina e enrugada. Ao toque dos meus lábios, ela falou novamente:
"Adeus, Harold, meu amado! O Deus de todas as boas causas vá contigo!"
Ela estava de volta ao passado, com seu amante a seus pés, enviando-o para lutar pela causa, e o dedo sem anel mostrava que ele nunca havia voltado.
Saí furtivamente da sala com uma névoa nos olhos.
Quando cheguei à esquina perto do alojamento do Príncipe, a primeira coisa que me chamou a atenção foi um calash parado no meio da praça, com duas damas muito elegantes nele, e um rebento de um mouro em calções verdes e gibão amarelo à cabeça do cavalo. Margaret e Maclachlan estavam por perto, e um alegre falatório estava acontecendo entre eles e os recém-chegados, embora Margaret, com sua mente rápida interessada nas cenas vívidas ao redor, continuasse virando a cabeça para varrer a praça com os olhos.
Eu sempre sentira e, na maioria das vezes, confio, observado a diferença entre nós, mas atingiu-me agora como um golpe entre os olhos. Era fácil ver que Margaret, apesar de seu dominó cinza, era a senhora do grupo alegre e cortês; fácil, também, captar o significado dos olhares que as damas estranhas faziam uma para a outra enquanto notavam com diversão a paixão do jovem Chefe. Bem, ele estava lá, e eu estava aqui, por direito. Disse isso a mim mesmo muito selvagemente, para que não houvesse erro sobre isso, mas devo admitir um gosto amargo na boca enquanto empurrava para dentro de um grupo de clãs que passava, e então me escondia atrás de um aglomerado de carroças de munição, e assim cheguei a um beco lateral sem ser visto por aqueles olhos investigadores.
Cheguei a uma taberna onde me virei muito bem, apesar de estar cheia de clãs, fazendo uma refeição completa de pão, queijo e bacon frio, regada com excelente cerveja. Fiz questão de me identificar como um inglês pagando pela minha refeição à moda inglesa.
Saindo e ainda evitando a praça, vaguei pela pequena cidade, distraindo minha mente forçando um interesse no que estava acontecendo. Os habitantes das Terras Altas estavam felizes, barulhentos e cheios de confiança — não injustamente, pois até agora haviam jogado boliche com as tropas Reais. Por toda parte estavam trabalhando arduamente, afiando punhais e claymores e polindo mosquetes, e o pouco de sua conversa que eu conseguia entender era toda sobre a batalha iminente. No cemitério encontrei vários deles praticando tiro, com uma grande cruz antiga como alvo. Já a haviam lascado um pouco. Amaldiçoei-os redondamente e depois barganhei o alvo pelo preço de algumas xelins. Eles voltaram sua atenção, com sorrisos esperançosos, para o cata-vento de latão na torre da igreja, que não considerei digno de salvar. Além disso, era um alvo melhor, e bom tiro deveria ser encorajado.
Fiquei vagando por uma hora ou mais, muito infeliz. Se minha mente ficava ociosa por um momento, via o corpo de Jack deitado na passagem fracamente iluminada e o calash na praça do mercado.
Cansado de observar os Highlanders, saí repentinamente em direção ao "Angel", com a intenção de ver como os cavalos estavam, uma tarefa necessária que eu deveria culpar a mim mesmo por ter negligenciado por tanto tempo. Eu caminhava a passos largos ao longo das lojas de um lado da praça e, ao passar descuidadamente por um mercador, tive que saltar para o lado para evitar uma dama elegantemente vestida que saía pela porta, com o dono da loja, o nariz quase nos joelhos, curvando-se atrás dela. Ela era uma estranha para mim e, além disso, eu estava de olho no local onde a carruagem estivera, de modo que, tendo-a evitado completamente, eu pretendia seguir em frente, mas ela disse bruscamente: "O que pretende com tal conduta, senhor?"
Não consigo me lembrar de nenhuma outra ocasião na minha vida em que tenha ficado tão completamente perplexo. A dama elegante que estava ali, um sorriso provocador no rosto e um brilho malicioso nos olhos, era Margaret.
"Esperei e esperei pela conveniência de vossa senhoria até que não pude esperar mais", disse ela.
Ainda havia a deliciosa raiva fingida em sua voz, mas o sorriso e o brilho mudaram de significado, por assim dizer. Pelo menos eu, que me deliciava em observar as variadas nuances de expressão que cruzavam seu rosto requintado, pensei assim enquanto estava ali, girando meu chapéu na mão e sentindo-me um completo tolo.
"Você não pode esperar uma combinação perfeita nesta luz", ela continuou, claramente desfrutando do meu desconforto, "especialmente porque tive que carregar a cor na minha memória."
"Não, senhora", disse eu desesperadamente, tendo que dizer algo, mas sem a menor ideia do que ela estava querendo dizer.
"Eximo-me de toda responsabilidade se for uma trapalhada. Será inteiramente culpa sua. Seu braço, senhor!"
Ofereci-lhe o braço, no qual ela enfiou o dela, apertou meu chapéu miserável e juntos fomos em direção ao "Angel". É claro que tínhamos que encontrar Maclachlan, para completar minha miséria, suponho, e ele estava interessado em se juntar a nós, mas Margaret livrou-se dele de uma maneira que me lembrou Kate enxotando um peru de suas galinhas que se alimentavam. Chegados ao "Angel", ela abriu caminho até seu salão com vista para a praça, arrastou-me apressadamente para a janela e desfez o pacote. Dele, tirou um retalho de tecido e um novelo de fio de seda. Estes ela primeiro encostou na minha manga e depois exibiu diante dos meus olhos.
"Uma combinação muito boa, afinal! Eles me servem, Oliver?"
Ela estava vestida com um joseph castanho-canela, abotoado na cintura, e mostrando, acima e abaixo, um vestido de baixo de material tecido flexível, de cor creme e estampado com seda dourada. Um chapéu de estilo militar, feito de algum pelo de pelos curtos e adornado com um grande penacho branco, escondia e revelava metade de suas massas de cabelo amarelo.
"Você está perfeita", disse eu enfaticamente.
"Para o meu Príncipe", ela respondeu suavemente. "Tire o seu casaco e deixe-me mostrar que tipo de dona de casa eu sou."
Fiz como ela me pediu, e ela tirou o chapéu e o joseph. Ela me acomodou confortavelmente diante do fogo em uma poltrona, entregou-me um cachimbo novo e um pacote de tabaco fresco, e insistiu que eu fumasse. Então, sentada quase aos meus pés em uma cadeira baixa de assento de junco, com pernas curvas peculiares e um encosto como um metro de escada, ela começou a trabalhar nos buracos que a espada de Brocton havia feito no meu casaco.
Senti-me muito desajeitado enquanto me sentava, alimentando minha alma com a imagem que ela formava enquanto se curvava sobre sua costura. Um verdadeiro simplório eu era em meu casaco vil, mas a minha aparência em mangas de camisa, com linho bom o suficiente, mas feito em casa e sem um traço de punho ou babado, era impossível de imaginar.
Ela também estava muito silenciosa e, embora conversa de qualquer tipo me fosse desagradável naquele momento, pois a imagem era suficiente, não pude deixar de lembrar como ela havia tagarelado com Maclachlan. Aqui estava outra deficiência maldita. Minha conversa era tão provinciana e pobre quanto minhas roupas. Eu sempre mandava no pedaço em nossas reuniões de mercado, onde era visto como um tanto dândi e um milagre de saber, e até minha agricultura era solenemente respeitada porque eu era um golpeador tão duro e pronto. Aqui, em um salão e com ela, tão bela que até mesmo seu belo vestido mal atraía um olhar passageiro, eu estava entediado e desconfortável. A única coisa que fiz, exceto olhar para ela, foi deixar meu cachimbo apagar e acendê-lo novamente, vez após vez.
"O homem na loja me disse", disse Margaret, "que aquele era o melhor tabaco que vem das Américas."
"Eu deveria pensar que sim", disse eu; "nunca fumei melhor."
"Isso lhe dá muito trabalho", ela respondeu, e parou sua costura por um momento para olhar para mim.
"Você conseguiu um pouco de Estrasburgo legítimo para o Coronel?" perguntei.
"Não. Ele está ficando sem?"
"Sim", disse eu.
"E não é de se espantar, também. Ele coloca sua caixa de rapé debaixo do travesseiro, e quando levo o chocolate dele pela manhã, ele pega uma pitada longa e afetuosa, e então diz: 'Bom dia, querida!'"
Ri, e então fiquei em silêncio e pensativo. Enquanto eu andava à toa pela cidade, ela estava cuidando dos meus pequenos caprichos e necessidades.
E agora, após uma batida firme na porta, entrou uma dama vivaz e elegante, muito alegre e muito segura de si.
"Que quadro doméstico encantador!" ela exclamou. "Temo interromper, querida Margaret, mas vou ficar. A moça está trazendo o chá, e estou positivamente morrendo por uma xícara e um descanso. Claro que este" — voltando-se alegremente para mim, parado ali como um grande paspalho, amaldiçoando voluvelmente minhas mangas de camisa sob a respiração — "é o incomparável Oliver! Encantada em conhecê-lo, senhor!"
Fiz uma reverência, e Margaret disse de forma comedida: "Sim, minha senhora. Este é o Mestre Oliver Wheatman de Hanyards. Oliver, tenho o privilégio de apresentá-lo à Lady Ogilvie."
Inclinei-me ao meio novamente e murmurei algo. Era adequado para a ocasião, espero.
Lady Ogilvie examinou-me de cima a baixo com cuidado, muito como eu examinaria um novilho que tivesse a intenção de comprar.
"Quando Davie me deixou em Macclesfield, eu disse que seria boazinha, e serei boazinha, mas gostaria que ele não tivesse me pedido", disse ela. "Não importa! Em Derby, quando nos encontrarmos novamente, minha promessa terá expirado, e eu flertarei com o senhor, senhor, da maneira mais furiosa."
"Na verdade, minha senhora", respondi, "meu conhecimento da arte da paquera é meramente rudimentar, mas sempre entendi que exigia dois."
"Naturalmente", ela retrucou, "esse é o seu grande charme."
"Vejo meu erro agora", disse eu, como se pensativo. Margaret sentou-se com a agulha equilibrada para um ponto e esperou.
"Você já está aprendendo, veja só! O que é?" disse Lady Ogilvie.
"Um e um pouco seriam suficientes quando vossa senhoria fosse o um", disse eu audaciosamente.
Margaret riu e retomou o jogo rápido de sua agulha.
"De fato, e eu já tirei faíscas de nabos no meu tempo", respondeu ela, com muita complacência. "Há um vislumbre de inteligência em você agora que era difícil de encontrar quando entrei na sala. Homens são como diamantes, você deve saber, Margaret querida, tanto melhor por serem cortados e polidos. Eu vou lhe ensinar coisas, senhor, em Derby e depois, isto é. Até lá, devo ser muito boazinha."
A chegada do chá nos interrompeu. Sobre as xícaras, embora Margaret se mantivesse em seu trabalho, houve uma conversa alegre sobre o principal negócio do dia — o jantar e o baile que viriam.
"Os homens simplesmente vão delirar com você, querida", ela disse a Margaret. "Somos apenas seis de nós, sete com você adicionada, veja bem, pois nenhuma dama da cidade serve a Sua Alteza Real hoje em dia, e eu estou exausta de tanto dançar. Maclachlan vai querer você todas as vezes, e você será sábia em tê-lo o máximo possível, pois ele dança como uma fada. Davie não é tão ruim, mas Maclachlan é simplesmente grandioso. E o incomparável", fazendo uma careta bonita para mim, "vai marcar o passo levemente, pelo que parece."
"Eu danço como um urso de três patas", disse eu, bastante sério por ter meus defeitos trazidos à tona.
"É isso que você está me dizendo?" ela respondeu. "Pernas como as suas e sem música nelas! Bem, bem, eu vou cuidar de você, isso é certo. Em Derby, é claro."
"Agora, Oliver, por favor, preste atenção nas questões mais simples com as quais lido", disse Margaret, cortando o último fio de seda. "Fiz o melhor que pude por você. Venha e avalie meu trabalho!"
Ela segurou o casaco pelo colarinho, e eu dei um passo à frente e examinei-o.
"Maravilhoso!" disse eu. "Está como novo."
Sua senhoria gritou de rir. "Oh, seu cortesão!" ela disse. "Nunca vi nada melhor feito nas Tulherias. Olhe um pé mais acima, seu patife!"
Mesmo lá, o trabalho foi feito de forma limpa e completa, e agradeci a Margaret por isso sinceramente. Com meu casaco vestido, animei-me, e de fato eu precisava, pois a maior parte da conversa delas era dentro e sobre um mundo do qual eu nada sabia. Graças às dicas e meias-verdades de Margaret, eu me saí bem o suficiente.
Houve uma batida suave na porta e então, sem mais cerimônias, o Coronel trouxe um visitante. No crepúsculo à porta não dava para ver quem era o recém-chegado, mas quando ele se aproximou, a luz total o revelou. Era o Príncipe Charles.
"Não se mexam, senhoras, por sua lealdade!" ele disse alegremente. Levantei-me, curvei-me para ele em minha cadeira e fiquei atrás dele.
"Oddsfish, como meu tio-avô costumava dizer, vim salvar sua vida, Mestre Wheatman!"
"Não precisa se incomodar, senhor", disse eu, "para salvar o que é livremente seu para descartar."
"Muito bem dito, senhor", ele respondeu, "e não me esquecerei disso."
"Bom garoto, Oliver!" disse o Coronel, mergulhando a mão em sua caixa de rapé.
"Ainda assim, devo provar meu ponto!" disse Charles, sorrindo alegremente. "Minha Corte consiste em exatamente sete senhoras e um número ilimitado de cavalheiros, estes últimos, em sua maioria, chefes impetuosos que cortam cabeças de homens como se fossem topos de cardos. No entanto, aqui está você, senhor, mantendo duas delas só para você. E tais duas! Lady Ogilvie, cujos encantos estão sem mancha..."
"Não, senhor", disse eu.
"Posso puxar as orelhas dele, Sua Alteza?" perguntou sua senhoria asperamente.
"Pode", disse Charles, "a menos que ele prove seu ponto. Um Príncipe deve ser justo, você sabe!"
"Isso é justo", disse Margaret.
"Claro", retrucou Lady Ogilvie. "Ele estará certo se disser que tenho um olho como um boi e uma boca como um sapo."
"Salve suas orelhas, Mestre Wheatman!" disse Charles, rindo para mim. "Qual é a mancha?"
"Davie!" disse eu.
O Príncipe balançou-se de tanto rir, e sua senhoria aproveitou tão plenamente quanto.
"É a tirada mais inteligente que ouvi desde que deixei Paris", disse o Príncipe.
"Senhor", disse eu, "seja gentil o suficiente para explicar. Quem é Davie?"
"O marido de sua senhoria", ele respondeu.
"Droga!" exclamei. "Pensei que ele fosse apenas um escocês comum." Ao que todos riram.
"Um interlúdio muito agradável em um dia pesado de trabalho", disse o Príncipe. "Estou sinceramente vexado, senhoras, por ter que roubar-lhes um cavalheiro tão agradável, mas preciso do Mestre Wheatman."
* * * * *
Meia hora depois, o Coronel estava comigo no final da cidade para me dar suas instruções finais. Eu estava montado em Sultan, com cartas urgentes no bolso e trabalho importante em mãos.
Tomamos uma pitada de rapé juntos muito solenemente. Então ele fechou sua caixa, acariciou o focinho aveludado de Sultan, apertou minha mão, despediu-se rudemente e caminhou de volta para a cidade. Continuei a trote pela estrada aberta e pela noite.
CAPÍTULO XVII
MEU NOVO CHAPÉU
Aqui estava o que eu havia sonhado. Aqui estava o desejo mais caro do meu coração gratificado. Eu tinha vinte e três anos e possuía o equipamento querido dos vinte e três — um cavalo magnífico, um par de pistolas infalíveis, uma boa espada, um bolso cheio de guinéus, a memória da graça e beleza de uma mulher e um trabalho difícil em mãos. A única coisa material que eu realmente queria era um chapéu novo, pois o leite da manhã de ontem e os golpes e contusões subsequentes haviam arruinado o meu velho. Eu não tinha me preocupado com isso enquanto ele balançava ao lado do capuz de lã cinza do dominó de Margaret, mas, lado a lado com seu novo chapéu, ele se tornou uma ofensa e precisava ser remediado.
A sombra negra passava pela minha mente. Eu estava limpo e livre de toda culpa de sangue. Eu tinha atacado por Margaret como ele teria atacado por Kate. O destino tinha sido forte demais para nós, mas qualquer penitência que a vida me impusesse seria paga até o último centavo. Eu tinha este conforto: se Jack pudesse cavalgar até mim agora, não haveria mudança nele. Haveria para mim o velho aperto de mão caloroso e o sorriso juvenil e afetuoso, assim como quando ele correu até mim nos degraus da prefeitura.
Eu havia sido comissionado pelo Príncipe para fazer três coisas: primeiro, entregar um despacho ao meu Lorde George Murray, onde quer que eu o encontrasse, o que provavelmente seria em Ashbourne, doze milhas à frente ao longo de uma boa estrada; segundo, levar uma carta para Sir James Blount em sua casa chamada Ellerton Grange, em algum lugar perto de Uttoxeter; terceiro, fazer um amplo circuito a oeste e ao sul de Derby, recolhendo todas as informações que pudesse sobre o sentimento da população e a disposição das forças inimigas, e relatar isso ao Príncipe pessoalmente em Derby às seis horas da noite seguinte. Nesta terceira missão, o Príncipe e o Coronel Waynflete haviam colocado grande ênfase. Um relatório independente e confiável era, ao que parecia, de suma importância.
Finalmente, como uma comissão dependente decorrente da primeira das tarefas impostas a mim pelo Príncipe, eu levava uma carta para meu Lorde Ogilvie da parte de sua senhoria. Ela me convocara queira ou não ao seu quarto em particular.
"Diga a Davie lá que estou muito bem e muito, muito boazinha", disse ela, enquanto me entregava a carta.
"Com infinito prazer, minha senhora", respondi.
"Será verdade, você sabe", ela afirmou, como se houvesse um canto para a dúvida em sua própria mente em relação ao assunto.
"Solenemente e obviamente verdade, minha senhora", concordei.
"Oh, seu incomparável Oliver, gostaria que você fosse uma moça", ela disse, elevando seu rosto alegre e juvenil ao nível do meu e colocando uma mão em cada um dos meus ombros.
"Por quê, minha senhora?" disse eu, endireitando-me ao seu toque.
"Então você poderia dar isso a Davie também!" dito isso, ela me deu um beijo leve com seus lábios doces.
Isso me deixou muito perturbado, mas ela apenas riu de forma retumbante e encantadora enquanto eu recuava para fora da sala. E quando, com a maçaneta da porta na mão, fiz minha última reverência, ela balançou o dedo para mim para dar ênfase e disse: "Não se esqueça de dizer a Davie que estou muito boazinha."
Boa ela era, como ouro batido, e ela manteve seu ânimo neste tom elevado até o fim. Você pode ler na história do Sr. Volunteer Ray sobre todo o caso dos 'Quarenta e Cinco' como, após Culloden, ela foi feita prisioneira enquanto se vestia para o baile que deveria coroar a vitória esperada.
Sorri com o sorriso de um jovem ao pensar nisso. A experiência estava escrevendo alguns itens no lado do crédito da minha nova conta com a vida. Eu tinha conhecido uma dama encantadora de título e ela tinha me beijado. Margaret, pelas minhas costas e para uma terceira pessoa, tinha me chamado de um "incomparável" alguma coisa. O quê, eu não sabia — "criado", provavelmente, mas eu não me importava com o que fosse.
Milha após milha passou sem incidente de qualquer tipo até que, com um segundo de aviso, cavalguei para dentro de um círculo de mosquetes que se fechou ao meu redor do nada como se por mágica. Era o piquete mais externo do exército em Ashbourne. Dei a senha, "Henry and Newcastle", e exigi um guia para os aposentos de meu Lorde George Murray. Veio um grunhido gaélico da escuridão; homens e mosquetes desapareceram, com exceção de um único membro do clã, que agarrou a rédea de Sultan e me conduziu para a cidade.
O General estava alojado no "Swan with Two Necks", uma hospedaria muito respeitável, onde meu primeiro cuidado foi ter um pano jogado sobre Sultan e pedir para ele um balde de cerveja fraca morna com três ou quatro punhados de aveia misturados. Enquanto isso era feito, e eu aguardava uma convocação para a presença de sua senhoria, tomei um gole de conhaque na sala pública da estalagem e, sobre ele, diverti-me lendo uma folha solta grosseira pregada na parede, oferecendo uma recompensa de cinquenta guinéus a quem desse informações que levassem à prisão de um tal Samuel Nixon, comumente chamado de 'Swift Nicks', um notório salteador de estradas, seis pés de altura, de aparência muito elegante, bem falante, mas um rufião cruel e sangrento apesar de tudo. O Highlander interrompeu minha leitura fazendo sinal para que eu o seguisse. Subimos as escadas e ele me conduziu a uma sala onde estavam dois cavalheiros sentados em lados opostos de uma mesa sobre a qual havia um pequeno mapa e dois copos grandes contendo um líquido amarelado.
O mais jovem deles tinha a mesma aparência geral de Maclachlan, embora, pelo que parecia, um homem mais simples e doce. O outro, um homem de meia-idade e dominador com um rosto poderoso, olhou com raiva para mim enquanto eu lhe entregava meu despacho.
Ele leu impacientemente, jogou-o ao lado do mapa e disse: "Eles estão vindo esta noite, Davie." Então, bruscamente para mim: "Seu nome, senhor?"
"Wheatman de Hanyards."
"Hanyards? Humph! Você é irlandês?"
"Não, meu lorde. Nem mesmo escocês!"
Ele olhou para mim com fúria, mas seu companheiro riu e disse: "Essa foi uma bem dada, Geordie!"
"Malditos irlandeses!" gritou Murray. "Eles são a ruína de todo o negócio, Davie, e você sabe disso."
"Claro que são", ele respondeu, "mas essa não é razão para dizer isso a um tonto inglês que pensa menos de um escocês do que de um arenque em conserva."
"Isso pode ser, meu lorde", disse eu a ele, "mas penso tão bem de uma dama escocesa que me orgulho de ser seu humilde correio." E entreguei-lhe sua carta.
"Homem! homem!" ele disse em êxtase, enquanto a rasgava, "você é bem-vindo como o sol em dezembro. É de Ishbel. Deus abençoe seu rosto bonito!"
Ele leu a carta avidamente e depois a enfiou em seu peito.
"Estou, além disso", continuei, "encarregado de uma mensagem de sua senhoria."
"Deus a abençoe! Diga logo, homem, diga logo!"
"Eu deveria informá-lo de que ela estava muito, muito boazinha", disse eu, sóbrio como um juiz proferindo uma sentença.
"O que você acha disso, Geordie Murray? Muito, muito boazinha! Eh, homem, ela não é uma macaquinha? Deus a abençoe!"
"Vou mandar todos eles de volta para Edimburgo", disse Murray. "Mulheres são um incômodo em uma campanha. Sua Ishbel, que se dane, quer uma carruagem só para ela e outra para seus enfeites."
"Você conhece muito sobre soldados, Geordie", retorquiu Ogilvie, "nenhum homem mais, mas você conhece menos sobre soldados do que um rapaz de dez anos. Em Gladsmuir eu disse a MacIntosh: 'Vamos acabar logo com essa maldita coisa, Sandy, e voltar para o café da manhã com as damas!' E nós fizemos."
"Você fez mesmo", reconheceu Murray. "Agora, Davie, leve nosso correio para fora e alimente-o. Agradeço-lhe, senhor! Você cavalgou rapidamente. Seu ritmo é mais rápido do que sua língua."
"Meu lorde", disse eu, "embora eu esteja prestando a Sua Alteza Real o pouco serviço que está ao meu alcance, ainda não estou agindo devidamente sob sua comissão e autoridade."
"O que tem isso?" perguntou ele.
"Portanto, não sou um oficial sob seu comando, meu lorde!"
"Lógica excelente! E o portanto, meu amigo comedor de carne, é...?"
"Que eu preferiria quebrar sua cabeça a olhar para você!"
"Quando você for um oficial", gritou ele, "por Deus, senhor, eu lhe ensinarei os modos de um oficial. Até lá, meu rapaz", levantando-se e estendendo a mão, "boa sorte para você!"
Apertamos as mãos calorosamente e assim nos separamos.
"Ele é um grande homem, esse Geordie Murray", disse Ogilvie, enquanto me conduzia para outra sala do outro lado do patamar. "Apenas um pouco rabugento, talvez, mas esses malditos irlandeses o deixaram com os nervos à flor da pele. Eles têm estado demais em seu espírito ultimamente."
Todo o seu outro falar era sobre sua dama, embora ele cuidasse bem de mim, e eu fiz uma boa refeição com a melhor metade de um frango frio, um pão rústico e uma caneca de cerveja fraca. Ashbourne é notória, dizem os entendidos em tais assuntos, pelo melhor malte e a pior cerveja da Inglaterra.
Sou excessivamente inglês, como muitas vezes acontece conosco que vivemos no coração da Inglaterra. O famoso Sr. Johnson é um patrício meu, e muito orgulhoso disso eu me sinto, e considero um dos maiores eventos da minha vida o fato de ele ter me repreendido severamente por discordar dele, e estar certo, sobre um verso de Virgílio que ele havia citado erroneamente na minha presença. Como o Sr. Johnson, amo os homens e detesto mestres de dança, e esses escoceses eram homens de fato, meu Lorde Ogilvie, como vim a saber mais tarde, um dos mais seletos. Ele era um homem de constituição esguia, com trinta anos ou por volta disso, com um rosto feito de linhas e ângulos, e salpicado de marcas de varíola. Para um lorde, sua bolsa estava muito vazia de guinéus, e a natureza compensara isso dando-lhe um ventre cheio de orgulho. Para ele, a linha das Terras Altas tinha sido a fronteira do mundo conhecido, de modo que sua mente era um mosaico de curiosa ignorância e conhecimento.
Desde o início, gostei dele por sua alegria em relação à sua delicada dama. Ela era filha de um cadete de um ramo distante da famosa família de "Bobbing John", e passara quase toda a sua vida na França até que, em uma visita casual à Escócia, fora arrebatada por Ogilvie. Eles eram um par estranhamente combinado, ela vinda dos salões alegres de Paris, ele das montanhas enevoadas do norte; mas o amor mútuo os harmonizara de forma admirável, pois o coração de cada um era sólido como um sino.
Entre uma garfada e outra, respondi a perguntas sobre como ela estava, o que ela dissera, fizera e assim por diante.
"Ela estava usando seu casaco de montaria marrom com as pequenas capas nos ombros?", ele perguntou.
"Não", disse eu, tornando-me mais interessado.
"Ou seu vestido cremoso com as flores de ouro por toda parte?"
"Não", disse eu novamente, sorrindo com minhas descobertas.
"Ela está guardando-os para Londres", explicou ele. "Puxa, homem! Ela ficará divina neles."
"Não ficará", disse eu, cortando os pedaços doces que ainda restavam na carcaça do meu frango.
"Sua lógica terá muito trabalho para manter seis polegadas de aço frio longe do seu peito", disse ele muito ferozmente.
"Nunca comi frango melhor em toda a minha vida", disse eu, observando-o com um olho — o bastante para qualquer escocês.
"Dane-se o frango!", ele rugiu. "Por que ela não ficará?"
"Porque ela os deu", expliquei com o meu tom mais despreocupado.
"Pelos fogos azuis do inferno!", arquejou seu lorde. "Deu-os, e eles me custaram vinte libras inglesas! Deu-os!", ele lamentou, totalmente sem palavras, "deu-os! A moça está completamente tola. Vinte libras de boa moeda inglesa!"
"Nada perto do suficiente!", disse eu. "Você lamentará que não tenham sido duzentas."
Duzentas libras inglesas eram, contudo, algo estupendo demais para sua mente compreender, e o escárnio não teve efeito sobre ele. Enquanto eu terminava minha cerveja, ele resmungava em seu gaélico.
"Eu compensarei em Londres", disse ele por fim, "mas será um trabalho do diabo."
"Será, de fato", concordei, e esvaziei minha caneca.
Um olhar para o meu relógio me disse que era hora de começar minha segunda incumbência. Sultan foi trazido do estábulo, em excelente forma e ansioso para partir. Examinei minhas pistolas, passei a mão pela bainha da espada, saltei sobre Sultan e perguntei pelo caminho de Uttoxeter.
Meu Lorde Ogilvie despediu-se de mim nos termos mais justos, trazendo-me com suas próprias mãos um grande cálice de despedida, ou "dock-an-torus", como ele o chamava.
"Homem", disse ele, "estou muito contente por conhecê-lo. Eu estava pensando que iria até Londres sem encontrar um homem que valesse a pena lutar, quanto mais ter como amigo, mas eu estava enganado. Um brinde a você!"
"Meu lorde", disse eu, "você faz jus à sua doce dama. Ambos têm sido maravilhosamente gentis com um homem duramente atingido."
Apertamos as mãos, saudamo-nos e partimos.
Estava quase totalmente escuro, e a lua não deveria nascer por mais de uma hora, mas o céu estava claro e as estrelas estavam presentes em multidões como companhia e guia. Ellerton Grange ficava perto de Uttoxeter, e Uttoxeter era uma pequena cidade considerável logo dentro do meu próprio condado, a cerca de quinze milhas de Ashbourne. A estrada era o cruzamento habitual, toda ela ruim e a maior parte vil. Deixei o trajeto para Sultan, que fez o melhor que pôde, como a criatura galante e experiente que era. Não havia nada para eu fazer, exceto ficar atento e manter a estrela do norte logo atrás da minha mão direita.
Minha mente estava ocupada repassando todas as lembranças dos últimos três dias. Tentei muito, mas em vão, pular a parte sombria, cujo pensamento me fazia estremecer como se o ferro em brasa estivesse contra minha bochecha. Mentalmente eu via em dobro — o sangue vermelho de Jack com um olho e os cabelos cor de âmbar de Margaret com o outro. Enquanto cavalgava, lutava contra a memória com a memória, misturando fel e mel, ora balbuciando orações fragmentadas, ora cantando trechos de canções de amor rurais, e assim segui o melhor que pude. Na jornada da vida, um homem paga pelo que pede. A vida me dera o que eu queria, e o preço disso fora a morte.
Não apenas a noite estava escura, mas o campo estava vazio. Passei por contornos indistintos de casas e por vilarejos vagos e oníricos sem ver uma alma ou ouvir um som. Uma vez vi uma luz à frente na beira da estrada, mas ela se apagou assim que o tropel dos cascos de Sultan indicou minha chegada. Não era de admirar, pois essas pobres gentes viviam entre dois exércitos e não queriam nenhum, nem amigo nem inimigo. Para eles, era apenas uma escolha entre a mó superior e a inferior. Finalmente cheguei a uma estalagem de beira de estrada onde se viam luzes. Aproximei-me, desmontei, passei as rédeas pelo trinco da veneziana e entrei.
No quarto baixo e desarrumado, encontrei um homem e uma mulher curvados sobre um fogo miserável, de costas para uma mesa onde estavam dispostos caneca, prato e outras coisas úteis para uma refeição. Eles se levantaram para me cumprimentar, e seus rostos me disseram que esperavam por alguém e supuseram que eu fosse ele. Quando viram seu erro, a mulher passou rapidamente na frente do homem e disse: "Senhor, como o senhor nos assustou! O que posso servir a vossa senhoria?"
"Uma caneca de boa cerveja quente com especiarias", disse eu. "Dê-me uma boa cerveja quente e um pouco de informação, e o senhor terá uma coroa por seu esforço."
Falei de forma agradável, não tendo necessidade, como um mero passante, de fazer o contrário, mas se eu tivesse sido obrigado a negociar com eles, teria começado por desconfiar deles completamente. O homem era do tipo comum de dono de estalagem, feio, alcoólatra e estúpido, e velho o suficiente para ser pai de sua esposa, como a chamo por causa da aliança em seu dedo. Ela era, para o lugar e o posto, uma surpresa completa, sendo uma mulher jovial, urbana e espalhafatosa, vestida em finarias decadentes. Ele teria cortado minha garganta por um tostão, ela por um rancor. Eles tinham esse aspecto.
A mulher entrou em outro cômodo, além do pequeno balcão onde as bebidas eram guardadas, para buscar as especiarias, e o homem arrastou-se rabugento atrás dela. Pendurado na parede atrás do balcão estava um folheto, o mesmo que eu lera no "Swan with Two Necks" em Ashbourne.
"Swift Nicks" era um cavalheiro muito procurado e, evidentemente, um salteador de estradas com uma ampla gama de atividades. Por mero vazio de espírito, caminhei para ler o folheto novamente e, por um acaso curioso, entre o zumbido das palavras do outro cômodo, a única que meu ouvido atento pôde distinguir claramente foi "Nicks".
Isso me deixou cauteloso, e quando a mulher saiu e se ocupou com o fogo, chamando-me para ver que excelente mistura ela estava preparando, fiquei acima dela, na intenção de observar o processo, mas pronto para qualquer coisa. E não sem necessidade, pois seu marido sujo veio sorrateiramente atrás dela, pensando em me pegar desprevenido. Saltei sobre ele como um lúcio sobre um peixinho, arranquei um miserável trabuco velho de suas mãos e, com a coronha, derrubei-o para trás dentro do outro cômodo.
A especialista em bebidas apenas cacarejou com um riso falso e continuou com seu preparo. Puxei-o pelo colarinho, coloquei-o de pé contra o balcão e disse: "Acho que você está prestes a receber a surra mais forte que já levou em toda a sua vida."
"Bem feito, tolo", disse a mulher. "Por favor, deixe-o, senhor. Ele pensou que o senhor era Swift Nicks."
"Sua cadela!", ele rosnou. "Você me instigou!"
"Você é um mentiroso!", ela retrucou. "Eu lhe disse que o cavalheiro não era nada parecido com Swift Nicks."
"Como você sabe disso?", perguntei.
"Pela gravura", foi a resposta rápida. "Ela conta tudo sobre ele."
Peguei o folheto, estendi-o para ela e disse asperamente: "Leia para mim!"
Pensei que isso a derrotaria completamente, mas ela disse, simplesmente: "Eu não sei ler, mas ouvi ser lido muitas vezes."
"Você ouviu ser lido?", perguntei ao homem.
"Muitas vezes", ele ecoou carrancudo, e vi os dedos da mulher se contraírem como se ela desejasse sulcar o rosto feio dele com suas unhas.
"Então por que não sabia?"
Falei com ele, mas virei-me bruscamente para a mulher e vi o inferno em seu rosto. Ela foi quase rápida demais para mim e respondeu bajuladora: "O pensamento do dinheiro o tornou tolo, senhor. Por favor, deixe-o. Preparei a cerveja perfeitamente para vossa honra."
Isso era verdade e eu apreciei muito. Enviei o homem para cuidar de Sultan enquanto ela preparava diante dos meus olhos uma mistura quente de cerveja e farinha.
"Sua honra vai longe?", perguntou ela.
"Isso depende de quão longe fica Ellerton Grange. Você conhece?"
"Oh sim, vossa honra. Sir James Blount mora lá. Fica a três milhas de Uttoxeter na estrada de Burton."
"É uma estrada reta para Uttoxeter?"
"Meia milha à frente o senhor chegará a uma bifurcação. Pegue a estrada à direita e siga seu nariz. Traga a bebida, Bob!"
Ela se saiu bem, mas senti que havia uma profunda linhagem de patifaria nela. Ainda assim, desejando partir com uma nota mais leve, dei-lhe a coroa, dizendo: "Você merece um comércio melhor."
"Não é tão ruim assim", disse ela.
"E um marido melhor."
"Ora! Você pensa..."
Ela parou abruptamente, claramente pega de surpresa pela primeira vez.
Um minuto depois eu estava partindo novamente. Na bifurcação, Sultan seguiu para a esquerda, e tive que puxá-lo bruscamente para a direita. A estrada piorou constantemente, mas Órion estava claramente visível à minha frente, descendo atrás de Uttoxeter, e eu segui em frente. Se um homem pretende voltar por causa de uma estrada ruim, ele não viajará longe nos condados. Logo, porém, não havia mais estrada, e eu estava em campo aberto. Sultan parou e farejou, e então virou a cabeça como se para me dizer, o que eu já sentia ser a verdade, que eu tinha sido um asno por não deixar para ele.
"So ho! Sultan!", disse eu, acariciando seu pescoço quente. "Eu mereço tudo o que você diz, minha beleza! Eu coloquei você em um belo trabalho."
A estrada correta devia estar em algum lugar à minha esquerda. Virei-o para aquele lado e ele caminhou desconfiado e farejando. Felizmente a lua havia surgido, e a mentira da Jezabel só me custaria um atraso trivial. Ela mentira com um propósito, e eu me intrigava tentando raciocinar sobre isso. Em poucos minutos chegamos à beira de um bosque com uma parede baixa de pedras brutas separando-o do campo. Eu estava olhando atentamente para frente, quando, de repente, Sultan desviou tão poderosamente que balancei na sela. Eu não o teria tocado com a espora, a menos que fosse uma necessidade absoluta, por um punhado de guinéus, e eu o acalmei, e então me virei para ver o que o havia perturbado.
Para ser sincero, eu mesmo desviei. A maioria de nós nestes dias gosta de rir de superstições, desde que estejamos em boa companhia ao redor de um fogo crepitante. Eu estava ali sozinho em um campo solitário, às nove horas de uma noite de inverno, e lá, esvoaçando e deslizando pelo bosque, havia algo de branco. Virgílio acreditava em fantasmas, e Joe Braggs também, e eu, ao ler frequentemente um e ouvir o outro, havia preservado uma mente aberta. Aparentemente, Sultan tinha suas dúvidas, pois ele tremia e relinchava.
Puxei sua cabeça para longe do fantasma, saquei uma pistola e observei os movimentos da coisa estranha. Era evidente que era destinado a mim, pois fez uma leve curva e veio diretamente em minha direção. Então minha lógica de homem, como Margaret chamava zombeteiramente, veio em meu auxílio. Sombrio como estava, vi os contornos de alguns degraus pelos quais a parede baixa podia ser cruzada, e fantasmas, estando ambas as minhas autoridades de acordo nisso, eram independentes de tais artifícios puramente humanos. Então, esperando até que o fantasma estivesse descendo do meu lado, eu disse severamente: "Pare, ou eu atiro!". Com isso, ele soltou um grande soluço e caiu de corpo inteiro no chão.
Saltei, passei as rédeas sobre a cabeça de Sultan e puxei-o até o local. O fantasma era uma menina bem crescida, vestida apenas com uma camisola branca, pois eu podia ver seus pés descalços além da bainha.
"Não tenha medo, querida", disse eu calmamente, pois ela estava muda e meio morta de susto. "O que posso fazer por você? Diga, e será feito. Vamos, seja corajosa!"
Ela se sentou, apoiando-se na mão direita, e virou seu rosto pálido e trêmulo para o meu.
"Ladrões, senhor!", ela arquejou. "Eles estão assassinando meu pai e minha mãe. Pelo amor de Deus, senhor, vá e pare-os."
"Certamente", respondi alegremente, tirando meu casaco. "Vamos, minha menina corajosa!"
Ajudei a moça a se levantar, coloquei-a em meu casaco, saltei na sela e levantei-a montada atrás de mim.
"Segure-me firme! Por que caminho?"
"Contorne o bosque primeiro, senhor!"
Partimos, e desta vez toquei Sultan com a espora e ele voou. Contornamos o bosque; atravessamos um campo na diagonal; subimos e passamos por um portão, a menina agarrada a mim como um carrapato; descemos uma viela; subimos e passamos por outro portão; e então o braço direito trêmulo da menina foi estendido sobre meu ombro.
"Ali está a casa! Oh, Deus, se não chegarmos a tempo!"
"Quantos são?"
"Dois, senhor."
Parei Sultan no portão do pátio da fazenda, ajudei-a a descer e saltei atrás dela. Amarrando o cavalo, começamos a atravessar o pátio.
Felizmente a lua baixa estava do outro lado da casa, e pudemos correr suavemente na escuridão total. Enquanto escrevo, sinto o aperto firme daquela menina corajosa em minha mão enquanto corríamos. Em uma porta entreaberta paramos; ela me soltou e eu avancei na ponta dos pés sozinho. De dentro, ouvi o estrondo de um pote e depois de outro no chão de tijolos da cozinha, enquanto o vilão, procurando por dinheiro escondido, os esmagava no chão. Mordido nas entranhas por sua falta de sucesso, ele gritou: "Vou queimar o olho da porca! Isso abrirá sua boca."
Com a ira flamejando em meu coração, pisei na entrada que levava à cozinha. Meus olhos caíram sobre uma pobre mulher amarrada firme e forte em uma cadeira, e uma fera mascarada, seus grandes dentes brancos aparecendo através de lábios afastados em um sorriso de fúria infernal, aproximando um atiçador em brasa de seu rosto. Atirei nele, e ele caiu em um monte contorcido. O outro vilão correu pela vida pela porta da frente aberta. Minha segunda bala o atingiu bem no limiar, pois ele ganiu e saltou no ar como um veado atingido, mas ele continuou. Deixei que fosse, não ousando deixar o canalha ainda vivo no chão, pois ele tinha uma verdadeira bateria de pistolas em seu cinto. A menina já estava desamarrando sua mãe, e seu pai, amarrado e amordaçado em sua cadeira no canto da lareira, poderia esperar um pouco. Então arranquei as pistolas, eram seis delas, e as joguei na mesa. O homem estava sangrando como um porco abatido, e seu rosto arroxeado e garganta ofegante mostravam que ele estava sufocando. Como eu o destinava à forca, peguei-o, joguei-o de bruços na mesa e bati violentamente em suas costas, momento em que ele tossiu um dente. Minha bala arrancara todos os seus dentes da frente, limpa e claramente, assim como o polegar delicado da nossa Kate tira a fileira de ervilhas de uma vagem. Uma vez que o dente saiu, ele não estava muito ferido, e, segurando uma de suas próprias pistolas contra sua cabeça, ordenei que desamarrasse o fazendeiro. Assim que este último ficou livre, ordenei que amarrasse o ladrão a uma cadeira da cozinha, o que ele fez muito bem. No instante em que este trabalho foi concluído, ele saltou para acariciar e confortar sua esposa. Ela o beijou de volta e, sem dizer uma palavra, apontou fracamente para mim, momento em que ele se virou e me agradeceu.
"Agradeça à sua corajosa filha", disse eu, e então ele saltou para ela e a abraçou em seus grandes braços, soluçando: "Minha querida, minha querida Nance!"
A meu pedido, ele acendeu uma lanterna e saímos para colocar Sultan no estábulo. Voltamos pela cozinha para fazer uma busca na parte da frente da casa. Uma bela cena me esperava dentro de casa. A boa esposa estava tomando um gole de vinho de cherovia, e a menina estava novamente vestida apenas com sua camisola. Com o rosto corado e os olhos baixos, ela estava lá estendendo meu casaco.
"Olá, fantasminha!", disse eu, sorrindo para ela. "Você quer me assustar de novo, não é?"
Confusa demais para dizer uma palavra, ela me serviu com meu casaco e depois correu escada acima. Para abreviar os agradecimentos chorosos de sua mãe, dirigi-me à porta e começamos nosso exame.
A cerca de dois metros do limiar da porta, os raios débeis da lanterna foram refletidos por algo no chão. Para minha grande satisfação, era um espólio justo para mim, nada menos do que minha necessidade mais urgente, um chapéu raro e bom feito do mais fino castor. A fita era afivelada com ouro, e havia uma inclinação atraente e certamente muito elegante na aba. Joguei meu velho chapéu na escuridão e coloquei meu novo tesouro na cabeça. Agora eu poderia caminhar lado a lado com Margaret e não sentir vergonha, pelo menos não do meu chapéu.
"O patife o derrubou quando eu o atingi", disse eu.
"Puxa! Ele saltou, isso é certo", disse o fazendeiro, cujo nome, devo dizer, eu aprendera ser Job Lousely.
Era um longo caminho até a estrada, e não fizemos mais descobertas até chegarmos ao portão. Aqui foi a vez dele de ter sorte, pois havia um excelente cavalo amarrado a uma grade. Estava nas terras de Job e ele lhe deu um lugar em seu estábulo.
"Isso compensará a louça", disse ele, com grande alegria.
De volta à cozinha, encontramos Nance totalmente vestida e ocupada em pôr uma refeição sobre a mesa. Ela ficou tão surpresa quando declarei que não estava com fome e que não poderia ficar mesmo se estivesse, que, para poupá-la de angústia, comi um bocado e tomei um gole de cerveja, enquanto Job trazia Sultan para a porta. Ela era uma moça doce e formosa, e fez bem ao meu coração vê-la levar um chifre de cerveja aos lábios sangrentos do ladrão. Ele bebeu avidamente, como um cão após uma longa corrida. Ele estava onde merecia estar, com os pés no caminho curto e direto para a forca, e não senti pena dele. Nance sentiu, e é bom para o mundo que as mulheres sejam feitas dessa maneira.
"Qual a distância até Ellerton Grange?", perguntei a Job, que entrou para me dizer que Sultan estava pronto.
"Cerca de seis milhas, senhor. Três daqui até Tutcheter, e mais três até a Grange."
"Que engraçado, pai", intrometeu-se Nance. "Esta é a segunda vez esta noite que um cavalheiro pergunta o caminho para Ellerton Grange."
Dificilmente teria parecido engraçado para Job se fosse a vigésima segunda, mas Nance era rápida e perspicaz.
"Ho! Ho!", disse eu. "Conte-me sobre isso, pequena mulher!"
"Eu estava desejando boa noite ao meu Jim no portão, pouco antes de o pai chegar em casa, quando um homem que passava parou e perguntou o caminho para Ellerton Grange."
"Você conseguiu vê-lo bem, Nance?", perguntei.
"Não muito, senhor, mas a lua brilhou em seu rosto quando ele tirou o chapéu para enxugar a testa, e parecia, para todos os efeitos, um ovo de pata estragado."
"Bem colocado, Nance", disse eu, rindo. "Na primeira vez que vi aquele rosto, pensei que parecia uma bexiga de banha."
"O senhor o conhece, senhor?"
"Acho que sim, Nance, e preciso ir atrás dele."
Da série de pistolas do ladrão, selecionei um par para mim. Eram espólios legítimos e de qualidade igual àquelas que o Mestre Freake me dera, de modo que o patife provavelmente as havia roubado. Vi que todas as outras estavam carregadas e aconselhei Job a vigiá-lo a noite toda e a levantá-lo, cadeira e tudo, para dentro de uma carroça na manhã seguinte e levá-lo ao Juiz mais próximo.
Job e sua esposa renovaram seus agradecimentos quando eu já estava na sela. Nance insistiu em vir abrir o portão e, no caminho até lá, deu-me instruções completas e cuidadosas sobre o caminho para Tutcheter e de lá para a Grange.
Ela abriu o portão e me deixou passar. Então, ela veio ao lado da minha espada e ergueu o rosto para ser beijada.
"Adeus, fantasminha!"
"Adeus, senhor! Deus o abençoe!"
Beijos e bênçãos eram recompensa suficiente pelo meu serviço, e segui viagem com o coração mais leve por causa deles.
CAPÍTULO XVIII
O DUPLO SEIS
O tempo não fora desperdiçado. Tive uma experiência emocionante e recebi uma pista de perigos e incertezas pela frente. Além disso, e nisso me orgulhei mais, adquiri um chapéu elegante. Estava um pouco folgado, mas um pedaço de papel dobrado dentro da aba interna remediará esse defeito. A lua estava ficando mais alta e mais brilhante, e tirei meu novo tesouro repetidas vezes para admirá-lo. Pertencera a um patife com excelente gosto para chapéus. Fiquei muito satisfeito com ele e esperava ansiosamente captar o brilho nos olhos de Margaret quando ela o visse. Afinal, convinha-me estar bem apresentado em sua presença, e lamentei que o patife não tivesse deixado também seu casaco e calções. Sem dúvida, eram igualmente elegantes e atraentes, e teriam me servido muito bem, embora todos os alfaiates da cidade de Londres não pudessem me fazer um par para Maclachlan. Um homem tem que nascer para roupas finas, como um pássaro para penas finas, antes de ficar bem nelas. O pensamento deixou-me melancólico. Enfiei meu chapéu com força e fiz Sultan acelerar o passo.
O homem à minha frente era, sem dúvida, o espião do Governo, Weir. Já se passara mais de um dia inteiro desde que eu enfiara meu Virgílio em sua goela, e ele tivera tempo de chegar a estas paragens. Trinta anos antes, havia muito sentimento pela facção honesta por aqui, e entre a pequena nobreza ao longo da fronteira dos condados, haveria alguns em cujos corações a velha chama ainda tremeluzia. De fato, minha própria missão provava tanto, e um farejador como Weir estaria bem empregado em desenterrar fragmentos de fofocas sobre a garrafa e memórias de confidências regadas a cerveja nas tabernas de mercado — palhas submersas que mostravam os refluxos da opinião sob a superfície plácida da nossa vida rural. Cravei os dedos na minha coxa e imaginei que estava torcendo o pescoço seboso do patife, e a sensação me fez bem.
Comecei a passar por casas isoladas e depois entre fileiras de chalés. Sultan estava um pouco cansado, mas, sendo um cavalo experiente, animou-se à vista e galopou pela rua principal morta da cidade. As sombras das casas à minha esquerda terminavam em uma linha irregular na calçada de paralelepípedos à minha direita. Perto do fim da cidade, deparei-me com uma exceção à quietude em preto e branco das casas — uma estalagem à minha direita, brilhando com luz e cheia de barulho. Uma companhia alegre e ébria a ocupava, alguns discutindo, alguns barulhentos e contenciosos, e alguns estentores tentando abafar os outros rugindo uma canção de bebedeira. Puxei Sultan para a borda das sombras para ver se conseguia distinguir algo, e ele, supondo, sem dúvida, que eu o guiava para comida e estábulo, fez uma meia-volta em direção ao pórtico que corria sobre pilares ao longo da fachada da estalagem. Eu o detive imediatamente, mas, naquele instante, um homem saltou de trás de um pilar, colocou uma mão no pomo da minha sela e ergueu a outra em aviso. Ele era um homem pequeno e, em sua ansiedade, ficou na ponta dos pés e sussurrou: "Cavalgue, Mestre Wheatman! Um segundo pode lhe custar caro!"
Mesmo enquanto falava, algum movimento lá dentro o assustou, e ele saltou de volta para a sombra antes que eu pudesse questioná-lo.
Impeli Sultan adiante e, uma vez fora do alcance dos ouvidos da estalagem, estimulei-o a galopar. Ele fugiu da cidade, passou pelo fim da estrada de Stafford, ao longo da qual duas horas do melhor passo de Sultan me levariam aos Hanyards e à minha mãe e Kate, e eu o mantive assim por duas milhas inteiras antes de deixá-lo recuperar o fôlego e me acomodar para pensar sobre o que aquilo significava.
Eu não conhecia o homem, mas ele sabia muito bem quem eu era e meu nome. Ele era obviamente um amigo, pois seu comportamento e seu aviso demonstravam sua boa vontade para comigo. Ele devia estar ali esperando por algum motivo, e deve ter me visto em algum lugar e aprendido o suficiente sobre mim para saber de que fonte o perigo para mim certamente viria. Nesse caso, era claro que o perigo estava dentro da estalagem. Os foliões podiam ser, não, quase certamente eram, soldados, embora não houvesse nenhum na cidade quando Job Lousely partira de lá há menos de duas horas. A notícia da minha escapada bem poderia ter vazado para Stafford agora; eu era muito conhecido na cidade, e o estranho poderia ser algum rapaz de Stafford pego pela noite em Uttoxeter após seus negócios no mercado. Como digo, eu não conhecia o homem, mas ele poderia muito bem me conhecer; ele era, talvez, algum antigo colega de escola, mudado além do reconhecimento pelo luar, e ainda disposto a servir a um velho companheiro. Esta parecia a solução mais provável para a dificuldade, e isso me deixou muito triste. As notícias sobre Jack já estariam sendo sussurradas por aí, e eu nunca mais poderia andar pelas velhas ruas sem ver olhares e arrepios por toda parte. *Vê-lo? É ele! Matou seu melhor amigo! Wheatman dos Hanyards! Nunca mais ergueu a cabeça desde então! E nem deveria!* A tagarelice dos habitantes da cidade penetrava em meus ouvidos entre as batidas dos cascos, e me deixava doente e tonto.
Isso não teria acontecido se não fosse pelo patife de rosto de bexiga à minha frente, agora rastejando por aí como um inseto repugnante para picar um homem de nome e fama antigos, e eu estava ansioso para pegá-lo novamente. Sultan, sem mais estímulos, fizera as furlongs voarem com um estilo galante, e era hora de procurar meus marcos. Nance tinha me deixado perfeitamente instruído sobre eles. Aqui, à direita, ficava o chalé do guarda-florestal, onde a estrada começava a descer em direção a um fundo escuro com olmos antigos: ali, à minha esquerda, em um espaço aberto entre os troncos, a lua mostrava uma coluna cinzenta e gasta que marcava o local onde, nos dias selvagens das Rosas, um Parker Putwell matara um Blount em uma luta injusta por uma luz de amor que não valia o sangue de um coelho. Nance me contara muito seriamente o conto antigo e triste, para gravar o local na minha mente, pois a longa viela que subia para Ellerton Grange começava nas sombras logo depois do monumento e serpenteava pela encosta à direita. A estrada nos levou para cima, onde a luz da lua caía sobre prados que eram quase gramados, e através deles para um labirinto de edifícios. Um minuto depois, saltei de Sultan e bati na porta de carvalho cravejada de Ellerton Grange.
Ninguém atendeu ao meu chamado, e enviei uma segunda salva de batidas ecoando pela casa antes de ouvir um arrastar de pés lá dentro e o puxar de grandes ferrolhos. A porta se abriu um pouco, e a cabeça de um velho, com uma lanterna tremendo sobre ela, apareceu na fresta.
"Quem está aí?", ele perguntou com voz trêmula.
"Wheatman dos Hanyards", respondi; "mas meu nome não vem ao caso, meu negócio sim. Preciso ver Sir James Blount."
"Ele está na cama", disse ele, "há horas!"
"Então vá buscá-lo!"
O velho aproximou sua lanterna do meu rosto e se endireitou para me olhar direito. Ele tinha bochechas encovadas e gengivas sem dentes, e olhos sem cílios com pálpebras vermelhas e cruas, e era, sem dúvida, algum criado antigo e enferrujado, trêmulo e lento, mas de mente suficientemente rápida, e de uma fidelidade canina à mão que o alimentava.
"Jovem e mandão", murmurou ele, "e jovem demais para ser tão mandão. Mas lembro-me do dia em que eu teria estraçalhado seus ossos com meu bordão."
"Não vou negar, vovô", respondi, tentando agradá-lo. "No seu tempo, você deve ter sido um rapaz dois dedos mais alto que eu. Não tão grande de peito, porém, vovô."
"Quem você está chamando de vovô? Eu era grande o suficiente de peito quando podia comer e beber o suficiente para me encher. Agora!"
Enquanto falava, ele agarrou um punhado do colete que pendia frouxamente sobre ele e acrescentou: "Outrora servia perfeitamente, meu senhor. Está frio e tarde para meus velhos ossos estarem rangendo por aí, mas o 'Fiel' é o cão para o fim da caçada, e um Blount é um Blount e deve ser servido."
"Vá buscá-lo!", repeti. "Eu cavalguei duro e longe para servi-lo."
O ancião lançou-me outro olhar e disse para si mesmo em um sussurro alto, ao modo dos criados velhos e favorecidos: "Um tipo fazendeiro, exceto pelo chapéu, e nada desses cavaleiros noturnos."
"Vá buscá-lo!", disse eu novamente, não por falta de palavras novas para dizer ao velho caduco e sincero, mas para mantê-lo no assunto.
"Oh, sim", disse ele, e saiu arrastando os pés.
Ele me deixou furioso, pois seu último resmungo, enquanto sacudia a lanterna para atiçar um pouco a chama, foi: "Conhece um homem verdadeiro quando vê um. Mais acostumado a uma faca de trinchar do que a uma espada, aposto. O que ele disse? Wheatman de alguma coisa! Nome de fazendeiro comum!"
Chutei a porta para escancará-la e observei a lanterna balançando ao longo do corredor. A luz criava reflexos pálidos em armaduras completas penduradas tão realisticamente nas altas paredes de pedra nuas, que parecia, para todos os efeitos, como se os cavaleiros tivessem sido crucificados ali e, pouco a pouco, era após era, tivessem se transformado em pó, deixando para trás seus aparatos de guerra — conchas vazias na praia do tempo de onde a vida escorrera e apodrecera. O velho subiu penosamente a grande escadaria no fim do corredor e virou à direita ao longo de uma galeria. A luz amiga desapareceu, deixando-me na penumbra e sozinho. Sultan farejou o caminho até a porta, enfiou a cabeça e o pescoço e esfregou o focinho contra o meu peito com toda a amizade. Envolvi seu pescoço com meus braços e acariciei-o, e naqueles minutos angustiantes na porta de Ellerton Grange, ele foi camarada e namorado para mim, e confortou muito meu espírito.
Passos e uma voz lá dentro me fizeram virar a cabeça. Um homem veio correndo escada abaixo e pelo corredor. Atrás dele, o velho criado apressou-se, lanterna na mão, como pôde.
"Sir James Blount?", disse eu.
"O próprio", disse ele, de forma curta e confusa.
"Trago-lhe uma carta de uma pessoa muito exaltada, Sir James", expliquei.
Ele a tirou de mim quase como se tivesse tomado uma tigela de veneno. "A luz! A luz! Seu velho tolo lento! A luz!", disse ele, soltando as palavras como se sua alma estivesse em angústia, e o ancião, mal na metade do corredor, apressou seu passo pobre até seu mestre. Ele, arrancando a lanterna das mãos fracas e batendo-a sobre uma mesa, abriu a carta e devorou seu conteúdo.
A luz da lanterna revelou o rosto de um homem ainda jovem, mas pelo menos uma dezena de anos mais velho que eu. Ele tinha uma boca de lábios finos e sensíveis, um grande nariz arqueado e olhos rápidos e ansiosos. Sua mente corria como um moinho, e seu rosto fino se contorcia, se enrugava e se contraía sob o estresse do fluxo. Outra coisa clara o suficiente era que o velho mentira ao dizer que seu mestre estava na cama, pois ele estava completa e cuidadosamente vestido e sua peruca não tinha um único cacho deslocado ou desfeito. Este não era um sonhador meio acordado, mas um homem com as questões de sua vida em jogo.
Ele amassou a carta na mão e andou de um lado para o outro no corredor, murmurando para si mesmo. Virei-me e esfreguei o focinho de Sultan para mantê-lo quieto e feliz. O velho criado assumiu o comando da lanterna novamente e seguiu seu mestre de um lado para o outro com os olhos.
"Um ano atrás, sim! Um ano atrás, sim!", ouvi Sir James dizer. Ele apressou seus passos e as palavras saíram em solavancos, meros substantivos com verbos grandes demais em significado para que ele os pronunciasse. "Uma palavra! Um sonho! Uma fé morta! Sim, pai! O diabo! Namorada!"
Existe uma grande linha na Eneida que tentei em vão traduzir cem vezes. Três dias atrás, eu teria tentado novamente com todo o zelo não instruído de um verbalista. Eu nunca precisaria tentar de novo. Há algumas linhas no Mestre que a vida sozinha pode traduzir. *Sunt lachrymae rerum et mentem mortalia tangunt.*
Após uma ou duas voltas em silêncio, Sir James parou seu andar e veio até mim.
"Senhor", disse ele, "o senhor saberá o suficiente para desculpar minha falta de atenção a um convidado. Devo compensar isso, se puder. Dê-me a lanterna e espere por nós aqui, Inskip. Venha comigo, senhor, e acomode seu cavalo. Deus me valha, senhor", erguendo a lanterna, "você monta o animal mais nobre que já vi. Woa, ho, minha beleza! Todos os meus homens estão na cama, então temos que fazer isso nós mesmos, mas, pelo céu, será um prazer, Mestre... como posso chamá-lo, senhor?"
"Apenas o nome simples dos meus pais — Oliver Wheatman dos Hanyards."
"Um bom nome forte, senhor, embora meus pais não gostassem dele."
"E o senhor, Sir James?"
"Francamente, é um nome que para mim deixou de ser um símbolo. Um bom sujeito pode chamar-se 'Oliver' sem me fazer ranger os dentes. Tive um grande cão de caça uma vez, e o chamei de 'Noll', só porque ele era grandioso. Meu querido velho pai consultou um médico de Londres sobre o estado da minha mente. Isso o deixou ansioso, sabe! O grande homem disse, de forma bastante ríspida, que eu era tão são quanto um gralha. Então, meu querido papai, um dos melhores homens que já viveu, mandou sacrificar o cão!"
Ele riu, de forma nostálgica em vez de alegre, e estava, a meu ver, determinado a recuperar o controle de si mesmo. Deixamos Sultan confortável para a noite, e então Sir James disse educadamente que já era hora de cuidar de mim. Ele não fez mais nenhuma referência indireta à situação, até que, enquanto me guiava pelo corredor, parou em frente a um grande quadro sombrio, pendurado entre dois conjuntos de armaduras, e ergueu a lanterna bem alto sobre sua cabeça para me dar uma visão dele. Com uma estranha mistura de ressentimento e pathos, ele disse: "Os ancestrais de um homem são, às vezes, uma droga, senhor!"
"São, de fato!", respondi. "Há um dos meus balançando o punho para mim sobre as ameias da Nova Jerusalém."
Ele riu cordialmente e, com Inskip seguindo pacientemente atrás de nós, conduziu-me escada acima e através da galeria para um longo corredor, iluminado por lanternas fixadas em suportes nas paredes. Paramos em frente a uma porta, e ele estava prestes a me levar para dentro quando outra porta mais adiante no corredor se abriu e uma senhora saiu. Ela estava toda de branco, com cabelos escuros soltos sobre os ombros, e havia algo em seus braços.
A lanterna caiu com um estrondo, e Sir James voou como um cervo caçado ao longo do corredor. Ele envolveu a senhora com os braços e beijou-a apaixonadamente, e então caiu de joelhos e estendeu os braços. Ela colocou o 'algo' de branco neles e houve um pequeno choro fraco.
"Casados há um ano, virá o Natal", sussurrou o velho Inskip, "e o bebê faz cinco semanas amanhã."
Uma criada saiu apressada de outro quarto, e a senhora e a criança foram afetuosamente levadas para a cama sob sua escolta. Sir James voltou lentamente.
"Minha esposa e meu filho, Sr. Wheatman", disse ele. "O senhor deve conhecê-los amanhã. O jovem patife chora sempre que o profano com meu toque. Teria sido justo tê-lo batizado de 'Oliver'."
Ri cordialmente, pois ele estava lutando contra si mesmo novamente ao zombar de mim. Ele mandou o velho embora para vasculhar a despensa em busca de um jantar para mim, e então empurrou a porta e me levou para dentro do quarto.
Em tamanho e dignidade, era um quarto para tirar o fôlego de um pobre fazendeiro. Parecia-me uma viagem de um dia de sábado até a grande lareira em chamas, onde dois homens estavam sentados; o alto teto branco era moldado em um design maravilhoso, com grandes pingentes esculpidos pendurados nele como gelo nos beirais dos Hanyards. Muitas estantes de livros corriam até a metade das paredes ao redor da maior parte do quarto, cheias de estoques de livros como os quais meu coração nunca sonhara, grandes fólios encadernados em couro em pelotões, e quartos em regimentos. Se eu pudesse obter permissão, roubaria uma ou duas horas do sono para observá-los, e enquanto caminhávamos em direção à lareira, fiquei atrás do meu anfitrião em minha lentidão e tive que dar um passo rápido para ficar no mesmo nível que ele para fazer minha reverência de apresentação. Ofeguei com o choque ao entrar nos braços do Mestre John Freake.
"Meu caro rapaz", ele exclamou, "que sorte! Que sorte! Como você está? Como estão eles?"
Ele me fez sentar ao seu lado, pois aqui, como em qualquer outro lugar, ele era facilmente o homem mais importante presente, embora seu comportamento fosse sempre calado e modesto. Ele falou de mim a Sir James em frases calorosas e gentis, e logo ficou claro que sua boa palavra era um passaporte para a confiança e consideração do meu anfitrião. Os três cavalheiros encheram seus copos e brindaram a mim com grave cortesia, e deslizei facilmente para fora do humor inquieto em que a franqueza de Inskip e meu ambiente incomum haviam me colocado.
O terceiro homem presente era um baronete galês, Sir Griffith Williams, um primo distante e amigo íntimo de Sir Watkin Wynne, cujo nome eu me lembrava de ter ouvido nos lábios do Coronel em Leek. Sir Griffith era um homem vivaz, de faces coradas, com uns quarenta anos, muito fluente na fala em um inglês algo incerto, com menos ideias na cabeça do que sementes numa maçã, mas as que lá havia eram singularmente claras e precisas. Ele me lembrava Joe Braggs, que só sabia assobiar três melodias, mas as assobiava como uma cotovia.
Inskip trouxe-me um raro prato de empada de veado e outras iguarias, e arrumou a mesa para mim. Deixei o lado do Sr. Freake para comer minha ceia e ouvir a conversa deles.
Eles fizeram várias tentativas em falso, seguidas por silêncios sepulcrais. Era pura perda de tempo para Sir James falar sobre seu bebê. Sir Griffith tivera uma longa linhagem e, portanto, esgotara o tópico anos atrás, enquanto o Sr. Freake, um solteiro, não sabia nada sobre o assunto. Houve uma grande enchente no vale do galês no outono e ele discursou sobre ela com estilo, e não sem lampejos de poesia nativa, mas Sir James nunca vira uma enchente e o Sr. Freake nunca estivera no País de Gales, de modo que a enchente logo secou.
Houve um silêncio por alguns minutos, minutos ocupados para mim com uma torta de maçã que estava sublime com um pouco de creme, e eu estava me entregando ao doce contentamento de quem está bem alimentado quando Sir James irrompeu.
"O Sr. Wheatman trouxe-me um convite, dificilmente distinguível de uma ordem, para encontrar Sua Alteza Real na propriedade dos Poles amanhã."
O ansioso galês saltou da cadeira, ergueu seu copo e disse: "Ao Príncipe, Deus o abençoe." Sir James teve que seguir seu exemplo, embora não estivesse com ânimo para isso, e teria parecido mal se eu não tivesse participado, e além disso o vinho estava excelente.
"Perdoem-me, cavalheiros", disse o Sr. Freake. "Não está claro a qual Alteza Real se referem, e além disso, não tenho política."
"Deus o abençoe", balbuciou o galês. "Eu me juntarei a ele quando ele tiver atravessado o Trent."
Novamente houve um silêncio por um breve momento.
"Portanto, a questão está colocada, e devo dar minha resposta", disse Sir James, quebrando a quietude. "Devo pôr a mão no arado ou recuar. Devo manter minha palavra ou quebrá-la. Posso ser leal ao credo de meu pai e também aos interesses de meu filho? Tenho que ser ambos, se puder. Se não puder ser ambos, qual deve ser deixado de lado? O destino me colocou entre a cruz e a espada, Sr. Wheatman. Em seu leito de morte, meu pai passou-me seu lugar na antiga fé. Ele era um devoto adepto da Casa exilada, amigo íntimo e associado de Honest Shippen, e ainda mais intimamente envolvido do que ele na rede clandestina de intriga e preparação que foi constantemente tecida, arruinada e retecida até sua morte, dez anos atrás. Ele deixou-me pobre e sobrecarregado de dívidas, pois fora pródigo em seus sacrifícios pela causa. É um milagre que tenha morrido em sua cama em vez de no cadafalso, mas ele era tão cauteloso quanto zeloso. Por nove anos vivi aqui a vida de um eremita, sozinho com minhas dívidas e meus livros. Então conheci uma jovem" — sua voz falhou consideravelmente — "que se tornou para mim o tudo da minha vida. Por boa sorte, também conheci o Sr. Freake, que assumiu meus negócios para mim e tem me ajudado de forma sábia e generosa."
"Por dez por cento, Oliver", interrompeu o Sr. Freake.
"Bobagem! Sábia e generosamente, repito", disse Sir James calorosamente.
"Por dez por cento sobre boa garantia, repito", respondeu o Sr. Freake gravemente.
"Dane-se seus dez por cento!"
"Parece que sim, e com a garantia de bônus!" disse o Sr. Freake muito rapidamente.
"Pelos ferimentos de Cristo! É exatamente isso!" disse Sir James. Ele se levantou e caminhou de um lado para o outro entre mim e a lareira. "Há um ano, senhor" — ele dirigiu-se a mim em particular — "eu teria gritado de alegria com a convocação para assumir o lugar entre os adeptos da causa que meu pai teria ocupado se estivesse vivo, e que era o desejo do seu coração, em seu leito de morte, que eu ocupasse por ele. A causa e o credo não são nada para mim como tais, pois não atribuo valor a nenhum dos dois. Sua conversa sobre o direito divino do velho Sr. Melancolia, encenando e mimetizando lá em Roma, faz-me sorrir. Ele é um velho tolo, essa é a suma da questão. Mas um Blount é um Blount, afinal. Devo algo aos meus ancestrais. Minha palavra ao meu pai não deveria ser um sopro vazio. No entanto, aqui estou eu, com todos os interesses da vida puxando para um lado — espere até ter um menino de cinco semanas com uma esposa por quem você seria cortado em pequenos pedaços, e você saberá, senhor — e um pai morto e um credo morto puxando para o outro. Eu sabia o que estava por vir, e falei sobre isso e pensei nisso até que minha cabeça está como uma colmeia. Agora, senhor, dê-me seu conselho!"
"Eu me juntei ao estandarte do seu Príncipe", disse eu.
"Diabos, senhor, você zomba de mim. Isso não é conselho. Isso é tortura."
"Eu dei as costas ao credo da minha vida e a cada instinto sensato em mim", continuei.
Ele parou sua caminhada e olhou atentamente para mim.
"Tenho ancestrais cuja memória prezo, e rasguei o trabalho deles como se fosse um pedaço de papel coberto com o rabisco sem sentido de uma criança."
Sir James aproximou-se da mesa, seu belo rosto vivo de emoção.
"Por quê?", perguntou ele.
Levantei-me e olhei diretamente em seus olhos.
"Por uma mulher", sussurrei, muito baixo, mas com muito orgulho.
Nossas mãos se encontraram sobre a mesa em um aperto firme.
"Você fez bem, senhor!" disse ele. "Pedi-lhe que me desse um conselho. Você me deu um exemplo."
Ele sentou-se novamente e olhou esperançoso para o fogo e, depois, de forma carrancuda para o Sr. Freake.
"Há esta infeliz diferença entre o caso do Sr. Wheatman e o meu. Eu dei, e ele não, minha palavra de honra a um pai."
"Admito que é uma diferença notável", disse o Sr. Freake. "Não sou, contudo, um jesuíta, e não posso decidir casos de consciência. Ludo apenas com problemas de negócios, que são todos cortados e secos, legais e formais. Quando dou uma promessa em negócios, eu sempre a mantenho de forma precisa e pontual, pois a penalidade por falhar nisso é a morte de um homem de negócios — a falência."
"Existe algo como falência moral", disse Sir James sombriamente.
"Muito provavelmente", respondeu o Sr. Freake.
"Isso tudo não passa de palavras, palavras, palavras", disse o galês. "E palavras, meus bons senhores, não valem nada, de fato. A cabeça de Sir James está envolta em uma névoa de palavras, palavras, palavras, e de fato ele não consegue ver nada. Não sou um homem de palavras, e do que vocês chamam de 'broblemas'."
"Muito bom", disse eu.
"De fato, é bom", disse ele. "Ao diabo com suas palavras e seus broblemas. Eles não têm utilidade alguma, alguma mesmo. Nosso bom amigo, Sir James, está até o pescoço em broblemas como um homem em um pântano, e ele não consegue se mover. Ora, eu não tenho seus broblemas. Ao diabo com seus broblemas. Meu primo Wynne está cheio deles, e ele ainda está olhando fixamente para a nuvem em Snowdon, enquanto eu estou aqui, pronto. Digo claramente: se o Príncipe cruzar ao sul do Trent, eu me juntarei a ele."
"Por que o Trent?", disse eu.
"É a minha marca. É a minha maneira de saber o que farei. É tudo tão simples. De fato, sou um homem simples, nenhum broblema em meu cérebro, nenhum mesmo, digo-lhe claramente. É assim — veja. Se o Príncipe cruzar o Trent, digo a mim mesmo, bem, está ótimo. Ele faz sua parte. É hora de eu fazer a minha. É melhor, de fato, digo-lhe claramente, ter isso resolvido por uma coisa simples como o Trent do que ter tudo confuso por seus broblemas. Posso cantar-lhe meus ancestrais às dúzias, desde o porta-estandarte do grande Llewellyn, mas todos estão mortos, e de fato não vou fuçar entre seus ossos para descobrir o que fazer. Olho para o seu belo rio, e espero."
Sir James olhou para ele durante esse discurso com impaciência mal contida.
"Enviei uma carta a Chartley, de Chartley Towers", disse ele, "um dos nossos, e um forte, segundo todos os relatos. De qualquer forma, meu pai sempre o considerou como tal. Então perguntei-lhe, cautelosamente, o que ele pensava, e sua resposta foi: 'A castanha está sobre a chapa. Estou esperando para ver se ela pula para o fogo ou para o para-fogo'. Não consigo decidir apelando para rios ou castanhas. Há muito mais nisso do que isso."
O destino arrancou o problema de suas mãos. Sem uma batida, sem uma palavra, a porta do aposento foi escancarada, e uma dúzia de soldados entrou rápida e silenciosamente, e cobriu-nos com suas carabinas. Um oficial, espada na mão, empurrou através de uma brecha em sua linha e caminhou meia dúzia de passos em nossa direção. Ele nos saudou cerimoniosamente com sua espada e disse: "Em nome do Rei!" Atrás da linha, um homem em roupas civis pairava incerto, e, por mais fraca que fosse a luz, reconheci-o claramente demais. Era o espião do Governo, Weir. Minha sorte estava lançada. Eu tinha jogado pelo prêmio mais alto da vida e perdido. Era um adeus a Margaret.
O galês permaneceu em sua cadeira, impassível como suas colinas natais. O Sr. Freake, cujas costas estavam voltadas para os recém-chegados, fez uma meia-volta rápida e, então, ele também acomodou-se novamente com tanta indiferença como se a interrupção fosse apenas o velho Inskip com as velas para a hora de dormir. Blount saltou da cadeira, lívido de raiva, e caminhou até o oficial.
"Meu Lorde Tiverton, o que significa esta intrusão?", exigiu ele.
"Significa", foi a resposta composta, "que se qualquer um de vocês fizer a menor tentativa de resistir, será morto sem hesitação. Fechem a fileira, rapazes, e cubram seus homens!"
A ordem foi obedecida de forma viva e exata. Os três à esquerda da linha ocuparam-se de mim, e eu fiquei lá, brincando com uma taça de vinho para manter as aparências, embora os três canos marrons nivelados, retos e constantes em minha cabeça, fizessem meu coração chacoalhar como uma pedra em uma lata. Estes não eram os milicianos de casaca cinzenta e sem treinamento de Brocton, mas veteranos precisos e disciplinados em túnicas azuis e chapéus em forma de mitra, calções brancos e botas altas, cingidos, abotoados e equipados com cartucheiras. Era quase um elogio ser morto por tais rapazes altos.
Vendo que éramos todos inofensivos, o oficial abandonou sua precisão militar como se fosse uma vestimenta que não lhe servisse bem. Ele era o mais elegante e belo fiapo de homem que eu já vira, e parecia, a todos os olhos, uma figura requintada em porcelana de Dresden que ganhara vida. Ele não poderia ter tido muita experiência militar — o ar e o aroma do salão de Londres ainda pairavam estreitamente ao seu redor — e ele era tão autoconfiante que passava metade do tempo encenando, fazendo tudo com uma graça e um prazer que eram altamente divertidos. Isso tirou todo o orgulho que eu tinha do meu chapéu novo ao ver esse pequeno e desejável retrato de homem.
"Asseguro-lhe, meu caro Sir James", disse ele, "que é uma coisa maldita e irritante para mim ter que agir de forma tão indelicada. Pelos céus! Eu mesmo não gostaria, mas a lei é a lei e o dever é o dever, e assim por diante, você conhece a velha história, e sou obrigado a fazê-lo."
Ele abriu sua caixa de rapé e ofereceu-a a Sir James, que bruscamente a afastou, dizendo: "Sua explicação, se lhe apraz, meu senhor!"
"Diabos, não seja rabugento! Aprecie a Vênus na tampa? Não é um brilho? Gostaria de ter vivido nos tempos em que as damas ficavam deitadas em praias como aquela! Odeio essas malditas crinolinas. Vi Somerset com elas em Pantiles. Poderia tê-la empurrado e rolado como um barril."
"Meu senhor", reiterou Blount, "aguardo sua explicação."
"O jogo virou", ele gorjeou. "Não os capturei a todos habilmente, pelos céus, vendo que a tinta em minha comissão mal está seca? Não pensei que fosse capaz!"
"Aceitarei a autoridade de sua comissão como suficiente, meu senhor, sendo os tempos como são. Mas terá a bondade de me dizer por que veio?"
"Ora! Certamente! Há um patife sujo com botões de estanho atrás dali — venha aqui, senhor, e deixe Sir James ver sua cara feia! — que diz que você é uma pessoa desleal, um traidor, e assim por diante. Não acredito nele. Não mataria uma pulga com seu testemunho não corroborado, mas ele está a par das coisas e mostrou-me uma comissão do Sr. Secretário, apelando aos súditos leais de Sua Majestade, etc., você conhece a ladainha, e eu fui obrigado a investigar. Acusações são acusações, que me apunhlem se não o forem. Não chegue muito perto, olhos de porco! Cuspa sua história!"
Sua senhoria claramente detestava todo o negócio, e era uma coisa muito embaraçosa para Sir James que eu estivesse aqui, uma peça circunstancial de evidência contra ele. Olhei diretamente nos olhos de Weir enquanto ele avançava, desajeitado e incerto, sorrindo com metade de seus dentes sujos à mostra e enxugando seu rosto amarelado com um lenço sujo. Para meu espanto, ele não fez um único sinal de reconhecimento. Eu era seu trunfo, e ele deixou-me sem jogar.
"Sir James é um jacobita conhecido, meu senhor!", ele balbuciou.
"Muito correto, Sr. Weir, e se você propõe manter-me fora da cama nestas noites frias chamando por jacobitas conhecidos, que me apunhlem as entranhas, Sr. Weir, se eu não o fizer ser atirado em um lago com um tijolo amarrado em seu pescoço suado como um filhote indesejado. Mais alguma coisa?"
"Este é um complô jacobita, meu senhor. Há esquemas e conspirações contra nosso gracioso senhor, o Rei, acontecendo aqui, meu senhor."
"Vou dar uma olhada mais de perto neles. Complôs são coisas malditas e interessantes, que me apunhlem se não o forem, e fico feliz em ver um. Aqui está um jovem promissor", disse ele, caminhando até mim e examinando-me. "O dele é um complô em uma empada de carne, ao que parece. Houve um em uma tina de farinha uma vez, lembro-me, então a empada de carne parece muito suspeita, Sr. Weir. Estamos progredindo. E aqui está um conspirador torrando seus dedos dos pés. Não é um membro inteligente da cabala. Que me apunhlem, se ele não estiver dormindo! Devo circundar e dar uma espiada nele."
Ele caminhou alegremente, à sua maneira teatral, ao redor da cadeira do Sr. Freake até a lareira e, então, virou-se e deu uma olhada nele. Assim que o fez, soltou um grande grito e, recuperando-se, explodiu em uma gargalhada. Ele bateu as mãos nos joelhos e balançou-se de tanto divertimento. O Sr. Freake olhou para ele com um meio-sorriso sereno e disse: "Como vai, meu senhor?"
"Muito bem, obrigado!", gritou sua senhoria alegremente, alegre demais. "Diabos! É a coisa mais engraçada que aconteceu desde que Noé saiu da Arca. Venha aqui, espião! Pretende dizer-me que este é um jacobita?"
Enquanto o espião se aproximava, o Sr. Freake levantou-se, virou-se para ele bruscamente e disse: "Como vai, Turnditch?"
"Que me apunhlem!", gritou sua senhoria. "O nome dele é Weir!"
"Ele me conhecerá melhor se eu chamá-lo de Turnditch", disse o Sr. Freake friamente.
Ele disse a inegável verdade. Pude ver a sombra da forca cair sobre o rosto do homem. O que quer que houvesse de rigidez nele esvaiu-se, e ele ficou lá contorcendo-se em uma agonia de apreensão, como um verme no bico de uma galinha. O Sr. Freake conhecia-o até o fundo de sua alma lamacenta. O Lorde Tiverton era um homem de outro molde, mas ele também estava nas mãos de seu mestre. O simples John Freake, cidadão de Londres, tinha dado uma mão neste jogo do destino, e tinha tirado um par de seis.
Este nobre salão tinha visto as agonias e os regozijos de uma dúzia de gerações dos filhos dos homens, mas nada que superasse esta cena em interesse vívido. Eles voltam a mim agora — a linha de soldados de azul e branco, ainda com carabinas niveladas; o galês impassível, tão indiferente quanto Snowdon; o nobre elegante, ainda polido e leve, não mais encenando, mas sim vagamente ansioso; o jacobita de mente elevada e perturbado, o medo por sua esposa e bebê roendo seu coração; o espião, Weir ou Turnditch, com o laço que fizera para outro apertado em volta de seu próprio pescoço; o Sr. John Freake, o comerciante quieto, semelhante a um quacre, cujo poder estava profundamente enraizado naqueles distantes redutos do comércio mundial, de modo que estávamos aqui sombreados e protegidos pelos ramos mais remotos dele. Por último, lembro-me de mim mesmo, com meu coração tamborilando um bom dia a Margaret.
"Venha agora, Houndsditch, ou Turndish, ou o que quer que seja", disse sua senhoria. "O que exatamente você tem a dizer?"
O pobre diabo não tinha nada a dizer. Ele estava ansioso para ir embora e sair da vista do Sr. Freake. Ele engasgou algo sobre erros, e zelo, e perdão.
"Já chega! Fora daqui, todo o bando maldito de vocês!", gritou meu lorde. Não sendo estas palavras de comando militar familiares, os homens ficaram lá como pinos de boliche. "Baixem as armas, ou o que quer que seja!", continuou ele. "Meia-volta! Passo acelerado!"
O sargento deles assumiu o comando e eles saíram em fila. Sir James seguiu-os e tornou-se seu anfitrião, convocando servos para atendê-los.
Assim que a porta foi fechada para Sir James, sua senhoria apressou-se para o lado do Sr. Freake e iniciou uma conversa baixa e séria com ele. Caminhei até os fólios, esperando encontrar entre eles uma editio princeps de Virgílio, mas fui chamado por um alto "Oliver" do Sr. Freake.
"Oliver", disse ele, quando cheguei à sua cadeira, "gostaria que conhecesse o mais nobre Marquês de Tiverton!"
Fiz uma reverência, e sua senhoria retribuiu, e disse coisas leves e agradáveis sobre nosso encontro. Então, jurando que estava monstruosamente faminto, atacou a empada de veado, convocando-me para sentar em frente a ele.
"Ora! Estou faminto", disse ele, e de fato comeu com o zelo de um camponês. Ele empurrou sua caixa de rapé para mim, o que quase me fez espirrar antes que eu pegasse o rapé.
"É realmente uma obra-prima", disse ele, em uma pausa entre a torta e a empada. "Nunca ouvirei o fim disso no 'Cocoa Tree' e no White's. Que me apunhlem, não vou querer! É bom demais. A história manterá minha memória verde quando aquela velha múmia, Newcastle, for pó, finalmente."
"Que história?", disse eu.
"Sabe por que, há um mês, importunei Newcastle para conseguir-me uma companhia nos Blues?"
"Não faço a menor ideia!"
Ele inclinou-se sobre a mesa e, sob o pretexto de mim, acenou em direção ao Sr. Freake, que agora falava com o galês. "Para sair do caminho dele!", sussurrou ele.
Olhei incrédulo, ao que sua senhoria deu um tapinha significativo no bolso.
"Ele é um bom sujeito. Ele me deu mais seis meses sem murmurar. Quem me dera saber! Não teria havido campanha para mim. Prefiro o Mall!"
Assim ele dizia agora, mas era tão firme quanto uma parede e tão corajoso quanto um leão em Culloden. Ele vinha de uma grande linhagem, e a grandeza era natural para ele. A encenação e o jogo eram apenas a franja que a Sociedade tinha pregado nele. Ensinou-me muito ver como ele estava quando Sir James voltou ao aposento. Tiverton conhecia a posição por instinto.
"Sir James", disse ele, "peço uma palavra com você."
"À sua disposição, meu senhor."
"Serei franco", continuou sua senhoria. "Não faço perguntas. Não faço inferências. Simplesmente aponto que o espião desmoronou porque encontrou o Sr. Freake aqui."
"Observei tanto, meu senhor!"
"Não sei por que", disse o Marquês, duvidoso.
"Eu poderia enforcá-lo nas próximas sessões judiciais", interrompeu o Sr. Freake.
"Entendo. Ele não quer ser enforcado, é claro. Ninguém quer. É um sentimento perfeitamente natural. Então ele se desfez diante da perspectiva."
"Sim, meu senhor", disse Sir James.
"Permiti que ele se desfizesse, e tirei total proveito do fato. Você viu tanto?"
"Vi."
"Agora, Sir James, o senhor, como um Blount, isto é, como um homem que carrega um nome honrado, tem a mais estrita obrigação para comigo de assegurar que eu possa dizer, caso minha conduta seja questionada, que não vi nada aqui porque não havia nada para ver. Coloquei-me absolutamente em seu poder, Sir James. Quem quer que se junte ao Príncipe, o senhor não deve, ou levará minha cabeça consigo."
Foi bem e verdadeiramente dito, e não houve qualquer pose nisso. O problema de Sir James Blount estava resolvido. Ele também me ensinou algo, pois tudo o que fez foi estender a mão.
"É o fim de Tundish!" disse Tiverton, apertando-a com firmeza. "E é o melhor fim também, pois o exército das Terras Altas não tem a menor chance no mundo."
Ele se virou imediatamente para zombar da minha indiferença pela arte, vendo que eu havia desprezado uma miniatura de um dos artistas mais famosos da corte francesa. Deixei que ele tagarelasse, pois meus olhos estavam em Sir James, que girava algo entre as mãos. Um momento depois, a carta do Príncipe subiu em uma língua de fogo e queimou com ela o jacobitismo dos Blounts.
Uma batida na porta interrompeu a avaliação de sua senhoria sobre a arte e os artistas da escola francesa, e seu sargento entrou para dizer que seus homens estavam montados.
"Ao diabo com as campanhas!" disse seu capitão, cansado.
"Perdão, meu senhor", acrescentou o sargento, "mas o Sr. Como-é-o-nome se escafedeu."
"Boa viagem. Voltou para seu comparsa no 'Cisne Negro'."
"Sim, meu senhor. O outro é um sargento dos dragões de Lord Brocton."
"Ah, vi que eles estavam amigáveis um com o outro. Um sujeito com uma cicatriz na cara em que se poderia enfiar um dedo!"
Felizmente para mim, o Marquês estava ocupado com uma última taça de vinho. Eis uma má notícia com força. Eu havia saído da fumaça para a sufocação.
"Meu senhor", disse o Sr. Freake, "tenho um homem meu, um tal Dot Gibson, no 'Cisne Negro', e ficarei muito grato se o senhor permitir que seu sargento lhe leve um bilhete com instruções minhas."
"Que me partam! Eu mesmo levarei", exclamou sua senhoria, cordialmente.
O Sr. Freake foi até uma mesa para escrever o bilhete. Eu sabia agora quem havia me dado o aviso. Seu senhoria guardou o bilhete no bolso e todos nós rastejamos silenciosamente até a porta principal para vê-lo partir. Os guardas faziam uma exibição galante sob o luar brilhante, e o Sr. Freake, tomando meu braço, arrastou-me para fora para vê-los galopar pelo trecho de pasto e desaparecer da vista colina abaixo.
"Durma em paz, Oliver", disse ele. "Dot Gibson nos trará notícias logo cedo sobre os movimentos do inimigo."
Então caminhamos de volta, conversando sobre o Coronel e Margaret.
CAPÍTULO XIX
O QUE VEIO DA VAIDADE
Eram oito horas da manhã seguinte antes que eu começasse minha terceira missão. Para começar, a cama puxava, e com razão, já que eu não dormia em uma cama desde que saí de casa. Depois, satisfiz-me com os livros, encontrando entre eles nada menos que um prêmio: a editio princeps de Virgílio, impressa em Roma em 1469, da qual era difícil abrir mão. Depois, havia o bebê Blount para ser atendido, e sua mãe, uma senhora bonita e cativante, com a glória da maternidade ao seu redor como uma veste de fada. Parte da cerimônia foi colocar o pequeno Blount em meus braços, o que foi feito com muita cautela, com abundantes advertências e precauções para que eu não o esmagasse ou deixasse cair. Ele tinha uma pele como cetim branco e uma penugem prateada em sua cabecinha encantadora. Ao todo, achei que ele era uma posse muito desejável para um homem ter, e desejei que fosse meu, especialmente quando, para o desgosto explícito de seu pai, em vez de choramingar, ele olhou fixamente para mim com grandes olhos azuis e sorriu.
"Precioso patinho de açúcar", disse sua mãe.
"Feio macaquinho", gritou seu pai. "Por que raios ele não pode sorrir para mim?"
"Experimente!" eu disse, entregando-o a Sir James, feliz por estar livre da responsabilidade.
O bebê Blount olhou para o pai e sorriu novamente, e foi uma revelação para mim dos sentimentos mais profundos e puros do coração de um homem ver como Sir James estava arrebatado com aquele primeiro sorriso de seu filhinho.
"É você quem mudou, James, não nosso queridinho", disse sua esposa. "Ele sempre sorrirá para um rosto tão feliz quanto o seu está esta manhã."
Demorei-me nesses momentos encantadores sobre um livro antigo e um bebê novo com a consciência tranquila, pois o Sr. Freake me trouxera notícias que tornaram minha terceira tarefa muito mais fácil. Eu não lhe havia dito o que pretendia fazer, achando injusto forçar o conhecimento sobre ele, mas ele deve ter feito uma boa suposição, pois veio me dizer que as últimas notícias de Stone eram de que o Duque estava se movendo para o sul novamente em alta velocidade, com a intenção de ficar entre o Príncipe e Londres, se pudesse. Ele me contou ainda que Charles havia se juntado a Murray em Ashbourne nas primeiras horas, e que suas forças reunidas haviam partido para Derby. Em todos esses assuntos importantes, ele estava, como é óbvio agora, plena e exatamente informado, e expressei minha admiração por sua meticulosidade.
"Negócios, meu caro Oliver, nada além de negócios. Algum grande homem dos tempos antigos disse que 'conhecimento é poder'. Estou expandindo isso um pouco para caber nestes dias modernos. É só isso."
"Como soa a máxima agora, senhor?"
"Conhecimento é dinheiro e dinheiro é poder", disse ele, com um sorriso seco.
Então, quanto a assuntos pequenos em si, mas de preocupação mais imediata para mim, ele me disse que seu homem, Dot Gibson, havia relatado que o espião, Weir, havia partido em um horário adiantado em direção a Stafford, enquanto o sargento dos dragões ainda estava à espreita no "Cisne Negro". Houve longas consultas entre eles, como se estivessem agindo em conluio.
Isso era provável. Era um fato notável que o espião me vira e tivera a oportunidade de me denunciar antes que o Sr. Freake o derrubasse. Havia, portanto, razão para supor que ele, de qualquer forma, teria permanecido em silêncio sobre mim — o único homem contra quem seu testemunho era esmagador. O sargento dos dragões, é claro, ficaria feliz demais em me ver fora de ação, morto de preferência, mas na cadeia como uma alternativa útil, no entanto, a oportunidade de me colocar lá fora havia sido desperdiçada. Eu não conseguia, por mais que tentasse, elaborar qualquer explicação razoável para a conduta deles.
Despedi-me da Grange, saindo com um convite insistente em meus ouvidos para retornar o quanto antes. O Sr. Freake caminhou ao lado da minha sela até estarmos fora do alcance de audição do grupo na porta aberta.
"Nos encontraremos novamente em Derby, Oliver", disse ele, estendendo a mão.
"Boas notícias, senhor. Estarei lá às seis horas desta noite."
"Fique atento ao sargento. Ele e seu precioso mestre pretendem pegá-lo se puderem. Eles têm uma conta pesada contra você, rapaz."
"Será mais pesada antes que a conta seja acertada, senhor."
"Você terá sua justa revanche contra eles, Oliver. Você vai gostar, e não tenho medo quanto ao resultado. Mas cuidado! Cavalgue no meio da estrada e mantenha os olhos em cada arbusto. Brocton tem meio regimento de canalhas convictos a seu serviço e moverá o próprio inferno para derrubá-lo. E quanto a dinheiro?"
"Tenho de sobra", respondi, "graças ao seu generoso empréstimo."
"Não é um empréstimo, rapaz, mas minha primeira contribuição para as despesas de... como diremos por segurança? Sua excursão. Como isso soa?"
"Não, senhor..."
"Sim, Oliver, e nada mais dito. Minha taxa favorita é de dez por cento. Você me deixou sair com míseros dois."
"Não gosto de brincar com assuntos de dinheiro, senhor."
"John Freake brincando com assuntos de dinheiro?" disse ele, sorrindo. "Não conte isso quando chegar à cidade, Oliver, ou você arruinará uma reputação conquistada a duras penas. Enviei-lhe sessenta guinéus e uns trocados."
"Sim, senhor."
"O que é, para ser preciso, um pouco menos de dois por cento do que você me salvou quando me arrancou das garras sujas dos canalhas de Brocton. Eu tinha uma boa fatia do patrimônio de sua senhoria no bolso. Vá embora, rapaz! Sultan está impaciente com minhas trivialidades. Vamos! Sua beleza! Adeus!"
"Adeus, senhor!" gritei cordialmente, balançando meu chapéu novo em uma grande reverência.
* * * * *
Às três horas da tarde, tendo cavalgado duro e longe sem comer ou beber, cheguei a um pequeno povoado amontoado ao redor da grande estrada de Londres, onde ela corria ao longo da orla de uma floresta, e contive as rédeas diante do "Sete Estrelas". Eu deveria estar presente com meu relatório às seis horas e, como Derby ficava a apenas quinze milhas de distância e a estrada era uma das melhores, havia tempo de sobra para Sultan e eu tomarmos o descanso e o refresco de que ambos precisávamos.
Eu também precisava de sossego e lazer para organizar meu relatório em minha mente, pronto para a entrega. A amplitude e a imprecisão da minha comissão deixavam tudo a meu critério, com o resultado vexatório de que eu não descobrira nada. Eu, de fato, cumprira minhas ordens. Estivera tão a oeste de Derby que vira os famosos pináculos de Lichfield cortando o céu como três pontas de lança, e aprendera, por meio de evidências abundantes e confiáveis, que as forças do Duque ali estavam partindo para o sul, sob ordens de marchar com toda a velocidade para seu acampamento original em Merriden Heath. Isso coincidia exatamente com as notícias do Sr. Freake e era todo o estoque de informações positivas que eu reunira.
Do tipo de notícia que o Príncipe gostaria mais de ouvir, não havia nenhuma. De preparativos para se juntar a ele, nenhum. De simpatizantes declarados à sua causa, nenhum. O tempo em que a bandeira Stuart poderia reunir um exército ao seu redor passara irremediavelmente. Não havia sentimento violento em contrário. As pessoas simplesmente não se importavam. As velhas palavras de ordem eram impotentes. A velha disputa fora revivida em um mundo que a esquecera e não queria ser lembrado dela. Eram Charles e seus montanheses contra George e seus regimentos, e como estes últimos tinham certeza de vencer, ninguém se incomodava. É a estranha, mas exata, verdade que o único sinal que descobri do grande evento em andamento foi encontrar um grupo de quatro homens respeitáveis da classe média negociando com um estalajadeiro o aluguel de uma carruagem, na qual pretendiam viajar para ver os montanheses passarem. Eles estavam muito interessados em economizar um xelim e tão indiferentes quanto quatro ostras aos problemas em jogo.
Cavalgando para o pátio da estalagem, gritei para o estalajadeiro que me trouxesse seu melhor jantar e, enquanto era preparado, supervisionei a limpeza e a alimentação de Sultan. Deixei-o confortável e contente e entrei para cuidar das minhas próprias necessidades.
Embora na estrada de Londres e a apenas quinze milhas do local da ação, a estalagem estava quieta. Soube pelo estalajadeiro que um mensageiro passara a galope uma hora antes, esporeando para o sul, e gritara da sela que os "descalços" estavam a apenas cinco milhas de Derby quando ele partiu. Mais cedo no dia, uma carroça passara carregada com as vestes dos dignitários da cidade, "indo para Leicester para serem consertadas", explicou o estalajadeiro, encantado com sua própria astúcia.
Um viajante faminto com um bom jantar à sua frente geralmente não presta atenção, por enquanto, a mais nada. Encontrei dois homens na sala de hóspedes e, após uma saudação civil, que fez um deles abrir os olhos e a boca de forma muito incivil, sentei-me para comer, muito contente com a comida colocada à minha frente.
À medida que minha fome diminuía constantemente diante de um ataque firme a um lombo de carne assado frio de qualidade muito louvável, comecei a me interessar mais pelos dois homens. De fato, mais interesse por eles me foi forçado pelo início de uma briga e tanto entre eles e, quando cheguei ao queijo, eles, totalmente alheios à minha presença, estavam aos berros. A briga era sobre um negócio de cavalos recentemente ocorrido entre eles, e há poucas coisas sobre as quais os homens podem brigar com mais facilidade ou vigor. O caipira que me olhara boquiaberto fora enganado por seu companheiro e, consequentemente, estava ressentido.
Dois homens mais em desacordo na aparência externa não poderiam ser facilmente encontrados. O boquiaberto era um homem do campo simples, um homem grande e volumoso, com uma barriga que, enquanto estava sentado, caía quase até os joelhos, um queixo triplo e um nariz com uma ponta nodosa, em forma e cor como um morango maduro demais. Seu companheiro era um homenzinho, magro e cortante, com uma cabeça como a de um furão. Nós, do campo, conhecemos o seu londrino. Muitas horas eu havia sentado sob o aglomerado de olmos no fim da estrada e observado os viajantes. Daí, sem dúvida, meu gosto por acessórios de cabeça elegantes, como este meu, que recentemente pertencia a Swift Nicks, agora disposto cuidadosamente na mesa ao meu lado. Eu teria apostado contra o boné de ordenha surrado de Joe Braggs que o homenzinho era um londrino.
Por menor que fosse, sua raiva fria e calculista superava seu antagonista, que não era muito bom em apresentar seu caso, por melhor que fosse.
"O estalajadeiro me conhece e conhece o garanhão", disse o homenzinho. "Você sabe menos sobre cavalos do que um taverneiro de Mile End. Busque-o e deixe-o decidir. Suponho que você o montou!"
"Em nome de Deus, por que você acha que eu o comprei, Sr. Wicks? Para olhar?"
"Pelo que vejo, diria que você o comprou como presente para um bebê. Dezesseis pedras e seis libras se você pesar uma onça, e montando um cavalo de dois anos! Maldito seja, não me admira que ele tenha problemas nas patas! Busque o estalajadeiro, eu lhe digo!"
O gordo explodiu em uma grande fúria e, em um minuto ou dois, voltou com o estalajadeiro e um cavalariço. Então a discussão tornou-se mais quente e divertida do que nunca.
Finalmente, o homenzinho, perdendo toda a paciência, sacou uma pistola, ao que o homem grande correu para trás, gritando "Assassinato!". Sem prestar atenção para onde estava indo, ele tropeçou em minha mesa e a prensou com força contra meu estômago.
Tentei me levantar, mas era tarde demais. O gordo agarrou meus pulsos, o estalajadeiro e o cavalariço correram e me prenderam à cadeira, e o homenzinho apontou o cano da pistola para minha testa.
"Boa tarde, Sr. Swift Nicks!" disse ele.
Arrisco dizer que meu fígado estava ficando da cor de giz, mas, embora eu seja assustado demais, sempre tenho orgulho demais para demonstrar, o que injustamente me deu a reputação de ser um homem corajoso.
"Boa tarde, Sr. Too-swift Wicks!" retruquei.
"O que quer dizer?" perguntou ele, claramente desconcertado.
"Quero dizer", disse eu, "que o zelo do seu ofício o consumiu."
"O que diabos ele quer dizer?" perguntou ele, apelando aos presentes.
"Que me partam se eu sei", respondeu o estalajadeiro. "Ouvi o pároco dizer algo parecido na igreja aos domingos. Ele é um desses estudiosos tolos."
"Dizem que Swift Nicks é um estudioso", acrescentou o cavalariço com sabedoria.
"Não há tempo para tagarelar", disse eu. "Levem-me imediatamente a um juiz. Essa é a lei, e vocês sabem disso. Aviso-lhes que qualquer atraso será perigoso. Meu amigo presunçoso aqui já está envolvido em ações por agressão, espancamento, calúnia, falso aprisionamento e Deus sabe o quê. Por Deus, senhor, vou assá-lo nas sessões judiciais. Levem-me imediatamente ao magistrado mais próximo. Vou levar vocês à justiça antes que se passe outra hora."
Minha energia deixou o londrino nervoso, pois ele tinha senso suficiente para saber o perigo de estar errado, mas o gordo, estúpido como um boi, incentivava-o.
"Ele é Swift Nicks com certeza, Sr. Wicks", disse ele. "Bolso cheio de pistolas, quatro delas; um sujeito do tamanho certo, cerca de um metro e oitenta; por aqui, onde se sabe que ele está; fala como um cavalheiro; e, droga, eu mesmo vi Swift Nicks com meus próprios olhos a menos de dois metros, e aquele é o chapéu de Swift Nicks ou eu sou um holandês; reconheci-o no minuto em que ele entrou na sala."
"Ao diabo com o chapéu!" gritei com bastante sinceridade, mas sentindo-me muito decepcionado com essa prova convincente contra mim.
O homenzinho pegou-o e olhou cuidadosamente para o interior, algo que eu nunca fizera, estando absorto pelo exterior.
"Aí está!" gritou ele triunfante. "'S. N. Seu chapéu'. O que mais você quer?"
"Quero o magistrado mais próximo", gritei.
"Bem, Sr. Wicks", disse o gordo, "ele pode facilmente ter o que quer. São apenas duas milhas até o Squire."
"O Squire vai quase perder a cabeça", observou o estalajadeiro. "Ele é tão obcecado em ver Swift Nicks balançar na forca."
"Então, muito provavelmente, ele pagará a fiança do Sr. Wicks", disse eu.
"Será?" disse o Sr. Wicks, azedo.
"Se não pagar", retruquei, "você passará a noite na cadeia de Leicester."
"Dizem que Swift Nicks é um sujeito de coragem rara", disse o cavalariço.
"Então são mentirosos", disse eu.
Fui algemado e colocado em Sultan, com meus pés amarrados juntos sob sua barriga. Então partimos, e todo o vilarejo, que cochilava em paz com os montanheses a apenas cinco horas de distância, saiu alegre e jovialmente para ver Swift Nicks. O estalajadeiro deixou seus hóspedes, e o cavalariço seus cavalos, para ir conosco, e pelo menos vinte moradores, a maioria mulheres, juntaram-se e fizeram disso uma verdadeira pompa. Uma ou duas vezes encontramos um homem que gritava: "O que está acontecendo?", e à resposta, "Swift Nicks", ele se juntava à procissão e era presenteado, enquanto caminhava, com um relato da briga na estalagem. Minha captura foi extremamente popular, e eles se deleitavam na minha cara com o destino que me esperava, brigando como corvos sobre o local mais provável para minha forca. A maioria fixou-o em Copt Oak, onde, como me lembraram com gritos estridentes, eu havia assassinado a pobre velha Bet o' th' Brew'us por um xelim e seis pence. Foi um alívio ouvir o estalajadeiro gritar para o Sr. Wicks: "Ali está a casa do Squire!"
Caminhamos até uma bela casa de pedra de data antiga, com uma torre na ponta de cada ala. Minha sorte estava esgotada. O Squire ainda não havia voltado da caçada, pois ele saía com os cães todos os dias em que o rastro permitia. Ele cavalgara longe, ou estava atrasado, ou seu cavalo mancara, e não havia como dizer, disse seu mordomo ruivo e idoso, quando ele voltaria. Então os moradores foram expulsos como gado, Sultan foi colocado no estábulo, e nós cinco fomos acomodados no grande salão, pois o estalajadeiro e o cavalariço insistiram que um vilão tão perigoso quanto Swift Nicks precisava de uma guarda forte. Colocaram-me sob a grande chaminé e sentaram-se ao meu redor, em um semicírculo, cada homem com uma pistola carregada em uma mão e uma caneca de cerveja na outra. A senhora do Squire entrou e ficou longe, examinando-me, e vi que ela tinha um medo mortal de mim, algemado e vigiado como eu estava.
Mais de uma hora se passou, levando consigo minha última chance de chegar a Derby, com minha tarefa cumprida, às seis horas. O que Margaret pensaria de mim? Seu orgulho evidente na honra que o Príncipe me conferira ao me escolher como seu ajudante pessoal fora um grande deleite para mim, e agora eu falhara com ele e a inquietara. O pensamento me fez enfurecer, e lancei aos meus captores olhares sombrios dignos de qualquer salteador na estrada do Rei.
Por fim, veio o alívio na forma do filho mais novo do Escudeiro, um rapaz robusto de uns doze anos, que entrou correndo, vara na mão, e veio até mim sem o menor sinal de medo. Ele estava em apuros com sua vara, tendo quebrado a ponta ao lidar inabilmente com um belo bagre. Após alguma discussão, consegui soltar minhas mãos e tratei de emendar a ponta.
— Dizem por aí — disse eu, zombeteiro — que Swift Nicks é muito bom em emendar varas de pescar.
— Nunca ouvi falar desse tal — disse o estalajadeiro estólido.
— O senhor é realmente Swift Nicks? — perguntou o rapaz, olhando-me fixamente com olhos francos e inocentes.
— Não mais do que você é Jonathan Wild ou Preste João, meu filho — respondi.
— Então, quem é o senhor? — persistiu ele.
— Sou um pobre emendador de varas de pescar. Ganho a vida cavalgando pelo campo em um belo cavalo, com um par de pistolas nos coldres e outro par no bolso, à procura de garotinhos com varas de pescar quebradas, e consertando-as — as varas, não os garotos — para que o pai nunca descubra e a vara fique melhor do que nunca. Qual era o tamanho do bagre?
— Desse tamanho! — disse ele, mantendo as mãos a uns sessenta centímetros de distância.
— A grande vantagem, meu filho, de ter sua vara consertada por mim é que, de agora em diante, você será capaz de distinguir um bagre de uma baleia.
— Senhor — disse ele, orgulhoso —, um Chartley nunca mente.
— É claro — disse eu —, é difícil dizer exatamente qual o tamanho de um peixe quando se perde a fisgada. Então, seu nome é Chartley. Este é Chartley Towers?
— É sim — disse ele, com um cativante orgulho juvenil ressoando na voz. — Somos os Chartleys de Chartley Towers. Descendemos de Eduardo III.
Haverá homem que desfrutou de tamanha sorte quanto a minha? Eu estivera tão encurralado quanto uma noz num quebra-nozes. Para provar que eu não era Swift Nicks, teria de provar que era Oliver Wheatman. O oficial de Bow Street cuidaria disso, pois, como Swift Nicks, eu valia cinquenta guinéus para ele, uma soma de dinheiro pela qual ele teria enforcado metade da paróquia sem um pingo de remorso. Cara ou coroa, eu perderia a aposta. Mandem embora a carroça! Tais haviam sido meus pensamentos, e agora o orgulho juvenil de um rapaz me arrebatara do perigo. Fiquei bastante alegre com o conserto e contei ao jovem Chartley tudo sobre minha luta com o grande lúcio.
O trabalho estava quase terminado quando houve um ruído de cascos lá fora e, um minuto depois, a porta foi escancarada e uma torrente de cães de caça latidores entrou, seguida por um homem grande, cordial e barulhento, de botas de montaria e uma peruca castanha.
— Jantar! Jantar! — gritou ele para a esposa, que veio encontrá-lo. — A melhor caçada do ano, menina! Trinta milhas antes dele se entocar, os cães correndo no encalço a cada jarda, e que trabalho dos diabos para desentocá-lo! Só estávamos eu, o reverendo e o jovem Bob Eld de Seighford na hora da morte. Jantar, jantar, minha menina! Eu comeria um lado de uma casa. Olá, diabo! O que faz aqui, Jack Grattidge?
A pergunta foi feita ao estalajadeiro, que vinha arrastando os pés pelo saguão para encontrá-lo. O Escudeiro fez os cães se calarem com seu chicote de caça para ouvir a resposta.
— Por favor, senhor — disse o estalajadeiro —, nós pegamos Swift Nicks.
— Pelo inferno! Não pegaram não!
— Pegamos sim — declarou o estalajadeiro.
— Hurra! — rugiu o Escudeiro. — Isso é uma novidade! Devo-lhe um guinéu por isso, Jack.
Ele caminhou pesadamente até a lareira, gritando enquanto se aproximava: — Mostrem-me o negro e maldito canalha! Eu rastejaria até Londres de mãos e joelhos para vê-lo ser despachado.
Ao ver-me ocupado na tarefa inocente de consertar a vara de pescar de seu filho, com o próprio rapaz a meus pés atento ao trabalho, ele tomou o Sr. Wicks pelo salteador, e xingou e praguejou contra ele com força suficiente para rachar um carvalho. Ele estava, de fato, tão quente e impetuoso que se passaram alguns minutos até que ele percebesse seu erro. Quando se deu conta de que o homem que consertava a vara era Swift Nicks, ele já tinha disparado toda a sua pólvora e apenas olhava para mim com os olhos arregalados.
— Suponho — disse eu, muito educadamente — que, como esteve caçando, o castanho ainda esteja sobre a lareira.
— Que se dane! — diz ele, e se joga em sua poltrona.
* * * * *
No final, fizemos um tratado, para grande desgosto do Sr. Wicks, que via os guinéus escaparem por entre seus dedos. Nem o Escudeiro ficou menos ressentido a princípio, pois era claramente uma questão de grande importância para ele capturar Swift Nicks.
— O que nos importa aqui quem usa uma coroa em Londres? — disse ele. — O pessoal de Londres não se importa conosco, e nós não nos importamos com eles. Mas Swift Nicks importa. Queremos ele enforcado. Ninguém por aqui com juízo se importa com suas políticas, exceto em épocas de eleição, quando política significa barriga cheia de cerveja e punhados de guinéus para todo maldito funileiro e fabricante de velas de Leicester. Mas você, ou aquele maldito vilão Swift Nicks, se você não for ele, nos deixam suando frio à noite. Ao inferno com suas políticas! Enforquem Swift Nicks por mim!
Os termos do nosso tratado eram que eu permaneceria pacificamente e passaria a noite ali, dando minha palavra de não tentar escapar ou ferir ninguém. Enquanto isso, e por minha conta, um mensageiro deveria ser enviado para buscar Nance Lousely e seu pai para deporem em meu favor.
"QUERIDO FANTASMINHA" — escrevi para ela —, "estou em grande perigo porque um homem de nariz vermelho jura que sou Swift Nicks. Quero que você e seu pai venham provar que ele é um idiota. Se não vierem, serei enforcado em uma forca num lugar chamado Copt Oak, e não suporto forcas, pois são frias e cheias de correntes de ar. Então venha logo, minha corajosa Nance! — Seu amigo,
"O. W."
Um cavalariço foi chamado e expliquei-lhe como chegar à casa de Job Lousely. Ele foi bem montado com um cavalo dos estábulos do Escudeiro e partiu. Por mais rápido que fosse, levaria muitas horas até que pudesse estar de volta. Então, preparei-me para passar a noite.
Não havia nada de original na maneira como o Escudeiro passava a noite. O reverendo que estivera presente na morte e que, durante a resolução do meu caso, estivera ocupado nos estábulos, juntou-se a nós no jantar. Ele viera recentemente de Cambridge, onde os principais livros pareciam ser o Tratado de Ferraria de Bracken e o livro de Gibson sobre as Doenças dos Cavalos, com Hoyle sobre o Whist como leitura leve para as horas de lazer. Ele era um cavaleiro destemido, um blasfemador contumaz e um beberrão inveterado e, depois de ser consagrado duas vezes, como ele chamava, por um bispo amigo, fora empurrado pelo Escudeiro para uma paróquia vizinha de trezentas libras ao ano, para que os cães e os caçadores do Escudeiro, bem como a caça e os caçadores furtivos da propriedade, pudessem se beneficiar de suas ministrações. Ele tinha, no entanto, bom senso para comprar sermões de qualidade. "De qualquer forma, as mulheres me dizem que são bons", explicou o Escudeiro. "Não posso dizer por mim mesmo, pois Joe é um sujeito razoável e sempre se cala assim que eu acordo."
O oficial de Bow Street, o Sr. Wicks, e o condestável do condado de nariz vermelho, que atendia pelo nome de Pinkie Yates, faziam parte do grupo. Comi pouco e bebi menos, mas os outros esvaziaram as garrafas em um ritmo acelerado e logo estavam quentes de bebida. Uma mistura, que os caçadores bebiam com muito gosto, insisti, por respeito ao meu estômago, em deixar passar, embora os homens da lei tenham tomado sua parte como heróis e, não duvido, pensassem que estavam, pela primeira vez, bebendo com os deuses. A maneira era esta: o reverendo tirou do bolso uma pata da raposa que haviam matado naquele dia e, fedorenta, imunda e sangrenta como estava, espremeu-a e mexeu-a em um caneco de vinho clarete com quatro alças. Nesse composto maligno, o Escudeiro deu-nos solenemente o brinde do caçador:
"_Cavalos sadios. Cães dispostos, Tocas fechadas e raposas em abundância_."
O reverendo então soltou um soluço com uma canção pela qual deveria ter sido colocado no tronco, após o que o Sr. Wicks, com três garrafas vazias e três facas para representar a forca, deu-nos um relato vívido do enforcamento do famoso Capitão Suck Ensor, que se debateu por dez minutos antes que o seu o reivindicasse.
Eram cinco horas da manhã seguinte quando meu mensageiro retornou com Nance Lousely e seu pai. Eu havia adormecido na poltrona do Escudeiro diante da lareira do saguão, com os zelosos caçadores de recompensas de guarda, revezando-se como sentinelas sobre mim, pois cinquenta guinéus valiam bem a vigília. O mordomo vigiava à porta, ansioso para ganhar a coroa que eu lhe prometera. O barulho que ele fez ao desacorrentar e abrir a porta me acordou, e aqueceu meu coração ver Nance parada timidamente logo dentro do saguão, a mão na do pai, até que ela me avistou, quando se soltou e correu até mim.
— O senhor sabia que eu viria, não sabia? — disse ela, apelando para mim mais com seu rosto bonito e ansioso do que com suas palavras.
— É claro, fantasminha! — respondi prontamente.
— Obrigada, senhor! — disse ela, com evidente alívio. A qualquer sinal de dúvida em minhas palavras ou rosto, ela teria desabado.
— Não seja boba, fantasminha — disse eu. — Sente-se e aqueça-se! E como vai você, Job? Muito grato a ambos.
— Cavalgamos muito duro para chegar aqui, senhor. Seu homem não chegou à nossa casa antes da uma da hora, e estávamos a caminho antes das cinco e meia. Deus! Estávamos mesmo. Nossa Nance quase explodiu. Deus, ela explodiu mesmo.
— Sua Nance é uma querida — disse eu, acariciando seu cabelo desgrenhado.
A meu pedido, apoiado pela promessa de transformar a coroa em meio guinéu, o mordomo arranjou-lhes um café da manhã. Felizmente, o Escudeiro e o reverendo tinham que ir a uma caçada de patos a dez milhas de distância às sete horas, e por isso estavam de pé cedo. Meu assunto foi resolvido rapidamente. O Escudeiro sentou-se magistralmente em sua poltrona, e Nance e seu pai contaram sua história, exatamente como eu a contara diante deles. Isso me inocentou e fez com que os caçadores de recompensas parecessem terrivelmente confusos e envergonhados, e eles ficaram muito aliviados quando, como uma forma política de evitar perguntas embaraçosas, aceitei grandiosamente suas desculpas.
— Eu sabia que você não era Swift Nicks — disse o Escudeiro — quando o vi consertando a vara de pescar do meu filho. Diabo, nós o pegaremos, no entanto, antes de terminarmos.
Ele me convidou para acompanhá-lo no café da manhã, onde ficamos a sós pela primeira vez.
— É na fogueira ou no para-brasa? — perguntou ele, de forma enigmática.
Eu estava pronto para ele e, parando com a faca de trinchar a meio caminho de um belo presunto que eu estava cortando, disse, como se estivesse espantado: — É o que na fogueira ou no para-brasa?
— O castanho — disse ele.
— O castanho! — retruquei.
— Bem, bem! Não o culpo por sua cautela, senhor. Sir James Blount me sondou e sei que você conhece minha resposta. Se na fogueira ou no para-brasa não fará diferença para mim, e eu não perderia a caçada de patos de hoje por causa disso.
— Espero que haja muitos pássaros e fortes no voo — disse eu.
Isso encerrou toda a conversa que passou entre nós sobre o grande evento que tão estranhamente nos reunira. Ele, o escudeiro de meia dúzia de vilas, foi caçar patos enquanto o destino da Inglaterra era decidido bem do lado de fora de sua própria porta.
Pela segunda vez, Nance caminhou um pouco ao meu lado para se despedir.
— Nance, minha doce menina — disse eu, puxando Sultan — você conhece aquela tasca suja perto de sua casa?
— Onde vive a mulher pintada, senhor?
— Esse mesmo lugar! Bem, Swift Nicks está se escondendo lá. Volte e diga ao Escudeiro que você pode encontrar Swift Nicks para ele, e eles encherão seu avental de guinéus. Você me beijará por um avental cheio de guinéus, não vai?
— Não, senhor — disse ela, muito decidida.
— Então me beije, Nance, porque, embora nunca mais nos encontremos, nós ajudamos um ao outro quando nos encontramos.
Ela colocou o pé sobre o meu, e eu a levantei em meus braços e beijei seus lábios jovens e vermelhos e suas bochechas manchadas de lágrimas.
— Adeus, Nance!
— Adeus, senhor. Que Deus o abençoe!
Em uma curva da estrada, virei-me para olhá-la novamente. Ela estava lá, observando-me partir, e acenou com seu chapéu em despedida. Tirei meu chapéu e acenei de volta, e então ela desapareceu de vista.
— Nance é uma boa menina — disse eu em voz alta —, e você, maldito, é a causa de todos os meus problemas — isto para o meu chapéu novo. Minha vaidade custara caro. O que o Príncipe diria do meu fracasso? O que Margaret diria? Haveria mais uma vez questionamentos em seus olhos, e a sombra da dúvida em seu rosto.
— Maldito seja! — disse eu novamente ao chapéu, e então, com um movimento rápido e forte do braço, enviei-o girando para dentro de um riacho.
Sultan mostrou suas qualidades. Ele fez dez milhas em cinquenta minutos, segundo meu relógio, contando com precisão de um marco a outro.
Finalmente, o amplo rio Trent surgiu à vista e eu passei ruidosamente pela ponte de Swarkston, apenas para ser parado do outro lado por um forte posto de montanheses. Minha sorte, no entanto, ainda se mantinha, pois Donald estava entre eles e, ao explicar quem eu era, o chefe no comando me deixou passar.
Donald trotou ao meu lado por meia milha para me dar todas as notícias. O Príncipe passara a noite toda em Derby, na casa do Conde de Exeter. Houvera muitos rumores e disputas entre os chefes à noite, um conselho de guerra estava marcado para esta manhã, e ninguém sabia do que se tratava. Houvera grandes acontecimentos na noite anterior na cidade, e ele, Donald, estivera de guarda no alojamento do Príncipe.
— Ela superou todos eles, como eu lhe disse que faria — disse ele. — Céus, homem, foi uma visão grandiosa vê-la e a bela Maclachlan deslizando sobre o chão na dança. Eram como duas águias douradas deslizando no ar sobre uma montanha com o sol brilhando sobre ela. Céus, homem, eu lhe digo, eles são um par muito, muito bonito. Que Deus os abençoe.
— Adeus, Donald! Vou seguir em frente. Maldito seja Swift Nicks! — gritei, e dei a Sultan um toque nos flancos que o fez disparar como uma flecha de um arco. Arrependi-me imediatamente, mas era mais do que eu podia suportar.
CAPÍTULO XX
O CONSELHO EM DERBY
Foi um alívio entrar nas ruas apinhadas da cidade, onde pensar era impossível e bons palavrões eram indispensáveis. Mesmo com sua ajuda para abrir caminho para ele, Sultan tropeçou em dois montanheses, dois de um enxame de Maclachlans e Macdonalds que disputavam a posse de uma cutelaria na esquina da Bag Street. À moda nativa, eles imediatamente suspenderam sua briga para se unirem contra um inimigo comum, mas, ao verem um Maclachlan me reconhecer como amigo, atacaram uns aos outros novamente com infinito entusiasmo, e eu os vi em plena briga ao virar para a praça do mercado.
Nossa escassa coleção de canhões fora embalada ali com seus apetrechos, e eu estava abrindo caminho por entre eles para o lado oposto da praça, onde fica a Exeter House, e estava a um tiro de pedra de distância, quando o Coronel saiu, de cabeça descoberta e ansioso, e veio até mim.
— Seu jovem cão! O que aconteceu? — disse ele.
— Perdi meu chapéu, senhor — respondi.
— Perdeu seu... Diabo! Ainda vou levar você à corte marcial antes de terminar com você. Desça daí! Olá, meu caro. Prenda-o à cauda daquele vagão e venha comigo. O Príncipe o viu da janela. Firme, minha beleza! Venha, Noll! Imagine uma cidade do tamanho desta e nem uma maldita pitada de Strasburg nela!
Corri atrás dele pelo saguão e subi as escadas. Algo grande estava em curso, sem dúvida, pois o saguão e as escadas estavam repletos de grupos de líderes montanheses, e em um grupo, um pouco afastado, vi Murray e Ogilvie. O Coronel não deu atenção aos olhares curiosos que eram lançados a nós, particularmente a mim, mas, após uma palavra com o chefe de serviço, conduziu-me sem cerimônia à presença.
Charles estava dando curtos passos de um lado para o outro perto da lareira, mas parou quando me curvei diante dele.
— Você me falhou! — disse ele, amargurado.
— Cumpri as ordens de Sua Alteza Real exatamente, embora, para meu profundo pesar, não pontualmente, mas cada hora em que me atrasei foi passada sob custódia. Ao cavalgar a serviço de Vossa Alteza, cavalguei até o pé da forca.
Falei calmamente, mas de forma incisiva, pois não seria tratado injustamente, não, nem por um príncipe. Ele entendeu o que eu quis dizer e respondeu generosamente: — Como eu sabia que você faria, Mestre Wheatman, se necessário fosse.
A nobre sala com painéis em que estávamos estava disposta com uma longa mesa e muitas cadeiras. Na cabeceira da mesa, um homem de aparência mesquinha escrevia apressadamente. Na janela, dois outros homens conversavam seriamente, e estes, como soube mais tarde, eram os irlandeses, Sir Thomas Sheridan e o Coronel O'Sullivan.
— Deixe seu despacho, Sr. Secretário, e venha para cá. E vocês também, cavalheiros! — disse Charles.
Então, com o Príncipe sentado perto do fogo e os quatro líderes alinhados atrás dele, fiquei de pé e contei minha história, cortando tudo o que era sem sentido do ponto de vista deles. Como eu esperava, não houve como confundir seu efeito sobre ele. Eu havia, de fato, voltado de mãos vazias. No entanto, ele se recompôs e disse levemente: — Bem, cavalheiros, se os homens das Midlands não estão a meu favor, certamente não estão contra mim.
— Esse é um ponto forte a seu favor, senhor — disse O'Sullivan.
— Quando eu tiver derrotado o Duque e entrado em Londres — disse Charles, encorajado imediatamente por qualquer fio de esperança —, eles estarão ao meu redor como vespas ao redor de um pote de mel. Eu não estava decidido ontem à noite, mas o Mestre Wheatman me decidiu. Cavalgarei para Londres em trajes de montanhês.
— Aplaudo a decisão de Sua Alteza Real — disse o secretário raposa. — É um elogio merecido aos seus bravos clãs. Ele depois traiu a causa e assim ajudou a enforcar alguns dos melhores deles.
— Agora, quanto ao seu despacho para o Marquês — disse Charles, indo em direção aos papéis do secretário. — Há tempo para examiná-lo antes que Murray e seus apoiadores cheguem. O'Sullivan caminhou suavemente até uma das janelas com vista para a praça, e nós o seguimos.
— Fé, Coronel — disse ele. — O jogo acabou se continuarmos.
— Acabou — disse o Coronel, batendo em sua caixa. — Maldito seja este rapé, Oliver. Preferiria cheirar serragem.
— Mas se o Príncipe quiser continuar, eu o apoiarei — acrescentou O'Sullivan.
— Eu também — disse Sir Thomas.
— Eu também — ecoou o Coronel —, mas, que se dane, direi a ele a verdade exata sobre o aspecto militar da situação. Um é meu dever como soldado tanto quanto o outro. Não tenho a menor objeção em morrer, mas que se dane se eu quiser que minha reputação morra comigo. O máximo que você pode dizer do rapé, Oliver, é que é melhor do que nada.
— É exatamente o que eu vinha pensando, senhor — disse eu, com a mesma gravidade —, sobre meu velho chapéu.
— Você está guardando essa história para Margaret, seu jovem cão, mas ela é obrigada a me contar. Fiquei fora da cama até as duas da manhã de hoje, ouvindo-a falar sobre se casar rápido, e as muralhas de Troia, e presunto com ovos. Ela quase me deixou louco de tanto tagarelar, e não me deu um beijo de boa noite até que eu lhe dissesse pela décima sétima vez que não havia necessidade de se preocupar com você. Dezessete vezes — uma fungada vigorosa e um brilho alegre — eu as contei.
Era um absurdo óbvio, mas me magoou.
— Foi muito gentil da parte dela, senhor — disse eu por fim.
— Humph! — disse ele, e se voltou para conversar com os irlandeses. Fiquei de olho na praça lá embaixo, esperando um vislumbre de Margaret, sem prestar atenção à conversa séria que zumbia em meu ouvido. Príncipes e domínios, e marchas e batalhas, não eram nada para mim enquanto eu estava ali lutando para controlar a mim mesmo.
Fui puxado de volta desses trilhos escorregadios de pensamento pelo Coronel, que agarrou meu braço e sussurrou: "Lá vêm eles, Oliver."
Olhei para a porta e vi os chefes entrando em fila na sala, liderados por Murray, com os mais importantes logo atrás dele e os outros na devida ordem, até que a sala estivesse bastante lotada. Charles continuou sua conversa com o Sr. Secretário enquanto eles se acomodavam conforme sua hierarquia no conselho, embora o Duque de Perth tenha se dado ao luxo de se posicionar na lareira entre alguns dos de menor patente. Sir Thomas Sheridan e o Coronel O'Sullivan nos deixaram e sentaram-se mais perto do Príncipe, e quando o fizeram, e enquanto ainda havia algum barulho de acomodação a ser feito, sussurrei ao Coronel: "Não deveria eu sair agora, senhor?"
"Eu sou a favor de seguir para Londres", disse ele, sorrindo para mim com os olhos, embora mantivesse o rosto como uma imagem de madeira. "E a primeira coisa que faremos, Oliver, será liderar um ataque desesperado, você e eu, a uma loja de tabaco. Maldito seja! Há carroças cheias de Strasburg em Londres!"
"Suponha que eu saia agora, senhor, e marque um ou dois dos melhores."
"Suponha que você fique onde está, rapaz", ele respondeu. "Você está aqui por direito: primeiro, porque o Príncipe o convidou e não o dispensou, e você nunca deixa a presença da realeza até que a realeza o expulse; segundo" — fazendo uma pausa para tomar uma pitada de rapé que teria arrancado o topo da minha cabeça — "porque você não pode ter menos juízo do que alguns desses tagarelas. Conselho de guerra! Bando de parlamentares!"
Assim aconteceu que, graças a Swift Nicks, estive presente no grande conselho que decidiria o destino dos Stuarts. Forcei passagem atrás do Coronel, para que eu pudesse, de vez em quando, roubar um olhar à procura de Margaret. Bem no último minuto, com Charles erguendo os olhos para começar, a porta se abriu novamente para admitir Maclachlan, vermelho pela pressa que fizera. Fez-me ranger os dentes ao vê-lo, pois eu sabia por que estava tão ofegante. Ele estivera rondando Margaret, e por isso perdera a noção do tempo. Então parei de ranger os dentes e comecei a sorrir. Muita importância Margaret daria a um homem que negligenciava seu dever militar para ficar pendurado em suas saias!
Sua Alteza Real, conforme seu hábito habitual, abriu o Conselho expondo sua própria opinião.
"Chamei-os aqui, senhores", disse ele, "para considerar nosso próximo passo. A questão é: Marcharemos para o oeste, cortaremos as forças do Duque em duas e assim o venceremos, ou, aproveitaremos o fato de estarmos mais perto de Londres do que ele, avançaremos e tomaremos posse da Capital? Sou fortemente a favor do segundo plano."
"Maldito seja, senhor! Bem colocado!" disse o Coronel em voz baixa. E, de fato, foi tão bem colocado que os chefes olharam uns para os outros com certa desesperança, pois essa não era, de forma alguma, a alternativa que tinham em mente. Para eles, como logo se viu, não era uma escolha entre o sul e o oeste que tinham vindo discutir, mas a escolha muito mais importante entre o sul e o norte. Por um minuto ou dois houve um resmungo em gaélico, que o Príncipe não entendeu, pelo menos no que dizia respeito às palavras. Então Lord George Murray levantou-se, curvou-se profundamente ao Príncipe e iniciou o caso dos chefes.
"O Duque de Cumberland", disse ele, "estava naquela noite em Stafford com um exército de dez mil homens a pé e dois mil a cavalo. O Sr. Wade vinha por marchas forçadas pela estrada leste e poderia facilmente ficar entre o exército de Sua Alteza Real e a Escócia. Eles tinham notícias autênticas de que um exército estava sendo acampado ao norte de Londres. Se, então, marchassem para Londres, teriam dois exércitos em sua retaguarda e um à sua frente, e, por mais que ele valorizasse o valor e a proeza do exército que tinha a honra, sob Sua Alteza Real, de comandar, era vão supor que pudessem derrotar três exércitos, cada um pelo menos duas vezes mais numeroso que eles. Nenhuma das vantagens nas quais confiaram quando concordaram em entrar na Inglaterra havia se concretizado. Não receberam nenhum aumento de força que valesse a pena considerar por parte dos jacobitas ingleses; a população não era amigável, mas sempre grosseira e neutra, e em todas as ocasiões possíveis, abertamente hostil; a prometida invasão francesa sequer fora tentada. A Escócia eles haviam conquistado para Sua Majestade e poderiam e deveriam mantê-la para ele. Para fazer isso, precisavam retornar com toda a pressa e com forças não diminuídas. Com base em todos esses fundamentos, ele, e aqueles por quem falava, imploraram a Sua Alteza Real que retornasse para lá e consolidasse suas forças para uma nova tentativa sob condições mais favoráveis."
Sua senhoria falara calmamente e sem qualquer sinal externo de sentimento, exceto que, à medida que chegava ao fim de seu discurso e seu objetivo se tornava aberto e manifesto, sua voz ganhava cada vez mais ênfase ao ver a impaciência indisfarçada e a crescente raiva de Charles. O Príncipe não prestou atenção cortês aos argumentos de seu principal conselheiro militar, mas lançou olhares ansiosos ao redor do círculo de rostos, e particularmente para Sua Graça de Perth, que estava visivelmente lisonjeado por esse apelo silencioso. O Coronel, que notou toda essa cena, ficou irritado com a indiferença do Príncipe à autoridade militar e sussurrou: "Muito bem, Geordie Murray! Correto como um prumo!"
Terminado o discurso, o Príncipe bateu o punho fechado na mesa e disse: "Sou a favor de marchar sobre Londres."
Era evidente, no entanto, que os chefes estavam contra ele quase que unanimemente. Murray estava claramente com a razão, e sua habilidade e experiência militares lhe conferiam grande autoridade. Até o momento, não havia murmúrios abertos contra o Príncipe; nada além de uma determinação manifesta de não ser convencido por suas bajulações ou ameaças.
"Por que não deveríamos seguir em frente?" perguntou o Príncipe apaixonadamente. "Aqui estamos, senhores do coração da Inglaterra. Um golpe rápido e ousado, e Londres é nossa. O jogo está em nossas mãos."
"Jogo?" gritou um chefe rude e obstinado, Macdonald de Glencoe. "O jogo acabou, senhor, graças a esses amigos ingleses beberrões de sua casa, que são jacobitas apenas ao redor de um fogo aconchegante com canecas nas mãos."
"Eles estão apenas aguardando uma garantia de vitória", disse Charles.
"Esperando que façamos o trabalho", disse Glencoe amargamente, "e então ficarão alegres em colher os lucros. Podemos voltar para a Escócia tão rápido quanto quisermos quando tivermos tomado Londres para eles!"
Houve um rosnado de consentimento dos chefes, mas o silêncio caiu novamente quando o venerável Tullibardine, muito atormentado pela gota para ficar de pé, tomou a palavra.
Ele falou como alguém que envelhecera, cansara e empobrecera a serviço da Casa exilada. As condições para o sucesso, disse ele, sempre foram as mesmas: os adeptos das Terras Altas de Sua Majestade nunca poderiam esperar ser mais do que o centro ao redor do qual as verdadeiras fontes de força, o apoio inglês e a ajuda francesa, poderiam se reunir; e estas haviam falhado agora como falharam em '15. "Não ouso", concluiu ele, "levantar minha voz para instar homens a correr riscos que sou fraco demais para compartilhar."
Charles lutou bravamente, mas foi inútil. Chefe após chefe deu sua opinião, e depois a repetiu repetidas vezes. Maclachlan mudou-se de seu lugar perto da porta para o canto da lareira e, após sussurrar um pouco com o Duque de Perth, confusamente deu sua opinião a favor de voltar.
Ele não era um orador, estando desconfortável e claramente ocupado em vasculhar sua mente. Tendo inteligência, no entanto, ele tropeçou em uma nova linha de argumentação.
"Então, senhor", disse ele, "há o grande porto de Glasgow a ser levado em conta. Há mais riqueza pronta lá do que em qualquer outra cidade da Escócia, e seu dinheiro, público e particular, lhe dará os meios de levantar um grande exército para a primavera."
"Qualquer porto serve na tempestade", disse o Príncipe, franzindo a testa para ele.
Sendo um Stuart, Charles não percebia que cada um desses chefes era um pequeno rei, acostumado à independência de ação sem restrições. Havia contrastes curiosos nele, pois ele era tão desajeitado e incapaz ao lidar com uma assembleia quanto era seguro e brilhante ao lidar com um homem sozinho.
Os sentimentos começaram a se exaltar. Um dos chefes levantou-se abruptamente e discursou para o Príncipe como um mestre repreendendo um aprendiz. Ele era quase tão alto e magro quanto um dos varais de Jane, e tinha maçãs do rosto altas e protuberantes e mandíbulas que se fechavam nas pontas de suas frases como uma ratoeira.
"Sou a favor de voltar enquanto a estrada estiver aberta atrás de nós", disse ele. "Se não o fizermos, e se eu conseguir voltar, o que é duvidoso, voltarei com apenas uma dúzia de patifes na minha cola, e os Cawmbells, que todos os homens desse nome sejam condenados, cavalgarão sobre minhas costas pelo resto dos meus dias."
"Você está com a razão, Strowan", disse meu Lorde Ogilvie. "Somos poucos demais para este trabalho, mas um pouco de turfa ferverá uma pequena panela. Vamos voltar e esfolar os sujeitos de Glasgow. Você tem meu conselho, senhor!"
Aqui o Príncipe, na minha opinião, cometeu um erro fatal. Ele começara tentando resolver as coisas apenas pelo peso de sua autoridade real. Esse era sempre seu plano no conselho, e enquanto as coisas iam bem, funcionava, já que os chefes, olhando para o futuro como faziam então para o triunfo final, não estavam dispostos a arriscar seu desagrado ao se opor a ele. Agora que estavam em um aperto, este galo não lutaria mais, e ele piorou as coisas ao apelar para o irlandês, O'Sullivan, por sua opinião. Ele deu-a brevemente a favor de seguir em frente.
Uma história vale até que outra seja contada. O'Sullivan tinha uma grande reputação como mestre do modo irregular de luta, que deveria ser adotado por um exército composto, como o nosso, de homens sem treinamento não equipados de acordo com as regras e requisitos da arte militar. Mas meu Lorde George Murray estava pronto para ele.
"Por maior que seja a reputação do Coronel O'Sullivan, senhor", disse ele docemente, "temos conosco no Coronel Waynflete outro soldado de grande distinção. Seus pontos de vista seriam bem-vindos, senhor."
"Sim, de fato", disse o Príncipe ansiosamente.
"Por mim, senhor", disse o Coronel, com a caixa de rapé aberta na mão, pois fora surpreendido com o rapé entre os dedos, "estou pronto para seguir em frente. Vim servir a Sua Alteza Real, e sirvo meu comandante como ele escolhe, não como eu escolheria. Mas quando me pergunta sobre o resultado militar de seguir em frente, digo-lhe francamente, como convém a um soldado de experiência convidado pelo Conselho a dar sua opinião, que é inútil esperar que esta força atual chegue a Londres. À medida que se aproxima de Londres, senhor, o país torna-se de um tipo em que seu exército não poderia operar com sucesso. Ele seria confinado a estradas ladeadas por sebes e passando por muitas cidades e vilas defensáveis. Suas cargas curtas e poderosas estariam fora de questão. Os ingleses, como um todo, lutam bem, nenhum homem melhor; não podemos esperar racionalmente que todos eles fujam com um grito das Terras Altas, e com o país a seu favor e Londres atrás deles, uma fonte constante de novos suprimentos para eles, seríamos aniquilados em detalhes. Sua Alteza Real deseja seguir em frente, e, portanto, estou disposto a seguir em frente, mas Sua Alteza Real não pode capturar Londres com a força à sua disposição."
Ele terminou e tomou seu rapé com entusiasmo, vendo que ainda era rapé, e entregou-me a caixa com grande compostura.
No total, eles falaram e discutiram por três horas, e eu fiquei muito cansado de tudo isso e passei meu tempo olhando pela janela à procura de Margaret. Não haveria lucro em registrar mais do que foi dito. De fato, nenhum ponto novo foi levantado até que o Príncipe argumentasse veementemente a favor de desviar para o País de Gales, onde seus adeptos deveriam ser muito fortes.
Isso produziu uma nova leva de discursos, todos na mesma nota: a necessidade de voltar para a Escócia.
O Duque de Perth estivera em silêncio até então. Ele ficara na lareira, perto do fogo, de cujo calor ele precisava muito, sendo franzino e fraco. Ele virara os olhos de um orador para outro enquanto o debate continuava, e esfregara suavemente a parte de trás da cabeça contra o painel, como se para estimular o pensamento. O discurso do Coronel Waynflete claramente teve um grande efeito sobre ele, e pude ver que ele estava se decidindo, pois continuou o leve esfregar da cabeça, mas não prestou atenção à disputa e ao barulho sobre o projeto galês. A tempestade diminuiu, pois havia se exaurido. Tudo o que podia ser dito fora dito inúmeras vezes.
"Sou a favor de marchar de volta imediatamente", declarou ele em voz alta.
Senti muita pena do Príncipe. Em sua mente, ele se vira no palácio de seus pais com uma nação arrependida a seus pés. Ele não conhecia a Inglaterra — nenhum Stuart jamais conheceu — ou saberia que a onda de cavalaria que o levara tão longe estava destinada a se dissipar nos indiferentes ingleses como uma onda se dissipa nas indiferentes areias. Ainda assim, era difícil voltar, difícil saber que ele fizera muito mais do que seu avô em '89 ou seu pai em '15, e o fizera em vão. Sua bandeira estava orgulhosamente tremulando no coração da Inglaterra sobre o túmulo de sua causa.
Mas ele morreu bem. "Em vez de voltar", gritou ele, "eu preferiria estar vinte pés abaixo do solo!"
Com um aceno de mão, ele dispensou o Conselho.
"Saia de fininho e cuide de Sultan", sussurrou o Coronel. "Sou ajudante de ordens do Príncipe e não posso ir. Leve-o para o 'Bald-Faced Stag' em Irongate, à sua direita através da Praça. Você deve encontrar Margaret lá, e o Sr. Freake."
Eu estava saindo na cauda da procissão quando o Sr. Secretário, movido para isso pelo Príncipe, aproximou-se sorrateiramente de mim, seus olhos astutos percorrendo os chefes que saíam enquanto ele vinha. Ele colocou a mão no meu braço, o que me deu calafrios, e disse: "Sua Alteza Real gostaria de falar com você, senhor."
Ele voltou sorrateiramente comigo atrás dele, imaginando o quão longe um bom pontapé o levaria. Fiquei rígido e desajeitado diante do Príncipe, que, no entanto, dirigiu-se ao Coronel.
"Seu discurso foi um golpe astuto em mim, Coronel. Não, não proteste! Você cumpriu o dever de um soldado para comigo no Conselho, como o fará na batalha. Não peço mais nada."
"E não farei menos, senhor", disse o Coronel.
"Bem, dê-me uma pitada de rapé, e pedirei seu conselho sobre outro ponto militar."
Esse era o caminho direto para o coração do Coronel, tomar rapé e falar sobre a arte militar sendo para ele as bênçãos gêmeas da vida.
Charles pegou seu rapé pensativamente e então disse: "Qual é a melhor maneira de lidar com um corpo sólido do inimigo com forças inferiores?"
"Dividi-los e esmagá-los em detalhes, senhor."
"O que diz disso, Tom Sheridan?" perguntou Charles.
"O oráculo de Delfos não poderia ter falado melhor, senhor", respondeu Sir Thomas.
"Maldito seja seu oráculo de Delfos, seu velho patife", gritou o Príncipe, com grande bom humor. "Isso é uma migalha do pão mofado do aprendizado que você costumava enfiar goela abaixo nos velhos tempos. Isso faz o Mestre Wheatman se contorcer só de ouvir. A única vantagem que tirei de ser um Príncipe foi que o velho Tom aqui nunca se atreveu a me surrar por engolir suas bobagens."
"O Mestre Wheatman sabe latim suficiente para abastecer um par de bispos, senhor", disse o Coronel.
"O diabo ele sabe!" disse Charles admirado. "Ele será útil para escrever uma carta minha para Sua Santidade."
"Não é uma coisa tão ruim assim, senhor", disse eu, feliz com a chance de dizer algo, pois tinha sido ferido profundamente por conversas que me lembravam de como eu tinha provocado os clássicos de Jack na entrada do Velho Comfit.
"Para voltar ao conselho do Coronel", disse Charles. "Eu os dividi e agora vou esmagá-los em detalhes. Não vamos voltar, senhores, se eu puder evitar. Mestre Wheatman" — e aqui ele natural e afetadamente assumiu um tom principesco — "nós o nomeamos nosso ajudante de ordens assistente, e desejamos sua presença em nossa pessoa durante o dia, sob a autoridade mais imediata de nosso excelente amigo, Coronel Waynflete."
A um sinal do Coronel, cujo significado tive a sorte de ver, caí de joelhos diante do Príncipe.
"Obrigado, Mestre Wheatman", disse Charles, em seu tom franco habitual, quando me levantei. "Você vale cem ratos como o jovem Maclachlan."
Corei, em parte pelo elogio e em parte porque me perguntava quantos Smite-and-spare-nots eu valeria.
Fui então questionado de perto sobre a localização das terras ao sul de Stafford e Derby. Após uma longa consulta, o Príncipe me dispensou, com um gracioso convite para ser um dos membros da comitiva Real no jantar, prometendo-me, com um sorriso astuto, que a companhia seria do meu agrado.
O Coronel e eu nos retiramos. No corredor, ele me colocou sob os cuidados de um criado superior da casa e foi cuidar de Sultan.
Meu novo conhecido era um homem idoso de aspecto solene e afetado, realçado por uma sóbria libré preta e uma peruca elegante. Ele me levou para um quarto e cuidou do meu conforto.
"William, ou seja lá o que for", comecei.
"William é, senhor", disse ele.
"Eu pareço um ajudante de ordens assistente de um príncipe?"
Ele me avaliou, das minhas botas sujas à minha cabeça descoberta, e então disse solenemente: "Não, senhor!"
"William", disse eu, "mas é precisamente isso que eu sou."
"Sim, senhor", respondeu ele.
"Portanto, esta é precisamente a sua oportunidade, William."
"Sim, senhor", disse ele.
"William", continuei de forma insinuante, "acho que você poderia, conhecendo esta casa tão intimamente como conhece, fazer-me parecer um pouco com um ajudante de ordens assistente de um príncipe. É um trabalho difícil, William, mas você o fará. Posso ver isso em seus olhos. Em virtude do poder inerente ao ajudante de ordens assistente de um príncipe, autorizamos você a fazer tudo o que for necessário para a realização de nosso propósito, e, quando sua tarefa terminar, você, por uma curiosa coincidência, encontrará cinco guinéus sob aquele castiçal. A vida, William, é cheia de coincidências."
"Sim, senhor."
"Mas não tão cheia de guinéus, William, quanto deveria ser. Mãos à obra!"
Em vez de ir, ele ficou ali, lavando suavemente as mãos com sabão e água imaginários, e finalmente disse: "O senhor, é claro, ficará muito zangado se eu não fizer como o senhor me ordenou."
"Ficarei, William", disse eu, ensaboando o queixo.
"Posso presumir, senhor, que o senhor vai estourar meus miolos se eu não fizer."
"Estourar seus... Oh, entendo! Certamente!" disse eu, terminando o espanto em compreensão.
O humor tranquilo do homem era delicioso. Peguei uma pistola no meu bolso e acrescentei gravemente: "William, a menos que eu seja, na aparência, assim como no fato, um ajudante de ordens assistente de um príncipe em meia hora, estourarei seus miolos. Agora saia, enquanto tomo um banho!"
"Obrigado, senhor. Vai ficar tudo bem agora. Meu lorde é, devo dizer, exatamente do tamanho de Vossa Senhoria."
William era um artista e me equipou com o nada-em-excesso do gosto exato. Havia roupas às dezenas que teriam feito de mim um pavão, mas ele sabia melhor, e transformou um jovem camponês sóbrio em um jovem cavalheiro sóbrio, e não há tarefa mais difícil, como tenho observado frequentemente desde então.
"Senhor", disse ele finalmente, afastando-se alguns passos para me examinar, "em qualquer outro homem eu deploraria a obstinação — desculpe minha franqueza, senhor — que recusa usar uma peruca, mas o resultado geral, o *tout ensemble*, como meu lorde diria, é agradável."
"William", respondi, "você erra por ignorância — desculpe minha franqueza, William. O melhor Wheatman de Hanyards que já viveu teria queimado na fogueira em vez de usar uma peruca. Eu fiz a maioria das outras coisas pelas quais ele teria sido queimado, mas permanecerei fiel a ele neste ponto: serei condenado se usar uma peruca."
Nunca usei, e é em boa parte devido a mim que o uso de perucas está sendo deixado para advogados e médicos, que, segundo entendo, acham que compensa parecer velho e antiquado.
"Muito bem, senhor! Um sentimento muito apropriado", disse William, com os olhos no castiçal. "É o orgulho familiar que mantém as grandes famílias em movimento, senhor, e elas são a espinha dorsal da Constituição, senhor!"
Após essa sentença solene, como eu estava pronto para partir, ele me escoltou gravemente até a porta e me conduziu para fora com uma reverência. Aproximei meu ouvido da fechadura e ouvi o tilintar das guinéus. William claramente tinha uma apreciação muito aguçada dos melhores meios de se manter em movimento. Um canalha mais suave e mais hábil nunca vi.
Eu já tinha experiência militar suficiente para saber que é bom dominar os meandros e atalhos de uma casa estranha. Se surgir uma emergência, pode ser o melhor guia para a ação. "Conheça seu terreno e vença sua luta", o Coronel costumava dizer, e isso é tão verdadeiro para uma casa quanto para uma província. Então, andei suave e cautelosamente, e ao fazê-lo, virei bruscamente à direita para ter uma visão do rio e dos jardins, quando encontrei a Lady Ogilvie. Ela estava ajoelhada em um banco almofadado, apoiando o queixo nas mãos e os cotovelos no encosto alto do assento.
Ela se virou para ver quem era. Seu rosto estava nublado, mas o sol de seu sorriso irrompeu num relance, e ela veio alegremente em minha direção.
"É o incomparável!" ela exclamou, borbulhando de alegria. "Não, eu juro, é o ainda mais incomparável. Losh, homem, e você está bonito! Estou lhe dizendo, e já vi mais homens bonitos do que você viu bois. Sente-se e conte-me onde você esteve e o que você fez. Davie diz que você contou a ele que eu era muito, muito boa. E assim eu sou", terminou ela com complacência, "e se algum homem disser o contrário..."
"Ele fará bem em ficar fora do caminho de Davie e do meu", interrompi, enquanto arrumava as almofadas para formar um canto macio para ela.
"Você é um rapaz muito bom", disse ela, acomodando-se em seu ninho, "e se não fosse por alguém que eu conheço, eu lhe daria outro beijo."
Admito de bom grado que desejei que Davie estivesse bem longe, pois ela era uma dama muito delicada, com uma boca como um botão de rosa aberto.
Conversamos bastante, pois contei a ela tudo sobre minhas atividades com fantasmas, ladrões, caçadores de ladrões e o pequeno Blount. Ela se divertiu ao máximo. Então, quando cheguei ao fim da minha história, ela ficou séria de repente e disse: "Oliver, o que vai acontecer conosco?"
"Eu não sei", disse eu.
"Tem algo no ar que eu não gosto. Davie está inclinado a voltar. Nós, mulheres, nunca deveríamos ter vindo. Davie não consegue pensar em nada além de mim. Como se eu importasse algo, aquele tolo bobo, Deus o abençoe! Agora, tem o seu Maclachlan. Ele iria a Londres, mesmo que estivesse cheia de demônios, para buscar um cadarço para Margaret, mas ele também está inclinado a voltar para casa!"
"A melhor opinião militar é que não há esperança em continuar", disse eu.
"E não acho que seja muito melhor voltar, rapazinho. É uma retirada. Chame do que quiser, você não pode fazer outra coisa disso, e esses montanheses, uma vez que recuam, se despedaçam. Nada manterá a maioria deles unida, uma vez que cruzem a linha das Terras Altas novamente. Então, a perspectiva é sombria, Oliver, mas eu não me importo nem um pouquinho. Se eu não tivesse sido uma jacobita, nunca teria conhecido meu Davie ali. Ele vale tudo isso, o Davie."
"É uma tarefa difícil para qualquer homem ser digno de sua senhoria", disse eu, "mas Davie é digno se algum homem o é."
"E Davie acha que você é ótimo", respondeu ela, sorrindo. "Margaret colocou o nome dele para três danças e sentou-se num canto com ele durante todas elas. Eu me pergunto se as orelhas do incomparável" — eu sabia o que ela queria dizer porque ela beliscou uma — "não estão queimando. Você deveria ter visto Maclachlan praguejando e delirando como um velho carneiro senil!"
"É agradável saber que a Mistress Waynflete está tão interessada em minhas atividades", disse eu, com toda a frieza e distanciamento que pude reunir. Eu manteria, pelo menos, minha tolice do meu lado dos dentes.
"Muito agradável, não tenho dúvida", foi seu comentário seco. E ela inclinou os lábios vermelhos como se estivesse engolindo vinagre.
Lembrei-me da minha nova função e olhei para o meu relógio. Eu havia ultrapassado em muito a hora que o Coronel me dera.
"Sua senhoria me perdoará", disse eu, levantando-me, "mas estou atrasado para o serviço."
"Serviço?"
"Sim. Sua Alteza Real me nomeou assistente de ajudante de ordens dele mesmo."
Falei com muita imponência, mas, para meu desgosto, em vez das felicitações que me eram devidas em tal ocasião, ela pareceu preocupada e quase irritada, e exclamou: "O próprio diabo está nisso!"
"Sinto muito que sua senhoria esteja descontente", disse eu friamente. Escocês se apega a escocês, e ela não gostou disso.
"Descontente, seu bobo tolo!" retrucou ela. "E eu suponho que você ficará satisfeito, e Margaret gritará de alegria, se você levar uma adaga nas costelas de assistente de ajudante de ordens em uma dessas belas noites. Apenas entenda de uma vez por todas, meu amigo, que um montanhês mata um homem com tão pouco remorso quanto um inglês esmaga um besouro. Não há nenhum desses seus defensores da lei e da ordem além da linha das Terras Altas."
"Nada além de assassinos comuns!" disse eu, exaltado. "Ouvi falar muito sobre as virtudes dos montanheses ultimamente, mas isso me surpreende."
"Ora! Assassinos?" ela gritou. "Nada dessas bobagens tolas dos saxões. Eles têm tantas virtudes quanto qualquer inglês que já tenha choramingado uma oração e encurtado a vara de medir. Assassinos! Ora, meu rapazinho! Apenas removedores de dificuldades!"
Assim ela desviou o assunto com uma brincadeira à sua maneira encantadora, levantou-se e saltitou pelo corredor comigo atrás dela, desejando saltitar com ela, mas limitado pela minha nova dignidade. Eu não tinha noção clara dos deveres de um assistente de ajudante de ordens, mas sentia que eles exigiam uma certa solenidade de maneiras inconsistente com o jeito de gafanhoto de sua senhoria.
No final, ela dançando e eu caminhando pesadamente, encontramos um grupo alegre reunido no corredor abaixo. Estavam lá o Príncipe, o Duque de Perth, o Lord Ogilvie, os dois irlandeses, o Sr. Secretário, o Coronel, uma ou duas damas estranhas e Margaret.
"Pensei que sua senhoria estivesse perdida", disse Charles, sorrindo.
"Pelo contrário, senhor", retrucou ela, "eu fui encontrada."
"A explicação habitual", comentou ele levemente.
"Uma explicação muito inusitada, senhor", ela rebateu habilmente, "pois o Sr. Wheatman tem explicado como aconteceu que ele beijou um fantasma."
"Nunca disse nada parecido", exclamei, irritado até a medula.
"Não foi necessário", disse ela com despreocupação.
"Era o fantasma de uma dama?", perguntou o Duque, que estava muito divertido com o diálogo.
"A pergunta só poderia ser feita", disse Charles, "por alguém que não tem a vantagem de conhecer o Mestre Wheatman."
Ele colocou a mão no meu braço e me puxou para mais perto. "Meu lorde Duque", continuou ele, "apresento-lhe a mais recente adição ao meu exército, o Sr. Oliver Wheatman de Hanyards, o primeiro fruto, estou convencido, de uma rica colheita da nobreza de seu condado."
Não era meu plano desmerecer o próprio peixe para um Príncipe que me havia elevado à condição de nobre em tão distinta companhia. "Terei duas estrelas azuis e um valete em meu brasão", pensei, enquanto me curvava diante do Duque, que se mostrou singularmente gracioso.
Houve então um movimento geral pelo corredor, liderado pelo Príncipe com uma das damas desconhecidas em seu braço. Não houve outro par formal, embora Lady Ogilvie tenha habilmente fisgado o Duque quando ele vinha em direção a Margaret, deixando-a assim para mim.
Ela deixou que o último par ganhasse um ou dois metros à nossa frente e, então, olhou para mim, seus olhos cheios de riso, fez uma reverência e disse: "Bom dia, Sir Beija-fantasma!"
"Bom dia, madame", disse eu resolutamente.
Ela colocou o braço no meu e, enquanto nos afastávamos, sussurrou zombeteiramente: "Fantasma sensato!"
"Ora, senhor, trata-se daquele cavalheiro, o Sr. Maclachlan. Ele insistiu em que eu recebesse uma moeda de prata para me lembrar de algo que ele esqueceu de perguntar a Vossa Senhoria. Mas, ao tentar encontrar o troco..." William, com um gesto de desespero, indicou a impossibilidade de tal tarefa.
"E o que ele queria saber, William?"
"Ele queria saber se a senhorita Margaret Waynflete partiu com o coronel esta manhã, ou se ela ainda se encontra na hospedaria."
"E o que você disse a ele?"
"Eu disse a ele, senhor, que as aves de arribação, quando decidem seguir o bando, não costumam deixar rastro."
"Muito bem, William. Mantenha os olhos abertos e a língua curta."
O coronel surgiu então, com o seu habitual ar de urgência, e, sem mais delongas, partimos. A retirada, como era de esperar, tinha pouco da glória das marchas de avanço. Era um exercício de resistência, de lama e de desânimo, que nos obrigava a uma vigilância constante. O coronel, apesar da sua idade, parecia incansável, e eu, forçado a acompanhar o seu ritmo, aprendia o que era, de fato, a guerra: menos batalhas campais e mais o sofrimento silencioso do dever.
Passamos os dias seguintes em manobras de retaguarda, sempre com a ameaça dos dragões governamentais pairando como um abutre sobre nós. Numa dessas noites, enquanto acampávamos perto de Ashbourne, o coronel chamou-me à sua tenda improvisada.
"Wheatman," disse ele, enquanto se servia de uma pitada de rapé, "o príncipe está obcecado com a ideia de que o apoio francês chegará a qualquer momento. Ele vive num mundo de ilusões, enquanto nós marchamos sobre o gelo."
"Ele ainda acredita no apoio, senhor?"
"Ele acredita no que lhe convém acreditar. Mas escute, tenho uma missão para você. Lorde George quer que alguém avalie as posições do inimigo mais à frente. Não é uma missão para um capitão, mas é uma missão para um homem de confiança. Você conhece o terreno melhor do que a maioria."
"Partirei imediatamente, senhor."
"Tome cuidado. O sargento de quem o Sr. Freake falou não é um homem que esquece um desfecho como aquele que tivemos em Derby."
Saí da tenda sentindo o frio cortante da noite. O acampamento estava em silêncio, exceto pelo resmungar dos homens e o estalar das fogueiras que definhavam. Donald, o meu sargento, esperava-me com os cavalos prontos.
"O coronel quer que eu vá dar uma olhada, Donald. Fique com os homens e certifique-se de que nada se mova sem que eu saiba."
"Como o senhor quiser, Capitão," respondeu ele, com aquela sua lealdade inabalável que, por vezes, me deixava desconfortável.
Montei e parti para a escuridão. A estrada estava deserta, o ar era denso e úmido. Enquanto cavalgava, os pensamentos voltavam-se inevitavelmente para Margaret. Onde ela estaria? Teria chegado a salvo? A ideia de que ela pudesse estar em perigo por minha causa era um fardo que a minha vontade não conseguia descartar.
À medida que me aproximava da posição onde se dizia estar o sargento, diminuí a velocidade. O silêncio da noite foi subitamente quebrado pelo som de ferraduras em terreno pedregoso. Não eram apenas um ou dois cavalos, mas um grupo.
Escondi-me atrás de uma sebe espessa e esperei. Pouco tempo depois, uma pequena patrulha de cavaleiros passou. À luz fraca da lua, pude ver a figura inconfundível do sargento, o mesmo homem que encontráramos na pousada. Ele parecia tenso, os olhos vasculhando a estrada como se esperasse encontrar alguém.
"Ele não pode estar muito longe," ouvi-o dizer para o seu companheiro. "Aquele rapaz Wheatman tem de estar por aqui."
Senti um frio que não vinha apenas da noite. Eles não estavam apenas a seguir o exército; estavam a caçar-me. Se eu fosse capturado, não seria apenas o fim da minha aventura, seria o fim de tudo o que eu começara a construir.
Permaneci imóvel até que o último som dos seus cascos se dissipou no ar. Eu tinha a informação que o coronel precisava, mas tinha também a certeza de que a minha cabeça tinha agora um preço ainda mais elevado. Regressei ao acampamento com o coração batendo com uma cadência que nada tinha de militar. O jogo, percebi finalmente, tinha entrado numa fase onde as regras eram escritas com sangue.
"As roupas de Vossa Senhoria que ficaram para trás, senhor, quando o senhor foi transmutado, como diria meu amo, foram roubadas."
"E você as avalia em cinco xelins! Eu deveria rachar a sua cabeça por isso."
"Sim, senhor. Peças usadas vendem-se muito barato, senhor. Mas a coincidência, senhor! Ainda não cheguei bem a esse ponto."
"Continue, William! Você me interessa profundamente."
"Eu as encontrei, senhor, no fundo do jardim, reduzidas a trapos, senhor!"
"E as vendeu por cinco pence! Eh, William poupado?"
"Seis pence, para ser exato, senhor!"
O Coronel apressou a minha partida, mas encontrei tempo para dar ao patife uma coroa, o que lhe rendeu seis pence de lucro. Um criado deve ter as suas gorjetas e, além disso, a preocupação de William divertiu-me o valor de uma boa coroa.
Isso foi tarde da noite, após a decisão final de retroceder, e desde então eu vinha explorando quilômetros atrás do corpo principal da nossa retaguarda, para garantir que a cavalaria do Duque não estivesse em nosso encalço. Eu dormia em pequenas doses conforme a oportunidade surgia. Agora, com o meu objetivo cumprido, ansiava pelo jantar e pela cama, tendo deixado uma patrulha de homens descansados a cerca de seis milhas atrás para vigiar a estrada do sul.
Havia uma coisa em minha mente, porém, que precisava ser tratada primeiro. Eu devia ver a Sra. Hardy de Hardiwick. Meu coração doía por ela, pois eu sabia o quanto ela sentiria o recuo do Príncipe. Além disso, não era provável que os clãs fizessem distinção entre ela e os outros habitantes da cidade, e eu a salvaria de qualquer perturbação. Então, saltando do alazão e entregando-o aos cuidados de um dos meus homens, segui para a pequena casa de campo. Eu fazia a curva saindo da praça quando alguém, correndo levemente atrás de mim, colocou a mão em meu braço e me deteve. Era Margaret.
"Você não precisa se preocupar, Oliver", disse ela. "Reservei um quarto para você no 'Angel'."
"Obrigado", respondi. "Você é muito gentil, madame."
"Puf! Venha logo! Você está tão cansado que mal consegue manter os olhos abertos para olhar para mim. Venha, senhor!" Ela puxava alegremente o meu braço enquanto falava. "Eu não quero ser obrigada a retribuir cada serviço seu, sabe, senhor!"
"Não, madame! Certamente que não."
"Não, de fato, senhor! Não pretendo colocá-lo na cama, exceto como último recurso."
"Felizmente, madame, estou muito longe de precisar disso. Em poucos minutos, terei o prazer de aproveitar o seu cuidado comigo. Primeiro, no entanto, devo ver a nossa velha amiga a quem o Príncipe deu o broche."
"Iremos juntos!" disse Margaret, colocando o seu braço no meu.
A casa de campo estava escura e silenciosa, prova bem-vinda de que ela não fora perturbada. Bati suavemente e, após uma breve espera, a porta se abriu e a sua criada apareceu, com uma vela na mão.
"Eu sabia que o senhor viria", disse ela simplesmente. "E esta é a sua dama! Entrem!"
Com a vela na mão, ela caminhou à nossa frente até a porta do quarto e, então, colocou-se de lado, ereta e solene, para nos deixar passar. Olhei-a atentamente. O olhar preocupado e ansioso em seu rosto formoso havia desaparecido, e ela estava serena, calma e feliz.
"Graças a Deus!" ela sussurrou. "Ela está em paz!"
Passei à frente de Margaret para dentro do belo e antigo quarto, com as suas agradáveis recordações da antiguidade. Eles estavam lá, exatamente como eu os tinha visto — brasão, retrato, luva e caixa de pó. Não havia mudança neles; eram os elementos permanentes nos quais uma alma forte se mantivera forte. Mas mudança havia. Junto ao genuflexório, ajoelhado em êxtase diante da Virgem Mãe, estava um sacerdote solene, vestido de preto. Uma cama estreita e branca estava no quarto. Duas grandes velas queimavam estavelmente à sua cabeceira, duas aos pés; e sobre a cama, com os lençóis dobrados para revelar as mãos finas e frágeis cruzadas sob o broche do Príncipe, jazia a forma imóvel e branca da nossa dama da praça. Deus a levara para Si. A Morte a colhera com um sorriso de boas-vindas no rosto e, em piedade e compaixão, deixara-o lá.
Os Hardy de Hardiwick tinham dado o seu último presente à causa.
Lágrimas corriam pelas faces de Margaret. Com mãos trêmulas, ela removeu o chapéu e, ajoelhando-se à beira da cama, juntou as mãos em oração.
"Ela falou sem parar sobre o senhor", sussurrou a criada, "e sobre a bela dama que está com o senhor. Ficar parada na praça fria para ver o Príncipe foi o que a matou. Ela fez questão de que a sua cama fosse posta aqui, senhor. Ela queria morrer aqui, com o velho escudo diante dos seus olhos, pois ela tinha orgulho do seu sangue, como bem podia ter."
"Sim", sussurrei de volta. "Ela era a última de uma grande linhagem."
"Sim, senhor. Ela era mesmo. Ela estava um pouco confusa na mente, coitadinha, pouco antes de partir. As últimas palavras que disse foram uma oração pela alma dele — o seu amado, sabe, senhor, que ela perdeu há sessenta anos —, exatamente como eu a ouvira rezar milhares de vezes. Mas, pobre criatura, ela errou o nome dele. Ela o chamou de 'John'."
Sufocado, lancei-me de joelhos ao lado de Margaret e rezei e lutei, e lutei e rezei novamente. Aqui, diante de mim, eu via a Morte sob a única forma em que ela não pode causar tristeza — a velhice sem pecado que deslizara suavemente para a imortalidade; e, com igual visão, vi a passagem negra... e a coisa ainda contorcida ali em uma mancha de penumbra... meu amigo, partido no orgulho da sua juventude... a sua vida derramada em raiva e agonia... e por mim. Então, a mão inocente daquela por quem, embora sem saber, eu fizera aquilo, deslizou para o meu ombro, e eu me virei para olhar para ela.
"Graças a Deus que viemos, Oliver!" ela sussurrou.
Antes que pudéssemos nos levantar, o sacerdote de vestes negras ergueu o seu corpo alto e magro lentamente do genuflexório. De pé, do lado oposto da cama, ele ergueu as mãos em bênção.
"Nossa irmã está com Deus", disse ele, a sua voz profunda vibrante de emoção. "Meus filhos, vocês são, como creio, aqueles que tanto estiveram nas suas orações ultimamente. Não sei quem são, mas, em sua memória e em nome de Deus, eu lhes dou nesta vida a Sua Paz, e na vida que virá, a garantia da Sua Bênção Eterna. Amém."
Ele cessou. Gravemente, e em um silêncio solene, ele se ajoelhou novamente no genuflexório. Nós nos levantamos. Primeiro Margaret, e depois eu, beijamos o broche do Príncipe e as mãos entrelaçadas, e então saímos furtivamente do quarto. Estávamos muito impressionados para falar, ou mesmo para olhar um para o outro, mas, enquanto caminhávamos, ela colocou a mão na minha.
Dias cansativos, cheios de cavalgadas difíceis e explorações, passaram antes que eu visse Margaret novamente. Eu estava sempre na retaguarda, geralmente muito atrás, enquanto ela e as outras damas eram, muito adequadamente, mantidas bem à frente. Ela agora viajava na carruagem com Lady Ogilvie — as duas sendo inseparáveis — e Maclachlan estava com elas. O meu trabalho era árduo e inquietante, mas impedia-me de pensar demais. Coloquei toda a minha alma nele para que assim fosse.
"O rapaz porta-se muito bem, como eu disse que faria", disse o Coronel a Murray certa noite, quando cavalguei até lá para apresentar o meu relatório.
"Não vejo sinais da minha chance de quebrá-lo", disse o lorde severamente, mas ele insistiu que eu jantasse com ele naquela noite, e mostrou-se muito compreensivo e prestativo.
Não há nada que eu precise dizer sobre esta etapa da retirada. Foi bem conduzida e é, dizem-me, um feito militar muito louvável. Não pertence à minha história, mas à história, à qual a deixo.
Coisas aconteceram, porém, que me dizem respeito. A primeira foi risível, embora vexatória. Foi desta maneira que ocorreu.
Enquanto o Príncipe fazia a etapa de Macclesfield a Manchester, e Murray e o Coronel estavam com forças a poucas milhas atrás dele, eu tive que manter o campo atrás deles bem observado. Eu tinha uma patrulha à vista de Macclesfield e outras estendendo-se ao longo da borda de uma região de terras altas que corria para o oeste até a próxima estrada principal. Passei a noite em uma pequena taverna de beira de estrada e tomava o meu desjejum na manhã seguinte quando fui perturbado por uma sucessão de gritos lá fora.
Corri para o pátio e lá estava Donald, com a cabeça bruta de um dos meus dragões em cada mão, batendo-as uma contra a outra, variando as suas batidas com pontapés em qualquer ponto acessível, e gritando com eles em gaélico, enquanto eles gritavam de volta e se contorciam para escapar. Ele parou quando me viu, mas ainda os segurava pelos cabelos.
"O que é isso tudo, Donald?" perguntei.
"Os tolos! É o Glencoe, ele mesmo, que vai enforcá-los", disse ele ofegante.
"Por quê? Diga logo, Donald!"
"Sim, seu idiota" — empurrando um dos homens, que caiu tropeçando no estábulo — "fora com isso! Traga a obra dos seus patifes para cá!"
O homem saiu timidamente com a minha sela, cortada, rasgada e estripada até não valer um centavo.
Um inquérito rigoroso e severo lançou pouca luz sobre o assunto. Eu tinha as minhas próprias suspeitas, a saber, de dois rufiões licenciosos no chamado regimento de Manchester, a quem eu tinha expulsado elegantemente de uma casa de campo à beira da estrada onde eles estavam por se comportarem segundo a sua natureza. Eles tinham sido vistos rondando o pátio da taverna na noite anterior.
Voltei para o meu desjejum. Por algumas horas, tive que me contentar com a sela de um dos meus dragões, mas, após uma breve parada mais tarde, Donald trouxe o alazão com uma sela fina e quase nova.
"Isso é melhor", disse ele. "'Ele cavalgará bem agora."
"Isso custou a você uns trocados, aposto", comentei.
Donald sorriu de forma inteligente e não fiz mais perguntas. O bom sujeito deixava-me desconfortável, pois ele teria cortado a garganta do maior escudeiro da estrada para conseguir-me um cadarço de sapato.
Na manhã seguinte, bem cedo, o lorde enviou-me à frente para Manchester com um despacho para o Príncipe, que tinha passado a noite lá. Foi uma tarefa bem-vinda, pois esperava que me desse, pelo menos, um vislumbre de Margaret. Em vez desta doce carne, porém, recebi um molho amargo.
Quando cheguei lá, o nosso exército começava a sua marcha, e havia milhares de pessoas por perto para ver os clãs se alinharem, e eles mal disfarçavam os seus sentimentos. Por acaso, quando entrei na praça, o grande regimento de Ogilvie estava se alinhando, e ele deixou-o sob o comando do seu major para vir falar comigo.
"Eu gostaria que você tivesse chegado meia hora atrás", começou ele. "Ishbel teria dado muito para vê-lo, e assim também outra pessoa, imagino."
"As damas já partiram?" perguntei, com um descuido doloroso.
"Ora, homem, Maclachlan levou-as embora logo cedo, com estilo. Ele está se tornando um sujeito muito atencioso, esse Maclachlan, e eu me pergunto por que minha Ishbel não gosta mais dele do que gosta. Há poucos de nós, diabos, para estarmos cuspindo e brigando entre nós mesmos."
"É verdade, meu lorde", eu disse.
"Para os meus amigos, sou apenas Davie", disse ele simplesmente. "Não sou exatamente um homem segundo o coração de Deus, como o meu homônimo da Bíblia, mas não tenho orgulho espiritual quando um bom homem está em questão, e não fica bem para homens que estão no mesmo barco, e um barco tão frágil, trocar termos de corte uns com os outros. Eles se foram, e nós devemos marchar. E eu nem sou realmente um lorde."
"Quero a hospedagem do Príncipe, Davie", expliquei, enquanto caminhávamos no nível da calçada com a cabeça da sua coluna.
"Nós passamos por ela, e eu o deixarei lá. O jovem leva tudo muito a mal. O coração foi completamente arrancado dele. E com razão! Veja os corpos azedos e carrancudos nesta cidade! Quando chegamos, houve fogueiras, sinos tocando, vivas, e quase todas as janelas com uma vela acesa, talvez duas ou três, nelas. As damas, e não são moças de má aparência, tinham cachos de fitas de xadrez em seus corações e — isso eu soube de Maclachlan — ligas de xadrez em suas meias."
Em tal conversa, passamos o caminho até a hospedagem do Príncipe, onde o encarreguei de levar os meus cumprimentos às damas. Ele apertou a minha mão na despedida e, tendo o seu major parado o regimento, caminhou orgulhosamente para a cabeça dos seus homens. Fiquei na beira da calçada, saquei a minha espada e permaneci em continência, de acordo com a cortesia das guerras. Ele retribuiu a honra da mesma maneira militar, soltou um comando e seguiu em frente para o Norte faminto. Foi a última vez que vi Davie, comumente chamado de Lorde Ogilvie.
Para meu espanto, o Príncipe ainda não tinha se levantado, e passou algum tempo até que ele viesse falar comigo na sua sala de estar, onde eu o aguardava. Levantei-me e fiz uma reverência quando ele entrou, e entreguei-lhe o despacho.
"Maldito seja o seu clima inglês imundo, Capitão Wheatman. Está entrando nos meus ossos."
Isso era, imagino, apenas a sua maneira de se desculpar comigo pelo gole de conhaque que ele estava servindo.
"Isso é melhor!" disse ele, pousando o copo vazio. "Tenho algo pelo que agradecer à França, afinal." Ele riu da sua própria piada ruim, mas não havia som de alegria na sua risada, e acrescentou: "Agora, vamos ver o que o meu general desertor tem a dizer."
Ele leu a carta com impaciência e desprezo. "Suponho que o Sr. Secretário deva escrever algo de volta", foi o seu comentário. "Não importa muito o quê, já que estamos fugindo o mais rápido que as nossas pernas podem nos levar. Qualquer tolo, ou patife, ou Murray pode fugir."
Ele andava de um lado para o outro na sala com passos longos e raivosos, murmurando palavras que eu não compreendia. De repente, ele parou e se virou para mim com o rosto sorridente e principesco do Charles mais grandioso que eu conhecia e de quem gostava.
"Maldito seja eu por ingrato! Estou sinceramente grato a você, Capitão Wheatman, pelos seus esforços. O meu lorde fala de você em termos de grande elogio. E não devo retê-lo. Murray deve ter a sua resposta. Venha comigo, e o Sr. Secretário a escreverá enquanto eu tomo o meu desjejum."
Segui-o para fora e ao longo de um corredor com portas de ambos os lados, fora de uma das quais estava um criado ou sentinela, que me observara furtivamente quando cheguei. Quando viu o Príncipe, ele abriu a porta e enfiou a cabeça para anunciar a nossa visita. Ele foi desajeitado também, e, mantendo a cabeça em torno da borda da porta por muito tempo, esbarrou no Príncipe, que soltou um palavrão e o jogou de lado. Enquanto eu seguia Charles para dentro, vislumbrei as costas de um homem em um pesado sobretudo cor de amora, protegido com tranças de prata manchadas nos punhos e bolsos, que estava saindo apressadamente da sala do Secretário por uma porta interna.
"Ha!" disse Charles com desprezo. "Mais conspirações e política! Se eu pudesse ser colocado em uma coroa por meio de intrigas, você seria o homem para fazê-lo."
"Devo estar ciente do que se passa na cidade, Vossa Alteza Real, e o meu homem ali é um raro furão, mas não o achei digno de estar na presença, então simplesmente o mandei embora."
"Todas as suas tramas e estratagemas não lhe farão tanto bem quanto um copo de conhaque. O clima está afetando você."
De fato, o Sr. Secretário tremia todo e olhava de maneira assustada do Príncipe para mim e vice-versa.
"Não é nada além de um pouco de indisposição, como nós, homens mais velhos e estudiosos, somos propensos a ter pelo excesso de aplicação. Vossa Alteza Real é gentil em notar as minhas pequenas enfermidades", disse ele suavemente. Ele já tinha se recuperado.
"Tente conhaque!" disse Charles. "Acalma bem o estômago. Bem, venha e tome nota de uma resposta para isto enquanto eu tomo o meu desjejum!"
A indisposição parecia ter voltado, pois o Sr. Secretário estava lento, capcioso e argumentativo, embora o assunto do despacho fosse apenas sobre onde o exército deveria parar para um dia de descanso. Finalmente, decidiu-se por Preston, e o despacho foi escrito de acordo. Fiz a minha reverência, pulei no alazão e parti para a estrada de Stockport.
A nossa retaguarda estava mais próxima do que o habitual nesta manhã. Manchester, sendo uma cidade considerável, não seria liberada da nossa tropa principal até que a primeira coluna da retaguarda estivesse nos arredores do sul da cidade. Fora da hospedagem do Príncipe, a sua escolta de guardas-vida estava agora formada. Enquanto eu cavalgava ao longo da borda da praça do mercado, os Cameron estavam se agrupando, e as ruas adjacentes fervilhavam de clãs.
Fiz o alazão avançar e logo estava na região baixa e aberta. Depois de galopar por um quilômetro ou mais, avistei dois cavaleiros, bem à minha frente, cavalgando para o sul a um galope firme. Um deles usava um grande sobretudo cor de amora. Não é uma vestimenta incomum de se ver ao longo de uma estrada em um dia cortante de dezembro, mas, dez minutos depois, depois que eles diminuíram para um trote para aliviar os seus cavalos em uma subida, vi a proteção de prata ao redor dos bolsos.
Se este fosse o homem que eu vira saindo às pressas da sala do Sr. Secretário, valeria a pena dar uma olhada nele, então espolei atrás deles. O barulho que fiz teve o efeito desejado. No topo da subida, o homem do sobretudo virou-se. Era Weir, o espião do Governo. Ele gritou para o seu companheiro, que olhou para trás por sua vez. O meu coração saltou violentamente ao ver o seu rosto curtido e coriáceo e o nariz de massa de vidraceiro. Era o sargento dos dragões.
Desceram a encosta correndo, comigo atrás deles a todo vapor, orgulhoso como um pavão por estar conduzindo dois homens à minha frente, sendo um deles um velho veterano. Foi a minha ruína. A estrada era ladeada por cercas vivas esparsas, e, a um longo tiro de pistola de distância, uma estrada transversal cortava-a. O sargento dava ordens ao espião enquanto cavalgavam, e no cruzamento o sargento, gritando "Atirem baixo!", virou bruscamente para a esquerda enquanto o espião seguia para a direita.
Foi um belo truque, pois colocou-me entre dois fogos. Eu estava no lado da mão da pistola do espião quando ele se virou, e ele disparou contra mim, não por bravura calculada, como o seu rosto mostrava claramente, mas em um ataque de desespero. O motivo por trás de um tiro, no entanto, não importa. É a bala que conta, e a dele atingiu-me logo acima do cotovelo esquerdo. Eu estava levantado nos meus estribos, mirando no sargento, que puxava o seu cavalo para se voltar contra mim. Vi estilhaços voarem de um galho à direita dele.
Eu não tinha olhado para o espião. Agora um tiro soou na pista do seu lado. Foi seguido por um grito lancinante, e este por outro tiro. Entre os tiros, o sargento virou-se e fugiu pela pista como um louco, esporando e chicoteando como um maníaco. Era inútil seguir. A minha mão que segurava as rédeas tinha perdido a firmeza, o meu braço parecia estar em chamas, e o sangue já escorria rapidamente dos meus dedos impotentes.
Olhando para a pista, vi Weir caído na estrada, e um cavaleiro estranho descendo da sua sela. Cavalguei até ele.
"Como vai?" disse ele afavelmente. "Sinto muito por não ter conseguido o outro sujeito para você, mas eu pretendia ter o Turnditch. O patife sujo enviou o seu último rapaz para a forca. Faugh! Eu poderia cuspir na carniça dele."
Um olhar para a estrada mostrou que ele tinha razão. O rosto amarelo e inexpressivo do espião estava voltado para cima; os seus olhos, com o horror do inferno ainda neles, arregalavam-se para o céu. Logo acima da sua sobrancelha direita havia um buraco em que eu poderia ter colocado o meu dedo.
"Malditos sejam os meus olhos estúpidos!" gritou o estranho. "Você foi atingido, senhor, e gravemente. Precisa ser visto imediatamente."
Ele ajudou-me a descer, tirou o meu casaco e colete, e arregaçou a manga da minha camisa, fazendo tudo isso com destreza e quase com delicadeza feminina.
"Hurrah! Errou o osso e passou direto! Vai deixá-lo bom em pouco tempo! Pressione o seu dedo aí, senhor, enquanto eu corto um graveto. Isso é excelente. Você não se importará se eu o mantiver aqui enquanto recarrego as minhas armas? O lado seguro, sabe como é!"
Com o seu lenço e o meu, e um pedaço de aveleira para um torniquete, ele enfaixou o ferimento, e com muita perícia, pois de imediato reduziu o fluxo de sangue a um mero fio. Enquanto ele se ocupava comigo, avaliei-o.
Era um homem de cerca da minha idade e altura, mas mais esguio e fibroso. Os seus traços eram bastante irregulares, mas um olhar inteligente e bem-humorado compensava este defeito, e os seus brilhantes olhos cinzentos eram os mais rápidos que já vi. Embora fosse um completo estranho, havia nele uma familiaridade intrigante, e esforcei-me por recordar qual dos meus conhecidos se parecia com ele. O seu cavalo, agora a pastar à beira da estrada, era uma esplêndida égua castanha de sangue, o melhor cavalo, tirando Sultan, que eu via há muitos dias. A última coisa que notei foi que o homem estava singularmente bem vestido.
"Isso remendou-o até que possa chegar a um médico a sério. Há um homem de primeira classe em Stockport, em frente à porta oeste da igreja, chamado Bamford. Não pode perder o consultório dele, e ele meterá o honorário ao bolso como um homem sensato e não fará perguntas."
"Fez um excelente trabalho, senhor," disse eu. "O sangue quase parou de fluir. Estou-lhe muito grato."
"Não diga mais nada!" exclamou ele seriamente. "É um benefício que me conferiu, se ao menos soubesse. Nemo repente turpissimus, como dizemos."
"Video proboque, como também dizemos," retorqui, sorrindo.
"Ora! Um irmão da lâmpada!" exclamou ele, rindo brevemente, e tornando-se subitamente sóbrio. "Tenho de ir. Lamento deixá-lo, senhor, mas acho que está bem. Tenha cuidado, contudo. Eu próprio fui atingido no outro dia, e o maldito buraco nas minhas costelas ainda sangra se me esforçar demasiado."
"Deveria certamente estar na cama, se tem um buraco nas costelas."
"Na cama!" bufou ele. "Fui para a cama, por Deus, e quase fui apanhado. Agora não preciso de esforço. Neste intervalo entre os Highlanders, estou tão confortável como uma pulga num cobertor."
Depois de me ajudar a vestir e a montar no meu cavalo, ele caminhou até ao homem morto.
"Bem, Turnditch," disse ele, "agora sabes tudo, ou nada." Então, caindo levemente sobre o joelho, voltou-se alegremente para mim e disse: "Saqueia sempre o egípcio, morto ou vivo."
Ele revistou os bolsos do espião com a fácil indiferença de um perito, cantando enquanto os esvaziava:
"O padre chama ao advogado um trapaceiro; O advogado chama velhaco ao divino; E o estadista, por ser tão grandioso, Pensa que o seu ofício é tão honesto quanto o meu."
Ele parou de cantar e, atirando para cima e para baixo uma bolsa de couro bem cheia na mão, disse: "Não há realmente qualquer objeção à virtude quando a égua não é a sua própria recompensa. Chunk! chunk! Aí tem alquimia! Meia onça de chumbo em meia libra de ouro!"
Guardou a bolsa no bolso, saltou para a sua égua e juntos levámos os cavalos a passo até à estrada principal, onde parámos lado a lado, com as cabeças dos nossos cavalos voltadas para os seus respetivos destinos.
"Senhor," disse eu, estendendo a mão, "estou-lhe muito grato. O meu nome é Oliver Wheatman, de Hanyards, Staffordshire. Posso ter o prazer de saber o seu?"
Ele apertou a minha mão, olhou para mim intensamente, com os seus olhos cinzentos muito pensativos e firmes, e depois disse calmamente: "Samuel Nixon, Bacharel em Artes, outrora Demy do Magdalen College, Oxford."
"Comumente chamado de 'Swift Nicks'," acrescentei, sorrindo.
"Acertou à primeira," exclamou ele alegremente, e disparou como uma flecha em direção a Manchester.
Portanto, Nance Lousely não tinha obtido o seu avental cheio de guinéus afinal.
CAPÍTULO XXIII
DONALD
Recebi o meu ferimento no início da manhã de 10 de dezembro. Por volta das oito horas da noite do dia 17, sentei-me numa cabana de pastor deserta para a refeição que Donald tinha preparado para mim. A semana tinha sido, num aspeto, um vazio, pois não tinha visto Margaret. Em todos os outros aspetos, tinha sido laboriosa, extenuante e emocionante, e tínhamos acabado de ver o fim do trabalho mais difícil até agora. Nós, significando os meus dragões e eu, estávamos no topo de Shap. Algumas carroças de munições tinham avariado na subida, bloqueando a estrada no ponto mais íngreme e atrasando-nos por horas. O seu lorde e o Coronel, com a infantaria da retaguarda, estavam na aldeia de Shap, a uma ou duas milhas à frente. O Príncipe estava ainda mais adiante, provavelmente em Penrith.
O atraso era perigoso. O nosso exército tinha descansado um dia inteiro em Preston e outro em Lancaster. Mesmo em Preston, o Coronel e eu, com os meus dragões, mal tínhamos saído da cidade quando um forte corpo de cavalaria inimiga entrou pelo leste, enviado por Wade para reforçar o Duque. A nossa margem de segurança estava a diminuir diariamente. Teríamos de lutar em breve, e eu estava colocado aqui, no topo de Shap, para garantir que não nos apanhassem de surpresa.
A choupana, como Donald lhe chamava, ficava a cerca de cem jardas depois do ponto mais alto da estrada, onde um piquete vigiava. Do outro lado da estrada havia uma pequena depressão, e ali os meus dragões estavam a instalar-se confortavelmente em redor de uma fogueira crepitante, cujo combustível era fornecido pela carcaça destroçada de uma carroça abandonada. O campo era tão despido quanto a cauda de um pássaro, mas, por uma grande sorte, um deles tinha abatido uma ovelha tresmalhada durante a subida, e o ar estava denso com o cheiro a carne chamuscada.
Aqui devo dizer dos meus dragões que eram homens que eu adorava comandar. Após doze dias de trabalho de um tipo capaz de exaurir um elefante, estavam frescos como rosas. Todos temiam Donald, e como Donald, em meu benefício, não se coibia de lhes dizer como o punho do rapaz, por mais pequeno que parecesse, tinha deixado Donald fora dos seus sete sentidos, eles temiam-me. Acho que até gostavam de mim. De qualquer forma, nunca recebi um olhar feio ou uma palavra amarga de nenhum deles. Algumas pessoas expressam surpresa pelos esplêndidos regimentos das Terras Altas servirem agora, graças ao génio político do Sr. Pitt, no nosso exército. Não é surpresa para mim, que comandei um corpo de clãs durante quinze dias no final de uma retirada.
Donald era uma verdadeira joia de homem. Era servo, sargento, enfermeiro e companheiro, e imbatível em todas as capacidades. O meu ferimento tinha-me dado mais problemas do que esperava, mesmo que o Sr. Bamford me tivesse dito que uma das artérias maiores estava lesionada. Uma ou duas vezes desde então, conforme a ocasião permitia, um médico tinha-o tratado, mas foi o cuidado incessante de Donald que mais fez por ele. Ainda usava o meu braço esquerdo numa tipoia.
Ele tinha-me feito uma fogueira de madeira e turfa; deu-me carne de carneiro assada, uma fatia de queijo polvilhada com aveia e pão bom para comer, e uma caneca de leite misturada com uísque para beber. Refinamentos que ele teria desprezado para si mesmo em qualquer lugar, ele teve a consideração de providenciar para mim nestes ermos — um prato de estanho e um copo de prata, ambos roubados. A única mobília na cabana era um tronco baixo, quase do tamanho de um bloco de talhante, que servia de mesa. Como assento, Donald arranjou metade da tábua traseira da carroça sobre duas pilhas de turfa. Completou o seu trabalho produzindo uma vela de sebo espetada num pouco de barro como castiçal.
Donald tinha-me deixado com a minha comida e ido ao acampamento buscar a sua. Fiz uma refeição nutritiva e depois sentei-me diante do fogo para fumar e pensar.
Eu não via Margaret desde Leek, e não tinha estado a sós com ela desde que, com a mão na minha, nos tínhamos esgueirado da graciosa presença dos mortos. E eu tinha entrado num estado de espírito em que sentia que era bom não a ver. Algum dia teria de viver sem ela de todo, e esta era uma oportunidade de aprender como fazê-lo.
Embora não a tivesse visto, tinha ouvido falar dela. Enquanto o nosso exército permanecia o dia em Lancaster, eu estive a vigiar a estrada à vista dos campanários de Preston, perguntando-me por que razão a cavalaria do Duque, após o seu aumento de força, não nos vinha atrás. O Marquês de Tiverton disse-me depois que o Duque tinha sido retido um dia em Preston por rumores de um desembarque francês na costa sul. Estar muito atrás, tinha cavalgado por Lancaster sem puxar as rédeas, mas na rua principal um estranho — um dos nossos, contudo, como mostrava a sua roseta branca — aproximou-se da minha sela e entregou-me uma carta. Era claramente escrita por uma mulher, e ardi ao pensar que tinha sido a mão de Margaret que tinha escrito o endereço para "Oliver Wheatman, Esquire, Capitão de Dragões no exército de Sua Alteza Real o Príncipe Regente". Rasguei-a e descobri que era da Lady Ogilvie. Ela entenderia e perdoaria, se pudesse alguma vez saber o quão desapontado fiquei.
Tinha sido escrita naquela manhã antes de deixar a cidade, e trazia vestígios de uma composição apressada. Dizia o seguinte:
"SENHOR, — Isto é para o informar, caro Oliver, que tenho a certeza de que M. tem uma abelha no seu capô. Penso que alguém que conhecemos lhe disse que ela não quer ter tratos com ele da forma que ele deseja. Não sei com certeza, note bem, mas estiveram juntos na noite passada, e esta manhã ele não está por perto para nos pôr na carruagem, como habitualmente faz, e ela está pálida e silenciosa, e diz que deseja que o pai estivesse por perto, e eu não gosto disto, caro Oliver. Chamo-lhe caro Oliver porque é um bom rapaz, tal como eu sou uma boa rapariga. Davie contou-me como ficou de pé e o saudou, e fiquei contente por o ter beijado uma vez, embora fosse apenas para o provocar. Lembre-se do que lhe disse sobre estes homens das Terras Altas. M. é como todos os outros, e além disso o Príncipe fez de si o seu ajudante de ordens, e deveria ter sido ele, embora ele não se importasse no início porque isso o deixava livre para cortejar a sua dama, mas agora ele terá isso a arder no coração como veneno. E mantenha o olho naquele sujeito, Donald. Ele é irmão de criação de M., e espetaria o seu punhal no próprio Príncipe se M. lhe dissesse para o fazer. Não são maus sujeitos, mas é assim que eles são. Ela não diz nada sobre si, e esse é um bom sinal, penso eu. Oxalá soubesse francês em vez desse latim tonto, pois então poderia escrever-lhe uma carta apropriada com palavras bonitas, mas ela diz que terá de aprender italiano primeiro para lhe agradar, mas isso é apenas tolice dela. Desculpe esta nota mal escrita, pois o papel é mau e não tenho a certeza do meu inglês quando é bom. — Sua serva obediente e amorosa boa amiga,
"ISHBEL OGILVIE"
Puxei o pedaço de lama para perto do meu cotovelo e li-o novamente. Em parte, era claro o suficiente. Que Maclachlan estava perdidamente apaixonado por Margaret tinha-se tornado quase um assunto de conversa comum. O meu Lorde George Murray tinha deixado escapar mais do que uma vez, tal como o fizera sobre eu ter deslocado o jovem Chefe nas boas graças do Príncipe. Maclachlan era filho e herdeiro de um chefe de poder e reputação consideráveis. Que ele se apaixonasse por Margaret era natural, e se ela se tivesse apaixonado por ele eu não me teria surpreendido. Mesmo depois do acontecido, ainda digo que ele era um homem fino e direito, delicioso de olhar, e, tanto quanto eu sabia, digno de qualquer mulher, mesmo de alguém como Margaret. Mas o coração é mestre, não servo, e não pode ser comandado. Ela não o amava e isso era o fim da questão.
Depois, Lady Ogilvie insinuou perigo para mim vindo dele. Bem, se ele queria uma luta, uma luta ele teria. Não há inglês vivo que pense mais nos escoceses do que eu, mas nunca pensei o suficiente do melhor escocês vivo para fugir dele. Quanto a Donald, a menos que eu fosse um idiota e ele um ator melhor que o Sr. Garrick, ele preferiria mil vezes ter enterrado o punhal em si mesmo do que em mim. Esse assunto podia ficar por ali. Não haveria luta naquela noite, e nunca visto as minhas calças até à hora de me levantar.
Onde a sua senhoria estava errada era ao supor, como claramente supunha, que os assuntos amorosos de Margaret me interessavam de outra forma que não a de serem os de Margaret. Eu amava-a, amava-a ternamente, tanto mais ternamente quanto desesperadamente. Não tinha qualificações que me permitissem declarar o meu amor. No meu melhor, nada mais do que um pobre proprietário rural, agora nem isso eu era, eu era um rebelde declarado numa rebelião que tinha falhado. E se eu tivesse todas as qualificações que a posição e a riqueza me pudessem dar, ainda teria sido o mesmo. Entre ela e mim estava o corpo morto do meu amigo e o coração viúvo da minha irmã.
Eu estava a encher pensativamente o meu cachimbo quando ouvi a voz de Donald lá fora, elevada em explicação sincera.
"E se eu não pensei que era o velho Nick a vir buscar-me antes do meu tempo devido, que eu nunca mais beba outra gota de uísque enquanto viver."
Alguém riu da explicação, e Donald, ainda a explicar, empurrou a porta e abriu caminho para Margaret, que, antes que eu pudesse levantar-me, estava a olhar para mim, da forma deliciosa que tinha, o fingimento juvenil apenas salpicado com seriedade feminina.
"Nunca o perdoarei, nem ao pai, nem a Donald, nem a mais ninguém. E não se mova, senhor!"
"Lamento, senhora," disse eu.
"Você lamenta sempre. É o seu estado de espírito favorito. Você vive de tristeza," disse ela, atirando-me as frases concisas e cortantes. Então, porque eu estremeci quando ela me disse que vivia de tristeza, ela derreteu-se de imediato e disse: "Oh, Oliver, sinto muito. Porque não me mandou chamar e deixou-me tratar melhor disto? Certamente esse era o meu direito, assim como o meu dever."
Não havia forma de a contentar até que ela tivesse visto e tratado o meu ferimento. Ela tinha trazido gaze e linho consigo, algum tipo de bálsamo que quase me fez sentir feliz por ela não ter tido o tratamento diário do meu braço, e até uma bacia e uma enorme garrafa de água de nascente límpida, que foram trazidas da caleche por Bimbo, o pequeno cocheiro negro de Lady Ogilvie. A cabana parecia uma enfermaria, e Donald e Bimbo misturavam-se da forma mais risível ao desviarem-se para a servir.
"Sai daí!" disse Donald desesperadamente, desenrolando o pequeno negro da sua manta pela segunda vez.
"Você é um elefante grande em saias!" retorquiu ele, mostrando os seus grandes dentes brancos num sorriso. "Se pisares o Bimbo, o Bimbo vira puré."
"Como se sente agora?" perguntou Margaret, quando a sua tarefa terminou.
"Serei capaz de esmurrar o Donald com ele pela manhã," respondi.
"Isso é melhor," disse ele, sorrindo de contentamento. "Penso que preferiria ser esmurrado com ele novamente do que vê-lo pendurado ali sem fazer nada."
Ele levou Bimbo para a fogueira do acampamento e deixou-nos a sós. Discutimos sobre o lugar para nos sentarmos na cabana, pois a tábua da carroça era curta, e eu queria que ela a tivesse só para si. Ela rejeitou a ideia e, no final, partilhámo-la, e eu já não me importei com a sua brevidade. Ela queria encher o meu cachimbo para mim e segurou uma lasca a arder na tigela enquanto eu o acendia. Durante o seu tratamento, ela tinha estado muito pálida e quieta. Agora, ela recuperou a cor na luz e no calor do fogo, mas acalmou-se novamente assim que eu estava a fumar com conforto.
Ela contou-me brevemente que tinha ficado em Shap para ver o pai. Lady Ogilvie tinha insistido para que ela ficasse com a caleche, para que pudesse seguir viagem com conforto de manhã. Do pai, soubera do meu ferimento e viera de imediato ver por si mesma como eu estava. Ela voltaria para Shap em breve, onde passaria a noite com o pai.
Ela contou-me isto e depois inclinou-se para a frente, segurando o queixo com as mãos, e ficou quieta novamente.
Eu estava grato pelo seu silêncio, grato por ela estar a esconder-me o rosto, pois precisava de me recompor. Que algo tinha acontecido era claro, e, fosse o que fosse, tinha atingido o âmago. De alguma forma de profunda preocupação, havia uma nova Margaret ao meu lado, mas, de outra forma, era também a velha e familiar Margaret, pois ela usava o longo dominó cinzento da mãe. Ela tinha-o desapertado de modo a que agora caísse livremente sobre ela, e atirou o capuz para trás para que a luz do fogo fizesse cintilações trémulas no seu cabelo.
"Não o vejo há doze dias," disse ela finalmente.
"Não, senhora."
"Tem-me negligenciado, senhor?" Havia apenas um toque de vigor na sua voz, mas ela ainda olhava para o fogo.
"Você é filha de um soldado, não de um vereador," disse eu calmamente, e a réplica fez com que ela virasse a cabeça num solavanco.
"E como é que isso desculpa a sua negligência?"
"Dando-lhe a oportunidade de verificar com o seu pai se os meus deveres militares me deixaram alguma oportunidade de a negligenciar," respondi firmemente. Como de costume comigo, já que não podia cortejar, seria senhor onde pudesse. Era uma fonte de um deleite mesquinho para mim.
"Mais lógica," disse ela brevemente, e virou-se novamente para o fogo.
Aparentemente, ela testou a lógica na sua mente e chegou à conclusão de que era sólida. Levantou-se, atirou um pouco de madeira para o fogo, empurrando-me de volta de forma brincalhona quando tentei antecipar-me, e depois disse alegremente: "O que acha que o pai disse hoje à noite?"
"Levaria horas a adivinhar, suponho, por isso diga-me logo, já que vejo que isso a deixou perturbada."
"Deixou," disse ela, com ênfase brincalhão. "Temo não o ter treinado como os pais devem ser treinados, pois ele disse-me calmamente que se eu não tivesse tido o infortúnio de ser rapariga, talvez tivesse acabado por ser um rapaz tão bom quanto você."
"Infortúnio!" ecoei quase com raiva.
"A palavra exata," respondeu ela.
"Infortúnio! Ser a mulher mais bela de Inglaterra, com o mundo aos seus pés — ele chama a isso um infortúnio?"
Falei energicamente como a ocasião exigia, estando, além disso, contente por ter uma saída. Antes de terminar, contudo, ela estava de volta à sua posição anterior, com o rosto escondido de mim pelas mãos. Ela deixava-me mais intrigado do que nunca, pois, após um longo silêncio, ela exclamou: "Não o meu mundo, Oliver!"
A frase disparou como um jato de lava de algum centro profundo de pensamento fundido. Tive pena dela e amei-a, mas estava impotente. Para criar uma diversão, olhei para o meu relógio e, por sorte, era a hora em que o piquete no topo deveria ser mudado, por isso fui até à porta e abri-a. Um esplêndido estrondo de gaitas de foles veio da fogueira do acampamento assim que o fiz, e Margaret correu até à porta para ouvir.
"Quem é?" perguntou ela.
"Donald," disse eu. "Ele é um dos grandes mestres das gaitas. Acredito agora na história de Anfião e nas muralhas de Tebas, pois esta tarde vi o Donald guiar algumas carroças avariadas para fora da estrada com a sua música."
Fui ver a mudança do piquete e, quando voltei para a cabana, vi que a tensão tinha passado. Reacendi o meu cachimbo, sentei-me novamente ao lado dela e comecei uma rápida série de perguntas sobre o que ela tinha visto e ouvido durante a retirada. Tentasse eu o que tentasse, aliás, tentássemos nós o que tentássemos, não voltámos ao nosso antigo pé. Tínhamos medo dos silêncios e saltávamos de tópico em tópico a uma velocidade vertiginosa. Nós, os dois que tínhamos passeado juntos à luz do sol, tropeçávamos agora numa névoa.
Por fim, ela disse que precisava de ir, e eu saí e gritei a Donald para preparar o Bimbo e a caleche, e quatro homens para a escolta. Quando voltei para junto dela, ela levantou-se, algo fatigada, e eu coloquei-lhe o dominó totalmente e ajustei o capuz à volta da sua cabeça.
"Vês que voltei ao dominó, Oliver", disse ela.
"É a própria coisa para uma noite fria e uma estrada suja", respondi alegremente, dando um passo à frente dela, a um par de passos de distância, para a ver uma última vez à luz.
"Nunca conheci um homem que compreendesse tanto as mulheres como tu", disse ela.
"Obrigado, minha senhora", exclamei estrondosamente, e curvei-me de modo a evitar os seus olhos. Mas, quando me endireitei novamente, eles encontraram os meus uma vez mais, e algo neles fez-me tremer.
"Ou tão pouco", sussurrou ela, e estava lamentavelmente pálida e infeliz.
Se não fosse pelo que vi entre nós — ali, no chão de lama louca e pisada, tê-la-ia lançado nos meus braços. Mas não podia passar por cima daquilo.
"A caleche está pronta", gritou Donald da soleira da porta.
Acomodei-a confortavelmente na caleche e enviei dois dragões à frente. Bimbo estalou a língua ao cavalo e partiu. Caminhei cem jardas ao lado da carruagem até chegar a hora de assobiar para os outros dragões partirem. Então, fiz o Bimbo parar.
A lua nova lutava com grandes montes de nuvens, mas, naquele momento, obteve uma breve vitória e deu-me uma visão clara de Margaret. Ela estendeu a mão, que ainda não tinha enluvado, e eu tomei-a nas minhas, inclinei a cabeça sobre ela e beijei-a.
"Boa noite, Oliver", sussurrou ela.
"Boa noite, Margaret", respondi, e assobiei agudamente para esconder as minhas emoções. Algo a fez partir com os olhos a brilhar e o rosto glorioso com um sorriso.
Os dragões passaram a galope, e eu fiquei por alguns minutos a olhar colina abaixo. E tão pouco. Não o meu mundo. E tão pouco. Não o meu mundo. As palavras soavam nos meus ouvidos como um repique de sinos. Então, por um daqueles truques estranhos que a mente nos prega, lembrei-me de que tinha deixado os Hanyards por causa do trabalho, e de que o meu amor por Margaret só poderia ser justificado para mim próprio — o único que alguma vez o poderia conhecer — pelo meu trabalho. Sobre o topo negro ali, lá no vale mais negro, estava o inimigo, o seu inimigo, a roer o espaço entre nós como um coelho rói uma folha de alface. Fechei a minha mente àquele carrilhão enlouquecedor e parti imediatamente para visitar o meu piquete.
A estrada estava nivelada com o cume nu e varrido pelo vento. O chão amarrotado estava coberto de erva grosseira, quase demasiado pobre para pasto de ovelhas. A fogueira ainda ardia; perto dela, uma gaita de foles gemia; de vez em quando, um cavalo sacudia os arreios. A lua saiu por um momento e, logo a seguir, voltou a estar um breu.
Enquanto caminhava, houve um tropel contra mim vindo da erva, por trás e à minha esquerda. Deitei-me ao comprido, e um homem disparou sobre mim e esparramou-se na estrada, mas era rápido e ágil como um gato, e levantou-se antes de mim, pois o meu braço atado prejudicava-me. Pude ver apenas a sua espada pronta para um golpe enquanto ele se atirava a mim. Mergulhei para fora enquanto ele saltava, e ele falhou-me, mas antes que eu pudesse ficar atrás dele, ele já tinha dado a volta e estava sobre mim novamente como uma fúria. Eu estava desarmado e aleijado, mas se pudesse passar pela sua espada, tudo estaria acabado para ele. O ritmo era tão intenso, e a minha mente estava tão concentrada no trabalho, que não pedi ajuda. Por fim, enganei-o, pois, ao saltar de lado, atirei-lhe o chapéu com força à cara e, num ápice, tinha a minha mão direita na sua garganta. Ele espetou-me com a esquerda, e eu torci-me para o seu lado direito, pressionando o seu braço armado contra o seu corpo e enterrando os meus dedos na sua traqueia. Ouvi a sua espada cair e senti-o a tatear à procura de uma pistola. Ele era duro como um prego, e comecei a sonhar que ele me apanharia antes que eu o tivesse estrangulado.
Donald pôs fim ao assunto. Ele, fiel como um cão, veio a passos largos pela estrada atrás de mim. A lua ultrapassou as nuvens novamente. Ele viu-nos em lutas mortais e veio a correr com um grito. Enterrou o seu punhal na nuca do homem e torceu a lâmina no seu encaixe macabro. Um estalido seco e nauseante — e o homem caiu dos meus dedos como uma pedra. A lua escondeu-se novamente e ocultou-nos aquela coisa má.
"Está ferido?", perguntou Donald ansiosamente.
"Nem um arranhão!", respondi.
"Isso é bom! Levem-no para o fogo", acrescentou ele para três ou quatro homens que tinham corrido ao ouvir o seu grito. "Ele é inglês e, talvez, tenha bons despojos nele."
Ele inclinou-se, tão indiferente a um homem morto como a um veado morto, e limpou o seu punhal nas calças do homem. Depois, os homens, igualmente indiferentes, pegaram no corpo e partiram.
"Sabes quem é o sujeito?", perguntou Donald, enquanto caminhávamos atrás deles.
"Um certo sargento de dragões, ou um dos seus homens", respondi.
"Ele não te vai chatear mais", disse ele. "É uma boa maneira a minha, quando consigo ficar atrás de um homem. Já matei muitos bois assim, só para manter o hábito." E espetou o ar, torceu o pulso e estalou os dedos, deliciado.
Os homens despejaram o corpo perto do fogo. Um deles inclinou-se e ia pôr a mão no bolso do homem, mas retirou-a como se a tivesse enfiado por acaso nas chamas.
Então eu soube.
Já ouvi uma égua relinchar num estábulo a arder, mas nunca ouvi agonia em som como a que ouvi ali, no topo de Shap, quando Donald se atirou sobre o corpo morto do seu chefe e irmão de criação.
Há uma memória terna desta cena angustiante. Nem pelo olhar, palavra ou tom, Donald me atribuiu culpa ou responsabilidade. Recuperou-se em poucos minutos e, então, levantou-se e deu um breve comando em gaélico. Quatro homens impressionados estenderam um manto no chão, colocaram o corpo morto sobre ele e levaram-no para a cabana. Donald, gravemente silencioso, tirou as gaitas ao homem que estivera a tocar e seguiu-os. Descobri a cabeça e segui-o miseravelmente.
O corpo de Maclachlan jazia no chão da cabana. Os olhos estavam bem abertos, mas no seu rosto fino e sereno não havia vestígio da agonia e da paixão com que ele tinha partido para o seu Deus. Era como se, naquele último segundo terrível, alguma visão de beleza tivesse purificado a sua alma. Ajoelhei-me e fechei reverentemente os olhos fixos.
"Donald", disse eu, quando me levantei, "quisera Deus que tivesses matado a mim em vez dele."
"É o destino", disse ele solenemente, "e o destino tem de seguir o seu caminho."
Olhei para ele atentamente. Que ele estava atingido no coração era claro de ver, mas, passada a primeira onda de dor, tinha-se tornado sóbrio, firme, quase pragmático, como se tivesse algo grandioso em mãos para fazer, e estivesse a fazê-lo.
Ele pegou na vela, agora apenas do tamanho do meu dedo anelar, e colocou-a no estreito parapeito da janela. Novamente falou aos homens em gaélico, e eles saíram da cabana. Virando-se para mim, disse: "Entra quando a luz se apagar!"
Ele tinha o direito de estar sozinho com o seu morto. Apertei-lhe a mão e deixei-o. Quando olhei para trás da soleira da porta, ele estava a encher o seu saco de ar, mas parou para dizer: "O destino tem de seguir o seu caminho." E enquanto o dizia, sorriu.
atravessei a estrada até à borda da depressão. Mais madeira tinha sido empilhada no fogo, que agora ardia alegremente. A maioria dos homens jazia a dormir nos seus mantos, mas alguns faziam guarda aos cavalos, e os homens que tinham carregado o corpo para a cabana estavam agachados na erva à beira da estrada. Posicionei-me perto deles e olhei e ouvi.
A terrível semelhança do caso de Donald com o meu horrorizou-me. Cada um de nós, ao salvar outro, tinha abatido na escuridão um homem próximo e querido. Dois homens bons e leais tinham partido quando a ânsia de viver é mais doce e a vontade de viver mais forte. Eu, que há três semanas nunca tinha visto uma vida humana ser tirada, tinha-a tirado, e visto ser tirada, como se os homens não tivessem mais valor do que o gado. Entre a casa dos Hanyards e o topo de Shap, a Morte tinha-se tornado a minha familiar.
Por Maclachlan, eu não sentia senão pena. Ele tinha pensado que eu estava entre ele e Margaret. Claramente, ele tinha sabido do regresso dela para mim, e o pensamento enlouquecera-o. Ele tinha-se disfarçado de inglês e vindo atrás de mim, e este fora o fim.
Estes eram os meus pensamentos enquanto observava a chama tremeluzente a baixar cada vez mais para o parapeito da janela e ouvia as gaitas. Donald estava inspirado. Ele e as gaitas eram um só. Nas suas mãos, elas tornavam-se algo vivo. O que ele sentia, elas sentiam. Elas choravam como ele chorava, glorificavam como ele glorificava, triunfavam como ele triunfava.
Ele começou com um murmúrio de pesar que cresceu num lamento, tornou-se uma tempestade apaixonada e morreu num soluço prolongado. Então ele mudou a nota à medida que a memória vagueava para trás. A música tornou-se ternamente reminiscente, suavemente alegre. Eles eram novamente rapazes juntos nas suas brincadeiras, jovens caçadores a balançar pelas montanhas atrás do veado vermelho; jovens homens com as donzelas; guerreiros na sua primeira incursão. Os fios da vida corriam dentro e fora através do padrão de sons que ele tecia, e os dias mais antigos de lutas e vitórias seguiram-se enquanto eu ouvia. Havia pressa, marchas, ataques; o gemido da derrota; o grito insano da vitória final.
"Ele está a lutar contra os Macleans agora", gritou um dos homens, que sabia algum inglês, e os outros tagarelaram vigorosamente por um minuto no seu próprio gaélico.
A vela estava agora a escorrer no parapeito da janela. Estas glórias terminadas, Donald deu de frente com o fim de todas elas — o Chefe morto aos seus pés, morto pela sua própria mão. Por um tempo, ele vacilou, tocando apenas em pequenos fragmentos melancólicos. Depois, tornou-se mais seguro, e a música começou a vir em rajadas. Ele estava a ver o seu caminho, a aprender o que aquilo tudo significava para ele e para os Maclachlans. O destino tem de seguir o seu caminho. O destino deve cumprir-se. Nós, filhos de um dia, somos impotentes perante ele.
A chama caiu para uma gota dourada à medida que a música crescia em força e propósito. Houve uma explosão de luz, um repique de triunfo, e a música e a chama apagaram-se juntas.
Atravessei a estrada a correr, abri a porta e entrei de rompante. Tudo estava escuro e em silêncio.
"Donald!", chamei apaixonadamente.
Não houve resposta. Rastejei em bicos de pés até ao fogo e chutei as brasas para uma chama.
Donald estava deitado, morto, sobre o corpo do seu Chefe, com o seu punhal enterrado até ao punho no seu próprio coração.
* * * * *
Ao amanhecer, enterrámo-los lado a lado numa sepultura no topo de Shap, com os pés apontados para norte, para as suas próprias montanhas. Quando o último torrão foi reposto, e um grande pedregulho cuidadosamente transportado para marcar o local, virei-me, cobri a cabeça e preparei-me para partir, mas os homens ficaram parados. Olhei para trás. Eles estavam relutantes em partir. Algo que deveria ser feito tinha sido deixado por fazer.
Adivinhei o que eles tinham em mente, voltei atrás, descobri a cabeça à medida que eles se descobriam e repeti a Oração do Senhor em voz alta.
Sou grato até hoje àqueles homens que tolos e fanáticos chamam de selvagens. Ensinaram-me a rezar novamente.
"Homem Capitão", disse aquele que sabia inglês, enquanto nos afastávamos em grupo, "o senhor daria um grande ministro."
Não pude evitar um sorriso, mas antes que pudesse responder, houve um estalido disperso de tiros vindo da depressão. Olhando em volta, vi um corpo de cavalaria inimiga na colina mais baixa através do vale à minha esquerda.
Fomos alcançados. Teríamos de lutar.
CAPÍTULO XXIV
O MEU SENHOR BROCTON AUMENTA A SUA CONTA
No décimo dia do meu cativeiro, a esperança brilhou pela primeira vez. Quando um homem está fechado num quarto monótono durante dez dias, com cinquenta libras de ferro enferrujado a acorrentar os seus pulsos e tornozelos, com comida pobre, e pouca, para comer, pode extrair conforto de uma ninharia.
No meu caso, a ninharia foi um sorriso, o seu primeiro sorriso em dez dias. Até então, ela tinha estado tão mal-humorada como disforme, trazendo-me as minhas parcas refeições sem dizer uma palavra ou, no melhor dos casos, respondendo-me rispidamente e dizendo que eu recebia um tratamento muito melhor do que um rebelde merecia.
Ela nunca me disse o seu nome, e eu nunca o soube de nenhuma outra fonte, por isso 'ela' deve permanecer para mim e para a minha história. Teria talvez trinta anos, talvez um metro e cinquenta de altura, com a forma de uma morcela, com traços pétreos, mais do que feios, e olhos cruéis, como os de um gato. Odiei-a solenemente até ela me sorrir.
Ela era, suponho, a filha do meu carcereiro, ou serva, ou algo do género. Nunca soube, e a minha ignorância não importa. Ela trazia-me a comida, falava ou não falava, consoante o grau de vileza no seu humor predominante, e ia-se embora, deixando-me com os meus pensamentos e as minhas dolorosas passadas à volta da minha câmara de prisão.
A minha ignorância era ilimitada. Eu era um prisioneiro, e a minha prisão era um quarto numa quinta de tamanho considerável com paredes de pedra espessas. Onde ficava a casa, eu não tinha ideia, para além de que não poderia estar longe do lugar onde fui capturado, o qual, por sua vez, não poderia estar longe da cidade de Penrith. Havia uma janela na minha cela, cujo parapeito estava tão alto do chão quanto o meu queixo quando em pé. Mas eu nunca estava em pé, sendo preso numa cruz feita de ferro bom e sólido, imundo de ferrugem, e tendo braceletes nas pontas para os meus tornozelos e pulsos. Mantinha-me a um pé de distância do meu alongamento total. Eu conseguia colocar o olho na borda da janela e não mais longe, e então via muito céu e um pouco de charneca desolada que corria para uma colina de floresta austera.
Passei as minhas horas de vigília a pensar em Margaret e os outros a sonhar com ela. Agora era a minha oportunidade de aprender a viver sem ela de todo. Não seria por muito tempo. Eu estava nas garras do Duque, e ele não me deixaria ir até que a minha cabeça rolasse dos meus ombros. Se eu estivesse livre e com ela, teríamos estado mais afastados do que antes — pela largura da sepultura de Donald. Mas aqui, separados para sempre, com o cepo ou a forca logo à minha frente, não havia barreira para o meu amor solitário. Vez após vez, ela estava tão perto de mim, tão vividamente presente na minha imaginação, que eu estendia os braços para a agarrar. Os grilhões tilintavam, e eu amaldiçoava-me por ser um tolo, mas nunca me curei do hábito.
Porque este é o momento mais sombrio da minha vida, mergulhei diretamente no meio dele para acabar com isso. E, de facto, há pouco que valha a pena contar entre o topo de Shap e o seu sorriso. Eu estava na cadeia porque não era soldado. Isso, aparentemente, deveria ser óbvio, e se eu tivesse tido problemas com algum trabalho militar importante, ninguém teria ficado surpreendido e eu não teria tido a culpa. Irrita-me, no entanto, ter de confessar que fui muito propriamente apanhado, encarcerado e acorrentado por não saber o que era um dragão. Um homem deveria saber isso depois de ser capitão de uma tropa dos melhores durante uma quinzena, mas eu não sabia. Sendo todo pela lógica, a coisa menos útil na vida, eu tinha chegado à conclusão de que um soldado a cavalo é um soldado-cavalo. Assim o é, exceto quando é um dragão, como descobri à minha custa. Se o ousado Turnus ou o senhor "Exemplo de Propriedade" Eneias tivessem chegado à ideia do dragão, eu saberia tudo sobre isso, porque estaria em Virgílio. Mesmo o Mestre tem as suas deficiências.
O meu Lorde George Murray elegeu lutar em Clifton, um lugar defensável entre Shap e Penrith. Logo a sul da ponte, a estrada corria da charneca para os arredores da aldeia, com um muro de pedra de um lado e uma sebe alta do outro. Os recintos de ambos os lados estavam cheios de clãs, e as nossas alas estendiam-se para lá na charneca, aqui dissecada em campos pobres por sebes irregulares.
O Coronel, o homem mais feliz de Inglaterra naquele dia, tinha-me colocado do outro lado da estrada, logo na charneca, pronto para galopar de volta imediatamente com notícias da aproximação do inimigo. Estava agora bastante escuro, exceto quando a lua cavalgava livre das densas manchas de nuvens que enchiam o céu. Num desses vislumbres de luz, avistei vários corpos de cavalaria na charneca a leste da estrada. O regimento mais próximo de mim virou à esquerda e trotou obliquamente através da estrada. A sua direção tornava o seu propósito claro. Estava a sentir o caminho através da nossa frente para o nosso flanco a oeste da aldeia. Galopei de volta imediatamente para informar.
"Bom rapaz!", disse o Coronel, oferecendo-me a sua tabaqueira. "É exatamente o que queremos que eles façam. Vão para onde há um banquete para vocês! Bela arte militar essa! O duque tolo deveria expulsar-nos para o aberto com os seus canhões. Espero que desfrutes da tua primeira luta, Oliver! É um jogo glorioso. O problema é que os contadores são muito caros. Boa sorte, meu caro rapaz!"
Voltei para os meus homens que tinha deixado no caminho coberto entre o muro e a sebe. Sendo claro que a localização exata do regimento que eu tinha observado particularmente era de grande consequência, montei novamente com um par de homens, a pedido de um dos chefes, para ver se conseguia perceber o que estava a acontecer. Não havia rasto dele. Deveria já estar visível à minha direita, estando a lua fora novamente, mas não havia um único rasto dele. Eu podia ver a linha de uma sebe e, para além dela, outra. Os outros regimentos não tinham avançado e este tinha desaparecido.
Perplexo, parei os meus homens, virei a cabeça do alazão e trotei lentamente em direção à sebe mais próxima. Então descobri que dragões são soldados-cavalo que lutam a pé, atrás de sebes, por escolha. Meia dúzia de carabinas soaram, o alazão tombou e, embora eu tenha escapado às balas e saltado para fora do meu cavalo, fui atacado por um grupo de homens e puxado ignobilmente através da sebe. Fiz tudo o que era possível fazer, mas eles enxamearam sobre mim como formigas, derrubaram-me pelo peso dos números e sentaram-se em cima de mim.
"É ele, com certeza", ouvi um deles dizer. "Tragam o sargento! Há um pouco de gordura nisto, rapazes!"
Um minuto depois, fui puxado para os meus pés. Um rosto queimado, com um nariz de massa, espreitava alegremente para o meu.
"Apanhei-te, por Deus!", disse ele.
Tinha sido capturado pelos dragões de Brocton. Agora chegaríamos aos pontos.
Sem mais uma palavra para mim, e após uma ordem selvagem aos homens para verem que eu não escapava sob pena das suas vidas, ele foi-se embora e foi buscar a sua senhoria. Voltaram a correr juntos como se o maior evento imaginável tivesse acontecido.
"Ah! Mestre Wheatman", gritou o meu lorde muito alegremente, "isto é, de facto, um espetáculo para olhos doridos."
"Certamente", disse eu, "os da vossa senhoria estavam bastante mal da última vez que os vi."
Ele não retorquiu, estando na verdade demasiado excitado para notar picadelas, mas ordenou ao sargento que me levasse para a retaguarda sob uma guarda forte. "Certifiquem-se dele!", gritou ele, e acrescentou num tom mais baixo, enquanto eu me afastava sob o puxão e empurrão combinados dos meus captores: "Certifiquem-se disso." Depois, partiu para o seu próprio lugar na linha.
O sargento não veio connosco, e eu tinha sido arrastado quase até à segunda sebe antes de ele nos alcançar. Para meu espanto, ele trazia a minha sela na cabeça, onde, na luz ténue, parecia uma touca gigantesca. Ele praguejou contra os homens pela lentidão, e seguimos para a segunda sebe. Alcançámo-la num ponto onde não havia portão nem abertura, mas os dragões derrubaram-na com as suas carabinas e pisotearam-na com as suas botas, abrindo assim um caminho.
Dois dos homens já tinham passado, e eu estava a ser puxado através da sebe, quando houve uma saraivada de tiros vindos de trás. Sobre o ruído, uma voz estentórica gritou: "Claymores!" Era o grito de guerra das Highlands e, com berros reverberantes, os clãs jorraram do recinto mais próximo para atacar os dragões que ladeavam a sebe.
O sargento desembainhou a espada e, enquanto corríamos novamente, golpeou ferozmente com o lado plano da mesma os seus homens para os fazer correr mais depressa. Uma figura estranha que ele formava ao luar enquanto corria, praguejando e golpeando, com as abas da sela a baterem contra as suas costelas magras. Finalmente, saímos para uma estrada pobre, ladeada de árvores, e virámos para sul ao longo dela. Havia uma necessidade urgente de ele se apressar agora, pois os dragões de Brocton tinham sido cortados da sua cobertura e estavam a ser empurrados de volta para a sebe que tínhamos acabado de deixar. O sargento parou um momento para avaliar a situação, e depois apressámo-nos de novo. Cada vez que ele golpeava um homem por correr com preguiça, o homem, por sua vez, pagava-me com socos ou pontapés. Após cerca de uma milha, a alameda fez uma curva abrupta para leste e levou-nos à estrada principal, na retaguarda do exército do Duque.
A lua mostrou-nos uma pequena casa de campo, afastada da estrada, num terreno pobre. O sargento liderou o caminho até lá, expulsou o camponês e a sua família para um barracão e colocou dois homens lá fora como sentinelas. Depois, fez com que os outros me despiam até à pele e examinou cada pedaço de roupa, rasgando os forros e até cortando as minhas botas em pedaços. Não encontrando nada, atirou-me os trapos para vestir de novo e depois cortou a sela em pedaços e revistou-a. Sabia agora por que razão William quase perdera o seu vail e Donald fora obrigado a roubar-me outra sela. O sargento queria a carta e os papéis que eu lhe tinha tirado no "Ring of Bells". Estava tão empenhado que se esqueceu de confiscar qualquer dos meus pertences, e mantive o meu dinheiro, o relógio de Donald e a inestimável tira de linho manchada de sangue. A minha espada curta e pistolas foram naturalmente tiradas de mim quando fui capturado.
"Alguma sorte?", perguntei jocosamente, quando ele finalmente desistiu da busca.
Demasiado furioso ou demasiado cauteloso para responder, ele pontapeou brutalmente um dragão que apanhou a sorrir.
Após uma arrastada miserável de cerca de duas horas, um novo dragão veio com uma mensagem, após o que o sargento conduziu-me à presença do Duque, que estava alojado numa casa grande na aldeia. O Lorde Brocton, o Lorde Mark Kerr e outros oficiais estavam com ele, e também várias senhoras que estariam mais à vontade em Vauxhall. Por um ou dois minutos fui ignorado, e o sargento dificilmente conseguia manter-se suficientemente rígido e desajeitado. Sua Graça estava do pior humor possível pois, como a conversa mostrava, tinha sido derrotado. As claymores tinham-lhe retirado o orgulho de forma esplêndida. Ele terminou o assunto com uma série de juramentos e depois fez uma pergunta imprópria a Brocton sobre mim. As senhoras riram-se profusamente, e a mais empoada jurou que Sua Graça era um grande brincalhão. Como prova adicional disso, ele arrancou uma pena de quase um metro do seu pompom e abanou-se com ela enquanto me examinava.
Esta jocosidade ducal deu-me tempo para observar que o desconforto do sargento era frieza gelada em comparação com a de sua senhoria. Ele era incerto no discurso; o seu rosto tinha a cor de sopa de ervilhas; olhava ansiosamente, quase aterrorizado, para mim. Ele ficou visivelmente mais confortável quando o Duque não conseguiu obter qualquer informação de mim para além do facto de que o tempo estava frio. Finalmente, quando o sargento recebeu ordens para me manter sob sua responsabilidade até ao momento em que eu pudesse ser alojado na prisão de Carlisle, Brocton bebeu avidamente um copo de vinho e riu-se alto de alguma tirada vulgar de uma senhora num vestido de seda verde. Ao sair, fiz uma vénia ao Duque. Ele era um homem vigoroso e capaz, com as maneiras e a moral de um touro.
Brocton seguiu o sargento para fora. Houve uma consulta entre eles da qual não ouvi nada, mas o resultado foi que o sargento escolheu um homem como guia que estava à espera na porta da frente, obviamente com esse propósito, e levou-me através da aldeia e para além dela até uma casa à beira da estrada. O local era de tamanho razoável, construído com placas de pedra bruta, e evidentemente uma quinta. O proprietário era um sujeito pesado e desajeitado, surpreendentemente de pernas arqueadas. Tinha um cãozinho rafeiro, que saltava para trás e para a frente entre os seus joelhos como um cão de circo através de um arco.
Tinham sido feitos preparativos para a minha chegada, "pela sua senhoria", como o agricultor deixou escapar. Fui levado para cima, para um quarto das traseiras, acorrentado, da maneira que descrevi, pelo agente da paróquia, que tinha sido solicitado para o trabalho, e trancado na escuridão. Ouvi uma sentinela posicionada fora da porta e outra debaixo da janela. Foi algum consolo, e precisei de tudo o que pude obter, saber que era tão valioso. Havia uma cama rudimentar no quarto. Deitei-me nela, perguntei-me por alguns minutos o que Margaret pensaria de tudo aquilo, e depois adormeci.
Na manhã seguinte, conheci-a na medida em que ela me trouxe um jarro de cerveja fraca, um pedaço de pão de cavalo e uma fatia de queijo. O seu aspeto congelou a minha afabilidade, mas ela só se torna importante quando sorriu, e não preciso de dizer mais nada sobre ela de momento.
Não vi mais ninguém até ao cair da noite do terceiro dia, quando a porta se abriu e o cãozinho saltou através da sua habitual fenda para dentro do quarto, sendo seguido pelo seu dono, que trazia uma vela de sebo acesa num castiçal de ferro enferrujado. Isto significava algo de invulgar, uma vez que não me era permitido ter luz, e acabou por ser uma visita do meu Lorde Brocton. Ele ordenou à sentinela que seguisse o agricultor escada abaixo, e examinou a porta cuidadosamente para ver se estava bem fechada. Sentei-me na beira da cama e cantarolei uma ária viva com uma bela pretensão de indiferença.
Ele sentou-se na única cadeira que ali havia, colocou o chapéu sobre a mesa e disse: "Lamento vê-lo neste lugar e condição, Sr. Wheatman."
"Obrigado", disse eu.
"Naturalmente, sabe que só há um fim para isto."
"Sim", respondi, e cantarolei um verso de "Lillibullero".
Ele inclinou-se para a frente e disse de forma impressionante: "A forca, Sr. Wheatman!"
"Locais com correntes de ar!", disse eu, sorrindo, enquanto pensava em Nance Lousely. "Consigo sentir o vento a assobiar através dos meus ossos."
"O senhor gosta de ser faceto. Isso dá crédito, devo dizer, aos seus nervos."
"O senhor gosta de ser compreensivo, meu lorde", ripostei, "pelo que não dá crédito nenhum ao meu bom senso."
Ele respirou fundo e refletiu por um minuto ou dois, durante os quais fiz tilintar suavemente as minhas algemas de ferro e olhei para ele com alegria. Ele estava ali — um pequeno lorde livre, eu estava ali — um rebelde acorrentado, mas eu tinha-o apanhado.
"Tenho uma proposta a fazer-lhe, Sr. Wheatman", disse ele a dada altura.
"Sinto-me deveras honrado, mas tenha cuidado, meu lorde! Receio que não seja, de todo, uma proposta que gostaria que a sentinela debaixo da janela ouvisse."
"O senhor é direto e franco", disse ele, inclinando-se para a frente e falando num tom baixo, "e eu serei o mesmo. Devolva-me todos os papéis que tirou ao meu sargento no 'Ring of Bells', e eu farei com que escape e saia do país."
"Os diferentes fins pessoais para os quais está ansioso por se tornar um traidor parecem inumeráveis, meu lorde!"
Ele recebeu o escárnio como se fosse um toque de palha, e apenas disse: "É um negócio?"
"Não é", respondi enfaticamente.
Se a sua vida, em vez das suas terras, dependesse da recuperação da carta, ele não poderia estar mais ansioso. Durante muito tempo, implorou e lutou comigo; argumentando, intimidando, suplicando, ameaçando, alternadamente, mas sem resultado. Eu não voltaria atrás na minha palavra casual ao Mestre Freake. A carta era importante para ele, e ele salvaria Margaret e o Coronel, e a mim também, quando a inevitável hora da necessidade chegasse finalmente. O dinheiro era poder, e as terras eram mais do que dinheiro. Acres significavam votos, e com votos ao seu comando, tinha ministros à sua disposição. Eu tinha a certeza quanto ao Mestre Freake. Porquê preocupar-me com o meu lorde Brocton?
Finalmente, ele jogou a sua última cartada. "O senhor terá as Upper Hanyards de volta, Mestre Wheatman", balbuciou ele.
O conde patife, o seu pai, tinha manobrado mais de mil acres das Hanyards, tirando-as ao meu pai através de algum processo jurídico bolorento e um tribunal venal. A referência irritou-me, e gritei bem alto: "Não as terá de volta a nenhum preço!"
Ele olhou para a janela e empalideceu ao pensar nos ouvidos sentinelas do lado de fora. Depois partiu, vomitando maldições.
Uma semana depois, nesse dia, ela trouxe-me uma empada de pastor para o jantar, muito bem feita, aliás, e uma caneca de cerveja não totalmente indigna do nome. Ela pousou-as, olhou para mim de forma algo feminina e sorriu. Era uma promessa e os frutos seguiriam. Qualquer mudança seria bem-vinda. Eu estava esfarrapado, sujo, esfolado, acanhado e barbudo com uma barba ruiva por fazer. Ela chamou-me 'Cenouras' em tom de escárnio.
Eu tinha razão. Ao anoitecer, ela trouxe-me uma chávena de chá e, quando a levantei da mesa para beber, havia por baixo um papel dobrado como uma carta.
Estabilizei-me, bebi o meu chá com apenas uma pressa moderada e depois, cautelosamente, escondi o meu tesouro na palma da mão e caminhei até à janela. De costas para a porta, para que a sentinela, que tinha o hábito de espreitar para me ver, não me apanhasse desprevenido, abri o papel. Era uma carta. Foi escrita por uma mulher. A mulher era Margaret.
"Será levado amanhã para Carlisle. No caminho, amigos irão resgatá-lo e trazê-lo até mim. Não tema nada, não diga nada, e tudo ficará bem. Até amanhã, querido Oliver. Destrua isto. MARG. W."
Custou-me imenso destruir esta preciosa missiva. Escondi-me no canto e beijei-a vorazmente cem vezes. Como a pena tinha sulcado de forma reta e verdadeira o papel! Era exatamente a letra que eu esperava dela, a descrição resoluta da sua doce e resoluta pessoa. Nem o problema de a destruir era fácil de resolver, uma vez que não tinha lume e não havia esconderijo seguro acessível às minhas mãos acorrentadas. Dominei a dificuldade heroicamente, comendo a carta com o meu pão e manteiga.
Foi ainda mais difícil fingir estar aborrecido e lento com tal turbilhão de pensamentos felizes na minha mente. Eu era o seu "querido Oliver", suficientemente querido para a fazer arriscar a sua própria vida para salvar a minha. Que ela planeasse sabiamente e executasse rapidamente, não havia sombra de dúvida. Amanhã, a esta hora, estaríamos juntos novamente.
A noite arrastou-se até ao fim, e o primeiro brilho do amanhecer encontrou-me alerta e esperançoso. Ela trouxe o meu pequeno-almoço habitual à hora habitual e sorriu de novo, mas colocou o dedo nos lábios para me avisar para estar silencioso e cuidadoso.
Ela desceu as escadas e, deixado a sós novamente, fiquei furioso ao pensar que Margaret me veria assim, um verdadeiro homem selvagem da floresta — *quantum mutatus ab illo Hectare*. Mas os meus delírios cessaram ao som de preparativos lá fora. O meu quarto ficava nas traseiras da casa, mas ouvi o barulho de rodas, o bater de cascos e o praguejar áspero do sargento. Pouco depois, ele subiu ruidosamente, entrou no meu quarto e ordenou-me, secamente, que descesse.
Segui-o alegremente. Por mais que tentasse, não conseguia esconder a minha alegria e, vendo que ele a notava, disse como explicação: "Qualquer coisa para uma mudança, sargento!"
"Vais desejar estar de volta aqui bem depressa, maldito sejas!", rosnou ele. "Vamos esticar-te o pescoço até que os olhos te saltem, seu porco!"
"Sua querida, boa e cristã alma!", respondi com um sorriso forçado.
Como resposta, ele pontapeou-me selvaticamente e depois empurrou-me escada abaixo, para fora da casa e para a estrada. Ali, uma carruagem de dois cavalos estava à espera, com dois dragões e um cabo à frente e mais dois atrás. Um dos homens da retaguarda segurava um cavalo e, para meu aborrecimento, o sargento entrou na carruagem atrás de mim, gritou uma ordem e o nosso grupo partiu.
Tropecei num canto e sentei-me encolhido, esforçando-me por olhar para a frente para apanhar o que estava para vir. A informação de Margaret estava claramente correta. Seguimos pela estrada para norte, passámos por Penrith sem parar, e saímos de novo, ainda na estrada principal, prova de que Carlisle seria o nosso destino. A cidade estava obviamente agora sob o poder do Duque.
Milha após milha, avançámos rapidamente, e a cada curva e cruzamento eu espreitava à frente e em volta com o coração na boca. Um ponto a meu favor era a natureza desolada do país, exatamente adequada para tal estratagema como o que estava em curso. À direita, o céu sombrio estava obscurecido por massas irregulares de colinas ainda mais sombrias. À esquerda, a paisagem variava entre o plano e o planalto, mas não era menos convidativa.
"Onde pensas que vais?", perguntou o sargento, sacudindo-me com o seu salto com esporas para me fazer olhar para ele.
"Não faço ideia", disse eu.
"Maldito sejas. Gostava que soubesses", rosnou ele viciosamente, e virei-me para sorrir.
Passámos por uma aldeia cheia de carroças de bagagem do Duque e bastante cheia de soldados. Isto arrefeceu o meu espírito um pouco, pois parecia que estávamos prestes a entrar na retaguarda do exército Real. Fora da aldeia, contudo, voltámos a ter a estrada para nós mesmos e, uma milha mais à frente, reduzimos para um passo para subir uma longa inclinação.
Sempre que a estrada fazia uma curva para o meu lado, eu via o cabo e os seus dois homens a cavalo a cinquenta ou cem metros à nossa frente. Não muito acima da encosta, encontrámos uma quinta que ficava logo à beira da estrada. No pátio havia cerca de trinta cabeças de gado preto e felpudo, do tipo do norte, raramente visto nas nossas paragens e, portanto, atraente para o olho de um agricultor. Um trabalhador agrícola debruçado sobre o portão teve uma conversa ruidosa com os dragões enquanto passavam, e gritou as suas notícias para um grupo de homens que comiam sob um alpendre. Era um lugar demasiado pobre para sustentar tantos homens, pois a esposa do agricultor, que veio à porta da cozinha para ver o que era aquele barulho, não tinha melhor aspeto do que a esposa de um rústico entre nós. Os meus olhos estavam postos nela, curiosamente, quando o homem no portão saltou e abriu-o mesmo à frente dos focinhos dos nossos cavalos.
Num abrir e fechar de olhos, toda a cena mudou. Os homens sob o alpendre correram para fora, caíram sobre o gado, bateram-lhes impiedosamente com grandes bastões, gritaram-lhes como maníacos e conduziram-nos numa massa empurrada, a mugir, enlouquecida, para a estrada, que aqui tinha um muro de pedra do lado oposto à quinta. Quando a torrente estava bem a decorrer, dois dos supostos rústicos agarraram em carabinas, subiram ao alpendre e abriram fogo sobre os dragões na nossa retaguarda.
A mão mestra do Coronel estava nisto, sem dúvida. Com uma maldição alta, o sargento, que estava do lado oposto à quinta, abriu a porta e preparava-se para saltar. Ele lembrou-se e voltou-se a meio, com uma mão na porta e um pé no estribo, para lançar um olhar de pergunta maligna para mim. Esse meio-giro foi a sua perdição. Parte da torrente viva e lutadora de gado foi empurrada na nossa direção e passou a correr. Uma besta empurrou a porta, abrindo-a mesmo quando ele me encarava, e atirou-o para fora. Enquanto ele se contorcia na queda, outra enterrou os seus chifres afiados nele, sacudiu-o e girou-o novamente como um terrier a brincar com um rato. A retaguarda virou as costas e fugiu. A vanguarda tinha sido simplesmente varrida da cena, e vi-os a esporar subida acima com o gado a surgir atrás deles. O plano tinha sido pensado ao detalhe e funcionara na perfeição. Eu estava livre, livre para Margaret. Sentei-me de novo, atordoado e feliz.
Os meus salvadores não prestaram atenção a mim, mas correram estrada abaixo em grupo e ficaram à volta do sargento. Após alguma conversa excitada, levaram-no de volta, chamaram-me para ajudar e enfiaram-no na carruagem, onde ficou encolhido no banco à minha frente. Sem sequer uma palavra para mim, o comandante tirou o nosso cocheiro da boleia, ordenou que um homem subisse para o seu lugar, subiu atrás dele e disse brevemente: "Vai como o diabo!"
A carruagem virou para um caminho acidentado que corria para leste a partir da estrada principal, em frente à quinta, deixando a maioria dos meus salvadores parados, incertos, num grupo. O condutor fustigou os seus cavalos selvaticamente com o chicote, e partimos a galope cerrado. O solavanco atirava-me de um lado para o outro na carruagem, e tive trabalho árduo, acorrentado como estava, para manter o sargento no banco. Ele ainda estava vivo, embora tão horrivelmente ferido que a morte só podia ser uma questão de minutos. Para onde íamos e por que razão o levavam connosco eram perguntas com as quais era inútil preocupar-se. Margaret explicaria tudo quando nos encontrássemos. Eu pouco podia perceber dos homens que me tinham resgatado. Claramente não eram trabalhadores agrícolas, pois estavam bem armados; as armas que tinha visto pareciam-me carabinas militares, e tinham realizado o seu negócio de forma rápida e inteligente.
Ouvi os homens na boleia a falar, mas o seu discurso era apenas sobre a estrada e a velocidade. O campo tornou-se mais acidentado e selvagem; as colinas distantes estavam a perder os seus contornos claros e ondulantes, tornando-se vizinhas e obstáculos. Os cavalos eram fustigados impiedosamente, mas por vezes nem o chicote bem aplicado conseguia tirar mais do que um rastejar deles.
O fim do sargento estava próximo. Ele recuperou, como os homens costumam fazer antes de porem o pé no rio negro, e olhou para mim sem reconhecer. Fechou os olhos novamente e começou a contorcer-se e a murmurar palavras estranhas. De repente, gritou claramente: "Malditos porcos! Outra cunha, seu covarde maldito!" Ele olhou para mim novamente e, desta vez, percebeu quem eu era, e amaldiçoou de forma repugnante na sua deceção.
"Sabes para onde vais?", terminou ele, olhando de forma perversa.
"Não", disse eu.
"Maldito sejas! Gostava que soubesses!" Ele gurgulou isto quase jocosamente, como se fosse um bocado de humor favorito.
"Sabes para onde vais?", perguntei solenemente.
"Para o inferno", gritou ele, e, após um jorro de sangue que me salpicou enquanto me debruçava sobre ele, partiu.
A carruagem parou e, antes que eu pudesse levantar-me para ver porquê, a porta foi aberta e alguém lá fora disse educadamente: "Isto é, de facto, um prazer, Mestre Wheatman!"
Era o meu lorde Brocton.
Seria insensatez fingir que não fiquei profundamente abalado, e apenas posso esperar não ter dado expressão externa a um décimo do desgosto e consternação que me possuíam. Tendo recebido ordens para tal, saí da carruagem sem uma palavra e olhei em volta.
A estrada acidentada ao longo da qual vínhamos viajando prosseguia através de uma fenda nas colinas. Onde estávamos, um caminho de servidão separava-se dela num ângulo agudo e dirigia-se para as encostas mais baixas da região montanhosa. Era um local desolado e lúgubre onde, como eu suspeitava, o mandato real não tinha efeito e onde, por conseguinte, um homem poderia ser morto com toda a conveniência. O Mestre Freake seria inútil para mim agora, e o meu principal inimigo tinha-me à sua mercê.
Não houve demora. Colocaram-me uma capa comprida, disposta de modo a esconder os meus grilhões, e fui içado para um cavalo de reserva, conduzido por um dos recém-chegados. A perícia com que o caso fora planeado ficou patente pelo facto de este cavalo, para acomodar as minhas pernas acorrentadas, ter sido selado como para uma senhora.
"Sabe exatamente o que fazer?", perguntou o seu senhor aos homens da carruagem.
"Sim, meu lorde", disse um deles, "mas e quanto a..." Ele terminou a frase com um movimento do polegar em direção ao sargento morto.
"Deixem-no aí! Pelo céu, Mestre Wheatman, não é esse um toque de verdadeiro artista?"
"A chave destas coisas está no bolso das calças dele", disse eu, falando pela primeira vez e agitando os meus grilhões enquanto o fazia.
"Tira-a, Tomlins!"
O homem que fizera a pergunta desceu e obedeceu à ordem com a insensibilidade de um cão a cheirar um coelho morto. Então, os nossos grupos separaram-se. A carruagem continuou pela estrada principal, se é que assim se pode chamar, e nós seguimos pelo caminho. Olhei curiosamente para a carruagem, imaginando para onde se dirigia e com que objetivo.
"Mais arte", disse o seu senhor. "Uma carruagem é algo visível, rastreável, e desviará toda a gente do rasto. Estou contente por o rufião estar morto. Sabia demasiado sobre os meus negócios."
Enquanto cavalgávamos para os ermos intermináveis, ele provocou-me alegremente, mas logo se cansou do meu mau humor.
"A sua chegada fará um quadro comovente", disse ele zombeteiramente aos seus homens. Estava febrilmente excitado e tinha de gabar-se a alguém. "Nenhuma donzela dócil para correr para os seus braços ansiosos! Ele deve ser abraçado, contudo, meus mestres, se necessário for."
O que esta ameaça obscura poderia pressagiar, eu não conseguia vislumbrar, mas afinava pela crueza delirante do sargento morto. As ameaças para o futuro não importavam, sendo o presente tão insuportável. Um homem na posição de Brocton devia estar em grandes apuros para se tornar traidor desta forma estranha. Ele tinha-me "resgatado" com os seus próprios homens e, lorde ou não, seria enforcado por isso se fosse do conhecimento de um amante da forca como a Graça do Duque de Cumberland. Sobre o que seria, afinal, a carta? O Mestre Freake mencionara claramente terras e, portanto, terras teria de ser, embora nada menos do que todas as propriedades de Ridgeley pudesse estar em causa. Os mil e mais acres das Upper Hanyards, prados doces que se estendiam por uma milha ao longo do rio e um pedaço de reserva na sua forma mais selvagem e adorável, o prémio que tinha cabido ao conde canalha no grande processo judicial, tinham-me sido prometidos tão prontamente como uma pitada de rapé. Deleitei-me com a vingança que estava a obter para a minha linhagem, uma linhagem enraizada naquelas queridas Hanyards um século antes de se ouvir falar dos Ridgeleys, pois o primeiro conde, o avô do velho patife, começou como um obscuro proxeneta de Carlos II, e foi enriquecido e enobrecido pela sua assiduidade.
Contudo, nenhum orgulho familiar me podia animar por muito tempo. A paisagem morta ao redor gelava-me. A maior miséria era lembrar a esperança com que eu tinha começado aquela manhã. Margaret era o destino imaginado da minha viagem, e o fim real era este! Tive de morder os lábios até sentir o fio de sangue nos restolhos do meu queixo para conter insultos indignos.
Por fim, saímos para o que era, por comparação, uma estrada feita, e agora o seu senhor tornou-se claramente ansioso e macilento. Cavalgámos loucamente ao longo dela, de modo que, montado acorrentado e à moda feminina, tive dificuldade em manter-me na sela. A cabeça de Brocton virava-se incessantemente para ver se éramos observados, mas a sua sorte era absoluta. Não vimos ninguém na estrada e, após um trecho difícil, subimos uma ravina à nossa esquerda e ficámos mais uma vez enterrados entre as colinas.
Após muitas curvas e voltas, avistámos uma pequena casa de pedra cinzenta que, pela sua aparência e situação, julguei ser um pavilhão de caça de algum cavalheiro. Cortámos através do vale, numa das encostas onde se situava, e vislumbrei telhados de casas de campo para além dela. Demos a volta para as traseiras da casa e, num grupo favorável de árvores, o seu senhor ordenou uma paragem. Os cavalos foram atados, fui retirado da sela e as argolas à volta dos meus tornozelos foram abertas. Os homens pegaram numa cada um e levaram as suas carabinas nas mãos livres. Brocton desembainhou a sua espada e disse: "Avante! Faça um som, mostre o menor sinal de resistência, e atravesso-o."
Não fazia sentido desobedecer, e acomodei-me ao seu desígnio, que era claramente entrar na casa sem ser observado do exterior. Nisso foi bem-sucedido, ou, de qualquer modo, não vi ninguém durante a nossa passagem furtiva de um ponto de vantagem para outro até à entrada das traseiras. Agora o seu senhor saltou alegremente de trás de mim e abriu a porta. Entrou suavemente, e fui empurrado atrás dele pelos seus dragões.
"'Amigos resgatar-te-ão e levar-te-ão até mim'", citou ele, escarnecendo de mim. "Não há Margaret para ti, Agricultor Wheatman. Hei de tê-la ainda!" Então, besta como era, enquanto os homens me seguravam, quase arrancando os meus braços das órbitas, cravou a ponta da sua espada sobre o meu coração e balbuciou obscenidades meio delirantes.
Estávamos numa cozinha grande e despida, cuja outra porta estava fechada. Não havia sinal de ninguém, e Brocton, ainda com a espada pronta para mim, gritou: "Onde estás, sua velha bruxa?"
A porta abriu-se de imediato. Brocton deixou cair a espada no seu susto e eu coloquei o pé sobre ela. Os dois homens fugiram como coelhos. Por mais familiar que seja o quadro na minha mente, é difícil encontrar palavras para descrever este momento culminante das minhas aventuras.
Margaret entrou na sala.
Por um segundo, teve a intenção de correr para mim, mas pensou melhor e dirigiu-se ao seu senhor. Ela elevava-se sobre a sua figura flácida e encolhida, e disse friamente: "És um cão demasiado vil para ser atingido por uma mulher, ou eu bater-te-ia."
Ela não estava sozinha. O Mestre Freake estava agora a apertar as minhas mãos acorrentadas com deleite, e um homem pequeno e ágil, que reconheci à primeira vista como sendo Dot Gibson, estava a revistar os bolsos do seu senhor, que não oferecia resistência, à procura da chave dos ferros. Um minuto depois, atirou-os ao chão e disse: "E como se sente, senhor?"
Não há mais nada a dizer sobre Brocton. Ele estava praticamente morto para o resto do assunto, e ninguém lhe ligava mais do que se fosse um inseto repugnante que o pé de um homem tivesse esmagado. E o que o matou foi a presença de um terceiro homem, um perfeito desconhecido para mim. Era um homem de aspeto envelhecido, mais do que um velho, com olhos remelentos que olhavam através de fendas estreitas, e um nariz grande e disforme; a pele do seu rosto era castanha e enrugada como uma bexiga seca; toda a sua aparência como homem era mesquinha e vil. A distinção que tinha era-lhe dada por roupas luxuosas e pela assistência de um asno pomposo numa libré flamejante. Contudo, Brocton não ousou olhar para ele novamente, enquanto se arrastava para a frente, apoiado no braço do seu homem, para falar com o Mestre Freake.
"Sr. Freake", piou ele, colocando uma mão suplicante no braço do mercador, "não será demasiado duro com o meu filho tolo?"
Era o velho conde patife de Ridgeley. Eu não o via desde o julgamento, quando eu ainda era um rapaz. Entretanto, o vício corrompera nele qualquer hombridade que alguma vez tivesse existido. A patifaria ainda estava estampada nele, mas agora encontrava-se num estado de terror abjeto. Ele e o seu filho eram, de facto, como Jane diz até hoje, dois para um par.
"Os vossos lordes terão a gentileza de me esperar na sala ali adiante", disse o Mestre Freake, no seu tom grave e decisivo, "e eu dir-lhes-ei a minha vontade sobre o assunto."
Ele fez uma vénia irónica em direção à porta. Os seus senhorios desonrados retiraram-se juntos, e ele seguiu-os e fechou a porta atrás de si. Dot, sensatamente, afastou o lacaio, e assim ficámos sozinhos.
Como sempre, recebi a minha recompensa plena. Ela voltou-se para mim, pegou nas minhas mãos nas dela e sussurrou: "Meu esplêndido Oliver!"
"O quê, senhora?", disse eu, rindo para não fazer de outra forma e de modo bastante impróprio. "Com uma barba ruiva?"
"Pareces um cossaco!", declarou ela, rindo-se por sua vez.
Assim, à nossa maneira, mantivemo-nos à distância um do outro e voltámos imediatamente à nossa antiga base.
Então, pouco a pouco, e de má vontade, e principalmente em resposta às minhas perguntas, ela contou uma história que fez o meu coração saltar dentro de mim. Este é apenas o seu esqueleto, pois não tenho perícia para dar corpo e alma a tal devoção.
O Coronel trouxe a notícia da minha captura por Brocton, reunida a partir dos relatos dos meus homens, que regressaram ilesos, e de um dos dragões de Brocton que foi, por sorte, feito prisioneiro para ser interrogado. Margaret partira imediatamente a cavalo para Londres, com um criado inglês a acompanhá-la, indo por Appleby para evitar o exército do Duque, e através das montanhas para Darlington. Lá, viajara em correio rápido pela grande estrada do norte, chegando a Londres cinco dias e treze horas após a sua partida de Penrith.
O Mestre Freake partira de volta com ela nas cinco horas seguintes à sua chegada. Viajaram em correio através de Leicester e Derby, e depois sobre terreno que era familiar. Não admira que eu a tivesse achado perto, uma vez que ela passara a cinquenta passos de mim enquanto eu vagueava sonhando com ela. Parte das cinco horas de atraso em Londres fora ocupada por uma visita feita pelo Mestre Freake ao Conde de Ridgeley. Ele partira firme e resoluto. O que tinha acontecido, ela não sabia, mas à medida que corriam para o norte, o Conde corria para o norte uma milha atrás deles, como se estivessem a arrastá-lo pelas cordas do coração. Em Carlisle, agora nas mãos do Duque, falharam, pois Brocton estava inexplicavelmente ausente do serviço militar. Felizmente, Margaret, da janela do seu quarto, viu o sargento passar a cavalo. Dot foi enviado no seu encalço e soube que Brocton estava ali, sendo a casa um pavilhão de caça pertencente a um comparsa seu que era oficial na milícia de Cumberland. Eles tinham cavalgado naquela manhã para vê-lo, ponto em que a sua história se ligou à minha e terminou.
"Estou-lhe muito grato, Margaret", disse eu, muito desajeitadamente, deixando escapar o seu nome sem querer.
"Disparate!", exclamou ela. "Não posso eu fazer tanto como o seu fantasminha fez por si sem ser um milagre? Não se atreva, senhor, a oferecer-me um avental cheio de guineus!"
Ela olhou para mim com um brilho divertido nos olhos, e sinto que sabia no que ela estava a pensar. Mas Nance Lousely era uma simples donzela do campo, como aquelas entre as quais nasci e fui criado, e na altura eu não tinha nenhum restolho ruivo e vil, áspero como uma carda de cavalos, no meu queixo.
Fomos interrompidos pelo lacaio, que veio com os respeitos do Sr. Dot Gibson para a sua honra, e perguntou se a sua honra gostaria do refresco de um corte de barba e um banho, pois ambos estavam ao seu dispor. Tal senhor, tal servo. Esta pessoa resplandecente estava, por ora, a própria humildade. Fui com ele e fui limpo e posto confortável, e os meus trapos um pouco aparados.
Isto foi um prelúdio para ser convocado pelo Mestre Freake para uma discussão com os seus lordes, com quem estava Margaret, distante e gélida.
"No 'Ring o' Bells'", começou o Mestre Freake, dirigindo-se a mim, "tomou do sargento do meu lorde Brocton, agora morto, um pacote de papéis?"
"Sim, senhor."
"Entre eles, uma carta endereçada simplesmente: 'A Sua Alteza Real'?"
"É isso mesmo, senhor."
"Entregou-me essa carta, fechada, na presença da Senhora Waynflete?"
"Entreguei", disse eu, e Margaret assentiu em concordância.
"Foram feitas várias tentativas para recuperar a carta de si?"
"Pelo menos três dessas tentativas foram feitas pelo falecido sargento, e duas pelo meu lorde Brocton", respondi.
"A necessidade urgente dos vossos lordes de recuperar a carta está, assim, provada, e o Tribunal atribuirá o devido peso aos factos", disse o Mestre Freake. Brocton ficou branco como um lençol, e o velho patife tremia como uma folha seca treme no seu ramo antes que o vento a arranque. Não havia neles qualquer orgulho familiar que sustente as grandes famílias.
"Abri a carta. Dominei o seu conteúdo. Ainda a tenho", continuou o Mestre Freake, cada frase, como o impacto de um martelo, fazendo estes cobardes que assistiam tremerem nos joelhos. "Está depositada, selada novamente, com um amigo de confiança, que tem instruções, a menos que eu a reclame pessoalmente no último dia deste ano, ou antes, para a entregar pessoalmente ao Rei. Atualmente, ninguém conhece o seu conteúdo exceto o meu lorde Brocton, que a escreveu, e eu, que a li."
"Graças a Deus!", exclamou o velho conde patife fervorosamente.
"Pelo céu", pensei comigo mesmo. "Não é menos do que as propriedades de Ridgeley."
"Chamaremos-lhe, para os fins da nossa discussão", disse o Mestre Freake de forma conciliadora, "uma carta sobre certas terras."
"Sim! Sim! Certamente! Uma carta sobre terras! Assim foi!", gritou o Conde ansiosamente, e Brocton começou a parecer menos um cobarde no cadafalso.
"Prefeririam qualquer outra designação ou descrição, meus lordes?", perguntou o Mestre Freake.
"Estou bastante satisfeito, meu bom Mestre Freake", balbuciou o Conde.
"Que terras?", exclamei eu, incapaz de conter a minha curiosidade por mais tempo.
"As terras conhecidas como Upper Hanyards no condado de Staffordshire", respondeu o Mestre Freake.
"Bem, eu estou...", gritei eu, espantado, mas travando a tempo, e os olhos azuis de Margaret estavam tão abertos quanto os meus.
"É o senhor, Mestre Oliver Wheatman", disse o Mestre Freake, "o futuro e legítimo proprietário da antiga herdade da sua família em toda a sua amplitude anterior; e todos os atrasados de rendas e rendimentos desde treze de abril, mil setecentos e trinta e dois, com juros compostos à taxa de dez por cento ao ano, juntamente com uma compensação por perturbação e vexame causado a si e aos seus, provisoriamente fixada na soma de duas mil libras. O Conde de Ridgeley, atingido no coração pela memória da sua patifaria e velhacaria, concordou em fazer esta restituição plena. Estou correto, meu lorde?"
"Absolutamente, Mestre Freake, se lhe aprouver", choramingou o velho conde patife. "Meu Deus, sou um homem arruinado!"
"Bem, meu lorde", disse o Mestre Freake, "se perde as suas terras e dinheiro, e eu não baixarei um acre ou um guineu da contagem total, o senhor e o seu filho reterão, pelo menos, aquilo que, como vejo, ambos valorizam mais. A restituição deve ser feita por si a mim pessoalmente, para que possamos evitar subterfúgios sobre a posição legal de Oliver, sendo ele um rebelde confesso, e no dia seguinte à sua reabilitação legal, eu, por minha vez, transferirei a propriedade de ambos os tipos para ele. Quando a restituição tiver sido plena e legalmente feita, sem mancha ou defeito no título, e aprovada como tal pelos meus advogados, a carta ser-lhe-á devolvida selada como agora, e, naturalmente, serei rigidamente silente sobre o assunto. Os vossos lordes", terminou friamente, "podem partir para Londres de imediato para tratar do assunto."
O velho conde partiu para a porta ansiosamente, proferindo sobre o filho maldições terríveis e vis. Brocton olhou-me venenosamente antes de seguir, e eu sabia que ainda não tinha acabado com ele.
"Consegui-lhe as suas terras, Oliver, mas não houve tempo para conseguir o seu perdão. O Rei estava em Windsor; cada momento era precioso; e não adiantava, no temperamento da cidade, lidar com subordinados. Não se pode correr o risco de ser recapturado, pois Cumberland adora derramamento de sangue e não é amigo meu. Levá-lo-emos a uma pequena aldeia piscatória no Solway e conseguir-lhe-emos uma passagem para Dublin, onde o meu bom navio, 'Merchant of London', Jonadab Kilroot, Mestre, com destino às Américas, o apanhará. Quando nos encontrarmos todos de novo em Londres, dentro de alguns meses, estará perdoado. Margaret e eu temos agora de seguir o pai dela. A causa Stuart está feita em pedaços."
* * * * *
Tarde dessa noite, estava com Margaret na extremidade de um pontão numa pequena aldeia piscatória na costa de Cumberland. O Mestre Freake estava a dar instruções finais ao proprietário de uma traineira de arenques que rangia ruidosamente contra o lado do pontão sob o balanço da maré. Dot estava ocupado a entregar a um dos seus dois tripulantes certos pacotes para meu uso.
Estávamos juntos, e ela tinha enlaçado o seu braço no meu. Nós, que tínhamos estado tão próximos durante um mês, íamos agora ter um oceano colocado entre nós. Não que isso importasse para mim, já separado dela por algo mais largo do que o Atlântico, uma sepultura solitária e sem nome lá longe em Staffordshire.
De repente, ela chamou Dot, e ele, sabendo exatamente o que ela queria, trouxe-lhe uma caixa. Ela soltou o braço do meu e pegou nela, e quando eu, por minha vez, quis aliviá-la dela, ela recusou gentilmente.
"Oliver", disse ela, em tons tranquilos e firmes, "encontrou-me quando eu estava em grave perigo e imediatamente, como o cavalheiro galante que é, deixou mãe e lar para me servir."
"Foi o privilégio da minha vida, senhora", disse eu sinceramente.
"Adoçou o seu serviço ao considerá-lo dessa forma, dando muito quando deu. E, senhor, esse serviço colocou-me em dívida para consigo. Vê isso?"
"É típico de si dizer isso. Que tem isso?"
"Chegou o momento em que esteve em perigo, e eu, por minha vez, deixei o meu pai e cavalguei arduamente para o salvar. Não me estou a gabar, entenda, senhor. Estou apenas a declarar um facto. Prestei serviço por serviço, igual por igual, não prestei, senhor?"
"Prestou, senhora, e fê-lo esplendidamente", disse eu.
"Então, senhor, quando nos encontrarmos de novo", disse ela, e falava agora de forma muito clara e doce, olhando-me diretamente nos olhos, potente em toda a sua beleza e realeza, "quando nos encontrarmos de novo, encontrar-nos-emos em termos de igualdade."
"Está pronto, rapaz?", chamou o Mestre Freake.
"Já vou, senhor!", gritei eu, quase feliz no fundo do coração com a fuga.
"Um momento, Oliver!", disse Margaret. "Tão ansioso por se ver livre de mim? Não, estou a brincar, claro! Tenho um pequeno presente para si aqui, Oliver. Espero que o faça pensar em mim por vezes."
"Não fará", respondi, sorrindo. "Far-me-á pensar mais frequentemente em si, isso é tudo."
Ela entregou-me a caixa, e caminhámos até ao barco.
A meia-lua brilhava num céu sem nuvens, e mostrou-me lágrimas nas faces de Margaret, enquanto me inclinava para segurar e beijar a sua mão. Depois, despedi-me do Mestre Freake e de Dot, e fui ajudado a subir para o barco.
Assim, separámo-nos, e voltei o rosto em direção ao Novo Mundo. Durante dez meses penosos, não há nada a dizer que pertença por direito e necessidade à minha história.
Exceto isto: A primeira coisa que fiz quando fiquei sozinho na minha cabine no bom navio "Merchant of London" foi abrir a caixa de Margaret. Ela continha um suprimento completo de livros de onde aprender "a única língua que se pode amar", e na folha de rosto de um suntuoso "Dante" ela havia escrito: "De Margaret para Oliver."
CAPÍTULO XXV
ACERTO AS CONTAS COM O MEU SENHOR BROCTON
Sobre como atravessei os mares com Jonadab Kilroot, mestre do estóico navio "Merchant of London", não digo nada, ou quase nada. O Mestre Kilroot era um homem ruidoso e corpulento, com um cheiro a alcatrão sempre à sua volta e um coração tão rijo quanto uma bolacha de marinheiro. Temia sempre a Deus e dava sovas nos seus homens sempre que necessário; na sua estimação, o cargo de capitão de mar era o mais importante sob o céu, e o Mestre John Freake o maior homem sobre a terra.
O navio permaneceu ancorado no porto de Dublin enquanto alfaiates e comerciantes de todos os tipos me vestiam, pois o Mestre Freake dera-me guinéus suficientes para uma carga de cavalo. Saí-me muito bem, pois Dublin é uma cidade vice-real, com um Parlamento próprio e sociedade razoável, de modo que os modos e as modas não estão mais do que um ano ou pouco mais atrás de Londres, o que não importava para um homem que ia para as Américas.
De Dublin escrevi para casa. Impus uma injunção estrita a Margaret. Ela não devia ir a Hanyards, nem escrever para lá, nem permitir que mais ninguém o fizesse. Eu não suportaria que ela soubesse, ou corresse qualquer risco de saber, sobre Jack. Ela ficou muito perturbada com o assunto, mas eu estava tão decidido que ela consentiu com o meu pedido. Custou-me um mundo de dores escrever. Escrevi, reescrevi e rasguei dezenas de cartas. Finalmente, apenas lhes enviei uma mensagem a dizer que ia para a América esperar até que o problema passasse, e que estaria de volta com eles assim que possível. Não lhes dei morada. Foi cobarde, mas não consegui forçar-me a fazê-lo. O pesadelo que me assombrava era o de voltar a casa, a nossa casa para a Kate, a irmã mais doce que um homem jamais teve, com o seu coração jovem envolto para sempre em luto de viúva. Costumava sonhar que chegava à porta do pátio montado em Sultan, e sempre, no meu sonho, Hanyards parecia tão desolada e abatida, como se os próprios celeiros e estábulos estivessem a chorar pelo querido rapaz morto que brincara entre eles, que eu voltava Sultan e esporeava-o para longe até ele voar como o vento, e acordava num suor frio.
Numa quarta-feira de manhã, a meio de fevereiro, o "Merchant of London" entrou no porto de Boston com a maré cheia e foi atracado junto ao Long Wharf. O Mestre Kilroot apressou-me a ir para terra, para a casa do grande mercador de Boston, o Sr. Peter Faneuil, a quem levei uma carta do Mestre Freake. Foi o suficiente. O braço protetor do meu amigo atravessou o Atlântico, e se fizesse parte do meu plano contar detalhadamente as minhas ações no Novo Mundo, teria muito a dizer sobre este digno mercador de Boston. Ele foi sincero e assíduo na sua bondade, e na medida em que o meu exílio foi agradável, ele tornou-o assim.
O Sr. Faneuil insistiu que eu deveria morar com ele, mas recusei isto com gratidão, e ele então recomendou-me que me hospedasse com a viúva de um capitão de mar que se afogara ao seu serviço. Assim, tomei alojamento com ela na sua casa em Brattles Street, e ela tornou-me muito confortável. Ela tinha uma filha, uma rapariga brincalhona e bonita de nove anos, que me promoveu a tio logo no primeiro dia, e um escravo negro, que era o autocrata do estabelecimento até à minha chegada lhe tirar o lugar, como dizemos em Staffordshire.
O Mestre Kilroot descarregou a maior parte da sua carga de entrada e partiu para a Carolina e Virgínia para obter arroz e tabaco. Depois, voltaria aqui para completar a sua carga de retorno com peixe seco, para ser trocado em Lisboa por vinho para a Inglaterra. Esta era a sua ronda comercial habitual, e era um tráfico muito lucrativo.
Quando ele partiu, instalei-me para tornar o meu exílio proveitoso. Por uma grande sorte, havia naquela altura em Boston um italiano, um certo Signor Zandra, que dava lições da sua língua nativa abertamente e na arte da dança secretamente. A riqueza da cidade crescia rapidamente; havia uma classe ociosa e, falando de um modo geral, os bostonianos eram alertas de espírito e desejosos de conhecimento acima de qualquer outro grupo de homens entre os quais vivi. Na cidade vizinha de Cambridge, havia uma universidade pequena e vigorosa com mais de cem estudantes. Além disso, havia um espírito político crescente que me dava um interesse profundo pelos homens que respiravam o ar rápido e vital desta vigorosa Nova Inglaterra. Em muitos aspetos, descobri que estava de volta aos tempos de Smite-and-spare-not Wheatman, capitão de cavalaria no exército do Lorde-General. A piedade genuína, embora algo estreita, dos bostonianos lembrava-me dele, e ainda mais a sua atitude crítica saudável em relação aos governantes em geral e aos reis em particular. Eles tinham também o velho material puritano neles, pois cerca de oito meses antes tinham capturado Louisberg aos franceses, um feito militar famoso pelo qual o grande Lorde-General se teria orgulhado.
Os meus dias eram todos gémeos uns dos outros. Todas as manhãs, depois do pequeno-almoço, eu saía e sempre pelo mesmo caminho: passava pela pitoresca Town House, descia a King Street e ia até ao Long Wharf para ver se algum navio tinha chegado de Inglaterra, e perguntar ao seu capitão se trazia alguma carta para um tal Oliver Wheatman, em casa do Sr. Peter Faneuil. Não recebia carta nem notícias. Então, sempre um pouco triste no coração, passeava de volta e espreitava a livraria de Wilkins, onde alguns dos notáveis da cidade eram sempre encontrados, e onde, numa manhã de maio, enquanto regateava a compra de um belo Virgílio, fiz o conhecimento de um jovem cavalheiro notável, o Sr. Sam Adams, um génio de nascimento, malteiro de profissão e político por escolha. Discutíamos livros juntos na loja do Mestre Wilkins, ou escapávamo-nos para uma estalagem recatada chamada "The Two Palaverers" e discutíamos política sobre um copo de vinho e um cachimbo de tabaco. Gostava tanto dele que tinha receio de lhe contar que tinha lutado pelos Stuarts, e contentava-me em representar o papel que o Sr. Faneuil me tinha atribuído: o de um ingénuo jovem cavalheiro inglês que viera estudar assuntos coloniais no local antes de entrar no Parlamento. Terminada a nossa conversa, ia para casa do Signor Zandra e trabalhava no italiano por duas horas. Na maioria dos dias, levava-o comigo para o meu alojamento para jantar e lia e falava italiano com ele por mais uma ou duas horas. O resto do dia dedicava à leitura, exercício e, graças ao bom mercador, à melhor sociedade de Boston.
Ocasionalmente, quando sabia com certeza que nenhum navio partiria para casa por dois ou três dias, fazia pequenas viagens de caça para o interior, mas, no essencial, era assim que passava os meus dias, preenchendo-os com trabalho e distração para não ter horas ociosas para pensamentos mais ociosos. A primavera passou, o verão veio e foi-se, e as folhas estavam a mudar de dourado para castanho quando, numa manhã, enquanto tomava o pequeno-almoço, o criado do Sr. Faneuil chegou com uma carta. Era do Mestre Freake, convocando-me para casa, pois tudo estava resolvido. Continha algumas linhas de Margaret, escritas em italiano. Um navio partia para Londres naquele dia, e eu segui nele.
* * * * *
Jonadab Kilroot encontrara o seu caminho através do Atlântico para o Porto de Boston muito mais facilmente do que eu estava a encontrar o meu através de Londres para a casa do Mestre Freake em Queen Anne's Gate. Eram mais de nove da noite, hora a que, naturalmente, não pretendia acordar os ocupantes, mas queria encontrar o lugar para poder ficar do lado de fora e imaginar Margaret lá dentro, talvez a sonhar comigo. Por fim, observei que homens com tochas estavam claramente a ser usados como guias através deste labirinto negro de ruas, e parei um deles e ofereci-lhe um guinéu para cumprir o seu ofício por mim. Era um homem magro, maltrapilho e com aspeto esfomeado, que poderia ter quarenta anos pelo seu aspeto. Ele olhou-me vagamente por alguns segundos e, depois, apressou-se a mostrar o caminho, segurando a sua tocha bem alto sobre a cabeça.
Este problema resolvido, outro começou, o que me deixou numa fúria tremenda. Um jovem cavalheiro vistoso esbarrou comigo e, embora a culpa fosse claramente dele, desculpei-me e segui em frente, deixando-o a saltitar num pé só e a cuidar do outro, que eu tinha pisado. Ele amaldiçoou-me pior do que um contramestre a um novato e, não fosse a dor requintada que eu lhe causara, teria resolvido o assunto com ele. Encontrei o meu guia encostado a um poste e a rir-se com gosto.
"Não se preocupe, senhor. Ele não voltará a roubar-lhe o passeio tão cedo."
"Roubar o passeio?" perguntei.
"Feito de propósito, senhor, para arranjar uma briga consigo. Os jovens espalhafatos fazem-no por desporto."
Não muito mais à frente, encontrámos uma liteira, com uma jovem dama elegante nela, e um cavalheiro elegante a caminhar ao lado dela, bem junto às correntes, estando ela na estrada. Havia espaço amplo para eu passar entre ele e a parede, o que também seria o mais cortês a fazer; mas assim que o meu guia passou por ele, ele atirou-se diretamente para o meu caminho. Dei-lhe todo o passeio que ele queria e mais, batendo com a sua cabeça contra a parede até ele se desculpar humildemente através dos dentes a ranger. A dama gritou viciosamente comigo, e um dos seus carregadores, estando eu de costas, puxou o seu varal e veio atacar-me. O meu homem, contudo, muito destramente enfiou a tocha na cara dele enquanto ele saltava as correntes, e ele largou o varal e cuspiu e engasgou-se tremendamente. Aproximei-me da dama e desculpei-me por a deter, e então o meu homem e eu seguimos, vencedores fáceis.
Chegados a Queen Anne's Gate, outra surpresa esperava-me. As janelas do Mestre Freake estavam a arder com luz, e a porta estava a ser mantida aberta por um homem em libré elegante para admitir um cavalheiro requintado e uma dama mais requintada que tinham acabado de chegar ali em cadeiras. Dei ao meu homem o seu guinéu e, depois de apagar a sua tocha num grande extintor de ferro ao lado da porta, ele partiu alegremente. Depois de observar a chegada de três ou quatro cadeiras mais e uma carruagem, reuni toda a minha resolução e dei uma batida fraca com o enorme leão de ferro que servia de aldraba.
O homem de libré abriu-me, e eu já estava dentro antes que ele pudesse observar que eu era um intruso. É verdade, eu estava com as minhas melhores roupas — as minhas roupas de domingo, como lhes chamaria em casa — e não eram nada más; mas tinham sido feitas em Boston, onde as modas pendiam para o lado sóbrio. Ali, parecia um pardal num bando de tentilhões.
"Posso ver o Mestre Freake?" disse eu.
"Não," disse ele, com prontidão intransigente.
"Ele está em casa?"
"Não," retorquiu ele.
"Esta é a casa dele, creio?"
"É," assentiu ele.
"Então suponho que todas estas pessoas venham vê-lo a si — e ao cozinheiro," disse eu gravemente.
O sarcasmo poderia ter penetrado na sua pele grossa se não fosse a intervenção de outro cavalheiro de libré, que afirmou brevemente que eu estava "fora de mim", e propôs uma reunião de forças para me atirar para fora. O meu próprio sentimento era distintamente o de que eu estava no meu perfeito juízo, não fora dele; mas a sua sugestão interessou-me, pois não me submeto facilmente a ser atirado para fora de nada ou de lugar nenhum. Felizmente, uma nova chegada desviou a atenção deles de mim por um minuto ou dois, e enquanto eu estava de lado a admirar a dama, quem deveria descer majestosamente a grande escadaria até ao átrio senão Dot Gibson. Ele também estava de libré, mas de um tipo grave e gentil.
"Olá, Dot," disse eu, abordando-o calmamente.
Isso expulsou toda a gravidade dele. Ele apertou a minha mão estendida vigorosamente, e depois desculpou-se por o fazer, dizendo que estava tão contente por me ver. "Jorkins, seu grande asno," gritou ele para o primeiro criado, "o que queres dizer com manter a honra dele à espera?"
Jorkins olhou apreensivo para Dot e o proponente de violência olhou apreensivo para Jorkins; mas Dot estava demasiado cheio para se preocupar com eles e continuou: "O Sr. Freake ficará encantado, senhor, e a Srta. Waynflete também. Eles estão sempre a falar de si. Venha, senhor! Permita-me precedê-lo."
Ele levou-me escada acima para a biblioteca e deixou-me lá sozinho. Em poucos segundos, o Mestre Freake irrompeu por mim dentro.
"Meu querido rapaz," gritou ele, apertando-me a mão calorosamente, "bem-vindo — mil vezes bem-vindo!"
"Obrigado, senhor. Estou contente por estar de volta," foi tudo o que consegui dizer.
Ele pôs uma mão em cada ombro e afastou-se para me examinar.
"E nós estamos contentes por te ter de volta, com um aspeto tão em forma e bronzeado como um gladiador de bronze. Vem para o teu quarto! Está pronto para ti há três meses, pois aquela tola da Margaret pôs-se a trabalhar nele no mesmo dia em que enviámos a tua carta."
"Como está a Srta. Waynflete, senhor?"
"Verás em cinco minutos se te apressares. Os entendidos dizem que não há necessidade de George fornecer à cidade uma nova rainha, pois eu forneci-lhe uma imperatriz."
Ele apressou-me para o meu quarto, como ele lhe chamava, e era tão grandioso que eu andava nele em bicos de pés por medo de estragar alguma coisa. Havia tudo o que um jovem poderia querer, exceto roupas, e o Mestre Freake assegurou-me a rir que eles (querendo dizer Margaret e ele próprio) tinham quebrado a cabeça durante horas para ver se conseguiam arranjá-las, mas tinham desistido em desespero.
"Eu declarei que tu definharias e emagrecerias," disse ele, "e ela jurou que tu ficarias preguiçoso e gordo."
Senti-me muito pateta e despreparado enquanto o seguia para a sala de estar. Ficou muito claro para mim que não me esperava um encontro em pé de igualdade, e quando entrei numa sala grande e brilhante onde cerca de uma dúzia de damas esplêndidas e outros tantos cavalheiros elegantes e de maneiras fáceis estavam reunidos, senti vontade de dar meia-volta.
"Imperatriz." Era a palavra exata. O Mestre Freake colocou o braço no meu e levou-me até ela. Ela estava sentada, entronizada num canto de um sofá espaçoso e almofadado, com meia dúzia de jovens — o menos deles um conde, pensei amargamente — a curvarem-se à sua volta como os feixes dos irmãos se curvavam à volta de José. E, como se ela não fosse suficientemente avassaladora por si só, tudo o que a habilidade consumada e a arte mais requintada podiam fazer para realçar a sua beleza tinha sido feito. Juno a banquetear-se com os deuses não teria parecido mais soberba. "Em pé de igualdade," sussurrei para mim mesmo ironicamente, enquanto o Mestre Freake me guiava, pois um dos feixes circundantes, com quem ela trocava gracejos fáceis e leves, era o meu conhecido de traços finos, o Marquês de Tiverton.
Exceto por cortar um gracejo a meio quando viu quem era que o Mestre Freake trazia, Margaret não deu sinal de surpresa. Ela não empalideceu nem corou, nem se entusiasmou nem hesitou. Como uma imperatriz, simplesmente adicionou-me ao seu séquito.
"Trago-te um velho amigo, Margaret," disse o Mestre Freake, para quem, como vi, os adoradores em redor do ídolo abriram caminho respeitosamente.
"E o meu velho amigo é muito bem-vindo, senhor," respondeu ela, estendendo a mão. Curvei-me sobre ela e beijei-a. Pensei que ela tremia um pouco enquanto repousava na minha, mas é pelo menos provável que eu fosse a fonte de qualquer agitação que houvesse.
"Espero que tenha tido uma boa viagem, Sr. Wheatman?" questionou ela facilmente.
"Excelente, senhora," respondi, com um tom de voz imitativo e leve. "Foi como remar num rio."
Por um momento, os seus olhos estabilizaram e escureceram, depois ela disse com um sorriso: "Sendo assim, até eu, que não sou marinheira, deveria ter desfrutado dela consigo."
Foi assim que nos encontrámos. Se em pé de igualdade ou não, quem decidirá?
"Diga-me, Sr. Wheatman," interrompeu a voz agradável do Marquês, "não terá por acaso uma empada de veado consigo, suponho? Tenho um rapé muito bom, e dar-lhe-ei uma pitada por uma porção, como fiz lá em Staffordshire. Juro, Srta. Waynflete, faz-me fome vê-lo."
Este discurso causou muitas risadas, e Margaret disse que era uma sorte a ceia estar pronta. Ela então apresentou-me à companhia em redor, e quando isto foi feito, o Mestre Freake levou-me a renovar o conhecimento de Sir James Blount e da sua senhora, de modo que logo fiquei cheio de conversa e alegria.
Ceia e conversa, vinho e conversa, basset e conversa — assim passou o tempo até muito depois da meia-noite. Depois, um a um, os convidados foram partindo. O Marquês demorou-se mais tempo e, ao sair, comprometeu-me a visitá-lo na manhã seguinte.
"Finalmente," disse Margaret. "Sono de beleza está fora de questão esta noite, Oliver, por isso conta-nos tudo sobre tudo. É glorioso ter-te de volta."
Não é o meu propósito deter-me na minha vida em Londres. Após alguns dias, tornou-se uma longa agonia por causa de, mas não por meio de, Margaret. Ela fez o seu melhor por mim, e foi toda paciência, bondade e gentileza, e estava claramente decidida a viver em pé de igualdade comigo de acordo com a sua promessa e profecia. Bastou um ou dois dias para me mostrar que ela tinha muitos homens de classe e riqueza cativados. Na medida em que a riqueza ia então, o Marquês de Tiverton era, por sua própria culpa e tolice, um homem algo pobre, mas estava perdido de amor por ela, e ele era apenas um dos muitos requintados que estavam sempre a entrar e a sair da bela mansão do Mestre Freake. Não convinha a um Wheatman de Hanyards encolher-se ou ficar perturbado em qualquer companhia, e com o melhor deles mantive termos de facilidade e intimidade. Vestia-me tão bem, e talvez parecesse tão bem, quanto eles, e se os meus talentos diferiam dos deles, diferiam para melhor aos olhos de Margaret, que eram os únicos olhos que importavam.
Por mais breve que pretenda ser, devo anotar alguns apontamentos sobre coisas que pertencem à textura da minha história. Para começar, o Coronel, embora perdoado, ainda estava em França, a tratar dos seus negócios lá, pois antes de partir para se juntar ao Príncipe, tinha sabiamente transferido toda a sua fortuna para Paris.
Davie Ogilvie tinha conseguido escapar depois de Culloden, e a sua doce Ishbel, embora capturada após a batalha, tinha recebido permissão para se juntar a ele lá. Foi um grande conforto saber que estavam a salvo, pois havia relíquias tristes da minha escapadela em Londres — a fila de cabeças horríveis e arreganhadas sobre Temple Bar.
Logo após a minha chegada, o Mestre Freake tinha mandado chamar os seus advogados e entregou-me na posse plena os Upper Hanyards e a enorme conta de guinéus que o velho conde patife tinha vomitado como o preço da carta. O Mestre Freake manteve um silêncio rígido sobre o conteúdo daquele famoso documento "sobre terras", e eu não tinha qualquer desejo de saber. Valia mil acres e quase dez mil guinéus para o Conde. Eu estava satisfeito se ele estava. Coloquei os meus guinéus num banco à escolha do Mestre Freake. Que dote eu poderia ter dado à Kate se...
O meu Senhor Brocton estava na cidade. Vi-o várias vezes, na rua ou na peça, mas não lhe prestei atenção. Dizia-se que ele estava avidamente à caça de uma dama de atrações escassas, mas fortuna enorme. Duas vezes quando o vi, ele estava com o tipo contra quem eu tinha esbarrado na parede, um notório tubarão e valentão, de nome e patente Sir Patrick Gee. Tiverton, que tinha as suas próprias razões para estar interessado em Brocton, disse-me que eles andavam de mãos dadas.
Passado pouco tempo, talvez um mês, uma mudança ocorreu na relação que Margaret e eu mantínhamos um com o outro. Ambos lutamos contra isso, mas em vão. Não podíamos seguir em linhas paralelas, nós dois. Tínhamos de convergir ou divergir, e o destino não me dera escolha.
Eu costumava fingir que ia sair, para cavalgar ou passar o tempo com o Marquês ou algum outro conhecido, e então escapava para cima, para a silenciosa e velha biblioteca, enterrava-me num recanto junto à janela, isolado por cortinas, e tentava esquecer tudo aquilo num livro. Como um tolo, pensei que poderia resolver o meu problema assim. Hanyards chamava-me e eu não ousava ir. Teria de deixar Margaret, e não a podia deixar.
Porquê, perguntava a mim mesmo mil vezes, era eu um cão tão cobarde em comparação com Donald? Ele tinha feito o que eu fizera, e vira o seu caminho de imediato e seguira-o. Ele não viveria, tendo, em toda a inocência e com a mais urgente das razões, matado o seu amigo. Não que eu sentisse que a solução dele fosse a minha solução. O meu dever era deixar Margaret e ir ter com Kate, ajudá-la, com o melhor da minha capacidade, a superar a sua dor, e mostrar, pela minha vida e conduta, que eu pagaria o preço. E ali estava eu, a pairar como uma traça em volta da chama.
Depois, voltava a dizer que esperaria até que o inevitável acontecesse, e Margaret se casasse com Tiverton. Qualquer coisa para adiar, era realmente tudo de que eu era capaz.
Para mim, no meu recanto, Margaret veio numa manhã.
"Pensei que tivesses saído, Oliver", começou ela.
"Não", disse eu. "Mudei de ideias e achei que gostaria mais de ler."
"Deixas-me perplexa. Estás bem?"
"Tão bem como uma música", disse eu alegremente, e levantei-me para lhe ceder o meu lugar, pois o recanto só comportava um.
"Não te movas, senhor."
Ela foi buscar um par de almofadas, atirou-as junto à janela e enroscou-se nelas. Desejei que não o tivesse feito, pois ela formava um quadro glorioso.
"Agora, senhor, vou tirar isto a limpo consigo", disse ela com severidade e um sorriso. Sorri de volta e recompus-me.
"Espero que 'isto' não seja um 'isto' muito sério, senhora", respondi.
"Pode ser. A tua cabeça incomoda-te alguma vez?"
"A minha cabeça incomodar-me?" ofeguei, surpreendido.
"Sim, a tua cabeça, senhor. Quando caíste daquelas escadas, recebeste um ferimento muito grave na cabeça. Abriu-se tanto que eu poderia ter metido um dedo no buraco. Tens a certeza de que não te incomoda, Oliver? Pancadas na cabeça são coisas terríveis, sabes."
"Olha para ela", disse eu, baixando a cabeça, e muito grato pela oportunidade.
Os seus belos dedos afastaram o meu cabelo espesso, curto e eriçado e encontraram o ponto.
"Não há nada de errado com o crânio, pois não?" perguntei.
"Não", muito duvidosa. "Cicatrizou esplendidamente."
"Agora, senhora", disse eu, "fala comigo em italiano!"
Foi a primeira vez, por acaso, que pensei nisso.
Durante dez minutos, ela interrogou-me e inquiriu-me em italiano sobre todo o tipo de assuntos, e eu saí-me bastante bem da provação — graças ao Signor Zandra.
"Ponto um", disse eu em inglês. "O exterior da minha cabeça está bem. Ponto dois: estás satisfeita com o interior?"
Durante um minuto inteiro, ela fixou o olhar em silêncio nos seus pés, torcendo-os rapidamente e de forma algo distraída. Era penoso, quase impiedoso, pois ela era muito bela.
"Sim", disse ela a dada altura, mas sem olhar para mim. "Fizeste maravilhosamente bem."
"Na única língua em que se pode amar", disse eu amargamente.
As palavras não tiveram efeito aparente. Ela continuava a olhar para os seus pés que cintilavam. De repente, ela levantou os olhos para os meus e disse, quase asperamente: "Então, o que te aconteceu entre Hanyards e Leek para te mudar?"
Foi um golpe limpo e rápido, que me fez ofegar, mas consegui escapar.
"Senhora", disse eu, "parti de Hanyards consigo para a servir e com nenhum outro propósito. Na minha opinião, falando com toda a modéstia, servi-a tão bem depois de Leek como antes. Pelo menos, tentei."
Ela saltou e, com grandes movimentos do braço, atirou as almofadas para a biblioteca. Disse brevemente: "E conseguiste, senhor!" Depois deixou-me, rápida e apaixonadamente, sem outra palavra ou olhar.
Depois disto, a brecha entre nós tornou-se óbvia.
Entretanto, o Marquês de Tiverton fazia o seu melhor para me dar um conhecimento competente da zona da Corte da cidade. Ele possuía uma mansão espaçosa em Bloomsbury Square, mas esta estava agora arrendada a um grande nababo, e ele próprio vivia num esplendor austero numa pequena casa em St. James's. Aqui via-o muito, pois costumava aparecer tarde da manhã e tirá-lo da cama. Por um estranho acaso, afeiçoamo-nos muito um ao outro, e enquanto ele bebia chocolate na cama ou se entretinha com o seu pequeno-almoço, tínhamos muitas conversas sobre os poucos assuntos que lhe interessavam.
O nosso tema favorito era Margaret, a quem ele adorava abertamente. Ele fazia rapsódias sobre ela durante longos períodos, chamando-me a testemunhar com ele a sua divindade, e repreendendo-me severamente se, na amargura do meu coração, eu fosse um pouco lento nas minhas devoções. E, em intervalos irregulares, como Selá nos Salmos, ele entoava lamentavelmente: "E eu não posso casar com ela!"
Não valia a pena protestar que um homem solteiro podia casar com qualquer mulher que quisesse, se ela o aceitasse.
"Um homem pode", respondia ele, "mas um marquês falido não. Tenho de casar com aquela megera. Bah! Ela é esguia como uma vara de lúpulo e amarela como uma guiné. Mas o que pode um marquês fazer, Noll? Dizem que ela poderia atar o pescoço e as cavas da camisa e enchê-la de diamantes. Maldita seja! Gostaria que Brocton a agarrasse, mas ele não consegue. Ele nunca será mais do que um conde e eu sou um marquês. Maldita a minha sorte! Imaginem-me a ser um marquês! Sou uma desgraça para a minha ordem e tão pobre como um corvo."
A 'megera' referida era a única filha e herdeira do nababo, que, como toda a cidade sabia, iria fazer um grande casamento. O Lorde Brocton estava intensamente no seu encalço, mas ela inclinava-se para o Marquês, que poderia tê-la tido, a ela e à sua vasta fortuna, a qualquer dia, se a pedisse. Ela certamente não estava sobrecarregada de encantos, mas Tiverton, na sua raiva, tinha-a pintado pior do que era.
Na manhã seguinte ao meu encontro com Margaret no recanto, Tiverton estava mais falador do que o habitual, facto que não estava desconectado, imagino, de uma ronda mal-sucedida em White's na noite anterior. Terminámos a nossa conversa habitual sobre Margaret e a nababesa, e então ele lançou uma nova linha.
"Ora, se a divina Margaret", disse ele, "justamente assim chamada como a pérola de grande preço entre as mulheres, fosse apenas filha e herdeira de Freake, eu estaria de joelhos perante ela num instante. Dizem que ele fez montes de dinheiro com aquele negócio jacobita. Toda a gente aqui estava a vender a qualquer preço que as ações pudessem render, e ele estava a comprar a torto e a direito nos seus próprios termos. Ele estava de volta aqui, sabendo da retirada de Derby, mais de vinte e quatro horas antes da chegada do correio, e a velha raposa guardou a notícia para si. É o primeiro homem fora da cidade a instalar-se na zona da Corte. O velho Borrowdell mudou o seu tabernáculo tão para oeste como Hatton Gardens no tempo do meu pai, e isso foi considerado bastante grande e ousado, mas aqui está Freake bem no meio disso, e defende-se como um leão entre chacais. O facto é que ele é um bom tipo. Sendo um marquês, deveria desprezá-lo, em vez do que sinto-me como um verme sempre que ele se aproxima de mim, e isso, nota, Noll, não porque lhe deva perto de dez mil. Costumava dever a um patife chamado Blayton tanto quanto isso, e cada vez que ele vinha choramingar por aqui, eu ou queria expulsá-lo ou expulsava-o mesmo. Heigh-ho! Estou metido numa confusão dos diabos, mas ainda vou enganar a pescoçuda. Vou reformar-me de vez, Noll. Nunca mais tocarei numa carta enquanto viver."
"Essa é que é a atitude!" disse eu cordialmente. "Come qualquer coisa e vamos buscar os cavalos para um galope por Putney Heath."
Na noite seguinte, cedo, sentindo-me muito miserável, fui ter com os Blounts, com quem era muito amigo. Esqueci-me de mim por um tempo, sendo impossível pensar em qualquer coisa enquanto estava deitado de costas na lareira, com o bebé Blount a tentar arrancar-me o cabelo pela raiz e a cortar um dente teimoso no meu nariz. Ele era um patifezinho encantador e impiedoso, e deixaria qualquer coisa e qualquer pessoa para me andar a provocar.
Tinha, contudo, por uma vez, enganado o meu destino, pois, enquanto estava assim ocupado, quem deveria entrar com a sua mãe senão Margaret?
"Não tens medo de confiar o bebé a uma ama tão inexperiente?" perguntou Margaret, sorrindo do meu embaraço, pois tive de ali ficar deitado até ser resgatado das garras do cachorrinho.
"De forma alguma. Quando ele está com um bebé, ele torna-se um bebé, que é o que eles querem. Ele será um pai ideal, não achas?" disse a sua senhoria alegremente.
"Acho que será", disse Margaret num tom muito judicial, mas corou ao dizê-lo.
Enquanto Lady Blount dispunha do bebé, Margaret fez-me sinal para me afastar. "Oliver, vais fazer-me um favor, não vais?" perguntou ela.
"Certamente", disse eu.
"Ao vir para cá numa liteira, vi o Marquês a entrar no White's. Temo que ele possa estar a jogar outra vez. Ele cede facilmente à tentação e logo se torna imprudente. Queres passar lá, como se fosse por acaso, e convencê-lo a sair? Gostaria que ele fosse salvo de si mesmo, e tu tens grande influência sobre ele."
"Se ele não quiser sair", disse eu, sorrindo, "eu arrasto-o para fora!"
Despedi-me de Lady Blount e parti na minha missão, de boa vontade, uma vez que ela o desejava e eu gostava dele, mas durante todo o caminho pensei no seu rosto ansioso enquanto me pedia.
No White's, encontrei Tiverton a jogar piquet com Brocton. Um monte de guineus estava ao seu lado, e ele estava corado e excitado com o sucesso. A partida tinha atraído alguma atenção, pois as apostas estavam altas, e oito ou nove homens estavam reunidos à volta dos jogadores, entre eles Sir Patrick Gee. Esperei enquanto a mão era jogada. Tiverton repicou o seu oponente e, alegremente, puxou para o seu lado da mesa quatro pilhas altas de guineus.
Foi o meu primeiro encontro com Brocton. O acaso e Margaret tinham-nos reunido de novo.
"Egad, Tiverton", disse eu ao Marquês, que agora me observou pela primeira vez, "tiveste as cartas desta vez com uma vingança. Vais continuar a jogar? Que tal o teu compromisso comigo?"
O Marquês corou ligeiramente com a minha reprimenda velada. Olhou duvidosamente para o seu relógio, depois para mim, e finalmente para Brocton.
"Já chega?" perguntou ele.
"Chega?" gritou Brocton. "Desde que te juntaste a lavradores, ficaste medroso nas cartas. Continua a jogar, meu senhor!"
"Eu disse-lhe", disse eu calmamente a Brocton, "que o seu senhorio tem um compromisso comigo. Isso deveria bastar. Se quer a sua vingança, o que é natural, há outras noites disponíveis."
"Eu quero a minha vingança agora, e tê-la-ei", disse ele de forma significativa, "e é assim que trato os homens que se metem entre mim e a minha vingança." Ele estava a baralhar um baralho de cartas enquanto falava e, com as palavras, atirou-as à minha cara.
Na maioria das mesas, o jogo parou, e os jogadores ali presentes tornaram-se silenciosamente atentos a este novo jogo onde as apostas eram as mais altas de todas. Significava uma luta, uma luta entre um espadachim perito e um homem que nada sabia da arte. Para tal luta, só podia haver um fim.
Tiverton estava fora de si. "Ela nunca me perdoará!" murmurou ele, e eu olhei divertido para ele e sussurrei: "Quem? A nababesa?"
Ele era o mais alto na hierarquia ali, e como tal, um tribunal de apelo e uma espécie de mestre de cerimónias.
"Lorde Tiverton", disse eu em voz alta, "sou, como sabe, um recém-chegado à cidade vindo das Américas e outros lugares estranhos, e, naturalmente, nestas circunstâncias, não estou esclarecido sobre alguns pontos."
"É claro que levaste uma bofetada na cara", interrompeu Sir Patrick Gee.
"Cale a boca, senhor!" disse Tiverton, olhando calmamente para ele. "Continue, Sr. Wheatman!"
Fez-me sorrir de novo, por muito apertada que a situação estivesse, ver o espírito de representação a apoderar-se dele. Ele estava a começar a divertir-se.
"Portanto, meu senhor, gostaria de lhe fazer algumas perguntas", continuei.
"Certamente, senhor", respondeu ele, com grande imponência, tomando rapé com grande estilo enquanto aguardava o meu questionamento.
"Existe alguma dúvida de que sou a pessoa insultada?"
"Nenhuma", respondeu ele. "Lorde Brocton insultou-o de forma gratuita e deliberada."
"Então, meu senhor Marquês, posso estar errado, mas penso que tenho o direito de escolher o local, a hora e as armas."
"Certamente, Sr. Wheatman", respondeu ele.
"Então, se eu escolher dizer: 'Nas margens do Susquehanna, daqui a dez anos, com machadinhas', assim deve ser?"
Uma onda de riso desdenhoso percorreu a sala à medida que a pergunta passava de boca em boca. Até os jogadores mais fervorosos deixaram o seu jogo para se juntarem ao círculo à nossa volta. Ingleses mesmo nos seus vícios, eles tomavam uma luta como garantida, mas estavam prontos num momento para ver alguma diversão.
O Marquês estava desconcertado. Ele obviamente sentia que eu estava prestes a refletir sobre ele da maneira mais grave; que, em suma, estava a recuar. Ele seria manchado pela desonra que me tinha expulsado do mundo dos cavalheiros.
"Penso", disse ele, "que isso seria abusar dos privilégios de um cavalheiro insultado."
"Foge, lavrador!" berrou Sir Patrick roucamente.
Tiverton olhou desdenhosamente para ele. "Talvez gostem de saber, meus lordes e cavalheiros", disse ele, tão grandiosamente como se estivesse a recitar uma peça de teatro, "que na noite da sua chegada de Boston, o meu amigo foi rudemente insultado no Strand por certa pessoa." Aqui ele parou, virou-se bruscamente para o canalha corpulento e acrescentou severamente para ele: "Terminarei a história a menos que saia da sala imediatamente."
Gee achou melhor e escapou-se como um larápio noturno perturbado.
"Obrigado, meu senhor", disse eu muito humildemente, "pela sua decisão. Espero que a minha ignorância inevitável me autorize a tentar de novo."
"Certamente", disse ele, mas com uma incerteza inconfundível.
Olhei à volta para o círculo atento e curioso de rostos e depois para Brocton. No seu rosto e nos seus olhos cruéis estavam as mesmas antecipações ávidas que lá estavam quando, na cabana da Marry-me-quick, ele pensava que estava a dobrar Margaret à sua vontade vil. Poder-se-ia ouvir cair uma carta naquela sala cheia.
O meu momento chegara ao segundo. Esticando-me, disse lenta e distintamente: "Aqui. Agora. Punhos."
Brocton ficou flácido e cadavérico. Caminhei até ele, agarrei-o, sem resistência, pelo colarinho, e depois disse secamente: "Abre a porta, Tiverton."
O pequeno Marquês, voluntariado, correu deliciado para cumprir a minha ordem, e eu pontapeei o Lorde Brocton para a sarjeta e para fora da minha vida.
Na manhã seguinte, fui a casa de Tiverton como de costume, e enquanto ele tomava o pequeno-almoço e começávamos a nossa ronda habitual de conversa, entrou Sir James Blount, um estranho a tal hora.
"Já ouviste as notícias?" perguntou ele bruscamente.
"Que notícias?" perguntou Tiverton, um pouco azedo por ser enganado na sua queixa matinal de consolo comigo.
"O Sr. Freake declarou que a Srta. Waynflete será a sua única herdeira", respondeu ele.
Tive de dar um murro em Tiverton para evitar que ele se engasgasse com algo que foi pelo caminho errado. Tivemos uma conversa excitada sobre a notícia, que Sir James tinha recebido diretamente do Mestre Freake, o que a estabeleceu como um facto para além de qualquer disputa ou mudança. Margaret era agora o partido mais desejável em Londres sob todos os pontos de vista. Blount saiu bastante satisfeito com o alvoroço que tinha causado.
"Henry! Henry!" gritou Tiverton assim que ficámos sozinhos, e o seu criado entrou apressadamente. "Henry! O que raio queres dizer ao pôr-me estes trapos velhos? Droga! Pareço um carregador de liteira. Vai buscar algumas coisas decentes, seu velho patife! Tenho de visitar a maior dama da cidade de Londres."
Ele apressou-se atrás do seu criado, e ouvi-o cantar e gritar durante a sua segunda higiene. Escapuli-me miseravelmente da casa e dirigi-me às cavalariças. O cavalariço selou o meu cavalo, uma bela égua castanha que o Mestre Freake me tinha dado, e cavalguei para fora da cidade, mergulhado em pensamentos. Automaticamente, fiz o caminho que tínhamos pretendido seguir, e encontrei-me finalmente nas alturas que dominam Londres a norte. Então parei.
As torres da Abadia destacavam-se nobremente contra o céu azul-aço. Dentro da sua sombra ficava a casa do Mestre Freake onde, a esta hora, Tiverton não teria suplicado o seu amor em vão. Vi-a lá, na sala esplêndida que ela sempre ofuscava com o seu maior esplendor, o requintado Marquês aos seus pés, feliz na posse da pérola de grande preço. Sobre esta visão, uma sombra caiu, e vi a casa de Hanyards, com a nossa viúva Kate sozinha na sua dor. O seu cabelo ruivo como chama era branco como a neve e lágrimas de sangue estavam nas suas bochechas. A despedida de Donald, *Weird mun hae way*, ressoava nos meus ouvidos como um canto fúnebre. Com um suspiro que era quase um soluço, voltei a égua e forcei-a para norte, para norte e para casa.
No meu medo e tremor, esquivei-me de tudo, agindo de forma infantil e mais do que infantil. Eu não estava no Sultan, e quando saí de Lichfield, guardei esse simples facto no meu coração. Tanto do meu sonho não se tinha, pelo menos, tornado realidade, e neguei o resto dele deixando a estrada principal e percorrendo caminhos desviados até que, a quatro ou cinco milhas de casa, deixei até as veredas e mantive-me pelos campos. Tão empenhado estava eu nas minhas pequenas estratégias que cavalguei por Upper Hanyards sem uma única vez recordar o facto de que era agora meu, como fora do meu pai antes de mim. Por volta das quatro horas de um dia de dezembro, pouco mais de um ano depois de ter deixado casa, saltei com a égua uma sebe e estava no portão antigo.
Mais do sonho era mentira. O sol de inverno descia para os topos das colinas como um grande carbúnculo engastado em ouro, e Hanyards estava todo radiante nos seus raios flamejantes. O portão estava aberto, de modo que eu poderia pelo menos começar por ralhar com Joe Braggs pela sua negligência, e as janelas da casa cintilavam um boas-vindas devido à chama alegre no interior.
Nem uma alma se mexeu. Saltei para baixo, lancei as rédeas sobre o poste do portão e caminhei furtivamente para o pátio e até à janela. Ainda nem uma alma se mexeu.
Espreitei para dentro.
Lá estava a nossa Kate, inclinada amorosamente sobre a minha cadeira, almofadada como ela nunca a tinha almofadado para mim, e na cadeira estava claramente um homem, pois podia ver as suas meias e calções esticando-se confortavelmente para lá das suas saias. Ela ria alegremente de algo dito, e então inclinou-se e beijou a pessoa na cadeira.
Isto era a fé de uma mulher! Com um grande estrondo, entrei no alpendre, empurrei a porta e entrei. Houve um grito de alegria, uma tagarelice de "É o nosso Noll! É o nosso Noll!" e Kate saltou para os meus braços e cobriu-me de beijos.
O homem seguiu-a, lenta e fracamente, apoiando-se pesadamente numa bengala. Quando ele virou o rosto para que a luz do fogo o mostrasse, as minhas pernas cederam abaixo de mim e os meus joelhos bateram um no outro. Era Jack, o querido e velho Jack, nada mais do que a sombra de si mesmo, mas ainda Jack, sem dúvida, e a sua mão estava na minha.
"Corre, Kit!" gritou ele. "Vai buscar vinho! O rapaz está superado. Deus te abençoe, velho Noll, como estás?"
Kate correu para o salão, onde o nosso vinho estava guardado.
"Jack!"
"Olá, Noll!"
"Pensei que te tinha matado."
"Foste tu?", perguntou ele, todo espantado com a minha autoacusação.
"Sim", respondi vacilante.
"Por Deus, Noll, tu deste-me um belo trambolhão!"
Ouviu a Kate a voltar apressadamente com o vinho e colocou o dedo nos lábios como aviso. E esse foi o primeiro e último comentário que Jack Dobson fez sobre o assunto.
CAPÍTULO XXVI
O JEITO DE UMA DONZELA COM UM HOMEM
Fui eu quem curou o Jack. Administrei-lhe uma dose de remédio e ele imediatamente começou a ganhar corpo e a ficar forte e impetuoso de uma forma quase absurda, pelo que houve muitas troças sobre a nossa Kate que, à sua maneira habitual, repreendeu-me severamente em público, mas aproximou-se de mim em privado, beijou-me e chorou de alegria ao mais aprovado estilo de donzela.
Foi assim que aconteceu. Enviei Joe Braggs a Stafford no dia seguinte ao meu regresso a casa para trazer o Sr. Dobson, e tive-o a sós no meu quarto. É verdade que ele era tão mesquinho e ganancioso como sempre, mas vi até este lado dele sob uma nova luz agora, pois ele fora mesquinho e ganancioso por causa de Jack. Estava um pouco hesitante quando nos encontrámos; contente, claro, por ver um velho amigo de volta são e salvo, mas duvidoso quanto ao ponto principal.
"Sr. Dobson", disse eu, "o vosso Jack deseja desposar a nossa Kate."
"É o que ele me diz", disse ele lugubremente, esfregando o dedo fino sob a aba da sua peruca para coçar a cabeça perplexa.
"Ela é uma excelente jovem, e formosa", disse eu, sorrindo para ele.
"Sem dúvida", concedeu ele.
"Mas, como chefe da família, Sr. Dobson, não ofereço qualquer objeção à proposta." Pouco importaria se a oferecesse, mas eu sempre tomo o crédito quando e enquanto posso.
"É muito gentil da sua parte, Ol... Sr. Wheatman", disse ele, "mas..."
"Sim", disse eu encorajadoramente.
"Mas há o que posso chamar o lado material da questão a considerar. A noiva do meu filho deve ser adequada do ponto de vista comercial."
"Tenho estado a considerar esse ponto, Sr. Dobson. É sem dúvida importante. O Jack é um rapaz descuidado, e tenho a certeza de que a nossa Kate é exatamente a mulher de que ele precisa do ponto de vista comercial. Ela ficará de olho em cada centavo nos bolsos dele."
"Ora, ora!", disse ele, estimulado a agir, como eu sabia que ele seria. "Compreende-me completamente mal. Ao meu filho não faltarão os bens deste mundo e ele tem de ter uma esposa à altura."
"Compreendo", disse eu. "Alguém com algo substancial no bolso."
"Precisamente", disse ele.
"Bem, Sr. Dobson, se a nossa Kate estiver disposta a casar com o vosso Jack, um ponto sobre o qual apenas posso oferecer uma conjetura, ela casará com ele com cinco mil libras no bolso."
Ele sentou-se hirto e olhou para mim com a boca escancarada.
Chamámo-los, a mãe veio com eles, e o velho deu-lhes ali mesmo a sua bênção. Kate correu para os braços da mãe, enquanto Jack apertava a minha mão e dançava de alegria. Depois, comeu o jantar mais surpreendente que se possa imaginar, afirmando ruidosamente que estava tão bem como um carvalho e farto de papas.
O meu regresso causou um grande alarido em todo o nosso campo. Sobre o que tinha realmente feito, não havia conhecimento algum. Corria o boato de que tinha ido à América e encontrado uma mina de ouro, e voltado para casa e recomprado as perdidas Hanyards. Céticos agudos nas barbearias e nas tabernas de mercado avançavam a opinião de que devia ter sido uma mina de ouro muito pequena, mas eram incapazes de substituir qualquer outra explicação e, por isso, caíam em desprezo. O conto servia-me e nunca o contradisse. Num mundo onde um homem que viajou até Londres é uma pessoa de consideração e renome, eu, que tinha estado na América, era como um deus. A minha primeira visita a Stafford deixou a adormecida cidade velha em comoção.
Todas as noites, à volta da lareira, contava-lhes as minhas aventuras. Jack, a raposa astuta, sentava-se entre as suas almofadas, que não fora parvo suficiente para descartar juntamente com as suas papas, com Kate num banco baixo aos seus pés. O vigário sentava-se ao lado da mãe no banco comprido. Puxei uma cadeira para perto dela, para que a sua mão pudesse apertar a minha enquanto falava, e achei muito útil, pois ela compreendia em silêncio e em silêncio consolava-me. Jane preparava a ceia, demorando muito tempo, pois, entre as viagens de ida e volta à cozinha, ficava de pé atrás do banco e ouvia de olhos arregalados um pouco do meu relato. Todas as noites o vigário dizia a graça, acrescentando, à sua maneira simples e apostólica, um agradecimento especial ao bom Deus que trouxera o jovem de volta são e salvo, através de perigos pelo mar e perigos por terra, e das próprias mãos de homens maus que o tinham cercado para o destruir. Depois, após a ceia, acompanhei o bom homem a casa e voltei pelas ruelas banhadas pelo luar; e todas as noites, sem falta, ia pôr-me de pé no exato local onde a gafa tinha escorregado do meu colarinho, e eu me tinha virado para ver Margaret.
A única pessoa descontente no nosso pequeno círculo era Joe Braggs, que apanhara o peixe que apanhara o lúcio, e assim me pusera fora da minha rotina de pequeno proprietário para o grande mundo da vida e da aventura. Joe tinha-se saído bem enquanto estive fora; os nossos campos tinham dado frutos sob o seu cuidado como administrador; e, tendo tido uma colheita favorável, tínhamos muito dinheiro em caixa do trabalho do ano. Agradecera-lhe sinceramente, confirmando-o como meu administrador agora que estava de volta, e dera-lhe cinquenta guinéus, uma soma que para ele era uma riqueza incalculável. Ainda assim, o patife não estava satisfeito e andava por aí com uma carranca, como dizia a Jane, pelo que fiquei muito tentado a puxar-lhe as orelhas.
No dia antes do Natal, esteve ocupado toda a manhã sob o comando tagarela de Jane, trazendo ramos de azevinho e outras plantas perenes das sebes. A sua última viagem tinha sido a uma das quintas nas Upper Hanyards em busca de visco, que crescia abundantemente lá num pomar antigo. Ao voltar, segurara um raminho sobre a cabeça de Jane para um certo propósito familiar e louvável, e fora recompensado com uma bofetada que soou como a queda de um balde de leite vazio. Pouco depois, encontrei-o a resmungar num estábulo e tive uma conversa séria com ele.
"Olha aqui, Joe, meu rapaz", disse eu, "diz-me diretamente o que se passa contigo ou parto-te a cabeça."
"Porque é que querias voltar para cá, para chatear a Jin assim?", deixou ele escapar.
"O que é que, diabo, fiz para chatear a Jin?", perguntei.
"Porque não a trouxeste contigo, então?"
"Quem é ela, seu cabeçudo?", perguntei irritado.
"Essa tua dama. A Jin está tão chateada que não me quer ver, e estávamos a dar-nos tão bem."
Não valia a pena falar com o Joe. Expliquei que ela era uma grande dama e que ia casar com um marquês, ou seja, uma pessoa muito mais importante do que um conde. Ele sabia o que era um conde, pois claro que tinha ouvido falar do 'Yurl', referindo-se àquele velho patife Ridgeley. Um marquês, contudo, estava fora do seu alcance, e a informação foi desperdiçada.
"Porque não casaste tu com ela, Sr. Noll, e a trouxeste para cá, assim a Jin teria ficado bem?"
"Eu não podia", disse eu.
"Perguntaste-lhe?"
"Não."
"Mais burro tu", disse ele amargamente. "Ela ter-te-ia querido, sem dúvida. A Jin diz isso, e ela sabe."
O que se podia fazer com um sujeito tão parvo? Desisti da discussão e levei-o para dentro comigo. À frente da Jane, brindei com ele com uma caneca de cerveja e disse-lhe que era um dos melhores rapazes que respiravam, e que lhe estava muito grato. À frente dele, beijei a Jane sob o visco e disse-lhe que, rapariga bonita que era, tinha sorte em ter o melhor rapaz de Staffordshire. Deixei-os na cozinha e não ouvi mais estrondos. Mais tarde, Joe assobiou as suas três melodias com habilidade admirável e persistência intolerável enquanto, sob as ordens de Jane, tratava da fervura dos pudins de Natal numa vasta panela de ferro pendurada sobre a lareira da cozinha.
Estava a escurecer. Todos estavam felizes. A mãe estava fora e pelo vilarejo com as suas prendas de Natal, acompanhada por um dos nossos homens e uma carroça carregada de coisas boas. Nada a poderia ter feito mais feliz. Jack e Kate estavam no salão ocupados com todo o tipo de lides domésticas, nas quais ele estava tão interessado como ela. Joe e Jane estavam na cozinha, tão alegres como cotovias. Fui para o meu quarto, atravessando o corredor a partir da sala, sagrado para mim, para os meus livros e os meus pertences.
Lá estava também o grande lúcio, montado na perfeição pela mão habilidosa do Sr. Whatcot. Parecia estar a cortar um grupo de juncos para atacar um peixe, tal como tinha feito uma vez a mais naquele dia memorável. Irmãos da pesca tinham feito peregrinações para o ver de trinta milhas em redor, e era um encanto acrescido imaginar que o monstro tinha sido apanhado num local onde Izaak Walton tinha pescado quando rapaz, tendo ele nascido e sido criado nestas partes. O meu lúcio é um lúcio famoso, pois o leitor curioso encontrará um relato sobre ele, com as suas dimensões e peso de captura exatamente indicados, no volume fólio do Sr. Joshua Spindler intitulado "Rudimenta Piscatoria, ou a Arte Completa da Pesca exposta numa Série de Cartas de um Nobre para o seu Filho", Londres, 1751. Ninguém que o tenha visto até agora viu um maior, embora a maioria deles tenha ouvido falar de um.
Acendi as minhas velas, pus o meu cachimbo a funcionar e puxei a cadeira para perto da lareira para ler e fumar. Era, contudo, cedo demais para eu ler durante muito tempo. Além disso, por hábito, tinha pegado no meu Virgílio, e era ainda impossível para mim sentir as pontas dos dedos nas marcas dos dentes sem pensar no pobre desgraçado que as tinha feito. Podia ver com exatidão detalhada o seu corpo morto estendido na estrada e Swift Nicks ao lado, a atirar o saco de guinéus para cima e para baixo no ar, e a sorrir alegre e, ao mesmo tempo, melancolicamente para mim. Daquele evento sombrio, quer a minha mente viajasse para trás ou para a frente, atravessava cenas como poucas pessoas têm o privilégio, ou o destino, de passar.
Era, novamente, cedo demais para eu realizar o efeito total das minhas experiências sobre mim mesmo. Eu não estava mal-humorado, como nos dias de outrora. Não detestava a minha sorte nem amaldiçoava o meu destino. Tinha visto a guerra e o derramamento de sangue, tinha tido o meu coração retorcido e os meus nervos esgotados, e agora os prados pacíficos que serpenteavam ao longo do rio e se estendiam até às colinas roxas eram caros aos olhos dos quais as escamas tinham caído. Esta era a vida e o trabalho sobre os quais o mundo se baseava, e era digno de qualquer homem. Tinha visto a Morte, o Ceifador, em ação, e ele era uma figura menos sedutora do que Joe Braggs com uma foice brilhante na mão e uma faixa de cereal dourado debaixo do braço.
Nunca mais estaria realmente sozinho. Tinha companhia da qual nunca me cansaria enquanto estivesse aqui sentado com as minhas memórias. Margaret raramente estava ausente da minha mente, e cada memória dela era uma bênção e uma inspiração. Não me arrependia do meu amor, por tolo e vão que tivesse sido. A coisa que realmente importava era que Jack estava vivo. Podia agora olhar para trás para tudo sem amargura. Se Margaret viesse buscar-me agora, para me chamar para outra ronda difícil de luta e aventura, eu partiria com ela num instante. Ela tinha sido uma companhia esplêndida. Ela seria uma esplêndida marquesa. Algum dia, quando a dor não fosse insuportável, iria a Londres e daria outra espreitadela àqueles olhos inigualáveis e àquela torre de cabelo dourado e brilhante.
Não ouvi a porta abrir, mas ouvi a voz calma da mãe, repreendendo gentilmente a Jane por uma risadinha imprópria. Um par de braços enroscou-se à volta do meu pescoço, e dedos brancos e finos envolveram o meu queixo. Kate não sabia que tinha sido eu quem quase enviara o seu namorado para uma sepultura prematura, pois Jack tinha-me proibido severamente de mencionar o assunto a quem quer que fosse, e, como disse, poderia nunca ter acontecido no que lhe dizia respeito. Portanto, Kate, sempre uma irmã amorosa e atenciosa, estava agora mais amorosa e atenciosa do que nunca porque sabia no seu coração que, embora eu tivesse ganho muito nas minhas deambulações, tinha perdido a única coisa que ela tinha encontrado no quarto de doente silencioso onde, durante longos meses cansativos, ela tinha atraído Jack de volta à vida. Era sempre a sua tarefa buscar-me dos meus livros e dos meus pensamentos para o círculo amado no salão, quando, como agora, tinha preparado uma chávena de chá para nós.
As mãos suaves e resolutas levantaram o meu queixo, e eu ofeguei ao olhar para os olhos de Margaret.
Ela segurou-me levemente, e, como se nos tivéssemos separado apenas cinco minutos antes no salão, começou a falar, calmamente, mas rapidamente.
"Oliver, lembras-te de me acordar no celeiro?"
Assenti. Estava demasiado espantado para falar, e havia algo nos seus olhos que me fez tremer.
"Eu estava a sonhar", disse ela, e eu assenti novamente e lembrei-me de como ela tinha corado como o amanhecer.
"Porque és o maior pateta de um homem que alguma vez viveu, vou contar-te o meu sonho. Sonhei que me carregavas através do Pearl Brook, e enquanto me carregavas o riacho ficava cada vez mais largo — tu tinhas feito com que ficasse o mais largo que podias, sabes — até que parecia que nunca o iríamos atravessar. E não me punhas no chão, embora eu te pedisse para o fazeres, mas carregavas-me cada vez mais longe. Ficaste cansado e exausto, e o teu rosto ficou branco e vincado, como o encontro agora, mas não me deixavas ir. Não foi um sonho curioso, Oliver?"
Novamente assenti.
"Porque não consegues falar, Oliver? Qualquer coisa tornaria isto menos difícil. Então, porque estavas tão exausto, e tão bom para mim, e tão fiel, e longânimo, eu fiz no meu sonho... no meu sonho, repara... algo muito pouco de donzela... e imediatamente estávamos ambos do outro lado; e acordei quando me puseste no chão finalmente e encontrei-te ao meu lado, tendo, na tua cavaleiresca abnegação, arruinado o teu chapéu para me dares um gole de leite. E porque és o melhor homem na terra, e também um pateta cego e tolo, Oliver, e tenho de correr algum risco ou perder tudo, vou... fazer a coisa pouco de donzela que fiz no meu sonho... e... tu... não me deves julgar mal, Oliver."
Ela parou, sorriu como só a Margaret consegue, e inclinou a cabeça até que uma mecha solta de cabelo âmbar caiu sobre o meu rosto. Depois, afastou-a e, após um pequeno grito ofegante, beijou-me nos lábios.
EPÍLOGO
O PEQUENO JACK
NAS HANYARDS STAFFORDSHIRE 9 de agosto de 1757
Margaret e eu tivemos uma discussão acesa esta manhã. É verdade que ela se foi embora, cantando alegremente, para reconstruir as massas de cabelo amarelo que tinham caído sobre os seus ombros e os meus, pois a coisa terrível parece cair se eu olhar para ela, mas ainda assim tínhamos discutido, e vigorosamente. O facto é que ela tinha torcido o nariz a Aristóteles.
O problema surgiu desta minha história que tenho estado ocupado a escrever nos últimos vinte meses. Tem sido um trabalho árduo, pois era novo no negócio, e tive de aprender a fazê-lo, mas tem sido uma tarefa agradável e um trabalho de amor. Agora, discutimos sobre isso. Eu disse que estava terminado. Ela disse que não. Eu disse que devia saber. Ela respondeu que não necessariamente, uma vez que eu era um pateta tão grande. Então carreguei a minha arma grande e pensei em explodi-la para fora da água.
"Minha querida Margaret", disse eu, "Aristóteles estabelece que toda a obra de arte tem um princípio, um meio e um fim. O princípio da nossa história foi a captura do grande lúcio, o meio foi a luta no 'Red Bull', e o fim foi o beijo que me deste. Vês, querida, como fiz exatamente o que Aristóteles diz que devo fazer."
"Que se lixe Aristóteles! O que é que ele sabe sobre nós?" Foi aqui que ela torceu o nariz, não figurativamente, mas realmente. Ou seja, ela levantou o nariz, sob o pretexto de olhar para mim, e audivelmente... bem, bufou. Não há outra palavra para isso. Depois, ela exclamou triunfantemente: "De que serve, Noll, contar a nossa história e não dizer uma única palavra sobre as pessoas mais importantes nela?"
A esta pergunta não fiz qualquer resposta. Fui derrotado. Aristóteles, se estivesse no meu lugar, teria sido derrotado também. Se estivéssemos na cidade, teria corrido até ao Sr. Johnson e pedido-lhe para me ajudar, mas sinto-me certo de que ele teria estado tão indefeso como eu. Não houve resposta, por isso contentei-me em brincar com o seu cabelo magnífico até que estava todo desarrumado no chão.
Que se lixe Aristóteles! Devo fazer o que a Margaret ordena.
* * * * *
O Coronel e o Sr. Freake estavam no salão quando, finalmente, naquela memorável véspera de Natal, levei orgulhosamente a minha Margaret até lá.
"Senhor", disse eu ao primeiro, antes de ele ter cessado o seu aperto de mão caloroso, "amo a Margaret profundamente e a Margaret ama-me. Podemos casar?"
"Seu cãozinho! Que dizes a isto, John?", disse ele.
"Nada está mais perto do meu coração", disse o grande comerciante de Londres, dando-me a sua mão por sua vez.
"Nem ao meu, por isso isso resolve a questão", gritou o Coronel, pescando a sua caixa de rapé, enquanto eu guiava a Margaret até à mãe.
Passámos um Natal feliz como amantes, e casámo-nos no dia de Ano Novo pelo vigário.
Jack e Kate casaram-se na primavera, altura em que ele estava tão bem e forte como sempre. Durante anos temi que o seu ferimento grave tivesse deixado alguma fonte permanente de fraqueza, mas, felizmente, os meus medos eram infundados. Jack, tendo tido o suficiente da vida militar, dedicou-se aos negócios por sugestão do Sr. Freake. Desenvolveu toda a astúcia do seu pai mantendo todo o seu próprio encanto juvenil. Ele é agora o braço direito do Sr. Freake, na grande casa londrina de Freake & Dobson. Kate continua a ser a Kate, ardente, ocupada, sensata e amorosa, e a feliz mãe de três raparigas e um rapaz. Jack e eu somos como gémeos um para o outro.
No verão após o nosso casamento, Margaret e eu fizemos a nossa viagem novamente. Vimos Cherry-Cheeks, e certificámo-nos de que Sim não tivesse apenas uma boa esposa, mas também um bom negócio próprio para a sustentar. Encontrámos a doce Nance Lousely, e enchemos-lhe o avental de guinéus depois de tudo, e deixámo-la chorosa e feliz. Ajoelhámo-nos juntos por uma sepultura simples no cemitério católico em Leek, e no topo de Shap ficámos, com lágrimas nos olhos, ao lado da grande pedra que marcava o local de descanso de Donald e do seu chefe.
Tornei-me um homem do Parlamento, como o Sr. Faneuil tinha dito que me tornaria, e sou um forte apoiante do Sr. Pitt. Passamos parte de cada ano em Londres, onde o Marquês é o nosso grande amigo. Ele casou-se com a nababesa afinal, e ela amava-o o suficiente para tornar o seu negócio reformá-lo. Ele jura que ela é a melhor mulher em Inglaterra, com uma cabeça sobre os ombros tão boa como a do Sr. Freake. Ela faz uma boa marquesa, também, pois sempre teve juízo, e desenvolveu dignidade.
Mas a maior parte do nosso tempo passamo-lo nas Hanyards, que transformei numa casa fina através de mudanças cuidadosas. O Sr. Joe Braggs e a Sra. Jane Braggs são os nossos leais e voluntários criados e os nossos amigos, e são tão felizes como dois passarinhos juntos. Têm agora uma família bastante grande.
Hoje estamos todos reunidos novamente para uma longa estadia em Hanyards. O Arquidiácono de Lichfield, outrora o nosso querido vigário, está conosco, simples, paternal e culto como de costume. Posso ver a sua cabeça branca quando levanto a minha da escrita. Ele está a aquecer-se ao sol no jardim e a conversar com a mãe, que volta os olhos de vez em quando para a estrada, pois Kate e Jack estão a chegar de Stafford com os seus filhos.
Todos estes são nomes familiares, mas é justo que o registo seja feito antes de eu regressar à desdém de Margaret por Aristóteles. Pois enquanto eu me ocupava com o cabelo dela, quem haveria de surgir, caminhando pelo pomar vindo do rio, senão o Coronel e o Mestre Freake. Pararam para se juntar à mãe e ao Arquidiácono na conversa, e nós, olhando para eles, sentíamo-nos orgulhosos e felizes pelo conhecimento do seu amor por nós.
Depois houve um grande barulho, tagarelice e gritos de entusiasmo lá fora. Margaret tinha deixado a porta do meu escritório aberta, e entraram a correr as pessoas mais importantes da nossa história. Tinham uma história demasiado grande para uma conversa coerente, e falavam apressadamente, um após o outro ou ambos ao mesmo tempo, para nos contar tudo sobre ela.
Foi Oliver quem o fez. Ele segurou com um orgulho que o fez gaguejar um lúcio de cerca de catorze polegadas de comprimento, que tinha acabado de apanhar. Dizem que ele é a imagem do pai. Seja como for, ele pescará de manhã, à tarde e à noite, se conseguir convencer um de nós, os mais velhos, a ir com ele para tomar conta dele.
Ali estava ele, com o peixe a oscilar à distância de um braço, a contar à mãe exatamente como o tinha feito. Não pretendo ser imparcial, mas não se encontra um rapaz melhor do que o meu. Ele larga o peixe no chão para correr para os braços da mãe, a fim de ser beijado e elogiado.
Eu também estou ocupado; ocupado como mais gosto de estar. Pois no meu colo, com os seus braços à volta do meu pescoço e a sua grande juba de glorioso cabelo cor de trigo a fazer-me cócegas no rosto, está a criatura mais querida da terra de Deus, a minha outra Margaret. Se quiser ver-me quando estou intensamente orgulhoso e feliz, tem de me ver com ela ao meu lado a caminhar no Parque ou pelo Green Gate em Stafford, com todos os olhares voltados para ela devido à sua beleza infantil inigualável.
"Eu ajudei-o a apanhá-lo, papá", diz ela, levantando o rosto para ser beijada.
Assim se repete a história, e fica decidido de imediato que o lúcio do Noll será colocado pelo Mestre Whatcot na mesma vitrina que o do pai, para que todo o mundo saiba que ele é um pescador tão bom como o seu pai antes dele. O Joe deve enviá-lo imediatamente para Stafford, e os dois correm ansiosamente para lho entregar, deixando-nos sozinhos.
À beleza resplandecente da sua juventude, Margaret acrescentou a beleza serena da maternidade. É essa toda a mudança que consigo ver nela, enquanto envolvo a sua cintura com os meus braços e a puxo para mim.
Quando ela conseguiu falar, disse alegremente: "Muito bem, pescador!"