O PASSAGEIRO DO ZEPELIM Por E. Phillips Oppenheim
CAPÍTULO I
“Não ouvi nada”, admitiu o mais jovem dos visitantes da tarde, livrando-se da chávena vazia e inclinando-se para a frente na sua cadeira baixa. “Sem mais chá, obrigado, Srta. Fairclough. Estava esplêndido, obrigado. Não, fui para a cama ontem à noite pouco depois das onze — o Coronel tinha-nos mantido em marcha forçada até à exaustão — e não acordei até à alvorada desta manhã. Sono de justo, e todo esse género de coisas, mas uma grande seca, ainda assim! Ouviu alguma coisa sobre isso, senhor?”, perguntou, voltando-se para o seu companheiro, que estava sentado a poucos metros de distância.
O Capitão Griffiths abanou a cabeça. Era um homem consideravelmente mais velho do que o seu interlocutor, com um rosto longo e nervoso, e cabelos pretos espessos, estriados de cinzento. Os seus dedos eram ossudos, a sua tez, para um soldado, curiosamente amarelada e, não obstante a sua estatura, que era considerável, era desajeitado, por vezes quase grosseiro. A sua voz era dura e pouco simpática, e as suas contribuições para a conversa à mesa do chá tinham sido quase negligenciáveis.
“Eu estava acordado até às duas horas, por acaso”, respondeu ele, “mas não sabia nada sobre o assunto até que me fosse comunicado oficialmente.”
Helen Fairclough, que desempenhava as honras da casa por Lady Cranston, a sua anfitriã ausente, assumiu o ligeiro ar de superioridade a que as circunstâncias do caso lhe davam direito.
“Ouvi-o distintamente”, declarou ela; “na verdade, acordou-me. Debrucei-me à janela e pude ouvir o motor tão claramente como se estivesse sobre o campo de golfe.”
O jovem subtenente suspirou.
“Que sorte terrível eu tenho com estas coisas”, confidenciou. “É a terceira vez que passam por aqui, e não ouvi nem vi nenhuma. Desta vez, dizem que esteve por um triz de cair. Naturalmente, já ouviu falar da gôndola de observação encontrada em Dutchman’s Common esta manhã?”
A rapariga assentiu.
“Viu-a?”, perguntou.
“Nem tive hipótese”, foi a resposta sombria. “Foi colocada em dois camiões cobertos e enviada para Londres no primeiro comboio. O Capitão Griffiths pode dizer-lhe como era, suponho. O senhor esteve lá, não esteve?”
“Supervisionei a sua remoção”, informou-os este último. “Foi um caso muito desinteressante.”
“Havia bombas lá dentro?”, perguntou Helen.
“Nem sinal de uma. Apenas um assento duro, dois pares de binóculos e um telefone. Parece ter ficado presa em algumas árvores e ter sido arrancada.”
“Que emocionante!”, murmurou a rapariga. “Suponho que não estivesse lá ninguém, pois não?”
Griffiths abanou a cabeça.
“Creio”, explicou, “que estas gôndolas de observação, embora estejam ligadas à maioria dos Zepelins, raramente são utilizadas em ataques noturnos.”
“Gostaria de a ter visto, ainda assim”, confessou Helen.
“Teria ficado desapontada”, assegurou-lhe o seu informador. “A propósito”, acrescentou, um pouco embaraçado, “não espera o regresso de Lady Cranston esta noite?”
“Espero-a a qualquer momento. O carro foi à estação para a ir buscar.”
O Capitão Griffiths pareceu receber a notícia com uma certa satisfação contida. Inclinou-se para trás na cadeira com o ar de quem se contenta em esperar.
“Ouviu dizer, Srta. Fairclough”, perguntou o seu companheiro mais jovem, um pouco hesitante, “se Lady Cranston teve sorte na cidade?”
Helen Fairclough desviou o olhar. Havia uma ligeira névoa diante dos seus olhos.
“Recebi uma carta esta manhã”, respondeu ela. “Parece não ter ouvido nada de encorajador até agora.”
“E não teve notícias do próprio Major Felstead, suponho?”
A rapariga abanou a cabeça.
“Nem uma linha”, suspirou. “Já se passaram dois meses desde que recebemos uma carta pela última vez.”
“Que sorte terrível ser capturado logo quando estava a ir tão bem”, observou o jovem, com simpatia.
“Tudo parece muito cruel”, concordou Helen. “Ele não estava realmente apto para regressar, mas a Junta aprovou-o porque tinham falta de oficiais e ele não parava de os preocupar. Tinha tanto receio de ser transferido para outro batalhão. Depois, foi feito prisioneiro naquela terrível questão de Pervais e enviado para o pior campo na Alemanha. Desde então, claro, a Philippa e eu temos tido tempos miseráveis, a preocuparmo-nos.”
“O Major Felstead é o único irmão de Lady Cranston, não é?”, perguntou Griffiths.
“E o meu único noivo”, respondeu ela, com uma pequena careta. “No entanto, não falemos mais sobre os nossos problemas”, continuou ela, com um esforço para um tom mais leve. “Encontrará alguns cigarros naquela mesa, Sr. Harrison. Não consigo imaginar onde está a Nora. Suponho que tenha persuadido alguém a levá-la à caça de troféus em Dutchman’s Common.”
“A estrada, por todo o caminho, está como um circo”, observou o jovem soldado, “e não há nada para ver quando se chega lá. Os aviadores navais estavam por todo o lado ao amanhecer, e o Capitão Griffiths não ficou muito atrás deles. Não deixou muito para os curiosos, senhor”, concluiu, voltando-se para o seu vizinho.
“Como Comandante do local”, respondeu o Capitão Griffiths, “tive naturalmente de mandar revistar o Common. Com exceção da gôndola de observação, contudo, penso que não estou a trair nenhuma confidência ao dizer-lhe que não descobrimos nada de interessante.”
“Supõe que o Zepelim estava em dificuldades, visto que voava tão baixo?”, perguntou Helen.
“É uma hipótese perfeitamente razoável”, assentiu o Comandante. “Dois barcos de patrulha foram enviados esta manhã, à sua procura. Um velho que vi em Waburne declara que passou como uma longa nuvem negra, mesmo por cima da sua cabeça, e que ficou quase ensurdecido pelo ruído dos motores. Pessoalmente, não posso acreditar que descessem tanto a menos que houvesse algum problema.”
A porta da confortável biblioteca em que estavam sentados foi subitamente aberta. Uma jovem de aspeto extremamente alerta, muito sardenta, e ainda não emancipada das longas tranças da sala de aula, entrou como um turbilhão. Na mão trazia um chapéu Homburg de homem, que agitou no ar em triunfo.
“Entra, Arthur”, gritou para um jovem subtenente que pairava no fundo. “Olhem o que eu tenho, Helen! Um troféu! Olhem só, Sr. Harrison e Capitão Griffiths! Encontrei-o num arbusto, a não vinte metros de onde a gôndola de observação caiu.”
Helen virou o chapéu, confusa e divertida.
“Mas, minha querida criança”, exclamou ela, “isto não passa de um chapéu vulgar! As pessoas que viajam em Zepelins não usam coisas assim. Como está, Sr. Somerfield?”, acrescentou, sorrindo para o jovem que seguira Nora para dentro da sala.
“Não usam!”, retorquiu esta, com um ar de conhecimento superior. “Olhem só para isto!”
Dobrou o forro e mostrou-lho. “O que acham disto?”, perguntou triunfante.
Helen contemplou as letras impressas a ouro, um pouco incrédula.
“Leia em voz alta”, insistiu Nora.
Helen obedeceu:
“Schmidt, Berlin, Unter den Linden, 127.”
“Isso soa a alemão”, admitiu ela.
“É um troféu, sem dúvida”, declarou Nora. “Um dos membros da tripulação — provavelmente o Comandante — deve ter subido a bordo à pressa e mudado para o uniforme depois de terem partido.”
“É o meu doloroso dever, Srta. Nora”, anunciou Harrison solenemente, “informá-la, em nome do Capitão Griffiths, de que todos os artigos de qualquer descrição, encontrados nas imediações de Dutchman’s Common, que possam possivelmente ter pertencido a alguém no Zepelim, devem ser enviados imediatamente para o Ministério da Guerra.”
“Disparate!”, troçou Nora. “O Ministério da Guerra não vai ficar com o meu chapéu.”
“O dever”, começou o jovem...
“Pode voltar para o Depósito e cumprir o seu dever, então, Sr. Harrison”, interrompeu Nora, “mas não vai ficar com o meu chapéu. Atirá-lo-ia para o fogo antes de o entregar.”
“Os regulamentos militares devem ser obedecidos, Srta. Nora”, aventurou-se o Capitão Griffiths, pensativo.
“Nada tão importante como chapéus”, interveio Harrison. “Veja, eles servem... a alguém.”
O gesto da rapariga foi irreverente, mas convincente. “Eu ouviria qualquer coisa que o Capitão Griffiths tivesse para dizer”, declarou ela, “mas vocês, rapazes que estão a aprender a ser soldados, estão simplesmente cheios de vaidade. Não há nada no vosso manual sobre chapéus. Se vão ser desagradáveis com isto, eu simplesmente ignorarei o regimento.”
Os dois jovens adotaram atitudes de falsa consternação. Nora pegou num chocolate de uma caixa.
“Seja misericordiosa, Srta. Nora!”, suplicou Harrison, em tom lacrimoso.
“Não desfaça o regimento todo”, implorou Somerfield, com um pequeno nó na garganta.
“Muito bem para vocês os dois serem engraçados”, continuou Nora, revisitando a caixa de chocolates, “mas já ouviram falar da vinda dos Seaforths, não ouviram? Eu adoro kilts, e a Helen também; não adoras, Helen?”
“Todas as mulheres adoram”, admitiu Helen, sorrindo. “Suponho que a criança possa realmente ficar com o chapéu, não pode?”, acrescentou, voltando-se para o Comandante.
“Oficialmente, o assunto está fora da minha competência”, declarou ele. “Não terei nada a dizer.”
Os dois jovens trocaram olhares.
“Um chapéu”, ponderou Somerfield, “especialmente um chapéu Homburg, dificilmente é um apetrecho de guerra.”
O seu colega oficial ficou por um momento a olhar gravemente para o objeto em questão. Depois, piscou o olho a Somerfield e suspirou.
“Assumirei toda a responsabilidade”, decidiu ele, magnânimo, “de não dizer nada sobre o assunto. Não podemos dar-nos ao luxo de discutir com a Srta. Nora, pois não, Somerfield?”
“Nem pensar”, concordou o jovem.
“Rapazes sensatos!”, pronunciou Nora, graciosamente.
“Muito obrigado, Capitão Griffiths, por não os encorajar na sua loucura. Pode levar-me até aos correios quando for, Arthur”, continuou ela, voltando-se para o afortunado possuidor do side-car, “e faremos um pouco de golfe amanhã à tarde, se quiser.”
“O Sr. Somerfield não vai tomar um chá?”, convidou Helen.
“Muito obrigado, Srta. Fairclough”, respondeu o homem; “tomámos chá há algum tempo na Watson’s, onde encontrei a Srta. Nora.”
Nora levantou subitamente o dedo. “Não é o carro?”, perguntou. “Mas, deve ser a mamã, já aqui! Sim, posso ouvir a voz dela!”
Griffiths, que se tinha movido ansiosamente para a janela, olhou para trás.
“É Lady Cranston”, anunciou solenemente.
CAPÍTULO II
A mulher que parou por um momento no limiar da biblioteca, olhando para o pequeno grupo, era inegavelmente bela. Tinha massas de cabelo ruivo-dourado, um pouco desordenado pela sua longa viagem de comboio, olhos cor de avelã profundos, uma tez delicada, quase como porcelana, e uma boca sensível e deliciosamente moldada. A sua figura era pequena e delicada e, naquele momento, tinha um aspeto de desamparo que era quase infantil. Nora, após um abraço vigoroso, conduziu a sua madrasta para uma cadeira.
“Vem sentar-te junto ao fogo, mamã”, suplicou. “Pareces cansada e com frio.”
Philippa trocou uma saudação geral com os seus convidados. Ainda usava o seu casaco de viagem e o seu ar de fadiga era inconfundível. Griffiths, que não tinha tirado os olhos dela desde a sua entrada, empurrou uma poltrona em direção ao tapete da lareira, na qual ela se afundou com uma palavra murmurada de agradecimento.
“Vais tomar um chá, não vais, querida?”, perguntou Helen.
Philippa abanou a cabeça. Os seus olhos encontraram os da sua amiga por um momento — foi apenas um breve relance, mas a tragédia de um sofrimento mútuo parecia curiosamente revelada nessa pergunta e resposta silenciosas. Os dois jovens subtenentes prepararam-se para se despedir. Nora, ajoelhada, acariciou a mão da sua madrasta.
“Nenhuma notícia, então?”, perguntou Helen, hesitante.
“Nenhuma”, foi a resposta cansada.
“Muitas novidades aqui, mamã”, interveio Nora, alegremente, “e muita excitação. Tivemos um Zepelim sobre Dutchman’s Common ontem à noite, e ele perdeu a sua gôndola de observação. O Sr. Somerfield levou-me lá esta tarde, e encontrei um chapéu alemão. Ninguém mais conseguiu nada, e, acreditas, aquelas crianças ali tentaram tirá-lo-me.”
A sua madrasta sorriu levemente.
“Espero que fiques com o chapéu, querida”, observou.
“Podes crer!”, assentiu Nora.
Philippa estendeu a mão aos dois jovens que aguardavam para se despedir.
“Devem vir jantar uma noite esta semana, ambos”, disse ela. “O meu marido estará em casa no comboio mais tarde esta noite, e tenho a certeza de que ele ficará feliz por vos ter.”
“Muito gentil da sua parte, Lady Cranston, ficaremos encantados”, declarou Harrison.
“Com certeza!”, fez eco o seu companheiro.
Nora conduziu-os para fora, e Helen, com uma palavra de desculpa, seguiu-os. Griffiths, que também se tinha levantado, aproximou-se um pouco da cadeira de Philippa.
“E o senhor também, claro, Capitão Griffiths”, disse ela, sorrindo agradavelmente para ele. “Tem de se apressar a ir embora?”
“Ficarei, se me permitir, até que a Srta. Fairclough regresse”, respondeu, retomando o seu lugar.
“Fique!”, implorou-lhe Philippa. “Tive um tempo tão miserável na cidade. Não imagina como é descansado estar de volta aqui.”
“Receio”, observou ele, “que a sua viagem não tenha sido bem-sucedida.”
Philippa abanou a cabeça.
“Foi completamente malsucedida”, suspirou. “Não consegui ouvir uma palavra sobre o meu irmão. Sinto muito pela pobre Helen, também. Eles só ficaram noivos, sabe, poucos dias antes de ele partir para a frente desta última vez.”
O Capitão Griffiths assentiu com simpatia.
“Nunca conheci o Major Felstead”, comentou, “mas todos os que conheceram parecem gostar muito dele. Ele estava a ir tão bem, também, até àquele último infeliz caso, não estava?”
“O Dick é um querido”, declarou Philippa. “Nunca conheci ninguém com tantos amigos. Ele já estaria a comandar o seu batalhão agora, se ao menos estivesse livre. O seu coronel escreveu-me e disse-mo ele próprio.”
“Gostaria que houvesse algo que eu pudesse fazer”, murmurou Griffiths, um pouco embaraçado. “Magoa-me, Lady Cranston, vê-la tão perturbada.”
Ela olhou para ele por um momento com uma leve surpresa.
“Ninguém pode fazer nada”, lamentou-se ela. “Essa é a parte infeliz de tudo isto.”
Ele levantou-se e ficou imediatamente consciente, como sempre acontecia quando se punha de pé, de que havia uns trinta a sessenta centímetros da sua figura com os quais não tinha ideia do que fazer.
“Não se sentiria com vontade de um passeio a cavalo amanhã de manhã, Lady Cranston?”, perguntou, com uma nostalgia que parecia de alguma forma abafada na sua voz algo desagradável. Ela abanou a cabeça.
“Talvez uma manhã mais tarde”, respondeu, um pouco vagamente. “Não tenho ânimo para nada neste momento.”
Ele despediu-se da sua anfitriã de forma sombria, mas agitada, e saiu para o crepúsculo, amaldiçoando a sua falta de desembaraço, lembrando-se das coisas que pretendia ter dito e odiando-se por as ter esquecido. Philippa, para quem a sua partida fora, como sempre era, um alívio, já estava inclinada para a frente na sua cadeira, com o braço à volta do pescoço de Helen.
“Pensei que aquele homem extraordinário nunca mais ia embora”, exclamou ela, “e eu estava desejosa de mandar chamar-te, Helen. Londres tem sido um capítulo tão lúgubre de desapontamentos.”
“Que tempo nauseante deves ter tido, querida!”
“Foi horrível”, assentiu Philippa, tristemente, “mas sabes que o Henry não tem utilidade nenhuma, e eu ter-me-ia sentido miserável se não tivesse ido. Fui a todos os amigos no Ministério da Guerra, e a todos os amigos que têm amigos lá. Fiz todo o tipo de perguntas, e sei tanto agora como quando saí daqui — que o Richard era prisioneiro em Wittenberg na última vez que ouviram, e que não receberam qualquer notificação sobre ele nos últimos dois meses.”
Helen lançou um olhar ao calendário.
“Faz exatamente dois meses hoje”, disse ela, tristemente, “desde que tivemos notícias.”
“E depois”, suspirou Philippa, “ele não tinha recebido nenhum dos nossos pacotes.”
Helen levantou-se subitamente. Era uma rapariga alta, loira, do melhor tipo saxão, esguia mas de modo algum angulosa, com toda a promessa, na verdade, de um desenvolvimento mais pleno e gracioso nos anos vindouros. Tinha pouco mais de vinte e dois anos e, como é comum nas raparigas da sua compleição, parecia mais nova. O seu rosto brilhante e inteligente era, acima de tudo, bem-humorado. Naquele preciso momento, contudo, havia um rubor de raiva apaixonada nas suas bochechas.
“Faz-me sentir quase fora de mim”, exclamou ela, “esta incapacidade horrível de fazer qualquer coisa! Aqui estamos nós a viver no luxo, sem uma única privação, enquanto o Dick, a coisa mais querida à face da terra para nós as duas, está a ser esfomeado e levado à morte numa imunda prisão alemã!”
“Não devemos acreditar que é tão mau quanto isso, querida”, repreendeu Philippa. “O que é, Mills?”
O criado idoso, que entrara com um tabuleiro na mão, fez uma vénia enquanto o arrumava numa mesa lateral.
“Tomei a liberdade de trazer um pouco de chá fresco, minha senhora”, anunciou, “e algumas torradas quentes com manteiga. A cozinheira enviou também algumas das sanduíches, que a senhora geralmente aprecia.”
“É muito gentil da sua parte, Mills”, disse Philippa, com um sorriso um pouco pálido. “Tomei chá em South Lynn, mas estava muito mau. Pode levar o meu casaco, por favor.”
Ela levantou-se e o pesado casaco de pele deslizou facilmente para fora do seu pequeno corpo esguio e elegante.
“Quer que acenda as luzes, minha senhora?”, perguntou Mills.
“Pode acender um candeeiro”, ordenou Philippa, “mas não feche as persianas até à hora de acender as luzes. Depois do ruído de Londres”, continuou, voltando-se para Helen, “penso sempre que o som ténue do mar é tão descansado.”
O homem moveu-se silenciosamente pela sala e regressou mais uma vez para junto da sua patroa.
“Ficaríamos contentes por ouvir, minha senhora”, disse ele, “se há alguma notícia do Major Felstead?” Philippa abanou a cabeça.
“Nenhuma, lamento dizer, Mills! Ainda assim, devemos ter esperança. Suponho que alguns destes campos não sejam tão maus como imaginamos.”
“Devemos esperar que não, minha senhora”, foi a resposta um tanto lúgubre. “Quer que feche as janelas?”
“Pode deixá-las até fechar as persianas, Mills”, ordenou Philippa. “Não estou para ninguém, se alguém vier. Certifique-se de que não somos incomodadas por algum tempo.”
“Muito bem, minha senhora.”
A porta foi fechada e as duas mulheres ficaram mais uma vez sozinhas. Philippa estendeu os braços.
“Helen, querida, vem ser simpática para mim”, suplicou. “Vamos ambas fingir que nenhuma notícia é boa notícia. Oh, eu sei o que estás a sofrer, mas lembra-te que, mesmo que o Dick seja o teu amante, ele é o meu querido e único irmão — o meu irmão gémeo, também. Fomos tanto um para o outro toda a nossa vida. Ele vai aguentar, querida, se algum ser humano conseguir. Havemos de tê-lo de volta connosco um dia.”
“Mas ele tem fome”, soluçou Helen. “Não suporto pensar que ele está com fome. Cada vez que me sento para comer, quase me sufoca.”
“Suponho que ele se tenha esquecido do que é um whisky com soda”, murmurou Philippa, com um pequeno nó na sua própria garganta.
“Ele adorava um a estas horas”, disse Helen, hesitante, olhando para o relógio.
“E cigarros!”, exclamou Philippa. “Pergunto-me se lhe dão alguma coisa para fumar.”
“Tabaco alemão horrível, se é que dão”, respondeu Helen, indignada. “E pensar que lhe enviei pelo menos seiscentos dos seus Egípcios favoritos!”
Caiu mais uma vez de joelhos ao lado da sua amiga. Os seus braços estavam entrelaçados, as bochechas a tocarem-se. Um daqueles estranhos silêncios femininos de aguda simpatia pareceu retê-las por um tempo sob o seu domínio. Depois, quase ao mesmo tempo, um estranho despertar veio para ambas. O braço de Helen ficou tenso. Philippa virou a cabeça, mas os seus olhos estavam cheios de um medo incrédulo. Uma pequena corrente de ar fresco soprava pela sala. As janelas francesas estavam entreabertas e, de costas para elas, um homem que aparentemente entrara na sala vindo dos jardins e passara silenciosamente pelo tapete macio, estava de pé junto à porta, a escutar. Ouviram-no rodar a chave. Depois, de uma forma profissional, regressou às janelas e fechou-as, com os olhos das duas mulheres a segui-lo todo o tempo. Satisfeito, aparentemente, com as suas precauções, virou-se para elas exatamente quando uma expressão de indignada interrogação irrompeu dos lábios de Philippa. Helen saltou para os seus pés e Philippa agarrou-se aos braços da sua cadeira. O recém-chegado avançou alguns passos na direção delas.
CAPÍTULO III
Pareceu às duas mulheres, por mais breve que tenha sido o período de silêncio real, que naqueles poucos segundos conceberam, em conjunto, impressões definitivas e duradouras do homem que se tornaria, durante as semanas seguintes, num objeto da mais profunda preocupação para ambas. O intruso era de compleição franzina, pouco mais do que de estatura média, de pele morena, com um bigode quase impercetível de estilo militar, cabelo preto despenteado pelo vento e olhos de um brilho quase peculiar. Movia-se com uma segurança que era algo notável, considerando o estado das suas roupas rasgadas e manchadas de lama, cuja qualidade era quase impossível de distinguir. Ambas, curiosamente, formaram a mesma convicção instintiva de que, apesar da sua aparência de vagabundo e da sua entrada à força, aquela não era uma pessoa a ser grandemente temida.
O estranho afastou a exclamação incoerente de Philippa e abriu a conversa com alguma cerimónia.
“Minhas senhoras”, começou ele, com uma vénia baixa, “em primeiro lugar, permitam-me oferecer as minhas mais profundas desculpas por esta forma invulgar de entrada na vossa casa.”
Philippa levantou-se da sua poltrona e enfrentou-o. A luz do fogo refletia-se no seu cabelo ruivo-dourado, e a surpresa tinha expulsado o cansaço do seu rosto. Contra o carvalho negro da moldura da lareira, ela tinha quase a aparência de um camafeu emoldurado. A sua voz estava perfeitamente firme, embora a sua inflexão traísse alguma indignação.
“Terá a gentileza de explicar quem é e o que pretende com este comportamento extraordinário?” exigiu ela.
“É a minha sincera intenção fazê-lo sem demora”, assegurou-lhe ele, com os olhos aparentemente fixos em Philippa. “Peço que me perdoe.”
Ele estendeu o braço para deter Helen, que, com o olhar focado na campainha, tinha feito uma tentativa furtiva de passar por ele. Os olhos dela brilharam quando sentiu os dedos dele sobre o seu braço.
“Como se atreve a tentar deter-me!” exclamou ela.
“Minha cara Miss Fairclough”, argumentou ele, “no interesse de todos nós, é melhor que tenhamos alguns momentos de conversa sem interrupções. Estou a partir do princípio de que tenho o prazer de me dirigir a Miss Fairclough?”
Havia algo na confiança fácil do homem que era, à sua maneira, impressionante, mas irritante. Helen parecia desprovida de palavras e retirou-se para o seu lugar de forma quase submissa. As sobrancelhas muito delicadas de Philippa franziram-se ligeiramente.
“Está, então, ao corrente dos nossos nomes?”
“Perfeitamente”, foi a resposta suave. “A senhora, presumo, é Lady Cranston? Permita-me acrescentar”, continuou ele, olhando-a fixamente, “que a descrição pela qual a reconheço faz-lhe menos do que justiça.”
“Acho esse comentário, dadas as circunstâncias, impertinente”, disse-lhe Philippa friamente.
Ele encolheu os ombros. Havia um leve sorriso nos seus lábios e os seus olhos cintilavam.
“Ai!” murmurou ele, “por um momento esqueci-me das circunstâncias algo invulgares do nosso encontro. Permita-me oferecer-lhe o que espero que aceite como o equivalente a uma carta de apresentação.”
“Uma carta de apresentação”, repetiu Philippa, lançando um olhar às suas roupas desarrumadas, “e entra pela janela!”
“Acredite em mim”, assegurou-lhe o intruso, “foi a única maneira.”
“Talvez me explique, então”, exigiu Philippa, a sua raiva dando lugar gradualmente à perplexidade, “o que há de errado com a minha porta da frente?”
“Pelo que sei, cara senhora”, confessou o recém-chegado, “a sua porta da frente pode ser excelente. Pedir-lhe-ia, contudo, que considerasse a minha aparência. Fui obrigado a concluir os últimos quilómetros da minha viagem de uma forma algo ignominiosa. As minhas roupas — eram roupas muito boas, também, quando comecei”, acrescentou, olhando para si próprio com pesar — “sofreram. E, como percebe, perdi o meu chapéu.”
“O seu chapéu?” exclamou Helen, com um olhar súbito para o troféu de Nora.
“Precisamente! Poderia ter posado perante o seu mordomo, talvez, como pertencente ao que chamam a brigada dos sem-chapéu, mas a lama nas minhas roupas, e estes infelizes rasgões nas minhas vestes, teriam necessitado de uma explicação que achei melhor evitar. Faço-me entender, espero?”
“Entender?” murmurou Philippa, impotente.
“Entender?” ecoou Helen, com um sobrolho franzido e confuso.
“Quero dizer, naturalmente”, explicou o seu visitante, “no que diz respeito à minha escolha desta forma algo sub-reptícia de entrada na sua casa.”
Philippa encolheu os ombros e fez um movimento determinado em direção à campainha. O intruso, contudo, bloqueou-lhe o caminho. Ela olhou para o rosto dele e achou difícil manter a sua indignação. A sua expressão, além de ser distintamente agradável, estava cheia de uma admiração respeitosa.
“Terá a bondade de me deixar passar?” insistiu ela.
“Minha senhora”, respondeu ele, “receio que a sua intenção seja tocar a campainha.”
“Claro que é”, admitiu ela. “Não se atreva a impedir-me.”
“Minha senhora, não desejo impedi-la”, assegurou-lhe ele. “Um atraso de alguns momentos — é tudo o que peço.”
“Explique-se de imediato, senhor”, exigiu Philippa, “o que pretende ao forçar a entrada na minha casa desta forma extraordinária e ao trancar aquela porta?”
“Estou muito ansioso por fazê-lo”, foi a pronta resposta. “Estou correto, certamente, na minha primeira suposição de que a senhora é Lady Cranston — e a senhora, Miss Fairclough?” acrescentou, fazendo uma vénia cerimoniosa a ambas. “Um enorme prazer! Reconheci-as a ambas com bastante facilidade, vê, pelas suas descrições.”
“Pelas nossas descrições?” repetiu Philippa.
O recém-chegado fez uma vénia.
“As descrições, brilhantes, de facto, mas de forma alguma exageradas, do seu irmão Richard, Lady Cranston, e do seu noivo, Miss Fairclough.”
“Richard?” Philippa quase gritou.
“Viu o Dick?” Helen ofegou.
O intruso mergulhou as mãos nos bolsos e retirou dois envelopes selados. Entregou um a Helen e outro a Philippa, simultaneamente.
“As minhas cartas de apresentação”, explicou ele, com um pequeno suspiro de alívio. “Confio que, durante a sua leitura, me convidarão a tomar um chá. Estou quase a morrer de fome.”
As duas mulheres apressaram-se em direção ao candeeiro.
“Um momento, peço-lhes”, interpôs o seu visitante. “Estabeleci, creio eu, as minhas credenciais. Posso lembrar-lhes que fui forçado a assegurar a segurança destes poucos minutos de conversa convosco, trancando aquela porta. É provável que sejam interrompidas?”
“Não, não! Nenhuma possibilidade”, assegurou-lhe Philippa.
“Se formos, explicar-emos”, prometeu Helen.
“Nesse caso”, pediu o intruso, “talvez me dêem licença.”
Ele moveu-se em direção à porta e rodou suavemente a chave, depois puxou cuidadosamente as cortinas sobre as janelas de sacada. Em seguida, dirigiu-se para a mesa do chá. Um pequeno grito palpitante tinha escapado dos lábios de Helen.
“Philippa”, exclamou ela, “é do Dick! É a caligrafia do Dick!”
A resposta de Philippa foi incoerente. Ela estava a rasgar o seu próprio envelope. Com um sorriso de satisfação, o portador destas comunicações agarrou numa sanduíche com uma mão e serviu-se de chá com a outra. Comeu e bebeu com a contenção da boa educação, mas com uma voracidade que dava sentido ao seu pedido por estar a morrer de fome. A poucos metros de distância, o silêncio ofegante entre as duas mulheres tinha dado lugar a uma série quase histérica de exclamações desconexas.
“É do Dick!” repetiu Helen. “É a sua própria caligrafia querida. Como está trémula! Ele está vivo e bem, Philippa, e encontrou um amigo.”
“Eu sei — eu sei”, murmurou Philippa, trémula. “As nossas encomendas foram descobertas, e ele recebeu-as todas de uma vez. Imagina, Helen, ele na verdade não está assim tão doente!”
Aproximaram-se um pouco mais.
“Lê a tua primeiro”, propôs Helen, “e depois eu leio a minha.”
Philippa assentiu. A sua voz, aqui e ali, estava um pouco incerta.
MINHA QUERIDA IRMÃ,
Não tenho notícias tuas ou da Helen há tanto tempo que estava realmente a ficar desesperado. Tive uma vida muito difícil aqui, mas pela graça da Providência deparei-me com um velho amigo no outro dia, Bertram Maderstrom, de quem deves ter-me ouvido falar nos meus tempos de faculdade. Não é exagero dizer que ele salvou a minha vida. Ele desenterrou as vossas encomendas, encontrou-me alojamento decente, e estou a receber rações a dobrar. Ele prometeu, também, fazer chegar esta carta até ti.
Não precisas de te preocupar comigo agora, querida. Sinto-me duas vezes o homem que era há um mês, e aguentar-me-ei agora bastante facilmente.
Escreve-me tão frequentemente quanto possas. As tuas cartas e as da Helen fazem toda a diferença.
O meu amor para ti e para o Henry. Teu irmão carinhoso, RICHARD.
P.S. O Henry já é Almirante? Suponho que ele esteve no confronto de Jutlândia, que todos nos dizem aqui ter sido uma grande vitória alemã. Espero que ele tenha saído bem de lá.
Philippa leu o pós-escrito com um pequeno arrepio. Depois, cerrou os dentes como se estivesse determinada a ignorá-lo.
“Não é maravilhoso!” exclamou ela, virando-se para Helen com olhos brilhantes. “Agora a tua, querida?”
A voz de Helen tremia enquanto lia. Os seus olhos, também, por vezes estavam embaciados:
QUERIDO,
Estou a escrever-te de forma tão diferente porque sinto que vais realmente receber esta carta. Tive uma sorte extraordinária, como perceberás pela nota da Philippa. Não consegues imaginar a diferença. Há um mês, pensei realmente que teria de desistir. Agora estou a ganhar peso todos os dias e a começar a sentir-me eu mesmo outra vez. Devo a minha vida a um camarada com quem estive na faculdade, e de quem tu e eu, querido, teremos de nos lembrar toda a nossa vida.
Penso sempre em ti, e os meus pensamentos são como as flores das quais não vemos nada nestas cabanas horríveis. A minha maior alegria é sonhar com o dia em que nos encontraremos de novo.
Escreve-me frequentemente, meu amor. As tuas cartas e os meus pensamentos em ti são a única alegria da minha vida.
Sempre o teu amante, DICK.
Houve alguns momentos de silêncio significativo. As raparigas estavam inclinadas uma para a outra, os seus braços à volta dos pescoços uma da outra, as suas cabeças quase a tocar-se. Atrás delas, o seu visitante continuava a comer e a beber. Levantou-se finalmente, embora de má vontade, e tossiu. Elas sobressaltaram-se, recordando-se subitamente da sua presença. Philippa virou-se impulsivamente para ele com as mãos estendidas.
“Não sei como lhe agradecer”, declarou ela.
“Ambas”, ecoou Helen.
Ele tocou com os dedos numa caixa de cigarros que estava sobre a mesa do chá.
“Permitem?” perguntou ele.
“Claro”, assentiu Philippa ansiosamente. “Encontrará alguns fósforos no tabuleiro ali. Por favor, sirva-se. Receio ter parecido muito descortês, mas tudo isto tem sido tão incrível. Não quer mais chá e algumas torradas, ou não gostaria de algumas sanduíches?”
“Nada mais por agora, obrigado”, respondeu ele. “Se não se importam, preferia continuar a nossa conversa.”
“Estas cartas são maravilhosas”, disse-lhe Philippa, grata. “Sabe de quem vêm, naturalmente. O Dick é o meu irmão gémeo, e até à guerra raramente tínhamos estado separados. Miss Fairclough aqui presente está noiva dele. Há já dois meses que não temos uma linha, e eu própria estive em Londres durante os últimos três dias, três dias muito cansativos, a fazer perguntas por todo o lado.”
“Estou muito feliz”, disse ele, “por vos ter trazido tão boas notícias.”
Mais uma vez, o aspeto normal da situação começou a impor-se novamente às duas mulheres. Elas lembraram-se da porta trancada, do segredo da entrada do seu visitante e do seu estado desarrumado.
“Posso perguntar a quem devemos este grande serviço?” Philippa inquiriu.
“O meu nome por agora é Hamar Lessingham”, foi a resposta suave.
“Por agora?” repetiu Philippa. “Talvez tenha algumas explicações a dar”, continuou ela, com alguma hesitação; “o estado das suas roupas, a sua forma algo curiosa de entrada?”
“Com a vossa permissão.”
“Um momento”, interveio Helen ansiosamente. “Será possível, Mr. Lessingham, que tenha visto o Major Felstead ultimamente?”
“Há cerca de cinquenta e seis horas, Miss Fairclough. Tenho o prazer de vos dizer que ele estava, dadas as circunstâncias, com um aspeto bastante razoável.”
Helen apanhou uma fotografia da mesa ao seu lado e aproximou-se do seu visitante.
“Isto foi tirado pouco antes de ele partir a primeira vez”, continuou ela. “Ele está parecido com isto agora?”
Mr. Hamar Lessingham suspirou e abanou a cabeça.
“Devem esperar”, avisou-a ele, “que a prisão e o hospital tenham tido o seu efeito sobre ele. Ele estava a ganhar forças todos os dias, contudo, quando parti.”
Philippa estendeu a mão. Ela estivera a olhar curiosamente para o seu visitante.
“Helen, querida, depois pediremos ao Mr. Lessingham para nos falar sobre o Dick”, insistiu ela. “Primeiro, há algumas perguntas que tenho de fazer.”
Ele fez uma vénia ligeira e endireitou-se. Por um momento, pareceu que estavam a iniciar um duelo — a mulher pequena e bela e o homem em trapos.
“Acabou de dizer”, começou ela, “que viu o Major Felstead, o meu irmão, há cinquenta e seis horas.”
“É verdade”, assentiu ele.
“Mas é impossível!” apontou ela. “O meu irmão é prisioneiro de guerra na Alemanha.”
“Precisamente”, respondeu ele, “e não, receio, nas condições mais felizes, ele tem tido azar no seu campo. Falemos sobre ele, vamos?”
“Está louco”, exigiu Helen, “ou está a tentar confundir-nos?”
“Minha cara jovem!” protestou ele. “Por que supor tal coisa? Eu lisonjeava-me de que a minha conversa e comportamento fossem, dadas as circunstâncias, perfeitamente racionais.”
“Mas está a dizer disparates”, insistiu Philippa. “Diz que viu o Major Felstead há cinquenta e seis horas. Não pode querer que acreditemos que há cinquenta e seis horas estava em Wittenberg.”
“É precisamente isso que tenho tentado dizer-lhes”, concordou ele.
“Mas não é possível!” Helen ofegou.
“Perfeitamente, asseguro-lhes”, continuou ele; “de facto, deveríamos ter estado aqui mais cedo, não fosse uma pequena incerteza quanto aos vossos armamentos ao longo da costa. Havia um canhão, fomos informados, algures por aqui, que fomos credivelmente informados ter disparado uma vez sem o menor acidente.”
Os olhos de Philippa pareciam tornar-se maiores e mais redondos.
“Ele está a delirar!” decidiu ela.
“Ele não está!” gritou Helen, com uma adivinhação súbita. “É esse o seu chapéu?” perguntou ela, apontando para a mesa onde Nora tinha deixado o seu troféu.
“É”, admitiu ele com um sorriso, “mas não penso que o reclamarei.”
“Estava na cabine de observação daquele Zeppelin!”
Lessingham estendeu a mão.
“Calma, por favor”, pediu ele. “Chegaram, presumo, à verdade, mas por agora será o nosso segredo? Fiz uma descida extraordinariamente desconfortável, para não dizer pouco digna, do Zeppelin que passou por Dutchman's Common na noite passada.”
“Então”, gritou Philippa, “o senhor é um alemão!”
“Minha cara senhora, escapei a esse infortúnio”, confessou Lessingham. “Pensa que ninguém mais do que os alemães viaja em Zeppelins?”
CAPÍTULO IV
Uma nova tensão parecia ter-se instalado na situação. A conversa, nunca isenta das suas tendências emocionais, mudou de caráter de imediato. Philippa, fria e reservada, com uma ameaça à espreita a todo o momento no seu tom e maneira, tornou-se o seu espírito orientador.
“Podemos perguntar o seu nome?” perguntou ela.
“Sou o Barão Maderstrom”, foi a pronta resposta. “Para efeitos da minha breve estadia neste país, contudo, imagino que o nome de Mr. Hamar Lessingham possa provocar menos comentários.”
“Maderstrom”, repetiu Philippa. “Esteve em Magdalen com o meu irmão.”
“Durante três trimestres”, assentiu ele.
“Visitou Wood Norton. Foi apenas por acidente, então, que não o conheci.”
“É verdade”, respondeu ele, com uma vénia. “Recebi a mais encantadora hospitalidade lá por parte do seu pai e da sua mãe.”
“Ora, o senhor é o amigo”, exclamou Helen, agarrando subitamente as suas mãos, “de quem o Dick fala na sua carta!”
“Foi o meu grande privilégio ter sido útil ao Major Felstead”, foi a grave admissão. “Ele e eu, durante os nossos dias de faculdade, fomos mais do que ordinariamente íntimos. Vi o seu nome numa das listas de prisioneiros, e fui de imediato a Wittenberg.”
Uma nova torrente de perguntas estava nos lábios de Helen, mas Philippa afastou-a.
“Por favor, deixe-me falar”, disse ela. “Trouxe-nos estas cartas do Richard, pelas quais lhe oferecemos o nosso sincero agradecimento, mas não arriscou a sua liberdade, talvez a sua vida, para vir aqui simplesmente como seu embaixador. Há algo para além disto na sua visita a este país. Pode ser sueco, mas não é verdade que, neste momento, está ao serviço de um inimigo?”
Lessingham fez uma vénia de aquiescência.
“Está inteiramente certa”, murmurou ele.
“Estarei também certa ao concluir que tem algum serviço a pedir-nos?”
“A sua franqueza, cara senhora, comove-me com admiração”, assegurou-lhe Lessingham. “Estou aqui para pedir um favor trivial em troca daqueles que prestei e daqueles que ainda poderei prestar ao seu irmão.”
“E esse favor?”
O seu visitante olhou para as suas vestes rasgadas.
“Um fato de roupas do seu irmão”, respondeu ele, “e um quarto onde me possa mudar. A eliminação destes trapos, presumo, deixá-la-ei à sua engenhosidade.”
“Algo mais?”
“É o meu desejo”, continuou ele, “permanecer nesta vizinhança por um curto período — talvez uma quinzena e talvez um mês. Apreciaria a sua apresentação ao hotel aqui, e a extensão de tal hospitalidade que possa parecer-lhe apropriada, dadas as circunstâncias.”
“Como Mr. Hamar Lessingham?”
“Sem dúvida.”
Houve um momento de silêncio. O rosto de Philippa tinha-se tornado quase pétreo. Ela deu um passo em direção ao telefone. Lessingham, contudo, estendeu a mão.
“O seu propósito?” inquiriu ele.
“Vou telefonar ao Comandante aqui”, disse-lhe ela, “e explicar a sua presença nesta casa.”
“Um impulso heroico”, observou ele, “mas demasiado impulsivo.”
“Veremos”, retorquiu ela. “Deixar-me-á passar?”
Os seus dedos detiveram-na tão suavemente quanto possível.
“Permita-me fazer um apelo razoável a ambas”, sugeriu ele. “Estou aqui à vossa mercê. Prometo-lhes que, sob circunstância alguma, tentarei qualquer medida de violência. De qualquer receio disso, confio que o meu nome e a minha amizade com o seu irmão serão garantia suficiente.”
“Continue, então”, assentiu Philippa.
“Dar-me-ão dez minutos para expor o meu caso”, pediu ele.
“Temos de dar!” exclamou Helen. “Temos, Philippa! Por favor!”
“Terá os seus dez minutos”, concedeu Philippa.
Ele abandonou a sua atitude de vigilância e moveu-se de volta para o tapete da lareira, com as mãos atrás das costas. Dirigiu-se a Philippa. Era Philippa quem se tornara a sua juíza.
“Não reclamarei nada de vós”, começou ele, “pelos serviços que prestei ao Richard. A nossa amizade era uma coisa real e, encontrando-o em tais apuros, teria feito alegremente, sob quaisquer circunstâncias, tudo o que fiz. Estou bem pago por isto pelos agradecimentos que já me ofereceu.”
“Nenhuns agradecimentos — nada que pudéssemos fazer por si seria recompensa suficiente”, declarou Helen energicamente.
“Deixe-me falar por um momento sobre o futuro”, continuou ele. “Supondo que toca nesse telefone e me entrega às autoridades aqui? Bem, esse será o meu fim, sem dúvida. Terá feito o que lhe pareceu ser a coisa certa, e espero que essa consciência a sustente, pois, acredite-me, embora possa não ser por minha vontade, a vida do seu irmão pagará certamente pela minha.”
Houve uma ligeira pausa. Um soluço escapou da garganta de Helen. Até o lábio de Philippa tremeu.
“Perdoe-me”, continuou ele, “se isso soa como uma ameaça. Não foi essa a intenção. É a simples verdade. Deixe-me apressar-me em relação ao futuro. Peço tão pouco de vós. É o meu dever viver neste local durante um mês. Que mal posso fazer? Não têm aqui uma grande concentração de soldados, nem docas, nem fortificações, nem indústria. E em troca do ligeiro serviço de me permitir permanecer aqui sem ser incomodado, dou a minha palavra de que o Richard será posto em liberdade e estará aqui convosco dentro de dois meses.”
O rosto de Helen estava transformado, os seus olhos brilhavam, os seus lábios estavam entreabertos com avidez. Ela virou-se para Philippa, a sua expressão, toda a sua atitude, um epítome de eloquente súplica.
“Philippa, não vais hesitar? Não podes?”
“Tenho de o fazer”, respondeu Philippa, lutando com a sua agitação. “Amo o Dick mais profundamente do que qualquer outra coisa na terra, mas neste momento, Helen, temos de nos lembrar, acima de tudo, que somos mulheres inglesas. Temos de deixar os nossos sentimentos humanos para trás. Estamos a aprender todos os dias a fazer sacrifícios. Tu, também, deves aprender, querida. A minha resposta ao senhor, Barão Maderstrom — ou Mr. Lessingham, como escolhe chamar-se — é não.”
“Philippa, tu estás louca!” exclamou Helen apaixonadamente. “Não tive eu de compreender tudo o que dizes quando deixei o Dick ir, alegremente, no dia a seguir ao nosso noivado? Não compreendi eu o dever da alegria e do sacrifício ao longo de todos estes meses penosos? Mas há um limite para estas coisas, Philippa, um sentido de proporção que tem de ser levado em conta. É a vida do Dick que está na balança contra algo intangível, nada que possamos alguma vez censurar-nos, nada que possa trazer um mal real a ninguém. Oh, eu também amo o meu país, mas quero o Dick! Sentir-me-ia como a sua assassina durante toda a minha vida se não consentisse!”
“Ocorre-me”, observou Lessingham, voltando-se para Philippa, “que o ponto de vista da Miss Fairclough é um que deve ser considerado.”
“Não se aplica a mim tudo o que a Miss Fairclough disse?” perguntou Philippa, com uma pequena quebra na voz. “O Richard é o meu irmão gémeo, é a coisa mais querida que tenho na vida. Não consegues compreender, contudo, que o que nos pedes é traição?”
“Na verdade, não chega a tanto”, assegurou-lhe Lessingham. “No fundo do meu coração, sinto-me convencido de que vim aqui numa missão de tolo. Nenhum objetivo que eu pudesse possivelmente alcançar nestas redondezas vale a vida de um homem como Richard Felstead.”
“Oh, ele tem razão!” exclamou Helen. “Pensa, Philippa! O que há aqui que o mundo inteiro não possa saber? Não há segredos em Dreymarsh. Estamos a quilómetros de distância de toda a parte. Por mim, Philippa, imploro-te que não sejas irracional.”
“Em palavras simples”, interveio Lessingham, “não sejas quixotesca, Lady Cranston. Há apenas uma ideia de um lado, a vida do teu irmão do outro. Vês, a balança não está equilibrada.”
“Não consegues compreender, contudo”, respondeu Philippa, “o que essa ideia significa? É parte da alma de alguém que se dá quando se afasta de um princípio.”
“O que são princípios perante o amor?” exigiu Helen, quase ferozmente. “Uma irmã pode tagarelar sobre eles, Philippa. Uma esposa não poderia. Eu sacrificaria todos os princípios que alguma vez tive, cada migalha de autorrespeito, a mim própria e tudo o que me pertence, para salvar a vida do Dick!”
Houve um silêncio breve e palpitante. Helen segurava febrilmente a mão de Philippa. Os olhos de Lessingham estavam fixos no rosto torturado para o qual olhava. Não havia mulheres como esta no seu próprio país.
“Minha cara senhora”, disse ele, e pela primeira vez a sua própria voz tremeu, “abandono os meus argumentos. Suplico-lhe que aja como achar melhor para a sua própria felicidade futura. As hipóteses de vida ou morte não são coisas grandiosas, nem para homens como o seu irmão, nem para mim. Eu não compraria o meu fim, nem ele a sua vida, à custa do seu sofrimento. Vê, estou de um lado. O telefone está ali para seu uso.”
“Não o hás de usar!” gritou Helen apaixonadamente. “Philippa, não o hás de usar!”
Philippa voltou-se para ela, e todo o orgulho obstinado tinha desaparecido do seu rosto. Os seus grandes olhos estavam embaciados de lágrimas, a sua boca tremia de emoção. Ela lançou os seus braços em volta do pescoço de Helen.
“Minha querida, não posso! Não posso!” soluçou ela.
CAPÍTULO V
O desmoronamento de Philippa foi apenas momentâneo. Com algumas palavras bruscas, ela trouxe os outros dois ao nível da sua recém-recuperada equanimidade.
“Para sermos práticas”, começou ela, “não temos tempo a perder. Vou buscar um fato do Dick e, Helen, é melhor levares o Mr. Lessingham para a sala das armas. Depois, talvez tenhas tempo de telefonar para o hotel.”
Lessingham deu um passo rápido em direção a ela — quase como se estivesse prestes a fazer algum recuo impetuoso. Philippa voltou-se e encontrou o seu olhar quase suplicante. Talvez ela tenha lido ali o seu instinto de autonegação.
“Estou no comando da situação”, continuou ela, um pouco mais levemente. “Toda a gente deve obedecer-me, por favor. Não demorarei mais de cinco minutos.”
Ela saiu da sala, afastando com um gesto a tentativa de Lessingham de abrir a porta para ela. Ele ficou por um momento a olhar para o lugar onde ela tinha desaparecido. Depois, virou-se.
“A descrição do Major Felstead”, disse ele calmamente, “não fez justiça à sua irmã.”
“A Philippa é um amor”, declarou Helen entusiasticamente. “Apenas por um momento, contudo, fiquei aterrorizada. Ela tem uma vontade maravilhosa.”
“Há quanto tempo ela é casada?”
“Cerca de seis anos.”
“Há--algumas crianças?”
Helen abanou a cabeça.
“Sir Henry teve uma filha do seu primeiro casamento, que vive connosco.”
“Seis anos!” repetiu Lessingham. “Ora, ela parece não passar de uma criança. Sir Henry deve ser muito mais velho que ela.”
“Dezasseis anos”, disse-lhe Helen. “A Philippa tem vinte e nove. E agora, não sejas mais inquisitivo, por favor, e vem comigo. Quero mostrar-te onde podes mudar de roupa.”
Ela abriu uma porta do outro lado da sala e apontou para um pequeno compartimento através da passagem.
“Se esperar ali”, pediu ela, “levo-lhe a roupa assim que ela chegar. Vou telefonar agora.”
“Muito obrigado”, respondeu ele. “Gostaria de um quarto e sala de estar agradáveis, e uma casa de banho, se possível. A minha bagagem encontrará já lá. Um amigo em Londres tratou disso.”
Ela olhou para ele com curiosidade.
“O senhor é muito minucioso, não é?” comentou ela.
“As pessoas do país a quem é o meu destino servir são todas”, respondeu ele. “Um elo fraco, sabe, pode por vezes estragar a corrente mais poderosa.”
Ela fechou a porta e pegou no telefone.
“Número três, por favor”, começou ela. “É o hotel? O gerente? Bom! Falo em nome de Lady Cranston. Ela deseja uma sala de estar, quarto e casa de banho reservados para um amigo nosso que chega hoje — um Mr. Hamar Lessingham. Creio que já tem a bagagem dele. Por favor, faça o melhor que puder por ele.—Certamente.—Muito obrigada.”
Ela pousou o auscultador. A porta foi rapidamente aberta e fechada. Philippa reapareceu, carregando um braçado de roupa.
“Ora, trouxeste o fato cinzento dele”, gritou Helen em desalento, “aquele com que ele fica tão bem!”
“Não sejas idiota”, zombou Philippa. “Tive de trazer o primeiro que encontrei. Leva-os ao Mr. Lessingham e, pelo amor de Deus, certifica-te de que ele se apressa! O comboio do Henry está quase a chegar, e ele pode estar aqui a qualquer momento.”
“Eu aviso-o”, prometeu Helen. “Vou tirá-lo às escondidas pela porta das traseiras, se quiseres.”
Philippa riu-se um pouco tristemente.
“Um belo começo seria esse, se alguém alguma vez rastreasse a sua chegada!” observou ela. “Não, devemos tentar tirá-lo antes que o Henry chegue, mas, se chegar ao pior, levamo-lo para dentro e apresentamo-lo. É pouco provável que o Henry note alguma coisa”, acrescentou, um pouco amargamente.
Helen desapareceu com a roupa e regressou quase imediatamente. Philippa estava sentada na sua posição habitual junto à lareira.
“Não te estás a preocupar com isto, querida, pois não?” perguntou a primeira ansiosamente.
“Não sei”, respondeu Philippa, sem virar a cabeça. “Não sei o que pode resultar disto, Helen. Tenho um sentimento estranho em relação àquele homem.”
Helen suspirou. “Suponho”, confessou ela, “que sou a pessoa mais limitada da face da terra. Só consigo pensar numa coisa, e apenas numa. Se o Mr. Lessingham cumprir a sua palavra, o Dick estará aqui talvez dentro de um mês, talvez seis semanas — certamente em breve!”
“Ele cumprirá a sua palavra”, disse Philippa calmamente. “Ele é esse tipo de homem.”
A porta do outro lado da sala foi suavemente aberta. A cabeça de Lessingham apareceu.
“Poderia ter uma gravata?” perguntou ele timidamente. Philippa estendeu a mão e tirou uma do cesto ao seu lado.
“É melhor dar-lhe esta”, disse ela, entregando-a a Helen. “É uma do Henry que eu estava a arranjar.—Pára!”
Ela levantou o dedo. Ouviram todos.
“O carro!” exclamou Philippa, levantando-se apressadamente. “É o Henry! Vai com o Mr. Lessingham, Helen”, continuou ela, “e espera até que ele esteja pronto. Não te esqueças de que ele é um visitante comum, e traze-o aqui dentro daqui a pouco.”
Helen assentiu compreensivamente e saiu apressada.
Philippa deu alguns passos em direção à outra porta. Num instante, foi aberta. Nora apareceu, com o braço enlaçado no do pai.
“Fui recebê-lo, mamã”, explicou ela. “Sem uniforme — não é uma vergonha!”
Sir Henry deu uma palmadinha na face dela e virou-se para cumprimentar a esposa. Havia uma sombra no seu rosto bronzeado e bonito enquanto observava a sua aproximação algo hesitante.
“Lamento não ter apanhado o teu comboio, Phil”, disse-lhe ele. “Tive de fazer uma visita na cidade, por isso vim de Liverpool Street. Alguma sorte?”
Ela segurou as mãos dele, resistindo por um momento ao abraço oferecido.
“Henry”, disse ela seriamente, “sabes que estou muito mais ansiosa por ouvir as tuas notícias.”
“As minhas podem esperar”, respondeu ele. “E quanto ao Richard?”
Ela abanou a cabeça.
“Passei todo o meu tempo a fazer perguntas”, suspirou ela, “e tudo foi infrutífero. Não consegui obter a mínima satisfação de ninguém no Ministério da Guerra. Eles não sabem nada, não ouviram nada.”
“Lamento imenso ouvir isso”, declarou Sir Henry com simpatia. “Contudo, não te deves preocupar demasiado, querida. Onde está a Helen?”
“Está na sala das armas com um visitante.”
“Com um visitante?” exclamou Nora. “É alguém do Depósito? Tenho de ir ver.”
“Não precisas de te incomodar”, respondeu a madrasta. “Ei-los, a entrar.”
A porta do lado oposto da sala foi subitamente aberta, e Hamar Lessingham e Helen entraram juntos. Lessingham estava completamente à vontade — a sua conversa, de facto, parecia quase absorvente. Ele atravessou logo a sala ao perceber a presença de Sir Henry.
“Este é o Mr. Hamar Lessingham — o meu marido”, disse Philippa. “O Mr. Lessingham esteve na universidade com o Dick, Henry, por isso, claro, a Helen e ele estiveram a entregar-se a todo o tipo de reminiscências.”
Os dois homens apertaram as mãos.
“Também encontrei tempo para examinar as suas gravuras de Leech”, observou Lessingham. “Tem alguns exemplos muito admiráveis.”
“Um passatempo meu nos meus tempos mais novos”, admitiu Sir Henry. “Uma ou duas delas são muito boas, creio eu. Vai ficar por estas partes durante muito tempo, Mr. Lessingham?”
“Talvez por uma semana ou duas”, foi a resposta algo indiferente. “Disseram-me que este é o ar mais maravilhoso do mundo, por isso vim para cá para recuperar depois de uma ligeira doença.”
“Um lugar sombrio neste momento”, observou Sir Henry, “mas o ar é bom. É pescador de mar, por acaso, Mr. Lessingham?”
“Já o fiz um pouco”, confessou o visitante. O rosto de Sir Henry iluminou-se. Ele tirou do bolso um pequeno embrulho de papel castanho.
“Não me importo de lhe dizer”, confiou ele enquanto cortava o fio, “que não creio que haja outro desporto como este no mundo. Também já experimentei a maioria deles. Quando era rapaz, era tudo à base de tiro, talvez porque nunca conseguia o suficiente. Depois tive uma ou duas temporadas em Melton, embora nunca tenha sido grande cavaleiro. Mas para uma excitação real e pura, para um desporto que supera tudo o resto, dê-me uma cana de pesca de mar forte, um par de estralhos, apenas mar suficiente para nos mantermos sempre no fundo, e o bacalhau a morder. Olhe aqui, alguma vez viu um girador de cavala como este?” acrescentou, tirando um do embrulho que tinha desatado. “Olhem para ele, todos vocês.”
Lessingham pegou nele cautelosamente com os dedos. Philippa, um pouco ostensivamente, virou as costas aos dois homens e pegou num jornal.
“Lady Cranston não simpatiza com o meu interesse por qualquer tipo de desporto neste momento”, explicou Sir Henry bem-humorado. “Ainda assim, argumento que alguém tem de manter a mente ocupada de uma forma ou de outra.”
“Muito bem, papá!” concordou Nora. “Temos de continuar, como diz o Coronel. Ainda assim, esperava que tivesses vindo com um novo uniforme naval, com muitos galões de ouro na manga. Acho que te podiam ter feito almirante, papá, ficarias tão bem na ponte.”
“Receio”, respondeu o pai, com os olhos colados ao girador que Lessingham segurava, “que essa seja uma consideração que não parece ter pesado muito com eles. Veja o brilho disto”, continuou ele, pegando noutro dos giradores. “Vê, tem um girador duplo, e garantem seiscentas rotações por minuto.”
“Tenho de confessar a minha ignorância”, lamentou Lessingham, “de tudo o que está ligado à pesca da cavala.”
“É um belo desporto para variar”, declarou Sir Henry. “A única coisa é que se se apanha um cardume, uma pessoa cansa-se de puxar os bichos para fora. A propósito, o Jimmy veio cá ter comigo, Philippa? Ouviste dizer se há cavalas?”
Philippa ergueu as sobrancelhas.
“Cavalas!” repetiu ela sarcasticamente.
“Tens alguma objeção ao peixe, querida?” perguntou Sir Henry amavelmente.
Philippa não respondeu. O seu marido franziu o sobrolho e virou-se para Lessingham.
“Vê”, queixou-se ele um pouco irritado, “a minha mulher não aprova que eu tenha interesse sequer na pesca enquanto a guerra dura, mas, diabo, o que é que se há de fazer quando se chega à minha idade? Acha que eu deveria ser um agente de polícia especial, não é, Philippa?”
“Precisamos de discutir isto perante o Mr. Lessingham?” perguntou ela, sem levantar os olhos do jornal.
Lessingham preparou-se prontamente para partir.
“Espero vê-lo mais vezes”, observou Sir Henry hospitaleiramente, enquanto conduzia o seu convidado para a porta. “Onde está hospedado aqui?”
“No hotel.”
“Qual?”
“Não compreendi que houvesse mais do que um”, respondeu Lessingham. “Simplesmente escrevi para O Hotel, Dreymarsh.”
“Só há um hotel aberto, claro, Mr. Lessingham”, observou Philippa, virando-se para ele. “Porque faz uma pergunta tão absurda, Henry? O 'Grand' está cheio de soldados. Venha ver-nos sempre que se sentir inclinado, Mr. Lessingham.”
“Certamente aproveitarei a sua permissão, Lady Cranston”, foram as palavras de despedida deste visitante invulgar enquanto se curvava para sair.
Sir Henry dirigiu-se ao aparador e serviu-se de um uísque com soda. Philippa pousou o seu jornal e observou-o como se esperasse pacientemente pelo seu regresso. Helen e Nora já tinham obedecido ao aviso do sino para vestir.
“Henry, quero ouvir as tuas notícias”, insistiu ela. Ele atirou-se para uma poltrona e remexeu no conteúdo do cesto de costura de Philippa.
“Onde está aquela gravata minha que estavas a arranjar?” perguntou ele. “Já está terminada?”
“Está lá em cima em algum lado”, respondeu ela. “Não, não a terminei. Porque perguntas? Tens muitas, não tens?”
“Gavetas cheias”, admitiu ele alegremente. “Metade delas, contudo, nunca posso usar. Gosto daquela preta e branca. O teu amigo Lessingham estava a usar uma exatamente igual.”
“Não é exatamente um padrão incomum”, lembrou-lhe Philippa.
“Parece ter o gosto da família em roupas”, continuou Sir Henry, acariciando o queixo. “Aquele fato de tweed cinzento dele era exatamente do mesmo padrão que o fato que o Richard estava a usar, da última vez que o vi em trajes civis.”
“Provavelmente vão ao mesmo alfaiate”, comentou Philippa calmamente.
Sir Henry abandonou o assunto. Estava mais uma vez absorvido num exame dos giradores de cavala.
“Não respondeste à minha pergunta sobre o Jimmy Dumble”, aventurou-se ele pouco depois.
Philippa virou-se e olhou para ele. Os seus olhos eram geralmente muito doces e suaves e a sua boca encantadora. Nesse momento, contudo, havia linhas novas e muito firmes no seu rosto.
“Henry”, disse ela severamente, “estás deliberadamente a esquivar-te de mim. O gosto do Mr. Lessingham pelas roupas, ou as idas e vindas do Jimmy Dumble, não são o que eu quero ouvir ou discutir. Foste a Londres, ainda que contrariado, para cumprir a tua promessa para comigo. Quero saber se conseguiste obter alguma coisa do Almirantado?”
“Nada mais do que o desprezo, minha querida”, respondeu ele com uma pequena risada.
“Queres dizer que não te ofereceram absolutamente nada?” insistiu ela. “Podes ter estado fora do serviço tempo demais para eles te darem um navio moderno, mas certamente poderiam ter-te dado um cruzador auxiliar, ou um comando secundário de qualquer espécie?”
“Não me ofereceram sequer uma tina de lavar, querida”, confessou ele. “O meu nome está numa lista, disseram eles—”
“Oh, essa lista!” interrompeu Philippa com raiva. “Henry, realmente não posso suportar. Não te conseguiram arranjar nada em terra?”
“Minha querida rapariga”, respondeu ele um pouco irritado, “que tipo de figura eu faria num escritório! Ninguém consegue ler a minha letra, e eu não conseguiria somar uma coluna de números para salvar a minha vida. O que é?” acrescentou ele, quando a porta se abriu e Mills fez a sua aparição.
“O Dumble está aqui para o ver, senhor.”
“Manda-o entrar imediatamente”, ordenou o seu patrão com prontidão. “Entra, Jimmy”, continuou ele, elevando a voz. “Tenho aqui algo para te mostrar.”
Os lábios de Philippa cerraram-se um pouco mais. Ela passou pelo marido a caminho da porta.
“Espero que seja tão bom”, disse ela, olhando para trás, “a ponto de me dispensar meia hora do seu precioso tempo esta noite. Este é um assunto que tenho de discutir convosco mais a fundo imediatamente.”
“Tão urgente quanto isso, eh?” respondeu Sir Henry, parando para acender um cigarro. “Muito bem! Podes ter toda a minha noite, querida, com o maior prazer.—Agora então, Jimmy!”
CAPÍTULO VI
Jimmy Dumble possuía um rosto muito vermelho e uma capacidade extraordinária para o silêncio. Ele ficou a um metro ou dois dentro da sala, a girar o chapéu nas mãos. Sir Henry, após o fecho da porta, não se dirigiu por um momento ao seu visitante. Houve uma mudança subtil, mas inconfundível, na sua aparência enquanto estava de mãos nos bolsos e com o sobrolho franzido, a assobiar baixinho, os olhos fixos na porta por onde a sua esposa tinha desaparecido. Ele virou-se finalmente para o telefone.
“Aguarda um momento, Jimmy, podes?” ordenou.
“Sim, senhor!”
Sir Henry pegou no auscultador. Baixou um pouco a voz, embora não fosse menos distinta.
“Número um — esquadra da polícia, por favor.—Olá, aí! O inspetor está? — Fala Sir Henry Cranston. Poderia passar por cá? — Bom! Diga-lhes para o levarem diretamente à biblioteca. Talvez pudesse dar uma dica ao Mills sobre as luzes, eh? Obrigado.”
Ele pousou o auscultador e virou-se para o pescador.
“Bem, Jimmy”, perguntou, “tudo sereno na aldeia, eh?”
“Pelo que vi ou ouvi, senhor, não foi dita uma palavra que não devesse ser.”
“São um grupo preguiçoso”, observou Sir Henry.
“Eles não olham muito além da ponta do nariz.”
“Talvez seja melhor para nós, senhor, que não olhem”, foi a resposta cautelosa.
Sir Henry passeou até à extremidade da sala.
“Talvez tenhas razão, Jimmy”, admitiu ele.
“Aquele tipo, Ben Oates, parece ser o único com ideias.”
“Ele não se mantém sóbrio tempo suficiente para nos causar problemas”, declarou Dumble. “Começou a fazer-me perguntas há uns dias, e sei que pôs o rapaz do Grice a descobrir por que caminho fomos no sábado passado, mas isso não dá em nada. Ele esteve bêbado como um cacho durante três dias depois disso.”
Sir Henry assentiu.
“Não tenho muito medo do Ben Oates, Jimmy”, confiou ele, enquanto abria a porta de um grande armário que ficava contra a parede do fundo. “Nenhuns estranhos por perto, eh?”
“Nem sinal de um, senhor.”
Sir Henry olhou para a porta e ouviu.
“Quer que dê uma volta à chave, senhor?” perguntou o seu visitante.
“Não creio que seja necessário”, respondeu Sir Henry. “Foram todos lá acima mudar de roupa. Agora ouve-me, Jimmy.”
Ele inclinou-se para a frente e tocou numa mola. O fundo falso do armário, com o seu pequeno conjunto de moscas, giradores, anzóis e equipamento, rolou lentamente para trás. Diante deles estava uma enorme carta náutica, maravilhosamente executada em vermelho, branco e amarelo.
“Isso é uma peça de trabalho maravilhosa, senhor”, observou o pescador admirado.
“A melhor coisa que fiz na minha vida”, concordou Sir Henry. “Agora vê aqui, Jimmy. Vamos velejar amanhã, ou levar a lancha a motor, dependendo do vento. Entraremos nos Baixos de Langley ali e passaremos a Rocha do Homem Morto do lado esquerdo do canal, e continuaremos em frente até termos Budden Wood na torre da igreja. Segues-me?”
“Sim, senhor!”
“Entendido, senhor!”
“Muito bem. Amanhã, às sete horas, sem falta. E, Jimmy, traga aquela bússola nova que comprei no mês passado. A precisão é essencial neste trecho.”
“Pode deixar, Sir Henry. Estarei pronto.”
O marinheiro fez uma continência desajeitada e retirou-se, enquanto Sir Henry voltava a fechar o painel falso do gabinete com um movimento suave e preciso. O silêncio voltou a reinar no escritório, interrompido apenas pelo estalar da lenha na lareira. Ele permaneceu de pé por um momento, contemplando o espaço vazio onde a carta estivera, com uma expressão indecifrável gravada no rosto.
Mills surgiu à porta, trazendo o chá da tarde.
“O inspetor ainda aguarda na sala de espera, senhor. Ele parece um tanto impaciente.”
“Deixe-o esperar mais alguns minutos, Mills. Preciso organizar estes documentos antes.”
“Como desejar, senhor.”
Sir Henry serviu-se de uma dose de uísque, misturando-a lentamente com um pouco de água. O vidro do copo tilintou contra o decantador. Ele parecia mergulhado em pensamentos profundos, quase como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. Após um gole, ele suspirou e caminhou em direção à porta do escritório.
“Diga ao inspetor que estou pronto agora.”
Minutos depois, o inspetor Haylock entrou na sala, tirando o capacete. Havia uma seriedade incomum em sua postura.
“Sinto incomodá-lo a esta hora, Sir Henry, mas houve novos desenvolvimentos sobre os visitantes na região. Há relatos de movimentações estranhas perto da estação de Dreymarsh.”
“Movimentações estranhas, inspetor?” Sir Henry perguntou, encostando-se à mesa com uma calma calculada. “Dê-me os detalhes.”
O inspetor abriu uma caderneta. “Trata-se de um indivíduo que chegou no trem das quatro. Não condiz com as descrições usuais de turistas nesta época do ano. Ele carregava uma mala pequena e parecia muito atento aos arredores.”
“Um nome, imagino?”
“O bilhete foi emitido para um tal Sr. Lessingham. O mesmo nome que mencionamos anteriormente, senhor.”
Sir Henry sentiu um frio gélido percorrer-lhe a espinha, mas sua expressão não vacilou. “Lessingham, é? Pois bem, mantenha-o sob vigilância discreta, inspetor. Não queremos alarmar ninguém sem necessidade.”
“Farei isso, senhor. Mas há algo mais. O homem parecia saber exatamente para onde ia. Ele não solicitou transporte; seguiu a pé em direção ao Grange.”
“Para o Grange?” Sir Henry repetiu, a voz mantendo um tom de curiosidade controlada. “Parece que teremos visitas interessantes.”
“Manterei o posto informado de qualquer novidade, Sir Henry.”
“Agradeço-lhe, inspetor. E por favor, tome um gole de uísque antes de partir. A noite está fria lá fora.”
O inspetor aceitou, agradeceu e retirou-se. Assim que a porta se fechou, Sir Henry voltou à sua mesa e abriu novamente o gabinete. Seus dedos, ágeis e firmes, voltaram a manipular o mecanismo oculto, revelando o compartimento que continha o livro de cifras.
“Lessingham,” murmurou ele para si mesmo. “O jogo começou.”
“Eu estava pensando no meu país”, confessou ele. “Estava olhando através das sombras que se estendem por lá, bem do outro lado do Mar do Norte.”
“Para a Alemanha?”
Ele balançou a cabeça.
“Mais longe — para a Suécia.”
“Eu me esqueci”, murmurou ela. “Você parecia alguém posando para a estátua de um exilado”, observou ela. “Venha, vamos descer um pouco — a menos que você queira ficar aqui e ser reduzido a pedaços.”
“Eu estava a caminho do hotel”, respondeu ele rapidamente, enquanto seguia a direção dela, “mas, para dizer a verdade, eu estava me sentindo um pouco solitário.”
“Isso”, declarou ela, “é culpa sua. Eu lhe pedi que viesse a Mainsail Haul sempre que se sentisse disposto.”
“Como tenho me sentido disposto desde a noite em que cheguei”, observou ele com um sorriso, “talvez, a esta altura, você já estivesse um pouco farta de mim.”
“Pelo contrário”, disse ela, “eu esperava por você ontem à tarde, para que me contasse como está achando o lugar e o que tem feito. Então você estava pensando sobre... lá do outro lado?”, acrescentou ela, movendo a cabeça em direção ao mar.
“O lado de lá absorve grande parte dos pensamentos da gente”, confessou ele, “e o restante deles tem me pregado peças estranhas.”
“Bem, eu gostaria de ouvir sobre a primeira metade”, insistiu ela.
“Sabe”, respondeu ele, “há momentos em que, mesmo agora, esta guerra me parece algo irreal, algo sobre o que li, alguma imaginação selvagem de Shelley ou de um dos poetas indomáveis. Não consigo acreditar que milhões da flor da juventude da Alemanha e da sua tenham perecido de forma desamparada, desesperançosa e cruel. E a França... a pobre e dizimada França!”
“Bem, a Alemanha começou a guerra, você sabe”, lembrou ela.
“Será?”, respondeu ele. “Às vezes eu me pergunto. Mesmo agora, imagino que, se os documentos oficiais de cada uma das nações estivessem lado a lado, com suas próprias causas expostas a partir de seus próprios pontos de vista, até você poderia se sentir um pouco confusa a respeito disso. Ainda assim, serei muito honesto com você. Eu mesmo acho que a Alemanha queria a guerra.”
“Aí está, então”, declarou ela triunfante. “A responsabilidade de tudo é dela.”
“Não vou tão longe assim”, protestou ele. “Veja, o mundo é governado por grandes leis naturais. Assim como uma bola de neve cresce ao rolar, ela ocupa mais espaço. Assim como uma criança cresce e deixa as roupas de bebê, ela precisa das vestimentas de um jovem e depois de um homem. E o mesmo ocorre com a Alemanha. Ela cresceu e cresceu até que o país não conseguisse mais abrigar seus filhos, até que seus bancos não pudessem conter seu dinheiro, até que ela estendesse os braços para todos os lados e se sentisse sufocada. A Alemanha chegou tarde ao mundo e o encontrou repartido, mas não teria ela direito ao seu lugar? Ela se tornou grandiosa. Precisava de espaço.”
“Bem”, observou Philippa, “você não poderia supor que outras nações abririam mão do que tinham só porque ela queria as posses delas, poderia?”
“Talvez não”, admitiu ele. “E, no entanto, veja, a lei imutável entra aqui. Os mais fortes devem possuir — não apenas os mais fortes pelas armas, entenda, mas pelo intelecto, pelo aprendizado, pela proficiência na ciência, pelo utilitarismo. A parte realmente cruel, a parte em que eu estava pensando então, enquanto olhava para o outro lado do mar, é que esse recurso cru e miserável às armas seja necessário.”
“Se ao menos os próprios alemães fossem tão mente aberta e razoáveis quanto você”, suspirou Philippa, “sente-se que poderia haver alguma esperança para o futuro!”
“Não estou sozinho”, assegurou ele, “mas, veja, por toda a Alemanha espalha-se como uma teia de aranha a religião leiga do cidadão — a devoção ao Governo, a obediência cega ao Kaiser. O pensamento independente tornou a Alemanha grandiosa na ciência, na economia política, na economia. Mas o pensamento independente nunca é voltado para os seus destinos políticos. Esses são moldados para ela. Para o bem ou para o mal, seus filhos aprenderam a obediência.”
Eles estavam descendo a encosta agora. A seus pés jazia a pequena cidade, negra e silenciosa.
“Você me ajudou a entender um pouco”, disse Philippa. “Você coloca as coisas com tanta delicadeza e, ainda assim, com tanta clareza. Agora me diga, por favor, como é que você, que é sueco de nascimento, está pegando em armas pela Alemanha?”
“Isso é muito simples”, confessou ele. “Minha mãe era alemã e, quando morreu, legou-me grandes propriedades na Baviera e uma fortuna muito considerável. Estas eu jamais poderia ter herdado se não tivesse escolhido cumprir meu serviço militar na Alemanha. Minha família é empobrecida, e tenho irmãos e irmãs dependentes de mim. Nessas circunstâncias, a hesitação da minha parte era impossível.”
“Mas quando a guerra chegou?”, questionou ela.
Ele olhou para ela com surpresa.
“O que me restava então?”, perguntou. “Naturalmente, não ouvi nada além da voz daqueles a quem jurei obedecer. Estive naquela corrida louca pela Bélgica. Fui ferido em Maubeuge, caso contrário teria seguido de perto os passos daquela sua retirada maravilhosa. Como foi, fiquei por muitos meses no hospital. Juntei-me novamente — devo confessar? — quase sem vontade. A sanguinariedade de tudo aquilo me enojava. Lutei em Ypres, mas acho que foi com uma espécie de coragem do desespero, de pura miséria. Fui ferido novamente e condecorado. Suponho que nunca mais estarei apto para o front. Tentei tirar proveito de parte do meu conhecimento da Inglaterra e da vida inglesa. Então, mandaram-me para cá.”
“Aqui, de todos os lugares do mundo!”, repetiu Philippa, maravilhada. “Olhe só para nós! Temos uma única linha férrea, um sistema de estradas perfeitamente direto, o número comum de soldados sendo treinados, sem mistérios, sem indústrias — nada. Em que plano terrível você está trabalhando, Sr. Lessingham?”
Ele sorriu.
“Entre nós”, confidenciou, “não tenho certeza de que não estou aqui em uma missão de tolo — pelo menos foi o que pensei quando cheguei.”
Ela olhou para ele.
“E por que não agora?”
Ele não respondeu, mas seus olhares se cruzaram e Philippa desviou o seu rapidamente. Houve um momento de silêncio estranho e tenso. Diante deles erguia-se o contorno de Mainsail Haul.
“Você vai entrar e tomar um chá, não vai?”, convidou ela.
“Se me permitir. Acredite em mim”, acrescentou, “foi apenas uma certa timidez que me manteve afastado por tanto tempo.”
Ela não respondeu, e entraram juntos na casa. Encontraram Helen e Nora, com três ou quatro jovens do Depósito, tomando chá na sala de estar. Lessingham integrou-se com muita facilidade ao agradável pequeno círculo. Se um pouco contido, seus modos tranquilos e um senso de humor que vez ou outra se manifestava eram muito atraentes.
“Gostaríamos que o senhor viesse jantar conosco e conhecesse nosso coronel, senhor”, pediu Harrison. “Ele esteve em Magdalen alguns anos depois do major Felstead, e tenho certeza de que vocês encontrariam muito sobre o que conversar.”
“Tenho certeza absoluta de que encontraríamos”, respondeu Lessingham. “Posso ir, talvez, no final da próxima semana? Estou fazendo esforços muito vigorosos para levar uma vida absolutamente tranquila aqui.”
“Sempre que quiser, senhor. Não poderemos lhe mostrar nada muito selvagem em termos de dissipação. Vinho do Porto vintage e um bom charuto são as únicas mudanças que podemos oferecer aos convidados.”
Philippa levou seu visitante para o lado pouco depois e fez com que ele se sentasse com ela em um canto distante da sala.
“Eu sabia que havia algo que queria lhe dizer”, começou ela, “mas de alguma forma esqueci quando o encontrei. Meu marido ficou muito impressionado com o ânimo melhorado de Helen. Você não acha que deveríamos dizer a ele, quando ele retornar, que tivemos notícias do major Felstead?”
Lessingham concordou.
“Apenas deixe que ele pense que suas cartas chegaram pelo correio da maneira habitual”, aconselhou ele. “Pelo que vi do seu marido, não imagino que ele seja uma pessoa desconfiada, mas é possível que ele pudesse associá-las a mim se você tivesse mencionado isso na outra noite. Quando ele volta?”
“Nunca sei”, respondeu Philippa com um suspiro. “Talvez hoje à noite, talvez em uma semana. Depende de qual esporte ele está praticando. Você não está fumando.”
Lessingham acendeu um cigarro.
“Acho seu marido”, disse ele calmamente, “um tipo bastante interessante. Não temos ninguém assim na Alemanha. Ele quase me deixa intrigado.”
Philippa olhou para cima e encontrou os olhos escuros de seu companheiro fixos nela.
“Há muito pouco sobre Henry que precise intrigar alguém”, queixou-se ela amargamente. “Ele é apenas uma criança mimada e crescida, devotada a diversões e seguindo seus caprichos onde quer que o levem. Por que você olha para mim, Sr. Lessingham, como se achasse que estou escondendo algo? Não estou, posso lhe assegurar.”
“Talvez eu estivesse me perguntando”, confessou ele, “como você realmente se sente em relação a um marido cuja perspectiva é tão antinatural.”
Ela olhou para seus dedos entrelaçados.
“Sabe”, disse ela suavemente, “sinto, de alguma forma, embora nos conheçamos há tão pouco tempo, como se fôssemos amigos, e ainda assim essa é uma pergunta que eu não poderia responder. Uma mulher deve sempre ter alguns segredos, sabe.”
“Um homem pode tentar, às vezes, preservar os seus”, suspirou ele, “mas uma mulher é inteligente o suficiente, via de regra, para desenterrá-los.”
Um leve tom de cor surgiu em suas bochechas. Ela recebeu a aproximação de Helen quase com entusiasmo.
“Uma mulher deve primeiro sentir a vontade”, murmurou ela, sem olhar para ele. “Helen, você acha que ousamos convidar o Sr. Lessingham para vir jantar?”
“Por favor, não desencoraje uma sugestão tão deliciosa”, implorou Lessingham ansiosamente.
“Não tenho a menor intenção de fazê-lo”, riu Helen, “desde que eu possa ter — digamos, apenas dez minutos para falar sobre Dick.”
“É um trato”, prometeu ele.
“Estaremos completamente a sós”, alertou Philippa, “a menos que Henry chegue.”
“É o grande atrativo do seu convite”, confessou ele.
“Às oito horas, então.”
CAPÍTULO IX
“O capitão Griffiths para ver sua senhoria.”
Os dedos de Philippa repousaram por um momento sobre as teclas do piano diante do qual ela estava sentada, aguardando a chegada de Lessingham. Então ela olhou para o relógio. Faltavam dez para as oito.
“Pode deixá-lo entrar, Mills, se ele deseja me ver.”
O capitão Griffiths foi conduzido à sala — desajeitado, desastrado, nervoso como de costume. Ele entrou como se estivesse com pressa, e não havia nada em seu comportamento que indicasse que ele passara as últimas horas tentando tomar coragem para esta visita.
“Devo pedir desculpas por esta visita tão inoportuna, Lady Cranston”, disse ele, observando o fechamento da porta. “Não tomarei mais do que cinco minutos do seu tempo.”
“Ficamos muito felizes em vê-lo a qualquer momento, capitão Griffiths”, disse Philippa hospitaleiramente. “Por favor, sente-se.”
O capitão Griffiths fez uma reverência, mas permaneceu de pé.
“Sei que está muito perto da hora do jantar, Lady Cranston”, continuou ele em tom de desculpa. “O fato é, porém, que, como comandante aqui, é meu dever examinar a idoneidade de quaisquer estranhos no local. Há um cavalheiro chamado Lessingham hospedado no hotel, que entendi ter dado o seu nome como referência.”
Os olhos de Philippa pareceram maiores do que nunca, e seu rosto mais inocente, enquanto ela olhava para o visitante.
“Ora, certamente, capitão Griffiths”, disse ela. “O Sr. Lessingham esteve na faculdade com meu irmão e foi um de seus melhores amigos. Ele já caçou na propriedade de meu pai em Cheshire.”
“Você está falando do seu irmão, o major Felstead?”
“Meu único irmão.”
“Estou muito grato a você, Lady Cranston”, declarou o capitão Griffiths. “Posso ver que não precisamos nos preocupar mais com o Sr. Lessingham.”
Philippa riu.
“Parece antiquado pensar que você tenha que se preocupar com alguém por aqui”, observou ela. “É realmente uma vizinhança muito inofensiva, não é?”
“Certamente, não há muito acontecendo”, admitiu o comandante. “O lugar parece muito monótono às vezes.”
“Agora seja perfeitamente franco”, implorou Philippa. “Existe um único fato de importância que poderia ser aprendido neste lugar que valha a pena comunicar ao inimigo? O perigo de espionagem aqui merece um momento de consideração?”
“Essa”, respondeu o capitão Griffiths de forma um tanto afetada, “não é uma pergunta que eu estaria preparado para responder de pronto.”
Philippa deu de ombros e apelou quase febrilmente para Helen, que acabara de entrar na sala.
“Helen, venha ouvir o capitão Griffiths! Ele está me deixando toda arrepiada. Parece que há segredos por aí, e ele quer saber tudo sobre o Sr. Lessingham.”
Helen sorriu com total autodomínio.
“Bem, podemos tranquilizá-lo sobre o Sr. Lessingham, não podemos?”, observou ela, enquanto cumprimentava.
“Podemos fazer mais”, declarou Philippa. “Podemos ajudá-lo a julgar por si mesmo. Estamos esperando o Sr. Lessingham para o jantar, capitão Griffiths. Fique.”
“Eu não poderia pensar em invadi-las assim”, respondeu o capitão Griffiths, com uma melancolia que apenas tornava sua voz mais rouca e desagradável. “É muito gentil da sua parte, Lady Cranston. Talvez você me dê outra oportunidade.”
“Não vou nem pensar nisso”, insistiu Philippa. “Você deve ficar e jantar esta noite. Seremos uma partie carrée, pois Nora vai para a cama logo após o jantar. Estou tocando a campainha para dizer a Mills que coloque um lugar a mais”, acrescentou ela.
O capitão Griffiths entregou-se ao destino com um pequeno arrepio de complacência. Ele recebeu Lessingham, que logo foi anunciado, com muito menos do que sua reserva habitual, e o jantar foi um sucesso em todos os sentidos. Perto do fim, Philippa ficou um pouco pensativa. Ela olhou mais de uma vez para Lessingham, que estava sentado ao seu lado, quase com admiração. Sua conversa, alegre às vezes, sempre polida, era entremeada continuamente por aquelas pequenas reminiscências sociais inevitáveis entre homens que se movem em um certo círculo da sociedade inglesa. Aparentemente, Richard Felstead não era o único de seus amigos da faculdade com quem ele mantivera contato. Os últimos vestígios das suspeitas do capitão Griffiths pareciam desaparecer com sua segunda taça de vinho do Porto, embora seu comportamento não tenha se tornado, de forma alguma, mais afável.
“Você não acha que está sendo um pouco ousado demais?”, perguntou Philippa ao seu convidado favorecido enquanto ele a ajudava, mais tarde, a montar uma mesa de bridge.
“Adapta-se os métodos ao adversário”, murmurou ele, com um sorriso. “Seu amigo, o capitão Griffiths, tinha apenas as suspeitas mais convencionais. A menção de alguns bons nomes ingleses e a familiaridade com os esportes ingleses comuns são suficientes para um homem como aquele.”
Helen e Griffiths conversavam no outro lado da sala. Philippa ergueu os olhos para o seu companheiro.
“Você se torna um mistério ainda maior”, declarou ela. “Você está me deixando até curiosa. Diga-me, na verdade, por que nos fez essa visita vinda das nuvens?”
Ela se arrependeu quase assim que fez a pergunta. Por um momento, a calma despreocupação de sua maneira parecia ter desaparecido. Seus olhos brilharam.
“Em busca de coisas novas”, respondeu ele.
“Armas? Fortificações?”
“Nenhuma das duas.”
Um espírito de travessura a possuiu. O comportamento de Lessingham era desconcertante e, ainda assim, provocante. Por um momento, as possibilidades políticas de sua presença desapareceram de sua mente. Ela tinha um desejo intenso de romper sua reserva.
“Você não vai me dizer — por que veio?”
“Eu poderia lhe dizer mais facilmente”, respondeu ele em tom baixo, “por que será o dia mais miserável da minha vida quando eu partir.”
Ela riu dele com total sinceridade.
“Como é delicioso ser cortejada novamente!”, suspirou ela. “E eu que pensava que todos os homens alemães eram tão pesados, e faziam elogios elaborados e malfeitos. Ainda assim, seu segredo, senhor, por favor? É isso que quero saber.”
“Se você puder ter apenas um pouco de paciência!”, implorou ele, inclinando-se tão perto dela que suas cabeças quase se tocaram. “Prometo que não deixarei este lugar antes de lhe contar.”
Os olhos de Philippa, pela primeira vez, baixaram diante dos dele. Ela sabia perfeitamente bem o que deveria ter feito e estava singularmente indisposta a fazê-lo. Era uma aventura muito picante, afinal, e quase a ajudou a esquecer o problema que pesava tanto em seu coração. Ainda evitando seus olhos, ela chamou os outros.
“Estamos prontos para o bridge”, anunciou ela.
Eles jogaram quatro ou cinco rodadas. Lessingham era, de longe, o jogador mais experiente, e ele e Philippa, no final, foram os vencedores. Os dois homens ficaram juntos por um momento ou dois no aparador, servindo-se de uísque com soda. Griffiths tornara-se mais taciturno do que nunca, e até Philippa foi forçada a admitir que a última parte da noite mal fora um sucesso.
“Você joga bridge em clubes na cidade, Sr. Lessingham?”, perguntou Griffiths.
“Nunca”, foi a resposta calma.
“Você está muito acima da nossa classe por aqui.”
“Muito gentil da sua parte dizer isso”, respondeu Lessingham cortesmente. “Tive boas cartas esta noite.”
“Eu me pergunto”, continuou Griffiths, baixando um pouco a voz e mantendo os olhos fixos em seu companheiro, “qual é o substituto alemão para o bridge.”
“Eu me pergunto”, ecoou Lessingham.
“Como nação”, prosseguiu seu interlocutor, “eles provavelmente não desperdiçam tanto tempo com cartas quanto nós.”
O interesse de Lessingham no assunto parecia inexistente. Ele se afastou do aparador em direção a Philippa. Ela, por sua vez, observava o capitão Griffiths.
“Muito obrigado, Lady Cranston”, murmurou Lessingham, “pela sua hospitalidade.”
“E quanto àquele segredo?”, perguntou ela.
“Veja, são dois”, respondeu ele, olhando para ela. “Um eu certamente lhe contarei antes de partir daqui, porque é o único segredo que nenhum homem jamais conseguiu guardar para si mesmo. Quanto ao outro...”
Ele hesitou. Havia algo quase como dor em seu rosto. Ela interrompeu apressadamente.
“Não o chamei aqui para perguntar sobre nenhum dos dois. Acabei de notar o capitão Griffiths agora pouco. Você sabe que ele está observando você muito de perto?”
“Eu tinha uma ideia disso”, admitiu Lessingham indiferentemente. “Ele é uma pessoa um tanto desajeitada, não é?”
“Você será cuidadoso?”, implorou ela seriamente. “Lembre-se, não é, de que Helen e eu estamos realmente em uma posição vergonhosa se algo vier à tona.”
“Nada virá”, prometeu ele. “Acho que você sabe, não é, que, aconteça o que acontecer comigo, eu encontraria meios de protegê-la.”
Pela segunda vez, ela sentiu uma curiosa falta de vontade de repreender adequadamente sua audácia. Ela teve até que lutar para manter seu tom tão descuidado quanto suas palavras.
“Você realmente é uma pessoa deliciosa!”, exclamou ela. “Há quanto tempo você desceu das nuvens?”
“Às vezes penso que ainda estou lá”, respondeu ele, “mas conheço você há cerca de setenta e seis horas.”
“Que precisão!”, ela riu. “É uma característica nacional, não é? Capitão Griffiths”, continuou ela, ao observar sua aproximação, “se você realmente precisa ir, por favor, leve o Sr. Lessingham com você. Ele está zombando de mim. Não permito que nem os amigos de Dick façam isso.”
A negativa de Lessingham foi no tom mais correto.
“Vocês dois devem voltar muito em breve”, concluiu sua anfitriã, enquanto cumprimentava. “Apreciei imensamente nosso bridge.”
Os dois homens já estavam a caminho da porta quando uma ideia súbita pareceu ocorrer ao capitão Griffiths. Ele voltou atrás.
“A propósito, Lady Cranston”, perguntou ele, “você teve alguma notícia do seu irmão?”
Philippa balançou a cabeça tristemente. Helen, que, ao contrário de sua amiga, não tivera a vantagem de uma carreira distinta no teatro amador, virou-se e levou um lenço aos olhos.
“Nem uma palavra”, foi a resposta dolorosa de Philippa.
O capitão Griffiths ofereceu uma expressão desajeitada de sua simpatia.
“Que azar!”, disse ele. “Sinto muito, Lady Cranston. Boa noite mais uma vez.”
Desta vez a partida deles foi ininterrupta. Helen removeu o lenço dos olhos, e Philippa fez uma careta para a porta fechada.
“Você acredita”, perguntou Helen seriamente, “que o capitão Griffiths tem alguma suspeita?”
Philippa deu de ombros.
“Se tem, quem se importa?”, respondeu ela, um pouco desafiadora. “A própria ideia de um duelo de inteligência entre esses dois homens é risível.”
“Talvez sim”, concordou Helen, com uma sombra de dúvida em seu tom.
Philippa e Helen partiram, algumas manhãs depois, para uma de suas caminhadas habituais. O sol cristalino de outubro, no qual cada árvore distante e, mar adentro, cada navio a vapor que viajava lentamente pareciam ganhar uma nova clareza de contornos, repousava sobre os campos profundamente arados, as samambaias amareladas e o ouro avermelhado das árvores que se curvavam, enquanto o vento oeste, que espalhara ondas de cristas brancas pelo mar, trazia as folhas para baixo para formar um tapete para seus pés, e entoava uma música estranha ao longo da encosta coberta de bosques. Na terra quebrada pela qual avançavam, uma terra de árvores e charnecas, com aqui e ali um pedaço cultivado, a giesta amarela ainda brilhava em cantos inesperados; flores estranhas e sem perfume faziam manchas de cor nas sebes; um coelho atravessava apressado seu caminho às vezes; um faisão, após um momento de olhar espantado, abaixava a cabeça e corria em busca de um abrigo desnecessário. Quanto mais olhavam para o alto, mais azul parecia o céu. A grama sob seus pés era tão verde e macia quanto na primavera. Impulsionada pelo vento, aqui e ali, uma gaivota de asas brancas velejava sobre suas cabeças — uma nuvem delas repousava sobre um pequeno quadrado de terra recém-arado entre dois bosques. Um bando de pombos, como folhas rasgadas lançadas pelo vento, circulava e derivava acima delas. Philippa sentou-se sobre o tronco de uma árvore caída e olhou ao redor, satisfeita.
“Se eu tivesse um espelho e mais alguns grampos de cabelo, seria perfeitamente feliz”, suspirou ela. “Tenho certeza de que meu cabelo deve estar horrível.”
Helen olhou para ele com admiração.
“Recuso-me a dizer o que é correto”, declarou ela. “Apenas a lembrarei de que não haverá ninguém aqui para olhar para ele.”
“Não tenho tanta certeza”, respondeu Philippa. “Estes são os bosques que os agentes especiais frequentam dia e noite. Eles examinam cada tronco de árvore em busca de uma instalação de rádio, e ficam atrás das sebes observando lampejos misteriosos.”
“Você está sugerindo que podemos encontrar o Sr. Lessingham?” perguntou Helen, preguiçosamente. “Tenho certeza absoluta de que ele não sabe nada sobre o equipamento do espião melodramático. Quanto aos Zeppelins, não se lembra de que ele nos disse que os odiava e que morria de medo de bombas?”
“Minha querida”, Philippa protestou, “o Sr. Lessingham não faz nada grosseiro.”
“E, no entanto...” começou Helen.
“No entanto, suponho que o homem tenha algo na cabeça”, interrompeu Philippa. “Às vezes penso que tem, às vezes acredito que Richard deve ter lhe mostrado minha fotografia, e ele veio até aqui para ver se sou realmente como ela.”
“Ele se comporta um pouco assim”, admitiu sua companheira, secamente.
Philippa virou-se e olhou para ela.
“Helen”, disse ela severamente, “não seja uma víbora.”
“Se eu expressasse minha opinião sobre seu comportamento”, continuou Helen, pegando uma pinha e examinando-a, “eu poderia surpreendê-la.”
“Você tem uma mente maligna”, bocejou Philippa, tirando sua cigalheira. “O que você realmente detesta é que o Sr. Lessingham às vezes esquece de falar sobre Dick.”
“O pobre homem não tem muitas chances”, retorquiu Helen, observando a fumaça azul de seu cigarro e recostando-se com um ar de contentamento. “Sobre o que você e ele encontram para conversar, Philippa?”
“Literatura — inglesa e alemã”, murmurou Philippa, recatada. “O Sr. Lessingham é notavelmente bem lido, e entende mais dos nossos poetas ingleses do que qualquer homem que conheci em anos.”
“Esqueci que você gostava desse tipo de coisa.”
“Mais uma vez, não seja uma víbora”, ordenou Philippa. “Se quer que eu confesse, admitirei imediatamente. Você sabe como sou uma coisinha simples. Admiro o Sr. Lessingham imensamente e acho-o um companheiro muito interessante.”
“Você quer dizer”, observou sua amiga secamente, “o Barão Maderstrom”. Philippa olhou ao redor e franziu a testa.
“Você é muito indiscreta, Helen”, declarou ela. “Aprendi algo sobre a ciência da espionagem ultimamente, e posso garantir que todas as palavras faladas ou escritas são perigosas. Há um esquilo absolutamente britânico naquela árvore logo acima, e tenho certeza de que ele ouviu.”
“Suponho que o sol tenha subido à sua cabeça”, gemeu Helen.
“Se você quer dizer que estou achando um alívio falar besteiras, você tem razão”, concordou Philippa. “Na verdade, sinto-me muito deprimida. Henry telefonou de algum lugar antes do café da manhã desta manhã, para dizer que provavelmente estaria em casa esta noite ou amanhã. Eles devem ter pousado em algum lugar ao longo da costa.”
“Você é uma esposa muito pouco cumpridora dos seus deveres”, declarou Helen severamente. “Tenho certeza de que Henry é uma pessoa encantadora, mesmo que seja um pouco irresponsável, e é quase patético lembrar o quanto você estava apaixonada por ele, um ano ou dois atrás.”
Um pouco da leveza desapareceu do rosto de Philippa.
“Isso foi antes da guerra”, suspirou ela.
“Ainda acho que Henry é um querido, embora eu não o entenda completamente”, disse Helen, pensativa.
“Sem dúvida”, concordou Philippa, “mas você acharia o não entendê-lo um pouco mais humilhante se fosse sua esposa. Veja bem, eu não sabia que estava me casando com uma espécie de Sr. Skimpole esportista.”
“Eu me pergunto”, refletiu Helen, “como Henry e o Sr. Lessingham se darão quando virem mais um ao outro.”
“Eu realmente não me importo”, observou Philippa, indiferente.
“Eu costumava notar às vezes — isso logo depois que você se casou”, continuou Helen, “que Henry era apenas um pouco inclinado a ser ciumento.”
Philippa desviou os olhos do mar. Havia um sorriso estranho em seus lábios.
“Bem, se ele ainda é”, disse ela, “vou lhe dar algo por que ter ciúmes.”
“Pobre Sr. Lessingham!” murmurou Helen.
As sobrancelhas de Philippa se ergueram.
“Pobre Sr. Lessingham?” repetiu ela. “Não creio que você achará que ele terá pena de si mesmo.”
“Ele pode estar falando sério”, lembrou Helen à sua amiga. “Você pode ser horrivelmente atraente quando quer, sabe, Philippa.”
Philippa sorriu docemente.
“É bem possível”, disse ela, “que eu mesma possa estar falando sério. Briguei de forma bastante desesperadora com Henry, sabe, e sou uma criatura indefesa sem um pouco de admiração.”
Helen levantou-se subitamente. Seus olhos estavam fixos em uma figura que se aproximava pelo bosque.
“Você realmente não é respeitável, Philippa”, declarou ela. “Jogue fora seu cigarro, pelo amor de Deus, e sente-se corretamente. Alguém está vindo.”
Philippa apenas moveu a cabeça preguiçosamente. A luz do sol, que descia em milhares de pequenos ziguezagues através das árvores agitadas pelo vento, caía diretamente sobre seu rosto pequeno, pálido e desafiador, com seu charme evasivo e inexpressivo, e parecia encontrar uma nova profundidade de cor no ouro avermelhado de seu cabelo desgrenhado. Seu corpo esguio e perfeito estava esticado quase que totalmente, uma perna um pouco dobrada, as mãos pendendo descuidadamente em direção à grama. O cigarro ainda ardia no canto de seus lábios.
“Recuso-me”, disse ela, “a jogar fora meu cigarro por qualquer pessoa.”
“Menos ainda, espero”, interpôs uma voz familiar, “por mim.”
Philippa sentou-se ereta imediatamente, alisou o cabelo e olhou um pouco ressentida para Lessingham. Ele vestia um terno de *knickerbocker* de tweed marrom e carregava uma espingarda sob o braço.
“O que você está fazendo aqui em cima?” exigiu ela, “e você sabe alguma coisa sobre nossas leis de caça? Você não pode vir aos bosques aqui e atirar nas coisas só porque lhe apetece.”
Ele guardou a espingarda e sentou-se entre elas.
“Isso não é problema algum”, garantiu ele. “Seu vizinho, o Sr. Windover, a quem esses bosques aparentemente pertencem, pediu-me para trazer minha espingarda esta manhã e tentar pegar uma galinhola.”
“Céus! Você não quer dizer que o Sr. Windover também está aqui?” exigiu Philippa, olhando ao redor. Lessingham balançou a cabeça.
“O carro dele veio buscá-lo do outro lado do bosque”, explicou. “Ele foi chamado para ir ao tribunal. Optei por voltar a pé.”
“E a galinhola?” perguntou ela. “Eu adoro galinhola.”
Ele tirou uma do bolso, pegou o chapéu de feltro dela, que estava caído entre as samambaias, e ocupou-se em inserir as penas sob a faixa de seda.
“Pronto”, disse ele, entregando-o a ela, “a primeira galinhola da estação. Conseguimos quatro, e na verdade só aceitei uma na esperança de que você gostasse. Vou deixá-la com o estimável Mills, no meu retorno.”
“Você deve vir e dividi-la conosco”, insistiu Philippa. “Aqueles meninos da Nora virão jantar. Seu presente será a *pièce de résistance*.”
“Então posso jantar em outra noite?” pediu ele. “Este lugar estimula em mim os mais grosseiros apetites.”
“Não tenha medo”, respondeu ela. “Você nunca mais verá aquela galinhola. Eu a terei para o meu almoço de amanhã. Encomendei o jantar antes de sair, e embora possa ser um banquete simples, prometo que você não sairá com fome.”
“Você prometerá que nunca me mandará embora com fome?” perguntou ele, baixando a voz por um momento.
Ela virou-se e estudou-o. Helen, que havia caminhado alguns metros, estava imersa até os joelhos nas samambaias marrom-douradas, colhendo algumas folhas de cores magníficas de um arbusto solitário de amora. Lessingham havia jogado seu boné no chão, e seu cabelo agitado pelo vento e a cor incomum em suas faces eram ambos, à sua maneira, atraentes. Suas roupas de campo largas, mas bem ajustadas, sua gravata e colarinho macio, eram todos bem escolhidos e adequados. Ela admirava sua testa alta e sua boca firme, um tanto orgulhosa. Seus olhos, assim como seu tom, estavam cheios de seriedade.
“Você sabe que deveria estar dizendo isso a alguma Gretchen do outro lado daquele terrível Mar do Norte”, riu ela.
“Não existe Gretchen que tenha feito meu coração tremer como você faz”, sussurrou ele.
Ela pegou seu chapéu e suspirou.
“Realmente”, disse ela, “acho que as coisas já estão bastante complicadas como estão. Fico em polvorosa o dia todo, como está, sobre sua missão aqui e sua verdadeira identidade. Simplesmente não poderia incluir um flerte entre minhas emoções.”
“Eu nunca flertei”, garantiu ele, gravemente.
“Homem sábio”, pronunciou ela, levantando-se. “Venha, vamos ajudar Helen a colher folhas. Ela está arranhando os dedos terrivelmente, e tenho certeza de que você tem uma faca. Uma criatura querida e econômica, a Helen”, acrescentou ela, enquanto caminhavam. “Tenho certeza absoluta de que essas estão destinadas a adornar minha mesa de jantar e, com crisântemos a seis pence cada, você não pode imaginar o quanto são bem-vindas. Vamos, produza a faca, Sr. Lessingham.”
A faca foi produzida e, em breve, todos voltaram seus rostos para casa. Philippa deteve ambos os seus companheiros nos limites do bosque e apontou para a pequena cidade de telhados vermelhos, para a sombria igreja cinzenta fustigada pelas tempestades na beira do penhasco, para os campos pacíficos, a extensão da charneca salpicada de giestas e a extensão ondulante de gramado verde no topo dos penhascos. Além, estava o mar azul salpicado de espuma, pontilhado por toda parte com navios de carga a vapor.
“Alguém acreditaria”, perguntou ela satiricamente, “que deveria haver espaço aqui, neste pequeno lugar esquecido, para os cérebros de um... Sr. Lessingham!”
“Lembre-se de que fui enviado”, protestou ele. “O erro, se erro houver, não é meu.”
“E afinal”, lembrou Helen a ambos, “pense em como se pode ser facilmente enganado pelas aparências. Você não poderia imaginar nada mais honesto do que os rostos dos aldeões e dos pescadores que se vê por aí, no entanto, você sabe, Sr. Lessingham, que fomos visitados por ladrões ontem à noite?”
“Seriamente?” perguntou ele.
“Sem dúvida. É claro, *Mainsail Haul* é um convite aos ladrões. Eles poderiam entrar em qualquer lugar. Ontem à noite escolheram as janelas francesas e parecem ter se sentido em casa na biblioteca.”
“Espero”, disse Lessingham, “que não tenham levado nada de valor?”
“Eles não levaram absolutamente nada”, suspirou Philippa. “Essa é a parte humilhante disso. Eles evidentemente não gostaram das nossas coisas.”
“Como você sabe que teve ladrões, se eles não levaram nada?” perguntou Lessingham.
“Tão prático!” murmurou Philippa. “Na verdade, ouvi alguém se movendo e toquei a campainha de alarme. Mills estava lá embaixo quase imediatamente e ouvimos alguém correndo pela entrada. As janelas francesas estavam abertas, uma cadeira estava tombada na biblioteca e uma gaveta na escrivaninha do meu marido estava escancarada.”
“A prova”, admitiu Lessingham, “é esmagadora. Vocês foram visitadas por um ladrão. O seu marido guarda algo de valor na escrivaninha?”
“Henry não tem nada de valor no mundo”, respondeu Philippa secamente, “exceto seus títulos, e eles estão no banco.”
“Sem chegar ao ponto de contradizê-la”, observou Lessingham, com um sorriso, “ainda me atrevo a discordar!”
CAPÍTULO XI
Sir Henry deu um passo para trás em relação à balança e olhou para o peixe que haviam acabado de pesar, com admiração.
“Está vendo isso, Mills? Está vendo isso, Jimmy?” apontou ele. “Três quilos e trezentos! Eu estava certo quase até a onça. Ele é um belo exemplar!”
“Um peixe muito extraordinário, senhor”, observou o mordomo. “Permite que eu leve sua roupa de óleo? O jantar foi servido há quase uma hora.”
Sir Henry despiu seus macacões gotejantes e entregou-os.
“Tudo bem”, respondeu ele. “Escute. Não diga uma palavra sobre minha chegada à sua patroa por enquanto. Tenho algum trabalho de escrita para fazer. Traga-me um copo de xerez imediatamente, ou misture um coquetel se puder fazer isso sem ser notado, e leve Jimmy embora e dê a ele um uísque com soda.”
“Mas e quanto ao seu próprio jantar, senhor?”
“Comerei uma bandeja na sala de armas”, decidiu seu patrão, “digamos, daqui a vinte minutos. E, Mills, quem você disse que estava jantando?”
“Dois dos jovens oficiais do Depósito, senhor — o Sr. Harrison e o Sr. Sinclair — e o Sr. Hamar Lessingham.”
“Lessingham, é?” repetiu Sir Henry, enquanto se sentava diante de sua escrivaninha. “Mills”, acrescentou ele, num sussurro confidencial, “que vinho do Porto você serviu?”
A expressão do mordomo era de consciente retidão.
“Não o da safra, senhor”, anunciou com ênfase. “Um vinho do Porto de madeira muito excelente, que adquirimos para os almoços de caça. Os jovens cavalheiros gostam dele.”
“Você é uma joia, Mills”, declarou seu patrão. “Agora você entende — um aperitivo para mim agora, um uísque para Jimmy no seu quarto, e nem uma palavra sobre eu estar aqui. Boa noite, Jimmy. Sinto muito que tenhamos chegado tarde demais para a cavala, mas tivemos um grande esporte, mesmo assim. Você terá um ou dois dias de descanso em terra agora.”
“Sim, senhor!” respondeu Dumble, com um sorriso. “Chegamos na hora certa. Há algo mais do que uma rajada vindo do norte.”
Sir Henry ouviu por um momento. As janelas francesas tremeram, a chuva bateu contra os painéis e um estrondo surdo de vento era claramente audível do lado de fora.
“Calculamos isso excelentemente”, concordou ele. “Suba e vamos conversar amanhã, Jimmy, se sua esposa puder dispensá-lo.”
“Estarei aí antes das onze, senhor”, prometeu o pescador, com um sorriso.
Sir Henry esperou pelo fechamento da porta. Então, inclinou-se para frente por vários momentos. Ele mal tinha a aparência de um homem retornado de uma ou duas semanas de vida ao ar livre e indulgência no esporte que mais amava. O bronzeado saudável de sua tez estava diminuído em vez de aumentado. Havia linhas escuras sob seus olhos que pareciam falar de noites sem dormir, e uma barba de vários dias de crescimento estava em seu queixo. Ele bebeu o coquetel que Mills trouxe pouco depois, de um só gole, e observou com satisfação enquanto o misturador era vigorosamente agitado e um segundo era servido.
“Tivemos um tempo difícil, Mills”, observou ele, ao pousar o copo. “Até esta manhã, quase não parou de soprar.”
“Sinto muito em ouvir isso, senhor”, foi a resposta respeitosa. “Se me permite dizer, senhor, o senhor parece cansado.”
“Estou cansado”, admitiu Sir Henry. “Acho que, se tentasse, poderia dormir agora por vinte e quatro horas.”
“O senhor me perdoará por lembrá-lo, no que diz respeito às suas cartas, que não há correio saindo esta noite, senhor”, prosseguiu Mills. “Preparei um banho quente e separei suas roupas para trocar.”
“Excelente!” exclamou Sir Henry. “Não é uma carta que está me incomodando, no entanto, Mills. São apenas algumas notas geográficas que quero fazer. Sabe, estou tentando melhorar a carta náutica dos pescadores da costa por aqui. Aquele sujeito Groocock — tio de Jimmy Dumble — quase perdeu seu barco a motor na semana passada por confiar na antiga.”
“Com certeza, senhor”, respondeu Mills respeitosamente, colocando o copo vazio em sua bandeja. “Se o senhor me der licença, senhor, preciso voltar à sala de jantar.”
“Perfeitamente”, concordou seu patrão. “Eles não sairão ainda, sairão?”
“Sua senhoria provavelmente se levantará em cerca de dez minutos, senhor — não antes disso.”
Sir Henry assentiu com um pouco de impaciência. Assim que a porta se fechou, ele se levantou, ficou por um momento ouvindo ao lado de seu armário de pesca, então abriu a frente de vidro e tocou na mola. Com a ajuda de uma pequena lanterna elétrica que tirou do bolso, estudou particularmente uma certa parte do gráfico gigante, fez algumas medições com um lápis, algumas anotações na margem, e fechou-o novamente com um ar de satisfação. Então retomou seu assento, tirou uma folha de papel dobrada do bolso do peito, um gráfico de outro, acendeu a lâmpada e começou a escrever. Seu rosto, enquanto se curvava, escapou da sombra suave e ficou por um momento quase cadavérico. De vez em quando, ele se virava e fazia alguns cálculos no mata-borrão ao seu lado. Finalmente, recostou-se com um pequeno suspiro de alívio. Ele mal havia terminado quando a porta atrás dele foi aberta.
“Vamos ficar aqui, mamãe, ou vamos para a sala de estar?” perguntou Nora.
“Aqui, eu acho”, ouviu ele Philippa responder.
Então ambas entraram, seguidas por Helen. Nora foi a primeira a vê-lo e correu para frente com um pequeno grito de surpresa.
“Por que, o papai está aqui!” exclamou ela, jogando os braços em volta do pescoço dele. “Papai, como se atreve a ficar sentado aqui sozinho enquanto estamos jantando! Quando você voltou? Que peixe!”
Sir Henry fechou sua escrivaninha, abraçou sua filha e veio ao encontro de sua esposa.
“Belo exemplar, não é, Nora!” concordou ele. “Bem, Philippa, como vai você? Feliz em me ver, espero? Outro vestido novo, creio eu, e em tempo de guerra!”
“Imagine você se lembrar de que era tempo de guerra!” respondeu ela, permanecendo muito imóvel enquanto ele se inclinava e a beijava.
“Essa foi dura para mim”, observou Sir Henry bom humoradamente. “Como você está bem, Helen! Alguma notícia de Dick ainda?”
Helen tentou uma expressão de extrema gravidade com mais ou menos sucesso.
“Nada de novo”, respondeu ela.
“Bem, bem, nenhuma notícia pode ser uma boa notícia”, observou Sir Henry, consoladoramente. “Júpiter, é bom sentir um teto sobre a cabeça novamente! Esta manhã foi o único período de tempo decente que tivemos.”
“Esta manhã estava adorável”, concordou Helen. “Philippa e eu fomos e sentamos nos bosques.”
Philippa, que estava perto da lareira, virou-se e olhou para o marido criticamente.
“Temos alguns homens jantando”, disse ela. “Eles sairão em alguns minutos. Você não acha que deveria ir se tornar apresentável? Você cheira a peixe e parece que não se barbeia há uma semana.”
“Culpado, minha querida”, admitiu Sir Henry. “Mills está apenas me trazendo algo para comer na sala de armas, e então vou tomar um banho e trocar de roupa.”
“E fazer a barba, papai”, lembrou Nora.
“E fazer a barba, sua praga jovem”, concordou seu pai, dando um tapinha em seu ombro. “Corra e jogue sinuca com Helen. Quero falar com sua mãe até que meu jantar esteja pronto.”
Nora aquiesceu prontamente.
“Venha, Helen, dou-lhe vinte e cinco de vantagem. Ou talvez você queira jogar *shell out*?” propôs ela. “Arthur Sinclair diz que melhorei na minha tacada mais do que qualquer um que ele já conheceu.”
Sir Henry abriu a porta e fechou-a atrás delas. Então voltou e sentou-se no sofá ao lado de Philippa. Ela olhou para ele como se estivesse surpresa e, estendendo a mão para sua cesta de costura, pegou um pouco de tricô.
“Eu realmente acho que deveria me trocar imediatamente, se fosse você”, sugeriu ela.
“Logo. Tive uma ideia meio boba de que gostaria de ter uma ou duas palavras com você primeiro. Estou fora há quase quinze dias, não estou?”
“Está”, concordou Philippa. “Talvez esse seja o motivo pelo qual sinto que não tenho muito a dizer a você.”
“Isso soa apenas um pouco duro”, disse ele lentamente.
“Sou dura às vezes”, confessou Philippa. “Você sabe disso muito bem. Há momentos em que sinto como se não tivesse coração algum, nem qualquer simpatia; quando toda sensação que eu poderia ter parece murchar dentro de mim.”
“É assim que você está se sentindo em relação a mim neste momento, Philippa?” perguntou ele.
Suas agulhas brilharam através da lã por um momento em silêncio.
“Você recebeu todos os avisos”, disse ela a ele. “Tentei fazer com que entendesse exatamente como seu comportamento me enojava antes de você ir embora.”
“Sim, eu me lembro”, admitiu ele. “Temo, querida, que você me considere um sujeito imprestável.”
Philippa aparentemente deixou cair um ponto. Ela se curvou ainda mais sobre seu tricô. Havia uma carranca distinta em sua testa, sua boca estava irreconhecível.
“Seu amigo Lessingham ainda está aqui, pelo que entendi?” observou seu marido pouco depois.
“Sim”, assentiu Philippa, “ele jantará esta noite. Você provavelmente o verá em alguns minutos.”
Sir Henry parecia pensativo e estudou por um momento a ponta de um sapato de aparência notavelmente desagradável.
“Você é tão interessada nesse tipo de coisa”, disse ele, “o que me diz de Lessingham? Ele não é militar nem nada do tipo, é?”
“Não faço ideia”, respondeu Philippa. “Ele caminha com um leve mancar e admite que está aqui como convalescente, mas não nos contou muito sobre si mesmo.”
“Estranho que você não tenha o abordado”, continuou Sir Henry. “Você é uma recrutadora tão fervorosa, deveria garantir que ele esteja fazendo sua parte na matança.”
Philippa olhou para o marido por um momento e voltou ao seu trabalho.
“O Sr. Lessingham”, disse ela, “é um amigo muito encantador, cuja estadia aqui todos estão desfrutando muito, mas ele é um estranho relativo. Não sinto responsabilidade quanto às suas ações.”
“E quanto às minhas, você sente?”
“Naturalmente.”
A cabeça de Sir Henry estava apoiada na mão, o cotovelo no encosto do sofá. Ele parecia estar ouvindo as vozes na sala de jantar adiante.
“Hm!” observou ele. “Ele tem estado aqui com frequência enquanto estive fora?”
“Tão frequentemente quanto quis”, respondeu Philippa. “Ele já se tornou muito popular na vizinhança e é um convidado extremamente bem-vindo aqui a qualquer momento.”
“Aproveita bastante da sua hospitalidade, não é?”
“Ele está aqui na maioria dos dias. Nós sempre ficamos um pouco decepcionados quando ele não vem.”
A carranca de Sir Henry aprofundou-se um pouco mais.
“Qual é a atração?” exigiu ele.
Philippa sorriu. Era o sorriso que aqueles que a conheciam melhor temiam.
“Bem”, confiou ela, “eu costumava imaginar que era Helen, mas acho que ele ficou um pouco entediado de falar apenas sobre Dick e seus tempos de faculdade. Estou inclinada a imaginar que deva ser eu.”
“Você, por acaso!” resmungou ele. “Você está ciente de que é uma mulher casada?”
Philippa desviou o olhar de seu trabalho. Suas sobrancelhas estavam levantadas e sua expressão era de leve surpresa.
“Que estranho você me lembrar disso!” murmurou ela. “Temo que a maresia perturbe sua memória.”
Sir Henry levantou-se abruptamente.
“Oh, droga!” exclamou ele.
Ele caminhou até a porta. Seus convidados ainda estavam demorando com o vinho. Ele podia ouvir as vozes deles mais claramente do que nunca. Então ele voltou ao sofá e ficou ao lado de Philippa.
“Philippa, querida”, implorou ele, “não vamos brigar. Tive uma quinzena tão difícil, um vento nordeste soprando o tempo todo e os mares mais imundos que já vi nesta época do ano. Durante cinco dias não tive uma peça de roupa seca no corpo, e por várias vezes foi por pouco. Estávamos todos na água juntos, e havia uma onda verde horrível que parecia uma montanha pairando sobre nós, e o lado do nosso próprio barco curvando-se sobre nós como se pretendesse esmagar nossas costelas. Parecia dez contra um contra nós, Phil, e senti um frio pior do que o que o mar jamais me deu quando pensei que não veria você novamente.”
Philippa deixou seu tricô de lado. Ela olhou minuciosamente para o rosto do marido. Ela estava muito longe de ser indiferente ao seu tom alterado.
“Henry”, disse ela, “isso soa muito terrível, mas por que você corre tais riscos — indignamente? Você acha que eu não poderia lhe dar tudo o que você quer, tudo o que tenho a dar, se você voltasse para casa com uma história como esta e eu soubesse que você esteve enfrentando a morte de forma justa e honrada pelo bem do seu país? Ora, Henry, não há homem no mundo que pudesse ter as boas-vindas que eu poderia lhe dar. Você acha que sou fria? É claro que não! Você acha que quero sentir como tenho sentido esta última quinzena em relação a você? Ora, é uma miséria! Isso me faz sentir inclinada a cometer qualquer loucura, qualquer insensatez, para me livrar de tudo isso.”
Seu marido hesitou. Uma carranca escurecera seu rosto. Ele tinha o ar de alguém que está na iminência de uma confissão.
“Philippa”, começou ele, “você sabe que, quando saio nessas expedições de pesca, também trabalho um pouco no novo mapa que estou tão ansioso para preparar para os pescadores.”
Philippa balançou a cabeça impacientemente.
“Não fale comigo sobre seus pescadores, Henry! Estou tão farta deles quanto estou de você. Você pode ver vinte ou trinta deles qualquer manhã, vadiando pelo cais, rapazes fortes que se escondem atrás da desculpa de emprego privilegiado. Somos notórios aqui por nossos covardes, e você — você que deveria ser o único homem a dar-lhes o exemplo, é tão ruim quanto eles. Você os encoraja deliberadamente.”
Sir Henry abandonou sua posição ao lado da esposa. Seu rosto escureceu e seus olhos brilharam.
“Covardes?” repetiu ele furiosamente.
Philippa olhou para ele sem recuar.
“Sim! Você não gosta da palavra?”
O rubor de raiva desapareceu de suas bochechas tão rapidamente quanto surgiu. Ele riu de uma forma um pouco antinatural, pegou um cigarro de uma caixa aberta e acendeu-o.
“Não é uma palavra agradável, é, Philippa?” observou ele, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta e afastando-se. “Se alguém não sente o chamado — bem, aí está, você vê. Júpiter, aquele é um peixe e tanto.”
Ele ficou admirando o bacalhau na balança. Philippa continuou seu trabalho.
“Se você pretende passar o resto da noite conosco”, disse ela calmamente, “por favor, deixe-me lembrá-lo novamente de que temos convidados para o jantar. Sua vestimenta atual pode ser confortável, mas dificilmente é adequada.”
Ele se virou e caminhou de volta em direção a ela. Ao passar pela lâmpada, ela sobressaltou-se.
“Ora, você está molhado”, exclamou ela, “completamente molhado!”
“É claro que estou”, admitiu ele, sentindo a manga, “mas, para dizer a verdade, no interesse de nossa conversa, eu tinha esquecido completamente disso. Lá vêm nossos convidados, antes que eu tivesse tempo de escapar. Posso ouvir a voz do seu amigo Lessingham.”
CAPÍTULO XII
Os três convidados para o jantar entraram juntos, Lessingham no meio. A presença de Sir Henry foi obviamente uma surpresa para todos eles.
“Não imaginava que você estivesse de volta, senhor”, observou Harrison, apertando sua mão.
Sir Henry cumprimentou a todos com bom humor. “Apareci cerca de quarenta e cinco minutos atrás”, explicou ele, “tarde demais para me juntar a vocês no jantar.”
“Que azar, senhor”, comentou Sinclair. “Espero que tenha tido uma boa pescaria?”
“Não tão ruim”, admitiu Sir Henry. “Tivemos que ir longe o suficiente para isso, no entanto. O que você acha desse bacalhau de outubro?”
Todos se aproximaram da balança e admiraram o peixe. Sir Henry ficou com as mãos nos bolsos, ouvindo os comentários deles.
“Espero que esteja aproveitando sua estadia aqui, Sr. Lessingham?” perguntou ele.
“Dificilmente alguém deixaria de aproveitar mesmo as mais breves férias em um lugar tão deliciosamente hospitaleiro”, foi a resposta um tanto medida.
“Ouvi dizer que você também é um pescador?” continuou Sir Henry.
“De uma forma muito pequena”, reconheceu Lessingham. “Saí uma ou duas vezes.”
“Com Ben Oates, hein?”
“Acredito que esse fosse o nome do homem.”
Philippa olhou para cima de seu trabalho com uma pequena exclamação de surpresa.
“Eu não fazia ideia disso, Sr. Lessingham. O que o levou a escolher Ben Oates? Ele é uma pessoa mais detestável.”
“Foi inteiramente por acidente”, explicou Lessingham. “Eu o encontrei na frente. Por acaso era uma manhã bonita, e ele foi bastante insistente em seu convite.”
“Temo que ele não lhe tenha proporcionado muita pescaria”, observou Sir Henry. “Pelo que o irmão de Jimmy Dumble lhe contou, ele parece tê-lo levado na direção completamente errada, e com a maré errada.”
“Tivemos uma pequena captura”, respondeu Lessingham. “Eu realmente fui mais pelo passeio do que pela pesca, então não fiquei desapontado.”
“A própria costa”, observou Sir Henry, “é bastante interessante.”
“Imagino que sim”, assentiu Lessingham. “O Sr. Ben Oates, de fato, me contou algumas histórias maravilhosas sobre ela. Ele falou de canais largos pelos quais um encouraçado poderia se aproximar a cem jardas da terra.”
“Ele está bem correto também”, concordou seu anfitrião.
“Há muita água profunda por aqui. Toda a costa é muito curiosa nesse aspecto. O que diabos é isto?”
Sir Henry, que estava caminhando pela sala, pegou um chapéu Homburg do lado oposto de uma mesa de curiosidades. Philippa olhou para cima com a exclamação dele.
“Esse é o troféu de Nora”, explicou ela. “Eu disse a ela para levá-lo para seu próprio quarto, mas ela está sempre querendo mostrá-lo aos seus amigos.”
“O troféu de Nora?” repetiu Sir Henry. “Ora, não passa de um chapéu masculino comum.”
“No entanto, é um chapéu bastante viajado, senhor”, apontou Harrison. “A senhorita Nora o encontrou em Dutchman's Common, na manhã seguinte ao dia em que o carro de observação foi encontrado lá.”
Sir Henry estendeu o chapéu.
“Mas Nora não supõe seriamente que os alemães venham com este tipo de chapéu, supõe?” exigiu ele.
“Se o senhor der uma olhada no forro, senhor”, sugeriu Sinclair.
Sir Henry virou-o e assobiou suavemente. “Por Júpiter, é um chapéu alemão, com certeza!” exclamou ele. “Não parece ter uma forma ruim, inclusive.”
Ele experimentou. Houve uma pequena risada dos homens. Philippa havia parado de tricotar e observava do sofá. Sir Henry olhou-se no espelho.
“Bem, isso é engraçado”, observou ele. “Eu não teria pensado que seria tão pequeno para mim. Aqui, experimente como você ficaria nele, Sr. Lessingham”, acrescentou ele, entregando-o a ele.
Lessingham aceitou a situação com toda a calma e colocou o chapéu cuidadosamente na cabeça.
“Não parece particularmente confortável”, observou ele.
“Isso pode ser”, sugeriu Sir Henry, “porque você o está usando do lado avesso. Se você apenas o virasse, acredito que acharia que serve muito bem.”
Lessingham obedeceu imediatamente. Sir Henry observou-o com admiração.
“Excelente!” exclamou ele. “Olhe isso, Philippa. Poderia ter sido feito para ele, hein?”
Lessingham olhou-se no espelho e removeu o chapéu da cabeça com algum comentário casual. Ele estava inteiramente à vontade. Seu anfitrião virou-se para a porta, que Mills segurava aberta.
“Capitão Griffiths, senhor”, anunciou este último.
Sir Henry cumprimentou seu visitante brevemente. “Como vai, Griffiths?” disse ele. “Fico feliz em vê-lo. Desculpe meu traje, mas acabei de chegar de uma expedição de pesca. Estamos todos admirando o Sr. Lessingham em seu chapéu mágico.”
O Capitão Griffiths apertou a mão de Philippa, acenou para os outros e virou-se para Lessingham.
“Coloque-o de novo, seja um bom rapaz, Lessingham”, implorou Sir Henry. “Veja, encontramos uma versão moderna do sapatinho de Cinderela. O chapéu que caiu do Zeppelin em Dutchman's Common serve no nosso amigo como uma luva. Eu nunca pensei que os alemães fizessem chapéus tão bons, pensou, Griffiths?”
“Sempre pensei que eles importassem seus chapéus de feltro”, reconheceu o Capitão Griffiths. “É realmente aquele com o nome alemão por dentro, que a senhorita Nora trouxe para casa?”
“Este é o artigo genuíno”, assentiu Lessingham, tirando-o da cabeça e passando-o para o recém-chegado. “Apesar do nome por dentro, eu ainda acreditaria que era um chapéu inglês. Parece confortável demais para qualquer outra coisa.”
O Comandante levou o chapéu até uma lâmpada e examinou-o cuidadosamente. Ele puxou o forro e olhou por toda a volta. De repente, ele soltou uma pequena exclamação.
“Aqui estão as iniciais do proprietário”, declarou ele, “bastante fracas, mas ainda distinguíveis — B. M. Hm! Não há dúvida de que é um chapéu alemão.”
“B. M.”, murmurou Sir Henry, olhando por cima do ombro. “Que interessante! B. M.”, repetiu ele, voltando-se para Philippa, que havia recomeçado seu tricô. “É imaginação minha, ou há algo um pouco familiar nisso?”
“Tenho certeza de que não faço ideia”, respondeu Philippa. “Isso não significa nada para mim.”
Houve um breve, mas aparentemente sem sentido, silêncio. As agulhas de Philippa brilhavam através de sua lã com fácil regularidade. Lessingham parecia estar compartilhando a leve curiosidade que os outros mostravam em relação ao chapéu. Sir Henry estava de pé com as sobrancelhas franzidas, na atitude óbvia de um homem tentando se lembrar de algo.
“B. M.”, murmurou ele suavemente para si mesmo. “Havia alguém que eu conheci ou de quem ouvi falar na Inglaterra — O que é isso, Mills?”
“Seu jantar está servido, senhor”, anunciou Mills, que fizera uma entrada silenciosa.
Sir Henry aparentemente não pensou mais no chapéu ou em seu possível dono. Ele o jogou sobre uma mesa próxima, e seu rosto expressou um novo interesse pela vida.
“Por Júpiter, estou faminto!” confessou ele. “Vocês vão me desculpar, não vão? Mills, veja que estes senhores tenham charutos e cigarros — na sala de bilhar, eu imagino. Vocês encontrarão os jovens lá. Virei e jogarei uma partida de sinuca mais tarde.”
Os dois jovens soldados, com o Capitão Griffiths, seguiram Sir Henry imediatamente para fora da sala. Lessingham, porém, demorou-se. Ele ficou com as mãos para trás, olhando para a porta fechada.
“Você vai ficar e conversar bobagens comigo, Sr. Lessingham?” perguntou Philippa.
“Se eu puder”, respondeu ele, sem mudar de posição.
Philippa olhou para ele com curiosidade.
“Você vê fantasmas através daquela porta?”
Ele balançou a cabeça.
“Você sabe”, disse ele, enquanto se sentava ao lado dela, “há momentos em que acho seu marido bastante interessante.”
CAPÍTULO XIII
Philippa recostou-se em seu assento.
“O que exatamente você quer dizer com isso, Sr. Lessingham?” exigiu ela.
Ele se livrou de uma sensação curiosa de irrealidade e virou-se para ela.
“Devo confessar”, disse ele, “que, às vezes, seu marido me intriga.”
“Nem de longe tanto quanto ele me intriga”, retrucou Philippa, um pouco amargamente.
“Ele sempre foi tão desesperadamente interessado em pesca em alto-mar?”
Philippa deu de ombros.
“Mais ou menos, mas nunca a esse ponto. A coisa se tornou uma obsessão para ele ultimamente. Se você realmente vai ficar e conversar comigo, você se importa se não discutirmos meu marido? Agora, o assunto é um tanto doloroso para mim.”
“Posso entender perfeitamente isso”, murmurou Lessingham com simpatia.
“O que você acha do Capitão Griffiths?” perguntou ela, um pouco abruptamente.
“Não pensei em nada mais sobre ele. Deveria? Ele é de alguma importância real?”
“Ele é o comandante militar aqui.”
Lessingham assentiu pensativamente.
“Suponho que isso signifique que ele é o homem que deveria estar na minha cola”, observou ele.
“Eu não ficaria nem um pouco surpresa ao ouvir que ele estivesse”, disse Philippa secamente. “Eu lhe disse que ele veio e perguntou sobre você na outra noite, quando jantou aqui. Ele parecia perfeitamente satisfeito então, mas ele está aqui novamente hoje à noite para ver Henry, e ele nunca visita lugar nenhum de uma maneira comum.”
“Você está inquieta por minha causa?” Lessingham perguntou.
“Não tenho certeza”, respondeu ela francamente. “Às vezes, fico quase aterrorizada e daria qualquer coisa para ouvir que você estava a caminho de casa. E, outras vezes, percebo que você é realmente muito inteligente, que nada provavelmente acontecerá com você e que o lugar parecerá mais monótono do que nunca quando você for embora.”
“Isso é muito gentil da sua parte”, disse ele. “De qualquer forma, temo que minhas férias logo chegarão ao fim.”
“Suas férias?” repetiu ela. “É assim que você as chama?”
“Tem sido pouco mais do que isso”, respondeu ele indiferentemente. “Não há nada para ser aprendido aqui de qualquer significado militar.”
“Nós lhe dissemos isso quando você chegou”, lembrou-lhe Philippa.
“Talvez eu tenha sido tolo por não acreditar em você”, reconheceu ele.
“Então, sua viagem tão emocionante através das nuvens terminou em fracasso, afinal!” continuou ela, um momento ou dois depois.
“Fracasso? Não, eu não chamaria de fracasso.”
“Você realmente fez algumas descobertas, então?” perguntou ela duvidosamente.
“Fiz a maior descoberta do mundo.”
Suas sobrancelhas foram levemente levantadas, os cantos de sua boca tremeram, seus olhos caíram.
“Meu Deus! Neste lugar tranquilo?” suspirou ela.
“Sim!”
“É Helen ou eu?”
“Philippa!” protestou ele.
Suas sobrancelhas estavam mais levantadas do que nunca. Sua boca perdera sua curva sedutora.
“Realmente, Sr. Lessingham!” exclamou ela. “Alguma vez eu lhe dei o direito de me chamar pelo meu primeiro nome?”
“Em meu país”, respondeu ele, “nós não esperamos para pedir. Nós tomamos.”
“Prussianismo puro”, murmurou ela. “Eu realmente acho que você deveria voltar para lá. Você está adotando os métodos deles.”
“Posso ter que fazer isso a qualquer momento”, admitiu ele, “ou para algum país ainda mais distante. Eu quero algo para levar comigo.”
“Você quer uma lembrança, é claro”, declarou Philippa, olhando ao redor da sala. “Você pode ter minha fotografia — aquela ali. Helen lhe dará uma dela também, tenho certeza, se você pedir a ela. Ela é tão grata a você quanto eu em relação a Richard.”
“Mas de você”, disse ele seriamente, “eu quero mais do que gratidão.”
“Meu Deus, como você é persistente!” murmurou Philippa. “Você está realmente determinado a me cortejar?”
“Ah, não zombe de mim!” implorou ele. “O que estou dizendo a você vem do meu coração.”
Philippa riu dele baixinho. Houve, no entanto, uma pequena pausa em sua voz.
“Não seja absurdo!”
“Não há nada de absurdo nisso”, respondeu ele, com um tom de tristeza em sua voz. “Senti isso desde o momento em que nos conhecemos. Lutei contra isso, mas senti crescer dia após dia. Vim aqui com a mente cheia de propósitos diferentes. Não tinha pensamento de me divertir, não tinha pensamento de buscar aqui a felicidade que até agora parece ter me escapado. Vim como um servo porque fui enviado, um ser mecânico. Você mudou tudo. Por você, sinto o que nunca senti por nenhuma mulher antes. Coloco diante de você minha carreira, minha liberdade, minha honra.”
Philippa suspirou muito suavemente.
“Você se importa de tocar a campainha?” pediu ela.
“A campainha?” repetiu ele. “Para quê?”
“Quero que Helen ouça você”, confiou ela, com um sorriso maravilhoso.
“Philippa, não zombe de mim”, implorou ele. “Se isso é apenas diversão para você, diga-me e deixe-me ir embora. É a primeira vez na minha vida que uma mulher se interpôs entre mim e meu trabalho. Não sou mais mestre de mim mesmo. Estou obcecado por você. Não quero mais nada na vida a não ser o seu amor.”
Houve uma mudança quase surpreendente no rosto de Philippa. A provocação que a servira com tanto efeito, da qual ela dependera como sua arma defensiva, era subitamente inútil. Lessingham criara uma atmosfera ao seu redor, uma atmosfera de sinceridade.
“Você está falando sério?” ela hesitou.
“Deus sabe que estou!” insistiu ele.
“Você — você gosta de mim?”
“Tanto”, respondeu ele apaixonadamente, “que, por você, eu sacrificaria minha honra, meu país, minha vida.”
“Mas eu só o conheço há tão pouco tempo”, protestou Philippa, “e você é um inimigo.”
“Eu descarto meu nascimento. Eu renuncio ao meu país adotivo”, declarou ele ferozmente. “Você varreu minha vida de cada fragmento de ambição e patriotismo. Você a preencheu com uma única coisa — um grande amor consumidor.”
“Você esqueceu meu marido?”
“Você acha que, se ele tivesse sido um tipo diferente de homem, eu teria ousado falar? Pergunte a si mesma como você pode continuar a viver com ele? Você pode chamá-lo como quiser. Ambos são igualmente vergonhosos. Seu coração conhece a verdade. Ele é um covarde ou um libertino.”
As bochechas de Philippa estavam subitamente brancas. Seus olhos brilharam. Suas palavras a haviam ferido profundamente.
“Um covarde?” repetiu ela furiosamente. “Você ousa chamar Henry disso?”
“Ouso, e ouso porque é a verdade!” ele exclamou. “Olhe para a vida que ele leva! Veja a indiferença dele em relação a tudo o que deveria elevar o espírito de um homem. Você acha que ele não sabe o que se diz dele no clube, o que se diz pelas ruas? Ele é um homem sem ambição, sem patriotismo, sem aquele senso de dever que faz a vida de um homem valer a pena. E você, Philippa, você se permite ser arrastada por essa mediocridade? Você se permite apodrecer em uma vida que não tem nada a oferecer além de desapontamento?”
Philippa levantou-se, tremendo de indignação, mas havia uma nota de fraqueza em sua voz que traía seu próprio tumulto interno. “Você não tem o direito de me julgar, Lessingham. Você não conhece Henry como eu. Você não entende as tensões sob as quais ele vive, nem as coisas que ele carrega em silêncio.”
“Eu entendo o que vejo,” ele retrucou, aproximando-se dela, com o olhar fixo e ardente. “Vejo uma mulher que definha, uma mulher cuja beleza e inteligência estão sendo desperdiçadas em um ambiente de estagnação. Eu não quero apenas seu amor, Philippa. Eu quero sua liberdade. Quero que você reconheça que merece algo maior, algo que não seja esse simulacro de casamento que você mantém.”
Ela recuou um passo, sua respiração estava ofegante. “Você é perigoso,” ela murmurou. “Você fala como se pudesse reescrever a vida de uma pessoa com palavras, como se o que construímos ao longo dos anos pudesse ser descartado por um capricho de opinião.”
“Não é um capricho,” ele disse, sua voz agora um sussurro grave que parecia preencher cada canto da sala. “É uma necessidade. Eu vi como você olha para o horizonte, sempre esperando por algo que ele nunca lhe dará. Eu vi a tristeza em seus olhos quando ele sai para o mar, deixando você para trás, não como uma esposa, mas como uma peça de mobília que ele pode encontrar no mesmo lugar ao retornar. Eu lhe ofereço a oportunidade de ser a mulher que você nasceu para ser.”
Philippa cobriu o rosto com as mãos por um breve instante, lutando para manter a compostura. “Se ele é o que você diz, se ele é esse homem sem valor que você pinta, por que eu ainda estou aqui? Por que eu ainda sinto essa lealdade que me corrói?”
“Por costume,” ele respondeu prontamente. “Pelo medo do desconhecido. Mas o medo é um conselheiro ruim, Philippa. Especialmente quando o objeto do seu medo é, na verdade, um homem que não merece sua proteção.”
Ela baixou as mãos, seus olhos encontrando os dele com uma mistura de desafio e desamparo. “Você fala de proteção, mas o que você oferece? Uma incerteza? Uma fuga para um lugar onde ninguém me reconhece? Você pede muito, Lessingham. Você pede que eu queime as pontes atrás de mim sem saber se há terra firme do outro lado.”
“Eu sou a terra firme,” ele declarou com uma convicção absoluta. “E se você duvida, é apenas porque ainda não se permitiu acreditar que pode ser feliz.”
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com a eletricidade de seus sentimentos. Fora da sala, o som do vento batendo nas janelas parecia um eco do caos que crescia dentro dela. Philippa, incapaz de sustentar aquele olhar penetrante por mais tempo, virou-se para a janela, observando a escuridão que envolvia Dreymarsh.
“Vá embora, por favor,” ela pediu, sua voz mal audível. “Preciso pensar. Preciso que o mundo pare de girar por um momento.”
Lessingham inclinou a cabeça, um gesto quase imperceptível de deferência. “Eu irei. Mas saiba que não estou apenas pedindo; estou esperando. E a espera, Philippa, tem um limite.”
Ele caminhou até a porta com passos firmes, deixando-a sozinha em meio ao silêncio opressivo da casa. Philippa permaneceu imóvel, os dedos apertando o tecido das cortinas, sentindo que, com aquela conversa, o curso de sua vida havia sido alterado de uma forma da qual não poderia mais retornar.
“Você tem alguma ideia no fundo da sua mente, querida”, ela perguntou, “de fazer uso do Sr. Lessingham para punir Henry?”
Philippa moveu-se um pouco inquieta.
“Como você é odiosamente direta!” ela murmurou. “Eu não sei.”
“Porque”, Helen continuou, “se você tem qualquer ideia desse tipo em sua mente, acho que é muito injusto com o Sr. Lessingham. Você sabe perfeitamente bem que qualquer outra coisa entre você e ele seria impossível.”
“E por quê?”
“Não seja ridícula!” Helen exclamou vigorosamente. “O Sr. Lessingham pode ter todas as qualidades mais encantadoras do mundo, mas ele se vinculou a um país que nenhum homem ou mulher inglesa será capaz de pensar sem estremecer, por muitos anos ainda. Você não pode sonhar em se separar de seus amigos, de sua casa e de seu país! É tão antinatural! Eu nem sequer estou discutindo com você, Philippa. Você não poderia fazer isso! Estou inteiramente preocupada com o Sr. Lessingham. Não consigo esquecer o que lhe devemos. Acho que seria odiosamente cruel da sua parte arruinar a vida dele.”
Os lampejos de seriedade de Philippa eram apenas momentâneos. Ela fez uma pequena careta. Ela era, mais uma vez, seu eu natural e irresponsável.
“Você subestima meu charme, Helen”, ela declarou. “Eu realmente acredito que poderia construir a vida dele em vez de arruiná-la.”
“E você pagaria o preço?”
Philippa, esguia e élfica à luz do fogo, levantou-se da cadeira. Houve uma crueldade momentânea em seu rosto.
“Às vezes penso”, ela disse calmamente, “que pagaria qualquer preço no mundo para fazer Henry entender como me sinto. Pronto, agora vá embora, querida. Você está cheia de boas intenções, e não pense que sou horrível, mas nada que você dissesse faria qualquer diferença.”
“Você não faria nada imprudente?” Helen implorou.
“Bem, se eu fugir com o Sr. Lessingham, certamente não posso prometer que enviarei cartões de anúncio primeiro. O que quer que eu faça, o impulso provavelmente decidirá.”
“Impulso!”
“Por que não? Eu confio no meu. Você não confia no seu?” Philippa acrescentou, com um pequeno dar de ombros.
“Às vezes”, Helen suspirou, “eles são cavalos tão selvagens, sabe. Eles levam a gente a lugares tão terríveis.”
“E às vezes”, Philippa respondeu, “eles encontram o caminho para o paraíso onde nossos pensamentos mais sóbrios nunca poderiam nos levar. Boa noite, querida!”
CAPÍTULO XVI
O Sr. William Hayter, na solidão de seus aposentos no Milan Court, era uma pessoa muito alterada. Ele não estendeu nenhuma saudação de boas-vindas ao seu visitante da meia-noite, mas simplesmente indicou-lhe uma cadeira.
“Bem”, ele começou, “sua tarefa terminou para que você esteja em Londres?”
“Minha tarefa”, Lessingham respondeu, “poderia muito bem nunca ter sido iniciada. O homem que você me enviou para vigiar não passa de um inglês comum, amante do esporte.”
“Sério! Você viveu como vizinho dele por quase um mês, e essa é a sua impressão dele?”
“É”, Lessingham assentiu. “Ele esteve fora pescando no mar, metade do tempo, mas eu revistei sua casa minuciosamente.”
“Revistou os papéis dele, hein?”
“Cada um que pude encontrar, e odiei o trabalho. Há um bom número de cartas náuticas da costa, mas são todas para o uso dos pescadores.”
“Maravilhoso!” Hayter zombou. “Meu jovem amigo, você ainda pode encontrar distinção em algum outro ramo da vida. Nosso serviço secreto, imagino, muito em breve será capaz de dispensar suas energias.”
“E eu o seu serviço secreto”, Lessingham concordou cordialmente. “Arrisco dizer que pode haver alguns ramos dele nos quais a existência é tolerável. Isso, contudo, não se aplica à tarefa na qual estive engajado.”
“Você foi completamente enganado”, Hayter disse-lhe calmamente, “e a informação que você nos enviou não tem valor. Sir Henry Cranston, em vez de ser o tipo de homem que você descreveu, é um dos maiores especialistas em defesa costeira e lançamento de minas no Almirantado Inglês.”
Lessingham riu brevemente.
“Isso”, declarou ele, “é perfeitamente absurdo.”
“É”, Hayter repetiu, com ênfase, “a mais pura verdade. As excursões de pesca de Sir Henry Cranston são mitos. Ele é simplesmente transferido de seu barco de pesca para um de uma pequena frota dos chamados varredores de minas, a partir dos quais conduz suas operações. Quase todas as cidades mais importantes da costa leste estão protegidas por campos minados de sua autoria.”
Lessingham ficou estupefato. A maneira de seu companheiro era singularmente convincente.
“Mas como Sir Henry ou qualquer outra pessoa poderia manter isso em segredo?” ele protestou. “Até a esposa dele mal se fala com ele porque acredita que ele seja um ocioso, e toda a vizinhança comenta sobre sua inércia.”
“Toda a vizinhança é facilmente enganada”, Hayter retrucou. “Há um ou dois que sabem, no entanto.”
“Há um ou dois”, Lessingham observou sombriamente, “que estão começando a suspeitar de mim.”
“Isso é uma pena”, Hayter admitiu, “porque será necessário que você retorne a Dreymarsh imediatamente.”
“Retornar a Dreymarsh imediatamente? Mas Cranston está fora. Não há nada para eu fazer lá na ausência dele.”
“Ele estará de volta na quarta ou quinta-feira à noite”, foi a resposta confiante. “Ele trará consigo o plano de suas mais recentes defesas de uma cidade na costa leste, que nosso esquadrão de cruzadores pretende bombardear. Precisamos daquele mapa.”
Lessingham ouviu em angústia muda.
“Você poderia, por favor, conseguir que eu fosse substituído?” ele implorou. “O fato é...”
“Não poderíamos, e não o faremos”, Hayter interrompeu ferozmente. “A menos que você deseje que eu o denuncie em casa como um renegado e um covarde, você levará até o fim o trabalho que lhe foi designado. Seus erros anteriores serão perdoados se aquele mapa estiver em minhas mãos até sexta-feira.”
“Mas como você sabe que ele o terá?” Lessingham protestou. “Supondo que você esteja certo e ele seja realmente o responsável pelos campos minados de que fala, eu pensaria que a última coisa que ele faria seria trazer o mapa de volta para Dreymarsh.”
“Na verdade, é precisamente o que ele fará”, Hayter assegurou ao seu ouvinte. “Ele está trazendo de volta para a inspeção de um dos comissários para a defesa da costa leste, que deve encontrá-lo em sua casa. E eu gostaria de avisá-lo, também, Maderstrom, que você terá muito pouco tempo. Por alguma razão ou outra, Cranston está insatisfeito com o sigilo sob o qual foi compelido a trabalhar e solicitou ao Almirantado o reconhecimento de sua posição. Assim que isso for concedido, presumo que sua casa ficará inacessível para você.”
Lessingham sentou-se, com os braços cruzados, os olhos fixos no fogo. Seus pensamentos estavam em turbilhão, mas uma coisa era odiosamente clara. Cranston não era o ocioso indigno que ele acreditava ser. Todo o ponto de vista de Philippa poderia muito bem ser alterado por essa descoberta — especialmente agora que Cranston havia tomado a decisão de se impor pelo bem de sua esposa. Havia um medo gélido em seu coração.
“Você entende”, Hayter persistiu friamente, “o que é que você tem que fazer?”
“Perfeitamente. Voltarei no trem da tarde”, foi a resposta desesperada.
“Se você tiver sucesso”, Hayter continuou, “providenciarei para que você receba o reconhecimento habitual, mas, se desejar, pedirei sua transferência para outro ramo do serviço. Não estou questionando seu patriotismo ou sua honra, Maderstrom, mas você não é o homem para este trabalho.”
“Você está certo”, Lessingham disse. “Eu não sou.”
“Não é da minha conta”, Hayter prosseguiu, “investigar muito de perto os meios usados por nossos agentes na execução de nossos planos. Que eu o encontre em Londres na companhia da esposa do homem que você foi designado a vigiar, pode ser um fato capaz da explicação mais completa e satisfatória. Não faço perguntas. Apenas lembro-o de que seu país, ainda que seja apenas seu país adotivo, exige de você, como de todos os outros a seu serviço, lealdade inabalável, uma lealdade não influenciada pelas reivindicações de sentimento pessoal, dever ou honra. Eu disse o suficiente?”
“Você disse tanto quanto é sensato da sua parte dizer”, Lessingham respondeu, sua voz tremendo com paixão reprimida.
“Isso é tudo, então”, o outro concluiu. “Você sabe onde enviar ou trazer o mapa quando o tiver? Se você mesmo o trouxer, é possível que algo que você possa considerar como uma recompensa lhe seja oferecido.”
Lessingham levantou-se um pouco cansado. Sua despedida de Hayter foi fria e sem vida.
Ele deixou o hotel e iniciou seu caminho para casa, lutando com uma sensação de depressão intolerável. As ruas pelas quais passou estavam sombrias e sem luz.
Um aviso de Zeppelin, poucas horas antes, havia levado as pessoas para suas casas. Não havia uma fresta de luz a ser vista em lugar nenhum. Um silêncio intenso e sombrio parecia pairar sobre as vias desertas. Aves noturnas a caminho de casa passavam como sombras. Policiais espreitavam nas sombras das casas. Os poucos veículos que restavam circulavam com luzes insuficientes. Até as buzinas de advertência dos motoristas de táxi soavam furtivas e reprimidas. Lessingham, enquanto marchava estoicamente, sentia-se curiosamente em sintonia com seu ambiente. As notícias de Hayter o colocaram frente a frente com aquele problema interior que havia se tornado, tão subitamente, o fator dominante em sua vida. Pela primeira vez ele sabia o que era o amor. Sentia o deslumbramento disso, as possibilidades de longo alcance, o estranho idealismo chamado tão inesperadamente à existência. Ele reconhecia as veleidades do temperamento de Philippa e, no entanto, durante os últimos dias, ele havia se convencido de que ela estava começando a se importar. Suas relações tensas com o marido haviam sido, sem dúvida, seu primeiro incentivo para a aceitação de sua devoção oferecida. Agora ele dizia a si mesmo, com esperança ávida, que alguma parte disso, por mínima que fosse, devia ser por causa dele mesmo. As relações entre marido e esposa, ele se lembrou, devem, de qualquer modo, ter sido tensas durante os últimos meses, ou Cranston nunca teria sido capaz de manter seu segredo. Em sua passagem sombria por esta terra de maus presságios, contudo, ele estremeceu um pouco ao pensar na outra possibilidade — torturou-se imaginando o que poderia acontecer durante a reviravolta dos sentimentos dela, caso Philippa descobrisse a verdade. Uma sensação de algo maior do que ele já conhecera na vida parecia elevá-lo a um estado sublime de distanciamento, do qual ele podia olhar para baixo e desprezar a si mesmo, o pobre e cansado labutador vestindo as pesadas correntes do dever. Havia uma vida muito mais maravilhosa, logo do outro lado das nuvens, a uma distância muito curta, uma vida de felicidade sedutora e apaixonada. Será que ele algum dia encontraria a coragem, perguntou-se, de escapar da esteira e partir em busca dela? O dever, nos últimos dois anos, pegara-o pela mão e conduzira-o por um caminho de vergonha. Ele nunca fora um hipócrita a respeito da guerra. Ele era um daqueles que reconhecera desde o início que a Alemanha havia partido, com a espada na mão, para uma guerra de conquista. Seu próprio espírito marcial herdado aprovara vagamente; ele, também, naqueles primeiros dias, sentira a luz do sol sobre sua espada. Mais tarde veio a iluminação, as ondas turbulentas da dúvida, o pesadelo da consciência despertada de uma nação, refletido em sua própria alma. Foi em uma depressão compartilhada, talvez, em um grau menor por milhões daqueles cujas fileiras ele havia se juntado, que ele sentiu esse desejo apaixonado de escapar para um mundo que levasse em conta outras coisas.
CAPÍTULO XVII
Pontualmente às 12 horas da manhã seguinte, Lessingham apresentou-se no hotel em Dover Street e foi convidado pelo porteiro a tomar um assento no lounge. Philippa entrou, alguns minutos depois, seus olhos e bochechas brilhantes com o exercício vigoroso que ela estivera praticando, sua figura esguia elegantemente vestida de tecido cinza e chinchila.
“Perdi Helen na Harrod's”, ela anunciou, “mas sei que ela vai almoçar com amigos, então realmente não importa. Você terá que cuidar de mim, Sr. Lessingham, até o trem partir, se você quiser.”
“Por ainda mais tempo do que isso, se você quiser”, ele murmurou.
Ela riu. “Mais discursos bonitos? Não acho que estou à altura deles antes do almoço.”
“Desta vez sou literal”, ele explicou. “Estou voltando para Dreymarsh eu mesmo.”
Ele sentiu o coração bater mais rápido, uma alegria repentina possuiu-o. A expressão de Philippa era obviamente de satisfação.
“Estou tão feliz”, ela assegurou-lhe. “Sabe, eu estava pensando justamente enquanto voltava no táxi, o quanto sentiria sua falta.”
Ela estava parada com o pé sobre o grande para-fogo, e seu primeiro pequeno impulso de prazer pareceu passar enquanto ela olhava para o fogo. Ela virou-se para ele seriamente.
“Afinal, você acha que é sensato?” ela perguntou. “Claro, não acho que ninguém em Dreymarsh tenha a menor suspeita, mas você sabe que o Capitão Griffiths fez perguntas, e — bem, você está em segurança agora. Você tem sido tão maravilhoso com Dick, tão maravilhoso no geral”, ela continuou, “que eu não suportaria se problemas surgissem.”
Ele sorriu para ela.
“Acho que sei o que está no fundo da sua mente”, ele disse. “Você acha que estou voltando inteiramente por sua causa. Acontece que não é assim.”
Ela olhou para ele com os olhos bem abertos.
“Certamente”, ela exclamou, “você se convenceu de que não há campo para sua engenhosidade em Dreymarsh?”
“Pensei que tivesse”, ele admitiu. “Parece que estou enganado. Recebi ordens para retornar.”
“Ordens para retornar?” ela repetiu. “De quem?”
Ele balançou a cabeça.
“Claro, eu não deveria ter perguntado isso”, ela prosseguiu apressadamente, “mas parece estranho perceber que você pode receber instruções e mensagens da Alemanha, aqui em Londres.”
“Muito do mesmo tipo de coisa acontece na Alemanha”, ele lembrou-a.
“É o que dizem”, ela admitiu, “mas a gente não entra em contato com isso. Então você está realmente voltando para Dreymarsh!”
“Com você, se eu puder?”
“Naturalmente”, ela concordou.
Ele olhou para o relógio. “Quase poderíamos estar saindo para almoçar”, ele sugeriu.
Ela assentiu. “Assim que eu avisar Grover sobre a bagagem.”
Ela esteve ausente apenas por alguns momentos e, então, como era uma manhã seca e ensolarada, caminharam pela St. James Street e ao longo de Pall Mall até o Carlton. Philippa encontrou vários conhecidos, mas Lessingham caminhava com a cabeça erguida, olhando nem para a direita nem para a esquerda.
“Você às vezes não tem medo de ser reconhecido?” ela perguntou-lhe. “Deve haver muitos homens por aí de seu tempo em Magdalen, por exemplo?”
“Nove anos fazem uma grande diferença”, ele lembrou-a, “e além disso, tenho a teoria de que é apenas quando os olhos se encontram que o reconhecimento realmente ocorre. Enquanto eu não olhar para o rosto de ninguém, sinto-me perfeitamente seguro.”
“Tem certeza de que não gostaria de ir a um lugar menor que o Carlton?”
“Não faz diferença”, ele garantiu. “Minhas credenciais foram maravilhosamente estabelecidas para mim.”
“Estou tão feliz”, ela confessou. “Sei que é muito fora de moda, mas eu gosto desses grandes lugares. Se eu pudesse fazer o que quisesse, gostaria de morar em Londres e ter uma casa de campo, em vez de morar no campo e ser apenas uma habitante de hotel em Londres.”
“Será que Nova York não serviria?” ele arriscou.
“Acho que eu gostaria de Nova York”, ela murmurou.
“Eu acho”, ele disse, “na verdade, tenho quase certeza de que, quando sair daqui, irei para os Estados Unidos.”
Ela olhou para ele e virou-se de repente. Chegaram então ao seu destino, e o momento passou. Lessingham deixou sua companheira no lounge enquanto voltava ao restaurante para garantir sua mesa e pedir o almoço. Quando voltou, encontrou Philippa sentada muito ereta e com um brilho significativo nos olhos.
“Olhe lá”, ela sussurrou, “perto da palmeira.”
Ele seguiu a direção que ela indicou. Um homem estava parado encostado em um dos pilares, conversando com uma mulher alta e morena, obviamente estrangeira, envolta em peles maravilhosas. Havia algo familiar em sua figura e no leve caimento de sua cabeça.
“Ora, é Sir Henry!” Lessingham exclamou, quando o homem se virou.
“Meu marido”, Philippa hesitou.
Sir Henry, se era ele mesmo, parecia acometido por uma súbita miopia. Ele encontrou o olhar incrédulo tanto de Lessingham quanto de sua esposa sem reconhecimento ou qualquer sinal de hesitação. Àquela distância, era impossível ver o apertar de seus lábios e o brilho metálico em seus olhos azuis.
“Os badejos parecem tê-lo trazido de muito longe”, disse Philippa, com uma risada pequena e antinatural.
“Devo ir falar com ele?” Lessingham perguntou.
“Pelo amor de Deus, não!” ela insistiu. “Não me deixe. Eu não gostaria que ele chegasse perto de mim por nada neste mundo. Faz apenas algumas semanas que implorei para ele vir a Londres comigo, e ele disse que odiava o lugar. Você não conhece... a mulher?”
Lessingham balançou a cabeça.
“Ela parece estrangeira”, foi tudo o que ele pôde dizer.
“Leve-me para almoçar imediatamente”, Philippa implorou, levantando-se abruptamente. “Esta é realmente a gota d’água.”
Eles subiram a escada e passaram a poucos metros de onde Sir Henry estava. Ele parecia absorto, no entanto, na conversa com sua companheira e nem sequer se virou. O rostinho de Philippa parecia ter endurecido quando ela tomou seu assento. Apenas seus olhos ainda brilhavam de forma antinatural.
“Sinto muito se isso a aborreceu”, Lessingham lamentou. “Você não gostaria de ir a outro lugar?”
“Eu? Ir a qualquer outro lugar?” ela exclamou com desdém. “Obrigada, estou perfeitamente satisfeita aqui. E com meu companheiro”, acrescentou, com um pequeno sorriso brilhante. “Agora me fale sobre Nova York. Você já esteve lá?”
“Duas vezes”, ele disse a ela. “Atualmente o sonho da minha vida é ir para lá com você.”
Ela olhou para ele um pouco maravilhada.
“Eu me pergunto se você realmente se importa”, ela disse. “Os homens pegam tanto o hábito de dizer esse tipo de coisa para as mulheres. Às vezes parece-me que eles devem causar muito estrago. Mas você... É esse realmente o seu desejo?”
“Eu sacrificaria tudo o que já considerei caro na vida”, ele declarou, com o rosto radiante, “pela realização disso.”
“Mas você seria um desertor do seu país”, ela apontou. “Você nunca seria capaz de voltar. Suas propriedades seriam confiscadas. Você ficaria sem teto.”
“Lar”, ele disse suavemente, “é onde o coração de alguém o leva. Lar é exatamente onde o amor está.”
Os olhos dela, ao encontrar os dele, foram por um momento suspeitosamente suaves. Então ela começou a falar muito rapidamente sobre outras coisas, a comparar notas sobre países que ambos visitaram, até mesmo sobre pessoas que conheceram. Eles foram obrigados a sair mais cedo para pegar seu trem. Enquanto passavam pelo restaurante lotado, encontraram-se mais uma vez a poucos metros de Sir Henry. Suas costas estavam viradas para eles, e ele aparentemente ignorava a presença próxima deles. O grupo havia se tornado um *partie carrée*, outro homem e uma mulher ainda mais jovem e bela tendo se juntado a ele.
“Claro”, Philippa disse, enquanto desciam as escadas, “estou me comportando como uma idiota. Eu deveria ir e dizer a Henry exatamente o que penso dele, ou puxá-lo para longe no estilo aprovado de Whitechapel. Nós perdemos tanto, não é, ao sufocar nossos instintos.”
“Pelos próximos minutos”, ele respondeu, olhando para o relógio, “acho que seria melhor concentrarmos nossa atenção em pegar nosso trem.”
Chegaram a King's Cross com apenas alguns minutos de sobra. Grover, no entanto, já havia garantido uma carruagem, e Helen estava esperando por eles, acomodada em um canto. Ela aceitou a notícia do retorno de Lessingham com resignação. Philippa tornou-se pensativa à medida que se aproximavam do fim de sua jornada e o crepúsculo lento e gelado começava a descer sobre a terra.
“Suponho que não saibamos realmente o que é a guerra”, ela observou, olhando pela janela para um vilarejo confortável escondido com um pano de fundo de árvores e guardado por uma velha igreja castigada pelo tempo. “As pessoas estão seguras em suas casas. Você deve apreciar o que isso significa, Sr. Lessingham.”
“Com certeza aprecio”, respondeu ele gravemente. “Já vi a terra ser dilacerada e desmembrada como se pelo arado de algum anjo destruidor. Algumas ruínas enegrecidas onde, uma hora ou mais antes, erguia-se um vilarejo pacífico; homens e mulheres correndo como lunáticos acometidos por um medo mortal. E, o tempo todo, um brilho avermelhado no horizonte, um brilho vermelho-sangue, e pequenas manchas cinzentas ou marrons espalhadas pelos campos; até o gado correndo em terror. E, de vez em quando, o grito de Morte! Vocês são afortunados na Inglaterra.”
Philippa inclinou-se para frente.
“Você acredita que a nossa vez chegará?” ela perguntou. “Você acredita que a onda quebrará sobre o nosso país?”
“Quem pode dizer?”
“Ah, não, mas responda-me”, ela implorou. “É possível para vocês desembarcarem um exército aqui?”
“Penso”, ele respondeu, “que todas as coisas são possíveis para o gênio militar da Alemanha. A única questão é se vale a pena. Supõe-se que os alemães sejam sentimentalistas, sabe. Eu duvido um pouco disso. Não há nada que faria os sinos de alegria de Berlim repicarem tanto quanto a notícia de uma invasão alemã à Grã-Bretanha. Por outro lado, existe um grande partido na Alemanha, e um muito clarividente, que continuamente lembra ao Governo que, sem a Grã-Bretanha como mercado, a Alemanha jamais se recuperaria do esforço financeiro da guerra.”
“Isso é tudo muito impessoal”, objetou Philippa. “Você, em seu coração, acredita que possa chegar o momento em que, na calada da noite, ouviríamos os canhões trovejando em Dreymarsh Bay, e veríamos seus soldados de farda cinzenta se perfilando na praia e escalando nossos penhascos?”
“Isso não será tão cedo”, ele pronunciou. “Já foi pensado. Uma vez quase foi tentado. Exatamente no momento, não.”
Philippa deu um suspiro de alívio.
“Então sua missão em Dreymarsh nada tem a ver com uma tentativa de desembarque?”
“Nada”, assegurou-lhe ele. “Posso até ir um pouco mais longe. Posso lhe dizer que, se algum dia tentarmos desembarcar, será em um lugar insuspeito, de uma maneira inesperada.”
“Bem, é realmente muito reconfortante ouvir essas coisas em primeira mão”, declarou Philippa, com certo retorno à sua maneira habitual. “Suponho que sejamos realmente duas mulheres vergonhosas, Helen e eu — traidoras e tudo o mais. Aqui estamos nós, conversando com um inimigo como se ele fosse um dos nossos melhores amigos.”
“Recuso-me a ser chamado de inimigo”, protestou Lessingham. “Há momentos em que a individualidade é algo muito maior do que a nacionalidade. Sou apenas um ser humano, nascido no mesmo mundo e aquecido pelo mesmo sol que você. Nada pode alterar o fato de que somos companheiros de espécie.”
“Dreymarsh mais uma vez”, anunciou Philippa, olhando pela janela. “E você é uma pessoa terrivelmente convincente, Sr. Lessingham. Venha nos ver depois do jantar — se isso não interferir no seu trabalho.”
“Pelo contrário”, ele murmurou em voz baixa. “Muito obrigado.”
CAPÍTULO XVIII
Sir Henry estava parado com as mãos nos bolsos e uma expressão muito vazia no rosto, olhando para a Admiralty Square. Ele estava sozinho em um apartamento grande e pouco mobiliado, cujas paredes estavam tão cobertas de mapas que quase tinha a aparência de uma sala de aula preparada para uma turma de geografia avançada. A mesa da qual ele se levantara estava coberta por uma quantidade surpreendente de aparelhos científicos, algumas amostras de rocha e areia, dois microscópios e vários telefones.
Sir Henry, tendo aparentemente esgotado as possibilidades da vista, virou-se um tanto relutante para encontrar-se diante de um senhor idoso de aparência alegre, que naquele momento havia entrado na sala. Pelo fato de tê-lo feito sem bater, era óbvio que ele era um íntimo.
“Bem, meu amigo sombrio”, perguntou o recém-chegado, “o que há de errado com você?”
Sir Henry ficou aparentemente aliviado ao ver seu visitante. Ele empurrou uma cadeira em sua direção e indicou com um gesto de convite uma caixa de charutos sobre sua escrivaninha.
“Seus pequenos Laranagas”, observou ele. “Experimente um.”
O visitante abriu a caixa, cheirou o conteúdo e serviu-se.
“Agora, então, vamos ao que interessa, Henry”, ele ordenou. “Tenho uma reunião de diretoria em meia hora e três despachos para ler antes de entrar. Qual é o seu problema?”
“Olhe aqui, Rayton”, foi a resposta firme, “quero largar esse negócio infernal de esconderijo. Digo-lhe que já o exauri em Dreymarsh e está ficando muito desconfortável.”
O recém-chegado sorriu.
“Pobre rapaz!” ele observou, observando a fumaça de seu charuto subir. “Você está em uma situação complicada, sabe, Henry. Eu lhe disse que recebi uma carta de sua esposa outro dia, perguntando se eu não poderia encontrar um emprego para você?”
Sir Henry esperou um pouco sombriamente, enquanto seu amigo se divertia com a piada.
“Isso está muito bem”, disse ele, “mas estamos à beira de uma separação, ou algo do tipo. Admito que no início tudo bem manter a coisa em sigilo, mas isso já está praticamente acabado agora. Ora, de acordo com seus próprios relatórios, eles sabem tudo sobre mim do outro lado.”
“Sem dúvida”, concordou o outro. “Não tenho certeza se você não tem um sujeito espião em Dreymarsh agora.”
“Tenho certeza absoluta disso”, respondeu Sir Henry gravemente. “O bruto estava almoçando com minha esposa no Carlton hoje e, por sorte, eu estava preso com a esposa e a cunhada daquele almirante russo. Você está destruindo o lar feliz, é isso que você está fazendo, Rayton!”
Sua senhoria, de qualquer modo, pareceu achar o processo divertido. Ele riu até que as lágrimas vieram aos seus olhos.
“Eu adoraria ter visto o rosto de Philippa”, ele riu, “quando ela entrou no restaurante e viu você lá! Você deveria estar em uma expedição de pesca, não é?”
“Eu saí para pescar badejo”, Sir Henry gemeu, “e tinha acabado de prometer largar isso por um tempo quando recebi a mensagem do Almirante.”
“Bem, cuidaremos do seu espião alemão, de qualquer maneira”, prometeu seu visitante.
“Não seja um idiota!” Sir Henry exclamou irritado. “Não quero que mexam com o sujeito no momento. Ora, ele tem sido uma espécie de persona grata em minha casa. Fica rondando por lá o tempo todo quando estou fora.”
“Mais um motivo para acabar com a brincadeirinha dele, eu diria”, foi a resposta alegre.
“E fazer com que toda a vizinhança ou ria da minha esposa e da Srta. Fairclough, ou fale mal delas!” retrucou Sir Henry.
“Esqueci disso”, confessou seu amigo pensativamente. “Ele é um sujeito educado, pelo que ouvi dizer, mas um espião medíocre. O que você quer que façam com ele?”
“Deixe que eu mesmo cuide dele”, insistiu Sir Henry. “Tenho um pequeno plano em mãos no qual ele está envolvido.”
Rayton coçou o queixo com dúvida.
“O sujeito pode não ser tão tolo quanto parece”, lembrou ele ao amigo.
“Não correrei riscos”, prometeu Sir Henry. “Só quero que ele seja deixado lá, é tudo. E olhe aqui, Rayton, você sabe o que eu quero de você. Concordei plenamente com suas propostas quanto ao meu anonimato na época em que eu estava na Escócia, mas a coisa não é mais segredo para as pessoas que contam. Todo mundo na Alemanha sabe que sou um especialista em campos minados, então não vejo por que cargas d'água deveria continuar posando como uma espécie de idiota meio acabado.”
Os olhos de Rayton cintilaram.
“Você quer interpretar o herói de Wilson Barrett e fazer uma revelação teatral de sua grandeza”, ele riu. “A pobre Philippa cairá de joelhos. Você será o herói do vilarejo, que provavelmente lhe presenteará com algum pequeno artigo de prata. Você terá bons tempos pela frente, Henry.”
“Fale sério, seja um bom rapaz”, pediu o outro. “Vá ver o Chefe e apresente o caso a ele. Não há uma única razão pela qual eu não deva assumir agora.”
“Verei o que posso fazer”, prometeu Rayton, “mas o que dizer desse sujeito Lessingham, ou seja lá como ele se chame, aí embaixo? Há um sujeito chamado Griffiths — Comandante, não é? — escrevendo para nós sobre ele.”
“Não permitirei que mexam com Lessingham”, insistiu Sir Henry. “Ele não pode causar nenhum dano em particular por lá, e não há uma linha ou desenho meu em Dreymarsh que ele não seja bem-vindo a ver.”
Lord Rayton levantou-se.
“Olhe aqui, Henry, meu velho”, disse ele, “eu simpatizo com você até certo ponto. Sabe o que vou fazer? Terei que responder à carta de Philippa, e responderei de tal maneira que, se ela for a mulherzinha esperta que penso que é, ela receberá uma dica. É claro”, continuou ele pensativamente, “é uma infelicidade que a Princesa Ollaneff e sua irmã sejam mulheres tão bonitas. Faz parecer um pouco suspeito, não é? O que quero dizer é que é uma longa distância entre pescar badejo no Mar do Norte e almoçar com uma bela princesa no Carlton — quando você acha que sua esposa está em Norfolk.”
Sir Henry escancarou a porta.
“Olhe aqui, já me cansei de você, Rayton”, declarou ele. “Volte e trabalhe uma hora, se é que pode levar sua mente a isso.”
Este último assumiu uma dignidade repentina, necessária pelo som de vozes no corredor, e partiu. A porta mal havia sido fechada quando dois homens mais jovens se apresentaram — Miles Ensol, secretário de Sir Henry, um jovem marinheiro de aparência típica, sem o braço esquerdo; e um homem de rosto pálido, barbeado, de idade incerta, em trajes civis. Sir Henry apertou a mão deste último e apontou para a poltrona que seu visitante anterior acabara de desocupar.
“Bem-vindo de volta, Horridge”, disse ele cordialmente. “Miles, tocarei a campainha quando precisar de você.”
“Muito bem, senhor”, respondeu o secretário. “Há um pescador de Norfolk lá embaixo, quando o senhor estiver livre.”
Sir Henry assentiu.
“Eu o verei em breve. Feche-o em algum lugar onde ele possa fumar.”
O jovem retirou-se, fechando cuidadosamente a porta, ao redor da qual Sir Henry, com uma palavra de desculpa, arranjou um biombo.
“Não creio”, explicou ele, “que as escutas se estendam a estas instalações, ou que nossas vozes possam chegar ao lado de fora. Ainda assim, um pouco de prevenção, eh? Aceite um charuto, Horridge.”
“Não estou fumando há um ou dois dias, obrigado, senhor.”
“Você parece que eles o fizeram passar por poucas e boas”, observou Sir Henry.
Seu visitante sorriu.
“Viajei quatorze milhas dentro de um barril”, disse ele, “e ficamos vinte e quatro horas em um esquife dinamarquês. Você sabe como tem estado o tempo no Mar do Norte. Antes disso, a última palavra que vi escrita em solo alemão foi um cartaz, oferecendo uma recompensa de cinco mil marcos pela minha detenção, com uma fotografia nojentemente realista no topo. Tive que caminhar cerca de cinquenta jardas pelo cais em plena luz do dia, e a cada dois homens que passava, um se virava para me encarar. Isso lhe dá calafrios na espinha quando você não ousa olhar para trás para ver se está sendo seguido.”
Sir Henry tateou o armário de sua escrivaninha e tirou uma garrafa de uísque e um sifão de água com gás. Seu visitante assentiu com aprovação.
“Não toquei em nada até chegar ao que considero um santuário”, observou ele. “Meus nervos ficaram arruinados pela primeira vez na minha vida. Você se importa, senhor, se eu trancar a porta?”
“Vá em frente”, assentiu Sir Henry.
Ele mesmo levou o uísque com gás pela sala. Horridge retomou seu lugar e estendeu a mão quase ansiosamente. Por um momento ou dois, ele tremeu como se tivesse febre. Então, tão repentinamente quanto o acometera, o ataque passou. Ele esvaziou o conteúdo do copo de um gole, colocou-o vazio ao seu lado e estendeu a mão para um charuto.
“O fim da minha jornada não ajudou em nada”, continuou ele. “Não ousei nem tentar um porto holandês, e acabamos sendo recolhidos por um cargueiro de Newcastle para Londres, carregado de carvão. Eu não estava a bordo há mais de uma hora quando um submarino que nos seguia nos alcançou. Pensei que tudo estava acabado então, mas a neblina se dissipou e nos vimos quase no meio de um esquadrão de contratorpedeiros de Harwich. Fiz outra transferência, e eles me desembarcaram a tempo de pegar o trem da manhã de Felixstowe.”
“Eles pegaram o submarino?” perguntou seu ouvinte ansiosamente.
“Pegar!” repetiu o outro, com um sorriso. “Eles o explodiram em sucata.”
“Muita agitação na sua vida!”
“Eu percorri o caminho por lá uma vez vezes demais”, disse Horridge gravemente. “Apenas olhe para mim agora, Sir Henry. Tenho vinte e nove anos, e fazem apenas dois anos e meio desde que fui dispensado da marinha e assumi este trabalho. A última pessoa a quem pedi que adivinhasse minha idade me deu cinquenta anos. O que você teria dito?”
“Algo perto disso”, foi a admissão franca. “Não importa, Horridge, você fez a sua parte. Você passará sua experiência para um novo recruta, pegará sua pensão e experimentará a costa sul da Inglaterra por alguns meses. Agora vamos continuar. Você sabe sobre o que quero ouvir.”
Horridge tirou do bolso uma longa tira de papel.
“Eles estão lá, senhor”, anunciou ele, “abastecidos de carvão até as amuradas, cada homem em seus postos e com pressão total. Aqui está a lista.”
Ele entregou o papel a Sir Henry, que o percorreu com os olhos.
“O esquadrão de cruzadores rápidos”, observou ele. “Hm! Três novos navios dos quais não temos qualquer registro. Sem navios de transporte, então, Horridge?”
“Nem sinal de um, senhor”, foi a resposta. “Eles estão atrás de um bombardeio.”
Ele levantou-se, caminhou até um mapa gigante da Inglaterra e tocou em um certo porto na costa leste. Os olhos de Sir Henry brilharam.
“Você tem certeza?”
“É uma certeza”, respondeu Horridge. “Estive em três desses navios. Jantei com quatro dos oficiais. Eles estão sob ordens seladas, e a tripulação acredita que eles vão escoltar meia dúzia de destruidores de comércio. Mas eu tenho a verdade. Esse é o objetivo deles”, repetiu Horridge, tocando mais uma vez o ponto no mapa, “e eles estão esperando apenas por uma coisa.”
Sir Henry sorriu pensativo.
“Sei pelo que estão esperando”, disse ele. “Talvez se tivessem um Herr Horridge para enviar para cá por isso, já teriam conseguido. Do jeito que está — bem, não tenho certeza”, continuou ele. “Parece uma pena decepcioná-los, não é? Eu adoraria dar-lhes trabalho pelo dinheiro deles.”
Horridge sorriu fracamente. Ele sabia muito sobre seu companheiro.
“Eles estão ansiosos por isso, senhor”, admitiu ele. Sir Henry falou ao telefone e, alguns minutos depois, Ensol reapareceu.
“Encontre para o Sr. Horridge um quarto confortável”, ordenou seu chefe, “e um de nossos datilógrafos confidenciais. Você pode fazer seu relatório à vontade”, continuou ele. “Venha me ver quando tudo estiver terminado.”
“Certamente, senhor”, respondeu Horridge, levantando-se.
Sir Henry estendeu a mão. Ele olhou com algo como admiração para o homem de nervos abalados que se levantara com certo ar de agilidade.
“Horridge”, disse ele, “eu gostaria de ter sua coragem.”
“Não conheço ninguém no serviço de quem o senhor precise pegar emprestada alguma, senhor”, foi a resposta silenciosa.
CAPÍTULO XIX
Lessingham estava sentado em uma árvore caída em Dutchman's Common, perto do local de seu romântico desembarque, e olhava com certo pesar sobre a charneca, em direção ao mar. Acima dele, o céu estava coberto por pequenas massas de nuvens que passavam rapidamente. Um sol fugaz e aquoso brilhava debilmente sobre um mar agitado pelo vento e uma paisagem encharcada de chuva. Ele encontrou uma certa satisfação sombria em comparar a desordem do dia com o tumulto em sua própria vida. Sentia que havia embarcado em um empreendimento maior do que sua capacidade, para o qual era, de muitas maneiras, inteiramente inadequado. E atrás dele estava o açoite do telegrama que recebera poucas horas atrás, um telegrama inofensivo o suficiente para todas as aparências, mas que, decodificado, era como um chicote em suas costas.
Seu trabalho é insatisfatório e sua desleixada merece reprovação. Grandes eventos aguardam por você. O objetivo de sua busca é necessário para nossas operações iminentes.
O som dos cascos de um cavalo o perturbou. O capitão Griffiths, em uma grande égua baia, olhou com curiosidade para a figura solitária à beira da estrada e então parou.
“De volta, Sr. Lessingham?” observou ele.
“Como vê.”
O Comandante remexeu com seu cavalo por um momento. Então ele se aproximou um pouco mais do lado de Lessingham.
“Você é um bom caminhante, percebo, Sr. Lessingham”, comentou ele.
“Quando me dá na veneta”, foi a resposta serena.
“Veio ver nossos novos canhões?”
“Eu não fazia ideia”, respondeu Lessingham com indiferença, “de que vocês tinham algum.”
Griffiths sorriu.
“Temos uma pequena bateria de canhões antiaéreos, recém-chegados do sul da Inglaterra”, disse ele. “O segredo de sua vinda e sua localização manteve a vizinhança em estado de fermentação durante a última semana.”
Lessingham permaneceu profundamente desinteressado.
“A maioria deles localizou os canhões”, continuou seu companheiro, “mas nem muitos deles encontraram os holofotes ainda.”
“Parece um pouco tarde no ano”, observou Lessingham, “para estar fazendo preparativos contra Zepelins.”
“Bem, eles cruzam aqui com bastante frequência, sabe”, lembrou-lhe Griffiths. “Faz apenas algumas semanas que um quase se deu mal nesta charneca. Encontramos o carro de observação deles a cinquenta jardas de onde você está sentado.”
“Lembro-me de ter ouvido falar disso”, reconheceu Lessingham.
“A propósito”, continuou o Comandante, alisando o pescoço de seu cavalo, “você não chegou naquela noite ou na noite seguinte?”
“Creio que sim.”
“Liverpool Street ou King's Cross? O trem de King's Cross foi quase detido.”
“Não vim de trem de maneira alguma”, respondeu Lessingham, olhando por um momento para as nuvens. “E agora que penso nisso, deve ter sido na noite seguinte.”
“Belo condado para andar de carro”, continuou Griffiths, acariciando a cabeça de seu cavalo.
“As estradas em que estive parecem muito boas”, foi a admissão um tanto entediada.
“Você não tem um carro próprio aqui, tem?”
“Não no momento.”
O capitão Griffiths olhou entre as orelhas de seu cavalo por alguns instantes. Então ele se virou mais uma vez para seu companheiro.
“Sr. Lessingham”, disse ele, “o senhor está ciente de que sou o Comandante aqui?”
“Creio”, respondeu Lessingham, “que Lady Cranston me disse isso.”
“É meu dever, portanto”, continuou Griffiths, “ter um pouco mais do que o interesse comum em visitantes casuais, especialmente nesta época do ano. O fato de o senhor ser bem conhecido de Lady Cranston é, é claro, uma explicação inteiramente satisfatória para sua presença aqui. Ao mesmo tempo, há certas informações sobre estranhos das quais mantemos um registro, e no seu caso há uma ou duas linhas que não conseguimos preencher.”
“Se eu puder ser de alguma utilidade”, murmurou Lessingham.
“Precisamente”, interrompeu o outro. “Eu sabia que você sentiria dessa forma. Agora, sua chegada aqui — temos a data, creio — 6 de outubro. Como o senhor acabou de observar, não veio de trem. Como veio?”
A surpresa de Lessingham foi aparentemente bastante genuína.
“Essa é uma pergunta que o senhor me faz para responder — oficialmente?” perguntou ele.
Seu interlocutor encolheu os ombros.
“Não estou fazendo perguntas oficiais ao senhor de forma alguma”, respondeu ele, “nem estou interrogando-o, como seria meu dever, dadas as circunstâncias, simplesmente porque sua amizade com os Cranstons é, é claro, uma garantia quanto à sua posição. Mas, por outro lado, acho que seria razoável se o senhor respondesse à minha pergunta.”
Lessingham assentiu.
“Talvez você tenha razão”, admitiu ele. “Como pode ver ao me encontrar aqui esta tarde, sou um grande caminhante. Cheguei — a pé.”
“Entendo”, refletiu Griffiths. “A outra pergunta que geralmente fazemos é: onde foi seu último local de parada?”
“Local de parada?” murmurou Lessingham.
“Sim, onde você dormiu na noite antes de vir para cá?” insistiu Griffiths.
Lessingham balançou a cabeça como se oprimido por alguma memória desagradável.
“Mas eu não dormi de forma alguma”, queixou-se ele. “Foi uma das piores noites que já passei em minha vida.”
O capitão Griffiths pegou as rédeas.
“Bem”, disse ele com sarcasmo desajeitado, “agradeço muito ao senhor, Sr. Lessingham, pela maneira direta com que respondeu às minhas perguntas. Não o incomodarei mais por enquanto. Verei o senhor amanhã à noite em Mainsail Haul?”
“Lady Cranston me convidou para jantar”, foi a resposta um tanto reservada.
O seu inquisidor acenou com a cabeça e partiu a galope. Lessingham observou-o até que ele desaparecesse, depois voltou o rosto para Dreymarsh e caminhou firmemente pela tarde que escurecia. O crepúsculo caía quando chegou a Mainsail Haul, onde encontrou Philippa a entreter alguns visitantes, aos quais o apresentou prontamente. Lessingham percebeu, quase nos primeiros minutos, que a sua presença em Dreymarsh estava a tornar-se um assunto de comentários.
“O meu marido jogou bridge consigo no clube, penso eu”, observou uma senhora ao lado da qual ele se viu. “Talvez não tenha ouvido o meu nome — Sra. Johnson?”
“Parabenizo-a pelo seu marido”, respondeu Lessingham. “Lembro-me dele perfeitamente bem porque ele manteve a calma quando eu renunciei.”
“Valha-me Deus!” exclamou ela. “Ele deve ter simpatizado consigo, então. Por norma, queixam-se bastante dele no bridge.”
“Fiquei com a impressão”, continuou Lessingham, “de que ele era um jogador bastante melhor do que a maioria dos praticantes de lá.”
A Sra. Johnson, que era uma senhora de aspeto sombrio e algo intimidador, sorriu.
“Ele acha que sim, pelo menos”, concedeu ela. “Não me disse ele que o senhor foi enviado para casa vindo da frente de batalha por motivos de saúde?”
Lessingham abanou a cabeça.
“Tenho a certeza absoluta de que isso não foi mencionado”, disse ele. “Caminhámos juntos até ao hotel certa noite, mas falámos apenas de golfe e de algumas caçadas nas redondezas.”
Philippa, que manobrava para atrair a atenção de Lessingham, deixou cair subitamente o cesto de bolos que estava a servir. Houve uma pequena comoção. Lessingham ajoelhou-se para ajudar a recolher os fragmentos, e ela encontrou uma oportunidade para sussurrar ao seu ouvido.
“Tenha cuidado. Aquela mulher é uma víbora. Fique e fale comigo. Por favor, não se incomode, Sr. Lessingham. Não quer antes tocar a campainha?”, continuou ela, elevando a voz.
Lessingham fez o que lhe foi pedido e fingiu não notar o sorriso convidativo da Sra. Johnson enquanto regressava. Philippa abriu espaço para ele ao seu lado.
“A Helen e eu estávamos a falar esta tarde, Sr. Lessingham”, disse ela, “dos dias em que o senhor e o Dick estavam ambos na equipa de Magdalen e ambos tinham acabado de ter a oportunidade de serem escolhidos para a Varsity. O senhor nunca jogou, pois não?”
Ele abanou a cabeça.
“Não tive essa sorte. De qualquer modo, o Richard teria entrado muito antes de mim. Sempre sustentei que ele foi o primeiro dos nossos lançadores de googlie.”
“Então esteve em Magdalen com o Major Felstead?” comentou outro visitante com uma leve surpresa.
“O Sr. Lessingham e o meu irmão eram grandes amigos”, explicou Philippa. “O Sr. Lessingham costumava vir caçar em Cheshire.”
Os convidados de Lady Cranston estavam todos conscientes de uma pequena desilusão indefinível. A bisbilhotice sobre o aparecimento deste estranho em Dreymarsh estava praticamente estrangulada. A Sra. Johnson, contudo, disparou um último tiro ao levantar-se para ir embora.
“O senhor não estava no mesmo regimento que o Major Felstead, pois não, Sr. Lessingham?”, perguntou ela. “Não”, respondeu ele calmamente.
Philippa estava ocupada com os seus adeus. A Sra. Johnson permaneceu indomável.
“Qual era o seu regimento, Sr. Lessingham?”, persistiu ela. “Deve perdoar a minha aparente curiosidade, mas interesso-me muito por assuntos militares.”
Lessingham fez uma vénia cortês.
“Não me lembro de ter feito qualquer alusão ao meu serviço militar”, disse ele friamente, “mas, na verdade, pertenço aos Guards.”
A Sra. Johnson aceitou a mão de Philippa e o inevitável. A sua despedida de Lessingham foi extremamente afável. Ela caminhou pela estrada com o vigário.
“Penso, Vigário”, disse ela severamente, “que, para um lugar pequeno, Dreymarsh está a tornar-se um dos piores centros de bisbilhotice que alguma vez conheci. Toda a gente tem dito todo o tipo de coisas desagradáveis sobre aquele encantador Sr. Lessingham, e veja só — amigo do Major Felstead e um Guardsman! De uma forma ou de outra, senti que ele pertencia a um dos regimentos de elite. Vou certamente convidá-lo para jantar numa noite da próxima semana.”
O vigário acenou benignamente. Ele tinha o maior respeito pela cozinheira da Sra. Johnson, e pelo seu próprio padrão de desejabilidade social, ao qual o objeto da discussão tinha chegado.
“Ficaria feliz por conhecer o Sr. Lessingham a qualquer altura”, pronunciou ele, com ampla condescendência. “Notei a sua presença na igreja no último domingo de manhã.”
CAPÍTULO XX
“Meu caro homem, o que hei de fazer consigo!”, exclamou Philippa pateticamente, quando a porta se fechou sobre o último dos seus visitantes. “Os Guards, de facto!”
Lessingham sorriu enquanto retomava o seu lugar ao lado dela.
“Bem”, disse ele, “disse à querida senhora a verdade. Encontrará o meu nome bem posicionado na lista do trigésimo primeiro batalhão dos Guardas Prussianos.”
Ela atirou-se para trás na sua cadeira e riu. “Quão divertido seria se não fosse tudo tão terrível! O senhor é realmente um Raffles político perfeito. Sabe que esta tarde se restabeleceu absolutamente? O Sr. Johnson provavelmente visitar-lo-á amanhã — talvez até o convidem para jantar — o vigário escreverá a pedir um donativo, e Dolly Fenwick convidá-lo-á para jogar golfe com ela.”
“Não me faça perder a cabeça”, implorou ele.
“Ainda assim”, continuou Philippa, mais gravemente, “nunca terei um momento de paz enquanto estiver neste lugar. Estive a pensar no senhor ontem à noite. Não acredito que tenha alguma vez percebido antes o quão terrível seria se o senhor fosse realmente descoberto. O que lhe fariam?”
“O que quer que fizessem”, respondeu ele, um pouco cansado, “tenho de obedecer às ordens. As minhas ordens são para permanecer aqui, mas mesmo que me dissessem que poderia ir, seria difícil.”
“Quer dizer isso mesmo?”, perguntou ela.
“Acho que sabe”, respondeu ele.
“Vocês homens são tão estranhos”, continuou ela, após uma breve pausa. “Dão-nos tão pouco tempo para vos conhecer, mostram-nos tão pouco de vós mesmos e esperam tanto.”
“Nós oferecemos tudo”, lembrou-lhe ele.
“Quero evitar lugares-comuns”, disse ela pensativa, “mas será o amor exatamente a mesma coisa para um homem que para uma mulher?”
“Por vezes é mais”, foi a pronta resposta. “Por vezes o amor, para uma mulher, significa apenas abrigo; muitas vezes, para um homem, o amor significa a fusão de todo o conhecimento, de toda a beleza, de toda a ambição, de tudo o que ele aprendeu nos livros e na vida. Por vezes um homem não consegue ver mais além e não precisa de procurar mais além.”
Philippa sentiu subitamente que estava em perigo. Havia algo no seu coração de que nunca antes tinha estado consciente, alguma música, alguma estranha viragem de sentimento na voz de Lessingham ou nas próprias palavras. Era loucura, disse a si mesma, ofegante. Ela estava apaixonada pelo seu marido, se é que estava apaixonada por alguém. Não podia ter perdido todo o sentimento por ele tão depressa. Ela apertou as mãos com força. Lessingham parecia consciente da sua vantagem e inclinou-se para ela.
“Se eu não estivesse a oferecer-lhe toda a minha vida”, implorou ele, “acredite em mim, não abriria os meus lábios. Se estivesse a pensar em episódios, atirar-me-ia ao mar antes de lhe pedir que me desse sequer os seus dedos. Mas a senhora, e só a senhora, poderia preencher o lugar na minha vida que sempre rezei para que fosse preenchido, não por um ano ou sequer uma década de anos, mas pela eternidade.”
“Oh, mas esquece-se!”, disse ela vacilante.
“Lembro-me de tanto”, respondeu ele, “que sei que é difícil para si falar. Existem laços que a senhora tornou sagrados, e os seus dedos hesitam em rasgá-los. Se não fosse por isto, Philippa — ouça o discurso de um renegado — o meu mandato seria feito em pedaços. As minhas instruções esvoaçariam para o cesto dos papéis, amanhã ver-nos-ia a caminho de um novo país e de uma nova vida. Mas a senhora deve ter a certeza absoluta.”
“É por minha causa que o senhor está a ficar aqui?”, perguntou ela.
“Pela minha honra, não”, assegurou-lhe ele. “Tenho de ficar aqui um pouco mais, o que quer que isso signifique para mim. E por isso contento-me em permanecer o que sou para si neste minuto. Peço-lhe apenas que permaneça exatamente como é. Mas quando chegar o momento da minha liberdade, quando a minha tarefa aqui estiver terminada e eu me virar para partir, então terei de ir ter consigo.”
Ela levantou-se subitamente, atravessou a sala e abriu a janela. A brisa varreu a divisão, fazendo as cortinas flutuarem, espalhando objetos soltos numa estranha confusão. Ela permaneceu ali durante vários momentos, como se estivesse à procura de algum alívio da atmosfera emocional a que tinha virado as costas. Quando finalmente fechou a janela, o seu cabelo estava em pequenas madeixas à volta do rosto. Os seus olhos estavam suaves e os seus lábios a tremer.
“O senhor faz-me sentir”, disse ela, segurando-lhe a mão por um momento e olhando para ele quase piedosamente, “o senhor faz-me sentir tudo, exceto uma coisa.”
“Exceto uma coisa?”, repetiu ele.
“Não consegue entender?”, continuou ela, estendendo a mão com um movimento rápido e impulsivo. “Estou aqui na casa do Henry, sou a sua esposa, a senhora do seu lar. Todos os anos em que estivemos casados nunca pensei noutro homem. Nunca me entreguei sequer ao mais leviano flirt. E agora, subitamente, a minha vida parece virada do avesso. Sinto como se, se o Henry estivesse diante de mim agora, eu lhe desse uma bofetada. Sinto-me dorida por todo o lado, e envergonhada, mas não sei se deixei de o amar. Não consigo dizer. Nada parece ajudar-me. Fecho os olhos e tento pensar nesse novo mundo e nessa nova vida, e sei que não há nada de repulsivo nisso. Sinto toda a alegria e a força de estar consigo. E depois há o Henry em segundo plano. Ele parece ter tido tanto do meu amor.”
Ele viu as lágrimas acumularem-se nos olhos dela e sorriu-lhe encorajadoramente.
“Lembre-se de que, neste momento, não lhe estou a pedir nada”, disse ele. “Apenas pense nestas coisas. Não é realmente um assunto para tristeza”, continuou ele. “O amor deve significar sempre felicidade — para aquele que é amado.”
Ela recostou-se no canto do sofá para onde ele a tinha conduzido, os olhos agora secos, mas ainda muito suaves e doces. Ele sentou-se ao seu lado, brincando com algumas das coisas no seu cesto de costura. Uma vez, ela estendeu a mão e pareceu encontrar conforto no seu aperto. Ele levou os dedos dela aos lábios sem qualquer protesto da parte dela. Ela olhou para ele com um pequeno sorriso.
“Sabe, eu não sou nada uma heroína de Ibsen”, declarou ela. “Não consigo ver o meu caminho como aquelas maravilhosas mulheres emancipadas.”
“Ainda assim”, disse ele pensativo, “o caminho para as coisas simples é tão claro.”
As confidências terminaram por algum tempo, interrompidas pela entrada de Nora e Helen, e de alguns jovens do Depósito, que tinham aparecido para uma partida de bilhar. Lessingham levantou-se para sair assim que estes últimos regressaram ao seu jogo. O seu tom e a sua maneira de estar tinham agora mudado completamente. Ele parecia desconfortável e infeliz.
“Vou passar o dia a pescar amanhã”, disse ele a Philippa, “mas tenho de admitir que tenho muito pouca fé neste homem, Oates. Todos me dizem que o seu marido tem imensas cartas da costa. Acha que eu poderia pedir uma emprestada?”
“Ora, claro”, respondeu ela, “se a conseguirmos encontrar.”
Ela levou-o até à secretária do marido, abriu as gavetas que não estavam trancadas e remexeu impiedosamente entre o seu conteúdo. Quando terminaram a última gaveta, Lessingham tinha uma pequena coleção de cartas, mais ou menos terminadas, na mão.
“Não sei onde mais procurar”, disse ela. “Pode ver essas e ver se têm alguma utilidade. O que é, Mills?”, acrescentou ela, virando-se para a porta.
Mills tinha entrado silenciosamente e estava a observar os procedimentos na secretária de Sir Henry com uma clara falta de agrado. Olhou para a sua patroa, contudo, enquanto respondia.
“A jovem veio tratar de uma situação de criada de quarto, Vossa Excelência”, anunciou ele. “Mostrei-lhe a sala de costura.” Lady Cranston olhou para o relógio.
“Não demorarei mais de cinco ou dez minutos”, prometeu ela a Lessingham. “Veja essas até que eu volte.”
Ela apressou-se a sair, deixando Lessingham sozinho na sala. Ele ficou por um momento a ouvir. Do lado esquerdo, através da porta que tinha sido deixada entreaberta, podia ouvir o som das bolas de bilhar e risadas ocasionais. Do lado direito reinava o silêncio. Ele moveu-se rapidamente pela sala e fechou a porta que conduzia à sala de bilhar, depositou no sofá as cartas que trazia e apressou-se a voltar à secretária. Com um sentimento nauseante de culpa avassaladora, tirou do bolso uma chave e abriu, uma a uma, as gavetas que não tinham verificado. Levou-lhe pouco mais de cinco minutos a descobrir — nada. Com um ar de alívio, arrumou tudo de novo. Quando Philippa regressou, ele estava sentado no sofá, a analisar as cartas que tinham escolhido juntos.
“Bem?”, perguntou ela.
“Não há nada aqui”, concluiu ele, “que me ajude muito. Com a sua permissão, levarei esta”, acrescentou, escolhendo uma ao acaso.
Ela acenou com a cabeça e eles voltaram a colocar as outras no lugar. Depois, tocou-lhe no braço.
“Ouça”, disse ela, “tem a certeza absoluta de que não vem ninguém?”
Ele ouviu por um momento.
“Não consigo ouvir ninguém”, respondeu ele. “Começaram um jogo de pool de quatro jogadores na sala de bilhar.”
Ela sorriu.
“Então revelar-lhe-ei o segredo dramático do Henry. Veja!”
Ela tocou na mola na lateral da secretária. O fundo falso, com a sua pequena coleção de moscas de pesca, enrolou-se lentamente para cima. A grande e maravilhosa carta, na qual Sir Henry tinha dedicado tanto do seu tempo, foi revelada. Lessingham fixou-a avidamente.
“Aí está!”, disse ela. “Este tem sido um grande trabalho de amor do Henry. É a carta, em grande escala, a partir da qual ele trabalha. Não percebo nada disto e, pelo amor de Deus, nunca diga ao Henry que a viu.”
Ele continuou a examinar a carta com seriedade. Nenhuma parte dela lhe escapou. Depois voltou-se para Philippa.
“É essa a suposta costa do outro lado do pontal?”, perguntou ele.
“Não sei exatamente onde é”, respondeu ela. “Sempre que o Henry descobre algo novo, ele vem e trabalha nisto. Acredito que muito em breve estará perfeita. Depois, ele começará noutra parte da costa.”
“Esta não é a única que ele preparou, então?”, indagou Lessingham.
Ela abanou a cabeça.
“Creio que é a quinta”, respondeu ela. “Elas todas desaparecem quando estão terminadas, mas não faço ideia para onde. Para mim, parecem representar um desperdício chocante de tempo.”
Lessingham tornou-se subitamente taciturno. Ele estendeu a mão. “Janta connosco amanhã à noite, lembre-se”, disse ela.
“Não é provável que me esqueça”, assegurou-lhe ele.
“E não se afogue”, concluiu ela. “Não conheço nenhum destes pescadores — detesto-os a todos — mas dizem-me que o Oates é o pior.”
“Acho que estaremos bem”, assegurou-lhe ele. “Muito obrigado por me arranjar as cartas. O que vi ajudar-me-á.”
Helen entrou por um momento e a despedida deles foi mais ou menos superficial. Lessingham sentiu-se quase grato por escapar. Havia um rubor invulgar nas suas faces, um sentimento de amarga humilhação no seu coração. Todo o fervor com que tinha começado a sua perigosa demanda tinha desaparecido. Nenhum sentido de dever ou patriotismo podia reanimar o seu espírito abatido. Sentiu-se subitamente um ser impuro e desonrado.
CAPÍTULO XXI
Perto das três horas da tarde seguinte, o vento tempestuoso de uma manhã incerta acalmou para pior. Arrancou o spray da crista das ondas que se formavam, lançou-o até contra as janelas francesas de Mainsail Haul, e veio a rugir pelos espaços abertos em direção às falésias, como o estrondo de alguma artilharia subterrânea. Um pequeno grupo de pescadores em oleados debruçou-se sobre a grade e discutiu as probabilidades de Ben Oates trazer o seu barco em segurança. Philippa, também, distraída por uma estranha ansiedade, estava perante a janela embaciada, a olhar para o que parecia quase um caos cinzento. “Capitão Griffiths, Vossa Excelência.”
Ela virou-se rapidamente ao anúncio. Mesmo um visitante indesejado naquele momento era quase um alívio para ela.
“Que bom da sua parte vir ver-me numa tarde destas, Capitão Griffiths”, exclamou ela, enquanto apertavam as mãos. “A Helen está na Cantina, a Nora está a trabalhar arduamente, pela primeira vez na sua vida, e eu pareço lamentavelmente sozinha.”
A receção do seu visitante ao cumprimento de Philippa prometia pouco em termos de animação. Ele parecia mais desajeitado e desconfortável do que nunca, e o seu tom era quase ameaçador.
“Fico muito contente por encontrá-la sozinha, Lady Cranston”, disse ele. “Vim especialmente para trocar algumas palavras consigo sobre um certo assunto.”
O seu impulso momentâneo de alívio com a visita dele passou. Parecia-lhe haver algo de sinistro na sua maneira de ser. Sentiu subitamente que havia um novo perigo a enfrentar, e que a atitude daquele homem em relação a ela era, por uma razão ou outra, inimiga. Após o choque inicial, contudo, preparou-se para lutar.
“Bem, parece muito misterioso”, observou ela. “Não quebrei nenhuma lei, pois não? Nenhuma luz a piscar de nenhuma das minhas janelas?”
“Tanto quanto sei, não existem queixas desse tipo”, reconheceu o Comandante, ainda a falar com uma restrição pouco natural. “A minha visita, espero, possa ser denominada, em certa medida, pelo menos, uma visita amigável.”
“Que bom!”, suspirou ela. “Então vai tomar um pouco de chá, não vai?”
“Não de momento, se me permite”, implorou ele. “Vim falar-lhe sobre o Sr. Hamar Lessingham.”
“A sério?”, exclamou Philippa. “O que terá esse pobre homem feito agora?”
“Dreymarsh”, prosseguiu o seu visitante, “tendo sido constituída, durante os últimos meses, uma zona protegida, é meu dever examinar e inquirir sobre os negócios de qualquer estranho que apareça aqui. O Sr. Hamar Lessingham tem sido amplamente aceite sem comentários, devido à sua amizade consigo. Lamento afirmar, contudo, que chegaram ao meu conhecimento certos factos que me fazem questionar se a senhora própria não terá sido, em certa medida, enganada.”
“Isto soa muito ridículo”, interpôs Philippa calmamente.
“Há algumas semanas”, continuou o Capitão Griffiths, “recebemos informações de que esta vizinhança seria provavelmente visitada por alguma pessoa ligada ao Serviço Secreto da Alemanha. Há fortes indícios de que a pessoa em questão é o Sr. Hamar Lessingham.”
“Um diplomado de Magdalen, amigo íntimo do meu irmão, e um visitante frequente da casa do meu pai em Cheshire”, observou Philippa, com um leve sarcasmo.
“A possibilidade de a senhora ter cometido um erro, Lady Cranston”, replicou o Capitão Griffiths, “só me ocorreu agora, devo confessar. As autoridades de Magdalen College foram consultadas, e ninguém com o nome de Lessingham esteve lá durante qualquer um dos períodos do seu irmão.”
Philippa recebeu o golpe estoicamente. Ela simplesmente encarou o seu interlocutor de uma forma incompreensível.
“Temos também informações”, continuou ele gravemente, “de Wood Norton Hall — da sua mãe, de facto, Lady Cranston — de que nenhum amigo de faculdade do seu irmão, com esse nome, visitou alguma vez Wood Norton.”
“Continue”, implorou Philippa, um pouco debilmente. “Cheguei a viver lá? O Richard esteve alguma vez em Magdalen?”
O Capitão Griffiths prosseguiu com o ar de um homem que tem uma tarefa a terminar e tenciona fazê-lo, independentemente das interrupções.
“Tive algumas conversas com o Sr. Lessingham, durante as quais lhe pedi para explicar o seu método de chegar aqui, e a sua última habitação. Ele simplesmente esquivou-se da forma mais descarada. Praticamente recusou-se a dar-me qualquer explicação sobre si próprio.”
Philippa levantou-se e tocou a campainha.
“Suponho que lhe tenha de oferecer um chá”, disse ela, “embora pareça ter vindo aqui propositadamente para me fazer doer a cabeça.”
“O meu objetivo ao vir aqui”, replicou o Capitão Griffiths, um pouco rigidamente, “é poupar-lhe alguma medida de incómodo pessoal.”
“Oh, por favor não pense que sou ingrata”, implorou Philippa. “Claro, é tudo um absurdo engano, e tenho a certeza de que chegaremos ao fundo disto em breve — Diga-me o que pensa da tempestade?”, acrescentou ela, enquanto Mills entrava com o tabuleiro do chá. “Acha que vai piorar, porque já estou aterrorizada?”
“Não sou juiz do tempo aqui”, confessou ele. “Creio que os pescadores se preparam para algo de invulgar.”
Ela sentou-se perante o tabuleiro do chá e insistiu em cumprir os seus deveres de anfitriã. Depois, pousou a mão no braço dele e dirigiu-se-lhe com um ar de completa franqueza.
“Ora, Capitão Griffiths”, começou ela, “faça o favor de me ouvir. Apenas um momento de bom senso, se faz favor. O que supõe que possa existir na nossa inofensiva aldeia costeira para levar alguém a arriscar a vida ao vir aqui em nome do Serviço Secreto da Alemanha?”
“Dreymarsh”, respondeu o Capitão Griffiths, “não foi tornada uma zona proibida por nada.”
“Mas, meu caro homem, seja razoável”, persistiu Philippa. “Há talvez um milhar de soldados no local, as habituais preparações ao longo da arriba para a defesa costeira, uma pequena bateria de canhões antiaéreos e um par de holofotes. Não há um rapaz da mercearia no local que não saiba tudo isto. Não há qualquer ocultação nisto. Tem de admitir que a Alemanha não precisa de enviar um agente do Serviço Secreto para se inteirar destes factos insignificantes.”
O seu visitante sorriu muito levemente. Foi a primeira vez que relaxou até este ponto.
“Não estou na posse de qualquer informação que possa partilhar consigo, Lady Cranston”, disse ele, “mas não estou preparado para aceitar a sua afirmação de que Dreymarsh não contém nada de maior interesse do que as coisas que mencionou.”
Não havia necessidade de Philippa representar um papel agora. A sugestão contida nas palavras do seu visitante deixara-a realmente num estado de espanto.
“Está a fazer-me arrepiar!” exclamou ela. “Não quer dizer que temos segredos aqui?”
“Disse a última palavra que me é possível dizer sobre o assunto”, declarou ele. “Compreenderá, tenho a certeza, que não estou aqui com o caráter de um inquisidor. Simplesmente achei que era meu dever, dado o facto de se ter tornado a patrocinadora social do Sr. Lessingham, colocar certa informação perante si e perguntar, oficiosamente, claro, se tem alguma explicação a dar? Pode até”, continuou ele, hesitante, “apreciar os motivos que me levaram a fazê-lo.”
“Meu caro homem, que explicação poderia eu ter?” protestou Philippa, “é um facto absoluto e inegável que o Sr. Lessingham esteve em Magdalen com o meu irmão e também que nos visitou em Wood Norton. Sei ambas as coisas por conhecimento próprio. A única explicação possível, portanto, é que tenha sido mal informado.”
“Ou”, aventurou-se o Capitão Griffiths, “que o Sr. Hamar Lessingham naqueles dias usasse outro nome.”
“Outro nome?” vacilou Philippa.
“Algum nome desse género, talvez”, continuou ele, “como Bertram Maderstrom.”
Seguiu-se um breve silêncio. O Capitão Griffiths recuara na cadeira e acariciava o lábio superior. Os seus olhos estavam fixos em Philippa e Philippa não via nada. O seu pequeno salto cravou-se com força no tapete. Em poucos segundos, a sala deixou de girar. Contudo, a sua voz soou-lhe penosamente inadequada.
“Que absurdo é tudo isto!” exclamou ela.
“Maderstrom”, disse o Capitão Griffiths pensativo, “era, curiosamente, um amigo íntimo de faculdade do seu irmão. Foi também um visitante em Wood Norton Hall. Em nenhum dos locais existe qualquer rasto do Sr. Hamar Lessingham. Talvez tenha cometido um erro, Lady Cranston. Talvez tenha reconhecido o homem e não se tenha lembrado do seu nome. Se assim for, agora é o momento de o declarar.”
“Estou-lhe muito agradecida”, retorquiu Philippa, “mas nunca conheci ou ouvi falar deste Sr. Maderstrom...”
“Barão Maderstrom”, interrompeu ele.
“Barão Maderstrom, então, na minha vida; ao passo que do Sr. Lessingham lembro-me perfeitamente.”
“Lamento”, disse o Capitão Griffiths, pousando a chávena de chá vazia e levantando-se lentamente. “Não nos podemos ajudar um ao outro, então.”
“Se quer que eu transforme o Sr. Lessingham, de quem me lembro perfeitamente, num barão alemão de quem nunca ouvi falar”, declarou Philippa audazmente, “receio que não possamos.”
“O Barão Maderstrom era um nobre sueco”, observou o Capitão Griffiths.
“Sueco ou alemão, não sei nada sobre ele”, persistiu Philippa.
“Não resta, então, mais nada a dizer.”
“Receio que não”, concordou Philippa docemente.
“Dadas as circunstâncias”, perguntou o Capitão Griffiths, “não esperará, tenho a certeza, que eu jante esta noite.”
“Não, se se opõe a encontrar-se com o Sr. Hamar Lessingham”, respondeu Philippa.
O rosto do seu visitante escureceu subitamente, e Philippa questionou vagamente se algo mais do que suspeita profissional seria responsável por aquela pequena tempestade de paixão que por um momento transformou a sua aparência. Ele recuperou rapidamente, contudo.
“Posso ainda”, concluiu, movendo-se em direção à porta, “ver-me forçado a apresentar-me aqui noutra capacidade.”
CAPÍTULO XXII
O confinamento da casa, após a partida do seu indesejado visitante, sufocava Philippa. Vestida com uma capa impermeável, com um lenço à volta da cabeça, dirigiu-se ao cais e, agarrando-se ao corrimão, arrastou-se até onde os pescadores estavam reunidos num pequeno grupo. A tempestade ainda não mostrava sinais de abrandar.
“Ouviu-se alguma coisa sobre o barco de Ben Oates?” inquiriu ela.
Um velho pescador apontou para o mar.
“Lá vem ele, minha senhora, sobre a crista daquela vaga; veja!”
“Será que consegue entrar?” perguntou Philippa ansiosamente.
Houve opiniões variadas, expressas em murmúrios indistintos.
“Está a aguentar-se lindamente”, declarou o pescador a quem ela se dirigira primeiro. “Temos uma corda pronta ali e estamos a contar trazê-los para terra sem problemas. Sorte a do Ben que o cavalheiro que vai com ele é um excelente marinheiro. Veja aquilo, minha senhora!” acrescentou ele com entusiasmo. “Veja a forma como ele meteu a proa à vaga, mesmo a tempo. Rapazes, eles virão na próxima!”
Um a um, os marinheiros dirigiram-se mesmo até à beira da praia salpicada pelas ondas. Houve mais alguns minutos de ansiedade de cortar a respiração. Depois, após o barco ter desaparecido completamente da vista, escondido por uma enorme muralha cinzenta de mar, pareceu subitamente trepar ao topo dela, pairar ali, misturar-se com o spray, a espuma e uma grande massa verde de águas, e finalmente, com um ruído áspero de madeiras e um grito dos pescadores, ser atirado bem alto e seco sobre as pedras. Philippa, agarrada ao corrimão de ferro, não viu por um momento senão caos. Os seus joelhos ficaram fracos. Ela foi incapaz de se mover. Havia uma estranha tontura nos seus ouvidos. O som das vozes soava como parte de um pesadelo irreal. Então, apercebeu-se de uma figura isolada a subir os degraus em direção a ela. Havia sangue a escorrer pelo seu rosto a partir do ferimento na testa, e ele coxeava ligeiramente.
“Sr. Lessingham!” chamou ela, quando ele alcançou o degrau mais alto.
Ele deu um passo ansioso na direção dela.
“Philippa!” exclamou ele. “Mas o que está a fazer aqui?”
“Fiquei assustada”, vacilou ela. “Está ferido?”
“De modo algum”, assegurou-lhe ele. “Tivemos uma navegação difícil até casa, apenas isso, e aquele sujeito Oates bebeu até ficar quase inconsciente. Venha, deixe-me ajudá-la a subir os degraus e a sair daqui.”
Ela agarrou-se ao braço dele e eles subiram penosamente pelo caminho privado até à casa. Mills deixou-os entrar com muitas expressões de preocupação, e Helen veio a correr do fundo da casa ao encontro deles.
“Saí para ver a tempestade”, explicou Philippa fracamente, “e vi o barco do Sr. Lessingham ser trazido para terra.”
“E o Sr. Lessingham virá imediatamente por aqui”, insistiu Helen. “Não tenho um caso real desde que tirei o meu certificado, e vou ligar-lhe a cabeça.”
Philippa começou a sentir a força a regressar. O horror que jazia por detrás daqueles poucos minutos de pesadelo ergueu-se novamente na sua mente. Mills tinha-se apressado em direção à casa de banho e os outros dois preparavam-se para segui-lo. Ela deteve-os.
“Sr. Lessingham”, disse ela, “ouça. O Capitão Griffiths esteve aqui. Ele sabe ou adivinha tudo.”
“Tudo?”
Philippa acenou.
“Helen tem de lhe ligar a cabeça, claro”, continuou ela. “Depois disso, pense! O que podemos fazer? O Capitão Griffiths sabe que não houve Hamar Lessingham na faculdade com Dick, que ele nunca visitou Wood Norton, que há algum mistério sobre a sua chegada aqui, e disse-me na cara que acredita que seja Bertram Maderstrom.”
“Que sujeito intrometido!” resmungou Lessingham, segurando o lenço contra a testa.
“Oh, por favor, seja sério!” implorou Helen, levantando os olhos da ligadura que estava a preparar. “Isto é horrível!”
“Não sei eu disso!” gemeu Philippa. “Sr. Lessingham, por favor, tente escapar daqui. Pode levar o carro, se quiser. Tem de haver algum lugar para onde possa ir esconder-se até conseguir sair do país.”
“Mas vou jantar aqui esta noite”, protestou Lessingham. “Não me vou esconder em lado nenhum.”
As duas mulheres trocaram olhares de desespero.
“Não o consigo fazer entender!” exclamou Philippa de forma patética. “Está em perigo aqui — realmente em perigo!”
O comportamento de Lessingham não mostrou qualquer apreciação da situação.
“Claro, compreendo perfeitamente”, disse ele, “que Griffiths está desconfiado de mim, mas, afinal de contas, ninguém pode provar que violei a lei aqui, e não melhorarei as coisas ao tentar uma fuga de ópera bufa. Posso ter a cabeça ligada e vir falar consigo sobre isso mais tarde?”
“Oh, se quiser”, assentiu Philippa fracamente. “Não consigo discutir.”
Ela dirigiu-se ao seu quarto e mudou de roupa molhada. Quando desceu, Lessingham estava de pé sobre o tapete da lareira na biblioteca, com uma fatia de torrada com manteiga numa mão e uma chávena de chá na outra. A sua cabeça estava muito bem ligada e ele parecia estar perfeitamente à vontade.
“Sabe”, começou ele, enquanto puxava uma cadeira para junto do fogo para ela, “que aquele homem Griffiths não gosta de mim. Ele nunca simpatizou comigo desde o início, pude ver isso. Se formos por aí, eu também não gosto de Griffiths. É um daqueles tipos vis e desconfiados de que muito bem poderíamos prescindir.”
Philippa, que tinha ensaiado um pequeno discurso várias vezes no seu quarto, tentou ser firme.
“Sr. Lessingham”, disse ela, “sabe que ambos somos seus amigos. Ouça, por favor. O Capitão Griffiths é o Comandante aqui e está numa posição de autoridade. Tem um poder muito vasto. Acredito honestamente que é a sua intenção mandar prendê-lo — se não esta noite, dentro de poucos dias.”
“Não vejo como ele possa”, objetou Lessingham, servindo-se de outra fatia de torrada. “Não cometi qualquer crime aqui. Joguei golfe com todos os respeitáveis velhinhos do local e dei ao comité excelentes conselhos quanto aos dois novos buracos. Joguei bridge no clube — chamemos-lhe bridge! — e mantive o meu temperamento como um anjo. Jantei na Messe e contei-lhes pelo menos uma dúzia de histórias novas. Mantive os meus estores corridos à noite e não tenho qualquer rádio escondido pela chaminé. Realmente não vejo o que me possam fazer.”
Philippa tentou ser direta.
“Serviu no exército alemão e está a viver numa zona protegida sob um nome falso”, declarou ela.
“Bem, claro, há alguma verdade no que diz”, admitiu ele, “mas mesmo que eles tenham descoberto isso e o possam provar, não ganharia nada ao fugir. Para ser perfeitamente sério”, acrescentou, pousando a chávena, “há apenas uma coisa no momento presente que me faria sair de Dreymarsh, e é se acreditar que a minha presença aqui comprometeria ainda mais a si e à Miss Fairclough.”
Philippa começava a encontrar a sua coragem. “Já estamos metidos nisso, até ao pescoço”, observou ela. “Realmente não vejo que algo importe no que nos diz respeito.”
“Nesse caso”, decidiu ele, “terei a honra de me apresentar à hora habitual.”
CAPÍTULO XXIII
Philippa e Helen encontraram-se na sala de estar, alguns minutos antes das oito daquela noite. Philippa vestia um vestido preto novo, um modelo de simplicidade para o olho inexperiente, mas cheio daquele apelo indefinível ao misterioso que até o maior artista frequentemente falha em criar a partir de qualquer forma de cor. Algum capricho levara-a a tirar as joias no último momento, e não usava ornamentos, exceto uma fita de veludo preto à volta do pescoço. Helen olhou-a curiosamente.
“É este um novo esquema de conquista, Philippa?” perguntou ela, enquanto estavam juntas junto à lareira.
Philippa corou inesperadamente.
“Não sei no que estava a pensar, realmente”, confessou. “Será que são horas?”
“Dois minutos para as oito”, respondeu Helen.
“O Sr. Lessingham é sempre tão pontual”, murmurou Philippa. “Será que o Capitão Griffiths se atreveria!”
“Fizemos o nosso melhor para o avisar”, lembrou Helen à sua amiga. “O homem é simplesmente teimoso como uma mula.”
“Não consigo deixar de sentir que ele tem razão”, declarou Philippa, “quando argumenta que eles não poderiam realmente provar nada contra ele.”
“Importa isso”, perguntou Helen ansiosamente, “desde que ele seja um inimigo, vivendo aqui sob um nome falso?”
“Não achas que eles iriam... iriam...”
“Fuzilá-lo?” sussurrou Helen, baixando a voz. “Eles não podiam fazer isso! Não podiam!”
O relógio começou a tocar. Subitamente Philippa, que estivera a ouvir, soltou uma pequena exclamação de alívio.
“Ouço a sua voz!” exclamou ela. “Graças a Deus!”
O alívio de Helen foi quase tão grande como o da sua companheira. Um momento depois, Mills introduziu o seu convidado. Ele ainda trazia a ligadura, mas a sua cor tinha regressado. Parecia, de facto, quase alegre.
“Nada aconteceu, então?” perguntou Philippa ansiosamente, assim que a porta se fechou.
“Absolutamente nada”, assegurou-lhes ele. “O nosso amigo Griffiths tem um medo terrível de cometer um erro.”
“Tanto medo que não quis vir jantar. Não importa, terá de cuidar de nós as duas”, acrescentou ela, quando Mills anunciou o jantar.
“Farei o meu melhor”, prometeu ele, oferecendo o braço.
Se a espada de Dâmocles estivesse realmente suspensa sobre as suas cabeças, parecia apenas aumentar a alegria da sua pequena refeição. Philippa tinha pedido champanhe, e o calor da agradável sala de jantar, os muitos acessórios de luxo pelos quais estavam rodeados, o brilho do vinho e o perfume das flores de estufa sobre a mesa pareciam um contraste delicioso à fúria da tempestade lá fora. Pareciam todos os três ter tido um sucesso completo num esforço intenso para afastar todos os assuntos desconcertantes das suas mentes. Lessingham falou principalmente do Oriente. Tinha viajado pela Rússia, Pérsia, Afeganistão e Índia, e possuía o dom invulgar, mas notável, de pintar pequenos quadros verbais de algumas das cenas das suas errâncias. Eram nove e meia quando se levantaram da mesa, e Lessingham acompanhou-as para a biblioteca. Com o advento do café, estavam pela primeira vez realmente sós. Lessingham sentou-se ao lado de Philippa, e Helen reclinou-se numa cadeira baixa ali perto.
“Penso”, disse ele, “que me posso aventurar agora a contar-lhes algumas novidades.”
Helen pousou o seu trabalho. Philippa olhou para ele em silêncio, e os seus olhos pareceram dilatar-se.
“Hesitei em dizer algo sobre isto”, continuou Lessingham, “porque há tanta incerteza sobre estas coisas, mas acredito que está agora finalmente arranjado. Penso que dentro da próxima semana ou dez dias — talvez um pouco antes, talvez um pouco depois — o seu irmão Richard será posto em liberdade.”
“O Dick? O Dick vem para casa?” gritou Philippa, saltando da sua posição reclinada.
“O Dick?” vacilou Helen, o seu trabalho caído sem atenção no seu colo. “Sr. Lessingham, fala a sério? Será possível?”
“Não só é possível”, assegurou-lhes Lessingham, “como acredito que acontecerá. Tive de exercer um pouco de duplicidade, mas imagino que tenha tido sucesso. Insisti que, sem a ajuda de uma pessoa influente em Dreymarsh, não posso levar os meus trabalhos aqui a uma conclusão satisfatória, e nomeei como preço dessa ajuda a liberdade absoluta e imediata de Richard. Ouvi apenas esta manhã que não haveria dificuldade.”
Helen agarrou o seu trabalho e tateou o caminho em direção à porta.
“Voltarei dentro de alguns minutos”, prometeu ela, a sua voz um pouco quebrada.
Lessingham, que abrira a porta para ela, regressou ao seu lugar. Não havia lágrimas nos olhos brilhantes de Philippa, mas havia uma leve mancha de cor nas suas faces, e os seus lábios não estavam totalmente firmes. Ela agarrou-se às mãos dele.
“Oh, meu querido, querido amigo!” disse ela. “Se ao menos aquela pequena parte de pesadelo em si não existisse. Se ao menos pudesse ser apenas o que parece, e se pudesse sentir que estava aqui nas nossas vidas para sempre! Sinto que quero falar consigo tanto, consigo e não com o farsante que representa. Como devo chamar-lhe?”
“Bertram, por favor”, sussurrou ele.
“Então Bertram, querido”, continuou ela, “por minha causa, porque se tornou realmente querido para mim, porque o meu coração sofre com o pensamento do seu perigo, e porque — veja quão honesta sou — tenho um pouco de medo de mim mesma — quer ir-se embora? O pensamento do seu perigo é como um pesadelo para mim. Parece tudo tão absurdo e irracional — quero dizer, que o perigo que temo deva estar a pairar sobre si. Mas penso que há apenas um pouco de algo no fundo do seu cérebro de que nunca falou, que era o seu dever guardar para si, e é precisamente esse algo que traz o perigo.”
“Não tenho medo por mim, Philippa”, disse-lhe ele. “Dei um passo em falso na vida quando vim para aqui. O que foi que me atraiu, não sei. Penso que foi o pensamento daquela cavalgada selvagem entre as nuvens e a luz das estrelas. Pareceu um começo tão maravilhoso para qualquer empresa. E, Philippa, para uma parte da minha aventura, a parte que a diz respeito, foi um prelúdio magnífico, e para a outra — bem, simplesmente não conta, porque não tenho medo. Tenho fé na minha sorte, sabia? Acredito que deixarei este lugar sem danos, mas acredito que se o deixar sem si, regressarei ao pior inferno em que um homem poderia alguma vez...”
“Bertram”, suplicou ela, “pense em tudo isto. Mesmo que eu me importasse o suficiente — e não me importo — há algo de antinatural nisto. Não lhe parece horrível? O meu irmão, os meus primos, o meu pai, estão todos a lutar contra os homens da nação cuja causa abraçou! Há uma nuvem horrível e eterna de ódio que levará gerações a desaparecer, se é que alguma vez desaparece. Como podemos nós os dois falar de amor! Que parte do mundo poderíamos encontrar onde as pessoas não se afastassem de nós? Posso ter perdido um pouco do meu coração para si, Bertram, posso sentir a sua falta quando se for embora, posso desperdiçar horas cansativas a pensar, mas é tudo. Oh, sabe que tem de ser tudo!”
“Não sei”, respondeu ele obstinadamente.
“Oh, tem de ser razoável”, implorou ela, com uma pequena quebra na voz. “Sabe muito bem que não devia ouvi-lo. Não devia recebê-lo aqui. Devia ser forte e fechar os ouvidos.”
“Mas não fará isso!”
“Não!” vacilou ela. “Por favor, não se aproxime mais. Eu...”
Ela interrompeu-se subitamente. A luta no seu rosto terminou, a sua expressão transformou-se. O seu dedo foi levantado como para pedir que ele ouvisse. Com a outra mão, agarrou o encosto do sofá. Os seus olhos estavam fixos na porta. A pequena mancha de cor maravilhosa desvaneceu-se das suas faces.
“Ouça!” gritou ela, com uma nota de terror na voz. “Foi a porta da frente! Alguém veio! Não os consegue ouvir?”
A mão de Lessingham dirigiu-se subitamente ao bolso. Ela apanhou o brilho de algo meio retirado e recuou com um gemido abafado.
“Não antes de si, querida”, prometeu ele. “Por favor, não tenha medo. Se este é o fim, deixe-me sozinho com Griffiths. Não o magoarei. Não me esquecerei. E se por acaso”, acrescentou ele, “esta for a nossa despedida, Philippa, lembre-se de que a amo como as flores do mundo amam o seu sol. Coragem!”
A porta à frente deles foi aberta.
“Capitão Griffiths”, anunciou Mills.
Através da porta aberta, vislumbraram dois outros soldados e o inspetor Fisher. Griffiths, contudo, entrou sozinho na sala e esperou até que a porta fosse fechada antes de falar. Portava-se com a sua habitual falta de jeito, mas o seu rosto longo e magro parecia ter assumido uma nova expressão. Tinha o ar de um homem que se entrega a um estranho prazer.
“Lady Cranston”, disse ele, “lamento muito a intrusão, mas a minha visita aqui é oficial.”
“Do que se trata?”, perguntou ela, com a voz rouca.
“Recebi provas confirmatórias sobre o assunto de que lhe falei esta tarde”, continuou ele. “Lamento incomodá-la a tal hora, mas é meu dever prender este homem sob a acusação de espionagem.”
Lessingham, ao que tudo indicava, permaneceu impassível.
“Uma palavra deveras desagradável”, comentou ele.
“Uma profissão deveras vil”, retorquiu o capitão Griffiths. “Graças aos céus que, neste país, estamos a aprender a arte de lidar com os seus discípulos.”
“Isto é tudo um erro horrível”, declarou Philippa, febrilmente. “Garanto-lhe que o Sr. Lessingham visitou a casa do meu pai, que me era bem conhecido há anos.”
“Como o Barão Maderstrom! Que argumentos ele usou, Lady Cranston, para a induzir a aceitá-lo aqui sob a sua nova identidade, não sei, mas os factos são muito claros.”
“Ele parece estar bastante convencido, não é verdade?”, observou Lessingham, voltando-se para Philippa. “E, como suponho que uma parte do Exército Britânico, auxiliada pela polícia local, me espera lá fora, talvez seja melhor que eu o comprazça.”
“Seria o melhor, senhor”, assentiu o capitão Griffiths, severamente. “Fico contente por vê-lo com disposição para troças.”
Lessingham voltou-se mais uma vez para Philippa. Desta vez, o seu tom era mais sério.
“Lady Cranston”, implorou ele, “não quer fazer o favor de nos deixar?”
“Não!”, respondeu ela, histérica. “Eu sei porque quer que eu vá, e não vou! Não fez mal nenhum, e nada lhe acontecerá. Não sairei da sala, e o senhor não...”
O seu gesto de apelo coincidiu com o soluço na sua garganta. Ela desfez-se em pranto e o capitão Griffiths deu um passo em frente.
“Se tem alguma arma na sua posse, senhor”, disse ele, “seria melhor que a entregasse.”
“Bem, sabe”, respondeu Lessingham, “dificilmente vejo a necessidade. Uma coisa lhe prometo”, acrescentou, com um brilho repentino nos olhos, “um passo mais perto — um passo só, lembre-se — e receberá tanto da minha arma quanto baste para o manter quieto pelo resto da sua vida. Lembre-se de que, enquanto for razoável, não o ameaço. Ajude-me a persuadir Lady Cranston a deixar-nos.”
O capitão Griffiths estava fora do seu elemento. Não era um cobarde, mas não desejava a morte, e havia morte na ameaça de Lessingham e no brilho dos seus olhos. Enquanto hesitava, ouviu-se uma batida à porta. Mills entrou silenciosamente. Trazia um telegrama numa bandeja.
“Para o senhor, senhor”, anunciou ele, dirigindo-se ao capitão Griffiths. “Um ordenança acabou de o trazer.”
Griffiths olhou para o envelope cor-de-rosa e franziu o sobrolho. Abriu-o, contudo, sem uma palavra. Enquanto lia, os seus dentes superiores cerraram-se sobre o lábio. Assim permaneceu até que duas pequenas gotas de sangue apareceram.
Depois, voltou-se para Mills.
“Não há resposta”, disse ele.
O homem fez uma vénia e saiu da sala. Caminhou lentamente e olhou para trás a partir da porta. Era quase impossível, mesmo para um criado tão bem treinado, escapar à atmosfera de tragédia.
“Algo me diz”, observou Lessingham, com frieza, assim que a porta se fechou, “que essa mensagem diz respeito a mim.”
O comandante não respondeu de imediato. Alisou o telegrama e leu-o mais uma vez sob a luz do candeeiro, como que para ter a certeza de que não havia qualquer erro possível. Depois, dobrou-o e colocou-o no bolso do colete.
“A ideia da sua detenção, senhor”, disse ele a Lessingham, asperamente, “é aparentemente desagradável para alguém no quartel-general que não digeriu a minha informação. Vou retirar os meus homens por agora.”
“Não o vai prender?”, exclamou Philippa.
“Não vou”, respondeu o capitão Griffiths. “Mas”, acrescentou, voltando-se para Lessingham, “isto é apenas um adiamento. Tenho mais provas para além de tudo o que ofereci. É o Barão Bertram Maderstrom, um espião alemão, a viver aqui numa zona proibida sob um nome falso. Isso eu sei, e isso provarei àqueles que interferiram comigo no exercício do meu dever. Isto não é o fim.”
Saiu da sala sem sequer uma palavra ou uma saudação a Philippa. Lessingham observou-o por um momento, pensativo. Depois, encolheu os ombros.
“Tenho a certeza de que não gosto do capitão Griffiths”, declarou ele. “O sujeito não tem qualquer educação.”
CAPÍTULO XXIV
Philippa, mesmo alguns momentos após a partida do capitão Griffiths e dos seus mirmidões, permaneceu num tipo de transe sem nervos. A crise, com o seu desfecho desconcertante, afetara-a de forma curiosa. Lessingham levantou-se pouco depois.
“Pergunto-me”, disse ele, “se poderia ter um uísque com soda?”
Ela bateu com o pé num pequeno ataque de paixão histérica.
“Não é natural!”, gritou ela. “Uísque com soda!”
“Bem, não sei”, protestou ele, servindo-se da mesa ao fundo. “Pensei que estava a ser particularmente britânico. Na dúvida, tome uma bebida. Esse é o Richard por todo o mundo, sabe.”
Ela soltou uma pequena risada sem alegria.
“Começarei a pensar que é um impostor!”, exclamou ela.
Ele atravessou a sala na direção dela.
“Talvez seja, querida”, confessou ele. “Quero apenas que se sente e perca esse olhar antinatural. Não estou realmente cheio de bravata barata, mas sou um filósofo. Algo aconteceu para adiar... o fim. Boa sorte para isso, digo eu!”
Ergueu o copo aos lábios e pousou-o vazio. Philippa levantou-se e caminhou inquietamente até à janela e de volta.
“Também tentarei ser razoável”, prometeu ela, voltando a sentar-se. “Eu tinha razão, vê? O capitão Griffiths descobriu tudo. Pode dizer-me que possível razão alguém em Londres poderia ter para interferir?”
“Parece que arranjei um amigo lá em cima sem saber, não é?”, observou ele.
“Isto está a envelhecer-me terrivelmente”, declarou Philippa, atirando-se para trás na cadeira. “Toda a minha vida odiei mistérios. Aqui estou eu, frente a frente com dois absolutamente insolúveis. O capitão Griffiths assegurou-me que existe aqui em Dreymarsh algo de importância suficiente para justificar a presença de um espião estrangeiro. O senhor confirmou-o. Tenho estado a torturar o meu cérebro com isso nas últimas vinte e quatro horas. Agora, acontece algo ainda mais inexplicável. O senhor é preso e não é preso. A sua identidade é conhecida e o capitão Griffiths é proibido de cumprir o seu dever.”
“Parece intrigante, não é?”, concordou Lessingham. “Eu não me preocuparia com o primeiro, mas este último pequeno episódio requer explicações.”
“Se algo mais acontecer esta noite, acho que vou enlouquecer”, suspirou Philippa.
“E algo vai acontecer”, declarou Lessingham, levantando-se. “Ouviu isso?”
Acima até do rugido do vento, ouviram o estrondo metálico de uma arma vindo quase debaixo da janela. A sala foi subitamente iluminada por um único flash vívido.
“Um morteiro!”, exclamou Lessingham. “E aquilo foi um foguete, a menos que me engane.”
“O sinal para o barco de salvamento!”, anunciou Philippa. “Pergunto-me se conseguimos ver algo.”
Ela apressou-se para a janela, mas parou com a abertura abrupta da porta. Nora irrompeu, seguida mais serenamente por Helen.
“Mamã, há um naufrágio!”, gritou a primeira, entusiasmada. “Ouvi algo há uma hora e levantei-me, e tenho estado sentada junto à janela a observar. Vi o barco de salvamento sair e agora estão a sinalizar para o outro.”
“É bem verdade, Philippa”, declarou Helen. “Vamos tentar abrir caminho até à praia.”
“Eu também vou”, decidiu Lessingham. “Talvez possa ser útil.”
“Iremos todos”, concordou Philippa. “Espere enquanto vou vestir-me. O que é, Mills?”, acrescentou, quando a porta se abriu e este se apresentou.
“Há um arrastão nas rochas, mesmo ao largo do quebra-mar, minha senhora”, anunciou ele. “Acabaram de enviar mensagem da praia para saber se podemos acolher parte da tripulação. Estão a desembarcá-los da melhor forma possível através da linha.”
“Claro que podemos”, foi a pronta resposta. “Diga-lhes para enviarem quantos quiserem. Encontraremos espaço para eles, de alguma forma. Vou subir e tratar das lareiras. Voltam todos?”, acrescentou, voltando-se.
“Voltaremos todos”, prometeu Lessingham.
Abriram caminho a custo até à praia. No início, a tempestade abafava completamente qualquer som. As lanternas, agitadas aqui e ali por mãos invisíveis, pareciam parte de um quadro fantasmagórico, cujo único cenário era o fustigar da tempestade. Depois, subitamente, com um sibilar surpreendente, outro foguete rasgou o seu caminho através da escuridão. Tiveram uma visão instantânea, mas brilhante, de tudo o que estava a acontecer: viram o arrastão deitado de lado, aparentemente a apenas alguns metros da costa, viram a linha estendida até à praia, na qual, mesmo naquele momento, um homem estava a ser puxado para terra, lambido pela espuma, o seu rosto tenso e o cabelo revolto pelo vento claramente visíveis. Depois, tudo ficou escuridão novamente, mais completa do que nunca. Lutaram para descer até ao cascalho, onde o pequeno grupo de pescadores trabalhava arduamente com a linha. Quase a primeira pessoa em que esbarraram foi Jimmy Dumble. Estava de pé na extremidade do quebra-mar com uma grande lanterna na mão, supervisionando a linha e, à medida que se aproximavam, Lessingham, que estava um pouco à frente, pôde ouvir a sua voz acima da tempestade. Ele gritava na direção do naufrágio, com a mão em concha junto à boca.
“Enviem o mestre a seguir, seus marujos, ou cortamos a linha. Estão a ouvir?”
Não houve resposta ou, se houve, foi abafada pelo vento. Lessingham agarrou o pescador pelo braço.
“A quem se refere por 'mestre'?”, exigiu ele. Dumble mal olhou para o seu interlocutor.
“Ora, Sir Henry Cranston, claro”, foi a resposta agitada. “Estes marujos estão todos a sair primeiro e a linha não aguenta mais do que um ou dois”, acrescentou, baixando a voz.
Então, a emoção daqueles poucos minutos desenrolou-se como um grande drama diante dos olhos de Lessingham. Sir Henry estava naquele navio, tão perto quanto qualquer homem poderia desejar estar da morte.
“'Aqui vai o próximo”, murmurou Jimmy, enquanto giravam o molinete vigorosamente. “Caramba, é pesado também!”
Depois veio um grito que soou como um lamento e, acima dele, o grito estridente e temeroso de um homem que se sente a cair fora do alcance do mundo. Lessingham ergueu a lanterna que estava na praia ao lado de Jimmy. A linha partira-se. O corpo do seu passageiro suspenso desaparecera! E, precisamente então, estranhamente, pela primeira vez em mais de uma hora, os céus abriram-se num grande lençol de relâmpago, e puderam ver a figura de um homem deixado no navio, agarrado desesperadamente ao cordame.
“Atem a linha à minha volta”, gritou Jimmy. “Deixem-na ir. Ponham a outra extremidade no molinete.”
Soltaram a corda pelas mãos. Jimmy chutou as botas e mergulhou no caldeirão. Nadou mal uma dúzia de braçadas antes de ser apanhado pelo topo de uma onda que entrava, lançado de um lado para o outro como uma rolha e atirado de volta à praia, onde ficou a gemer. Houve um pequeno murmúrio entre os pescadores, que correram para se debruçar sobre ele.
“Nadar não serve de mais nada do que tentar andar sobre a água”, declarou um deles.
Lessingham ergueu a lanterna que transportava e iluminou em redor.
“Onde estão as jovens?”, perguntou ele.
“Foram para a casa com dois que acabámos de tirar do naufrágio”, informou-o alguém.
Lessingham inclinou-se. Mãos dispostas ajudaram-no a desapertar a corda da cintura de Jimmy. Ele arrancou o seu próprio casaco, colete e botas. Alguns ajudaram, outros tentaram dissuadi-lo, enquanto ele prendia a linha à volta da sua própria cintura.
“Enviámos buscar mais foguetes”, gritou um homem ao seu ouvido. “O homem voltará em meia hora.”
Lessingham empurrou-os para o lado. Ficou de pé na orla da praia e, pedindo emprestada uma lanterna, esperou pela sua oportunidade. Então, subitamente, desapareceu. Olharam para ele. Não podiam ver nada senão a corda a deslizar junto aos seus pés, centímetro a centímetro. Por vezes estava parada, por vezes era esticada. A primeira grande onda que chegou atirou um pouco de folga entre eles. Depois, após o rugido da sua quebra ter morrido, viram a corda subitamente esticar-se e passar rapidamente, e a excitação começou a aumentar.
“Aquele não o apanhou, de qualquer forma”, murmurou um deles.
“Ele apanhará o próximo, com sorte”, declarou outro, esperançoso.
Lessingham, lutando pela sua consciência, ensurdecido e meio atordoado pelo rugido das águas à sua volta, ainda sentia a euforia daquela grande luta. Olhou uma vez para mares que pareciam tocar as nuvens, endireitou-se e mergulhou nas profundezas de uma montanha de águas espumantes, cujo cume lhe parecia um daqueles esforços grotescos e distorcidos por pesadelos de um cérebro consumidor de ópio. Depois, o rugido soou todo atrás dele, e ele soube que tinha atravessado as rebentações. Nadou para o lado do navio e agarrou-se a uma corrente. Foi a mão estendida de Sir Henry que o puxou para o convés.
“Meu Deus, que nado foi aquele!”, declarou este último, enquanto puxava o seu salvador para cima, sem o reconhecer minimamente. “Dá-me a ponta dessa corda, rápido! Assim!”, continuou, soltando-a pelos dedos até que a ponta da corda apareceu. “É melhor recuperar o fôlego, jovem, e depois salte. Eu sigo.”
“Maldito seja se o faço!”, foi a resposta vigorosa. “Comece enquanto recupero o fôlego.”
Foram subitamente meio afogados por uma chuva de espuma. Sir Henry segurou Lessingham com um aperto de ferro, ou ele teria sido varrido borda fora.
“Passe um braço pelas correntes, homem”, gritou ele. “Meu Deus!”, acrescentou, espreitando através da escuridão. “Lessingham!”
“Bem, não pare para se preocupar com isso”, foi a resposta feroz. “Vamos continuar com o nosso trabalho.”
Sir Henry despiu os seus oleados e o casaco de baixo.
“Siga-me quando acenarem a lanterna duas vezes”, ordenou ele. “Se algum de nós for desta para melhor... bem, obrigado!”
Lessingham sentiu o aperto da mão de Sir Henry enquanto ele o ultrapassava e ia borda fora para a escuridão. Depois, com um braço através das correntes, puxou para si, com o calcanhar, o casaco que Sir Henry tinha atirado para o convés. Gradualmente, ficou ao alcance da sua mão livre. Agarrou-o, sacudiu-o e mergulhou avidamente no bolso do peito. Havia vários pequenos artigos que ele atirou impiedosamente fora, e depois um pacote quadrado, embrulhado em oleado, que cedeu aos seus dedos. Outra onda a quebrar atirou-o de costas. Um braço ainda estava através da corrente, o outro agarrava o que algum instinto iluminador já o convencera ser o mapa! Assim que recuperou o fôlego, um esforço sombrio de humor separou os seus lábios. Ficou ali por um momento e riu-se até que a espuma, desta vez com uma enxurrada de água verde por baixo, quase o varreu do seu lugar.
Estavam a acenar uma lanterna na praia quando ele voltou a pôr-se de pé.
Deslizou o pequeno pacote pelas suas roupas até junto à pele e apalpou à procura da ponta da linha que Sir Henry e ele tinham prendido a um grampo abaixo das correntes. Depois, respirou fundo, agarrou a corda e gritou. Um ou dois segundos depois, estava de volta ao caldeirão.
Enquanto o puxavam para a praia, ele tinha apenas uma ideia. Acontecesse o que acontecesse, não podia perder a consciência. O pacote ainda estava lá, contra a barriga da perna. Tinham de ser as suas próprias mãos a tirar-lhe a roupa. Parecia-lhe que aqueles poucos rostos bronzeados, aquelas meia dúzia de lanternas grosseiras, se tinham tornado magnificados e multiplicados por cem. Era um exército de pescadores de camisolas azuis que lhe davam palmadinhas nas costas e o recebiam, lanternas como estrelas a brilhar por toda a parte em redor. Cerrou os dentes e lutou contra o zumbido nos ouvidos. Tentou falar, e a sua voz soou como um sussurro fraco e distante.
“Estou bem”, continuava a dizer.
Depois sentiu-se apoiado por dois braços musculados. Os seus pés seguiram a influência hipnótica do movimento deles. Estaria a ir para as nuvens, perguntou-se? Pararam para abrir um portão, o portão que conduzia aos jardins de Mainsail Haul. Como lá chegou? Não fazia ideia. Mais movimentos dos seus pés, e depois um calor inesperado. Olhou em redor. Havia vozes. Escutou. A única voz? O único rosto inclinado sobre o seu, os olhos dela húmidos de lágrimas, os seus sussurros um fluxo incoerente de palavras partidas. Depois, o calor pareceu voltar às suas veias. Sentou-se e encontrou-se no sofá da biblioteca, a chuva a pingar dele em pequenas poças, e soube que tinha conseguido. Não tinha desmaiado.
“Estou bem”, repetiu. “Que confusão estou a fazer!”
As vozes à sua volta ainda estavam um pouco confusas, mas a mão que segurava um copo fumegante aos seus lábios era a de Philippa.
“Beba tudo”, implorou ela.
Sentiu as lágrimas virem aos seus olhos, sentiu o sangue quente a correr pelo seu corpo, sentiu uma pequena mancha húmida atrás da barriga da perna, e a mão que pousou o copo vazio estava quase firme.
“Há um banho quente pronto”, disse-lhe Philippa; “alguma roupa seca e um quarto com uma lareira. Deixe que o Mills lhe mostre o caminho.”
Ele levantou-se de imediato, preparado para segui-la. Os seus pés não estavam tão firmes quanto ele teria desejado, mas deu um espetáculo muito apresentável. Mills, com um pequeno pedido de desculpas, estendeu o braço. Philippa caminhou do seu outro lado.
“Assim que terminar o banho e vestir roupa seca”, sussurrou Philippa, “por favor, toque, ou envie o Mills para nos avisar.”
Ele foi até capaz de lhe sorrir.
“Estou perfeitamente bem”, assegurou-lhe mais uma vez.
CAPÍTULO XXV
Philippa, invulgarmente cedo na manhã seguinte, olhou para a mesa de pequeno-almoço vazia com um pequeno ar de desapontamento e tocou a campainha.
“Mills”, perguntou ela, “não está ninguém em baixo?”
“Sir Henry está, creio, na praia, minha senhora”, respondeu o homem, “e a Srta. Helen e a Srta. Nora estão com ele.”
“E o Sr. Lessingham?”
“O Sr. Lessingham, minha senhora”, continuou Mills, olhando cuidadosamente para trás como que para ter a certeza de que a porta estava fechada, “desapareceu.”
“Desapareceu?”, repetiu Philippa. “O que quer dizer, Mills?”
“Deixei o Sr. Lessingham ontem à noite, minha senhora”, explicou Mills, “com um fato de roupa do patrão e aparentemente a preparar-se para ir para a cama — devo dizer esta manhã, pois provavelmente eram cerca de duas horas. Acordei-o às oito e meia, como solicitado, e encontrei o quarto vazio. A cama não tinha sido usada.”
“Não houve bilhete ou mensagem?”, perguntou Philippa, incrédula.
“Nada, minha senhora. Uma das criadas acredita ter ouvido a porta da frente abrir-se às cinco horas desta manhã.”
“Ligue para o hotel”, instruiu Philippa, “e veja se ele está lá.”
Mills partiu para executar a sua comissão. Philippa ficou a olhar pela janela, através do relvado e do arbusto, para baixo, para a praia. Ainda havia um mar agitado, mas era apenas o balanço do dia anterior. O vento tinha acalmado e o sol brilhava intensamente. Sir Henry, Helen e Nora passeavam pela praia como se procurassem algo. A cerca de cinquenta metros, o arrastão naufragado estava completamente de lado, com a extremidade de uma chaminé visível. Grupos dispersos de aldeões examinavam-no a partir da areia. A seu tempo, Mills regressou.
O pessoal do hotel não sabe nada sobre o Sr. Lessingham, milady, para além do facto de ele não ter regressado ontem à noite. Receberam, contudo, uma mensagem da Garagem do Hill, há cerca de meia hora, a dizer que o seu mecânico tinha levado o Sr. Lessingham de carro, bem cedo esta manhã, até Norwich, onde ele apanhou o comboio de correio para Londres. O rapaz devia dizer que o Sr. Lessingham estaria de volta dentro de um ou dois dias.
Philippa abriu as janelas e dirigiu-se para a praia. Debruçou-se sobre o corrimão do passeio e acenou com a mão aos outros, que subiram a custo pelo cascalho para a encontrar.
— Quase que ainda não a vi, minha querida, pois não? — observou Sir Henry.
Ele inclinou-se e beijou-lhe a testa, uma saudação que ela suportou sem responder. Helen apontou para o naufrágio.
— Não parece possível, pois não? — disse ela. — Que vidas humanas se tenham perdido naquele pequeno espaço. Dois homens afogaram-se, dizem, devido à rutura da corda. Recuperaram os corpos esta manhã.
— Tudo o resto parece ter sido trazido à costa, exceto o meu casaco — queixou-se Sir Henry. — Estive aqui ao romper do dia, à procura dele.
— O seu casaco! — repetiu Philippa com desprezo. — Imaginar pensar nisso, quando escapou por pouco com vida!
— Mas, para lhe dizer a verdade, minha querida — explicou Sir Henry —, a minha carteira e papéis de algum valor estavam no bolso desse casaco. Não consigo entender como me esqueci deles. Acho que foi a surpresa de ver aquele tipo, Lessingham, a arrastar-se para o naufrágio parecendo um rato afogado. Por Júpiter, que coragem ele deve ter!
— Os pescadores não conseguem falar de outra coisa — acrescentou Nora, entusiasmada. — Mamã, foi simplesmente esplêndido! A Helen e eu tínhamos subido com dois dos homens resgatados, mas voltei a tempo de os ver prender a corda à cintura dele e vê-lo mergulhar.
— Como está ele esta manhã? — perguntou Helen.
— Partiu — respondeu Philippa.
Todos olharam para ela com surpresa.
— Partiu? — repetiu Sir Henry. — O quê, quer dizer que voltou para o hotel?
— A sua cama não foi dormida — disse-lhes Philippa. — Ele deve ter escapado bem cedo esta manhã, ido à Garagem do Hill, alugado um carro e conduzido até Norwich. De lá, seguiu para Londres. Enviou um recado a dizer que voltará dentro de alguns dias.
— Espero por Deus que não volte! — resmungou Sir Henry.
Philippa voltou-se bruscamente para ele.
— O que quer dizer com isso? — exigiu ela. — Não quer agradecer-lhe por ter salvo a sua vida?
— Minha querida, certamente que quero — respondeu Sir Henry —, mas, neste momento... bem, estou um pouco desconcertado. Foi para Londres, é? Partiu sem aviso a meio da noite para Londres! E a voltar, também... essa é a parte estranha!
Dir-se-ia, pela expressão de Sir Henry, que ele estava a encontrar motivos de grande satisfação nesta notícia do desaparecimento repentino de Lessingham.
— Ele é um sujeito maravilhoso, este Lessingham — acrescentou ele, pensativo. — Ele deve ter... sim, por Deus, ele deve ter... Naquela tempestade, ainda por cima!
— Se pudesse falar de forma coerente, Henry — observou Philippa —, gostaria de dizer que estou extremamente ansiosa por saber porque é que o Sr. Lessingham nos abandonou tão precipitadamente.
Sir Henry teria pegado no braço da mulher, mas ela esquivou-se. Ele encolheu os ombros e caminhou com esforço pelo trilho íngreme ao lado dela.
— Toda a questão sobre Lessingham é um problema — disse ele. — É claro que tu e a Helen viram muito mais dele do que eu. Não é verdade que as pessoas começaram a fazer comentários curiosos sobre ele?
— Como sabia disso, Henry? — exigiu Philippa.
— Bem, ouvem-se coisas — respondeu ele. — Eu deduziria, pelo que ouvi, que a sua posição aqui se tornou um pouco precária. Daí o seu desaparecimento repentino.
— Mas ele vai voltar — lembrou Philippa ao marido.
— Talvez!
Philippa manifestou o seu desejo de que o marido ficasse um pouco para trás com ela. Caminharam lado a lado pelo caminho de gravilha. Philippa manteve as mãos cruzadas atrás das costas.
— Para deixar o assunto do Sr. Lessingham por um tempo — começou ela —, sinto-me muito relutante em pedir explicações sobre qualquer coisa que faças, mas devo confessar uma certa curiosidade sobre o porquê de te encontrar a almoçar no Canton com duas senhoras muito bonitas, há alguns dias, quando saíste daqui com Jimmy Dumble para pescar pescada; e também porque voltas aqui num arrastão que pertence a outra parte da costa?
Sir Henry fez uma careta.
— Estava a começar a perguntar-me se a curiosidade tinha morrido — observou ele, com bom humor. — Se não se importasse de me dar mais... bem, para jogar pelo seguro, digamos oito dias... penso que serei capaz de lhe oferecer uma explicação que considerará satisfatória.
— Obrigada — replicou Philippa, com fria surpresa; — não vejo razão para não responder a perguntas tão simples de imediato.
Sir Henry suspirou de forma desculpante e fez outra tentativa vã de pegar no braço da mulher.
— Philippa, sê um pouco compreensiva — implorou ele. — Sei que pareço ter desempenhado o papel de tolo ultimamente, mas houve uma espécie de razão para isso.
— Que razão poderia haver — exigiu ela — que não pudesses confiar-me?
Ele ficou em silêncio por um momento. Quando voltou a falar, havia uma nova seriedade no seu tom.
— Philippa — disse ele —, tenho trabalhado há algum tempo num pequeno plano que ainda não está maduro para ser discutido, nem mesmo contigo, mas que pode levar a algo que espero que altere a tua opinião. Não poderias encontrar forma de confiar em mim um pouco mais? — pediu ele, com um brilho bastante queixoso nos seus olhos azuis. — Tornaria tudo muito mais fácil para mim não dizer mais nada, apenas pedir-te que aguardasses.
— Pergunto-me — respondeu ela friamente — se te dás conta de quanto sofri, a aguardar, como tu chamas, e à espera que fizesses alguma coisa!
— As minhas excursões de pesca — continuou ele desesperadamente — não foram inteiramente uma questão de desporto.
— Sei disso muito bem — replicou ela. — Estiveste a fazer aquele mapa que prometeste aos teus miseráveis pescadores. Nenhuma dessas coisas me interessa, Henry. Receio... estou muito inclinada a dizer que nada do que fazes me interessa. Menos ainda — continuou ela, com a voz a vibrar de paixão —, aprecio minimamente estes apelos misteriosos à minha paciência. Tenho algum bom senso, Henry.
— És uma criatura suspeitosa — disse-lhe ele.
— Suspeitosa! — zombou ela. — Que palavra para usar um homem que sai para pescar pescada e, alguns dias depois, está a almoçar no Carlton com duas senhoras de atrações extraordinárias!
— Isso foi um pouco embaraçoso — admitiu Sir Henry, com um pequeno impulso de franqueza —, mas faz parte do resto, Philippa.
— Então pode ficar com o resto — retorquiu ela —, exatamente onde o coloquei na minha mente. Por favor, compreende-me. A tua conduta nos últimos doze meses absolve-me de qualquer vínculo que possa existir entre nós. Se esta explicação que prometes vier... a tempo, e eu estiver com disposição, muito bem. Até que venha, estou perfeitamente livre e tu, como meu marido, és inexistente. Essa é a minha resposta, Henry, ao teu pedido de mais indulgência.
— Uma resposta bastante tola, minha querida — respondeu ele, dando-lhe palmadinhas no ombro —, mas, afinal, tu és um pouco criança, não és?
Ela afastou-se dele com raiva.
— Não me toques! — exclamou ela. — Mantenho cada palavra do que disse. Quanto ao facto de ser uma criança... bem, podes arrepender-te um dia por teres insistido em tratar-me como tal.
Sir Henry fez uma pausa por um momento, observando a figura dela a desaparecer. Havia um tom invulgar de preocupação no seu rosto. O seu amor e confiança na esposa tinham sido tão absolutos que mesmo as ameaças dela lhe tinham parecido pequenos bocados de vaidade ferida atirados da espuma do seu temperamento. No entanto, naquele momento, um pensamento mais sombrio atravessou-lhe a mente. Lessingham, percebeu ele, não era um rival, afinal, para ser desprezado. Ele era um homem de coragem e tato, mesmo que Sir Henry, na sua própria mente, o tivesse rotulado de tolo. Se de facto ele estaria a regressar a Dreymarsh, para que seria? Quanto é que Philippa sabia sobre ele? Ele permaneceu ali por alguns momentos indeciso. Um grande impulso viera-lhe para quebrar a sua promessa, para lhe dizer a verdade. Depois, fez o seu caminho perturbado para a sala de pequeno-almoço.
— Onde está a tua mãe, Nora? — perguntou ele, enquanto Helen ocupava o lugar de Philippa à cabeceira da mesa.
— Ela quer que lhe enviem café e torradas para o quarto — explicou Nora. — O vento deixou-a tonta.
Sir Henry tomou o pequeno-almoço em silêncio, tocou a campainha e pediu o carro.
— Vais embora outra vez, papá? — perguntou Nora.
— Vou a Londres esta manhã — respondeu ele, um pouco alheado.
— A Londres? — repetiu Helen. — A Philippa sabe?
— Ainda não lhe disse.
Helen virou-se para Nora.
— Gostava que fosses lá acima ver se a tua mãe quer mais café, minha querida — sugeriu ela.
Nora assentiu de imediato. Assim que ela saiu da sala, Helen inclinou-se e pousou a mão no braço de Sir Henry.
— Não vás a Londres, Henry — implorou ela.
— Mas minha querida Helen, eu tenho de ir — respondeu ele, um pouco bruscamente.
— Eu não iria se fosse a ti — persistiu ela. — Sabes, tu tens posto a Philippa à prova ultimamente, e ela está num estado extremamente emocional. Ela está toda perturbada com a noite passada, e eu não a deixaria sozinha se fosse a ti.
Os olhos azuis de Sir Henry pareceram subitamente pontas de aço enquanto ele se inclinava na direção dela.
— Achas que ela está apaixonada por aquele tipo, Lessingham? — perguntou ele sem rodeios.
— Não, não acho — respondeu Helen —, mas acho que ela está mais furiosa contigo do que imaginas. Durante meses agiste... bem, como hei de dizer?
— Oh, como um cobarde, se quiseres, ou um tolo. Continua.
— Ela pediu explicações às quais tem todo o direito — continuou Helen —, e tu não lhe deste nenhuma. Trataste-a como algo entre uma boneca e uma criança. A Philippa é tão boa e doce como qualquer mulher que já viveu, mas nunca te ocorreu que as mulheres são seres bastante misteriosos? Elas podem por vezes fazer, por um sentimento furioso de estarem a ser tratadas injustamente, por uma espécie de despeito agravado, o que nunca fariam por qualquer outra razão. Se tens de ir, volta esta noite, Henry. Volta, e se fores obstinado, e não quiseres contar à Philippa tudo o que ela tem o direito de saber, conta-lhe sobre aquele almoço na cidade.
Sir Henry franziu o sobrolho.
— Está tudo muito bem, sabes, Helen — disse ele —, mas uma mulher deve confiar no marido.
— Sou tua amiga, lembra-te — respondeu Helen —, e, por minha palavra, eu não conseguiria confiar e acreditar nem no Dick, se ele se comportasse como tu te comportaste nos últimos doze meses.
Sir Henry fez uma careta.
— Bem, isso resolve a questão, suponho — observou ele. — Vou fazer mais uma tentativa e ver o que consigo fazer com a Philippa. Talvez um vislumbre do que se está a passar a satisfaça.
Ele subiu as escadas, encontrando Nora a descer, e bateu à porta da mulher. Não houve resposta. Ele tentou o puxador e encontrou a porta trancada.
— Estás aí, Philippa? — perguntou ele.
— Estou! — respondeu ela friamente.
— Vou a Londres esta manhã. Posso ter algumas palavras contigo antes?
— Não!
Sir Henry ficou um pouco desconcertado.
— Não sejas tola, Philippa — insistiu ele. — Posso estar fora quatro ou cinco dias.
Não houve resposta. Sir Henry lembrou-se subitamente de outra entrada por uma casa de banho recentemente adicionada. Aproveitou-a e encontrou Philippa sentada numa poltrona, a prosseguir calmamente com o seu pequeno-almoço. Ela ergueu as sobrancelhas à entrada dele.
— Estes são os meus aposentos — lembrou ela.
— Não sejas uma tola — exclamou ele impacientemente.
Philippa barrou deliberadamente uma torrada, pegou no seu livro e ficou imediatamente imersa nele.
— Não desejas falar comigo, então? — exigiu ele.
— Não desejo — concordou ela. — Tiveste todas as oportunidades que qualquer homem deveria precisar para me explicar certos assuntos. A minha curiosidade sobre eles terminou; assim como o meu interesse... em ti. Dizes que vais a Londres. Muito bem. Por favor, não te apresses a voltar para casa por minha causa.
Sir Henry, ao virar-se para sair do quarto, cometeu o erro comum de um homem a discutir com uma mulher — tentou ter a última palavra.
— Talvez esteja melhor fora do caminho, eh?
— Talvez sim — assentiu Philippa docemente.
CAPÍTULO XXVI
Philippa, no final daquela tarde, encontrou o que procurava — a solidão. Tinha caminhado ao longo das areias até que Dreymarsh ficou fora de vista, do outro lado de uma escarpa das falésias. À sua frente estendia-se uma planície longa e nivelada, uma orla de areia e uma faixa de praia de cascalho. Não havia sinal de qualquer ser humano à vista, e de edifícios apenas uma torre pitoresca no horizonte longínquo.
Encontrou um lugar seco nos seixos, tirou o chapéu e sentou-se, com as mãos cruzadas à volta dos joelhos, os olhos virados para o mar. Tinha vindo ali para pensar, mas era estranho como os seus pensamentos se tornavam fugitivos e passageiros. O marido estava sempre lá, em segundo plano, mas naqueles momentos era Lessingham a figura predominante. Ela recordava a sua seriedade, a sua terna solicitude para com ela, a coragem que, quando a necessidade o exigia, flamejara nele, uma qualidade inata e natural. Recordava a agonia daqueles poucos minutos no dia anterior, quando nada mais do que aquilo que ainda parecia um milagre o tinha salvo. Num momento, sentia-se inclinada a rezar para que ele nunca mais voltasse. Noutro, o seu coração doía por vê-lo mais uma vez. Sabia muito bem que, se ele viesse, seria por causa dela, que viria para lhe fazer finalmente a pergunta com a qual ela se tinha esquivado. Sabia, também, que a sua chegada seria o momento da sua vida. Ela era tão mulher, e o desejo apaixonado do seu sexo de dar amor por amor estava ali no seu coração, quase omnipotente. E, em segundo plano, havia aquele desejo amargo de infligir sofrimento ao homem que a tinha tratado como uma criança, que a tinha colocado numa posição falsa perante todas as outras mulheres, que tinha vadiado e desperdiçado os seus dias, alheio ao seu dever, alheio a qualquer obrigação séria. Quando tentava raciocinar, o seu caminho parecia tão claro, e, no entanto, por trás de tudo, havia aquele impulso frio de um puritanismo quase vitoriano, a herança de uma longa linhagem de mulheres virtuosas, um puritanismo que ela própria, uma vez, quando acreditava que era parte da sua segunda natureza, tinha zombado como sendo o resultado de uma das formas mais refinadas de egoísmo.
Disse a si mesma que tinha vindo ali para decidir, e a decisão não se aproximou dela. Uma estrela do final da tarde brilhava fracamente no céu. Uma névoa ténue e vaporosa obscurecia o horizonte e flutuava em grinaldas emaranhadas sobre a face do mar. Apenas aquela linha de areia parecia ainda nítida e distinta e, ao olhar para ela, os seus olhos foram retidos por algo que se aproximava, algo que parecia a princípio apenas um ponto preto em movimento, depois resolvendo-se gradualmente na semelhança de um homem a cavalo, galopando furiosamente. Observou-o enquanto ele se aproximava cada vez mais, a areia a voar dos cascos do seu cavalo, a sua figura imóvel, os olhos aparentemente fixos num ponto distante. Não foi senão quando ele chegou a cinquenta metros dela que ela o reconheceu. O seu cavalo assustou-se ao vê-la e foi subitamente virado com um pulso poderoso. Pequenos salpicos de areia, revolvidos na debandada momentânea dos cascos, caíram sobre a sua saia. Pelo resto, ela observou a luta com calma, uma luta que terminou quase assim que começou. O Capitão Griffiths inclinou-se do seu cavalo trémulo, mas submisso.
— Lady Cranston! — exclamou ele com espanto.
— Sou eu — respondeu ela, sorrindo para ele. — Tem estado a cavalgar para afastar o seu mau feitio?
Ele olhou para os lados trémulos do seu cavalo. Lá para trás, até onde a vista alcançava, havia aquela linha regular de marcas de cascos.
— Tenho mau feitio? — perguntou ele.
— Bem — observou ela —, não o conheço o suficiente para responder a essa pergunta. Estava simplesmente a pensar na noite de ontem.
Ele escorregou do cavalo e ficou de pé diante dela. O seu rosto longo e severo raramente parecera mais malévolo.
— Tive o suficiente para me deixar de mau feitio — declarou ele. — Tinha seguido o rasto de um espião alemão, passo a passo, até o ter ali, à espera de prisão — à espera dela, até — e então recebi aquela mensagem perversa.
— Que mensagem perversa foi essa, afinal? — perguntou ela.
— Isso não interessa — respondeu ele. — Veio de um lugar onde deviam saber melhor, e ordenou-me que não fizesse nenhuma detenção. Enviei hoje ao Ministério da Guerra um relatório completo, e estou a rezar para que eles mudem de ideias.
Philippa suspirou.
— Se não tivesse recebido esse telegrama ontem à noite — observou ela —, parece-me que hoje seria viúva.
Ele franziu o sobrolho e bateu com força na bota com o seu chicote de montar.
— Sim, ouvi dizer isso — admitiu ele. — Atrevo-me a dizer que, se ele não tivesse ido, no entanto, outra pessoa teria ido.
— Teria ido se eu lho tivesse pedido? — perguntou ela.
— Se tivesse dito para ir — respondeu ele, olhando-a fixamente.
Philippa sentiu um pequeno arrepio. Havia algo de sinistro na intensidade do seu olhar e no significado que ele conseguira imprimir ao seu tom. Ela levantou-se.
— Bem — disse ela —, não o quero reter aqui. Estou a começar a sentir frio.
Ele passou o braço pela rédea do cavalo. — Caminharei consigo, se me permitir — propôs ele. Ela não respondeu, e viraram-se para casa.
— Ouvi dizer que Lessingham deixou o local — comentou ele, um pouco abruptamente.
— Oh, espero que ele volte — respondeu Philippa.
— Há quanto tempo, Lady Cranston, se dedica a conviver com espiões alemães? — perguntou ele.
— Não seja tolo — ou impertinente — ordenou ela. — Está a cometer um erro ridículo sobre o Sr. Lessingham.
Ele riu de forma desagradável.
— Não precisamos de nos esquivar — disse ele. — Eu e a senhora sabemos quem ele é. O que eu quero saber, o que tenho estado a perguntar-me durante todo o caminho desde o ponto ali — quatro milhas de galope intenso e uma pergunta — por que é que é amiga dele? O que é ele para si?
— A sério, Capitão Griffiths — protestou ela, olhando para ele —, de que possível interesse pode isso ser para si?
— Bem, é, de qualquer forma — respondeu ele rudemente. — Tudo o que lhe diz respeito é de interesse para mim.
Philippa percebeu naquele momento, talvez pela primeira vez, o que tudo aquilo significava. Percebeu o significado daquelas visitas à tarde aparentemente sem propósito, quando, por puro tédio, ela tinha tido de mandar chamar a Helen para a ajudar; o significado daqueles longos silêncios, os olhos melancólicos que pareciam seguir os seus movimentos. Sentiu um desejo incontrolável de rir e, depois, aos primeiros espasmos dos seus lábios, conteve-se. Sabia que a tragédia a acompanhava ao seu lado.
— Penso, Capitão Griffiths — disse ela gravemente —, que está a dizer disparates, e não é muito bom nisso. Não quer fazer o favor de cavalgar?
Ele não fez nenhum movimento para montar o cavalo. Caminhou pela areia macia ao lado dela — uma figura estranha, alongada, os seus olhos sombrios fixos no chão.
— Até este tipo, Lessingham, chegar, a senhora nunca foi tão dura — persistiu ele.
Ela olhou para ele com genuína curiosidade.
— Nunca fui tão dura? — repetiu ela. — Imagina que alguma vez, por um momento sequer, considerei o meu comportamento para consigo — para consigo, de todas as pessoas no mundo? Simplesmente não me lembro de quando esteve presente e de quando não esteve. Não me lembro dos humores em que estive quando conversámos. Tudo o que disse parece-me ser o maior dos disparates.
Ele montou na sela e apanhou as rédeas.
— Obrigado — disse ele amargamente —, compreendo. Só deixe que lhe diga isto — continuou ele, com o chicote equilibrado na mão. — Pode ter amigos poderosos que salvaram o seu...
Ele hesitou durante tanto tempo que ela olhou para ele e leu no seu rosto tudo o que ele desejara dizer.
— O meu quê? — perguntou ela.
A coragem faltou-lhe.
— O Sr. Lessingham — prosseguiu ele —, de ser detido. Mas se ele voltar a mostrar o rosto aqui em Dreymarsh, não me darei ao trabalho de o deter. Hei de abatê-lo à vista e arcar com as consequências.
— Eles enforcá-lo-ão! — declarou ela selvaticamente.
Ele riu-se dela.
— Enforcar-me por abater um homem que posso provar ser um espião alemão? Eles não se atreverão! Nem sequer se atreverão a deter-me por uma hora. Ora, quando a verdade for conhecida — continuou ele, com a voz a ganhar coragem à medida que a justiça do seu caso se lhe impunha —, o que é que supõe que acontecerá a duas mulheres que acolheram este tipo e o protegeram, o apresentaram sob um nome falso aos seus amigos, lhe deram liberdade total na sua casa — este homem que elas sabiam, desde o início, ser alemão? Você, Lady Cranston, a queixar-se e a ralhar com o seu marido de dia e de noite porque ele não está onde você acha que deveria estar; você, tão patriótica que não suporta vê-lo fora da farda; você — a anfitriã, a protetora, Deus sabe lá o quê de Bertram Maderstrom! Será uma bela história quando tudo for contado!
— Penso realmente — afirmou Philippa calmamente — que você é a criatura mais absolutamente impossível e detestável que já conheci.
O rosto dele tornou-se perigoso por um momento. Eles ainda não tinham chegado ao promontório que os abrigava de Dreymarsh.
— Talvez — murmurou ele, inclinando-se malignamente para ela —, eu pudesse tornar-me ainda mais detestável.
— Muito possivelmente — respondeu ela —, só que quero dizer-lhe isto. Se der mais um centímetro que seja na minha direção, um deles irá abatê-lo.
— O seu amigo ou o seu marido, eh? — zombou ele.
Ela fez-lhe um gesto para que seguisse.
— Penso — disse-lhe ela — que qualquer um deles seria perfeitamente capaz de livrar o mundo de um cobarde como você.
— Um cobarde? — repetiu ele.
— Precisamente! Não é o papel de um cobarde aterrorizar uma mulher?
— Não quero aterrorizá-la — disse ele, amuado.
— Bem, tem de admitir que não demonstrou qualquer desejo particular de se tornar agradável — apontou ela.
Ele virou-se subitamente para ela.
— Sou um tolo, eu sei — declarou ele amargamente. — Sou um tolo desajeitado, nervoso e miserável, o meu pior inimigo, como dizem de mim no Mess, voltando contra mim as pessoas de quem quero que gostem de mim, tropeçando em cada erro que um tolo pode cometer. Sou o tipo de homem de quem as mulheres fazem troça, e você fê-lo por elas cruelmente, perfeitamente.
— Capitão Griffiths! — protestou ela. — Quando é que eu alguma vez fui outra coisa senão gentil e cortês para consigo?
— Não é da sua gentileza que eu preciso, nem da sua cortesia! Há uma maldição sobre a minha língua — continuou ele desesperadamente. — Não sou como os outros homens. Não sei como dizer o que sinto. Não consigo pô-lo em palavras. Todos me interpretam mal. Você também! Eis que cheguei até si esta tarde a cavalo e o meu coração batia de alegria, e em cinco minutos fiz de si uma inimiga. Maldito seja esse tal de Lessingham! É tudo culpa dele!
Sem o menor aviso, descarregou o seu chicote nos flancos do cavalo. A égua deu um grande repelão e ele partiu, cavalgando a um galope furioso. Philippa observou-o com um imenso alívio. Ao longe, pôde ver dois pequenos pontos a tornarem-se cada vez maiores. Ela apressou-se na direção deles.
— O que é que fizeste ao Capitão Griffiths, mamã? — perguntou Nora. — Ele passou por nós sem olhar para baixo, a galopar como um louco, e a cara dele parecia... bem, parecia o quê, Helen?
Helen estava a olhar inquietamente ao longo das areias.
— Como um homem a cavalgar em direção ao seu inimigo — declarou ela.
CAPÍTULO XXVII
Philippa e Helen olharam uma para a outra um pouco melancolicamente através da mesa de almoço.
— Suponho que se sente a falta da criança — disse Helen.
— Sinto-me demasiado deprimida para encontrar palavras — admitiu Philippa.
— Há poucos dias — lembrou Helen à sua companheira —, estávamos a ter toda a excitação que era boa para qualquer pessoa.
— E um pouco mais — concordou Philippa. — Não sei por que razão as coisas parecem tão monótonas agora. Devíamos estar realmente contentes por nada de terrível ter acontecido.
— Com Henry e o Sr. Lessingham ambos ausentes — continuou Helen —, e o Capitão Griffiths a não se aproximar do local, realmente voltámos ao normal, não voltámos? Pergunto-me... se o Sr. Lessingham terá voltado.
— Não creio — murmurou Philippa.
Helen franziu ligeiramente o sobrolho.
— Pessoalmente — disse ela, com alguma ênfase —, espero que tenha.
— Se considerarmos apenas o ponto de vista pessoal — retorquiu Philippa —, espero que não.
Helen olhou-a com desaprovação.
— Eu teria pensado que já tinhas tido o suficiente de brincar com o fogo — observou ela.
— Nunca se tem o suficiente até se queimar os dedos — suspirou Philippa. — Sei perfeitamente o que se passa contigo — continuou ela severamente. — Estás a sofrer porque frango ao caril é o prato favorito do Dick.
— Não sou assim tão bebé — protestou Helen. — Ainda assim, faz uma pessoa pensar. Pergunto-me...
— Sei exatamente o que ias dizer — interrompeu Philippa. — Ias dizer que te perguntavas se o Sr. Lessingham manteria a sua promessa.
— Se ele seria capaz — corrigiu Helen. — Parece tão impossível, não é?
— O próprio Sr. Lessingham também o parece — lembrou Philippa. — Não é exatamente uma coisa comum, é, um jovem perfeitamente encantador e bem-educado sair de um Zeppelin para dentro da tua sala de estar.
— Acreditas realmente, então — perguntou Helen ansiosamente —, que ele será capaz de cumprir a sua promessa?
Philippa acenou com confiança.
— Sabes — disse ela —, acredito que o Sr. Lessingham, por um meio ou outro, cumpriria qualquer promessa que alguma vez fizesse. Estou à espera de ver o Dick a qualquer momento, por isso podes continuar com o teu almoço, querida, e não fiques a olhar para o caril com lágrimas nos olhos.
— Não é tanto o caril como o chutney — protestou Helen fracamente. — Ele nunca tocava noutro tipo.
— Bem, não me surpreenderia se ele estivesse aqui para acabar com o frasco — declarou Philippa. — Tenho a sensação esta manhã de que algo vai acontecer.
— Por quanto tempo é que a Nora foi embora? — perguntou Helen, após uma breve pausa.
— Por uma quinzena ou três semanas — respondeu Philippa. — A avó dela enviou um telegrama a dizer que ficaria contente por tê-la até ao Natal.
— Porque é que, exatamente — perguntou Helen seriamente —, a enviaste para longe?
Philippa brincou com o seu caril e olhou à volta como se lamentasse a ausência de Mills da sala.
— Achei que era o melhor — disse ela calmamente. — Vês, não tenho a certeza de qual será o futuro imediato deste lar.
Helen inclinou-se sobre a mesa e pousou a mão sobre a da amiga.
— Querida — suspirou ela —, preocupa-me tanto ouvir-te falar assim.
— Porquê?
— Porque sabes perfeitamente, embora tentes ignorá-lo, que no fundo do teu coração não há mais ninguém a não ser o Henry. Não é justo, sabes.
— Para quem não é justo? — exigiu Philippa.
— Para o Sr. Lessingham.
Philippa ficou pensativa durante alguns momentos.
— Talvez — admitiu ela —, esse seja um ponto de vista que não considerei suficientemente.
Helen insistiu na sua vantagem.
— Não creio que te apercebas, Philippa — disse ela —, de quão loucamente apaixonado por ti o homem está. De uma forma perfeitamente ingénua, também. Ninguém poderia deixar de ver isso.
— Então onde está a injustiça? — perguntou Philippa. — Está ao meu alcance dar-lhe tudo o que ele quer.
— Mas tu não o farias, Philippa. Sabes que não o farias! — objetou Helen. — Podes brincar com a ideia na tua mente, mas é só até aí que alguma vez chegarias.
Philippa olhou a amiga firmemente nos olhos. — Discordo de ti, Helen — disse ela. Helen pousou o copo que estivera a elevar aos lábios. Foi a sua primeira indicação realmente séria da tragédia que pairava sobre a vida da sua futura cunhada. De uma forma ou de outra, Philippa parecera-lhe, mesmo a ela, tão distante daquele mundo extenuante de decadência feminina sobreexcitada e sobredrogada, para quem a troca de um marido ou de um amante é meramente um incidente nas excitações do dia. Philippa, com a sua beleza frágil e quase semelhante a uma flor, o seu amor pelos modos sãos de vida e os seus fortes afetos, representava outras coisas. Agora, pela primeira vez, Helen estava realmente com medo, com medo pela amiga.
— Mas nunca poderias... não deixarias o Henry!
Philippa pareceu não encontrar nada de monstruoso na ideia.
— Isso é exatamente o que estou seriamente a pensar fazer — confidenciou ela.
Helen fingiu rir, mas a sua alegria era obviamente forçada. A sua conversa cessou forçosamente com o regresso de Mills à sala.
Então, aconteceu a coisa maravilhosa. As janelas da sala de jantar davam para a entrada da casa e ambas as mulheres puderam ver claramente um automóvel entrar pelo portão e parar à porta da frente. Era obviamente um carro alugado, pois o condutor não estava de libré, mas a figura alta, toda agasalhada em roupas estranhas que ocupava o banco da frente era, por um momento, um mistério para elas. Apenas Helen parecia ter uma premonição maravilhosa da verdade, uma premonição que tinha medo de admitir até para si mesma. A sua mão começou a tremer. Philippa olhou para ela com espanto.
— Parece que viste um fantasma, Helen! — exclamou ela. — Quem raio poderá ser, a vir a esta hora do dia?
Helen estava sem fala, e Philippa adivinhou imediatamente a causa da sua agitação. Ela saltou para os seus pés.
— Helen, não imaginas... — ofegou ela. — Ouve!
Ouviu-se uma voz no corredor — uma voz familiar, embora um pouco tensa e rouca; as saudações decorosas de Mills, agitadas mas fervorosas. E então... Major Richard Felstead!
— Dick! — gritou Helen, enquanto se lançava nos braços dele. — Oh, Dick! Dick!
Foi um momento incoerente e ofegante. De uma forma ou de outra, Philippa viu-se a partilhar o abraço do irmão. Depois, a saraivada de perguntas e respostas foi presentemente interrompida por Mills, trazendo triunfantemente um prato de caril fresco.
— O que desejará o Major beber, minha senhora? — perguntou ele.
Felstead riu-se um pouco sufocado.
— Pela minha palavra, há algo de maravilhosamente sensato no Mills! — disse ele. — É uma coisa horrível para pedir a meio do dia, não é, Philippa, mas posso ter um pouco de champanhe?
— Podes ter a garrafeira inteira — assegurou-lhe Philippa alegremente. — Certifica-te de que trazes o melhor, Mills.
— O Perrier Jonet 1904, minha senhora — foi a resposta murmurada.
O desaparecimento de Mills foi muito breve, e em poucos momentos encontraram-se sentados mais uma vez à mesa. Sentaram-se um de cada lado dele, observando o seu copo e o seu prato. Aos poucos, as suas perguntas e as respostas dele tornaram-se mais inteligíveis.
— Quando chegaste aqui? — quiseram saber.
— Cheguei a Harwich por volta do amanhecer desta manhã — disse-lhes ele; — atravessei da Holanda. Aluguei um carro e conduzi diretamente para cá.
— Quando soubeste que vinhas para casa? — perguntou Helen.
— Apenas há dois dias — respondeu ele. — Nunca estive tão surpreendido na minha vida. Mesmo agora não consigo acreditar na minha sorte. Não consigo ver o que fiz. Os últimos dois meses, na verdade, parecem-me ter sido um sonho. Jove! — continuou ele, enquanto bebia o seu vinho —, nunca pensei que fosse ser um porco tão grande a ponto de me importar tanto com comer e beber!
— E pensa nas semanas disso que tens à tua frente? — exclamou Helen, batendo palmas. — A Philippa e eu teremos um novo interesse na vida — fazer-te engordar.
Ele riu-se.
— Não será muito difícil — prometeu ele. — Tive vários meses de semi-fome antes de o milagre acontecer. Foi tudo apenas a sorte de ter tido um colega em Magdalen que tem servido no Exército Alemão — Bertram Maderstrom era o seu nome. Lembras-te dele, Philippa? Ele era um sueco naqueles dias.
— Que querido ele deve ter sido para se ter lembrado e ter sido tão fiel! — observou Philippa, desviando o olhar por um momento.
— Ele é uma excelente pessoa — declarou Felstead entusiasticamente —, embora o Céu saiba por que razão se tornou alemão! Ele trabalhou como um escravo por mim. Atrevo-me a dizer que não lhe foi tão difícil conseguir-me alojamentos melhores e um criado, e comida decente, mas quando me disseram que eu estava livre... bem, quase que me deixou tonto.
— O querido! — murmurou Philippa pensativamente.
— Lembram-se dele, alguma de vocês? — continuou Felstead. — Ele era bastante bonito, e um pouco tímido, mas um grande desportista.
— Eu... parece que me lembro — admitiu Philippa.
— O nome soa familiar — fez eco Helen. — Toma um pouco mais de chutney, Dick.
— Obrigado! Que porco estou a fazer de mim mesmo! — observou ele alegremente. — Vocês, raparigas, vão pensar que não consigo falar de mais ninguém a não ser de Maderstrom, mas todo o assunto baralha-me tão completamente. Claro, éramos grandes amigos, de certa forma, mas nunca pensei que fosse a menina dos olhos dele, ou algo desse género. Como ele obteve a influência também, não consigo imaginar. E oh! Sabia que havia algo mais que ia perguntar-vos, raparigas — continuou Felstead. — Alguma vez receberam uma carta, ou melhor, uma carta cada uma, sem censura? Apenas uma ou duas linhas? Penso que mencionei Maderstrom, o que não deveria ter tido permissão para fazer nas cartas comuns da prisão.
Felstead estava a servir-se de queijo e não viu o olhar rápido que passou entre as duas mulheres.
— Sim, recebemo-las, Dick — disse-lhe Philippa. — Foi uma tarde... não parece ter sido há tanto tempo. E oh, como ficámos gratas!
Felstead acenou.
— Ele conseguiu fazê-las passar, então. Digam-me, vieram pela Holanda? Qual era o carimbo do correio?
— O carimbo do correio — repetiu Philippa, um pouco hesitante. — Ouviste o que o Dick perguntou, Helen? O carimbo?
— Não creio que houvesse um — respondeu Helen, olhando ansiosamente para Philippa.
Felstead pousou o seu copo.
— Sem carimbo? Querem dizer sem carimbo estrangeiro, suponho? Foram postadas em Inglaterra, eh?
Philippa abanou a cabeça.
— Elas vieram ter connosco, Dick — disse ela —, em mãos.
Felstead estava, sem dúvida, espantado. Ele virou-se na cadeira na direção de Philippa.
— Em mãos? — repetiu ele. — Querem dizer que foram realmente trazidas aqui em mãos?
Talvez algo na sua maneira as tenha alertado. Philippa riu-se enquanto se debruçava sobre a cadeira dele.
— Dir-te-emos como vieram, presentemente — declarou ela —, mas não até terminares o teu almoço, teres bebido a última gota desse champanhe e teres tomado pelo menos dois copos do vinho do Porto que o Mills tem estado a decantar tão cuidadosamente. Depois disso, veremos. Neste momento, apenas tenho um sentimento, e sei que a Helen também o tem. Nada mais importa exceto que te temos de volta em casa.
Felstead deu uma palmadinha na face da irmã, puxou o rosto dela para o seu e beijou-a.
— É tão maravilhoso estar em casa! — exclamou ele desculpando-se. — Mas tenho de vos avisar que sou a pessoa mais raivosa à face da terra. Fui para a guerra com uma certa dose de respeito pelos alemães. Voltei detestando-os como a parasitas. Passei... mas não vou continuar.
Mills fez a sua aparição com o decantador de vinho do Porto.
— Peço perdão à minha senhora — disse ele, enquanto enchia o copo de Felstead —, mas o Sr. Lessingham chegou e está na biblioteca, à espera para a ver.
CAPÍTULO XXVIII
Para o Major Richard Felstead, o anúncio de Mills foi sem significado. Pela primeira vez, porém, ele tornou-se consciente de algo que parecia quase um entendimento secreto entre a sua irmã e a sua noiva.
— Diga ao Sr. Lessingham que estarei com ele num minuto ou dois, se ele tiver a bondade de esperar — instruiu Philippa.
— Quem é o Sr. Lessingham? — inquiriu Richard, assim que a porta se fechou atrás de Mills. — Parece uma hora estranha para visitar.
Helen olhou para Philippa, cujos lábios formaram um decidido negativo.
— O Sr. Lessingham é um cavalheiro que está hospedado na vizinhança — respondeu esta última. — Provavelmente fará o seu conhecimento antes de muito tempo. Incidentemente, ele salvou a vida do Henry na outra noite.
— Soa excitante — observou Richard. — Que forma de destruição estava o Henry a cortejar?
— Houve um arrastão que naufragou na tempestade — explicou Philippa. — Podes vê-lo de todas as janelas da frente. O Henry estava a bordo, a regressar de uma das suas excursões de pesca. Estavam a tentar encontrar a ancoragem de Dumble e foram empurrados para aquele baixo banco de rocha. Uma corda partiu-se, ou algo assim, eles já não tinham foguetes, e o Sr. Lessingham nadou para fora com a linha.
— Soa a um sujeito corajoso — admitiu Richard.
Philippa levantou-se pesarosamente.
— Suponho que ele tenha vindo para nos desejar adeus — disse ela. — Deixar-te-ei com a Helen, Dick. Não a deixes empanturrá-lo. E tu sabes onde estão os charutos, Helen. Leva o Dick para a sala das armas depois. Terão tudo só para vocês e há lá uma lareira.
Philippa entrou na biblioteca num estado de agitação para o qual estava grata por ter alguma desculpa razoável. Ela estendeu ambas as mãos a Lessingham.
— O Dick está de volta... acabou de chegar! — exclamou ela. — Não lhe posso dizer o quão felizes estamos, e quão gratas!
Lessingham elevou os dedos dela aos lábios.
— Estou contente — disse ele simplesmente. — Quer dizer que ele está na casa aqui, agora?
— Ele está na sala de jantar com a Helen.
Lessingham ficou pensativo por um momento.
— Não acha — sugeriu ele —, que seria melhor manter-nos separados?
— Eu estava a perguntar-me — confessou ela.
— Contou-lhe sobre eu ter trazido as cartas?
Ela abanou a cabeça.
— Quase o fizemos. Depois parei... não tinha a certeza.
— Foi sensata — disse ele.
— É você sensato? — perguntou ela rapidamente.
— Em voltar aqui?
Ela acenou.
— O Capitão Griffiths sabe tudo — lembrou-lhe ela. — Ele está simplesmente furioso porque a sua detenção foi interferida. Acredito realmente que ele é perigoso.
Lessingham não se deixou abalar.
— Tive de voltar — disse ele simplesmente.
— Por que foi embora tão subitamente?
— Bem, tive de fazer isso também — respondeu ele —, apenas as causas determinantes foram muito diferentes. Falaremos, se não se importar, apenas sobre a causa que me trouxe de volta. Isso creio que já sabe.
Philippa estava curiosamente com medo. Ela olhou para a porta como se tivesse alguma vaga esperança de fuga. Apercebeu-se de que a necessidade de decisão tinha chegado.
— Philippa — continuou ele —, vê o que é isto?
Ele entregou-lhe dois papéis dobrados. Ela estremeceu. No topo de um, reconheceu uma pequena fotografia sua.
— O que são? — perguntou ela. — O que significa?
— São passaportes para a América — disse-lhe ele.
— Para... para mim? — hesitou ela.
— Para si e para mim.
Eles escorregaram dos seus dedos. Ele apanhou-os do tapete. O rosto dela foi escondido por um momento nas suas mãos.
— Sei tão bem como se está a sentir — disse ele humildemente. — Sei quão terrível choque isto deve parecer-lhe quando chega tão perto. Você é tão diferente das outras mulheres que poderiam fazer esta coisa. É tão mais difícil para si do que para elas.
Ela levantou a cabeça. Ainda havia algo do olhar de uma criança assustada no seu rosto.
— Não me imagine melhor do que sou — implorou ela. — Não sou realmente diferente de qualquer outra mulher, apenas é a primeira vez que este tipo de coisa entrou na minha vida.
— Eu sei. Vê — continuou ele, um pouco melancolicamente —, você ainda não me tomou, até agora, muito na sua confiança, Philippa. Sabe que a amo como um homem ama apenas uma vez. Soa como uma frase vazia dizer isto, mas se me der a sua vida para cuidar, terei apenas um pensamento... fazê-la feliz. Conseguiria? É isso que tem de se perguntar. Você não é feliz agora. Acha que, se ficar aqui, o futuro será melhor para si?
Ela abanou a cabeça tristemente.
— Acredito — confessou ela —, que atingi o limite da minha resistência.
Ele aproximou-se um pouco. As mãos dele pousaram nos ombros dela muito levemente, contudo pareciam uma corrente envolvente. Mais do que nunca naqueles poucos momentos, ela apercebeu-se das qualidades espirituais do rosto dele. Os olhos dele estavam a brilhar. A voz, um pouco quebrada pela emoção, era maravilhosamente terna. Ele olhou para ela como se ela fosse algo precioso e sagrado.
— É isso que teme? — perguntou ele. — Que esta jornada seja uma punição?
— Não — respondeu ela, com a voz embargada. — Temo que seja uma libertação. E, no entanto, tenho medo de que essa liberdade tenha um preço que eu não consiga pagar.
Ele manteve-se em silêncio por um longo momento, observando-a. O som dos passos de Richard, que caminhava pelo corredor exterior, soou como um aviso.
— O preço da felicidade, Philippa, é muitas vezes a própria vida que deixamos para trás — disse ele, num tom quase inaudível. — Se estiver preparada para deixar este mundo, para deixar de ser a pessoa que todos conhecem, então a liberdade será sua. Mas não pode haver retorno. A mulher que sair daqui esta noite nunca poderá voltar a entrar.
Ela estremeceu. O relógio na parede, com o seu tique-taque metódico, parecia medir o tempo que lhe restava.
— E se eu não for? — perguntou ela. — Se eu ficar, e ele for embora?
— Então — respondeu ele, com uma honestidade que a atingiu como um golpe — teremos apenas a memória de uma oportunidade perdida. E, possivelmente, a recordação de que, durante um breve momento, estivemos à beira de algo que, para o bem ou para o mal, teria mudado as nossas almas para sempre.
A porta abriu-se, e Richard entrou, parecendo mais animado.
— Helen está a preparar-nos um café, Phil — disse ele, sem notar a tensão no ar. — Que noite estranha e bela. O luar sobre o mar é quase hipnótico.
Philippa olhou para Lessingham, depois para o irmão. O conflito na sua expressão era evidente, uma luta entre o dever social que lhe tinha sido imposto e o desejo avassalador de escapar daquela existência vazia.
— Tenho de ir — murmurou ela, quase para si mesma.
— Dez horas — disse Lessingham, num tom que apenas ela podia ouvir. — Estarei à espera.
Ele fez uma breve vénia a Richard, um gesto de cavalheiro que não traía o que tinha acabado de transcorrer, e saiu da sala. Richard observou-o afastar-se, confuso.
— Ele é um homem singular, Philippa — comentou o irmão. — Há algo nele que não consigo decifrar.
— Ele é um homem que está a tentar encontrar o seu lugar num mundo que ele próprio ajudou a destruir — respondeu ela, com amargura.
Naquela noite, enquanto a casa mergulhava num silêncio profundo, interrompido apenas pelo movimento das marés e pelo vento suave que soprava do canal, Philippa preparou-se. As suas malas estavam prontas, pequenas e discretas. A casa de Mainsail Haul parecia estranha, como se ela fosse já uma estranha ali.
Às dez horas em ponto, ouviu o som suave do motor de um automóvel a aproximar-se da entrada lateral. O coração disparou-lhe. Era o momento. Ela olhou uma última vez para o seu quarto, para os vestígios da sua vida com Henry, e sentiu uma pontada de culpa seguida de uma fria determinação.
Desceu as escadas em silêncio. A casa estava mergulhada em sombras, e a luz do luar, filtrada pelas janelas altas, desenhava padrões prateados no chão. Ao chegar à porta, hesitou. A voz de Richard, o riso de Helen, as obrigações que a prendiam — tudo parecia agora tão longínquo, como as notas de uma música que já não conseguia ouvir.
Abriu a porta e o ar noturno, fresco e carregado de salitre, atingiu-lhe o rosto. Lessingham estava lá, ao volante, a silhueta escura contra a vastidão do céu estrelado. Ele não disse nada quando ela se aproximou, apenas abriu a porta do passageiro.
Philippa entrou. O motor ronronou, um som poderoso que parecia prometer o fim de todas as suas incertezas. Enquanto o automóvel se afastava, ganhando velocidade ao longo da estrada costeira, ela olhou para trás, para a mansão que desaparecia na escuridão. O destino estava traçado, e pela primeira vez em anos, ela não se sentia prisioneira. Sentia-se, finalmente, a caminho de lugar nenhum, o que, para ela, era o único lugar onde desejava estar.
Sir Henry lançou um olhar para o relógio de pulso e depois para o relógio na lareira.
— Lessingham — disse ele, com uma calma gelada que fez Philippa soltar um arquejo — ouça-me com atenção. O seu automóvel está à porta. O motor está a trabalhar. O caminho por entre as colinas está livre, mas o caminho de volta para a aldeia, por onde terá de passar para chegar à estrada principal, não o está.
Lessingham endireitou os ombros. A sua expressão era a de um homem que esperava o golpe final.
— O que quer dizer com isso? — perguntou.
— Quero dizer que, na minha ignorância da vossa relação, e na minha negligência quanto à vigilância desta casa, permiti que um homem chamado Griffiths chegasse a um acordo com a polícia local. Ele está à espera no portão inferior.
Philippa soltou um grito abafado e cobriu o rosto com as mãos. Sir Henry não desviou os olhos de Lessingham.
— Todavia — continuou Sir Henry —, há um caminho através do pântano, um caminho que apenas os nativos conhecem e que eu, por dever de ofício, tive de mapear minuciosamente. É um trilho perigoso para um veículo, mas, com a maré baixa, é transitável. Se sair agora, e se for capaz de guiar com a precisão de um homem que tem a própria vida em jogo, poderá alcançar a estrada do norte antes que eles percebam que não seguiu pela rota convencional.
— Por que faria isso por mim? — perguntou Lessingham, com a voz rouca.
Sir Henry deu um passo em frente. O seu rosto, endurecido pelo serviço e pelas responsabilidades que Philippa apenas começara a compreender, não mostrava qualquer vestígio de piedade, mas sim um respeito frio e profissional.
— Porque o meu dever é proteger este país — respondeu Sir Henry —, e o meu dever também é, por vezes, reconhecer um adversário que, apesar de tudo, soube manter o seu código. Além disso, a minha mulher pediu-me. E, embora ela não compreenda a totalidade da sua missão, ela compreende que a honra, mesmo no campo do inimigo, merece uma oportunidade.
Philippa soltou um suspiro de alívio que parecia um soluço.
— Vá, Lessingham — comandou Sir Henry. — As luzes do seu carro são um alvo fácil. Apague-as e siga o trilho que contorna a paliçada, à esquerda. O terreno é irregular, mas firme se se mantiver junto à orla das rochas.
Lessingham olhou para Philippa, depois para o marido. Havia uma estranha comunhão de sentimentos naquele momento, algo que transcendia o ódio e a rivalidade. Ele fez uma vénia curta e precisa.
— A minha gratidão não é por mim — disse ele —, mas pelo facto de, uma vez mais, ter tido a oportunidade de aprender algo sobre a natureza daqueles que enfrento.
Sem mais palavras, virou-se e saiu pela porta da biblioteca, fechando-a suavemente atrás de si. Ouviu-se o ranger da gravilha sob os seus passos apressados e, momentos depois, o som do motor, que mudou de tom ao ser engatado, afastando-se em direção à escuridão pantanosa, longe da estrada principal.
Sir Henry caminhou até à janela e abriu-a, deixando entrar o ar salgado da noite. Philippa aproximou-se dele, tremendo, e encostou a cabeça ao seu ombro.
— Ele conseguirá escapar? — perguntou ela num sussurro.
Sir Henry olhou para o horizonte, onde a lua se erguia sobre o mar, prateando as cristas das ondas.
— Se ele for o homem que pensei que fosse — respondeu ele — ele atravessará o pântano. E se o fizer, nunca mais nos cruzaremos. É melhor assim, Philippa. O mundo mudou, e nós, por vezes, somos obrigados a desempenhar papéis que não escolhemos.
Ela fechou os olhos, sentindo o peso daquela noite a esvair-se, substituído por uma estranha paz. O som do motor desaparecera, engolido pela imensidão da costa. Estavam sós, no silêncio da casa, onde a única verdade que restava era a solidez do homem que a abraçava.
— Vamos — disse ele — entendamo-nos, Philippa, e é melhor que o senhor também ouça, Sr. Lessingham. Posso prometer-lhe que as suas hipóteses de fuga não serão diminuídas por eu tomar estes poucos minutos do seu tempo. Philippa — continuou ele, voltando-se para ela —, sempre se apresentou como uma inglesa excessivamente patriótica, contudo, parece-me que fez um acordo com este homem, sabendo muito bem que ele estava ao serviço da Alemanha, para lhe dar abrigo e hospitalidade aqui, acesso à minha casa e proteção entre os seus amigos, em troca de certos favores concedidos ao seu irmão.
Philippa ficou sem fala. Era uma visão do assunto que ela e Helen tinham tentado evitar tão ansiosamente.
— Mas, Henry — protestou ela —, a estadia dele aqui pareceu tão inofensiva. Você mesmo riu-se da ideia de espionagem em Dreymarsh. Não há nada para descobrir. Não se passa nada aqui que o mundo inteiro não pudesse saber.
— Esse nunca foi o meu argumento — interveio Lessingham.
— Nem é a verdade — acrescentou Sir Henry severamente.
— O Barão Maderstrom foi enviado para cá, Philippa, para me espiar, para obter acesso por qualquer meio a esta casa, para roubar, se pudesse, certos planos e cartas náuticas preparados por mim.
Philippa começou a tremer. Parecia privada de palavras.
— Ele disse-me isto — balbuciou ela. — Disse-me há menos de meia hora.
Ouviu-se um bater à porta. Sir Henry moveu-se em direção a ela, mas não rodou a chave.
— Quem é? — perguntou.
— O Capitão Griffiths está aqui com uma escolta, senhor — anunciou Mills. — Ele tomou o automóvel lá fora e pede para ser autorizado a entrar.
CAPÍTULO XXXIII
As palavras de Mills eram claramente audíveis em toda a sala. Philippa fez sinais ansiosos a Lessingham, apontando para as janelas de sacada. Lessingham, contudo, abanou a cabeça.
— Prefiro — disse ele suavemente — terminar a minha conversa com o seu marido.
Houve outro chamamento, mais insistente, vindo de fora. Desta vez foi a voz rouca do Capitão Griffiths.
— Sir Henry Cranston — exclamou ele —, estou aqui com autoridade. Peço que me deixem entrar.
— Onde está a sua escolta?
— No vestíbulo.
— Se eu o deixar entrar — continuou Sir Henry —, virá sozinho?
— Preferiria que fosse assim — foi a resposta ansiosa. — Desejo tornar este assunto o menos desagradável possível para... para toda a gente.
Sir Henry rodou suavemente a chave, abriu a porta e deixou entrar Griffiths. O homem parecia não ver mais ninguém a não ser Lessingham. Teria corrido imediatamente para ele, mas Sir Henry colocou a mão no seu braço.
— Deve gentilmente conter a sua impaciência por alguns momentos — insistiu. — Esta é uma conferência privada. O seu assunto com o Barão Maderstrom pode ser resolvido mais tarde.
— É o meu dever — proclamou Griffiths impacientemente — prender aquele homem como espião. Tenho autoridade, concedida esta manhã em Londres.
— Exatamente — observou Sir Henry —, mas estamos no meio de uma pequena discussão muito interessante que pretendo concluir. A sua vez chegará mais tarde, Capitão Griffiths.
— Não posso tolerar qualquer discussão com homens como esse — declarou Griffiths com desprezo. — Estou aqui no exercício do meu dever e detesto qualquer interferência nele.
— Ninguém deseja interferir consigo — assegurou-lhe Sir Henry —, mas até que eu diga a palavra, obedecerá às minhas ordens.
— No que me diz respeito — interveio Lessingham —, quero que fique entendido que não ofereço qualquer defesa.
— Não tem defesa — lembrou-lhe Sir Henry com suavidade. — Suponho que não só teve a audácia de roubar uma carta náutica do meu bolso no meio de uma luta de vida ou morte no arrastão, como coroou esta façanha com uma tentativa deliberada de raptar a minha esposa.
Griffiths parecia, por um momento, estar fora de si. Os seus olhos brilhavam. Os seus dedos compridos contraíam-se. Ele continuava a aproximar-se um pouco mais de Lessingham.
— Ambas as acusações — confessou este último, olhando Sir Henry nos olhos — são verdadeiras.
Então Philippa encontrou-se a si mesma. Viu o brilho repentino nos olhos do marido, a fúria sombria no rosto de Griffiths. Deu mais um passo em frente.
— Henry — insistiu ela —, tens de ouvir o que tenho a dizer.
— Já tivemos palavras que cheguem — interpôs Griffiths selvaticamente.
Sir Henry ignorou a interrupção.
— Estou a ouvir, Philippa — disse ele calmamente.
— Era a minha intenção, há uma hora, deixar este lugar com o Sr. Lessingham esta noite — disse-lhe ela deliberadamente.
— O diabo que o leve! — resmungou Sir Henry.
— Quanto à razão, tu sabes qual é — continuou ela, o seu tom cheio de coragem. — Estou disposta a prostrar-me aos teus pés agora, mas, mesmo assim, fui maltratada. Fui feita o bode expiatório da tua promessa estúpida. Mantiveste-me na ignorância de coisas que uma esposa deveria saber. Até me encorajaste a acreditar que eras um cobarde, quando uma única palavra tua teria mudado tudo. Portanto, digo que és tu o responsável pelo que quase fiz, e pelo que teria feito se não fosse ele... ouve, Henry... se não fosse ele!
— Se não fosse ele — repetiu o marido, intrigado.
— Foi o Sr. Lessingham — declarou ela — quem me abriu os olhos a teu respeito. Foi ele quem se recusou a deixar-me ceder àquele impulso de raiva. Olha para o meu casaco ali. A minha mala está sobre aquela mesa. Eu estava pronta para partir com ele esta noite. Antes de irmos, ele insistiu em contar-me tudo sobre ti. Ele poderia ter fugido, e eu estava disposta a ir com ele. Em vez disso, passou aqueles minutos preciosos a contar-me a verdade sobre ti. Isso foi o fim.
— Lady Cranston omite acrescentar — interveio Lessingham — que, antes de eu o fazer, ela disse-me francamente que os seus sentimentos por mim eram de calorosa amizade... que o seu amor pertencia ao seu marido, e apenas ao seu marido.
— Até quando isto vai continuar? — perguntou Griffiths asperamente. — Tenho autoridade aqui e o poder de levar aquele homem. Estas explicações domésticas não têm nada a ver com o caso.
— Desculpe — retorquiu Sir Henry, com uma ênfase calma —, têm muito a ver com isso.
— Eu sou o Comandante deste lugar... — começou Griffiths.
— E eu possuo aqui uma autoridade que é melhor não contestar — lembrou-lhe Sir Henry severamente.
Houve um momento de silêncio tenso. Griffiths cerrou os dentes com força, mas a sua mão vagueou para a parte de trás do cinto.
— Estou agora — continuou Sir Henry — prestes a anunciar-lhe uma notícia, sobre a qual todos nos regozijaremos quando os jornais de amanhã forem publicados, mas que ainda não é geralmente conhecida. Durante a noite passada, um esquadrão considerável de cruzadores alemães conseguiu atravessar o Mar do Norte e encontrou o seu caminho para um certo porto de importância considerável para nós.
Lessingham estremeceu. O seu rosto estava contraído como se por dor. Tinha o ar de alguém que recua perante a notícia que está prestes a ouvir.
— Aliás — continuou Sir Henry —, três quartos do esquadrão também encontraram o seu caminho para o fundo do mar, e o outro quarto encontrou o nosso próprio esquadrão, à espera da sua retirada, e não voltará.
Lessingham oscilou por um momento sobre os pés. Quase se poderia imaginar que o tom de Sir Henry estava tingido de piedade ao virar-se para ele.
— A carta náutica do campo de minas da qual se apoderou — disse ele —, a qual era o objetivo da sua visita aqui obter, foi uma carta especialmente preparada para si. Veja, o nosso próprio Serviço Secreto não está totalmente a dormir. Aqueles canais muito seguros e convidativos para o tráfego britânico e aliado... marquei-os muito claramente, não marquei? — foram onde eu tinha colocado as minhas minas. Os canais que os seus cruzadores evitaram tão cuidadosamente eram as únicas vias seguras. Por isso, vê por que razão, Maderstrom, não tenho qualquer rancor contra si.
O rosto de Lessingham foi, por um momento, o rosto de um homem atingido. Havia um olhar de horror surdo nos seus olhos.
— É a verdade? — ofegou ele.
— É a verdade — assegurou-lhe Sir Henry gravemente.
— Isto conclui as explicações? — perguntou o Capitão Griffiths impacientemente. — A sua notícia é magnífica, Sir Henry. Quanto a este criminoso...
Sir Henry levantou a mão.
— O destino de Maderstrom — disse ele — é meu para tratar e não seu, Capitão Griffiths.
Philippa foi a primeira a compreender as intenções do homem que estava a apenas alguns metros dela. Lançou-se sobre o seu braço e puxou para baixo o revólver que ele tinha levantado. Sir Henry, com um grito de fúria, caiu sobre eles imediatamente. Agarrou Griffiths pela garganta e atirou-o para cima do sofá. O revólver chocou inofensivamente contra o tapete.
— O Serviço de Sua Majestade não tem utilidade para loucos — trovejou ele. — Sabe que possuo autoridade superior aqui.
— Aquele homem não escapará! — gritou Griffiths.
Ele lutou pelo seu apito. Sir Henry arrancou-lho e apanhou o revólver do tapete.
— Ouça aqui, Griffiths — repreendeu ele severamente —, um único movimento em oposição aos meus desejos custar-lhe-á a carreira. Que não haja mal-entendidos quanto a isso. Aquele homem não será preso por si esta noite.
Griffiths cambaleou para ficar de pé. Estava meio dominado, meio furioso.
— Assume a responsabilidade por isto, Sir Henry? — exigiu ele de voz grossa. — O homem é um traidor comprovado. Se o ajudar a escapar, está sujeito a penalizações...
Sir Henry abriu a porta.
— Capitão Griffiths — interrompeu ele —, não ignoro a minha posição neste assunto. Acredite em mim, a sua última hipótese de manter a sua posição aqui é lembrar-se de que teve ordens específicas para ceder à minha autoridade em todos os assuntos. Por favor, saia desta sala e leve os seus soldados de volta para os seus quartéis.
Griffiths hesitou por um único momento. Tinha a aparência de um homem meio dementado por uma paixão que não encontrava saída. Depois, saiu da sala, sem saudação, sem um olhar para a direita ou para a esquerda. No vestíbulo, um momento depois, ouviram uma voz de comando rouca. A porta do vestíbulo foi aberta e fechada atrás do som de passos que se retiravam.
— Sir Henry — lembrou-lhe Lessingham —, não pedi a sua intervenção.
— Meu caro amigo, você não pediria — foi a pronta resposta. — Quanto ao pequeno problema que aconteceu no Mar do Norte, não leve demasiado a peito, foi inteiramente culpa das pessoas que o enviaram para aqui.
— Culpa das pessoas que me enviaram para aqui — repetiu Lessingham. — Mal compreendo.
— É bastante simples — continuou Sir Henry. — Veja, você é tão apto para ser um espião como Philippa, a minha esposa aqui, é para ser uma detetive. Você possui o obstáculo insuperável de ter os instintos de um cavalheiro. — Vamos, vamos — continuou ele —, não temos mais nada a dizer um ao outro. Abra aquela janela e siga pelo caminho estreito até à praia. Jimmy Dumble está à sua espera no portão. Ele levá-lo-á de barco até um arrastão holandês que está ancorado mesmo agora ao largo da ponta.
— Quer que eu fuja? — exclamou Lessingham, perplexo.
— Acredite em mim, não custará nada — assegurou-lhe Sir Henry. — Eu não estava a blefar quando disse ao Capitão Griffiths que tinha autoridade suprema aqui. Ele sabe perfeitamente bem que estou dentro dos meus direitos ao ajudar a sua fuga.
Philippa moveu-se rapidamente para onde Lessingham estava. Estendeu-lhe as mãos.
— Caro amigo — implorou ela —, um amigo tão maravilhoso como tem sido, não recuse esta última coisa.
— Seja um tipo sensato, Maderstrom — disse Sir Henry. — Lembre-se de que não pode fazer a si próprio nem ao seu país adotivo qualquer bem ao agir como um Quixote.
— Além disso — continuou Philippa, segurando-lhe as mãos com força —, é, afinal, apenas uma troca. Você salvou a vida de Henry, libertou Richard e trouxe-nos felicidade. Por que hesitaria em aceitar a sua própria liberdade?
Sir Henry abriu a janela e olhou para uma luz verde no mar.
— Ali está o seu arrastão — apontou ele —, e lembre-se de que a maré virará dentro de meia hora. Não desejo apressá-lo.
Lessingham levou os dedos de Philippa aos lábios.
— Pensarei em ambos sempre — disse ele simplesmente. — Vocês são pessoas muito maravilhosas.
Ele virou-se para a janela. Sir Henry apanhou o chapéu Homburg da mesa ao seu lado.
— É melhor levar o seu chapéu — sugeriu ele.
Lessingham hesitou, aceitou-o e olhou fixamente para o doador.
— Sabia desde o princípio? — perguntou ele.
— Desde o primeiro momento — assegurou-lhe Sir Henry. — Não fique tão confuso — continuou ele, consolador. — Lembre-se de que a espionagem é a única profissão na qual é uma honra falhar.
Philippa entrou um pouco timidamente nos braços do marido, enquanto ele se voltava para o interior da sala. A ternura no seu próprio rosto, contudo, e um pequeno sobressalto na sua voz, derrubaram imediatamente a parede de reserva que tinha crescido entre eles.
— Minha querida pequena mulher! — murmurou ele. — Minha pequena namorada! Não sabes como eu ansiava por explicar-te tudo... incluindo as senhoras russas.
— Explique-as imediatamente, senhor! — insistiu Philippa, fingindo afastar o rosto por um momento.
— Eram a esposa e a cunhada do Almirante russo, Draskieff, que foi enviado para informar sobre o nosso método de colocação de minas — contou-lhe ele.
— Tu e eu temos de ir a um pequeno jantar que elas vão dar amanhã ou no dia seguinte.
— Oh, meu Deus, que idiota eu fui! — exclamou Philippa, arrependida. — Imaginei... todo o tipo de coisas. Mas, querido Henry — continuou ela —, sabes que temos uma grande surpresa para ti... aqui em casa?
— Nenhuma surpresa, querida — assegurou ele, abanando a cabeça. — Eu sabia a hora exata em que Richard deixou Wittenberg. E ei-lo aqui, por Júpiter!
Richard e Helen entraram juntos. Philippa nem conseguiu esperar pela conclusão da saudação calorosa, mas excessivamente britânica, que passou entre os dois homens.
— Ouçam-me, ambos! — gritou ela incoerentemente. — Helen, tu especialmente! Nunca ouviste nada tão maravilhoso na tua vida! Não eram excursões de pesca de todo. Não havia badejos. Henry estava a colocar minas o tempo todo, e ele explodiu metade da frota alemã! Está tudo no Times esta manhã. Ele recebeu uma D.S.O. — o Henry recebeu — e é Contra-Almirante! Oh, Helen, apetece-me chorar!
As duas mulheres vaguearam para um canto distante da sala. Richard apertou a mão do seu cunhado.
— Philippa não é exatamente coerente — comentou ele —, mas soa bem.
— Vês — explicou Sir Henry —, tenho estado a colocar minas desde que a guerra começou. Sempre tive ideias minhas sobre campos de minas, como te deves lembrar. Comecei com a Escócia, e depois transferiram-me para aqui. O Almirantado pensou que seriam muito espertos, e insistiram em que eu mantivesse o meu trabalho secreto. Levou a um pequeno problema com a Philippa, mas penso que já ultrapassámos tudo isso. — Suponho que saibas que aquelas duas jovens estiveram envolvidas numa conspiração real, Dick?
— Sei um pouco — respondeu Richard gravemente —, e tenho a certeza de que acreditarás que eu não a teria tolerado por um momento se tivesse tido alguma ideia do que elas estavam a tramar.
— Tenho a certeza de que não terias — concordou Sir Henry. — De qualquer forma, não resultou em mal nenhum.
— Maderstrom, então — perguntou Richard, com uma compreensão repentina e mais completa do assunto —, estava aqui para te espiar?
— É isso mesmo — assentiu Sir Henry.
Richard franziu o sobrolho.
— E ele subornou a Philippa e a Helen com a minha liberdade!
— Não te preocupes com isso — implorou o seu cunhado. — Elas devem ter sabido por instinto que um tipo como Maderstrom não poderia fazer mal nenhum.
— Onde está ele agora? — perguntou Richard ansiosamente. — A Helen insistiu em manter-me longe, mas ouvimos todo o tipo de rumores. O Comandante tem andado por aqui atrás dele, não tem?
— Sim, e mandei-o embora com uma pulga atrás da orelha! Não gosto do tipo.
— E Maderstrom?
— O pseudo-Sr. Lessingham, eh? — observou Sir Henry. — Bem, para te dizer a verdade, Dick, se há uma pessoa de quem tenho pena na história das últimas semanas, é Maderstrom.
— Tu também? — exclamou Richard. — Ora, toda a gente parece louca pelo tipo.
Sir Henry assentiu.
— Lembro-me dele nos teus tempos de faculdade, Dick. Ele era um cavalheiro e um bom rapaz, apenas, infelizmente, a sua mãe era alemã. Fez a sua parte como soldado com a Guarda Prussiana no início da guerra, levou uma pancada e voluntariou-se para o Serviço Secreto. Mandaram-no para aqui. O tipo deve ter imensa coragem, pois, como calculo que saibas, deixaram-no descer do carro de observação de um Zeppelin. Ele encontra o seu caminho até aqui, faz o seu pequeno acordo tolo com as nossas queridas mas crédulas mulheres, e propõe-se a vigiar... a vigiar-me, nota. Todo o assunto é demasiado ridiculamente transparente. Durante algum tempo, ele não consegue sequer tocar nos meus papéis aqui, embora, como acontece, não lhe tivessem servido de nada. Foi apenas o stress e a excitação do naufrágio na semana passada que o levaram a roubar a carta náutica que eu tinha preparado tão cuidadosamente para ele. Penso mesmo que, se ele não o tivesse feito, eu teria tido de a enfiar no bolso dele ou forçá-la de alguma forma. Ele envia-a como um cordeiro e eis o resultado! Aleijámos a Marinha Alemã para o resto da guerra.
— Era uma carta falsa, então, claro? — perguntou Richard, sem fôlego.
— E das mais espertas que alguma vez preparei — reconheceu Sir Henry. — Posso assegurar-te que teria enganado o próprio Von Tirpitz, se ele a tivesse apanhado.
— Mas onde está Maderstrom agora, senhor? — perguntou Richard.
Sir Henry moveu a cabeça em direção à janela, onde Philippa, nos últimos momentos, tinha ocupado o seu lugar suavemente. Os seus olhos observavam uma luz verde a oscilar ao longe. De repente, ela deu uma pequena exclamação.
— Está a mover-se! — gritou ela. — Ele partiu!
— Ele está seguro num arrastão holandês — declarou Sir Henry. — E penso — acrescentou ele, movendo-se para o aparador — que está na hora de tu e eu tomarmos uma bebida juntos, Dick.
Serviram-se de uísque com soda. Ainda havia muitas explicações a dar. Meio escondida pela cortina, Philippa estava de pé com os olhos voltados para o mar. A luz verde estava mais ténue agora, e o contorno baixo e negro do arrastão arrastava-se lentamente sobre o rasto cintilante do luar. Ela deu um pequeno sobressalto quando ele apareceu. Havia um soluço na sua garganta, lágrimas a arder nos seus olhos. Os seus dedos agarravam as cortinas quase apaixonadamente. Ficou ali a observar até os olhos lhe doerem. Depois sentiu um braço em volta da sua cintura e o sussurro do marido ao ouvido.
— Não te deixei vaguear demasiado longe, pois não, Phil?
Ela virou-se rapidamente para ele, ansiosa pelo conforto dos seus braços estendidos. O seu rosto estava enterrado no ombro dele.
— Tu sabes — murmurou ela.