TORCHY E VEE
CAPÍTULO I
A RÁPIDA DISPENSA DE PUFFY
Devo dizer que, a princípio, não me empolguei muito com essa tragédia de Marion Gray. Vejam bem, eu tinha acabado de chegar de Cleveland, para onde fora enviado pelo Departamento de Material Bélico para fazer um relatório sobre uma nova cozinha motorizada. E, depois de passar dez dias absorvendo informações sobre uma máquina que era um cruzamento entre um rolo compressor e uma carrocinha de lanche para corujas, e de encher meu organismo com ensopados do exército cozinhados em movimento, fui subitamente chamado de volta. Alguém em Washington descobrira que esse tal fogão voador era um problema para o Departamento de Intendência e me telegrafou para desistir do assunto.
Então, eu estava louco para aproveitar um pouco de reunião familiar, ver Vee me contar como ela tinha passado o tempo e que truques engraçadinhos o jovem mestre Richard tinha desenvolvido enquanto eu estive fora. Mas, bem no meio do nosso íntimo e pequeno esboço doméstico, Vee resolve soltar esse desabafo externo.
— Não consigo parar de pensar na pobre Marion — diz ela.
— Hein? — digo eu, levantando os olhos do berço, onde o jovem Snookums acabara de se acomodar confortavelmente e decidido a tirar mais algumas horas de sono. — Qual Marion?
— Ora, Marion Gray — diz ela.
— Ah! — digo eu. — Aquela solteirona de olhos pacientes e sorriso triste?
— Ela mal tem trinta anos — diz Vee.
— Talvez — digo eu —, mas ela está levando a situação a sério.
— Quem não levaria? — diz Vee.
E, tendo chegado até ali, vi que seria melhor deixá-la tirar toda a história do peito. Ela tem convivido cada vez mais com essa tal Marion Gray desde que nos mudamos para Harbor Hills. Um tipo de pessoa rechonchuda, de cor saudável, e mais ou menos brilhante e divertida em seu papo quando estava com disposição. Muitas vezes eu chegava e encontrava Vee rindo alegremente de algumas coisas que a Srta. Gray lhe contara. E, enquanto ela estava em nossa casa, parecia cheia de vida e energia. Exatamente o tipo com quem Vee se dá melhor. Ela era a mesma sempre que a encontrávamos na casa dos Ellins. Mas, fora isso, você nunca a via em lugar nenhum. Ela não fazia parte do grupo do Country Club, e a maioria do pessoal jovem e casado parecia ignorá-la também.
Eu não sabia o porquê. Acho que não tinha pensado muito nisso. Eu sabia que ela tinha perdido o pai e a mãe no último ano mais ou menos, então suponho que tenha atribuído a isso a razão de ela não estar saindo muito.
Mas Vee tem todas as informações privilegiadas. Parece que o velho Gray fora um inválido crônico por anos. Problemas cardíacos. E, durante toda a fase final, ele prometia partir a qualquer momento, mas ficava adiando. Enquanto isso, a Sra. Gray e Marion vinham atuando como enfermeiras de dia e de noite. Ele era um velho rabugento e mal-humorado também, e quanto mais era atendido, mais exigia. Pequenas coisas. Tinha que ter a comida cozinhada exatamente de um jeito, as almofadas da cadeira ajustadas, a luz na medida certa. Tinha que ter alguém lendo para ele tantas horas por dia, tocando para ele, cantando para ele. Não suportava ficar sozinho, nem por meia hora. Não queria pensar, dizia ele. Não queria ver as mulheres tricotando ou fazendo crochê: queria que elas estivessem atendendo-o o tempo todo. Ele tinha uma pequena campainha de prata que mantinha pendurada no braço da cadeira, e quando ele a tocava, uma ou a outra tinha que pular. Talvez você conheça o tipo.
Claro, os Gray viajavam muito; para o Sul no inverno, para o Norte no verão — sempre à procura de um lugar onde ele se sentisse melhor, e nunca encontrando. Se ele estava à beira-mar, reclamava que deveriam estar nas montanhas, e quando chegavam lá, não passava uma semana antes que ele decidisse que o ar era ruim para ele. Deveriam ter tido mais bom senso do que levá-lo para lá. Provavelmente mais uma semana acabaria com ele. Outra longa viagem de trem, de qualquer maneira. Então ele poderia muito bem ficar. Mas será que Marion não poderia ver o proprietário e manter aquelas crianças demoníacas quietas naquela quadra de tênis do lado de fora? E será que a mamãe não poderia tentar fazer uma gemada que não tivesse gosto de panqueca líquida?
Tendo tolerado seus caprichos por muito mais tempo que Marion, e não sendo ela mesma muito forte, a Sra. Gray acabou se esgotando. E quase antes que soubessem de qualquer coisa séria, ela se foi. Então tudo caiu sobre Marion. Claro, se ela fosse uma enfermeira paga, nunca teria suportado esse ato contínuo de jornada dupla. Ou se houvesse inspetores domésticos, assim como há para fábricas, o velho teria sido autuado por violar as leis trabalhistas. Mas, sendo apenas filha, não há ninguém para intervir e lembrá-lo de que a escravidão saiu de moda e que, na maioria dos estados, a fêmea da espécie estava se tornando uma pessoa de verdade. De fato, poucos eram os que achavam que Marion estava fazendo mais do que tinha o direito de fazer. Não era ele seu pai, e não era ele quem pagava todas as contas?
— Com certeza — acrescenta Vee —, ele não percebia que tipo de velho tirano ele era. Nem Marion. Ela considerava ser seu dever, e nunca reclamou.
— Então não vejo quem poderia ter interferido — disse eu.
— Ninguém poderia — disse Vee. — Essa era a pena.
E parece que, nos últimos dois anos, o velho insistiu em se estabelecer em sua casa aqui, onde poderia partir confortavelmente. Ele fora muito lento nisso, no entanto, e quando finalmente seguiu para o Oeste, descobriu-se que, devido à má gestão e às condições de guerra, a renda com a qual viviam tinha encolhido consideravelmente. A bela casa antiga foi deixada livre e desimpedida, mas mal havia o suficiente para mantê-la, a menos que Marion conseguisse um emprego em algum lugar.
— E tudo o que ela sabe fazer é cuidar de enfermos — diz Vee. — Ela nem sequer é uma enfermeira diplomada.
— Não há ninguém com quem ela possa se casar? — sugiro eu.
— Essa é a parte trágica, Torchy — diz Vee. — Existe — o Sr. Biggies.
— O quê, o "Puffy" Biggles! — digo eu. — Não aquela cara de ameixa seca com a careca brilhante e os olhos inchados?
Vee diz que é esse mesmo. Ele tem rondado por ali, como um velho abutre, há três ou quatro anos, jogando xadrez com o velho enquanto ele durou, mas sempre com seus olhos saltados fixos em Marion. E desde que ela ficou sozinha, ele tem ligado regularmente uma vez por semana, insistindo para que ela seja sua queridinha número 3. Ele era o figurão de alguma empresa de seguro de vida de terceira categoria, acredito eu, e razoavelmente bem de vida, e possuía uma propriedade elegante perto do Country Club. Mas ele tinha um cinto tamanho 44, um queixo como o de um pelicano, e era tão curto de fôlego que todos o chamavam de "Puffy" Biggles. Além disso, ele tinha cinquenta anos.
— Um Romeu velho e quente ele seria para uma boa moça como aquela — digo eu. — Ele é a melhor opção dela? Não há uma segunda escolha?
— Havia outro — diz Vee. — Um rapaz bem legal, também — aquele Sr. Ellery Prescott, que tocava órgão tão bem e era algum tipo de corretor. Você se lembra?
— Claro! — digo eu. — Aquele que conseguiu uma patente de capitão em Plattsburg. Ela o mantinha na linha?
— Eles foram amigos por muito tempo — diz Vee. — Estavam praticamente noivos uma vez; embora como ele conseguia ver muito a Marion, não consigo imaginar, com o Sr. Gray sendo tão ríspido com ele. Você vê, ele não jogava xadrez. De qualquer forma, ele finalmente desistiu. Suponho que ele esteja no front agora, e mesmo que ele algum dia voltasse... Bem, Marion raramente o menciona. Tenho certeza, no entanto, de que eles pensavam muito um no outro. Coitada! Ela morria de vontade de ir para o front como voluntária de cantina. E agora ela não sabe o que fazer. Claro, sempre existe o Biggles. Se pudéssemos apenas salvá-la disso!
Ao que observo, fico esquivo. Não gostei do jeito que ela estava olhando para mim. — Ah, vamos lá, Vee! — digo eu. — Abandone esse papo de resgate. Adotar órfãs com mais de trinta anos ou arranjar casamentos adequados está fora da minha alçada. Que tal passarmos resoluções de pesar no caso da Marion e deixarmos por isso mesmo?
— Pelo menos — continua Vee —, podemos fazer um pouco para animá-la. A Sra. Robert Ellins a convidou para jantar amanhã à noite. Nós também.
— Ah, eu vou até lá — digo eu —, embora a última vez que soube algo sobre o esquadrão de cozinha dos Ellins, é um risco.
Eu era um pequeno profeta, também. Suponho que a Sra. Robert não estivesse tendo uma experiência muito pior com seus funcionários do que a maioria das pessoas, mas três cozinheiras em dez dias era muita coisa. Muitas pessoas tinham ficado mais tempo do que isso sem nenhuma, no entanto. Mas quando qualquer copeira pode entrar em uma fábrica de munições ou de aviões e ganhar seus três ou quatro dólares por dia por um turno de oito horas, o que você pode esperar?
Resposta: O que conseguimos naquela noite na casa dos Ellins. A sopa tinha sido queimada uma vez, mas foi resfriada direitinho antes de chegar a nós. O peixe tinha sido aquecido — mal e mal. E o cordeiro assado tinha gosto de ter passado por um processo de embalsamamento. Mas a cozinha era arte pura comparada ao serviço, pois desde que seu mordomo pediu demissão para se tornar um especialista em rebites em um estaleiro, eles têm tido empregadas fazendo o malabarismo com seus pratos.
E essa fada de corpo largo, com olhos que não se alinhavam, certamente não foi construída para nada além de deslizar graciosamente em torno de uma mesa de jantar. Por um lado, ela tinha aquele andar com o passo claudicante, e quando ela entrava pelo portão giratório, ela era tão suave em seus movimentos quanto uma vaca caminhando no convés superior com um mar agitado. De vez em quando ela tropeçava o pé no tapete, e como alguns de nós escapamos de um banho de sopa ou molho, não consigo entender. Talvez estivéssemos com sorte.
Além disso, ela não se importava em alcançar as coisas na sua frente e atingir sua orelha com o cotovelo. Acidentes assim eram pequenas piadas divertidas para ela.
— Desculpe-me, senhor! — ela soltava de forma estridente e infantil, e então se entregava a uma risada maníaca que faria a Sra. Robert agarrar os braços da cadeira.
Ela gostava de ser falante e amigável enquanto servia, também. Seu lema parecia ser: "Coma bem e dê um bom nome à casa". Se você não o fizesse, ela tentava persuadi-lo, ou empurrá-lo para dentro de você.
— Oh, coma mais um pouco da carne, senhorita — diz ela para Vee. — E mais uma batata, agora. Só mais uma, senhorita.
E tudo o que a Sra. Robert consegue fazer é ficar vermelha e, quando ela está fora de alcance, pedir desculpas por ela. — Como você vê — diz a Sra. Robert —, ela mal é uma garçonete treinada.
— Ela daria uma ótima leiloeira, no entanto — sugiro eu.
— Sem dúvida — diz a Sra. Robert. — E suponho que tenho sorte de ter alguém na cozinha, pelo menos para fazer a comida — tal como ela é.
— Você não está sozinha em se sentir assim — digo eu. — Parece ser uma reclamação geral.
O que traz à tona histórias angustiantes de lares destruídos pela guerra, onde nenhum serviço de mordomo era feito há meses, onde choferes e jardineiros só eram representados por estrelas na bandeira de serviço, e de onde até as criadas pessoais tinham partido para serem estenógrafas e enfermeiras. Mas principalmente era a cozinheira desaparecida que era lamentada. Algumas tinham pedido demissão para seguir seus homens para os campos de treinamento, muitas tinham conseguido empregos mais bem pagos, e outras tinham sido atraídas para a cidade, onde podiam pegar as notícias falsas de guerra quentinhas da imprensa e ganhar salários mais altos também.
Claro, havia algumas cozinheiras substitutas — lavadeiras reformadas, amadoras inexperientes e peças antigas que deveriam ter atingido o limite de idade muito antes. E estavam se saindo com uma cozinha bastante horrível. Vee ouvira falar de uma que cozinhou a alface e serviu biscoito de cachorro uma manhã para o café da manhã. A Srta. Gray contou o que aconteceu na casa dos Pemberton Brooks quando sua rainha da cozinha partiu para Bridgeport, onde tinha um marido ganhando setenta e cinco dólares por semana. Os Brooks tinham vivido por três dias de torradas com creme e sardinhas, que era tudo o que a moça do andar de cima tinha em seu repertório culinário.
— E olhe para mim — acrescentou Marion —, com nossa velha cozinheira da família, que pode fazer as melhores coisas do mundo, e mal posso me dar ao luxo de mantê-la! Mas eu não conseguiria afastá-la se tentasse.
Claro, com o fato de termos o Professor e a Madame Battou, o velho casal francês que havíamos anexado há mais de um ano na cidade, não tínhamos do que reclamar. Nem mesmo a escassez de açúcar e farinha parecia incomodá-los, e nossas refeições sofisticadas continuavam regulares como um relógio. Mas, no caminho para casa, Vee e eu começamos a conversar sobre como os vizinhos estavam passando por dificuldades.
— Acho que o que eles precisam por aqui — digo eu — é uma daquelas cozinhas do exército, que circulariam duas ou três vezes por dia entregando nutrição quente de porta em porta.
E eu mal tinha terminado o que pretendia ser um pequeno comentário brincalhão antes de Vee parar subitamente, bem no meio da estrada, e soltar um guincho de empolgação.
— Torchy! — diz ela. — Por que raios você não sugeriu isso antes!
— Porque esse surto de loucura acabou de me atingir — digo eu.
— Mas é exatamente a coisa certa — diz ela, batendo palmas.
— Hein? — digo eu, boquiaberto.
— Para a Marion — diz ela. — Você não vê?
— Mas ela não é uma rotisserie ambulante, é? — digo eu.
— Ela poderia ser — diz Vee. — E ela será.
— Oh, muito bem — digo eu. — Se você decidiu dessa maneira, espero que ela o seja. Mas não entendo muito bem.
Quando Vee se conecta pela primeira vez a uma de suas ideias brilhantes, no entanto, ela tende a ser um pouco enigmática em seus comentários sobre ela. Na verdade, seu esquema é um pouco nebuloso, mas ela tem certeza de que é um sucesso.
— Escute, Torchy — diz ela. — Aqui estão todas essas pessoas de Harbor Hills — talvez cem famílias — muitas delas com cozinheiras ruins, algumas sem nenhuma. E lá está a Marion com aquela Martha, sua velha e esplêndida cozinheira, que poderia cozinhar para todas elas.
— Ah, entendi — digo eu. — Marion pendura um cartaz de pensão?
— Estúpido! — diz ela. — Ela não faz nada do tipo. As pessoas não querem sair para suas refeições; elas querem comer em casa. Bem, Marion leva a elas suas refeições, todas deliciosamente cozinhadas, todas quentes e prontas para servir.
— Com o fogão da cozinha carregado em um caminhão e Martha distribuindo sopa e assados pela traseira, eh? — digo eu.
Mas, mais uma vez, eu perdi o fio da meada. Não, o plano é conseguir muitos daqueles recipientes do exército, como os que eles enviam comida quente para as trincheiras de frente; tê-los preenchidos por Martha em casa e entregues por Marion a seus clientes.
— Poderia funcionar — digo eu. — Precisaria de algum capital, no entanto. Ela teria que investir em muitos recipientes, e precisaria de um caminhão motorizado.
— Eu vou comprá-los — diz Vee. — Vou entrar na sociedade com ela.
— Oh, vamos lá! — digo eu. — Você ficaria bem, não ficaria!
— Você quer dizer que as pessoas falariam? — rebate Vee. — O que me importa? É tão patriótico e tão necessário quanto o trabalho da Cruz Vermelha, ou qualquer outra coisa. Seria conservação científica de alimentos, economia de mão de obra, toda essa espécie de coisa. E pense que coisa maravilhosa seria para a vizinhança.
— Talvez Marion não veja dessa maneira — sugiro eu. — Dirigir um caminhão de jantar por aí pode não atraí-la. Você tem que lembrar que ela é mais ou menos uma solteirona. Ela pode ter noções.
— Confie nela — diz Vee. — Mas pretendo ter meu plano todo elaborado antes de lhe dizer uma palavra. Quando você for à cidade amanhã, Torchy, quero que descubra tudo sobre esses recipientes — quanto os vários compartimentos comportam e quanto custam. Também sobre um caminhão motorizado leve. Haverá outros detalhes, também, sobre os quais estarei pensando.
Sim, havia outros detalhes. Ninguém parecia saber muito sobre tal negócio. Tinha sido tentado em alguns lugares. Vee ouviu falar de algo do tipo que estava sendo testado no East Side. Então, passaram-se três ou quatro dias antes que ela estivesse pronta para lançar essa nova carreira para Marion. Mas uma noite, depois do jantar, ela anuncia que está pronta e me arrasta para lá com ela. Do lado de fora da velha casa dos Gray, encontramos uma limusine, com o motorista cochilando lá dentro.
— É o carro de Biggles! — sussurra Vee. — Oh, e se ele estiver... Venha, Torchy! Rápido!
— Você não interromperia um abraço carinhoso, interromperia? — pergunto eu.
— Se chegasse a esse ponto, certamente — diz Vee, apertando a campainha da porta da frente com determinação.
Espero que ela tivesse feito isso também. Mas Biggles não tinha chegado tão longe — não exatamente. Ele está no recinto, de qualquer maneira, embora com seu rosto gordo meio corado e seus olhos mais saltados do que o normal. E Marion Gray parece estar meio agitada também. Ela está um pouco corada sob os olhos, e quando vê quem é, olha para Vee de uma maneira suplicante.
— Oh, sinto muito interromper — diz Vee, entrando direto e pegando Marion pelo braço. — Você me perdoará, espero, Sr. Biggles, mas preciso falar com a Srta. Gray imediatamente sobre... sobre algo muito importante.
E quase antes que "Puffy" Biggles saiba o que aconteceu, ele é deixado olhando para uma poltrona vazia.
Na pequena e aconchegante biblioteca, Vee empurra Marion para um assento na janela e se instala ao lado dela. Confie em Vee para espetar a sonda logo de uma vez, também.
— Diga-me — ela exige sussurrando —, ele... ele estava insistindo de novo?
Marion cora mais do que nunca. E, diga-se de passagem, com aqueles olhos castanhos tímidos dela, e todas as curvas, ela não é tão difícil de se olhar. — Sim — admite Marion. — Você vê, eu tinha prometido dar a ele uma resposta final esta noite.
— Mas certamente, Marion — diz Vee —, você nunca, em hipótese alguma, diria a ele que você...
— Eu não sei — interrompe Marion, com a voz trêmula. — Parece não haver mais nada.
— Não há, é? — diz Vee. — Apenas espere até ouvir.
E com isso, ela mergulha em um esboço rápido desse esquema de distribuição de jantares, citando fatos e números e dando uma estimativa de lucro que soou mais ou menos generosa para mim.
— Então, veja bem — continua ela, entusiasmada —, você poderia manter sua casa, poderia manter Martha, e estaria fazendo algo perfeitamente esplêndido para toda a comunidade. Além disso, você seria inteiramente independente de... de todos.
— Mas você acha que eu conseguiria fazer isso? — pergunta Marion.
— Eu sei que conseguiria — diz Vee. — De qualquer modo, nós conseguiríamos entre nós duas. Eu fornecerei o capital, cuidarei da contabilidade e ajudarei você a planejar os cardápios diários. Você fará as compras e as entregas. Martha cuidará da cozinha. E pronto! Talvez tenhamos que começar com apenas alguns pedidos de famílias a princípio, mas outros virão rapidamente. Você verá.
A essa altura, Marion estava sendo contagiada pela febre. Seus olhos brilham e seu queixo se levanta.
— Eu acredito que poderíamos conseguir — diz ela.
— E você está disposta a tentar? — pergunta Vee.
Marion concorda com a cabeça.
— Então — diz Vee —, o Sr. Biggles deve ser avisado de que não precisa mais ficar esperando por aí.
— Oh, não vejo como posso — lamenta Marion. — Ele... ele é tão...
— Um grude, não é? Eu sei — diz Vee. — E é uma vergonha que ele tenha outra chance de incomodá-la. Torchy, você não acha que poderia fazer isso por ela?
— O quê? — digo eu. — Contar para o Biggles? Ora, eu poderia fazer isso muito bem. Deixe comigo. Vou colocá-lo no desvio tão rápido que ele nem vai saber que esteve na linha principal.
E não desperdiço nenhuma linguagem diplomática ao fazê-lo, também. A caminho de onde ele está esperando, passo pelo corredor e pego seu novo chapéu-coco e suas luvas amarelas, segurando-os atrás de mim enquanto entro de supetão onde ele está.
— Com licença, Sr. Biggles — digo eu —, mas está tudo cancelado.
— Eu... eu peço perdão? — diz ele, olhando para mim com olhos de peixe e ar estúpido.
— Ah, não vamos ficar andando em círculos — digo eu. — A Srta. Gray apresenta seus cumprimentos, e toda essa parafernália, mas ela está seguindo outro rumo. Se quer saber, ela vai acabar com o consórcio da cozinha e, a partir de agora, estará muito ocupada. Entendeu?
Biggles se enrijece e me olha com altivez. — Não entendo absolutamente nada disso — diz ele. — Eu tinha um compromisso com Marion esta noite; algo bastante importante para... para nós dois. Devo dizer-lhe que fiz uma pergunta momentosa a Marion. Estou esperando pela resposta dela.
— Bem, aqui está ela — digo eu, estendendo o chapéu.
Biggles, ele solta um som indignado e fica roxo nas guelras, mas termina arrancando o chapéu-coco e marchando rigidamente até a porta.
— Entenda — diz ele, com a mão na maçaneta —, não aceito sua impertinência como resposta. Eu... eu verei Marion novamente.
— Com certeza verá — digo eu. — Ela passará para pegar o seu pedido de jantar no início da semana que vem.
— Bah! — diz Biggles, batendo a porta atrás de si.
Mas, diga, em cinco minutos ele já tinha sido apagado do mapa, e aquelas duas garotas estavam planejando sua campanha de comida quente tão ocupadas e animadas como se estivessem preparando o casamento de Marion na igreja. E já passava da meia-noite quando elas terminam.
Você conhece a Vee, no entanto. Ela não é de começar as coisas e depois desistir. Ela é persistente. E uma ótima pequena batalhadora também. Na segunda-feira de manhã, a Harbor Hills Community Kitchen Co. já era um negócio em funcionamento. E antes que a semana terminasse, elas tinham mais de quarenta famílias na lista de pedidos fixos, com novos esquadrões de cozinheiras sendo contratados todos os dias.
O que me deixou de queixo caído foi a primeira vez que vi Marion Gray em seu traje de trabalho. Nada de solteirona naquele traje. Nem pense nisso. Ela foi ao extremo — calças de montaria cáqui, perneiras de couro e um boné de tecido arrojado cortado no estilo de serviço no exterior. Nenhuma daquelas garotas do Women's Motor Corps tinha algo que se comparasse a ela. E talvez ela não seja um verdadeiro espetáculo, também, enquanto pula atrás do volante do caminhão e pisa no pedal do acelerador!
Além disso, fiquei um pouco surpreso ao saber que o empreendimento era lucrativo quase desde o início. As pessoas estavam simplesmente radiantes por ter refeições perfeitamente boas, bem cozidas, bem temperadas e saindo fumaça, colocadas em suas portas dos fundos prontamente todos os dias, sem piratas de frigideira rabugentos resmungando pelas cozinhas, e sem aproveitadores de comida locais explorando-as com grandes contas semanais.
Isso já estava acontecendo há um mês quando, um dia, ao chegar em casa, Vee me recebe com uma "gravata" voadora.
— Oh, Torchy! — ela guincha, "o que você acha que aconteceu?"
— Eu sei — digo eu. — O bebê cortou um dente.
— Não — diz ela. — É... é sobre Marion.
— Oh! — digo eu. — Ela não bateu em alguém com o caminhão, bateu?
— Que absurdo! — diz Vee. — Mas, escute, o Capitão Ellery Prescott voltou.
— O quê! O antigo favorito? — digo eu. — Mas eu achei que ele estava com Pershing?
— Ainda não — diz Vee. — Ele tem estado em algum campo no Oeste treinando recrutas todo esse tempo. Mas agora ele recebeu suas ordens. Ele deve embarcar muito em breve. E ele viu Marion.
— Viu? — disse eu. — Isso lhe deu um choque, ou o quê?
Vee ri e puxa minha cabeça para baixo para que ela possa sussurrar em meu ouvido. — Ele a achou absolutamente deslumbrante, como ela é, é claro. E eles vão se casar depois de amanhã.
— Z-z-z-zing! — digo eu. — Isso coloca um freio no negócio de jantares prontos, imagino.
— De jeito nenhum — diz Vee. — Até que ele volte, depois da guerra, Marion vai continuar.
— De qualquer forma — digo eu, isso acaba com o "Puffy" Biggles como uma tragédia iminente, não é? E imagino que isso também valha a pena.
CAPÍTULO II
OLD HICKORY VIRA O JOGO
Qualquer um pensaria que eu estou com o Corrugated Trust há tempo suficiente para saber que Old Hickory Ellins geralmente consegue o que quer, seja uma ação rápida de um contínuo ou um voto de dois terços da diretoria. Mas de vez em quando eu pareço esquecer, e logo depois fico imaginando se foi contra um tanque que eu bati tão solidamente, ou se alguém jogou o cofre de títulos em cima de mim.
O que me fez errar desta última vez foi um comentário espirituoso que recebi exatamente aqui nos escritórios gerais. Eu tinha acabado de voltar de uma perseguição de três dias atrás de uma remessa atrasada de vigas de ponte e carrinhos de mão de aço que estava endereçada para a França com urgência, e eu tinha me tornado detestável para a maioria dos gerentes de tráfego entre aqui e Altoona, sem mencionar os condutores de carga, chefes de pátio e assim por diante. Mas eu tinha desembaraçado aqueles nove vagões e feito com que seguissem para o North River, e agora eu estava avançando através de um monte de detalhes de escritório que tinham se acumulado enquanto eu estava fora. Eu tinha almoçado luxuosamente um sanduíche de ovo e um donut de guerra que Vincent tinha trazido para mim do automat da galeria, e tinha telefonado para Vee dizendo que talvez eu não chegasse em casa até as 11:13, quando entra esse sujeito pomposo com as folhas de hera venenosa nas ombreiras e exige ver o Sr. Ellins imediatamente. Claro, sou eu com os calcanhares juntos fazendo a saudação rápida.
— Desculpe, major — digo eu, mas o Sr. Ellins não chegará até as 10:30.
— Hah! — diz ele, como se estivesse mordendo um pedaço de vidro. — E quem é você, tenente!
— Detalhe especial do Departamento de Artilharia, senhor — digo eu.
— Oh, é, é? — ele bufa. — Outro "à prova de bombas"! Bem, diga ao Sr. Ellins que voltarei às 11:15 — se este setor não tiver sido capturado nesse meio tempo, e enquanto ele sai em passo acelerado, quase atropela o Sr. Piddie, nosso gerente de escritório de carimbo, que o tinha trazido.
Quanto a mim, fico ali engolindo bolhas de ar até que minha disposição de ruivo baixasse do ponto de ebulição mais uma vez. Então me viro para Piddie.
— Você ouviu, não ouviu? — digo eu.
Piddie concorda. — Mas não entendo muito bem — diz ele. — O que ele quis dizer com... er... "à prova de bombas"?
— Apenas bajulação pura, Piddie — digo eu. — O tipo mais puro. É o jeito dele de indicar que sou um cão covarde escondido sob uma mesa de escrivaninha por medo de que alguém me chute para fora, onde um Lulu da Pomerânia de salão possa me olhar de cara feia. Desculpe-me se não pareço conseguir corar. O fato é, no entanto, que estou me acostumando com isso.
— Oh, mas ora essa! — protesta Piddie. — Ora, todo mundo sabe que você...
— É aí que você está redondamente enganado, Piddie — interrompo. — O que todo mundo realmente sabe é que, enquanto a maioria dos jovens caipiras que foram transformados em uniformes em Plattsburg já estão do outro lado do "Lago do Periscópio" ajudando a esmagar o Hun, eu ainda estou flutuando por aqui sem nada pior do que poeira de carro no meu cáqui feito sob medida. Ora, até mesmo aqueles audaciosos patriotas dos títulos da Liberdade que viajam no trem das 8:03 estão cansados de me perguntar quando serei enviado para dizer a Pershing como isso deve ser feito. Mas quando se trata de um velho ranzinza com uma patente de major de cadeira giratória jogando "à prova de bombas" na minha cara — bem, acho que isso já é o bastante. É aqui que eu recebo uma revisão ou me demito. Exatamente aqui.
E foram sentimentos como esses, só que talvez formulados não tão insolentes, que passei para Old Hickory um pouco mais tarde. Ele ouve com tanta simpatia quanto um guarda de trânsito ouvindo por que você tentou passar no sinal vermelho.
— Acho que já discutimos tudo isso antes, jovem — diz ele. — O Departamento de Guerra reconheceu que, como chefe de uma indústria essencial, tenho direito a um secretário particular; também que você poderia ser mais útil com uma comissão do que sem uma. E eu acho que você tem sido. Então, é isso.
— Desculpe-me, Sr. Ellins — digo eu, mas não consigo ver dessa forma. Não sei se estou sendo secretário particular ou me preparando para um baile de máscaras. Qualquer homem de uma perna só poderia fazer o que estou fazendo. Estou pronto para jogar a comissão fora e me alistar.
— Realmente! — diz ele. — Bem, em primeiro lugar, meu filho, uma comissão em tempo de guerra é algo que não se joga de volta para o governo dos Estados Unidos por causa de qualquer capricho pessoal. Isso não é feito. E depois, também, você tentou se alistar uma vez, não foi, e foi rejeitado?
— Mas isso foi no início do jogo — digo eu, quando os oficiais de recrutamento não estavam aceitando ninguém que não fosse um jovem Sandow. Eu poderia passar agora. Tenha coração, Sr. Ellins. Deixe-me tentar.
Ele mastiga o charuto por um minuto, tamborila pensativo na mesa de mogno e então parece ter uma pequena ideia brilhante.
— Muito bem, Torchy — diz ele, veremos o que meu amigo, Major Wellby, pode fazer por você quando ele chegar.
— Ele! — digo eu. — Ora, ele faria qualquer coisa por mim que a lei não o impedisse.
E, com certeza, quando o major aparece novamente, os dois ficaram trancados no escritório particular por mais de meia hora antes de eu ser chamado. Eu poderia adivinhar, apenas pela maneira como o major olha com afeição para mim, que se ele pudesse, ele me conseguiria um trabalho agradável e fácil cortando a grama na Terra de Ninguém, ou alguma barbada como essa.
— Huh! — diz ele, me avaliando de cima a baixo com um olhar de tribunal noturno. — Quer um comando ativo, não é? E o treinamento dele foi o quê? Quatro anos como contínuo, três como secretário particular! Não adianta, Ellins. Não estamos lutando esta guerra com cestos de lixo ou máquinas de escrever, sabe.
— Oh, vamos lá, major! — intervém Old Hickory. — Por que ser irracional quanto a isso? Admitirei que você pode estar certo, na medida em que seria loucura enviar este jovem para a frente. Mas insisto que, como tenente, ele é bastante útil exatamente onde está.
— Bah! — bufa o major. — Assim como o fazendeiro que está criando porcos e milho. Ele é útil. Mas não colocamos ombreiras nele, nem o enviamos para a França no comando de uma companhia. Para trabalhos como esse, tentamos encontrar jovens que foram treinados para lidar com homens; que sabem como fazer as coisas acontecerem. O que não queremos é... eh? Alguém me chamando no telefone? Tudo bem. Sim, aqui é o Major Wellby. O quê? Oh, não pode ser feito hoje! Sim, sim! Entendo tudo isso. Mas veja aqui, capitão, aquele transporte deve zarpar às... ei, central! Digo, central! Oh, qual é o sentido?
E enquanto o major bate o fone, seu rosto parece um bolo de morango pronto para servir. De alguma forma, o Sr. Ellins parece estar gostando da onda de temperamento do major. De qualquer forma, há um lampejo familiar sob aquelas sobrancelhas espessas dele e não fico nada surpreso quando ele comenta suavemente: — Imagino, major, que alguém não consegue fazer algo.
— Precisamente — diz o major, limpando algumas gotas de suor de sua careca brilhante. — E quando um capitão do exército regular decide que uma coisa não pode ser feita... bem, é inútil, isso é tudo. Neste caso, porém, receio que ele esteja certo, para meu azar!
— De qualquer forma — sugere o Sr. Ellins, ele fez você pensar que a coisa é impossível, eh?
— Pensar! — rosna o major, lançando um olhar desconfiado para Old Hickory. — Digo, Ellins, aonde você quer chegar? Ainda batendo na tecla da burocracia, não é? Talvez você imagine que este seja um caso em que, se você pudesse apenas liberar sua maravilhosa organização, você poderia fazer um milagre?
— Não, major — diz Old Hickory. — Não afirmamos fazer milagres; mas quando decidimos que uma coisa deve ser feita em um determinado momento... bem, geralmente ela é feita.
— Simplesmente assim, eh? — sorri o major sarcasticamente. — Realmente, Ellins, vocês grandes empresários são bons demais para serem verdade. Mas veja aqui; por que não usar sua eficiência incrível em meu benefício. Este pequeno trabalho, por exemplo, que um de nossos capitães mal orientados relata como impossível dentro do prazo limite. Suponho que você apenas apertaria um botão e...
— Nem mesmo isso — interrompe o Sr. Ellins. — Eu simplesmente passaria para o Torchy aqui... e ele faria.
O major olha para mim com indiferença e dá de ombros. — Meu caro Ellins — diz ele —, você provavelmente não percebe, mas esse é o tipo de coisa que aumenta os horrores da guerra. Aqui você não tem a menor ideia de que...
— Talvez — corta Old Hickory, mas aposto cem contra vinte e cinco.
— Feito — diz o major. Então ele se volta para mim. — Quando você pode começar, tenente?
— Assim que eu souber para onde estou começando, senhor — digo eu.
— Que conveniente — diz ele. — Bem, então, aqui está uma ordem para a New York Telephone Co. para cinco carretéis de fio que você encontrará armazenados em algum lugar na Central Park South. Veja se consegue pegá-los.
— Sim, senhor — digo eu. — E suponha que eu consiga?
— Apresente-se a mim no Plutoria antes das 5:30 desta tarde — diz ele. — Estarei tomando chá lá. Ellins, é melhor você estar presente também, para que eu possa coletar os cem.
E foi só isso. Recebi um pedaço de papel com o OK do Quartermaster General, e enquanto esses dois velhos esportistas ainda riam um do outro, eu tinha pegado meu boné de uniforme na escrivaninha e apanhado um elevador expresso.
Claro, eu esperava uma armação. Todos aqueles oficiais do exército são casca-grossa quando se trata de arriscar dinheiro real, e eu sabia que o major deveria achar que seus vinte e cinco estavam tão seguros como se ele os tivesse investido em selos de economia. Quanto a Old Hickory Ellins, ele jogaria cem fora a qualquer momento na chance de dar um bom blefe. Então, eu mesmo me entrego a um pequeno sorriso sombrio e vou para a cidade.
Bastante simples localizar aqueles carretéis de fio. Oh, sim. Eles estão bem no meio do quarteirão entre a Sexta e a Broadway, escondidos discretamente entre a coleção mais seleta de entulho de empreiteiro que você pode encontrar em qualquer lugar da cidade, e isso é dizer muito. Mas talvez você tenha notado o que tem acontecido por lá, onde a rua Cinquenta e nove fica refinada? Parece que um terremoto passou por ali, mas é apenas porque lá embaixo eles estão conectando o novo metrô com outro túnel do East River. E se há algo em termos de guindastes antigos, ou sucata de ferro, ou vigas de madeira, ou galpões de construção que não foi deixado espalhado por cima, é porque eles não tinham à mão para deixar.
Coisinhas bonitas, aqueles carretéis são, também; cerca de um metro e oitenta de altura, noventa centímetros de largura, e pesando uma tonelada ou mais cada, eu deveria julgar. E para tornar o trabalho de movê-los ainda mais alegre, um velho misturador de cimento esteve trabalhando bem ao lado deles e o excesso de concreto foi jogado fora até que eles fossem assentados tão solidamente quanto tantos pilares de ponte. Eu subo e dou uma olhada.
— Que astuto! — digo eu. — Ora, eles fariam o Rochedo de Gibraltar parecer um dente da frente solto. E tudo o que tenho que fazer é arrancá-los pelas raízes, um de cada vez. Ha, ha! Do mesmo modo, hi, hi!
Parecia um caso ruim de picada de abelha comigo na ponta errada do ferrão. Ainda assim, eu era teimoso o suficiente para ficar por perto. Eu ainda tinha quase três horas antes de ter que ouvir o riso alegre do major, e eu poderia muito bem gastar parte dele pensando em esquemas tolos. Então, caminho ao redor daquele grupo de carretéis assentados em cimento mais um pouco. Eu até subo em cima de um e olho para cima e para baixo no quarteirão.
Eles ainda estavam fazendo coisas para fazer parecer menos uma rua da cidade e mais as ruínas de Lovaina. Perto dos portões da Quinta Avenida havia a boca cercada de um poço que levava a algum lugar para as entranhas de Manhattan. E enquanto eu olhava, um "dago" sai, desenrola uma bandeira vermelha suja e interrompe o tráfego até que um "bum" surdo anuncia que a ofensiva acabou por meia hora ou mais. Em direção à Columbus Circle, mais indústria estava acontecendo. Um rolo compressor estava alisando uma faixa de pavimento que acabara de ser repavimentada, e mais perto uma turma estava arrancando mais do asfalto. Fiquei meio interessado na maneira como eles estavam fazendo isso, também. Sabe, eles costumavam fazer essa demolição de rua com picaretas e pés de cabra, mas essa turma parecia ter métodos mais modernos. Eles estavam usando três dessas perfuratrizes pneumáticas e com certeza estavam arrancando tudo de forma rápida e eficiente. Por volta dessa hora, notei que o compressor deles estava funcionando quase em frente a mim e que as linhas de mangueira se estendiam por quinze metros ou mais.
— Ei! — digo eu, nervoso e sem fôlego, mas para ninguém em particular. Eu estava apenas registrando o fato de que tinha tido um pensamento repentino.
Alguns minutos antes, também, eu tinha visto um esquadrão de recrutas passar e entrar no parque. Lembrei-me de notar que lote robusto e bronzeado eles eram, e pelos cordões de seus chapéus que pertenciam ao ramo de artilharia. Bem, isso foi o suficiente. Em um flash, eu tinha pulado o muro de pedra e estava indo interceptá-los.
Você sabe como essas delegações de cantão vagam pela cidade sem rumo quando são despejadas aqui de licença esperando para serem enviadas discretamente para algum transporte? Sem amigos, muito pouco dinheiro e nada para fazer a não ser caminhar pelas ruas ou ficar pelo Y. Eles realmente pareciam meio gratos quando eu os parei e retribuí a saudação. Por sorte, há um sargento de primeira classe no grupo, então não preciso fazer um discurso regular.
— É assim, sargento — digo eu. — Estou procurando alguns voluntários.
— Somos dez, senhor — diz ele, com nada nas mãos a não ser tempo.
— Então talvez vocês me ajudem a aplicar uma peça em um chefe de obras — digo eu. — Não é nada oficial, mas pode ajudar muito o General Pershing.
— Com certeza ajudaremos — diz o sargento. — Agora então, homens. Sentido! E esqueçam esses cigarros por um minuto. Como quer que eles fiquem, tenente... em duplas ou quartetos?
— Duplas parecerão mais impressionantes, eu acho — digo eu. — E apenas sigam-me.
— Formar! — diz o sargento. — Em duplas! Meia volta! Marchar!
Então, quando viro a esquina na rua novamente e vou para cima desse capataz, deixo-o de olhos arregalados desde o início. Ele não parece saber se está sendo preso ou não.
— Qual é o seu nome, meu homem? — digo eu, acenando a ordem do Q.M. de forma ameaçadora.
É Mike alguma coisa, como eu poderia ter adivinhado sem ele quase engasgar para dizer.
— Muito bem, Mike — continuo, com toda a importância que eu conseguia demonstrar. — Está vendo aqueles carretéis ali que vocês fizeram o possível para enterrar? Pois bem, foram requisitados do Departamento Telefônico pelo exército dos EUA. Aqui está a ordem. Agora, quero que você se ponha a trabalhar com sua equipe de perfuração e os solte.
— Mas... mas veja bem, chefe — gagueja Mike —, é um contrato particular em que eles estão trabalhando e eu não poderia depois...
— Não poderia, é? — digo eu. — Deixe-me lhe dizer uma coisa. Esse fio precisa ir em um navio de transporte que deve zarpar logo cedo pela manhã. É para o Corpo de Sinaleiros e eles precisam dele para estender uma linha de comando até Berlim.
— Sinto muito, chefe — disse Mike —, mas eu não me atreveria a...
— Sargento — digo eu —, cumpra o seu dever.
Ah-hã! Isso pegou o Mike em cheio. E quando nós o puxamos de joelhos e o convencemos de que ele ainda não seria fuzilado por pelo menos uma hora, ele ficou tão grato que colocou as perfuratrizes para trabalhar em tempo recorde.
Foi um palpite de primeira, se é que eu mesmo devo admitir. Você deveria ter visto como aquelas máquinas de tiro rápido começaram a desabotoar aqueles grandes carretéis de madeira, especialmente depois que dois do nosso esquadrão de soldados, que haviam trabalhado com rebitadores pneumáticos em casa, assumiram as furadeiras. Outros pescaram umas marretas e pés de cabra de um galpão de ferramentas e ajudaram no trabalho, enquanto Mike encorajava seu grupo com uma linha fluente de réplicas de capataz.
Claro, eu não tinha planejado tudo desde o início, mas ter conseguido me safar com essa primeira investida só me mostrou como era fácil se você não fosse tímido em pedir ajuda. A partir daí, também não deixei passar muita assistência. Puxar os carretéis para o nível da rua engatando o rolo compressor foi minha próxima jogada, mas requisitar um equipamento de jato de areia que estava trabalhando no meio do quarteirão foi ideia toda do Mike.
— Eles precisam ser alisados um pouco, chefe — diz ele.
E dentro de meia hora tínhamos todos os cinco carretéis parecendo novos e brilhantes, como se tivessem acabado de sair da fábrica.
— O que vem a seguir, senhor? — pergunta o sargento.
— Bem — digo eu —, o major rabugento que está tão ansioso para conseguir essas coisas está esperando no Plutoria, a uns dez quarteirões daqui. Talvez ele os queira lá. Será que poderíamos...
— Com certeza! — diz o sargento. — Esse pessoal da artilharia pesada consegue mover qualquer coisa. Aqui! Vou mostrar a eles como se faz.
Com isso, ele passa um pé de cabra pelo centro de um dos carretéis, coloca um homem de cada lado para empurrar e o rola tão facilmente quanto empurrar um carrinho de bebê.
— Tática excelente, sargento — digo eu. — E só por isso vou dar ao seu esquadrão um pouco de música. Melhor fazer isso em grande estilo, não é? Espere um minuto.
E não demorou muito para que eu voltasse de outra corrida ao parque rebocando metade de uma banda marcial que eu tinha pegado emprestada de uns Jovens Reservistas Navais que estavam treinando no campo de beisebol.
Então, foi um pequeno desfile elegante que finalmente organizei para descer a Quinta Avenida. Primeiro venho eu, depois a banda marcial, depois o sargento e seus homens rolando aqueles carretéis de fio. Nós nos estendemos por mais de um quarteirão.
Você pensaria que os nova-iorquinos já estariam tão acostumados com desfiles a esta altura que você não conseguiria fazer com que esticassem o pescoço por nada menos que um regimento de heróis escolhidos a dedo. Eles viram os Diabos Azuis franceses de perto, ficaram boquiabertos com os belgas e fizeram amizade com os Anzacs. Mas, diga, esse truque de empurrar carretel era novidade para eles. O povo simplesmente se alinhava no meio-fio e olhava. Então, algum sujeito começa a torcer e isso é seguido por toda a linha, apenas por fé.
— Ei, vejam os novos tanques rolantes! — grita alguém.
— Vai nessa! — canta outro espertalhão. — Aquilo são bombas de madeira que eles vão jogar no Guilherme.
É a primeira vez que fui incluído em qualquer uma dessas coisas de hurra, e não posso dizer que odiei. Ao mesmo tempo, tentei não parecer muito convencido. Mas quando levei a procissão para a rua lateral e os agrupei em duas fileiras na frente da entrada de carruagens do Plutoria, não tenho certeza se não estava exibindo um sorriso de satisfação.
Não por muito tempo, no entanto. O manobrista de táxi de um metro e oitenta, com uniforme de contra-almirante, aparece imediatamente com um protesto imediato. Ele quer saber que diabo eu acho que estou fazendo, bloqueando sua passagem daquela maneira.
— Vocês não podem fazer isso! Tirem-nos daqui! — diz ele.
— Ah, mantenha a calma, velho Gulash — digo eu. — Sargento, se ele ficar complicado, role um desses carretéis em cima dele. Volto logo.
Com isso, entro no Plutoria e procuro a sala de chá. O major está lá, com certeza, e o Sr. Ellins, também um par de damas. Eles estão sendo servidos com chá Oolong e sanduíches de caviar.
— Ah! — diz o major, ao me notar. — Nosso galante jovem tenente de escritório, não é? Bem, senhor, alguma coisa a relatar?
— Os carretéis estão lá fora, senhor — digo eu.
— Qu... ê... — ele ofega.
— Onde o senhor quer que os coloquem, senhor? — digo eu.
Por volta dessa hora, porém, entram o manobrista de táxi, o gerente e dois detetives do hotel.
— É ele! — diz o manobrista, apontando para mim. — É ele quem está bloqueando o tráfego.
Devo dizer isso sobre o major, porém, ele é um bom esportista. Ele vem direto para a frente e assume toda a culpa.
— Eu sou o responsável — diz ele ao gerente. — E está tudo perfeitamente bem. Necessidade militar, senhor. Bem, talvez você não goste, mas quero que entenda, senhor, que eu poderia bloquear toda a sua rua se eu quisesse. Então, saiam todos vocês.
— Ora, Horace! — intervém uma das damas, agarrando-o pelo braço.
— Sim, sim, minha querida — diz o major. — Eu sei. Sem cena. Certamente que não. Apenas essas pessoas de hotel devem ser postas em seu lugar. E se você me der licença por um momento, verei o que pode ser feito. Venha, tenente. Quero dar uma olhada nesses carretéis eu mesmo.
Bem, ele deu. — Mas... mas eu entendi — diz ele — que eles estavam presos em concreto ou algo do tipo.
— Sim, senhor — digo eu. — Tivemos que soltá-los. Furadeiras pneumáticas e um rolo compressor. Muito simples.
— Deus do céu! — diz ele. — Por que aquele capitão tolo não pensou em... Mas, veja bem, eu não os quero aqui. Agora, se pudéssemos levá-los até o Pier 14...
— Seria um longo caminho para rolá-los, senhor — digo eu —, mas poderia ser feito. Carregá-los em alguns caminhões do exército seria mais fácil, no entanto. Existe um depósito do Intendente no final da Rua Cinquenta e Sete, sabe.
— É verdade — diz ele. — Vou ligar para eles. Entre, tenente, e... e junte-se a nós para o chá? Você mereceu, eu acho.
Mais três minutos e o major anuncia que os caminhões estão a caminho.
— O que significa, Ellins — acrescenta ele —, que você ganha seus vinte e cinco. Aqui estão.
— Se não se importa — diz o Velho Hickory —, vou ficar com isto e passar meus cem para o Torchy aqui. Ele pode querer entreter seu esquadrão voluntário com isso.
Se eu quis? Diga, quando terminei de mostrar àquele grupo de brutamontes da artilharia do Extremo Oeste como passar uma noite realmente agradável pela Broadway, não sobrou troco nem para comprar uma edição extra esportiva. Mas eles tinham feito uma refeição no palácio de lagosta mais vertiginoso sob as luzes brancas, tinham ocupado dois camarotes no show de garotas mais animado da cidade e estavam carregados de cigarros e chocolate o suficiente para durar até a França.
Na manhã seguinte, quando o Velho Hickory entra caminhando nos escritórios gerais, ele para para dar um tapinha amigável no meu ombro.
— Acho que conseguimos revisar a opinião do major — ele observa —, quanto à utilidade geral dos especialistas em proteção contra bombas em certos casos.
Eu sorrio para ele. — Então — digo eu —, ganho uma recomendação para serviço ativo a uma distância de combate dos hunos?
— Nós consideramos isso — diz o Velho Hickory —, mas a decisão foi exatamente como suspeitei desde o início. O major diz que seria um desperdício usá-lo em qualquer coisa menor do que um comando divisional, e não há muitos desses por aí. Principalmente, porém, ele acha que qualquer um que seja capaz de fazer as coisas acontecerem em Nova York da maneira mágica que você consegue deve ser mantido ao alcance de Governor's Island. Então, temo, Torchy, que você e eu teremos que continuar servindo nosso país bem aqui.
— Tudo bem, Sr. Ellins — digo eu. — Suponho que o senhor venceu... como de costume.
CAPÍTULO III
TORCHY PUXA O LADO SÉRIO
Claro, eu não sabia com o que o Velho Hickory estava me colocando de frente quando me chama ao escritório privado e me diz para apertar a mão deste Sr. McCrea. Ele é um sujeito meio baixo e atarracado, com um bigode grisalho e olhos cinzentos meio sonolentos. Ele é um desses caras de movimentos lentos e fala mansa, com modos tranquilos, que caberiam facilmente em uma cadeira giratória e manteriam o emprego de terceiro vice-presidente por toda a vida. Ou ele poderia ser um campeão de xadrez.
Então, quando o chefe continua dizendo como o Sr. McCrea está ligado ao escritório de investigação de Washington, acho que devo ter ficado olhando para ele um pouco curioso. Algum relicário da velha força do escritório, foi meu palpite; alguém que sobrou dos tempos em que o pessoal da S. S. chamava de um grande dia se conseguisse localizar uma fábrica de moedas de chumbo na Mulberry Street, ou surpreender alguns lavadeiros chineses sendo trazidos do Canadá em caixotes. Talvez ele fosse um especialista em impressões digitais.
— E aí — digo eu, olhando para o relógio para ver se as chances eram boas de pegar o trem das 5:17 para Harbor Hills.
— Disseram-me que você conhece a cidade muito bem — sugere McCrea, de forma suave e apologética.
— Eu! — digo eu. — Ah, geralmente consigo encontrar o caminho de volta para a Broadway, mesmo em tempo de neblina.
Ele se permite um pequeno sorriso trêmulo. — Também entendo — continua ele —, que você demonstrou ser um tanto rápido de raciocínio em emergências.
— Devo ter um bom agente de imprensa, então — digo eu, olhando de forma acusadora para o Sr. Ellins.
Mas o Velho Hickory balança a cabeça. — Suspeito que tenha sido meu amigo, o Major Wellby — diz ele.
— Ah! — digo eu. — Aquele para quem resgatei os carretéis de fio? Foi uma sorte grande, aquilo.
— O Sr. McCrea está trabalhando em algo um pouco mais importante — continua o Velho Hickory —, e se você puder ajudá-lo de alguma forma, confio que o fará.
— Com certeza — digo eu. — Qual é a grande ideia?
Ele não parece entusiasmado em abrir o jogo, McCrea, e não sei se o culpo muito. Depois que ele pesca um bloco de notas do bolso interno, ele para e me analisa de forma duvidosa. — Talvez seja melhor eu dizer logo de início — diz ele — que alguns dos nossos melhores homens estão neste caso há várias semanas.
— Cuidando dele, é? — digo eu.
Isso provoca uma risada abafada do Velho Hickory. Mas o Sr. McCrea não parece tão satisfeito com isso. Na verdade, ele desenvolve um vinco entre os olhos e seu próximo comentário não é tão reconfortante.
— Sem dúvida, se eles pudessem ter tido a assistência da sua mentalidade de tiro rápido um pouco mais cedo — diz ele —, teria sido apenas uma questão de poucas horas.
— Nunca se sabe — digo eu. — Você é um dos novos esquadrões?
Aqui o Velho Hickory engole outro gorgolejo e interrompe apressado com: — O Sr. McCrea, Torchy, é o subchefe do departamento, você sabe.
— Puxa! — digo eu, em voz baixa. — Meu erro, senhor. E acho que é melhor eu dar o fora agora, enquanto ainda é tempo.
— Isso não seria um pouco difícil para nós? — pergunta McCrea, levantando as sobrancelhas de forma sarcástica. — Além disso, pense em quão decepcionado o major ficará se falharmos em fazer uso de tal habilidade notável que ele nos garantiu que você possui.
É uma provocação, com certeza, mesmo que ele diga isso tão suavemente. E pelo brilho nos olhos do Velho Hickory, vejo que ele está gostando tanto quanto McCrea. Nada de parcialidade da parte do chefe. Suas simpatias estão sempre com o bom executor. E, em vez de deixar esse detetive de primeira linha me superar tão facilmente, arrisco dizer um pouco mais de conversa fiada.
— Ah, se você vai se sentir mal com isso — digo eu —, claro que tenho que ajudá-lo. Agora, que parte de Manhattan é essa que deixou seus super-Sherlocks tão confusos?
Ele sorri com condescendência e desdobra um pequeno diagrama elegante mostrando uma esquina da Broadway e parte da rua transversal. — É uma questão de três policiais e uma barbearia — diz ele. — Aqui, no porão deste hotel na esquina, fica a barbearia.
— Sim, lembro-me — digo eu. — Otto alguma coisa ou outra a administra. E, por fora, suponho que ele faça espionagem simples e complexa, hein?
— Estaríamos muito interessados que você nos fornecesse provas disso — diz McCrea. — O que suspeitamos, no entanto, é algo um pouco diferente. Acreditamos que o lugar seja mais um centro de informações de espionagem. As notícias parecem chegar lá e sair de lá. O que queremos saber é como.
— Teve alguém lá dentro? — pergunto.
— Sim, essa ideia brilhante nos ocorreu — diz McCrea. — Um dos nossos homens tem operado uma cadeira lá há três semanas. Ele não descobriu nada de importante. Também vigiamos o local por fora, sem sucesso. Então você vê o quão rudimentares nossos métodos devem ter sido.
— Ah, não estou criticando — digo eu. — Talvez eles não tenham tido sorte. Mas e os três policiais?
— Suas rondas terminam nesta esquina — diz McCrea —, uma do centro, uma de longe e a terceira do leste. E temos bons motivos para supor que um dos três é corrupto. Agora, se você puder nos dizer qual deles, e como a informação pode entrar e sair...
— Entendi — interrompo. — Tudo o que você quer de mim é a resposta para um monte de perguntas que vocês estiveram trabalhando o outono todo. Isso é uma ordem de tamanho considerável, não é?
McCrea dá de ombros. — Como mencionei, creio eu — diz ele —, foi o Major Wellby quem sugeriu sua assistência; e como o major por acaso desfruta da confiança de... bem, alguém que é uma pessoa de considerável importância em Washington...
— Uh-huh! — digo eu. — É um caso de eu ser empurrado para você e você ficar de lado rindo quando eu fracassar. Ah, muito bem! Serei o bode expiatório. Mas o major é um bom sujeito, mesmo assim, e não pretendo decepcioná-lo sem pelo menos tentar. Quanto tempo tenho para isso?
— Ah, quanto tempo você quiser — diz McCrea.
— Obrigado — digo eu. — Onde encontro você quando quiser entregar um relatório, em branco ou não?
Ele me dá o nome do seu hotel e, depois de coletar o diagrama do mistério, faço uma saída lenta para minha mesa no escritório ao lado. Eu estava sentado lá meia hora depois, com o cabelo despenteado, fazendo barulho de pensamento profundo, quando entra a mão do destino pisando pesado em seus calcanhares, como de costume.
Não que eu suspeitasse na época que esse Barry Wales pudesse ser algo muito mais do que um incômodo bem-humorado. Ele nem costumava ser isso. Não, a mudança em Barry é apenas mais um pequeno item na conta que temos contra o Kaiser; pois, nos dias antes de entrarmos na guerra, Barry era apenas um dos amigos do clube do Sr. Robert que aparecia casualmente para marcar um jogo de bilhar após o almoço, ou avisá-lo sobre um novo ato de cabaré que valia a pena reservar uma mesa perto das cordas douradas. Além disso, detendo um bom bloco de ações da Corrugated, suponho que Barry considerasse um dia de trabalho quando me fazia mostrar-lhe o último relatório semestral e calcular quanto seriam seus dividendos. Fora isso, ele era um frequentador de bares e mais ou menos um enfeite de vitrine.
Mas a guerra certamente tinha feito uma bagunça com Barry. Não quero dizer que ele foi para lá e ficou com choque de granada ou foi gaseado. Velho demais para isso, e ele tinha muitas coisas erradas com ele. Ah, eu tinha todos os detalhes diretamente; válvula cardíaca com vazamento, encanamento fora de ordem, nervos esgotados de muitas sessões durante toda a noite. Ele estava nesse estado para começar. Mas ele não começou a se gabar disso até que muitos de seu grupo começassem a se tornar úteis de maneiras diferentes. O Sr. Robert, por exemplo, sendo enviado no comando de um barco de patrulha costeira; outros entrando no trabalho da Cruz Vermelha, construção naval e assim por diante. Barry afirma que tentou todos eles e foi rejeitado.
Mas ele está desencorajado? Não o Barry. Se eles não querem colocá-lo de uniforme, com pequenos enfeites bonitinhos no ombro, ou deixá-lo usar perneiras de US$ 28 que teriam um acabamento de mogno, não há nada que o impeça de liberar aquele intelecto poderoso dele e inventar novas maneiras de ganhar a guerra. Então, quando ele está sentado lá em sua janela favorita no clube, olhando distraído para a Quinta Avenida com um copo alto ao lado, ele não é nem metade do folgado que parece para as pessoas no topo dos ônibus verdes.
Não de acordo com Barry. Dez para um, ele está apenas desenvolvendo uma nova ideia. Talvez seja apenas um design para um pôster de selo de economia, mas pode ser um esquema para induzir os suíços a enviarem sua marinha pelo Reno. Mas seja o que for, assim que Barry consegue pensar nisso pela metade, ele tem que sair por aí e contar sobre isso.
Então, quando olho para cima e vejo esse sujeito alto e bem vestido parado ao meu lado, e noto o olhar ansioso e excitado em seus olhos azul-pálidos, sei mais ou menos o que esperar.
— Bem, o que é desta vez, Barry? — digo eu. — Você inventou um pretzel explosivo, ou vai virar chapeleiro e liberar alguma mulher para o trabalho de guerra?
— Ah, ora, Torchy! — ele protesta. — Sem brincadeiras, agora. Estou falando muito sério, sabe. Claro, estando todo despedaçado fisicamente, não posso ir para o front, onde eu daria meu pescoço para estar. Por que, com essa minha válvula cardíaca com vazamento, eu não poderia nem...
— Sim, sim — interrompi. — Já passamos por tudo isso. Não que eu me importasse de ouvir de novo, mas agora estou mais ou menos ocupado.
— Está mesmo? — diz Barry. — Não é perfeitamente incrível! Algo importante, suponho?
— Poderia ser se eu conseguisse realizar — digo eu —, mas como está...
— É isso! — diz Barry. — Eu estava esperando que encontrasse você começando algo novo. Foi por isso que vim.
— É? — digo eu.
— Estou me voluntariando... sob seu comando — diz ele. — Serei o que você disser; sargento, cabo, ou apenas um soldado raso. Qualquer coisa para eu poder ajudar. Veja! Sou todo seu, Tenente Torchy — e ele faz uma saudação de Escoteiro.
— Sinto muito — digo eu —, mas não vejo como poderia usá-lo agora. O fato é que nem posso dizer no que estou trabalhando.
— Ah, perfeitamente formidável! — diz Barry. — Você não precisa me contar uma palavra, ou dar uma dica. Apenas me dê minhas ordens, tenente, e deixe-me prosseguir.
Bem, em vez de expulsá-lo, só consegui que ele ficasse mais grudado do que uma bola de chiclete no relógio de pulso de uma datilógrafa, e depois de tentar fazer mais um pensamento pesado com ele observando admirado de onde eu o tinha plantado em um canto, eu desisti.
— Tudo bem — digo eu. — Acha que aguentaria outra manicure hoje?
Barry olha para suas unhas polidas com dúvida, mas admite que poderia se for parte do dever.
— É — digo eu. — Vou sacrificar um pouco do meu cabelo ruivo no altar da liberdade humana. Venha comigo.
Então, sem suspeitar de onde ele estava indo, eu o levo para a barbearia do Otto. E devo dizer, como uma invasão em força, foi mais ou menos um fracasso. O artista da tesoura que revisa minhas madeixas rosa-mais é um velho de cabelos grisalhos que nunca tinha estado mais perto de Berlim do que a Primeira Avenida. Dois dos outros barbeiros pareciam gregos, e até o Otto tinha cortado as pontas do bigode prussiano. Ninguém no local fazia barulho de espião, e a única satisfação que tive foi deixar o Barry pagar as contas.
— Tenho que ir a algum lugar e pensar — digo eu.
"Que tal um jantar agradável e tranquilo no clube?", diz Barry.
"Não soa nada mal", digo eu.
E não foi, mesmo. Barry insiste em exagerar no pedido, e nem reclama de ter que correr até o bar para buscar suas bebidas, por conta de eu estar de uniforme.
"Faz com que eu me sinta como se estivesse fazendo a minha parte, sabe", diz ele.
"Fale em sacrifícios nobres!", digo eu. "Ora, você vai se qualificar para uma D. S. O. se continuar assim, Barry."
E lá pelo período do baba au rhum, eu consegui colocar meus dedos nas penas altas de uma ideia. Nada demais, mas, já que Barry estava ansioso para ser útil, achei que vi um jeito.
"Suponha que alguém no clube pudesse descolar uma chave de fenda para você?", pergunto.
Em dois minutos, Barry fez todo mundo que estava por perto saltar, do ajudante de garçom ao mordomo, e com o cafezinho veio a chave de fenda.
"Agora o quê, tenente?", exige Barry.
"S-s-s-h!", digo eu, misterioso. "Temos que investigar até a meia-noite."
"Por que não no Follies, então?", sugere Barry.
"Bela ideia!", digo eu.
E para esse tipo de serviço ativo, eu não poderia ter escolhido um homem melhor que Barry. Do nosso camarote, ele aponta a garotinha bonita com os olhos grandes, a terceira da ponta, e até consegue que um dos solistas cante um refrão patriótico para nós. Com base nisso, Barry faz mais duas viagens ao café. Não que ele fique alto o suficiente para que você perceba. Nada disso. Só que ele fica mais entusiasmado com a ideia de ser útil na grande causa.
"Lembre-se, tenente", diz ele enquanto saímos com o movimento da meia-noite, "estou sob ordens. Eh?"
"Com certeza", digo eu. "Você está prestes a recebê-las, também. Alguma vez você já fez algo como roubar um poste de barbeiro?"
Barry não conseguiu se lembrar de ter feito isso.
"Bem", digo eu, "é isso que você vai fazer agora."
"Qual deles?", pergunta Barry.
"O do Otto", digo eu. "Do lugar onde estávamos logo antes do jantar."
"Certo, tenente", diz Barry, fazendo sua continência.
"E escute", digo eu. "Você está decidido a ter aquele poste específico. Entende? Você quer muito. E depois que conseguir, não vai deixar ninguém tirar de você, aconteça o que acontecer, até que eu dê a palavra. Esse é o seu sinal."
"Confie em mim, tenente", diz Barry, endireitando-se. "Eu ficarei ao lado do poste."
Parece simples, não é? Mas é assim que todas as nossas grandes mentes funcionam, ao longo de linhas como essa. E quanto mais tolos parecemos no início, mais fundo tendemos a mergulhar atrás do enredo da peça. Não perca isso. O que é um grampo de cabelo torto na lama para você? Enquanto para nós... rapaz, chame o velho Dr. Watson.
Quantas vezes, por exemplo, você acha que passou pelo Hotel Northumberland? No entanto, você já reparou que a entrada da barbearia ficava exatamente a vinte passos a leste na Umpteenth Street a partir da esquina da Broadway; que você desce três degraus de ferro até um patamar antes de virar para os outros 15; ou que o poste de barbeiro tem um topo dourado com estrelas azuis e é pendurado em um único suporte com dois parafusos de cada lado? Eu aponto tudo isso para Barry enquanto caminhamos pelo distrito dos teatros.
"Por Júpiter!", diz Barry. "Maravilhoso!"
"Não é?", digo eu. "E tudo feito sem trocar de peruca ou dar uma picada de agulha. Agora sua parte é fácil. Você simplesmente caminha pela rua lateral, entra na sombra onde o ponto de táxi se projeta, e quando ninguém estiver passando, você solta os parafusos. Eu, tenho que passar na sala de redação e escrever algo rapidamente. Aqui estamos. Mãos à obra."
Claro, ele poderia ter estragado tudo. Poderia ter deixado a chave de fenda cair por uma grade, ou ter sido pego no ato. Mas Barry cercou a ideia muito bem. Ele não poderia ter feito melhor se tivesse sido enviado para um posto de escuta. E quando saio novamente cinco minutos depois, lá está ele com o poste cuidadosamente enfiado debaixo de um braço.
"Belo trabalho!", digo eu. "Mas não queremos escondê-lo totalmente. Carregue-o de forma descuidada, com seu sobretudo aberto, para que as duas pontas apareçam. Isso é que é!"
Não é um desses postes de barbeiro grandes e vulgares, sabe; não tem mais de quatro pés de comprimento e cerca de quatro polegadas de espessura. Mas é brilhante, e com Barry de traje de noite, ele é obrigado a ser um sujeito chamativo carregando-o. Ainda assim, começo a levá-lo direto pela Broadway, eu seguindo 25 ou 30 pés atrás.
Se fosse mais longe na cidade, ele poderia ter atraído uma multidão de seguidores, mas aqui embaixo só há poucos passando àquela hora da noite. A maioria apenas se vira para olhar para ele e sorrir. Um ou dois fazem uma saudação alegre e perguntam onde a turma de 1910 está realizando o banquete.
Ele tinha feito quase cinco quarteirões antes que um guarda saísse de uma porta e agitasse um cassetete para ele.
"Ei, o que quer dizer com essa palhaçada?", exige o policial.
"Senhor!", diz Barry, dispensando-o com dignidade.
Então eu me misturo. "Está tudo perfeitamente bem, policial", digo eu. "Eu o conheço."
"Ah, conhece?", diz o policial. "Bem, alguns de vocês, caras do exército, sabem muito; e, por outro lado, alguns não. Mas você não pode escapar com tais gestos por aqui no meu posto."
"Mas escute", começo eu, "posso explicar como..."
"Ah, conte para o sargento", diz ele. "Venha comigo, você", e ele pega Barry pelo braço.
Sendo uma noite tranquila na delegacia, o sargento de plantão teve tempo de sobra para ouvir. Ele também tinha acabado de decidir contra Barry quando apresentei meu pedaço de papel. É um recibo completo de um poste de barbeiro, assinado por Otto Krumpheimer. Eu sabia que estava correto porque eu mesmo tinha assinado.
"O que me diz disso?", pergunta o sargento ao policial.
E tudo o que o guarda consegue fazer é olhar para ele e coçar a cabeça.
"Sem caso", diz o sargento. "Vá embora, você."
Então dou um cutucão em Barry. Ele fala prontamente também. "Eu quero meu pequeno poste de barbeiro", diz ele.
"Ah, leve-o embora", diz o sargento, desgostoso.
"Desculpe, policial", digo eu, enquanto saímos, e deslizo uma nota de cinco discretamente para ele.
"Divirtam-se, rapazes", diz ele. "Mas escolham outro posto."
O que fizemos. Desta vez começamos no Northumberland e caminhamos para o leste. Barry tinha chegado quase à Madison Avenue antes que outro policial de olhos de águia o detivesse. Ele faz isso de forma mais ou menos rude, também.
"Solte isso, agora!", diz ele.
"Certamente não", diz Barry, mentindo com entusiasmo. "É o meu poste."
"É, é?", diz o policial. "Talvez você consiga mostrar ao sargento ainda? E talvez eu não saiba de onde você o roubou. Caminhe agora."
Você deveria ter visto o sargento de plantão ficar roxo de raiva quando aparecemos na frente do balcão pela segunda vez. "Diga, o que vocês, esportistas, pensam que estão fazendo, afinal?", ele exige.
"Farei uma acusação de furto simples e conduta desordeira", diz o policial, colocando a evidência na mesa.
"Você fará, Myers?", diz o sargento sarcástico. "Não perguntou a ele se tinha um recibo, suponho? Mostre a ele, tenente."
Eu sorrio e entrego o papel.
"Hah!", resmunga Myers. "Mas Otto Krumpheimer não assina seu nome assim. Nunca."
"Como você sabe?", digo eu.
"Ora", diz Myers, raspando o pé nervoso, "eu... eu apenas sei, só isso. Já vi a escrita dele, muitas vezes."
"Ouviu isso, sargento", digo eu. "Apenas anote isso, quer?"
"Tribunal noturno", diz o sargento.
"Não se importe, Barry", digo eu. "Dever de ofício. E estarei presente quando seu caso for chamado."
"Certo!", diz Barry alegre.
Myers, ele estava ambicioso para nos levar os dois, mas o sargento não via dessa forma. Então, enquanto Barry é levado para o tribunal de polícia, eu entro em um táxi e vou para o hotel de McCrea. Se ele estivesse na cama, eu pretendia tirá-lo de lá. Mas não estava. Encontro-o em seu quarto conversando com outros dois cavalheiros à paisana. Ele parece surpreso ao me ver tão rápido.
"Bem?", diz ele. "Desistindo tão cedo?"
"Eu?", digo eu. "Dificilmente! Eu peguei o policial corrupto."
McCrea solta um suspiro. "Você... você pegou?", diz ele.
"Sim!", digo eu. "Mas ele está com meu assistente. Você pode apresentar um distintivo ou algo parecido para o juiz no tribunal noturno?"
O Sr. McCrea achou que poderia. E ele realmente operou o encanto, pois depois de sussurrar algumas palavras perante o tribunal, tudo foi resolvido. Barry recebe o aceno de que está livre para ir.
"Posso levar meu pequeno poste de barbeiro?", exige Barry.
"Não, não!", exclama Myers. "Não o deixe levar, Juiz."
"Silêncio!", ruge o Juiz. Então, virando-se para um oficial do tribunal, ele diz: "Leve este policial para o Quartel-General para investigação. Sim, Sr. Wales, o senhor pode levar seu poste, mas eu aconselharia que o levasse para casa em um táxi."
"Obrigado gentilmente, senhor", diz Barry. Mas depois que ele sai, ele pergunta suplicante: "Eu não sou mais preso?"
Eu balanço a cabeça. "Acabou por hoje, à noite, Barry", digo eu. "Objetivo alcançado, e se você não se importar, vou cuidar deste saque de guerra. Deixamos você no seu clube, vamos?"
Então eu ainda estava com o poste listrado quando chegamos ao hotel de McCrea. Eu estava mudando-o de lugar no táxi, imaginando onde seria melhor despejá-lo, quando fiz a grande descoberta.
"Ei", sussurro rouco para McCrea, "há algo estranho nisso aqui."
"O poste?", diz ele.
"Uh-huh!", digo eu. "É oco. Há uma pequena alçapão em um dos lados."
"Hah!", diz McCrea. "Traga-o para cima."
E você pensaria, pela maneira como ele e seus amigos procederam para monopolizar a coisa, que era uma descoberta deles. Depois que mostrei a eles onde pressionar a mola secreta, eles se aglomeraram e bloquearam minha visão. Tudo o que consegui foi um vislumbre de alguns papéis que eles tiraram do interior de algum lugar. E eles ficam muito animados enquanto os examinam.
"No mesmo código antigo", diz McCrea.
Mas, finalmente, ele me leva para um lado. "Myers é o homem, com certeza", diz ele.
"Claro que é", digo eu. "Se não fosse, por que ele seria tão sábio sobre de quem era o poste, ou sobre a caligrafia de Otto?"
"Ah!", diz McCrea, acenando com entusiasmo. "Então esse foi o seu sistema ao fazer seu amigo ser preso? Você testou os oficiais. Muito esperto! Mas como você chegou a suspeitar que o poste de barbeiro estava sendo usado como caixa de correio, eu não entendo."
"Não", digo eu, "você não entenderia. É aí que entra a parte profunda."
McCrea aceita isso com um sorriso. "Tenente", diz ele, "terei o prazer de informar ao Major Wellby que a estimativa dele sobre você estava bastante correta. E permita-me dizer que acredito que você prestou um grande serviço ao Governo esta noite; embora como você tenha conseguido tão perfeitamente, eu serei enforcado se entender. E... er... acho que isso é tudo." Com o que ele me impulsiona educadamente em direção à porta.
Mas não era tudo. Nem de perto. Ouvi dizer que algo está a caminho para mim do próprio chefe, e o Velho Hickory tem estado rindo por três dias. Além disso, tive o palpite de que um barbeiro chefe e um policial de Nova York desapareceram. De qualquer forma, quando estive no Northumberland ontem para fazer a barba, não havia sinal de Otto, e o poste de barbeiro ainda estava faltando. Essa é quase toda a informação que chegou ao meu conhecimento.
Barry Wales não sabe nem tanto assim. Mas quando ele vem para se apresentar para ordens futuras, como faz frequentemente agora, ele está com o peito estufado e o queixo erguido.
"Diga, tenente", ele comenta confidencialmente nesta última viagem, "nós conseguimos algo, não conseguimos?"
"Imagino que conseguimos", digo eu.
"Mas sobre o que era tudo aquilo, eh?", ele sussurra.
"Ora", digo eu, "você foi preso duas vezes sem perder sua posição de amador, e uma das listras abriu no meio. Quando me contarem o resto, eu passarei para você."
"Por George! Passará mesmo?", diz Barry, e após executar outra saudação de Escoteiro, ele sai perfeitamente satisfeito.
CAPÍTULO IV
UMA ARMAÇÃO PARA STUBBY
Imagino que eu não devesse ter sido tão exigente. Geralmente não sou. Meu procedimento habitual é apertar o botão e aceitar quem quer que seja enviado do escritório geral. Mas a última jovem datilógrafa que me impuseram deve ter conseguido o emprego com um diploma de algum estabelecimento de cabeleireiro. Ela ficou muito arrogante quando apontei que estávamos usando apenas um "l" em Albany agora, mas nada que eu pudesse dizer a impediria de escrever Bridgeport como duas palavras.
E que maneira descuidada ela tinha de estacionar seu chiclete no canto da minha mesa e esquecer de recuperá-lo. Então, com quatro ou cinco fólios a mais para fazer em um relatório que eu estava preparando para o Departamento de Artilharia, apresento a questão ao Sr. Piddie pessoalmente para escolher o melhor que ele puder dispensar.
"Claro", digo eu, "não espero conseguir o artista principal do Velho Hickory, mas pensei que você pudesse ter um da velha guarda sobrando; uma que não aprendeu a soletrar pelo método do toque, pelo menos."
Piddie suspira. Desde que tantos de seus datilógrafos foram polir pontas de projéteis, ou navegaram para trabalhar em cantinas, ele tem tido dificuldades para manter sua equipe de escritório. "Sabe, Torchy", diz ele, "não tenho mais nenhuma que eu possa garantir; mas suponha que você tente a Srta. Casey, que acabou de se juntar a nós."
Ela não teria sido minha escolha se eu estivesse fazendo a seleção. Uma dessas jovens altas e flexíveis, a Srta. Casey é, tão fina quanto um gole de água, mas forte nos cabelos e nos olhos. Ela desliza esguia, acomoda-se em uma cadeira, arruma seus protetores de orelha naturais e abre seu caderno de anotações de forma profissional. E em dois minutos ela está fazendo o método Pitman em ritmo de jazz, sem necessidade de repetições, exceto quando eu disparava uma série de números para ela. Eu estava me dando o pensamento reconfortante, também, de que tinha tirado a sorte grande.
Seguimos com o relatório até perto da hora do almoço sem nenhum contratempo, até que chego a este parágrafo onde menciono Camp Mills, e a próxima coisa que sei é que ela parou bruscamente e está fungando pelo nariz.
"Eh?", digo eu, boquiaberto para ela. "Estive fornecendo rápido demais?"
"N--não", diz ela, "m--mas é onde Stub está -- Camp Mills -- e isso me atingiu de repente."
"Oh!", digo eu. "E Stub é um irmão ou algo assim?"
"Ele... ele... Bem, aqui!", diz ela, estendendo a mão esquerda e exibindo uma turquesa incrustada com pequenos diamantes.
"Desculpe", digo eu, "mas eu não poderia dizer pelo broche de serviço, você entende, quando alguns os usam para primos de segundo grau. E de qualquer forma, o nome do acampamento tinha que..."
"'Tá tudo bem", funga a Srta. Casey. "Eu não tinha por que derramar lágrimas durante o horário de expediente. Eu não teria, se não tivesse tido outra sessão com a velha dela esta manhã e ela de certa forma me deixou agitada."
"A mãe está levando isso a mal, está?", pergunto eu.
"Você disse algo", admite a Srta. Casey, desabotoando um estojo de maquiagem e reparando o dano feito à sua pintura facial com alguns golpes graciosos. "Não que eu não seja forte pelo Stub Mears. Ele é legal, o Stub, mesmo que nunca pudesse se qualificar em uma competição de beleza com Jack Pickford ou o Sr. Doug. Fairbanks. Ele é boa companhia e tudo mais, e agora que está no exército, espero que ele abandone aquela ambição de ser o campeão de sinuca peso-pesado do West Side.
"Mas ao ouvir a Sra. Mears falar, você pensaria que ele era um dos pilares do universo, e que quando o novo recrutamento levou o Stub, foi um caso em que o Congresso deveria parar e respirar fundo. Uh-huh! Ela é 100 por cento mãe, a Sra. Mears é, e parece que um pouco disso foi contagioso para eu ficar com os olhos marejados só de mencionar o acampamento em que ele está. Oh, senhora, senhora! Desculpe, por favor, senhor."
O que faço alegremente. E só para provar que não sou nenhum capataz, eu meio que incentivo a Srta. Casey, a partir daí até a hora do almoço, a conversar sobre esse romance de guerra dela. Parece que o Sr. Mears poderia ter estado na Classe B, por conta de sua mãe viúva e ele ser ajudante de encanador quando tinha tempo de sobra de sua prática de sinuca. Vivendo no mesmo quarteirão, eles se conheciam há bastante tempo, também.
Não, não tinha sido nada sério no início. Ela tinha ido com ele ao baile anual da União 26 por dois anos seguidos e a eventos sociais importantes como esse. Mas houve outros rapazes. Dois ou três. E um tinha um emprego perfeitamente bom como gerente de uma filial da United Cigar. Stub tinha sido ótimo para ficar por perto, no entanto, e quando ele apareceu em seu uniforme... bem, isso selou as coisas.
"Não foi tanto o uniforme cáqui que me atraiu", confessa a Srta. Casey, olhando sentimentalmente para um sanduíche de presunto que ela acabou de desembrulhar, "quanto foi a ideia por trás dele. Está no sangue, você pode dizer, pois eu tive um tio na Guerra Hispano-Americana e um avô na Guerra Civil. Então, quando o Sr. Mears me diz como, quando chegar a hora de ele ir para o ataque, a pessoa em quem ele mais pensará serei eu... Diga, isso me atingiu forte. 'Você venceu, Stubby', digo eu. 'Mostre o anel'."
"Foi assim que foi encenado, tudo em uma cena. E mais tarde, quando aquele Jake Horwitz da loja United aparece ostentando seu botão de bônus da Liberdade parcelado, mas apoiando seus pés chatos para se manter isento, eu dou a ele um olhar frio. 'Nada de conversinha, Sr. Horwitz', digo eu, 'pois quando eu estendo meu ouvido para isso, tem que vir de um homem de verdade. Entendeu?' O que é bem o mesmo que digo aos outros."
"Mas diga, entre nós dois, é um trabalho muito solitário. Você vê, eu tinha imaginado como o Stub estaria vindo do acampamento de vez em quando, e estaríamos fazendo o desfile de domingo à tarde pelo quarteirão, com todas as garotas esticando o pescoço atrás de nós. Sabe? Bem, ele está no bendito acampamento há quase três meses agora e nem uma vez desde aquela primeira viagem rápida ele apareceu por aqui."
"E é por isso que tenho passado tanto na casa da velha dele, tentando entender por que ele não deveria ser liberado, assim como os outros. A Sra. Mears, ela está toda preparada com a noção de que seu Edgar tem se tornado tão útil lá embaixo que o coronel ficaria todo confuso em seu trabalho se não mantivesse o Stub exatamente no cargo. 'Veja', diz ela, acenando com um cartão postal para mim, 'ele foi nomeado para a equipe de K. P. novamente.' Honestamente, ela pensa que ele é algo como um Cavaleiro de Pítias e sai marchando por aí importante com uma pluma no chapéu e uma espada de ouro. Mães são fáceis, não são? Você pode apostar, no entanto, que o Stub não tenta enganar esta pequena que vos fala com nada disso. O que ele me escreve, que não é muito, é principalmente que seu sargento é um rabugento ou que eles foram colocados em quarentena por causa da gripe. Então, eu envio de volta o melhor conselho que tenho em estoque, perguntando por que ele não se esforça em seu treinamento, mantém seu equipamento limpo e transfere esse trabalho de descascar batatas para alguns dos novos esquadrões."
"Claro, não conto nada disso para a Sra. Mears. Pobre alma! Ela tem problemas suficientes, bem nas articulações. Reumatismo. Uh-huh. Na maior parte do tempo ela tem que se locomover em uma cadeira de rodas. Não é feroz? E ela foi muito corajosa ao enviar o Stubby. Não o deixou dizer uma palavra sobre isenção. Não, senhor! 'Não se preocupe comigo, Edgar', diz ela. 'Você mate um monte de hunos. Eu me viro de alguma forma.' Isso é que é falar, não é? E ela vivendo com uma cunhada que tem uma disposição como um papagaio verde!"
"Então não posso achar muitos defeitos nela quando ela meio que exagera na dose de mãe carinhosa. Parece-me que eles poderiam liberá-lo de vez em quando, mesmo que ele perca alguns toques de clarim, ou esqueça algumas das regras e regulamentos. E essa mania dela de ficar pensando em quando e como o que ele está fazendo pelo país será reconhecido como se deve--Bem, eu não discuto isso com ela de jeito nenhum. Por um lado, eu não entendo exatamente o que ela quer; se é que o Presidente escreva para ela uma carta especial de agradecimento, ou que o Sr. Baker promova Stubby a capitão ou algo do tipo imediatamente. De qualquer forma, ela sente que Edgar não está sendo tratado como deveria. Ele nem sequer teve seu nome nos jornais e apenas alguns dos vizinhos parecem saber que ele é um herói. É, é uma tolice da parte dela, eu suponho, mas eu deixo que ela desabafe tudo comigo sem me esquivar. Até prometi ver o que pode ser feito a respeito. Eu--eu andava pensando, senhor, em pedir ao senhor."
"Eh?" digo eu, "Eu? Ah, não consigo pensar em nada."
"Mas se eu pudesse, senhor", continua a Srta. Casey, "o senhor--o senhor ajudaria um pouco? Ela é uma senhora idosa, sabe, e toda entrevada, e Stubby é tudo o que lhe resta e----"
"Ora, com certeza", interrompo. "Eu faria o que pudesse."
Despacho o assunto casualmente enquanto pego meu chapéu a caminho do almoço. E supus que seria só isso. Mas eu não tinha entendido nem metade da Srta. Casey. Ela não é do tipo que desiste fácil, aquela jovem. Tendo me deixado entrar em seu pequeno caso, ela parece achar que não é mais do que justo que eu seja mantido informado. Um ou dois dias depois, ela traz uma foto do Soldado Mears, um daqueles cartões-postais com impressão enlameada, do tipo que esses fotógrafos de beira de estrada tiram dos rapazes nos acampamentos.
"É ele", diz ela. "Fica bem elegante no uniforme, não fica?"
Era um fato. Stubby não apenas parece elegante--mas estufado. E é sorte que aqueles botões do exército estejam bem costurados, senão uma saudação bem enérgica o arrebentaria do queixo para baixo. Ele é um sujeito robusto, rechonchudo, especialmente nas polainas.
"É verdade, sim", diz a Srta. Casey. "Sabe o que eu digo a ele? Se ele souber lutar como sabe comer, boa noite Kaiser Bill. Mas, mesmo assim, eles reduziram quinze libras dele desde que entrou no serviço."
"É uma vida ótima", digo eu.
"Talvez", suspira a Srta. Casey, "mas eu queria que me deixassem vê-lo de perto antes de arriscarem colocá-lo num navio de transporte. É só isso que tenho contra o Governo. O senhor não pensou em nenhuma maneira de isso ser resolvido, pensou?"
Tive que admitir que não, sem acrescentar que não esperava resolver. E devo ter ficado enrolando nesse sentido por uma semana ou mais, até a manhã em que Vee aparece inesperadamente durante uma viagem de compras e anuncia que posso levá-la para almoçar.
"Ótimo!" digo eu. "Assim que eu entregar mais duas cartas à Srta. Casey."
No meio da segunda, porém, há um chamado para eu ir ao escritório particular, e quando volto de uma entrevista de dez minutos com o Old Hickory, encontro Vee e a Srta. Casey conversando como velhas amigas. Vee está sendo informada sobre Stubby e os ovos cozidos que ele tem como oficiais da companhia.
"Três meses sem licença!" diz Vee. "Não é uma vergonha, Torchy? Qual é o número do regimento dele?"
A Srta. Casey recita o número, acrescentando a companhia e a divisão.
"Sério!" diz Vee. "Ora, essa é a companhia que o Capitão Woodhouse comanda. Você se lembra dele, Torchy?"
"Ah, sim! Woodie", digo eu. "Quase me esqueci dele."
"Vou ligar para ele por interurbano agora mesmo", diz Vee.
E, apesar de todos os meus sinais de desvio, ela o faz. Consegue falar com o capitão também. Sim, Woodie conhece o caso e lamenta informar que o registro do Soldado Mears não é bom; três vezes na guarda e mais uma semana de faxina na cozinha para ele. Nessas circunstâncias, ele não vê muito como----
"Ora, vamos, capitão!" intervém Vee, de forma persuasiva. "Não seja desagradável. Ele está noivo, sabe. Uma moça tão simpática. E depois tem a pobre mãe idosa dele, que só o viu uma vez desde que foi convocado. Por favor, Woodie!"
Eu suspeito que foi o "Woodie" que fez o truque. Sabe, esse tal de Woodhouse costumava achar que tinha chances com Vee, lá atrás, quando a tia estava fazendo o possível para desencorajar minha pequena campanha, e embora ele tenha desistido e escolhido outra há vários anos, não creio que ele se importe em ser chamado de Woodie por Vee, mesmo agora. De qualquer forma, após consultar um de seus tenentes, ele dá a ela a palavra de que, se o Soldado Mears não fizer mais nenhuma besteira entre agora e quarta-feira da semana que vem, ele provavelmente terá quarenta e oito horas de folga.
E por um momento ali, pensei que tanto Vee quanto eu seríamos alvo de uma cena de carinho com a Srta. Casey. Como foi, ela se contenta em acariciar a mão de Vee e chamá-la de Querida.
"Quarta-feira da semana que vem, hein?" diz a Srta. Casey. "Diga, não é fantástico! E acredite em mim, pretendo organizar uma festinha para o Stubby. Ele merece, e a velhinha também."
"Claro que merece", concorda Vee. "E Torchy, você deve fazer tudo o que puder para ajudar."
"Muito bem, major", digo eu, batendo continência.
E a partir daí, eu me reporto a Vee. Foi apenas na noite seguinte que lhe dou o primeiro boletim da frente. "O que você acha?" digo eu. "A Srta. Casey tem um palpite de que poderia organizar uma festa de quarteirão para a grande noite. Não sei se ela consegue dar conta ou não, mas esse é o plano dela."
"Mas o que, afinal, é uma festa de quarteirão, Torchy?" Vee pergunta.
"Ora", explico, "é um truque de cidade pequena que está sendo usado na cidade ultimamente. Muito popular também. Eles pedem a todas as pessoas do quarteirão que contribuam para uma celebração -- decorações, música, sorvete, tudo isso -- e geralmente eles hasteiam uma bandeira de serviço do quarteirão. Dá um certo trabalho de organização, no entanto."
"Que absolutamente esplêndido!" diz Vee. "E é exatamente aí que você pode ser útil."
Então foi assim que passei a noite seguinte trotando de um lado para o outro neste quarteirão, na altura da rua sessenta, entre a Nona e a Amsterdam. Devo dizer que não parecia especialmente promissor como um lugar para cultivar o espírito comunitário e esse tipo de coisa. Apenas uma fileira sombria de prédios de apartamentos antigos, a maioria deles com cartazes de "Quartos para Alugar" pendurados e pequenas lojas de porão escondidas aqui e ali. Talvez você conheça o tipo -- o asfalto sempre cheio de papéis, latas de lixo deixadas do lado de fora, e enxames de crianças jogando taco ou correndo em patins. Barato e bagunçado. E a julgar pelos nomes nas caixas de correio, você diria que os inquilinos foram trazidos de todos os países do mapa. De qualquer forma, nossos nobres aliados estavam bem representados -- com os franceses e italianos na liderança e o restante composto por irlandeses, judeus, poloneses e não sei o que mais. Tudo, menos americanos genuínos.
No entanto, quando se contam as bandeiras de serviço nas janelas da frente, tinha-se que admitir que o quarteirão da Srta. Casey devia ter muitos cidadãos legítimos, afinal. Havia mais estrelas azuis em evidência do que você encontraria em qualquer três quarteirões de pedra marrom lá na Madison ou lá em cima na rua Setenta. Uma bandeira tinha quatro, e nenhuma delas representava mordomos ou choferes. Claro, algumas eram apenas de algodão desbotado, outras nada além de papel colorido, mas cada estrela representava um soldado, e aposto que não havia nenhum covarde no grupo.
Se você conseguiria reunir essas pessoas para qualquer tipo de celebração ou não, era outra questão. Começamos pelo estabelecimento do Mike, na esquina.
"Claro!" diz Mike. "Vamos fazer uma festa. Eu entro com vinte e cinco. E, diga, tenho um primo nos Cavaleiros de Colombo que lhe dará algumas dicas sobre como gerenciar a coisa."
O velho francês da lavanderia parisiense nos deu um apoio também. Até J. Streblitz, alfaiataria de alta classe para senhoras e senhores, contribuiu com dez e nos contou sobre seu filho Herman, que tinha sido promovido a cabo e estava em Chateau Thierry. Em três horas, fizemos uma sondagem superficial de todo o quarteirão, conseguimos meia dúzia de homens para integrar o comitê, arrecadamos mais de 100 dólares, e a coisa estava em andamento.
"Eu sabia que você conseguiria", diz Vee, quando lhe conto sobre o início que foi feito.
"Eu!" digo eu. "Ora, foi principalmente a Srta. Casey. Quase tudo o que fiz foi segui-la e vê-la aumentar o entusiasmo. Ela é um furacão, ela é. Quando a deixei, ela estava planejando duas bandas e sorvete grátis para todos que viessem."
Na verdade, foi só isso que tive a ver com a coisa, depois do empurrão inicial. A Srta. Casey deve ter tido uma semana ocupada, mas ela não negligenciou seu trabalho regular nem pediu folga. Tudo o que ela pede é se Vee e eu não poderíamos ser persuadidos a comparecer na noite de quarta-feira como convidados de honra.
"Não perderíamos por nada", digo eu.
Bem, não perdemos. Eu tinha ouvido falar mais ou menos dessas festas de quarteirão, mas nunca tinha ido a uma. Claro, eu não tinha certeza de como Vee aceitaria se misturar em uma multidão como aquela, mas eu contava que ela fosse esportista. Além disso, ela estava louca para ir e ver como a Srta. Casey tinha se saído.
E diga, quando viramos da Nona Avenida e tive meu primeiro vislumbre do que tinha sido feito naquele quarteirão desprezível e bagunçado, soltei um suspiro. Primeiro, havia cordas de lanternas japonesas com luzes elétricas nelas estendidas através da rua, da frente de cada prédio de apartamentos até o oposto. Além disso, cada porta e janela estava decorada e enfeitada com bandeirolas. Depois, havia todos os tipos de bandeiras, desde as pequenas de dez centavos até grandes faixas de vinte pés estendidas pela rua. Havia uma bandeira irlandesa impressionante emprestada pela A. O. H.; duas bandeiras italianas quase do mesmo tamanho; não sei quantas tricolores francesas e algumas que não consegui identificar; talvez tchecoslovacas. E, além das lanternas e dos holofotes extras, havia fogo de artifício queimando livremente. Depois, em cada extremidade do quarteirão, havia um caminhão com uma banda nele, e eles tocavam de tudo, desde a "Marselhesa" até "K-k-k-katie", enquanto centenas de casais pulavam e balançavam no asfalto, dançando jazz e sendo atingidos por confetes.
"Ora, é quase como o Mardi Gras!" diz Vee.
"Parece festivo, sem dúvida", digo eu. "E devo dizer que a Srta. Casey conseguiu realizar algo real. Será que conseguimos encontrá-la nessa multidão?"
Parecia uma busca sem esperança, mas finalmente, no meio do quarteirão, avisto uma senhora idosa em uma cadeira de rodas, e tenho o palpite de que pode ser a Sra. Mears. Com certeza, é. Ela não é muito de se ver; meio curvada, com um xale nos ombros. Mas diga, quando você vislumbrava a maneira como seus olhos envelhecidos se iluminavam e via o sorriso tremeluzir em torno de seus lábios, você sabia que ninguém naquela multidão inteira estava mais feliz do que ela naquele exato minuto.
"Ah, sim", diz ela. "Minnie Casey está procurando por vocês dois jovens. Ela está dançando com Edgar agora, mas logo estarão de volta. Não viram meu filho Edgar, viram? Bem, precisam ver. Ele--ele é um soldado, sabe."
"Ficaríamos encantados", diz Vee. E então ela sussurra para mim: "Ela não tem um rosto simpático, não é?"
Não esperamos muito antes de ver uma criatura alta e esguia, usando uma daquelas boinas francesas, vindo em nossa direção, acenando energicamente e trazendo a reboque um soldado de rosto vermelho que parece ter sido enfiado no uniforme por uma máquina de salsichas. São Minnie e Stub.
"Olá, pessoal!" ela canta. "Diga, eu estava apenas me perguntando se vocês iam me deixar na mão. Ótimo trabalho! E quero que conheçam um dos soldados mais proeminentes da divisão, o Sr. Mears. Vamos lá, Stubby, faça aquela sua saudação de ultramar. Ele não é uma fera? E o que acharam do show? Não é uma festa e tanto?"
"Ora, é simplesmente maravilhoso", diz Vee. "Não fazia ideia, Srta. Casey, de que você estava planejando algo assim."
"Eu não estava", diz Minnie. "Só que, depois que começamos, a coisa continuou ficando maior e maior até que não sobrou uma alma no quarteirão que não participasse. Sabe o que um dos decoradores me disse? Ele diz que não há um quarteirão no West Side que tenha tido algo parecido com isso, desde Houston Street até o Harlem. Isso é muita coisa, não é? Vocês chegaram na hora certa para as grandes atrações, também. Está acontecendo agora mesmo. Veem quem está em pé no caminhão ali? Aquele é um dos Padres Paulistas, que vai fazer o discurso e abençoar a bandeira. Lá vem ela, saindo daquela janela do terceiro andar. Uau! Ouçam a torcida."
E enquanto a bandeira de borda vermelha com o campo branco é puxada para onde o holofote a atinge, podemos distinguir as figuras formadas por estrelas azuis.
"O quê!" digo eu. "Não 217 apenas deste quarteirão?"
"Uh-huh!" diz Minnie. "E cada um deles um caçador de Fritzie. Quase uma companhia inteira. Mas teria um a menos se não fosse pelo Stubby, e todo mundo sabe que números ímpares trazem sorte. É por isso que estamos tão orgulhosos dele. Eh, Sra. Mears?"
Sim, foi um evento bem animado. Após o discurso, a Sra. Toscarelli, envolta em vermelho, branco e azul, cantou o Hino Nacional, apesar da forte oposição de uma das bandas que recebeu o sinal errado e tocou "Indianola" durante toda a peça. E um garoto gordo rolou de uma janela do segundo andar nos prédios Princess, mas ricocheteou em um toldo e não se machucou. Além disso, alguns jovens malandros começaram com algumas provocações quando os freezers de sorvete foram abertos, mas um esquadrão de garotos da Junior Naval League logo deu um jeito nisso. E quando tivemos que partir, por volta das nove e meia, era a cena mais alegre que já foi encenada em qualquer quarteirão do West Side, sem dúvida. Comentei algo do tipo com a Sra. Mears.
"Sim", diz ela, seus olhos meio que marejando. "E pensar que tudo isso foi feito pelo meu Edgar!"
Ao que Minnie Casey nos dá a piscadela particular. "Por que não, eu gostaria de saber?" diz ela. "Olhe só quem ele é."
"Sim, claro, querida", diz a Sra. Mears, sorrindo satisfeita.
"Você consegue superar isso como a genuína atitude de mãe?" sussurra Minnie, dando-nos um sorriso de despedida.
"Espero", diz Vee, enquanto nos acomodamos em um trem de Long Island para a viagem de volta para casa, "que a Srta. Casey receba seu Edgar de volta são e salvo."
"Se não receber", digo eu, "ela é capaz de ir até lá e riscar o que restou da Alemanha do mapa. De qualquer forma, é melhor não começarem com ela."
CAPÍTULO V
A VAMPIRA NA VITRINE
Foi um caso de Vee estar na cidade em uma orgia de compras e eu ter sido convidado a encontrá-la perto da hora do almoço.
"Vejamos", ela telefonou, "suponha que você me encontre por volta das 12:30 na Maison Noir. Sabe, na West Fifty-sixth. E se eu estiver provando um vestido no segundo andar, apenas me espere lá embaixo, sim, Torchy?"
"No meio de todas aquelas modelos moças?" digo eu. "Nem pensar. Você vai me encontrar pendurado do lado de fora. E não atrase mais do que meia hora do horário marcado, Vee, pois este é um dos meus dias ocupados."
"Ah, muito bem", diz ela displicente.
Então foi assim que acabei encostado no abrigo da porta às 12:45, quando este estranho com olhos azuis suaves e uma covinha no queixo se aproxima com a saudação amigável.
"Desculpe-me", diz ele, "mas não nos conhecemos em algum lugar antes?"
É aí que entra meu dom fatal de lembrar rostos e esquecer nomes. Depois de dar uma olhada rápida nele, eu o tinha localizado, mas não identificado.
"Não exatamente", digo eu. "Mas moramos no mesmo prédio de apartamentos há uns dois anos. Terceiro andar oeste, não era?"
"Isso mesmo", diz ele. "E creio que ouvi dizer que você tinha acabado de se casar."
"Sim, tínhamos um zelador tagarela", digo eu. "Você estava lá com sua mãe, vinda de algum lugar da Costa. Quase chegamos ao ponto de acenar um para o outro quando nos encontrávamos no elevador, não foi?"
"Se chegamos", diz ele, "foi o mais perto que cheguei de conhecer alguém em Nova York. É o buraco mais solitário em que já estive. Diga----"
E em menos de três minutos ele me contou tudo; como trouxera a mãe de Seattle para que um especialista em coração lhe desse um tratamento de três meses que não servira de nada, e como ele viera para o Leste sozinho desta vez para fechar um grande contrato de madeira de abeto com o departamento de aviação. Ele também me lembra que é Crosby Rhodes e escreve o nome do hotel onde está hospedado em seu cartão. É quase como uma reunião com um velho colega de faculdade.
"Mas como você veio parar avaliando uma vitrine como esta?" digo eu, indicando a exibição de vestidos elegantes da Maison Noir. "Tem alguém aí em casa para quem você poderia levar algumas amostras?"
Seu rosto grande e de traços quadrados meio que cora e seus olhos azuis suaves assumem um ar de culpa enquanto ele lança um olhar por cima do ombro para a vitrine. "Ninguém", diz ele. "O fato é que não sou muito de mulher. Estive muito tempo na floresta, suponho. Mesmo assim, sempre pensei que se algum dia encontrasse a garota certa----" Aqui ele raspa o pé e faz aquela expressão de sem jeito novamente.
"Entendo", digo eu, sorrindo. "Você tem os planos e especificações todos prontos e acha que a reconheceria à primeira vista, hein?"
Crosby acena e sorri timidamente. "Foi além disso", diz ele. "Eu--eu a vi."
"Ora, ora!" digo eu. "Onde?"
Ele olha ao redor com cautela e então sussurra confidencialmente. "Nessa vitrine."
"Eh?" digo eu, boquiaberto. "Ah! Você quer dizer que teve a ideia de um dos manequins? Bem, isso é jogar seguro, mesmo que seja um pouco único."
Crosby parece hesitar por um minuto, como se estivesse debatendo se deve deixar por isso mesmo ou não, e então ele continua:
"Diga", ele pergunta, "eles--eles colocam pessoas vivas ali às vezes?"
"Nunca ouvi dizer que isso fosse feito", digo eu. "Por quê?"
"Porque", diz ele, "tem uma nessa vitrine agora mesmo."
"Não me diga?" digo eu. "Você tem certeza?"
"Vá até a frente e eu vou apontá-la", diz ele. "Agora, bem ali naquele canto--Ora--ora, diga! Ela sumiu!"
"Ah, vamos!" digo eu. "Você esteve vendo coisas, não esteve? Ou talvez fosse apenas uma das vendedoras reorganizando a exibição."
"Não, não", diz Crosby enfático. "Eu lhe digo que a observava há vários minutos antes de ver você, e ela nunca se moveu, exceto por um bater de pálpebras. Ela estava de costas, de frente para aquele espelho, então pude ver seu rosto bem claramente. Mais do que isso, ela podia me ver. Claro, eu não tinha certeza, com todos aqueles outros por perto. Foi por isso que falei com você. Eu queria ver o que você diria sobre ela. E agora ela desapareceu."
"Uh-huh!" digo eu. "Muito provavelmente, também, ela foi puxada de cabeça por aquela porta nos fundos e, se você ficar por aqui tempo suficiente, talvez a veja ser empurrada de volta, com um vestido diferente. Diga, Sr. Rhodes, não é de se admirar que você tenha medo de mulheres se nunca as observou de perto o suficiente para saber a diferença entre manequins e pessoas vivas. Acredite em mim, há uma grande diferença."
Mas a brincadeira não parece surtir efeito nenhum nele. Ele continua boquiaberto, intrigado através do vidro plano. Finalmente ele continua: "Se esta fosse a primeira vez, eu poderia pensar que você estava certo. Mas não é. Eu--eu a vi antes; várias vezes, de fato."
"Tão ruim assim, hein?" digo eu. "Então, se eu fosse você, procuraria um médico."
"Agora escute", diz ele. "Não quero que pense que estou com a cabeça fraca. Estou falando sério. É que você ainda não ouviu tudo. Veja bem, tenho passado por aqui quase todos os dias desde que cheguei à cidade — quase três semanas — e por volta desta hora, entre doze e meia e uma, começo a ficar com fome de almoço. E há uns dez dias tive um vislumbre deste rosto no espelho. De alguma forma, tive certeza de que era um rosto que eu já tinha visto antes, um rosto com o qual andei sonhando acordado por um ano ou mais. Sim, sei que isso pode soar meio maluco, mas é um fato. Lá nas matas grandes a gente tem tempo para essas coisas. Enfim, quando vi aquele reflexo, pareceu-me muito familiar. Então, no dia seguinte, parei e olhei com atenção. Ela estava lá. E eu tinha certeza de que ela não era um manequim. Eu podia vê-la respirar. Ela também estava me observando no vidro. Tem sido a mesma coisa toda vez que passei por aqui."
"Bem", digo eu, "e então?"
"Ora", diz ele, "seja alguém que eu conheci ou não, quero descobrir quem ela é e como posso conhecê-la para... para... Bem, ela é a garota."
"Caramba!" digo eu, "você é um verdadeiro Sr. Romeu quando se trata de noções românticas, não é?" E dou uma olhada curiosa nele. Como sempre sustentei, no entanto, é isso que se pode esperar desses rapazes com covinhas no queixo. É a marca registrada do Romeu, com certeza, e Crosby tinha uma bem profunda. "Mas veja aqui", continuo eu, "suponha que você esteja enganado; que essa sereia de vitrine sua fosse apenas uma daquelas com cabeça de composição, uma figura que eles enchem com uma bomba de bicicleta e pés de madeira? Onde isso te deixa?"
Ele encolhe os ombros. "Eu gostaria que você tivesse visto ela", diz ele.
"Que tipo de aparência?" pergunto. "Loira ou morena?"
"Não sei", diz ele. "Ela tem uma pele maravilhosa — como marfim antigo. O cabelo dela também é maravilhoso, um tipo de dourado pálido. Mas as sobrancelhas são bem escuras, e os olhos... Ah, são do tipo que você não conseguiria esquecer... um tom de violeta profundo, eu acho; talvez você chamasse de cor de ameixa."
"Parece sofisticado demais para ser verdade", digo eu. "Mas eles fazem assim mesmo para o comércio."
Não há como dissuadir Crosby de sua ideia, no entanto, e ele propõe que eu o encontre lá às doze e meia no dia seguinte, quando Vee aparece e eu tenho que sair. "Vou ver se consigo", digo enquanto me afasto.
Claro, Vee quer saber quem é meu amigo e tudo a respeito, e quando esboço a trama da peça, ela fica bastante entusiasmada. "Que interessante!" diz ela. "Espero muito que ele descubra que é uma garota de verdade. Alguns daqueles modelos são simplesmente deslumbrantes, sabe. E existe essa coisa de um rosto te assombrar. Ah, a propósito! Você se lembra dos Stribble?"
"Deveria?" pergunto.
"A família do zelador naquele prédio de apartamentos onde costumávamos morar", explica Vee.
"Stribble?" digo eu. "Ah, sim, aquele tipo pançudo que ficava sentado sem fazer nada enquanto a esposa fazia o trabalho. O que te fez lembrar deles?"
"Tenho certeza que não sei", diz Vee. "Mas há um mês ou mais vi o nome impresso em uma lista do exército de baixas que retornaram — havia um rapaz, sabe, e uma garota — e pensei então que deveríamos procurá-los e descobrir. Depois esqueci tudo sobre isso até alguns momentos atrás. Vamos lá, Torchy, antes de irmos para casa hoje à noite?"
Devo dizer que não consegui ficar muito animado com os Stribble, mas, na chance de Vee esquecer de novo, prometi, e deixei que ela me arrastasse para uma daquelas salinhas de chá elegantes onde comemos um almoço perfeitamente medíocre por um dólar e dez cada. Mas mesmo depois de uma sessão de três horas entre as promoções de artigos brancos, Vee ainda se lembrava dos Stribble, então, por volta das cinco, nos vemos mergulhando em um porão nada limpo, sendo recebidos por uma fêmea alta e magricela com uma cabeleira desgrenhada de cor areia, cortada curta no topo da cabeça.
Parece que a Sra. Stribble ainda carregava a maior parte das cinzas e esfregava os corredores também; enquanto o Sr. Stribble, mais gordo do que nunca e com as mesmas roupas velhas e gordurosas, continuava acampado em uma poltrona bamba perto da janela da frente, com um balde de sabão no cotovelo direito. Sim, o mencionado na lista de baixas era o Jimmy deles. Só que ele não tinha voltado exatamente como um herói das trincheiras. Ele tinha garantido seu bilhete de dispensa sem nem chegar ao front — ao se envolver com uma viga de aço em algum trabalho de construção. Um pé esmagado foi o dano total, e ele estava se divertindo muito no hospital de base; estaria como novo em uma semana ou mais.
"Não é uma sorte?" diz Vee. "E sua filha, onde ela está?"
"Mame?" diz a Sra. Stribble, franzindo a testa rapidamente. "Deus sabe onde ela está. Eu não sei."
"Ora, o que você quer dizer?" pergunta Vee. "Ela... ela não saiu de casa, saiu?"
"Ah, ela dorme aqui", continua a Sra. Stribble, "e vem para casa para algumas das suas refeições, mas o resto do tempo..." Aqui ela encolhe os ombros.
"Huh!" resmunga o Sr. Stribble. "Se você pudesse ver o jeito que ela se veste... como alguma corista. Não sei onde ela arranja todas essas coisas chiques e ela não quer contar. Pintura no rosto, também. Está trazendo vergonha para nós, eu digo a ela."
A Sra. Stribble suspira profundamente. "E nós estávamos tentando criá-la decentemente", diz ela. "Consegui um emprego para ela, servindo em uma lanchonete lá no Circle. Mas ela era boa demais para aquilo. Oh, céus, sim! Largou na primeira semana. E então começou a florescer em plumas finas. Também não diz onde as consegue. E sempre jogando na cara do pai sobre não trabalhar, quando ele está com reumatismo tão ruim que mal consegue andar às vezes! Ficando dama demais para morar em um porão, é o que ela está. Humph!"
Parecia que Vee tinha começado algo, pois os Stribble estavam descendo a lenha na Mame sem dó, quando de repente eles param e ouvimos a porta da rua abrir. Um minuto depois, entra uma jovem alta e esguia usando um cachecol de pele de leopardo artificial, uma dessas boinas francesas elegantes e um terno preto bem cortado que lhe caía como se tivesse sido colocado a quente.
Se não fosse pelo tom estranho do cabelo e os olhos, eu não a teria reconhecido de jeito nenhum como a garota desleixada e malvestida que eu costumava ver entrando e saindo com o jarro de cerveja ou ajudando na limpeza. Mame Stribble tinha florescido, de fato. Além disso, ela tinha aprendido a usar batom e lápis de sobrancelha. Eu não poderia dizer se ela tinha retocado a pele ou não. Se tinha, foi um trabalho artístico — apenas um leve tom de pétala de rosa sob os olhos. E eu tive que admitir que o efeito geral era impressionante. Claro, ela fica mais ou menos surpresa ao ver todos os convidados, mas Vee logo explica como viemos saber do irmão Jim e ela aperta a mão de forma bem amigável.
"Suponho que você esteja trabalhando em algum lugar?" sugere Vee.
Mame acena.
"Onde?" pergunta Vee, indo direto ao ponto, como de costume.
A Srta. Stribble lança olhares acusadores para o papai e a mamãe. "Ah, eles estavam me detonando, estavam?" ela exige. "Bem, não posso evitar. O que eles querem saber é quanto estou ganhando para que eu tenha que dar mais. Mas não funciona. Entendido! Pago minha pensão — uma boa pensão, aliás — e não vou deixar o papai bisbilhotando no meu trabalho tentando me prejudicar. Que ele saia e se vire sozinho."
Com isso, Mame tira o cachecol e joga sua boina de veludo sobre a mesa.
"Sinto muito", diz Vee. "Eu não queria interferir de forma alguma. E não tenho dúvida de que você tem uma situação perfeitamente boa."
"É boa o suficiente", diz Mame, "até eu encontrar algo melhor."
"Que chapéu pequeno e astuto!" diz Vee, pegando a boina. "Tanto estilo nele também."
"Acha?" diz Mame. "Bem, eu mesma fiz."
"Sério!" diz Vee. "Ora, você deve ser muito inteligente. Eu gostaria de poder fazer coisas assim."
Confie em Vee para acalmar os ânimos quando ela quer. Em dois minutos ela tinha Mame sorrindo agradecida e segurando sua mão enquanto se despede.
"Coitada!" diz Vee, quando chegamos à rua. "Não a culpo por estar insatisfeita com um pai como aquele. E é simplesmente horrível o jeito que falam dela. Vou ver se não consigo fazer algo por ela na loja."
"Eh?" digo eu. "Ela não te disse onde estava trabalhando."
"Não precisava", diz Vee. "O nome estava no forro do chapéu — a Maison Noir."
"Diga, você mesma é uma grande pequena detetive, não é?" digo eu.
"E isso explica", continua Vee, "por que me lembrei dos Stribble hoje. Devo tê-la visto lá. Sim, tenho certeza de que vi — aquele cabelo dourado pálido e a pele de marfim antigo são raros demais para..."
"Por quê!" interrompo, "essa é a descrição que Crosby Rhodes me deu dessa encantadora de vitrine dele."
"Foi?" diz Vee. "Então talvez..."
"Mas o que ela poderia estar fazendo, posando na vitrine?" pergunto. "É isso que me intriga."
Intrigou Vee também. "De qualquer forma", diz ela, "você deve encontrar esse Sr. Rhodes amanhã e contar a ele o que você descobriu. Ele é um rapaz bastante simpático, não é?"
"Ah, ele é legal, eu acho", digo eu. "Um pouco mole acima das orelhas, talvez, mas lá nas matas altas imagino que ele passe por um cidadão sólido. Não vejo bem como vou ajudá-lo muito, no entanto."
"Eu te digo", diz Vee. "Pela manhã vou telefonar para Madame Maurice dizendo que quero que você veja o vestido que escolhi, e você pode levar o Sr. Rhodes com você."
Então foi assim que fizemos. Ligo para Crosby, marco o encontro e nos encontramos na esquina às doze e meia. Ele está mais ou menos animado.
"Então você acha que sabe quem ela é?" ele pergunta.
"Se você é um bom observador", digo eu, "há uma chance de que eu saiba. Mas escute: suponha que ela seja meio fora da sua classe — uma garota que foi criada em um porão, digamos, com um zelador como pai?"
"O que me importa quem é o pai dela?" diz Crosby. "Eu mesmo fui criado em um acampamento madeireiro. Tudo o que peço é uma chance de conhecê-la."
"Você certamente sabe o que quer", digo eu. "Vamos."
"Veja!" ele sussurra enquanto chegamos à vitrine da Maison Noir. "Ela está lá!"
E, de fato, de costas, no canto de frente para o espelho, está essa figura elegante no traje de passeio da moda, com o cabelo e os olhos de Mame Stribble. Ela está fazendo o papel de manequim muito bem, também. Eu não conseguia ver nem respiração nem movimento nos olhos.
"Huh!" digo eu. "Isso é comigo. Vamos entrar e entrevistar Madame Maurice."
Tivemos que perder quatro ou cinco minutos enquanto eu inspeciono o vestido que Vee comprou, e eu certamente me senti um tolo parado ali assistindo essa jovem modelo deslizar para frente e para trás.
"Espero que o Monsieur aprove?" pergunta Madame Maurice.
"Ah, claro!" digo eu. "Bem elegante. Mas diga, notei um na vitrine que me chamou a atenção — aquele vestido de passeio, no canto."
"Vestido de passeio?" diz a Madame, parecendo confusa. "O Monsieur tem certeza?"
"Talvez seja melhor eu apontar."
Mas, quando eu a arrastei até a porta da frente, não havia nada do tipo à vista.
"Como eu pensava", diz a Madame. "Um pequeno equívoco."
"Parece que sim, não é?" digo eu, enquanto voltamos para dentro. "Mas você tem uma Srta. Mamie Stribble trabalhando aqui, não tem? Uma jovem com um tipo de cabelo dourado, sobrancelhas escuras e um tipo de pele de marfim antigo?"
"Ah!" diz a Madame. "Talvez o senhor queira dizer Marie St. Ribble?"
"Isso está perto o suficiente", digo eu. "Poderia ter algumas palavras com ela?"
"Mas sim", diz Madame Maurice. "É a hora do almoço dela. Vou ver." Com isso, ela chama uma assistente, me coloca em uma sala nos fundos e pede que eu espere um momento, deixando Crosby lá fora com a boca aberta.
E dois minutos depois entra a Madame, conduzindo Mame Stribble pelo braço. A patroa parece um tanto irritada também. "Diga-me", ela exige, "é este o vestido de passeio que você observou na vitrine?"
"É exatamente esse", digo eu.
"Hah!" diz ela. "Então talvez Marie me explique mais tarde. Por enquanto, Monsieur, deixo-o."
"Desculpe se coloquei você em apuros, Srta. Stribble", digo, enquanto a Madame sai apressada.
"Ah, tudo bem", diz Mame, erguendo o queixo. "Ela vai superar. E, de qualquer forma, eu estava correndo um risco."
"Percebi", digo eu. "Qual era a grande ideia, afinal?"
"Apenas avaliando as pessoas que passam", diz Mame. "É um esporte magnífico tê-los esticando o pescoço para você e pensando que você é apenas um manequim. Descobri isso um dia enquanto estava trocando um modelo. Claro, isso corta meu tempo de almoço, e tenho que contrabandear um vestido do estoque, mas é divertido."
"Especialmente quando você tem um jovem cavalheiro em particular vindo assistir regularmente, eh?" sugiro.
Isso parece dar um choque nela e, por um segundo, ela olha para mim, mordendo o lábio superior. "De quem você está falando, agora?" ela pergunta.
"Ele tem uma covinha no queixo e seu nome é Crosby Rhodes", digo eu. "Você o enfeitiçou de verdade também. Ele está lá fora, esperando para conhecê-la."
"Ah, é mesmo?" diz Mame, fingindo não se importar. "E, no entanto, quando ele morava em um dos nossos apartamentos, passava por mim todos os dias sem me ver de jeito nenhum."
"Oh, ho!" digo eu. "Você prestou atenção nele, no entanto, não prestou?"
A Srta. Stribble fica corada com isso. "Sim, prestei", diz ela. "Ele me pareceu um cara legal, do tipo em quem se pode confiar. E quando ele quase passava por cima de mim sem notar... bem, admito que isso doeu um pouco. Imagino que seja por isso que decidi abandonar o conjunto de esfregão e balde e entrar em algum lugar onde eu pudesse aprender alguns truques. Depois de algumas tentativas, vim parar aqui na Maison. Lembro-me de que estava com uma saia caída e uma blusa que devia parecer ter sido improvisada a partir de um saco de café. É um milagre que me deixaram passar pela porta. Mas deixaram. Nas primeiras seis semanas, no entanto, me mantiveram nas salas de trabalho. Então pedi a uma das garotas que me ajudasse à noite com um tafetá preto; economizei o suficiente para dois pares de meias de seda, me dei ao luxo de comprar sapatos de salto de dez centímetros e comecei a carregar um estojo de maquiagem. Funcionou. A próxima coisa que soube foi que eles me colocaram no andar principal, levando estoque para as modelos e, de vez em quando, exibindo estilos para clientes. Eu tinha o pressentimento de que estava ficando mais fácil de olhar, mas nunca se sabe pelo jeito que as mulheres avaliam você. Tudo o que elas veem é o vestido. E na vitrine ali eu tive a chance de ver se estava chamando a atenção dos homens. Essa é toda a história trágica."
"Deixando de fora Crosby Rhodes."
"É verdade", admite Mame. "E foi uma satisfação trazê-lo à vida."
"Você fez mais do que isso", digo eu. "Ele é um desses caras que quer o que quer e vai atrás com força. Agora parece ser você."
"Que in-teres-sante!" diz Mame. "Diga-me, qual é o ramo dele?"
"Madeira para aviões", digo eu. "Ele é da Costa."
"Ah!" diz ela. "De uma dessas cidadezinhas de interior, suponho?"
"Sede em Seattle, pelo que entendi", digo eu. "Isso dificilmente é um show de variedades."
"Sim, acho que já ouvi falar do lugar", diz Mame. "Mas qual é a proposta dele?"
"Primeiro de tudo", digo eu, "Crosby quer ser apresentado. Se ele tem alguma intenção de casamento na manga, imagino que seja melhor você ouvir isso dele pessoalmente. A questão agora é: você quer conhecê-lo?"
"Ah, não sei", diz Mame com desleixo. "Acho que vou arriscar."
"Então esqueça aquele seu truque de desaparecimento", digo eu, "e eu vou buscá-lo."
E, honestamente, enquanto saio da Maison Noir e vou para o meu almoço, senti como se tivesse feito o trabalho de um dia. O que viria disso não era comigo. Eles já estavam fora das minhas mãos, de qualquer forma.
Isso não deve ter sido há mais de uma semana. E aqui, apenas ontem, Crosby entra estrondosamente nos escritórios gerais da Corrugated, bate com entusiasmo nas minhas costas e anuncia que sou o melhor amigo que ele tem no mundo.
"Significando, imagino", digo eu, "que você e a Srta. Stribble têm se dado bem?"
"Meu velho", diz Crosby, com seus olhos azuis suaves brilhando, "ela é uma garota maravilhosa — maravilhosa! E dentro de uma semana ela será a Sra. Crosby Rhodes. Partimos para casa assim que a Maison Noir puder terminar seu enxoval; que vai ser um traje de primeira, pode acreditar."
Espero ter dito algo apropriado. Se não, imagino que Crosby estava ocupado demais para notar. Também, naquela noite, levei o boletim para casa para Vee.
"Viu só!" diz Vee. "Eu sabia, no momento em que a vi, que ela não era nada como aquele velho horrível tentou nos fazer acreditar."
"Não", digo eu, "a sedução de Mame era apenas prática. Muitas delas são assim, imagino."
"Mas não foi estranho", continua Vee, "sobre ela encontrar o próprio homem de quem gostou desde o início?"
"Bem, não muito", digo eu. "Com aquele ato da vitrine, ela espalhou a rede bem aberta. A única chance que Crosby tinha de escapar era ficando fora de Nova York, e ninguém faz isso por muito tempo."
CAPÍTULO VI
PERUS POR FORA
Diga, espero que este Sr. Hoover nosso termine de tentar alimentar o mundo antes de outro outono. É uma ideia bonitinha, tudo bem, e deveria nos deixar bem vistos com muita gente, mas se ele não parar, conheço uma pessoa cuja reputação como fazendeiro vai ser arruinada sem conserto. E essa pessoa sou eu.
Não sei se foi a tia de Vee que me fez começar imprudentemente nesta carreira de produtor de alimentos, ou o velho Leon Battou, ou o Sr. G. Basil Pyne. Talvez todos tenham ajudado, à sua maneira peculiar. O método da tia, é claro, é através de um bufo de desprezo. Foi durante a visita de um mês que ela nos fez uma semana no verão passado, em nossa propriedade de quatro acres em Long Island, que ela solta essa coisa sarcástica. Tendo inspecionado o bebê criticamente sem encontrar nada especial para reclamar, ela sugere que gostaria de dar uma olhada no terreno.
"Ah, sim, Torchy", entra Vee, "mostre à tia o seu jardim."
Talvez você não entenda esse "seu jardim". É apenas o jeito de Vee me apresentar como um cidadão útil e trabalhador. Claro, eu comprei as sementes e todas as enxadas e ancinhos brilhantes e coisas do tipo, e estudei os catálogos até conseguir distinguir as cenouras dos pepinos; mas devo admitir que, além de dar uma olhada nos diferentes canteiros de vez em quando, e arrancar algumas plantas de tomate que pensei serem ervas daninhas, não fiz muito mais do que financiar o empreendimento.
Na verdade, era principalmente Leon Battou, o velho francês que faz nossa comida, quem realmente cuidava do jardim. Diga-se de passagem, aquele velhote conseguiria fazer algo verde crescer se morasse no metrô e tivesse que levar seu terreno em sacos de papel. Foi em parte por causa dele, sabe, que deixamos nosso apartamento-estúdio e nos mudamos para a zona de quarenta e cinco minutos de trajeto. Depois, havia também Joe Cirollo, que vem durante o dia para cortar a grama, manter os canteiros de flores bem cuidados e fazer o trabalho pesado de cavar. E com Vee controlando o que era gasto e o que colhíamos, você pode imaginar que eu não me matava de trabalhar. Além disso, é uma certeza que aquele canteiro só precisava se esforçar para dar certo.
A tia não se convence com tudo isso, no entanto. Então ela levanta as sobrancelhas e comenta: "Um jardim? Sério! Eu gostaria de vê-lo. Alguns rabanetes e alface rala, suponho?"
"Diga, venha dar uma olhada!" digo eu.
E quando apontei o meio hectare de batatas, e as longas fileiras de milho, vagem e ervilhas — e espero ter chamado todos pelos nomes certos —, com certeza fiz a velha senhora recuar um pouco. Mas confie nela!
"Com tanta terra, no entanto," continua ela, "parece-me que você deveria estar criando seus ovos e galinhas também."
"Oh, planejamos tudo isso," digo eu, "patos, galinhas, gansos e perus; talvez faisões e codornas."
"Codornas!" diz a tia. "Ora, eu não sabia que se podia criar codornas. Eu pensei que elas..."
"Quando começo a criar coisas," digo eu, "tendo a ir até o limite."
"Ficarei interessada em ver que sucesso você terá," diz ela.
"Claro!" digo eu. "Passe aqui de novo — no próximo outono."
Você não pensaria que ela seria desagradável o suficiente para ir ensaiar todo esse meu pequeno blefe inocente para a Vee, pensaria? Mas ela faz, ao que parece. E, claro, Vee tem que me apoiar.
"Mas, Torchy!" ela protesta, depois que a tia vai embora. "Como você pôde contar a ela tantas mentiras?"
"A coisa mais fácil que faço," digo eu. "Mas quem sabe o que faremos a seguir na linha de produção de alimentos? O velho Leon não tem implorado para entrar no negócio de patos e galinhas há meses? Com ovos a quase um dólar a dúzia, talvez fosse um bom esquema. E se vamos investir em aves, por que não ter de todos os tipos, perus também?"
Então, alguns dias depois, apresentei a ideia a ele. Leon balança a cabeça. "As galinhas e os patos, sim; mas o peru..." Aqui ele encolhe os ombros desesperado. "Je ne connais pas."
"Você o quê?" digo eu. "Ah, vamos lá, Leon, não seja um desistente."
Ele explica que os hábitos da nossa ave nacional são um completo mistério para ele. Ele preferiria tentar chocar avestruzes ou canários. Então, por enquanto, deixamos os perus de lado e esbanjamos em cacarejadores e grasnadores. Entre ele e Joe, consertaram parte do antigo galpão de carruagens para ser um quartel de aves e, com um quilômetro ou mais de rede, cercaram um caminho até o pequeno lago. E em meados de agosto tínhamos todos os tipos de música para nos acordar para um café da manhã cedo. Eu quase ri até doer observando aqueles patinhos andando de um lado para o outro solenemente, cada um com aquele olhar travesso. Diga, eles são comediantes natos, os patos são. Aposto que se você pudesse traduzir aquele grasnado deles, conseguiria falas que seriam um verdadeiro sucesso no circuito dos grandes teatros.
E então, no outono, começamos a conhecer nossos novos vizinhos que haviam se mudado para aquela graciosa casinha de estuque no caminho da estação para nossa casa. Os Basil Pyne, um jovem casal inglês, descobrimos. Claro, Vee começou chamando-os e acompanhando isso com uma doação de alguns dos produtos do nosso jardim. Logo estávamos trocando visitas regularmente.
Não posso dizer que fiquei louco por eles. Ela é uma ratinha de mulher, de olhos grandes e quieta, mas Vee parece gostar dela. Pyne, ele é um sujeito alto e magro, de ombros curvados e tão míope que precisa usar óculos de lentes extra grossas. Ele veio trabalhar para alguma editora de livros, mas parece que ele mesmo escrevia coisas. Ele tinha lançado um livro e estava trabalhando em outro; não um romance, entendo, mas algo diferente.
"Huh!" digo eu para a Vee. "Não admira que ele tenha tido que entrar no jogo literário, com aquele nome pendurado nele. Basil Pyne! O pior de tudo é que ele tem a cara disso também."
"Ora, Torchy!" protesta Vee. "Tenho certeza de que você o achará muito interessante quando o conhecer melhor."
Como de costume, ela tem razão. De qualquer forma, acontece que Basil tem seus pontos positivos. Por um lado, ele é o ouvinte mais divertido com quem já conversei. Talvez você conheça o tipo. Nunca tem nada a dizer sobre si mesmo, mas qualquer coisa que você comece, é sobre isso que ele quer saber. E pelo olhar amigável nos olhos cinzentos e suaves atrás das lentes grossas, e a maneira sincera de inclinar o ouvido, você pensaria que o que você estava contando a ele era exatamente o que ele esperava ouvir há todos esses anos. Depois, ele tem aquele truque de soltar "Meu Deus!" e "Apenas imagine isso!", de um jeito admirado e entusiasmado, até que você quase acredita que é muito mais esperto e inteligente do que suspeitava.
Então, quando entro no assunto de como evitamos pagar preços de guerra pelos vegetais aos aproveitadores locais, cultivando os nossos próprios, ele quer saber tudo sobre isso. Com a ajuda do livro de registros da Vee e um pequeno estímulo dela, dou a ele uma aula. Até o levo ao porão e mostro as várias caixas e barris cheios de coisas que guardamos para o inverno. E depois tenho que arrastá-lo para fora e exibir o negócio paralelo de aves.
"Oh, digo!" exclama Basil. "Não é perfeitamente incrível! Vocês têm ovos frescos o tempo todo?"
"Tudo o que podemos usar," digo eu. "E estamos comendo as galinhas sempre que queremos. Patos também."
"Que inteligente!" diz Basil. "Mas vocês americanos são sempre tão bons em tudo o que fazem. E você, um homem de negócios tão dedicado! Não sei como você consegue."
"Oh, é fácil o suficiente depois que você pega o jeito," digo eu. "Na verdade, estou apenas começando. A próxima coisa que pretendo ter é muitos perus. É melhor viver bem."
"Perus!" diz Basil. "E ouvi dizer que eram tão difíceis de criar. Mas não tenho dúvida de que você fará um enorme sucesso com eles."
"Acho que só terei que te mostrar," digo eu, balançando a cabeça.
Eu estava a fim de conseguir alguns ovos de peru imediatamente e apressar um bando para que estivessem prontos no Natal, mas tanto Vee quanto Leon insistem que não pode ser feito. Parece que é tarde demais na estação ou algo assim. Eles querem esperar até a próxima primavera.
"Eu não," digo eu. "Prometi à sua tia que criaria perus e tenho que cumprir o prometido. Se não podemos começar da semente, qual é o problema de conseguir alguns brotos? Ninguém tem perus jovens que precisem ser criados cientificamente?"
Bem, coloquei Joe Cirollo para explorar por aí e em uma semana ele conseguiu meia dúzia. Eles vêm em um engradado do tamanho de uma caixa de piano e nós os soltamos no galinheiro. Quando paguei a conta, tive certeza de que Joe tinha sido enganado pagando o dobro do preço, mas depois que descobri o que estão pedindo por perus nos mercados da cidade, tive que engolir em seco.
"Ah, bem," digo eu, "se pudermos engordá-los, talvez saiamos vencedores, afinal."
"Claro!" diz Joe. "Nós os deixamos bem gordos."
Depois que comprei alguns sacos de ração, porém, parei de calcular. Eu sabia que, não importa como fossem cozidos, eles teriam gosto de dinheiro. A única coisa de que eu duvidava agora era se eram a raça certa de perus.
"O que é todo esse material de flanela vermelha no pescoço deles?" pergunto a Joe. "Eles não estão com dor de garganta, estão?"
"Hein?" diz Joe. "Não, não. Eles são bons perus. É sempre desse jeito."
"Tudo bem," digo eu, "se é a moda. De qualquer forma, eu não como o pescoço."
Eu não conseguia deixar Leon entusiasmado com meus perus, no entanto. Tudo o que ele faz é balançar a cabeça duvidoso. "Eles caminham com tanto orgulho e ainda assim se comportam de forma tão tola," diz ele.
"Não são os modos deles que eu aprecio," digo eu, "tanto quanto é a carne branca. Mesmo assim, quando se trata de noções tolas, eles não têm nada sobre seus patos."
"Mais non," diz Leon, não querendo dizer nada sensato, "talvez você não entenda o pato. Eu, eu os criei quando menino em Perronne. Mas o peru! Pouff! Ele é o que vocês chamam de tolo da cabeça. Não se pode dizer o que farão a seguir. Qualquer coisa pode acontecer com tais aves."
Ele faz tanta confusão sobre o jeito que eles devoram o grão na hora da alimentação que tenho que construir um cercado separado para eles. Você quase pensaria que ele estava com ciúmes. Mas Joe, por outro lado, trata-os como animais de estimação. Não sei quantas vezes por dia ele os alimenta, e ele está sempre trazendo um para mim para mostrar como estão ficando pesados. Eu estava esperando até que estivessem em perfeitas condições antes de apresentá-los a Basil Pyne. Eu queria tirar um suspiro dele quando o fizesse.
Finalmente, marquei um dia para a exibição privada e pedi aos Pyne que viessem especialmente. Basil está todo preparado para ficar emocionado enquanto eu o conduzo para fora. "Mas você não quer dizer que este é seu primeiro empreendimento na criação de perus?" ele pergunta.
"Ab-so-lutamente," digo eu.
"Extraordinário!" diz Basil.
No final do cercado dos perus, porém, encontro Joe olhando através da cerca com um olhar de pânico no rosto. "Bem, Joe," digo eu, "alguma coisa errada com o bando?"
"Eu não sei," diz ele. "Talvez eles tenham enlouquecido, talvez estejam bêbados. Veja!"
Maldita seja se não parece que ele fez dois palpites certeiros. Honestamente, cada um daqueles perus estava cambaleando, batendo um no outro e correndo contra a cerca, com as caudas abertas e os pescoços longos balançando de forma absurda. Um grupo de bêbados de véspera de Ano Novo às 3 da manhã não poderia ter dado uma exibição mais escandalosa.
"Meu Deus!" diz Basil.
Claro, cabe a mim produzir uma explicação. O que faço prontamente. "Oh, isso não é nada!" digo eu. "Eles estão apenas experimentando o gingado do pato, imitando seus vizinhos no cercado ao lado. Perus sempre fazem isso mais cedo ou mais tarde se você tiver patos perto deles. Eles continuam fazendo isso até ficarem tontos."
"Sério, agora?" diz Basil. "Nunca ouvi isso antes."
"Não muitas pessoas ouviram," digo eu. "Mas eles vão superar isso em uma hora ou mais. Dê uma olhada amanhã e você verá."
Basil diz que vai. E depois que ele vai embora, começo a corte marcial.
"Joe," exijo, "o que você tem dado para esses perus comerem?"
Levou cinco minutos de interrogatório antes que eu o fizesse lembrar que, pouco antes do café da manhã, ele tinha se esgueirado e roubado um balde de coisas que achava que Leon estava guardando para seus patos. E o que você acha que é? Bem, ele e Leon tinham entrado no negócio de vinho caseiro no outono passado, utilizando todas aquelas uvas que cultivamos no terreno dos fundos, e apenas no dia anterior eles tinham passado pelo processo de trasfega de um barril para outro. Foi o que sobrou no fundo que Joe roubou para seus animais de estimação.
"Huh!" digo eu. "E agora você não apenas desonrou esses perus para o resto da vida, mas me fez entregar ao Sr. Pyne um material falso de natureza que ninguém, exceto um autor tolo, engoliria."
"Sinto muito," diz Joe, abaixando a cabeça.
"Tudo bem," digo eu. "Espero que você tenha tido boas intenções. Mas foi um palpite ruim. Agora veja se eles têm bastante água para beber e, pela manhã, talvez eles fiquem sóbrios."
Eu pretendia ficar de olho neles pelo resto do dia, mas logo após o almoço a tia aparece novamente, para fazer uma visita de despedida antes de partir para o Sul, e os perus me escaparam da mente. Só quando ela pergunta como estou me saindo com meu bando de codornas é que me lembro.
"Oh, codornas!" digo eu. "Não, eu tive que abandonar isso. Não consegui o tipo certo de ovos."
A tia sorri sarcasticamente. "Que pena!" diz ela. "Mas os vários tipos de aves que você ia criar? Você..."
"Se eu fiz?" digo eu. "Diga, você apenas venha e... Bem, Leon, alguma coisa que você queira especialmente?"
"Perdão, m'sieu," diz o velho Leon, arrastando o pé, "mas... mas os perus."
"Sim, eu sei," digo eu. "Eles estão fazendo aquele novo trote que Joe tem ensinado a eles."
"Mas não, m'sieu," diz Leon. "Eles se tornaram falecidos... totalmente."
"O-o-o-que?" digo eu. "Oh, oh, acho que não é tão ruim assim."
"Perdão," diz Leon, "mas eu os descobri rígidos, les pieds dans le ciel. Assim!" E ele ilustra segurando as duas mãos acima da cabeça.
"Talvez fosse melhor investigar," sugere a tia. "Não tenho dúvida de que Leon está certo. Perus requerem cuidados e manuseio especializados, e quando você estava tão seguro de criá-los, eu esperava algo assim."
"Sim, eu sei que você esperava," digo eu. "De qualquer forma, vamos dar uma olhada."
E lá estavam eles, todos os seis, com os pés para o ar, e tão rígidos como se tivessem acabado de sair de um estoque frio.
"Como se alguém tivesse lançado um ataque de gás neles," digo eu. "Boa noite, perus! Vocês realmente fizeram isso por unanimidade, não fizeram?"
Espero que meu sorriso tenha sido uma performance meio doentia, pois a última pessoa que eu gostaria de ter presente nas exéquias era a tia. Devo dizer, porém, que ela não tenta esfregar na cara. Não, ela fala de casos semelhantes que conheceu quando era jovem, sobre bandos inteiros sendo envenenados por algo que encontraram para comer.
"A única coisa a fazer agora," diz ela, "é salvar as penas."
"Eh?" digo eu, boquiaberto.
"As penas longas da cauda e das asas podem ser usadas para fazer leques e enfeitar chapéus," diz a tia, "enquanto as menores são excelentes para encher travesseiros. Eles devem ser depenados imediatamente."
"Oh, estou satisfeito em chamá-los de perda total," digo eu.
A tia não aceitou, no entanto. Ela envia Leon para buscar um avental grande e algumas cestas e faz com que eu reúna Joe para ajudar. Quando saí, os três estavam ocupados e as penas de peru estavam saindo rápido. Tudo o que restava para mim era entrar e dar a triste notícia para Vee.
"Como criador de perus, sou um fracasso," digo eu.
"Mas não consigo ver que seja sua culpa de forma alguma," diz Vee.
"Não consegue?" digo eu. "Pergunte à tia."
Se o dia seguinte não fosse domingo, eu poderia ter escapado para a cidade e evitado a pequena palestra que a tia insiste em dar sobre a tolice de amadores assumirem trabalhos dos quais não sabem nada. Como é, tenho que ficar por perto e aguentar o tranco. Então, por volta das dez horas, Basil Pyne aparece e reabre o assunto.
"Oh, a propósito," diz ele, "como estão os perus esta manhã? Eles ainda estão praticando aquele maravilhoso andar de pato que você estava me contando?"
A tia tinha acabado de fixar um olhar acusador em mim, e eu estava me perguntando se seria pecado levar Basil para os fundos e estrangulá-lo, quando entra correndo o velho Leon com um olhar selvagem no rosto. Ele está tão animado que está quase sem fala e tudo o que consegue soltar é um gorgolejo na garganta.
"Pelo amor da sopa, desembucha," digo eu. "O que deu errado agora?"
"O-o-o la la!" diz Leon. "O-o-o la la!"
"Isso mesmo, cante se não conseguir falar," digo eu.
"Parbleu! Nom de Dieu! Les dindons!" ele ofega.
"Ah, guarde o blá-blá-blá, Leon," digo eu, "e vamos ouvir a versão em inglês."
"Os... os perus!" ele solta.
E isso arrancou um gemido de mim. "Mais uma vez!" digo eu. "Diga, tenha coração! Ninguém consegue pensar em uma linha mais alegre? Perus! Bem, atire. Eles ainda estão mortos, suponho?"
"Mas não," diz Leon. "Eles... eles voltaram à vida."
"Ora, vamos, Leon!" digo eu. "Você deve ter provado um pouco daquelas borras de vinho você mesmo. Você quer dizer que..."
"Se M'sieu apenas fosse observar," diz Leon. "Eu, eu os vi com meus olhos. Verdadeiramente eles estão como na vida."
"Por que, depois que os depenamos ontem à noite, eu vi você jogá-los por cima da cerca," digo eu.
"Mesmo assim," diz Leon. "Mas venha."
Bem, desta vez tínhamos um comitê completo — Vee, tia, Basil, Madame Battou, o velho Leon e eu mesmo — e todos nós fomos para o terreno dos fundos. E diga, mais uma vez Leon está certo. Lá estão eles, todos amontoados no galho mais baixo de uma macieira curvada e cada um deles tão tímido de penas quanto as costas da sua mão. É a exposição de aves mais indecente que já vi.
"Meu Deus!" diz Basil, olhando através de seus óculos grossos.
"Isso nem chega perto de descrever, Basil," digo eu.
"Mas... mas o que aconteceu com eles?" ele insiste.
"Odeio admitir," digo eu, "mas eles tiveram uma festa ontem. Uh-huh. Borras de vinho. E eles ficaram bêbados ao limite... paralisados. Então, por conselho de uma especialista em perus" — aqui eu olho para a tia — "decidimos que eles estavam mortos, e nós os depenamos para conservar suas penas. Ótima ideia, hein? Apenas um pequeno erro sobre eles estarem totalmente falecidos, como Leon colocou. Eles estavam caídos, mas não fora. Olhe para as pobres coisas agora, no entanto."
E então Vee tem que rir. "Eles não são simplesmente absurdos!" diz ela. "Veja-os tremer."
"Eu deveria pensar que eles estariam corando," digo eu. "Qual é o próximo passo?" pergunto à tia. "Eu coloco aquecimento a vapor para eles?"
Leva alguns minutos para a tia se recuperar, mas quando ela o faz, ela está lá com o pequeno plano brilhante. "Devemos fazer jaquetas para eles," diz ela.
"Eh?" digo eu.
"Certamente," ela continua. "Eles vão congelar se não o fizermos. E é perfeitamente prático. Claro, nunca vi isso ser feito, mas tenho certeza de que eles se darão tão bem quanto se suas penas fossem substituídas por algo que os mantenha aquecidos."
"Não poderíamos conseguir que as senhoras da Cruz Vermelha tricotassem suéteres para eles, poderíamos?" eu sugiro.
A tia não presta atenção nisso, mas pergunta a Vee se ela não tem algumas camisas de flanela velhas, ou algo do tipo.
Bem, enquanto eles planejam os novos estilos de inverno para os trajes dos perus, Joe e Leon montam um fogão a lenha no galinheiro, expulsam o bando para dentro e começam a aquecê-los. Eles se revezaram naquela noite para manter o fogo aceso, entendi.
E quando chego em casa na segunda-feira à tarde vindo do escritório, nem tenho permissão para dizer olá para a criança até que tenha sido arrastado para fora e apresentado triunfalmente ao único bando de perus feitos sob medida no país. A tia, Vee e Madame Battou certamente fizeram um trabalho caprichado de costura, considerando o fato de que não tinham moldes de papel para seguir. Mas, de alguma forma, eles inventaram um traje de peça única cortado alto no pescoço com um efeito tipo culote na parte inferior. Principalmente, eles pareciam ter usado um velho roupão acolchoado meu, tipo seda, mas também reconheci uma camisa de exército cáqui que eu não tinha ideia de jogar fora ainda tão cedo. E, se você acreditar, aqueles perus estavam andando por aí tão cheios de si como se não tivessem perdido uma pena.
"Eles não são simplesmente bonitinhos para tudo?" pergunta Vee.
"Pior do que isso," digo eu, "eles parecem quase tão humanos quanto tantos balconistas. Espero que não sejam difíceis com as roupas, pois meu guarda-roupa não suportaria muitos ataques desses."
"Oh, não se preocupe com isso," diz Vee. "Estaremos comendo um a cada semana ou mais."
"Então não me diga quando as execuções acontecerem," digo eu. "Quanto a mim, não me sentiria confortável em dizer a Joe para matar um sem uma ordem do Alto Xerife do condado."
E diga, se algum dia eu for enganado a comprar mais perus vivos, vou exigir uma garantia por escrito de que eles são proibicionistas.
Estou um pouco contente por ter estado com Ernie na sua grande noite. Se não estivesse, nunca teria acreditado nele. Nem que ele apresentasse declarações juramentadas. Não! Teria sido um esforço demasiado para a imaginação.
Pois, de alguma forma, é difícil associar Ernie a algo parecido, mesmo depois de ter visto o que vi. Quase se poderia adivinhar apenas pelo nome dele: Ernest Sudders. E quando acrescento que ele é auditor assistente nos escritórios da Corrugated, devem ficar com o quadro completo. Sabem como são os auditores assistentes.
Ernie era o reflexo exato do tipo. E algo mais. Suponho que houvesse uma ou duas outras coisas que ele pudesse ter sido; como gerente de uma loja de presentes, ou vitrinista de um departamento de moda feminina, ou professor de música num internato para raparigas. Mas duvido que alguma vez tivesse tido tanto sucesso como teve na secretária alta. Parecia que tinha nascido para ser auditor assistente. Ele já ocupava o cargo quando cheguei à Corrugated como subestagiário; ele ainda lá está, e só consigo pensar numa entidade que o conseguiria arrancar de lá: o velho de foice longa.
Por um lado, Ernie dedica todo o seu tempo a ser auditor assistente. Não apenas durante o horário de expediente. Aposto que ele o é mesmo enquanto dorme. Ele tem o aspeto, veste-se como tal, pensa como tal. Ele não trabalha nisso, ele vive-o. Falem-me sobre essa história de quatro dimensões. Ernie desenrasca-se com duas: coluna acima desde o fundo, e em ambas as direções a partir da vírgula decimal.
Não é um sujeito de má aparência, o Ernie, só um pouco rígido da cintura para cima. Sabem, como se tivesse a espinha numa armação. Depois, há o pomo de Adão. Ernie ajusta o seu num colarinho alto e branco, e destaca-o com uma gravata ascot preta e um alfinete de pérola. Além disso, ostenta o único fraque preto que é usado regularmente nos Escritórios Gerais. Ah, sim, o Ernie podia aparecer a qualquer momento como padrinho de casamento ou carregador de caixão. Não quero dizer que seja frequentemente chamado para qualquer uma das funções. Ele só usa esse traje porque essa é a sua ideia de como um auditor assistente deve estar vestido.
O Ernie é um desses tipos do super-sistema. Ele poderia apresentar um relatório anual todos os sábados se os diretores o pedissem. Nunca tem de andar à procura de números perdidos. Ele tem tudo indexado de forma organizada e precisa. Ele é assim com tudo, tem sempre um guarda-chuva de reserva e um par extra de galochas no seu cacifo, e carrega um canivete de cabo de pérola numa bolsa de camurça.
Mas, apesar de tudo isso, lamento informar que, na Corrugated, o Ernie é considerado uma piada ambulante. Todos nós brincamos com ele, até ao Velho Hickory Ellins. Os únicos com quem ele parece importar-se são as datilógrafas. A tarefa mais árdua que ele faz durante o dia é quando tem de passar por aquela bateria de quase-vampiros, pois elas nunca falham em lançar uma barragem de olhares sedutores que o deixam corado até às orelhas.
Claro, tendo notado isso, uso geralmente como deixa para dirigir palavras simpáticas ao Ernie. "Sinceramente agora", pergunto-lhe, "qual daquelas Lizzie Mauds é a tua favorita estes dias, Ernie?"
E o Ernie, ele cora como um hidrante e protesta: "Ora, diz lá, Torchy! Sabes muito bem que nunca falei com nenhuma delas."
"Sim, contas bem a história", digo eu, "mas eu conheço-te, velho desportista."
Não sei há quanto tempo ando a disparar coisas dessas ao Ernie, e isso deixa-o sempre agitado. Tenho o palpite, porém, de que ele até gosta. Estes rapazes tímidos com as raparigas geralmente gostam. E, na verdade, suponho que a única mulher que ele alguma vez olhou diretamente nos olhos foi aquela irmã solteirona com quem ele vive algures em Jersey.
Então, nesta noite, quando fazíamos horas extras juntos no escritório e surgiu a questão de sair para jantar, eu tinha planeado pregar uma partida ao Ernie, levando-o a um local onde as luzes fossem brilhantes e onde fosse provável haver baldes de prata no chão. Eu esperava que ele pudesse ver alguma dama perfeita acender um cigarro, ou talvez lançar-lhe um olhar provocador por cima do copo de champanhe. Seria reconfortante observar o Ernie a tentar fingir que não reparava.
Ele já tinha ligado à irmã pelo telefone de longa distância e dito para ela não o esperar acordada, explicando exatamente no que estávamos a trabalhar e como talvez não terminássemos antes de muito tarde. E a irmã tinha-lhe aconselhado a não se esquecer de usar o seu cachecol de seda e a não dormir além da sua paragem se tivesse de apanhar o comboio das 11:48.
"Caramba, Ernie!" digo eu. "Se já és assim agora, como serás quando fores casado?"
"Mas não pensei em casar", diz ele. "A sério!"
"Sim", digo eu, "e vocês, rapazes silenciosos e distraídos, são exatamente aqueles que saltam para o matrimónio inesperadamente. Nalguma noite, encontrarás a boneca certa e, no momento seguinte, saberemos que estarás a enviar cartões para casa. Tu ages de forma suficientemente inocente em público, mas aposto que és uma fera quando se trata de trabalhar para um abraço rápido atrás das palmeiras."
Ernie quase arqueja de horror com o pensamento.
"Oh, eu não duvidaria de ti", digo eu. "Suponho, no entanto, que gostarias que eu te classificasse entre os grandes não beijados?"
"Na verdade", diz Ernie solenemente, "eu nunca... Bem, pelo menos não desde que era um mero rapaz. Apenas... apenas aconteceu assim."
"E tu com mais de trinta!" digo eu. "Que longa temporada sem sorte!"
Então, sugiro que trabalhemos até cerca das 7:45 e depois vamos ao terraço do Regal para uma refeição de 2 dólares e uma vista de alguma daquela patinagem sofisticada que estão a fazer lá. Mas esse não é, de todo, o plano do Ernie. Ele tem a boca toda preparada para um guisado de ostras e um prato de bolinhos na lanchonete da Arcade.
"Ah, esquece os teus velhos hábitos automáticos por uma vez", digo eu. "Este jantar é por conta da casa, sabes, então porque não torná-lo num jantar a sério? Vamos lá."
E, por milagre, convenço-o a fazê-lo. Suponho que a ideia de debitar na conta de despesas não lhe tinha ocorrido.
Seja como for, foi assim que acabámos a caminhar pela West Forty-fifth Street com a primeira das multidões de teatro, Ernie ainda a protestar que realmente não se importava com este tipo de coisas — números de cabaré e tudo isso — e eu a provocá-lo como de costume, dizendo que aposto que o chefe de mesa o trataria pelo primeiro nome, quando a rede é lançada subitamente sobre a cabeça de Ernie.
Não sei qual de nós a viu primeiro. Tudo o que tenho a certeza é que ambos abrandámos e fizemos o papel de boquiabertos. Dificilmente nos poderiam culpar, pois ali, num táxi junto ao passeio, está... Bem, seria preciso Robert Chambers uma página e meia a vinte cêntimos por palavra para lhe fazer justiça total, por isso direi apenas que ela era uma senhora adorável.
Não, não a estou a confundir com nenhuma das estrelas do Sr. Ziegfeld, nem ela é alguma noiva de corretor arrancada da mesa da telefonista. Ela é a coisa real no que toca a damas, embora seja difícil dizer como eu sabia disso. Além disso, é uma sereia caseira que funciona sem a ajuda de batom, permanente ou lápis de sobrancelhas. Seja como for, aqui está ela, debruçada pela porta do táxi e disparando o sorriso sedutor.
Eu não conseguia acreditar que fosse destinado a qualquer um de nós até ter verificado se não havia mais ninguém na fila. Não, não havia. E como o Ernie estava mais perto, claro que sei que é para ele.
"Ah, ah!" digo eu. "Quem é a tua amiga com as madeixas douradas?"
Era o que elas eram, com certeza. Não se vê cabelo assim todos os dias, e não é o tom que pode ser produzido num salão de beleza. É do tipo de 18 quilates, feito de forma meio solta e descuidada, mas ainda mais perigoso por isso. E com aquela tez branca como a neve, exceto pelo rubor rosado nas bochechas, e os grandes olhos azuis estelares, ela é certamente uma deslumbrante.
"Tu... tu achas que ela se refere a mim?" sussurra Ernie, rouco, enquanto paramos nos nossos passos.
"Ah, vamos lá!" digo eu. "Este não é o momento para hesitar. Se ela não te tivesse detetado diretamente, poderias ter fingido que não a viste, e passeado de volta depois de me teres despistado. Como estão as coisas, Ernie, apanhei-te desta vez e mais vale..."
"Mas eu... eu não a conheço de todo", insiste Ernie.
Nesse momento, porém, ela estende um par de braços nus e comenta de forma bem natural: "Finalmente vieste, não vieste?"
"Parece estar bastante bem familiarizada contigo, no entanto, meu rapaz Ernie", digo eu.
Quanto ao Ernie, ele apenas fica ali a olhar, de olhos arregalados e ofegante, como se não soubesse o que fazer. Claro, eu não conseguia dizer porquê. Sabia que ele sempre agira como um pobre tolo quando era provocado pelas datilógrafas pretensiosas no escritório, mas quase qualquer idiota poderia ver que este era um caso inteiramente diferente. Aqui estava uma pessoa real, toda arranjada num vestido de noite elegante, com uma capa de ópera guarnecida de pele a escorregar-lhe dos ombros. E ela estava a chamá-lo diretamente.
"Mas... mas deve haver algum engano", protesta Ernie.
"Se há", digo eu, "cabe-te a ti esclarecer a senhora. Não podes simplesmente ir embora e deixá-la com as mãos no ar, podes? Ah, não sejas um peixe! Aproxima-te."
Com isso, dou-lhe um empurrão e o Ernie cambaleia até ao passeio.
"Passou tanto tempo", oiço a senhora murmurar, "mas eu sabia que te lembrarias. Vem."
O que o Ernie disse então não captei bem, mas a próxima coisa que soube foi que ele tinha sido puxado para dentro, o motorista tinha recebido o sinal, e enquanto o táxi arrancava em direção à Quinta Avenida, tive um vislumbre do que parecia muito um abraço carinhoso, com o Ernie como o abraçado.
E lá fico eu, de boca aberta. Suponho que fiquei ali uns bons dez minutos, a tentar perceber o que tinha acontecido. Teria o Ernie apenas a fingir, tentando arranjar um álibi? Ou seria um caso de má memória? Não, isso não parecia provável. Ela não era o tipo de pessoa feminina que um homem pudesse esquecer facilmente, se alguma vez a tivesse conhecido realmente. Especialmente um tipo como o Ernie, que tinha tido uma experiência tão limitada. Nem era o tipo que sairia a passear num táxi atrás de estranhos. Não ela. Além disso, não tinha ela reconhecido o Ernie à primeira vista? Depois, houve o abraço rápido. Não há como negar isso. Quem quer que fosse, era alguém que não hesita em abraçar o Ernie mesmo em público. E, no entanto, ele insiste, até ao último momento, que não a conhece. Bem, desisti.
"Ou ele é um desportista mais astuto do que lhe temos dado crédito", penso eu, "ou então a senhora cometeu o erro da sua vida. Se cometeu, ela logo descobrirá e o Ernie estará de volta à procura de mim."
Mas, depois de caminhar para cima e para baixo no quarteirão três vezes sem ver nada que parecesse o Ernie, entro numa casa de costeletas e como uma dentada sozinho. Depois, vago de volta aos escritórios gerais e tento terminar o que estávamos a trabalhar. Mas não conseguia deixar de pensar no Ernie. Teria ele simplesmente pregado uma partida, ou o quê? Se pregou, quem era a sua elegante amiga? E como é que ela estava ali à espera no táxi? Pela forma como estava vestida, poderia estar a caminho de algum jantar de dança na Quinta Avenida. Aquele era um vestido de noite perfeitamente elegante que ela levava, o pouco que lá estava. E eu conseguia recordar-me de joias a brilhar aqui e ali. Claro, ela não era nenhuma miúda; algures abaixo dos trinta teria sido o meu palpite, mas ela era certamente fácil de olhar. Tais olhos, também! Sim, um pouco estelares talvez, mas grandes e brilhantes. Não admira que o Ernie não se importasse de olhar para nenhuma das nossas datilógrafas se tivesse aquilo em segundo plano.
Portanto, não estava a avançar muito rapidamente a desembaraçar aqueles contratos de acostagem, e antes das 11 horas já estava a bocejar. Tinha acabado de decidir desistir e rondar a estação até que o comboio do teatro estivesse pronto, quando oiço um passo instável no escritório exterior e, no minuto seguinte, entra o Ernie.
Isto é, é alguém que se parece um pouco com o Ernie de três horas antes. Mas o seu chapéu de coco está amassado de um lado, uma ponta do seu colarinho alto foi arrancada e está subindo em direção à sua orelha esquerda, o casaco está todo poeirento e o rosto está corado como um camião de bombeiros novo.
"Pelo amor da sopa!" digo eu, ofegante. "Deve ter sido uma bela festa?"
Ernie prepara-se agarrando o encosto de uma cadeira e faz uma tentativa de recuperar a sua habitual pose de pescoço rígido. Mas é um fracasso total. Então desiste, acena uma mão vagamente e entrega-se a um sorriso tolo.
"Que... que te faz pensar que foi... uma festa?" pergunta ele.
"Tenho clarividência, Ernie", digo eu, "e diz-me que foste despejado da carroça."
"Tu... tu achas que eu... bebi?" pergunta Ernie, indignado.
"Oh, não", digo eu. "Eu diria que tinhas estado a usar um funil."
"Isso é... isso é porque tens uma 'natureza suspeita'", protesta Ernie. "Apenas uns copos. Sabes... bolhas na haste."
"Champanhe, eh?" digo eu. "Então foi uma festa a sério? Ernie, estou surpreendido contigo."
"Tu... tu não estás metade tão surpreendido como... como eu próprio estou", diz ele, rindo. "Foi isso que eu disse à Louise."
"Oh, mencionaste isso à Louise, mencionaste?" digo eu. "Suponho que foi a senhora adorável que te levou no táxi?"
Ele acena com a cabeça e solta outro daqueles sorrisos idiotas. "É isso mesmo", diz ele. "A adorável Louise."
"Diz-me, Ernie", digo eu, "há quanto tempo isto dura?"
E o que supões que este palerma tem a coragem de me atirar? Que esta foi a primeira vez que ele a viu. Uh-huh! Ele insiste nessa história. Até alega que não sabe qual é o resto do nome dela.
"Louise, é só isso", diz ele. "A adorável Louise."
"Oh, muito bem", digo eu. "Deixaremos ficar por aí. E suponho que ela te escolheu por causa da tua beleza irresistível? Deve ter sido um caso súbito, pelo abraço carinhoso que te vi receber quando o táxi arrancou."
Ernie fechou os olhos lentamente, como se estivesse a rever a cena novamente, e depois comenta: "Foi aí que comecei a ficar surpreendido. Louise tem uma natureza muito afetuosa."
"Assim parece", digo eu. "Mas onde é que a festa teve lugar?"
Esse pequeno detalhe parece ter escapado ao Ernie. Ele lembrava-se de que havia velas cor-de-rosa na mesa, e música a tocar, e muitas pessoas simpáticas por perto. Também que a cabeça do empregado de mesa era brilhante, como um ovo. Ele pensou que devia ter sido num hotel na Quinta Avenida. Sim, entraram por uma cobertura no passeio. Foi um jantar muito agradável, também... especialmente o faisão e o parfait na taça de prata. E era tão engraçado ver as bolhas continuarem a subir através da haste de vidro.
"Sim", digo eu, "esse é um dos desportos de inverno favoritos de Nova Iorque. Mas quem pagou isto tudo? A Louise?"
"Ela insiste que sou o seu convidado", diz Ernie.
"Isso tornou tudo muito agradável, então, não foi?" digo eu. "Mas nada disto explica a mossa no teu chapéu e os outros sinais de barulheira. Alguém deve ter ficado muito confuso contigo em alguma fase do jogo. Lembras-te de algo sobre isso?"
"Oh!" diz Ernie, enrijecendo-se e tentando franzir a testa. "Pessoas mais... mais desagradáveis. Realmente rudes."
"Quem e onde?" insisto eu.
"A família da Louise", diz Ernie. "Eu... eu não aprecio a família dela. Não. Desculpa, mas..."
"Queres dizer que a Louise te levou para casa depois do jantar?" digo eu.
Ernie acena. "Queria que conhecesse a família", diz ele. "Querido papai, mãe querida, e por aí fora. 'Encantado', digo eu. Estava disposto a conhecer qualquer pessoa então. Exatamente no estado de espírito certo. 'Certamente', digo eu. Sentindo-me amigável. Dei palmadinhas nas costas do empregado, acenei ao maestro da orquestra, apertei a mão de um completo estranho ao sair. Fomos para uma casa adorável, algures lá em cima. Fiel mordomo, belos tapetes velhos no corredor, tapeçarias na parede. E depois... depois..."
Ernie desaba numa cadeira, empurra a ponta solta do colarinho para longe do queixo, irritado, e solta um suspiro profundo. Suponho que ele pense que contou toda a história.
"Presumo", digo eu, "que conheceste o querido papai?"
"Não era assim tão velho, a esse respeito", diz Ernie. "Não. Nem tão querido. Parece... parece o Teddy Roosevelt. Comporta-se como o Teddy, também. Impetuoso. A primeira coisa que ele diz é: 'E quem diabo és tu?' 'Adivinha?' digo-lhe. 'Dou-te três tentativas.' Ele... ele não é bom como adivinho, papai. Agarra-me pelo colarinho. 'Tu, seu vadiar!' diz ele. Então a adorável Louise vem em socorro. 'Não consegues ver, papai?' diz ela. 'É o Ernie. Encontrei-o finalmente.' 'Ernie quem?' exige papai. 'Eu... eu esqueci-me', diz Louise. 'Bah!' diz papai. 'Da última vez foi o Harold, não foi?' 'Malandro, malandro!' digo eu. 'Não deves contar histórias. Mau comportamento, papai. Vamos todos ficar calmos agora e... e contar-te sobre o jantar... bolhas no copo, e tudo o mais. Louise e eu. Rapariga adorável, Louise. Natureza afetuosa.' E foi até aí que cheguei. Natureza diferente, papai."
"Deduzo que ele não insistiu para que ficasses?" digo eu.
Não, não insistiu. Tanto quanto pude perceber, o querido papai agarrou o Ernie com firmeza em dois lugares, e enquanto o fiel mordomo mantinha a porta da frente aberta, ele tornou-se mais impetuoso do que nunca. Enquanto o Ernie me conta sobre isso, ele esfrega-se, nostálgico, e olha com tristeza para o seu chapéu de coco amassado.
"Mais irritante", diz ele. "Nem sequer pude dizer boa noite à adorável Louise."
"Oh, bem", digo eu. "Podes compensar isso quando fizeres a tua visita de agradecimento pelo jantar. A propósito, onde era esta casa da adorável Louise?"
Ernie não sabe. Quando chegou, estava demasiado ocupado para reparar na rua e no número, e quando saiu, estava demasiado irritado. Além disso, não se lembrava de ter ouvido o apelido da Louise.
"Huh!" digo eu. "Exceto por isso, está tudo bem claro, eh? Parece-me, Ernie, como se tivesses construído um mistério perfeitamente bom. Foste raptado por uma senhora adorável, tiveste um jantar fantástico, com bastante champanhe à parte, foste apresentado a um pai de braço forte, e acabaste no passeio com o teu chapéu amassado. E para um auditor assistente que cora tão facilmente como tu, isso é o que eu chamo de uma grande noite."
Ernie acena. Depois, ri-se para si próprio, um tanto satisfeito, e comenta, sentimental: "Rapariga adorável, Louise."
"Sim, já admitimos tudo isso", digo eu. "Mas quem raio é ela?"
Ernie esfalfa o cabelo, pensativo, e depois abana a cabeça.
"Mas durante todo esse tempo ela não disse nada sobre si própria, ou deu-te alguma pista?" continuo eu.
Ernie não consegue lembrar-se de que ela o tenha feito.
"Sobre o que era toda a conversa?" exijo eu.
"Oh, tudo", diz Ernie. "Ela... ela disse que andava à minha procura há muito tempo. Conhecia-me pelos... pelos meus olhos."
"Que comovente!" digo eu. "Isso deve ter sido durante o abraço."
"Sim", diz Ernie. "Mas da próxima vez..."
"Diz-me", interrompo, "se não sabes qual é o nome dela, ou onde mora, como planeias uma próxima vez?"
"É verdade", diz Ernie. "Que pena."
"Ainda assim", digo eu, "o rigor dos beijos na tua jovem carreira foi levantado, não foi? E agora já é altura de eu te compor e levar-te a um hotel onde possas cair nas penas por umas dez horas. O meu palpite é que um jarro de água gelada vai parecer muito bom para ti pela manhã. E talvez pelo meio-dia de amanhã te consigas lembrar de mais detalhes sobre a Louise do que parece conseguir agora."
Não se pode sempre dizer o que esperar destas aves que o surpreendem dessa maneira. Eu próprio cheguei apenas uma hora atrasado ao escritório no dia seguinte, mas encontro o Ernie na sua secretária, parecendo pouco afetado e a trabalhar arduamente como de costume. Ele parece um pouco acanhado quando lhe pergunto se a Louise já lhe telefonou.
"Shhh!" diz ele, olhando à volta com cautela. "Por favor!"
"Oh, claro!" digo eu. "Confia em mim. Não sou nenhuma peneira. Mas pergunto-me se alguma vez voltarás a encontrar-te com ela."
"Eu... eu não sei", diz Ernie. "Tudo parece tão vago e estranho. Não me consigo lembrar de quase nada, exceto que a Louise... Bem, ela mostrou, de facto, alguma afeição por mim, sabes; e talvez, algures..."
"Sim", digo eu, "o relâmpago atinge ocasionalmente o mesmo lugar duas vezes. Mas não muitas vezes, Ernie."
Ele é um fenómeno, o Ernie. Parece satisfeito em deixar as coisas como estão, sem tentar arranjar explicações para nada. Mas eu, não consigo deixar que ninguém me lance um mistério daqueles sem passar por alguns movimentos à Sherlock Holmes. Por isso, essa noite encontra-me a deambular pela Forty-fifth Street novamente, por volta da mesma hora. Não que eu esperasse encontrar a mesma dama adorável à espreita num táxi. Não sei exatamente o que estava à procura.
E então, de repente, fixo o olhar neste táxi amarelo. É um tom estranho de amarelo, algo parecido com uma tarte de abóbora pálida; um veículo grande e desajeitado que tinha sido pintado por algum amador. E eu estaria disposto a apostar que não havia outro igual na cidade. Além disso, é aquele em que o Ernie tinha entrado na noite anterior, pois lá está o mesmo condutor a usar o idêntico chapéu de coco castanho de topo quadrado. Só que não há nenhuma Louise à espera lá dentro.
Eles são um grupo esquivo, estes independentes. Alguns podes contratar para um assalto a banco ou para um pequeno ato com tiroteios, e outros não podes. Este tipo parecia capaz de qualquer coisa. Mas quando lhe pergunto se se lembra da senhora em vestido de noite que transportou na noite passada, ele apenas parece estúpido e abana a cabeça.
"Oh, está tudo bem", digo eu. "Não há consequências."
"Talvez sim", diz ele, "mas o meu forte, rapaz, é esquecer as coisas."
"Isto ajudaria a tua memória?" digo eu, deslizando-lhe um par de dólares.
Ele sorri e guarda o dinheiro. "Ah, referes-te àquela com os olhos selvagens, hã?" pergunta ele.
"Uh-huh!" digo eu. "Estava apenas curioso para saber onde a apanhaste."
"Isso é fácil", diz ele. "Ela saiu dali, na terceira porta acima. É de lá que recebo a maioria das minhas corridas."
"Oh", digo eu, saindo para espreitar. "Parece uma casa particular."
"É particular, de facto", diz ele, "mas é um lar para malucas. Sabes", e ele toca na cabeça. "Ela é um exemplo. Já a levei antes. Elas escapam-se de vez em quando. Ontem à noite ela fugiu pela porta da cave. Suponho que já tenha voltado."
"Sim", digo eu, "suponho que sim."
E não preciso de perguntar mais nada. O mistério da adorável Louise foi completamente esclarecido.
De início, ia contar tudo ao Ernie, mas quando o vi sentado ali à sua secretária alta, a olhar de forma vaga para o vazio e a sorrir de maneira nostálgica, não tive coragem. Em vez disso, pergunto confidencialmente, como de costume:
"Alguma palavra da Louise?"
"Ainda não", diz Ernie, "mas então..."
"Compreendo", digo eu. "E tenho de te dar os parabéns, Ernie; és um tipo astuto, mesmo que não pareças."
Ele não nega. Não o tinha eu visto começar a sua grande noite? E digo-vos, ele está a ficar capaz de passar por aquela fila de dactilógrafas e avaliá-las sem mudar a cor das orelhas. Ele está quase curado do medo das mulheres, o Ernie.
CAPÍTULO VIII
COMO O BABE FALHOU O PASSO
O que o Babe Cutler estava a planear soava certamente a uma grande festa — daquelas que lemos sobre. Ele tencionava reunir três outros desportistas como ele, alugar um iate agradável e confortável, e passar o inverno a navegar pelas Índias Ocidentais, com um cacho de bananas sempre pendurado sob o toldo da popa e um comissário de bordo na proa a misturar planter's punch sempre que o sol passava da amurada.
"O sortudo!" penso eu, enquanto o ouvia a passar alguns dos detalhes ao Sr. Robert, a quem ele acha que talvez possa ser convencido a juntar-se.
"Oh, vem, Bob!" diz ele. "Vamos parar para espreitar Palm Beach no caminho para baixo, passar uns dias em Knight's Key para pescar tubarões, depois saltar até Havana para uma semana de golfe, passar por Santiago e animar o Billy Pickens na sua plantação de açúcar, atravessar até à Jamaica e jogar polo com o pessoal militar em Newcastle — pequenas coisas como essas. Além disso, podemos sempre jogar uma partida de deuces wild à noite e..."
"Não vale a pena, Babe", interrompe o Sr. Robert. "Não pode ser. Esse tipo de vida é muito bom para um solteirão livre como tu, mas para mim é bastante diferente."
"A senhora em casa, hã?" diz o Babe. "Aposto que ela ficaria feliz em ver-te pelas costas durante um par de meses."
"Adulador!" diz o Sr. Robert. "E suponho que achas que não sentiriam a minha falta na Corrugated Trust também?"
"Aposto cem como podias passar o teu trabalho para o Torchy aqui e a empresa nunca notaria a diferença", diz o Babe, piscando-me o olho amigavelmente. "De qualquer forma, não me recuses logo. Leva um dia ou dois a pensar nisso."
E com isto, o Sr. Cutler veste o seu sobretudo forrado a vison, desliza-me uma nota de dez dólares confidencialmente enquanto passa pela minha secretária, e segue em direção à Broadway. Os dez, presumo, são um adiantamento para eu promover o empreendimento náutico. Mostro-os ao Sr. Robert e sorrio.
"Só há um Babe", diz ele. "Ele ofereceria uma gorjeta a S. Pedro, ou sugeriria tirar a sorte à moeda para ver se era deixado entrar ou barrado."
"Ele é o que eu chamaria de exemplo perfeito do desportista alegre e descuidado", digo eu. "Como é que ele escapou ao laço matrimonial durante tanto tempo?"
"Porque o casamento nunca lhe foi apresentado como um jogo, uma proposta desportiva na qual podes ganhar ou perder", diz o Sr. Robert. "Ele pensa que é meramente uma sentença perpétua que recebes por não teres cuidado onde pisas. Talvez seja melhor assim, porque o Babe não é o que se chamaria de doméstico nos seus gostos. Dá-lhe um lema de 'Lar, Doce Lar' e ele pregá-lo-ia dentro do seu baú de guarda-roupa."
Suponho que essa seja uma descrição mais ou menos precisa, pois o Sr. Robert conhece-o há muito tempo. E, no entanto, não podes evitar gostar do Babe. Ele não é um daqueles fanfarrões ruidosos. Veste-se tão discretamente como fala, e entre estranhos passaria quase por um tímido empregado bancário no seu dia de folga. Ele é, contudo, um mestre quando se trata de formas agradáveis de gastar tempo e dinheiro; desde velejar num barco de 90 pés numa regata, a qualificar-se na segunda categoria em Pinehurst. Não é nenhum ás em nada em particular, entendo, mas bom o suficiente para entrar em quase qualquer jogo antigo que possas propor.
Também é um I.W.W. original. Uh-huh. Income Without Work (Rendimento Sem Trabalho). Isso foi arranjado quase antes de ele nascer, quando o seu velho entrou num grande consórcio de fábricas e agarrou ações preferenciais suficientes para encher uma caixa de embalagem. Talvez penses que não tens interesse em financiar a carreira do Babe Cutler. Mas tens. Não podes fugir disso. Cada vez que comes um pedaço de pão, ou uma fatia de torrada ou um bocado de massa de tarte, estás a contribuir para os dividendos do Babe. E ele sabe tanto sobre como a farinha é feita como sobre levantar-se à noite para aquecer um biberão para o pequeno Tootsums. O que não é culpa do Babe mais do que é a tua. Como ele próprio te diria, se o caso lhe fosse apresentado, é tudo uma questão de sorte.
Ele deve ter tido alguma dificuldade em organizar a sua expedição, pois nessa mesma tarde, quando saio do comboio das 4:03 em Piping Rock — tendo saído cedo, como um secretário privado de luxo deve fazer de vez em quando — quem é que aparece na estação senão o Sr. Cutler no seu phaeton desportivo azul-ovo-de-tordo com as rodas de arame brancas.
"Diz-me", diz ele, "o Bob não veio também?"
"Não", digo eu. "Acho que ele e a Sra. Ellins têm um jantar na cidade."
"Bolas!" diz o Babe. "Estava a contar com ele para uma hora ou que tal de bilhar e outra tentativa de falar sobre o cruzeiro. Ainda havemos de o convencer, hã, Torchy? Salta para dentro e eu levo-te a casa."
Então subo a bordo, o Babe abre o escape, e fazemos um arranque como um foguete.
"Que tal dar a volta ao clube de campo e regressar pela estrada do meio? Não tens pressa, tens?" pergunta ele.
"Nem um pouco", digo eu, olhando para o velocímetro, que marcava cinquenta.
"Nem eu", diz o Babe. "Estou a passar o meu fim de semana anual com a mana Mabel, sabes. Uma boa rapariga, a Mabel, mas não posso dizer que goste de lá visitar. Dirige a casa demasiado para as crianças. Apenas três, mas estão por todo o lado — trepando para cima de ti, agarrando-te, fazendo-te tropeçar. Enfermeiras por perto também. Efeito jardim de infância constante. E os miúdos estão sempre a ser banhados, ou alimentados, ou postos a dormir. Por isso tento manter-me fora do caminho até à hora do jantar."
"Compreendo", digo eu. "Não és muito chegado a crianças?"
"Oh, não me importo com elas quando estão no seu devido lugar", diz o Babe. "Mas quando insistem em dar-te beijos com gosto a papa de aveia, ou tocar-te com dedos pegajosos — não, obrigado. Não posso dizer isso à Mabel, no entanto. Ela parece pensar que são todos pequenas maravilhas. E o Dick é igual — corre para casa cedo todas as tardes para poder passar meia hora com eles. Huh!"
"Talvez te sintas diferente", digo eu, "se algum dia tiveres uma família tua."
"Eu?" diz o Babe. "Nem pensar!"
Não pude deixar de concordar com ele. Podia ver agora porque é que ele evitava o matrimónio de forma tão consistente. Com sentimentos como aqueles, ele via a mana Mabel como um exemplo horrível. Além disso, seguindo desportos como ele seguia, uma esposa e filhos não encaixariam de todo.
Tínhamos feito metade do percurso e estávamos a percorrer a estrada do meio no troço de regresso a um ritmo de Taça Vanderbilt, quando de repente o Babe trava a fundo e derrapamos até parar uns metros à frente de onde esta jovem nos sinalizava freneticamente com um lenço de seda com bordas cor-de-rosa.
"Que raio!" pergunta o Babe, olhando para trás.
"Parece um pedido de ajuda", digo eu. "Ela tem um grupo de crianças com ela e — sim, uma delas está toda ensanguentada. Vê!"
"Ó Senhor!" geme o Babe. "Bem, suponho que tenho de ir."
Enquanto ele faz marcha-atrás com a máquina, estico o pescoço e dou uma vista de olhos a este grupo à beira da estrada. Três meninas pequenas estão amontoadas, em pânico, à volta desta jovem que usa um gorro de veludo castanho num ângulo tão atrevido sobre o seu cabelo castanho ondulado. E aconchegado no seu braço esquerdo, ela segura uma criança rechonchuda cujo rosto está manchado de sangue de forma alarmante.
"O senhor por acaso não é médico, pois não?" ela pergunta ao Babe.
"Pelos céus, não!" diz ele.
"Mas talvez saiba o que fazer para parar uma hemorragia nasal?" continua ela.
"Bem, vamos ver", diz o Babe. "Oh, sim! Põe uma chave de porta fria na nuca dele."
"Ou um pedaço de papel castanho na língua", acrescento eu.
A jovem encolhe os ombros, desapontada. "Já tentei tudo isso", diz ela, "e também uma bolsa de gelo. Mas não adianta. Tenho de o levar a um médico imediatamente. Há um a cerca de um quilómetro nesta estrada. Não nos podia levar?"
"Claro que sim!" diz o Babe. "Torchy, podes ir agarrado atrás, não podes?"
"Oh, eu posso ir a pé para casa", digo eu.
"Não, não", diz o Babe, apressado. "Tu... é melhor vires também."
Então ajudo a carregar a jovem e a criança a pingar clarete, instalo-me nos pneus sobressalentes, e partimos.
"É o irmãozinho?" pergunta o Babe, olhando para o miúdo.
"Meu?" diz a jovem. "Claro que não. Sou a Lucy Snell — uma das professoras da escola pública ali no cruzamento. Algumas das crianças insistem sempre em caminhar parte do caminho para casa comigo, especialmente o pequeno Billy aqui. Normalmente ele porta-se muito bem, mas hoje parece estar com azar. O nariz dele começou a verter há mais de meia hora. Ele deve ter vertido litros e litros, por todo ele e por mim. Não se diria que ele ainda podia ter uma gota dentro dele. Eu estava quase a ficar louca quando vos vi a vir. Ali está a casa do Dr. Baker à direita, depois daquela próxima curva. E diga-me, este veículo seu tem uma velocidade incrível, Sr... er..."
"Cutler", diz o Babe. "Aqui estamos. Posso fazer mais alguma coisa?"
"Bem", diz a Srta. Snell, enquanto eu desabotoo a porta para ela, "podia ficar aqui uns minutos para ver se ele precisa de ser levado para o hospital ou algo do género. Eu aviso-o." E com isto, ela sai apressada.
"Jovem viva, hã?" comento com o Babe. "Não se importa de pedir o que quer."
"Perfeitamente correto, também", diz ele, "num caso destes. Ela não é do tipo indefeso. Muita energia, aposto. Lucy, hã? Sempre gostei desse nome."
Tive de soltar uma risada. "E o Snell?" digo eu. "Também é um dos teus nomes favoritos?"
"N-n-não", diz o Babe. "Mas ela provavelmente mudará isso um dia destes. Ela é do tipo que muda, sabes."
"Suponho que tenhas razão, nisso", concordo eu.
Pouco depois ela sai novamente, calma e sorridente. É um sorriso e tanto que ela tem, aliás. Largo e generoso e muito humano. E agora que o susto desapareceu dos seus olhos, eles têm mais ou menos brilho. São daquele castanho vivo, que combina com o cabelo, e as sardas na ponta do nariz.
"Está tudo bem", diz ela. "O Dr. Baker diz que a bolsa de gelo resolveu o problema. E ele vai levar o Billy a casa assim que o tiver limpo um pouco. Obrigada, Sr. Cutler."
"Oh, eu também podia levar-te a casa e terminar o serviço", diz o Babe.
"Bem, não vou perder uma oportunidade dessas, garanto-te", diz a Srta. Snell. "Estou simplesmente encharcada com o sangue daquele miúdo. Mas moro longe, na outra estrada. Meu Deus! O Billy pingou um pouco nos estofos do teu banco, não foi?"
"Oh, isso sai a lavar", diz o Babe, despreocupado. "Gostas de crianças, suponho?"
"Bem, de certa forma, gosto", diz ela. "Estou habituada a elas, de qualquer maneira, sendo uma de seis. É por isso que dou aulas — faz menos uma para o papá ter de se preocupar. Ele tem a pequena loja de canalizador ali em baixo, em frente à estação. Já deves ter visto o sinal — T. Snell."
"Não tenho dúvidas de que já vi", diz o Babe. "E tu... gostas de dar aulas, gostas?"
"Bem, não posso dizer que esteja perdidamente apaixonada por isso", diz a Srta. Snell. "Não por estas coisas do segundo ano, pelo menos. Foi o único cargo para o qual me pude qualificar, no entanto. Este é o meu segundo ano. Suponho que nunca tenhas dado aulas ao segundo ano, pois não?"
O Babe quase engasga, mas admite que nunca deu.
"Então segue o meu conselho e não te metas nisso", diz a Srta. Snell. "Não que tu fosses, claro, mas é o que digo a todas as raparigas que pensam que eu tenho uma vida fácil com os meus sábados livres e as férias de verão de dois meses. Acredita em mim, precisas delas depois de teres massacrado quarenta crianças durante um trimestre. C-ã-o, cão; g-a-t-o, gato. Porque é que os pequenos diabos cantam isso pelo nariz? É o mesmo com a tabuada do dois. E eles podem ser tão estúpidos! Não creio que tenha nascido para professora, de qualquer forma, pois tudo me parece tão inútil, obrigá-los a passar por tudo aquilo, e ficarem quietos durante horas e horas, quando eles querem tanto estar ao ar livre a brincar. Eu própria gostaria de estar lá fora."
"Mas depois das horas de escola", sugere o Babe, "certamente tens tempo para te dedicar a desportos de algum tipo."
"O que queres dizer com desportos?" pergunta a Srta. Snell.
"Oh, ténis, ou equitação, ou golfe", diz o Babe.
Ela vira-se rapidamente e olha para ele. "Estás a gozar?" exige ela. "Ou queres que eu comece a morder o lábio superior? Diz-me, com quinhentos dólares por ano, com pensão para pagar e roupas para comprar, não podes dedicar-te muito a desportos. Comprei uma raquete de ténis e sapatilhas de sola de borracha no verão passado e a minha situação financeira esteve abaixo de zero desde então. Quanto a tempo livre, não existe tal coisa. Quando acabo de ajudar a mamã com a loiça do jantar, há sempre uma pilha de papéis de exercícios para rever, e relatórios para preencher. E aos sábados posso fazer a minha lavagem e arranjos, talvez lavar o cabelo ou arranjar um chapéu ou algo assim. Consegues imaginar alguma hipótese para golfe ou equitação? Eu não, mesmo que as quotas dos clubes fossem gratuitas para professoras e a direção enviasse um monte de póneis malhados para o nosso uso. Não que eu não gostasse de experimentar essas coisas uma vez. Sou apenas estúpida o suficiente para pensar que conseguiria praticar desportos com os melhores deles."
"Aposto que conseguirias, também", diz o Babe, entusiasmado. "Tu... tu és exatamente o tipo."
"Sim", diz a Srta. Snell, "e que grande bem isso me vai fazer. Então, qual é o uso de falar? Daqui a um ano ou mais, suponho que estarei a passar a vassoura pelo meu próprio pequeno apartamento, a convencer um fogão a trabalhar às 6:30 da manhã, e a estender uma lavagem de segunda-feira para dois."
"Oh!" diz o Babe. "Então já escolheste o sortudo?"
"Não sei se ele é sortudo ou não", diz ela. "Não está realmente decidido, de qualquer forma. O Pete Snyder tem andado por perto há algum tempo, e suponho que cederei se ele continuar assim. Ele é o ajudante do papá, sabes, e não é nem metade tão estúpido como parece. Raios! Aqui estamos. Espero que nenhum dos miúdos te veja a trazer-me a casa e conte ao Pete. Ele ficaria verde de inveja durante uma semana. Adeus, Sr. Cutler, e muito obrigada."
Enquanto ela salta para fora e sobe o caminho em direção à pequena casa em ruínas, ela vira-se e lança um daqueles sorrisos largos ao Babe e faz-lhe um aceno amigável.
"Bem", digo eu. "O Pete poderia arranjar pior."
"Acredito em ti", diz o Babe, de certa forma solene.
Claro, não mantive um registo muito atento do Sr. Cutler nos dias seguintes. Não havia nenhuma razão especial para tal. Supus que ele estava ocupado a formar o seu quarteto para aquele cruzeiro no Sul. Por isso, cerca de uma semana depois, fico ligeiramente surpreendido ao saber que ele ainda está a ficar em casa da mana Mabel. Não suspeitei de nada até uma tarde, a meio de janeiro, quando ao sair do comboio das 5:10 vislumbro o corredor azul do Babe à espera nas cancelas. E aconchegada sob a manta de pele ao seu lado, com as bochechas rosadas pelo ar fresco e os olhos castanhos a brilhar, está a Srta. Lucy Snell.
"Huh!" penso eu. "Ainda continua, hã? Ou o pequeno bico do Billy teve outro episódio de fuga?"
Não devem ter passado muitos dias depois disso antes de eu chegar a casa e encontrar a Vee toda excitada com algumas notícias que ouvira da Sra. Robert Ellins.
"O que achas, Torchy!" diz ela. "Aquele amigo solteirão do Sr. Robert, um Sr. Cutler, casou-se ontem à noite."
"Eh!" digo eu. "O Babe?"
"Sim", diz a Vee. "E com uma rapariga da aldeia, filha do T. Snell, o canalizador. E a sua irmã casada está furiosa com isso. Não é terrível?"
"Oh, não sei", digo eu. "Pode resultar bem."
"Mas... mas ela é uma pobre professora primária", protesta a Vee, "e o Sr. Cutler é... é..."
"Um rico desportista", acrescento eu, "que sempre teve o que quis. E suponho que ele pensou que queria a Srta. Snell. Parece que sim, não parece?"
Compreendo que a irmã Mabel teve toda a espécie de ataques de nervos e que o pessoal do campo de golfe ficou em alvoroço por causa do caso, especialmente uma das jovens que tinha jogado partidas de pares mistos com o Babe e que provavelmente lhe tinha lançado a rede. Mas ele não voltou para pedir desculpas nem nada que se parecesse. E a última coisa que soubemos foi que o feliz casal tinha partido para a Florida em lua de mel.
Bem, isso pareceu encerrar o incidente. O Sr. Robert encolhe os ombros e admite que o Babe tem idade suficiente para tratar dos seus próprios assuntos. A irmã Mabel acalmou-se e as jovens desiludidas riscaram o Babe da lista de última esperança. Além disso, rebentou um escândalo perfeitamente bom no grupo do bridge e da dança, e o pequeno e rápido romance do Babe Cutler foi esquecido. Cinco ou seis domingos passaram, com as segundas-feiras a seguirem-se regularmente.
E então, aqui há dias, enquanto estou sentado junto à janela do carro a caminho de casa, quem é que me toca no ombro senão o velho Babe. Isto é, a menos que olhemos com atenção. Pois há um ar preocupado e confuso nos seus olhos bem abertos e ele não solta a saudação habitual.
"Olá!", digo eu. "Não perdeste os talões da bagagem, pois não?"
"É pior do que isso", diz ele. "Eu... eu perdi a... Lucy."
"O quê!", digo eu, ofegante. "Não queres dizer que ela... ela..."
"Não", diz o Babe. "Ela simplesmente deixou-me e foi-se embora para casa."
"Mas... mas porquê?", disparei eu.
"Deus sabe", geme o Babe. "É isso que quero descobrir."
Sinceramente, parece um mistério de primeira classe. Segundo ele, tinham estado alojados num dos sítios mais luxuosos que ele conseguiu encontrar em todo o estado da Florida. Além disso, tinha comprado à Lucy todo o tipo de roupa que ela o deixava comprar, desde fatos de desporto a vestidos de noite. Ela também tinha começado a fazer muitas coisas diferentes — golfe, equitação, natação, dança. Parecia estar a divertir-se imenso quando... bang! Ela tem um ataque de choro e anuncia que vai para casa. E fá-lo mesmo, toda sozinha, deixando o Babe para seguir no comboio seguinte.
"E pela minha vida, Torchy", declara ele, "não consigo imaginar porquê."
"Bem, vamos tentar montar o puzzle", digo eu. "Primeiro, como é que têm passado a vossa lua de mel?"
"Oh, golfe, principalmente", diz ele. "Fiquei em segundo lugar no grande torneio."
"Estou a ver", digo eu. "Trinta e seis buracos por dia, eh?"
Ele acena com a cabeça.
"E uma sessão de jogo com a velha guarda todas as noites?", pergunto eu.
"Oh, apenas de vez em quando", diz ele.
"Com algumas festas até tarde na grelha?", continuo eu.
"Nem uma festa", diz o Babe. "O estado é seco, sabes. Não, geralmente íamos ao salão de baile à noite e eu ajudava a Lucy a experimentar os novos passos que ela estava a aprender."
"Tu ajudavas!", digo eu. "Então eu desisto."
"Eu também", diz o Babe. "Mas não vou desistir da Lucy. Olha, ela é uma pessoa fantástica, ela é. Ela estava a sair-se bem e a divertir-se imenso quando de repente... Olha, Torchy, se foi alguma falha minha, quero saber, para poder corrigir-me. Ela não me quis dizer; não quis dizer uma única palavra. Mas ouve, talvez se tu lhe perguntasses..."
"Ei, trava aí!", digo eu.
"Sabes, se não fosses tu, talvez nunca a tivesse visto", continua ele. "Tu estavas lá quando começou, e se tem de haver um fim, podes muito bem estar presente nisso também. Mas tenho de saber o que fiz. Honestamente, não consigo lembrar-me de nada particularmente rude. Tenho andado a remoer isto há duas noites. Se pudesses apenas..."
Bem, ao fim de dez minutos, concordo em ir a casa do canalizador e, se a nova Sra. Cutler me receber, digo que lhe vou apresentar o assunto.
"Mas tens de vir comigo e ficar lá fora enquanto eu trato disto", insisto eu.
"Farei tudo o que tu ou a Lucy pedirem", diz ele. "Vou até ao limite."
"Isso parece justo", digo eu.
Portanto, é assim que estou à espera na sala de estar do canalizador pela noiva em fuga do Babe Cutler. E digo-vos, quando ela aparece com aquele fato de desporto vistoso, acabada de chegar de uma longa caminhada pelo campo, ela tem um ar elegante. Primeiro, ela está inclinada a ficar nervosa e agitada e não quer falar nada sobre o Babe.
"Oh, ele está bem", diz ela. "Não tenho nada contra ele. Ele... ele tinha boas intenções."
"Tão mau assim, foi ele?", digo eu. "Vou ter pena de lho dizer."
"Mas não foi o Babe, de todo", insiste ela. "Nem te atrevas a dizer que foi. Se queres saber, foi aquela vida de hotel horrível. Eu... eu simplesmente não a suportava."
"Eh?", digo eu, e imagino que devo ter ficado um bocado boquiaberto. "Ora, pelo que percebi, estavas num dos sítios mais luxuosos..."
"Estávamos", diz ela. "Esse foi o problema. E suponho que, se soubesse como, talvez me tivesse divertido imenso. Mas não sabia. Não tinha prática. E digo-te, se pensas que podes aprender a ser uma pessoa habitual de estâncias de inverno em poucas semanas, tenta lá. Eu tentei. Dei-lhe com força. Tentei todas as coisas que queria fazer e que pensava que podia fazer. Parece muito divertido ver aquelas raparigas a partirem com os seus tacos de golfe. Parece fácil balançar um *driver* e acertar na bolinha branca. Acredita em mim, porém, não é nada disso. Ora, passei horas e horas no *tee* de treino com um profissional escocês rabugento a tentar ao máximo acertar-lhe como deve ser. E não conseguia. Ao fim de três semanas, ainda era uma naba. Tudo o que acumulei foram calos nas mãos e uma dor nas costas. No entanto, eu sabia exatamente como devia ser feito. Sei repeti-lo agora. Um — assumes a tua posição. Dois — começas a cabeça do taco para trás em linha reta com o pulso esquerdo. Três — levantas-te na ponta do pé esquerdo e dobras o joelho direito. E por aí fora. No entanto, eu batia na bola apenas alguns metros.
"Depois, quando isso acabava, ia mudar-me para as minhas aulas de dança. Mais coisas de um-dois-três. E digo-te, alguns destes novos passos de *jazz* são estranhos, não são? Eu quase tinha três ou quatro todos baralhados na cabeça quando tinha de correr, saltar para o meu traje de equitação e passar por uma série diferente de movimentos de um-dois-três. E logo quando me tinha aleijado num monte de sítios novos, vinha a aula de natação. Eu pensava que sabia nadar um pouco também. Aprendi num verão em Far Rockaway. Mas parece que isso era coisa antiga. Já não se faz isso agora. Não, é o nado lateral duplo, o *crawl* australiano e muito mais. Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Pernas direitas, queixo para baixo e rolar no três. E se sonhas que é um prazer ter um instrutor grandalhão a puxar-te os braços para trás e para a frente durante uma hora, e a dizer coisas sarcásticas quando te baralhas, com uma galeria inteira de velhas gordas e velhos desportistas a rir a olhar... Bem, digo-te que é terrível. Ab-so-lutamente. Foi a aula de natação que me deu cabo. Especialmente a contagem. 'Ora, Lucy Snell, sua pobre naba', digo eu para comigo, 'tu não te estás a divertir. Estás de volta à escola, no segundo ano, e és a burra da turma.' Era isso que eu era também. Um fracasso total. E quando comecei a pensar em como o Babe reagiria quando descobrisse... Bem, isso deu-me nos nervos de tal maneira que simplesmente fugi para casa. Pronto! Podes contar-lhe tudo sobre isso, e suponho que ele nunca mais vai querer ver-me ou ouvir falar de mim."
"Talvez", digo eu, "mas tenho as minhas dúvidas. Seja como for, não vai demorar muito a fazer o teste."
E quando a deixei e fui até ao portão onde o Babe anda de um lado para o outro, ansioso, ele pergunta logo: "Bem, descobriste?"
"Uh-huh", digo eu.
"Foi... foi algo que eu fiz?", pergunta ele, trémulo.
"Claro que foi", digo eu. "Tu meteste-a num exercício de treino intensivo que faria o programa da escola de fuzileiros de Paris Island parecer um exercício de varinhas. Devias ter tido mais juízo também. Ora, o que ela estava a tentar absorver em seis semanas, a maioria das jovens dedica tantos anos. Pelo que posso julgar, ela também estava a esforçar-se. Mas, claro, ela não aguentava. E é um milagre não ter acabado num sanatório para nervos."
"A sério!", diz o Babe, a brilhar para mim e a agarrar-me a mão. "É... é só isso?"
"Não é suficiente?", digo eu.
"Mas isso resolve-se tão facilmente", diz ele. "Ora, eu próprio fico morto de aborrecimento nestes sítios de férias. Pensei, no entanto, que a Lucy estava a ter o melhor momento da sua curta vida. Que palerma fui eu ao não ver! Diz, vamos recomeçar do zero. E da próxima vez, acredita em mim, ela vai ter exatamente o que quer. Isto é, se eu conseguir convencê-la a dar-me outra oportunidade."
Parece que ele conseguiu, pois mais tarde ele diz-me que comprou aquela pequena casa de estuque gira perto do campo de golfe e que ele e a Lucy vão instalar-se como pessoas normais.
"Com um quarto de bebé e tudo?", pergunto eu.
"Não se sabe", diz o Babe.
E com isso, trocamos sorrisos.
CAPÍTULO IX
HARTLEY E O ESTADO-MAIOR
"Oh, digo, Torchy", chama o Sr. Robert, enquanto eu estico o braço para o meu chapéu aqui, a meio-dia, "não vais por acaso perto do clube a caminho do almoço, pois não?"
"Não hoje", digo eu. "Vou almoçar com o estado-maior."
"Oh!", diz ele, a sorrir. "Nesse caso, deixa estar."
E com medo que não estejas a par desta nossa pequena piada de escritório, talvez seja melhor explicar que me referia a Hartley Grue, chefe assistente da nossa equipa da sala de obrigações.
Só mostra o quanto estamos desesperados por coisas cómicas no Corrugated Trust hoje em dia, quando conseguimos tirar uma gargalhada de uma pessoa tão séria como o Hartley. Mas tu sabes como é. Suponho que alguns daqueles funcionários invejosos nos bancos altos começaram a chamar-lhe assim quando o Departamento de Guerra o dispensou e ele se apresentou para enfrentar o antigo emprego, vestindo o uniforme feito à medida com a barra dourada nos ombros. E admito que o resto de nós podia ter encontrado algo melhor para fazer do que ouvir aqueles patriotas de Classe B-4 que teriam ajudado a salvar o mundo para a democracia se a guerra tivesse durado mais uns dois anos.
Ainda assim, aquela etiqueta de estado-maior para o Sr. Grue divertiu-nos um bocado. Na verdade, ele voltou mesmo — dos cais de Hoboken — tão militar quanto possível. E ouvi-lo falar sobre a ofensiva do Aisne e a campanha de St. Mihiel e por aí fora, pensar-se-ia que ele devia estar ao lado de Pershing durante toda a confusão, em vez de estar no Camp Mills e, mais tarde, nos cais num destacamento de transporte. Mas ele safa-se, mesmo entre nós que observámos todos os detalhes da sua carreira marcial.
Pois a grande guerra deu ao Hartley a sua oportunidade, e ele agarrou-a com tanta avidez como um esquilo de parque a apanhar um amendoim. Ele tinha andado por aqui na sala de obrigações durante cinco ou seis anos, avançando passo a passo até se tornar chefe assistente, mas mesmo assim não passava de um escravo de escritório. Todos lhe davam ordens, desde o Old Hickory até ao Sr. Piddie. Ele era do tipo a quem naturalmente se dá ordens, sendo um pouco tímido e sem espinha dorsal. Ele tinha sido criado dessa forma, suponho, pois o seu velho era um rabugento crónico — trinta anos numa janela de bilheteira de uma estação de comboios — e suponho que ele levava a sua disposição de vendedor de bilhetes para casa.
De qualquer forma, Hartley tinha aquele aspeto barato e cabisbaixo, como se estivesse sempre à espera que alguém lhe desse uma cacetada e ficava desapontado se não o fizessem. E ainda assim era rápido a ressentir-se de qualquer coisa se achasse que era seguro. Vê-lo-ias a franzir o sobrolho sobre os seus livros e ele trazia um rubor constante sob os olhos, como se tivesse sido esbofeteado recentemente ou esperasse sê-lo. Não o que chamaríamos de uma disposição feliz, o Hartley; nem era exatamente o tipo que escolherias para gerir um grupo de homens.
Tudo o que ele tinha para começar eram um par de anos de treino como soldado raso num dos regimentos da Guarda Nacional. Suponho que sabia distinguir "alinhar à direita" de "oblíqua à esquerda" e como pousar as armas sem esmagar o calo de estimação de ninguém. Mas não creio que alguém suspeitasse que ele tinha quaisquer ambições militares selvagens escondidas debaixo daquela cúpula de 2x4. No entanto, enquanto a maioria de nós ainda dava palmadinhas nas costas do Wilson por nos ter mantido fora da guerra, Hartley já tinha cortado relações diplomáticas e usava uma bandeira na lapela.
Quando o primeiro campo de Plattsburg foi organizado, Hartley foi um dos primeiros a conseguir uma licença de um mês e a apresentar-se. Ele não conseguiu, sendo um pouco fraco na parte dos livros, além de lhe faltarem dez libras ou mais para a sua altura. Mas isso não o desencorajou. Começou a fazer cursos por correspondência, a comer papa de milho duas vezes por dia e a deixar de fumar. E depois de uma passagem de quatro semanas pelo segundo campo de treino de oficiais, ele conseguiu passar, saindo como um quase tenente. Old Hickory Ellins ficou ofegante quando o Hartley apareceu com a barra nos ombros, mas deu-lhe o aperto de mão vigoroso e notificou-o de que a sua licença estava estendida pela duração da guerra com meio ordenado.
E a próxima coisa que soubemos do Hartley foi que ele estava no Camp Mills a treinar companhias de recrutas. Duas ou três vezes, ele passou por cá para dizer que esperava ser enviado para o outro lado, mas cada vez algo acontecia para o manter à distância de um elétrico da Broadway. Uma vez, foi apanhado numa quarentena de papeira logo quando a sua divisão recebeu ordens de embarque, e noutra altura desenvolveu algum problema num dos joelhos. Finalmente, o Hartley atirou que alguém nos quartéis-generais o estava a impedir de chegar à frente e, por fim, ficou preso com este destacamento no cais, do qual nunca se livrou até ser dispensado de vez. Até ao fim, contudo, o Hartley ainda falava sobre ir para o outro lado para ajudar a esmagar os Hunos. Acho que ele falava a sério também.
Talvez eles pensassem, quando tinham dado baixa ao Hartley, que tinham devolvido outro cidadão à vida civil. Mas não tinham terminado o trabalho nem a metade. Hartley não queria que fosse assim. Tinha acumulado muito entusiasmo militar que não tinha conseguido libertar nos recrutas e nos heróis que partiam. De facto, estava a explodir com isso. Podias ver isso pela maneira como ele andava, mesmo quando não estava a exibir o velho O. D. [Olive Drab] novamente sob qualquer pretexto. Ele entrava nos escritórios gerais com agilidade, como se tivesse mensagens importantes para o coronel; queixo para cima, os ombros estreitos bem para trás e olhos em frente. Tinha treinado o Vincent, o contínuo, a dar-lhe a saudação expedita, e se algum de nós o tivesse encorajado, ele far-nos-ia fazer o mesmo. Mas aqueles de nós que tinham estado no serviço estavam bem contentes por dar umas longas férias ao movimento do braço direito.
"Nada feito, Hartley", dizia-lhe eu. "Já despachámos o Kaiser, não já? Vamos esquecer essa história de continência."
E como ele detestava separar-se daquele uniforme. Parecia simplesmente não conseguir fazê-lo de uma vez, mas tinha de ir diminuindo gradualmente. Primeiro, ele só o ia usar dois dias por semana, mas sempre que conseguia inventar uma ocasião especial, lá vinha ele. Ele até arranjou um cinto Sam Browne, o que era contra as ordens, e uma vez apanhei-o a olhar com saudade, numa vitrine, para alguns emblemas de serviço no estrangeiro e faixas de ferimento. Claro, ele usava a fita das cores aliadas, que passa por decorações estrangeiras junto de muita gente; mas, lá está, uma data de tipos de serviço limitado têm feito passar isso.
Quando chegava a altura de provar que fomos nós, os Yanks, que realmente acabámos com os Hunos e terminámos a guerra, o Hartley estava sempre lá. Esse era o seu ponto forte. Ele andava com mapas, todos marcados com as posições das nossas diferentes divisões, e se conseguisse que o ouvisses tempo suficiente, far-te-ia acreditar que, depois de termos entrado em ação, os franceses e os ingleses apenas ficaram por perto nas zonas de retaguarda, de boca aberta, a ver-nos resolver o assunto.
"Vês", explicava ele, "foi a nossa disciplina superior e o nosso moral maravilhoso que o fizeram. Olha para os nossos fuzileiros. Apenas material médio para começar. Mas que treino! O mesmo com muitos dos nossos regimentos de infantaria. Tinham sido ensinados que ordens são ordens. Tinha-lhes sido martelado. Sabiam que quando lhes diziam para fazer uma coisa, ela tinha mesmo de ser feita, e não havia mais nada a dizer. Não esperámos até chegar lá para ganhar a guerra. Ganhámo-la aqui, nos nossos campos de treino de aquartelamento. E penso, se me perdoares que o diga, que fiz a minha parte."
"Fico feliz que admitas isso, Hartley", digo eu. "Estava com medo que não o fizesses."
A sua última mania, contudo, era este plano do Exército de Reserva de Veteranos. A ideia dele era que, em vez de deitarmos fora esta grande organização militar que tinha custado tanto a construir, deveríamos guardá-la para que estivesse pronta caso outro país — o Japão, talvez — começasse alguma coisa. Ele achava que cada homem deveria manter o seu uniforme e equipamento e estar de prevenção. Eles deveriam continuar o seu treino também. Talvez fosse preciso alguma revisão dos regimentos e tal, mas, tendo os soldados a apresentar-se, digamos, uma vez por semana, no local mais próximo onde os oficiais pudessem encontrar-se com eles, poderia ser feito. Claro, alguns dos oficiais podiam estar demasiado ocupados para se incomodarem com isso. Bem, podiam demitir-se. Isso daria uma oportunidade para promoções. E as lacunas nas fileiras de alistados poderiam ser preenchidas pelas novas turmas que o serviço universal proporcionaria.
Estás a ver o pequeno plano do Hartley? Ele poderia continuar a usar as suas dragonas e polainas brilhantes e, talvez, com o tempo, tivesse uma folha de hera venenosa dourada ou prateada em vez da barra.
Eram os detalhes deste esquema que ele andava a tentar despejar-me há semanas, mas eu tinha andado a esquivar-me, até que finalmente concordei em deixá-lo vomitá-lo em cima da mesa de almoço.
"Tem de ser um banquete de luxo, porém, Hartley", insisto eu enquanto me junto a ele no elevador expresso.
"O Café l'Europe serve?", pergunta ele.
"Caramba!", digo eu. "Então é por isso que estás todo aprumado com o uniforme de domingo, eh? Com o cinto e tudo. Está bem. Mas pretendo atacar tudo, desde os *hors-d'oeuvres* até ao *parfait*. Espero que tenhas levantado os teus vales de pagamento atrasados."
Reparo, também, que o Hartley não procura nenhum recanto isolado na grelha, mas conduz-me a uma mesa bem no meio da grande sala no andar principal, onde a maioria das senhoras está. E acredita em mim, desfilar através de uma multidão como aquela é algo de que ele não foge nem um pouco. Mencionei que o Hartley costumava ter um comportamento tímido? Bem, isso foi antes de o ouvir falar de forma severa com um empregado grego.
Também fiquei com uma nova perspetiva sobre a forma como o Hartley olha para o soldado raso. Eu tinha sugerido que muitos destes camaradas que regressaram podiam ter tido o treino que lhes chegava e que esta ideia de se apresentarem uma vez por semana num quartel possivelmente não lhes agradaria.
"Terão de o fazer, é tudo", diz o Hartley. "A nova lei de serviço providenciará isso. Além disso, far-lhes-á bem, mantê-los-á na linha. De qualquer forma, é para isso que eles servem."
"Oh", digo eu. "Serve? Olha, com sentimentos como esses, deves ter sido tão popular na tua companhia, Hartley, como um ex-grão-duque num piquenique bolchevique."
"O que eu procurava", diz ele, "era disciplina, não popularidade. É o que o jovem comum mais precisa. Quanto a mim, tive isso incutido à força desde o início. Se eu não obedecia ao que me mandavam em casa, levava um par de estalos nas orelhas. Da mesma forma aqui na Corrugated, pode-se dizer. Sempre tive de receber ordens ou levar um pontapé. Foi isso que transmiti aos meus homens. Pelo menos, tentei."
E, enquanto Hartley se retesa e encara, do outro lado da mesa, uma linha imaginária de soldados, pude perceber que ele teve sucesso.
Foi enquanto eu seguia o seu olhar que notei este grupo de cinco jovens heróis numa mesa de canto. Os seus quepes de serviço estavam empilhados num cabide ali perto e um deles usava uma espécie de medalha. E, pela forma imprudente como atacavam grandes travessas de comida cara, como lagosta grelhada e bifes na tábua, julguei que tinham sido licenciados recentemente.
Agora, porém, pareciam muito interessados em algo do nosso lado. A princípio, não sabia se algum deles poderia ser um velho amigo meu, mas rapidamente decidi que é para o Hartley que eles olham. Vi-os a dar cotoveladas uns aos outros e a esticar o pescoço, e parecem envolver-se num debate animado, que termina com uma gargalhada geral. Chamo a atenção do Hartley para o grupo.
"Ali está um esquadrão de camaradas que aposto não estarem ansiosos por ouvir alguém gritar-lhes 'Sentido!' de novo", sugiro. "Conheces algum deles?"
"É bastante possível", diz Hartley, lançando-lhes um olhar casual. "Todos eles parecem-se tanto, sabes."
Com isso, ele volta ao seu plano de Reserva do Exército e, de facto, enche-me os ouvidos. Já tínhamos chegado ao queijo e ao café quando notei um dos soldados — um sujeito grande e robusto — passar lentamente por nós e depois sair. Um ou dois minutos depois, o Hartley é chamado e o rapaz diz que há um telefonema para ele.
"Para mim?", diz Hartley, com um ar intrigado. "Oh, muito bem."
Ele mal tinha saído quando os outros quatro se aproximam, e um do grupo comenta: "Peço desculpa, mas o seu amigo será, por acaso, o Segundo-Tenente Grue?"
"Esse é o nome dele", digo eu, "só que não foi por acidente que ele se tornou segundo-tenente. Tinha mesmo de ser."
Eles sorriem de forma amigável. "Descreveu-o na perfeição", diz um.
"Ele era um excelente oficial, também, suponho", digo eu.
"Oh, isso sem dúvida", diz outro. "Ele... ele está fora do serviço agora, não está?"
"Segundo o Departamento de Guerra, está", digo eu, "mas se um pequeno plano dele for avante, ele estará de volta ao ativo em breve." E esboço apressadamente a ideia do Hartley de manter os veteranos regressados à disposição.
"Não seria perfeitamente adorável?", diz o camarada com a medalha, enterrando o cotovelo com entusiasmo nas costelas daquele que estava mais próximo. "Será que não o podíamos convencer a fazer duas noites de treino por semana em vez de uma? Eh, velho Domador de Piolhos?"
Claro que se descobre que estes nobres jovens cavalheiros, antes de serem enviados para enfrentar a linha Hindenburg, tinham estado todos numa das companhias que o Hartley tinha treinado com tanto sucesso. Não me atreveria a afirmar que eles tinham consciência de que, se não fosse por ele, não se teriam tornado soldados tão bons. Mas eles certamente mostraram muito interesse em descobrir um dos seus antigos oficiais. Isso era natural e abonava a favor deles.
Sim, queriam saber tudo sobre o Hartley; onde trabalhava; o que fazia e quais eram as suas horas de folga. Era quase comovente ver o quanto estavam ansiosos por todos os detalhes. Tendo estado tanto tempo no estrangeiro, entre estrangeiros e em lugares estranhos, suponho que o Hartley lhes parecesse um pedaço de casa.
E, por outro lado, sabe como dizem que todos aqueles rapazes que foram para a frente voltaram homens, sérios e cheios de pensamentos solenes e elevados. Podia-se ver isso a brilhar nos olhos deles, mesmo que fingissem estar a rir às vezes. Por isso, dou-lhes toda a informação que pude sobre o seu querido e velho segundo-tenente e peço-lhes que fiquem por ali uns minutos para que o pudessem conhecer.
"Adoraríamos", diz o que os outros chamam de Beans. "Sim, de facto, seria um grande prazer, mas penso que deveríamos adiar até que o tenente possa ser convencido a deixar o uniforme. Compreende, tenho a certeza. Nós... sentir-nos-íamos mais à vontade."
"Talvez isso também pudesse ser arranjado", digo eu.
"Se ao menos pudesse!", diz Beans, revirando os olhos para o grupo. "Mas talvez fosse melhor como uma espécie de surpresa. Eh? Por isso não precisa de mencionar que nos viu. Nós... deixamo-lo saber dentro de um dia ou dois."
Bem, eles mantiveram a palavra. Não devem ter passado mais do que dois dias quando o Hartley me chama à parte, confidencialmente, e me mostra este bilhete a pedir-lhe se não teria a gentileza de se encontrar com alguns dos seus antigos camaradas de armas para ajudar a formar uma organização permanente que perpetuasse os laços carinhosos formados em Camp Mills.
O Hartley está radiante. "Vês!", diz ele. "É a isto que chamo o verdadeiro espírito americano. E, falando como militar, não vi melhor exemplo de um moral que perdura. É a disciplina que faz isso, também. Suponho que eles queiram que eu continue como o seu oficial comandante; para dar continuidade, por assim dizer."
"Soa a isso, não soa?", digo eu. "Mas o que significam as iniciais no fim... os G. O. G.?"
"Não consegues adivinhar?", diz Hartley, quase a corar. "Graduados de Ultramar do Grue."
"Ora, ora!", digo eu. "Diga, isso é um reconhecimento, não é? Parecia um bom grupo de jovens. Alguns deles rapazes da universidade, suponho?"
"Oh, sim", diz Hartley. "De tudo, desde canalizadores a multimilionários. É um facto! Tive o jovem Ogden Twombley como secretário da companhia, uma vez. Sim, e lembro-me de lhe cortar doze horas de licença por ter chegado atrasado à formatura. Mas veja o que isso fez por aqueles rapazes."
"E pense no que eles fizeram aos Hunos", digo eu. "Mas onde é este local onde eles querem reunir-se consigo? Qual é o número? Ora, isso é no Plutoria."
"É?", diz Hartley. "Oh, bem, havia muitos jovens da alta sociedade entre eles. Tenho de os interessar no meu plano de Reserva de Veteranos. Suponho que terei de fazer um pequeno discurso, dando-lhes as boas-vindas e toda essa espécie de coisas. Talvez gostasse de vir, Torchy?"
"Claro!", digo eu. "Isto é, desde que não me peçam para dizer nada. Mas e quanto a isto no fundo? 'Traje civil, por favor'?"
"Oh, eles sentir-se-iam um pouco mais à vontade, suponho", diz Hartley, "se eu não estivesse de uniforme. Talvez fosse melhor, da primeira vez."
Portanto, foi assim que aconteceu que, pontualmente às quatro da tarde do dia seguinte, fomos conduzidos a esta suíte privada no Plutoria. Deve ter sido um pouco difícil para o Hartley deixar os seus elegantes uniformes, pois ele não é um cavalheiro tão impressionante com um casaco civil. E o casaco tipo sobrecasaca e as calças às riscas que ele desenterrou para a ocasião fazem-no parecer mais um contínuo de um departamento de têxteis do que nunca. Mas ele tenta parecer o segundo-tenente apesar disso, estufando o peito com importância.
Parece que os G. O. G. andaram a recrutar entretanto, pois há uma dúzia ou mais agrupados pela sala, alguns com roupas civis, mas a maioria ainda com as fardas de soldado que usavam quando saíram do navio de transporte. E, a julgar pelo aspeto de uma mesa que vi atrás de um biombo, eles andavam a celebrar um pouco antes. No entanto, todos fazem a continência com respeito e o Hartley tinha acabado de começar a disparar o seu discurso, que começa, claro: "Falando como um homem militar..." quando este sujeito Beans interrompe.
"Perdoe-me, tenente", diz ele, "mas os membros da nossa organização estão muito ansiosos por saber, antes de tudo, se aceitará o alto comando dos Gogs, assim chamados."
"Com prazer", diz Hartley. "E, como eu ia a dizer..."
"Só um momento", interrompe Beans novamente. "Camaradas Gogs, temos perante nós um candidato disposto ao Alto Comando. Qual é a vossa vontade?"
"Iniciação!", gritam em coro.
"Aprovado!", diz Beans. "Que os dignos camaradas procedam à administração do grau de Camp Mills."
"Sinal!", grita outro alegre. "Quatro... sete... onze! Façam a guarda passar!"
Digo, não consigo dizer exatamente o que aconteceu a seguir, pois fui empurrado para um canto e aqueles nobres jovens heróis do Marne e de outros lugares, cheios de objetivos elevados e grandes ambições e... e outras coisas... Bem, eles certamente não precisaram de qualquer incentivo para levar a cabo a ordem das cerimónias. Sem uma palavra ou um sussurro, procedem a agarrar o Hartley onde era possível agarrar e depois passam-no uns para os outros. Subindo para uma cadeira, pude vislumbrá-lo de vez em quando enquanto ele é enviado a girar e a bater, como uma garrafa a boiar em águas agitadas. Para a frente e para trás, por vezes tocando no chão e outras sendo atirado em direção ao teto. Dois ou três apanhavam-no e começavam a correr com ele pela sala, quando outro grupo o arrancava e iniciava as suas próprias manobras.
De qualquer forma, fazer a guarda passar parece ser um ato tão extenuante quanto qualquer um poderia passar e sair inteiro. Dura até que todos pareçam estar bastante sem fôlego e alguém apita. Então, um par deles arrasta o Hartley para a frente do Irmão Beans e presta continência.
"Bem, dignos Camaradas", diz ele, "o que têm a relatar sobre o candidato?"
"Lamento, senhor", diz um, "mas apanhámo-lo a tentar contornar a guarda."
"Ah!", diz Beans. "Ele conseguiu passar?"
"Não conseguiu", diz o camarada. "Suspeitamos que ele é um fracasso, também."
"Muito grave", diz Beans, abanando a cabeça. "Candidato, o que tem a dizer em sua defesa?"
A julgar pelo tom congestionado no pescoço e nas orelhas do Hartley, ele tinha muita coisa que queria dizer, mas, durante um minuto ou dois, tudo o que consegue fazer é respirar com dificuldade e olhar fixamente. Ele é um espetáculo, também. O casaco perdeu uma das abas; o cabelo está despenteado como penas, e o colarinho soltou-se na frente. Assim que recupera o fôlego, porém, tenta dizer o que lhe vai na mente.
"Vocês... seus jovens rufias!", diz ele. "Eu... eu farei com que suem por isto. Já hão de ver!"
"Escutem, camaradas Gogs!", diz Beans. "O candidato presume dirigir-se ao vosso Grande Dignatário em termos impróprios para um oficial e um cavalheiro. Sugeriria que suspendêssemos o ritual até que, por algum meio, ele possa ser trazido aos seus melhores sentidos. Alguém consegue pensar numa maneira?"
"Claro!", grita alguém. "Vamos dar-lhe os 'Tempos Idos'."
A votação parece ser unânime e os procedimentos abrem com o Irmão Beans a abanar o dedo sob o nariz do Hartley. "Por favor, recorde o dia 22 de novembro de 1917", diz ele. "Era sábado, e o meu bilhete de licença dizia das 11h dessa data até às 11h do dia 23. Você sabia quem estava à minha espera na Casa da Matrona, também. E só porque eu tinha mudado para perneiras de couro dentro do portão, você chamou-me de volta e pôs-me a esfregar o chão do quartel, fazendo-me perder a minha última oportunidade de ir a uma matinê e estragando, de outra forma, um dia perfeitamente bom. Próximo!"
"A minha vez!", grita meia dúzia de outros, mas do grupo que avança para o Hartley sai um jovem de cabelo claro e bem vestido, que caminha com uma ligeira coxeira. "Confio que se lembrará de mim, tenente", diz ele. "Eu era o Soldado Nelson, culpado do crime terrível de aparecer na inspeção com duas manchas de gordura na túnica porque você me tinha mantido como sargento da messe durante duas semanas e as novas fardas não tinham sido entregues. Por isso, deu-me serviço de guarda a dobrar no dia em que os meus pais vieram de Buffalo para me ver. Muito esperto da sua parte, não foi?"
Um a um, lembraram o Hartley de pequenas coisas como essa, sem lhe darem oportunidade de piarem, até que cada um teve a sua palavra. Mas, finalmente, o Hartley consegue uma abertura.
"Vocês tiveram exatamente o que precisavam: disciplina", diz ele. "Foi isso que fez de vocês soldados."
"Ah, fez?", diz o Irmão Beans. "Então talvez um pouco disso o qualifique para o Alto Comando. Vamos experimentar, digníssimos Camaradas?"
"Encharquem-no, Beans!", é o veredito, gritado com entusiasmo de todos os lados.
"Que assim seja", diz Beans solenemente. "E agora, candidato, está prestes a ser escoltado para fora, onde a ponta de cigarro indescritível espreita na sarjeta e pedaços de papel poluem o pavimento. Como expoente desta marca particular de disciplina, verá que nenhum pequeno item lhe escapa. Se for tão negligente, ou se falhar no cumprimento do seu dever, será devolvido imediatamente a esta sala, onde a retribuição aguarda com mãos pesadas. Oh, dignos Camaradas! Investam o candidato com a insígnia sagrada do saco de serapilheira vazio."
E digo-lhe, quando aqueles Gogs começaram a levar algo até ao fim, fizeram-no de forma sistemática e completa. Em menos de um minuto, o Hartley é armado com um saco velho e empurrado para o elevador. Como não pareciam dar muita importância a mim, eu fui atrás também. Eles levam o Hartley diretamente para a frente do Plutoria e põem-no a limpar o quarteirão.
Claro, é um pouco estranho ver um jovem de casaco rasgado e cabelo despenteado a andar de gatas debaixo de táxis e a desviar-se de carros para apanhar pontas de cigarro e papéis de pastilha elástica. Por isso, junta-se uma multidão. Alguns aplaudem e outros riem-se. Mas os veteranos de ultramar não permitem que o Hartley descanse por um segundo.
"Ei! Não perca essa ponta de cigarro!", gritava-lhe um. E assim que ele a recuperava, outro apontava para uma casca de banana no meio da avenida. Ele foi insultado com entusiasmo por alguns taxistas que quase o atropelavam, e o polícia de trânsito ameaçou levá-lo, até ver o grupo de soldados a comandar o serviço; depois, sorriu e olhou para o outro lado.
Suponho que devesse ter ficado mais ou menos zangado ao ver um oficial ser tratado de forma tão bruta, mas receio ter rido um pouco de algumas das palhaçadas do Hartley. No entanto, pareceu-me que ele poderia ficar embaraçado se eu ficasse por perto até que eles o soltassem. Por isso, antes que ele terminasse, saí da multidão e fui-me embora.
Não pude evitar de perguntar uma coisa ao Irmão Beans, no entanto. "Desculpe a minha curiosidade", digo eu, "mas quando pergunto ao Hartley o que significa G. O. G., ele fez um palpite um bocado mau. Se não for um segredo profundo..."
"É", diz o Irmão Beans, "mas penso que vou deixá-lo entrar no segredo. O nome da nossa nobre organização é 'Ranzinzas de Ultramar do Grue', e o nosso humilde objetivo é repreender a única mancha de prussianismo que encontrámos pessoalmente num exército de homens que, de resto, é perfeitamente bom. Quando tivermos feito isso, tencionamos dissolver-nos."
"Hum!", digo eu, olhando para onde o Hartley está a dar um sorriso meio envergonhado a um soldado raso que lhe dá palmadinhas nas costas, "Acho que já pode considerar o trabalho feito."
CAPÍTULO X
O CASO DO VELHO JONESEY
E, por outro lado, nunca se sabe. Esqueço-me se foi o Bill Shakespeare quem disse primeiro essa frase, ou o Willie Collier; mas quem quer que tenha sido, disse um livro inteiro de uma vez. Coisas sábias. É isso. E simples, também. No entanto, é uma das primeiras coisas que esquecemos.
Mas para passar a ideia, suponho que terei de começar com o nosso grupo da sala de obrigações na Corrugated. Eles são o tipo de jovens desportistas que pensam sempre que sabem tudo. Mais do que isso, pensam sempre que dirão tudo, desde que consigam alguém que os escute. Sobre qualquer assunto que se possa nomear, desde se o governo deve possuir os caminhos-de-ferro até à descrição da forma correta de dançar o shimmy.
Neste dia em particular, porém, acontece que o assunto são bonecas. Talvez não tenha sido apenas por acidente, também. Suponho que a chegada repentina da primavera tenha tido algo a ver com a escolha do tópico. Pois, lá fora, no parque de Madison Square, os tordos pulavam atarefados pelos canteiros de flores, os casais namoravam confidencialmente nos bancos, as senhoras dactilógrafas almoçavam gelados em cone, e os vendedores ambulantes gregos vendiam flores de maio.
De qualquer modo, parecia que era um dia em que o romance estava no ar, se é que me entende. Acho que o Izzy Grunkheimer deve ter começado com aquela história emocionante de como ele foi parar a uma ceia de estúdio à meia-noite em Greenwich Village e a pequena estrela de cinema que o confundiu com Charley Zukor. O Izzy contava aquilo se lhe dessem meia oportunidade. Era a sua grande noite. Creio que ele diz que foi abraçado ou algo assim. E termina sempre por revirar os olhos, aspirar o fôlego e declarar apaixonadamente: "Que rainha, sim!"
Mas quem tinha a palavra quando entrei na sala de obrigações, pouco antes do final da hora de almoço, era o Skip Martin, que ajudou a ganhar a guerra servindo os últimos dois meses a verificar provisões para a frente em St. Nazaire. Ele estava a relatar uma aventura "ausente sem licença" em que uma pequena rapariga francesa pelo nome de Mimi teve um papel de destaque, quando o Budge Haley, que foi cabo no 27.º e chegou até Coblenz, entrou sem piedade.
"Coisa barata, essas raparigas dos portos", diz Budge. "Sempre a pedirem-te chocolate ou a tirarem-te francos de qualquer maneira. E quanto à beleza, não vi nada de especial. Mas diga, deviam ter visto o que eu apanhei uma noite na Bélgica. Tínhamos marchado vinte e seis quilómetros através da lama e da chuva naquele dia e estávamos alojados num salão da cidade. A chamada para o almoço tinha acabado de soar e eu estava a pôr-me na fila quando o Tenente me puxa para fora para carregar a mala dele até um alojamento que lhe tinham atribuído a cinco ou seis quarteirões de distância.
"Talvez eu não estivesse bem lixado, também, com tudo a ficar frio e eu como um refugiado. Devo ter-me confundido nas direções, pois não conseguia encontrar nenhuma casa com uma varanda de ferro verde por cima da porta da frente de maneira nenhuma. Finalmente, arrisco-me a usar um pouco do meu francês e bato a uma porta azul. Demorei algum tempo a fazer alguém ouvir, e quando uma rapariga responde, tudo o que recebo dela é um guincho e a porta volta a ser fechada. Estava a recuar, desgostoso, quando aparece esta dama com olhos grandes e ares de grã-duquesa.
"'Ah le bon Dieu!', diz ela ofegante. 'Le soldat d'Amerique! Entrez, m'sieur.' E diga, mesmo que eu não pudesse ter percebido uma palavra, aquele sorriso teria sido suficiente. Se fui bem recebido? Escute; ela não via nada além de Hunos há quase quatro anos. A maior parte desse tempo passou-o escondida na cave ou em algum lugar, e para ela eu era a pomba da paz. Ela tentou contar-me tudo sobre isso, e suponho que o fez, só que eu não conseguia compreender mais do que um quarto do seu francês rápido. Mas a ideia parecia ser que eu era um anjo da guarda de primeira classe que merecia o melhor que havia na casa. Talvez eu não tenha recebido, também. Os Hunos não tinham ido embora há mais de algumas horas e o jantar de paz que ela tinha planeado era apenas um caso superficial, pois ela não tinha a certeza de que eles não voltariam. Quando ela me vê, porém, ela coloca um travão em tudo isso e diz ao cozinheiro para ir até ao limite. E diga, eles devem ter desenterrado reservas de comida da cave subterrânea, pois quando eu e a Condessa finalmente nos sentamos..."
"Ah, não venhas com essa!", protesta o Skip Martin. "Admitimos o champanhe vintage, e o paté de foie gras, mas essa história da Condessa já foi muito usada."
"Oh, é mesmo?" diz Budge. "Queres dizer que não viste ninguém a rondar os barracões de carga. Mas isto é em Bastogne, meu velho, e a marca da sua Condessa estava estampada em tudo, desde os guardanapos até à lareira. Talvez eu não reconheça uma quando a vejo de perto, como aconteceu naquela altura. Huh! Digo-te que ela era autêntica. Ora, aposto que ela podia entrar na Tiffany's amanhã e abrir uma conta só pela maneira como ergue o queixo."
"Claro que era uma Condessa," diz Izzy. "Aposto que também foi um jantar e tanto. E depois?"
"Só aconteceu mesmo quando eu estava a ir embora," diz Budge. "'Sis,' digo eu, 'vous etes um-un pêssego. Merci muito.' E eu estava a estender a mão para um aperto de despedida quando ela se aproxima com um abraço que faz esta cena do balcão de Romeu e Julieta parecer a despedida de uma solteirona. M-m-m-m. Honestamente, não a lavei durante dois dias. E, condessa ou não, ela era uma pequena dama fantástica. Digo-o a todo o mundo."
"Olhem!" diz um dos nossos nobres isentos. "Até já tens o velho Jonesey a lamber os beiços."
Isso provoca uma grande gargalhada do grupo. Provoca sempre, porque ele é uma das nossas piadas permanentes, o velho Jones. E como por acaso ele está sentado aqui, curvado no canto, a limpar vestígios de uma sanduíche de ovo dos cantos da boca, a pilhéria vem mesmo a calhar.
"Deve ter sido um conquistador no seu tempo, eh?" sugere Skip Martin.
Isso também é recebido como uma boa deixa, e Skip continua com outra. "Vamos perguntar-lhe, rapazes."
E no momento seguinte, o velho Jones dá por si rodeado por este círculo sorridente de jovens broncos, enquanto Budge Haley exige: "É verdade, Jonesey, que tu costumavas ser um verdadeiro caçador de saias?"
Calculo que seja a maneira engraçada como ele ficou careca, com apenas uma franja de cabelo acinzentado, e os olhos azuis e lacrimejantes por trás dos óculos escuros, que nos levou a chamá-lo de Velho Jones. Talvez os ombros curvados e o facto de ser surdo de um ouvido ajudem. Mas, na verdade, não creio que ele tenha sequer sessenta anos. A julgar pela franja, ele teve outrora uma cabeleira ruiva que era mais ou menos encaracolada. Alguma cor ainda se mantém no bigode cerdoso e nas penugens das orelhas. É um tipo baixo e atarracado, com um nariz rombo e um queixo que parece sólido.
Mas nunca há grande satisfação em gozar com o Jonesey. Não o consegues tirar do sério. Ele apenas leva a mão ao ouvido e pergunta, meio aborrecido: "Eh, o que é que disseste?"
"E aquelas damas elegantes que costumavam perder a cabeça por ti?" atira o Skip.
O velho Jones olha para o Skip de uma forma doce e intrigada. Depois, abana a cabeça lentamente. "Não," diz ele. "Eu não. Se... se elas perderam, eu... eu devo ter-me esquecido."
O que leva o grupo a uivar para o Skip. "Toma! Talvez isso te cale, eh?" comenta alguém. E enquanto se afastam, o Jonesey ataca uma fatia de tarte de café de forma plácida.
Achei bastante elegante, vindo do velho. Ele deve ter-se esquecido! Ri-me disso sozinho. O que poderia o Jonesey ter para esquecer? Dizem-me que ele está na Corrugated há vinte anos ou mais. Ora, ele deve ter estado na folha de pagamentos antes de alguns daqueles jovens atletas terem nascido. E, nos últimos quinze anos, ele manteve o mesmo velho emprego — assistente de arquivo. Bela vida, eh?
Quase tudo o que sabemos do Velho Jones é que ele vive num pequeno quarto nas traseiras, lá em baixo na parte baixa da Sexta Avenida, com um papagaio verde sarnento quase tão velho como ele. Dizem que ele vive lá sozinho, cozinhando as suas refeições num fogareiro de petróleo de uma boca, nunca declarando doença, nunca tirando férias e nunca passando acima da Rua Trinta e Três ou abaixo da Catorze.
Claro que, para o pessoal, ele é apenas madeira morta. Cada vez que há uma reorganização, alguém quer despedi-lo ou reformá-lo. Mas o Sr. Ellins não permite. "Não," diz ele. "Deixem-no ficar." E podem apostar que o Jonesey fica. Ele anda por ali, a mexer nos arquivos, a fazer as coisas exatamente como fazia há vinte anos, suponho, mas nunca se metendo no caminho de ninguém nem se queixando. habituei-me a ele ao ponto de já não reparar nele, como se fosse a sombra de alguém a passar. Sabe, ele é apenas um vazio. E se não fosse por aqueles humoristas da sala de títulos a dispararem contra ele de vez em quando, eu quase me esqueceria se ele ainda fazia parte da equipa ou não.
Foi nesta mesma tarde, por volta das 2:30, que recebo um telefonema do escritório privado do Velho Hickory e encontro este sujeito de aspeto pitoresco, com as suíças brancas de três partes e o chapéu Panamá prematuro, a olhar indignado para o chefe.
"Torchy," diz o Sr. Ellins, olhando para um cartão, "este é o Senor Don Pedro Cassaba y Tarragona."
"Oh, sim!" digo eu, como se não estivesse nada surpreendido.
"O Senor Don Pedro e tal," acrescenta o Velho Hickory, "é de Havana, e na última meia hora tem tentado dizer-me algo muito importante, não tenho dúvidas, para ele. Acontece que estou bastante ocupado com alguns assuntos meus e eu... er... Oh, pelo amor de Deus, Torchy, leva-o para qualquer lado e descobre do que se trata."
"Claro!" digo eu. "Por aqui, Seenor."
"Perdone," diz ele. "Say-nohr."
"Entendido," digo eu, "só que talvez não te siga por muito tempo. Quase todo o espanhol que sabia gastei-o esta tarde a pedir uma omelete, mas talvez possamos chegar a algum lado se formos ambos pacientes. Aqui estamos, no meu canto acolhedor com o resto do dia pela frente. Sente-se, Say-nohr."
Ele é um velho animado, de tez corada e, a julgar pelos olhos pretos inquietos, um tipo muito vivo. Ele analisa-me de forma duvidosa, acariciando o pequeno tufo de queixo enquanto o faz, mas acaba por encolher os ombros, resignado.
"Venho," diz ele, "em busca do Senor Capitán Yohness."
"Yohness?" digo eu, tentando parecer pensativo. "Não há ninguém por aqui com esse nome que eu saiba."
"Tem de haver," diz ele. "Isso eu verifiquei."
"Oh, bem!" digo eu. "Suponhamos que admitimos isso como ponto de partida. O que há com ele? O que é que ele fez?"
"Ah!" diz o Senor Don Pedro, abrindo as mãos de forma eloquente. "Mas essa é uma longa história."
E era, também. Calculo que foi isso que o pôs em maus lençóis com o Velho Hickory. No entanto, ele ataca-a mais uma vez, usando o movimento de braço inteiro e salpicando com espanhol sempre que ficava bloqueado. Claro, este recurso à sua língua materna deve ter sido um alívio para ele, mas não me ajudou muito. Algumas coisas eu conseguia adivinhar, e quando não conseguia, pedia-lhe para repetir até ter um palpite. Depois, recomeçávamos. É surpreendente, também, quão bem nos entendemos depois de termos o sistema afinado.
E, de acordo com o Exmo. Pete, este tal Cap. Yohness é um americano que vem de Nova Iorque. Não soa a razoável, admito, com um nome como esse, mas deixei o velho continuar. Yohness tinha ido para Cuba há anos, muito antes da guerra hispano-americana. Suponho que fazia parte de um grupo de filibusteiros que transportava armas e munições para os cubanos usarem contra os espanhóis. Aliás, ele menciona o Dynamite Johnny O'Brien como o líder do grupo. Penso que era esse o nome. Soa a que pudesse ter sido, de qualquer forma.
Bem, ele diz que este Senor Yohness é um imprudente, pois não só furou o bloqueio dos navios de guerra espanhóis e descarregou o seu material, como teve a coragem de ficar pela ilha e até fazer uma pequena viagem a Havana. Parece que isso também foi um feito, pois se tivesse sido apanhado, teria tido um fim rápido contra a parede mais próxima.
Claro, ele teve de ir disfarçado, mas estava prejudicado por ter cabelo ruivo. Não tão vivo como o meu, assegura-me o Senor, mas ruivo o suficiente para que não fosse facilmente confundido com um espanhol. Ele teria escapado incólume, também, se não tivesse rematado tudo assumindo os riscos mais selvagens que alguém poderia imaginar.
Enquanto vagueia por Havana, observando todas as vistas e esfregando os ombros a cada minuto com homens que não pediriam melhor desporto do que dar-lhe um furo permanente no peito se soubessem quem ele era, o que é que ele faz senão meter-se numa aventura amorosa? Mesmo que a sua cabeça não tivesse um preço em mais pesos do que os que se podiam pôr num barril de açúcar, aquele era um momento quente para qualquer americano estar a namoriscar com as senhoras naquela cidade em particular. Pois os espanhóis sabiam exatamente de onde os reconcentrados estavam a obter as suas armas de fogo e estavam bastante furiosos connosco. Mas pequenos detalhes como esses não parecem incomodar o El Capitán Yohness nem um pouco. Quando ele recebe um sorriso de "oh rapaz!" de trás de uma grade de janela, ele sorri de volta e volta para um bis. Esse é o tipo descuidado de Ianque que ele é.
O que piora as coisas, porém, é o facto de essa janela em particular ser no Palácio do Governador. E a própria dama! O Honorável Pedro estremece enquanto relata. Ela não é nada menos do que a Senhorita Mario, uma sobrinha do Governador Geral.
Ela devia ter olhos que se portavam mal e uma disposição brincalhona, pois parece ter ficado caidinha por este nova-iorquino disfarçado à primeira vista. O mais provável é que tenha sido por causa do seu cabelo ruivo. De qualquer forma, depois de uma ou duas trocas de olhares à distância, ela atira um bilhete a combinar um encontro a dois nos jardins do palácio ao luar. É um costume deles, suponho. E este tipo Yohness, não faz outra coisa senão aparecer no encontro. Claro, ele devia saber que, como risco de guerra, ele teria sido cotado como pagando cerca de mil por cento de prémio, mas ele corre o risco.
Também não é um caso de poder passear a qualquer hora. Para o conseguir, ele tem de se esconder nos arbustos antes do pôr do sol, quando o público em geral é corrido dos terrenos e uma guarda é colocada nos portões. Talvez valesse a pena, no entanto, pois Don Pedro diz que a Senhorita Donna Mario é uma dama encantadora; pelo menos, era na altura.
De qualquer modo, os dois conseguiram concretizá-lo com sucesso, e estavam aconchegados num banco de mármore a conhecerem-se muito bem — talvez tratando-se pelos primeiros nomes e sussurrando sentimentos melosos ao luar — quando o vilão entra com passo furtivo.
Parece que a Donna Mario tinha sido dada como desaparecida do Palácio. Finalmente a notícia chega ao Tio, e embora ele seja um velho pirata rabugento, ele consegue lembrar-se de quando ele próprio era jovem. Talvez ele tivesse em mente um dos seus secretários desportistas, ou algum jovem e alegre primeiro-tenente. Seja como for, ele chegou a um palpite de primeira classe de que, numa noite como aquela, se a adorável Donna Mario se tivesse perdido, ela mais cedo ou mais tarde iria parar num banco de mármore.
Se ele escolheu o banco de jardim certo à primeira ou se falhou duas ou três vezes, não sei. Mas quando ele irrompe, encontra o par quase a beijar-se. Ele também não é o tipo de tio que ficaria de fora a rir-se um minuto antes de interromper com um suave "Tut-tut, agora, jovens!" Não. Ele é um tio de drama de cinema. Fica roxo nas guelras. Bufa pelo bigode. Gorgoleja o espanhol para "Ha, ha!". Depois, desembainha uma espada como uma faca de milho, estende uma pata peluda e áspera, e procede a arrancar o nosso jovem herói rudemente do abraço carinhoso. Exatamente assim.
E aqui, mais uma vez, perdi um detalhe ou dois. Não consegui perceber se foi a palha cor-de-rosa do Yohness que o denunciou, ou se o Tio conseguia identificar um americano só pelo toque do seu pescoço. Mas o velho percebeu logo.
"O quê," diz ele, como se estivesse a usar as palavras para fazer um gargarejo na garganta. "Um maldito Gr-r-ringo! Por isso, ambos morrereis."
O que foi exatamente onde, como a maioria dos tios de cinema, ele exagerou no papel. Yohness talvez não fosse exigente quanto a continuar vivo ou não. Ele não tinha agido como se se importasse muito. Mas ele não ia deixar que uma rapariga simpática como a Donna Mario fosse esquartejada por um parente impulsivo que usava bigodes felpudos e uma faixa amarela em vez de um colete.
"Ah, larga o lado trágico, Velho Desportista, enquanto eu explico como a culpa foi toda minha," diz ele, ou palavras desse género.
"G-r-r-r!" diz o Tio, cortando entusiasticamente com a sua espada.
Se o nosso herói tivesse estado um segundo atrasado nos seus movimentos, pouco restaria para adicionar. Mas os heróis nunca estão. E quando este tal Cap. Yohness entrou em ação, ele foi um verdadeiro selvagem. O aço perverso apenas sibilou através do espaço que ele acabara de deixar e, antes que o Tio pudesse dar outro golpe, algo pesado aterrou sobre ele e ele estava a ser agarrado em quatro pontos. Antes que o velho soubesse o que estava a acontecer, também, aquela faixa amarela tinha sido desenrolada e ele estava atado tão bem como uma encomenda de correio expresso. Tudo o que lhe faltava para seguir viagem era uma etiqueta de endereço e um selo de "Pré-pago" colado na barriga.
"Desculpa," diz Yohness, empurrando-o para os arbustos com a ponta do pé, "mas não podes agir de forma tão confusa quando a jovem tem um visitante."
"Ah! Eso es espantoso!" diz a Donna Mario, significando que agora ele tinha estragado tudo. "Deves fugir. Eu devo... nós devemos ambos fugir."
"Oh, muito bem," diz Yohness. "Isto é, se a fuga for boa."
"Aqui! Rápido!" diz ela, agarrando a longa capa que o Tio tinha vestido antes de começar algo que não podia terminar. "E isto também," acrescenta ela, entregando ao Yohness um quepe militar com muitos galões de ouro. "Iremos juntos. Os guardas conhecem-me. Eles pensarão que és o meu tio. Espera! Vou chamar a carruagem, como se fosse para o nosso passeio noturno."
"Ora, isso," digo eu, enquanto Don Pedro chega a esta parte da história, "foi o que eu chamo de bom trabalho. Escaparam-se limpos, não foi?"
Ele acena e continua a contar como, quando chegaram aos limites da cidade, El Capitán atirou o cocheiro e o lacaio da boleia, assumiu as rédeas ele mesmo e conduziu até quase ao amanhecer, quando deixou a bela Donna Mario na casa de um velho amigo e depois arrancou pela estrada fora até ver uma oportunidade de deixar o veículo e entrar pelos bosques.
"E calculo que ele estivesse disposto a dar a noite por encerrada depois disso, eh?" digo eu. "Um verdadeiro caçador de emoções, não era? O que aconteceu com ele?"
"Ah!" diz Don Pedro. "É por isso que venho até si."
"Oh, sim, é verdade," digo eu. "Quase me tinha esquecido. Sim, sim! Ainda tens a ideia de que eu posso localizar o Yohness por ti? Supondo que pudesse, no entanto, como terias a certeza de que era o mesmo, depois de tantos anos? Tens alguma marca nele que----"
"Escute," diz Don Pedro. "El Capitán Yohness possui um anel de engaste peculiar — ouro pálido — com um grande rubi escuro. Isto foi-lhe dado naquela noite pela Senhorita Donna Mario. Ele jurou-lhe nunca se separar dele até que se voltassem a encontrar. Nunca se encontraram, nem se encontrarão. Ela já não existe. Durante anos viveu escondida, com medo pela sua vida. Depois veio a guerra. O seu tio foi expulso para Espanha. Mais tarde a sua amiga morreu, mas ela deixou à Donna Mario a sua propriedade, muitos acres de valiosa plantação de açúcar, e a casa, Casa Fuerta. É esta propriedade que a Donna Mario, por sua vez, deixou ao seu valente amante. Sou um dos executores. Por isso, pergunto-lhe: onde está El Capitán Yohness?"
"Sim, eu sei que perguntas," digo eu. "Mas por que perguntas-me a mim? Como é que ligas a Corrugated Trust com qualquer coisa tão selvagem----"
"Veja," diz Don Pedro, produzindo uma velha carta amarela. "Isto veio para a Donna Mario pouco antes da guerra. Está no papel de carta da sua firma."
"Ora, é verdade!" digo eu. "Deve ter sido quando estávamos no edifício antigo, muito antes do meu tempo. Mas, na medida em que... Espere, o nome não é Yohness. É Jones, tão claro como a água."
"Sim, Yohness," diz Don Pedro, soletrando-o em voz alta, "Y-o-n-e-s. Sabe, em espanhol chamamo-lhe Yohness."
Ele não o diz exatamente assim, também, mas é o mais próximo que consigo chegar. De qualquer forma, nunca o reconhecerias como Jones.
"Bem," continuo eu, "não conheço ninguém por aqui agora que se encaixe na tua descrição. Na verdade, não acredito que haja alguém com o nome de... Sim, há um Jones aqui, mas ele não pode ser a pessoa. Ele não é esse tipo de Jones."
"Mas se ele é o Senor Jones... quem sabe?" insiste Don Pedro.
Então tenho de parar e rir. Huh! O velho Jonesey ser suspeito de alguma vez ter feito coisas dessas. Digam-me, porque não chamá-lo aqui e confrontá-lo com isso? "Só um segundo," digo eu. "Podes ver por ti mesmo."
Encontro o Jonesey com a cabeça dentro de uma gaveta de arquivos, como de costume, e sem estragar nada da piada, levo-o e coloco-o em frente ao Don Pedro.
"Ouve, Jonesey," digo eu. "Este cavalheiro vem de Havana. Alguma vez estiveste lá?"
"Ora, si-i-i-im. Uma vez estive," diz Jonesey, de forma arrastada, como se tentasse lembrar-se.
"Estiveste?" digo eu. "Como? Quando?"
"Foi... foi há muito tempo," diz Jonesey.
"Perdone," interrompe Don Pedro. "Não era conhecido como Senor El Capitán?"
"Eu?" diz Jonesey. "Ora... eu... alguns podem ter-me chamado assim."
"Grande espingarda!" ofego eu. "Olha aqui, Jonesey; não me digas que também tens o anel?"
"O anel?" diz ele, tentando parecer inexpressivo. Mas, ao mesmo tempo, noto a sua mão ir em direção ao peito da camisa, de forma brusca.
"O anel da Senhorita Donna Mario," corta o Don Pedro, ansioso.
Isso não provoca nenhuns movimentos histéricos da parte dele, no entanto. Ele apenas ali fica, olhando de um para o outro de nós, lentamente e atordoado, como se algo estivesse a escorrer para dentro do seu cérebro. Uma ou duas vezes, ele esfrega uma mão suja sobre a sua cabeça careca. Pareceu ajudar.
"Donna Mario, Donna Mario," repete ele, a meia voz.
"Sim," digo eu. "E não será isso algo parecido com o anel que estás a esconder aí debaixo da camisa? Vamos ver."
Sem uma palavra, ele desabotoa o colarinho, tira um cordel enlaçado da cabeça e mostra um anel. É um grande rubi cravado em ouro pálido.
"Esse é o anel da Donna Mario," diz Don Pedro.
"Caramba," digo eu. "Jonesey, queres dizer-me que és o mesmo que navegou com o Dynamite Johnny, arriscou o pescoço para andar a bisbilhotar em Havana, namorou a sobrinha do Governador Geral, amarrou-o como um peru de assar quando ele interferiu, e escapou com ela na carruagem do palácio através de bandos de soldados que teriam ficado ricos para toda a vida se te tivessem abatido à primeira vista? Tu!"
"Isso... isso foi há muito tempo," diz Jonesey.
E se quiserem acreditar em mim, é quase tudo o que ele diria. Nem sequer ficou muito excitado com o facto de uma plantação de açúcar de cem mil dólares estar prestes a ser herdada por ele. Oh, sim, ele iria com o Don Pedro e tomaria posse. O túmulo da Donna Mario estava lá? Então ele iria, certamente.
"Eu... gostaria muito de ir," diz o Velho Jonesey.
"Huh," digo eu. "É melhor ficares por aqui até amanhã ao meio-dia. Quero que ouças o que tenho para alimentar aquela malta da sala de títulos."
Jonesey abana a cabeça. Não, ele prefere que não. E enquanto ele se arrasta de volta para os seus velhos arquivos, ouço-o resmungar, de forma suave e leve: "Donna Mario. Ah, sim! Donna Mario!"
O que prova, não é, que nem sempre se pode dizer. Mesmo quando a pessoa tem um nome tão comum como Jones.
CAPÍTULO XI
AO PASSAR DE LUCY LEE
Alguém, por favor, ponha esse disco dos Contos de Hoffmann, com uma agulha suave. Obrigado. Agora, se apagarem todas as lâmpadas, menos uma, naquele velho candelabro de tons rosados e passarem os marshmallows de chocolate, talvez eu tente esboçar para vocês esta versão de Lucy Lee-Peyton Pratt da história mais doce já contada.
Apanhámos a Lucy Lee no salto, por assim dizer. Ela não tinha vindo de Atlanta até aqui para visitar a Vee, mesmo sendo velhas amigas de colégio interno. Não, ela estava a caminho de uma festa em Lenox e estava a preencher o tempo antes disso acontecer fazendo uma estadia de dever com uma tia solteirona que vivia na Madison Avenue. Mas quando se descobre que a tia está a fazer o tratamento de leitelho para a dispepsia, que ficou surda demais para aproveitar o teatro e que é doida por manipular a tábua Ouija, a Lucy Lee saca da sua agenda e começa a telefonar às velhas amigas.
Não sei quão abaixo na lista a Vee estava, mas parece ter sido a primeira a cair facilmente. Quando ela ouve o quanto a Lucy Lee está aborrecida na Madison Avenue, insiste para que ela venha logo ter connosco. Por isso, recebo ordens para ir buscar a Lucy Lee quando terminar no escritório e trazê-la para casa. Daí esta cena de abertura no táxi, onde me vejo a ser avaliado de forma tímida e curiosa.
Só há uma maneira de descrever a Lucy Lee. Ela é uma jovem doce. Nada de grande ou saltitante nela. Não. Uma daquelas porções reduzidas. Mas fofa e felina, desde a ponta dos seus sapatos de salto duplo A até à aba do chapéu descaído que apenas esconde metade de um par de olhos perigosos.
"Tão gentil da sua parte, Sr. Ballard", diz ela, lançando um olhar tímido, "ter todo este trabalho por esta pobre coitadinha."
"É um dom", digo eu. "Vem naturalmente. E a bagagem?"
"Enviei algumas coisas por expresso", diz ela. "Muito obrigada, Sr.--er--Sabe, ouvi falar tanto de si através da querida Vee que simplesmente tenho de lhe chamar Torchy."
"Se é um caso de 'tem de ser'", digo eu, "então força."
Admito que foi um pouco repentino, mas a Lucy Lee é uma rapariga tão sociável e tão fácil de conhecer, que não parece estranho depois das primeiras vezes. Primeiro, ela quer saber tudo sobre o bebé, e quando lhe mostro a última fotografia e cito um par das suas observações inteligentes, traduzidas livremente, ela anuncia logo que ele deve ser maravilhoso.
"Sim-ples-mente maravilhoso!" é a maneira de a Lucy Lee dizer isso, enquanto me olha com admiração.
Claro, eu não nego. Depois, ela quer saber há quanto tempo vivemos em Long Island, como é a casa e sobre o meu trabalho no Corrugated Trust, e enquanto lhe dou os detalhes, ela ouve com aqueles olhos grandes a ficarem cada vez maiores.
"Sim-ples-mente maravilhoso!" diz a Lucy Lee.
E, de alguma forma, apenas por usar esse sistema, ela começa a registar. Primeiro, eu estava apenas meio divertido com isso. Mas antes de termos conduzido uma dúzia de quarteirões, estava a ser rapidamente convencido de que, finalmente, ali estava alguém que realmente entendia. Sabem como é. Sentem que são um grande, forte e nobre homem, tão sábio na cabeça que não vale a pena tentar escondê-lo de olhos como aqueles; e, no entanto, tão bondoso e generoso que não se importam de falar com qualquer jovem simples que possa ser ajudado por isso.
Oh, sim. Meia hora com a Lucy Lee e é provável que precisem de uma faixa elástica no chapéu. Nunca souberam que podiam debitar uma conversa tão divertida. Ora, sem sequer tentar, eu podia pôr aquele riso ondulante dela a funcionar e fazer as covinhas brincarem às escondidas com os seus rubores. Quando chegamos a casa, sinto-me como um tipo normal.
"Coisinha fofa, não é?" comento com a Vee durante os quarenta minutos de espera enquanto a Lucy Lee se veste para o jantar.
"Oh, sim", diz a Vee, com um sorriso conhecedor. "Essa é a sua especialidade, creio eu. Mas ela é uma querida, mesmo que não seja totalmente sincera em tudo."
"Ah, para quê acordar-me!" digo eu, sorrindo.
Foi na manhã seguinte, no entanto, que levei o meu grande choque, quando um camião de expresso chega com cerca de uma tonelada de bagagem. Eram apenas dois baús de guarda-roupa, um baú de chapéus e um baú de viagem, e os homens descarregam tudo.
"Socorro!" digo eu, quando eles cambaleiam para dentro com o último. "Quem é que se está a mudar para aqui?"
Parece que são as poucas coisinhas de que a Lucy Lee precisa para o fim de semana. "Disse-lhe para mandar vir a sua criada", diz a Vee. "Foi estúpido da minha parte não pensar nisso antes, conhecendo a Lucy Lee."
E mais tarde, quando sou chamado para ajudar a desfazer as correias, tenho um vislumbre da exposição. Vestidos de manhã e de tarde num, vestidos de noite noutro, o baú de viagem cheio de sapatos, além de todos os chapéus.
"Hum!" digo eu, de lado para a Vee. "Carrega todo o seu próprio cenário, não carrega? Digo-te, há aqui o suficiente para equipar uma revista musical de Ziegfeld."
O que me deixou mais boquiaberto, porém, foi quando a Lucy Lee desempacota a sua coleção de fotografias emolduradas e as alinha na cornija e na mesa de toucador. Mais de uma dúzia, todos homens.
"Não queres dizer, Lucy Lee", diz a Vee, "que estes estão todos... er... na lista ativa?"
"Tenho a certeza de que não sei o que queres dizer", diz a Lucy Lee, fazendo aquele olhar de bebé. "São apenas alguns dos meus amigos homens. Por exemplo, este é o querido Major Knight, que é presidente de algum conselho de administração em que o papá é diretor. Ele é tão alegre e está sempre a dizer... Bem, não importa. Este é o Victor Norris, que tentou tanto entrar na aviação e estava quase a voar quando a guerra teve de terminar. Ele é um dançarino perfeitamente celestial. Depois há o pobre Arthur Kirby, apenas secretário de algum senador, mas um rapaz tão simpático. E aquele de uniforme naval é o Dick... er... Bem, conheci-o num jantar em Washington pouco antes de ele receber a baixa e ele contou-me tantas coisas emocionantes sobre perseguir submarinos no Mar do Norte ou... ou no Mediterrâneo ou em algum lugar. Não tem uns olhos simpáticos? E este próximo..."
Bem, esqueço o resto porque por essa altura já estava ocupado a pensar em como ela conseguia manter o registo de todos eles sem a ajuda de um índice de cartões. Mas ela conseguia. Para a Lucy Lee, a vida deve parecer um desfile, sendo ela o ponto fixo. Foi onde comecei a concordar com a Vee que deveria haver um quarto prato na mesa, pelo menos durante o domingo.
"Mas quem vou arranjar?" pergunto eu.
"Tonto!" diz a Vee. "Um homem, claro. Qualquer homem."
"Está bem", digo eu. "Vou tentar angariar alguém, mesmo que tenha de recrutar o Piddie."
A tarde de sábado costuma ser uma altura mais ou menos ocupada na Corrugated, por isso já passava do meio-dia quando me lembro da minha promessa e começo a olhar em volta, em pânico. Não, o Sr. Piddie não podia. Ele tinha planeado levar a família ao Bronx. Sudders, o nosso auditor assistente, estava reservado para uma orgia de golfe de dia inteiro. Eu quase tinha decidido raptar o Vincent, o nosso contínuo de cabelo loiro e modos de salão, quando passo pela sala de obrigações e tenho um vislumbre desta criatura, Peyton Pratt, a demorar-se na sua secretária. Ele está a tirar um horário de comboios de uma mala.
"Para onde vais, Peyton?" pergunto eu.
"Oh!" diz ele, suspirando descontente. "Suponho que tenha de subir e passar o dia com a minha irmã casada em New Haven."
"Porque é que ages tão contente com isso?" digo eu.
"Mas não estou, na verdade", diz o Peyton. "Não é que eu não goste da Ethel, e todo esse tipo de coisas. O Walter... que é o marido dela... também é boa gente, e os miúdos são suficientemente simpáticos. Mas é uma viagem longa para fazer por uma visita tão curta... e bastante cara, sabes. Estava a calcular agora mesmo."
E estava. Ali, num bloco de notas do escritório, ele tinha anotado cada item, incluindo o custo de uma mensagem diurna de dez palavras e o preço de uma caixa de bombons para as crianças. Ele ainda não tinha enviado o telegrama, nem comprado os bombons.
"Tens o teu casaco de jantar aí?" pergunto eu, acenando para a mala.
Ele diz que tem.
"Então escuta", digo eu. "Risca New Haven do mapa desta vez e deixa-me apresentar-te um fim de semana que não te vai custar nem um níquel. Ainda não viste a minha casa em Long Island, pois não; ou conheceste o novo herdeiro da casa de Torchy?"
"Bem... bem, não, não conheci", hesita o Peyton.
"Está na hora, então", digo eu. "Ficará tudo por minha conta, até te deixar usar o meu bilhete de viagem. Eh? Que dizes?"
Tendo conhecido o Peyton Pratt há alguns anos, eu podia quase prever o resultado. Aquela viagem de ida e volta gratuita devia ser o jackpot para ele. E foi. Claro, ele protesta educadamente que não podia permitir que eu pagasse a sua passagem, e acrescenta que ouviu falar tanto da minha encantadora pequena família que não pode realmente dar-se ao luxo de perder tal oportunidade.
"Claro que não podes!" digo eu, abafando um sorriso.
Não que o Peyton seja um dos vossos forretas comuns. Não é essa a ideia de todo. Ele é um financista em ascensão, o Peyton; um daqueles heróis dos livrinhos vermelhos, que usam lemas do John D. colados nos chapéus e podem dizer-te exatamente como o Carnegie ou o Armour ou o Shonts ou qualquer uma dessas almas santificadas amealharam os seus primeiros dez mil.
Ele tem toda essa teoria da poupança bem dominada, o Peyton. Ora, ele não lambe um selo de correio que não seja registado na velha conta de despesas, juntamente com o donut extra em que se aventurou no almoço da leitaria. Ele sabe que é essa a forma de vencer, porque leu isso em artigos de revistas e aposto que cada vez que passa pelo Sub-Tesouro, ele levanta o chapéu respeitosamente.
Espero que seja algo com que o Peyton nasceu, pois o velho dele era caixa de banco e os seus dois irmãos mais velhos já têm os nomes nas grelhas das janelas, diz-me ele, enquanto um tio dele é vice-presidente de uma companhia de seguros. Por isso, não é de admirar que o Peyton seja um verdadeiro cão de cupões. A sua ideia de leitura ligeira é sentar-se com "Conversas com Investidores" num joelho e o relatório de mercado no outro. Deem-lhe uma manhã de folga e ele passá-la-ia na Câmara de Compensação a vê-los a fazer o balanço diário. Uh-huh. A única maneira que ele sabe escrever U. S. é num monograma... assim... $$
Não é um tipo mal parecido, no entanto; alto, esguio e moreno, com um nariz comprido e direito e um queixo bem desenvolvido. Claro que ele tem um ar um pouco bilioso de quem vive fechado, e aqueles óculos grossos não ajudam à sua beleza. Podem imaginar também que o seu temperamento não é exatamente frívolo. Dificilmente! No entanto, ele acha que é um grande brincalhão quando quer ser. Também gosta que eu brinque com ele por ser tão meticuloso a vestir-se, pois embora nunca esbanje nada de desportivo, ele está sempre arrumado e bem vestido.
"Quem é a pequena rainha para quem tudo isto é feito?" pergunto-lhe eu certa vez.
"Quando a tiver escolhido, aviso-te, Torchy", diz ele, piscando o olho de forma astuta.
Mais tarde, porém, ele conta-me tudo confidencialmente. Admite gostar bastante de andar com raparigas simpáticas quando isso pode ser feito sem perigo de ser explorado para bilhetes de orquestra ou tarifas de táxi. Mas não fazia sentido envolver-se profundamente com nenhuma em particular até que um sujeito tivesse a certeza de um rendimento de cinco dígitos, pelo menos.
"Hum!" digo eu. "Então tens tempo suficiente para treinar uma desde o berço."
"Oh, não sei", diz ele. "De qualquer forma, esperarei até encontrar uma com gostos tão simples quanto os meus."
"Podes esperar", digo eu, "e depois, por outro lado... Bem, já vi tipos mais sábios que tu serem levados por jovens festivas cujo único stock era um par de olhos indisciplinados."
"Pah!" diz o Peyton. "Já fui exposto a esse tipo de coisas tantas vezes como qualquer outro. Acho que sou imune."
"Talvez sejas", tenho de admitir.
Por isso, enquanto arrasto o Peyton para casa naquela tarde, dou os parabéns a mim próprio por ter preenchido a encomenda da Vee. E ali, de pé na varanda da frente a admirar os lilases, está a Lucy Lee num dos seus vestidos simples... um xadrez rosa e branco... parecendo tão fresca, delicada e barata como uma peça de exposição premiada de um orfanato.
Sussurro à Vee de lado: "Bem, vês, trouxe-o. O Peyton é alguém com quem ela também pode praticar, e sem mal nenhum. Ele está vacinado."
"A sério", diz a Vee, observando-o.
"Ele próprio admite", digo eu.
"Oh, bem, então!" diz a Vee, com um dos seus sorrisos inquisidores.
E, ao princípio, parecia que o Peyton estava prestes a qualificar-se como um isento total. Ele mal parecia ver a Lucy Lee. Enquanto ela desenrolava a conversa vivaz, ele estava a inspecionar o bebé, ou a falar com a Vee, ou a fazer perguntas parvas sobre o jardim. Mal dá um segundo olhar à Lucy Lee. Imagino que a avaliou como tendo uns dezasseis anos. Ele poderia facilmente cometer esse erro.
Talvez tenha sido isso que a fez começar esta ofensiva rápida ao jantar. Nada de menina de liceu na Lucy Lee quando ela desce as escadas às 7:15. É um vestido de noite de adulta que ela veste desta vez. Não há dúvida então se ela já se tinha estreado na sociedade ou não. A única questão era onde é que ela ia parar de se estrear. Não que não fosse suficientemente simples, mas era certamente escasso acima do cinto.
Depois do seu primeiro suspiro, podiam ver o Peyton a sentar-se e a prestar atenção. Também não podia evitar, pois a Lucy Lee tinha claramente a rede lançada. Eu não tinha notado aqueles seus grandes olhos inocentes a serem usados ao máximo antes, mas agora ela solta-se sem reservas. E o Peyton, ele está mesmo ao alcance. Ela está a dar-lhe amostras daqueles olhares de "Oh, tu és um homem tão grande e maravilhoso". Sabem como é. E em dez minutos, o Peyton não sabe se lhe estão a passar as ervilhas ou se está a ser eleito segundo vice-presidente de alguma coisa.
E eu sempre classifiquei o Peyton como uma proposta de câmara frigorífica! Deviam ver a maneira como ele descongela, no entanto. Ora, ele conta histórias engraçadas, solta tiradas e espalha-se em geral. Aquele rosto comprido e amarelado dele ganhou cor como se tivesse feito um tratamento num salão de beleza, e os seus olhos sérios começaram a cintilar atrás das lentes grossas.
Quanto à Vee e a mim, trocámos um olhar divertido de vez em quando e apreciámos o espetáculo. Depois do café, quando a Lucy Lee o levou para o terraço leste para ver a lua cheia nascer, eles acamparam naturalmente num baloiço e abriram a conversa confidencial. Pelo ronco profundo, podíamos dizer que o Peyton estava a carregar com a maior parte da conversa.
"Eu sei", digo eu. "A Lucy Lee está a fazê-lo contar como ele vai ter Wall Street a comer na mão dele um dia, e de vez em quando ela comenta: 'Oh, Sr. Pratt! Acho que é maravilhoso; sim-ples-mente maravilhoso!'"
"Mas eu pensei que tivesses dito", intervém a Vee, "que ele era... er... vacinado?"
"Oh, ele está apenas a entrar no jogo", digo eu. "Talvez lhe tenha subido um pouco à cabeça esta noite, mas quando chegar a altura de fugir... Vocês verão."
Uma das minhas noções favoritas sempre foi que a hora do pequeno-almoço é o verdadeiro teste ácido para estas coisas do romance. Especialmente para as raparigas. Mas na manhã seguinte a Lucy Lee aparece noutro efeito de guingão, parecendo tão fresca e sorridente como um canteiro de tulipas. E o caso continua logo a partir daí. Dura o dia todo e toda aquela noite, exceto quando a Lucy Lee estava a fazer outra mudança rápida, o que ela faz cerca de quatro vezes segundo a minha contagem. E cada traje é completo... vestido, chapéu, sapatos, meias, tudo a combinar. Os únicos movimentos inquietos que o Peyton faz, também, são durante estas breves esperas.
"Jovem festiva, eh?" sugiro-lhe eu enquanto a Lucy Lee faz uma das suas fugas repentinas.
"Uma rapariga muito interessante e encantadora", diz o Peyton.
"Alguma classe, também. Não?" acrescento eu.
"Se queres dizer que ela se veste com excelente gosto, concordo contigo", diz ele. "Tanta simplicidade absoluta, e no entanto..." O Peyton estende as mãos de forma eloquente. "Porque é que todas as raparigas não podem fazer isso?" pergunta ele. "Seria... er... uma tal poupança. Não tenho dúvidas de que ela faz todas elas sozinha."
"Se ela faz", digo eu, "deve ter tido um inverno ocupado."
"Oh, não sei", diz o Peyton. "São todas coisas tão simples. E depois, sabes... ou possivelmente não sabes... que a Lucy... er... quero dizer a Srta. Vaughn, é uma jovem surpreendentemente capaz. A sério. Há muito mais nela do que aparece à superfície."
"Tut, tut, Peyton!" digo eu. "Não estás a entrar num nível um pouco profundo?"
"Não sejas absurdo, Torchy", diz ele. "Só porque mostro um pouco de interesse natural numa jovem encantadora, não se segue que..."
"Olha!" digo eu. "Alguém te está a dar o sinal de 'vem cá'."
Claro, é a Lucy Lee. Ela mudou para um traje de tarde, uma espécie de efeito azul antigo sem um folho ou um franzido à vista, mas com tudo a combinar, desde o chapéu em teia de aranha aos chinelos de camurça. E tudo o que ela tem de fazer para trazer o Peyton para o seu lado é inclinar o queixo de forma convidativa.
Apenas apanhámos vislumbres deles toda a tarde. E naquele domingo à noite, o baloiço da varanda trabalhou horas extras novamente. Sei que tanto eu como a Vee bocejámos muito antes de eles finalmente entrarem. Nunca tinha visto o Peyton tão animado. Ele até vai ao ponto de fumar um cigarro. E na manhã seguinte, quando ele parte relutante comigo para apanhar o expresso das 8:03, ele para-me no portão para me dar um aperto de mão caloroso.
"Digo-te, velho amigo", diz ele com a voz rouca, "eu... nunca poderei dizer-te o quão grato estou pelo... pelo que fizeste."
"Então vamos esquecer isso", digo eu.
"Esquecer!" diz ele, sorrindo de forma piegas. "Nunca!"
À hora do almoço, ele pergunta-me qual dos fotógrafos da Quinta Avenida acho ser o melhor.
"Eh?" digo eu, sorrindo. "A pensar em tirar um retrato e enviá-lo para alguém numa moldura de prata?"
"Bem", diz ele com dificuldade, "eu... eu tenho tido a intenção de tirar algumas fotografias há vários anos, e agora..."
"Entendido", digo eu. "Mas se queres algo realmente elegante, deixa-me levar-te a um lugar que conheço na Rua Cinquenta e Cinco."
Sinceramente, não estava a pensar na Maison Noir na altura ou que era mesmo ao lado. Na verdade, foi o próprio Peyton que parou em frente à montra e me agarrou pelo braço.
"Digo-te!" diz ele, apontando para a exposição. "Vê... vê ali."
Ele está a apontar para uma exposição de vestidos de guingão aos quadrados, azul e branco e rosa e branco, com chapéus a condizer.
"Sim", digo eu, "parecem familiares, não parecem?"
"Ora", continua ele, "são quase exatamente iguais aos da... da Lucy; as mesmas linhas simples, o mesmo material e tudo."
"Coisa com classe", digo eu. "Vem, no entanto. O lugar das fotografias é ao lado, no andar de cima."
O Peyton continua lá parado a boquiabrir. "Que coincidência", murmura ele. "Pergunto-me, Torchy, se se poderia descobrir quanto é que pedem por tais coisas num lugar como este."
"A coisa mais fácil do mundo", digo eu. "Basta entrar e pedir-lhes que te deem orçamentos."
"Oh, mas eu não me atreveria a fazer isso", diz ele. "Pareceria tão... tão..."
"De todo", digo eu. "Por acaso, este antro é um lugar onde a Vee faz mais ou menos compras, quando está com dinheiro, e já estive lá muitas vezes com ela. Se estás curioso, entramos e vemos os preços."
O Peyton estava lá com a curiosidade também. E a senhora vampira com o longo fio de contas a balançar do pescoço não pareceu achar estranho estarmos interessados em guingões aos quadrados.
"Ah, sim-s-s-s!" diz ela, abrindo as portas traseiras da montra. "Eles são grandes pechinchas, esses. Marcados em baixo ainda na semana passada. Este aqui... m-m-m-m... apenas $68; mas com o chapéu também, $93."
E o suspiro que sai do Peyton soa como abrir um travão de ar.
"Noventa e três dólares!" diz ele. "Por uma coisinha simples como essa? Ora, isso parece ser bastante exorbitante!"
"Mais non!" diz a senhora vampira, encolhendo os ombros. "Eles são o que vocês chamam de simples, sim. Mas também são chiques. Considera-se isso. Na semana passada veio uma jovem de Atlanta que numa hora leva duas dúzias de uma vez, e mais no dia seguinte. Estão a ver!"
Peyton estava a começar a ver. Mas ele queria ter a certeza absoluta. "De Atlanta?" diz ele. "Não... não uma... uma Srta. Vaughn?"
"Mais oui!" diz Madame, batendo palmas entusiasmada. "Essa mesma. Conhece-a? Sim?"
"Eu... eu pensei que conhecia," diz Peyton, meio fraco, enquanto se dirige para a porta.
Ele desiste da proposta da fotografia. Diz que não está bem com disposição. E durante todo aquele dia parece ter algo na cabeça que não consegue libertar. Três ou quatro vezes parece estar prestes a dizer-mo, mas nunca consegue começar. E no dia seguinte está muito igual. Estava assim quando deixei o escritório por volta das 16h para apanhar um comboio cedo. Eu quase que podia adivinhar o que o estava a preocupar.
Por isso não fiquei muito surpreendido, pouco antes do jantar, ao ver Peyton a aparecer no nosso portão da frente.
"Eu... tenho a certeza de que não sei o que vais pensar de mim, Torchy," começa ele a pedir desculpa, "mas eu... eu simplesmente tinha de..."
"Que pena!" digo eu. "Estás apenas quatro horas atrasado. A Lucy Lee partiu para Lenox no comboio das 2:10."
"Foi-se!" diz ele. "Mas eu pensei..."
"Sim, ela planeou ficar mais tempo," digo eu, "mas isto era um pouco monótono para ela aqui, e quando recebeu um telegrama a dizer que um certo Capitão Wright ia estar em casa da irmã durante alguns dias de licença... Bem, no espaço de uma hora ela e a sua criada tinham feito as malas e estavam a caminho. Ah, sim, e lá vai o resto da bagagem da Lucy Lee agora."
O camião de entregas estava precisamente a virar da porta lateral. Peyton olha para a carga com os olhos arregalados. "Mas... mas não queres dizer que todos aqueles baús são dela?" pergunta ele.
"Uh-huh," digo eu. "Ajudei a amarrá-los. E um daqueles guarda-roupas, Peyton, leva cerca de vinte e cinco daqueles vestidinhos aos quadrados. Os chapéus vão na caixa quadrada, e os sapatos no baú de cabine. Trinta e oito pares, creio eu. Apenas o suficiente para um fim de semana. Depois, naquele baú de topo bojudo..."
Mas Peyton não está a ouvir. Está apenas ali parado, com um ar atordoado e estupefacto nos olhos, como se tivesse acabado de ser quase atropelado por um comboio expresso. Mas os seus lábios estão a mexer-se. Percebi a ideia. Ele estava a fazer aritmética mental... vinte e cinco vezes noventa e três. E estava a ter uma visão de um rendimento de mil dólares a cair de costas.
Quando ele volta a si, pergunta-me, fraco, quando pode voltar para a cidade. Não, não fica para o jantar. "Obrigado," diz ele, "mas não poderia. Estou demasiado perturbado. Receio ter... ter cometido um erro terrível, Torchy."
"Sobre a Lucy Lee?" digo eu. "Não te preocupes. Tudo o que fizeste foi quase contribuir com mais uma moldura de prata para a coleção dela. Simplesmente encontraste um campo livre, é só isso. Caso contrário, terias sido um caso em que terias ficado na fila."
Claro que o Peyton não acredita numa palavra disto. Ele ainda acha que teve um caso desesperado. Ele não sabe se está a salvo ou não. Tudo o que consegue ver são filas e filas de números a atacar o seu pobre livrinho de despesas. Suponho que ele pense que tem direito a usar uma fita de ferimento sobre o coração.
Ontem recebemos uma nota de agradecimento da Lucy Lee, contando principalmente que tempo fantástico estava a ter lá em Lenox.
"Alguma coisa sobre o Peyton?" pergunto eu.
"Ora, não," diz Vee. "Mas ela diz que o querido capitão é..."
"Eu sei," digo eu. "Sim-plesmente maravilhoso."
CAPÍTULO XII
TORCHY CONHECE ELLERY BEAN
Claro, eu estava a dizer aquilo principalmente para brincar com a Vee. Suponho que sou quase tão adepto desta vida suburbana como ela, mas sempre que ela fica um pouco efusiva, o que ela tende a ser em noites como as que temos tido ultimamente, com a lua cheia e o verão a dar os seus primeiros passos, eu tendo a fingir que sinto o contrário.
Sabem, ela tinha-me arrastado para o terraço das traseiras para sentir o cheiro doce das madressilvas e ver a lua subir sobre as altas acácias para lá da horta.
"Não é uma noite perfeitamente deslumbrante, Torchy?" diz ela. "E não parece tudo tão calmo e pacífico aqui fora?"
"Pode parecer," digo eu, "mas nunca se sabe. Gosto do campo durante o dia, sem dúvida, mas à noite, especialmente nestas de luar... Bem, não sei se algum dia me habituarei a elas."
"Que absurdo, Torchy!" diz ela.
"Faz com que as coisas pareçam um bocado assustadoras," continuo eu. "Todas aquelas sombras. Como sabes o que está por trás delas? E tantos ruídos estranhos. Ali! Ouve isso!"
"Tolo!" diz ela. "É um sapo-das-árvores. Espero que não tenhas medo disso."
"Não se ele for manso," digo eu. "Mas como podes saber que não é selvagem? E lá vem um zumbido."
"Sim," diz ela. "Um automóvel a descer o macadame. Ali, virou para a nossa estrada! Talvez alguém a vir visitar-nos, pateta."
E não é que era mesmo. Um minuto depois, o Sr. e a Sra. Robert Ellins estavam a chamar-nos cá à frente. Parece que tinham vindo buscar-nos para fazer uma visita com eles a uns novos vizinhos.
"Quem?" pergunta Vee.
"Não conseguias adivinhar," diz a Sra. Robert. "Os Zoscos."
"A sério!" diz Vee. "Pensei que eles fossem..."
"Sim," acrescenta a Sra. Robert, "suponho que também o sejam. Bastante impossíveis. Mas tenho simplesmente de experimentar aquele grande órgão de tubos que ouvi dizer que instalaram. O Bob acha que é uma coisa horrível de se fazer. Vê como ele parece chocado. Mas prometi não ficar mais de meia hora se o magnata do cinema estiver num estado mais surpreendente do que um plácido pós-jantar, ou se o lugar estiver cheio de demasiadas estrelas do ecrã. E acho que o Bob quer que o Torchy vá como guarda-costas. Por isso, não querem vir ambos? O que me dizem?"
Confiem na Vee para aceitar um desafio. Ela tenta qualquer coisa uma vez. Suponho que ela estivesse curiosa desde o início para ver como era esta nova Sra. Zosco. "Como é que disseste que ela costumava ser chamada, Torchy?" exige ela.
"'Myrtle Mapes, a rapariga com o sorriso de um milhão de dólares', era como ela era anunciada," digo eu. "Mas esses agentes de imprensa não querem saber o que dizem metade do tempo. E talvez ela só sorria assim quando a câmara está preparada para um grande plano."
"Não me interessa," diz Vee. "Acho que seria muito divertido ir."
Quanto a mim, não me importava, de uma forma ou de outra. Já tinha visto este grupo de Andres Zosco muitas vezes, a viajar de um lado para o outro no comboio. Ele até se tinha oferecido para me apanhar na sua limusina e dar-me uma boleia uma vez, quando eu estava a vir a pé da estação. E tenho de dizer que ele não era bem a minha ideia de um produtor de cinema abonado.
Nada de imponente no Sr. Zosco. Dificilmente. Uma espécie de sujeito atarracado, de pernas curtas, com um rosto redondo e liso, olhos castanhos meio suaves e o cabelo usado num efeito de diamante rapado. Nunca o tomarias por um tipo que fosse capaz de comprar um navio a vapor do rio Hudson e explodi-lo só por causa de filmar mil pés de película, ou organizar uma cena de multidão com gente suficiente para encher a Times Square numa noite de eleições. Não. Ele estava habitualmente a ler catálogos de sementes e a petiscar amendoins salgados de um saco de papel.
Foi no início da primavera passada que ele comprou esta propriedade Villa Nova, a uma milha ou mais depois dos Ellins, e se mudou com a noiva que escolheu da sua lista de estrelas de cinema. Não sei se ele esperava que a multidão de Piping Rock caísse aos seus pés ou não. De qualquer forma, não caíram. Limitavam-se a estremecer quando o nome dele era mencionado e mantinham-se afastados de Villa Nova tal como tinham feito quando aquele abonado do cobre de Duluth, que tinha construído a estranha propriedade quase mourisca, tentou o mesmo ato. Mas não parecia que os Zoscos pretendessem ser excluídos tão facilmente. Depois de estarem sozinhos durante um mês ou mais, começaram a encher os seus 20 e tal quartos com convidados da sua própria escolha. Claro, alguns dos que vi chegar pareciam um pouco estranhos, mas era evidente que os Zoscos não tencionavam contar com os vizinhos para companhia. Talvez também não quisessem que nós invadíssemos, como sugere o Sr. Robert.
Não se podia preocupar a Sra. Robert com insinuações dessas, no entanto. Ela é uma boa companheira. Além disso, se ela tinha decidido tocar aquele novo órgão de tubos, podes apostar quase de certeza que o faria. Por isso, em menos de três minutos, já nos tinha metido no carro e lá íamos nós surpreender os Zoscos.
Villa Nova, sabe, está empoleirada no topo de uma colina bastante considerável, com uma estrada privada que sobe a partir da Estrada Principal. Ao entrar, passa-se por uma estrutura de forma estranha coberta de trepadeiras que suponho se destinava a ser a casa do porteiro, embora pareça uma torre de estuque que foi deixada cair de um armazém.
Bem, tínhamos acabado de fazer a curva e o Sr. Robert tinha metido a segunda para subir a inclinação quando vislumbro alguém a fazer um mergulho apressado para dentro dos arbustos; um tipo esguio e magro com um boné aos quadrados puxado sobre os olhos tão para baixo que as orelhas sobressaíam de cada lado como pequenas asas. O que me pareceu um bocado estranho, no entanto, foi ele saltar para longe da porta da portaria quando o carro entrou e o facto de ele ter um cesto coberto com um pano branco.
"Huh!" digo eu, mais ou menos para mim mesmo.
"O que se passa?" pergunta Vee. "A ver coisas ao luar?"
"Pensei que tinha visto," digo eu. "Não viste, ali junto ao portão!"
"Oh, sim," diz ela. "Uns arbustos de lilases."
E não tendo a certeza absoluta do que tinha visto, deixei ficar por aí. Além disso, não havia tempo para debates prolongados. A seguir, já tínhamos parado sob o alpendre e estávamos a sair. Encontramos as grandes portas duplas abertas e o hall de entrada de mármore cor-de-rosa todo brilhantemente iluminado. Agrupadas no centro, em frente a uma fonte rodeada de fetos, estão cerca de uma dúzia de pessoas que parecem estar a tagarelar de forma séria e entusiasmada.
"Ora, que estranho!" diz a Sra. Robert, hesitando com o polegar no botão da campainha.
"Parece uma reunião de família," digo eu. "Talvez nos tenham ouvido chegar e estejam a votar para ver se nos deixam entrar ou nos barram o caminho."
Consegui distinguir Andres Zosco no centro do grupo, a usar um casaco de jantar com lapelas de seda e a mastigar nervosamente um charuto preto e grosso. Também consegui adivinhar que a loira tingida alta à sua direita devia ser a célebre Myrtle Mapes que costumava sorrir para nós de tantos cartazes publicitários. À esquerda estava uma mulher enorme e volumosa, decorada generosamente com fios de pérolas e pendentes nas orelhas. Depois havia um velhote engraçado de casaco comprido e gravata roxa, um par de mulheres atarracadas e de peito largo vestidas tão chique como um par de sofás de pelúcia, uma criada ou duas, e um tipo com cara de pastel, de aspeto assustado, que era fácil de adivinhar que devia ser o mordomo. Estavam todos tão ocupados a falar que não nos tinham ouvido chegar aos degraus.
"Digo eu," sussurra o Sr. Robert, "não será melhor desistirmos?"
"E nunca saber o que se passa?" protesta Vee. "Certamente que não. Vou bater à porta." O que ela faz.
"Ali!" digo eu. "Acabaste de desencadear o pânico."
Durante um minuto pareceu que ela tinha, de facto, pois a maioria deles salta assustada, ou agarra-se um ao outro pelo braço. Depois, surgem em direção à porta, com Zosco na liderança.
Suponho que ele nos deve ter reconhecido, pois solta uma gargalhada rouca e estridente e depois acena-nos cordialmente para entrarmos. "Desculpem," diz ele. "Eu... pensei que pudesse ser outra pessoa. Sr. Ellins, não é? Prazer em conhecê-lo. Entrem, todos vocês."
E depois de termos sido apresentados de forma vaga a todos, o Sr. Robert comenta que receia que não tenhamos escolhido o momento certo para fazer uma visita. "Nós... estamos a interromper um conselho de família ou algo do género, não estamos?" pergunta ele.
"Oh, fico contente por terem vindo," diz Zosco. "Não é nada secreto, e talvez nos possam ajudar. Estamos um pouco perturbados, na verdade. É sobre o meu irmão Jake. Tem estado a visitar-nos, ele e a sua mulher, durante a última semana. Talvez o tenham visto a andar de limusina... um tipo baixo e atarracado, muito parecido comigo, só que alguns anos mais novo."
O Sr. Robert abana a cabeça. "Lamento," diz ele, "mas não me lembro..."
"Oh, provavelmente não reparariam nele," continua Zosco. "Nada de sofisticado no Jake, veste-se de forma simples e tudo isso. Mas o que nos intriga é como ele se pôde ter perdido durante tanto tempo."
"Perdido!" ecoa o Sr. Robert.
"Bem, ele desapareceu, de qualquer forma," diz Zosco. "Desapareceu. Desde depois do jantar de ontem à noite e..."
"Oh, Jake, Jake!" lamenta a mulher volumosa com os fios de pérolas.
"Calma, calma, Matilda!" interrompe Zosco. "Não te preocupes com o choro agora. Ele está bem em algum lado, claro. Ele aparecerá a tempo. Tem de aparecer. Não é como se ele fosse um jovem desportista selvagem. Firme como uma igreja, o Jake. Sem vícios que valham a pena mencionar. Não é do tipo que vai fugir para a cidade numa farra. Ele não. E nunca anda com muito dinheiro vivo ou joias. Além disso, não há assaltantes aqui por perto."
"Mas... mas ele desapareceu!" geme a Matilda.
"Claro que desapareceu," admite Zosco. "Talvez tenha voltado para Saginaw. Algo pode ter acontecido na loja. Ou pode ter recebido a notícia de que algum grossista de capas e fatos estava a despachar os seus produtos de outono a preço de saldo e ficou tão ocupado na cidade a fazer o negócio que se esqueceu de nos avisar. Isso seria o Jake, sem dúvida, se visse uma oportunidade de ganhar uns milhares."
"Ele iria de cabeça descoberta e sem os seus comprimidos para a indigestão?" pergunta a Sra. Jake.
"Se fosse outro negócio como aquele lote de impermeáveis do exército, ele iria de pijama," diz Zosco.
Mas a Matilda abana a cabeça. Ela tem a certeza de que algo terrível aconteceu ao Jake. Agora que pensa nisso, acredita que ele devia ter algo em mente. Não tinham reparado em como ele tinha estado inquieto nos últimos dias? Sim, ambas as mulheres atarracadas tinham reparado. E o velhote engraçado de casaco comprido contou como o Jake tinha deixado de jogar bilhar com ele, mesmo depois de ele se ter oferecido para lhe dar 20 de vantagem.
"Mas isso não quer dizer nada," diz Zosco. "O Jake nunca soube jogar bilhar de qualquer forma. Odeia isso. Ele não é nada desportista, exceto talvez quando se trata de pinochle. Ele é todo virado para os negócios. Não sabe como tirar umas férias a sério como um cavalheiro. Estou sempre a dizer-lhe isso."
Gradualmente, todos tínhamos derivado para a grande sala de estar, mas o Jake continuava a ser o tema geral. Não podíamos deixar de ficar interessados nele também. Quando um lojista de meia-idade de Saginaw sai de um jantar, vagueia por uma comunidade calma e respeitável como a nossa, e desaparece como se tivesse caído num esgoto ou sido levado num avião, é o suficiente para nos pôr a pensar. Ao fazer algumas perguntas, obtivemos toda a história de vida do Jake, desde o tempo em que deixou a Lituânia quando era rapaz até à última vez que foi visto a pedir lume para o seu charuto ao mordomo. Obtivemos todos os seus hábitos descritos; como dormia sempre com um canto do lençol sobre a orelha direita, não podia comer morangos sem ficar cheio de manchas, e quase não podia ser arrastado para ver um espetáculo ou ir a uma festa noturna onde houvesse senhoras. No entanto, aqui, numa visita a Villa Nova, ele vai-se embora como se tivesse perdido o juízo, ou é raptado, ou pior.
"Ora," diz o Sr. Robert, "soa a um verdadeiro mistério, quase um caso para um Sherlock Holmes."
Não sei porquê, também, mas nesse momento ele olha para mim. "Por Júpiter!" continua ele. "Aqui estás tu, Torchy. O que é que achas disto?"
"Eu?" digo eu. "Mais ou menos o mesmo que você, suponho."
"Oh, vamos lá!" diz ele. "Põe esse cérebro rápido a trabalhar. Tente-o, Sr. Zosco. Já o vi desvendar coisas mais estranhas do que esta. Eu até me atreveria a dizer que ele chegou a uma pista enquanto estivemos a conversar."
Claro, grande parte disso é a brincadeira do Sr. Robert. Ele está sempre a dizer isso. Mas Zosco, depois de me ter examinado atentamente, encolhe os ombros com dúvida. A Sra. Jake, no entanto, está pronta para agarrar qualquer coisa.
"Pode encontrá-lo?" pergunta ela, olhando para mim. "Fará isso, jovem?"
Também recebo um olhar encorajador e admirado da Vee. Isso resolve o assunto. Eu estava obrigado a fazer algum tipo de jogada depois disso. Além disso, tinha uma espécie de palpite vago.
"Não prometo nada," digo eu, "mas vou tentar. Primeiro, talvez me possam dizer que jovem aqui por perto usa um boné aos quadrados pretos e brancos?"
Isso provoca uma reação rápida da antiga Myrtle Mapes, agora Sra. Zosco. "Ora... ora," diz ela, "o meu irmão Ellery usa."
"É verdade," acrescenta Zosco. "Onde está o rapaz?"
"Ellery?" diz Myrtle, lançando-lhe aquele olhar inocente de boneca. "Oh, ele deve estar no quarto dele. Eu... eu vou ver."
"Não se incomode," digo eu. "Provavelmente está. Não importa. Também está a visitar, não é? Há quanto tempo? Cerca de duas semanas. E ele vem de..."
"Da minha terra natal, Shelby, Carolina do Norte," diz ela. "Mas não é ele que está desaparecido, sabe."
"É verdade," digo eu. "A perder o fio à meada, não estava eu? Mostra que detetive fraco eu sou. E agora, se me puderem dar o chapéu do desaparecido, vou fazer um pouco de reconhecimento lá fora."
"O chapéu dele!" resmunga Zosco. "O que quer com isso?"
"Ora," digo eu, "se encontrar alguém a quem sirva, é provável que seja o Jake, não é?"
"Claro," diz Matilda. "Aqui está," e entrega-me uma cartola de sete e três quartos, com as iniciais dele gravadas na banda de suor.
Essa jogada deu-lhes algo em que pensar, de qualquer forma, e tirou-lhes um pouco as ideias do que eu tinha perguntado sobre o Ellery. Pois depois de ouvir falar dele, sabia que não me tinha enganado ao ver alguém junto à portaria. É exatamente para lá que me dirijo.
Ao chegar ao fundo da colina, deslizo pela sebe e caminho pela relva, para que, se houvesse alguém no portão, não me ouvissem. E digam lá, aquele era um palpite certeiro que eu tinha recolhido. Parado ali ao luar está o jovem do boné aos quadrados.
Pelo que consigo perceber, é um rapaz de 19 ou 20 anos, de peito estreito e mandíbula solta, vestido quase como um desportista de aldeia. Sabem... bolsos dos casacos com fendas, calças com bainhas altas, sapatos de bico largo e uma gravata que deve ter sido desenhada por um artista de papel de parede que tinha ficado traumatizado. No braço esquerdo, ele tem um cesto parcialmente coberto por um guardanapo. Além disso, está a passar algo por uma pequena janela cerca de trinta centímetros acima da sua cabeça.
Claro, não é preciso um supercérebro para adivinhar que deve haver outra pessoa dentro da portaria. Porque é que Ellery estaria a passar coisas pela janela se não houvesse? E qualquer pessoa lá dentro não conseguiria sair facilmente, pois a única porta é uma peça pesada cravejada de ferro, trancada por fora, e a pequena janela está coberta por uma grade de ferro ornamental. Além disso, à medida que me aproximo, ouço vozes. Parece que a pessoa lá dentro está a resmungar sobre qualquer coisa. A sua voz soa rouca e indignada, mas não consigo perceber do que se trata. Quando o jovem do boné aos quadrados lhe deu a resposta, porém, foi bastante claro.
"Aw, cala-te, ó grande tanso!" diz ele. "Tens sorte em receber frango frio, pão e compota. Onde pensas que vou arranjar café quente para ti, afinal? Já não estou a arriscar o suficiente ao roubar isto do frigorífico depois de os criados saírem? É mais do que mereces, seu vigarista."
Mais resmungos lá de dentro.
"Sim, eu tenho os charutos", diz o outro, "mas não os recebes até distribuíres aqueles pratos. Achas que posso ficar por aqui a noite toda? E lembra-te, um pio que seja para os teus amigos, ou para qualquer outra pessoa, e os meus guardas de confiança começam a disparar através da janela. Hã? Quanto tempo? Até os termos a todos na rede. Por isso, mais vale deixares de lamúrias e confessar."
Era um diálogo mais ou menos divertido, mas achei que teria mais piada se pudesse ouvir os dois lados. Por isso, fui abrindo caminho pelos arbustos com as orelhas bem abertas até estar a quase um metro da janela, quando piso um ramo seco que estala como uma pistola de fulminantes. Num instante, o jovem largou o cesto e virou-se para mim com uma faca de trinchar comprida. O que foi o meu sinal para uma ação rápida.
"'Está tudo bem, Ellery", digo eu. "Amigo."
"Que amigo?", exige ele, olhando para mim com desconfiança.
"Já sabes", digo eu, sussurrando de forma misteriosa.
"Oh!", diz ele. "Da Sede?"
"Disseste bem", digo eu.
"Mas... mas como posso saber", continua ele, "que não és..."
"Olha!", digo eu, abrindo o meu casaco e passando o polegar pela presilha do meu colete.
Claro que funcionou. Ora, se exibires uma fivela de suspensórios niquelada com rapidez suficiente, podes fazê-la passar por um distintivo, mesmo à luz do dia.
"Não pensei que fosses receber a minha carta tão cedo", diz Ellery. "Ainda bem que vieste, no entanto. Vê, já apanhei um do gangue. Ele é o cabecilha, também."
"Bom trabalho!", digo eu. "Mas qual é o enredo da peça? Não deixaste isso muito claro. É um caso de..."
"Psiu!", diz Ellery. "Não lhe disse o quanto sei. Vamos para um sítio onde ele não nos possa ouvir. Ali atrás, nos arbustos."
E quando contornamos a casa e colocamos alguma vegetação entre nós e a estrada, Ellery concorda em falar.
"Eles estão a tentar dar cabo da Irmã Maggie", diz ele. "Sabes quem ela é... a Sra. Andres Zosco?"
"Mas eu pensava que ela era a Myrtle Mapes", digo eu.
"Ah, esse é apenas o nome artístico dela", diz Ellery. "Era Maggie Bean lá em Shelby, de onde vimos. E era Maggie Bean quando foi para Nova Iorque e conseguiu aquele emprego de estenógrafa no escritório do velho Zosco. Foi ele que lhe deu uma oportunidade de representar nos filmes, sabes. Acho que ela se deu bem, eh? E depois o Zosco ficou tão caidinho por ela que casou com ela. Bem, isso também estava tudo bem. Claro, ele é um velho ranzinza, mas tem dinheiro que nunca mais acaba. A nadar nele. A Maggie também fez muito pela família. Deu-me um calhambeque só para mim no Natal passado; tirou-me da firma de comissões e pôs-me no liceu outra vez. Ela não falha com o livro de cheques, a Maggie.
"É isso que deixa os outros Zoscos tão lixados... aquele irmão Jake e a mulher dele. Percebes? Eles tinham planeado ficar com a maior parte da fortuna dele. Provavelmente tencionavam pô-lo fora do caminho. Mas quando chegam e encontram a nova mulher... Bem, o jogo está bloqueado. Iria tudo para ela. Por isso, começam logo a tentar livrar-se da Maggie. Eu não estava na casa há um dia quando percebi isso. Sabia que havia um plano para dar cabo da Maggie."
"Não me digas!", digo eu. "Como?"
"Veneno lento, suponho", diz Ellery. "No café dela, talvez. De qualquer forma, tinha começado a fazer efeito. A Maggie andava por aí deprimida. Encontrei-a a chorar. Identifiquei logo o Jake Zosco. Podes dizer só de olhar para ele que ele é desse tipo. Além disso, ele age de forma suspeita. Anda sempre a rondar, inquieto. Depois há o mordomo. Ele também está metido nisso. Apanhei-o a sussurrar com o Jake. Não sei quantos mais. Algumas das criadas, talvez, e provavelmente alguns homens de fora. Podem estar a planear encenar um roubo de jóias com um duplo homicídio e culpar uns assaltantes desconhecidos. Percebes?"
"Uh-huh!", digo eu. "Mas que provas tens contra o irmão Jake? E como é que o conseguiste prender aqui?"
"Oh, eu tinha as provas contra o Jake, com certeza", diz Ellery. "Depois de o ver a confabular com aquele mordomo vigarista na outra noite, segui-o constantemente. Estava no rasto dele quando ele se esgueirou para aqui depois do jantar. Vi-o abrir a casa de hóspedes. Ouvi-o a mexer lá dentro. Depois, aproximei-me e tranquei-o lá dentro. Meia hora depois, aparecem o mordomo e outros dois do gangue, mas quando me viram, deram o fora. Suponho que tentariam resgatá-lo, se pensassem que ele lá estava. E podem descobrir a qualquer momento."
"É verdade", digo eu. "Sorte a minha ter aparecido exatamente quando apareci. Só há uma coisa a fazer."
"O que é?", pergunta Ellery.
"Levar o Jake para a casa, confrontá-lo com o mordomo, dizer-lhes que estão ambos presos e submetê-los a um interrogatório rigoroso", digo eu. "Vais ver. Um ou outro vai ceder e contar todo o plano."
"Diz lá!", exclama Ellery. "Não seria genial! Exatamente como fazem nos dramas do cinema, eh?"
Tive de abafar uma risadinha quando ele disse aquilo, pois já tinha reconhecido alguns dos sintomas de uma mente cinematográfica enquanto Ellery esboçava esta história louca.
"Vais muito ao cinema lá em Shelby?", pergunto eu.
"Quase todas as noites", diz Ellery. "Costumava ir mesmo antes de a Maggie entrar no meio. Comecei a ir quando tinha onze anos. Ao princípio era fã destas histórias do Velho Oeste, mas já não. Dá-me um bom drama de criminosos com um grande impacto em cada bobina. Têm passado uns filmes espetaculares ultimamente. Já os vi a quase todos. Foi assim que percebi este plano do Jake Zosco. Vamos! Tens as algemas prontas para ele?"
"Oh, eu nunca uso as pulseiras a menos que precise", digo eu. "Suponho que ele vá seguir mansinho quando nos vir aos dois."
Não tinha exagerado muito. Claro, o Jake Zosco desenvolveu mais ou menos um mau feitio durante as suas 36 horas de confinamento solitário, mas quando o Ellery lhe ordena que marche com as mãos no ar, ele segue logo.
"Que estupidez é esta agora, seu pequeno rufia?", exige ele.
"Logo verás quão estúpido é", diz Ellery. "Estás nas mãos da lei."
"O quê!", exclama o Jake. "Por uma coisa tão pequena quanto essa? Não... não pode ser. Quem diz isso de mim?"
"Este não é o teu chapéu?", digo eu, entregando-lhe o chapéu à prova de granizo. "É, eh? Então és tu mesmo. Vamos agora. Direto para a casa."
"É uma estupidez", protesta ele. "Em Saginaw, isto não se podia fazer."
Por todo o caminho até à colina ele resmunga e reclama, mas continua a andar. Só quando chega perto o suficiente para ter um vislumbre de todas as pessoas na sala de estar é que ele hesita.
"A Matilda e todos!", diz ele. "Porque é que não pudemos entrar pelas traseiras?"
"Nada disso", diz Ellery, brandindo a sua faca. "Vais ter de enfrentar a música, vais."
"Essa é a forma de falar com ele, Ellery", digo eu. "Mas se não te importas, acho que é melhor eu tomar conta dele a partir de agora."
"Com certeza", diz Ellery. "Ele é teu prisioneiro."
"Então entra, Jake", digo eu. "E não te esqueças de manter as mãos no ar. Agora!"
Diz-me, devias ter visto aquele grupo quando o nosso trio de tragédia entra; Ellery com a sua faca de talhante de um lado; eu do outro; e a conduzir ao centro o Sr. Jake Zosco, com os braços acima da cabeça, o seu casaco de jantar todo poeirento e amarrotado, e uma barba de dois dias a decorar-lhe o rosto.
Foi a Sra. Jake que recuperou o fôlego primeiro e se lançou sobre o seu homenzinho com gritos selvagens de "Oh, Jake! O meu Jakey, finalmente!". E, num segundo, a cabeça dele estava toda emaranhada nos fios de pérolas.
A seguir, Andres Zosco acorda. "O que é isto, um assalto?", pergunta ele. "Ellery, o que estás a fazer com essa faca? O que é que se passa, alguém me explica?"
Parece ser o meu sinal, por isso dou um passo em frente. "Desculpe, Sr. Zosco", digo eu, "mas o Ellery descobriu um plano profundamente articulado."
"Eh?", diz Zosco, boquiaberto.
"Para dar cabo de si e da sua esposa", continuo eu. "Ele diz que o seu irmão Jake está metido nisso, e a Sra. Jake, e o mordomo, e talvez muitos outros. Não é verdade, Ellery?"
"Sim", diz Ellery. "São todos vigaristas."
"Que disparate absurdo!", diz Zosco. "Porquê... por que motivo o Jake não faria mal a uma mosca."
"Diz o que viste, Ellery", sugiro eu.
"Ouvi-os a conspirar", diz Ellery. "De qualquer forma, vi o Jake e o mordomo a sussurrar às escondidas. E planeavam encontrar-se na casa de hóspedes com os outros. Acho que aquele chofer italiano era um deles. Mas eu frustrei-os. Segui o Jake quando ele se esgueirou para a casa de hóspedes e tranquei-o lá dentro. Depois escrevi ao chefe da polícia na Sede e eles enviaram este detetive para me ajudar a apanhá-los a todos." Ele termina acenando-me triunfante.
E podes imaginar que isso provocou uma gargalhada no Sr. Robert. "Oh, sim!", diz ele. "Detetive Sargento Torchy!"
Entretanto, Andres Zosco olha de um para o outro, confuso, e coça a cabeça. "Não consigo tirar uma palavra com sentido disto tudo", diz ele. "Nem uma palavra. Jake, vamos ouvir-te. Onde tens estado desde depois de jantar, anteontem?"
Jake solta-se do abraço volumoso e aproxima-se, envergonhado. "Bem... bem", diz ele, "estava trancado naquela casa de hóspedes estúpida."
"Estavas, eh?", diz Zosco. "Mas como é que isso aconteceu? Porque é que lá entraste?"
"Aw, se queres mesmo saber, Andy, era... era jogo de pinochle", rosna ele. "Não é crime, pois não, uma jogatana?"
"Mas e o mordomo, e os outros?", insiste Zosco.
"Bem", diz o Jake, "eles também iam participar. Não se pode jogar pinochle sozinho, pois não? E num sítio como este, onde não acontece nada além de bilhar estúpido, ou aquele bridge, um tipo tem de encontrar alguma diversão, não tem? Em Saginaw, eles vêm cá a casa quase todas as noites... o Hoffmeyer e o Raditz e..."
"Sim, eu sei", interrompe Zosco. "Então era esse o plano, era, Ellery?"
Ellery manifesta desprezo. "Huh!", diz ele. "Não deixes que ele te conte uma história da carochinha dessas. Pergunta-lhe sobre o veneno lento no café da Maggie, e o roubo das jóias, e... e tudo o resto."
"Mas, Ellery!", exclama a Sra. Zosco.
"Não te apanhei a fungar?", exige Ellery. "E não tens andado por aí deprimida?"
"Oh!", diz ela. "Mas isso foi antes de o Andy prometer deixar-me representar o papel principal no seu novo filme de oito bobinas, 'A Traça Chamuscada'. Tenho estado bastante alegre desde então, não tenho, querido Andy?"
"Veneno lento!", ecoa Zosco. "Roubo de jóias! Planos de homicídio! Rapaz, onde é que meteste essas coisas na cabeça?"
Mas Ellery só consegue baixar o queixo e arrastar o pé.
"Suponho que posso esclarecer esse mistério", digo eu. "Como fã de cinema, o Ellery é um ás."
E então foi a vez de Zosco olhar fixamente. Não sei se ele percebeu tudo logo ali ou não. Ele estava prestes a soltar algum comentário sobre o assunto quando a Sra. Jake soltou outro guincho.
"Ora, Jake Zosco!", diz ela. "Olha para ti! Pareces um vagabundo."
"Bem, e por que não?", diz o Jake. "Não dormi a noite passada num carrinho de mão?"
E quando as pessoas que visitas começam a fazer observações pessoais íntimas como essa, está na hora de sair com elegância. Acho que até a Sra. Robert decide que esta não era a noite para tocar o órgão. Antes de sairmos, tinham começado a falar sobre o que fazer com o jovem Ellery Bean e as perspetivas eram que ele estava destinado a um rápido regresso a Shelby, N.C.
"Não vejo que bem é que isso vai fazer", diz Vee. "Eu diria que ele precisa de algum tipo de tratamento mental. A sua pobre cabeça estúpida parece estar cheia de nada mais que crime e vigaristas. Não percebo como ele pôde ficar assim."
"Perceberias", digo eu, "se fizesses um curso completo de filmes dos Zosco."
CAPÍTULO XIII
TORCHY DESVIA-SE DA BROADWAY
"Tenho de dizer que soa um pouco complicado", digo eu, depois de Vee explicar como é que eu devo chegar a esta festa de casamento na casa de campo.
"Ora, Torchy, é perfeitamente simples", diz ela.
E mais uma vez ela esboça o plano: como vou apanhar o expresso para Springfield, apanhar um elétrico da linha verde que segue para noroeste, sair em Dorr's Crossing e esperar até que esta comitiva de Barry Crane me apanhe no seu carro.
Como vês, este amigo da Vee que está escalado para o ato do noivo envergonhado decidiu que o evento se realizasse em Birch Crest, a casa de verão da família lá nas colinas da velha N.H. Vee prometeu ir de carro no dia anterior com a dama de honor, deixando-me a seguir na manhã seguinte. Mas quando fomos consultar os horários dos comboios, descobriu-se que a única forma de chegar a Birch Crest de comboio é via Boston.
"Que tal subir até Montreal e descer?", sugiro eu, sarcástico.
E depois vem a notícia de que este organista estará a caminho, atravessando caminhos, depois de uma paragem de uma noite em New Haven, e que me levará a bordo se eu conseguir fazer a ligação correta.
"E se eu me enganar?", digo eu. "Lá estarei eu, retido no meio do nada, sem nada além dos meus pés para percorrer cinquenta milhas. Desculpa, Vee, mas acho que a tua velha amiga do colégio interno vai ter de se casar sem a minha ajuda."
Talvez penses que isso resolveu o assunto. Se pensas, é porque não tentaste ser casado. Em menos de meia hora, tínhamos chegado ao compromisso habitual: eu faço o que a Vee diz.
Por isso, aqui estou eu, às 11:15 de uma manhã de verão brilhante, deixado por um elétrico na extremidade alta de Massachusetts. É um local tão solitário quanto poderias encontrar no mapa. Nada além de campos e bosques à vista, e uma estrada poeirenta serpenteando através da linha. Nem uma casa à vista, nem sequer um celeiro.
"Tens a certeza de que isto é Dorr's Crossing, eh?", pergunto ao condutor enquanto hesito no degrau.
"Oh, sim", diz ele, alegre.
"Não parece ser muito usado, pois não?", digo eu.
"Ding, ding!", diz o cobrador ao motorista, e foi caso de saltar rapidamente.
Não resta nada a fazer senão subir de forma visível para uma rocha conveniente à beira da estrada e esperar que este Barry Crane estivesse a passar perto da hora marcada. Nessa altura, comecei a desejar saber mais sobre ele, os seus hábitos gerais e assim por diante. Tinha boa memória? Podia-se confiar nele para manter encontros com estranhos? Ele reconheceria Dorr's Crossing se o visse?
Vee não tinha abordado nenhum destes pontos quando me estava a convencer de quão simples seria para ele e para mim encontrarmos-nos. Claro, ela tinha-me dado um pequeno esboço engraçado do Sr. Crane, mas maioritariamente sobre que organista fantástico ele era. Tocava numa grande igreja. Não só isso, mas compunha peças, tudo da sua própria cabeça. Também tinha mencionado o seu romance sem esperança com uma certa Ann McLeod.
Parece que o Barry tinha uma queda pela Srta. McLeod há cinco ou seis anos. Ela também o tinha mantido na esperança ao princípio. Não podia deixar de gostar um pouco do Barry. Toda a gente gostava. Ele era daquele tipo: bem-disposto, sempre a dizer coisas inteligentes. Sabes. Mas quando chegava a altura de casar permanentemente com ele, a Srta. McLeod recuava. Ninguém sabia bem porquê. Miúda brilhante, a Ann. Inteligente também, e com muita energia. Ela era secretária de um grande especialista em eficiência. Talvez fosse por isso que ela não suportava o temperamento musical do Barry. Ela achava que as 9 da manhã era absolutamente a última chamada para abrir o correio da manhã, enquanto a ideia do Barry de começar um dia perfeito era alguém trazer-lhe um tabuleiro de pequeno-almoço por volta das onze e entregar-lhe um cigarro antes de ele sair da palha. Por isso, enquanto ele se qualificava como um Querido e ela tinha chegado ao ponto de o deixar chamar-lhe "Minha Companheira", foi aí que o romance ficou preso nas rochas. Também ele tinha sido descrito como um tipo robusto com uma cara redonda decorada com um bigodinho fofo e olhos azul-bebé.
Tudo isto não me ajuda a adivinhar quanto tempo vou ter de emprestar uma nota humana a uma paisagem de resto vazia. E há desportos ao ar livre mais emocionantes do que estar sentado numa rocha à espera de ser resgatado por alguém que nem sequer viu uma fotografia tua. Garanto-te. Durante os primeiros vinte minutos, respondi a dois alarmes falsos. Um era um camião de gasolina a ir na direção errada e o outro acabou por ser um calhambeque de entregas rurais com um carrinho de bebé amarrado de lado. Estava um calor insuportável no poleiro que escolhi e podia sentir o sol a fazer das suas na nuca e nas orelhas, mas não me atrevi a descer com medo de ser ignorado.
Onde estaria este cavalheiro musical e o seu carro de turismo? Ou seria uma limusina? De alguma forma, pela maneira como a Vee tinha falado, dizendo que ele era louco por automobilismo, eu inclinei-me para a hipótese da limusina. Uh-huh. Muito provavelmente uma forrada a cretone, e um chofer francês ao volante. Mas nada disso estava a passar por Dorr's Crossing. Não enquanto eu estava a observar.
A rocha também não estava a ficar nada mais macia. Uma vez, um gaio azul equilibrou-se num arbusto próximo e, depois de me observar com curiosidade, guinchou-se todo a tentar dizer o que pensava de um tipo da cidade que não sabia o suficiente para ir para a sombra. Chegou ao meio-dia. Ainda nada do Barry Crane. Estava mesmo a pensar em quando é que aquele elétrico passaria na viagem de volta e a preparar algumas observações cortantes para dar à Vee quando a apanhasse ao telefone, quando ouço algo a aproximar-se estrada abaixo. Primeiro pensei que pudesse ser uma daquelas ceifeiras a correr descontroladas, mas pouco depois, de uma nuvem de poeira, salta um pequeno roadster. Estava mesmo a esforçar-se e a fazer tanto barulho como um elétrico da Terceira Avenida com duas rodas quadradas. Não parecia muito promissor, mas levantei-me e estiquei o pescoço até ver que estavam duas pessoas nele. No entanto, a seguir, uma delas, uma jovem, faz-me sinal, e com um guincho dos travões o pequeno carro para em frente à rocha. E, com certeza, o jovem condutor tem um bigode esboçado e olhos azul-bebé.
"What ho!", canta ele, alegre. "Torchy, não é? Desculpa se te fizemos esperar, mas o Adelbaran não se estava a portar tão bem como de costume esta manhã. Põe a tua mala no guarda-lamas e sobe."
"Subir para onde?", digo eu, olhando para o banco único.
"Oh, na verdade há espaço de sobra para três", diz a jovem. "E por medo que o Barry se esqueça de mencionar, eu sou a Srta. McLeod. Ele convenceu-me à última hora a vir com ele nesta máquina maluca."
"Oh, digo eu, Ann!", protesta o Barry. "Não sejas tão rude, por favor. Não tens noção de quão sensível o Adelbaran é a críticas cruéis. Além disso, ele trouxe-nos em segurança até aqui, não trouxe?"
Ann encolhe os ombros e move-se para abrir espaço para mim. "Se conseguires fazer mais cinquenta milhas nisto, quase que acreditarei em milagres", diz ela.
"E em mim também, espero", diz Barry. "Ouves, Adelbaran? Então vamos, vamos, orgulho do deserto! As mulheres estão a cantar nas tendas e... e toda essa espécie de coisas. Ho, ho! Pela estrada rugidora!"
O Barry é um condutor de primeira. Em menos de cem metros, ele fá-lo ir a mais de vinte e seis milhas numa subida por uma estrada de terra batida salpicada de rochas e valas. Slam bang, bumpety-bump, ding-dong lá vamos nós, com mais tilintares, guinchos e barulhos do que uma carroça de lixo a cair de um telhado.
— Não te importes com uns barulhinhos — diz a Srta. McLeod. — O Barry não se importa. Um guarda-lamas solto ou um rolamento gasto não significam nada para ele. Ora, ele começou com uma vela de ignição rachada que cuspia como um gato bravo, o carburador a dar estalidos por causa de uma mistura demasiado pobre, e meio radiador a ferver alegremente. Foi parar para consertar essas coisas, e para encher o pneu suplente, que nos deixou tão atrasados.
— Estão a ver! — diz o Barry. — Ela admite. Mas é uma rapariga maravilhosa, a Ann. Ela consegue perceber à primeira vista qual é o problema de qualquer coisa ou pessoa. Tomem-me a mim, por exemplo; ela...
— Curva apertada à frente, Barry — interrompe a Ann.
— Certo! — diz ele, fazendo-a em duas rodas e depois carregando no acelerador para subir uma colina.
— Sorte a nossa estarmos bem encaixados — digo eu —, senão alguns de nós podiam ter sido despejados.
— Sim — diz a Srta. McLeod —, e o Barry nunca daria pela nossa falta.
— Palavras cruéis! — diz o Barry. — Quantas vezes disse, Ann, que sinto a tua falta a cada hora?
— Ele começou outra vez — diz a Ann. — Mas se tens de ser sentimental, Barry, vou insistir em conduzir eu própria.
— Calado! — diz o Barry. — Vou portar-me bem.
Digam, eles formavam uma grande equipa, aqueles dois, quando se tratava de trocar galanteios. Era uma conversa viva e ajudou bastante a tirar-me da cabeça a condução estilo jazz do Barry. Porque ele, de facto, carrega a sério com o pé. Se ele toca órgão da mesma forma que conduz um carro, imagino que levante o telhado. E a velocidade que ele tira daquele pequeno roadster dinky é espantosa. Poderia estar bem em macadame liso, mas nesta estrada rural ele fazia-o saltar com aquela distância entre eixos curta como um coelho com comichão. Podíamos ter sido tantos grãos de pipoca a ser sacudidos sobre um lume forte. O Barry parece estar a apreciar cada minuto, no entanto. Ele faz piadas engraçadas, assobia e, de vez em quando, solta-se a cantar.
— Conduzir um carro parece subir-lhe à cabeça — observa a Srta. McLeod. — Parece deixá-lo selvagem. — Deixa — diz o Barry. — Porque...
Sou uma flor selvagem da pradaria, Cresço mais selvagem de hora a hora. Ninguém quer cultivar-me, Sou selvagem. Whe-e-e-e!
Ele chilreia isso durante os cinco minutos seguintes, até que a Srta. McLeod sugere que está na hora do almoço.
— Vamos parar no próximo lugar com sombra que encontrarmos — diz ela.
— Oh, que maçada! — diz o Barry. — Logo agora que o Adelbaran está a atingir o seu melhor ritmo. Porque não tomar o nosso alimento em andamento?
Então ela tira as sanduíches e a garrafa térmica e tomamo-lo dessa maneira. Em vez de deixar o Barry tirar uma das mãos do volante, ela própria alimenta-o, mesmo que ele se queixe de ficar com a cara suja de mostarda. De qualquer modo, não perdemos tempo, mesmo que tenhamos entornado mais ou menos o café.
— Cheerie oh! — canta o Barry, lendo um sinal de trânsito. — Só mais vinte milhas!
— Mas que milhas tão sinuosas! — diz a Ann.
Ela tinha toda a razão, pois quanto mais entrávamos em New Hampshire, mais a estrada parecia ter sido construída por um fã de montanhas-russas. Eu sempre tive a ideia de que este era um estado pequeno, pelo aspeto no mapa, mas aposto que se pudesse ser esticado, espalhar-se-ia quase tanto como o Texas. Tudo o que fazíamos era subir e subir e depois deslizar para baixo e para baixo. Geralmente, no fundo, havia uma daquelas pontes de madeira cobertas, como um celeiro de feno com as duas extremidades abertas, e a forma como rugíamos através delas era o suficiente para nos fazer pensar que estávamos a avançar com um bombardeamento. Depois, logo à frente, haveria outra longa colina serpenteando até ao topo do mundo.
— Só faltam cinco milhas! — canta o Barry finalmente, por volta das três horas. — Agora, Ann, está quase na hora de dizeres algumas palavras gentis ao Adelbaran e a mim.
— Vou pensá-las — diz a Ann.
Talvez ela o tenha feito. Não sei dizer. Pois foi algures a meio da segunda ou terceira colina depois disto que o pequeno roadster começou a soluçar e a tossir como se tivesse engolido uma chave inglesa.
— Vá lá, vá lá, Adelbaran! — diz o Barry a coaxar. — Não te portes mal a esta hora tardia. Lembra-te das mulheres a cantar nas tendas, a palmeira a acenar sobre o...
— Barry — diz a Ann —, algo correu mal com o teu motor.
— Não digas isso — diz o Barry, carregando no acelerador descuidadamente.
— Mas tenho a certeza! — diz a Ann. — Ali!
Com uma tosse final, a coisa desligou-se a frio. Tudo o que o Barry parece conseguir fazer é mexer na ignição e parecer surpreendido. — Ora... ora, isso é estranho! — diz ele.
— Sim, mas ficar aqui sentado não vai ajudar — diz a Srta. McLeod. — Sai e vê o que aconteceu. Anda.
E enquanto ela levanta o capô e remexe entre os fios e outras coisas, com o Barry a olhar perplexo e impotente, eu ando um pouco por ali a inspecionar o Adelbaran com curiosidade. É uma relíquia, sem dúvida, e o meu palpite é que foi montado por um mecânico estrábico a partir de peças escolhidas que ele resgatou de um monte de sucata. De repente, noto algo peculiar.
— Digam, pessoal — chamo eu —, onde está o depósito de gasolina neste carro?
— Ora, está na traseira — diz o Barry.
— Bem, agora não está — digo eu. — Desapareceu.
— Desapareceu! — ecoa a Ann. — O depósito de gasolina? Oh, isso não pode ser possível.
— Dá uma vista de olhos — digo eu.
E, de facto, quando eles dão a volta, tudo o que conseguem encontrar são as cintas enferrujadas que o mantinham no lugar e o tubo de alimentação torcido.
— Ha, ha! — diz o Barry. — Que absurdo total. Já perdi muitas coisas antes, mas nunca o depósito de gasolina. E suponho que seja bastante importante tê-lo.
— Bastante — diz a Ann. — Ninguém anda de automóvel hoje em dia sem um.
— Mas... mas o que se há de fazer? — diz o Barry. — Tenho mesmo de chegar a Birch Crest a tempo de tocar a marcha nupcial. A cerimónia é às 4:30, sabem, e aqui estamos nós...
— Eu diria — interrompe a Ann —, que é melhor encontrarmos esse depósito e ver se não o podemos aparafusar ou algo do género. Não pode estar longe, claro.
Isso parecia sensato o suficiente. Então espalhamo-nos pela estrada e vamos procurar colina abaixo. Não parecia provável que uma coisa tão grande se pudesse esconder completamente, mesmo que tivesse saltado para os arbustos. Mas chegámos ao fundo sem encontrar sequer o rasto. Continuamos, remexendo nos arbustos, esquadrinhando as valas de ambos os lados e espreitando atrás das árvores.
— Vem, pequeno depósito, vem ter com o teu mestre — chama o Barry persuasivamente. Depois tenta assobiar para ele.
— Bem, vamos certamente encontrá-lo algures na próxima colina — diz a Ann. — Provavelmente perto daquele corta-água onde nos deste um solavanco tão grande.
Mas não encontrámos. Na verdade, voltámos pela estrada durante quase uma milha sem sinais da maldita coisa.
— Então perdemo-lo — decide finalmente a Ann. — Claro que nenhum carro poderia andar tanto sem gasolina.
— Não conheces o Adelbaran — diz o Barry. — Ele está muito habituado a andar sem coisas. Treinei-o para isso.
— Barry, este não é momento para brincadeiras — diz ela. — Agora tu vais pelo lado esquerdo a voltar. Aposto que não o viste.
Bem, fizemos uma verdadeira rusga na viagem de regresso, esquadrinhando os arbustos por vinte pés de cada lado, mas não apareceu depósito nenhum.
— Parece que ficámos apeados — digo eu, quando voltamos a chegar ao roadster.
A Srta. Ann McLeod, contudo, não é de desistir facilmente. Além disso, ela teve todo aquele treino de eficiência.
— Não suponho que tragas uma coisa como uma lata de emergência de gasolina em qualquer parte do carro? — pergunta ela ao Barry.
— Tenho a certeza que não sei — diz ele. — O indivíduo na oficina insistiu em vender-me um monte de coisas uma vez. Está tudo arrumado debaixo do assento.
— Vamos ver — diz ela, levantando a almofada. — Ora, sim, aqui está... um quarto de galão inteiro. E um pequeno funil, também. Agora, se pudéssemos despejar o suficiente no tubo de alimentação para encher o carburador...
Era um ótimo plano, só que a ponta do funil era demasiado grande para caber no tubo de alimentação.
— Tens fita de pneus? — exige a Ann.
O Barry achou que tinha, mas não a conseguimos encontrar. Depois lembrou-se que a tinha usado para envolver o cabo da sua raquete de ténis uma vez.
— Tenho pastilha elástica — digo eu.
— É mesmo isso! — diz a Ann. — Mas tem de ser mastigada primeiro. Aqui, Barry, pega em duas ou três peças.
— Mas eu não gosto de pastilha — diz o Barry. — A sério!
— Se não queres passar aqui a noite, mastiga... e mastiga depressa — diz a Ann.
Então ele mastigou. Todos mastigámos. E com os três pedaços frescos a Ann fez um trabalho de canalização de primeiros socorros que não ficou nada mal. Ela conseguiu que o funil ficasse preso no tubo.
— Mas tem de ser mantido lá — anuncia ela. — Já sei, Barry; terás de te pendurar pela traseira e manter o funil no lugar com uma mão e despejar a gasolina com a outra, enquanto eu conduzo.
— Oh, diz lá! — diz o Barry. — Eu pareceria muito bem, não pareceria?
— O Torchy segurar-te-á pelas pernas para evitares cair — continua ela. — Anda, desabotoa a cortina traseira e enrola-a. Aí! Agora sai. E não entornes uma gota, cuidado.
Foi, sem dúvida, uma forma engenhosa de alimentar a gasolina a um motor, e eu tive as minhas dúvidas se funcionaria ou não. Mas funcionou. A primeira coisa que soube foi que tínhamos arrancado com um rugido e estávamos a subir a colina em segunda. Também chegámos ao topo.
— Agora segura-te bem e poupa a gasolina — canta a Ann. — Vou descer esta a toda a velocidade.
E assim ela faz. O Barry salta muito sobre os cotovelos e a barriga, mas eu tinha um aperto firme nas pernas dele e não o perdemos.
— Mais gasolina agora! — chama a Ann quando chegamos ao fundo.
— Ai! A minha barriga! — geme o Barry.
— Não interessa — diz a Ann. — Só mais três milhas.
Digam, foi o automobilismo mais estranho que alguma vez fiz, mas a Ann conduziu com tudo aberto e de certeza que estávamos a cobrir a distância. Uma vez passámos por um grande carro de turismo cheio de jovens e, ao passarmos, eles viram o Barry a fazer de depósito de gasolina substituto, e viraram-se todos para lhe dar o riso.
— Provavelmente... provavelmente eles pensam que eu... eu estou a fazer isto por uma aposta — diz o Barry. — Eu... eu desejaria estar. Eu... eu pagaria.
— Loja à frente! — anuncia a Ann. — Talvez consigamos mais gasolina.
Foi um bom palpite. Enchemos a lata e recomeçamos, com menos de duas milhas por percorrer. Acho que o Barry deve ter sido um pouco imprudente com aquele último quarto de galão, pois não tínhamos andado mais de uma milha quando o motor começa a engasgar-se e a tossir. Estávamos quase no topo de uma colina, também.
— Gasolina toda gasta — diz o Barry, tentando voltar para dentro.
— Volta para trás! — diz a Ann. — Tira o funil e sopra no tubo de alimentação. Aí! É isso. Continua a soprar.
Não se batia a Ann. A máquina dá um novo impulso, chegamos ao topo da colina, e a meio da descida do outro lado vemos Birch Crest. E não é que vamos rolar mesmo até à porta da frente, antes que o motor dê o seu último suspiro, e o Barry, coberto de pó e com a cara vermelha, é puxado para dentro. Só chegámos meia hora atrasados, aliás.
Claro, toda a festa de casamento está lá fora para ver a nossa chegada espetacular. Eles tinham estado à nossa espera na última hora, imaginando o que tinha acontecido, e agora amontoam-se para perguntar ao Barry por que motivo ele chega pendurado na traseira daquela maneira. E deviam tê-los ouvido a rir quando recebem a explicação.
— Vês! — diz o Barry de parte à Ann. — Eu disse-te que as pessoas se ririam de mim.
— Pobre rapaz! — diz a Srta. McLeod, prendendo o braço ao dele. — Não te importes. Acho que foste perfeitamente esplêndido quanto a isso.
— Por Júpiter, no entanto! Achas mesmo? — diz ele. — Tu... tu arriscarias outra viagem comigo, Ann? Sei que o Adelbaran não se apresentou muito bem, mas...
— Mas a tua disposição sim — corta a Ann. — E se vais insistir em conduzir pelo país numa máquina tão barulhenta, eu... eu acho que é melhor estar contigo... sempre.
E digam, não creio que alguma vez tenha ouvido tanta energia a ser deitada na marcha nupcial como quando o Barry Crane a tocou naquela tarde. Ele também estava com um sorriso rasgado.
Assim que tive oportunidade, sussurro a notícia à Vee. — A sério? — diz ela. — Não é maravilhoso! E tenho de dizer que o Barry é um tipo de sorte.
— Bem, ele próprio também é um ás — digo eu. — Tem de ser, senão não conseguia levar um carro uma milha e meia apenas com o fôlego.
CAPÍTULO XIV
SUBSTITUINDO O CHEFE
Como é que é? Aconteceu-me alguma coisa? Claro que aconteceu. Acontece geralmente qualquer coisa, e se alguma vez chegar ao ponto em que não aconteça, espero ter energia suficiente para usar o motor de arranque. Uh-huh. É assim que saúdo um novo dia — sorridente e curioso.
Agora, algumas pessoas que conheço funcionam exatamente ao contrário, e podem ter razão também. O Sr. Piddie, o nosso gerente de escritório, por exemplo. Ele tem sempre medo que lhe aconteça alguma coisa. Já o ouvi falar sobre isso o suficiente. Não apenas acidentes que o pudessem deixar num caso de ambulância, ou pior, mas qualquer coisa que não venha na sua rotina habitual; pequenas coisas, como esquecer-se do seu passe, ou perder-se no Brooklyn, ou ter o seu novo chapéu de palha a voar para debaixo de um camião e andar de cabeça descoberta alguns quarteirões. Digam, aposto que ele não vai gostar do Céu se não puder marcar o ponto todas as manhãs, ou se o mudarem muito de secções de harpa.
Enquanto eu, não me preocupo com o que o amanhã será, se for apenas um pouco diferente de ontem. E geralmente é. Tomem este meu último pequeno turbilhão. Admito que me deixa um pouco tonto na cabeça, como se tivesse sido atingido lateralmente por um evento passageiro. Também o meu orgulho tinha levado um choque quando eu nem sabia que tinha tal coisa. Talvez seja por isso que pareço tão atordoado.
O que levou a tudo isto foi um pequeno vislumbre do passado que eu e o Old Hickory tivemos aqui há uma semana ou que tal. Eu tinha estado a abrir o correio da manhã, rápido e casual como um secretário particular de primeira classe deve fazer, e a separá-lo nos cestos, quando me deparo com esta nota que devia ter sido marcada como "Pessoal". Só tinha dado uma vista de olhos ao início "Querido velho amigo" e ao fim "Teu até ao fim, Bonnie", quando a levo para o escritório particular.
— Suponho que isto devia ter sido destinado ao Sr. Robert; eh, Sr. Ellins? — digo eu, entregando-lha.
Está escrito de forma um pouco garranchosa e estrangeira em papel de carta luxuoso e o Old Hickory não recebe muitas desse género, como podem imaginar. Ele lê-a toda, no entanto, sem sequer um grunhido. Depois faz sinal para eu me sentar numa cadeira.
— Por acaso, Torchy — diz ele —, isto não era destinado a ninguém além de mim.
— O meu erro — digo eu. — Não a li, no entanto.
Ele não parece prestar muita atenção a essa afirmação, apenas fica ali sentado a olhar vagamente para a parede e a mexer no seu charuto. Depois de um minuto ou mais nisto, ele observa, um pouco para si próprio: "Bonnie, eh? Bem, bem!"
Eu podia ter sorrido. Provavelmente sorri, pois a última pessoa no mundo de quem se esperaria qualquer tipo de sentimentos melosos seria o Old Hickory Ellins. Não poderia ter sido muito mais do que um vislumbre de sorriso, aliás. Mas aqueles olhos velhos e perspicazes dele não perdem muito do que se passa, mesmo quando ele parece estar em transe. Ele vira-se rapidamente e lança-me um daqueles olhares inquisidores.
— Engraçado, não é, filho — diz ele —, que eu ainda seja chamado de Querido Velho Amigo pela mulher mais fascinante do mundo?
— Oh, não sei — digo eu, tentando fazer o tipo diplomático.
— Seu jovem patife! — diz ele. — Achas que não sou juiz, eh? Aqui! Espera um momento. Agora vamos ver. Um-m-m-m!
Ele está a puxar primeiro uma gaveta da secretária e depois outra. Finalmente, desenterra uma capa de couro desbotada de fotografia e abre-a.
— Ali! — continua ele. — Essa é a Bonnie Sutton. O que achas dela?
Claro, o seu cabelo está feito de uma forma um pouco estranha e antiquada, empilhado no topo da cabeça, com um caracol ou dois atrás de uma orelha; e suponho que se grande parte do seu traje se visse, também teria parecido antiquado. Mas não havia muito para mostrar, pois é apenas uma vista de busto e cortada onde o vestido começa. Além disso, ela está inclinada para a frente sobre os cotovelos. Uma pessoa bastante rechonchuda, julgaria eu, com ombros substanciais e bem arredondados e um rosto um pouco grande. Algo de uma brincalhona, também, diria eu, pois ela mantém a cabeça um pouco de lado, o queixo apoiado na palma da mão esquerda, enquanto entre os dedos da direita segura um cigarro. O que mais me impressionou, no entanto, foi o olhar popular naqueles olhos bem abertos dela. Se não fosse por isso, eu poderia tê-la avaliado como uma vampira elegante.
— Grande atrativo, diria eu, Sr. Ellins — digo eu; — e não é uma meia porção, aliás.
— De estatura régia, como os repórteres da sociedade costumavam dizer — diz Old Hickory. — Ela tinha a sua corte, mesmo que algumas das sessões fossem bastante animadas.
Nisso ele perde-se naquilo que passa por uma risadinha com ele e eu espero pacientemente enquanto ele faz uma revisão mental de coisas antigas. Eu conseguia adivinhar suficientemente bem como algumas dessas cenas se desenrolariam: o grupo a reunir-se numa das pequenas salas de banquete lá em cima no Del's, e Bonnie rodeada por três camadas de homens admiradores, talvez a brincar com o Ward McAllister sobre um ombro e o Freddie Gebhard a sussurrar sobre o outro; ou depois de assistir a um dos concertos de despedida da Patti, haveria um jantar de bife e champanhe algures na parte alta da cidade — acima da Rua Vinte e Três — e algum desportista selvagem faria aquele ato de beber a saúde da Bonnie do seu sapatinho. Sabem? E suponho que imprimiram a sua fotografia na primeira página do "Clipper" quando ela entrou no teatro privado.
— E ela ainda está no ativo? — sugiro eu.
Old Hickory assente. Ele continua a dizer como a última coisa que ouviu sobre ela foi que se tinha casado com um rico sul-americano que tinha conhecido em Washington e tinha ido viver para o Brasil, ou para a Argentina. Isso tinha sido há bastante tempo, suponho. Ele não disse exatamente há quanto tempo. De qualquer modo, ela tinha desaparecido para sempre, tinha suposto ele.
— E agora — diz ele —, ela regressou, viúva, para se instalar na velha quinta, algures perto de Cooperstown. Parece, contudo, que ela acha aquilo bastante aborrecido. Não consigo imaginar a Bonnie numa quinta de alguma forma. De qualquer modo, ela tem a ideia, diz ela, de tentar Nova Iorque mais uma vez antes de decidir finalmente. Quer ver alguns dos velhos lugares novamente. E, pelos grandes gatos, ela verá! Independentemente do que os meus médicos tolos digam, Torchy, pretendo tirar uma ou duas noites de folga quando ela vier. Se a Bonnie aguenta, acho que eu também aguento.
— Sim, senhor — digo eu, sorrindo com simpatia.
Bem, isso era 1:15 da manhã. E exatamente às 2:30 ele sai a coxear com a mão no lado direito e a cara da cor das cinzas de charuto. Ele está para outro ataque. Chamo o seu especialista em coração ao telefone e coloco o Sr. Ellins num táxi. Pouco antes da hora de fecho ele liga de casa para dizer que vai para o sanatório para outro tratamento e que pode estar ausente durante um par de semanas. Devo dizer ao Sr. Robert sobre aquelas opções, tê-lo como substituto na próxima reunião de diretores e fazer um monte de biscates que ele tinha deixado inacabados.
— E a propósito, Torchy — termina ele —, sobre a Bonnie.
— Oh, sim — digo eu. — A fascinadora de senhoras.
— Se ela aparecer enquanto eu estiver fora — diz Old Hickory —, não... não te dês ao trabalho de lhe dizer que sou um velho doente. Diz apenas que... que fui chamado para fora da cidade, ou algo assim.
— Entendido — digo eu. — Viagem de negócios.
— Ela ficará desapontada, suponho — continua o Sr. Ellins. — Ninguém para a levar a passear pela cidade. Isto é, a menos que... Por Jorge, Torchy! Tu tens de tomar o meu lugar.
— Eh? — digo eu, ofegante.
— Sim — diz ele. — Seu jovem patife sortudo! Você será quem dará as boas-vindas a Bonnie de volta a Nova Iorque. E faça direito, filho. Pode recorrer ao Sr. Piddie para qualquer quantia que precisar. Nada menos que o melhor para Bonnie. Entendido? Isto é, se ela chegar antes de eu voltar.
Olha, eu já recebi tarefas estranhas do Velho Hickory, mas nunca uma como esta. Que contrato, hein: tomar uma ex-destruidora de lares sob minha proteção e dar a ela o tipo de diversão que era popular nos dias de Berry Wall. Se eu pudesse encontrar algum velho esportista com boa memória, ele poderia me orientar para que eu pudesse, pelo menos, tentar a sorte, mas eu não sabia onde encontrar um. E, durante três dias, eu fazia movimentos nervosos toda vez que Vincent entrava pela porta com um cartão.
Mas uma semana se passou e nada de Bonnie aparecer lá do interior. Talvez ela tivesse desistido da proposta, ou encontrado algum outro amigo dos velhos tempos. De qualquer forma, eu tinha acalmado meus nervos consideravelmente e já estava quase considerando o incidente como encerrado, quando outro dia, ao voltar do almoço, Vincent me intercepta.
— Uma senhora para ver o Sr. Ellins — diz ele. — Ela está no escritório privativo.
— Palavras tristes, Vincent — digo eu. — Não me diga que é a Bonnie.
— Nada disso — diz ele. — Aqui está o nome dela — e ele me entrega um cartão com bordas pretas.
— Huh! — digo eu, dando uma olhada. — Senhora Concita Maria y Polanio. Tudo isso, é? Deve ser uma baita de uma fêmea?
— "Baita" é pouco — diz Vincent. — Você deveria vê-la.
— O pior de tudo é — digo eu — que eu tenho que vê-la.
Ele não é de exagerar, o Vincent. Essa figura feminina que encontro ocupando a cadeira giratória do escritório do Velho Hickory faz com que qualquer peixe de Jonas que eu já tenha visto desenhado pareça um peixinho. Não quero dizer que ela seja uma aberração de circo. Não tão ruim assim. Mas, para sua altura, que eu diria ser mediana, ela é certamente volumosa. Do jeito que ela se senta ali, com suas saias se espalhando amplamente ao redor dos pés, ela tem todos os contornos graciosos de uma torre d'água humana. Acima dos ombros largos está um rosto grande e de cor forte, e, balançando de forma instável no topo da cabeça, um chapéu de veludo preto com enfeites de azeviche. Lembra daquelas fotos que costumávamos ver da falecida Rainha Vitória? Bem, a Senhora é uma edição ampliada.
Eu estava imaginando há quanto tempo ela tinha vindo de Cuba, e se eu precisaria de um intérprete de espanhol para descobrir por que ela acha que precisa visitar o presidente da Corrugated Trust, quando ela gira aqueles olhos grandes e escuros na minha direção e comenta, em um inglês perfeitamente bom dos Estados Unidos: "Ah! Um raio de sol!"
Sai tão inesperado que, por um segundo ou mais, eu apenas fico boquiaberto, e então pergunto: — Referindo-se ao meu cabelo?
— Perdoe-me, jovem — diz ela. — Mas é um tom tão alegre.
— Sim, senhora — digo eu. — Já me disseram isso. Alguns chamam de vermelho-boca-de-incêndio, mas eu digo que é apenas super-rosa.
— De qualquer forma, eu gosto muito — diz ela. — Espero que não o chamem de Reddy, no entanto?
— Não, senhora — digo eu. — Torchy.
— Ora, que esperto! — diz ela. — Posso chamá-lo assim também? E suponho que você seja um dos assistentes do Sr. Ellins?
— Seu secretário particular — digo eu. — Assim você pode ver a sorte que ele está tendo. Você queria falar com ele especialmente, ou é algo que eu possa resolver para você?
— É algo bastante pessoal, receio — diz ela. — O rapaz na porta insistiu que o Sr. Ellins não estava, mas eu disse a ele que não me importava em esperar.
— Isso é bom — digo eu. — Ele voltará em uma semana ou mais.
— Oh! — diz ela. — Então ele foi embora antes que meu bilhete chegasse?
Foi aí que comecei a ter um palpite. Claro, é apenas uma suspeita selvagem no início. Ela não se encaixa na descrição de jeito nenhum. Ainda assim, se ela for a tal... eu podia sentir calafrios de pânico percorrendo minha espinha só de pensar. Acho que minha voz hesitou um pouco quando fiz a pergunta.
— Diga-me — digo eu —, você não seria a Bonnie Sutton, seria?
Isso arrancou uma risada dela. Não é um cacarejo gutural de galinha velha, não. É claro e trinado.
— Obrigada, Torchy — diz ela. — Você adivinhou. Mas por favor, me conte como?
— Ora — digo eu, arrastado —, eu... er... você sabe... — E então sou atingido por essa ideia tola. Honestamente, não pude evitar. — O Sr. Ellins — continuo —, acabou me mostrando sua foto.
— O quê! — diz ela. — Minha foto? Eu... eu mal posso acreditar.
— Espere — digo eu. — Está bem aqui na gaveta. Isto é, estava. Sim! Esta aqui. Aqui!
E olha, quando mostrei aquela foto antiga para ela, eu não tive coragem de olhar para o seu rosto. Você me entende, não é? Se você tivesse mudado tanto quanto ela, como gostaria de ser confrontado subitamente com uma visão do que já foi? Então olhei para o outro lado. Deve ter passado um minuto ou mais antes que eu olhasse novamente. Ela ainda estava encarando a foto e limpando algo de seus cílios.
— Torchy — diz ela —, eu quase poderia te abraçar por isso. Que mentiroso jovem realmente talentoso você é! E quão totalmente encantador da sua parte fazer isso!
— Oh, não sei — digo eu. — De qualquer forma, é a foto que ele me mostrou quando estava falando sobre você.
— Talvez você não se importasse, Torchy — ela continua —, de me contar exatamente o que ele disse.
— Ora, por uma coisa — digo eu —, ele deixou escapar que você era a mulher mais fascinante do mundo.
Outra risada ondulante de Bonnie. — O velho querido! — diz ela. — Mas, ele sempre foi um pouco bobo por mim. Pense em ele nunca ter superado isso em todos esses anos, no entanto! Mas ele não ficou para me encontrar. Como foi isso?
Espero ter feito parecer convincente sobre ele ter sido chamado para uma Comissão do Senado e como ele esperava voltar antes que ela aparecesse. Contei da melhor maneira que pude, com aqueles olhos sábios e amigáveis me observando.
— Talvez, afinal — diz ela —, seja melhor assim. Se eu soubesse que ele tinha essa foto, nunca teria arriscado vir. Agora que estou aqui, no entanto, eu gostaria que houvesse alguém que...
— Oh, ele resolveu isso — digo eu. — Eu sou o substituto.
— Você! — diz ela. Então ela balança a cabeça. — Você é um menino querido — continua ela —, mas eu não poderia pedir isso a você. Sério!
— Claro que pode — digo eu. — Você quer ver como a velha cidade está, jantar um pouco em um dos lugares antigos e talvez fazer uma pequena rodada pelos pontos brilhantes depois. Bem, eu planejei tudo. Claro, não posso fazer exatamente do jeito que o Sr. Ellins faria, mas...
— Escute, Torchy — ela interrompe. — Lamento admitir o fato, mas sou uma velha gorda, sem forma e de aparência estranha. Normalmente isso não me preocupa nem um pouco. Depois de quinze anos nos trópicos, a gente não se preocupa com a aparência. Já faz muito tempo que não penso nisso. Mas agora... Bem, é diferente. Vendo aquela foto. Não, não posso pedir isso a você.
— O Sr. Ellins vai me pedir, no entanto, quando ele voltar — digo eu. — Além disso, eu não me importo. Talvez você esteja um pouco acima do peso, mas estou começando a suspeitar que você é uma pessoa real, afinal; e se eu puder me qualificar como guia...
Olha, não conte para a Vee, mas foi aí que eu fui abraçado. Parece que Bonnie quer mesmo ter um vislumbre de Nova Iorque com as luzes acesas; quer desesperadamente. Pois quando ela veio do Rio, sua única ideia era voltar para a velha fazenda, arrumá-la sem poupar despesas e acampar lá tranquilamente pelo resto de seus dias. Ela tinha se divertido muito fazendo isso também, por três ou quatro meses. Ela gostou de ter pessoas ao seu redor que podiam falar inglês, e assistir às nuvens brancas velejarem sobre as colinas verdes, e ver seu gado e ovelhas pastando pelos campos. Tinha descansado seus olhos e sua alma.
E então, de repente, ela teve esse palpite de que talvez estivesse perdendo alguma coisa. Não que ela pensasse que poderia voltar para a rotina, ou entrar na velha vida de onde parou. Ela diz que não era tão tola assim. Sua ideia era que ela poderia ser mais feliz e mais contente se apenas observasse das arquibancadas.
— Eu queria ouvir música — diz ela —, e ver as luzes, e observar jovens alegres e bonitos fazendo as coisas que eu costumava fazer. Poderia... Bem, poderia tirar alguns dos meus anos. Quem sabe?
— Claro! Esse é o papo — digo eu. — Claro, muitos dos seus lugares antigos não estão funcionando agora — Koster & Bial's, Harrigan's, o Café Martin —, mas talvez alguns que você se lembra ainda estejam abertos.
— Bobo! — diz ela, balançando um dedo gordinho para mim. — Não é isso que eu quero de jeito nenhum. Não o antigo, mas o novo; o mais novo e mais elegante. Não estou tentando voltar, mas tentando acompanhar.
— Oh! — digo eu. — Nesse caso será fácil. Que tal começar com o chá dançante no Admiral, que acabou de abrir? Começa às 4:15.
— Diga-me, Torchy — diz ela —, você já viu alguém tão... tão enorme quanto eu em um chá dançante? Não, acho que não começaremos por isso.
— Então suponha que comecemos com o jantar no terraço do Plutoria? — sugiro. — Os Tortonis estão fazendo um número de dança lá e eles têm a banda de jazz mais elegante da cidade.
— Parece empolgante — diz Bonnie. — Vou tentar estar pronta às 7:30. E você certamente é um bom garoto. Agora, se você puder me ajudar a chegar até o elevador...
E é enquanto estou tentando estabilizá-la de um lado enquanto ela vai rolando e balançando pelo escritório principal que recebo uma pequena dica do que está por vir. Talvez você já tenha visto um rebocador saltitando ao lado de um grande transatlântico em um mar agitado. Acho que devemos ter parecido com isso. Mesmo assim, aquele bando de datilógrafas esnobes mostrou mau gosto ao soltar risadinhas abafadas enquanto passávamos balançando.
E eu conseguia imaginar a mim mesmo rebocando a Senhora Concita Maria Sei-Lá-O-Quê, vulgo Bonnie Sutton, pelos corredores do Plutoria. E se os pés dela escorregassem e, depois que dez ou doze mensageiros a ajudassem a se levantar novamente, eles me encontrassem por baixo? Ainda assim, eu estava metido nisso. Nada de procurar restaurantes fora de moda, como eu tinha planejado no início. Não, Bonnie tinha pedido para ser atualizada. Então ela seria, de fato. Mas eu bem que queria que ela tivesse vindo à cidade com algo além daquele traje de falecida Rainha Vitória.
No entanto, eu planejo a noite como se tivesse um encontro com Peggy Hopkins ou Hazel Dawn. Às 5:30 estou deslizando uma nota de dez dólares na palma relutante de um maître do Plutoria para garantir uma mesa para dois ao lado da pista de dança, e de lá caio em uma tabacaria onde pago preços duplos por um par de assentos na extremidade no Midnight Follies. Então, dou um trato no visual em um banho turco e, às 7:25, estou esperando com o maior táxi que consigo encontrar na frente do hotel de Bonnie.
Acho que devo ter soltado um suspiro de alívio quando ela aparece e percebo que ela se livrou da tampa de veludo instável. É uma criação que ela trocou, um traje de cetim rosa com uma envergadura de cerca de três pés, mas devo admitir que meio que destaca aquele rosto grande dela e o cabelo grisalho.
Isso não é nada perto do choque que recebo, no entanto, depois que ela é colocada no táxi e a capa de ópera com bordas de pele escorrega um pouco. Olha, acredite em mim, Bonnie floresceu. Ela deve ter apressado algum estabelecimento de modista da Quinta Avenida até o limite, mas ela conseguiu o truque, eu diria. Uh-huh! Não apenas o vestido de noite de modelo mais recente, mas ela arrumou o cabelo de forma chique e está usando um conjunto de joias que faria a noiva de um penhorista ficar verde.
— Z-z-zing! — digo eu, perdendo o fôlego. — Desculpe-me, mas eu não sabia que você ia se vestir a caráter.
— Você não achou que eu poderia, achou, Torchy? — diz ela. — Bem, eu não esqueci totalmente, veja só.
Portanto, todos aqueles pensamentos sombrios nos quais eu tinha me entregado foram apenas uma preocupação inútil, como geralmente é o caso. Vou admitir que ficamos bastante notáveis durante a noite, com as pessoas esticando o pescoço em nossa direção, mas não ouvi nenhuma risadinha. Elas olhavam para Bonnie meio maravilhadas e impressionadas, como turistas olhando para o Edifício Woolworth quando está iluminado.
Algum jantar elegante aquele que tivemos, mesmo que eu mesmo o tenha pedido, com apenas dois garçons para me orientar. Eu não poderia dizer exatamente o que tínhamos para nutrição, só sei que tudo era saboroso e caro. Você não esperaria que eu escolhesse as coisas baratas para uma senhora plutocrata do Brasil, esperaria? Então nos deliciamos com Canapés Barbizon, Potage de la Reine, peitos de faisão alimentados com leite e tais ninharias. Bonnie diz que é tudo bom. Mas ela parece não conseguir se acostumar com a banda berrando impetuosa exatamente quando ela está prestes a dar outra mordida em algo.
— Diga-me — diz ela —, isso é suposto ser música?
— De jeito nenhum — digo eu. — Isso é jazz. Nós ficamos de um jeito que não conseguimos comer sem ele, sabe.
Também suspeito que o número de dança dos Tortonis a tenha chocado um pouco. Você já os viu fazendo o shimmy-plus?
— Bem! — diz ela, respirando fundo e olhando para o outro lado. — Então esse é um exemplo de dança moderna, é?
— É o tipo de truque que o homem de negócios cansado precisa ter antes que seus olhos brilhem novamente — digo eu. — Mas espere até chegarmos ao Follies se quiser vê-lo realmente começar a viver.
Tivemos que matar um par de horas entre um tempo e outro, então assistimos à última metade da farsa de quarto mais recente e acho que isso arrancou um ou dois risos de Bonnie. Deduzi de seus comentários que Lillian Russell ou Edna Wallace Hopper nunca foram tão longe em seus dias.
— É pijama ou nada agora — digo eu.
— E ocasionalmente — ela acrescenta —, suponho que seja... Bem, espero que não, pelo menos.
Depois do Follies, ela não tinha nada a dizer. Apenas, quando a deixei de volta em seu hotel, por volta das 2:30 da manhã, ela desaba em uma cadeira grande na sala egípcia e deixa o queixo cair.
— Não adianta, Torchy — diz ela. — Eu... eu não poderia.
— Eh? — digo eu.
— Terminar meus dias ao som de jazz — diz ela. — Não. Vou voltar para minhas colinas tranquilas e minhas Holandesas de olhos calmos. E vou completamente contente. Também não posso te dizer o quanto sou grata por ter sido você quem me mostrou meu erro em vez de meu querido e velho amigo. Você também foi tão bom com isso.
— Eu? — digo eu. — Ora, tive uma grande noite. Honestamente.
— Deus te abençoe! — diz ela, dando tapinhas na minha mão. — E só mais uma coisa, Torchy. Quando você disser ao Sr. Ellins que eu estive aqui, e fui embora, não poderia de alguma forma esquecer de dizer exatamente como eu estava? Veja, se ele se lembra de mim como eu era quando aquela foto foi tirada... Bem, onde está o mal?
— Pode confiar em mim — digo eu. — E não estarei forçando minha consciência nem um pouco com isso.
Mas eu não precisei manipular nem uma palavra. Quando o Velho Hickory ouve como eu o substituí com a Bonnie, ele apenas tira a foto, olha para ela com carinho por um minuto ou mais, e então comenta:
— Ah, seu jovem patife sortudo! — Então ele pega um bilhete de sua mesa. — Ah, a propósito — ele continua —, aqui está uma pequena lembrança que ela enviou para você sob meus cuidados.
Pequena! Olha, o que você acha? Oh, apenas um pedido para um roadster modelo 1920 com rodas de arame brancas para ser entregue a mim quando eu for buscá-lo! Ela apenas me deu um automóvel, é só isso. E depois que li tudo pela terceira vez, e tive certeza de que era verdade, consigo balbuciar:
— "Sortudo" é a palavra certa, Sr. Ellins; essa é a única palavra.
CAPÍTULO XV
UM PALPITE TARDIO PARA LESTER
Você pode não adivinhar, mas de vez em quando eu me conecto com algum pensamento verdadeiro que me torna mais sábio acima das orelhas. Honestamente, eu me conecto. Às vezes eles simplesmente vêm até mim por acidente, na mosca, por assim dizer. E outras vezes, eles não vêm tão facilmente.
Tome este meu último palpite. Eu sei agora que ser um secretário particular de alto nível não me qualifica para distribuir conselhos paternalistas ao sexo feminino. Absolutamente não. E ainda assim, aqui, há apenas algumas semanas, era exatamente o que eu estava fazendo. Oh, não quero dizer que eu estava espalhando isso aos quatro ventos. Tinha que ser um caso particular e especial para me tentar a entrar com o papo de Salomão. Foi o caso de Lester Biggs — e da pequena Srta. Joyce.
Agora, você quase pensaria que eu tinha visto datilógrafas demais ganhando seu pão diário e suas ondas de cabelo semanais para que eu ficasse agitado com qualquer coisa que elas pudessem fazer. E, como regra, não perco muito tempo pensando nelas, a menos que desenvolvam o hábito de estacionar chiclete no canto da minha mesa, ou algum truque desse tipo. Eu certamente estaria ocupado se fizesse mais, pois aqui nos escritórios gerais da Corrugated temos quinze ou vinte digitadoras mais ou menos especialistas a maior parte do tempo. Além disso, é trabalho do Sr. Piddie se preocupar com elas, e acredite em mim, ele faz isso minuciosamente.
Mas de alguma forma essa pequena Srta. Joyce era diferente. Acho que foi o gorro azul bebê que me fez notá-la pela primeira vez. Você sabe que esse estilo de cobertura não é muito usado pelas nossas estenógrafas da Broadway. Não o tipo de crochê caseiro. Dificilmente. Eu diria que a maioria do nosso bando esnobe não ficaria satisfeita até ter trocado duas semanas de salário por algum modelo de Paris na Mme. Violette. E como elas riram quando a Srta. Joyce apareceu pela primeira vez para trabalhar usando aquele gorro e vestida de forma brega com algo que uma costureira de encruzilhada tinha feito o seu pior.
A Srta. Joyce não parecia se importar. Por direito, ela deveria ter sido uma coisinha tímida e modesta que teria ficado tão magoada que teria corrido para o vestiário e derramado um quarto de lágrimas salgadas. Mas ela nem sequer treme um de seus longos cílios, conforme relata Piddie. Ela apenas retribui com um sorrisinho vago e amigável e começa a atacar seu trabalho de forma profissional. E em dez dias ela tem todas elas comendo na palma de sua mão.
Mas, embora eu pudesse sentir um pouco de simpatia por essa perdida do circuito de querosene, eu não deixei chegar a tanto que eu não reclamasse como um novilho quando descubro que Piddie a desejou para mim para uma grande manhã de trabalho.
— Qual é a ideia, Piddie? — digo eu. — Por que eu recebo uma do seu esquadrão desajeitado que provavelmente soletrará "tal" com um "t" e pontuará pelo método de acerto ou erro?
— Srta. Joyce? — diz ele, levantando as sobrancelhas, magoado. — Peço desculpas, Torchy, mas ela é uma de nossas estenógrafas mais eficientes. Sério!
— Ela não tem pinta disso — digo eu. — Mas se você diz que ela é, vou arriscar.
Bem, ela era tudo o que ele descreveu. Ela não só conseguia rabiscar aquele material Pitman tão rápido quanto eu podia ditar para ela, mas conseguia ler tudo claramente depois, e as cartas que ela produzia eram uma alegria de se ver. A partir de então, eu a escolho para fazer todo o meu trabalho, tendo o cuidado de não deixar nem o Sr. Robert nem o Velho Hickory saberem que especialista eu descobri disfarçada.
Por uma coisa, ela é uma pessoinha tão quieta e inofensiva. Ela não entra toda perfumada com Peau d'Espagne, nem fica encarando você entediada, ou alisando o cabelo ou polindo as unhas enquanto você espera para pensar na palavra certa. Ela não parece exigir o bate-papo de sempre nem pescar uma deixa para confidenciar que teve uma noite maravilhosa. Na verdade, ela não faz comentário algum fora do trabalho em questão, o que é um alívio quando você está coçando a cabeça para pensar no que dizer ao gerente assistente do Oeste sobre a renovação daqueles contratos de atracadouro.
No entanto, ela não é do tipo rato assustado. Ela olha você bem nos olhos quando é preciso e não murmura suas observações quando tem algo a dizer. Não a Srta. Joyce. Suas palavras saem claras e nítidas, com um leve toque nos erres e todas as letras finais pronunciadas, como se ela tivesse feito curso de elocução ou algo assim.
No decorrer de cinco ou seis semanas, ela trocou a boina azul por um chapeuzinho arrumado e descartou o vestido de costura franzida por um traje de escritório preto com colarinho e punhos brancos. Ela ainda insiste em dividir o cabelo ao meio e puxá-lo para trás de forma lisa, sem ondas ou entradas nas orelhas. Então, ela parece um tanto antiquada.
Foi por isso que fiquei meio surpreso ao notar esse Lester Biggs começar a rondá-la na hora do almoço e perto da hora de fechar. Ela não é o tipo que Lester costuma escolher para revirar os olhos. Nem um pouco. Pois, de todos aqueles jovens caipiras na sala de títulos, imagino que Lester seja o aspirante a esportista mais ambicioso que temos.
Veja bem, conheço Lester Biggs mais ou menos há bastante tempo. Ele começou a brindar a Corrugated com seus serviços nos tempos em que eu ainda estava na portaria e me considerava o mensageiro mais bem pago e com o trabalho mais fácil entre a Greeley Square e a Rua Quarenta e Dois. E tudo o que descobri de bom sobre ele não me levaria muito tempo para contar.
Quanto ao outro lado da questão — Bem, não sou muito de escândalos de escritório, mas direi que sempre me pareceu que Lester tinha o tipo de mente que precisava de cloreto de cal. Nunca vi um momento em que ele não esticasse o pescoço atrás de alguma datilógrafa exuberante ou coisa parecida, e, tão certo quanto aparecia uma novata com o menor sinal de cabelo descolorido, significava outro caso para Lester. Talvez você conheça o tipo.
E ele realmente se vestia como tal, dentro e fora do trabalho. As roupas de corte Esporte de Quinta Categoria que você vê anunciadas por toda parte devem ser feitas e desenhadas especialmente para o Lester. Lembro-me de quando ele exibiu o primeiro paletó com pregas nas costas que chegou ao escritório. O mesmo com os bolsos com fenda, o colete com cinto e outras pequenas inovações fofas com as quais os caçadores de garotas da Times Square se cobrem.
Eu não diria exatamente que ele passaria por um macho perfeito, também. Não, a menos que você conte as orelhas de abano, espinhas no rosto, pescoço de peru e o estrabismo em um olho como pontos de beleza. Mas isso não parece incomodar Lester nem um pouco. Ele sabe que tem seu jeito. Sua abordagem padrão é "Olá, gatinha, o que você tem no cartão de eventos para esta noite?" e, disso para marcar um encontro no salão de dança Zinsheimer, é apenas um passo. Oh, sim, Lester é um pássaro bem alegre, se é que você quer chamar assim.
E tudo isso com vinte por semana. Então, é claro, isso atrapalha um pouco sua grande ambição. Ele costumava me contar sobre isso nos velhos tempos, quando eu estava na portaria e não o tinha avaliado corretamente. Coristas! Se ele pudesse apenas conhecer alguma beldade do Winter Garden ou das Follies, isso seria tudo o que ele pediria. Ele escolhia sua favorita dos novos musicais, carregava fotos recortadas de jornais e tentava blefar que esperava conhecê-las no início da próxima semana; mas, como todos sabíamos que ele nunca chegava mais perto do que o segundo balcão, ele nunca se safava com essa conversa.
"Suponha que, por um milagre, você conseguisse, Lester?" eu lhe perguntava. "O que então? Você a levaria para um prato de chow mein em algum restaurante chop suey, ou conseguiria se virar com um sundae de nozes em uma farmácia barata? E suponha que algum corretor de esquina estivesse esperando para levá-la ao Heather Blossom Inn? Você faria uma concorrência acirrada, faria mesmo, com apenas o troco de cinco sobrando no bolso."
"Ah, deixe isso comigo, meu velho", dizia ele, piscando diabolicamente.
E a única vez que ele conseguiu, eu fiquei sabendo. Um amigo dele, que era lanterninha no antigo Hippodrome, ofereceu-se para levá-lo a uma pequena ceia de domingo à noite no apartamento de uma das coristas. Lester foi também, e encontrou uma criatura alegre de uns quarenta anos fritando cebolas para uma família de cinco pessoas, incluindo três crianças quase crescidas e um marido cenógrafo.
Esse golpe pareceu desencorajar Lester por uma semana ou mais, desde então ele seguiu o padrão. Ele anda por aí com datilógrafas, ou garotas do departamento de capas, ou quase qualquer coisa que use saias, até que elas descobrem que ele é um pão-duro e lhe dão o fora. Mas seu grande objetivo na vida é adquirir uma namorada que ele possa apontar na segunda fila e esperar no palco por volta da meia-noite.
Então, quando o vejo voando ao redor da Srta. Joyce, e ela fazendo movimentos como se estivesse se apaixonando por ele, não sabia bem o que pensar. Claro, agora que ela deu uma melhorada no traje, é mais ou menos fácil de olhar. Para uma coisinha, quase meia porção, como você poderia dizer, ela tem uma bela figura, esguia e graciosa. E aqueles olhos castanhos cor de amor-perfeito podem iluminar-se de uma forma fascinante, imagino. E sendo tão recente do campo, suponho que ela não consiga perceber que tipo de lagarto barato o Lester é. É de admirar que algumas das outras datilógrafas não a tivessem alertado. Elas geralmente são boas nisso. Mas parece que elas perderam a chance no caso dela, pois uma tarde ouço Lester marcando um encontro com ela para uma noite no Zinsheimer. E quando ele passa, não consigo resistir a dar uma dica, por minha própria conta.
"Com o Lester, hein?" digo eu, erguendo as sobrancelhas.
"Ah, eu sei", diz a Srta. Joyce. "Mas eu adoro dançar e... eu tenho me sentido um pouco solitária, sabe."
Eu vi. E, claro, depois disso não havia mais nada a dizer. Ela não me contou muito, mas entendi que se tornou uma coisa regular. Você podia perceber isso pela maneira íntima como Lester lhe dá uma piscadela enquanto passa desfilando. Ele não se deu ao trabalho de esconder, ou de baixar a voz quando comenta: "Bem, gatinha, vejo você às oito e trinta, hein?"
Contanto que ela mantivesse seu trabalho em dia, o que ela faz, não era problema meu. Nunca desejei ser um acompanhante voluntário. Mas fiquei com um pouco de pena da pequena Srta. Joyce. Imagino que disse algo do tipo para Vee, e ela queria que o Sr. Piddie tivesse uma conversa séria com ela.
"Não adianta", digo eu. "Piddie não saberia como. Tudo o que ele pode fazer é contratar e demitir, e até isso está deixando seu cabelo grisalho. Tudo vai se resolver de um jeito ou de outro, eu espero."
E se resolve, também. Mas não exatamente da maneira que eu esperava que se desenvolvesse. Primeiro, Lester deixa a Corrugated. Como ele estava no mesmo emprego há mais de seis anos, e piorando cada vez mais, o golpe não nos tirou do mercado. Ainda estamos seguindo em frente.
"Qual é o plano, Lester?" digo eu. "Passar a perna no gerente do escritório?"
"Huh!" diz Lester. "Estou planejando mudar há mais de um ano. Só esperando a oportunidade certa. Consegui agora."
"O pessoal da Morgan mandou te chamar, foi?" digo eu.
"Poderiam ter mandado, inclusive", diz Lester, "só que cansei de ser escravo de escritório para qualquer um. Desta vez, vou trabalhar com gente animada, onde terei uma chance."
Mas descobre-se que ele foi contratado como cambista por dois especuladores de ingressos — Izzy Goldman e seu companheiro, que costumavam administrar a banca de charutos lá na galeria. Eles lidavam com qualquer tipo de ingresso, desde os de desfile de arquibancada até poltronas de orquestra.
"Sim", digo eu, "essa será uma grande carreira. Quase no ramo teatral, hein? Você vai conhecer todas as gatinhas agora, imagino."
"Me observe", diz Lester.
Bem, não forcei minha visão. Eu teria ficado tão feliz em saber que Lester ia sair da minha jovem vida para sempre e esquecê-lo completamente dentro dos próximos dois dias. Só que não pude. Havia a Srta. Joyce para me lembrar. Não que ela diga uma palavra. Ela não é do tipo falante e confidencial. Mas era natural para mim perguntar de vez em quando se eles ainda eram tão chegados quanto no início.
Ele já tinha ido embora há um mês ou mais, imagino, antes que qualquer um de nós mencionasse seu nome, e então saiu acidentalmente. Começo a ditar uma carta para uma firma em St. Louis, Lester & Riggs. O nome meio que assusta a Srta. Joyce.
"Desculpe?" diz ela, com o lápis parado sobre o bloco.
"Não, não o Lester Biggs", digo eu. "A propósito, como ele está ultimamente?"
"Tenho certeza de que não sei", diz ela. "Eu... não o vejo há semanas."
"Oh!" digo eu. "Pensei que você o tivesse jogado na calha de carvão ou algo assim."
Ela dá de ombros e balança a cabeça. "Foi ele quem me deixou", diz ela. "Na mão."
"Considerando o Lester", digo eu, "isso é mais ou menos um elogio."
"Não tenho tanta certeza disso", diz a Srta. Joyce. "Veja, ele foi bem franco a respeito. Ele... ele disse que eu não tinha estilo ou energia. Bem, receio que seja verdade."
"Mesmo assim", digo eu, "foi gentil da parte dele jogar isso na sua cara, não foi?"
Ela se entrega a um sorriso esquemático e provocador. "Acho que algumas das garotas do Zinsheimer estavam zombando dele por minha causa", ela continua. "Eles me chamavam de 'a pobre garotinha trabalhadora', acredito. Não tenho dúvida de que eu parecia uma. Mas não pude gastar muito com roupas... ainda."
"Claro", digo eu, evocando uma imagem de uma mãe inválida e um pai caçador de guaxinins em algum lugar no meio do nada. "E até agora você não perdeu muito por não tê-las. Eu colocaria a perda de Lester no lado do crédito se estivesse fazendo o registro."
"Ele sabia dançar, porém", diz a Srta. Joyce, enquanto volta a se ocupar com seu lápis.
Então, algumas semanas depois, levei meu grande choque. Estávamos preparando um relatório especial para a reunião dos diretores um dia após o almoço quando, bem no meio de uma tabela de custos, a Srta. Joyce lança um olhar ansioso para o relógio e derruba seu caderno.
"Sinto muito", diz ela, "mas não poderíamos terminar isso amanhã de manhã?"
"Ora, suponho que poderíamos", digo eu, "se for algo importante."
"É", diz ela. "Se eu não estiver lá às 3 horas, o gerente de palco não me verá de jeito nenhum, e eu quero muito conseguir um contrato desta vez."
"Eh?" digo eu, boquiaberto. "Gerente de palco! Você?"
"Ora, sim", diz ela. "Veja, tentei uma vez antes. Quase fui contratada também. Eles gostaram da minha voz, disseram, mas eu não estava preparada na minha dança. Então, tenho tido aulas com um mestre de balé. Terrivelmente caro. É onde todo o meu dinheiro foi parar. Mas acho que eles vão me dar uma chance desta vez. É para o coro daquele novo musical 'Tut! Tut! Marie', sabe, e eles anunciaram para cinquenta garotas."
Suponho que devo ter soltado um suspiro. Essa criatura dócil e modesta, que parecia não saber a diferença entre um batom e uma cenoura cozida, planejando friamente desistir de um emprego bom e respeitável e se lançar no mercado de carne fresca! Ora, eu não teria ficado mais chocado se Piddie tivesse anunciado que na próxima temporada ele faria acrobacias a cavalo para algum circo.
"Desculpe-me, Srta. Joyce", digo eu, "mas eu não diria que você é exatamente o tipo que eles contratariam."
"Ah, eles aceitam todos os tipos", diz ela.
"Melhor se preparar para uma rejeição, no entanto", digo eu, "estou vendo isso vindo para você. Você não é o tipo de jeito nenhum."
"Talvez você não saiba", diz ela, saindo apressada para pegar seu chapéu.
Já viu um daqueles bandos que aparecem quando há um chamado para um novo coro? Tive que abrir caminho entre eles uma ou duas vezes lá em alguns daqueles prédios de escritórios ao longo do Rialto e, acredite, é uma coleção bizarra; de tudo, desde pequenas flappers esguias que ainda deveriam estar na escola primária, até velhas megeras de cara dura que costumavam viajar com Nat Goodwin. Então, não conseguia imaginar a pequena Srta. Joyce recebendo nada mais do que um olhar passageiro naquele ajuntamento. No entanto, quando ela aparece de manhã, ela está com um ar meio sorridente e animado.
"Bem", disse eu, "você desistiu depois de dar uma olhada neles?"
"Ah, não", diz ela. "Fui testada com o primeiro grupo e contratada imediatamente. Eles estão apressando a produção, sabe, e eu acabei me encaixando. Ora, em menos de uma hora, eles tinham vinte de nós ensaiando. Acho que vou participar do primeiro grande número... uma das garotas Moonbeam. Não é esplêndido?"
"Se é isso que você quer", digo eu, "imagino que seja. Mas e o pessoal de casa? O que eles dirão sobre esse seu salto largo?"
"Decidi não contar nada a eles sobre isso", diz ela. "Pelo menos não por um bom tempo."
"Eles podem ficar sabendo, no entanto", sugiro eu. "De onde você vem exatamente?"
"Ora, Saskatoun", diz ela, sem piscar os olhos.
"Ah, tudo bem, se você não quer contar", digo eu.
"Mas eu contei", diz ela. "Saskatoun."
"É algum tônico capilar novo, ou o quê?" digo eu.
"É uma cidade", diz ela. "Uma das maiores da Colúmbia Britânica."
"Pense nisso!" digo eu. "Eles não se importam com como bagunçam o mapa hoje em dia, não é? E seus pais moram lá?"
"A maioria deles", diz ela. "Dois dos meus irmãos estão em Glen Bow, criando ovelhas; uma das minhas irmãs está em Alberta, dando aulas de piano; e outra irmã está cantando na igreja em Moose Jaw. Se eu tivesse ficado em casa, estaria fazendo algo assim. Somos uma família musical, sabe. Papai é organista de igreja e queria que eu continuasse no coro e talvez me tornasse solista, por 50 dólares por mês. Mas eu não conseguia ver isso. Se vou ganhar a vida com minha música, quero ganhar bem. E Nova York é o lugar, não é!"
"Depende", digo eu. "Você não acha que vai ficar rica no coro de 'Tut! Tut! Marie', acha?"
"Talvez eles não me mantenham no coro", diz ela. "É a porta dos fundos, eu sei, mas foi a única maneira de entrar. E vou trabalhar por algo melhor. Você verá."
É, eu vi. A Srta. Joyce pediu demissão no final da semana, e não se passaram dez dias antes que eu recebesse um bilhetinho dela dizendo como ela tinha sido escolhida para fazer uma dança especial e um dueto com Ronald Breen. O Sr. Breen tinha feito a escolha pessoalmente. E ela esperava que eu aparecesse alguma noite quando a companhia estreasse na Broadway.
"Imagino que teremos que ir; hein, Vee?" digo eu quando chego em casa.
"Com certeza", diz Vee.
Bem, talvez você tenha notado o sucesso que esse "Tut! Tut!" tem feito. É o show de garotas mais animado e vibrante da cidade, e isso já é muito. É o tipo de coisa que faz o empresário cansado brilhar os olhos e esquecer o quão perto está o dia dezesseis de janeiro. Pensei primeiro que teríamos que adiar a ida até depois do Natal, pois quando finalmente cheguei à bilheteria, não havia nada na orquestra. Esgotado com cinco semanas de antecedência. Mas, por sorte, acabei encontrando Lester Biggs no saguão e, por cinco dólares cada, ele me arranjou dois lugares na fila G, poltronas centrais.
"É um grande sucesso", diz ele.
"Já viu?" pergunto eu.
"Ainda não", diz ele. "Acho que consigo entrar hoje à noite, no entanto."
"Ótimo!" digo eu. "Vou procurar por você lá fora após o primeiro ato."
E, diga-me, quando essa pessoa que está listada no programa como Jean Jolly entra saltitando com Ronald Breen, admito que ela me fez sentar com as orelhas tingidas de rosa. Não adianta entrar em detalhes sobre seu traje. Mal vale a pena... um pouco de cetim branco aqui e ali e um toque de tule preto.
"Bem!" ofega Vee. "Aquela é a sua pequena Srta. Joyce?"
"Mal posso acreditar", digo eu.
"Espero que não", diz Vee. "Mas ela é fofa, não é? E veja aquele chute! Oh-h-h-h!"
Eu ainda estava com o rosto vermelho, imagino, quando saio no final do ato e descubro Lester encostado na parede do saguão.
"Diga, Torchy", diz ele com a voz rouca, "você... você a viu?"
"A Srta. Joyce?" digo eu. "Claro. Uma beldade no ato, não é? Ela não mandou avisar que estaria nisso com Ronald Breen?"
"Eu?" diz ele. "Não."
"Isso é engraçado", digo eu. "Ela me contou semanas atrás. Ouvi dizer que ela está ganhando cento e cinquenta por semana. Na próxima temporada, ela estará como estrela."
"E pensar", lamenta Lester, "que eu a deixei passar há apenas alguns meses!"
"Sim", digo eu, "considerando sua ambição crônica, essa foi uma vez em que você não teve sorte. E o pior de tudo é que talvez ela estivesse apenas usando você para praticar o tempo todo. Hein?"
Talvez não fosse um pensamento consolador para deixar com o Lester, mas de alguma forma não consegui evitar sorrir enquanto soltava a indireta. E eu, não estou mais dando conselhos a jovens senhoras de Saskatoun ou de qualquer outro lugar. Estou fora disso permanentemente.
CAPÍTULO XVI
TORCHY ENFRENTA UM MISTÉRIO
Admito que não fiquei nem um pouco agitado quando o Sr. Robert chega do almoço e anuncia que esse tal de Penrhyn Deems está desaparecido.
"Em quantos cilindros?" digo eu.
Eu poderia ter acrescentado, também, que mesmo que ele tivesse sido extraviado permanentemente, eu conseguiria seguir em frente. Primeiro, qualquer um com um nome como aquele poderia ser facilmente dispensado. Penrhyn! Sempre me lembrava de um comprimido para dor de cabeça. Onde ele conseguiu um rótulo tão sofisticado? Nunca pude acreditar que aquilo foi dado a ele. Soava para mim como algo que ele mesmo tinha inventado quando viu a chance de ser usado tantas vezes em cartazes e outdoors. E, se você me perguntasse, eu teria dito que a perspectiva de ele não contribuir com mais nenhuma daquelas coisas musicais para o palco da Broadway não era uma boa causa para decretar luto. Aqueles dois últimos esforços dele certamente foram ruins o suficiente para dispensá-lo de tentar novamente. E daí se ele tinha feito as letras e músicas de "The Buccaneer's Bride"? Isso não lhe dava licença para descarregar material de segunda categoria pelo resto de sua carreira, dava? Começou a parecer que seu primeiro grande sucesso tinha sido mais ou menos um acidente. Sendo esse o caso, talvez fosse hora de ele desaparecer.
"Eu não contava com o Sr. Robert para tudo isso. Ele e Penrhyn Deems eram velhos amigos de faculdade e, embora não tenham sido muito próximos nos últimos anos, mantiveram algum contato. Suspeito que, desde que Penrhyn começou a se avaliar como uma espécie de combinação de Reggie DeKoven e George Cohan, ele não tem sido uma pessoa fácil de lidar. Talvez eu esteja enganado, mas, pelas poucas vezes que o vi aparecer aqui no Corrugated, essa foi a minha impressão. Você sabe. Um desses sujeitos que estufa o peito e pisa pesado com os calcanhares. Sim, eu diria que o ego na composição de Penrhyn passaria bem dos 2,75 por cento.
Mas é preciso mais do que isso para tirá-lo da lista do Sr. Robert. Ele é muito apegado a manter velhas amizades, o Sr. Robert. Ele se lembra de quaisquer pontos positivos que elas tenham e deixa por isso mesmo. Então, ele está sempre ali com uma saudação amigável sempre que Penrhyn aparece ostentando aqueles trajes barulhentos pelos quais ele tem tanta fraqueza, com as sobrancelhas retocadas e aquele bigode de galã decorando o lábio superior grosso. Como um sujeito gordo como ele pôde desenvolver tanta estima pessoal, eu nunca consegui entender. Mas eles fazem isso. Observe da próxima vez que estiver em uma plataforma de metrô, quem é que olha com mais carinho para os espelhos das máquinas de chiclete, e se não forem na maioria esses rapazes de estrutura rechonchuda com 40 de cintura, então eu estou errado nas minhas estatísticas. De qualquer forma, Penrhyn é desse tipo.
"Já é o terceiro dia que ele está desaparecido, Torchy", diz o Sr. Robert, solene.
"Sim?", digo eu. "Parece-me que vi uma nota sobre ele nas colunas teatrais ontem, algo sobre ele estar em falta sem licença. Estava escrito em tom de brincadeira, como se não levassem a sério."
"Essa é a parte repugnante", diz o Sr. Robert. "Aqui está um homem que desaparece de repente, a quem quase tudo pode ter acontecido, desde ser atropelado por um caminhão até roubo e assassinato; no entanto, por ele estar ligado ao ramo teatral, é tratado como se fosse algum tipo de piada. Ora, ele pode estar em algum hospital sem identificação, ou no fundo do rio North."
"Tem alguém procurando por ele?", pergunto.
"Até onde pude descobrir, não", diz o Sr. Robert. "Telefonei para os escritórios da Shuman — eles estão montando a nova peça dele, sabe — mas não obtive nenhuma satisfação. Ele não aparecia por lá há vários dias. Isso era tudo que eles sabiam. Sim, houve conversa de entregar o caso a uma agência de detetives, mas não tinham certeza se isso havia sido feito. E aqui está a pobre mãe dele em New Rochelle, quase à beira de um colapso nervoso. Tem a noiva dele também; a pequena Betty Parsons, que está chorando todas as lágrimas. Boa garota, a Betty. E é uma vergonha que nada esteja sendo feito. De qualquer forma, farei o que puder."
"Com certeza!", digo eu. "Eu não tinha pensado que ele tivesse mãe — e uma namorada. Mas diga, Sr. Robert, talvez eu possa lhe apresentar alguém na Shuman que possa lhe dar a letra. Tenho um amigo lá — Whitey Weeks. Costumava ser repórter. Da última vez que o encontrei, porém, ele admitiu modestamente que Alf. Shuman tinha vindo implorar para que ele assumisse o controle total da parte publicitária de todas as suas atrações. Então, se alguém tem algum boletim recente sobre o Sr. Deems, tem que ser o Whitey."
"Suponho que você deva ligar para ele, então", diz o Sr. Robert.
"Quando estou tentando extrair a verdade do Whitey", digo eu, "quero estar onde possa observar seus olhos. Ele é gente boa à sua maneira, mas é tão esquivo quanto um feijão saltador. Se você quer os fatos, é melhor que eu vá pessoalmente. Talvez seja melhor que você venha também, Sr. Robert."
Ele concorda com isso e, em meia hora, passamos por uma multidão de aspirantes e ex-integrantes de coro e nos esprememos na pequena repartição onde Whitey preside, importante, atrás de uma grande escrivaninha de tampo rolante. E quando explico como o Sr. Robert é um velho amigo de Penrhyn e está agindo tanto pela mãe de coração partido quanto pela noiva em prantos, Whitey balança a cabeça solenemente.
"Sinto muito, senhores", diz ele, "mas não ouvimos uma palavra dele desde que desapareceu. Não temos nem uma pista. É um mistério absoluto. Ele parece ter evaporado, é só isso. E não sabemos o que pensar disso. Bastante constrangedor para nós também. Sabe que acabamos de começar os ensaios para sua nova peça, 'Oh, Say, Belinda!'. A maior coisa que ele já fez. E o Sr. Shuman gastou quase 10.000 dólares apenas no cenário e nos figurinos de um número. No entanto, Deems sai por aí com as letras daquela canção — a única cópia existente, entenda — e desaparece de vista. Suponho que ele quisesse revisar os versos. Você vê o buraco em que isso nos colocou, no entanto. Estamos apressando 'Belinda' para uma produção rápida, e ele foge com as palavras do que com certeza será o grande sucesso musical da temporada. Ora, a Srta. Ladue, que faz esse solo, está quase louca, e quanto ao Sr. Shuman..."
"Sim, entendo, Whitey", interrompo. "Isso é bom material de assessor de imprensa, tudo bem. Mas o Sr. Ellins aqui não está tão preocupado com o que vai acontecer com o show quanto com o que aconteceu com Penrhyn Deems. Agora, como ele desapareceu? Quem o viu por último?"
Whitey encolhe os ombros. "Tudo um mistério, eu lhe digo", diz ele. "Não temos uma única pista."
"E vocês estão apenas sentados esperando para ver o que aconteceu com ele", exige o Sr. Robert, "sem fazer um esforço para rastreá-lo?"
"Bem, o que podemos fazer?", pergunta Whitey. "Se os jornais tolos apenas acordassem para o fato de que uma personalidade proeminente está desaparecida e nos dessem o espaço adequado, isso poderia ajudar. Eles vão, com o tempo, é claro. Têm que chegar lá. Mas você sabe como é. Qualquer coisa vinda de um escritório de imprensa eles tendem a farejar com desconfiança. Como se eu fosse inventar uma história tão crua quanto esta para eles! Huh! Mas estou trabalhando no interesse, e até o próximo domingo aposto que eles estarão com manchetes na primeira página: 'Onde está Penrhyn Deems?'. Você verá."
"Suponha que ele apareça amanhã, no entanto?", pergunto.
"Oh, mas ele não poderia", diz Whitey rapidamente. "Isto é, se ele estiver realmente perdido ou... ou se algo aconteceu com ele. O que o faz pensar que ele poderia aparecer, Torchy?"
"Apenas um palpite meu", digo eu. "Eu estava pensando que talvez alguns de seus amigos pudessem encontrá-lo em algum lugar."
"Eu gostaria de vê-los", diz Whitey enfático. "Valeria muito para nós."
"Sim", digo eu, "sei como você se sente a respeito. Muito obrigado, Whitey. Acho que é tudo o que podemos fazer; não é, Sr. Robert?"
Mas mal saímos do escritório e eu lhe dou um cutucão.
"Balela!", digo eu. "Eu apostaria um milhão do dinheiro de outra pessoa que isso é apenas uma das armações manhosas do Whitey."
"Dificilmente acho que o acompanho", diz o Sr. Robert.
"Aqui está a ideia", digo eu. "Quando 'The Buccaneer's Bride' estava em cartaz há dois anos, Penrhyn Deems estava muito em destaque. Ele tinha artigos regularmente, páginas inteiras nas edições de domingo, novas fotos dele impressas a cada poucas semanas. Ele não odiava isso, odiava? Mas essas duas últimas peças dele foram fracassos. Tudo o que ele teve recentemente foram críticas, ou nenhuma menção. E cabia ao Whitey trazê-lo de volta aos olhos do público, não é? Confie no Whitey para fazer isso."
"Mas este método seria tão completamente frio, cruel", protesta o Sr. Robert.
"Não impediria o Whitey, no entanto", digo eu.
"Então devemos fazer o nosso melhor para encontrar Penrhyn", diz ele.
"Com certeza!", digo eu. "Trabalho de detetive. Que tal começar pelos seus aposentos e entrevistar seu criado?"
"Bom!", diz o Sr. Robert. "Vamos lá imediatamente."
Nós fomos. Mas o que conseguimos daquele Nimms de cara de torta do Penrhyn não valia a pena anotar. Ele tem um mapa tão cheio de expressão quanto o lado sul de uma abóbora, Nimms. Um londrino de cabeça de amendoim que Penrhyn encontrou em algum lugar de Londres.
"Certamente não posso dizer, senhor", diz ele, "para onde o patrão foi, senhor. Foi na última segunda-feira à noite que ele desapareceu, senhor."
"O que quer dizer com 'desapareceu'?", digo eu.
"Ele simplesmente saiu, senhor, e nunca mais voltou", diz Nimms. "Veja, senhor, eu mantive seu terno matinal todo preparado desde então, senhor."
"Então ele foi em trajes de gala?", intervém o Sr. Robert.
"Não exatamente, senhor", diz Nimms. "Ele estava vestido como um bobo da corte, senhor; de fantasia, sabe, senhor, com chapéu e guizos."
"O quê?", diz o Sr. Robert. "Com uma fantasia de bobo? Você diz que ele saiu com esse traje? Por que raios ele deveria..."
"Eu não perguntei ao patrão, senhor", diz Nimms, "mas minha opinião particular sobre o assunto, senhor, é que ele estava a caminho de um banquete de máscaras de algum tipo. Eu por acaso vi um convite, senhor, que..."
"Desenterre isso, Nimms", digo eu. "Pode ser uma pista."
Com certeza, Nimms tinha guardado; e o cabeça-dura não tinha dito uma palavra sobre isso antes. É um convite para o jantar anual a fantasia do Bright Lights Club.
"Huh!", digo eu. "Já ouvi falar desse pessoal — principalmente produtores, estrelas de palco e dramaturgos. Um braço do Lambs Club. Whitey saberia sobre esse evento também. E Alf. Shuman. Se Deems estivesse lá, eles saberiam. Então ele não chegou lá. Suponho que ele usou uma capa de chuva ou algo por cima da fantasia, e foi de táxi; não é, Nimms?"
"Exatamente, senhor", diz Nimms. "Uma capa de chuva longa, senhor."
"Mas", interrompe o Sr. Robert, "um homem não poderia vagar por Nova York vestido com uma fantasia de bobo sem ser notado. Isto é, não por vários dias."
"Pode apostar que não poderia", digo eu. "Então ele não vagou."
Essa é uma boa frase para usar, esse "ele não poderia, então ele não fez", quando você está fazendo esse trabalho de Sherlock-Watson. Soa profissional. O Sr. Robert acena e depois olha para mim com expectativa, como se estivesse esperando para ouvir o que eu deduziria a seguir. Mas, na verdade, meu dedutor estava falhando. No entanto, quando você tem um patrão que sempre espera que você processe em marcha alta, como ele gosta de dizer, você tem que produzir algo de improviso, ou enrolar.
"Agora, vejamos", digo eu, registrando um pensamento profundo, "se Penrhyn fosse a qualquer lugar por conta própria, onde seria? Você conhece bem os hábitos dele, Sr. Robert. Qual é o seu palpite?"
"Ora, eu diria que ele iria para o campo de golfe mais próximo", diz ele.
"Ele é um tubarão do golfe, é?", digo eu.
"Não no sentido que você quer dizer", diz o Sr. Robert. "Dificilmente. Penrhyn é um jogador medíocre consistente, mas sério. A ambição de sua vida é quebrar 100 pontos em algum campo decente. Ele falou o suficiente sobre isso comigo. Sim, é provavelmente onde ele está, se ainda estiver vivo, jogando golfe em algum lugar."
"Peço perdão, senhor", intervém Nimms, "mas isso dificilmente poderia ser verdade, senhor, vendo que os tacos dele ainda estão aqui. Essa é a parte estranha do seu desaparecimento, senhor. Ele nunca viaja sem sua bolsa de tacos. E eles estão naquele armário, senhor."
"Ele não poderia alugar um conjunto, ou pedir emprestado?", sugiro.
"Ele poderia", diz o Sr. Robert, "mas ele não faria. Nem mais do que você alugaria uma escova de dentes. Esse é um dos sintomas do jogador medíocre de golfe. Ele tem seus tacos favoritos e imagina que não pode jogar com nenhum outro. Acho que devemos concordar com Nimms. Se concordarmos, o caso parece sério novamente, pois Penrhyn certamente não sairia voluntariamente, a menos que fosse para algum lugar onde pudesse se entregar à sua mania."
"É isso!", digo eu. "Então ele foi levado a algum lugar contra sua vontade. Essa é a linha! O que nos traz de volta ao Whitey Weeks. Quem mais, além de Whitey, iria querer que ele fosse despachado para fora de vista por uma semana ou mais?"
"Mas você não acha que ele chegaria ao ponto de sequestrar Penrhyn, acha?", pergunta o Sr. Robert.
"Quem, Whitey?", digo eu. "Ele sequestraria a própria avó se visse uma história de primeira página nisso. Talvez ele tivesse toda essa história de desaparecimento planejada quando o Sr. Deems vacilou. Então ele o pega quando está vestido com alguma fantasia maluca, com todas as suas roupas normais em casa, e o leva para algum lugar isolado. Entende? Com aquele traje, Penrhyn teria que ficar onde está, não teria? Não poderia aparecer entre as pessoas sem ser cercado. Então ele teria que ficar escondido até que alguém lhe trouxesse um terno."
"Essa seria uma maneira engenhosa de fazer isso", admite o Sr. Robert.
"Acredite em mim, Whitey tem esse tipo de mente", digo eu, "ou então ele não estaria cuidando do trabalho de publicidade de Alf. Shuman."
"Mas para onde ele poderia tê-lo levado?", pergunta o Sr. Robert.
"Estamos apenas chegando lá", digo eu. "Para onde ele iria? Agora, se isso fosse uma peça de cinema que estivéssemos bolando, seria simples. Ele seria levado em um iate. Mas Whitey não poderia usar um iate. Ele não viaja nessa classe, e Shuman não aceitaria o preço do aluguel em uma fatura de despesas. Uma fazenda solitária seria um bom lugar. Mas Penrhyn poderia pegar emprestado um traje de caipira e escapar de uma fazenda. Um farol seria um ótimo lugar para esconder um libretista famoso vestido com uma fantasia de bobo, não seria? Ou uma ilha? Diga, aposto que descobri!"
"Eh?", diz o Sr. Robert.
"Ele está em uma ilha", digo eu. "High Bar Island. É um lugar onde Whitey vai caçar patos todo outono. Ele pertence a um clube que é dono dela. De qualquer forma, pertencia. Costumava me encher os ouvidos sobre como ele era um grande atirador e que tempos emocionantes ele passava na velha cabana. Em algum lugar na baía de Barnegat, atrás do farol. Sim! Ele está lá, se é que está em algum lugar."
"Parece bastante improvável", diz o Sr. Robert. "Ainda assim, você parece ter um instinto estranho para acertar nesses assuntos. Talvez devêssemos ir lá e ver. Venha."
"O quê, agora?", digo eu. "Imediatamente?"
"Tem a mãe dele, quase histérica", diz o Sr. Robert, "e a noiva dele. Pense no suspense, na tensão mental em que devem estar. Se pudermos encontrar Penrhyn, devemos fazê-lo o mais rápido possível. Vamos voltar ao escritório e procurar as conexões de trem."
Bem, se tivéssemos começado meia hora antes, estaríamos bem. Do jeito que foi, poderíamos ficar presos a noite toda em algum entroncamento mixuruca ou esperar até a manhã seguinte. Nada disso agradava ao Sr. Robert. Ele telefona para seu carro de turismo e decide dirigir até Jersey. Além disso, ele prepara uma mala para nós dois e coleta com Nimms um conjunto completo de roupas diurnas para Penrhyn.
Partimos por volta das cinco horas e, como o Sr. Robert calcula pelo Blue Book que temos apenas cento e poucas milhas a percorrer, ele acha que deveríamos chegar a algum lugar perto do farol de Barnegat às nove horas. Talvez tivéssemos chegado, também, se tivéssemos pego as balsas de Staten Island exatamente em ambas as pontas, e não tivéssemos tido dois pneus estourados e nos perdido na estrada uma vez. Como foi, finalmente chegamos a um pequeno lugar que aparece no mapa como Forked River por volta da 1 da manhã. Não havia uma luz em todo o lugar e levamos meia hora para arrancar o dono do hotel da cama. Não, ele não podia nos dizer onde poderíamos conseguir um barco para nos levar a High Bar àquela hora da noite. Não era algo comum. As pessoas não iam lá com frequência de qualquer maneira, e quando iam, começavam depois do café da manhã.
"Estará lá pela manhã, sabe", diz ele.
"É verdade", diz o Sr. Robert. "Tenha uma lancha pronta às nove horas. Não adianta muito chegar antes das 10:30. Penrhyn não estaria de pé."
Isso me pareceu sensato. Quando vou caçar dramaturgos perdidos, gosto de levar na esportiva e estar preparado para o dia com uma boa dose de presunto com ovos. Essa parte do programa foi executada sem problemas. E é um bom passeio através da velha baía de Barnegat, com a frota de ostras ocupada e os barcos de pesca espalhados por aí. Mas o nativo que nos guiou estava em dúvida sobre alguém estar em High Bar.
"Vi algumas pessoas atirando por aí em Love Ladies ontem", diz ele, "e mais um par caçando em Sea Dog, mas não ouvi um tiro sequer na Bar."
"Oh, meu amigo não atira, de qualquer maneira", diz o Sr. Robert.
"Não há mais nada para ele fazer em High Bar", diz o nativo, "a menos que ele queira colecionar picadas de mosquito."
Quando chegamos perto o suficiente para ver a ilha, comecei a suspeitar que tinha perdido meu palpite, pois não há uma alma à vista. Podíamos ver tudo, também, pois a parte mais alta não tem muito mais que dois pés acima do nível da maré. Perto do atracadouro de barcos fica a sede do clube, construída sobre estacas, com uma varanda na frente. O resto de High Bar é apenas alguns acres de junça e pântano.
"Sim!", diz o nativo. "Deve haver alguém lá. A porta está aberta. Sim! Lá está o velho Lem Robbins, que sempre faz a comida. Ei, Lem!"
Lem acena cordialmente e caminha até nós. Ele é um velho pirata gordo e grisalho que parecia entediado e descontente.
"Tem alguém com você, Lem?", pergunta o nativo.
"Nem dá para falar", diz Lem. "Apenas um tipo de cavalheiro lunático que usa calças justas de barbeiro e xinga fluentemente."
"É Penrhyn!", diz o Sr. Robert. "Vestido como um bobo, não é?"
"Você disse tudo", diz Lem. "Age como um também. Espero que os senhores tenham vindo para levá-lo de volta para onde ele pertence. Ele precisa ser trancado, ele precisa."
"Mas onde ele está?", exige o Sr. Robert.
"Lá atrás da casa, balançando um velho gancho de barco e agindo de forma simples", diz Lem. "Vou mostrar a vocês."
Foi um espetáculo, também. Pois lá está o famoso autor de "The Buccaneer's Bride", equipado com uma fantasia de bobo mais ou menos suja, incluindo o chapéu vermelho-púrpura com guizos nele. Ele está de pé sobre uma pilha de conchas e balançando esse gancho de barco enferrujado. Claro, espero que, quando ele vir o Sr. Robert e perceber como foi resgatado, ele saia de seu transe e comece a agir racionalmente mais uma vez. Mas não funciona assim. Quando o Sr. Robert o chama e ele vê quem é, ele continua balançando o gancho de barco.
"Glória, Bob!", ele canta. "Consegui finalmente."
"Conseguiu o quê, Penny?", exige o Sr. Robert.
"Minha tacada", diz ele. "Observe, Bob. Como está isso, eh? Note a conclusão? Não daria uma surra na bola de 200 jardas direto pelo fairway? Não daria, agora?"
"Oh, eu digo, Penny!", diz o Sr. Robert. "Não seja mais um asno do que você pode evitar. Abandone essa bobagem de golfe e me diga o que está fazendo aqui neste lugar esquecido enquanto toda Nova York está pensando que talvez você tenha sido assassinado ou algo assim."
"Eh?", diz Penrhyn. "Então... então a notícia saiu, é? Você trouxe algum jornal?"
"Jornais?", diz o Sr. Robert. "Não."
"Gostaria que tivesse trazido", diz Penrhyn. "Deixou todo mundo agitado, suponho? Diga-me, no entanto, como as pessoas estão reagindo?"
"Se você quer dizer o público em geral", diz o Sr. Robert, "acho que eles estão suportando nobremente. Mas sua mãe e Betty..."
"Por George!", interrompe Penrhyn. "É verdade! Elas podem estar bastante perturbadas. Eu... eu nunca pensei nelas."
"Não pensou, eh?", diz o Sr. Robert. "Não, você não pensaria. Você estava pensando em Penrhyn Deems, como sempre. E devo dizer, Penny, você é o limite. Tenho uma boa ideia de deixá-lo aqui."
"Não, não, Bob! Não faça isso", implora Penrhyn. "Lugar repugnante. E eu detesto aquele cozinheiro, muito mesmo. Além disso, preciso voltar. Realmente."
"Quer aliviar sua pobre mãe e Betty, eh?", pergunta o Sr. Robert.
"Sim, claro", diz Penrhyn. "Além disso, quero tentar esse swing com meu driver. Bob, tenho certeza de que posso finalmente acertar esse movimento de pulso. E se eu conseguir... eu estarei jogando nos 90. Com certeza!"
Ele é uma maravilha, Penrhyn. Ele tem essa doença de casco e boca, também conhecida como golfe, pior do que qualquer um que já conheci antes. Levou mais dez minutos para o Sr. Robert acalmá-lo o suficiente para que ele pudesse contar como foi parar nesta ilha naquele traje."
— Ora, foi aquele novo agente de imprensa do Shuman, é claro — diz Penrhyn. — Aquele sujeito Weeks. Foi ele.
— Você não quer dizer, Penny — diz o Sr. Robert —, que foi sequestrado e trazido para cá como prisioneiro?
— Nem um pouco — diz Penny. — Nós viemos de carro para cá à noite e entramos num barco bem no romper do dia. Uma palhaçada ridícula. Especialmente vestindo este traje. Mas ele insistiu que tornaria o desaparecimento mais plausível, mais dramático. Não me disse para onde íamos, também. Disse que era uma sede de clube, então achei, é claro, que haveria golfe. Mas olhe para este buraco! E já estou há quatro dias nisto. Mosquitos? Uma coisa pavorosa. Por isso continuei com o gorro e os guizos. No começo, passei o tempo trabalhando numa das músicas da peça nova. Escrevi uns versos sensacionais, também. Vai fazer o maior sucesso. A melhor coisa que já fiz. Mas depois que terminei esse trabalho, quis jogar golfe; treinar, de qualquer forma. E eu estava quase louco até encontrar este croque velho e começar a rebater conchas de ostra na água. Foi assim que me veio... a tacada. Se eu ao menos conseguir mantê-la!
Eu sugiro que o Sr. Weeks provavelmente está planejando que ele continue sumido até o fim do domingo, de qualquer forma, para poder conseguir
Marcus acena com a cabeça. "Ele estava com a Mirabelle na mão, tudo certo", diz ele. "Ela era louca por ele. E o Chuck também era bem caidinho por ela. Eles tinham tudo planejado, o apartamento escolhido e tudo mais, quando algo acabou com tudo. Não sei o quê. O Chuck, ele se demitiu no dia seguinte. Sorte a dele, aliás, pois se ele tivesse ficado aqui, não teria conhecido aquele pessoal de acessórios automotivos e conseguido o novo emprego. Ouvi dizer que ele é gerente da filial deles no Harlem agora, setenta e cinco por semana. A Mirabelle não ficaria furiosa se soubesse disso, hein?"
"Ela teria motivos para ranger os dentes", digo eu. "Mas parabéns para o Chuck. Preciso ligar para ele e dar um alô. Qual é o número dele?"
Devo admitir também que, uma vez que comecei, trabalhei rápido. Levei menos de três minutos para arrancar do Vincent a hora e o local daquela fatídica festinha de jantar que ele estava prestes a realizar, e pouco depois disso eu estava com o Sr. Dempsey na linha. Sim, ele diz que se lembra bem de mim, por causa do meu cabelo. A maioria se lembra.
"É uma pena que você tenha esquecido de outra pessoa tão rápido, no entanto", acrescento.
"Quem?" diz ele.
"Mirabelle", digo eu.
"Ah, não sei", diz Chuck. "Talvez seja melhor assim."
"Ela não pensa o mesmo", digo eu.
"Quem estava te dando esse papo?" pergunta Dempsey.
"Uma certa pessoa", digo eu. "Mas você sabe como é fácil para uma rainha como ela arranjar um substituto. Algumas pessoas têm estado muito ocupadas ultimamente também; uma em particular. E não me importo em dizer que odiaria vê-lo ganhar."
"Sim, ela é uma bela garota, com certeza", diz Chuck, "mesmo que eu tenha ficado um pouco irritado com ela uma noite. Posso aparecer por lá qualquer dia desses."
"Se eu fosse você", digo eu, "eu seria rápido. Na verdade, não depois das 18h30 desta noite. Isso, a menos que você se contente em figurar como um fracassado."
Ele é um jovem empreendedor, o Sr. Dempsey. E parece que ele não fechou o livro sobre a Mirabelle de vez. Ele ficou bastante interessado em saber onde ela estaria esperando àquela hora e tomou nota.
"Muito grato pela dica, Torchy", diz ele. "Vou pensar a respeito."
Eu esperava que ele pensasse. Era o melhor que eu podia fazer pelo Vincent, exceto ficar por perto e telefonar para a Vee avisando que provavelmente eu chegaria atrasado para o jantar. Vendo que eu estava rondando uma entrada de porta em frente ao Cafe Caroni às 18h30, parecia que eu chegaria mesmo. Mas eu tinha visto Chuck Dempsey entrar todo elegante, e depois a Mirabelle. Quanto ao Vincent, ele foi pontual, como de costume. Ele não ficou nada feliz em me ver esperando por ele, também.
"Ah, diga, Torchy!" ele protesta.
"Você não gostaria que fosse um trio, hein?" sugiro.
"Eu preferiria muito que não", diz ele.
"Então vamos nos lembrar disso", digo eu. "Não há mal nenhum em eu me meter por tempo suficiente para dar uma palavra ao Joe, o maître, para lhe dar uma mesa de canto bem tranquila e cuidar bem de você, há?"
"Sinto muito", diz Vincent. "Eu não sabia se você..."
"Eu não", digo eu. "Ficarei tempo suficiente para fazer você começar bem. Vamos lá. Ah, ali está o Joe, lá no fundo, e quando ele... Eh? Você engasgou ou algo assim? Ora, essa!"
Claro, ele tinha avistado os dois imediatamente... Mirabelle e Chuck Dempsey. Eles estavam em uma mesinha encostada na parede, conversando de forma aconchegante e confidencial. Não demorou muito para restabelecerem relações amigáveis. Na verdade, Chuck estava apenas estendendo a mão de forma brincalhona para uma das mãos de Mirabelle e estava se dando bem com a cena.
"Ora", digo eu, "parece que a placa de lotação esgotada já estava exposta."
Sim, foi um pouco duro para o Vincent. Ele mostra sua criação educada, no entanto. Nada de movimentos impensados ou palavras precipitadas da parte dele. Ele recua graciosamente, mesmo estando um pouco pálido. E só quando estamos bem do lado de fora é que ele solta um comentário rouco.
"Bem, eu... eu fui feito de bobo, suponho", diz ele.
"Isso depende de quem está julgando", digo eu. "Esse Dempsey não é novato, sabe. De qualquer forma, agora você pode ir jantar em casa com a mamãe."
"Mas eu não posso", diz Vincent. "Veja bem, eu deixei recado de que jantaria na cidade e ela... ela iria querer saber por que não jantei."
"Isso é fácil de resolver", digo eu. "Você vai jantar comigo, lá no meu barraco em Long Island. Ainda não viu a família de tamanho grande que estou começando, viu? Bem, aqui está sua chance. E podemos pegar exatamente o trem das 18h47."
Não que eu tivesse planejado tudo, mas era o melhor antídoto para a Mirabelle que eu poderia ter imaginado. Pois a Vee é... Bem, ela é bem diferente da Mirabelle. E suspeito que, depois que Vincent a viu desempenhando seu papel principal como a esposa carinhosa, e foi levado ao berçário para ver o bebê, e nos ouviu brincando um com o outro de forma amigável... Bem, talvez ele tenha se perguntado como a Mirabelle se sairia em um quadro estritamente doméstico.
"Torchy", diz ele, apertando minha mão enquanto estou prestes a colocá-lo no trem das 22h26, "acredito que não vou me importar tanto em perder a Mirabelle, afinal."
"Isso é animador", digo eu. "E provavelmente eles deixarão você retirar seu depósito do anel. Mas você pode muito bem dar adeus às margens daquelas ações de petróleo."
Ah, sim, eu sou um mestre em conselhos amigáveis. Pelo menos, eu era até que Vincent apareceu radiante do almoço ontem com um sorriso largo. Ele tinha se envolvido em uma alta da bolsa e lucrado dez pontos.
"Agora é hora de ganhar muito, hein?" digo eu.
"Não", diz Vincent. "Estou farto de... de tudo."
"Incluindo quase-vamps?" digo eu.
Ele acena com entusiasmo.
"Então não vejo o que vai impedi-lo de obter uma classificação de sabedoria de Salomão antes que o incluam na lista de votação", digo eu. "Manda ver, garoto."
FIM
HISTÓRIAS DE SEWELL FORD
Podem ser encontradas onde quer que livros sejam vendidos. Peça pela lista da Grosset & Dunlap.
SHORTY McCABE. Ilustrado por Francis Vaux Wilson.
Uma história muito bem-humorada. O herói, um pensador independente e vigoroso, observa a vida e conta sobre ela de uma maneira muito pouco convencional.
SIDE-STEPPING WITH SHORTY. Ilustrado por Francis Vaux Wilson.
Vinte esquetes, apresentando pessoas com suas fraquezas. Simpatia pela natureza humana e um senso de humor abundante são os requisitos para "esquivar-se com Shorty".
SHORTY McCABE ON THE JOB. Ilustrado por Francis Vaux Wilson.
Shorty McCabe reaparece com suas figuras de linguagem renovadas até o último minuto. Ele ajuda na distribuição correta de um "fundo de consciência" e traz alegria a todos os envolvidos.
SHORTY McCABE'S ODD NUMBERS. Ilustrado por Francis Vaux Wilson.
Estas crônicas adicionais de Shorty McCabe contam sobre seu estúdio de cultura física e suas experiências tanto no East Side quanto em festas elegantes de iatismo.
TORCHY. Ilustrado por Geo. Biehm e Jas. Montgomery Flagg.
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TRYING OUT TORCHY. Ilustrado por F. Foster Lincoln.
Torchy é tão delirantemente engraçado nestas histórias quanto era no livro anterior.
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TORCHY, PRIVATE SEC. Ilustrado por F. Foster Lincoln.
Torchy sobe da posição de mensageiro para a de secretário da Corrugated Iron Company. A história é cheia de humor e gírias americanas contagiantes.
WILT THOU TORCHY. Ilustrado por F. Snapp e A. W. Brown.
Torchy parte em uma expedição de busca ao tesouro na costa oeste da Flórida, na companhia de um grupo de amigos do Corrugated Trust e da tia de seu amigo, viagem na qual Torchy ganha a permissão da tia para colocar um anel de noivado no dedo de Vee.
Grosset & Dunlap, Editores, Nova York
ROMANCES DE BOOTH TARKINGTON
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SEVENTEEN. Ilustrado por Arthur William Brown.
Ninguém além do criador de Penrod poderia ter retratado os imortais jovens desta história. Seu humor é irresistível e lembra o tempo em que o leitor tinha dezessete anos.
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Este é um retrato do coração de um menino, cheio das coisas adoráveis, engraçadas e trágicas que são segredos trancados para a maioria dos mais velhos. É uma obra acabada e requintada.
PENROD AND SAM. Ilustrado por Worth Brehm.
Como "Penrod" e "Seventeen", este livro contém algumas fases notáveis da verdadeira infância e algumas das melhores histórias de travessuras juvenis que já foram escritas.
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Grosset & Dunlap, Editores, Nova York