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Undine

by La Motte-Fouqué, Friedrich Heinrich Karl, Freiherr de · in Portuguese

UNDINE

Por Friedrich de la Motte Fouque

Com prefácio de Charlotte M. Yonge

Introdução

Quatro contos, diz-se, foram concebidos pelo Autor para serem apropriados às Quatro Estações: o severo e grave “Sintram”, ao inverno; a lacrimosa, sorridente e fresca “Undine”, à primavera; os desertos tórridos dos “Dois Capitães”, ao verão; e o ouro do pôr do sol de “O Cavaleiro de Aslauga”, ao outono. Destes, dois estão diante de nós.

O autor destes contos, bem como de muitos outros, foi Friedrich, Barão de la Motte Fouque, um dos principais menestréis ou contadores de histórias do reino da cavalaria espiritual — o reino para onde os cavaleiros de Arthur partiram quando “empreenderam a santa busca do Santo Graal” —, de onde o cavaleiro da Cruz Vermelha de Spenser e seus companheiros saíram em suas aventuras, e no qual o Cavaleiro de la Mancha acreditava e se esforçava por existir.

La Motte Fouque derivou seu nome e seu título de uma ascendência huguenote francesa, que fugira na Revogação do Édito de Nantes. Seu nome cristão foi tirado de seu padrinho, Frederico, o Grande, de quem seu pai era um amigo fiel, sem comprometer seus princípios e práticas religiosas. Friedrich nasceu em Brandemburgo, em 12 de fevereiro de 1777, foi educado por bons pais em casa, serviu no exército prussiano através de desastres e sucessos, tomou parte entusiástica na revolta de seu país contra Napoleão, escrevendo tantas canções de batalha quanto Korner. Quando a vitória foi alcançada, ele dedicou sua espada na igreja de Neunhausen, onde ficava sua propriedade. Viveu lá, com sua amada esposa e sua imaginação, até sua morte em 1843.

E durante todo o tempo, a vida foi para ele um sonho de poeta. Ele vivia em um glamour contínuo de romance espiritual, banhando tudo, desde as antigas divindades de Valhalla até os campeões da libertação alemã, em um brilho ideal de pureza e nobreza, sinceramente cristão em tudo, mesmo em suas lidas com a mitologia nórdica, pois via Cristo inconscientemente retratado em Baldur, e Satanás em Loki.

Assim ele viveu, sentiu e acreditou no que escrevia, e embora seus dramas e poemas não se elevem acima da justa mediocridade, e o grande número de suas histórias em prosa seja prejudicado por uma certa monotonia, o charme delas está na elevação do sentimento e na fé sincera que a tudo perpassa. Seus cavaleiros poderiam ser Sir Galahad —

“Minha força é como a força de dez, Porque meu coração é puro.”

O mal chega a eles como algo a ser conquistado, geralmente como uma forma de encantamento mágico, e suas “donzelas maravilhosamente belas” são dignas deles. No entanto, há aventura suficiente para proporcionar muito prazer, e muitas vezes temos um toque de verdadeiro gênio, que deu ideias reais ao mundo, e ideias preciosas.

Este gênio é especialmente rastreável em suas duas obras-primas, Sintram e Undine. Sintram foi inspirado pela gravura de Albert Durer do “Cavaleiro da Morte”, da qual damos uma apresentação. Foi enviada a Fouque por seu amigo Edward Hitzig, com o pedido de que compusesse uma balada sobre ela. A data da gravura é 1513, e citamos a descrição dada pelo falecido Reverendo R. St. John Tyrwhitt, mostrando quão diferentemente ela pode ser lida.

“Alguns dizem que é o fim do homem forte e perverso, recém-alcançado pela Morte e pelo Pecado, a quem ele serviu na terra. Diz-se que o tufo na lança indica seu caráter assassino, sendo de tamanho tão incomum. Você sabe que o uso desse apêndice era para evitar que o sangue corresse da ponta da lança para as mãos. Eles também pensam que o objeto sob o pé traseiro do cavalo é uma armadilha, na qual o velho opressor cairá instantaneamente. A expressão dos rostos pode ser interpretada de ambas as maneiras: tanto homens bons quanto maus podem ter traços duros e regulares; e ambos, homens bons e maus, cerrariam os dentes severamente ao ver a Morte, com as areias de sua vida quase esgotadas. Alguns dizem que acham a expressão da Morte gentil, ou apenas admoestadora (como o autor de “Sintram”); e tenho que agradecer à autora de “O Herdeiro de Redclyffe” por me mostrar uma bela impressão da gravura, onde a Morte certamente tinha um semblante não indelicado — cobras e tudo mais. Acho que a lança no ombro e o assento firme e tranquilo sobre o cavalo, com um porte gentil no freio, indicam uma resolução grave no cavaleiro, e que um cavaleiro salteador teria sua lança em riste; depois, há a coroa de folhas na cabeça do cavalo; e o cavalo e o cão movem-se tão silenciosamente que estou inclinado a esperar o melhor para o Ritter.”

Meditando sobre a misteriosa gravura, Fouque viu nela os companheiros de vida do homem, a Morte e o Pecado, a quem ele deve desafiar para alcançar a salvação; e dessa contemplação surgiu seu maravilhoso romance, não exatamente uma alegoria, onde cada circunstância pode ser ajustada com um significado apropriado, mas com o sentido da luta da vida, com a tentação externa e a inclinação hereditária permeando tudo, enquanto a Graça e a Oração auxiliam o esforço. Folko e Gabrielle são revividos do Anel Mágico, para que Folko possa, pelo exemplo e influência, elevar todas as resoluções superiores; enquanto Gabrielle, em toda a inocência inconsciente, desperta as paixões, tornando assim a conquista mais difícil.

Está dentro dos limites da possibilidade que as semelhanças do folclore possam ter trazido ao conhecimento de Fouque o esboço da história que Scott nos diz ter sido o germe de “Guy Mannering”; onde um menino, cujo horóscopo fora traçado por um astrólogo como propenso a encontrar provações peculiares em certos intervalos, teve, de fato, em seu vigésimo primeiro ano, uma espécie de encontro visível com o Tentador, e saiu vencedor por sua forte fé na Bíblia. Sir Walter, entre a reverência e o realismo, tomou apenas a primeira parte da história, mas Fouque nos dá a luta positiva e nos conduz ao longo da vitória final e da paz subsequente. Seu conto tem tido um poder notável sobre os leitores. Não podemos deixar de mencionar dois casos notáveis em cada extremo da escala. O Cardeal Newman, em seus dias mais jovens, ficou tão dominado por ele que correu para o jardim para lê-lo sozinho, e retornou com vestígios de emoção no rosto. E quando Charles Lowder leu para seus meninos do East End, todas as suas mentes pareciam absorvidas por ele, e eles até chamaram certos pontos pelos nomes dos lugares mencionados. Imagine as Rochas da Lua em Ratcliff Highway!

Podemos mencionar que “Waynflete”, de Miss Christabel Coleridge, traz algo do espírito e da ideia de “Sintram” para a vida moderna?

“Undine” é uma história de fantasia muito mais leve, e cheia de uma graça peculiar, embora com uma profundidade de melancolia que a torna cativante. Sem dúvida, foi baseada na ideia universal no folclore das ninfas ou espíritos da água, uma das quais, na lenda norueguesa, foi vista chorando amargamente por causa da falta de uma alma. Às vezes, a ninfa é uma sereia perversa como a Lorelei; mas em muitos desses contos ela se casa com um amante terreno e o abandona depois de um tempo, às vezes ao encontrar sua touca de mergulho, ou sua pele de foca, que a restaura aos seus parentes do oceano, às vezes quando ele se intromete enquanto ela está sob uma transformação periódica, como com a fada Melusine, mais raramente se ele se torna infiel.

Há um notável conto da Cornualha sobre uma ninfa ou sereia, que assim desapareceu, deixando uma filha que gostava de ficar na praia em vez de brincar com outras crianças. Com o tempo, ela teve um amante, mas não demorou para que ele mostrasse sinais de inconstância, e a mãe emergiu do mar e o matou, momento em que a filha definhou e morreu. Seu nome era Selina, o que dá ao conto um aspecto moderno e nos faz perguntar se a antiga tradição pode ter sido modificada por algum relato da história de Undine.

Havia uma ideia apresentada pelos Rosacruzes de espíritos habitando os elementos, e como Undine representava as influências da água, a esposa de Fouque, a Baronesa Caroline, escreveu uma história bastante bonita sobre os silfos do fogo. Mas a ludicidade caprichosa e a travessura de Undine como um ser elemental, e sua doce paciência quando sua alma é conquistada, são bastante originais, e de fato não podemos deixar de compartilhar, ou pelo menos entender, o começo da relutância de Huldbrand em relação à criatura sobrenatural por algo de sua própria carne e sangue. Ele é totalmente indigno, e embora neste conto haja muito menos significado espiritual do que em Sintram, não podemos deixar de ver que o pensamento de Fouque era que a natureza humana mais grosseira é incapaz de apreciar o que é absolutamente puro e sobrenatural.

C. M. YONGE.

UNDINE

por Friedrich de la Motte Fouque

A UNDINE

Undine! tu, espírito belo e amável, Desde que pela primeira vez, de um antigo canto, Eu vi brilhar tua luz intermitente, Como tens cantado para levar embora minhas preocupações!

Como tens te aninhado junto ao meu coração, E gentilmente te oferecido para transmitir Tuas tristezas ao meu ouvido atento, Como uma criança meio tímida, meio confiante, Enquanto meu alaúde, em notas selvagens da floresta, Ecoava teus acentos por toda parte!

Então, muitos jovens eu venci a meditar Com amor sobre teus caminhos misteriosos, Com muitas donzelas a perscrutar A lenda de teus dias maravilhosos.

E agora, tanto damas quanto jovens desejariam Ouvir meu conto mais uma vez; Não, doce Undine, não tenhas medo! Entra em seus salões com passos leves, Cumprimenta cortesmente cada cavaleiro nobre, Mas afetuosamente cada donzela alemã.

E se eles perguntarem a respeito de mim, Oh, dize: “Ele é um cavalheiro, Que serve verdadeira e valentemente, Em torneios e festividades, Com alaúde e espada, cada dama justa!”

CAPÍTULO 1

Em uma bela noite, há muitas centenas de anos, um digno e velho pescador estava a remendar suas redes. O local onde habitava era extremamente pitoresco. O gramado verde sobre o qual construíra sua cabana estendia-se muito para dentro de um grande lago; e essa faixa de verdura parecia prolongar-se nele tanto por amor às suas águas límpidas quanto o lago, movido por um impulso semelhante, esforçava-se para envolver o prado, com sua relva ondulante e flores, e a sombra refrescante das árvores, em seu abraço de amor. Pareciam ser atraídos um para o outro, e um visitar o outro como um hóspede.

Com relação aos seres humanos, de fato, neste local aprazível, excetuando o pescador e sua família, havia poucos, ou melhor, nenhum a ser encontrado. Pois, como ao fundo da cena, em direção ao oeste e noroeste, jazia uma floresta de extraordinária selvageria, a qual, devido à sua escuridão sem sol e recessos quase intransponíveis, bem como pelo medo das criaturas estranhas e ilusões visionárias a serem encontradas nela, a maioria das pessoas evitava entrar, a menos que em casos de extrema necessidade. O piedoso velho pescador, contudo, muitas vezes a atravessava sem dano, quando levava os belos peixes que pescava junto à sua bela faixa de terra para uma grande cidade que ficava a apenas uma curta distância além da floresta.

Ora, a razão pela qual ele conseguia passar por esse bosque com tanta facilidade pode ter sido, principalmente, porque ele não alimentava quase nenhum pensamento que não fosse de natureza religiosa; e, além disso, toda vez que cruzava as sombras de má fama, costumava cantar alguma canção sagrada com voz clara e coração sincero.

Pois bem, enquanto ele se sentava junto às suas redes naquela noite, sem temer nem tramar o mal, um súbito terror apoderou-se dele ao ouvir um ruído na escuridão do bosque, que se assemelhava ao trote de um corcel montado, e o barulho continuava a cada instante aproximando-se mais e mais de seu pequeno território.

O que ele imaginara, quando estava fora em muitas noites de tempestade, a respeito dos mistérios da floresta, passou como um relâmpago por sua mente naquele momento, especialmente a figura de um homem de estatura gigantesca e aparência branca como a neve, que balançava a cabeça de maneira premonitória. E quando ele ergueu os olhos em direção ao bosque, a forma surgiu diante dele com perfeita nitidez, ao ver o homem que balançava a cabeça surgir do emaranhado de folhas e ramos. Mas ele sentiu-se imediatamente encorajado ao refletir que nada que o alarmasse jamais lhe acontecera, mesmo na floresta; e, além disso, que naquela faixa de terra aberta, o espírito maligno, era provável, seria ainda menos ousado no exercício de seu poder. Ao mesmo tempo, ele rezou em voz alta com a mais sincera devoção, repetindo uma passagem da Bíblia. Isso lhe inspirou um novo ânimo e, percebendo logo a ilusão e o estranho engano em que sua imaginação o levara, mal pôde conter o riso. A figura branca que balançava a cabeça, que ele vira, transformou-se, num piscar de olhos, naquilo que na realidade era: um pequeno riacho, longo e familiarmente conhecido por ele, que corria espumando da floresta e desaguava no lago.

Mas o que causara o som surpreendente fora um cavaleiro em trajes suntuosos, que, sob as sombras das árvores, vinha cavalgando em direção à cabana. Seu gibão era violeta bordado a ouro, e sua capa escarlate pendia graciosamente sobre ele; em seu gorro de ouro polido ondulavam plumas vermelhas e violetas; e em seu talabarte dourado brilhava uma espada, ricamente ornamentada e extremamente bela. O corcel branco que carregava o cavaleiro era mais esguio do que os cavalos de guerra costumam ser, e ele tocava o gramado com um passo tão leve e elástico que o tapete verde e florido parecia mal receber o menor dano de sua pisada. O velho pescador, no entanto, não se sentiu perfeitamente seguro em sua mente, embora fosse forçado a acreditar que nenhum mal poderia ser temido de uma aparência tão agradável, e, portanto, como ditaram os bons modos, tirou o chapéu quando o cavaleiro se aproximou e permaneceu silenciosamente ao lado de suas redes.

Quando o estranho parou e perguntou se ele, com seu cavalo, poderia ter abrigo e entretenimento ali para a noite, o pescador respondeu: “Quanto ao seu cavalo, nobre senhor, não tenho melhor estábulo para ele do que este prado sombreado, e não tenho melhor forragem do que a relva que aqui cresce. Mas com relação ao senhor, será bem-vindo à nossa humilde cabana, e ao melhor jantar e pousada que pudermos lhe oferecer.”

O cavaleiro ficou muito satisfeito com essa recepção; e, descendo de seu cavalo, que seu anfitrião ajudou a livrar da sela e da rédea, deixou-o partir para a pastagem fresca, e assim falou: “Mesmo que eu o tivesse encontrado menos hospitaleiro e gentil, meu digno e velho amigo, eu suspeito que você dificilmente teria se livrado de mim hoje; pois aqui, percebo, um amplo lago jaz diante de nós, e quanto a cavalgar de volta para aquele bosque de maravilhas, com as sombras da noite se aprofundando ao meu redor, que o Céu, em sua graça, preserve-me desse pensamento.”

“Por favor, nem uma palavra sobre o bosque, ou sobre retornar a ele!” disse o pescador, e levou seu hóspede para dentro da cabana.

Lá, ao lado da lareira, de onde um fogo frugal difundia sua luz através do limpo quarto ao crepúsculo, sentava-se a velha esposa do pescador em uma grande cadeira. À entrada de seu nobre hóspede, ela se levantou e deu-lhe uma recepção cortês, mas sentou-se novamente em sua cadeira de honra, não fazendo a menor oferta dela ao estranho. Sobre isso, o pescador disse com um sorriso:

“Não deve se ofender com ela, jovem senhor, porque ela não cedeu a você a melhor cadeira da casa; é um costume entre as pessoas pobres ver isso como um privilégio dos idosos.”

“Ora, marido!” exclamou a velha senhora, com um sorriso tranquilo, “onde podem estar vagando seus miolos? Nosso hóspede, para dizer o mínimo, deve pertencer a um país cristão; e como é possível, então, que um homem tão bem-educado como ele parece ser pudesse sonhar em expulsar pessoas velhas de suas cadeiras? Tome um assento, meu jovem mestre,” continuou ela, voltando-se para o cavaleiro; “ainda há uma pequena cadeira bastante confortável do outro lado da sala ali, apenas tenha cuidado para não empurrá-la com muita força, pois uma de suas pernas, temo, não é das mais firmes.”

O cavaleiro trouxe o assento com todo o cuidado que ela poderia desejar, sentou-se nele de bom humor, e parecia-lhe quase como se de alguma forma tivesse parentesco com aquela pequena família, e acabasse de retornar para casa vindo de longe.

Essas três pessoas dignas agora começaram a conversar da maneira mais amigável e familiar. Em relação à floresta, de fato, sobre a qual o cavaleiro ocasionalmente fazia algumas perguntas, o velho preferiu saber e dizer pouco; ele era da opinião de que tocar levemente nela a esta hora do crepúsculo era o mais adequado e seguro; mas sobre os cuidados e confortos de seu lar, e seus negócios fora, o casal idoso falou mais livremente, e ouviu também com avidez de curiosidade enquanto o cavaleiro lhes contava suas viagens, e como ele tinha um castelo perto de uma das nascentes do Danúbio, e que seu nome era Sir Huldbrand de Ringstetten.

Já ouvira o estranho, enquanto estavam no meio de sua conversa, por vezes um respingo contra a pequena janela baixa, como se alguém estivesse jogando água contra ela. O velho, toda vez que ouvia o barulho, franzia as sobrancelhas com vexação; mas, finalmente, quando toda a extensão de uma chuva veio derramando como uma torrente contra os vidros, e borbulhando através da moldura deteriorada para dentro da sala, ele se levantou indignado, correu até a janela e gritou com uma voz ameaçadora —

“Undine! nunca deixarás essas loucuras? — nem mesmo hoje, quando temos um cavaleiro estranho conosco na cabana?”

Tudo lá fora agora ficou em silêncio, apenas uma risada baixa foi audível, e o pescador disse, enquanto voltava para seu assento: “O senhor terá a bondade, meu honrado hóspede, de perdoar esta travessura, e pode ser uma multidão de outras; mas ela não tem pensamento de maldade ou de qualquer dano. Esta travessa Undine, para confessar a verdade, é nossa filha adotiva, e ela se recusa obstinadamente a abandonar essa brincadeira infantil, embora já tenha entrado em seu décimo oitavo ano. Mas apesar disso, como eu disse antes, ela é de coração uma das melhores crianças do mundo.”

“VOCÊ pode dizer isso,” interrompeu a velha senhora, balançando a cabeça; “você pode dar uma conta melhor dela do que eu. Quando você retorna para casa da pescaria, ou de vender seus peixes na cidade, pode achar suas travessuras muito agradáveis, mas tê-la dançando ao seu redor o dia todo, e nunca, de manhã à noite, ouvir dela uma palavra de bom senso; e então, à medida que ela cresce, em vez de ter qualquer ajuda dela na família, encontrar nela uma causa contínua de ansiedade, temendo que seus humores selvagens nos arruínem completamente, isso é outra coisa, e o suficiente, enfim, para esgotar a paciência até de um santo.”

“Bem, bem,” respondeu o dono da casa com um sorriso, “você tem suas provações com Undine, e eu tenho as minhas com o lago. O lago frequentemente derruba minhas represas, e quebra as malhas de minhas redes, mas apesar de tudo, tenho um forte afeto por ele, e você também, apesar de seus grandes desgostos e vexames, pela nossa graciosa criancinha. Não é verdade?”

“Não se pode ficar muito zangado com ela,” respondeu a velha senhora, enquanto dava ao marido um sorriso de aprovação.

Naquele instante, a porta se abriu e uma bela garota, de beleza maravilhosa, saltou rindo para dentro e disse: “Vocês só estavam zombando de mim, pai; pois onde está agora o hóspede que vocês mencionaram?”

No mesmo momento, porém, ela percebeu o cavaleiro também, e permaneceu parada diante do jovem em espanto fixo. Huldbrand ficou encantado com sua figura graciosa e observou seus traços adoráveis com tanto mais interesse, pois imaginou que fora apenas sua surpresa que lhe permitira a oportunidade, e que ela logo se afastaria de seu olhar com timidez aumentada. Mas o evento foi exatamente o oposto do que ele esperava; pois, depois de olhar para ele por um longo tempo, ela tornou-se mais confiante, aproximou-se, ajoelhou-se diante dele e, enquanto brincava com uma medalha de ouro que ele usava presa a uma corrente rica em seu peito, exclamou:

“Ora, sua linda, sua bondosa hóspede! Como conseguiu finalmente chegar à nossa pobre cabana? Teve de vagar por anos e anos pelo mundo afora antes de conseguir vislumbrar o nosso recanto? Vem de dentro daquela floresta selvagem, meu belo cavaleiro?”

A velha foi tão pronta em sua repreensão que não lhe deu tempo para responder. Ordenou à donzela que se levantasse, demonstrasse modos melhores e fosse cuidar de seu trabalho. Mas Undine, sem dar resposta, puxou um pequeno banquinho para perto da cadeira de Huldbrand, sentou-se nele com seu bordado e disse em tom gentil:

“Trabalharei aqui.”

O velho fez como os pais costumam fazer com filhos aos quais foram excessivamente condescendentes. Fingiu não notar o comportamento estranho de Undine e começou a falar de outra coisa. Mas a donzela não permitiu que ele o fizesse. Interrompeu-o: “Perguntei ao nosso bondoso hóspede de onde ele veio até nós, e ele ainda não me respondeu.”

“Venho da floresta, sua adorável pequena visão”, respondeu Huldbrand; e ela falou novamente:

“Também deve me dizer como conseguiu entrar naquela floresta, tão temida e evitada, e as maravilhosas aventuras que nela encontrou; pois não há como escapar sem algo desse tipo.”

Huldbrand sentiu um leve tremor ao recordar o que presenciara e olhou involuntariamente para a janela, pois lhe pareceu que uma das formas estranhas que o haviam abordado na floresta devia estar lá, sorrindo através do vidro; mas não discerniu nada além da profunda escuridão da noite, que agora envolvia toda a paisagem. Com isso, sentiu-se mais composto e estava prestes a começar seu relato, quando o velho o interrompeu assim:

“Não, senhor cavaleiro; esta não é de forma alguma uma hora adequada para tais relatos.”

Mas Undine, em estado de grande excitação, saltou de seu pequeno banco e gritou, colocando-se diretamente diante do pescador: “Ele NÃO contará sua história, pai? Ele não contará? Mas é minha vontade: — ele contará! — que o impeça quem puder!”

Dizendo isso, ela bateu seu pezinho com veemência no chão, mas tudo com um ar de tal simplicidade cômica e bem-humorada que Huldbrand achou agora tão difícil desviar o olhar de sua emoção selvagem quanto antes de sua doçura e beleza. O velho, ao contrário, explodiu em descontentamento desenfreado. Repreendeu severamente Undine por sua desobediência e seu comportamento impróprio para com o estranho, e sua boa e velha esposa juntou-se a ele, batendo na mesma tecla.

Com essas repreensões, Undine ficou ainda mais excitada. “Se querem brigar comigo”, gritou ela, “e não querem me deixar ouvir o que tanto desejo, então durmam sozinhos em sua velha cabana esfumaçada!” E veloz como uma flecha, disparou pela porta e desapareceu na escuridão da noite.

Huldbrand e o pescador saltaram de seus assentos e correram para deter a moça irritada; mas, antes que pudessem alcançar a porta da cabana, ela já havia desaparecido na escuridão tempestuosa lá fora, e som algum, nem mesmo o de seu passo leve, traía o caminho que havia tomado. Huldbrand lançou um olhar de indagação ao seu anfitrião; quase lhe pareceu que toda a doce aparição, que tão subitamente mergulhara novamente na noite, não passava de uma continuação das formas maravilhosas que acabavam de pregar suas peças loucas com ele na floresta. Mas o velho resmungou entre os dentes:

“Esta não é a primeira vez que ela nos trata desta maneira. Agora nossos corações devem se encher de ansiedade, e nossos olhos não encontrarão sono durante toda a noite; pois quem pode nos garantir, apesar de suas fugas passadas, que ela não sofrerá algum mal, se continuar assim lá fora, no escuro e sozinha, até o amanhecer?”

“Então, por favor, pelo amor de Deus, pai, vamos segui-la”, clamou Huldbrand ansiosamente.

“Por que deveríamos?”, replicou o velho. “Seria um pecado se eu permitisse que o senhor, sozinho, procurasse a garota tola na solidão da noite; e meus velhos membros não conseguiriam me levar até essa andarilha selvagem, mesmo que eu soubesse para que lugar ela se dirigiu.”

“Ainda assim, deveríamos pelo menos chamá-la e implorar que retorne”, disse Huldbrand; e começou a chamar em tons de súplica sincera: “Undine! Undine! volte, volte!”

O velho balançou a cabeça e disse: “Toda a sua gritaria, por mais alta e longa que seja, não servirá de nada; o senhor ainda não sabe, senhor cavaleiro, quão voluntariosa é a pequena.” Mas ainda assim, mesmo esperando contra a esperança, ele próprio não conseguia parar de chamar a cada minuto, em meio à penumbra da noite: “Undine! Ah, querida Undine! Eu lhe imploro, por favor, volte — apenas desta vez.”

O resultado, porém, foi exatamente como o pescador dissera. Não podiam ouvir nem ver Undine; e como o velho não queria de forma alguma consentir que Huldbrand fosse em busca da fugitiva, ambos foram obrigados, no fim, a retornar para dentro da cabana. Lá, encontraram o fogo na lareira quase apagado, e a dona da casa, que levava a fuga e o perigo de Undine muito menos a peito do que seu marido, já havia ido descansar. O velho soprou as brasas, colocou lenha seca e, à luz do fogo, procurou por um frasco de vinho, que trouxe e colocou entre si e seu hóspede.

“O senhor, senhor cavaleiro, assim como eu”, disse ele, “está ansioso por causa da menina tola; e seria melhor, creio eu, passar parte da noite conversando e bebendo do que ficar virando e revirando em nossas esteiras de junco, tentando em vão dormir. Qual é a sua opinião?”

Huldbrand ficou bem satisfeito com o plano; o pescador insistiu para que ele ocupasse o assento de honra vazio, já que sua última ocupante o deixara para ir ao seu leito; e eles apreciaram a bebida e desfrutaram da conversa como dois bons homens e verdadeiros sempre deveriam fazer. É claro que, sempre que a menor coisa se movia diante das janelas, ou às vezes quando nada se movia, um deles olhava para cima e exclamava: “Lá vem ela!” Então permaneciam em silêncio por alguns momentos e, depois, quando nada aparecia, balançavam a cabeça, soltavam um suspiro e continuavam a conversa.

Mas, como nenhum dos dois conseguia pensar em outra coisa senão Undine, o melhor plano que puderam conceber foi que o velho pescador contasse, e o cavaleiro ouvisse, da maneira como Undine havia chegado à cabana. Então, o pescador começou da seguinte forma:

“Faz agora uns quinze anos que, um dia, atravessei a floresta selvagem com peixes para o mercado da cidade. Minha esposa tinha ficado em casa, como costumava fazer; e, desta vez, por um motivo de interesse mais do que comum, pois, embora estivéssemos começando a sentir o avanço da idade, Deus nos havia presenteado com uma criança de beleza maravilhosa. Era uma menina; e já começávamos a nos perguntar se não deveríamos, para o bem da recém-chegada, deixar nossa solidão e, para melhor criar esse precioso presente do Céu, mudar-nos para algum lugar mais habitado. Pessoas pobres, é certo, não podem nesses casos fazer tudo o que o senhor pode pensar que deveriam, senhor cavaleiro; mas todos devemos fazer o que pudermos.

“Bem, segui meu caminho, e esse assunto não saía da minha cabeça. Este pedaço de terra era-me muito caro, e eu tremia quando, em meio ao tumulto e às brigas da cidade, pensava comigo mesmo: ‘Em um cenário de agitação como este, ou pelo menos em um não muito mais tranquilo, devo logo estabelecer minha morada.’ Mas não murmurei por isso contra nosso bom Deus; pelo contrário, louvei-O em silêncio pela criança recém-nascida. Também diria uma inverdade se afirmasse que algo me aconteceu, seja em minha passagem pela floresta até a cidade, ou em meu retorno para casa, que me causasse mais alarme do que o habitual, pois, naquela época, eu nunca tinha visto qualquer aparência lá que pudesse me aterrorizar ou incomodar. O Senhor esteve sempre comigo naquelas sombras terríveis.”

Dizendo isso, ele tirou respeitosamente o gorro de sua cabeça calva e continuou sentado por um tempo considerável em pensamento devoto. Depois, cobriu-se novamente e continuou seu relato.

“Deste lado da floresta, infelizmente! Foi deste lado que a desgraça caiu sobre mim. Minha esposa veio ao meu encontro, desvairada, vestida de luto e com os olhos banhados em lágrimas. ‘Deus misericordioso!’, gritei, ‘onde está nossa filha? Fale!’

“‘Com Aquele a quem você clamou, meu querido marido’, respondeu ela, e nós entramos na cabana juntos, chorando em silêncio. Procurei pelo pequeno cadáver, temendo quase encontrar o que eu buscava; e foi então que soube como tudo havia acontecido.

“Minha esposa havia pegado a pequenina nos braços e caminhado até a margem do lago. Sentou-se ali, bem à beira dele; e, enquanto brincava com a criança, tão livre de todo medo quanto cheia de alegria, ela se inclinou de repente, como se visse algo muito bonito na água. Minha esposa viu-a rir, o querido anjo, e tentar pegar a imagem com suas mãozinhas; mas, em um momento — com um movimento mais rápido que a vista — ela saltou dos braços da mãe e afundou no lago, o espelho aquático no qual ela estivera olhando. Procurei por nossa querida perdida vezes sem conta; mas foi tudo em vão; não pude encontrar em parte alguma o menor vestígio dela.

“Na mesma noite, nós, pais sem filhos, sentamo-nos juntos à lareira de nossa cabana. Não tínhamos desejo de falar, mesmo que nossas lágrimas nos tivessem permitido. Enquanto estávamos sentados em silêncio lúgubre, olhando para o fogo, de repente ouvimos algo lá fora — um leve farfalhar na porta. A porta escancarou-se e vimos uma menina, de três ou quatro anos, mais bela do que posso dizer, parada no limiar, ricamente vestida e sorrindo para nós. Ficamos mudos de espanto, e eu não sabia por um tempo se a pequena forma era um ser humano real ou uma mera zombaria de encantamento. Mas logo percebi a água pingando de seus cabelos dourados e de suas roupas ricas, e que a linda criança estivera deitada na água e precisava urgentemente de nossa ajuda.

“‘Esposa’, disse eu, ‘ninguém pôde salvar nossa filha para nós; mas vamos fazer pelos outros o que teria nos tornado tão abençoados se alguém pudesse ter feito por nós.’

“Despimos a pequenina, colocamo-la na cama e demos-lhe algo para beber; a tudo isso ela não disse uma palavra, apenas fixou os olhos em nós — olhos azuis e brilhantes como o mar ou o céu — e continuou olhando para nós com um sorriso.

“Na manhã seguinte, não tínhamos motivos para temer que ela tivesse recebido outro dano que não fosse o de ter se molhado, e perguntei-lhe sobre seus pais e como ela poderia ter vindo até nós. Mas o relato que ela deu era confuso e inacreditável. Ela certamente deve ter nascido longe daqui, não apenas porque não consegui, por esses quinze anos, saber nada sobre seu nascimento, mas porque ela dizia então, e às vezes continua a dizer, muitas coisas de natureza tão singular que nenhum de nós sabe, afinal, se ela não teria caído entre nós vinda da lua; pois sua fala gira em torno de castelos dourados, cúpulas de cristal e Deus sabe que outras extravagâncias. O que, porém, ela relatou com mais clareza foi isto: que, enquanto estava uma vez passeando de barco com sua mãe no grande lago, caiu do barco na água; e que, quando recuperou os sentidos pela primeira vez, estava aqui sob nossas árvores, onde as cenas alegres da margem a encheram de deleite.

“Tínhamos agora outro cuidado pesando em nossas mentes, e que nos causava não pouca perplexidade e inquietação. Decidimos, é claro, muito cedo, ficar com a criança que havíamos encontrado e criá-la, no lugar da nossa que havia se afogado; mas quem poderia nos dizer se ela tinha sido batizada ou não? Ela mesma não nos podia dar nenhuma luz sobre o assunto. Quando lhe fazíamos a pergunta, ela geralmente respondia que sabia muito bem que fora criada para o louvor e glória de Deus, e que estava disposta a deixar-nos fazer com ela tudo o que pudesse promover Sua glória e louvor.

“Minha esposa e eu raciocinamos da seguinte forma: ‘Se ela não foi batizada, não pode haver utilidade em adiar a cerimônia; e, se foi, ainda é melhor ter excesso de uma coisa boa do que falta.’

“Adotando esse ponto de vista sobre nossa dificuldade, tentamos encontrar um bom nome para a criança, já que, enquanto ela permanecia sem um, ficávamos muitas vezes perdidos, em nossa conversa familiar, sobre como chamá-la. Concordamos, enfim, que Dorothea seria o mais adequado para ela, pois eu tinha ouvido em algum lugar que esse nome significava um presente de Deus, e certamente ela fora enviada a nós pela Providência como um presente, para nos consolar em nossa miséria. Ela, ao contrário, não queria nem ouvir falar em Dorothea; insistia que, como fora chamada Undine por seus pais, Undine ela deveria continuar sendo chamada. Ocorreu-me, então, que este era um nome pagão, que não se encontrava em calendário algum, e resolvi pedir o conselho de um padre na cidade. Ele não queria ouvir falar no nome Undine; e, cedendo ao meu pedido urgente, veio comigo através da floresta encantada para realizar o rito do batismo aqui em minha cabana.

“A pequena donzela estava diante de nós tão lindamente adornada, e com tal ar de graça, que o coração do padre amoleceu de imediato em sua presença; e ela o agradou tão docemente, e gracejou com ele tão alegremente, que ele finalmente não se lembrou de nenhuma de suas muitas objeções ao nome de Undine.

“Assim, pois, foi ela batizada Undine; e, durante a santa cerimônia, comportou-se com grande propriedade e doçura, por mais selvagem e voluntariosa que fosse em outras ocasiões; pois, nisto, minha esposa estava bem certa, quando mencionou a ansiedade que a criança nos causou. Se eu contasse ao senhor —”

Neste momento, o cavaleiro interrompeu o pescador para chamar sua atenção para um som profundo, como o de uma enchente, que chegara aos seus ouvidos durante a fala do velho. E agora as águas vinham se derramando com fúria redobrada diante das janelas da cabana. Ambos saltaram para a porta. Lá viram, à luz da lua agora surgida, o riacho que vinha da floresta correndo selvagemente sobre suas margens, arrastando consigo pedras e galhos de árvores em seu curso rápido. A tempestade, como se despertada pelo tumulto, irrompeu das nuvens, cujas massas imensas de vapor percorriam a lua com a rapidez do pensamento; o lago rugia sob o vento que varria a espuma de suas ondas; enquanto as árvores desta estreita península gemiam da raiz até o ramo mais alto, enquanto se curvavam e balançavam acima da torrente.

“Undine! Em nome de Deus, Undine!”, gritaram os dois homens em agonia. Nenhuma resposta foi dada. E agora, alheios a tudo o mais, correram da cabana, um em uma direção, outro em outra, procurando e chamando.

CAPÍTULO 2

Quanto mais Huldbrand procurava por Undine sob as sombras da noite, sem encontrá-la, mais ansioso e confuso ele ficava. A impressão de que ela era um mero fantasma da floresta ganhou uma nova ascendência sobre ele; de fato, em meio ao uivo das ondas e da tempestade, ao estalo das árvores e à mudança completa do cenário outrora tão pacífico e belo, ele sentiu-se tentado a ver toda a península, juntamente com a cabana e seus habitantes, como pouco mais do que uma zombaria de seus sentidos. Mas ainda ouvia ao longe a gritaria ansiosa e incessante do pescador, “Undine!”, e também de sua velha esposa, que rezava e cantava salmos.

Por fim, quando se aproximou do riacho, que havia transbordado suas margens, percebeu, ao luar, que ele tomara seu curso selvagem diretamente em frente à floresta assombrada, de modo a transformar a península em uma ilha.

“Deus misericordioso!”, sussurrou para si mesmo, “se Undine se aventurou um passo sequer dentro daquela floresta terrível, o que será dela? Talvez tudo tenha sido devido ao seu espírito esportivo e voluntarioso, porque eu não lhe daria qualquer relato de minhas aventuras lá. E agora o riacho está rolando entre nós, ela pode estar chorando sozinha do outro lado, em meio a horrores espectrais!”

Um gemido de arrepiamento escapou-lhe; e, subindo sobre algumas pedras e troncos de pinheiros derrubados, a fim de entrar na corrente impetuosa, resolveu, fosse vadando ou nadando, procurar a andarilha na outra margem. Sentiu, é verdade, todo o pavor e o assombro retraído rastejarem sobre ele, o que já havia sofrido à luz do dia entre os galhos da floresta, agora agitados e rugindo. Mais do que tudo, um homem alto de branco, que ele conhecia muito bem, surgiu diante de sua vista, enquanto estava parado, sorrindo e balançando a cabeça na grama além da água. Mas mesmo formas monstruosas como esta apenas o impeliam a atravessar em direção a elas, quando o pensamento lhe ocorreu de que Undine poderia estar lá sozinha e em agonia de morte.

Ele já havia agarrado um galho forte de um pinheiro e estava se apoiando nele na corrente turbulenta, contra a qual dificilmente conseguia manter-se ereto; mas avançou mais fundo com um espírito corajoso. Naquele instante, uma voz suave de aviso gritou perto dele: “Não se arrisque, não se arrisque! — aquele VELHO, o RIACHO, é cheio demais de truques para ser confiado!” Ele conhecia os tons suaves da voz; e enquanto ficava como que fascinado sob as sombras que agora velavam obscuramente a lua, sua cabeça girava com o inchaço e o rolamento das ondas, ao vê-las subindo momentaneamente acima de seu joelho. Ainda assim, ele desprezava a ideia de desistir de seu propósito.

“Se você não está realmente aí, se você está apenas brincando ao meu redor como uma névoa, que eu também me despeça da vida e me torne uma sombra como você, querida, querida Undine!” Chamando assim em voz alta, ele novamente moveu-se mais profundamente para dentro do riacho. “Olhe ao seu redor — ah, por favor, olhe ao seu redor, lindo jovem estranho! Por que correr para a morte tão loucamente?”, gritou a voz pela segunda vez perto dele; e, olhando para um lado, percebeu, à luz da lua, novamente sem nuvens, uma pequena ilha formada pela inundação; e, agachada sobre seu gramado florido, sob os galhos das árvores que formavam um caramanchão, viu a sorridente e adorável Undine.

Oh, com que muito mais alegria do que antes o jovem usou seu cajado robusto! Alguns passos, e ele havia atravessado a inundação que corria entre ele e a donzela; e ele estava perto dela no pequeno pedaço de grama verde, em segurança, protegido pelas árvores velhas. Undine levantou-se pela metade e envolveu seu pescoço com os braços para puxá-lo suavemente para baixo, sobre o assento macio ao seu lado.

“Aqui você me contará sua história, meu lindo amigo”, respirou ela em um sussurro baixo; “aqui as pessoas velhas e rabugentas não podem nos perturbar; e, além disso, nosso teto de folhas aqui servirá tão bem de abrigo quanto a pobre cabana delas.”

“É o próprio céu”, gritou Huldbrand; e, envolvendo-a em seus braços, beijou a linda garota com fervor.

O velho pescador, entrementes, chegara à margem do riacho e gritou do outro lado: “Ora, o que é isto, senhor cavaleiro! Recebi-o com as boas-vindas que um homem de coração verdadeiro dá a outro; e agora você se senta aí, acariciando minha filha adotiva em segredo, enquanto me deixa vagar pela noite em minha ansiedade à procura dela.”

“Só neste momento a encontrei, velho pai”, gritou o cavaleiro através da água.

“Tanto melhor”, disse o pescador, “mas agora apresse-se e traga-a até mim em terra firme.”

A isso, porém, Undine não quis de modo algum consentir. Ela declarou que preferia entrar na floresta selvagem com o belo estranho do que retornar à cabana onde era tão contrariada em seus desejos e da qual o cavaleiro, cedo ou tarde, iria embora. Então, lançando seus braços em torno de Huldbrand, ela cantou o seguinte verso com a doçura trêmula de um pássaro:

“Um regato deixou seu vale nevoento, E fortunas selvagens explorou, Cansado enfim alcançou o oceano, E a seu vale jamais retornou.”

O velho pescador chorou amargamente com sua canção, mas sua emoção pareceu despertar pouca ou nenhuma simpatia nela. Ela beijou e acariciou seu novo amigo, que por fim lhe disse: “Undine, se o sofrimento do velho não toca seu coração, não pode deixar de mover o meu. Devemos voltar para ele.”

Ela abriu seus grandes olhos azuis para ele com espanto e falou, por fim, com um sotaque lento e hesitante: “Se você pensa assim, está bem, tudo está certo para mim que você julga ser o certo. Mas o velho ali deve primeiro me dar sua promessa de que permitirá que você, sem objeções, relate o que viu na floresta, e... bem, outras coisas se resolverão por si mesmas.”

“Venha... apenas venha!” gritou o pescador para ela, incapaz de pronunciar outra palavra. Ao mesmo tempo, ele estendeu os braços sobre a correnteza em direção a ela e, para lhe dar a garantia de que faria o que ela pedia, acenou com a cabeça. Esse movimento fez com que seu cabelo branco caísse estranhamente sobre o rosto, e Huldbrand não pôde deixar de se lembrar do homem branco que acenava na floresta. Sem permitir, contudo, que nada lhe causasse a menor confusão, o jovem cavaleiro tomou a bela moça em seus braços e a levou através do estreito canal que o riacho abrira entre sua pequena ilha e a margem firme. O velho caiu sobre o pescoço de Undine e achou impossível expressar sua alegria ou beijá-la o suficiente; até a velha senhora aproximou-se e abraçou a moça recuperada muito cordialmente. Cada palavra de censura foi cuidadosamente evitada; tanto mais, na verdade, quanto até Undine, esquecendo sua teimosia, quase sobrecarregou seus pais adotivos com carícias e o balbucio da ternura.

Quando, enfim, o excesso da alegria por recuperar a filha diminuiu, a manhã já havia amanhecido, brilhando sobre as águas do lago; a tempestade havia se acalmado, os pequenos pássaros cantavam alegremente nos galhos úmidos.

Como Undine agora insistia em ouvir o relato das aventuras prometidas pelo cavaleiro, o casal idoso concordou prontamente com seu desejo. O desjejum foi trazido para debaixo das árvores que ficavam atrás da cabana, voltadas para o lago ao norte, e eles se sentaram com corações contentes; Undine aos pés do cavaleiro, sobre a grama. Feitos esses preparativos, Huldbrand começou sua história da seguinte maneira:

“Faz agora cerca de oito dias que cavalguei até a livre cidade imperial que fica ali, do outro lado da floresta. Logo após minha chegada, um esplêndido torneio e uma corrida de argola ocorreram lá, e não poupei nem meu cavalo nem minha lança nos encontros.

“Certa vez, enquanto eu fazia uma pausa na arena para descansar do exercício vigoroso e devolvia meu elmo a um de meus atendentes, uma figura feminina de extraordinária beleza chamou minha atenção, enquanto, vestida magnificamente, ela permanecia observando em uma das varandas. Soube, ao indagar uma pessoa próxima, que o nome da jovem dama era Bertalda e que ela era filha adotiva de um dos poderosos duques deste país. Ela também, observei, olhava para mim, e as consequências foram tais como nós, jovens cavaleiros, costumamos experimentar; qualquer sucesso na equitação que eu pudesse ter tido antes, agora eu era favorecido com uma sorte ainda melhor. Naquela noite, fui o par de Bertalda na dança, e desfrutei da mesma distinção durante o restante do festival.”

Uma dor aguda em sua mão esquerda, enquanto pendia descuidadamente ao seu lado, interrompeu aqui o relato de Huldbrand e atraiu seu olhar para a parte afetada. Undine havia cravado seus dentes perolados, e não sem alguma intensidade, em um de seus dedos, parecendo ao mesmo tempo muito sombria e descontente. De repente, contudo, ela olhou em seus olhos com uma expressão de terna melancolia e sussurrou quase inaudivelmente:

“A culpa é toda sua.”

Ela então cobriu o rosto; e o cavaleiro, estranhamente embaraçado e pensativo, continuou com sua história.

“Esta dama, Bertalda, de quem falei, é de espírito orgulhoso e caprichoso. O segundo dia em que a vi, ela não me agradou de modo algum tanto quanto no primeiro, e no terceiro dia menos ainda. Mas continuei ao seu redor porque ela me mostrava mais favor do que a qualquer outro cavaleiro, e aconteceu que, brincalhão, pedi-lhe que me desse uma de suas luvas. ‘Quando você tiver entrado na floresta assombrada sozinho’, disse ela; ‘quando você tiver explorado suas maravilhas e me trazido um relato completo delas, a luva será sua.’ Quanto a conseguir sua luva, não tinha importância alguma para mim, mas a palavra havia sido dita, e nenhum cavaleiro honrado permitiria ser incitado a tal prova de valor uma segunda vez.”

“Pensei”, disse Undine, interrompendo-o, “que ela o amava.”

“Parecia ser assim”, respondeu Huldbrand.

“Ora!” exclamou a donzela, rindo, “isso é inacreditável; ela deve ser muito estúpida. Afastar de si aquele que lhe era caro! E, pior de tudo, para aquela floresta mal-afamada! A floresta e seus mistérios, por mim, poderiam ter esperado tempo suficiente.”

“Ontem de manhã, então”, prosseguiu o cavaleiro, sorrindo gentilmente para Undine, “parti da cidade, com meu empreendimento diante de mim. A luz matinal repousava rica sobre o gramado verdejante. Brilhava tão rosada nos troncos esguios das árvores, e havia um sussurro tão alegre entre as folhas, que em meu coração não pude deixar de rir das pessoas que temiam encontrar algo que as aterrorizasse em um lugar tão delicioso. ‘Passarei logo pela floresta e retornarei tão depressa quanto’, disse a mim mesmo, no transbordar de um sentimento alegre, e antes que eu percebesse bem, havia entrado profundamente nas sombras verdes, enquanto da planície que ficava atrás de mim eu não conseguia mais avistar sequer um vislumbre.

“Então, a convicção pela primeira vez me impressionou, de que em uma floresta de tão grande extensão eu poderia muito facilmente me perder, e que isso, talvez, pudesse ser o único perigo que provavelmente ameaçaria aqueles que explorassem seus recessos. Então fiz uma pausa e me voltei na direção do sol, que entrementes subira um pouco mais, e enquanto olhava para cima para observá-lo, vi algo negro entre os galhos de um carvalho imponente. Meu primeiro pensamento foi: ‘É um urso!’ e agarrei minha arma. O objeto então me interpelou de cima com uma voz humana, mas em um tom muito áspero e hediondo: ‘Se eu, aqui no alto, não roer estes galhos secos, Senhor Tolo, o que teremos para assar você quando chegar a meia-noite?’ E com isso ele sorriu e fez um barulho tão grande com os galhos que meu corcel ficou louco de pavor e correu furiosamente para frente comigo, antes que eu tivesse tempo de ver claramente que tipo de besta do diabo era aquela.”

“Você não deve falar assim”, disse o velho pescador, benzendo-se. Sua esposa fez o mesmo, sem dizer uma palavra, e Undine, enquanto seu olho brilhava de prazer, olhou para o cavaleiro e disse: “O melhor da história, contudo, é que até agora eles não o assaram! Continue agora, seu belo cavaleiro.”

O cavaleiro então continuou com suas aventuras. “Meu cavalo estava tão selvagem que quase me lançou contra galhos e troncos de árvores. Ele estava pingando de suor devido ao terror, ao calor e ao esforço violento de seus músculos. Ainda assim, recusava-se a diminuir sua carreira. Finalmente, totalmente fora do meu controle, ele tomou seu curso diretamente para cima de uma encosta pedregosa, quando subitamente um homem alto e branco brilhou diante de mim e se lançou através do caminho que meu corcel louco estava tomando. A essa aparição, ele estremeceu com novo pavor e parou trêmulo. Aproveitei essa chance para recuperar meu comando sobre ele e, pela primeira vez, percebi que meu libertador, longe de ser um homem branco, era apenas um riacho de brilho prateado, espumando perto de mim em sua descida da colina, enquanto cruzava e detinha o curso do meu cavalo com sua torrente de águas.”

“Obrigada, obrigada, querido riacho!” gritou Undine, batendo suas mãozinhas. Mas o velho balançou a cabeça e olhou para baixo, pensativo.

“Mal me ajeitei em minha sela e peguei as rédeas novamente”, prosseguiu Huldbrand, “quando um anão de aspecto feiticeiro já estava ao meu lado, diminuto e feio além da imaginação, sua compleição de um amarelo-amarronzado e seu nariz quase não menor que o resto dele junto. A boca do sujeito era fendida quase de orelha a orelha, e ele mostrava os dentes com um sorriso de cortesia idiota, enquanto me sobrecarregava com reverências e mesuras inúmeras. A farsa tornando-se excessivamente enfadonha, agradeci-lhe com as pouquíssimas palavras que pude usar, virei meu corcel ainda trêmulo e pretendi ou buscar outra aventura, ou, caso não encontrasse nenhuma, tomar meu caminho de volta à cidade; pois o sol, durante minha caçada selvagem, passara do meridiano e agora apressava-se para o oeste. Mas este vilão de anão saltou no mesmo instante e, com um giro tão rápido quanto um relâmpago, ficou diante do meu cavalo novamente. ‘Saia do caminho!’ gritei ferozmente; ‘a besta está selvagem e não pensará duas vezes em passar por cima de você.’

“‘Ai, ai’, gritou o diabrete com um rosnado, bufando uma risada ainda mais terrivelmente idiota; ‘pague-me, primeiro pague o que me deve. Detive seu belo cavalinho para você; sem minha ajuda, tanto você quanto ele estariam agora estatelados lá embaixo, naquele desfiladeiro pedregoso. Hu! De que queda horrível eu o salvei!’

“‘Bem, não faça mais caretas’, disse eu, ‘mas pegue seu dinheiro e vá embora, embora cada palavra que você diz seja falsa. Foi o riacho ali, criatura miserável, e não você, que me salvou’, e ao mesmo tempo deixei cair uma moeda de ouro em seu gorro de feiticeiro, que ele tirara da cabeça enquanto implorava diante de mim.

“Então trotei e o deixei, mas ele gritou atrás de mim; e de repente, com uma rapidez inconcebível, ele estava perto do meu lado. Fiz meu cavalo galopar. Ele galopou comigo, embora parecesse com grande dificuldade, e com um movimento estranho, meio ridículo e meio horrível, forçando ao mesmo tempo cada membro e feição em distorção, ele ergueu a moeda de ouro e gritou a cada salto: ‘Falsificada! falsa! moeda falsa! falsificada!’ e tal foi o som estranho que emanava de seu peito oco, que você teria suposto que a cada grito ele deveria ter caído morto no chão. Durante tudo isso, sua língua vermelha e repugnante pendia para fora de sua boca.

“Parei atordoado e perguntei: ‘O que você quer dizer com esse grito? Pegue outra peça de ouro, pegue duas, mas deixe-me.’

“Ele então começou novamente suas saudações de cortesia hediondas e rosnou como antes: ‘Ouro não, não será ouro, meu jovem cavalheiro. Já tenho demais desse lixo, como mostrarei a você em pouco tempo.’

“Naquele momento, e o próprio pensamento não poderia ter sido mais instantâneo, pareci ter adquirido novos poderes de visão. Podia ver através da planície verde sólida, como se fosse vidro verde, e a superfície lisa da terra fosse redonda como um globo, e dentro dela vi multidões de goblins, que buscavam seu passatempo e se divertiam com prata e ouro. Eles rolavam e se reviravam, cabeças para cima e cabeças para baixo; atiravam uns nos outros por esporte com os metais preciosos e, com malícia irritante, sopravam poeira de ouro nos olhos uns dos outros. Meu odioso companheiro ordenou aos outros que lhe alcançassem uma vasta quantidade de ouro; ele mostrou-me isso com uma risada e então atirou-o novamente, ressoando e tinindo, para o abismo incomensurável.

“Após esse desdém pelo ouro, ele ergueu a peça que eu lhe dera, mostrando-a aos seus irmãos goblins lá embaixo, e eles riram imoderadamente de uma moeda tão inútil e me vaiaram. Por fim, levantando seus dedos todos sujos de minério, apontaram-nos para mim com desprezo; e cada vez mais selvagem, cada vez mais denso, cada vez mais louco, a multidão subia para onde eu estava sentado, contemplando essas maravilhas. Então o terror me dominou, como antes dominara meu cavalo. Cravei as esporas em seus flancos, e quão longe ele correu comigo através da floresta, durante este segundo de meus arroubos selvagens, é impossível dizer.

“Finalmente, quando cheguei a uma parada completa novamente, o frescor da noite estava ao meu redor. Avistei o brilho de um caminho branco através dos galhos das árvores; e, presumindo que ele me levaria para fora da floresta em direção à cidade, desejei abrir caminho por ele. Mas um rosto, perfeitamente branco e indistinto, com feições sempre mutáveis, continuava a se projetar e a espiar entre as folhas. Tentei evitá-lo, mas onde quer que eu fosse, lá também aparecia o rosto sobrenatural. Fiquei enfurecido com essa interrupção e decidi avançar com meu corcel contra a aparição a toda velocidade, quando uma nuvem de espuma branca veio correndo sobre mim e meu cavalo, de modo que ficamos quase cegos e felizes por virar e escapar. Assim, passo a passo, ele nos forçava a avançar, e sempre para fora do caminho, deixando-nos na maior parte das vezes apenas uma direção aberta. Quando avançávamos nela, ele continuava seguindo logo atrás de nós, mas não causava o menor dano ou inconveniente.

“Quando, por vezes, olhava ao meu redor para a forma, percebia que o rosto branco, que espirrava sobre nós seu chuveiro de espuma, repousava sobre um corpo igualmente branco e de tamanho mais que gigantesco. Muitas vezes, também, recebi a impressão de que toda a aparição não passava de um riacho ou torrente errante; mas a respeito disso nunca pude chegar a qualquer certeza. Ambos, cavalo e cavaleiro, cansamo-nos enquanto moldávamos nosso curso de acordo com os movimentos do homem branco, que continuava balançando a cabeça para nós, como se quisesse dizer: ‘Muito bem!’ E assim, enfim, saímos aqui, na borda da floresta, onde vi o gramado fresco, as águas do lago e sua pequena cabana, e onde o homem branco e alto desapareceu.”

“Bem, graças ao céu que ele se foi!” gritou o velho pescador; e começou então a falar sobre como seu hóspede poderia retornar mais convenientemente aos seus amigos na cidade. Nisso, Undine começou a rir sozinha, mas tão baixo que o som era quase imperceptível. Huldbrand, observando isso, disse: “Pensei que você estivesse feliz em me ver aqui; por que, então, agora parece tão feliz quando nossa conversa gira em torno de eu ir embora?”

“Porque você não pode ir embora”, respondeu Undine. “Por favor, faça uma única tentativa; tente com um barco, com seu cavalo ou sozinho, como preferir, cruzar aquele riacho da floresta que rompeu suas margens; ou melhor, não faça tentativa alguma, pois você seria despedaçado pelas pedras e troncos de árvores que você vê serem levados com tanta violência. E quanto ao lago, eu o conheço bem; até meu pai não se atreve a sair com seu barco longe o suficiente para ajudá-lo.”

Huldbrand levantou-se, sorrindo, a fim de olhar ao redor e observar se o estado das coisas era tal como Undine o descrevera. O velho acompanhou-o, e a donzela ia alegremente dançando ao lado deles. Encontraram tudo, de fato, exatamente como Undine dissera, e que o cavaleiro, querendo ou não, deveria se submeter a permanecer na ilha, tão recentemente uma península, até que a enchente baixasse.

Quando os três retornavam à cabana após seu passeio, o cavaleiro sussurrou no ouvido da pequena donzela: “Bem, querida Undine, você está zangada por eu permanecer?”

“Ah”, ela respondeu mal-humorada, “não fale comigo! Se eu não tivesse mordido você, quem sabe que coisas bonitas você teria colocado em sua história sobre Bertalda?”

CAPÍTULO 3

Pode ter acontecido contigo, meu caro leitor, depois de ser muito levado de um lado para o outro no mundo, chegar finalmente a um lugar onde tudo estava bem contigo. O amor pelo lar e por suas alegrias pacíficas, inato a todos, brotou novamente em teu coração; pensaste que teu lar estava adornado com todas as flores da infância e daquele amor mais puro e profundo que crescera sobre os túmulos dos teus entes queridos, e que aqui era bom viver e construir casas. Mesmo que tenhas errado e tenhas tido de lamentar amargamente teu erro, isso nada tem a ver com meu propósito, e tu mesmo não gostarás de refletir sobre a triste lembrança. Mas recorda aqueles sentimentos inefavelmente doces, aquela saudação angelical de paz, e serás capaz de entender qual foi a felicidade do cavaleiro Huldbrand durante sua estadia naquela estreita faixa de terra.

Ele frequentemente observava, com satisfação sincera, que o riacho da floresta continuava a cada dia a inchar e rolar com um ímpeto mais impetuoso; e isso o forçava a prolongar sua permanência na ilha. Parte do dia ele vagava por aí com uma antiga besta, que encontrara em um canto da cabana e consertara a fim de abater as aves aquáticas que voavam por cima; e tudo o que ele tinha a sorte de atingir trazia para casa para um bom assado na cozinha. Quando ele chegava com seu espólio, Undine raramente deixava de recebê-lo com uma bronca, porque ele privara cruelmente de vida as criaturinhas felizes e alegres enquanto brincavam lá no alto, no oceano azul do ar; mais do que isso, ela muitas vezes chorava amargamente ao ver a ave aquática morta em sua mão. Mas, em outras ocasiões, quando ele retornava sem ter abatido nenhuma, ela lhe dava uma bronca igualmente séria, já que, devido à sua desatenção e falta de habilidade, eles teriam agora de se contentar com um jantar de peixe. Suas provocações brincalhonas sempre tocavam seu coração com deleite; tanto mais, pois ela geralmente se esforçava para compensar seu fingido mau humor com carícias ternas.

Os velhos viam com prazer essa familiaridade de Undine e Huldbrand; consideravam-nos noivos, ou mesmo casados, vivendo com eles em sua velhice naquela ilha, agora separada do continente. A solidão de sua situação também impressionava fortemente o jovem Huldbrand com o sentimento de que ele já era o noivo de Undine. Parecia-lhe que, para além daquelas águas que os cercavam, não existia outro mundo, ou, pelo menos, que ele jamais poderia atravessá-las para voltar a conviver com o mundo dos outros homens; e, quando por vezes seu corcel pastando erguia a cabeça e relinchava para ele, aparentemente indagando sobre suas façanhas cavaleirescas e lembrando-lho delas, ou quando seu brasão brilhava severamente para ele no bordado da sela e nos gualdrapes do cavalo, ou quando sua espada caía do prego onde estava pendurada na cabana, e reluzia aos seus olhos ao escorregar da bainha na queda, ele acalmava as dúvidas de sua mente dizendo a si mesmo: "Undine não pode ser filha de um pescador. Ela é, com toda a probabilidade, nativa de alguma região remota e membro de alguma família ilustre".

Havia uma coisa, contudo, pela qual ele nutria uma forte aversão: era ouvir a velha senhora repreender Undine. A moça selvagem, é verdade, geralmente ria da repreensão, não fazendo tentativa alguma de ocultar a extravagância de seu riso; mas aquilo parecia-lhe como tocar em sua própria honra; e ainda assim ele achava impossível culpar a velha esposa do pescador, uma vez que Undine sempre merecia pelo menos dez vezes mais repreensões do que recebia; então, ele continuou a sentir em seu coração uma terna afeição pela antiga dona da casa, e toda a sua vida fluía no calmo riacho do contentamento.

Houve, porém, uma interrupção por fim. O pescador e o cavaleiro estavam acostumados, durante o jantar e também à noite, quando o vento rugia lá fora, como raramente deixava de fazer ao cair da noite, a desfrutar juntos de um frasco de vinho. Mas agora seu estoque completo, que o pescador trazia de tempos em tempos da cidade, estava finalmente esgotado, e ambos estavam muito mal-humorados com a circunstância. Naquele dia, Undine ria deles excessivamente, mas eles não estavam dispostos a acompanhar suas brincadeiras com a mesma alegria de costume. Ao entardecer, ela saiu da cabana para escapar, como disse, da visão de dois rostos tão longos e cansativos.

Enquanto ainda era crepúsculo, algumas aparências de tempestade pareciam estar se formando novamente no céu, e as ondas já se erguiam e rugiam ao redor deles: o cavaleiro e o pescador correram para a porta, aterrorizados, para trazer a donzela para dentro, lembrando-se da angústia daquela noite em que Huldbrand entrara pela primeira vez na cabana. Mas Undine encontrou-os no mesmo instante, batendo palmas com grande alegria.

"O que me darão", ela gritou, "se eu lhes conseguir vinho? Ou melhor, não precisam me dar nada", continuou ela; "pois já estou satisfeita se parecerem mais alegres e estiverem com melhor espírito do que durante este último dia tão tedioso. Apenas venham comigo; o riacho da floresta trouxe um barril para a margem; e que eu seja condenada a dormir por uma semana inteira se não for um barril de vinho."

Os homens seguiram-na e, de fato, encontraram, em uma enseada coberta de arbustos na margem, um barril que os encheu de tanta alegria como se tivessem certeza de que continha o generoso vinho antigo pelo qual estavam sedentos. Primeiro de tudo, e com a maior rapidez possível, rolaram-no em direção à cabana; pois nuvens pesadas estavam surgindo novamente no oeste, e podiam distinguir as ondas do lago, na luz que se desvanecia, levantando suas cabeças brancas e espumantes, como se estivessem à espera da chuva, que ameaçava cair sobre eles a qualquer instante. Undine ajudou os homens tanto quanto pôde; e, quando a chuva, com um rugido de vento, veio subitamente varrendo em rápida perseguição, ela ergueu o dedo com uma ameaça alegre para a massa escura de nuvens e gritou:

"Nuvem, nuvem, tome cuidado! Cuidado para não nos molhar; ainda estamos longe de um abrigo."

O velho repreendeu-a por essa saída, como uma presunção pecaminosa; mas ela riu para si mesma suavemente, e nenhum mal veio de seu comportamento selvagem. E mais, o que estava além de suas expectativas, eles chegaram à sua lareira confortável sem se molhar, com seu prêmio assegurado; mas o barril mal havia sido aberto, revelando conter um vinho de sabor notavelmente fino, quando a chuva começou a cair sem restrições da nuvem negra, e a tempestade enfureceu-se através das copas das árvores e varreu longe as ondas das profundezas.

Tendo enchido imediatamente várias garrafas do barril, que lhes prometia um suprimento por muito tempo, sentaram-se ao redor da lareira brilhante; e, confortavelmente protegidos da tempestade, ficaram saboreando o vinho e trocando gracejos.

Mas o velho pescador tornou-se de repente extremamente grave e disse: "Ah, grande Deus! aqui estamos nós, nos regozijando com este presente rico, enquanto aquele a quem ele pertencia primeiramente, e de quem foi arrebatado pela fúria do riacho, deve, muito provavelmente, ter perdido a vida também."

"Nada disso", disse Undine, sorrindo, enquanto enchia a taça do cavaleiro até a borda.

Mas ele exclamou: "Pela minha honra imaculada, velho pai, se eu soubesse onde encontrá-lo e resgatá-lo, nenhum medo de exposição à noite, nem qualquer perigo, me impediria de tentar. Pelo menos, posso prometer-lhe que, se eu chegar novamente a um país habitado, encontrarei o dono deste vinho ou seus herdeiros e farei o reembolso em dobro ou triplo."

O velho sentiu-se gratificado com essa garantia; ele deu ao cavaleiro um aceno de aprovação e esvaziou sua taça com a consciência mais leve e com mais gosto.

Undine, porém, disse a Huldbrand: "Quanto ao reembolso e seu ouro, você pode fazer o que quiser. Mas o que você disse sobre arriscar-se, procurar e expor-se ao perigo, parece-me longe de ser sensato. Eu choraria os olhos se você perecesse em uma tentativa tão selvagem; e não é verdade que você preferiria ficar aqui comigo e com o bom vinho?"

"Certamente", respondeu Huldbrand, sorrindo.

"Então, você vê", replicou Undine, "você falou sem sabedoria. Pois a caridade começa em casa; e por que precisamos nos preocupar com nossos vizinhos?"

A dona da casa virou-se para longe dela, suspirando e balançando a cabeça; enquanto o pescador esquecia sua habitual indulgência para com a graciosa donzela e repreendeu-a desta forma:

"Isso soa exatamente como se você tivesse sido criada por pagãos e turcos"; e ele terminou sua repreensão acrescentando: "Que Deus perdoe tanto a mim quanto a você — criança insensível!"

"Bem, diga o que quiser, é isso que penso e sinto", respondeu Undine, "quem quer que me tenha criado; e todas as suas palavras não podem mudar isso."

"Silêncio!" exclamou o pescador, com uma voz de severa repreensão; e ela, que com todo o seu espírito selvagem era extremamente sensível ao medo, encolheu-se diante dele, aproximou-se de Huldbrand, tremendo, e disse muito suavemente:

"Você também está zangado, querido amigo?"

O cavaleiro apertou sua mão macia e acariciou ternamente seus cabelos. Ele foi incapaz de dizer uma palavra, pois seu vexame, surgido da severidade do velho para com Undine, selou seus lábios; e assim os dois casais sentaram-se um diante do outro, ao mesmo tempo aquecidos pela raiva e em silêncio embaraçado.

Em meio a essa quietude, uma leve batida na porta assustou a todos; pois há momentos em que uma pequena circunstância, surgindo inesperadamente, nos sobressalta como algo sobrenatural. Mas havia a fonte adicional de alarme, que a floresta encantada estava tão perto deles e que seu lugar de morada parecia, no momento, inacessível a qualquer ser humano. Enquanto olhavam uns para os outros em dúvida, a batida foi ouvida novamente, acompanhada por um gemido profundo. O cavaleiro saltou para pegar sua espada. Mas o velho disse, em um sussurro baixo:

"Se for o que temo que seja, nenhuma arma sua poderá nos proteger."

Undine, enquanto isso, foi até a porta e gritou com a voz firme de um desagrado destemido: "Espíritos da terra! se o seu objetivo é o mal, Kuhleborn lhes ensinará melhores maneiras."

O terror dos outros aumentou com esse discurso selvagem; eles olharam com medo para a moça, e Huldbrand estava apenas recuperando a presença de espírito suficiente para perguntar o que ela queria dizer, quando uma voz chegou até eles do lado de fora:

"Não sou um espírito da terra, embora um espírito ainda em seu corpo terreno. Vocês que estão aí dentro da cabana, se temem a Deus e gostariam de me oferecer assistência, abram-me sua porta."

Quando essas palavras foram ditas, Undine já a abrira; e, com a lâmpada lançando uma luz forte sobre a noite tempestuosa, perceberam um velho padre do lado de fora, que recuou aterrorizado quando seus olhos pousaram na visão inesperada de uma pequena donzela de tamanha beleza. Bem poderia ele pensar que devia haver magia no vento e feitiçaria em ação, quando uma forma de tão extraordinária formosura apareceu à porta de uma morada tão humilde. Então ele ergueu sua voz em oração:

"Que todos os bons espíritos louvem o Senhor Deus!"

"Não sou um espectro", disse Undine, com um sorriso. "Pareço tão assustadora? E você vê que não me encolho diante de palavras sagradas. Eu também tenho conhecimento de Deus e entendo o dever de louvá-Lo; cada um, certamente, tem seu próprio jeito de fazer isso, pois assim Ele nos criou. Entre, pai; você não encontrará nada além de pessoas dignas aqui."

O santo homem entrou curvando-se e lançou ao redor um olhar de escrutínio, vestindo ao mesmo tempo um ar muito plácido e venerável. Mas a água pingava de cada dobra de suas vestes escuras, de sua longa barba branca e das mechas brancas de seu cabelo. O pescador e o cavaleiro levaram-no para outro aposento e forneceram-lhe uma muda de roupa, enquanto entregavam suas próprias vestes às mulheres para secar. O velho estranho agradeceu-lhes de uma maneira humildíssima e cortês; mas, quando o cavaleiro lhe ofereceu seu esplêndido manto para se envolver, ele não pôde ser persuadido a aceitá-lo, escolhendo em vez disso um velho casaco cinzento que pertencia ao pescador.

Eles então retornaram ao aposento comum. A dona da casa ofereceu imediatamente sua poltrona ao padre e continuou insistindo até vê-lo devidamente instalado nela. "Você está velho e exausto", disse ela, "e é, além disso, um homem de Deus."

Undine empurrou para baixo dos pés do estranho seu pequeno banco, no qual, em todos os outros momentos, ela costumava sentar-se perto de Huldbrand, e mostrou-se muito gentil e amável para com o velho. Huldbrand sussurrou algumas pilhérias em seu ouvido, mas ela respondeu, gravemente:

"Ele é um ministro daquele Ser que criou a todos nós; e coisas sagradas não devem ser tratadas com leviandade."

O cavaleiro e o pescador refrescaram o padre com comida e vinho; e quando ele recuperou um pouco de suas forças e ânimo, começou a relatar como, no dia anterior, partira de seu claustro, que ficava longe, além do grande lago, a fim de visitar o bispo e inteirá-lo da angústia em que o claustro e suas aldeias tributárias haviam caído, devido às inundações extraordinárias. Depois de uma longa e cansativa caminhada, devido à subida das águas, ele fora forçado naquele dia, ao anoitecer, a obter a ajuda de alguns barqueiros e cruzar um braço do lago que havia rompido seu limite habitual.

"Mas dificilmente", continuou ele, "nosso pequeno barco de transporte tocou as ondas, quando aquela tempestade furiosa irrompeu, que ainda ruge sobre nossas cabeças. Parecia que as ondas estavam esperando nossa aproximação apenas para avançar sobre nós com uma loucura ainda mais selvagem. Os remos foram arrebatados das mãos dos meus homens em um instante; e, despedaçados pela força irresistível, foram levados cada vez mais longe à nossa frente sobre as ondas. Incapazes de dirigir nosso curso, cedemos ao poder cego da natureza e parecemos voar sobre as ondas em direção à sua margem distante, que já víamos emergir através da névoa e da espuma das profundezas. Foi então, finalmente, que nosso barco desviou de sua rota e balançou com um movimento que se tornou mais selvagem e vertiginoso: não sei se virou ou se a violência do movimento me lançou ao mar. Em minha agonia e luta com o pensamento de uma morte próxima e terrível, as ondas levaram-me adiante, até que fui lançado aqui, sob as árvores de sua ilha."

"Sim, uma ilha!" gritou o pescador; "há pouco tempo era apenas uma ponta de terra. Mas agora, desde que o riacho da floresta e o lago enlouqueceram, parece ter mudado completamente."

"Observei algo disso", respondeu o padre, "enquanto me esgueirava pela margem na obscuridade; e, não ouvindo nada ao meu redor além de uma espécie de alarido selvagem, percebi por fim que o barulho vinha de um ponto exatamente onde um caminho batido desaparecia. Então vi a luz em sua cabana e aventurei-me até aqui, onde não posso agradecer suficientemente ao meu Pai Celestial que, após me preservar das águas, também me conduziu a pessoas tão piedosas como vocês são; e ainda mais, pois é difícil dizer se algum dia verei outras pessoas neste mundo, exceto vocês quatro."

"O que quer dizer com essas palavras?" perguntou o pescador.

"Pode me dizer, então, quanto tempo durará essa comoção dos elementos?" respondeu o padre. "Sou velho; o riacho da minha vida pode facilmente afundar no solo e desaparecer antes que o transbordamento daquele riacho da floresta diminua. E, de fato, não é impossível que cada vez mais águas espumantes avancem entre vocês e aquela floresta, até que fiquem tão longe do resto do mundo que sua pequena canoa de pesca seja incapaz de atravessar, e os habitantes do continente esqueçam-se completamente de vocês em sua velhice, em meio à dissipação e às diversões da vida."

Com esse presságio melancólico, a velha senhora recuou com um sentimento de alarme, fez o sinal da cruz e gritou: "Deus nos livre!"

Mas o pescador olhou para ela com um sorriso e disse: "Que ser estranho é o homem! Supondo que o pior aconteça; nosso estado não seria diferente; de qualquer modo, o seu próprio não seria, querida esposa, do que é atualmente. Pois você tem estado, nestes muitos anos, mais longe de casa do que a borda da floresta? E viu um único ser humano além de Undine e de mim? Há apenas pouco tempo desde a chegada do cavaleiro e do padre. Eles ficarão conosco, mesmo que nos tornemos uma ilha esquecida; então, afinal, você sairá ganhando."

"Não sei", respondeu a antiga senhora; "é um pensamento sombrio, quando trazido claramente à mente, que estamos para sempre separados da humanidade, mesmo que, na verdade, nunca os conheçamos nem os vejamos."

"Então VOCÊ ficará conosco — então você ficará conosco!" sussurrou Undine, em uma voz mal audível e quase cantando, enquanto se aninhava mais perto do lado de Huldbrand. Mas ele estava imerso nas profundas e estranhas divagações de sua própria mente. A região, do outro lado do rio da floresta, parecia, desde as últimas palavras do padre, ter se afastado cada vez mais, em uma perspectiva sombria, de sua visão; e a ilha florescente em que ele vivia tornou-se verde e sorriu mais fresca em sua fantasia. Sua noiva brilhava como a mais bela rosa, não apenas deste recanto obscuro, mas até mesmo de todo o mundo; e o padre estava agora presente.

Somado a isso, a dona da família dirigia um olhar zangado para Undine, porque, mesmo na presença do padre, ela se inclinava tão ternamente sobre o cavaleiro; e parecia que ela estava prestes a explodir em uma repreensão dura. Então irrompeu da boca de Huldbrand, enquanto se voltava para o padre: "Pai, você vê aqui diante de si um par de noivos; e se esta donzela e estes bons velhos não tiverem objeção, você deve nos unir esta mesma noite."

O casal idoso ficou extremamente surpreso. Eles haviam pensado muitas vezes nisso, é verdade, mas até então nunca haviam mencionado; e agora, quando o cavaleiro falou, pareceu-lhes algo totalmente novo e inesperado. Undine tornou-se subitamente grave e olhou para baixo, pensativa, enquanto o padre fazia perguntas sobre as circunstâncias de seu encontro e perguntava aos velhos se davam seu consentimento à união. Depois de um grande número de perguntas e respostas, o assunto foi arranjado para a satisfação de todos; e a dona da casa foi preparar o aposento nupcial do jovem casal e também, com o objetivo de abrilhantar a solenidade nupcial, procurar duas velas consagradas, que ela guardava há muito tempo para esta ocasião.

O cavaleiro, enquanto isso, ocupava-se com sua corrente de ouro, com o propósito de soltar dois de seus elos, para que pudesse fazer uma troca de anéis com sua noiva. Mas quando ela viu seu objetivo, ela despertou de seu transe de divagação e exclamou:

"Não assim! Meus pais de forma alguma me enviaram ao mundo tão completamente destituída; pelo contrário, eles previram, mesmo naquela época, que uma noite como esta viria."

Falando assim, ela saiu da sala e, um momento depois, retornou com dois anéis preciosos, dos quais deu um ao seu noivo e manteve o outro para si. O velho pescador ficou além da medida espantado com isso; e sua esposa, que estava entrando novamente na sala, ficou ainda mais surpresa do que ele, que nenhum dos dois jamais tivesse visto essas joias em posse da criança.

"Meus pais", disse Undine, "costuraram essas bugigangas àquela bela vestimenta que eu usava no mesmo dia em que cheguei a vocês. Eles também me encarregaram, sob hipótese alguma, de mencioná-las a ninguém antes da noite do meu casamento. Na época da minha chegada, portanto, eu as tirei em segredo e as mantive escondidas até a presente hora."

O padre cortou agora todas as outras perguntas e admirações, enquanto acendia as velas consagradas, colocava-as sobre uma mesa e ordenava que o par de noivos ficasse de frente para ele. Ele então pronunciou as poucas palavras solenes da cerimônia e tornou-os um só. O casal mais velho deu aos mais jovens sua bênção; e a noiva, tremendo levemente e pensativa, inclinou-se sobre o cavaleiro.

O padre então falou: "Vocês são pessoas estranhas, afinal; pois por que me disseram que eram os únicos habitantes da ilha? Tão longe disso estar correto, eu vi, durante todo o tempo em que realizava a cerimônia, um homem alto e imponente, em um manto branco, parado diante de mim, olhando pela janela. Ele deve estar ainda esperando diante da porta, se porventura vocês o convidassem a entrar."

"Deus nos livre!" gritou a velha senhora, recuando; o pescador balançou a cabeça, sem abrir os lábios; e Huldbrand correu para a janela. Parecia-lhe que ele ainda podia discernir um traço branco, que logo desapareceu na penumbra. Ele convenceu o padre de que deveria ter se enganado em sua impressão; e todos sentaram-se juntos ao redor de uma lareira brilhante e confortável.

"Deus nos livre!" gritou a velha senhora, recuando; o pescador balançou a cabeça, sem abrir os lábios; e Huldbrand correu para a janela. Parecia-lhe que ele ainda podia discernir um traço branco, que logo desapareceu na penumbra. Ele convenceu o padre de que deveria ter se enganado em sua impressão; e todos sentaram-se juntos ao redor de uma lareira brilhante e confortável.

Huldbrand, porém, sentia-se inquieto; sempre que as chamas crepitavam, ele imaginava ouvir, ora um murmúrio de vozes, ora um som de riso fora da cabana; e, para afastar o medo, ele forçou-se a conversar com o padre. O bom homem, por sua vez, mostrava-se muito mais atento do que de costume. Ele falava de forma clara e compreensível, sem, contudo, conseguir disfarçar um certo receio; e, sempre que o vento soprava mais forte, ele olhava para a porta com uma expressão de preocupação.

Nada, porém, interrompeu a paz da noite. O padre, com uma prece, abençoou a cabana e o casal, retirando-se logo em seguida para o pequeno quarto que lhe fora reservado. O pescador e sua esposa também foram se deitar, e Huldbrand e Undine, na penumbra da sala, sentaram-se à mesa, na qual ainda restavam os restos da ceia, e conversaram sobre seus planos. A luz do fogo, que ainda brilhava, iluminava-os com um brilho suave e acolhedor.

Na manhã seguinte, quando o casal se preparou para partir, o padre, ao despedir-se, olhou para Undine com uma expressão de esperança misturada com cautela. Ele perguntou-lhe se ela havia, durante a noite, encontrado a paz que tanto buscava. Undine ajoelhou-se diante dele e, com um sorriso sereno, respondeu que o dom de uma alma, embora carregado de responsabilidade, era o maior tesouro que alguém poderia receber. O padre, emocionado, abençoou-a novamente.

Eles saíram da cabana, caminhando pela floresta banhada pelo sol da manhã. Huldbrand sentia-se cada vez mais seguro ao lado de sua esposa, que, com uma alegria contida e um olhar cheio de devoção, parecia guiar seus passos. O cavaleiro, contudo, não conseguia esquecer as estranhas palavras que ela pronunciara na noite anterior, mas o amor que sentia por ela superava qualquer dúvida.

"Diga-me, minha querida," disse ele, enquanto caminhavam sob a sombra das árvores, "aquele ser, aquele parente de quem você falou, ele ainda nos vigia?" Undine olhou para ele com uma expressão profunda e terna. "Ele respeita o nosso destino, Huldbrand. Ele sabe que a partir de agora a minha vida pertence apenas a você e à alma que, através do seu amor, floresceu em mim."

O cavaleiro, sentindo-se profundamente comovido, beijou-lhe a mão e, em silêncio, agradeceram ambos pelo caminho que, embora incerto, se abria diante deles. E assim, deixando para trás a cabana e o rio que, em sua mansidão, parecia abençoar a união, seguiram em direção ao mundo, onde o destino de Undine, com sua alma recém-despertada, começaria a trilhar novos caminhos.

Huldbrand cedeu às considerações dela e foi até o casal de anciãos para conferenciar a respeito da viagem, que ele propunha iniciar naquela mesma hora. O padre ofereceu-se como companhia ao jovem casal; e, após uma breve despedida, ele segurou a rédea enquanto o cavaleiro levantava sua bela esposa para o cavalo; e, com passos rápidos, atravessaram o canal seco com ela em direção à floresta. Undine chorava em silêncio, mas com intensa emoção; os velhos, à medida que ela se afastava, eram mais ruidosos na expressão de sua dor. Pareciam sentir, no momento da separação, tudo o que estavam perdendo em sua afetuosa filha adotiva.

Os três viajantes haviam alcançado as sombras mais espessas da floresta sem trocar uma palavra. Deve ter sido uma bela visão, naquele salão de verdura folhosa, ver a forma daquela adorável mulher sentada no corcel nobre e ricamente ornamentado, à sua esquerda o venerável padre nas vestes brancas de sua ordem, à sua direita o jovem e florescente cavaleiro, trajado em esplêndidas vestes de escarlate, ouro e violeta, cingido com uma espada que brilhava ao sol, e caminhando atentamente ao lado dela. Huldbrand não tinha olhos senão para sua esposa; Undine, que havia enxugado suas lágrimas de ternura, não tinha olhos senão para ele; e logo entraram no calado e silencioso colóquio de olhares e gestos, do qual, após algum tempo, foram despertados pelo discurso baixo que o padre mantinha com um quarto viajante, que entretanto se juntara a eles sem ser notado.

Ele vestia uma túnica branca, semelhante em forma ao traje da ordem do padre, exceto pelo fato de seu capuz pender muito baixo sobre o rosto, e de toda a vestimenta flutuar em dobras tão largas ao seu redor que o obrigava a cada momento a juntá-la e jogá-la sobre o braço, ou por algum expediente desse tipo retirá-la de seu caminho, e ainda assim não parecia de forma alguma impedir seus movimentos. Quando o jovem casal percebeu sua presença, ele dizia:

“E assim, venerável senhor, por muitos que tenham sido os anos que vivi aqui nesta floresta, nunca recebi o nome de eremita no seu sentido da palavra. Pois, como eu disse antes, não sei nada de penitência, e penso, também, que não tenho necessidade particular dela. Pergunta-me por que sou tão apegado à floresta? É porque sua paisagem é tão singularmente pitoresca, e me proporciona tanto passatempo quando, em minhas vestes brancas flutuantes, passo através de seu mundo de folhas e sombras sombrias; — e quando um doce raio de sol desce sobre mim, às vezes inesperadamente.”

“Você é um homem muito singular”, respondeu o padre, “e eu gostaria de ter um conhecimento mais íntimo de você.”

“E quem, então, pode ser você mesmo, para passar de uma coisa a outra?” indagou o estranho.

“Chamo-me Padre Heilmann”, respondeu o santo homem; “e sou do claustro de Nossa Senhora da Saudação, além do lago.”

“Bem, bem”, respondeu o estranho, “meu nome é Kuhleborn; e se eu fosse um defensor das distinções minuciosas de classe, poderia, com igual propriedade, exigir que você me desse o título de nobre senhor de Kuhleborn, ou senhor livre de Kuhleborn; pois sou tão livre quanto os pássaros na floresta, e, pode ser, um pouco mais. Por exemplo, agora tenho algo a dizer àquela jovem ali.” E antes que percebessem seu propósito, ele estava do outro lado do padre, perto de Undine, e esticando-se alto no ar, a fim de sussurrar algo em seu ouvido. Mas ela recuou dele em terror, e exclamou:

“Não tenho mais nada a ver com você.”

“Ho, ho”, gritou o estranho com uma risada, “você fez um grande casamento, de fato, já que não conhece mais seus próprios parentes! Não tem, então, nenhuma lembrança de seu tio Kuhleborn, que tão fielmente a carregou nas costas para esta região?”

“Seja como for”, respondeu Undine, “suplico-lhe que nunca mais apareça em minha presença. Agora tenho medo de você; e não vai meu marido temer e abandonar-me, se ele me vir associada a tal companhia e parentesco estranhos?”

“Você não deve esquecer, minha pequena sobrinha”, disse Kuhleborn, “que estou com você aqui como um guia; caso contrário, aqueles espíritos insensatos da terra, os gnomos que assombram esta floresta, lhe pregariam algumas de suas peças maliciosas. Deixe-me, portanto, continuar acompanhando-os em paz. Até aquele velho padre ali teve uma lembrança melhor de mim do que você; pois ele acabou de me assegurar que eu parecia ser muito familiar para ele, e que eu devia ter estado com ele na balsa, da qual ele caiu nas ondas. Ele certamente me viu lá; pois eu não era outro senão a tromba d'água que o arrancou de lá, e o impediu de afundar, enquanto eu o levava em segurança até a margem para o seu casamento.”

Undine e o cavaleiro voltaram seus olhos para o Padre Heilmann; mas ele parecia estar seguindo em frente, como se estivesse sonhando ou caminhando enquanto dormia, e não estivesse mais consciente de uma palavra que era dita. Undine então disse a Kuhleborn: “Já vejo ali o fim da floresta. Não precisamos mais da sua assistência, e nada agora nos alarma senão você mesmo. Portanto, suplico-lhe, pelo nosso amor e boa vontade mútuos, que desapareça, e nos permita seguir em paz.”

Kuhleborn pareceu ficar zangado com isso: ele lançou um olhar assustador para Undine, e sorriu ferozmente para ela. Ela gritou alto, e chamou seu marido para protegê-la. O cavaleiro saltou ao redor do cavalo tão rápido quanto um relâmpago, e, brandindo sua espada, golpeou a cabeça de Kuhleborn. Mas, em vez de separá-la de seu corpo, a espada apenas brilhou através de uma torrente, que corria espumando perto deles vinda de um penhasco elevado; e com um mergulho, que muito se assemelhava em som a uma explosão de riso, o riacho de uma só vez derramou-se sobre eles e deu-lhes um banho completo. O padre, como se subitamente despertasse de um transe, observou calmamente: “É isto o que eu esperava há algum tempo, porque o riacho desceu da encosta tão perto de nós — embora à primeira vista, de fato, parecesse assemelhar-se a um homem, e possuir o poder da fala.”

Enquanto a cachoeira vinha correndo de seu rochedo, ela proferiu distintamente estas palavras no ouvido de Huldbrand: “Cavaleiro imprudente! cavaleiro valente! Não estou zangado com você; não tenho nenhuma briga com você; apenas continue a defender sua adorável esposinha com o mesmo espírito, seu cavaleiro ousado! seu campeão valente!”

Após avançar alguns passos mais, os viajantes saíram em terreno aberto. A cidade imperial estendia-se brilhante diante deles; e o sol da tarde, que dourava suas torres com ouro, secou gentilmente suas vestes que haviam ficado tão completamente encharcadas.

O súbito desaparecimento do jovem cavaleiro, Huldbrand de Ringstetten, havia causado muito comentário na cidade imperial, e não pouca preocupação entre aqueles que, tanto por causa de sua perícia em torneios e danças, quanto por seus modos suaves e amáveis, haviam se apegado a ele. Seus atendentes não queriam deixar o lugar sem seu mestre, embora nem uma alma entre eles tivesse sido corajosa o suficiente para segui-lo nos temerosos recessos da floresta. Permaneceram, portanto, na estalagem, esperando ociosamente, como os homens costumam fazer, e mantendo o destino de seu senhor perdido fresco na memória por meio de suas lamentações.

Agora, quando as violentas tempestades e inundações foram observadas imediatamente após sua partida, a destruição do belo estranho tornou-se quase certa; até mesmo Bertalda havia descoberto abertamente sua tristeza, e detestava a si mesma por ter sido a causa de ele ter feito aquela excursão fatal à floresta. Seus pais adotivos, o duque e a duquesa, haviam entretanto vindo buscá-la; mas Bertalda persuadiu-os a permanecer com ela até que alguma notícia certa de Huldbrand fosse obtida, se ele estava vivo ou morto. Ela tentou também persuadir vários jovens cavaleiros, que eram assíduos em cortejar seu favor, a irem em busca do nobre aventureiro na floresta. Mas ela se recusou a prometer sua mão como recompensa pelo empreendimento, porque ela ainda nutria, podia ser, uma esperança de que ela fosse reivindicada pelo cavaleiro que retornava; e ninguém consentiria, por uma luva, uma fita, ou até mesmo um beijo, expor sua vida para trazer de volta um rival tão muito perigoso.

Quando Huldbrand agora fez sua súbita e inesperada aparição, seus atendentes, os habitantes da cidade, e quase todos se regozijaram. Este não foi o caso com Bertalda; pois, embora pudesse ser um evento bastante bem-vindo para outros que ele trouxesse consigo uma esposa de tal beleza requintada, e o Padre Heilmann como testemunha de seu casamento, Bertalda não podia deixar de ver o caso com tristeza e vexame. Ela, na verdade, havia se apegado ao jovem cavaleiro com toda a sua alma; e seu luto por sua ausência, ou suposta morte, havia mostrado isso mais do que ela poderia ter desejado agora.

Mas apesar de tudo isso, ela se comportou como uma donzela sábia em circunstâncias de tal delicadeza, e viveu nos termos mais amigáveis com Undine, a quem toda a cidade via como uma princesa que Huldbrand havia resgatado na floresta de algum mau encantamento. Sempre que alguém questionava a ela ou ao seu marido sobre suposições desta natureza, eles tinham sabedoria suficiente para permanecer em silêncio, ou sagacidade suficiente para evitar as indagações. Os lábios do Padre Heilmann haviam sido selados em relação a fofocas ociosas de qualquer tipo; e além disso, na chegada de Huldbrand, ele havia retornado imediatamente para seu claustro: de modo que as pessoas eram obrigadas a se contentar com suas próprias conjecturas selvagens; e até mesmo a própria Bertalda não descobriu nada mais da verdade do que os outros.

Quanto ao resto, Undine sentia diariamente mais amor pela bela donzela. “Devemos ter nos conhecido antes”, ela costumava dizer a ela com frequência, “ou então deve haver alguma conexão misteriosa entre nós, pois é incrível que alguém tão perfeitamente sem causa — quero dizer, sem alguma causa profunda e secreta — pudesse ser tão ternamente apegada a outra como eu tenho sido a você desde o primeiro momento de nosso encontro.”

E até mesmo Bertalda não podia negar que sentia um impulso de confiança, uma atração de ternura em direção a Undine, por mais que ela considerasse esta rival afortunada a causa de sua decepção mais amarga. Sob a influência dessa consideração mútua, elas encontraram meios de persuadir, uma a seus pais adotivos, e a outra a seu marido, a adiar o dia da separação para um período cada vez mais remoto; mais, elas já haviam começado a falar de um plano para Bertalda acompanhar Undine ao Castelo de Ringstetten, perto de uma das nascentes do Danúbio.

Uma vez, em uma bela noite, elas estavam falando sobre seu esquema enquanto passavam pelas árvores altas que margeavam o passeio público. O jovem casal, embora fosse um pouco tarde, havia chamado Bertalda para convidá-la a compartilhar seu desfrute; e todos os três caminharam familiarmente para cima e para baixo sob o céu azul escuro, não raramente interrompidos em seu colóquio pela admiração que não podiam deixar de conceder à magnífica fonte no meio da praça, e ao maravilhoso fluxo e disparo para cima de suas águas. Tudo era doce e calmante para suas mentes. Entre as sombras das árvores infiltravam-se vislumbres de luz das casas adjacentes. Um murmúrio baixo como de crianças brincando, e de outras pessoas que estavam desfrutando de seu passeio, flutuava ao redor deles — eles estavam tão sozinhos, e ainda assim compartilhando tanto da felicidade social no mundo brilhante e agitado, que tudo o que havia parecido áspero durante o dia agora tornava-se suave por conta própria. Todos os três amigos não podiam mais ver a menor causa para hesitação em relação à viagem de Bertalda.

Naquele instante, enquanto estavam justamente fixando o dia de sua partida, um homem alto aproximou-se deles do meio da praça, curvou-se respeitosamente para a companhia, e falou algo no ouvido da jovem noiva. Embora descontente com a interrupção e sua causa, ela caminhou alguns passos para o lado com o estranho; e ambos começaram a sussurrar, ao que parecia, em uma língua estrangeira. Huldbrand pensou reconhecer o homem estranho da floresta, e ele olhou para ele tão fixamente, que ele não ouviu nem respondeu às perguntas atônitas de Bertalda. De repente, Undine bateu palmas com deleite, e voltou-se do estranho, rindo: ele, balançando a cabeça frequentemente, retirou-se com um passo apressado e ar descontente, e desceu para dentro da fonte. Huldbrand agora sentia-se perfeitamente certo de que sua conjectura estava correta. Mas Bertalda perguntou:

“O que, então, querida Undine, o mestre da fonte queria dizer a você?”

Undine riu consigo mesma, e respondeu: “Depois de amanhã, minha querida criança, quando o aniversário do seu dia de nome retornar, você será informada.” E isto foi tudo o que ela pôde ser persuadida a revelar. Ela meramente pediu a Bertalda para jantar no dia marcado, e solicitou que ela convidasse seus pais adotivos; e logo depois eles se separaram.

“Kuhleborn?” disse Huldbrand para sua adorável esposa, com um estremecimento interior quando eles haviam se despedido de Bertalda, e estavam agora indo para casa através das ruas escurecidas.

“Sim, era ele”, respondeu Undine; “e ele teria me cansado com seus avisos tolos. Mas, no meio, muito ao contrário de suas intenções, ele me encantou com uma notícia muito bem-vinda. Se você, meu caro senhor e marido, deseja que eu o informe sobre isso agora, você só precisa me ordenar, e eu livremente e de todo o meu coração lhe contarei tudo sem reserva. Mas você concederia à sua Undine um prazer muito, muito grande, espere até depois de amanhã, e então você também terá sua parte da surpresa.”

O cavaleiro estava muito disposto a satisfazer sua esposa no que ela havia pedido tão docemente. E mesmo enquanto ela estava caindo no sono, ela murmurou para si mesma, com um sorriso: “Como ela se alegrará e ficará atônita com o que seu mestre da fonte me contou! — querida, querida Bertalda!”

CAPÍTULO 6

A companhia estava sentada ao jantar. Bertalda, adornada com joias e flores sem número, os presentes de seus pais adotivos e amigos, e parecendo alguma deusa da primavera, sentava-se ao lado de Undine e Huldbrand na cabeceira da mesa. Quando o suntuoso banquete terminou, e a sobremesa foi colocada diante deles, foi dada permissão para que as portas fossem deixadas abertas: isto estava de acordo com o bom e velho costume na Alemanha, para que as pessoas comuns pudessem ver e se alegrar com a festividade de seus superiores. Entre estes espectadores, os servos distribuíam bolo e vinho.

Huldbrand e Bertalda esperavam com secreta impaciência pela explicação prometida, e mal moviam seus olhos de Undine. Mas ela ainda continuava em silêncio, e meramente sorria para si mesma com secreta e sentida satisfação. Todos os que estavam cientes da promessa que ela havia feito podiam perceber que ela estava a cada momento prestes a revelar um segredo feliz; e ainda assim, como crianças às vezes atrasam provar suas iguarias mais escolhidas, ela ainda retinha a comunicação. Bertalda e Huldbrand compartilhavam o mesmo sentimento delicioso, enquanto em ansiosa esperança esperavam a revelação desconhecida que deveriam receber dos lábios de sua amiga.

Neste momento, vários da companhia pressionaram Undine a cantar. Isso pareceu agradá-la; e ordenando que seu alaúde fosse trazido, ela cantou as seguintes palavras:--

“Manhã tão brilhante, Flores silvestres tão alegres, Onde a relva alta tão orvalhada Coroa a borda do lago ondulante.

No seio verdejante do prado O que brilha ali tão branco? Teriam guirlandas de flores nevadas, Flutuando suavemente, caído do céu?

Ah, vejam! uma criança terna!-- Ela brinca com flores, inconscientemente; Ela se esforça para agarrar os raios dourados da manhã. Ó onde, doce estranha, onde é seu lar? Afastadas de margens desconhecidas As ondas trouxeram para cá Esta pequena indefesa.

Não, não aperte, querida terna, Com mão minúscula as flores! Nenhuma mão retribui o aperto, As flores são estranhas e mudas.

Elas se vestem de beleza, Elas exalam um perfume rico: Mas não podem envolver você Nos braços amorosos de uma mãe;-- Longe, muito longe aquele abraço afetuoso da mãe.

O início da vida apenas se abrindo tênue, Seu olho ainda brilhando com o sorriso do próprio céu, Tão cedo seus guardiões mais ternos se foram; Severo, pobre criança, seu destino,-- Tudo, tudo para você desconhecido.

Um nobre duque cruzou o prado, E perto de você deteve a carreira de seu corcel: Maravilha e piedade tocam seu coração; Com alto conhecimento, e modos puros, Ele a cria, --faz de seu castelo o seu lar.

Quão grande, quão infinito seu ganho! De toda a terra você floresce a mais adorável; Contudo, ah! a bênção inestimável, A felicidade da ternura dos pais, Você deixou em praias desconhecidas!”

Undine deixou cair seu alaúde com um sorriso melancólico. Os olhos dos nobres pais adotivos de Bertalda estavam cheios de lágrimas.

“Ah sim, foi assim — tal foi a manhã em que encontrei você, pobre órfã!” gritou o duque, com profunda emoção; “a bela cantora está certamente certa: ainda

‘A bênção inestimável, A felicidade da ternura dos pais,’

estava além de nosso poder lhe dar.”

“Mas devemos ouvir, também, o que aconteceu aos pobres pais”, disse Undine, enquanto ela dedilhava as cordas, e cantava:--

“Através de suas câmaras vaga a mãe Procurando, procurando por toda parte; Busca, e não sabe o quê, com anseio, Encontrando ali a casa ainda sem filhos.

Casa sem filhos! --Ó som de angústia! Ela sozinha conhece a angústia, Ali de dia que guiava seu querido, Ali que embalava seu repouso noturno.

Os botões de faia incham novamente, O sol aquece novamente a margem; Ah, mãe afetuosa, cesse sua busca! O amado e perdido não volta mais.

Então, quando os ares da tarde estão refrescando, Para casa o pai segue seu caminho, Enquanto com sorrisos ele vela sua dor, Lágrimas jorrantes traem seu coração.

Bem ele sabe, dentro de sua morada, Tão silenciosa quanto a morte ele encontrará a tristeza, Apenas ouve a mãe gemendo,-- Nenhum doce bebê para SORRIR-lhe o acolhimento.”

“Ó, diga-me, em nome do Céu diga-me, Undine, onde estão meus pais?” gritou a chorosa Bertalda. “Você certamente sabe; você deve tê-los descoberto, ser maravilhoso; pois, caso contrário, você nunca teria assim partido meu coração. Eles podem já estar aqui? Posso acreditar ser possível?” Seu olho percorreu rapidamente a brilhante companhia, e pousou sobre uma dama de alta linhagem que estava sentada ao lado de seu pai adotivo.

Então, curvando a cabeça, Undine acenou em direção à porta, enquanto seus olhos transbordavam com a mais doce emoção. “Onde, então, os pobres pais estão esperando?” ela perguntou; e o velho pescador, hesitante, avançou com sua esposa da multidão de espectadores. Eles olhavam interrogativamente, agora para Undine, e agora para a bela dama que se dizia ser sua filha.

“É ela! é ela ali diante de vocês!” exclamou a restauradora de sua filha, sua voz meio sufocada de arrebatamento. E ambos os pais anciãos abraçaram sua filha recuperada, chorando alto e louvando a Deus.

Mas, aterrorizada e indignada, Bertalda arrancou-se de seus braços. Tal descoberta era demais para seu espírito orgulhoso suportar, especialmente no momento em que ela sem dúvida esperava ver seu antigo esplendor aumentado, e quando a esperança estava pintando para ela nada menos brilhante do que um dossel real e uma coroa. Parecia-lhe como se sua rival tivesse planejado tudo isso de propósito para humilhá-la diante de Huldbrand e de todo o mundo. Ela reprovou Undine; ela injuriou os velhos; e até mesmo palavras ofensivas como “enganadora, impostores subornados e perjuros”, brotaram de seus lábios.

A velha esposa do pescador então disse para si mesma, em voz baixa: “Ah, meu Deus, ela se tornou má! e ainda assim sinto em meu coração que ela é minha filha.”

O velho pescador havia entretanto dobrado as mãos, e oferecido uma oração silenciosa para que ela NÃO fosse sua filha.

Undine, fraca e pálida como a morte, voltou-se dos pais para Bertalda, de Bertalda para os pais. Ela foi subitamente lançada para baixo de todo aquele céu de felicidade em que ela estivera sonhando, e mergulhada em uma agonia de terror e decepção, que ela nunca havia conhecido nem mesmo em sonhos.

“Você tem, então, uma alma? Você realmente tem uma alma, Bertalda?” ela gritou repetidas vezes para sua amiga zangada, como se com esforço veemente ela quisesse despertá-la de um delírio súbito ou de algum sonho perturbador da noite, e restaurá-la à recordação.

Mas quando Bertalda, a cada momento, tornava-se apenas mais e mais enfurecida — quando os pais decepcionados começaram a chorar em voz alta — e a companhia, com muito calor na disputa, tomava lados opostos — ela pediu, com tal sinceridade e dignidade, a liberdade de falar naquele que era o salão de seu marido, que todos ao seu redor foram em um instante reduzidos ao silêncio. Ela então avançou para a cabeceira da mesa, onde, humilhada e altiva, Bertalda se sentara e, enquanto todos os olhos estavam fixos nela, falou da seguinte maneira:

“Meus amigos, vocês parecem insatisfeitos e perturbados; e interrompem, com sua discórdia, uma festividade que eu esperava que trouxesse alegria a vocês e a mim. Ah! Eu nada sabia de seus modos de pensar insensíveis; e jamais os compreenderei: não sou culpada pelo mal que esta revelação causou. Acreditem em mim, por menos que imaginem que este seja o caso, isso deve-se inteiramente a vocês mesmos. Uma palavra a mais, portanto, é tudo o que tenho a acrescentar; mas esta é uma que deve ser dita: — Não pronunciei nada além da verdade. Da certeza do fato, dou-lhes a mais forte garantia. Nenhuma outra prova posso ou quero produzir, mas isto afirmarei na presença de Deus. A pessoa que me deu esta informação foi a mesma que atraiu a infante Bertalda para a água e que, depois de assim retirá-la de seus pais, colocou-a na relva verde do prado, onde sabia que o duque haveria de passar.”

“Ela é uma feiticeira!” gritou Bertalda; “uma bruxa, que mantém relações com espíritos malignos. Ela mesma o reconhece.”

“Nunca! Eu o nego!” respondeu Ondina, enquanto todo um céu de inocência e verdade brilhava em seus olhos. “Eu não sou uma bruxa; olhem para mim e digam se sou.”

“Então ela profere tanto falsidade quanto loucura”, gritou Bertalda; “e ela é incapaz de provar que sou filha dessas pessoas humildes. Meus nobres pais, eu vos suplico que me tirem desta companhia e desta cidade, onde não fazem nada além de me envergonhar.”

Mas o velho duque, um homem de sentimentos honrados, permaneceu inabalável; e sua esposa observou:

“Devemos examinar minuciosamente este assunto. Deus nos livre de dar um passo sequer para fora deste salão antes que o façamos.”

Então, a velha esposa do pescador aproximou-se, fez uma profunda reverência à duquesa e disse: “Nobre e piedosa senhora, abristes o meu coração. Permiti-me dizer-vos que, se esta donzela de má índole é minha filha, ela tem uma marca como uma violeta entre os ombros e outra do mesmo tipo no peito do pé esquerdo. Se ela apenas consentir em sair do salão comigo...”

“Não consentirei em me descobrir diante da mulher camponesa”, interrompeu Bertalda, virando-lhe as costas altivamente.

“Mas diante de mim você certamente consentirá”, respondeu a duquesa gravemente. “Você me seguirá para aquele aposento, donzela; e a velha mulher irá conosco.”

As três desapareceram, e os demais permaneceram onde estavam, em expectativa ofegante. Em poucos minutos, as mulheres retornaram — Bertalda pálida como a morte; e a duquesa disse: “A justiça deve ser feita; declaro, portanto, que a nossa senhora anfitriã falou a exata verdade. Bertalda é a filha do pescador; nenhuma prova adicional é necessária; e isto é tudo o que, na presente ocasião, precisam saber.”

O casal principesco saiu com sua filha adotiva; o pescador, a um sinal do duque, seguiu-os com sua esposa. Os outros convidados retiraram-se em silêncio, ou reprimindo seus murmúrios; enquanto Ondina desabava chorando nos braços de Huldbrand.

O senhor de Ringstetten teria, certamente, ficado mais satisfeito se os eventos deste dia tivessem sido diferentes; mas, mesmo tais como eram, ele não podia de forma alguma considerá-los indesejáveis, uma vez que sua adorável esposa se mostrara tão cheia de bondade, doçura e gentileza.

“Se lhe dei uma alma”, ele não pôde deixar de dizer a si mesmo, “certamente lhe dei uma alma melhor que a minha”; e agora ele pensava apenas em acalmar e confortar sua esposa chorosa, e em retirá-la, logo no dia seguinte, de um lugar que, após este infeliz incidente, não poderia deixar de ser desagradável para ela. Contudo, é certo que a opinião do público a seu respeito não mudou. Como algo extraordinário já era esperado dela há muito tempo, a misteriosa descoberta da ascendência de Bertalda causou pouca ou nenhuma surpresa; e todos os que tomaram conhecimento da história de Bertalda, e da violência de seu comportamento naquela ocasião, ficaram apenas desgostosos e indispostos contra ela. Deste estado de coisas, no entanto, o cavaleiro e sua dama ainda não tinham conhecimento; além disso, se o público condenava Bertalda ou ela própria, um ponto de vista sobre o caso teria sido tão angustiante para Ondina quanto o outro; e assim chegaram à conclusão de que o curso mais sensato que poderiam tomar era deixar para trás as muralhas da velha cidade com toda a rapidez que pudessem.

Com os primeiros raios da manhã, uma carruagem brilhante para Ondina aproximou-se da porta da estalagem; os cavalos de Huldbrand e de seus atendentes estavam por perto, batendo os cascos no pavimento, impacientes para partir. O cavaleiro estava conduzindo sua bela esposa para fora da porta, quando uma moça pescadora aproximou-se e encontrou-os no caminho.

“Não precisamos de seus peixes”, disse Huldbrand, abordando-a; “estamos neste momento partindo em uma viagem.”

Diante disso, a moça pescadora começou a chorar amargamente; e foi então que o jovem casal percebeu pela primeira vez que era Bertalda. Eles imediatamente retornaram com ela para seu aposento, onde ela os informou que, devido à sua conduta insensível e violenta do dia anterior, o duque e a duquesa estavam tão descontentes com ela que retiraram inteiramente sua proteção, embora não sem antes lhe dar uma porção generosa. O pescador, também, recebera um presente considerável e, na noite anterior, partira com sua esposa para sua península.

“Eu teria ido com eles”, continuou ela, “mas o velho pescador, que dizem ser meu pai...”

“Ele é, na verdade, seu pai, Bertalda”, disse Ondina, interrompendo-a. “Veja, o estranho que você tomou pelo mestre das obras hidráulicas deu-me todos os detalhes. Ele queria me dissuadir de levá-la comigo para o Castelo Ringstetten e, portanto, revelou-me todo o mistério.”

“Muito bem, então”, continuou Bertalda, “meu pai — se assim tem que ser — meu pai disse: ‘Não a levarei comigo até que você mude. Se você se aventurar a vir até nós sozinha através da floresta de mau agouro, isso será a prova de que tem algum apreço por nós. Mas não venha a mim como uma dama; venha meramente como uma moça pescadora.’ Eu farei como ele me ordenou, pois, já que fui abandonada por todo o mundo, viverei e morrerei na solidão, uma pobre moça pescadora, com pais igualmente pobres. A floresta, de fato, parece-me muito terrível. Espectros horríveis fazem dela seu refúgio, e eu sou tão medrosa. Mas o que posso fazer? Só vim aqui a esta hora matutina para implorar à nobre senhora de Ringstetten que perdoe meu comportamento impróprio de ontem. Doce senhora, tenho a mais plena convicção de que você pretendia me fazer um favor, mas você não sabia o quanto me feriria; e então, em minha agonia e surpresa, tantas expressões precipitadas e frenéticas irromperam de meus lábios. Perdoe-me, ah, perdoe-me! Eu sou, na verdade, tão infeliz, desde já. Apenas considere o que eu era ontem de manhã, o que eu era mesmo no início do seu festival de ontem, e o que sou hoje!”

Suas palavras tornaram-se agora inarticuladas, perdidas em um fluxo apaixonado de lágrimas, enquanto Ondina, chorando amargamente com ela, caiu sobre seu pescoço. Tão poderosa foi sua emoção que levou muito tempo até que ela pudesse pronunciar uma palavra. Por fim, ela disse:

“Você ainda virá conosco para Ringstetten; tudo permanecerá exatamente como combinamos ultimamente; mas trate-me por ‘tu’ novamente, e não me chame mais de ‘nobre senhora’. Considere, nós fomos trocadas uma pela outra quando éramos crianças; mesmo então, fomos unidas por um destino semelhante, e fortaleceremos esta união com um afeto tão próximo que nenhum poder humano dissolverá. Apenas, antes de tudo, você deve vir conosco para Ringstetten. Como compartilharemos todas as coisas como irmãs, podemos conversar depois que chegarmos.”

Bertalda olhou para Huldbrand com uma indagação tímida. Ele sentiu pena dela em sua aflição, tomou-lhe a mão e pediu-lhe ternamente que se confiasse a ele e a sua esposa.

“Enviaremos uma mensagem aos seus pais”, continuou ele, “dando-lhes a razão pela qual você não veio” — e ele teria acrescentado mais sobre seus dignos amigos da península, quando, percebendo que Bertalda se encolhia em angústia à menção deles, ele se absteve. Ele a tomou pelo braço, levantou-a primeiro para a carruagem, depois Ondina, e logo estava cavalgando alegremente ao lado delas; tão perseverante foi ele, também, em instigar o cocheiro que, em pouco tempo, eles haviam deixado para trás os limites da cidade e uma multidão de lembranças dolorosas; e agora as damas podiam deleitar-se com a bela paisagem que seu progresso apresentava continuamente.

Após uma viagem de alguns dias, chegaram, em uma bela tarde, ao Castelo Ringstetten. O jovem cavaleiro estando muito ocupado com os supervisores e criados de seu estabelecimento, Ondina e Bertalda ficaram sozinhas. Elas deram um passeio sobre a alta muralha da fortaleza e ficaram encantadas com a deliciosa paisagem que a fértil Suábia espalhava ao redor delas. Enquanto observavam a cena, um homem alto aproximou-se, cumprimentando-as com respeitosa civilidade, e que parecia a Bertalda assemelhar-se muito ao diretor da fonte da cidade. Ainda menos a semelhança podia ser confundida quando Ondina, indignada com sua intrusão, afastou-o com um ar de ameaça; enquanto ele, balançando a cabeça, recuou com passos rápidos, como fizera anteriormente, depois deslizou entre as árvores de um bosque vizinho e desapareceu.

“Não se apavore, Bertalda”, disse Ondina; “o odioso mestre da fonte não lhe fará mal desta vez.” E então ela lhe relatou os detalhes de sua história, e quem ela mesma era — como Bertalda fora retirada do povo da península e Ondina deixada em seu lugar. Este relato preencheu inicialmente a jovem donzela com espanto e alarme; ela imaginou que sua amiga devia ter sido acometida por uma loucura súbita. Mas, pela coerência da história, ela tornou-se cada vez mais convencida de que tudo era verdade, pois concordava tão bem com ocorrências anteriores, e ainda mais convencida por aquele sentimento interior com o qual a verdade nunca deixa de se dar a conhecer. Ela não pôde deixar de ver como uma circunstância extraordinária o fato de estar ela mesma vivendo, por assim dizer, no meio de um daqueles contos selvagens que ouvira relatar outrora. Ela olhava para Ondina com reverência, mas não podia evitar um sentimento de estremecimento que parecia vir entre ela e sua amiga; e não pôde deixar de se maravilhar quando o cavaleiro, em sua refeição noturna, mostrava-se tão gentil e cheio de amor por um ser que lhe parecia, após as descobertas feitas, assemelhar-se mais a um fantasma do mundo espiritual do que a um membro da raça humana.

CAPÍTULO 7

O escritor deste conto, tanto porque comove o seu próprio coração quanto porque deseja que ele comova o de outros, pede um favor a você, caro leitor. Perdoe-o se ele passa por um espaço considerável de tempo em poucas palavras, e apenas lhe diz, de modo geral, o que aconteceu nele. Ele sabe bem que poderia ser desdobrado habilmente, passo a passo, como o coração de Huldbrand começou a se voltar de Ondina para Bertalda — como Bertalda encontrou o jovem cavaleiro com amor ardente, e como ambos olhavam para a pobre esposa como um ser misterioso, mais para ser temido do que para ser lamentado — como Ondina chorava, e suas lágrimas feriam a consciência de seu marido, sem recordar seu antigo amor; de modo que, embora às vezes ele demonstrasse bondade para com ela, um frio estremecimento logo o forçava a desviar-se dela para seu semelhante mortal, Bertalda; — tudo isso, o escritor sabe, poderia ter sido desenhado plenamente, e talvez devesse ter sido. Mas tê-lo-ia feito triste demais; pois ele presenciou tais coisas e recua diante da ideia de recordar até mesmo sua sombra. Tu conheces, provavelmente, o sentimento semelhante, caro leitor; pois é o destino do homem mortal. Feliz és tu se recebeste a injúria, e não a infligiste; pois, neste caso, é mais bem-aventurado receber do que dar. Então, apenas uma suave tristeza por tal recordação passa pelo teu coração, e talvez uma lágrima silenciosa escorra pela tua face sobre as flores desbotadas nas quais outrora te regozijaste tão sinceramente. Isto basta: não perfuraremos nossos corações com mil aguilhões separados, mas apenas manteremos em mente que tudo aconteceu como acabei de dizer.

A pobre Ondina estava muito perturbada; e os outros dois estavam muito longe de serem felizes. Bertalda, em particular, sempre que era contrariada em seus desejos no menor grau que fosse, atribuía a causa ao ciúme e à opressão da esposa ferida. Ela estava, portanto, habituada a exibir diariamente um comportamento altivo e imperioso, ao qual Ondina cedia com uma submissão triste; e que era geralmente encorajado fortemente pelo agora cego Huldbrand.

O que perturbava os habitantes do castelo ainda mais era a variedade infinita de aparições maravilhosas que assaltavam Huldbrand e Bertalda nos corredores abobadados do edifício, e das quais nada se ouvira antes na memória do homem. O homem alto e branco, em quem Huldbrand reconhecia, de forma clara demais, Kuhleborn, tio de Ondina, e Bertalda, o espectral mestre das obras hidráulicas, passavam frequentemente diante deles com aspecto e gestos ameaçadores; mais especialmente, contudo, diante de Bertalda, de modo que, devido ao terror, ela já adoecera várias vezes e, em consequência, pensara frequentemente em deixar o castelo. Contudo, em parte porque Huldbrand lhe era querido demais e ela confiava em sua inocência, já que nenhuma palavra de amor passara entre eles, e em parte também porque ela não sabia para onde direcionar seus passos, ela permaneceu onde estava.

O velho pescador, ao receber a mensagem do senhor de Ringstetten de que Bertalda era sua hóspede, respondeu em algumas linhas quase ilegíveis demais para serem decifradas, mas ainda assim as melhores que sua idade avançada e seu longo desuso da escrita permitiram-lhe formar.

“Tornei-me agora”, escreveu ele, “um pobre viúvo, pois minha amada e fiel esposa está morta. Mas, solitário como agora me sento em minha cabana, prefiro que Bertalda permaneça onde está a que viva comigo. Apenas não faça nada para ferir minha querida Ondina, caso contrário ela terá a minha maldição.”

As últimas palavras desta carta Bertalda lançou aos ventos; mas a permissão para permanecer longe de casa, que seu pai lhe concedera, ela lembrou e agarrou-se a ela — exatamente como todos nós costumamos fazer em circunstâncias semelhantes.

Um dia, poucos momentos após Huldbrand ter saído a cavalo, Ondina reuniu os domésticos da família e ordenou-lhes que trouxessem uma pedra grande e cuidadosamente cobrissem com ela uma fonte magnífica, que estava situada no meio do pátio do castelo. Os servos objetaram que isso os obrigaria a buscar água no vale abaixo. Ondina sorriu tristemente.

“Sinto muito, meus amigos”, respondeu ela, “por aumentar o seu trabalho; eu preferiria trazer os vasos de água eu mesma: mas esta fonte deve, de fato, ser fechada. Acreditem-me quando digo que deve ser feito, e que apenas fazendo-o podemos evitar um mal maior.”

Os domésticos estavam todos regozijados em satisfazer sua gentil senhora; e, sem fazer mais perguntas, pegaram a enorme pedra. Enquanto a erguiam com as mãos e estavam prestes a ajustá-la sobre a fonte, Bertalda veio correndo para o local e gritou, com um ar de comando, que eles deviam parar; que a água que ela usava, tão benéfica para sua tez, era trazida desta fonte, e que ela não permitiria, de forma alguma, que fosse fechada.

Desta vez, porém, Ondina, embora mostrasse sua gentileza habitual, mostrou mais do que sua resolução habitual: ela disse que pertencia a ela, como senhora da casa, dirigir o lar segundo seu melhor julgamento; e que ela não era responsável por isso a ninguém, exceto a seu senhor e marido.

“Vejam, oh, por favor, vejam”, exclamou a insatisfeita e indignada Bertalda, “como a bela água está se enrolando e se curvando, serpenteando e ondulando ali, como se perturbada por ser excluída da luz do sol brilhante e da vista alegre do semblante humano, para cujo espelho ela foi criada.”

Na verdade, a água da fonte estava agitada, espumando e sibilando de maneira surpreendente; parecia que havia algo dentro possuindo vida e vontade, que lutava para se libertar do confinamento. Mas Ondina apenas instou com mais seriedade a realização de suas ordens. Essa seriedade mal foi necessária. Os servos do castelo estavam tão felizes em obedecer à sua gentil senhora quanto em se opor ao espírito altivo de Bertalda; e, por mais que esta pudesse repreender e ameaçar, ainda assim a pedra estava, em poucos minutos, firme sobre a abertura da fonte. Ondina inclinou-se pensativamente sobre ela e escreveu com seus belos dedos sobre a superfície plana. Ela devia, contudo, ter tido algo muito afiado e corrosivo em sua mão, pois, quando ela se retirou e os domésticos se aproximaram para examinar a pedra, descobriram vários caracteres estranhos nela, que nenhum deles tinha visto ali antes.

Quando o cavaleiro voltou para casa, no cair da noite, Bertalda recebeu-o com lágrimas e reclamações sobre a conduta de Ondina. Ele lançou um olhar severo de reprovação à sua pobre esposa, e ela olhou para baixo em angústia; contudo, ela disse muito calmamente:

“Meu senhor e marido, você nunca repreende nem um servo antes de ouvir sua defesa; quanto menos, então, sua esposa legítima!”

“Fale! O que a moveu a esta conduta singular?” disse o cavaleiro com um semblante sombrio.

“Eu gostaria de lhe contar quando estivéssemos inteiramente a sós”, disse Ondina, com um suspiro.

“Você pode me contar igualmente bem na presença de Bertalda”, respondeu ele.

“Sim, se você me ordenar”, disse Ondina; “mas não me ordene — por favor, por favor, não o faça!”

Ela parecia tão humilde, afetuosa e obediente, que o coração do cavaleiro foi tocado e suavizado, como se sentisse a influência de um raio de tempos melhores. Ele gentilmente tomou seu braço junto ao seu e a conduziu para seu aposento, onde ela falou da seguinte maneira:

“Você já sabe algo, meu amado senhor, de Kuhleborn, meu tio de má índole, e muitas vezes sentiu desprazer ao encontrá-lo nos corredores deste castelo. Várias vezes ele aterrorizou Bertalda até o desmaio. Ele faz isso porque não possui uma alma, sendo um mero espelho elementar do mundo exterior, enquanto do mundo interior ele não pode dar reflexo algum. Então, também, ele às vezes observa que você está descontente comigo, que na minha fraqueza infantil eu choro por isso, e que Bertalda, talvez, ri no mesmo momento. Daí ele imagina que tudo está errado conosco e, de várias maneiras, mistura-se ao nosso círculo sem ser convidado. O que ganho eu repreendendo-o, mostrando desprazer e mandando-o embora? Ele não acredita em uma palavra que digo. Sua pobre natureza não tem ideia de que as alegrias e as tristezas do amor têm uma semelhança tão doce, e estão tão intimamente conectadas que nenhum poder na terra é capaz de separá-las. Um sorriso brilha no meio das lágrimas, e um sorriso evoca lágrimas de sua morada.”

Ela olhou para Huldbrand, sorrindo e chorando, e ele sentiu novamente em seu coração toda a magia de seu antigo amor. Ela percebeu isso e pressionou-o mais ternamente contra si, enquanto com lágrimas de alegria ela continuou assim:

“Quando o perturbador da nossa paz não quis ser afastado com palavras, fui obrigada a fechar-lhe a porta; e a única entrada pela qual ele tem acesso a nós é aquela fonte. Sua conexão com os outros espíritos das águas aqui nesta região é cortada pelos vales que nos circundam; e seu reino começa primeiramente mais longe, no Danúbio, em cujos rios tributários alguns de seus bons amigos têm sua morada. Por esta razão, fiz com que a pedra fosse colocada sobre a abertura da fonte, e nela inscrevi caracteres que frustram todos os esforços de meu tio suspeito; de modo que ele agora não tem poder de se intrometer nem em você, nem em mim, nem em Bertalda. Os seres humanos, é verdade, apesar dos caracteres que nela inscrevi, são capazes de levantar a pedra sem qualquer dificuldade extraordinária; não há nada que os impeça. Se você deseja, portanto, remova-a, de acordo com o desejo de Bertalda; mas ela certamente não sabe o que pede. O rude Kuhleborn olha para ela com uma má vontade peculiar; e caso venham a ocorrer aquelas coisas que ele me previu, e que podem acontecer sem que você tenha a intenção de qualquer mal, ah! meu querido, até mesmo você estaria exposto ao perigo.”

Huldbrand sentiu a generosidade de sua gentil esposa nas profundezas do seu coração, uma vez que ela fora tão ativa em confinar seu formidável defensor, e até mesmo no exato momento em que era repreendida por isso por Bertalda. Ele a apertou em seus braços com a mais terna afeição e disse, com emoção:

“A pedra permanecerá imóvel; tudo permanece, e sempre permanecerá, exatamente como você deseja que seja, minha doce Undine!”

Diante dessas expressões de ternura há muito contidas, ela retribuiu suas carícias com um deleite humilde e, por fim, disse:

“Meu querido marido, já que você está tão gentil e indulgente hoje, posso me aventurar a pedir-lhe um favor? Veja bem, é com você como com o verão. Mesmo em meio ao seu maior esplendor, o verão veste a coroa flamejante e trovejante de gloriosas tempestades, nas quais ele se assemelha fortemente a um rei e deus na terra. Você também é, às vezes, terrível em suas repreensões; seus olhos lançam relâmpagos, enquanto o trovão ressoa em sua voz; e embora isso possa ser muito adequado a você, eu, em minha tolice, não posso deixar de chorar às vezes por causa disso. Mas nunca, eu lhe imploro, comporte-se assim comigo em um rio, ou mesmo quando estivermos perto de qualquer água. Pois se o fizesse, meus parentes adquiririam um direito sobre mim. Eles me arrancariam inexoravelmente de você em sua fúria, porque conceberiam que um de sua raça foi ferido; e eu seria compelida, enquanto vivesse, a habitar abaixo nos palácios de cristal, e jamais ousaria subir até você novamente; ou, caso ELES ME enviassem até você!... Ó Deus! isso seria ainda muito pior. Não, não, meu amado marido; que não chegue a esse ponto, se a sua pobre Undine lhe é cara.”

Ele prometeu solenemente fazer como ela desejava e, inefavelmente feliz e cheio de afeição, o casal retornou do aposento. Nesse exato momento, Bertalda veio com alguns trabalhadores a quem ela havia, entretanto, ordenado que a servissem, e disse com um ar irritadiço que adotara ultimamente:

“Bem, agora a consulta secreta chegou ao fim, a pedra pode ser removida. Saiam, trabalhadores, e cuidem disso.”

O cavaleiro, porém, ressentindo-se altamente de sua impertinência, disse, em termos breves e muito decisivos: “A pedra permanece onde está!” Ele repreendeu Bertalda também pela veemência que ela demonstrara para com sua esposa. Ao que os trabalhadores, sorrindo com satisfação secreta, retiraram-se; enquanto Bertalda, pálida de raiva, apressou-se em ir para o seu quarto.

Quando chegou a hora da ceia, esperou-se em vão por Bertalda. Enviaram alguém para chamá-la; mas o criado encontrou seus aposentos vazios e trouxe consigo apenas uma carta selada, endereçada ao cavaleiro. Ele abriu-a alarmado e leu:

“Sinto com vergonha que sou apenas a filha de um pobre pescador. Que por um momento esqueci isso, farei expiação na cabana miserável de meus pais. Adeus a você e à sua linda esposa!”

Undine sentiu-se perturbada no coração. Com avidez, ela suplicou a Huldbrand que se apressasse atrás de sua amiga, que fugira, e que a trouxesse de volta consigo. Infelizmente! ela não teve ocasião de insistir com ele. Sua paixão por Bertalda explodiu novamente com veemência. Ele correu pelo castelo, perguntando se alguém vira por qual caminho a bela fugitiva seguira. Não obteve nenhuma informação; e já estava no pátio montado em seu cavalo, determinado a seguir, por acaso, a estrada pela qual conduzira Bertalda ao castelo, quando apareceu um pajem, que lhe assegurou ter encontrado a dama no caminho para o Vale Negro. Rápido como uma flecha, o cavaleiro saltou através do portão na direção apontada, sem ouvir a voz de agonia de Undine, enquanto ela gritava atrás dele, da janela:

“Para o Vale Negro? Oh, não lá! Huldbrand, não lá! Ou se você for, pelo amor de Deus, leve-me com você!”

Mas quando ela percebeu que todo o seu chamado era inútil, ela ordenou que seu palafrém branco fosse imediatamente selado e seguiu o cavaleiro, sem permitir que um único servo a acompanhasse.

O Vale Negro situa-se isolado, longe entre as montanhas. Qual possa ser seu nome atual, não sou capaz de dizer. Na época de que estou falando, o povo da região dava-lhe esta denominação devido à profunda obscuridade produzida pelas sombras das árvores elevadas, especialmente por um crescimento denso de abetos que cobria esta região de pântanos. Até o riacho, que borbulhava entre as rochas, assumia o mesmo tom escuro e não mostrava nada daquele aspecto alegre que os riachos costumam ter quando têm o céu azul diretamente acima deles.

Era agora o crepúsculo da noite; e entre as alturas tudo se tornara extremamente selvagem e sombrio. O cavaleiro, em grande ansiedade, contornou a margem do riacho. Ele temia, por um momento, que, pela demora, permitisse que a fugitiva avançasse longe demais à sua frente; e então, novamente, em sua pressa excessiva, temia poder, em algum lugar, não vê-la e passar por ela, caso ela desejasse se esconder da sua busca. Ele havia, entrementes, penetrado bastante no vale e poderia esperar alcançar a donzela em breve, desde que estivesse perseguindo a trilha certa. O medo, de fato, de que ele pudesse ainda não a ter alcançado, fazia seu coração bater com cada vez mais ansiedade. Na noite tempestuosa que agora se aproximava, e que sempre caía de forma mais terrível sobre este vale, onde se abrigaria a delicada Bertalda, caso ele falhasse em encontrá-la? Por fim, enquanto esses pensamentos cruzavam sua mente, viu algo branco brilhar através dos ramos na encosta da montanha. Pensou reconhecer o vestido de Bertalda; e dirigiu seu curso para lá. Mas seu cavalo recusou-se a avançar; empinou-se com uma fúria tão incontrolável, e seu mestre estava tão pouco disposto a perder um momento, que (especialmente ao ver que os arbustos eram totalmente intransitáveis a cavalo) ele desmontou e, tendo prendido seu corcel bufante a um olmo, abriu caminho com cautela através da mata emaranhada. Os ramos, umedecidos pelas gotas frias do orvalho da noite, batiam em sua testa e bochechas; um trovão distante resmungava do outro lado das montanhas; e tudo assumia uma aparência tão estranha que ele começou a sentir pavor da figura branca, que agora jazia a uma curta distância dele sobre o solo. Ainda assim, ele podia ver distintamente que era uma mulher, adormecida ou desmaiada, e vestida com longas vestes brancas, como as que Bertalda usara no dia anterior. Aproximando-se bem perto dela, ele fez um farfalhar com os ramos e um tinir com sua espada; mas ela não se moveu.

“Bertalda!” ele gritou, primeiro baixo, depois mais alto e mais alto; contudo ela não o ouviu. Por fim, quando ele pronunciou o nome querido com uma energia ainda mais poderosa, um eco oco dos cumes das montanhas ao redor do vale devolveu o som abafado: “Bertalda!” Ainda assim, a adormecida continuou insensível. Ele inclinou-se; mas a penumbra do vale e a obscuridade do crepúsculo não lhe permitiam distinguir suas feições. Enquanto, com incerteza dolorosa, ele se curvava sobre ela, um relâmpago brilhou subitamente através do vale. Por este fluxo de luz, ele viu um rosto assustadoramente distorcido perto do seu, e uma voz rouca chegou ao seu ouvido:

“Seu namorador apaixonado, dê-me um beijo!” Huldbrand saltou sobre seus pés com um grito de horror, e a figura horrível ergueu-se com ele.

“Vá para casa!” gritou ela, com um murmúrio profundo: “os demônios estão à solta. Vá para casa! ou eu o pegarei!” E estendeu em sua direção seus longos braços brancos.

“Malicioso Kuhleborn!” exclamou o cavaleiro, com energia restaurada; “se é Kuhleborn que você é, que negócios tem aqui? — qual é a sua vontade, seu duende? Ali, aceite o seu beijo!” E em fúria ele desferiu sua espada contra a forma. Mas ela desapareceu como vapor; e uma torrente de água, que o molhou de cima a baixo, não lhe deixou dúvidas sobre com qual inimigo ele estivera engajado.

“Ele deseja me afastar da minha busca por Bertalda”, disse ele para si mesmo. “Ele imagina que ficarei aterrorizado com seus truques sem sentido e que abandonarei a pobre donzela angustiada ao seu poder, para que ele possa saciar sua vingança sobre ela à vontade. Mas isso ele não conseguirá, fraco espírito do fluxo! O que o coração do homem pode fazer, quando exerce toda a força da sua vontade e dos seus mais nobres poderes, o pobre duende não pode compreender.”

Ele sentiu a verdade das suas palavras e que elas haviam inspirado seu coração com uma coragem renovada. A fortuna, também, parecia favorecê-lo; pois, antes de alcançar seu corcel preso, ele ouviu distintamente a voz de Bertalda, chorando não muito à sua frente, em meio ao rugido do trovão e da tempestade, que aumentava a cada momento. Ele voou rapidamente em direção ao som e encontrou a donzela trêmula, exatamente no momento em que ela tentava escalar a encosta, esperando escapar da escuridão terrível daquele vale. Ele se aproximou dela com expressões de amor; e, ousada e orgulhosa como fora sua resolução há pouco tempo, ela agora não sentia nada além de alegria pelo fato de o homem a quem ela tão apaixonadamente amava a resgatar daquela solidão assustadora e, assim, chamá-la de volta para a vida alegre no castelo. Ela o seguiu quase sem resistência, mas tão exausta de fadiga que o cavaleiro ficou feliz em levá-la ao seu cavalo, que ele agora soltou apressadamente do olmo, a fim de elevar a bela errante sobre ele e, então, conduzi-lo cuidadosamente pelas rédeas através das sombras incertas do vale.

Mas, devido à aparição selvagem de Kuhleborn, o cavalo tornara-se totalmente incontrolável. Empinando-se e bufando selvagemente como estava, o cavaleiro teria de ter usado um esforço incomum para montar a besta ele mesmo; colocar a trêmula Bertalda sobre ele era impossível. Foram, portanto, obrigados a retornar para casa a pé. Enquanto com uma das mãos o cavaleiro puxava o corcel após si pela rédea, ele apoiava a Bertalda cambaleante com a outra. Ela exercia todas as forças em seu poder a fim de escapar rapidamente daquele vale de terrores. Mas o cansaço pesava sobre ela como chumbo; e todos os seus membros tremiam, em parte como consequência do que ela sofrera com o terror extremo que Kuhleborn já lhe causara, e em parte por seu medo presente do rugido da tempestade e do trovão em meio à floresta da montanha.

Por fim, ela deslizou do braço do cavaleiro; e, afundando no musgo, disse: “Apenas deixe-me deitar aqui, meu nobre senhor. Sofro o castigo devido à minha tolice; e devo perecer aqui por desmaio e desânimo.”

“Nunca, gentil senhora, deixarei você”, gritou Huldbrand, tentando em vão conter o animal furioso que ele conduzia, pois o cavalo estava todo espumando e começou a irritar-se de forma mais incontrolável do que antes, até que o cavaleiro ficou feliz em mantê-lo a tal distância da donzela exausta a ponto de salvá-la de um novo alarme. Mas mal se afastara cinco passos com o corcel frenético, quando ela começou a chamá-lo de volta com os acentos mais tristes, receosa de que ele realmente a deixasse naquele deserto horrível. Ele estava sem saber que rumo tomar. Teria dado alegremente ao animal enfurecido sua liberdade; teria deixado que ele disparasse em meio à noite e exaurisse sua fúria, se não temesse que, naquele desfiladeiro estreito, seus cascos ferrados pudessem vir trovejando sobre o próprio lugar onde Bertalda jazia.

Nesse perigo extremo e embaraço, ele ouviu com deleite as rodas retumbantes de uma carroça, enquanto ela vinha descendo lentamente o caminho pedregoso atrás deles. Ele pediu ajuda; a resposta veio na voz profunda de um homem, pedindo que tivessem paciência, mas prometendo assistência; e dois cavalos cinzentos logo depois brilharam através dos arbustos, e perto deles seu condutor no avental branco de um carroceiro; e em seguida apareceu um grande lençol de linho branco, com o qual os bens que ele parecia transportar estavam cobertos. Os cavalos cinzentos, em obediência a um grito de seu mestre, ficaram parados. Ele veio até o cavaleiro e ajudou-o a conter a fúria do corcel espumante.

“Sei muito bem”, disse ele, “o que há com o bruto. A primeira vez que viajei por este caminho, meus cavalos estavam tão voluntariosos e obstinados quanto o seu. A razão é que há um espírito das águas que assombra este vale — e um espírito maligno, dizem eles — que se deleita com travessuras e bruxarias desse tipo. Mas aprendi um encantamento; e se você me deixar sussurrá-lo no ouvido do seu cavalo, ele ficará tão quieto quanto os meus cinzentos prateados ali.”

“Tente a sorte, então, e ajude-nos o mais rápido possível!” disse o cavaleiro impaciente.

Nisto, o carroceiro puxou a cabeça do corcel que empinava para perto da sua e falou algumas palavras em seu ouvido. O animal instantaneamente ficou quieto e subjugado; apenas sua respiração rápida e seu suor fumegante mostravam sua violência recente.

Huldbrand teve pouco tempo para perguntar por que meios isso fora efetuado. Ele concordou com o homem que este deveria levar Bertalda em sua carroça, onde, como disse, uma quantidade de algodão macio estava estivada, e ele poderia, desta forma, conduzi-la ao Castelo Ringstetten. O cavaleiro poderia acompanhá-los a cavalo. Mas o cavalo parecia estar exausto demais para carregar seu mestre por tanto tempo. Vendo isso, o homem aconselhou-o a montar na carroça com Bertalda. O cavalo poderia ser atrelado a ela por trás.

“É descida”, disse ele, “e a carga para meus cinzentos será, portanto, leve.”

O cavaleiro aceitou sua oferta e entrou na carroça com Bertalda. O cavalo seguiu pacientemente atrás, enquanto o carroceiro, robusto e atencioso, caminhava ao lado deles.

Em meio ao silêncio e à obscuridade crescente da noite, a tempestade soando cada vez mais remota, na sensação reconfortante de sua segurança, uma conversa confidencial surgiu entre Huldbrand e Bertalda. Ele a repreendeu com as palavras mais lisonjeiras por sua fuga ressentida. Ela desculpou-se com humildade e sentimento; e de cada tom de sua voz brilhava, como uma lâmpada guiando o amado através da noite e das trevas, que Huldbrand ainda lhe era caro. O cavaleiro sentiu o sentido de suas palavras mais do que ouviu as próprias palavras, e respondeu simplesmente a esse sentido.

Então o carroceiro gritou de repente, com uma voz assustadora: “Avante, meus cinzentos, avante com seus pés! Ei, agora juntos! — mostrem seu espírito! — lembrem-se de quem vocês são!”

O cavaleiro inclinou-se sobre a lateral da carroça e viu que os cavalos haviam entrado no meio de um riacho espumante e estavam, de fato, quase nadando, enquanto as rodas da carroça giravam e brilhavam como rodas de moinho; e o carroceiro passara à frente, para evitar o inchaço da enchente.

“Que tipo de estrada é esta? Ela leva para o meio do riacho!” gritou Huldbrand para seu guia.

“De modo algum, senhor”, retornou ele, com uma risada; “é exatamente o contrário. O riacho é que está correndo no meio da nossa estrada. Apenas olhe ao seu redor e veja como tudo está inundado!”

O vale inteiro, de fato, estava em comoção, à medida que as águas, repentinamente elevadas e visivelmente subindo, varriam-no.

“É Kuhleborn, aquele espírito das águas maligno, que deseja nos afogar!” exclamou o cavaleiro. “Você não tem um encanto de proteção contra ele, amigo?”

“Eu tenho um”, respondeu o carroceiro; “mas não posso e não devo fazer uso dele antes que você saiba quem eu sou.”

“É hora de enigmas?” gritou o cavaleiro. “A enchente está subindo mais alto a cada momento; e o que me importa saber quem VOCÊ é?”

“Mas talvez importe, sim”, disse o guia; “pois eu sou Kuhleborn.”

Falando assim, ele enfiou a cabeça na carroça e riu com um rosto distorcido. Mas a carroça não era mais uma carroça; os cavalos cinzentos não eram mais cavalos; tudo foi transformado em espuma — tudo afundou nas águas que corriam e sibilavam ao redor deles; enquanto o próprio carroceiro, elevando-se sob a forma de uma onda gigantesca, arrastou o corcel que lutava inutilmente para baixo das águas, depois ergueu-se novamente, enorme como uma torre líquida, varreu sobre as cabeças do par que flutuava, e estava prestes a enterrá-los irremediavelmente sob ela. Então a voz suave de Undine foi ouvida através do tumulto; a lua emergiu das nuvens; e, por sua luz, Undine foi vista nas alturas acima do vale. Ela repreendeu, ela ameaçou as águas abaixo dela. A onda ameaçadora e semelhante a uma torre desapareceu, resmungando e murmurando; as águas fluíram suavemente sob os raios da lua; enquanto Undine, como uma pomba branca pairando, voou da colina, ergueu o cavaleiro e Bertalda e os levou para um local verde, onde, por seus esforços sinceros, ela logo os restaurou e dissipou seus terrores. Ela então ajudou Bertalda a montar no palafrém branco no qual ela mesma fora trazida ao vale; e assim todos os três retornaram para casa, para o Castelo Ringstetten.

CAPÍTULO 8

Após esta última aventura, viveram no castelo sem perturbações e em desfrute pacífico. O cavaleiro estava cada vez mais impressionado com a bondade celestial de sua esposa, que ela demonstrara tão nobremente por sua perseguição instantânea e pelo resgate que efetuara no Vale Negro, onde o poder de Kuhleborn começava novamente. A própria Undine desfrutava daquela paz e segurança que nunca falham à alma enquanto ela sabe claramente que está no caminho certo; e, além disso, no amor e na consideração recém-despertados de seu marido, mil lampejos de esperança e alegria brilhavam sobre ela.

Bertalda, por outro lado, mostrava-se grata, humilde e tímida, sem atribuir a si mesma qualquer mérito por assim o fazer. Sempre que Huldbrand ou Undine começavam a explicar-lhe suas razões para cobrir a fonte, ou suas aventuras no Vale Negro, ela suplicava-lhes fervorosamente que a poupassem do relato, pois a recordação da fonte causava-lhe vergonha demais, e a do Vale Negro, terror demais. Ela não aprendeu mais nada sobre nenhum dos dois; e o que ela ganharia com mais conhecimento? A paz e a alegria tinham visivelmente feito morada no Castelo Ringstetten. Eles desfrutavam de suas bênçãos presentes em perfeita segurança e agora imaginavam que a vida não poderia produzir nada além de flores e frutos agradáveis.

Nesta felicidade, o inverno veio e passou; e a primavera, com sua folhagem de verde tenro e seu céu do mais suave azul, sucedeu para alegrar os corações dos três habitantes do castelo. A estação estava em harmonia com suas mentes, e suas mentes conferiam suas próprias matizes à estação. Que admiração, então, que suas cegonhas e andorinhas os inspirassem também com uma disposição para viajar? Em uma manhã brilhante, enquanto caminhavam em direção a uma das nascentes do Danúbio, Huldbrand falou sobre a magnificência deste rio nobre, como ele continuava a crescer à medida que fluía através de países enriquecidos por suas águas, com que esplendor Viena erguia-se e cintilava em suas margens, e como ele se tornava mais adorável e imponente ao longo de seu progresso.

“Deve ser glorioso seguir o seu curso até Viena!” exclamou Bertalda, com entusiasmo; mas, retomando imediatamente o comportamento humilde e modesto que demonstrara recentemente, ela calou-se e corou em silêncio.

Isso comoveu profundamente Ondina; e, com o desejo mais vivo de agradar à sua amiga, ela disse: “O que nos impede de fazer esta pequena viagem?”

Bertalda levantou-se de um salto, radiante, e as duas amigas começaram, no mesmo instante, a pintar esta viagem encantadora pelo Danúbio com as cores mais brilhantes. Huldbrand, também, concordou com o projeto com prazer; apenas sussurrou uma vez, com certo alarme, ao ouvido de Ondina:

“Mas, a essa distância, Kuhleborn volta a possuir o seu poder!”

“Que ele venha, que ele venha”, respondeu ela com uma risada; “eu estarei lá, e ele não se atreve a cometer nenhuma de suas maldades na minha presença.”

Assim, o último impedimento foi removido. Prepararam-se para a expedição e logo partiram com espíritos animados e as mais brilhantes esperanças.

Mas não se surpreenda, ó homem, se os acontecimentos quase sempre ocorrem de forma muito diferente do que você espera. Esse poder malicioso que espreita para a nossa destruição deleita-se em embalar a sua vítima escolhida com doces canções e ilusões douradas; enquanto, por outro lado, o mensageiro do céu muitas vezes bate com força à nossa porta, para nos alarmar e despertar.

Durante os primeiros dias da sua descida pelo Danúbio, eles estiveram extraordinariamente felizes. Quanto mais avançavam sobre as águas deste rio orgulhoso, mais belas se tornavam as paisagens. Mas, em meio a cenários de resto deliciosos, dos quais haviam prometido a si mesmos o mais puro deleite, o obstinado Kuhleborn, abandonando todo o disfarce, começou a mostrar o seu poder de importuná-los. Ele não tinha outro meio de fazer isso, na verdade, senão através de truques — pois Ondina frequentemente repreendia as ondas agitadas ou os ventos contrários, e então a insolência do inimigo era instantaneamente humilhada e subjugada; mas os seus ataques eram renovados, e as repreensões de Ondina tornavam-se novamente necessárias, de modo que o prazer dos companheiros de viagem era completamente destruído. Os barqueiros, também, sussurravam continuamente uns aos outros em consternação, observando os seus três superiores com desconfiança, enquanto até os criados começavam cada vez mais a formar suposições sombrias e a vigiar o seu senhor e a sua senhora com olhares de suspeita.

Huldbrand dizia frequentemente para si mesmo: “Isto é o que acontece quando semelhantes não se unem a semelhantes — quando um homem forma uma união antinatural com uma ninfa do mar.” Exculpando-se, como todos nós gostamos de fazer, ele acrescentava: “Na verdade, eu não sabia que ela era uma ninfa do mar. É o meu infortúnio que os meus passos sejam assombrados e perturbados pelos humores selvagens dos seus parentes, mas não é o meu crime.”

Com reflexões como estas, ele sentia-se, em certa medida, fortalecido; mas, por outro lado, sentia ainda mais mau humor, quase aversão, em relação a Ondina. Ele olhava-a com raiva, e a infeliz esposa compreendia demasiado bem o seu significado. Um dia, entristecida por esta hostilidade, bem como exausta pelos seus incessantes esforços para frustrar os artifícios de Kuhleborn, ela caiu, ao anoitecer, em um sono profundo, embalada e acalmada pelo movimento suave da barca. Mas mal ela fechou os olhos, quando todas as pessoas no barco, em qualquer direção que olhassem, viram a cabeça de um homem, assustadora além da imaginação: cada cabeça erguia-se das ondas, não como a de uma pessoa a nadar, mas perfeitamente perpendicular, como se estivesse firmemente fixada ao espelho d'água, e ainda assim movendo-se com a barca. Todos queriam mostrar ao seu companheiro o que o aterrorizava, e cada um percebia a mesma expressão de horror no rosto do outro, apenas as mãos e os olhos estavam direcionados para um ponto diferente, como se para um lugar onde o monstro, entre rindo e ameaçando, se erguia diante de cada um.

Quando, no entanto, quiseram fazer entender uns aos outros a localização, e todos gritaram: “Olhem, ali!” “Não, ali!”, as cabeças assustadoras tornaram-se visíveis para todos, e o rio inteiro ao redor do barco fervilhava com as faces mais horríveis. Todos soltaram um grito de terror ao ver aquilo, e Ondina despertou do sono. Assim que ela abriu os olhos, as faces deformadas desapareceram. Mas Huldbrand ficou furioso com tantas visões hediondas. Ele teria explodido em imprecações selvagens, se Ondina, com o olhar mais meigo e o tom de voz mais suave, não tivesse dito:

“Pelo amor de Deus, meu marido, não expresse o seu descontentamento contra mim aqui — estamos sobre a água.”

O cavaleiro calou-se e sentou-se, absorto em pensamentos profundos. Ondina sussurrou-lhe ao ouvido: “Não seria melhor, meu amor, desistir desta viagem insensata e regressar em paz ao Castelo de Ringstetten?”

Mas Huldbrand murmurou com raiva: “Então devo tornar-me um prisioneiro no meu próprio castelo, e não ter permissão para respirar um momento a não ser quando a fonte estiver coberta? Quisesse o céu que os seus parentes malditos...”

Então, Ondina pressionou a sua mão delicada sobre os lábios dele, carinhosamente. Ele não disse mais nada; mas, em silêncio, ponderou sobre tudo o que Ondina dissera antes.

Bertalda, entretanto, entregara-se a uma multidão de pensamentos que a invadiam. Sobre a origem de Ondina ela sabia muita coisa, mas não tudo; e o terrível Kuhleborn, especialmente, permanecia para ela um mistério assustador e impenetrável — na verdade, ela nunca ouvira o seu nome. Refletindo sobre estas coisas maravilhosas, ela desapertou, sem ter plena consciência do que estava a fazer, um colar de ouro que Huldbrand, num dos dias anteriores da viagem, lhe comprara a um mercador ambulante; e ela agora deixava-o flutuar, por brincadeira, logo acima da superfície da corrente, enquanto, no seu estado de devaneio, desfrutava do reflexo brilhante que ele lançava sobre a água, tão límpida sob o brilho do anoitecer. Naquele instante, uma mão enorme surgiu subitamente do Danúbio, agarrou o colar e desapareceu com ele sob a corrente. Bertalda soltou um grito, e uma risada de escárnio ressoou vinda das profundezas do rio.

O cavaleiro já não podia conter a sua ira. Levantou-se, despejou uma torrente de repreensões, cobriu de maldições todos aqueles que interferiam nos seus amigos e perturbavam a sua vida, e desafiou a todos, espíritos da água ou sereias, a que se aproximassem do alcance da sua espada.

Bertalda, entretanto, chorava pela perda do ornamento tão caro ao seu coração, e as suas lágrimas eram para Huldbrand como óleo derramado sobre a chama da sua fúria; enquanto Ondina mantinha a mão sobre a borda do barco, mergulhando-a nas ondas, murmurando baixinho para si mesma e apenas ocasionalmente interrompendo o seu sussurro estranho e misterioso para implorar ao marido:

“Não me repreenda aqui, meu amado; culpe todos os outros como quiser, mas não a mim. Você sabe o porquê!” E, na verdade, embora ele tremesse com o excesso de paixão, conteve-se de dizer qualquer palavra diretamente contra ela.

Ela então trouxe, na sua mão molhada que mantivera sob as ondas, um colar de coral de tal beleza requintada, tal brilho cintilante, que ofuscou os olhos de todos os que o viram. “Tome isto”, disse ela, estendendo-o gentilmente a Bertalda, “mandei trazê-lo para compensar, em parte, a sua perda; portanto, não se entristeça mais, pobre criança.”

Mas o cavaleiro correu para o meio deles e, arrebatando o belo ornamento da mão de Ondina, atirou-o de volta para a corrente; e, louco de raiva, exclamou: “Então é assim, você ainda mantém uma ligação com eles! Em nome de todas as bruxas, vá e permaneça entre eles com os seus presentes, sua feiticeira, e deixe-nos, seres humanos, em paz!”

Com os olhos fixos, mas banhados em lágrimas, a pobre Ondina olhou para ele, com a mão ainda estendida, exatamente como quando oferecera, tão amorosamente, o seu presente brilhante a Bertalda. Ela começou então a chorar cada vez mais, como se o seu coração fosse partir-se, como uma criança inocente e terna, cruelmente ofendida. Por fim, exausta, disse: “Adeus, meu querido, adeus. Eles não lhe farão mal; apenas permaneça fiel, para que eu possa ter poder para mantê-los afastados de você. Mas eu devo partir! Partir mesmo nesta juventude tão precoce! Oh, dor, dor! O que você fez! Oh, dor, dor!”

E ela desapareceu pela borda do barco. Se ela mergulhou na corrente, ou se, como água que se funde em água, ela fluiu com ela, eles não souberam — o seu desaparecimento foi como ambas as coisas e como nenhuma. Mas ela perdeu-se no Danúbio, instantânea e completamente; apenas pequenas ondas ainda sussurravam e soluçavam ao redor do barco, e quase podiam ser ouvidas a dizer: “Oh, dor, dor! Ah, permaneça fiel! Oh, dor!”

Mas Huldbrand, num acesso de lágrimas ardentes, atirou-se ao convés da barca; e um desmaio profundo envolveu logo o homem miserável num esquecimento abençoado da sua desgraça.

Devemos chamar de coisa boa ou má que o nosso luto não tenha longa duração? Refiro-me àquele luto profundo que vem das fontes mais profundas do nosso ser, que se torna tão uno com os objetos perdidos do nosso amor que mal percebemos a sua perda, enquanto a nossa dor se dedica religiosamente a honrar a imagem deles até alcançarmos aquela fronteira que eles já alcançaram!

Na verdade, todos os bons homens observam, em certo grau, esta devoção religiosa; mas, contudo, logo deixa de ser aquele primeiro luto profundo. Outras e novas imagens aglomeram-se, até que, para nossa tristeza, experimentamos a vaidade de todas as coisas terrenas. Por isso, devo dizer: Ai de nós, que o nosso luto tenha uma duração tão curta!

O senhor de Ringstetten experimentou isso; mas se foi para o seu bem, descobriremos no desenrolar desta história. A princípio, ele não conseguia fazer nada além de chorar — chorar tão amargamente quanto a pobre e gentil Ondina chorara quando ele arrebatou da sua mão aquele ornamento brilhante, com o qual ela tão gentilmente desejava compensar a perda de Bertalda. E então ele estendeu a mão, como ela fizera, e chorou novamente como ela, com renovada violência. Ele nutria uma esperança secreta de que até as fontes da vida se esgotariam por fim de tanto chorar. E não terá passado, pela mente de muitos de nós, um pensamento semelhante, com um prazer doloroso, em tempos de profunda aflição? Bertalda chorava com ele; e viveram juntos durante muito tempo no castelo de Ringstetten em silêncio ininterrupto, honrando a memória de Ondina e tendo esquecido quase totalmente o seu antigo apego. E, por isso, a boa Ondina, por esta altura, visitava frequentemente os sonhos de Huldbrand: ela acalmava-o com carícias suaves e afetuosas, e depois partia novamente, chorando em silêncio; de modo que, quando ele acordava, por vezes não sabia como as suas faces tinham ficado tão molhadas — se fora causado pelas lágrimas dela, ou apenas pelas suas próprias.

Mas, à medida que o tempo avançava, estas visões tornaram-se menos frequentes, e a tristeza do cavaleiro menos aguda; ainda assim, ele talvez nunca tivesse desejado outra coisa senão pensar silenciosamente em Ondina e falar dela, não tivesse o velho pescador chegado inesperadamente ao castelo, insistindo com veemência que Bertalda regressasse com ele como sua filha. Ele recebera informações sobre o desaparecimento de Ondina; e não estava disposto a permitir que Bertalda continuasse por mais tempo no castelo com o cavaleiro viúvo. “Pois”, dizia ele, “se a minha filha me ama ou não, é algo que no momento não me interessa saber; mas o seu bom nome está em jogo: e quando esse é o caso, nada mais deve ser considerado.”

Esta resolução do velho pescador, e a solidão assustadora que, com a partida de Bertalda, ameaçava oprimir o cavaleiro em cada sala e corredor do castelo deserto, trouxe à luz o que desaparecera na sua dor por Ondina — refiro-me ao seu apego pela bela Bertalda; e isto ele deu a conhecer ao pai dela.

O pescador tinha muitas objeções a fazer ao casamento proposto. O velho amara Ondina com uma ternura extrema, e era duvidoso, para a sua mente, que o simples desaparecimento da sua amada filha pudesse ser visto adequadamente como a sua morte. Mas mesmo que se admitisse que o cadáver dela estivesse a jazêr rígido e frio no fundo do Danúbio, ou arrastado pela corrente para o oceano, ainda assim Bertalda tivera alguma culpa na morte dela; e não era adequado que ela ocupasse o lugar da pobre esposa ferida. O pescador, contudo, sentira também uma forte consideração pelo cavaleiro: isto, e as súplicas da sua filha, que se tornara muito mais gentil e respeitosa, bem como as suas lágrimas por Ondina, tudo exerceu influência, e ele teve, por fim, de ser forçado a desistir da sua oposição, pois permaneceu no castelo sem objeções, e um mensageiro foi enviado em caráter de urgência ao Padre Heilmann, que, em dias passados e mais felizes, unira Ondina e Huldbrand, solicitando-lhe que viesse realizar a cerimônia no segundo casamento do cavaleiro.

Mal o santo homem lera a carta do senhor de Ringstetten, partiu para a viagem e fê-la com muito maior rapidez a caminho do castelo do que o mensageiro fizera para o alcançar. Sempre que o fôlego lhe faltava no seu progresso rápido, ou os seus membros velhos doíam de cansaço, ele dizia para si mesmo:

“Talvez eu consiga impedir um pecado; então, não desfaleça, corpo definhado, antes que eu chegue ao fim da minha jornada!” E com vigor renovado ele pressionava, apressando-se sem descanso ou repouso, até que, tarde de uma noite, entrou no pátio sombrio do castelo de Ringstetten.

Os noivos estavam sentados lado a lado sob as árvores, e o velho pescador, em estado de reflexão, sentava-se perto deles. No momento em que viram o Padre Heilmann, levantaram-se com um salto de alegria e rodearam-no com uma saudação ansiosa. Mas ele, em poucas palavras, pediu ao noivo que voltasse com ele para o interior do castelo; e quando Huldbrand ficou mudo de surpresa e hesitou em cumprir o seu pedido urgente, o piedoso pregador disse-lhe:

“Não sei por que haveria de querer falar-lhe em particular; o que tenho a dizer diz tanto respeito a Bertalda e ao pescador quanto a você; e o que devemos, em algum momento, ouvir, é melhor ouvir o mais cedo possível. Está, então, tão certo, Cavaleiro Huldbrand, de que a sua primeira esposa está realmente morta? Mal posso acreditar nisso. Não direi nada, na verdade, sobre o estado misterioso em que ela possa estar a existir agora; não sei nada disso com certeza. Mas que ela foi uma esposa extremamente dedicada e fiel, está além de qualquer disputa. E, durante as últimas catorze noites, ela apareceu-me em sonho, de pé junto ao meu leito, torcendo as suas mãos delicadas em angústia e suspirando: ‘Ah, impeça-o, caro padre! Eu ainda estou viva! Ah, salve a vida dele! Ah, salve a sua alma!’

“Não compreendi o que esta visão noturna poderia significar, depois veio o seu mensageiro; e apressei-me agora até aqui, não para unir, mas, como espero, para separar o que não deveria ser unido. Deixe-a, Huldbrand! Deixe-o, Bertalda! Ele ainda pertence a outra; e não vê na sua face pálida o luto pela sua esposa perdida? Aquele não é o aspecto de um noivo; e o espírito diz-me que ‘se você não o deixar, nunca será feliz!’”

Os três sentiram no seu íntimo que o Padre Heilmann dizia a verdade; mas não queriam acreditar nisso. Até o velho pescador estava tão infatuado que achava que não poderia ser de outra forma a não ser como tinham decidido ultimamente entre si. Todos, portanto, com uma determinação sombria e ansiosa, lutaram contra as representações e avisos do padre, até que, abanando a cabeça e oprimido pela tristeza, ele finalmente abandonou o castelo, não querendo aceitar o abrigo oferecido nem por uma única noite, ou sequer provar um pedaço do refresco que lhe levaram. Huldbrand convenceu-se, contudo, de que o padre era apenas um visionário; e enviou, ao romper do dia, um monge do mosteiro mais próximo, que, sem escrúpulos, prometeu realizar a cerimônia dentro de poucos dias.

CAPÍTULO 9

Era entre a noite e o romper do dia que Huldbrand estava deitado no seu leito, entre o acordar e o dormir. Sempre que tentava compor-se para dormir, um terror apoderava-se dele e assustava-o, como se o seu sono fosse assombrado por espectros. Mas ele fez um esforço para se despertar completamente. Sentiu-se abanado como pelas asas de um cisne, e embalado como pelo murmúrio das águas, até que, em doce confusão dos sentidos, caiu de volta no seu estado de semiconsciência.

Por fim, contudo, ele deve ter adormecido profundamente; pois parecia ser levantado por asas de cisnes e ser levado para longe, sobre terra e mar, enquanto a música deles crescia no seu ouvido da forma mais doce. “A música do cisne! O canto do cisne!” ele não podia deixar de repetir para si mesmo a cada momento; “não será um presságio certo de morte?” Provavelmente, contudo, tinha ainda outro significado. De repente, parecia estar a pairar sobre o Mar Mediterrâneo. Um cisne cantava melodiosamente no seu ouvido que aquele era o Mar Mediterrâneo. E enquanto ele olhava para baixo, para as ondas, estas tornavam-se transparentes como cristal, de modo que ele podia ver através delas até ao fundo.

A isto, um calafrio de deleite percorreu-o, pois podia ver Ondina, onde ela estava sentada sob a cúpula de cristal límpido. É verdade que ela chorava muito amargamente e parecia muito mais triste do que naqueles dias felizes em que viveram juntos no castelo de Ringstetten, tanto na sua chegada quanto depois, logo antes de partirem para a sua fatídica viagem pelo Danúbio. O cavaleiro não podia deixar de pensar em tudo isto com profunda emoção, mas não parecia que Ondina estivesse consciente da sua presença.

Kuhleborn, entretanto, aproximara-se dela e estava prestes a repreendê-la por chorar, quando ela se ergueu e olhou para ele com um ar tão majestoso e imponente, que ele quase recuou.

“Embora eu habite agora aqui sob as águas”, disse ela, “ainda assim trouxe a minha alma comigo. E, portanto, posso chorar, por pouco que você possa saber o que são tais lágrimas. Elas são abençoadas, como tudo é abençoado para alguém dotado de uma verdadeira alma.”

Ele abanou a cabeça, descrente; e, após alguma reflexão, respondeu: “E, contudo, sobrinha, você está sujeita às nossas leis, como um ser da mesma natureza que nós; e caso ELE se mostre infiel a você e case novamente, você é obrigada a tirar-lhe a vida.”

“Ele permanece viúvo até esta hora”, respondeu Ondina, “e eu ainda sou cara ao seu coração entristecido.”

“Ele está, contudo, noivo”, disse Kuhleborn, com uma risada de desprezo; “e deixe passar apenas alguns dias, e então vem o padre com a sua bênção nupcial; e então você terá de subir para a morte do marido com duas esposas.”

“Eu não tenho o poder”, respondeu Ondina, com um sorriso. “Eu selei a fonte com segurança contra mim mesma e contra todos da minha raça.”

“Ainda assim, caso ele deixe o seu castelo”, disse Kuhleborn, “ou caso ele permita uma vez que a fonte seja descoberta, o que então? Pois ele pensa pouco nestas coisas.”

“Por essa mesma razão”, disse Ondina, ainda sorrindo entre as suas lágrimas, “por essa mesma razão ele está neste momento a pairar em espírito sobre o Mar Mediterrâneo, e a sonhar com o aviso que o nosso discurso lhe dá. Eu planejei tudo isto pensativamente.”

Naquele instante, Kuhleborn, inflamado de raiva, olhou para o cavaleiro, ameaçou-o com ira, bateu com o pé no chão e disparou como uma flecha sob as ondas. Ele parecia inchar na sua fúria até ao tamanho de uma baleia. Novamente os cisnes começaram a cantar, a agitar as suas asas e a voar; o cavaleiro parecia elevar-se sobre montanhas e riachos, e finalmente pousar no Castelo de Ringstetten e acordar no seu leito.

No seu leito ele realmente acordou; e o seu atendente, entrando no mesmo instante, informou-o de que o Padre Heilmann ainda se encontrava nas redondezas; que ele o encontrara, na noite anterior, na floresta, onde se abrigava numa cabana que formara entrelaçando os ramos das árvores e cobrindo-os com musgo e arbustos finos; e que à pergunta “O que ele fazia ali, já que não daria a bênção matrimonial?”, a sua resposta fora —

“Há muitas outras bênçãos além daquelas concedidas nos casamentos; e embora eu não tenha vindo para oficiar a boda, posso ainda oficiar uma solenidade muito diferente. Todas as coisas têm as suas estações; devemos estar preparados para todas elas. Além disso, casar e chorar não são, de forma alguma, tão diferentes assim; como qualquer um que não esteja voluntariamente cego deve saber muito bem.”

O cavaleiro fez muitas reflexões confusas sobre estas palavras e sobre o seu sonho. Mas é muito difícil desistir de algo que outrora consideráramos como certo; por isso, tudo continuou como fora arranjado anteriormente.

Se eu vos contasse como passou o banquete de casamento no Castelo Ringstetten, seria como se vísseis um amontoado de coisas brilhantes e agradáveis, mas todas cobertas por um crepe de luto negro, através do qual o seu brilho pareceria apenas uma zombaria da vacuidade de todas as alegrias terrenas.

Não foi qualquer delírio espectral que perturbou a cena da festividade; pois o castelo, como bem sabemos, fora protegido contra a malícia dos espíritos das águas. Mas o cavaleiro, o pescador e todos os convidados foram incapazes de banir o sentimento de que a personagem principal da festa ainda faltava, e de que essa personagem principal não poderia ser outra senão a gentil e amada Undine.

Sempre que se ouvia uma porta abrir, todos os olhares se voltavam involuntariamente nessa direção; e se não fosse senão o despenseiro com novos pratos, ou o copeiro com um suprimento de vinho de sabor mais requintado que o anterior, voltavam a olhar para baixo com tristeza e deceção, enquanto os lampejos de espírito e alegria que passavam por vezes de uns para os outros eram extintos pelas lágrimas de uma lembrança lúgubre.

A noiva era a menos pensativa da companhia, e, portanto, a mais feliz; mas mesmo para ela parecia estranho estar sentada à cabeceira da mesa, usando uma grinalda verde e um vestido bordado a ouro, enquanto Undine jazia como um cadáver, rígido e frio, no fundo do Danúbio, ou levada pela corrente para o oceano. Pois, desde que o seu pai sugerira algo deste género, as suas palavras ecoavam continuamente no seu ouvido; e, neste dia em particular, elas não se desvaneciam da sua memória, nem cediam a outros pensamentos.

A noite mal chegara quando os convidados regressaram às suas casas; não despedidos pela impaciência do noivo, como acontecia por vezes com as festas de casamento, mas constrangidos apenas por uma tristeza profunda e presságios de infortúnio. Bertalda retirou-se com as suas aias, e o cavaleiro com os seus atendentes, para se despirem, mas não havia uma companhia alegre de damas de honor e padrinhos nesta festa lúgubre.

Bertalda desejava despertar pensamentos mais alegres; ordenou às suas aias que espalhassem perante ela um conjunto brilhante de joias, um presente de Huldbrand, juntamente com vestes e véus ricos, para que pudesse selecionar entre eles os mais luminosos e belos para o seu traje matinal. As aias regozijaram-se com esta oportunidade de proferir bons votos e promessas de felicidade à sua jovem senhora, e não deixaram de exaltar a beleza da noiva com a mais ardente eloquência. Isto prolongou-se por muito tempo, até que Bertalda, olhando-se finalmente num espelho, disse com um suspiro:

“Ah, mas não vedes claramente como estou a ficar cheia de sardas? Olhai aqui, no lado do meu pescoço.”

Elas olharam para o local e encontraram as sardas, de facto, como a sua bela senhora dissera; mas chamaram-lhes meros sinais de beleza, os mais ténues toques do sol, que apenas realçariam a brancura da sua pele delicada. Bertalda abanou a cabeça, vendo-as ainda como uma mancha. “E eu poderia removê-las”, disse ela finalmente, suspirando. “Mas a fonte do castelo está coberta, da qual eu costumava obter aquela água preciosa, tão purificadora para a pele. Oh, se eu tivesse esta noite apenas um único frasco dela!”

“É só isso?” exclamou uma aia atenta, rindo-se enquanto deslizava para fora do aposento.

“Ela não será tão tola”, disse Bertalda, satisfeita e surpreendida, “a ponto de mandar tirar a tampa de pedra da fonte logo esta noite?” Nesse instante, ouviram o passo de homens a passar pelo pátio, e puderam ver da janela a aia solícita a conduzi-los diretamente para a fonte, e que carregavam alavancas e outros instrumentos aos ombros.

“É certamente a minha vontade”, disse Bertalda com um sorriso, “se não lhes tomar muito tempo.” E, satisfeita com o pensamento de que uma palavra sua era agora suficiente para realizar o que outrora fora recusado com uma censura dolorosa, ela observou as operações no luminoso pátio do castelo banhado pelo luar.

Os homens levantaram a enorme pedra com esforço; alguns deles suspiravam ocasionalmente, ao lembrarem-se de que estavam a destruir a obra da sua antiga e amada senhora. O seu trabalho, contudo, foi muito mais leve do que esperavam. Parecia que algum poder vindo do interior da própria fonte os ajudava a levantar a pedra.

“Parece”, diziam os operários uns aos outros com espanto, “como se a água confinada se tivesse tornado uma fonte a jorrar.” E a pedra subia cada vez mais e, quase sem a assistência dos trabalhadores, rolou lentamente para o pavimento com um som oco. Mas uma aparição que emanou da abertura da fonte encheu-os de temor, à medida que se erguia como uma coluna de água branca; a princípio, imaginaram que fosse realmente uma fonte, até perceberem que a forma que se erguia era uma mulher pálida, velada em branco. Ela chorava amargamente, erguia as mãos acima da cabeça, torcendo-as tristemente enquanto, com passo lento e solene, se movia em direção ao castelo. Os servos recuaram e fugiram da fonte, enquanto a noiva, pálida e imóvel de horror, permanecia com as suas aias à janela. Quando a figura chegou mesmo por baixo do seu quarto, olhou para cima, soluçando, e Bertalda pensou reconhecer através do véu os traços pálidos de Undine. Mas a forma lúgubre prosseguiu, triste, relutante e hesitante, como se se dirigisse para o local da execução. Bertalda gritou às suas aias para chamarem o cavaleiro; nenhuma delas ousou mover-se do seu lugar; e até a própria noiva tornou-se novamente muda, como se tremesse ao som da sua própria voz.

Enquanto permaneciam junto à janela, imóveis como estátuas, a misteriosa errante entrara no castelo, subira as escadas bem conhecidas e percorrera os salões bem conhecidos em lágrimas silenciosas. Ai, quão diferentemente percorrera ela outrora estes aposentos!

O cavaleiro, entretanto, dispensara os seus atendentes. Meio despido e em profundo abatimento, estava de pé perante um grande espelho, uma vela de cera ardia fracamente ao seu lado. Nesse momento, alguém bateu à sua porta muito, muito suavemente. Undine costumava bater desta forma, quando jogava algum dos seus estratagemas cativantes.

“É tudo uma ilusão!” disse ele para si mesmo. “Devo ir para o meu leito nupcial.”

“Deves, de facto, mas para um leito frio!” ouviu ele uma voz, sufocada por soluços, repetir do lado de fora; e então viu no espelho que a porta do seu quarto se abria lenta, lentamente, e a figura branca entrou e fechou-a suavemente atrás de si.

“Eles abriram a nascente”, disse ela em tom baixo; “e agora estou aqui, e tu deves morrer.”

Ele sentiu, na sua respiração que falhava, que isto teria de ser; mas cobrindo os olhos com as mãos, gritou: “Não me tornes louco de terror na minha hora de morte. Se esse véu esconde traços hediondos, não o levantes! Tira-me a vida, mas não me deixes ver-te.”

“Ai!” respondeu a figura pálida, “não me olharás então mais uma vez? Estou tão bela agora como quando me cortejaste na ilha!”

“Oh, se fosse realmente assim”, suspirou Huldbrand, “e que eu pudesse morrer por um beijo teu!”

“De muito boa vontade, meu amor”, disse ela. Ela lançou o seu véu para trás; divinamente belo brilhou o seu semblante puro. Tremendo de amor e do temor da morte iminente, o cavaleiro inclinou-se para ela. Ela beijou-o com um beijo sagrado; mas não relaxou o seu aperto, pressionando-o mais estreitamente nos seus braços, e chorando como se quisesse chorar até à última gota da sua alma. Lágrimas correram para os olhos do cavaleiro, enquanto um arrepio tanto de felicidade quanto de agonia percorria o seu coração, até que ele finalmente expirou, afundando-se suavemente dos braços dela sobre a almofada do seu leito, um cadáver.

“Chorei-o até à morte!” disse ela a alguns domésticos, que a encontraram na antecâmara; e, passando pelo grupo aterrorizado, ela saiu lentamente e desapareceu na fonte.

CAPÍTULO 10

O Padre Heilmann regressara ao castelo assim que a morte do senhor de Ringstetten foi dada a conhecer na vizinhança; e chegou na mesma hora em que o monge que casara o infeliz casal fugia da porta, dominado pelo desânimo e horror.

Quando o Padre Heilmann foi informado disto, respondeu: “Está tudo bem; e agora vêm os deveres do meu ofício, nos quais não necessito de um assistente.”

Começou então a consolar a noiva, agora viúva, embora com pouco benefício para o seu espírito mundano e irrefletido.

O velho pescador, por outro lado, embora severamente afligido, estava muito mais resignado ao destino do seu genro e da sua filha; e enquanto Bertalda não conseguia evitar acusar Undine de assassina e feiticeira, o velho disse calmamente: “Afinal, não poderia ter acontecido de outra forma. Não vejo nisto senão o juízo de Deus; e nenhum coração foi mais atravessado pela morte de Huldbrand do que aquele que foi obrigado a provocá-la, a pobre e abandonada Undine!”

Ajudou então a organizar as solenidades fúnebres como convinha à classe do falecido. O cavaleiro deveria ser enterrado no cemitério da aldeia, em cujo solo sagrado se encontravam os túmulos dos seus antepassados; um lugar que eles, tal como ele próprio, dotaram com ricos privilégios e dádivas. O seu escudo e elmo jaziam sobre o caixão, prontos a serem descidos com ele para a sepultura, pois o Senhor Huldbrand de Ringstetten morrera o último da sua linhagem. Os enlutados começaram a sua marcha dolorosa, entoando os seus cânticos melancólicos sob o céu calmo e sem nuvens; o Padre Heilmann precedia a procissão, carregando um crucifixo elevado, enquanto a inconsolável Bertalda seguia, apoiada pelo seu velho pai.

Então, viram subitamente, no meio das mulheres enlutadas no cortejo da viúva, uma figura branca como a neve, estreitamente velada, torcendo as mãos na veemência selvagem da dor. Aqueles por quem ela passava, tomados por um pavor secreto, recuavam ou desviavam-se; e devido aos seus movimentos, os outros, pelos quais a estranha branca passava agora, ficavam ainda mais aterrorizados, de modo a produzir confusão no cortejo fúnebre. Alguns da escolta militar aventuraram-se a dirigir a palavra à figura e tentaram removê-la da procissão, mas ela parecia desaparecer sob as suas mãos, e, no entanto, era imediatamente vista a avançar de novo, com passo lento e solene, entre os seguidores do corpo. Por fim, devido ao retraimento dos atendentes, ela veio a estar logo atrás de Bertalda. Movia-se agora tão lentamente que a viúva não se apercebia da sua presença, e ela caminhava mansa e humildemente atrás dela, sem ser perturbada.

Isto continuou até chegarem ao cemitério, onde a procissão formou um círculo em torno da sepultura aberta. Foi então que Bertalda percebeu a sua companheira não convidada e, metade em raiva e metade em terror, ordenou-lhe que se afastasse do local de descanso final do cavaleiro. Mas a mulher velada, abanando a cabeça com uma negação suave, ergueu as mãos para Bertalda em humilde súplica, pela qual ela ficou grandemente comovida, não podendo deixar de recordar com lágrimas como Undine demonstrara tal doçura de espírito no Danúbio quando lhe estendera o colar de coral.

O Padre Heilmann fez então um sinal com a mão e deu ordem para que todos observassem silêncio perfeito, para que pudessem elevar uma oração de devoção silenciosa sobre o corpo, sobre o qual a terra já fora lançada. Bertalda ajoelhou-se sem falar; e todos se ajoelharam, até os coveiros, que tinham agora terminado o seu trabalho. Mas quando se levantaram, a estranha branca tinha desaparecido. No local onde ela se ajoelhara, uma pequena nascente, de brilho prateado, jorrava do relvado verde, e continuava a inchar e a fluir com um murmúrio baixo, até quase circundar o monte da sepultura do cavaleiro; continuou então o seu curso e desaguou num lago calmo, que ficava ao lado do solo sagrado. Até aos dias de hoje, os habitantes da aldeia apontam a nascente; e mantêm a crença de que é a pobre Undine abandonada, que desta forma ainda envolve carinhosamente o seu amado nos seus braços.

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