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Victorian Short Stories: Stories of Courtship

by Unknown · in Portuguese

ANGELA

Uma História de Amor Invertida

Por William Schwenk Gilbert

(The Century Magazine, setembro de 1890)

Sou um pobre coitado paralisado que, há muitos anos, está confinado a uma cama ou a um sofá. Nos últimos seis anos, ocupei um pequeno quarto, voltado para um dos canais laterais de Veneza, e sem ninguém por perto, exceto uma velha surda, que arruma a minha cama e cuida da minha alimentação; e ali garanto uma parca renda de cerca de trinta libras por ano fazendo desenhos em aquarela de flores e frutas (são os modelos mais baratos em Veneza), e envio-os a um amigo em Londres, que os vende a um negociante por pequenas quantias. Mas, no geral, sou feliz e estou contente.

É necessário que eu descreva a posição do meu quarto de forma bastante minuciosa. Sua única janela fica a cerca de um metro e meio acima da água do canal, e acima dela a casa projeta-se cerca de um metro e oitenta e debruça-se sobre a água, sendo a parte saliente sustentada por estacas robustas cravadas no leito do canal. Este arranjo tem a desvantagem (entre outras) de limitar tanto a minha visão ascendente que não consigo ver mais do que cerca de três metros da altura da casa imediatamente à minha frente, embora, ao me inclinar para fora da janela tanto quanto a minha enfermidade permite, eu consiga ver uma distância considerável ao longo do canal, que não excede quatro metros e meio de largura. Mas, embora eu possa ver pouco da casa material à frente, posso ver o seu reflexo de cabeça para baixo no canal, e tomo um interesse bastante invertido por aqueles de seus habitantes que se mostram de tempos em tempos (sempre de cabeça para baixo) nas suas varandas e janelas.

Quando ocupei o meu quarto pela primeira vez, há cerca de seis anos, a minha atenção foi atraída pelo reflexo de uma menina de treze anos ou mais (tanto quanto pude julgar), que passava todos os dias numa varanda logo acima do alcance ascendente do meu limitado campo de visão. Ela tinha um copo com flores e um crucifixo numa pequena mesa ao seu lado; e como ela se sentava ali, com bom tempo, desde o início da manhã até ao anoitecer, trabalhando assiduamente o tempo todo, concluí que ela ganhava a vida com trabalhos de agulha. Ela era certamente uma menina trabalhadora e, até onde pude julgar pelo seu reflexo invertido, asseada no vestir e bonita. Ela tinha uma mãe idosa, inválida, que, nos dias quentes, sentava-se na varanda com ela, e interessava-me ver a pequena criada embrulhar a senhora em xailes, trazer almofadas para a sua cadeira e um banco para os seus pés, e de vez em quando pousar o seu trabalho e beijar e acariciar a velha senhora por meio minuto, para depois retomar o trabalho.

O tempo passou, e à medida que a pequena criada crescia, o seu reflexo crescia para baixo, e por fim ela era já uma pequena mulher de, suponho, dezasseis ou dezassete anos. Só consigo trabalhar por um par de horas ou mais durante a parte mais clara do dia, por isso tinha tempo de sobra para observar os seus movimentos, e imaginação suficiente para tecer um pequeno romance à volta dela, e dotá-la de uma beleza que, em grande medida, tive de tomar como garantida. Vi — ou imaginei que podia ver — que ela começou a interessar-se pelo meu reflexo (que, claro, ela podia ver como eu podia ver o dela); e um dia, quando me pareceu que ela estava a olhar diretamente para ele — isto é, quando o reflexo dela parecia estar a olhar diretamente para mim — tentei a experiência desesperada de acenar-lhe, e para o meu imenso deleite o seu reflexo acenou em resposta. E assim os nossos dois reflexos tornaram-se conhecidos um do outro.

Não demorei muito a apaixonar-me por ela, mas passou muito tempo antes que eu pudesse decidir-me a fazer mais do que acenar-lhe todas as manhãs, quando a velha me mudava da cama para o sofá junto à janela, e novamente à noite, quando a pequena criada deixava a varanda naquele dia. Um dia, contudo, quando vi o reflexo dela a olhar para o meu, acenei-lhe e atirei uma flor para o canal. Ela acenou várias vezes em resposta, e vi-a chamar a atenção da mãe para o incidente. Então, todas as manhãs, eu atirava uma flor para a água para um "bom dia", e outra à noite para um "boa noite", e logo descobri que não as tinha atirado totalmente em vão, pois um dia ela atirou uma flor para se juntar à minha, e riu-se e bateu palmas quando viu as duas flores unirem forças e flutuarem juntas. E então, todas as manhãs e todas as noites, ela atirava a sua flor quando eu atirava a minha, e quando as duas flores se encontravam ela batia palmas, e eu também; mas quando eram separadas, como por vezes acontecia devido a uma delas ter encontrado um obstáculo que não apanhou a outra, ela erguia as mãos numa bela afetação de desespero, que eu tentava imitar mas de uma forma inglesa e sem sucesso. E quando eram rudemente atropeladas por uma gôndola que passava (o que acontecia não infrequentemente) ela fingia chorar, e eu fazia o mesmo. Então, em bela pantomima, ela apontava para baixo, para o céu, para me dizer que era o Destino que tinha causado o naufrágio das nossas flores, e eu, em pantomima, nem de longe tão bela, tentava transmitir-lhe que o Destino seria mais gentil da próxima vez, e que talvez amanhã as nossas flores tivessem mais sorte — e assim o namoro inocente continuava. Um dia ela mostrou-me o seu crucifixo e beijou-o, e logo tomei um pequeno crucifixo de prata que sempre estava ao meu lado, e beijei-o, e assim ela soube que éramos um só na religião.

Um dia, a pequena criada não apareceu na sua varanda, e durante vários dias não vi nada dela; e embora atirasse as minhas flores como de costume, nenhuma flor veio para lhe fazer companhia. Contudo, passado algum tempo, ela reapareceu, vestida de preto, e a chorar frequentemente, e então soube que a mãe da pobre criança tinha morrido, e, até onde eu sabia, ela estava sozinha no mundo. As flores já não vinham durante muitos dias, nem ela mostrava qualquer sinal de reconhecimento, mantendo os olhos no seu trabalho, exceto quando levava o lenço até eles. E à frente dela estava a cadeira da velha senhora, e eu podia ver que, de tempos em tempos, ela pousava o seu trabalho e olhava para ela, e então uma torrente de lágrimas vinha em seu alívio. Mas, por fim, um dia ela animou-se para me acenar, e então a sua flor veio, dia após dia, e a minha flor saiu para se juntar a ela, e com sortes variadas as duas flores navegaram como outrora.

Mas o dia mais sombrio de todos para mim foi quando um jovem gondoleiro de boa aparência, de pé com a extremidade superior para cima na sua gôndola (pois podia vê-lo em carne e osso), manobrou a sua embarcação ao longo da casa e ficou a falar com ela enquanto ela estava sentada na varanda. Pareciam falar como velhos amigos — de facto, tão bem quanto pude perceber, ele segurou-a pela mão durante todo o tempo da sua conversa, que durou bem meia hora. Eventualmente ele afastou-se e deixou o meu coração pesado dentro de mim. Mas logo tomei coragem, pois assim que ele saiu de vista, a pequena criada atirou duas flores que cresciam no mesmo caule — uma alegoria da qual não pude tirar nada, até que me ocorreu que ela queria transmitir-me que ele e ela eram irmão e irmã, e que eu não tinha motivos para estar triste. E então acenei-lhe alegremente, e ela acenou-me, e riu-se em voz alta, e eu ri-me em resposta, e tudo continuou como antes.

Depois veio um tempo sombrio e triste, pois tornou-se necessário que eu me submetesse a um tratamento que me confinou absolutamente à minha cama durante muitos dias, e eu preocupava-me e afligia-me ao pensar que a pequena criada e eu já não nos veríamos, e pior ainda, que ela pensaria que eu tinha ido embora sem sequer lhe insinuar que ia. E deitei-me acordado à noite a perguntar-me como poderia deixá-la saber a verdade, e cinquenta planos passaram pela minha cabeça, todos parecendo bastante viáveis à noite, mas absolutamente selvagens e impraticáveis de manhã. Um dia — e foi um dia brilhante para mim — a velha que cuidava de mim disse-me que um gondoleiro tinha perguntado se o senhor inglês tinha ido embora ou se tinha morrido; e assim soube que a pequena criada tinha estado ansiosa por mim, e que tinha enviado o seu irmão para perguntar, e o irmão tinha sem dúvida levado até ela a razão da minha prolongada ausência da janela.

A partir desse dia, e sempre depois durante as minhas três semanas de cama, uma flor era encontrada todas as manhãs no parapeito da minha janela, que estava ao fácil alcance de qualquer pessoa num barco; e quando finalmente chegou um dia em que pude ser movido, tomei o meu lugar habitual no meu sofá junto à janela, e a pequena criada viu-me, e ficou de cabeça para baixo (por assim dizer) e bateu palmas de cabeça para baixo com um deleite que era tão eloquente quanto o meu deleite de cabeça para cima podia ser. E assim, na primeira vez que o gondoleiro passou pela minha janela, chamei-o, e ele aproximou-se, e disse-me, com muitos sorrisos brilhantes, que estava realmente contente por me ver bem novamente. Então agradeci-lhe a ele e à sua irmã pelos seus muitos pensamentos gentis sobre mim durante o meu retiro, e soube então por ele que o nome dela era Angela, e que ela era a melhor e mais pura donzela de toda Veneza, e que qualquer um poderia considerar-se feliz por poder chamá-la de irmã, mas que ele era ainda mais feliz do que o seu irmão, pois ia casar-se com ela, e de facto eles iam casar-se no dia seguinte.

Nesse momento o meu coração pareceu inchar até rebentar, e o sangue correu pelas minhas veias de tal forma que pude ouvi-lo e nada mais por um tempo. Consegui finalmente balbuciar algumas palavras de congratulação desajeitada, e ele deixou-me, cantando alegremente, depois de pedir permissão para trazer a sua noiva para me ver no dia seguinte, quando regressassem da igreja.

"Pois", disse ele, "a minha Angela conhece-o há muito tempo — desde que era criança, e ela falou-me muitas vezes do pobre inglês que era um bom católico, e que ficava o dia todo durante anos e anos num sofá junto a uma janela, e ela disse repetidamente o quanto desejava poder falar com ele e confortá-lo; e um dia, quando atirou uma flor para o canal, ela perguntou-me se podia atirar outra, e eu disse-lhe que sim, pois ele entenderia que significava simpatia por alguém profundamente aflito."

E assim soube que era piedade, e não amor, exceto de facto tal amor que é parente da piedade, que a levou a interessar-se pelo meu bem-estar, e houve um fim para tudo isso.

Pois as duas flores que eu pensei estarem no mesmo caule eram duas flores atadas juntas (mas eu não podia saber disso), e pretendiam indicar que ela e o gondoleiro eram amantes noivos, e o meu prazer expresso com este símbolo deleitou-a, pois ela tomou-o como significando que eu me regozijava com a sua felicidade.

E no dia seguinte o gondoleiro veio com um cortejo de outros gondoleiros, todos vestidos com as suas roupas de festa, e na sua gôndola sentava-se Angela, feliz, e corada pela sua felicidade. Então ele e ela entraram na casa onde eu morava, e vieram ao meu quarto (e foi estranho, de facto, depois de tantos anos de inversão, vê-la com a cabeça acima dos pés!), e então ela desejou-me felicidade e uma rápida recuperação para a boa saúde (o que nunca poderia acontecer); e eu, em palavras truncadas e com lágrimas nos olhos, dei-lhe o pequeno crucifixo de prata que tinha estado junto à minha cama ou à minha mesa durante tantos anos. E Angela tomou-o reverentemente, benzer-se, beijou-o, e assim partiu com o seu marido radiante.

E enquanto ouvia o canto dos gondoleiros à medida que seguiam o seu caminho — o canto morrendo na distância à medida que as sombras do pôr-do-sol se fechavam à minha volta — senti que eles estavam a cantar o réquiem do único amor que alguma vez entrara no meu coração.

A FILHA DO PÁROCO DE OXNEY COLNE

Por Anthony Trollope

(London Review, 2 de março de 1861)

A paisagem mais bonita de toda a Inglaterra — e se for contradito nesta afirmação, direi de toda a Europa — é em Devonshire, nas margens sul e sudeste de Dartmoor, onde os rios Dart, Avon e Teign se formam, e onde o charneca irregular é meio cultivado, e os campos de terras altas de aspeto selvagem são metade charneca. Ao fazer esta afirmação, deparo-me muitas vezes com muitas dúvidas, mas são pessoas que não conhecem realmente a localidade. Homens e mulheres falam-me sobre o assunto, aqueles que viajaram pela linha ferroviária de Exeter a Plymouth, que passaram uma quinzena em Torquay, e talvez fizeram uma excursão de Tavistock até à prisão de condenados em Dartmoor. Mas quem conhece as glórias de Chagford? Quem caminhou pela paróquia de Manaton? Quem está familiarizado com Lustleigh Cleeves e Withycombe na charneca? Quem explorou Holne Chase? Gentil leitor, acredite que será precipitado ao contradizer-me, a menos que tenha feito estas coisas.

Lá ou por ali — não direi pelas águas de qual pequeno rio é banhada — fica a paróquia de Oxney Colne. E para aqueles que desejariam ver todas as belezas deste país encantador, uma estadia em Oxney Colne seria muito desejável, vendo que o visitante seria então trazido mais perto de tudo o que ele gostaria de visitar, do que em qualquer outro ponto do país. Mas existe uma objeção a qualquer arranjo deste tipo. Existem apenas duas casas decentes em toda a paróquia, e estas são — ou eram, quando conheci a localidade — pequenas e totalmente ocupadas pelos seus possuidores. A maior e melhor é o presbitério onde viviam o pároco e a sua filha; e a menor é a residência de propriedade plena de uma certa Miss Le Smyrger, que possuía uma quinta de quarenta hectares que era alugada por um tal Agricultor Cloysey, e que também possuía cerca de doze hectares à volta da sua própria casa, que ela geria pessoalmente, considerando-se tão grande em natas quanto o Sr. Cloysey, e totalmente superior a ele no artigo da sidra. "Mas a senhora não paga renda, menina", diria o Agricultor Cloysey, quando Miss Le Smyrger expressava esta opinião sobre a sua arte de uma forma demasiado desafiadora. "A senhora não paga renda, ou não poderia fazê-lo." Miss Le Smyrger era uma solteirona, com um pedigree e sangue próprios, cinquenta e dois hectares de terra de propriedade plena nas margens de Dartmoor, cinquenta anos de idade, uma constituição de ferro, e uma opinião própria sobre todos os assuntos debaixo do sol.

E agora sobre o pároco e a sua filha. O nome do pároco era Woolsworthy — ou Woolathy como era pronunciado por todos aqueles que viviam à sua volta — o Rev. Saul Woolsworthy; e a sua filha era Patience Woolsworthy, ou Miss Patty, como era conhecida pelo mundo de Devonshire daquelas partes. Esse nome de Patience não tinha sido bem escolhido para ela, pois era uma donzela de temperamento quente, calorosa nas suas convicções, e inclinada a expressá-las livremente. Ela tinha apenas duas amigas íntimas no mundo, e por ambas esta liberdade de expressão tinha sido plenamente permitida desde criança. Miss Le Smyrger e o seu pai estavam bem habituados aos seus modos, e no geral bem satisfeitos com eles. A primeira era igualmente livre e de temperamento tão quente quanto ela, e como o Sr. Woolsworthy era permitido pela sua filha ser totalmente supremo no seu próprio assunto — pois ele tinha um assunto — ele não se opunha a que a sua filha fosse suprema em todos os outros. Uma rapariga bonita era Patience Woolsworthy na altura de que escrevo, e que possuía muito do que era digno de nota e admiração, se vivesse onde a beleza encontra admiração, ou onde a força de caráter é notada. Mas em Oxney Colne, nas margens de Dartmoor, havia poucos para a apreciar, e parecia que ela própria tinha pouca ideia de levar o seu talento mais para longe, para que não permanecesse para sempre embrulhado num cobertor.

Ela era uma rapariga bonita, alta e esguia, com olhos escuros e cabelos negros. Os seus olhos eram talvez demasiado redondos para uma beleza regular, e o seu cabelo era talvez demasiado crespo; a sua boca era grande e expressiva; o seu nariz era finamente formado, embora um crítico da forma feminina pudesse ter declarado ser algo largo. Mas a sua fisionomia, no geral, era muito atraente — se apenas pudesse ser vista sem aquela resolução de domínio que ocasionalmente a estragava, embora por vezes até acrescentasse aos seus encantos.

Deve ser confessado em nome de Patience Woolsworthy que as circunstâncias da sua vida a tinham chamado peremptoriamente a exercer domínio. Ela tinha perdido a mãe quando tinha dezasseis anos, e não tinha tido nem irmão nem irmã. Ela não tinha vizinhos por perto adequados, seja pela educação ou pelo estatuto, para interferir na condução da sua vida, exceto sempre Miss Le Smyrger. Miss Le Smyrger teria feito qualquer coisa por ela, incluindo a gestão completa da sua moral e da casa do presbitério, se Patience estivesse contente com tal arranjo. Mas por muito que Patience tivesse amado Miss Le Smyrger, ela não estava contente com isto, e por isso tinha sido chamada a exercer uma mão forte própria. Ela tinha exercido esta mão forte cedo, e daí tinha vindo o caráter que estou a tentar descrever. Mas devo dizer em nome desta rapariga que não era apenas sobre os outros que ela exercia assim o domínio. Ao adquirir esse poder, ela tinha também adquirido o poder muito maior de exercer autoridade sobre si mesma.

Pois por que razão o seu pai deveria ter sido ignorado nestes arranjos familiares? Talvez baste dizer que, de todos os homens vivos, o seu pai era o mais versado nas antiguidades do condado em que vivia. Era o Jonathan Oldbuck de Devonshire, e especialmente de Dartmoor — mas sem aquela determinação de caráter que permitia a Oldbuck manter as suas mulheres sob algum tipo de sujeição, e que provavelmente lhe permitia também garantir que a conta semanal não excedesse os limites devidos. O nosso Sr. Oldbuck, de Oxney Colne, era tristemente deficiente nestes aspetos. Como pároco, com um pequeno curato, cumpria o seu dever com energia suficiente para, pelo menos, evitar a censura. Era bondoso e caridoso para com os pobres, pontual nos seus ofícios, tolerante com os agricultores à sua volta, brando com os seus colegas clérigos e indiferente a tudo o que o bispo ou o arquidiácono pudessem pensar ou dizer dele. Não cito este último atributo como uma virtude, mas como um facto. Contudo, todos estes pontos não eram nada no caráter conhecido do Sr. Woolsworthy, de Oxney Colne. Ele era o antiquário de Dartmoor. Essa era a sua linha de vida. Era nessa qualidade que era conhecido no mundo de Devonshire; era como tal que viajava com a sua humilde mala de carpete, passando uma ou duas noites fora da sua reitoria; era nesse caráter que recebia de vez em quando visitantes perdidos no único quarto de hóspedes — não amigos convidados para o ver a ele e à sua filha por causa da amizade — mas homens que sabiam algo sobre esta pedra enterrada, ou aquele antigo marco geográfico. Em todas estas coisas, a sua filha deixava-o seguir o seu caminho, ajudando-o e encorajando-o. Essa era a sua linha de vida e, por isso, ela respeitava-a. Mas em todos os outros assuntos, ela escolhia ser soberana na reitoria.

O Sr. Woolsworthy era um homem pequeno que vestia sempre, exceto aos domingos, roupas cinzentas — roupas de um cinzento tão claro que dificilmente seriam consideradas clericais num distrito menos remoto. Tinha atingido agora uma idade provecta, estando nos setenta anos; mas ainda era vigoroso e ativo, e mostrava poucos sintomas de decadência. A sua cabeça era calva e os poucos caracóis restantes que a rodeavam eram quase brancos. Mas havia um olhar de energia na sua boca e um humor no seu olho cinzento-claro que impedia aqueles que o conheciam de o considerar inteiramente um homem velho. Tal como estava, ele conseguia caminhar de Oxney Colne até Priestown, quinze longas milhas de Devonshire através da charneca; e quem conseguia fazer isso dificilmente poderia ser considerado demasiado velho para o trabalho.

Mas a nossa história atual terá mais que ver com a sua filha do que com ele. Uma rapariga bonita, disse eu, era Patience Woolsworthy; e, além disso, notável em muitos aspetos. Ela tinha encarado a vida, pesando as coisas que tinha e as que não tinha, de uma maneira muito invulgar e, por regra, nem sempre desejável para uma jovem. As coisas que ela não tinha eram muitas. Não tinha sociedade; não tinha fortuna; não tinha qualquer garantia de meios de subsistência futuros; não tinha grandes esperanças de conseguir para si uma posição na vida através do casamento; não tinha aquele entusiasmo e prazer na vida sobre os quais lia nos livros que chegavam à Reitoria de Oxney Colne. Seria fácil acrescentar à lista das coisas que ela não tinha; e esta lista contra si própria era feita com o máximo vigor. As coisas que ela tinha, ou melhor, aquelas de que se certificava ter, eram contadas muito mais facilmente. Tinha o nascimento e a educação de uma senhora, a força de uma mulher saudável e vontade própria. Tal era a lista como ela a elaborou para si mesma, e protesto que não afirmo mais do que a verdade ao dizer que nunca lhe acrescentou beleza, engenho ou talento.

Comecei estas descrições dizendo que Oxney Colne seria, de todos os lugares, o melhor ponto de partida para um turista visitar aquelas partes de Devonshire, não fosse o facto de não poder obter lá nenhum dos alojamentos de que os turistas necessitam. Um colega antiquário talvez, naqueles dias, pudesse tê-lo feito, vendo que havia, como disse, um quarto de hóspedes na reitoria. Qualquer amigo íntimo da Srta. Le Smyrger poderia ser igualmente afortunado, pois ela também estava assim provida em Oxney Colne, nome pelo qual a sua casa era conhecida. Mas a Srta. Le Smyrger não era dada a uma hospitalidade extensa, e era apenas para aqueles que estavam ligados a ela, seja por laços de sangue ou de amizade muito antiga, que ela se deleitava em abrir as suas portas. Como os seus velhos amigos eram poucos em número, como esses poucos viviam à distância, e como os seus parentes mais próximos estavam mais acima no mundo do que ela, e diziam-se por ela própria olhar para ela com desprezo, as visitas feitas a Oxney Colne eram raras.

Mas agora, no período de que escrevo, tal visita estava prestes a ser feita. A Srta. Le Smyrger tinha uma irmã mais nova que herdara uma propriedade na freguesia de Oxney Colne igual à da senhora que lá vivia; mas esta irmã mais nova herdara também beleza e, por isso, na juventude, encontrara vários pretendentes, um dos quais se tornou seu marido. Ela tinha casado com um homem que já então era bem sucedido no mundo, mas que agora era rico e quase poderoso; um Membro do Parlamento, um Lorde deste e daquele conselho, um homem que tinha uma casa em Eaton Square e um parque no norte de Inglaterra; e, desta forma, o seu curso de vida tinha-se separado muito do da nossa Srta. Le Smyrger. Mas o Lorde do conselho governamental tinha sido abençoado com vários filhos, e talvez se pensasse agora ser conveniente cuidar dos acres de Devonshire da Tia Penelope. A Tia Penelope estava autorizada a deixá-los a quem quisesse; e embora se pensasse em Eaton Square que ela devia, como questão de rotina, deixá-los a alguém da família, no entanto, um pouco de convívio entre primos poderia tornar a coisa mais certa. Não direi que esta foi a única causa para tal visita, mas naqueles dias uma visita estava prestes a ser feita pelo Capitão Broughton à sua tia. Ora, o Capitão John Broughton era o segundo filho de Alfonso Broughton, de Clapham Park e Eaton Square, Membro do Parlamento e Lorde do supracitado Conselho Governamental.

"E o que pretende fazer com ele?", perguntou Patience Woolsworthy à Srta. Le Smyrger quando essa senhora caminhou do Colne para dizer que o seu sobrinho John chegaria na manhã seguinte.

"Fazer com ele? Ora, levá-lo-ei aqui para falar com o seu pai."

"Ele será demasiado mundano para isso, e o papá não se preocupará com ele se descobrir que ele não se interessa por Dartmoor."

"Então ele poderá apaixonar-se por ti, minha querida."

"Bem, sim; há esse recurso de qualquer forma, e, por ti, suponho que deveria ser mais cortês com ele do que o papá. Mas ele rapidamente se cansará de me cortejar, e o que farás então, não consigo imaginar."

Que a Srta. Woolsworthy não sentia qualquer interesse na chegada do Capitão, não pretendo afirmar. O advento de qualquer estranho com quem ela seria chamada a conviver tinha de ser um assunto de interesse para ela naquele lugar isolado; e ela não era tão absolutamente diferente das outras jovens para que a chegada de um homem solteiro fosse o mesmo para ela que o advento de algum patriarcal pater-familias. Ao encarar a vida de que falei, ela nunca tinha dito a si mesma que desprezava aquelas coisas das quais outras raparigas recebiam o entusiasmo, as alegrias e as desilusões das suas vidas. Ela tinha simplesmente dado a entender a si mesma que muito pouco dessas coisas viria ao seu caminho, e que lhe competia viver — viver feliz, se tal fosse possível — sem experimentar a necessidade delas. Ela tinha ouvido, quando não havia qualquer pensamento de tal visita a Oxney Colne, que John Broughton era um homem bonito e inteligente — alguém que pensava muito de si mesmo e de quem outros pensavam muito — que tinha havido algum rumor sobre o seu casamento com uma grande herdeira, casamento esse que, contudo, não se realizara por falta de vontade da parte dele, e que ele era, no geral, um homem de mais destaque no mundo do que os capitães comuns de regimentos comuns.

O Capitão Broughton veio a Oxney Colne, ficou lá quinze dias — tendo o período pretendido para a sua visita planeada sido fixado em três ou quatro dias — e depois seguiu o seu caminho. Seguiu o seu caminho de volta para os seus lugares habituais em Londres, sendo a época do ano o final das férias da Páscoa; mas, ao fazê-lo, disse à sua tia que regressaria certamente a ela no outono.

"E eu ficarei certamente feliz por te ver, John — se vieres com um propósito certo. Se não tens tal propósito, é melhor que te mantenhas afastado."

"Eu voltarei certamente", tinha respondido o Capitão, e depois tinha seguido a sua viagem.

O verão passou rapidamente, e muito pouco foi dito entre a Srta. Le Smyrger e a Srta. Woolsworthy sobre o Capitão Broughton. Em muitos aspetos — não, posso dizer, quanto a todos os assuntos ordinários — duas mulheres dificilmente poderiam ser mais íntimas uma da outra do que elas eram; e mais do que isso, tinham a coragem de falar uma com a outra com absoluta verdade sobre coisas que lhes diziam respeito — uma coragem em que amigos queridos frequentemente falham. Mas, apesar disso, muito pouco foi dito entre elas sobre o Capitão John Broughton. Tudo o que foi dito pode aqui ser repetido.

"O John diz que regressará aqui em agosto", disse a Srta. Le Smyrger enquanto Patience estava sentada com ela no salão em Oxney Colne, na manhã seguinte à partida daquele cavalheiro.

"Ele disse-me o mesmo", disse Patience; e, ao falar, os seus olhos redondos e escuros assumiram um olhar de teimosia mais do que o habitual. Se a Srta. Le Smyrger pretendia levar a conversa mais longe, mudou de ideias ao olhar para a sua companheira. Então, como disse, o verão passou, e perto do final dos dias quentes de julho, a Srta. Le Smyrger, sentada na mesma cadeira na mesma sala, retomou a conversa.

"Recebi uma carta do John esta manhã. Ele diz que estará aqui no dia três."

"A sério?"

"Ele é muito pontual com a data que marcou."

"Sim; imagino que ele seja um homem pontual", disse Patience.

"Espero que fiques contente por vê-lo", disse a Srta. Le Smyrger.

"Muito contente por vê-lo", disse Patience, com uma voz audaz e clara; e então a conversa foi novamente abandonada, e nada mais foi dito até depois da segunda chegada do Capitão Broughton à freguesia.

Quatro meses tinham passado então desde a sua partida, e durante esse tempo a Srta. Woolsworthy tinha cumprido todos os seus deveres diários habituais no seu curso costumeiro. Ninguém poderia descobrir que ela tinha sido menos cuidadosa nos seus assuntos domésticos do que era seu hábito, menos disposta a andar entre os seus vizinhos pobres, ou menos assídua nas suas atenções ao seu pai. Mas não menos havia um sentimento nas mentes daqueles à sua volta de que alguma grande mudança lhe tinha acontecido. Ela sentava-se durante as longas noites de verão num certo local fora do pomar da reitoria, no topo de um pequeno campo inclinado onde a sua vaca solitária pastava sempre, com um livro nos joelhos à sua frente, mas raramente lendo. Lá se sentava, com a bela vista para o rio sinuoso abaixo dela, observando o sol poente e pensando, pensando, pensando — pensando em algo sobre o qual nunca tinha falado. Muitas vezes a Srta. Le Smyrger encontrava-a lá, e por vezes passava por ela até sem uma palavra; mas nunca — nunca uma vez ousou ela perguntar sobre o assunto dos seus pensamentos. Mas ela conhecia o assunto suficientemente bem. Nenhuma confissão era necessária para informar que Patience Woolsworthy estava apaixonada por John Broughton — sim, apaixonada, com a perda total e completa de todo o seu coração.

Numa noite, ela estava assim sentada até que o sol de julho tinha caído e se escondido para a noite, quando o seu pai a encontrou ao regressar de uma das suas caminhadas na charneca. "Patty", disse ele, "estás sempre sentada aí agora. Não é tarde? Não terás frio?"

"Não, papá", disse ela, "não terei frio."

"Mas não queres vir para casa? Sinto a tua falta quando chegas tão tarde que não há tempo para dizer uma palavra antes de irmos para a cama."

Ela levantou-se e seguiu-o para a reitoria, e quando estavam juntos na sala de estar, e a porta estava fechada, ela aproximou-se dele e beijou-o. "Papá", disse ela, "seria muito infeliz se eu te deixasse?"

"Deixar-me!", disse ele, sobressaltado pelo tom sério e quase solene da sua voz. "Queres dizer para sempre?"

"Se eu casasse, papá?"

"Oh, casar! Não; isso não me faria infeliz. Far-me-ia muito feliz, Patty, ver-te casada com um homem que amasses; — muito, muito feliz; embora os meus dias fossem desolados sem ti."

"É isso, papá. O que farias se eu partisse?"

"O que importaria, Patty? Eu estaria livre, de qualquer forma, de um fardo que muitas vezes pesa sobre mim agora. O que farás tu quando eu te deixar? Mais alguns anos e tudo terá acabado para mim. Mas quem é, querida? Alguém te disse alguma coisa?"

"Foi apenas uma ideia, papá. Não penso muitas vezes em tal coisa; mas pensei nela naquele momento." E assim o assunto foi deixado de lado. Isto tinha acontecido antes de o dia da segunda chegada ter sido absolutamente fixado e tornado conhecido à Srta. Woolsworthy.

E então essa segunda chegada ocorreu. O leitor pode ter compreendido pelas palavras com que a Srta. Le Smyrger autorizou o seu sobrinho a fazer a sua segunda visita a Oxney Colne que a paixão da Srta. Woolsworthy não era totalmente não autorizada. O Capitão Broughton tinha sido informado de que não deveria vir a menos que viesse com um certo propósito; e, tendo sido assim informado, ele persistiu em vir. Não pode haver dúvida de que ele compreendia bem o propósito a que a sua tia aludia. "Eu virei certamente", tinha ele dito. E fiel à sua palavra, ele estava agora lá.

Patience sabia exatamente a hora a que ele deveria chegar à estação em Newton Abbot, e o tempo também que levaria a viajar ao longo daquelas doze milhas de subida da estação para Oxney. Não é preciso dizer que ela não fez qualquer visita à casa da Srta. Le Smyrger naquela tarde; mas ela poderia ter sabido algo da aproximação do Capitão Broughton sem ir até lá. A sua estrada para o Colne passava pelo portão da reitoria, e se Patience se tivesse sentado sequer à janela do seu quarto, tê-lo-ia visto. Mas numa noite daquelas ela não se sentaria à janela do seu quarto; — ela não faria nada que a forçasse a acusar-se de um desejo inquieto pela vinda do seu amado. Cabia a ele procurá-la. Se ele escolhesse fazê-lo, ele conhecia o caminho para a reitoria.

A Srta. Le Smyrger — a boa, querida, honesta e cordial Srta. Le Smyrger, estava numa febre de ansiedade em nome da sua amiga. Não que ela desejasse que o seu sobrinho se casasse com Patience, — ou melhor, que tivesse nutrido qualquer desejo desse tipo quando ele veio pela primeira vez entre eles. Ela não era dada a fazer casamentos e, além disso, pensava, ou tinha pensado consigo mesma, que eles de Oxney Colne poderiam passar muito bem sem qualquer mistura de Eaton Square. O seu plano de vida tinha sido que, quando o velho Sr. Woolsworthy fosse levado de Dartmoor, Patience viveria com ela, e que, quando ela também se livrasse da sua carga, então Patience Woolsworthy seria a dona solteira de Oxney Colne — de Oxney Colne e da quinta do Sr. Cloysey — em total detrimento de todos os Broughton. Tal tinha sido o seu plano antes de o sobrinho John vir entre eles — um plano para não ser falado até à vinda daquele dia escuro que faria de Patience uma órfã. Mas agora o seu sobrinho tinha estado lá, e tudo ia ser alterado. O plano da Srta. Le Smyrger teria fornecido uma companheira para a sua velhice; mas esse não tinha sido o seu principal objetivo. Ela tinha pensado mais em Patience do que em si mesma, e agora parecia que uma perspetiva de uma felicidade maior se abria para a sua amiga.

"John", disse ela, assim que as primeiras saudações terminaram, "lembras-te das últimas palavras que te disse antes de partires?" Ora, quanto a mim, admiro muito a cordialidade da Srta. Le Smyrger, mas não penso muito na sua discrição. Teria sido melhor, talvez, se ela tivesse deixado as coisas seguirem o seu curso.

"Não posso dizer que me lembre", disse o Capitão. Ao mesmo tempo, o Capitão lembrava-se muito bem do que tinham sido essas últimas palavras.

"Estou tão contente por te ver, tão encantada por te ver, se — se — se —", e então ela hesitou, pois com toda a sua coragem ela dificilmente ousava perguntar ao seu sobrinho se ele tinha vindo ali com o propósito expresso de pedir à Srta. Woolsworthy para casar com ele.

Para dizer a verdade — pois não há espaço para mistério dentro dos limites desta curta história —, para dizer, digo eu, numa palavra a verdade simples e clara, o Capitão Broughton já tinha feito essa pergunta. No dia anterior ao de deixar Oxney Colne, ele tinha proposto formalmente à filha do pároco, e de facto as palavras, as palavras quentes e frequentes que anteriormente tinham caído como o mel mais doce nos ouvidos de Patience Woolsworthy, tinham tornado imperativo que ele o fizesse. Quando um homem num lugar como aquele falou a uma rapariga de amor dia após dia, não tem ele de falar sobre isso com um propósito definido no dia em que a deixa? Ou se não o fizer, não tem ele de se submeter a ser considerado falso, egoísta e quase fraudulento? O Capitão Broughton, contudo, tinha feito a pergunta honesta e verdadeiramente. Ele tinha-o feito honesta e verdadeiramente, mas em palavras, ou talvez, simplesmente com um tom, que dificilmente tinha bastado para satisfazer o espírito orgulhoso da rapariga que ele amava. Ela, por aquela altura, tinha confessado a si mesma que o amava com todo o seu coração; mas ela não tinha feito tal confissão a ele. A ele, ela não tinha dito nenhuma palavra, não tinha concedido nenhum favor, que qualquer amante pudesse legitimamente considerar como um sinal de amor correspondido. Ela tinha-o ouvido enquanto ele falava, e ordenado que ele guardasse tais ditos para as salas de estar dos seus amigos mundanos. Então ele tinha falado abertamente e tinha pedido aquela mão, — não, talvez, como um pretendente trémulo de esperança, — mas como um homem rico que sabe que pode comandar aquilo que deseja comprar.

«Deverias pensar mais nisto», dissera-lhe ela, por fim. «Se realmente me queres como tua esposa, não será muito para ti voltar aqui novamente quando o tempo para pensares nisso tiver passado.» Com estas palavras ela despedira-o, e agora ele voltara novamente a Oxney Colne. Contudo, ela não se colocaria à janela para o procurar, nem se vestiria de outra forma que não fosse o seu simples traje matinal do campo, nem omitiria um só pormenor do seu trabalho diário. Se ele desejava tê-la, teria de desejar tê-la tal como ela era, na sua singela vida campestre, mas teria de a levar também com plena observância de todos aqueles privilégios que às donzelas é permitido exigir dos seus amantes. Ele não deveria restringir nenhuma observância cerimoniosa pelo facto de ela ser a filha de um pobre pároco rural que iria para ele sem um xelim, ao passo que ele ocupava um lugar elevado nos livros do mundo. Ele pedira-lhe que lhe desse tudo o que tinha, e esse tudo ela estava pronta a dar, sem reservas. Mas o presente deveria ser valorizado antes de poder ser dado ou recebido. Ele também deveria dar-lhe o mesmo, e ela aceitá-lo-ia como algo que não tinha preço. Mas ela não permitiria que aquilo que lhe era oferecido fosse, em qualquer grau, mais precioso por causa da sua posição mundana exterior.

Ela não fingiria para si mesma que pensava que ele viria vê-la naquela tarde, e por isso ocupou-se na cozinha e pela casa, dando instruções às suas duas criadas como se o dia fosse passar como todos os outros dias passavam naquela casa. Jantavam habitualmente às quatro, e raramente, nestes meses de verão, se afastava muito de casa antes dessa hora. Às quatro em ponto sentou-se com o pai, e disse então que ia até Helpholme depois do jantar. Helpholme era uma quinta isolada noutra freguesia, na orla da charneca, e o Sr. Woolsworthy perguntou-lhe se ele a deveria acompanhar.

«Faça-o, papá», disse ela, «se não estiver demasiado cansado.» E, no entanto, ela pensara em quão provável poderia ser que encontrasse John Broughton no seu passeio. E assim ficou combinado; mas, precisamente quando o jantar terminou, o Sr. Woolsworthy lembrou-se.

«Valha-me Deus», disse ele, «como a minha memória está a fugir! Gribbles, de Ivybridge, e o velho John Poulter, de Bovey, vêm encontrar-se aqui por marcação. Não podes adiar Helpholme para amanhã?»

Patience, contudo, nunca adiava nada, e por isso, às seis horas, quando o seu pai terminou o seu escasso modicum de toddy, ela atou o chapéu e seguiu para o seu passeio. Partiu com passo rápido, e não deixou palavra a dizer por que caminho iria. Ao passar pelo pequeno atalho que conduzia a Oxney Colne, ela não olhou sequer para ver se ele vinha na sua direção; e quando deixou a estrada, passando por um degrau de pedra para um pequeno caminho que corria primeiro através dos campos do planalto, e depois através da charneca em direção a Helpholme, não olhou para trás uma única vez, nem escutou o seu passo a chegar.

Fez a sua visita, permanecendo mais de uma hora com a velha mãe, acamada, do agricultor de Helpholme. «Deus te abençoe, minha querida!» disse a velha senhora quando ela partiu; «e que te envie alguém para tornar o teu próprio caminho brilhante e feliz através do mundo.» Estas palavras ainda ressoavam nos seus ouvidos com todo o seu significado quando viu John Broughton à espera dela no primeiro degrau de pedra que ela tinha de passar depois de deixar o pátio do agricultor.

«Patty», disse ele, ao pegar-lhe na mão, e segurando-a junto a si com ambas as suas, «que perseguição fiz depois de ti!»

«E quem lho pediu, Capitão Broughton?» respondeu ela, sorrindo. «Se a jornada era demasiado para a sua pobre força londrina, não poderia ter esperado até amanhã de manhã, quando me teria encontrado na reitoria?» Mas ela não afastou a mão dele, nem fingiu de qualquer modo que ele não tinha o direito de a abordar como um amante.

«Não, não podia esperar. Estou mais ansioso por ver aqueles que amo do que tu pareces estar.»

«Como sabe a quem amo, ou quão ansiosa poderia estar por os ver? Há ali uma velha a quem amo, e não pensei nada neste passeio com o objetivo de a ver.» E agora, retirando lentamente a mão dele, apontou para a quinta que deixara.

«Patty», disse ele, após um minuto de pausa, durante o qual ela olhara fixamente para o rosto dele com toda a força dos seus olhos brilhantes; «vim hoje de Londres, direto para aqui, para Oxney, e da casa da minha tia segui os teus passos atrás de ti para te fazer aquela única pergunta. Amas-me?»

«Que Hércules?» disse ela, rindo-se novamente. «Queres dizer realmente que deixaste Londres apenas esta manhã? Ora, deves ter estado cinco horas numa carruagem ferroviária e duas numa carruagem de correio, sem falar do passeio depois. Devia ter mais cuidado consigo, Capitão Broughton!»

Ele ter-se-ia zangado com ela — pois não gostava de ser provocado —, se ela não tivesse pousado a mão no braço dele enquanto falava, e a suavidade do seu toque redimira a ofensa das suas palavras.

«Tudo isso fiz», disse ele, «para que possa ouvir uma palavra tua.»

«Que qualquer palavra minha pudesse ter tal potência! Mas, vamos caminhar, ou o meu pai vai tomar-nos por algumas das pedras erguidas da charneca. Como encontrou a sua tia? Se soubesse apenas os cuidados que se sentaram nos seus queridos ombros durante a última semana, para que a sua altivez pudesse ter o suficiente para comer e beber nestas regiões desoladas e semi-famintas.»

«Ela poderia ter poupado a si mesma tal ansiedade. Ninguém pode importar-se menos com tais coisas do que eu.»

«E ainda assim creio ter ouvido o senhor gabar-se do cozinheiro do seu clube.» E depois houve silêncio por um minuto ou dois.

«Patty», disse ele, parando novamente no caminho; «responde à minha pergunta. Tenho o direito de exigir uma resposta. Amas-me?»

«E se eu amar? E se eu tiver sido tão tola ao ponto de permitir que as suas perfeições fossem demasiado para o meu coração fraco? O que então, Capitão Broughton?»

«Não pode ser que me ames, ou não estarias a brincar agora.»

«Talvez não, na verdade», disse ela. Parecia como se estivesse decidida a não ceder um centímetro no seu próprio humor. E então caminharam novamente.

«Patty», disse ele mais uma vez, «obterei uma resposta tua esta noite — esta tarde; agora, durante este passeio, ou voltarei amanhã, e nunca mais revisitarei este local.»

«Oh, Capitão Broughton, como conseguiríamos viver sem si?»

«Muito bem», disse ele; «até ao fim deste passeio posso suportar tudo isto; — e uma palavra dita então consertará tudo.»

Durante todo este tempo ela sentiu que o estava a tratar mal. Sabia que o amava com todo o seu coração; que seria quase mortal para ela separar-se dele; que ouvira a sua oferta renovada com um êxtase de alegria. Reconhecia para si mesma que ele estava a dar provas da sua devoção tão fortes como qualquer uma que uma rapariga pudesse receber do seu amante. E, contudo, mal conseguia levar-se a dizer a palavra que ele ansiava ouvir. Essa palavra uma vez dita, e ela sabia que teria de sucumbir ao seu amor para sempre! Essa palavra uma vez dita, e não haveria nada para ela senão mimá-lo com a sua idolatria! Essa palavra uma vez dita, e ela teria de continuar a repeti-la nos seus ouvidos, até que talvez ele pudesse estar cansado de a ouvir! E agora ele ameaçara-a, e como poderia ela dizê-la depois disso? Certamente não a diria a menos que ele a pedisse novamente sem tal ameaça. E assim caminharam novamente em silêncio.

«Patty», disse ele, por fim. «Pelos céus acima de nós, tu responder-me-ás. Amas-me?»

Ela agora permaneceu imóvel, e quase tremeu ao olhar para o rosto dele. Ficou de frente para ele por um momento, e depois, colocando as suas duas mãos nos ombros dele, respondeu-lhe. «Amo, amo, amo», disse ela, «com todo o meu coração; com todo o meu coração — com todo o meu coração e força.» E então a sua cabeça caiu sobre o peito dele.

O Capitão Broughton ficou quase tão surpreendido como encantado com o calor da confissão feita pela rapariga apaixonada e de coração ansioso que agora segurava nos seus braços. Ela tinha-o dito agora; as palavras tinham sido pronunciadas; e não restava nada para ela senão jurar-lhe, vezes sem conta, com os seus mais doces juramentos, que aquelas palavras eram verdadeiras — verdadeiras como a sua alma. E muito doce foi o caminho dali até ao portão da reitoria. Ele não falou mais da distância do solo, ou da duração da sua jornada do dia. Mas parava-a a cada volta para que pudesse apertar o braço dela mais junto ao seu, para que pudesse olhar para o brilho dos olhos dela, e prolongar a sua hora de deleite. Não havia mais zombarias agora na língua dela, nem pilhérias sobre a sua elegância londrina, nem comentários risonhos sobre as suas vindas e idas. Com total honestidade, ela contou-lhe tudo: como o amara antes de o seu coração estar garantido em tal paixão; como, com muita ponderação, ela decidira que seria imprudente aceitá-lo à sua primeira palavra, e pensara ser melhor que ele regressasse a Londres, e depois pensasse nisso; como ela quase se arrependera da sua coragem quando temera, durante aqueles longos dias de verão, que ele se esquecesse dela; e como o seu coração saltara de alegria quando a sua velha amiga lhe dissera que ele vinha.

«E, no entanto», disse ele, «não estavas contente por me ver!»

«Oh, não estaria eu contente? Não podes compreender os sentimentos de uma rapariga que viveu isolada como eu vivi. Contente não é palavra para a alegria que senti. Mas não foi vê-lo que me importou tanto. Foi o conhecimento de que estavas perto de mim mais uma vez. Quase desejo agora não te ter visto até amanhã.» Mas enquanto falava ela apertou o braço dele, e essa carícia desmentiu as suas últimas palavras.

«Não, não entres esta noite», disse ela, quando chegou à pequena portinhola que conduzia à reitoria. «Na verdade não entrarás. Eu não conseguiria comportar-me adequadamente se o fizesses.»

«Mas eu não quero que te comportes adequadamente.»

«Oh! Devo guardar isso para Londres, não é? Mas, contudo, Capitão Broughton, não o convidarei nem para chá nem para ceia esta noite.»

«Certamente posso apertar a mão ao seu pai.»

«Não esta noite — não até —. John, posso dizer-lhe, não posso? Tenho de lho dizer imediatamente.»

«Certamente», disse ele.

«E depois vê-lo-á amanhã. Deixe-me ver — a que horas devo pedir-lhe que venha?»

«Para o pequeno-almoço.»

«Não, na verdade. O que raio faria a sua tia com o seu peru assado e a tarte fria? Não tenho nenhuma tarte fria para si.»

«Detesto tarte fria.»

«Que pena! Mas, John, ver-me-ia forçada a deixá-lo logo após o pequeno-almoço. Venha — venha pelas duas, ou três; e depois voltarei consigo para a Tia Penelope. Tenho de a ver amanhã.» E assim, por fim, a questão ficou resolvida, e o feliz Capitão, ao deixá-la, foi mal resistido na sua tentativa de pressionar os lábios dela aos seus.

Quando ela entrou na sala de estar onde o seu pai estava sentado, lá estavam ainda Gribbles e Poulter a discutir algum ponto espinhoso da tradição de Devon. Então Patience tirou o chapéu, e sentou-se, esperando até que eles fossem embora. Durante uma hora inteira teve de esperar, e então Gribbles e Poulter foram-se. Mas não era em assuntos como este que Patience Woolsworthy era impaciente. Ela podia esperar, e esperar, e esperar, contendo-se durante semanas e meses, enquanto a coisa esperada era aos seus olhos boa; mas não podia conter os seus pensamentos quentes ou as suas palavras quentes quando assuntos eram discutidos que ela não achava serem bons.

«Papá», disse ela, quando a última palavra arrastada de Gribbles foi dita à porta. «Lembra-se de como lhe perguntei outro dia o que diria se eu o deixasse?»

«Sim, certamente», respondeu ele, olhando para ela com espanto.

«Vou deixá-lo agora», disse ela. «Querido, queridíssimo pai, como hei de ir embora de si?»

«A ir deixar-me», disse ele, pensando na visita dela a Helpholme, e não pensando em mais nada.

Ora, havia uma história sobre Helpholme. Aquela velha senhora acamada ali tinha um filho robusto, que era agora o proprietário das pastagens de Helpholme. Mas embora proprietário de pleno direito de todos aqueles hectares selvagens e do gado que eles sustentavam, ele não estava muito acima dos agricultores à sua volta, nem em modos nem em educação. Ele tinha os seus méritos, contudo; pois era honesto, bem sucedido no mundo, e modesto também. Quão forte o amor tinha crescido, surgindo da bondade vizinha, entre a nossa Patience e a sua mãe, não é preciso aqui contar; mas surgindo disso tinha vindo outro amor — ou uma ambição que poderia ter crescido para o amor. O jovem, depois de muito pensar, não se atrevera a falar com a Srta. Woolsworthy, mas enviara uma mensagem pela Srta. Le Smyrger. Se pudesse haver alguma esperança para ele, apresentar-se-ia como pretendente — à experiência. Ele não devia um xelim no mundo, e tinha dinheiro guardado. Não pediria ao pároco um xelim de fortuna. Tal tinha sido o teor da sua mensagem, e a Srta. Le Smyrger entregara-a fielmente. «Ele não fala a sério», dissera Patience com a sua voz severa. «Na verdade, ele fala, minha querida. Podes ter a certeza de que ele é sincero», respondera a Srta. Le Smyrger; «e não há homem mais honesto nestas partes.»

«Diga-lhe», disse Patience, não prestando atenção à última parte do discurso da sua amiga, «que não pode ser — faça-o compreender, sabe — e diga-lhe também que o assunto não será mais pensado.» O assunto tinha, de qualquer modo, sido deixado de ser falado, mas o jovem agricultor ainda permanecia solteiro, e Helpholme ainda precisava de uma dona. Mas tudo isto voltou à mente do pároco quando a sua filha lhe disse que estava prestes a deixá-lo.

«Sim, querido», disse ela; e enquanto falava, ajoelhou-se agora aos joelhos dele. «Fui pedida em casamento, e dei-me a mim mesma.»

«Bem, meu amor, se serás feliz —»

«Espero que serei; penso que serei. Mas o senhor, papá?»

«Não ficarás longe de nós.»

«Oh, sim; em Londres.»

«Em Londres.»

«O Capitão Broughton vive em Londres geralmente.»

«E o Capitão Broughton pediu-te em casamento?»

«Sim, papá — quem mais? Não é ele bom? Não o amará? Oh, papá, não diga que estou errada por o amar!»

Ele nunca lhe contou o seu erro, ou explicou-lhe que ele não pensara ser possível que o filho de lugar elevado do grande homem de Londres se tivesse apaixonado pela sua filha sem dote; mas abraçou-a, e disse-lhe, com todo o seu entusiasmo, que se regozijava na alegria dela, e que seria feliz na felicidade dela. «Minha própria Patty», disse ele, «sempre soube que eras demasiado boa para esta nossa vida aqui.» E então a noite passou para a madrugada, com muitas lágrimas, mas ainda com muita felicidade.

O Capitão Broughton, enquanto caminhava de volta para Oxney Colne, decidiu que não diria nada sobre o assunto à sua tia até à manhã seguinte. Ele queria pensar sobre tudo aquilo, e pensar sobre isso, se possível, sozinho. Tinha dado um passo na vida, o mais importante que um homem é chamado a dar, e tinha de refletir se o tinha dado ou não com sabedoria.

«Viste-a?» disse a Srta. Le Smyrger, muito ansiosa, quando ele entrou na sala de estar.

«A Srta. Woolsworthy, quer dizer», disse ele. «Sim, vi-a. Como a encontrei fora, fiz uma longa caminhada e aconteceu encontrarmo-nos. Sabe, tia, acho que vou para a cama; levantei-me às cinco desta manhã, e tenho estado em movimento desde então.»

A Srta. Le Smyrger percebeu que não ouviria nada naquela noite, por isso entregou-lhe o castiçal e permitiu-lhe ir para o seu quarto.

Mas o Capitão Broughton não se retirou imediatamente para a cama, nem quando o fez conseguiu dormir logo. Teria sido este passo que ele dera um sábio? Ele não era um homem que, em assuntos mundanos, tivesse permitido que as coisas se organizassem por ele, como é o caso de tantos homens. Ele tinha formado visões para si próprio, e tinha uma teoria da vida. Dinheiro por causa do dinheiro, declarara a si mesmo ser mau. Dinheiro, como um concomitante de coisas que eram em si mesmas boas, declarara a si mesmo ser também bom. Esse concomitante neste caso do seu casamento, ele agora perdera. Bem; ele tinha-se decidido quanto a isso, e suportaria a perda. Ele tinha meios de viver próprios, embora meios não tão extensivos como poderia ter sido desejável. Que seria bom para ele tornar-se um homem casado, olhando meramente para esse estado de vida como oposto ao seu estado atual, ele tinha-se resolvido plenamente. Nesse ponto, portanto, não havia nada de que se arrepender. Que Patty Woolsworthy era boa, afetuosa, inteligente e bonita, ele estava suficientemente satisfeito. Seria estranho, na verdade, se ele não estivesse tão satisfeito agora, vendo que durante os últimos quatro meses ele declarara a si mesmo diariamente que ela o era, com muitas afirmações interiores. E ainda assim, embora ele repetisse agora novamente que estava satisfeito, não penso que ele estivesse tão plenamente satisfeito disso como estivera ao longo de todos esses quatro meses. É triste dizê-lo, mas temo — temo que esse fosse o caso. Quando tens o teu brinquedo, quanto do prazer antecipado desaparece, especialmente se tiver sido ganho facilmente!

Ele não tinha dito a ninguém da sua família quais eram as suas intenções nesta segunda visita a Devonshire, e agora tinha de refletir se eles ficariam satisfeitos. O que diria a sua irmã, ela que se casara com o Honorável Augustus Gumbleton, bastão-de-ouro-em-espera do Conselho Privado de Sua Majestade? Receberia ela Patience de braços abertos, e faria muito dela em Londres? E então, até que ponto Londres se adequaria a Patience, ou Patience se adequaria a Londres? Haveria muito para ele fazer ao ensiná-la, e seria bom para ele começar a lição sem perda de tempo. Até ali chegou naquela noite, mas quando a manhã veio ele deu um passo em frente, e começou mentalmente a criticar a maneira dela para consigo. Tinha sido muito doce, aquela calorosa, aquela plena, aquela pronta declaração de amor. Sim; tinha sido muito doce; mas — mas —; quando, após as suas pequenas brincadeiras, ela confessou o seu amor, não terá sido um pouco livre demais para a excelência feminina? Um homem gosta de ser informado de que é amado, mas dificilmente deseja que a rapariga com quem se vai casar se atire à sua cabeça!

Ah, meu Deus! Sim; era assim que ele argumentava consigo mesmo enquanto, naquela manhã, tratava da sua higiene pessoal. "Então ele era um bruto", dirá a minha querida leitora. Nunca disse que ele não fosse um bruto. Mas observo isto: encontram-se muitos desses brutos nos trilhos batidos da grande autoestrada do mundo. Quando Patience Woolsworthy lhe respondeu friamente, ordenando-lhe que voltasse a Londres e pensasse sobre o seu amor; enquanto parecia, pela sua atitude, que, pelo menos por ora, ela não se importava com ele; enquanto ele esteve ausente dela e, portanto, ansiava por ela, a posse dos seus encantos, do seu talento e da sua brilhante honestidade de propósito parecera-lhe uma coisa extremamente desejável. Agora, ela era sua. Tinham sido, na verdade, seus desde o início. O coração desta rapariga criada no campo entregara-se à primeira palavra que saíra da sua boca. Não lho teria ela confessado? Ela era muito agradável — muito agradável, de facto. Ele amava-a ternamente. Mas não se teria vendido demasiado barato?

De forma alguma digo que ele não fosse um bruto. Mas, fosse bruto ou não, era um homem honesto e não tinha o mais remoto sonho, nem então, naquela manhã, nem durante os dias seguintes em que tais pensamentos pressionavam mais densamente a sua mente, de faltar à palavra empenhada. Ao pequeno-almoço, naquela manhã, contou tudo a Miss Le Smyrger, e essa senhora, com intenções calorosas e graciosas, confiou-lhe o seu propósito relativo aos seus bens. "Sempre considerei a Patience como a minha herdeira", disse ela, "e continuarei a considerá-la."

"Oh, deveras", disse o Capitão Broughton.

"Mas é um grande, um imenso prazer para mim pensar que ela devolverá a pequena propriedade à filha da minha irmã. Tu terás a da tua mãe, e assim tudo se reunirá novamente."

"Ah!", disse o Capitão Broughton. Ele tinha as suas próprias ideias sobre propriedade e não gostava, mesmo nas circunstâncias existentes, de ouvir que a sua tia se considerava livre para legar terras a alguém que, por sangue, era um completo estranho à família.

"A Patience sabe disto?", perguntou ele.

"Nem uma palavra", disse Miss Le Smyrger. E depois nada mais foi dito sobre o assunto.

Naquela tarde, ele desceu e recebeu a bênção e os parabéns do pároco com bons modos. Patience disse muito pouco na ocasião e, na verdade, esteve ausente durante a maior parte da entrevista. Os dois amantes caminharam depois até Oxney Colne, e ali houve mais bênçãos e mais parabéns. "Tudo corria alegremente como um sino de casamento", pelo menos no que dizia respeito a Patience. Nem uma palavra tinha ainda caído daquela boca querida, nem um olhar tinha ainda passado por aquele rosto formoso que tendesse, de forma alguma, a estragar a sua felicidade. O seu primeiro dia de amor declarado foi um dia totalmente feliz, e quando ela rezou por ele, ajoelhada ao lado da sua cama, não havia na sua mente qualquer sentimento de que algum medo devesse perturbar a sua alegria.

Passarei pelos três ou quatro dias seguintes muito rapidamente, dizendo apenas que Patience não os achou tão agradáveis como aquele primeiro dia após o seu noivado. Havia algo na maneira do seu amante — algo que, a princípio, ela não conseguia definir — que, gradualmente, parecia roçar contra os seus sentimentos. Ele era suficientemente afetuoso, sendo essa uma questão sobre a qual ela não exigia muita demonstração; mas, junto ao seu afeto, parecia haver —; ela mal gostava de sugerir a si mesma uma palavra dura, mas seria possível que ele estivesse a começar a pensar que ela não era suficientemente boa para ele? E então ela fez a si mesma a pergunta: seria ela suficientemente boa para ele? Se houvesse dúvida sobre isso, o compromisso deveria ser rompido, ainda que ela arrancasse o seu próprio coração na luta. A verdade, contudo, era esta: ele tinha começado aquele ensino que já descobrira ser tão necessário. Ora, se alguém tivesse tentado ensinar alemão ou matemática a Patience, com o consentimento livre da jovem, creio que ela se teria revelado uma aluna dócil. Mas não era provável que ela fosse dócil quando descobrisse um tutor autoproclamado a ensinar-lhe maneiras e conduta sem o seu consentimento.

Assim as coisas correram por quatro ou cinco dias, e na noite do quinto dia, o Capitão Broughton e a sua tia tomaram chá na reitoria. Nada de muito especial aconteceu; mas, como o pároco e Miss Le Smyrger insistiam em jogar gamão com devota perseverança durante toda a noite, Broughton teve uma boa oportunidade de dizer uma ou duas palavras sobre aquelas mudanças na sua amada que uma vida em Londres exigiria — e alguma palavra disse ele também — alguma pequena palavra isolada, sobre a posição social mais elevada a que ele elevaria a sua noiva. Patience suportou-o — pois o seu pai e Miss Le Smyrger estavam na sala — ela suportou-o bem, não pronunciando uma sílaba de raiva e tolerando, por um momento, o desdém implícito da velha reitoria. Depois, a noite terminou e o Capitão Broughton caminhou de volta para Oxney Colne com a sua tia. "Patty", disse-lhe o pai antes de irem para a cama, "ele parece-me ser um jovem excelente." "Querido papá", respondeu ela, beijando-o. "E terrivelmente apaixonado", disse o Sr. Woolsworthy. "Oh, não sei quanto a isso", respondeu ela, ao deixá-lo com o seu sorriso mais doce. Mas, embora pudesse sorrir assim da piada do seu pai, ela já tinha decidido que ainda havia algo a aprender sobre o seu futuro marido antes que ela pudesse colocar-se inteiramente nas mãos dele. Ela perguntar-lhe-ia se ele achava que sofreria danos com este casamento proposto; e, embora ele negasse tal pensamento, ela saberia pela maneira da sua negação quais eram os seus verdadeiros sentimentos.

E ele, também, naquela noite, durante a sua caminhada silenciosa com Miss Le Smyrger, tinha nutrido pensamentos semelhantes. "Receio que ela seja obstinada", dissera para si mesmo, e então quase a acusara de ser também carrancuda. "Se esse é o seu temperamento, que vida de miséria tenho diante de mim!"

"Já marcaram uma data?", perguntou-lhe a tia à medida que se aproximavam da casa dela.

"Não, ainda não; não sei se me convirá marcá-la antes de partir."

"Ora, ainda há pouco estavas com tanta pressa."

"Ah — sim — tenho pensado mais nisso desde então."

"Eu teria imaginado que isso dependeria do que a Patty pensa", disse Miss Le Smyrger, defendendo os privilégios do seu sexo. "Presume-se que o cavalheiro esteja sempre pronto assim que a dama consinta."

"Sim, em casos comuns é assim; mas quando uma rapariga é retirada da sua própria esfera —"

"A sua própria esfera! Permite-me que te avise, Mestre John, para não falares à Patty sobre a sua própria esfera."

"Tia Penelope, como a Patience será minha esposa e não tua, devo exigir permissão para lhe falar sobre assuntos que me pareçam adequados." E então separaram-se — não no melhor humor um com o outro.

No dia seguinte, o Capitão Broughton e Miss Woolsworthy não se encontraram até à noite. Ela tinha dito, antes que aquelas palavras de mau agouro tivessem passado pelos lábios do seu amante, que provavelmente estaria em casa de Miss Le Smyrger na manhã seguinte. Aquelas palavras de mau agouro passaram pelos lábios do seu amante, e então ela permaneceu em casa. Isso não vinha de carrancuda, nem mesmo de raiva, mas de uma convicção de que seria bom que ela pensasse muito antes de o encontrar novamente. Nem ele estava ansioso por apressar um encontro. O seu pensamento — o seu pensamento vil — era este: que ela viria certamente a Colne atrás dele; mas ela não veio, e por isso, à noite, ele desceu até ela e pediu-lhe para caminhar com ele.

Partiram pelo caminho que levava a Helpholme, e pouco foi dito entre eles até terem caminhado cerca de uma milha juntos. Patience, enquanto percorria o caminho, recordava quase à letra as palavras doces que tinham saudado os seus ouvidos quando ela passou por ali com ele na noite da sua chegada; mas ele não se lembrava de nada dessa doçura então. Não se teria ele feito de asno durante estes últimos seis meses? Esse era o pensamento que, em grande parte, possuía a sua mente.

"Patience", disse ele por fim, tendo falado até então apenas uma palavra indiferente de vez em quando desde que tinham deixado a reitoria, "Patience, espero que percebas a importância do passo que tu e eu estamos prestes a dar?"

"Claro que percebo", respondeu ela: "que pergunta estranha para fazeres!"

"Porque", disse ele, "por vezes quase duvido. Parece-me como se pensasses que podes mudar-te daqui para a tua nova casa sem mais problemas do que quando vais de casa para Colne."

"Isso é para ser uma repreensão, John?"

"Não, não uma repreensão, mas um conselho. Certamente não uma repreensão."

"Fico contente com isso."

"Mas eu gostaria de te fazer pensar em quão grande é o salto no mundo que estás prestes a dar." Então, caminharam novamente por muitos passos antes que ela lhe respondesse.

"Diz-me, então, John", disse ela, quando tinha considerado suficientemente que palavras iria dizer; — e, enquanto falava, uma cor escura e brilhante inundou o seu rosto, e os seus olhos brilharam quase com raiva. "Que salto queres tu dizer? Queres dizer um salto para cima?"

"Bem, sim; espero que assim seja."

"Num certo sentido, certamente, seria um salto para cima. Ser a esposa do homem que eu amava; ter o privilégio de manter a sua felicidade na minha mão; saber que eu era sua — a companheira que ele escolhera entre todo o mundo — isso seria, de facto, um salto para cima; um salto quase para o céu, se tudo isso fosse assim. Mas se te referes a cima em qualquer outro sentido —"

"Eu estava a pensar na escala social."

"Então, Capitão Broughton, os teus pensamentos estavam a desonrar-me."

"A desonrar-te!"

"Sim, a desonrar-me. Que o teu pai seja, na estima do mundo, um homem maior do que o meu é, sem dúvida, verdadeiro o suficiente. Que tu, como homem, sejas mais rico do que eu, como mulher, é, sem dúvida, também verdadeiro. Mas tu desonras-me, e a ti próprio também, se estas coisas podem pesar para ti agora."

"Patience, — penso que mal sabes que palavras me estás a dizer."

"Perdoa-me, mas penso que sei. Nada do que me possas dar — nenhuns presentes dessa natureza — pode pesar algo contra aquilo que eu te estou a dar. Se tivesses toda a riqueza e posição do maior senhor da terra, não contaria nada numa balança dessas. Se — como não duvidei — se em troca do meu coração me deste o teu, então — então — então, pagaste-me totalmente. Mas quando presentes como esses estão em causa, nada mais pode contar sequer como um contrapeso."

"Não te compreendo bem", respondeu ele, após uma pausa. "Receio que sejas um pouco pomposa." E então, enquanto a noite ainda estava no início, caminharam de volta para a reitoria quase sem mais uma palavra.

O Capitão Broughton, nesta altura, tinha apenas mais um dia inteiro para permanecer em Oxney Colne. Na tarde seguinte a essa, ele iria até Exeter, e de lá regressaria a Londres. Naturalmente, era de esperar que o dia do casamento fosse marcado antes de ele partir, e muito tinha sido dito sobre isso durante o primeiro ou segundo dia do seu noivado. Então, ele tinha pressionado por uma data próxima, e Patience, com a timidez habitual de uma rapariga, tinha pedido algum pequeno adiamento. Mas agora nada era dito sobre o assunto; e como seria provável que tal questão pudesse ser resolvida após uma conversa como aquela que relatei? Naquela noite, Miss Le Smyrger perguntou se o dia tinha sido marcado. "Não", disse o Capitão Broughton asperamente; "nada foi marcado." "Mas será arranjado antes de partires." "Provavelmente não", disse ele; e depois o assunto foi abandonado por enquanto.

"John", disse ela, pouco antes de se deitar, "se há alguma coisa errada entre ti e a Patience, conjuro-te a que mo digas."

"É melhor perguntares-lhe a ela", respondeu ele. "Não te posso dizer nada."

Na manhã seguinte, ele ficou muito surpreendido ao ver Patience no caminho de cascalho diante do portão de Miss Le Smyrger, imediatamente após o pequeno-almoço. Ele foi à porta para a abrir, e ela, ao dar-lhe a mão, disse-lhe que vinha falar com ele. Não havia hesitação na sua atitude, nem qualquer ar de raiva no seu rosto. Mas havia no seu porte e forma, na sua voz e semblante, uma firmeza de propósito que ele nunca vira antes, ou que, pelo menos, nunca tinha reconhecido.

"Certamente", disse ele. "Vou sair contigo ou queres subir?"

"Podemos sentar-nos no caramanchão", disse ela; e para lá foram ambos.

"Capitão Broughton", disse ela — e começou a sua tarefa no momento em que ambos estavam sentados — "Tu e eu comprometemo-nos como homem e mulher, mas talvez tenhamos sido precipitados demais."

"Como assim?", disse ele.

"Pode ser — e, na verdade, direi mais — é o caso de termos feito este compromisso sem conhecer o suficiente o caráter um do outro."

"Eu não pensei assim."

"Talvez chegue o tempo em que penses, mas pelo bem de tudo o que mais valorizamos, que chegue antes que seja demasiado tarde. Qual seria o nosso destino — quão terrível seria a nossa miséria, se tal pensamento ocorresse a qualquer um de nós depois de termos ligado as nossas sortes."

Havia uma solenidade nela enquanto falava assim, que quase o reprimiu — que, por um tempo, impediu que ele adotasse aquele tom de autoridade que, sobre tal assunto, ele escolheria adotar. Mas ele recuperou-se. "Dificilmente penso que isto venha bem da tua parte", disse ele.

"De quem mais viria? Quem mais pode travar a minha batalha por mim; e, John, quem mais pode travar essa mesma batalha em teu nome? Digo-te isto: com a tua mente voltada para mim como está atualmente, não poderias dar-me a tua mão no altar com palavras verdadeiras e uma consciência feliz. Não é verdade? Já te arrependeste a meio do teu negócio. Não é assim?"

Ele não lhe respondeu; mas, levantando-se do seu assento, caminhou para a frente do caramanchão e ficou ali com as costas voltadas para ela. Não era que ele quisesse ser indelicado, mas, na verdade, não sabia como lhe responder. Ele tinha-se arrependido a meio do seu negócio.

"John", disse ela, levantando-se e seguindo-o para que pudesse colocar a mão no seu braço, "eu tenho estado muito zangada contigo."

"Zangada comigo!", disse ele, voltando-se bruscamente para ela.

"Sim, zangada contigo. Tu terias-me tratado como a uma criança. Mas esse sentimento já passou. Não estou zangada agora. Aqui tens a minha mão; — a mão de uma amiga. Que as palavras que foram ditas entre nós sejam como se não tivessem sido ditas. Vamos ser ambos livres."

"Queres dizer isso?", perguntou ele.

"Certamente que quero." Enquanto ela dizia estas palavras, os seus olhos encheram-se de lágrimas, apesar de todos os esforços que podia fazer para as conter; mas ele não estava a olhar para ela, e os seus esforços foram suficientes para evitar que qualquer soluço fosse audível.

"Com todo o meu coração", disse ele; e era manifesto, pelo seu tom, que ele não pensava na felicidade dela enquanto falava. Era verdade que ela tinha estado zangada com ele — zangada, como ela própria declarara; mas, ainda assim, no que ela tinha dito e no que ela tinha feito, ela tinha pensado mais na felicidade dele do que na sua própria. Agora ela estava zangada outra vez.

"Com todo o teu coração, Capitão Broughton! Bem, que assim seja. Se é com todo o teu coração, então a necessidade é tanto maior. Partes amanhã. Diremos adeus agora?"

"Patience, não vou ser sermoneado."

"Certamente não por mim. Diremos adeus agora?"

"Sim, se estás determinada."

"Estou determinada. Adeus, Capitão Broughton. Tens todos os meus desejos pela tua felicidade." E ela estendeu-lhe a mão.

"Patience!", disse ele. E olhou para ela com um sobrolho carregado, como se tentasse assustá-la para a submissão. Se assim era, poderia ter poupado a si mesmo qualquer tentativa desse género.

"Adeus, Capitão Broughton. Dá-me a tua mão, pois não posso ficar." Ele deu-lhe a mão, mal sabendo por que o fazia. Ela elevou-a aos lábios e beijou-a e, depois, deixando-o, passou do caramanchão pelo portão e seguiu direto para a reitoria.

Durante todo aquele dia, ela não disse palavra a ninguém sobre o que tinha acontecido. Quando estava de novo em casa, tratou dos seus assuntos domésticos como tinha feito naquele dia da sua chegada. Quando se sentou para jantar com o seu pai, ele não observou nada que o fizesse pensar que ela estava infeliz, nem durante a noite houve qualquer expressão no seu rosto, ou qualquer tom na sua voz, que despertasse a sua atenção. Na manhã seguinte, o Capitão Broughton chamou à reitoria, e a criada levou a notícia à patroa de que ele estava na sala. Mas ela não quis vê-lo. "Valha-me Deus, menina, não se zangou com o seu namorado?", disse a pobre rapariga. "Não, não me zanguei", disse ela; "mas entrega-lhe isto." Era um pedaço de papel contendo uma ou duas palavras a lápis. "É melhor que não nos encontremos novamente. Deus te abençoe." E desde esse dia até hoje, agora lá se vão mais de dez anos, nunca mais se encontraram.

"Papá", disse ela ao seu pai naquela tarde, "querido papá, não te zangues comigo. Acabou tudo entre mim e o John Broughton. Querido, tu e eu não seremos separados."

Seria inútil aqui contar quão grande foi a surpresa do velho e quão verdadeira a sua tristeza. À medida que a história lhe era contada, não foi dada qualquer causa para raiva contra ninguém. Nem uma palavra foi dita contra o pretendente que, naquele dia, regressara a Londres com a convicção plena de que, pelo menos agora, estava livre do seu noivado. "Patty, minha querida filha", disse ele, "que Deus conceda que seja para o melhor!"

"É para o melhor", respondeu ela resolutamente. "Para este lugar sou apta; e duvido muito que seja apta para qualquer outro."

Naquele dia ela não viu Miss Le Smyrger, mas na manhã seguinte, sabendo que o Capitão Broughton tinha partido — tendo ouvido as rodas da carruagem enquanto passavam pelo portão da reitoria a caminho da estação — ela caminhou até Colne.

"Ele contou-te, suponho?", disse ela.

"Sim", disse Miss Le Smyrger. "E nunca mais o verei, a menos que ele peça o teu perdão de joelhos. Eu disse-lho. Nem sequer lhe dei a mão quando ele partiu."

"Mas porquê, tu, a mais gentil? A culpa foi mais minha do que dele."

"Eu compreendo. Tenho olhos na cara", disse a velha solteirona. "Observei-o durante os últimos quatro ou cinco dias. Se tivesses podido guardar a verdade para ti mesma e ordenado que ele se mantivesse afastado, ele estaria aos teus pés agora, lambendo o pó dos teus sapatos."

"Mas, querida amiga, eu não quero um homem a lamber o pó dos meus sapatos."

"Ah, és uma tola. Não sabes o valor da tua própria riqueza."

"Verdade; fui uma tola. Fui uma tola ao pensar que alguém vindo de uma vida como a que ele levou poderia ser feliz com alguém como eu. Sei a verdade agora. Paguei caro pela lição — mas talvez não demasiado caro, visto que nunca será esquecida."

Pouco mais se disse sobre o assunto entre os nossos três amigos em Oxney Colne. O que, na verdade, poderia ser dito? A Srta. Le Smyrger ainda esperou por um ou dois anos que o seu sobrinho regressasse para reclamar a sua noiva; mas ele nunca o fez, nem houve qualquer correspondência entre ambos. Patience Woolsworthy tinha aprendido a sua lição a um custo elevado. Tinha entregue todo o seu coração àquele homem; e, embora se portasse de tal modo que ninguém se apercebeu da violência da luta, a batalha no interior do seu peito fora, contudo, muito violenta. Nunca se disse a si própria que tinha agido mal; nunca lamentou a sua perda; mas, ainda assim — ainda assim! — a perda era muito difícil de suportar. Ele também a amara, mas não era capaz de um amor que pudesse afetar muito a sua paz quotidiana. A paz quotidiana dela perdera-se por muitos dias vindouros.

O seu pai ainda vive; mas há agora um coadjutor na paróquia. Em conjunto com ele e com a Srta. Le Smyrger, ela passa o seu tempo nos assuntos da paróquia. Aos seus próprios olhos, é uma solteirona convicta; e essa é também a minha opinião. O romance da sua vida desenrolou-se naquele verão. Nunca se senta agora solitária na encosta da colina a pensar no quanto poderia fazer por alguém a quem amava verdadeiramente. Mas, com um coração generoso, ama muitos e, sem qualquer romance, trabalha arduamente para aliviar os fardos daqueles a quem ama.

Quanto ao Capitão Broughton, todo o mundo sabe que ele casou com aquela grande herdeira com quem o seu nome fora anteriormente associado, e que é agora um útil membro do Parlamento, trabalhando em comités três ou quatro dias por semana com um zelo incansável. Por vezes, não muitas, quando pensa em Patience Woolsworthy, um sorriso atravessa-lhe o rosto.

O CORTEJO DE ANTHONY GARSTIN

Por Hubert Crackanthorpe

(Savoy, julho de 1896)

I

Uma debandada de ovelhas amontoadas, galopando freneticamente sobre o cascalho xistoso, emergiu da névoa de chumbo que envolvia o cimo da colina, e o assobio agudo de um pastor quebrou a quietude húmida do ar. E, pouco depois, a figura de um homem apareceu, seguindo as ovelhas encosta abaixo. Parou um momento para assobiar de forma seca aos seus dois cães, que, puxando as orelhas para trás, perseguiram as ovelhas a toda a velocidade para lá do cume; depois, com as mãos profundamente enfiadas nos bolsos, caminhou vigorosamente em frente. Um rasto de fumo branco de um comboio esforçado rastejava silenciosamente através da distância: as grandes, cinzentas e desoladas ondulações da paisagem desprovida de árvores não mostravam qualquer outro sinal de vida.

As ovelhas apressavam-se em fila indiana ao longo de um trilho minúsculo, gasto até à trama entre a relva castanha e irregular: e, quando o homem contornou a encosta da montanha, um vale estreito abriu-se sob ele — uma escassa colcha de retalhos de campos verdes e, aqui e ali, uma quinta caiada de branco, ladeada por um grupo escuro de árvores que ofereciam abrigo.

O homem caminhava com um passo solto e oscilante. A sua figura era magra e angular: usava um chapéu de feltro preto amarrotado e botas desajeitadas com ferragens: as suas roupas estavam sujas devido à longa exposição ao tempo. Tinha olhos pequenos e insignificantes, muito enrugados, e sobrancelhas ralas, riscadas de cinzento. A sua boca estava bem barbeada e, pela sua abstração, contraída em linhas duras e taciturnas; sob o queixo, eriçava-se uma franja desalinhada de cabelo cor de areia.

Quando chegou ao sopé da colina, o crepúsculo já turvava a distância. As ovelhas corriam, com um farfalhar ruidoso, através de um trecho plano e pantanoso, coberto de juncos, enquanto os cães as conduziam em direção a uma abertura num muro baixo e esfarrapado, construído de rochedos empilhados de forma frouxa. O homem fechou o portão atrás delas e esperou, assobiando imperativamente, chamando os cães de volta. Um momento depois, os animais reapareceram, encolhendo-se enquanto rastejavam através das barras do portão. Ele pontapeou-os com desprezo e, subindo um degrau de pedra a poucos metros na estrada, desceu para um caminho estreito.

Pouco depois, ao passar por uma fila de janelas iluminadas, ouviu uma voz chamar por ele. Parou e percebeu uma figura torta, de barba branca, vestindo roupas clericais, parada no portão do jardim.

"Boa noite, Anthony. Uma noite fria esta."

"Sim, Sr. Blencarn, está um pouco gélida", respondeu ele. "Acabei de trazer alguns cordeiros da colina. Espero que esteja bem, e a Srta. Rosa também." Falou brevemente, com uma cordialidade espontânea e sonora.

"Obrigado, Anthony, obrigado. Rosa está na igreja, a tocar os hinos para amanhã. Como está a Sra. Garstin?"

"Bem, obrigado, Sr. Blencarn. Ela está maravilhosamente ativa, a minha mãe."

"Bem, boa noite para si, Anthony", disse o velho, fazendo o portão ranger.

"Boa noite, Sr. Blencarn", respondeu ele.

Alguns minutos depois, as luzes cintilantes da aldeia apareceram à vista e, do interior da forma sombria da igreja de torre quadrada, que se erguia à beira da estrada, as notas lentas e solenes do órgão flutuaram no ar da noite. Anthony aliviou o passo: depois parou, a ouvir; mas, tornando-se consciente de que um homem estava, também ele, a ouvir, na ponte a poucos metros de distância, seguiu em frente novamente. Diminuindo o ritmo à medida que se aproximava, observou a figura com atenção; mas o homem não lhe prestou atenção, permanecendo de costas, a olhar por cima do parapeito para o riacho escuro e gorgolejante.

Anthony caminhou pela rua vazia da aldeia, passando pelos quadrados cintilantes de ouro avermelhado que surgiam de ambos os lados na escuridão. De vez em quando, olhava furtivamente para trás. A estrada aberta e reta ficava atrás dele, brilhando debilmente: o órgão parecia ter cessado: a figura na ponte tinha deixado o parapeito e parecia mover-se em direção à igreja. Anthony parou, observando-a até que desapareceu na negrura sob as árvores do cemitério. Então, após um momento de hesitação, deixou a estrada e subiu um prado elevado em direção à quinta da sua mãe.

Era uma casa nua e oblonga. À frente, um alpendre caiado e um pequeno jardim, delimitado por uma grade de ferro baixa, eram vagamente discerníveis: atrás, a encosta íngreme da colina erguia-se como uma cortina monstruosa e misteriosa pendurada sobre a noite. Ele contornou a parte de trás para o crepúsculo de um pátio amplo, calcetado e parcialmente coberto de relva, vagamente ladeado pelos contornos sombrios de edifícios agrícolas longos e baixos. Tudo estava envolto em escuridão: algures acima, um morcego esvoaçava, lançando o seu grito minúsculo.

Lá dentro, um fogo de turfa a arder espalhava sombras saltitantes pelo chão de pedra liso, tremeluzia entre as filas sombrias de presuntos suspensos do teto e sobre os armários de painéis de carvalho escuro e brilhante. Uma criada, pondo a mesa para o jantar, fazia bater os seus tamancos enquanto entrava e saía da cozinha: a velha Sra. Garstin estava curvada perante a lareira, virando trémula alguns bolos de farinha que estavam a assar nas brasas.

Ao som dos passos pesados de Anthony no corredor, ela levantou-se, olhando bruscamente para o relógio acima da chaminé. Era uma mulher de constituição robusta, ereta, quase vigorosa, apesar da idade. O seu rosto era macilento e amarelado; rugas profundas acentuavam a dureza dos seus traços. Usava uma touca de viúva preta sobre o cabelo grisalho, óculos de aro de ouro e um avental axadrezado e sujo.

"Estás muito atrasado, Tony", observou ela de forma queixosa.

Ele desapertou o lenço de lã do pescoço e, depois de o ter pendurado metodicamente com o chapéu atrás da porta, respondeu:

"Estava um nevoeiro terrível no cimo da colina, e aquelas duas cadelas são tão insensatas."

Ela agarrou-lhe a manga e, através dos óculos, examinou suspeitosamente o seu rosto.

"Não te encontraste com a Rosa Blencarn?"

"Não, ela estava na igreja, a tocar hinos, com o Luke Stock a rondar a porta", retorquiu ele amargamente, repelindo-a com impaciência rude.

Ela afastou-se, acenando sentenciosamente para si própria. Começaram o jantar: nenhum dos dois falou: Anthony sentou-se a mexer lentamente o seu chá, olhando melancolicamente para as chamas: o bacon no seu prato permanecia intocado. De tempos a tempos, a sua mãe, pousando o garfo e a faca, olhava para ele com uma aspereza não dissimulada, franzindo a sua boca larga e inábil. Por fim, pousando abruptamente a chávena, ela explodiu:

"Admiro-me que não tenhas mais orgulho, Tony. Por quanto tempo vais continuar sentado a remoer e a meditar como uma ovelha doente? Vais apenas deixar-te adoecer, e então suponho que ficarás satisfeito. Sim, mas admiro-me que não tenhas mais orgulho."

Mas ele não respondeu, permanecendo imóvel, como se não tivesse ouvido.

Pouco depois, meio para si mesmo, sem levantar os olhos, murmurou:

"O Luke vai para o Sul, na segunda-feira."

"Bem, não podes ficar com as sobras dele, de qualquer forma. Não chegou a esse ponto, pois não? Não pretendes deixar toda a paróquia a rir-te de ti uma segunda vez?"

Ele corou intensamente e, curvando-se sobre o prato, começou mecanicamente a comer o jantar.

"Raio", explodiu um minuto depois, "achas que me importo com o cacarejar de cinquenta paróquias? Não, eu não", e, com uma risada curta e sombria, bateu com o punho pesadamente na mesa de carvalho.

"Estás louco, Tony", soltou a velha.

"Louco ou não, digo-te isto, mãe: tenho quarenta e seis anos este final de ano, e há coisas que não vou ouvir. A Rosa Blencarn é bonita o suficiente para mim."

"Sim, bonita o suficiente... Não tenho paciência contigo. Bonita o suficiente... enfeitada nos seus folhos, a andar por aí com cada arruaceiro de Penrith. Bonita o suficiente... é tudo em que pensas. Ela tem sido uma sobrinha de pároco adequada... a criatura leviana e irresponsável, e ela far-te-ia um tipo de esposa adequado, Tony Garstin, seu grande tolo estúpido."

Ela empurrou a cadeira e, fazendo tinir apressadamente a loiça, começou a limpar a mesa do jantar.

"A casa é minha, louvado seja o Senhor", continuou ela com uma voz alta e dura, "e enquanto Ele me poupar, Tony, não verei a Rosa Blencarn pôr o pé dentro dela."

Anthony franziu o sobrolho, sem responder, e puxou a cadeira para a lareira. A sua mãe andava atarefada pela sala atrás dele. Passado algum tempo, ela perguntou:

"Colocaste os cordeiros no campo das traseiras?"

"Não, estão no fundo de Hullam", respondeu ele secamente.

A porta fechou-se atrás dela e, pouco depois, ele pôde ouvi-la a mover-se no andar de cima. Piscando os olhos de forma meditativa, encheu o cachimbo desajeitadamente e, tirando um jornal amarrotado do bolso, ficou sentado sobre o fogo moribundo, a ler e a fumar estoicamente.

II

A música rolou através da igreja escura e vazia. O último cintilar de chumbo da luz do dia brilhava através das janelas pontiagudas e, para lá das filas niveladas de bancos sombrios, ocupados apenas por uma ninhada de livros de orações, duas velas a pingar revelavam os tubos do órgão e a figura oscilante da jovem.

Ela tocava vigorosamente. Uma ou duas vezes a melodia tropeçou, e ela recuperou-a impacientemente, curvando-se sobre o teclado, exibindo-se ao florear os pulsos enquanto tocava os registos. Estava de cabeça descoberta (o seu chapéu e capa estavam ao seu lado num banco). Tinha cabelo claro e fofo, cortado curto atrás do pescoço; olhos grandes e redondos, realçados por uma franja de pestanas escuras; bochechas ásperas e avermelhadas, e uma boca rosada, de lábios cheios e instável. Estava vestida de forma simples, num corpete preto justo, um pouco desfiado nas mangas. As suas mãos e pescoço eram grosseiros: a sua beleza era musculada, literal, inacabada, por assim dizer.

Quando finalmente os acordes pesados do Amém se desvaneceram lentamente no crepúsculo, corada, respirando um pouco rapidamente, ela fez uma pausa, ouvindo a quietude da igreja. Pouco depois, um rapazinho emergiu de trás do órgão.

"Boa noite, Srta. Rosa", chamou ele, trotando apressadamente pelo corredor.

"Boa noite, Robert", respondeu ela, distraída.

Passado algum tempo, com um gesto impaciente, como se quisesse sacudir algum pensamento importuno da sua mente, levantou-se bruscamente, prendeu o chapéu, lançou a capa sobre os ombros, apagou as velas e tateou o caminho através da igreja, em direção à porta entreaberta. Enquanto se apressava ao longo do caminho estreito que conduzia através do cemitério, de repente, uma figura surgiu da escuridão.

"Quem está aí?", gritou ela, com uma voz alta e assustada.

A risada inquieta de um homem respondeu-lhe.

"Sou apenas eu, Rosa. Não pensei em assustar-te. Estou à tua espera há uma hora."

Ela não respondeu, mas apressou o passo. Ele caminhou ao lado dela.

"Vou-me embora na segunda-feira, sabes", continuou ele. E, como ela não disse nada: "Não vais parar nem um minuto? Gostaria de dizer algumas palavras contigo antes de partir, e amanhã tenho de chegar a Scarsdale cedo", insistiu ele.

"Não quero falar contigo: não quero ver-te nunca mais. Odeio a tua presença." Falou com uma rouquidão veemente e concentrada.

"Não, mas tens de me ouvir. Não vou ser afastado com discursos de zanga."

E agarrando-lhe o braço, forçou-a a parar.

"Solta-me, seu grande animal", exclamou ela.

"Não te vou segurar se ficares quieta. Queria falar-te honestamente, Rosa."

Estavam numa curva da estrada, face a face, muito próximos. Atrás da sua forma robusta estendia-se a penumbra de um campo cinzento e fantasmagórico.

"O que tens a dizer-me? Acaba com isso rapidamente", disse ela sombriamente.

"É apenas isto, Rosa", começou ele com uma gravidade obstinada. "Quero dizer-te que, se algum problema te acontecer depois de eu ir embora — sabes a que me refiro —, quero dizer-te que estou preparado para agir corretamente contigo. Escrevi num envelope o meu endereço em Londres. Luke Stock, aos cuidados de Purcell and Co., Smithfield Market, Londres."

"És um homem mau e pecador. Odeio ver-te. Gostaria que estivesses morto."

"Sim, mas suponho que terias feito melhor em pensar nisso antes. Mudaste a tua conversa consideravelmente desde terça-feira. Não, espera", acrescentou ele, enquanto ela lutava para passar por ele. "Aqui está o envelope."

Ela arrancou o papel e rasgou-o apaixonadamente, espalhando os fragmentos pela estrada. Quando terminou, ele explodiu irritado:

"Sua tola maldita e irracional."

"Deixa-me passar, se não tens mais nada a dizer", gritou ela.

"Não, não me vou separar de ti desta forma. Sabes falar suavemente quando queres." E agarrando-lhe os ombros, forçou-a contra o muro.

"Estás com um ar excelente, sem dúvida, quando estás a arder de raiva", riu-se ele rudemente, aproximando o rosto do dela.

"Solta-me, solta-me, seu grande cobarde", arquejou ela, esforçando-se por libertar os braços.

Segurando-a firmemente, ele protestou:

"Vamos, Rosa, não nos podemos separar como amigos?"

"Amigos, de facto", retorquiu ela amargamente. "Amigos de alguém como tu. Por quem me tomas? Deixa-me ir para casa, digo-te. E, se Deus quiser, nunca mais verei os teus olhos. Odeio ver-te."

"Vai-te embora, então", respondeu ele, empurrando-a rudemente de volta para a estrada. "Vai-te embora, sua estúpida. Não podes dizer que não te falei honestamente, e, por Deus, não me verás a hesitar desta forma outra vez. Vai-te embora: podes resolver as coisas por ti mesma, já que não consegues manter uma língua civilizada na boca."

A rapariga, recuperando o fôlego, ficou como que atordoada, a observar a figura que se afastava; depois, começando a correr, desapareceu pela colina, na escuridão.

III

O velho Sr. Blencarn terminou o seu sermão rouco. A congregação escassa, que estivera sentada, estoicamente imóvel nas suas roupas rígidas de domingo, levantou-se, e o grupo de crianças da escola, em coro clamoroso, entoou o hino final. Anthony estava perto do órgão, contemplando distraidamente, enquanto a melodia rude ressoava através da igreja, a manipulação hábil de Rosa no teclado. As linhas ásperas do seu rosto estavam relaxadas numa lassidão pensativa e vaga, que envelhecia não pouco a sua expressão: de vez em quando, como se para referência, olhava questionadoramente para o perfil da rapariga.

Poucos minutos depois, o serviço terminou e a congregação saiu lentamente pelo corredor. Um grupo desajeitado de homens permaneceu a vaguear junto à porta da igreja: um deles chamou Anthony; mas, acenando secamente, ele seguiu em frente e afastou-se estrada abaixo, através dos prados cinzentos elevados, em direção a casa. Assim que ultrapassou a colina e já não era visível de baixo, virou bruscamente para a esquerda, ao longo de um pequeno vale pantanoso, até chegar ao caminho que descia da encosta da colina.

Trepou por um muro áspero e coberto de musgo, e ficou parado, olhando expectante para o caminho escuro e desativado; depois, após um momento de hesitação, ao não ver ninguém, sentou-se sob o muro, numa laje de pedra saliente.

Lá em cima, pendia um céu sombrio e à deriva. Um vento forte soprava da colina — enormes massas de cinzento frio, despidas da névoa da noite anterior. Algumas folhas mortas esvoaçavam sobre as pedras e, da encosta da colina, flutuava o rumor queixoso e trémulo de muitas ovelhas a balir.

Pouco tempo depois, avistou duas figuras que vinham na sua direção, subindo lentamente a colina. Sentou-se a aguardar a sua aproximação, mexendo na sua barba cor de areia e moendo distraidamente o chão sob o calcanhar. Ao chegarem ao cume, pararam: enfiando as mãos profundamente nos bolsos, ele caminhou timidamente na direção delas.

"Ah! bom dia, Anthony", chamou o velho, com uma voz aguda e sem fôlego. "É uma colina longa, e as minhas pernas já não são o que eram. Houve um tempo em que eu não pensava nada numa caminhada de um dia inteiro pelas colinas. Sim, estou a ficar fraco, Anthony, é isso que acontece. E se a Rosa aqui não fosse a rapariga grande e forte que é, não sei como o seu velho tio se arranjaria"; e voltou-se para a rapariga com um sorriso orgulhoso e trémulo.

"Quer dar-me o braço um pouco, Sr. Blencarn? A Srta. Rosa estará cansada, provavelmente", perguntou Anthony.

"Não, Sr. Garstin, eu consigo arranjar-me bem", interrompeu a rapariga bruscamente.

Anthony olhou para ela enquanto falava. Ela usava um chapéu de palha, enfeitado com veludo carmesim, e uma capa preta debruada a pelo, que parecia realçar poderosamente a brancura fina do seu pescoço. Os seus olhos grandes e escuros estavam fixos nele. Ele mudou os pés com inquietação e baixou o olhar.

Ela enlaçou o braço do tio no seu, e os três moveram-se lentamente para a frente. O velho Sr. Blencarn caminhava com dificuldade, parando a intervalos para recuperar o fôlego. Anthony, com os olhos postos no chão, caminhava ao lado dele, chutando desajeitadamente os seixos que se encontravam no seu caminho.

Quando chegaram ao portão do vicariato, o velho pediu-lhe que entrasse.

"Não agora, obrigado, Sr. Blencarn. Tenho aquele grupo de cordeiros para ver antes do jantar. Está uma manhã grandiosa, esta", acrescentou ele, inconsequentemente.

"O tio comprou um bom lote de Leghorns, terça-feira", observou Rosa. Anthony encontrou o seu olhar; havia uma expressão grave e contida no seu rosto esta manhã, que a fazia parecer mais uma mulher, menos uma rapariga.

"Sim, mostra-lhe as aves, Rosa. Ficaria feliz em ter a sua opinião sobre elas."

O velho virou-se para entrar manquedamente em casa, e Rosa, enquanto o apoiava, chamou de volta por cima do ombro:

"Não demoro um minuto, Sr. Garstin."

Anthony passeou até ao pátio atrás da casa e esperou, observando um bando de aves de capoeira brancas e brilhantes que pavoneavam, bicando alegremente, sobre os seixos cobertos de relva.

"Sim, Srta. Rosa, são um bom grupo", observou ele, quando a rapariga se juntou a ele.

"Não são?", respondeu ela, espalhando um punhado de milho diante dela.

As aves correram através do pátio com pescoços gulosos e esticados. Os dois ficaram, lado a lado, a observá-las.

"Quanto é que ele deu por elas?", perguntou Anthony.

"Cinquenta e cinco xelins."

"Sim", assentiu ele, acenando distraidamente.

"O Dr. Sanderson não esteve a ver o seu pai ontem?", perguntou ele, passado um momento.

"Ele veio de manhã. Disse que ele não estava pior."

"Sabe, Srta. Rosa, que ainda estou a pensar em si", começou ele abruptamente, sem olhar para cima.

"Suponho que não sirva de muito", respondeu ela brevemente, espalhando outro punhado de milho para as aves. "Suponho que nunca me casarei. Estou farta de ser cortejada..."

"Eu não a cansaria com cortejos", interrompeu ele.

Ela riu-se ruidosamente.

"Você é um cliente estranho, sem dúvida."

"Sou um rival à altura de Luke Stock, de qualquer forma", continuou ele ferozmente. "Não pensas nada em andar com ele... um jovem tão turbulento e selvagem como nunca vi."

A rapariga corou e mordeu o lábio.

"Não sei o que quer dizer, Sr. Garstin. Parece-me que é muito precipitado a tirar conclusões."

"Talvez eu consiga ver uma coisa ou outra", retorquiu ele obstinadamente.

"O Luke Stock foi para Londres, de qualquer forma."

"Sim, e um trabalho poderosamente bom também, na opinião de algumas pessoas."

"Estás apenas com ciúmes", exclamou ela, com um risinho forçado. "Estás apenas com ciúmes do Luke Stock."

"Não, mas não precisas de encher a tua cabeça com esse disparate. Estou demasiado decidido quanto a ti para sentir ciúmes", respondeu ele, gravemente.

O sorriso desapareceu do seu rosto, enquanto ela murmurava:

"Não consigo entender-te, Sr. Garstin."

"Não é preciso entender-me", declarou ele, estendendo a mão para lhe tocar no braço, embora ela se tenha esquivado rapidamente. "Só precisas de saber que sou um homem de palavra. Não sou como esses rapazes da cidade, que fazem promessas hoje para as esquecerem amanhã. O que eu disse, disse; e, por mais que me negues agora, o meu dia virá."

"Estás a ser terrivelmente cruel", disse ela, com um tom de voz trémulo, enquanto se afastava pelo trilho estreito.

"Cruel?", repetiu ele, e a sua voz soou, por um momento, estranhamente macia. "Não, Rosa. É apenas o meu modo de amar. É o único modo que conheço."

Ela nada respondeu, mas apressou o passo, com as saias a roçarem nas pedras soltas, descendo em direção à estrada, enquanto ele permanecia de pé, observando-a, imóvel como uma estátua, até que a escuridão do vale a engoliu por completo.

VI

O inverno chegou com uma severidade invulgar. A neve caiu pesada e incessante, cobrindo os vales e soterrando os caminhos, isolando Hootsey do resto do mundo durante longas semanas. A lareira da cozinha ardia quase sem parar, mas o frio parecia infiltrar-se por entre as frestas das janelas, trazendo consigo um silêncio opressivo.

Anthony passava a maior parte do tempo nas cortes, cuidando das ovelhas que se amontoavam, tremendo, sob o abrigo dos telhados de pedra. A sua mãe, silenciosa e amarga, observava-o com olhos que pareciam ler-lhe a alma, sempre que ele entrava para as refeições, mas, durante muito tempo, não pronunciou o nome da rapariga.

Certa manhã, enquanto limpavam as cortes, ele encontrou uma carta caída no chão, que ela deixara escapar do avental. Estava aberta, e o nome "Rosa Blencarn" estava escrito no topo da folha. Anthony apanhou-a e, sem pensar, leu as poucas linhas rabiscadas. Era uma nota curta, vinda de um primo em Londres, que mencionava, com uma informalidade casual, que o "Sr. Stock" perguntava por ela e que a vida na cidade era, como sempre, um turbilhão de prazeres.

Ele não disse nada à mãe, mas, quando chegou a noite, sentiu uma inquietação que o impedia de estar parado. Saiu de casa, apesar da neve que caía em lufadas gélidas, e caminhou em direção à casa do vigário. A janela da sala estava iluminada, mas as cortinas estavam puxadas. Ele ficou ali, na escuridão, sentindo o frio penetrar-lhe as botas, observando a sombra da rapariga que se movia, vultuosa, no interior.

Sentiu uma pontada de raiva, um ciúme primitivo e avassalador que lhe percorreu o sangue. Por um instante, teve vontade de entrar, de confrontá-la, de exigir que ela queimasse as cartas e esquecesse os homens de fora, que a viam como um brinquedo. Mas a sua timidez, enraizada em anos de solidão, reteve-o.

Regressou a Hootsey em silêncio. A mãe estava à espera, sentada junto ao lume, com os olhos fixos na chama.

"Onde estiveste, Tony?", perguntou ela, sem se virar.

"Lá fora", respondeu ele, sentando-se no banco de madeira.

"Dizem que o vigário vai partir", disse ela, após uma longa pausa, com um tom de voz que não escondia um certo triunfo. "Dizem que ele vai para uma paróquia em Cumberland, e que a sobrinha o acompanhará."

Anthony sentiu o coração falhar uma batida. Olhou para as mãos calejadas, trincadas pelo frio, e depois para o rosto vincado da mãe, que, pela primeira vez em meses, parecia quase satisfeita.

"Quem o disse?", perguntou ele, com a voz rouca.

"O carteiro. Trouxe a notícia esta tarde."

Anthony não respondeu. Levantou-se e subiu para o seu quarto. Não dormiu. Ouviu o vento fustigar o telhado e, na sua mente, a imagem de Rosa Blencarn, radiante e distante, parecia fundir-se com a neve que caía lá fora, tornando-se, a cada hora que passava, mais inalcançável.

No dia seguinte, a notícia confirmou-se. O vigário Blencarn, doente e incapaz de exercer as suas funções, aceitara uma nomeação para um lugar mais calmo, num vale mais baixo, a trinta milhas dali.

Anthony, durante todo o dia, trabalhou com uma obstinação febril. Quando a noite caiu, e a luz do dia começou a desvanecer-se, ele não hesitou. Saiu de casa e, desta vez, não parou junto às janelas. Bateu à porta da frente.

Foi a própria Rosa quem atendeu. Ao vê-lo, com o rosto marcado pelo frio e o cabelo em desalinho, recuou um passo, surpresa.

"Sr. Garstin... o que faz aqui a esta hora?"

"Vim saber se é verdade", disse ele, sem rodeios. "Vim saber se vai embora."

Ela olhou para ele, hesitante, e depois baixou o olhar para o chão.

"Sim, tio Blencarn não pode ficar. E eu... eu tenho de ir com ele."

Anthony deu um passo em frente, entrando no corredor, forçando-a a recuar.

"Não pode ir", disse ele, com uma voz que soava, ao mesmo tempo, como um pedido e uma ameaça. "Não pode ir agora que eu finalmente a compreendi."

"O que quer dizer com isso?", perguntou ela, trémula.

"Quero dizer que a amo", disse ele, e as palavras saíram-lhe, pela primeira vez, sem a timidez de outrora. "Amo-a como este solo ama a chuva. Pode rir-se, se quiser, pode achar que sou um camponês rude, mas nada mudará o facto de que este é o meu lugar, e de que a quero aqui comigo."

Ela soltou uma risada nervosa, mas havia lágrimas nos seus olhos.

"Sr. Garstin, o senhor não me conhece. Não sabe nada sobre mim. Eu não pertenço a este lugar, nem a si."

"Pertence àquilo que eu decidir que lhe pertence", respondeu ele, com uma soberba que a deixou sem fôlego. "Vou esperar. Se for embora, seguirei-a. Não me importa para onde vá. O meu dia, como lhe disse, há de chegar."

Ela fechou a porta, não com violência, mas com uma firmeza que o deixou do lado de fora, na escuridão da neve. Anthony ficou ali, imóvel, até que as luzes da casa se apagaram, uma a uma. Depois, voltou-se e começou a longa caminhada de regresso a Hootsey, com o passo firme de quem já não tinha dúvidas sobre o destino que, mais cedo ou mais tarde, haveria de reclamar.

Ela afundou-se nas pedras, soluçando apaixonadamente num desespero histérico e indefeso. Anthony ficou um momento, observando-a com uma perplexidade desajeitada: depois, aproximando-se dela, pôs a mão no seu ombro e disse gentilmente:

— Vamos, rapariga, qual é o problema? Podes confiar em mim.

Ela abanou a cabeça fracamente.

— Pois, mas podes, sim — afirmou ele, com firmeza. — Vá lá, o que é?

Alheia a ele, ela continuou a balançar-se para a frente e para trás, murmurando na sua angústia:

— Oh! Quem me dera estar morta!... Quem me dera poder morrer!

— Desejas poder morrer? — repetiu ele. — Ora, o que poderá ser tão grave que te perturba deste jeito? Pronto, pronto, rapariga, deixa lá isso: tudo se há de resolver, seja o que for...

— Não, não — ela lamentou-se. — Quem me dera poder morrer!... Quem me dera poder morrer!

Luzes cintilavam na aldeia lá em baixo; e através do vale, a escuridão cobria as colinas. A rapariga levantou o rosto das mãos e olhou para ele com uma expressão assustada e confusa.

— Tenho de ir para casa: tenho de me pôr a caminho de casa — murmurou ela.

— Não, mas há algo de muito errado contigo.

— Não, não é nada... Não sei... Não me sinto bem... Quer dizer, não é nada... vai passar... não deves pensar nisso.

— Não, mas não posso ficar aqui parado a ver-te com tal aflição.

— Não é nada, Sr. Garstin, de facto não é nada — repetiu ela.

— Pois, mas não posso acreditar nisso — objetou ele obstinadamente.

Ela lançou-lhe um olhar inquieto e caçador.

— Deixe-me ir para casa... tem de me deixar ir para casa.

Ela fez uma tentativa trémula e lamentável de parecer firme. Observando-a atentamente, ele bloqueou-lhe o caminho: ela corou intensamente e desviou rapidamente o olhar através do vale.

— Se me contares a tua aflição, talvez eu te possa ajudar.

— Não, não, não é nada... não é nada.

— Se me contares a tua aflição, talvez eu te possa ajudar — repetiu ele, com uma severidade solene e deliberada. Ela estremeceu e voltou a olhar, vagamente, através do vale.

— Não pode fazer nada: não há nada a fazer — murmurou ela, desolada.

— Há um homem nisto tudo — declarou ele.

— Deixe-me ir! Deixe-me ir! — suplicou ela desesperadamente.

— Quem é que te pôs nesta aflição? — A voz dele soou alta e áspera.

— Ninguém, ninguém. Não lhe posso dizer, Sr. Garstin... Não é ninguém — protestou ela fracamente. O aspeto branco e transtornado do rosto dele assustou-a.

— Meu Deus! — explodiu ele, agarrando-lhe o pulso, — e fizeste de mim um grande tolo. Quem é, digo-te eu? Quem é o homem?

— Está a magoar-me. Deixe-me ir. Não lhe posso dizer.

— E gostas dele?

— Não, não. É um homem perverso e pecador. Rezo a Deus para nunca mais o ver. Disse-lhe isso mesmo.

— Mas se ele te meteu em apuros, ele terá de casar contigo — insistiu ele com uma amargura brutal.

— Não vou. Eu odeio-o! — gritou ela ferozmente.

— Mas ele está disposto a casar contigo?

— Não sei... não me importa... ele disse que sim antes de ir embora... Mas eu matar-me-ia antes de viver com ele.

Ele largou-lhe as mãos e afastou-se dela. Ela só conseguia ver a silhueta dele, como uma nuvem sombria, de pé diante dela. Toda a encosta parecia silenciosa, escura e solitária. Pouco depois, ouviu a voz dele novamente:

— Creio que há uma saída para a tua aflição.

Ela abanou a cabeça desoladamente.

— Não há nenhuma. Sou uma mulher perdida.

— E se me escolhesses a mim em vez dele? — disse ele com entusiasmo.

— Eu... eu não entendo...

— Se casasses comigo em vez de Luke Stock?

— Mas isso é impossível... a... a...

— Sim, a criança. Eu sei. Mas tomarei a criança como minha.

Ela permaneceu em silêncio. Após um momento, ele ouviu a voz dela responder num tom estranho e distante:

— Quere dizer que... que está pronto a casar comigo e a adotar a criança?

— Estou — respondeu ele, obstinado.

— Mas as pessoas... a sua mãe...?

— As pessoas não saberão de nada. Não é da conta delas. A criança passará por minha. Aceitas isso?

— Sim — respondeu ela, numa voz baixa e rápida.

— Consentirás em ficar comigo, se eu te tirar desta aflição?

— Sim — repetiu ela, no mesmo tom.

Ela ouviu-o soltar um longo suspiro.

— Disse que foi um golpe da Providência encontrar-te aqui em cima — exclamou ele, com uma exultação mal contida.

Os dentes dela começaram a bater um pouco: sentiu que ele a observava, curioso, através da escuridão.

— E agora — continuou ele, animado —, é melhor ires para casa. Dá-me a tua mão e eu ajudar-te-ei a passar pelas pedras.

Ele ajudou-a a descer o banco de cascalho, exclamando: — Por Deus, estás gelada. Uma ou duas vezes ela escorregou: ele apoiou-a, agarrando-a com força pelos nós dos dedos. As pedras rolavam pelos degraus, ruidosamente, desaparecendo na noite.

Pouco depois, alcançaram o caminho de terra batida e, enquanto desciam silenciosamente em direção às luzes da aldeia, ele disse gravemente:

— Sempre soube que o meu dia haveria de chegar.

Ela não respondeu; e ele acrescentou, severamente:

— Haverá um trabalho terrível com a minha mãe por causa disto.

Ele acompanhou-a pela ruela estreita que passava pela casa do tio dela. Quando as janelas iluminadas surgiram à vista, ele parou.

— Boa noite, rapariga — disse ele gentilmente. — Deixa de te afligir.

— Boa noite, Sr. Garstin — respondeu ela, na mesma voz baixa e rápida com que lhe dera a resposta lá na encosta.

— Já estamos prometidos como marido e mulher, não estamos? — soltou ele timidamente.

Ela aproximou o rosto do dele e ele beijou-a na face, desajeitadamente.

VI

Na manhã seguinte, a geada tinha chegado. O céu continuava límpido e brilhante: os campos esbranquiçados cintilavam sob a luz fria do sol: aqui e ali, nos picos altos e distantes, brilhavam delicadas capas de neve. Durante toda a semana, Anthony esteve ocupado no sopé da encosta, a construir muros contra a chegada das tempestades de inverno: o trabalho era pesado, pois estava sozinho, e a pedra tinha de ser trazida da encosta. Duas ou três vezes por dia, conduzia a sua carroça trôpega e pesada ao longo da ruela que passava pelo portão da casa paroquial, parando em cada viagem para espreitar furtivamente as janelas. Mas não via sinal de Rosa Blencarn; e, na verdade, não sentia qualquer desejo de a ver: sentia uma exultação sombria ao lembrar-se do seu pedido de casamento e ao saber que ela era sua. Dentro dele brilhava um orgulho estóico: pensava nos outros que a tinham cortejado, e o meio pelo qual a conquistara parecia-lhe um golpe de grande astúcia.

E assim, absteve-se de qualquer menção ao assunto; saboreando, enquanto trabalhava sozinho, durante todo o dia, a consciência do seu triunfo secreto, e antecipando, com risinhos interiores, a tagarelice desconfortável das amigas da mãe. Previa, sem hesitação, a amarga oposição dela: sentia-se forte; e o seu coração aquecia-se pela rapariga. E quando, por vezes, a perceção brusca de que, afinal, iria possuí-la o invadia, ele agarrava as pedras e lançava-as quase ferozmente para o seu lugar.

À sua volta, os campos brancos e vazios pareciam dormir sem fôlego. A imobilidade enrijecia as árvores despidas. O ar gelado fustigava-lhe o sangue: cantando vigorosamente para si mesmo, trabalhava com uma determinação obstinada e incansável, adiando metodicamente, até que o muro estivesse concluído, o anúncio do seu noivado.

À sua maneira reservada e solitária, era muito feliz, revendo as suas perspetivas futuras com uma segurança clara e constante e, à medida que o fim de semana se aproximava, passando a ignorar a irregularidade de todo o assunto: quase a assumir, na exaltação do seu orgulho, que a tinha conquistado honestamente; e a descartar, estóico, qualquer pensamento sobre Luke Stock, sobre as relações dele com ela, sobre a criança que viria e que passaria por sua.

E havia momentos também em que, enquanto caminhava para casa através do crepúsculo no fim do dia de trabalho, o seu coração ficava cheio até transbordar de uma gratidão rude e supersticiosa para com Deus no Céu, que lhe concedera os seus desejos.

Por volta das três horas da tarde de sábado, terminou o trecho do muro. Foi para casa, lavou-se, barbeou-se, vestiu o seu casaco de domingo; e, evitando a cozinha, onde a mãe se sentava a tricotar junto à lareira, dirigiu-se à casa paroquial.

Foi Rosa quem lhe abriu a porta. Ao reconhecê-lo, ela sobressaltou-se, e ele seguiu-a para a sala de jantar. Sentou-se e começou, bruscamente:

— Vim, Srta. Rosa, falar com o Sr. Blencarn.

Depois acrescentou, observando-a atentamente:

— Estás com aspeto de doente, rapariga.

O seu sorriso fraco acentuou o aspeto cansado e branco do seu rosto.

— Suponho que te tens preocupado muito — continuou ele gentilmente, — ficando acordada de noite, não é?

Ela sorriu vagamente.

— Bem, mas vês, vim para resolver todo o assunto por ti. Pensaste talvez que eu não era um homem de palavra.

— Não, não, não é isso — protestou ela, — mas... mas...

— Mas o quê, então?

— Não deve fazer isso, Sr. Garstin... Devo apenas suportar o meu próprio problema da melhor forma que puder... — desabafou ela.

— Imaginas que te vou tirar disto por caridade? Não imaginas o tipo de matéria de que é feito o meu amor por ti. Não, Srta. Rosa, mas não podes recuar agora.

— Mas não pode fazer isso, Sr. Garstin. Sabe que a sua mãe não me vai querer em Hootsey... Eu não poderia viver lá com a sua mãe... Preferia suportar o meu problema sozinha, da melhor forma que pudesse... A Sra. Garstin é tão severa. Não conseguiria encará-la... Posso ir para algum lado... Podia esconder tudo ao meu tio.

A sua cor ia e vinha: ela estava de pé diante dele, desviando o olhar, opaca, pela janela.

— Tenho a intenção de que venhas para Hootsey. Não sou um rapazola: suponho que posso escolher a minha própria esposa. A mãe aceitar-te-á na quinta, certamente: não precisas de te preocupar com esse ponto...

— Não, Sr. Garstin, mas de facto ela não o fará, nunca... Sei que não fará... Ela sempre se pôs contra mim, logo desde o princípio.

— Pois, mas isso era diferente. O caso mudou agora — objetou ele obstinadamente.

— Ela suportar-me-á ainda menos — vacilou a rapariga.

— A mãe aceitar-te-á em Hootsey — receber-te-á de livre e espontânea vontade — de livre e espontânea vontade, ouves? Eu respondo por isso.

Ele bateu com o punho na mesa pesadamente. O seu tom de determinação intimidou-a: ela olhou para ele apressadamente, lutando com a sua indecisão.

— Eu sei como lidar com a mãe. E agora — concluiu ele, mudando de tom, — o teu tio está por perto?

— Está no pasto, penso eu — respondeu ela.

— Bem, vou lá dar um salto e falar com ele.

— Vós... não lhe vai contar.

— Tut, tut, nada de histórias tristes, não precisas de temer, rapariga. Creio que, se consigo lidar com a minha mãe, posso adaptar-me ao reverendo Blencarn.

Ele levantou-se e, aproximando-se dela, examinou-lhe o rosto.

— Tens de trazer as rosas de volta às tuas faces — exclamou ele, com uma risada curta, — não posso levar um fantasma à igreja.

Ela sorriu trémulamente, e ele continuou, colocando uma mão afetuosamente no ombro dela:

— Não, mas estava apenas a brincar. Com rosas ou sem elas, serás a noiva mais bonita de toda a Coomberland. Encontrar-te-ei em Hullam lane, depois da hora da igreja, amanhã — acrescentou ele, dirigindo-se à porta.

Depois que ele partiu, ela correu furtivamente para a porta das traseiras. A figura dele, ao afastar-se, já subia o campo cinzento da encosta. Pouco depois, além dele, percebeu o tio, saindo pelo portão do pasto. Ela correu pelo pátio das aves e, subindo para um barril, ficou a observar as duas figuras enquanto se moviam uma em direção à outra ao longo da crista, Anthony a caminhar vigorosamente, com as mãos profundamente enfiadas nos bolsos; o tio, com o chapéu inclinado sobre o nariz, a coxear e a apoiar-se rigidamente num par de bengalas. Encontraram-se; ela viu Anthony segurar o braço do tio: os dois, voltando-se juntos, caminharam em direção à encosta.

Ela voltou para dentro de casa. O cão de Anthony aproximou-se dela, esgueirando-se pelo corredor. Ela agarrou a cabeça do animal com as mãos e inclinou-se sobre ela, carinhosamente, num impulso de afeição quase histérica.

VII

Os dois homens regressaram em direção à casa paroquial. No portão do pasto pararam, e o velho concluiu:

— Não poderia ter desejado um homem melhor para ela, Anthony. Talvez o Senhor não esteja disposto a poupar-me por muito mais tempo. Depois que eu partir, a Rosa terá tudo o que possuo. Ela era a única filha do meu pobre irmão Isaac. Depois que a mãe dela partiu, ele, pobre coitado, foi-se completamente abaixo e, até ela vir para aqui, viveu quase sempre entre estranhos. Tem sido uma infância miserável para ela — uma infância miserável. Vais cuidar dela, Anthony, não vais?... Não, mas não poderia ter desejado um homem melhor para ela, e dou-te a minha palavra.

— Obrigado, Sr. Blencarn, obrigado — respondeu Anthony, com a voz rouca, apertando a mão do velho.

E pôs-se a caminho pela ruela, em direção a casa.

O seu coração estava cheio de uma estranha e rude exaltação. Sentia, com um orgulho crescente, que Deus lhe tinha confiado esta grande missão — cuidar dela; compensá-la, dez vezes mais, por todo aquele cuidado amoroso que, na sua infância, ela nunca conhecera. E, juntamente com uma confiança obstinada em si mesmo, brotou dentro dele uma grande compaixão por ela — uma terna compaixão que, temperando a sua paixão, a tornava, aos seus olhos, enquanto refletia sobre aquela infância solitária dela, ainda mais distintamente bela, ainda mais profundamente preciosa. Imaginava para si mesmo, trémulamente, quase incrédulo, a vida de casados — no inverno, o seu regresso a casa ao cair da noite para a encontrar à sua espera com um sorriso alegre e confiante; as suas noites passadas juntos, sentados numa felicidade silenciosa sobre os troncos fumegantes; ou, no verão, o descanso a meio do dia nos campos de feno quando, usando talvez um chapéu de abas largas preso com uma fita vermelha sob o queixo, ele a avistaria, trazendo-lhe o jantar, atravessando a encosta.

Ela não tinha sido criada para ser a esposa de um agricultor: ainda era apenas uma criança, como dissera o velho reverendo. Ela não deveria ter de trabalhar como as mulheres dos outros homens trabalhavam: ela deveria vestir-se como uma dama e, aos domingos, na igreja, usar belos chapéus e permanecer, como sempre fora, a beldade de toda a paróquia.

E, entretanto, ele cultivaria a terra como nunca a cultivara antes, observando as suas oportunidades, fazendo negócios astutos, não gastando nada consigo próprio, guardando cada cêntimo para que ela pudesse ter o que quisesse... E, enquanto caminhava pela aldeia, parecia prever um brilho geral nas perspetivas, uma sobriedade na febre da especulação em ovelhas, uma cessação da glutonaria insensata, ano após ano, dos grandes mercados de inverno por todo o Norte, um abrandamento da concorrência estrangeira seguido por uma reviravolta constante do preço dos animais gordos — um período de prosperidade finalmente reservado para o agricultor... E os anos futuros pareciam abrir-se diante dele, estendidos como uma planície distante e brilhante através da qual, ele e ela, de mãos dadas, eram chamados a viajar juntos...

E então, de repente, enquanto as suas botas reforçadas com ferro batiam no pátio empedrado, lembrou-se, com determinação brutal, da sua mãe e da tempestuosa luta que o aguardava.

Esperou até que o jantar terminasse, até que a mãe se tivesse movido da mesa para o seu lugar no canto da lareira. Durante vários minutos, permaneceu a debater consigo mesmo o melhor método de lhe dar a notícia. De repente, olhou para ela: o seu tricô tinha escorregado para o colo: ela estava sentada, encolhida na sua cadeira, a adormecer. À luz vacilante do fogo de lenha, parecia gasta e partida: ele sentiu uma pontada de compunção desajeitada. E então lembrou-se do olhar piedoso e caçado nos olhos da rapariga, e das palavras do velho quando se despediram no portão do pasto, e soltou:

— Receio que tenha de me casar com a Rosa Blencarn, afinal.

Ela sobressaltou-se e, piscando os olhos, disse:

— Estava apenas a dar uma pestanada. O que estavas a dizer, Tony?

Ele hesitou um momento, franzindo a testa em linhas rugosas e grosseiras, e mexendo ruidosamente na chávena de chá. Pouco depois, repetiu:

— Receio que tenha de me casar com a Rosa Blencarn, afinal.

Ela levantou-se rigidamente e, descendo da lareira, aproximou-se dele.

— Talvez eu não te tenha ouvido bem, Tony. — Ela falou apressadamente e, embora estivesse bem perto dele, segurando-se com uma mão nas costas da cadeira, a sua voz soava fraca, quase distante.

— Olha para mim. Olha para o meu rosto — ordenou ela ferozmente.

Ele obedeceu, mal-humorado.

— Agora conta. Qual é a tua intenção, Tony?

— Quero dizer o que digo — retorquiu ele obstinadamente, desviando o olhar.

— O que queres dizer com "ter de casar com ela"?

— Já te disse que quero dizer o que digo — repetiu ele, monótono.

— Queres dizer que estiveste com a rapariga e a meteste em apuros?

Ele não disse nada; mas ficou a olhar estupidamente para o chão.

— Olha para mim e responde — ordenou ela, agarrando-lhe o ombro e sacudindo-o.

Ele levantou o rosto lentamente e encontrou o olhar dela.

— Sim, é mais ou menos isso — respondeu ele.

— Isto não pode ser verdade. Será apenas um truque qualquer! — gritou ela.

— Não, mas é a verdade — respondeu ele deliberadamente.

— Não jurarás isso? — insistiu ela.

— Não vejo necessidade de jurar.

— Então não podes jurar isso — explodiu ela triunfante.

Ele fez uma pausa por um instante; depois disse calmamente:

— Sim, mas jurarei facilmente. Traz o Livro.

Ela levantou a pesada e esfarrapada Bíblia da lareira e colocou-a diante dele sobre a mesa. Ele pousou o seu punho pesado sobre ela.

— Dize — continuou ela com uma tensão trémula, — dize: "Juro-te, mãe, que é a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, que Deus me ajude".

— Juro-te, mãe, que é a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, que Deus me ajude — repetiu ele depois dela.

— Beija o Livro — ordenou ela.

Ele levantou a Bíblia aos lábios. Ao colocá-la de volta na mesa, soltou uma curta risada:

— Estás satisfeita agora?

Ela voltou para o canto da lareira sem uma palavra. Os troncos na lareira sibilaram e estalaram. Lá fora, na escuridão, o vento soprava, uivando pelos abetos e pelas janelas.

Depois de muito tempo, ele recompôs-se e, tirando o cachimbo do bolso quase calmamente, procedeu sem pressa a cortar na palma da mão um pedaço de tabaco preto.

— Seremos proclamados na igreja no domingo — observou ele bruscamente.

Ela não respondeu.

Ele olhou para ela.

A boca dela estava tensa nos cantos: o rosto tinha um aspeto estranho e rígido. Ela parecia, pensou ele, uma figura de pedra.

— Não te sentes bem, mãe? — perguntou ele.

Ela abanou a cabeça severamente: depois, coxeando para o meio da sala, começou a falar com uma voz estridente e desafinada.

— Falaste uma vez em comprar uma quinta pelo caminho de Scarsdale. Mas é melhor ficares por aqui. Não te impedirei. Podes ficar com o quarto grande da frente, e eu mudarei para o que costumava ser o quarto do meu irmão Jake. Sabes que nunca tive uma boa opinião da rapariga, mas farei o que é certo por ela, mesmo que parta o meu espírito ao fazê-lo. Receberei a rapariga aqui: apoia-la-ei como deve ser: talvez acabe por encontrar algum bem nela. Mas a partir deste dia, Tony, não és mais meu filho. Desonraste-te: preparaste-me uma armadilha — sim, preparaste uma armadilha, essa é a palavra. Trouxeste vergonha e amargura à tua velha mãe na sua velhice. Fizeste-me desprezar o próprio género de ti. Podes ficar aqui, mas nunca tocarás num cêntimo do meu dinheiro; cada xelim dele irá para o teu filho, ou para os filhos do teu filho. Sim — continuou ela, levantando a voz, — sim, tiveste a tua vontade finalmente, e talvez penses que escolheste um caminho muito inteligente. Mas chegará o dia em que te arrependerás deste dia, quando comeres o teu arrependimento em pó e cinza. Sim, o Senhor punir-te-á, Tony, castigar-te-á devidamente. Aprenderás que um casamento começado em pecado só pode acabar em pecado. Sim — concluiu ela, ao chegar à porta, levantando a mão magra profeticamente, — sim, depois de eu estar morta e enterrada, lembra-te das palavras do apóstolo: "Pois aqueles que pecaram sem a lei, também perecerão sem a lei".

E bateu a porta atrás de si.

(Keynotes, Londres: Elkin Mathews and John Lane, Vigo Street, 1893)

Início da Primavera, 1893

_O livro da vida começa com um homem e uma mulher num jardim e termina--com o Apocalipse._

OSCAR WILDE

Sim, pode dizer-se que o livro da vida da maioria dos homens começa no capítulo em que a mulher entra; o meu começou. Ela entrou há anos, quando eu era um estudante inexperiente. Com o pensamento sóbrio da análise retrospectiva, posso dizer que ela não era tudo o que a minha imaginação pintava; na verdade, agora que penso nisso, não havia imaginação alguma no tom vermelhão das suas bochechas, antes uma realidade artificial; o seu refúgio era o bar do Golden Boar, e eu estava loucamente apaixonado por ela, seriamente decidido ao matrimónio legítimo. Felizmente para mim, ela trocou-me por um talhante vizinho, mas na altura levei-o a peito, e isso tornou-me tímido em relação ao sexo. Eu era um homem muito pobre naqueles tempos. Nessa altura, sentimos as mágoas com mais agudeza; não temos meios para comprar distrações. Além disso, as senhoras desprezavam-me um pouco, nas raras ocasiões em que as encontrava. Mais tarde, recebi uma herança, a precursora de várias; na verdade, posso dizer que sou imensamente rico. Os meus gostos também são simples, e não tenho parentes pobres. Acredito que eles são de grande auxílio para nos livrarmos de capital supérfluo, quem me dera ter alguns! Foi depois da herança que as mulheres descobriram os meus atrativos. Descobriram que havia algo de soberbo na minha simplicidade (antes diziam fealdade), algo ao estilo do falecido Victor Emanuel, algo infinitamente mais marcante do que a simples beleza vulgar. Pelo menos foi o que Harding me disse que a irmã afirmara, e ela tinha a reputação de ser uma rapariga inteligente. Sendo filho único, nunca tive a oportunidade que outros rapazes tiveram de estudar o lado informal das mulheres através de um convívio familiar, digamos, com irmãs. Os seus pertences mais comuns eram sagrados para mim. Eu tinha, costumavam dizer-me, noções ridiculamente elevadas sobre elas (a propósito, modifiquei-as consideravelmente após um conhecimento mais próximo). Devia estudá-las; nada como uma mulher para desenvolver um rapaz. Por isso, fiz uma reserva de livros em diferentes línguas, na maioria romances, em que as mulheres desempenhavam papéis principais, a fim de obter alguns dados concretos antes de me aventurar entre elas. Não posso dizer que tenha obtido muito proveito deste curso. Parecia haver uma diversidade de opiniões tão grande sobre a espécie feminina como, digamos, sobre os salmonídeos.

O meu amigo Ponsonby Smith, que é um dos mais antigos pescadores à linha nos três reinos, disse-me uma vez: Acredita na minha palavra, existem apenas quatro salmo verdadeiros; o salar, o trutta, o fario, o ferox; todos os restantes são apenas variedades, subgéneros dos anteriores; atém-te a isso. Um escritor qualquer dividiu todas as mulheres em boas e más. Mas, como um escrupuloso defensor da verdade, devo dizer que, tanto nas trutas como nas mulheres, encontrei-me perante variedades deveras desconcertantes, que eram uma mistura tentadora de várias qualidades. Resolvi então estudá-las por minha conta. Persegui o Eterno Feminino com um espírito de investigação puramente científica. Sei que te rirás ceticamente disso, mas é um facto. Fui imparcial na minha escolha de temas para observação--francesas, alemãs, espanholas, assim como o produto nacional. Nada do que usava saias me escapou. Dediquei-me tanto à ingénua mais fresca como à viúva experiente de três maridos falecidos; e posso confessar que, quanto mais a via, menos a compreendia. Mas penso que elas me compreendiam. Recusavam-se a levar-me a sério. Quando não me estavam a depenar, interessavam-se pelo estado da minha alma (preferia o primeiro caso), mas todas me logravam igualmente, por isso desisti delas. Dediquei-me antes à cana e à espingarda, _pro salute animae_; é decididamente mais seguro. Percorri todos os países do globo; na verdade, posso dizer que cacei e pesquei em bosques e águas onde talvez nenhum outro homem branco tivesse alguma vez abatido uma fera ou pescado um peixe antes. Não há vida como a vida de um errante livre, e não há conhecimento como o conhecimento que se colhe no grande livro da natureza. Mas é preciso ter libertado o espírito da mácula da cidade antes de se poder sequer ler o alfabeto do seu significado místico.

O que é que isto tem a ver com a luva? É verdade, não muito, e contudo tem uma ligação--explica quem eu sou.

Bem, durante doze anos segui os impulsos do espírito errante que habita em mim. Vi o sol nascer na Finlândia e dourar os "Nós do Diabo" enquanto ele se punha atrás do Drachensberg. Pesquei o _barba_ e o _yellow fish_ no rio Vaal, apanhei _muskelunge_ e _black-bass_ no Canadá, lancei a mosca sobre o _guapote_ e o _cavallo_ nos lagos da América Central, e sufoquei as enguias monstro das Maurícias com um patinho astuciosamente preparado. Mas fui tímido como um escalo perante a sombra de uma mulher.

Pois bem, aconteceu que no ano passado voltei por negócios--outra maldita herança; final de junho também, precisamente quando eu estava de partida para a Finlândia. Mas os senhores Thimble e Rigg, a respeitabilíssima firma que trata dos meus assuntos, alegaram que eu devia aos outros, a quem impedia de receber a sua parte da herança, ficar perto da cidade até que os assuntos estivessem encerrados. Falaram-me, talvez com o intuito de me reconciliar, de um rio de trutas com uma estalagem decente perto dele; um riacho desconhecido em Kent. Parece que um membro júnior da firma é pescador, pelo menos às vezes apanha lúcio ou perca no Medway, a alguma distância do riacho onde as trutas saltam com audaciosa segurança perante as iscas artificiais. Estipulei que um funcionário viesse ter comigo com quaisquer papéis a assinar, e parti imediatamente para Victoria. Recuso-me a dizer o nome da minha descoberta, primeiro porque as trutas são os peixinhos mais corajosos que alguma vez saltaram à mosca e que chegam facilmente a umas duas libras. Em segundo lugar, paguei todos os quartos da estalagem para o próximo ano, e quero-a só para mim. A luva está em cima da mesa ao meu lado enquanto escrevo. Se não está no bolso do meu casaco ou debaixo da minha almofada, está em algum lugar onde a possa ver. Tem um corpo cinzento delicado (camurça, penso que lhe chamam) com um remate de prata à volta da parte superior, e uma presilha de seda cinzenta mais escura para a prender. Está marcada com o número 5-3/4 no interior, e tem um perfume delicioso, suponho que para afastar as traças; a naftalina é melhor. Lembra-me uma "silver-sedge" atada num anzol dez. Assustei a boa estaladeira da pequena pousada (felizmente não há aldeia) quando cheguei com o único porteiro da minúscula estação carregado de tralha. Ela hesitou quanto a uma sala de estar privada, mas acabámos por chegar a um compromisso, uma vez que eu estava disposto a partilhá-la com o outro hóspede. Vesti imediatamente calções, obriguei um rapaz a arranjar-me minhocas e peixinhos para o dia seguinte, e como me sentia demasiado preguiçoso para desfazer a tralha, sentei-me simplesmente na poltrona brilhante (tornada confortável pelo sucessivo sentar de ocupantes anteriores) à janela aberta e olhei para fora. O rio, não o riacho das trutas, serpenteia para a direita, e as árvores lançam sombras trémulas nas suas profundezas claras. As telhas vermelhas do telhado de uma quinta aparecem entre as faias, e quebram a monotonia do fundo azul do céu. Um carreteiro poeirento sacia a sede com um caneco de cerveja. Sinto o estranho sentimento de solidão que uma visita a Inglaterra sempre me dá. Longe, em terras estranhas, mesmo em lugares solitários, não o sinto de alguma forma. Um homem sente-se cheio da luxúria do caçador, determinado numa "presa", mas em casa, no campo sossegado, com o fumo a subir de alguma lareira, os ceifeiros ocupados a deitar o feno em leiras, as crianças a rebolar debaixo das árvores nos pomares, e uma rapariga a cantar enquanto estende a roupa na sebe de silvas-doces, no meio de uma cena vibrante com vistas e sons domésticos, uma estranha carência infiltra-se e faz-se sentir de uma forma maçadora e dolorosa. Curiosamente, também, tive uma sensação de inquietação, um "algo vai acontecer". Já a tinha experimentado muitas vezes quando estava sozinho numa grande floresta, ou num lago desconhecido, e significava sempre "cuidado com o perigo" de algum tipo. Mas porque é que a haveria de sentir aqui? No entanto, senti-a, e não a conseguia sacudir. Pus-me a examinar a sala. Era comum, do tipo habitual. Mas havia um cesto de costura na mesa, uma coisa delicada, forrado com cetim azul. Havia um pedaço de renda esticado sobre linho azul brilhante, com a agulha espetada nele; um trabalho de fada, como teias de aranha vistas de baixo, tecidas a partir de um ramo contra um fundo de céu. Um dedal de ouro também, com iniciais, não da estaladeira, eu sei. Que coisas bonitas, também, no cesto! Uma tesoura, de um formato excelente para fazer moscas; uma pequena lima, e alguma seda floss e fios metálicos, a cor idêntica que quero para uma nova mosca que tenho em mente, uma que será um demónio a matar. O "diabo do norte", pretendo chamar-lhe. Alguém espreita para trás de mim, e um passo leve passa para o andar de cima. Largo o cesto, não sei porquê. Há algumas revistas perto dele. Pego numa, e fico rapidamente enterrado num artigo sobre a fauna da Tasmânia. É estranho, mas sempre que sei alguma coisa sobre um assunto, descubro sempre que esses escritores ou são completamente ignorantes ou estão redondamente enganados.

Depois do jantar, dei um passeio para ver o rio. Era uma noite cinzenta prateada, com apenas as últimas riscas de limão e rosa do pôr do sol a tingir o céu. Tinha caído um aguaceiro, e de alguma forma o cheiro do pó depois da chuva misturado com o manjerico no jardim trouxe de volta cenas desaparecidas da minha infância, quando apanhava peixinhos numa garrafa, e sonhava com uma cana de um xelim como felicidade inalcançável. Desviei-me da estrada de acordo com as indicações, e caminhei em direção ao riacho. Olá! alguém à minha frente, que maçada! O pescador está escondido por um sabugueiro, mas consigo ver a mosca cair delicadamente, artisticamente sobre a água. A pescar rio acima, também! Há um pouco de água agitada ali, e os mosquitos dançam em miríades; um brilho prateado, e a linha desenrola-se, e a mosca cai precisamente no lugar certo. Está a anoitecer, mas o sujeito é um adepto de lançamentos rápidos e precisos--pergunto-me que mosca terá ele--por que, ele vai tentar rio abaixo agora? Apresso-me a avançar, e à medida que me aproximo dele, desvio-me para a esquerda para sair do caminho. Zzzzz! uma picada repentina no lóbulo da minha orelha. Ei! grito ao descobrir que fui apanhado; a mosca de ponta está presa nele. Uma mulher esguia, vestida de cinzento, segurando a cana, pousa-a cuidadosamente e vem na minha direção através do crepúsculo que se adensa. O meu primeiro impulso é partir o fio e fugir, mas sinto-me retido por algo menos tangível, mas muito mais poderoso do que a garra do anzol Limerick na minha orelha.

"Lamento imenso!", diz ela com uma voz que combinava com a noite, era tão calma e suave; "mas foi extremamente estúpido da sua parte vir por trás dessa forma."

"Não pensei que lançasse uma linha tão longa; pensei que estava a salvo", gaguejei.

"Segure isto!", diz ela, dando-me um livrinho de moscas, do qual retirou uma tesoura. Obedeço humildemente. Ela corta o fio.

"Tem uma faca afiada? Se retirar a farpa do anzol, pode empurrá-lo para o outro lado; é uma sorte não ser na cartilagem."

Suponho que sou um idiota completo, mas apenas lhe entreguei a faca, e ela procedeu com tanta calma como se retirar um anzol da orelha de um homem fosse um acontecimento do dia a dia. O seu vestido é de um tecido cinzento suave, e o seu cinto de couro cinzento tem uma fivela de prata. As suas mãos são suaves, frescas e firmes, mas há uma emoção raramente perturbadora no seu toque gentil. O pensamento passou-me pela mente que eu tinha perdido isso, o toque terno e voluntário de uma mulher, não uma carícia paga, durante toda a minha vida.

"Agora pode empurrá-lo sozinho. Espero que não doa muito." Pegando no anzol, empurro-o, e uma gota de sangue segue-o. "Oh!", exclama ela, mas eu garanto-lhe que não é nada, e espeto o anzol dissimuladamente na manga do meu casaco. Depois rimo-nos ambos, e olho para ela pela primeira vez. Ela tem uma testa muito branca, com pequenas madeixas de cabelo a esvoaçar à volta dela debaixo do seu gorro cinzento, os seus olhos são cinzentos. Não vi isso na altura, apenas vi que eram olhos firmes e sorridentes que combinavam com a sua boca. Tal boca, a boca mais enlouquecedora que um homem alguma vez desejou beijar, acima de um queixo demasiado pontiagudo, suave como o de uma criança; na verdade, o rosto todo parece suave na luz enevoada.

"Lamento ter estragado o seu desporto!", digo eu.

"Oh, isso não importa, está na hora de parar. Apanhei dois pares, um deles uma beleza."

Ela está a recolher a linha, e eu olho para o seu cesto; são belezas, um de duas libras, os restantes variando entre meia e uma libra.

"Que mosca?"

"Uma _yellow dun_ apanhou esse, mas o seu agressor foi uma _partridge spider_." Ponho o cesto dela ao meu ombro; ela aceita-o como algo natural, e voltamos atrás. Sinto-me curiosamente feliz enquanto caminhamos em direção à estrada; há um deleite novo na sua proximidade; a sensação da mulher trabalha subtil e estranhamente em mim; o roçar da sua saia ao escovar as cabeças negras na erva do prado, e o perfume delicado, parte violetas, parte ela própria, que me chega com cada movimento seu, é um prazer raro. Dificilmente me surpreendo quando ela entra no jardim da estalagem, acho que sabia desde o início que ela o faria.

"É melhor lavar essa orelha, e pôr algumas gotas de fenol na água." Ela pega no cesto enquanto diz isto, e vai para a cozinha. Apresso-me com isto, e entro na pequena sala de estar. Há um tabuleiro com um copo de leite e alguns bolos de aveia em cima da mesa. Estou demasiado perturbado para me sentar; fico à janela e observo os morcegos a esvoaçar ao luar crescente, e escuto com os nervos trémulos pelo seu passo--talvez ela mande buscar o tabuleiro e não venha afinal. Que tolo sou por estar perturbado por uma bruxa vestida de cinzento com uma boca tentadora! Isso é o que dá andar por aí sem fazer nada. Amaldiçoo mentalmente o velho tolo que guardou o seu dinheiro em vez de o gastar. Por que raio hei de estar incomodado? Não o quero de qualquer maneira. Ela entra enquanto eu fervo, e esqueço tudo com a sua entrada. Empurro a poltrona em direção à mesa, e ela senta-se calmamente nela, puxando o tabuleiro para perto. Ela usa uma aliança, mas de alguma forma nunca me ocorre perguntar se ela é casada, ou viúva, ou quem quer que ela seja. Contento-me em vê-la partir os seus biscoitos. Ela tem as mãos mais bonitas, e um jeito de separar os últimos dedos quando pega em qualquer coisa. Lembram-me orquídeas brancas que vi algures. Ela levou-me a falar; sobre África, penso eu. Gostava de ver os seus olhos brilharem profundamente na sombra e depois ganhar luz quando ela se inclinava para a frente para dizer algo da sua forma rápida e recetiva.

"Há muito tempo, quando eu era rapariga", disse ela uma vez.

"Há muito tempo?", ecoo eu, incrédulo, "certamente que não?"

"Ah, mas sim, não me viu à luz do dia", com uma pequena risada suave. "Sabe o que dizem os ciganos? 'Nunca julgues uma mulher ou uma fita à luz de velas'. Podiam ter dito o mesmo ao luar."

Ela levanta-se enquanto fala, e sinto um desejo avassalador de que ela estenda a mão. Mas ela não o faz, apenas pega no cesto de costura e num livro, e diz boa noite com uma inclinação da sua pequena cabeça.

Vou até lá e fico ao lado da sua cadeira; não gosto de me sentar nela, mas gosto de pôr a mão onde a sua cabeça se encostou, e imaginar, se ela estivesse lá, como ela olharia para cima.

Acordei na manhã seguinte com uma sensação curiosa de excitação prazerosa. Assobiei de pura leveza de coração enquanto me vestia. Quando desci, encontrei a estaladeira a limpar as coisas do seu pequeno-almoço. Senti-me desapontado e resolvi descer mais cedo no futuro. Não me senti inclinado a experimentar o peixinho. Coloquei-os num tanque no quintal e tentei ler e ouvir o seu passo. Jantei sozinho. O dia arrastou-se terrivelmente. Não me apeteceu perguntar por ela, tinha a ideia de que ela poderia não gostar. Passei a noite no rio. Podia ter enchido um bom cesto, mas deixei os pobres peixes descansar. Afinal, tinha pescado peixe suficiente para abastecer todos os rios da Grã-Bretanha. Há outras coisas além de trutas no mundo. Sento-me e fumo um cachimbo onde ela me apanhou ontem à noite. Se fechar os olhos, consigo ver os dela, e a sua boca, no fumo. Esse é um dos encantos curiosos do tabaco, ajuda a reproduzir imagens mentais. Passado algum tempo, penso "talvez ela tenha partido". Fico bastante febril com o pensamento e apresso-me a voltar. Tenho de perguntar. Olho para a janela à medida que passo; há certamente um brilho de branco. Largo a minha tralha e apresso-me a subir. Ela está debruçada com os braços no parapeito da janela, a olhar para a escuridão. Poderia jurar que apanhei um soluço contido quando entrei. Tosso, e ela vira-se rapidamente e faz uma pequena vénia. Um chapéu e luvas e uma coisa de renda e um monte de papéis estão em cima da mesa. Tenho imenso medo que ela vá embora. Digo--

"Por favor, não deixe que eu a afugente, ainda é tão cedo. Esperava vê-la no rio."

"Nada tão agradável; estive na cidade (as lágrimas entraram certamente na sua voz) o dia todo; estava tão quente e poeirento, estou exausta."

A pequena criada traz o candeeiro e um tabuleiro com uma garrafa de limonada.

"A patroa não tem limões, menina, serve isto?"

"Sim", diz ela cansada, ela está a sombrear os olhos com a mão; "qualquer coisa; estou terrivelmente sedenta."

"Deixe-me preparar-lhe uma bebida em vez disso. Tenho limões e gelo e coisas. O meu criado enviou-me mantimentos hoje; deixo-o na cidade. Sou bastante perito em bebidas; aprendi com os americanos; quase a única coisa que aprendi com eles que me apetece recordar. Susan!" A pequena criada ajuda-me a arranjar os materiais, e ela observa-me silenciosamente. Quando lha dou, ela aceita com um sorriso (ela esteve a chorar). Isso é um agradecimento mais que suficiente. Ela parece bastante velha. Algo mais do que cansaço provocou essas rugas no seu rosto.

Bem, dez dias passaram; por vezes encontramo-nos ao pequeno-almoço, por vezes ao jantar, por vezes pescamos juntos ou sentamo-nos no pomar desordenado e conversamos; ela não me evita nem me procura. É a mistura mais encantadora de criança e mulher que alguma vez conheci. É uma criatura dual. Ora, nunca encontrei tal coisa num homem. Quando ela está aqui, sem receber uma carta de manhã ou ir à cidade, parece uma rapariga. Corre por aí no seu vestido cinzento e pequeno toucado e ri-se, e parece libertar-se de todo o pensamento como uma criança irresponsável. Tem vontade de pescar, ou de colher groselhas e comê-las delicadamente, ou de se sentar debaixo das árvores e conversar. Mas quando vai à cidade — noto que ela vai sempre quando recebe uma carta de advogado, não há como enganar o envelope —, volta para casa cansada e com um aspeto abatido, uma velha de trinta e cinco anos. Pergunto-me porquê. Leva quase um dia, mesmo com a sua elasticidade de temperamento, a tornar-se jovem outra vez. Detesto que ela vá à cidade; é extraordinário como sinto a sua falta; não me lembro, quando ela está ausente, de ela dizer algo muito maravilhoso, mas ela conversa a todo o tempo. Tem uma maneira graciosa de preencher o lugar com a sua presença, há uma qualidade divertida na sua própria companhia. Tivemos uma tarde chuvosa; ela atou-me algumas moscas (não usarei nenhuma delas); observei os reflexos no seu cabelo enquanto ela se movia, é bastante dourado em alguns pontos, e ela tem um sinal minúsculo perto da orelha esquerda e outro no pulso esquerdo. No décimo primeiro dia, ela recebeu uma carta, mas não foi à cidade, ficou no seu quarto o dia todo; vinte vezes senti vontade de lhe enviar um bilhete, mas não tinha desculpa. Ouvi a senhoria dizer enquanto passava pela janela da cozinha: 'Pobre querida! Lamento perdê-la!' Perdê-la? Acho que não. Chegou a tal ponto comigo que não me vejo capaz de enfrentar qualquer futuro sem ela; e, no entanto, não sei nada sobre ela, nem sequer se é uma mulher livre. Descobri-lo-ei na próxima vez que a vir. À noite, vislumbro o seu vestido no pomar e sigo-a. Sentamo-nos perto do rio. A sua mão esquerda repousa sem luva ao meu lado na relva.

'Acha, pelo que viu de mim, que eu faria uma pergunta por mera curiosidade impertinente?'

Ela sobressalta-se. 'Não, não acho!'

Pego na sua mão e toco no anel. 'Diga-me, isto prende-a a alguém?'

Estou consciente de um zumbido nos ouvidos e de uma mancha tremeluzente de água, céu e árvores, enquanto espero (parece-me uma hora) pela sua resposta. Senti a mesma sensação uma vez antes, quando fui arrastado para umas corredeiras e escapei por um triz, mas disso falaremos noutra altura.

A voz está a tremer.

'Não estou legalmente ligada a ninguém, pelo menos; mas por que pergunta?' ela olha-me diretamente nos olhos enquanto fala, com um toque de altivez que nunca vi nela antes.

Talvez o grande alívio que sinto, a sensação de alegria por saber que ela é livre, se expresse no meu rosto, pois o dela cora e ela baixa os olhos, os seus lábios tremem. Não volto a olhar para ela, mas consigo vê-la na mesma. Passado um bocado, ela diz:

'Tinha a intenção de lhe contar algo sobre mim esta noite, agora tenho de o fazer. Vamos entrar. Virei à sala de estar depois do seu jantar.' Ela lança um longo olhar ao rio e à estalagem, como se fixasse o lugar na sua memória; atinge-me com um arrepio a ideia de que há um adeus no seu olhar. Os seus olhos repousam em mim por um momento enquanto regressam, há um olhar triste na sua clareza cinzenta. Ela balança as suas pequenas luvas cinzentas na mão enquanto caminhamos de volta. Consigo ouvi-la a andar de um lado para o outro lá em cima; quão cansada ela estará, e quão lentamente o tempo passa. Estou de pé de um lado da janela quando ela entra; ela fica do outro, encostando a cabeça contra a veneziana com as mãos juntas diante de si. Consigo ouvir o meu próprio coração a bater e, imagino, o dela através do silêncio. O suspense é terrível. Por fim, ela diz:

'Esteve muito tempo fora de Inglaterra; não lê os jornais?'

'Não.' Uma pausa. Acredito que o meu coração está a bater dentro da minha cabeça.

'Perguntou-me se eu era uma mulher livre. Não pretendo interpretar mal a razão pela qual me perguntou. Não sou uma mulher bonita, nunca fui. Mas deve haver algo em mim, existe em algumas mulheres, "feminilidade essencial" talvez, que atrai todos os homens. O que li nos seus olhos já vi nos de muitos homens antes, mas perante Deus, nunca tentei despertá-lo. Hoje (com um soluço), posso dizer que sou livre, ontem de manhã não podia. Ontem o meu marido ganhou o processo e divorciou-se de mim!' ela fecha os olhos e puxa o lábio inferior para dentro para impedir que trema. Quero tomá-la nos meus braços, mas tenho receio.

'Não lhe perguntei nada além de se era livre!'

'Não, mas receio que não capte bem o significado. Eu não me divorciei do meu marido, ele divorciou-se de mim, ele obteve um decreto condicional; compreende agora? (ela fala com dificuldade), sabe o que isso implica?'

Não suporto mais o seu rosto. Pego nas suas mãos, elas estão geladas, e aperto-as fortemente.

'Sim, sei o que implica, ou seja, conheço a conclusão legal e social que deve ser tirada disso — se é isso que quer dizer. Mas nunca lhe pedi essa informação. Não tenho nada a ver com o seu passado. Você não existiu para mim antes do dia em que nos encontrámos no rio. Pego em si a partir desse dia e peço-lhe que se case comigo.'

Sinto-a tremer e as suas mãos tornam-se subitamente quentes. Ela vira a cabeça e olha para mim demorada e profundamente, depois diz:

'Sente-se, quero dizer algo!'

Obedeço, e ela aproxima-se e fica ao lado da cadeira. Não consigo evitar, estendo o braço, mas ela baixa-o gentilmente.

'Não, tem de ouvir sem me tocar, voltarei para a janela. Não quero influenciá-lo nem um pouco por qualquer magnetismo pessoal que eu possua. Quero que ouça — disse-lhe que ele se divorciou de mim, o co-réu era um velho amigo, um amigo da minha infância, da minha juventude. Ele morreu logo após a primeira petição ter sido feita, felizmente para mim. Ele teria considerado a minha honra antes da minha felicidade. Não contestei o processo, não era provável — ah, se soubesse tudo? Ele provou o seu caso; com advogados inteligentes, testemunhas dispostas a quem se paga, e sem defesa, o divórcio é sempre alcançável, mesmo em Inglaterra. Mas lembre-se: eu figura como adúltera em todos os jornais de língua inglesa. Se comprar os jornais da noite da semana passada — lembra-se do dia em que estive na cidade?' — aceno com a cabeça — 'verá um esboço meu no jornal desse dia; alguém, talvez ele, deve tê-lo dado; era de uma fotografia antiga. Comprei um em Victoria quando saí; é engraçado (com uma risada histérica) comprar uma caricatura da nossa própria cara pobre numa banca de jornais. No entanto, apesar disso, senti-me feliz. O ponto para si é que não apresentei defesa perante o mundo e (com um levantar da cabeça) não farei qualquer pedido de desculpas, qualquer explicação, qualquer negação a si, agora nem nunca. Estou muito desolada e a sua atenção foi muito calorosa para mim, mas não o amo. Talvez pudesse aprender a amar (com uma onda de cor), pelo que disse esta noite, e é por causa disso que lhe digo para ponderar o que isto significa. Mais tarde, quando o seu carinho por mim se tornar um hábito, poderá irritar-se com o meu passado. É disso que o quero salvar.'

Estendo as minhas mãos e ela afasta-as e pega-me pela barba, levanta o meu rosto e examina-o seriamente. Ela deve ter sido enganada muitas vezes. Deixo-a fazer como quer, é a maneira mais sensata com as mulheres, e é bom tê-la a tocar-me dessa forma. Ela parece satisfeita. Fica de pé, encostada ao braço da cadeira, e diz:

'Tenho de aprender primeiro a pensar em mim como uma mulher livre outra vez, quase parece errado hoje falar assim; consegue compreender esse sentimento?'

Aceno afirmativamente.

'Da próxima vez tenho de ter a certeza, e você tem de ter a certeza,' ela coloca os dedos na minha boca quando estou prestes a protestar, 'Shh! Terá um ano para pensar. Se repetir então o que disse hoje, dar-lhe-ei a minha resposta. Não deve tentar encontrar-me. Tenho dinheiro. Se estiver viva, virei aqui ter consigo. Se estiver morta, ser-lhe-á dito. No ano que medeia, considerar-me-ei como pertencente a si, e prestarei contas, se desejar, de cada hora. Não será influenciado por mim de modo algum, e será capaz de raciocinar com calma. Se achar melhor não o fazer, não venha.'

Sinto que não teria utilidade tentar demovê-la, simplesmente beijo as suas mãos e digo:

'Como quiser, minha querida, estarei aqui.'

Não dizemos mais nada; ela senta-se num banco com a cabeça contra o meu joelho, e eu limito-me a acariciá-la. Quando os relógios batem as dez em toda a casa, ela levanta-se e eu fico de pé. Vejo que ela tem estado a chorar silenciosamente, pobre alma pequena e solitária. Levanto-a do chão e beijo-a, e balbucio a minha tristeza por perdê-la, e ela vai-se embora. Na manhã seguinte, a pequena criada trouxe-me um envelope da senhora, que partiu no primeiro comboio. Continha uma pequena luva cinzenta; é por isso que a carrego sempre comigo, e por que assombro a estalagem e nunca a deixo por mais de uma semana; por que me sento e sonho na velha cadeira que tem sempre o fantasma da sua presença; sonho com a primavera que virá com a efeméride em voo, e o início do verão quando os mosquitos dançam, e as trutas se tornam exigentes; quando ela virá até mim através da relva do prado, através da neblina prateada, como fez antes; virá com os seus olhos cinzentos a brilhar para trocar a si mesma pela sua pequena luva cinzenta.

O ESPANCADOR DE MULHERES

Por Israel Zangwill

(The Grey Wig/Stories and Novelettes, Nova Iorque: The Macmillan Company, 1903)

I

Ela veio 'para encontrar John Lefolle', mas John Lefolle não sabia que iria encontrar Winifred Glamorys. Nem sequer sabia que ele próprio era o ponto de encontro de todas as pessoas brilhantes e belas, reunidas no Salão de Sábado do editor, pois embora fosse um jovem poeta menor, era modesto e amável. Talvez o seu cargo de tutor em Oxford fosse moderador. De qualquer modo, a sua cabeça não foi virada pela sua fama precoce, e encontrar estes outros jovens homens e mulheres — os seus reverendos superiores nas encostas do Parnaso — dava-lhe mais prazer do que a receção de 'direitos de autor'. Não que o seu editor lhe desse muita oportunidade de contrastar os dois prazeres. Os lucros da Musa serviam para providenciar esta sala de mobiliário antigo e rosas, este belo jardim cintilante com lanternas japonesas, como flores de fogo deslumbrantes a florescer sob o crescente branco da lua do início de junho.

Winifred Glamorys não era, ela própria, literária. Ela era melhor do que uma poetisa, ela era um poema. O editor inseria sempre algumas realidades, e alguma bela criatura sem cérebro seria geralmente encontrada como o núcleo de uma multidão, enquanto Clio de óculos definhava num canto. Winifred Glamorys, no entanto, tinha a reputação de ter uma língua que correspondia aos seus olhos; fazendo paralelismos com fantasias e epigramas aos seus fogos caprichosos e bruxedos e, certamente, esvoaçando no seu vestido branco através do jardim escuro e balsâmico, ela parecia o próprio espírito do luar, a encarnação subtil da noite e das rosas.

Quando John Lefolle a conheceu, Cecilia estava com ela, e a primeira conversa foi triangular. Cecilia disparou a maior parte dos tiros; era uma beleza saltitante e faladora, cheia de confiança e bom humor, exceto quando lhe pediam para fazer a única coisa que sabia fazer — cantar! Então tornava-se — de forma bastante genuína — uma pequena coisa nervosa, hesitante e pálida. No entanto, a anfitriã suplicante levou-a, e pouco depois as suas ricas notas de contralto passaram pelo jardim, acrescentando à sua paixão e mistério, e através das janelas francesas abertas, John podia vê-la de pé contra a parede perto do piano, a cabeça atirada para trás, os olhos semicerrados, a sua garganta cremosa a inchar no abandono do êxtase artístico.

'Que criatura encantadora!' exclamou ele involuntariamente.

'É o que todos pensam, exceto o marido dela,' riu Winifred.

'Será ele cego, então?' perguntou John com a sua ingenuidade claustral.

'Cego? Não, o amor é cego. O casamento nunca é cego.'

A amargura no seu tom trespassou John. Sentiu vagamente a passagem de alguma corrente gelada de mares desconhecidos de experiência. A voz de Cecilia elevava-se de forma encantadora.

'Então, o casamento deve ser surdo,' disse ele, 'ou tal música como essa encantá-lo-ia.'

Ela sorriu tristemente. O seu sorriso era o jogo travesso do luar entre nuvens de fada.

'Nunca foi casado,' disse ela simplesmente.

'Quer dizer que você também é negligenciada?' algo o impeliu a exclamar.

'Pior,' murmurou ela.

'É incrível!' gritou ele. 'Você!'

'Psiu! O meu marido vai ouvi-lo.'

O seu sussurro de aviso colocou-o numa deliciosa conspiração com ela. 'Qual é o seu marido?' sussurrou ele de volta.

'Ali! Perto da janela, de pé, a olhar de boca aberta para Cecilia. Ele abre sempre a boca quando ela canta. É como dois brinquedos movidos pelo mesmo fio.'

Ele olhou para o homem alto, robusto, de cabelos ruivos, anglo-saxão. 'Quer dizer que ele...?'

'Não quero dizer nada.'

'Mas você disse...'

'Disse "pior".'

'Ora, o que pode ser pior?'

Ela cobriu o rosto com a mão. 'Tenho vergonha de lhe dizer.' Quão adorável era aquele rubor meio adivinhado!

'Mas tem de me contar tudo.' Ele mal sabia como tinha saltado para este papel de confessor. Apenas sentia que eram 'movidos pelo mesmo fio'.

A cabeça dela pendeu sobre o peito. 'Ele... bate-me.'

'O quê!' John esqueceu-se de sussurrar. Foi o maior choque que a sua vida de recluso conhecera, compacto como era de horror perante a revelação, confusão envergonhada pela sua franqueza e prazer delicioso pela sua confiança.

Esta criatura frágil e requintada sob a vara de um rufia brutal!

Uma vez tinha ido a uma receção de casamento, e entre os presentes sérios, algum filisteu sorridente chamou-lhe a atenção para um porrete grosseiro — 'um espancador de mulheres', chamou-lhe ele. A leviandade tinha chocado John terrivelmente: este lembrete intrusivo dos costumes das favelas. Rangia como Billingsgate num boudoir. Agora, essa arma selvagem ocorreu-lhe — por um instante lúgubre viu o marido de Winifred a empunhá-la. Oh, abominação do seu sexo! E estaria ele ali, no seu impecável traje de noite, a posar como um cavalheiro inglês? Assim poderia algum ladrão cavalheiro transportar através de um salão o seu imperturbável fraque.

Bater numa mulher! Bater naquela essência de charme e pureza, o melhor presente de Deus ao homem, redimindo-o da sua própria grosseria! Poderiam tais coisas acontecer? John Lefolle teria acreditado tão rapidamente na lenda francesa de que as esposas inglesas são vendidas em Smithfield. Não! Não podia ser real que esta figura semelhante a uma flor fosse espancada.

'Quer dizer que...?' gritou ele. A rapidez da sua confiança por si só fazia-o sentir tudo como uma irrealidade onírica.

'Psiu! O canto da Cecilia!' advertiu-o ela com um sorriso inesperado, enquanto os seus dedos caíam do rosto.

'Oh, esteve a divertir-se à minha custa.' Ele sentiu-se vastamente aliviado. 'Ele bate-lhe... no xadrez... ou no ténis?'

'Usa-se um vestido de gola alta para esconder os vestígios de xadrez ou ténis?'

Ele não tinha reparado no vestido dela antes, exceto pela sua brancura espiritual. Por mais suscetível que fosse a ombros belos, o rosto encantador de Winifred tinha sido suficientemente distrativo. Agora, o pensamento de nódoas negras físicas deu-lhe um segundo espasmo de horror justo. Aquela carne delicada como pétala de rosa esfolada e lacerada!

'O rufia! Usa um pau ou um punho?'

'Ambos! Mas, regra geral, ele apenas me agarra pelos braços e sacode-me como um terrier a um rato. Estou toda negra e azul agora.'

'Pobre borboleta!' murmurou ele poeticamente.

'Porque lhe contei?' murmurou ela de volta com uma poesia mais subtil.

O poeta vibrou em cada veia. 'Amor à primeira vista', sobre o qual tinha lido e escrito tantas vezes, era então uma realidade! Podia ser tão mútuo, também, como o de Romeu e Julieta. Mas que incómodo que Julieta fosse casada e o seu marido um Bill Sykes de sobrecasaca!

II

A própria Sra. Glamorys dava 'receções', todos os domingos à tarde, e assim, no dia seguinte, após uma noite sem dormir mitigada por sonetos ponderados, o jovem tutor apaixonado apresentou-se por convite na bela casa antiga em Hampstead. Ficou encantado por encontrar a dona do seu coração inserida numa moldura do século XVIII de janelas de vidraças pequenas e lambris de carvalho alto, e imediatamente começou a imaginá-la a dançar minuetos e a tocar virginais. O marido estava ausente, mas uma larga faixa de veludo à volta do pescoço de Winifred era um lembrete doloroso das suas possibilidades. Winifred, no entanto, disse que era apenas um toque de dor de garganta apanhado no jardim. Os seus olhos acrescentaram que não havia nada no dicionário patológico que ela não tivesse apanhado voluntariamente pelo bem daqueles momentos divinos, embora com correntes de ar; mas que, infelizmente, era mais do que uma mera doença corporal que ela apanhara ali.

Havia muitos visitantes nas duas salas deliciosamente pitorescas, entre os quais ele vagueava desconsolado e admirado, ciumento dos seus sorrisos dispersos, mas, pouco depois, viu-se sentado ao lado dela num 'recanto acolhedor' perto das portas de foles abertas, com todos os outros convidados amontoados em torno de um violinista na sala interior. Como Winifred tinha conseguido isso, ele não sabia, mas ela sentava-se plausivelmente na sala exterior, à espera de recém-chegados, e este nicho em particular era invisível, exceto para um olhar determinado. Ele pegou na mão dela que não oferecia resistência — aquela mão querida e quente, com os seus dedos artísticos adornados com joias, e segurou-a em beatitude inquieta. Que maravilhoso! Ela — a bela e adorada anfitriã, de cuja doçura e charme ele ouvia até os seus próprios convidados murmurarem uns aos outros — era a sua mão real de carne e osso que repousava na dele — arrepiantemente tangível. Oh, aventura além de todo o mérito, além de toda a esperança!

Mas, de vez em quando, a porta exterior virada para eles abria-se para algum recém-chegado, e John tinha de soltar apressadamente os seus dedos suaves e magnéticos e sentar-se recatado, e ouvir com ciúmes a sua receção efusiva a esses intrusos inocentes, nem a sua fronte se desanuviava até que ela os tivesse conduzido para o redil interior. Felizmente, os refrescos ficavam nesta secção, de modo que, uma vez lá dentro, poucas das ovelhas se extraviavam de volta, e o lamento vibrante do violino foi sucedido por um balbucio estridente de línguas e pelo tilintar de chávenas e colheres. 'Traga-me um gelado, por favor — morango,' ordenou ela a John durante um destes intervalos forçados na flertagem manual; e quando ele tinha manobrado laboriosamente de um lado para o outro, encontrou um jovem ator ao lado dela no seu recanto acolhedor, e a sua fantasia ciumenta quase viu as suas mãos separarem-se. Ele ficou de pé sobre eles com um sorriso doentio, enquanto Winifred comia o seu gelado. Quando regressou de depositar o pires vazio, o companheiro ator tinha ido embora, e em remorso pela sua suspeita louca, ele inclinou-se e levantou reverentemente as suas pontas dos dedos perfumadas aos lábios. A porta atrás das suas costas abriu-se abruptamente.

'Adeus,' disse ela, levantando-se num flash. As palavras tinham a cadência convencional calma, e extorquiram instantaneamente dele — no meio de todo o seu atordoamento — o correspondente 'Adeus'. Quando ele se virou e viu que era o Sr. Glamorys que tinha entrado, o seu coração saltou descontroladamente pela proximidade da sua fuga. Ao passar por este rufia mascarado, ele acenou de forma perfunctória e recebeu um sorriso cordial. Sim, ele era suficientemente bonito e fascinante externamente, este selvagem loiro.

'Um homem pode sorrir e sorrir e ser um vilão,' pensou John. 'Pergunto-me como ele se sentiria se soubesse que eu sei que ele bate nas mulheres.'

Ele não se sentia confortável com aquela cortesia, nem com a complacência de Winifred ao apresentar o marido. Havia algo de imoral naquela civilidade, uma encenação que o fazia sentir-se cúmplice daquela união de fachada. Ele murmurou um cumprimento seco, incapaz de encarar o homem que, na sua imaginação, era um carrasco, e retirou-se com a urgência de quem escapa a uma cena de crime.

Nos meses que se seguiram, o idílio arrastou-se entre hesitações e adiamentos. O plano de fuga, outrora uma promessa ardente, tornara-se uma miragem que recuava a cada passo que ele dava. Winifred escrevia-lhe, com a mesma volubilidade encantadora, sobre os seus sofrimentos, as suas aspirações e a tirania do marido, mas as circunstâncias — umas vezes sociais, outras vezes alegadamente médicas — erguiam sempre uma barreira intransponível no momento da execução.

John, entretanto, sentia o peso da vida dupla. As suas aulas em Oxford perdiam o brilho e a sua dedicação aos estudos académicos esmorecia face à obsessão que o consumia. Ele vivia de retalhos de tempo, de envelopes perfumados e da esperança de que a próxima estação, ou o próximo trimestre, traria a libertação definitiva. O poeta, que costumava encontrar beleza na ordem do mundo, via agora o seu universo desmoronar em fragmentos de incertezas.

Certa manhã, enquanto observava a névoa pairar sobre o rio, compreendeu com uma lucidez dolorosa que a mulher que ele amava talvez não fosse a mulher que ele conhecia, mas sim a projeção dos seus próprios sonhos literários. Ela era uma criatura de momentos, de impulsos, incapaz de sustentar a gravidade da escolha que ele lhe propusera. O seu amor era uma melodia que não encontrava compasso na vida real.

Ainda assim, o coração, essa entidade teimosa, recusava-se a aceitar o veredito. Ele continuava a escrever, embora cada carta soasse, aos seus próprios ouvidos, como um eco num abismo. A cada promessa de encontro, ele sentia a mesma faísca de esperança, embora, no fundo do espírito, já soubesse que os grandes gestos da poesia raramente encontram tradução na prosa da existência.

E, no entanto, ele esperava. Esperava na estação de comboios, esperava na caixa de correio, esperava na quietude do seu gabinete, enquanto o mundo, indiferente, continuava a sua marcha. Ele estava, tal como o poeta que sempre fora, condenado a amar o impossível e a transformar a sua desilusão em versos que, inevitavelmente, ela leria e elogiaria, sem nunca compreender que, em cada linha, ele estava a despedir-se de si mesmo.

O inesperado aconteceu, de facto. Apesar das doses de Elizabeth-brunnen e dos passeios no terraço do Kurhaus, o fervoroso agressor de mulheres sucumbiu à sua maleita. O telegrama lacónico de Winifred não dava indicação alguma dos seus sentimentos. Ele enviou um telegrama de resposta manifestando pesar pelo seu infortúnio. Embora não pudesse fingir sentir pesar por esta súbita e providencial solução para o problema das suas vidas, sentia, ainda assim, uma sincera compaixão pelo sofrimento inevitável ligado a uma morte, especialmente em solo estrangeiro.

Não lhe foi possível vê-la até que o corpo do marido tivesse sido trazido através do Mar do Norte e entregue ao repouso verdejante do antigo cemitério de Hampstead. Encontrou-a pateticamente alterada — o rosto pálido e espiritualizado, tudo em subtil harmonia com o requintado vestido preto. No primeiro encontro, ele não se atreveu a falar de forma alguma do amor deles. Discutiram a imortalidade da alma e ela citou George Herbert. Mas, com o passar das semanas, a questão do futuro de ambos começou a forçar o caminho de volta aos seus lábios.

— Não poderíamos casar decentemente antes de seis meses — disse ela, quando confrontada definitivamente com o problema.

— Seis meses! — arquejou ele.

— Bem, certamente não quererás escandalizar toda a gente — disse ela, fazendo um beicinho.

A princípio, ele próprio ficou escandalizado. Como! Aquela que estivera pronta a agitar o mundo com uma dança fantástica estava agora a medir os seus passos. Mas, após reflexão, viu que a Sra. Glamorys tinha razão, mais uma vez. Já que a Providência fora tão bondosa a ponto de os salvar, por que deveriam eles desafiá-la? Um pouco de paciência, e uma felicidade irrepreensível estendia-se diante deles. Que ele não se iludisse quanto ao imenso alívio que sentia por ser poupado à reprovação social. Afinal, um poeta podia ser pouco convencional na sua obra — não tinha necessidade da saída prática exigida pelos menos dotados.

VI

Quase não se viram durante os seis meses seguintes — tinha-se tornado, naturalmente, nesta grata reação contra a sua imprudência, um período sagrado, ainda mais carregado de emoção trémula do que os períodos de noivado daqueles que não estiveram tão perto de se queimar. Mesmo na presença dela, encontrava um certo prazer em combinar a adoração distante com a expectativa confiante da proximidade, e assim ela foi restaurada à santidade que arriscara pela sua anterior facilidade. E assim, tudo estava para o melhor, no melhor dos mundos possíveis.

Quando os seis meses passaram, ele veio reclamar a mão dela. Ela ficou bastante surpreendida. — Prometeste casar comigo ao fim de seis meses — lembrou-lhe ele.

— Certamente ainda não passaram seis meses — disse ela.

Ele remeteu-a para o calendário, recordou a data da morte do marido.

— És estranhamente literal para um poeta — disse ela. — É claro que disse seis meses, mas seis meses não significam vinte e seis semanas pelo relógio. Tudo o que quis dizer foi que um período decente deve decorrer. Mas, mesmo para mim, parece que foi apenas ontem que o pobre Harold caminhava ao meu lado no Parque Kurhaus. — Ela rompeu em lágrimas e, diante delas, ele não pôde prosseguir com a discussão.

Gradualmente, após vários encontros e cartas, ficou acordado que deveriam esperar mais seis meses.

— Ela tem razão — refletiu ele novamente. — Esperámos tanto tempo, mais vale esperar um pouco mais e não dar margem à malícia.

Os segundos seis meses pareceram-lhe muito mais longos do que os primeiros. O encanto da adoração respeitosa perdera a sua novidade e, uma vez mais, o seu peito era dilacerado por febres intermitentes que mal se conseguiam acalmar sequer com a conversão em sonetos. O único ponto de repouso era aquela estrela fixa e brilhante do matrimónio. Ainda a sofrer com a censura de Winifred à sua literalidade pouco poética, ele não pretendia forçá-la a casar com ele exatamente ao fim dos doze meses. Mas estava determinado a que ela não tivesse data posterior a esta para, pelo menos, "marcar o dia". Sentia que nem o mais meticuloso defensor das convenções poderia negar que a reivindicação da Sra. Grundy tinha sido paga até ao último minuto.

A publicação do seu novo volume — contendo os poemas de Winifred — servira para dar cor a estes meses de atraso intolerável. Mesmo a reação dos críticos contra a sua poesia, essa revolta convencional contra cada segundo volume, esse grito de papagaio de excesso de elogios saído das mesmas gargantas que o tinham elogiado, embora o magoasse e confundisse, talvez fosse realmente útil. De qualquer modo, a longa espera chegara finalmente ao fim. Sentia-se como Jacó após os seus anos de serviço por Raquel.

A fatídica manhã nasceu clara e azul, e, à medida que as torres de Oxford ficavam para trás, ele recordou aquele sábado distante em que fora pela primeira vez encontrar as luzes literárias de Londres no salão do seu editor. Quão mais velho estava agora do que então — e, no entanto, quão mais novo! A melancolia nebulosa da juventude, as nuvens da filosofia, tinham desaparecido perante esta bela criatura de luz do sol, cujo brilho traçava uma linha clara para o seu futuro através da confusão da vida.

Numa florista na High Street de Hampstead, comprou um caro ramo de flores brancas, caminhou jovialmente até à casa e tocou a campainha com alegria. Mal pôde acreditar nos seus ouvidos quando a criada lhe disse que a sua patroa não estava em casa. Como se atrevia a rapariga a encará-lo tão impassivelmente? Não sabia ela com que marcação — em que missão — ele viera? Não tinha ele escrito à sua patroa há uma semana que se apresentaria nessa tarde?

— Não está em casa! — arquejou ele. — Mas quando estará em casa?

— Creio que não demorará. Saiu há uma hora e tem um encontro com a sua modista às cinco.

— Sabe em que direção terá ido?

— Oh, ela caminha geralmente em Heath antes do chá.

O mundo tornou-se subitamente cor-de-rosa de novo. — Voltarei mais tarde — disse ele. Sim, uma caminhada neste ar glorioso — na direção de Heath — far-lhe-ia bem.

Enquanto a porta se fechava, lembrou-se de que poderia ter deixado as flores, mas não tocaria novamente, e, além disso, talvez fosse melhor que ele as entregasse com a própria mão do que deixá-la encontrá-las na mesa do hall. Ainda assim, parecia um pouco embaraçoso andar pelas ruas com um ramo de flores, e ele alegrou-se por encontrar, acidentalmente, a antiga Igreja de Hampstead, e por procurar um isolamento momentâneo ao passar pela sua avenida de lápides silenciosas no seu caminho para Heath.

Subindo os poucos degraus, hesitou ociosamente um momento à beira deste "campo de Deus" verdejante para ler uma placa perpendicular numa parede, e o seu rosto abriu-se num sorriso ao seguir a biografia absurdamente elaborada de um comerciante rico, feito a si mesmo, que aprendera a ler sozinho. "Leitor, vai tu e faz o mesmo", era o delicioso disparate no fim. Ao afastar-se, com o sorriso ainda a pairar nos seus lábios, viu uma figura elegante a descer saltitante o caminho pedregoso do cemitério e, embora se sentisse de alguma forma surpreendido por encontrá-la ainda de preto, não havia como confundir a Sra. Glamorys. Ela correu ao seu encontro com um grito de alegria, que encheu os olhos dele de lágrimas felizes.

— Que bom que te lembraste! — disse ela, ao tirar o ramo das mãos dele, que não ofereceu resistência, e virou-se novamente nos seus passos. Ele seguiu-a, maravilhado, através da estrada irregular em direção a uma estreita ala de sepulturas à esquerda. No instante seguinte, ela tinha-se curvado perante uma pedra branca brilhante e depositado o seu ramo reverentemente sobre ela. Ao chegar ao lado dela, viu que as suas flores estavam quase perdidas na vasta massa de ofertas florais com que a sepultura do agressor de mulheres estava coberta.

— Que bom que te lembraste do aniversário — murmurou ela novamente.

— Como poderia esquecê-lo? — gaguejou ele, espantado. — Não é este o fim dos terríveis doze meses?

A suave gratidão morreu no seu rosto. — Oh, era nisso que estavas a pensar?

— Em que mais? — murmurou ele, pálido com emoções contraditórias.

— Em que mais! Acho que a decência exigia que este dia, pelo menos, fosse sagrado à memória dele. Oh, que brutos que os homens são! — E ela rompeu em lágrimas.

O seu peito paciente revoltou-se finalmente. — Tu disseste que ele era o bruto! — retorquiu ele, escandalizado.

— É essa a tua cavalaria para com os mortos? Oh, meu pobre Harold, meu pobre Harold!

Pela primeira vez, as suas lágrimas não conseguiram extinguir a chama da raiva dele. — Mas tu disseste-me que ele te batia — gritou ele.

— E se bateu, atrevo-me a dizer que eu o merecia. Oh, meu querido, meu querido! — Ela pousou o rosto na pedra e soluçou.

John Lefolle ficou parado em silêncio, num tormento. Enquanto a via impotentemente, o pescoço branco a inchar e a cair com os soluços, ficou subitamente impressionado com a ausência da fita de veludo preto — o luto mais verdadeiro que ela usara enquanto o tão lamentado era vivo. Uma ténue cicatriz, apenas percetível ao seu olhar consciente, acrescentou-se ao seu doloroso desnorteio.

Finalmente, ela levantou-se e caminhou de forma instável para a frente. Ele seguiu-a em miséria muda. Passado um momento ou dois, encontraram-se nos arredores da charneca deserta. Quão belo se estendia o campo ondulante de giestas! O sol punha-se em grandes sulcos ardentes de ouro e verde — um panorama para tirar o fôlego. A beleza e a paz da Natureza penetraram na alma do poeta.

— Perdoa-me, minha querida — pediu ele, segurando-lhe a mão.

Ela puxou-a bruscamente. — Não te posso perdoar. Mostraste-te com as tuas verdadeiras cores.

A falta de razão dela irritou-o novamente. — O que queres dizer? Apenas vim de acordo com o nosso arranjo de longa data. Já me adiaste tempo suficiente.

— É uma sorte que te tenha adiado tempo suficiente para descobrir o que és.

Ele arquejou. Pensou em todos os meses cansativos de espera, em toda a longa comédia de telegramas e cartas urgentes, nos flertes distantes do recanto acolhedor, na fuga frustrada para Paris. — Então não vais casar comigo?

— Não posso casar com um homem que nem amo nem respeito.

— Tu não me amas! — O beijo espontâneo dela no seu sóbrio gabinete de Oxford parecia arder nos seus lábios irritados.

— Não, nunca te amei.

Ele agarrou-a pelos braços e virou-a rudemente. — Olha-me nos olhos e atreve-te a dizer que nunca me amaste.

A sua memória zumbia com frases apaixonadas das cartas intermináveis dela. Picavam como um enxame de abelhas. O pôr do sol era como uma névoa cor de sangue perante os seus olhos.

— Nunca te amei — disse ela obstinadamente.

— Tu...! — O seu aperto nos braços dela apertou-se. Ele abanou-a.

— Estás a magoar-me — gritou ela.

O seu aperto caiu dos braços dela como se estivessem em brasa. Ele tornara-se um agressor de mulheres.

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